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Jogo e aposta

§ 1. Noção e aspetos gerais

Quando se olha para o regime dos diferentes contratos em especial (da compra e venda
à renda), constatamos que o legislador inicia as respetivas regulamentações com um
conceito para o contrato em causa (art. 874.º- compra e venda; e arts. 1231.º e 1238.º -
renda perpétua e renda vitalícia).

No jogo e aposta isto, porém, não sucede, sendo aliás muito parco em regulamentação
desta modalidade de contrato (apenas em três preceitos, 1245.º a 1247.º). A explicação é
que, recorrendo às palavras de Pires de Lima e Antunes Varela, “É efetivamente difícil,
se não impossível, definir aquelas duas figuras… 1”, porquanto existe uma grande
dificuldade de o fazer em termos precisos pelo que se deve evitar adotar qualquer noção
para não induzir em erro2”.

Por esse motivo, o legislador não avançou com qualquer conceito, deixando, como
sugeriu Galvão Telles3, a tarefa de qualificação ao tribunal.

Perante esta dificuldade de conceituar quer o jogo como a aposta, faz-se mister
estabelecer a distinção entre elas.

Não parece igualmente fácil, pelos vistos, o critério distintivo. Tem sido utilizado o de
participação. É preciso esclarecer bem o ponto.

Funaioli4 defende que o jogo está fora da vida jurídica, ou, pelo menos, do domínio dos
contratos. E só começa a ter juridicidade quando surge associado a ele o interesse

1
Pires de Lima e Antunes Varela, CC Anotado, cit., II, n. 2, pág. 927.

2
Inocêncio Galvão Telles, Contratos civis, pág. 80, apud, Pires de Lima e Antunes Varela, CC Anotado,
cit., II, n. 2, pág. 927.

3
Inocêncio Galvão Telles, Contratos civis, pág. 80, apud, Pires de Lima e Antunes Varela, CC Anotado,
cit., II, n. 2, pág. 927.

4
Funaioli, Il giuco e la scomessa, n. 3, apud Pires de Lima e Antunes Varela, CC Anotado, cit., II, n. 2 e
3, pág. 927.

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económico (que se traduz na possibilidade de perda ou lucro) ligado aos resultados
obtidos.

Em última análise, pela conceção deste Autor, equivaleria dizer que o jogo só tem
relevância jurídica quando tiver associado a uma aposta.

O código civil segue num sentido diferente e encara o jogo e a aposta como contratos
autónomos entre si e passíveis de efeitos jurídicos.

Cumpre referir desde já que ambos têm em comum o facto de serem contratos
aleatórios, caraterizando-se pela existência de risco de perda ou ganho para as partes5.

No que toca à distinção, o critério tradicionalmente utilizado distingue, como já


referimos, o jogo pela interação e participação ativa dos intervenientes que contribuem
para o resultado final da aposta, facto que não sucede na aposta, pois aqui as partes
permanecem exteriores ao evento6.

Este critério é posto em causa, num trabalho mais recente, por Hugo Luz Santos 7, que
estabelece que o critério distintivo deve ser o da inevitabilidade do resultado final. A
distinção residiria no facto de na aposta não haver qualquer possibilidade de controlo do
resultado final por parte do jogador exterior (aleatoriedade forte ou sorte), enquanto no
jogo, embora existisse este fator de aleatoriedade e sorte, estas não são essenciais, isto é,
não determinam o resultado final, que pode pela sua destreza e experiência controlá-las.

Portanto, o que carateriza os contratos de jogo e aposta, conforme Hugo Santos 8, é “a


criação artificial de um risco endógeno ao contrato – elemento objetivo…”. E “a
5
Neste sentido, Hugo Luz dos Santos, Os contratos de jogo e aposta e o crédito para jogo nos Casinos
da Região Administrativo Especial de Macau: Contributo para a Resolução da Questão do “Walking” e
para a Admissibilidade da Negative Pledge e da Equitable Lien Norte-Americanas, in Administração n.º
107, vol. XXVIII, 2015-1.º, 235-265

6
Cfr. Hugo Luz Santos, cit., pág. 238. E Alain Bénabent, Droit civil. Les contrats spéciaux civiles et
commerciaux, 3ª ed., Paris, Montechrestien, 1997 [apud Menezes Leitão, Direito das obrigações, cit., III,
pág. 517.

7
Hugo Luz Santos, a propósito do contrato de jogo e aposta e do crédito para jogo e aposta em casino
no espaço lusófono, in Scientia Ivridica, set-dez 2018, t. LXVII, n.º 348, pág. 309-310.

8
Hugo Luz Santos, Os contratos de jogo e aposta, cit., pág. 239.

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intenção de jogo e aposta – elemento subjetivo – isto é, com uma intenção especulativa
lúdica”.

Com isso se quer significar que não há jogo e aposta sem a intenção bilateral dos
participantes conhecida reciprocamente9.

§ 2. Regime

O código civil, art. 1245.º, determina a invalidade do jogo e aposta e nega a sua aptidão
para gerar obrigações civis, como solução de princípio.

Ressalva o mesmo preceito que se forem lícitas são fontes de obrigações naturais, ou
seja, incobráveis em juízo mas impeditivas de repetição, arts. 402.º e 403.º. Contudo,
mesmo quando lícitas, não constituirão fonte de obrigações naturais se forem afetados
por outras causas de invalidade ou se o credor (aquele que ganhou o jogo ou a aposta)
tiver usado de fraude na sua execução.

Este preceito tem que ser lido com alguma atenção, na medida em que o art. 1247.º
ressalva o que estiver estabelecido em legislação especial. E cite-se para o efeito o
Decreto-Lei N.º 48 912, de 18 de março de 1969, aplicável à Guiné-Bissau por via da
Portaria N.º 517/70, de 16 de outubro, que estende alguns preceitos ao Ultramar do
referido Decreto-Lei.

A Portaria N.º 517/70 começa por proibir o jogo e a aposta, excetuando quando
aconteçam em locais e épocas concreta e legalmente autorizadas, art. 2.º. Nestas
circunstâncias, serão fontes de obrigações civis por lícitas e, principalmente, por
autorizadas.

Outra exceção ao regime do art. 1245.º é o que resulta das apostas desportivas previstas
no art. 1246.º e em relação às pessoas que nelas tomam parte.

Havendo sido excecionado, nestes casos teremos os jogos como fontes de obrigações
civis.

9
Paulo Mota Pinto, Contrato de swap de taxas de juro, jogo e aposta e alteração das circunstâncias que
fundaram a decisão de contratar, in Revista de Legislação e Jurisprudência, ano 144.º, n.º 3988, set-out
2014, Coimbra, Coimbra Editora, pág. 19 [apud Hugo Luz Santos, cit., pág. 239.]

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Porque se proíbe, invalidando, o jogo e a aposta? Porque, segundo Ripert, “O jogo é
condenável porque o jogador espera da sorte um enriquecimento injustificado10”.

Então só nos casos de expetativas legítimas criadas é que serão o jogo e a aposta fontes
de obrigações civis11.

10
Georges Ripert, La Règle Morale dans les Obligations Civiles, 4ª ed., Paris, 1949, pág. 49 apud Teresa
Albuquerque e Sousa, O regime jurídico do jogo e da aposta em Macau dos contratos em especial, in
Administração, n.º 82, vol. XXI, 2008-4º, pág. 954.

11
No mesmo sentido, Teresa Albuquerque e Sousa, cit., pág. 955.

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