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Alcides Gomes

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FACULDADE DE DIREITO DE BISSAU

Abota

§ 1. Breve introdução histórica

A Guiné-Bissau, composta por um mosaico étnico de mais de 25 etnias, onde se


destacam os fulas, balantas, mandingas, manjacos, pepéis, bijagós, mancanhas e os
beafadas1. Consta que, ainda antes da colonização portuguesa do país, os habitantes
deste “país” hoje chamado Guiné-Bissau, nos seus diversos territórios que constituíam
comunidades, as pessoas de uma comunidade se obrigavam mutuamente a uma
entreajuda na atividade agrícola e que consistia em sempre que um tenha trabalho no

1
De referir que há etnias que por terem pouca expressão estão praticamente a diluir-se noutras. Os fulas,
mandingas e beafadas são islamizados e já os balantas, manjacos, pepéis, bijagós e mancanhas são
animistas (costuma-se dizer no dia-a-dia, que são cristãos ou numa linguagem mais pejorativa “bibiduris
ou tchamiduris).

A etnia balanta também está parcialmente islamizada, e esta parte normalmente é designada de balanta
mané (o apelido mané…).
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seu campo2 pedia a outras pessoas que lhe auxiliassem ficando obrigado a que se estas
também viessem a necessitar de participar no cultivo3.

Embora por regra se fazia na mesma comunidade, tudo indica que comunidades
diferentes também se auxiliavam entre si.

Neste caso em particular, não podemos falar de contrato entre pessoas individuais, mas
entre coletividade4.

Segundo Samora Sampa, com a chegada dos portugueses [ao menos a partir da sua
maior incrementação territorial] a situação social foi se alterando, nomeadamente,
mudando o paradigma económico em que assentava a sociedade, passando de uma
economia de troca direta5 para de troca indireta, através da utilização de moeda como
meio de troca.

2
Utilizamos o substantivo seu no sentido de algo pertencente à família, à morança, porquanto a
propriedade individual do solo parece ser realidade recente (não se esquecer que o solo pertence
necessariamente ao Estado, art. 12.º CRGB).

A propósito, cfr. Artur Augusto da Silva in Usos e costumes jurídicos dos Mandingas, Boletim Cultural
da Guiné-Portuguesa, vol. XXIV, N.º 93, janeiro 1969,.pág. 26 que diz:

“No conceito tradicional dos Mandingas, existiam três formas de propriedades:

a) Propriedade familiar;

b) Propriedade colectiva;

c) Propriedade das casas reinantes.

Embora o Autor já admitisse, na altura, que “surgiu uma outra forma de propriedades: a individual.”

No entanto, o campo não podia ser objeto de propriedade individual, mas da família.

Por outro lado, na etnia manjaca se dividia a propriedade em: individual (apenas de bens móveis),
familiar («lavouras de família», constituída por terras de semeadura…), coletiva da tribo e especial de
«reinanças e chefias», cfr. António Carreira, Vida social dos Manjacos, in Centro de Estudos da Guiné-
Portuguesa, N.º 1, 1947, pág. 43-44.

3
Cfr. Samora Ilídio Sampa, Em tema de abota (inédito), relatório de Mestrado apresentado em Ciências
Jurídicas no ano letivo 2008/2009, quem sustenta que a expressão adequada para este contrato na altura
seria “compromisso do campo”, pág. 7.

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Não podemos garantir que o sentido coincide necessariamente com o que no Direito positivo se ensina
como coletividade.
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Este fator de mudança do panorama económico, numa sociedade baseada na


solidariedade, mas em que a própria solidariedade se assentava no espírito de entreajuda
nas lides, e uma vez que a necessidade de se ter dinheiro para aquisição de certos bens
foi tornando cada vez maior, inclusive quanto ao pagamento de taxas e impostos
cobrados, as pessoas perceberam sobre a imperatividade de se proceder diferentemente
para minimizar as dificuldades.

Então o recurso ao que se designa de abota (contribuir com dinheiro) proveio desta
necessidade de fazer face às necessidades financeiras das pessoas e passou também a ser
feita não pela coletividade, mas por pessoas singulares.

O seu objetivo final seria necessariamente o financiamento dos abotantes para as suas
necessidades6.

Mas a evolução não parou aqui, hoje constata-se que este objetivo de financiamento em
dinheiro é perspetivado noutras vertentes, sendo nomeadamente feito para permitir a
aquisição de materiais para o lar e até de construção7, como forma de poder “contornar”
a falta de crédito bancário e de outras instituições financeiras.

A evolução ditou que se tornasse ainda num contrato em que já não participa
necessariamente um número de pessoas sempre igual ou superior a três, estamos a
assistir situações em que apenas duas pessoas são partes do contrato, quer inicialmente
quer por se terem reduzido a tal.

Parece-nos que igualmente, quanto à finalidade, se nasceu como um instrumento de


solidariedade, não temos dúvidas que hoje os fins são mais complexos e diversificados,
embora possam ser resumidos em dois, essencialmente: a) a solidariedade e b) o
financiamento.

Feita a nota introdutória através de um percurso histórico resumido, estamos em


condições de dar um conceito ao contrato de abota.

5
A sociedade tradicional não só assentava na troca direta, como ainda na autossuficiência de cada família,
ou seja, cada família produzia tudo quanto necessitasse para sua subsistência.

6
Samora Sampa, cit., pág. 9 e ss.

7
O caso de construção é raro, mas tem havido aqui e acolá, entre uma e outra pessoa, contrato de abota
em que se entrega materiais de construção.
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§ 2. Noção e aspetos gerais

Uma vez que partimos do referido estudo de Samora Sampa para estas lições sobre o
contrato de abota, e por ser não só o primeiro como o único que já abordou de forma
mais aturada o tema, cremos ser de avançar com a noção defendida por ele neste
trabalho onde dizia que a abota:

“É a convenção pela qual, três ou mais pessoas, cada uma delas, se obriga a contribuir
com determinado valor pecuniário e o respetivo produto é entregue a uma das partes,
na data acordada, assim sucessivamente, até completar o número de partes”.

Desta noção, pode-se retirar várias ilações das quais destacamos, em primeiro lugar, o
facto de a abota ser um contrato em que o número das partes não pode ser inferior a três
e, em segundo lugar, por o seu objeto só poder ser dinheiro.

Ora, atento ao que constatamos ser, no âmbito do resumo da evolução histórica, a


realidade atual do contrato de abota, obviamente que não nos revemos no conceito agora
apresentado e, portanto, cremos que não será de adotar, por duas razões essencialmente.

A primeira razão prende-se com o facto de, segundo é nosso entendimento, a abota, não
obstante, ser celebrado na maior parte dos casos, por um número de partes sempre
superior a duas pessoas, igualmente pode ter apenas duas pessoas.

O fim da abota que é, antes de mais, a solidariedade, e ainda, o financiamento, não


exclui esta possibilidade, isto é, não perde a sua essência se apenas houver duas pessoas.

Já referimos atrás que muitas vezes o número de partes pode ser três ou mais, mas
podem “sair” do contrato até ficar duas sem que se deva dizer que o contrato se
extingue, e podem mesmo à partida ser duas pessoas a contratarem-se.

A segunda razão diz respeito ao facto de a abota não se circunscrever ao pagamento de


um certo valor pecuniário.

Hoje, é habitual ver contrato de abota em que as partes se obrigam a entregar bens
materiais, nomeadamente, abota de cadeiras, de caçarolas e outros utensílios de uso
doméstico, de panos, etc. (e como já referimos, até de materiais de construção).
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Aceitando que a realidade is changing, a melhor noção não pode ser a apresentada por
Samora, por se circunscrever a um certo momento histórico (e verdadeiro) do tipo
contratual em estudo, e que continua maioritariamente a ser aplicado, mas que não
explica outras situações correntes, atuais, e que se enquadram perfeitamente dentro do
tipo8.

Feitas estas observações, parece-nos que a definição da abota devia ser:

“Contrato celebrado entre duas ou mais pessoas, em que cada uma delas se obriga a
contribuir com determinado valor pecuniário ou outra coisa móvel fungível, cujo
produto se reverte sucessivamente, dentro do período estipulado, para cada uma das
partes até se completar o ciclo”.

Quanto ao número de partes já fizemos referência, pelo que chamamos apenas atenção
para uma certa particularidade no contrato de abota.

Quando se pensa em partes no contrato, a regra é uma pessoa corresponder a uma parte,
embora, nalgumas situações, duas ou mais pessoas podem constituir apenas uma parte,
bastando para tal que sejam consideradas como mesmos sujeitos no que tem a ver com
os direitos e obrigações a assumir.

Não se conhece no direito civil situações em que uma única pessoa possa ter a
qualidade de duas partes de um mesmo contrato. No entanto, no contrato de abota, tal é
possível, ainda que, digamos assim, apenas nominalmente9.

8
Aliás, o próprio Samora reconhece que abota vem do que chama de compromisso de campo que era um
contrato cujo objeto era prestação de serviços, pelo que não se pode defender como sendo essência deste
contrato o pagamento em dinheiro.

9
A realidade não é simples de perceber para aquele que está habituado a um determinado dogma no
contrato, mas vamos tentar exemplificar para podermos construir o que for necessário neste sentido.

Imaginemos que Antónia, Maimuna, Npili, Ponu, Ndjaba e Cadi, amigas de longa data, decidem celebrar
entre si um contrato em que cada uma iria pagar semanalmente 10 000 XOF que seria entregue,
sucessivamente, a cada uma delas (supomos que pela ordem em que estão nomeadas aqui) até à última
delas (Cadi, portanto).

Este contrato é o que denominamos de abota e tem seis partes, coincidindo com o número de pessoas que
contrataram.
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Assim, para todos os efeitos, e conforme o exemplo dado na nota, uma pessoa pode ter a
qualidade de duas ou mais partes de um contrato de abota.

Outro aspeto importante do conceito tem a ver com o seu objeto que, tal como no
mútuo, incide sobre coisas móveis fungíveis, do que se destaca o dinheiro.

É um contrato de execução continuada, consensual, sinalagmático e oneroso.

Samora Sampa fala em abotantes para designar as partes no contrato, em abotado para
se referir aquele dos abotantes que já recebeu produto e cabeçário para indicar o
abotante que se encarrega de receber as respetivas contribuições e pagar ao abotante que
está na ordem para pagamento10.

§ 3. Efeitos essenciais

a) Efeitos reais

A abota produz efeitos reais e obrigacionais.

Como se depreende do figurino contratual, o produto das prestações das partes é


entregue sucessivamente a cada um dos abotantes.

Também já referimos que uma das finalidades principais da abota é o financiamento das
partes, logo, depois de recebido o produto (dinheiro ou outra coisa móvel) este torna-se
propriedade do abotado, passando a dispor dele como entender (em alguns casos para
financiamento da atividade pré-definida11), porquanto, se assim não fosse, não haveria
como dar sentido útil ao contrato.
Ora, pode acontecer que Npili, vendedeira de peixe, com três “bancas” em três mercados de Bissau,
sentia-se confiante e pretendia pagar não 10 000 XOF por semana, mas 30 000 XOF, facto possível no
contrato de abota. Face a esta circunstância ela é considerada como se tivesse entrado com “três mãos” e é
tomada para cada mão “como se fosse uma pessoa diferente”, «uma parte à parte, em cada mão», se a
poesia for permitida.

Vamos supor que ela devia pagar na vez de Maimuna receber, mas apenas dispunha de 20 000 XOF,
jamais pode ser recusado o pagamento desta parte por não ser integral o cumprimento, apenas vai se
considerar que não cumpriu com “uma das mãos” com que entrou na abota, o que pode ter reflexo no
cumprimento futuro como se vai explicar mais adiante.

10
Ob. cit., pág. 10.

11
Sem com isso se querer significar que há uma obrigatoriedade em proceder de uma forma…
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Podemos questionar a partir de que momento é que se transmite a propriedade. Se é a


partir do momento em que todos realizam a sua prestação ou será preciso uma
comunicação ao abotante.

A resposta a esta questão não é simples e depende da particularidade da abota. Há


situações (regra geral) em que existe uma data certa para pagamento do abotante que
tem a vez, pelo que não será necessária a comunicação para ir receber.

Se, pelo contrário, não se estipular qualquer data, sempre que todos realizarem a
prestação, o cabeçário deve comunicar ao abotante que tem a vez para receber o seu
pagamento ou ir entregar-lhe no lugar previamente acordado12.

Uma questão pertinente a colocar, se tivermos em atenção que, por regra, existe um
período para cumprimento e uma pessoa a quem se deve entregar e que depois procede
ao pagamento daquele que estiver “na fila do recebimento”, é se ao faltar o pagamento
de um dos abotantes, se a propriedade se transmite.

Exemplificando: suponhamos que o contrato de abota é celebrado por 6 partes, mas, no


momento do cumprimento, apenas pagam 5, ficando um deles por cumprir.

Enquanto o último não pagar não haverá transmissão de propriedade? O cabeçário já


deve entregar dinheiro ao abotante que tem a vez de receber ou deve esperar o
cumprimento do último abotante? E aquele a quem se deve pagar o produto da abota
pode recusar enquanto não se completar o pagamento (ao menos enquanto houver
mora)?

A prática não tem dado hipóteses para ver situações anómalas como as que são
colocadas aqui, em parte devido ao facto de o contrato de abota ter um nível de
cumprimento muito elevado13.
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Duas notas: 1. Se não for escolhido ninguém como cabeçário, ficando aquele que tem a vez de receber
com o encargo de cobrar aos restantes membros, não se coloca o problema de transmissão de propriedade
nos termos que estamos a analisar, pois cada pagamento leva à transmissão de propriedade para o que tem
a vez.

2. Por regra, o cumprimento da prestação assim como o pagamento ao que tem a vez de receber efetuam-
se, existindo cabeçário, na casa deste.

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Este facto deve-se à sanção especial do contrato – perda do “prestígio social” quer para o abotante
incumpridor como para a sua família, razão pela qual, muitas vezes, a própria família paga para “tapar a
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O que a pouca realidade da vida contratual nos diz neste tipo de contrato é que o
abotante que tem a vez, mesmo que não esteja completa a prestação efetuada, chegada a
hora, pode comunicar ao cabeçário que aceita a prestação incompleta, ficando o faltoso
com o dever de cumprir mais tarde.

Ou pode dizer que aguarda até se completar a prestação para receber. Esta hipótese é
motivada, regra geral, pelo facto de o montante pago servir para realizar uma atividade
programada e se se receber apenas parcialmente a prestação, corre-se o risco “di mama
taco” e ficar sem realizar “a obra ou tarefa” pretendida.

Se o abotante que tem a vez receber o produto incompleto da abota, a propriedade


transfere-se. E se não receber?

Desconhecemos se já houve uma discussão concreta sobre o assunto, sobretudo porque


a abota tem sido maioritariamente em dinheiro e não há muitos riscos quanto a esta
forma de pagamento.

Cremos que nenhum abotante é obrigado a receber uma prestação parcial, sobretudo se
tivermos em conta o fim último que é o financiamento. Isto é, se reúnem algumas
pessoas e acordam um certo montante para uma certa periodicidade, é porque têm em
vista, cada uma delas isoladamente, um certo fim, então se faltar o valor, pode ficar
frustrada a mesma finalidade.

Mas deve-se ter em conta que os outros já pagaram e o cabeçário incumbe-se apenas de
guardar a coisa até a sua entrega, pelo que, em consonância com a possibilidade de
receber ou não a prestação efetuada, é nosso entendimento que a propriedade se
transmite com o vencimento do prazo ou com a comunicação do abotante de que está
disponível o produto da abota, independentemente de o produto ser total ou parcial.

Antes do prazo do vencimento e antes da comunicação não haverá transferência de


propriedade para quem tiver a vez, mesmo que alguns ou todos tenham pago.

vergonha”.

Há uma censura social muito forte para quem não respeita o contrato de abota e, dada a caraterística da
sociedade, pequena, em que todo o mundo se conhece e fala um com outro, ou tem laços familiares, o
incumpridor é rapidamente conhecido e “afastado” como que “incapacitado” para contrato, pois perde-se
a confiança nele, enquanto pessoa séria ou solvente.
Alcides Gomes
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A dúvida, porém, é sobre quem suporta o risco, o cabeçário ou os restantes abotantes.


Sem uma única história sobre o sucedido, podemos aventar duas possibilidades:

1 – Baseado também no facto de ter como fim principal a solidariedade entre as partes,
elas podem concordar, desde que o facto fortuito seja também muito danoso para o
cabeçário, assumir cada uma o cumprimento da prestação perdida.

2 – Podem responsabilizar o cabeçário pelos danos, ainda que não tenha culpa (por
exemplo, ele guarda a coisa e é a sua casa que queimou, portanto é ele a arcar com todos
os danos e responsabilidades).

Portanto, quanto à transferência do risco, existe uma particularidade no que tem a ver
com a propriedade do produto da abota.

b) Efeitos obrigacionais

i. Direitos e obrigações dos abotantes

Os efeitos obrigacionais traduzem-se nos direitos e nas obrigações dos abotantes, de um


lado, e nas obrigações do cabeçário, doutro lado.

Estes constituem efeitos essenciais, a par dos efeitos reais. As obrigações dos abotantes
são as de entrega da quantia pecuniária ou da coisa móvel acordada.

Relativamente à prestação, esta tem um prazo a ser realizada, sempre em atenção ao


tempo do pagamento daquele que recebe à vez.

Relativamente à obrigação de realizar a prestação acordada, cumpre referir que,


retomando o exemplo dado na nota 9, se uma das partes faltar ao pagamento,
suponhamos que na abota entre as senhoras Antónia, Maimuna, Npili, Ponu, Ndjaba e
Cadi, em que tinham que receber pela ordem da indicação, chega a vez da Npili receber
e Cadi não pagou porque “estava mal”.

Ela deixa de cumprir e pode faze-lo posteriormente ou ficar sem pagar, caso em que,
quando chega a sua vez, Npili fica desobrigada de pagar porque não tinha recebido nada
da Cadi.

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É uma situação anómala que à partida não pode acontecer, mas ao suceder o regime não
é o afastamento do incumpridor, mas a exoneração de responsabilidade daquele em cuja
vez não cumpriu quando chegar também a vez do faltoso.

Os direitos dos abotantes consistem essencialmente em receber à vez o produto


recolhido da prestação das partes.

Normalmente, a cronologia de pagamento a cada um dos abotantes é determinada no ato


da celebração do contrato, embora seja passível de alteração.

Não há um critério uniforme para determinação da sequência, sendo esta aliás, feita
tendo em conta a finalidade da abota.

Aproveitando o exemplo dado anteriormente da abota entre as 6 senhoras em que uma


delas entra com “três mãos”, suponhamos que tinham cada uma delas cerimónias
fúnebres de parentes a realizar, cada uma a acontecer numa determinada data, o critério
do pagamento seria a data da realização das respetivas cerimónias.

Isto é, sempre que se tem em vista realização de objetivos concretos dos abotantes com
o dinheiro, a fixação da cronologia faz-se pensando no período em que cada parte terá
necessidade de ter disponível o montante da abota ou a coisa abotada.

Pelo contrário, quando a abota é feita assim no geral, sem nada em concreto em vista,
por regra, a determinação faz-se em atenção “à fama de cumpridor ou incumpridor” por
parte de cada abotante, porquanto ninguém quer pagar em primeiro lugar àquele que não
cumpre a tempo, que é preciso “chatear” para cumprir.

Quem determina a sequência são os próprios abotantes, sobretudo nos casos das
situações de abota feita com vista a ajudar a realizar objetivos concretos dos abotantes.
Porém, esta faculdade pode ser deixada ao cabeçário, nos casos em que não há esta
cronologia imposta pelas suas necessidades.

A cronologia, refere-se, não é uma questão de ordem pública, podendo ser alterada por
acordo das partes posterior, sobretudo quando motivado por situações inadiáveis que um
dos abotantes deve fazer face de urgência.
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Por regra, é sempre preciso acordo de todos, mas faltando esse acordo, se o abotante que
tinha a vez quiser, pode trocar “o seu lugar” com aquele que está em aflição14.

ii. Obrigações do Cabeçário

O cabeçário é aquele a quem se incumbe de receber a prestação das mãos dos abotantes
e depois entregar o respetivo produto ao abotante que tem a vez de receber.

A figura do cabeçário é subsidiária, ou seja, existe apenas se as partes assim o


entenderem, sendo que numa abota em que só temos duas pessoas é indispensável.

A ser indicado um cabeçário, o critério normalmente utilizado é a confiança. Alguém


que garante a cada uma das partes que não vá ficar com o produto da abota para si, mas
também alguém que garanta que possa “pôr todos em ordem” quanto ao cumprimento
da palavra dada.

Com isso, podemos concluir que são duas as obrigações do cabeçário: 1) recolher a
prestação dos abotantes; 2) entregar o produto recolhido aquele que tem a vez de
receber.

Nomeado o cabeçário, apenas ele pode interpelar cada um dos abotantes a exigir a
realização da prestação e só dele se pode exigir também a entrega do produto respetivo.

Então, deve ser diligente e respeitado para que os seus apelos sejam lestos e levados a
sério15.

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Retomando, com modificação, o exemplo da Antónia, Maimuna, Npili, Ponu, Ndjaba e Cadi, agora sem
“várias mãos de nenhuma delas”, vamos supor que a ordem de pagamento é a que estão indicadas. Se
Npili receber no mês de fevereiro e chegamos ao mês de março em que Ponu deva receber, mas Cadi
pretende tomar a vez porque, entretanto, adoeceu gravemente o pai e este precisa de tratamento urgente.

Nesta hipótese pode ser concedido “lugar” à Cadi, para depois receber Ponu (mês de abril) e finalmente
Ndjaba (maio).

Não havendo consenso da Ndjaba, por hipótese, Ponu pode “trocar” com Cadi e esta recebe em março,
Ndjaba recebe em abril, que é o tempo determinado previamente para ela, e Ponu recebe em maio.

15
Normalmente a tarefa de cabeçário é confiada ao mais velho, tendo em conta o respeito que se deposita
no nosso país às pessoas mais velhas. Igualmente, pode-se confiar a um jovem responsáveis e respeitosos
das regras sociais, como forma de teste e prémio (cfr. no mesmo sentido, Samora Sampa, cit., pág. 9).
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Ainda tem a obrigação de guarda, se bem que não nos termos de um depositante, mas
simplesmente daquele que tem na sua posse algo pertencente a outrem, ainda que com
intuito de imediatamente o entregar.

Ao contrário do que defende Samora Sampa, o cabeçário pode receber a prestação de


alguns abotantes antes do dia da entrega àquele que tem a vez. E enquanto não
completar (e não chegar o dia) ele deve guardar o produto que lhe fora entregue.

A função do cabeçário não é remunerada, embora nada impeça as partes de o


gratificarem pela tarefa.

§ 4. Classificação do contrato

Dissemos que a abota é um contrato, esta afirmação impõe-nos atender ao conceito do


contrato em si. A doutrina define o contrato como acordo ou convenção entre diferentes
partes (duas ou mais) com vista à regulação de interesses e dentro do âmbito da
autonomia privada16.

Pelo conceito do contrato, abstraindo dos problemas em seu torno, e seguindo aquilo
que parece ser ainda a tendência maioritária, retira-se dois requisitos:

a) Acordo de vontades;

b) Autorregulação de interesses das partes.

Lançando mão ao conhecimento adquirido na Teoria Geral, não abordamos estes dois
requisitos e apenas se afirma aqui que a abota consiste igualmente num acordo de
vontades em que se regula interesses particulares.

Concluído que se trata de um contrato, procedamos então a sua classificação dentro do


âmbito contratual.

Assim, diríamos que se trata de um contrato oneroso, sinalagmático, comutativo, de


execução periódica, consensual, e do ponto de vista legal, inominado e atípico. É ainda
um negócio de disposição e é um contrato tendencialmente intuitu personae.

16
Cfr. Pedro Pais de Vasconcelos, Teoria Geral do Direito Civil, Coimbra, Almedina, 2012.
Alcides Gomes
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§ 5. Formação do contrato

O processo formativo não releva qualquer particularidade em relação aos demais tipos
contratuais, caraterizando-se por uma informalidade marcante dos contratos com forte
origem social.

Quanto à capacidade, é preciso realçar que a prática tem afastado qualquer exigência
neste sentido, ou seja, por regra, só maiores é que celebram o contrato, porém, dentro do
círculo familiar17, é corrente que uma mãe ou um pai, que queira participar em várias
mãos numa abota o faça em seu nome apenas ou em nome de um filho.

O filho em cujo nome se contrata pode inclusive ser menor.

O sentimento das partes continua a ser da mãe como abotante, embora em nome do filho
menor, e consideram o filho como seu colega do contrato.

Os pais podem representar os filhos nos negócios, dentro dos limites impostos pela lei,
substituindo-os na declaração negocial e agindo no seu interesse e por sua conta. Mas a
representação pressupõe que o bem pertença ao filho incapaz e que o negócio produza
efeitos na esfera do mesmo filho.

Ora, na abota não é isso que sucede (ou nem sempre é isso). Os pais utilizam o seu
dinheiro para participar da abota em nome dos filhos e sem qualquer intenção de
doação, até porque o produto depois reverte para os pais e não para o filho.

Portanto, o contrato pode ser celebrado com pessoas que só aparentemente são partes,
na medida em que aos olhos dos participantes não são tomadas como tal e se houver
incumprimento a responsabilidade é assacada à verdadeira parte (pais, tios, etc.) que
utilizam interposta pessoa.

17
Entende-se aqui por círculo familiar o meio envolvendo uma relação de familiaridade em sentido estrito
do termo, de vizinhança e de amizade.
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Abota

§ 6. Delimitação com figuras afins

Mútuo

Vista a definição do contrato de mútuo, art. 1142.º e comparada com o conceito que
avançamos para o contrato de abota, constata-se que têm em comum a transmissão de
propriedade sobre o objeto do contrato.

No mútuo há uma obrigação de restituir objeto do género igual que não existe na abota,
pois a prestação da abota não se consubstancia em restituição.

O mútuo é um contrato real quoad constitutionem e a abota é consensual.

Depósito

Também é um contrato real quoad constitutionem.

Não há transmissão de propriedade e nem possibilidade de utilização da coisa


depositada que deve ser restituída no final.

O objeto é diferente – depósito recai sobre coisa móvel ou imóvel e a abota sobre coisas
fungíveis.