Você está na página 1de 19

1

A IMPORTÂNCIA DO TREINAMENTO MINISTERIAL NA EDUCAÇÃO

TEOLÓGICA.

Por

Emílio Abdala

INTRODUÇÃO

Ao trocar minhas atividades de evangelista de campo para professor, dedicando-

me à formação de evangelistas no SALT-IAENE, tenho percebido um especial interesse

de Deus por este ministério e por esta escola, que não apenas foi inovadora em reformas

educacionais no treinamento ministerial – o primeiro seminário do Brasil a adotar o

programa de prática de evangelismo público durante todo um semestre como parte do

seu currículo, bem como o alto senso de missão presente no campus.

Através da Missão Iaenense – Missão experimental que coordena as atividades

da prática pastoral, centenas de vidas são transformadas a cada ano pelas cruzadas

evangelísticas, campais, camporees (há um clube de líderes de Desbravadores como

parte do currículo), programas de “Semana Santa”, Semanas de Avivamento, programas

de multiplicação de igrejas e a colportagem evangelística através de um ônibus especial.

Por aqui passam os evangelistas, os pastores, administradores, professores e

profissionais da saúde que conduzirão a obra de Deus no futuro. Honorato e Columba,

através de escolas de treinamento, nos dias antigos, e também Lutero e Calvino na

época da Reforma, prepararam os exércitos do Senhor para o cumprimento da missão.

As escolas dos profetas são fator primordial se se trata de propagar e manter vivo o

poder da religião num país.

Iain Murray descreve que Lutero e Calvino chegaram a ser o que eram, devido

em grande parte, a seu poder para discipular e treinar centenas de pregadores. Se alguém

fosse a Wittenberg não via apenas Lutero, mas também o colégio de Lutero, os homens
2

ao seu redor, todos os estudantes que estavam sendo formados em outros Luteros sob

sua direção1. O mesmo ocorria em Genebra. Quanto deve a Escócia ao fato de Calvino

ter instruído João Knox!

Quanto benefício alcançou outras nações, advindo de pequenas repúblicas da

Suiça devido ao fato de que Calvino teve o bom senso de perceber que um só homem

não podia esperar influenciar uma nação inteira a menos que se multiplicasse em jovens

fervorosos e cheios de paixão pelas almas. Quanto benefício teve a Inglaterra com as

pregações dos lolardos, que eram jovens que tinham estudado em Oxford com Wycliff!

As igrejas parecem ter esquecido disso. A Igreja deveria tornar os seminários teológicos

o objeto primordial de seus cuidados e atenção.

Como evangelista e professor vejo que uma das mais importantes extensões dos

esforços evangelísticos é a obra de educação em evangelismo. Não compreender o alvo

central da educação teológica para o ministério pode se tornar uma tragédia no

treinamento ministerial. Analisarei a obra de três dos maiores evangelistas do século

XIX: Charles Finney, C. H. Spurgeon e Dwight Moody, e a extensão dos seus

ministérios através do treinamento ministerial nas escolas por eles iniciadas. Finalmente

abordarei a filosofia de treinamento ministerial adventista iniciada também no século

XIX e que se orientava para o cumprimento da missão e para então descrever a

aplicação desta filosofia em experiências realizadas pelo programa de teologia aplicada

do Salt- IAENE.

CHARLES FINNEY (1792-1875) – OBERLIN COLLEGE

Diz-se acerca deste evangelista que durante os anos de 1857 e 1858, mais de 100

mil pessoas foram ganhas para Cristo pela obra direta e indireta de Finney.2 Em Boston,

1
C.H. Spurgeon, Um Ministério Ideal (São Paulo -SP: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1990),.8.
2
Orlando Boyer, Heróis da Fé (Rio de Janeiro –RJ: CPAD, 1985), 126.
3

50 mil fizeram compromisso de fé em apenas uma semana. Foi considerado pelos

historiadores como o apóstolo dos avivamentos.3

Muitos dos seus conversos estavam desejosos de ingressar no ministério, e ele

logo percebeu a necessidade de treinamento. Mas, por se recusar a submeter-se à

influência da educação teológica tradicional do seu tempo, com profunda convicção, ele

abandonou seu pastorado em Nova York e aceitou o chamado para ser professor de

teologia em Oberlin.4

Seu principal alvo era sempre treinar um exército de inspirados evangelistas, e

para tal, insistia em que o seu treinamento ministerial deveria abranger o ensino de

teologia. Os alunos eram enviados a ministrar nas igrejas vizinhas e a conduzir

pregações evangelísticas onde solicitados.

Outra força da metodologia educacional de Finney no Oberlin College era o

relacionamento de alunos com os professores. Sua afinidade com o corpo discente era

caloroso e pessoal. A vida espiritual e devocional dos alunos era motivo de preocupação

de seus professores. Estes visitavam os estudantes em seus quartos para conversação

religiosa e oração.5

Milhares tornaram-se ministros e missionários. Evangelismo e o avivalismo

floresceram sob o ensino, desafio e exemplo de Finney. Duas coisas animaram a vida do

evangelista: seu zelo pelo evangelismo-avivalismo e seu esforço para treinar outros na

tarefa. Ele continuou sua própria obra avivalística durante seus anos em Oberlin com

campanhas nos Estados Unidos e Canadá. No ensino, continuou suas classes em

teologia pastoral até sua morte em 1875.

CHARLES H. SPURGEON (1834-1892) – PASTOR’S COLLEGE

3
Boyer, Op. Cit., 125.
4
V.Raymond Edman, Despertamento: a ciência de um milagre (B. Horizonte/MG: Betânia, 1980), 45
5
Charles Finney, Lectures on Revivals of Religion (Chicago, 1971), 21.
4

Enquanto Finney estava conseguindo significantes resultados na obra

evangelística nos Estados Unidos, outro gigante do evangelismo C. H. Spurgeon,

causava impacto na Inglaterra. Ao tempo de sua morte, sua congregação no

Metropolitan Tabernacle em Londres era a maior congregação independente do mundo.6

Privado de oportunidades da educação formal superior, ele aproveitava todos os

momentos livres para estudar. Diz-se que alcançou fama de ser um dos homens mais

instruídos de seu tempo.7 No entanto, sua filosofia de treinamento ministerial diferia dos

demais seminários, e resolveu estabelecer um novo padrão – educação para

evangelismo. Sua opinião era que os seminários que deixavam os homens em dúvida

acerca da inspiração e autoridade das Escrituras, era pior do que inútil. Ele observou que

em muitas escolas, os estudantes não eram preparados para o ministério prático.

Aprendiam tudo exceto o que deveriam aprender. A coisa mais importante no

treinamento ministerial é aprender a arte de ganhar almas.8

Tudo começou em 1856, um jovem converso chamado Medhurst começou a

freqüentar cada semana a casa de Spurgeon para receber várias horas de instrução

teológica. Em 1857, surgiu outro estudante. Pouco tempo depois o número chegou a

oito; a seguir vinte e finalmente setenta a cem alunos, que recebiam um curso de dois

anos no que chegou a ser conhecido como “Pastor’s College”. 9 Mais tarde ele declarou,

“esta é a obra da minha vida, a qual creio que Deus me chamou e que preciso realizar.

Pregar o evangelho e treinar outros a fazê-lo é o alvo e objetivo da minha vida”.10

Desde o início, o desígnio do Pastor’s College era promover o evangelismo. “O

objetivo é treinar evangelistas, e não formar eruditos”.11 Por outro lado, “para serem

6
P. S. Kruppa, “C. H. Spurgeon, A Preacher’s Progress”, PhD Dissertation (Columbia University) 3
7
Boyer, Op. Cit., 8.
8
C. H. Spurgeon, O Conquistador de Almas (São Paulo/SP, Associação Religiosa Imprensa da Fé, 1978)
97-98.
9
Spurgeon, Op. Cit., 8
10
Vasili F. Talpos, “The Importance of Evangelism in Ministerial Training”PhD Dissertation (Columbia
University) 3.
11
Ibid, 135.
5

pregadores eficazes devem ser teólogos autênticos” era o axioma que repetia aos

alunos.12

Para tal, o programa oferecia matérias de grego no Novo Testamento, Hebraico,

Inglês, Homilética, Oratória, Administração de Igrejas e Teologia Pastoral. Ao lado

destes cursos, a prática pastoral tinha parte vital no currículo do Pastor’s College. Os

estudantes eram enviados em cruzadas evangelísticas, visitação de casa em casa,

pregação e colportagem.13

A mais proeminente figura em meio aos professores era o próprio Spurgeon – o

fundador e presidente do colégio. Suas classes de sextas-feiras à tarde aos seminaristas

foram as ocasiões nas quais orientava a respeito da pregação. Estas palestras foram

reunidas nos três famosos livros: “Lições aos Meus Alunos”.

DWIGHT L. MOODY (1837-1899) – CHICAGO INSTITUTE, NORTHFIELD

SEMINARY

A principal figura do evangelismo urbano em seus primeiros anos foi Dwight L.

Moody. O Dr. A. T. Pierson estima que Moody tenha falado a cerca de 100 milhões de

pessoas durante o seu ministério.14 O seu método constituía-se numa pregação simples e

emotiva, conclamando as pessoas ao arrependimento e a aceitar a salvação oferecida em

Cristo Jesus. A sua mensagem tocava a alma das massas urbanas.15 Sua teologia era

simplista e limitada. Mas ainda assim, o elemento comum em sua teologia e técnica era

a paixão pelas almas.

Quanto mais ele avançava sua obra evangelística mais percebia a necessidade de

treinar outros no evangelismo. Como Spurgeon, ele teve pouca educação formal, porém

muitos o consideravam como um dos homens mais educados em seu país, em termos de

12
Spurgeon, Op. Cit., 9.
13
Ibid., 140.
14
Vasile F. Talpos, Op. Cit., 186.
15
Justo González, A Era dos Novos Horizontes (São Paulo/SP, Ed. Vida Nova, 1983) v. 9, 45.
6

conhecimentos gerais adquiridos pela muita leitura.16 Ellen White o classifica como

homem de grande talento.17

Dedicado à carreira evangelística, Moody ficou convicto que a única esperança

para um despertamento religioso nacional estava numa multiplicação de obreiros

cristãos que pudessem levar o fogo do avivamento a sua comunidades. Sua filosofia era

que “é melhor colocar dez homens no trabalho do que trabalhar por dez homens”.18

Foi na primavera de 1879 que ele lançou a pedra fundamental do prédio de aulas

do “Northfield Seminary” para moças. Moody adaptou alguns cômodos de sua própria

casa e a aula inaugural foi dada na sala de jantar, a três de novembro de 1879, para 25

moças. Logo ele fundou o “Mount Hermon School” para moços, e deu o passo mais

importante, fundou uma escola orientada para o evangelismo de cidades: Chicago

Institute, hoje Moody Bible Institute.19

A Bíblia era o fundamento do currículo escolar, além de exposição bíblica,

missiologia, história da igreja, métodos de evangelismo, obra de Escola Dominical e

serviços domésticos eram cursos ensinados naqueles dias de início. A teologia

sistemática cobria áreas de inspiração, doutrinas bíblicas e o estudo da Bíblia em livros

e seções: Ele insistia na necessidade de treinamento prático no ministério. Alunos eram

designados regularmente a lugares onde eles fariam evangelismo agressivo para

desenvolver suas habilidades. Assim, os estudantes eram engajados intensamente em

evangelismo pessoal, distribuição de literatura, testemunhos em hospitais, prisões e na

rua.20

16
González, Op. Cit., 187.
17
Ellen G. White, Evangelismo (Santo André/SP, CPB., 1976), 134.
18
Vasile F. Talpos, Op. Cit., 189.
19
Boanerges Ribeiro, Seara em Fogo (São Paulo/SP, Casa Ed. Presbiteriana, 1979), 134-135.
7

RELACIONAMENTO ENTRE A TEOLOGIA E O EVANGELISMO:

Pelo que vimos dos exemplos acima, e de acordo com sua natureza e propósito,

evangelismo e teologia precisavam ser conectados inseparavelmente. Os conceitos da

teologia e o fervor do evangelismo devem se apoiar mutuamente. Não podem ser

separados. Lutero, Calvino, Wesley, Finney, Spurgeon eram profundos pensadores, ao

mesmo tempo dedicados ao evangelismo.21 Autrey escreveu que cada um deles estava

preocupado com a teologia sadia para estabelecer um firme fundamento para seus

esforços evangelísticos. Empreender esforço evangelístico sem possuir conhecimento de

teologia poderá ser desastroso para o cristianismo.22 “Para serem pregadores eficazes

devem ser teólogos autênticos”, era o axioma que Spurgeon repetia aos alunos.23

Porém o mero academicismo ou a falta de uma orientação prática tem se tornado

um estorvo à missão da igreja. Por isso, Finney declarou: “Há um grande defeito na

educação de ministros. A educação deve ser tal que prepare os jovens para o trabalho

específico o qual eles estão destinados (...) eles dirigem a mente em assuntos

irrelevantes (...) e assim: os estudantes tornam-se frios em religião”.24 É deste “grande

defeito” que Spurgeon divergia do ensino convencional predominante. Por isso, ele

combateu o que denominou “idolatria do intelecto”. Na sua época havia exagerado

destaque ao prestígio acadêmico e a respeitabilidade cultural; muitos demonstravam

ganância por alcançar diplomas universitários, em prejuízo da verdadeira finalidade

ministerial.

EDUCAÇÃO ADVENTISTA ORIENTADA PARA A MISSÃO

A primeira escola denominacionalmente financiada pelos adventistas abriu suas

portas em Battle Creek, com Goodloe Bell ensinando doze alunos em 1872. G. H. Bell

20
Vasile F. Talpos, Op. Cit., 206-207.
21
Vasile F. Talpos, Op. Cit., 214.
22
Autrey, A Teologia do Evangelismo (Rio de Janeiro/RJ, JUERP, 1986), 14.
23
Spurgeon, Op. Cit., 9.
8

tinha sido aluno no colégio de Oberlim, em Ohio, escola pioneira em reforma

educacional. Bell não era meramente um pedagogo. Ele cria na associação com seus

alunos tanto dentro quanto fora da sala de aula. Era aberto a novas idéias, e sob a

influência da Sra. White, instituiu novos métodos de ensino que estimulavam a pesquisa

no lugar da memorização de textos, e estimulava o pensamento e a livre expressão. 25Em

1874, essa escola torna-se o Battle Creek College, com Sidney Browsberger como

diretor. Porém, adotando o modelo tradicional de seu tempo, os estudantes tinham de

gastar 4 a 6 anos no estudo dos clássicos (grego e latim) para obter o grau de

bacharelado.26

Em 1893, Ellen White vai para a Austrália onde tem oportunidade de influenciar

o desenvolvimento da Escola de Avondale para obreiros cristãos, com ênfase no

espiritual, no programa de trabalho-estudos e orientação para serviço na comunidade.

Logo, escolas adventistas ao redor do mundo são remodeladas de acordo com o modelo

de Avondale.

Shantz menciona que da Austrália, em 1904, a Sra. White advertia contra certas

“escolas mundanas” e seus programas educacionais.27 Ela recomendava que o trabalho

missionário deveria ser a mais elevada disciplina. “Se a escola de Avondale tornar-se

um dia o que o Senhor está procurando que seja, o esforço missionário dos professores e

estudantes dará fruto. Tanto na escola como fora, súditos bem dispostos serão levados à

obediência a Deus”.28

Enquanto isto, seguindo o modelo de Avondale, E. A. Shutherland e Percy

Magan estabelecem nos Estados Unidos escolas missionárias, tais como o “Washington

Missionary College” e o “Emmanuel Missionary College”- futura “Andrews

24
Finney, Op. Cit., 178 – Citado por Vasile F. Talpos, Op. Cit., 73.
25
Arthur Spalding, Origin and History of SDA , vol. 2 (Washington D.C., Review and Herald P.
Assocation, 1967) 117.
26
George Knight, Antecipating the Advent – A Brief History of SDA (Boise, Idaho: Pacific Press, 1993),
63.
9

University”. Em 1939, o seminário da Andrews incluiu a matéria de Evangelismo

Público em seu currículo, designando o evangelista J. L. Schuler como professor e

instrutor-coordenador das cruzadas com a participação de estudantes.29

Assim, como bem coloca George R. Knight, há um paralelo entre a explosão no

número de missões adventistas em todas as partes do mundo e o reavivamento da

educação. Tanto a abertura do primeiro colégio em Battle Creek como o envio do

primeiro missionário aconteceram em 1874.30 E isto não foi coincidência. O propósito

do colégio de Battle Creek era treinar para o serviço missionário tanto nos Estados

Unidos quanto em campos estrangeiros. A grande motivação da educação estava

enraizada na missão. E ele conclui que esta motivação era positiva. Motivação negativa

como escapar do darwinismo e do cepticismo desempenhava uma função mínima. A

escola não deveria apenas ser uma barreira contra o mundo – refúgio para a juventude,

mas um centro de evangelismo dinâmico para enviar milhares de vozes à terra. Logo, o

coração da educação adventista depende de sua habilidade de manter sua identidade e

senso de missão.

O modelo bíblico da educação teológica se encontra nas escolas dos profetas

organizadas por Samuel. E um dos seus propósitos era servir como uma barreira contra

a corrupção do mundo e proteção da juventude. Este era no entanto, um propósito

secundário. Sua primeira obra era produzir um ministério profético. De lá saíram

grandes escritores como Oséias, Jeremias e Isaías e grandes profetas como Daniel. Os

que se graduavam nestas escolas eram chamados “filhos dos profetas”, porém a maioria

deles nunca se tornou conhecida. Muitos pensam que o único propósito de nossas

escolas é servir de refúgio aos nossos jovens. Mas a juventude necessita mais do que

27
Bore Shantz, “Development of S.D.A. Missionary Tought”, PhD Dissertation. Fuller Theological
Seminary , 552-553.
28
Ellen G. White, Conselhos sobre Educação (Santo André/SP, CPB, 1976), 189-190.
29
Howard B. Weeks, Adventist Evangelism in the 20th Century (Washington, D. C: Review and Herald,
1970), 186.
30
George Knight, The Fat Lady and Kingdoom (Boise, Idaho, Pacific Press, 1995), 103-104.
10

proteção; eles precisam de inspiração. Nossas escolas devem fazer mais do que

providenciar um abrigo; elas precisam ser centros de evangelismo dinâmico, se

quiserem enviar os estudantes como “milhares de vozes a toda terra”.

TORNAR CADA CLASSE EVANGELÍSTICA

Este “clima evangelístico” depende largamente do compromisso pessoal e

dedicação dos professores. Se Finney, Spurgeon, e Moody não tivessem contagiado a

juventude com o seu espírito evangelístico e suas escolas teriam sofrido. Como

expressou Roy A. Anderson, a menos que o fogo do evangelismo arda no altar do

coração de cada professor, não acenderá a mesma chama no coração dos estudantes. 31

Estou confiante que Deus está interessado em cada matéria que ensinamos, nas mais

variadas consecuções do saber. Ele é o Autor da Ciência. Ele percorre o universo em

precisão matemática. Ele habita em meio à harmonia da música e das artes. E Ele está

interessado em nossa história e em nossos cursos de línguas, pois toda história é Sua

história, enquanto as línguas são um eco articulado da voz que chamou o universo à

existência”.32 Deus está tão interessado na ciência quanto nas classes bíblicas. Anseio

ver o dia em que o evangelismo seja parte de cada classe e em cada atividade da escola,

mesmo em nossa recreação. Esta é a filosofia de Ellen White para uma completa

educação em nossas escolas – “caso seja animado o espírito missionário, mesmo que

isto tome algumas horas do programa regular de estudo, serão derramadas muitas

bênçãos celestes... o verdadeiro objetivo da educação é habilitar homens e mulheres

para o serviço... nossas escolas foram estabelecidas pelo Senhor; e caso sejam dirigidas

em harmonia com Seus desígnios, os jovens a elas enviados preparar-se-ão prontamente

para empenhar-se nos vários ramos da obra missionária”.

Deus quer que nossos jovens tenham mais do que média escolar e grau de

cultura. Uma visão é mais importante do que uma graduação. A maior coisa que você

31
Roy A. Anderson, Report of Evangelistical Council and Ministerial Assoc. Meetings – General
Conference, Review and Herald.
11

pode dar a um homem é uma idéia e um ideal. Como Davi, precisamos pôr uma espada

nas mãos de nossos jovens. Em I Sm 21:8,9, lemos que Davi veio ao Sacerdote no

santuário buscar uma espada. Só havia uma espada ali, um tipo de peça de museu,

envolvida num pano e escondida detrás da estola sacerdotal – a espada de Golias. Para

Davi, aquela espada falava de livramento e do poder de Deus. É possível que nossos

jovens venham para nossas escolas unicamente para encontrar a espada da Palavra de

Deus envolvida no tecido de algum curso particular. Já não é tempo de fazer vigorar o

propósito real de nosso programa educacional? Freqüentemente a Palavra de Deus como

espada no santuário, é uma peça de museu, envolvida em peças de seda de um extenso

currículo pendurada no suporte de algum frio argumento do corpo de doutrinas. A

espada precisa estar nas mãos de jovens que como Davi irão edificar o Reino de Deus.

Para isto, precisamos evangelizar nossa teologia, nossa pedagogia, nossos cursos de

administração e ciências. Inspiração não vem meramente do estudo árduo, mas do

envolvimento no serviço de Deus. E esta chama, repito, deve ser acesa em nossas

classes, precisa ser acesa pelo professor.

TORNAR CADA PROFESSOR UM EVANGELISTA

O modelo bíblico de um professor pode ser encontrado na vida do profeta

Eliseu. E a razão é que, “fielmente, incansavelmente, através de seu longo e eficaz

labor, Eliseu esforçou-se por nutrir e fazer avançar a importante obra educacional

conduzida pelas escolas dos profetas”.33 Em vários momentos, nós o encontramos

rodeado de fervorosos grupos de jovens, dando instruções e operando milagres. O

milagre que neutralizou a “morte na panela” de 2 Rs. 4: 38-44 foi operado por ocasião

de uma de suas visitas a estas escolas. Eliseu era um professor que se misturava aos

alunos não apenas na sala de aula. Em 2 Rs. 6: 1,2 nós o vemos participando de

32
Ibid.
33
Ellen G. White, Profetas e Reis (Tatuí/SP, CPB, 1992), 223.
12

atividades fora do campus junto com os alunos, “encorajando-os por sua presença,

dando-lhes instruções e mesmo realizando um milagre para ajudá-los”34 – nesta

situação, ele faz flutuar o machado que o aluno perdeu, caindo no rio.

De certa maneira, Ellen White confirma o modelo educacional do Oberlin

College, do Pastor’s College e do Instituto Bíblico de Moody ao sugerir que a

verdadeira educação significa mais do que prédios adequados, mais do que

equipamentos ou material didático eficaz, mais do que titulação dos professores. Os

alunos necessitam mais do que a mecânica da mensagem; eles precisam da dinâmica da

mensagem. Ela recomenda, “Professores, ide com os vossos alunos... Consagrem os

professores de nossas escolas o Domingo a trabalhos missionários. Levem eles consigo

os alunos a celebrar reuniões pelos que não conhecem a verdade”.35

Logo, o alvo destas escolas era preparar grande número de obreiros para a obra

evangelística na obra local e além-mar. De igual modo , as primeiras escolas adventistas

priorizavam o treinamento prático e o conhecimento bíblico, enquanto evitavam

acentuada ênfase em títulos acadêmicos e o rigoroso treinamento intelectual. E isto

motivou a grande expansão da missão da igreja neste período.

O PAPEL DO EVANGELISMO DESCENTRALIZADO NO

TREINAMENTO MINISTERIAL

Em 1960, enquanto Ellen White repetia com ênfase a necessidade de lançar um

programa evangelístico nas grandes cidades negligenciadas de seu tempo36, Reuben

Torrey, Billy Sunday e J. Wilbur Chapman atraíam grandes audiências em suas

campanhas evangelísticas. Este último tornou-se eminente com o seu sistema de

campanhas evangelísticas simultâneas. Ele dividia a cidade em distritos, com uma

34
Ibid., 254.
35
Ellen G. White, Conselhos Aos Professores, Pais e Estudantes (Santo André/SP, CPB, 1975), 500.
36
.Ellen G. White, Evangelismo (Santo André/SP, CPB, 1978), 25-43.
13

brigada de evangelistas conduzindo campanhas em igrejas, teatros e salões através de

toda área metropolitana37.

Howard Weeks descreve que na década de 30, embora um grande número de

evangelistas estivessem em campo na tarefa de alargar as fronteiras adventistas, a

atenção era focalizada em algumas poucas figuras como Roy Allan Anderson, H. M. S.

Richards e J. L. Shuler. Com o aumento da ênfase no evangelismo como atividade

denominacional, não unicamente individual, nova ênfase foi dada à necessidade de

multiplicidade de pequenos esforços. Grande tutor dos pequenos evangelistas, Shuler

mencionava dois falsos conceitos em seus dias. Primeiro, a crescente tendência de

considerar o evangelismo como tarefa de alguns poucos especialistas, que

aparentemente tinham sido dotados com um especial dom de ganhar almas. Segundo, a

crescente tendência para realizar e valorizar apenas os grandes esforços evangelísticos.

Ele observou que um jovem evangelista que vai a determinado local onde não há

membros e ergue uma nova igreja com 25 pessoas, teve o mesmo sucesso, em sua

proporção, do que o grande evangelista que batiza 130 apoiado em um folgado

orçamento.

Outro progressivo passo dado nos seminários foi a sistematização da

metodologia do evangelismo, que os estudantes poderiam facilmente por em prática,

através da publicação dos livros Public Evangelism de Shuler e Living Evangelism de

Carlyle B. Haynes. Manuais e classes detalhavam não apenas a filosofia do evangelismo

mas também as técnicas que passaram a ser ensinadas pelo próprio Shuler em sua classe

de Métodos de Evangelismo. Isso diminuía a dependência dos alunos numa série

evangelística dirigida por um evangelista profissional, no processo de aprendizado nos

seminários.

37
Howward B. Weeks, Adventist Evangelism in the Twentieth Century (Washington- D.C.; Review and
Herald Publishing Association) 23
14

Roy Allan Anderson, evangelista e então professor do La Sierra College,

mobilizou um grande segmento de alunos em uma organização chamada “Cruzados do

Rei”. Ele os envolvia em suas campanhas evangelísticas de seis semanas, com os alunos

pregando em sistema de rodízio, sob a sua orientação e supervisão.

No Brasil, as primeiras experiências com o evangelismo realizado pelo próprio

aluno em toda sua extensão ocorreram sob a coordenação do professor e evangelista do

Salt- IAENE Luís Nunes, nas grandes campanhas de Salvador e Feira de Santana, em

1993, onde cerca de 2.000 almas foram batizadas através da pregação direta dos

estudantes.

Em recente campanha realizada na cidade de João Pessoa- PB, um importante

esforço foi feito para unir e coordenar as muitas atividades evangelísticas adventistas

em uma ação combinada. O plano envolvia vários fatores: mídia, contatos pessoais,

cursos de estudos bíblicos e eventos de colheita. Sob a administração do campo, um

coordenador foi apontado para mobilizar os teologandos e os departamentos da igreja.

Médicos, dentistas e assistentes sociais foram especificamente envolvidos no

atendimento aos vários pontos de pregação, apoiados pela unidade móvel da Assistência

Social. Para levantar a audiência nesses pontos, um grande programa promocional foi

montado, com a distribuição de cerca de 150 mil convites.

Os pontos de pregação não foram dirigidos por evangelistas de carreira, e sim

por duplas de estudantes de teologia que tinham sobre si a responsabilidade de treinar,

mobilizar e motivar as igrejas no esforço evangelístico. Municiados com um kit básico

que consistia num manual de evangelismo, sermonário, bíblias, lições bíblicas, slides e

um C.D de músicas selecionadas, além de blocos de sorteio, painéis proféticos e outros

materiais produzidos por eles mesmos, os alunos seguiam um cronograma sincronizado

de temas e eventos que unificava e direcionava o movimento rumo a um alvo

específico. O papel do professor, ele mesmo um evangelista, era de suprir


15

logisticamente cada ponto com os materiais necessários, coordenar a execução do

programa e orientar os estudantes em suas dificuldades.

Geralmente falando, os jovens recrutas ministeriais estavam envolvidos no

evangelismo orientado para a congregação, com recursos e participação dos membros

da igreja local, ao invés do evangelismo no contexto carismático e pessoal, com as

reuniões públicas servindo primariamente para consolidar interessados que foram

previamente cultivados pela igreja. Embora houvesse a necessidade do uso mais efetivo

da mídia, melhores técnicas de propaganda e recursos audiovisuais, a ênfase esteve no

caráter da mensagem evangelística em si: simples, com pregação mais direta, baseada

em temas de interesse contemporâneo e orientado às necessidades das pessoas, maior

uso da bíblia, apelos frequentes e dependência do Espírito Santo.

O coordenado uso dos vários departamentos e atividades da igreja num

programa de evangelismo integrado, a ação dos membros em todas as fases da

campanha, multicampanhas de evangelismo visando o plantio de novas igrejas e o

evangelismo compacto – algo que combina às usuais reuniões de reavivamento com

temas de decisão das campanhas convencionais pareceu à jovem geração de

evangelistas do IAENE em 1999, ser a onda do futuro. O evangelismo compacto ou

Revive como é conhecido, foi direcionado mais a pessoas já dentro da influência da

igreja do que à comunidade geral; e diferente de um mero avivamento, ele não foi

direcionado aos membros da igreja. Embora enfatizasse temas prófeticos, realçava ainda

as características avivalísticas da devoção e entrega.

Eu resumiria a importância das pequenas séries evangelísticas realizadas pelo

próprio aluno no contexto do treinamento ministerial aos seguintes fatores:

1. Confirma a tendência de uma crescente ênfase no uso dos edifícios da igreja

para o evangelismo, em vez de teatros, tendas ou tabernáculos – embora

sejam inquestionavelmente necessários na evangelização de novos lugares


16

2. Nesta era da informação que prospera numa sociedade onde o controle é

descentralizado, as habilidades mais valorizadas em um profissional são a

iniciativa, criatividade, diversidade e conhecimento38. Quando se coloca

sobre os alunos encargos pesados de responsabilidades, o ministério é cabal.

O aluno não atua como obreiro de um evangelista que toma todas as decisões

e assume a direção da campanha; antes, devidamente orientado, ele é o

evangelista que mobiliza a igreja, aprende a arte de delegar e experimenta as

pressões e perplexidades do ministério. Esse modelo é uma simulação

perfeita para aqueles, que após a formatura, serão enviados a igrejas

lastimáveis, sem equipamentos sofisticados ou generosos orçamentos.

3. Tendências modernas parecem indicar que a maioria dos pastores querem

ver o evangelista como um “especialista em persuasão”, alguém que conheça

técnicas modernas de abordagem evangelística, que assista ao pastor na

colheita dos resultados do trabalho de sua congregação e promova o

programa local, além de suas necessárias campanhas evangelísticas.

Definitivamente, ele deve valorizar a participação dos membros no esforço

evangelístico, uma vez que as atividades leigas são a maior fonte de novos

membros. Crendo que isso é verdadeiro, quando um professor – evangelista

multiplica pregadores após treiná-los e equipá-los e os envia a pregar sob a

sua supervisão, orientando-os a trabalhar com os recursos da igreja local,

para após determinado prazo, promover um evento de decisão, onde a

experiência do professor – evangelista amadureça a colheita dos seus alunos,

ele oferece um treinamento mais adequado ao produto de nossos seminários:

pastores – evangelistas. O professor torna-se um modelo para o futuro pastor,

cuja função principal será a de multiplicar discípulos.

38
Jon Paulien, Present Truth in The Real World (Boise, Idaho, Pacific Press Publishing Association,
1993)
17

CONCLUSÃO

Efetivo treinamento evangelístico visando a preparação para o serviço de

proclamação do evangelho depende do compromisso pessoal e dedicação do professor.

Cada um dos evangelistas mencionados fizeram contribuição de sua metodologia no

treinamento evangelístico. Charles Finney, “o pai do reavivamento”, ajudou a

estabelecer a metodologia do moderno reavivalismo, e demonstrou que o

intelectualismo e o evangelismo podem andar lado a lado. Charles Spurgeon foi o mais

influente no desenvolvimento do “evangelismo pastoral”. Centenas de talentosos

pastores no século XIX se dedicaram à obra pastoral de ganhar almas. Dwight Moody é

considerado o iniciador do uso da “equipe evangelística”. Através desta metodologia ele

alcançou grandes massas para Cristo. Ele demonstrou que a organização, consolidação e

a comunicação de massa combinada com uma simples mensagem bíblica poderia ser

usada eficazmente no evangelismo.39

Todos os três influenciaram as futuras gerações de evangelistas, pastores e

missionários através do esforço de treinamento evangelístico em escolas orientadas para

a missão. O evangelismo e a teologia não são postos separadamente. O evangelismo

moderno é sempre encontrado num ambiente de forte base teológica. Evangelismo sem

teologia está destinado à degeneração. Ao mesmo tempo teologia sem evangelismo é

seca e sem sabor.40

Fica portanto evidente que a educação cristã está conectada ao reavivamento do

evangelismo e ao desenvolvimento das missões.

O início da educação adventista está relacionado à explosão do número de

missões em todas as partes do mundo. As escolas não apenas supriam obreiros

evangelísticos e institucionais para promoverem os empreendimentos missiológicos,

39
Vasile F. Talpos, Op. Cit., 220.
40
Autrey. Op. Cit., 213.
18

mas as novas missões logo estabeleciam suas próprias instituições educacionais. Assim,

o reavivamento da educação está relacionado com as missões na década de 1890.41

O reformador da Escócia John Knox estudou vários anos como aluno de Calvino

na Academia de Genebra, cujo principal impacto se deve a que nela cursaram estudos

superiores pessoas procedentes de vários países, que depois levaram a luz da Reforma a

eles.42 Em 1556 ele descreveu para o seu amigo Locke: “Em meu coração eu pude

desejar, que agrade a Deus guiar-te e conduzir-te a este lugar que, eu não temo em dizer,

é a mais perfeita escola de Cristo que já esteve sobre a terra”.43 Quão realizados nos

sentiríamos se tivéssemos testemunhos semelhantes a estes de nossas instituições de

ensino. Quão rapidamente cumpriríamos nossa missão se o produto de nossas escolas

fosse um exército de obreiros! Este é o ideal sugerido por Ellen White: “Com um tal

exército de obreiros como o que poderia fornecer a nossa juventude devidamente

preparada, quão depressa a mensagem de um Salvador crucificado, ressuscitado e

prestes a vir poderia ser levada ao mundo todo!”.44

Um exército recruta médicos, engenheiros, dentistas, capelães e cientistas. Não

importa quão bom médico ele seja, precisa conhecer a linguagem e os movimentos do

exército. Precisa saber pois é um médico-soldado! Somos ordenados a envolver nossos

jovens num exército de obreiros. O que estamos fazendo para treinar nossos jovens em

um exército? Um corpo de homens não se torna uma brigada de exército a menos que

sejam unidos e moldados num ideal. O ideal de cada aluno graduado em nossas escolas,

sejam eles médicos, enfermeiros, administradores, fisioterapêutas, professores e

principalmente seminaristas é ganhar almas para o reino de Deus. Esta é a linguagem e

o alvo do exército. Não podemos perder nosso senso de missão: somos oficiais em

marcha!

41
George Knight Op. Cit., 80.
42
Justo Gonzalez, Era dos Reformadores (São Paulo/SP, Vida Nova, 1983), v. 6, 117.
43
Alberto Timm, História das Religiões Contemporâneas (São Paulo/SP, IAE), 52.
44
Ellen G. White, Educação (Tatuí/SP CPB, 1997), 271.
19

Há alguns anos atrás, um estudante de uma de nossas universidades estava

assistindo a uma reunião de professores e líderes cristãos sobre os objetivos da educação

cristã. Como houvesse participação de todos, ele por fim se levantou e disse: “Eu não

sou cristão. Não acredito no que vocês acreditam, mas se acreditasse na metade do que

dizem acreditar, eu seria dez vezes mais diligente sobre isto”. Esta é a tragédia de

muitos seminários, faculdades e internatos que perderam o zelo e o fervor que

caracterizam a urgência da mensagem para estes últimos tempos.

O mundo está carente de líderes espirituais. Estes líderes sairão dessas modernas

escolas de profetas. Que Deus nos capacite na responsabilidade de modelar esses

mensageiros, inspirando os futuros evangelistas e treinando as “vozes” daqueles que

levarão a mensagem do advento a todo mundo no “espírito e poder de Elias”.

Você também pode gostar