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O DESAFIO DO USO DOS INDICADORES EDUCACIONAIS

E SEUS CANAIS DE DIVULGAÇÃO NO BRASIL

Indicadores educacionais servem ao propósito de, mapeando dimensões importantes do fenômeno educacional, dar
base a decisões qualificadas, informadas por evidências. Para que cumpram essa função, os indicadores precisam ser
usados, etapa que mais oferece desafios aos atores educacionais. Entretanto, para que sejam usados, os indicadores
precisam ser conhecidos. Podemos prever cinco etapas para que os indicadores sejam usados, cada uma delas
oferecendo desafios próprios aos usuários dessas informações.

A figura a seguir retrata o encadeamento dessas etapas:

FIGURA 1: ETAPAS PARA USO DOS INDICADORES EDUCACIONAIS

Saber que o Saber onde Saber como Saber como Saber como
indicador o indicador acessar o interpretar o utilizar o
existe está publicado indicador indicador indicador

O primeiro passo é saber que existem informações sobre determinada dimensão da educação. Há muitos indicadores
educacionais que os atores das redes de ensino desconhecem. Por exemplo, o IBGE divulga informações sobre a
proporção de municípios brasileiros onde a nomeação dos diretores das escolas da rede municipal ocorre apenas
mediante indicação por número de reuniões do Conselho Municipal de Educação nos últimos 12 meses. Você sabia que
essa informação existia? Sem saber que determinado indicador existe, como utilizá-lo?

Mas saber que um indicador existe não é suficiente para usá-lo. Posso saber, por exemplo, que existem dados sobre a
formação dos professores das redes públicas no Brasil, mas onde essa informação está disponível para consulta? Em
que canal esses dados estão disponíveis para acesso do público? Aliás, a informação está disponível para consulta?

Saber onde o indicador está publicado leva a outra questão. Como posso acessá-lo no canal onde está divulgado?
Isso pode até parecer trivial, mas não é. No site do IBGE, por exemplo, há um amplo conjunto de indicadores sobre
educação, da taxa de frequência à escola por grupos de idade ao nível de instrução das pessoas de 25 anos ou mais;
contudo, não basta saber que essas informações encontram-se no portal da instituição. Descobrir, em canais como o
portal do IBGE, onde está uma informação pode ser um grande desafio. Muitas informações sobre educação estão ali
publicadas por meio de um link chamado Síntese de Indicadores Sociais (SIS), cujo acesso leva às tabelas com dados
educacionais. O usuário que não sabe disso não chegará a ter acesso às informações que porventura deseja.

1
Conhecendo a existência e o acesso aos indicadores, entra em cena um ponto fundamental: o que ele quer dizer?
Interpretar um indicador educacional também pode ser muito desafiador. É preciso conhecer de quais informações ele
se vale e quais são seus limites, de modo que conclusões não autorizadas pela leitura do indicador não tenham lugar.
Se um indicador serve a tomadas de decisão, imagine os problemas advindos de uma leitura equivocada da informação!
Isso pode levar a consequências sérias para as políticas públicas educacionais. Um exemplo disso é entender o Ideb
como sinônimo absoluto de qualidade da educação. Ele é um importante índice relacionado à qualidade, reunindo
as dimensões do desempenho estudantil e do fluxo escolar, mas a qualidade da educação não se resume a essas
dimensões. Hoje, esse é um dos maiores desafios para o uso de indicadores educacionais no Brasil: compreender com
clareza o que a informação diz e quais são as conclusões autorizadas por ela.

Mesmo compreendendo bem os indicadores, muitas vezes permanece a dúvida sobre como usá-los na rotina de trabalho
das escolas e das redes de ensino. O que fazer com essas informações? Como elas podem afetar o trabalho dos atores
educacionais? Como elas podem ser usadas de modo reflexivo e colaborativo? A gestão, tanto na escola como no
âmbito das secretarias de educação, desempenha um papel fundamental para que isso aconteça. Responsável por
organizar o trabalho colaborativo na escola, o gestor é o canalizador e disseminador dessas informações, orientando
como podem ser utilizadas para dar base ao planejamento pedagógico e incorporando-as como parte do planejamento
da gestão. Há, na literatura1, esforços dedicados a esse tema: como utilizar os dados educacionais de modo ponderado
produtivo para as escolas e redes.

Diante de tudo isso, resta saber quais são os principais canais de divulgação de indicadores educacionais no Brasil.

1
Ver BOUDETT, K. P.; CITY, E. A.; MURNANE, R. J. Data wise: a step-by-step guide to using assessment results to improve
teaching and learning. Cambridge, Massachusetts: Harvard Education Press, 2013.

2
INEP

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) é uma autarquia federal vinculada ao
Ministério da Educação (MEC) e tem como objetivo dar suporte à formulação de políticas educacionais para diferentes
níveis do governo. O órgão faz isso, primordialmente, a partir da produção de indicadores educacionais.

No portal do Inep, há uma ampla gama de indicadores educacionais, relativos tanto à educação básica quanto ao
ensino superior. Nosso foco, no curso, é a educação básica. Por isso, é sobre os seus indicadores que concentraremos
nossa atenção.

Acesse o portal por meio do seguinte endereço: http://portal.inep.gov.br/

Na barra de navegação, clique em Dados Abertos. A partir disso, um conjunto de informações fica disponível para
o usuário. Há, pelo menos, três fontes muito importantes essenciais de indicadores relativos à educação básica: i)
Consulta Ideb; ii) Indicadores Educacionais; e iii) Sinopses.

Em Consulta Ideb, o usuário poderá acessar os resultados e metas do Ideb para o Brasil, por estado, por município e
por escola. O Ideb, sobre o qual ainda falaremos mais vezes no curso, é o principal índice relacionado à qualidade da
educação que temos no país, articulando indicadores de desempenho e de fluxo escolar.

Ao clicar em Indicadores Educacionais, o usuário poderá selecionar para consulta, em filtro específico, um conjunto de
indicadores: média de alunos por turma, média de horas-aula diária, taxa de distorção idade-série, taxa de rendimento,
percentual de docentes com curso superior, adequação da formação docente, regularidade do corpo docente,
complexidade da gestão da escola, nível socioeconômico, entre outros. Todos esses indicadores são produzidos para
todo o Brasil, por regiões, estados, municípios e escolas.

Ao clicar em Sinopses, o usuário é levado para uma página específica de sinopses estatísticas. Nessa página, encontram-
se as sinopses estatísticas relativas ao Censo Escolar de 2019. Para ter acesso a informações de outros anos, clique em
Sinopses Estatísticas da Educação Básica. Ali estão disponíveis para download informações recolhidas pelo Censo
Escolar anualmente, desde o ano de 1995. Trata-se de um conjunto bastante amplo de informações. Para a edição de
2019, por exemplo, foram publicadas 160 tabelas, com informações sobre matrículas, docentes, estabelecimentos e
turmas. Cada tabela traz informações por regiões geográficas, estados e municípios, e por etapas de escolaridade
(educação infantil, ensino fundamental, ensino médio, educação profissional) e modalidade (regular, EJA e educação
especial).

Relativas à educação básica, há também informações disponíveis para o Enem e Encceja.

COLOCANDO EM PRÁTICA

Consulte as Sinopses Estatísticas da Educação Básica para os anos de 2018 e 2019 em relação a seu município.
Compare, para a educação infantil, o número de docentes da rede municipal atuando na creche e na pré-escola, para
os dois anos indicados. Houve aumento desse número? Diminuição? Ou ele permaneceu o mesmo?

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IBGE

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na própria definição encontrada no portal do órgão, é o “principal
provedor de dados e informações do País”. Seu objetivo é mapear o Brasil de forma completa, fornecendo dados para
o governo e para a sociedade civil. Embora não seja uma instituição destinada a produzir informações exclusivas sobre
o tema, a educação é, evidentemente, uma das dimensões de interesse do IBGE.

Por meio do endereço https://www.ibge.gov.br, é possível acessar o portal da instituição. Na barra de navegação,
clique em Estatísticas. Na coluna à esquerda, aparecerá a opção POR TEMA. Em SOCIAIS, há a opção Educação.
Clicando em Educação, o usuário é direcionado para uma página específica, com fontes de informações educacionais.
A organização das informações é feita por sua fonte: Censo Demográfico, SIS (Síntese de Indicadores Sociais), PeNSE
(Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar), PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e PNAD Contínua
(Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua).

A SIS é uma importante fonte de indicadores educacionais produzidos e disponibilizados pelo IBGE. Ao clicar no
link, o usuário é direcionado para uma nova página. Nessa página, na coluna à esquerda, selecione a edição cujas
informações deseja acessar (a SIS teve início em 1998) e, logo abaixo, clique no link Tabelas. São disponibilizadas
informações sobre Trabalho, Rendimento e Educação. Clique no link Educação. Um arquivo com um conjunto de 16
tabelas será disponibilizado para o usuário. Os indicadores publicados pelas tabelas são: Taxa de frequência bruta a
estabelecimento de ensino da população residente (por grupo de idade); Pessoas que frequentam instituição de ensino,
por rede administrativa (de acordo com sexo, raça e classe social); Adequação idade-etapa para pessoas entre 6 e 24
anos de idade; e vários outros.

A PNAD é uma das mais antigas e tradicionais fontes de indicadores sociais no Brasil. Iniciada em 1967, ele permaneceu
existindo até 2016 (com periodicidade anual a partir da década de 1970), produzindo informações sobre características
gerais da população, trabalho, habitação, rendimento e educação. Ela foi substituída pela PNAD Contínua, com o objetivo
de propiciar maior abrangência e realizando uma readequação do desenho da pesquisa. A educação permanece
sendo investigada, mas como um tema suplementar. A SIS, inclusive, possui indicadores oriundos da PNAD Contínua.
Entretanto, o foco da PNAD é a investigação sobre a força de trabalho.

COLOCANDO EM PRÁTICA

Consulte a SIS para os anos de 2016, 2017 e 2018 (as informações de cada ano estão em abas do mesmo arquivo
Excel®), no que diz respeito ao percentual da população analfabeta. O que você observa em relação aos diferentes
grupos de idade? E o que observa em relação às classes por rendimento domiciliar per capita?

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SISTEMAS PRÓPRIOS DE AVALIAÇÃO EDUCACIONAL

Desde meados dos anos 2000, o Brasil viu crescer o número de sistemas próprios de avaliação – programas estaduais e
municipais de avaliação educacional. Eles se tornaram centrais para a formulação e avaliação de políticas educacionais
no âmbito dos entes federados e são uma importante fonte de informação sobre o desempenho escolar. A duração e
periodicidade dos sistemas de avaliação, bem como as séries e disciplinas avaliadas, podem variar; contudo, em regra,
são programas anuais, que avaliam, precipuamente, língua portuguesa e matemática, nas séries que encerram os
ciclos. Muitos dele avaliam, também, o ciclo de alfabetização e alguns avaliam outras disciplinas (Ciências Humanas e
Ciências da Natureza, por exemplo)2.

Os dados de alguns sistemas próprios são públicos até o nível das escolas. É possível ter acesso aos resultados de
todo o estado (ou de todo o município, para programas municipais), das regionais/superintendências de ensino, dos
municípios e das escolas. Isso para cada uma das redes avaliadas. Um exemplo de sistema próprio de avaliação é o
Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (Spaece), cujo portal pode ser acessado por meio do
endereço: http://www.spaece.caedufjf.net/.

No portal do Spaece, estão disponíveis os resultados de desempenho das escolas desde a edição de 2008 do programa,
o que configura uma significativa linha histórica. Para ter acesso aos resultados, na barra de navegação, clique em
Resultados e selecione a opção Resultados Finais – Edições Anteriores. Você será direcionado para um filtro de
pesquisa, por meio do qual é possível selecionar a modalidade, a rede, a regional, o município, a escola, a etapa e a
disciplina avaliada.

COLOCANDO EM PRÁTICA

No seu estado ou município, há um sistema próprio de avaliação? Os dados são publicados em um portal? Estão
disponíveis ao público? Selecione uma escola e consulte os seus resultados. O que eles dizem? Que tipo de
indicador(es) é(são) esse(s)?

Obs.: Caso não exista um sistema próprio de avaliação em seu estado ou município, consulte as informações de um
estado ou município vizinho ao seu. O importante é exercitar sua capacidade de consultar indicadores educacionais.

2
Em 1990, 1995, 1997 e 2013, o Saeb avaliou amostralmente Ciências Naturais. Em 2019, avaliou amostralmente Ciências Naturais e
Ciências Humanas. Nesse mesmo ano, as siglas ANA, Aneb e Anresc, correspondentes a Avaliação Nacional da Alfabetização, Avaliação
Nacional da Educação Básica e Avaliação Nacional do Rendimento Escolar, respectivamente, deixam de existir e todas as avaliações
passam a ser identificadas pelo nome Saeb, acompanhado das etapas, áreas de conhecimento e tipos de instrumentos envolvidos (Fonte:
Saeb – Histórico http://portal.inep.gov.br/educacao-basica/saeb/historico).