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Teorias da

Administração
Teorias da Administração

1ª edição
2017
Palavras do professor
Caro estudante,
Bem-vindo à disciplina Teorias da Administração. A administração é uma
ciência social aplicada, cujo nascimento está ligado às transformações
advindas da Revolução Industrial. Esse evento causou amplas mudanças
sociais, econômicas e políticas no mundo e, consequentemente, provo-
cou transformações na organização do trabalho. O trabalho artesanal
foi substituído pelo processo fabril de produção, consolidando, assim, as
organizações empresariais, que são, por excelência, o lugar de aplicação
das ferramentas de gestão.
A partir dessa disciplina, conheceremos a Teoria de Gestão Administra-
tiva (TGA) e os antecedentes que marcaram o surgimento da ciência da
administração, como os movimentos filosóficos, religiosos, militares e a
Revolução Industrial. Você estudará as transformações que influenciaram
a emergência dessa ciência tão importante para a gestão dos negócios
empresariais e para o desenvolvimento de novas tecnologias e produ-
tos úteis à sociedade. Afinal, as organizações são parte importante no
processo de produção de conhecimento e de tecnologias em nossas
vidas. Pense em educação, e teremos uma instituição de ensino; pense
em saúde, e nos lembraremos de hospitais e clínicas; pense em uma
enchente, e logo virá a defesa civil à nossa mente; e assim por diante.
Somos rodeados de organizações e precisamos delas.
Você terá a oportunidade de pensar mais sobre isso no decorrer das
oito unidades desta disciplina: Os antecedentes históricos da ciência da
administração; Os antecedentes históricos da ciência da administração;
A abordagem clássica da administração; A abordagem humanística da
administração; A abordagem estruturalista da administração; A abor-
dagem sistêmica da administração; A abordagem comportamental da
administração; A abordagem contingencial da administração; e, na última
unidade, Novas abordagens da administração.
Com esse instrumental, você poderá aplicar, na prática, as teorias aqui
abordadas, alavancando seu sucesso profissional. Bons estudos!

3
Unidade 1
Os antecedentes históricos da
ciência da administração
1
Para iniciar seus estudos

A administração como ciência emergiu no início do século XX, com os estu-


dos preconizados por Frederick Winslow Taylor, engenheiro mecânico de for-
mação, conhecido como o pai da administração científica. Taylor tornou-se
famoso pelos estudos de tempos e movimentos que visavam ao aumento da
produtividade (homem/máquina/hora) nas indústrias em sua época.
No entanto, cabe a nós lembrar que a administração, enquanto prática
cotidiana, é tão antiga quanto a humanidade, pois os homens, para sobre-
viver, precisavam caçar. E essa atividade envolvia planejamento, comando
e controle, princípios estes que, como veremos, são importantes até hoje
para a ciência da administração.

Objetivos de Aprendizagem

A partir do estudo dos antecedentes históricos da administração e da


evolução do pensamento administrativo, você terá a oportunidade de:
• Saber o pensamento de alguns dos filósofos mais importantes
para a área da administração, desde a Antiguidade Grega até os
tempos modernos;
• Conhecer a contribuição das civilizações antigas para a teoria da
administração;
• Compreender os impactos da Revolução Industrial sobre o desen-
volvimento do pensamento administrativo;
• Entender como as organizações militares e religiosas influencia-
ram as ciências da administração.
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Teorias da Administração | Unidade 1- Os antecedentes históricos da ciência da administração

Introdução
Caro aluno, você sabia que a prática de administrar é tão antiga quanto a existência da humanidade? Ora, toda
a união de esforços para atingir objetivos comuns significa administrar. Logo, a administração é uma prática que
remonta os primórdios da humanidade, pois os primeiros agrupamentos precisavam congregar esforços para sua
sobrevivência. Seja caçando ou se protegendo, os seres humanos lançavam mão de estratégias administrativas.
Além disso, a moderna administração é herdeira das ferramentas de gestão desenvolvidas nas sociedades anti-
gas, como a egípcia, a mesopotâmica e a chinesa. Ela também tem influência dos empreendimentos militares e
religiosos, que legaram à ciência da administração suas estruturas organizacionais. Outro acontecimento impor-
tante para a emergência da administração enquanto ciência foi o advento da Revolução Industrial, que repre-
sentou um marco decisivo para o aprimoramento dos processos produtivos. A Revolução Industrial propiciou
a invenção de novas ferramentas de gestão, diferentes dos modos artesanais de produção utilizados na Idade
Média. Cada uma dessas influências culminou na ciência da administração que conhecemos hoje e que, a partir
de agora, veremos nos tópicos a seguir.

1.1  A influência dos filósofos para a administração


A história da filosofia ocidental começa com os gregos, no século V a.C. Os filósofos foram grandes pensadores
que se puseram a refletir, de maneira racional, sobre a existência do universo. Para eles, já não era mais possí-
vel viver segundo as crenças e os mitos de deuses. Dessa forma, o poder da razão tornou-se o caminho para o
conhecimento verdadeiro. Conheça, a seguir, os principais filósofos que influenciaram o pensamento adminis-
trativo, de acordo com a visão de Chiavenato (2002).
Sócrates (470-399 a.C.) propõe a administração como uma habilidade pessoal, separada do conhecimento téc-
nico e da experiência. Para ele, o homem tem o potencial de ser um bom administrador, seja de um coro, de uma
família, de uma cidade ou de um exército, pois ele possui virtudes para tal.

Figura 1.1 – Sócrates (470-399 a.C.).

Legenda: Para Sócrates, qualquer cidadão livre tem o potencial de ser um administrador, em diferentes esferas.
ID: 123RF 21293745.

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Outro fator lembrado por Sócrates é que todas as atividades são necessariamente humanas, ou seja, todas as
ações são obrigatoriamente desenvolvidas por homens, sejam elas privadas ou públicas. De acordo com ele, para
se chegar ao conhecimento verdadeiro, é necessário abordar do particular para o universal, da opinião à ciência,
da experiência ao conceito.
Platão (429-347 a.C.), discípulo de Sócrates, preocupou-se com os problemas políticos e sociais inerentes ao
desenvolvimento cultural do seu povo. A contribuição de Platão também teve impacto na área da administração,
especialmente no que se refere à formação democrática do governo e na administração dos negócios públicos.

Figura 1.2 – Platão (429-347 a.C.).

Legenda: Platão elaborou toda uma abordagem para conduzir a administração dos negócios públicos.
ID: 24992906.

No livro “A República”, de Platão, é possível verificar, com clareza, sua contribuição para a área da administração, pois
a obra trata-se, especificamente, da formação democrática do governo e da administração dos negócios públicos.
Aristóteles (384-322 a.C.), grande filósofo grego, influenciou profundamente a área de administração, e seus
ensinamentos se fazem presentes ainda nos dias atuais. Foi discípulo de Platão e realizou estudos sobre a orga-
nização do Estado, distinguindo três formas de administração pública: monarquia, aristocracia e democracia. 

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Glossário

Aristocracia: do grego aristokrateia. Representa as classes superiores e educadas, em con-


traposição aos escravos e trabalhadores. Na Antiguidade, a aristocracia dominava o poder
político sob a alegação de que possuíam maior competência.
Democracia: junção das partículas povo (demos) + poder (kratos). Em oposição aos gover-
nos aristocráticos, que concentravam o poder nas mãos de poucos, na democracia todos
(seguindo algumas regras) tinham direito de exercer, direta ou indiretamente, o poder.
Monarquia: sistema político em que o governante detém o poder de maneira hereditária (de
pai para filho/filha). Na Antiguidade, os monarcas eram considerados detentores de poderes
divinos, o que justificava a permanência como governantes.

Figura 1.3 – Aristóteles.

Legenda: A categorização de diferentes formas de administração pública é um modelo proposto por Aristóteles.
ID: 123RF 29682002.

Aristóteles também se preocupou com o estudo da ética como o máximo bem comum e escreveu o livro “Ética
a Nicômaco” sobre o tema. Conforme Chiavenato (2002), esse filósofo diferenciou as técnicas econômicas no
âmbito da empresa e da família. Além disso, fez a distinção entre valor de uso e valor de troca.
Francis Bacon (1561-1626), nascido na Inglaterra, discorria que o conhecimento verdadeiro só poderia ser con-
seguido mediante a observação da realidade externa ao homem – dando origem ao modelo científico de enten-
der o mundo.

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Figura 1.4 – Francis Bacon (1561-1626).

Legenda: Para Bacon, uma organização deveria manter o foco em sua principal competência.
ID: 123RF, 24153622.

De acordo com Chiavenato (2002), esse filósofo defendia que uma organização devia priorizar seus esforços em
sua competência essencial, em seu negócio/carro-chefe.
René Descartes (1596-1650) era racionalista. Para ele, o verdadeiro conhecimento só seria atingido pela facul-
dade da razão, ou seja, através do pensamento, e não das experiências externas ao sujeito do conhecimento.

Figura 1.5 - René Descartes (1596-1650).

Legenda: Descartes, com sua famosa frase “Penso, logo existo”, fundamenta a impor-
tância do raciocínio lógico como forma de entender o mundo.
ID: 123RF 6221998.

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Em “O Discurso do Método”, publicado em 1637, Descartes descreve os princípios fundamentais do seu método,
conhecido como “método cartesiano”:
• Princípio da dúvida sistemática: consiste em não aceitar como verdadeira coisa alguma, enquanto não
se souber, por evidência, aquilo que é realmente verdadeiro.
• Princípio da análise da decomposição: consiste em dividir e decompor cada problema em tantas partes
necessárias para a sua melhor solução.
• Princípio da síntese ou da decomposição: consiste em conduzir ordenadamente os nossos pensamen-
tos, começando pelos mais fáceis até chegar aos mais difíceis.
• Princípio da enumeração ou da verificação: consiste em fazer recontagens, verificações e revisões
gerais, para se garantir que nada tenha sido omitido ou deixado de lado.

Você acha que os princípios de Descartes, elaborados há quase 400 anos, ainda são válidos
atualmente? Você os utiliza em sua vida?

Thomas Hobbes (1588-1679) desenvolveu a Teoria Contratualista do Estado. Para ele, o homem só deixou de
ser primitivo quando começou a viver em conjunto, socialmente, fazendo da vida uma espécie de pacto: ele
delega poderes ao Estado e, em troca, recebe benefícios, como segurança, saúde e educação.

Figura 1.6 – Thomas Hobbes (1588-1679).

Legenda: No modelo filosófico de Thomas Hobbes, o Estado pactua com o cidadão um contrato implícito, em
que se impede que a lei do “vale-tudo” vigore. Sem esse contrato, a convivência social seria impossível.
ID: 123RF 8510848.

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Para Hobbes, o homem em estado de natureza era violento, porém, por meio do pacto social, ele se tornaria bom
e civilizado.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), ao contrário de Hobbes, coloca que o ser humano era naturalmente bom,
e que o processo civilizatório que o corrompia.

Figura 1.7 – Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).

Legenda: Rosseau descreve o processo civilizatório como algo que cor-


rompe a natureza do ser humano, tornando-o mau e egoísta.
ID: 123 RF 8518929.

O filósofo, no entanto, coloca que é possível retornar ao equilíbrio natural original, repactuando os contratos que exis-
tem na sociedade. Ele também valoriza os processos educacionais para resgatar a essência bondosa do ser humano.
Adam Smith (1723-1790), outro importante pensador da modernidade, entendia que o trabalho especializado visava
à racionalização da produção. Segundo o autor, o princípio da especialização diz respeito à divisão do trabalho.

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Figura 1.8 – Adam Smith (1723-1790).

Legenda: Adam Smith escreveu um importante livro, no qual estuda como a riqueza das nações é for-
mada. Ele defendia a livre concorrência, dizendo que o mercado se autorregula.
ID: 123RF 6221983.

Para Smith, a riqueza ou obtenção de lucro seria resultado da divisão do trabalho: com a especialização das
tarefas, os gastos com produção se reduzem, e o lucro aumenta. Esse pensamento será retomado mais tarde por
Taylor, em seu estudo de tempos e movimentos, base fundamental da Administração Clássica. Smith reforçou a
importância do planejamento e da organização dentro das funções da administração. Ele dizia que, para ser um
bom administrador, era necessário cuidar dos aspectos ordem, economia, atenção e controle, inclusive em rela-
ção à remuneração dos trabalhadores.
Karl Marx (1818-1883) é um importante pensador da modernidade, cujas reflexões e cujos legados estão pre-
sentes no pensamento social contemporâneo, bem como na ciência da administração. Juntamente com Frie-
drich Engels (1820-1895), propôs uma teoria da origem econômica e política do Estado Moderno, sede das orga-
nizações modernas como as conhecemos hoje. Para ambos, o Estado é fruto de uma disputa política entre vários
segmentos da sociedade após a queda dos valores da Idade Média, período em que imperava o poder da Igreja
e dos príncipes.

Glossário

Idade Média: período iniciado no ano 470 d.C., com a invasão bárbara que derrubou o Impé-
rio Romano, marcando o fim da Antiguidade. O período se estende até o século XV, com a
queda de Constantinopla – quando se inicia o Renascimento. A Idade Média, do ponto de
vista econômico, caracteriza-se pelo Feudalismo, modelo de cunho rural (os feudos), e pelo
domínio da Igreja Católica no mundo ocidental.

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Figura 1.9 – Karl Marx (1818-1883).

Legenda: Um dos conceitos-chave do marxismo é o de mais-valia: o poder econômico de pou-


cos é sustentado, porque os trabalhadores não detêm os meios de produção, e o padrão agrega, ao
valor do produto, os valores relacionados com mão de obra, meios de produção e lucro.
ID: 123RF 15111891.

Para Marx, o Estado provoca desigualdades, pois é controlado e dominado por uma classe social exploradora que
impõe uma determinada ordem política. O que caracteriza o pensamento de Marx é que ele defende a existência de
um conflito de base, presente na história da humanidade: a luta de classes entre dominadores e dominados. Nesse
sentido, o marxismo apresenta leis objetivas relativas ao desenvolvimento econômico da sociedade, em oposição
ao pensamento metafísico dos filósofos gregos. Isso significa que o marxismo adota uma abordagem teórica com
uma visão materialista dos fenômenos sociais, fundamentada nas relações econômicas de produção.

Glossário

Metafísico: conceito filosófico. Na Filosofia, existe uma visão de mundo que aborda a física,
ou seja, a realidade tangível. A outra visão de se dedica àquilo que é intangível, busca realizar
uma reflexão sobre a essência das coisas: é a metafísica (além da física).

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No fórum, apresentamos um desafio de análise de uma empresa no modelo fast food.


Será que é possível identificar nesse formato de empresa a racionalização da produção,
ou seja, o princípio da especialização pela divisão do trabalho? Acesse o fórum e veja os
detalhes do desafio que preparamos para você.

Agora que você já conhece os principais pensadores que influenciaram as teorias da administração, o que a
organização das civilizações da Antiguidade tem a nos ensinar sobre administração. Como eles distribuíam seus
suprimentos? Como coletavam impostos? Como atendiam a uma população espalhada por vastos territórios?
Confira!

1.2  A influência das civilizações antigas no desenvolvimento


da ciência da administração
Caro aluno, você já deve ter se perguntado como os povos da Antiguidade conseguiram construir obras tão mag-
níficas, como as pirâmides do Egito, sem as tecnologias que hoje dispomos. Uma das respostas encontra-se nas
práticas de gestão que adotavam para dar conta de empreendimentos tão complexos. Vamos nos debruçar, com
a ajuda do estudioso da administração Maximiano (2010), nos modelos administrativos adotados na Suméria,
Babilônia, Egito e China.

As construções feitas por essas civilizações, assim como a administração que exerciam,
demonstram modelos de organização, gestão e planejamento, que permitiam guiar os
esforços de milhares de trabalhadores (mesmo que, em muitos casos, fossem escravos) e
recursos materiais em prol de um objetivo: construir obras monumentais que perduram até
nossos dias.

Suméria

Segundo Chiavenato (2002), os sumérios foram um dos primeiros povos a deixar o nomadismo e se fixar em um
território. Eles também foram uma das primeiras civilizações a desenvolver a agricultura e os primórdios do que
se pode chamar urbanização, com a criação de cidades-estados na região da Mesopotâmia. Foi essa transição –
de uma sociedade nômade para uma fixa – que exigiu novas modalidades de gestão e administração social.

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De acordo com Maximiano (2010), na sociedade suméria, a coordenação das atividades laborais ficava a cargo
dos sacerdotes que, sediados em templos tidos como centros administrativos, comandavam a gestão das comu-
nidades em suas necessidades gerais. Os sacerdotes cumpriam as tarefas administrativas na sociedade suméria.
Assim, para remunerar os servidores do templo e financiar o comércio marítimo, eles usavam parte do excedente
da agricultura como moeda de troca.
Ao estudar a história dos sumérios, podemos perceber alguns aspectos de gestão que foram herdados por nós,
como o registro. Os sumérios possuíam eficientes modos de registrar suas atividades diárias em placas de argila.
Nessas placas – verdadeiros livros primitivos de contabilidade – eram registradas a entrada, a armazenagem e a
saída de produtos. Atualmente, esses livros podem ser encontrados em museus e universidades espalhados pelo
mundo ou na internet.

Figura 1.10 Livros Primitivos de Contabilidade

Legenda: Antigo registro em pedra suméria com escrita cuneiforme.


ID: 123RF 36906536.

Outro ponto importante a ser destacado é que, junto da escrita e da contabilidade primitiva, os sumérios criaram
a administração pública, com seus funcionários e procedimentos burocráticos. Esses procedimentos são estuda-
dos por nós até hoje nos cursos de administração, de acordo com Maximiano (2010).
Com o declínio do Império Sumério, houve a ascensão da Babilônia e da Assíria, cujas histórias e cujos legados
veremos a seguir.

Babilônia

A história da Babilônia registra um grande desenvolvimento social, econômico e político. Maximiano (2010)
relata que herdamos dos babilônios o princípio de que responsabilidade não se delega. A prova disso pode ser
vista em uma mensagem do rei, ordenando que dez homens construíssem uma ponte e, caso o serviço não fosse
satisfatoriamente executado, a responsabilidade seria do mestre de obras.

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Você acha que hoje o princípio da responsabilidade da Babilônia continua sendo aplicado?
Como você vê o jogo de “empurra”, que muitas vezes ocorre nas empresas, quando o colabo-
rador diz: — “Mas foi o que me mandaram fazer!”. Você já vivenciou alguma experiência de
conflito de responsabilidade? Qual a diferença entre responsabilidade e culpa?

Falar da Babilônia é também falar do famoso Rei Hamurabi, um habilidoso rei que conquistou várias cidades ao
redor e, para governá-las, criou severas leis, conhecidas como Código de Hamurabi. Uma das leis mais famosas
é a Lei de Talião, baseada na máxima “olho por olho, dente por dente”. O que isso quer dizer? Que a pessoa que
cometia um crime era punida da mesma forma e com a mesma intensidade.
Confira algumas leis do Código de Hamurabi que muito se aproximam do que chamamos de Princípios da Admi-
nistração:
• Salário: os babilônios recebiam pelo seu trabalho um incentivo salarial individual, conforme produção;
• Controle: os babilônios, ao executarem transações comerciais, faziam um contrato com a assinatura de
testemunhas;
• Responsabilidade: de acordo com Maximiano (2010), um pedreiro que constrói uma casa que desmo-
rona e mata seus residentes é condenando à morte.
Durante o governo de Hamurabi, a Babilônia tornou-se uma das regiões mais ricas do período. São também dessa
época algumas das construções mais luxuosas do Mundo Antigo. As cidades babilônicas, a exemplo das sumérias,
eram administradas pelos sacerdotes, que também tinham a função de tomar conta das finanças do governo.
Após a morte de Hamurabi, a Babilônia foi invadida e conquistada por diversas tribos da região. Em 605 a.C., os
babilônicos, sob o comando do Rei Nabucodonosor, voltaram a ampliar suas áreas de domínio e influência. O
novo rei ordenou a construção de muralhas em volta da cidade e de luxuosos templos e palácios. Conta a história
que, para sua esposa, Nabucodonosor mandou construir os famosos Jardins Suspensos da Babilônia, considera-
dos uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.

Egito

O Egito foi uma magnífica civilização desenvolvida às margens do rio Nilo. Essa civilização legou à humanidade
as mais enigmáticas construções já registradas e que, ainda hoje, estão abertas à visitação, impressionando a
todos com o seu tamanho, sua beleza e engenhosidade. O Egito era formado por diversos povoados, espalhados
pelo Nordeste da África, e somente por volta do ano 3.100 a.C., foi unificado em um poderoso império sob a dire-
ção de um único comando. Pode-se distinguir três fases em sua historia: Antigo Império, Médio Império e Novo
Império. No final deste último período, o Egito sofreu inúmeras invasões e foi conquistado por outros povos. O
império finalmente desapareceu durante a conquista pelos romanos, em 30 a.C.
Segundo Maximiano (2010), durante o esplendor, os egípcios mantiveram um modo de vida estável, com base no
ciclo de inundação, cultivo e seca, comandado pelas cheias do Nilo. Porém, como os egípcios administravam seu
vasto território? O que podemos aprender com eles?

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A sociedade egípcia era organizada em torno de fundamentos religiosos e econômicos. Nessa organização, o
faraó ocupava o topo da hierarquia, na condição de chefe de Estado e encarnação de um deus, de acordo com a
tradição dessa civilização. Em seguida, na hierarquia, encontravam-se os sacerdotes, encarregados pelos cultos
e pelas festividades religiosas. Depois, havia os nobres e os escribas, responsáveis pela realização de tarefas buro-
cráticas para a manutenção do Estado.
Na base da hierarquia ficavam os soldados, mantidos pelo Estado para a proteção do poder faraônico. Abaixo dos
soldados, estavam os camponeses e os artesãos, que cuidavam das plantações, da colheita e da mão de obra para
as estruturas públicas, necessárias ao desenvolvimento agrícola e comercial. Perceba, então, que a estrutura admi-
nistrativa era piramidal – um conceito que ainda se encontra nas hierarquias organizacionais contemporâneas.
Outra evidência de que os egípcios eram bons administradores pode ser encontrada em sua organização militar.
Eles, pensando na segurança do império, criaram um exército profissional formado por soldados assalariados
e construíram uma rede de fortes, com muros de pedras e grandes celeiros, suficientes para suprir centenas de
homens durante um ano. O conceito de abastecimento preventivo e regulador, portanto, é um legado dos
egípcios para a administração moderna.

China

A China é um grande exemplo de sociedade, que empregava soluções inovadoras na administração de seu ter-
ritório. Prova disso é que foram os chineses os primeiros a utilizarem o princípio de assessoria para obter mais
eficiência na administração das vastas terras do seu império: o imperador nomeava, em cada região do império,
uma pessoa para analisar a situação econômica, sob responsabilidade dele, e relatar suas conclusões aos funcio-
nários do imperador. Essa técnica se tornou tradicional na administração pública da China.
O país se notabilizou, também, pelas grandes guerras que travou para expandir suas fronteiras e manter sob
seu domínio os territórios conquistados. Para tanto, desenvolveu estratégias bem fundamentadas de ataque e
defesa, que podem ser estudadas no livro “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu, muito utilizado nas escolas de admi-
nistração. Segundo Maximiano (2010), esse livro é um manual de recomendações militares que sobreviveram
por séculos e que abordam temas de planejamento, comando, controle e doutrina, reconhecidos como úteis à
administração dos mais variados tipos de organizações.
Vejas alguns exemplos extraídos do livro:
• Comandar consiste em empregar os fatores que um general pode mobilizar, tais como: sabedoria, cora-
gem e humanidade;
• Doutrinar significa organizar, controlar e atribuir corretamente tarefas às pessoas certas;
• Dirigir muitos é bem parecido com dirigir poucos: trata-se de uma questão de organização.
Como você pode perceber, o manual militar de Sun Tzu consiste em estratégias muito utilizadas atualmente na
gestão das organizações, pois aborda controle, direção e hierarquia em seus ensinamentos.
Após analisar o impacto dos modelos administrativos da Antiguidade na administração atual, vamos ver como a
estrutura das organizações militares e religiosas acabaram por ser absorvidas no âmbito empresarial, com desta-
que para o princípio do comando e do controle.

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1.3  A influência das organizações religiosas e militares


para a administração
Conforme Chiavenato (2002), a organização religiosa conhecida como Igreja Católica foi uma instituição influente na
Idade Média. Ela possuía uma estrutura organizacional muito semelhante à que encontramos na atualidade: centrali-
zada, hierarquizada e eficiente. Sua organização lhe permite operar, satisfatoriamente, em todos os cantos do mundo,
sob o comando de uma só cabeça executiva, o Papa, cuja autoridade seria, diretamente, delegada por Deus.
O que importa observar aqui é que a estrutura da Igreja Católica serviu de modelo para muitas organizações
modernas, as quais, na busca por se tornarem bem-sucedidas, passaram a incorporar uma infinidade de princí-
pios e normas administrativas daquela organização.
O mesmo ocorreu com as organizações militares, que têm influenciado o desenvolvimento das teorias da admi-
nistração ao longo do tempo. Um exemplo disso é o princípio da unidade de comando. Nele, cada subordinado
só poderia ter um superior, princípio este fundamental para a função de direção. Tal princípio foi retomado pelos
teóricos da administração no início do século XX, conforme você verá no decorrer das unidades desse livro.
Segundo Chiavenato (2002), alguns aspectos próprios das organizações militares, como os níveis de comando de
acordo com o grau de autoridade e responsabilidade, foram, assim, incorporados por outras organizações, como
empresas, hospitais e escolas. Outras características também podem ser observadas, como: questões relaciona-
das ao sigilo (essencial nas organizações militares e religiosas), lealdade, subordinação à autoridade e trabalho
colaborativo e coletivo.
Todos os aspectos que vimos até aqui – principais filósofos e pensadores; a administração na Antiguidade e o
impacto das instituições religiosas e militares na administração moderna – vão desembocar em um marco histó-
rico, divisor de águas em relação aos modelos administrativos: a Revolução Industrial.

1.4 Revolução Industrial


De acordo com Maximiano (2010), os acontecimentos surgidos com a Revolução Industrial conduziram a grandes
mudanças sociais e econômicas, criando novas formas de organização e de relações produtivas, que perduram
até os dias atuais. A Revolução Industrial promoveu uma transformação técnico-científica que permitiu alcançar
uma enorme aceleração da produção de bens. Com ela, a urbanização acelerou-se, criando novas demandas
administrativas. Esse fenômeno teve início na Inglaterra, no século XVIII, no período de 1760 a 1820, quando se
iniciou a produção em larga escala de bens, com o uso massivo de máquinas para reduzir tempos e custos de pro-
dução. O impacto foi imenso: novas demandas de insumo e energia, além da possibilidade de tornar disponível
para muitos o que antes era restrito para poucos.

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Teorias da Administração | Unidade 1- Os antecedentes históricos da ciência da administração

Figura 1.11 – A Revolução Industrial.

Legenda: A Revolução Industrial alterou profundamente as relações de tra-


balho e, consequentemente, os modelos de gestão.
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolução_Industrial

Maximiano (2010) acrescenta que, na Inglaterra, a indústria algodoeira financiou a expansão da produção de
tecidos com o incremento de teares mecanizados, que serviram como um grande incentivo à expansão indus-
trial. Os avanços técnicos e aperfeiçoamentos dos fornos de fundição permitiram obter ferro de alta qualidade,
o qual substituiu, vantajosamente, outros materiais na construção de novas máquinas e meios de transporte.
Resultado: expansão das redes ferroviárias e transformações no sistema de transporte, fatores decisivos para
o crescimento do comércio. Com estradas e meios de transporte mais eficientes, o tempo de deslocamento foi
reduzido. Não era mais necessário morar perto do local de produção agrícola: podia-se residir em grandes cen-
tros, de maneira independente.
Para Chiavenato (2002), o advento da Revolução Industrial permitiu um enorme crescimento da economia
inglesa, o que provocou um aumento da necessidade de indústrias por matéria-prima, que só poderiam ser
obtidas no mercado externo. Com a produção crescente, as organizações também precisavam encontrar novos
consumidores, para ampliar seus mercados. Em decorrência desses dois fatores, houve a expansão do Império
Colonial Inglês que, é claro, entrou em confronto com outros impérios: as potências da época desejavam garantir
seus próprios mercados! Nada muito diferente de hoje, em que os países buscam proteger seus mercados inter-
nos e conquistar o consumidor externo.

Conheça mais sobre a divisão de trabalho e as mudanças no processo produtivo que leva-
ram à Revolução Industrial e, consequentemente, ao desenvolvimento da moderna ciência
da administração: leia o artigo “Marx e a divisão social do trabalho, uma resposta atual”,
de Daniel Rodrigues, disponível em: <http://www.nodo50.org/cubasigloXXI/congreso08/
conf4_rodriguesd.pdf>.

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Teorias da Administração | Unidade 1- Os antecedentes históricos da ciência da administração

Nesse período de intensas mudanças, a máquina assumiu funções, antes desempenhadas pelo homem, com
mais rapidez e menor custo. Desse modo, um número menor de trabalhadores era capaz de produzir maior quan-
tidade de produtos do que com o sistema artesanal tradicional, segundo Maximiano (2010). Perceba que a subs-
tituição do ser humano pela máquina continua no século XXI, com a introdução da robótica e da inteligência
artificial. Mas isso já é um assunto para as próximas unidades. Até lá!

Preparamos um desafio para que você possa refletir sobre a aplicação prática das teorias da
administração. Você deverá analisar as práticas administrativas de uma empresa de fast food.
Em todas as unidades de estudo, você voltará ao fórum para pensar sobre outras problemáti-
cas e discutir, com seus colegas de curso e tutor, quais as melhores soluções administrativas
a partir dos conhecimentos construídos. Participe e interaja com os colegas: o fórum é um
dos melhores recursos para a construção do conhecimento de forma colaborativa.

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Considerações finais
Nessa unidade, você aprendeu que:
• A administração está presente na sociedade desde os primór-
dios da civilização, pois os homens sempre tiveram que planejar e
organizar suas tarefas cotidianas de caça e segurança, fundamen-
tais para a sobrevivência;
• Os ensinamentos dos filósofos antigos e modernos sobre como se
constrói o conhecimento e como se aborda a realidade influen-
ciaram as várias escolas de administração;
• As civilizações da Antiguidade adotaram estratégias sofisticadas
de gestão para administrar seus vastos territórios, atendendo às
demandas das populações conquistadas. Os administradores
modernos podem aprender muito com os imperadores, faraós e
sacerdotes do Mundo Antigo;
• Muitas ferramentas e princípios de gestão que conhecemos atual-
mente foram modelados a partir de abordagens adotadas por orga-
nizações militares e religiosas, tais como: o princípio do comando e
do controle, as estruturas de planejamento, a utilização da centrali-
zação administrativa e o estabelecimento de hierarquias;
• As novas tecnologias e máquinas, que caracterizam a Revolução
Industrial, impactaram profundamente a organização das socieda-
des: os centros urbanos tornaram-se mais independentes; a linha
de produção barateou o custo de produtos, que se tornaram aces-
síveis a uma ampla parcela da população; a produção em massa
exigiu o fornecimento de matérias-primas provindas de mercados
externos, além de novos consumidores. Resultado: expansão dos
impérios colonialistas e disputa de mercado entre as nações.

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Referências bibliográficas
CHIAVENATO, I. Teoria geral da administração. v. 1 e 2. 6. ed. Rio de
Janeiro: Campus, 2002.

MAXIMIANO, A. Introdução à administração. 5. ed. São Paulo: Atlas,


2010.

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