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Corpos, tempo e instituições: Um olhar sobre

REFLEXÕES NA PANDEMIA
os cemitérios na pandemia de Covid-19
Liliana Sanjurjo
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Larissa Nadai
Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
Desirée Azevedo
Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

D
e todos os efeitos devastadores da pandemia do novo coronavírus, um tem
repercutido de modo especialmente impactante nas páginas dos jornais nacionais e
internacionais: centenas de covas enfileiradas em cemitérios espalhados por todo o
Brasil. Tal perturbação e tal comoção giram em torno de ao menos duas insólitas certezas. A
primeira recai sobre o caráter de vigília imposto às covas ainda vazias: elas esperam, mas logo
estarão preenchidas. A segunda desdobra-se dessa acepção e nos incita a pensar sobre o
momento em que a terra saturada deixará visível aquilo que pretende pacificar: os corpos
infectados. Marcando essa passagem, o tempo presente da urgência e da excepcionalidade
imposto pela pandemia se inscreve no espaço do cemitério, imprimindo novas dinâmicas e
reatualizando antigas práticas na lida com determinados mortos, cujos corpos agora são
associados à ideia de risco de contágio e disseminação da doença.

Imagem 1: Quadra aberta no Cemitério da Vila Formosa (SP), em função da grande demanda posta pelos
mortos da Covid-19, fotografada em 30/04/2020. Fonte: Ducroquet, Fraissat e Santos (04/05/2020), foto de
Zanone Fraissat/Folhapress

DILEMAS: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social – Rio de Janeiro – Reflexões na Pandemia 2020 – pp. 1-16
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O quadriculado da terra dos cemitérios retoma aquilo que Foucault (2019[1974])


chamou, no contexto da França de finais do século XVIII, de problema da “unificação do
poder urbano”, colocado como necessidade de organizar o corpo urbano de modo coerente
e homogêneo por razões político-econômicas1. Uma ação correlata a uma certa “angústia”
ou “medo” da cidade e que, exatamente por isso, buscava atuar contra as “regiões de
amontoamento, da confusão e do perigo” (Idem, p. 159), nas quais a epidemia e a revolta
encontram-se associadas. Um “certo número de pequenos pânicos” investidos contra
amontoados de pessoas, de casas, de construções altas demais, de cemitérios que invadem
pouco a pouco o espaço da cidade, dos esgotos e das epidemias que surgem em função dos
fluidos e reciprocidades constitutivos da vida urbana. É diante desses múltiplos e variados
pânicos que o autor situa os cemitérios como espaços alvo de intervenções capazes de
acalmar as inquietudes que afligiam particularmente uma burguesia preocupada em
esquadrinhar a população urbana em expansão e proletarização. Como uma versão mais
sofisticada do modo médico político de intervenção da quarentena, concebida como
regulamento de urgência frente à peste durante a Idade Média, a higiene pública adotou
novos métodos — o enquadramento das pessoas, a vigilância, a desinfecção e a revista
exaustiva dos vivos e mortos —, visando à boa organização político-sanitária.
Ainda segundo o autor, os cemitérios — onde se empilhavam os corpos daqueles que
não podiam pagar por uma sepultura individual — surgem então como espaços
privilegiados dessas novas métricas: um cadáver, um caixão e uma sepultura nomeada.
Tratava-se de uma técnica a ser generalizada como resultado de um processo histórico cujo
foco de cuidado está no polo dos vivos e não no dos mortos. Para que “os vivos estejam ao
abrigo da influência nefasta dos mortos” é preciso que os cadáveres sejam “colocados no
campo e em regimento, uns ao lado dos outros”, conformando, ao final, “um verdadeiro
exército de mortos tão bem enfileirados quanto uma tropa que se passa em revista” (Idem,
p. 158) 2. E Foucault não deixa de notar que, uma vez operada por uma burguesia preocupada
em garantir o controle das cidades, a medicina urbana não nasce verdadeiramente como
uma medicina dos homens, mas das coisas: das condições de vida e do meio de existência,
suas sequências e distribuições (Idem, p. 159).
Sidney Chalhoub (2017) analisa questões semelhantes no contexto das transformações
urbanas brasileiras, em meados do XIX. Ao pontuar a higiene como ideologia constitutiva do
processo de urbanização e demonstrar como o tema do perigo estava então atrelado à pobreza,
o autor chama atenção para o quanto a “gestão científica” da cidade escolhia muito bem
aqueles que seriam ao final seus beneficiários. Sem compromisso com a melhoria das
condições de vida da maioria das pessoas, essa forma de gestão emerge relacionada às
transformações no mundo do trabalho provocadas pelo fim da escravidão, lançando
especialmente sobre a população negra a sombra da suspeição e o desejo de controle (Idem),
ideia que gostaríamos de levar conosco ao longo desta reflexão.

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Tidos como fundamentais para uma política sanitária do espaço urbano, os cemitérios,
todavia, são a ponta final de uma engrenagem complexa, cuja racionalidade encontra-se
atravessada por uma infinidade de atos menos evidentes. Menos visíveis, mas certamente muito
anteriores às tétricas cenas das valas comuns abertas no Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em
Manaus, que ganharam relevo midiático na primeira quinzena de abril (G1, 21/04/2020). Ou
ainda, as centenas de covas rasas abertas no cemitério da Vila Formosa, Zona Leste de São Paulo,
estampadas no jornal americano The Washington Post em 2 de abril de 2020 e republicadas à
exaustão em diversos jornais brasileiros (VEJA, 02/04/2020).

Imagem 2: A partir de imagem de satélite (Maxar), o jornal Folha de S. Paulo retratou o ritmo de ocupação das quadras
do Cemitério da Vila Formosa, São Paulo. A fotografia estampada no The Washington Post foi realizada durante os
sepultamentos justamente na quadra relativa a essa imagem. Fonte: Ducroquet, Fraissat e Santos (04/05/2020)

Dias antes de ganhar os noticiários internacionais, essas covas escavadas em quadrantes e mais
quadrantes no Vila Formosa, que ostenta o título de maior cemitério da América Latina, atraíram o
jornalista Ulisses Campbell à mencionada necrópole paulistana. Algo acontecia nos cemitérios. Datada
em 27 de março de 2020, dez dias após a primeira morte confirmada por Covid-19 no Brasil, a
reportagem de Campbell alertava para a alarmante “escalada dos enterros das vítimas suspeitas do novo
coronavírus” (CAMPBELL, 27/03/2020), uma vez que relatava a realização de 19 sepultamentos, durante
uma única manhã, de modo completamente distinto do que era rotineiramente empreendido no local.
A esses corpos, que chegavam em caixões lacrados, eram permitidos apenas velórios ao ar livre, com dez
minutos de duração e presença de no máximo dez pessoas. Como reportado pelo jornalista, desde 1o de
março de 2020, uma letra e um número (D3), “colocados no alto da folha da declaração de óbito”,
impunha um corte evidente entre “uma despedida digna e um enterro expresso na cidade de São Paulo”.

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No tempo da urgência, em descompasso com os tempos mais alargados das famílias e


seus rituais habituais de luto e despedida diante da morte, o protocolo excepcional
vinculado à presença do “D3” era a ordem imposta pelo Serviço Funerário Municipal (SFM)
paulistano aos corpos que para ali eram enviados com morte confirmada ou morte suspeita
por Covid-19 3. Como órgão responsável pelos fluxos entre locais de morte e inumação, o
SFM passou a assinalar, a sua maneira, os cadáveres a serem por eles manejados. Nas
palavras de um funcionário a Campbell: “[M]orreu com mais de 60 anos e teve como causa
do falecimento insuficiência respiratória, a gente já carimba D3”4.
Impresso no canto superior direito da declaração de óbito, o D3 conta com uma diagramação
reveladora: um quadrado preto de fundo dá realce a uma letra e um número de tamanho
considerável e que tornam impossível não perceber a referida inscrição. Sua referência não foi de
difícil rastreamento, uma vez que o D3 é a versão alfanumérica do símbolo gráfico que designa
materiais infecciosos (classe D) de origem biológica (fator 3) discriminados pelo Sistema de
Informações sobre Materiais Perigosos no Local de Trabalho. Assim, o termo “carimbado”,
conforme o funcionário enunciou ao jornalista, não é um fazer artesanal sobreposto à impressão
do atestado de óbito, mas, diferentemente, é impresso em continuidade aos dizeres da
documentação. De todo modo, a metáfora do carimbo se refere, aqui, de maneira pertinente à
força regulamentadora que permite ao SFM gerir a seu modo o fluxo de suas atividades rotineiras.
De caráter administrativo, mas sem validade médica ou cartorial, como sublinha a própria
reportagem, o D3 é a marca que alinhava a excepcionalidade da situação à discricionariedade da
suspeita para, ao final, associar corpos, risco de contágio e um novo fluxo (relação tempo/espaço)
considerado necessário à pacificação urgente dos corpos contaminados.
Histórica e politicamente constituídas, as práticas de remoção, manejo e descarte dos corpos
mortos são assim reatualizadas em tempos de pandemia. Se a urgência e o risco de contaminação
são capazes de engendrar novos procedimentos e dinâmicas nas rotinas dos cemitérios, também
é possível perceber fluxos de continuidades com práticas anteriores, que nos remetem, por sua
vez, ao que chamaremos de tempo histórico do descarte.
Ocupando espaço distinto ao do reservado ao sepultamento familiar, covas rasas e ossários
comuns compõem o setor dos cemitérios municipais do Brasil destinados a órgãos públicos —
Instituto Médico Legal (IML) e hospitais públicos —, que tem servido historicamente como
destino usual e cotidiano de uma massa numericamente significativa de corpos, majoritariamente
negros, considerados desimportantes, perigosos ou que foram vinculados à miríade de riscos
associados à pobreza. Como analisado no estudo de Letícia Ferreira (2009), que abrange o período
entre 1942 e 1960, são mortos cujos corpos têm sido objeto de práticas estatais (médicas e
policiais) de classificação e controle social. Entre elas, estão as práticas periciais de identificação
civil, que tanto impedem o anonimato dos vivos, em atenção aos tipos sociais ameaçadores,
quanto permitem sepultar esses mesmos tipos anonimamente, quando oficialmente identificados
como “não identificados” e/ou “não reclamados”, os vulgarmente chamados “indigentes”5.

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Chama atenção que em outros, não tão distantes, tempos de “exceção”, os corpos de
opositores políticos assassinados pela ditadura (1964-1985) encontraram itinerários semelhantes
nesses caminhos burocrático-administrativos. Ao serem incluídos nos fluxos e práticas “normais”
e habituais de tratamento e descarte maciço de corpos historicamente considerados perigosos e
desimportantes, esses mortos trilharam percursos já estruturados e que bem serviram como
mecanismo de desaparecimento e ocultação de crimes (AZEVEDO, 2019). Como revela o notório
caso da Vala de Perus, eles foram sepultados junto aos “indigentes” e, de fato, apresentavam perfil
biológico e traumático similar — jovens, do sexo masculino, trazidos pelos IMLs e mortos em
decorrência de violência —, evidenciando o emprego amplo e difuso da violência institucional
que já impactava amplos setores da população6. A grande marca distintiva dos “desaparecidos
políticos” estava, muitas vezes, apenas na letra “T” (de terrorista), esta sim uma marca
artesanalmente inscrita na guia de requisição de exame necroscópico emitida pela polícia assim
que recebida pelo funcionário do IML. Com essa marca, uma narrativa chegava aos legistas:
“morte em troca de tiros com as forças de segurança”, informando-lhes quanto à necessidade de
um descarte do mesmo tipo reservado aos “indigentes”. Isso nos permite supor que Perus (ou a
Vala de Perus) tem sua razão de existir como destino dos pobres. Além disso, nos leva a pensar
na vala comum como lugar historicamente destinado às vidas precárias (BUTLER, 2009), mas
que, em tempos ditatoriais, incluiu também os “subversivos” como um alargamento político,
social e racial da margem do controle social (AZEVEDO, 2019).
Contemporaneamente, em tempos de “normalidade” democrática, a letra “T” reaparece nos
laudos necroscópicos produzidos nos IMLs, mas desta vez para se referir à “zona de tatuagem”
(resíduo de pólvora na pele pelo tiro a queima-roupa) deixada nos corpos de moradores de
periferias e favelas, vítimas de execução sumária pela polícia, cujas mortes são hoje rotineiramente
registradas como “homicídio decorrente de oposição à intervenção policial”. Como analisado por
Juliana Farias (2015), tal marca igualmente comunica uma narrativa, prescrevendo um caminho
de descarte e nenhuma justiça para os corpos negros, ao passo que referenda o “excludente de
ilicitude” e o extermínio como tecnologia de gestão de seus corpos e territórios de moradia. A
perícia oficial/policial continua servindo, nesse novo tempo de guerra às drogas, como um espaço
para justificação e autorização dessas mortes, inscrevendo uma verdade e dando amparo
institucional ao agente individual que executa a ação. Mortes produzidas a partir de situações nas
quais os agentes públicos se movem identificando os riscos potenciais a serem eliminados,
localizados, como bem pontuam Grillo e Godoi (2019), em gestos que parecem ameaças, em
corpos que parecem criminosos e em territórios que remetem ao “risco” e à “suspeição”.
Somadas a essas gestões cotidianas das mortes negras e pobres em decorrência da violência
institucional contra territórios periféricos — violência que não foi interrompida em respeito à crise
sanitária (FELINTO, 28/05/2020) —, em tempos de pandemia vemos a sigla D3 emergir como nova
forma de inscrição, um registro documental de periculosidade devido ao risco de contaminação que
resulta em corpos marcados e destinados, assim como tantos outros ao longo da história, à cova rasa
e à vala comum. Não à toa, na cidade de São Paulo, os cemitérios São Luís e Vila Formosa,

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conhecidos respectivamente como cemitérios “do crime” e dos “indigentes”, foram escolhidos, no
plano de contingência funerário aprovado pela Prefeitura apenas em 23 de abril, como cemitérios
estratégicos para sepultamento em massa dos mortos por Covid-19. No primeiro deveriam ser
abertas 3 mil covas; no segundo, 8 mil, além de mais 2 mil no cemitério de Vila Nova Cachoeirinha.

Imagem 3: Localização dos cemitérios públicos da Vila Formosa, São Luiz e Vila Nova Cachoeirinha na geografia da
cidade. Fonte: Ducroquet, Fraissat e Santos (04/05/2020)

Ulisses Campbell tinha razão: algo acontecia nos cemitérios. Enquanto sua reportagem nos
incita a olhar para esse equipamento crucial para o tempo de urgência e para o tempo histórico do
descarte, por contraste a matéria jornalística de Arthur Rodrigues e Lalo de Almeida (25/04/2020),
publicada quase um mês depois, oferecia o exato contorno empírico daquilo que gostaríamos de
marcar nesta reflexão: algo ocorria nos cemitérios, mas não em qualquer necrópole. Algo ocorria
especificamente nos cemitérios públicos. A reportagem, veiculada pelo jornal Folha de S. Paulo,
confirmava uma perversa convergência entre cadáveres cujas mortes eram suspeitas ou
confirmadas por Covid-19 e outros tantos que eram prioridade, até então, na necrópole São Luiz,
no “fundão da Zona Sul paulistana”. As marcas das “paredes lascadas por balas e histórias de
tiroteio” do cemitério convivem, no tempo presente, com outra inscrição. Agora, os funcionários
do local veem “mais de um terço dos novos mortos chegar, não com marcas de tiro, mas com o
código D3”. Enquanto acompanham os “preparativos” impostos ao São Luiz — contratação de
mais sepultadores e a abertura intensiva de covas —, eles relembram o que “costumava acontecer
quando a epidemia era outra em São Paulo: a violência”7. Também em 25 de abril, os coincidentes
perfis das vítimas a serem enterradas naquele dia era alarmante: “jovens e pobres da Zona Sul”.
Com um velório de menos de 5min e presença de alguns poucos familiares, Willian Souza Batista,
um jovem desempregado de 27 anos, era sepultado. Sua esposa lamentou aos repórteres: “Morreu
sem a gente saber se tinha Covid ou não”. Seu enterro expresso ocorreu junto ao velório de outro
jovem, que havia sido assassinado a facadas (RODRIGUES e ALMEIDA, 25/04/2020).

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Semanas antes da reportagem referida, o jornalista Yan Boechat chamava atenção para o fato
de que “quase todos os corpos que estão chegando nos cemitérios públicos estão vindo do sistema
público de saúde” (BOECHAT, 01/04/2020a). Sua assertiva era compatível não apenas com a
solução administrativa fornecida pelo SFM ao tempo de urgência da pandemia, mas também com
o papel atribuído aos cemitérios na gestão dos corpos contaminados de maneira mais ampla,
apresentado como caminho viável de uma prática política pautada na ideia — expressada
abertamente por Jair Bolsonaro e implementada, entre outras medidas, por meio de suas
intervenções no setor da saúde — de que as mortes, mais do que inevitáveis, seriam necessárias
(DANTAS, GRANDIN e MANZANO, 12/05/2020). E essas mortes, conforme revelam os
cemitérios públicos, não estão igualmente distribuídas, mas refletem aquilo que Márcia Leite
(2020) chamou de aprofundamento da vulnerabilidade diferencial na pandemia.

Imagem 4: Mapa dos óbitos confirmados e suspeitos por distrito de residência na cidade de São Paulo em 27/05/2020.
As zonas mais escuras do mapa (acima de 100 mortes) correspondem às regiões mais pobres e onde estão localizados
os três cemitérios escolhidos pelo plano de contingência funerário. Os gráficos mostram ainda que, nessas mesmas
regiões, as mortes suspeitas por Covid-19 são mais frequentes do que as confirmadas, em comparação às zonas
centrais da cidade. Para mais informações ver: Cidade de São Paulo (29/05/2020)

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Ao mesmo tempo que a pandemia desnuda a gestão dos corpos numa circunstância singular
do presente, ela também nos remete a uma tecnologia articulada e arraigada historicamente, mas
que agora foi posta a serviço do descarte de cadáveres “mortos por Covid-19” ou “potenciais
portadores da Covid-19”. Suas engrenagens estão assentadas numa infinidade de atos — de
manejo, nomeação e certificação —, para os quais a máxima “da maca à cova”, tal como formulada
pelo jornalista Yan Boechat (01/04/2020b), em outra reportagem para a Folha de S. Paulo, no
mesmo dia da anteriormente citada, é um imperativo. A viração administrativa organizada pelo
Serviço Funerário paulistano desde o começo de março, cuja materialização é o D3, tornou-se
protocolo em São Paulo, a partir de 20 de março de 2020, atribuindo novas camadas de justificação
e regulamentação à ideia de risco de contágio projetada sobre os corpos depois de mortos.
Sem questionarmos os riscos de contaminação ou os cuidados necessários em relação ao
vírus no país, chama nossa atenção como as orientações prescritas pela Organização Mundial
da Saúde (OMS) foram transladadas ao território nacional numa espécie de adequação: uma
viração referendada pelas ditas capacidades disponíveis, no Brasil, para gerir corpos
contaminados (AZEVEDO, SANJURJO e NADAI, 2020). As temporalidades, longe de serem
sequenciais e alinhadas, sublinham, por um lado, o caráter não homogêneo e não integrado das
ações executadas por instâncias e atores estatais nacionais, estaduais e municipais. Por outro
lado, explicitam as torções perversas produzidas no contexto brasileiro sobre a circular da OMS
relativa à “gestão segura de cadáveres no contexto da Covid-19” (OMS, 24/03/2020). Passamos
sem qualquer mediação da premissa “não há provas de que alguém tenha sido infectado por
exposição ao cadáver de uma pessoa morta por Covid-19” para sucessivas formulações nas quais
o risco de contágio dos cadáveres tornou-se um dado e uma verdade inquestionável. Exemplar
dessas torções é a formulação categórica publicada pela resolução no 26 do estado de São Paulo,
de 20 de março de 2020, cujos dizeres eram: “Considerando que, segundo órgãos da Saúde
Pública, durante a situação de pandemia, qualquer cadáver, independentemente da causa da
morte ou da confirmação de exames laboratoriais deve ser considerado um portador potencial
de infecção por Covid-19” 8. Ou sua versão nacional, publicada três dias depois pelo Ministério
da Saúde, no documento “Manejo de corpos no contexto do novo coronavírus Covid-19”, para
o qual o manejo dos corpos vivos e mortos poderia ser vetor de infecção e, particularmente com
relação aos últimos, regulamenta algo já posto em prática nas esferas estaduais e municipais: “A
autópsia não deve ser realizada e é desnecessária em caso de confirmação ante-mortem da
Covid-19” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 25/03/2020).
Assim, se no começo de março as primeiras mortes confirmadas por Covid-19
começavam a ser registradas e contadas, por contraste, um número ainda maior de mortes
suspeitas, cujas histórias e relações de afeto com os vivos parecem, aos olhos da opinião
pública, ser menos relevantes, seguiam à cova rasa nos cemitérios de Vila Formosa,
Cachoeirinha e São Luiz, para ficarmos circunscritos a São Paulo, epicentro da pandemia. A
reportagem de Yan Boechat para a Folha de S. Paulo nos ajuda a contar: das 121 mortes
oficiais por Covid-19, 79 delas haviam ocorrido em hospital da rede privada Sancta

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Maggiore. São pessoas que tiveram acesso à saúde e vinham sendo acompanhadas durante a
evolução da doença que os levou à morte. Contudo, nesse mesmo período, entre 30 e 40
sepultamentos eram realizados diariamente nos cemitérios públicos de São Paulo e, ao
menos em Vila Formosa, os funcionários da administração estimavam “que mais de 200
corpos foram enterrados com suspeita de estarem contaminadas com o novo coronavírus
desde o início da crise em São Paulo” (BOECHAT, 01/04/2020a; ROSSI, 10/04/2020). Sem
exames laboratoriais, ou aguardando resultados, esses corpos se tornaram visíveis para os
serviços de saúde apenas em estágio avançado da doença ou, mais cruelmente, depois de uma
morte suspeita. Assim, as medidas de ordenação da excepcionalidade observam e
reproduzem as mesmas desigualdades históricas que buscamos remontar até aqui,
novamente associando suspeição e pobreza. Mais do que uma ação atravessada pelo tempo
de urgência e de excepcionalidade da pandemia, vemos um maquinário de remoção, manejo,
atestado de óbito e sepultamento expresso protocolado e intencionalmente posto em
operação, em bases consolidadas e possíveis, porque já existentes.
Todo um diagrama de atribuições é assim reatualizado, produzindo novos fluxos para os
mortos que, em “contexto normal”, deveriam ser removidos para o IML (casos de mortes
violentas e de pessoas desconhecidas) ou para o Serviço de Verificação de Óbito (SVO) da
cidade de São Paulo — casos em que a causa mortis não está diagnosticada, mesmo havendo
acompanhamento médico. A evitação das autópsias implica que os casos que deveriam ser
autopsiados serão manejados mediante técnicas não invasivas (com o auxílio de equipamentos
especiais, quase sempre não disponíveis nos IMLs e SVOs) ou mediante o questionário de
autópsia verbal da OMS. Com exceção dos casos violentos, que seguem sob responsabilidade
do IML, tais procedimentos devem ser realizados preferencialmente no local da morte,
deixando a cargo dos estabelecimentos em que esta tenha ocorrido a responsabilidade pela
emissão da Declaração de Óbito e pelas medidas de manejo prescritas: a desinfecção do
cadáver, seu triplo embalamento — primeiro em lençol e depois em dois sacos plásticos
desinfetados —, sua inserção em caixão lacrado e a remoção direta para o cemitério.
Como afirmam Anna Beatriz Anjos e Bruno Fonseca (27/03/2020) em reportagem publicada
pela agência Pública, “não vai ter laudo”. A frase proferida por um funcionário do SVO era
direcionada tanto a cadáveres removidos de residências quanto de Unidades de Pronto
Atendimentos (UPA) da capital. E, também, tornava compreensível uma espécie de sumidouro
que parecia existir entre rua/casas/hospitais/UPAs e o cemitério. Uma forma de fazer desaparecer
que ganha ainda mais opacidade quando se trata de corpos do sistema prisional, como mostram
Mallart e Araújo (2020). Os jornalistas revelam ainda como muitas mortes dão lugar a “atestado
de óbito assinado sem realização de mais testes que possam comprovar ou descartar morte pelo
novo coronavírus”, inscrevendo-as permanentemente como causa mortis indeterminada9. Essas
mesmas medidas, criadas em atenção à ameaça dos corpos “suspeitos para Covid-19”, implicam
também no descarte rápido dos mortos com causa desconhecida10.

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Estamos, portanto, diante de um processo complexo cujo entendimento exige investigação


antropológica e perspectiva histórica. Um novo obituário (RAMOS, 24/04/2020) que não se limite
ao escrito e regulado por força de resoluções, manuais, protocolos e circulares, mas invista em
desvelar as camadas de arranjos, agenciamentos e efeitos sobrepostos entre as diversas esferas de
regulação e as inúmeras instituições que concebem virações emergenciais ao administrar,
categorizar, hierarquizar, manejar e fazer circular corpos contaminados. É preciso olhar para as
dinâmicas estabelecidas entre elas, iluminando os mecanismos por meio dos quais as
desigualdades e o racismo são naturalizados e reproduzidos, afirmando-se como dimensões
centrais de um modo de gestão da pandemia, que se sustenta articulando a política de morte e
contaminação massiva ao maquinário do descarte. Como bem apontam Araújo, Mallart e
Medeiros (2020), em texto publicado concomitantemente ao nosso nesta seção, a materialidade
da morte está profundamente associada à invisibilidade dos mortos, convertendo a vala em
referência normativa dessa gestão. Daí também que não possamos nos satisfazer com respostas
fáceis para o que se passa em hospitais e cemitérios, tais como: cadáveres são infecciosos, enterros
e velórios causam aglomeração ou essa é a única forma de não vivermos um colapso como ocorreu
em Guayaquil, no Equador, ou na Lombardia, na Itália. Como argumentou Chalhoub (2017),
trata-se da crença (ingênua ou conivente) de que seria possível haver uma condução não política,
“técnica” e “neutra” das políticas públicas, uma racionalidade extrínseca às desigualdades sociais.
Maria Francisca, 61 anos, foi enterrada sem presença de nenhum parente. Todos estavam em
casa com medo do vírus. Sua amiga Fernanda Gusmão é parte do grupo de risco, mas compareceu
e acompanhou sozinha o caixão mesmo à distância porque “ninguém merece ser enterrado feito
indigente” (CAMPBELL, 27/03/2020). Maria Francisca foi enterrada sem qualquer flor. Já para a
mãe de “uma criança de 6 anos”, foi preciso chamar o diretor do cemitério. A abertura do caixão
para que a criança tivesse como companhia uma flor, colocaria todos os presentes em risco
(Idem). O funcionário não cedeu aos apelos da mulher. E essa foi a mesma situação das filhas de
Ignácio Fonseca Santos: ele tinha dores no peito e uma prescrição para fazer o exame, mas morreu
antes. Recebeu uma declaração “suspeito pra Covid-19” e elas não puderam beijá-lo (Idem). Já os
apelos de Alícia, uma mãe boliviana moradora de Cidade Tiradentes, bairro periférico do
município de São Paulo, conseguiram comover o agente funerário, que abriu o caixão, mas avisou:
“Ela não vai ver nada, ele tá num saco”. A mãe viu o plástico azul enrugado, onde devia estar o
rosto de seu filho de 29 anos. Ela o havia levado ao hospital na segunda e na quinta soube da
morte. Não o viu desde então, assim como não pôde dar adeus (BOECHAT, 01/04/2020b).
Antônio Rodrigues de Lima foi para o hospital Santa Marcelina na quinta e morreu no sábado. O
irmão achou que era infarto, mas a declaração de óbito dizia “suspeito pra Covid-19”. Antônio
estava sujo e assim foi enterrado, sem uma roupa apropriada ou dignidade (Idem).

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Imagem 5: Vala comum no cemitério municipal Nossa Senhora Aparecida, em Manaus. Foto: Michel Dantas/AFP, em
22/04/2020. Fonte: G1(27/04/2020)

O pedreiro Messias Corrêa Viana foi enterrado na vala comum, entre as vítimas do
novo coronavírus no Cemitério Municipal Nossa Senhora Aparecida, em Manaus. Sua cruz
é a no 1.144, mas ele não morreu de Covid-19. Foi espancado num bar na cidade manauense,
por volta das 16h. Ninguém foi preso e os parentes não se conformavam por ele ser
enterrado na vala comum (MAISONNAVE, 12/05/2020). Seu enterro foi o centésimo do
dia. No ano passado, a média diária de sepultamentos era 28. Messias é pobre, morreu
vítima de uma violência suspeita e seu corpo foi levado a um cemitério público. Mas a vala
comum também é para ele. Janecy Lobato empreendeu luta semelhante à da família do
pedreiro, na esperança de enterrar dignamente o sogro, que faleceu por insuficiência
pulmonar. “Disseram que vão enterrar um em cima do outro e que nós devemos aceitar.
Isso não é digno. Somos cidadãos que pagaram impostos, temos direitos de enterrar nossos
entes dignamente. Isso é desumano” (BEATRIZ, 27/04/2020).
Corpos desimportantes, mortes necessárias, vidas descartáveis. Vemos assim como o
tempo da urgência e da excepcionalidade imposto pela pandemia imprimiu novas dinâmicas
aos fluxos e manejos dos mortos, reatualizando antigas práticas na lida de corpos
historicamente desumanizados. A novidade do tempo presente, portanto, não parece estar
tanto na forma, mas na velocidade e na abrangência desses procedimentos de pacificação dos
corpos, que agora são alvo de descarte rápido e maciço. Em uma conjuntura marcada pela
ampliação generalizada do risco à morte, seja pela pandemia em si seja pela postura do
presidente do país — que despreza a vida, incita a violência e flerta abertamente com discursos

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autoritários, racistas e eugênicos —, prioriza-se a política do descarte dos mortos em


detrimento da preservação dos vivos (G1, 02/06/2020). Alinhada à presunção do risco de
contágio e disseminação da doença, um dos efeitos mais evidentes de tal postura é fazer a
necropolítica (MBEMBE, 2018) se acelerar (no tempo) e se expandir (no espaço), ganhando
novo ritmo e escala. Seus efeitos, contudo, continuam a incidir de forma profundamente
desigual. Seus maiores impactos seguem reservados, como sempre, aos mais vulneráveis.

Notas

1
Ao refletir sobre o nascimento da medicina social como estratégia biopolítica, observando sua confluência com o
fenômeno de urbanização na França daquele momento da história, Foucault analisa como a cidade tornava-se o “lugar
do mercado” e das “revoltas de subsistência”, estas últimas resultantes do processo de proletarização de uma massa de
pessoas exposta à fome devido à conjunção de baixos salários e alta de preços (FOUCAULT, 2019[1974], pp. 152-153).
2
Foucault também se refere à periferização dos cemitérios nesse contexto. Embora ele atribua maior ênfase às razões
político-sanitárias em detrimento de razões teológico-religiosas, importa notar a aproximação entre os processos
referentes ao nascimento da medicina urbana e a higiene pública e um conjunto mais amplo de transformações das
atitudes ocidentais diante da morte das quais nos fala Ariès (2012).
3
Sobre o processo de categorização de mortes e casos (suspeitos e confirmados) por Covid-19 para fins de notificação e
manejo de corpos, escrevemos uma reflexão no Boletim Extraordinário Caaf/Unifesp. Ver: Azevedo, Sanjurjo e Nadai
(2020).
4
A sigla D3 consiste em uma inscrição, de caráter preventivo, que aponta para o risco de contaminação pela manipulação
de cadáveres. Não corresponde necessariamente à confirmação de morte por Covid-19.
5
Remetemo-nos à associação entre raça, pobreza e perigo contida na categoria “classes perigosas”, surgida no debate
público na primeira metade do século XIX. Entre os diversos autores que refletem sobre a categoria, Chalhoub (2017)
destaca sua relevância nas discussões sobre higiene pública travadas durante o processo de urbanização do Rio de
Janeiro. Referindo-se inicialmente àqueles que buscavam formas de sobrevivência à margem do mundo do trabalho (e
da lei), a categoria logo se generalizou para tratar a pobreza em si como vício. Carrara (10/12/1984) e Ferreira (2009)
recuperam a presença dessa noção nas discussões sobre a identificação civil e o manejo de mortos como parte das
estratégias de controle de ameaças sociais, dentre as quais, nas cidades em crescimento, estava a figura do “homem
desconhecido”. O estudo de Mariza Côrrea (2013) sobre a vida e obra de Raimundo Nina Rodrigues também desvela as
intrínsecas correlações entre gênero, raça e classe na conformação das “classes perigosas”, demonstrando como foram
decisivas para a constituição de um campo de estudos médicos conhecido como Escola Nina Rodrigues. Nos termos da
autora, uma “polícia científica” não restrita às “classes perigosas”, mas preocupada com toda a sociedade; um saber
médico (e jurídico) que demarcou seu domínio de atuação: “[A] penitenciária, o hospital de caridade, os asilos de
alienados, lugar dos despossuídos do direito, da saúde ou da razão, essa ‘classe da população’ ainda demasiado visível,
coletivamente, nos lugares que a ciência dispunha para observá-la” (CORRÊA, 2013, p. 120). Para uma análise sobre as
classes perigosas e a história das prisões em São Paulo, ver Padovani (2018).
6
Em 1990, foi exumada uma vala comum no Cemitério Municipal Dom Bosco, localizado no bairro de Perus, São Paulo.
Sem registro formal, sua existência foi denunciada pelo administrador do cemitério a familiares de militantes políticos
desaparecidos na (e por conta da) ditadura. Segundo apurado por CPI na Câmara de Vereadores, a Vala de Perus havia
sido criada, em 1976, pelos próprios funcionários da necrópole. Ela serviu para reinumar quase 2 mil corpos, que foram
sendo exumados, no decorrer de dois anos, de covas rasas das quadras destinadas tanto a órgãos públicos quanto a
famílias. A partir de 1979, no livro de registro de entradas do cemitério, os familiares encontraram informações sobre o
primeiro sepultamento de 30 pessoas buscadas como desaparecidos políticos. Eles também concluíram que o destino de
seis delas, para as quais faltavam informação quanto ao local de reinumação, teria sido a vala. Desde então, o movimento
de familiares de mortos e desaparecidos políticos demanda a identificação desses militantes, processo que segue em
curso, ainda hoje, no Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (Caaf), da Universidade Federal de São Paulo
(Unifesp). A Vala de Perus teve importância central no processo de construção do desaparecimento político como
categoria jurídica, política e mnemônica no Brasil, bem como para sua associação exclusiva com os setores políticos e
sociais reconhecidos como parte de uma resistência organizada ao regime ditatorial (AZEVEDO, 2019).
7
Como demonstram os jornalistas Rodrigues e Almeida, a Folha de S. Paulo publicou em 1999 uma reportagem cujo tema
era a contratação de novos sepultadores para “adiantar as covas para mortos que chegariam no carnaval daquele ano”.

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Intitulada “Cemitério de SP antecipa mortes” (OLIVEIRA, 19/02/1999), a matéria atesta a expectativa da necrópole: naquele
carnaval de 1999, dos 48 sepultamentos, 27 correspondiam aos de vítimas de homicídio e acidentes.
8
Disponível (on-line) em: https://www.legisweb.com.br/legislacao/?id=391288
9
A frequente realidade de mortes ocorridas antes desse resultado laboratorial se expressa no aumento de 1.607% de
Registros de Óbito por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) e de 35% por causa indeterminada em relação ao
mesmo período de 2019. Cálculo a partir de dados relativos ao período entre 16/03 e 12/05 colhidos no Portal da
Transparência do Registro Civil.
10
A subnotificação dos mortos, somada à dos vivos, converge para o que Freire (2020) descreveu como duplo sentido do
verbo contar: por um lado, refere-se ao que é possível ser codificado em números, conformando o efeito quantitativo do
fenômeno; por outro lado, remete ao que pode ser narrado ou qualitativamente concebido como parte da realidade da
pandemia. Na atual conjuntura política brasileira, ambos os sentidos são produzidos em meio a informações
desencontradas, propagação de fake news e discursos que negam a pandemia como uma experiência compartilhada por
todos. Se a codificação em números parece mais estável, isso se deve ao fato de que elementos quantitativos são
comumente imaginados como neutros, objetivos e inquestionáveis. Entretanto, como comentou, em um evento de
lançamento do livro Etnografia de documentos (FERREIRA e LOWENKRON, 2020), um enfermeiro cuja atuação está
diretamente ligada ao combate à pandemia, e refletindo uma demanda militante da luta antirracista dos movimentos
negros, é preciso lançar luz sobre o próprio ato de notificação da doença, uma vez que não há na forma-documento um
campo específico para registro de dados sobre cor e escolaridade, percebidos por ele como decisivos para a compreensão
da contaminação — ver o debate (on-line) em: https://youtu.be/p9X5MhxX-lU. Ver ainda: Rossi (15/05/2020).

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Referências

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Fontes da imprensa

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Milhares de covas estão abertas nas maiores necrópoles de São Paulo à espera de um amontoado de
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coronavírus; cientistas estimam 1,8 milhão de mortes se isso ocorrer: Presidente tem repetido a frase
de que o vírus contaminará 70% da população. O percentual é citado como algo inevitável e usado
como argumento contra as medidas de isolamento social. Mas especialistas dizem que, sem vacina e
sem remédio, número de mortes por falta de hospital vai disparar se as medidas de distanciamento
forem abandonadas”. G1, Bem Estar, Coronavírus, 12 de maio de 2020. Disponível (on-line) em:
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FELINTO, Marilene. “Com patrocínio de governadores, genocídio de negros e pobres pela polícia dispara:
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Contêineres frigoríficos foram instalados no local para caixões que aguardam sepultamento”. G1,
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em-cemiterio-para-enterrar-vitimas-de-coronavirus-veja-video.ghtml

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________. “Com 140 enterros em 24 horas, Manaus bate recorde de registros desde início de pandemia:
Há uma semana, média é de 100 sepultamentos por dia na capital. Antes do coronavírus, média era
de 30. Mais de 300 já morreram de Covid-19 no Amazonas”. G1, Amazonas, 27 de abril de 2020.
Disponível (on-line) em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2020/04/27/com-140-
enterros-em-24-horas-manaus-bate-recorde-de-registros-desde-inicio-de-pandemia-apenas-10-
casos-sao-confirmados-de-covid-19.ghtml
________. “‘É o destino de todo mundo’, afirma Bolsonaro após lamentar mortes por coronavírus: Em
seguida, presidente disse que não soube de ninguém que morreu por falta de UTI ou respirador.
Apoiadora pediu ao presidente uma palavra 'para os enlutados' pela morte de parentes por
coronavírus”. G1, Política, 2 de junho de 2020. Disponível (on-line) em:
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na Rede, 24 de abril de 2020. Disponível (on-line) em:
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periferia de SP: Indignação por falta de velório e medo marcam rotina na maior necrópole da zona
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Disponível (on-line) em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/cemiterio-dos-crimes-
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VEJA. “Covas abertas em cemitério de SP viram destaque no ‘Washington Post’: Maior da América
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abertas”. Veja, Brasil, 2 de abril de 2020. Disponível (on-line) em:
https://veja.abril.com.br/brasil/covas-abertas-em-cemiterio-de-sp-viram-destaque-no-washington-
post/

LILIANA SANJURJO (lilisanj@yahoo.com.br) é


pesquisadora de pós-doutorado do Programa de
Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPCIS) da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj, Rio
de Janeiro, Brasil). É doutora e mestre pelo Programa
de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS)
da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp,
Campinas, Brasil) e tem graduação em ciências
sociais pela Unicamp.

LARISSA NADAI (lari.antropologias@gmail.com) é


pesquisadora de pós-doutorado do Departamento
de Antropologia Social da Universidade de São Paulo
(USP, São Paulo, Brasil), com apoio da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
É doutora pelo Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais (PPGCS) da Unicamp, mestre pelo
PPGAS da Unicamp e tem graduação em ciências
sociais também pela Unicamp.

DESIRÉE AZEVEDO (desireelazevedo@gmail.com)


é pesquisadora no Centro de Antropologia e
Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade Federal
de São Paulo (Unifesp, São Paulo, Brasil). É doutora e
mestre pelo PPGAS da Unicamp e tem graduação em
história pela Universidade Federal Fluminense (UFF,
Niterói, Brasil).

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