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Luiz Sávio de Almeida

(Org.)

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Estudos em homenagem a
Pedro No lasco Maciel

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édLUFAL

Maceió / 2011
© 2011 Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal)

Governador Reitora
T ..X)TONlO VILELA FILllO ANA DAYSE R EZENDP, D OREA

Secretário de Estado do Planejamento e Vice-reitor


do Desenvolvimento Econômico EuR1co m: BARROS Lóno Fu,tto
Luiz ÔTA v 10 GoMEs
Diretora da Edufal
Cepal/Imprensa Oficial Graciliano Ramos SHEILA DIAR MALUF

Diretor Presidente Conselho Editorial Edufal


Mo1ses DE AGUIAR (PREsmi;;:-in;)
S11E:11..,, D1AH M ALUF
CJCERO Pi!:RICL~:s nF. OLIVEIRA CARVALHO
Diretor Comercial ELTON CASADO F1RJ:;MA.'\
H cRMANN DE ALMF:IDA MELO R OBERTO SAR"l f:~TO LIMA
l RACILDA MA RIA I)):'; M OURA LIMA
Diretor Adro. /Financeiro Lll'\DEMDERG MF.DEIROS DE ARMJJO
Jos~ ROBERTO P EDROSA b;O~ARDO 8ITTENCOURT
E t.:){JÇQ E DUARDO PINTO IJI:: LEMOS
Impressão e Acabamento ANTOJ'\10 DE PADlJA CAVALCAI'\TE
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Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Proje to Gráfico, Capa e Diagr amação
Biblioteca Central
CARLOS F AHIANO COSTA BARROS Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecária l{esponsável: Helena Crislina Pimentel do Vale

T759 Traços e troças : literatura e mudança social em Alagoas : estudos em


homenagem a Pedro :-Jolasco Maciel I LuiL Sávio de Almeida,
organizador. Maceió : EDUl-AI., 2011.
276 p. : il.. fots.

Inclui bibliografia.

ISBJ\ 978-85- 7177-612 -8

1 Madel. Pedro Nola ...co, l X<i 1-1909 2 Alag1>;1' Ilistóna


I::dufa.I Edttora da Universidade Federal de Alagoas Editora a!1hada
3 Alagoas Mudança s1•cial 4 . l.ih:1;1turn . 1. ,\lme1da. Lu11 <;ávro
Campus A C Simões, BR 104, Km, 97,6 -
Fone/Fax (82) 3214.1111 - Tabuleiro do Martins - ~ ~ l]
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CEP: 57.072 970 Maceió - Alagoas ruill1 ;_T• ) (~r ,;,_!i
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E-mail:edufolracdufnl.ufal.br - Site: www.edufal.t1f:11.hr C•C 1 IUTOllA!I llNIVrn~llAilll\~
~~~~~

organizador agradece:

fJ 1.0 - ao Arquivo Público de Alagoas por ter cedido material de ilustração;


2.0 - à Associação Comercial de Alagoas pela acolhida à ideia desta
publicação e ter feito gestões para que o trabalho fosse editado;
3.0 - ao Centro Universitário CESMAC, através da Vice-Reitoria e do Núcleo
de Estudos e Pesquisas sobre Direito, Sociedade e Violência;
4.0 - ao Grupo Agenda que sempre incentivou para continuarmos a luta
pela publicação deste volume;
5.0 - à Universidade Federal de Alagoas que acolheu o livro , após a aprovação
necessária, para figurar no catálogo da EDUFAL;
6.0 - à Secretaria de Estado do Planejamento e do Desenvolvimento
Econõmico de Alagoas que entendeu a natureza da obra para o estudo da
urbanização de Maceió, tendo incentivado a edição que está sendo lançada.
É fundamental dizer muito obrigado ao amigo Dida Lyra, que se empenhou
lt
i, em ilustrar o romance.
É preciso agradecer a duas artistas. Uma delas é Myrian Rocha Cavalcante
de Almeida que permitiu a utilização de fragmentos de seus bordados na
" ilustração do romance, bem como a Hilda Cavalcante de Moura pela permissão
de utilizar fragmentos de um de seus quadros na abertura dos capítulos do
texto de Pedro Nolasco Maciel.
Cumpre agradecer a Carlos Fabiano Costa Barros pela organização do
I•
volume, especialmente na diagramação do texto.
Agradece, também, à Professora Maria Heloísa Melo de Moraes que se
5
encarregou da revisão, sendo autora de notas complementares colocadas no
romance e precedidas pela abreviatura NR, que significa Nota da Revisora.
Agrad,ece à jornalista Rafaela Gomes que se dedicou durante meses à
digitação do texto e às revisões.
Agradece à Ana Violeta Lopes que aj udou na composi ção final do trabalho,
com seu esforço de secretaria.
É importante dizer obrigado a Cícero Péricles Carvalho, pelo incentivo e
apoio amigo.
Agradece às famílias de Felix Lima Júnior e Arnoldo Jambo, por entenderem
seus textos neste volume, como homenagem ao esforço que realizaram para
ajudarem a preservar a memória de Pedro Nolasco Maciel.
O organizador agradece também ao historiador Moacir Medeiros de Sant'Ana
por ter permitido a publicação de seu texto que constava na edição de 1964.
É fundamental dizer muito obrigado aos companheiros que aceitaram
participar desta caminhada:

Boca da Mata, junho de 2011.

Luiz Sávio de Almeida


or~~

o
organizador oferece este texto à cidade de Maceió, retratada em seus
começos pela pena afiada de Pedro Nolasco Maciel.
P~efifÁ,,o

conhecimento sobre determinada sociedade é uma construção paulatina


~
( } ao longo do processo histórico. Alagoas vem procurando por si mesma
- de modo mais claro - a partir das três últimas décadas do século XIX . .J
Uma das primeiras experiências que se realiza no sentido de nos explicarmos
;
I foi realizada por Moira, na década de 40 do século mencionado. Mas é nos idos
de 50, que essa necessidade é aumentada, apôs a década de intensa reforma,
quando o lmpério procurava atualizar-se, mormente em face da questão do fluxo
de força de trabalho e do avanço tecnológico que pode ser simbolizado na idéia
do vapor.
f Começam nos anos 70 do século XIX, o que poderíamos considerar como
tentativas sistemáticas de entender a nossa história e o processo corrente. Isso
se reflete na criação do atual Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e lan-
çamento de sua revista. É nela que aparece o primeiro grande estudo sobre a
história e sociedade alagoana, sendo escrito por José Próspero Jeová da Silva
Caroatá e reportando-se a Penedo. Nascia o que vem sendo chamado de paradig-
ma Caroatá, acompanhado, dentro da linha de reflexão do mesmo Instituto, pelo
paradigma de Dias Cabral, conforme discussão aberta pelo organizador deste
livro e ainda hoje vigentes, com o primeiro considerando a nossa sociedade per-
feita e acabada, enquanto o segundo abria para uma problemática que Caroatá
não atingia, pensando temas como Imprensa, Revolução de 1817, Quilombo dos
Palmares, considerando que estávamos diante de um quadro a modificar-se, in-
clusive, tendo Dias Cabral participado do movimento abolicionista.
Estamos diante da transição do escravismo para a formalização das re-
lações de capital e diante da passagem do Império para a República. É nesse ,
trânsito que nasce um terceiro compo- A Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Social está interessada
- -
nente paradigmático, situado em Pe- em pensar e estimular a que Alagoas sempre esteja colocada em questão, para
dro Nolasco Maciel, que se abre para que dúvidas e debates alinhem as propostas que deverão fundar as políticas pú-

1 ver a sociedade de um ângulo em que blicas. Uma das for mas de fecundar essa perspectiva é a de trazer de volta textos
aparecia a idéia urbana e suas contra- clássicos e que vão se tornando raros, ficando nas mãos de uns poucos, ao invés
(_ <lições sociais. Nolasco era oriundo do de fertilizarem os estudos e as análises da maioria que desejamos simbolizar na
campo grâfico, militando, inclusive, em quantidade de jovens universitários que povoam Alagoas.
pequenas redações de jornal, a maioria Nossa Secretaria foi buscar parceria com estudiosos de nosso Estado,
delas ligada ao que se poderia chamar quase todos professores doutores, com larga contribuição ao conhecimento de
de "movimento operário" da época. Alagoas. É o primeiro estudo, de uma série que desejamos restituir à circu lação,
Não se pode propor sobre o de- material clássico e raro sobre Alagoas; iremos também, estimular a publicação
senvolvimento de uma sociedade, sem de novos estudos com a finalidade de compor com a academia e melhorar nossos
que se entenda sua formação, os pro- serviços à comunidade.
blemas que enfrentou e o modo como Desenvolver é escolher um futuro, mas todo futuro tem raízes e uma tra-
se habilitou p ara lidar com eles. Uma jetória jamais pode ser abandonada, porém deve ser repensada. Estamos diante
Secretaria de Planejamento e Desen- de uma reflexão feita sobre a sociedade alagoana, transmitida na forma de um
volvimento Econômico tem como obri- romance, mas ele tem o sentido de uma etnografia e da construção do urbano.
gação entender a formação histórica
sobre a qual realiza propostas de in-
tervenção. O presente não se gera por Luiz Otavio Gomes
mero acaso, embora os acasos aconte-
çam. Há um tempo vivenciado por uma
coletividade e, jamais a proposta para
o desenvolvimento poderia considerar
a sociedade com tabula rasa, como se
1,
de repente uma nova escrita apareces-
se como retificadora de um passado
que deixou e mantém marcas. Partin-
do do pressuposto de uma tabula rasa,
o planejamento iria adquirir um senso
salvacionista que não Levaria à integra-:-
ção das mudanças ao processo histór.i-
co, e apenas iria justapor formas novas
em estruturas velhas.
e~u;r,põ~
n(U/~~

Notas de Revisão

Maria Heloisa Melo de Moraes

a reedição de qualquer obra é o momento de se rever a lgo que tenha


ficado pendente na edição anterior - algum pequeno erro que es-
capou da revisão ortográfica ou uma informação incompleta, por
exemplo. Livros científicos, muitas vezes, merecem uma atualização, e
assim por diante. Reeditar um livro cuja primeira edição data de 1899 - e
que já tem uma 2ª edição atualizada e comentada - exige, portanto, al-
guns cuidados, ou poderíamos dizer algum respeito a ambas.
Foi a ideia de preservação da autenticidade das duas edições anterio-
res que conduziu o trabalho de revisão desta atual edição. Assim sendo,
ao lado das modificações próprias de uma revisão, devem ser considera-
das algumas questões relevantes que foram se apresentando ao longo da
leitura do texto, e que nos fizeram estabelecer alguns critérios que dessem
unidade de procedimentos ao trabalho. Eis algumas dessas questões.
A obra a ser reeditada é um romance que tem como cenário a ci-
dade de Maceió em final do século XIX. A leitura da 2ª edição, datada
de 1964, mostra que houve, na ocasião, uma atualização ortográfica,
mas foram mantidas palavras e/ antes de cada uma delas, para que não sejam confundidas com as notas
ou expressões que não foram então já existentes na edição de 1964.
aportuguesadas, tais como conha- O primeiro critério foi a atualização apenas das palavras cuja modifi-
que, que aparece a inda em francês: cação não alteraria o estilo d o autor, tais com coisa em lugar de "cousa".
cognac. Ou o uso de pince-nez em Os nomes próprios, como nomes de pessoas, de lojas e de instituições,
lugar de óculos. tiveram a grafia original preservada. Alguns deles foram atualizados já
O romance apresenta uma ri- nas notas explicativas, como é o caso da loja "Turqueza" (no texto), que na
queza descritiva que o torna um nota de rodapé já consta como "Turquesa" .
verdadeiro documento de uma À medida que a leitura progredia, porém, a linguagem do Autor mos-
época. Os luga res, as paisagens, trou a necessidade de constantes consultas a o dicionário, tal a quanti-
as p essoas, os hábitos, os objetos da d e de pa lavras e expressões já fora de uso , m as que exist em, estão lá
citados fazem dele um importante registrada s . Se tais palavra s e expres sões fossem substituídas por termos
retrato d a cid a de d e então. E uma equivalentes, atuais, p rovavelmente o texto seria descaracterizado e a nar-
revisão que se propusesse a atuali- rativa perderia em originalidade. Além disso, já existiam, na 2ª edição,
zar toda a linguagem do texto certa- notas explicativas de Félix Lima Júnior sobre alguns desses termos.
mente reduziria consideravelmente
o caráter documental e o tom pito-
resco da narrativa.
Além disso, a edição de 1964
é uma edição anotada, usando a
expressão de Fé lix Lima Júnior em
sua aprese ntação. Tais anotações
enriquecem sobremaneira a obra,
contextualizando-a melhor em rela-
ção a fatos e pessoas reais.
A partir de tais evidências,
e com a perspectiva já referida de
preservação do estilo e da autentici-
dade da obra, foram estabelecidos,
pois, a lguns critérios para a revisão
e atualização da linguagem para a
present e edição .
Fora m feitas NOTAS DE REVI-
SÃO, que a parecem com a s igla NR
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lO, Notas de Ediç ão

Luiz Sávio de Almeida

projeto gráfico procurou estabelecer com as ilustrações, uma com-


posição de imagens antigas e novas de Maceió, para que o leitor
(}
fosse sentindo as transformações e os contrastes.
Por outro lado foram planejados diferentemente o contexto gráfico
dos estudos atuais, dos estudos da segunda edição, do romance. Além do
mais, as ilustrações constantes do romance foram de natureza diferente
das utilizadas nas outras áreas gráficas do volume. Chamamos atenção
para os itens abaixo.

1. O - Apesar da perda na padronização d ecidimos deixar os colabora-


dores à vontade com relação a forma de anotações.

2.0 - Algumas fotografias antigas foram submetidas a tratamento


computacional para transfomá-las em bico de pena, recortá-las e recom-
por a imagem.
3.0 - Todas as fotografias , salvo a da página 75 qu e é da autoria de
Luiz Lavenere, são da autoria do organizador.

4.0 - Todas as fotografias antigas de Maceió pertencem ao acervo do


Arquivo Público de Alagoas e as demais pertencem ao acervo do organiza-
dor.

5.0 - Todos os cartões postais pertencem ao acervo dos autores do


texto correspondente.

6 .0 - As ilus trações cons ta ntes d as páginas 18 5, 197, 205 , 217, 2 3 1,


243, 257, 271 são recortes d e pin tu ra d e Hilda Cavalcante d e Moura.

7.0 - Todas as ilustrações constantes das páginas 171 e 185 são de-
1111 talhes de bordado em espelho realizado por Myriam Rocha Cavalcante de
Almeida.

8.0 - As ilustrações constantes d as páginas 204, 216, 230, 242, 256,


270 são de autoria de Dida Lyra.

9.0 - Muitas fotos , para efeito d e composição gráfica, estão repetidas,


mas para efeito de integração com o texto podem ter recebido nova titulação.

1 1111

:111

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~ , .
~~

A cidade e o texto. lntrodução aos estudos em homenagem a Pedro Nolasco


Maciel ........... ........ ....... ........ .. .......................... .......... .................................... 21
Luiz Sávio de Almeida

Pedro Nolasco Maciel: abolicionismo, republicanismo e socialismo em Alagoas .. 75


Osvaldo Batista Acioly Maciel

Solo alagado: uma leitura da cidade em Traços e Troças ......................... .. ... ..... 95
Ana Claudia Aymoré Martins

O Narrador indisciplinado de Traços e Troças, de um certo Pedro Nolasco Maciel .. 109


Gilda Vilela Brandão

Maceió nos itinerários de Pedro Nolasco Maciel .. .. .................................... 125


Cynthia Nunes da Rocha Fortes

Cartofilia Alago a na . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 161


Douglas Apratto Tenório e Cármen Lúcia Dantas

ESTUDOS DA SEGUNDA EDIÇÃO

Traços e Troças . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 71
Félix Lima Júnior
lj
Traços Biobibliográficos de Pedro Nolasco Maciel ......................................... 175
Moacir Medeiros de Sant 'Ana

11111 Maceió- Fins do século XIX ........................................................................ 179


Amoldo Jambo

ROMANCE

Capítulo 1 ................................................................................................ 187


Capítulo II ................................................................................................ 199
Capítulo III ................. .. ............................................ ....... ....... .................. 207
Capítulo IV ............................................................................................... 219
1'
Capítulo V ........................................................................................... 233
Capítulo VI ............................................................................................... 245
Capítulo VII ............................................................................................... 259
Capitulo VIII .............................................................................................. 273
1

11 111

11
Â1Jt'()ll de, f ~~~

Pie. Tipo Indicação


23 L Foto Maceió atual: Levada, repetida em outras páginas
:15 Foto Bebedouro. Praça Santo Antônio. Transformada em bíco de pena
~i ~ F'~! Área rural de Maceió. Repetida em o~tras pâgim~s
:19 Foto Igreja dos Martírios. Repetida em outras p~as
---- ~

Foto -' Área da L<"vuda. Repetida e:m outras pâginas


Foto Área da Levada. Repetida em outras páginas
~ 1 L_ Foro Panorâmica do Poço e Li·oral
67 Foto Igreja dos Martírios
68 _ Folo _J Reginaldo
69 Foto Poço, Avenida, Porto
Foto J L_Tclhadv:· do l • 1.co de Muce1ó
72 Foto A verticalização de Maceió
73
~.~~J
r Foto O outro lodo da lagoa
74
is .
76
j e Foto
Foto
Foto
O Mirante
Farol e RegmaJdo
Rua 2 de Dezembro. Transformada em bico de pena
79 Foto J Carrego de knha em 1905
90 Foto Vista parcial de Maceió
91 f Foto Vista parcial de Maceió
92/93 Foto Vista da Ladeira dos MarUrios
94/95 __ Foto J Subida para o miram~ da SantaTcn·zinha
96 Foto Rua 15 de Novembro. Transformada em bico de pena
_ 99 Foto J Paisagem lugunál'ransformada em pico de penas
107 Foto Centro de Maceió
,1 08/109 r Foto Farol e Reginaldo
110 Foto Rua Sá e Albuquerque. Transformada em bico de pena
1 Foto Loca,! da futura Intendência. Transformada em bíco de pena
111 1
122 Foto Centro de Maceió
123 Foto Mirante
124/125 Foto l.agoa

r
126 Foto Bondes puxados por burros. Transformada em bico de pena
129 Foto Prédio da Estação Central da CATU. Transformada em bico de pena
146 Foto Jaraguá. Transformada em bico de pena
1111 154/155 Foto Ladeira dos Martírios
156 Foto Ladeira do Mirante de Santa Terezinha
165 Cartão Postal Boca do Maceió
165 Cartão Postal Levada
-
165 Cartão Postal Verso de cartão postal
165 Cartão Postal Verso de cartão Postal

li'
1
166 Cartão Postal Bebedouro
166 Cartão Postal Estrada de ferro
',li
166 Cartão Postal Rua do Comércio
166 Cartão Postal Rua do Livramento
'11 fll 167 Cartão Postal Salgadinho
167 Cartão Postal Catedral
I' , 168 Bilhete Postal São Paulo
1
168 Cartão Postal Rua 15 de Novembro
11
169 Cartão Postal Subida para o Comércio
169 Bilhete Postal México
169 Cartão Postal Praça dos Martírios
170 Cartão Postal Samba. Transformada em biao de pena
173 Cartão Postal Praça da Catedral
175 Cartão Postal Recorte do Trapiche da Barra
177 Cartão Postal Samba.
179 Cartão Postal Recorte Lagoa
180 Foto Jaraguá
181 Foto Rua da Lama
183 Foto Montagem Catedral
185 Foto Recorte de bordado
189 Foto Recorte de pintura
~1 Foto Recorte de pintura
1
1
208 llustraçào A converso
Foto Recorte de pintura
Ilustração O passeio
Foto Recorte de pintura
Uustração O bonde
-
Foto Recorte de píntum
Ilustração O vinho
foto Recorte de pintura
Ilustração O povo da cidade
Foto Recorte de pinhira
:;a74 Ilustração A viagem
---
275 foto Recorte de pintura
aoikk e-º -:t~ . ?d'1AJ~ ~~ eJ/("~~
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ste livro de Pedro Nolasco Ma- sistema - não importando se a determi-

E ciel é marco essencial na histó-


ria das ideias em Alagoas, pelo
ff1111pimento que realiza com a visão
nação da postura política se encontre
evidente ou não -, representando de
terminado andamento do conflito entre
que se desenvolvia na construção do capital e trabalho e uma determinada
conhecimento e na explicação da pro- explicitação do contexto urbano como
vi11cia, e presente, por exemplo, em Ca- decorrente do a n damento do processo
ll)nta e Dias Cabral a quem Nolasco senhorial de composição da riqueza. A
..1 _1cid (2004) valorizava, sem dúvida repetição da ideia de determinar é in
pdn atividade abolicionista. tencional.
Bem mais além do que a condi- Estas nossas colocações apro-
ç.10 literária propriamente dita, o livro ximam-se do que foi considerado por
possui relevo histórico, referindo-se a Maciel ao escrever sobre a formação de
pt>ríodo de transição na formação de uma identidade de classe e representa-
Alagoas, e é um produto característico ção em Maceió: gráficos. A condição de
desse tránsito, por onde se localizam "oligarquia" e contradições no sistema
limites como a queda da escravidão e o para a época podem ser vistas no que
uparecimento da instituição republica- foi tratado em Neves (2004) e, por sua
na. O romance t raz informações sobre vez, Tenório (2008) entra d iretamente
elementos de poder que estarão deline- na discussão sobre a "oligarquia" es-
ando, a "oligarquia"; ao percorrer este tudan do sua transformação política,
caminho, estará em contraposição ao sem dúvida, característica excepcional
do que se pode chamar de composição do mando alagoano. São recentes contri- que trajetórias estão sendo definidas e,
buições para uma discussão sobre a nossa temática política, passando por mo- nelas, tem-se consequências delineã-
mentos densos de nossa formação histórica especialmente no encaminhamento doras de um novo perfil, no caso, po-
de nosso século XX. lítico. ~ deste momento denso - que
I O Quebra é um dos acontecimentos básicos para o aclaramento de nossa vai dos entornes da formalização abo-
1'
\ história política, até mesmo pelo fato de comportar sérias interrogações sobre o licionista aos da inauguração de uma
... que poderia ser considerado setores populares no quadro do período. Trata-se, República - que surge este romance e
de episódio a ser visto com imenso cuidado para que não se esvazie a condição ele é emblemático pelo fato de trazer
1 negra em detrimento da política branca, conforme nossa ressalva, constante em elementos categóricos do trânsito que
texto de Rogério (2008). Em Maciel a contribuição se encontra na discussão ocorre, inclusive, aproveitando Moraes
sobre classe e estágio histórico, por onde é levado a tratar do momento a que (2000) no que tange à existência de
pertence Pedro Nolasco Maciel ou aquilo que reforça - e possivelmente embasa, uma lógica territorial associada à po-
conforme consideraríamos - a possibilidade do aparecimento de um texto como lítica, em redirecionamentos da econo-
Traços e Troças. mia urbana de Maceió.

O encaminhamento da radicalidade A evidência da cidade

No sentido que levantamos e ao falarmos de sua radicalidade, Traços e Necessariamente, há uma cidade
Troças deve ser remetido obrigatoriamente ao contexto. Não basta dizer que chamada Maceió em evidência e posta
Nolasco Maciel o produziu, mas estabe lecer a sua ligação à vida da socieda- em uma condição urbana que se en-
de em sua época, o que não fica apenas na ideia vaga de historicizar, mas "' quadra no trânsito provincial. Maceió
de achegar os elementos que possibilitem a valoração efetiva do texto com9_ não estaria mudando sem que toda a
iniciador de uma nova _postura. Acreditamos que a melhor visão consiste em chamada Alagoas estivesse em busca
discutir o que o livro significou para o entendimento de Alagoas e não o que de novos padrões de organização pro-
Pedro Nolasco Maciel significou enquanto mera biografia, no que estaremos dutiva e da sedimentação do seu papel
considerando, um nível de independência para a obra enquanto representati- de centralização de serviços. Intuiti-
vidade histórica de paradigma. vamente, Diégues Júnior (2001) tra-
Ao estudarmos a obra de Nolasco Maciel, estamos próximos a Gilda Mar- ta desta questão ao qualificar Maceió
çal Brandão (2007) quando trabalha o processo histórico relativo a conjuntos e como não-colonial. Argumentamos que
formas de pensamento sobre o viés político da construção do nacional brasilei- não se tem, apenas, a perda de regis-
ro. Estamos interessados em investigação similar, tratando do caso alagoano , tros coloniais, mas o relevo de uma or-
considerando ser, inclusive, em contextos diferenciados - dentro de determinada ganização econômica recente a signifi-
formação histórica - que as obras assumem ou não o caráter de radicalidade. car o espaço: é isto que faz o senso do
Traços e Troças possui representatividade de momentos densos ou aqueles em contexto urbano de Macei~L pela impH
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fundeadouro, no período em que se t~m ~dispor:ibilidade _d_e capital inglês forta!'( '
\ cação de uma economia destravada da
)
J escravidão.
- lecendo a ideia discursiva de se poder encontrar mudança p-ara uma economia[
li
d
O crescimento de Mace10 advem que era fundamentalmente escravocrata. )
de seu ajustamento à condição de fun- Não seria ingênuo - pois a hipótese pode prosperar - entender que
deadouro montado em Jaraguá e ao Maceió efetivamente é dos meados do século XIX, consolidando sua posição
movimento de articulação que se re- na medida em que se configura o momento do impasse no fluxo da mão de
aliza ao integrar internamente áreas, obra pelo combate ao~'-pela possibilidade do vapor e da máquina dados V
numa correspondência ao esforço de como alternativa, com os financiamentos encaminhados para a circulação
construção da província como unida- das mercadorias e não para efetivamente mudar os padrões produtivos, como
de agroexportadora e, neste sentido, se a sociedade estivesse fadada a viver a lógica de uma composição escravo-

~ temos um centro urbano fundado na


característica dominante do senhorial
crata sem escravos.

\li e expressando-o. Mas há mudança, e A cidade que se resulta


é neste novo reconhecimento urbano \· ,,.
que Nolasco Maciel expressa uma nova Trabalhando um pouco a posição clássi~a e repetida de Diégues Júnior, Ma-
cidade que ganha porte na medida em ceió não é uma cidade colonial e, aduzimos, não-republicana, mas uma evidên-
que dois pontos são fortalecidos: as en- cia na República do que resultou do impasse escravocrata alimentado no denso
tradas e a saída, as estradas e o fun- enredo dos anos 50 do século XIX. Não há dúvida a nosso ver: Maceió necessa-
deadouro , o modo de ser relacionado à riamente teria que ser uma decorrência pós-colônia formal como fundamento. A
economia agroexportadora. _colônia formal está na Cidade das Alagoas; foi lá que a sustentação econômica
As _fronteiras econômicas entre ) traduziu categoricamente em arquitetura o solene do mando. A expressão urbé\:-
o rural e o urbano são tênues, sendo na em Maceió estará obrigatoriamente na República, mas numa consolidação
possível que um responda pelo outro, / que data dos 50 do século XIX, inclusive, em parte, no modo como a "oligarqui~"
o que estaria tipificado, por exemplo, pretendeu representar-se monumentalmente urbana ou onde a razão do senho-
no magistral conjunto dos trapiches a a
ria!_encon!roU posSibilidade de demonstrar-se, corno se tem no Palácio, no
evidenciarem a condição de Jaraguá. Teatro Deodoro, elementos que poderiam ser considerados meros e~claves, não
Maceió teria duas grandes bocas de fosse a lógica dominante demonstrando as suas excelências, o que transparece
entrada pela via de Bebedouro e pela q,ind~, çomo exemplo, nas praças que confirmavam a ideia do senhorial.
estrada do norte. No entanto, vai ser
1

11 efetivamente articulada, como se pode Solenização da elite


!
sentir em Nolasco Maciel, ao longo de
seu romance, quando encontramos o Estas sempre aparentaram a presença de _~v~>, um ~~~ÇQ de todos,~
vapor e, também, quando se deslan- eram pQntil_!iadas ~~ elemen~e~onstraffvos do poder, como se pode ver no
cha a tram-way que ligaria a lagoa ao tête-à-tête nos Martírios entre Palácio e Igreja; como se pode sentir na vizinhança
Z5
/...vtuç;;;t1'Vt-t:Jt, e- f11«·~P("f, 5x)(:ÂCf-t e7H ()~orr.;

·ta dr Cntedral e Assembleia e na junção \ mercado demonstrando-se na arquite- estariam em evidência; Penedo esta-
nio
,
, d1l mn 'or expn.:ssão da justiça à maior - tura civil. Claro que deve ser düfr·utido rin na represent':'lção cio se-rtão Ala
nx 111 cnsno cultural, da nobreza e da se os esgares republicanos explicam goas seria mata, mas o rompimento
1ue (lucuçúo na Escola Normal, elemen- mais do que o senso dos serviços em paulatino da mata a oeste vai soli-
;ão 'IOtl da atual Praça Deodoro, local onde Clarival do Prado Valadares. Nossa dificar o estratégico do Jaraguá que
de o pnrl<·1 e a malha urbana refizeram o inclinação segue a tese dos negócios. terminará se envolvend o com o cou-
los VL'l ll'il<> pauperismo da área. Durante colônia, os realces de cenrrn ro, o algodão e o açúcar: Maceió seria
;ão l ~n quanto solenização da elite aconteciam em Alagoas e Penedo; eles então u~a resposta urbana à pauta
mo •J1no presença no urbano, o senhorial serão vencidos pela função porto, pela provincial da exportação. Maceió era
vo- 1no1 urou-se na Cidade das Alagoas; função dos serviços, no que se pode uma resposta aos laços de envolvi-
Mrl('Cló foi pontilhada pelos negócios e compreender a ordem do capital. mento do grande capital a consolidar
• pode entender a posição de Clarival A condição estratégica de Ma- suas relações em todo mundo. Ma-
tk l'r<.ldo Valadares - em conversa co- ceió sempre esteve em evidência - ceió é a reconstrução do espaço do
11 o~>co ao dizer que os grandes monu- comprovada desde os fins do século Império verificando-se na República
fa nwntos históricos da capital do Estado XVIII -, inclusive logisticamente pos- de Nolasco. )
•n llo os trapiches ou, conforme poderia- ta para o norte e para o oeste. Jara-
lSO lllUS focar, a tradução do senhorial em
--
' --
gu~_e Pajuçara complementam a ne-
-- A grande personagem de
sa- aerviços na ligação entre produção e cessidade de afunilamento da produ- Traços e Troças
.. A ção,-especialmente Jaraguá, que será
ica o fundeadouro _por excelência, com Maceió é núcleo recente, pois era
)(1 -
a Pajuçara mantendo durante lon- vila em 1815, cidade em 1817, capital
·ão go tempo uma posição alternativa de em 1839. Pensando no fim do século
iaº apertamento, especialmente, frente XIX poderíamos falar de 85 anos pas-
10- à qualidade dos ventos. sados de seus foros de vila, 83 anos
no Tanto é assim que, ao se pensar que estava cidade e 61 anos de capital,
ttlo em Maceió, sempre as áreas do Norte após a sedição resultante do choque de
:ce interesses com os investimentos reali-
zados sob o comando do centro admi-
nistrativo que era a Cidade de Alagoas,
prejudicados pela função econômica
do fundeadouro de Jaraguá.
ll lS Por volta de 1850, uma série de
IH)
mudanças e providências estavam
i.·u sendo tomadas ou discutidas para a
Z6
.J..~ ~-it> t4 akuk

cidade, às vezes vindas de longe no tempo, mas maturando-se nos esboços da A cidade como algo novo
década, parecendo revelar que a consciência de uma cidade havia se estabe-
lecida. Estamos insistindo em Maceió, pelo fato de que, claramente, ela é a Existia algo chamado Maceió e
li _grande base de Nolasco Maciel gye, inclusive_, eptend.e ~:lois fenômenos da mai~ seria obrigatoriamente novo . A crônica
a lta importância: existe uma cid?de e uma gente 9 ue mora nela e a faz. Nesta teria que se insinuar para este novo,
aparent e trivialidade, o recorte passa por baixo, tomando figuras e teias novas, apreender e justificar a ideia de um
achegando-se ao infinito das relações, o que estamos trabalhando em sentido conjunto identificável como a cidade.
aproximado ao dado pelo esquecido Garaudy (1968 ; p 101), ao pôr em evidência Jamais poderia ser a Maceió da cader-
o sentido sempre plural que, a nosso ver, tem o indivíduo em Marx: neta de desobriga do vigário do século
XVIII (sd)2, também nâo poderia ser a
[... ] o individuo define-se para Marx pelo conjunto das suas rela- posta na geografia do Moira (sd) e n em a
ções sociais como o objeto se d e fi ne p elas s u as relações com o fun d a da em texto d e Espíndola (2001 ).
conjunto dos outros objetos, até ao infinito, inesgotavelmente. Na verdade, nem a cidade poderia cor-
responder a Moira e nem a Espíndola;
Há uma escolha de foco: o romance é centrado na cidade e desenvolve um e les não poderiam enxergar aquela que
jogo entre o público e o privado numa perpétua inclusão do público no doméstico estava sendo enunciada em Nolasco
e vice-versa , demonstrando que as vidas ocorrem em contextos de relações que Maciel, apesar de Espíndola datar de
levam ao reconhecimento necessário da existência de um conjunto. Na verdade, 1871. A linha de pensamento não exis-
-este tópico explora- Traços e Troças a partir de ~m~ expressão que colhemos em tia. A cidade almanaquista de Moira e
_!3Qnfim: senso de uso. E la é oportuna e leva de imediato ao senso de realidade. de Espíndola não corresponderia ao
Não se pode falar d a realidade sem que a fala se desdobre em razões do e sobre que era posto para a Maceió consoli-
.9 pod~er. E a o se responder as perguntas sob~e omund7> ap artir de que se fala dada. ~o.l_~sco Maciel traz a cidade dos
e sobre o que se fala, cada vez mais se radicaliza a consequência política. Tudo _trilhos e das pontes, por onde fluem
se envolve nas escolhas. Seriam as escolhas de Nolasco Maciel a repetição das .{ as gentes? mas também a sincronia do
realizadas até então? ' açúcar, couro e algodão. A articulação
O mesmo Bonfim menciona o surgimento de novos cartógrafos, numa ima- t.' do rural na econom\a fu"ilda o próprio
gem sobre falas agregadas sobre as cidades; a cartografia tra z um sen so carte- 1
surgimento da indústria e também a
siano, mas a nova cartografia rompe com esta noção de plano para entrar numa \. condição do urbano J 2006).
multiplicidade de dimensões que constroem um espaço absolutamente novo, à Nolasco Maciel usa do cot idiano
medida em que o s olhares novos vão sendo insinuados, postos e exercitados. não como rotina ou mero dia a dia,
Uma cidade é sempre o imponderável de sua finitude. Tal qual o historiador, o mas como conjunto de procedimentos
cronista recorta e sobre o recorte ele pauta seu plano de desvendamento ou de em face de uma rede de relações que
mi steriori.zação da cidad e. No que se teria situado Nolasco Maciel para fazer a demand a tipos d e respostas ao and a-
s u a crôn ica e o seu dep oimen to? mento do social que se realiza. Não
11:1
27
..t:fé4.t.C(~t•U:1 ~ '/1let -tl.t:t-H'P<"- ~01'.et-t ~?H• at:r.p(') t:f.'.)•

xlstir.in n cid a de sem o cotidia no que ce ntral railway, between J arngu ü. Ma a ncoram as s u macas, que não
lhe é in\ 1 l ntl. e que hdbilitd cJ.~ fala::., ceiô and Trapiche da Basrrn" <lizendo sobem pPla l\18goa aC'imll nelos
intt•rnçôes que se projetam no tex- tratar-se de um "I·.. ] considera ble ele- muitos baixos que encontram
to ü'llubelecendo propriedades coleti- ment of prosperity''. até defronte da mesma vila.
vw: t• condições particulares, Traços e Os _t_rjlhos virã9_ de razões eco-
/'111r <1 s nao caberia naquilo que iria ser nômicas, articulando a produção a se Trilhos e vapor
n M ; 1cc 10 de Félix de Lima Júnior, que escoar pela lagoa, condição que era
(1 111:ontra uma cidade de classe média, privilegiada no mínimo desde o sécu- Inicialmente, os trilhos que es-
í'Omo se pode ler, inclusive, em diver- lo XVIII. A famosa Ideia (1923; p. 50) tavam em função da possibilidade de
os textos constantes de antologia do da população, que data da década de comprar vapor vieram por intermédio
n 111ur preparada por Rocha (2001). setenta do século XVIll, esclarecia o da Companhia Baiana de Navegação.
termo trapiche associado à região la- Na Província, a Companhia atuaria na
/\ cidade: trilhos urbanos g unar que deveria articular-se ao fun- navegação da Manguaba e Mundaú
deadouro no a claramento de um quase e la n çaria os primeiros trilhos de a r-
Os trilhos urbanos já haviam pre- axioma urbano e posto na sua ordem ticulação da lagoa ao fundeadouro de
n r h ído a cidade com novos sentidos, econômica: Jaraguá, ligando a função intermediá-
dlt·rundo distâncias, refazendo o fisi- ria do Trapiche com a dos negócios de
~ '' " pela introdução da mobilidade em É a dita Alagoas toda navegável, \.exportação e, também, a do abasteci-
fh>Vél escala, o urbano e stava corres- em distância de sete léguas,
pondendo a maior velocidade, dinâmi- até o lugar do trapiche donde
en de vida, mesmo que fosse a passo de recebem as caixas, e mais
bu rro , mas com um sentido renovado gêneros que pela dita Alagoa
p11ru a ideia do transporte coletivo, do se transportam de donde em
omnibus no sentido literal de "para to- carros se conduzem uma
dos". Bebedouro e Poço aproximavam- légua por terra até o nnrin.
r- .~
nu
Ut} da Maceió, embora Pioca continu- Bahia chamada Jaraguá~_cle __ ir~; fd
11"se distante, com seu nome de indi-
gt·na indicando possível aldeamento e
povoação localizada a 18 km de Maceió
('WOl). A cidade tinha a necessária for-
'- ide integração, de emendar, de impe-
dir fragmentações. A Corografia escrita
por Joaquim Manoel de Macedo (1873;
p. 100) acentuava o papel da"[ ...] tbe
28
_i~ ~1-C de- ~~k

mento, que sempre esteve na ordem da A integração entre água-rio (natureza) e a futura água-vapor (tecnologia) em
chamada rniunça, coisa pequena. ~ breve estaria nas ruas da cidade de Maceió, e os trilhos do Trapiche para Jãra-

1!11
-
sistema de integração da economia ur-
-
guá teriam desvio para o centro, conforme informava Pereira Alencastre. Tudo
____.....
bana que..s.e.const-r-tüa, os-ttil.h.2s es_!a-
estava ligado pela Inglaterra e desta feita o material não havia chegado, razão
riam também _para_os-pobr--e&.- pela qual não estavam implantadas a navegação e a tram-way, algo bem menos
J oão -Francisco Duarte (1867; p. complexo do que uma ferrovia: um caminho de ferro, e ele não estaria fadado
1), no relatório que produziu quando da apenas ao que se relaciona ao transporte de mercadorias, sendo pensado, além
passagem do cargo para Antônio Morei- disso, para o transporte de passageiros. Era daí que o tram-way ao invés de
ra de Barros na Presidência da Provín- procurar reta para Jaraguá, fazia um desvio que demandaria o centro e que foi
cia, considerou o início da navegação no criticado pela Câmara de Maceió, desde que rumava pela Rua do Comércio e na
São Francisco como um fato de extrema ladeira do Palácio, área dorsal do sistema, como se a Câmara desejasse intocada
importância na área social e no campo a antiga rota dos carros de boi.
político e corresponderia ao que se as- Moreira de Barros (1868; p. 22), quando passa o governo para Prado Pi-
pirava como inovação. Disse·ele, dando mentel, comenta a situação desses empreendimentos. A navegação teria rota
o cenário da reedificação do espaço nos para Santa Luzia do Norte com escala em Coqueiro Seco e outra para Pilar,
meados do século XIX: com escala em Alagoas. A grande importância da navegação não se resumi-ª-
1 ao circuito da lagoa, pois se ampliava para os vales do Mundaú e do Param.a.
Este fato marca uma nova era ; A im_portânci~da tram-way erª-ª._ligação com o portQ e-ª--P.9ssibilidade d~­
nos fastos da província e cons- vir ao sítio urbano. Ele escreveu um pequeno texto , onde se tem a ênfase no
tituia de há muito a constante transporte de passageiros:
aspiração dos povos ribeiri-
nhos daquele majestoso rio. As O pequeno ramal que se inaugurou, conduziu cm um mês cerca
imensas vantagens que devem de quatro mil passageiros, deixando à Companhia um interesse,
sem dúvida resultar para oco- sujeito às despesas do custeio, de mais de um conto de réis. Mui-
lli11:l1
mércio e prosperidade desta to maior trânsito terá quando conseguir subir a ladeira e baldear
província da navegação fácil a carga entre esta Cidade e o porto de embarque, atualmente
sobre este rio que, alimenta- transportadas com grande custo e dispêndio.
!]li
do por inúmeros tributários,
banha lugares tão férteis e A navegação era instrumento considerado essencial para o desenvolvimen-
tão ri cos de produções vege- to e requisito para a recomposição econômica do espaço em função das águas, e
tais, reclamam a atenção do são elas que relocarão Maceió. O_grande projeto , segundo entendemos, CQO.sistia
governo, a fim de facilitar e em rearticular o espaço alagoano dando ênfase as aguas, mas se valorizava o
promover todos os seus me
lhornmcntos . -- -
sistema de rodMem, pêlo menus_na::Pre~l<l?nc1a de Moreira Barros, que reã!iZa
extenso comentnrio sobre a importância econômica das estradas.'-No entanto,
./..1:te4P"t.'f/t,e:r- e- m~~ '5xu/ie4-t ~ a~º~

l1 crnm as águas tanto dos rios quanto


das lagoas , d o oceano e d os p â n tanos
a á gua era caminho, as lagoa s , cami
n h os e das dariam a Maceió os tri
(, d e cxperiên cin, está lon ge de
chegnr 'l c:;eu t>'lt11gio sMisfató-
o o que pesava. lhos que demandavam a água do oce- rio. Diversas reclamações têm
o Nesse campo, Moreira Barros ano em faina basicamente açucareir0 aparecido na imprensa e com
•S nli ce rça a necessidade de informações e algodoeira. algum fundamento. Os vapo-
o pred s a s para pensar nos traçados e Vale a pena dar uma rápida res encalham com frequê ncia,
n kmbra que existe documentação ab- olhada nessa navegação, para ver o e em certas marés baixas as
e Rolu1amente errônea, como mapa que papel que Maceió já cristalizava como viagens prolongam-se de um
>i 1;olocava o Persinunga na posição de centro regional da área das lagoas. No modo fatigante para os pas-
a l'l1mnndaré (Pernambuco), enquanto ano de 1870, os trilhos entre o Trapi- sageiros. É da maior urgência
a o burra do São Francisco era lança- che da Barra e Jaraguá mediam cerca que se realizem os melhora-
d a na s cercanias de Aracaju. Morei- de quatro milhas e meia e trabalhava- mentos seguintes.
l- s e com duas locomotivas, dois vagões A escavação e remoção das
m Ba rros (1867 ; p . 12) argumentava
a c:L1~11~ as estradas deveriam ser colo- para passageiros e seis de carga. Ha areias em divers os lugares, ou
r! udus em função dos eixos centrais via, no entanto, sido celebrado con- substituição dos vapores por

ª
t.
de! 11avegação, que seriam as lagoas
~lnuguaba e Mundaú, bem como o ri_?
trato com a Pernambucana para re-
alizar também serviços de navegação
outros de menor calado, evi-
tando-se quando for possível o
·- cli~ Sf,o Francisco. Fosse como fosse, na lagoa e em 1874, segundo relató- reboque das alvarengas por va-
o rio do Minis tro Pereira Júnior (1875 ; pores que conduzem passagei-
p. 62), o c ontrato e stava com Hugh ros , e cuja marc ha se retarda
Wilson. Figueiredo Júnior (1870; p. por este motivo.
H 73) comentou: Cõmodos indis pensáveis para
... o embarque e desembarque
1- Contratada em 1866 e come- de passageiros ou em certos
r çada em 1868, a navegação da pontos da escala, onde eles
e lagoa, ainda depois de um ano possam abrigar-se, e se
acondicionem as cargas.
Meios que garantam os gêneros
transportados nas alvarengas,
e de modo que eles se não
,. deteriorem, nem diminuam de
n quantidade em consequência
li da baldeação ou das águas
•• pluviais .
~o
/..~ ~~ de- ~uk

Hugh Wilson teria recebido autorização da Baiana para a exploração da A embarcação de maior porte era
navegação na Manguaba e na Mundaú e não teria providenciado a troca de Jaraguá, comportando cerca de 150
duas embarcações: Alagoano e Itaparica. Figueiredo Júnior considerava que passageiros, 1/3 dos quais seriam de
Wilson estava trabalhando pressionado financeiramente. Com a respon sabi- proa; seguia-se o Alagoano com capaci-
lidade da Empresa da Estrada de Ferro Central, foram comprados dois novos dade para 80 passageiros. O Manguaba
barcos, remontado o trapiche tanto em Maceió quanto no Pilar. Possivelmente poderia transportar 80 e, finalmente, o
era grande o tráfego na lagoa, como se pode verificar de dados publicados por Leopoldina chegava a 30, conforme da-
Silva (1876; p. 71). dos do Ministro Henrique d 'Ávila. Ha-
Para que se tenha uma ideia da importância do Pilar como pon to de via demanda por serviço e a integração
afunilamento da produção para Maceió, de 1 ºde setembro de 1874 a 31 de já levantava para Maceió o contexto efe-
dezembro de 1875 circularam pelo trapiche cerca de 5.744 sacos de açúcar, tivo de uma central de serviços.
3.825 de algodão, 1.574 couros, para falar, tão somente, das mercadorias
que seriam centrais na pauta de exportação provincial. Do semestre de ju- Um pouco da déc ada de
lho a dezembro de 1871 aos mesmos meses de 1875, teve-se o registro de cinquenta
transporte de 23.808 passageiros com uma razão de 2.645 passageiros por
semestre, com um resultado de 4:775$284 semestrais por passageiros e Os sinais de reacomodação de
14:294$554 de carga. Maceió na década de 50 do século XIX
A série histórica revela algo interessante, quando comparamos os dados são efetivos, como se tem no abasteci-
do crescimento do número de passageiros e dos valores arrecadados com as mento d'água. A questão do Canal da
passagens, na medida em que levamos em consideração um índice com base no Levada contin uava, mas já estava rela-
semestre de julho a dezembro de 1871. A arrecad ação cai sem recuperação; o cionada, também, à existência do edifi-
número de passageiros cai mas recupera-se. O que teria acontecido? Já os dados cio do mercado por volta do começo da
de carga são dispostos de modo completamente diferente. Não há uma sincroni- década. Maceió estava ainda no deba-
zação efetiva entre eles. Pelo texto de Ferreira Jacobina (1881: p. 50), o tráfego te sobre suas águas, mas elas passa-
ainda continuava sendo realizado entre o Trapiche da Barra e o Pilar, tendo vam nitidamente por urna articulação
escala em Alagoas. Haviam sido transportados 8.362 passageiros, com 12.838 territorial e não eram somente volta-
volumes de importação e 69.449 de exportação, sendo considerada uma empresa das para o externo, parecendo que ga-
deficitária e que, no fundo, dependia da subvenção oficial. nhava em complexidade a questão do
Todos os direitos e obrigações haviam sido transferidos para o Comendador abas tecirnen to.
Manoel Joaquim da Silva Leão. Relatório do Ministro do Império Manoel Alves Não era somente a saída das
de Araújo dizia que o Norte tinha um movimento comercial que era considerado mercadorias em direção a Jaraguá,
como insignificante. A navegação estava sendo realizada pelos vapores Leopoldi- mas a ida dos gêneros, também, para
na e Manguaba, além do Alagoano, cuja finalidade era basicamente a de reboque sustentação do processo urbano. José
de lanchas e chatas. Bento da Cunha Figueiredo encar-
~/
.J..t:(&/l,d/(f/Vt,Ç!!, e- P!""'tl""'n.-~ <;:ooin.I ~n-t Úl<"9"'-''.J

ra na esta perspectiva de construção de nal existente realizando a desobstru- no que se chamou de nova bacia da
'íO l1ma malha urbana, quando esteve ção ou, então, traçar nova linha saindo Lt>vada com o que não concordou a
le ocupando a Presidência da Província. da Lagoa do Norte em direção de área Câmara Municipal, taxando os traba-
;i- 10:. le destaca primeiro a cidade para de- situada nos fundos da cadeia pública. lhos de inúteis, e considerando que
>a pois falar na exportação ao se referir A partir daí, deveria tomar a direção seria melhor recuperar o que se en-
o lts lagoas: leste, portanto, pretendendo-se comu- contrava feito.
a- nicação com o mar, em rasgo leste- Como resultado de todo o pro-
a- É por esta via da comunicação oeste. Ao lado das intenções sempre, cesso, a Presidência mandou fechar
lO das duas grandes lagoas do também, falava-se das dificuldades uma vala que havia sido aberta (1853).
e Norte e Sul, que entram todos de manutenção, como se tem em in- Perduraria a dúvida quanto ao traça-
os viveres que abastecem a ca- formação dada no ano de 1851 pelo do, conforme se encontra em relatório
pital, e também todos os ma- mencionado Presidente (1851; p. 17) o de Francisco Primo de Souza Aguiar,
teriais de edificação, e mesmo canal estava obstruído, dentre outros Capitão dos Engenheiros, apresenta-
não pequeno número de sacas pontos, supomos, pela não preserva- do ao Presidente da Província. Está
de algodão, e sacos de açúcar ção das margens. apenso à Fala de José Antônio Saraiva
:le que vêm dos engenhos situa- Para desembaraçar, foram mo- (1854) pronunciada perante a Assem-

,, ,
IX dos à margem das menciona- bilizados índios de Atalaia, num pro- bleia Provincial no dia 20 de fevereiro
'1 -
das lagoas. cedimento comum da exploração da de 1854. ~ ~·
:la mão d e obra indígena. No sentido da ,,. ...
a- Nunca esteve claro o que se fazer ligação urbana, a Pres idência pensava
li- co111 as águas da Levada, mas sempre em canal traçado em linha reta, com
:la fl:> 1.1m tidas e havidas como importan- paredões e arborização das margens;
a- t cs. Elas, de certa forma, correspon- considerava que as providências que
o- lium a uma pergunta sobre os brejos, haviam sido determinadas diminui-
flo .i1 aguas que jamais poderiam ser en- riam os custos em torno de um terço.
o- 11·11didas sem o mefitico e a argumen- Obras estavam para serem realizadas
:a ucno central do miasma. O traçado
cio tlcmpre foi discutido, os gastos com
m.11mtenção também, mas a necessi-
ns dntlt• da obra sempre foi argumentada
11·1, no duplo significado de abastecimento
rn e exportação .
.:u~ É assim que Cunha Figueiredo
&1 - dir1u da possibilidade de manter oca-
32
~~ ~io de, ~eA,dcr,

O relatório é importante para que diano praticamente no local específico de mercado. Souza Aguiar concebia que
se verifique o complexo ideológico da a área seria ocupada e que deveriam ser estabelecidas regras de alinhamento
cidade em construção e seu discurso. (1854; p. 20):
Obrigatoriamente, ele teria que falar
de água e do canal da Levada, mas o Assim os alinhamentos para edificação nos lados do mesmo ca-
fez de modo a tratar da articulação da nal deveriam ser logo assentados de modo, que ficasse em cada
área de formação da cidade que se es- um destes uma larga faixa de terreno, que permitisse a plantação
tava esclarecendo àquela altura do pro- de alamedas, suficientemente espaçadas para entre si deixarem
cesso histórico. A obra do canal, além cômodas passagens, e para que até se pudesse no futuro cons- 1
de ter a significação econômica, estaria truir um pequeno ca minho férreo desde a beira da lagoa até o 1
proporcion ando novo espaço urba no . A centro da cid ad e, pa ra por e le virem os objetos trazidos em, bar-
opiniã o do Capitão dos Engenheiros era caça, que por demanda rem muita água não tive ssem entrada no
simples: deveria ser mantido o traçado canal, e fossem desembarcar em a lgum ponto à beira da lagoa,
original, suavizando curvas, evitando próximo da emboca dura do mesmo canal, onde se faria um con-
abrir nova vala (1837: p. 12)3. A novi- veniente cais.
dade é que o canal deveria estar articu-
lado com o Mercado Público4 , que havia Como se pode verificar, era o toc1o de uma cidade que estava sendo pen-
sido entregue para uso. O canal pararia sado, articulado;.. g m novo e desej ~.çlo espaço e~tava sendo posto em evid"ênêia.
em linha com a praça do mercado pela Era como se dava com a discussão sobre o que fazer com as águas do riach o
formação de uma bacia e, posterior- Jacarecica, havendo a proposta de canalização em diretura à vinda pela baixa
mente, poderia ser continuado, sendo da costa, indo encontrar-se com o Maceió após unir o Brejo do Poço, Rego da Pi-
levado à baixa do riacho Maceió5 . Aliás,
as águas do Maceió irão, na década de
tanga e dissecar pântanos. Lidar com as águas era essencial; seria transformar
---- -- --
,obstáculos à ocupação em vantagens. A própria emq2çadura do Mac_:ió chegou
--
setenta, ameaçar os alicerces da Enfer- a ser discutida, falando-se em mudança de curso no ano de 1845, conforme ~
maria Militar. lê em Lisboa [1845; 1'_,_24L.., - -
Estrategicamente, a bacia seria Sá e Albuquerque menciona as indecisões quanto à construção do canal
fundamen tal em diversos níveis e, do da Ponta Grossa (1855; p. 25). Na sua opinião, nada poderia ser feito sem que
ponto de vista do canal, concentrando houvesse limpeza automática realizada pela cor renteza; ele achava impossível,
as operações de embarque e desem- e , então, conclui que se ficaria com o encargo permanente de conservação e
barque, livrar ia as margens de desgas- limpeza. O que apare n ta sere m vacilações n as decisões implica que s e e stu-
te. Por outro lado, estaria próxima do dava intervenções na cidade, que se buscavam racionalizações sobre o urba110
contexto da cida de, acelerando a dis- em --estrutur ação . E stamos d iarrte de uma pergun ta ce~tral: como deveríamos
tribuiçã o de mercad orias p ara o porto ser Maceió? Evidentemente, estava a respoStasendo p osta n a c ontrapartia:aaa
e deixa ndo as do a bastecimen to coti- con strução d e u ma expressão senho rial.

i
J...vte-i.t:i/t~t:t- e, 'Pl«kn,~ >o0(ll U1'\. ª~º"""

a que lJ m dos motivos do canal do Jaca - problema pa ra uma cida de con sidera da a s eguir em canos de ba rro, m a nilhas.
ncnto H'Ul t riét a navegação, t..omunk;ando populosa e civilizada. Esta qualificq Estava sendo dado sen tido operacional
1~ h l 11 dt• <:om sua área norte em dire- ção refere ao tamanho e à qualidade de à disposição de Lei de 1845 que auto-
~l\O u P1ocn . Souza Aguiar ao comentar, vida, parecendo levar à proposição de rizava a formação de companhia e de
10 ca - 1n0rtt~ 101m outra possibilidade: utilizar que o sítio se encontrava construído em gastos preliminares com estudos per-
1 cada iHl&'ü 11 nbustecimento d'água da capi- definição da vida em sua área, mas era tinentes (1849). Também neste abaste-
nação 1nl , Ek considera não haver razão para esclarecido que se precisava montar um cimento d'água, tem-se diversas alter-
xarem rw i 11 ve~ l i r na obra por dois motivos novo padrão de vida para a população. nativas em estudo, apesar da primazia
cons- dl !erc11lcs; a área demoraria a ser ha- O abastecimento seria fundamental e dada à Bebedouro, pois se falava, como
até o hiludu " o a bastecimento se faria mais se trataria de encanar as águas do rio vimos, de Jacarecica, mas também de
1. bar- f(11~í l 1wto Bebedouro. O importante é Bebedouro. A primeira opção teria sido Fernão Velho e Remédios, áreas bem
1da no uue 11111 lodo estava sendo pensado e o Riacho do Cardoso, mas a exploração mais distantes da cidade a serem in-
hgoa. otuçór-!'. procura das para ele, soluções mostrou que não poderia ser utiliza do. corporadas na discussão do urbano.
n con - dti i1111~ wnção de áreas. É quando as atenções voltam-se para o Não haveria receio de incluir ma-
gm 1850, a deficiência no abaste- Riacho Luiz Silva, explorado seu terre- nanciais distantes , havendo a prudên-
( huento, o fato de que Maceió era insa- no em cerca de 3.144 braças, demons- cia de ponderá-los. Bebedouro seria
' pen- luhn• lcvnva a um comentário do Pre~ trando que sua nascente estava acima a escolha, apesar da necessidade de
•ncia. nte da Província (1850; p. 16): era de Maceió cerca de 120 palmos. bombear as águas, sinal de que, inclu-
acho Basicamente duas soluções são sive, as encostas ou áreas altas de Ma-
baixa postas para fazer a água de Bebedouro ceió sequer eram consideradas como
ela Pi- chegar a Maceió. A primeira seria esta- parte da cidade. Cidade seria a parte
>rmar belecer uma direção e lançar os canos baixa. A necessidade de bombea r po-
·1egou de ferro que iriam da nascente à cidade deria ser suprida por um outro braço
me se e a segunda, menos onerosa, condu- do rio Bebedouro.
zir a água através de levadas para uma A construção de um cemitério (FI-
<'a nal caixa de coleta em Bebedouro, fazendo- GUEIREDO: 1850; p. 31) extramuros
11 que serve também como demonstração da
1sível, mudança que se efetiva no modo de
<..'ão e perceber Maceió. Estava sendo pro-
1·stu- curado local para a construção de um
rl>nno campo santo e que respondesse quan-
ilffiOS to ao solo, ventos e localização, pois
di.l d a deveria estar em área a ser atingida pe-
los ventos após passarem pela cidade.
.3'1
j_~ ~ de- ak-uk

Com fundamentos em princípios em que estaria o miasma praticamente como estava em discussão e em construçã o.
a preocupação condutora, dois pontos foram colocados em evidência: chapada Precisava de água, abastecimentQ, in-
na área da Cambona e em margem de estrada em diretura ao Trapiche da Barra. terligação e precisava de iluminçi.ção,
É interessante verificar o texto do relatório de Cunha e Figueiredo (1850; p. dar segurança às suas noites. Precisa-
~' 11! ~ 16) que trata do tema, pois nos fornece uma visã o do que poderia ser considera- va calçar-se e, ao mencionar l~s a
1 da área afastada de Maceió. Um dos pontos estava a uma distância de oitocentas demandar calçamento, sem dúvida se
111 1(1 braças de Maceió , à margem da estrada que ligava ao que era enfatizava pontos de relevo como a la-
ir 11
111,
chamado de pequeno povoado do Tra piche da Barra. Era uma área con- deira do Algarve mencionada em 1845;

,,ili~
siderada de novo aluvião com areia granitosa; não comportava densa vegeta- tudo a pontava para a integração de ar-
ção e não faz o texto qualquer indicação sobre a ocupação. Ele fala - a outra térias, como o beco rasgado e ligando a
opção - na área da Cambona e que ficaria também em torno de oitocen tas Rua do Comércio à Boa Vista.

1
lli1 braças da cidade. Era uma cidade que providencia-
É importante ver como era escrita a paisagem: va pontes estratégicas como a de Be-
bedouro e como a do Riacho Maceió.
Os mirrados a rbúsculos e ervas agrestes, que ai vegetam atestam Aliás, a argumentação para ambas era
a esterilidade do solo [... ] Sobre a ma rgem esquerda da estrada da uma só: contornar os problemas rela -
Cambona, no interior de diversos sítios e xistem variadas fontes cionados com as marés. O Poço estava
que abastecem de água potável aos habitantes de Maceió. Uma sendo articulado e tinha-se a Ponte do
espécie de grota, formada talvez pelas águas das enxurradas, e Poço que havia começado a ser cons-
depois levada a ponto de servir de caminho pelas pessoas que truída em 1853, agora ameaçada pelas
transitam por esses lugares, conduz o caminhante em plano forças das águas, sendo recomendada
inclinado cercado de paredões[ .. . ] da base à esplanada do monte. a construção de uma nova. A ponte do
Riacho Maceió era considerada nõeei1="
A primeira pedra seria lançada por Sobral Pinto; havia a crítica de que o tfo da cidade e carecia de ~ re~s-
cemitério ficava longe da cidade e, assim, Cunha e Figueiredo achava convenien-
-- ------
truída. Pelas determinações de Sá e Al-
te repensar a localização e achava que ele deveria ser construído com dinheiro buquerqu~ deveria ~~rvÚ·- par" ãafõinlo-
alocado pelas confrarias; elas deveriam ser financiadas pelo governo, havendo o s eamen to da rua Õrlcie se encont;ãV'ã e
reembolso a partir dos rendimentos provenientes dos funerais. Há investimento deveria ser edificada com todos os cui-
~l i na área e, para que se note o tamanho, estavam construídas 274 catacumbas,
198 com recursos da província e o restante com dinheiro das confrarias. Deve-
dados. Na verdade era uma espécie de
solen e entrada leste e simbolicamente
1 ria ser uma área d esvalorizada, mas ao ser colocada para a compra, foi cobrado atravessava um riacho.
cerca de 1$500 por palmo, o que foi considerado exorbitan te. A necessidade de calçar estava de
i1 ·~-= A cidade precisava organizar-se para víver e wra morrer. A grande perso- tal forma estabelecida que se destinou
~gem-de Nolasco, aquela- cid.§lde Cllle t~m U...!!1 pr~esso social ~e ele aflora, para ta nto os recursos oriundos da ex
~::;

.1..-tte--z,çi;(~ e,, J'11«kn,Pt:Jt- >ooi-~t ~" ~()~

ção. plornçõo do mercado; a Rua do Comér- Acham- se levantadas as pare- estado adiantado e ressalta a beleza
lll-
1·iü h r1via começado a ser trntada com o des externas de todo o edifício, do prédio edificado Diz Cunha Fi -
ção, t!itll1i11w da Mac Adam: foram 120 pal- assim como a arcada interior gueiredo (1851; p. 19):
isa- llll Hl ~ 421 palmos de valetas, mas o até o meio da sua altura; a ca-
1s a ll'f1b11lho havia ficado defeituoso. Nes- pela mor principiada, prepara- Do lado da ribanceira já exis-
l se f'ott lexto diria Sá e Albuquerque: das as pedras das soleiras das tia um pequeno terreno de pro-
1 la- portas da frente , e encostada priedade municipal: 1... ) as-
HS; O calçamento das ruas é uma ao lado do edifício a maior par- sentei de mandar comprar as
·ar- necessidade palpitante nesta te da madeira da coberta. casinhas [... ) para ai edificar
fo a Capital, aonde as escavações 1- .. ] entre as ladeiras do Algar-
de u m as e os areais de outras Um outro mar co era a Ass em- ve e do Comandante Superior
cia- tornam in cômodo e mesmo bleia e tamb ém a Tesour aria Pro- Mendonça, com espaço sufi-
Be- arriscado o trânsito. 1 ) As- vincial, edificações no mesmo es - ciente para formar-se um pe-
·eió. sim, é o meu voto que, depois paço da Matriz e que ficava entre queno passeio público, onde os
era de tirada a planta do nivela- o Algarve e a Rua do Comandante habitantes desta cidade pode-
ela mento da cidade, sejam me- Superior Mendonça. Ao comentar so- rão entreter as vis tas nas ho-
lava lhoradas com a terros, escava - bre a construção do Palacet e da As - ras de distração 1... ].
e do ções e valetas laterais de al- sem bleia e da Tesour aria Provinc ia l ,
ms- venaria para esgoto das águas Cunha Figueiredo nos dá um outro
elas as ruas que mais precisarem depoimento sobre a cidade de 1851,
ada destes reparos.(ALBUQUER- ao mencionar p r oblemas que teve n a
r do QUE: 1856; p. 26) determinação do local da edific ação
~·en­
no que chama de uma cidade nova e
ms- Edificações que poderiam s er muit o falhada. A sua escolha levou'."::;;;i-'*"
• AI- •<'•Jt1 -i1deradas marco estavam sendo o edifício para o Largo da M~triz . e
mo- t'IJ!ll Juídas ou p ensadas, como é o caso Sobra l Pinto anuncia que estava em.:}J;,&=ze_:_~
va e 1;10 mercado, d a m atriz cuja obra esta-
c-ui- vt1 c·m andamento, tendo parado em
1• de 1•nz 10 da morte do missionário Frei Eu-
l' nte NHo de Salles 6 • Os trabalhos foram
i-elomados p or ordem presidencial e às
11 de rustas do cofre provincia l, à espera de
llOU verba de loteria. Diz a presidência de
1 t'X S& <'Albuquerque (1856 : p. 11).
36
;_~ ~de- airn-u ck-

A edificação sofre por erosão de É desta época que surge o que vamos considerar como o ..Primeiro grande
terreno, obrigando a que se realizas clássico sobre Maceió. Já não se trata de um almanaquismo do tipo de Moura,
sem novas obras para proteção. A mu- mas da fundamentação do que poderíamos chamar de geografia médica, em que
ralha mantida para segurar o aterro o espaço será estudado a partir de uma categoria central da medicina hipocráti-
realizado foi aberta - em seus dois ân- ca: o miasma. Seu título caracteriza que se trata de uma topografia e ela traba-
gulos - pelas águas da chuva e era lhará com os fatores físicos e médicos, numa demonstração de que o ambiente
necessário dar proteção tanto ao pré- estará em relevo, como se os elementos básicos de Hipócrates encontrassem os
dio quanto aos transeuntes. Por outro alagados de um nosso riacho, de onde brotaria o nome do lugar, apropriado até
lado, o término do edificio do hospital mesmo para as partes altas, simbolizadas pela subida da Algarve.
era saudado como inclusão civilizató- Avelino Pinho (1855) estava preocupado com a ideia de higiene pública e
ria, esperando-se pela construção da é disto que se desenvolve seu texto hipocrático no qual elementos como efiú
obra ainda no ano de 1855. Era mais vios, miasma, mefiticos e outros tantos pontuam a vida dos povos. Avelino Pinho
um ma r co da urbanização , da mesma constrói o caminho de uma etnografia em busca Qé! saúde. O primeiro capí ~lo
forma que seriam as modificações re- é sobre o miasma e seu lugar privile_giado: a Levada. Seu argumento de base é
alizadas no prédio do Quartel de 1a simples: Maceió foi construída em um local indevido e nunca houve qJJalquer
Linha. Naquela quadra das transfor- preocupação com os princípios da higiene pública.
mações urbanas, a Câmara pronun- Pelo que se observa, era tempo de pensar o que realizar, o que fazer
ciava -se listando o que seria básico para modificar o quadro de uma cidade imprensada por uma legião de pân
em 1855, segundo Sá e Albuquerque tanos e por uma elevação contra a qual se quebram os ventos do quadran te
(1885: p. 36): do norte. A situação fisica aliada às estações do inverno e verão originavam
uma fragilidade estrutural da cidade perante as doenças. Praticamente, a seu
As principais necessidades ver, Maceió era meio de cultura para o miasma. Como os ventos não podiam
deste Município são: um ou- prosseguir, o miasma seguia para as ruas e para as casas. Existia um cer
tro lanço da cadeira, encana- co aquático e um morro a impedir que o maléfico escorresse da cidade parn
mento d'água potável, aber- outros locais, difundindo-se sem concentrar-se. Para e le , Maceió era umu
tura da estrada que da rua extensa área de pântanos entre pontos arenosos. Ele traça uma espécie d<·
S. José vai ter ao poço, deso- semicírculo, a começar do Poço, prosseguindo para encontrar o Trapiche da
bstrução do Canal da Ponta Barra e dai para os lados da Cambona. A noroeste estava a Lagoa Mundau
Grossa, plantação de árvo- com sua lama a ser revirada por ventos de origem Sul durante o inverno e
res nas praças e subúrbios , Norte no verão.
trans ferência do mata douro No fundo, considerava que Maceió era a ca ldeira do mefitico Isto significa quC'
público para o lugar da Ponta obrigatoriamente éramos uma população doente, envenenada, permanenteme nt1
Grossa, [... J, maior número de pronta para a endemia e o pestilencial. No inverno, Maceió estava exposto de modo
lampiões 1... ]. mais denso aos efeitos do miasma. Avelino Pinho cria uma expressão de inten so
~
~-vte/t,~fN't,()I, e- '1'>1«-kn,prt- >o~1:1l t::rk- ª~()~

lt• 1hul'1 r11_1 folar do poder maximizando excessivamente úmida durante na, em face da circulação do ar. Acida-
!l, u1 r f1__•itos do fo:nc.::o. vivia-se um bizarro
0
o inverno, a imprópria direção de haviq crescido de modo espantoso
IC lmw 1"k· clt-sleixo. Em sua tese, o modo das ruas I·.. ] relativamente aos para utilizar suas próprias palavras.
1- 1lí1 ur l;l/.t>r a cidade maximizava as ventos e ao sol 1... ] reúne-se a Pântanos estavam sendo dissecados
.l - 1 q1 wncias da doença sobre a essa profusão de monturos, de por aterros, como do Marinho, Água
te l1!Jill:1L'C.~I()' lixos e de substâncias orgânica Negra, Ponta Grossa. Habitações eram
)$ em putrefação 1... J; a completa construídas ou as áreas serviam para
lé Há um alinhamento vicioso ausência dos meios apropriados a p lantação de capim, coqueiros, legu-
que dá às casas a forma cônica para se fazerem os esgotos e os mes. Pela sua estimativa, um quarto
e e enviesada, que lhes veda o despejos; o imperdoável erro das áreas pantanosas havia sido re-
1- acesso dum ar frequentemente que levou a municipalidade, cuperado. Com esta condição, era de
lO renovado, que impede que a luz a mandar fechar, com formas esperar que baixasse o perigo do mias-
lo solar seja difundida em seus de casas, os quintais das que ma, o que não havia ocorrido, como se
é repartimentos, que transforma estão na falda do monte; e como poderia verificar nas epidemias e nas
er uma casa que deveria ser se todas as causas apontadas febres consideradas intermitentes. Ar-
sadia, n'uma casa doentia, não fossem suficientes, manda- gumenta que se há melhoria com rela-
er e que ou é excessivamente se cavar uma levada no meio de ção às intermitentes, tudo é devido ao
1- quente durante o verão, ou dois pântanos (... ] sem prévio avanço do conhecimento médico e do
te estudo gráfico e higiênico, e que pronto tratamento que se verifica.
rn as leis da hidráulica fossem de Avelino Pinho afirmava que a
:u modo algum aplicadas! (PINHO: dissecação dos pântanos, que era be-
m 1855; p. Sl -3) néfica, batia na incúria dos homens,
1- sendo, então, agentes do miasma. O
ra Uma porção da cidade que con- homem era um construtor de foco e o
la sidera prejudicada era composta pelas autor passa a chamar atenção para a
te ruas do Sol, Comércio e pela Cambo- Levada, onde se tinha cheiro pútrido,
la imundo. Escreve Avelino Pinho:
1LI
e Além das matérias próprias aos
pântanos, os canoeiros, que a
IC percorrem, se encarregam de
l (! lançar dentro dela o despojo
ln de suas canoas (... ); tudo vai
so se transformando em miasma,
38
~~ ~ de, atrn_uk

[... ) representam uma espantosa proporção de produtos tóxicos. A ponte sobre o Maceió continu-
(PlNHO: 1855; 1855; p. Sl-3) ava com problemas, e era considerada
como a ligação fundamental entre a
O Canal da Levada era visto como um problema para a saúde pública; ali- chamada cidade a lta e Jaraguá; uma
111111
ás, Avelino Pinho é duro com o que chama de fabricadores da Levada. Critica o nova construção era pensada e Sá e
abastecimento d'água no entorno da colina e dos pântanos da Cambona e vai Albuquerque comentava: "Na planta
terminando seu discurso no sentido de refazer Maceió. Era preciso transformar deu-se à ponte maior largura e nova di-
Maceió, buscar a salubridade, melhorar a saúde, aumentar a média de vida. A reção, guardando-se o alinhamento da
cidade deveria mudar e este era mais um braço que funda o que Pedro Nolasco Rua do Algarve" ( 1856: p. 24). A liga-
Maciel irá encontrar quando a faz personagem essencial de seu romance. Ǫ<Lçom Jaraguá deve ter levado ao
Avelino Pinho era mais uma voz a pedir transformação, dentro de um con - crescimento da área portuária e estava
junto de situações articulado na década de 50 do século XIX e gentes iriam recebendo um beneficio que era do in-
corresponder às mudanças que estavam sendo discutidas e levadas a efeito. A teresse do comércio: calçamento.
cidade incorporava com maior densidade uma porção territorial, com a constru- Tomava-se providência para es-
ção da chamada Estrada do Farol, facilitando o trânsito, apesar dos riscos de trada que ligasse Jaraguá a Manga-
111 'l!ll con strução em fase de quase inverno, descida de águas torrencialmente, ainda beiras, visando, dentre outros pontos,
segundo Sá e Albuquerque (1856: p. 22). acelerar o ingresso de mercadorias vin-
A Matriz de Maceió continuava sendo construída e ela deveria ser uma das do Norte. Além do mais , era dito
das grandes representações arquitetônicas do poder, junto à Assembleia e que em Mangabeiras havia casas de
Tesouraria Provincial, que ainda mantinha problema na muralha de susten- campo elegantes e espaçosas. Nessa

~1111 tação. Novos marcos estavam sendo consignados, como um palácio e o ma-
tadouro; coisas aparentemente díspares, mas que implicavam o mesmo mote
de fazer a cidade.
mesma área havia a estrada do Poço,
sinal de que a parte do litoral norte
começava a dar sinais de ocupação de
O matadouro7 estava pensado para as margens da lagoa, em virtude da território e que deveria ser afunilada,
disponibilidade de água, pasto, manutenção de higiene. A Presidência esperava também, para o porto. Em 1859, a

,l~r
construir em linha reta uma estrada que ligasse a Rua do Livramento ao novo estrada que saía da Algarves para Ja-
matadouro. Soma ndo mais argumentos quanto à ideia prevalecente de estrutu- carecica estava pronta; faltava apenas
1

ração de um território urbano, Sá e Albuquerque (1856; p. 22) escreveu: um quinto das duas léguas que a for-
mavam; tinha 40 palmos de largura.
Reconhecendo que as praças públicas atualmente existentes [... J No ano de 1858, era tratada a
além de irregulares, são pequenas, e que no futuro a falta de uma questão da iluminação pública. Fala-
1
praça regular e espaçosa será sentida, resolvi mandar abrir na va-se em 100 lampiões considerados
11! 111,
,~, direção da nova estrada uma praça de cem braças em quadro, insuficientes para uma população total
que seja cortada no centro pela linha diretriz da estrada. de cerca de 10.000 almas. Estes lam-
~vttnt:i/t'f/Vl.;e;t- e- m1A~p<l- >o0at em- ~ocr->·

1tihêB dc>veriam estar em redondezas de mudanças em Maceió equivaliam ao de mudova e também a conjunturn da
tllü t\, llliJ (AMARAL. 1858, p. 12). Es- surgimento, inclusive, da população forç8 de trabalho· neste c;entido em
Wn cmm a necessidades apresentadas de que Pedro Nolasco Maciel irá tratar todas as suas entrelinhas, Traços e
prln municipalidade: e, por consequência de uma malha de Troças demonstra o horizonte da po-
relações que irá aparecer em Traços e breza e de uma cidade onde não se
[... J encanamento de água potá- Troças. A materialidade de uma cidade fala de escravos.
vel, [... ],abertura de estradas, corresponde a tipos de relações. Evi- Não seria forçado a firmar que a
a conclusão dos dois lanços da dentemente, não está sendo proposta década de cinquenta expressava mu-
cadeia, [... )a limpeza do riacho qualquer e~écie de regra de três, mas danças em direção ao capital, mon-
Bebedouro, o melhoramento simplesmente está sendo colocado que tando-se um campo de serviços cen-
do Canal da Ponta Grossa, a mudanças em sua economia equiva- tral para uma economia agroexpor-
segura nça da muralha do pa- lem a ajustes em uma série de fatores, tadora. Este campo de serviços está
lacete desta Assembleia, o cal- 'ComO,põr exemplo, os tipos políticos". em Nolasco, no Traços e Troças, o que
çamento da área do passeio, o os atores no próE_rio cotidj_ano. não transparecia em A Filha do Barão.
aterro da estrada do Poço até ~eió :e_oderia ser definida como A escravidão entra no primeiro texto
o lugar denominado Mangabei- um processo~ algo em permanente como representação em um brinque-
ras ou Cruz das Almas, o des- construção e, em torno de trinta anos do: o Quilombo. Aliás, Theo Brandão
secamento dos pântanos da após <:.._início da década _d_e 50 do sé- (1955) já citava Traço$ .~ Tr~,,m ar-
Boca de Maceió, o calçamento culo XIX, come_ça o quad!:o do roman- ' ...,, J .1!'tt ntS.>11: -~
das principais ruas, a planta- ce de Nolasco, sem qualquer dúvida d''
ção de árvores nas praças, o numa cidade pós -abolição, pós 1~88 ,
aumento da iluminação, a ere- enquanto A Filha do Barão estava
ção de mais alguns edificios plotado na escravidão. ~olasco capta
públicos no outeiro do Farol doi§_!P.omento§_diferente_s da socieda-
[... ]. (AMARAL: 1858; p. 31) de al~oana. Trw;os e Troças caminh a
no sentido de n-o vas tensões. Acida-
Uma passagem para o s fins do
16aulo XIX

l~stamos diante de um fato bási-


t"nqunnto a cidade se transforma-
nuvos atores sociais estariam em
I"• quando surge, então, a catego-
politi"ca dos filhos do trabalho. As
1-0 , \ 'l"lt-
J..~ >&.v-i:o ~ ~k

tigo publicado no Diário de Notícias, derasse a hipótese de um empréstimo provincial ou constituição de empresa
Rio de Janeiro, sinal de que o texto era particular. Continuaria em estudos no ano de 1864 (MELLO: 1864); neste ano
do seu conhecimento e do Diégues, o seria assinado o contrato~ sendo privilegiados doi_s locais: Jaraguá e ~s.
--- -
que se infere pelo jornal onde a matéria Na §;reado centro, falava-se em chafariz para aguada e na Praça dos Martírios
foi publicada. duas torneiras na caixa. Ainda era água a ser apanhada, o que se relacionava

- A Maceió enfocada por Pedro ao antigo escravo. Há denúncia de que as obras se arrastavam.
-----
Nolasco Maciel vai perdendo pouco a Uma outra área estaria sendo trabalhada e isto significava integração ter-
..,P.Ouço a característica escravista for- ritorial: a da lagoa do Poço, sendo construído um canal para dar vazão às suas
mal para ir ganhando "-ãs conotações águas (PIMENTEL: 1866; p. 22) e ajudando a dessecar os pântanos. Em g!:§!_n~
,. do capital; cada vez mais ela funda-se ; ~parte, Maceió montará ~eg_ ten:itório acabando com_p_ântanos. Procurará ajustar
em serviço e seu _po:to drena a maior ~ a sua região básica às necessidades que forem surgindo, juntando porções _t~rri­
parte da produção. Esse processo apa- .' toriais e fortalecendo dois grandes centros de serviço: a parte central de Maceió e
ilil rece em um trecho significativ9 e_ quase ( Jaraguá. É possível pensar na importância da Rua do Comércio. Em 1871, seus
mórbido do Presidente Souza Carvalhq negociantes afirmavam que patrocinariam a iluminação, com o governo colocan -
(1862; p. 28): .. do 20 lampiões entre a esquina do Livramento a os Martírios. Por outro lado, e
ainda verificando-se a articulação, estava posto o ramal entre Jaraguá e Maceió,
A necessidade vai ensinado a considerado parte da estrada de ferro para Imperatriz.
poupar os escravos, a tratá-los A intensidade da movimentação de passageiros em Maceió mereceu comen-
com mais humanidade, e a ze- tário de Carneiro da Cunha (1872; p. 42) em Relatório de 7 de fevereiro de 1872.
lar as crias, cujas mortalida- Durante o 2° semestre de 1871, 15.922 passageiros de Maceió para Jaraguá,
de era tamanha antigamente. 2.620 entre Maceió e o Trapiche e entre este ponto e o Pilar cerca de 3.665. A
Sem embargo ainda há scnho- cidade realmente movimentava-se entre Maceió e Jaraguá. Isso vai ficar claro em
res de engenho que não têm Traços e Troças. Em Maceió, naquele 1872, estavam oito quilômetros de via fér-
deixado os hábitos antigos, e rea, estando sendo articulados Cambona e Bebedouro. Mas a articulação de Ma-
não se pode dizer que neste ceió com as outras áreas da província era também pensada a partir das estradas
sentido já se tenha consegui- de rodagem. Eram cinco as principais estradas que se tinha: Norte, lmperatriz,
do um melhoramento muito Atalaia, Anadia, Sul.
notável. Saindo de Maceió em direção ao Norte, a estrada passava pelo Poço, Pioca,
Santo Antônio Grande, Bom Jesus de Camaragibe, Passo do Camaragibe, Por-
No meio disto, Maceió ainda es- to de Pedras, Porto Calvo. A estrada que rumava para Imperatriz passava por
tava a ver se com o abastecimento Bebedouro, Tabuleiro, Curralinho e Murici. Desta estrada dava-se ramificação
d'água, ainda pensado e em função de logo após Bebedouro, rumando para Fernão Velho, Carrapatinho, Pedro da Cruz,
Bebedouro; e os custos sobremanei- Boca da Mata, Capela, Cajueiro, Gameleira, Samalanga, Quebrangulo, chegan-
ra elevados levavam a que se con s i do-se a Atalaia e Assembleia; era con siderada a estrada economicamente mais
'f I
0
J.. ,~(rndt•1.l'l· t: f11«rl<t-n..pr« >1'0~ t'll t::J'H Cil<l-Jf>N

:1presa mponunte. A de Anadia corresponde arrabaldes. A in tegração por trilhos Graças, área que estava aumentando
lr no i WTW e nlr .ida no agrcstt. a partir da iria a Bebedouro, com umâ -ramifica em popuhção (SILVA· 1876- p 64)
rtir ios. ilü(' CI d11 Mn la/ Impera Lriz, indo para ção em frente ao Hospital Militar que Mas o abastecimento não seria de bom
1 t1rios p111:r11n e Anadia. abria o ramal do Trapiche da Barra. nível, havendo reclamações seguidas
ionava .A urticulação interna e externa já Nesta oportunidade, a Rua do sobre a falta de água nas penas , ha-
cr1co 111 rava deslanchada, embora o Comércio e a que partindo da Algar- vendo comissão que revisou o serviço
fio ler- flifll1) m;1 l'Slivesse privilegiando litoral ves se dirigia para a Ponte dos Fonse - de implantação, gerando um relatório
~ suas rn11t 1t Maceió tinha o que era con- ca - na realidade o começo da estra- no qual uma série de problemas esta-
,~rand~ ltl~1'Udo como algumas das mais im- da de Jaraguá - já estayam calçadas; va consignada (MOREIRA: 1877). A ci-
1.JUStar pOilf111tes pontes da província, como argumentava-se a necessidade _ de dade debatia-se com seus serviços, a
~ terri- n (lo~. l•'onseca sobre o Reginaldo na calçar a das Verduras, a do Impera- continuidade de seus problemas estru-
,1ceió e t ll t1í1111 cl n estrada de Jaraguá, a do de- dor, a do Saraiva até Jaraguá. Pedia- turais estava marcada .
. seus mt>r.uque e a do Poço. Mas~ ponto se, também, arborização de praças: A cidade pós-escravo é que estará
·locan- principal é que nessa década de se- Martírios e Matriz. A Rua da Alfân- em Pedro Nolasco Maciel e ela é que
ludo, e . -
l•' •HD t:nmeça a granae montagem dos dega estaria calçada em 1877, acon- dá o tom do romance. O texto é cheio
luceió, Hllhos urbanos; havia sido assinado tecendo outros investimentos em Ja- de menções ao passado, cabendo, até
ont:rnto para a ligação interna da ci- raguá (MOREIRA: 1877). mesmo, um discurso a ntiescravista,
omen- e e dela com o que era chamado de A iluminação estava sendo pen- como se do presente a cidade obrigato-
1872. sada a gás carbônico em 1873 (MORE- riamente encontrasse a saga da ruptu-
rnguá, NO: 1873); em 1874 ela continuava a ra, mas que na verdade estava associa-
<>S. A querosene, mas sendo discutida sua do a uma das lembranças inapagáveis,
no em expansão para os arrabaldes tratan- a história grudada feita em termos de
•ia fér- do-se das freguesias de Maceió e de Ja- memória; o termo é tomado de Sartre
k Ma- raguá. A cidade continuava a receber (2005; p. 32), no Prefácio a Fanon e
tradas suas pen as d'água e marca-se chafa- aqui aplicado como constituinte básico
rntriz, riz para a Praça de Nossa Senhora das da memória política, do reconhecimen-
to do superado e de sua presença na
l'ioca, obstinada construção do presente.
~ . Por- É uma cidade onde se dará es-
va por perança por novos dias e os artistas
reação passaram a poder considerar uma ex-
Cruz, pressão formal de partidarização e de
ll'gan- presença de entidades que vão alavan-
; mais car a vida orgânica. É contundente um
92
~~~de,~k

texto de Nolasco publicado em O Artista em setembro de 1889, quando deter- às formas tradicionais de domiI_?.!-ção ,
mín;, clàramente, um espaço político para o- artista e fala sobre o controle do como se a capital repetisse a organi-

se refere à existência de uma- classe desprotegida e abandonada.· -


~r Executivo e Legislativo que, nas entrelinhas:-é remetido ao capitãi. Nolasco zação dos pequenos locais. -
A rede que se desenvolve e recria
Moreno Brandão (2004; p. 126) ao comentar a quadra histórica em Alagoas , tem que ser fundamentalmente dinâ-
menciona que o tema da República era apenas balbuciado, dando a entender mica, caso contrário as superações se-
que não havia efetiva composição pública em torno do assunto. Mas não seria riam impossíveis. A rede pode, deste
assim no seio dos artistas. Tudo leva a crer na existência de uma discussão so- modo, ser entendida como o _p_ró_prio
bre os seus termos, pois, afinal de contas, abalaria, pelo menos como proposta, momento da tensão, o que acçmtece
a estrutura do baronato. A RepúJilica vai ser esperança de renovação e campo de como superação, sendo uma atualida-
discussão entre os artistas militantes. de sempre posta, o que é apresentado
Um deles., qµe se- chamava de Tibério Ciciliano, levanta 1Jm problema es- no romance onde se tem a atualidade
·' · . -----
S~!_lcial: a República poderia vir, mas a dominação continuar. E de certa forma, a de Maceió e nela a vida de novos sujei-
ideia de uma opressão estrutural passa pelas páginas de Traços e Troças, encon- tos coletivos e de novos indivíduos que
trando-se imersa no cotidiano que ele faz cenário para a cidade ir acontecendo, são modos particulares de ser,_ s~ntir
em um aparente continuum que emprega para manter as relações entre estrutu- e estar nos relacionamentos que defi-
ra e memória, com o passado recomposto e novas cenas aparecendo na trama n em o processo. Novos modos de vida
diária. A cidade iria esclarecendo, também, uma nova figura política: o filho do serão partilhados, construídos, contra-
\\
----
trabalho gerando o operário 1 o trabalhador como será retomado no futuro. Deci- tados e sempre a cidade segue sendo
'\ : didamente Maceió estava diferente, apesar de que as estratégias de dominação sua própria transformação.
~ ~ , operavam, praticamente repetindo o mote de No lasco de 1887. Neste universo definido pela ten-
Pelas indicações ~_§_e__te.m.. ª..mi.ssagem para a República foi pacífica em são, tem-se o poder nos seus modos
Alagoas, mas o modo político qu~ se adota 1l2._preenchimento do governo e as institucionalizado ou difuso, insinua-
contradi.f_ôes da época dão marg~m a que se esboce o caminho da chamada "oli- do em cenas aparentemente menores,
garquia". --- mas igualmente densas de confronto.
Há uma fala em Traços e Troças, finalizando o primeiro capítulo, que, São indivíduos e coletivos em relação
por sinal, é cheio de informações sobre a vida da cidade, salpicando o texto e em posições novas numa ~eia
1
d~ersonagens gue, n~erdade, somam uma unidade: a rede de relaç_ões. No ) de escravidão, definindo o 1!_or~te
fundo, o que parece ser sempre incidental é essencial no romance e as notas ) dos pobres, numa malha que de~ca
de Félix Lima Júnior são fundamentais, pois Nolasco Maciel parece estares- o território. E nesta malha também é
crevendo para seu tempo, somente seu tempo, espécie de ajuste de contas. visto o processo de uma rápida rearti-
Félix é quem acende as luzes destes incidentais que são essenciais como culação senhorial continuando à-man-
unidade. É , por outro lado, uma cidade cujo porte deu a Nolasco Maciel o po tier a cidade que era conveniente e que
der de nominar, apontar, forma ainda de demonstrar o face to face que leva deveria expressar os seus termos de
'/.
.. C(i:-1t«'tA •t;&i- e~ /1/i-tk>-,,Ç<"' 5'ooirc-( ~H· a~fltl-J,
iO, mn:ndo. Traços e Troças coloca o anda- tante, portanto, n ão define o contex- uma vida se desenvolvia rumando cio
:ii 1Wnl o do 1.;ontra senhorial. A Repúbli to. O contexto se define pela rede e público ao privado Ao chegar ataba
t' f1 lc:rn1ina por substitu ir os barões por é necessário a imaginação do leitor de lhoa do em seu local de tra balho, aten-
ria OUl 1«1s t itulados dentro da mesmaEar- hoje soltar-se para ver a cidade e para de a um pomposo freguês chamado de
1ã- U11 11'n do agrarismo, mas deve movi- ver que o drama de Manoel e Zulmira Dr. Domingos e incidentemente fica le-
\C - rnentm em direção a outro rumo e, as- não reduz o romance em torno de posi- vantada a questão essencial: a f_mça de
>te im vni habilitando a consolidação da ções moralistas em cima de um amor mando:( ... ] o governo depura; quem faz
rio r!ligmquia" que se man tém até o mo- mal ensaboado. Seria extremamente a eleição é sempre o governo ... 8
·çe vimento nacional das salvações e que forçado querer dizer , no entanto, que Há uma acentuada crítica ao
la - n ·'1 <1 lagoanamente expresso como o ele traduz a cidade. Jamais faríamos papel da elite dirigente e uma fala
do 1 l111qt1e entre a soberania e os lebas. tal tipo de ilação, mas seria justo en- contundente sobre o controle exerci-
de I~xistem conjuntos formados em tender o enunciado de vid as aconte- do pelo chamado pod er de mando. A
t:'l 1Dç<>~ e Troças e indicações sobre pes- cendo na presença do aparentemente cidade da República n ão havia refei-
ue un ~ t' indivíduos. Evidentemente, cada fortuito; é, interessante notar o modo to cabalmente o mando. O romance
tir 1.1111 dos conjuntos que se apresentam como em todo o lugar do romance cabe p assa pelo tempo de Gabino Besou-
·fi- pm exemplo, o das prostitutas que a incitação dos termos de personagens ro, quando o pé de Nolasco Maciel es-
da don11na o fim do romance - deve ser incidentais, co_!!lo se fosse necessário, tava também numa pequena cidade
a \'Íoto com extremo cuidado para que a na construção do texto, salpicá-lo com que , de mudança, praticamente, co-
do lr:lcia ela pertinência não monte apenas aparentes fragmentos à busca de liga-
lllTI sistema classificatório e mecâni- rem os quadros da ficção aos quadros
n- oo <it' aj untamento em clusters. O que da realidade.
os dl've ser ressaltado é a tensão inter- As aventuras de Manoel n este
a- 11 fl 1• u externa, intra e inter condições primeiro capítulo são conhecidas P9f
·s, r~11IC'!1vas e nisto verificar a forma de ond e p assa: todos os pecados eetão~
o. OB indivíduos estarem e serem. Ian n i na conjunção do urbis et orbe, a cicia-
1.-.
ao 12003) considerava radical a obra q ue de sabe, a cidade se comunica e tOâa
:ia 1~ voltava a trabalhar - independendo
te de corrente - em p rofundid a d e o uni-
ca verso de contradições e ele n ã o existe
é pelo formalização classificatória, mas
1i - pelo tensão que opõe permanentemen-
11 - te .is ordens de afirmação e negação.
.IC O m ovimento de Manoel
le r 11a rede : Zulmira é apenas hab~H -
ff-

nheceria o Prefeito. Em 1893, Pedro


"
.i~~ de, Ú-tnM:4k
sibilitar a trama.~e classe, família e outros elementos aparecem, é por existir
Nolasco Maciel era diretor do Viço- o senso do coletivo englobado na cidade. Ela não é uma situação e nem situa a
sense, além, segundo Cícero Vascon- ação: ela também tem vida. Expressa o que poderia ser chamado de comuna-h-
celos (2008), de funcionário dos Cor- dade, o atributo do ser em comum e qualífica~ão de si mesma de tal modo _que,
reios. O Cônego Cícero Vasconcelos sendo infinita, ainda assim pode ser partilhad;-fÀquela Maceió seria encontrável
faz menção ao romance A Filha do por quem era e se dizia de Maceió. O romancerr!o corrompia a realidade; era um
Barão, mas nada informa sobre Tra- modo de expressar o novo em sua complexidade. Rompia mas não corro~pi_a,
ços e Troças. pois mantinha o senso do processo.
Manoel e Zulmira habilitaill o tra- O modo como esta cidade é olhada é algo diferente e, no caso de Nolasco
to da cidade, o trato do poder, a de- Maciel, tomando emprestada uma expressão de Bonfim (2006), tem-se uma es-
monstração da desigualdade, o apare- pécie de cartógrafo do urbano, como seriam os artistas que se debruçam sobre o
lhamento do estado, a _Rrivatização do viver da cidade e há, no seio do chamado romance, uma crônica a nos dizer sobre
público, a montagem cabal do mode- o público e o privado, num compasso que aproxima uma etnografia do urbano,
lo republicano de estado, que come- condição sem dúvida altamente inovadora dentro de uma sociedade caracteriza-
ça pelas confusões Gabino Besouro e da pelo senhorial e sacralização de valores da tradição rural, condição que lhe
atravessa a primeira e a segund~e­ permite, sem dúvida, rumar rapidamente para formular um mando oligárquic~:
pública, com seus estertores começan- Foram muitos os que fizeram as maceiôs na literatura, no romance,_no con-
do posteriormente no século XX. Nos to, na poesia; são maceiôs aparentemente incrustadas apenas no ~gurat~o
seios desta confusão est~ gestação imaginário; Nolasco Maciel funda um maceiô fallando ~obre Maceió. Este passo
111
da "oligarquia" dos Malta. da fundação é absolutamente legítimo, como se dá em Ledo Ivo, no Gracll~
11111111 :
/\ ideia avançada da concepção gente como Marcos Faria Costa, Paulo Renault, lembrados por Brandão (2006),
de espaço faz com que o romance seja têm os seus maceiós. Fiuza encontrou o seu Alagoado (2008), cujo sufixo, como
sobre ele e nele as falas e acomoda- comenta Sarmento (2008), o reveste de um sentido plástico, evocativo de pos -
ções. Não há vida de personagens sem sibilidades. Nolasco Maciel teve o seu e, até que apareça novo material, funda
a cidade que dialoga com situações um caminho sobre o urbano e, ao fazê-lo, vai elaborar uma nova leitura sobre
como a história, a moral, a família, a as Alagoas. Há um Nolasco Maciel escritor e uma obra que é inerente ao modo
sociedade... Nesse sentido, estamos de ser de seu tempo, identificável e contextualizável como são as mais diversas
aproximando espaço da definição e das inspirações quanto às maceiós. No entanto, é necessário fixar que ela pertence
discussões de Santos (1985, 1992) e há um tempo e ele, o tempo, o modo de ser é fundamental, como penso foi visto
que correspondem à construção de um por Goldmann (1979).
modo típico de ser, a tal_ponto que ela, Ao tomarmos o que se poderia chamar de teoria do tránsito em Mannheim,
a cidade, assume um sentido de locus sem dúvida a obra de Nolasco Maciel seria considerada do trânsito, inerente à
que expressa um modo de ser para a transição, e enuncia, também, elementos dele, demandando uma ligação ime-
ficção existir. Ela é quem chega a pos- diata com uma formulação relativa ao futuro. Não estamos em busca de uma
Z;;
.J..cre,;i,td"~e:c. e- -m~~ >cut:il ~ ~()~

xistir ociologia do con hecimento, mas sim- za ideológica e a de natureza utópica processo de desenvolvimento dH$ n~
·ua a plt::imente utilizando o j ogo dos valore~ (1976). Não se pode negar a trivialida lações de rupturq de um sistPrn.1 (\O
1nali- 110 lrãnsito e do trânsito - elementos de desta colocação, mas isto não obs- eia!. O âmbito de uma sociologia do
que, pnslos em Mannheim - para, com isto, curece o fato de que as ideias se opõem conhecimento não poderia largar se do
rável it 1111r Traços e Troças, pois necessa- e a de que o conhecimento não pode contexto. Não nos parece possível que
n um 1 inmente ele fala do trânsito - signi- existir desencaixado de uma determi- , se efetive uma busca abstrata sobre o
npia, fic llldo-se nele - e naquilo que virá, nada estrutura. No fundo, estamos conhecimento do conhecimento, mas
Xplicando-se nele e propondo para o diante de outra trivialidade: o choque ( dele em seu contexto e isto, sem dúvi-
lasco fut 1110. É assim que o romance repr~- entre o novo e o velho. A possibílida-- da, o historiciza, no sentido de que seu
a es- 1~ 11 1.1 um tempo e inaugura um novo de da superação está na tensão que se tempo é elemento essencial. É por isto
bre o 1111junto. desenvolve, maturando-se a produção que Traços e Troças é bem mais do seu
;obre Ainda lidando com Mannheim, de síntese que, ela mesma, contém o tempo, do que de seu autor. O texto
>r.tno, elevemos levar em conta que ele pas- senso de uma construção. Estamos, não pode esvaziar-se em Pedro Nolasco
·riza - m por um dado essencial ao se referir por consequência, diante da gênese da Maciel, personaliza r-se o resultado ou
e lhe prnduções conflitantes em determi- ruptura e é nela que se justifica a obra a significação de uma obra. lnteressa-
llCO. r1nd L1 época, quando, então, constrói Traços e Troças, pois a sua ambiência nos, no caso, que há uma gênese his-
con - nolm: a existência de duas categorias estava plantada na negação do status tórica e que ela está associada a uma
10 do ilHI 1unmen te exclusivas: a de na ture- quo. Ela não é originada do estrato ide- proposta cujo contexto não valida o es-
llSSO ológico no sentido de Mannheim, mas tablishment.
iano; do estrato utópico, e por isto inova Não se pode ter indicação direta
')06), numa circunstância política densa. de influência exercida por Traços e Tro-
orno Uma viável articulação de Man- ças em novas obras, na elaboração in-
pos- nheim com temas como Frankfurt, re- telectual, na medida em que se tentas-
mda lativismo, hegelianismo não invalida a se ver, por exemplo, a importância do
1obre proposta sobre o trânsito que eviden- romance por sua repercussão imedia-
nodo da, como indicação da articulação do ta no pensamento sobre Alagoas. No
·rsas fundo, isto nem sequer pesa em nossos
ence argumentos, pois destacamos apenas
vis to que surge em momento no qual as con-
tradições sociais geraram a existência
wim, de um novo tipo de componente políti-
it c à co: os filhos do trabalho, como se cha-
1me mavam, e por onde fixavam uma posi-
11mn ção no complexo das relações de poder
1-6
J._~j ~ de, atrn-e4k

que se desenvolviam, inclusive com características orgânicas claras (2006). Na É impossível trabalhar com uma
verdade, ao se definirem, eles estabelecem um elemento divisor e, assim, desta- espécie de relação direta entre Traços
cavam-se do conjunto, individualizavam-se. Estava estabelecida uma linha de- e Troças e o que virá, como, por exem-
marcatória, nova, correspondendo às indicações de venda de uma mercadoria plo, o impacto radical do comunismo
chamada força de trabalho, com as suas devidas correspondências politicas. a montar-se em 1928. Não temos no-
Eles representam mudança essencial, transformação radical no sistema tícia da esquerda tratando de Nolasco
de correlação de forças, pois inexistia a contestação direta e clara ao capital e Maciel; ele será recuperado na década
ela passa a acontecer. Não importam a influência real, o nível de interferência de sessenta do século XX por intelec-
que os filhos do trabalho conseguiram ter, os tipos de abordagens realizadas; o tuais sem envolvimento político com a
importante era a presença no quadro político e a inovação estava no simples fato contestação. Isso pode deixar a falsa
de existirem e, portanto, estarem, pois isso determinava que o sistema houvesse impressão de que Traços e Troças foi
alternado: onde não existia passou a existir. Neste sentido, ações e seus resul- um mero acidente. Tanto não foi que
tados, leituras da realidade e estratégias, teor de proposta e de doutrinas eram os filhos do trabalho re tomam_pelas
sem dúvida importantes. Avaliar toda esta constelação de fatores é um trabalho décadas de 8.0 e 90 do século XX, por
exaustivo e que deve ser realizado, mas existir era o fundamental, até mesmo via dos Partido Socialista Brasileiro e
por, obviamente, habilitar para os elementos de análise que listamos. Partido Comunista do Brasil, que to- ...
É importante o que acontece em 1902, com a morte de um líder operário e rnaram informações para treinamento lt
socialista - João Ferro - e sobre o que dele falou A Palestra, um jornal operário de seus membros, a grande motivação li
que se publicava em Alagoas a partir de fevereiro daquele ano. Um articulista das anotações que fizemos e que gera-
em O Trocista, fazendo-lhe o necrológio, enuncia a existência de uma história ram as observações contidas em arti-
operária alagoana e isto, sem dúvida, é um exemplo da radicalidade que se fa- gos que publicamos de 1989 a 1992;
zia. Outro articulista, B. Jurema (1902), fala também de uma história operária posteriormente, pela gentileza do Pro-
e Appolonius (1902) dirá sobre esta mesma história alagoana. Estava delineado, fessor Cicero Péricles de Carvalho,
portanto, independente de discutirem-se qualificações, um novo olhar sobre o reunidos em livro, cujo lançamento foi
universo político de Alagoas. realizado pela Central Única dos Tra-
Nisto configura-se que o sistema alternou. E esta alternação realinha de balhadores em 2006.
tal forma as proposições sobre Alagoas, que se lança em diretura às etapas da Antes, é de se levar em considera-
política da década de trinta, embora sem que haja uma retomada direta no sen- ção os trabalhos iniciais de Sant'Ana.
tido de criação de laços históricos entre filhos do trabalho e, por exemplo, comu- Com isso, estava sendo retomada uma
nistas. Os filhos do trabalho reconheciam um futuro na história do trabalhador história que vivera um hiato de largo
alagoano; eles mantinham a ideia de gera ções de trabalhadores enquanto, pelo tempo . O historiador aflora justamente
que sabemos, a esquerda que se estrutura posteriormente não vai ter olhos para a questão das greves e seu objetivo era
o passado, mormente os comunistas que estarão empenhados na celebração re- o da divulgação de uma informação es-
volucionária em Alagoas dos contornos de 1935. condida na historiografia. Não se pode
~
f..-ttu~'fM,,ç;r, e- '}11_,,.,kn.,P"" 5oc4tt-t ~ ~º"";

1 uma p1 ue u rn r em um texto mais do que ele Sem dúvida, acon tecerá poste- tamos diante de praticamente um Hf·-
7i·a ços 11lij0t'iva 1 e o esforço do seu artigo era riormente um passo no encontro pro- culo , mas o hiato que se vt-rificfl nrrn
exem- 1nnn1uclo no sentido da divulgação dos priamente acadêmico com os filhos do prejudica o enunciado de que a obra
nismo foiou, Os pronunciamentos prelimi- trabalho, dado pelo historiador Osval- tenha sido um marco, que tenha sido
is no- flf\1-1\1:1 de Moacir Sant'Ana (1987) sur- do Batista Acioly Maciel assumindo a uma ruptura. A interligação se fará
olasco INll cfo1los práticos. Lembramos de ter discussão em uma dissertação üá ci- pelos nexos estrutunus do processo
lecada 1H 0111punhado Rubem Jambo, que era tada) e integra-se com eles ao douto- político que será montado, segundo
1Lelec- t 1i1ig1~11 te cio Partido Socialista Brasilei- rado, além de produzir textos sobre o entendemos, por volta de 1919. Basi-
com a W, IH> Arquivo Público, pois dizia es- assunto. Uma nova geração se aproxi- camente , a obra se desvincu la de No-
1 falsa lfl!' uc!ccssitando das informações para ma e se ganha em discussão, em infor- lasco Maciel e fica na relação anônima
,·as foi (1'ci1111mc•nto interno partidário. O que mação, em divu lgação e em formação, do confronto com o capital. Ele era
oi que 1'.ln tomado como um simples artigo demonstrando que a força da evidência uma persona da contestação e ela, a
pelas lliil1·1 ~.t>us desdobramentos. Foi Edu-
1
histórica promove o enlaçamento das figuração, some, desaparece, perma-
X, por m-lo Bonfim - também dirigente par- épocas. Do artigo original de Moacir necendo a contestação que, necessa-
lciro e !i.-[(1110 e, a época, Deputado Federal - Medeiros de Sant'Ana para hoje há riamente, crescerá em matizamentos
ue to- rmi• o incentivador. A recuperação das um avanço s ignificativo, até mesmo quando aos trabalhadores são neces-
mento 1 1fo1·111ações sobre os filhos do traba- por se juntarem outros pesquisadores sários novos momentos de definições
ivação i 'li) nu 1ge de dentro do quadro militan- que formam um conjunto de renovação na vida alagoana.
gera- poht ICO.
- -
na historiografia de Alagoas, sendo ou
n arti- A preocupação de fazer a recu- não historiadores de oficio. Uma coisa l'
1992; IH~1 'tlçí10 tinha, também, a ver com a é a obra de Pedro Nolasco Maciel ter
o Pro- l{'Ockrnia; ela veio - é necessário re- sido recuperada e outra é ter sido re-
valho, (o,·çr.il' - do mesmo meio ou ambiência lançada no contexto.
nto foi m que se atualizariam os filhos do Ela aparece republicada em
H Tra- trnl1.1lho. Em resumo, o_encontro te~a 1964, mas vai ser contextualizada na
de twr realizado por força da própria década de oitenta do século x:X. Es--
1idera- Melo da existência de uma história dos
1t 'Ana. !ffll1ulhadores, mas sempre acontecerá
li uma f'in um contexto em que se de~eava '
• largo umn preocupação com esta história e
mente rom forte componente militante, cir-
Ivo era n 111stanciado, é bem verdade, por uma
iio es 1mélu acadêmica de produção no nível
('pode llflel O 11 al.
98
J..~ 5&-v-io de- atrn-uk
Jamais se poderia considerar que possibilidade de estar por baixo q~e aparece um matiz etnográfico ou antropo-
Nolasco repetiria Caroatá e mesmo Dias lógico de feição urbana que, ele sim, enfoca a mudança essencial que se ü1stalã I
Cabral, tomando os dois nomes como.. na questão paradigmática. Inverte-se a noção da crônica senhorial e emergem
1
representativos de modos tradicionais estratos _populacionais do fundo do poço de uma Maceió que tomava corpo CQ_mo
sítio efetivamente urbano, indicando-se plenamente como o local da finali~ação
11!
de ver a formação alagoana. Esta é uma
11

~ li
evidência. E bem mais do que a ele, o econômica e política do complexo agroexportador do aç(lcar e do algodão.
termo paradigma que utilizamos remete
ao contexto político. É preciso desper-
É neste lidar com uma nova indicação sobre a cultura que se monta o sen-
tido radical do romance, e é por isto que Pedro Nolasco Maciel é considerado
'
sonalizar sem deixar de levar em con- como ruptura por Dirceu Lindoso, autor atento ao etnográfico e ao antropológico.
sideração que existe um autor. Há um E é em linha semelhante que colocamos Traços e Troças como marco radical. A
dado fundamental a ser estabelecido: palavra rãdical está ligada à evidência das raízes do processo e paradigma estará jl
reconhecia-se a desigualdade,-afirman- indicanâo uma condição lógica estrutural e produtora, também, de significados. 1'11
do a existência de uma tensão inerente É um termo associa do à Nolasco por extensão ao que fui proposto em Lindoso,
a ela. Quando apontamos Pedro No- pois apenas estamos desejando dar uma qualidade à natureza do que foi produ-
lasco Maciel como um novo paradigma, zido. Não se encontra em jogo apenas romper, mas a razão de romper.
indicamos a representatividade e quan-
---- -
Ao chegar à cultura, ele anda pelo que Matta (1981) vai chamar de concei-
do traçamos este caminho por Traços e to-chave para a interpretação da vida social. Evidentemente tem razão Verçosa
Troças estamos assumindo a sua radi- (2002) quando opera com a noção de cultura para chegar a discutir a alagoa-
calidade em diversos aspectos. nidade, princípio que repassa para o enfoque de seu trabalho, no qual exami-
Evidentemente, o romance Traços na termos uma cultura a ser qualificada como alagoana. Sendo verdadeiro este

\
11111
e TrQÇgs, na ordem de uma sociologia aporte do romance na cultura, sendo verdadeira a ligação entre cultura e iden-
histórica _das ideias em Alagoas, seria tidade, novamente aportamos um elemento radical no romance; e a esta ideia
'1 ~~

1
elemento de importância fundamental, de cultura vamos agregar o que Gomes escreve como vivências concretas dos
pa~sando 12_or aspectos co::i~rosai ­ sujeitos (2003)·.
co, o cotidiano, a ausênci<:_dos gran- Um dos escritos básicos de Lindoso sobre nossa vida é o discurso que pro-
des rasgos nobiliárquicos que carac- nunciou em 1981 no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, intitulado Uma
~l terizavam a literatura como parte das Cultura em questão: a alagoana. Na medida em que esmiúça o problema no trato
solenidades de consagração da elite. do que entende como história da cultura em Alagoas, situa o confronto entre o
Como demonstração de todo o proces- po_pular e o erudito. Havia uma cultura estamental e aconteceram irrompimen-
'ILI
so, é suficiente verificar o afloramento tos do popular no erudito. Este erudito estava qualificado, dentre outros aspec-
do urbano e da pobreza. Um local que tos, pela preciosidade quase bizantina jl 981). Este popular e até o popularesco
\ foge do privilegiamento de um rural-
quase-sagrado é visto junto ao surgi-
está antecipado em Traços e Troças, que em nada poderá ser identificado com
o preciosismo e com a temática estamental. Traços e Troças, inclusive, não fol-
mento da pobreza; é , inclusive, nesta cloriza o popular. E este é um dado essencial, na medida em que se estuda ã
~
/,..,~1'r..1 &(wi,rt e, J'>'lnrl~>"f<f 5'our1l e.r" al.<r9occ,;

po - 'nnotrução de um saber erudi to sobre• pioneirismo, e isto prejudicou a visão pico e homogeinizador. Nolasco não é
1lu 1 f.la ··ic ·d;.1dt. ck Al..igo~ - - ~ do principal elemento a caracterizar a o repetitivo e nt>m o adaptador ainda
l'IIl
Nolasco cotidianiza o folguedo , obra: documentação do preconceito, usando Lindoso, do arquetípico à rea-
mo <'LI 1 da Igreja, o baixo espiritismo e mormente através do trato dado ao ca- lidade. ~daí que ele inova, 9.lle pro-

~
ao J)M m s('gue uma série de aspectos da boclo pelo anedotário coletado. O livro duz uma nova proposta de visão das
vidn ele Maceió que não seriam do trato foi aparecer em 1897, no Rio de Janei- Alagoas longe do universo do co~lexo
·n 1nn11•ntal, e que terá - novamente ro, e Campina tinha a intenção de pu- senhorial de pronunciamentos sobre a
tdo J,i 11doso Lem razão -, uma Escola de Vi- blicar outros volumes. É de supor que sociedade. j
co. '~'f1tlt1 1· uma Escola de Maceió , absolu- não conseguiu, no que nos baseamos O que n ão pretendemos e nem
A 1r11111; nle diferenciadas embora do mes- em revisão da bibliografia do período, devemos é personalizar, isolar Nolas-
trá li 1(1 111nlizamento ideoíogico, conforme realizada por Belloti (2003). co Maciel em um em-si inconcebível;
os. 1:1 dc:11demos ser necessário ressãitar. É de se ver a diferenciação entre o que se deve fazer é vê-lo em rela-
so, l}rvc ser recordado que esta folclori- o cotidiano em Pedro Nolasco Maciel e ção, no que podemos, também, lidar
lu ll\'in estava em andamento com Júlio o que se faz com o popular. Se é assim com conjuntos de escrita e, por outro
t.!ru 11 pma, um escrito de coleta do pre- a diferenciação pelo viés antropológico, lado, jamais estaríamos pensando que
·ei- 1..u 11cci t uoso que entra no texto como é bem mais com o viés da história. Ja- se inaugura uma relação aritmética di-
>sa u.1 wdótico. Júlio Campina é recupera- mais A Filha do Barão, marcadamente reta ou indireta entre uma obra e ou-
>a- do via Theo Brandão pela ênfase ao preso ao universo rural e montado so- tra subsequente, mas sim que existe
ni- bre a escravidão, poderia ter em Nolas- uma articulação a formar um conjun-
ste co as mesmas razões historiográficas to; sem dúvida demorará em que no-
!11- estamentais, a manter a terminologia vos elementos integrem o novo clus-
eia utilizada por Lindoso. Não importa a ter surgido neste romance, bem mais
los qualidade literária, mas A Filha do Ba- maduro do que A Filha do Barão que
rão e algo, também, longe daquilo que é de 1887 e bem mais significativo do
ro- o mesmo Lindoso qualificará como o que as novelas que foram escritas, su-
na tradicional, significando texto arquetí- pomos, posteriormente, pois Jacy-Aça-
1to ra, por exemplo, aparece em 1909. É,
·o inclusive, neste sentido de base para
·n - um cluster, que utilizamos a obra como
~e-
símbolo da condição radical que o au-
co tor promove. Ele funda um conjunto
>m diferenciado e isto -não poderia acon
oi tecer sem que novas condições fossem
ia apontadas na e par~ a escrita.
50
J..~~~~uk

É claro que Nolasco é tomado como um detalhe a demonstrar um confronto de relações. Trata-se, portanto, de um
político, e é pela tensão do momento que Traços e Troças deve ser lido e entendi- grupo que enuncia as razões de mando
do. Ele pode ser tomado como radical para Alagoas ao passar pelo escondido, por que constrói como forma, inclusive, de
formas obnubiladas do cotidiano e é ele, o cotidiano o elemento essencial por onde manter o poder. Não é este o contexto
fluem os pobres e até mesmo a miunça da incipiente classe média em formação. do romance que estamos considerando.
/' - - ---
É nisto gue se encontra o feitio do romance na enunciação do paradigmático, ao
que se junta a sensação do inacabado da sociedade e da consolidação de passos
O termo popular é vago, e de seu
caráter difuso e nebuloso tem-se sua
urbanos de mudança. Não é dificil observar, no texto, os avanços de Maceió, a utilidade: é viável construir sobre ele
diferenciação espacial que se promovia. Basta o cotejo de Traços e Troças com, sem grandes preocupações com preci-
por exemplo, elementos informativos sistematizados por Sant'Ana (1996), repor- são conceituai e, então, torna-se mais
tando ao ano de 1866. Até mesmo, é possível ter esta visão correndo facilmente fácil o aporte de informações e cons-
pelas informações das Fallas e Relatórios emanados da Presidência da Província trução de hipótese, como, por outro
disponíveis desde 1835 e dispostas na internet no Brazilian Documents Projete, lado, se este nebuloso encaminhasse
com algumas já publicadas em fac-símile, através de Barros (2080). para um rumo heurís tico sem muitas
Não pesa significativamente o discurso político conjuntural que, na ver- amarrações. Claro que se constrói sem
dade, não é posto em evidência em Traços e Troças, mas o encaminhamento da limites precisos, mas , se por um lado
noção básica da contradição que existe, enunciando uma pobreza e combatendo, tem-se a perda de especificação, por
inclusive, no campo do jogo dos imaginários. É neste sentido que se postam rup- outro aparece a versatilidade. Nessa
tura, radicalidade, paradigma. E um dos grandes elementos da postura antis- questão da nebulosa fica a sensação
senhorial é a noção do inacabado. O termo inacabado está em articulação com posta por Guimbelle (1997) quando
1 Octávio Tanni, quando analisa o nacional e ressalta o provisório e o não realizado menciona a utilização do termo espi-
1111

no ajuste estrutural. Deste inacabado, Traços e Troças dá-nos o entendimento e ritismo: "Falar de espiritismo é, então,
é um elemento central na inovação, no antiarquetipico, para utilizar, novamente, sempre dizer muito - há coisas demais
Dirceu Lindoso no mesmo trabalho mencionado. sob o termo - e dizer pouco - pois é
Sair dos escancarados píncaros das elites em Caroatá para a cotidianizaçâo difícil nos satisfazermos com tão pou-
/
é,~ dúvida, extraordin_ário saJto teórico, ppis significa a redução da escrita aos cas especificidades". Mas ele trabalha
ajtJ.sí.eJ:l .!:;Om a socied.ade.._Claro que este cotidiano jamais poderia ser transposto uma solução no que chama de um
integralmente para se inaugurar um campo de verdade, mas é um ponto de par- mesmo território de realidade, cons -
tida radical para a discussão. Não fosse deste modo, como se poderia localizar truído pelo jogo da identificação de
~! no prurido senhorial, por exemplo , a prostituição? A órbita do homem bom é campos. Nós pretendemos que dentro
substituída pela órbita do popular, uma expressão que sabemos vaga, mas que da nebulosa do popular em Traços e
se encontra, neste caso, em oposição ao senhorial. A este senhorial nos referimos Troças, existam condições-chave - no
menos como estamento weberiano, e mais como um conjunto diferenciado, com- sentido de fundamentais - para adis-
pondo-se de expectativas e ações que se formam a partir de uma rede estruturada cussão do seu processo e, dentre elas,
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1'íft:A.e&t;t-t•t:t· ,-.,, '/11C1tÍ<.t4'f<" §°ooit:f-1. t:-m· a~o~

um trrn1os pondo o poder em cviclê1tt:ia, a qualidade da nebulosa. Não é, con pendência dos conjuntos. Esta possi-
rido IT"' I ~ tudo, a qualichde que está em Jogo bilidade de se armar um texto com n
, de N110 seria. forçado afirmar, mal Nele, o importante é o a n úncio de que cultura desigual somente é possível, a
t'XtO ílf'Odu o l<'J mo feio, que este popular ela existe, mas é fundamental perceber nosso ver, na medida em que o fluxo
1clo. rn1 ohrn do Pedro Nolasco Maciel me- que há uma diferenciação entre siste- da força de trabalho básico é remonta-
seu rfC(' 11nu1 conceituação exploracional: mas bem conformados e nebulosas mal do , passando a prevalecer a noção de
sua umn n>nceituação que vale pela ex- formadas. Elas aparecem em Traços salário com o compra de mercadoria e,
ele ploro~ .10 que proporciona sobre as re- e Troças e n ão são folclorizadas, mas portanto, estamos diante de uma im-
eci- lnçc'k i.. sociais, econômicas e políticas, tensionadas; com isso, o romance abre portante formalização capitalista.
rnis nnlm~ poder, produção e organização, um vasto campo de exploração sobre a Ao comentar a qualificação polí-
lllS- 11t•sle sentido que nossos comen- cultura urbana em montagem, o que tica sobr e o cultural, Cuche lida com
.1lro l(1floH s<-:• colocam: ex plorar e atingir a jamais poderia aparecer no senhorial, Marx, com Weber e a existência de
lSSe <'ll u 1~ ussão básica com relação à história sendo desejável que sejam assumidas cultura dominante e cultura domina-
itas ultura. Nessa linha difusa na con- as ideias de tensionamento e de inter- da. Ambos aceitariam que a cultura
.em t'i1 unção, é possível aproximar o que penetração. da classe dominante seria a dominan-
ado lfda Vovelle (2004) sobre a condição O problema tem que levar em te. Evidentemente, os dois partem de
por (lo tc:nno mentalidade. Por outro lado , consideração o poder, bem como a concepções diversas do que seja clas-
ssa pt 1·c1so fi car claro que assumimos forma de hierarquização prevalecente se e, portanto, de dominação. A cul-
\à O n Importância (embora não a explore- que vai gerar a possibilidade da cultu-
ndo 1i"1n:1) clu discussão sobre circularidade ra desigual, no que estamos utilizan-
~pi ­ 0111• passa obrigatoriamente pelo ro- d o Cuche (2002), e categoricamente
ão, rnc11H:e, possibilidade que não poderia na ordem do poder e de s ua distribui-
1ais nH111ter-se na ótica s enhorial, salvo se ção. A relação estabelecida na tensão é
s é \ i11terpenetração fosse concebida, n a n a cultura. O que não se pode pen sà'r
ou- verdude, como determinação senhorial é qu e a ten são isole a interpenetração;
lha 11bre o processo. ela não funda a disjun ção ou a inde-
um Foge ao objetivo dest e text o explo-
ns- 1.11 o assunto, mas , para entendimento
de du nossa abordagem, desejamos des-
1tro 1uc:ur que o termo popular é n ebulo-
se B<> <' queremos privilegiar esta questão
no uo ficarmos no con tr apon to de Dubois
lis- (:1997) e percebermos a importância de
as, sr:u trato. Du bois é impr eciso quanto
5Z
1-.~ Sd,r-i:o ~ a~l!hk

tura em Marx, neste caso, está ligada Estamos diante de uma nova situação, em que valores ainda permanecem; as
- ----
à questão da ideologia. O importante,
- novas condições, por serem novas, não têm o atributo de uma geração imedia-
----- -- --
contudo, é que Cuche coloca em realce
que, para ambos, apesar da diferencia-
ta. Esta moralidade não define; é apenas argumento, embora pareça contra-
ditório. Uma nova situação demanda que se monte nova sistemática de estar
ção, em nada a cultura dit_?. dom~rn~.­ publicamente e na ordem privada. Publicamente, caminha-se para que se en-
da seria inferior à dominant e.
-
--.
Este é o contre uma rede formal ou informal de conjunção de interesses que proporcio-
ponto central: a diferenciação decorre nem alianças tanto formais como informais, alianças tácitas; leva sobretudo às
do modo de se fazer o poder, escreven- tentativas da legitimação para desmarginalizar ... Há um novo comportamento na
do Cuche (2002; P. 45): política e nele a contradição de acomodações e enfrentamentos, numa estratégia
que a prática da vida enuncia.
Em um dado espaço social, O jogo de criar-se envolve as atitudes, como Thompson (1981, 1987, 1998)
111:1[11
ri
existe sempre uma hierarquia demonstrou para a Inglaterra do século XVIII, na medida em que trabalhou cos-
li social . Karl Marx como Max tumes . _NQ_~so daquela Maceió, não §e p_Q.Çiia ne_g~ 9 ajuste aos termos do ca-
Weber não se enganaram ao pital em esclarecimento na ordem do salário, uma sociedade que dispunha da
afirmar que a cultura da classe _possibili_9.ade de venda de força de trabalho n;_~ sefll. e)_fJLansão na massa salarial
dominante é sempre a cultura dlliponível na economia, pela manutenç~.9 dus_princpios-ªrcaicos_gus=:- "inham
dominante. Ao dizer isto, eles
--- --
determin~n~o a ligação intrínseca com a cana-de-açúcé:tr, o que l~..Y§ti:ta, inclu-
não pretendem evidentemente sive, como estratégia de dominação, que o capital não ~ se alav~n,Ç__a~se e, então,
afirmar que a cultura da clas- o sistema trata de acomodar sua pobreza. Aqui, fora de dúvida, enquadram-se
se dominante.... seria
·- --· dotada
- dê elementos do que o mesmo Thompson discutiria no que chama de economia mo-
uma espécie de superioridade ral, no que destacamos os choques do consuetudinário com novas provocações
intrínseca ou mesmo de uma dos que buscavam a desmarginalização. Tudo seria aprendizado diante de situ -
força de difusão que viria de ações inusitadas amaciadas pelo aparente descanso do cotidiano, da rotinização.
sua própria essência e que per- Ainda na esteira de Thompson nós estamos diante de um fazer-se sujeito, pelo
mitiria que ela dominasse na- que era dado como subalterno.
turalmente as outras culturas. Apesar dos aprendizados, o desigual se afirma e isto é novo. A continuidade
da discussão aberta por Cuche leva a considerar dois caminhos a serem evita -
Traços e Troças passa pelo desi- dos: minimalista e maximalista. O primeiro reduz a chamada cultura popular à
gual sem concessão no texto, pois não cultura dominante, enquanto o segundo, em traçado diverso, levaria ao extremo
se rende à ordem do poder. Ele define contrário. Mas Cuche, enquanto comenta, conduz para a posição de Certau que,
bem os traços e as troças que constrói, sem dúvida, é inventiva, mas não destaca - a nosso ver - justamente o tensio-
no entanto, argumentando uma mo- namento, em face do modo como constrói a cotidianidade.
ralidade com valores no trânsito, en- Melhor seria encaminhar para as implicações de classe que passem pela
quanto a realidade é vista do trânsito. significação de Thompson, quando, inclusive, se pode derivar para uma ideia po-
,";(óu.,."t't,-c lt'l· e~ '/l/,,,çÍo.n ,pt:t 5'oc-irrl r-m· ().l('r9on-J.

1; HS 111 lrn t•struturud a, porém cnco nt runclo, da vid a é estimula nte, inclusive através Es tamos diante de uma forma d e
liu - "1clo o cotidiano. Possivc lmcn•c, do desmanche das grandes vari:'iveis o lhqr da hic:;tória encon tn:ir os po b re~
11 ra- 111 111 11w1 aproximaria da hislória vista que sempre tenderam a assumir o hori- descalços - espécie particular do panis
·s ta r prn l1,11xo expressão que Thompson zonte da pesquisa histórica, tipo classe, cotidianus. lsto obriga a pensar nos
en - nln, m1pomos, nos idos de 1966 - e estado. Thompson quando vai à busca termos de uma história da cultura, so-
cio- nnn <:oncluziria a um tipo de história da comunalidade, fala bem mais de uma bretudo percebendo o enriquecimento
o às thlll rlf•-;soas comuns, segundo uma das intenção do que de um método. Traba- gerado pelo aporte da hermenêutica.
o na mo liv11 ~ <)C S de Jlobsbawn. Aliás, a es- lha com proposição que coloca em rele- Não se pode negar que a hermenêuti-
t'gia rnl rJ 111.1rxista de historiadores ingleses vo a ideia de busca, de necessidade de ca é enriquecedora como discussão. O
foz 1wlo trato do comum. Há uma im- chegar junto ao oprimido, representa- diálogo com Maceió começa e Maceió
)98) pli tt1ç·110 la tenle de classe em Traços e do por ele em inúmeras figuras sociais, pode responder sobre si mesma. O
l'OS- ! 'iü\~, , ~, há uma passagem por baixo na participantes não-evidentes, posições texto contém e é contido; pode enfren-
, ca- rn•icclocle alagoana e há o trato do ho- ultrapassadas... Há ligação intrínseca tar as perguntas sobre aquilo que lhe
,. da •llü lll comum, há uma importante apro- entre Thompson e cultura; ele entende pertence e s obre as a u sências, às ve-
triai i n 101,. 10 com a vida e o alargamento de que existe uma classe operária e ela tem zes, mais importantes do que as pre-
iam llíil horizonte para além do senhorial. concretamente formas de vida: a clas- senças, donde se deve Ler o cuidado e
clu - lo,. dificil chegar ao comum, mas a se operária tem um tempo, uma vida. estar alerta para perceber a negação e
tão, pon!.lib1lidade de se poder chegar perto Na verdade, tem-se um distanciamento a afirmação no jogo dos opostos, para
1 se imediato do economicismo, o que leva- que o cenário e sua trama não quedem
mo- ria a ressaltar a cultura e a discussão escondidos.
·ões das chamadas estruturas por uma pers- Parece que, neste ponto, pesa o
ítu- pectiva não mecânica. Há uma determi- que Geertz argumenta, pesa a herme-
;ão. nada vida em Maceió, com gente sim- neutic enterprise e nela haveria o trato
:Jelo ples como sujeitos em rede, em relação de significados, sem esquecer a exis-
e em paisagens e itinerários, e isto é ver tência do que vamos chamar de ambi-
a de por baixo em Traços e Troças. ência, na linha da ecologia, conforme
·ita- parece-nos ele mesmo discutiu. Cla-
1r à ro que Geertz está merecendo relevo,
·rno pelo instigante de suas colocações que
JUe, afrontaram, como se sabe, uma cons-
S JO - telação positivista de trato com socie-
dade, cultura; pela aproximação às
>ela chamadas humanidades vai penetrar,
po- inclusive, na história, sendo impor-
51
j_~ ~ de,, at,,.,.,'*k

tante na história cultural, etno-história, antropologia histórica, história antro- O cotidiano posto no roman-
pológica e quejandos; aliás, uma de suas mais importantes contribuições está, ce não deve ser confundido com roti-
justamente, na discussão do que seja cultura - onde reverbera Weber - e no na, mero local de alienação, repetição,
modo de se poder chegar a ela. apesar de ser o dia a dia, o tempo que
li O grande avanço de Geertz- apontado por alguns como espécie de interme- passa inexoravelmente na comunitas e
diação para o pós- moderno - está na compreensão da amplitude do sentido de ele sempre será novo, embora a lenti-
texto, acusado, contudo, por alguns, de não chegar a qualquer lugar a não ser dão de mudanças possa enganar os que
em si mesmo, apesar de entregar o native ao seu próprio conhecimento. Aliás, vivem as relações, falseando sobre uma
este self do native fica do local para o local, o que é uma crítica essencial: o local indicação de permanência, um estado
ancorado em si. de repouso, como deveria aparentar-
São inúmeras as críticas às suas posições; mas o que pesa, contudo, é o se na Maceió daqueles idos. Maceió se
instigante hermenêutico (sem importar a raiz) e a ida ao senso comum, bem mexia, da mesma forma que se mexia o
como à narrativa, à descrição e à clarificação. O senso de weberianismo que se modo de ver de Nolasco Maciel. Enfim,
instala não impede que se imbrique a history from bellow, na qual se tem a dife- o tempo é o centro do processe>; é nele
rença, a desigualdade, e que nos leva às estruturas de dominação, cujas bases, que tudo acontece, tudo se finaliza na
a nosso ver, são postas em A Ideologia Alemã que data de 1846 (2008). síntese que nele se estabelece. Esta-
Não importam as ponderações hermenêuticas que suportam Geertz (1989, mos diante do tempo enquanto resulta-
2001)- numa linhagem que perpassa Dilyhey (1989), oriundo de Schleiermacher, do e o acontecimento sempre é o nõvo.
e que, segundo Araújo (2008), estabeleceu uma forte relação entre a hermenêuti- O tempo é cotidianamente novo até
ca e a história - , aonde ele chega, mas o que levanta como problema e a ênfase mesmo pelo fato da irreversibilidade,
na existência de algo ao mesmo tempo estruturado e estruturante que ê o senso no que estamos lembrando de Heller
comum, aquilo que, segundo entendemos, leva à possibilidade da comunitas pela (1989). Independendo do ritmo, a mu-
legitimação e isso, evidentemente, reverte para o contexto. O mundo da cultura dança acontece, variações se apresen-
está articulado à ideia de comunitas, sendo necessário enviá-lo à produção. Nesta tam, deslocam-se elementos, outros se
comunitas é que se encontra a noção de pertencer e ser, de estar com, de comun- incorporam numa dinâmica irrefreável.
gar a vida, o que nada tem de moralismo nem do que poderia ser considerado de Heller escreveu (1989; P. 28):
virtual, mas da prática mesmo da sobrevivência e do encontro pessoal.
A viagem de Pedro Nolasco Maciel não chega ao aprofundamento de todas O tempo é a irreversibilidade
estas questões, mas sem dúvida há um fértil diálogo com Maceió, com o comum dos acontecimentos. O tempo
e com a evidência do seu senso, o que, novamente, leva a seu caráter inovador. histórico é a irreversibilidc:i.sle
Fôssemos demarcar passagem por passagem que nos autorizam estas afirma- dos acontecimentos sociais.
ções, seria transformar esta introdução em um estudo específico sobre o autor. Todo acontecimento é irrever-
Mas, sem dúvida, a leitura a ser feita as revelará, especialmente se for uma lei- sível do mesmo modo; por isso
tura dialogal. é absurdo dizer que, nas várias
/

~,,:;t~ç;;{f/Vt,çy, e- muk,,,,,pa >oc-1,,Çf,t e-rn- ~º~

11:1n-
épocas históricas, o tempo de- pécie de herança que ela mesma se nhos para a hi stória, na medida em
roli - ~orre t:m alguns casos lenta- cobra. Pedro Nolasco Maciel estava que a incorpora em seu oficio; decerto ,
1rfio, mente e em outros com maior olhando também para a Maceió pro- é vital o que sera realizado por fhomp -
que rapidez. O que se altera não é funda e, assim , ele, o romance, pode- son, que historiciza a ordem simbólica
llS e
o tempo, mas o ritmo da a lte- ria ser concebido não como fala sobre e que encontra a cotidianidade como
·nti- ração das estruturas sociais. Ma ceió, mas como um diálogo com o a percebemos, ou, em palavras mais
que Mas esse ritmo é diferente nas local. Com isto se pode falar na tem- singelas, a ordem do comum da vida,
1ma esferas heterogêneas. É esse o poralidade do cotidiano urbano, suas de onde Pedro Nolasco chegou perto e
ado fundamento da des igualdade áreas manifestas, suas áreas ocultas. recortou sua visão do popular, fazendo
tnr- do desenvolvimento, que cons- Nada mais extraordinário do que , no dele um argumento essencial do livro
) se titui uma categoria central da aparente prosaico, alguém poder estar que se republica.
ia o concepção marxista da história. no profundo. Estamos diante da pos- Com isto, encontraríamos os
fim, sibilidade de dua; Maceió,~asque se passos da história, e estaríamos dian -
lele Cotidianos jamais são iguais.~ integram: a profunda e a rasa. Pode- te, por outro lado, dos requisitos bási-
na to no tempo quanto no espaço, no que mos verificar neste ponto as implica- cos de necessidade, estruturas que se
ila- voltamos necessariamente ao territó- ções das estruturas de longa duração. atualizam e estão na Maceió profunda,
lta- rio. As permanências são ilusões dita- O fato básico é que não há imutabilida- afinal de contas, sempre continua a
IVO.
das pelo ritmo e existem setores mais de, embora exista o profundo. As pes- base da reprodução qjolõ~ca iq1:e~-
::ité facilmente afetáveis do que outros ; o soas em Traços e Troças são séculos e
de, ritmo se diferencia também para o ele- ao mesmo tempo segundos. ~
Iler mento e alguns deles entram no reces- É nas formas e nos modos do
lU-
so do tempo, no que é mais fechado , cotidiano que as pessoas sentem-se,
'11-
menos atingível. Temos uma Maceió identificam-se, e a escrita de Pedro
se em andamento, e, nela, seus trabalha- Nolasco Maciel encontra-se implicada
reJ. dores e seus feiticeiros numa paisagem com isso. Em todas essas questões, o
de vida articulada em Nolasco Maciel e motivo essencial é a cultura e os ga-
nela mesma, ao contrario de uma lógi-
ide
ca estamental que sempre segmentou
po como corolário da escrita dominante.
~!e Há uma dimensão profunda e
is. outra rasa em Maceió e estão em No-
~r-
lasco Maciel. Profundos para nosso
so caso seriam os anos de história que
/ IS
se transportam, no trânsito, como es-
56
.1-~ ~ de,, atrn-uk

da à reprodução de relações. Na Ma- tempo. É preciso estar alerta sobre a Maceió referida pelo romance, em face das
ceió profunda estava a possibilidade de variações que necessariamente ocorrerão no tempo, valendo referência ao que
um encontro com o mundo, e quem o diz Milton Santos sobre sistema de objetos e ações constituindo em um todo.
realizasse gerava, em verdade, um en- O deslocamento de tempo é também de sentido e estamos, novamente, em
contro consigo mesmo. É uma viagem uma discussão com Milton Santos, desta feita sobre o que se refere á história.
na qual os personagens do romance Sua posição se deixa marcar por uma relação de causalidade que entendemos
não poderiam se perder. Eram todos fechada , podendo transformar a visão da história em algo de senso meramente
caminhantes de uma mesma estra- paramétrico. O importante é sua compenetração da importância do tempo, para
da: tendiam, possivelmente, a parecer que não se possa correr o risco de confundir o presente com aquilo que não é
iguais no profundo e se afirmarem de- mais. Tem-se uma herança n este romance, que representou uma inovação e
siguais na Maceió rasa. O olho de Pe- abriu cluster, um conjunto novo de significação sobre a realidade.
dro Nolasco Maciel tem uma amplitude O cotidiano não pode ser esgotado numa categoria a ser rubricada como
espacial, da qual recorta detalhes e dá costume. O envolvimento com o cotidiano o transforma em matéria clarificadora
vida. É extremamente difícil estabele- da tensão; os costumes são parte integrante de um modo típico de viver; deste
cer o que é este profundo, do que se modo, o liv_:o é a primeira possibilidade que conhecemos je uma evidência do
constitui e do que se nutre. Para efei- simbólico,__d"ª presença __çla cultura, das redes d e relações estabelecidas e isto vai
to destas notas, vamos considerar que muito mais além do que e~contrar na ideia de ruptura e de paradigma, o dis-
estão no também indistinto senso das curso militante. O discurso militante seria um componente e não o fundamento.
heranças que instrumentalizam ações A importância que damos ao livro não está ligada apenas ao motivo de ad
e que, portanto, são atuais. É uma ou- vir de um momento socialista esboçado em Alagoas: a colocação do livro nesta
tra nebulosa, embora radicalmente co- ambiência, contudo, é fundamenta l. Possivelmente ele não existiria se u ontra-
locada: raiz. Sem dúvida, o profundo é dição entre capital e trabalho n ão tivesse aflorado inclusive como matéria teóri-
substantivo. ca. No fundo , no que se refere a Traços e Troças a encomenda política militante
A Maceió de Traços e Troças cami- é o que m~nos pesa. O importante é a tessitura pelo cotidiano; ai sim, reside o
nhará no tempo com o Traços e Troças afloramento de uma Alagoas que jamais poderia ser existente sem que toda uma
de Maceió; à primeira vista, trata-se de ambientação política não permitisse. E por outro lado, jamais seria o socialism o
mero jogo com palavras, mas refere-se, de Pedro Nolasco Maciel o que eslaria revelando a ruptura, mas a obra na sua
enfaticamente , à relação indissociável composição e no ambiente, o seu encontro com uma Alagoas que vive uma con-
entre tempo e espaço. É hora de re- tradição e que ela se revela de uma determinada forma, sendo o texto livre do
cordar um belo texto de um velho teó- controle eliticista dos valores.
rico: Cada sociedade veste a roupa de O livro claramente passa pela natureza da sociedade urbana que se for
--- --
seu tempo. A amplitude da proposição
de Milton Santos sobre o espaço leva-
mava e lida com a história, com a malha de relações que se desenvolve, de vez
em quando chegando à estrutura pelo expediente do acidental ou anedótico,
nos a entender que ele se diferencia no vez em quando trabalhando claramente conceitos políticos, pois há uma gran
;;
f.. ,":'(é,., ~«1-et- e- /1'/u~~ 5'ot/ie1l e-~ ~óN
....

IN lr1 1wn~11 1ia ge!n nã o d ecla ra d a e m todo nificação de muitas ações que se de- temente fragmen ln cio ~u- 11cl11 11111 n p e 1
1e íriHIOllí!e o µoder, também presente senvolviam no sítio urbano (1992) . Os c;onrtgem centr!l l n qw.. 1 1 111ni8 u111(l
Hll 1\ Fill 1a do Barão e mesmo obriga- novos sujeitos estariam falando sobre inovação pelo texto . Na verd a de , o n ·
ll Hffinn w nte nas suas tentativas de tra- suas vidas no momento mesmo em que ordenamento em Nolasco refaz a c o111
1. IJ11!l1 ve rificar a história de Alagoas
11 t ' eram situados. A fala seria a própria posição das evidências apenas cenlrn
•S rn 1 1HCJ l <' 1908. É preciso perceber presença. das nos homens bons.
e: que º" novos componentes trazidos O temor da des-ordem ou subver- Esta é uma outra inovação que
a nn i:n11 ::.t 1ução noslasqueana eram, na são sempre levará a que a elite entre nos parece radical; outras falas, ou-
é \'f'I d fHk, t ralha social e política, espé- em tentativas de controle, mas ela não tras ações, outras vidas, outras cenas,
e i I~ pc~ rl<'ncente ao fundo do poço so- estará com a propriedade do texto. Ela outras representações estariam apare-
rln l. Em seu romance e, portanto, no inclusive não vai trabalhar a tática da cendo e o texto as engloba. É quando
()
P"\'º que monta para significar Ma- assimilação. Não há possibilidade no se pode explorar o sentido dado à re-
'.'l u •i1\ t!"\t ava m o lixo e os trapos, no que momento para uma des-ordenação do petição por Benjamim, onde se teria a
e rumcu nos para as cercanias de Benja- sistema, no senso radical de transfor- crise (200~). A ruptura levando a no-
::> rnl1n (2007). Na verdade, seria neces- mação, mas uma re-ordenação, uma vas personagens implica a possibilida-
l'io conceber que novas personagens mudança radical no tom do discurso de da polifonia, não importando o que
opurccendo aumentariam novos cená- sobre a cidade, acabando-se com a voz se fala, mas que se fala. O modelo de
los de rua e determinariam a ressig- única e fechada em si, como se fos- dominação encontraria no monólogo a
se a razão em exercício excludente. A melhor forma de s e demonstrar.
:i unidade dos incidentais em Traços e Este romance deve ser da matu-
Troças trabalha a condição polifônica ridade das reflexões de Nolasco sobre
e, neste conjunto, mesmo os aparen- a sociedade alagoana. Com 25 anos
temente silenciosos estão no exercício ele lançava A Filha do Barão e aos 36
da fala. Na verdade, as vozes são a ex- é que aparece Traços e Troças. Nota-
pressão contundente do movimento da se uma diferença fu ndamental entre
rede e elas se equivalem com o aparen- os dois textos:_o folheti~o marcante
de A Filha do Barão é substituido pela
incisi'@ presença da estruturai emA
Pi.lha do Barão, o cenário ainda é o ru-
ral. EmTroços e Troças estamos díante
do complexo urbano dos serviços orga-
nizados e do cotidiano que se instala.
Não se trata de uma cidade qualquer,
mas de uma cidade que ele faz ques-
58
j_~ ~ ~ atrn,e4k

tão de identific-ªr marcando o !empo de_pessoas da órbita do poder de mando e de Mikhail Bakhtin e dos comentários
da õro.em -simples_d3.-'lida_q_ue se desenvolv~Aliás, seu personagem princip~1 é de Freitas (2003; P. 28)9 sobre texto
um prosaico cidadão. Ele passa pela sociedade, varando estratos que seriamde de Rey em que se trata das noções de
baixa expressão social no conjunto das solenidades urbanas que marcam o pro- sujeito e de objeto. O trato de objeto
vincial, como modo, também, de demarcar posições. ~ analiticament~erverso, pela domi-

111
Seria impossível que Nolasco não tivesse lançado suas análises para o ro- nação que traz em si. O que transpa-
mance e isto faz com que o novo texlo seja participante das interrogações do rece como elemento central é o texto,
momento. É uma aliança entre a análise do político e a construção do literário, no que se está no próprio caminho de
com um motivando o outro, desde que se expressam, por vias diferentes, sobre o Bakhtin ao fundar a visão do diálogo.
mesmo objeto, no caso a sociedade. Então, o momento histórico estará presente Evidentemente pode parecer
nitidamente no contexto e não importa a ingenuidade, não importam as estraté- forçado - permita-se a licença poéti-
gias pessoais como definidoras para a resultante que é Traços e Troças; importa ca - , mas chega-nos a possibilidade
é o peso do contexto no esclarecimento d a n atureza da obra, na busca da forma de conceber que aconteceu a tentati-
para demonstrar a natureza do cotidiano. Por outro lado, não se pode esquecer va da construção do que poderia ser
que Nolasco dá, também, um depoimento sobre seu tempo. A cidade era motivo uma tradição maceioense. Claro que
de vida e ao mesmo tempo de estranhamento que, no fundo, qualifica todo o pro- o significado da tradição se encontra
cesso em busca do entendimento. A tensão entre viver e estranhar encaminha a ampliado neste caso para o coletivo,
construção (modo e forma) de Traços e Troças. momento fundante de encontro. Em
Nele fica clara a determinação (ingenua mente ou não) de propor marcos noss o modo de entender não existe o
para a visão da lógica da rede, do que são os fatores estruturantes dentro de um esquecível, mas a condiçãod:eesciue-
contexto onde a busca pelo sentido da cidade pode efetivamente exercitar-se. A cido ou daquilo que se vai em buséa
estruturª Jlão fica_9esg~rrada da história - no que seria uma ossatura disseca- e traz situações de aclara~el!to-:-F'un­
da - e, possivelmente por isto, há uma permanente inclusâo do passado~ única da-se a tradição de uma Maceió que
forma de demonstrar os termos anteriores e os pontos da ruptura que, dentre se explica pelos provisóriõsdas tran-
õUtros fatores, -estariam na superação do escravismo, na demarcação da coisa sições, em detrimento de uma cidade
111
pública que se fazia em nome de uma República e da plena integração territorial detida que poderia advir de Caroatá
das razões agroexportadoras. Nisso a sua história deixa de ser exemplar no sen- ou mesmo da vertente de Dias Cabral.
tido político, correta no sentido ético senhorial e, longe de ser axiomática quanto A modernidade pela tradição em--No-
aos princípios dos homens bons, revela uma elevada gama do baixo mundo da lasco é que se pode chegar à ideia de
cidade, o que se poderia chamar de excluídos, pala vra dúbia pois na verdade comu nhã o pela identificacào de u m
eles s e encontram incluídos de um determinado modo. conjunto, no que estamos perto da
A ideia do depoimento, a ideia das vozes levam a uma outra inovação: a discussã o aberta por Anderson (1993)
-..; cidade não é objeto, mas elemento para diálogo. Não há um domínio narrativo e sobre a n ã o individualização dentro
daí a aparente fragmentação. Neste ponto, vale uma reflexão a partir dos aportes de fronteiras de vida.
.J..,,:;te-?,,d1"f/f/1.,Çf, e- ~111~//t?t' ~c;,;,(;l,t ~ ~ó~>'

rios Como se pode entender, Traços relações estão engendradas e, no seio 198'1) . l ~11q111 11llc1 Ui! C'Xfit '1111i:
xto e Jroças vai t1 ansgre<li1 a ordem da de tudo, um homem prova o amargo de a "'OC'Ír·d ~d • tl(\O ipHl!l !l 1lf'rl!t
de
jeto
m1-
pa-
<to,
- ,,..
~
inlt'ligência da época e lança luz sobre
o momento histórico. Neste sentido
tH I bverte a visão do processo. Falava
ili. um tempo urbano e encaminha-
sua busca pela felicidade.
Nisto se implica um outro pro -
blema: a incorporação na literatura
de formas de estar no mundo. De cer-
mas mod1ftca11cln 11 e 1111" 1111~0
mo negando a. Seu litn·nt 111'11
eme rge de uma dclt'1111i11ad t1
realidade histórica , isso niio
vn uma nova visão e bem poderia ser ta forma fica-se dentro do âmbito da implica que deva ser o seu re
de 1~~111siderado como um livro da primei- ficção e do depoimento, basicamente gistro fiel, ou a sua fotografia .
:o. 1·0 l~cpública, como estava sendo a ci - no âmbito da distinção feita por Ben- Ao contrário: a literatura ten -
cer dítdt· que ele percorre e que, por mais jamim entre narrar e romancear, com de frequentemente a insurgir-
éti- fltll rnnho que pareça, fala de dentro a primeira forma tomando a socieda- se contra este real, apresen-
:tde <lc;ln, podendo-se até mesmo pensar de e a segunda a independência para tando dele uma imagem em
'.lti- f•m busca de uma espécie de pere- com ela, condição lembrada por Alberti que a própria sociedade mui-
ser qup~;no urbana. Por outro lado, não ( 1991), o que deve ser visto com extre- tas vezes se recusa a reco-
1ue (ll11111os diante de uma cidade textu- mo cuidado, pois as duas categorias nhecer-se. Trata-se, portanto,
tra 11, mas de um romance que está na sociedade e romance contêm-se. No de uma relação necessária,
vo, í'iduck real, fruto dela e a ela corres- entanto, conterem-se não significa que contraditória e imprevisível.
8m pc111<l<·1lle. A cidade é o romance e ele uma possa ser reduzida à outra. Es-
e o t_. CI r idade, nesta relação complexa de tamos passando pela discussão aberta
ue- 11111~ 1 c.lção e de tensão.
1 por Velloso (1998; p 240):
sca Nolasco Maciel não inventa uma
.ln - ·<•Wn1fr: lê o que existe e dã um depoi- A produção literária é um fe-
1ue nc11lo, com o enredo sendo habilitan- n ôm eno social, na medi<if.J,
m- te pn r't dar significação objetiva à rede em que resulta de COl.\VÍ~'"'~;.....-
tde {!UO st• desenvolve, em um olhar etno-
atá rtdko sobre si mesmo. Não é um ro-
ai. íllfl flC_l' de costumes: os costumes estão
'10- i'ti) rnrnonce, o que é essencialmente
de dlf1~r1 11te. 1-lá uma fala s obre Maceió e ,
1m liO•' c~ onsequência, chega ao maceioen-
da Nl'w há um encontro ou uma busca
~J3) •lo ()Ili ro; é uma etnografia que se de-
Iro f!Nivülvc em torno de si mesmo e, aí, o
IHJO do depoimento avulta. Nisso, as
60
~«~ ~ de, (Jkc,i,~.

Um livro da importância de Tra- com o que chamava de tipos populares e de raízes na vida maceioense. Nascido
ços e Troças estava sepultado, mas o em 1901 e falecido em 1986, Leve toda sua vida radicada em Maceió, cidade da
velho acaso fez com que chegasse às qual foi um apaixonado cronista (2001). Quando de seu falecimento, Arnoldo
mãos do Arnoldo Jambo - gente da Jambo escreve sobre ele na revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alago-
11111
área do Poço, conforme Bittencourt - as. Félix de Lima Júnior, em suas anotações, retoma o cronista e o homem da
que, aliás, realizou excelente trabalho vida de Maceió, sendo sua participação de relevo e saborosa. Jambo convidou
de editoração quando se encontrava também a Moacir Medeiros de Sant'Ana, que já era Diretor do Arquivo Público
1111111111 à frente do Departamento Estadual de Alagoas, para escrever sobre Pedro Nolasco Maciel. É a primeira contribui-
de Cultura. Como jornalista e editor, ção sobre o autor que surge, sendo de ver que Sant'Ana começa a sua vida in-
1111111
Arnoldo Jambo já havia dado contri- telectual (além da formação em direito) sendo um bibliófilo à cata de material
buição à vida de Alagoas, quando da sobre Alagoas, sendo, possivelmente, daí que tenha aparecido o seu escrito
publicação do Suplemento Literário bibliográfico.
no Jornal de Alagoas e continuou sua Félix de Lima Júnior é um dos intelectuais a lagoanos que m erecem detalha-
participaçã o até os finais dos anos no- mento em estudos sérios. Pelo menos, ele, Theo Brandão, José Maria de Mello e
venta do século passado, pois veio a fa- Abelardo Duarte foram de extrema importância desde a década de 30 até aproxi-
lecer em 1999. Aliás, en passant, junto madamente os anos oitenta do século passado. Aliás, deles, apenas Félix de Lima
com Francisco Valois, Edson Zambra- Júnior recebeu tratamento circunstanciado, como se tem a partir de trabalho de
no (2008) esteve na Revista Caeté, que Rachel Rocha.
merece um bom estudo pelo seu papel
na década de cinquenta, justamente As contribuições
por tempo em que, mesmo de modo in-
cipiente, começa a grande urbanização Esta edição, a terceira, transforma Traços e Troças em uma espécie de best-
de Maceió. Jambo deveria ser estuda- seller provinciano. Ela foi montada com texto de professores especialistas nos
do pelo que representa como literato, assuntos que abordaram, gerando informação de base para a leitura do roman-
jornalista e pelas ligações políticas que ce. O primeiro trabalho é da lavra do historiador Osvaldo Batista Acioly Maciel
manteve no nosso estado. e informa sobre a vida de Pedro Nolasco Maciel e seu contexto. Traz informes
Não fosse Arnoldo Jambo, tal- capazes de situarem Traços e Troças na vida alagoana da época e discute o que
vez este trabalho tivesse sumido. Sua considera a sua significação e a do autor. Ele objetiva a sua colaboração nos
descoberta do texto e sua intenção seguintes termos:
de relançá-lo deve estar nos idos de
1962. E enlende que deve passar pe- Nolasco Maciel construiu uma trajetória d e militância que dia-
las mãos de Félix de Lima Júnior, sem logou em diversas fases de sua vida pública com o liberalismo
dúvida um dos mais finos cronistas progressista, com o abolicionismo, com o republicanismo e com
da vida alagoana, acostumado a lidar o socialismo. Neste escrito, além de uma breve biografia de No-
(
~a-ui-ea-~()I, e.- -m~µx- 'Soc,;i,~t ~ alryoN-

scido lasco, pretendemos analisar te atribuído a Pedro Nolasco 1-<css:dto, 1111 1:u(111N11fi •Hlt'I
Lda a relaçào entre bUal:> ideiab Mdcid, narrd as desventuras tivo df' Nnl 1• r<i , . . ,••, v(i!'lr~dll
10ldo e sua atividade política en- amorosas envolvendo o tímido gama de d1scu1~oN q111• l111 •11i:i111
lago- quanto intervenção na reali- alfaiate Manoel e a endiabra- a obra a bsolulu111l·ntc· 11rigi
m da dade alagoana. da Zulmira. Sob a perspectiva nal e de dificil classifka1Jw 1111
1idou moralizante de denúncia das quadro da historiogranu lilt·-
blico O segundo texto é elaborado pela conseqüências funestas da rária brasileira . Ignorando so
ibui- 1'1 ufessora Dra. Ana Cláudia Martins vida dissoluta, o livro apre - Ienemente a progressão linear
a in- q1 lt' estuda as relações entre história e senta um retrato da cidade dos fatos, as normas espaço-
erial litc·1 atura. Ela considera que se trata de Maceió nos primeiros tem- temporais que, àquela altura,
e rito t 11 um texto que inclui características pos da República brasileira, regiam o estatuto da obra li-
dr diversos gêneros e esclarece: semantizando - através das terária, Nolasco constitui, se-
llha- referências a personagens e gundo a autora, um narrador
~no e
Produto híbrido entre a lite- acontecimentos históricos, indisciplinado. Se em Traços
roxi- ratura ficcional, a crônica e o aos espaços de sociabilidade, e Troças misturam-se o ficcio-
.-ima texto jornalístico, Traços e Tro- aos paradigmas da opinião nal e o documental, com nítido
o de ças, publicado anonimamen- pública e às normas sociais vi - predomínio deste último, isto
te em 1899 e posteriormen- gentes - os impasses, limites e se deve, sugere Brandão, à ex-
contradições do período. periência empírica de um nar-
rador teslemunhal, de cunho
Uma terceira contribuição e mais etnográfico.
1est- atenta ao literário é dada pela pro-
nos fessora Gilda Vilela Brandão; leva em A quarta colaboração é dada pela
1an- consideração a natureza do discurso e arquiteta e urbanista Cynthia Nunes
1ciel resume: da Rocha Fortes, que traça um perfil
mes dos itinerários constantes no romance
que d e Nolasco Maciel destacando a malha
nos urbana em formação. Escreve:

Da mesma forma como mon-


dia- ta os itinerários, Pedro Nolas-
Nll10
co Maciel pinta a paisagem,
com compondo-a esteticamente
No quando dá j unção do fisico e
6ê.
:1..~ ~ k a~l?/ik

do cultural, como se tem na belíssima passagem sobre os pes- rar uma regra de três simplificadora, ao dizer
1111'
cadores do Pontal da Barra. Lega, também, uma ideia do muito, que um responde pelo outro numa simetria
que na realidade desapareceu pelo crescimento ocorrido, pela re- impossível de ser demonstrada. Não se pode
significação das áreas na malha urbana que havia começado a traçar uma disjunção entre autor e obra e não
'li ser esclarecida com a conjunção territorial realizada pelos trilhos se pode transfo1má-los - numa perspectiva ló-
urbanos. As paisagens são dadas à proporção que ele se refere gica fom1al - em variáveis ditas dependente e
1

aos locais e à procura desses locais pelas personagens. independente. A razão é simples, pois, dentre
11111
outros elementos, as consequências de ambos
A quinta colaboração é dada pelos professores Douglas Apratto Tenório e jamais seriam idêntica<;.
Cármen Lúcia Dantas, que tiveram a gentileza de fornecer alguns cartões postais A lineariedade seria impossível e esta-
capazes de ilustrarem paisagens da época; o texto que apresentam valoriza o es- ria implicando cm um traçado rigorosamen-
tudo histórico dos postais e ajuda a pensar na Maceió nolasqueana: te fonnal, de uma interdependência perfei-
ta e numa absoluta condição paramétrica.
São excelentes fontes complementares do estudo da História, Hall chama atenção para o que ele chama
1
desde o início de sua circulação até o advento da mensagem ele- de 'rupturas significativas'. Elas é que de-
1
1ll trônica, quando passaram a ter uso mais restrito na sua forma veriam ser procuradas, buscadas na análise
original. Eles nos ajudam a abrir a taramela das lembranças e das radicalidades e dos paradigmas. Suas
a estabelecer uma ponte com o passado, cm uma enriquecedora ideias nortearam cm grande parte esta nossa
relação atemporal. discussão introdutora, procurando demons-
trar o que muda com Traços e Troças. Varia
Andando para o fim o sistema; varia uma forma de apresentar
o mundo, agora, visto numa pos-abolição e
O modo e a forma de romper está na cidade. Ela como personagem central fala sobre reestruturação do capitalismo que faz com
um mundo novo de uma forma diferenciada e também nova. É no entanto, momento de , que uma personagem seja possível: o novo.
lembrar com Stuart Hall (2003; p. 123) - quando discute paradigmas - de duas condições É nesta saída da escravidão para a busca da
básicas: a primeira refere-se ao fato de inexistirem "inícios absolutos" e a segunda, bem for~ali2ação capitalista, que a esperança
mais discutível, o fato de que "poucas são as continuidades inquebrantadas". Ele conti- sobre o não-senhorial surge e no caso se
nua "nem tampouco o absolutismo da 'ruptura epistemológica', pontuando o pensamento revela cm uma cidade onde as relações do
em suas partes 'certas' e 'falsas' outrora .favorecido pelo althusserianismo". É bom este novo mundo capitalista se explicitam. Tal-
alerta, que é introduzido para dentro da discussão do marxismo, quando ele se refere dire- vez fosse interessante aprofundar a ideia de
tamenk. a Althu~~er. uma cidade correndo em busca da classe ou
O que se procura com esta visão de novo paradigima em Nolasco é simplesmente da construção de seus fatores estruturais.
pontuar o momento de uma determinada época, bem mais importante do que momento de Quando comenta o que seriam as
autor. Não se nega a possibilidade de ter-se um autor junto a uma obra, mas não se pode é ope- chamadas rupturas significativas. Ele diz:

1111
.li

.J..,,:;1tyt,d/t«rt;et- e- "Pl~pa 'Soc,,-,,c~l ~ a~o~

.hzer' O que importa são as rupturas tidade do urbano, na esperança da transfor-


11..: tna s1gmficativas - em que velhas mayão pós abolição e que fala numa base
pode correntes de pensamento são econômica cm que o fluxo da mão de obra
não rompidos, velhas constelações conta com a venda da força de trabalho . E r .,,
'ª ló- deslocadas, e elementos novos neste trânsito da abolição para a república
nte e e velhos são reagrupados ao que se encontra a ambiência, uma possibili-
mtre
( ,
redor de uma nova gama de dade de nascer o novo montado no romance
nbos premissas e temas. Mudanças em cima de sua categoria central: a cidade, /ô

em uma problemática transfor- aquilo que não mais resulta formalmente


csta- mam significativamente a na- dos embates de 1839, mas de configuração
nen- tureza das questões propostas estrutural. "
'ffci- e a maneira como podem ser
nca. adequadamente respondidas
iama Tais mudanças de perspectiva
·de- refletem não só os resultados
álise do proprio trabalho intelectu a l,
Suas mas também a maneira como
1ossa os desenvolvimentos e as ver-
1ons- dadeiras transformações histó-
•'aria ricas são apropriadas no pen-
mtar samento e fornecem ao Pen-
'. àO e samento, não sua garantia de
com 'correção', mas suas orienta-
IOVO. ções fundamentais, suas COQ-
·a da dições de existência. (HALL:
ança 2003; p. 123)
.o se
:s do Traços e Troças vê o novo, produz
rat- o 11ovo e o traz para o Pensamento dentro
'ª de du ambiência onde o significativo aparece
>COU ('. tem condições de enunciar sobre e1a e
!'' iobrc o que contém de novidade. Faz isto
m as chamando a cidade para a armação de seu
I L~· prnpno argumento ou seja: a busca da iden-
Referências

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Maceió: Typ. de J. S. da S. Maia, 1850
CUNHA, Silvino Elvídio Carneiro da. Re- FIÚZA, Fernando. Alagoado. Belo Horizon -
1111111
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com que o Exm. Sr. Dr. José Eustáquio
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LISBOA, Henrique Marques Oliveira. Fala dinária da 20° Legislatura Provincial
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1 ~ 1~ LINDOSO, Dirceu Accioly. Uma cultura


VERÇOSA, Elcio de Gusmão. Existe uma
cultura alagoana? Maceió: Catavento,
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio de Janeiro,
1
em questão: a alagoana. Maceió: 1981. 2002. como parte dos requisitos necessários à
ltli. obtenção do Título de Doutor em Socio-
MACIEL, Pedro Nolasco. Conferência re- MELLO, Roberto Calheiros de. Relatório logia e Antropologia. Rio de Janeiro, 2004 .
alizada por Pedro Nolasco Maciel em 18 apresentado a Assembleia Legislativa na
li~l l de dezembro de 1887. O Artista, MACIEL,
Oswaldo Batista Acioly. Filhos do traba·
1 ª Sessão Ordinária da 15ª Legislatura,
pelo vice Presidente, Dr. Roberto Ca·
PIMENTEL, Espirídião Eloy de Barros.
I
Relatório com que o Exm. sr. dr. Esper·
164 . hlllo Eloy de Ba rros Pimentel, Presiden- Assembleia Legislativa da Província das
hJ (tn Província das Alagoas, entregou Alagoas na abertura da Sessão Ordinária
tí administração da mesma Província em o 1° de março de 1855, pelo Exmo.
a da HO ttlft 19 de abril de 1866 ao 1 ª více- Presidente da mesma Província, o dr. An-
ó rio '.t fü1ldente, dr. Galdino Augusto da Na- tônio Coêlho de Sá e Albuquerque. Recife:
<VI. tIVldnde e Silva. Maceió: Typ. do Bacharel Typ. de Santos & Companhia, 1855.
l·'r.llx clu Costa Moraes [n.d.].
PINTO, Manoel Sobral. Relatório com que
'ala l'EIU!IRA JÚNIOR, José Fernandes da Cos- ao Exm. Snr. Dr. José Antônio Saraiva,
1c e- IU .Rc-latório apresentado à Assembleia Presidente da Província das Alagoas en-
ata ltHtl Legislativa na Quarta Sessão da Déc- tregou a administração da mesma provín-
Or - hoo Quinta Legislatura pelo Ministro e cia o Vice-Presidente Dr. Manoel Sobral
:ial or.,tário de estado dos Negócios da Ag- Pinto. Maceió:. Typ. Constitucional, 1853.
ncultura, Comércio e Obras Públicas José
1"õn1andes da Costa Pereira Júnior. Rio de PONTES, Rodrigo de Souza da Silva. Dis-
tdo lnnciro Typographía Americana, 1875. curso e relatório com que abriu a ter-
·er- ceira Sessão Ordinária da Assembleia
:>u- PI Ml ~NTEL, Espiridião Eloy de Barros. Legislativa da Província das Alagoas, o
ós- Rohlt6rio com que o Exm. sr. dr. Esper- Preside nte da mesm a Província, Rodri-
~a, ldlio Eloy de Barros Pime nte l, Preside n - go de Souza da Silva Pontes, e m 1 2 de
da 1ll da Província das Alagoas, entregou janeiro de 1837. P. Bahia: Typ. do Diario-
ro, " administra ção da mesma Província -Impr. F. T. 'Aquino, 1837
là on dia 19 de abril de 1866 ao 1 ª vice-
fo- r•t,,•ident e, dr. Galdino Augusto da Na- _ _ Discurso e relatorio com que abriu
)4. tividade e Silva. Maceió: Typ. do Bacharel a primeira Sessão ordinária da segunda le-
l"clíx da Costa Moraes [n.d.]. gislatura da Assembleia Legislativa da Pro-
os. víncia das Alagoas, o Presidente da mesma
er- l'INI 10, Jozé Sizinando Avelino. Apon- Província, Rodrigo de Sousa da Silva Pon·
l(lmentos para a topographia phyisica e tes em 6 de janeiro de 1838. Alagoas: Typ.
1111díca da cidade de Maceió, pelo Dr. Jozé de J. V. de A. Peixoto e Comp. 1838.
Bi.:t;nando Avelino Pinho, membro do Con-
f'.'t ·iso Geral de Hygiene Publica da Belgica. ROCHA, Rachel (org.) Apresentação. ln:
M11ceió: 1855, p. Sl-1. ln: ALBUQUERQUE, Félix Lima Júnior: Maceió de outrora.
i\ntõnio Coêlho de Sá e. Fala dirigida à Maceió: EDUFAL, 2001.
ROGÉRIO, J anecléia Pereira . Maceió: re- SARAIVA, José Ant onio. Fala dirigidas a tor João Thomé da Silva, em 16 de mar-
ligião e a festa de Iemanjá. O Jornal. Ma- Assembleia Legislativa da Província das ço de 1876. Maceió: Typ. do Jornal d as
ceió, 7 dez. 2008. Espaço. Alagoas na abertura da Sessão Extraor- Alagoas, 1876.
dinária em 20 de fevereiro 1854, e da
SANT'ANA, Moacir Medeiros de. Uma as- Ordinária em 8 de março do dito ano, SILVA, Cincinnato Pinto da. Fala com que
sociação centenária. Maceió: APA, 1996. pelo Excelentíssimo Presidente da mes- o Exm. snr. dr. Cincinnato Pinto da Silva,
ma Província, o dr. José Antonio Saraiva. Presidente da Província, instalou a 2ª Le-
111111

Primeiros Movimentos Grevistas em Ala- Recife: Typ. de Santos & Companhia, 1854. gislatura Provincial das Alagoas em 30 de
goas. Revista do CHLA, nº 4, Maceió, 1987. abril de 1879. Maceió: Typ. do Liberal, 1879.
SEBRAE . Um Olhar no Norte - Caminho
SILVA, João Thomé da. Fala dirigida a As- de Engenhos e Escravos & Rota da Li- TENÓRIO , Douglas Apratto. Metamorfose
sembleia Legislativa das Alagoas pelo berdade - Passeio ao Largo do Mundaú. das Oligarquias. Maio. EDUFAL, 2009.
11111 Exm. sr. Presidente da Província, dou- Mapeamento Cultural do Litoral Norte e
tor João Thomé da Silva, em 16 de mar- Parte do Vale do Mundaú em Alagoas. 1. THOMPSON, Edward P. A miséria da
ço de 1876. Maceió: Typ. d o Jornal das Maceió: Antares, 2001. teoria ou um planetário de erros: uma
Alagoas , 1876. crítica ao pensamento de Althusser. Rio d e
S ILVA, Caetano S ilvestre da. Fala com Janeiro: Zahar Editores, 1981.
1873. Maceió: Typ. do Jornal das Alagoas, que abriu a segunda Sessão Ordinária da
1873. quarta legislatura da Assembleia Legis- ___ A formação da c la sse ope rária i n -
lativa da Província das Alagoas, o Ex.mo. glesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
SANTOS, Milton. Espaço e método. São Presidente da mesma Província, Caeta- 1987.
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de 1843. Pernambuco: Typ. de Santos & _ _ _ Costumes em comum: estudos
111'1~~ Metamorfoses do espaço habita- Companh ia, 1843 sobre a cultura popu lar tradicional. São
do. São Paulo: Hucitec, 1992. Paulo: Cia. Das Letras, 1998.
SILVA, João Thomé da. Fala dirigida à
!~li _ _ Da totalidade ao lugar. São Paulo: Assembleia Legislativa das Alagoas pelo ULTRAMARIS, Clóvis. O fim das utopias
EDUSP, 2005. Exm. Sr. Presidente da Província, dou- urbanas. São Paulo: Studio Nobel, 20Ó5. ""
mar- M4CONCELOS, Cícero. A Imprensa em
<lns ln: Album do Centenário de
V,lçoaa. 2 ed. Brasilia: Plátano, 2008.

que VtmÇOSA, Elcio de Gusmão. Existe uma


1ilva, ultura alagoana? Maceió: Catavento,
• Le- 002.
0 de
879. VOINELLE, Michel. Ideologia e mentali·
d"do . São Paulo: Brasiliense, 2004.
Cose
1,

da
1ma
:J de

in-
rra,

dos
São

ias
5.
Not as

1
O autor agradece as contribuições re- atravessava o prolongamento da rua do
cebidas de Bruno César Cavalcanti, Imperador[ ... ]. Margeava o terreno onde
Fernando Mesquita, Cícero Péricles de logo depois edificaram o prédio do (... )
Carvalho, Amaro Hélio da Silva cujos co- Fénix Alagoana. Daí, corria solto, mais
mentários sobre o texto foram importan- largo e dotado de relativa correnteza [... J.
tes no encaminhamento da segurança da A mudança do leito do Salgadinho foi re-
argumentação. alizada no governo Silvestre Péricles [... ]
foi de águas abaixo e a ponte desapare-
2
Somente existe menção de logradouros ceu na grande enchente de 1949." Ver
de Maceió para o ano de 1819 quando Bittencourt (1992; p. 126).
se fala em Largo da Capela, Rua do Palá-
6
cio, Alecrim, Cajueiro, Nova do Passeio, Dois outros missionários serão incor-
Boa Vista, Travessa do Alecrim , Boca de porados à construção; aqui estava Frei
Maceió, Cambona. Falava em Bebedou- Henrique do Castello de São Pedro, a
ro, Mutange, Freixal, Goiabeiras, Bom mando do Prefeito da Penha, Frei Caeta-
Jardim, Fernão Velho, Pedreiras, Carra- no de Messias. O Henrique será substi-
pato, Tombador, Rocha, Rio Novo. tuído por Frei Luiz de Grava.
3 7
Nunca havia segurança técnica com rela- O matadouro estará construído em 1859
ção ao curso do canal. Pretendeu-se levá- - mas não a estrada- e pelo que a Pre-
lo até a rua da Contiguiba. Apareceram sidência escrevia, era pouco utilizado. O
dois planos, sendo um que não prosper- relatório dizia: "Os marchantes acostu-
ou e que seria pelo Trapiche da Barra mados a cortar o gado a céu aberto, so-
e que seria bem mas cara do que a pos- mente o procuram nos dias nimiamente
teriormente proposta, conforme se pode chuvosos para o tomar mais imundo,
ver em Pontes (1838) Em 1843 estava porque matando dez ou doze reses [... ]
sendo cobrada a execução de obra, con- não o fazem varrer e aguar, por cujo mo-
forme Silva (1842). tivo sente-se o bafio sempre anexo a es-
tes edificios, mais pronunciado do que
4
A Câmara de Maceió desejou adquirir o deveria ser." (GAMA: 1859; p, SS. l).
prédio para construir a Casa e o salão do
júri conforme Silva (1879). 8
TT, p. 35.

5 9
Diz um memorialista: "[ ... } o Salgadinho "Bakhtin [... }vê o texto como uma espé-
não descia pelo oitão do Hotel Atlân- cie de mónada que reflete em si todos os
tico. Entrava na rua Silvério Jorge [... ] textos possíveis de uma determinada es-
fera de sen tido . O nco11lt·< in11·11 t1> 11n v i1h.1
de um text o sempre se dc'lc11volv1i fll.I
fronteira entre duas con sol n ·1 t · tloia
sujeitos. Daí que o estudo dos fo n ó 111t:·
nos humanos se realiza a partir das l n
terrogações e trocas, porto pelo diálogo .
Diálogo compreendido não apenas como
uma relação face a face, mas de forma
mais ampla implicando também uma
relação do texto com o contexto.".
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edro Nolasco Maciel, apesar passagem do Império para a Repúbli-

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:j..., 1....:.
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P de esquecido por muitos, goza
de boa reputação entre os in-
1617ndes de Alagoas. Dirceu Lindoso,
ca") suas principais formas de interpre-
tação, hegemonicamente senhoriais. E
encontrará em Nolasco a figura que
p

1)0! ' exemplo, na cortante análise que
1i:.:o l1 ;r,a de nossa tradição cultural, in-
quebra com esta forma senhorial de
análise, "curiosamente" através de um
':.
die11 que ele inaugura "os momentos de "romance que veicula uma historiogra-
.... n1plura da tradicionalidade da cultura fia e uma antropologia urbana relati-
·~
' .. oi 1voana", no que é seguido posterior- vas , especialmente, a Maceió" (2004 ; p.
~ ~,, ~4-' f111·nle por figuras como José Rodrigues 16/ 17). 4 O romance é este que o leitor
l,1 1le e Oiticica, Octavio Brandão e Pe- tem em mãos.
<lm Mota Lima. Segundo o autor de A No que segue abaixo vou afirmar,
utopia armada, "através do fazer crítico em linhas gerais, o que eles já disse-
1lt ~sses intelectuais eminentes se esta- ram, matizando um pouco a impor-
l1(•lecem uma sucessividade de cortes tância de Nolasco, diminuindo sua in-
7;·~:v-.
·!~11: 1":4~
f',,,·,_,., t•pistemológicos no contexto cumulati- flexão em termos de um pensamento
vo dos valores de nossa cultura" (1985; de esquerda e contextualizando o am-
~~ p. 84) 3 Já Luiz Sávio de Almeida é mais biente político e cultural em que suas
incisivo na análise da obra de Nolasco. ideias circularam (anos 1885 / 1909) .
Afirma que Alagoas define em cerca de Particularmente tentarei estabelecer
,30 anos (da "passagem do escravismo um vínculo entre tais ideias e sua ati-
para a formalização capitalista, e da tude política no que se refere mais di-
retamente ao abolicionismo, ao republicanismo e ao socialismo. Para tanto, além de propaganda republicana, o Centro
de analisar sua produção escrita enfeixada em livros (pelo menos os que pude Republicano Federalista, fundado em
encontrar), utilizo parte de suas crônicas e artigos de opinião publicados na im- 11 de julho de 1886; foi vice-presidente
prensa local, bem como a h istoriografia sobre os temas e período enfocados. do Club Literário J osé Bonifácio, elei-
to em 10 de junho de 1889; orador da
Traços biográficos extinta Sociedade Artística Alagoana;
e sócio da Boemia Literária e do Bloco
Nascido em 1861, Pedro Nolasco Maciel é filho de Silvina Ferreira Guima- Alagoano, onde exerceu por duas ve-
rães e de Raymundo José de Sant'Anna, "revolucionário Maranhense de 1845". 5 zes o cargo de vice-orador. A principal
Entre 1878 e 1881 aprende a arte da tipografia no Diário das Alagoas, então sob entidade à qual pertencia, no entanto,
a direção de José Antonio de Moura e Silva. Casa-se em 10 de janeiro 1886 com era o Montepio dos Artistas Alagoanos.
Ana de Leyde Maciel, ficando viúvo em agosto de 1902. Ao longo de sua trajetória Sócio-fundador da entidade, em 31 de
profissional foi um dos fundadores do Gutenberg, órgão da Associação Tipográ- outubro de 1883, exerceu alguns car-
fica Alagoana de Socorros Mútuos, em 8 de janeiro de 1881, atuando como dire- gos em sua diretoria: foi bibliotecário,
tor e redator. Foi administrador ainda da Gazeta de Notícias e redator de vários primeiro e segundo secretário, além de
outros jornais, dentre os quais Tribuna do Povo, periódico de "propaganda de- orador durante vários anos, particu-
mocrática", aparecido em abril de 1887; Jornal de Noticias (1892); Constelação, larmente entre 1889 e 1899. Esta sua
folha católica (1899). Colaborou também em periódicos como o Diário do Povo, ligação com os trabalhadores organiza-
Lãmpada e O Momento, sob pseudônimo de "Maceiolino". Porém é n'A Tribuna dos em entidades continua ao longo da
que passa maior parte da sua vida como gráfico/jornalista. 6 primeira década do novo século man-
Além das atividades no setor tipográfico, Nolasco Maciel exerceu ainda os tendo proximidade com a União Ope-
cargos de auxiliar de ensino literário e professor de instrução elementar da Esco- rária Alagoana, mas não se sabe bem
la Central, destinada à educação de filhos de escravos e ex-escravos e pertencen- em que nível isso ocorre.
te à Sociedade Libertadora Alagoana. Foi também lente de estenografia no Liceu Sobre este espírito associativis-
de Artes e Oficios (nomeado em 10 de agosto 1900). Além dessas atividades, ta, deixou um comentário no roman-
trabalhou como taquígrafo na Câmara dos Deputados Estaduais e, entre 1889 e ce que segue que é revelador. Citando
1903, foi funcionário do Departamento de Correios e Telégrafos, chegando a ser as dificuldades do então Instituto Ar-
promovido a 2° Oficial de Carteiro em 9 de agosto de 1894. queológico e Geográfico Alagoano, ' da
Ao longo de toda sua vida profissional e adulta, Pedro Nolasco militou em di- Associação Comercial e de algumas
versas entidades beletristas, recreativas e beneficentes. Era tipicamente um des- confrarias para se manterem devido à
ses indivíduos impregnados pela cultura associativa do período. Até onde pude inadimplência dos sócios, indica que
averiguar, participou das seguintes entidades: Sociedade Libertadora Alagoana, este tipo de "cauiras", que não pagam
fundada em 28 de setembro de 1888, tendo sido seu orador; Sociedade Liber- e se beneficiam dos serviços da entida
tadora Artística, fundada em 13 de julho de 1884; pertenceu ao primeiro clube de, era muito comum 7
Centro
do em Carrego de lenha e m 1905
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Em todas as classes e em todas o são sob pseudônimo. Um terceiro conjunto de escritos diz respeito às obras
as sociedades desta terra há isto, in- historiográficas propriamente ditas, dent re as quais devem ser citadas a His-
felizmente. Sócios trabalhadores, pon- tória Pátria (1888); a Galeria de alagoanos ilustres ou subsídios à História das
tuais nas suas contribuições, assídu- Alagoas (1891), obra "que vem precedida de uma exposição acerca da Guerra do
os, beneméritos; e sócios 'in nomine' Paraguai"~> e o Resumo da história de Alagoas para uso dos incipientes (parte dele
que não pagam as quotas, não dão um publicado em 1908 no periódico A Tribuna). Por fim, os escritos ficcionais, desta-
passo em favor da sociedade, refratá- cando-se inicialmente Afilha do barão (1886). Parte deste livro, obedecendo uma
r ios , prontos para usufruir todas as lógica comum a diversas obras da literatura brasileira do período - como foram
vantagens, esquivos, desleixados no os casos de Machado de Assis e José de Alencar - foi publicada como folhetim
cumprimento dos deveres a que são do Diário das Alagoas, a partir de 20 de novembro de 1885, sendo interrompido
obrigados. 8 no momento mais dramático da ação, quase como se fosse uma estratégia pu-
No que se refere aos escritos dei- blicitária. Obviamente, aqui se inclui Traços e Troças (Crônica Vermelha, Leitura
xados por Nolasco, eles podem ser Quente). 'º Além destes dois romances, que chegaram a ser publicados em forma-
classificados em quatro tipos, sendo to de livro em vida do autor e foram objetos de reedições, há também registros
os primeiros mais técnicos como os re- do romance Os Camunhenques e de um outro intitulado Japy-Açara, publicado
lativos às atividades profissionais que em parte n'ATribuna em 1909. Esta última obra ficcional deve ter tido uma im-
exerceu. É o caso do Indicador postal portância maior que as demais para Nolasco, pois chegou a reescrevê-la em novo
ou nomenclatura corográfica do Esta- manuscrito, como veremos adiante.
do de Alagoas (Maceió, 1892). Outro Em sentido estrito, sua produção ficcional não é muito bem avaliada por
conjunto de escritos são os artigos de alguns de seus leitores e críticos, e talvez eles estejam certos. De qualquer modo,
intervenção no cenário político e cultu- cabe um estudo mais sistemático de suas qualidades literárias e mesmo do valor
ral local/nacional: debates sobre o Li- documental desta literatura para esclarecer melhor diversos aspectos da socieda-
ceu de Artes e Ofícios e a Escola Cen- de a lagoana do período em tela, seguindo um pouco a trilha da história social da
tral dos Ingênuos em inícios dos anos literatura, que vem dando bons frutos. 11 Creio que esta opção metodológica pode
1890, sobre a cultura e a vida literária enriquecer a análise de tais obras, principalmente pelo diálogo que se estabelece
alagoana, debates e posicionamentos entre o texto e o exterior do texto, entre a realidade e a representação desta rea-
políticos em diversas conjunturas do lidade. Inclusive pelo fato de que, sabidamente, Pedro Nolasco sempre se utilizou
1
período. Riquíssimo, uma garimpagem de personagens e acontecimentos que foram conhecidos/vividos pelo autor ou!Jor
neste material poderia revelar com testemunhas próximas. Ele chega mesmo a citar livros de história como referência
mais complexidade o papel de um in- para a caracterização que realiza de determinados cenários e acontecimentos de
telectual como ele no cenário regional. seus romances. 12 Assim, poder-se-ia entender melhor a análise que realiza da so
Este trabalho, no entanto, exigirá uma ciedade alagoana do período por meio da caracterização de alguns de seus perso
árdua tarefa na medida em que muitos nagens. Veja-se, a título de exemplo, como ele caracteriza o "dr. Benício", persona
de seus textos não são assinados ou gem de Afilha do barão. Amigo do Barão de Pirangé, é pintado como um "advoga
/..-i':fud/(« -i-çr. t;, /'r/t;t.~pct- 'Sovi&fl ~ ~o~

obrns 111 d1icu nista" e "homem vendá vel". O Ha bituado a t udo tornara se a liás transparece nes ta l>l'cvc li :; I ~L
l 1-[j o ·•- pendia dck, pois não possuía insensível 'los sofrimentos do F'ntretanto o que "'ª berno~ 'l i<' 111 dis
w das l111hlll1. · ~· oes para o cargo de advogado, próximo, demasia damente pir- so? Bom, deixa ndo estas que s t õc~ c m
·rra do como t he fe político, certamente esta- rôni-0. Podia dizer como o poeta aberto, convido-os a sair da fic ção e
te dele 1l --,,-, npn• a precisar deste profissional. português: - moralidade e hon- voltar à vida real de nosso herói.
desta- 1.lu1111 10 c•ra seu "lugar tenente" 13 , algo ra é tudo peta. 1•1 Por uma série de questões que
º uma pmL' ido com um testa-de-ferro do ba- ainda não foram totalmente elucida-
fo ram ll\o , l 1,1vestido de homem da lei, abria Um pouco das leituras de No- das, mas que possivelmente estão re-
lhetim o ('(í111111ho para o Barão de Pirangé rea- lasco podem ser encontradas nas lacionadas à sua atuação política, No-
1mpido llv.w· t.1< u s projetos políticos, reproduzi- epígrafes dos capítulos deste seu pri- lasco Maciel é demitido dos Correios
:ia pu- iln rrn hi erarquias sociais e a exploração meiro livro de ficção, que também já em 1903. Vivendo em dificuldades,
~eitura 11twrnvis la . Cortante e mordaz, Nolasco merece uma nova edição. Na entrada segue o boom da extração da borracha
forma- de cada um dos capítulos, Nolasco no Norte do país, e chega a Manaus,
~istros cita vários a utores, d e n t re os qu a is onde pass a u ma curta tempo rada, en-
>licado O doutor Benício não era um Alexandre Herculano e seu Eurico; tre maio e out ubro de 1904, para voltar
na im- criminoso vulgar. Na perpe- Camilo Castelo Branco, em A doida à tipografia d'A Tribuna.
n novo tração de seus delitos entrava do Candal; Do Monasticon; Eneida (?); Em seu obituário, é referido
por muito a frieza do cálculo. os sermões de Monte Alverne; Walter como "operário intelectual" pela reda-
:la por Scott; Platão; José de Alencar, Lucío- ção do jorna l onde mais t ra balhou. O
modo, la; Luiz Delfino e seu A Filha d'Àfrica; autor de A filha do barão, segundo A
>valor a Madalena de Julio Sandeau; E. Tribuna, foi principalmente jornalista,
icieda- Castellar; Lamenais; Macedo, com no sentido vago em que se entendia
~·ial da Quadros da escravidão; V. Palhares, tal categoria naquela passagem en-
t pode com suas Noites de Virgem. Sabemos tre séculos. Mas não era um jornalis-
belece que a cultura literária da época era ta qualquer, era um "jornalista sem
a rea- predominantemente francesa, o que feição definida", capaz, "por si só, de
tilizou fazer uma folha diária com todas as
ou por diversidades de assuntos reclama-
rência dos em um jornal de feição moderna."
tos de Continua o jornal:
ela so-
perso- Discípulo exímio da arte que
rsona- imortalizou Gutenberg, ele
lvoga- veio da caixeta armado jor-
80
o~"'ldo ]f;~~(JI, ~7 "J11çr,ud

nalista com essa ardorosa força de vontade que guinda os hu- tivo, bem formado, isento da
mildes às posições de destaque! E foi jornalista sob os múltiplos paixão avariadora. 17
aspectos que essa profissão reclama: ele produzia tudo e tudo
produzia bem; desde o artigo de fundo, severo e grave, em que se Resignado, Nolasco vem a falecer
estuda e analisa os grandes e complexos problemas sociais, até de "forte insulto congestivo" em 6 de
a prosa adorável dos seus contos sempre aplaudidos que correm dezembro de 1909, aos 48 anos, dei-
mundo atestando o fulgor do seu espírito e a vibratilidade do xando um filho, Marcionillo Maciel, que
seu formoso talento. l ' seguiu os passos do paí: também veio a
ser escritor e funcionário dos Correios.
Indivíduo de prestígio notável no meio urbano maceioense, Nolasco che-
gou a possuir a patente de capitão da Guarda Nacional. Parece-me, no entanto, Troças ideológicas
que a morte de sua esposa, as dificuldades finan ceiras e a estada em Manaus
ijá referidas a.cima) lhe fizeram reavaliar a vida e seu vínculo com toda a so- A forma como as ideias se orga-
"I' ciedade civil, inclusive com os trabalhadores. Passou a ser boêmio em algum nizam na arena das disputas políticas
,~, momento no final do primeiro lustro do século XX, "sem a vigília de interesses e ideológicas não aparece de modo tão
pessoais e pecuniários, aspirando independer de preconceitos e de regras, a sistematizado como se pressupõe a
modo de um 'ex-homem' de Gorki." 16 Falando sobre este período, alguém que partir das leituras dos clássicos da te-
o visitou em seu leito de morte e que se identificou apenas como J. P. escreve oria política. Na encarnação das ideias
uma bela página sobre esta sua fase. Conta J. P. que, três dias antes de sua em contextos específicos, em conjun.
morte, combalido, mal conseguindo falar e definhando fisicamente, Nolasco lhe luras delimitadas, nas condições de
entrega o manuscrito "meio estragado" da novela Japy-Açára, para que este a circulação, recepção e criação de prin
publicasse com o auxílio d'A Tribuna. Menos que a incumbência que recebia de cípios, conceitos e categorias teóricas
Nolasco, para J. P. o que era de admirar singularmente era, isto sim, "o espe- e políticas de determinados períodos,
táculo dessa existência periclitante que, às portas do túmulo, pensava ainda, é mais comum nos depararmos com :.1
pensava obstinadamente na execução de um tentame a que jamais renunciara" algaravia das práticas que com a pu
e conclui a avaliação deste período em que o conhecera, certamente reconfor- reza abstrata das ideias. As matrizr~
tando os familiares: ideológicas e os movimentos politicoi
dos quais Pedro Nolasco Maciel partiti,
na verdade, deslizando ao sabor dessa corrente atrativa, ele,
[ ... J pou transitam desde um abolicionismo
msens1velrnente, deµ1eciava um nome que tivera u base mais líci - aristocrático até o confuso campo d;1 1.1
ta e honrosa no esforço próprio e na inteligência capaz de apare ideias socialistas da Primeira RepúbLcll
lhar-se para uma ascensão brilhante, que mau grado não soube brasileira, passando obviamente p<•lo
trilhar. Mas, n essa viagem estéril, desandando a carreira auspi liberali smo progressista da geração ele
cioso, teve, contudo, a virtude feliz ele m<1 nler o corn(,'úo prim1 1870 e pelo repubJicanismo Jibcrn l/
BI
.iVfert.d/(1'Yl,Ç(. e- '1"11Akn,pa >-o0~t ~ ~()t:t-)-

1110 cl11 ;llHfhquico das décadas de1880/90. pular e mais radical que, aqui e ali, libertadoras e emancipacion istns dcH1
menO:> que S(. .1\iahe de maneira sobressaem na leitura dos es('ritos de escravizados. Nestes termos, pocll' - sc•
!!Hdl1J :superficial - o posicionamento Nolasco. Obviamente, em compara- entender melhor o viés menos inc1 s i
rnlecer d11 1111sso protagonista como reformista ção com a concepção de abolicionis- vo encontra do no primeiro dos livros
1 6 de cnnciliador, posto que supostamente mo existente no seu primeiro roman- de ficção de Nolasco.
~. dei !! ÕJ1 possuía a clareza revolucionária ce, A Filha do barão (lembrando, de Não obstante, mesmo em um tex-
•!, que 1)\K o momento histórico exigia, não 1886!), percebe-se um avanço consi- to de 1888, a representação de tal abo-
veio a fflt;il entender a mixórdia publicista derável em Traços e Troças. Parece - licionismo já possui componentes que
~-"'

rreios. rnm quais Nolasco viu-se envolvido . A me, no entanto, que Pedro Nolasco indiciam pela participação dos de bai-
twcra fica mais dificil ainda quando transitou um pouco entre um e outro xo neste processo, como neste trecho:
ir."1 11nos em conta a natureza lacunar e que as tintas desse abolicionismo
(111 produção historiográfica regional popular ficam mais expostas em seu [... ]o homem do povo, o artista,
orga- pt11.1 os temas e período que estão em segundo romance, d e 1899, por con- que só tem o lucro do trabalho,
hticas 1'~:icu aqui. Não se estudou ainda sufi- ta de que efetivamente a abolição da deixou por vezes a tenda, lar-
lo tão cient emente o papel do abolicionismo e escravatura não representava mais gou o malho e o escopo, para
Jõe a (lo republicanismo em Alagoas, muito um projeto em disputa, com a opo- vir trazer o fraco concurso de
da te- 1111·nos dos grupos oligárquicos e con- sição escravista ferrenha, porém algo sua colaboração no levanta-
ideias e1vadores existentes na política a ldeã. já conquistado, malgrado o modo mento do edificio do socialismo
njun - Bnbc mos a inda muito pouco sobre as como isto se deu. Apesar de ser uma
~'S de eBlruturas econômica e social que deli- memória ainda em disputa que se re-
prin- tnitnvam as possibilidades de interven- flete neste último escrito (para se sa-
>ricas .-;"10 no debate cultural e político dope- ber quem foram os principais atores
odas, 11odo. Diante de tais ressalvas, vamos deste p rocesso etc.) , é uma memória,
·om a H> que consegui garimpar , salien tan- ou sej a, é uma a ção política de basti-
l pu- do o caráter provisório dos resultados do res e n ã o da linha de frent~· como
,., .. ,;,;l_• ;.i.
t1izes .1qui apresentados. o fora a participação em sociedades _ __
iticos O abolicionismo existente em
. -~iliili

trtici- /\lagoas tem sido en ten dido , de ma-


1ismo neira geral, a partir d e um viés m uito
>das i.enhorial , aristocrático mesmo, s en-
tblica do emoldurado por sobrenomes pom-
pelo posos como os de Brennand e Lords-
lO de leem. Esta ênfase p arece descon s ide-
eral/ rar traços de um abolicionis mo ~
gz
o~~Uo 'Jl;eil(V,i/(c;r, ~~ m~~d

brasileiro. E quando foi dispen- os espectadores estavam surpresos com os novos acontecimentos noticiados
sado o seu auxilio? Nunca. Em do Rio de Janeiro. 20 Aparentemente, o novo regime deixava em estado de aler-
todos os tempos foi ele quem ta as parentelas políticas locais, na expectativa de conseguirem traduzir qual
trouxe ao exército abolicionista o novo formato de permanência política no poder executivo estadual. Assim,
as armas para o combate ... '~ entre escaramuças e picuinhas, "os conflitos se sucediam com uma frequência
assustadora; as primeiras horas da noite, em Maceió, eram de terror para as
Menos que evidência de um abo- famílias". 21 De qualquer modo, Moacir Sant'anna aponta rastros de positivismo
licionismo popular, esta narrativa é , republicano no estado em figuras como Pedro Costa Rego, João Francisco Dias
na verdade, um indício de que tal fa- Cabral e Guido Duarte. 22
ceta do abolicionismo existiu também Em Alagoas a conjuntura de transição para o regime republicano se dá en-
nestas plagas. De outro modo, não tre semelhanças e distinções com o que ocorre no Brasil como um todo. Douglas
se explicaria de maneira convincen - Apratto Tenório, grosso modo, analisa que, em âmbito regional, reproduziam-se
te a forte reação de parte da socie - com a instalação do novo regime - governos de transição que não seriam ocu-
dade que permanecia assentada no pados por representantes diretos da classe social latifundiária. Assim, se os pri-
escravismo. E se isso estiver certo, meiros governos do agora Estado de Alagoas possuíam vínculos militares (Pedro
tal interpretação pode sinalizar outro Paulino e Gabino Besouro, por exemplo), com Manoel José Duarte teríamos um
modo de entendimento desta quadra representante direto da oligarquia açucareira, que se consolida no poder mais
na historiografia alagoana, bem como adiante com a oligarquia dos Malta üunho/ 1900 a março/ 1912). 23 Para Tenório,
a caracterização - nesta fase de sua o período seria de
vida (1885/8) - de um abolicionismo
popular que desemboca num socia- transição para uma nova variante republicana, deixando o milita-
lismo vago. rismo em segundo plano para a emergência dos setores oligárquicos
Passo agora ao republicanismo e civis [... ] Contra a corrente Aorianista que advogava um nacionalis-
aos primeiros anos após a Proclama- mo difuso e o auxilio do Estado à industrialização, agora predomina
ção da República no Brasil, a partir a corrente ligada ao comércio intcmacionaJ e aos produtores tradi
de uma perspectiva regionalizada. 19 cionais de exportação: no sul, o café; em Alagoas, o açúcar. 24
Sobre este processo, em linhas gerais,
o tom recai sobre a análise de que ha- Um dado importante desta análise é a atenção despertada para concepções
veria um baixo comprometimento com distintas do que seria o republicanismo. No novo regime, qual seria o papel dos
o republicanismo na província. Do republicanos? Quem seriam seus legítimos representantes? Recuemos para o~
mesmo modo que ocorrera com o povo primeiros meses logo após o 15 de novembro para tentarmos entender melhor
do Rio de Janeiro, que segundo Aris- essa disputa.
tides Lobo assistira "bestializado" ao No primeiro dia de fevereiro de 1890, Pedro Nolasco historia as fases do
surgimento da República, em Alagoas Partido Republicano, que estaria então em um momento de consolidação. 2 ~ O
J

J... i~(t'A,1v(wt,,Cf. e- /1'/«-~pt:"- 5'-ot/l,etl ~ ~<J(l.J,

t:' iudo p11blicnclo no Diário do Povo, como um tipice representante da a lta grupos republicanos parn sa lw1 · q11( ; 111
r nJc.1 do C'ub Ct ntro Popular Repu política local, tendo sido um dos trêg serão os líder~c:i do Partido l-?Pp11hl ien
1' q11{11 11rn cl1· Muce1õ, que se caracteriza integran tes da junta governativa pro- no de Maceió/ Alagoas .27 Este conflito
\S~ i1n , ttlU uit llilcionista, porém indepen- visória instalada entre 16 e 19 de no- se estenderá ao Montepio dos Artistas
1<:11dn lllU, 1·e 1l1zando inclusive uma série vembro de 1889, nos a lbores do novo Alagoanos e nosso escritor estará no
11'11 rt:.1 i ril kns a projetos do próprio go - regime. Também fez parte da "comis- centro de tais conflitos.
vismo l 11(1 , J\l 1nvés deste jornal revela-se são de notáveis" que elaborou o proje- Resumindo a história: em 22 de
> Dins 111111 redt de articulação republicana to da constitu ição estadual de 1890, fevereiro de 1890, na sede do Club
111 11 lg1111s municípios do interior do promulgada em 1891. Com nova va Centro Popular Republicano de Ma-
lú e 11 l!!tln como Pilar, Atalaia, Imperatriz cância d a cadeira de governador (en- ceió, o grupo que gira em torno de Ma-
1 11gln~ l11iit1tl União dos Palmares), Cajuei - tre 1893/4?), nova junta governativa noel Menezes, de um republicanismo
Hn -se ltl , 8íln José da Laje, dentre outros, provisória é formada por três pessoas, aparentemente mais progressista e po-
1 ocu
1Hf' convergiam para a figura de seu e ele faz parte dela.2(' Não obstante esse pular , promove um meeting que conta
!s pn p!lllcipal líder: Manoel Ribeiro Bar- perfil, no conflito que se estabelece com a presença de 198 sócios, reda-
Pedro 1Nü de Menezes. Ainda não está ela- com outra ala republicana de Alago- ções de vários jornais e mais de 1000
s um
1
! d (1 linhagem republicana e atuação as, como veremos, Manoel Menezes é cidadãos. No evento, elegeram-no por
mais )D lífi <'n às quais pertenceu Menezes. defendido pela fina fior do operariado aclamação para Presidente do Partido
1ório, '01· um lado, ele é pintado justamente maceioense de então, sendo apoiado Republicano em Maceió. 2R Os republi-
por nomes como os de Cezario Tomp- canos de tendência liberal, que giram
son, Mizael Moreira e João Ferro de em tomo do Jornal O Gutenberg e que
nilita- Oliveira, este ainda jovem. Pedro No- ocupam a presidência do Montepio dos
1uicos lasco está neste arco de relações de Artistas Alagoanos à época (os irmãos
nalis- Menezes até fevereiro daquele ano, po- Francisco e Domingues Lordsleem, Ri-
11nina rém aos poucos se afasta dele. É que cardo Brennand etc) e outros republi-
lradi- ao longo deste primeiro semestre de canos mais conservadores, como Luiz
1890 ocorrerá uma disputa entre dois Lavenére, reagem e não só criticam
como começam a atacar a Manoel Me-
•ções nezes. No dia seguinte, antes de uma
1 dos
conferência realizada por Pedro Nolas-
·a os co Maciel, o presidente do Montepio,
·lhor José Domingues Lordsleem, retira o
busto de Manoel Menezes da galeria
s do dos sócios fundadores, gerando um
.l' o protesto na sede da entidade.
81-
Ow-a~ ~ç,;;t1J:ta ~~ m~d

Como orador do Montepio , era comum Nolasco realizar conferências ram inscrevendo meu humilde
abordando um ou outro tema, ora mais amplos, como o progresso das luzes, nome na lista dos seus dignos
ora mais cotidianos e próximos das questões locais. Naquele domingo, a pa- associados. Ao Montepio dos
lestra girava em torno do tema do mercado de trabalho na região. Logo após a Arlis tas fico pertencendo por
conferência, que foi assistida por muita gente, principalmente trabalhadores, ser uma corporação beneficen-
Cezário Tompson (artista e sócio-fundador do Montepio) protesta contra a te, mas resigno o cargo de ora-
retirada do quadro de Manoel Menezes do lugar de honra que ele tinha no es- dor com que me distinguiram os
paço, como sócio-fundador do Montepio. Até aqui há um certo consenso nas meus dignos companheiros. w
fontes que consultei sobre o episódio. A partir de então, os periódicos contam
o que s ucedeu de modo diverso, de acordo com seus interesses e grupos aos A nota termina afirmando sua
quais estão vinculados. Acusado de desordeiro pelo jornal O Estado de Ala- decisão de votar-se "por motivos que
goas, Tompson e um grupo de artistas, segundo o Diário do Povo, na verda- só a mim dizem respeito, à imparcia-
de , protestavam em "ordem" e o que ocorrera fora o seguinte: Tompson, "em lidade bem entendida" e que "tenho o
eloquente discurso" defende Manoel Menezes e afirma que a retirada do seu bom senso necessário para não me-
quadro da galeria fora decisão do atual presidente e não dos sócios do Mon - ter-me em desordens". A partir desse
tepio, o que fez a plateia erguer "prolongados protestos por tão alto desatino episódio, uma série de pontos não fica
do presidente do Montepio". Diante disto, um grupo de aproximadamente 100 totalmente esclarecida. De qualquer
pessoas exige que Tompson continue o protesto, retornando todos ao Monte- modo, indicia-se pela recua d a de Pe-
pio, do qual já estavam saindo. Tompson sobe em um banquinho e continua dro Nolasco Maciel junto ao republi-
o discurso. Neste ponto, "um artista do grupo do Presidente Ido Montepio, canismo mais popular, aliando-se aos
Domingues Lordsleem] desfeixa [sicj uma cacetada sobre Tompson, a qual foi republicanos de viés liberal ou mes-
11 aparada por um cidadão". O jorna l O Estado de Alagoas informa que o dele - mo liberal-oligárquico ou o - como em
gado aparece no Montepio. Já o Diário do Povo desmente tal informação, afir- suas palavras - ficando neutro ao em-
mando que , se a autoridade policial foi até a sede da entidade, foi já quando bate que se seguiu. O certo, de qual-
não havia mais pessoas no local, apenas a diretoria da entidade. 29 quer modo, é que pouco tempo depois,
Diante do acontecido após sua conferência, Pedro Nolasco Maciel redige ainda em fins de 1890, esses operários
uma nota pública: a conferência que pronunciou, afirma, versou "so bre questões que apoiavam o republicano Manoel
práticas do trabalho'', na qual não tratou "de política". Ainda segundo Nolasco , Menezes - e que emprestam cores po-
pulares a uma vertente do republica
Não dei motivos nem se entendeu comigo o desagradável incidente havido 'de- nismo local desencantam-se com os
pois que eu desci da tribuna'. Outras foram as causas do incidente, as quais rumos do novo regime e, rompendo,
não quero apreciar. Outrossim, declaro que para evitar desgostos que hei tido criam o Partido Operário Alagoano ,
11,11 imensos, e dcsassocego [síc] à minha família 1... ] deixo de fazer parte de hoje em dezembro de 1890. 31 A criação des
em diante de lodos os clubs e sociedades, políticas ou não, que me honra- te partido é o mote para discutirmos
:;
~t1e,id/tt1ti,ty, e- m.,,.~~ 5'-<>01-çyl e-rn. a~<>t1-J

ln1111ilcl1 o dn nosso romancista com o esta vertente de atuação , "apenas o momentos de sua a tuu ~:fio público
1jpt socialismo seria cqpaz de lev"lr a cabo 'lproxirna se- da concepção d( lula
pio do:; as promessas da República.". Por fim, por direitos sociais como distinloH
11clo po1 di'O Nolasco e a crônica a terceira tendência dos operários foi de direitos políticos. Assim como no
n<'ficen t•nrnlha dos socialistas a "negação da política institucional", exemplo do Círculo dos Operários da
, c!C' ora investindo-se na ação direta, como é o União - Culto do Trabalho, citado por
1111nm os M111 co::i Vinicius Pansardi afirma caso dos sindicalistas revolucionários Cláudio Batalha como exemplo de
•iros. 30 O!'lftc111 republicana de vários mili- e anarquistas. 34 "uma perspectiva que descarta a luta
l!!i1let1 socialistas brasileiros no perí- Como já demonstrei em outro política e o conflito", agindo-se mais
do sua rnlu (li-' 1ransição entre a Monarquia e texto, is em Alagoas tal processo reali- como "pressão moral do que como
1os que ! ifrpt"tblica. 12 Figuras como Silva Jar- za-se de modo mais acidentado, pela sindicato", Nolasco parece comungar
parcia- 1llir1 c;onlribuíram para esta aproxi- coincidência de serem alagoanos os da mesma concepção política.·1 Terí-
(1

'enho o lllhÇfü1 Em 1890, no entanto, a breve dois primeiros presidentes da Nova Re- amos, então , o Estado como "avalista
ao me- illê!nç;1 estava sendo desfeita aos pou- pública. Foi comum, para muitos dos de direitos". Neste processo, menos
r desse nrn, desiludidos os socialistas com os militantes operários - principalmente que "capitulação diante do Estado",
1üo fica 1uir1os que o novo regime definia para os que estavam mais identificados com haveria uma "negociação com este no
1<~lquer I , I ~~ la desilusão rápida que o movi- o florianismo - criticarem as mazelas terreno moral escolhido pelos parti-
de Pe- '1!1!'111 o operário teve do novo regime do regime republicano e os rumos que dários" de tal concepção. 3?. Tal ..ar1
t·publi- r111wblicano atingiu socialistas e anar- estava sendo dado pela oligarquia ca-
se aos
,., .- li' d''
pli st<..1s e gerou três respostas diferen- feicultora do sudeste ao estado brasi-
1 mes- lcu para os trabalhadores engajados leiro, não o regime em si. Poucos não
mo em dü pcríodo. 33 A primeira, que seria a cairam neste imaginário da terra dos
ilO em- "ühlcnção de direitos sociais, sem marechais, como foi o caso de João
. qual- (ttwstionamento do sistema político", Ferro de Oliveira.
·lepois, 11111 malmente próximo de concepções Com relação a nosso escri-
i·rá rios po•,1tivistas, cooperativistas e da par- tor, seu posicionamento em alguns
v1 a noel i e mais moderada do sindicalismo re-
' t'S po- 1'01 mista; a segunda, de "conquista de
.tblica- dueitos sociais aliada a direitos políti-
:om os ' r>s" objetivando a "mudança do siste-
p<'ndo, ma pela participação no processo po-
goano, li lico-eleitoral" como era próprio dos
10 des- ~ocialistas e de "setores mais politiza-
lirmos dos do sindicalismo reformista." Para
86
O:w-Cf-Uc li>d$a ~t; ~(Jf;c4-d

mentação pode ser casada a um ou- da história, eram ideologias comungadas por diversos lideres socialistas e do
tro aspecto marcante do socialismo movimento operário.
de fim do século XIX: Homem ilustrado que foi do Século das Luzes, é certo que Pedro Nolasco
participa de tão contagiante perspectiva do progresso. É fácil encontrar artigos e
[... ] as ideias políticas dos so- crônicas assinadas pela sua mão que reforçam tal leitura. Sua conferência His-
cialistas atuantes em terras tória Pátria, publicada em 1888 e já referida, é um desenho fiel desse imaginário.
brasileiras ao longo do período Sua própria concepção de política então revela esta característica, concepção
enfocado, apesar de marcadas a partir da qual teríamos um encadeamento de ideias e processos que seguiria
pela cultura cientificista da mais ou menos o seguinte roteiro:
época, revelam em seu âmago
uma condenação moral das Progresso -> liberdade -> Abolição -> República -> democracia -> socialismo brasileiro
injustiças sociais, ou seja [... )
os propagandistas dessa dou- Não obstante esta linearidade no pensamento de Nolasco, há espaços de re-
trina defendiam a 'regeneração cuo, de viragem passadista, de certa nostalgia pelo que já não existe mais ou vai
moral' da sociedade, apoiada se perdendo, como se, em determinados momentos, o autor vacilasse e tentasse
em valores tradicionais como a recuperar um tempo perdido, nos quais se revela um nítido desprezo pelo pro -
honra e a bondade."38 gresso. Um passagem da obra A filha do barão revela com sutileza a dubiedade
desta sua contradição:
Este parece ser um viés muito
forte da pregação socialista do autor O tempo, porém, acabou todas essas poéticas tradições, inovou tudo. Em
de Traços e Troças. Quando ele empu- compensação, deu-nos esse adiantamento progressivo que fez de meia dúzia
nha sua pena e sua retórica inflama- de casas construídas sem arte e sem gosto - uma bela e florescente cidade,
da em nome do socialismo, faz muito disposta sempre a crescer e a tornar-se cada vez mais digna aos olhos d o
1,, mais na defesa de urna "regeneração mundo civilizado. 39
moral", de resgate de valores solidá-
rios e de aperfeiçoamento do intelecto, Esta espécie de romantismo pode ter informado as opções que realizou com
em detrimento da corrompida moral relação aos trabalhadores de maneira em geral, pois no terreno das entidades
do mundo material, egoísta e mes- que agregavam os t rabalhadores era muito mais um homem das mutualidades e
quinho. Aqui, deve-se salientar que da beneficência, das entidades organizadas por oficio, do que das sociedades de
há certa contradição com a ideologia resistência e de cunho marcadamente classista, que agiam num espaço urbano
do progresso, hegemônica ao longo de capitalista e fetichizado. Daí certamente o generoso olhar que lança sobre mani
boa parte deste período, pois além do festações populares e tipos comuns da vivência urbana de Maceió.
cientificismo, o evolucionismo e o pro- Diante dessa argumentação, no que se refere ao escopo ideológico do socia-
gresso, pautados numa visão linear lismo propriamente dito, bem como de sua militância, é preciso matizar melhor
f..,,:;ttn-d-wt-e;r, e- '/11~P"" 5'-oc4at ~ ~OC«);

e cio ('Onsiderações de Dirceu Lindoso e listas, sendo dificil precisar em alguns mudanças necessarias parn 111dl101·u 1
L··1- ~->avio de Almeida apontadas no casos a autoria. Advirto, no entanto, as condições de vida d'l in.1ior i 1 <h f"'
lmwo i111 1 io desta apresentação. De qual- que tal hipótese deve ser melhor che- pulação, e dos trabalhadores em 1H11
go~ e
r.p 11,1 modo, o socialismo faz parte do cada. ticular. Pedro Nolasco é uma figurn
. I ho.; 1.m11po semântico de discurso de Pedro É em boa h ora que se republica exemplar deste grupo, e seu posterior
1úno Nolr!sco e de suas afinidades seletivas este pitoresco texto sobre a acanha- socialismo será não só e clético - amal-
'f)Ç'llO e111 um momento mais preciso de sua da Maceió de fim de século. Momento gamado ora com ideias evolucionistas
ui.,..ria vid11, possivelmente entre 1899 e 1903. chave de nossa tardia modernidade, ora com aspectos do romantismo -
1 ~ 111 boa medida , as afirmações de Al- a atuação do grupo a o qual pertencia como também vacilante, numa relem-
rnf:icla e Lindoso estão baseadas na lei- Pedro Nolasco ajuda r á a entender al- brança saudosa do liberalismo pro-
1leiro uirn desta narrativa que o leitor tem guns dos rumos trilhados pelas e lites gressista de fins do império, quando
1)111 mãos. É difícil rastrear sua escri- e por intelectuais alagoanos na Pri- as bandeiras empunhadas pelo grupo
<: re- Ui .;;ocialista na imprensa do período, meira República. Esse grupo possui a que pertencia (abolição e República)
1 vai indusive porque - possivelmente para uma unidade de atuação ideológica foram as tendências que, de um modo
.\sse 11íiu c omprometer a sua imagem e seu que pode ser verificada pelo posicio- ou de outro, venceram. Em meados da
pro- tl'Etbalho em ambiente tão oligárquico namento de algumas de suas figuras primeira década do século XX, por al-
l ade parece-me que Nolasco Maciel escre- desde inícios dos anos 1880. Essa li- gum motivo ainda não esclarecido, Pe-
ve com pseudônimos em jornais socia- nha de percurso inicia-se com a ten - dro Nolasco capitula diante dos desa-
dência progressista do libera lismo fios impostos pela dinâmica social dos
l!:m pós-1868, como identificado por Alfre- novos tempos, abandonando a arena
uzia do Bosi40 (que por questões de espaço pública e deixando claro que era um
ade, não pude trabalhar aqui). Continua homem do século que se encerrava.
s do com um abolicionismo ora ilustrado
ora popular, e deságua num republi-
canismo de viés reformista, daqueles
om que espera que o regime dê conta das
eles
~s e

; de
mo
mi-

·ia-
hor
Referência

ALMEIDA, Luiz Sávio de. Dois textos a la- no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, UFPE, 2004, (disponível em www.ifch.uni-
goanos exemplares.ln: ALMEIDA, Luiz Sá- 1998. camp.br/mundosdotrabalho).
vio de (org.) Dois textos Alagoanos exem-
plares: José Prospero Jeovah da Silva COSTA, Craveiro. História das Alagoas - ___ . Floriano e Deodoro: imaginá rio e
Caroat á e João Francisco Dias Cabral. resumo didático. 2 ed. São Paulo, 1983. ideologja em Alagoas na Primeira Repúbli-
Maceió: FUNESA, 2004. ca. ln: Anais eletrônicos do 13° Encon-
LINDOSO, Dirceu. Interpretação da pro- tro de Ciências Sociais Norte e Nordes-
Cf. BATALHA, Cláudio. Formação da clas- '
víncia. ln: Cadernos de Cultura - 2. Ma- te. 03 a 06 de setembro de 2007, UFAL,
se operária e projetos de identidade cole- ceió: SECULT, 1985. Maceió (AL).
tiva. ln: FERREIRA, J. e DELGADO, L. de
A. N. (orgs.). O Brasil republicano 1 - o MACIEL, Pedro Nolasco. História pátria. P.J. Quin zen a is. ln: A Tribuna. Maceió,
tempo do liberalismo excludente. Rio de Conferência pública realizada em nome ano XV, nº 1768, 12 de dezembro de 1909 .
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atro Maceioense em 13 de maio de 1888. QUEIROZ, Álvaro. Episódios da história de
BOSI, Alfredo. A escravidão entre dois li- Maceió: Typ. Mercantil, 1888. Alagoas. 2 ed. Maceió: Cataventos, 1999.
1111
beralismos . IN: Dialética da colonização.
4 ed. São Paulo: Companhia das Letras, ___.Seção Livre - Uma explicação. Diá- SANT'ANA, Moacir Medeiros de. Traços
1992 . rio do Povo, ano 1, nº 31, 25 de fevereiro biobibliográficos de Pedro Nolasco Maciel.
111 1
de 1890. ln: MACIEL, Pedro Nolasco. Traços e Tro-
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Maceió: SERGASA, 1981. MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Filhos do 2 ed. anotada e comentada por Félix Lima
trabalho, apóstolos do socialismo: os ti- Júnior. Maceió: DEC, 1964.
CHALHOUB, Sidney e PEREIRA, Leonardo pógrafos e a construção de uma identi-
Affonso de M. (orgs.) A história contada - dade de c lasse em Maceió {1895-1905). ___. O romance e a novela em Alagoas
capítulos de história social da literatura Dissertação de Mestrado. Recife: PPGH/ ln: MACIEL, Pedro Nolasco. A filha do Ba-
,.O 2 1~d Maceió: DAC/ SENEC-AL/ MEC,
l

1. u11i ~ Primeiros movimentos grevistas


*''' Ahtgoas. ln: Revista do CCHLA. Nº 4,
Muu:;lt1. EDUFAL, 1987
Lrio e
~t 1bli
,,,., Positivismo e republicanismo e
1con- J\Ílil'.tlllS. Maceió: 1989.
J'des-
lffAL, CHMfDT, Benito Bisso. Os partidos so-
dn ll·1tas na nascente República. ln: FER-
i rn 11 ~A. Jorge e REIS FILHO, Daniel Aarão
lCCiÕ, IU!"g....). A formação das tradições (1889-
909. l 945) Rio de Janeiro: Civilização Brasilei-
1•11, '1007.
la de
~9. l bNÓRIO, Douglas Apratto. A metamor-
fo•o das oligarquias. Curitiba: HDlivros ,
•a ços '1997.
1ciel.
Tro-
ttte).
,,ima

~oas.

Ba-
Notas ceió: SECULT, 1985, (pp. 41-107). p. 84.

4
ALMEIDA, Luiz Sávio de. Dois textos ala-
1 Este breve teJtto faz parte de uma pes- goanos exemplares.ln: ALMEIDA, Luiz
quisa mais ampla que venho realizando Sávio de (org.) Dois textos Alagoanos
no doutorado em História da Universida- exemplares: José Prospero Jeovah da Sil-
de Federal de Pernambuco. Partes dife- va Caroatá e João Francisco Dias Cabral.
rentes deste material foram apresenta- Maceió: FUNESA, 2004, pp. 16/7.
das em dois eventos recentemente: na
Semana de História, organizada pelos s O relato biográfico que segue foi base-
estudantes de História da UFAL entre 2 e ado em SANT'ANA, Moacir Medeiros de.
6 de junho de 2008, e realizada na UFAL, Traços biobibliográficos de Pedro Nolasco
campus Maceió; e na IV Jornada Nacio- Maciel. ln: MACIEL, Pedro Nolasco. Tra-
nal de História do Trabalho, acontecida ços e Troças (crônica vermelha - leitura
entre 21 e 25 de julho de 2008 nas de- quente). 2 ed. anotada e comentada por
pendências da UNESC - Criciúma. Agra- Félix Lima Júnior. Maceió: DEC, 1964
deço as observações da assistência nes- (l° edição de 1899). (reedições DEC, vol
tes dois momentos. Agradeço a Golbery III) (pp. 5-7); idem. O romance e a novela
Lessa, que realizou uma leitura generosa em Alagoas. ln: MACIEL, Pedro Nolasco.
de uma primeira versão inacabada do A filha do Barão. 2 ed. Maceió: DAC/SE-
material, e aos seguintes funcionários e NEC-AL/MEC, 1976 (lª edição de 1886).
instituições, pela atenção que me dedica- (sem indicação de páginas). Utilizei-me
ram na disponibilização de fontes: Meire também de algu.ns artigos da imprensa:
e Vânia, do Instituto Histórico e Geográ- Pedro Nolasco Maciel. A Tribuna, ano
fico de Alagoas; Messias e Fernando, do XV, nº 3764, 7 de dezembro de 1909.
Arquivo Público de Alagoas; e Anna Ma- p. l; J.P. Quinzenais. A Tribuna, ano XV,
ria Jardim Naldi, da Biblioteca Nacional. nº 3768, 12 de dezembro de 1909. p.1.
Todos os jornais citados são de Maceió.
2 Historiador. Professor da Universidade Fe- A grafia da época foi atualizada para o
deral de Alagoas/UFAL e da Universidade português atual.
Estadual de Alagoas/UNEAL.
h Para entender um pouco mais do que era o setor
:i LINDOSO, Dirceu. Interpretação da pro- gráfico e o ambiente das redações e oficinas
víncia. ln: Cadernos de Cultura - 2. Ma- tipográficas do período, ver MACLEL, Osvaldo
Batista Acioly Filhos do trabalho, apóstolos do dução à 2" edição deste rmnanc1~ , nli111111
socialismo: os tipógrafos e a construção de uma que conseguiu um exemplar da prinu:irn
identidade de classe em Maceió ( 1895-1905 ). Dis- edição Já "amarelecido • em meados d.:i -
sertação de Mestrado. Recite: PPGH/ UFPE, 2004, anos 1940, exemplar que pertencera ao
(disponível em www.ifch.unicamp.br/mun<losdo- poeta José O. Maia e que serviu de base
trabalho). para a segunda edição. De acordo com
Jambo, o livro foi publicado apocrifamen-
7
MACJ EL, Pedro Nolasco. Traços e Troças, pp. te e "ostentava em sua capa três títulos
44/6. cautelosamente advertenciosos" (sicj, na
seguinte ordem: primeiro, "Leitura Quen-
8 ibidem, p. 44. te"; segundo, "Crônica Vermelha" e, por
fim, "Traços e Troças". Este último é o es-
9
SANTANA, Moacir Medeiros de. Traços biobib- colhido para a 2ª edição de 1964 por ser
ltográficos de Pedro Nolasco \1ac1el, op. cit. p.6. "mais condizente com o seu conteúdo" e
em verdade "melhor ajustado à intenção
10
Assim mesmo, com três títulos! O titu- e natureza da estória de Pedro Nolasco
lo que foi seguido nesta nova edição pelo Maciel." Cf. JAMBO, Arnoldo. Maceió -
valor simbólico que já existe em torno de fins do século XIX - Arnoldo Jambo. ln:
si desde a segunda edição de 1964 - ano MACIEL, Pedro Nolasco. Traços e Tro-
fatídico - deve ser melhor pensado. Afi- ças (crônica vermelha - leitura quente),
nal, o jornal A Tribuna refere-se ao livro p. 10. Apesar da confusão, este segundo
sob o título de Crônica Vermelha, suge- texto de Jambo indica que o título que
rindo o caráter subsidiário dos demais vingou da obra objeto de reedição de No-
títulos (cf. Pedro Nolasco Maciel. A Tri- lasco Maciel é o terceiro na lista e - a jul-
buna, ano XV, nº 3764, 7 de dezembro gar pelas poucas referências que se reali-
de 1909. p. l). Arnoldo Jambo mesmo sa- zam a esta obra - não era o mais comum.
lienta este nó, mas de maneira confusa Por qual motivo o autor resolveu colocar
e com dados trocados, aparentemente. 3 títulos em sua obra? Ao privilegiarmos
Numa breve nota no caderno cultural do um dos três e consolidá-lo em detrimento
Jornal de Alagoas de 27 de maio de 1962 dos demais, talvez estejamos construindo
intitulada "Romance apócrifo em Maceió uma memória (e seus necessários esque-
do Passado", fala dos 3 títulos indicando cimentos) que dificulte a criação de uma
Traços e Troças como sendo o primeiro. porta de acesso à obra. Ou não estamos
Por outro lado, num dos textos de intro- caindo em uma armadilha se pensarmos
2;1 TENÓRIO, Douglas Apratto. A metamor- 32 Apud SCHMIDT, Benito Bisso. Os par
fose das oligarquias Curitiba: HDlivros, tidos socialistas na nascente República.
1997.pp. 75/84. FERREIRA, Jorge e REIS FILHO, Daniel
Aarão (orgs.). A formação das tradições
24 ibidem, pp. 80/ 1. (1889-1945). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2007, (131-183), p. 140.
2' Seção Livre. Diário do Povo. 1 de fevereiro de
1890, ano I, nº 16, pp. 2/3. 33 Cf. BATALHA, Cláudio. Formação da
classe operária e projetos de identidade
211 QUEIROZ, Álvaro. Episódios da história de coletiva. ln: FERREIRA, J. e DELGADO,
Alagoas. 2 ed. Maceió: Calaventos, 1999, pp. L. de A. N. (orgs.). O Brasil republicano I
81/3; TENÓRIO, Douglas Apratto. Op. cit. p. 75. - o tempo do liberalismo excludente. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003,
27 Para efeitos de economia expos11lva, estou {pp. 161 -189). pp. 174/5. Esta análise
considerando a proposta do Club Centro Popular de Batalha é reforçada por SCHMIDT,
Republicano de Maceió como a de um partido Benito Bisso, op. cit. p. 166.
republicano. A disputa gira não só cm tomo
do perfil do partido, de suas lideranças e de 34 BATALHA, Cláudio. Op. Cit. pp. 174/5.
seu conteúdo programático, mas inclusive da
abrangência do partido: Maceió? Alagoas? '' MACIEL, Osvaldo. Filhos do trabalho, apóstolos
do socialismo, 2004.
2~ Sem título. Diário do PovQ, 24 de fevereiro de
36
1890, ano 1, nº 33, p. 1. BATALHA, Cláudio. Op. cit. pp. 176/8.
2.<1 Conferência. Diário do Povo, 25 de fevereiro de
37
1890, ano 1, nº 31, p. 1/2. ibidem, p. 178.

30 MACIEL, Pedro Nolasco. Seção Livre - Uma 38 SCHMIDT, Benito Bisso. Op. Cit. p. 174.
39
explicação. Diário do Povo, ano 1, a<' 31, 25 de MACIEL, Pedro No lasco. A filha do Barão, p. 24.
fevereiro de 1890, p. 3.
40 BOSI, Alfredo. A escravidão entre dois li-
31 SANT'ANA, Moacir Medeiros de. Primei- beralismos. lN: Dialética da colonização.
ros movimentos grevistas em Alagoas. ln: 4 ed. São Paulo: Companhia das Letras,
Revista do CCHLA. Nº 4, Maceió: EDU- 1992, (pp. 194/245).
FAL, 1987, (pp. 56-60). p. 56.
~~~~do : ~~ twrff/l;~ k f/ikde,
~~po~ /:; r'1/()~

~~ e~~ a,1'W0~6 1'11~1nwf


ocê sabe melhor que ninguém, mance de Ítalo Calvino ouve atenta-

V sábio Kublai, que jamais se deve mente as descrições das cidades visi-
confundir uma cidade com o dis- tadas por Marco Polo em suas missões
1; 11 rso que a descreve. Contudo, existe uma diplomáticas. A certa altura, percebe
1dução entre eles. Se descrevo Olívia, cida- que essas cidades descritas minucio-
de rica de mercadorias e de lucros, o único samente eram, por vezes, fantásticas,
modo de representar sua prosperidade é irreais, inverossímeis ou, ainda, que se
jcilar dos palácios de .filigranas com almo- constituíam da recombinação de ele-
fadas franjadas nos parapeitos dos bifores; mentos anteriormente apresentados
urna girãndola d'água num pátio protegido pelo mercador veneziano. Às cidades
1ior uma grade rega o gramado em que um visíveis do seu império, construídas
pavão branco abre a cauda em leque. Mas, pedra por pedra ao longo dos tempos,
<1 partir desse discurso, é fácil compreender sobrepõem-se as cidades invisíveis do
que Olívia é envolta por uma nuvem de fuli- discurso, as únicas capazes de apre-
gem e gordura que gruda na parede das ca- sentar não somente as "sete ou setenta
sas; que, na aglomeração das ruas, os guin- e sete maravilhas" merecedoras da ad-
chos manobram comprimindo os pedestres miração frívola de qualquer turista aci-
contra os muros.2 dental, mas "a resposta [... J às nossas
per guntas".!.
Na impossibilidade de conhecer Um dos emblemas mais expres-
pessoalmente a larga amplitude dos sivos do domínio concreto do homem
seus domínios, o Kublai Khan do ro- sobre a natureza, espaço por excelên-
eia do dinamismo social na modernidade, a cidade é também, então, o resulta- rão (1886), além de outras produções
do discursivo do conjunto de registros que a descrevem e que fixam uma dada esparsas de cunho ensaístico, pseudo-
memória: documentos, fotografias, mapas, crônicas, artigos, poemas, relatórios, historiográfi.co e técnico6 •
contos, romances. Resultado sempre provisório, decerto, pois colocado em xeque O primeiro indício relevante des-
a cada vez que um novo fragmento desse conjunto é descoberto ou reinterpreta- se texto encontra-se, portanto, grafado
do, e alargado pelo próprio devir histórico, que sobrepõe a mesma cidade, con- em sua capa. A presença de três títulos
tinuamente transformada, no tempo. Mais ainda: resultado sempre ambíguo, já parece, já a principio, ser uma indica-
que cada cidade - como a Olívia "rica de mercadorias e de lucros" e, ao mesmo ção do esforço do autor em orientar a
tempo, "envolta por uma nuvem de fuligem e gordura" - exprime os impasses leitura de sua obra e, se os tomarmos
inerentes ao emaranhado das existências humanas. Como observou Renato Cor- como um todo, fica evidente que têm
deiro Gomes, "a duplicidade é o principio estruturante das cidades invisíveis: em comum as características e apelos
cada cidade se divide em duas" 4 , sem obedecer, é claro, às reduções totalizantes típicos da escrita jornalística7 e, mais
da simetria ou da complementaridade. especificamente, da crônica, gênero
Talvez seja por esse motivo que se pode dizer da cidade o mesmo que Poe que se encontrava em formação no
afirmou sobre o homem urbano, no seu célebre conto sobre "O homem das mul- Brasil justamente nas últimas décadas
tidões": er lãsst sich nicht lesen - não se deixa ler~ . Sua legibilidade é borrada do século XIX, rivalizando com - e fi-
pelas contradições entre os diversos registros, pelas inversões de sentido pro- nalmente substituindo - o folhetim ro-
venientes da escrita paródica ou satírica, pela multiplicidade de interpretações manesco no espaço cotidiano do jornal.
possíveis, pelo irresistível impulso do anacronismo que leva o leitor desavisado a Nesse processo de transição do
imaginar que a cidade, em qualquer tempo e lugar, cumpre as mesmas funções, folhetim à crônica no Brasil, não se
organiza-se segundo os mesmos critérios ou inaugura para a posteridade monu- pode deixar de considerar, todavia, a
mentos aos mesmos heróis. Sob essa ótica, ler as cidades invisíveis constitui-se, possibilidade de encontrarmos textos
para qualquer estudioso, num desafio. de transição, o que nos ajuda a com-
No nosso caso, o desafio remonta ao ano de 1899, marco cronológico da preender melhor a ambiguidade da
primeira década da nossa República, e a uma cidade - Maceió - em mais de um construção formal e estilística de Tra
sentido distante dos acontecimentos que movimentavam a então Capital Federal ços e Troças, já apontada por Amoldo
do pais. O texto em questão, de autor desconhecido e sem indicação de tipogra- Jambo em seu comentário de abertura
fia, apresentava na sua abertura, em compensação, três sugestivos títulos: em à edição de 1962, quando observa que
primeiro lugar, o de Leitura Quente, seguido pelo de Crônica Vermelha e pelo de o livro de Pedro Nolasco não pode sei
Traços e Troças pelo qual ficou conhecido, sobretudo a partir de sua reedição classificado como um romance no sen
na década de 1960. Nessa reedição, atribuiu-se a obra apócrifa a Pedro Nolasco tido rigoroso do termo8 •
Maciel, jornalista, funcionário efetivo da Agência de Correios e Telégrafos, mili- Compartilhando com outro·
tante abolicionista na juventude, boêmio nos últimos anos de vida, escritor de exemplos da produção literária do pen
pelo menos mais uma obra ficcional publicada à época, intitulada Afilha doba- odo um caráter híbrido, entre a litera tu
------ -----
~-
tf8
~(}r; e~dicr- tl;.~,,,,,6 '141cive:t~

ra ficcional, a cronística e o jornalismo tativos, parece consistir muito mais num pretexto capaz de dar unidade e coe-
investigativo ou de denúncia - carac- rência à multiplicidade de crônicas que se encontram em seu interior. O princi-
terísticas que podemos encontrar na pal objetivo do autor, nesse caso, parece ser o de cumprir com uma.função peda-
obra de João do Rio, por exemplo-, em gógica, que revela, sob a aparente despretensão do texto escrito, a manipulação
Traços e Troças há ao menos dois pata- de uma série de mecanismos ideológicos capazes de legar à cidade letrada 12 - e,
mares de narrativa que se interpolam: na Maceió da ú ltima década do século XIX, Pedro Nolasco pode ser seguramente
de um lado, encontra-se a narrativa considerado como um membro dessa intelectualidade engajada - um papel ativo
romanesca a respeito das desventuras na crítica à sociedade de seu tempo.
amorosas entre o tímido alfaiate Mano- Pois como a maior parte da elite letrada do Brasil de então, os escritores
el de Souza, "por desgraça ainda Cor- tendiam, a princípio, a ver sua época como um momento de transformações e
deiro"'' e a "menina quente, irrequieta rupturas - tendo como auge a República que se instaurava sob a égide do racio-
e mal-educada" 111 Zulmira, derivada do nalismo positivista -, as quais acabariam por superar as mazelas decorrentes da
11!1! "folhetim folhetinesco" 11 à francesa; de colonização portuguesa e do domínio monárquico, identificadas com o atraso e a
outro, a crônica urbana propnamente barbárie. No entanto, ao tentar traçar linhas de descontinuidade com o passado
dita , com a referência a um grande nú- por sobre as continuidades de uma sociedade que perma nece presa à exclusão
mero de personagens reais da época - e à hierarquização, esses autores bem cedo se dão conta de que as dicotomias

~I o fato de mais de 250 cidadãos maceio-


enses, de comerciantes a facínoras, de
atraso versus progresso, barbárie versus civilização encontram-se ainda distan-
tes de serem s uperadas no país. É por esse motivo que nesse momento há uma
sisudos amanuenses a boêmios mes- tendência à polarização no interior desse universo dos "escritores-cidadãos"' 1
tres de bandas de música, de políticos convertendo-se alguns, como Olavo Bilac, em ideólogos do progresso, condenan-
importantes a pitorescos tipos popula- do taxativamente costumes ligados pela memória à sociedade tradicional e de-
11:11
'I
res, incluindo o próprio Pedro Nolas- fensores de um cosmopolitismo agressivo para o bem de um Brasil que buscava
co, serem explicitamente nomeados ao "civilizar-se", enquanto outros, como Lima Barreto, assumiam o papel de con
longo de um texto que mal ultrapassa testação das conquistas do novo regime, trazendo à tona os desencontros en tre
uma centena de páginas é um indício os ideais aspirados pelos próceres do movimento republicano ao longo de três
significativo de leitura-, bem como aos décadas e a República que, contraditoriamente, parecia consagrar a vitória do
acontecimentos históricos, aos espa- irracionalismo político, da incompetência administrativa, dos expurgos sociais,
ços de sociabilidade, aos paradigmas do oportunismo e do arrivismo.
da opiniã o pública e às normas sociais Num cenário de tamanha perplexidade com o desvio de rumo dos ideais
que caracterizaram a vida urbana da modernizantes, democráticos e progressistas da República, não é à toa, por
1111
Maceió de fins do seculo XIX. Na ver- tanto, que em muitos momentos essa postura crítica dos intelectuais assumia
dade, na tensão entre esses dois gêne- contornos de uma pedagogia conservadora e moralista. Em Traços e Troças essa
ros intercalados na narrativa, a ficção, atitude ê bastante recorrente , principalmente quando trata dos perigos da vida
embora dominante em termos quanti- folgazã, sobretudo para mulheres vistosas e face iras como Zulmira: a decadêncin
_vtu~~ t-(l, e- /1'/t-ikn.~· 5'no i1:1l u~i a~ôM-

1rol e lis ica d a personagem, sua que- a s cenas de miséria <la s gra n - faz lunc h de 20$000 nos bo
nn ··ida boemia, na crimin!lJidqde dt>s cidades há, n ão obs ta nte tequins todas as noites, tira 5
; 11 C1 p1ostituição é um lugar-comum tanto o que apurar a respeito a 6 bilhetes no Cosmorama e
b Je t 1po de produção escrita para que somente neste particular aposta nas corridas da Estrada
11no edificantes, na longa linhagem li- acharíamos assunto para mui- de Ferro S. Luiz. E faz tudo isto
[' t c1·th ia das falsas Emmas Bovary. Para tas páginas. esquecida de que veio dessa
o c111101, a falta de decência, derivada A prostituição é uma cha- pobreza, de que ela desdenha,
lo ll dtu de educação ou de orientação ga asquerosa que supura o e da posição humilde e sã em
rnorn l representada pela figura de D. pus envenenado da gangrena. que outras se conservam e da
Mnria, a mãe de Zulmira - equivale ao As infelizes, que a perversão qual ela saiu pela porta sinis-
el'inw mais hediondo, e por isso o au- dos home ns ou outros moti- tra das indignidades torpes.
101 · nã o poupa minimamente a jovem vos quaisquer atiram no lodo Quando principia a declinar
dns piores castigos, e discursa com fre- imundo dos alcoices princi- ela sai dos quartos nobres da
r1ui!ncía longa e veementemente sobre piam afrontando a honestida- Nova Cintra ou dos cha lets dos
i lt:ma, como no exemplo a seguir: de social com o luxo e o fausto Ship Schandlers [... ] e vêem
das roupas custosas e os gozos [sicj para a Marabá residir em
[... j Nessa pequena terra, onde, imoderados de acepipes e bebi- quartos sem portas de fundo,
incontestavelmente, não se dão das deliciosas [... J. verdadeiros buracos de caran-
A prostituta ostenta o surah guejo, antros de vício, covas de
de seda, o merino, e a própna concupiscência.
seda, chapéus de plumagem, Poucos anos depois, ou pagam
luvas de pelica, sapatos de o universal tributo roídas pelo
Bostock de primeira qualida- micróbio da sífilis, (.. .J ou so-
de, deixa atrás de si os odores frem privações e trabalhos nas
esquisitos do Japão, abana- vielas esquivas dos bairros
se com leques a Pompadour, suspeitos [... ].
Mulheres! Se vos feriram os
raios da desgraça, não vos dei-
xeis levar pelas seduções da
carne. Elenvai-vos (sic] à altu-
ra de vós mesmas que podereis
achar ainda como tábua de
salvação uma boa parcela de
amor próprio! 11
100
~çr, (}~d,,i,()I, tl;-rwo~6 P1<?Vi/(~

É dessa tensão entre ordem e desordem, vícios e virtudes, que derivam, uma moral de fundamento social, que
em maior ou menor grau, todas as demais interferências críticas do autor-nar- não se apoia na palavra revelada ou
rador sobre a narrativa, as quais se deslocam continuamente do indivíduo para no princípio divino senão no consenti-
o meio, da esfera privada para a esfera pública. Pois se a aura peçonhen ta das mento da comunidade. 2º
troças, da vida desregrada e avessa aos parâmetros morais foi determinante no Sob esse ponto de vista, Maceió
triste fim da quase totalidade dos personagens ficcionais deste livro - Manoel, apresenta-se como o espaço urbano
Zulmira, D. Maria, Seraphim - com que traços delinear a cidade que comporta carente de urbanidade, em que esse
essas existências, senão como sua extensão metonímica? A Maceió do livro de consenso fundado na razão iluminis-
Nolasco é, portanto, análoga, em suas limitações, contradições e vícios, aos seus ta e paradigma fundador das cidades
personagens: ora acanhada, medíocre e provinciana como Manoel , ora extrava- modernas ainda se encontra em es-
gante, bilontra e mal-educada como Zulmira; pode assumir feições corruptoras tado de debilidade, sendo incapaz de
como as de O. Maria, debochadas e arruaceiras como as de Juquinha ou poten- gerar uma ética das relações mútuas.
cialmente perigosas como as de sinha Aninha Cesária. É a cidade em que Elias Expressa se, sobretudo, nas variadas
Bacalhausada 15 e Lúcio Soteriano, ambos veteranos da Guerra do Paraguai, formas de conflito, exclusão social e
vagam embriagados pelas ruas e, enquanto o primeiro desentende-se com Pen- violência apontadas obsessivamente
samento - o flautista que, após lavar seu instrumento na sarjeta, o guardava ao longo da narrativa.
em uma caixa de veludo 16- , o segundo ocupa-se "fazendo discursos, manobras A primeira delas aparece sob a via
militares, exercício de fogo, correndo atrás de quem passava, descompondo, sem da sedição popular, geralmente descri-
respeito à moral pública e aos homens a quem insultava" 17 ; em que traficantes ta como o desenrolar violento de uma
turcos, fugidos do Rio de Janeiro após praticarem diversas contravenções, ar- revolta espontânea ou de uma simples
mam suas barraquinhas na praia junto ao porto, para onde acomete, em peso, arruaça, como o acontecimento descri-
a população da cidade e fazem-se "danças e festas, nas quais despendiam-se to no Capítulo Vl:
quantias avultadas, pagando 200 e 300$000 de música cada vez, banhando-se Nas ruas [... ] havia grande ani-
em vinho que compravam em pipas"'"'; em que, no Asilo Santa Leopoldina, os mação, pois a noite enluarada convi-
alienados são submetidos à rotina vil do encarceramento e dos maus-tratos, dava o povo à folia.
e terminam seus dias na opção desesperada do suicídio 19 ; em suma, a cidade O Isaac Balsanufo, redator pro -
avessa à ordem definidora do próprio princípio de urbanidade que, segundo o prietário da Carapuça, periódico livre
historiador argentino José Luis Romero, regeu a ascensão da cidade burguesa. que fazi a cócegas ao governo e às au
As regras da urbanidade são as da sociedade urbana, onde há coisas que toridades , organizou uma cobra. Era
não se pode fazer, que não são nem pecado nem delito, mas que constituem uma um grupo d e rapazes andando um
violação das normas de convivência. [... ) Estamos diante de uma moral secular após outro, sempre na mesma direção
que se destaca sobre um fundo de normas básicas [... ] que não bastam para A este grupo foram se juntando ou
resolver os problemas da convivência. Esse conjunto de normas, variáveis de tros; de sorte que já haviam [sic] uns
acordo com as diferentes coletividades e nascidas do consentimento, conforma duzentos, formando uma cobra colos
!OI
~{;(~d/('~"" e- ~1n~pt:'I- 'Soc4eil ~ ~º~

IU( 1L e pelas voltas e revoltas que davam denominações negativas ou mesmo como todos os outros cereais expostos
ou rr <>rrendo as ruas e virando os becos pejorativqç; para defini-la como "mob". à venda no Mercado fossem passadas
11 I í pn1t~da mesmo uma enorme serpente "turba", "súcia" e "malta" - e percorren- rasouras nas medidas para tirar-lhes
1•u101cer-se no auge do furor. do as ruas da cidade não linearmente, o cogulo, o povo reclamou contra essa
' <·111 Tanto bastou para que, no dia se- mas em "voltas e revoltas", assume, ao solução odiosa. O resultado foi que um
lllll olhar das autoridades, a aparéncia li- belo dia a massa anônima, tendo à sua
cui11lt'. o chefe de polícia e o delegado,
StH• ·qioiados pelo presidente da província teral de revolta social, identificando-se frente os cidadãos indicados, quebrou
li~ 1 po1 outros :figurões zurzidos desapie- com os "quebra-quilos" característicos as taboinhas que a Câmara fornecia
1,:a d.111.unente pela Carapuça, inventasse da época. aos matutos para o mister citado, que-
1!$ joicl um crime de sedição, dando-lhe Já em outro momento protagoni- brou as medidas e saiu do Mercado
cl (' ' l'e1ção geral dos então reinantes no zado pelo dissoluto Juquinha, o que se dando vivas e morras, indo até o pa-
118 . Puis com o titulo de quebra-quilos, ma- inicia de forma trocista numa mesa de lácio do governo e daí em procissão já
l n~ nifestação devido à ignorância do sis- bar assume realmente a faceta de um aumentada consideravelmente e com
1 (' teuw métrico-decimal no País. motim quebra-quilos: urna banda de música precedendo o
l t (.' Abriu-se uma devassa e as pri- O certo, porém, é que o demônio enorme e entusiasmado préstito per-
1)(•s realizavam-se em grande escala. da velha tinha ciúmes do Juquinha, correu a cidade, dissolvendo à noite na
Vi<t Mllltos rapazes ocultaram-se durante porque ele não saía do hotel Estrela calma e paz possíveis. Todo o mundo
'l'l- 1dgum tempo e retiraram-se da pro- d'Alva em troças colossais com o João apoiou o ato de energia popular, e as
1Hl vinda, outros não tiveram tempo para Teixeira I·.. ].
cs
1
lnnto, e foram ao xilindró. [... ] Foi ali que ele estimulou o José
li - Foi este o resultado de uma brin- Félix Valais, o Peroba e o José Justino,
<·•1deira simples de rapazes galantes, escrivão, para rebentarem as rasouras_
1i- olheios "in totum" a qualquer ideia de no Mercado Público, o ato de mais ener-
~. l..JI

vi- perturbação da ordem, porém perse- gia que o povo já praticou nos últiih~
guidos pelo ódio dos manda-chuvas da tempos, pois tendo a câmara m~:..; ~
o epoca. 21 pal determinado que não s6 a fariftlià'
re Aqui, a "brincadeira simples de
u- rapazes galantes", na medida em que
rn vai se convertendo em "cobra colos-
m sal" - representando simbolicamente o
o. temor dos grupos sociais dominantes
1- pela multidão anônima e incontrolável
lS que, a partir do acelerado crescimen-
s- to das cidades no século XIX, cunhou
11r111

102
~ e~~~ a;.~-i-i mcvetúv.J.

autoridades capitularam impotentes, ideais republicanos mais radicais quanto inimizades pessoais das lideranças que
diante do alvitre tomado e que, aliás, governavam o país. Trata-se, aqui, de pôr em questão o caráter de res publica -

li~
foi uma verdadeira sedição. 22 no sentido etimológico do termo - do novo regime, e quais suas influências, ao
Esta "verdadeira sedição", se- fim e ao cabo, na formação da cidadania:
gundo o autor, é, na verdade, também A devas$a era tremenda, dir-se-ia que estávamos no regime do terror. Esta
uma mescla de insurreição de "vivas e política desgraçada tem até feito vítimas ilustres.
morras" e farra "com banda de música A república não é isto. Infelizmente, porém, ela será ainda por muito tempo
precedendo o enorme e entusiasmado assim.
préstito". Dissolve-se pacificamente, A república não é a violência, o arbítrio, a in tolerãncia, a degradação polí-
para espanto das autoridades, que são tica, a falta de probidade, o assalto aos cofres, o roubo à vida e à propriedade; a
obrigadas a ceder. república é uma instituição imácula, digna dos mais assinalados feitos patrióti
Além das revoltas populares, o cos, dos mais e levados cometimentos morais.
livro de Pedro Nolasco faz referência Sem amor e sem patriotismo, sem abnegação e sem critério, como podeis
a uma série de fatos políticos ligados felicitar a Pátria em nome da república?! 21
à instabilidade dos primeiros anos da A violência in stitucionalizad a pelo novo regime, propagada através dos
República - golpes, deposições, quedas crimes e perseguições políticas, parece autorizar, no espaço público da cidade,
de gabinete, exílios e perseguições polí- sua mimetização. A violência policial, significando o autoritarismo, a repressão e
ticas-, como a deposição dos governa- a arbitrariedade dos grupos dominantes sobre a população, é um dos principais
dores Manoel de Araújo Góes (1892), alvos da crítica do autor-narrador, de modo geral descrita num tom típico do
Gabino Besouro {1894) e Manoel Go- jornalismo policialesco, como na passagem da agressão policial sofrida por um
mes Ribeiro , Barão de Traipu (1895), cidadão anônimo,
ou os conflitos armados entre exército
e polícia em Maceió, com a consequen- (... ]Passara um indivíduo preso, esbordoado [... ].O Anselmo tin-
te transferência do Batalhão 26º para tureiro ouvira dizer que o preso fora apanhado arrombando uma
Sergipe. Esses acontecimentos traçam porta. Qualquer que fosse o delito não autorizava tamanha bar
os nexos en tre cidade e nação, pois se baridade. O espancamento não corrige, nem edifica. A violêncw
associam, como dissemos acima, ao é um crime. 2 ~
quadro mais amplo de crises políti- repetida pouco depois na narrativa, tendo agora como vítima um
cas que m arcaram os primeiros anos embriagado Manoel:
da República brasileira, atingindo em [... ] um soldado, de sabre cm punho, empurra-o para a frenfr
primeiro lugar as elites tradicionais do Ele caíra de bruços, ferira se. [... ].
Império, mas tendendo em seguida a Aquele proceder era uma infâmia. Uma polícia recrutada entr·~
expurgar também da cen a política tan- assassinos e ladrões. incumbida da segurança pública e de vigi ~ll
to os elementos comprometidos com cidadãos dignos ! .• Infelizmente, é isso que temos tido sempre.
10.
~{;(e4ci1U/t,a e- '}4'/~.fA:'l' 5:cC4a t ~ ~o~

O po bre rapaz, não a cos tumado livro ela apa rece , contraditoriamente, blicos abusam da tolerã n cia pol icial <'
a t!mbriagar :.e e a anda r un como legitima depositária da ordem · !\zucrinélm º"'out ros pnssageiros com
tão lamentável estado, merecia todos [sic] a sorte de deboches e Licen
antes proteção e conforto que Mais tarde tinham de vir todos ciosas pilhérias. 29
violências e maus tratos. 25 com o Macedo para Maceió no Essa passagem nos remete,
bonde caradura [... ]. ainda, a uma outra questão. Em Tra-
Ordem e desordem misturam-se ços e Troças, freqüentemente o mundo
e confundem-se: a polícia, guardiã da Ao chegar nos Martírios o bonde da desordem é identificado, como no
t11:gurança da população, constitui-se em que vinham J uquinha, Zulmira e trecho acima, com os grupos ligados à
ile criminosos e espalha pelas ruas D. Maria foi interrompido pela polícia música popular ou, de forma mais am-
dn cidade medo e insegurança, "essa que obrigou alguns passageiros a por- pla, com as manifestações de cultura
111ira gem encarregada de manter a or- tarem-se bem, pois vinham batendo no popular, como as festas religiosas, os
d em evitar os crimes , punir os delin- lastro do bonde com bengalas e cace- pastoris, os maracatus. Os exemplos
f(üentes"26; sua representação emble- tes, e cantando cocos e lundus. Uma se reproduzem ao longo de toda a nar-
rnntica é a do temido, à época, coronel súcia de bilontras, que vinha cantan- rativa: na passagem do sarau dançante
1,,lo::;e Maranhão 27 . Em certo momento, o do o mané-sum-sum ao som de uma da sociedade Terpsícore, no Capitulo I,
11mrador afirma, categórico: "A polícia harmônica, saltou imediatamente e Zulmira passa a noite dando "muitos
18
1 lormia" . Apenas numa passagem do passou para o outro bonde, voltando desfrutes, dançando o maxixe com al-
assim ao Bebedouro em busca d a li- guns bilontras de cabeças escaldadas
berdade que a polícia lhe tolhia na ci- pelo cognac do buffet"Jº; algumas pá -
dade. ginas mais tarde, o animado encontro
A polícia, entretanto, cumpria o entre sociedades musicais converte-se
seu dever, porque nada é mais incô- em pancadaria, na qual "o pugilato, o
modo e vexatório do que aturar-se a cacete, a faca de ponta, o sangue derra-
malandrice ousada de certos indivídu- mado foram apenas uma brutalidade",
os sem educação, que nos veículos pú- justificável, segundo o autor, somen-
te pela "exaltação do momento"11; no
samba da rua conhecida como Suvaco
da Ovelha, "Gente ignara cantava co-
pias em desafio [... ]. As horizontais [... ]
sapateavam no tijolo como um corrupio
sacudido por vento forte. De dentro da
casa, onde assim dançavam aqueles
foliões, saia um ar quente, empoeirado,
10/.f
an-et- t~kt:t- a;..~~6 711()V(:(~
doentio. Era um composto de catinga de xexéu aromatizado com aguardente dos
Gregórios"32 •
Malandros, prostitutas, biscateiros, jogadores, ex -escravos e criminosos
representam, na economia do texto, as camadas populares como um todo, e
são tidos como a expressão absoluta do atraso, da decadência e da pobreza
moral impostos pelo meio. As descrições de assassinatos, sobretudo passio-
nais, constituem também um leítmotiv no livro de Nolasco, e preparam o leitor
para o crime que será cometido mais adiante pelo até então pacífico Manoel - o
assassinato de Seraphim, amante de Zulmira. São passagens que assombram
a narrativa, imprimindo frequentemente a ela o tom de imprensa marrom já
anunciado nos títulos originais, o que também realiza, no ato da leitura, uma
associação quase inevitável dessa forma de criminalidade com o universo dos
camadas mais pobres.
Espaço da desvirtude, cenário que dramatiza a trajetória de uma nação
presa às hierarquizações tradicionais e à exclusão social, a cidade encontra, em
Traços e Troças, sua imagem cristalizada no signo do pântano, o mangue no qual
o infeliz Manoel quase se afoga ainda nas primeiras páginas. Se não há, de fato,
no livro de Nolasco, qualquer indicação de um projeto, é porque sua limitada
pedagogia não consegue ultrapassar a esfera da denúncia, o pântano da cidade
ilegível, e talvez incorrigível. Lugar movediço, continua, impassivamente, a devo-
ti, rar seus filhos,"a beber-lhes o sangue vermelho que jorrava no solo alagado." 33

IOilill
f\l,VINO , Ítalo. As cidades invisíveis. RAMA, Angel. A Cidade das Letras. São
1fl!tlt lçõ.o de Diogo Mainardi. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.
l 1mtl11 Companhia das Letras, 1991. ROMERO, José Luis. Estudio de la men-
talidad burguesa. 2 . ed. Buenos Aires:
HíMICS, Renato Cordeiro. Todas as cida- Alianza Editorial, 2008.
-H, a cidade. Literatura e experiência SANT'ANA, Moacir Medeiros de. "Traços
urb•na. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. biobibliográficos de Pedro Nolasco Maciel".
ln MACIEL, Pedro Nolasco. Traços e tro-
1/\M130, Arnoldo. "Maceió - fins do século ças. Maceió: DEC, 1962.
!X' ln MACIEL, Pedro Nolasco. Traços e
troc;as. Maceió: DEC, 1962. SEVCENKO, Nicolau. Literatura como
missão. Tensões sociais e criação cul-
MACIEL, Pedro Nolasco. Traços e troças. tural na Primeira República. 2. ed, São
1\1.t< Tió: DEC, 1964. Paulo: Companhia das Letras, 2003.
M l 1~YER, Marlyse. Voláteis e versáteis: de
11edades e folhetins se fez a chronica.
1n As mil faces de um herói canalha e
outros ensaios. Rio de Janeiro: EDUFRJ,
1998.

POE, Edgar Allan. Ficção completa, po-


01lo. e ensaios. Organização, tradução e
.111otações de Oscar Mendes e Milton Ama-
do. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1986.
Notas

1 Professora d o curso d e História e do as referências a essa edição de Traços e


programa de pós-graduação em Letras troças serão feitas através das iniciais
e Lingüística da Universida d e Federal TI, seguidas pelo(s) número(s) d e página.
de Alagoas. Mestre em História Social 10 IT, p. 6.
da Cultura pela Pontificia Universidade
Católica do Rio de Janeiro e Doutora em 11 MEYER, Marlyse. Voláteis e versáteis: de
Letras (Ciência da Literatura) pela Uni- variedades e folhetins se fez a chronica.
versidade Federal do Rio de Janeiro. ln: As mil faces de um herói canalha
2 CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis .
e outros e nsaios . Rio de Janeiro: EDU-
Tradução de Diogo Mainardi. 3. ed. São FRJ, 1998.
Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 59. 12
RAMA, Angel. A Cidade das Letras São
:i Op. cit, p. 44 Paulo: Brasiliense, 1985.
4 GOMES, Renato Cordeiro. Todas as ci-
13 SEVCENKO, Nicolau. Literatura como
dade s , a cidade. Literatura e experiên- missão. Tensões sociais e criação cul-
cia urbana. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, tural na Primeira República. 2. ed. São
p. 50. Paulo: Companhia das Letras, 2003.
5 POE, Edgar Allan. Ficç ão complet a,
14 TT, p. 61
poesia e ensaios. Organização, tradução lS'fT, p. 11.
e anotações de Osca r Mend es e Milton
Amado. 4. ed. Rio d e J aneiro: Nova Agui- H•TT, p. 20.
lar, 1986, pp. 392-400. i·rrr, p. 27.
6 SANT'ANA, Moacir Medeiros de. "Traços 18 TT, p. 58.
biobibliográficos de Ped ro Nolasco Ma-
ciel". ln MACIEL, Pedro Nolasco. Traços
19 TT, p. 49.
e troças. Maceió: DEC, 1962, p. 2. 2 º ROMERO, José Luis. Estudio de la men-
7 De fato, assemelham-se muito mais a talidad burguesa. 2. ed. Buenos Aires:
manchetes ou seções de jornal do que a Alianza Editorial, 2008, pp. 114-115. A
títulos de livro. tradução é nossa.

~JAMBO , Arnoldo "Maceió - fins do sé<:'ulo


2 TT. p. 53.
XIX". ln MACIEL, Pedro Nolasco. Traços 22 TT, p. 55.
e troças. Maceió: DEC, 1962, p. 4.
23 TT, p. 37.
9 MACIEL, Pedro Nolasco. Traços e troças.
Maceió: DEC, 1964. A partir daqui, todas :.14 11, p. 19.
25 TT, p . 2 5.
:?"TI, p. 20.
21TT, p. 9 .
28 TT, p. 20.
29 TT, p. 51.
30Tf, p. 8.
31 TT, p. 17.
32
TT, p. 24.
33Tf, p. 71.
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ão fossem as estratégias dis- diversas procedências sociais, identifi -

N cursivas, curiosísssimas, uti-


lizadas pelo autor, a história
1'011tada pelo narrador de terceira pes-
cáveis graças às esclarecedoras notas
explicativas fornecidas pelo historiador
Felix Lima Júnior. 2
Munida desse trançado, a narra-
or1 de Traços e Troças crônica verme-
1lto, do alagoano Pedro Nolasco Maciel, tiva de Nolasco ganha em excentricida-
1~ 11u banal: Manoel ama Zulmira, "jo- de (a citação acima já dá a medida do
vem de olhos garços e cabelos arpea- que o leitor pode esperar) em relação às
dos, exibindo um bendegó untado de obras literárias de escritores alagoanos
ori~a-oil" 1 • do período, quase sempre parasitários
Em amplos contornos, já temos dos cânones vigentes na literatura do
sboçada uma trama amorosa, seme- país. Literariamente, essa independên-
lhJ.nte às encontradas nos melhores cia define o processo narrativo do au-
romances alencarinos ou nos adocica- tor, cuja consequência é uma incrível
dos romances cor-de-rosa, tão a gosto mudança do tom narratorial. É exa-
do contexto recepcionai da época. Não tamente para esta pluritonalidade de
sendo, no entanto, um escritor talhado discursos que pretendo atentar neste
para uma dimensão romântica da vida, esboço analítico.
nem da literatura, Nolasco passa ao Tomo, para começar, um narra-
largo de excessos sentimentais. Junte- dor apressado em expor, de imediato,
se a isso o fato de o autor misturar ao a leviandade de Zulmira, que, nos sa-
enredo cenas da vida provinciana, nas raus dançantes da Terphsycore [Terp-
quais figuram pessoas reais das mais sícore], "[dava} muitos desfrutes, dan-
çando o maxixe com alguns bilontras de cabeças escaldadas pelo cognace (sic) do O Manoel dava [a Zulmira] ex-
buffet que o Sampaio montara de sociedade com o Norberto. [... ]. Foi aclamada celência diante de pessoas es-
a rainha do baile". Generoso com o leitor, o narrador assinala, sem meias pa- tranhas e chamava-lhe dona
lavras, a esperteza de D. Maria, "mercadejando a filha, iniciando-a em orgias nas palestras intimas. O Ju-
perigosas, iludindo o homem que a queria e entregando-a ao libertino audaz, quinha principiou logo cha-
farejando o ouro das bolsas alheias como o urubu a carniça no matadouro". mando-a tu, e se qualquer dis·
Ambas, como acentua, são "mulheres de vida equívocas, experimentadas e ensi- cussão o alterava, não escolhia
nadas pelo mundo". adjetivos para qualificá-la. A
Como não estamos em um ambiente requintado, senhorial, consagrado pela primeira vez que se amuaram,
tradição romanesca, muito ao contrário, estamos em meio a uma camada social ele disse-lhe com ênfase:
distante das esferas do poder - à qual o próprio autor pertencia, segundo anota
Moacir Sant'Anna-, é natural que a linguagem nos chegue leve e espontânea, na - Deixe de luxo, perua.
mais perfeita adequação entre forma e conteúdo de expressão. Justifica-se, assim,
a inclinação de Nolasco por uma modalidade de gênero literário inerente ao cômi- E Zulmira não corou diante da
co: a farsa, moeda corrente no teatro vicentino e peça rara em nossa literatura. tremenda objurgatória, antes
Fazendo uso de expedientes farsescos, - a gesticulação em excesso, a vulgaridade avançou à flor que ele trazia na
da fala, a burla e o improviso - nem sempre, aliás, predominantes na narrativa, o batoniére e que deu motivo à
escritor alagoano mostra que, aí, ele próprio tem algo de criador. Em meio a outras contenda e esmagou-a nos pés,
cenas, destaco esta, em que, à expectativa da chegada de Juquinha (o arruaceiro acompanhando o ato com essa
pretendente de Zulmira), a presença de Manoel torna-se indesejável: (sic) frase de desrespeito:

D. Maria, empenhada para que Manoel se retirasse logo, botou sal no fogo e - Perua é esse besta que deu-
uma vassoura atrás da porta, coisas que a superstição da velha gaiteira tinha lhe isso, descarado. 3
como infalíveis para fazer sair os hóspedes inoportunos. O Manoel, porém,
não dava pelo leme. [... ]. 1 Elas J queriam estar a duas amarras, filando pre- O tom galhofeiro de Nolasco pode
sentes de um e de outro. [... J O papagaio passou a gritar desesperadamente, não apetecer aos mais exigentes. Neste
entrou uma galinha com pintos, a fumaça invadiu a casa.. O Manoel sentiu-se sentido, resguardadas as diferenças ,
mal, pôs-se de pé ... não custa lembrar que, embora de for-
ma mais atenuada e, evidentemente,
E, porque não estava preso ao principio da imitação - atitude de enormes com um propósito artístico definido
implicações na feitura desta obra, díficil de ser enquadrada em gênero, modelo - o de abrasrleirar a cultura do país,
ou espécie - Nolasco sente-se muito à vontade e traz, para a boca de cena, a fala usando, para tanto, determinados
do povo, organizada, claro, fora da elegância preconizada pela gramática literária princípios formais, como a paródia e a
padrão: montagem - os modernistas paulistas
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111
utilizaram-no à exaustão. Para pôr em que tem como espaço de ação vilarejos e cidades in terioranas (Alagoas, atual
prática o ideal antropofágico, Mário de Marechal Deodoro, Três Coqueiros, Barra de São Miguel, Fernão Velho) e, sobre-
Andrade (1893-1945) usou-o reitera- tudo, Maceió, que, nos meados do século XIX, segundo Luiz Sávio de Almeida
damente. Em Macunaíma (1977, pp. (2006, p. 52)'
9-10), esta opção é acentuada pelo au-
tor, provocando um largo efeito humo- equivalia ao dobro das demais cidades e dividia-se em dois
rístico, como, aliás, já o fizera, em seu bairros: Jaraguá e Maceió. Contava com cinco estradas arruadas:
tempo, um certo Pedro Nolasco Maciel, Trapiche, Mutange, Frechai, Mangabeiras e Cruz das Almas.
mais conhecido como Pedro Nolasco:
Nolasco toma o primeiro arruado (Mutange), citado por Almeida, para rela-
Quando era para dormir, [Ma- tar as agruras de Manoel, em apenas uma página, sem quase dar tempo para o
cunaíma] trepava no macuru leitor respirar. Na tentativa de surpreender Zulmira em uma festa a ser realizada
pequenínho sempre se esque- no Mutange , Manoel, além de não encontrar "o torrão de açúcar cristalizado".
cendo de mijar. Como a rede perde-se no caminho de volta a Maceiô:
da mãe estava por debaixo do
berço, o herói mijava quente Foi assaltado por uma matilha de cães que saíra [... ] do sítio do
na velha, espantando os mos- Wucherer, [... ]correu, trepou numa cerca, esgueirou-se por entre
quitos bem. Então adormecia as árvores, novos cães o agrediram dentro do quintal que era do
sonhando palavras feias. imo- João Nobre. conferente da ReC"ebedoria Estadual; o Nobre abriu a
ralidades estrambólícas e dava porta [.. J deu um tiro de garrucha para o ar. (... J
patadas no ar.
Recolhido por canoeiros, passa o resto da noite em casa de um de seus sal
Sob a linguagem chã, visível em vadores (Gerôncio, "um crioulo maneta que vendia aguardente de alambique do
Traços e Troças, percebe-se algo mais. Ananias, da Biquinha") e, na manhã seguinte, com roupas emprestadas, toma,
Por exemplo: que Nolasco est á muito em Coqueiro Seco, um trem de carga para Maceió. Inverossímil? Talvez, para um
mais interessado em reproduzir o am- leitor acostumado ao comedimento de obras clássicas de ficção, em que as ações
biente em que viviam pessoas de baixo se sucedem vagarosamente; admissível, para um público ávido de peripécias ro
poder aquisitivo, isto é, a "arraia mi- cambolescas, prôprias às convenções de uma narrativa conhecida pela alcunha
1

11 úda", - e essa motivação impede-o de de "romance folhetim", vulgarizado, na França por Eugêne Sue (1803-1857) t..
mergulhar defmitivamenle no mundo Alexandre Dumas (1802- 1870) e logo aclimatado no Brasil. ~
da ficçao, no mundo do fingir- do que, Em meio a muitas peripécias, o narrador solta um Amor, amore compensn
propriamente, em se deter nos desen- tur., dificultando este esboço analítico. Tropeço, então, num aforismo (ou máxi
contros amorosos do infortunado Ma- ma?), forma discursiva que se propaga na narração nolasquiana. E, como nõo
noel. Em sua narrativa zigzagueante, tenho a pretensão de estabelecer distinções profundas entre provérbios, afo
//}j
:/..trut::Vt~ e- /1'11'f>d~~ S:O(/l,crl t-114 a~ótld-

luul mos e máximas. presentes na obra perfeitamente independentes ra). A estudiosa classifica os provérbios
br F'C'd .1 Nolasco, deixo as para es dri gram<Htc'-l ligados por uma utilizados por Ariano Suassuna em
•i1fo IJl'i; iallstas -, recorro às considerações relação fixa, que, por sua vez, dois tipos: provérbios populares, que
1rt1rlt:ns, aqui simplificadas, de Roland nada deve à sintaxe. [... ]A má- têm como fonte a tradição popular oral
llr11·1 hes, Luiz Costa Lima e Elizabeth xima constitui um bloco geral, e escrita, e provérbios religiosos, pro-
tlti 1 Mndnheiro. Segundo Roland Barthes composto de blocos particula- cedentes da Bíblia. Acrescenta, ainda,
f f11l ( ! 9 1.l:i, p. 10), res; a ossatura - e os ossos são expressões sincréticas como por exem-
objetos duros - é mais do que plo, "juro por tudo quanto é sagrado",
A máxima é um objeto duro, aparente, é espetacular. ~ "mais morta que viva" e ditados, como
lu luzidio - e frágil - como a ca- "Cautela e caldo de galinha não fa-
·11 n rapaça de um inseto; e como o Para Luiz Costa Lima (1974, zem mal a ninguém", "Eu mostro a ela
t1dr1 inseto, possui também um fer- pp.40-50), o provérbio "é dotado de quanto nós existem do focinho ao fio-
..
1() rão, este colchete de palavras uma armadura simples [... ] que per- fó", dentre outros. Assinalo, ainda, que
aguçadas que a encerram, a co- mite, por conseguinte, que ele seja a estrutura fraseológica de provérbios,
roam - e a fecham, armando-a manejado com facilidade pelo falante. máximas e aforismos é sempre regida
1 do (ele é armada por ser fechada). Sua formação poética promove sua re- pelo presente do indicativo, tempo his-
1(1(' De que é feita esta estrutura? tenção; a sabedoria que contém, sua tórico, atemporal, por excelência.
do De alguns elementos estáveis, aplicação a um número indefinido de Em Traços e Troças pululam sen-
u (1 situações". Estudando o conceito de tenças. Eis um curto inventário:
formas simples, de André Jolles, Ma-
rinheiro (1977, p. 145) parte do que A bisbilhotice humana é, po-
iC d - chama de Locução e ai "(alista] indis- rém, superior a todos os outros
do tintamente, citações individuais que se instintos menos toleráveis da
llfl, tornaram proverbiais e apotegmas, evi- sociedade.
1111 denciando o nome do autor, se for este Bem dizem que o amor cega.
)(•::;
"t: indicado por Suassuna" {grifo da auto- A mocidade tem as suas levian-
ro dades e o mundo é corriqueiro
ha e mau
)e Quem pagou o pato foi o pobre
do Sampaio, preso sem culpa,
sn- obrigado a prestar fiança, e afi-
xi - nal perdendo o em prego
ao Às vezes não é somente o velho
fo- impotente o D. Juan a verberar
{{f-
~tk 1/itek, 11>-t-CJWVd.M

A prostituição é uma chaga asquerosa que supura o pus envene- nha e Seraphim] depositavam os tacos
nado da gangrena nos seus lugares respectivos e saíam
A barriga não espera. É um saco que nunca enche rua afora em direção à casa de Zulmi-
Todo sangue é vermelho, quer nas veias do branco, quer nas do ra. Não puderam lá chegar, porque as
preto ruas estavam intransitáveis, corriam
Uma coisa é errar, outra coisa é não saber emendar o erro soldados em todas as direções, esfa-
Neste mundo todos puxam a brasa para sua sardinha, e quem é queados, rotos, uns feridos de bala,
tolo é quem fica magro outros de rifles e cacetes. Por toda
Nem tudo é para todos parte grandes conflitos entre a tropa
Quem é vivo sempre aparece de linha e corpo policial. No mercado
a luta é quase permanente, está qua-
Com este repertório, de teor variado, nosso escritor vai ilustrando situações se deserto, nada se pode comprar. Os
com o intento de divertir. Na maioria das vezes, usa-as para tecer críticas a cargos, lutadores fazem projétil de cocos, de
instituições e pessoas de seu tempo, trazendo para a superfície, Troças e traços in- jacas, de melancias. [... ] Tínhamos já
dividualizadores de uma estrutura social urbana e de uma faixa representativa de assistido a estas cenas desagradáveis
sua totalidade (relevem-me não especificá-la) - aspecto, sem dúvida, mais saliente por ocasião da deposição do governa-
de seu livro. 6 É aí que sai de cena o aspirante a romancista; entra o etnó1ogo7 e, dor Gabino Besouro. O conflito desta
com ele, um narrador testemunhal, possuidor de uma dicção própria. vez não tinha caráter político, parecia
simples rixa, ócio velho da tropa de li-
Um narrador testemunhal nha aos policiais. O resultado, porém ,
foi o embarque do batalhão 26º para
Já foi dito, em vários momentos, que Nolasco se afasta em demasia das Sergipe e a vinda do batalhão 33º para
personagens por ele criadas (Zulmira, Manoel, Juquinha e D. Maria) e, por con- aqui. [... ] Quem é vivo sempre aparece.
seguinte, da invenção. Ao assim fazer, mostra, acredito, que está muito mais Vimos que o Juquinha e o Seraphim
atraído pelos lugares sociais pelos quais suas personagens circulam, pelos even- não puderam chegar à casa de Zulmira
tos a que assistem, do que propriamente por suas histórias particulares. Isso em vista dos tumultos que se davam
confere um formato, uma substância absolutamente singular ao livro. Os exem- na rua. O Manoel estava nas mesmas
plos são abundantes, mas, para dar uma ideia, seleciono uma passagem (supri- condições e já tomara uma canoa, em
mo, infelizmente, trechos importantes para não alongá-la) em que o autor, após barcara para Alagoas. 8
fazer uma digressão de três páginas, termina por se dar conta, subitamente, de Abre-se uma digressão , previs1 n
que havia esquecido totalmente suas personagens. Afinal, como dirá ao término, na última linha da citação, porque ago
"quem é vivo sempre aparece". ra o narrador resolve definitivamen1<•
Zulmira passou triunfante deixando após si os odores esquisitos que exa- deixar Juquinha e Seraphim para trás.
lava o seu finíssimo lenço de cambraia. [... ]. Alguns minutos depois, [Juqui- e acompanhar Manoel em sua visita n
115
J..tt~e;;;(fA/l,t'f- e- l'Yl~f'Cf' >ooicd ~ ~<>~

rn, ''cidade antiga, abandonada à reviravoltas, digressões, histórias den- servador testemunhal, Nolasco relata
pr'··l d<> .. uu população" tro de histórias, sua matéria não se fatos históricos. como o aliciamento de
Oo ponlo de vista da técnica nar- avizinha do romance picaresco, dele voluntários para a guerra do Paraguai.
Hli lvn, t·sse lrançado leva-me a duas diferindo do pont o de vista da composi- Se, agora, coloco lado a lado um tre-
!ilpíH1;1ws. A primeira pode ser resu- ção, conforme venho salientando des- cho extraído de História de Alagoas, de
•lldo da seguinte maneira: as perso- de o início deste esboço. Embora não Moreno Brandão (1909, p. 93), e um (o
111wrn s não são autônomas; são guia- seja de meu interesse me deter nesta segundo) de Nolasco, é apenas com o
t o d 11 tini pl'lo olho do nar rador testemu- questão, abro um parêntesis para as- intuito de chamar a atenção do leitor
lllf.1(! !111.11 rornam-se, assim, personagens sinalar que, ao analisar as analogias e para a extrema visualidade com que
"nd11 pc1{'ffT1nas, espectadoras da História. diferenças de Memórias de um sargento descreve cada fenômeno a que assiste,
111n ~ h11Lt11cuda na primeira, a segunda de milícias (1853), de Manuel Antônio no caso, aqui, o aliciamento:
09 ltlp1'1lese diz resp eito à posição d os de Almeida (183 1-1861), em relação ao
' d1· prol.ugonistas no contexto narrativo: romance picaresco, Antonio Candido Veio depois [do Dr. Galdino Au-
..s Já llfl lllt'dida em que não exercem um (1993, p. 24) discorda de Mário de An- gusto da Natividade e Silva] o comen-
\'CIS pnpt:I fundamental, o narrador pode drade, e observa: "Leonardo não é um dador João Martins Pereira de Alencas-
IHI 111111gü-los, tomando , ele própri o, as pícaro, saído da tradição espanh ola; tre e o a liciamento de voluntários, que
.. ~l:1 n' dt·as da narração. Esses dois ca- mas o primeiro grande malandro que ia se verificando sem grandes abusos,
:cio minhos discursivos, exemplares na en tra na novelística brasileira." transformou-se numa caçada bárbara
: li H.ncão acima, impregna, a meu ver, Como sugere o título do livro do
rrn, tndo o livro. Ambas as técnicas com- alagoano, o grande lastro que o sus-
11 l'll pletam-se, pois, enquanto uma joga tenta é o registro de Tr oças e t raços
.ll'[l us personagens em meio a situações de situações p olítico-sociais empíri-
c:e. ines peradas, a ou tra fornece, de rol- cas , ocorridas em Alagoas no .periocl.9.
1im d úo, informações sobre eventos histó- pós-republicano, vistas , claro,-a partir
ti ra sico-cu lt urais ocorrendo em d iferentes da experiência individual do a~o!~ N._?
um pontos urbanos. lugar extremamen te vantajo~-···()_hf
IHS Com pleno domín io dos fatos
111 - por ele presenciados, o escritor, como
já afirmei, dá um empurrã ozinho nos
•ta quatro protagonistas e segue sozinho,
'O-
·' num turbilhão discursivo qu e toma
1te este livro inclassificável (fris o, mais
lS, uma vez) no panorama dos gêneros li-
a terários e suas subespécies. Cheio de
116
0-~ 1htek, ~~~~

e impiedosa de homens, de que as tru- universo. Impossível deixar de trazer pelo menos dois entrechos, para confirmar
culências brutais dos potentados ser- minha impressão:
tanejos se valeram para exercer atos
de ferozes vinganças, firmando pela De volta a Fernão Velho, Juquinha, Zulmira e D. Maria tomaram o trem para
prepotência sem corretivos um poderio a capital, e vieram prosando durante a viagem. Os carros de primeira classe
despótico e sanguinário. vinham cheios, abarrotados.
No ensejo da Guerra do Paraguai
tratava-se de uma questão internacio- O Cajazeira entrou, narrando que lhe furtaram à mesa do baccarat uma nota
nal da defesa da Pátria.[ ... ] É certo que de 50$000, gaguejando, muito exaltado. Já o Livramento abrira-se e o mulhe-
muitos abusos foram cometidos, que o rio devoto chegava; o padre Procópio, de óculos, limpava as ventas com seu
recrutamento fez-se desbragadamen - enorme lenço vermelho[ ... ].
te, principalmente quando presidiu
esta então província o infeliz Alencas- Esta marca estilística - a visualidade imprime dinamismo ao texto. Est.1
tro, de execranda memória, pequeno aí mais uma faceta deste narrador testemunhal, que absorve tudo, sem qualquer
nas ações e tão pequeno no tamanho preocupação de ordem metodológica, como se tivesse consciência de que era
que após os seus atos desumanos preciso fixar ao vivo o que era significativo, naquele momento, em sua cultura
aqui praticados, o governo agraciou-o Os exemplos acima mencionados têm propriedades semântico-culturais parti
com o crachá da rosa. [... ] Quem viu culares, servindo para ilustrar ambientes e pessoas, funcionando, ainda, como
e lembra-se dos históricos gameleiros expressão da subjetividade do autor. Observo, também, a presença de instânci.is
da Praça do Quartel, aquelas árvores em que a notação descritiva vem sempre enriquecida de dados sobre a origem, o
colossais e venerandas [... ] que forne- cargo ou a profissão do indivíduo, conforme se lê aqui:
ciam sombra para abrigar centenas de
crianças, mulheres e velhos, chorando Cada um ia fazendo espírito como melhor pretendia. Bateram à porta. Em 11
dia e noite, em (sic) procura de paren- Manoel Barbeiro, conhecido por Pensamento que toca flauta de orelha e co111c•
tes recrutados. por dois.
A visualidade está presente em
todo o livro, qualquer que seja o ângulo Aí [o Juquinha] encontrou o José Custódio, caixeiro-viajante, esse tipo de ht•
de focalização utilizado: o bendegó de êmio, pândego eterno, de rosa no peito, sempre alegre, vexado e faceiro, q111 •1
Zulmira untado de crisa-il, seus cabe- impulsione a bola de bilhar, quer monte no bonde carnavalesco que na P1 .1ç•c1
los arpeados, a batoniére de Juquinha, Deodoro quebrou o arame da luz elétrica.
o maneta Gerôncio, os soldados rotos,
os velhos e as crianças chorando na Noto, ainda, que essa função de caracterização estende-se também a 1.11n
Praça do Quartel constituem pouquís- campo considerado, à época, sem importância para a História: o vestuário. Assim
simos exemplos dentro de um amplo como o ambiente, o vestuário constitui um modo particular de expressüo cln c ul ·
li'?
f-;;:t~,,._·l,et- e- /1'/~n,P"' 5'ooietl Uh ~Ot'l-J-

lfii' l ll{ll turu, e, neste a s pecto, não é possível es- Antônio Pacheco, barão do Co- aquilo que, por convenção, deveria ser
1uece :iue os trajes, sobretudo os d os quPiro Sec-o com seus enormes exaltado. Nesse viés demolidor, per-
n••groi:. e os das negras, eram um deleite bigodes vermelhos, chapéu de ceptível em várias instáncias, ora en-
111 pn 1 a pr11 .1 os viajantes e pintores estrangei- palha, paletó de seda muito vereda pela História - quando se refere
1 C'/(ISS" rof' Na literatura, Bernardo Guima- lustroso, lenço ao pescoço so- à rainha Vitória como "a senhora dos
l'l'1cs, José de Alencar, Machado de As- braçando a capa de borracha, mares e das tartarugas" - ora descam-
iti e João do Rio, dentre muitos outros, pôs-se em ordem de marcha. ba para o anedótico, antídoto à frieza
rui notn c 1·11rn exímios "retratistas'19 como, aliás, da análise dos sociólogos:
11111lhc fr1i , cm seu tempo e à sua maneira, um Zulmira descera, afinal, acom-
111n .<>eu r·crt o Pedro Nolasco Maciel: panhada de D. Maria, os degraus da Se Zulmira dançou o presépio
calçada. Nunca estivera mais formosa, não ficou por isso ultrajada. O
À vista da recusa de uns, es- nem mais deslumbrante. Vestida de lã general Deodoro também dan-
1.Está friaram os outros. A deban- creme, luvas cor de café, leque e cha- çou em 1839, na cidade de Ala-
plqucr dada principiou. As damas péu desta mesma cor. Cabelo aspoado goas (atual Ma rechal Deodoro)
lil' era despediam-se em voz alta, aos em espirais na testa acetinada. Era a e isso não obstou que cinquen-
lltura. beijos, aos abraços recíprocos. fascinação em pessoa. ta anos mais tarde fosse um
parti Embrulhadas em fichus cor de Como se vê, o estilo de Nolasco marechal e derribasse um im -
como rosa, azul claro, aos grupos. O tem a ligeireza do traço caricatural, pério, deportasse o imperador,
lncias perpassado por uma boa dose de h u- a princesa, o neto maluco de
gem, o mor - região frequentada pelo narra- D. Pedro, D. Augusto e con-
dor testemunhal. Além dos entrechos de D'Eu, este com saudade de
acima citados, seu lado espirituoso já seus cortiços, aquele com pena
, l~ra o tinha aparecido quando, ao mencio- das suas orgias.
r. C'ome nar a comenda com que fora agracia-
do o governador Alencastro, a reduz a O humorista é um revolucionário,
um simples "crachá", ou seja, rebaixa um anarquista por natureza. "Humor e
de bo sentido de liberdade caminhamjuntos.
1, quer Aquele que tem humor é um homem
1 Prnçn livre, separado de si mesmo , dos ou-
tros, e do mundo", diz Minais (2003,
p. 423). 1º Em s ua extensa elucidação
ri um crítica sobre as diversas manifesta-
i\ttsim ções do riso, o estudioso cita Mikhail
ft cul - Bakhtin, discorre sobre o "riso gordo",
118
~~ 1/;tek ~-i,~~

de Rabelais, (Minais, p. 269), sobre o humor made in England, ''o riso à france- pública não é isto. Infelizmente, porém
sa", de Moliêre (Minois, p. 411), e escreve: "A ironia de Swift é um nihilismo tro- ela será ainda por muito tempo assim.
cista que constitui o extremo limite da zombaria do século XVIII. Mas todas essas Em blocos narrativos que se su-
zombarias têm um alvo: a organização social de sua época." (Minois, p. 422). cedem paradigmaticamente à manei-
Na literatura brasileira, o escárnio é uma das marcas de nosso trocista maior, ra de instantâneos cinematográficos,
12
Gregório de Matos Guerra (1633-1696). Segundo Araripe Júnior (1978, p. 308), fora, contudo, da progressão linear
"As cenas que mais impressionaram o poeta foram as que se singularizavam pelo esperada, conforme já assinalado, o
contraste com as da vida metropolitana". E continua: "O satírico é sempre um destaque agora são as cenas banais
psicólogo. Os espetáculos que o ferem e impressionam são os da alma humana; da violência urbana, a que é subme-
o seu campo de operações é o dos costumes. Já se vê, portanto, que Gregório de tida a escória social - loucos, loucas ,
Matos não podia ser atraído pela paisagem." Isso também ocorre, a meu ver, com mendigos e mendigas - uma massa
o alagoano, redator-chefe da Tribuna do povo, que usa de sua verve para pinçar anônima da qual, mais tarde, iria se
os costumes e os cacoetes da cidade. Na citação abaixo, o traço humorístico é ocupar, em suas crônicas, o multi -
obtido pela brusca mudança de assunto: passa-se repentinamente de detalhes facetado jornalista e ficcionista João
descritivos (pitorescos e, por si só, risíveis), para os hábitos e os investimentos do Rio (1881-1921). Com a mesma
financeiros da prostituta anônima: crueza do escritor carioca, quando
abandona as ruas e os salões elegan-
A prostituta ostenta o surah de seda, o merino, e a própria seda, tes para embrenhar-se nos presídios,
chapéus de plumagem, luvas de pelica, sapatos de Bostock de nas minas de carvão, nas favelas e
primeira qualidade, deixa após si os odores esquisitos do Japão, nos asilos, em suma, nos porões d a
abana-se com leques a Pompadour, faz lunch de 20$000 nos bo- cidade, 13 Pedro Nolasco anota a misé-
tequins todas as noites, tira 5 e 6 bilhetes no Cosmorona e aposta ria que proliferava ( e prolifera ainda)
nas corridas da Estrada de Ferro S. Luiz. por aqui:

Contudo, quando olha o presente em termos dos conflitos político-sociais Mas os crimes reproduziram-
que por aqui surgiam, o trocista dá lugar a um narrador de enorme alcance crí- se. Uma pobre mulher aliena -
tico, debruçado sobre sua História, imerso em reflexões nas quais pontificam a da, por nome Delphine, ama-
revolta ou a descrença, 11 porém com um fiapo de fé na regeneração cívica e moral nhecera esfaqueada, à rua
do país. Numa mudança de tom, que, aliás, justifica o subtítulo do livro, crônica Ponta Grossa, Já eram 8 ho-
vermelha, escreve: ras do dia e lá estava o cadáver
Quando o Manoel voltou à capital, tratava-se de processo por crime de sedi- ensangüentado . E a polícia, em
ção, alguns ex-oficiais estavam presos, e andavam acima e abaixo, cercados por que terra, em que mundo s e
um punhado de homens [... ]. A devassa era tremenda, dir-se-ia que estávamos escondera, essa miragem en
no regime de terror. Esta política desgraçada tem até feito vítimas ilustres. A Re- carregada de manter a ordem
li'
/.,:;(1!4ci/(.."'1.-t?I- e- '}'Y/f/lknp<r- 'Soc-ici-t ,;~h· Cfl~p<u:'f<J.-

evitar os crimes, punir os de criturário como o imperador. como marca singular do processo nar-
Gerações intt>ir<ts f> milhõC's de rativo de Pedro Nolasco Maciel. que,
lmqucntes?
pessoas viveram e vivem na co- como tal, não teve seguidores nem an-
I~ possível afirmar que, parale- tidianidad e de sua vida como tecessores em nossa literatura.
luinc nte ã. quantidade espantosa de em uma atmosfera natural sem
1i]IJit~t 1 os ricos em conteúdo etnográ- que lhes ocorra à mente, nem
fü'ü, 11 torna-se explícita a intenção do de longe, a ideia de indagarem
!1Ui111 de tudo narrar na maneira como qual o sentido dessa cotidiani-
1ü1 1 01sas acontecem e se refletem no dade. (o grifo é de Kos ik)
1111111clo dos indivíduos ou de peque-
nr11-J ~rup os societários. Nesse ponto, Todos os traços e troças extraí-
11 1munciado histórico fica contíguo dos do contexto social mostram que o
10 dn cultura e ao da sociedade, am- autor não se desprega do mundo ob-
bos ocupando um espaço enunciativo jetivo. E, perguntará o leitor, que fim
l11~ n1 maior que o romanesco propria- tomaram as quatro personagens? Em
tT11 nle dito. As constantes alusões à meio a inúmeros recuos e retomadas,
~·idu material e cultural, ou seja, ao o "Manoel de Souza Cordeiro, ele, que
111odo como os indivíduos comem, be- por desgraça além de Souza ainda era
1_.,_m, rezam e se divertem , colocam- Cordeiro" casa-se, em um a brir e fe-
nos na esfera da cotidianidade, assim char de olhos , com Zulrrnra etc. etc.
entendida por Karel Kosik (1976, pp. D. Maria ... bem , prefiro parar por
)8 69): aqui para não tirar o prazer da leitura
deste livro que é um pouco de tudo,
Todo modo de existência hu- e do qual tentei fazer, com dificulda-
mana ou de existir no mundo de, este esboço analítico. Limitei-me a
possui sua própria cotidiani- examinar a pluralidade de discursos
dade. (... ). Que é então a co-
tidianidade? A cotidianidade
não significa a vida privada
em oposição à vida pública.
Não é tampouco a chamada
vida profana em oposição ao
mais nobre mundo oficial: na
cotidianidade vive tanto o es-
Referências

ALMEIDA, Luiz Sávio de. Chrônicas alagoa- CANDIDO, Antonio. Dialética da malan-
nas: notas sobre poder, operários e comu- dragem. ln: O discurso e a cidade . São
nistas em Alagoas. Maceió: Eclufal, 2006. v.Il. Paulo: Duas Cidades, 1993.

ANDRADE, Mário de. Macunaima - (o KOSIK, Karel. Metafisica do cotidiano. ln:


herói sem nenhum caráter). São Paulo: Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz
Martins Editora, 1977. e Terra, 1976.
LIMA, Luiz Costa. Mito e provérbio em
ARARIPE JÚNIOR. Teoria, crítica e his- Guimarães Rosa. ln: ___ . A metamorfo-
tória literária (seleção e apresentação se do silêncio. Rio de Janeiro: Eldorado,
de Alfredo Bosi). São Paulo: Editora da 1974.
Universidade de São Paulo, 1978. (Bi-
blioteca Universitária de Literatura Bra- MARINHEIRO, Elizabeth. A intertextua-
sileira). Udade das formas simples (aplicada ao
Romance d'a Pedra do Reino, de Ariano
BARTHES, Roland. La Rochefoucauld: Re- Suassuna). Rio de Janeiro: Gráfica Olim-
flexões ou Sentenças e Máximas. ln: ___. pica, 1977.
Novos ensaios críticos, seguidos de O
grau zero da escritura. Tradução de Heloy- MINOIS, George. História do riso e does-
sa de Lima Dantas, Anne Arnichand e Ál- cárnio . São Paulo: UNESP, 2003.
varo Lorencini. São Paulo: Cultrix, 1993.
li
BRANDÃO, Moreno. História de Alagoas.
Maceió: Artes Gráficas (tipografia e pauta-
ção de José Amorim] 1909.
Notas

1 * Professora de Literatura Brasileira e de fincados no local, está também de olho


Língua e Literatura Francesa, da Facul- nos padrões culturais cultivados pelos
dade de Letras (FALE) da Universidade estratos mais altos da sociedade.
Federal de Alagoas.
Nas citações da obra, todos os grifos são 4 Publicado diária ou semanalmente, e
meus. Para não quebrar o fluxo do dis- ocupando lugar para ele destinado,
curso do narrador, não será colocado o rez-de-chaussée, (expressão empregada
número da página. para designar a parte inferior de casas
e prédios), o romance folhetim popular-
·2 Tive acesso à preciosa contribuição do izou-se com o advento da imprensa mod-
Dr. Felix Lima Júnior, graças às notas erna. Em torno de 1842, Sue percorre o
de rodapé colocadas na cópia xerográfica bas-fonds de Paris e escreve, em séries,
da obra, fornecida por Luiz Sávio de Al- Os mistérios de Paris.. Muitos escri-
meida, a quem agradeço o préstimo. tores, como Balzac, escreveram seus ro-
mances de olho no modelo folhetinesco.
3 Como é notoriamente sabido, a cultura No Brasil, José de Alencar inaugura a
francesa, sobretudo a partir dos meados crônica/folhetim sob o titulo "Ao correr
do século XIX, foi influente no pais: "O da pena". Na medida exata do gênero,
sentimento em nós é brasileiro, a imagi- lembro O esqueleto - mistério da Casa
nação é européia", dirá Joaquim Nabuco de Bragança, escrito, a quatro mãos, por
em Minha formação. Noto, de passagem, Pardal Mahlet, Olavo Bilac, Coelho Neto
que a língua francesa, utilizada pelas ca- e Aluísio Azevedo (Victor Leal), publica-
madas mais abastadas, aparece no liv- do em 1890, nas páginas da "Gazeta de
ro de Nolasco (cherchez la femme, diz o Notícias". O romance foi recentemente
narrador a certa altura). Noto, também, reeditado (2006).
que recebe transliterações interessantes,
como "ovos a Lacoc" e como esta que 5 Barthes entende que, quando a máxi-
acabamos de ler: "batoniêre" por "bou- ma abandona a ordem sentencia!, ela
tonniêre" (lapela, em francês). A meu ver, "!está )a caminho da Reflexão, isto é, do
essas incursões pelo francês evidenciam discurso." Cf. BARTHES, op. cit. p. 10.
que Nolasco, além de estar com os pés Sobre a prática e a teoria da linguagem
13 Refiro -me às crônicas que compõem os
volumes A alma encantadora das roo!>
e Cinematógrafo (crônicas cariocas). À
diferença de Nolasco, João do Rio pen-
etra nos espaços de exclusão. Importante
é o ensaio de Antonio Candido, intitulado
"Radicais de ocasião", inserto em Tere-
sina, etc. (Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1980).

14 Tantos, que, inventariados, encheriam


páginas e mais páginas.
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raços e Troças informa sobre o à consolidação d e uma oligarquia que

T universo da cidade de Maceió


mencionando locais , edificios,
1 uas, elementos que marcam a cons-
se encontra enunciada no contexto do
romance, embora não claramente tra-
balhada. A movimentação política do
trução do urbano, especialmente no quadro de forças apresentado possibilita
que se refere ao uso público, enfocan- verificar elementos sobre a consolidação
do uma relação entre espaço e cotidia- de um determinado tipo de comando da
no, e nele suas manifestações sociais. sociedade.
O romance proporciona a construção Pedro Nolasco Maciel mostra como
da imagem de Maceió dos fins do sécu- a cidade em construção era marcada
lo XIX e primórdios da República, cida- pela geração de locais para pobres e ri-
de que representava a concentração de cos, numa demonstração de que cidade
serviços relativos a uma economia de e sociedade se integravam em um mes-
natureza agroexportadora. mo modo de ser. O espaço categorizado
Estamos diante de informações so- esclarecia a tensão no urbano e na socie-
bre um importante momento de transi- dade. Locais empobrecidos eram- como
ção, levando o autor a trabalhar infor- ainda são- o Trapiche da Barra, Levada,
mes sobre acontecimentos do Império Mutange, áreas por ele citadas. É que o
e da República que iniciava a sua es- romance funda um modo de ver Maceió,
truturação. Traços e Troças vai além do somente possível na medida em que sur-
corte temporal que realiza, apontando ge uma nova categoria política chamada
para uma rede de relações que levarão de filhos do trabalho 2 • Infalivelmente, a
cidade de Pedro Nolasco Maciel trataria dessa contradição n a sociedade, contendo Se por um lado ele é capaz de en-
itinerários sociais e políticos, personagens andando na malha tisica. trar na particularidade da produção
É na construção desses itinerários que Pedro Nolasco Maciel vai apresen- associada ao detalhe de um pequeno
tando a cidade através de seus fluxos e destinos, de tal modo que incorpora a lugar de pesca, ele encontra o senso
vida da população e, assim, locais e funções vão sendo esclarecidos, inclusive histórico para olhar o passado e ligá-
com o aparecimento de pontos de festa e comemorações, meios efetivos de inte- lo à paisagem que pinta de Marechal
gração do coletivo urbano. Então, da mesma forma que temos os lugares do co- Deodoro, referindo-se, inclusive, à po-
tidiano, temos os de festa, como São Gonçalo no Alto do Pharol, Martírios, Santo sição dos conventos dentro de uma so-
Antônio, a Festa de Maio, o Dia de Ano Bom em Fernão Velho e o Dia da Hora, ciedade que teve de reverter-se à po-
quando se dava uma mistura evidente do sagrado e do profano: a população de breza depois da transferência da capi-
Maceió ia para um lugar de pescadores a ver curimãs sendo recolhidas nas redes tal para Maceió, restando-lhe a vida de
no Dia da Ascensão do Senhor Morto. pescadores em troca dos grandes ras-
Da mesma forma como monla os itinerários, Pedro Nolasco Maciel pinta a gos do poder desde quando era cabeça
paisagem, compondo-a esteticamente quando da junção do fisico e do cultural, de comarca.
como se tem na belíssima passagem sobre os pescadores do Pontal da Barra.
Lega, também, urna ideia do muito que, na realidade, desapareceu pelo cres- (... j aquela cidade antiga,
cimento ocorrido, pela nova significação das áreas na malha urbana que havia abandonada, à vida pobre de
começado a ser esclarecida com a conjunção territorial realizada pelos trilhos ur- sua população de pescadores
banos. As paisagens são dadas à medida que ele se refere aos locais e à procura (... ] pela sua posição geográfi-
desses locais pelas personagens. ca à margem da pitoresca la-
É assim que vão aparecendo Fernão Velho, Mutange, o Pontal da Barra. goa Manguaba, pelas suas tra-
O Pontal é descrito da forma como a natureza do trabalho e da organização da dições ascêticas que as torres
produção encontram-se fixadas, caracterizando-o como ponto de pesca e levan- dos velhos conventos desper-
tando, aparentemente, a hipótese de que se tratava de uma sociedade capaz de tam, e pelo cheiro de santidade
viver uma rotina sem sobressaltos. Aliás, Pedro Nolasco Maciel lida com duas em que vivem ainda os povos
categorias: quietude e monotonia, elementos que se referem à aparência, na me- ingênuos d 'aquelas paragens4 •
dida em que se nota a grande complexidade da produção que ele enuncia:
Como se pode verificar, Pedro
A povoação estava entregue à sua vida quieta e monótona. Por Nolasco Maciel dialoga com o espaço
baixo dos coqueiros viam-se varais com redes estendidas, e os de Maceió e com sua paisagem, geran
pescadores, seminus, a consertá-las; velhas fiando tucum para do , como dissemos, itinerários sociail;
tarrafas. Aqui e ali muito peixe salgado, exposto ao sol. Nos es- e políticos. Por eles, é possível notar
taleiros duas barcaças em conserto, a Jovêm Tarrino e a Man- como se vai articulando e consolidando
guaba3. a malha urbana; como funções, localí
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zações e a própria economia da cidade primeiros esboços de transporte coletivo da cidade. Segundo as notas de Félix
vão gerando sistemas de ligações, obje- Lima Júnior - escritas para a edição Traços e Troças de 1964 -, os bonds to-
tivos de destino e situações correlatas, mados diariamente pelas personagens de Pedro Nolasco Maciel eram da CATU
dando-se a integração ou a montagem (Companhia Alagoana de Trilhos Urbanos).
do aparentemente fragmentado no seu O bond elétrico viria a servir aos maceioenses somente em 1914, funcio-
texto, em um conjunto identificável nando , por algum tempo, concomitantemente com os puxado por burros 6 •
como Maceió , comportando suas con- No romance, o ritmo da cidade aparece ligado ao movimento desses bonds.
tradições sem perder sua integridade Eles propunham uma rotina, e ainda estabeleciam os horários de chegada e
de sociedade que se fazia no trânsito saída de festas. Como é visto na narrativa, a categoria tempo já se incorporava
político e econômico. O primeiro seria nitidamente ao meio de transporte. Neste ir e vir diário, o bond transformava-
a passagem da ordem imperial para a se, também, em local de socialização, tendo sentido público, sendo palco de
republicana, e o segundo, seria a de- situações cotidianas e manifestações políticas. Tudo isso acontecia naqueles
sarticulação do complexo de produção pequenos veículos que circulavam habitualmente com a sua ocupação total; os
escravista. Tudo estaria confluindo oito bancos ocupados, além das pessoas que viajavam em pé7.
como lastro para a sociedade que Pe- Através dos trilhos dos bonds, Maceió vai se revelando. Aparecem um
dro Nolasco Maciel descreve e sobre a centro consolidado desde os tempos coloniais, o bairro de Maceió, propria-
qual argumenta. mente dito a capital, e um ancoradouro com o seu núcleo urbano, o bairro
de Jaraguá - que concentrava os estabelecimentos comerciais atacadistas
Notícias sobre os itinerários e administrativos re lacionados às atividades portuárias. Esse bairro inter-
ligava-se com o de Maceió através da ponte dos Fonsecas; construida sob o
Antes de discutirmos sobre as riacho Maceió - o antigo Massayó - por ela passavam diariamente as merca
relações dos itinerários com a cidade, dorias que movimentavam a economia alagoana. Tinham-se também lugares
seu papel integrador da malha física e afastados do centro, como Cambona, Mutange, Levada, Trapiche da Barra e
as subsequentes modificações no tem- mesmo o Alto do Pharol; todos considerados por Pedro Nolasco Maciel como
po e no espaço que o romance de Pedro povoa.dos. Os trilhos urbanos vão "costurando" essas partes e relacionando
Nolasco Maciel anunciou, faz-se ne- as, formando uma unidade, uma nova organização espacial, a Maceió recé m
cessário comentar sobre o sistema de republicana.
transporte urbano em fins do século Pelos itinerários das personagens, aparecem os locais de trabalho e de mo
XIX, especialmente o bond, que pode radia, surgem categorias espaciais de pobreza determinadas pelas condiçõe•,
ser considerado uma das mais enfáti- econõrnicas do trabalhador. Inclusive, as relações estabelecidas com as perso
cas referências ao espaço público no nagens - Zulmira e D. Maria - mostram, claramente, a correlação entre local de
romance. habitação e condição econômica. Devemos recordar que a mudança do local d1•
Os bonds de Traços e Troças eram residência correspondia à mudança da situação financeira, como se tem no rn
aqueles puxados por burros, um dos mance:
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;/..vtu~~~ e- -rn~~ S:Cc-t,~l ~ ~<>&v.J-

fi'(-1i Se arrependimento matasse, sa transição que está imersa a Maceió plano, encontrava-se em um momento
Is u D. Maria ltna sido vitima no de Traços e Troça'>, que 'lnun cia t anto de transição e só cons olidaria grandes
'Ni'IJ dia em que foi obrigada a mu- uma nova categoria política como uma transformações no século XX.
dar-se para a Levada, onde foi nova configuração espacial que irá se Na medida em que fomos estudan-
l IC i11 do a cidade de Traços e Troças recor-
morar numa casinha de porta consolidar nos primeiros decênios do
e janela de frente, esquecida, século XX. remos a duas plantas de Maceió para
)//(/{
quase miscravelmentc11 • servir de base para as nossas plantas
cl rt e Sobre a elaboração das plantas ilustrativas: uma anterior à publicação
11 '(1 \ ' fl
Essa nova configuração tem suas ilustrativas do romance, datada de 1868; e outra
nvo 111sas na passagem da relação se- posterior, a do ano de 1902.
(l d,-. 1il10r/escravo para a de patrão/empre- llustrar a Maceió de fins do sécu- É relevante destacar que essas
1e l1 ~ :1 gi 1clo, que produziu um rezoneamento lo XIX, personagem de Pedro Nolasco p lantas têm como fonte dois impor-
f; Ol;i d _1 2 funções na cidade e o aparecimen- Maciel, exigiu a representação dos seus tantes trabalhos sobre a cidade de Ma-
i o de áreas específicas que não exis- contornos e de suas partes integra ntes, ceió: a tese de doutorado d e Verônica
li Ili 1iwn na lógica da cidade escravista, para revelar a malha física de uma cida- Robalinho Cavalcanti, La Production de
1l'Í (1
que: concentrava em seu núcleo locais de recém-republicana com uma popula- l'espace à Maceió (1800 - 1930)' 2 e a de
j l'l'O de trabalho e moradia, e h abitantes de ção de 36.427 h abitantes 'º que viviam Fátima Campello, A construção coletiva
~ f f I :-1
diferentes segmentos sociais9 . É nes- em três bairros: Maceió, Jaraguá e Le- da imagem de Maceió: cartões-postais
ICI vada (ou Ponta Grossa) e sete povoados: 1903/ 1934 13 •
tb o Poço, Trapiche da Barra, Mangabeiras, Assim, pela escassez de plantas e
·1~(1
Pontal da Barra, Pajuçara, Bebedouro e mapas, fomos levados a trabalhar com
~ rn~
Fernão Velho 11 . A capital do Estado de uma planta da cidade escravista e ou-
'li (' Alagoas, em fins do século XIX, ainda tra planta da cidade de braços livres,
1110 com a fisionomia herdada do período modeladas formalmente no Império e
do - colonial, de ruas tortuosas, boa parte na República, para podermos formali -
:I li sem calçamento, que nunca seguira um zar aquela que corresponderia ao trân-
sito desses dois momentos , dos últi-
10 mos decênios do século XIX, período
~(· ~ em que fui publicado o romance pela
)O
primeira vez.
de A cidade de Traços e Troças está
de representada, embora não demarcada
:o- na planta ilustrativa elaborada, poden-
do ser imaginada a partir do intervalo
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entre a mancha que representa a malha urbana em 1868 14 e a malha urbana Bebedouro e a iluminação da cidade
de 1902, que correspondem aos dois momentos históricos: ela anuncia a malha à base de querosene e depois a vapor.
urbana da República, enquanto descreve o que ficou do Império (ver planta ilus- Esses melhoramentos da vida urba-
trativa 1). na foram resultado do aumento das
Optou-se pela planta de Maceió de 1902 como base para as plantas ilus- exportações dos principais gên eros
trativas utilizadas neste texto, pois ela lega espaços e edifícios remanescentes do agrícolas produzidos na Província, o
século XIX e apresenta os novos que surgiram no início do século XX. Por conside- algodão e a cana-de-açúcar, devido
rarmos os fatos descritos em Traços e Troças imersos temporalmente em um pro- à ampliação do mercado consumidor
cesso de transição, para evitar possíveis contradições, destacamos que a leitura externo pelo imperialismo inglês20 .
das plantas ilustrativas deve ser guiada pelas informações contidas no romance e A descrição de Maceió e seus
auxiliada pelas notas de Lima Júnior escritas em 1964. limites contida no relatório de José
Alexandrino de Moura revela uma ci-
Estudo do universo urbano de Mac eió pa ra o e n tendi m e nto da sua dade condicionada à planície elevada
representação de sua ocupação original, Maceió, que
buscava o leste à procura do seu an-
A primeira descrição de Maceió encontra-se em Moira, mas vamos nos coradouro natural, Jaraguá, e, para
deter no que diz José Alexandrino de Moura e comentar, também, o que é dito oeste, ligava-se à Lagoa Mundaú (ou
por Thomaz Espíndola, pela relativa proximidade que os autores têm da época do Norte) e seus canais, em busca de
da publicação do romance. maximizar resultados de comércio.
Em Moira a cidade é descrita nos quadros políticos dos meados do século Os caminhos que ordenavam o fluxo
XIX, pois foi publicado em 1846"'. E le refere-se de forma su cinta ao universo de mercadorias acompanhavam a si
da produção, à administração e à função de porto, e foi estudado por Duarte 16 , nuosidade da lagoa Mundaú, passa
Tenório 17 e Almeida 18 • Nos Apontamentos sobre diversos assumtos geographico- vam por Bebedouro e seguiam parn
adminstrativo da Província das Alagoas, de José Alexandrino de Moura 19 , ela- o interior; por outra via, adentravam
borado em 1869, consta um levantamento das ruas , dos edificios públicos e os areais do Trapiche pela estrada
de praças existentes na cidade, que, juntamente com a planta do mesmo ano, do Trapiche da Barra, em busca do
representa a Maceió imperial. Canal de mesmo nome. Para o Nor
A cidade descrita por Alexandrino de Moura, da segunda metade do sé- te, tinha-se a estrada do Poço , qw·
culo XIX , ganhara importantes edificações públicas ligadas às atividades por- acompanhava a encosta do Morro do
tuária e comercial, que eram dominadas pelo capital inglês. Foi o caso da Te- J acutinga, trecho da cordilheira d1•
souraria da Fazenda, Alfândega, In speção do Algodão, a ponte de desembar- outeiros que limitava a cidade; e dan
que no Jaraguá, entre outras representadas na planta de 1868; além destas do continuidade à do Poço, a estradn
obras, foram realizados o calçamento de diversas vias públicas, melhorias no do Norte seguia até Pernambuco (vt•1
sistema de abastecimento de água com o encanamento das águas do riacho planta ilustrativa 2) 21 •
/.:J(
~-V(e,;z,t:d'~ e- /l11~µ:ii. 5ooi,at ~ ~o~

1 c iclad;:
É limitada a leste e sul pelo Podemos ainda destacar, na des- afirmamos , vem anunciar uma nova
VH por
Atlântic;o, a oe&te pclu lagoa crição da cid a de d e José Alexa ndrino orclem t>spacial que irá s e consolidar
11 t11·1>n
do Norte e ao norte por uma de Moura, que o porto de Jaraguá é nas primeiras décadas do século XX.
1110 dos
cordilheira de outeiros, cujo colocado como questão central; afinal, Pelos itinerários de Pedro Nolasco
~:c-nero•i
cume fórma um vasto tabo- a atividade portuária movimentava a Maciel, podemos reconstruir a ima-
ncfo., o leiro, que se estende para o economia da Província, como ocorreu gem de uma cidade imersa num pro-
devido interior. em tantas outras capitais nordestinas cesso de transformações que engen-
u rnidor
É dividida em duas freguezias no século XIX. drará marcantes mudanças no espa-
!'si º.
separadas pelo riacho Maceió, Posteriormente, em 1871, com ço e na sociedade maceioense. Assim,
t• seus
de pequeno curso e de águas Thomaz Espíndola23 , Maceió é vista no romance, podemos identificar es-
e· Jos(•
salobras: a 1a freguezia é a de sob a ótica de um médico que, ao mes- paços bem definidos na cidade: um
ma ci
Maceió e a 2ª é a de Jaragua', mo tempo, era especialista em geogra- centro consolidado, o núcleo mais
levada
onde se acha o porto do mes- fia, lente do Liceu Alagoano. Em sua antigo, Maceió, bairro que concentra-
d, que
mo nome, amparado por um famosa Geografia alagoana, Espíndola va os principais edifícios públicos e
an
' LI
recife, que ergue-se pouco aci- apresenta a relação de estradas, vias as atividades comerciais retalhistas,
para ma da flor d 'agua e correndo e outras referências do mesmo tipo al- que mesclava moradias de alto pa-
tu (ou na direcção norte a sul, abri- manaquista de Moira e de Alexandri- drão nas principais vias e algumas
ira de
ga-o dos ventos do quadran- no de Moura. É claro que essas descri- mais humildes nas franjas desse cen-
c•rcio
te de leste e norte, mas não o ções da cidade de 1841, 1868 e 1871
fluxo
resguarda dos vendavaes do corresponderam a uma malha fisica
n si
sul, que hão causando sinis- de base e que o avanço de Maceió não
IS Sa-
tros maritimos mesmo no an- interrompe seu significado na malha
para coradouro, impelindo as em- urbana apesar das modificações que
1vam
barcações à praia e sobre os acontecem.
rada trapiches. Chegada a República em~s
11 do
O litoral que, ao norte da ca- do século XIX, Traços e Troçasreomo
Nor-
pital, vem percorrendo a linha
que de nordeste para sudeste, ao
:>do dobrar o cabo denominado
1 de
Ponta-Verde, muda de direção
km- e segue do leste para o oeste,
nda formando a enseada de Pajus-
(ver
sara e o sobredito porto de Ja-
ragua' [grifo da autora]l2 •
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A como fonte a tese da Prof.ª Dr.º
Fátima Campello (2009). Foi en-
contrada no Arquivo Histórico do Exército

'~1~~
e corresponde à cópia de um levantamento
da cidade realizado pelo engenheiro Reih-
nold Vickse por ordem do Governo Munici-
pal de Maceió.

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' o e C_A, N o
Planta da cidade de Maceió em 1902
Fonte: CAMPELLO, 2009

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"-.vte-1,,cd'~t:f, e- m~P't"" S'coiCf-t ~ a~º~

(l'O: ,Ja raguá que vivia em função do italiano Luiz Luca riny em relatório de Os itinerários dos bonds puxados
ru ancorado u ro natural , com pré 1898is e que Pedro Nolasco anuncia por burros
dios ligados às atividades portuárias, Poço, Pajuçara, Trapiche da Barra e
er11 no a recebedoria, a alfândega e os Levada, estão representados na plan- As descrições dos itinerários dos
r111~11 to
1 dtvl'rs os trapiches; e áreas afastadas ta de 190226 , e foram apontados por bonds puxados por burros contidas
l~dla
dr·.sas supracitadas, que pelas des- Lucariny como áreas de expansão da no romance são notadamente impor-
tlllid ci 1 ~;õe s do autor, aparecem como lo- cidade. Segundo o Indicador Geral tantes na representação de Maceió e
1'1ds e m pobrecidos, caso do Mutange, do Estado, também de 1902, Maceió, seus fluxos em fins do século XIX. No
l'rn piche da Barra, Levada e o Pontal Jaraguá, Levada e o Jacutinga {atual seio das dificuldades documentais,
du Barra, distante povoado de pesca - bairro do Farol) eram os quatro bair- obtivemos apenas a descrição de al-
dores. Manoel e Zulmira percorreram ros da cidade e Trapiche da Barra, gumas ruas servidas por eles; por-
1~usa s áreas úmidas, distantes da ha- Pontal da Barra, Bebedouro, Bom Par- tanto, a planta que elaboramos não
h1ubilidade de Maceió e do Aterro de t o, Mutange, Poç o e Mangabeiras , os nos dá um a visão es pacial fidedigna ,
._ h rnguá {atual Avenida da Paz), que subúrbios27 • m as aponta, pelo m e nos num a pers-
c:11ncentravam "casas mais nobres" 24 . No início do século XX, foi inicia- pectiva geral , como esse sistema de
A planta de 1902 (ver planta ilus- da a ocupação da parte alta da cida- transporte formava a malha de inte-
t rnliva 3) nos oferece a visão da "ci- de, com a forma ção do bairro do Ja- rações socioespaciais , dando- nos pis-
dade futura" descrita pelo arquiteto cutinga; na Pajuçara surgiram as ca- tas sobre os lugares centrais e perifé-
s as d e veraneio em subs tituição a dos ricos da cidade.
pesca dore s; Poço e Manga beira s eram Na reconstruçã o desses itine-
locais de sítios, interliga dos à Maceió rá rios, uma dificuldade consistiu em
pela avenida Ma ngabeiras. Continua- indicar com exatidão um ano para de-
va o centro a concentrar as atividades terminar as ruas por onde passavam
de comércio retalhista e o Jaraguá, as os trilhos urbanos. Diante do exposto ,
atacadista e as funções relativas à ati- escolhemos os itinerários contidos no
vidade portuária. Almanak da Provinda de Alagoas de
1889, pela proximidade temporal do
romance. Eles são anteriores à fun-
dação d a CATU (1890) e informam os
destinos, mas não precisam as ruas;
contudo, fazem referências aos locais
vividos pelas personagens de Pedro
Nolasco Maciel.
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Planta ilustrativa l: Planta ilustrativa da cidade de


Mact>ió cm 190?. com q reprr~cnt<tcão d<> malha urba"'.a
da cidade em 1868, elaborada a partir da delimitação
do perímetro arruado constantes na planta de Maceió
de 1868
Fonte: CAMPELLO, 2009 e CAVALCANTI, 1998
(adaptada pela autora e ilustrada por Daniel Hogrefe)
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J.vrudt'tM.-i?f, e- lr/uk~µ:x- >o ~r.~l e-rn.. a~on;,j,

ITORÁRIO DO TRAFEGO mesma tabella com o abati- Trapiche da Barra - Praça


mento de 1$00028 Sinimbu Rua da Praia , oi -
Partida de Jaraguá para Bebe- tão da Enfermaria Militar,
douro e vice-versa de hora em Das informações disponíveis no Praça Calabar, passando cm
hora, das 6 da manhã ás 1 1 da livro Maceió de Outrora, de Félix Lima frente ao Cemitério da Pie-
noite. Júnior2 '1, optamos - ainda que sem da- dade regressando pela mes-
Há também um Bond interme- tação - pelo uso do itinerário por ele ma linh a.
diário nos dias úteis, de hora apontado, considerando apenas as li-
em hora, das 7 'h da manhã ás nhas Circular, Trapiche da Barra e Farol - Rua Tibúrcio Valeriano
3 112 da tarde entre Jaraguá e Bebedouro, áreas referenciadas no ro- (trecho entre as Ruas do Co-
Maceió. mance e que constam nos itinerários mércio e a Boa vista), Ladeira
do Alamanak de 1889, para que assim do Brito Praça 11 de Junho,
PREÇO DAS PASSAGENS pudéssemos definir o trajeto dos bonds rua Ângelo Neto, São Gonçalo
De Jaraguá a Bebedouro em fins do século XIX (ver planta ilus- e das Vacas, parando em fren-
200rs. trativa 4). Por outro lado, para a repre- te à estação, onde depois fun-
sentação dos trilhos urbanos no início cionou a Padaria Santa Teresi-
EXPRESSOS do século XX, foram considerados to- nha. Na volta faziam o trajeto
Durante as horas de trafego dos os itinerários descritos pelo autor co;ntrário.
supracitado (ver planta ilustrativa 5).
No caso de ida e volta, não me
14 J"
diando mais que uma hora, Mangabeiras - Praça Sinimbu,
tem o augmento somente de Rua do Imperador entrada do
3$000 sobre o respectivo frete, Poço até as Mangabeiras pa-
considerando-se duas viagens rando em frente ao sítio Britá-
se houver maior demora. nia, de onde regressavam.

Fóra das horas de trafego

Regulla a mesma tabella supra


com o augmento de mais de
3$000.

O frete do troly para a carga


ou da bagagem, regula-se pela
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Levada - Praça Sinimbu, ruas rãa de Anadia , Beco d a Lama tações - co mo era m conheci
(oitão do I lotei Piment'l) Rua dos· em B t>be dO\Jro no fim da
da Pt aia e! Bar ão <lL Anadia,
Boa Vista, Praça dos Martírios, linha, na Rua Cónego Cos ta,
Praça da Catedral, ruas do Sol ,
General Hermes , Bom Parto quase à margem do riacho
1º de Março, 16 de Setembro,
e Bebed ouro , voltando até os Cardoso, a n tes da ponte ; no
parand o em frente à igreja de
Martírios e continuando pelo Trapiche da Barra, prédio à
Nossa Senhora das Graças, de
Comércio, Barã o de Anadia, margem do canal , e que ser-
onde voltavam.
Rua d a Praia, Praça Sinimbu, viu d e ponto de embarque e
a terro d o J araguá, Rua Sá e Al- d esembarq ue dos passageiros
Circular - Mesmo itinerário ,
buquerque, Rua do Cravo, até das lanch as d o Pilar e Alago-
percorr endo, porém, tod a a
os fundos d a igreji n h a Nossa a s; no Faro l, à Rua das Va-
Rua do Sol, entrando na Praça
S enhora da Conceição, n a a tu - cas [Come nda d or Palm e ira],
d os Ma rtírios, ruas do Apolo e
al Rua J angadeiros Alagoanos esquina com a Saldanha da
Alecrim, Praça Deodoro, ruas
[... ]. Depois d e 1920 é que se Gama, antiga d a Bela Vista;
Nova , das Verduras, Impera-
estendem a linha até a Ponta onde funcionou també m a Pa-
dor, a recolher.
da Terra [grifo do autor} 30 . d a r ia Brasília; em J a raguá, no
fim da Rua Sá e Albuquerque,
Bebedouro à Pajuçara - Praça
A essas in formações acres - no oitão da Escola de Apren-
Sinimbu , ruas da Praia e Ba-
centamos na p lanta elaborada a loca- dizes Marinheiros[ .. ]; n a Bai -
lização dos prédios-estações da CATU xinha , próximo a o Bom Pa rto,
- também não d atada e con stante n o quase em frente à con h ecida
livro de Lima Júnior. casa da Baronesa [... j3 1 •

A sede era u m e difício pró- Uma out r a dificuldade encontra -


prio, na atual Praça Sinimbu. da para a repres entação dos itiner á -
Possu íam outros prédios - e s - rios foi a identificação das ruas por
onde passavam os bonds, pois os no-
mes foram sendo modificad os ao lon go
do tempo. Para remedia r esse proble -
ma, foi elaborada uma tabela, exposta
em anexo , conforme a relação de lo-
gradouros publica das em 1911 32 , que
contem as toponímias a tuais e a n ti-
gas de que tivemos conhecimento, via
PLANTA DA C IDADE
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Planta ilustrativa 3: Ilustração da planta da cl


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dadc de 1902
Fonte: CAMPELLO, 2009 (adaptada pela auto
ra, ilustrada por Daniel Hogrefe)


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o romance ou via textos e documentos recente, poderá dar receita para defronte á igreja da Conceição,
1í 'í1 l i..llhado:s
. o custe10, e isto mesmo deixan daquele florescente e populoso
Sobre o trajeto dos bonds, um do sempre déficit36• arrabalde37
lncumento datado de 1892 dirigi- E' isto um melhoramento de
do ao Governador do Estado, Barão Os subúrbios de Cruz das Almas há muito almejado pelos habi-
o:lc Traipú, em face de solicitação da e Jacarecica não foram representa- tantes da Pajussára, onde já é
('ompanhia Promotora de Indústria e dos na planta de 1902. Somente a significativo o numero de edifi-
Mt•lhoramentos 34 , dá notícia sobre ou- Pajuçara, das localidades cita das no cações novas, e pelo qual mais
11 os trechos das linhas de bonds que documento, foi servida em 1910 por de uma vez nos temos batido
1:11am construídos na cidade. Nele, esse importante meio de transporte, desta columna. 38
n engenheiro fiscal do Estado julga por isso foi incorpora da ao trajeto
tH:t a propriada a "construção de uma dos bonds no início do século XX (ver Nos itinerários de Traços e Tro-
linha de Bonds, n'esta capital, linha planta ilustrada 5) . O jornal 'A Tri- ças não há referências às linhas de
que chamarei circular, por abranger buna' de julho de 19 10 anunciou a bonds no bairro Jacutinga, que na
11 perímetro mais importante da ci- inauguração d esse trecho. Em meses época do romance nem existia como
clnde, servindo, também aos dois im- anteriores, o mesmo periódico havia bairro, Pedro Nolasco Maciel faz ape-
porlantes surburbios - de Pajuçara e destacado a necessidade da implan- nas referência à existência da loca-
,Jncarecica"35 . Sobre o trecho final da tação da linha, tendo em vista o acen- lidade Alto do Pharol, onde existia a
l'nha, entre Cruz das Almas e Jacare- tuado crescimento do arrabalde e as
<íca, trecho quase desabitado, decide melhorias que o serviço traria para a
o engenheiro por sua não construção população:
naquele momento, deixando-a para o
luluro. No proximo d o mingo a Comp'°-
nhia Trilhos Ur banos i~~ ~~ ·~-·~•
Cabe agora fallar-vos sobre o a linha de b onds pa ra a:~J;;.:r~~
trecho terminal da linha, o q ual sara, a qual prolo.-s~ a,te~_:i,al.~
vai do Barro Duro à J acarecica .;a.__;_, -= ·
+ r+-----131
e foi estudado recentemente, de
conformidade com as ordens do
Governo. É sabido que a par-
te comprehendida entre Cruz
das Almas e Jacarecica é quase
desha bitada e o serviço que ali
PLANTA DA C IDADE
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Planta ilustrativa 4: Ilustração da planta da cidade de
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1902, contendo a indicação das ruas por onde passavam
os trilhos urbanos no inicio do século XIX
Fonte: CAMPELLO, 2009 (adaptada pela autora e
ilustrad a por Daniel Hogrefe)
1111
~1::tfYt,ci/t~"" C; mfA,kn,,fAP" S'oc-i,.:tl ~ ~<>N-

n J11 de Sã o Gonçalo , e correspondia a CATU comprado o pa trimônio da S a nta Luzia do Norte, Coqu eiro Sc'co
1ffox1mddamente às cercanias do Elevadora J acutinguense Na p lanta - cidades c-om as quais os mace ioen
1111 i ~o farol de Maceió, que esteve por ilustrativa 4, os itinerários dos bon- ses de fins do séc ulo XIX estabele-
i1i 11 s de cem anos no alto da ladeira des de fins do século XIX não con- ciam intensas relaçôes comerciais.
ti 1 Catedral. A Companhia Elevadora templam o bairro do Jacutinga, pois Os canais da lagoa do Norte ligavam
l. 11 uti nguense 39 , responsável pelos o romance tra ta de fatos anteriores Maceió a povoados mais distantes ,
1•1v1ços de bonds no Jacutinga, foi ao ano de sua publicaçã o , 1899, exa- como Pontal da Barra e às diversas
11111da da em 1899, porém foi à falên - tamente o ano em que foi criada a localidades de toda a vasta região
fl 1 poucos anos depois, em 1901 (ou Elevadora Jacutinguese. dos 'Canais e Lagoas', entre elas,
1~1 02), segundo Felix Lima Junior40 . Broma, Areias, Remédios , Boca da
O memoralista alagoano aponta como Os caminhos fluidos de Traços e Caixa, Massagueira, Volta d'água,
1;t1 us a para o fechamento da Compa- Troças Santa Rita, Bica da Pedra, entre ou -
nl11a, o fato de "ser pequeno o núme- tras; desc ritas por Octávio Brandão
111 de habitantes [no Jacutinga], gen- A cidade de Traços e Troças é p ela exube rância d e suas paragens
i(• pobre e humilde que preferia subir fluida e são os lugares à beira da la- e singularidade de sua flora e ha-
1 pé as ladeiras da Catedral, do Brito goa Mundaú e seus canais, com suas bitantes'11. O serviç o de navegação
< dos Martírios". Em 1908, o servi- pitorescas paisagens, que as persona- entre as lagoas era explorado pela
'-"º de bondes foi restab elecido, tendo gens frequentavam: Mutange, Levada, Companhia de Navegação a vapor
Trapich e da Ba rra, Bebedouro e Pon- das lagôas do Norte e Manguaba,
tal d a Barra. que disponibiliza va viage n s regula-
As lagoas, Manguaba e Mun- res a cidades e povoados da região
daú, respectivamente do Sul e do lagunar alagoana , como se pode
Norte, e os canais que as ligavam verificar pela tabela de preços das
serviam de estradas fluidas que li- passagens constantes no Almanak
gavam Maceió às cidades circunvi- da Província d as Alagoas de 1891.
zinhas - Pilar, Marechal Deodoro,
Ha vapores nas segundas,
quartas e sextas-feiras para
Alagôas e Pilar, d'onde re-
gressão nas terças, quin-
tas e sabados. As horas das
1111
partidas são reguladas pe-
las marés e semanalmente
annunciadas.
PLANTA DA CIDADE
DE
MACEIÓ
~90'1..

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\..f~ --,.--~l"."'c.,t~)""'\"\~ ~ri
A• llf~' l.I. l lio llt 1""" l · llrmllt 14 ·P>licio•tilmfK U·llfln.i.,ia
a.t;çct.u.o1os..r.. 2 • lupít.i do Sal• Lotpc~iu IS . la1'M!!uia 28 . ,.,,. dt CmW1110
e· t.iim•Si• r~IÇ"' 3 • Oolrtll dt W.ntari1 " · lutittt• tillltrict 1 t:e.g?ilia 29 · Recriieit.r~ Iudaal
t · l!lf'ia l ldu Pranm (Dalriil 4 • laojlÍt.al dt Sio l'ict11t 11·'1NtrtM><oiMUI 30 · ~!od611tob
E· l!l'ojal.UoRocirio 5 ·bit .. llsdlril.!1 ll · CNn• • e.1.,.m í""1 31. CapmL•• "ª'
f ·ttr~a1.1.a.Jnuusl•rtllin 5 - ~U(1ti d• P'11d1 ll·~i:.tliMI 3l ·EstW.
~·lil'!'ll.dolin..uto l · c.i,;, 2t • t•U<io C11tral 33. C..ídrio
B·ll"i•dtlltlltu4ilo 1.u.,........... - li· Eli11mana lilfo 34.fmJ
1 · Cçela l ldas '1112• t . ,..... lf dt Stttah1t llL) 21 . Lim • lrtu 1 lflciu 35 • 3' • t:.!aflt •• )adi
1• C.ptl• ll Ua C•niflt 10 ·Tniwl1"""" 13 • Estalff Cntnl •• CA1U ---· -Lidarmo.
L·c.,ala 4o!u1tbtllit ll·llmado 21 • r.11.... r.o.... - - - liWulltoàJ11
l!·C•açlo lmaã. 25 • Tnjli.... la!m •• llalo u
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Planta ilustrativa 5: Ilustração da planta da cídade de


1902, contendo a indicação das ruas por onde passavam
os trilhos urbanos em fins do século XX
Fonte: CAMPELLO, 2009 (adaptada peJa autora e
ilustrada por Daniel Hogrefe)


113
~-t:(f'/l,ç;;;{vvt,,~ e- '/111-1,kn,,~ '><>oit:Jll ~ ~<>cv.Y

Tabella das passagens


1·• classe 2" classe
M1111 io no Pontal da Barra e Bocca da Caixa 700 400
Mt111 111 a Santa Rita e Bica da Pedra 1$100 600
M1111 io uo Cumbe e Massagueira 1$500 800
M11c1· w u Alagoas 2$000 1$000
M111 1 10 ao Lamarão 2$300 1$200
M1 u 1 io ao Pilar 2$500 1$300
Prnit 11l e Bocca da Caixa a Alagoas 1$500 800
1," lfüa a Bica da Pedra a Alagoas 1$1 00 600
C1_1111be a Massagueira 900 500
t\lngoas a Pilar e Lamarão 700 400

Sejam pelos caminhos flui -


dos ou pelos t rilhos urbanos, as
personagens de Pedro Nolasco
Maciel percorreram a cidade e lhe
davam vida; os pândegas, pela
manhã, pegavam o bond para
trabalhar e, pela noite, para ir às
troças. Enquanto o pobre Manoel
era enganado pela leviana Zulmi-
ra, Maceió era apresentada por
Pedro Nolasco Maciel dentro da
contradição de seus espaços e da
sociedade.
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BAIRRO TOPONfMIA - 1911 TOPONÍMIA ANTIGA


itc:eaó - e ::.eparn.- Ruas
f l it dn Levada pela Anadia, Barão de Palácio, do
j1;n1rnda de Ferro; Araujo Góes, Dr. Santa Maria, de
do llom Parto, pela Arueira, da Começa na Estrada de ferro e termina um pouco adiante em um muro
Ili 111 General Her- Asilo, do Limila-se com o Beco do Leite e a Praça São Vicente de Paula
lltl do Jacutinga Caixa d 'Água, Alto da Saudade Compra Fiado
pt·l:1 t•olina que con- Cicinato Pinto Macena, do
!ti• 1111 este planalto Clarêncio Jucá Lyceu , do
n!i 11orte da Rua 15 Dias Cabral Reguinho, do
dr Novembro; de Floriano Peixoto Imperador, do
, 1ri111guá pela Ponte Fernandes Barros Ploresta, d a
dos Fonsecas e pelo General Hermes Cambona, da
Hi11cho Maceió; e do Hospital, do Começa depois do edilicio da Santa Casa de Misericórdia e termina na Rua Men-
l'1 1ço, pela Rua Cla- donça da Fonseca
1f'11cio Jucá e Rua João Lins, Coronel Nossa Senhora da Conceição, de; Capim, do
rl11 /\rueira. Landis lau Neto Augusta
Libertadora Alagoana Praia, da
Lourenço de Albuquerque Boa Vista, da
Maceió, Barão de Alecrim, do
Mello Moraes Apolo, do; David, do
Mendes da Fonseca, Coronel Olhos d'Água, dos
Mendonça, Sena dor Livramento, do
Paes Pinto, Coronel Luz Elétrica, da; Biombos do Paulo
Pedro Paulino, Coronel Alegria, da; 23 de Novembro
Pontes de Miranda Verduras, da$
Sinimbú , Conselheiro Comércio, do
Tibuciano Valeriano S. Josê,de
Traipú, Barão de Nova; do Governador
Vieira Peixoto, Coronel Mata-Pasto, do
Voluntários da Pátria Jogo, do
1º de Março Açougue, do
7 de Setembro Feliz Recreio, do
15 de Novembro Rosârio, do; Sol, do; Imperatriz, d a
11-6
e wr-~ ~~ k
1 Rok fo-ct1»

Travessas
Beco do Leite Começa na Ru a do Hospital e limita-se com a Rua do Asilo
Comércio, do Começa na Rua Sinimbú e termina na Praça O. Pedro II
Landislau Neto Começa na Rua de Novembro e finda na Rua Lourenço de Albuquerque
Livramento, do Começa na Praça do Montepio e termina na Rua do Sinimbú
Lyccu , do Começa n a Praça Euclides Malta e termina na Rua 7 de setembro
Moeda, do Começa na Rua 15 de Novembro e desemboca na Rua Conselheiro Sinimbú
Montepio dos Artistas, do Começa n a Praça do mesmo nome e vai até a Rua Sinimbú
Pedro Paulino Começa na Rua Senador Mendonça e finda na Rua Barão de Traipú
S . Vicente de Paula É um prolongamento da Praça com este nome e limita-se com a Rua Santos Pacheco

Praç as
11
Deodoro Contiguiba, da; Princesas, das
Euclides Malta Dr. Campos Sallcs; Quartel de Policia, do
Floriano PeixotoMartirios, dos
João Capystrano Fica ao lado sul do edificio do Mercado Municipal
Martírios, dos Martírios, dos
Montepio dos Artistas Montepio dos Artistas, do
Pedro II, D. Malriz, da; Tesouro, do
Roso. da Fonseca, D. Livramento, do
São Vicente de Paula Largo da Cade ia
Tavares Bastos Mercado, do

Es tradas
Mu tange, do Começa na Camb ona no principio da Rua General Hermes e liga Maceió aos
subúrbios Bom Pa rto, Mut.ange e Bebedouro
Poço, do Começa na Rua Dr. Pontes de Miranda , ligando Maceió ao Poço

Ladeiras
Algarve, do Limita-se com a Rua 15 de Novembro e a Rua Floriano Peixoto
Onto , do Bnto, do
Catedral, da Farol. do;
Martírios, dos Mart1rios, dos
//li
/_V(&i,rt:(tN?,,~ t:, /'1'/~pt"- >c0cc-t ~ ~ON-

BAIRRO TOPONÍMIA - 1911 TOPONÍMIA ANTIGA


JunguA · scpa Ruas
do du bairro de Alexandre Passos Verde, do
Mnu:io pelo riacho Amâncio, Padre Cafundó, do
1Jofil•' nome; do Amaro, de Santo Começa depois da Rua S ilvério Jorge e finda na via férrea
[\u,o, pela Estrada Barros Leite Amêndoas, das
do 1 1•1 ro; e da Pa- Bernardo, de São Começa depois da Rua Barão de Jaraguá e termina no prédio que serve de
JUÇt11H, pela Rua do armazem (?)
Ci! 1viclor Concórdia, da Começa na Rua Comendador Leão e termina um pouco adiante
i('{'O
Cruz, Santa Ratos, dos
J a raguá, Barão de Igreja, da
José, São Começa no fim da Rua Ped ro Lima pelo lado norte e termina u m pouco adiante
pela margem direita da linha férrea
Leão, Comendador Estrada Nova, da
Mello Põvoas Retiro, do
Pedro Lima, Coronel Amorim, do
Queimado, d o Começa onde existiu o Bazar de Jaraguá e termina na via férrea
Rayol, do Começa na Rua Barão de Jaraguá e termina na Rua do Queimado
Sá e Albuquerque Alfândega, da
Saraiva, Conselheiro Aterro de Jaraguá
Silvério Jorge, Dr. S. Félix, de

Travessas
Amorim, do Começa na Rua Pedro Lima e finda por u m acesso na Rua Alexandre Passos
Pombal, do Começa na Rua Silvério Jorge e termina na Santo Amaro
Queimado, do Limita-se com a rua de mesmo nome e finda por uma saída na Rua Sá e Albuquerque

Praças
Manoel Duarte, Dr. 8scola de Aprendizes, d a
Wa nderley de Mendonça [?[ Santa Maria, de; Nossa Senhora Mãe do Povo, d e; Consulado, do
13 de Maio Senzala, da
Ff8
e74kic:t- ~ea- k RQ~ fo,,,;;(~

BAIRRO TOPONÍMIA · 1911 TOPONÍMIA ANTIGA


Levada - é separa- Ruas
do de Maceió pela Ana, de Santa Limita-se com o Cemitério Público e termina com uma saída da Rua Gabino Besouro
Estrada de Ferro e Antônio, de Santo Limita-se com a ponte da Água Negra e a Estrada do mesmo nome
limitado pela mar- Bernardo, de São Limita-se com a Rua Gabino Besouro e termina por um acesso na Rua de Santo Antônio
gem oriental da La- Boa Esperança, da Começa na Rua Vieira Perdigão e termina na Rua de Santa Ana
goa do Norte. Cahet, Coronel N. Senhora das Graças, de
Concórdia, da Limita-se com a Rua Prudente de Moraes e finda com a Praça Guimarães Passos
Cruz, de Santa Sopapo, do
Cyrillo de Castro Aurora, da
Domingos, de São Começa na Rua Santos Pacheco e finda com um acesso na Rua S. João
Felix, de São Começa na Rua Gabino Besouro e termina por um acesso na Rua Santo Antônio
Francisco, de São Começa depois do cemitério e termina um pouco adiante na Estrada do Trapiche
Gabino Besouro Formosa; Craveiro, do
João, de São Comunica-se com a Rua Vieira Perdigão e limita-se com a Rua Paulo Afonso
José, São Cameleiro, do
Leopoldina, de Santa Limita-se com a Estrada do Trapiche e a praia, pelos fundos do Asilo de Alienados
Matadouro, do Começa nas proximidades do edilicio do Matadouro Público e limita-se com a Rua
S. Felix
Meira, Coronel Fogueteiros, dos
Olympio Galvão, Dr. Cacimbas, das
Paulo Afonso Carioca, da
Pedro, de São Limita-se com a Travessa de S. Felix pelos fundos da Rua Santa Fé e finda por um
acesso cm um pequeno sítio de coqueiros, onde começa a Rua 15 de Março
Piedade, da Limita-se com a Estrada do Trapiche e finda na Rua Paulo Afonso
Prudente de Moraes Bota-fogo, do; Manguinho, do
Rosa da Fonseca, D. Estrada de Ferro; Sobral, Comendador
Santa Fé, de Começa na Travessa de São Félix e se limita com a extrema esquerda da Rua Sant n
Thercylla
Santos Pacheco Aterro do Cemitério
Thercylla, de Santa Começa na Rua Santo Antônio e termina na saída da Rua Santa Fé
Texeira Bastos, Comendador Pernambuco Novo, do; União, da
Vieira Perdigão Bom Conselho, do
Vitória, da Começa na Rua Coronel Meira e termina na Rua Prudente de Moraes
/•l'f
J V(e4ei/(:,,,,.i,(Y, e- ,,,./.,,,,~pt:t- >1Jc.4t:'f-t C-1'1'1. ~()~

3_de Março Bela


11 de Fev<'reiro 2 d<> ,Julho· Biombos do Maxixe

""' 15 de março
16 de Setembro
Coqueiros, dos
Ponta Grossa, da
ónla
Praças
Calabar Quartel de Linha, do
l>!'.I Guimarães Passos Nossa Senhora das Graças
Intendência, da Largo da Levada

Travessas
Ili! Felix, São Começa na Rua de Santo Antônio e fi nda n a Rua da S anta Fé
..1r
Paulo Afonso Começa no Cemitério Público e termina na rua do mesmo nome
15 de Março Começa nesta rua com acesso a Rua 3 de Março

Estradas
•Uns Água Negra, da Começa na Rua Santo Antônio e dá acesso ao sitio Vergel do Largo e outros pontos
<wt Pelix Bandeira, do Parte da margem da Lagoa, depois da Rua 15 de Março, com acesso para o sítio
deste nome, chamado Vergel do Largo
Paulo Afonso, de Começa no fim da rua deste mesmo nome, com direção para o Trapiche da Barra e
outros pontos da Capital
Trapiche da Barra, do Siqueira Campos. Começa no Cemitério Público alé a Levada
lllll

m 11 a
150
t 7rCtlvicr- n~eo-- d.::,, l(ck f o-V(€4-

BAIRRO TOPONÍMIA - 1911 TOPONÍMIA ANTIGA


Alto do Jacutinga Ruas
(bairro) - é separa- Ambrósio de Lyra, Dr. Alto do Brito. Limita-se com a Ladeira do Brito pelo lado norte e a de Santa Cruz,
do de Maceió pela pelo lado sul
elevada colina que Ângelo Neto, Dr. Arame, do
o contorna ao lado Aristheu de Andrade Seeger, Avenida;
ocidental da Rua Cruz, Santa Começa na Praça Jonas Montenegro e termina na Ladeira do mesmo nome
15 de Novembro Ido Cyridião Durval Cajueiro, do
Sol], e do Poço pelo Gonçalo, de São Gonçalo, de São
lado sul da mesma José Bento Júnior Bela Vista, da
colina. La vra dores, dos Piabas , da.s
Palmeira, Comendador Vacas, das. Limita-se com a Praça de São Gonçalo e a Travessa de Santa Cruz.
111
Sa ldan ha d a Ga ma Sa lda nha d a Gama
Thomaz Espíndola Brennand, Avenida

I' Alto da Bela Vista João Doido, Alto; começa na Ladeira de Santa Cruz e termina por uma descida
para a Rua General Hermes

Travessas
Cruz, da Santa Começa na Rua da Santa Cruz, com acesso para a Rua Comendador Palmeira

Becos
Novo Começa na Rua Ângelo Neto e termina no Alto da Bela Vista
Porongo, do Começa na Rua Santa Cruz e termina na Rua Ângelo Neto

Praças
Gonçalo, São Gonçalo, São
Jona s Montenegro, Dr. Peperí-pedra, do
11 de Junho Brito, do; limita-se com a Rua Comendador Palmeira e a Rua Ângelo Neto

Ladeiras
Assessor Adolpho Guimarães Começa na Rua Saldanha da Gama e t ermina na Ladeira do B rito
Bela Vista, da Começa n o Alto da Bela Vis la e termin a na Rua Genera l Hermes
Guedes Nogueira Começa na Rua José Bento Júnior e finda na Rua 15 de Novembro
Salustiano Sarmento Liga o Farol ao Poço e começa na Praça São Gonçalo
151
J.,:;tu('i/(u'f,.Çt- e- '1'1"/~n,,Ç<f- >o0et-l ~ ~01:0-

Seminário, do Comunica o Jacutinga com o Vale do Reginaldo


Regin~lcto , do Começa no fim da Rua Anslheu de Andrade e finda no Vale do Reginaldo

Estradas
Estrada de rodagem do Jacu tinga Começa no fim da Praça Jonas Montenegro e vai terminar no extremo do norte da
Rua Dr. Pas sos de Miranda, em Bebedouro

11

1
(52
(}J-1'1/tlvi~ 7l«n-1!4· cÍ<t K_o k f o-i/te-;,
SUBÚRBIO TOPONÍMIA - 1911 TOPONÍMIA ANTIGA
Poço - é separado Ruas
de Maceió pela Rua An tônio, de Santo Começa ao Lado oriental da Praça 13 de Maio e termina um pouco adiante com
Clarêncio ,Jucá , do acesso para a via férrea
Jacutinga pela co- Arame, do Limita-se com a Rua das Gameleiras e a Estrada Nova
lina que contorna Atalaia, Barão de Atalaia, Barão de
este bairro e de Ja- Aurora, da Fica à margem da via férrea e finda na Praça 13 de Maio
raguá pt'la Estrada Caieiras, das Começa na Estrada Nova e finda por um acesso na Praça do Bonfim
de Ferro. Calaça, Comendador Bonfim, do
Estrada Nova, da Começa na via férrea e vai terminar junto á Rua das Caieiras
Gameleiras, das Atravessa a Rua do Meio e vai sair na Estrada Nova
Meio, do Atravessa a 26 de Abril e limita-se com a dos Quilombos
1i·
1 Pedro, São Começa depois da Rua Vieira Sampaio e Anda na Estrada do Po<,·o
Prazeres, dos Fica nos fundos da Ru a Rego da Mata na mesma direção desta
11111 Quilombos, dos Limita-se com a Rua do Meio e sai na E:strada Nova
Reginaldo Começa na Praça do Bonfim e termina no começo do Vale do Rcginaldo
Rego da Mata, do Começa na Praça 13 de Maio e ter mina na Estrada do Poço
Vieira Sampaio Cacimba, da
I º de Janeiro Tocas. das
14 de J ulho Gansos, dos
26 de Ab ril Cisco, do

Praças
Bonfim, do Poço, do
13 de Maio Senzala, da

Estradas
Estrada de Rodagem do Poço Começa na Ladeira d o Algarve e se limita com a Estrada das Mangabeiras
Nova Começa na Rua da Estrada Nova e te rmina com acesso para os s ubúrbios de M an
gabeira e Cruz das Almas
Rcginaldo, do Tem a m esma direção da Rua do Rcginaldo
153
./...vrM-d/t~-v/;(% e- m.,,..~P<1"' 5'-oC/ief-t Ml4 ~cM-

SUBÚRBIO TOPONÍMIA· 1911 TOPONÍMIA ANTIGA


t;.- ,louro t Ruas
li 1:w1111rndo de Maceió Amélia, Santa É um prolongamento Rua N. S. da Conceição até a Estrada de Rodagem, onde per-
pelo,. ~ubúrbios do de o nome
M11n nge e do Bom- Banheiro, do Começa na Rua Paulo Malta e termina no local onde se encontravam diversos banheiros
!lfl•lo, com os quais 13oa Vista, Alto da Urubu, Alto do; fica ao norte da Praça de Santo Antonio
c111(1 c m contato Cardoso, do Limita-se com a Praça Santo Antônio e os banheiros de mesmo nome
111 ~ h l~strada de Conceição, Nossa Senhora da Limita-se com a Capela de N. S. da Conceição e a Rua Santa Amélia
l~o d 1gcm do Mu- Costa, Cônego Comércio, do
tnngc e pela linha Estra da de Ferro, da Frechai de Baixo
1l1· hondes que a Nova Frechai de Cima
comunica com a Passos de Miranda, Dr. Asilo, do
l'•dade. Paulo Malta Comércio, do

Beco
Camilo, do Começa na Praça de Santo Antônio e termina no Cemitério

Travessa
Passos de Miranda Corta a Rua Passos de Miranda e vai sair na Praça de Santo Antônio

Praças
Santo Antônio, de Santo Antônio, de

Estradas
Cardoso, do Parte da Praça de S. Antônio e vai se comunicar com a antiga Usina da Companhia
das Águas
Chã de Bebedouro Começa na Capela de N. S. da Conceição e finda na Estrada de Rodagem do Bebedouro
Fernão Velho, de Rodagem de Começa na Chã do Bebedouro e tcrrrtina no arrabalde que lhe dá nome
1n - Frechai, de Rodagem do Começa no fim da Rua Nova e termina no antigo Sitio Frechai
Mutange, de Rodagem do Limita-se com a Praça dos Martírios, em Maceió e a Rua Cônego Costa em Bebdouro
151-
07.rVtla&f- ~~ k 'K:.o~ fod~

SUBÚRBIO TOPONÍMIA - 1911 TOPONÍMIA ANTIGA


Pajuçara - é separa- Ruas
do do bairro de Jara- Agostinho Guimarães Rosa e Silva, Dr. Jasmim, do
guâ pela Rua do Ou- Antônio Pedro de Medonça, Dr. Cravo, do
vidor, ao Norte e pela Epaminondas Gracindo Araçá, do; Roberto Calheiros, Dr.
Rua São Bernardo ao Gamcleiro, do Começa na Estrada do Golandim e finda por um acesso na Rua Antônio Pedro Medonça
Sul. Manoel Mendes, Coronel Cemitério, do
Ouvidor, do Começa na via férrea e termina na Estrada do Golandim
Pedro, São Rói Couro, do
29 de Dezembro Caridade, da

Travessas
Cravo Limita-se com a Rua Agostinho Guimarães e finda na Rua Antônio Pedro de Mendonça

Es tradas
Golandim, do Começa na Rua do Ouvidor e se prolonga até o sítio deste nome e outras direções
Ili Ponta Verde, da Segue à esquerda da Estrada do Golandim para o sitio da Ponta Verde

SUBÚRBIO TOPONÍMIA - 1911 TOPONÍMIA ANTIGA


Bom -parto - é scpa- Ruas
rado de Maceió pela Antônio Máximo, Coronel Limita-se com a Rua 15 de Novembro e desemboca na Rua Calheiros da Graça
Rua General Hermes Calheiros da Graça Nossa Senhora do Bom Parto, de
e Rua 5 de Dezembro 5 de Dezembro Estrada de Ferro, da
margeando a via fér-
rea, e limita-se com Estradas
o subúrbio do Mu- Mu tange, do Liga esse subúrbio aos do Mutange e Bebedouro
tange.
155
/..1';(,.A,t:i/(tM,,et- e- f"1111tk,,,,pet- 'Sol/i~t e-rn. ~Ot:irJ-

SUBÚRBIO TOPONÍMIA - 1911 TOPONÍMIA ANTIGA


nnga.bt:ira~ - l um
10 ulongamenlo do
i1hurbio do Poço,
r(1111poslo de sítios.
l.i1111111 se com a Rua
l'.11111t·ndador Calaça e
o 1rnburbio de Cruz d as
i\l111ns.

SUBÚRBIO TOPONÍMIA - 1911 TOPONÍMIA ANTIGA


Cruz das Almas - ê
1•0111posto também de
;iltos aprazíveis com
e<• ~as de vivendas. Li-
1111\a-se com as Man-
Kabeiras e a Estrada de
~ln<' .u-ecica.

SUBÚRBIO TOPONÍMIA - 1911 TOPONÍMIA ANTIGA


Mutange - Compõe-se
de sítios com casas de
vivenda e algumas châ-
caras. Limit.a-se com o
Bom Parto e Bebedouro,
subúrbios com os quais
se comunica por uma
.... estrada de rodagem de
mesmo nome e a linha
de bondes que parte do
último subúrbio.
156
e,íl,_,;(/i4Çf, nwn.,~ k 7(1)~ fod~

SUBÚRBIO TOPONÍMIA · 1911 TOPONfMIA ANTIGA


Trapiche da B arra - Ruas
é um prolongamento Bonifácio Magalh ães
do Oairro da Levada, Igreja, da
situado ã margem Estrada de Ferro, da
oriental da Lagoa do
Norte, distando da Es trada
cidade mais de dois Trapiche da Barra, de Rodagem do Começa neste onde se encontra ainda o trapiche que lhe dá nome,
quilômetros, com um ligando-o aos bairros da Levada e de Maceió
pequeno ancoradou-
ro para canoas que
vêm de diversas pa
ragcns ribeirinhas
Está ligado à Levada
e à Maceió por uma
linha de bondes e
pela Estrada do Tra-
piche, onde ficam si-
tuados os cemité•rios
novo e velho.
/\lém de a lgumas
casas dispersas, é
composto da igreji-
nha de Nossa Senho-
ra da Guia.
1§1
/..Vfe-t-drNt,et- e- 111.,,kn,,Ç<f- >oO'it:t-t ~ ~º~

ARRABALDE TOPONÍMIA - 191 1 TOPONÍMIA ANTIGA


,p ootid da Barra - Ruas
diul 1 légua e meia Assembleia, da
clr M.1c-eió e se acha Igreja, da
11ll1111do à margem
1111c11Lal da Lagoa do Estrada
Nu1 lt' Possue uma Pontal da Barra, do Parte deste arrabalde, ligando-o ao Trapiche da Barra
iw 1 jinha consagra-
1111 1 São Sebastião
" 111< m de muitas ca-
1111~ chspersas com-

pm· ·se de duas ruas.

Fc111tc: TAVA!IBS, Braulio Fernandes. Relatorio que, sobre as ruas, travessas, beccos, praças e estradas de Maceió, apresentou ao Snr Intendente desta Capital Dr. Luiz
ck Mascarenhas o funccionario municipal Braulio Fernandes Tavares cm 19 de agosto de 1911. Maceió, Typographia Commercial, 19 l 1. Maceió, In stituto Histórico e
Go;ográfico de Alagoas, E-AL-1 , P- 4, L-37.
n11~;ervaçé10: Foram realizadas adaptações.
9
Ver GOMES, Marcos Aurélio. Escravismo
Not as e cidade: notas sobre a ocupação da
periferia de Salvador no século XIX.
Revista de Arquitetura e Urbanismo
1 Arquiteta e urbanista pela Universidade
da Faculdade de Arquitetura da UFBA,
Federal de Alagoas - UFAL e mestra Salvador, vol. 3, n.1, 1990, PP. 9- 19
pelo Programa de Pós-Graduação e ROLNIK, Raquel. A cidade e a lei:
em Arquitetura e Urbanismo - DEHA legislação, política e territórios na cidade
(Dinâmicas do Espaço Habitado)/UFAL. de São Paulo. São Paulo: Studio Nobel:
FAPESP, 2003.
2
Ver ALMEIDA, Luiz Sávio de (Org.). Dois
textos alagoanos exemplares. Arapiraca 10
Segundo o recenseamento geral do
FUNESA, 2004 e ALMEIDA, Luiz
pais realizado em 1889, informa ção
Sávio de. Notas sobre poder, operários
publicada em DIEGUES JÚNIOR,
e comunistas em Alagoas. Maceió: Manuel. Evolução urbana e social de
EDUFAL, 2006.: Ma ceió n o período republicano. ln:
3
COSTA, Craveiro. Maceió. Maceió:
TI, p. 106. Daqui por diante, a citação Edições Catavento, 2001.
'•11; será TI e refere-se a MACIEL, Pedro
Nolasco. Traços e Troças. Maceió: DEC, 11
Segundo o ALMANAK do Estado de
1964. Alagoas para 1891. Maceió: Typografia
4
do Gutenberg, 1891.
TI, p . 91.
12 CAVALCANTI, Veronica Robalinho. La
5
A CATU foi fundada em 1890 por Production de l'espace à Maceió {1800
capital exclusivamente alagoano - 1930). Paris: Université de Paris I,
e obteve o privilégio de explorar Panteón - Sorbone, Institut d'etude du
os serviços de bonds durante 50 developpement Economique et Social,
anos. O prédio da Estação Central 1998. (Tese de Doutorado).
da CATU ficava em frente à praça
Sinimbu, antiga Euclides Malta, 13
CAMPELLO, Maria de Fátima de
aproximadamente no local onde
Mello Barreto. A construção coletiva
hoje se encontra a Residência e o da imagem de Maceió: cartões-postais
Restaurante Universitário da UFAL.
1903/ 1934. Recife: Universidade
LIMA JÚNIOR, Félix. Maceió de outrora.
Federal de Pernambuco, Programa de
Maceió: Edufal, 2001, pp. 27 -40.
Pós-Graduação em Desenvolvimento
6
Urbano, 2009. (Tese de doutorado).
LIMA J ÚNIOR, Félix, op. cit ., p. 3 0 .
7
LIMA JÚNIOR, Félix, op. cit., p. 29. 14
A malha urbana foi determinada a partir
11
da planta da cidade de 1868, e para a
TI,p.150.
sua delimitação não foram consideradas
as áreas de vazios urbanos, mas apenas Disponível em <h1tQ:/ /www.c1 Ll:JJJJ/.
os perímetros arruados. content/brazil/ALA.htm>. Accssadi1 1: 111
31 d e outubro de 2008.
15 A planta de Maceió de 1841 ilustra a 20 Ver TENÓRIO, Douglas Apprato.
cidade descrita por Moira, ainda vila Capitalismo e ferrovias no Brasil.
naquela época. Ela corresponde à cópia Curitiba: HD Livros, 1996.
da primeira planta da cidade levantada 21 Sobre os caminhos de escoamento da
por ordem de Mello Póvoas em 1820 produção ver: CAVALCANTI, op.cit, p.
que foi elaborada e atualizada pelo 243.
22 Foi respeitada a fidelidade ao texto
engenheiro Carlos de Mornay em 1841.
original ao manter a sua ortografia, por
16 DUARTE, Abelardo. A primeira Geografia isso algumas palavras encontram-se
alagoana (em torno de um centenário com grafias diferentes da atual.
e sua publicação). Revista do Instituto 23 ESPÍNDOLA, Thomaz do Bom-Fim.
Histórico e Geográfico de Alagoas. Geografia alagoana: descrição tisica,
Maceió, v.24, nº 46, pp. 47-65. política e histórica da Província das
Alagoas. Maceió: Edições Catavento,
17 ROCHA, José Maria Tenório. Moira, o 2001.
desconhecido autor da primeira história 24TT, p. 158.
de Alagoas. Revista do Instituto Histórico 25 RELATÓRIO que ao Secretário dos
e Geográfico de Alagoas. Maceió, v. XLIV, Negócios do Interior apresentou o
pp. 103-108. Diretor das Obras Públicas, o arquiteto
Luiz Lucariny, no dia 8 de março de
18 ALMEIDA, Luiz Sávio de. A famosa 1898 (1898). Maceió, Arquivo Público de
geografia de Moira sobre Alagoas. O Alagoas, pasta 28, estante 12.
JORNAL. Maceió, 26. out. 2008. Espaço. 26 Ver: AMORIM, Vania Lufaa Barreiros
p. B4 e BS. (org.); ARAÚJO, Sandro Gama de;
FORTES, Cynthia Nunes da Rocha.
19 APONTAMENTOS sobre diversos Luigi Lucarini: vida e obra. Maceió:
assumtos geographico-administrativo GRAFMARQUES, 2010.
da Província das Alagoas. 1869. 27 COSTA, Craveiro; CABRAL, Torquato.
Realizado por José Alexandrino Dias Indicador Geral do Estado de Alagoas.
de Moura. Maceió, 30 de abril de Maceió: Typographia Commercial, 1902.
28 ALAMANAK administrativo, mercantil e
1869. ln: RELATORIO lido perante a
Assembléa Legislativa da província das industrial da Província das Alagoas para
Alagoas no acto de sua installação em 1890, edictor proprietario de Amintas
16 de março de 1869 pelo presidente de Medonça. Ano XIX 1 º da Republcia.
da mesma, o exm. snr. dr. José Bento Maceió, Typ. Amintas de Medonça, 1889.
da Cunha Figueiredo Junior. Maceió, 29 LIMA JÚNIOR, Félix, op.cit, p. 30.
Typ. Commercial de A.J. da Costa, :io LIMA JÚNIOR, Félix, op.cit., p. 36.
3 1 LIMA JÚNIOR, Félix, op.cit., p. 29.
1869.
38 BONDS para a Pajussára. A Tribuna.
32 TAVARES, Braulio Fernandes. Relatório
que, sobre as mas, travessas, beccos, Maceió, 14 de março de 1910, p . 1.
praças e estradas de Macei.ó, apresentou
39 Jacutinguense refere-se ao Planalto do
ao Snr. Intendente desta Capital Dr. Luiz
de Masro.renhas o fanccionario municípal Jacutinga, como foi conhecido o atual
Brauli.o Fernandes Tavares em 19 de agosto bairro do Farol em seus primórdios.
de 1911. Maceió, Typographia Commercial,
1911. Maceió, Instituto Histórico e 4 o LIMA JÚNIOR, Félix, op.cit., p. 31.
Geográfico de Alagoas, E-AL-1, P- 4, L-37.
41 Ver: BRANDÃO, Octávio. Canais e
33 Vale lembrar que o próprio Pedro Lagoas. 3 ed. Maceió: EDUFAL, 2001, p.
Nolasco Maciel publicou material sobre 43.
antigas toponímias das ruas de Maceió,
42 ALMANAK do Estado das Alagoas
o 'Indicador postal'.
para 189 1. Maceió: Typographia do
34
A com panhia Prom o tora de Indústrias Gutenb erg, 1891 , p. 195.
e melhoramentos mantinha escritório
na rua barão de Anadia e entre outras
IHI' finalidades, explorava os serviços de
bondes; foi extinta em 1896. Segundo
LIMA JÚNIOR, Félix, op.cit., pp. 30-31.

35 MENSAGEM que ao responsável p ela


Companhia Promotora de Indústria
e Melhoramentos apresentou o
Governador do Estado de Alagoas, Dr.
Barão de Traipú, no dia 19 de março
de 1892. Maceió, Arquivo Público de
Alagoas, pasta 11 lA, estante 11.

36 MENSAGEM que ao responsável pela


Companhia Promotora de Indústria
e Melhoramentos apresentou o
Governador do Estado de Alagoas, Dr.
Barão de Traipú, no dia 19 de março
de 1892. Maceió, Arquivo Público de
Alagoas, pasta 11 lA, estante 11.

37 BONDS para a Pajussára. A Tribuna.


Maceió, 28 de julho de 1910, p.l.
~rti,()I, ~º~()/,

qjº~~ ~ditto r~vic ~ e~~ Áúoi~ qj~~


cartão-postal - ou selo postal, conceito de turismo começou a ser de-

O corno era conhecido - surgiu


na Europa na segunda meta-
de do século XIX e, com força avassala-
senhado com a chegada desse instru-
mento de comunicação, pois além de
conhecer as belezas famosas de outros
dora, tornou-se um privilegiado instru- lugares do Brasil e do mundo, o postal
mento de comunicação. Sua idade de despertou a sensibilidade do alagoano
ouro, segundo os especialistas, situa- para as nossas paisagens e atrativos.
se entre os anos 1880- 1920, o que no Imagens campestres de um en-
Brasil coincide com a fase de consoli- genho banguê, da praia de Ponta Ver-
dação do novo regime instituído em 15 de, com o Gogó d a Ema, da cachoeira
de novembro de 1889 pelo marechal de Paulo Afonso , do casario colonial
Deodoro da Fonseca. de Penedo, do pôr-do-sol na lagoa, no
O postal passou a fazer parte do Trapiche da Barra, colorizadas e sa-
cotidiano das pessoas, evidentemente lientadas em ângulos deslumbrantes,
nos setores letrados, como os compu- eram motivos de orgulho para os lo-
tadores hoje. Mas boa parte da popu- cais e formas de sedução para os de
lação o conhecia, manuseava ou fazia fora. Os primeiros atrativos para os
uso dele. Inicialmente produzido na apreciadores e de notável repetição
Europa, passou a ser confeccionado entre os confeccionadores eram, po-
no sul do país e alguns, muito mais rém, os edificios, como o Palácio dos
adiante, em Maceió, pela Typographya Martírios, o Teatro Deodoro, a Inten-
Commercial e a Typographya Triguei- dência Municipal, e logradouros inte-
ros. Podemos dizer que em Alagoas o ressantes da capital - a ponte de ferro
de Jaraguá, a Praça Deodoro, o Tribunal de Justiça, a Rua do Comércio, a Es- estampa, rastros que ajudam a encon-
tação de Ferro Central, o Hotel Bela Vista, as casas imponentes de Bebedouro, trar as várias pecinhas do tabuleiro da
o Canal da Levada. memória e das relações interpessoais.
Hoje, cada um tende a viver para si, enredado por seus múltiplos proble- Os postais foram, por muito tem-
mas. Diferente de épocas passadas, quando as pessoas tinham tempo e enorme po, guardados de forma improvisada
zelo pelo acervo familiar e as visitas eram convidadas, assim que chegavam às nos clássicos álbuns das salas de vi-
casas dos amigos, a folhear o álbum de fotos da família, onde os postais tinham sitas, sem nenhuma preocupação téc-
lugar destacado. Na sala principal, convidados e donos da casa, ao tempo em nica com a sua conservação. Algumas
que provavam as delícias dos doces caseiros e elogiavam o talento da cozinheira, famílias de Alagoas ainda guardam os
pacientemente compulsavam as bem cuidadas coleções, orgulho da família, lem- das gerações anteriores, enquanto ou-
branças de parentes queridos ou de lugares inesquecíveis, referências visuais, tras já doaram seu acervo a institui-
imagens nostálgicas, catalisadoras de símbolos e desejos, remetidos com afeto ções que detêm significativas coleções
por alguém distante. dessa tipologia.
Uma viagem, os postais! Pelas suas imagens percorremos mundos distan- Excursionando pelos postais nos
tes, como andarilhos sem chão. Conhecemos hábitos de exóticas culturas, mo- reencontramos com paisagens da me-
dos de vida, cenários, a flora e a fauna de terras longínquas, feitos históricos, mória, passando pelas ruas da infân-
paisagens. Desvendam mistérios do desconhecido esses cartõezinhos viajantes cia, os afetos da adolescência, pela
que alargam o nosso mundo correndo mundos, encurtando distâncias! Quantas praça da igreja e a árvore da esquina.
histórias de amor foram por eles alimentadas! Quantos códigos afetivos foram Nosso presente vai se alargando à me -
criados para enigmar a indiscrição da mensagem aberta! dida que recompomos o mapa de uma
São excelentes fontes complementares do estudo da História, desde o início cidade que, apesar do tempo e das
de sua circulação até o advento da mensagem eletrônica, quando passaram a ter mudanças, continua íntegra na nossa
uso mais restrito na sua forma original. Eles nos ajudam a abrir a taramela das imaginação.
lembranças e a estabelecer uma ponte com o passado, em uma enriquecedora
relação atemporal.
Além disso, constituem-se fontes primárias de informação, ao lado da foto-
grafia, podendo recompor fatos, situações e paisagens do passado. São ícones de
resistência, sintonizados com sua época. Ficam como legado e ao mesmo tempo
vão se atualizando, de acordo com a dinâmica social dos novos tempos. Ajustam-
se à história da geração que os produz. Daí as modificações pelas quais vem
passando ao longo dos tempos, até a era digital, com as imagens virtuais cheias
de movimentos, sons e inusitadas surpresas.
São ambiláteros na importância. Tanto valem pelo anverso como pelo rever-
so. O tempo está neles fixado em ambas as faces, mostrando, na mensagem e na
11!8
on
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romance Traços e Troças . Crônica Vermelha. Lei- to d a parte d o s que fizeram e fazem a literatura ala goana.

O tura quente, editado, nesta capital, em 189 9, sem


indicação de tipografia, é de autor desconhecido.
Wn tn~tanto , tudo indica seja de Pedro Nolasco Maciel, que
A sua leitura, mesmo hoje, excita a atenção do leitor tant o
quanto as Memórias de um Sargento de Milícias, de Manoel
Antônio de Almeida". De acordo.
Lembrou o ilustre Diretor do Jornal de Alagoas a ne-
111 1hlicara antes, em fevereiro de 1886, outro livro: A.filha do
/ ltt rdo, com dedicatória que me permito transcrever: cessidade de uma reedição anotada: "Impunha-se para ele
uma reedição, naturalmente anotada, a seu jeito, por um
Ao ilustre advogado Epaminondas Hipó- Félix Lima Júnior, por exemplo".
lito Gracindo, digníssimo deputado à As- A anotação poderia - é claro! - ser feita por outra pes-
sembléia Provincial de Alagoas - como exí- soa em melhores condições do que eu. Como, porém, a su-
gua prova de respeito e gratidão, oferece gestão do meu querido amigo Jambo me parecesse uma
o autor. ordem - eu assim entendi, bem ou mal, não sei - fiz o que
pude.
Epaminondas Gracindo, proprietário rural e político Como na Ma rinha de Guerra, levo a o alto do mast ro,
de prestígio, foi, anos depois, Deputado Federal por este Es- neste momento, bandeiras que, traduzidas, dizem:
tudo. Seu nome foi dado a uma rua da Pajuçara. - Missão cumprida.
O estilo dos dois livros é o mesmo: semelhante à des-
crição dos tipos e de trechos de Maceió, sendo que, em Tra- No Jirau, Alto do Jacutinga,
ços e Troças, o a utor melhor cuidou de retratar pessoa s e
focalizar objetiva mente cenas da terra. Maceió, dezembro de 1962 .
O livro merece um estudo completo.
Arnoldo Jambo, no Jornal de Alagoas de 27 de maio de
1962, num suelto sob o título Romance apócrifo em Maceió
do passado escreveu haver"[ ... ] em torno dessa experiência
d o romance em Maceió antigo um curioso desconhecimen-
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- edro Nolasco Maciel ou simplesmente Pedro Nolas- Pedro Nolasco pelejou entusiasticamente em nosso

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co, como era conhecido, iniciou a sua vida pública
como simples tipógrafo do Diário das Alagoas, o nos-
primeiro jornal de publicação diária.
Estado pela abolição da escravatura, tendo feito parte da
Sociedade Libertadora Alagoana, aqui fundada em 28 de se-
tembro de 1881.
Do Gutenberg, que também se publicava dia riamen- Além de sócio do "Club" Literário José Bonifácio, do
lr•, órgão da Associação Tipográfica de Socorros Mútuos, qual foi vice-presidente, integrou várias associações libe-
11purecido pela primeira vez nesta capital a 8 de janeiro de rais, tendo sido, por muitos anos, o orador do Montepio dos
188 1, foi um dos seus dirigentes e redatores, na fase inicial, Artistas Alagoanos.
lendo sido também administrador da Gazeta de Notícias, Afora Traços e Troças. Crônica vennelha. Leitura quen-
oqui surgida a 12 de maio de 1879. te, publicado sob anonimato (Maceió, 1899) e agora em se-
Foi ainda redator da Tribuna do Povo, periódico que gunda edição, estampou A filha do Barão (Maceió, 1886);
"'e dizia "de propaganda democrática", aparecido em abril Estilhaços, produções literárias e sobre política (Maceió,
dt> 1887; do Jornal de Notícias (7 jun. 1892); Constelação, 188 7); Galeria de alagoanos ilustres ou subsídios à história
folha católica (1 º abr. 1899) e de O Popular (18 jun. 1908). das Alagoas, que vem precedida de uma exposição acer-
Prestou igualmente a sua colaboração, entre outros, ca da Guerra do Paraguai (Maceió, 1891); Indicador postal
nos semanários Lâmpada (6 maio 1888); O Momento (4 jul. ou nomenclatura corográfica do Estado de Alagoas (Maceió,
1893), onde escreveu sob o pseudônimo MACEIOLINO, e em 1892), etc.
A Tribuna (7 set. 1896). Não enfeixadas em volume deixou as novelas Japy-
Funcionário do Departamento dos Correios e Telégra- Açara; Os Camunhenques e um compêndio de história de
fos, onde entrara como carteiro interino, nomea do a 3 de Alagoas.
janeiro de 1889, a 13 de abril do mesmo ano foi efetivado A primeira das novelas acima citadas foi publicada,
e a 24 de fevereiro do ano seguinte - 1890 -, promovido a em parte, em A Tribuna, de 14 a 18 e 20 de abril de 1909.
praticante interino, efetivando-se no cargo a 1° de agosto Chegou também a estampar naquele mesmo jornal
do aludido ano. A 9 de agosto de 1894 foi promovido a 2 ° parte de seu Resumo da história de Alagoas para uso dos
oficial, tendo sido exonerado no ano de 1903. incipientes, a partir de 2 de outubro de 1908.
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Na última fase de sua existência Pedro Nolasco


entregou-se à boemia.
O romance A filha do Barão, classificado pelo
autor, em subtítulo, com "estudos românticos e his
tóricos", antes de ser enfeixado em volume, numn
publicação integral que data de 1886, como já vi
mos, teve a primeira parte estampada no FOLHETrM
do Diário das Alagoas, a partir de 20 de novembro de
1885, debaixo das iniciais M. P. N.
Há um aspecto importante a se destacar nn
obra literária de Pedro Nolasco Maciel. Os seus ro
mances e novelas contêm descrições de lugares <·
coisas da província: os personagens movimentam-s<
em nosso meio-ambien te, o que nos leva a classifica
lo de precursor do romance de costumes alagoanos
Pedro Nolasco Maciel divide com Cipião da Sil
va Jucá, ou simplesmente Scipião Jucá (respeitando
a ortografia da época) como frequentemente se assi
nava em seus trabalhos literários, a !áurea de intro
dutor do romance na literatura alagoana, isto sern
se levar em conta O mendigo, romance impresso en1
Maceió, na Tipografia d'O Conservador, do Comen
dador Sobral Pinto, entre 1869 e 1870, e assinado
por um vago João Dionisio, presumível pseudônim11
de escritor (alagoano?) não identificado, conhecido
apenas através de citação de Dias Cabral em seu E.o.;
baço histórico acerca da.fundação e desenvolvimento
da imprensa nas Alagoas (Rev. do lnst. Arqueológico
e Geográfico Alagoano , v. 1, n. 5, dez. 1874).
Nascido em Maceió , no ano de 1861, Pedro No
lasco Maciel era filho de Raimundo José de Sant A11t1
e de D. Silvina Ferreira Guimarães, tendo falecido n11
mesma cidade que lhe serviu de berço, no dia 6 clt1
dezembro de 1909.
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squecidas. talvez nunca olhadas com o interesse que Traços e Troças uma visão quase panorâmica da Maceió de

E hoje nos merecem, essas velhas páginas escritas


no fim do século passado, agora reeditadas pelo
D1:partarnento Estadual de Cultura, crescem em relevo aos
:mtigamente
A vida boêmia, a sociedade séria, o "bas-fond", a gente
do povo, os figurões de proa, os tipos populares, o folclore ,
olhos do rnaceioense do presente. E crescem exatamente as ruas, seus hotéis, suas igrejas, seus pontos de encontro,
porque conservam, quase corno um retrato de corpo inteiro, suas casas comerciais, os temas de conversas e assuntos
unia cidadezinha acanhada, pequenina e sem pretensões, dominantes então, tudo quanto fizeram desta cidade
q1 t<' foi a atual capital do Estado de Alagoas. imprensada entre lagoa e mar a atual capital de quase cento
Is to é o que é Traços e Troças. e cinquenta mil habitantes.
A impressão que nos dá a sua leitura é a mesma Não é muito o que se sabe sobre Pedro Nolasco Maciel.
que se guarda da leitura de Memórias de um Sargento Além das notas arroladas por Moacir Medeiros de Sant'Ana,
rlc• Milícias, romance com o qual Manoel Antônio de dele se poderá dizer que restou nos arquivos o fruto de suas
Almeida inaugurou o realismo na literatura brasileira. De a tividades jornalísticas e literárias. Foi jornalista, portanto,
crrto modo, não sendo todavia um romance no sentido e dos mais atuantes em seu tempo. Talvez até por isso o
ngoroso da classificação, o livro de Pedro Nolasco Maciel seu Traços e Troças a qui e acolá se assinale como uma
11úo deixou de ser uma tentativa na arte de romancear composição em que o homem de jornal se esforça por fugir
episódios frívolos, de aparente desirnportância, numa aos hábitos do oficio, tornando-se débil quando experimenta
pequena cidade de há setenta anos atrás. Desconhecedor fugir ao fato, criar estória em vez de história. O seu livro é, por
de técnicas e estilísticas, com imperfeições e incorreções entre muitas páginas, um repositório de fatos descritos nos
evidentemente ingênuas se considerarmos os absurdos e modelos de reportagem da época. Envolve-se de intenções
abusos ainda tão encontradiços na literatura dos nossos quase puritanas e moralistas, com pretensões a orientar e
dias, ele focalizou , com simplicidade das mais deliciosas, encaminhar. Publicado apocrifamente em 1899, ostentava
os costumes da sociedade maceioense daquela época. Em em sua capa três títulos cautelosamente advertenciosos.
torno de uma história de amor provinciano e simplório, que Em primeiro lugar Leitura Quente; a seguir, Crônica
envolve personagens modestos e vulgares, deu-nos nestes Vermelha. Este, possivelmente concebido com o propósito

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de caracterizar o livro como coisa não recomendável para que tocava cavaquinho - e de cujo instrumento tomou o
certo gênero de pessoas puras ou ainda em formação. Já o nome toda a sua descendência - um barbeiro, um livreiro,
terceiro - o que se escolheu principal para a edição presente um jogador de bilhar, um mestre de banda de música, u m
- mais condizente com o seu conteúdo: Traços e Troças. Em leiloeiro, um comerciante de tecidos, um alferes, um coronel
verdade, bem melhor ajustado à intenção e natureza da comandante, um veterano do Paraguai, um condutor de
estória de Pedro Nolasco Maciel. trens, carteiros, amanuenses, engraxates, magistrados,
O exemplar amarelecido de que se serviu o DEC para sacerdotes, médicos, jornalistas, tribunos, vivendo todos
agora reapresentá-lo aos leitores caiu-nos às mãos já faz aquela vidinha miúda, imposta pelo acanhado do meio , pelo
mais de uns quinze anos. Pertenceu ao falecido poeta José atraso e pobreza material e, sobretudo, policiada pela rígida
O. Maia, que o possuía como qualquer coisa demasiado moral de catecismo dominante.
velha para justificar admiração. No entanto, feita a sua Impunha-se, positivamente, uma reedição do livro
leitura, não foi sem surpresa que nos colheram as suas de Pedro Nolasco Maciel. É o que DEC realiza com este
páginas. Era, portanto, aguardar uma oportunidade para terceiro volume de sua coleção de obras de alagoanos a
reeditá-las. Isto pela riqueza dos episódios e pela curiosidade serem realizados. E o faz com a valiosa colaboração de Félix
suscitada nos fatos ali focalizados, quase todos levantando Lima Júnior. A ele recorremos, como pesquisador que é do
um passado morto da nossa capital, em que reaparecem nosso passado, no sentido de anotar, sobretudo informar
muitas vezes com nomes autênticos, figuras da vida real, os acerca de personalidades que desfilam em Traços e Troças;
pró-homens da época, as famílias de destaque de então, os e sobre nomes de ruas, detalhes e fatos cuja relação com
políticos e mandões dominantes. Ao fundo , em torno deles , o presente não seria fácil encontrar-se sem a bússola das
sem nenhuma relação com o tema que o autor escolheu suas anotações.
para estoriar - o namoro mal sucedido do obscuro oficial Sem nenhuma dúvida um inestimável serviço o do
de alfaiate da loja "Nova Aurora" com aquela "pimenta, historiador Félix Lima. Sem ele, sem a sua colaboração
menina quente, irrequieta e mal educada" que se chamava entusiástica e desinteressada, não seria fácil encantar-se o
Zulmira - , o cenário urbano e social do fim do século leitor com o que se vai ler nestas páginas.
XIX em Maceió. Um quadro de costumes onde o bulício É, portanto, com os agradecimentos de DEC a este
preguiçoso e os preconceitos provincianos se fixam como ilustre homem de letras conterrâneo, que oferecemos a o
estereotipando figuras de "croizé", fraques pintalgados de público das Alagoas este delicioso retrato de Maceió dos
caspas, barbas e bigodes hirsutos percorrendo velhas e primeiros dias da primeira República.
incertas ruas maceioenses, sob casas de biqueiras e sobre
calçadas irregulares, cruzando de quando em quando com
matronas severas, tímidas ou mexeriqueiras, todas atufadas
de panos desde o queixo até a ponta dos burzeguins de
camurça. E por entre vestes e bisonhas aparências, em
cada figura, um tipo popular daqueles dias: o português
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anoel pensava que, tendo encontrado uma

M jovem de olhos garços e cabelos arpeados,


exibindo um bendengó 1 untado de orisa-
oil2, com os dentes alvos e as faces rosadas, leve-
mente caiadas a poudre-riz, estava no céu, e não
precisava mais de coisa nenhuma para completar
a sua felicidade.
Mas Zulmira era uma pimenta, menina quen-
te, irrequieta e mal educada; apenas sabia fazer cro-
chet na janela, o dia inteiro, namorando os rapazes
que passavam para o liceu3 nos dias úteis, e aos
domingos os caixeiros vassouras4, inclusive, sem ao
menos lembrar-se de que estava para casar-se com
o Manoel, esse pobre rapaz, ingênuo como uma órfã
do Asilo de Bebedouro5 , trabalhador e sóbrio.
1 Bendengó foi o nome dado a um meteorito encontrado em 1784 à
margem do riacho do mesmo nome, afluente do rio Barris, no sertão
da Bahia. Está no Museu Nacional, no Rio de janeiro. Chamavam
~endengó a um penteado muito em moda no fim do século passado.
2 Oleo para cabelo, artigo ordinário. Dizia-se, por troça, a quem usava
perlume barato: Você está cheirando a orisal
:i Liceu Alagoano.
• NR - Caixeiro vassoura: Caixeiro principiante, que varre a loja; em-
pregado de classe baixa.
5 Asilo de Nossa Senhora do Bom Conselho, para órlãs, na rua Cónego

Costa, em Bebedouro. F'undado em 8 de dezembro de 1877 pelo Pre-


sidente da Província, Dr. António Passos de Miranda, e mantido por
uma sociedade beneficente. 1Tá meio século é dirigido pelas Irmãs
Sacramentinas, no mesmo prédio.
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'Pedi-o n-o ~ 71Jç:r,oid
Um dia, Zulmira pedira ao Dantas, alferes do exército, lhar Carrascosa, onde ganha muitas partidas ao Protásio 10 ,
que também lhe piscava os olhos na igreja, quando ela ia à esse jogador feio e fleumático como a vovó do Atheneu.
noite à festa de maio, um dicionário de flores. Quando voltou do quintal estava aí o Manoel. Vinha de
O alferes combinou com outros, no quartel, mandar- Jaraguá, trazendo para a sua noiva um presente magnífico:
lhe uma cartilha, assim como quem dizia: - "Menina, vá um corte de seda, que ele, por intermédio do Balduíno 11 da
rezar!". E assim o fez. Comprou ao Cavaquinho6 , que vendia loja Turqueza 12 , arrematara no leilão da Alfândega.
livros velhos na esquina do Livramento, um volume impres- Ela achou o presente muito lindo , pois realmente o
so em 1840 e fez delicado embrulho que ofereceu à Zulmira era, e ofereceu ao noivo o mesmo cravo branco que ia man
pela manhã, quando ia para o quartel assistir ao detalhe. dar ao Juquinha, dizendo-lhe que tinha guardado para ele,
Ela, muito contente, abriu logo, rasgando com as e tão a propósito, acrescentou D. Maria (a futura sogra do
unhas roídas o papel esmeraldino do invólucro e , surpresa, Manoel), que servira para retribuir tamanha gentileza.
encontrou aquele imundo livro, muito velho, impresso em O Manoel botou o cravo n a casa da gola do paletó, m ui
Lis boa, com etiquetas da livraria Catalina & Cº, da Bahia, to a n ch o, acreditando n as mentiras de Zulmira e da megera
que o mandara para aqui ao Guimarães7 , então estabelecido velha, D. Maria, cínica onze letras 13 ...9Q_e~arreganhava a boca
nos baixos do sobrado onde o José Valeriano8 , barbeiro e sem dentes como um buraco de morcegos nas catacumbas
candidato derrotado numa das últimas eleições municipais, d;° cemitério velho da Viços a. Sentou--s e, fumou um cigarro,
tem a sua loja. embalado pelas cavilações da velha e pelos juramentos de
O seu desapontamento foi tal que , na volta, o alferes amor que Zulmira lhe fazia.
levou a cartilha n as costas, atira da por Zulmira do alto da Nr Nisso batera m na porta. Era o Olympio Raposa 14 que
janela, que ela bateu na cara do militar. E esse foi andando vinha buscar o cravo para o Juquinha e tra zia também u m
a rir doidamente, com as mãos na barriga que já lhe doía de presente de latas de goiabada e queijo de Minas, c~pra­
tanta hilaridade. dos ao mestre Adolpho, africano velho de J a ragu<U Tudo
Zulmira esqueceu depressa o incidente e foi buscar aquilo queria dizer que o Juquinha vma a noite comer uma
um cravo branco para mandar ao Juquinha, seu namorado peixada, de troça , coisa que o pobre Manoel nunca tinha
forte, caixeiro do Centro Comercial9 e primeiro taco do bi- feito, porque o seu amor era profundo e não uma simples
10 Protásio Trigue iros, baiano, apreciad or do jogo de bilhar, explorava, associado
6 Manoel Francisco d e Oliveira, português, tocava cavaquinho. Ganhou a a lcu - a um irmão, tipo-litografia à rua do Comércio, estabelec imento desaparecido hó
nha. Casou-se n o Pilar. É o tronco d a familia Cavaquinho . Vendia fogos , pelo São m ais de 35 an os. F'aJeceu nesta ca pital. Ar t ista competen te, a ele deve Maceiõ o
João , na r u a d a Boa Vist a. p rim eiro jorn al litografado, "A Sema nan, surgido em 4 d e maio de 1882.
11
7 Adolfo Guimarães, livreiro, transferiu sua residência pa ra Curitiba n os p rimeiros Júlio Sou sa, conhecido como J úlio Balduíno, proprietário da Loj a Tu r quesa.
12 Na rua Sá e Albuquerque, mais ou men os onde es tá a ferragem de José Simmons
anos deste século.
8 José Valeriano do. Costa, ba rbeiro, na rua do Comercio, 11, prox1mo à Praça & Cia., em Jaragua. Tendo falecido o proprictãrio, acima citado, sua viúva, D
Pedro II. Lu ísa Souza, transferiu o estabelecimento para a rua d o Comércio, n ele admi
° Companhia Centro Comercial, importa dor a e exportadora, n a rua Sá. e Albu- tindo caixeiras . Parece ter sido a primeira casa comercia l desta capital a admitir
querque, em Jaraguá. Foram Diretores, entre outros, Francisco Amorim Leão moças no balcão.
13
e Pedro d e Alme ida. Re presentou o Ba nco do Brasil até a a bertura da agên cia Alcoviteira.
local, e m 16 d e julho de 19 16. " Vendia livros usados.
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~t:Jf,po~ (!; r'UJ~

ofeição como o Juquinha alimentava por todas as moças - Vou-me embora!


bonitas. - Já?! Você não se demora aqui Tem tempo para tudo ,
Quando a velha viu chegar o Olympio, adiantou-se e menos para estar junto a mim ...
fez com o dedo aplicado sobre o nariz entre as cangalhas - Vou para o trabalho, Zulmira. Tenho que entregar
dos óculos, um sinal de silêncio, e foi o que valeu, senão o hoje umas obras. Virei à noite.
Raposa, que é indiscreto e leviano, botava tudo a perder. - Não nos encontrará, atalhou a velha com manha.
Tomou os embrulhos e foi com eles para a sala de jan- Nós iremos ver o ensaio dos fandangos a convite de uma
lar, apregoando em altas vozes terem sido remetidos pelo conhecidâ ao Mutange.
filho, o João, um cigarreiro da fábrica Lopes Sá & c 01 s. - Fica então para amanhã. Adeus. Passem bem.
Zulmira não se conteve e, curiosa, foi logo ver o que E o Manoel saiu.
era. Achou um bilhete assim concebido: Quinze minutos depois entrava ele na oficina, como
"D. Maria, vão esses objetos e o portador lhe dará 5$000. sempre alegre e jovial, cantarolando o tango "Quem comeu
Faça-me um petisco de peixe, e café para dois, pois levo um meu boi?", essa música brejeira e cabalística que o Professor
companheiro. Até à noite, no bonde de 9 horas. -Recado do J." Benedito 16 executou com seu inesgotável talento de onde as
Zulmira saltou de contente, deu uma dentada no quei- harmonias saem em borbotôes, semelhantes às águas im-
jo e voltou para a sala a comer. petuosas do S. Francisco nas escabrosidades assombrosas
D. Maria, empenhada para que o Manoel se retirasse da Cachoeira de Paulo Afonso.
logo, botou sal no fogo e uma vassoura atrás da porta, coi- Rapaz simpático e estimado, t rajando sempre com
sas que a superstição da velha gaiteira tinha como infalíveis apreciável correção, era, além disso, um a lfaiate de mérito.
para fazer sairemos hóspedes inoportunos. Dizia o Joaquim do Plácido, que em tempo trabalhou com
O Manoel, porém, não dava pelo leme. O Olympio Ra- ele no Recife, ser o melhor oficial para obras de cima. Ouvi
posa estava aí a esperar, e tanto a mãe como a filha, aflitas, mesmo uma discussão, em que tomaram parte os próceres
vendo a hora em que o bruto desembuchava qualquer taga- da alfaiataria alagoana, na qual dizia o João Bagre 17 , o La-
relice inconveniente. dislau18 e o Bernardino Paes 19 que o Manoel estava acima
Queriam estar a duas amarras, filando presentes de dos mestres contratados no estrangeiro pela Primavera20 e
um e de outro. É assim que essas mulheres de vida equí- pela Nova Aurora21 •
voca, experimentadas e ensinadas pelo mundo, entendem
6
proceder, embora a escola viciosa faça mais tarde das filhas ' 8enedito Raimundo da Silva, mestre das Bandas de Müsica da Polícia e da So-
ciedade Minerva, além de autor da música do Hino do Estado d e Alagoas.
o mesmo que fez das mães. ,., Alfaiate estabelecido na rua da 13oa Visla, 34.
8
' Ladislau Silvestre da Costa Lobato explorava uma alfaiataria no Comércio, 119.
O papagaio começou a gritar desesperadamente, en- 19 8ernardino Avelino Paes, alfaiate, estabelecido na rua General Hermes, antiga

trou uma galinha com pintos, a fumaça invadiu a casa ... O 20


Estrada da Cambona, nº 10.
Loja de tecidos na rua do Comércio, 102, onde está a agência do Banco do Povo S. A.
Manoel sentiu-se mal, pôs-se de pé ... 21 Presentemente é a mais antiga loja de tecidos desta cidade. Ocupa o mesmo pré-

dio, então nº 90, hoje 353, na rua do Comércio, desde que foi fundada, em 1885,
15 De cigarros, na rua Sá e Albuquerque, nº 20, em Jaraguá; fechou as portas há pelo espanhol Francisco Fontan, que a passou ao filho - Gregório Fontan, e este
cerca de 40 anos. a seus descendentes, os atuais proprietários, Fontan & lrmâo.
/~O
Pedu, n.o~ '111(;Y;oid

Quaisquer que fossem as opiniões dos colegas, ele não se preocupava abso- Tudo isto ela estragava, sem fa-
lutamente com isso, e, ora cortando apenas, ora provando as obras, ia fazendo zer a menor economia. Os seus baús
jus às suas diárias de 10$000, com fito único de aprontar-se o mais depressa viviam sempre escancarados, a roupa
possível para o casório. a granel por cima da cama, das mesas,
A bisbilhotice humana é, porém, superior a todos os outros instintos me- das cadeiras. O espartilho fino que ele
nos toleráveis da sociedade. Por isso, quer os próprios colegas, quer os amigos e comprara há poucos dias ficara pen-
conhecidos apuridavam22 a infelicidade desse casamento que o Manoel ia fazer. durado à chave da porta desde o dia
Num leilão do Jucá2 3, tendo ele arrematado alguns móveis, alguém fizera em que ela pela vez primeira usara-o.
alusões malignas ao desastre inevitável desse casamento. Foi num sarau dançante da so-
Os zangões 24 que ali se aglomeram para a zucrina r os licitantes, picando o ciedade Terpsychore27 , no qual ela dera
preço dos objetos, bebendo cognac nacional em copos pa ra á gua e enchendo a muitos desfrutes, danç ando o maxixe
sala de pernas, sem arrematar nada, esses deitaram-se com malícia na cama de com alguns bilontras de cabeças es -
casal a dquirida por Manoel, fazendo pressão no lastro de a ra me flexível, gaban- caldadas pelo cognac do buffet que o
do desavergonhadamente o colchão de marroquim , produto genuíno da Colcho- Sampaio montara de sociedade com o
aria Sortida do Farias2 5, ali mesmo na Pracinha do Livramento, nas casas que Norberto, sujeitando-se a dar as luzes
o Intendente Fortes2 6 desapropriou e que tantas saudades deixaram a certos precisas e mais uns poses à Diretoria,
meliantes que no tempo do Café Estrela d'Alva e da tipografia do Satan, que jaz porém com a condição de não vender
no fundo da lagoa Manguaba, onde a mandou atirar uma autoridade prepotente fiado aos manos ... caraduras.
nos felizes tempos da monarquia, tomavam ali seu grog e metiam as botas no O sereno28 esteve incorrigível, gri-
próximo antes de ir para as magnas sessões do Paulo Pinica. tos e assoadas para todos os passos
E o Manoel, todo preocupado, nada via nem ouvia. Era uma pomba sem fel que a menina dava, faceira, chie, den-
que a futura sogra, qual ave de rapina, havia de depenar, se antes a própria mu- gosamente apoiada ao ombro do cava-
lher, que ele calculava ser-lhe-ia o anjo da paz no lar enfestonado, não o levasse leiro, cabelos anelados, impregnados
pela rua onde o Sereno Cristo de Nazareth sorveu o cálix de amargura e verteu de essências esquisitas, o corpo delga-
sangue de seu divino rosto imaculado. do apertado num casaco de cetim azul
Bem dizem que o amor cega. O Manoel estava mais do que cego, estava bes- celeste sobre o espartilho inquisitorial,
tializado. Nem reparava que Zulmira não o poupava em despesas. Diariamente, os olhos vivos, cintilando, em desafio
pedia-lhe extratos finos, água de toilette, sabonetes, broches, leques e rendas ... com os brilhantes falsos das orelhas
catitas ...
22 NR O verbo apuridar (apu ridavam, n o texto), n ão foi locafüiado. Pelo sentido d a fras e, é possível qu e se trate
d e corruptela de apurar (apuravam). ou engano de datilo~rafia.
1:1 Francisco da Silva Jucá, leiloeiro, na rua da Boa Vista.
r Socieda de Terpsicore, dei;aparecidajá neste s êculo
2• Corretores sem titulo ou auxiliares de corretor.
2
A NR - Sereno: A expressão "ficar no sereno" signifi
2s Pertencia a José J oaqu im Faria , n a rua do Livramento . ca "apreciar uma festa do lado de fora", expressão
26 Antôn io Francelino Gonçalves Fortes, corretor, morou e morreu na ru a d o Im perador. Muito popular, era a inda u sada nas cidad es d o in terior. Daí, o Au tor
conhecido pela emotividade que o fazia chorar constantemente ao ass is t ir qu alquer espetáculo no Teatro u s ar o termo seren o, pa ra s ignificar as pessoas qu e
Maceioen se. estavam a dmirand o a fes ta .
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r~po~ e.- r'U>~

Foi aclamada rainha do baile. drilhas, em que os instrumentos de metal retumbavam ao s opro másculo d e
Houve despeitos no belo sexo, músicos já um pouco maus .
ciumes, ch a maram-na vaidosa, a sua O mestre-sala formou o quadro em seguida, e dois minutos depois Zulmira
duma vis-à -vis, a Angelina, não lhe volitava na sala como a mariposa em roda da candeia.
d11va mais a mão por ocasião do tra- Manoel teve nesta noite uma inspiraçã o. Lembrou-se de tomar o bonde e ir
flerser ... ao Mutange fazer uma surpresa a D. Maria e Zulmira.
O Manoel dança ra noutra sala, já Debalde esperou, no oitão do Livramento, na esquina do Xavier, sentado
1ínha levado uma forquilha29 , andava à porta do bilhar do Antônio Sombra, que elas tomassem o bonde de 8 ou de 9
nmuado, pelos cantos, metido no quar- horas . Não as vendo, acreditou tivessem seguido no de 6 ou 7 horas.
to da música a conversar com uma se- Ele tomou, pois, o último bonde, o de 10 horas . A viagem foi péssima, o
nhora velha que ali estava por ter acom- bonde puxado por dois burros magros ia com passageiros em número superior à
panhado sua filha, Chiquinha, ao baile. lotação, descarrilou na Baixinha30 , todos saltaram, ele exposto à chuva fina que
D. Ma ria, mãe de Zulmira, não principiou a cair, espirrando, dentro da lama até o cano das botinas.
consentia que o rapaz dançasse com Uns indivíduos com caras alvais, denunciando maus instintos, pragueja-
ed outras moças, xingava-o, mostrava ram a tudo e a todos, à companhia, ao gerente, ao Horácio Jucá31 , rasgaram as
'~lo, zelos mentirosos, chamava a filha de cortinas, bateram na plataforrna32 com grossos cacetes de pau d'arco, sem res-
lêr' quando em vez para mexericar-lhe aos peito às familias e sem compaixão de umas crianças que choravam.
ouvidos, pedia charutos e cigarros a O condutor33 e o boleeiro34 esforçavam-se inutilmente até que, com o auxílio
i·I Mascotte aos rapazes, tomava vinho d o de alguns passageiros, conseguiram montar o carro.
os Porto e café com pão-de-ló, como se es- Eram quase 11 horas quando chegaram ao Mutange. Manoel saltou. Per-
tivesse esfomeada. correu parte da rua, tudo fechado , nem sinal de vida. Os grilos e os sapos faziam
Outra velha, que em m aus costu- uma a lgazarra monótona, muita lama, trevas, frio ... o diabo.
(l tt mes não lhe ficava a dever, insultou- Manoel arrependeu-se do d ia em que nasceu. Porém, de súbito, voltou-lhe
ª• chamando-a "Maria bolacha que em a ideia de que tudo aquilo era por a mor de Zulmira, seus sonhos, seu coração,
toda parte se acha." D. Maria encalis- sua vida, seu presente e seu futuro.
trou. Chamou a outra de broa, camisa Naquela apertada hora hesitava, sem saber o que ia fazer. Voltar para
r.o de boi. .. Maceió, arrostando as intempéries em tão longa travessia, a rriscado a cair nas
18
Amor, amore compensatur...
3o•rrecho da Cambona, nas proximidades da Casa da Baronesa.
Houve escândalo e terminou essa 31 Horácio Augusto Guerra Jucá, c hefe do Tráfego da Companhia Alagoana de Trilhos Urbanos e, posteriormen-
lu ,
água suj a por um forte sinal de qua- te, 2° Comissário d e Policia de Maceió.
32 0s bondes da Cia. Alagoana de Trilhos Urbanos (CATU). puxados por burros, n ão tinh a m campainh a, antes
11
de 1908. Nem outro s istema de advertência para parar os veículos. Quem queria saltar batia no assoalho com
~n
1 lq Recusa de uma senhorita a um convite para d a n - a bengala; se não a tinha, pedia a quem tivesse que desse o sinal de parada.
Ili 33 Ao contrário do que o nome indica, o "condutor" não conduzia o veículo, encarregando-se da cobrança das
çar. Dizia-se: "Fulano levou uma forquilha de Bel-
11r.
trana", como depois , passados 30 anos, afirmava- passagens.
se: "Sicrano levou um fora". 34 Boleeiro era quem conduzia o carro.
1
1
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p~ 7lo~ 'J11(/f?c-id 1
1
1

unhas da polícia desenfreada do Maranhão35 , a assentar Olhou em roda... Só achou mosquitos e lama; no ar,
praça depois de morto, com a mão cortada, não era de bom trevas, no céu, nem uma estrela. Pareceu-lhe estar num
aviso; e seguir para o Bebedouro sem ter onde dormir, era subterrâneo. O coração batendo desordenadamente.
duro de roer. Entretanto precisava tomar uma resolução. Olhou de novo. Ao longo das águas, em procura da
Andou por ali à toa, ora para diante, ora para trás - costa, viu como que transparecer uma luz equívoca. Arre -
como se fora um embriagado vulgar, um vagabundo, um galou os olhos; a luz pôs-se em evidência. Um som vago
gatuno à caça de galinhas alheias. feriu-lhe o tímpano. Não tinha mais dúvida, aproximava -
Foi assaltado por uma matilha de cães, que saíra feroz- se uma canoa. Duas pessoas conversavam em voz alta.
mente revoltada contra ele do sítio do Wucherer36 , cachorros Os remos agitando as águas salitrosas produziram fosfo -
audazes que tentavam ferrar-lhe os dentes à garganta, sem rescências iguais a um reflexo de luz elétrica num espelh o
que ele pudesse defender-se. Correu, trepou numa cerca, de cristal.
esgueirou-se por entre as árvores, novos cães o agrediram Por mais triste que fosse a situação em que se achava,
dentro do quintal que era do João Nobre37 , conferente da precisava sair-se dela. Fez um esforço sobre si mesmo.
Recebedoria Estadual; o Nobre abriu a porta, estumou os Chamou. Não lhe responderam. Insistiu com força. Os
cães, deu um tiro de garrucha no ar. canoeiros responderam. Aproximaram-se.
O Manoel internou-se pelo mangal, aflito, esbaforido, - Quem aí está? Perguntaram.
botando a alma pela boca num atroz acesso de cólera. Esta- - É um náufrago. Socorram-me.
va dentro da lama, patinhando, à beira da lagoa. Os cães de Precisava mentir. Esta falta em certos casos é permi
longe ainda o perseguiam. Meteu-se num bote que deparou tida. Não havia explicação que o salvasse. Demais, não sa-
amarrado junto ao mangue. Tiritava de frio; os mosquitos bia com quem se ia haver. Podia ser tomado por gatuno.
alfinetavam-lhe o rosto e as mãos desapiedadamente. Naqueles arredores essa brava gente andava, há dias , em
Apesar daquela frieza tumular, um suor frio alagava- exploraçôes. Na noite anterior, tinham ido à casa do Bumba
lhe a fronte. Sentiu-se ferido. Estava realmente com as mãos no bonde e carregado galinhas, patos e perus.
alanhadas pelo arame farpado da cerca, o fato roto, perdera - Donde vem, camarada? Perguntou um dos homens
o chapéu, o relógio e a bengala. Procurou os fósforos, ti- da canoa.
nham caído do bolso com a carteira e mais alguns papéis de - Do Norte38 para Maceió. A canoa virou ali na ponta
importância, inclusive uma caderneta da Caixa Econômica do Frecha!. Perdi tudo. Salvem-me.
a que nesse dia ele fizera acrescentar mais algumas dezenas A canoa aproximou-se. Ele entrou, todo encharcado,
de mil réis. escorrendo lama.
-Eu mesmo!
35 Força de Segurança do Estado, então comandada pelo coronel José Maranhão.
Praticou horrores, ainda hoje lembrados.
36 No Mutangc. Pertencia ao súdito inglês G. W. Wucherer, que foi vice-cônsul de
N ,L'J:onheceram-se. Era o Gerôncio, um crioulo maneta
que vendia aguardente de alambique do Ananias, da Biqui-
seu país. Há cerca de 40 anos é o campo de jogos do Centro Esportivo Alagoano.
37 João Gualberto Ferreira Nobre, probo conferente da Recebedoria Estadual, em

Jaraguá. Faleceu há mais de 35 anos. •18 Santa Luzia do Norte.



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11h.1 , Voltava com ancoretas vazias. Serviu-lhe aguardente. ao freio de um carro americano. Manoel ocultou-se das vistas
Nrí,1uele momento, o gole para ele foi precioso néctar dos que passaw1m Estava com camisa e c-alcas do Gerôncio
Passados alguns momentos, em viagem, o Manoel , A sua roupa, em desgraçado estado, dera a lavar.
1 l1·sa pontado, blasfemando, pedindo a morte, contava aos Já o seu portador partira para Maceió , de onde devia
1 mnpanheiros a sua aventura. levar-lhe roupa, chapéu, calçado.
O remeiro dava gargalhadas homéricas de zombaria ca- Não se lembrava mais do que havia consigo se passado.
nalha, em suas barbas; o Gerôncio animava-o, insistia para que Tinha nos olhos o retrato de Zulmira e todo aquele sacrifício
tomasse mais uma pinga, por causa do frio que o fazia tremer. nada valia ante o sorriso moreno com que acreditava teria ele
Meia hora depois estava sob coberta enxuta, em casa de solenizar a narrativa de tanto acontecimento desastroso.
do Gerôncio, que serviu-lhe café e proporcionou-lhe agasa- Às 8 horas, o Manoel tomava o bonde no Bebedouro,
lho confortável. para onde viera do Frechai no calcante.
O Manoel não dormiu a noite inteira. Mil pensamentos Entre os passage iros , aliás, desconhecidos, notava-se
o assaltavam, ideias desencontradas, meio sonâmbulo, teve um rapazito de grandes olhos castanhos, tez morena, uns 11~,
pesadelos terríveis, vendo-se preso, na polícia, entre o Elias rudimentos de bigodes que ele cofiava assiduamente, pince-
Bacalhausada39 , que fora curtir no xadrez a sua terrível mona, nez de tartaruga assestado no break, cuj as narinas se dila-
e o João Cadeira, que furtara a máquina de costura do Chico tavam sensualmente.
Neném. Despertou sob a pressão desses horrores. Era dia. O Tinha nas faces e nos olhos sinais bem visíveis de não
sol dourava já a colina. Veio à porta. Olhou para o quadro haver dormido a noite passada, bocejando e tagarelando
deslumbrante que a lagoa do Norte oferece à vista ampla dos com os outros companheiros, que vinham todos do banho.
seus contempladores. A povoação de Coqueiro Seco em fren - Na ocasião de pagar a passagem, este novo persona-
le, as torres elevadas do magnifico templo de Nossa Senhora gem, que chamaremos Serafim, tirou da carteira um retrato.
Mãe dos Homens fazendo de sentinela de Deus no meio da vo- - Que bela menina! Disse ele, mostrando-o.
luntária perdição das almas. Mais adiante, a Levada. Ouviu o - É um peixão!
silvo da locomotiva. Passou o trem de carga. Eram 6 horas. O - Conheces?
Lourenço, condutor"º com a sua perna de pau, ia firme junto - Nunca a vi mais gorda... Tem cara de pamonha.
- Protesto. É um tipo de andaluza, e se a visses cantar
·19Voluntário da Pátria, veterano do Paraguai, vivia alcoolizado, pelas ruas, apupa-
do pela mcninada. Tipo popular, nas festas como a dos Martirios, brigava com
as redondilhas e meter-se gostosamente num bolero suave
outro ébrio co ntum az, o Pensamento, que tocava Aa uta. Na porta de um bote e gemedor, adeus minhas encomendas!
quim, o Elias Uacalhausada, sob os vapores de 13aco, declamando assim:
"Amor de mulher ê castanha
- E onde a foste buscar?
Cozinhada cm pruiela de:: barro; - Não a busquei. Me foi ontem apresentada pelo Ju-
É manteiga fram:e:m nmçosa
Que nas gueiras nos deixa o pigarro!"
quinha, que está numa ponta louca41 •
40 Lourenço Wanderley foi condutor de trens da Alagoas Railway, tendo perdido

uma perna. Montou uma relojoaria na rua nova, cm sua casa residencial, perto •1 NR - No sentido usado no texto, a expressão "está numa ponta louca" significa
da Praça do Montepio. Foi zelador do Relógio Oficial, que era o da Catedral, re- "estar enamorado, ou como diz o Autor na continuação do diálogo, "andava de
cebendo gratificação mensal de 60$000, paga pelos cofres estaduais. cabeça inchada".
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P~ no~711~d

- Ah! O Juquinha? Bem, me disseram que ele a ndava de cabeça inchada Um deles voltou-se. Viu o Serafim.
com uma normalista. E onde mora ela? - Ah, maganão! Como foste ontem
- J á foi normalista, apenas deu o primeiro ano. Um dia atirou um tinteiro à de pândega? Vieste ao banho curar a
cara do bedel Narcisão e deu às de Vila Diogo. Hoje é simplesmente uma noiva... ressaca? Como vai o Juquinha com a
- Do Juquinha? Zulmira?
- Não. De um pobre diabo a quem ilude cin icamente. Mas é um torrão de - Qual Zulmira? Perguntou outro.
açúcar cristalizado essa diabinha, disse o Serafim, levantando o braço e pondo o - Urna b eleza peregrina, uma
retrato à distância para melhor apreciar o busto simpático representado naquela criatura endiabrada e tentadora.
fotografia. Estava de perfil, exibindo o mais formoso nariz do mundo, com um - Ah! J á sei! ... Foi libertina do
penteado artístico como só ela sabia-o fazer, um anjo, bela como as princesas presépio, pertenceu ao cordão azul e
orientais, linda como os amores .. . tem bonitas pernas.
O Manoel estremeceu ... Tinha prestado aten ção à conversação dos rapazes - E que olhos! Faiscam ...
e aquele retrato era de Zulmira. Teve ímpetos ferozes, quis avançar, estrangular - Ela por si já é uma faísca.
o Serafim, tomar-lh e a fotografia. - Pelo Carn aval foi a mais perfeita
O bonde parou. Subiu uma família, o João Nobre, os irmãos Soares, do dama que vi fantasiada.
Correio42 , todos os dois anêmicos, distribuindo cumprimentos aos seus conhe- - Onde? Num clube que visitou a
cimentos. Fênix"3 no dia em que o Mackray e o
Aquela parada ali e a entrada dessa gente para o bonde desnorteou o Ma- Maranhão 44 se esbodegaram.
noel. Esqueceu retrato, Zulmira, Serafim, tudo ... - A propósito: que fim levou a Fê
O Nobre principiou a contar o fato que se dera à noite anterior, descrevendo nix, extinguiu-se?
tudo com cores negras, dizendo que ainda pegava a li à mão qualquer um desses - Não; botou luto. Foi fazer uma
ladrões descarados que andavam em excursões noturnas. procissão d e desagravo para reabrir os
O Ma noel teve vontade de cair-lhe aos pés, contar tudo, pedir perdão. seus salões.
O bonde tornou a parar. Novos passageiros entraram tagarelando, censu-
•3 Aristocrática sociedade que ainda hoje honra a ci
rando o Governo porque vetou o projeto da subvenção à empresa de luz elétrica, dade. Fundada cm 7 de setembro de 1886.
ch aman do governo das trevas, incapaz de promover melhoramentos, mancomu- 44
Dançava-sc, na Fênix Alagoana, em 1893 ou 1894,
em sua sede, na rua l3arão de Jaraguá, antiga da
n ado com um Congresso que não teve pejo de rasgar a Constit uição para aumen- Igreja, quando o Coron el Josê Maranhão, Comandan
tar o próprio sub sídio, convertendo em lei um célebre projeto q ue ficou conhecido te da Força de Segurança e pessoa de confiança do
Governador Gabino Besouro, sob efeito de bebidas
por desde já; metendo a caneta n o desbragamento dessa politicagem nojenta que alcoólicas, portou-se inconven ientemente para com
manda falsificar atas no Meirim e na Pioca para encobrir a vergonha da derrota algumas senh oras, sendo repelido. A época era dt
rerror e os milicianos do Governador Besouro prcn
infligida pelo eleitorado da Capital. diam e espancavam qualquer pessoa por dá cá aquela
palha ... Kenneth Maeray, súdito britânico que depois
•2 Josê e Augusto Soares dos Prazeres, funcionários dos Correios; o primeiro carteiro, o segundo amanuense. representaria seu pais, neste Estado, conteve o oficial
Augusto exerceu comissões, tendo secretariado a repartição; José, depois de aposentado, foi funcionãrio do que queria brigar... Por causa desse barulho deixou
Ba.nk Of London & America LTD., agência local. Ambos eram homens de bem. de circular um diário, creio que o Jornal de Debates.
115
r;,,çi,pó()- r,; r'UJ~

O Manoel assistia a tudo isso atô- Alagoas, e isto não obstou a que cinquenta anos mais tarde fosse um marechal e
111lo, indignado contra si mesmo, indig derribasse um império, deportasse o imperador, a princesa, o neto maluco de D.
nado contra os outros, com vergonha, Pedro, D. Augusto 46 e conde d'Eu4 7 48 , este com saudades de seus cortiços, aquele
com ódio, meio homem, meio sendeiro, com pena das suas orgias.
pensando em vingar-se, prometendo João Ruino foi bilu49, porém mais tarde tipógrafo e publicou "O Espia".
perdoar, jurando guerra de extermínio Nem todos que são talhados para as grandezas nascem logo engrandecidos.
aos detratores da honra alheia, empe- Nós vamos primeiro chupando as nossas tetas, caldos e papas. Depois é que vem
nhados nessa campanha de difamação a farinha, o pão, o feijão, carne magra a 900 réis o quilo, fato podre dos quartos
em desabono de sua futura mulher, da imundos que a Intendência n ão manda lavar. Vestimos uma camisinha aberta,
futura colaboradora de sua felicidade. cueiros, fachas. Ali mesmo fazemos a nossa vontade, sem nojo e sem maldade.
O bonde chegou aos Martírios 45 . Depois vêm as calças, as saias, as ceroulas, o croisé50 , as barbas, a vergonha,
Ele saltou, foi para casa, deitou-se. a dignidade, a cobiça, a infâmia, os desejos, a porcaria, o diabo para tentar, os
Pensou em tudo quanto vamos descre- anjos para nos defender, a Cruz para castigo e Deus para nos proteger.
vendo . Tinha a sua bem entendida filo - Zulmira era mulher, descendente de Eva, feita de uma costela de Adão.
sofia, pelo que achou em resumo essas Precisava de proteção. Ele queria defendê-la; era o anjo salvador, o São Miguel
coisas muito naturais. A mocidade tem esmagador de todos os diabos que a tentassem perder.
as suas leviandades e o mundo é cor- Mal sabia, entretanto, ele que o primeiro demônio a esmagar, se ele qui-
riqueiro e mau . Não há moça casadoi- sesse e pudesse realmente arrancar Zulmira de suas garras, era a própria mãe
ra cuja reputação os cães sociais não dela. Era um demônio do sexo feminino, o pior deles, pois. Mercadejando a filha,
mordam famintos de escândalos. Zul- iniciando-a em orgias perigosas, iludindo o homem que a queria e entregando-a
mira era uma boa menina, estimava-o, ao libertino audaz, farejando o ouro das bolsas alheias como o urubu a carniça
queria-lhe bem. Mas ... aquele retrato?! no matadouro ...
Como obteve aquele sujeito uma foto-
grafia de Zulmira?! E esse pince-nez? 46
Dom Augusto, filho da Princesa Isabel. Seguiu, no Alagoas, rumo à Europa, com a Família Imperial exilada,
a 17 de novembro de 1889.
Ora! Algum joão- ninguém, zangão de 47
Príncipe Gastão de Orleans, francês, esposo da Princesa Isabel, filha de Pedro II e herdeira do trono do Brasil.
qualquer coisa, cavalheiro de indústria, Faleceu a bordo do transatlântico "Massilian, em viagem da Europa para o Brasil, em 28 de agosto de 1922.
Vinha assistir aos festejos do primeiro centenário da independência de nossa Pátria.
cobrador de penas d'água, distribuidor •s Nos últimos anos do Império o Conde d'Eu, condoído com a dificuldade das famílias pobres, que não podiam
de jornais, boleeiro de bonde, porteiro pagar aluguéis altos, querendo amenizar tal situação, mandou construir uma série de casas do tipo hoje cha-
mado "Populares". nmedialamente a imprensa oposicionista e os propagandistas da República iniciaram forte
de teatro, vagabundo, cigarreiro ... campanha contra a construção de tais casas, dizendo tratar-se de cortiços ou cabeças de porco, como eram
Se ela dançou presépio, não ficou conhecidas na Corte. Foi uma das muitas e clamorosas injustiças e acusações levianas ao bravo soldado
por isso ultrajada. O general Deodoro francês que comandou o Exército Brasileiro, nos últimos períodos da guerra contra 1-' rancisco Solano Lopez.
•qNR - O termo bilu não foi localizado. Apenas foi encontrado o termo bilu-bilu, que, pelo sentido, não se en-
também dançou em 1839 na cidade de quadra no texto. O termo bilu-tetêia permanece no linguajar popular.
50
NR - Foram encontrados, cm francês, os lermos croisê; croisée e croiser. Nenhum deles, porém, tem o signi-
ficado coerente com o contexto no qual a palavra croisê aparece nesse parágrafo. Infere-se, pois, que o lermo
"Praça Floriano Peixoto, então Largo dos Martírios. à época, deveria ter algum sentido especifico.
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P~ n,()~ m""~d

Mulher sem brio, que ia à igreja por uma ironia pun- É que o pobre diabo viveu sem reumatismo, não to
gente. Não olhava para a serenidade do Cristo magro e mou iodureto de potássio, estriquinina, ópio, cerveja com
bondoso, pregado à cruz entre os ladrões, com as car- salicilato, gelo e limonadas.
nes rasgadas pelos cravos grossos. Não olhava para a sua Manoel, deitado na cama da alcova, fumando seu ci·
Santíssima Mãe chorosa e sã, exemplo de virtudes raras e garro, ia filosofando assim o caso, sem lembrar-se de ir à
amor maternal. Não olhava para o futuro. Desejava mais loja naquele dia, já considerado perdido.
o pedaço de queijo que suas indignidades facultavam-lhe Adormeceu, afinal, e somente ao meio-dia se
à mesa do que ver a filha casada pobremente, mas hones- acordou.
ta e amparada. Havia sido procurado, sua falta ao trabalho causou
A barriga n ão espera. É um saco que nunca enche. cuidados, supuseram-no enfermo. Felizmente estava ape
Neste mundo não fazemos outra coisa senão comer. D. Ma- nas enfadado.
ria tinha razão. A sociedade, diz o Menção, é corrupta. Não Saiu. Na esquina se encontrou com alguns amigos. Foi
pergunta onde se foi ver a riqueza, ainda mesmo que te- troçado ... Sabiam que ele fora achado dentro dos mangues,
nha certeza de sua má pro~ência. Ninguém hoje faz mais roído de mosquitos.
questão de cor nem de raça~ntigamente, todo mundo que- Na Primavera, na Nova Aurora, em todas as alfaiata
ria ser cadeiado, que entre nós era sinônimo de branco. rias comentava-se o fato. Manoel teve de dar explicações.
'.(
Hoje é indiferente isto. Acabou-se a escravidão e os negros Causou hilaridade a narrativa de seus desastres da véspe
entraram para a comunhão. ra. A coisa acabou entre gargalhadas ao estourar da cer
Todo sangue é vermelho, quer nas veias do branco, veja, lá na venda do Sabino Oiticica52 . No Hotel Brasil5J
quer nas do preto. esperavam-no também. E o Manoel escafedeu-se, azulou,
11 Há negros bacharéis e médicos, negociantes, capita- dando pernadas rua afora para se ver livre de tanta azu
j

listas e jornalistas. E há brancos gatunos, calcetas, funilei- crinação. Adiante encontrou o José Alfredo 54 , propagador
ros e jogadores de paéto5 íJ de lâmpadas belgas, candidato ao cargo de Intendente mu
S. Benedito, por ser preto, não deixa de ser santo. nicipal, com o seu manifesto em que dá à Pátria a cabeça,
Tudo tem as suas compensações. A morte nivela todos. O os braços, o coração ... O José Alfredo chamou a atenção
branco apodrece no túmulo e é comido pelos mesmos ver- do Manoel para uma casa que o Intendente queria demolir
mes que já mascaram o negro. A ossada é igual e branqueja com uma indenizaçã o miserável de 600$000, um absurdo,
à luz do sol que não distingue mais a cor da pele. De or- um horror. .. Falou-lhe de Carlos Gomes, de sua receita de
dinário a caveira do branco é sem dentes, banguela, tem 4 quilos de quinino para desmanchar com água e açúcar
dentes postiços. A do negro apresenta quase sempre uma até o ponto de mel de dedo, como remédio único para o mal
dentadura perfeita. que aflige o grande maestro.

"NR - A palavra paêto não foi localizada em nenhum d icionário atual. Pelo caráter 52 Sabino Oiticica Ferreira, comerciante da rua do Comercio, 46.
gradativo do conteúdo da frase, supõe-se que pode ter havido erro de datilogra- 53 Pertencia a Joaquim S. Ana & Cia., na rua do Livramento, 2.
fia, e que poderia ser "jogadores de palito". s- vendia lâmpadas e artigos de papelaria, na Boa Vista, 6.
l'f7
r;,,~pod-- e- Ã,o~

Quando o José Alfredo deixou-o, se encontrou com o - Não entendo de política ...
iff\oO amável escrivão de órfãos, o Salustiano55 , muito ve- - Mas não precisa entender. Todos sabemos que tanto
1111!101 sobraçando uns autos volumosos; estivera doente a um corno outro são homens de bem. Isto nada vale, porque
1111lte passada, uma febrícula, coisa sem gravidade. A prosa o governo depura; quem faz a eleição é sempre o governo ...
l111 Salustiano é sempre amável, instrutiva, honesta e boa;
11ms o Manoel estava caceteado demais, pediu desculpas,
lni undando.
Deu de ventas com o Damião a lhe oferecer bilhetes
cl11 loteria do Rio - 500 contos. Deu meia volta. O Giovanni56
11 ameaçou de escovas em punho, querendo lhe engraxar

Hl3 botas à força. Fugiu. Uma comissão lhe apresentou o


11baixo-assinado em que se pedia ao governador que solu-
1 ionasse o projeto de subvenção à luz elétrica. Assinou sem

ler, com a mão trêmula, nervoso, as orelhas pegando fogo,


como se ardesse em febre. Sentiu baterem-lhe no ombro.
Virou-se. Era um freguês da casa a queixar-se de que as
calças estavam um pouco curtas e que não as vestira, ia
devolver para conserto.
O Dr. Domingos chamou-o e perguntou:
- O que há de novo, Sr. Manoel?
- Não, não sei de nada.
- Então anda atrasado. O Besouro57 mandou apresen-
tar chapa na eleição municipal; o Dario58 e o Intendente
dizem outros que é o major Miranda. Qual dos dois acha
melhor?

o, " Salustiano Oliveira Costa, escrivão de órfãos, h omem culto para o meio e para a
época.

"
1
6
' Giovanni Puzzi, italiano, engraxate e amigo nº 1 do Baco. Bêbado, pintava o dia-
bo! Dentro de casa, com as portas fechadas, gritou, certo dia, d esesperadamen-
te: "Eu mato! Eu mato esta danada!" Como espancava estupidamente a esposa
li todos os dias, os vizinhos correram, arrombaram as portas, julgando que ele
tentava assassiná-la. e n contraram Puzzi, bêbado, como ele só, com afiadíssima
faca, na cozinha, degolando uma lagartixa, presa, com um prego, pela cauda à
parede ...
57 Cabina Besouro, Governador do Estado.
58 Dr. Dario Cavalcanti do Rêgo e Albuquerque, magistrado e diretor da Insttução

Pública. Faleceu, aqui, em maio de 1924.


II
a noite em que o Juquinha mandara pre-

N parar o pescado, veio realmente de Jaraguá


no bonde de 9 horas, todo vestido de bran-
co, chapéu de palha, prosando com o Maciel, olhos
de lince fixos em duas horizontais59 que vinham no
mesmo banco, fazendo nova chegada há pouco;
discute a formosura das tipas 60 , diz que uma, a Na-
ninça, a do Hotel Salvador61 , parece-se com a lso-
lina Mondar; o Maciel discorda, atribui-lhe feições
iguais às da Luiza Leonardo no papel de mulata do
drama "A Revolta".
Chegando em frente à estação dos bondes da
linha circular62 , Juquinha saltou para tomar um
deles que partia. Ma ndou parar o caixa de fósfo-
ros63, como batizara o povo a tais veículos. Este ia,
59 NR - Vale a pena chamar a atenção para o emprego da palavra hori-
2-0ntais nesse parágrafo. Apesar de usada corretamente (o dicionário
registra o sentido ai evidenciado), seu uso no sentido cm que é usa-
da no texto - prostitutas - não é comum atualmente.
60 Prostitutas.
61 Pertencia ao Sr. Salvador Leite Vidigal, na rua Sá e Albuquerque, 72,

em Jaraguá.
62 Na praça Sinímbu.
61 Bonde pequeno, puxado por burros, da linha circular, da Companhia

Alagoana de Trilhos Urbanos, a CATU, como era conhecida. Quan-


do aqui esteve o Conselheiro Afonso Pena, antes de tomar posse na
Presidência da República, prepararam para ele, especialmente, uma
"Caixa-de-fósforos" com três pequenos bancos, cortinas d e seda, etc.
zoo
Pu4o no ~ 711~d

felizmente, vazio, bem ao contrário do que acontece sempre, Angelina não gostava desses musicas porque eram
pois sai da estação com passageiros nos bancos, na plata- da Minerva68 , a música fidalga, dizia ela, ex-imperial, que
forma, pendurados, levando sol... antigamente desejava dar um banho-maria no João Mi -
Aí, encontrou o José Custódio, caixeiro-viajante, esse nas, grande clarinetista, para admiti-lo no seu seio, visto
tipo de boêmio, pândego eterno, de rosa no peito, sempre aquele cidadão ser preto. Angelina era branca, tinha, po-
alegre, vexado e faceiro, quer impulsione a bola de bilhar, rém, ideias democráticas. Fora abolicionista, pertencera
quer monte no bonde carnavalesco que na Praça Deodoro à Sociedade Libertadora das Senhoras 69 , essa corporação
quebrou o arame da luz elétrica. respeitável, tão caluniada no seu tempo pela imprensa
Uniram-se. Ambos levavam o mesmo rumo, sem o sa- escravagista e pelos desaforados escrevinhadores que à
ber. A mãe de Zulmira era um alho. Não gostava de comer sombra do venerando cônego Costa70 insultavam os pre
só. Tinha amigos; ou antes Zulmira tinha seu "claque" de goeiros do bem pelas colunas do "Diário das Alagoas" 71 ,
meninas fogosas. Entre elas Angelina, que frequentava as surdos aos reclamos da opinião, sem reconhecerem a ne
igrejas com uma beatitude de irmã salesiana e as danças e cessidade urgente de curar o País da chaga asquerosa da
folgares 64 com uma faceirice de cocote. escravidão.
A rapaziada, para quem essas tentações são verdadei- Entretanto, isso não impediu que a ideia, como as
ras iscas, tinha a certeza de ali encontrá-las, ao menos urna águas, abrisse caminho por si mesma, para usar da fras e
vez por semana, na mais agradável das convivências. Efe- de outrem; porque as sociedades foram por diante, libertan
tivamente, naquele dia a casa de Zulmira estava em festas. do escravos, embarcando-os para o Ceará, favorecendo fuga
Dado o sinal de parar o bonde, os dois saltaram. Fo- em massa, quebrando algemas.
ram recebidos à porta por D. Maria, Zulmira, a Lica, o Au- A._s pa~,Seatas abolicionistas se faziam com um calor
rélio Jucá65 . e um entusiasmo dignos do patriotismo do povo alag~ano .
Entraram. Zulmira tomara o seu banho pouco antes. Ninguém teve medo das ameaças, das cartas anônin:as ;
Estava irradiante de beleza, com os cabelos soltos ainda, a peita e o suborno não conseguiram manchar a causa
vestida num roupão de leve cambraia, as formas graciosas simpática da liberdade. Só ficaram chafurdados na lama
do corpo em provocadora evidência. os porcos por dentro e sujos por fora. Os verdadeiros após
Não tardou chegar mais gente. Telegrafistas, emprega- tolos andavam sempre altaneiros, de cabeça erguida, mos
dos da Alagoas Railway66 , muita menina faceira, o Sampaio
da correção com uma orquestra composta do Narciso do 68 Sociedade Filarmônica Minerva, rival da Artistas. O presidente, em 1896, era o
português João Martins Ferreira.
Valente e do Possidônio67 • ~q O autor faz referencias à Libertadora das Senhoras, mas deve s er a Sociedade
Abolicionista das Senhoras, cuj a s ede era no Colégio Uom J esus, do Professo1
"" NR - Interessante o uso substan ti vado do verbo "folgarn, usad o ai pelo Autor, Francisco Armindo Leite Falcão, digo, Francisco Domingues da Silva. Da soci1.
apesar de no d icion ário co nstar apenas o verbo. dade, e m 1883, era l ª Secretária D. Francisca Arminda Leite Fa lcão.
70
65 Funcionário da Fazend a. Antôn io Jose Costa, político, sacerdote católico, proprietár io do Diàrio das
66
Primeira estrada d e ferro em Alagoas. Foi arrenda d a depois à The Great Wes tern Alagoa s. Nasceu em 24 d e fevereiro de 1817 e faleceu em 2 0 de setembro dr
e
of Brasil Railway Co. a Rede Ferroviária do Nordeste dos dias que correm.
71
1896.
67
Narciso Maia, músico conhecido e estimado. Jorn al do qual era proprietário o Cônego Costa, acima referido.
ZOI
1~~ e- f-t-oP<"6'

trnndo o couro da Rússia 72 , onde se guardava o precioso da guerra; José Domingues77 criava a Libertadora Artística,
mblema da fé, guia dos perseguidos ao porto da redenção que foi um tremendo baluarte, uma inexpugnável trincheira
O Dr. João Gomes 73 , em seus discursos adubados na questão célebre da escrava Delfina e noutras.
com as incisivas pilhérias humorísticas que eram a nota O Sr. Hortelã78 processou os abolicionistas; o Sr. Sapu-
predominante na sua linguagem terça, dava vivas à plebe caí convidou os escravagistas para linchá-los; um chefe de
esfarrapada e esta correspondia com o seu natural exalta- polícia inepto responsabilizou o Pedro Nolasco79 , redator che-
mento, acenando com as bengalas e os chapéus, berrando fe de Tribuna do Povo, pela alteração da ordem pública; um
uníssona contra a filáucia dos negreiros que estouravam subdelegado da Capital faz-se capitão de mato80, entregando
quase de ódio ao estampido de cada bomba com que o fo- os escravizados aos senhores por dinheiro e quejandas.
guete da abolição vaiava os retrógrados, estourando zom- No dia 13 de maio o raio de luz rompeu as trevas como
beteiramente no meio da fúria impotente dos vencidos da aurora alvissareira, confundiu todos num deslumbramento
propaganda. delirante.
Dias Cabral74 - evangelista - era o tino de modéstia, A opinião de Angelina, em relação à música Minerva,
era o talento e o caráter ao serviço da causa santa; Ricardo não tinha razão de ser. Depois de 15 de novembro de 1889
Brennand falava às massas com franqueza e com a segu- todos neste País são republicanos. O Sr. Joaquim Nabuco
rança de um convencido, em cujo ânimo a ideia se arraiga- brevemente também o será, apesar de ter dito que seria o
ra75; Francisco Domingues 76 era a firmeza e o sacrificio em último monarquista deste País. Nós sempre reprovamos as
pessoa, perdendo cento e tantos a lunos de seu colégio, por- rivalidades entre os Artistas81 e a Minerva.
que os pais - senhores de engenho - moveram-lhe tremen- Àquela noite da festa dos Martírios 82 o pugilato, o
cacete, a faca de ponta e o sangue derramado foram ape-
72
fücardo Brenand Monteiro, abolicionista e republicano histórico, dos poucos que
77
fizeram profissão de fé antes de 15 de novembro de 1889, promovia a libertação lrmão do precedente, José Domingos Lordsleem nasceu igualmente na cidade de
de escravos que fugiam dos engenhos e fazendas no interior do Estado. Certo dia Alagoas e faleceu nesta capital em 2 J de fevereiro de 1926. Foi deputado esta-
angariava-se dinheiro, na rua do Comércio, para pagar a um proprietário o valor dual, Presidente do Montepio dos Artistas e Diretor do Liceu de Artes e Ofícios.
de um escnivo fugido. Como a importância arrecadada não chegasse, a lguém Explorava a Relojoaria Lordsleem, na rua do Comércio, estabelecimento fechado
disse que o negro seria forçado a regressar ao engenho. Brenand, mostrando há cerca de 1 1 anos passados.
a carteira retirada do bolso interno do paletó de alpaca, gritou: ·o escravo não 78
Em 14 de junho de 1881 chegaram a esta capital três escravos fugidos do en-
voltará às mãos do senhor, porque, cm último caso, cu tenho, aqui, o meu couro genho do Capitão Hortelã, os quais foram libertados pela Sociedade Libertadora
da Rússia ... •. Alagoana, sendo serradas, às 1 1 horas da manhã, na oficina do ferreiro Pedro
73 Jornalista, redator do "O Gutenberg". Delft, na rua do Comércio, presentes numerosas pessoas, as correntes e as fali-
• Dr. João Francisco Dias Cabral, médico, jornalista e historiador. Foi o primeiro
1
nhas dos infelizes.
1
Secretário Perpétuo do Instituto Histórico do Estado. ~ Pedro Nolasco Maciel, tipógrafo e empregado dos Correios. Foí redator-chefe da
75 Aqui hospedou o tribuno Silva Jardim, ainda na monarquia, quando o mesmo
Tribuna do Povo e da Tribuna, mantendo no último desses órgãos, seção deno-
desembarcou do vapor "Alagoas•, que conduzia o Príncipe Conde d'Eu, esposo minada "A Lápis". Escreveu o romance "A Filha do Barão". Presume -se seja o
da herdeira do trono brasileiro, em visita às Províncias. Silva Jardim fazia pro- autor deste romance.
80
paganda da República. Brenand foi o primeiro Intendente de Maceió, logo após a lndividuo encarregado de aprisionar escravos fugidos.
81
proclamação do novo regime. Sociedade Filarmónica Artistas. Mantinha banda de música regida pelo professor
76 Foi Diretor do Colégio Bom Jesus e administrador dos Correios. Figura destaca-
Valério Pinheiro. A sede era na Cambona e Presidente, em 1896, o Cel. Jacinto Paes
da do movimento abolicionista. Fundou e dirigiu a Escola Central, para filhos de Pinto da Silva, destacado politico e figura da alta sociedade local. füval da Minerva.
82
escravos. Nasceu na cidade de Alagoas, em 4 de outubro de 1847 e faleceu no Realizava-se em novembro, anualmente, no então Largo dos Martírios, depois
Recife, cm 13 de outubro de 1918. Praça Floriano Peixoto.
zoz
Pu4o rk~ 7>1(/1,0-d

nas uma brutalidade. A coisa única que a pode justificar é a exaltação do A música deu sinal e os moços e
momento. Encaramos as duas sociedades, aliás, todas, pelo seu mérito in- as moças entraram a dançar - felizes,
trínseco, isto é, pela vibração das notas no instrumental e pela docilidade das descuidosos, no céu em vida. A orques-
harmonias 83 . tra era realmente boa e as quadrilhas
Aquela que melhor executar, será a vencedora. Abaixo o cacete! de uma inspiração a Verdi ou a Carlos
Voltemos à casa de Zulmira. Esta já em traje de baile. Vestido de surah, de Gomes.
longa cauda, com rendas inglesas, sapatinhos pschuts81 nos pés mignons, leque O corredor estava apinhado. Os
catita, as mãozinhas rosais enluvadas. donos da casa, amáveis e obsequiosos,
A caravana partiu. Isto é, música e Sampaio et reliquia já tinham seguido. prestando atenção a todos fidalgamente.
Agora iam Zulmira, D. Maria, Juquinha, Angelina e outros. Dirigiram-se à casa A mesa, cheia de iguarias na saio
do Santos. Era uma festa de Santo Antônio. Tinha se acabado a novena, cantada de jantar, iluminada a querosene no"
pelo Manoel Amãncio85 e outros, o Umbelino Angélico86 tocando ophellif7 , e José "belgas" 91 do Zé Alfredo, estava rodea
Jatobá88 , trombone, e o Pedro Maceió89 , o clarinete. da de cavalheiros e senhoras. Um alfc
A rua estava enfestonada, iluminada a gioma9", bandeiras de cores varie- res fazia brindes ao povo maceioenst',
gadas, palmeiras, crótons, balões subindo ao ar, girândolas. Muita moça, o se- entre o qual encontrara louvável hos
reno um pouco animado. Defronte, numa taberna, dois sujeitos tocando viola, pitalidade.
cantando ao Chico Maceió, que entrou logo com a ficha - mil réis - para o bolso Tudo aquilo foi entusiasmando.
daqueles mestres da vida. Alguns meninos, atacando bichos e diabinhos, quei- num crescendo de animação tal que ü1
maram o chapéu de chuva do Júlio fiscal. Este quis esbordoar. Interveio um 2 horas da manhã ainda se dançavn
terceiro. Seguiram-se protestos, gritos do poviléu: apesar de já haver crianças dormind(I
- Oia o rolo! nas cadeiras, velhas cochilando, ai
- Oia a bomba, nego! guns marmanjos idem. Muito paleit'l
- Fió!!!. .. cheio de cal, arrancado à parede no~
- Lá vai o balão!. .. encontrões durante as polcas e as va i
- Faiou!. .. Cheira a mão, seboso! sas saltitantes, os músicos reclamandfl
Dez minutos depois, fechava-se a alcova, onde estava armado o altar de porque, segundo o contrato, que tinlw
Santo Antônio, e organizava-se na sala um quadro dançante de 16 pares, qua- sido para tocar até meia noite, deviu 111
drilha à inglesa. receber mais a lguma coisa.
83 NR - No fundo, essas rivalidades eram politias.
Fez-se quota entre os presentru
&< NR O termo psch uts n ão foi encontrado. mas ninguém aceitou, dois ou três p11
- Ma11oel Amanc10 dos Santos, estabelecido com marcenaria à rua do <..omérc10, 125 e:: 129.
86 Umbclin o Angélico Sabino de Melo, músico e editor proprietãrio do seman ário ·o Momen to~.
garam tudo , mandando para o inferno
87 NR - O termo ophelly não foi encontrado. os montadores de venta.
88 Conh ecido como José Trombone. Músico e alfaiate, residente na Ladeira da Catedral e na mesma artéria faleceu.
9
89 Músico. ' NR - Belga: tipo d e candeeiro de grandes dunenn!)fll
90 NR - No sentido usado no texto, a expressão a giorno deve significar: fartamente iluminado, como a luz do dia. suspenso do teto.
zo~
~~po~ ~ f-t-0~

Em todas as classes e em todas As confrarias levam oito a dez anos, com poucas exceções, sem renovarem
a s sociedades desta terra há isto, infe as Mesas regedoras. A de Nossa Senhora dos Prazeres95 extinguiu-se por culpa
lizmente. Sócios trabalhadores, pontu- dos vigários preguiçosos, políticos uns , jogadores de gamão outros, e a Excelsa
ais nas suas contribuições, assíduos, Padroeira, depois de mais de vinte anos de esquecimento, veio a ser agora feste-
i'IOM beneméritos; e sócios in nomine, que jada, graças à iniciativa do chapeleiro Quintas Maia96 e do André Espíndola.
não pagam as quotas, não dão um pas- A Irmandade do Santíssimo Sacramento97 , quando aparece, é para brigar
º" so em favor da sociedade, refratários, por questões de charola, em público, com o maior desplante.
Iº"'
'lle.
prontos para usufruir todas as vanta- Não admira, pois, que entre o rapazio jovial e travesso, reunido em passa-
gens, esquivos, desleixados no cumpri- tempos , a legião dos "cauíras"98 se avoluma em todos os clubes e, desde o mais
~tio
r mento dos deveres a que são obrigados. elevado até o mais humilde, os patos sejam depenados.
:1oa O Instituto Arqueológico e Geo- À vista da recusa de uns, esfriaram os outros. A debandada principiou. As
gráfico Alagoano92 por falta de paga- damas despediam-se em voz alta, aos beijos, aos abraços recíprocos. Embrulha-
mento de mensalidades, extinguiu es- das em .fichus99 cor de rosa, azul claro, aos grupos. O Antônio Pacheco, barão do
tas, quando ainda viviam o seu precla- Coqueiro Seco, com os seus enormes bigodes vermelhos, chapéu de palha, paletó
ro fundador Dr. Dias Cabral, secretário de seda muito lustroso, lenço ao pescoço, sobraçando a capa de borracha, pôs-se
perpétuo, o venerando Dr. Roberto Ca- em ordem de marcha.
~n, lheiros93 e o não menos digno 2º secre- Juquinha, Zulmira e D. Maria estavam de pé, num rendez-vous muito so-
lifl tário Arroxeias Jayme94 , que foram os lene e sacudido.
li, mais fortes esteios dessa instituição; e Saíram todos.
lo passou a viver exclusivamente da sub- O Sampaio mandou distribuir grogs a o sereno. Deram-lhe vivas. Arranca-
'lo.
li· venção que lhe dava a Assembléia Le- ram os lampiões de papel e seguiram a iluminar o caminho por onde transitavam
gislativa, hoje mantida pelo Congres- as senhoras e os cavalheiros que saiam do sarau.
18
so Estadual. A Associação Comercial Subiu o último balão daquela noite de festa. Era vermelho, de papel de seda
anuncia duas e três sessões para fazer transparente, muito estalador, atirando à direita e à esquerda, para todos os la-

'lnº
li
a eleição de sua diretoria anual, sessão
única durante o ano, e realiza a eleição
com o número de sócios que compa-
dos, balas incandescentes, ascendendo muito a prumo, sério, grave, desafiando
as estrelas, ameaçando rasgar as nuvens.
Depois cambaleou, sacudido por uma refrega mais forte , e a chama do can-
rece, às vezes igual ou menor ao dos deeiro ateou-se ao papel, incendiando-o.
~1 membros da dita diretoria.
95 Irmandade cujo compromisso é datado de 1878.

h 92
De há muitos anos e o Instituto Histórico de AJago- ""Proprietário de uma chapelaria n a rua do Comércio, 131 .
as. Fundado em 2 de dezembro de 1869. q-, Foi fundada em 1° de março de 1825. Seu primeiro escrivão foi Reginaldo Correia de Melo, primeiro Juiz de
93
Dr. Roberto Calheiros de Melo, político e legislador, Órfãos de Maceió, que deu nome ao riacho conhecido como Maceió e Salgadinho. É a mais antiga confraria
presidiu a Província e o Instituto Histórico. Faleceu existente nesta Capita l.
li, em 8 de maio de 1895. "'~NR - Cauíras: pessoa avarenta.
9 ' Manoel Claudino de Arroxeias Jaime, historiador. 99 NR - Fichu: palavra francesa que significa lenço de pescoço para senhoras.
Z01
'Pe-k no~ "P/çr,oid

Raiou por alguns minutos aquele novo sol nas trevas em pé, na esquina, fumava num cachimbo de barro, en
da noite, e o candeeiro veio descendo, rapidamente, até cair costado ao poste.
na areia fulva da rua. A patrulha reunia-se para recolher. Passara um ind i
O sereno berrou por suas quarenta e tantas bocas e viduo preso, esbordoado. Uma brilhatura da nossa bravo
foi buscar triunfante aquele facho luminoso, que foi trans- gente dos quartéis.
formado em farol para tirar do lamaçal as devotas de Santo O Anselmo 105 , tintureiro, ouvira dizer que o preso fo rn
Antônio em regresso aos respectivos penates100 • apanhado arrombando uma porta. Qualquer que fosse o de
É isso, são esses incidentes, na aparência sem impor- lito não autorizava tal barbaridade. O espancamento n ão
tância, que dão a nota, o chiste, a poesia às festas popu- corrige, nem edifica. A violência é um crime.
lares. Tirem delas a molecagem maltrapilha, a meninada Os ladrões campeiam. Todas as noites varejam as ca·
buliçosa, a massa anônima em suas expansões genuínas, sas e os quintais. Entretanto, pobres diabos, que nada fü.
a música dos carapebas 101 , os cavalinhos, o trivoli, a casa zem, pagam as favas que o asno comeu.
inglesa 102 , as três pancadas, reduzam -nas à a ris tocracia Ali mesmo, em frente à igreja, apareceu pela manhll
egoísta, às maneiras estudadas, sérias e graves das pesso- de um sábado, véspera de carnaval, o cadáver de um indiv1
as educadas, ao indiferentismo dos burgueses pançudos e duo que se chamou em vida Honório Bispo. Tinha ferime n
ao riso alvar do bacalhoeiro sebento, e tudo fica monótono, tos graves, estava de bruços, a boca cheia de areia, o ros to
fúnebre como um enterro, triste como rezas de freiras em cheio de escoriações ao lado de um cacete.
naves friorentas das ordens franciscanas. Fora policial, depois vagabundo, jogador.
Graças à improvisada iluminação, em menos de dez Caíra ali? Fora para ali conduzido?
minutos estavam todos na Praça Deodoro, sob o influxo A polícia nunca soube responder a esses pontos dt•
benéfico da iluminação elétrica. Enfiaram pela rua do Li- interrogação.
vramento. Na calçada da igreja estava um grupo a discutir. O crime ficou impune. A Gazeta de Notícias explorou 11
Eram o professor Filinto 103 , o José Leocádio do Orbe, o Fa- fato, mas nada adiantou no interesse do esforço que a Ju li
rias , o André Espíndola e outros. O Ponciano barbeiro 1º4 , tiça devia tirar em desagravo da sociedade.
'
00
NR - Pen a tes: la r , fa milia.
Honório Bispo foi para a vala, os vermes tiveram nove•
'º· Músicas ma l e n saiadas. carniça. Tudo estava acabado.
'º 2 Proporcionava diversões , p ri ncipalmente as criança s, n as festas de por ta de Dias depois surge outro cadáver na praça da cadew.
igreja, cx>mo a dos Martírios.
'º3 Felinto Cotrim, m estre de Francês. Um homem varado de faca.
104 J osê Ponciano dos Santos , membro de u rna dinastia de ligaros. Extraia dentes

com torquês cm seu estabelecimento à rua da Boa Vista. Certa noite, nu m circo
Estivera num coco, no Beco do Leite 106 • Os seus cot11
mon tado na praça d o Montepio, apareceu Chico Ba rbeiro, como palhaço deli parsas foram presos, a dona da casa também. Faltava, po
c1ando a ass1stcnc1a com suas pilhérias e emboladas, sendo reconhcc1do L muito
aplaudido. Ven do o colega sen tad o na geral, Ponciano improvisou ao violão:
"O Pon ciano barbeiro Humanitol era um preparado para doenças do pulmão, d a Farmácia Fidehd111I
Toca flauta em si- bemol. à rua do Comércio.
Tem m u ita for ça no pleito, º Anselmo Leite, com tinturaria à rua Barào d e Maceió.
1 5

Pois tomou Ilumanitol". 10 6 Rua Guido Duarte, presentemente.


Z05
r~~I:; r"U>~

1ém, um dos s uspeitos. Mais tarde, capturado, confessou o D. Maria em pouco tempo deu ordens e a criada expôs
ime. Um rapaz novo, de 18 anos de idade, vulgo Joaquim
t 1 à mesa o que havia de melhor em iguarias
Pecó. Entrou para a cadeia, cujo portão de ferro fechou -se Todos tomaram assento. O Juquinha abriu a garra-
para ele durante sete anos. fa de D. Carlos 107 para o belo sexo, o sexo feio foi regando
Mas os crimes reproduziram-se. Uma pobre mulher aquelas gulodices com o Fritz-Mac chamado de pasto.
alienada, por nome Delphine, amanheceu esfaqueada, à Cada um ia fazendo espírito como melhor entendia.
rua da Ponta Grossa. Bateram à porta. Era o Manoel Barbeiro, conhecido por
J á eram 8 horas do dia e lá estava o cadáver ensan- Pensamento 108 , que toca flauta de orelha e come por dois.
guentado . E a polícia, em que terra, em que mundo se es- Os convivas estavam expansivos e não se incomoda-
condera, essa miragem encarregada de manter a ordem, ram por tão importante visita.
evitar os crimes, punir os delinquentes? - Meus senhores, diz o recém-chegado, boa noite! En-
A polícia dormia. As autoridades superiores descansa- tão ternos um pensamento de pirão?
vam do excesso das valsas num baile de véspera; o subdele- E sem cerimônia, sem ninguém o chamar, desca rada-
gado jogara em casa do José Felismino, na Matança. mente, entornou todo o vinho que havia num copo à mão.
Foi um homem do povo, o cidadão Manoel Bento dos E sentou-se, preparou ele mesmo seu prato, e ei-lo fe ito, a
Prazeres, quem o procurou e por indícios muito veementes pulso, comensal daquela troupe.
indicou-lhe o criminoso. Principiaram os brindes, o Tavares solenizava-os com
No pitoresco arrabalde do Bebedouro e na Chã da La- chulas brejeiras, repicando acordes ao violão, com esgares
deira, um miserável invade a choupana onde dorme uma na voz rouquenha, os dedos cheios d e anéis baratos.
familia e mata a talhos horríveis de foice a mãe, a filh a me- Aplausos, palmas, aclamações ... Esgotavam-se as ta-
nor, retalha carniceiramente uma criança do sexo masculi- ças amiúde e às 3 horas da madrugada dissolvia-se a troça
no. Pela manhã, ele mesmo, miserável e cínico, é o primeiro no meio de calores báquicos.
que se apresenta no teatro do crime, e carrega com outros E foi assim divertida essa noite para Zulmira, por
numa rede para a capital aqueles destroços humanos, re- amor de quem o pobre Manoel, o seu noivo palerma, sofreu
sultado miserando de seus ferozes instintos. os azares inauditos do capítulo anterior.
Se o povo adivinha, o t eria linchado. Mas a culpa con-
dena, e assim o miserável não tardou em vir pagar à m as-
morra o tributo do seu gênio tigrino.
Deixemos estes incidentes e acompanhemos a carava-
na que segue à casa de Zulmira, onde todos entraram ofe-
gantes, com o apetite estimulado pelo cognac e o vermouth. ..
Angelinha, a Didy, a Terezinha, a Lica, Juquinha , tO?Vin ho do Porto.
108Manoel de tal, barbeiro de profissão, tipo popular, amigo do Deus Baco, tocava
Serafim e o Tavares, com um violão , cantando a serena flauta, muito bem, aliás, ao que se dizia. Depois lavava o instrumento na sarjeta
estrela ... e o guarda va, cuidadosamente, numa caixa forrada de veludo.
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III
o meio da sua exaltação amorosa, na qua-

N se alucinação a que o amor de Zulmira o


levara, o pobre rapaz teve um momento
lúcido.
Concatenando os fatos, pensando criteriosa-
mente em todas as circunstâncias desairosas que
ladeavam de modo prematuro os seus passos acer-
ca, via-se ludibriado, teve horror à sua fraqueza e
protestou voltar em meio do despenhadeiro onde se
ia precipitando.
Então viu tudo claro. Zulmira, embora formo -
sa, não era mais do que uma caveira bem vestida,
na frase do grande vigário Vieira, e este mundo não
é mais do que um covil de ladrões, segundo o mes-
mo autor. A mãe de Zulmira era uma ladra muito
reles, e se não figurava nos alcoices 109 do Tabuleiro
do Pinto 110 entre os ladrões de cavalos e o assassino
vulgar, convertia o próprio lar em guarida de ocio-
sos e viciosos, envenenando com torpezas o ar que
a filha, à força de respirar, acostumaria os pulmões
aos ambientes deletérios.

109 NR - Alcoices: prostíbulos.


110 Povoado do antigo município de Santa Luzia do Norte.
208
Putvo no~ 'J11,:t;o1,el

Aquela menina estava degenerada, era tarde para tentar salvá-la. Revelava de pé, atentos, de olhos cerrados, si-
já astúcias do mau agouro e nunca demonstrou por atos ou palavras amá-lo, lêncio profundo reinava na sala vasta,
sinceramente. O simples fato de não repelir, e antes cumprir fielmente os man- no segundo andar de um prédio, à rua
damentos de sua mãe perversa, era bastante sintomático. do Comércio, destinada especialmente
Virtualmente estava perdida. Quando o espírito chega ao deplorável estado àquele fim.
de obcecação a que o dela se achava reduzido, só um forte abalo moral e a influ- O Pedro de Alcântara benzeu-se
ência poderosa de um meio são, onde a energia do censor suplanta a rebeldia do pausadamente, com a destra disten-
transviado, pode atenuar o principio e vencer por fim, arrancando às agruras do dida, os dedos compridos e delgados
destino o ente condenado aos horrores da desgraça. como que trêmulos, olhos fixos no teto,
Manoel tinha alguma experiência do mundo. Nascido em Maceió, perdera a mão esquerda pousada sobre a mesa
aos três anos o seu genitor. Mãe não conhecera, porque nasceu matando-a. triangular.
Teve alguma educação e regular instrução. Estudara latim com o padre O professor Sant'Anna era o mé-
Amâncio 11 1, esse notável sacerdote cujos versos ainda hoje têm a doçura e o dium. Estava s entado à mes a com os
encanto místico de sublimes inspirações; cuja letra parecia antes pintada que óculos de grau muito reluzentes, o te-
traçada a um ligeiro manejo de pena. cido adiposo do rosto vertendo um lí-
Seguira para o Rio, onde aprendeu a arte e voltou à terra natal com ideias quido oleoso, de pena em punho, a
metafisicas. Acreditava nas ciências ocultas, no espiritismo, invocava, era médium. mão sobre o papel.
Uma vez, de parceria com o José Egídio, invocou o espírito do finado Ale- O José Egídio, em distância, tra-
xandre Raposão 112 , o qual veio muito azougado, fedendo a enxofre, carbonizado jando preto, longo croisé, os ossos fa-
nas caldeiras do Pedro Botelho, e declarou que S. Pedro o atirara do céu abaixo ciais muito salientes, olhos arregala-
para vir ao mundo mudar o nome. dos, cabelos em desalinho, o laço da
O Manoel resolveu consultar outro espírito para ouvir dele o que pensava gravata troncho. O Severiano 113 alfaia-
sobre o futuro de seu casamento com a Zulmira. Precisava de um médium. te mais adiante, com as ventas muito
O José Egídio e o professor Sant'Anna organizaram uma sessão. A invo- dilatadas arfando sempre; das narinas
cação, feita pelo próprio Manoel, foi demorada. Nada produziu. A cadeira de saiam cabelos de espetar mangamas
espaldar afastou-se do lugar em que estava, algumas assistentes sentiram nos que iam confundir-se com os bigodes
ombros o contato de mãos invisíveis, chorou uma criança, mas de positivo, nada. espessos; por aqui e por ali muitos
Nesse ínterim, compareceu o Pedro de Alcântara Moreira, desenhista, tam- adeptos da seita.
bêm adepto do espiritismo e invocador de prestígio no meio de sua troupe. Tomou
a direção dos trabalhos. A s essã o revestiu -s e de uma solenidade n otável. Todos 113
St>veriano Cândido da Silva era estabelecido com
alfaiatan a à rua 1º de Março (a tual Aven ida Dr.
111 Manoel Amâncio das Dores Chaves, sacerdote católico, professor de latim do Liceu Alagoano, jornalista e Moreira Lima), nº. l 72. Deixou a tesou ra, sendo
renomado orador sacro. nomeado Porteiro d a Secretaria do Interior. l::ra
111 Também conhecido como Alexandre Taba cão. Negocia va n a rua do Comércio, num prédio hoje ocupa do afamado ensaia dor d e pastoril em s ua re sidênc ia,
pelas Nações Un idas. Tom ava muito "torrado". Usava grandes lenços verm elhos de negra-da -costa e vivia à Avenida Santos Pacheco, e faleceu há 5 ou 6
s empre com as narinas s ujas de ra pé. lus tros.
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r;,,~~ f!; r"tA)~

Completo que ficou o ato, ouviu- pouco preferível. .. Nesse vale de lágrimas ninguém foi mais pândego e trocista do
ht um som vago de flauta rude, depois que eu, mas tive a felicidade de saber escolher uma companheira, cuj as virtudes
ouviu-se mais pronunciadamente um o mundo ainda hoje na sua viuvez pode atestar.
dueto. - Bem, estou satisfeito. Podeis retirar-vos.
- Quem está presente, perguntou Quero pedir um favor: "Dizei ao autor de uns artigos que saíram no Gu-
o Alcântara? temberg, com o título Valério, que ele esqueceu-se de dizer que na qualidade de
A mão do professor Sant'Anna, amador também figurei no palco".
médium, começou a tremer. Foi gara- Encerrada a sessão, todos acercaram-se da mesa, e o Manoel ouviu boquia-
tujando o papel, mas produziu traços berto a leitura de tão lamentáveis declarações ...
incompreensíveis. Dissolveu-se a reunião, e ele se recolheu à casa inteiramente absorvido por
O Alcântara reforçou a invocação. aquela impressão detestável.
ê - Vós, que estais presente, escre- Meia hora depois, seriam 9 da noite, bateram à porta. Abrindo-a, Manoel il
1

º"
t!'.'
vei o vosso nome; exijo em obediência
aos mandamentos da vossa existência
recebeu das mãos do Olympio Raposa urna carta fechada em finíssimo envelope.
Cheirava a sândalo. Um pressentimento assaltou-o, entretanto não teve co-
li incorpórea. ragem de perguntar quem a enviara. Se ouvisse pronunciar o nome de Zulmira,
A - O dueto da flauta parou. talvez devolvesse a carta intacta. Sua dignidade ofendida reclamaria em altos
A mão do médium começou de brados, protestaria energicamente contra a afronta a seus brios revoltados.
,Q novo a tremer. Foi traçando caracteres Maquinalmente, atônito, sem saber o que fazia, rasgou o invólucro. Encon-
h legiveis. O invocador leu o seguinte: trou um retrato de Zulmira com a dedicatória mais pateticamente cabalística que
- Estamos presentes eu, o Valé- é possível imaginar. Romeu nunca ouvira nem lera frases tão doces endereçadas
ln rio114, maestro alagoano, e o meu sau- por Julieta ...


lo
doso mestre Sant'Anna Torres ...
- Dizei-me, pois, o que pensais
Graziela não gozara daquilo, ela que teve em sua honra todas as fantasias
de Lamartine ...
)8 sobre o casamento do Sr. Manoel com Eleonora não fora alvo de iguais gentilezas escritas por seu emitente con-
[18 Zulmira? quistador.
F8 - Conheci esta menina e sua E o retrato fotográfico era da mesma chapa que ele vira no bonde, em mãos
>8 mãe ... Dancei muito com ela e tenho do Serafim. Fora distribuído à troça, na noite em que Manoel andara atolado nos
saudades das valsas e dos tangos que mangues e Zulmira dançava à vontade no sarau do Manoel dos Santos.
na sociedade Recreio dos Artistas 1 15 Era impossível que Zulmira tivesse escrito aquela dedicatória, ela que dizia
!'n ela prodigalizou-me. É muito versátil, heresias gramaticais e muito mal sabia ortografia.
"
1.
itt• gênio irascível e para esposa deve ser Outro que não o Manoel teria notado logo isto , e não seria difícil entrar
~·11 no conhecimento de que o Aristeu 116 fazia versos à sua noiva, gabando-lhe os
li, 114
Professor Valério Pinheiro, mestre da banda de
li
música da Socied ade Filarmônica Artistas.
m sociedade dramática. 116
Aristhcu de Andrade, promotor público desta capital, poeta, orador, a utor do livro de versos Noivado.
Z/0
PeduJ n-o ~ 1-11t:r-c-i&t
contornos, a vermelhidão carmínosa dos lábios, o relancear generoso, confundindo com o dele o hálito da sua enamorada,
magnético dos olhos, o torneado das pernas, e no dia de as lágrimas de ambos formando urna só lágrima...
seus anos, em que o salão azul se abrira para dar-lhe en- Quanto veio a despertar desse sonho de acordado, es
trada triunfal, o Aristeu dera à estampa um soneto livre, e o tava em plena rua, vagando, sem saber para onde ia, nem
Jobim 117 um anagrama ainda mais licencioso do que a Ne- o que queria.
vrose Lyrica publicada na revista Paulo Afonso 118 . Se o Au- A lua desafiava na limpidez de sua bondosa luz os
gusto Satiro 119 não estivesse, por doente, fora da imprensa, raios majestosos das lâmpadas elétricas. As ruas cheias de
teria produzido naquele dia outra Culce, não estaria como gente. Artistas que voltavam do trabalho um pouco retarda
na sua fantasia o criou a primeira mais voluptuosa, como dos por ser dia de recebimento de férias, sábado; famílias
na realidade era Zulmira. que passeavam; orquestras sonoras de ocarinas, flautas,
Diante daquela oferta inesperada, o Manoel transfor- harmônicas e violões.
mou-se repentinamente. A sociedade Ástrea funcionava com um magnífico s a
O espírito era talvez um m entiroso, talvez m esmo nem rau . O sereno era esplêndido. Famílias distintas, o oficial da
fosse o Valério. ronda policial com as suas ordenanças. Dançava-se uma
Era possível uma traição do médium. A prova de que valsa. O Manoel Cavalcante, o Olympio Fausto 12º, o Góes
Zulmira o amava estava ali, palpável, naquela esplêndida estavam na ponte.
fotografia, naquele amabilíssimo oferecimento, em gentileza O Pedro Nolasco estava no buffet. Não dançava. Na
daquela dedicatória ... quilo havia um mistério. Contra riedades? Despeito? Nada
O seu espírito entrou numa luta terrível. O coração ce - disto. Ele vive hoj e das glórias do passado. Sua presença
dia, a razão repelia. Teve desejos veementes de correr à casa ali significa apenas uma condescendência gentil para com
da moça, contar-lhe todos os seus sofrimentos , as desditas de amigos dedicados.
sua paixão, a sua leviandade em pedir aos espíritos informa- O Manoel parou, teve inveja da felicidade dos outros
ções que eles deram tão más a seu respeito, ajoelhar-se a seus que ali brincavam descuidosos e ignorantes das peripécias
pés, desafogar em lágrimas num pranto sincero de dor essa desgraçadas que tanto o faziam sofrer.
agonia tremenda de sua alma, para obter o consolo de uma De pé, encostado à bengala, recebendo em frente todo
promessa, o estímulo tonificante de um juramento solene. a luz que dos candelabros da sala saía hilariante pelas jane
Entreviu Zulmira abraçada a ele, com os cabelos derramados las, olhando para o tumultuar dos pares dançantes naquele
sobre os ombros, os seios contraídos sobre o arfar de seu peito borboletismo entontecedor, era tal a sua preocupação que
nada via nem ouvia.
117 Da família Jobim aqu i residiam: Crisanto, guarda da Alfandega ; Hugo, empre- Chegaram novos especta dores , que se aglomeraram
gado mu n icipal e JOrno.lista; An ísio, jornalista; um outro, funcionaria do Tesou-
ro do Esta do. Não sei a qual deles s e referia o a u tor .
em tomo dele, acotovelando-se, rindo-se, falando muito.
11s Revis ta, dirigida pelo professor Luís Lavenêre.
119 Augusto Satiro de Vasconcelos Gonçalves, bril ha nte jornalista alagoano, faleci-

do há 40 anos, aproximada me nte. Suas crônicas diárias eram apreciadíssimas. ' 2º0límpio
Fausto Men ezes e Silva, funcioná rio da Secretaria do Inte rior, foi dcpol•
l lá mais de meio século vinha com as facu ldad es menta is a lteradas. Escrivão do J uiz Federal. Irmão do Coronel Pa es Pinto, prest igioso p olítico.
Zll
f"U'f,po~ e- f-tA>~

Deram-lhe um forte encontrão, que o chamou a si. empacotadas, por séries, maços de cada um valor, alfaias
Limpou o suor da fronte, acendeu o charuto. Tinha necessi- de prata de alto preço, redomas, o livro com o arrolamento
dade de andar. Para onde iria àquela hora? de seus prédios urbanos à vista, o rol dos devedores ao
Abalou. Em vez de sair pela frente da chácara, onde lado, as escrituras de hipotecas, cuidadosamente conser-
funcionava a Ástrea, saiu pelos fundos. Achou-se na Rua vadas, e de nada lhe serve isto que era da vida, e que nada
dos Militares 121 , vulgarmente conhecida por Sovaco da Ove- tem com a morte.
lha. Havia um samba. Gente ignara cantava coplas em de- Era o samba que continuava duro, com gritos que su-
safio. Saíam grupos de três e quatro para a taverna do Luiz blinhavam aquele entusiasmo crescente dos dançadores.
Fé em Deus 122 • O Peixinho, carregador, dava vivas à rapa- Tudo dizia ao Manoel que ela ia mal, e a distração
ziada e à pândega; o Caboré, servente da Estação Central, que não encontrara nos bailes, nas músicas, nas palestras,
tirava o coco. As horizontais, quase todas de última classe, achou ali, na simplicidade rude dos brinquedos populares.
sapateavam no tijolo como um corrupio sacudido por ven- O Jerônimo pedreiro andava em serenata, tocando
to forte. De dentro da casa, onde assim dançavam aqueles violão e cantando. Um sujeito atirou-lhe algumas pilhérias,
foliões, saía um ar quente, empoeirado, doentio. Era um que foram repelidas.
composto de catinga de xexéu aromatizado com aguardente - Não tenho os olhos na barriga cobertos com as ce-
dos Gregórios 123 • roulas, disse ele.
Pendurado à parede da sala, espalhava um candeeiro - Cala a boca, focinho.
de fo lha a sua luz baça no recinto ocupado pelos dançari- - Focinho é ele, garapeiro.
nos. Em todas as caras - o riso, a satisfação, o prazer. Em - Fica manso, mano. Eu não converso com gente da
todas as classes e em todas as condições o homem é feliz e canela suja.
sente-se bem. E o Jerônimo cantou já em retirada: - Virgem, tu és
As alegrias d'alma, como as dores fisicas e morais, inocente ...
não são privilégios de ninguém. Esses pobres diabos que A sua troça acompanhou-o.
tão alegremente se divertiam não tinham talvez no bolso Aquela modinha cabalística, cantada com voz requin-
um níquel para o bonde ou para o grog no dia seguinte, tada, violão sonoro a marcar gravemente os compassos,
porque eles não se preocupam com o dia de amanhã. Em ecoou na praça do quartel de linha 125 , hoje dos menores
compensação, o major João Graça 124, doente, com o estô - aprendizes marinheiros, por onde o Jerônimo seguiu.
mago estragado, morre com a burra aberta, as moedas re - O Manoel acompanhou-os. A sineta do quartel anun-
luzindo aos seus olhos de moribundo, as notas do tesouro ciou com três badaladas a mudança de quarto; eles atraves-
saram a praça por baixo da sombra que o gameleiro projeta-
121
Conhecida como Suvaco da Ovelha. É a atual rua Coronel Vieira Peixoto, nome
dado pela Lei 53, de 2 de março de 1899. va naquela pitoresca avenida. A sentinela bradou, mandou
22
' Tavcrneiro. que passassem de largo. Atravessaram pelo oitão do depô-
123
Povoado à margem da estrada de rodagem, no então município de Santa Luzia
do Norte, entre Satuba e Pilar.
12• Rico proprietário e comerciante, emprestava dinheiro a juros. • 25 Atual Praça da Independência.
2(2
'Pu4o 71-o~ 'Pl~d

sito dos artigos bélicosn6 . Não havia sentinela. Antigamente era ao contrário. O O pobre rapaz, não acostumado a
Diretor do Gutemberg 127 , indo ali uma noite fazer a sua vontade, foi preso por embriagar-se e a andar em tão lamen-
ordem da polícia, mas a polícia no outro dia protestou e disse que nada tinha tável estado, merecia antes proteção e
com tais sujidades. conforto que violências e maus tratos.
Atirou talvez a responsabilidade para a então câmara municipal. Mas a câ- Aproximou-se um grupo. Era o
mara, que deixa a raça canina exibir outras cenas em plena rua, de dia, de noite, Lamego, o Barreto e outros. Protesta -
a qualquer hora, proíbe que o cidadão à noite se encoste a um muro, num lugar ram contra aquela barbaridade. Apita -
ermo, para evitar talvez ataque de volvo? ram. Apareceu o oficial da ronda. O al-
É uma desumanidade, uma falta de equidade. Dão toda liberdade aos cães. feres Gonçalo. Soltou o Manoel. Man
Negam uma ninharia aos homens. dou o soldado indigno da sua missão
A pândega em serenata enfiou pela rua da Marabá 128 • Na venda da esquina se recolher preso ao quartel. Levaram
fizeram uma libação. O Manoel pagou. Bebeu duas vezes: a primeira vinho com o Manoel para o hotel do Barreto. De
cidra, a segunda cognac puro. Parecia ter vontade de se embriagar. O Lamego ram-lhe amoníaco a cheirar. Café com
chamou-os. Mandou-os entrar. Trouxe um bule e uma xícara. Em vez de café limão, sem açúcar, deitado no sofá ele
continha cana. Todos beberam, lambendo os beiços e dando estalos na língua. adormeceu.
Chegaram o Manoel Pagão e o José Barreto, meio maus, fazendo estouros, sole- Tiraram-lhe o relógio, a cartei
trando xaréu ... Organizou-se um samba. O Manoel, meio quente, meteu-se nele, ra. O Lamego abriu esta, contou o di
e dançou e bebeu até 3 horas da madrugada. nheiro, deu-o a guardar. O retrato d<•
A esta hora, bêbado, armou-se de faca, que tomara a outro em piores condi- Zulmira ali estava. Não precisava m ai1-1
ções. Subiu. O ar frio refrescou-lhe o cérebro. Lembrou-se de Zulmira, mas o seu procurar a mulher causadora de tama
pensamento foi hostil, de revolta. O coração batia-lhe fortemente, mas as pernas nho desastre. O cherchez la femme do
fraquejavam. Caminhava a esmo. Encontrou a patrulha. Foi preso. Estava armado, magistrado francês evidenciava-se no
bêbedo, era um vagabundo. Fizeram-no seguir caminho da cadeia. Felizmente, não caso ocorrente.
tinha no momento consciência do que lhe estava sucedendo. O álcool embotara-lhe O Pismel e o Guimarães, prestid i
a razão. Um soldado, de sabre em punho, empurra-o para a frente. Ele caíra de gitadores, que andavam a fazer reclo
bruços, ferira-se. O cabo da patrulha censurou o praça insolente. Levantaram-no. mos de sonâmbulo vagando no espaço
Aquele proceder era uma infâmia. Uma polícia recrutada entre assassinos e de degolamento da mesma, estava lll
e ladrões, incumbida da segurança pública e de vigiar cidadãos dignos! ... Infeliz- na outra sala em regabofe, depois do
mente é isto o que temos tido sempre. espetáculo. Ainda nada tinham feito do
126 Construido pelo então Coronel Floriano Peixoto no Largo da Cadeia, hoje Praça d a Independência. Não mais que anunciavam em grandes cartaze
existe. Ficava em frente ao Quartel da Polícia; serviu de alojamento ao Tiro Alagoano, 28º da Confederação e coloridos, pregados pelas esquinas dn
ao Tiro de Guerra 637. No local foi construida casa residencial há uns 12 a nos.
127 Jornal diário, deixou de circular, definitivamente, empastelado pela segunda vez, em meados de 1913. Per- ruas da cidade, e o nosso povo ingênuo
tencia, então, ao Dr. Eusébio de Andrade, Deputado Federal e, posteriormente, nosso representante na
Câmara Alta do País.
ainda lhes dava grandes enchentes no11
1 ~ 0u Beco da Marabá. É a rua Agcrson Dantas.
3
repetidos espetáculos.
êl~
r;~po~ e- r'U>~

Mas o nosso povo é assim. Deixa Pobre moço! ... Colhido nas malhas de tão intrincada rede, pagava pesado
qut lsmênia dos Santos 1 retire se da')tj tributo à vaidade humana , sem aliá e:; ter c:;ido um perverso. à laia de conquis-
qu1 sem concluir a série de espetáculos tador.
nnunciados, ela, que além de seu mé- O hotel foi invadido por grupos diversos, uns que vinham de orgia, do jogo,
rito, trazia um galã do quilate de Eu- dos bordéis - tomar café e cognac; outros que se levantaram para tomar o trem,
genia de Magalhães; o nosso povo dá às 5 horas, em viagem para o interior.
essa triste prova de seu gosto artístico O Cajazeira entrou narrando que lhe furtaram à mesa do bacarat urna
e literário, e corre pressuroso ao circo nota de 50$000, gaguejando, muito exaltado. O João Bagre, o Luiz do Vigário, o
de cavalinhos a ver o homem bala, o Cascavel 130 vinham com fome, pedindo um petisco, ovos a la coe - trais minutes,
urso, o elefante, o palhaço dançar no antes que o dia clareasse. Já o Livramento 13 t abrira-se e o mulherio devoto che-
arame bambo e o Pismel e o Guimarães gava; o padre Procópio 132 , de óculos, limpava as ventas com seu enorme lenço
flautearem da sua inocência de basba- vermelho, à espera que o Ponciano abrisse a porta para avivar-lhe a coroa; outro
ques! padre entrava ligeiro na igreja, querendo dizer primeiro a missa. O mulherio fa-
Quando os tais politiqueiros saí- nático protestou, retirou-se do recinto. Ninguém queria ouvir aquela missa, a do
ram, de parceria com a Leonídia e a Fe- padre Procópio era melhor. O sacristão deu ao recém-chegado uns paramentos
lícia Tição, deram gargalhadas à custa velhos, a alva muito suja- do tempo ainda que o Cataniceta 133 fez os alicerces da
do Manoel que dormia no peso de uma igreja. Tudo aquilo não se explicava aos olhos do reverendo menosprezado.
bebedeira colossal. O povo estava no seu direito. Não é pelo simples fato de ser-se padre que se
Nem tudo é para todos. O Pis- adquire o direito de ser preguiçoso e maligno. O padre precisa elevar-se à altura
mel levava no estômago dois pratos de de sua missão, não poupando a saúde nem sacrific1os para exercer o sacerdó-
mão-de-vaca, na cabeça dez cálices de cio. Os que assim procedem têm direito ao respeito e estima pública. A coroa e
cognac e meia garrafa de vinho de pas- o hábito não habilitam a contratar missas com Pedro por 5$000 e dizer as de
to, mas não dava sinal de embriaguez, Paulo porque dá 10$000. A religião se perde no ânimo de alguns, não é porque
e beberia outro tanto, se mais houves- seja fraca; os seus dogmas são infalíveis, o seu baluarte é invulnerável. É pre-
se e o Barreto não se prevenisse contra ciso, porém, que seus ministros se conservem na altura da elevada posição em
o bico logo que viu escassear a changa. que a Igreja os colocou. Leão XIII, espírito liberal, conciliador, grande filósofo e
A Leonídia não ficara atrás. Ape- grande estadista, é também um homem inatacável em sua vida particular. É um
nas Guimarães e a Felicia Tição foram
mais sóbrios. '"'Cantidiano E. Bandeira dt: Melo Cascavel. Pai ou tio de Othilia Cascavel, débil mental, tipo popular na se-
E riam-se do pobre Manoel, vi- gunda década deste século.
•• Templo consagrado il Nossa Senhora do Livramento, na Praça Dona Rosa da Fonseca.
timado pela sua desgraçada paixão ' 32 Cônego Antônio Procópio da Costa, virtuoso sact:rdotc, capelão da Igreja do Livramento e professor do Liceu
amorosa ... Alagoano. Para não deixar o templo rt:cusou um Bispado, ao que se dizia. Repousa numa sepultura perpétua
no Cemitério da Piedade.
•33 Frei José Maria Catani<..-etta, italiano, capuchinho, promoveu , nesta capital, diversas Santas Missões. Muito
·"' Arti:>La teatral, aqui de passagt:m. trabalhou para a conclusão da Igreja do Livramento.
21/.f
P~no~m~d

chefe modelo. Se Pio IX fosse no trono de S. Pedro substi- ali mesmo, junto a mesa de jantar, alijou carga ao mar. Um
tuído pelo cardeal que todos indicavam como seu sucessor, suor frio caía-lhe da fronte. Passado aquele momento, pediu
a Igreja tinha perdido, aceitando por chefe um padre cujos água morna, lavou o rosto, tomou café.
filhos escandalizaram o mundo católico correndo demandas O Barreto apareceu-lhe, contou-lhe minuciosamente o
ambiciosas em disputa dos bens deixados por aquele sacer- ocorrido, cobrou 5$000 pela dormida, entregando o relógio
dote libertino. e a carteira que guardara.
Não vai aqui opinião hostil à Igreja. Somos católicos, O Manoel não acreditava no que ouvia contar a seu
porém Cristo também enxotou do templo os mercadores vis. respeito, parecia-lhe um romance trágico a Ponson Ter-
O dia clareou. O templo estava repleto. O padre Procó- rail134. Porém estava ali sem saber como, e tinha as ventas
pio, depois da missa, fez a sua prática costumeira. Quando esfoladas, o corpo doente, a roupa suja, maltratada. Estava
o campanário repicava anunciando que ao pé da ara sagra- realizado o sonho de prisão que tivera, e se não foi à cadeia,
da aquele virtuoso clérigo levantava o cálix com o precioso aconteceu-lhe talvez coisa pior, o esbordoamento.
sangue do Redentor, o Manoel estremeceu. Acordara. Não Estava no último degra u da sua queda moral, dali em
sabia onde estava. Correu a casa com os olhos, primeira- diante nada precisava para ser crápula. A dificuldade ero
mente fixos no teto, depois em derredor. descer esse degrau e escabujar ao lado imundo da dege
A surpresa invadiu-lhe o ânimo, tinha vaga reminis- neração.
cência do que lhe sucedera. Levantou-se. Andou em volta Outros, menos avisados, têm ido à enxerga do hos
da sala. Foi-lhe chegando à memória a série de circunstân- pital, corridos pelo vício. Força de destino ou frouxidão de
cias agravantes da sua já tão malsinada existência. O ru- caráter, o certo é que moços educados , instruídos, poetas,
bor subiu- lhe às faces; o sangue ferveu-lhe nas veias. Tinha jornalistas, acabaram seus dias numa casa de caridade.
sede. Os lábios ressequidos causavam como que os efeitos De alguns sabemos os nomes, fomos contemporâneos, ad ·
de uma fricção causticante. As glândulas salivares evacua- miramos-lhes o talento e lamentamos a ingrata sorte que
vam pegajosas, aos olhos injetados sucediam-se visões fos- os vitimou.
forescentes. Reconhecendo a casa, o seu primeiro movimen- O Manoel saiu do hotel desapontado, vendendo azeilt·
to foi de horror à própria miséria e procurou por toda a sala às canadas, meio idiota.
e quarto vizinho um instrumento de morte com que pudesse À rua encontrou o Lúcio Soteriano 135 ébrio, fazendo
pôr termo àquela vida inglória. discursos, manobras militares, exercício de fogo, correndo
Nada encontrou que se prestasse ao fim desejado. En- atrás de quem passava, descompondo, sem respeito à mora l
controu um criado, ao qual pediu água, bebendo esta com pública e aos homens a quem insultava.
avidez, na quartinha de barro, sem atender ao fâmulo, que
"' NR - Trata-se de Ponson du Terrail (1829- 1871), escritor francês , autor. ent rr
em brados oferecia-lhe a taça, protestando contra essa fla- outras obras, de "Aventuras de Rocambole", da i a alusão n o texto.
grante infração de etiqueta. 13
'Ve lerano do Paraguai, Voluntãrio da Pátria , defend ia a Monarquia e atacavll 1•
República em discursos bestiológicos , quando estava bêbado, a qualquer horu'
A frieza d'água produziu-lhe cólicas. O estômago tinha em qualquer lugar. Gritava: Sou Liberal! No Brasil n ão há soldados s uficientt'
a mucose intumescida. Os vômitos não se fizeram esperar, e para prender todos os ladrões! Viva o Imperador.
Z/5
r;,,~po~ e- r«>~

O Lúcio era um dos bravos que se bateram no Para- vam já repletos. O Dr. Gouvêa, de chapéu na mão, sereno,
guai, em prol da integridade nacional. Voltara condecorado, de pince nez azul celeste, simpático, e a sua excelentíssima
mas infeliz, perdido moralmente pelo excesso do álcool. Senhora davam mostras das saudades que os pungiam nes-
Uma vez dissera com muito chiste e usando das suas sa ocasião soleníssima da despedida.
frases satíricas, que se o Imperador quisesse punir todos os O Montepio ia incorporado, com o seu dedicado presi-
ladrões, faltar-lhe-ia gente para tão arrojada empresa. dente à frente, o tesoureiro, outro sócio dedicadíssimo, em-
Tão triste coincidência exasperou o Manoel, fez voltar- punhando o bonito estandarte de cetim com borlas de ouro.
lhe a ideia de suicídio. Eram 11 horas da manhã. O dia Tudo imponente, grandioso, significativo.
estava esplêndido. Os bondes estavam enfeitados com bandeiras, escu-
O edificio do Montepio dos Artistas 136 aberto. Tocava uma dos, galhardetes, ramos de flores e folhas de crótons. Os
banda de música. Na praça o povo aglomerava-se. No recinto foguetes fendiam o ar, atroando no espaço.
do salão muitas senhoras das que a sociedade alagoana tem O Manoel envergonhou-se do seu estado. Era artista
de mais seleto em gentileza, formosura, virtudes. Muitos cava- e não estava ali, quando os deveres da classe a isso o im-
lheiros distintos - médicos, bacharéis, negociantes , militares, peliam. Se fosse membro do Montepio, esta sociedade que
artistas, pessoas do povo; as paredes interiores do prédio en- tanto tem elevado os créditos dos que à custa de todos os
festonadas, como sempre; o emblema social no centro da sala, sacrifícios a mantêm, sem dúvida passaria com os outros
em elegante escudo de cores; um quadro histórico da execu- a noite anterior trabalhando, enfeitando, alegres, prazen-
ção de Tiradentes relembrando a altivez patriótica daquele be- teiros, joviais, e não teria o desgosto de sofrer as decepções
nemérito, um busto de Silva Jardim -, o grande propagandis- cuja lembrança agora o acabrunhava.
ta; bustos outros - de Carlos Gomes, de Nabuco, de Deodoro e Na esquina estava o lzaac, dando expansão ao seu gê-
Benjamim Constant, de Dias Cabral, de Floriano Peixoto e de nio, censurando a tudo e a todos , ele, que é um egoísta e
ti Domirngos Lordsleem137 , presidente do Montepio ... vive metido na sua casca como o cágado ronceiro; que elo-
O povo aumentava na rua, a multidão crescia. Era o giou uma vez o povo de Penedo - povo da fiampuba14º - na
~ Montepio que rendia sincera e merecida homenagem ao Dr. sua frase, porque, disse, comprava sem ajustar, e que não
Antônio Francisco de Gouvêa138 , seu dedicado médico gra- dá esmolas porque não é marinheiro rico.
o tuito. Festa digna do ilustre cidadão que embarcava para o Noutra ocasião, o Manoel escutaria as lorotas do Iza-
n Estado de S. Paulo, onde ia fixar sua residência, e digna dos ac. Dessa vez faltava-lhe o bom humor necessário. Doutro
nobres artistas que, agradecidos, o idolatravam. ensejo, ele chamara-o e pedira-lhe para ir com ele alistar-se
Formou-se um luzido préstito que desfilou pela Tra- na Loja Virtude e Bondade 141 , porque com o diploma de vir-
vessa do Livramento 139 , em busca dos bondes. Estes esta- tuoso e bom não se precisava de folha corrida em nenhuma
136
Sociedade beneficente, ainda existente.
emergência.
r!l· '
37
José Domingos Lordsleem, já citado no capítulo li.
1•0
136
Dr. Antônio Francisco de Gouvêa, médico competente, abnegado, professor do NR - O termo fiampuba não foi encontrado.
li 14 1
Liceu Alagoano, chefe da Saúde do Porto, etc. Sociedade maçõnica, com sede à praça do Montepio. Há pouco tempo comemo-
139 Rua João Severiano, conhecida também como Travessa do Montepio. rou seu primeiro centenário.
Z/6
Pu:ho no~ 'Pf(71,oid

Conseguiu desviar-se do Izaac e encontrou adiante o Possidônio ouri- dre Antônio Mirindiba, que no '.fimbó 147
ves142, muito cortês, comendo charuto, monologando, inofensivo, dizendo que é influência legítima e tem dez cabras
era sócio do Montepio, porém, apesar de avisado, esquecera que o Dr. Gouvêa bons para dar surra de peia ensebada
ia embarcar. nos adversários que se fizerem tutus ,
O Manoel abandonou aquele ponto e seguiu para casa onde, chegando, queremos dizer, que não ficarem besti-
tomou o seu banho, vestiu-se e com fome devoradora, com o apetite provocado ficados diante do elemento político do
pelo aperitivo que tomara antes - para endireitar - dirigiu-se ao Hotel Brasil143 , compadre Mirindiba, deles deputados
onde foi almoçar. e senadores, no Timbó.
Encontrou ali o deputado Jayme, descorado, com o cavagnac maltratado, O Dr. Francisco Izidoro 148 discu-
macambúzio. Não era mais aquele rapagão do colégio Bom Jesus 144 . Ninguém di- tia a questão de Porto Calvo, do Mal-
ria que ele com o Silvestre Domingues, o Aguiar, e outros, trabalhou no trapézio vano149 em Jacuípe, o seu projeto con-
e fez a Escada Japonesa admiravelmente; que tocava com maestria o seu clari- cedendo as terras da Trindade como
nete de ébano, muito lustroso, com as chaves de prata muito limpas e bonitas, patrimônio ao futuro bispado.
na república da rua do Macena ... Entrou uma troça de estudantes
Também ali estava o Martins Gomes 145 , mávio poeta, talento másculo, po- jogadores de bilhar que vinham tomar
lemista temível e humorista apreciável; porém muito descuidado, avessado à a cerveja do que perdera a aposta de
posição horizontal numa rede do sertão, ou às caçadas de mocó no seu pitoresco 50 carambolas em 60 minutos.
S. Brás, às margens do caudaloso S. Francisco. Depois do espinhoso trabalho de O Manoel sentou-se à mesa. Veio
dois meses no Congresso do Estado, onde é amanuense, o Martins desaparece, o Sant'Anna apresentar-lhe o menu. Pf'
some-se, ninguém o vê, ninguém tem dele notícias, parece que tomou passagem diu salada, bife com batatas, vinho do
num transatlântico e seguiu para o império de Menelik II, na Abissínia. Porto e Estephania. Partiu um granel~
Ele tem alguma razão. Na câmara redige projetos, dá pareceres, escreve pão, principiou a mastigação daquelcti
discursos, em vez de amanuense é deputado; portanto, durante o resto do ano, acepipes com mostras de quem tinhu
dez meses apenas, vai dormir e engordar. pressa em encher o estômago vazio.
Havia outros deputados e senadores - um comendo, tomando café; outros Entraram dois indivíduos, fala11
discutindo sobre questões de mudança de eira do Largo da Cadeia146 para a do muito alto, batendo com estrondo
Praça da Jurubeba, questões de alta conveniência política, exigida pelo compa- no cimento do ladrilho como se quis<•f1
sem chamar atenção para os "Bostol<111'
1 2
< Possidônio de Santana Nicodemus, estabelecido à rua do Comêrcio, 37, cm 1896. Mudou-se para a rua da
Boa Vista, onde permaneceu atê falecer em 1917 ou 1918. novos.
143 De Joaquim Santana, na rua do Livramento, n. 0 2.
47
' Antigo engenho em União dos PaJmares.
,~ Fundado em 1872 por Francisco Domingues da Silva, o grande Chico Domingues, educador, abolicionista.
" Dr. Francisco Isidoro Rodrigues Costa, Scc t r1111111
8
Do Colégio escreveu o professor Luís Lavenére: da Revista Agrícola e autor de "Conferência A~~111 1-
"O Colégio Bom J esus n ão foi somente o melhor das Alagoas, foi o melhor e o mais bem aparelhado d e todos reira" - Livraria Fonseca, 1905.
os colégios do seu tempo." 149
Engenho em Jacuipe, Porto Calvo, p ertenC"c<tlll' "
145
Amanuense da Câmara dos Deputados Estaduais. Manoel Isidoro da Cunha que foi assassLnodo p1 l11
146 Praça da Independência.
Polícia.
Z/7
~eirr<>"' t:; f-uJ~

O Manoel virou-se. Eram o Sera- tômago e ele tinha no bolso com que satisfazê-las à larga. Quem estivesse com a
fun e o Juquinha. t ísica no bolso que s e aguentasse .
- Mão-de-vaca para dois! Gritaram. - Venha a cana!
- Primeiro, cognac .. . Tragam cá -Apoiado! Venha a cana!
dois cognacs! - Isto sim, disse o criado do hotel, um mulatinho falastrão, chegado há
E sentaram-se precipitadamente pouco do Recife, com avental e gorro branco. Isto sim, meus senhores, a cana é
nas cadeiras de junco, batendo com o que é a verdadeira a brideira.
talher no prato em frente, desenrolan- E entornou a garrafa nos cálices, enchendo três. Cada um virou o seu.
do os guardanapos, cantando o bom- Os pratos de mão-de-vaca vieram para a mesa fumaçando, muito cheirosos.
bardeio ... - Venha o pé de boi.
- Para mão-de-vaca, meus ami- E cada um fez seu prato de angu mexido, derramando por cima colheradas
gos, cana. Isto de cognac não calha, de molho tão vermelho como a própria pimenta, principiando a comer sem ceri-
disse o Joca Galvão, o Perigo, como ele mônia e sem etiquetas.
mesmo se intitula. O Manoel acabara o seu almoço. Veio o café com leite, fatias torradas. Ele
O Joca tinha ganho dois contos serviu-se, palitou os dentes, acendeu um charuto.
de réis, à noite passada, andava en- O estômago estava cheio; a cabeça pesada. Apareceu-lhe sono. Não era con-
dinheirado , com os bolsos cheios de veniente dormir. A digestão requeria antes um passeio.
notas de 200$000, mostrando gaiata- Onde seria o passeio?
mente - eis aqui, vede, primeira missa Ao seu pensamento acudiu logo este nome fatal: - Zulmira!
no Brasil, referindo-se à estampa das
notas que mostrava.
Ganhara aquele cobre do Luiz
Ephigênio 150 e do Aureliano Cotó 151
e andava doido para perdê-lo, já o ti-
nham vindo avisar de que a banca
estava funcionando , havendo muito
dinheiro - os gringos e o Aurélio Ro-
drigues eram banqueiros. Mas o Joca
Galvã o não tinha pressa; em primeiro
lugar estavam as necessidades do es-

150
Luis Efigênio do Rosário, dono do l lotel Pimenta.
Tocava rebecão numa das duas Músicas rivais -
Minerva e Artistas.
151
Proprietário do Hotel Univers o.

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i!IJ•J§!l!liíiÍ.liJ ~~i.::=-~-'••••t•111 @ -~
IV
stando D. Maria e Zulmira na Igreja Ma-

E triz, na missa conventual, não era possí-


vel que Manoel as encontrasse em casa.
Na missa, dissemos nós, mas não era
propriamente na missa que elas se achavam,
porque esta já fôra concluída. É certo que a
igreja ainda estava aberta, e o vigário batiza-
va crianças, como de costume. Porém os de-
votos e devotas achavam-se no adro, alguns
a olharem para o mar, apreciando o belo pa-
norama, os vapores Trent, Cordoba, Brazil,
Jacuípe, Marquês de Caxias, a barca norue-
guense Málaga, o palhabote Vieira, a Java en-
calhada na praia com carregamento de car-
vão; o riacho Maçaió derrubando a ponte dos
Fonsecas 152 , trabalho limpo de engenheiros
pamparras; o José Cardoso 153 esperava pelo
vigário para ir ao jantar do bispo, que era es-
" 2 Ponte mandada construir, em 1869, pelo Presidente Dr. José
Bento Júnior, ligava Maceió a Jaraguá. De ferro, custou .f:
6.500.0.0. Foi demolida em consequencia de uma enchente do
riacho Maceió, em abril de l 924, sendo substituída por outra,
de cimento armado, construida pelo Engenheiro Sigaud.
153 José Augusto da Silva Cardoso, Escriturário-Arquivista da

Saúde do Porto. Católico e monarquista, faleceu, nesta capi-


tal, há 35 anos.
zzo
Pu4o n..o~ --m~d

perado, onde haveria de fazer discurso em nome dos cató- o vigário e as irmandades que não consertavam a calçada
licos comilões; o Areias tratava dos seus santos, dos seus da igreja, nem ao menos mandavam arrancar os capins tão
oratórios; a Sra. Quilina e outras devotas ainda não tinham a ltos nos degraus que os animais, cavalo inclusive, subiam
acabado o último Padre Nosso do Rosário de Maria; o Fir- para ir comer. Ela, que conhecia isto e sabia quanto a ga
mo Lopes 154 esperava pelo vigário forâ neo para levá-lo aos nância de certos tipos há prejudicado o espírito religioso , u
Martírios, a sua igreja predileta, rica - na frase do José An- ponto de desaparecer o patrimônio riquíssimo de S. Gonça
tônio que lamentou a pobreza da igreja da Divina Pastora, lo, o dono da primitiva igreja, patrimônio que a Maria Bentu
das Pedreiras, porque a imagem estava com o chapéu sujo dizia ser quase todo de terras.
e as cabras penetravam no templo espalhando "azeitonas" - A mim ninguém engana, dizia ela; eu vi este luga1
por toda parte; outras falavam da vida alheia, que é o que ainda em matas. As ruas do Livramento, Macena, Mercu
mais fazem essas velhas rezadeiras e esses beatos tartufos; do e daí em diante até Trapiche da Barra eram matão. No
o Matto Serva155 andava de balandrau vermelho, esperando meu tempo, esses fedelhos que hoje querem ser coisas núo
que saísse o Santíssimo Sacramento, para um enfermo; o eram nada. Havia homens de bem. O capitão Firmiano, se11
Pinto, acompanhado de meninos maltrapilhos, protegidos Romeiro, seu Bentinho, Ferreira157 , Dr. Silveira, Dr. Camí
da confraria d e S. Vicente de Paula156 , tirava esmolas para lo, Sacavém, Bento Medeiros, João de Almeida, seu Escovo,
o Óbulo Diocesano, essa outra mania que aqui se desenvol- Lexandre Gavêta, e o padre Baldaia158 •••
veu e que felizmente durou pouco . O mestre Pedro carroceiro descia também , com o braço
. A preta Maria Benta, com um vestido de seda muito direito levantado, mau vezo do chicote que, aliás, ele nunn1
Í antigo, mas de verdadeira ..§.eda, do tempo em qlie "yayá d~ emprega contra a burra, animal inteligente, na sua opiniuo
ouro" era a fazenda da moda, e as mangas de coco, o cintei- e que ele abraça, com quem ele conversa. Foi um present r

N
_ rg~e fivela, o balão e o e_ente d.e t:s;rt.ar:'IJga divi.din.dQ .Q.SJJan-_ que lhe fez em 1866 o conselheiro Sinimbu 159 , ex-senado1
dós no cabelo nazareno, eram o chi~ismo e a nota elegant~ do Império. Como se vê, é uma burra histórica e que pronw
das toilettes das hoje venerandíssimas rnacróbias, a Maria te uma vida de Mathusalém, comparando mal.
Benta, corno dizíamos , deScía a escadaria muito ~an.sada~ Defronte, no sobrado 160, a cavaleiro da Matriz, 2° 1111
dev~annM, com os pés incliados, que hoje proíbem-na de dar, ao lado direito , funcionava o culto protestante, bat1s1n
vender as balas e o grude de gõ ma, o alfinim e ãs patinnas
•s7 Proprietário. Deram seu nome a uma rua, atual Oliveira e Silva.
de milho que fizeram as delicias da rapaziada~ uns trinta 1s8 Padrc Francisco do Rêgo Baldaia, um dos mais exaltados lusófobos do 1111iv1

\ anos..a.._.esW.~~1nna fãíando muito zangada contra menta nativista de fins de abril e começos de maio d e 1831, nesta capital , 1qll
a a bdicação de Pedro !.
159 ,João Lins Vieira Cansanção do Sinimbu, nascido em S. Miguel dos Cn11q1.. •
154
Firmo da Cunha Lopes foi Administrador do Trapiche Segundo, em Jaraguá. Presidiu esta então Província, foi Senador do Império e Presidenti: do Co11111'll•
Corretor, comerciante. Comendador pela Santa Sé, foi dedicado Diretor do Asilo de Ministros.
das Órfãs, em Bebedouro. Residia na Praça dos Martírios. Morreu há cerca de : 60 Sobrado ainda de pé e maJ conservado, na Praça Pedro li, pertencente ao11 li
25 anos. deiros do Barão de Jaraguá. Conhecido como Palácio Velho, o que é ern11l1 ·
155 João da Cruz Matos Serva, des pachante federal, residia na rua do lmperador.
Palácio Velho, que serviu a muitos Presidentes da Província e aos pmnt:l!
156 Confraria de São Vicente de Paula, associação religiosa, dirige, há mais de cem
Governadores, na República, ficava à rua Barão de Anadia, nos fu ndos do T
anos, o Hospital de Caridade. Seu compromisso é de 23 de abril de 1857. tencen te ao Barão de Jaraguá.
. I
7Ul'f'OJ · t> Z.,0~)

nu evangelista, cantando benditos com acompanhamentos Quando viram- na passar, saudaram-se leveme n te
ele órgão. com a cabeça. O Juquinha daí em diante, perturbado, não
Zulmira descera, afinal, acompanhada de D. Maria, os pode mais jogar. Não tez mais nem uma carambola. O Seld
degraus da calçada. fim, menos perito, ia aproveitando os bambos, arriscando-
Nunca estivera mais formosa, nem mais deslumbran - se em todas as tabelas, passando barra s, vencendo sempre;
1e. Vestido de lã creme, luvas cor de café, leque e cha péu de sorte que veio a ganhar a p a rtida contra a expectativa de
desta mesma cor. Cabelo aspoado em espirais na testa ace- lodos, que o sabiam simples pixote, ao passo que Juquinha
tinada. Era a fascinação em pessoa. era um excelente jogador.
A velha trazia o Manua l de Missa e lançava olhares Causou verdadeira surpresa o Juquinha perder, quan-
investigadores através dos óculos de ouro comprados ao do ele não temera jamais o Pataquinha, do Petaqu inha, do
Lobão 161 . Penedo; e o finado Canoa, taco respeitável também, muitas
O correio estava aberto, esperando pelas malas. Nas vezes catou pulgas nas suas mãos no tempo em que era
janelas da frente o Gonzaga e o Xavier 162 , de pince-nez as - vivo, bem entendido.
sestados, observavam o desfilar dos devotos e devotas, Alguns minutos depois, depositavam os tacos nos seus
gozando alguns momentos de distração daquele monóto- lugares respectivos e saíam rua afora em direção à casa de
no trabalho de todos os dias, sem descanso ao menos aos Zulmira.
domingos. Na porta de entrada, aglomerados, discutiam e Não puderam lá chegar, porque as ruas estavam in-
pilheriavam caixeiros, estudantes e militares. A bandeira transitáveis, corriam soldados em todas as direções , es-
da República tremulava galharda em seu mastro verde e faqueados, rotos, uns feridos de bala, outros de rifles e
amarelo sobre a tabuleta indicadora, e o sentinela do 33º cacetes. Por toda a parte grandes con flitos entre a tropa de
de infantaria 163 , firme como o símbolo do dever, de Manuli- linha e corpo policial. No mercado 1M a luta é quase perma -
cher ao ombro, g uardava o respeito devido aos superiores nente, está quase deserto, nada se pode comprar. Os lu-
ali presentes. tadores fazem projétil d e cocos, de j acas, de melancias. O
Zulmira passou triunfante, deixando após si os odores Major do corpo policial é agredido por praças de linha; um
esquisitos que exalava o seu finíssimo lenço de cambraia. soldado cai morto à rua do Apolo 165 . O a larma 166 é gra nde ,
Ao dobrar a esquina para o Comércio, o frege-mos- a população aterroriza-se. Os clarins tocam a rebate nos
cas da Rosinha estava convertido em bilhar, e o Juquinha quartéis.
e o Serafim, que vinham da m ã o-de-vaca ou pé-de-boi do As ruas que vão dar ao Mercado fecharam. Os estabe-
Sant'Anna, divertiam-se ao jogo da bola. lecimentos, a s casas particulares são inva didos por praças
perseguidos por grupos armados. Tínhamos já assistido a
161 Pedro Lobão, baiano, joalheiro, à rua do Comércio, 66.
162 Francisco Xavier da Costa, Comador dos Corn:ios, pai do pintor autodidata ' 64 Mercado Mun icipal, de há muito demolido, localizado na praça conhecida como
Carlos Leão Xavier da Costa, também funcionàrio da aludida repartição. de S. l:lenedito, do Me rcado e denominada, oficialmi::nte, Tavares Bastos. No
163 UataJbão do Exército, sediado em Aracaju, aquartelado nesta Capital em substi- local construíram o Instituto de Educação.
tu ição a o 26° da mesma arma, transfe rido, por qucstõi::s políticas para a capital l 6s l{ua Melo Morais .
sergipana, nos primeiros anos da Hepüblica. t66 NR - Alarma: o mesmo que "alarme".
2.2.2
-. PuÍuJ 71-o ~ 'Plt:f,o-1,d

estas cenas desagradáveis por ocasião da deposição do governador Gabino Be- bando enorme de garças brancas es-
souro167. voaçando sobre o azul do oceano. E o
O conflito desta vez não tinha caráter político, parecia simples rixa, ócio vapor Arlindo, fretado especialmente
velho da tropa de linha aos policiais. para levar o batalhão a Sergipe, fun -
O resultado, porém, foi o embarque do batalhão 26ºL 68 para Sergipe e a vin- deado aquém da Boia do Picão, arfa-
da do Batalhão 33º para aqui. A princípio duvidou-se desse embarque; os te- va no dorso das ondas, deixando sair
legramas eram tachados de apócrifos. A confirmação da notícia foi uma triste do grosso cano o fumo denso que da
decepção. A ordem de embarque era fatal, e o embarque fez -se. fornalha incandescente subia para a
O batalhão, com o seu garbo costumeiro, as armas lustrando ao sol no zêni- amplidão.
te, uniforme correto, os vivos encarnados e as bandas vermelhas dando uns tons A última despedida foi tocan
berrantes à formatura entusiasta das praças briosas, a oficialidade marchando te e sacudida. Tremulava a bandeira
com a precisa altivez dos heróis, cumprimentando com as espadas nuas o povo, que as senhoras alagoanas, por meio
que saudava uma porção importante de seus filhos deportados inesperadamente de uma subscrição particular, ofere
para estranhas plagas. ceram aos bravos soldados; as auras
Em Jaraguá, a despedida foi tocante, e de todas as sacadas as famílias, a fugitivas destas plagas gentis que tao
mão gentil e fidalga da mulher, desse ente querido que é o anjo do lar e o encanto importante parte desse bom povo iu
da sociedade, atirava flores sobre aquele troço potente do Exército nacional, des- em poucos minutos deixar, afagavam
se Exército onde as Alagoas teve e têm representantes notabilíssimos. A massa e agitavam levemente aquele belíss1
popular agrupada nas ruas, nas pontes, em escaleres, em lanchões, vitoriava as mo estandarte bordado pelas mãm
praças que choravam de prazer, de saudade, de ódio, de desolação ... sedosas de moças entusiastas. O Te
Pesadas carretas atapetadas de grandes caixões com munição chegavam nente Lins (o Sindô), secretário do bu
ao lugar do embarque, produzindo enorme ruído nas pedras da rua; milhares talhão, era o porta-bandeira e a levavn
de baús e malas a granel, crianças a chorar, mulheres abraçadas soluçan- com garbo especial; os alferes Bigio,
do; os lenços alvos, sacudidos por mil braços a uma só vez, pareciam um Araújo, Augusto Leite e outros, co111
sinais visíveis de constrangimento
167
Ocorreu na madrugada de 16 de julho de 1894. Soldados do 26º de Infantaria do Exército, comandados pelo que os dilacerava; o cabo Vicente G rn
major Meireles, depuseram o bravo alagoano, que mandou abrir um buraco no muro que separava o palãcio
Velho (em frente ao 1 lote! Bela Vista, onde est.â presentemente o TPASE), passando, com sua esposa e filha,
lhada a distribuir cartões na ponl1 ~.
para a residência do Tenente Coronel Emidio Dantas Barreto, na antiga rua do Calabouço, hoje Pinto Mar- como já o fizera no Comércio, ond e n•e
tins.
Contava-se, nas ruas, no dia seguinte:
cebeu alguns presentes que mostrn vt1,
Não tenho medo da onça, satisfeito, e todos finalmente, desde · o
Nem do ronco que ela tem,
O Besouro também ronca,
major-fiscal, comandante interino, 11li
Vai se ver, não é ninguém ... os inferiores, praças e músicos , toclo•J
16
R Aqui organizado pouco antes da proclamação da República. Seu Comandante, major Sureliano de i\zevedo
Pedra, foi um dos membros da Primeira Junta Governativa de Alagoas. Seguiu, depois, para Aracaju a subs-
recebiam provas inequívocas de c· ~ t 1
tituir o 33º da mesma arma. ma pública.
z~
ru:iiro~ e- r«>~
O Tito Flautim 169 , com a bar- chinesa s (traques) e cigarros aos presos de cadeia, juntou-se com o Manoel
ba grisalha reco rtada, o corpo m eio Pagão e out ros e m eteram o Maranhão 171 d a polícia entre busca- pés e chaco-
vergado, estava choroso, pensativo, tas, e na véspera do embarque deu tabefes e chibatadas na Jovina, urna das
equipado, com o bornal muito alvo a beatas do convento ou Atheneu da Vovó, tudo isto para variar e quebrar a
tira-colo; o José Henriques, da Aveni- monotonia daquela noite longe da véspera ...
da Popular, quase rouco de dar vivas, Alguns, por despeito ou por malícia, acharam o embarque muito natural,
fazia discurso trepado no gradil de porque soldado, diziam, é para isso mesmo, deve estar sempre pronto para se-
ferro da ponte; os catraieiros trans- guir quando e para onde o governo quiser. No tempo da guerra do Paraguai,
portavam muito ávidos as bagagens, acrescentavam, os embarques repetiam-se - todos choravam e sentiam, porém
berrando atordoadamente para os acabavam resignados.
ganhadores, que chegavam suados, A comparação, entretanto, não aproveita. No ensejo da guerra com o Para-
estafados, atirando os pesados far- guai tratava-se de uma questão internacional, da defesa da Pátria. O povo ia de
dos na escada de ferro; o Pedro Bu- moto próprio tomar a carabina no quartel e os batalhões de voluntários corriam
ffo esgueirava-se por entre a massa céleres a atulhar de cadáveres os charcos das fronteiras, contanto que este Bra-
a glomerada, tomando passagem no sil muito amado tornasse o nome glorioso de primeira potência da América do
lanchão a partir para o Arlindo, e Sul e a sua integridade e preponderância sobrepujassem a audaciosa teimosia
anunciando urbi et orbe que seguia do tirano Lopez.
com o 26° para o Aracaju; o Lamego, É certo que muitos abusos foram cometidos, que o recrutamento fez-se
por igua l , despedia-se dos conheci- desbra gadamente, principalmente quanto presidiu esta então província o infeliz
dos, corcunda, muito Ligeiro e afável , Alencastro 172 , de execranda memória, pequeno nas ações e tão pequeno no ta-
tendo abandonado a Loja e os afaze- manho, que após os seus atos desumanos aqui praticados, o governo agraciou-o
res para seguir o batalhão deportado; com o crachá da rosa 173, mas o novo comendador n ã o teve corpo para aguentar
mas o Lamego é um verdadeiro pân- o peso da rodela que o levou à cova com as maldições do povo.
dego e teve a ideia de regenerar a Ma- Durante o governo alencastrino cessou o alistamento de voluntários, devido
raba, cortando os pés de camélia que à antipatia de que ele gozava. Era por isso que as grandes levas de gente para
ali vegetavam. Por isso enfestonou o sul tinham o nome de voluntários de corda 174 • As designações para embarque
as ruas pelo carnaval, ele, o Pureza, não se faziam com justiça entre os capazes. Protegia-se o vagabundo, o perverso,
o Mello e o Severo 17º funileiro, e por para amarrar-se e embarcar o pai de família, o bom filho, o bom irmão.
S. J oão atacou busca-pés contra as 17 1
Coronel José Maranhão, comandou a Força d e Segurança no Governo Gabino Besouro.
ordens da policia, distribuiu bichas 172 Infeliz AJencastro (João Martins Pereira de Alencastro) p resid iu Alagoas de 30 de julho de 1866 a 13 de junho
de 1867. Pratico u muitas violências, recruta ndo gente (os tais "Volun tários d a Corda") pa ra a ca mp anha
109 Músico militar. Morou e morreu na rua Nova (Ba- contra Solano Lopez. Qua ndo daqui foi forçado a embarca r , às pressa s, os sinos dobrara m a finados e o céu
rão de Penedo), num prédio a o lado esquerdo do se enc heu de foguetes sem bomba... Entretanto foi ótimo administrador em outra Província.
Serviço d e Recru tamento. Seu nome era Tito Froes. 113
Ordem da Rosa, condecoração Imperial Brasileir a .
110 Severo Ribeiro da Silva, estabelecido à rua 1 º d e 174
Home ns recatados e incorporados aos Batalhões de Voluntá rios d a Pátria , de 1865 a 1868. Aqui ch egavam,
Março (Avenida Moreira Lima) nº . 15. em geral, amarrados com cordas, sendo recolhidos à Cadeia. Só era m soltos depois de jurarem bandeira.
221-
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O Manoel Perdido, o Honório Perné, o Corrêa Paes e e agricultores; o talentoso cônego Lessa 178 , em nome do
outros esbirros da polícia tinham carta branca para invadir clero, mostrando que aos presbíteros alagoanos não fal-
o lar do pobre e de lá arrancar aos braços da esposa, das ta a coragem a Eurico para pegar em armas pelo Brasil,
irmãs e das mães o cidadão caído em desagrado, ou cujos como aquele valoroso amante de Hermengarda o fez pela
parentes repeliram o insulto que o mandão libertino atirou- Espanha ...
lhe ao pudor. Mas tudo isto havia acabado. Existia apenas a rea-
Quem viu e lembra-se dos históricos gameleiros 175 ção patriótica. As folhas da oposição agredindo furibundas ,
da Praça do Quartel1 76 , aquelas árvores colossais e vene- numa linguagem horripilante; o Antônio Griziano, redator
randas que tinham visto despontar o sol do dia 1 º de ja- da Voz do Povo, preso, é arrancado das mãos da força pelo
neiro de 1800, e que forneciam sombra para abrigar cen- rev. Cônego Costa, proprietário do Diário das Alagoas. Foi
tenas de crianças, mulheres e velhos, chorando dia e noi- solene esta célebre tomada de preso. O padre, com as vestes
te, em procura de parentes recrutados, os quais, às vezes, talares, não usou de meias encarnadas por não ser ainda
já tinham sido embarcados furtivamente pela madrugada cônego, que foi depois supranumerário da capela imperial,
chuvosa; quem viu as cenas de dor e de miséria, os qua- no peito uma Comenda da Rosa, o distintivo de cavalheiros
dros comoventes e dilacerantes que oferecia o tumultuar da Ordem de Cristo, com que foi agraciado pelos serviços
errante dessa gente nômade, vinda do centro, do norte e prestados à ordem pública na qualidade de comandante da
do sul, de leste e de oeste, das caatingas de Sant'Anna do guarda cívica na povoação de Bebedouro, a comenda da Or-
Ipanema, das praias do Gamela (Maragogi), das margens dem de Santo Sepulcro, de Roma, a carro, em desfilada p ela
do S. Francisco e das serras históricas da Barriga; quem rua do Comércio, Praça dos Martírios , Cambona, Mutange ,
viu tudo isto sabe que antes tivemos o povo a disputar a até o sítio de G. W. Wucherer 179 , o inglês, na palestra vul
honra do embarque, entre flores e música, discursos pa- gar, cônsul de Sua Majestade Britânica, a rainha Vitória dt•
trióticos e versos sonoros; o major Castro 177 , à frente do Inglaterra, senhora dos mares e das tartarugas da Ilha du
corpo de polícia, marchando como se fossem todos um Trindade que John Pender, que já está no cemitério, qu iH
só homem para os campos inóspitos da luta; funcioná- anexar aos seus domínios.
rios, estudantes de humanidades e acadêmicos, artistas Ali acolhido, Antônio Griziano continuou a escreve i
para seu jornal, que a sua própria senhora, jovem e dei;
175
Arvores enormes, antigas, em frente ao quartel da Policia, então Praça da Cadeia, temida, compunha e imprimia; foi ela a primeira alagoai111
hoje da Independência. Delas não resta uma sequer. Há uma fotografia de uma
fração do Tiro Alagoano (28° da Confederação), à sombra da última, em 1912.
176
Duas praças tiveram tal nome: a da Independência e a Sinimbu. Não sei a qual 178 Domingos Fulgino da Silva Lessa seguiu para o Paraguai, em 13 de março cl1
se refere o autor. Pode ser também a Calabar, há poucos anos denominada Dr. 1865, com o Major Castro, acima referido, no posto de Capitão Capelão do 20'
Afrânio Araújo Jorge, em frente ao antigo Quartel do Exército. transformado hã. Batalhão citado. Deixou dive rsas obras publicadas, inclusive "Influêncio Ili
pouco em Escola de Medicina. néfica da Religião nas Ciências, nas Poesias e nas Belas Artes". "Era um tn11l11
177 O Major reformado, do Exército, Carlos Cirilo de Castro, comandante da Policia
filósofo, mais soldado do que padre"- dele escreveu Cra veiro Costa.
da Província, daqui seguiu à frente do 20° Voluntários da Pátria, cm março de 179 Súdito inglês, proprietário de uma chácara no Mutange, há cerca de 25 fltt41•,
1865. Era gaúcho. Faleceu Tenente Coronel em comissão (de comissão como transformada em campo de esportes do Centro Esportivo Alagoano. Negocl11v11
consta de documentos oficiais) e foi um dos heróis da batalha de 24 de maio de com tecidos à rua da Alfândega, Sá e Albuquerque oficialmente, nº. 32, nos 11111,
1866, ou de Tuyuty, como a denominaram os paraguaios. do século XIX.
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que aprendeu e usou de arte tipográfica, há quase trinta Izidoro 183 , honrando as tradições de seu sogro, Vicente de
.111os, e não como por ignorância da história se disse inda h á Paula 184 , entrara com ele em 1844 na capital e queria mu-
pouco num jornal que tem operá rios do sexo frágil ... dar a sede do governo para as matas de Jacuípe, onde ele
A este tempo o Dr. Mello MoraisL 8 0 , alagoano distinto, há muito tempo se acha debaixo do cangaço e ameaçando
historiógrafo e botânico afamado, expunha no Rio de Janei- céus e terra, apesar do numeroso exército de polícia que o
ro ao domínio público os horrores da situação que nos avas- governo ali mantém. Os boatos eram muitos e todos desen-
salava, situação tristíssima que teve mais tarde o desfecho contrados. Fora assim no tempo da revolta. Quando chegou
da guerra da Imperatriz 181 cujo maior combate - o Cabeça a qui à noite o cruzador ltaipu 185 e quase vem à praia ilumi-
de Porco 182 , hoje Santo Antônio da Boa Vista - criou o herói · 113
Manoel Isidoro da Cunh a, Delegado de Polícia de J acuípe, homem desassom-
1111
a lferes que percorreu três léguas numa carreira a pé, che- brado, senhor do engenho Marvano (ou Malvano), casado com uma filha do
célebre caudilho Vicente de Paula. Marvano era uma engenhoca, mon tada em
gando com a carne que assava, quando ouviu os primeiros terras doadas a Vicente d e Paula pelo Governo Imperial. Devido a questões par-
tiros , ainda quente no espeto. De mais triste consequência ticulares, de terras e de politica, Manoe l Isidoro brigou com um vizinho - Antõ-
nio Perigrino de Mendonça, igualmente senh or de engenho. Tendo sido mortas
foram ainda os assassinatos do tenente coronel Joaquim pessoas de sua familia, Isidoro matou Mendonça e se entrincheirou no Marva-
Corrêa e mais tarde dos irmãos Joaquim Gomes e Antônio no, que era cercado de matas semivirgens. Depois da luta que se prolongou por
muitos meses, a Polícia, comand ada pelo Coronel Pedro Melo, veterano d o Pa-
Gomes, e a série de crimes que se seguiu, tornando a ex- ragua i, conseguiu a baté-lo, sendo sua ca beça cortada e metida num barril com
povoação de Macacos, ex-vila de Santa Maria, ex-vila da Im- sal, para ser conduzida, como troféu, para Maceió, pelo trem da Great Western.
O povo de Palmares, Pernambuco - em cuja estação de11eriam tomar o comboio
peratriz e atual cidade de União (ufa!. .. ) de uma detestada os milicianos - indignado e auxiliado por tropas do Exército, ali de passagem,
tradiçã o. n ão permitiu semelhante infãmia. Tomou o barril e, piedosamente, foi en terrada
a cabeça d e Manoel Isidoro no cemitério local. Contou-se:
Quem é vivo sempre a parece. Vimos que o Juquinha O velho Manoel Isidoro
e Serafim não puderam chegar à casa de Zulmira, em vis ta É a onça do Marvano.
Tem quintos granadeiros,
dos tumultos que se davam nas ruas. Cada qual com doze can os,
O Manoel estava nas mesmas condições e já tomara Dispara tudo num dia,
Mata gen te vinte anos ...
uma canoa, embarcara para Alagoas. As notícias que en- is• vicente de Paula, famoso facínora, chefiou o movimento conhecido como Ca-
contrava, levadas por outros mais adiantados, eram aterra- banada. Em outubro de 1844 comandou as forças revoltosas que atacaram e
ocuparam Maceió, na luta entre "Lisos" e "Cabeludos", quando governava a
doras. No Pontal, no Cadoz, na Boca da Caixa e em Santa Província o Dr. Bernardo de Souza Dantas.
Rita sabia-se que o governador estava deposto, que Manoel 185