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Relacionando o tripé: Toyotismo, Neoliberalismo e Globalização – Sociologia

Quando estabelecemos que o tripé é uma relação existente ente toyotismo, neoliberalismo e
globalização, estamos querendo dizer que a relação entre ele se dá de forma direta, isto é, os princípios de
funcionamento de cada um deles possuem pontos em comum e que funcionam de modo interdependente
entre si.

O tripé

Fordismo-Taylorismo: produção em massa de mercadorias realizada em grandes fábricas – grandes estruturas fabris -
que produziam as próprias peças que iriam utilizar na, isto é, fábricas “autossuficientes”, onde era necessária uma
grande quantidade de funcionários para que fosse possível a produção em massa. Tais funcionários eram
especializados em uma função na linha montagem, ficando portanto, fixo naquele posto da linha.

Dica: filme “Tempos Modernos”

Após um longo período de acumulação de capitais, que ocorreu durante o apogeu do fordismo-taylorismo –
período do pós-2º Guerra -, o capitalismo, a partir da década de 1970, começou a dar sinais de quadro
crítico, um quadro que resultou numa crise que levaria ao fim de uma era. Os sinais eram:

a) queda da taxa de lucros

b) esgotamento do modelo de produção fordista-taylorista diante da crise do consumo, expressão de uma


crise econômica

c) crise do Estado de Bem-estar Social

Frente a tais dificuldades de funcionamento do modelo fordista-taylorista e de um Estado organizado de


forma proporcionar serviços públicos de qualidade, o Ocidente, principalmente EUA e os países europeus
aliados aos EUA, começaram a perceber que algo precisa ser feito para sair da crise que estava gerando uma
perda de lucratividade. Foi nesse contexto que um novo modelo de organização da produção de mercadorias
e organização do trabalho surge como uma resposta, uma solução encontrada para enfrentar a crise pela qual
o Ocidente estava passando.

O Toyotismo é, nesse contexto de crise, o modelo que daria fim a crise.

Comparando as formas de organização de cada modelo, podemos observar as razões que levaram o
Ocidente adotar o toyotismo, ou o modelo japonês. Começando pela estrutura fabril, notamos uma grande
diferença: como o consumo estava diminuindo devido ao período de crise, o modelo toyotista colocava
como alternativa o abandono dos grandes estoques. Por quê? Porque a criação de grandes estoques implica
numa garantia de vendas, para a criação de novos estoques. Uma vez que o consumo diminui, não é mais
necessário esse tipo de armazenamento de mercadorias. Com a adoção de estoques mínimos, as fábricas e
indústrias de veriam livres do desperdício de produtos e dos prejuízos que os estoques geravam.
Mas como o modelo daria certo e como o consumo se organizaria? É aí que entra um dos principais
elementos do toyotismo: a ideia da produção por demanda e dos produtos com um “prazo de validade”,
com uma “vida útil” preestabelecida. A obsolescência foi uma grande sacada, visto que para aumentar a
produção de mercadorias, sem aumentar os estoques, as mercadorias tinham que durar menos quando
comparadas com as mercadorias produzidas pelo modelo fordista. Não por acaso que as evoluções
tecnológicas que levariam a criação dos computadores, os PCs, a telefonia móvel, desenvolvimentos de
máquinas substituiriam os trabalhadores nas linhas de montagens – a mecanização -, começaram a ocorrer
nesse período de reestruturação das fábricas, a chamada reestruturação produtiva ou transformações no
mundo do trabalho. Tais tecnologias podem ser encaradas como um conjunto de medidas que atendiam as
novas necessidades da produção de mercadorias que o toyotismo estava colocando.

Outra medida muito impactante e importante para o toyotismo foi a adoção da terceirização em larga
escala. Este processo possui 2 faces:

a) terceirização produtiva: uma solução encontrada para o corte de gastos diante do alto custo que a
fábrica fordista-taylorista acarretava. Com tal mudança, as fábricas se tornaram enxutas, pequenas,
mantendo somente o mínimo necessários de funcionários diretamente ligados a fábrica como cargos de
gerência, direção, cargos estratégicos, por exemplo. A partir dessa mudança, foi possível o fechamento de
diversas unidades produtivas, como a mostrada no documentário “Roger e eu”, onde a unidade na cidade de
Flint é fechada para ser aberta uma unidade em outro país, região com mão de obra mais barata. A
“autossuficiência” que a unidade produtiva do fordismo-taylorismo estava perdida; entrava em cena o
fornecimento de peças oriundos de diversas empresas, solução encontrada para destruir de vez as
grandes estruturas do fordismo-taylorismo.

b) terceirização da mão de obra: Com o fornecimento oriundos de outras empresas e fábricas praticadas
pelo toyotismo, encontramos a terceirização do trabalho, isto é, trabalhadores que são contratados para
prestar serviços a uma empresa ou indústria. As empresas terceirizadas contratam trabalhadores terceirizados
que realizam serviços que o modelo fordista-taylorista tinha como responsabilidade de seus empregados
diretos. É nesse contexto que a terceirização é um dos elementos mais importantes do toyotismo ao
desestruturar a concepção do modelo anterior.

Dica: CPFL

O toyotismo, além disso, impõe um novo perfil aos trabalhadores. As consequências que a
mecanização da produção estava causando, transformou o modo como o trabalhador se insere na produção.
Grandes quantidades de funcionários especializados somente numa tarefa dão lugar a trabalhadores
polivalentes/multifuncionais. As fábricas toyotistas exigiam um trabalhador que fosse capaz de realizar
diversas tarefas ao longo da linha de montagem, operando diversas máquinas. Com este novo perfil, a
redução do número de funcionários atingia uma profundidade maior: de um simples corte de gastos,
observamos uma alteração da organização da linha montagem. Equipes são formadas, competindo entre si,
tornando o trabalho mais desgastante. Consequentemente, novos cursos de capacitação são criados para
atender as novas demandas do mercado de trabalho.

Podemos concluir que produção toyotista é flexível, com trabalhadores flexíveis. Vimos que as
transformações nos âmbitos da produção e do trabalho decorrentes d crise do fordismo-taylorismo,
implicaria numa nova maneira de organização do Estado e de novos papéis e funções que Estado teria.

Com isso, ligamos uma parte do tripé: toyotismo – neoliberalismo.

O Neoliberalismo, assim como o toyotismo, é uma resposta e uma solução encontrada visando a
saída de uma crise que assolava o mundo Ocidental. Quais soluções estavam sendo propostas? O Estado de
Bem-estar Social era uma forma de o Estado chamar para si a responsabilidade de promover o
desenvolvimento econômico e social através de investimentos em serviços públicos – saúde, educação,
moradia, aposentadoria, transporte – e na criação de empregos. Contudo, tal Estado exigia uma grande
quantidade de dinheiro para funcionar adequadamente, verba essa que vinha da arrecadação de impostos.
Como a economia estava numa crise generalizada, tal Estado estava impedido, por falta de verba, de
continuar realizando suas funções. Devido a isso, e ao advento das transformações que o toyotismo estava
gerando pela flexibilização da produção e do trabalho, o Estado precisava se adequar ao novo momento do
capitalismo. Por isso dizemos um novo Estado para uma nova organização produtiva.

Corte de gastos na esfera pública se tornou um lema do neoliberalismo. Diminuição de funcionários


públicos, corte de investimento, tudo para economizar. O neoliberalismo propunha que Estado deixasse de
agir como agente de desenvolvimento para se tornar administrador do país, ou seja, cuidar dos gastos,
pagamentos de dívidas e, principalmente, agir no sentido de flexibilizar as leis do trabalho – direitos básicos
que todo trabalhador possui. Alterando as leis trabalhistas, a terceirização do trabalho se torna mais atrativa e
interessante para o modelo toyotista. Com mecanismos de flexibilidade, as empresas e fábricas toyotistas
teriam mais margem de manobra com contratos e demissões, sem problemas jurídicos. Além disso, as
privatizações das empresas estatais foi e ainda é um lema do neoliberalismo.

Por último, mas não menos importante, qual o papel do Estado então? Se o Estado agi de forma a
beneficiar o funcionamento do toyotismo, o que mais ele faz?

Dica: neoliberalismo e toyotismo surgem na mesma época, atuando, portanto, na mesma época – a
partir dos anos 1980 em diante.

A cartilha neoliberal afirma que o Estado somente deve intervir na economia em momentos de crise,
evitando os problemas que as fábricas fordistas-tayloristas enfrentaram na década de 70. Amenizando crises
nas empresas e no mercado, faz com que a empresas tenham um segurança maior de ação em diversos
lugares do mundo, uma vez que o fim da “Guerra Fria” significou a hegemonia dos EUA, não só no
Ocidente, mas nas áreas de atuação da antiga URSS.
A globalização, fenômeno iniciado após o fim da “Guerra Fria”, fecha o nosso tripé na medida em
que une num só pacote neoliberalismo – toyotismo – globalização. Por quê?

Como os EUA adquiriram hegemonia e supremacia política, econômica e militar, num mundo que
passava por crises, a influência estadunidense teve campo fértil. Com soluções para saírem das crises,
EUA, via FMI, exportavam seu modelo, o modelo visto como vitorioso: o capitalismo. No entanto, esse
capitalismo não era o mesmo da “Guerra Fria”: o toyotismo somado ao neoliberalismo e abertura econômica
eram as novidades.

A ideia da integração econômica, como ponto contrário a divisão do mundo típico da Guerra
Fria, era a justificativa para adoção do pacote levado pelos EUA e FMI. Porém, a suposta integração
tinha um custo: a adoção do novo modelo a ser seguido, um modelo que era tido como o mais desenvolvido
e que levaria os países que o adotassem ao desenvolvimento. As consequências da adoção do pacote caiam e
ainda caem nas costas da população, principalmente dos trabalhadores e dos setores sociais mais
marginalizados e excluídos.

A globalização é um fenômeno que vai muito além da “redução” das fronteiras entre os países,
da “revolução tecnocientífica”; ela se apresenta como uma nova forma de realização de comércio num
contexto de novas organizações do trabalho, da produção e do papel do Estado.

Com mercados globais, fábricas espalhadas ao redor do mundo - movimento intensificado com o
toyotismo como parte da terceirização da produção -, mecanismos de abertura econômica e flexibilização
das leis trabalhistas, observamos que as mudanças e transformações pelas quais passamos nos últimos anos
estão diretamente relacionadas, numa espécie de ligação onde um fenômeno só pode ser melhor
compreendido quando analisamos todo o conjunto das transformações, as consequências e seu
funcionamento. É nesse contexto que a globalização se coloca como um importante ele de ligação entre
neoliberalismo e toyotismo, pois é o elemento que possibilita a expansão e difusão de ambos, ao mesmo
tempo em que se expande com a justificativa de integração econômica, mas que, no fundo, oculta sua faceta
mais importante: a expansão do toyotismo e do neoliberalismo.

O tripé se completa quando unimos todos os pontos num processo que se inicia com a crise do fordismo-
taylorismo e que ainda continua atualmente quando observamos crises econômicas surgindo em diversos
países.