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Notas de Aula 3 - Teoria do Consumidor (Parte 3)

Microeconomia
Curso Cecı́lia Menon

1 O Problema Dual do Consumidor


1.1 Minimização de Custos
1.1.1 Problema Dual
Já examinamos o problema primal do consumidor e, desse problema, encontramos as demandas
Marshallianas.
Agora vamos examinar o problema do consumidor sob outro ponto de vista, onde ele minimiza os
seus gastos, almejando alcançar um certo nı́vel de utilidade.
Esse problema é chamado dual do problema de maximização de utilidade.

1.1.2 Caracterização do Problema


O dispêndio (ou gasto) do consumidor com a cesta de bens (x1 , x2 ) é igual à:
e = p 1 x 1 + p 2 x2
O problema dual do consumidor pode ser escrito como:

min p 1 x1 + p 2 x 2 sujeito a u(x1 , x2 ) ≥ u0 ,


(x1 ,x2 )∈R2+

onde u0 é o nı́vel de utilidade almejado.

1.1.3 Resolvendo o Problema


Se as preferências são bem-comportadas, a solução para o problema dual do consumidor é única.
Portanto, a solução do problema dual pode ser escrita em função dos preços p1 , p2 e do nı́vel de
utilidade u0 almejado:
x∗1 = xh1 (p1 , p2 , u0 ),
x∗2 = xh2 (p1 , p2 , u0 ),
As demandas xhi (p1 , p2 , u0 ), para i = 1, 2, são chamadas demandas Hicksianas ou demandas com-
pensadas. As demandas hicksianas xhi (p1 , p2 , u0 ), i = 1, 2, fornecem o nı́vel de utilidade u0 ao
menor custo possı́vel, quando os preços são p1 e p2 .

1.1.4 A Função Dispêndio


A função dispêndio é definida como:
e(p1 , p2 , u0 ) = min p 1 x1 + p 2 x2 sujeito a u(x1 , x2 ) ≥ u0
x1 ,x2 ∈R2+

Se as demandas Hicksianas estão bem definidas, podemos escrever a função dispêndio como:
e(p1 , p2 , u0 ) = p1 xh1 (p1 , p2 , u0 ) + p2 xh2 (p1 , p2 , u0 )

1
1.1.5 Solução Gráfica
O problema dual do consumidor tem a seguinte interpretação gráfica: o consumidor fixa o nı́vel
de utilidade que deseja alcançar. Ele então procura o gasto mı́nimo que alcança esse nı́vel de
satisfação.
Resumidamente, o consumidor tenta alcançar o nı́vel de utilidade desejado ao menor custo possı́vel.
A solução do problema dual é dada pela curva (reta) de isocusto que tangencia a curva de in-
diferença almejada (TMS entre os dois bens igual à relação de preços, a mesma condição que vale
na solução do problema primal).
x2
6
E: Solução do Problema
Q
Q Dual do Consumidor
Q
Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q rE
Q Q
Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q-
x1

1.1.6 Resolvendo o Problema


Supondo que o método de Lagrange se aplica, construı́mos o Langrageano do problema de mini-
mização do dispêndio:
L = p1 x1 + p2 x2 + µ(u0 − u(x1 , x2 )),
As CPOs resultam em:  ∗ ∗
∗ ∂u(x1 ,x2 )


 p 1 = µ ∂x1



∗ ∗
∗ ∂u(x1 ,x2 )
 p 2 = µ ∂x2



u0 = u(x∗1 , x∗2 )

As duas primeiras CPOs são idênticas às duas primeiras CPOs do problema de maximização da
utilidade.

1.1.7 TMS igual à Relação de Preços


Se dividirmos a primeira CPO pela segunda, obtemos:
∂u(x∗1 ,x∗2 ) ∂u(x∗1 ,x∗2 )
∂x1 p1 ∂x1 p1
∂u(x∗1 ,x∗2 )
= ou − ∂u(x∗1 ,x∗2 )
=−
p2 p2
∂x2 ∂x2

Portanto, a condição de que a TMS entre os dois bens seja igual à relação de preços desses bens
continua válida para o problema dual do consumidor.

2
1.1.8 Encontrando as Demandas
As CPO representam 3 equações em 3 variáveis, x1 , x2 e µ. A solução dessas equações do problema
dual são as demandas Hicksianas dos bens e o multiplicador de Lagrange, funções dos preços e do
nı́vel de utilidade:

xh1 = xh1 (p1 , p2 , u0 ),


xh2 = xh2 (p1 , p2 , u0 ),
µh = µh (p1 , p2 , u0 )

1.1.9 Observação
1. As demandas Hicksianas são funções dos preços e do nı́vel de utilidade. As demandas Mar-
shallianas são funções dos preços e do nı́vel de renda.

2. A demanda Hicksiana também é chamada demanda compensada porque “compensa” o con-


sumidor de modo a mantê-lo sempre na mesma curva de indiferença u0 .

3. A demanda Hicksiana não é diretamente observável, apenas a demanda Marshalliana é


observável.

1.1.10 Utilidade Cobb-Douglas


O problema dual do consumidor, considerando a utilidade Cobb-Douglas, é:

min p1 x1 + p2 x2 s.a xα1 x21−α (α ∈ (0, 1))


x1 ,x2

Para resolver esse problema, montamos o Langrageano:

L = p1 x1 − p2 x2 + µ(u0 − xα1 x21−α )

As funções de demanda são:


 1−α
 xh1 (p1 , p2 , u0 ) =
 α
1−α
pα−1
1 p21−α u0
−α
 xh (p , p , u ) = α
pα1 p−α

2 1 2 0 1−α 2 u0

1.1.11 Quando o Método de Lagrange Não se Aplica


O método do Lagrangeano supõe uma série de condições que nem sempre são satisfeitas.
Vamos analisar novamente os dois casos vistos no problema primal:

1. Bens substitutos perfeitos (utilidade linear),

2. Bens complementares perfeitos (utilidade de Leontieff).

A análise é feita caso a caso, com ajuda gráfica para encontrar as demandas.

3
1.1.12 Bens Substitutos Perfeitos
Vimos que dois bens são substitutos perfeitos se o consumidor aceita substituir um pelo outro a
uma taxa constante.
A função de utilidade que representa essa relação é dada por

u(x1 , x2 ) = ax1 + bx2 , a > 0, b > 0

O problema dual nesse caso é:

min p1 x1 + p2 x2 s.a. u0 = ax1 + bx2


x1 ,x2

x2
6
A Dispêndio Curva de Indiferença
A
A
 u = x1 + x2
A Suponha que p1 = 2p2
A
A Solução: cesta E
tE A
A@ A
A@ A

A @ A
A @ A
A @ A
A @A
A @A
A A
@
A A@
A A @ u0
A A @

A A @
A A @
A A @ -
x1

A cesta de bens ótima do consumidor que deseja escolher entre bens substitutos perfeitos é con-
sumir nada do bem mais caro e comprar somente o bem mais barato.
Então as demandas Hicksianas são:

u0 /a, se p1 /a < p2 /b
xh1 (p1 , p2 , u0 ) =
0, se p1 /a > p2 /b


0, se p1 /a < p2 /b
xh2 (p1 , p2 , u0 ) =
u0 /b, se p1 /a > p2 /b
No caso em que p1 /a = p2 /b, o consumidor comprará qualquer quantidade x∗1 e x∗2 tal que satisfaça
a restrição, ax∗1 + bx∗2 = u0 .

4
1.1.13 Bens Complementares Perfeitos
Vimos que dois bens são complementares perfeitos se são consumidos conjuntamente, em pro-
porções fixas.
A função de utilidade que representa essa relação é dada por:

u(x1 , x2 ) = min {ax1 , bx2 } , a > 0, b > 0

O problema dual nesse caso é:

min p1 x1 + p2 x2 s.a. u0 = min{ax1 , bx2 }


x1 ,x2

x2
6

Utilidade u(x1 , x2 ) = min{x1 , x2 }


Suponha que 2p1 = p2
Solução do problema dual: cesta E

HH
H
HH
H
HH
HH H
HH
HH
H s E H
HH
HH H u0
H HH
HH H
Gasto
H HH
HH H
H HH 
HH H
HH HH
-
x1

A cesta de bens ótima continua sendo consumir quantidades dos bens tais que ax1 = bx2 ).
Portanto axh1 = bxh2 e usando a restrição do problema, encontramos:
u0 u0
xh1 (p1 , p2 , u0 ) = e xh2 (p1 , p2 , u0 ) =
a b

1.1.14 CSO para o caso de Dois Bens


As CSO do problema dual do consumidor quando podemos resolvê-lo usando o método de Lagrange
são dadas pelo Hessiano orlado do problema. No caso de dois bens apenas, as CSO se resumem
ao determinante do Hessiano orlado ser negativo.
O Hessiano orlado no caso de dois bens é:
 ∂2L ∂2L ∂2L
  
∂µ2 ∂µ∂x1 ∂µ∂x2 0 −u1 −u2
∂2L ∂2L ∂2L
H= = −u1 −µu11 −µu12 
  
∂x1 ∂µ ∂x21 ∂x1 ∂x2
∂2L ∂2L ∂2L −u2 −µu12 −µu22
∂x2 ∂µ ∂x2 ∂x1 ∂x22

5
O determinante do Hessiano orlado é:

det(H) = −2µu1 u2 u12 + µu22 u11 + µu21 u22

Como µ > 0, as demandas Hicksianas vão ser de fato um mı́nimo do problema dual do consumidor
se:
−2u1 u2 u12 + u22 u11 + u21 u22 < 0 ou 2u1 u2 u12 − u22 u11 − u21 u22 > 0.
A CSO para o problema de minimização da função dispêndio é igual à CSO do problema de
maximização da utilidade.
Os dois problemas do consumidor exigem que as curvas de indiferença sejam convexas em relação
à origem para que as CPO sejam suficientes para um ótimo.
Portanto, para ambos os problemas de minimização do dispêndio e maximização da utilidade,
função de utilidade bem-comportada garante que o determinante do Hessiano orlado tenha o sinal
requerido.

1.1.15 Propriedades da Função Dispêndio


Se u(x1 , x2 ) é contı́nua e estritamente crescente, então e(p1 , p2 , u0 ) é:
1. Contı́nua,

2. Homogênea de grau 1 nos preços,

3. Estritamente crescente em u e crescente nos preços.

4. Côncava nos preços,

5. Lema de Shepard: A derivada de e(p1 , p2 , u0 ) com relação ao preço de um bem é a demanda


desse bem:
∂e(p1 , p2 , u0 )
= xhi (p1 , p2 , u0 ), i = 1, 2.
∂pi

1.1.16 Homogênea de grau um nos preços


A função dispêndio é homogênea de grau um nos preços:

e(tp1 , tp2 , u0 ) = te(p1 , p2 , u0 ), para todo t ≥ 0

Essa é uma consequência direta da definição da função dispêndio: se todos os preços dobram,
então a renda deve dobrar para o consumidor permanecer na mesma curva de indiferença.

1.1.17 Preços e Utilidade


A função dispêndio é crescente nos preços e estritamente crescente em pelo menos um dos preços,
estritamente crescente na utilidade.
Um aumento do preço do bem 1 (por exemplo) obriga o consumidor a gastar mais (ou o mesmo,
se xh1 = 0) para manter o nı́vel de utilidade u0 .
No caso de um aumento do nı́vel de utilidade almejado, se os preços estão fixos, então o consumidor
tem necessariamente que gastar mais para alcançar esse nı́vel de utilidade maior.

6
1.1.18 Côncava nos Preços
Essa propriedade da função dispêndio é crucial na teoria do consumidor, pois gera propriedades
importantes das funções de demandas Hicksianas.
A função de dispêndio e(p1 , p2 , u0 ) é côncava nos preços se para os preços (p1 , p2 ), (p̂1 , p̂2 ) e
(pα1 , pα2 ) = α(p1 , p2 ) + (1 − α)(p̂1 , p̂2 ), temos que

e(pα1 , pα2 , u0 ) ≥ αe(p1 , p2 , u0 ) + (1 − α)e(p̂1 , p̂2 , u0 ),

para todo α ∈ [0, 1].


Vamos primeiro ver o que significa essa definição em termos gráficos.

Gasto
6
Dispêndio Passivo
eP = p1 x∗1 + p2 x∗2




 Função Dispêndio

 e(p1 , p2 , u0 )
s

e(p1 , p2 , u0 ) 










-
p1 p1

1.1.19 Intuição da Representação Gráfica


A inclinação da reta eP de dispêndio passivo é x∗1 , a quantidade comprada do bem 1. Porém, o
consumidor ajusta a cesta que consume quando o preço p1 muda e, portanto, a curva de dispêndio
se posiciona abaixo da reta ep .
Quando essas duas linhas se tocarão? Quando o preço é tal que o consumo ótimo é x∗1 , ambas as
linhas eP , o dispêndio passivo, e e(p1 , p2 , u0 ), o dispêndio ótimo, vão ter o mesmo valor e serão
tangentes. Para outros nı́veis de preços, a função de dispêndio está abaixo da reta eP . Portanto,
a função dispêndio é côncava.

1.1.20 Lema de Shepard


As derivadas da função dispêndio com respeito aos preços são as funções de demanda Hicksianas:
∂e(p1 , p2 , u0 )
= xhi (p1 , p2 , u0 ), i = 1, 2.
∂pi
Portanto, podemos encontrar as funções de demanda Hicksianas a partir da função dispêndio.

7
1.1.21 Lei da Demanda
Se combinarmos as propriedade de concavidade nos preços e o lema de Shepard, obtemos:

∂xhi ∂ 2e
= 2 ≤ 0,
∂pi ∂pi

⇒ A demanda Hicksiana satisfaz a lei da demanda sem exceções mesmo do ponto de vista
teórico: um aumento nos preços leva a uma queda na quantidade consumida (ou a quantidade
consumida não se altera), se mantivermos o nı́vel de utilidade do consumidor constante.

1.1.22 Observação
Ponto principal: uma restrição orçamentária linear nos preços é transformada em uma função
dispêndio côncava nos preços, devido à minimização dos gastos pelo consumidor. Se o consumidor
procura minimizar os seus gastos quando tenta atingir um nı́vel de utilidade u, o custo incorrido
aumenta proporcionalmente menos do que a mudança nos preços.
Não é necessário fazer qualquer hipótese sobre a utilidade para se atingir esse resultado: se o
consumidor minimiza os gastos para obter um dado nı́vel de utilidade, esses gastos crescem pro-
porcionalmente menos do que uma mudança nos preços, qualquer que seja a função de utilidade
do consumidor.

1.1.23 Simetria
A mudança na quantidade demandada do bem i quando o preço do bem j muda é igual à mudança
na quantidade demandada do bem j quando o preço do bem i muda, mantendo o nı́vel de utilidade
constante:
∂xhk ∂ 2e ∂ 2e ∂xhi
= = =
∂pi ∂pk ∂pi ∂pi ∂pk ∂pk
Então:
∂xhk ∂xhi
=
∂pi ∂pk

1.1.24 Matriz de Substituição


A matriz de substituição associada à demanda Hicksiana x(p, u0 ) é definida como:
 
∂xh ∂xh
1
∂p1
... 1
∂pn
 . ... .. 
σ= .
 . . 

∂xh ∂xh
n
∂p1
... n
∂pn

Propriedades da Matriz de Substituição. A matriz de substituição σ é simétrica e negativa


semidefinida.

8
1.2 Equivalência dos Problemas do Consumidor
1.2.1 Os Dois Problemas do Consumidor
Considere os dois problemas do consumidor:

max u(x1 , x2 ) s.a p1 x1 + p2 x2 = m (1)


x1 ,x2

min p1 x1 + p2 x2 s.a u(x1 , x2 ) = u0 (2)


x1 ,x2

Se certas condições técnicas são satisfeitas, então:


1) Maximização da utilidade implica minimização do dispêndio. Sejam (x∗1 , x∗2 ) solução
de (1) e u0 = u(x∗1 , x∗2 ). Então (x∗1 , x∗2 ) é solução do problema (2).
2) Minimização do dispêndio implica maximização da utilidade. Sejam (x∗1 , x∗2 ) solução
de (2) e m = p1 x∗1 + p2 x∗2 , m > 0. Então (x∗1 , x∗2 ) é solução do problema (1).

1.2.2 Dualidade
Algebricamente, temos que as seguintes relações entre a função de utilidade indireta e a função de
dispêndio são válidas:
e(p1 , p2 , v(p1 , p2 , m)) = m
v(p1 , p2 , e(p1 , p2 , u)) = u0
Para as funções de demanda, valem as seguintes relações para todo i = 1, . . . , n:
xM h
i (p1 , p2 , m) = xi (p1 , p2 , v(p1 , p2 , m))
xhi (p1 , p2 , u0 ) = xM
i (p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )),

As relações entre a função de utilidade indireta e a função de dispêndio, dadas por


e(p1 , p2 , v(p1 , p2 , m)) = m
v(p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )) = u0 ,
mostram uma maneira mais curta para se achar a função dispêndio (a função de utilidade indireta)
a partir da função de utilidade indireta (da função dispêndio).
Para isso, basta “invertemos” uma das funções para achar a outra, e, portanto, não é, em geral,
necessário resolver os dois problemas do consumidor.

1.2.3 Estática Comparativa


As estáticas comparativas dos dois problemas do consumidor são diferentes. Por exemplo, os
ajustamentos nas duas demandas devido a uma mudança de preços são diferentes, já que diferentes
variáveis são mantidas constantes em cada problema.
A demanda Marshalliana xM i (p1 , p2 , m), obtida do problema de maximização da utilidade, mantém
o nı́vel de renda constante. Se o preço do bem 1 diminui, por exemplo, a reta orçamentária se
torna mais horizontal (ver figura a seguir). O consumidor, com o mesmo nı́vel de renda, pode
alcançar um nı́vel de utilidade mais alto (cesta ótima se desloca de E para Ê).

9
x2
6
m Preço do bem 1 diminuiu
p2 Q
eQ
eQ Solução muda de E para Ê
e QQ
e Q
e Q
Q
e Q
e E QQ
es Q
Q Ê
e Qs
e Q
e Q
Q
e Q
e Q
Q
e Q
e Q
Q
e Q
e Q
Q
e QQ
e -
m - m x1
p1 p̂1

1.2.4 Estática Comparativa - Demanda Hicksiana


A demanda Hicksiana xhi (p1 , p2 , u0 ), obtida do problema de minimização do dispêndio, mantém o
nı́vel de utilidade constante.
Se o preço do bem 1 aumenta, por exemplo, a inclinação da reta de dispêndio aumenta (em valor
absoluto). Para essa nova relação de preços, o equilı́brio muda de E para Ê.
Observe que a cesta original E não é mais acessı́vel, no sentido de que o dispêndio mı́nimo
necessário para alcançar Ê não é suficiente para alcançar E (aos novos preços).

x2
6 Equilı́brio: E
Preço do bem 1 aumentou
T
T Solução muda de E para Ê
T
T
T
Q T
Q T s Ê
Q
Q T I
QT @
Q @
T
Q
TQQsE
T Q
T Q
Q
T Q
T Q
Q
T Q
T Q
Q
-
x1

10
1.2.5 Exemplo - Cobb-Douglas
Vimos que para a utilidade Cobb-Douglas u(x1 , x2 ) = xα1 x1−α
2 , α ∈ (0, 1), as demandas Marshal-
lianas e a função de utilidade indireta são:
m m
xM
1 = α e xM
2 = (1 − α)
p1 p2
−(1−α)
v(p1 , p2 , m) = αα (1 − α)1−α p−α
1 p2 m

Usamos a relação v(p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )) = u0 para encontrar e(p1 , p2 , u0 ):

−(1−α)
v(p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 ) = αα (1 − α)1−α p−α
1 p2 e(p1 , p2 , u0 ) = u0

⇒ e(p1 , p2 , u0 ) = α−α (1 − α)−(1−α) pα1 p1−α


2 u0

Vimos que as demandas Hicksianas geradas pela utilidade Cobb-Douglas são:


 1−α
h α
x1 (p1 , p2 , u0 ) = pα−1
1 p1−α
2 u0
1−α
 −α
α
h
x2 (p1 , p2 , u0 ) = pα1 p−α
2 u0
1−α

Logo, a função dispêndio é:

e(p1 , p2 , u0 ) = α−α (1 − α)−(1−α) pα1 p1−α


2 u0 ,

exatamente a expressão que derivamos usando a identidade v(p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )) = u0 , como


esperado.
As demandas Marshallianas e a função dispêndio geradas pela utilidade Cobb-Douglas são:
m m
xM
1 = α e xM
2 = (1 − α)
p1 p2

e(p1 , p2 , u0 ) = α−α (1 − α)−(1−α) pα1 p21−α u0

Usamos a relação xM h h
1 (p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )) = x1 (p1 , p2 , u0 ) para encontrar x1 (p1 , p2 , u0 ):

α−α (1 − α)−(1−α) pα1 p21−α u0


 
xM
i (p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )) =α
p1
−(1−α) 1−α
⇒ xM
i (p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 )) = α
1−α
(1 − α)−(1−α) p1 p2 u0 ,

exatamente o que derivamos no problema dual, como esperado.

11
1.3 Equação de Slutsky
1.3.1 Equação de Slutsky
Como o ajustamento da demanda Marshalliana é diferente do ajustamento da demanda Hicksiana
quando um preço se altera, a pergunta óbvia é se existe alguma conexão entre esses dois ajusta-
mentos. A resposta é sim, e essa conexão é descrita pela equação de Slutsky. Vimos anteriormente
que:
xhi (p1 , p2 , u0 ) = xM
i (p1 , p2 , e(p1 , p2 , u0 ))

Se u é o nı́vel de utilidade máximo que o consumidor obtém aos preços p = (p1 , p2 ) e renda m, ao
derivarmos a identidade acima com relação a pj obtemos a equação de Slutsky:
∂xM
i (p, m) ∂xhi (p, u∗ ) ∂xM (p, m) M
= − i xj (p, m)
∂pj ∂pj ∂m

A equação de Slutsky permite decompor o efeito de uma mudança de preço em dois efeitos, o
efeito renda e o efeito substituição:
∂xM
i (p, m) ∂xhi (p, u) ∂xM (p, m)
= − xj (p, m) i
M
,
∂pj ∂pj | {z ∂m }
| {z } | {z }
efeito total efeito substituição efeito renda

onde u é o nı́vel de utilidade máximo que o consumidor consegue alcançar aos preços p e renda
m.
A equação de Slutsky relaciona a demanda Marshalliana, observável, com a demanda Hicksiana,
não observável, por meio do efeito renda.
Considere a equação de Slutsky para o bem i:
∂xM
i (p, m) ∂xhi (p, u) ∂xM
i (p, m)
= − xM
i (p, m)
∂pi ∂p ∂m }
| {z } | {zi } | {z
efeito total efeito substituição Efeito Renda

1) Efeito Substituição Hicksiano: se o preço do bem aumentou, o consumidor substitui o


consumo desse bem pelo consumo de outros bens, dada a nova relação de preços dos bens e
mantendo-se o bem-estar do consumidor constante. O efeito substituição é sempre negativo (mais
exatamente, sempre não positivo).
2) Efeito Renda: com o aumento do preço, há uma diminuição da renda disponı́vel a ser
gasta. Esse efeito pode ser negativo ou positivo, dependendo se o bem é normal ou inferior,
respectivamente.

1.3.2 Observação
O consumidor, quando o preço muda, não calcula o seu efeito subsituição e o seu efeito renda, ele
apenas escolhe uma nova cesta de bens.
Essa divisão é apenas uma decomposição teórica que auxilia na compreensão do efeito de uma
mudança de preços na quantidade demandada do bem.

12
1.3.3 Representação Gráfica
Digamos que o preço do bem 1 diminuiu. A decomposição gráfica do efeito total na demanda
Marshalliana da diminuição do preço p1 nos dois efeitos acima pode ser representada da forma
ilustrada no gráfico a seguir.
O efeito total na demanda devido a uma diminuição do preço do bem 1 é x∗∗∗ 1 − x∗1 . O efeito
substituição é x∗∗ ∗ ∗∗∗ ∗∗
1 − x1 . O efeito renda x1 − x . O efeito total é a soma desses dois efeitos:

x∗∗∗ − x∗ = (x∗∗ − x∗ ) + (x∗∗∗ − x∗∗ )


| 1 {z }1 | 1 {z 1} | 1 {z 1 }
Efeito Total Efeito Substituição Efeito Renda

x2
6 Equilı́brio inicial: E, consumo de x∗1 unidades do bem 1

m
Preço do bem 1 diminuiu
p2 Q
eQ Efeito Substituição: x∗1 → x∗∗ 1
eQ
Q Efeito Renda: x1 → x1 ∗∗ ∗∗∗
e Q
Efeito Total: x∗1 → x∗∗∗
e Q
e Q
Q 1
Q e Q
x1
∗∗∗ ∗
− x1 =
∗∗ ∗
(x1 − x1 )
∗∗∗
+ (x1
∗∗
− x1 )
Q e E QQ
Q es
| {z } | {z } | {z }
Q Efeito Total Efeito Substituição Efeito Renda
Q Q ˆ
Qe
Qe Q sÊ
Q Q
eQ s Ê Q
Q
eQQ Q
e Q Q
Q
e QQ Q
e Q Q
Q Q
e Q Q
e Q Q
Q Q
e Q
s s se QQ-
x1
x∗1 - x∗∗
1
- x∗∗∗
1

1.3.4 Bem de Giffen


Vimos que a demanda Marshalliana quase sempre responde negativamente a uma mudança de
preço, todo o resto mantido constante, pois existe a possibilidade teórica da quantidade consumida
de um bem aumentar (diminuir) com um aumento (queda) do seu preço (bem de Giffen).
A equação de Slustky mostra que para um bem de Giffen, o efeito renda tem que ser negativo o
suficiente para suplantar o efeito substituição.
Logo, todo bem de Giffen é um bem inferior. Porém, nem todo bem inferior é bem de Giffen.

1.3.5 Lei da Demanda


Podemos então caracterizar melhor o efeito de uma mudança no preço de um bem sobre a sua
demanda:

Lei da Demanda. Uma diminuição no preço de um bem normal faz a demanda por este bem
aumentar. Se essa diminuição faz a demanda pelo bem cair, então o bem deve necessariamente
ser inferior.

Então todo bem normal é bem comum, mas nem todo bem comum é bem normal.

13
1.3.6 Matriz de Slutsky
A matriz de Slutsky associada à demanda xM (p, y) definida por:
 ∂x1
+ x1 ∂x ∂x1
+ xn ∂x

∂p1 ∂y
1
. . . ∂p n ∂y
1

 .. ... .. 
 . . 
∂xn ∂xn ∂xn ∂xn
∂p1
+ x1 ∂y . . . ∂pn + xn ∂y

é simétrica e negativa semidefinida.

1.3.7 QUESTÕES DA ANPEC


RESOLVER: Questão 2 - Exame 2011; Questões 2 e 3 - Exame 2010; Questão 1 - Exame 2009;
Questão 3 - Exame 2007; Questão 2 - Exame 2006; Questão 1 - Exame 2005; Questão 2 - Exame
1999; Questões 3 e 12 - Exame 1998.

Questões mais antigas: Questão 1 - Exame 1995; Questão 11 - Exame 1994; Questão 1 - Exame
1992.

14
2 Bem-Estar do Consumidor
2.1 Excedente do Consumidor
2.1.1 Excedente do Consumidor
Quando ocorre alguma mudança no ambiente econômico, como por exemplo um aumento de preço,
um novo imposto, etc, consumidores e firmas podem ficar em situação melhor ou pior do que antes
da mudança.
O excedente do consumidor (EC) é a medida clássica da mudança do bem-estar de um indivı́duo
devido a uma mudança no ambiente econômico.
O excedente do consumidor é a diferença entre a utilidade total obtida pelo consumo e o valor pago
pelas unidades consumidas do bem analisado. Ele representa o ganho que o consumidor obtém ao
comprar várias unidades do bem pagando sempre o mesmo preço.

preço
6

A Q
Q
Q *

Excedente do Consumidor
Q 
Q

 Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q B Valor pago pelas unidades consumidas
p Qs
Q :

Q 
Q
 Q
 Q
Q
Q
Q
Q
Curva de Demanda Inversa
-
0 x qttde

O excedente do consumidor é dado por:


Z q̄
EC = [p(q) − p] dq,
0

onde p(q) é a função de demanda inversa do bem considerado.


A variação no excedente do consumidor (∆EC) para uma mudança no preço do bem de p0 para
p1 , p1 > p0 (e a quantidade muda de q 0 para q 1 , q 1 < q 0 ) é:
Z q1 Z q0
1 0
p(q) − p1 dq − p(q) − p0 dq,
   
∆EC = EC(p ) − EC(p ) =
0 0

15
preço
6 A variação do EC devido a um aumento
de preços do bem é o EC antes do aumento
10 Q EC(p1 )
menos o EC após o aumento do preço.
Q 1

XQXQ
XX  

Q XXXX
Q XXX
p1 Qs
Q XXX z
Q EC(p0 )
Q 
*
Q 
Q
p0 Qs
Q
Q ∆EC = EC(p1 ) − EC(p0 ) < 0
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Curva de Demanda Inversa
-
qtde
x1 x0

A variação no EC causada por um aumento do preço do bem pode ser decomposta em duas áreas.
A primeira é a perda gerada pelo aumento do preço nas quantidades do bem que ainda são
consumidas (área A na figura abaixo).
A segunda é a perda gerada pela diminuição do consumo do bem causada pelo aumento do preço
(área B na figura abaixo).
Note que pela fórmula acima, o valor do excedente do consumidor será negativo. O sinal serve
apenas para indicar que, com o aumento do preço do bem, houve uma perda de bem-estar do
consumidor.

Decomposição do EC em duas áreas, no caso


preço
6 de um aumento do preço do bem:
∆EC1 1. A é a perda por pagar mais pelas unidades
10 Q
Q
Q 
 ainda consumidas do bem, e
Q 
Q 
Q
2. B é a perda por consumir menos do bem.
Qs
 Q
p1 

Q
Q *

∆EC2
Q 
A B Q

∆ECT otal = ∆EC1 + ∆EC2
Qs
Q
p0
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Curva de Demanda Inversa
-
1 0 qtde
x x

16
Podemos simplificar a expressão acima usando o fato que:
"Z 0 #
q
p(q) − p0 dq + p1 q 1 − p0 q 1
 
∆EC = −
q1

Podemos simplificar a expressão acima mais uma vez:


"Z 0 #
q
p(q)dq + p1 q 1 − p0 q 0

∆EC = −
q1

2.1.2 Usando a Demanda Direta para Calcular o Excedente do Consumidor


Porém, para calcular o EC para uma mudança de preços, é mais conveniente usar a demanda
Marshalliana diretamente. Nesse caso, o EC para um nı́vel de preços p é dado por:
Z p
EC = q(p)dp,
p

onde p é o menor preço tal que a demanda se iguale a zero (q(p) = 0).
Logo, para uma variação de preço, de p0 para p1 , a variação no excedente do consumidor é:
Z p0
∆EC = q(p)dp
p1

Observe que o excedente será positivo se o preço do bem reduziu, indicando um aumento no
bem-estar do consumidor. O excedente será negativo se o preço do bem subiu, indicando uma
diminuição no bem-estar do consumidor.

qtde
6

Q
Q
Q
Q
Q
Q
x0 Qs
Q
Q
Q
Q
Q
x1 Qs
Q
Q
Q
Q
Q
Q
∆EC Q
Q
Q
Q
Q
Curva de Demanda
-
0 1 preço
p p

17
2.1.3 Exemplo
A demanda de um bem para um certo consumidor é dada por q(p) = 20 − 2p. Imagine que o
preço desse bem aumentou de R$ 2 para R$ 3. A variação no excedente do consumidor para esse
aumento de preço é dada por:
Z 3
[20 − 2p] dp = − 20(3 − 2) − (32 − 22 ) = −15.
 
∆EC = −
2

A demanda inversa para esse consumidor é dada por p = 10 − q/2. Vamos calcular ∆EC usando
a fórmula da demanda inversa:
"Z 0 #
q
p(q)dq + p1 q 1 − p0 q 0

∆EC = −
q1

Precisamos achar as quantidades q 0 e q 1 . Elas são encontradas usando a função de demanda:

p0 = 2 ⇒ q 0 = 20 − 2p0 = 16
p1 = 3 ⇒ q 1 = 20 − 2p1 = 14

Usando esses valores na fórmula para ∆EC acima, temos que:


Z 16 h 
qi 1 1 0 0

∆EC = − 10 − dq + p q − p q
14 2
 
1 2 2

= − 10(16 − 14) − 16 − 14 + (3 × 14 − 2 × 16)
4
= − [20 − 15 + (42 − 32)] = −15.

2.1.4 Problemas no Excedente do Consumidor


O excedente do consumidor não é adequado para medir mudanças no bem-estar do consumidor.
Quando integramos ao longo da demanda Marshalliana, o nı́vel de satisfação do consumidor pode
mudar. Logo, uma compensação baseada no EC não necessariamente manterá a utilidade do
consumidor constante.

2.1.5 QUESTÕES DA ANPEC


RESOLVER: Questão 4 - Exame 2002.

2.2 Variação Compensadora e Variação Equivalente


2.2.1 Variação Compensadora e Variação Equivalente
Suponha uma mudança de polı́tica, cuja consequência é a redução do preço de um certo bem de
p0 para p1 (p1 < p0 ). Idealmente, a medida natural da perda (ou ganho, depende do caso) do
consumidor causada pela mudança de preço seria:

v(p1 , m0 ) − v(p0 , m0 ),

onde estamos omitindo os preços dos outros bens para simplificar a notação.

18
Essa diferença é positiva, pois o preço do bem caiu, e, portanto, a mudança de polı́tica beneficia o
consumidor. Se o preço tivesse aumentado, ela seria negativa, e, portanto, a mudança de polı́tica
prejudicaria o consumidor.
Porém, essa medida é vazia de sentido. Não há significado prático nela, já que considera a utilidade
indireta.
Duas medidas de bem-estar do consumidor mais precisas do que o EC são a variação compensadora
(V C) e a variação equivalente (V E).
A V C é a quantidade de dinheiro que temos que tirar do indivı́duo depois da variação de preços,
para deixá-lo com o mesmo bem-estar que tinha antes dessa variação:
v(p1 , m0 − V C) = v(p0 , m0 )
A V E é a quantidade de dinheiro que temos que dar ao indivı́duo antes da variação de preços,
para deixá-lo com o mesmo bem-estar que terá depois dessa variação:
v(p1 , m0 ) = v(p0 , m0 + V E)

2.2.2 Variação Compensadora


Vamos calcular V C explicitamente, usando a função dispêndio para isso:
e(p1 , v(p1 , m0 − V C)) = e(p1 , v(p0 , m0 ))
Como e(p, v(p, m0 )) = m0 , então encontramos que:
V C = m0 − e(p1 , v(p0 , m0 )).
Essa é a forma de calcular a variação compensadora: ela é a diferença entre a renda original e a
renda que, aos novos preços, mantém o consumidor com o nı́vel de utilidade inicial.

2.2.3 Variação Equivalente (V E)


Vamos calcular V E explicitamente, usando a função dispêndio para isso:
e(p0 , v(p1 , m0 )) = e(p0 , v(p0 , m0 + V E))
Como e(p, v(p, m0 )) = m0 , encontramos que:
V E = e(p0 , v(p1 , m0 )) − m0 .
A variação é a diferença entre a renda que, aos preços antigos, mantém o consumidor com o nı́vel
de utilidade que terá após a mudança de preços e a renda original.

2.2.4 Sinal de V C e V E
Pelo modo como definimos V E e V C, os dois terão sempre o mesmo sinal. Mais ainda, se a
mudança ocorrida melhorou o bem-estar do indivı́duo, então V C > 0 e V E > 0. Se a mudança
ocorrida piorou o bem-estar do indivı́duo, então V C < 0 e V E < 0.
A função e(p1 , v(p2 , m)), usada para calcular ambas a V C e a V E, mede quanto dinheiro o
consumidor precisa aos preços p1 para estar tão bem quanto estaria aos preços p2 e renda m. Ela
é chamada de função indireta da métrica do dinheiro.
Essa função tem a propriedade desejável de conter apenas variáveis observáveis e de não existir
nenhuma ambiguidade quanto a transformações monotônicas da função utilidade.

19
2.2.5 Qual Medida Usar?
Qual medida é mais apropriada? Depende do que queremos medir.
Se queremos calcular um esquema de compensação aos novos preços, então V C é mais adequada.
Se queremos calcular o quanto o consumidor está disposto a pagar por uma mudança de polı́tica,
seja para evitar essa mudança, no caso em que ela piora o seu bem-estar, seja para implementar
essa mudança, no caso em que ela melhora o seu bem-estar (“willingness to pay”), V E é mais
adequado.

2.2.6 QUESTÕES DA ANPEC


RESOLVER: Questão 2 - Exame 2008, itens
3 e .
4

2.3 Relação entre as Medidas


2.3.1 VC e VE
Suponha que o preço do bem 1 mude de p01 para p11 , e a renda e os preços dos outros bens
permaneçam inalterados. Nesse caso, simplificando a notação, temos que:

V C = m0 − e(p1 , v(p0 , m0 )) = e(p0 , v(p0 , m0 )) − e(p1 , v(p0 , m0 ))


V E = e(p0 , v(p1 , m0 )) − m0 = e(p0 , v(p1 , m0 )) − e(p1 , v(p1 , m0 ))

Denote u0 = v(p0 , m0 ) e u1 = v(p1 , m0 ). Usando essa notação, obtemos:

V C = e(p0 , u0 ) − e(p1 , u0 )
V E = e(p0 , u1 ) − e(p1 , u1 )

Usando o Teorema Fundamental do Cálculo e o lema de Shepard, obtemos:


Z p0 Z p0
0 0 1 0 ∂e 0
V C = e(p , u ) − e(p , u ) = (p, u )dp = q h (p, u0 )dp
p 1 ∂p 1 p 1
Z p0 Z p0
∂e
V E = e(p0 , u1 ) − e(p1 , u1 ) = (p, u1 )dp = q h (p, u1 )dp
p 1 ∂p 1 p 1

Portanto, a variação compensadora é a integral da demanda Hicksiana calculada no nı́vel inicial


de utilidade u0 e a variação equivalente é a integral da demanda Hicksiana calculada no nı́vel final
de utilidade u1 .

2.3.2 Relação entre ∆EC, V C e V E


Vamos mostrar que
V C ≤ ∆EC ≤ V E,
se o bem cujo preço mudou for normal.
Se o bem for inferior, a relação contrária vale:

V E ≤ ∆EC ≤ V C.

20
Observação: Para mostrar isso, vamos usar a equação de Slustky:

∂q(p, m) ∂q h (p, u∗ ) ∂q(p, m)


= − q(p, m)
∂p ∂p ∂m
Usando a equação de Slutsky, obtemos:

∂q h (p, u∗ ) ∂q(p, m) ∂q h (p, u∗ )


 
∂q(p, m)
1) < , se o bem é normal ou seja, > ,
∂p ∂p ∂p ∂p

∂q h (p, u∗ ) ∂q(p, m) ∂q h (p, u∗ )


 
∂q(p, m)
2) > , se o bem é inferior ou seja, <
∂p ∂p ∂p ∂p

A curva de demanda Marshalliana q(p, m) é mais inclinada do que as curvas de demanda Hicksiana
q h (p, u0 ) e q h (p, u1 ), quando o bem é normal. A curva de demanda Marshalliana cruza essas duas
curvas nos preços p0 e p1 , pois:

q(p0 , m) = q h (p0 , v(p0 , m)) = q h (p0 , u0 )


q(p1 , m) = q h (p1 , v(p1 , m)) = q h (p1 , u1 )

Suponha que o preço diminuiu: p0 > p1 (a mudança melhorou o bem-estar do consumidor: V C,


V E e ∆EC são positivas). Como a função de utilidade indireta é decrescente nos preços, temos
que v(p0 , m) = u0 < u1 = v(p1 , m). E como u0 < u1 , então a demanda Hicksiana para u1 está
acima da demanda Hicksiana para u0 .

q
6

VE
EC
s
q h (p, u1 )
VC
q h (p, u0 )

q M (p, m)
-
p1 p0 p

21
Z p0 Z p0 Z p0
h 1 0
⇒ q (p, u )dp < q(p, m )dp < q h (p, u0 )dp
p1 1 1
| {z } |p {z } |p {z }
VC ∆EC VE
Ou seja, temos que:
V C < ∆EC < V E,
se o bem for normal.
Relação análoga vale para bens inferiores, e é provada do mesmo modo acima, lembrando que
nesse caso a derivada da demanda Marshalliana é maior do que a derivada da demanda Hicksiana.

2.3.3 Funções Quaselineares


Quando as três medidas serão iguais? Quando a utilidade for quaselinear no bem. Nesse caso, a
demanda do bem depende apenas do preço desse bem, se a renda for grande o suficiente. Logo,
vamos supor (hipótese (?)) que a renda é grande o suficiente para que o consumo de ambos os
bens seja positivo. Vamos também normalizar o preço do bem 2 para 1.
Portanto, o efeito-renda é zero e, pela equação de Slutsky, a demanda Marshalliana é igual à
demanda Hicksiana.
O problema do consumidor para utilidade quaselinear é:
max g(x1 ) + x2 , s.a. px1 + x2 = m
x1 ,x2

Esse problema é equivalente ao problema


max g(x1 ) + m − px1 .
x1

Por (?), a solução é interior e a CPO é dada por:


g 0 (x∗1 ) = p
O problema dual do consumidor é dado por:
min px1 + x2 s.a. g(x1 ) + x2 = u
x1 ,x2

Esse problema é equivalente ao problema


min px1 + u − g(x1 )
x1

Por (?), a solução é interior e a CPO é dada por:


g 0 (xh1 ) = p
As demandas Hicksiana e Marshalliana são portanto iguais. Essas duas demandas são funções
apenas dos preços. Essa é uma propriedade geral das funções quaselineares.
O efeito-renda para o bem 1 é então nulo: uma variação na renda não altera a quantidade con-
sumida do bem 1.
Então o efeito total de uma mudança de preços é igual ao efeito substituição. Como as curvas de
demanda Marshalliana e Hicksiana são iguais, então temos que V C = ∆EC = V E.

22
2.3.4 Exemplo - Funções Quaselineares
Seja u(x, y) = ln x + y. Suponha que a renda seja grande o suficiente para que a solução seja
interior. A CPO para o problema primal do consumidor é:
1
g 0 (x) = p ⇒ =p
x
Se o preço do bem 1 aumenta de p0 = R$2 para p1 = R$3, então x0 = 1/2 e x1 = 1/3, o que
resulta em: Z p0 Z 3
1
∆EC = x(p)dp = − dp = ln(2) − ln(3) ∼
= −0, 41
p 1 2 p
Ou seja, para compensarmos o indı́viduo pelo aumento do preço do bem 1, devemos aumentar a
sua renda em R$ 0,41.
Vamos calcular a V C para esse exemplo. A utilidade indireta dessa função utilidade quaselinear
é:
v(p, m) = ln(1/p) + (m − 1),
já que x2 = m − px1 (p) = m − p(1/p) = m − 1.
Pela definição implı́cita de V C, temos que:

v(p1 , m − V C) = v(p0 , m) ⇒ ln(1/p1 ) + (m − V C − 1) = ln(1/p0 ) + (m − 1)

Portanto:
V C = ln(1/p1 ) − ln(1/p0 ) = ln(1/3) − ln(1/2) = ln(2) − ln(3)
Vamos calcular a V E agora para esse exemplo. Pela definição implı́cita de V E, temos que:

v(p1 , m) = v(p0 , m + V E) ⇒ ln(1/p1 ) + (m − 1) = ln(1/p0 ) + (m + V E − 1)

Portanto:
V E = ln(1/p1 ) − ln(1/p0 ) = ln(1/3) − ln(1/2) = ln(2) − ln(3)
Ou seja, V C = ∆EC = V E, como esperado.

2.3.5 QUESTÕES DA ANPEC


RESOLVER: Questão 2 - Exame 2007, item ;
1 Questão 1 - Exame 1997.

23
3 Outros Tópicos
3.1 Preferência Revelada
3.1.1 A idéia de Samuelson
As preferências das pessoas não são observáveis. O que podemos observar são as escolhas que as
pessoas fazem.
O objetivo da idéia de preferência revelada é verificar se as escolhas observadas são coerentes com
o princı́pio de maximização da utilidade.
A hipótese fundamental para essa análise é de preferências estáveis. Se as preferências mudarem
no perı́odo em que estamos conduzindo nossa investigação, então não podemos tirar nenhuma
conclusão observando as escolhas do consumidor.

3.1.2 Motivação
Qual é a idéia que motiva o conceito de preferência revelada? O indivı́duo, ao fazer sua escolha
de consumo, está revelando sua preferência.
Portanto, para o caso de dois bens, se ele escolhe a cesta E = (x∗1 , x∗2 ), então ele prefere essa cesta
a todas outras cestas que ele também poderia comprar.
Vamos supor também que as preferências são estritamente monótonas e estritamente convexas. A
análise de preferência revelada também pode ser feita relaxando-se essas hipóteses.

x2
6
Todas as cestas dentro da área delimitada
Q
Q
Q pela restrição orçamentária são reveladas
inferiores à cesta de equilı́brio E = (x∗1 , x∗2 )
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
∗ ∗
x∗2 s Q sE = (x1 , x2 )
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q-
x1
x∗1

24
3.1.3 Preferência Revelada
O consumidor escolheu a cesta (x∗1 , x∗2 ), quando os preços são p1 e p2 , e a renda m. Então essa
cesta satisfaz a reta orçamentária:
p1 x∗1 + p2 x∗2 = m
Qualquer outra cesta (x1 , x2 ) factı́vel de ser comprada aos preços p1 e p2 e renda m é revelada
inferior à cesta ótima. A cesta (x1 , x2 ) é factı́vel se

p 1 x1 + p 2 x2 ≤ m

Portanto, se a desigualdade acima é satisfeita (e a cesta (x1 , x2 ) é diferente da cesta (x∗1 , x∗2 )), isso
significa que a cesta (x1 , x2 ) foi preterida em relação à cesta (x∗1 , x∗2 ), e, portanto, a cesta (x∗1 , x∗2 )
é (diretamente) revelada preferida à cesta (x1 , x2 ).

Definição: Dizemos que a cesta x = (x1 , x2 ) é (diretamente) revelada preferida à cesta y = (y1 , y2 )
(e escrevemos x RD y) se o consumidor escolheu a cesta x e se a cesta y custa no máximo o
mesmo que a cesta x, isto é,
p 1 y 1 + p 2 y 2 ≤ p 1 x1 + p 2 x2 .

Se o consumidor maximiza a utilidade, dada a sua restrição orçamentária, então podemos afirmar
o seguinte:

Princı́pio da Preferência Revelada. Seja (x1 , x2 ) a cesta escolhida quando os preços são p1 , p2 .
Se o consumidor maximiza a sua utilidade dada sua restrição orçamentária, então para qualquer
outra cesta (y1 , y2 ) tal que p1 y1 + p2 y2 ≤ p1 x1 + p2 x2 , temos que (x1 , x2 )  (y1 , y2 ).

O princı́pio da preferência revelada parece circular, porém ele é um teste da teoria do consumidor.
Se o consumidor está agindo de modo coerente com a maximização do seu bem-estar, o seu
comportamento vai satisfazer o princı́pio da preferência revelada e também o axioma abaixo.

3.1.4 Axioma Fraco da Preferência Revelada


Axioma Fraco da Preferência Revelada (AFrPR). Seja (x1 , x2 ) uma cesta (diretamente)
revelada preferida à cesta (y1 , y2 ), com (x1 , x2 ) 6= (y1 , y2 ). Então (y1 , y2 ) não pode ser (diretamente)
revelada preferida à (x1 , x2 ).

O AFrPR diz que se a cesta (x1 , x2 ) é revelada preferida à cesta (y1 , y2 ) quando os preços são p1
e p2 e a cesta (y1 , y2 ) é escolhida quando os preços são pe1 e pe2 , (com (x1 , x2 ) 6= (y1 , y2 )) então não
podemos ter que
pe1 x1 + pe2 x2 ≤ pe1 y1 + pe2 y2 ,
qualquer que seja o outro sistema de preços pe1 , pe2 .
Se a cesta (x1 , x2 ) foi revelada preferida à cesta (y1 , y2 ), e a cesta (y1 , y2 ) passa a ser a cesta
escolhida em uma nova relação de preços, então a cesta (x1 , x2 ) não pode mais ser comprada - ela
necessariamente deve custar mais caro do que a cesta (y1 , y2 ).
Ou seja, se a cesta (x1 , x2 ) foi revelada preferida à cesta (y1 , y2 ), então a cesta (y1 , y2 ) não pode
ser revelada preferida à cesta (x1 , x2 ).

25
x2
6
J
J As duas cestas (x∗1 , x∗2 ) e (y1∗ , y2∗ ) não
J podem ser ambas reveladas cestas preferidas
J
J
J
HH J

y2 H s
HH J
J

(y1∗ , y2∗ ) HJ
HH
J H
J HH
H
s
J H

x2 J (x1 , x∗2 )HH

J HH
J H
HH
J H
J HH -
y1∗ x∗1 x1

O AFrPR é uma consequência natural do comportamento otimizador: se o consumidor escolheu


(x1 , x2 ) e não (y1 , y2 ) quando ele podia comprar essas duas cestas, então o consumidor escolherá
(y1 , y2 ) em qualquer outra situação (qualquer outro nı́vel de preços) somente se ele não puder mais
adquirir a cesta (x1 , x2 ).
Se esse não for o caso, então esse consumidor está violando a sua escolha anterior. Por isso a
hipótese de preferências estáveis é fundamental: se as preferências mudam, o AFrPR não tem
mais porque ser válido.
O AFrPR não esgota todas as implicações testáveis do comportamento maximizador. Uma pro-
priedade básica sobre preferências que não foi levado em conta é a transitividade.

3.1.5 O Axioma Forte da Preferência Revelada


Suponha que a cesta (x1 , x2 ) foi (diretamente) revelada preferida à cesta (y1 , y2 ), aos preços p1 e
p2 , e a cesta (y1 , y2 ) foi (diretamente) revelada preferida à cesta (z1 , z2 ), aos preços pe1 e pe2 .
Se as preferências são transitivas, então é válido dizer que a cesta (x1 , x2 ) é (indiretamente)
revelada preferida à cesta (z1 , z2 ).
Usando essas duas relações de escolhas, e assumindo que as preferências são transitivas, podemos
indiretamente afirmar que a cesta (x1 , x2 ) é preferida à cesta (z1 , z2 ).

Axioma Forte da Preferência Revelada (AFoPR). Seja (x1 , x2 ) uma cesta revelada preferida
direta ou indiretamente à cesta (y1 , y2 ), (x1 , x2 ) 6= (y1 , y2 ). Então (y1 , y2 ) não pode ser revelada
preferida nem direta nem indiretamente à (x1 , x2 ).

O AFoPR extende o AFrPR ao incluir a relação de preferência revelada indireta. É fácil notar que
se o consumidor maximiza a utilidade, então suas escolhas devem satisfar o AFoPR.
O resultado mais surpreendente nesse caso (e mais difı́cil de provar) é que o AFoPR esgota todas
as implicações do comportamento maximizador do consumidor: se as escolhas de consumo do
indivı́duo satisfazem o AFoPR, então podemos encontrar um sistema de preferências ou utilidade
que representa as escolhas desse indivı́duo.

26
Exemplo: Considere as três observações sobre consumo de uma famı́lia, onde os preços foram
coletados conjuntamente com as quantidades consumidas dos bens:

observação x1 x2 p1 p2
1 1 2 1 2
2 2 1 2 1
3 2 2 1 1

Essas escolhas satisfazem o AFrPR?


Verificando o AFrPR
Primeiro calculamos quanto foi gasto em cada observação e quanto o consumidor gastaria para
obter as outras cestas àqueles preços. A tabela abaixo resume essa informação:
Cesta Obs 1 Cesta Obs 2 Cesta Obs 3
Preços Obs 1 5 4 6
Preços Obs 2 4 5 6
Preços Obs 3 3 3 4
A diagonal da matriz acima é o valor que o consumidor pagou pelas cestas compradas. Cada linha
diz o quanto ele pagaria pelas outras cestas, aos preços da cesta escolhida.
Como verificamos se o AFrPR é satisfeito ou não?
Um modo simples de verificar o AFrPR é marcar com um asterisco em cada linha as cestas
dominadas pela cesta escolhida, ou seja, entre as quais a cesta escolhida é revelada preferida,
obtendo a seguinte tabela:
Cesta Obs 1 Cesta Obs 2 Cesta Obs 3
Preços Obs 1 5 4(*) 6
Preços Obs 2 4(*) 5 6
Preços Obs 3 3(*) 3(*) 4
Temos uma violação do AFrPR quando ambas as entradas mij e mji , com i 6= j, forem marcadas
com um asterisco. Nesse caso, x1 RD x2 e x2 RD x1 . Portanto, o AFrPR é violado.
Verificando o AFoPR
Suponha que a matriz com o valor das cestas, para todos os preços observados, é dada por:
Cesta Obs 1 Cesta Obs 2 Cesta Obs 3
Preços Obs 1 5 4(*) 6
Preços Obs 2 8 7 5(*)
Preços Obs 3 3(*) 5 4
Na tabela acima não existe nenhuma violação do AFrPR. Porém, temos uma violação do AFoPR,
pois x1 RD x2 e x2 RD x3 , o que deveria resultar em x1 R x3 . Vemos na tabela que x3 RD x1 ,
o que viola o AFoPR.

3.1.6 Questões da ANPEC


RESOLVER: QUESTÃO 2, EXAME 2009.
(Questões de exames mais antigos: QUESTÃO 2, EXAME 1996; QUESTÃO 2, EXAME 1994.)

27
3.2 Números Índices
3.2.1 Números Índices
Suponha observações de cestas de bens consumidas por uma famı́lia:

Perı́odo base: xb
Perı́odo corrente t: xt

Medimos a variação no consumo total (∆V CT ) como uma média das variações nos consumos dos
dois bens:
wxt
∆V CT =
wxb
A questão então se resume a escolher o sistema de pesos w. Existem duas escolhas óbvias: os
preços do perı́odo base e os preços do perı́odo t.

3.2.2 Índices de Quantidades de Laspeyres e de Paasche


No primeiro caso, w = pb obtemos o ı́ndice de quantidade de Laspeyres (QL ) e no segundo caso,
w = pt , obtemos o ı́ndice de quantidade de Paasche (QP ):

pb xt pt xt
QL = e QP =
pb xb pt xb
As seguintes afirmações são válidas:

1. Se QL < 1 ⇒ consumidor melhor no perı́odo base;

2. Se QP > 1 ⇒ consumidor melhor no perı́odo t;

3. Se QL > 1 ou QP < 1 ⇒ não podemos inferir nada.

Podemos também medir variações nos preços, usando como peso as quantidades consumidas no
perı́odo base ou no perı́odo t. No primeiro caso, obtemos o ı́ndice de preços de Laspeyres (PL ),
no segundo caso obtemos o ı́ndice de preços de Paasche (PP ):

pt xb pt xt
PL = e PP =
pb xb pb xt

Usando a variação de gasto total (∆GT ) do perı́odo base para o perı́odo t (∆ = pt xt )/(pb xb )), as
seguintes afirmações são válidas:

1. Se PL < ∆GT ⇒ consumidor melhor no perı́odo t;

2. Se PP > ∆GT ⇒ consumidor melhor no perı́odo base;

3. Se PL > ∆GT ou PP < ∆GT ⇒ não podemos inferir nada.

3.2.3 QUESTÕES DA ANPEC


RESOLVER: Questão 1 - Exame 2008.

28
3.3 Renda Endógena e Dotações Iniciais
3.3.1 Problema do Consumidor com Dotações Iniciais
No problema de maximização de utilidade do consumidor, assumimos que a renda era uma variável
exógena, fora do controle do consumidor.
Porém, em vários problemas o mais correto é a renda ser uma variável endógena. O exemplo mais
importante é o caso da renda do trabalho.
Vamos supor que o consumidor possua uma dotação inicial e = (e1 , e2 ) dos bens 1 e 2. Esses bens
podem ser vendidos no mercado aos preços p1 e p2 . Logo, a renda do consumidor é agora então
igual à m = p1 e1 + p2 e2 .
O problema do consumidor é agora:

max u(x1 , x2 ) s.a p 1 x1 + p 2 x2 = p 1 e 1 + p 2 e 2


x1 ,x2

Resolvendo esse problema, achamos as funções de demanda brutas (ou seja, o consumo final de
cada bem), denotadas por xi (p, pe), i = 1, 2.
A demanda lı́quida do bem i é a quantidade comprada ou vendida do bem i, ou seja, é a diferença
entre a demanda bruta e a dotação inicial, xi (p, pe) − ei .
Se a demanda lı́quida for positiva, o consumidor está comprando o bem (xi (p, pe) > ei ). Nesse
caso, dizemos que o consumidor é comprador lı́quido do bem. Se a demanda lı́quida for negativa,
o consumidor está vendendo o bem (vendendo parte da dotação inicial que ele possui do bem,
xi (p, pe) < ei ). Nesse caso, dizemos que o consumidor é vendedor lı́quido do bem.
Observe que a reta orçamentária acima, para o caso de dois bens, é:

p1 x1 + p2 x2 = p1 e1 + p2 e2

A renda do consumidor é m = p1 e1 + p2 e2 . Portanto, a reta orçamentária tem que passar pelas


quantidades dos bens que o consumidor possua inicialmente, ou seja, pelas dotações iniciais (se o
indivı́duo resolver não transacionar no mercado, ele pode consumir as dotações).
O que ocorre com a reta orçamentária se a dotação inicial muda? A reta orçamentária desloca-se
paralelamente quando a dotação varia, como ilustra a figura abaixo.

x2
6
Mudanca na RO causada por uma mudança
@
na dotação inicial de (e1 , e2 ) para (e01 , e02 ))
@
@ s E 0 = (e01 , e02 )
@
@
@  @
@ @
@ @
@ @
@ E = (e @1 , e2 )
@s @
@  @
@ @
@ @
@ @ -
x1
29
3.3.2 Variação de Preços
E o que ocorre com a reta orçamentária quando os preços variam?
Se algum preço varia, a renda do consumidor também varia, já que o valor da sua dotação inicial
se altera.
Como a reta orçamentária sempre passa pela dotação inicial, se a relação de preços mudar, a
inclinação da reta orçamentária se altera, mas a nova reta continua passando pela dotação inicial.

x2
6
Mudança na RO causada por uma
S
S diminuição no preço do bem 1
S

Z S
Z S
Z S
Z
ZS
e2 ZSr
Z
SZ
S Z
S Z
S ZZ
S  Z
S
S ZZ -
e1 x1

3.3.3 Dotação Inicial


A reta orçamentária no caso de dotações iniciais pode ser reescrita como:

p1 (x1 − e1 ) + p2 (x2 − e2 ) = 0

Portanto, para o caso de dois bens, o consumidor não pode ser nem comprador lı́quido dos dois
bens, nem vendedor lı́quido dos dois bens. No primeiro caso, os dois termos do lado esquerdo da
igualdade acima seriam positivos (logo, diferentes de zero), no segundo caso, os dois termos seriam
negativos (logo, diferentes de zero). O valor dos bens que o consumidor compra tem que ser igual
ao valor dos bens que ele vende.

x2
6
Impossibilidade de o consumidor ser
comprador ou vendedor lı́quido dos
dois bens, quando existem apenas dois bens.

HH
Comprador H
HH
lı́quido H
do bem 2 HH
e2 H rE
HHH
Vendedor HH
lı́quido H
do bem 2 HH
H
H
H -
e1 x1
Vendedor lı́quido do bem 1 Comprador lı́quido do bem 1

30
3.3.4 Diferença Importante
Diferença entre o problema do consumidor com renda endógena e o problema do consumidor com
renda exógena: agora a renda depende das ações do consumidor.
No caso de renda exógena, pode ocorrer que o consumidor prefira uma cesta que custe menos do
que uma outra cesta, como a figura abaixo ilustra.
Agora isso não será mais possı́vel, já que o consumidor pode vender a cesta que vale mais, aumen-
tando o seu conjunto de possibilidade de consumo e alcançando um nı́vel de utilidade maior.

x2
6
A cesta B custa mais caro do que a cesta E,
Q porém o consumidor prefere a cesta E à cesta B.
Q 
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q
Q rE
Q
Q
Q
Q
Q
Q 
Q B
r
Q
Q
Q
Q-
x1

RENDA EXÓGENA

x2
6 Se o consumidor pode vender as cestas
Q
Q de bens que possui, ele sempre prefirirá
Q Q
Q Q  a cesta que custa mais caro.
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q E0
Q rQr
E
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q Q
Q 
Q Q B
Q
Q Qr
Q Q
Q QQ
Q -
x1

RENDA ENDÓGENA

Portanto, se o consumidor é obrigado a consumir a cesta dada a ele, pode ocorrer que ele prefira
uma cesta que custe menos a uma cesta que custe mais caro.
Mas se permitimos que o consumidor venda as cestas, ele sempre preferirá a cesta que custa mais
caro, já que ele pode vendê-la e obter uma renda maior do que a renda obtida com a cesta que
vale menos. Com isso, o consumidor alcança um nı́vel de utilidade maior.

31
3.3.5 Estática Comparativa
Se o consumidor é vendedor lı́quido de um bem cujo preço sobe, então necessariamente o seu
bem-estar aumenta e ele continuará a vender esse bem (porém pode ocorrer que ele passe a vender
uma quantidade menor do bem que antes).
Essa afirmação pode ser provada por preferência revelada, o argumento é elaborado no parágrafo
seguinte, com a ajuda do gráfico abaixo.

x2
6
Mudança na RO causada por um
S aumento no preço do bem 1
S
S
S Se antes da mudança de preço: vendedor lı́quido do bem 1
Z S
Z S Então com a mudança, continua vendedor lı́quido do bem
Z S
Z S
Z
ZS
ZS
Z s
SZ
SZ
SZ
S ZZ
S Z
S Z
S Z
Z
S Z
S Z Z -
x1

Se o consumidor era vendedor lı́quido do bem, cujo preço aumentou, ele continuará a ser vendedor
lı́quido do bem, já que a região onde ele é comprador lı́quido do bem aos novos preços está dentro
da região onde ele é comprador lı́quido do bem aos preços antigos, e que foi revelada inferior à
cesta escolhida onde o consumidor vendia o bem. Portanto ele não se tornará comprador lı́quido
do bem.
Análise similar vale para o caso de um bem em que o consumidor é comprador lı́quido: se o preço
do bem diminui, então necessariamente o seu bem-estar aumenta e ele continuará a comprar esse
bem (porém pode ocorrer que ele passe a comprar uma quantidade menor do bem que antes).

3.3.6 Equação de Slutsky para Renda Endógena


A principal mudança que ocorre quando a renda se torna endógena é o fato de que uma mudança
de preços altera não somente o custo dos bens que o consumidor compra, mas também o valor da
renda que ele possui.
Vamos derivar a função de demanda para analisarmos o efeito de uma mudança de preço mais
claramente:
∂xi (p, pe) ∂xi (p, pe) ∂xi (p, pe)
= + ej
∂pj ∂pj
pe constante ∂m

32
O primeiro termo no lado direito da equação acima é a derivada com respeito ao preço, mantendo
a renda m = pe constante. Esse termo captura o efeito da mudança de preços, mantendo a renda
constante.
O segundo termo é a derivada da demanda com respeito à renda, multiplicado pela dotação
inicial. Esse termo captura o efeito da mudança de preços no valor da renda do consumidor, que
é endógena.
Podemos expandir o primeiro termo no lado esquerdo da equação acima usando a equação de
Slutsky:
∂xhi (p, u0 ) ∂xi (p, pe)

∂xi (p, pe)
= − xj
∂pj
pe constante ∂pj ∂m

Juntando as duas equações, obtemos:

∂xi (p, pe) ∂xhi (p, u0 ) ∂xi (p, pe)


= + (ej − xj )
∂pj ∂pj ∂m

Para o caso da mudança na quantidade demandada causada por uma mudança no preço do próprio
bem, vale:
∂xi (p, pe) ∂xhi (p, u0 ) ∂xi (p, pe)
= + (ei − xi )
∂pi ∂pi ∂m

Portanto, o efeito renda depende da demanda lı́quida do bem. Se o consumidor é vendedor do


bem, o efeito renda é positivo: se o preço do bem aumenta, a sua renda aumenta. Ou seja, um
aumento no preço pode levar a um aumento no consumo do bem.
Isso ocorre porque o efeito renda agora é composto de duas partes. A primeira, − ∂xi∂m (p,pe)
xi , é
o efeito renda tradicional: se o preço do bem i aumenta, então a renda real diminui, pois sobra
menos dinheiro para gastar com os outros bens. A segunda, ∂xi∂m (p,pe)
ei , é o efeito renda dotação,
que surge porque quando o preço do bem i aumenta, a renda do consumidor aumenta, já que o
valor da sua dotação aumenta.
A equação de Slutsky derivada para o caso da renda exógena mostrava que a demanda de um
bem só responde positivamente a um aumento de preços (ou seja, a demanda aumenta com um
aumento do preço) quando esse bem é bastante inferior.
Agora isso já não é mais verdade. Mesmo para um bem normal, pode ocorrer que um aumento do
preço de um bem aumente o consumo desse bem. Para que isso ocorra, devemos ter que ei − xi
∂xi (p,pe) ∂xhi (p,u0 )
seja positivo (positivo o suficiente para que ∂m (ei − xi ) > ∂pi ).

Nesse caso, o consumidor é vendedor lı́quido do bem. Se ele é vendedor lı́quido do bem, então um
aumento de preço do bem pode aumentar sua renda o suficiente para que ele possa consumir mais
desse bem (esse argumento é válido para o caso de um bem normal).

33
3.3.7 Oferta de Trabalho
Existem apenas dois bens que o consumidor escolhe: consumo, c, e lazer, l.
O consumidor possui uma quantidade máxima H de lazer que ele pode consumir (um dia tem
apenas 24 horas, uma semana apenas 7 dias, etc).
O indivı́duo pode dividir o seu tempo em lazer ou em trabalho. O salário por unidade de tempo
trabalhado é w.
O indivı́duo recebe também um valor M de renda que independe de suas ações (isto é, M é variável
exógena ao problema do consumidor).
O problema do consumidor nesse caso é representado por

pc = w(H − l) + M,
max u(c, l) s.a
c,l 0 ≤ l ≤ H.

Podemos reescrever a restrição orçamentária como:

pc + wl = wH + M,

O consumidor “vende” toda a sua “dotação inicial” total de tempo, H, e “compra” lazer ao
preço w, que é a renda que ele deixa de ganhar por não trabalhar (dizemos que w é o custo de
oportunidade do lazer, ou seja, o preço econômico do lazer).
A restrição orçamentária acima tem uma forma peculiar: no lado direito, temos wH, a renda plena
do trabalho (o valor que o indivı́duo receberia se trabalhasse todo o seu tempo disponı́vel) e no
lado esquerdo temos wl, o custo do lazer que o indivı́duo consome. O salário w então pode ser
visto como o preço (custo de oportunidade) do lazer.

3.3.8 Equação de Slutsky para Oferta de Trabalho


A equação de Slutsky nos permite calcular o efeito de uma mudança no salário sobre a demanda
de lazer (e portanto sobre a oferta de trabalho, que é igual ao tempo total disponı́vel menos o
tempo gasto com lazer):

∂l(p, w, m) ∂l(p, w, u0 ) ∂l(p, w, m)


= + (H − l(p, w, m))
∂w ∂w ∂m
Qual o efeito de um aumento do salário na oferta de trabalho? Existem dois efeitos.
Primeiro, o aumento no salário aumenta a oferta de trabalho, já que o lazer ficou mais caro agora.
Porém, o aumento no salário aumenta a renda do consumidor, pois ele passa a ganhar mais por
hora trabalhada.
Portanto, um aumento do salário pode levar a um aumento da oferta de trabalho ou a uma
diminuição da oferta de trabalho: o efeito é incerto. O consumidor é vendedor lı́quido de lazer.
Então, mesmo que lazer seja um bem normal, pode ocorrer que um aumento do sálario aumente
a quantidade de lazer consumida, ou seja, que diminua a oferta de trabalho.

34
3.3.9 Resumo
Resumindo, um aumento no salário tende a aumentar a oferta de trabalho, já que para o trabal-
hador o lazer ficou mais caro - ele pode consumir mais trabalhando mais.
Porém, o aumento do salário deixa o trabalhador com mais renda, e isso leva a um aumento no
consumo de lazer. A soma dos dois efeitos não é clara, o oferta de trabalho pode tanto aumentar
como diminuir quando o salário aumenta.
Se o salário está em um nı́vel baixo, é razoável imaginar que aumentos do salário vão induzir o
indivı́duo a trabalhar mais. Porém, a partir de um certo nı́vel, se o salário se torna alto demais,
novos aumentos do salário podem induzir o indivı́duo a trabalhar menos.

3.3.10 Exemplo
Suponha que o indivı́duo ganha 100 reais por dia de trabalho e com esse salário decida trabalhar
20 dias por mês. Ele vai ganhar R$ 2.000,00 por mês.
Se o salário aumentar para R$ 110 por dia, ele decide trabalhar 22 dias por mês, ganhando
R$ 2.420,00 por mês.
Mas se o salário aumentar para R$ 10.000,00 por dia, ele decide trabalhar apenas 10 dias por mês e
usar a renda obtida no mês (R$ 100.000,00) para aproveitar o seu lazer de modo mais satisfatório.

3.3.11 Oferta de Trabalho

Salário
6

Oferta de trabalho
diminui com aumento
do salário nessa região
s

Oferta de trabalho
aumenta com aumento
do salário nessa região

-
Trabalho Ofertado

3.3.12 QUESTÕES DA ANPEC


RESOLVER: Questão 1 - Exame 2005; Questão 3 - Exame 2002.

Questões mais antigas: Questão 3 - Exame 1995; Questão 10 - Exame 1994; Questão 3 - Exame
1993.

35

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