Você está na página 1de 39

Notas de Aula 9 - Equilı́brio Geral, Externalidades e Bens Públicos

Microeconomia
Curso Cecı́lia Menon

1 Equilı́brio Geral
1.1 Economia de Trocas
1.1.1 Idéia
Na teoria de equilı́brio parcial, estudamos o funcionamento do mercado de um bem isoladamente.
Agora vamos estudar o funcionamento de uma economia como um todo. De modo geral, a demanda
e a oferta de um bem dependem não somente do preço deste bem, mas também do preço de outros
bens da economia.
Essa relação de dependência entre os mercados torna o estudo de uma economia mais complicado.
Esse estudo é chamado equilı́brio geral.

1.1.2 Questões Fundamentais


• Definição. O que é um equilı́brio.
• Existência. Sob que condições podemos garantir que um equilı́brio existe.
• Unicidade. Sob que condições o equilı́brio será único.
• Estabilidade. Desvios do equilı́brio tendem ao equilı́brio.

1.1.3 Hipóteses
A hipótese fundamental no estudo de equilı́brio geral é de mercados competitivos. Ou seja, os
agentes da economia (consumidores e firmas) são tomadores de preços.
Outras hipóteses importantes são:
1. ausência de custos de transação,
2. ausência de externalidades,
3. ausência de bens públicos,
4. ausência de problemas de informação.

Hipóteses Comportamentais. A hipótese de mercados competitivos pode ser posta como:


1. Para cada bem, existe um grande número de firmas e consumidores atuando no seu mercado;
2. Consumidores maximizam a utilidade, sujeita à restrição orçamentária, onde tomam os
preços dos bens como dados;
3. Firmas maximizam lucros, dada a sua tecnologia e tomando os preços dos insumos e produtos
como dados.

1
1.1.4 Economia de Trocas
Vamos supor que não exista um mercado formal, todas as interações entre os diversos agentes da
economia são realizadas por meio de trocas voluntárias. Suponha ainda, por agora, que não exista
um sistema de preços na economia.
Também não lidaremos neste momento com a questão de produção. Cada indivı́duo da economia
recebe uma dotação inicial de bens. Vamos representar por ei ∈ Rn+ a dotação inicial dos n bens
do consumidor i, i = 1, . . . , I.
O caso de dois indivı́duos e dois bens, I = 2 (para esse caso vamos representar os dois consumidores
por A e B, para facilitar a notação) e n = 2, pode ser analisado graficamente por meio da caixa
de Edgeworth.

1.1.5 Caixa de Edgeworth


A dotação total de uma economia, eT , é a soma das dotações iniciais dos indivı́duos da economia.
No caso de dois consumidores e dois bens, temos que eT = eA + eB , onde ei = (ei1 , ei2 ), i = A, B.
A caixa de Edgeworth é uma representação gráfica dessa economia, onde cada ponto da caixa
possui quatro coordenadas, duas referentes ao indivı́duo A e duas referentes ao indivı́duo B.
A dimensão (o tamanho) da caixa é definida pela dotação total da economia. Um ponto na
caixa representa uma possı́vel distribuição de dotação entre os participantes da economia, sem
desperdı́cios. Todas as possı́veis distribuições de bens na economia estão representadas na caixa.

eB
1 
0B
s
Bem 2
?

eA s s s eB
2 2
e = (eA , eB )
6

s
0A -
eA Bem 1
1

1.1.6 Preferências na Caixa de Edgeworth


Para completarmos a caracterização dessa economia, temos que especificar as preferências indi-
viduais. Representamos estas preferências por meio de funções de utilidade.
Supondo que todas as preferências sejam bem comportadas, obtemos um mapa de curvas de
indiferença que preenche a caixa de Edgeworth, para cada indivı́duo.

2
Um ponto na caixa de Edgeworth no qual as curvas de indiferenças dos dois consumidores se
tangenciam é um elemento da curva de contrato, o conjunto de todas as alocações com essa
caracterı́stica de tangência.

eB
1 
0B
s

sc

eA s s s eB
2 2
e= (eA , eB )
6

s
0A -
eA
1

1.1.7 Economia de Trocas - Caso Geral


Suponha que existam I indivı́duos e n bens. Cada indivı́duo é representado por uma relação de
preferências i (ou, equivalentemente, por uma utilidade ui ) e uma dotação inicial ei . Vamos
denotar por I o conjunto dos consumidores, I = {1, . . . , I}.
A coleção E = (i , ei )Ii=1 representa uma economia de trocas (ou economia de trocas puras ou
economia de trocas simples, sem produção).
Vamos denotar por e = (e1 , . . . , eI ) a distribuição de dotações na economia e por x = (x1 , . . . , xI )
uma alocação dessa economia. Portanto, uma alocação para a economia E atribui uma cesta de
bens para cada consumidor dessa economia.

1.1.8 Alocações Factı́veis


Dizemos que a alocação x = (x1 , . . . , xI ) é factı́vel se ela exaure a dotação total de cada bem na
economia. Logo, para cada bem, a quantidade consumida é igual ao total disponı́vel. O conjunto
das alocações factı́veis, denotado por F (e), é dado por
( I I
)
X X
F (e) = x; xi = ei
i=1 i=1

Para o caso de dois consumidores, A e B, a alocação x = (xA , xB ), com xA = (xA A B


1 , x2 ) e x =
B B
(x1 , x2 ), é factı́vel se:

xA B A B
1 + x1 = e1 + e1
xA B A B
2 + x2 = e2 + e2

3
1.1.9 Alocações Pareto-Eficientes
Dizemos que uma alocação factı́vel é Pareto-eficiente se não for possı́vel melhorar (estritamente)
pelo menos um indivı́duo sem piorar ninguém.

Definição: Alocação Pareto-Eficiente. A alocação factı́vel x ∈ F (e) é Pareto-eficiente se não


existe nenhuma outra alocação factı́vel y ∈ F (e) tal que yi i xi , para todo i ∈ I, e yj j xj , para
pelo menos um j ∈ I (em termos de utilidade: ui (yi ) ≥ ui (xi ), para todo i ∈ I, e uj (yj ) > uj (xj ),
para pelo menos um j ∈ I).

Dado que as trocas na economia são feitas de forma voluntária, se a economia se encontra em
uma alocação Pareto-eficiente, não será possı́vel mudar essa alocação. Portanto, as alocações
Pareto-eficientes são candidatas naturais ao equilı́brio da economia.

1.1.10 Curva de Contrato


A curva de contrato então é o conjunto de todas alocações Pareto eficientes da economia. Essa
curva também é chamada de conjunto de Pareto.
Uma alocação Pareto eficiente pode ser descrita como uma alocação:

• que não há como fazer com que todas as pessoas envolvidas melhorem; ou

• que não é possı́vel fazer com que alguém melhore sem que outra pessoa piore; ou

• onde todos os ganhos de troca se exauriram; ou

• onde não existe mais trocas mutualmente vantajosas para serem feitas.


0B

?
Curva de
Contrato
s
s

s
e = (eA , eB )
6

0A -

4
1.1.11 Alocações Eficientes
Para o caso de dois consumidores, A e B, uma alocação eficiente de Pareto pode ser vista como
uma alocação onde um dos agentes está tão bem quanto possı́vel, dada a utilidade do outro agente.
Logo, o seguinte problema de maximização caracteriza as alocações eficientes:

max uA (xA A
1 , x2 ) s.a. i) uB (xB B
1 , x2 ) = ū,
xA A B B
1 ,x2 ,x1 ,x2

ii) xA B A B
1 + x1 = e1 + e1 ,
iii) xA B A B
2 + x2 = e2 + e2

O Lagrangeano do problema acima é:

L = uA (xA A B B B A B A B A B A B
1 , x2 ) + λ(ū − u (x1 , x2 )) + µ1 (e1 + e1 − x1 − x1 ) + µ2 (e2 + e2 − x2 − x2 )

As CPOs resultam em:


∂uA
(xA
1) : = µ1
∂xA
1
∂uA
(xA
2) : = µ2
∂xA
2
∂uB
(xB
1) : −λ B = µ1
∂x1
∂uB
(xB
2) : −λ B = µ2
∂x2
Dividindo a primeira CPO pela segunda e dividindo a terceira CPO pela quarta, obtemos:
∂uA ∂uB

T M S A = ∂xA
1
µ1
T M S B = ∂xB
1
µ1
∂uA
= e ∂uB
=
µ2 µ2
∂xA
2 ∂xB
2

Ou seja, em uma alocação Pareto eficiente, as taxas marginais de substituição entre dois bens
devem ser iguais entre os consumidores (se não fosse o caso, existiria alguma troca que melhoraria
um dos consumidores sem piorar o outro - observe a figura acima). Note que isso vale para
alocações no interior da caixa de Edgeworth.

1.1.12 Fronteira de Possibilidade de Utilidade


O conjunto de possibilidade de utilidade ilustra combinações de utilidades possı́veis de serem
obtidas, dados os recursos da economia.
No problema acima, se variarmos ū de uB (0, 0) a uB (eT1 , eT2 ), encontramos a fronteira de possi-
bilidade de utilidade (FPU), que descreve as combinações de utilidades máximas possı́veis dos
participantes da economia.
Na fronteira são representadas combinações de utilidades geradas por alocações Pareto eficientes.
Mais ainda, toda alocação Pareto eficiente possui uma representação da utilidade gerada na fron-
teira de possibilidade de utilidade.

5
uB
6

Fronteira de
 Possibilidade
de Utilidade

-
uA

1.1.13 Observações sobre o Critério de Pareto


• Uma outra maneira de interpretar: alocações de recursos que têm a propriedade que ninguém
pode melhorar sem piorar alguma outra pessoa são alocações Pareto ótimas.

• Eficiência de Pareto é o que economistas querem dizer quando chamam algo de eficiente.

• Em geral há um conjunto grande de pontos Pareto ótimos em uma economia. Dizer que a
economia deve estar em um ponto Pareto ótimo é um juı́zo de valor, mas o mais fraco juı́zo
de valor que se pode fazer a respeito da situação da economia.

• O critério de Pareto apenas diz que não deve haver perdas ou desperdı́cios na economia, ele
não diz nada sobre a distribuição de riqueza de uma sociedade.

1.1.14 Coalizões
Definição: Bloqueio. Seja S ⊂ I uma coalizão de consumidores. Dizemos que S bloqueia a
alocação factı́vel x ∈ F (e) caso exista uma alocação y tal que:

1. É factı́vel para a coalizão: i∈S yi = i∈S ei ;


P P

2. Ninguém piora, pelo menos uma pessoa melhora na coalizão: yi i xi para todo i ∈ S, com
pelo menos um j ∈ S tal que yj j xj .

Uma alocação para a qual não existe nenhuma coalizão que a bloqueie (ou seja, tal que para todo
S ⊂ I não exista y ∈ F (e) tal que yi i xi para todo i ∈ S, com pelo menos uma preferência
estrita) é chamada de alocação não-bloqueável.

6
1.1.15 Núcleo
Note que alocações ineficientes são bloqueadas pela coalizão formada de todos os indivı́duos da
economia (S = I). Logo, toda alocação não-bloqueável é Pareto-eficiente (a volta não é válida em
geral).

Definição: Núcleo. O conjunto das alocações não bloqueáveis é chamado de núcleo. O núcleo
de uma economia depende da distribuição de suas dotações iniciais.


0B

?
Núcleo


 s

s

s
e = (eA , eB )
6

0A -

1.1.16 Economia de Mercado


Vamos supor agora que as transações são efetuadas em mercados competitivos. Cada consumidor
age de modo a maximizar seu bem-estar, dados os preços de mercado que ele observa.
Vamos continuar supondo que não exista produção na economia. Logo, cada consumidor recebe
uma dotação inicial, que pode ser vendida e daı́ usada para se adquirir outra cesta de bens.
Portanto, o sistema de preços é o instrumento alocativo de uma economia de mercado. Ele
determina o valor de cada dotação inicial e, consequentemente, quais cestas de bens estão dentro
da possibilidade de consumo de cada indivı́duo.

1.1.17 Consumidores
Suponha I consumidores, I = {1, . . . , I} denota o conjunto dos I consumidores. Suponha também
que as preferências i de cada consumidor i ∈ I são representáveis por uma função de utilidade
ui bem comportada (contı́nua, estritamente crescente e estritamente quasecôncava).
O problema do consumidor i, no caso de dois bens apenas, é:

max
i i
ui (xi1 , xi2 ) s.a. p1 xi1 + p2 xi2 ≤ p1 ei1 + p2 ei2 ,
x1 ,x2

onde ei = (ei1 , ei2 ) é a dotação inicial do consumidor i, i = A, B.

7
1.1.18 Demanda
Resolvendo o problema do consumidor, encontramos a sua demanda, denotada por xi (p, pei ),
onde xi (p, pei ) = (xi1 (p, pei ), xi2 (p, pei )), i = A, B. Note que a renda do consumidor agora é
endógena: ela depende dos preços vigentes na economia.
Se as preferências são bem comportadas (em especial, estritamente convexas), a demanda xi (p, pei )
será contı́nua para todo p  0. No caso em que o preço de algum bem seja zero, a demanda por
esse bem será infinita, logo não estará bem definida em zero.

1.1.19 Preços na Caixa de Edgeworth


0B
@
@
@ ?
@
@ xA
@s
@
@
@s
xB@
@
e = (eA , eB )
@s
@
@
@
6 @
@
@
0A -
obs: xi : demanda bruta de i, i = A, B

Observe que o sistema de preços representado na figura acima, cada um dos dois consumidores está
maximizando a sua utilidade dada a restrição orçamentária que enfrenta, em que essa restrição é
determinada pelo sistema de preços. Porém, a economia não está em equilı́brio: há um excesso de
demanda do bem 1 e um excesso de oferta do bem 2.

1.1.20 Preços de Equilı́brio


Vimos que o nı́vel de preços representado na figura acima não iguala a demanda à oferta, para
nenhum dos dois bens. Nesse caso, dizemos que os mercados não se exaurem.
Logo, a economia está em desequilı́brio. O equilı́brio será obtido via preços caso a demanda se
iguale à oferta para todos os bens da economia. Essa situação é chamada de equilı́brio de mercado,
ou equilı́brio competitivo, ou equilı́brio Walrasiano.
Preços que alcançam o equilı́brio são chamados de preços de equilı́brio. A alocação resultante é
chamada de alocação de equilı́brio (ou alocação de equilı́brio Walrasiano).

8
1.1.21 Função de Excesso de Demanda Agregada
Definição: Excesso de Demanda Agregada. A função de excesso de demanda (ou excedente
de demanda) agregada do bem k é:
I
X I
X
zk (p) = xik (p, pei ) − eik
i=1 i=1
A função de excesso de demanda agregada é:
z(p) = (z1 (p), . . . , zn (p))

Observe que zk (p) = 0 equivale a


I
X I
X
xik (p, pei ) = eik
i=1 i=1

Então, aos preços p, se zk (p) = 0, a demanda de mercado pelo bem k iguala a oferta de mercado
desse bem.

1.1.22 Excesso de Demanda Agregada


Propriedades da Função Excesso de Demanda. Se para cada consumidor i ∈ I, ui é
contı́nua, estritamente crescente e estritamente quasecôncava, então, para todo p  0, temos que:
1. (Continuidade) z(·) é contı́nua em p;
2. (Homogeneidade) z(αp) = z(p), para todo α > 0;
3. (Lei de Walras) pz(p) = 0.
A função excesso de demanda agregada é chamada também função de demanda excedente agre-
gada.

1.1.23 Propriedades do Excesso de Demanda Agregada


• (Continuidade) Se um preço varia em uma quantidade pequena, o excesso de demanda
agregada varia por uma quantidade pequena. O excesso de demanda será contı́nuo se as
demandas individuais forem contı́nuas. Para que isso ocorra, as preferências devem ser
convexas. Também, se cada consumidor for tomador de preço e sua demanda for pequena
em relação à demanda de mercado, então mesmo que a demanda iindividual seja descontı́nua,
a demanda agregada poderá ser contı́nua.
• (Homogeneidade) Apenas preços relativos importam, podemos normalizar os preços e usar
um numerário. Logo, não podemos determinar o valor dos preços absolutos de equilı́brio da
economia. Se existem n preços na economia, apenas n − 1 preços são independentes.
• (Lei de Walras) O valor do excesso de demanda agregada é sempre zero, quaisquer que
sejam os preços de mercado. Consequentemente, se existem n mercados na economia, e
n − 1 mercados estão em equilı́brio, então necessariamente o último mercado estará em
equilı́brio. Portanto, para o caso de dois bens, precisamos verificar o equilı́brio apenas para
um dos mercados (uma vez que um mercado esteja em equilı́brio, o outro automaticamente
estará em equilı́brio).

9
1.1.24 Equilı́brio Walrasiano
Definição: Equilı́brio. O vetor p∗ é um equilı́brio Walrasiano se z(p∗ ) = 0.

Portanto, um vetor de preços é um equilı́brio se a demanda agregada se iguala à oferta agregada


em todos os mercados da economia.
Questão fundamental: existência de equilı́brio. Sob quais condições podemos garantir a existência
de um vetor de preços tal que os consumidores maximizem a sua utilidade, dados esses preços, e
demanda agregada iguala oferta agregada? O próximo teorema responde essa questão.

1.1.25 Existência de Equilı́brio


Teorema de Existência de Equilı́brio I. Suponha que a função de demanda agregada seja
contı́nua, satisfaça a lei de Walras (e mais uma condição de aspecto técnico). Então existe um
vetor de preços p∗ positivos tal que z(p∗ ) = 0.

Teorema de Existência de Equilı́brio II. Se as utilidades de cada consumidor são bem com-
portadas e se a dotação total de cada bem é positiva, então existe (pelo menos) um vetor de preços
p  0 tal que os mercados de todos os bens estejam em equilı́brio.

1.1.26 Alocação de Equilı́brio


Definição: Alocação de Equilı́brio Walrasiano (WEA). Seja p∗ um equilı́brio Walrasiano
para a economia E = (i , ei ) e seja

x(p∗ ) = (x1 (p∗ , p∗ e1 ), . . . , xI (p∗ , p∗ eI ))

o vetor no qual sua i-ésima coordenada é a cesta de bens demandada pelo consumidor i quando
os preços são p∗ . O vetor x(p∗ ) é chamado alocação de equilı́brio Walrasiano.

1.1.27 Equilı́brio na Caixa de Edgeworth

xB∗
1 
0B
@
@
@ ?
@
@
@
@
@
xA∗ s @ sAlocação de equilı́brio xB∗
2 @ 2
@
@
@
@
@s e
6 @
@
s @
0A
xA∗
-
1

10
1.1.28 Equidade, Inveja e Justiça
Seja x = (xA , xB ) uma alocação qualquer. Dizemos que o indivı́duo i inveja a cesta do indivı́duo
j caso ele prefira a cesta de j à sua própria cesta. Por exemplo, dizemos que o indivı́duo A inveja
a cesta de B caso uA (xB B A A A
1 , x2 ) > u (x1 , x2 ).

Definição: Alocação Equitativa. Uma alocação equitativa é uma alocação para a qual nenhum
indivı́duo inveja a cesta de outro indivı́duo.

Definição: Alocação Justa. Uma alocação justa é uma alocação equitativa e eficiente.

Podemos mostrar que sempre existirá pelo menos uma alocação justa: a alocação de equilı́brio
obtida de uma divisão igualitária de recursos será uma alocação justa.

1.1.29 Como Encontrar o Equilı́brio


Em questões da ANPEC, para determinar o equilı́brio, pode ser útil primeiro esboçar a caixa de
Edgeworth dessa economia.
Este é o caso quando a preferência de um dos consumidores for linear. A análise gráfica auxilia a
determinação do equilı́brio neste caso.
De modo geral, temos que encontrar as demandas dos indivı́duos, para determinar os preços que
equilibram o mercado. Se existem dois bens apenas, vamos encontrar apenas a relação de preços
de equilı́brio. Neste caso, a lei de Walras diz que podemos normalizar um dos preços e encontrar
o preço de equilı́brio do outro mercado usando a condição de demanda igual à oferta.

1.1.30 QUESTÕES DA ANPEC


RESOLVER: Questão 8 - Exame 2010; Questão 06 - Exame 2009; Questão 07 - Exame 2007;
Questão 08 - Exame 2007; Questão 07 - Exame 2006; Questão 15 - Exame 2006; Questão 07 -
Exame 2004; Questão 10 - Exame 2003; Questão 10 - Exame 2000; Questão 11 - Exame 1999.

11
1.2 Economias com Produção
1.2.1 Firmas
Vamos introduzir firmas no modelo de equilı́brio geral. A produção e, portanto, a oferta agregada,
são consequências do comportamento maximizador de lucros das firmas.
Logo, a quantidade de bens disponı́veis para consumo não será mais fixa e dependerá da decisão
de produção das firmas.
O lucro das firmas é distribuı́do aos consumidores, que são os proprietários das firmas. Vamos
caracterizar firmas por meio da tecnologia de produção que possuem.
Na análise de equilı́brio geral é mais conveniente representar a tecnologia de uma firma usando o
conceito de conjunto de possibilidade de produção, em vez de representá-la usando o conceito de
função de produção.

1.2.2 Plano de Produção


Suponha que existam J firmas. Vimos que o conjunto de possibilidade produção da firma j,
denotado por Y j ⊂ Rn , onde n é a quantidade total de bens, é o conjunto de todas as combinações
de insumos e produtos disponı́veis para a firma.
Um vetor yj ∈ Y j é um plano de produção. Lembre-se que usamos a convenção de que se o bem
i é um insumo lı́quido (a firma usa mais desse bem do que é capaz de produzir), a coordenada i
de yj é negativa (yij < 0). Se o bem i é um produto lı́quido da firma (a firma produz mais desse
bem do que o consome no processo produtivo), então a coordenada i de yj é positiva (yij > 0).

x2
6

Conjunto de
Possibilidade de
* Produção (convexo)





 



-
x1

1.2.3 Problema da Firma


Dado o vetor de preços p ≥ 0, a firma j escolhe o plano de produção que maximiza lucros:
max pyj (1)
yj ∈Y j

Esse é o mesmo problema de maximização de lucros da firma analisado antes, mas agora escrito
em termos do conjunto de possibilidade de produção.

12
Propriedades da função lucro e oferta ótima. Se o conjunto de possibilidade de produção
(CPP) Y j satisfaz certas condições, então, para todo vetor de preços p  0, a solução do problema
da firma (1) acima é única e contı́nua (denotada por yj (p)). Além disso, a função lucro, Πj (p) =
pyj (p), é bem definida e contı́nua.

O vetor yj (p) é chamado função de oferta da firma j, em sentido amplo, já que engloga não
somente os bens que a firma produz, mas também os bens que a firma utiliza como insumos.

1.2.4 Caixa de Edgeworth para Produção


Suponha que existam dois produtos, X e Y , produzidos por duas firmas distintas, que usam dois
fatores de produção, capital, K e trabalho, L. Suponha que as quantidades de capital e trabalho
estão fixas.
Podemos construir uma caixa de Edgeworth para produção, onde uma firma é representada no
vértice sudoeste da caixa e a outra firma é representada no vértice noroeste da caixa.
Representamos as isoquantas de ambas as firmas na caixa. Pontos de tangência destas isoquantas
representam pontos de eficiência produtiva ou eficiência técnica. Podemos então definir uma curva
de contrato para a produção.

02

Curva de
s Contrato
s para Produção

01 -

1.2.5 Fronteira de Possibilidade de Produção da Economia


Observe que na curva de contrato para a produção, as taxas marginais de substituição entre
os insumos são iguais para ambas as firmas. Logo, em pontos de eficiência técnica, as taxas
marginais de substituição entre insumos são iguais entre firmas, mesmo que estas firmas produzam
bens diferentes.
Podemos construir o seguinte conceito a partir da curva de contrato para a produção:

Definição: A fronteira de possibilidade de produção (FPP) mostra a quantidade máxima do bem


Y (digamos vinho) que a sociedade pode produzir, para qualquer quantidade do bem X (digamos
pão) produzida.

13
Bem Y
6
Fronteira de Possibilidade de Produção
Q
Q
Q 
Q A
Y0 Qs
Q
Q
Q
Q
Q
Q
C
s
Q
Q
Q
Q
Q
Q Bs
Q
Y1 Q
Q
Q
QQ-
X0 X1 Bem X

1.2.6 Eficiência Produtiva


Pontos na FPP representam a quantidade máxima do bem X que pode ser produzida para certa
quantidade do bem Y . Pontos que estão na FPP são os pontos de eficiência técnica ou eficiência
produtiva. Pontos no interior da FPP são pontos ineficientes do ponto de vista técnico.
Lembre-se que nestes pontos, a taxa marginal de substituição técnica entre dois insumos é igual
para todas as firmas, quaisquer que sejam os bens que elas produzam.
Podem existir pontos de eficiência técnica que não representem alocações Pareto eficientes. Porém,
toda alocação Pareto eficiente está necessariamente associada a um ponto de eficiência técnica.

1.2.7 Inclinação da FPP


A FPP tem inclinação negativa devido à escassez de recursos. Se estamos no ponto A na figura
acima e queremos produzir mais do bem X, precisamos abrir mão de um pouco de bem Y (a
sociedade realoca alguns dos recursos usados na produção de Y para a produção de X).
Portanto, a escassez implica que a FPP é negativamente inclinada. Porém A FPP não tem
necessariamente que ser uma linha reta. Outras formas importantes são FPP côncava e FPP
convexa. A figura abaixo ilustra uma FPP côncava.

Bem Y
6
Fronteira de Possibilidade
de Produção Côncava




-
Bem X

14
1.2.8 Taxa Marginal de Transformação
Definição: O custo marginal do bem X é o custo de produzir uma unidade adicional de X,
expresso em unidades do outro bem que deixa de ser produzido:

dY
CM gX,Y = −
dX F P P

O formato da curva da FPP reflete como o custo marginal de um bem muda com a quantidade
do outro bem sendo produzida.
Esse custo de oportunidade marginal da FPP recebe um nome: taxa marginal de transformação
dos bens. Essa taxa mede a taxa pela qual um bem pode ser transformado em outro, no sentido
de que os fatores de produção são realocados da produção de um dos bens para a produção do
outro bem.

1.2.9 Formato da FPP


Vimos que o custo marginal é dado pela inclinação da FPP. Uma FPP com inclinação constante
(isto é, uma reta, como na primeira figura) significa que o custo marginal é constante, independente
da quantidade produzida.
Uma FPP côncava significa que o custo marginal do bem aumenta quanto mais desse bem é
produzido. Ou seja, quanto maior a produção de vinho, para produzir mais um litro de vinho,
temos que abrir mão de uma quantidade maior de pão.
Uma FPP convexa significa que o custo marginal do bem diminui quanto mais desse bem é
produzido. Ou seja, quanto maior a produção de vinho, para produzir mais um litro de vinho,
temos que abrir mão de uma quantidade menor de pão.
Qual forma da FPP é mais razoável? Depende da tecnologia de produção da economia em consid-
eração.
Uma FPP linear ilustra uma situação onde os custos marginais não se modificam com a quantidade
produzida, situação em que se configuram retornos constantes de escala.
Uma FPP côncava ilustra uma situação onde os custos marginais crescem com a quantidade
produzida, situação em que se configuram retornos decrescentes de escala.
Uma FPP convexa ilustra uma situação onde os custos marginais decrescem com a quantidade
produzida, situação em que se configuram retornos crescentes de escala.

1.2.10 Distribuição de Lucros


Os consumidores são modelados exatamente como antes, por meio de uma função de utilidade e
de uma dotação inicial, que inclui bens ou serviços que o consumidor oferece ao mercado, como
trabalho, por exemplo.
Porém essa caracterização está incompleta: falta modelar a distribuição de lucros na economia.
Vamos denotar por θij a fração da firma j que o consumidor i detém. Devemos ter que
X
0 ≤ θij ≤ 1, ∀i ∈ I, j ∈ J , e θij = 1, ∀j ∈ J .
i∈I

15
1.2.11 Renda do consumidor
Um consumidor possui duas fontes de renda: a sua dotação de bens e serviços e a quantidade de
ações de firmas que possui. A restrição orçamentária do consumidor i se torna então:
X
pxi ≤ pei + θij Πj (p) = mi (p),
j∈J

onde mi (p) denota a renda do consumidor i.


O problema do consumidor i é:
max
i n
ui (xi ) sujeito à pxi ≤ mi (p) (2)
x ∈R+

1.2.12 Economia de Propriedade Privada


Com a introdução das ações das firmas, completamos a caracterização da economia, que pode ser
denotada por E = (ui , ei , θij , Y j )i∈I,j∈J (chamada economia de propriedade privada).
A função excesso de demanda agregada do bem k é definida como
X X j X
zk (p) = xik (p, mi (p)) − yk (p) − eik ,
i∈I j∈J i∈I

e o vetor de excesso de demandas é denotado por


z(p) = (z1 (p), . . . , zn (p))

1.2.13 Existência de Equilı́brio


Considere a economia de propriedade privada E = (ui , ei , θij , Y j )i∈I,j∈J . Suponha que cada utili-
dade individual satisfaz certas propriedades (por exemplo, é bem-comportada) e que o conjunto de
possibilidade de produção de
P cada firma satisfaz certas hipóteses (por exemplo, apresenta RDE).
Suponha também que y + i∈I ei  0 para algum vetor de produção agregada.
Nesse caso, podemos garantir que existe pelo menos um vetor de preços p∗  0 tal que o vetor
de excessos de demanda seja igual a zero, z(p∗ ) = 0. A alocação de equilı́brio para uma economia
com produção deve descrever além das cestas de consumo de cada indivı́duo, os planos de produção
ótimos de cada firma.

Definição: Alocação de Equilı́brio. Seja p∗ um equilı́brio para E = (ui , ei , θij , Y j )i∈I,j∈J . O


par de vetores (x(p∗ ), y(p∗ )) é uma alocação de equilı́brio Walrasiano, onde:
1. (Maximização dos Consumidores) x(p∗ ) = (x1 (p∗ ), . . . , xI (p∗ )) é o vetor com as cestas
ótimas de cada consumidor, quando os preços são p∗ e a renda do consumidor i, i = 1, . . . , I,
é mi (p∗ );
2. (Maximização das Firmas) y(p∗ ) = (y1 (p∗ ), . . . , yJ (p∗ )) é o vetor com os planos de produção
ótimos de cada firma j, quando os preços são p∗ ;
3. (Equilı́brio) Os mercados de todos os bens estão em equilı́brio:
X X X j
xik (p∗ ) = eik (p∗ ) + yk (p∗ ), ∀k = 1, . . . , n.
i∈I i∈I j∈J

16
A figura abaixo ilustra a situação de equilı́brio. Observe que se a condição de tangência não é
satisfeita, isso signfica que a taxa na qual o consumidor está disposto a trocar um dos bens pelo
outro é diferente da taxa na qual esse bem pode ser transformado no outro.
Então existe a possibilidade de melhorar o bem-estar do consumidor, ao se rearranjar a produção.
Portanto, se a condição de tangência não é satisfeita, a alocação não é Pareto eficiente.

Bem Y
6

@
@
@
@ r
Y∗ @
@
Fronteira de Possibilidade @
@ Curva de Indiferença
de Produção @
@
@ Nı́vel de Preços
de Equilı́brio
-
X∗ Bem X

1.2.14 Observações Importantes


• A figura acima deixa claro que nem todo ponto de eficiência técnica será Pareto eficiente,
mas todo ponto Pareto eficiente será tecnicamente eficiente.

• Uma alocação Pareto eficiente satisfaz as seguintes três condições:

1. Eficiência nas trocas: As taxas marginais de substituição entre quaisquer dois bens
devem ser iguais.
2. Eficiência técnica ou produtiva: Para todas as firmas, as taxas técnicas de substituição
entre os insumos devem ser iguais.
3. Eficiência no mix de produtos: A taxa técnica de transformação entre dois bens deve
ser igual à taxa marginal de substituição dos consumidores.

1.2.15 Exemplo: Robinson Crusoe


Suponha uma economia com dois bens, formada por apenas um indivı́duo e uma firma. A utilidade
do consumidor é
u(h, y) = h1−β y β ,
onde β ∈ (0, 1). Vamos supor que a dotação inicial do consumidor é eT = (T, 0).
O conjunto de produção da economia é dado por

Y = {(−h, y); 0 ≤ h ≤ b, 0 ≤ y ≤ hα },

onde b > T e α ∈ (0, 1).

17
A firma escolherá produzir sempre na fronteira do conjunto de possibilidade de produção, logo, o
problema da firma pode ser descrito por:

max phα − wh,


h≤0

onde p é o preço do bem final e w é o salário.


A solução do problema da firma é:
1
 αp  1−α α
 αp  1−α
hf = e yf =
w w
O lucro ótimo é   1
1−α  αp  1−α
π = π(w, p) = w ≥ 0.
α w
O problema do consumidor é:

max h1−β y β sujeito à py + wh = wT + π(w, p).


h,y≥0

A solução do problema do consumidor é:


   
c wT + π(w, p) c wT + π(w, p)
h = (1 − β) e y =β
w p

Como apenas preços relativos importam, vamos normalizar p∗ = 1. Além disso, pela lei de Walras,
basta encontrarmos w∗ para caracterizarmos o equilı́brio.
Condição de equilı́brio do mercado h, hf + hc = T , determina o preço de equilı́brio w∗ :
 1−α
f c ∗ 1 − β(1 − α)
h +h =T ⇒ w =α .
αβT

1.2.16 QUESTÕES DA ANPEC


RESOLVER: Questão 10 - Exame 2002.

18
1.3 Bem-Estar Social e Falhas de Mercado
1.3.1 Economia de Mercado
Em uma economia de mercado temos:
• Sistema de preços operando livremente;
• Alocação eficiente dos recursos de uma sociedade;
• Economia de informação;
• Descentralização das decisões;
• Bens são produzidos pelos produtores mais eficientes e consumidos pelos consumidores que
atribuem o maior valor ao bem;

1.3.2 Bem-Estar Social


A medição do bem-estar econômico de uma sociedade é algo complicado. Duas dificuldades na
análise do bem-estar de uma sociedade:
1. Qual o objetivo de bem-estar da sociedade;
2. Como medir este bem-estar.
O estudo da primeira dificuldade tem sido fruto de longos debates entre filósofos e religiosos.
Muitos têm sido os princı́pios de justiça, ética e equidade social propostos.

1.3.3 Critério de Pareto


Vimos que o princı́pio básico de eficiência usado em economia é o Critério de Pareto.
Idéia: Se, na situação social A, um indivı́duo fica melhor e nenhum fica pior comparado à situação
B então a situação A é melhor para a sociedade.
Ou, se na situação social A, todos os membros da sociedade estão melhores comparados à situação
B, então, a situação A é melhor para a sociedade que a situação B.
O critério ou princı́pio de Pareto pode ser formalizado da seguinte maneira.
Definição: Uma alocação social A é Pareto-dominada pela alocação B se a alocação B é factı́vel
e nenhum agente fica pior, e pelo menos um fica melhor, na alocação B que na alocação A.
Definição: Uma alocação factı́vel é Pareto ótima (ou eficiente de Pareto) se não é Pareto-
dominada por nenhuma outra alocação factı́vel.
Uma alocação eficiente de Pareto satisfaz as seguintes três condições:
• Eficiência nas trocas - As taxas marginais de substituição entre quaisquer dois bens devem
ser iguais.
• Eficiência produtiva - Para todas as firmas, as taxas técnicas de substituição entre os insumos
devem ser iguais.
• Eficiência no mix de produtos - a taxa marginal de transformação entre dois bens deve ser
igual à taxa marginal de substituição dos consumidores.

19
1.3.4 Os Dois Teoremas de Bem-Estar
Existem dois resultados sobre bem-estar em economias de mercado de grande importância. Estes
resultados são conhecidos como o primeiro e segundo teoremas fundamentais de bem-estar.
Os dois teoremas respondem à pergunta em que sentido e sob quais condições mercados compet-
itivos levam à eficiência econômica e quando qualquer situação de eficiência pode ser alcançada
por um mercado competitivo.

1.3.5 Primeiro Teorema do Bem-Estar

Primeiro Teorema do Bem-estar. Toda alocação de equilı́brio Walrasiano é Pareto-ótima.

O primeiro teorema do bem-estar afirma que todo equilı́brio Walrasiano satisfaz o critério de
Pareto, ou seja, todo equilı́brio em concorrência perfeita é Pareto ótimo. Portanto, o mer-
cado agindo sozinho alcança uma situação de equilı́brio Pareto ótima, mesmo com cada agente
econômico agindo de modo egoı́sta, no sentido de buscar apenas o seu próprio bem-estar. Este
resultado é a conhecida “mão invisı́vel” de Adam Smith.
Recapitulando, o primeiro teorema do bem-estar argumenta que sob algumas condições, mercados
competitivos levam a uma alocação Pareto ótima dos recursos. Logo, não existe nenhum rear-
ranjo de recursos (ou seja, nenhuma mudança na produção ou no consumo) tal que alguém possa
melhorar sua situação sem ao mesmo tempo piorar a situação de outro.
Podem existir diversas outras alocações dos recursos que melhorem a situação de um ou mais
indivı́duos. Mas em cada um destes casos alguns indivı́duos vão ficar em situação pior. Observe
que a alocação de equilı́brio pode ser bastante desigual e ainda assim ser Pareto eficiente.

1.3.6 O Segundo Teorema do Bem-Estar

Segundo Teorema do Bem-estar. Sob as hipóteses do segundo teorema do bem-estar, se x é


Pareto-eficiente, então x é uma alocação de equilı́brio Walrasiano para algum preço p de equilı́brio,
após redistribuição adequada de dotações iniciais.

O Segundo Teorema Fundamental da Teoria do Bem-Estar diz que, “sob certas condições”, toda
alocação Pareto ótima pode ser obtida pela economia de mercado, por meio de uma redistribuição
adequada das riquezas iniciais dos agentes (ou pelo uso de impostos e subsı́dios).
Portanto, o teorema implica que qualquer alocação Pareto-ótima pode ser atingida por meio do
mecanismo de mercado descentralizado, ou seja, não é necessário haver um planejador central.
O próprio mercado pode alcançar a alocação desejada, sendo necessário que o governo faça somente
a correta redistribuição de recursos na economia.
Neste sentido, é possı́vel dizer que o segundo teorema do bem-estar permite a separação dos
problemas de eficiência econômica e de distribuição dos bens entre a sociedade.

1.3.7 Hipóteses do Segundo Teorema de Bem-estar


O segundo teorema do bem-estar supõe uma série de hipóteses para a sua validade.
As mais importantes e restritivas são relacionadas a questões de convexidade. Primeiro, as pre-
ferências dos consumidores devem ser convexas.

20
Segundo, o conjunto de produção de cada firma deve ser convexo (é possı́vel relaxar esse requer-
imento, mas devemos ter que o conjunto de possibilidade de produção agregado da economia
seja convexo). Isso elimina a possibilidade de que o teorema seja válido na presença de retornos
crescentes de escala (pelo menos de maneira geral para economia).

1.3.8 Falhas de Mercado


Falhas de mercado são situações que invalidam os teoremas de bem-estar. Em particular, se
alguma falha estiver presente, não podemos afirmar que a alocação de recursos e bens alcançada
por uma economia de mercado satisfaça o critério de eficiência de Pareto.
Exemplos de falhas de mercado:

• Bens Públicos;

• Externalidades;

• Poder de mercado;

• Informação Imperfeita.

1.3.9 Núcleo
Existe um teorema mais forte do que o primeiro teorema do bem-estar, que diz que toda alocação
de equilı́brio pertence ao núcleo da economia:

Teorema do Núcleo. Se cada utilidade individual é estritamente crescente, então todo equilı́brio
Walrasiano está no núcleo dessa economia.

Isso significa que a alocação de equilı́brio não é bloqueável por nenhuma outra alocação factı́vel.
Observe que o primeiro teorema do bem-estar pode ser visto como um corolário do teorema do
núcleo.

1.3.10 QUESTÕES DA ANPEC


RESOLVER: Questão 07 - Exame 2008; Questão 08 - Exame 2005; Questão 08 - Exame 2003;
Questão 07 - Exame 2002; Questão 09 - Exame 2001; Questão 09 - Exame 2000; Questão 15 -
Exame 1999; Questão 14 - Exame 1998.

Questões mais antigas: Questão 13 - Exame 1997; Questão 14 - Exame 1997; Questão 15 -
Exame 1996; Questão 14 - Exame 1995; Questão 12 - Exame 1994; Questão 15 - Exame 1994;
Questão 14 - Exame 1993; Questão 11 - Exame 1992; Questão 12 - Exame 1992; Questão 13 -
Exame 1992; Questão 14 - Exame 1992; Questão 15 - Exame 1992; Questão 15 - Exame 1991.

21
2 Externalidades
2.1 Definição
2.1.1 Externalidade
Externalidade Dizemos que ocorre uma externalidade quando o bem-estar de um agente econômico
(indivı́duo ou firma) é afetado diretamente pelas ações de outro agente econômico.

Uma externalidade de consumo ocorre quando a ação de um agente afeta as preferências de


outro agente. A externalidade pode ser negativa ou positiva.
Uma externalidade de produção ocorre quando a ação de um agente afeta a tecnologia de
alguma firma. Assim como a externalidade de consumo, a externalidade de produção pode ser
positiva ou negativa.
Uma externalidade pode ser:
• positiva; ou

• negativa.

2.1.2 Ausência de Mercado


O ponto principal da externalidade em termos econômicos é a inexistência do mercado para o bem
ou serviço gerado pela atividade causadora da externalidade.
Quando ocorre uma externalidade, o custo (se a externalidade é negativa) ou o benefı́cio (se a
externalidade é positiva) social da ação do agente é diferente do custo ou benefı́cio privado.
Esta discrepância entre o custo ou benefı́cio social e o custo ou benefı́cio privado torna a decisão
privada distinta da decisão ótima social, mesmo em um mercado perfeitamente competitivo.

2.1.3 Consequências
No caso de uma externalidade negativa, o nı́vel de atividade está acima de seu nı́vel socialmente
ótimo. No caso de uma externalidade positiva, o nı́vel de atividade está abaixo de seu nı́vel
socialmente ótimo.
Isso ocorre porque o custo (ou benefı́cio) associado à externalidade não é levado em conta pelo
agente causador da externalidade.
Nesse caso, o primeiro teorema do bem-estar não é mais válido em geral : na presença de exter-
nalidades, a alocação de mercado pode ser ineficiente no sentido de Pareto.

2.1.4 Exemplo
Um exemplo de externalidade importante e comum é a geração de poluição por atividades produ-
tivas. Por exemplo, mineração de alumı́nio usualmente afeta rios, solo e subsolo locais e produz
rejeitos tóxicos, como a lama vermelha.
A decisão do quanto minerar só é influenciada pelos custos incorridos. Supondo que a mineradora
não incorre em custos por gerar poluição, ela não levará em conta estes importantes custos sociais
na sua decisão de produção.

22
2.1.5 Representação Gráfica - Externalidade Negativa

Preço
6
Custo social
 Oferta (custo privado)
Q  
 
Q  
Q  
Q  
Q s 
Ótimo Social Q
 
 QQsEquilı́brio de Mercado
 
  Q
  Q
  Q
 Q
 Q
 Q
 QQ
Demanda

-
qsocial qmercado Quantidade

2.1.6 Exemplo
Se o mercado operar livremente numa situação de externalidade negativa, a quantidade produzida
será maior que a quantidade ótima do ponto de vista social (qmercado > qsocial ).
Logo, a existência de uma externalidade leva a uma ineficiência, pois o benefı́cio marginal total de
uma atividade não se iguala ao seu custo marginal total (custo marginal privado somado ao custo
marginal social). Nesses casos, pode ser possı́vel melhorar a alocação de mercado (isto é, alcançar
uma alocação Pareto-ótima).

2.1.7 Externalidades Multilaterais


Externalidades multilaterais são externalidades que afetam vários agentes. Um exemplo é poluição.
Nesse caso, temos que distinguir entre externalidades exaurı́veis (“depletable”) e não-exaurı́veis
(“nondepletable”).
No primeiro caso, o consumo da externalidade por um agente diminui a quantidade que será
consumida pelos outros agentes (por exemplo, jogar lixo em propriedades).

2.1.8 Externalidades Multilaterais Exaurı́veis


Externalidades exaurı́veis possuem caracterı́sticas similares a bens privados e externalidades não-
exaurı́veis possuem caracterı́sticas similares a bens públicos, que serão analisadas abaixo.
A definição de direitos de propriedade para externalidades multilaterais não-exaurı́veis não nec-
essariamente resolve o problema, pelo fato de todos os agentes sofrerem com a externalidade
(problema do caroneiro, que será visto abaixo).
O nı́vel ótimo de externalidade pode ser alcançado por meio de um imposto de Pigou, supondo
que o governo tenha informação suficiente sobre a externalidade.

23
2.2 Soluções
2.2.1 Soluções para o Problema de Externalidades
1. Cultural e Determinação Legal;
2. Impostos, subsı́dios, quotas;
3. Alocação de direitos de propriedade.
4. Criação de mercados;
Cada solução tem vantagens e desvantagens. Todas elas tentam “internalizar” a externalidade,
no sentido de que todos os custos (ou benefı́cios, no caso de uma externalidade positiva) sociais
sejam levados em conta na hora de decidir o nı́vel ótimo de externalidade produzida.

2.2.2 Cultural e Determinação Legal


O Estado ou a sociedade podem desenvolver uma cultura de preservação do ambiente ou mudança
de comportamento, de forma que, espontaneamente, os agentes causadores da externalidade con-
siderem os custos totais de sua atividade na hora de decidir o nı́vel ótimo da externalidade.
Além disso, o governo pode proibir que se produza acima da quantidade ótima. Este tipo de
intervenção não é muito interessante, pois o aparato legal é custoso e lento: se ele determinar
certa quantidade a ser produzida, levará algum tempo para alterar sua decisão.

2.2.3 Exemplo
Há algum tempo em Brası́lia, o governo do Distrito Federal fez uma ampla campanha de conci-
entização de trânsito, no intuito de que os condutores de veı́culos parassem na faixa de pedestre,
que não era respeitada.
Na campanha de respeito à faixa de pedestre, o governo do Distrito Federal também fez uso do
instrumento de determinação legal, colocando um guarda em quase todas faixas de pedestre, que
multava o motorista que não parasse na faixa quando houvesse um pedestre tentando atravessá-la.
O governo então usou mão de uma solução do tipo de mudança comportamental aliada a uma
determinação legal temporária.

2.2.4 Impostos, Subsı́dios, Quotas


Um outro mecanismo de correção da ineficiência gerada por uma externalidade é o Estado colocar
um imposto sobre a produção no valor exato do custo social da poluição.
Neste caso, a curva de custo marginal privado se desloca para cima, coincidindo com a curva de
custo social. Observe que o imposto não altera a curva de custo marginal social, pois ele apenas
gera transferência de renda entre os agentes, mas não afeta o agregado.
Esse tipo de imposto, chamado de imposto de Pigou (ou subsı́dio, no caso de uma externalidade
positiva) tenta corrigir a ineficiência causada pela externalidade. A taxa é escolhida de modo que
o nı́vel ótimo da atividade geradora da externalidade seja alcançado.
Em ambos os tipos de externalidade, o efeito da taxa (ou subsı́dio) é fazer com que o agente
gerador da externalidade incorpore em seu problema de maximização o custo real de suas ações
(“internalizar” a externalidade).

24
2.2.5 Observações sobre Solução via Impostos, Subsı́dios, Quotas
1. O governo deve taxar a atividade geradora da externalidade diretamente.

2. O governo pode optar por um esquema de subsı́dio para redução da externalidade, ao invés
de taxar a externalidade.

3. A solução exige que o governo conheça os beneficı́os e custos exatos que envolvem o problema
de externalidade. Se esse é o caso, o governo poderia simplesmente impor quotas de produção
ou exigir diretamente que a firma produzisse a quantidade socialmente ótima do bem.

2.2.6 Alocação de Direitos de Propriedade


Segundo alguns economistas, o problema da poluição e, de forma mais geral, o problema de
externalidade é um problema de alocação incorreta ou de inexistência de direitos de propriedade.
Por exemplo, se a mineradora fosse dona do rio, ela levaria em consideração a deterioração do
rio em sua decisão de produção de alumı́nio. Estes economistas afirmam que se os direitos de
propriedade forem bem definidos não haverá falha de mercado.

2.2.7 Exemplo
Suponha que os direitos de propriedade da atividade geradora da externalidade sejam alocados ao
agente X. Ou seja, o agente Y não pode incorrer na atividade geradora da externalidade sem a
concordância de X. Suponha que o agente Y faz uma oferta ao agente X de pagar T para poder
produzir a externalidade.
O agente Y escolherá T de modo que a sua oferta seja aceita. Nesse caso, pode ser mostrado que
o nı́vel socialmente ótimo da externalidade é alcançado com a alocação do direito de propriedade
da atividade geradora da externalidade. Esse resultado é resumido no teorema de Coase.

2.2.8 Teorema de Coase


Teorema de Coase. Se a externalidade pode ser transacionada e se não existem custos de
transação nem efeitos de renda, então o resultado eficiente será alcançado pelo mercado, indepen-
dentemente de quem possua os direitos de propriedade da atividade geradora da externalidade.

Do ponto de vista de eficiência, é irrelevante quem ganha os direitos de propriedade. Porém, a


alocação dos direitos influencia a distribuição de renda.

2.2.9 Teorema de Coase - Externalidade de Consumo


Em geral, a quantidade produzida de externalidade na alocação eficiente depende da distribuição
dos direitos de propriedade entre os consumidores
Porém, se as preferências forem quase lineares, a quantidade produzida de externalidade independe
da distribuição dos direitos de propriedade e será, portanto, a mesma em toda alocação Pareto
ótima.
Preferências quase lineares resultam em efeito renda nulo, condição necessária para a validade do
teorema de Coase no caso de externalidades de consumo. Observe também que a distribuição de
riqueza final dependerá da distribuição dos direitos de propriedade.

25
2.2.10 Economia de Informação
A solução de mercado contida no teorema de Coase exige apenas que o governo aloque e garanta
direitos de propriedade.
Logo, não é necessário que o governo conheça os benefı́cios e custos associados à externalidade.
Sob esse ponto de vista informacional, a solução de Coase é mais fácil de ser implementada.
Porém, a hipótese de ausência de custos (ou custos baixos) de transação é crucial. Altos custos
de transação impedem que a solução eficiente seja alcançada.

2.2.11 Criação de Mercado


A presença de externalidade pode ser associada à ausência de mercados competitivos para a
externalidade.
Para implementar esse tipo de solução, é necessário que os direitos de propriedade estejam bem
definidos e que exista um mercado competitivo para a atividade que gera a externalidade. O
mercado, nesse caso, age como um procedimento de barganha.
Nessa solução, um novo mercado é criado, de modo que a externalidade passa a ser negociada
como um bem tradicional.

2.2.12 Mercado de Crédito de Carbono


O mercado de crédito de carbono é uma tentativa de solução para o problema de poluição do ar
por gás carbônico (CO2 ).
Créditos de carbono são certificados concedidos que permitem a emissão de uma tonelada de
dióxido de carbono por cada unidade de crédito de carbono. Esses créditos podem ser negociados
no mercado internacional.
O mercado de créditos de carbono limita o nı́vel de poluição, ao limitar o número de créditos
existentes. Além disso, permite que a eficiência econômica seja alcançada, pois os créditos serão
comprados pelas atividades produtivas que geram mais riqueza.
O Protocolo de Kyoto determinou uma cota máxima de créditos que paı́ses desenvolvidos sig-
natários do acordo podem emitir.
Paı́ses ou indústrias que não conseguem atingir as metas de redução de emissão devem comprar
créditos adicionais de algum paı́s ou indústria que possua créditos disponı́veis para vender.
Paı́ses e indústrias que conseguem diminuir suas emissões de CO2 para um nı́vel abaixo da sua
cota permitida podem vender o seu excesso de créditos no mercado nacional ou internacional.

2.2.13 Economia de Informação


A solução via “mercado de créditos” exige menos informação do que uma solução via “imposto de
Pigou”, pois o governo deve conhecer apenas o nı́vel agregado socialmente ótimo de externalidade.
A distribuição das permissões (ou créditos) não afeta o resultado de eficiência, porém tem con-
sequências distributivas.
Esse tipo de solução cria incentivos para as firmas adotarem tecnologias que diminuam a sua
produção de externalidade, já que a externalidade passa a ser um custo para a firma.

26
2.2.14 Tragédia dos Comuns
A “tragédia dos comuns” ocorre quando um bem comunitário sofre do problema do bem escasso
que não tem dono: cada agente tem incentivo a explorá-lo mais que o ótimo social, pois se ele não
o fizer outro agente fará.
Exemplos da “tragédia dos comuns” são a sobrepesca, tais como a pesca do esturjão na Rússia, o
abastecimento de água, principalmente em regiões áridas como o Nordeste brasileiro.

2.2.15 Soluções
Uma solução é a regulamentação por uma autoridade, usualmente o governo ou uma associação
comunitária. Essa regulamentação pode ser por meio de concessões, limitando o montante do bem
comum disponı́vel para uso por cada indivı́duo.
Sistemas de concessão para atividades econômicas extrativistas tais como mineração, pesca, caça,
corte de árvores são exemplos desta solução. O governo pode também impor limites de danos
admissı́veis ao bem comum.
Historicamente, existem situações onde os próprios usuários do recurso comum cooperavam para
conservá-lo em nome do benefı́cio mútuo. Essa foi uma das razões para a formação de diversas
associações de pescadores no litoral brasileiro.
Outra solução que pode ser usada para certos recursos é transformar o bem comum em pro-
priedade privada, fazendo com que o dono tenha incentivos para garantir a sustentabilidade do
bem, preservando-o. Observe que a tragédia dos comuns é um problema de externalidade multi-
lateral exaurı́vel.

2.2.16 QUESTÕES DA ANPEC


RESOLVER: Questão 13 - Exame 2011; Questão 12 - Exame 2010; Questão 07 - Exame 2009;
Questão 09 - Exame 2009; Questão 11 - Exame 2008; Questão 15 - Exame 2004; Questão 14 -
Exame 2003.

27
2.3 Bens Públicos
2.3.1 Bens Públicos
Um bem público (puro) é um bem que possui duas caracterı́sticas:
1. Não-rival: O consumo do bem por uma pessoa não limita ou diminui a quantidade disponı́vel
para consumo por outras pessoas;
2. Não-excludente: Não é possı́vel (ou é muito custoso) excluir indivı́duos do seu consumo.
Bens públicos podem ser vistos como um problema de externalidade de consumo onde todas as
pessoas são obrigadas a consumir a mesma quantidade do bem.

2.3.2 Classificação
Os bens privados são na maioria bens excludentes e rivais. Exemplos são bens de consumo, tais
como laranja, sorvete, automóvel.
Os bens públicos são não-excludentes e não-rivais. Exemplos são segurança pública, pesquisa
básica, defesa nacional, estradas sem pedágio descongestionadas.
Os bens de recursos comuns são não excludentes e rivais. Exemplos são peixes no oceano ou
em um rio, meio ambiente, estradas sem pedágio congestionadas.
Os bens de clube são excludentes, mas não rivais. Exemplos são TV a cabo, estradas com
pedágio não congestionadas, corpo de bombeiro.

Rival Não Rival


Excludentes Bens Privados Bens de Clube
Não excludente Recursos Comuns Bens Públicos

2.3.3 Provisão de Bem Público


A caracterı́stica de não ser possı́vel excluir uma pessoa do consumo do bem público torna o mercado
ineficiente na provisão de bens públicos, justificando a ação do Estado para corrigir a alocação
gerada pelas forças de mercado.
No caso de provisão privada de um bem público, o nı́vel de produção de mercado é inferior ao
nı́vel socialmente ótimo.
Essa ineficiência criada pela provisão privada do bem público é causada pelo fato de que o bem
público comprado por um consumidor fica disponı́vel a todos os outros consumidores.

2.3.4 Ineficiência na Provisão Privada de Bem Público


A caracterı́stica de o bem público comprado por um consumidor ficar disponı́vel a todos os outros
consumidores cria uma situação onde cada consumidor deseja pegar carona no consumo do bem
público pago pelos outros.
Esse problema de provisão do bem público é conhecido na literatura como o problema do carona
(“free-riding problem”). O carona é o agente econômico que se beneficia do bem sem pagar por
ele.

28
2.3.5 Exemplo
Suponha que uma estrada sem pedágio não seja pavimentada e que os usuários desta estrada
estejam interessados em pavimentá-la.
Se o setor privado decidir sobre a construção ou não da estrada, o construtor procurará os usuários
da estrada para ver o quanto cada um pagaria pela obra de pavimentação.
Muitos dos usuários dirão que não acham muito útil a pavimentação e, portanto, não pagariam
quase nada pela pavimentação, embora considerem a pavimentação necessária.

2.3.6 Notação e Hipóteses


Vamos supor que as utilidades sejam quaselineares na quantidade consumida do bem público q:
ui (q, m) = φi (q) + mi , onde mi representa o gasto do consumidor com outros bens.
A hipótese de quaselinearidade da utilidade permite analisar o mercado do bem público isolada-
mente. Além disso, ela tem como consequência o fato de que existe um único nı́vel eficiente de
provisão do bem público.
A utilidade que o indivı́duo i obtém ao consumir a quantidade q do bem público é representada por
φi (q), i = 1, . . . , I. O custo de provisão de q unidades do bem público é dado por c(q) (suponha
que estas funções satisfazem: φ0i (·) > 0 e φ00i (·) < 0, ∀i, q ≥ 0; c0 (·) > 0 e c00 (·) > 0, q ≥ 0).

2.3.7 Nı́vel Socialmente Ótimo


O nı́vel Pareto ótimo de bem público deve resolver o problema:
I
X
max φi (q) − c(q)
q≥0
i=1

Portanto, a CPO que caracteriza o ótimo é:


I
X
φ0i (q ? ) = c0 (q ? )
i=1

Ou seja, a quantidade ótima do bem público é definida de modo que a soma de todos os benefı́cios
marginais seja igual ao custo marginal.

2.3.8 Provisão Privada de um Bem Público


Suponha que exista um mercado privado para o bem público. Cada indivı́duo i deve escolher a
quantidade xi para comprar ao preço p. O problema do consumidor i é:
!
X
max φi xi + x∗k − pxi ,
xi ≥0
k6=i

onde x∗k denota a quantidade ótima consumida pelo indivı́duo k, ∀k 6= i.

A CPO do problema do consumidor i é:


!
X X
φ0i x∗i + x∗k = p ⇒ φ0i (x∗ ) = p, onde x∗ = x∗k
k6=i k

29
A oferta ótima do bem público é encontrada resolvendo o problema:

max pq − c(q)
q≥0

A CPO do problema acima é:


p = c0 (q ∗ )
No equilı́brio devemos ter x∗ = q ∗ . Nesse caso, obtemos:
I
X
c0 (q ∗ ) = φ0i (q ∗ ) < φ0k (q ∗ ) = c0 (q ? )
k=1

Como o custo marginal de provisão do bem público é crescente (c00 > 0), obtemos:

q∗ < q?

Portanto, no caso de provisão privada de um bem público, o nı́vel de produção de mercado é


inferior ao nı́vel socialmente ótimo.
Essa ineficiência criada pela provisão privada do bem público é causada pelo fato de que o bem
público comprado por um consumidor fica disponı́vel a todos os outros consumidores.
Isso cria uma situação onde cada consumidor deseja pegar carona no consumo do bem público
pago pelos outros (free-riding problem).

c0 (q)

0
P
i φi (q)
s
φ0I (q)
-
q∗ q? q

2.3.9 Caracterizando a Solução Privada


Suponha que φ01 (x) < φ02 (x) < · · · < φ0I (x), para todo x ≥ 0. Nesse caso, o nı́vel de equilı́brio
q ∗ do bem público satisfaz φ0I (q ∗ ) = c0 (q ∗ ), ou seja, quem tem a maior valoração é quem define a
quantidade provida de bem público.
Essa ineficiência pode ser corrigida por meio de taxas e subsı́dios. O problema é que cada indivı́duo
pode não revelar corretamente o benefı́cio que obtém com o bem público, aproveitando o bem
público pago pelo resto da população.

30
A questão então é se existe alguma forma de induzir cada indivı́duo a revelar o seu benefı́cio
real com o bem público. Esse é um problema tı́pico de desenho de mecanismos (a resposta dessa
questão é dada pelo mecanismo de Groves e Clarke, que veremos a seguir).

2.3.10 Alocação Eficiente - Caso Geral


Suponha que existam dois indivı́duos, que podem consumir dois bens, um bem privado, denotado
por x, e um bem público, denotado por G. Vamos supor que G é perfeitamente divisı́vel e
normalizar o preço do bem privado em um. Suponha que c(G) represente o custo de prover G
unidades do bem público.
A utilidade do agente i, i = 1, 2, é ui (xi , G) (não necessariamente quase linear). Vamos representar
por wi a riqueza do indivı́duo i, i = 1, 2. O problema de maximização que determina as alocações
Pareto eficientes é:
max u1 (x1 , G) s.a. i) u2 (x2 , G) = ū2 ,
x1 ,x2 ,G
ii) x1 + x2 + c(G) = w1 + w2
O Lagrangeano do problema acima é:
L = u1 (x1 , G) + λ(ū2 − u2 (x2 , G)) + µ(w1 + w2 − x1 − x2 − c(G))
As CPOs resultam em:
∂u1 (x1 , G)
(x1 ) : =µ
∂x1
∂u2 (x2 , G)
(x2 ) : −λ =µ
∂x2
∂u1 (x1 , G) ∂u2 (x2 , G) ∂c(G)
(G) : −λ =µ
∂G ∂G ∂G
Dividindo a terceira CPO por µ e substituindo os valores de µ e λ/µ dados pela primeira e sgunda
CPOs, obtemos:
∂u1 (x1 ,G) ∂u2 (x2 ,G)
∂G ∂G ∂c(G)
∂u1 (x1 ,G)
+ ∂u2 (x2 ,G)
=
∂G
∂x1 ∂x2
Em termos da TMS entre o bem privado e o bem público, temos que:
|T M S1 | + |T M S2 | = CM g(G)
Ou seja, em uma alocação Pareto eficiente, a soma das taxas marginais de substituição entre os
bens público e privado dos dois consumidores deve ser igual ao custo marginal de provisão do bem
público (a soma da propensão marginal a pagar tem que ser igual ao custo marginal).
Observações:
• No caso geral, a quantidade ótima do bem público será diferente em diferentes alocações do
bem privado entre os dois consumidores.
• Porém, se as preferências forem quase lineares, a quantidade ótima de bem público será
única, sempre igual, qualquer que seja a alocação do bem privado entre os consumidores.
• Isto ocorre porque a condição acima, a soma da propensão marginal a pagar igual ao custo
marginal, no caso de preferências quase lineares, independe da alocação do bem privado
entre os consumidores.

31
2.3.11 Corrigindo a Ineficiência - Dois Problemas
A ineficiência causada pelo bem público pode ser corrigida por meio de taxas e subsı́dios, ou seja,
o pagamento se torna compulsório para todos e ninguém pode tomar carona no pagamento de
outros contribuintes, em princı́pio.
Neste caso, outro problema aparece de modo claro: cada indivı́duo pode não revelar corretamente o
benefı́cio que obtém com o bem público, aproveitando o bem público pago pelo resto da população.
Logo, a presença de caronas traz dois problemas na provisão do bem público: como financiar a
produção do bem público e qual o verdadeiro valor do bem para a sociedade.
O primeiro problema pode ser resolvido com a intervenção direta do Estado, como provedor ou
como órgão de decisão da produção ou não do bem público.
O segundo problema é mais difı́cil de ser solucionado. O bem público deve ser construı́do apenas
se o benefı́cio para a sociedade for maior que o custo de produção.
O custo de produção pode ser razoavelmente simples de se computar, todavia o benefı́cio para a
sociedade pode ser de difı́cil cálculo.

2.3.12 Desenho de Mecanismos


A questão a ser respondida então é se existe alguma forma de induzir cada indivı́duo a revelar o
seu benefı́cio real com o bem público. Esse é um problema tı́pico de desenho de mecanismos.
Por exemplo, se fizermos uma pesquisa de propensão a pagar pela produção de algum bem público,
não existe garantia que a resposta dos entrevistados refletirá o verdadeiro valor da obra para ele.
Esse problema é bastante sério em mercados regulados, onde é comum o uso de estudos de dis-
posição a pagar, que envolve técnicas de questionário para os agentes econômicos responderem.

2.3.13 Revelação Correta das Preferências


Se o agente acreditar que sua resposta possa afetar o valor que ele pagará pelo bem público,
aumentando o valor que pagará se ele relatar um valor mais alto, ele terá o incentivo de relatar
um valor baixo.
Porém, se o valor que ele pagará pelo bem público for independente de sua resposta, pode ocorrer
que, no caso em que o valor do bem público para ele for maior que o valor que lhe será cobrado,
ele terá incentivo para dizer que o bem vale muito mais do que realmente vale para ele, pois assim
aumentaria a chance de o bem público ser produzido.
No caso em que o valor do bem público para ele for menor que o valor que lhe custará, ele terá
incentivo a relatar um valor muito baixo, aumentando a probabilidade de o bem público não ser
construı́do e, consequentemente, ele não terá que arcar com o seu provimento.

2.3.14 Mecanismo de Groves e Clarke


O mecanismo de Groves-Clarke (ou imposto de Groves-Clarke) provê incentivos de modo que os
agentes econômicos revelem corretamente o valor que atribuem ao bem público.
Caracterı́sticas do mecanismo:
• Vale apenas para utilidades quaselineares;

32
• Não necessariamente gera um resultado eficiente (apenas o nı́vel do bem público será ótimo,
porém o nı́vel do bem privado pode ser ineficiente, devido ao custo de implementação do
mecanismo);

• Revelar corretamente o valor que o indivı́duo de fato atribui ao bem público é uma estratégia
fracamente dominante;

• Mecanismo pode ser bastante desigual e prejudicar vários consumidores (questão de eficiência
versus equidade).
Denote por vi o valor que o indivı́duo i atribui ao bem público. Seja K o custo de provimento
desse bem público. Se
XI
vi > K,
i=1

então o bem deve ser ofertado.

O mecanismo de Groves e Clarke funciona do seguinte modo:


1. Fixe um valor ci para cada agente, que deverá ser pago caso o bem público seja provido;

2. Cada agente deve declarar um valor lı́quido si para o bem público (a diferença entre o valor
que a pessoa atribui ao bem público e o valor que deverá ser pago no caso de sua provisão);

3. Se a soma dos valores lı́quidos declarados for positiva, o bem público será provido. Caso
contrário, não.

Se o mecanismo terminar com o útimo item acima, temos um problema: se o indivı́duo i é tal que
vi − ci > 0, ou seja, a sua valoração é maior do que o custo que terá que arcar, ele terá incentivo
a reportar um valor alto para o bem, com o intuito de garantir o seu provimento (analogamente,
se vi − ci < 0, ele terá incentivo a reportar um valor baixo para o bem). O problema é causado
pelo fato de que não existe custo se o indivı́duo reportar um valor falso para o bem público.
Logo, é necessário impor um custo para quem se desviar da reveleção correta do seu valor. Porém, a
revelação incorreta não tem importância caso não afete a decisão ótima. As pessoas que importam
são as que alteram a soma
P dos valoresP para acima ou para abaixo Pdo custo do bemP (indivı́duo pivô)
- ou seja, que tornem si > 0 caso vi < K ou que tornem si < 0 caso vi > K.

Portanto, a última etapa do mecanismo consiste em:


4. Cada indivı́duo pivô (ou seja, indivı́duos com o potencial de mudar a decisão de provisão
do bem público) terá que pagar um imposto: se o indivı́duo
P j mudar de decisão de provisão
para não provisão, terá que pagar um imposto
P de s
i6=j i . Se j mudar a decisão de não
provisão para provisão, o imposto será de − i6=j si (o imposto deve ser pago ao estado, não
deve influenciar a decisão dos outros agentes).

2.3.15 QUESTÕES DA ANPEC


RESOLVER: Questão 12 - Exame 2011; Questões 13 e 14 - Exame 2010; Questão 14 - Exame
2009; Questão 12 - Exame 2008; Questão 10 - Exame 2005; Questão 15 - Exame 2005; Questão
11 - Exame 2000.

33
3 Escolha Social
3.1 Introdução
3.1.1 Teoria da Escolha Social
Escolha Social: problema de agregar preferências individuais em uma preferência social. Como
um grupo ou uma sociedade decide coletivamente?
Queremos que essa regra de agregação satisfaça certos critérios de caráter normativo.
Exemplo: Se todos em uma sociedade preferem a alternativa A à alternativa B, então a regra
social prefere A a B (unanimidade de Pareto).
Resultado principal: Teorema da Impossibilidade de Arrow.

3.1.2 Critérios
Alguns critérios sobre o mecanismo de agregação:

• Escolhe a alternativa preferida por todos, caso exista;

• Exclui a possibilidade de escolhas impostas, aleatórias ou pré-determinadas;

• É “justo”;

• Exclui a possibilidade de um ditador;

• É decisivo;

• Usa toda a informação disponı́vel;

• Exclui problemas de barganha e de manipulação;

• Não é caro; etc.

3.1.3 Definições
• Alternativa: descrição completa de um estado social;

• X: conjunto finito de alternativas, todas excludentes;

• I: tamanho do grupo ou sociedade (número de indivı́duos);

• Preferências: indivı́duo é capaz de escolher entre alternativas diferentes (completa e transi-


tiva);

– Preferência fraca: i
– Preferência estrita: i

• Grupo de preferências: lista das preferências de todos os indivı́duos do grupo.

34
3.1.4 Relação de Preferência Social
Definição: Preferência Social. Uma relação de preferência social S é uma relação binária
completa e transitiva sobre X. Representamos por S e ∼S as relações de preferência estrita e
indiferença derivadas de S , respectivamente.
Notação:
• x S y: (a alternativa) x é socialmente tão boa quanto a y;
• x S y: (a alternativa) x é socialmente melhor que y;
• x ∼S y: (a alternativa) x é socialmente indiferente a y.

3.1.5 Paradoxo de Condorcet (Paradoxo da Votação)


No caso de apenas duas alternativas, o requerimento da regra social ser transitiva não faz sentido.
Se tivermos três ou mais alternativas, transitividade passa a ser relevante. Nesse caso, votação
majoritária aos pares não satisfaz esse requiremento.
Suponha que a regra de escolha social é dada por votação aos pares, quem tiver mais votos ganha.

Definição: Vencedor de Condorcet. Dizemos que uma alternativa é um vencedor de Condorcet


se ela ganha de todas as outras alternativas na votação majoritária aos pares.

Suponha o seguinte profile de preferências estritas:


Posição Indivı́duo 1 Indivı́duo 2 Indivı́duo 3
Primeira x y z
Segunda y z x
Terceira z x y

Votação majoritária entre:



x vs y ⇒ x S y 
y vs z ⇒ y S z ⇒ x S y, y S z, z S x
x vs z ⇒ z S x
 | {z }
S não é transitiva!

Ou seja, mesmo que as preferências individuais sejam transitivas, pode ocorrer que a preferência
social não o seja. Para o grupo de preferências acima, não existe um vencedor de Condorcet.

3.1.6 Manipulação de Agenda


Regras de escolha social não transitivas podem trazer problemas de manipulação de agenda.
Suponha que a regra de escolha é tal que, no caso de três alternativas x, y e z, se a agenda é
(x, y, z), então primeiro vota-se x vs y, e depois o vencedor dessa votação contra z.
(x, y, z) : x vs y ⇒ x ganha, x vs z ⇒ z ganha
(y, z, x) : y vs z ⇒ y ganha, y vs x ⇒ x ganha
(z, x, y) : z vs x ⇒ z ganha, z vs y ⇒ y ganha
Logo, para esse grupo de preferências em particular, quem define a agenda de votações define a
alternativa vencedora.

35
3.2 Teorema de Arrow
3.2.1 Introdução
Arrow: encontrar uma regra de decisão social que agregue preferências individuais de “modo
satisfatório”.
As condições do teorema de Arrow são exigências normativas sobre a função de bem-estar social
f que gera a decisão social, S = f (1 , . . . , N ).
Note que f associa a cada grupo de preferências individuais uma preferência social, (1 , . . . , N
) 7→S .
f

3.2.2 Domı́nio Irrestrito


Domı́nio Irrestrito. O domı́nio de f inclui todas as combinações possı́veis de preferências sobre
o espaço de alternativas X.
Essa condição impõe sobre a regra social f a capacidade de associar qualquer grupo de preferências
individuais a uma preferência social.
Portanto, o mecanismo de escolha social é válido qualquer que seja o grupo de preferências indi-
viduais.

3.2.3 Princı́pio Fraco de Pareto


Princı́pio Fraco de Pareto. Para qualquer par de alternativas x e y tal que x i y para todo
i, então x S y.
Essa condição impõe um critério de unanimidade no mecanismo de escolha social.
Podemos definir outros criterios de unanimidade (por exemplo, com preferências fracas).

3.2.4 Não-Ditadorial
Não-Ditadorial. Não existe indivı́duo h tal que se x h y então x S y, quaisquer que sejam as
preferências dos outros indivı́duos i 6= h.
Essa condição elimina a possibilidade de um ditador na sociedade.
Isso não exclui o fato de que a escolha social coincida, para um certo grupo de preferências, com
a escolha de algum ou de alguns indivı́duos (isso sempre ocorrerá, exceto em casos patológicos).

3.2.5 Independência das Alternativas Irrelevantes


˜ S = f (
Independência das Alternativas Irrelevantes. Sejam S = f (1 , . . . , I ),  ˜ 1, . . . , 
˜ I)
e sejam x e y duas alternativas quaisquer em X. Se cada indivı́duo ordena x versus y em i do
mesmo modo que ordena x versus y em  ˜ i então o ordenamento social de x versus y é o mesmo
˜
em S e em S .
Condição mais sutil. Impõe à regra de escolha social a propriedade de que o ordenamento entre
duas alternativas dependa apenas dessas duas alternativas, e que não seja afetado por nenhuma
outra alternativa diferente de x e y.

36
3.2.6 Contagem de Borda
O mecanismo de escolha social de contagem de Borda requer que cada indivı́duo ordene as alter-
nativas de acordo com sua preferência.
Um possı́vel mecanismo de contagem de Borda: dado o indivı́duo i, associamos o número ci (x) = n
para cada alternativa x, onde n é a posição de preferência de x para i.
Por exemplo, se c1 (x) = 2, então x é a segunda alternativa preferida do indivı́duo 1.
A regra de escolha social R é definida do seguinte modo:
I
X I
X
x S y ⇔ ci (x) ≤ ci (y)
i=1 i=1

3.2.7 Propriedades da Contagem de Borda


O mecanismo de escolha social de contagem de Borda:

• é completo e transitivo (e de domı́nio irrestrito; podemos lidar com empates facilmente);

• satisfaz o princı́pio fraco de Pareto,

• não é ditadorial.

Porém, não satisfaz o critério de independência das alternativas irrelevantes, pois o ordenamento
de duas alternativas depende do posicionamento de todas as outras alternativas.

3.2.8 Exemplo
Suponha dois indivı́duos e três alternativas, x, y, z.

x 1 z 1 y ⇒ c1 (x) = 1, c1 (y) = 3
Grupo A: ⇒ x S y
y 2 x 2 z ⇒ c2 (x) = 2, c2 (y) = 1

x 1 y 1 z ⇒ c1 (x) = 1, c1 (y) = 2
Grupo B: ⇒ y S x
y 2 z 2 x ⇒ c2 (x) = 3, c2 (y) = 1
Nos dois grupos, os ordenamentos individuais entre x e y são os mesmos. Porém, o mecanismo de
Borda resulta em escolhas diferentes. Logo, temos uma violação da hipótese de IIA.

3.2.9 Teorema de Arrow


Teorema da Impossibilidade de Arrow (versão I). Se existem pelo menos três alternativas
em X, então não existe função de escolha social f que resulte em S completa e transitiva e tal
que satisfaça as condições de domı́nio universal, princı́pio fraco de Pareto e independência das
alternativas irrelevantes e que seja não-ditadorial.

Teorema da Impossibilidade de Arrow (versão II). Se existem pelo menos três alternativas
em X, então a única função de escolha social f que resulte em S completa e transitiva e que
satisfaça as condições de domı́nio universal, princı́pio Pareto fraco e independência das alternativas
irrelevantes é a regra de escolha social ditadorial.

37
3.2.10 Preferências de Pico Único
Vamos abandonar a hipótese de domı́nio universal e considerar apenas preferências de pico único,
ou seja, preferências para as quais seja possı́vel ordenar as alternativas de algum modo tal que
elas tenha um único máximo.
Nesse caso, vale o Teorema de Black ou Teorema do Eleitor Mediano: Se as preferências são de
pico único, então a alternativa preferida do eleitor mediano é a que vencerá em uma votação
majoritária (é o vencedor de Condorcet).

3.2.11 Votação para Provisão de Bem Público


Suponha que a provisão do bem público seja decidida via votação e que as preferências dos eleitores
referentes às alternativas disponı́veis sejam de pico único.
Nesse caso, o procedimento de votação majoritária resultará no nı́vel de bem público mediano
sendo escolhido (ou seja, o nı́vel em que metade da população quer gastar mais e a outra metade
quer gastar menos).
Observe que a provisão de bem público por votação resulta em uma escolha bem definida no caso
de preferências de pico único. Porém esta escolha não necessariamente será Pareto eficiente.

3.3 Função de Bem-Estar Social


3.3.1 Função de Bem-Estar Social
Vamos agora proceder de modo diferente com respeito ao problema de escolha social. Suponha que
cada indivı́duo tenha uma utilidade definida sobre o conjunto das alternativas existentes. Vamos
representar a utilidade do indivı́duo i sobre a alternativa x por ui (x).
Uma função de bem estar social W é uma função definida sobre as funções de utilidade individuais,
W = W (u1 , . . . , uI ). Alguns tipos são:
P
• FBES utilitarista ou de Bentham: W (u1 , . . . , uI ) = i ui
P
• FBES da soma ponderada das utilidades: W (u1 , . . . , uI ) = i ai ui , com ai ≥ 0 para todo i.

• FBES Rawlsiana: W (u1 , . . . , uI ) = min{u1 , . . . , uI }.

3.3.2 Maximização da Função de Bem-Estar Social


Suponha que cada alternativa x defina uma cesta de consumo para cada indivı́duo, x = (x1 , . . . , xI ).
Suponha também que cada indivı́duo i tenha uma dotação inicial ei . Considere o seguinte prob-
lema de maximização:
X X
max W (u1 (x), . . . , uI (x)) sujeito à xi = ei ,
x
i i

onde W é uma FBES crescente. Se a FBES é crescente, então a alocação ótima será Pareto
eficiente. As curvas de indiferença de W são chamadas curvas de isobem-estar.

38
u2
6

rMáximo da FBES W

Conjunto de
Possibilidade
de Utilidade
Curva de Isobem-Estar
-
u1

3.3.3 Relação entre FBES e Alocações Eficientes


Mais ainda, qualquer alocação Pareto eficiente pode ser o resultado ótimo para alguma FBES. Em
particular, se maximizarmos a FBES ponderada variando os pesos ai , obtemos qualquer ponto da
FPU como solução ótima.
Para que este resultado seja de fato verdadeiro, é necessário que o conjunto de possibilidade de
utilidades seja convexo.
Observe então que existe uma relação entre FBES e alocações eficientes bastante estreita: toda
solução de um problema de maximização de uma FBES crescente é eficiente e toda alocação efi-
ciente é solução de um problema de maximização de bem-estar social, para uma FBES apropriada.

3.3.4 FBES de Bergson e Samuelson (FBES individualista)


Suponha que cada alternativa x defina uma cesta de consumo para cada indivı́duo, x = (x1 , . . . , xI ).
Se a FBES tem a forma W (u1 (x1 ), . . . , uI (xI )), ou seja, se a utilidade individual depende apenas
da sua cesta de bens, então chamamos W de FBES individualista ou de Bergson e Samuelson.
Nesse caso, não existirão externalidades de consumo e pode-se mostrar que o primeiro e o segundo
teorema do bem-estar são válidos.

3.3.5 QUESTÕES DA ANPEC

RESOLVER: Questão 04 - Exame 2011; Questão 08 - Exame 2006; Questão 09 - Exame 2002;
Questão 10 - Exame 2001; Questão 15 - Exame 1998.

Questões mais antigas: Questão 15 - Exame 1995.

3.3.6 Leitura sugerida:


• Varian, capı́tulos 31 (Trocas), 32 (A Produção), 33 (O Bem-Estar), 34 (Externalidades), 36
(Bens Públicos).

39

Você também pode gostar