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[-] www.sinaldemenos.org Ano 10, n°13, 2019.

A CRISE ATUAL E O ANACRONISMO DO VALOR:


uma leitura marxiana

Moishe Postone

I.
A eleição de Donald Trump, o voto em favor do Brexit e a onda de populismo de
direita varrendo parte significativa da Europa são expressões de uma crise profunda da
legitimidade política das democracias liberais, tão extensa e potencialmente perigosa
quanto aquela no período entre-guerras na Europa.
Essa crise política, que tem uma expressão na infeliz oposição entre
neoliberalismo global e nacionalismo autoritário, funda suas raízes, indiscutivelmente,
nas abrangentes transformações estruturais das décadas recentes, que se tornaram
manifestas com o crash de 2008 e suas consequências. Além de provocar a ascensão de
movimentos como o Occupy e uma onda de populismos - tanto à direita quanto à
esquerda - em vários países, a crise e a Grande Recessão deram novo ímpeto a tentativas
de entender criticamente e de maneira abrangente os desenvolvimentos históricos
contemporâneos. Junto a isso, o termo “capitalismo” foi reintroduzido em amplas
discussões, tanto acadêmicas como genericamente intelectuais, como uma concepção
que agora parece mais adequada analiticamente do que aquela de “modernidade”, que
foi mais dominante nas décadas do pós-guerra.
Mesmo assim, as compreensões de “capitalismo” variaram consideravelmente.
Com base em uma releitura das obras maduras de Marx, sugiro que uma teoria crítica
do capitalismo deve entendê-lo não apenas como uma forma determinada de
desigualdade ou, relacionado a isto, como um sistema de exploração baseado na classe,
uma categoria que em anos recentes tem sido frequentemente relacionada com aquelas
de gênero e raça como categorias de identidade e opressão. Dito de maneira mais
generalizada, uma adequada teoria crítica do capitalismo não deve ser entendida apenas
em termos de uma crítica ao modo dominante de distribuição - isto é, a propriedade

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privada dos meios de produção e do mercado -, como sem dúvida tem sido o caso com o
marxismo tradicional.
Em vez disso, especialmente como observado com a vantagem do presente, sugiro
que o capitalismo deve ser entendido, antes de tudo, como uma forma histórica
específica de vida social, em cujo coração está uma forma abstrata historicamente única
de dominação que encontra expressão em uma dinâmica histórica global. Essa forma de
vida surgiu contingencialmente na Europa Ocidental, que foi fundamentalmente
transformada por ela, assim como passou a transformar e constituir o globo. Ou seja, ao
contrário de alguns pressupostos que se tornaram generalizados, essa forma de vida não
é intrínseca ou ontologicamente ocidental, mas ela própria remodelou o Ocidente. Ela
não pode, portanto, ser adequadamente compreendida em termos culturalistas
reificados. Ao contrário, quero sugerir que uma teoria capaz de compreender
adequadamente o caráter dinâmico dessa forma de vida social pode ser desenvolvida
mais rigorosamente baseada num encontro renovado com as obras maduras de Marx.
Para muitos, é claro, é o caso de afirmar que o colapso da União Soviética e a
transformação da China marcaram o ponto final do socialismo e da relevância teórica de
Marx. Esse fim também foi expresso, noutro nível, pela emergência de outros tipos de
abordagens teóricas, tais como o pós-estruturalismo e a desconstrução, que buscaram
proporcionar críticas da dominação que evitavam o que elas consideravam as
armadilhas dos grandes programas de emancipação humana.
A atual crise global, contudo, revelou dramaticamente as limitações fundamentais
dessas novas abordagens - incluindo aquelas associadas a pensadores tão diferentes
quanto Habermas, Foucault e Derrida - como tentativas de compreender o mundo
contemporâneo. Ela também expôs a unilateralidade daquilo que foi chamado de “virada
cultural” [cultural turn] nas humanidades e ciências sociais. A existência contínua de
crises econômicas severas como uma característica da modernidade capitalista, assim
como as transformações estruturais das sociedades industriais (que recentemente
geraram massivas reações populistas de direita), a existência de “desindustrialização
prematura” em outras partes do mundo (onde o caminho estatista para a acumulação
nacional de capital não aparece mais como uma opção viável), a financeirização
crescente da vida social, casada com a prevalência da pobreza massiva e exploração
estrutural em uma escala global, o dramático crescimento da desigualdade e - sobretudo
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- a crise dual da degradação ambiental e esvaziamento da sociedade do trabalho põem


em questão o triunfalismo tanto do neoliberalismo como de muito do pós-marxismo.
Parece que a queda daquilo que se chamou “socialismo realmente existente” e o
florescimento do pensamento pós-marxista não remediou a necessidade de uma teoria
crítica do capitalismo.
Todavia, seria um erro pensar que seria possível simplesmente retornar a Marx,
como ele foi comumente entendido durante boa parte do século XX. Tanto o fim do
marxismo tradicional como as crescentes inadequações manifestas de parte do pós-
marxismo estão enraizados em desenvolvimentos históricos que sugerem a necessidade
de repensar, bem como reapropriar, Marx.

II.
Meu foco no caráter historicamente dinâmico do capitalismo busca responder aos
padrões das abrangentes transformações globais do século passado. Como é bem sabido,
pesquisadores como Piketty, focando em questões relativas à desigualdade, estabeleceu
recentemente a existência de um abrangente padrão histórico de mudanças na
desigualdade que caracterizou o século passado - de um período de grande desigualdade
em fins do século XIX e inícios do século XX a um período em torno de meados do século
XX durante o qual a desigualdade foi reduzida drasticamente. Isso foi seguido após o
início da década de 1970 por uma inversão - um ressurgimento acentuado do aumento
da desigualdade.
Esse padrão não apenas revela uma extrema alteração na riqueza e no poder
político no mundo contemporâneo, mas também coloca em questão compreensões de
desenvolvimentos históricos modernos em termos lineares - como é certamente o caso
da teoria da modernização, por exemplo.
Significativamente, esse padrão de mudanças na desigualdade é supranacional e
se sincroniza com outros padrões abrangentes. Por exemplo, a taxa média de
crescimento econômico dos países capitalistas avançados foi relativamente baixa
durante a primeira metade do século, então mais do que dobrou em meados do século
XX - período este de desigualdade mais baixa. Isso então se inverteu após o início da
década de 1970: o crescimento econômico declinou e a desigualdade aumentou.
Mudanças na taxa do PIB per capita seguiram um padrão similar. Elas foram
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relativamente baixas durante a primeira metade do século XX, ascenderam durantes as


décadas do pós-guerra e caíram de novo após o início da década de 1970. Analogamente,
os salários cresceram dramaticamente no pós-guerra, mas estagnaram desde 1973 nos
EUA. O padrão de vida de diversos estadunidenses caiu desde então - muito embora isso
só tenha se tornado um tema político explosivo na década passada. Todavia, ao contrário
de opiniões muito difundidas, a produção industrial (ao menos nos EUA) não declinou.
A participação industrial no PIB dos EUA hoje é aproximadamente a mesma daquela de
1965. O que declinou foi o número de empregos na indústria.
Esses padrões - e muitos outros - parecem estar interrelacionados. Todos eles
podem ser observados a partir de um padrão ainda mais amplo - a supressão do
capitalismo liberal do século XIX por um capitalismo fordista centrado no Estado desde
seu início na I Guerra Mundial e a Revolução Russa, passando por seu ponto alto nas
décadas após a II Guerra Mundial e seu declínio após o início da década de 1970,
chegando a sua superação, por sua vez, pelo capitalismo neoliberal global (o que, por sua
vez, poderia ser prejudicado pela emergência grandes blocos econômicos concorrentes).
O que é significante nessa trajetória é seu caráter global. Ela envolveu países
capitalistas ocidentais e países comunistas, assim como terras colonizadas e países
descolonizados. Evidentemente, muito embora tenham ocorrido diferenças importantes
no desenvolvimento histórico, do vantajoso ponto de vista do século XXI elas mais se
parecem com diferentes inflexões de um padrão comum do que desenvolvimentos
fundamentalmente diferentes. Isso não significa que esse padrão seja homogêneo ou
modular. O modo como se entende os desníveis, contudo, depende de como são
entendidos os desenvolvimentos históricos abrangentes da modernidade.
A existência de tais desenvolvimentos gerais não pode ser explicada de maneira
convincente em termos locais e contingentes. Eles sugerem fortemente a existência de
coações estruturais gerais nas decisões políticas, sociais e econômicas, assim como de
forças dinâmicas que não são completamente sujeitas ao controle político.
Esses padrões gerais ainda sugerem que o foco teórico na agência [agency] e
contingência em décadas recentes eram tão unilaterais quanto o funcionalismo
estrutural a que suplantaram. Se este último alcançou uma circulação generalizada
durante a maré alta do capitalismo centrado no Estado, o primeiro assim o fez durante
a época neoliberal. Nenhuma dessas abordagens, contudo, tematizou sua própria relação
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com seu contexto histórico. Isso sugere que, diferente dessas abordagens, uma teoria
crítica deve estar apta a problematizar sua própria contextualização histórica. Ou seja,
deve ser reflexiva.
Esses padrões abrangentes sugerem a importância de um engajamento renovado
na crítica da economia política de Marx, pois a problemática das dinâmicas históricas e
mudanças da estrutura global está no cerne dessa crítica. Todavia, como mencionado
acima, a história do último século também sugere que uma teoria crítica adequada deve
diferir fundamentalmente da crítica marxista tradicional do capitalismo - com o que eu
quero dizer um quadro interpretativo geral no qual o capitalismo é analisado
essencialmente em termos de relações de classe que estão baseadas na propriedade
privada e mediadas pelo mercado, sendo a dominação social entendida principalmente
em termos de dominação e exploração de classe.
Dentro desse quadro básico de análise, tem havido uma ampla gama de abordagens que
geraram poderosas análises econômicas, políticas, sociais, históricas e culturais.
Contudo, as limitações de abrangência do quadro de análise em si mesmo se tornaram
cada vez mais evidentes à luz dos desenvolvimentos históricos do século XX. Esses
desenvolvimentos incluem o caráter não-emancipatório do “socialismo realmente
existente”, a trajetória histórica de sua ascensão e declínio, em paralelo com aquela do
capitalismo de estado intervencionista (sugerindo que elas estavam situadas
historicamente de maneira similar), a importância crescente do conhecimento científico
e da tecnologia avançada na produção (que parecia colocar em questão a teoria do valor
trabalho), críticas crescentes ao progresso e crescimento tecnológico (que se opôs ao
produtivismo de grande parte do marxismo tradicional) e a importância crescente de
identidades sociais não baseadas na classe. Juntos, eles indicam que o quadro
tradicional não pode mais servir como um ponto de partida para uma teoria crítica
adequada.
De fato, gostaria de sugerir que um senso da inadequação do quadro marxista
tradicional - ao mesmo tacitamente - deu forma a uma política progressista crítica por
décadas. A noção de pós-capitalismo, de socialismo, como uma sociedade baseada no
trabalho industrial, propriedade pública dos meios de produção e planejamento
centralizado começou a perder o controle sobre o imaginário de muitos intelectuais,
estudantes e trabalhadores progressistas durante a crise do capitalismo fordista em fins
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dos anos 1960 e inícios dos 1970. Essa inadequação era frequentemente sentida em vez
de explicitamente teorizada. Eu sugiro, contudo, que ela foi expressa implicitamente nas
difundidas críticas do trabalho e crescimento industrial, no enfraquecimento do apoio
aos partidos social-democratas e comunistas, na crescente perda de orientação desses
partidos, assim como nas tentativas de localizar novos sujeitos revolucionários - por
exemplo, em movimentos anti-coloniais.
De qualquer modo, colocando de lado tais considerações por um instante, estou
sugerindo que considerar os padrões históricos gerais que caracterizaram o século
passado questiona tanto o marxismo tradicional, com suas afirmações sobre trabalho e
história, assim como as compreensões pós-estruturalistas da história como
essencialmente contingente. Não obstante, esta consideração não necessariamente nega
o discernimento crítico que dá forma às tentativas de lidar com a história de maneira
contingente - a saber, que a história, entendida como o desdobramento de uma
necessidade imanente, delineia uma forma de ausência de liberdade.
Essa forma de ausência de liberdade, como irei elaborar, é o objeto central da crítica da
economia política de Marx, que fundamenta o caráter historicamente dinâmico e as
mudanças estruturais do mundo moderno em imperativos e restrições que são
historicamente específicos à sociedade capitalista. Longe de ver a história
afirmativamente, Marx fundamenta essa dinâmica direcional nas categorias de
mercadoria e capital, desse modo apreendendo-a como uma forma de dominação, de
heteronomia.
Dentro desse quadro, a crítica de Marx, então, não é tomada do ponto de vista da
história e do trabalho, como o é no marxismo tradicional. Ao contrário, a dinâmica
histórica do capitalismo e a aparente centralidade ontológica do trabalho se tornam os
objetos da crítica de Marx. Pela mesma razão, a teoria madura de Marx não mais
pretende ser uma teoria com validade trans-histórica da história e da vida social, mas é
de modo auto-consciente historicamente específica e coloca em questão qualquer
abordagem que reivindica validade universal e trans-histórica a si mesma. Essas
dimensões centrais das análises de Marx tornam sua teoria crítica mais adequada ao
nosso contexto histórico do que o marxismo tradicional ou o pós-estruturalismo.
Deveria ser evidente que o impulso crítico da análise de Marx, de acordo com essa
leitura, é similar em alguns aspectos às abordagens pós-estruturalistas na medida em
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que isso implica numa crítica da totalidade e uma lógica dialética da história. Contudo,
considerando que Marx trata tais concepções como expressando a realidade da
sociedade capitalista, as abordagens pós-estruturalistas recusam sua validade insistindo
no primado ontológico da contingência. Do ponto de vista da crítica marxiana da história
heterônoma, qualquer tentativa de restaurar a agência histórica [historical agency]
insistindo na contingência de modo a recusar ou obscurecer a forma dinâmica de
dominação característica do capital é, ironicamente, profundamente desempoderadora.

III.
Essas alegações são baseadas numa leitura que reconsidera as mais fundamentais
categorias da crítica madura de Marx em referência à dinâmica heterônoma que
caracteriza o capitalismo. Dentro do quadro tradicional, suas categorias - tais como
valor, mercadoria, mais-valor e capital - foram geralmente tomadas como categorias
econômicas que afirmam o trabalho como a fonte de toda riqueza social e demonstra a
centralidade da exploração de classe no capitalismo. O trabalho aqui, entendido trans-
historicamente, fornece o ponto de vista da crítica do capitalismo.
Dentro desse quadro, o centro fundamental da dominação no capitalismo é a
propriedade privada - a exploração do trabalho pela classe capitalista. A centralidade do
trabalho para a vida social é além disso obscurecida pelo mercado. Isso é, no capitalismo,
o significado social central do trabalho é suprimido e velado pelo mercado e pela
propriedade privada; eles impedem o trabalho de se tornar plenamente realizado. A
emancipação, portanto, é realizada numa sociedade em que o trabalho trans-histórico
emergiu abertamente como o princípio regulatório da sociedade. Essa noção, é claro,
está vinculada àquela do socialismo como a “auto-realização” do proletariado.
Uma leitura atenta da madura crítica da economia política de Marx, contudo, coloca em
questão as pressuposições históricas da interpretação tradicional. Marx afirma
explicitamente nos Grundrisse que suas categorias fundamentais não são trans-
históricas, mas historicamente específicas. Mesmo categorias como dinheiro e trabalho
que parecem trans-históricas, por conta de seu caráter abstrato e geral, são válidas em
sua generalidade abstrata somente para a sociedade capitalista, de acordo com Marx.
Isso coloca em questão vários entendimentos das categorias de Marx. Irei me
referir brevemente ao Livro I de O Capital a fim de delinear uma compreensão não-
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tradicional dessas categorias. Esta obra começa com a categoria da mercadoria, que não
se refere às mercadorias como elas podem existir em diversos tipos diferentes de
sociedade. Ao contrário, Marx toma o termo e o usa para se referir à mais básica relação
social da sociedade capitalista, sua forma fundamental de mediação social e princípio
estruturador. Essa forma, de acordo com Marx, é caracterizada por um caráter dual
historicamente específico (valor de uso e valor). Ele procura então desdobrar a natureza
e a dinâmica fundantes da modernidade capitalista a partir do caráter dual dessa forma
estruturadora básica, das interações de suas dimensões constitutivas. No coração de sua
análise está a ideia de que o trabalho no capitalismo tem uma função mediadora
socialmente única que não é trans-historicamente intrínseca à atividade do trabalho.
Numa sociedade em que a mercadoria é a categoria estruturadora básica do todo,
o trabalho e seus produtos não são distribuídos por normas tradicionais, ou relações
abertas de poder e dominação, como é o caso em outras sociedades. Ao contrário disso,
o trabalho ele mesmo constitui uma nova forma de interdependência, em que as pessoas
não consomem aquilo que produzem, muito embora seu próprio trabalho ou produtos
do trabalho funcionem como um meio quase objetivo de obter produtos de outros.
Servindo como tal meio, o trabalho e seus produtos, de fato, antecipam essa função no
que diz respeito às relações sociais manifestas; eles fazem a mediação de uma nova forma
de inter-relacionamento social.
Nas obras maduras de Marx, então, a noção de centralidade única do trabalho
para a vida social não é uma proposição trans-histórica. Ao contrário, ela se refere à
constituição historicamente específica do trabalho no capitalismo como uma forma de
mediação social que fundamentalmente caracteriza essa sociedade. Ao revelar essa
mediação, Marx busca fundamentar socialmente e elucidar as características básicas da
modernidade capitalista, bem como sua dinâmica histórica abrangente.
O trabalho no capitalismo, então, é tanto trabalho tal qual nós entendemos trans-
historicamente e segundo o senso comum, de acordo com Marx, como é uma atividade
socialmente mediadora historicamente específica. Consequentemente, aquilo que o
trabalho produz, suas objetificações - e aqui estou me referindo à mercadoria e ao capital
- são tanto produtos do trabalho concreto como formas objetificadas da mediação social.
De acordo com essa análise, portanto, as relações sociais que mais basicamente
caracterizam a sociedade capitalista são bem diferentes das relações sociais
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qualitativamente específicas, variadas e abertas - tais como relações de parentesco ou


relações de dominação pessoal ou direta - que caracterizam sociedades não-capitalistas.
Por serem constituídas pelo trabalho, essas relações têm um caráter peculiar quase
objetivo, formal e são dualistas - são caracterizadas pela oposição entre uma dimensão
abstrata, geral e homogênea e uma dimensão concreta, particular e material, ambas
parecendo ser “naturais”, em vez de sociais, e condiciona as concepções da realidade
social assim como da natural.
A forma da riqueza associada com tais relações, de acordo com Marx, é o valor -
que também é historicamente específica. A maioria das explicações ainda tratam a
categoria do valor de Marx como se ela fosse a mesma daquela de Smith ou Ricardo - ou
seja, como uma categoria trans-histórica da constituição da riqueza em todos os tempos
e em todos os lugares. Marx, então, supostamente refinou e radicalizou a economia
política e, usando suas categorias, provou a existência da exploração. Essa explicação
bem comum, contudo, está baseada numa má interpretação fundamental. Não é que
Marx tenha simplesmente refinado ou radicalizado a economia política. Ele não escreveu
uma economia política crítica [critical political economy] mas uma crítica da economia
política [critique of political economy]. Ou seja, ele transformou o objeto e a natureza da
análise. Em seu nível mais elementar, ele não foca mais essencialmente na troca ou
mesmo na troca desigual e na exploração. Em vez disso, com suas categorias, Marx
procurou revelar e analisar as formas de mediação que estruturam a sociedade
capitalista como uma forma historicamente específica de vida social, caracterizada pela
oposição e interações de suas dimensões abstratas e concretas. Estas subjazem suas
formas de produção e seu caráter direcionalmente dinâmico.
No coração dessa análise está uma distinção que Marx explicitamente traça entre
valor - como a forma historicamente específica e estruturadora da riqueza e da mediação
social no capitalismo - daquilo que ele chama riqueza material, que é medida pela
quantidade produzida e é uma função do conhecimento, organização social e condições
naturais, para além do trabalho. A riqueza material é mediada por relações sociais
extrínsecas a ela mesma. O valor, de acordo com Marx, é uma forma de auto-mediação
da riqueza e é essencialmente temporal. Ele é constituído somente pelo tempo de
trabalho socialmente necessário despendido.

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No interior do quadro de Marx, a dualidade da forma mercadoria como valor e


valor de uso está na base da dualidade da forma capital como processo de valorização e
processo de trabalho. Essa dualidade gera uma interação dialética que dá origem a uma
dinâmica temporal complexa que tanto impulsiona o valor adiante como eventualmente
o torna cada vez mais anacrônico. Afirmar, como Marx o faz, que o valor é historicamente
específico do capitalismo é afirmar não apenas que sociedades não-capitalistas não eram
estruturadas pelo valor, como ainda que uma sociedade pós-capitalista também não
seria baseada no valor. Isso, por sua vez, implica mostrar que a tendência secular do
desenvolvimento do capital é tornar o valor cada vez mais anacrônico.
Deixe-me elaborar brevemente considerando a determinação de Marx da
magnitude do valor em termos do tempo de trabalho socialmente necessário. Esse termo
não é apenas descritivo, mas delineia uma norma constrangedora socialmente geral. A
produção deve se conformar a essa norma temporal se ela for para gerar o valor total de
seus produtos. No processo, o período de tempo (p. ex., uma hora) vem a se constituir
como uma variável independente. A quantidade de valor produzida por unidade de
tempo é uma função isolada da unidade de tempo; ela se mantém a mesma
independentemente das variações individuais ou do nível de produtividade. Segue-se -
como uma peculiaridade do valor como uma forma temporal da riqueza - que, embora o
aumento da produtividade aumente a quantidade de valores de uso produzidos por
unidade de tempo, isso resulte somente no curto prazo em aumentos na magnitude do
valor criado por unidade de tempo. Uma vez que o aumento da produtividade se torna
geral, a magnitude do valor gerado por unidade de tempo cai de volta para seu nível de
base. O resultado é algo como uma esteira rolante. Níveis elevados de produtividade
resultam em grande aumento da riqueza material, mas não em aumentos proporcionais
em longo prazo no valor por unidade de tempo. Isso, por sua vez, leva a ainda mais
aumentos na produtividade.
Essa dinâmica de esteira rolante expressa e constitui uma nova forma de
dominação social. A norma do tempo de trabalho socialmente necessário é a primeira
determinação em O Capital da forma abstrata historicamente específica de dominação
social intrínseca ao capitalismo: trata-se da dominação das pessoas pelo tempo, por uma
forma historicamente específica de temporalidade - tempo abstrato newtoniano - que é
constituído historicamente com a forma mercadoria.
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No entanto, seria unilateral ver a temporalidade no capitalismo apenas em termos


do tempo newtoniano, isto é, como um tempo homogêneo vazio (como em Benjamin).
Uma vez que o capitalismo está completamente desenvolvido, suas formas temporais
geram aumentos contínuos na produtividade. Esses aumentos, como vimos, não mudam
a quantidade de valor produzida por unidade de tempo. Contudo, eles mudam a
determinação do que conta como uma unidade de tempo dada. A unidade de tempo
(abstrato) mantém-se constante; a mesma unidade de tempo gera a mesma quantidade
de valor. Mesmo que mudanças na produtividade redeterminem essa unidade; elas
empurram para frente, por assim dizer. Esse é um movimento do tempo. Uma vez que
ele não pode ser apreendido no interior do quadro do tempo newtoniano, mas requer
um quadro superordenado no interior do qual o quadro do tempo newtoniano se move.
Esse movimento do tempo pode ser nomeado tempo histórico. A redeterminação da
unidade de tempo abstrato e constante redetermina a compulsão associada com essa
unidade. Nesse sentido, o movimento do tempo adquire uma dimensão necessária. O
tempo histórico aqui não representa a negação do tempo abstrato (como em Lukács). Ao
contrário, tempo abstrato e tempo histórico são dialeticamente inter-relacionados.
Note-se que, neste quadro, nenhuma forma de temporalidade é uma mera construção
cultural; em vez disso, ambas são momentos de um processo historicamente constituído.
Ambas, no interior do quadro de Marx, emerge historicamente com o desenvolvimento
das formas sociais do capitalismo - por meio das quais elas são constituídas como
estruturas de dominação.
Em vez de considerar a temporalidade como um quadro pré-dado e imóvel no
interior do qual todas as formas de vida social se movem, então, tal teoria compreende
o capitalismo como uma organização bastante peculiar da vida social que constitui sua
própria temporalidade historicamente específica; ele é estruturado por formas
historicamente únicas de mediação social que são intrinsecamente temporais. Essas
formas subjazem uma dinâmica histórica peculiar que tanto é historicamente específica
quanto é global. As temporalidades do capitalismo, então, não são extrínsecas a ele, mas
são intrínsecas a suas formas sociais estruturadoras.
Essa forma historicamente nova de dominação social é tal que sujeita as pessoas
a imperativos estruturais impessoais, crescentemente racionalizados e
constrangimentos que não podem ser completamente compreendidos em termos de
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dominação de classe ou, de maneira mais geral, em termos de dominação concreta de


agrupamentos sociais ou de ações institucionais do Estado e/ou da economia. Ela não
tem um locus determinado e, muito embora constituída por formas determinadas de
prática social, parece não ser social de todo. Estou sugerindo que a análise de Marx da
abstração social é uma análise mais rigorosa e determinada daquilo que Foucault busca
compreender com sua noção de poder no mundo moderno. Ademais, a forma de
dominação que Marx analisa não é apenas celular e espacial, como em Foucault, mas
também processual e temporal - ela gera uma dinâmica histórica. Em vez de pressupor
a história, Marx neste momento visa fundamentar uma dinâmica da história em
andamento como uma característica historicamente única do capitalismo. Quer dizer,
ele historiciza a História.
No coração desta análise está a dinâmica peculiar de esteira rolante que eu
delineei, que está subjacente a uma dinâmica histórica bastante complexa, não linear,
que está no coração da modernidade capitalista. De um lado, ela é caracterizada por
contínuas, até mesmo aceleradas, transformações de mais e mais esferas da vida -
produção, tecnologia, padrões de habitação, transporte, comunicação, educação e
formas de relação interpessoal. Ao mesmo tempo, contudo, ela estruturalmente
reconstitui sua própria base: o valor permanece a forma essencial da riqueza e, por esse
motivo, o trabalho que cria valor permanece no coração do sistema a despeito do nível
de produtividade. A dinâmica histórica do capitalismo incessantemente gera aquilo que
é “novo”, enquanto regenera aquilo que é o “mesmo”. Como irei elaborar, ela tanto gera
a possibilidade de uma nova organização do trabalho e da vida social como, ainda, ao
mesmo tempo, impede que essa possibilidade venha a se realizar.
A dinâmica gerada pela dialética do tempo abstrato e do tempo histórico está no
coração da categoria de capital que, para Marx, não se refere a meios de produção que
são possuídos privadamente. Em vez disso, é uma categoria de movimento, aquilo que
Marx chama de “autovalorização do valor”; que é valor em movimento. Ele não tem
corporificação material fixa, mas manifesta-se como a dialética da transformação e
reconstituição brevemente delineada acima.
Como esse quadro, as “relações essenciais” do capitalismo são as formas de
mediação social expressas por categorias tais como mercadoria, valor, capital e mais-
valor. Essas não são categorias da riqueza que são objetos da luta entre classes sociais -
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por meio das quais essas últimas são compreendidas como as relações sociais básicas do
capitalismo. Em vez disso, elas são as relações sociais essenciais do capitalismo elas
mesmas - formas temporalmente dinâmicas e contraditórias da mediação social que
subjazem uma dinâmica histórica complexa.
Deve-se levar a sério a descrição de Marx em O Capital da categoria de capital
como a substância auto-movente que é sujeito. Ao descrevê-la com a mesma linguagem
que Hegel usou na Fenomenologia ao se referir ao espírito, Marx sugere que a noção de
Hegel sobre a história como algo que tem uma lógica, como um desdobrar dialético, é
certamente válida - mas apenas para a modernidade capitalista. Aquilo que Hegel tratou
como o Sujeito da História, Marx nesse momento identifica como o capital, uma
estrutura dinâmica de dominação abstrata que, embora constituída por humanos, se
torna independente de suas vontades e é geradora de uma dinâmica histórica.
Como um ponto paralelo, deve-se notar que daí conclui-se que a crítica madura
de Marx a Hegel não implica numa inversão antropológica da dialética idealista deste
último. Ao contrário, Marx nesse momento implicitamente demonstra que o “centro
racional” da dialética de Hegel é precisamente seu caráter idealista. Isso expressa um
modo de dominação constituído por relações que adquirem uma existência quase
independente vis-à-vis aos indivíduos, exercendo uma forma abstrata de compulsão
sobre eles e que, por conta de seu caráter dualista, são de caráter dialético.
No interior desse quadro, a História - tal qual apresentada por Hegel - é
historicamente específica. Não é uma característica universal da vida social humana,
mas é constituída por formas historicamente específicas de práticas que, por sua vez,
moldam e restringem. Isso implica em que a história humana como um todo não pode
ser caracterizada trans-historicamente - nem em termos de uma lógica abrangente,
como em Hegel, ou como trans-historicamente contingente, como em Nietzsche. Ao
contrário, uma dinâmica direcional conduzida de modo imanente é uma das
características marcantes do capitalismo. Note-se que, aqui, o Sujeito histórico, a
totalidade e o trabalho que o constitui tornam-se então os objetos de crítica na teoria
madura de Marx e não seu ponto de vista.
A compreensão da complexa dinâmica do capitalismo que eu delineei pode ajudar
a iluminar a iminente dupla crise contemporânea - aquela da degradação ambiental e a
morte da sociedade do trabalho. As categorias marxianas de mais-valor e capital
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permitem uma análise crítica social (em vez de tecnológica) da trajetória de crescimento
na sociedade moderna. A dimensão temporal do valor, especialmente na forma daquilo
que Marx chama mais-valor relativo, subjaz um padrão determinado de “crescimento”,
dirigido por pressões contínuas, mesmo aumentos acelerados na produtividade. Isso
gera aumentos na riqueza material bem maior do que aqueles no mais-valor (que, na
análise de Marx, mantém-se a forma relevante de excedente no capitalismo) e,
consequentemente, uma demanda acelerada por matéria prima e energia, o que
contribui centralmente para a destruição acelerada do ambiente natural. Nesse quadro,
então, o problema com o crescimento econômico no capitalismo não está apenas no fato
de que ele é afetado pela crise. Ao contrário, a forma do crescimento ela mesma é
problemática. Isso sugere que a trajetória do crescimento seria diferente se o objetivo
final da produção fosse quantidades crescente de bens, em vez de mais-valor.
De acordo com essa abordagem teórica, a raiz desse problema está em que o valor
é uma forma temporal de riqueza. Como resultado, o processo de valorização transforma
a produção em um processo peculiar, por meio do qual - sob a superfície da produção
material - a matéria é transformada em unidades de tempo abstrato. Por ser uma forma
temporal de riqueza, o capital ambiciona a infinitude, ignorando, por assim dizer, a
necessária finitude material de seu ambiente natural, o planeta.
Essa abordagem também fornece a base para uma análise social da estrutura do
trabalho social e produção no capitalismo com referência à sua contradição básica. No
interior do quadro da análise de Marx, o impulso para o aumento contínuo na
produtividade leva à crescente importância da ciência e tecnologia na produção. Isto é,
a dinâmica do capital é historicamente geradora de uma rápida acumulação de
conhecimento socialmente geral. A tendência de longa duração desse desenvolvimento
histórico é tornar a produção baseada no tempo de trabalho - isto é, no valor e,
consequentemente, no trabalho proletário - crescentemente anacrônica. Por um lado,
isso abre a possibilidade de reduções socialmente gerais em larga escala no tempo de
trabalho, e mudanças fundamentais na natureza e organização social do trabalho, o que
sugere que, para Marx, a abolição do capitalismo não implicaria na auto-realização do
proletariado, mas na auto-abolição.
E ainda, por outro lado, porque a dialética da transformação e reconstituição não
apenas encaminha a produção adiante, mas também reconstitui o valor, assim, ela
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também reconstitui estruturalmente a necessidade de trabalho criador de valor, isto é,


trabalho proletário.
A dinâmica histórica do capitalismo, então, crescentemente aponta para além da
necessidade de trabalho proletário enquanto reconstitui essa própria necessidade. Ela
tanto gera a possibilidade de outra organização da vida social como ainda dificulta essa
possibilidade de ser realizada.
Essa tensão distorce a forma em que essa possibilidade histórica emerge. Como
um resultado, em última análise, da reconstituição contínua das formas fundamentais
do capital, a possibilidade de abolição do trabalho proletário emerge historicamente em
uma forma invertida, na forma de aumento do trabalho supérfluo, na superfluidade de
uma cada vez maior porção da população trabalhadora, no crescimento dos
subempregados, o desemprego permanente e o precariado. A possibilidade da abolição
do trabalho proletário e consequentemente a emergência da possibilidade
emancipatória da sociedade em que a produção de excedente não mais deve ser baseada
no trabalho de uma classe subalterna é, ao mesmo tempo, a emergência de um
desenvolvimento desastroso em que a superfluidade crescente do trabalho é expressa
como superfluidade crescente das pessoas, com as possibilidades políticas plenas que
isso implica.
A abordagem que eu delineei, então, sugere considerar a configuração atual do
capital como aquela em que o trabalho criador de valor se torna crescentemente
anacrônico e, ainda, mantém-se estruturalmente necessário ao capital. Isso também
pode lançar luz à atual centralidade da financerização. Pode-se, talvez, sugerir que
algumas dimensões da financeirização também apontam para além do capitalismo (tão
paradoxal quanto isso possa soar) - por exemplo, no desenvolvimento de vias
verdadeiramente globais de coordenação da produção e distribuição, de criação do
sistema nervoso e sustentáculos, por assim dizer, daquilo que pode ser o nexo de
coordenação global que seja supranacional em vez de internacional.
Não obstante, a maioria dos aspectos da financeirização neoliberal não apontam
para além do capitalismo mas, ao contrário, pode ser vista como formas de buscam
manter o capital mesmo quando ele se depara com aquilo que, indiscutivelmente, são
seus limites.

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Quero sugerir - e isso não é mais que uma sugestão - que é possível considerar o
fim em crise da enormemente produtiva configuração do capitalismo pós-guerra
keynesiano-fordista como a expressão de uma crise secular da valorização. Respondendo
a esse desenvolvimento, o capital buscou não apenas reverter os ganhos do trabalho sob
o fordismo ao enfraquecer sindicatos, mudando a produção para áreas com salários
baixos e substituindo trabalho por tecnologia, mas também ao desenvolver novas formas
de gerar riqueza. Pode-se ver a expansão da economia da dívida como uma tentativa de
desenvolver novas fontes de receita. Isso em si mesmo não é necessariamente novo. A
análise de Marx a respeito da tendência do valor se tornar anacrônico, contudo, pode
lançar uma luz diferente na atual configuração do capital financeiro. No interior deste
quadro, a financeirização neste momento não seria exatamente o mesmo que a
financeirização no passado, visto que agora a expansão de uma economia da dívida
ocorreria contra o pano de fundo da produção estagnada de mais-valor.
A dívida, falando de maneira ampla, implica uma explícita ou tácita nota
promissória. Ela implicitamente pressupõe que, em algum ponto do futuro, haverá
riqueza o suficiente para cobrir a dívida. Se, contudo, a atual economia da dívida é
considerada contra o pano de fundo da estagnação da produção de mais-valor, o capital
financeiro poderia ser visto como tentando, por assim dizer, constituir seu próprio
domínio de produção de riqueza. A ampla variedade de notas promissórias e
“instrumentos” meta-promissórios desenvolvidos são orientados ao horizonte do futuro.
Contudo, esse horizonte, no quadro da teoria do valor, recua à medida em que a
produção de mais-valor estagna; não há produção suficiente de riqueza na subjacente
forma do valor para eventualmente cobrir essas dívidas.
Uma consequência é a crescente tentativa frenética de transformar tudo o que for
possível em recursos para riqueza futura. O que haviam sido formas bastante simples e
diretas de dívida - por exemplo, hipoteca - se tornaram “financeirizadas” - isto é, são
tratadas como matérias-primas, por assim dizer, de riqueza que supostamente pode ser
aproveitada no futuro. Mais e mais dimensões da vida - desde hipotecas à infraestrutura
- vieram a ser transformadas no conteúdo de novas formas de riqueza simulada.
No interior desse quadro interpretativo, então, a crise da produção de valor é
mascarada pela tentativa mediada financeiramente em transformar mais e mais
dimensões da vida em “matérias-primas” do preço e do lucro - em formas de riqueza
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simulada que supostamente garantirá os assim chamados instrumentos financeiros cada


vez mais complexos, como se tais “riquezas” fossem independentes do valor no
capitalismo. Aquilo que David Harvey chamou “acumulação por despossessão” é uma
manifestação desse desenvolvimento. Contudo, sugiro que isso não implica a
acumulação de valor, mas modos de extração de riqueza simulada para compensar a
ausência de tal acumulação. Isso pode ser entendido como um esforço não intencional
de abolir o valor em um quadro que continua estruturado pelo valor. Na medida em que
a acumulação do valor desacelera, a procura por riqueza se torna perversamente
reflexiva, como uma doença auto-imune - ela começa a se alimentar da substância da
sociedade e da natureza.

IV.
O que eu delineei é uma crise sistêmica fundamental que ocorre na medida em
que as formas sociais subjacentes do capitalismo se tornam anacrônicas enquanto se
mantém necessárias. Ela dá origem a enormes tensões de cisalhamento com
consequências potencialmente desastrosas. Ela também sugere que categorias como
classe (ou gênero ou raça) não são historicamente estáveis, mas estão em fluxo,
constituídas e reconstituídas pelo fluir dinâmico do capital.
Como um adendo, deve-se notar que no interior deste quadro, a ideia de outra
forma possível de vida social, além do capitalismo, é imanente à modernidade capitalista
ela mesma. Ela não é derivada do contato cultural ou do estudo etnográfico de formas
de vida social fundamentalmente diferentes; tampouco é baseada na experiência de uma
ordem social prévia com sua própria economia moral que está sendo destruída pelo
capitalismo - muito embora essa experiência certamente foi geradora de oposição.
Oposição ao capitalismo, contudo, não aponta necessariamente para além dele. Ela pode
- e frequentemente tem sido - subsumida pelo capital ele mesmo ou descartada como
inadequada às exigências do contexto histórico amplo. A análise de Marx é direcionada
menos para a emergência da “resistência” (que é política e historicamente
indeterminada) do que para a possibilidade da transformação. Ela procura delinear a
emergência de uma forma de vida que, como resultado da dinâmica capitalista, é
constituída como uma possibilidade histórica e ainda é limitada por essa dinâmica em
ser realizada. Essa lacuna entre o que é e o que poderia ser permite uma possibilidade
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futura que, crescentemente, se tornou historicamente real. É essa lacuna que constitui a
base para uma crítica histórica daquilo que é. Ela revela o caráter historicamente
específico das formas sociais fundamentais do capitalismo - não apenas em referência
ao passado, ou outra sociedade, mas também em referência a um futuro possível.
É o capital ele mesmo, como capacidades humanas objetivadas, que gera a
possibilidade de uma sociedade futura. Porém, ele faz isso numa forma que, ao mesmo
tempo, é crescentemente destrutiva do ambiente e a população trabalhadora.
Um dos resultados dessa crise dual - na ausência de críticas não tradicionais do
capital que tratem essas crises como interrelacionadas - foi uma bifurcação. Muitos
discursos sobre a mudança climática tendem a ignorar a crise do trabalho. Isso abriu os
portões para vários movimentos populistas de direita que negam tanto a primeira como
a segunda. Esses movimentos populistas procuram dar sentido à crise do trabalho em
termos concretos (como referência a minorias, imigrantes, mulheres e países
estrangeiros) em vez de em termos das limitações abstratas e imperativos que
direcionam a dinâmica do capital e entendem esse processo, essencialmente temporal,
em termos espaciais como “globalização” (pela qual os bancos ou os judeus são os
responsáveis). Como movimentos essencialmente defensivos, eles opõem como um
contra-peso a esses supostos problemas uma nova visão romântica que não aspira pela
Idade Média desta vez, mas pelo Estado-nação - imaginado como delimitado e
homogêneo, funcionando na base de uma economia nacional. (Infelizmente, vários
movimentos tradicionais de trabalhadores e progressistas também reagiram
defensivamente, desenvolvendo uma resposta nacionalista de esquerda em vez de tentar
repensar e retrabalhar a ideia de um internacionalismo progressista como resposta ao
internacionalismo neoliberal.)
Os movimentos populistas de direita, então, tem um quadro abrangente para
explicar um mundo em crise, ainda que ele seja condenável, equivocado e perigoso como
pode ser. A geração anterior de críticos e movimentos sociais progressistas de esquerda
também tinham um quadro abrangente - socialismo internacional, uma organização da
sociedade mais racional. Tal quadro abrangente, bastante difundido, está ausente pelas
últimas cinco décadas.
No interior do quadro da abordagem delineada aqui, o crescente caráter
anacrônico do valor na ausência de um imaginário abrangente de um futuro para além
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do valor - isto é, um futuro pós-proletário - tem consequências econômicas, sociais,


políticas e ambientais enormemente destrutivas. É o próprio capital, em seu
desenvolvimento, que está nos confrontando com a crescente escolha absoluta entre
socialismo ou barbárie.

[Originalmente publicado em inglês no periódico Continental Thought & Theory: A


Journal of Intellectual Freedom. Volume 01, Issue 04: 150 years of Capital., Oct. 2017.
Tradução de Manoel Dourado Bastos]

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