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O QUE É UMA TESE?

Basicamente uma tese parte da opinião, ou ponto de vista, de quem escreve. A tese deve
comunicar uma proposta para a análise do tema apresentado, ou seja, é ela que fundamenta todo
o texto, já que direciona a análise que será feita ao longo deste. Por exemplo, se o tema é
“Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”, a tese elaborada tem de contemplar
tal tema, sugerindo uma determinada perspectiva de abordagem, como “a postura de muitos
brasileiros frente a intolerância religiosa é uma das faces mais perversas de uma sociedade em
desenvolvimento”.

É também ideal que se especifiquem, de forma sintética (sucinta), os argumentos a serem


desenvolvidos para sustentação da tese. Ainda trabalhando com a mesma tese, verificamos que a
autora expõe os seguintes argumentos: “insuficiência de leis” e “lenta mudança de mentalidade
social”. Tais argumentos, que poderíamos chamar de secundários, ou complementares (já que a
tese é o nosso argumento principal), devem ser apontados na introdução da redação e
posteriormente desdobrados a partir de dados, exemplos, citações e considerações lógicas.

A tese e seus pontos de sustentação (argumentos complementares) são revelados na


introdução (é ela que vai introduzir a tese e a argumentação a ser trabalhada). No entanto, antes
de apresentá-los, o tema deve ser exposto por meio de uma contextualização, o que significa
deixar claro a conjuntura da situação que o permeia, destacando suas circunstâncias sociais,
políticas, históricas, culturais, econômicas. Uma boa contextualização atrai a atenção do corretor e
surpreende no quesito repertório de conhecimentos sobre o assunto tratado (competência 2). Ao
introduzir o tema apenas citando-o diretamente (EXEMPLO 1, abaixo), enfraquece-se sua
apresentação, “porta de entrada” do texto.

EXEMPLO 1:

Acerca da intolerância e do discurso de ódio contra as minorias [apresentação do


tema/ falta uma contextualização que informe mais o leitor], um fato rotineiro na
sociedade globalizada é a agressão física e simbólica de grupos politicamente marginalizados
[tese, argumento principal]. Destacam-se como fatores principais dessa conjuntura a
negligência educacional, bem como o ódio na coletividade brasileira [argumentos
complementares].

Prefira uma contextualização que demonstre conhecimento e originalidade (cabe aqui


qualquer informação que se saiba acerca do tema):
Na II Guerra Mundial, no século XX, o líder nazista Adolf Hitler ordenou os soldados
alemães para que extinguissem qualquer pessoa que não seguia sua concepção de
normalidade, resultando, logo mais, no acontecimento conhecido por Holocausto
[apresentação do tema contextualizada]. Nesse contexto, configura-se uma fato rotineiro
na sociedade globalizada a intolerância e o discurso de ódio contra minorias [tese,
argumento principal, tendo como fatores principais de causa a negligência educacional e o
ódio na coletividade brasileira [argumentos complementares].

(parágrafos estruturados a partir da introdução de uma redação retirada do site imaginie.com.br)


TEMA: INTOLERÂNCIA E DISCURSO DE ÓDIO CONTRA MINORIAS

FORMAS DE CONTEXTUALIZAR O TEMA

(COMO INTRODUZIR UMA TESE)

1) Conceituação (definir): “’dar uma explicação lógica’ sobre o tema, definí-lo”.

A xenofobia é uma prática execrável que consiste em menosprezar um indivíduo cuja


nacionalidade, hábitos, costumes e cultura sejam diferentes dos seus. Embora seja uma
atitude desprezível, ela se faz muito presente no mundo inteiro, sobretudo no Brasil, em que o
desrespeito tem prevalecido. Por isso, faz-se necessário refletir acerca das origens e dos
desafios a serem superados, a fim de combater esse problema no país.

(A QUESTÃO DA XENOFOBIA NO BRASIL /redação retirada do site imaginie.com.br)

2) Apresentando algumas estratégias argumentativas (dados estatísticos, exemplos,


citações):

    No filme "Amor e outras drogas", um representante de produtos farmacêuticos conhece a


protagonista em uma de suas visitas a consultórios médicos e dali surge uma grande paixão
[contraexemplo fictício]. Fora das telas, a vida não é uma comédia romântica, e a indústria
farmacêutica, junto de seus representantes como o personagem do filme, pode trazer perigos
para a população. Dentre eles, podem-se ressaltar os problemas de saúde advindos de
interesses particulares respaldados pelo lucro e as consequências do uso indiscriminado de
remédios.

(OS PERIGOS DA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA/ redação retirada do site imaginie.com.br)

No livro “1984” de George Orwell, é retratado um futuro distópico em que um Estado


totalitário controla e manipula toda forma de registro histórico e contemporâneo, a fim de
moldar a opinião pública a favor dos governantes. Nesse sentido, a narrativa foca na trajetória
de Winston, um funcionário do contraditório Ministério da Verdade que diariamente analisa e
altera notícias e conteúdos midiáticos para favorecer a imagem do Partido e formar a
população através de tal ótica [exemplo fictício]. Fora da ficção, é fato que a realidade
apresentada por Orwell pode ser relacionada ao mundo cibernético do século XXI:
gradativamente, os algoritmos e sistemas de inteligência artificial corroboram para a restrição
de informações disponíveis e para a influência comportamental do público, preso em uma
grande bolha sociocultural.

(MANIPULAÇÃO DO COMPORTAMENTO DO USUÁRIO PELO CONTROLE DE DADOS NA


INTERNET/ Lucas Felpi)

 A Constituição Federal Brasileira, explicita no artigo 5º que todos indivíduos   tem direito
à vida [citação]. No entanto, observa-se atualmente no Brasil o descaso do Governo para
com a saúde pública. Nesse contexto, a falta de saneamento básico em conjunto com a
precariedade do  SUS (Sistema Único de Saúde), são fatores que corroboram para o aumento
da mortalidade infantil. Essa problemática afeta culturalmente toda a sociedade, pois promove
a banalização da vida uma vez que,  as camadas mais populares são as mais afetadas por
esse situação. Assim, faz-se necessário que o Governo Federal invista em melhorias na área
de infraestrutura urbana e  saúde pública.

(AUMENTO DA TAXA DE MORTALIDADE INFANTIL NO BRASIL/ redação retirada do site


imaginie.com.br)

Segundo as ideias do sociólogo Habermas, os meios de comunicação são fundamentais


para a razão comunicativa[citação]. Visto isso, é possível mencionar que a internet é
essencial para o desenvolvimento da sociedade. Entretanto, o meio virtual tem sido utilizado,
muitas vezes, para a manipulação do comportamento do usuário, pelo controle de dados,
podendo induzir o indivíduo a compartilhar determinados assuntos ou a consumir certos
produtos. Isso ocorre devido à falha de políticas públicas efetivas que auxiliem o indivíduo a
“navegar”, de forma correta, na internet, e à ausência de consciência, da grande parte da
população, sobre a importância de saber utilizar adequadamente o meio virtual. Essa
realidade constituiu um desafio a ser resolvido não somente pelos poderes públicos, mas
também por toda a sociedade.

(MANIPULAÇÃO DO COMPORTAMENTO DO USUÁRIO PELO CONTROLE DE DADOS NA


INTERNET/ Lívia Taumaturgo)
A violência contra a mulher no Brasil tem apresentado aumentos significativos nas
últimas décadas. De acordo com o Mapa da Violência de 2012, o número de mortes por essa
causa aumentou em 230% no período de 1980 a 2010. Além da física, o balanço de 2014
relatou cerca de 48% de outros tipos de violência contra a mulher, dentre esses a
psicológica[dados estatísticos]. Nesse âmbito, pode-se analisar que essa problemática
persiste por ter raízes históricas e ideológicas.

(A PERSISTÊNCIA DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NA SOCIEDADE BRASILEIRA/


Amanda Castro)

3) Interrogar o tema: pode-se transformar o tema em pergunta para a seguir respondê-la a partir
de uma argumentação. Uma pergunta não necessariamente deve ter uma interrogação no seu fim
(pergunta direta), mas pode ser também indireta, apontando para um questionamento.

CUIDADO: todas as perguntas feitas devem ser respondidas. O objetivo desse tipo de texto não é
abrir espaço para que o leitor tire suas próprias conclusões, mas sim convencê-lo de que o ponto
de vista que você defende é o correto. Já que o objetivo é convencer, não é mais vantajoso que o
leitor concorde com o autor do texto ao invés de fazer suas próprias reflexões?

São adequadas, também, as questões retóricas, como a acima feita. Nesses casos a
resposta está contida na própria pergunta que, no exemplo do parágrafo anterior, trata-se mais de
uma afirmação em forma interrogativa. Enfim, se a pergunta elaborada tem uma função
argumentativa e estiver auxiliando na comprovação da tese (e apresentar resposta!), não há
problema em fazê-la.

No entanto, é preciso ressaltar que esse método é despreferido por muitos e não há
consenso quanto ao seu uso. Alguns sugerem que, ao invés de questionar a verdade de uma
afirmação por uma pergunta (direta ou indireta), para depois confirmar ou negar essa verdade,
seja feita tão somente uma declaração (afirmativa ou negativa) sobre o tema.

A conquista de métodos contraceptivos simbolizou um grande avanço na medicina,


não só para a causa feminista, como para todo corpo social, suscitando grandes saltos na
saúde pública. Contudo, dados comprovam que, para grande parcela da sociedade, a
importância de tais métodos se restringe apenas à prevenção da gravidez, quando, na
realidade, são primordiais para a prevenção das doenças sexualmente transmissíveis.

(O AUMENTO DE INFECTADOS POR DSTS NO BRASIL/ redação ADAPTADA/ retirada do site


imaginie.com.br)

Os métodos contraceptivos realmente simbolizaram algum tipo de avanço no campo da


medicina? [pergunta] A contracepção não só representa avanços para a causa feminista,
como para todo corpo social, grandes saltos na saúde pública. Contudo, dados comprovam
que, para grande parcela da sociedade, a importância de tais métodos se restringe apenas à
prevenção da gravidez, quando, na realidade, são primordiais para a prevenção das doenças
sexualmente transmissíveis.

Interroga-se geralmente se os métodos contraceptivos realmente simbolizaram algum


tipo de avanço no campo da medicina [questionamento/ pergunta indireta]. A
contracepção não só representa avanços para a causa feminista, como para todo corpo
social, grandes saltos na saúde pública. Contudo, dados comprovam que, para grande
parcela da sociedade, a importância de tais métodos se restringe apenas à prevenção da
gravidez, quando, na realidade, são primordiais para a prevenção das doenças sexualmente
transmissíveis.

4) Contestar o tema: podemos discordar do tema e contestá-lo, desde que apresentemos


argumentos fortes (e não desrespeitemos os direitos humanos! Nada de execução, castração
química, tortura ou exclusão social). Claro que o mais fácil é sempre concordar com o tema, já
que os textos motivadores servirão nesse sentido.

Por exemplo, frente ao tema “O papel da internet na redução da pirataria no Brasil”, pode-se
discordar que a internet tenha meios de combater a pirataria. No entanto, é preciso citar o tema no
texto, que não se restringe à “relação entre internet e pirataria”, mas essa relação é demarcada
pelo tema como “redução da pirataria a partir da internet”. Logo, é preciso negar explicitamente
essa redução por parte de recursos da internet. Nesse caso, é também difícil argumentar com
originalidade, uma vez que o tema parte de uma reflexão que rompe com lugares comuns, ao
questionar a visão majoritária da internet como difusora de produtos pirateados. Ao contradizer o
tema, tome cuidado para não cair nesse lugar comum. Refute esses meios para redução da
pirataria e sua ineficácia frente à facilidade que a internet oferece para a divulgação de conteúdos
copiados ilegalmente, por exemplo.

5) Trajetória histórica:

O Brasil cresceu nas bases parternalistas da sociedade europeia, visto que as mulheres
eram excluídas das decisões políticas e sociais, inclusive do voto. Diante desse fato, elas
sempre foram tratadas como cidadãs inferiores cuja vontade tem menor validade que as
demais. Esse modelo de sociedade traz diversas consequências, como a violência contra a
mulher, fruto da herança social conservadora e da falta de conscientização da população.

(A PERSISTÊNCIA DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NA SOCIEDADE BRASILEIRA/ Caio


Koga)
6) Linguagem metafórica ou sentido figurado: mais indicado para redações de tema reflexivo
(como liberdade, justiça). O ENEM tem tendência a elaborar temas sociais e de cunho não
reflexivo (bem contextualizados e pontuais), mas você pode utilizar metáforas ou sentido figurado
em sua introdução (só não se esqueça de abordar o tema em suas particularidades).

7) Expor o ponto de vista oposto com o fim de combatê-lo durante o desenvolvimento:

A caça é tida como um esporte praticado pelas altas castas desde tempos remotos.
Contudo, esporte pressupõe igualdade de condições entre os contendores, um conhecimento
prévio, de ambas as partes, das regras do jogo, e a existência de um juiz que faça cumprir
essas regras, o que desqualifica a caça como esporte. Na medida em que é proibida no
Brasil, não se pode admitir a existência de uma Associação Brasileira de Caça nem de lojas
de caça e pesca.

(ADAPTADO de Cacilda Lanuza)

8) Usar de fatos notórios: fatos notórios são conhecimentos gerais que todos compartilhamos
culturalmente como acontecimentos históricos, políticos ou sociais de larga dimensão, que, por sua
relevância, não precisam ser comprovados por fontes.

A gestação é um momento que exige cuidados médicos especiais, tanto para a mãe
quanto para o bebê. A falta de assistência e de orientação às gravidas, suscita o aumento da
taxa de mortalidade infantil. Falta de assistência esta que se observa nas condições de
infraestrutura precária das unidades médicas e na falta de orientação concedida às gestantes.

(AUMENTO DA TAXA DE MORTALIDADE INFANTIL NO BRASIL/ redação ADAPTADA/ retirada


do site imaginie.com.br)

9) Narrar ou descrever uma cena, situação referente ao tema: cuidado apenas para não
extrapolar os limites na narração e violar o tipo dissertativo-argumentativo. Descreva e narre uma
cena e logo retome a dissertação.

Dentro de uma ambulância, um paciente está em estado grave. Perto dele, um médico
jovem, com pouca experiência nesse tipo de atendimento, tenta dar os primeiros socorros. Mas a
situação se complica. Neste momento, muito longe daquele local, entra na operação de socorro
um outro médico, profissional bem mais experiente, capaz de comandar com tranquilidade uma
situação como essa. Ele está no hospital para onde o paciente está sendo levado. Esse médico
também vê, por uma tela de televisão, o próprio paciente. É como se ele estivesse lá. Situações
como essa, que a princípio parecem ser privilégio do futuro, poderão ocorrer mais breve do que se
imagina.

(Cilene Pereira, IstoÉ)

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