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PARAGRAFAÇÃO E CLAREZA TEXTUAL

A clareza textual relaciona-se com dois aspectos sobre a articulação das


ideias a serem desenvolvidas no texto: coerência e coesão. Para que um
texto seja bem articulado, ele deve estar organizado em parágrafos coesos e
coerentes não só entre si (parágrafo bem relacionado aos outros parágrafos
do texto), mas a própria estrutura interna do parágrafo deve formar um todo
unido e no qual os períodos sigam uma progressão temática (apresentem
informações novas sobre o mesmo tema sem desconectar-se das informações
anteriores).
São os parágrafos que organizam os textos em prosa (textos que usam
a palavra escrita podem ser em prosa ou em poesia; textos poéticos são
organizados em estrofes e versos, já os textos em prosa, em parágrafos e
frases). Os parágrafos são marcados pelo recuo da primeira letra do parágrafo
em relação à margem esquerda da folha (espaçamento entre o início do
parágrafo e a margem esquerda). É importante lembrar que não são usados
marcadores como flechas, tópicos ou travessão (o travessão só aparece como
indicador de fala de personagem em uma narração; ainda assim, o recuo em
relação à margem, antes do uso do travessão, deve ser respeitado).
O tamanho dos parágrafos varia de acordo com a ideia desenvolvida no
texto e o tipo textual trabalhado, bem como o gênero. Cada ideia desenvolvida
deve estar em um parágrafo diferente, isto é, toda vez que se muda de ideia
(ou de “assunto”), inicia-se um novo parágrafo. Com ideia (ou “assunto”), não
nos referimos ao tema (que é o mesmo ao longo de todo o texto), mas ao
aspecto particular do tema trabalhado em um parágrafo. Nos textos
dissertativo-argumentativos, a paragrafação (“ação de construir parágrafos”)
segue a construção desse tipo textual (introdução, desenvolvimento e
conclusão). A introdução e a conclusão apresentam-se, no geral, em um
parágrafo cada, e o desenvolvimento, em mais de um parágrafo (um parágrafo
para cada argumento).
Nos termos apresentados pelo Glossário Ceale, “pode-se concluir que a
paragrafação está relacionada à progressão temática, que consiste em manter
o assunto, mas variar o aspecto desse assunto que será abordado. Uma
analogia pode ser a comparação com uma filmagem de uma festa de
aniversário. A câmera aborda diferentes aspectos da festa – os convidados, a
decoração, o aniversariante, o bolo –, tudo, porém, diz respeito à mesma festa.
A filmagem de cada um desses aspectos corresponderia a um parágrafo, mas
o assunto continua a ser a festa.”.
Assim como o texto é constituído de parágrafos, a unidade constituinte
do parágrafo é a frase. As frases dentro de cada parágrafo são organizadas
pelos sinais de pontuação (principalmente o ponto final e a vírgula). Cada
parágrafo deve ter mais de uma frase, ou seja, deve apresentar mais de um
ponto final (já que é pelo número de pontos finais – ou por outros sinais de
fechamento de frase, como a interrogação e a exclamação – que sabemos
quantas frases foram construídas). Se o parágrafo tem, por exemplo, sete
linhas e está somente pontuado com vírgulas, isso quer dizer que há ali apenas
uma frase de sete linhas; e uma frase de sete linhas pode muito provavelmente
estar mal construída. É preciso em algum momento colocar um ponto e iniciar
nova frase.

A COERÊNCIA E A COESÃO TEXTUAIS

As relações de coerência indicam conformidade e associação lógica


entre ideias. Basicamente, a coerência define-se pelo respeito à progressão
textual/ temática (processo de construção de sentido, que faz com que o texto
progrida, isto é, avance, evolua). Para que um texto seja coerente, deve
obedecer a três princípios básicos, são eles:
1. Princípio da não contradição: um texto que preza pela manutenção da
coerência não pode apresentar contradições internas injustificadas.
2. Princípio da não tautologia: a tautologia, um vício de linguagem que repete
ideias com palavras diferentes, compromete a transmissão da informação.
3. Princípio da relevância: as ideias de um texto devem dialogar entre si. Ainda
que cada fragmento textual apresente certa coerência individual, a
fragmentação das ideias torna um texto incoerente.
A coesão, por sua vez, diz respeito à relação estipulada linguisticamente
entre os elementos de um texto, quer dizer, ao vínculo superficial entre as
ideias apresentadas. Coesão significa “conexão”, logo, como o nome indica,
trata-se do estabelecimento de ligações entre as ideias por meio do uso de
elementos de coesão, marcas linguísticas que promovem a organização e
fluidez entre as partes de um texto. Vinculam de maneira lógica as unidades
textuais ou fazem referência a outras unidades presentes no texto. São
elementos de coesão os conectivos, os pronomes, os advérbios, os sinônimos
e a pontuação.

A PONTUAÇÃO E SUA IMPORTÂNCIA PARA A COESÃO TEXTUAL

É verdade que, na literatura, a pontuação pode ser experimentada como


recurso a ser repensado e explorado, a fim de romper com a inércia do leitor e
surpreendê-lo, incomodá-lo. Um exemplo de escritor que escreve períodos
longos sem pontuação é José Saramago, Nobel da literatura. No entanto,
lembre-se: para transgredir as regras é preciso conhecê-las profundamente.
Além disso, não se esqueça do objetivo do texto dissertativo-argumentativo,
que, diferente do texto literário de Saramago, não quer provocar o leitor, mas
convencê-lo de um ponto de vista a partir de uma redação clara.
Um texto com problemas de pontuação não só viola uma convenção da
escrita, mas também fica vulnerável em relação a sua clareza. Na constituição
de um texto organizado e que se faz entender (texto claro), a pontuação
assume papel central como articuladora das frases, orações e palavras. Sem
uma pontuação que faça sentido, seu texto pode ficar obscuro em sentido e
mesmo veicular um sentido diferente do pretendido, o que pode levar o leitor a
confundir-se. Seguem exemplos de mudança de sentido devido ao emprego da
pontuação:
1. (a) Os funcionários, que fizeram greve, foram demitidos.
Todos os funcionários fizeram greve e todos foram demitidos.
(b) Os funcionários que fizeram greve foram demitidos.
Nem todos funcionários fizeram greve, e só os que fizeram foram demitidos.
2. (a) Se o STF condena, o Congresso, não, questiona.
Se o STF condena, o Congresso não condena. O Congresso questiona.
(b) Se o STF condena, o Congresso não questiona.
Se o STF condena, o Congresso não questiona, aceita a condenação.
Além de modificar o sentido do que é dito, uma pontuação mal colocada
pode gerar truncamento, quer dizer, frases incompletas e “cortadas”:
1. A respeito da educação inclusiva de surdos. Nota-se uma dificuldade do
sistema escolar brasileiro.
Há uma quebra sintática entre as duas porções de texto. A primeira porção
apresenta o tópico sobre o qual a segunda declara alguma coisa (tópico:
“educação de surdos”; declaração: “dificuldade do sistema escolar brasileiro”).
Mais adequado seria: A respeito da educação inclusiva de surdos, nota-se uma
dificuldade do sistema escolar brasileiro.
2. “É comum estar inserido em um grupo de amigos, que são pessoas que
passam a maior parte do tempo juntas, sendo assim suas ações influenciam
uns aos outros atingindo uma uniformidade.”
O parágrafo confunde-se devido à sua longa extensão sem pausas finais.
Antes de “sendo assim” cabe ponto e vírgula, ou mesmo ponto. A vírgula indica
uma pausa de pequena extensão. Contudo, no fragmento do aluno, há uma
pausa de grande extensão antes do enunciado conclusivo (iniciado pelo
conectivo “sendo assim”). O mais adequado é: É comum querer se inserir em
um grupo de amigos. Eles passam a maior parte do tempo juntos; sendo
assim, as ações de uns influenciam as dos outros, o que leva a uma
uniformidade de comportamento.”

MARCADORES DISCURSIVOS

Outro recurso para dar sentido a um conjunto de palavras e frases é o


uso de expressões linguísticas (das classes dos advérbios, preposições e
conjunções) para associar e encadear (dispor em uma sequência lógica) ideias
expressas ao longo dos parágrafos. Como conectam porções do texto, são
chamados também de “conectivos”. Mas, além de estabelecer conexões, têm
funções argumentativas, ao apontar para a orientação de sentido do texto.
Considera-se que o emprego inadequado dos articuladores ou uma
interpretação inadequada de seu uso pode constituir um problema tanto na
produção quanto na recepção de textos, interferindo no seu processamento.
Exemplos de uso:
“Ademais, em muitas instituições de ensino, deficientes auditivos ainda são
vítimas de xingamentos e até de agressões físicas.”
“Portanto, a fim de garantir que surdos tenham pleno acesso à formação
educacional, cabe ao Estado, mediante o redirecionamento de verbas, realizar
as adaptações necessárias em todas as escolas.”
“[...] cumprimento dos direitos à educação e ao desenvolvimento intelectual,
assegurados no Estatuto da PCD e na Constituição Federal de 1988, que não
discrimina o acesso à cidadania a nenhum grupo social, sendo, dessa forma,
uma obrigação constitucional. Contudo, observam-se algumas distorções para
essa garantia educacional. Infelizmente, os surdos são alvo de preconceito e
são vistos erroneamente como incapazes.”
*expressões explicativas e reformulativas:

“O conhecido autor escreveu dois livros, quer dizer, três livros sobre esse
polêmico tema.”

“O conhecido autor escreveu dois livros, isto é, dois tratados sobre esse
polêmico tema.”

“Na antiga pólis de Esparta, havia a prática da eugenia, ou seja, a segregação


dos denominados ‘imperfeitos’”
DICAS PARA A CLAREZA TERTUAL

1. Períodos longos X períodos curtos: evite frases muito longas, cheias de


períodos (unidades de sentido completo). Elas tendem a confundir o leitor. A
sequência lógica das unidades de sentido depende da organização das frases.
2. Ordem direta X ordem indireta/ inversões sintáticas: nos textos não literários
prefira a ordem direta (construção sintática padrão: sujeito + verbo +
complemento + complemento). Ao privilegiar a ordem direta, contribui-se para a
clareza textual.

3. Subjetividade X objetividade: a subjetividade é um recurso expressivo da


linguagem reservado aos textos literários, os quais têm um compromisso com
aspectos estilísticos. Subjetivismos geralmente revelam estados emocionais, o
que prejudica a objetividade e a clareza textual.

4. Uso do vocabulário: não use termos obsoletos ou obscuros, já que eles


prejudicam a clareza textual principalmente quando fora de contexto. Evite
palavras de cujo significado você não tenha muita certeza.

COMO É COBRADO NO ENEM?

- COMPETÊNCIA 3: “Selecionar, relacionar, organizar e interpretar


informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista.”

• Progressão temática (coerência):


- contradição/ imprecisão ou generalização/ ambiguidade
- repetição de ideias (redundância)
- disposição incoerente das ideias em parágrafos
- ausência de conexões entre informações do texto e do contexto (encadeamento das
informações em respeito ao tema e ao desenvolvimento até então proposto – sentido
entre as partes do texto/ continuidade temática)
- progressão semântica (introdução de novas informações para dar seguimento a um
todo/ objetivo final da mensagem)
- explicitação da relevância das ideias apresentadas para a defesa do ponto de vista
definido
- saltos temáticos

- COMPETÊNCIA 4: “Demonstrar conhecimento dos mecanismos


linguísticos necessários para a construção da argumentação.”

• Encadeamento textual (coesão):


- uso inadequado de recurso coesivo (conectivo), desrespeitando-se a relação
semântica estabelecida
- conexão entre parágrafos e dentro deles
- repetição dos elementos coesivos
• Estruturação de períodos:
- parágrafo frasal (construção de parágrafo em um só período)
- período longo (sobreposição de ideias, trecho truncado)
- informações, fatos e opiniões soltos no texto, sem desenvolvimento e sem
articulação com as outras ideias apresentadas
- estruturação do parágrafo (ideia principal trabalhada no parágrafo e sua
apresentação clara)
- sequência de períodos sem articulação
- ausência de parágrafos
• Referência:
- repetição de palavras
- uso de sinonímia, hiponímia, expressões resumitivas, metafóricas e metadiscursivas
- substituição inadequada de palavras
- elipse ou omissão de elementos que já tenham sido citados ou que sejam facilmente
identificáveis

REFERÊNCIAS:

Principalmente a partir dos trabalhos e aulas da professora Mércia M. T. Horta


e com o auxílio complementar das seguintes fontes:
Redação no ENEM 2018: cartilha do participante
Glossário Ceale (por FAE/ UFMG)
https://profekarina.wordpress.com/gramatica/paragrafacao/
https://www.ernaniterra.com.br/clareza-coesao-coerencia/

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