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UNIVERSIDADE DE GRANADA

INSTITUTO DE ALTOS ESTUDOS UNIVERSITÁRIOS

MESTRADO EM DIREITO PENAL INTERNACIONAL

TRÁFICO DE CRIANÇAS EM ANGOLA: UMA REALIDADE OFUSCADA

Trabalho de Fim de Curso Apresentado Para Obtenção do Grau de Mestre em


Direito Penal Internacional

Por:

Paulo Tchiemba Kalesi

Barcelona, Setembro de 2013

1
UNIVERSIDADE DE GRANADA

INSTITUTO DE ALTOS ESTUDOS UNIVERSITÁRIOS

MESTRADO EM DIREITO PENAL INTERNACIONAL

TRÁFICO DE CRIANÇAS EM ANGOLA: UMA REALIDADE OFUSCADA

Trabalho de Fim de Curso Apresentado Para Obtenção do Grau de Mestre em


Direito Penal Internacional

Por:

Paulo Tchiemba Kalesi

Barcelona, Setembro de 2013

2
INDICE

Dedicatória

Agradecimentos

Resumo

Introdução ----------------------------------------------------------------------------------------9

1. Histórico do Tráfico de Pessoas --------------------------------------------------------11

1.1. Conceito de Tráfico de Pessoas e Suas Características ----------------------13

1.1.2. Finalidade do Trafico de Pessoas, Especialmente Mulheres e Crianças

-------------------------------------------------------------------------------------------------------15

1.2. Factores que Tornam as Crianças Vulneráveis ----------------------------------17

1.3. Criminalização do Tráfico de Pessoas, Especialmente Mulheres e Crianças


no Âmbito do Direito Penal Internacional ------------------------------------------------19

1.4. Instrumentos Internacionais de Prevenção e Combate ao Tráfico de


Crianças ------------------------------------------------------------------------------------------23

2. Caracterização de Angola, População e Situação Geográfica -----------------25

2.1. Situação da Criança em Angola ------------------------------------------------------27

2.1.1. Violência contra a criança e Suas Características ----------------------------29

2.2. Realidade Ofuscada do Tráfico de Crianças em Angola ----------------------32

2.2.1. Angola, Um País de Origem, de Trânsito e de Destino de Crianças


Vítimas de Tráfico ------------------------------------------------------------------------------37

2.2.2. O Impacto do Tráfico nas Crianças -----------------------------------------------39

2.2.3. Estruturas e Mecanismos de Prevenção, Combate e Apoio às Crianças


Vítimas de Tráfico em Angola --------------------------------------------------------------41

2.2.4. Legislação Angolana de Protecção à Criança Vítima de Tráfico ---------44

3. Necessidade de Criar Um Ambiente Protector Para Prevenção, Combate e


Apoio a Crianças Vítimas de Tráfico em Angola ---------------------------------------46

3.1. Empenho do Governo em Garantir o Direito de Proteção da Criança -----49

3.2. Desenvolvimento de Políticas de Aumento das Competências Familiares e


Sensibilização da Sociedade sobre o Crime do Tráfico de Crianças -------------52

3
3.3. Promover o Direito de Participação da Criança ----------------------------------54

3.4. Ratificação de Instrumentos Legais Internacionais de Protecção à Criança

-------------------------------------------------------------------------------------------------------60

3.5. Promover o Progama de Combate a Fome e a Pobreza ----------------------62

3.6. Refletir sobre o Sistema de Protecção da Criança em Angola e


Desenvolver as Capacidades Institucionais --------------------------------------------66

3.7. Criar Programas Específicos de Luta contra o Tráfico de Crianças e Prever


a Disponibilização de Fundos ---------------------------------------------------------------68

3.8. Punição -------------------------------------------------------------------------------------71

3.8.1. Promover o Cumprimento das Leis -----------------------------------------------73

3.8.2. Políticas de Imigração ----------------------------------------------------------------76

3.8.3. Leis para a Protecção e Assistencia às Vítimas -------------------------------78

Conclusão ----------------------------------------------------------------------------------------81

Bibliografia----------------------------------------------------------------------------------------83

4
DEDICATÓRIA.

Dedico esta pesquisa de trabalho de fim de curso de Mestrado em


Direito Penal Internacional, em primeiro lugar a todas as crianças angolanas
vítimas de violência, a minha família, aos meus amigos e a todos angolanos
que directa ou indirectamente trabalham para a promoção e garantia dos
direitos humanos da criança.

5
AGRADECIMENTOS.

À Deus por me amparar nos momentos difíceis, me dar força interior


para superar as dificuldades, mostrar os caminhos nas horas incertas e me
suprir em todas as minhas necessidades.

À minha família, em especial aos meus filhos, que amo muito, pelo
carinho, paciência e incentivo.

A todos os professores do curso de Mestrado em Direito Penal


Internacional que durante este período contribuiram para o meu crescimento
académico e me ajudaram nos momentos mais críticos, sobretudo quando tudo
parecia difícil.

Aos amigos, Olímpio Mateus Kavinda, Kassinda Altino, Eduardo Bapolo,


Fernando Ndumbo, Agostinho Lázaro, Henriqueta Hilário por fazerem parte
desses momentos e sempre me ajudando e incentivando.

Aos meus colegas de trabalho Engª. Ruth Mixinge, Dr. Alberto Fundi,
Madalena Pataca, Maria Natália, Pedro Costa, Edurardo Bapolo, Henriqueta
Hilario, Alfredo Costa, Bruno Pedro, que directa ou indirectamente contribuiram
para o êxito da minha formação.

Ao meu colega de turma, Agostinho Lásaro, que sempre esteve do meu lado
dando força e apoio e pelas noites perdidas.

A todos os trabalhadores da Secretaria do Instituto de Altos Estudos


Universitários pelo carinho e apoio sempre que precisei.

A todos os colegas do mestrado em Direito Penal Internacional pelo


convívio e aprendizado.

6
RESUMO.

A presente pesquisa, que tem como título “Tráfico de Crianças em


Angola: Uma Realidade Ofuscada” é um requisito para obtenção do título de
Mestre em Direito Penal Internacional. O tema tem uma importancia
fundamental por se tratar de uma realidade ofuscada em Angola, tanto pelas
instituições governamentais, como pela sociedade civil.

As constantes denúncias sobre indícios de tráfico de pessoas,


especialmente mulheres e crianças em Angola, os indicadores fornecidos pelo
Estudo das Nações Unidas sobre a Violência contra a Criança no Mundo,
publicado em Agosto de 2006, segundo os quais perto de 1,2 milhões de
crianças seriam vítimas de tráfico, o facto de a Assembleia Geral das Nações
Unidas terem mandatado um Comité Especial para a Criação de Instrumentos
Internacionais contra o Crime Transnacional Organizado e a necessidade de se
aderir e implementar o Protocolo de Palermo são evidências que justificam e
fundamenatm a pertinência do tema.

Assim, conseguimos apurar que em Angola existe o tráfico de crianças,


sobretudo o interno, provocado pela pobreza, tendo em conta os inúmeros
relatos de menores abandonos e que se encontram nas ruas e nos centros de
acolhimentos, sem contactos com os familaires, por terem sido entregues a
pessoas estranhas, abusados e violentados.

O tráfico internacional de crianças é também uma realidade, tendo em


conta as informações obitdas ao longo das províncias fronteiriças, sobretudo
nas rotas República Democrática do Congo, Angola e Namibía – Africa do Sul.

Constatou-se também uma carência, em termos de informações, dados


e legislação apropriada para o combate ao tráfico de crianças em Angola, a
falta de um plano de trabalho que contenha os elementos de prevenção e
combate ao tráfico, bem como a vertente de sensibilização, acolhimento e
apoio às vítimas.

Palavras-chave: Tráfico de Seres Humanos; Responsabilização dos


traficantes; Assistência às vítimas; Violência contra a Criança; combate a fome
e a pobreza.

7
EPÍGRAFO.

“O melhor indicador da nossa governação é a forma como tratamos as nossas


crianças e não ha maior falhanço da nossa parte do que quando permitimos
que elas sejam sujeitas a violência, abuso ou a exploração...”.

Jessica Lange, Embaixadora do UNICEF, na 110ª Assembleia da União Interparlamentar


na cidade do México, 20 de Abril de 2004.

8
INTRODUÇÃO.

A presente pesquisa está estipulada no curriculum do curso de Mestrado


em Direito Penal Internacional do Instituto de Altos Estudos Universitários,
incumbida aos estudantes finalistas, obedecendo às normas de investigação
científica em vigor na referida instituição.

Nos últimos anos, a problemática do tráfico de pessoas, especialmente


mulheres e crianças, tem sido considerada como um dos crimes transnacional
mais lucrativo e de maior crescimento, gerando quase 10 bilhões de dólares
por ano, razão pela qual tem constado como um crime que deve ser combatido
por todos os Estados, no âmbito do direito internacional.

O objectivo da pesquisa consiste em confirmar a existência de tráfico em


Angola e enquadrar à problemática dentro do contexto da defesa dos direitos
da criança, no sentido de transportar a realidade ofuscada e ignorada para o
terreno da defesa dos direitoa humanos e da criminalização da mesma.

Uma preocupação é fomentada pela tendencia das crianças vítmas do


trafico serem aquelas que estão em situação de necessidades e
vulnerabilidade, sendo, muitas delas, crianças orfães, e muitas vezes, espulsas
e abandonadas pelas familias e comunidades.

Toda via, a pesquisa tem como alvo todas as crianças que, de acordo as
informações obtidas, todos os anos são obrigadas e forçadas a atravessarem
ilegalmente fronteiras, vendidas como meras mercadorias, bem como àquelas
que são traficadas dentro do país, normalmente das zonas rurais para as
urbanas, violando assim os direitos humanos básicos garantidos às crianças no
quadro do direito internacional, pela Convenção das Nações Unidas e pela
Constituição angolana.

Quanto aos benefícios aos leitores, reconhemos que o que trazemos no


interior não reflecte a verdade absoluta, mas estamos conscientes que não
está distante dela, porque o que encontramos é fruto das fontes disponível de
momento. Os benefícios centram-se no sentido de que há de incentivar o leitor
a aprofundar o que está aqui exposto, e reconhecer a necessidade de construir
um ambiente protector para as crianças, essencial para reduzir o tráfico de
menores.

Um ambiente protector constitui uma rede de segurança de elementos


interligados concebidos para salvaguardar as crianças da violência, exploração
e abuso, e é crucial à sua sobrevivência, saúde e bem estar. No entanto, o
ambiente protector começa em casa, com a família como primeira linha de
defesa. Cabe, no entanto, ao governo, professores, líderes religiosos, forças
policiais e as próprias crianças ajudarem as crianças a viverem em segurança.

9
Assim sendo, seguiremos a seguinte metodologia: na primeira parte
ocupar-nos-emos da abordagem histórica do tráfico de pessoas, conceito
actual e finalidade, bem como a criminalização do mesmo no âmbito do Direito
Penal Internacional.

Nesta primeira abordagem vamos poder constatar que a problemática do


tráfico de pessoas tem às suas origens no processo histórico da escravatura,
definido, segundo o Protocolo de Palermo, como o recrutamento, o transporte,
a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à
ameaça ou uso da força ou a outras formas de coação, tendo como finalidade a
prática exploratória. O tráfico de seres humanos é parte dos crimes de
competência internacional, ou seja, os crimes de competência do Tribunal
Penal Internacional, que também podem ser chamados de core crimes, pelo
atual Direito Penal Internacional, considerado como um dos crimes de maior
gravidade que preocupa a comunidade internacional em seu conjunto.

Na segunda parte, nos debruçaremos sobre a problemática do tráfico de


criança em Angola, onde vamos poder constatar que em Angola, apesar de
registar-se falta de informações sobre as tendências de tráfico de pessoas,
especialmente mulheres e crianças, é possivel afirmar casos de crianças que
foram vítimas de tráfico, sobretudo interno, e algumas destas crianças
encontram-se em alguns centros de acolhimentos, nas províncias de Luanda e
do Zaire.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos de América, no seu


relatório de 2012, sobre o tráfico de pessoas, afirma que Angola é um país de
origem e de destino para homens, mulhres e crianças sujeitos ao tráfico sexual
e trabalho forçado.

Na terceira e última parte analisaremos a questão da legislação


angolana para punir os actores do tráfico, nela vamos constatar que o Código
Penal em vigor é o antigo Código português de 1886. Este não contempla o
crime de tráfico de pessoas. Para que os autores desse crime sejam punidos
terá de se recorrer a outras tipologias, que quanto muito poderá concorrer
cumulativamente na acção penal, sendo que nem todas as formas de
exploração ilícita das pessoas estão contempladas, como é o caso da
escravatura.

O Estado angolao está a elaborar uma nova proposta do código Penal,


que no nosso entender, não especifica o crime de tráfico, tal como o previsto
no conceito do Protocolo de Palermo. Angola também ainda não ratificou o
Protcolo de Palermo, conhecido como Protoclo do Tráfico. Outrossim, faremos
referência a Políticas de Imigração, bem como as leis para a Protecção e
Assistencia às Vítimas.Finda a pesquisa, far-se-á a conclusão final.

10
1. Histórico do Trafico de Pessoas.

A problemática do tráfico de pessoas, que hoje nos referimos como um


crime de carris internacional, logo, punível pelo Direito Pena Internacional, tem
às suas origens no processo histórico da escravatura.

A forma mais primária de escravatura se deu na medida em que povos


com interesses divergentes guerrearam, resultando em prisioneiros de guerra.
Apesar de na Antigüidade ter havido comércio escravagista, não era
necessariamente esse o fim reservado a esse tipo de espólio de guerra. De
referir que algumas culturas com um forte senso patriarcal reservavam à
mulher uma hirerarquia social semelhante ao do escravo, negando-lhe direitos
básicos que constituiriam a noção de cidadão.

A escravidão era uma situação aceite em determinadas culturas,


tornando-se essencial para a economia e para a sociedade de todas as
civilizações antigas, embora fosse um tipo de organização muito pouco
produtiva. A Mesopotâmia, a Índia, a China e os antigos egípcios utilizaram
escravos.

Na civilização Grega o trabalho escravo acontecia na mais variada sorte


de funções, os escravos podiam ser domésticos, trabalhar no campo, nas
minas, na força policial de arqueiros da cidade, ser ourives, remadores de
barcos, artesãos, etc. Para os gregos, tanto as mulheres como os escravos não
possuiam direito de voto. No entanto, o tipo de escravidão que se deu nas
Américas, logo após seu descobrimento por Cristovão Colombo, em 1492, era
praticamente inédito, baseado no subjugamento de uma raça, em razão da cor
da pele.

O comércio de escravos estava solidamente implantado no continente


africano e existiu durante milhares de anos. Nações africanas como os Ashanti
do Gana e os Yoruba da Nigéria tinham as suas economias assentes no
comércio de escravos.

Os portugueses começaram o seu contacto com os mercados de


escravos africanos para resgatar cativos civis e militares desde o tempo da
Reconquista. Nesta época o Alfaqueque era a pessoa que tinha por missão
tratar do resgate de cativos. Quando Catarina de Áustria autoriza o tráfico de
escravos para o Brasil o comércio de escravos oriundos da África, que antes
era dominado pelos africanos, passa a ser também dominado por europeus.

Os governos Africanos, quer fossem de religião muçulmana ou de outras


religiões nativas já praticavam a escravatura muito antes dos europeus se
iniciarem no tráfico. Diversas nações africanas tinham as suas economias
dependentes do tráfico de escravos e viam o comércio de escravos com os
europeus como mais uma oportunidade de negócio.

11
Quando os portugueses chegaram à África, encontraram um mercado
africano de escravos largamente implementado e bastante extenso. A
escravidão esteve presente no continente africano muito antes do início do
comércio de escravos com europeus na costa atlântica.

Os investimentos na navegação da costa Oeste da África foram


inicialmente estimulados pela crença de que a principal fonte de lucro seria a
exploração de minas de ouro, expectativa que não se realizou.

Em torno do comércio de escravos estabeleceu-se o comércio de outros


produtos. A principal fonte de riqueza obtida pelos europeus na África pode ter
sido mesmo a mão-de-obra demandada nas colônias americanas e que lhes
pareceu uma boa justificativa para os investimentos em explorações marítimas
que, especialmente os portugueses, vinham fazendo desde o séc. XIV. Dessa
forma, embora no séc. XV os escravos fossem vendidos em Portugal e na
Europa de maneira geral, foi com a exploração das colônias americanas que o
tráfico atingiu grandes proporções.

Na colônia de Angola, a exportação de mão-de-obra escrava, pelo porto


de Luanda, terá sido alvo de competição no séc. XVII entre portugueses e
holandeses. É depois da disputa entre os colonizadores, cujo reino de Portugal
foi vencedor, que na altura pode ter dado origem à captura direta de escravos,
nas chamadas guerras angolanas, no seio de certas tribos que tinham lutado
contra os portugueses. Foi dessa forma que Angola se tornou um centro
importante de fornecimento de mão-de-obra escrava para o Brasil, onde
crescia não apenas a produção de cana-de-açúcar no Nordeste, mas também
a exploração de ouro na região central.

12
1.1. Conceito de Trafico de Pessoas e Suas Características.

O tráfico de pessoas foi definido pela primeira vez no direito


internacional através do Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas
contra a Criminalidade Organizada Transnacional relativo à Prevenção, à
Repressão e à Punição do Tráfico de Pessoas, em especial de Mulheres e
Crianças (2000). Conhecido como o Protocolo de Palermo ou o Protocolo do
Tráfico, este documento inclui a definição de tráfico mais utilizada a nível
internacional e constitui uma base essencial para a reforma das legislações
nacionaisl.

De acordo o artigo 3º, do Protocolo de Palermo, entende-se por tráfico


de pessoas o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o
acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou uso da força ou a outras
formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à
situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou
benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade
sobre outra para fins de exploração. A exploração incluirá, no mínimo, a
exploração da prostituição de outrem ou outras formas de exploração sexual, o
trabalho ou serviços forçados, escravatura ou práticas similares à escravatura,
a servidão ou a remoção de órgãos;

Por meio de uma análise preliminar do conceito de tráfico de pessoas


incorporado pelo Protocolo de Palermo é possível extrair as seguintes
características que integram essa prática criminosa:

 Recrutamento, transporte, transferência de pessoas, alojamento ou


acolhimento de pessoas;
 Uso de força, ameaça, fraude, coação, abuso de autoridade, rapto,
engano, vulnerabilidade da vítima, promessas ou entrega de
pagamentos ou benefícios;
 Exploração da prostituição, do trabalho ou serviços forçados, da
escravatura ou práticas similares à escravatura, servidão ou remoção de
órgãos.

É inerente ao conceito de tráfico de pessoas a transferência, remoção


das vítimas de um local para outro, podendo o tráfico ocorrer no mesmo país,
nacional, ou entre países distintos, internacional.

Para obter o consentimento da vítima, os aliciadores (agentes do tráfico


de pessoas) utilizam as mais diversas formas de fraude, sendo as mais
comuns às promessas de uma vida melhor em outro país ou região, de
casamento, fama, viagens, carreiras de modelo, dentre outras.

Por ter sido obtido mediante fraude, normalmente com o aproveitamento


da situação de vulnerabilidade das vítimas, o consentimento das pessoas

13
aliciadas é viciado, sendo, portanto, desconsiderado para a existência da
prática criminosa1.

A vulnerabilidade das pessoas traficadas pode ser social, econômica ou


educacional. Em regra, a vulnerabilidade social é o que induz as vítimas a
consentirem com uma das formas de exploração acima enumeradas,
porquanto, estas se atraem pela possibilidade de uma vida melhor e abrem
mão de sua liberdade em nome daquele objetivo.

Em decorrência da vulnerabilidade, as vítimas do tráfico de pessoas não


se vêem como tal, o que, sobremaneira, dificulta a atuação dos Estados na
prevenção e repressão ao tráfico e assistência às vítimas.

Além do aproveitamento da vulnerabilidade das vítimas, são usados


como meio para obter o consentimento destas a força, ameaça coação, rapto,
abuso de autoridade e a promessa ou entrega de pagamentos ou benefícios.

Independentemente da forma do consentimento da vítima, o bem jurídico


tutelado pela criminalização da conduta de tráfico de seres humanos é a
liberdade em suas mais variadas formas (liberdade sexual, liberdade para ir e
vir, liberdade laboral)2.

Quanto ao tráfico específico de crianças, razão da nossa abordagem, a


definição acima esposta, estipula claramente que o tráfico de menores não
implica que haja recurso “à ameaça ou au uso da força ou a outras formas de
coacção, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou situação de
vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para
obter o consentimento de uma pessoa que tem autoridade sobre a outra”.

É fundamental que as legislações nacionais de combate ao tráfico não


se restrijam ao tráfico transnacional. Muitas crianças são vítimas de tráfico
dentro de seus próprios países, principalmente das zonas rurais para as
urbanas. Muitas vezes, os Estados restrigem as suas definições e as suas
respostas às situações transnacionais, deixando sem protecção milhões de
vítimas de tráfico internos. Esta situação pode minimizar a real magnitude do
problema geral do tráfico num determinao país. É necessário fazer mais para
combater o tráfico dentro das fronteiras dos diversos países.

Convém sublinharmos que o Protocolo de Palermo deve ser interpretado


à luz do disposto na Convenção sobre os Direitos da Criança, pois a definição
que ele apresenta é inadequda se não incluir o tráfico de menores
independentemente do seu fim ou forma, conforme previsto no artigo 35º da
Convenção.

1 Manual para Parlamentares, 2005, pag. 11.


2 Instituto Nacional da Criança, 2011, pag. 10.

14
1.1.2. Finalidade do Trafico de Pessoas, Especialmente Mulheres e
Crianças.

Segundo estimativas da OIT, existem no mínimo 20,9 milhões de


pessoas vítimas de trabalho forçado a nível mundial, aprisionadas num trabalho
abusivo de que não conseguem escapar, vítimas de empregadores,
contratantes ou agentes sem escrúpulos. Podem ser vítimas de tráfico com a
finalidade de exploração sexual comercial, embora, mais frequentemente,
trabalhem em setores económicos «tradicionais» como a agricultura, a
construção civil ou a indústria transformadora informal, laborando com
frequência sob o fardo de uma dívida que jamais conseguirão pagar.

O tráfico de seres humanos atingiu proporções epidémicas: mais de 2,4


milhões de pessoas em todo o planeta são exploradas devido ao tráfico.
Metade são crianças3.

No caso de crianças, elas são traficadas para uma série de práticas


exploradoras, que incluem:

 Exploração Laboral: As crianças podem ser traficadas para trabalhar


em plantações, em minas ou noutras condições perigosas, como no
manuseamento de produtos químios e pesticidas ou na operação de
máquinas perigosas. Elas são muitas vezes mantidas em isolamento
nos países de destino e têm medo de apresentar queixa às utoridades
das condições abusivas de trabalho a que são sujeitas.
 Trabalho doméstico: Segundo a Organização Internacional do
Trabalho (OIT), a maioria dos trabalhadores domésticos menores são
raparigas. Os pais e as proprias crianças são aliciados com promessas
de instrução ou um bom emprego. Depois de traficadas, as crianças
vêem-se despojadas dos seus docuemtos de identificação e sem
qualquer tipo de assistência. Dependem dos seus exploradores em
termos de segurança, alimentção e abrigo e são forçadas a suportar
condições de trabalho penosas.
 Exploração sexual: Crianças, especialmente raparigas, são traficadas
para trabalharem em bordéis, salões de massagens, casas de
prostituição ou utilizadas na produção de materiais pornográficos.
Embora seja dificil determinar com precisão, os números globais da OIT
relativos ao trabalho infantil no ano 2000, indicam que cerca de 1,8
milhões de crianças são utilizadas na indústria do sexo, sofrendo
abusos físicos, sexuais e psicológicos extremos perpetrados pelos
traficantes e clientes.
 Recrutamento militar: Estima-se que, nos últimos anos, crianças-
soldados tenham sido usadas em mais de 30 conflitos armados em

3 Manual para Parlamentares, 2005, pag. 13

15
praticamente todas as regiões do mundo. Algumas crianças juntam-se
às forças em conflito devido a situações de pobreza ou abuso, outras
são recrutadas à força ou raptadas.
 Casamento: As raparigas são traficadas como noivas por diversas
razões. Em situações de pobreza extrema, as raparigas podem ser
vistas pelas famílias como um fardo económico e o seu casamento com
um homem mais velho pode ser encarado como uma estratégia de
sobrevivência familiar. Entre os homens mais velhos, regista-se uma
procura crescente de jovens noivas virgens, especialmente nas zonas
onde o receio e o risco de contrair VIH/SIDA são maiores. Outras vezes,
as famílias incentivam as raparigas a casar cedo porque acreditam
erradamente que isso as protegerá da SIDA.
 Adopção ilegal: O aumento da procura de crianças para adopção
contribuiu para o aumento exponencial do tráfico ilegal de bebés e
crianças pequenas. Por vezes, mães dos países em desenvolvimento
vendem os seus bebés ou filhos pequenos, outras vezes os recém-
nascidos são roubados e dizem às mães que tiveram nados-mortos.
 Desportos: Algumas crianças, principalmente rapazes, são traficadas
para serem jóqueis de camelos. Este desporto é uma insdústria
lucrativa, e as crianças são muito procuradas para este fim devido ao
seu tamanho reduzido. A utilização de crianças como jóqueis em
corridas de camelos é uma prática extremamente perigosa e pode
causar ferimentos graves e até a morte. Os rapazes que perdem
corridas são muitas vezes brutalizados pelos seus exploradores, ficam
sem salários e sem comidas, e sofrem abusos físicos e psicológicos.
 Mendicidade: As crianças podem ser recrutadas e traficadas para
ganharem dinheiros para terceiros, através da mendicidade ou da venda
de artigos nas ruas. Nalguns casos, as crianças que mendigam são
mutiladas pelos seus raptores para causarem pena e conseguirem mais
dinheiro.

16
1.2. Factores que Tornam as Crianças Vulneraveis.

O tráfico de pessoas, de acordo as estimativas internacionais, é o


terceiro comércio ilegal mais lucrativo, depois do tráfico de armas e de drogas,
gerando 27 biliões de euros anuais.

Segundo a Agência das Nações Unidas contra a Droga e o Crime


(ONUDC), todos os anos, 800 mil a 2,4 milhões de pessoas são vítimas do
tráfico de seres humanos no mundo.

Deste modo, apresentamos os factores mais comuns que tornam as


crianças vulneráveis ao tráfico de seres humanos:

 Pobreza: Uma das formas mais obvías pelas quais a pobreza material
leva a exploração e ao abuso e através do trabalho infantil. A pobreza
obriga frequentemente as crianças vulneráveis a dedicarem-se a
trabalhos perigosos. Aqueles que tentam vender crianças para fins de
exploração sexual ou escravidão não procuram as suas presas em
subúrbios confortáveis; eles vão às zonas mais pobres e miseráveis ou
as regiões rurais mais abandonadas, onde a pobreza gritante pode
aumentar a vulnerabilidade das crianças a abusos. Com promessas de
emprego no estrangeiro, as famílias mais pobres podem enviar os filhos
para fora para trabalharem. Convém deixar claro que, nem todas as
crianças pobres são vítimas do tráfico, porém, são mais vulneráveis.
 Desigualdade das mulheres e raparigas: A desigualdade jurídica e
social das mulheres e raparigas cria um ambiente propício ao tráfico.
Quanto às mulheres e raparigas são consideradas meras mercadorias,
estão criadas as condições para a compra e vendas de raparigas.
Demasiadas vezes é negada às raparigas a possibilidade de
frequentarem a escola e, em vez disso, elas são forçadas a ficarem em
casa e realizar tarefas domésticas.
 Reduzida frequência escolar: As crianças que não vão à escola são
prezas fáceis dos traficantes. A estimativa global de crianças que não
frequentam a escola é de 121 milhões, a maioria das quais raparigas. A
frequência escolar é um factor crítico na luta contra o tráfico. As crianças
sem instrução têm poucas oportunidades de futuro, logo são mais
vulneráveis às promessas dos traficantes de dinheiro e uma vida melhor.
Por outro lado, a maior parte das mensagens de prevenção destinam-se
as crianças que sabem ler, colocando em desvantagens as crianças que
não sabem ler. A escola pode ainda servir de porto seguro para manter
as crianças fora da rua.
 Crianças desamparadas: As crianças que não têm quem cuide delas
são extremamente vulneráveis ao tráfico e à exploração. As crianças
sem proteção parental, ou as crianças colocadas em instituições, são
alvos fáceis para os traficantes. Estudos realizados pela Organização

17
Internacional do Trabalho concluiram que as crianças órfãs têm muito
mais probabilidade do que as não-órfães de trabalhar como domésticas,
na indústria do sexo, em explorações agrícolas comerciais ou como
vendedores de rua.
 Ausência do registo de nascimento: As crianças sem registo de
nascimento são mais susceptíveis ao tráfico. Calcula-se que 41% das
crianças nascidas em 2000 não foram registadas à nascença. Quanto às
crianças não dispõem de identificação legal é mais fácil aos traficantes
esconderem-nas e é mais difícil identificar e vigiar os casos de
desaparecimento. Por outro lado, sem uma certidão de nascimento, é
mais difícil confirmar a idade da criança e responsabilizar os traficantes.
 Desastres humaniários e conflitos armados: Em situações de
conflitos, as crianças podem ser raptadas por grupos armados e
obrigadas a participar nas hostilidades. Elas podem ser vítimas de
abusos sexuais ou violações. Os conflitos contribuem para a
permeabilidade das fronteiras, aumentando a facilidade com que os
traficantes transportam as pessoas.
 Procura de mão-de-obra barata e trabalhadores para a indústria do
sexo: O tráfico e o crescimento exponencial da procura de mão-de-obra
barata e trabalhadores para a indústria do sexo estão inexoravelmente
ligados. A busca de lucros cada vez mais altos muitas vezes implica o
abandono da ética, resultando na exploração de crianças em fábricas e
oficinas de trabalho intensivo.
 Tradição e valores culturais: O tráfico de crianças afecta o papel
tradicional das famílias alargadas como prestadoras de cuidados e a
integração precosse das crianças no mercado de trabalho. A colocação
tradicional de crianças em casas de familiares distantes ou amigos
transformou-se num sistema motivados por objectivos económicos.

18
1.3. Criminalização do Trafico de Pessoas, Especialmente Mulheres e
Crianças no Âmbito do Direito Penal Internacional.

Ao abordarmos a temática da crimnalização do tráfico de pessoas no


âmbito do Direito Penal Internacional, importa realçar que os crimes de
natureza internacionais, ou seja, os crimes de competência do Tribunal Penal
Internacional, que também podem ser chamados de core crimes, pelo atual
Direito Penal Internacional, são considerados os crimes de maior gravidade
que preocupam a comunidade internacional em seu conjunto.

Diante do artigo 5º do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional,


o TPI tem jurisdição sobre os crimes de genocídio, os crimes contra a
humanidade, os crimes de guerra e os crimes de agressão, definidos
respectivamente nos arts. 6º, 7º e 8º.

De forma a ilustrar, é interessante verificar as duas principais


características dos Crimes Contra a Humanidade e dos Crimes de Guerra: os
primeiros podem ser cometidos tanto em tempo de guerra como em tempos de
paz e podem ser praticados contra civis de mesma nacionalidade dos
criminosos; já o segundo refere-se às condutas executadas apenas durante as
hostilidades armadas internas ou internacionais e reside no fato de que são
cometidos contra civis de nacionalidade diferentes das dos perpetradores.

O interesse jurídico internacionalmente protegido, em relação aos crimes


contra a humanidade, é a ameaça à paz, à segurança e ao bem-estar da
sociedade internacional, onde se manifesta por meio de um ataque
generalizado ou mesmo sistemático aos direitos humanos de determinada
população. No mais, a experiência mostra que é precisamente quando os
interesses gerais da humanidade são levados em consideração que o Direito
Internacional progride com mais dinamismo.

As principais razões pelas quais se desenvolveu a noção de Proteção


Jurídica da Humanidade podem ser observadas no conceito de Cançado
Trindade4 quando afirma que o “exame da Humanidade como sujeito de Direito
Internacional não se esgota na identificação e na afirmação de seus interesses
comuns e superiores, pois exigem que se levem em consideração os princípios
fundamentais da Humanidade que marcam sua presença em todo o corpus
iuris do moderno Direito Internacional, da importância da moldura dos Direitos
Humanos e, muito especialmente, da capacidade de a Humanidade agir em
juízo, e de sua representação legal”, abandonando, desta forma, a noção de
que o Direito Internacional consistia apenas na regulação interestatais, e
responsabilizando o indivíduo pelo cometimento de graves crimes, afetando,
assim, os interesses superiores da sociedade internacional.

4 Módulo sobre Direito Penal Internacional II, 2011, pag. 3.

19
Além de assassinato e extermínio, os crimes contra a Humanidade
podem incluir também, de forma isolada ou conjunta, diversas manifestações
criminosas, tais como escravidão, trabalhos forçados, expulsão de pessoas de
suas regiões de origem, encarceramento arbitrário, tortura, estupros em massa
contra mulheres indefesas, desaparecimentos forçados, perseguição com base
em leis e medidas discriminatórias e formas institucionalizadas de opressão
racial”.

Em observação ao art. 7º, verifica-se que o estatuto definiu dez


modalidades de crime contra a humanidade. Para os efeitos do presente
Estatuto, entende-se por «crime contra a Humanidade» qualquer um dos actos
seguintes, quando cometido no quadro de um ataque, generalizado ou
sistemático, contra qualquer população civil, havendo conhecimento desse
ataque:

a) Homicídio;
b) Extermínio;
c) Escravidão;
d) Deportação ou transferência à força de uma população;
e) Prisão ou outra forma de privação da liberdade física grave, em violação
das normas fundamentais do direito internacional;
f) Tortura;
g) Violação, escravatura sexual, prostituição forçada, gravidez à força,
esterilização à força ou qualquer outra forma de violência no campo
sexual de gravidade comparável;
h) h) Perseguição de um grupo ou colectividade que possa ser identificado,
por motivos políticos, raciais, nacionais, étnicos, culturais, religiosos ou
de sexo, tal como definido no n.º 3, ou em função de outros critérios
universalmente reconhecidos como inaceitáveis em direito internacional,
relacionados com qualquer acto referido neste número ou com qualquer
crime da competência do Tribunal;
i) Desaparecimento forçado de pessoas;
j) Crime de apartheid;
k) Outros actos desumanos de carácter semelhante que causem
intencionalmente grande sofrimento, ferimentos graves ou afectem a
saúde mental ou física.

Para efeitos do n.º 1, por «escravidão» entende-se o exercício,


relativamente a uma pessoa, de um poder ou de um conjunto de poderes que
traduzam um direito de propriedade sobre uma pessoa, incluindo o exercício de
esse poder no âmbito do tráfico de pessoas, em particular mulheres e crianças;

Conforme descrição, para que os atos referenciados no art. 7º do


Estatuto sejam considerados crime contra a humanidade, deve-se ocorrer “no
quadro de um ataque generalizado ou sistemático, contra qualquer população

20
civil, havendo conhecimento desse ataque”, onde se entende por ataque,
“qualquer conduta que envolva a prática múltipla de atos referidos no parágrafo
1 contra população civil, de acordo com a política de um Estado ou de uma
organização de praticar esses atos, ou tendo em vista a prossecução dessa
política”, nos termos do parágrafo 2, letra a, do art. 7º, podendo, desta forma,
também ser praticados por entes não estatais...

Penas Aplicáveis ao Crime de Tráfico de Pessoas

As decisões propostas pelo Tribunal Penal Internacional direcionam-se


à indeminização e reabilitação das vítimas e à afirmação da inviolabilidade da
dignidade humana. A sentença deve ter como critério de graduação a
gravidade da ofensa, a graduação da gravidade da ofensa cometida, auferida,
em concreto, por referência aos bens e valores violados, ao dano causado, ao
risco criado e à culpabilidade do agressor, e à relevância e à qualificação legal
dos elementos constitutivos da ofensa. Assim, se faz necessária a máxima
atenção ao caso concreto, com a devida consciência e uniformidade de
decisão.

Tratando-se de penas, o Estatuto prevê, em seu art. 77º, pena máxima


de até 30 anos, admitindo excepcionalmente a prisão perpétua, quando
justificada a extrema gravidade do crime cometido e pelas circunstâncias
pessoais do condenado. É previsto ainda, sanções de natureza civil, eis que no
art. 75º há a possibilidade de reparar as vítimas e os seus familiares,
conjugando, desta forma, a justiça retributiva com a reparatória.

Neste sentido, o Tribunal também pode aplicar, facultativamente, uma


pena de multa, de acordo com os critérios previstos no chamado Regulamento
Processual (art. 22º. 2, a). De maneira acessória, a condenação importará na
perda dos bens obtidos pelo réu com o crime praticado, art. 77º. 2, b, bem
como na obrigação de reparação dos prejuízos sofridos pelas vítimas, art. 75º.

Por fim, conforme já visto anteriormente, o Estatuto do Tribunal Penal


Internacional, é aplicado igualmente para todas as pessoas, nacionais ou
estrangeiros, natos ou naturalizados, não havendo distinção entre cargo oficial,
seja Chefe de Estado ou Chefe de Governo, não se exime de forma alguma
sua responsabilidade penal, tampouco importa em redução de pena, desde que
sejam asseguradas as garantias de um tratamento justo em todas as fases do
processo, de acordo com os parâmetros oficiais.

O Tribunal Penal Internacional, ao punir os criminosos internacionais,


exerce a importante função de transmitir uma mensagem para a sociedade
internacional. A mensagem de que não haverá tolerância ou impunidade com
os violadores dos maiores crimes internacional previstos no Estatuto de Roma.

21
Dessa forma, o Tribunal Penal Internacional também cumpre um papel
pedagógico, de mitigação de interesses pessoais dos que detém poder dentro
de determinado Estado, a fim de que estes não cometam abusos no exercício
deste poder5.

No cumprimento das penas, destaca-se o fato de que o réu pode ser


condenado no TPI a indenizar as vítimas. Assim, além de cumprir a pena de
reclusão, podem os juízes do TPI ordenar o congelamento dos recursos dos
réus nos Estados em que se encontram para que possam ser utilizados com
esse fim.

Por conseguinte, não se admite julgamento à revelia, eis que não pode
ser conciliado com o principio da equidade e com o julgamento público.

O Tribunal Penal Internacional representa um avanço na segurança


jurídica internacional e uma especial evolução do Direito Humanitário
Internacional, pois criou instrumentos até então inexistentes na defesa da
justiça e defesa dos Direitos Humanos no âmbito internacional.

5 Módulo sobre Direito Penal Internacional II, 2011, pag. 6

22
1.4. Instrumentos Internacionais de Prevenção e Combate de Trafico de
Crianças.

Os instrumentos internacionais de prevenção e combate ao tráfico de


crianças servem para garantir a protecção legal da criança em qualquer lugar
do mundo, razão pela qual se deve promover a assinatura e a ratificação dos
mesmos. Dentre as convenções internacionais e tratados conexos mais
importantes destacam-se:

 Convenção sobre os Direitos da Criança (1989) – o instrumento de


direitos humanos mais amplamente ratificado orienta especificamente os
Estados para protegerem as crianças do tráfico. Os artigos 34º e 35º
apelam os Estados Parte a tomarem todas as medidas, nos planos
nacional, bilateral e multilateral, para protegerem as crianças contra
todas as formas de exploração sexual e abuso, e para impedir o rapto, a
venda ou o tráfico de crianças, independentemente do seu fim ou forma.
 Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança
relativos à Venda de Crianças, Prostituição Infanatil e Pornografia
Infantil (2000) – A Assembleia Geral das Nações Unidas adoptou este
protocolo em 2000, e entrou em vigor a 18 de janeiro de 2002. Este
protocolo aplica-se à venda de menores para fins de exploração sexual,
trabalho infantil ou adopção, e abrange a preveção, proibição e
assistência às vítimas. Enquanto a Convenção sobre os Direitos da
Criança dá especial ênfase à prevenção da exploração sexual, o
protocolo destaca a criminalização da pornografia e prostituição infantil.
 Protocolo relativo à Prevenção, à Repressão e à Punição do Tráfico
de Pessoas, em especial de Mulheres e Crianças (Protocolo de
Palermo) e o Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas
contra o Crime Organizado Transnacional relativo ao Contrabando
de Migrantes por Terra, Mar e Ar (2000) – A Assembelia Geral das
Nações Unidas adoptou estes protocolos em 15 de Novembro de 2000,
tendo os mesmos entrados em vigor em Dezembro de 2003. O
Protocolo de Palermo fornece a primeira definição do tráfico no direito
internacional. Além de exigir programas e políticas abragentes para
prevenir o tráfico de seres humanos, em especial de mulheres e
crianças, o Protocolo de Palermo contém disposições detalhadas sobre
as obrigações das legislaturas aprovarem leis contra o tráfico, sobre o
cumpromento das leis e o tratamento das vítimas.
 Convenção nº 182 da OIT relativa à Interdição das Piores Formas de
Trabalho das Crianças e à Acção Imediata com Vista a sua
Eliminação (1999) – Esta convenção exige a proibição e imediata
eliminação das piores formas do trabalho infantil. As piores formas de
trabalho das crianças são definidas no artigo 3º da Convenção como
sendo: Todas as formas de escravatura ou práticas análogas, tais como

23
a venda e o tráfico de crianças, a servidão por dívidas, bem como o
trabalho forçado ou obrigatório, incluindo o recrutamento forçado ou
obrigatório das crianças com vista a sua utilização em conflitos armados;
 Convenção relativa à Protecção das Crianças e à Cooperação em
matéria de Adopção Internacional (1993) – Esta Convenção, que
entrou em vigor em 1995, estabelece o enquadramento legal para
proteger as crianças, os pais e os pais adoptivos envolvidos em
adopções internacionais. Para garantir que as adopções sejam feitas no
interesse superior da criança, o protocolo estabelece um sistema de
cooperação entre os Estados contratantes no sentido de prevenir o
rapto, a venda ou o tráfico de crianças, e de garantir que as adopções
respeitem os direitos fundamentais das crianças nos termos do direito
internacional.

24
2. Caracterização de Angola, Situaçao Geográfica e População.

A República de Angola está situada na costa ocidental do continente


Africano, abaixo do equador e a Este do meridiano de Greenwich.Tem uma
superfície de 1.246.700 km2, uma costa Atlântica de 1.650 Km e fronteiras
terrestres com a extensão de 4.837 Km, com a República do Congo e
República Democrática do Congo a Norte, a Leste com República Democrática
do Congo e República da Zâmbia, a Sul com a República da Namíbia e a
Oeste com o Oceano Atlântico.

Angola tem uma população estimada em 16.367.879 habitantes (48%


Homens e 52% Mulheres) composta por vários povos, etnias e culturas e uma
diversidade de idiomas locais, embora o português seja a Língua Oficial. Das
principais línguas nacionais destacam-se o Umbundu, o Kimbundu, o Kikongo,
o Cokwe, o Fiote, o Kwanyama6.

Em 1992 foi implantada a democracia pluripartidária. A constituição


estabelece o sistema semipresidencialista. A divisão político-administrativa está
organizada em 18 Províncias, 163 Municípios, 475 Comunas. A moeda
nacional é o Kwanza.

Angola detém o perfil de um país pós-conflito, volvidos cerca de 30 anos


de guerra intensa que deixou sequelas profundas com efeitos traumáticos para
a população, devastando as infraestruturas sociais e económicas, públicas e
privadas. Desde Abril de 2002, altura em que se alcançou a paz, as
autoridades angolanas e a sociedade civil em geral, estão empenhadas na
reconstrução do país. Actualmente é visto como um dos principais produtores
de petróleo em África.

Apesar do orçamento do Estado de 47 mil milhões de dólares em 2012,


apenas 33% do total do orçamento foi despendido para o sector social, 32%,
dos quais 8.3% para a educação, 5,14% para a saúde, 12,67 para proteção
social, 1,55% para a cultura, 4,07 para a habitação e o desenvolvimento
comunitário e 1,34% para a protecção do ambiente7.

Segundo a amostra definida pelo Inquérito e Bem Estar da População -


IBEP, em 2011, a distribuição aponta para uma população composta por 48%
de homens e 52% e mulheres. Este desequilíbrio na distribuição do género
traduz-se num índice geral de masculinidade de 0,93, ou seja, 93 homens para
100 mulheres. A população encontra-se concentrada maioritariamente nas
áreas urbanas, com 54,8%, e apenas 45,2% nas áreas rurais.

A análise da distribuição etária revela que a população angolana é


jovem, com 48% de pessoas com idade inferior a 15 anos, 54% inferior aos 18

6 Instituto Nacional de estatística – INE, 2011, pag. 9


7 Instituto Nacional da Criança – INAC, 2012, pag. 13

25
anos, sendo a população economicamente activa de menos 50%. As mulheres
em idade reprodutiva (15-49 anos) constituem 44% e uma em três pessoas
está em idade escolar (6-17anos). Calcula-se que a população de Angola seja
aproximadamente de 16.367.879 pessoas. Note-se que o último
recenseamento foi realizado em 1970 e que se prevê o próximo para 2014. A
esperança média de vida à nascença é estimada actualmente em 48 anos,
sendo 47 para o sexo masculino e 49 para o feminino.

Apenas 40% da população tem acesso ao sistema de saúde público,


menos de 50% a água potável e saneamento melhorado, e mais de um milhão
de crianças não frequenta a escola8.

A concentração das pessoas nas cidades resulta, em parte, da migração


(20%) em busca de segurança e de melhores oportunidades económicas.
Estima-se que o desemprego seja de 24,1% a 26,3%, sendo o subemprego
possivelmente o dobro desse número. As populações jovens, suburbanas e
rurais são afectadas de modo desproporcional.

Avanços foram registados na educação, na construção e reabilitação de


escolas e na formação/capacitação de milhares de professores.

O índice do registo de nascimento no seu todo entre as crianças


mantém-se baixo, estimado em 31%. Crianças não registadas são
marginalizadas e deixadas fora do sistema, apesar de estar-se a trabalhar para
permitirem que crianças estudem sem registo nos primeiros anos de vida.

Nas áreas rurais, a mortalidade infantil é 43 % mais alta e o acesso a


partos praticados por profissionais é quase três vezes mais baixo que nas
áreas urbanas. Apenas 24% têm acesso a água potável e 31% acesso a
infraestruturas de saneamento básico apropriadas, comparando com 59% com
acesso a água potável, e 85% com acesso a infraestruturas de saneamento
básico apropriadas nas áreas urbanas.

Perante este quadro da realidade do meu país é quase contraditório


pensar-se na não existência de casos de tráfico interno e internacional de
crianças. Olhando para a situação da problemática internacional do fenómeno,
percebe-se claramente que Angola é um país vulnerável, e mais adiante vamos
poder constactar a inexistência de legislação penal apropriada para o efeito,
bem como a falta de programas concretos e específicos de pesquisa,
prevenção, combate e atendimento aos supostos casos de tráficos de crianças.

8 Instituto Nacional de estatística – INE,, 2011, pag. V.

26
2.1. Situação da Criança em Angola.

A guera que durou quase três décadas e que deixou adultos e crianças
traumatizadas já terminou, mas as cicatrizes coexistem com alguns dos
desafios que continuam a ser enfrentados e resolvidos, agora, de forma mais
pragmática e eficaz.

Toda a criança angolana tem direito a uma vida livre de violência, abuso,
exploração e negligência. Este direito é a pedra angular da arquitectura dos
direitos previstos na Convenção dos Direitos da Criança e na Carta Africana
dos Direitos e Bem-Estar da Criança. Existem mais de 9 milhões de crianças
com menos de 18 anos em Angola, mais de metade da população total.
Proteger estas crianças é uma obrigação moral e ética que está profundamente
enraizada na nossa sociedade.

Os casos de violência, abuso, exploração e negligência que infelismente


afectam muitas crianças em Angola podem pôr a vida das mesmas em risco,
associados a debilidades que ainda se registam no acesso à saúde, educação
e serviços de protecção social.

Resultados de pesquisas mostram que crianças que vivenciam um ou


mais actos de violência têm consequências negativas ao longo de todo o ciclo
de vida. A violência física, abandono ou negligência podem ter um efeito
profundo sobre o desenvolvimento neural da criança, particularmente durante
os primeiros dois ou três anos de vida.

Os atrasos cognitivos, sociais e emocionais resultantes da violência são


susceptíveis de afectar negativamente o sucesso escolar, a saúde, o
rendimento durante toda a vida e aumentar a probabilidade de problemas
sociais e herança de comportamentos violentos de geração para geração.

Investir adequadamente na protecção da criança contribui para o


desenvolvimento do capital humano. As crianças livres de violência, abuso,
exploração e negligência estão mais inclinadas a frequentar a escola, têm
melhor desempenho nas aulas e são menos propensas a ter problemas de
saúde, incluindo o VIH/SIDA.

Mais de um milhão de crianças em Angola não vive com os seus pais


biológicos e 9,5% dos meninos e meninas angolanos são órfãos, tornando-se
mais expostos à pobreza, a riscos de discriminação, cuidados desadequados,
abusos, exploração, falta de acesso ao ensino e a cuidados de saúde
adequados do que os que vivem com os seus pais biológicos9.

Menos de um terço das crianças angolanas com menos de cinco anos


de idade (31%) tem o registo oficial do seu nascimento. Em algumas províncias

9 Instituto Nacional de estatística – INE, 2011, pag. 15

27
(ex.: Kwanza Sul e Malange) só cerca de 20% dos nascimentos são registados.
Não se verificando diferenças significativas nas condições económicas
familiares. A falta da certidão de nascimento parece constituir um problema
para todos os angolanos10.

Muitas crianças em conflito com a lei cometeram infracções menores ou


pequenos delitos ou podem ter sido coagidas por adultos a ter comportamentos
criminosos. No entanto, apenas uma das dezoito províncias possui um tribunal
indicado para menores, que constitui o elemento fundamental para um sistema
funcional de justiça para menores, porém, não existe no país um único centro
de reeducação de menores, o que significa que, crianças que necessitam de
internamento têm sido devolvidas às suas famílias.

Uma em cada cinco crianças angolanas entre os cinco e os catorze anos


de idade está envolvida em trabalho infantil. As que vivem em zonas rurais são
muito mais afectadas (32%) do que as que vivem em zonas urbanas (11%). As
crianças que vivem nas províncias de Cunene e Zaire são as mais afectadas
(45% e 50%, respectivamente), enquanto as que vivem em Luanda são as que
têm menos probabilidades de se envolverem em trabalho infantil (9%)11.

Quatro em cada dez crianças dos 12 aos 17 anos de idade encontram-


se casadas ou a viver em união de facto. As raparigas angolanas entram em
relacionamentos mais cedo do que os rapazes, e um terço delas, dos 12 aos
14 anos, vivem com um parceiro dez anos mais velho. As crianças das zonas
rurais, principalmente das províncias de Lunda Sul, Moxico, Huambo, Bié e
Malange, são as mais vulneráveis aos riscos e às consequências do
casamento precoce12.

Em Angola, a gravidez concorre para cerca de 7% do abandono escolar


ou não ingresso na escola, sendo que cerca de 3% dos casos de gravidez se
verificam entre os 12 e os 14 anos de idade e cerca de 7% entre os 15 e 17
anos de idade.

10Instituto Nacional de Estatística – INE, 2011, pag. 59


11 Instituo Nacional de Estatística – INE, 2011, pag. 103
12 Instituto Nacional de Estaística – INE, 2011, pag. 105

28
2.1.1. Violência contra a Criança e Suas Caracteristicas.

A violência contra a criança atravessa fronteiras geográficas, raciais, de


classe, religião e cultura. Ela ocorre dentro do lar, nas escolas e nas ruas, em
locais de trabalho e de lazer e em instituições assistenciais e correcionais. Ela
é praticada por pais, parentes, professores, cuidadores, pela polícia e por
outras crianças. Algumas crianças são particularmente vulneráveis em
decorrência de seu gênero, raça, origem étnica, deficiência ou posição social.
Nenhum país é imune à violência, seja ele rico ou pobre.

As consequências da violência podem ser devastadoras. Acima de tudo,


ela pode provocar óbitos precoces e mesmo as crianças que sobrevivem
podem carregrar terríveis cecatrizes físicas e emocionais. Além de representar
uma ameaça para a saúde das crianças, a violência pode afectar sua
capacidade de aprender e de se tornarem adultos capazes de criar famílias
sadáveis e comunidades seguras.

Por essas razões, a violência contra a criança constitui uma grande


ameaça ao desenvolvimento global e ao trabalho que está sendo realizado no
sentido de cumprir os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio. Não se
conseguirá garantir um ensino básico universal sem que as crianças sintam-se
seguras na escola. A propagação do HIV/SIDA não será interrompida enquanto
não interrompermos a violência contra meninas que alimenta a pandemia. A
violência contra a criança também representa um grande obstáculo à igualdade
entre os géneros13.

O impacto da violência contra a criança está amplamente documentado


no estudo das Nações Unidas, que também sugere o que deve ser feito para
que esse desafio seja superado. Nesse esforço, os Estados têm a
responsabilidade primordial de tomar medidas concretas para impedir a
violência contra a criança e de apoiar a Convenção sobre os Direitos da
Criança e outros tratados que garantem o direito de meninas e meninos de
viveverem sem violência em qualquer lugar do mundo.

A violência contra a criança nunca é justificável em hipótese alguma e


tampouco é inevitável. Se suas causas subjacentes forem identificadas e
sanadas, ela pode ser perfeitamente evitada.14

Na realidade angolana a violência contra a criança manifesta-se de


forma multidimensional, na família, na comunidade e na sociedade em geral,
não só como reflexo da vivência dos períodos de guerra, de instabilidade

13
Paulo, 2006, pag. XI
14 Prefácio do então Secretário Geral das nações Unidas, Kofi Annan, em Outubro de 2006,
aquanto da apresentação do relatório do estudo mundial sobre a violência contra a criança,
efectuado pelo Paulo Sergio Pinheiro, especialista independente para as Nações Unidas

29
económica e social, do elevado nível de pobreza por parte das famílias, de
factores culturais e da luta pela sobrevivência.

Na verdade, a violência contra as crianças no país, é uma realidade


incontestável, sendo entendida como uma ameaça contra as crianças, tanto
pela família, pela sociedade, como pelas instituições, as crianças são tratadas,
não como sujeito de direitos, mas como objectos, tanto nas áreas urbanas e
especialmente na área rural.

O crescimento deste fenómeno no país foi constatado desde o final da


década de oitenta, apesar dessa prática ser contrária à própria tradição da
família angolana que sempre primou pela manutenção do núcleo familiar, da
integração dos seus membros e da protecção dos seus filhos.

A violência estrutural, de que grande parcela da população é vítima, é o


pano de fundo de uma sociedade com profundas desigualdades. Todavia,
evidencia uma realidade em que os determinantes não são só sociais,
económicos e culturais. São das relações interpessoais que nasce a
possibilidade do abuso sexual, assim como as demais formas de violência no
lócus familiar, a violéncia física, psicológica, a negligência, maus tratos,
exploração sexual, trabalho infantil, tráfico e instrumentalização das crianças.

As práticas de rituais tradicionais e religiosas que se utilizam crianças


são nocivas para o seu desenvolvimento, e como consequência, são
estigmatizadas e acusadas de práticas de feitiçaria por parte da família e da
comunidade;

Embora não haja dados estatísticos, mesmos parciais, acusações de


práticas de feitiçaria contra criança tem sido relatadas nos últimos anos nas
províncias do Zaire, Uige e Luanda, e mais recentemente nas demais
províncias15.

Os esforços do governo na prevenção e combate a violência contra a


criança são notáveis, sobretudo na criação de legislação que proibe a violência,
porém, existe consciência das instituições do Estado de que não basta criar
leis, é também necessário trabalhar na mudança de actitudes, hábitos e
costumes e na criação de oportunidades para combater a fome e a pobreza.

No entanto, as instituições vocacionadas para trabalhar na


sensibilização e mobilização social encontram-se órfães de todo tipo de
recursos, humanos, materiais e financeiros, limitando-se a realização períodica
e pontual de algumas palestras nos centros das capitais das províncias, o que
está muito distante da realidade.

15 Instituo Nacional da Criança, 2006, pag. 16

30
O sistema de protecção à criança é deficiente, porque a falta de tudo um
pouco não dá garantia para a materialização de acções conjuntas. Cada um vai
fazendo o que pode.

31
2.2. Realidade Ofuscada do Tráfico de Crianças em Angola.

O tráfico de seres humanos foi definido pela primeira vez no direito


internacional através do Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas
contra a Criminalidade Organizada Transnacional relativo à Prevenção, à
Repressão e à Punição do Tráfico de Pessoas, em especial de Mulheres e
Crianças (2000). Conhecido como o Protocolo de Palermo ou o Protocolo do
Tráfico, este documento inclui a definição de tráfico mais utilizada a nível
internacional e constitui uma base essencial para a reforma das legislações.

Esta definição estipula claramente que o tráfico de menores não implica


que haja recursos à ameaça ou ao uso da força ou outras formas de coação,
ao rapto, à fraude, ao engano, au abuso de autoridade ou de situação de
vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para
obter o consentimento de uma pessoa que tem autoridade sobre outra.

É fundamental que as legislações nacionais de combate ao tráfico não


se restrijam ao tráfico transnacional. Muitas crianças são vítimas do tráfico
dentro dos seus próprios países, principalmente das zonas rurais para as
urbanas. Muitas vezes, os Estados restringem as suas definições e as suas
respostas às situações transnacionais, deixando sem protecção milhões de
vítimas de tráfico interno. Esta situação pode minimizar a real magnitude do
problema geral do tráfico num determinado país. É necessário fazer mais para
combater o tráfico dentro das fronteiras dos diversos países16.

Não existem estimativas exactas do número de crianças traficadas


actualmente. No entanto, uma estimativa sugere que 50% das vítimas de
tráfico a nível internacioal são crianças. Há muitas razões para a imprecisão
dos dados sobre o tráfico de menores. O tráfico é um acto criminoso, envolto
em segredo. As vítimas têm muitas vezes medo de denunciar a sua situação,
dificultando assim a obtenção de dados precisos. Por outro lado, não existe
uma metodologia comum para a contagem das vítimas de tráfico e muitas
vezes não se utilizam critérios consistentes para definir as pessoas traficadas
de acordo com a definição jurídica internacional.

As estatísticas podem ignorar as traficadas dentro das fronteiras


nacionais e frequentemente não separam as vítimas por idade e sexo. Apesar
da inexistência de dados exactos sobre as crianças traficadas, os números são
asutronómicos, e têm tendências a subir.

O tráfico de seres humanos constitui um fenômeno abominável,


tornando-se cada vez mais grave e preocupante. A sua natureza é mais
sistemática, não afetando apenas um número limitado de pessoas, pois suas
conseqüências atigem a estrutura social e econômica das sociedades. Sua

16 Manual para Parlamentares, 2005, pag. 39.

32
prática é facilitada pela globalização e pelas tecnologias modernas. O tráfico de
seres humanos não se restringe à exploração sexual, envolvendo também a
exploração do trabalho em condições próximas da escravidão. As vítimas
sofrem violências, violações, maus tratos e graves sevícias, bem como outros
tipos de pressões e coações.

Como anteriormente nos referimos, a insuficiência de dados e


informações sistematizadas no actual contexto não nos dá uma real dimensão
da problemática do tráfico em Angola, sendo este assunto de grande
preocupação para formulação de estratégias adequadas e especializadas
sobre o tema.

A ausência de registos de nascimento e as insuficiências do Sistema de


Controle Migratório nas fronteiras, sobretudo nos meios de transportes
terrestres; a insuficiente divulgação junto das famílias, da sociedade e das
instituições públicas e privadas, relativamente os requisitos e mecanismos
técnicos e jurídicos necessários para o processo de migração legal de crianças,
constituem grandes constrangimentos.

Em Angola, como nos outros países, de acordo as pesquisas realizadas


para a elaboração deste trabalho, constatamos a existência de tráfico interno e
internacional de Crianças.

Quanto ao tráfico interno, o processo de movimentação ilegal de


crianças não difere do internacional, efectua-se das zonas rurais para as zonas
urbanas, sobretudo do interior das províncias para Luanda, a capital do país.
Existe um processo de recrutamento de crianças para serem empregadas
domésticas, vendedoras ambulantes, para a prostituição, na baixa de Luanda
e, nos últimos dias no Município Satélite de Viana, para serem
instrumentalizadas para fins de crimes organizados e para a exploração do
trabalho infantil, sobretudo na construção de habitação e exploração de
inertes17.

O processo de recrutamento consiste no seguinte:

 Uma pessoa adulta respeitada na comunidade e com certo prestígio


influencia os pais e encarregados de educação a cederem as crianças
para novas oportunidades que a vida oferece na cidade de Luanda. As
mesmas, de acordo os angariadores, terão direito a educação de
qualidade e futuramente empregos melhores.
 Estas crianças, postas em Luanda, muitas delas não se expressando em
português, são treinadas para trabalhos domésticos, vendedoras de
produtos nas ruas e envolvidas na prostituição. Nunca mais voltam para
as províncias de origem, perdem contacto com os progenitores.
17Entrevistas a crianças residentes nos dos centros de acolhimentos em Luanda, Julho de
2013.

33
 Muitas dessas crianças, sobretudo do sexo feminio, têm sido abuzadas
sexualmente, pelos filhos dos patrões ou pelos maridos das patroas,
muitas vezes resultando em gravidez. Como consequência, são
forçadas a enterroperem a gravidez e postas na rua. Sem contacto com
a família de origem, só têm um caminho, a prostituição nas ruas para
poderem sobreviver. As que tiverem sorte são recebidas em alguns
centros de acolhimentos, que também não reuném condições ideias
para acomopdar as crianças, nem tão pouco são treinadas para
identificarem se a criança é ou não vítima de tráfico interno.
 Crianças do sexo masculino são levadas para trabalharem nas fazendas
e exerecerem actividades perigosas, têm uma remoneração que não
corresponde com o trabalho que fazem e lhes é negado o direito à
educação, ao lazer e a ser criança.
 As que trabalham na construção de habitação e exploração de inertes
dormem e alimentam-se pessimamente, e muitas das vezes sobre o
olhar de pessoas adultas.

As histórias verídicas dos casos que acabamos de relatar, sobretudo do


tráfico interno de crianças, com o fim de exploração de menores para a
prostituição, trabalho doméstico e construção são do conhecimento dos
activistas e promotores dos direitos da criança que trabalham em Angola e das
instiuições da sociedade civil e do Estado.

Em questão de dúvidas ou interesse em querer aprofundar o que foi


acima exposto, para efeitos de investigação ou elaboração de uma estratégia
de prevenção e combate a essas práticas, aconselho a visitarem, primeiro os
centros de acolhimentos de crianças e conversar com elas e seus
responsáveis, ouvir os membros das redes de protecção e promoção dos
direitos da criança, as autoridades religiosas, a ONG e, finalmente, as
instituições do Estado.

Quanto ao tráfico internacional, onde eventualmente regista-se algum


conhecimento da preocupação do Executivo deve-se afirmar que ele existe em
Angola e podemos relatar os seguintes factos:

 Um número elavado de crianças é recrutado nas províncias da Huila,


Namibe, Kwanza sul e Benguela, levadas a província do Cunene e ai
atravessarem a fronteira de forma ilegal, com promessas de emprego na
Namíbia, onde seguem para África do Sul e pelo mundo fora, muitas
vezes com o consentimento dos progenitores. Ouve caso de pessoas
adultas apanhadas pela polícia na província do Cunene, por tentiva de
saída ilegal com crianças.18

18 Relatório sobre o Trabalho Infantil em Santa Clara, 2006.pag. 15

34
 Casos de crianças raptadas em Luanda, com ponto de partida no
famoso mercado dos kwanzas, foram encontradas na fronteira entre
Angola e República Democrática do Congo, com pessoas estranhas a
elas e com cédulas de nascimento falsas. Muitas delas foram
reintegrdas as famílias de origem e outras ainda se encontram no centro
de acolhimento da província.
 Crianças há que se encontram a praticar trabalho de vendas ambulantes
de mercadorias diversas na cidade de Cabinda provenientes da
república do Congo – Brazzaville.
 Na Província do Zaire, até o momento da nossa pesquisa, encontravam-
se 17 crianças no centro de acolhimento a espera de serem reintegradas
nas suas famílias, de nacionalidade congolesa – RDC, detidas na
fronteira por se fazerem acompanhar de pessoas adultas
desconhecidas, sem nenhuma autorização dos progenitores;
 De acordo as nossas investigações, crianças têm sido reinseridas nas
suas famílias, sendo, em alguns casos, os familiares vêm para Angola,
saíndo da República Democrática do Congo, a procura dos filhos que
tinham sido raptados. Em certos casos autoridades angolanas, da
província do Zaire, deslocam-se a República Democrática do Congo
para fazer a reintegração de crianças detidas na fronteira e, que muitas
dessas crianças, tinham sido dadas por raptadas e eventualmente
mortas19.
 Nas zonas diamantíferas, Lundas Norte e Sul e Bié, muitas crianças
vindas de países africanos estão envolvidas na exploração ilegal de
diamantes, a trabalharem para outrem, pessoas adultas, sem o mínimo
de condições de habitabilidade, negando-lhes os direitos consagrados
na Convenção sobre os Direitos da Criança.

Este é o quadro e a realidade ofuscada do tráfico de crianças em


Angola, e que muitas vezes nada se diz sobre o problema.

Fazendo uma retrospectiva, em termos de crime organizado


transnacional, o tráfico de seres humanos somente perde, em lucro, para o
tráfico de drogas e o contrabando de armas, e que a maior parte das pessoas
traficadas é proveniente de países do chamado Terceiro Mundo (Ásia, África,
América do Sul e Leste Europeu) e são encaminhadas preferencialmente para
os países desenvolvidos (Estados Unidos, Europa Ocidental, Israel e Japão),
onde são submetidas a exploração sexual e ao trabalho forçado20.

Em 2000, a Organização das Nações Unidas começou a elaboração do


informe sobre a população mundial, dando ênfase expressiva ao problema da
prostituição de meninas e o tráfico de mulheres como sendo um item relevante

19 Entrevista aos Agentes de imigração na fronteira do Luvo , 2013.


20
Manual para Parlamentares, 2005, pag. 19

35
e merecedor de destaque nas agendas internacionais e nacionais. De acordo
com o Estudo, 2 milhões de meninas entre 5 e 15 anos são introduzidas a cada
ano no comércio sexual.

Após informações dadas sobre a problemática do tráfico na dimensão


internacional e as evidências apresentadas sobre a realidade angolana, a
nossa preocupação consiste no facto de não existir em Angola politicas nem
programas sistematicas e extensivas de combate ao trafico, a OIM –
Organização Internacional para as Migrações vai dando, periodicamente,
alguma formação aos efetivos da policia sobre conceito de tráfico de pessoas,
versos contrabando de migrantes e técnicas de identificação de casos de
tráfico de pessoas21.

O Instituo Nacional da Criança – INAC, por sua vez, tem formado os


membros das Redes de Protecção e Promoção dos Direitos da Criança, mas
de uma forma muito tímida tendo em conta as debilidades financeiras e
materiais que apresenta. As próprias redes, de acordos estudos, têm grandes
debilidades de funcionabilidade por não existirem progrmas concretos de
sustentabilidade.

Por conta da longa inércia dos Estados em reconhecer a preponderância


de factos tão importantes é que pessoas, vítimas de crimes desta categoria e
outros que ainda esperam por medidas governamentais, sofrem conseqüências
graves, como sevícias, maus tratos e todo tipo de abuso contra integridade
humana. Tal problema decorre do desamparo, da carência e da morosidade na
elaboração de provimentos necessários para prevenção e combate ao tráfico
de seres humanos.

21
Organização Internacionl para as Migrações – OIM Angola, 2012, pag. 19

36
2.2.1. Angola, Um País de Origem, de Trânsito e de Destino de Crianças
Vítimas de Tráfico.

O crime organizado transnacional engloba o tráfico de entorpecentes, de


armas e o recentemente reconhecido “tráfico de pessoas”, que vem chamando
a atenção da opinião pública mundial e se encontra presente em todos os
cantos do mundo, movimentando quantias exorbitantes de dinheiro.

No entender de especialistas, todos esses crimes possuem


características em comum e são denominados crimes high tech, por envolver
outros crimes como: lavagem de dinheiro, falsificação de produtos, fraude de
cartões eletrônicos e crimes relacionados com a informática.

Devido a sua extensão, o tráfico internacional de pessoas atrai


problemas, tanto para as organizações internacionais como para os Estados
democráticos, apresentando um grande desafio para as agências nacionais e
internacionais de aplicação de lei e para as políticas de direitos humanos, na
medida em que as vítimas desse crime sofrem inúmeras violações, tanto por
parte dos traficantes quanto por parte das organizações governamentais, que
obrigatoriamente deveriam protegê-las22.

Esse tipo de crime não exige grandes investimentos, encontrando


guarita na cegueira com que muitos governos lidam com a migração
internacional e com a exploração sexual comercial.

Segundo a (OIM) Organização Internacional da Migração, 4 milhões de


pessoas são traficadas por ano contra a própria vontade para trabalhar em
alguma forma de escravidão.

Relatório divulgado a propósito do Dia Internacional da Mulher de 2001


pelo órgão executivo da União Européia (UE) destacou que 120 mil mulheres e
crianças são introduzidas ilegalmente, por ano, na União Europeia - UE. A
maior parte é do Leste Europeu. Há estimativas de que os bandos transportam
até 500 mil mulheres para a UE a cada ano. A meta do tráfico de pessoas é
não somente a prostituição, mas também a exploração de mão-de-obra sob
condições semelhantes às da escravidão, diz o relatório.

De acordo o Relatório de 2012 dos Estados Unidos da América sobre


Tráfico de Pessoas, Angola é um país de origem e de destino para homens,
mulheres e crianças sujeitos ao tráfico sexual e trabalho forçado. Ha relatos de
de meninas menores de idade, tão jovens, 13 anos de idade, na prostituição,
nas províncias de Luanda, Benguela e Huila. Alguns meninos angolanos são
levados à Namíbia para trabalho forçado na criação de gado, equanto outros
são forçados a servir como mensageiros como parte de um esquema para
contornar as taxas de importação no comércio transfronteiriço entre a Namíbia

22
Manual para Parlamentares, 2005, pag. 29

37
e Angola. Segundo o relatório, crianças e mulheres angolanas são submetidas
a escravidão doméstica na Àfrica do Sul, na República Democrática do Congo,
na Namíbia e países europeus, principalmente Portugal.

O relatório adiaata que, mulheres vietinamitas e brasileiras envolvidas na


prostituição em Angola podem ser vítimas de tráfico sexual. As chinesas
vítimas de tráfico sexual são recrutadas por empresas chinesas de construção
civil com promessas de trabalho, são privadas de seus passaportes, mantidos
em residências com muros altos, com guardas armados, e forçadas a pagar o
custo da sua viagem por meio da prostituição.

O relatório faz também referência de que migrantes chineses, do


Sudoeste Asiático, da Namíbia e, possivelmente, imigrantes congoleses são
submetidos a trabalhos forçados na indústria da construção civil em Angola; as
condições incluem retenção de passaportes, ameaças, negação de comida e
movimentos.

Finalmente o relatório informa de que as redes de tráfico recrutam e


transportam meninas congolesas com idade de 12 anos de idade de Kasai
Ocidental, na República Democrática do Congo, para Angola para várias
formas de exploração.

O crime de tráfico de pessoas está inserido no contexto da globalização


e, com a crescente pluralização de trocas comerciais em todo o mundo,
vulnerabilizou-se o sistema de fronteiras. Assim, juntamente com o movimento
de mercadorias, há uma crescente migração de pessoas que procuram
melhores oportunidades de trabalho e de vida em Angola.

A imigração legal não dá conta da enorme oferta de pessoas


provenientes de vários países. Na realidade Angolana, o surgimento de várias
cantinas geridas por estrangeiros, na sua mairia africanos, com proveniências
duvidosas, o aumento considerável de muitos armazens, propriedades de
estrangeiros, movimentando milhões e milhões de kwanzas, são evidencias de
que Angola é um terreno fertil para ser um ponto de transito e de destino de
vítimas de tráfico de pessoas.

Ao lado da imigração, há o problema dos refugiados que fogem da fome,


das guerras e das perseguições. O Alto Comissário da ONU para os refugiados
estima que 21,5 milhões de pessoas em todo o mundo estão em situação de
refugiados, podendo ser vítimas potenciais do tráfico de pessoas e de múltiplas
formas de exploração. A instabilidade política da República Democrática do
Congo e a proximidade das fronteiras com Angola pode atrair muitos
refugiados e serem vítimas do tráfico.

38
2.2.2. O Impacto do Tráfico nas Crianças.

O tráfico anula o direito das crianças a uma infância saudável e uma vida
produtiva, recompesadora e dígna. As crianças vítimas de tráfico são
subjugadas e abusadas fisicamente pelos infractores: traficantes,
empregadores, proxenetas e clientes. As crianças traficadas são muitas vezes
espancadas e abusadas, e a violência ocorre em todos os estágios do cíclo de
tráfico23.

 Impacto emocional.

As crianças traficadas relatam sentimentos de vergonha, culpa e baixa


autoestima e são frequentemente estigmatizadas. Muitas vezes, setem-se
traídas, especialmente se o autor do crime é alguém em quem elas confiavam.
Estes factores, bem como a própria experiência, podem causar pesadelos,
dificuldades no sono, sentimento de desespero e depressões. Algumas
crianças traficadas recorrem às drogas para entorpecer a sua dor física, outras
tentam suicídio.

 Impacto físico.

As crianças traficadas para a indústria do sexo correm o risco de contrair


doenças sexualmente transmissíveis, como a SIDA. A perigosa e errónea
crença existente nalguns países de que as relações sexuais com uma virgem
podem curar a SIDA fez aumentar ainda mais a procura de raparigas muito
novas. Muitas mulheres e raparigas relatam que os clientes pagam mais para
terem sexo sem preservativo e elas, especialmente às raparigas, raramente
podem insistir para que eles o usem. Os trabalhadores domésticos, as crianças
de rua, as crianças trabalhadoras e as crianças em detenção são vulneráveis a
situação de violação e exploração sexual, e o risco de contrairem VIH/SIDA é
extremamente elevado.

 Impacto psico-social.

As crianças traficadas sofrem efeitos normalmente adversos no seu


desenvolvimento educativo e social. Muitas não têm vida familiar e são
obrigadas a trabalhar desde muito nova. Sem acesso a escola ou vida familiar,
e afastada de toda e qualquer actividade social normal, estas crianças não
desenvolvem o seu potencial. Mas, sujeitas a restrições e vigilâncias
constantes, elas não têm praticamente contactos com o mundo exterior e
muitas vezes não têm possibilidade de procurar ajuda. Quando sofrem abusos
e violência física e emocional, os efeitos podem ser devastadores e de longo
prazo.

23
Manual para Parlamentares, 2005, pag. 35

39
É necessário coordenar esforços para parar e prevenir o tráfico de
crianças. Os parlamentares são actores-chave no estabelecimento de pontes
entre as preocupações políticas, governamentais e civis e na reunião de muitos
parceiros por uma causa comum. Através de medidas específicas para
promover a consciencialização, a resposta e as políticas públicas, é possível
por fim ao flagelo do tráfico de crianças, responsabilizar os autores de crimes
de tráficos de crianças e criar um ambiente protector para manter as crianças
livres de perigo.

40
2.2.3. Estruturas e Mecanismos de Prevenção, Combate e Apoio às
Crianças Vítimas de Tráfico em Angola.

Os Chefes de Estado e de Governo e os representantes de diferentes


Estados participantes na 27ª Sessão Especial da Assembleia Geral das
Nações Unidas pela Infância haviam reafirmado a sua decisão de aproveitar a
oportunidade histórica para mudar o mundo para e com as crianças. Em
consequência, reafirmaram igualmente, o compromisso de completar a agenda
inacabada da Cúpula Mundial pela Criança e abordaram outras questões em
grandes cúpulas e conferências das Nações Unidas, particularmente a
Declaração do Milénio.

Ao comprometerem-se a criar “Um Mundo Adequado para as Crianças”,


assumiram o desafio de alcançar quatro objectivos fundamentais no âmbito dos
Objectivos do Desenvolvimento do Milénio, designadamente:

 Promover vidas saudáveis.


 Promover o acesso à Educação de qualidade.
 Proteger as crianças contra os maus-tratos, a exploração e a violência.
 Combater o VIH/SIDA.

As acções desenvolvidas para alcançar os objectivos do milénio na


vertente da criança, no nível do país, até 2007, ano em que se fez a avaliação
do médio curso, quer no nível do Continente Africano, que no nível das Nações
Unidas, foram implementadas no âmbito do Plano Integrado de
Desenvolvimento Nacional.

As mudanças que se operam no domínio político, permitem o seu


enquadramento em termos de execução, monitorização e avaliação, no
Programa do Executivo Angolano.

Na verdade, não existe em Angola nenhuma estrutura e nem


mecanismos de apoio crianças vítmas de tráfico. O que existe são estrutras
que trabalham no apoio a crianças que necessitam de cuidados especiais, que
também funcionam de forma muito debil.

Assim, no âmbto da implemntação de acções pra alcançar os objectivos


do milénio, temos a considerar a avaliação recente, feita no âmbito do processo
de elaboração, apresentação e defesa do Relatório relativo à implementação
da Convenção sobre os Direitos da Criança, que demonstrou alguns
indicadores a ter em conta nesta estratégia.

41
Quadro de indicadores dos ODM’s

Objectivos estratégicos Situação actual Metas (até 2015)


Um capítulo que indica uma • Redução da
redução da Taxa de mortalidade infantil e de
Mortalidade em Menores de 5 menores de 5 anos de um
anos de 250/1000 (MICS, terço ou 50-70 por mil
2001) para 195/1000 (MICS, nascidos vivos,
2010), enquanto que a respectivamente (o que for
expectativa governamental, menor)
para cumprimento do • Redução para
Objectivo de metade a taxa de mortalidade
Desenvolvimento do Milénio materna
n.º 4, é reduzir essa Taxa • Redução para
para 104 até 2015. A metade a malnutição severa
Mortalidade Infantil (menores e moderada entre as crianças
de um ano) reduziu, no com memos de 5 anos
mesmo período 2001-2010, • Aumentar o acesso à
de 150/1000 para 116/1000. água potável
• Aumentar o acesso à
instalações sanitárias
• Atenção especial à
saúde e à nutrição das
Promover vidas saudáveis meninas e das mulheres
grávidas e lactentes
• Acesso de todos os
casais a informações e
serviços de prevenção das
gravidezes precoces, pouco
espaçadas, muito tardias ou
numerosas
• Acesso de todas as
mulheres grávidas aos
cuidados pré-natais, pessoal
capacitado durante o parto e
a instituições, o
encaminhamento das
gravidezes de alto risco e das
emergências obstétricas
• Expansão de
actividades para
Neste capítulo, foram • Aumentar o acesso à
realizadas acções que educação básica e à
resultaram em melhorias nas educação primária completa
taxas líquidas de por, pelo menos, 80% das
escolarização passando de crianças na idade
48% em 2004 para 56% em correspondente, através da
2009, o que significa que educação formal ou a
elevou o número de crianças educação não formal de
Promover o acesso à escolarizadas de 3.022.461 mesmo padrão comparável,
Educação de qualidade em 2004 para 3.967.886 em com ênfase para a redução
2009. das actuais disparidades
entre rapazes e raparigas
• Redução da taxa de
analfabetismo dos adultos
(ficando a critérios de cada
pais a escolha do grupo de
idade apropriado) para, aos
menos, a metade dos níveis
de 1990, com ênfase na

42
alfabetização das mulheres
No quadro geral e atendendo
o elevado índice de actos de
violência contra a criança,
desenvolvem-se campanhas
de prevenção e combate à
violência contra a criança,
enquadradas no
Compromisso do Governo, Proporcionar melhor
Proteger as crianças contra entre as quais se destacam: protecção às crianças em
os maus-tratos, a exploração palestras; Identificação e circunstâncias especialmente
e a violência divulgação de boas práticas; difíceis e atacar na raiz das
constituição de redes e causas que levam a essa
núcleos de protecção e situação
promoção dos direitos da
criança aos níveis província,
municipal comunal e local;
capacitação de pessoal
envolvido em programas que
visam promover e proteger os
direitos da criança em termos
de método de trabalho na
tarefa de prevenção e
combate a violência contra a
criança, que inclui os
membros das Redes já
referidas
As estimativas que apontam
para cerca de 207.879
pessoas a viverem com VIH
em Angola com base numa
prevalência de 2,1% na
população geral, segundo
estudo serológico em
mulheres grávidas em
consulta pré-natal de 2007,
preocupam o Executivo
Angolano. Que procura
incrementar as acções Deter e começar a reduzir a
Combater o VIH/SIDA programadas para combate e propagação do VIH/SIDA
controlo do VIH/SIDA no
país, com grande
envolvimento das autoridades
e programas provinciais.
Face ao problema,
desenvolvem-se acções;
sensibilização nos Centros de
Aconselhamento e Testagem
Voluntária; assegura-se
consultas de pré-natal e
serviços de Prevenção da
Transmissão Vertical de mãe
para o filho.

43
2.2.4. Legislação Angolana de Protecção à Criança Vítima de Tráfico.

O Protocolo para Prevenir, Reprimir e Punir o Tráfico de Pessoas, em


particular de mulheres e crianças, de que nos referimos anteriormente,
conhecido por Protocolo de Palermo, é o principal instrumento internacional
que regula esta matéria.

A República de Angola ainda não ratificou este diploma e não tem na


sua lei penal qualquer dispositivo que sancione este crime. Apesar disso, os 11
Compromissos assumidos pelo Governo, Sistema das Nações Unidas e
Parceiros Sociais sobre a Criança em Angola recomenda a necessidade de
ratificar o citado Protocolo, sendo que já existe um Anteprojecto de Código
Penal que prevê a criminalização do tráfico sexual de pessoas.

A Constituição da República de Angola garante o respeito e a protecção


da pessoa e sua dignidade humana (art. 30º e 31º), dando absoluta prioridade
à protecção da criança (art. 80º), proíbe a tortura e outros tratamentos
desumanos e permite a liberdade de circulação, entre outros.

O Código Penal em vigor é o antigo português, de 1886. Este não


contempla o crime de tráfico de pessoas. Para que os autores desse crime
sejam punidos terá de se recorrer a outras tipologias, que quanto muito poderá
concorrer cumulativamente na acção penal, sendo que nem todas as formas de
exploração ilícita das pessoas estão contempladas, como é o caso da
escravatura.

Crimes conexos com o de tráfico de pessoas, na lei angolana, são, por


exemplo:

1) Quanto aos crimes contra as pessoas, o cativeiro (art. 328º), a


coacção física (art. 329º), o cárcere privado, seus agravantes e incidências (art.
330º a 333º), subtracção e ocultação de menores (art. 342º a 344º), homicídio
voluntário (art. 349º a 352º), aborto (art. 358º), ofensas corporais (art. 359º a
362º) , uso e ameaças com arma de fogo ou de arremesso (art. 363º) e a
ministração de substâncias nocivas à saúde (art. 364º).

2) Quanto aos crimes de natureza sexual, o atentado ao pudor (art.


391º), estupro (art. 392º), violação (art. 393º), violação de menor de 12 anos
(art. 394º), rapto violento ou fraudulento (art.395º), rapto consentido (art. 396º),
lenocínio (art. 405º) e corrupção de menores (art. 406º).

3) Outros crimes poderão estar em conexão com o crime de tráfico,


como o auxílio à imigração ilegal e a utilização de mão-de-obra ilegal puníveis
pelos artigos 114º e 115º do Regime Jurídico dos Estrangeiros (Lei n.º 2/07, de
31 de Agosto).

44
Devido à necessidade de actualizar a lei penal elaborou-se um
Anteprojecto de Código Penal, que, embora não contemple na plenitude o ilícito
de tráfico de pessoas, adoptado no Protocolo de Palermo, traz à luz do dia a
penalização do tráfico transnacional sexual de pessoas e de menores, bem
como da escravidão e da privação de órgãos ou membros para fins lucrativos.
Porém, a exploração laboral e a remoção de órgãos não são relacionadas com
o tráfico, o que caso Angola venha a ratificar o Protocolo de Palermo terá de
ser alterado.

Porém, existem em Angola outros instrumentos de protecção a criança,


nomeadamente:

 Lei Contra a Violência Doméstica: As crianças são consideradas um


grupo protegido de acordo com esta Lei. Esta Lei penaliza a falta de
registo de nascimento de um bebé recém-nascido e da falta reiterada de
prestação de alimentos.
 Decreto-Lei sobre registo civil e documentos de identificação: Este
decreto declara o registo de nascimento gratuito para todas as crianças
com menos de cinco anos de idade.
 Lei de Bases da Protecção Social: As crianças encontram-se
directamente protegidas em termos de acesso a cuidados de saúde,
nutrição e combate ao trabalho infantil.
 Lei Geral do Trabalho: Exige que o empregador assegure todas as
condições de trabalho indicadas para a idade, prevenindo todos os
riscos referentes à segurança, saúde e ensino.
 Lei 9/96, do Julgado de Menores: Esta lei cria órgão jurisdicional ao
qual é atribuida competência para decidir as questões a menores.
 Lei Sobre a Protecção e Desenvolvimento Integral da Criança: Defini
as regras e princípios jurídicos sobre a protecção e o desenvolvimento
integral da criança, reforça e harmoniza os instrumentos legais e
institucionais destinados a assegurar os direitos da criança.

45
3. Necessidade de Criar Um Ambiente Protector Para Prevenção, Combate
e Apoio a Crianças Vítimas de Trafico em Angola.

Construir um ambiente protector para as crianças é essencial para


reduzir o tráfico de menores. Um ambiente protector constitui uma rede de
segurança de elementos interligados concebidos para salvaguaradar as
crianças da violência, exploração e abuso, e são crucial à sua sobrevivência,
saúde e bem-estar.

O ambiente protector começa em casa, com a família, como primeira


linha de defesa. Cabe, no entanto, a todos os governos, professores, líderes
religiosos, forças policiais e as próprias crianças ajudar as crianças a viver em
segurança.

Nesse contesto a constituição da República de Angola chama atenção,


no seu artigo 80º, que a protecção da criança é responsabilidade da família,
sociedade e do Estado, os quais em estreita colaboração devem assegurar a
sua ampla protecção contra todas as formas de abandono, discriminação,
opressão, exploração e exercício abusivo de autoridade, na família e nas
demais instituições.

O tráfico constitui apenas um exemplo de uma violação do direito da


criança à protecção. Proporcionar um ambiente protector ajudará a garantir que
as crianças estão protegidas de outras formas de abuso e exploração.

A proteção das crianças de situções de tráfico e outras ofensas passam


necessariamente pelas seguintes áreas:

 Análise da Situação: Visa o conhecimento do fenómeno de tráfico de


crianças em suas multiplas dimensões e forma em todo o país, o
diagnóstico da situação para o combate da problemática, as condições e
garantia de elaboração e implementação de um Plano Estratégico, a
monitoria e avaliação do mesmo.
 Prevenção: Assegurar acções preventivas e de conhecimento acerca
da problemática e dos factores determinantes do tráfico de crianças,
estimular e capacitá-las para o fortalecimento de sua autodefesa,
realizar campanhas de conscientização junto dos meios de comunicação
social direccionadas as famílias, as crianças e a sociedade em geral, e
ainda contribuir para a adopção de uma legislação e mecanismos de
protecção contra o tráfico de pessoas, especialmente mulheres e
crianças.
 Mobilização, Articulação e Comunicação: Contribuir para o
fortalecimento dos mecanismos de articulação e mobilização nacional,
bem como fortalecer os mecanismos de prevenção e combate ao tráfico
interno e internacional de crianças; comprometer a família, a sociedade
civil e os meios de comunicação social na luta dessa problemática;

46
divulgar o posicionamento do País em relação a todas as formas e
dimensões, e avaliar os impactos e resultados das acções de
mobilização.
 Defesa e Responsabilização: Contribui para a elaboração, criação e
actualização da legislação pertinente e dos mecanismos e instrumentos
de defesa e responsabilização sobre o crime de tráfico de criança,
combater a tendência de impunidade, implementar serviços de
notificação, investigação e capacitar os profissionais da área jurídico-
policial e social.
 Atendimento e Protecção: Garantir e efectivar, por meios técnicos e
financeiros, o atendimento especializado, a articulação e integração dos
programas, projectos e as redes de serviços de protecção às crianças e
às das famílias envolvidas em situação do tráfico. Realizar o
reordenamento dos órgãos e reestrururação dos programas, projectos e
serviços e assegurar o atendimento integral por meio de recursos
humanos especializados e capacitados.
 Participação da Criança: a este respeito torna-se necessário promover
e estimular a participação activa de crianças na defesa de seus direitos,
fortalecer a sua autoestima e capacitá-las com vista ao
acompanhamento e execução das acções por meio de suas próprias
organizações, foruns e assembléias, como sujeitos de direitos e actores
de transformação, e ainda contribuir para uma cultura social que
reconheça a criança como sujeito histórico, e de mudança e
transformação da sociedade.

O que se verifica em Angola é a tendência generalizada de existência de


pouca confiança e crença por parte das pessoas, especialmente das crianças e
famílias, em relação às instituições, por um lado pela falta de conhecimento da
existência dos mecanismos de protecção e responsabilização, por outro, pela
morosidade na aplicabilidade destes mecanismos e devida responsabilização
dos agressores e violadores.

Ausência de confiança e crença por parte das crianças com relação às


instituições, relativamente à denúncia, e desconhecimento da existência dos
mecanismos de protecção e reponsabilização. Nestes casos, “O silêncio fala
mais alto” para não “desestruturar” os laços familiares. É necessário que as
instituições do Estado continuem a trabalhar para ganharem confiança dos
cidadãos, sobretudo a Polícia Nacional.

Em Angola tem sido bastante tímidas as iniciativas de participação das


crianças no processo de discussão dos seus direitos, formulação e execução
das políticas voltadas ao seu desenvolvimento, tais como fóruns, assembléias,
etc; apesar do Instituto Nacional da Criança – INAC, estar a coordenar, com o
apoio do UNICEF, encontros de crianças e adultos, no nível nacional, para a

47
recolha de constribuições, com vista a elaboração de uma Estratégia Nacional
de Participação da Criança.

48
3.1. Empenho do Governo de Angola em Garantir o Direito de Proteção da
Criança.

O empenho do Governo de Angola em garantir os Direitos da Criança foi


manifestado logo após a conquista da independência de Angola, tendo em
conta os pronunciamentos do Primeiro Presidente da República, quando dizia
““ Nós queremos que os homens sejam cada vez mais felizes e a felicidade,
naturalmente tem que crescer com o homem, tem de se forjar no espírito de
cada um desde a nascença… Há imensas taras dentro da nossa sociedade
que não existiriam se nós todos tivessemos uma infância feliz”24.

A partir dessa data, Angola assinou e ratificou, sem reserva, um amplo


conjunto de convenções internacionais, comprometendo-se a defender os
direitos das crianças.

Das convenções ratificadas, incluem-se a Convenção sobre os


Direitos da Criança (CDC), ratificada pelo Parlamento em 1990, e os seus
Protocolos Facultativos sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos
Armados e sobre Venda de Crianças, Prostituição Infantil e Pornografia Infantil.

No mesmo ano, o Governo assinou a Carta Africana dos Direitos e do


Bem-estar da Criança (CADBEC), que entrou em vigor em 1999. Tal como a
CDC, a Carta é um instrumento abrangente que estabelece os direitos e define
os princípios e normas universais relativos à condição das crianças.

Os 11 Compromissos para com as Crianças Angolanas, adoptados pelo


Governo em 2007 como enquadramento político nacional geral nas áreas da
sobrevivência, desenvolvimento e protecção das crianças, constituem o pilar da
acção política para a infância, e baseiam-se nas normas internacionais.

A incorporação do princípio do interesse superior da criança na


Constituição de Angola, em conjunto com a adopção da Lei sobre a Protecção
e o Desenvolvimento Integral da Criança constituiu um passo importantíssimo
no objectivo do Governo de concretizar os princípios da CDC e da Carta
Africana na Lei Angolana.

Em Angola os serviços formais de protecção da criança encontram-se


fragmentados, com financiamento insuficiente e com ligações muito escassas
aos outros sectores. Os serviços concentram-se actualmente em Luanda e em
algumas capitais de província. Muitos serviços são inexistentes nas zonas
rurais, onde as questões de protecção das crianças são resolvidas por
estruturas comunitárias, como as igrejas, ONGs, líderes tradicionais e outros
intervenientes locais relevantes, incluindo redes de protecção da criança.

24
Extracto do Discurso do saudoso Presidente Agostinha Neto, por ocasião do 1 de Junho de 1979.

49
Duma maneira geral, o empenho do Governo de Angola em garantir os
Direitos da Crinça centra-se na criação e aprovação de progrmas, políticas e
instrumentos jurídicos, no qual destacmoas:

 A Constituição da República: Estabelece com pormenor um conjunto


de direitos recíprocos do Estado, da família e da sociedade, e declara
que “qualquer criança tem direito a atenção especial por parte da família,
sociedade e do Estado que, em estreita colaboração, devem assegurar
a plena protecção contra todas as formas de negligência, discriminação,
opressão, exploração e exercício abusivo da autoridade, quer no
contexto familiar, quer noutras instituições”. A Constituição integrou o
princípio do interesse superior da criança.
 Lei Contra a Violência Doméstica: As crianças são consideradas um
grupo protegido de acordo com esta Lei. Esta Lei penaliza a falta de
registo de nascimento de um bebé recém-nascido.
 Decreto-Lei sobre registo civil e documentos de identificação: Este
decreto declara o registo de nascimento gratuito para todas as crianças
com menos de cinco anos de idade.
 Código de Família: A Lei n.º 1/88, de 20 de Fevereiro, aprovou o
Código da Família angolano, regulando as relações familiares, os
direitos da criança, como, o estabelecimento da filiação, o exercício do
poder paternal, entre outros institutos correlacionados, como a adopção
e a tutela.
 Lei de Bases da Protecção Social: As crianças encontram-se
directamente protegidas em termos de acesso a cuidados de saúde,
nutrição e combate ao trabalho infantil.
 Lei Geral do Trabalho: Exige que o empregador assegure todas as
condições de trabalho indicadas para a idade, prevenindo todos os
riscos referentes à segurança, saúde e ensino.
 Lei do Sistema Nacional de Educação: A Lei n.º 13/01, de 31 de
Dezembro, estabelece o Sistema Nacional de Educação, que se realiza
através de um sistema unificado constituído por subsistemas. Os
subsistemas são de educação pré-escolar, de ensino geral, de ensino
técnico profissional, de formação de professores, de educação de
adultos e de ensino superior.
 Lei do Sistema Nacional de Saúde: A Lei n.º 21-B/92, de 28 de
Agosto, que estabelece o Sistema Nacional de Saúde, impõe ao Estado
a obrigação de promover e garantir o acesso de todos os cidadãos aos
cuidados de saúde nos limites dos recursos humanos, técnicos e
financeiros disponíveis (artigo 1.º, n.º 1), constituindo uma das linhas da
política nacional de saúde, o acesso a tratamento especial pelas
crianças, considerando que a infância e a maternidade estão sujeitas a
maiores riscos, beneficiando de medidas especiais.

50
 Registo Civil e Bilhete de Identidade: O Decreto n.º 31/07, de 14 de
Maio, estabelece a gratuitidade dos registos de nascimentos e de óbitos
até aos 5 anos de idade e para a concessão do bilhete de identidade
dos menores entre os 8 e os 11 anos.
 Lei Contra a Violência Doméstica: A Lei n.º 25/11, de 14 de Julho,
contra a violência doméstica, aplica-se aos factos ocorridos no seio
familiar ou outro que, por razões de proximidade, afecto, relações
naturais e de educação, tenham lugar, em especial nos infantários,
asilos, nos hospitais, nas escolas, nos internatos femininos ou
masculinos e nos espaços equiparados de relevante interesse
comunitário ou social (artigo 2.º) e visa reforçar a protecção à mulher
grávida e às crianças, garantindo os respectivos mecanismos de
assistência (artigo 4.º, alínea d)).
 Lei de Protecção e Desenvolvimento integral da Criança: Em Agosto
de 2012 foi aprovada a Lei n° 25/12 de 22 de Agosto sobre a Protecção
e Desenvolvimento Integral da Criança, com vista a materializar o
princípio constitucional de que os direitos da criança constituem um
direito fundamental, reforçado com compromissos políticos e sociais, de
carácter multissectorial, para promover e assegurar os direitos da
criança à sobrevivência, ao desenvolvimento, à participação e à
protecção, fazendo parte deste conjunto de medidas os designados “11
Compromissos”, que definem um conjunto de tarefas essenciais que
devem ser desenvolvidas a favor da criança.

Esta lei procura estabelecer o elo entre os vários diplomas que


concorrem para a promoção e defesa dos direitos das crianças, ao mesmo
tempo em que pretende dar caracter vinculativo às recomendações feitas no
quadro dos “11 Compromissos”.

51
3.2. Desenvolvimento de Políticas de Aumento das Competências
Familiares e Sensibilização da Sociedade sobre o Crime do Trafico de
Crianças.

Em Angola, a mortalidade materna é ainda muito alta, situando-se entre


400 e 450 óbitos maternos em cada 100 mil, enquanto a mortalidade infantil e
para menores de 5 anos é respectivamente de 116 e 194 por cada 1000
crianças nascidas vivas.25

Apesar dos avanços feitos em todos os campos em Angola desde que a


paz foi estabelecida em 2002, ainda existem grandes desafios para se
enfrentar, entre os quais o melhoramento do conhecimento e comportamentos
das famílias para assegurar a saúde, desenvolvimento e protecção das
crianças entre 0 e 5 anos, grupo alvo maiormente afectado pelo ainda precário
sistema de saúde, educação e protecção.

As competências familiares referem-se aos conhecimentos, atitudes e


práticas das famílias relacionadas com a saúde, nutrição, higiene, protecção,
afecto e estimulação do desenvolvimento integral da criança, na fase vital de
seus primeiros cinco anos de vida, altura em que dependem muito dos adultos
para sobreviverem, crescerem e atingir o desenvolvimento integral.

As competências familiares incluem práticas como a promoção da


saúde, comunicação, compreensão, atenção, amor, carinho, participação, lazer
de forma consistente, pois influenciam a vida adulta e garantem a segurança
física e emocional.

Através desse relacionamento saudável se edifica a personalidade,


adquirem valores, capacidade cognitiva, linguística, moral, física e psicomotora
e outras práticas mais organizadas para assegurar a saúde, alimentação
adequada, a não violência e valores de convivência social que permitam o
desenvolvimento humano sustentável e de uma sociedade próspera.

Por tanto, desenvolver uma estratégia de comunicação para as


competências familiares vai ter um impacto directo na salvação das vidas das
crianças e das mães, enquanto ela promove, por um lado a demanda de
serviços (consultas pré-natais, registo de nascimento, imunização de rotina,
etc) e por outro o conhecimento e inspira atitudes e práticas a nível familiar,
permitindo prevenir varias doenças e construir um ambiente familiar saudável.

Para promover estas práticas chaves para o desenvolvimento das


crianças, o Ministério da Família, enquanto coordenador do Compromisso n. 9
“Protecção Social e Competências Familiares”, em parceria com os ministérios
da Saúde, Assistência e Reinserção Social, Instituo Nacional da Criança,
UNICEF e vários organismos da sociedade civil entre as quais as igrejas com

25
Instituto Nacional de estatística – INE, 2011, pag. 26

52
mais influência em Angola, está a desenvolver um plano de acção anual que
visa implementar uma estratégia com diferentes actividades na área da
comunicação para a mudança de comportamento e promover práticas de
relacionamentos saudáveis nas famílias.

Com base no plano bienal do Conselho Nacional da Criança - CNAC, a


estratégia de comunicação para a promoção das competências familiares foi
desenvolvida seguindo os principais eixos estratégicos:

 Advocacia para criação do comité técnico intersectorial composto por


instituições do Governo e as igrejas mais influentes em Angola;
 Analises dos determinantes dos comportamentos, elaboração e
validação participativa das mensagens com a comunidade;
 Produção de materiais gráficos multimédia para os activistas e as
famílias;
 Formação de activistas, mobilização comunitária e monitoria nacional,
provincial e municipal para chegar a escala em todos os niveles.

Depois de ter levado a cabo um processo de advocacia a nível nacional


que permitiu o engajamento das Igrejas mais influentes em Angola e ter
elaborado de forma participativa um pacote de materiais de comunicação
compostos por cartilhas para famílias e activistas e produtos audiovisuais como
músicas e minidramas radiofónicos, UNICEF vai continuar apoiar o MINFAMU
e o comité intersectorial na formação de activistas das igrejas e na divulgação
massiva das mensagens elaboradas através de parcerias a ser elaboradas
com a Rádio Nacional de Angola e as Rádios Provinciais.

Além disso, há a necessidade de desenvolver um detalhado programa


de monitoria, avaliação e documentação de boas pratica que ajude a
direccionar e a corrigir eventuais fraquezas na implementação do programa.

Porém, nesses programas que prevem a elaboração da estratégia em


momento algum se fala especificamente da prevenção e combate ao tráfico de
crianças, o que mais uma vez denota o fraco conhecimento ou interesse em
matéria de tráfico de pessoas, especialmente mulheres e crianças.

53
3.3. Promover o Direito de Participação da Criança.

A promoção do Direito de Participão da Criança deve ter como base o


previsto na Convenção dos Direitos da Criança. Esta Convenção implica, para
os Estados parte, uma obrigação de respeitar um determinado conjunto de
direitos, nela previstos, a todas as crianças que se encontrem sujeitas à
respectiva jurisdição (mesmo que não sejam seus nacionais).

A partir da ratificação da Convenção, a orientação e os conselhos


prestados pelos pais, membros da família alargada ou da comunidade,
designadamente no seguimento de costumes locais, serão os adequados ao
exercício dos direitos que são reconhecidos às crianças pela Convenção e
terão em atenção o desenvolvimento das capacidades destas (cfr. art. 5).

A Convenção sobre os Direitos da Criança consagra 4 grande princípios,


nomeadamente:

- Não discriminação ( art. 2)

- Respeito pelo superior interesse da criança (art. 3)

- Direito à vida, à sobrevivência e ao desenvolvimento (art. 6)

- Respeito pelas opiniões da criança (art. 12)

É este último direito que procuraremos, agora, analisar.


Fundamentalmente previsto no art. 12 da Convenção, este direito consiste em
se garantir à criança, com capacidade de discernimento, o direito de exprimir
livremente a sua opinião sobre as questões que lhe respeitem, sendo
devidamente tomadas em consideração as opiniões da criança, de acordo com
a sua idade e maturidade.

Para este fim, é assegurada à criança a oportunidade de ser ouvida nos


processos judiciais e administrativos que lhe respeitem, seja directamente ou
indirectamente através de representante ou de organismo adequado.

O Comité dos Direitos da Criança, desde cedo, considerou que o art. 12


da Convenção continha um princípio geral de fundamental importância,
relevante para os diversos aspectos de implementação da Convenção e de
interpretação das suas disposições.

Por outras palavras, o art. 12 não estabelece propriamente um direito à


autodeterminação da criança, mas sim o envolvimento desta no processo de
tomada de decisão em matérias que lhe digam respeito. Esse envolvimento
deve ser naturalmente, progressivo, de acordo com a crescente capacidade da
criança para tomar decisões, ou nelas participar.

54
Nessa medida, o direito à participação não é susceptível de ser
previamente definido, nem quanto ao seu âmbito, nem quanto ao seu grau de
concretização. É, assim, um direito em permanente evolução, ou mesmo em
busca de seu próprio conteúdo, como a própria criança.

As referências à participação da criança não se esgotam, porém, no art.


12. Outras referências a esta participação se poderão encontrar noutros
artigos da Convenção:

 art. 9, nº.2 – direito a ser ouvida em processos relativos à separação dos


seus pais;
 art. 21, alínea a – direito a ser ouvida e a dar o seu consentimento em
casos de adopção;
 art. 37, alínea d – direito a impugnar a legalidade da sua privação de
liberdade perante um tribunal ou outra autoridade competente;
 art. 40 nº. 2, alínea b, iv – direito a tomar uma parte activa no processo
em que seja suspeita ou acusada de ter infringido a lei penal,
designadamente a interrogar ou fazer interrogar as testemunhas de
acusação e a obter a comparência e o interrogatório das testemunhas
de defesa em condições de igualdade.

Direito à participação e direito à liberdade de expressão

Será o direito à participação apenas uma manifestação do direito à


liberdade de expressão, previsto no art. 13 da Convenção?

Muito embora próximos, os dois direitos são, com efeito,


complementares. O art. 13 prevê a liberdade, para a criança, de exprimir as
suas opiniões, bem como a liberdade de procurar, receber e expandir
informações e ideias de toda a espécie.

O art. 12, por seu lado, aplica-se em todos os casos em que a criança
possa ser afectada, e inclui particularmente não só o direito de a criança ser
ouvida, mas também o de as suas opiniões serem tomadas em consideração
na resolução dos problemas que a afectam.

Há aqui, por isso, uma comunicação bi-direccional, o que implica, por


parte do adulto, ou das entidades com que a criança dialoga uma maior
responsabilização destes de ouvirem e ponderarem as ideias e sugestões que
esta lhes transmite, antes de tomarem uma decisão que a afecte.

O direito à participação e as tradições culturais específicas dos Estados


parte

O direito à participação pode, por vezes, conflituar com práticas


tradicionais e costumeiras, atitudes enraizadas em diversos sectores da
população, tradições culturais específicas dos Estados parte na Convenção.

55
Tais práticas podem ter particular expressão na escola, família ou em certas
comunidades rurais.

Apesar disso, o Comité dos Direitos da Criança não isenta o Estado


parte da responsabilidade de tudo fazer para obviar a este tipo de práticas, se
estas se mostrarem contrárias à Convenção, quer através da adopção de
legislação adequada, quer de acções de sensibilização de grupos específicos e
da família, quer ainda de acções de informação levadas a cabo através dos
meios de comunicação social, visando atingir o público em geral.

Particularmente visadas são, por exemplo, atitudes como as de que a


“criança deve ser vista e não ouvida”, de que “as crianças são propriedade dos
pais”, ou de que “as crianças que expressam os seus pontos de vista são
insolentes e impertinentes”.

Idade mínima para as crianças expressarem os seus pontos de vista

A Convenção não estabelece qualquer idade mínima neste domínio.


Nessa medida, desde que a criança seja capaz de ter e formar opiniões, ainda
que de forma menos esclarecida, deve ser ouvida.

Importa, contudo, distinguir entre a capacidade para formar opiniões, por


um lado, e a capacidade de expressá-las de forma adequada (por exemplo, no
caso de certas doenças ou de pessoas com necessidades especiais, em que
há maiores dificuldades de expressão).

Sublinha-se, ainda, que o direito a ser ouvido não implica o direito a que
a sua opinião venha a ser aceite, mas apenas que essa opinião seja tomada
em consideração.

O Comité dos Direitos da Criança intervém criticamente sempre que se


dá conta de que um Estado parte estabeleceu uma idade mínima para a
audição de crianças (por exemplo, em processos judiciais).

A este respeito, insiste na necessidade de as crianças serem ouvidas


mesmo antes dessa idade, desde que apresentem para o efeito a necessária
maturidade (que pode ocorrer antes da idade legalmente estabelecida),
devendo tal ocorrer num ambiente amigável e propício.

Direito de as crianças expressarem livremente a sua opinião em assuntos


que as afectem

Uma consequência deste princípio é o de que não haverá áreas, mesmo


que tradicionalmente reservadas à autoridade dos pais e da família, ou à
intervenção de adultos, que devam ficar, à partida, excluídas da participação de
crianças.

56
Essas opiniões podem, por outro lado, ter lugar em todas as matérias
(de âmbito familiar, comunitário, regional, nacional ou internacional) que
possam afectar a criança, mesmo que se trate de matérias não previstas ou
contempladas na Convenção.

Direito a não emitir opinião

O direito a expressar livremente as suas opiniões engloba igualmente o


direito, para a criança, de não emitir qualquer opinião, se esta assim o desejar.

Direito a que as opiniões da criança sejam tomadas em consideração de


acordo com a sua idade e maturidade

Esta formulação implica uma obrigação activa de escutar as opiniões da


criança e de ponderá-las seriamente.

Ter-se-á, naturalmente, de atender ao “desenvolvimento das


capacidades” da criança, previsto no art. 5 da Convenção, e utilizar
simultaneamente os critérios de idade e maturidade agora referidos. O recurso
apenas a um deles (idade ou maturidade) não é considerado suficiente.

Audição em processos judiciais e administrativos

O Comité tem interpretado latamente o direito de audição em processos


judiciais e administrativos.

Quanto aos primeiros, abrangem:

 Acções cíveis (divórcio ou separação dos pais, obrigações alimentares,


adopção, exercício de poder paternal, mudança de nome ou de
domicílio, definição de orientações em matéria educativa ou religiosa,
etc.);
 Processos criminais (relativos às próprias crianças ou aos seus
pais);ou outras acções (que conduzam a decisões em matéria de
nacionalidade, asilo, concessão do estatuto de refugiado, etc.), incluindo
acções perante tribunais internacionais (por exemplo, em que esteja em
causa o problema da reunificação familiar).

Relativamente a processos administrativos, poder-se-á dizer que estes


cobrem áreas tão diversas quanto às relativas, por exemplo, a educação,
saúde, planeamento, ambiente, segurança social, protecção de crianças,
emprego e administração de justiça juvenil.

Por outras palavras, todas as situações em que uma decisão da


Administração possa vir a afectar a criança.

Uma palavra, ainda, para dar conta da necessidade de facilitar o exercício


deste direito através da concretização de iniciativas diversas, como a

57
adequação física dos locais em que a criança deva intervir (por exemplo, um
tribunal), tornando-os mais amigáveis, a escolha das roupas que os operadores
judiciários deverão usar (evitando trajes demasiado formais, como tal,
susceptíveis de afectar negativamente a livre expressão das crianças), a
utilização de sistemas de videoconferência ou de salas de espera separadas, a
particular preparação de crianças que deverão intervir como testemunhas, etc.

Direito à informação – pressuposto do direito à participação

Sem adequada informação sobre as opções à sua disposição e as


respectivas consequências, uma criança não está em condições de formar a
sua opinião.

O Comité tem sublinhado que o direito à participação deve estar


contemplado em disposições de direito interno de cada Estado parte, sob pena
de poder não ser suficientemente eficaz.

O Comité tem-se referido à necessidade de realização, pelos Estados,


de acções diversas em matéria de educação (por exemplo, através da inclusão
do estudo da Convenção nos curriculum escolares) e formação,
designadamente no âmbito de programas que se destinem a grupos
profissionais que mais de perto trabalham com crianças (magistrados,
professores, pessoal de serviços de saúde, elementos de forças policiais, etc.).

O que acabamos de nos referir nos parágrafos anteriores é uma


transcrição integral do texto apresentado pelo José Manuel Santos Pais,
apresentado na Sessão Comemorativa do XV Aniversário da Convenção dos
Direitos da Criança das Nações Unidas, promovida pela Comissão Nacional de
Protecção das Crianças e Jovens em Risco (CNPCJR), em Lisboa, aos 22 de
Novembro 2004.

A intensão da trainsncrição integral do texto é de contribuir na


divulgação da mesma, reconhecendo que a sociedade angolana necessita
conhecer e comprender a dimensão do Direito de Participação da Criança no
âmbito da Convenção sobre os Direitos da Criança.

Em Angola, como anteriormente nos referidos, a participação da criança


tem sido bastante tímida, sobretudo as referentes às iniciativas de participação
no processo de discussão dos seus direitos, formulação e execução das
políticas voltadas ao seu desenvolvimento, tais como fóruns, assembléias,
grêmios estudantis, etc;

Não existe um programa de informação e capacitação no nível das


crianças acerca dos seus direitos e dos mecanismos de protecção relacionado
a violência contra a criança, especialmente no âmbito da educação, saúde,
assistência social e família. O INAC, com as debelidades e dificuldades que os
caraterizam, prpvocadas pela falta de orçanento para levar avante as suas

58
acções e o reduzdo número de técnicos nos serviços provinciais, tem feito um
grande esforço de promover a participação da criança.

Torna-se imperativo trabalhar para combater a cultura de ver a criança


como objecto em detrimento de sujeito de direitos.

Para além do que foi referenciado, um dos objectivos de promover a


participação da criança é porque ela é um meio que contribui para a formação
da criança e para odesenvolvimento dos seus valores, atitudes, habilidades e
capacidades, para o exercício da cidadania e para a actuação social desde a
infância. Uma criança informada é um potecial ator na prevenção e combate ao
tráfico de menores.

59
3.4. Ratificação de Instrumentos Legais Internacionais de Protecção à
Criança.

No plano de proteção internacional dos direitos humanos, Angola


ratificou os principais tratados. Os Tratados Internacionais ratificados, além de
criarem obrigações para Angola perante a Comunidade Internacional, também
criam obrigações internas, gerando novos direitos, que passam a contar como
uma última instância internacional de decisão quando todos os recursos
disponíveis falharem na realização da justiça.

Os principais instrumentos, acordos, convenções, protocolos, pactos e


declarações internacionais para direitos humanos e tráfico de pessoas, do qual
Angola é parte26.

 Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos aos 10 de Abril de


1992;
 Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e
Políticos aos 10 de Abril de 1992;
 O Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais
aos 10 de Janeiro de 1992.
 A Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
contra a Mulher (CEDAW), aos 17 de Setembro de 1986;
 Protocolo Adicional à Convenção para a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW), aos 25 de Junho
de 2007;
 Convenção sobre os Direitos da Criança, ratificada pela Resolução nº
20/90 de 10 de Novembro, da Assembleia do Povo;
 Protocolos Facultativos à Convenção sobre os Direitos da Criança
Relativos ao Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados e à Venda
de Crianças, Prostituição e Pornografia Infantis (Resoluções nº 21 e
22/02, da Assembleia Nacional);
 Carta Africana dos Direitos e Bem Estar da Criança aos 11 de Abril de
1992;
 Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos aos 2 de Março de
1990;
 Protocolo a Carta Africa dos Direitos do Homem e dos Povos;
 Protocolo a Carta Africa dos Direitos do Homem e dos Povos relativo
aos Direitos da Mulher em 1 de Março de 2007;
 As Regras Mínimas para a Administração da Justiça Juvenil das Nações
Unidas, (Regras de Beijing), em Novembro de 1990;
 A Convenção de Genebra sobre o Direito Humanitário dos Conflitos
Armados;
 A Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados;
26
Relatório da Estratégia Nacional de Combate a Violência contra a Criança, 2011, pag.33.

60
 A Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher aos 17 de Setembro
de 1986;
 O Protocolo Relativo aos Estatutos dos Refugiados;
 A Convenção Relativa aos Aspectos Específicos dos Problemas dos
Refugiados em África;
 A Convenção N.º 6 da OIT sobre o Trabalho Nocturno das Crianças;
 Convenção N.º 182 sobre as Piores Formas de Trabalho das Crianças
aos 17 de Junho de 1999;
 Convenção N.º 138 sobre a idade mínima de adesão ao emprego aos 17
de Junho de 1999

O tráfico de pessoas é um problema que ultrapassa a esfera nacional de


um Estado, pois se trata de facto que disperta interesse de toda a comunidade
internacional, considerando que, geralmente, há um deslocamento da vítima de
um país para outro, além dos países de trânsito, que servem de ponto
intermediario até que se chegue ao local de destino.

61
3.5. Promover o Progama de Combate a Fome e a Pobreza.

A celebração do acordo de paz em Abril de 2002 trouxe para Angola


uma nova luz e esperança sobre o seu futuro. Neste quadro, o Governo de
Angola desenvolveu a sua Estratégia de Combate à Pobreza para garantir que
todos possam vir a beneficiar, de forma equitativa, do processo de
reconstrução e desenvolvimento nacional que agora se inicia27.

O objectivo global da Estratégia de Combate a Fome e a Pobreza


consiste na consolidação da paz e da unidade nacional através da melhoria
sustentada das condições de vida do cidadão angolano mais carenciado e
vulnerável, motivando-o a participar activamente no processo de
desenvolvimento económico e social.

Específicamente a Estratégia de Combate a Fome e a Pobreza


propõem-se:

(i) Apoiar o regresso e a fixação dos deslocados internos, refugiados e


desmobilizados para zonas de origem ou reassentamento, integrando-os de
forma sustentável na vida económica e social;

(ii) Garantir as condições mínimas de segurança física do cidadão


através da desminagem, do desarmamento e da garantia da lei e da ordem por
todo o território nacional,

(iii) Minimizar o risco da fome, satisfazer as necessidades alimentares


internas e relançar a economia rural como sector vital para o desenvolvimento
sustentado;

(iv) Controlar a propagação do VIH/SIDA e mitigar o impacto nas


pessoas vivendo com VIH/SIDA e suas famílias,

(v) Assegurar o acesso universal ao ensino primário, eliminar o


analfabetismo e criar as condições para a protecção e integração de
adolescentes, jovens e pessoas com necessidades educativas especiais,
garantindo, sempre a equidade de género;

(vi) Melhorar o estado de saúde da população, em especial através do


aumento, do acesso a cuidados primários de saúde de qualidade e do controlo
da propagação do VIH/SIDA,

(vii) Reconstruir, reabilitar e expandir as infraestruturas básicas para o


desenvolvimento económico, social e humano;

27
Ministério do Planeamento, 2003, pag.15

62
(viii) Valorizar o capital humano nacional, promover o acesso a emprego
e autoemprego e dinamizar o mercado de trabalho garantindo a protecção dos
direitos dos trabalhadores;

(ix) Consolidar o Estado de Direito, tornar mais eficiente à prestação da


Administração Pública, aproximando-a mais do cidadão e das suas
necessidades, e assegurar transparência e responsabilização na formulação de
políticas e na gestão dos recursos públicos;

(x) Criar um ambiente de estabilidade macro-económica que evite


desequilíbrios nos mercados (prejudiciais para os mais pobres) e estimule o
crescimento económico assegurando uma redução sustentável da pobreza.

Neste quadro, o Governo de Angola estabelece como meta global a


redução da incidência da pobreza do nível actual de 68 por cento, para metade
até 2015. Atingir esta meta apenas será apenas possível com muito esforço
colectivo e vigoroso de Governo do sector privado e da sociedade angolana em
geral contando com o apoio, complementar dos parceiros internacionais
Bilaterais, multilaterais e organizações não governamentais.

As seguintes metas genéricas foram estabelecidas com referência a


alguns dos objectivos acima enumerados:

(i) Inserir na sociedade os actuais 3.8 milhões de deslocados, 293.000


refugiados e 160.783 desmobilizados de guerra e seus dependentes até 2006;

(ii) Desactivar as minas anti-pessoal e outros engenhos explosivos em


todo o território nacional com potencial agrícola e próximo, de zonas
habitacionais até 2006,

(iii) Aumentar de forma sustentável a produção agrícola interna para


níveis que assegurem a segurança alimentar para toda a população;

(iv) Assegurar o conhecimento, do VIH/SIDA e das suas formas de


transmissão por 85 por cento da população até 2006;

(v) Garantir o acesso à escolaridade primária obrigatória de todas as


crianças até 2015;

(vi) Erradicar o analfabetismo de adultos até 2015;

(vii) Assegurar a cobertura universal de vacinações contra as principais


doenças infantis (sarampo, DTP3, BCG e Pólio3), até 2015;

(viii) Reduzir a taxa de mortalidade de menores de cinco anos em 75 por


cento até 2015;

(ix) Reduzir a taxa de mortalidade materna em mais de 75 por cento, até


2015,
63
(x) Reabilitar e fazer trabalhos de manutenção periódica na rede
nacional de estradas que permitam a circulação (15.500 km);

(xi) Melhoria da operacionalização dos Caminhos de Ferro, através da


implementação de Programa de Reabilitação dos Caminhos de Ferro de
Angola.

(xii) Aumentar o acesso à água potável para 76 por cento nas áreas
urbanas e 48 por cento nas áreas rurais, até 2006;

(xiii) Aumentar o acesso a sistemas de saneamento para 79 por cento


nas áreas urbanas e 32 por cento nas áreas rurais, até 2006;

(xiv) Aumentar a proporção de agregados familiares com energia


eléctrica em casa para 25 por cento, até 2006,

(xv) Disponibilizar habitação social para as famílias vivendo em


situações mais precárias (11.500 famílias em Luanda e 17.000 famílias nas
províncias), até 2006,

(xvi) Assegurar o registo de nascimento e a emissão do Bilhete de


Identidade a todo a cidadão até 2015;

(xvii) Reduzir e estabilizar a taxa de inflação média anual em torno dos


10 por cento, até 2006.

Grupos-alvo

Constituem grupos-alvo da Estratégia todo o indivíduo cujo rendimento


seja inferior ao estabelecido como linha da pobreza, objectivamente
qualificáveis como pobres. Contudo, para além de ser um problema económico
a pobreza é também um problema de inserção do indivíduo na sociedade. Há
assim, camadas da população que, pela sua vulnerabilidade no meio em que
se encontram necessitam de uma atenção e protecção especial. Incluem-se
nos grupos-alvo:

(i) Os deslocados, internos e refugiados no estrangeiro, os militares e


paramilitares, desmobilizados (inclusivamente jovens e crianças) e os seus
dependentes,

(ii) As crianças, adolescentes em situação de exclusão e os jovens,

(iii) Os portadores de deficiências físicas ou psíquicas

(iv) Os idosos;

(v) A mulher.

64
A implementação rigorosa dessa estratégia poderá reduzir o índice de
bulnerabilidade das famílias e consequentemente as crianças estarão mais
bem protegidas contra o tráfico de pessoas.

As crianças poderão estar mais nas escolas em detrimento das ruas,


vendeno produtos perigosos para a sua saúde e envolvidos no trabalho infantil.

65
3.6. Refletir sobre o Sistema de Protecção da Criança em Angola e
Desenvolver as Capacidades Institucionais.

A temática da protecção da criança é complexa e deve ser analisada em


paralelo com uma série de questões. Prevenir maus-tratos, violações e
responder a preocupações relacionadas com a protecção da criança requer
uma acção exaustiva e sustentável. É um sector especializado que lida com
assuntos sensíveis, por vezes estigmatizados (como a violência doméstica e o
abuso sexual), e com violações que geralmente são social e culturalmente
aceites (como os castigos corporais).

É um sector que requer não apenas competências especializadas, mas


também um trabalho multidisciplinar com a assistência social, educação, saúde
e justiça, com ligações no sector das finanças, emprego, habitação e
planeamento.

Apesar de várias entidades ou organizações terem desenvolvido a sua


definição de sistemas de protecção e aperfeiçoado as suas abordagens e
conceitos, há unanimidade em afirmar que o sistema de protecção da criança é
composto por organizações, estruturas, pessoas, actividades e recursos, seja
num ambiente formal ou informal, com o principal intuito de prevenir e
responder à violência, abuso, exploração e negligência das crianças.

Os sistemas de protecção da criança focam violência, necessidades e


vulnerabilidades múltiplas, uma vez que as crianças vivenciam mais do que
uma destas situações de cada vez. Isto acontece não apenas em casos de
emergência, mas também em situações mais estáveis.

Esta abordagem dos sistemas de protecção holística tem em


consideração a situação da criança como um todo, evitando respostas
singulares que não resolvem os riscos múltiplos ocorridos com crianças. As
abordagens deverão priorizar a prevenção e levar em conta muito seriamente
os factores económico, social, político, ambiental e cultural.

O sistema de protecção da criança centra-se preferencialmente na


criança no seio da família, expandindo-se de forma a incluir mecanismos de
cuidados pela família alargada e pessoas chegadas à família, bem como por
autoridades tradicionais e estruturas de mediação incluídas na comunidade.

Em Angola, um amplo conjunto de actores e organizações não


governamentais, comunitárias e religiosas, desempenham um papel
fundamental na protecção da criança, desde trabalho ao nível comunitário a
campanhas de promoção, educação e comunicação a nível nacional. Por vezes
são os principais intervenientes em serviços estruturados de protecção da
criança, frequentemente complementando ou partindo de estruturas e práticas
presentes na comunidade.

66
Os elementos mais “formais” dos sistemas de protecção da criança
correspondem às autoridades e instituições governamentais. O principal
objectivo destes intervenientes é criar condições favoráveis para os pais e as
comunidades cuidarem e protegerem as crianças.

Funções formais incluem a ratificação dos mais importantes


instrumentos jurídicos regionais e internacionais; o desenvolvimento de
políticas, legislação e regulamentos relacionados com a protecção da criança,
bem como a orçamentação, acompanhamento e avaliação; segurança e
justiça; comunicação para mudanças sociais e de comportamentos e um amplo
conjunto de serviços de protecção, prevenção e de resposta a situações
críticas.

Em Angola, introduziu-se recentemente o conceito de sistema de


protecção da criança através de nova legislação, tendo o Conselho Nacional da
Criança designado o seu coordenador.

Artigo 53º da Lei 25/12, de 22 de Agosto, Lei de Protecção e


Desenvolvimento Integral da Criança, define: que “O Sistema de Protecção e
Desenvolvimento Integral da Criança é constituído pelo conjunto de leis,
instituições e serviços que concorrem para a salvaguarda e a promoção dos
direitos da criança.”

A funcionalidade do sistema de protecção a crinaça poderá permitir que


haja maior intervenção na identificação e apoio as prováveis vítimas de tráficos.

67
3.7. Criar Programas Específicos de Luta contra o Tráfico de Crianças e
Prever a Disponibilização de Fundos.

O programa específico de luta contra o tráfico de crianças, que se


pretende criar, e que deve prever a disponibilização de fundo, para responder
as exigências internacionais, deve em primeiro lugar primar pelo respeito da
legislação angolana, que tem à cabeça a Constituição da República de Angola
e pelos instrumentos internacionais de protecção à criança, devendo ser
transversal e intersectorial, convertendo-se em acções concretas. As acções a
serem destacados no programa devem estar em armonia as grandes linhas
desenvolvidas pelo Governo.

O Plano de Acção deve ser apoiado por importantes Programas,


designadamente:

1. Observatório Nacional da Criança – um projecto que decorre


das atribuições estatutárias, com vista a definir com clareza as linhas principais
de acção, os sistemas e os instrumentos a ser desenvolvidos para facilitar a
missão do INAC na recolha e gestão de informação sobre a criança para
alimentar, de forma sustentável, o Sistema de Indicadores para Criança
Angolana, (SICA), dessiminar as políticas do Executivo Angoano no contexto
da Estratégia Nacional de Prevenção e Mitigação da Violência contra a Criança
e exercer a advocacia em prol dos interesses da criança angolana, com base
em evidencias e em Direitos da Criança.

2. Fundo Nacional da Criança – que se propõe especificamente a


captar recursos provenientes de diferentes fontes, com vista ao financiamento
de actividades que se desenvolvem em obediência ao princípio do interesse
superior da criança, actuando como fiel depositário de doações do sector não
governamental.

3. SOS Criança - Uma das ferramentas chave para advogar os


direitos da criança numa visão abrangente e holística, é a instituição de um
serviço de denúncia, através duma linha de comunicação “SOS Criança”, que
se traduz num sistema de atendimento telefónico permanente das chamadas a
efectuar por crianças que estejam na eminência de risco ou vítimas do tráfico.

4. Plano de Acção e Intervenção contra a Exploração Sexual


Comercial de Crianças - aprovada pelo Conselho de Ministros através da
Resolução n.º 24/99 de 20 de Outubro, sendo uma das finalidades das vítimas
do tráfico.

5. Estratégia Nacional de Combate a Pobreza – que tem como


objectivo geral a consolidação da paz e da unidade nacional através da
melhoria sustentada da melhoria das condições de vida do cidadão angolano

68
mais carenciado e vulnerável motivando-o a participar activamente no processo
de desenvolvimento económico e social.

6. Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional –


que contribui para que todos os angolanos tenham, a todo o momento,
disponibilidade de alimentos com qualidade e variedade adequadas, o acesso
físico e económico a esses alimentos que lhes permita contribuir para o
desenvolvimento humano, económico e social de Angola.

7. Redes de Protecção e Promoção dos Direitos da Criança –


que são espaços de reflexão e trabalho conjunto de todos actores engajados
no cumprimento dos direitos da criança constituídas em todas as províncias e
em fase de expansão até ao nível comunitário de base.

A execução das acções do Programa deve ser garantida por uma


efectiva coordenação das intervenções de estruturas do Governo e de todos os
actores sociais envolvidos na temática de protecção e promoção dos direitos
da criança. Só a acção combinada e coerente dos diferentes actores e níveis
de intervenção pode criar as condições de uma verdadeira protecção da
criança contra o tráfico de pessoas.

No âmbito do programa devem ser definidas as seguintes acções:

 Criada uma base de dados rotineiros sobre tráfico de criança;


 Coordenar o processo de realização de estudos quantitativos sobre o
tráfico de criança em intervalos regulares;

O papel de Observatório, que nos referimos no ponto 2, deve ser


entendido como a capacidade de analisar e interpretar informações, descrever
as tendências e a evolução da situação do tráfico de criança em Angola, bem
como produzir relatórios regulares com o propósito de alimentar debates com
base em evidencias.

A visão da criação do Observatório centra-se numa estratégia de


concretizar resultados específicos por etapas. O trabalho de cada etapa será
avaliado e o trabalho a seguir programado em função dos resultados
alcançados e capacidades adquiridas na etapa anterior.

A materialização da criação do observatório de obedecer a realização de


acções em 3 etapas por três anos:

a) A primeira etapa – reaização de acções que permitam o


entendimento da dimensão do problema, os factores de risco e os que
protegem a criança, no contexto pós guerra em Angola;

b) A segunda etapa - trabalhar na vertente de respostas adequadas


que resutem na mehoria da vida das crianças;

69
c) A terceira etapa – trabalhar no estabelecimento dum sistema
integrado de gestão de informação, das respostas sociais e dos resultados
correspondentes.

Papel dos intervenientes no programa

Sendo transversal e intersectorial o programa de Acção para a sua


implementação tem como um dos objectivos, a definição do papel de cada um
dos intervenientes na Prevenção e Combate ao tráfico de Criança,
nomeadamente as instituições do Estado, do Executivo Central, as autoridades
locais, a sociedade civil, o sector privado e os organismos internacionais e
agências dos sistema das Nações Unidas

a) Papel do Estado - Assegurar que a prevenção, protecção e


promoção dos direitos sejam asseguradas à todas as crianças em Angola;

b) Papel da Sociedade Civil - Apoiar as instituições do Estado a


todos os níveis na implementação das políticas e programas.

c) Papel do Sector Privado - É extremamente importante o papel do


Sector Privado na implementação na execução das acções do Plano,
assumindo responsabilidades na:

 Realização de financiamentos para as políticas definidas no programa,


que não tenham cobertura no Orçamento Geral do Estado, após
negociações em termos de respeito pelas lei e pelos interesses
privados;
 Contribuir para o desenvolvimento social nas áreas onde as empresas
operam, a exemplo de criação de espaços de lazer (parques infantis),
recreação e desporto (recintos de jogos), lúdicos e de aprendizagem
(bibliotecas, syber café), etc.

e) Papel de algumas Instituições e Agências da Nações Unidas - As


Instituições Internacionais e as Agências das Nações são parceiros relevantes
do Estado no quadro dos direitos da criança, o seu papel no âmbito do
programa é o seguinte:

 Assegurar a assistência técnica e mobilização de recursos financeiros


para a implementação de acções;
 Apoiar tecnicamente as acções do mecanismo de implementação do
programa, nomeadamente no reforço das capacidades institucionais,
formulação de programas, análise de sistemas e avaliação de
resultados.

70
3.8. Punição.

Todas as actividades relacionadas com o tráfico de pessoas, incluindo a


tentativa de cometer uma infracção, organizar ou mandar outras pessoas
cometerem uma infracção, ser cúmplice ou de alguma forma ouxiliar ou deichar
de agir perante uma infracção, devem ser punidos criminalmente28.

Além disso, todos os infractores envolvidos em actividades relacionadas


com o tráfico devem ser alvo de processo judicial, quer sejam empregadores,
mediadres, angariadores ou clientes.

Os funcionários públicos, tais como agentes de controlo de fronteiras,


membros das foças policiais, funcionários de departamentos de emissão de
documentos, professores, trabalhadores de organizações humanitárias, líderes
comunitários e trabalhadores de empresas de transportes, envolvidos em ou
cúmplice de actividades de tráfico devem ser igualmente responsabilizados e
alvo tanto de processo disciplinar administrativo como de processo judicial.

Perante tal sitação, os códigos penais devem prever penas severas no


caso de a vítima ser criança, refletindo esse prinípio na definição das penas
mínimas obrigatórias. Aqueles que exploam e pagam por serviços sexuais com
menores devem enfrentar sanções penais, independentemente de conhecer ou
não a idade da criança.

No plano de proteção internacional dos direitos da criança, Angola


ratificou os principais tratados. Os Tratados Internacionais ratificados, além de
criarem obrigações para Angola, perante a Comunidade Internacional, também
criam obrigações internas, gerando novos direitos, que passam a contar com
uma última instância internacional de decisão quando todos os recursos
disponíveis em Angola falharem na realização da justiça.

O tráfico de mulheres favorece uma ampla violação dos direitos


humanos, normalmente traficadas para serem exploradas sexualmente. Elas
são freqüentemente torturadas, sexualmente abusadas, estupradas. Costumam
ter seus documentos e passaportes apreendidos e têm que pagar para obtê-los
de volta, o que raramente conseguem vivendo presas, reduzidas à condição de
escravas.

A definição do Protocolo da Convenção de Palermo é bastante ampla e


abrange as mais diversas atividades e finalidades envolvidas no tráfico de
pessoas, em especial de mulheres.

Os Estados-Parte devem desenvolver todos os esforços possíveis para


prevenir, punir e erradicar o tráfico, além de garantir a segurança física das
vítimas enquanto se encontrarem em seu território e de assegurar que o seu

28
Manual para Parlamentares, 2005, pag. 32

71
sistema jurídico contenha medidas que ofereçam às vítimas de tráfico de
pessoas a possibilidade obter indemnização pelos danos sofridos, mediante a
condenação dos agentes responsáveis pelo tráfico.

De acordo com o protocolo, quando se tratar de tráfico de crianças,


basta apenas o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o
acolhimento para a caracterização de tráfico, sem a necessidade de comprovar
ameaça, uso de força, rapto fraude, engano e as demais formas previstas no
artigo 30 do Protocolo, ou seja, há uma presunção do uso de meios ilícitos que
favorece as crianças. Nos termos do Protocolo, criança significa qualquer
pessoa, menina ou menino, com idade inferior a dezoito anos.

Concordamos que as circuntâncias agravantes, que implicam penas


mais severas devem incluir o tráfico envolvendo instituições ou autoridade
públicas, grupos criminosos organizados, pessoas em posições de autoridade
relativamente às crianças (tais como responsáveis escolares, pessoas
encarregues de proteger as crianças ou de garantir o bem estar público em
geral).

72
3.8.1. Promover o Cumprimento das Leis.

O quadro jurídico que é a base legal para a realização dos direitos da


criança é conformado por uma série de instrumentos jurídica nacional e
internacional.

A Constituição da República de Angola garante o respeito e a protecção


da pessoa e sua dignidade humana, dando absoluta prioridade à protecção da
criança. Porém, o Código Penal em vigor é o antigo Código português de 1886.
Este não contempla o crime de tráfico de pessoas. Para que os autores desse
crime sejam punidos terá de se recorrer a outras tipologias, que quanto muito
poderá concorrer cumulativamente na acção penal, sendo que nem todas as
formas de exploração ilícita das pessoas estão contempladas, como é o caso
da escravatura.

O Estado angolao está a elaborar uma nova proposta do código Penal,


que no meu entender, também não especifica o crime de tráfico, tal como o
previsto no conceito do Protocolo de Palermo. Assim, apresentamos aqui
alguma contribuição para introdução da referida proposta29.

Livro I – Parte Geral – Capítulo Único

Artº 17º - Imputabilidade em Razão da Idade.

Sugerimos que se mantenha a idade mínima de imputabilidade na faixa


etária de 16 – 18 anos, podendo responder integralmente e em termos
diferentes das responsabilidades dos maiores de 18 anos, com vista a protê-la
no quadro da observância do exposto na Lei nº 9/96, até porque a maioria dos
Países Membros das Nações Unidas subscritores da Convenção sobre os
Direitos da Criança, têm intenções de aumentar a idade mínima nesta matéria.

Título III – Capítulo V – Secção II

Artº 30º - Causas que Excluem a Ilicitude.

Sugerimos acrescentar o nº 3 ao artigo, com a seguinte redação: “Os


factos referidos nas alíneas b), c) e d), não incluem as práticas que lesem a
integridade física, moral e psicológica da criança.

Livro II – Parte Especial – Capítulo II

Arº 157º - Maus Tratos a Menores, Incapazes ou familiares.

Dar uma certa relevância às práticas culturais, casos de feitiçaria que


têm como consequência a agressão, maus tratos, abandono, tortura, homicídio.

29
Contribuições do Instituto Nacional da Criança e UNICEF no âmbito da Proposta do Novo Código
Penal, 2008.

73
Capítulo IV – Secção III

Artº 179º nº 2 .

Como forma de desencorajar a prática de pedofilia, propomos a inclusão


de artigo referente a esta matéria.

Artº 181º.

Pedimos a inclusão de incesto como figurava no antigo código e o


agravamento da pena.

Artº 183º

Incluir tráfico interno, transfroteiriço, extrafronteiriço. Deve-se dar


um tratamento global ao conceito que inclua todos os fins de tráfico de
menores (extracção de órgãos, exploração sexual, escravatura, trabalho
forçado, drogas, etc.).

Artº 187º

Sendo que a inibição significa ocultação, proibição ou impedimento,


achamos que o agente não deve ser inibido, mas sim suspenso do exercício da
autoridade paternal.

Capítulo V

Artº 189º

Deve-se analisar o conceito de recém-nascidos, porque no ponto de


vista pediátrico, são 28 dias.

Artº 190º

Deve-se agravar a pena, quando se tratar de contágio à menores de 18


anos.

Título II – Capítulo I

Artº 229º

Não vemos razão do ponto nº 3. Havendo razão, deve figurar a


impugnação da paternidade pelo pai biológico.

Capítulo II

Artº 230º

Achamos conveniente rever com certa acuidade, por nos parecer que a
pena de prisão ou a de multa para o agente que deixar de prover a
subsistência do cônjuge, do filho menor de 18 anos ou incapaz, não resolve o

74
problema, pois a necessidade de alimentos permanecerá, mesmo depois do
pagamento de multa ou de prisão.

Achamos que todos os crimes praticados contra menores devem ser


desencorajados com o cumprimento das penas previstas no presente Código.
Ao serem dadas possibilidades de pagamento de multas, dá ao infractor um
bem precioso que é a liberdade e poderá facultar outras possibilidade de acção
ou omissão.

Pensamos que a questão da linguagem de aplicação das penas


previstas no presente Código – é punida com pena de prisão “ou” com a de
multa – isto significa para nós, que se o infractor não cumprir a pena, paga
apenas a multa.

Achamos ser bem vinda a nova figura do Código Penal, que já consta
novas disposições actualizadas ao contexto, sobretudo o de tráfgico de seres
humanos.

75
3.8.2. Políticas de Imigração

No âmbito das políticas de emigração existem diversas medidas. Pode-


se criar um gabinete nacional para coodenar assitência aos indivíduos e as
famílias que pretendam emigrar. Este gabinete pode fornecer informações
através de números telefónicos gratuitos sobre requisitos e oportunidades de
empregos e migração legais, sobre os potenciais rendimentos nos países de
destino e os riscos associados à procura de emprego no estrangeiro.

As crianças refugiadas que estão desacompnahdas ou que buscam


asilo, tendo ou náo documento de identificação, são particularmente
vulneráveis aos traficantes ou poden tentar, elas próprias, atravessar fronteiras
internacionais ilegalmente.

O esforço recente levado a cabo por diversos países no sentido de


reforçar a sua segurança nacional fez aumentar os riscos para as crianças nas
zonas fronteiriças. As crianças sem comprovativos de idade ou documentos de
identificação podem ser detidas por período indeterminado de tempo.

Em todas essas situações, as crianças devem recer protecção e


aconselhamento jurídico e ainda assitência para localizar as suas famílias ou,
se tal não for possivel, encontrar apoio adequado. O interesse superior da
criança deve prevalecer em todas as circunstâncias, para que a segurança e o
bem estar das crianças não sejam comprometidos30.

As leis laborais e de imigração podem ter também um efeito directo


sobre o tráfico de menores. É importante rever os quadros legais para garntir
que as políticas laborais e de imigração são promulgadas tendo em atenção os
aspectos ligados à protecção da criança.

A Lei n.º 2/07, de 31 de Agosto aprova o Regime Jurídico de


Estrangeiros na República de Angola, tendo entrado em vigor em Novembro de
2007. Aplicável a todos os cidadãos estrangeiros que pretendam vir para a
República de Angola, este diploma tem por objectivo realizar um controlo mais
eficaz da imigração ilegal, regulando e permitindo a criação de melhores
condições para a integração dos imigrantes em território nacional.

Esta Lei define e regula os regimes de entrada, saída, permanência e


residência em território nacional, bem como as sanções aplicáveis perante a
sua infracção. Com este diploma pretendeu-se tutelar realidades que não
estavam protegidas pelo direito, nomeadamente a entrada em Angola para fins
de turismo, de estudo, de tratamento médico, de investimento privado e de
permanência temporária de Cidadãos Estrangeiros.

30
Serviço de Imigração e Estrangeiro, 2007.

76
O novo Regime Jurídico de Estrangeiros na República de Angola
introduziu as seguintes inovações: restrição das disposições relativas às
expulsões administrativas, privilegiando-se as judiciais; estabelecimento de um
regime sancionatório criminal adequado a prevenir e reprimir os actos ilícitos
relacionados com a imigração clandestina e com a exploração da mão-de-obra
ilegal; agravamento das multas no sentido de desencorajar a imigração ilegal;
criação de novos vistos como seja o de cortesia e territorial; alargamento de
tipologia de vistos de entrada, criando 5 (cinco) novos tipos, designadamente
de turismo, de estudo, de tratamento médico, privilegiado e de permanência
temporária; aditamento da possibilidade de transferência de tipo de visto e
ainda a definição de infracção migratória bem como o elenco das
consequências pela prática da mesma.

O artigo 16.º, referente a entrada de menor, estabelece o seguinte:

 O cidadão estrangeiro, menor de idade, quando não acompanhado dos


pais, só deve entrar no território nacional mediante autorização escrita e
com a assinatura dos pais ou de quem exerce a autoridade paternal
reconhecida pelas autoridades competentes.
 Nos casos em que for recusada a entrada no território nacional da
pessoa a quem o menor de idade esteja confiada, essa medida estende-
se, igualmente, ao menor e vice-versa.
 O disposto nos números anteriores não se aplica nos casos em que o
menor seja residente ou titular de um visto de estudo ou de permanência
temporária.

De acordo com o artigo 15.º do Decreto Presidencial 108/11, em caso de


necessidade, o menor de idade a quem for recusada a entrada, nos termos do
n.º 2 do artigo 16.º, e da alínea c), do n.º 3 do artigo 21.º, da Lei n.º 2/07, de 31
de Agosto, deve ser encaminhado aos serviços de assistência social.

77
3.8.3. Leis para a Protecção e Assistencia às Vítimas.

Demasiadas vezes, a importância de providenciar assitèncias às vítimas


de tráfico é subestimada. Para melhor proteção recomenda-se term em conta
certos principios31:

Identificação prévia e pró-activa.

É necessário estabelecer procedimentos adequados para a rápida


identificação de crianças traficadas. Isto impica a coordenação entre todas as
entidades a trabalhar nessas áreas, como sejam as autoridades responsáveis
pela aplicaçáo da lei, pelo controle de fronteiras e pela imigração, os serviços
de saúde, educaçáo e segurança social e as organizações não
governamentais.

Identificação da idade.

Quando são descobertas, as vítimas de tráfico podem não ter


documentos de identificação ou ter documentos falsos, o que comlica a
identificação da sua idade. Quando existem razões para crer que a vítima é
menor de idade, essa presunção deve prevalecer em todos os actos relativos à
criança, ainda que não seja possivel verifica a sua idade. Nesses casos, a
vítima deve receber toda a protecção devida ás crianças vítimas de tráfico.

Resgate.

De tempos a tempos, realizam-se operações de resgates para retirar


crianças de locais onde são exploradas. Dependendo das circunstâncias que
as levaram a esse lugar, muitas vezes as crianças resgatadas acabam por
regressar a indústria do sexo por não encontrarem alternativas.

Designação de um tutor.

Assim que é identificada uma criança vítima, deve ser designado um


tutor legal para acompanhar a criança ao longo do processo. Este tutur deve
velar pelo bem estar da criança e colaborara com os serviços como
representante da criança.

As crianças vítimas de tráfico precisam de apoio social específico. Os


legisladores devem ajudar a garantir que os serviços de apoio social existem e
estão disponível, tendo em conta a necessidade das crianças vítimas de tráfico
terem acesso a proteção e cuidados provisórios, como alojamento seguro,
assitência médica, formação profissional e académica, reablitação psicossocial
e assistência no repatriamento e reintegração32.

31
Manual para Parlamentares, 2005, pag. 52
32
Manual para Parlamentar, 2005, pag. 54

78
A República de Angola não possui, até o momento, uma Lei de
Protecção e Assistência as Vítimas do tráfico. No entanto existem políticas e
programas de assitência a pessoas com necessidades especiais ou em estado
de vulnerabilidade.

Quando o governo da Repúbçlica de Angola assumir a problématica do


tráfico e legislar a sua criminalização, tal como preve o Protocolo de Palermo,
poderá criar um Comite para a luta contra o tráfico, assitência e protecção às
vítimas.

Entre as principais funções que poderá ter o referido comité, centra-se a


de executar um "Programa Nacional" que possa prever o traçado de "padrões
de atuação, protocolos e circuitos de intervenção para contribuir com a
prevenção e combater os crimes de tráfico e exploração, e ao mesmo tempo
procura proteger e dar assistência para as vítimas e seus familiares".

A legislação a ser criada deverá também inclui a realização de "um


Registro Nacional de Dados vinculados com os crimes de tráfico e exploração
de pessoas, como sistema permanente e eficaz de informação e
monitoramento quantitativo e qualitativo".

De outro lado, em articulação com o Ministério da educação dever-se-á "


formar constantemente professores e a especialização de funcionários públicos
de todas as instituições vinculadas com a proteção e a assistência das vítimas,
visando atingir a profissionalização dos agentes e funcionários vinculados com
a temática".

Este comité, quando criado, terá também a tarefa, ao proceder a


identificação dos serviços adequados, para apoio às vítimas, de identificar a
origem cultural da ctiança, a sia idadde, sexo e eventuais necessidades
específicas, como deficiências, problemas psicolólogicos, doença ou gravidez.

O interesse superior da crança deverá prevalecer quando se determinda


se a criança vai ser utorizada a permacer no país de acolhimento ou vai ser
repatriada para o país de origem. Até que essa decisão seja tomada, os
promotores públicos, as entidades públicas de serviços sociais e as
organizações não governamentais devem ser autorizados a requererm vistos
humanitários para as crianças.33

Como recomendações para o governo de Angola temos a a referir o


seguinte34:

33
Manual para Parlamentares 2005, pag. 54
34
Manual para Parlamentares, 2005, pag. 62.

79
1. Ratificar os instrumentos internacionais relativos ao tráfico de menores,
sem reservas. No caso de existirem resrvas, as normas deverão ser
reapreciadas, com vista a sua eliminação;
2. Empenhar-se em garantir o respeito pelos direitos de protecção;
3. Reforçar e melhorar a legislação nacional e a aplicação da lei, para pôr
fim ao tráfico de menores em harmonia com as normas internacionais.

80
Conclusão.

Como visto o tráfico de seres humanos tem relações profundas com a


miséria e exploração dos países do terceiro mundo. As pessoas são presas
fáceis do tráfico, pois estão atrás de condições mais dignas de vida. Muitas
pessoas saem do seu país, espontaneamente ou influenciadas por aliciadores,
em busca de promessas falsas, de sonhos irreais, de um mundo que não existe
e o que encontram é a desilusão de serem submetidos a trabalhos forçados,
serviços árduos, sujos, difíceis e perigosos, além de terem sua liberdade
tolhida ficando a mercê da exploração econômica dos “grandes empresários de
maquinas humanas”.

O tráfico de seres humanos não se restringe à exploração sexual


comercial, mas é nítido que o problema recai principalmente sobre as
mulheres, por causa de uma questão cultural.

O autoritarismo imposto por esse conservadorismo são condições que


atentam claramente contra os direitos das mulheres, e contra o livre exercício
de sua sexualidade. A mulher ainda é considerada um ser de segunda
categoria; suas decisões, vontades, sexualidade estão indiretamente ligadas a
aprovação e o falso moralismo masculino que foi implantado pela sociedade
patriarcal ao longo do tempo.

“Conclui-se, então, que as duas causas fundamentais que ocasionam e


facilitam o tráfico de pessoas é sem duvida a econômico-social e a cultural”.

No entanto, apesar do receio e dificuldade das comunidades mundiais


em reconhecer a verdadeira causa do tráfico e admitir pontos importantes que
ferem alguns princípios morais, diversos avanços foram conquistados do ponto
de vista da proteção internacional dos direitos humanos com a adoção de
variados meios eficientes de combate ao tráfico.

O Protocolo da Convenção de Palermo para a repressão do tráfico de


pessoas, em especial de mulheres, é um exemplo deste avanço. Esses
avanços obtidos permitiram afirmar que as vítimas do tráfico já não podem
mais ser consideradas como criminosas e cúmplices do tráfico, mas sim como
pessoas que sofreram sérias violações em seus direitos humanos
fundamentais.

É notório o esforço e a conseqüente evolução de comunidades nacionais


e internacionais no tocante ao problema do tráfico de pessoas.

Os governos de diversos Estados, muito tem se empenhado no


desenvolvimento de estudos e medidas eficazes para eliminação do problema.
Porém, a resolução da criminalidade, em geral, não se trata apenas de
esforços no plano legislativo, judiciário e executivo, de definições penais cada
vez mais abrangentes, de penas mais severas, de aprimoramento de funções

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administrativas do Estado, se, contudo continua-se a alimentar e acobertar a
real causa do problema.

Infelizmente, nenhum país do mundo está livre do tráfico de Pessoas, e


Angola não é uma excepção. Apesar desta situação, ha falta de informação
sobre as tendências de tráfico de pessoas em Angola, o que exige uma
pesquisa abrangente em como ocorre, os tipos de exploração, rotas, entre
outras questões.

Angola não tem uma lei que proibe todas as formas de tráfico de
pessoas, embora a constituição promulgada em Fevereiro de 2010 proiba o
tráfico.

A rerpública de Angola respeita e aplica os princípios da Carta da


Organização das Nações Unidas e da Carta da União Africacana e estabelece
relações de amizade e cooperação com todos os Estados e povos na base do
seguinte: Rejeição e combate ao terrorismo, tráfico de drogas, raxismo,
corrupção e tráfico de seres humanos e de orgãos.

Existem algumas leis que podem ser usadas no julgamento de diversos


casos de tráfico de pessoas, por exemplo, o Código Penal no seu Artigo 71º
proibe a prostitução e a facilitação da prostituição, e o Artigo 406º proibe
especificamente a prostituição infantil, impondo penas de entre três meses e
um ano de prisão e a multa correspondente. O Artigo 4º da Lei Geral do
Trabalho proibe trabalho forçado, coercivo, ou relacionados, prescreve penas
suficientemente rigorosas de uma multa de entre 5 e 10 vezes do salário médio
dos trabalhadores.

As penas referidas não estão em concordância com as aplicadas nos


outros estados mebros. Espera-se que a nossa proposta do Código penal
possa rever esses elementos.

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