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Crises do planeta

no jornalismo sobre
Roraima
Simão Farias Almeida
(Org.)
Grupo de Pesquisa Mídia, conhecimento e meio ambiente: olhares da Amazônia

Ideia
João Pessoa
2020
Todos os direitos do organizador.
A responsabilidade sobre os textos são dos respectivos autores.

Diagramação/Capa: Magno Nicolau

Ilustração da capa: Pablo Felippe

Revisão: Simão Farias Almeida

Conselho Editorial
Adrian Padilla – UNESR – Venezuela
Marcos Nicolau – UFPB
Roseane Feitosa – UFPB – Litoral Norte
Dermeval da Hora – Proling/UFPB
Helder Pinheiro – UFCG
Hildeberto Barbosa Filho – UFPB
Eloisa Beling Loose - UFRGS

Ficha Catalográfica elaborada pela Bibliotecária Gilvanedja Mendes, CRB 15/810

C932 Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima [recurso


eletrônico] / Simão Farias Almeida (Org.). Dados
eletrônicos - João Pessoa: Ideia, 2020.
4.4 mb. pdf
ISBN 978-65-5608-006-2
1. Jornalismo brasileiro - Roraima. 2. Narrativa
jornalística - subjetividade. 3. Cobertura jornalística. I.
Almeida, Simão Farias. II. Título.

CDU 070.11 (811.4)


Ficha Catalográfica elaborada pela Bibliotecária Gilvanedja Mendes, CRB 15/810

EDITORA
www.ideiaeditora.com.br
contato@ideiaeditora.com.br
Agradecimentos
A Deus, ao Espírito Santo e à Santa Mãe de Deus
A meus alunos dedicados
Sumário

Prefácio 6
Simão Farias Almeida

A imersão investigativa de subjetividades em narrativa jornalística de portal de notícias


sobre migração venezuelana 11
Robson Moreira da Silva
Simão Farias Almeida

O agendamento do futebol feminino: o discurso do preconceito e a falta de uma


cobertura jornalística especializada do esporte local de Roraima 55
Marcos Martins

A busca de uma metodologia de pesquisa na análise da cobertura jornalística de tráfico


de animais em Roraima 84
Sandeivyde da Conceição Alves

Crises econômicas e ambientais dos desmatamentos em webreportagens:


denúncia ininterrupta ou lacunar? 102
Mairon Compagnon Mariano
Willians Severino Dias

A crise no céu: o conhecimento ambiental yanomami e a mídia de mudanças climáticas


em Roraima 120
Pablo Felippe Santiago de Lima
Eliza Menezes de Lima

Territorialidades geográficas e jornalísticas em entrevista de parlamentar indígena a


jornal brasileiro 145
Simão Farias Almeida

Autores 166
Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima |6

Prefácio

O
planeta Terra segue enfrentando crises provenientes de fatores
políticos, econômicos, culturais, sociais e ecológicos,
sobrepostos e híbridos entre si. Nem podemos parar o mundo e
nem alcançamos o ritmo no qual ele gira, levando consigo
sistemas fragilizados, processos precários e paradigmas incapazes de lidar
com as demandas das problemáticas contemporâneas. Edgar Morin (2003,
p.43) parece engessar esse panorama quando aponta que a incapacidade de
pensar a crise está no fato de ela sempre progredir a níveis cada vez mais
planetários. Todavia, denuncia a irresponsabilidade humana, segundo ele,
capaz de turvar qualquer entendimento ao não considerar os contextos e a
complexidade configuradores do nosso tempo, provocando assim uma crise
de representação generalizada. As crises se constroem, perduram e se
aprofundam por meio das ilusões, das incertezas e da banalização do
construto interpretativo de seus processos, suas causas e seus efeitos em
camadas locais, regionais, nacionais e globais. O mal estar também vem do
entrelaçamento das crises pretéritas, atuais e previstas da antroposfera e da
biosfera (KERN; MORIN, 2003, p.94). Diante de novos problemas
engendrados pelos antigos e persistentes conflitos, dá-se “a incapacidade do

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mundo de tornar-se mundo, a incapacidade da humanidade de tornar-se


humanidade” (KERN; MORIN, 2003, p.98). Daí o entendimento do mundo
depender da reforma do pensamento, da solidariedade, da compreensão e da
educação compartilhadas (MORIN, 2003). É necessário e urgente, no século
XXI, mudarmos nossos sentidos de lugar no planeta. Urge pensarmos neste
ultimato: só poderemos nos salvar e preservar a natureza juntos.
A Amazônia deve ser vista através dessa compreensão solidária, pois
todos dependemos e somos responsáveis pela sua conservação ambiental e
social. Se a Terra é nossa “comunidade de destino” (KERN; MORIN, 2003,
p.178), a maior floresta do mundo precisa ser nosso ponto de partida e
chegada quando pensamos não apenas no testemunho de crises locais e
globais, mas também na sua problematização. O jornalismo na Amazônia
deve saber entrar e sair dos cenários de perspectivas e panoramas crísicos,
primeiro, interpretando fatores, consequências, representações más
intencionadas e, segundo, apontando soluções, com o intuito de alertar e
educar os públicos a respeito do compromisso mútuo.
O presente e-book pretende investigar o regime de funcionamento da
cobertura jornalística de meios de comunicação do estado de Roraima ao
lidar com problemas planetários que ainda afetam nossa região amazônica e
amazônida: imigração/migração provocada por causas socioeconômicas, a
representação feminina em modalidade esportiva pouco difundida e
valorizada, extinção de espécies animais, degradação e desmatamento, falta
de legitimidade a antigos referenciais ecológicos, ataque a direitos culturais
e territoriais dos povos indígenas. O propósito é atestar a existência ou a
ausência do tratamento complexo e engajado, por parte dos meios, de uma
policrise política, econômica, cultural, social e ecológica de interesse das
comunidades, das sociedades e da humanidade.

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No capítulo A imersão investigativa de subjetividades em


narrativa jornalística de portal de notícias sobre migração venezuelana,
Simão Farias e Robson Moreira legitimam o jornalismo sensível à
humanização dos imigrantes venezuelanos que atravessaram a fronteira com
Roraima para fugir da crise política, econômica e social de seu país de
origem. A matéria jornalística analisada demonstra a possibilidade de uma
cobertura engajada no tratamento das subjetividades dos sujeitos dos fatos
sem desmerecer a objetividade e a categoria investigativa. Esses tipos de
opções jornalísticas fazem a diferença para superar a crise de representação
humanitária de personagens da notícia já fragilizados por problemáticas
pessoais e nacionais dos processos migratórios.
O agendamento do futebol feminino: o discurso do preconceito e
a falta de uma cobertura jornalística especializada do esporte local de
Roraima aponta que fazer a cobertura de mulheres na prática esportiva não
implica em abandonar o tratamento técnico especializado relacionado ao
desempenho das atletas. Marcos Martins defende como crise de
representação no jornalismo a rotina de limitar a angulação de mulheres no
futebol a questões de preconceito de gênero e de sua superação. Segundo
ele, o público precisa saber também por que a atleta se destaca em
determinada posição no campo, por exemplo.
Em A busca de uma metodologia de pesquisa na análise da
cobertura jornalística de tráfico de animais em Roraima, Sandeivyde
Alves discute o papel do método científico ao oferecer paradigmas
alternativos com o objetivo de angular perspectivas não tradicionais nas
narrativas jornalísticas. O enquadramento de seres não humanos pode
estimular a solidariedade dos humanos em relação àqueles que não têm voz
e são vítimas de violência e supressão de direitos. Nesse caso, o jornalismo
pode superar a representação e o regime de pensamento historicamente
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antropocêntricos, portanto, hierarquizantes das fontes informativas em


detrimento dos personagens sem discursos.
O capítulo Crises econômicas e ambientais dos desmatamentos
em webreportagens: denúncia ininterrupta ou lacunar?, de Mairon
Compagnon e Willians Dias, aponta que o jornalismo deve cobrir fatos
provenientes de crises políticas, econômicas, sociais e ecológicas com os
devidos critérios interpretativos capazes de dar conta dos diversos fatores
dessas naturezas, além de analisar dados e informações. A discussão dos
autores comprova a existência da crise de representação nas narrativas
jornalísticas quando os jornalistas se atêm exclusivamente a aspectos
informativos e às consequências dos fatos.
Em A crise no céu: o conhecimento ambiental yanomami e a
mídia de mudanças climáticas em Roraima, Eliza Menezes e Pablo
Felippe demonstram que as narrativas míticas dos yanomami a respeito da
preservação da natureza poderiam servir de exemplo às autoridades públicas
e aos meios de comunicação em relação às maneiras de inibir, evitar e
remediar as queimadas e seus efeitos. Partindo do mito da queda do céu e da
experiência do Grande Incêndio de Roraima no final dos anos 1990, os
autores propõem uma cobertura engajada numa problemática já conhecida
no estado, fazendo uso do jornalismo interpretativo acerca das causas e
consequências do aquecimento global.
Simão Farias em Territorialidades geográficas e jornalísticas em
entrevista de parlamentar indígena a jornal brasileiro analisa como o
jornalismo configura representações de território e territorialidade em suas
narrativas a partir do desenvolvimento de fatos em relação a esses processos
nos campos políticos, econômicos, sociais e ambientais. O autor analisa
notícia-entrevista do jornal Folha de S. Paulo sobre as impressões de
deputada roraimense acerca de declarações de presidente eleito dirigidas aos
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povos indígenas, provocando sentidos de lugar em torno das terras


demarcadas e dos espaços de conquista e de luta pelos direitos coletivos e
universais.
Os capítulos deste e-book pretendem despertar nos leitores os modos
jornalísticos de entrar e sair das crises por meio da interpretação dos fatos e
do apontamento de soluções às representações midiáticas e aos problemas
urgentes das sociedades e da humanidade. O objetivo final é atentar para as
experiências dos diferentes sujeitos e reconhecer formas de minimizar e
resolver problemas particulares e comuns de seres humanos, não humanos e
do meio ambiente, legitimando a solidariedade enquanto melhor forma de
estar, se posicionar e se mobilizar no planeta Terra.
Boa leitura!

Prof. Dr. Simão Farias Almeida


Organizador
Líder do Grupo de Pesquisa
Mídia, conhecimento e meio ambiente: olhares da Amazônia
(CNPq/UFRR)

Referências
KERN, Anne Brigitte; MORIN, Edgar. Terra-pátria. Porto Alegre: Sulina, 2003.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 8 ed. São Paulo:
Cortez; Brasília: UNESCO, 2003.

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A imersão investigativa de subjetividades em


narrativa jornalística de portal de notícias
sobre migração venezuelana
Robson Moreira da Silva
Simão Farias Almeida

O estado de Roraima no extremo Norte do Brasil tem sido rota de


passagem de imigrantes venezuelanos em busca de superar a fome e o
desemprego. A cobertura jornalística de fatos relacionados a esse processo
imigratório muitas vezes é problemática ao tratar os imigrantes de forma
homogênea, como se eles não tivessem demandas individuais além das
coletivas, e a partir de estereótipos de criminosos que se perpetuam nas
páginas policiais dos jornais. O jornalismo, ao contrário, precisa investigar
as distintas realidades das pessoas que migram de um país a outro e
valorizar suas subjetividades e seus discursos políticos, econômicos e
sociais.
Certa tradição crítica a respeito do jornalismo investigativo
convencionou a defesa da relação desta categoria com a objetividade

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jornalística, mesmo distinguindo suas práticas e seus processos do


jornalismo meramente factual. Geralmente, o tratamento das subjetividades
dos personagens e das testemunhas na cobertura investigativa é atribuído ao
gênero livro-reportagem e similares (SEQUEIRA, 2005). A reportagem
digital, por exemplo, é tratada como avessa ao longo formato propício a
uma apuração mais aprofundada dos envolvidos nos fatos. Todavia, a
história da narrativa jornalística pautada nos princípios objetivo e subjetivo
demonstra que esse hibridismo, independentemente em qual formato,
plataforma e dispositivo apareça, não interfere na proposição de um
jornalismo investigativo. Este se impôs enquanto apuração especializada
desde o surgimento da storytelling (CONNERY, 2011), no século XIX, até o
jornalismo de imersão contemporâneo (HEMLEY, 2012).
Partiremos dessa premissa histórica, da discussão teórica do
tratamento da imigração pelos meios de comunicação (DELL’ORTO;
BIRCHFIELD, 2014) e da pirâmide deitada no texto digital
(CANAVILHAS in BARBOSA, 2007), para analisar o caráter narrativo,
imersivo e investigativo da cobertura de repórteres do portal G1 Roraima do
Grupo Globo de Comunicação em grande reportagem sobre o processo
migratório de venezuelanos ao estado da região Norte brasileira. Seguindo o
método de pragmática do discurso jornalístico (RODRIGUES, 2001, p.20),
apontaremos os relatos dos imigrantes e das jornalistas ininterruptos, não
hierárquicos e combinatórios de múltiplas perspectivas. Defenderemos que a
matéria em longo formato digital alia a objetividade das jornalistas e a
subjetividade dos sujeitos, preservando os pilares tradicionais da referida

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categoria jornalística, com o intuito de apontar a dispersão e a convergência


de realidades dos migrantes entrevistados nas seções da webreportagem.

Objetividade, subjetividades e jornalismo investigativo

A história da narrativa jornalística sugere uma tensão ou uma


adequação entre a consolidação do princípio da objetividade e a expressão
da manifestação das subjetividades dos sujeitos e das testemunhas dos fatos.
Cristiane Costa (2005, p.42) aponta o surgimento do jornalismo
investigativo brasileiro na passagem do século XIX ao XX, instantâneo ao
hibridismo de gêneros como reportagem e crônica, respectivamente,
associadas ao relato objetivo do cotidiano e ao viés literário autoral. Nos
Estados Unidos, a desconfiança em relação à verdade dos fatos, nas décadas
de 1920 e 1930, propiciou o aparecimento da reportagem subjetiva e de
normas e procedimentos capazes de forjar a fidelidade factual, campo
propício à objetividade jornalística (SCHUDSON, 2010, p.17). Daí ela ser
considerada mais uma convenção do que uma crença (SCHUDSON, 2010,
p.216) e a única resposta ao relativismo de valores atribuídos aos fatos
(SCHUDSON, 2010, p.186).
Na produção cultural moderna, o propósito realista do ordenamento
dos fatos para a verdade aparecer naturalmente, típico da segunda metade do
século XIX, não estava de todo descartado, mas convivia com o surgimento
de novidades técnicas, a exemplo da pirâmide invertida, um dos recursos de
edição utilizados pelos jornalistas investigativos (COSTA, 2005, p.125). A

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modernidade jornalística era propícia ao reconhecimento da coexistência da


cobertura investigativa e de gêneros apropriados às manifestações subjetivas
dos atores da notícia, mesmo o realismo sendo substituído pela ideia de
objetividade (COSTA, 2005, p.125).
O jornalismo, desde então, foi tratado enquanto narrativa da
realidade factual cotidiana, a exemplo da reportagem em seus formatos
periódicos e livro (SODRÉ, 1986, p.94). O movimento estadunidense do
new journalism, nos anos 1960, considerado a expressão de um novo
realismo ciente da verdade dos fatos sempre forjada, adotou nesse gênero a
descrição objetiva de subjetividades (WOLF, 2005, p.37). Segundo Carlos
Rogé Ferreira (2003, p.113), o novo jornalismo rompe

[...] com o discurso usual do jornalismo que se assenta sobre a


objetividade – que estaria calcada em moldes ditos
“científicos” de isenção; assumindo sua própria subjetividade,
capaz de captar a de outras pessoas e suas realidades, propondo
no entanto – ou assim – ser tão ou mais “objetivo-verdadeiro”
do que as velhas práticas jornalísticas. Esse procedimento,
desencadeado sobre pessoas comuns, sobre as quais a história e
a mídia não se interessam, aparentemente garantiria por si só a
legitimidade dos discursos e autenticidade da proposta de
criação de novas subjetividades e identidades beneficiadas com
as verdades reveladas e em choque com aquelas distorcidas.

Assim, essa inovação no jornalismo norte-americano propõe uma


nova postura em relação ao tratamento dos fatos e das pessoas. No entanto,
apesar desse construto objetivo e subjetivo dos acontecimentos e de seus
personagens desenvolver-se ao longo do século XX, convencionou-se o
princípio da investigação jornalística como “a mais completa versão da
verdade” (BURGH, 2008, p.13-14). Muniz Sodré (2009, p.43) e Hugo de

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Burgh (2008, p.29) apontam os reflexos dos resquícios da crença iluminista


no conhecimento objetivo e no princípio da verdade, forjados pelas técnicas
adotadas pela cobertura investigativa.
O livro-reportagem é mais uma tentativa de contrariar este caráter
totalitário da pura objetividade por meio do tratamento das minúcias dos
sujeitos entrevistados. Cleofe Sequeira (2005, p.56) aponta sua presença no
formato da reportagem de longa extensão, além do aspecto de aprofundar as
dimensões de um fato ou de uma pessoa. É a prova das tentativas históricas
de adequação e coexistência dos dois princípios aqui discutidos. A história
da narrativa jornalística demonstra que esse hibridismo, independentemente
em qual formato apareça, não interfere na proposição de um jornalismo
investigativo. Discutiremos na próxima seção as características da
storytelling, do relato biográfico e do jornalismo de imersão propícias à
categoria investigativa.

Formatos narrativos e jornalismo investigativo

O jornalismo investigativo precisou superar o pressuposto realista


do fato “já dado” no cotidiano para lançar suas práticas e seus processos de
desencobrir aspectos factuais e subjetivos não evidentes. Esse construto
exigiu a tomada de empréstimo dos modos de fazer e de dizer das categorias
informativa, opinativa e interpretativa. A cobertura investigativa converge a
informação de dados e fatos, as versões dos testemunhos, as relações e os
confrontos factuais, testemunhais e contextuais. Desta forma, opera

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complexamente como norma típica a todo processo jornalístico, soma das


outras categorias, e também exceção ao romper com o meramente
informativo, opinativo e interpretativo. Esta equação instaura a tautologia da
aparente soma e exceção, a fim de legitimar sua exclusividade de um
excedente além das evidências para implicar-se enquanto norma ideal do
jornalismo. Mesmo a práxis jornalística caracterizando-se por técnicas e
processos que se coadunam, a prática investigativa “é o que é porque requer
mais, é onde o elemento investigativo é mais explorado” (RUSBRIDER
apud BURGH, 2008, p.21).
Segundo Cleofe Sequeira (2005, p.61-62), por um lado, o jornalismo
investigativo se distingue do interpretativo devido às estratégias de
apuração. Por outro lado, há a reportagem investigativa e interpretativa
capaz de reunir informações complexas, num novo e mais completo
contexto (SEQUEIRA, 2005, p.29-30), uma tentativa de exceder os
propósitos analíticos tradicionais da realidade. Assim, a cobertura
investigativa tenta se impor diante da regularidade e das rotinas de
convergências de técnicas de diferentes categorias jornalísticas.
Considerando as narrativas jornalísticas, desde a passagem do século
XIX ao XX, híbridas de gêneros informativos, opinativos e interpretativos,
vamos discutir a respeito de alguns formatos sempre identificando a
implicação do caráter investigativo em meio às características das demais
categorias. Compreenderemos o atrelamento dos vieses investigativo,
factual e subjetivo como uma construção histórica e estendida até os dias
atuais.

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O formato narrativo storytelling, surgido diante dos paradigmas de


atualidade e factualidade do realismo entre os anos 1850 e 1910, incidiu no
relato das relações de classe, gênero, raça e etnia da classe média
estadunidense emergente, engajando-se na observação da vida sendo vivida
(CONNERY, 2011, p.9). Foi favorecido por paradigmas realistas também
compartilhados pelo jornalismo investigativo: por um lado, objetividade e
veracidade, e por outro lado, subjetividade, “truthiness” [“fuligem de
verdade”] (CLARCK in CONNERY, 2011, p.xii-xiii) e documentação de
registro da atualidade dos fatos (CONNERY, 2011, p.7). A pesquisa de
documentos é uma das etapas investigativas enumeradas por Nilson Lage
(apud SEQUEIRA, 2005, p.25) e Rubens Valente (apud SEQUEIRA, 2005,
p.134), técnica também compartilhada pelo jornalismo interpretativo
(BELTRÃO, 1976, p.76-83).
Os propósitos investigativos de procurar a mais completa versão da
verdade, fornecer evidências além de análises e esclarecer temas complexos,
apontados por Hugo de Burgh (2008, p.20; p.222; p.233), mais delimitados
do que o paradigma interpretativo de evitar lidar com acontecimentos
complexos como eventos simples (SCHUDSON, 2010, p.174), seguem a
tradição realista da storytelling de capturar a imediata realidade através de
uma linguagem familiar ao público (CONNERY, 2011, p.5),
problematizando-a a partir das demandas das sociedades modernas por uma
produção interpretativo-investigativa sobre uma realidade cada vez mais
complexa. Esses propósitos não devem ficar de fora da soma de tradições
jornalísticas de mais de um século. Neste sentido, uma leitura neo-realista

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da busca realista pelas “versions of reality that provided a range of cultural


interpretations”1 (CONNERY, 2011, p.15) não é menos investigativa do que
interpretativa. A storytelling, portanto, estava numa fase na qual a
preocupação investigativa desponta, mas ainda não se consolida, e isso
apenas vai acontecer num contexto de crise das instituições políticas e
jurídicas (BURGH, 2008, p.13-14), a exemplo do caso Watergate,
envolvendo a espionagem da sede do partido norte-americano Democrata
pelo governo do presidente Richard Nixon.
O jornalismo investigativo aprofundou as bases objetiva e subjetiva
da storytelling, apesar de forjar ser exclusivamente intencionado de
descobrir os aspectos não revelados da realidade e objetificá-los por meio de
dados e provas. A tradição desse formato narrativo foi seguida diretamente
pelo relato biográfico moderno em seus propósitos de angulação de
costumes e histórias de vida, seja em curtos, seja em longos formatos livro e
grande reportagem.
Sergio Vilas Boas (2008) ao elaborar uma crítica pós-estruturalista
da narrativa biográfica, dá sinais de características do gênero passíveis de
provocarem nos biógrafos o interesse por uma cobertura investigativa do
personagem e dos fatos em torno dele. São elas: relativizar a ideia de
herança familiar explicativa do ser, desconfiar do sentido de predestinado
vencedor atribuído a qualquer personagem real, criticar a crença de
genialidade inata, desmistificar a verdade inquestionável, desencobrir a

1
“versões da realidade que providenciam uma série de interpretações culturais” [tradução
livre nossa].

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participação do autor no relato do biografado e questionar a obrigação da


narração linear-cronológica (BOAS, 2008, p.11). Essa postura de ultrapassar
o jogo de aparências da vida do biografado e da escritura do biógrafo condiz
com o propósito jornalístico-investigativo de apenas discutir conclusões
dedutivamente a partir das evidências, apontado por Hugo de Burgh (2008,
p.269).
A ideia de metabiografia, defendida por Vilas Boas (2008, p.41), é
análoga a essa preocupação dedutiva ao considerar que “a vida do
biografado não é uma simples justaposição de dados”. Ao contrário, o relato
biográfico envolve a explicação do sujeito tornada o próprio sujeito, o
exame do biógrafo sobre o “biografar e sobre si mesmo”, extravasando e
consagrando “o relacionamento sujeito-sujeito”. Assim, o autor investiga
tanto a si quanto seus personagens, as escritas da vida e as escrituras. Além
do compromisso da objetividade jornalística, o escritor jornalista deve
compreender o processo aperfeiçoado do biografar, “sobre a natureza
inexoravelmente subjetiva de suas ações e reflexões” (BOAS, 2008, p.163).
O gênero requer profundidade no tratamento dos fatos e dos sujeitos:

Os biografados não são consistentes, lógicos, simples e diretos


como os biógrafos tentam nos fazer crer pela via da ostentação
de seus perdidos e achados, seus gigantescos arquivos de
informações, suas memórias prodigiosas, suas idéias [sic] fixas.
Quando um biógrafo aceita a idéia [sic] do doutrinamento
pessoal, o arquivo se converte em um lugar de registro, um
pequeno recipiente vira instrumento para recuperar. Assim,
poderão ver que o falso se funde ao verdadeiro, o relevante se
descola com facilidade do resto e os acúmulos de testemunhos
podem ser desafiados pelas próprias destilações do escritor a
partir de monótonas massas de papel informativas (BOAS,
2008, p.163).

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Deste modo, o autor só cumpre seu propósito investigativo se deixar


o personagem se revelar além dos dados, das informações puras e dos
discursos editáveis. Muitas vezes, o biografado se revela no relato sem
amarras editorialísticas, nos relatos sem perguntas prévias, na autenticidade
de guiar seus depoimentos. Diante da legitimidade da complexidade da
relação entre sujeito escritor-escrito e sujeito escrito-escritor, aquém de
hierarquias, a narrativa biográfica avança em relação ao paradigma da
descrição da vida sendo vivida, típico da storytelling. Mas para garantir essa
desconstrução do tratamento tradicional do herói biografado, o escritor
jornalista deve romper a convenção da narração onisciente. Segundo Vilas
Boas (2008, p.186), por meio desse foco narrativo, é como se o biógrafo
quisesse permanecer no controle do relato, “tivesse firmado uma carta de
convicções autocentrada a respeito de suas escolhas, suas interpretações e a
estruturação da história”. Ora, o processo investigativo em qualquer formato
é surpreendido pelo desdobramento dos fatos, surgimento de novas fontes
primárias (documentos) e secundárias (entrevistados), de evidências
geradoras de deduções inesperadas.
O controle da investigação jornalística não deve ser encarado
enquanto doutrinador da linha de pensamento do repórter. Por exemplo, a

[...] massa brutal e caótica de documentos a que teve acesso


direto o biógrafo (tanto quanto o historiador) é uma porção
ínfima, tremendamente fragmentária do “real biográfico”; e
inevitavelmente repleta de lacunas que irão exigir
“preenchimentos” (BOAS, 2008, p.206).

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Daí ele estar ciente do trabalho interpretativo-investigativo durante


todo o processo de pesquisa, apuração e checagem, envolvendo a ligação e
explicação dos fatos própria do jornalismo interpretativo e a identificação de
suas causas e origens inserida enquanto etapa da cobertura investigativa,
características distinguidas por Luiz Beltrão (1976, p.54), as quais podem
convergir no trabalho complexo do jornalismo contemporâneo. A
interpretação dos documentos deve garantir a relevância dos contextos nos
quais eles foram gerados e interpretados pelo biógrafo. “Ou seja, essa massa
bruta, fragmentária e lacunar dos documentos (de todos os tipos e formas) é
passível de explicitação pelo eu-convicente rumo à maior transparência”
(BOAS, 2008, p.207). A investigação das versões da realidade através dos
documentos inclui as motivações do escritor jornalista ao criar uma ordem
de consulta e análise de arquivos públicos e privados. Ao investigar uma
série documental, o biógrafo investiga suas identidades de sujeito
profissional e humano forjando estar direcionado apenas a outro
personagem.
Outro longform jornalístico a assumir a participação ativa do
profissional no processo investigativo é o jornalismo de imersão, por meio
do qual o jornalista escreve sobre o mundo para examinar o eu de seus
personagens (HEMLEY, 2012, p.9). Ele mantém a objetividade e enxerga
sua subjetividade como parte de seu trabalho, além de defender a etapa da
investigação na escrita de imersão (HEMLEY, 2012, p.9).
Segundo Robin Hemley (2012, p.42-43) o jornalista opera numa
zona flexível entre as posições de “insider” [inserido] e “outsider”

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[deslocado] dos relatos dos sujeitos entrevistados. Isso legitima as


implicações objetivas e subjetivas de seu compromisso investigativo, além
da ideia de jornalismo participante. “Whatever you call the work, this type
of writer engages in the activity he or she wants to write about in order to
get na insider’s look at the subject”2 (HEMLEY, 2012, p.55). O jornalismo
de imersão não implica apenas na observação da vida sendo vivida, mas
também inclui a pesquisa de campo, comum no trabalho investigativo
(SEQUEIRA, 2005, p. 25; p.134), por meio da qual se infiltra na realidade
dos personagens e dos fatos. Cleofe Sequeira (2005, p.75) destaca o uso da
infiltração nos acontecimentos por parte do repórter. “The immersion writer
must always be both participant and observer, but certainly never simply the
observer3” (HEMLEY, 2012, p.81). O trabalho de imersão depende
inclusive da confiança dos sujeitos entrevistados conquistada por parte do
jornalista (HEMLEY, 2012, p.83). O testemunho só é garantido se eles
usarem as credenciais de suas individualidades com o intuito de ver o
mundo de uma maneira através da qual outros possam encontrar valores
(HEMLEY, 2012, p.186). Nisso, percebemos um ponto de contato com o
caráter de tornar familiar a realidade imediata da storytelling, mas não
podemos deixar de reconhecer novos paradigmas investigativos do
jornalismo de imersão envolvendo objetividade e subjetividade,
deslocamento do mundo ao eu do personagem, participação e infiltração.

2
“O que quer que você chame o trabalho, esse tipo de escritor se envolve na atividade que
ele ou ela quer escrever a fim de obter uma visão privilegiada do assunto” [tradução livre
nossa].
3
“O escritor de imersão deve ser sempre participante e observador, mas certamente nunca
apenas o observador” [tradução livre nossa].
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Comparando esses dois formatos narrativos e a narrativa biográfica,


conseguimos apontar o processo histórico de aprofundamento das versões
da realidade, além da objetividade, dos dados do cotidiano e dos
documentos fora de contextos, por meio de distintas subjetividades, o que
não exclui a subjetividade do jornalista, capazes de emergir a complexidade
das evidências dos fatos, inclusive através da imersão jornalística. O
percurso feito aqui nos indica a persistência do jornalismo investigativo de
se impor, de gênero a gênero e de formato a formato, enquanto um conjunto
diferenciado e especializado de práticas, técnicas e processos.
Identificaremos na seção de análise da webreportagem deste capítulo
seu formato ou seus formatos narrativos, suas implicações investigativas,
objetivas, subjetivas e imersivas ao narrar a realidade imigratória de
venezuelanos na fronteira entre seu país de origem e o estado de Roraima. A
reportagem digital ainda tem sido considerada avessa ao jornalismo de
longo formato, mais propício a uma investigação híbrida de recursos
objetivos e subjetivos. Portais de notícias como G1 da Rede Globo de
Televisão e de suas filiadas, e de versões nacionais de redes estrangeiras a
exemplo da BBC News Brasil, do Reino Unido, e do El País, da Espanha,
têm contrariado esse estereótipo. Antes de analisar a webreportagem
selecionada, discutiremos o conceito de imigração e as características da
cobertura dos conflitos imigratórios no planeta pela mídia.

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A imigração e sua cobertura jornalística

Vivemos num mundo em constante movimento populacional. Seja


por fatores econômicos, seja por conflitos internos, fome ou perseguição,
milhares de imigrantes saem de seus locais de origem em busca de melhores
condições de vida. Neste contexto, entra o papel da fronteira, local no qual
se define os limites de uma nação, ao mesmo tempo porta de entrada de
migrantes. Quando o indivíduo consegue se estabelecer no país onde foi
acolhido, o sentido de nação se amplia e integra os personagens e as
histórias desse mundo em transição.
Para Homi Bhabha (1998), o conceito de fronteira representa um
espaço de “entre-lugares”, no qual existe um intercâmbio de valores,
significados e propriedades, a partir do qual há acúmulo de culturas e
histórias em comum. Poderia ser um lugar de vivência colaborativa e uma
região de diálogo, mas nem sempre é assim. A fronteira pode se configurar
em um local completamente antagônico (BHABHA, 1998, p. 20). Isso não
quer dizer que o espaço fronteiriço não possa se mostrar harmônico e com
relações consensuais, especialmente quando a cultura do migrante se
assemelha a aspectos da nação acolhedora. Contudo, a diferença cultural
pode ocasionar conflitos nessas regiões, confundindo definições de tradição
e modernidade, transformando expectativas de desenvolvimento e progresso
(BHABHA, 1998, p. 21). A fronteira é o lugar onde “algo começa a se fazer
presente”, uma ponte que acompanha o caminho dos homens, meio de eles
alcançarem outras margens (BHABHA, 1998, p. 24). A troca de culturas na

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fronteira provoca movimento duplo tanto de quem chega quanto de quem


vive na região. Mesmo diante de situações de discriminação e conflitos
nesses locais de transmissão de culturas e diversos discursos, não se pode
negar a importância de migrantes e imigrantes4 na construção de uma
fronteira móvel capaz de influenciar os marcos da nação contemporânea.
A situação dos imigrantes nos dias atuais está imersa em um grande
dilema. Primeiro, porque imigrar é um direito universal, garantido pelo
artigo XIII da Declaração Universal dos Direitos Humanos5. Segundo, a
imigração em muitos casos é uma questão de vida ou morte, sendo a única
alternativa disponível à população de determinadas regiões sob diversas
mazelas sociais. Todavia, na prática observamos o desrespeito desse direito
na maioria das vezes pelos países desenvolvidos e destino de muitos
imigrantes. Seguindo as prerrogativas do Direito Internacional clássico,
nenhum Estado é obrigado a aceitar estrangeiros. Assim, essas nações
também se valem do direito soberano de deportação, e acabam expulsando
aqueles que tentam migrar a seus territórios, quando não são barrados antes
mesmo de cruzar a fronteira. Muitas vezes, a alternativa é tentar estratégias

4
José Lindomar Albuquerque (2008, p.5) ressalta que “Os imigrantes ‘transportam’ as
culturas nacionais para diferentes destinos e as nações se tornam ‘portáteis’ (Anderson,
2005). Entretanto, nessa transposição cultural ocorre sempre a incorporação de novos
valores e costumes dos países de destino, principalmente pelas novas gerações, no fluxo
permanente dos contatos e dos choques culturais”. Um exemplo são os imigrantes
japoneses que trouxeram suas características culturais para o Brasil evidenciadas na
formação de locais como o bairro da Liberdade em São Paulo, importante reduto na capital
paulista. Desta forma, os venezuelanos que entram no Brasil podem ser, até o momento,
considerados migrantes, pois não há previsão ainda de eles se estabelecerem culturalmente
de modo definitivo em nosso país.
5
Disponível em: <https://nacoesunidas.org.>. Acesso em: 06 nov. 2018.
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de ingresso ilegal nesses países (PEREIRA in REDIN; MINEHOLA, 2015,


p. 142).
Muitos países adotam medidas para barrar imigrantes, por outro
lado, em alguns casos, as nações de origem também não se sentem
confortáveis com as saídas em massa de sua população. Um exemplo
aconteceu na Venezuela por meio de seu programa “Volta à Pátria” (2018)
que auxiliava o retorno dos imigrantes às suas cidades. Prejudicada pela
queda no preço do petróleo, a Venezuela vive um dos piores momentos de
sua história, pois a superinflação, a fome e a violência tomam conta do país.
O resultado tem sido a saída de milhões de venezuelanos em busca de
melhores condições de vida. A maioria deles que imigram ao Brasil ainda
está em Roraima devido à proximidade de seu país de origem. Segundo o
IBGE, dentre 30 mil venezuelanos neste processo até 2018, 99% estão em
Roraima6.
Os sites de notícias na internet ora se caracterizam pela rapidez e
instantaneidade, ora pela cobertura de temas de alta complexidade. Um
deles é a imigração, rendendo histórias e relatos de entrevistados fugindo da
violência, da fome e do desemprego. Os impactos sociais e econômicos nos
países de destino também são abordados pelos veículos noticiosos, e
dependendo da maneira como são mostrados ou interpretados, podem
contribuir para dizimar preconceitos na sociedade. Cabe principalmente ao

6
Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/08/29/brasil-tem-cerca-de-
308-mil-imigrantes-venezuelanos-somente-em-2018-chegaram-10-mil-diz-ibge.ghtml>.
Acesso em: 06 nov. 2018.
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jornalismo tentar mudar esse quadro, pois a imprensa sempre será


formadora de opinião.
As narrativas noticiosas, muitas vezes, são prestigiadas pelo público
leitor e espectador tanto quanto as opiniões pré-formadas, surgindo assim
uma interpretação complexa e difusa. Apesar de saber a importância da
imprensa e dos veículos de comunicação para a disseminação dos conteúdos
noticiosos, a população filtra as formas dos jornalistas fazerem a cobertura
da imigração (DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p. 296-3027). A “massa”
recebe as notícias sobre os processos migratórios, porém, em muitas
situações não compreendem o trabalho dos meios de comunicação.
As mídias jornalísticas auxiliam os debates públicos e políticos
relacionados à questão imigratória (DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p.
296). No Brasil, audiências públicas, congressos e seminários já foram
realizados para debater o tema. Cobrindo esses eventos, elas também
ajudam a fixar significados e entendimentos públicos a respeito desse
fenômeno social. No entanto, não atuam sozinhas neste contexto de
formação de opinião, confrontando-se com outras influências públicas
(DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p. 309). O problema das mídias
tradicionais é focar em narrativas apenas de imigrantes sem documentos ou
aqueles não autorizados no país, não se atentando a outros aspectos de um
fenômeno caracterizado pela complexidade na comunidade ou no país em
que é registrado o fato.

7
O número de páginas indicado do livro digital leva em consideração que a numeração de
e-books baixados por meio da plataforma kindle é diferente do livro impresso ou em PDF.

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As práticas jornalísticas também se atêm à inter-relação complexa


entre o discurso político e as questões jurídicas (DELL’ORTO;
BIRCHFIELD, 2014, p. 386). Conforme destacam os autores, essa
habilidade das mídias noticiosas em ter um efeito no discurso público pode
ser atribuída a dois fatores: o privilegiado acesso aos atores políticos e a
importância da mídia para esses atores. As questões econômicas e
tecnológicas em detrimento das sociais, entretanto, afastam a audiência, ou
seja, as mídias perdem relevância política ao se limitarem às questões
emocionais da imigração (DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p. 414-421).
Os jornalistas acreditam na repercussão e no apelo emocional dos conteúdos
junto à massa populacional, mas isso não acontece. Diante disso, a cobertura
investigativa capaz de mixar objetividade e subjetividades pode se impor.
Algumas dessas falhas e desses equívocos cometidos pela imprensa
podem acarretar informações distorcidas, dificultando o entendimento do
processo migratório. Em muitos casos, o foco da cobertura é voltado a
questões da integração política, da imigração civil e do controle como
aspectos de identidade nacional. Assim, as mídias noticiosas se mostram
mais preocupadas com as pessoas às quais a notícia é dirigida e menos com
o imigrante e suas questões humanas. Isso ocorre muitas vezes em veículos
baseados apenas no lucro e na batalha pela audiência, caso dos canais
abertos de TV. Ao contrário disso, os meios deveriam legitimar a agência
individual de cada imigrante, pois suas vozes e situações muitas vezes
parecem caminhar separadas na divulgação de notícias relacionadas à
imigração. Segundo Giovanna Dell’Orto e Vicki Birchfield (2014, p. 480),

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What allows these disparate voices to cohere is the common


effort to deconstruct news narratives, from their production to
their reception — practitioners and scholars work together to
reflectively analyze the creation and negotiation of meaning in
immigration news8.

O esclarecimento sobre as causas de doenças epidemiológicas e a


crise humanitária instaurada entre as crianças imigrantes a partir da falta de
acesso às escolas podem tornar a questão, embora complexa, muito mais
clara e coesa.
Na rotina frenética e agitada das redações, a dificuldade do jornalista
acaba esbarrando na agenda política, não percebendo a transformação da
sociedade diante da retórica extremista. Os autores defendem a necessidade
de manter o foco e o engajamento em reportagens investigativas,
demandando tempo razoável e recursos financeiros, fato incomum na
cobertura dos meios. Em boa parte do material veiculado, sempre existem
matérias feitas sem disponibilidade de tempo e dinheiro. O ideal é mostrar a
problemática da imigração de várias formas e vários ângulos. Esse modelo
de abordagem só será possível por meio de reportagens de ampla
investigação e prazos estendidos (DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p.
563).
Além disso, a representação contundente dos imigrantes na mídia,
por parte dos jornalistas, deve observar alguns tópicos. Em primeiro lugar, é
preciso se atentar à construção narrativa e ao olhar diferenciado

8
O que permite estas vozes díspares serem coerentes é o esforço comum de desconstruir
narrativas noticiosas, desde a sua produção até a sua recepção – trabalhos médicos e
escolares juntos a analisar refletidamente a criação e negociação de significados nas
notícias de imigração [tradução livre nossa].
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principalmente em relação à diversidade política e social para que o


processo migratório seja melhor refletido no tratamento midiático. Do
mesmo modo, os jornalistas devem ter em mente a importância de prover a
audiência com as perspectivas dos imigrantes, e não pensá-los apenas
enquanto uma massa única ou em quem vai receber o conteúdo noticioso.
Em muitos casos, a mídia deseja reportar a diversidade quando nem mesmo
as redações são formadas por uma equipe diversificada (GROBET in
DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p.1416). Esse destaque da coletividade
na cobertura da imigração não é aceito por Anne Grobet. A autora defende
no segundo tópico a ser observado pelo jornalista, um olhar mais individual
em relação ao migrante:

Second, giving a “face” to migrants is essential to deconstruct


the faceless mask of migration. The current discourse on
migration erases all characteristics of individualization, which
is the basis of human rights. It simplifies the complexity of
migration and reduces the migrants to one single identity that
compromises their rights as individuals9 (GROBET in
DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p.1416-1422).

Agindo desta maneira, a mídia poderá tratar algo tão complexo como
a imigração de uma maneira mais simples, influenciando também na
manutenção dos direitos direcionados a esses povos, na maioria das vezes,
violados em vários aspectos.

9
Segundo, dando uma “face” aos migrantes é essencial a desconstruir a máscara sem rosto
da migração [a impessoalidade da migração]. O discurso corrente acerca da migração apaga
todas as características de individualização, a qual é a base dos direitos humanos. Isto
simplifica a complexidade de migração e reduz os migrantes a uma única identidade, que
comprometem seus direitos como indivíduos [tradução livre nossa].
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Em terceiro lugar, os profissionais das mídias noticiosas devem


iluminar os benefícios da imigração, pois ajudam a conter prejuízos e
polarizar questões imperativas, a exemplo da mão-de-obra gerada pelo
imigrante, enriquecimento cultural, empreendedorismo, comportamento
receptivo aos estrangeiros, contribuindo assim a uma relação harmônica
entre eles e os nativos. Já o quarto tópico, conforme aponta Anne Grobet, é a
possibilidade de a mídia reduzir o impacto da polarização, ou seja, da
concentração de ideias de apenas determinado grupo da sociedade. Nesses
casos, o papel da imprensa deverá ser balancear o discurso, moderando as
opiniões contra e a favor da migração, com vozes mais brandas (GROBET
in DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p.1439). Jamais pode ocorrer,
especialmente nesse tipo de cobertura, o favorecimento do discurso de
apenas um grupo contra os processos migratórios. Além de poder resultar
em casos de discriminação e ódio, a angulação jornalística limitada também
fere um dos princípios do jornalismo: a imparcialidade.
Para Jean-Philippe Chauzy e Gervais Appave (in DELL’ORTO;
BIRCHFIELD, 2014, p.1719), um momento ainda mais delicado na
cobertura da imigração é durante os períodos de recessão econômica e em
tempos de conflito político, quando dúvidas sobre o valor da imigração
podem e devem surgir. E essas dúvidas podem ser ainda mais evidenciadas
como resultado da maneira através da qual a mídia mostra os dilemas da
imigração. As reportagens raramente atentam ao eco das vozes de migrantes
empregados no novo país, um dos fatores positivos da imigração. Segundo
os autores, a mídia costuma selecionar certos aspectos da imigração, a

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exemplo da questão da ilegalidade do migrante. Outro detalhe é o exagero


empregado em muitos fatos noticiados pelas empresas jornalísticas. As
informações geralmente refletem os interesses comerciais desses grupos
midiáticos, e isso é observado em todo o mundo (CHAUZY; APPAVE in
DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p.1745-1751). O principal personagem
do fenômeno da imigração, o imigrante, é deixado de lado, em reportagens
cujo ângulo privilegia alguns pontos de vista previamente selecionados ou
fatos mostrados de maneira exagerada, e tudo em nome do lucro e da guerra
pela audiência.
No contexto da cobertura da imigração, há duas áreas de
preocupação a partir das quais poderiam ser formuladas políticas voltadas
aos estrangeiros. A primeira área contém dois problemas: como lidar com os
grupos constituintes de migrantes que já estão no país e os migrantes que
podem vir (CHAUZY; APPAVE in DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014,
p.1776). A segunda área pode ser ainda maior devido ao agravamento da
situação de violência e fome. A tendência é se preocupar com os futuros
imigrantes e o aumento da massa de estrangeiros já residentes. Todavia,
independente das áreas de cobertura no tratamento da imigração nas mídias
de notícias, é preciso um equilíbrio nessa abordagem jornalística.

How can the media be engaged to present a more balanced


picture of migration and its impacts? Balanced media reporting
means avoiding single-issue headlines,
over/underrepresentation of particular groups, and blanket
labeling. It also implies recognition of the fact that migrants are
not a homogenous group and that migration is often linked to

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many other public issues10 (CHAUZY; APPAVE in


DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p.1792).

Mas como chegar a uma cobertura balanceada? Rodney Benson


defende a narrativa em longo formato como o melhor caminho a ser seguido
por esse jornalismo balanceado. Nos dias atuais, é possível observar muitos
meios de comunicação e sites de notícia utilizando esse tipo de reportagem
de fatos complexos. No entanto, em muitos casos, as matérias têm um alto
apelo emotivo, e acaba sendo uma maneira de atrair e manter o público
facilmente entediado (BENSON in DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014,
p.1838). O jornalista precisa se atentar a essa questão, capaz de
comprometer toda uma reportagem, simplesmente por se preocupar menos
com o conteúdo. Às vezes, o objetivo é transmitir um certo impacto e
humanizar o conteúdo jornalístico, contudo, por partir apenas de um
material melodramático, o jornalista deixa passar detalhes e nuances
importantes à estrutura da reportagem.

[...] personal narrative and structural context are not so easily


reconciled. In its search for melodrama, personalized narrative
journalism can give short shrift to structural complexities,
power dynamics, and diverse perspectives— such as those
characterizing immigration. Even when narrative connects the
individual to larger trends (as with the classic “she is not alone”
transition paragraph), its register tends to be descriptive rather
than explanatory [...]

10
Como pode a mídia ser engajada a apresentar a imagem balanceada da migração e seus
impactos? A reportagem midiática balanceada significa evitar manchetes únicas, sobre/sub-
representação de grupos particulares e rotulações generalizadas. Isso também implica
reconhecimento do fato de que migrantes não são um grupo homogêneo e que migração é
muitas vezes associada a muitas outras questões públicas [tradução livre nossa].

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Clearly, narrative provides a powerful technique to “humanize”


the immigrant experience and to make the public aware of
otherwise hidden social worlds11 (BENSON in DELL’ORTO;
BIRCHFIELD, 2014, p.1843-1880).

Outra característica é a narrativa ser caracterizada por uma


pluralidade de gêneros e perspectivas.

[...] personalized narratives rarely stand alone: in coverage of


major events and trends, multiple genres are closely
counterposed [...] distinctive multigenre format: a “pluralist”
assemblage of multiple discursive genres and perspectives,
anchored by its twin commitments to thoroughly “document”
(via publication of diverse original source materials) and
“comment” upon the issues of the day12 (BENSON in
DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p.1972).

A melhor forma de conduzir a cobertura jornalística complexa a


respeito da imigração, além de conteúdos balanceados, é manter a
multiperspectiva induzida pela complexidade do tema, seguindo por
diversos pontos de partida e observando os fatos evidenciados nas narrativas
sob vários ângulos. A utilização de práticas profissionais pode auxiliar a
realizar essa produção noticiosa de forma profunda, quebrando as barreiras

11
[...] narrativa pessoal e contexto estrutural não são tão facilmente conciliados. Em sua
busca pelo melodrama, o jornalismo narrativo personalizado pode dar pouca importância às
complexidades estruturais, dinâmicas de poder e perspectivas diversas - como as que
caracterizam a imigração. Mesmo quando a narrativa conecta o indivíduo a tendências
maiores (como no clássico parágrafo de transição "ela não está sozinha"), seu registro tende
a ser descritivo e não explicativo [...]
Claramente, a narrativa fornece uma técnica poderosa para "humanizar" a experiência do
imigrante e tornar o público consciente de mundos sociais ocultos [tradução livre nossa].
12
[...] narrativas personalizadas raramente são independentes: na cobertura de grandes
eventos e tendências, vários gêneros são contrapostos de maneira estreita [...] formato
multigênero distintivo: um conjunto “pluralista” de múltiplos gêneros e perspectivas
discursivas, ancorado por seus compromissos a duplos “documento” (via publicação de
diversos materiais originais) e “comentário” sobre as questões do dia [tradução livre nossa]
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entre notícias e opinião, inclusive distinguindo diferentes tipos de notícias


(BENSON in DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p.2011-2017). A
reportagem deixará de ser superficial ou parcial, fruto de mera opinião
pública, e passará a ser mais contundente com outras vozes e uma narrativa
mais concreta.
É preciso reinventar, buscar novas alternativas e novos ângulos. A
empresa jornalística conseguirá atingir seus objetivos e manter fiel seu
público quando as notícias e informações veiculadas pela mídia são
melhores explanadas para serem compreendidas, surgindo a necessidade de
aproveitar os recursos oferecidos pela tecnologia. A internet se tornou uma
espécie de laboratório de experimentação e mistura de gêneros e formatos,
abrindo espaço a artigos detalhados sobre imigração vinculados a bancos de
dados, mapas, gráficos interativos, debates de especialistas, outros gêneros e
tipos de informações, análises e comentários (BENSON in DELL’ORTO;
BIRCHFIELD, 2014, p.2080). As narrativas digitais possuem suas
especificidades ao fazer uso desses recursos jornalísticos, de multimídia e
design.
Apesar de essas discussões teóricas e críticas tratarem da cobertura
jornalística de imigração, adequaremos suas assertivas à realidade de
migrantes sem condição fixa no país de destino, cujas dificuldades de
vulnerabilidade e adaptação são as mesmas dos imigrantes, ao analisarmos
webreportagem divulgada em portal de notícias na qual as repórteres
também se posicionam a respeito dos contextos da imigração na região de
fronteira entre Brasil e Venezuela.

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Faremos uso do método de pragmática do discurso jornalístico de


Adriano Duarte Rodrigues (2001, p. 20), para quem os relatos são
ininterruptos, não hierárquicos e combinatórios de múltiplas perspectivas.
Segundo Rodrigues (in PORTO; MOUILLAUD, 2002, p. 217-218), o
discurso midiático flui de maneira constante e ininterrupta, dá credibilidade
à narração dos fatos independente do lugar de fala do enunciador. Apesar de
o teórico atribuir esses aspectos ao “uso predominante da terceira pessoa”,
ou seja, dos entrevistados nas narrativas jornalísticas, ele também aponta
que seus discursos escondem os processos de gestação. Acreditamos ser
possível confrontar a assertiva sobre essa lacuna por parte dos propósitos
editoriais das redações e legitimar os enunciados dos jornalistas reveladores
da cobertura.
O método também reconhece as perspectivas ou os pontos de vista a
partir dos quais se fundam os discursos. Eles

[...] passam a equivaler-se, se os considerarmos como lances


estratégicos de legitimação. Já não podemos, por conseguinte,
hierarquizá-los em torno de uma perspectiva dominante sem
incorrermos no risco de aceitar como indiscutível a sua
dominação (RODRIGUES, 2001, p.19).

Desta forma, analisar os discursos de jornalistas na própria cobertura


não minimiza as perspectivas dos sujeitos entrevistados. Por fim, Rodrigues
(2001, p.20) destaca a natureza serial e transitiva da combinatória dos
discursos. “É transitiva, na medida em que a posição do próprio sujeito é
reflexo de uma palavra outra que o constitui como instância legítima de

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enunciação”. A partir disso, poderemos comparar os construtos discursivos


dos diferentes sujeitos mesmo eles em contextos e situações diferentes. Se
os discursos midiáticos na pesquisa acadêmica e científica são considerados
ininterruptos, não hierárquicos, apesar de eles serem nas produções
jornalísticas, e confrontáveis entre si, analisaremos os depoimentos das
próprias jornalistas sem destratar as manifestações discursivas das vítimas
imigrantes.

A reportagem investigativa do G1 Roraima

A webreportagem Rota da fome: o caminho dos venezuelanos que


enfrentam perigo, falta de comida e de água para chegar a Boa Vista, de
02/03/2018, acompanhou o trajeto de 215 km feito pelos migrantes entre
Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, e a capital de Roraima, Boa Vista.
Segundo as repórteres Emily Costa e Inaê Brandão, eles fogem da crise no
país vizinho e dependem de solidariedade para enfrentar o percurso
caminhando sem se alimentar. A matéria possui declarações das fontes
envolvidas, fontes oficiais e especializada. Publicada no G1 Roraima, ela
segue o padrão de algumas narrativas jornalísticas do site: longo formato de
pirâmide deitada e aparentemente contendo características de storytelling.
Segundo Diogo Menezes, editor-chefe do portal, ele foi criado em março de
2013, seguindo o padrão do portal de notícias G1 da Rede Globo de
Televisão lançado sete anos antes. Através dele, o roraimense tem acesso às
principais notícias do estado em diversas editorias como política, economia

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e saúde. O G1 Roraima é coordenado pela equipe de jornalismo da Rede


Amazônica, afiliada da Rede Globo na região.
A reportagem em meios digitais tem aspectos distintos da matéria
publicada em jornal impresso, entre eles a estrutura em blocos provável de
permitir distintas opções de leitura por parte do usuário (CANAVILHAS in
BARBOSA, 2007, p.25). Diferente da técnica de pirâmide invertida baseada
na angulação dos dados mais importantes aos menos importantes, a
pirâmide deitada típica da webreportagem caracteriza-se por um espaço
maior de texto e uso ampliado de sua relação com elementos multimídia em
camadas de informação, incluindo resumo dos fatos, versões dos elementos
dominantes, documentação e outras versões (CANAVILHAS in
BARBOSA, 2007, p.30). Segundo João Canavilhas (2007, p.38-39), a
pirâmide deitada propõe um roteiro de leitura por meio de eixos desde o lide
até um formato mais elaborado que inclui a explicação capaz de
complementar as informações básicas, a contextualização contendo recursos
de mídias gráficas e audiovisuais, e a exploração dos fatos na qual links e
arquivos digitais são sugeridos. Vejamos como a matéria do G1 Roraima
segue esse padrão de reportagem em meio digital.
A webreportagem Rota da fome inicia invertendo essa lógica ao
disponibilizar após o título e a retranca, um vídeo com tempo de 7”22 no
qual informa dados de número de venezuelanos em Roraima, as dificuldades
no trajeto, as expectativas, o alívio e a realidade de migrantes ao chegar em
Boa Vista após dias de viagem a pé, além de reproduzir depoimentos de
testemunhas brasileiras sobre essa realidade nas estradas entre os dois

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países, da experiência das duas jornalistas e de antropólogo a respeito dos


perfis dos venezuelanos migrantes entre as duas cidades roraimenses. Ao
inverter o formato supracitado, a matéria audiovisual sugere um olhar
diferenciado daquele a ser encontrado pelo leitor no texto, pois o vídeo parte
do testemunho de venezuelanos na capital de Roraima, enquanto a matéria
lida retrata inicialmente as dificuldades ainda na estrada. Deste modo,
oferece duas perspectivas ao usuário do site: uma justifica o alívio da
chegada ao destino após as apreensões na viagem e a outra segue o roteiro
Pacaraima-Boa Vista, portanto, naturaliza a experiência dos migrantes.
O vídeo opta por informações e dados nas legendas eletrônicas
seguidas dos depoimentos dos personagens, inclusive das repórteres. O texto
dividido em seis seções intercala a objetividade jornalística e a subjetividade
dos entrevistados, mas em alguns trechos elas convergem com o intuito de
humanizar os relatos e as estatísticas. No primeiro parágrafo, por exemplo,
após indicar a distância de 215 quilômetros entre as duas cidades tomada
por curvas sinuosas e buracos mal tapados, as autoras inserem o depoimento
de uma das entrevistadas: “De manhã, nos deram pães, mas refeições não
fazemos desde sexta” (COSTA; BRANDÃO, 2018). Esta declaração
problematiza ainda mais o cenário já precário devido ao estado das estradas.
Assim, não desvincula os aspectos físicos, geográficos e subjetivos do
problema. Em seguida, há a informação de 50 novos viajantes por dia
deixando a cidade de Pacaraima na fronteira em direção à capital, enquanto
entrevistada do leste da Venezuela declara impressões de haver comida e
trabalho no Brasil. Faz parte do relato a esperança em dias melhores

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transmitida pelos amigos e parentes que já cumpriram a rota da fome,


motivadora do desafio diário do processo migratório. Essa declarante
percorreu 800 quilômetros dentro do país vizinho antes de começar a
jornada até Boa Vista a fim de se livrar da inflação de 13 mil por cento ao
ano.
O relato objetivo segue na matéria indicando o número de 40 mil
venezuelanos na capital roraimense, correspondente a 12% de sua
população, e 20 mil pedidos de refúgio. A segunda seção volta a
acompanhar a realidade dos viajantes, demonstrando a angulação
jornalística interessada numa perspectiva de fluxo constante entre aqueles
que já chegaram ao destino e outros que ainda vão enfrentar os obstáculos
na BR-174, correspondente ao processo migratório persistente devido às
dificuldades políticas, econômicas e sociais generalizadas. A declaração
“Nos disseram que é melhor aqui. Viemos provar para ver. O mal é que
temos que ir a pé” (COSTA; BRANDÃO, 2018) é contrastante ao título da
seção Caminho desconhecido. A confiança parece instigar na entrevistada a
sensação de (re)conhecer seu destino no Brasil expressa na informação
prévia de tempos melhores e na prova advinda da confirmação dela, apesar
de contrastar com a realidade da viagem desprovida de transporte. Este
caráter de provação dispare da prova oferecida por pessoas conhecidas que
cumpriram a rota é reforçado pelo antropólogo entrevistado: “Ir a pé é um
caminho viável do ponto de vista físico, mas muito duro” (COSTA;
BRANDÃO, 2018).

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O relato sobre 400 venezuelanos em espera diariamente por


atendimento da Polícia Federal na fronteira confirma a difícil realidade dos
fatos recentes, incluindo o aumento constante nos preços de alimentos e a
desvalorização crescente da moeda Bolívar. Após mapa indicando a rota da
fome entre Pacaraima e Boa Vista, a matéria volta a denunciar a economia
na Venezuela, construindo no leitor um mapa mental capaz de comparar as
dificuldades no país vizinho e no Brasil. Enquanto a manicure deixou em
seu país a falta de comida, perfis masculinos de migrante, correspondentes a
58,28% dos informantes, abandonam a família para trabalhar em favor dela,
contraste de depoimentos capazes de imprimir aspectos de gênero na
realidade da imigração. Desta forma, a subjetividade dos sujeitos
entrevistados supera o caráter “frio” dos números e migra os discursos em
constante trânsito de sentidos. Em seguida, o relato das jornalistas amplia os
perfis de vulnerabilidade social, incluindo idosos, crianças, adolescentes,
grávidas, deficientes físicos e doentes.
Na seção seguinte A rota da fome na BR-174, a webreportagem
volta a apontar os perigos nas estradas, inclusive o contraste de temperatura
associado à fome, causadores do “desespero” e do “choro fácil”. Apesar de
testemunha brasileira reconhecer as dificuldades no trajeto percorrido pelos
migrantes, carrega no tom subjetivo ao apontar o grau de fluxo deles: “Há
algumas semanas tava demais [o fluxo na BR-174], a gente via 15, 20
pessoas a pé” (COSTA; BRANDÃO, 2018). Esta declaração parece turvar a
tentativa das autoras da matéria de apontar dados de pedidos de
permanência como prova da necessidade de ajuda humanitária por meio de

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asilo diplomático. A informação da possibilidade do número de migrantes


no estado ser maior, após dados atribuídos ao prefeito de Pacaraima sobre as
estatísticas de habitantes na cidade, sugere sentidos de intolerância comuns
nos discursos de brasileiros a respeito dos estrangeiros, minimizados pelo
caráter da dificuldade de inserir todos os migrantes nas estatísticas oficiais a
fim de atendê-los adequadamente, imprecisas pelo fato de alguns deles
atravessarem a fronteira muitas vezes. A declaração da governadora do
estado à época denuncia o uso de rotas clandestinas para o tráfico de armas
e drogas, mas uma entrevistada acompanhada de filha e netas justifica a
passagem por essas rotas devido às crianças não terem documentação
necessária e exigida na passagem pelo posto de fiscalização. Este trecho
sinaliza o confronto não hierárquico entre dados oficiais das autoridades
públicas e os sentidos subjetivos de venezuelanos em busca da
sobrevivência, reduzindo o teor da crítica de testemunha aos muitos
estrangeiros atravessando a fronteira.
A matéria segue com declaração da filha dessa entrevistada a
respeito da situação no país vizinho em que “ficávamos até dois dias sem
comer”, pois “Recebia 10 mil bolívares por semana e um frango custava de
300 a 400 mil bolívares” (COSTA; BRANDÃO, 2018). Os dados transitam
a subjetividade dos entrevistados tomada por certa precisão comum à
objetividade jornalística, tendo em vista servirem de comprovação das
dificuldades reveladas. Em seguida, segue a comparação das situações
dentro da Venezuela onde “Já estamos praticamente acostumadas a passar
fome” porque não há nada e no trajeto a Boa Vista durante o qual “comeram

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e beberam só aquilo que ganharam de moradores ou de quem passava por


lá”, sendo a primeira usada como justificativa para a melhoria da condição
humana e social durante a viagem (COSTA; BRANDÃO, 2018).
A subjetividade extrapola a realidade expressa nos fatos quando as
repórteres apontam, em meio às lembranças tristes da declarante, suas filhas
preparando uma sopa de pedras e papeis velhos que “Irão comer, mesmo
que seja só de brincadeira” (COSTA; BRANDÃO, 2018). A avó das
crianças está grávida e ansiosa por atendimento na capital roraimense, onde
em 2017 foram feitos 340 partos de mães venezuelanas na única
maternidade do estado. A condição da grávida em processo de migração de
sofrer de asma justifica a realidade sintomática dela e da rede de saúde do
estado em atender pacientes estrangeiros diante da escassa infraestrutura. A
webreportagem, no entanto, continua reforçando a situação dos viajantes a
pé nas estradas, burlando as camadas de informação típicas da técnica
pirâmide deitada devido ao apelo dos fatos diante da crise humanitária
generalizada; deste modo, os usuários leem a matéria optando pelas seções
mais pelos títulos, sem discernir contextualização e exploração dos fatos.
Todo o texto insiste nas subjetividades dos entrevistados migrando em meio
aos dados factuais da realidade denunciada persistentemente. Isso está
presente na entrevista de dois irmãos cujos pais e filhos ficaram na
Venezuela, uma despedida “dolorida”, mas necessária num contexto no qual
“não há futuro” (COSTA; BRANDÃO, 2018).
A travessia cansativa, sob fome e sede, contrasta diante da condição
de não poder cruzar a fronteira com a Colômbia, pois estão sem passaporte e

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lá “há um rigoroso controle de acesso” (COSTA; BRANDÃO, 2018). Neste


trecho de Rota da fome, é oferecido um link ao leitor de acesso a outra
webreportagem sobre a fronteira ao Norte da Venezuela onde a polícia
intervém nas tentativas de entrada ilegal. Optando pela “linkagem”, o
usuário constrói um mapa composto de camadas de informação cujas etapas
de explicação, contextualização e exploração da pirâmide deitada,
principalmente a última, são mais delimitadas e transitam os diversos
sentidos da imigração.
A seção seguinte ‘Quando a gente dá, Deus dá de volta’ volta a
demonstrar o apoio aos viajantes por parte dos brasileiros. Uma índia da
etnia taurepang e comerciante às margens da BR-174 “se comove ao vê-los
esfomeados, e tenta ajudar como pode. Uma vez deu a um grupo de
venezuelanos famintos a comida que iria vender no comércio da filha no dia
seguinte”, entre eles crianças e idosas (COSTA; BRANDÃO, 2018). Uma
líder tuxaua disponibilizou comida e dormitório, destacando que “Eu
concordei assim porque tinham mulheres e crianças, se fossem só homens
eu jamais deixaria dormir na minha casa” (COSTA; BRANDÃO, 2018). As
declarações das entrevistadas são seguidas da informação acerca do fluxo
migratório, transformando o cotidiano de boa parte das vilas indígenas, caso
da Vila Três Corações onde 2 mil habitantes nativos da etnia macuxi
convivem com cerca de 70 venezuelanos.
A subjetividade não hieráquica dos declarantes dessas comunidades
é permeada por sentimentos de reciprocidade, tendo em vista que “Todos
são seres humanos, como nós [...] Hoje são eles, amanhã poderemos ser

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nós” (COSTA; BRANDÃO, 2018). Na penúltima seção Longe de casa,


mas perto da fronteira, o sentido de abrigo contra as dificuldades da
travessia é fragmentado, pois os personagens não são acolhidos e precisam
optar entre tentar trabalho em Boa Vista para ficar mais perto de seu país de
origem, mesmo sabendo as escassas oportunidades no estado de Roraima,
sem grande parque industrial e dependente da economia do funcionalismo
público à qual os migrantes não têm acesso, ou fazerem parte de programa
do governo federal brasileiro através do qual eles são enviados a outros
estados do Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. As declarações dos
entrevistados, a exemplo de “Não podemos viver todos no mesmo lugar.
Tem que organizar e colaborar para que consigamos emprego” (COSTA;
BRANDÃO, 2018), continuam reforçadas pelo tempo e pelas condições da
caminhada, sugerindo a cada seção da webreportagem a preocupação das
jornalistas mais com a triste realidade da migração do que em relação à
delimitação dos campos informacionais da técnica de pirâmide deitada
comum ao jornalismo digital. A diferença desse trecho é ser seguido pelos
dados do local de aglomeração dos recém-chegados à capital roraimense e o
número de 800 venezuelanos vivendo de forma improvisada na cidade,
indicando assim, na próxima seção, a condensação das camadas de
explicação, contextualização e exploração, por meio da qual a situação dos
migrantes no destino justificará ou não os sentidos fluindo “penitência”
expressos na cobertura da travessia.
Em Acampados na praça, as autoras tratam a caminhada até Boa
Vista como um “êxodo venezuelano” e convergem a representação dos

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abrigos ocupados pelos viajantes à demarcação de diferenças entre seus


grupos sociais (COSTA; BRANDÃO, 2018). Os migrantes optam pela praça
Simón Bolívar, nome do herói libertador da independência latino-americana
no século XIX venerado pelos venezuelanos, evitando o abrigo dos não
índios considerado “perigoso, precário e superlotado” (COSTA;
BRANDÃO, 2018). Apesar de estarem num espaço sem proteção contra
chuvas, “ainda encontram aquilo que vieram buscar no Brasil: alimento”
(COSTA; BRANDÃO, 2018). A informação do apoio de ONGS, igrejas e
população em geral é seguida do relato a respeito da condição dos viajantes
recém-chegados com pés machucados e mãos calejadas, atribuindo à ajuda
um caráter humanitário e religioso. As vítimas de desnutrição e dermatites
são atendidas em posto de saúde próximo à praça, mas a precisão usada
pelas repórteres ao descrever o fato de “Sem alimento, o organismo busca
suas reservas, fazendo com que as células capturem primeiro glicose e
carboidratos do tecido gorduroso, e depois ‘comam’ os músculos” (COSTA;
BRANDÃO, 2018), transforma o esgotamento do autoexílio em certa opção
pelo preparo à condição sub-humana prorrogada ao espaço urbano da capital
brasileira.
Voltando a tratar das dificuldades do trajeto em depoimento de
entrevistada, a webreportagem reforça a construção de um fluxo mental
transitório entre as manifestações discursivas por parte do leitor em relação
à migração correspondente à complexa realidade dos seus processos
diplomáticos, políticos, econômicos, sociais e culturais. Enquanto alguns
caminhantes “sérios e velozes” estão quase irreconhecíveis, um declarante

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aponta a necessidade de repouso devido à urgência de “pegar os papéis [sic]


para irmos à Polícia Federal. Vamos tratar de conseguir emprego” (COSTA;
BRANDÃO, 2018). Deste modo, esse trecho indica as distintas realidades
dos migrantes a serem apontadas na cobertura jornalística, seguindo as
assertivas da pesquisadora Anne Grobet (in DELL’ORTO; BIRCHFIELD,
2014, p.1416). As diferenças de realidade dos migrantes, no entanto,
destoam da situação da “massa homogênea” dos desvalidos diante da não
confirmação, no destino, das esperanças durante a travessia na BR-174, daí
as jornalistas relatam “O final feliz dos imigrantes [sic] venezuelanos,
porém, parece que tem prazo de validade” (COSTA; BRANDÃO, 2018).
Elas confirmam isso no caso da empregada doméstica que recebeu apenas
R$ 10 “como salário” por três dias de trabalho e pagou pela comida
consumida na casa dos patrões (COSTA; BRANDÃO, 2018).
A matéria termina com sua declaração de não querer informar aos
filhos e netos a condição de viver nas ruas de Boa Vista nas quais
“encontrou comida, mas não um teto e nem um trabalho digno”.
Paralelamente a seu discurso “Não me atrevo a dizer como estou, onde
estou”, Emily Costa e Inaê Brandão, autoras da reportagem, concluem:
“Fugiu da fome, mas ainda está na miséria” (COSTA; BRANDÃO, 2018).
Esta frase emblemática sintetiza a cobertura da travessia e chegada à capital
roraimense através da qual os migrantes são descritos individualmente em
suas subjetividades relacionadas ao dados e aos fatos, e coletivamente como
uma “massa” dispersa da dignidade humana.

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Rota da fome caracteriza-se, nos termos de Cleofe Sequeira (2005,


p.29-30), enquanto reportagem investigativo-interpretativa marcada por
informações complexas, num novo e mais completo contexto, e numa
tentativa de exceder os propósitos analíticos tradicionais da realidade. As
informações e os dados oferecidos não são suficientes à apuração factual,
cabendo ao recorte das subjetividades dos sujeitos do corpo noticioso
evidenciar comprovadamente os efeitos da migração por meio dos sentidos
apreendidos e transitórios, e checar os motivos da travessia individualmente
e coletivamente através da angulação insistente de diversos entrevistados.
Portanto, as repórteres cumprem as rotinas da cobertura investigativa ao
apurar as evidências e checar os fatos particulares e sociais, migrando a
interpelação do subjetivo objetivamente intermediado pelos dados
informativos, de sujeito a sujeito, de fonte não oficial à especializada ou
oficial. Ao fazer isso, areja o ordenamento engessado da pirâmide invertida
ou deitada, tornando as camadas de explicação, contextualização e
exploração factual flexíveis sem seguir a rigidez de uma estrutura noticiosa
e hierárquica. Elas fluem juntamente com a angulação dos fluxos
migratórios, estando presente em todas as seções da webreportagem. Neste
sentido, mais importante do que obedecer ao estilo do jornalismo digital, a
matéria associa o hibridismo da reportagem subjetiva capaz de forjar a
fidelidade factual propícia à objetividade jornalística, nos termos apontados
por Schudson (2010, p.17), e da categoria interpretativo-investigativa.
Mostrando as dificuldades coletivas e individuais da migração, as jornalistas
apuram, confrontam e checam os problemas persistentes e as soluções sem

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prazo de acontecer. Apesar de cobrirem persistentemente a fragilidade e as


emoções envolvidas no processo migratório, não perdem relevância política
quando se atém às questões emocionais da imigração, conforme denunciam
Giovanna Dell’Orto e Vicki Birchfield na angulação em geral dos meios de
comunicação (2014, p. 414-421). A cobertura investigativa de Rota da fome
valendo-se de objetividade e subjetividades se impõe e o apelo emocional
repercute nos campos políticos e sociais.
O construto objetivo-subjetivo da webreportagem é interpelado pelo
hibridismo do longo formato típico dos gêneros narrativos do jornalismo,
valendo-se da documentação da atualidade dos fatos adotada pelo realismo
jornalístico, sinalização feita por Connery (2011, p.7), etapa do jornalismo
investigativo conforme aponta Cleofe Sequeira (2005, p.25; p.134), num
relato biográfico das vítimas repleto de contrastes em trânsito entre o
estrangeiro que chega ao destino, presente no vídeo, e o estrangeiro em
processo migratório representado no texto, tratando, deste modo, de
frustrações e expectativas, e permeado de lacunas cujos preenchimentos são
oferecidos pelas angulações subjetivas e documentais comuns ao
biografismo jornalístico segundo Sérgio Villas Boas (2008, p.206), e das
versões da realidade que compõem as interpretações culturais legitimadas
pelo paradigma da factualidade e próprias à storytelling de acordo com
Connery (2011, p.15). Apropria-se também da desconfiança dos sentidos de
sujeitos predestinados, da desmistificação de uma verdade absoluta a
respeito dos migrantes, de uma narração não linear e cronológica típica da
narrativa biográfica contemporânea conforme defende Boas (2008, p.11), da

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dedução por meio de uma complexa justaposição de dados da narrativa


metabiográfica (BOAS, 2008, p.41) e do biografar a si mesmo na
experiência dos outros sujeitos (BOAS, 2008, p.41), feito pelas duas
repórteres no vídeo disponível no início da matéria. Ainda imprime às
experiências jornalísticas e das fontes, caráter imersivo permeado de
implicações objetivas e subjetivas do compromisso investigativo,
constituindo uma versão privilegiada (HEMLEY, 2012, p.55) ao se infiltrar
nos fatos como procedem as práticas do jornalismo investigativo
(SEQUEIRA, 2005, p.75).
Em meio ao entrecruzamento de características da storytelling, do
relato biográfico e do jornalismo de imersão, o valor investigativo se impõe
ao não se contentar apenas com a interpretação das realidades objetivas e
subjetivas por meio dos dados, legitimando-se através da checagem das
evidências nas declarações transitórias e não hierárquicas dos entrevistados.
Sem negar a confluência de categorias informativa, opinativa, interpretativa
e investigativa, as autoras cumprem a cobertura imersiva preferencial dos
fatos migratórios, na qual a multiperspectiva sob vários ângulos é induzida
pela complexidade do tema, rompendo as barreiras entre notícia e opinião,
de acordo com as características desse tipo de cobertura sinalizadas por
Benson (in DELL’ORTO; BIRCHFIELD, 2014, p.2011-2017). Uma
cobertura de investigação exclusiva depende sempre das opções de
infiltração, de caráter metabiográfico, da interpretação cultural a partir do
“eu” dos sujeitos e do hibridismo narrativo feitos pelos jornalistas. Desta
forma, a técnica de pirâmide deitada é renovada e atualizada em favor dos

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contextos complexos e das mobilidades constitutivas das experiências


individuais e coletivas.

Considerações finais

Rota da fome: o caminho dos venezuelanos que enfrentam


perigo, falta de comida e de água para chegar a Boa Vista oferece um
panorama da migração no subcontinente latino-americano. Através do
hibridismo de categorias e gêneros narrativos do jornalismo, legitima a
cobertura investigativa ao preencher as lacunas de informação e
documentação a partir das subjetividades dos sujeitos envolvidos nos fatos.
Não se limita à rigidez da estrutura das pirâmides invertida ou deitada, mas
vale-se do construto de explicação, contextualização e exploração dos
aspectos objetivos e subjetivos, em fluxo transitório no vídeo, no texto da
matéria e na “linkagem” à webreportagem a respeito da imigração na
fronteira com a Colômbia, diversificando as angulações acerca dos
problemas apresentados diante da persistência dos relatos comuns a
compartilhar a fome, a sede e a falta de perspectiva econômico-social.
Assim, embaralha a homogeneização da cobertura dos processos
migratórios, denunciando problematicamente e de forma complexa a
planificação das experiências dos sujeitos que deixam seu país, estão em
fluxo ou chegam ao destino pretendido, porém, frustrante em relação às
expectativas reunidas de modo precário devido às crises generalizadas. Tal
reportagem em meio digital serve de modelo às coberturas não só de

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(i)migração e também a outras interessadas a interpelar processos objetivos-


subjetivos não hierárquicos em narrativas jornalísticas comumente
permeadas de storytelling, (meta)biografias, infiltrações imersivas na
realidade e de outros gêneros propícios ao jornalismo investigativo.

Referências

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O agendamento do futebol feminino: o


discurso do preconceito e a falta de uma
cobertura jornalística especializada do
esporte local de Roraima
Marcos Martins

O futebol feminino tem tido uma crescente onda de popularidade e


uma evolução em seus aspectos técnicos e táticos. Na contramão deste
crescimento, o jornalismo esportivo vive uma crise como um gênero
especializado, navegando apenas pelo entretenimento, pela notícia factual,
em alguns lugares apenas reproduzindo para o local o que se produz na
mídia nacional. Ao reconhecer o futebol feminino e a necessidade de
discutir o papel da mulher neste esporte, a imprensa acaba em geral
colocando a modalidade ao lado do preconceito, da violência sem um
amadurecimento de uma cobertura jornalística da mulher como jogadora,
técnica e do futebol enquanto um esporte feminino. Neste capítulo, serão
analisadas duas matérias sobre o futebol feminino roraimense, trabalhando
com a análise de conteúdo e a teoria da agenda setting visto que se
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privilegia certa representação do futebol feminino em detrimento de um


discurso esportivo mais analista e crítico.

O futebol feminino e o jornalismo esportivo

O ano de 2019 reservou uma maior visibilidade ao futebol feminino


em todo o mundo. Vivendo um momento de grande evolução em variados
aspectos como modalidade esportiva, a Copa do Mundo de futebol feminino
disputada no período de 7 de junho a 7 de julho marcou também a inserção
midiática massiva do torneio e com isso um recorde histórico de audiência,
vide o fato de emissoras de TV aberta no Brasil, Itália, França e Reino
Unido passarem a transmiti-la.13
Vivendo um crescimento técnico, tático como modalidade esportiva
em vários outros países e não apenas nos Estados Unidos, o interesse pelo
futebol feminino vem tendo uma crescente também no público presente nos
estádios mais recentemente. Desta forma, é natural que assuntos como o
papel da mulher no futebol e as dificuldades de se contornar contextos de
falta de oportunidades para a modalidade venham à tona. O machismo, a
violência contra a mulher e as dificuldades de esta se inserir neste esporte
foram elementos utilizados no discurso jornalístico preferido dos meios de
comunicação durante 2019. Estes temas aliados ao futebol se transformaram

13
Disponível em: <https://maquinadoesporte.uol.com.br/artigo/copa-do-mundo-feminina-
supera-1-bilhao-de-espectadores_38507.html>. Acesso em: 25 nov. 2019.
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em espécie de busca para inserir o futebol feminino na sua pauta diária, o


que foi visto, principalmente, durante a última Copa do Mundo.
Em um momento em que a pauta se voltou de maneira mais forte
para a prática esportiva de mulheres, se percebe uma espécie de crise do
jornalismo esportivo. A discussão de ser apenas uma especialidade do
jornalismo ou estar voltado para o entretenimento em tempos nos quais o
futebol se transformou em um produto da cultura midiática tem sido
recorrente. A crise é vista não apenas no jornalismo esportivo, mas em todas
as editorias nesses tempos. Como observado por Vieira (2019), o jornalismo
vive tempos crísicos já alguns anos se o panorama for observado em
diversos aspectos.

Crise não apenas econômica, ligada aos meios de subsistir num


mercado digital disputado. Mais que isso, uma crise também do
seu papel social, autoridade e o que alguns também chamam de
perda de capital simbólico. Diante das constatações, as
empresas que produzem notícias têm se reajustado ao novo
cenário da comunicação de diferentes maneiras, algumas
encarando de forma inteligente e com perspicácia para
monitorar e acompanhar as mudanças. Outras, com enormes
dificuldades, morrendo pelo caminho (VIEIRA, 2019, p.1).

É notável como o esporte no estado de Roraima não é fator de


relevância para a mídia local, visto que o espetáculo esportivo estadual não
tem grande atratividade. Diante deste cenário, o futebol roraimense possui
extremas dificuldades de se manter, seja no futebol masculino, seja de
maneira mais grave no âmbito feminino. Este capítulo irá analisar dois
produtos jornalísticos, sendo uma matéria do site Roraima em Tempo e o
outro uma reportagem sobre o futebol feminino em Roraima produzida pelo

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programa Esporte Espetacular veiculado pela Rede Amazônica, afiliada da


Rede Globo em Roraima. O objetivo é destacar que o jornalismo esportivo
se esquece de tratar o futebol feminino como uma modalidade a ser
analisada de forma técnica, apesar do intuito inicial positivo de denunciar as
dificuldades e os preconceitos contra as mulheres no futebol.
Sempre com o intuito de mostrar a violência, o preconceito e a
superação será que existe um amadurecimento também de uma cobertura
jornalística especializada da mulher esportista como uma jogadora, uma
técnica e do futebol enquanto esporte feminino? O intuito é contribuir com a
discussão da mulher esportista dentro do esporte roraimense.

Crise de representatividade no jornalismo esportivo

Antes considerado uma editora de menor importância, não raro os


jornalistas esportivos sofriam preconceito e discriminação por tratarem de
um assunto considerado “menor” dentro da gama de notícias redigidas numa
redação de jornal. Coelho (2003) chama atenção para este fato ocorrido
principalmente nos primeiros anos da cobertura do esporte no Brasil.

Pouca gente acreditava que o futebol fosse assunto para


estampar manchetes. A rigor, imaginava-se que até mesmo o
remo, o esporte mais popular na época, jamais estamparia as
primeiras páginas de jornal. Assunto menor. Como poderia uma
vitória nas raias – ou nos campos, nos ginásios, nas quadras –
valer mais do que uma importante decisão sobre a vida política
do país? Não, não poderia, mesmo que movesse multidões às
ruas em busca de emoções que a vida cotidiana não oferecia
(COELHO, 2003, p.7-8).

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Yanez (1995) corrobora a ideia observada por Coelho (2003)


destacando que muitos consideravam o jornalismo esportivo “um gênero
menor” ou “o irmão pobre da comunicação” (YANEZ, 1995, p. 51).
Contudo, observa que esta especialidade do jornalismo passou por
mudanças e toma cada vez mais espaços dentro dos meios de comunicação.

Embora ainda observe existir preconceitos, para Souza (2005) a


desvalorização da imprensa esportiva e dos cronistas da área perdurou até o
início da década de 1940 com o futebol tendo papel fundamental no
desenvolvimento da imprensa de esportes no Brasil. Segundo o autor, se não
fosse pela importância adquirida pelo futebol no país, é provável que as
informações esportivas atualmente ainda teriam um patamar menor no
jornalismo brasileiro. Contudo, à medida que foi ganhando em relevância
não apenas como parte da cultura e do cotidiano das pessoas, mas sobretudo
sendo parte do entretenimento midiático, o jornalismo esportivo ganhou em
importância dentro do “jogo” da comunicação. Souza (2005, p.85) revela
que o jornalismo esportivo atualmente ganhou prestígio social e também
econômico justamente por gerar grandes receitas publicitárias e manter o
interesse de boa parte da população em ler jornais, sites e revistas.
Para entender como começou a crise dentro do jornalismo esportivo,
primeiro é preciso saber que o jornalismo esportivo é antes de tudo uma
especialidade do jornalismo. Conforme apontam Sardinha, Cunha e Favacho
(2018, p.120), é preciso compreender a especialização de uma maneira mais
atenta e meticulosa do que uma “simples divisão em editoria ou caderno de
um diário impresso”. Os autores destacam ser preciso ir além para existir

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verdadeiramente uma especialização de conteúdo e que de fato ela possa


cumprir seu objetivo. Tavares (2009, p.117) observa que a especialização do
jornalismo ocorreu historicamente e esteve sobretudo associada à “evolução
dos meios de comunicação e a formação de grupos sociais consumidores de
mídia cada vez mais distintos”.
Fazendo considerações acerca do tema, Tavares (2009) ainda conclui
que o jornalismo especializado possui uma função social importante
definida por ele como:

[...] o papel de buscar intermediar saberes especializados na


sociedade, construindo um tipo de discurso que, noticioso, ou
“apenas” informacional, promova um outro tipo de
conhecimento que se funde – geralmente – na compreensão
conjunta do universo científico e do senso comum (TAVARES,
2009, p.123).

Por isso mesmo, é importante que os jornalistas da editoria de


esporte gostem, se interessem e dominem a linguagem esportiva e de suas
diferentes modalidades, ou seja, se especializem. Borelli (2002, p.5) destaca
que “a compreensão do esporte só pode ser feita, primordialmente, pelos
especialistas, na medida em que a tarefa de construção é tão científica que
só eles podem ter este entendimento”. Linhares (2006) também destaca a
importância de uma base de conhecimento técnico e acadêmico para o
jornalista esportivo com intuito de agregar maior qualidade à notícia
esportiva. Para o autor, além do conhecimento técnico, o jornalista da área
precisa ser mais versátil do que em outras áreas específicas. Para
exemplificar, Linhares (2006) lembra o exemplo de um jornalista que vai

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cobrir os jogos pan-americanos ter a obrigatoriedade de conhecer


basicamente uma gama muito grande de esportes.
Por se tratar de um grande negócio e ao se perceber o crescente
interesse que transformou o futebol em uma cultura do entretenimento
midiático, este jornalismo entrou em crise. Agora é preciso antes de tudo
promover o espetáculo e muitas vezes é necessário até fazer parte do
espetáculo esportivo. Yanez (1995) critica justamente o fato de que a
informação esportiva tem promovido a atividade somente como um
espetáculo.

Algunos estúdios revelan que los espacios desportivos son los


más leídos o sintonizados. Ello há forzado a los médios a
destinar grandes espacios para el tratamento de la información
deportiva, y promocionar a esta actividad como um
espectáculo, mas no como um servicio a la sociedad (YANEZ,
1995, p.51).

Assim, a autora destaca que dentro do esporte como um negócio e


um espetáculo, o jornalista esportivo acaba sendo visto de bom agrado pelos
empresários da comunicação, pois a cobertura de entretenimento é bastante
rentável.
De acordo com Netto (2013,p.4), o jornalismo esportivo é uma
atividade segmentada, mas ainda faz parte do jornalismo e, portanto, desta
maneira deve seguir os princípios e as regras do jornalismo em geral.
Contudo, o jornalismo esportivo segundo esse autor está inserido dentro de
um universo muito característico ao mexer com emoções, ídolos,
merchandising, a vida dos atletas e as especulações. As práticas da editoria
esportiva têm de ser levadas em conta devido às imposições do mercado da

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informação cada vez mais rápida impactarem o profissional da área.


Contudo, a qualidade do conteúdo jornalístico deve ser sempre analisada até
para apontar que determinados cenários não são ideais para manutenção da
função social do jornalismo. Segundo Barbeiro e Rangel (2006, p.22), o
repórter deve estar sempre desconfiando, pois a dúvida faz parte do seu
cotidiano. Os autores destacam que as fontes esportivas devem ser tratadas
com cuidado assim como qualquer fonte utilizada por um repórter.
Dentro do jornalismo esportivo, são bastante comuns as matérias
pautadas a partir de meras especulações. Esses eventos ocorrem com
frequência, principalmente em notícias a respeito do lado econômico do
esporte ou dos bastidores que envolvam dirigentes, atletas ou um grupo
deles. Exemplos visíveis ocorrem no período de contratações no qual se
percebe matérias de jogadores ou atletas em situação de assinar com
determinado clube. Por vezes, são meras especulações, boatos ou rumores
infundados baseadas em fontes sem a devida checagem. Chaparro (2007,
p.79-80) analisa que os boatos podem ser positivos quando geram o ponto
de partida para uma matéria, mas o ponto negativo é quando o boato
transformado em informação jornalística acaba servindo aos interesses de
determinadas pessoas ou grupos. Além disso, os bastidores do esporte com
seus dirigentes e atletas costumam chamar bastante atenção ainda mais se
for de grandes clubes ou nomes importantes dentro da modalidade. Brigas,
discussões, desafetos entre personagens famosos com histórias que
geralmente vem à tona quando time específico não está tendo os resultados
satisfatórios ocorrem bastante. Como analisam Barbeiro e Rangel (2006), o

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repórter deve sempre desconfiar de fontes, informações, configurando


pautas através da especulação. O rumor precisa ser checado e utilizado
apenas como um ponto de partida para uma notícia.
Barbeiro e Rangel (2006) também concordam com Netto (2013) ao
admitir que jornalismo ainda é jornalismo seja em qualquer especialidade e,
portanto, sua essência não muda (ou não deveria), estando ligado às regras
de ética e interesse público. Todavia, apesar de ser jornalismo, Gurgel
(2009) atenta ao fato de que tem existido cada vez mais na utilização do
esporte como espetáculo, dilemas em torno do jornalismo esportivo nas
redações:

O nó teórico-prático sobre o “fazer jornalismo esportivo” dá-se


justamente na fronteira do esporte espetáculo e agente do
consumo versus esporte amador para a prática lúdica e
descompromissada; do jornalismo do entretenimento
espetacular versus o jornalismo que promove as práticas
culturais em prol de uma sociedade melhor (incluindo-se o
esporte nelas) versus o jornalismo que “propagandeia”
celebridades e produtos na indústria cultural (GURGEL, 2009,
p.196).

Nesses anos, tem existido uma crise no jornalismo como um todo em


que o profissional da área e os meios de comunicação cada vez mais têm
sido questionados quanto as suas escolhas, suas informações e suas
angulações por um receptor atualmente também produtor de conteúdo. Para
Vieira (2019, p.2), esta é também uma consequência da revolução
tecnológica pela qual o mundo passa nos últimos anos. Assim consideram
Morin e Kern (2003, p.93), ao observar uma crise generalizada em vários
setores da sociedade, seja ela na esfera ambiental, seja no cenário político e

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econômico, entre outros. O autor constata a existência de incertezas no


planeta e assim define o que seria uma crise de representação e como
superá-la:

[...] o problema universal para todo cidadão: como ter acesso às


informações sobre o mundo, e como adquirir a possibilidade de
articulá-los e organizá-los. Mas, para articulá-los e organizá-
los, e deste modo reconhecer e conhecer os problemas do
mundo, é preciso uma reforma de pensamento. Essa reforma,
que comporta o desenvolvimento da contextualização do
conhecimento, reclama ipso facto a complexificação do
conhecimento (KERN; MORIN, 2003, p.152).

O comportamento do público em relação à informação mudou e isso


tem a ver também com as novas condições proporcionadas pela internet e
outras ferramentas digitais capazes de transformar o receptor em um
produtor e também distribuidor de conteúdo (VIEIRA, 2019, p.2).
A visão cada vez maior do esporte apenas como espetáculo de
entretenimento midiático é também observada no jornalismo esportivo.
Gurgel (2009, p.195) critica este jornalismo que não tem dado conta de sua
verdadeira importância na sociedade atual e por isso fica extremamente
focado e preso às notícias do esporte de alto rendimento. Ainda para o autor,
dentro da cobertura diária do esporte existe pouco sobre esporte amador,
sobre políticas públicas e privadas, promoção das práticas esportivas como
aspecto de qualidade de vida ou de seu impacto cultural na sociedade.
O dilema do jornalismo esportivo apenas tratado como
entretenimento ou que deve cumprir seu papel social se tornou mais
exacerbado com uma crise de função de compromisso público da profissão
nesses tempos. O jornalismo e os jornalistas estão sendo questionados em

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todos os aspectos da profissão, pela maneira de fazer jornalismo, as linhas


editoriais que movimentam os interesses da mídia na condição de empresa e
até os conceitos fundamentais do jornalismo, a exemplo da neutralidade,
isenção, imparcialidade cada vez mais discutidos pela sociedade. Toda esta
discussão está presente de modo mais intenso na área do esporte, pois é uma
área especializada mobilizadora de um grande número de aficionados e
entendedores do assunto. Isso faz com que qualquer erro do jornalista seja
notado e desqualificado pelos fãs de determinado esporte (NETTO, 2013,
p.12-13).
Oselame (2010, p.1) corrobora a ideia de que a prática de um
jornalismo esportivo ético e preocupado com a “apuração, checagem e
divulgação dos fatos” vive uma crise. Isso ocorre pelo aspecto cultural
brasileiro de ver o esporte como diversão, mas também do descaso dos
profissionais da editoria ao ver a cobertura como sinônimo apenas de
distrair o público. O compromisso com a informação foi esquecido em uma
lógica de produção em que o objetivo é somente entreter, divertir, e este fato
fica muito claro na relação cada vez maior da televisão aberta com o futebol
(OSELAME, 2010, p.63-64). Segundo Rowe (2007, p.399), a transmissão
tem se concentrado muito mais na área do entretenimento em vários países
do mundo, sendo, portanto, uma tendência mundial e não apenas brasileira.
O autor revela assim a presença das seguintes características em todos eles:
pouca preocupação com problemas do cotidiano desportivo, estreita gama
de temas abordados e utilização de poucas fontes.

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Sardinha, Cunha e Favacho (2018, p.121) observam justamente no


Brasil o mesmo fato da extrema preocupação com o cotidiano desportivo. É
uma carga gigante de temas apenas pontuais, como o “jogador machucado,
treino de times na véspera de uma partida, etc.”.

But in the case of sports journalism, an unprecedented


opportunity to diversify and deepen its remit occasioned by its
expansion and heightened cultural resonance is seemingly
being squandered by an excessively close integration with the
sports industry, a lack of critical ambition, and an
unimaginative reliance on socially and politically de-
contextualized preview, description, and retrospection
regarding sports events14 (ROWE, 2007, p.400)

É notório o ganho em importância do jornalismo esportivo atual, mas


como aborda Rowe (2007, p.400), os meios e os profissionais vêm deixando
escapar a oportunidade de crescer também em qualidade. Até por isso, esta
especialidade do jornalismo fica relegada por diversas vezes ao desprezo de
ser “o departamento de brinquedos da mídia” (ROWE, 2007, p.385).

Agenda setting e o futebol feminino

O poder da mídia e a possível influência que ela exerce é objeto de


discussões teóricas há bastante tempo. Entre os diferentes aportes teóricos
com o intuito de estudar o tema, se destaca o Agenda Setting [agendamento]

14
Mas, no caso do jornalismo esportivo, uma oportunidade sem precedentes de diversificar
e aprofundar sua missão ocasionada por sua expansão e ressonância cultural aumentada
parece estar sendo desperdiçada por uma integração excessivamente estreita com a indústria
do esporte, uma falta de ambição crítica e uma confiança sem imaginação, pré-visualização,
descrição e retrospecção social e politicamente descontextualizada sobre eventos esportivos
[tradução livre nossa].
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proposto por Maxwell McCombs e Donald Shaw em 1972 no artigo


denominado The Agenda Setting Function of Mass Media. Os estudos de
McCombs e Shaw são inspirados pelo livro Public Opinion (1922) de
Walter Lippmann que destacou o papel exercido pela mídia ao contribuir
com as percepções do público. Segundo Shaw (1979, p.76), existe relação
entre as rotinas de os meios de comunicação de massa incluírem ou
excluírem fatos em seu conteúdo produzido e as práticas comuns das
pessoas incluírem e excluírem assuntos de seus conhecimentos. O autor
destaca que “em consequência da ação dos jornais, da televisão e de outros
meios de informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura,
realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos” (SHAW,
1979, p.76).
Para Junior, Fermino e Pires (2015, p.253), a teoria do agenda setting
considera através de estudos empíricos o fato de que a mídia busca colocar
uma temática de sua agenda na agenda social.

Pode-se afirmar então que o agendamento é um processo


relacional entre a agenda jornalística (midiática) e a agenda
pública (social), em que há uma tentativa de alguns grupos
(financeiros, econômicos, políticos) de pautar temas e assuntos
de seu interesse na esfera social por meio da mídia e ainda
consolidar sua(s) opinião (ões) a respeito, com o objetivo de
torná-la(s) hegemônica(s) (JUNIOR; FERMINO; PIRES, 2015,
p.253).

A necessidade dos estudos do agenda setting se deve justamente pelo


papel crucial que os meios de comunicação de massa assumiram no mundo
atual e apesar de ser uma teoria um tanto quanto antiga, ainda é notável sua
importância quando se observa as diferentes relações da mídia com a

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sociedade, principalmente quando se trata de jornalismo esportivo.


Conforme defende Santaella (2001, p.36), existe papel fundamental de
editores e programadores na formação da realidade social e isso acontece
pela sua responsabilidade na seleção e classificação das informações. A
autora ainda destaca que esta teoria “não defende que os mass media
pretendam persuadir. Quando descrevem e precisam a realidade exterior, os
mass media apresentam ao público uma lista daquilo sobre que é necessário
ter uma opinião e discutir” (SANTAELLA, 2001, p.36).
Chegando mais precisamente ao agendamento das modalidades
esportivas, Fausto Neto (2002, p.5) destaca que primeiro é preciso entender
o esporte enquanto campo social integrado a outros campos. Para o autor, o
agendamento de uma atividade específica não é apenas uma decisão
unilateral dos meios de comunicação de massa, pois não está separado do
regime de funcionamento de outros setores sociais presentes na sociedade
responsáveis por definir suas respectivas agendas. Dentro deste contexto,
está o futebol brasileiro de grande valor cultural para a identidade e a
formação social do país, transformado pela mídia em um produto cultural de
altíssimo valor no mercado. Considerando as ideias de Fausto Neto (2002,
p.5) de que o agendamento específico de uma atividade está ligado também
aos acontecimentos em outros setores da sociedade e entendendo o futebol
como parte desta sociedade, é preciso destacar o momento no qual o futebol
feminino ganhou notoriedade diante do crescimento e da midiatização das
políticas de igualdade de gênero em variados aspectos da sociedade.

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Para Junior, Fermino e Pires (2015, p.253), o agendamento dos


veículos de comunicação sobre o esporte não acontece apenas com a
cobertura dos eventos com o intuito de fornecer informações, como por
exemplo, quais equipes estarão disputando determinado campeonato ou o
calendário de jogos. Para os autores, a ideia central do agendamento
esportivo está em “oferecer informações sobre todo o contexto que faz parte
dessas informações no discurso midiático, com relação à economia, à
política, à cultura, ao esporte e aos interesses da sociedade” (JUNIOR;
FERMINO; PIRES, 2015, p.253).
Observando a Copa do Mundo de futebol feminino disputada no ano
de 2019, se percebe justamente o fato referenciado pelos autores trazidos
acima acerca do agendamento esportivo na mídia. O discurso midiático
encarou a competição não apenas com a cobertura do esporte em si, mas
tratou de juntar aspectos da politização da luta das mulheres por igualdade
na sociedade para alçar os olhares das pessoas à competição. São fáceis de
encontrar matérias a exemplo de “Marta se torna maior artilheira da história
das Copas”15 em uma busca por unificar os números de gols dos artilheiros
das Copas do Mundo nas modalidades feminina e masculina, e “Copa
feminina termina com gritos por igualdade de pagamentos”16. Também foi
bastante fácil encontrar relatos de busca por igualdade de salários na ocasião
em que a jogadora Marta ganhou os holofotes da mídia aqui no Brasil,

15
Disponível em: <https://www.dw.com/pt-br/marta-se-torna-maior-artilheira-da-
hist%C3%B3ria-das-copas/a-49255334> Acesso em: 11 jan 2020.
16
Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2019/07/copa-feminina-termina-
com-gritos-por-igualdade-de-pagamentos.shtml> Acesso em: 11 jan 2020.
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registro feito por matérias como “Marta opta por jogar sem patrocínio
esportivo e carregar recado em chuteira”17 e “Marta dedica gol histórico na
Copa a igualdade de gênero”18.
O envolvimento dos temas de igualdade de gênero e da Copa do
Mundo de 2019 foi recorrente na imprensa à medida que a competição se
desenvolvia até a final. Foi uma espécie de chamariz para trazer o futebol
feminino à pauta diária, de unir o público em torno da luta dos movimentos
pela igualdade de gênero no futebol, principalmente por meio da Rede
Globo que transmitiu a competição pela primeira vez na história. Já nos
anos 1990, as competições de futebol feminino tiveram o apoio midiático da
Rede Bandeirantes, fato visto principalmente na época do jornalista
esportivo Luciano do Valle. Atualmente, é a emissora que transmitiu o
último Campeonato Brasileiro feminino de futebol19. Apesar disso, uma
reclamação frequente é sobre a falta de cobertura dos esportes femininos. E
quando as modalidades e suas atletas finalmente ganham os holofotes da
mídia, as mulheres esportistas acabam sendo retratadas por aspectos como
seu corpo, sua beleza e sexualidade. Esta é geralmente a representação
midiática das mulheres esportistas. Segundo Carvalho e Grohmann (2016,
p.8), é fato que as mulheres não são retratadas na mídia pelas suas

17
Disponível em: <https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-
noticias/2019/06/14/por-opcao-marta-joga-sem-patrocinio-esportivo-e-carrega-recado-em-
chuteira.htm> Acesso em: 10 jan 2020.
18
Disponível em: <https://www.terra.com.br/esportes/marta-dedica-gol-historico-na-copa-
do-mundo-a-igualdade-de-genero,cda7578bf5dc23bd3e2fb32b3627ce4atoswbd05.html>
Acesso em: 10 jan 2020.
19
Disponível em: < https://maquinadoesporte.uol.com.br/artigo/band-assina-com-cbf-e-
transmitira-brasileirao-feminino_36991.html> Acesso em: 14 jan 2020.
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conquistas, performances, habilidade ou pelos aspectos técnicos e táticos


dentro da sua modalidade.
Como grande promotora do esporte para uma grande quantidade de
pessoas, é inegável que a mídia tem um papel fundamental na sua
divulgação, mas quando se trata das mulheres existe pouco espaço,
visibilidade e reconhecimento. Esta situação promove a marginalização
dessas atletas e também a anulação simbólica de suas realizações
(GOELLNER; SILVA; BOTELHO-GOMES, 2013, p.178). Até por essa
falta de espaços para o esporte feminino, a luta pela igualdade de gênero e a
visibilidade na mídia em geral foram assuntos recorrentes. Apesar disso,
essa maneira de representar as jogadoras apenas pelo viés do preconceito e
da superação trouxe aspectos negativos à modalidade das mulheres,
principalmente em uma imprensa esportiva que não possui conhecimento
especializado para analisar e tratar a modalidade também como um esporte.

Análise da produção jornalística sobre futebol feminino

Iremos analisar duas produções jornalísticas a respeito do futebol


feminino de Roraima. A busca é por trazer uma abordagem qualitativa
através do uso da análise de conteúdo dessas produções. As matérias são da
página online Roraima em Tempo, jornal local que começou como
impresso e hoje atua no estado apenas na internet, denominada Jogadora de
futebol roraimense relata preconceito e pede por igualdade de gênero20

20
Disponível em: <https://roraimaemtempo.com/ultimas-noticias/jogadora-de-futebol-
roraimense-relata-preconceito-e-pede-por-igualdade-de-genero-,299635.jhtml>. Acesso em:
13 jan. 2020
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escrita por Yara Walker em 20 de maio de 2019, e uma matéria sobre o


futebol feminino roraimense produzida pelo programa Esporte Espetacular
da Rede Globo de Televisão21, veiculado nas manhãs de domingo por todas
as afiliadas da rede de televisão espalhadas pelo Brasil. No caso de
Roraima, a afiliada local é a TV Amazônica. A matéria escrita e a
reportagem para televisão aqui detalhadamente analisada são assinadas por
Sérgio Rangel e Fred Justo no dia 22 de setembro de 2019.
A primeira matéria relata os preconceitos sofridos pela jogadora
Amanda Sobral que atua no clube São Raimundo Esporte Clube, de Boa
Vista. O assunto discutido passa pela utilização frequente dos termos
preconceito, igualdade de gênero, machismo e pouco desenvolvimento das
práticas e técnicas do futebol feminino. Antes de tudo, é preciso atentar ao
fato de que o noticiário online em questão possui pouquíssimo
envolvimento com a área do esporte local. Em geral, suas matérias são
apenas pequenas notas sobre o cotidiano do esporte com notícias factuais
voltadas mais para o futebol, embora se encontre algumas tentativas de
tratar sobre natação, lutas, ciclismo seguindo o mesmo modelo.

O conteúdo esportivo quase inexistente fica evidenciado


precariamente devido à notória falta de qualificação do conteúdo esportivo
na página. Como abordam Sardinha, Cunha e Favacho (2018) ao analisar o
mesmo fenômeno nos jornais amapaenses, os jornalistas não problematizam

21
Matéria escrita e vídeo com a reportagem veiculada pelo programa. Disponível em:
<https://globoesporte.globo.com/programas/esporte-espetacular/noticia/jogadoras-
enfrentam-familia-e-depressao-pelo-futebol-no-estado-mais-violento-contra-a-
mulher.ghtml>. Acesso em: 13 jan. 2020
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e não fazem o papel de intermediadores do conhecimento especializado no


campo esportivo local. Em Roraima, ocorre o mesmo fenômeno. Percebe-se
que existe apenas uma divisão inócua de editoria para mera organização do
conteúdo online da página e não uma especialização deste mesmo conteúdo
com qualidade. A página do Roraima em Tempo fala “genericamente de
coisas específicas”, algo que Tavares (2009) aborda ser um erro frequente
quando os meios de comunicação tentam especializar seu conteúdo. Outro
ponto a se abordar é a mera reprodução de informações esportivas de cunho
nacional e até internacional, a exemplo de “Entre os grandes, apenas o
Santos não piora no Campeonato Paulista”22 ou “LeBron James ultrapassa
Michael Jordan em número de pontos na NBA”23. O que parece é que o
esporte é tratado apenas como uma forma de encher o feed de notícias da
página local sem qualquer qualidade.
Chegando ao tema principal deste capítulo, por não existir
especialização com qualidade do tema em geral, não existe o tratamento do
destaque da jogadora de futebol Amanda Sobral, de seus feitos, suas
conquistas, habilidades ou de aspectos táticos e técnicos do esporte que
pratica. A única informação esportiva relevante sobre a jogadora é sua
atuação no São Raimundo pela lateral esquerda. Não existe nada mais de
importante sobre a atleta ou sobre os campeonatos que ela disputou, ganhou,
perdeu, a respeito de sua evolução ou dos campeonatos do clube local. Este

22
Disponível em: <https://roraimaemtempo.com/esporte/entre-os-grandes-apenas-o-santos-
nao-piora-no-campeonato-paulista,294723.jhtml>. Acesso em: 13 jan. 2020.
23
Disponível em: <https://roraimaemtempo.com/esporte/lebron-james-ultrapassa-michael-
jordan-em-numero-de-pontos-na-nba,294556.jhtml>. Acesso em: 13 jan. 2020.
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aspecto da falta de entendimento e especialização da área do esporte fica


claro no paradoxo entre o título e o corpo do texto. No subtítulo se lê
“Amanda está esperançosa e pretende participar da Copa do Mundo de
Futebol Feminino”, porém no restante da matéria não se sabe como ela
pretende participar da Copa do Mundo. Ela acha que seria convocada? Já foi
para seleção brasileira? Participou de categorias de base da seleção? Enfim,
não se tem resposta para nenhuma pergunta e conforme observa Netto
(2013, p.12-13), os leitores de uma área especializada normalmente
entendem bastante do assunto e qualquer erro ou omissão do jornalista será
notado avidamente.
A utilização da temática igualdade de gênero, machismo e
preconceito é utilizada mais uma vez para trazer o futebol feminino, mas
não existe uma verdadeira especialização da temática para a atleta ser
tratada de forma técnica. Embora exista a tentativa de buscar alguma
exaltação da modalidade, ela não se dá por tratar a jogadora como uma
jogadora e recai nos mesmos discursos de preconceito e ascensão sem
retratar a jogadora e seu desempenho com a devida especialização
futebolística.
Como observaram Carvalho e Grohmann (2016, p.8) na mídia
esportiva, as mulheres não são retratadas pelas suas conquistas,
performances, habilidades ou pelos aspectos técnicos e táticos dentro da sua
modalidade e sim por outros fatores. A situação na matéria se mantém agora
pelo viés do preconceito/superação mesmo com a boa vontade de trazer para
os holofotes o futebol feminino local. Além das notícias meramente factuais

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sobre esporte, se consta que a cobertura da matéria está interligada a temas e


assuntos destacados com frequência em outros veículos também sobre
futebol feminino, ou seja, é uma mera reprodução na íntegra ou parcial do
que aparece de conteúdo nacional acerca da modalidade. É justo lembrar do
agendamento midiático, principalmente na Copa do Mundo, recorrente até a
atualidade que faz ligação com igualdade de gênero e futebol feminino.
O segundo trabalho midiático aqui a ser analisado também padece do
mesmo problema. A intenção é fazer alarme para o número de casos de
violência contra a mulher no estado de Roraima e de alguma forma unir o
assunto com esporte. Intitulada Jogadoras enfrentam família e depressão
pelo futebol no estado mais violento contra a mulher, a matéria começa
retratando o fato de Roraima ser o estado mais violento do Brasil contra as
mulheres. Esses números são baseados nos dados do Monitor da Violência
feito em parceria do site G1 com a Universidade de São Paulo e o Fórum
Brasileiro de Segurança Pública. Dados, entrevistas e até relato de um caso
de agressão contra mulher foram observados enquanto a equipe gravava a
reportagem. A matéria para televisão adquire um tom de denúncia como se
estivesse na editoria de polícia e logo tenta unir o futebol à situação de
violência contra a mulher.
Na matéria veiculada pelo Esporte Espetacular, Amanda Sobral
aparece novamente, mas já não joga na mesma posição que foi informada
pelo jornal Roraima em Tempo. Ela saiu da lateral esquerda e agora atua
pelo meio campo. O preconceito da própria família com a jogadora Sara da
Silva, a volante Eva Medeiros que enfrentava o marido para jogar e o

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projeto de Lucimar Pereira são mais alguns outros exemplos interessantes


de vítimas do preconceito que pularam barreiras para jogar futebol. A
matéria pelo menos tenta especializar a informação no âmbito esportivo
local, abordando a situação do futebol roraimense sem apoio financeiro
público ou privado. Pouco investimento da federação local, a participação
de apenas três times na última edição do estadual, falta de premiação em
dinheiro e salários para jogadoras, enquanto um torneio amador paga
premiação. Importante observar que o estado possui um futebol profissional
de péssima qualidade com campanhas ruins em nível nacional24, seis times
disputando o último estadual masculino de futebol25 e um estádio que
passou por reformas há quase 10 anos reaberto para um jogo da Copa do
26
Brasil e fechado para término das obras . Em 2020, o Baré, clube
tradicional do estado, desistiu de participar de competições profissionais27 e
o estadual masculino de 2020 deve contar com quatro clubes. A situação é
um pouco melhor para os homens, mas é problemática para ambos os sexos
que buscam o sonho do futebol no estado.

24
Exemplos não faltam e a campanha do Atlético Roraima no Campeonato Brasileiro da
Série D de 2019 é só mais uma quando de seis jogos disputados perdeu cinco e empatou
um. Disponível em: < https://globoesporte.globo.com/rr/noticia/atletico-roraima-faz-a-pior-
campanha-de-um-clube-roraimense-na-historia-da-serie-d.ghtml>. Acesso em: 13 jan.
2020.
25
Disponível em: <https://www.lance.com.br/futebol-nacional/seis-clubes-estadio-
desistencias-times-ate-migracao-forcada-elenco-saga-roraimense.html>. Acesso em 13 jan.
2020.
26
Disponível em: < https://folhabv.com.br/noticia/ESPORTES/Local/Canarinho-nao-vai-
sediar-jogos-do-1o-Turno-do-Campeonato-Estadual-/62819 > Acesso em: 13 de jan 2020.
27
Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/rr/futebol/campeonato-
roraimense/noticia/cinco-clubes-incluindo-o-bare-e-tres-endividados-nao-vao-disputar-o-
estadual-2020-entenda.ghtml>. Acesso em: 13 jun 2020.
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Apesar disso tudo, a reportagem ainda peca por representar a


jogadora apenas pelo viés da superação, do preconceito, das dificuldades e
essa imagem passa por todas as personagens trazidas para a matéria. Como
observa Alexandre (2001), a mídia é também um importante difusor de
representações sociais. É inegável o impacto de suas construções da
realidade ao propagar determinadas representações acerca de um indivíduo
ou grupo.
Importante notar que a matéria presente no site e veiculada pelo
programa esportivo Esporte Espetacular chega depois de um momento
forte em que ocorreu uma série de agendamentos com o futebol feminino. É
o que comenta Fausto Neto (2002, p.5) sobre o agendamento decorrer de
movimentações dos diferentes campos da sociedade. Esses campos formam
suas agendas “movendo-as nos taboleiros nas negociações, dos interesses,
dos poderes e das ideologias”. Obviamente que o agendamento esportivo é
um campo social integrado a outros e por isso está presente dentro desse
campo de movimentações.
Os temas sobre igualdade, preconceito, machismo se uniram ao
futebol feminino nas pautas de cunho nacional no ano de 2019 e na matéria
do Esporte Espetacular houve uma busca por aproximação com o âmbito
local roraimense, assim como na matéria do Roraima em Tempo. O
problema é que o interesse não estava no futebol local e em suas
dificuldades, mas apenas atender ao que se convencionou enquanto assuntos
noticiáveis na mídia nacional. Assim, se a mídia nacional uniu o futebol e a

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luta pelos direitos das mulheres, a imprensa local buscou trazer essa mesma
situação apenas adequando ao contexto roraimense.
De acordo com Sardinha, Cunha e Favacho (2018, p.125), existe um
padrão hegemônico da cobertura esportiva orientado a partir da imprensa do
eixo Sul/Sudeste, fazendo com que os jornais locais tenham dificuldades de
achar perspectivas diferentes desse padrão. Enquanto no Roraima em
Tempo a matéria buscava reproduzir um assunto já noticiável em outros
lugares tentando regionalizá-lo, a matéria do Esporte Espetacular traz uma
perspectiva de cobertura e noticiabilidade direta dos grandes centros para o
âmbito local.

Considerações finais

Em um momento quando o futebol virou um espetáculo midiático


rentável, o jornalismo esportivo antes uma especialidade submetida a
preconceitos, passou a ganhar importância. No entanto, isso trouxe consigo
uma crise no modo de fazer jornalístico que afastou por diversas vezes o
jornalismo esportivo de sua função social para uma aproximação com o
entretenimento. Assim, esta especialidade acaba por ser desprezada e como
aborda Rowe (2007, p.385), vista enquanto “departamento de brinquedos da
mídia”. É necessário lembrar os contextos de crise mais amplos como
abordam Kern e Morin (2003, p.93).
Voltada para o entretenimento e com dificuldades de encontrar uma
solução para sua crise particular, o jornalismo esportivo vê-se diante do
crescimento de interesse do futebol feminino no ano de 2019. Em uma
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imprensa que abusa das notícias factuais, esquece o esporte amador, as


políticas públicas e privadas do esporte, não o promove além dos aspectos
de entretenimento e celebridades, cifras e o futebol de alto rendimento, tudo
que não está ligado a esta realidade perde visibilidade. Apesar disso, o
agendamento midiático encontrou na luta por igualdade de direitos das
mulheres, a chance de querer fazer justiça social ou ganhar mais audiência
ao veicular a Copa do Mundo de futebol feminino de 2019. Por não haver
uma especialização necessária para lidar com o futebol feminino, este
acabou sendo veiculado por uma série de matérias que representam a
jogadora de futebol somente pelo viés do preconceito.
Todo este aspecto saiu do âmbito nacional e impactou o local
roraimense cuja cultura de jornalismo esportivo é extremamente incipiente.
Dentro das matérias analisadas neste capítulo, se nota a utilização destes
temas pontuais para aproximar a mulher do futebol sem uma profundidade
mais desejável, sem uma crítica e aprofundamento mais adequado, ou seja,
traz assuntos muito abordados nos últimos anos e se insere o futebol. O
questionamento para o futuro é: quando a agenda midiática substituir as
temáticas que alavancaram o futebol feminino com as pautas de luta das
mulheres pela igualdade, a Copa do Mundo, gols da Marta, a modalidade
voltará à pouca visibilidade anterior ou se manterá um trabalho de cobertura
maciça como no masculino?
Segundo Goellner, Silva e Botelho-Gomes (2013, p.178), existe uma
falta de visibilidade e especialização adequada dos esportes femininos na
mídia, responsável pela continuidade dessa “anulação simbólica” das

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realizações esportivas da modalidade. O fato fica bastante claro quando


sequer o leitor e telespectador mais atento e aficionado por futebol não
saberá de fato em que posição no campo joga Amanda Sobral através dessas
matérias.A representação midiática da mulher no esporte geralmente aborda
questões de seu corpo, sua beleza, sexualidade e quando houve o
agendamento midiático da luta por direitos das mulheres através do futebol
feminino, a representação midiática delas ainda é por um viés pouquíssimo
especializado. Aqui não se pretende diminuir as questões de preconceito
com a mulher esportista, mas principalmente ajudar no combate a esse
preconceito. O fato é que esse discurso midiático deve também tratar dos
gols, recordes, títulos, das conquistas, do posicionamento tático, das fichas
técnicas, análises da temporada de jogadoras e clubes, e não focar apenas no
preconceito e sua superação por parte dessas jogadoras que acaba por não
contribuir em nada para mudar a falta de visibilidade da modalidade e seus
personagens.
É necessário sim trazer essas denúncias, mas o jornalismo esportivo
deve ir além para trazer informações esportivas das modalidades femininas
com maior qualidade, e, principalmente, com conhecimento. Isso ocorre,
por exemplo, no blog Dibradoras28 veiculado ao site UOL. Ele aborda o
futebol feminino em variados aspectos, passando pelas denúncias da
igualdade de gênero, do preconceito, da pouca estrutura da modalidade, mas
também trata as personagens da modalidade como atletas e o futebol

28
Disponível em: <https://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/12/02/ex-tecnica-do-
brasil-emily-lima-assume-selecao-equatoriana/> Acesso em: 14 jan. 2020.
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feminino como um esporte que precisa ser analisado por outros aspectos, a
exemplo do tático e o técnico. O ano de 2019 trouxe uma maior visibilidade
para o futebol feminino, mas o que dizer a respeito do futuro desta
modalidade dentro do jornalismo esportivo no Brasil? Seus personagens
estarem associados à dualidade preconceito-superação é ainda uma
representação muito rasa e pouco especializada, se o intuito é ver o futebol
feminino grande tecnicamente.

Referências

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A busca de uma metodologia de pesquisa


na análise da cobertura jornalística de tráfico
de animais em Roraima
Sandeivyde da Conceição Alves

A proposta de análise da cobertura jornalística a respeito do tráfico


de animais poderia sugerir o uso de métodos como análise de conteúdo,
pragmática do discurso jornalístico ou estudo de caso, no entanto, imprimir
uma inovação requer a sensibilidade do pesquisador de observar os fatos a
partir da perspectiva das maiores vítimas. Deste modo, compreendemos que
suportes bibliográficos acerca de ética animal e cidadania ambiental podem
ajudar na opção apropriada de metodologia de pesquisa. Devemos concluir
sobre a capacidade da fenomenologia de ofertar subsídios relacionados à
análise pela opção ou não do jornalista em legitimar o ponto de vista dos
animais nas narrativas midiáticas.
Jornalismo Ambiental e cobertura sobre animais

O Jornalismo Ambiental se interessa por uma perspectiva


holística, lançando um olhar aprofundado sobre as pautas,

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comprometendo-se com a qualidade de vida planetária e com a


construção social de uma realidade mais justa e ecológica
(BELMONTE apud SILVA in ALMEIDA; SILVA, 2016, p.96).

Os meios de comunicação são uma importante fonte de transmissão


de mensagens de preservação ambiental usada pelos ambientalistas para
divulgar seus pressupostos éticos e reivindicações sobre meio ambiente para
o grande público. Segundo Berna, o jornalista ambiental deve expor de
forma ética, profissional e isenta a informação, pois é de extrema
importância que a forma das notícias enviadas para os receptores leve em
consideração os conceitos éticos. Uma

[...] simples veiculação de informação ambiental desassociada


de um compromisso com a cidadania crítica e participativa, ao
contrário de estimular uma revisão de valores, pode aumentar a
velocidade do saque aos recursos do planeta. Uma espécie de
ética distorcida (BERNA in GIRARDI; SCHWAAB, 2008,
p.94).

As matérias de qualquer editoria de determinado veículo de


comunicação devem levar em consideração a ética profissional, no caso do
jornalismo ambiental o compromisso das notícias é com o respeito ao meio
ambiente. Uma notícia veiculada de forma errada pode gerar problemas
ecológicos devido aos erros jornalísticos e à falta de ética ao tratar do
assunto.
O Jornalismo tem um compromisso social com a verdade, as
descrições e narrativas de fatos e deve comunicá-los como eles realmente

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são de forma objetiva conforme aponta Gomes, ao analisar a produção


jornalística por meio do método da fenomenologia do jornalismo; todavia,
no caso do jornalismo ambiental, a objetividade jornalística é relativizada,
os fatos deveriam ser totalmente parciais. Os relatos jornalísticos são
interpretações e representações dos fatos e podem ter várias versões
diferentes. No jornalismo ambiental, a neutralidade não existe, pois o
comunicador tem um compromisso com valores e éticas ambientais
(BERNA in GIRARDI; SCHWAAB, 2008, p. 58).
Berna (in GIRARDI; SCHWAAB, 2008, p. 98) diz também que o
jornalista ambiental deve ter uma conduta baseada em um código de ética,
com valores próprios e caráter moral. Além disso, o jornalismo ambiental
tem um papel social de divulgar informações aprofundadas, esclarecer
conceitos e ter uma função pedagógica sobre meio ambiente fundamental
para a sociedade, ou seja, ele tem significado social por sua função de
conscientizar e informar a respeito do tema meio ambiente e o cuidado ético
com o planeta. Legitima “A possibilidade de aliar os ideais de um
jornalismo sistêmico, comprometido com a ética e centrado na visão
holística dos fatos, com o sistema vigente de construção de notícias”
(MASSIERER in GIRARDI; SCHWAAB, 2008, p.158).
O fazer jornalístico se baseia em sistemas abertos, dinâmicos e não
lineares que se transformam sob o contato com outros sistemas de produção.
E a visão holística opera na forma e no padrão com os quais se faz o
jornalismo. Pode ter ou não base ética; no caso de matérias sobre meio
ambiente, o formato de construir a notícia deve levar em conta a ética

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animal e ambiental. Para Carine Massierer (in GIRARDI; SCHWAAB,


2008, p. 158), o jornalismo ambiental deve analisar as perspectivas não
humanas a partir das discussões a respeito dos animais, e pode apresentar
outros olhares em torno dos fatos. A proposta dessa ética no jornalismo é a
de fazer uma cobertura com responsabilidade social, desconsiderando os
interesses econômicos, ideológicos e antropocêntricos dos meios de
comunicação tradicionais, ou seja, centrados exclusivamente nas demandas
dos humanos.
Nem toda cobertura é educativa, mas uma das funções do jornalismo
ambiental ético tem como princípio a educação ambiental através dos meios
de comunicação, ensinando, educando e capacitando a sociedade acerca do
cuidado com a natureza e os animais. As informações se baseiam em normas
e valores humanistas sob nenhum tipo de interesse ultrahumano, mas
servem como instrumento para o desenvolvimento de um futuro mais
sustentável.

Ética animal e ética no jornalismo ambiental

O jornalismo é a principal fonte de informação para a sociedade e a


maneira como ele transmite as mensagens influencia de certa forma todo o
corpo social. As notícias de jornalismo ambiental devem considerar a
natureza e os seres não humanos, pois comunicando o público e
considerando esses valores, elas podem conduzir a sociedade na forma de
tratar o meio ambiente e todo conjunto que ele abrange. Todo cidadão

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consciente deve se portar com ética em seu ambiente de trabalho; no


jornalismo, não deve ser diferente. E quando se trata de jornalismo
ambiental, o profissional deve ter um cuidado ainda maior. O jornalismo
ambiental deve ser parcial, precisa estar sempre do lado do meio ambiente e
dos animais.
No livro O Cuidado necessário (2012), Leonardo Boff fala sobre os
cuidados e o tratamento ecológico do ser humano com o planeta e seus
ecossistemas. Esses cuidados se fundamentam em valores. Utilizando esses
conceitos podemos considerar que o cuidado ético deve ser levado também
para o fazer jornalístico nas produções da cobertura ambiental, resultando
em matérias sob os panoramas da ética ambiental e do cuidado animal. O
pensamento sustentável parte da consciência geral das sociedades:

Se a sustentabilidade representa o lado objetivo, ambiental,


econômico e social da gestão dos bens naturais e sua
distribuição, o cuidado denota o lado subjetivo, as atitudes, os
valores éticos e espirituais que acompanham todo esse
processo, sem os quais a própria sustentabilidade não se realiza
adequadamente (BOFF, 2012, p.21).
Devemos ter o cuidado e a gestão com os bens e recursos naturais do
planeta, ter um pensamento sustentável. Nossas atitudes como cidadãos
devem incluir valores éticos para que esse cuidado sustentável se faça na
sociedade em geral. A falta de cuidado tem raízes culturais e espirituais por
causa da ganância e falta de responsabilidade e ética dos humanos com a
natureza (PAPA FRANCISCO, 2015). O jornalismo ambiental do ponto de
vista ético não somente noticia, mas se pauta em cuidados necessários em
relação ao futuro do planeta, ensinando de forma pedagógica, comunicando,

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educando e esclarecendo os cuidados ambientais constantes. Isso vale para


todos os campos sociais:

Todo paradigma que, por sua natureza, molda uma forma de


estar-no-mundo-com-outros, implica necessariamente uma
ética, quer dizer, um conjunto de princípios, de valores,
indicações, de hábitos e de práticas que ordenam a vida
particular e social de um determinado grupo (BOFF, 2012,
p.113).

Esse paradigma de cuidado ambiental deve estar associado também


no jornalismo ambiental, com hábitos e práticas responsáveis. O cuidado
ecológico é de responsabilidade de todo cidadão consciente, deste modo o
jornalista deve ter ética e responsabilidade, e um cuidado ainda maior do
que os outros cidadãos ao tratar desse assunto, pois tem a missão de gerar
comunicação de massa. Nos termos de Leonardo Boff, a produção
jornalística pode se apropriar da ética do cuidado, pois ela “[...] perpassa
todas as disciplinas e impregna todas as nossas atitudes. Cultivamos o
cuidado quando não consideramos apenas os dados, mas prestamos atenção
aos valores que estão em jogo” (BOFF, 2012, p.264).
O cuidado ambiental é interdisciplinar, quando se trata de
comunicação e jornalismo, devemos ter a responsabilidade ética ao
tratarmos do assunto, pensando não apenas em dados ou no factual, mas em
tudo que o meio ambiente engloba. Segundo Leonardo Boff (2012, p. 79), o
ser humano é um cuidador e guardião do nosso planeta, por ser o único dos
animais a ter consciência e também o único responsável pelo destino dos
outros. O jornalista ambiental deve cuidar e tratar com responsabilidade e
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solidariedade de temas envolvendo animais devido a seu papel social e seu


papel de cidadão. Além disso, tudo está interligado, pois o que acontece com
os animais também acontece com os homens.
Conforme aponta o filósofo Jacques Derrida, é possível reconhecer a
perspectiva animal:

Haveria em primeiro lugar, os textos assinados por pessoas que


sem dúvida, viram, observaram, analisaram, refletiram o
animal, mas nunca se viram vistas pelo animal; jamais
cruzaram o olhar de um animal pousado sobre ela (DERRIDA,
2002, p.32).

O jornalista pode observar, refletir e analisar o animal com o olhar


humano, mas também a partir do olhar animal e o olhar do humano para o
animal, e do animal para o humano. Segundo Derrida, nós os animais
humanos e seres conscientes temos que ter uma identificação com os outros
animais, essa identificação significa estar próximo e ter uma ligação com
eles. Além disso, eles também têm seus próprios pontos de vista, inclusive
sobre nós. Eles podem ter respostas e reações interpretadas por um jornalista
ambiental com um olhar sensível, não apenas ver, mas reconhecer o olhar
animal. “E do lugar que é preciso dar à interpretação dessa compaixão, ao
compartilhar do sofrimento entre os viventes, ao direito, à ética, à política
que é preciso referir a essa experiência da compaixão” (DERRIDA, 2002,
p.53).
Além da identificação, temos que ter olhar de compaixão dirigido
aos demais animais, tentar enxergar e ter uma visão do que acontece com

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eles. Ao fazer isso, nos aproximamos deles e podemos entender mais


facilmente, no caso do jornalismo ambiental, como produzir conteúdo dessa
editoria de forma mais ética.
O homem sempre se colocou como um animal superior, nomeou,
adestrou, criou, usou os outros animais para os mais diversos fins, entre eles
seu próprio bem-estar. E tem um pensamento tradicional que deve ser
mudado em temáticas como genocídio animal, violência, tráfico,
desaparecimento e extinção de espécies. O ponto de vista habitual dos meios
de comunicação na maioria das vezes não leva em consideração a
compaixão e os direitos dos animais; não trata essa temática com ética e
responsabilidade; nem traz um modo de pensar no animal ou uma
perspectiva deles. Ao contrário disso,

Os animais me olham. Com seu rosto justamente. Eles se


multiplicam, eles me saltam cada vez mais selvagemente aos
olhos à medida que meus textos parecem se tornar, como
quiseram fazer-me crer, cada vez mais “autobiográficos”
(DERRIDA, 2002, p.67).

Conforme aponta o filósofo Derrida, quando nos conectamos e


enxergamos através do olhar animal, o que escrevemos sobre eles se torna
quase autobiográfico. Trazendo esse conceito filosófico para o jornalismo
ambiental, podemos produzir nossos textos e matérias a partir de uma
angulação, uma perspectiva ambiental ou animal.
Derrida fala que é necessário uma mudança na forma de relatar fatos
ou fenômenos relacionados aos outros animais. A palavra animal é utilizada

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por nós seres humanos de maneira antropocêntrica e exclusivamente


humana, e ela deveria ser usada para designar todos os seres viventes. Essa
ruptura de visão histórica da subjetividade antropocêntrica nos aproximaria
mais deles, criaria uma conexão a ser utilizada nas matérias de jornalismo
ambiental com o intuito de imprimir um olhar animal, rompendo a
tradicional forma de fazer jornalismo.

Cobertura jornalística ambiental sobre animais

A relação entre homens, meio ambiente e os animais está ligada a


vários fatores complexos, envolvendo ecossistemas, interação,
sustentabilidade e preservação. Existem vários tipos de relações entre os
seres humanos e os demais animais, cujas representações e diferenças, e
cujos tratamentos e padrões sociais nos fazem se contrapor aos animais e
tratá-los de várias maneiras. Segundo Eutalita Bezerra da Silva (SILVA in
ALMEIDA; SILVA, 2016, p.103-104),

No que tange aos animais não humanos, especialmente, no afã


pela aproximação daqueles que melhor correspondam aos
padrões da nossa sociedade, tendemos a atribuir-lhes valores e
ações que são tão mais positivos quanto a nossa simpatia ou
tolerância em relação a eles.

A simpatia, empatia e tolerância com os animais estão ligadas aos


nossos olhares antropocêntricos, dependendo do animal temos uma conduta
nos diferenciando deles e também tratando com indiferença alguns animais.
Os seres humanos se diferenciam dos demais animais tanto do ponto de
vista filosófico, por termos capacidade de pensamento; biológico, pelo
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cérebro mais desenvolvido; sociológico e antropológico, pela capacidade de


produção e pela presença de cultura. Todas essas diferenças a exemplo da
capacidade de pensamento podem ser usadas em favor dos animais que não
possuem a mesma. Sob a responsabilidade ambiental e o cuidado,
protegemos e preservamos a natureza não humana. Também nos conectamos
mais com a natureza, o meio ambiente e os demais animais. O
reconhecimento de semelhanças contribui para que os humanos tenham
identificação e assim colaborem para o futuro de todos os seres vivos.
Para Eutalita da Silva (in ALMEIDA; SILVA, 2016, p. 102), o ser
humano falha no tratamento dos animais, além da exploração e destruição
de espécies ao longo dos séculos, ainda é seletivo com os animais que
deseja proteger. Na maioria dos casos, escolhemos lutar pela preservação
daqueles mais belos, passíveis de uma aproximação social ou cultural,
criando uma hierarquização dos animais. Afastamos, esquecemos e até
extinguimos espécies consideradas sem importância, perigosas ou às quais
temos aversão. E em muitos casos, também destruímos animais raros, por
meio da violência e do tráfico. Enquanto cidadãos, devemos ter ética,
responsabilidade e consciência nas relações com todos os demais animais.
Todos eles, independente de qualquer fator, têm uma importância e devem
ter seus direitos preservados, e o jornalismo ambiental tem a função de
comunicar à sociedade essa ética e responsabilidade ambiental e animal.
Como já dito, o jornalista ambiental deve ter um olhar sensível e
uma ligação com a natureza para fugir do fazer jornalístico comum. O
jornalismo tradicional sempre trata as notícias sobre meio ambiente sob a

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perspectiva antropocêntrica dos fatos. Ao deslocar a angulação para uma


perspectiva animal, podemos levar um outro olhar no enquadramento dos
fatos.
Através de uma compreensão fenomenológica do jornalismo, Wilson
Gomes (2009, p.61) defende múltiplos olhares na perspectiva jornalística:
“É possível fazer com que um fato diga muitas coisas, é possível interpretá-
los de várias maneiras e, em alguns casos, num número potencialmente
infinito de modos”. Uma notícia pode ter vários sentidos, interpretações e
verdades; pois ter sentido próprio faz com que ela seja aberta a vários
pontos de vista, compreensões e perspectivas (GOMES, 2009, p.66). Sendo
assim, os fatos podem ser interpretados de diferentes modos dependendo de
sua perspectiva, mas na maioria das vezes, são descritos apenas do ponto de
vista humano. Através de uma ética animal, podemos compreendê-los do
ponto de vista diferente, a perspectiva animal.
Segundo Simão Almeida, a narrativa jornalística pode partir de seres
não humanos:

A reportagem ambiental, assim acreditamos, pode ser redigida


ao mesmo tempo como uma narrativa, na qual o jornalista
relata os fatos naturais também a partir das perspectivas dos
seres não humanos e de seus espaços habitados (ALMEIDA,
2015, p.98).

Naturalmente, o jornalismo comunica através de uma visão


antropocêntrica, é uma tradição nos meios de comunicação engessada como
padrão informativo. No jornalismo ambiental, podemos fugir desse padrão.

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Através de uma bioética, optamos por legitimar a angulação e a perspectiva


do meio ambiente ou de um animal (ALMEIDA, 2015).

É possível o jornalista não se submeter a uma ideologia


exclusivamente antropocêntrica e imprimir uma bioética dos
seres humanos e de seus espaços habitados ao reportar fatos
naturais e sociais, ao oscilar a cobertura entre o caráter
narrativo, informativo e interpretativo, entre aspectos
tradicionais da reportagem (dados e informações) e novas
formas de subjetividade (ALMEIDA, 2015, p.105).

A bioética animal ou ambiental pode considerar os seres não


humanos enquanto protagonistas da narração, interpretação e informação.
Ela pode deslocar a angulação de uma matéria ambiental do ponto de vista
humano, ponto de vista tradicional, para uma outra perspectiva: a
perspectiva animal ou da natureza; todavia, o jornalista não deve tratar os
animais com características e comportamentos humanos. Segundo Val
Plumwood (2002, p.56-57), quando damos características humanas a seres
não humanos estamos sobrepondo a nossa natureza a deles, utilizando uma
abordagem precária, sem normas, preocupações e isentas de ética. Então,
utilizar comportamentos humanos nas narrativas sobre animais é uma
imposição da natureza humana.
A comunicação intercultural entre esses seres em um sentido
simbólico, ou a tentativa de comunicação entre outras espécies é quase
sempre impedida pela centralidade humana e a cultura de nos sentirmos
superiores às outras, geralmente descritas como menores, inferiores ou mais
simples (PLUMWOOD, 2002, p.189).

We must attain solidarity with the other in their difference, and


despite the ambiguity of the term “identification”, solidarity

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here cannot be interpreted as identity; solidarity and respect


cannot be understood as processes of overcoming or
eliminating otherness or difference, and neither ethics nor
motivation can be derived from establishing ethical
equivalence to self or from extending egoism to a wider class
of big Selves29 (PLUMWOOD, 2002, p.200).

A identificação entre o humano e os demais animais requer uma


solidariedade na diferença, e não deve ser confundida com identidade. A
identificação pode ser definida como respeito, cuidado, valores e ética com
os animais; e também como superação das diferenças e da visão
exclusivamente humana. Conforme aponta a filósofa ambiental Val
Plumwood (2002, p.202), a relação entre humanos e animais deve perpassar
por um processo de identificação. Devemos passar por esse processo para a
formação de uma ética apropriada. A identificação que Plumwood defende
não implica em uma unidade ou identidade, mas em uma relação de
solidariedade e apoio em relação ao outro, se posiciona em favor dos
animais e reconhece suas dificuldades. Segundo essas questões, o
jornalismo pode angular perspectivas animais durante a cobertura de fatos
ambientais sem fugir da ética jornalística, ambiental e animal.

29
Devemos alcançar a solidariedade com o outro na diferença e, apesar da ambiguidade do
termo “identificação”, a solidariedade aqui não pode ser interpretada como identidade;
solidariedade e respeito não podem ser entendidos como processos de superação ou
eliminação da alteridade ou diferença, e nem a ética nem a motivação podem ser derivadas
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Ilustração de matérias jornalísticas locais

Para a apresentação de matérias locais, escolhemos a notícia de um


crime de decapitação de uma onça-pintada encontrada sem partes do corpo
pela polícia militar na BR-210 no município de São Luís do Anauá (RR).
Esse crime foi publicado nos dois maiores veículos de comunicação de
mídia digital de Roraima no dia 07 de maio de 2019.

A matéria da Folha de Boa Vista com o seguinte título Onça é


encontrada decapitada na BR-210 relata o encontro do corpo do animal
em rodovia na noite anterior da publicação. A onça foi encontrada sem a
cabeça, sem as patas e com sinais de crueldade. A foto utilizada na matéria
mostra apenas uma parte do corpo do animal sem sinais de mutilação. A
Folha buscou como fontes a Polícia Militar e a Polícia Rodoviária Federal
(PRF). A assessoria da PRF afirmou não ter informações sobre o crime
ambiental. A polícia militar relatou que a onça aparentava ter dois anos, o
crime ocorreu em outro lugar e a rodovia foi usada para descarte do corpo. A
matéria finaliza com informações da espécie ameaçada de extinção.

O G1 Roraima segue a mesma linha na matéria Onça-pintada é


encontrada sem cabeça e patas às margens de rodovia em Roraima,
começa relatando que o animal estava sem as patas dianteiras e a cabeça, e
também o local e o horário de encontro do corpo do animal pela polícia

do estabelecimento de equivalência ética ao eu ou do alargamento do egoísmo a uma classe


mais ampla de grandes eus [tradução livre nossa].
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militar. O portal utilizou duas fotos disponibilizadas pela PM, borrando os


locais do corpo do animal que foram mutilados.

Em seguida, faz apontamentos das falas da Polícia militar, usada


como fonte, explicando que o animal foi morto em outro local, pois o corpo
estava sem odor e frio, e na rodovia não havia sangue. O crime segundo a
matéria foi registrado na delegacia do município de São João da Baliza,
município onde os policiais procuraram os órgãos da onça sem sucesso e
nenhum suspeito do crime ambiental foi identificado.

Nas matérias analisadas da Folha Web e do G1 RR nesse capítulo, o


tema crime ambiental contra um animal silvestre aparece de forma factual.
Os jornalistas tratam o fato apenas descrevendo a forma como aconteceu o
encontro com o corpo da onça-pintada que estava sem as patas e sem a
cabeça. As matérias são puramente descritivas e se limitam a responder as
perguntas básicas do jornalismo: o que, quem, quando, onde, por que e
como.
Se relacionarmos a angulação jornalística com a ética animal, as
matérias se reservaram apenas a relatar a descoberta do corpo de uma onça.
Os jornalistas poderiam tentar mostrar o lado do animal, uma perspectiva da
onça-pintada, usar de empatia, ter um olhar sensível para falar sobre esse
animal, sua importância na natureza, sobre seus habitats em Roraima, seus
comportamentos se estivesse viva no dia de sua morte, como essa espécie
vive, seus espaços, sua relevância no ecossistema e as relações ecológicas
indispensáveis à sua preservação. Carente dessas opções de enquadramento,

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as matérias instauram uma crise fenomenológica de perspectivas


alternativas ao antropocentrismo tradicional. Neste sentido, o método de
pesquisa fenomenologia do jornalismo aparece com uma proposta de novas
práticas de tratamento dos fatos, além das angulações humanas.

Considerações finais

O jornalismo ambiental em Roraima é um tema pouco tratado pelos


veículos de comunicação locais e nos veículos de webjornalismo não é
diferente. A temática meio ambiente não é muito frequente, muito menos
quando delimitamos matérias relacionadas a animais silvestres. Quando
essas pautas aparecem, adéquam-se a temas majoritariamente factuais. Essa
falta de cobertura do cuidado ecológico pode acontecer por conta do
desinteresse dos meios de comunicação, falta de jornalistas especializados
no assunto e devido à linha editorial não priorizar pautas ambientais.
Falar da preservação é essencial, pois muitas pessoas não sabem o
papel dos animais na natureza e eles acabam sendo vítimas dessa
ignorância. O jornalismo e os jornalistas ao invés de apenas descrever os
fatos, precisam ser úteis ao meio ambiente, à sociedade e aos animais,
tornando-os sujeitos de suas próprias histórias.

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Referências

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proposta em educomunicação e jornalismo ambiental. Anais do III Encontro Nacional de
pesquisadores em jornalismo ambiental. Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
2015. p. 93-107.
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Ilza Maria Tourinho; SCHWAAB, Reges Toni (Orgs). Jornalismo ambiental: desafios e
reflexões. Porto Alegre: Editora Dom Quixote, 2008. p. 89-104.
BOFF, Leonardo. O Cuidado necessário. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2012.
BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo ambiental: explorando além do conceito. In:
GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; SCHWAAB, Reges Toni (Orgs). Jornalismo ambiental:
desafios e reflexões. Porto Alegre: Editora Dom Quixote, 2008. p. 105-118.
DERRIDA, Jacques. O animal que logo sou. São Paulo: Editora UNESP, 2002.
FOLHA WEB. Onça é encontrada decapitada na BR-210. Boa Vista: Grupo Folha de
Boa Vista, 2019. Diário. Disponível em:
<https://folhabv.com.br/noticia/CIDADES/Capital/Onca-e-encontrada-decapitada-na-BR-
210/53049>. Acesso em: 20 fev. 2020.
G1 RR. Onça-pintada é encontrada sem cabeça e patas às margens de rodovia em
Roraima. Boa Vista: Organizações Grupo Globo, 2019. Diário. Disponível em:
<https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2019/05/07/onca-pintada-e-encontrada-sem-
cabeca-e-patas-as-margens-de-rodovia-em-roraima.ghtml>. Acesso em: 20 fev. 2020.
GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; SCHWAAB, Reges Toni (Orgs). Jornalismo Ambiental:
Desafios e reflexões. Porto Alegre: Editora Dom Quixote, 2008.
GOMES, Wilson. Jornalismo, fatos e interesses: ensaios de teoria do jornalismo.
Florianópolis: Editora Insular, 2009.
MASSIERER, Carine. As condições de produção em Zero Hora e Correio do Povo e a
relação com o conteúdo das matérias de meio ambiente. In: GIRARDI, Ilza Maria
Tourinho; SCHWAAB, Reges Toni (Orgs). Jornalismo ambiental: desafios e reflexões.
Porto Alegre: Editora Dom Quixote, 2008. p. 151-169.
MICHELOTTI, Gabriela. A interação entre movimento ambientalista, meios de
comunicação e ciência na problematização da crise ambiental. In: GIRARDI, Ilza Maria
Tourinho; SCHWAAB, Reges Toni (Orgs). Jornalismo ambiental: desafios e reflexões.
Porto Alegre: Editora Dom Quixote, 2008. p. 56-66.
MIGUEL, Katarini Giroldo. Os paradigmas da imprensa em pauta: Biodiversidade,
Biocombustíveis e Aquecimento global. In: GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; SCHWAAB,

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Reges Toni (Orgs). Jornalismo ambiental: desafios e reflexões. Porto Alegre: Editora
Dom Quixote, 2008. p.335-353.
MORAES, Cláudia Herte de; CORRÊA, Aline Michelle Ferreira. Entre o susto e o
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Ilza Maria Tourinho; SCHWAAB, Reges Toni (Orgs). Jornalismo ambiental: desafios e
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PAPA, Francisco. Encíclica Laudato Si: o cuidado da casa comum. Disponível em:
<http://m.vatican.va/content/francescomobile/pt/encyclicals/documents/papa-
francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html> .Acesso em: 26 set. 2019.
PLUMWOOD, Val. Environmental Culture: the ecological crisis of reason. New York:
Routledge, 2002.
SILVA, Eutalita Bezerra da. Os animais, nossos amigos: apontamentos sobre a relação entre
homens e animais não humanos no programa de televisão do Nordeste Viver e preservar. In:
ALMEIDA, Simão Farias; SILVA, Ângela Maria (Orgs). Mídia, informação e meio
ambiente. Boa Vista: Editora da UFRR, 2016.

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Crises econômicas e ambientais dos


desmatamentos em webreportagens:
denúncia ininterrupta ou lacunar?
Mairon Compagnon Mariano
Willians Severino Dias

O presente capítulo trata da exploração do conteúdo noticioso sobre


o desmatamento em Roraima, a partir de informações publicadas nos portais
dos jornais Roraima em Tempo e Folha de Boa Vista. O primeiro portal
traz a informação do avanço do desmatamento no Estado, no período de um
ano. O segundo portal expõe o consumo de hectares de terra em Roraima,
proveniente do desmatamento. O objetivo é analisar o conteúdo publicado
por ambos os sites a respeito da policrise ambiental e econômica instaurada
pela degradação, e seus impactos também na esfera social.
Devido ao crescente número de áreas desmatadas na região Norte e
em todas as regiões do Brasil, o fenômeno tornou-se parte do debate não
apenas de estudiosos sobre o assunto, como também da população em geral.
Notícias relacionadas às áreas degradadas são comuns em portais de notícias

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 103

internacionais, nacionais e locais. Crises ecológicas sem precedentes estão


diretamente relacionadas a outras crises que requerem consideração, porém,
em determinadas ocasiões, deixam de ser mencionadas, por falta de
aprofundamento ou devido à proliferação de releases dos quais muitas vezes
dependem os meios de comunicação.
O levantamento da discussão relevante para ascensão do debate
sobre o assunto e o despertar da reflexão do que deve ser levado em
consideração ao tornar-se públicas tais informações passam despercebidas
com análise superficial por parte de alguns jornalistas e meios. Além disso,
a abordagem do conteúdo no âmbito acadêmico torna possível diálogo entre
os estudantes e sociedade em geral acerca de uma problemática dependente
de maior atenção e engajamento por todos para que seja possível a sua
contenção.
Para a realização do trabalho, fazemos uso dos estudos de Edgar
Morin e de outros autores cujas produções científicas estão relacionadas às
diversas crises e ao jornalismo econômico e ambiental, além de análise
qualitativa do conteúdo disseminado pelos portais de notícias mencionados
anteriormente.

Policrise e jornalismo

As condições de conflito da era planetária podem ser configuradas


como um estado de desordem em uma circunstância normal e seus
desarranjos considerados cenários inevitáveis diante de sua complexidade.
Desta forma, passamos a evitar a utilização do termo “crise”, atualmente
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banalizado e capaz de ser manuseável em todos os sentidos (KERN;


MORIN, 2003, p. 93), sendo necessário reavaliar um estado de fenômenos
cruciais e inevitáveis dependentes de respostas decisivas e imediatas. Da
mesma forma, temos implícita, em tal expressão, o entendimento do
momento ou o estado de coisas, não como uma situação de turbulência ou
um desequilíbrio momentâneo, capaz de sofrer uma correção automática,
porém a temos como um instante carente de uma intervenção (CASTRO;
ALMEIDA, 2016, p. 6). Logo, faz-se necessário mencionar as inter-retro-
ações entre os diferentes problemas, diferentes crises, entre as diferentes
ameaças, como os casos de problemas de saúde, de meio ambiente, de modo
de vida, civilizações e, não menos importantes, os problemas demográficos
e de desenvolvimento. Podemos citar, inclusive, o que ocorre com a crise do
futuro, a qual gera um favorecimento às perversidades dos nacionalismos
fechados, da mesma forma, o desregramento econômico, estimulante da
balcanização descontrolada do comércio internacional. Todos esses aspectos
em inter-retro-ações (KERN; MORIN, 2003, p. 94).
Diante disso, podemos destacar que

[...] muitas dessas crises podem ser consideradas como um


conjunto policrísico em que se entrelaçam e se sobrepõem crise
do desenvolvimento, crise da modernidade, crise de todas as
sociedades, umas arrancadas de sua letargia, de sua autarquia,
do estado estacionário, outras acelerando vertiginosamente seu
movimento, arrebatadas num devir cego, movidas por uma
dialética dos desenvolvimentos da tecno-ciência e dos
desencadeamentos dos delírios humanos (KERN; MORIN,
2003, p. 94).

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Porém, não podemos perder de vista os sentidos do conceito de


crise, pois ela se manifesta, por um lado, pelo crescimento e até mesmo pela
generalização de incertezas diante de retornos negativos, capazes de anular
possíveis desvios, e, por outro lado, são demonstradas, inclusive, por
retornos positivos (crescimentos descontrolados) e também ainda pelo
crescimento dos perigos e oportunidades (KERN; MORIN, 2003, p. 93).
Logo, vale ressaltar que os processos de mundialização não se encontram
isolados, estão, portanto, interligados, porquanto, são interferentes,
tumultuosos, conflituosos (KERN; MORIN, 2003, p. 25). Desta forma,
diretamente relacionados entre si em contextos alinhados ou sobrepostos.
O termo crise é significativo e carrega consigo o modo imperativo
de intervenção, de uma ação que pode legitimar a mobilização de
instrumentos ou meios não utilizados habitualmente (CASTRO;
ALMEIDA, 2016, p. 6). A utilização desses instrumentos vai ao encontro de
uma economia mundial em processo de oscilação entre crise e estabilidade,
seus desregramentos e sucessivas tentativas de regulações. Tem-se, então,
nos termos de Anne Brigitte Kern e Edgar Morin (2003, p.66), uma
economia

[...] profundamente desregulada, ela não cessa de restabelecer


regulações parciais, frequentemente às custas de destruições
(de excedentes, por exemplo, para manter o valor monetário
dos produtos) e de prejuízos humanos, culturais, morais e
sociais em cadeia (desemprego, progressão do cultivo de
plantas destinadas à droga).

Porém, o setor econômico não é motor capaz de solucionar todas as


deficiências sociais. Dois aspectos em torno do desenvolvimento podem

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ilustrar um mito global do bem-estar atingido nas sociedades


industrializadas: redução forjada de suas desigualdades ao ponto de
dispensar o sentido homogêneo de felicidade e a falsa compreensão de que o
crescimento do setor econômico é suficiente para atingir um
desenvolvimento social, psíquico e moral (KERN; MORIN, 2003, p. 78).
No entanto, é necessário expor como o desenvolvimento de fato deve
abarcar e ultrapassar setores não apenas econômicos, sendo indispensável
também os setores civilizacionais e culturais ocidentais procurarem firmar
seus sentidos e suas normas (KERN; MORIN, 2003, p. 102). Torna-se
errôneo acreditar que o mercado é capaz de trazer todas as soluções dos
problemas da civilização (KERN; MORIN, 2003, p. 102), pois tudo
limitado ao econômico ou somente tecnológico é rude e civilizador, em uma
mesma proporção a tudo integrado e subordinado à política do homem
(KERN; MORIN, 2003, p. 103). A exclusão de apelos e demandas sociais
de plataformas e projetos gera por si só uma crise necessária a mudanças de
decisões e rumos por parte dos governantes e dos mercados.
O jornalista ao entrar em cena para lidar com matérias de editorias
vinculadas a esses campos sociais, dada a complexidade das situações
econômicas, torna-se essencial se valer do entendimento sobre o fenômeno a
ser reportado para, assim, atingir uma clareza a respeito (KUCINSKI, 1996,
p. 168). Esta complexidade é possível de ser observada na economia
brasileira, pois temos um contraste entre abundância e indulgência, entre
pobres e ricos, relacionado também às riquezas de terras, das fontes de
energia e minério, e sua população pobre, mesmo diante de todas as

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riquezas possíveis, está longe da solução de problemas (KUCINSKI, 1996,


p. 11). Deste modo, não podemos considerar a economia como uma
entidade fechada, trata-se de um personagem que depende de outras
instâncias, como a cultural, sociológica ou política, elas da mesma forma
dependentes uma das outras. Vale ressaltar que o mercado mundial é
autoorganizador, pois produz suas regulações frente às suas desordens,
podendo atenuar suas crises, por exemplo (KERN; MORIN, 2003, p. 65).
Portanto, o saber economista restringido apenas ao campo econômico segue
falho à própria extensão econômica nos diversos usos materiais (KERN;
MORIN, 2003, p. 66).
Sob essa perspectiva, as narrativas oferecem um leque maior em
relação a erros e soluções. Por isso, as narrativas de crises se tornam
fundamentais, não só para quem busca o entendimento sobre o exposto,
como oferecem, a quem possa se interessar, uma maior possibilidade de
compreensão (KUCINSKI, 1996, p. 6), pois a angústia das populações não
está apenas no implemento de conflitos de uns contra os outros, mas na
adição de novos problemas sem solução à vista (KERN; MORIN, 2003, p.
97). Todavia, a interpretação ou a crítica a uma narrativa deve ser maior do
que apenas expor interesses aos quais ela, supostamente, sirva, pois os
interesses podem se configurar em crenças ou desejos (CASTRO;
ALMEIDA, 2016, p. 7). Vale destacar o jornalismo especializado em
economia, centrado nos mecanismos de produção e nos processos de
acumulação de renda, com objetivo nas lógicas de produção de lucros, as
quais têm como “heróis” empresas bem sucedidas (KUCINSKI, 1996, p.

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174). Por isso, é fundamental a observação além da mera aparência dos


fatos. É necessário analisar, interpretar e contextualizá-los, para isso, quanto
mais conhecimento sobre o assunto ao qual se pretende reportar, melhor
(KUCINSKI, 1996, p. 21).

Crise ambiental e jornalismo

O avanço tecnológico foi um ponto crucial para enxergarmos e


entendermos os fenômenos ao nosso redor, além e aquém de nossos olhares.
Porém, à medida que o homem moderno foi buscando sofisticar a sua
tecnologia, a natureza começou a sofrer alterações e ser afetada por aquilo
que aparentemente beneficiava as civilizações. Durante a Revolução
Industrial, em 1750, a concentração de carbono – gás que impede a
dissipação de calor nas camadas mais altas da atmosfera – aumentou 31%
(MARENGO, 2007, p 25), confirmando a atividade humana como fator
determinante no aquecimento global, afetando a variação do clima natural
terrestre (MARENGO, 2007, p 25).
A atividade humana no meio ambiente tem uma larga gama de
efeitos. O impacto causado pelo homem na natureza agravou-se com o
passar das décadas (FEARNSIDE, 2003, p. 1), mas a resposta pode ser
drástica, afinal, além das mudanças climáticas, podemos observar a
degradação da capacidade produtiva dos meios devido à degeneração do
solo, poluição da água e perda de recursos bióticos tais como populações
comercialmente valiosas de árvores e peixes (FEARNSIDE, 2003, p. 1). A
civilização atual, tecno-científica, produz barbáries passíveis de representá-
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la (KERN; MORIN, 2003, p.91). Isso gerou efeitos caracterizados de uma


crise ambiental. Entretanto, a utilização do termo “crise” já tornou-se algo
banalizado. O estado caótico e conflituoso do planeta é reflexo da sua
complexidade, tornando normal o estado de crise que estamos passando
atualmente. (KERN; MORIN, 2003, p. 93).
O jornalismo em suas diversas práticas de pesquisa e apuração
acaba tratando da crise ambiental de uma forma técnica, evitando na maioria
das vezes aprofundar-se nas discussões acerca do tema. Ao escrever sobre
problemáticas ambientais, o jornalista deve se atentar à área na qual o
assunto está tipificado, através da sua multi e interdisciplinaridade. A
temática ecológica requer o olhar de várias competências, negando a sua
redução a apenas abordagens técnicas ou científicas, mesmo que seja
essencial qualificá-las (BUENO, 2009. p. 115). Dessa forma, o jornalista,
em primeiro lugar como cidadão, deve contemplar a temática em sua
perspectiva mais abrangente (BUENO, 2009. p. 122). A pauta deve estar
contextualizada e referir-se às verdadeiras causas da degradação ambiental,
como colocar em foco, de maneira ativa, personagens que estão ligados
diretamente ao problema em questão (BUENO, 2009. p. 121). Para isso,

[...] é fundamental defender a ampliação do protagonismo no


jornalismo ambiental, convocando, obrigatoriamente, os que
estão fora dos muros da Academia (muitas vezes excluídos em
virtude de uma situação social injusta), como o povo da
floresta, o agricultor familiar, o cidadão de rua, etc., para
participar do debate da temática ambiental (BUENO, 2009. p.
121).

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 110

A vigilância cívica é essencial para a construção do jornalismo


ambiental, visto que a ação política das ONG’s ambientais, a coragem dos
pesquisadores independentes e a lucidez das mídias ambientais (BUENO,
2009, p.124) auxiliam em uma prática jornalística de transmissão de
informação neutra, a fim apenas de informar os fatos sem comprometê-los
(BUENO, 2009, p. 124). Como cita Wilson Bueno, a produção de um
material jornalístico relacionado a questões ambientais parte da apuração de
causas e consequências, propondo por fim uma solução:

A produção de uma reportagem ambiental parte,


necessariamente, de uma pauta que deveria, em virtude, da
extensão dos danos ao meio ambiente e ao planeta de maneira
geral, estar comprometida com a solução dos problemas e,
portanto, com a causa ambiental (BUENO, 2009 p. 122).

A reportagem é a forma como lidamos com a investigação e a


interpretação dos fatos colhidos e analisados, contextualizando as ideias de
forma aprofundada e muitas vezes sistêmica (ALMEIDA, 2017, p. 135). O
jornalismo ambiental deve operar por meio da objetificação da análise dos
propósitos de detecção de dados, atribuição de causas e balanço de
evidências (ALMEIDA, 2017, p. 133), práticas adequadas ao processo de
apuração e edição de uma reportagem. Por fim, vale destacar, que todos nós
somos protagonistas e vítimas das crises ambientais (ALMEIDA, 2017, p.
68), sendo assim, oferecer um certo destaque aos personagens dessa trama
durante a construção de uma matéria, faz parte do fazer jornalístico. E um
dos principais cenários seria a região amazônica, exemplo de celeiro

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 111

ecológico dependente de equilíbrio (ALMEIDA, 2017, p. 68). Deste modo,


o real significado de uma cobertura jornalística ambiental é fornecer
panoramas e perspectivas para a compreensão do receptor da mensagem.

O método de pesquisa pragmática do discurso jornalístico

A interpretação de determinados acontecimentos e seus interesses


advindos dela dependem não apenas de posicionamentos gerados por
oportunidades passadas e da previsão de ocorrências futuras, como também
de expectativas em torno de estratégias selecionadas em outros campos
(RODRIGUES, 2001, p. 19). Diante dessa concepção, algumas
características relacionadas às perspectivas comunicacionais podem ser
apontadas, a exemplo do saber estabelecido pelas disciplinas interferentes
entre si, os pontos de vista em que se fundam os discursos se equivalem,
caso passemos a considerá-los como estratégicos para fins de validação
(RODRIGUES, 2001, p. 19). Adriano Duarte Rodrigues complementa a
respeito dos campos sociais de interesse do campo comunicacional,
expondo que

[...] já não podemos, por conseguinte, hierarquizá-los em torno


de uma perspectiva dominante sem incorrermos no risco de
aceitar como indiscutível a sua dominação. É este o sentido da
transdisciplinaridade, como maneira de dar conta da
multiplicidade de arranjos discursivos ou de combinatórias, de
efeitos de sentido, de regimes figurativos e aleatórios que
proliferam no mundo atual (RODRIGUES, 2001, p. 19)

A característica combinatória dos discursos se manifesta de modo


permanente, com caráter serial e transitivo (RODRIGUES, 2001, p. 20). O

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 112

jornalismo media demandas e ofertas de interesses políticos, econômicos,


ambientais, mobilizando e confrontando discursos de diversas naturezas
sociais. E, muitas vezes, deixa de fazê-lo devido a interesses editoriais,
ideológicos e às rotinas jornalísticas.
As decisões editoriais tomadas pelos jornalistas delimitam os
conteúdos não manifestos nas narrativas jornalísticas, as lacunas
jornalísticas, segundo Margarethe Born Steinberger (2005, p.89). Tais
questões são reflexos do discurso do jornalista, seja ele imperfeito ou
incompleto (STEINBERGER, 2005, p.88), mas capaz de exercer influência
sobre o espaço e o tempo considerando o assunto dado ao público
(STEINBERGER, 2005, p. 88). A construção de discurso dá-se através de
pequenas particularidades (STEINBERGER, 2005, p.88). Há o uso
inevitável de filtros cognitivos, culturais, sociais, históricos, políticos e
ideológicos, gerando um estado particular de discurso (STEINBERGER,
2005 p.88).
Segundo Margarethe Born Steinberger, um texto jornalístico não
trata apenas de um assunto, mas do que podemos saber sobre ele:

Na compreensão do texto estão embutidos os processos de


produção discursiva, as decisões que o jornalista tomou ao
escrevê-lo, as informações que ele não conseguiu obter, o
cuidado ao relatar certos fatos, os links casuais que seu autor
fez ou deixou de fazer (STEINBERGER, 2005 p.89).

Dessa forma, podemos definir que o relato jornalístico é como a


narrativa de um historiador, podendo contar apenas um lado da história se
preferir, seja a política, ignorando a sociedade ou a economia, e vice versa
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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 113

(STEINBERGER, 2005 p.89). O volume de páginas destinadas a um


assunto é uma média entre a importância que o material tem para o editor e
a quantidade de material ao qual o jornalista teve acesso. No fim, o relato
jornalístico é sempre lacunar (STEINBERGER, 2005 p. 89). Vejamos como
os discursos provenientes de personagens de diferentes campos sociais,
incluindo o profissional da mídia, e suas lacunas se manifestam ou são
demarcados nas matérias jornalísticas a serem analisadas na próxima seção.

A representação de crises em matérias dos jornais Roraima em tempo e


Folha de Boa Vista

O periódico Roraima em Tempo publicou matéria no dia 17 de


agosto de 2019, assinada pelo jornalista Winicyus Gonçalves, intitulada
Avanço do desmatamento em Roraima chega a 2.700% em um ano,
indica Imazon, a fim de noticiar o acréscimo de áreas desmatadas no estado
de Roraima, que poderia estar diretamente ligado à atividade garimpeira
ilegal.
A matéria em questão apresenta o lide com as principais
informações no seu primeiro parágrafo, incluindo a data em que o relatório
de dados foi publicado. Além disso, no decorrer do texto, o material expõe
as possíveis causas, como o garimpo ilegal, responsável por provocar
grandes impactos ambientais, segundo lideranças indígenas, sem apresentar
citações diretas ou o nome da liderança. A matéria também faz um
comparativo de áreas desmatadas entre o ano de 2018 e 2019, em

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 114

quilômetros quadrados, totalizando território equivale ao tamanho do


Distrito Federal. Logo em seguida, as informações apresentadas são
divididas em seções.
A primeira delas intitulada Em julho exibe, novamente, um
quantitativo de quilômetros quadrados desmatados apenas no mês de julho
de 2019, a parcela de contribuição do estado de Roraima nos índices de
desmatamento no país (2%) e as localidades das áreas desmatadas no
estado. A segunda seção da matéria, Degradação, aponta o contraste na
quantidade de áreas degradadas em julho de 2019 e a redução de percentual,
em comparação com o mesmo período de 2018, além do percentual de
desmatamento no mesmo período. Ao passo que, em relação à degradação o
material aponta uma redução, quando se trata do desmatamento, os dados
indicam um aumento. Além disso, a matéria traz ao leitor os estados onde
foi possível identificar a degradação no ano de 2019. A terceira seção,
intitulada INPE, salienta que o Imazon, Instituto do Homem e do Meio
Ambiente da Amazônia, não tem ligação com o Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (INPE), o qual também apontou desmatamento no mês
de julho do ano de publicação da matéria, apresentando em seguida,
novamente, percentuais sobre o desmatamento da região.
Além dos percentuais, a matéria traz em seu conteúdo uma
imagem, na qual se destaca angulação da paisagem em panorâmica, ou seja,
vista de cima, expondo uma área desmatada, sem especificação de onde está
localizada. A matéria não apresenta hiperlinks, comentários de leitores e não
possibilita o compartilhamento do material por meio das redes sociais.

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 115

Observa-se na matéria citada um vasto território de áreas degradadas na


Amazônia legal e quilômetros desmatados nesta região. O material em
questão se preocupa mais em apresentar números do que mostrar impactos
negativos para a população em todos os aspectos políticos, econômicos,
sociais e ambientais.
Apesar da reportagem citar lideranças indígenas com o intuito de
especular os possíveis causadores do desmatamento, pouco espaço ou
nenhum é dado para essas pessoas externarem o que sabem acerca dos
bastidores de todo o acontecimento. O motivo exposto é pouco
aprofundado. Além disso, o material não apresenta informações de
autoridades policiais, ambientalistas, pesquisadores ou da população
residente em lugares mais afastados, testemunhas oculares naturais da
situação. O intuito maior é expor números e não apontar causas e
consequências dos problemas.
Na matéria publicada, não é possível saber dos impactos negativos
que o desmatamento causa para o ecossistema e o cidadão, não apenas em
relação ao aspecto econômico de quem vive nos locais mais próximos, ou
até mesmo em regiões do país mais afastadas, mas também associados a
prejuízos sociais. A crise ambiental pode influenciar no aspecto cotidiano
das localidades, mas isso não é abordado na matéria. Não menciona o quão
prejudicial é o desmatamento para os povos indígenas, os agricultores ou a
população do campo, seja no aspecto econômico ou social. A matéria
informa sobre as áreas degradadas e desmatadas, mas não apresenta os
pontos negativos sobre os aspectos ambientais da situação.

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 116

A plataforma on-line de notícias Folha de Boa vista publicou no


dia 06 de junho de 2018, a matéria Desmatamento consumiu mais de
1.200 hectares de terras em Roraima, noticiando o desmatamento
ocorrido em meados de 2016 e 2017, consumindo uma área maior do que 1
hectare em todo o estado.
A matéria apresenta em seu lide os dados principais sobre o
desmatamento no estado de Roraima, apontando que através do
mapeamento das áreas afetadas, tanto do estado quanto das demais regiões
da Amazônia Legal, o número de hectares já é superior a 162 mil hectares.
Além disso, no decorrer do texto, é exposto o trabalho do Ministério Público
Federal (MPF) ao identificar os responsáveis pelo desmatamento e aplicar
multa ambiental referente ao pagamento de indenização. Após isso, a
matéria segue trazendo mais informações a respeito do projeto desenvolvido
pelo MPF em parceria com o Ibama e o ICMBio, a fim de combater o
desmatamento no país, apresentando no fim, os dados do desmatamento em
todos os estados pertencentes à Amazônia Legal.
Características comuns do webjornalismo não são encontradas na
respectiva matéria, como hiperlinks, infográficos, ou até mesmo imagens
não apenas representando o desmatamento, mas mostrando a área
desmatada, já que durante o corpo da matéria é confirmada a origem dos
dados apresentados adiante, coletados através de análises de satélite. É
possível observar que os números são presentes em todo o corpo do texto,
mas prender-se apenas a dados contraria o princípio da apuração do
jornalismo ambiental. Ao apresentar somente o número de hectares

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 117

desmatados, estabelecemos um limite discursivo, esquecendo que apresentar


consequências e soluções também faz parte da apuração e da informação
prestada aos leitores.
O tipo de discurso casual, mostrando apenas as causas do
desmatamento, toma para si uma limitação em relação ao número de fontes
ouvidas, empobrecendo a matéria. Deste modo, podemos observar que
apenas fontes oficiais são usadas durante o texto, evitando estabelecer um
contato com aqueles possivelmente mais afetados pelo desmatamento, a
exemplo da população do campo e dos povos indígenas.

Considerações finais

Os problemas mencionados em ambas as matérias se repetem,


independentemente do veículo de comunicação ou do jornalista que assinou
o material. As lacunas citadas podem ser observadas com certa recorrência.
A preocupação maior é apontar dados em detrimento das possíveis soluções.
Números e estatísticas fazem parte da composição de um material que
requer maior aprofundamento.
Não se dá a devida atenção às minorias, como os povos indígenas,
ou demais pessoas diretamente afetadas pelas devastações ambientais, a
exemplo dos mais pobres, das populações dessas localidades. Desta forma, a
maior evidência é dada às fontes oficiais, especializadas, ao passo que
fontes não oficiais não têm o mesmo tratamento. Além disso, as matérias
não apontam causas e consequências dos problemas. Elas ignoram as graves

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 118

consequências de uma crise ambiental para a população. Além da crise


ambiental, não há menção aos aspectos econômicos envolvidos no
fenômeno representado. Falam em números, mas não transmitem seus
efeitos. De fato, é possível se informar sobre áreas desmatadas, percentuais,
porém o que transcende essas circunstâncias não é posto em evidência.
Números são importantes, mas podem não ser suficientes para uma
população carente cada vez mais de informações acerca de fatores de
tragédias e de soluções para uma vida melhor. Desta forma, a lacuna
jornalística transita de uma a outra narrativa jornalística, apresentando
sentidos de um cenário do jornalismo local despreocupado com a
interpretação de realidades e de suas crises.

Referências

ALMEIDA, Simão Farias. Ecocrítica da cartografia metafórico-interpretativa na não


ficção de mudanças climáticas, clima e danos ambientais. João Pessoa: Ideia, 2017.
BUENO, Wilson da Costa. O jornalismo ambiental circula na arena da ciência e da política.
Anuário Unesco/Metodista de Comunicação Regional. São Paulo. Ano 13 n.13, jan/dez.,
2009, p. 113-126.
CASTRO, José Caldas; ALMEIDA, João Ramos de. Narrativas da crise no jornalismo
econômico. São Paulo; Editora da Universidade de São Paulo, 2016.
FEARNSIDE. Philip M. A floresta amazônica nas mudanças globais. Manaus: INPA,
2003.
FOLHA DE BOA VISTA. Desmatamento consumiu mais de 1.200 hectares de terras em
Roraima.. Boa Vista, 17 de ago. 2019. Disponível em:

Sumário ISBN 978-65-5608-006-2


Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 119

<https://folhabv.com.br/noticia/Desmatamento-consumiu-mais-de-1-200-hectares-de-
terras-em-Roraima/40643>. Acesso em: 22 fev. 2020.
GONÇALVES, Winicyus. Avanço do desmatamento em Roraima chega a 2.700% em um
ano, indica Imazon. Roraima em Tempo. Boa Vista, 17 de ago. 2019. Disponível em:
<https://roraimaemtempo.com/ultimas-noticias/-avanco-do-desmatamento-em-roraima-
chega-a-2.700p-em-um-ano-indica-imazon,317316.jhtml>. Acesso em: 22 fev. 2020.
KERN, Anne Brigitte; MORIN, Edgar. Terra-pátria. Porto Alegre: Sulina, 2003.
KUCINSKI, Bernardo. Jornalismo Econômico. São Paulo: Editora da Universidade de
São Paulo, 1996.
MARENGO, J. A. Mudanças climáticas globais e seus efeitos sobre a biodiversidade.
Brasília: MMA, 2006.
MENDONÇA, F.; DANNI-OLIVEIRA, I.M. Climatologia: noções básicas e climas no
Brasil. São Paulo: Oficina de Textos, 2007.
RODRIGUES, Adriano Duarte. Estratégias da comunicação: questão comunicacional e
formas da sociabilidade. Lisboa: Editorial Presença, 2001.
STEINBERGER, Margarethe Born. Discursos geopolíticos da mídia: jornalismo e
imaginário internacional na América Latina. São Paulo: EDUC; Fapesp; Cortez, 2005.

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 120

A crise no céu: o conhecimento ambiental


yanomami e a mídia de mudanças climáticas
em Roraima
Pablo Felippe Santiago de Lima
Eliza Menezes de Lima

A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em


destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da
terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras
vão rachar no calor. A terra ressecada ficará vazia e silenciosa.
Os espíritos xapiripë, que descem das montanhas para brincar
na floresta em seus espelhos, fugirão para muito longe. Seus
pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los e fazê-los dançar
para nos proteger. Não serão capazes de espantar as fumaças de
epidemia que nos devoram. Não conseguirão mais conter os
seres maléficos, que transformarão a floresta num caos. Então
morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós.
Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver
mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar.
Davi Kopenawa Yanomami
(in KOPENAWA; ALBERT, 2019, p. 6).

Este trabalho trará à discussão um tema não tão recente, mas


constantemente em evidência: a ainda relutante cobertura de mudanças

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 121

climáticas presente no estado e sua relação com a cultura dos povos


originários Yanomami. Ao discorrer sobre determinados temas como esse, é
imprescindível apresentá-los no contexto no qual serão abordados, uma vez
que a delimitação do conceito é a maneira mais eficiente de evitar
ambiguidades ou as nuances manifestas no decorrer dos anos. Sabemos
tratar-se de uma tarefa problemática quando vista sob o prisma de
paradigmas filosóficos e comunicacionais.
Discussões sobre as mudanças e variações climáticas têm se tornado
cada vez mais comuns, principalmente quando o país vivencia
frequentemente desastres ambientais naturais ou causados pela ação
desregrada do homem. Mas antes de nos debruçarmos sobre tragédias
ambientais ou como a mídia tem noticiado tais acontecimentos, é importante
lembrar que certos eventos vivenciados na atualidade já haviam sido
descritos em tempos antigos como consequência ao desrespeito com os
espíritos da natureza, e ao dizer isto buscamos na própria história
informações capazes de corroborar tal afirmação, pois o contato com os
povos originários no estado de Roraima é praticamente recente, datado do
final do século XIX, e a narrativa sobre a origem dos povos Yanomami
atuais já se desenhava sobre a necessidade do cuidado e o respeito com a
terra.

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 122

Os primeiros contatos

O povo Yanomami é um dos grupos de maior população e extensão


territorial do Norte do país, se estendendo desde os municípios de Barcelos
e Santa Isabel do Rio Negro, no Amazonas, passando pelo estado de
Roraima até chegar à cabeceira do rio Orinoco, na Venezuela.
Pesquisadores30 destacam que os primeiros contatos com os povos
Yanomami aconteceram em solo venezuelano, e em terras brasileiras por
parte de caçadores e extrativistas nômades que circulavam entre as
fronteiras dos dois países entre 1940 e 1960. O contato é de fato
consolidado a partir de 1960 quando as primeiras missões católicas e
evangélicas chegaram ao estado31.
A partir da década de 1970, com o desenvolvimento de projetos de
expansão econômica durante o governo militar, o contato maciço entre o

30
De acordo com artigo Kami Yamaki Urihipë, Nossa terra-floresta, publicado no site PIB –
Povos Indígenas no Brasil, a área mais povoada pelos yanomami situa-se na Serra Parima,
onde o rio Orinoco se divide nos afluentes Rio Negro e Rio Branco, e é justamente nessa
região que houveram os primeiros contatos com a fronteira branca em meados do século
XVIII. A partir disso os povos começaram um movimento migratório interno que se tornou
característico do povo yanomami, que teve um crescimento demográfico significativo entre
os séculos XIX e XX nas fronteiras brasileiras. O contato dos povos yanomami com os não-
índios em solo brasileiro acontece a partir do século XX já com a expansão de soldados e
funcionários do SPI (Serviço de Proteção ao Índio criado em 1910 por Marechal Rondon e
extinto e substituído pela Fundação Nacional do Índio, FUNAI, em 1967) em terras ao
Norte do país e se intensificam principalmente a partir de 1960.
31
O estado aqui citado é Roraima, mas optou-se por não identificá-lo no texto, pois, no
período citado ele não era reconhecido como Unidade Federativa e sim como província do
Amazonas, tendo sua separação e homologação acontecidas apenas em 1988 com a
Constituição Federal.
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homem branco32 e o povo Yanomami não trouxe benefícios aos indígenas.


Os yanomami formam uma sociedade de caçadores-agricultores, e quando
os napëpë começam a manter contato de maneira fixa, instalando-se
próximo às comunidades, construindo pontos de apoio e atendimento do
SPI, dispondo de objetos manufaturados e de assistência médica e sanitária,
a população que antes precisava trabalhar diariamente no cultivo de seu
sustento, torna-se dependente do material trazido pelos napëpë. Tais fatores
geraram uma enorme perda populacional uma vez que tal população não
estava acostumada com o consumo de certos produtos e não contavam com
anticorpos suficientes para combater doenças incomuns na floresta. As
doenças do homem branco eram trazidas às aldeias através de um simples
contato ou com intenção de causar graves epidemias a fim de dizimar
populações inteiras, a exemplo das epidemias de sarampo, gripe e
coqueluche.
No final dos anos 1970 a 1980, a população indígena diminuiu
drasticamente, seja pelas doenças trazidas pelo homem branco, seja por
conflitos entre os indígenas e os não-indígenas, agravados mais ainda
quando foram descobertos jazidas minerais nas terras Yanomami. A
população passou a ser duramente submetida ao contato na fronteira branca,
pois o governo buscou de forma ostensiva dominar a região com a
construção de estradas, fazendas, serrarias, canteiros de obras e projetos de
colonização para facilitar a instalação dos primeiros garimpos. Nesse

32
O conceito de homem branco para os yanomami pertence ao mesmo grupo de significado
que inimigo ou estrangeiro, e é traduzido por napë, no singular, ou napëpë no plural.
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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 124

período, acontece um alto processo migratório de garimpeiros a Roraima,


causando ainda mais caos às populações indígenas por provocarem um
aumento epidemiológico significativo, deixando as populações originárias
extremamente sensíveis às novas doenças, tornando-os dependentes de
remédios trazidos pelas missões, ou ao genocídio provocado por
garimpeiros que matavam aldeias inteiras sem piedade para explorarem as
terras.
O período ficou conhecido como a corrida do ouro, pois o governo
militar fazia alta propaganda do garimpo, incentivando a chegada em média
de 30 a 40 mil garimpeiros às terras Yanomami, gerando um
congestionamento humano em territórios indígenas, dobrando o número de
epidemias e combates violentos entre os indígenas e os napëpë. Essa tensão
só diminuiu a partir de 1988, pois a nova Constituição Federal passou a
reconhecer e garantir direitos aos povos tradicionais, entre eles a
demarcação dos territórios indígenas, das reservas e áreas de conservação
permanente. A exploração de garimpo e a invasão de garimpeiros nessas
terras se tornaram ilegais, sendo reduzidas consideravelmente já que as
lideranças dispunham de recursos jurídicos para lutar e exigir do Estado a
desocupação das áreas. A preocupação com a preservação do meio ambiente
começou a ser traçada a partir da Constituição Federal de 1988 e criou a
condição de natureza conservada e terra pertencente aos povos indígenas por
direito, naturalmente e socialmente responsáveis pelos ecossistemas onde
vivem.

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 125

Os mitos Yanomami como instrumento educacional do meio ambiente

As explicações sobre fenômenos sempre tiveram a possibilidade de


respostas complexas a partir das mitologias e do divino com características
humanas, animalescas ou hibridas, consideradas as formas mais puras de
explicar o inexplicável, a origem, a relação e o resultado dos fenômenos
naturais e fatos humanos. Em diversas civilizações, os mitos sempre
possuíram cunho educacional repassado de pessoa a pessoa de forma oral,
abordando temas que contribuíam para a formação do homem moral e ético,
além de explorar as consequências das atitudes tomadas pelos seres
humanos. Os povos tradicionais construíram uma estrutura narrativa para
descrever o princípio do mundo, e é neste sentido que Mircea Eliade (1986,
p.11) aponta a capacidade do mito de retratar a narrativa da criação e o
acontecimento ocorrido no tempo primordial, no tempo fabuloso do
princípio. “É essa irrupção do sagrado que realmente fundamenta o Mundo
e o converte no que é hoje”. A explicação científica de certos fatos é
verdadeira, mas ela não é a primeira tentativa de explicar a formação do
mundo no qual vivemos, diante das cosmogonias antigas dos povos
originários. O caráter real dos mitos contém perspectiva educacional, pois
todo o conhecimento foi passado adiante por alguém com a finalidade de
falar do mundo, o qual está aqui para provar sua veracidade. Enquanto os
mitos continuarem contando sobre os tempos primeiros e pudermos ver as
consequências das ações narradas no mundo em que vivemos, esse mito é
real, ou seja, a história consegue atingir o objetivo de informar o

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 126

conhecimento obtido, alertar sobre as diretrizes e as consequências geradas


caso elas não forem cumpridas.
O papel do mito vai ainda mais longe quando explica de maneira
sobrenatural um tempo no qual homens e seres místicos viviam em paz e
sem maldade. Esse tipo de narrativa é comum em diversas culturas, e ela
também é fundamental, pois mantém o desejo de viver bem como os
antigos, promovendo na comunidade o rigor em seguir as regras de
convivência e de respeito aos seres da natureza para que não se afastem da
possibilidade de um tempo bom. Por isso, o caráter do mito é educacional,
pois ele se constrói sob duas perspectivas, sendo a primeira, a vontade de
responder os anseios de um povo sobre a sua origem, e a segunda, construir
um respeito, uma responsabilidade e um sentimento de coletividade com os
membros da sua comunidade, pois somente assim é possível viver de
maneira harmoniosa, sem querelas entre seus membros.
Vale considerar também que os mitos não se encerram em
aprendizados voltados apenas para a formação do caráter, mas também
engajados no respeito pela terra, pelos animais, pelas plantas e águas de
onde se tira o sustento. Quando um mito é construído explicando um
fenômeno natural, normalmente esse fenômeno é transformado em um deus
ou espírito de cunho poderoso, e a história justifica a atitude tomada pelo
povo diante de tal fenômeno. A educação aqui acontece no conhecimento
dos motivos pelos quais os fenômenos se manifestam e como evitar
determinadas consequências. E nesse ponto, a história Yanomami aqui
contada se encaixa.

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 127

Os povos Yanomami são caçadores-agricultores e a terra tem uma


importância significativa para eles. Os mitos de criação desse povo apontam
que a terra é um ser divino/sobrenatural, além de numa simbologia sagrada
prover o sustento. Não é incomum ver os povos Yanomami de diversas
regiões se unirem em um objetivo: a preservação do meio ambiente. Talvez
por serem agricultores ou por terem como característica a instalação da
aldeia em grandes áreas de floresta, os yanomami também são conhecidos
por ser um povo enraizado com suas tradições e seus ritos, entre eles o
cuidado do meio ambiente.
O contato com o estrangeiro, o homem branco, acontece há
aproximadamente três séculos, um tempo pequeno comparado às outras
culturas, mas é nesse pequeno tempo de convivência que os homens brancos
foram classificados como inimigos, pois sua chegada marca o início de uma
grande crise para o povo Yanomami.

Conforme a mitologia yanomami descreve, os seres humanos são


nascidos da relação entre o demiurgo Omama, ao qual é atribuída a origem
das regras da sociedade e dos espíritos xapiripë, com a filha do monstro
Tëpërësiki, o dono das plantas cultivadas. O filho de Omama foi o primeiro
xamã, e seu irmão Yoasi é origem da morte e dos males do mundo. Apesar
de o contato com os napëpë ser recente dentro da fronteira brasileira, a
criação dos napëpë já é descrita na mitologia yanomami, e deve-se ao
contato dos povos em solo venezuelano, que durante os períodos de
visitação às aldeias vizinhas trocavam também histórias, fazendo o
surgimento dos napëpë ser incorporado à mitologia clássica. A narrativa de

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Crises do planeta no jornalismo sobre Roraima | 128

criação napë também é atribuída ao demiurgo Omama, porém eles se


referem a tal grupo como uma criação de segunda importância, pois foram
criados a partir da espuma do sangue dos ancestrais yanomami mortos na
primeira enchente que dizimou quase todos os ancestrais. Os primeiros
grupos napëpë eram temidos pelos yanomami por terem surgido de lugares
distantes, identificados como as “costas do céu”, e por isso eles eram tidos
como fantasmas tentando voltar a viver no mundo dos vivos, algo
assombroso para um yanomami, pois o ritual e a crença que envolve a morte
na mitologia yanomami é extremamente importante para sua formação, não
sendo permitido sequer pronunciar o nome do morto.
Com isso temos um mito de criação dos yanomami e dos napëpë
enquanto moradores da mesma terra, e até mesmo criados pelo mesmo ser
divino. Porém, a criação do homem branco não é tida como algo bom. Por
se tratar de uma criação de segunda ordem, por serem temidos por muito
tempo, uma vez que eram relacionados aos fantasmas dos mortos, e por
trazerem consigo doenças, o homem ocidental sempre foi motivo de
preocupação para esses povos. Quando o mito de criação é contado, quando
Omama serve de referência divina na aldeia através dos contos, vem
acompanhado não só da história de surgimento dos yanomami, mas também
aparece como responsável por esconder a epidemia-fumaça33 debaixo da
terra, para não fazer mal a nenhum yanomami.

33
Xawara é o nome dado inicialmente à fumaça produzida na extração do minério, mas
também é associado às epidemias trazidas pelo homem branco, sendo assim, quando
xawara aparecer no texto estamos nos referindo às doenças trazidas pelos brancos aos
yanomami, seja por causa do garimpo ou pela transmissão de doenças não conhecidas pelos
indígenas.
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Davi Kopenawa conta numa entrevista concedida a Bruce Albert em


199034 e referenciada no livro A Queda do Céu:

[...] os brancos, depois de terem descoberto nossa floresta,


foram tomados por um desejo frenético de tirar esta xawara do
fundo da terra onde Omamë a tinha guardado. [...] Disso temos
medo. A xawara do minério é inimiga dos Yanomami, de vocês
também. Ela quer nos matar. [...]. Quando o ouro fica no frio
das profundezas da terra, aí tudo está bem. [...] Ele não é
perigoso. Quando os brancos tiram o ouro da terra, eles o
queimam [...]. Isto faz sair fumaça dele. Assim se cria a
xawara, que é esta fumaça do ouro. [...] Ela se torna agressiva e
quando isso acontece ela acaba com os Yanomami./ [...] uma
fumaça que não se vê e que se alastra e começa a matar os
Yanomami. Ela faz também morrer os brancos, da mesma
maneira [...]./Quando esta fumaça chega no peito do céu [para
os Yanomami, o céu tem "costas"(onde moram os fantasmas, o
trovão e diversas criaturas sobrenaturais) e um "peito", que é a
abóbada celeste vista pelos humanos, ele começa também a
ficar muito doente, ele começa também a ser atingido pela
xawara. A terra também fica doente. E mesmo [...] os espíritos
auxiliares dos pajés [...] ficam muito doente. [...] “Os pajés que
já morreram vão querer se vingar, vão querer cortar o céu em
pedaços para que ele desabe em cima da terra [...]”./Não há
pajés entre os brancos [...]. Quando a fumaça encher o peito do
céu, ele vai ficar também morrendo [...]. O trovão vai ficar
doente também e vai gritar de raiva, sem parar, sob o efeito do
calor. Assim, o céu vai acabar rachando. Os pajés yanomami
que morreram já são muitos, e vão querer se vingar... [...] Os
hekurabë vão querer se vingar, vão querer cortar o céu em
pedaços para que ele desabe em cima da terra; também vão
fazer cair o sol, e, quando o sol cair, tudo vai escurecer.
Quando as estrelas e a lua também caírem, o céu vai ficar
escuro. [...]/Vocês ficarão sozinhos na terra e acabarão
morrendo também. Quando o céu ficar realmente muito doente,
não se terá mais pajés para segurá-lo com os seus hekurabë. Os
brancos não sabem segurar o céu no seu lugar. Eles só ouvem a

34
Entrevista concedida ao CEDI/DF (Centro de Documentação e Informação) por Davi
Kopenawa respondendo às perguntas do antropólogo Bruce Albert, em 1990. Disponível
em <https://pib.socioambiental.org/files/file/PIB_verbetes/yanomami/xawara.pdf> Acesso
em: 06 mar. 20.
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voz dos pajés [...].Quando os pajés ainda estão vivos, o céu


pode estar muito doente, mas eles vão conseguir impedir que
ele caia. [...] Ele pode começar a rachar com muito barulho,
mas eles conseguem consertá-lo e o fazem ficar silencioso de
novo. Quando nós, os Yanomami, morrermos todos, os
hekurabë cortarão os espíritos da noite, que cairão. O sol
também acabará assim.

Mesmo o povo não conhecendo o maquinário para a extração de


minérios e os efeitos do mercúrio por nunca terem feito extração do ouro, a
ideia de que os napëpë traziam doenças já estava presente no imaginário do
povo Yanomami, tendo em vista terem sido alertados através do mito, acerca
do perigo desta fumaça. Os indígenas se unem para defender suas terras por
duas razões muito caras a eles: a primeira delas é porque sua terra lhes dá o
sustento, tendo sida concedida pelo próprio demiurgo, mas em segundo
lugar, os yanomami sabem que a preservação do meio ambiente, e a menor
interferência causada por eles permite que o céu não desabe e o mundo não
seja surpreendido por um colapso do meio ambiente.
Quando Kopenawa era muito jovem e acampou na floresta,
presenciou o céu se mover, e imaginou naquele momento sua queda ao
chão, fato não ocorrido por estar na presença de vários xamãs dançando até
o céu acalmar. Todavia, muitos xamãs já morreram e os napëpë não
possuem conhecimento para segurar o céu caso ele venha a desabar, e por
isso a conservação do meio ambiente é tão almejada, pois não são só as
xawaras vindas do garimpo que podem matar os yanomami, mas também
desastres como a queimada de 1998, tida como a maior queimada em seu
território, responsável por liberar a xawara, fazendo adoecer brancos e
indígenas, deixando populações inteiras dependentes da colheita e da caça
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passarem fome. O crime ambiental também fortaleceu ainda mais a luta por
respeito, dignidade e esperança dentro dos relatos de seus companheiros de
aldeia.
Ciro Campos (2011, p. 13) nos mostra um dado importante: “apenas
5% da cobertura vegetal original foi desmatada, o que faz de Roraima um
dos estados mais conservados do país”. A importância da conservação do
meio ambiente para o povo Yanomami deve contribuir nesse cenário. Seus
mitos e ritos são todos alicerçados na ideia de que a terra-floresta, urihi, foi
dada aos yanomami para viverem e cuidarem, e o contrário disso se reflete
na queda do céu. A análise do mito yanomami nos leva a refletir sobre a
importância da terra para um povo que se identifica como parte integrante
do meio ambiente e não vê diferenciação entre seres humanos e animais,
pois em seus primórdios todos éramos animais. Só após a primeira queda do
céu que esmagou os primeiros yanomami, os animais se transfiguraram em
seres humanos, sem nunca abandonar seu estado de animalidade por
completo, incorporando um duplo animal. Segundo o mito yanomami, todos
somos seres vivos criados por Omama.
O mito da queda do céu apontado neste capítulo serve de referência
para analisarmos cobertura jornalística de impactos ecológicos nas terras
Yanomami. Discutiremos a representação discursiva de alterações
climáticas, sejam elas consideradas naturais ou causadas diretamente pela
influência humana, distinção pertinente e recomendada por Almeida (2017).
Levaremos em conta o construto interpretativo das mudanças climáticas
sugerido por Archer e Rahmstorf (2010), aplicado à pesquisa do jornalismo

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por Almeida (2018), e o método de pragmática do discurso jornalístico de


Adriano Duarte Rodrigues (2001).
Rodrigues (2001, p. 99) define o discurso do acontecimento como
um

[...] acontecimento de natureza especial, distinguindo-se do


número indeterminado de acontecimentos possíveis em função
de uma classificação ou de uma ordem ditada pela lei das
probabilidades, sendo inversamente proporcional à
probabilidade de ocorrência.

E ainda reforça seu ponto de vista afirmando que o acontecimento


jornalístico também "[...] irrompe sem nexo aparente nem causa conhecida e
é, por isso, notável, digno de ser registrado discursivamente"
(RODRIGUES, 2001, p. 99).
Dentro dessas perspectivas, o autor ainda divide o acontecimento
jornalístico em categorias. Seriam elas: a) excesso - "visto ser irrupção por
excelência do funcionamento anormal da norma" (RODRIGUES, 2001, p.
99) -; b) falha - "[...] Ao contrário do excesso, a falha procede por defeito,
por insuficiência do funcionamento normal e regular dos corpos"
(RODRIGUES, 2001, p. 99) -,;c) inversão - "[...] A teoria jornalística que
considera o facto de um homem morder um cão como notícia inscreve-se
claramente neste registro" (RODRIGUES, 2001, p. 100). Além dessas
classificações, existem também os chamados meta-acontecimentos.
Diferentes das três primeiras categorias, as quais estariam dispostas em
grupo de fatos ocorridos sem interferência dos meios de comunicação, os de

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inversão só existem em razão e com o apoio dos meios de comunicação.


Esses acontecimentos ganham vida e repercussão graças à existência da
mídia. Por fim, o autor ainda reforça que o discurso do acontecimento
também pode ser considerado uma anti-história, ao passo que pertence "[...]
ao mundo do acidente que deixa vestígios e altera a substância do mundo
das coisas, das pessoas, das instituições" (RODRIGUES, 2001, p. 100).
A ferramenta teórica aqui utilizada será o modelo de construto
interpretativo baseado na precisão e clareza de dados e fatos, sugerido para a
análise climática na obra de Almeida (2017) a partir das discussões de
Archer e Rahmstorf (2010). O referido construto é constituído basicamente
por três etapas: 1) Detecção, 2) Atribuição e 3) Balanço de Evidências. Em
cada uma delas, existem informações necessárias à construção do discurso
jornalístico a respeito do aquecimento global. Durante a detecção, procura-
se no material avaliado as seguintes características: a) Apresentação e
análise de dados; e b) Apresentação e comparação de fatos e contextos. Na
etapa de Atribuição, deve-se avaliar a) Enumeração de causas; b)
Identificação de causas políticas, econômicas, sociais, ambientais, culturais
etc; c) Hibridismo de causas; e d) Relação entre causas, contextos e
sistemas. Por fim, o Balanço de Evidências deve considerar a) Apontamento
de consequencias; b) Natureza política, econômica, social, ambiental,
cultural das consequências; c) Hibridismo de consequências; d) Comparação
de consequências em distintos contextos; e e) Confronto contextual e
sistêmico de causas e consequências.

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Cobertura dos impactos de queimadas nas terras Yanomami

Analisaremos a webreportagem Índios Yanomami sofrem com seca


e queimadas no interior de Roraima produzida para o portal G1
Roraima, ligado à Rede Amazônica de Comunicação, em âmbito regional, e
ao grupo Globo, nacionalmente. A publicação data de 1º de fevereiro de
2016 e não registrou atualizações desde sua publicação. De acordo com o
site, o material é fruto do trabalho da jornalista Emily Costa, com apoio da
equipe da Rede Amazônica. Originalmente, o material é formado por 12
parágrafos de texto, duas fotos - uma creditada à equipe da Rede Amazônica
e outra creditada ao jornalista Marcelo Marques, integrante da equipe do G1
Roraima. Há também na matéria um vídeo de suporte indisponível para
exibição durante a elaboração deste trabalho científico.
A princípio, devemos ressaltar que o material foi escolhido por
dialogar com nossa argumentação inicial sobre o mito da queda do céu. O
homem branco foi visto pelos yanomami como inimigo que surgiria para
causar desordem e desgraça, principalmente após a crise dos problemas
causados pelo incêndio ocorrido na região no final dos anos 1990. Para
entender o Grande Incêndio de Roraima, Campos (2011) apresenta um
panorama dos danos ambientais causados pela queimada:

Aproximadamente 3,8 milhões de hectares foram de alguma


forma afetados pelos incêndios de 1998, incluindo cerca de 1,2
milhão de hectares de floresta primária. Foi estimado que mais
de 40 milhões de toneladas de carbono foram liberadas em
consequência dos incêndios, não apenas pela queima das
árvores mas também pela posterior decomposição de matéria
orgânica. Além do grande prejuízo causado pela perda dos
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estoques de carbono e do consequente lançamento de gases


estufa na atmosfera, a destruição de grandes áreas naturais e as
alterações na cobertura vegetal também causaram impactos ao
solo e recursos hídricos. O prejuízo também inclui danos às
propriedades rurais e a perda de culturas agrícolas, além de
danos à saúde pela inalação da fumaça e uma inestimável perda
da diversidade em escala local (CAMPOS, 2011, p. 35).

Após listar e avaliar as consequências do Grande Incêndio, o autor


pondera que os atos do poder público em relação a uma possível prevenção
da tragédia não conseguiram ser tão eficazes e estratégicos em razão do
ineditismo do desastre. Adiante, políticas de prevenção e monitoramento de
incêndios florestais foram criadas e seriam responsáveis por “uma ação
sistemática e coordenada” (CAMPOS, 2011, p.35) capaz de impedir um
incêndio de proporções tão catastróficas em 2003, quando Roraima bateu
um novo recorde de focos de calor em seu território. Ferramentas
tecnológicas e informacionais criadas pelo homem branco no século XX,
caso do computador e da internet, levaram ao mundo a problemática
situação dos indígenas roraimenses em períodos de estiagem propícios a
queimadas responsáveis por graves danos ao bioma roraimense e às
populações tradicionais.
O primeiro ponto a ser analisado é exatamente sobre a sua natureza
enquanto acontecimento jornalístico. Dentro dessa perspectiva, podemos
excluir o caso da matéria constituir um meta-acontecimento. Mesmo
sabendo que não é impossível, principalmente nos dias atuais, um grupo
criar, a partir de uma situação específica, uma demanda para que tal situação
seja coberta pela imprensa, não existe no texto nenhuma informação de que
os próprios indígenas tenham demandado tal cobertura. Ao contrário disso,
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ela foi verificada espontaneamente pelo veículo, em razão do próprio


destaque e importância da Terra Indígena Yanomami dentro do contexto
roraimense e de sua relevância para a preservação ambiental da região.
Descartada a possibilidade de ser classificada como um meta-
acontecimento, o material analisado então passa a ter três possibilidades de
contextualização dentro da perspectiva do discurso do acontecimento: a
falha, o excesso e a inversão. E dentro dessas três possibilidades,
defendemos que o material analisado possui características dos três tipos de
acontecimentos. Mais diretamente encontramos no texto as características
referidas à falha, afinal, trata-se de um incidente ambiental. Claramente algo
está errado com o meio ambiente e está causando danos a seres vivos. Além
disso, temos a falha no funcionamento das instituições, as quais, por mais
que demonstrem predisposição e formas de resolver o problema das
queimadas, não conseguem realizar o trabalho da maneira esperada em
razão da escassez de água apontada durante o texto, e que será explorado
mais profundamente a partir da aplicação do construto interpretativo de
Archer e Rahmstorf (2010), como principal causa para a perda do controle
dos incêndios ocorridos durante a estiagem. Podemos também identificar as
características do excesso, quando, já em seu primeiro parágrafo, o texto
trata da "mais intensa estiagem dos últimos 20 anos no estado [de Roraima]"
(COSTA, 2016). Sobre a inversão, podemos considerar o fato de que temos
a ocorrência de um problema ambiental crônico dentro de um território
reconhecido, exatamente, por sua capacidade e eficiência na preservação do
meio ambiente.

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Analisando a partir das assertivas de Rodrigues (2001) a construção


de títulos das matérias jornalísticas, não identificamos exatamente um nome
próprio, mas a contextualização dos "Índios Yanomami", como possíveis
personagens principais do material webjornalístico e também a presença do
verbo, no caso, o verbo "sofrer" (COSTA, 2016). Apesar de coerentes, e do
reconhecimento da tentativa da jornalista em fazer dos yanomami
personagens principais do material e também trazer a problematização sobre
o sofrimento causado por mais um ano de estiagens e queimadas, é fato que
a construção do material, seja por falta de tempo, espaço ou até mesmo
restrições da linha editorial do veículo, pode ser considerada responsável
pela geração de expectativa não alcançada na relação entre o título
apresentado e o material confeccionado.
Iniciando agora a aplicação do construto interpretativo, poderemos
argumentar melhor sobre nossas restrições em relação à concepção de título
e discurso a respeito dos yanomami presentes na matéria, sem deixar de
reconhecer as dificuldades em realizar coberturas sobre mudanças climáticas
e seus desdobramentos em Roraima, problemática reforçada, como já
dissemos, em Almeida (2018) e que apresenta semelhanças e diferenças
pontuais e importantes com nossa análise atual, as quais serão relatadas a
partir da aplicação da ferramenta de análise de Archer e Rahmstorf (2010).
Em relação à fase de detecção e ao contexto apresentado, temos
indicações nos parágrafos iniciais: um problema ambiental ocorrendo dentro
da "maior reserva de índios do país, a Terra Indígena Yanomami (TIY)",
enfrentando a "mais intensa estiagem dos últimos 20 anos no estado"

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(COSTA, 2016). Isso ocorre dentro dos territórios de quatro municípios de


Roraima, os quais encontram-se em "situação de emergência por causa da
estiagem e dos incêndios florestais" (COSTA, 2016). Como já havíamos
ponderado, trata-se de um problema ambiental de cunho estadual colocado à
luz de um população específica, os yanomami e a maneira como a estiagem
e as queimadas estão causando problemas em seu território.
Partindo para a fase da atribuição, a estiagem promotora da falta
d'água para o combate aos incêndios alivia a responsabilidade das vozes
oficiais envolvidas no problema porque usam essa causa enquanto principal
explicação de não conseguirem resolver o problema. As fontes oficiais do
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
(Ibama), do Prevfogo, da Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos
Hídricos (Femarh) e do próprio Governo de Roraima alegam enfrentarem
um momento difícil, dentro de um cenário de recursos limitados. Não há
citações sobre trabalhos anteriores voltados à prevenção, educação e às
alternativas para o problema não chegar a pontos extremos. De certa forma,
é possível perceber que, ao se analisar especificamente a orientação dada
aos povos Yanomami pelos técnicos do Ibama, relatada por Dário
Kopenawa, fonte Yanomami presente no texto, os próprios indígenas seriam
considerados causas do problema: "[...] o risco de falta d'água preocupa as
lideranças da região, que foram orientadas pelo Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) a controlar as
queimadas" (COSTA, 2016). Em nenhuma parte do material, o governo de
Roraima, seus entes e/ou os atores do setor ambiental assumem um papel de

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culpa em relação ao ocorrido, atitude a qual, se não é obrigatória, deve ser


esperada, afinal, trata-se do estado que viveu um grande trauma em razão de
uma grande queimada, que passou por estiagens constantes e riscos reais de
novos incidentes ambientais traumáticos e, ao longo dos anos, teve
condições de criar alternativas contra um novo grande incêndio como o
ocorrido em 1998. Ao invés disso, o que se vê são medidas objetivas sendo
elencadas, porém, elas não conseguem ser efetivadas por falta de insumo
necessário, o qual, em razão do contexto explicitado acima, da maior
estiagem das duas últimas décadas, estava escasso num momento de crise e
não podia funcionar a contento.
Em relação ao balanço de evidências e às consequências do desastre
ocorrido, percebe-se que tais efeitos aparecem nas falas de Dário Kopenawa,
ou seja, no discurso do representante dos yanomami no texto. Sendo assim,
poderíamos até entender um pouco melhor, voltando à análise do título, a
escolha do verbo sofrer e dos "Índios Yanomami" enquanto ‘sujeitos que
sofrem, afinal, são eles que relatam problemas como: “‘Queimadas estão
acontecendo na floresta e os rios menores já secaram’, relata Dário
Kopenawa", "Está muito seco. As folhas das árvores estão extremamente
secas, o que gera um risco ainda maior de grandes queimadas ocorrerem na
área" (COSTA, 2016). No final do texto, são elencados outros grupos
vítimas diretas do desastre, são eles produtores rurais, os quais acumulariam
prejuízos em razão das queimadas, e também animais silvestres "morrendo
devido às queimadas e à falta d'água" (COSTA, 2016).

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O texto acaba por não apresentar algum tipo de solução específica


para o problema, além da possível potencialização do trabalho contra o
fogo, caso a oferta de água aumente e os yanomami parem de realizar
queimadas sem controle, como recomendado pelo Ibama. No final, ainda é
relatado que o governo do estado decidiu trabalhar numa campanha de
arrecadação de cestas básicas para as famílias afetadas, uma atitude
relevante dentro do contexto humanitário, mas irrelevante numa perspectiva
de preocupação ambiental, tanto para a resolução dos problemas enfrentados
na matéria, quanto para evitar que tais problemas voltem a ocorrer no
estado.
Para encerrar nosso processo de análise, vamos levar em
consideração determinados pontos da construção do texto analisado em
relação ao que é constatado sobre o jornalismo de mudanças climáticas
praticado em Roraima e apontado na obra de Almeida (2018). Devemos,
partindo desse ponto, elogiar a pluralidade de fontes presentes no material,
não oficiais e oficiais. Tal configuração nem sempre é fácil de encontrar
dentro das coberturas sobre mudanças climáticas em Roraima. Ao mesmo
tempo, devemos assumir que essa presença não propiciou grandes análises e
aprofundamentos sobre o tema ambiental, apesar do previsível potencial em
razão do número de fontes ouvidas. Cada uma delas, seja os especialistas
representantes de alguma das instituições presentes no texto, seja o próprio
Dário Kopenawa, representante dos yanomami na matéria, poderia ter
contribuído com análises e relatos mais profundos sobre a situação
enfrentada contra as queimadas e a estiagem. Porém, novamente tendo por

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base a obra de Almeida (2018), devemos elencar tal falta de


aprofundamento e de narrativas mais densas como características desse tipo
de cobertura em Roraima, o que não tira as virtudes encontradas no material
do G1, só o impedem de ir mais além. Tal constatação reforça nosso
entendimento sobre o contexto atual da cobertura de mudanças climáticas
no estado, escasso e limitado aos interesses dos proprietários e da linha
editorial da maioria dos veículos locais. Determinadas coberturas, como
essa aqui analisada, dependem diretamente do interesse e até da militância
dos jornalistas, dispostos a incluírem a questão ambiental em suas pautas
diárias e também da ocorrência de problemas capazes de chamar a atenção
da mídia, a exemplo da estiagem 2016 em Roraima e seus desdobramentos,
os quais, segundo o mito da queda do céu, já eram esperados pelos povos
Yanomami.

Considerações finais

Chegamos ao fim de nosso percurso, o qual, em nosso entender,


passou por caminhos que podem até apresentar certa divergência em certos
níveis epistemológicos entre a filosofia e a pragmática do jornalismo, mas
que, dentro de nossa proposta de exploração, foi capaz de manter coerência
e gerar uma discussão plausível sobre temas do passado persistentes na
atualidade. A passagem de conhecimento a respeito da natureza por meio da
oralidade ainda possui sua relevância dentro de uma série de contextos e não
pode, nem deve, ser descartada. As tecnologias da informação presentes

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hoje, a internet, o computador, as redes sociais, os dispositivos mobile, não


são inimigos desse saber milenar, mesmo sendo obras do homem branco, e
sim ferramentas capazes de reforçar todo o potencial da oralidade e tornar
essa maneira ancestral de passagem de conhecimento em algo ainda mais
poderoso.
Em outra vertente, temos os profissionais capazes de dar o devido
valor a essa oralidade, sendo portanto figuras tão singulares no mundo atual.
Ao buscar um relato, apurar um fato, o profissional da comunicação
depende do relato dos personagens da notícia além e aquém de um
documento, de uma prova material, de um objeto a se apegar. Diferentes
narrativas importantes para o jornalismo foram forjadas a partir dessa
relação de dependência e cooperação.
Em Roraima, para muitos, nunca existiu razão para dúvidas sobre a
imprensa, havia só uma certeza, todos os veículos tinham ligações íntimas
com grupos políticos e, em razão disso, não era confiáveis, pois deixavam
de cumprir seu papel social para defender os interesses dos seus
proprietários. Existe também o grupo que, em razão de sua configuração
política, sente-se abraçado por tal dinâmica. Afinal, se os veículos são
pautados por interesses políticos, basta saber quais políticos defendem e
acompanhar sua cobertura para verem suas pautas sendo divulgadas. Mas
também, os meios atendem a sociedade, adequando os ditos interesses
políticos aos interesses da população. Dentro desta relação de amor e ódio
entre política, imprensa e público, vemos brotar na imprensa local o hábito
por coberturas que, há alguns anos, não faziam parte da rotina de muitos

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veículos. A questão ambiental e as coberturas diretamente voltadas a este


tema ainda são algo em construção no estado. Editorias, repórteres de
referência e grandes espaços na mídia falam sobre esse tema quando ele não
pode mais ser ignorado e, a partir dessa emergência, torna-se prioridade
social.
Vivemos num estado indígena, com vários territórios dedicados à
preservação ambiental e constituintes de um bioma riquíssimo. Ao mesmo
tempo, Roraima foi o palco de um dos maiores acidentes poluentes e
devastadores do século passado e continua, ano após ano, a flertar com a
possibilidade de tornar-se palco de um novo incidente capaz de chamar a
atenção do mundo. Tais ingredientes cobram dos meios a questão ambiental
a ser trabalhada dentro das redações de maneira tão orgânica quanto são
trabalhados o esporte, o social e a política, por exemplo, porém, como já
debatemos no final de nossa análise, isso ainda não ocorre de maneira
orgânica e nem com o espaço merecido. Sabedores disso, tentamos trazer
nossa contribuição para tal debate, demonstrando a referência da cultura
mítica e oral yanomami para o jornalismo e esse enquanto espaço de
visibilidade das demandas de preservação dos povos indígenas.

Referências

ALMEIDA, Simão Farias (Org.). A cobertura jornalística das mudanças climáticas em


Roraima. João Pessoa: Ideia, 2018.

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________. Ecocrítica da cartografia metafórico-interpretativa na não-ficção de


mudanças climáticas, clima e danos ambientais. João Pessoa: Ideia, 2017.
ARCHER, David; RAHMSTORF, Stefan. The climate crisis: an introductory guide to
climate change. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.
CAMPOS, Ciro. Diversidade socioambiental de Roraima: subsídios para debater o futuro
sustentável da região. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2011.
COSTA, Emily. Índios Yanomami sofrem com seca e queimadas no interior de
Roraima. Disponível em: <http://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2016/02/indios-
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ELIADE, Mircea. Mito e realidade.. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1986.
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Sumário ISBN 978-65-5608-006-2


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Territorialidades geográficas e jornalísticas em


entrevista de parlamentar indígena a jornal
brasileiro
Simão Farias Almeida

Os sentidos de território são articulados pelos subalternos na


sociedade e na mídia contra discursos culturalmente determinados. Partindo
das discussões sobre territorialidades indígenas e jornalísticas (BHABHA,
1998; SOUSA e ALMEIDA, 2015; DI FELICE e PEREIRA, 2017; IQANI e
RESENDE, 2019; ZANETTI e REIS, 2017), analisaremos os
condicionantes sociais e ambientais contra sentidos hegemônicos
exclusivamente politico-econômicos nos discursos de parlamentar em
entrevista da Folha de S. Paulo. Concluíremos que o net-ativismo indígena
nas redes digitais legitima seus lugares de fala em favor do território
demarcado e da natureza.

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Territorialidades indígenas, geográficas e jornalísticas

Território é um dos conceitos cujos sentidos ultrapassam limites


disciplinares de distintos campos científicos e agregam problemáticas
conceituais capazes de ampliar sua aplicabilidade a contextos distintos,
sobrepostos e complexos. Marcos Saquet (2010, p.118), teórico da
Geografia, concorda que território e territorialidade se entrelaçam devido às
suas construções coletivas, em diferentes níveis e múltiplas tramas dos
sujeitos entre si e com ambientes e lugares. Ele defende sua abordagem
material e imaterial no intuito de considerar um desenvolvimento associado
à justiça social e à participação de diferentes sujeitos (SAQUET, 2010,
p.155). Envolve uma complexidade social, econômica e natural para a qual
convergem forças locais e globais em favor de uma territorialidade
sustentável (SAQUET, 2010, p.116). Rogério Haesbaert (2012, p.123),
crítico brasileiro do campo geográfico, aponta o caráter duplamente
articulado do agenciamento territorial em torno de um conteúdo e de uma
expressão. Deste modo, podemos discutir as práticas e os processos de
territorialidades por meio da ciência da comunicação e do jornalismo
compreendidos enquanto campos sociais geradores de narrativas que
implicam sujeitos em distintos lugares de fala e de interpretação dos fatos e
da realidade. Visto a partir de paradigmas dos estudos pós-coloniais, seu
agenciamento subverte as complicações desses sujeitos em suas regiões
nativas. Conforme destaca Homi Bhabha (1998, p.147, grifos do autor), o
poder sobre o espaço ocupado pelo outro é ambivalente na medida em que o

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subalterno pode reordenar as hierarquias e os discursos do colonizador, do


invasor:

A demanda colonialista pela narrativa carrega, dentro dela, seu


reverso ameaçador: Digam-nos por que nós estamos aqui. É
esse eco que revela que o outro lado da autoridade narcísica
pode ser a paranóia [sic] do poder, um desejo de “legitimação”
frente a um processo de diferenciação cultural que torna
problemático fixar os objetos nativos do poder colonial com os
“outros” moralizados da verdade.

As narrativas territoriais, assim, têm uma dupla articulação tendo em


vista partirem de perspectivas distintas, deslocadas e conflitivas. A natureza
também é espaço onde distintos campos e seus representantes se
(des)articulam em complementaridades e incompatibilidades. A
racionalidade ambiental, nos termos de Enrique Leff (2009, 306), implica
em racionalidades culturais diversas mobilizadas para territorializar sentidos
a respeito do meio ambiente. Ao pensarmos no contexto da Amazônia
brasileira, a territorialidade não é processo específico do Estado (BECKER,
1991, p.19). A região não deve ser vista como a última fronteira econômica,
agrícola ou agropecuária porque a ocupação pelos povos e pelas
comunidades indígenas é antiga, legitimando a complexidade configurada
pela proximidade ou superposição de interesses sustentáveis e de mineração
(BECKER, 1991, p.78). Segundo Bertha Becker (1991, p.97),

Se a territorialidade é uma estratégia de poder para todos os


atores, ela é mais atuante ao nível de conjuntos específicos de
atores que constituem as regiões. A apropriação do espaço em
parcelas por combinações de diversos atores cria variadas
sociedades locais – conjunto de frações monopolistas -, que são
a expressão social das regiões em formação. Estas têm uma
finalidade política que determina contradições e modos

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específicos de relacionamento com o capital monopolista e


com as instituições e organizações estatais, e que operam na
transformação do Estado: por um lado, as elites locais disputam
o aparelho do Estado, participando da organização do poder,
mas por outro, conflitos se estabelecem entre interesses
regionais e extra-regionais, não só ao nível de interesses
econômicos e políticos, mas também simbólicos, das reações
coletivas, e que podem eventualmente constituir base de
resistência coletiva.

Nesses termos, o construto discursivo da Amazônia não é pacífico ao


contrapor territorialidades físicas e naturais, governamentais e das minorias
étnicas. O conceito tem implicações políticas, econômicas, sociais, culturais
e ambientais mais complexas do que o território porque envolve fatores
históricos, ancestrais e conhecimentos estratégicos. Para Cássio Sousa e
Fábio Almeida (2015, p.38-39), as territorialidades indígenas estão atreladas
à biodiversidade, ao manejo e à exploração dos recursos naturais. São
diversos os atores e interesses, distintas as perspectivas e problemáticas em
torno das terras indígenas (SOUSA; ALMEIDA, 2015, p.60). Suas
territorialidades sofrem
[...] um processo de ajuste ou incorporação pelas lógicas
territoriais do Estado. Esta incorporação, por sua vez, é antes
fruto de um processo de imposição do Estado, e não uma
adesão dos povos indígenas às novas lógicas territoriais
(SOUSA; ALMEIDA, 2015, p.77; p.80).

Tais conflitos provocam os espaços habitados a perder os aspectos de


normalidade, permanência e estabilidade. E as alterações nesses processos e
nos modos de vida não significam perda de identidade e das lógicas próprias
de pensar o mundo, pois as características culturais são dinâmicas e não
estáticas (SOUSA; ALMEIDA, 2015, p.135).
A preservação das tradições culturais e dos ecossistemas naturais se
retroalimentam com o intuito de garantir os propósitos das lutas territoriais.
Segundo Cássio Sousa e Fábio Almeida (2015, p.156-157),

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[…] as culturas indígenas dependem da integridade do meio


ambiente para se reproduzirem, e o meio ambiente lucra com
os elementos de proteção que podem ser proporcionados por
uma boa gestão indígena de seus territórios. Para que se
reproduza essa sinergia, no entanto, é importante que haja
apoio para a readequação às novas realidades das terras
demarcadas, que é o que se espera de uma política de gestão
territorial indígena.

Deste modo, a territorialidade se constitui num processo contínuo


mesmo quando determinadas pautas da agenda política do grupo minoritário
são conquistadas. A problemática também é consolidar uma pauta comum a
todas as comunidades indígenas (SOUSA; ALMEIDA, 2015, p.221).
Todavia, as dificuldades de agenda única não minimizam ou precarizam a
diversidade das demandas de um território a outro. Os condicionantes
territoriais de determinados povos podem se caracterizar pelos recursos
naturais limitados ou pelas atividades e tecnologias econômicas capazes de
provocar impactos ambientais, sociais e econômicos (SOUSA; ALMEIDA,
2015, p.259). Daí a necessidade de ampliar lutas coletivas e nacionais,
provocando esses condicionantes a extrapolar os campos geográficos e
configurar novos espaços de luta nas redes digitais.
Os media e os territórios estão imersos em uma dimensão conectiva
e constitutiva além das relações do sujeito com a natureza, convergindo à
dimensão “complexa e interativa do sujeito-media-circuitos informativos-
territorialidades”. A interação ecológica realizada por meio da comunicação
em rede supera o antropocentrismo, a centralidade na percepção da natureza
não humana pelo homem, e legitima um outro conceito de ambiente (DI
FELICE; PEREIRA, 2017, p.27). A interação dos povos indígenas nas

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tecnologias digitais reconfiguram as experiências de lugar e expressa “uma


nova condição ecológica desses povos e da própria Floresta associada ao
net-ativismo” aliado ao monitoramento de suas terras e ao protagonismo
ambiental (DI FELICE; PEREIRA, 2017, p.43). Essa outra ordem de
territorialização do espaço associada ao poder deslocativo e conectivo das
redes digitais realiza novas interações ecológico-comunicativas (DI
FELICE; PEREIRA, 2017, p.54). A partir disso, a tomada de espaços de voz
nessas redes constitui novas territorialidades enredadas em conflitos de
pautas e atritos politicos, econômicos, sociais, culturais e ambientais.
O ativismo reticular “condensa todas as redes nele inscritas ou
ativadas e, transborda, igualmente, novos sentidos ecológicos e estéticos de
sua cosmologia que encontram no digital a sua (i)materialização
cartográfica”, entre o mundo local indígena e o outro não indígena global
(DI FELICE; PEREIRA, 2017, p.57). Esse diálogo concretizado pelas novas
tecnologias de comunicação e informação provoca uma nova forma
comunicativa atópica do habitar (DI FELICE; PEREIRA, 2017, p.57). Neste
sentido, sentidos de territorialidades geográficas e digitais podem ser
reconhecidas nas produções massificadas na internet. Uma nova ideia de
ativismo abre-se à “dimensão ecológico-habitativa consequente do processo
de digitalização e de conexão” (DI FELICE; PEREIRA, 2017, p.61).
As mídias procedem por meio da reescritura de representações
estratificadoras de histórias conflitivamente justapostas (IQANI;
RESENDE, 2019, p.5). Segundo Mehita Iqani e Fernando Resende (2019,
p.6), “In the media territory, as well as in the territory we all experience as

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part of our (everyday) lives, narratives are constantly flowing and


conflicting and, therefore, inevitably producing distinct territorialities”35. Os
autores ainda apontam as implicações da mídia em “narrative territoriality”
[territorialidade narrativa] e “cross-cultural currents” [correntes
transculturais] (IQANI; RESENDE, 2019, p.14), confirmando a disposição
das representações territoriais de nativos subalternos por parte dos meios de
comunicação. Podemos falar em lugares geográficos e discursivos nas
produções midiáticas ao identificarmos as lutas de sujeitos quando
reconfiguram seus sentidos de lugar em outros espaços de poder. De acordo
com Daniela Zanetti e Ruth Reis (2017, p.18), “A circulação e a
comunicação são dimensões que se combinam sob a forma de redes no
processo de constituição de territorialidades”. Em constante deslocamento,
seus sentidos devem ser vistos de dentro e de fora, em acordos e desacordos,
em representações individuais e coletivas, em camadas locais, regionais,
nacionais e globais.
Analisaremos na próxima seção os sentidos do habitar ecológico na
natureza e nas mídias digitais construídos e circulados pela deputada federal
Joenia Wapichana em texto do site do jornal Folha de S. Paulo. Vamos
atentar às representações geográficas e jornalísticas de territorialidades
indígenas nos discursos da entrevistada. Para isso, utilizaremos o método de
pragmática do discurso jornalístico, que reconhece as perspectivas ou os
pontos de vista a partir dos quais se fundam os discursos. Eles

35
“No território da mídia, bem como no território que nós experimentamos como parte de
nossas vidas (diárias), narrativas estão constantemente fluindo e conflitando, assim sendo,
inevitavelmente produzindo distintas territorialidades” [tradução livre nossa].
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[...] passam a equivaler-se, se os considerarmos como lances


estratégicos de legitimação. Já não podemos, por conseguinte,
hierarquizá-los em torno de uma perspectiva dominante sem
incorrermos no risco de aceitar como indiscutível a sua
dominação (RODRIGUES, 2001, p.19).

Desta forma, os sentidos de choque e confronto com discursos


territoriais hegemônicos serão considerados no propósito de investigar
estratégias de legitimidade de territorialidades alternativas. Rodrigues
(2001, p.20) destaca a natureza serial e transitiva da combinatória dos
discursos. “É transitiva, na medida em que a posição do próprio sujeito é
reflexo de uma palavra outra que o constitui como instância legítima de
enunciação”. A partir disso, poderemos comparar os construtos discursivos
dos diferentes sujeitos envolvidos na cobertura jornalística.

Territorialidades de indígenas e da natureza em notícia-entrevista da


Folha de S. Paulo

A narrativa Temos de mudar a ideia de que impedimos


desenvolvimento, diz deputada indígena foi publicada no site do jornal
Folha de S. Paulo em 7 de janeiro de 2019. Ela conta com declarações da
deputada federal Joenia Wapichana sobre suas pautas parlamentares durante
o governo do Presidente Jair Bolsonaro. Primeira mulher indígena a se
eleger deputada federal, representante do Partido Rede Sustentabilidade de
Roraima, no extremo Norte do Brasil, Wapichana atuou como advogada no

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processo de homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, aprovada


pelo Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro, e recebeu o prêmio de
Direitos Humanos da ONU em dezembro de 2018.
A narrativa jornalística é misto de notícia e entrevista ao informar,
por meio de lead e de legenda fotográfica, a respeito da primeira mulher
indígena deputada federal na história do Brasil, ocupando gabinete cujo
número é simbólico em relação às conquistas dos povos indígenas, e conter
perguntas e respostas direcionadas às declarações do governo Bolsonaro
acerca da demarcação de terras e às conquistas constitucionais e jurídicas
nesse campo. A entrevista se desenvolve tendo como referência a técnica da
espiral concêntrica, por meio da qual parte do sujeito apresentado no centro
do fato, como testemunha ou motivador dele, para o contexto no qual está
inserido e a sua vida social (SEQUEIRA, 2005, p.126-127). No caso da
produção jornalística aqui analisada, o jornalista guia a entrevistada da sua
avaliação do governo Bolsonaro, passando pelas impressões sobre seu
trabalho parlamentar aos impactos das medidas governamentais na vida dos
indígenas num tempo de dez anos, ou seja, o roteiro parte da sua condição
de deputada à proveniente dos povos indígenas.
A manchete da matéria já sinaliza a reação de Wapichana ao pré-
conceito de atribuir às comunidades indígenas o status de atrasadas
economicamente, capazes de impedir o desenvolvimento do país,
associando essa reação no título à sua crítica às mudanças nas demarcações
e ao respeito à Constituição Federal. O primeiro parágrafo com o lead
noticioso reforça o papel parlamentar da deputada na atual legislatura

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(2019-2023) de garantir os direitos territoriais. Ela ocupa o gabinete 231 da


Câmara dos Deputados, número análogo ao artigo constitucional “que
assegura aos povos indígenas os direitos sobre suas terras tradicionais”
(MAISSONNAVE, 2019). O início da narrativa, portanto, já sugere os
sentidos geográficos de território e territorialidade, os quais extrapolam as
delimitações das áreas de moradia e ganham visibilidade política e, por
extensão, econômica, social e ecológica. Deste modo, os dois conceitos
envolvem, a partir da notícia-entrevista, aspectos das demandas amazônicas,
dos centros de poder e de crises de distintas naturezas, correspondendo ao
conceito de policrise de Edgar Morin e Anne Brigitte Kern. “Muitas dessas
crises podem ser consideradas como um conjunto policrísico em que se
entrelaçam e se sobrepõem crise do desenvolvimento, crise da modernidade,
crise de todas as sociedades” (KERN; MORIN, 2003, p.94). Os discursos da
entrevistada vão apontar o protagonismo indígena, instrumento da resolução
dessas crises.
O segundo parágrafo do trecho noticioso contrapõe
sintomaticamente “a principal arma de Joenia contra as ameaças do governo
Jair Bolsonaro” e a “guerra” do atual presidente, cuja campanha eleitoral
baseou-se na proposta de porte de armas, de paralisar e reverter as
demarcações, de permitir o arrendamento e a mineração em terras indígenas.
Assim, o trecho sugere as territorialidades geográficas, econômicas e
políticas implicadas no “armistício” entre a legisladora e o chefe do poder
executivo. Também sinaliza o tratamento republicano das pautas legislativas
da deputada. O parágrafo seguinte informa a Raposa Serra do Sol, em

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Roraima, enquanto alvo do presidente cujas promessas desde a campanha


eleitoral é devolver as terras demarcadas “aos fazendeiros brancos e abrir
para a exploração mineral” (MAISSONNAVE, 2019). Valendo-se da
estratégia discursiva no jornalismo de exacerbação dos diferendos de
distintas instituições, nos termos de Adriano Duarte Rodrigues (2002,
p.227), Fabiano Maisonnave marca as distintas territorialidades do governo
de extrema direita e das comunidades tradicionais ao referenciar a
demarcação ratificada pelo Supremo Tribunal Federal, à qual contribuiu a
defesa advocatícia de Wapichana. Os diferentes pontos de vista a partir dos
quais se fundam os discursos são estratégias de legitimação de
condicionantes hegemônicos e alternativos de lugar, respectivamente,
limitados ao valor político-econômico e associados também ao cuidado
ambiental.
Ao contrário da Presidência da República disposta a fragmentar e
hierarquizar os interesses de agricultores, pecuaristas, mineradores e
indígenas, o parágrafo seguinte demonstra a capacidade da deputada em
reunir uma base eleitoral de diferentes etnias em torno da “criação de um
sistema próprio de educação e melhoras na rede de saúde”
(MAISSONNAVE, 2019). Desta forma, a matéria reforça as demandas
constitucionais e territoriais do poder legislativo e da Raposa Serra do Sol,
região, inclusive, onde foi feita a entrevista pelo jornalista da Folha de S.
Paulo.
Em resposta a primeira pergunta em torno do tema das mudanças na
política indigenista, Joenia Wapichana denuncia o retrocesso nos direitos

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indígenas de reconhecimento das terras devido à medida provisória que


tirou da FUNAI a responsabilidade das demarcações. A decisão do governo
Bolsonaro gerou uma crise territorial ao desqualificar a fundação e suas
ações de promover “as terras garantidas, respeitadas e protegidas, longe de
interesses individualistas econômicos, de influências e de posicionamentos
politicos” (MAISONNAVE, 2019). Assim, não há consenso entre a
territorialidade social e ambiental dos povos indígenas e a outra atrelada aos
propósitos das mineradoras. Esse impasse no construto jornalístico aparece
no início da entrevista, indicando uma crise em trânsito a percorrer os
trechos seguintes da narrativa jornalística. Na resposta da pergunta seguinte,
a parlamentar reforça o reconhecimento de direitos ao contrariar a afirmação
do presidente de manipulação por parte de ONGs. A entrevistada
dimensiona o entendimento dos atores importantes nos processos de
territorialidades nativas, legitimando essas organizações como parceiras e
não colonizadoras da reinvidicação de direitos. A soma de forças em favor
das demarcações constitui, portanto, a luta contra as lógicas territoriais do
Estado conforme apontam Sousa e Almeida (2015, p.77; p.80). Ao
confrontar os discursos de Jair Bolsonaro, Wapichana reclama os
condicionantes de espaços habitados pelos povos representados por ela no
Congresso Nacional, além de endossar a Amazônia como casa comum de
diferentes povos interessados em sua preservação. Ao sobrepor seu
enquadramento a respeito das crises políticas, econômicas e sociais nas
representações da região amazônica, a parlamentar leva consigo as

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demandas das territorialidades de seus representados a render processo de


diferenciação cultural no restante da entrevista.
Muitas vezes, é necessário manter e reforçar uma dupla articulação
do lugar de fala frente aos construtos do homem branco de modo a garantir
os sentidos legítimos desses condicionantes. Em trecho no qual o jornalista
relembra a afirmação do atual presidente acerca dos índios viverem em
zoológicos dentro de suas terras, por exemplo, a deputada federal também
atribui essa declaração ao governo do estado de Roraima “como se a terra
indígena fosse uma prisão para que, demarcada, os índios ficassem lá no
cantinho” (MAISSONNAVE, 2019). Ela questiona a discriminação dos
mandatários do país – “O que ele quer dizer com isso? Que somos animais
irracionais, que não conhecemos os nossos direitos? A terra indígena é uma
prisão?” (MAISSONNAVE, 2019) – e repara o caráter pejorativo do termo
zoológico, tratando as comunidades indígenas enquanto “uma residência, o
nosso direito à terra demarcada. Mas isso não nos retira o direito de sermos
cidadãos brasileiros, de ir e vir” (MAISSONNAVE, 2019). As distintas
territorialidades, desta forma, geram outro impasse na narrativa, sinalizando
a necessidade do constante agenciamento territorial e jornalístico captado
em seus sentidos de hierarquizações e reversos nos termos pós-coloniais de
Homi Bhabha (1998, p.147).
As tentativas de ambivalência marcada pelas territorialidades
indígenas se concretizaram nas declarações da deputada Wapichana ao
rasurar os sentidos de zoológico e legitimar o lugar social e ambiental dos
povos indígenas. O jornalista Fabiano Maissonnave colabora com esta

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perspectiva desde o início da notícia-entrevista ao destacar o simbolismo do


número do gabinete dela, mais uma “casa” de apoio a seus representados,
transitando a legitimidade territorial do discurso da personagem da notícia à
territorialidade jornalística disponível a contrapor o espaço de exploração
mineral e o lugar comum da floresta e de todos os seres. Ao questionar o
atributo de zoológico, Joenia Wapichana insinua que nem mesmo os animais
merecem estar encarcerados. A demarcação não implica no cerceamento do
direito constitucional de ir e vir, e os animais também são dignos de direitos.
Segundo o filósofo desconstrutivista Jacques Derrida (2002, p.51), o
zoológico é a subversão moderna dos modos antigos de exploração animal.
Se alguém deve estar num zoológico, escraviza-se tanto os seres humanos
quanto os não humanos. O discurso da deputada federal rejeita as duas
condições de subserviência, sendo assim permeado pelo cuidado em favor
dos seres ao mesmo tempo independentes e ecodependentes numa ética
planetária, conforme aponta Leonardo Boff (2012, p.37). Deste modo, as
territorialidades ambientais contam com a mobilização da dupla articulação
dos discursos pelas causas dos lugares de fala do homem e dos animais por
ele representados.
Seguindo o roteiro da entrevista, em resposta a quarta pergunta, ela
confronta as perspectivas do ministro Carlos Ayres Brito do STF brasileiro e
do general Heleno, um dos principais assessores de Bolsonaro, atribuindo ao
primeiro a declaração de que “não existe choque de interesses numa terra
indígena em área de fronteira com a defesa nacional” (MAISSONNAVE,
2019). Se por um lado o jornalista marca a exacerbação dos diferendos entre

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as instituições jurídica e militar no discurso da entrevistada, por outro lado


ela desnivela esse campo de forças, reforçando sua defesa de apoio de
diversos atores às causas indígenas ao referenciar a comitiva do Marechal
Rondon composta por lideranças “que ajudaram na definição dos limites dos
territórios brasileiros” (MAISSONNAVE, 2019). Em seguida, legitima a
posse constitucional exclusiva e natural dos “principais guardiões da
floresta” e “protetores dos recursos naturais, dos rios”, reservando a posse
patrimonial à União (MAISSONNAVE, 2019). Finalizando a resposta a
quarta pergunta, critica o discurso considerado intolerante do Presidente da
República: “Seria uma crueldade incitar o ódio, a intolerância, um clima de
racismo contra os povos indígenas” (MAISSONNAVE, 2019). Assim,
defende a legalidade das territorialidades jurídicas, sociais, étnicas e
ambientais dos povos tradicionais.
Representados jornalisticamente, os condicionantes territoriais
configuram um net-ativismo mobilizado por lugares de fala favoráveis aos
reversos, às incompatibilidades e às resistências dos subalternos em relação
às declarações oficiais. Ao fazer uso da técnica de entrevista espiral
concêntrica, o jornalista faz a parlamentar avançar na legitimidade dos
direitos indígenas e recuar para demarcar ambivalência contra os discursos
hegemônicos. Transitando entre as representações de poder em Brasília e os
espaços de dupla articulação dos povos indígenas, Wapichana delimita, por
um lado, redes comunicacionais e territorialidades jornalísticas nem sempre
pacíficas, todavia, capazes de valorizar, por outro lado, os condicionantes de
uma sinergia social e ambiental.

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Na pergunta seguinte, o jornalista Fabiano Maissonnave edita as


palavras da entrevistada sobre a exploração mineral na Raposa Serra do Sol,
nas quais distingue a riqueza dos indígenas sob condições de saúde,
alimentação saudável, cultura preservada sem ameaças e a cobiça
determinante do “choque de exploração” das mineradoras (MAISONNAVE,
2019). A família em seguida é apontada como uma “riqueza”, não nos
termos das declarações do atual presidente: “Ele preza tanto o valor da
família, deveria ver o lado indígena também” (MAISSONNAVE, 2019). Ao
contrário disso, “O valor da família indígena começa na terra”, daí
reconhecer as consequências da exploração mineral, entre elas a violência, o
alcoolismo e a perda da cultura (MAISSONNAVE, 2019). Assim, a terra
demarcada segue palco geográfico e discursivo de luta dos subalternos num
processo de diferenciação cultural arregimentado pelo ativismo digital hábil
ao confrontar os estereótipos nativos do poder colonial.
Joenia Wapichana amplia os sentidos de territorialidades ambientais
na resposta à mesma pergunta, informando a detecção de mercúrio, por
parte da Fiocruz, nos rios das terras Yanomami. Ela aponta que outros rios
serão contaminados, pois “As águas não ficam paradas, nascem nas terras
indígenas, mas vão para a cidade também” (MAISSONNAVE, 2019).
Rompe as barreiras da falta de espaço nos meios tradicionais e, no site de
um jornal de grande circulação nacional, propõe um discurso duplamente
articulado e reverso através do qual deixa o ensinamento da sociabilidade
ecológico-cósmica, a partir da qual a natureza pertence à sociedade e a

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sociedade pertence à natureza, conforme aponta Leonardo Boff (2015,


p.181).
Ainda reforçando os aspectos dos condicionantes territoriais
indígenas, o jornalista questiona a respeito da legalização do arrendamento
de terras indígenas em algumas regiões. A deputada cobra o dever dos
poderes públicos em fiscalizar, sendo eles responsáveis pelo cuidado
patrimonial das terras da União de “uso exclusivo para prover a
sobrevivência física e cultural dos povos” (MAISSONNAVE, 2019). E
referencia o construto histórico dessas territorialidades ao destacar a
preocupação dos legisladores responsáveis pela Constituição Federal de
garantir os direitos contra tentativas de arrendamento no futuro. Denuncia
ainda o Estado ao não cumprir seu papel de incentivar projetos de
produtividade, sustentabilidade e fiscalização após a homologação,
isentando-se dos compromissos das garantias constitucionais. Na resposta à
pergunta seguinte, contrapõe essa história de conquistas à memória dos
discursos “inflamados” de Jair Bolsonaro contra a demarcação quando era
deputado federal. Segundo ela, o atual presidente “não entendia como meia
dúzia de mal-educados que não falavam português tinham mais direitos do
que brasileiros patriotas” (MAISSONNAVE, 2019). Ela reforça o papel
racista do então deputado e na resposta à penúltima pergunta da entrevista
fala em “desmistificar toda essa política que tenta retroceder nos direitos
constitucionais” (MAISSONNAVE, 2019), um contraponto à construção de
Bolsonaro enquanto mito político nas eleições 2018.

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A deputada federal se autodeclara educativa e defende o avanço do


Brasil no campo da diversidade e do crescimento econômico, compatíveis
entre si se não prejudicar “vidas e povos indígenas” (MAISSONNAVE,
2019). E responde às próprias perguntas formuladas a respeito da
perseguição e do ódio, assumindo o protagonismo indígena contra a visão
do empecilho ao desenvolvimento, tema central da notícia-entrevista
exposto na manchete da narrativa. Demarca, por fim, as territorialidades
econômicas e ambientais capazes de unir as comunidades indígenas aos
projetos nacionais: “Temos turismo, medicinas tradicionais, uma vasta
biodiversidade na Amazônia” (MAISSONNAVE, 2019). Esses sentidos são
reforçados na última resposta da entrevista, ao apontar as comunidades
tomando a frente das atividades produtivas. A personagem da notícia,
portanto, colabora num construto jornalístico no qual todos os sujeitos
cabem numa territorialidade sinérgica, segundo as palavras de Cássio Sousa
e Fábio Almeida (2015, p.156-157), gestada a partir de uma política de
gestão territorial indígena. As ofertas e demandas sociais e ecológicas se
constroem na floresta, nas terras demarcadas e nas respostas da entrevistada.
O lugar a partir do qual jornalista e liderança indígena falam era uma
das fazendas indenizadas após a homologação da Raposa Serra do Sol.

Tiraram-se as cercas, e hoje se caminha livremente […] hoje é


possível para a comunidade desenvolver seu projeto de criação,
de gestão. Estão sendo protagonistas da administração. Está
todo mundo nessa agenda de avançar para a sustentabilidade”
(MAISSONNAVE, 2019).

Ela projeta o tempo de dez anos no qual profissionais indígenas


formados reforcem a gestão da terra. Neste sentido, a opção por propostas
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sustentáveis engrena as múltiplas territorialidades, entre elas a jornalística, e


associa a cidadania na floresta à cidadania da floresta, sentidos permeados
na narrativa do trecho noticioso até a última resposta da entrevistada. O
gabinete da deputada federal, o lugar de fala da entrevista, o caráter de
residência contra o valor pejorativo de zoológico imprimem à ideia de
condicionantes territoriais plurais o cuidado de todos os seres e do planeta.

Considerações finais

A entrevistada Joenia Wapichana agencia o espaço concedido pelo


jornal Folha de S. Paulo a fim de reordenar os sentidos de lógicas
territoriais dos povos indígenas, convergindo aspectos politicos,
econômicos, sociais, culturais e ecológicos. Rompendo a autoridade
narcísica cuja fala tenta engendrar o atributo de zoológico humano e a
“guetização” da fala restrita à sua comunidade Raposa Serra do Sol, ela se
implica enquanto reverso conciliador de ativista ambiental. Os
condicionantes de territorialidades plurais por meio dos quais todos os
espaços geográficos ou comunicacionais e todos os sujeitos fazem parte de
uma construção coletiva conferem ao jornalismo o papel de transitar apelos
territoriais dos subalternos. Faz uso do ativismo reticular (DI FELICE;
PEREIRA, 2017, p.57) das territorialidades digitais e dos lugares de fala em
confronto a fim de impor um diálogo nativista às declarações xenofóbicas
em relação aos direitos de demarcação de terras. Diante das territorialidades
sociais e ambientais jornalisticamente representadas, os sentidos e as

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narrativas de diferenciação cultural de zoológico e floresta sustentável fluem


aquém dos limites geográficos e comunicacionais, convergindo diferentes
sujeitos a uma mesma articulação nativista.

Referências

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Autores

Robson Moreira da Silva é aluno do Curso de Comunicação Social -


Jornalismo (UFRR) e Membro do Grupo de Pesquisa Mídia, Conhecimento e
Meio Ambiente: olhares da Amazônia (CNPq/UFRR).

Marcos Martins é aluno do Programa de Pós-graduação em Comunicação


(PPGCOM) da Universidade Federal de Roraima (UFRR).

Sandeivyde da Conceição Alves é aluno do Curso de Comunicação Social -


Jornalismo (UFRR) e Membro do Grupo de Pesquisa Mídia, Conhecimento e
Meio Ambiente: olhares da Amazônia (CNPq/UFRR).

Mairon Compagnon é aluno do Curso de Graduação em Comunicação


Social – Jornalismo da Universidade Federal de Roraima (UFRR),
Pesquisador Bolsista PIBIC do Projeto de Pesquisa Planejamento e
produção de manual de cobertura jornalística de mudanças climáticas em
Roraima e Membro do Grupo de Pesquisa Mídia, Conhecimento e Meio
Ambiente: olhares da Amazônia (CNPq/UFRR).

Williams Dias é aluno do Curso de Graduação em Comunicação Social –


Jornalismo da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Pesquisador
Voluntário do Projeto de Pesquisa Planejamento e produção de manual de
cobertura jornalística de mudanças climáticas em Roraima e Membro do
Grupo de Pesquisa Mídia, Conhecimento e Meio Ambiente: olhares da
Amazônia (CNPq/UFRR).
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Eliza Menezes de Lima é graduada em Filosofia e especialista em


Fundamentos da Filosofia: Conteúdo e Método pela Universidade Estadual
de Roraima (UERR) e professora da Educação Básica do Estado de Roraima.

Pablo Felippe é aluno do Programa de Pós-graduação em Comunicação


(PPGCOM) da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e Membro do
Grupo de Pesquisa Mídia, Conhecimento e Meio Ambiente: olhares da
Amazônia (CNPq/UFRR).
.
Simão Farias Almeida é professor do Programa de Pós-graduação em
Comunicação (PPGCOM) e do Curso de Comunicação Social - Jornalismo
(UFRR). Líder do Grupo de Pesquisa Mídia, Conhecimento e Meio
Ambiente: olhares da Amazônia (CNPq/UFRR).

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