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SUMÁRIO ISBN 978-85-463-0400-4


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Simão Farias Almeida

A Cobertura Jornalística
Das Mudanças Climáticas
Em Roraima

Ideia – João Pessoa – 2018

SUMÁRIO ISBN 978-85-463-0400-4


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Todos os direitos do organizador.


A responsabilidade sobre os textos são dos respectivos autores.

Diagramação/Capa
Magno Nicolau

Ilustração da capa
Pablo Felipe

Revisão
Simão Farias Almeida

Ficha Catalográfica elaborada pela Bibliotecária


Gilvanedja Mendes, CRB 15/810

A447r A cobertura jornalística das mudanças climáticas em Ro-


raima / Simão Farias Almeida (Org.). - João Pessoa:
Ideia, 2018.
143p.
ISBN 978-85-463-0400-4
1. Jornalismo ambiental. 2. Mudanças Climáticas. 3.
Danos Ambientais. I. Título

CDU 070:504

EDITORA
www.ideiaeditora.com.br
(83) 3222-5986

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Sumário

Apresentação 5

O ataque de piranhas no Rio Branco em reportagem do jornal Roraima


em Tempo 11

José Lucas dos Santos da Silva

O construto interpretativo de matérias webjornalísticas sobre as


queimadas em Roraima 51

Pablo Felippe Santiago de Lima

Bioética e ecoética da biodiversidade endêmica do Monte Roraima 83

Eliza Menezes de Lima

A agricultura de baixo carbono em produção webjornalística da Folha


Web 117

Simão Farias Almeida

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Apresentação

Roraima possui aspectos históricos, geográficos e


humanos peculiares no extremo Norte do país. Fazendo
fronteira com a Venezuela, país mais setentrional da Amé-
rica do Sul banhado pelo mar do Caribe e localizado na
região situada entre as placas tectônicas sul-americana e
caribenha, o estado brasileiro é impactado pelos fenômenos
do El niño que acontece na costa do Oceano Pacífico no
Peru e por terremotos de magnitude baixa a moderada. Por
um lado, sofre as variações naturais do clima e as altera-
ções geomorfológicas das camadas terrestres. Por outro
lado, também é vítima do aquecimento global como qual-
quer país do mundo.

O povoamento do seu território se intensificou com


os processos migratórios promovidos pelos governos fede-
ral e estadual nos anos 1950 direcionados a projetos de as-

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sentamentos, a partir dos quais surgiu a maior parte dos


seus municípios atualmente instalados. Essa ocupação hu-
mana influenciou os modos de uso dos solos e dos recursos
naturais, impactando seus ecossistemas e o clima da região.
O dano ambiental mais expressivo registrado nos últimos
anos, as queimadas, advém de causa espontânea relaciona-
da ao aumento de temperatura ou de ações humanas. To-
davia, Roraima também sofre diante da seca do Rio Bran-
co, do recorde nos focos de calor, da perda de sua biodiver-
sidade e dos impactos da emissão de carbono. Estes temas
serão tratados nesse e-book porque são emergentes e urgen-
tes no contexto fronteiriço e planetário.
José Lucas (Secretaria de Comunicação/Câmara
Municipal de Boa Vista) problematiza no primeiro capítulo
a relação de ataques de piranhas nas praias do Rio Branco
com a variação natural do El niño e o agravo de suas con-
sequências devido às ações antropogênicas responsáveis
pelo aquecimento do planeta. Discutindo os propósitos do
jornalismo ambiental e a diferença entre adaptação e miti-
gação climática, analisa reportagem do site do jornal Ro-
raima em tempo sobre o desequilíbrio ambiental e os sub-
sequentes ataques dos peixes.

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No segundo capítulo, Pablo Felipe (Coordenação de


Comunicação Social/Universidade Federal de Roraima)
confronta os casos de queimadas no estado com causas
naturais e humanas. Partindo da discussão crítica a respeito
das fontes de informação e do webjornalismo, compara o
tratamento dos danos ambientais nos sites Uol Notícias e
da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embra-
pa).
Em seguida, Eliza Menezes (Secretaria Estadual de
Ensino e Desporto de Roraima) apresenta os paradigmas
filosóficos da ecoética e da bioética através dos quais discu-
te a representação da biodiversidade endêmica do Monte
Roraima afetada pelas mudanças climáticas no Blog Mi-
ramundos, ligado ao jornal O Globo, e no portal de notí-
cias G1 da rede Globo.
Simão Almeida (Curso de Comunicação Soci-
al/Universidade Federal de Roraima) analisa no último
capítulo as vantagens da agricultura de baixo carbono fi-
nanciada pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abaste-
cimento, e adotada nas pesquisas da Embrapa Roraima,
apresentadas em reportagem do site Folha Web. A partir
de pressupostos teóricos e críticos da emissão de carbono
na Amazônia, do discurso das mudanças climáticas, da

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webreportagem, do jornalismo ambiental e interpretativo,


aponta o modelo de cobertura jornalística legitimadora da
cultura ecológica dos créditos de carbono.
Os quatro artigos têm em comum a disposição pela
análise climática e seu correspondente jornalístico do cons-
truto interpretativo acerca do aquecimento global. Utilizam
os pressupostos metodológicos em pragmática do discurso
midiático de Adriano Duarte Rodrigues, considerando as
“expectativas em relação às estratégias escolhidas nos ou-
tros campos em presença” (RODRIGUES, 2001, p.19), ou
seja, as relações do discurso jornalístico com manifestações
discursivas de outros campos políticos, econômicos, soci-
ais. O teórico português valoriza, em primeiro lugar, o sa-
ber que se processa “por transferência, redução e desloca-
mento dos discursos constituídos e obrigados pelas deter-
minações da ordem dominante” (RODRIGUES, 2001,
p.19). Seguindo esta premissa, os autores dos capítulos
compreendem a expansão do construto discursivo dos jor-
nalistas a respeito de causas e consequências climáticas em
outras matérias de outros sites de notícias.

Em segundo lugar, o método reconhece as perspec-


tivas ou os pontos de vista a partir dos quais se fundam os

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discursos. Eles “passam a equivaler-se, se os considerarmos


como lances estratégicos de legitimação. Já não podemos,
por conseguinte, hierarquizá-los em torno de uma perspec-
tiva dominante sem incorrermos no risco de aceitar como
indiscutível a sua dominação” (RODRIGUES, 2001, p.19).
Neste sentido, serão considerados os construtos discursivos
dos repórteres, das fontes oficiais, especializadas e não ofi-
ciais e seus lugares de fala institucionais e sociais, sem hie-
rarquizá-los tendo em vista que a mitigação das mudanças
climáticas é uma mobilização comum aos diversos atores
regionais e planetários.

Por fim, Rodrigues (2001, p.20) destaca a natureza


serial e transitiva da combinatória dos discursos. “É transi-
tiva, na medida em que a posição do próprio sujeito é refle-
xo de uma palavra outra que o constitui como instância
legítima de enunciação”. A partir disso, os autores e os lei-
tores podem comparar os discursos dos diferentes jornalis-
tas cobrindo acontecimentos e situações distintas. As cau-
sas e os efeitos do aquecimento global se manifestam dife-
rentemente nos contextos regionais e locais, por isso é ne-
cessário mediá-los através de percepções comparativas.

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O propósito comum dos autores é alertar para as


causas e os efeitos das mudanças climáticas evidentes no
estado de Roraima e enumerados pelos sites de notícias
locais e nacionais. Nestes tempos urgentes, é necessário
saber distinguir entre as variações naturais do clima e as
alterações da temperatura do planeta provocadas pelo ho-
mem. As consequências podem ser globais e locais, daí o
papel dos meios de comunicação de cobrir os fatos nos con-
textos mais próximos. O propósito final é despertar na co-
munidade local e nacional a conscientização da mitigação
ambiental, ou seja, do recuo dos comportamentos de de-
gradação da natureza cujos ganhos serão sentidos inclusive
por nós humanos. Desejamos uma boa leitura e um feliz
planeta a todos!

Prof. Dr. Simão Farias Almeida


Organizador
Líder do Grupo de Pesquisa
Mídia, Conhecimento e Meio Ambiente:
olhares da Amazônia (CNPq/UFRR)

Referência

RODRIGUES, Adriano Duarte. Estratégias da comunicação: questão


comunicacional e formas da sociabilidade. Lisboa: Editorial Presença,
2001.

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O ataque de piranhas no Rio Branco


em reportagem
do jornal Roraima em Tempo
José Lucas dos Santos da Silva

1. Um mundo insustentável

A humanidade vive atualmente um dos seus piores


momentos no planeta Terra, como resultado de séculos de
profunda exploração dos recursos naturais por parte dos
mais ricos, enquanto bilhões vivem na pobreza e têm difícil
acesso às fontes naturais escassas. A Avaliação Ecossistê-
mica do Milênio da ONU sobre a degradação acelerada do
planeta no período de 2001 a 2005 revelou que mais da me-
tade dos serviços ambientais essenciais à vida como água e
ar limpos estavam em perigo. Segundo Fred Pierce, os 500
milhões mais ricos (7% da população mundial) eram res-

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ponsáveis por 50% das emissões de gases de efeito estufa,


enquanto 3,4 bilhões mais pobres (50% da população) res-
pondiam por apenas 7% das emissões produtoras do aque-
cimento global (BOFF, 2012, p. 24-25).
Leonardo Boff (2012, p.23) lembra que a Terra já
passou por três fases de uso de seus recursos: interação,
intervenção e agressão. Vivemos nesta última, na qual o
homem faz uso da tecnologia para submeter a natureza a
seus objetivos, desmatando florestas, cortando montanhas,
represando rios, abrindo estradas e fábricas, criando cida-
des. Em cada fase, o meio ambiente tentou reagir, equili-
brar-se e oferecer bens materiais e imateriais aos seres vi-
vos.
Desde o começo do processo de industrialização, bi-
lhões de toneladas de gases de efeito estufa, como dióxido
de carbono, nitritos e metano - 23 vezes mais agressivo que
o primeiro - estão sendo lançados na atmosfera, impulsio-
nando o aquecimento do planeta até alcançar um nível pe-
rigoso, conforme indicou o Painel Intergovernamental das
Mudanças Climáticas (IPCC) em 2007. Ele constatou que
não estamos indo ao encontro do aquecimento global, mas
sim dentro dele. Sendo assim, tal realidade exige a medida
urgente de mitigar os efeitos danosos em favor da biosfera e

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da espécie humana. O aquecimento se reflete em aconteci-


mentos extremos a exemplo de enchentes, secas tórridas,
fome de milhões e destruição de safras que provocam a
emigração de populações inteiras e a alta dos preços dos
alimentos (BOFF, 2012, p. 27).
Embora a tese do aquecimento seja rejeitada por
muitos, ela é reforçada por desastres ambientais como o
furacão Kathrina em Nova Orleans, o tsunami na Ásia e o
terremoto seguido de tsunami no Japão. A prova é o nível
do mar, cuja elevação é um indicador confiável. O alerta
feito há anos pela Academia Nacional Norte-americana de
Ciências é de que a entrada do metano na atmosfera, libe-
rado pelo degelo generalizado, poderá abruptamente elevar
o clima da Terra a 4ºC ou mais. Tal nível de aquecimento
inviabilizaria a resistência da vida propícia a um lento de-
saparecimento. (BOFF, 2012, p. 28)
A Amazônia sofre há tempos inúmeras intervenções
humanas, principalmente os desmatamentos e as queima-
das com o intuito de adaptação do solo para plantio. Na
década de 1990, já era alertado que caso o desmatamento
se expandisse em áreas substancialmente maiores, a redu-
ção da evapotranspiração conduziria à diminuição das
chuvas nos períodos secos na Amazônia. Além disso, a

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crise dos níveis pluviométricos na região seria comum em


termos absolutos durante o ano, mas em termos percentuais
se agravaria bastante durante o período seco (LEAN et al.,
1996 apud FEARNSIDE, 2003, p. 11).
A floresta amazônica é grande alvo da inconsequên-
cia da ação humana ao longo da história. As mudanças
climáticas podem evidenciar-se na região por meio da con-
centração de gás carbônico, das alterações no regime de
chuvas e do aumento da temperatura, ocasionados pelo
efeito estufa e pela redução da evapotranspiração, do trans-
porte extrarregional de fumaça e poeira, e do aumento da
nebulosidade em algumas partes da região. Os impactos na
localidade provavelmente aumentam quando as mudanças
climáticas interagem com a variabilidade natural de clima
como o El Niño, a exploração madeireira e os incêndios
(FEARNSIDE, 2003, p. 25).
O El Niño já ajudou a provocar incêndios devasta-
dores em Roraima. Tal ocorrência provoca o jornalismo
impresso roraimense a ser um aliado na prevenção de de-
sastres naturais, ao sensibilizar os governos e a população a
respeito do combate às queimadas e a outros prejuízos am-
bientais em Roraima.

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1.1 Roraima e o El Niño

O estado de Roraima está localizado na parte mais


setentrional do Brasil, com uma população de 450.479 ha-
bitantes e uma área de 224.300 km2, segundo o IBGE
(2010). Nos últimos anos, as queimadas foram agravadas
em temporadas de El Niño, o fenômeno ativado pelo au-
mento da temperatura da água de superfície no Oceano
Pacífico (FEARNSIDE, 2003, p. 130). O evento é uma
oscilação natural, mas a atividade humana pode conduzir a
incêndios em florestas primárias (BARBOSA; FEARNSI-
DE, 1999 apud FEARNSIDE, 2003, p. 24), como foi o
caso do grande incêndio entre 1997 e 1998 em Roraima. A
revista Ciência Hoje registrou que as queimadas atingiram
uma área coberta por floresta de 11.730 km2 no estado
(SHIMABUKURO et al., 2000, p. 34), abrangendo uma
área total entre 38.144 e 40.678 km2 (BARBOSA; FEAR-
NSIDE, 2000, p. 35). Considerando a área florestal efeti-
vamente atingida, o desastre atingiu 5,22% do total da área
roraimense, e se considerar a totalidade das regiões atingi-
das, a porcentagem aumenta para entre 17 e 18% da exten-
são total de Roraima.

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O El Niño mais intenso foi um dos fatores determi-


nantes das queimadas, pois reduziu a umidade relativa do
ar a menos dos 60% e os índices de chuvas, aumentando a
temperatura de forma anormal. Em Boa Vista, capital do
estado, de setembro de 1997 a março de 1998 choveu ape-
nas 30,6 mm, correspondente a 8,7% da média histórica
para o período, quando o volume médio foi de 352 mm
(BARBOSA; FEARNSIDE, 2000, p. 36). A revista desta-
cou ainda que os prejuízos das queimadas atingem a biodi-
versidade, os ciclos hidrológico e do carbono da atmosfera,
reduzindo os bens naturais oferecidos pela floresta. Segun-
do um estudo de Eneas Salati, metade da água circulante
nos sistemas florestais da Amazônia é reaproveitada na
própria região; estima-se ainda que seja responsável por
boa parte das chuvas na América do Sul (BARBOSA; FE-
ARNSIDE, 2000, p. 38). A importância da Amazônia é
tamanha ao ponto do aquecimento global neste sistema
natural atingir toda a condição essencial de sobrevivência
no continente e no mundo.
Conforme aponta a revista Ciência Hoje, desmata-
mentos, queimadas e rupturas no equilíbrio do sistema libe-
ram gases carbônicos como o dióxido de carbono e o meta-
no. Estimativas alertam que durante o incêndio em Rorai-

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ma, a queima de material vegetal emitiu para a atmosfera


por volta de 19,73 milhões de toneladas de carbono, apesar
de uma parcela ter retornado no período das chuvas, absor-
vidas pelos vegetais que nasceram ou voltaram a crescer na
região (BARBOSA; FEARNSIDE, 2000, p. 39).
O El Niño também impulsionou os incêndios flores-
tais em Roraima entre o final de 2015 e o início de 2016,
quando 13 dos 15 municípios decretaram situação de emer-
gência, 70 mil pessoas foram afetadas diretamente pelo
problema, o que corresponde a 15% da população do esta-
do.1 Para ter-se uma ideia, nessa temporada, durante o pe-
ríodo seco que vai de outubro a março, Boa Vista registrou
apenas 111,4 mm de chuva, o que corresponde a 35% da
média para o período (316,8 mm) entre 1999 e 20162. Ro-
raima ainda não aprendeu a lidar com fenômenos como
este cada vez mais frequentes numa época na qual o aque-
cimento global é uma realidade. Fedorov e Philander (2000
apud FEARNSIDE, 2003, p. 129) alertam que, mesmo sem

1
PIRES, Victor. Roraima tem pior seca em 18 anos e corre risco de
novo megaincêndio, dizem especialistas. Instituto Socioambiental,
[S.l.], 5 fev. 2016. Seção Notícias Ambientais. Disponível em:
<https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-
socioambientais/roraima-tem-pior-seca-em-18-anos-e-corre-risco-de-
novo-megaincendio-dizem-especialistas>. Acesso em: 23 jul. 2018.
2
FUNDAÇÃO ESTADUAL DE MEIO AMBIENTE E RECURSOS
HÍDRICOS. Regime Pluviométrico de Boa Vista. Boa Vista, 2018.

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segurança científica para afirmar a relação entre efeito estu-


fa e a frequência de eventos El Niño, essa possibilidade não
poderia ser excluída.
Para José de Araújo Costa (2016, p. 73), os eventos
El Niño e La Niña tendem a alternar-se a cada 3,2 anos,
mas o intervalo de um a outro pode variar de 1 a 10 anos e
a intensidade de cada fenômeno também varia. As origens
dos fenômenos do aquecimento e resfriamento das águas
oceânicas ainda não são conhecidas, mas o autor lembra
duas das teorias mais disseminadas:

∙ A dos oceanógrafos: o fenômeno seria resultante do


acúmulo de águas quentes na porção oeste desse oceano,
devido a uma intensificação prolongada dos ventos de les-
te nos meses que antecedem o El Niño, o que faz com que
o nível do mar se eleve ali em alguns centímetros. Com o
enfraquecimento dos alíseos de sudeste, a água desliza pa-
ra leste bloqueando o caminho das águas frias provenien-
tes do Sul;
∙ A dos vulcanólogos: o fenômeno do El Niño seria decor-
rência de erupções vulcânicas submarinas e/ou continen-
tais. Coincidentemente, os eventos de aquecimento oceâ-
nico, ocorridos em 1982, 1985 e 1991, estiveram relacio-
nados a erupções no México (El Chichón), na Colômbia
(El Nevado del Ruiz) e nas Filipinas (Pinatubo), respecti-
vamente. A influência das erupções vulcânicas continen-

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tais sobre o El Niño estaria ligada, sobretudo, às cinzas


vulcânicas injetadas na Troposfera, o que geraria altera-
ção do balanço de radiação na superfície e perturbaria a
circulação atmosférica. [...] (COSTA, 2012, p. 76)

Mesmo sem uma explicação consensual sobre o El


Niño, é importante ressaltar que toda informação histórica
possibilita previsões de suas manifestações. Falta à huma-
nidade uma melhor consciência sobre como devemos agir,
controlar e evitar tragédias maiores, a exemplo das quei-
madas de Roraima. O jornalismo ambiental, dentro deste
contexto, pode ser um aliado essencial no sentido de sensi-
bilizar as autoridades e a própria população.

2. O Jornalismo Ambiental

Antes de retratarmos um breve histórico do jorna-


lismo ambiental e conhecermos a sua atual conjuntura, so-
bretudo, no Brasil e em Roraima, é importante conceituar-
mos o termo e o meio ambiente. Wilson da Costa Bueno
(2007, p. 30-31) define o jornalismo ambiental ao diferen-
ciá-lo da comunicação ambiental, categoria mais ampla
caracterizada pelo “conjunto de ações, estratégias, produ-
tos, planos e esforços de comunicação destinados a promo-

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ver a divulgação/promoção da causa ambiental”. O jorna-


lismo ambiental seria a subcategoria desta comunicação, ou
seja, é referente à parte destas atividades, restringindo-se à
produção jornalística. Ele aparece na cobertura geral ou
especializada e nos veículos destinados exclusivamente ao
meio ambiente, fruto inclusive de militância ambiental de
profissionais e dos meios (BUENO, 2007, p. 31).
Bueno também tentou diferenciar comunicação am-
biental e jornalismo ambiental tomando como base o con-
ceito meio ambiente. Conforme discute o autor, a expres-
são possui acepções distintas quando manipuladas por pes-
soas de áreas de atuação diferentes.

Meio ambiente é o complexo de relações, condições e in-


fluências que permitem a criação e a sustentação da vida
em todas as suas formas. Ele não se limita apenas ao
chamado meio físico ou biológico (solo, clima, ar, flora,
fauna, recursos hídricos, energia, nutrientes etc) mas in-
clui as interações sociais, a cultura e expres-
sões/manifestações que garantem a sobrevivência da na-
tureza humana (política, economia etc) (BUENO, 2007,
p. 33).

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Deste modo, meio ambiente é todo espaço com o


qual os seres humanos e não humanos têm contato. Portan-
to, a garantia de sobrevivência deste espaço e de quem nele
vive dependerá de ações negativas ou positivas. O homem
ao reagir de modo responsável a este espaço passa a garan-
tir sua própria existência e o seu próprio modo de ser.
Os meios de comunicação são os maiores e princi-
pais aliados do meio ambiente, pelo grande alcance na di-
fusão dos modelos de uma sociedade sustentável e das ati-
tudes mantenedoras da nossa própria existência e do plane-
ta. Uma vez que todos vivem no ambiente, todos são fontes
para tratar do tema e podem contribuir para um debate
mais plural. A missão do jornalismo ambiental será sempre
compatibilizar visões, experiências e conhecimentos que
contribuem para a relação sadia e duradoura entre o ho-
mem e a natureza (BUENO, 2007, p. 14).
Não basta denunciar uma tragédia anunciada ou
imprevisível, os jornalistas precisam assumir o compromis-
so de ajudar a salvar a nossa própria existência e das futu-
ras gerações, valendo-se do conhecimento científico e am-
biental capazes de enxergar na sociedade todo e qualquer
movimento propício a prejuízos incalculáveis e irreparáveis
no futuro. Em resumo, o jornalismo ambiental estimula a

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população a prevenir os prejuízos ambientais a partir da


adoção voluntária ou involuntária de novas atitudes e a
denunciar os inimigos da Terra.

2.1 Um breve histórico

Roberto Villar (1997) lembra que os primeiros mo-


vimentos para profissionalizar a cobertura do jornalismo
ambiental começaram na França, na década de 1960, com
a criação da primeira entidade de jornalistas dedicados à
temática. Na imprensa internacional, as questões ambien-
tais passaram a ganhar espaço depois da Conferência da
ONU sobre Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, em
1972, mas chamaram ainda mais atenção depois da desco-
berta do buraco na camada de ozônio3, na década de 1980,
e das primeiras hipóteses sobre as consequências da ativi-
dade humana no aumento do aquecimento global.
Anos mais tarde, jornalistas de várias partes do
mundo, comprometidos em militar pela causa ambiental,

3
Frágil camada de gás ozônio (O3) existente em volta da Terra, que
protege o planeta dos raios ultravioleta emitidos pelo Sol. Disponível
em:
<https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/questoes_ambientais/c
amada_ozonio/>. Acesso em: 18 out. 2018.

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entenderam a necessidade de fundar organizações interna-


cionais para reunir profissionais em prol do objetivo co-
mum de defender a natureza na imprensa. Daí surgiu a
Society of Environmental Journalists, criada em 1990 para
melhorar a qualidade, precisão e importância das reporta-
gens sobre meio ambiente. Neste contexto, era necessário
também promover eventos a respeito do papel deste jorna-
lismo especializado. Foi o caso do Encontro Internacional
de Imprensa, Meio Ambiente e Desenvolvimento (Green
Press) realizado em 1992, em Belo Horizonte. Os debates
permitiram a inserção de princípios sustentáveis do agen-
damento da imprensa, por meio da Carta de Belo Hori-
zonte, composta por recomendações para a aproximação
entre as empresas jornalísticas e os setores ambientais. En-
tre as sugestões, estava a defesa da pluralidade de pontos de
vista sobre os assuntos de meio ambiente e desenvolvimen-
to (LUFT, 2005, p. 53). O documento é uma espécie de
manifesto no qual jornalistas comprometeram-se em con-
tribuir para ampliar o debate das questões ambientais na
sociedade, mesmo partindo de atitudes isoladas de jornalis-
tas independentes ou daqueles com maior liberdade na
grande imprensa.

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No Brasil, o jornalismo ambiental ganhou notorie-


dade principalmente a partir de 1968, quando Randau
Marques, primeiro jornalista brasileiro a especializar-se na
temática, denunciou em reportagens a contaminação de
gráficos e sapateiros com chumbo, chegando a ser preso
por ser considerado “subversivo” (VILLAR, 1997). Ele
inaugurou uma nova fase no jornalismo brasileiro em plena
ditadura militar, tempo em que questões ambientais eram
pouco retratadas.
Encontros de jornalistas para debater o papel da im-
prensa sobre as questões ambientais tornaram-se mais fre-
quentes a partir de 1989, quando foram realizados o semi-
nário A Imprensa e o Planeta, promovido pela Associação
Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão e pela Associ-
ação Nacional de Jornais, e o Seminário para Jornalistas
sobre População e Meio Ambiente, da Federação Nacional
dos Jornalistas, considerado o mais importante para o jor-
nalismo ambiental brasileiro, que reuniu especialistas brasi-
leiros e internacionais (VILLAR, 1997).
A partir da década de 1990, conforme aponta Luft,
intensificaram-se no Brasil movimentos interessados nas
questões ambientais agendadas pelos meios de comunica-
ção, culminando no crescimento do número de editorias

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específicas de ciência e meio ambiente, na criação de revis-


tas e jornais especializados, de redes de jornalismo ambien-
tal na internet para promover intercâmbio entre os associa-
dos, na realização de eventos nacionais e internacionais
com o propósito de debater os espaços de difusão da infor-
mação (LUFT, 2005, p. 54).
Os movimentos pela causa ambiental no nosso país
tornaram-se constantes até a atualidade, mas ainda são tí-
midos, principalmente na grande imprensa, que em grande
parte segue priorizando as pautas cujo potencial de venda e
de audiência é maior, convergentes com editorias de políti-
ca e economia. É preciso mudar este cenário e transformar
o jornalismo ambiental no aliado principal da prevenção
aos prejuízos ambientais.

2.2 Breve perfil do jornalismo ambiental no Brasil

Villar (1997), na década de 1990, traçou o pano de


fundo que envolvia o jornalismo ambiental brasileiro de um
modo geral, ao mostrar grandes indústrias defendendo pu-
blicamente a liberdade de imprensa e a democracia, mas
nos bastidores, eram como “soldados de uma conspiração
do silêncio” induzindo a população a acreditar na versão

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delas. Nas entrelinhas, estariam movimentando-se para


afrouxar a legislação ambiental e desacreditar as Organiza-
ções Não-Governamentais. Na época, Villar demonstrou
que a imprensa brasileira dificilmente trata com profundi-
dade os problemas ambientais no debate público, e, desta
forma, as exceções eram resultado de esforço pessoal e iso-
lado de alguns jornalistas. Sendo assim, o meio ambiente
ganhava espaço quando aconteciam desastres ou quando
seus assuntos repercutiam no exterior. Mais recentemente,
Luft (2005, p.46) confirmou essas posturas do jornalismo
brasileiro, ao chamá-las de “distorções”, por ainda limitar-
se a noticiar denúncias, ao invés de preocupar-se com o
fazer jornalístico mais aprofundado e preventivo sobre as
questões ambientais.
O mundo mudou, assim como o jornalismo, princi-
palmente com o advento da internet, que democratizou a
informação por meio de sites e redes sociais. Jornalistas e a
população usam a internet de forma alternativa para seguir
no esforço de defender a causa ambiental, de forma inde-
pendente, longe dos supostos conflitos de interesses existen-
tes na imprensa, seja nos grandes ou nos pequenos veícu-
los. Para Luft (2005, p.15), esse advento das tecnologias de
informação é positivo, pois elas “vêm desempenhando um

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papel decisivo para a construção de uma nova sociedade


baseada na pluralidade de identidades e no estreitamento
das relações entre homem e meio ambiente”.
Neste primeiro quarto de século, Bueno (2007, p.15)
avalia que o jornalismo ambiental tem sido acometido por
“síndromes”, como a “síndrome de Lattes”, por priorizar
ou reduzir-se a fontes com currículo acadêmico e produto-
res de conhecimento especializado - segundo ele, isso acon-
tece em muitos casos por má índole. Muitas vezes, essa
síndrome acomete empresas de comunicação e profissio-
nais por falta de conhecimento da temática e especializa-
ção, pois, para eles, já bastaria ouvir profissionais da aca-
demia para ter a confiança da audiência, mesmo sem ques-
tionar as verdadeiras intenções dos discursos destas fontes.
Isso também acontece por má índole quando há conflitos
de interesses, uma vez que alguns empresários do ramo são
políticos ou ligados à política e a empresas inimigas da Ter-
ra. Este caminho faz o jornalismo perder o sentido e o seu
caráter racional e crítico.
Bueno (2007, p. 43-44) define tal atitude como “eli-
tista”, “autoritária” e “não democrática”, pois exclui do
debate as falas e experiências de cidadãos comuns com in-
formações, conhecimentos e vivências essenciais para am-

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plificar a discussão. Segundo ele, isso afronta o “ethos” do


jornalismo ambiental, por marginalizar protagonistas im-
portantes, “que são incorporados como objetos ou reduzi-
dos a meros espectadores ou vítimas do processo de degra-
dação do meio ambiente.” (BUENO, 2007, p. 45)
Outra síndrome levantada pelo autor é a da “erva
daninha”4, que faz boa parte da imprensa descartar tudo o
que não possui valor comercial, cobrindo a exploração dos
recursos naturais a partir da visão das grandes empresas. É
como se a copa das árvores, os frutos silvestres, o dejeto
dos animais, o cipó e a forragem que cobre o chão fossem
essa erva (BUENO, 2007, p. 102). Mais favorável a este
cenário de prejuízos ao debate é o fato de a imprensa, se-
gundo Bueno, estar cada vez mais envolvida no universo
dos releases, das entrevistas coletivas, das abordagens inte-
ligentes das assessorias, do media training e das “viagens a
convite de”, permitindo uma venda da interdependência
editorial. Mas, mesmo assim, há resistência por parte de
jornalistas tradicionais não acostumados com a ideia de
que “tudo é marketing”. Para o autor, as empresas jornalís-
ticas, gradativamente, têm focado no aumento de receita a
4
Daninho: que causa danos ou estragos; que prejudica (ex.: erva dani-
nha); que tem péssimas qualidades morais. Disponível em:
<https://dicionario.priberam.org/daninha>. Acesso em: 19 out. 2018

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qualquer custo, em detrimento da qualidade da informação


e da capacitação dos profissionais. (BUENO, 2007, p. 88)
O jornalismo roraimense se insere num contexto no
qual os meios lutam para consolidar suas rendas e seus pú-
blicos. Em Roraima, há atualmente os jornais impressos
Folha de Boa Vista e Roraima em Tempo, ambos com
pouco destaque às questões ambientais e, sobretudo, sem
uma editoria específica de jornalismo ambiental. Apesar do
estado estar na Amazônia, uma região que abrange seis
países e representa quatro décimos da América do Sul, três
quintos do Brasil, um quinto da disponibilidade mundial de
água doce, um terço das reservas mundiais de florestas lati-
foliadas, além de 69% da área pertencer ao Brasil 5, abran-
gendo outros oito Estados, os meios de comunicação ro-
raimenses, em especial, o jornalismo impresso, praticamen-
te cala-se diante dos fatos e das pautas ambientais.
A última iniciativa dedicada à temática no jornalis-
mo impresso local foi a coluna Conviver – Cidadania e Sus-
tentabilidade, editada pela jornalista Sheneville Araújo. A
página semanal publicada às segundas-feiras na Folha de

5
CURIOSIDADES CIENTÍFICAS. Viverde Visite o Amazonas,
[S.l.]. Disponível em:
<https://www.viverde.tur.br/informacoes_cientificas.html>. Acesso
em: 19 out. 2018.

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Boa Vista dedicava-se a discutir jornalisticamente a temáti-


ca da sustentabilidade e incentivava o exercício da cidada-
nia. Araújo foi até premiada6 com uma matéria publicada
no espaço, mas o prêmio foi insuficiente para manter a se-
ção no periódico. A coluna circulou de 6 de junho de 2016
a 30 de janeiro de 2017, e segue sendo a última iniciativa
jornalística dedicada especificamente ao meio ambiente no
jornalismo periódico local. Fora isso, matérias ambientais
são publicadas em editorias como de Cidades e Política, e
tratam de forma sazonal eventos a exemplo da Semana do
Meio Ambiente.
O pouco espaço à pauta ambiental é algo inadmissí-
vel, pois significa negar a própria realidade. Oliveira (2005,
p.80) esclarece que as características ambientais, durante
um longo processo histórico, condicionam a cultura, os
costumes, os estilos de vida e os conhecimentos técnicos de
uma sociedade, ou seja, o comportamento desses membros
da comunidade é definido pelo próprio ambiente em que

6
A matéria "Sustentabilidade nas empresas - quando a questão é mais
que lucrar", premiada no 4º. prêmio Senac Roraima de Jornalismo e
Fotografia, mostrou como todos podem contribuir com ações simples
para garantir a sustentabilidade do Meio Ambiente, com ênfase em
iniciativas de instituições públicas e empresas privadas no estado. Dis-
ponível em: <https://folhabv.com.br/noticia/Folha-ganha-mais-um-
premio-de-Jornalismo/22649>. Acesso em: 19 out. 2018.

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vivem. Portanto, falta à imprensa local retratar a própria


realidade e prever as ações contra a natureza e a vida no
planeta.

3. Os discursos de mitigação e adaptação das mudanças


climáticas

O jornalismo ambiental tem o dever de difundir as


possíveis soluções e modelos sustentáveis para garantir a
existência dos ecossistemas, dos seres humanos e não hu-
manos. Simão Almeida (2018), em seu livro Representa-
ções do tempo no jornalismo de mudanças climáticas e
danos ambientais, fez uma análise crítica de três livros-
reportagem escritos por renomados jornalistas e da cobertu-
ra da tragédia de Mariana (MG) feita pela revista Veja. Na
obra, o autor focou no levantamento dos discursos de cada
publicação sobre a adaptação e mitigação. Antes, o autor
definiu adaptação como “desenvolvimento de projetos
econômicos e científicos necessários a reduzir os impactos
dessas mudanças na comunidade planetária” e caracterizou
a mitigação como “a capacidade de reunir todas as socie-
dades e comunidades regionais, nacionais e globais em tor-
no da alteração de comportamentos poluidores e destruti-

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vos por meio de soluções sustentáveis” e avaliou que as


soluções adaptativas e mitigadoras são opostas em um pro-
cesso de responsabilidade ambiental e social (ALMEIDA,
2018, p. 15). Isso porque a primeira elitiza essa responsabi-
lidade, enquanto a segunda pode incluir desde os mais ricos
aos mais pobres. Ambas as estratégias dependeriam de uma
união global em torno de proteger as atuais e as futuras
gerações de um colapso ambiental, o que ganha ares de
uma utopia a ser perseguida.
Funk (apud ALMEIDA, 2018, p. 26) defende a so-
lução da mitigação a curto prazo a fim de o público reagir à
ideia, pois ela depende de ativistas, políticos e cientistas
lúcidos ao encarar o problema da publicização dos riscos
do aquecimento. A economia da mitigação, por sua vez,
não é algo fácil de se implantar no mundo, pois esbarra na
pré-disposição ambiental dos países em regularizar e apoiar
iniciativas sustentáveis. Para Almeida (2018, p.64), a difi-
culdade de um acordo de práticas mitigadoras incide prin-
cipalmente na diferença de regulação da economia susten-
tável entre os países, o que contribui ainda mais para a de-
sunião global em favor da redução dos impactos das mu-
danças climáticas.

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Entre as práticas mitigadoras destacadas no livro de


Almeida, estão a agricultura hidropônica e o aquecimento
solar da água por meio de garrafas pet. Sônia Bridi (2012,
p.137 apud ALMEIDA, 2018, p. 65) afirma que a ideia é
repassada para as comunidades pobres de Palmas, capital
do Tocantins, onde em muitas casas a água quente é gratui-
ta. Almeida (2018, p.66-67) ainda avalia a mitigação impli-
cada na democratização do bem estar sem agredir o meio
ambiente e no desafio de convencer os países em desenvol-
vimento sobre a cidadania ambiental e a importância do
planeta como uma casa comum. Muitos exemplos refor-
çam a ideia de que a mitigação já é uma realidade possível.
Além disso, mostram, principalmente, a importância das
ações das comunidades nativas ao amenizar substancial-
mente os problemas ambientais. Por fim, é possível conclu-
ir que uma política estatal no sentido de proteger o meio
ambiente seria um grande passo para garantir o futuro do
planeta, desde que as nações se unam neste propósito.
O jornalismo é capaz de difundir de forma mais
abrangente e massiva as soluções sustentáveis, dando voz
geralmente a quem não tem em publicações de prevenção a
tragédias, denunciando com coragem os inimigos do plane-
ta, numa tentativa de sensibilizar a população e, principal-

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mente, os detentores do poder econômico capazes de influ-


enciar uma grande parcela social.
Sobre a adaptação, Almeida (2018, p. 27) mostra as
críticas dos interesses financeiros aos custos dos prejuízos
das mudanças climáticas para justificar as medidas adapta-
tivas. A comunidade científica, política e econômica tem
tratado a adaptação como a solução mais ideal, tendo em
vista o grande conflito de interesses imposto às sociedades
vulneráveis. Almeida (2018, p.36) denuncia que “a crise da
adaptação ou da mitigação climática é uma crise de cida-
dania ambiental e planetária”. A crise vista pela comunida-
de científica é evidenciada na falta de credibilidade da po-
pulação nas mudanças climáticas. Para Claudio Angelo
(2016 apud ALMEIDA, 2018, p. 43-44), isso acontece
quando cientistas erram nas previsões diárias do tempo.
Além disso, climatologistas céticos são responsáveis por
formar uma massa de leigos desconfiados com as alterações
diárias e a média do tempo em vários anos, confundindo
aquecimento global e variabilidade natural.
É preciso esclarecer a população sobre de que forma
o aquecimento global e as mudanças climáticas afetam o
nosso cotidiano e a nossa qualidade de vida, e diferenciá-
los da variação natural do clima. A imprensa, com o seu

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poder de difundir a informação, pode exercer este papel. A


seguir, saberemos como o jornalismo pode contribuir para
alertar a sociedade a partir de análise de reportagem do site
de notícias do jornal Roraima em Tempo sobre uma série
de ataques de piranhas nas praias do Rio Branco em Boa
Vista.

4. A reportagem ambiental sobre os ataques de piranhas

A complexidade das questões ambientais exige uma


angulação jornalística de aspectos políticos, econômicos,
sociais, uma pluralidade de opiniões e de interesses contra-
postos (LUFT, 2005, p. 61). A reportagem enquanto gênero
factual aprofundado e por ter naturalmente mais espaço
nos meios, seria o gênero jornalístico ideal para abordar a
temática ambiental. Segundo Almeida (2017, p.124), a re-
portagem é o gênero jornalístico por excelência, pois lida
com investigação e interpretação de fatos e ideias de forma
aprofundada e contextual e, em muitas vezes, de forma
sistêmica. Ela é resultado de uma rede complexa de rotinas,
processos, técnicas, categorias informativa, opinativa, in-
terpretativa e investigativa, estratégias, polêmicas, hierar-
quias, identidades, objetividades e subjetividades. Neste

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sentido, o jornalista realiza uma série de opções dentro do


panorama que compõe uma redação. É uma dimensão sele-
tiva que imprime hierarquias de vozes, ideologias, represen-
tações sociais e culturais no texto jornalístico. Esse proces-
so resulta ainda em trabalhar discursos de fontes, entrevis-
tados, testemunhas e especialistas, usando-os como estraté-
gias para aferir caráter factual e analítico ao contexto e seus
fatos. Uma reportagem que não reúne esta pluralidade e
esteja descontextualizada está mais propícia ao formato
noticioso.
A importância de tratar as questões ambientais nu-
ma reportagem é reforçada por Bueno (2007, p.36). Para o
autor, ela deve representar um compromisso a ser exercido
a partir de uma visão pessoal do mundo, ser planejada e
executada em função disso. Ou seja, o gênero deve, por
meio da pauta, das fontes e da entrevista, estar respaldado
em um olhar convergente de fatores políticos, econômicos e
sociais, politicamente engajado e planetariamente com-
prometido.
Ao entendermos como se constrói uma pauta ambi-
ental e uma reportagem do segmento, analisaremos uma
reportagem do jornal Roraima em Tempo sobre a série de
ataque de piranhas ocorrida nas praias de Boa Vista no ano

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de 2017. Mas, antes, é importante traçarmos um breve per-


fil da publicação. A empresa possui 47 funcionários entre
diretores, editores, repórteres, diagramadores, fotógrafos,
motoristas, distribuidores e colaboradores do setor comer-
cial. O jornal é um dos dois principais do Estado, circula
desde 24 de março de 2015 e atualmente é distribuído nos
15 municípios roraimenses. Com páginas totalmente colo-
ridas, seu objetivo é “levar informação de qualidade aos
leitores” sobre política, polícia, educação, variedades, cul-
tura, saúde, esporte, tecnologia, juventude, moda e beleza,
culinária, economia e os principais fatos nacionais e inter-
nacionais. Pela descrição do próprio jornal em reportagem
publicada em sua milésima edição7, percebe-se que não há
sequer uma editoria específica dedicada à temática, ou seja,
a tendência é que o meio ambiente seja tratado de forma
superficial e fragmentada nas editorias de Política, Cidades,
Economia.
Roraima em Tempo é ligado ao grupo político do
senador Romero Jucá, informação comprovada no expedi-
ente disponibilizado no próprio impresso, no qual a esposa
do político, Rosilene Brito, aparece como diretora geral da
7
OLIVEIRA, Neidiana. Com credibilidade e respeito ao leitor, Rorai-
ma em Tempo chega à milésima edição. Roraima em tempo, Roraima,
5 ago. 2018. Caderno de local, p. 6.

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empresa. Provavelmente, este atrelamento valoriza a edito-


ria política em detrimento de outras.
A reportagem a ser analisada “Mudança no nível de
rio pode explicar ataques de piranhas”, diz professor da
UFRR (2017) foi produzida pelo Josué Ferreira. O material
foi publicado no canto inferior direito da página A6, da
edição 782, de 14 de novembro de 2017, e contrastava com
outras duas reportagens de política e de polícia, mostrando
o pouco destaque dado pelo jornal à explicação de um pro-
blema que assustou os banhistas nas praias boavistenses
durante o período seco daquele ano. O texto tampouco foi
manchete na capa daquela edição.
Ferreira começa a reportagem com o tradicional le-
ad e aponta a perspectiva do professor Carlos Eduardo Le-
mos da Universidade Federal de Roraima (UFRR) acerca
da causa dos ataques de piranhas possivelmente relaciona-
dos à transição do baixo nível do Rio Branco atribuído ao
uso de seu leito pela Companhia de Águas e Esgotos como
fonte de fornecimento à população. Num primeiro momen-
to, constata-se que a reportagem passa a ser composta por
uma fonte especializada e uma oficial e governamental e,
como já vimos, tal fato elitiza o debate sobre a questão am-
biental e exclui as vítimas, os banhistas, os vendedores à

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beira da praia e os pescadores. O próprio título da matéria


prioriza a declaração de um professor, cuja especialidade
nem mesmo é mencionada, o que reforça a dúvida sobre a
credibilidade das informações.
No segundo parágrafo, o jornalista tenta contextua-
lizar os ataques, sem apresentar dados, os quais expõem
apenas no final do texto.

Os incidentes envolvendo os animais se intensificaram em


setembro e outubro, segundo levantamento da Defesa Ci-
vil Municipal. Entretanto, no último final de semana,
mais um ataque foi registrado na Praia Grande, conside-
rado pelo professor como um fato atípico (FERREIRA,
2017, p. 6).

A reportagem cumpre o atributo do jornalismo am-


biental, defendido por Bueno (2007, p.37), de não se con-
tentar em descrever cenários e situações, mas buscar as
causas dos fatos. Faz isso quando mostra a fonte principal,
o professor, afirmando que a tendência dos peixes em pro-
curar alimentos aumenta na cheia do rio, enquanto na seca,
quando falta comida, os animais buscam outras áreas pro-
vedoras de alimentação (FERREIRA, 2017, p. 6).

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Em seu texto, Ferreira ainda expôs o ponto de vista


do especialista para contrapor a ideia de que o ataque de
piranhas estaria relacionado com a ação do ser humano,
neste caso, de jogar restos de comida no rio.

“Por isso, não podemos afirmar que existe um desequilí-


brio ecológico, porque o rio passa por uma transição da
cheia para a seca. Os peixes estão se adaptando à nova re-
alidade e dificilmente tem acúmulos de alimentos no rio,
o que estaria descartado, em minha análise, dos fatores
que contribuem para que os ataques ocorram”, disse. A
desova também foi descartada pelo pesquisador. Ele afir-
ma que a época de piracema é em junho-julho e não tem
ligação com os incidentes (FERREIRA, 2017, p. 6).

A reportagem poderia explorar melhor o tema, so-


bretudo, a respeito do desequilíbrio ecológico mencionado.
Uma ação importante seria incluir pontos de vista de outros
pesquisadores como biólogos, para possibilitar ao leitor
uma melhor opinião formada sobre o assunto a partir da
pluralidade de opiniões defendida pelos teóricos e críticos
do jornalismo ambiental, além de tentar sensibilizar as au-
toridades competentes em estudar e resolver a problemáti-
ca. O acontecimento em questão mostra-se complexo, por-

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tanto, uma vez divulgado aos leitores, o jornal deveria se-


guir na busca por saber as causas e as consequências futu-
ras. Para isso, seria essencial acompanhar a investigação
dos especialistas sobre o assunto e ouvir todos os afetados
direta ou indiretamente.
Se o jornal abrisse mais espaço para problematizar
os ataques de piranhas durante o período seco em Boa Vis-
ta, o jornalista poderia ir mais longe, utilizando uma angu-
lação multifocal, consultando outras fontes e inserindo o
fato ocorrido nas praias de Boa Vista no contexto do El
Niño entre final de 2015 e início de 2016, quando foram
registrados os mais recentes casos de piranhas atacando
banhistas, considerados atípicos pela fonte consultada pela
reportagem. A relação indireta do período seco em 2017
com o El Niño foi confirmada pelo meteorologista Ramón
Wellengson Alves Martins, da Fundação Estadual do Meio
Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh), apesar de o fe-
nômeno também ter ocorrido quase dois anos antes. Se-
gundo ele, isso se dá porque “inibe as chuvas em nossa re-
gião e consequentemente as temperaturas aumentam”8.
Outro ponto que o jornalista poderia abordar se re-
corresse a outras fontes, como meteorologistas e pesquisa-

8
Entrevista concedida por e-mail ao autor deste artigo.

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dores de mudanças climáticas e aquecimento global, seria o


fato do ano de 2017 já ser previsto pelo World Meteorolo-
gical Organization9 como um dos três mais quentes. A
temperatura média global no período de 2013 a 2017 estava
próxima de 1ºC acima do intervalo entre 1880 e 1900 e era
provável que fosse a maior média de cinco anos no registro.
Neste caso, poderia divulgar na reportagem o contexto cli-
mático no mundo e, em seguida, delimitá-lo no âmbito lo-
cal, tentando desvendar as causas regionais para um perío-
do mais seco no final de 2017, quando ocorreram os ata-
ques. Além disso, com base na declaração prévia do WMO
sobre o ano, poderia verificar com órgãos de monitoramen-
to do clima a previsão de chuvas para Boa Vista até o fim
do período seco. O final da temporada seca de 2017-2018
em Boa Vista, que começa em outubro e termina em mar-
ço, coincidiu com o alerta do WMO ao mundo: foi o inter-
valo no qual menos choveu desde 1999-2000, anos dos
primeiros dados monitorados pela Femarh, com apenas

9
WMO Statement on the State of the Global Climate in 2017 Provisio-
nal Release 06.11.2017. World Meteorological Organization, [S.l.],
2017. Disponívelem: <http://ane4bf-datap1.s3-eu-west-
1.amazonaws.com/wmocms/s3fs-
public/ckeditor/files/2017_provisional_statement_text_-
_updated_04Nov2017_1.pdf?7rBjqhMTRJkQbvuYMNAmetvBgFeyS_
vQ>. Acesso em 23 jul. 2018.

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43

101,9 milímetros, média de 16,98 para cada mês do período


seco10. Para facilitar a compreensão do leitor, poderia di-
vulgar gráficos dos períodos secos e prejudiciais à popula-
ção, aos ecossistemas e aos animais. Com a devida análise
prévia de cada mês e depois de um período maior, o jorna-
lista questionaria suas fontes sobre a relação do clima e a
consequente forte seca com os ataques de piranhas. Na se-
quência, as informações repassadas por especialistas indu-
ziriam o questionamento a respeito das relações entre os
fatores levantados por cada um.
O levantamento das informações confirma a com-
plexidade da pauta ambiental e o desafio de explicar os
ataques de piranhas. Para Mouillaud (2002, p.61), o acon-
tecimento é um fragmento extraído de uma totalidade que
por si só não pode ser compreendida sem um enquadra-
mento, como ocorreu na reportagem analisada, pois os ata-
ques foram enquadrados na perspectiva do especialista.
Segundo esse autor, o acontecimento não é descritivo, mas
reflexivo (MOUILLAUD, 2002, p. 66). A informação trata
do futuro e não apenas do passado recente e da atualidade
(MOUILLAUD, 2002, p. 73-74). Já mencionamos que a

FUNDAÇÃO ESTADUAL DE MEIO AMBIENTE E RECURSOS


10

HÍDRICOS. Regime Pluviométrico de Boa Vista. Boa Vista, 2018.

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reportagem analisada peca pela pouca pluralidade ao tratar


de um assunto complexo. Isso porque ela tratou de forma
superficial a contextualização dos fatos anteriores aos ata-
ques de piranhas, tornando difícil o questionamento do
presente e um prognóstico do futuro para a questão, impos-
sibilitando uma maior reflexão acerca das causas humanas
e naturais.
A reportagem é encerrada com o levantamento do
número de ataques registrados pela Defesa Civil Municipal
nos doze meses anteriores à publicação da reportagem e
expõe as providências tomadas pelas autoridades:

Um levantamento da Defesa Civil Municipal mostrou


que, nos últimos 12 meses, 45 pessoas foram mordidas
por piranhas em balneários da capital. Geralmente, as ví-
timas têm apenas ferimentos nos pés. Os pontos com
maiores incidências de ataques são Polar e Caçari.
Placas de sinalização foram afixadas nesses locais aler-
tando os banhistas sobre os ataques de piranhas. Entretan-
to, muitas pessoas têm retirado as sinalizações e usado as
placaa [sic] até para fazer fogueiras. A recomendação da
defesa é que se evite tal prática e os banhistas não frequen-
tem os balneários. (FERREIRA, 2017, p. 6)

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45

Almeida (2018, p. 21-22) eleva o patamar da cober-


tura ambiental contextual ao associar as três fases interpre-
tativas da análise climática ao jornalismo. A primeira seria
a detecção que lida com dados climáticos não aleatórios. A
segunda é a atribuição capaz de angular um conjunto de
causas. A última é o balanço de evidências por meio da
qual o jornalista trata das consequências dos fenômenos
delimitados nas etapas anteriores.

Ao transferirmos esses processos ao jornalismo, eles con-


vergem, respectivamente, para as práticas interpretativas
de análise quantitativa ou estatística, da enumeração de
causas e do confronto contextual e sistêmico de causas e
consequências no qual se incluem os elementos avaliados
nas etapas anteriores (ALMEIDA, 2018, p. 22).

A detecção mencionada por Almeida foi desconsi-


derada na reportagem de Ferreira. Primeiro, porque o texto
se centrou mais em declarações, sem apresentar um levan-
tamento de dados climáticos que reforçam o cenário onde
as piranhas atacaram os banhistas. Poderia ter levado em
conta o período em que menos choveu neste século. Se-
gundo, porque não foi levantado uma estimativa de fre-
quentadores das principais praias e balneários de Boa Vista,

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46

de vendedores e outras pessoas que vão aos locais para des-


frutar de lazer ou mesmo trabalhar, para ter uma ideia da
quantidade de prejudicados pelo problema. A atribuição,
em parte, foi considerada pelo jornalista ao tratar da fre-
quência dos ataques, suas possíveis causas, como o baixo
nível do Rio Branco e a intensificação da procura dos pei-
xes por alimentos na seca do rio. Entretanto, outros especi-
alistas de outras áreas poderiam complementar o debate
para tentar explicar a ocorrência do fenômeno climático. O
balanço de evidências foi flagrantemente desconsiderado,
inclusive o comportamento dos banhistas de evitar as praias
atingidas. Informar ao leitor as causas e consequências do
fenômeno é uma obrigação no jornalismo.
Por fim, reforçamos que a reportagem ignorou os
maiores prejudicados pelos ataques de piranhas, como os
banhistas, e poderia questioná-los sobre as causas humanas
das mudanças registradas no rio e influenciadas pelo clima
seco. Para Almeida (2018, p. 22), mesmo leigas em dados e
estatísticas, “as testemunhas e vítimas dos fatos climáticos
são capazes de dimensionar o panorama e as perspectivas
temporais das tentativas de adaptação e dos modelos miti-
gadores de suas comunidades, sociedades e nações”. São

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fontes cujas informações podem impedir lacunas jornalísti-


cas interpretativas.

5. Considerações finais

O mundo está em constante transformação, e esta é


impulsionada principalmente pelas mudanças climáticas e
pelo aquecimento global. Fenômenos mundiais, como o El
Niño, têm se tornado cada vez mais frequentes, e cientistas
ainda não sabem sua relação com a emissão de gases polu-
entes.
O cenário reforça novas atitudes e novos olhares.
Jornalistas e empresas jornalísticas precisam reinventar-se
quando se trata de questões ambientais, incluindo a suges-
tão de espaços editoriais e de pautas multifocais. É lamen-
tável essas ausências, principalmente porque vivemos na
região amazônica, rica em recursos naturais ameaçados
pelo avanço dos incêndios florestais e do desmatamento,
desastres que aumentam a participação da região na emis-
são de gases de efeito estufa. É preciso discutir ainda mais
as questões ambientais periodicamente. Com a internet, o
jornalismo ambiental pode enveredar por um caminho al-
ternativo, longe dos interesses exclusivamente econômicos

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atrelados nas pautas. É preciso coragem e disposição para


mais atitudes isoladas por parte de jornalistas comprometi-
dos em defender a causa do planeta e com a visão de que os
recursos são finitos. Há pouco espaço para o jornalista
compreender o retorno ecológico e econômico da notícia
ambiental, mas se assim o conseguir, o mundo agradecerá,
desde que não prejudique o meio ambiente.

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O construto interpretativo de matérias


webjornalísticas
sobre as queimadas em Roraima
Pablo Felippe Santiago de Lima

1. Introdução

A discussão ambiental tem se tornado cada vez mais


importante na sociedade atual. Apesar de ainda não ter se
convertido num debate periódico, pelo menos deixou de ser
algo ligado a um nicho e ganha importância global. Pode se
ver uma representação qualificada desse status, por exem-
plo, quando em 2017, o presidente americano Donald
Trump anunciou a saída dos Estados Unidos do Acordo de
Paris sobre mudanças climáticas e o ato reverberou pelos
veículos de comunicação do mundo inteiro.

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A cobertura de fatos ligados à preservação do meio


ambiente feita pelo jornalismo ambiental, seguindo a ten-
dência já sugerida, torna-se não só fonte de informação
para o público, mas também tema de estudo para os pes-
quisadores da comunicação. Sendo assim, decidimos anali-
sar a maneira como as narrativas jornalísticas ligadas à te-
mática ambiental estão sendo construídas e se elas conse-
guem levar ao público esse assunto da maneira como críti-
cos e teóricos indicam em suas pesquisas. Antes disso, va-
mos tratar de apontamentos sobre as mudanças climáticas
e, em seguida, analisar os discursos do jornalista e das fon-
tes no construto interpretativo de webreportagens de sites
de notícias roraimenses, um que trabalha esse tema de ma-
neira mais geral, o Uol Notícias, e outro de maneira mais
orgânica, o site da Empresa Brasileira de Pesquisa Agro-
pecuária (Embrapa).

2. Variações naturais e causas antropogênicas

A análise da construção do discurso ambiental e


climático nas matérias sobre as queimadas em Roraima
exige-nos apontar a diferença existente entre as variações
naturais da temperatura do planeta e as causadas pela ação

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do homem, nomeadas por Almeida (2017) como "antropo-


gênicas". Numa época quando o homem influi tanto na
natureza e, ao mesmo tempo, é influenciado por ela, esses
conceitos se confundem, de maneira que, em determinados
momentos, fica difícil dizer em que contexto acontece um
fato natural e onde se desenvolve um fenômeno provocado
pelos humanos.
Na visão de Fearnside (2003), são exemplos de cau-
sas antropogênicas as queimadas, o desmatamento, a cons-
trução de hidrelétricas, a ação de agentes poluentes no ar,
na água e na terra que geram impactos ambientais a curto,
médio e longo prazo, produzindo ou precarizando as mu-
danças climáticas. Existem ainda, de acordo com Fearnside
(2003), fatores naturais que influenciam o clima no mundo.
Os maiores exemplos disso são os fenômenos El Niño e La
Niña que têm causado severas alterações climáticas nos
últimos anos. Apesar de considerar a existência dessas va-
riações naturais, o autor não descarta que a atuação do
homem também ajude a influenciar tais fenômenos, quan-
do lembra da participação do efeito estufa, cada vez mais
acelerado pela queima de carbono antropogênica, no El
Niño:

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O El Niño é ativado pelo aumento da temperatura da


água de superfície no Oceano Pacífico. Por que a tempe-
ratura da água aumenta? O aumento da temperatura glo-
bal devido ao efeito estufa parece ser a mudança durante
os últimos anos que é mais provável explicar por que a
temperatura da superfície é empurrada além do limiar pa-
ra o El Niño mais frequentemente. Nós ainda não pode-
mos dizer com segurança científica se o efeito estufa é a
causa do aumento da frequência do evento El Niño: a lin-
guagem mais forte usada é que esta possibilidade “não
pode ser excluída” (FEARNSIDE, 2003, p. 130).

Mesmo havendo aqueles que descartem a existência


de um aquecimento global e minimizem a influência hu-
mana nas mudanças climáticas, ainda é importante perce-
ber os processos cíclicos pelos quais passa o planeta, sendo
difícil excluir ou ignorar a participação do homem nesse
processo.

3. Construto interpretativo, reportagem e fontes de in-


formação

A análise jornalística das mudanças climáticas exige


um modelo interpretativo baseado na precisão e clareza de

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dados e fatos. Almeida (2017) aponta os usos no jornalismo


do construto interpretativo sugerido por Archer e Rahms-
torf (2010) para a análise climática. Ele é formado por três
etapas: 1) Detecção, 2) Atribuição e 3) Balanço de Evidên-
cias. Em cada uma delas existem informações necessárias à
construção do discurso jornalístico a respeito do aqueci-
mento global.
Na Detecção, deve ser verificada a) Apresentação e
análise de dados; e b) Apresentação e comparação de fatos
e contextos. Na etapa de Atribuição, deve-se avaliar a)
Enumeração de causas; b) Identificação de causas políticas,
econômicas, sociais, ambientais, culturais etc; c) Hibridis-
mo de causas; e d) Relação entre causas, contextos e siste-
mas. Por fim, o Balanço de Evidências deve considerar a)
Apontamento de consequências; b) Natureza política, eco-
nômica, social, ambiental, cultural das consequências; c)
Hibridismo de consequências; d) Comparação de conse-
quências em distintos contextos; e e) Confronto contextual
e sistêmico de causas e consequências.
Em nosso artigo, verificaremos se essas etapas são
desenvolvidas em duas matérias webjornalísticas que tra-
tam sobre as queimadas em Roraima. Como lembra Al-
meida (2017, p. 135), "A reportagem, para nós, é o gênero

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por excelência do jornalismo ao lidar com a investigação e


interpretação de fatos e ideias de forma aprofundada, con-
textual e muitas vezes sistêmica". Em razão desse caráter
investigativo e interpretativo, acreditamos ser possível iden-
tificar as etapas do construto interpretativo nas reportagens
dos sites de notícias.
Compartilhamos com o conceito de Canavilhas
(2007) ao delimitar que a webreportagem tende a não utili-
zar a conhecida pirâmide invertida, paradigma jornalístico
no qual as informações são hierarquizadas de maneira a
trazer primeiramente ao leitor as informações mais impor-
tantes e, por último, as menos importantes, e sim passa a
utilizar um novo paradigma, conhecido como a pirâmide
deitada, no qual não há uma hierarquia vertical das infor-
mações, como nas produções impressas, mas uma hierar-
quia horizontal capaz de permitir o aprofundamento na
recepção do conteúdo da maneira que o leitor usuário bem
entendesse. Ele escolhe os modos de consumir a webrepor-
tagem através da unidade de base e nível de explicação ou
dos níveis por meio dos quais encontraria informações mais
gerais em relação ao assunto que, apesar do seu caráter ge-
nérico, seriam capazes de informar eficientemente sobre e
tema proposto.

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A leitura do texto webjornalístico também pode se-


guir um nível de contextualização, através do qual o usuá-
rio encontraria informações mais densas sobre o assunto,
podendo encontrar até informações disponibilizadas em
outras mídias como áudio, vídeo e infográficos. Por fim, o
leitor de web também pode escolher o nível de exploração,
no qual ele abandona a página atual em que se encontra e,
por meio de links disponibilizados pela própria webrepor-
tagem, encontra novas informações sobre o tema em outras
páginas. Ainda é importante ressaltar que, apesar de serem
apresentados numa sequência, não é necessário a explora-
ção desses níveis nessa ordem, sendo possível a um usuário
tanto seguir a sequência sugerida, como usufruir de uma
webreportagem, por exemplo, apenas a partir do seu nível
de exploração, usando-a como base para acessar outras
informações ou mesmo sua unidade de base no qual vai
encontrar informações básicas sobre o assunto.
Além da análise do construto interpretativo já cita-
do, é importante analisarmos como a construção jornalísti-
ca sobre as queimadas em Roraima utiliza as fontes de in-
formação, pois, como alerta Schirley Luft (in ALMEIDA,
2018, p. 6)

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[…] a produção de notícias em meio ambiente também


tem sido prejudicada pelo uso excessivo de fontes oficiais
em detrimento daqueles sujeitos que são diretamente afe-
tados pelos problemas ambientais, em geral, as vítimas
das tragédias. O emprego de múltiplas fontes de informa-
ção estimula o debate, a diversidade de opiniões, os inte-
resses contraditórios, a busca de consensos etc.

Esse alerta se faz pertinente, pois ao buscarmos na


literatura é clara a diferenciação entre um tipo de fonte no-
ticiosa e outra. A crítica da autora remete exatamente ao
uso exacerbado e também a uma importância desmedida
que os jornalistas têm dado às chamadas fontes oficiais em
detrimento daquelas consideradas não oficiais, as quais
também são importantes dentro da narrativa, por serem
exatamente as mais prejudicadas pelas mudanças climáti-
cas ocorridas.
Nilson Lage (2006) separa as fontes de informação
em três grandes grupos: oficiais, oficiosas e independentes.
As oficiais seriam aquelas mantidas pelo Estado e têm um
alto grau de confiança, as oficiosas são aqueles ligadas a
uma instituição, mas que não estão autorizadas a falar por
ela, sendo assim podem até trazer uma informação de cará-

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ter oficial, sem terem a permissão institucional para repas-


sar tal informação e, por fim, existem as independentes,
ligadas a instituições não governamentais. O autor ainda
destaca o grupo das fontes primárias e secundárias, dividi-
das de acordo com o tipo de informação repassadas para o
material jornalístico, sendo as primárias aquelas que trazem
os dados essenciais e as secundárias capazes de fazer análi-
ses sobre o assunto. Ainda existe um terceiro grupo no qual
estão as fontes testemunhas, aquelas que vivenciam o fato,
e os experts, especialistas capazes de fazer interpretações de
um evento.
As fontes de notícia e suas características são ainda
mais exploradas por Schmitz (2011), dividindo-as em cinco
grandes grupos e seus perfis específicos. O primeiro e mais
simples envolveria a categoria primária e secundária. O
autor também afirma que as fontes são divididas por gru-
pos: oficial, empresarial, institucional, popular, notável,
testemunhal, especializada e referência. Considerando sua
ação durante a reportagem, ela pode ser proativa, ativa,
passiva e reativa. As fontes ainda seriam divididas confor-
me sua identificação é ou não é creditada no texto jornalís-
tico: identificada ou anônima. Um último grupo no qual as

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fontes podem se enquadrar diz respeito à sua qualificação:


confiável, fidedigna ou duvidosa.
Apesar da abundância de perfis e classificações, va-
mos focar nossa análise em identificar quem são as fontes
primárias e secundárias das matérias, e também verificar
como as produções jornalísticas enquadraram os discursos
das fontes oficiais e especialistas em comparação às mani-
festações discursivas daquelas que vivenciam ou vivencia-
ram as mudanças ocorridas com o clima, mesmo esses não
sendo especialistas no assunto e, como sugere a definição
de Lage (2006), podendo ser classificadas como testemu-
nhas do fato.

4. O Grande Incêndio de Roraima: tragédia e trauma

Como vamos tratar sobre as queimadas em Rorai-


ma, é fundamental contextualizar esse fato no ano de 1998,
quando uma tragédia ambiental ganhou mais repercussão
na mídia e gerou mais traumas na população. Em razão
dela, a chegada da época de calor no estado acompanhou
tentativas, nem sempre exitosas, de evitar a ocorrência de
novas queimadas. Uma excelente rememoração do inciden-
te ocorrido no extremo Norte do Brasil é feito por Fearnsi-

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de (2003). O autor aponta a dimensão do desastre e faz


uma avaliação das causas e danos trazidos pela queimada.
“No ‘Grande Incêndio de Roraima’ durante o evento El
Niño de 1997-1998, queimaram 11.394-13.928 km² de flo-
restas primárias (intactas, em pé)” (FEARNSIDE, 2003, p.
6).

O incêndio de Roraima aconteceu durante um evento El


Niño, mas o incêndio não teria acontecido sem a inter-
venção humana. Os fogos mais prejudiciais para a floresta
começaram em áreas de assentamento que foram instala-
das na floresta pelo governo no início dos anos 1980, pro-
videnciando-se assim, o início dos focos de incêndio. É
significativo que estas áreas de assentamento tenham sido
implantadas deliberadamente pelo governo, ao invés de
serem áreas onde migrantes ocuparam a floresta esponta-
neamente, com o papel do governo sendo restrito à legali-
zação de um fato consumado. A probabilidade de fogos
escaparem para a floresta circunvizinha nunca foi consi-
derada na ponderação dos custos e benefícios nas decisões
sobre assentamentos e outros projetos de desenvolvimen-
to. As lições dos eventos acontecidos em Roraima preci-
sam ser aprendidas para que as decisões futuras levem em
conta este fator. (FEARNSIDE, 2003, p. 74).

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Apesar do lamentável prejuízo ambiental, a quei-


mada ocorrida no estado produziu um alerta impossível de
ser ignorado e mostrou como a união de uma ação natural,
no caso o El Niño, e de fatores humanos, como o desma-
tamento, as queimadas supostamente controladas e até
mesmo uma bagana de cigarro jogada numa vegetação seca
são capazes de causar incidentes catastróficos.
Apesar de desastres ambientais ligados a incêndios
florestais terem ocorrido posteriormente, por exemplo, no
ano de 2016, tragédia retratada pelos textos jornalísticos
aqui analisados, é sempre fundamental ressaltar o caráter
traumático do desastre ocorrido em 1998 e tomá-lo como
um marco para a discussão ambiental na região.
O relato do líder yanomami Davi Kopenawa mostra
um pouco do sofrimento das comunidades indígenas e, em
certa medida, também dos moradores das regiões direta-
mente atingidas pelas queimadas. Eles sofreram muito mais
com o incêndio do que os moradores da capital Boa Vista:

A seca não terminava. O calor ia aumentando. O ser sol


Motͪ okari tinha descido do peito do céu e tinha realmente
baixado os pés na floresta. Omoari, o ser do tempo seco,
parecia querer se instalar nela para sempre. Tinha secado

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todos os cursos d’água e se fartado de peixes e jacarés. Ti-


nha torrado as árvores e assado a terra. As pedras ficaram
em brasa. Os animais e os humanos passavam sede. Era o
tempo de queimar as roças, como de costume. Mas o ven-
to carregou fagulhas para o mato, que estava muito seco,
com o chão coberto de folhas mortas. Então, a floresta à
nossa volta começou a queimar. Depois, o incêndio foi
aos poucos se propagando para todos os lados. Quando o
fogo é assim tão poderoso, vira um outro ser, muito peri-
goso, que se apropria de todas as árvores à sua volta para
construir sua casa. Chegou até mesmo a subir as encostas
da Montanha do Vento perto da nossa casa, onde os seres
maléficos da floresta cultivam suas plantas de feitiçaria.
Ficamos muito preocupados, temendo que as chamas as
queimassem, espalhando sobre nós uma epidemia xawa-
ra. A fumaça só aumentava, sem parar. Primeiro, elevou-
se bem alto, no peito do céu. Depois recaiu sobre nós, ca-
da vez mais baixa e densa, e cobriu toda a floresta. Nos-
sos olhos estavam irritados e o peito muito seco. Não en-
xergávamos mais nada à nossa volta e tossíamos sem pa-
rar. Era muito difícil respirar. Tínhamos medo de tudo
pegar fogo e acabarmos morrendo sufocados. Temíamos
por nossos filhos, nossa casa e nossas roças (KOPENA-
WA; ALBERT, 2015, p.202).

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Quem morava na capital, apesar de receber notícias


diárias sobre o agravamento do problema, não convivia
com ele diretamente. Esse tipo de depoimento também é
importante, pois é uma maneira de acompanhar a experi-
ência do cidadão frente a um desastre dessa magnitude e
diretamente afetado pela tragédia, daí ter propriedade para
contar sua versão do desastre, permitindo a perspectiva
concreta do fato vivido. O especialista por mais que domi-
ne o conhecimento científico, em muitos casos, não viven-
ciou o ocorrido de maneira tão próxima, nem foi tão afeta-
do por suas consequências.

5. Análise do material jornalístico ambiental

Analisaremos dois materiais jornalísticos sobre as


queimadas de 2016 no Estado de Roraima, hospedados em
sites diferentes e de gêneros jornalísticos distintos. O pri-
meiro é a webreportagem O mapa das queimadas em Ro-
raima: número de focos de calor bate recorde. Trata-se de
um texto informativo, hospedado na editoria de Ciências e
Saúde do Uol Notícias, parte de um portal maior, o UOL
ou Universo Online. Ele agrega uma enorme diversidade
de conteúdos e tem um braço jornalístico orgânico no Bra-

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sil, onde cobre várias editorias e consegue, dentro de uma


medida razoável, trazer informações de vários Estados do
Brasil apesar de priorizar os fatos dos grandes centros.
O segundo texto a ser discutido é o artigo Situação
dos Incêndios Florestais em Roraima: muito fogo e pouca
água. É um texto opinativo, apesar de ter também caráter
informativo. Está hospedado no site institucional da Em-
presa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa),
órgão ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento (Ministério ao qual a empresa estava atrela-
da na época da análise da matéria), no qual é divulgada a
produção das assessorias de imprensa de todas as unidades
da instituição espalhadas pelo Brasil.
O mapa das queimadas, como passaremos a chamar
a produção a partir de agora, sem autor definido, é uma
matéria webjornalística que segue os preceitos da conside-
rada terceira geração do webjornalismo, caracterizada pela
multimidialidade, ou seja, além do texto, apresenta em sua
construção outros recursos informativos como um mapa e
um gráfico, por meio dos quais é possível encontrar dados
sobre os focos de calor em Roraima entre os anos de 2007 e
2016. O texto pouco extenso permite uma leitura rápida e
superficial do assunto e possui links para outras páginas.

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Situação dos Incêndios Florestais, como passare-


mos a chamar, escrito por Haron Xaud e Maristela Xaud,
está presente na web, mas poderia, tranquilamente, estar
publicado em uma revista ou jornal diário, pois usa como
recursos apenas o texto e a foto, em razão disso, podendo
ser considerado um produto semelhante às produções da
primeira geração do webjornalismo, quando as notícias
voltadas à mídia impressa eram meramente transpostas dos
formatos impressos para o suporte digital. Outra caracterís-
tica que ajuda a comprovar isso é a falta de links dentro do
texto, sem indicar outras possíveis fontes externas, por
meio das quais o leitor seria capaz de conseguir outras in-
formações. Ao final da produção, há uma sessão com pala-
vras-chave para notícias relacionadas, mas que só direciona
a outras produções dentro do próprio site da Embrapa.
Todavia, o texto apresenta informações e análises,
legitimando a capacidade dos jornalistas de informar o lei-
tor de maneira dinâmica. Como dito anteriormente, apesar
do seu forte caráter informativo, é possível perceber certas
características evidentes do jornalismo opinativo dentro do
texto, com alguns verbos por meio dos quais os autores se
incluem no texto, o que não é totalmente fora de contexto

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do jornalismo opinativo. Nosso propósito é discutir a capa-


cidade do construto interpretativo da webreportagem.

5.1. O construto interpretativo nas webreportagens

a) O mapa das queimadas

Usando o modelo proposto por Archer e Rahmstorf


(2010) e aplicando ao produto jornalístico O mapa das
queimadas, podemos perceber a etapa da detecção de da-
dos bem desenvolvida, porém um balanço de evidências
carente e pouco representativo.
Logo no início, o texto apresenta o contexto dos in-
cêndios que estão ocorrendo em Roraima, no início do ano
de 2016:

Os moradores do estado de Roraima estão enviando “pe-


didos de socorro” pelas redes sociais diante da grave situ-
ação das queimadas no estado. Um morador da cidade de
Caracaraí, o município com mais focos de incêndio em
todo o país nas últimas 48 horas, postou fotos que mos-
tram o céu tomado de fumaça. Outros, no Facebook, aler-
taram para as queimadas nas florestas às margens do Rio
Jauaperi.

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Após apresentar esse contexto problemático, o texto


passa a enumerar dados e estatísticas. Primeiro, afirmando
que “O número de pontos de queimada em Roraima em
janeiro (1257) é o maior já registrado pelo Instituto Nacio-
nal de Pesquisas Espaciais (INPE) desde 1998”. Segundo,
compara em relação ao ano anterior e atesta que “o cresci-
mento das queimadas em janeiro é de 280%”.
Logo após essa informação, o texto inicia a etapa da
atribuição, usando o infográfico para reforçar a causa con-
tinental das queimadas. “Antes desde ano, o pior momento
para o Estado havia sido 2007, exatamente um período de
ocorrência de El Niño”. O texto ignora, ou pelo menos
omite, a possibilidade de alguma causa antropogênica, ali-
ada ao El Niño, ter sido responsável pelos focos de calor
que impactavam a população do interior de Roraima.
Após falar sobre o El Niño, o texto ensaia um ba-
lanço de evidências, mostrando uma das consequências das
queimadas em Roraima: “a companhia de distribuição de
energia do Estado, a Cerr, informou que os incêndios já
causam prejuízo de 500 mil reais à rede elétrica”. Essa par-
te se torna um pouco deficitária na webreportagem curta,
exigindo do repórter a condensação da elaboração das eta-
pas do construto interpretativo, pois havia condições dos

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autores tentarem elencar outras consequências trazidas pe-


las queimadas, já que o contexto e uma possível causa fo-
ram apresentados no início do texto. Outro ponto a ser re-
forçado é o problema de as possíveis causas antropogênicas
do problema não serem atribuídas. O texto poderia ganhar
corpo por meio da apresentação de um número maior de
consequências. A falta da indicação do fator humano na
tragédia parece transformar a natureza em vilã do processo.

b) Situação dos Incêndios Florestais

Apesar da carência de recursos de multimídia, a we-


breportagem Situação dos Incêndios Florestais discorre
sobre o tema de maneira mais aprofundada, às vezes dando
um panorama da situação da queimada em todo o estado e
em regiões específicas. Condensa as três etapas interpretati-
vas ao analisar os dados, as causas e os impactos em cada
localidade. Sua grande virtude em relação ao texto jornalís-
tico anterior é a problematização da participação do ser
humano no processo de degradação ambiental. Assim co-
mo o texto analisado anteriormente, inicia sua fase de de-
tecção apresentando dados sobre os focos de calor detecta-
dos em Roraima: “o número de focos de calor do satélite

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referência do INPE (1754 focos) já ultrapassou o que seria


a média do número de focos de calor para um ano (1596
focos)”. Também aponta as ocorrências antigas de queima-
das:

Outra comparação alarmante: se tomarmos apenas o mês


de janeiro, o número de focos deste ano é cerca de 4 vezes
o valor recorde de focos de calor monitorados para Ro-
raima no mês de janeiro de 2003.

Por fim, lembra a relação histórica entre o El Niño e


as queimadas em Roraima desde 1996, reforçando a gravi-
dade daquele momento:

Isto quer dizer que nos últimos 17 anos de monitoramento


contínuo de focos de calor para Roraima, 2016 é sem dú-
vida o pior ano de todos em relação à quantidade de focos
de calor. Tais focos são monitorados diariamente por di-
versos satélites de observação da Terra e estão diretamen-
te correlacionados a queimadas e incêndios florestais.

Ainda sem elencar outra causa possível, além do El


Niño, o texto passa a contar a história da situação ocorrida

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nas Regiões do Rouxinho, Campos Novos e Repartimento,


os quais sofrem com as queimadas, e ressalta a consequên-
cia do ocorrido nesses locais, fazendo um balanço de evi-
dências específico dessa região, usado para demonstrar de
maneira mais extensa uma lista de consequências atribuí-
das ao incêndio:

[...] que vale ressaltar é que as áreas afetadas por incên-


dios terão cada vez menos capacidade de armazenar água,
que neste momento está fazendo falta a tantas famílias
que habitam as áreas rurais no Estado.

Após apontar o problema de maneira específica, o


texto destaca o problema do abastecimento num caráter
mais amplo, apontando as consequências disso para o esta-
do: “Isto provoca gastos cada vez maiores na distribuição
de água potável à população em ação de emergência por
estiagem, decretados por municípios e/ou Estado”. Em
seguida, sugere um modelo cíclico das causas e consequên-
cias de certas ações, incluindo o homem como ator desse
processo:

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Há um ciclo de causa e consequência entre o aumento de


áreas desmatadas, aumento de temperatura, diminuição
da umidade na vegetação e aumento de queimadas e in-
cêndios florestais provocados pelo homem.

A relação entre a atribuição e o balanço de evidên-


cias é mantida no parágrafo seguinte, quando volta a tocar
no problema da água:

As previsões climáticas indicam chuvas abaixo do nor-


mal. O rio Branco encontra-se em situação recorde de se-
ca. A Defesa Civil do Estado se desdobra para atender a
demanda pela distribuição de água no interior.

Os jornalistas retratam a ação governamental de


proibir queimadas controladas, devido aos impactos para a
agricultura roraimense:

Os nossos rios e lagos dependem do ciclo hidrológico e da


conservação da vegetação e dos solos, que funcionam
como “esponjas” para a retenção das águas das chuvas,
importante para a perenização dos rios. As queimadas e
os incêndios florestais degradam a vegetação e, dia após

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dia, estão levando o Estado a sentir cada vez mais “sede”,


a ficar cada vez mais seco e tórrido a cada novo período
de seca. A agricultura e a pecuária, atividades que são tão
importantes para nossa economia e para nossa sociedade,
dentro de um desenvolvimento sustentável para o Estado,
sofrerão perdas sem precedentes.

O texto segue primeiro falando sobre as dificuldades


encontradas pelas equipes que enfrentam o fogo e depois
mostrando um balanço de evidências geral, no qual elenca
várias consequências das queimadas:

As consequências serão sentidas no próprio campo: pastos


completamente carbonizados e gado morrendo de fome,
benfeitorias perdidas (queimadas), igarapés, lagos, poços e
açudes secos, equipamentos de irrigação paralisados sem
água ou destruídos pelo fogo, lavouras perdidas. E nas ci-
dades: hospitais com mais casos de alergias e doenças res-
piratórias, principalmente em idosos e crianças, muitas
vezes seguido de óbito daqueles mais frágeis. Isso sem fa-
lar no problema do abastecimento de água para o consu-
mo humano, principalmente no interior, que já vive a es-
cassez de água e a mesma pode atingir as cidades.

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Em seus parágrafos finais, o texto volta a citar a im-


portância da conscientização para que novas queimadas
sejam evitadas:

Caso a população continue gerando novos focos de quei-


madas e incêndios, desrespeitando todos os avisos e de-
terminações para parar com o fogo, podemos afirmar com
alta probabilidade de que o Estado será levado a enfrentar
uma tragédia anunciada de dimensões próximas ou até
maiores que em 1998.

A busca de soluções viáveis é capaz de impedir a re-


petição desse tipo de tragédia ambiental:

[…] a conscientização dos que ainda estão colocando fogo


em suas áreas, para que não o façam diante do atual qua-
dro climático. E se possível, que ajudem a apagar os focos
de incêndio existentes dentro ou próximos às suas propri-
edades, com a devida orientação e treinamento.

O texto encerra lembrando do que acontecerá caso a


sugerida conscientização não seja praticada:

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Se o atual quadro não se modificar o estado de Roraima


terá cada vez menos água e menos recursos florestais a
cada novo evento de El Niño, o que trará situações de
diminuição da produção florestal, agropecuária, riscos
alimentares para grande parte da população, problemas de
saúde, sociais, além de diversos outros problemas ambien-
tais.

5. 2. Papel das fontes e fontes sem papel

Os alertas feitos por Almeida (2017) e Luft (in AL-


MEIDA, 2018), sobre o abandono de fontes primárias e o
excesso do uso de fontes oficiais na construção de narrati-
vas midiáticas ligadas ao jornalismo ambiental se aplicam
bem aos dois textos analisados. O construto interpretativo
não exime os autores das produções de não ter ouvido o
cidadão comum com mais amplidão e reproduzido seus
discursos aptos à atribuição de causas e ao balanço de evi-
dências.

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a) O mapa das queimadas

É bem possível que o texto O mapa das queimadas


sofra de um mal retratado por Luft (in ALMEIDA, 2018), a
dita velocidade do jornalismo atual submetido ao deadline,
que não permite ao repórter trabalhar certos materiais de-
pendentes de um pouco mais de apuração e análise. “O
fator tempo reduz drasticamente a capacidade jornalística
de imprimir profundidade aos fatos, de criar espaços de
diálogo entre os mais diversos setores envolvidos com as
questões ambientais” (LUFT in ALMEIDA, 2018, p 5-6).
A falta de profundidade no material é latente e refle-
te-se no construto interpretativo. A presença mais orgânica
de fontes não oficiais motivaria uma maior profundidade
no tratamento dos fatos. No início do texto, são referencia-
dos moradores que usavam as redes sociais para fazer “pe-
didos de socorro” relacionados ao problema ambiental no
estado, único relato deste tipo de fonte em toda a webrepor-
tagem.
No decorrer do texto, uma série de informações é
proveniente das fontes oficiais National Aeronautics and
Space Administration ou Administração Nacional da Ae-
ronáutica e Espaço (NASA), Instituto Nacional de Pesqui-

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sas Espaciais (INPE), Centrais Elétrica de Roraima (Cerr) e


Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos
do Estado de Roraima (Femarh). Assim como as fontes
não oficiais, essas fontes não contribuem para a narrativa
de maneira mais ampla, apenas fornecem dados que aju-
dam a ilustrar a matéria, mas sem dar a ela grande profun-
didade. Não há fala de nenhum especialista esclarecendo
sua visão sobre alguns dos pontos abordados no material.
Como alerta Almeida (2017), essa falta de aprofun-
damento do texto pode gerar aquilo que o autor chama de
lacuna jornalística e por isso alerta que

[…] o jornalista deve atentar às lacunas informativas de


olho na interpretação por parte de seu público para a pro-
posta não virar uma mera cobertura de tragédia, sem ofe-
recer luzes sobre as causas a impedir uma nova edição do
acontecimento (2017, p. 149).

É possível que a falta de tempo, escasso discurso das


fontes e até mesmo a omissão do papel do ser humano no
incêndio florestal ocorrido em Roraima tenham causado
essa lacuna, impedindo que o texto fosse mais efetivo em
suas análises e conseguisse, sem perder sua característica de

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dinamismo e concisão, apresentar um discurso mais coeso


e profundo.

b) Situação dos Incêndios Florestais

Já em relação ao texto Situação dos Incêndios Flo-


restais é importante ressaltar antes de tudo que se trata de
uma produção feita por uma fonte oficial. A Embrapa é
uma instituição usada na cobertura de diversos assuntos
relacionados ao meio ambiente. Na webreportagem aqui
analisada, legitima seu posicionamento enquanto fonte ofi-
cial. Esse posicionamento pode ser visto nas análises feitas
pelos autores e pela maneira como conduzem o texto, vari-
ando entre o jornalismo informativo e opinativo. Apesar da
inegável eficiência das análises feitas pelos jornalistas e da
relevância do material, muito mais denso informativamente
que o do Uol Notícias, não se pode negar a carência das
vozes não oficiais, as quais, novamente, são esquecidas.
Não podemos afirmar que elas não foram ouvidas,
pois a quantidade de informações e a quantidade de deta-
lhes sobre a situação de determinadas regiões sugerem uma
pesquisa mínima por parte dos autores. Eles, provavelmen-
te, conviveram com a população local, mesmo durante o

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curto espaço de tempo da cobertura dos fatos. Ainda assim,


por mais qualificado que seja o discurso apresentado, ele
poderia ser ainda mais rico, caso as testemunhas não ofici-
ais tivessem sido representadas. Como reforça Almeida
(2018) ao lembrar da importância dos discursos das fontes
nas narrativas jornalísticas ambientais,

Elas compartilham do propósito de interpretar suas causas


e consequências. Permeiam o tempo de adaptação e seus
efeitos de uma resistência atual em assumir as ações hu-
manas, e o tempo de mitigação de uma cidadania planetá-
ria democraticamente compartilhada e de um futuro de
recuo da devastação já previsto no presente. (2018, p 75).

É necessário ressaltar a importância da humaniza-


ção das fontes nas narrativas midiáticas sobre mudanças
climáticas, por mais que elas sejam ricas de análises e in-
formações, causadoras ou vítimas das tragédias ambientais
no planeta.

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6. Considerações finais

Devemos considerar a relevância da cobertura am-


biental demonstrada pelos dois textos analisados. Em seus
contextos específicos, alertam a população roraimense a
respeito das causas a serem evitadas. O mapa das queima-
das apresenta recursos midiáticos diferentes, os quais legi-
timam a visão de Beltrão (1971) sobre o jornalismo inter-
pretativo e sua capacidade de fazer o leitor analisar e tirar
suas próprias conclusões acerca do material apresentado.
Enquanto produto webjornalístico, o material ainda se des-
taca por seu caráter conciso e dinâmico, facilita a sua leitu-
ra gerando capacidade de se tornar interessante e consumí-
vel por um número amplo de leitores, inclusive aqueles que
não consomem recorrentemente o jornalismo ambiental.
Suas falhas, como já citado anteriormente, estão ligadas à
escassez no uso das fontes não oficiais e sua omissão em
ressaltar a influência do fator humano num acidente ambi-
ental como as queimadas.
Já o texto Situação dos Incêndios Florestais analisa
profundamente o tema abordado, fazendo avaliações gerais
sobre o impacto das queimadas em Roraima e ainda conse-
guindo atentar às particularidades de pequenas regiões do

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estado. Outro ponto relevante é o destaque para a influên-


cia humana dentro do processo. Sem ignorar a variação
natural, o texto consegue alertar o ser humano sobre sua
influência nas tragédias ambientais. Em relação ao discurso
das fontes, carece das vozes das fontes não oficiais.
A partir da crítica do construto interpretativo, po-
demos perceber a maneira como ambas as produções cons-
truíram seu discurso. Em O mapa das queimadas, as fontes
aparecem na ordem discursiva linear de cada uma das eta-
pas. A webreportagem Situação dos Incêndios Florestais
condensa as fases interpretativas em um mesmo parágrafo,
no entanto carece de participação mais efetiva de fontes
não oficiais. Mesmo de gêneros jornalísticos diferentes e
possuindo suas lacunas jornalísticas, compõem a produção
regular do jornalismo ambiental engajada com a não repro-
dução dos antigos fatos de degradação da natureza.

Referências

ALMEIDA, Simão Farias. Representações do tempo no jornalismo


de mudanças climáticas e danos ambientais. João Pessoa: Ideia, 2018.

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_________. Ecocrítica da cartografia metafórico-interpretativa na


não-ficção de mudanças climáticas, clima e danos ambientais.
João Pessoa: Ideia, 2017.

BELTRÃO, Luiz. Jornalismo interpretativo: filosofia e técnica. Porto


Alegre: Sulina, 1976.

CANAVILHAS, João Messias. Webjornalismo: da pirâmide invertida


à pirâmide deitada. In: BARBOSA, Suzana (Org.). Jornalismo Digital
de Terceira Geração. Covilhã: LabCom – Universidade da Beira Inte-
rior, 2007. p. 25-40.

FEARNSIDE, Philip M. A floresta amazônica nas mudanças globais.


Manaus: INPA, 2003.

KOPENAWA, David; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de


um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesqui-


sa jornalística. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

LUFT, Schirley. Prefácio. In: ALMEIDA, Simão Farias. Representa-


ções do tempo no jornalismo de mudanças climáticas e danos ambi-
entais. João Pessoa: Ideia, 2018. p.5-7.

SCHMITZ, Aldo Antonio. Fontes de notícias: ações e estratégias das


fontes no jornalismo. Florianópolis: Combook, 2011.

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Bioética e ecoética da biodiversidade


endêmica do Monte Roraima
Eliza Menezes de Lima

1. A ética humana

A ética é um dos temas mais abordados da história


da filosofia desde Sócrates. Ele discutiu sobre a natureza do
homem, a vida, a morte e sua conduta. A ética é a parte da
filosofia interessada no comportamento humano, e longe
de analisá-lo como bom ou ruim, certo ou errado, busca
entender e formular o bem estar consigo e com a sociedade,
permitindo alcançar seu objetivo último: a felicidade. Al-
gumas definições vão além, mas todas englobam a esfera
do caráter e de costumes particulares, uma vez que a moral
abrange os hábitos comuns dos sujeitos. A moral pode ser
transmitida por uma religião, tradição familiar, uma comu-
nidade com comportamentos distintos do padrão, ou por

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um grupo de pessoas que se unem compartilhando um


mesmo ideal ou regras coletivas que facilitam a convivência
em sociedade. Enquanto a ética possui caráter puramente
racional, pois é formada no indivíduo através do processo
de reflexão, e indica as ações do sujeito perante determina-
dos fatos, ou seja, como ele deve se comportar diante do
meio social e do caráter do outro.
Segundo Abbagnano (1998, p. 389) existem duas
concepções de ética,

a 1° a considera como ciência do fim para o qual a condu-


ta dos homens deve ser orientada e dos meios para atingir
tal fim, deduzindo tanto o fim quanto os meios da natureza
do homem; 2° a que a considera como ciência do móvel da
conduta humana e procura determinar tal móvel com vis-
tas a dirigir ou disciplinar essa conduta.

As duas concepções abrangem o comportamento


humano, porém, enquanto uma compreende à qual nature-
za, inclinação ou essência o homem se dirige, a outra busca
os motivos determinantes das direções tomadas pelo ho-
mem. Como qualquer ciência interessada no humano, a
ética está em constante movimento, o que a permitiu des-
membrar-se na ética descritiva, normativa, metaética, deon-

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tológica, teleológica, bioética, ecoética. Neste artigo, discu-


tiremos essas duas últimas e recentes vertentes. Partiremos
de seus pressupostos para analisar as consequências das
ações antropogênicas no meio ambiente. O conceito de
ética também será explorado quando discutirmos a diferen-
ça entre variação climática e mudança climática, pois no
século XXI seu conceito está intimamente ligado à intera-
ção humana com o ambiente e o contexto planetário.
A ética no sentido além da perspectiva do caráter
humano vislumbra a consequência para qualquer decisão
tomada, e como ser social, o homem deve pensar de forma
sistêmica antes de interagir com o meio ambiente benéfica
ou maleficamente, paradigmas melhor compreendidos mais
adiante.

2. Bioética e Ecoética

Os conceitos de bioética e ecoética são muito pró-


ximos e por vezes são confundidos ou aglutinados, mas
possuem significados tanto diferentes quanto até certo pon-
to distantes. Ainda assim, ambos se relacionam, já que par-
tem da ética e interagem com o mesmo objeto e meio, o
homem e seu comportamento a respeito da vida. A manei-

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ra abordada por cada vertente, essa sim é diferente, e seu


objeto final de valoração também se distinguem. Apresen-
taremos a origem de cada conceito separadamente.
Durante algumas décadas, acreditou-se que o con-
ceito de bioética havia sido criado em 1970 pelo bioquími-
co e oncologista americano Van Rensselaer Potter, tendo
aparecido pela primeira vez no livro Bioética: ponte para o
futuro, mas pesquisas recentes encontraram uma publica-
ção na revista alemã Kosmos, com artigo datado de 1927
em que o termo aparece. O texto Bioética: uma revisão do
relacionamento ético dos humanos em relação aos ani-
mais e plantas foi escrito para um editorial pelo professor e
pastor protestante Paul Max Fritz Jahr.
Segundo nos conta Pessini (2013, p. 13),

Em 1997, contudo, o professor Rolf Lother, da Universi-


dade Humboldt de Berlim, em conferência em Tübingen,
menciona Fritz Jahr, a quem credita ter cunhado a pala-
vra Bio-Ethik em 1927. Segundo seu relato, Lother ouviu
pela primeira vez o termo “bioética” no início dos anos 90
do século passado. Uma vez que o termo lhe pareceu de
alguma forma familiar, começou a procurá-lo nos núme-
ros publicados do famoso periódico Kosmos, deixado por
seu avô, nos quais encontrou o editorial do volume de

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1927 e o histórico artigo de Jahr intitulado “Bioética: uma


revisão do relacionamento ético dos humanos em relação
aos animais e plantas”.

Deste modo, a discussão sobre bioética é tão antiga


quanto a própria humanidade, pois o homem sempre se
preocupou em cuidar do meio ambiente, todavia isso se
torna mais evidente quando Fritz Jahr cria o termo levado
adiante, comprovando-se completamente necessário. Jahr
traz uma perspectiva inovadora ao aplicar os imperativos
categóricos da filosofia de Immanuel Kant a respeito da
conservação e do cuidado com a vida, o imperativo bioéti-
co. Enquanto Kant considera a Lei Moral inviolável, e a
toma como base para a formulação de seu imperativo cate-
górico, Fritz Jahr considera a vida inviolável, e não somen-
te a vida humana, mas toda forma de vida. Dessa forma,
enquanto Kant nos diz “age de tal modo que consideres a
humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa dos ou-
tros, sempre como fim e nunca como simples meio”, Fritz
Jahr fala “respeite todo ser vivo como princípio e fim em si
mesmo e trate-o, se possível”.
Pessini (2013, p. 15), nos diz que “o pensamento de
Jahr em relação ao imperativo bioético está espalhado em

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diversos de seus escritos, embora não o tenha sistematiza-


do”. Ele elenca também algumas interpretações do impera-
tivo bioético:

1) O imperativo bioético guia as atitudes éticas e culturais,


bem como as responsabilidades nas ciências da vida e em
relação a todas as formas de vida [...]; 2) O imperativo
bioético fundamenta-se na evidência histórica e outras em
que a compaixão é um fenômeno empiricamente estabe-
lecido da alma humana [...]; 3) O imperativo bioético for-
talece e complementa o reconhecimento moral e os deve-
res em relação aos outros no contexto kantiano e deve ser
seguido em respeito à cultura humana e às obrigações
morais mútuas entre os humanos [...]; 4) O imperativo
bioético tem que reconhecer, administrar e cultivar a luta
pela vida entre as formas de vida e contextos de vida na-
tural e cultural [...]; 5) O imperativo bioético implementa
a compaixão, o amor e a solidariedade entre todas as
formas de vida como um princípio fundamental e virtude
da regra de ouro do imperativo categórico de Kant, que
são recíprocos e somente formais; 6) O imperativo bioéti-
co inclui obrigações em relação ao próprio corpo e alma
como um ser vivo. (SASS apud PESSINI, 2013, p. 15)

Apesar do artigo no qual Fritz Jahr apresenta o con-


ceito de bioética ter sido publicado muito antes do conceito

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definido por Potter, ele é muito mais amplo, pois invoca


respeito e compaixão por toda forma de vida.
A partir de 1978, com a descoberta do artigo de
Fritz Jahr, foram organizados vários congressos e debates
sobre a definição, a importância, e aplicação do conceito
no mundo atual. Segundo Pessini (2013, p. 14),

a Declaração de Rijeka, na qual se afirma: Fritz Jahr já


utilizou o termo “bioética” (“Bio-Ethik”) em 1927. Seu
“imperativo bioético” deve orientar a vida pessoal, profissi-
onal, cultural, social e política, bem como o desenvolvi-
mento e a aplicação da ciência e da tecnologia.

A bioética está comprometida com a vida desde a


criação do termo e historicamente passa a incorporar outras
discussões, relacionadas à morte, à saúde humana, animal
e ambiental, à ecologia e à ética ambiental. Esta área da
filosofia nos permite discutir e teorizar sobre a dignidade
humana e a qualidade de vida no planeta, considerando a
vida do próprio planeta. A compreensão de Potter sobre a
bioética gira em torno da sobrevivência humana, pois
quando ele pensa o conceito, traça uma agenda desde 1970,
com a publicação de Bioética: ponte para um futuro, até

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1988 quando amplia as relações da bioética. Durante esse


período, Potter defende a bioética enquanto ponte entre a
ciência biológica e a ética, pois apresenta a sobrevivência
humana dependente do desenvolvimento de um sistema
ético, considerando que a nossa sobrevivência também de-
pende de uma civilização ética e sustentável e todo avanço
cientifico deve respeitar as questões éticas.
A partir de 1988, Potter (apud PESSINI, 2013, p. 11)
amplia o conceito bioético a uma ética global:

A teoria original da bioética era a intuição da sobrevivên-


cia da espécie humana, numa forma decente e sustentável
de civilização, exigindo o desenvolvimento e manutenção
de um sistema de ética. Tal sistema (a implementação da
bioética ponte) é a bioética global, fundamentada em in-
tuições e reflexões alicerçadas no conhecimento empírico
proveniente de todas as ciências, porém, em especial, do
conhecimento biológico... Na atualidade, este sistema éti-
co proposto segue sendo o núcleo da bioética ponte com
sua extensão para a bioética global, o que exigiu o encon-
tro da ética médica com a ética do meio ambiente numa
escala mundial para preservar a sobrevivência humana.

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Dez anos depois, Potter apresenta uma nova bioéti-


ca profunda e através dela entende o planeta Terra formado
por vários sistemas interdependentes e entrelaçados, aban-
donando o ser humano como centro do sistema ético da
vida, e passando a considerar a vida em si, sendo o homem
uma pequena parte de toda complexidade da qual faz parte.
As discussões sobre bioética se tornaram cada vez
mais necessárias e ganharam grande relevância após o tér-
mino da Segunda Guerra Mundial, quando o mundo to-
mou conhecimento do Holocausto, e das práticas e experi-
mentos realizados pelos médicos nazistas que, em nome do
avanço da ciência, abandonaram a humanidade do ser hu-
mano nas atrocidades cometidas nos campos de concentra-
ção. Daí a importância, ainda latente, de uma discussão
dessa magnitude, para controlar e barrar atitudes contra a
vida e a sobrevivência.
Também referente à bioética, em outubro de 2005,
na Conferência Geral da UNESCO adotou-se a Declaração
Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, que consoli-
da os princípios fundamentais da bioética, tornando-se pa-
râmetro para a criação de legislações nacionais. Um dos
artigos da declaração expressa a preocupação tanto de Fritz
Jahr quanto de Potter:

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Artigo 3°:
1. A dignidade humana, os direitos humanos e as liberda-
des fundamentais devem ser plenamente respeitados.
2. Os interesses e o bem-estar do indivíduo devem preva-
lecer sobre o interesse exclusivo da ciência ou da socieda-
de.

Para a compreensão moderna de bioética, são neces-


sários os textos de ambos autores. Mayr demonstra:

A bioética, da maneira como ela se apresenta hoje, não é


nem um saber (mesmo que inclua aspectos cognitivos),
nem uma forma particular de expertise (mesmo que inclua
experiência e intervenção), nem uma deontologia (mesmo
incluindo aspectos normativos). Trata-se de uma prática
racional muito específica que põe em movimento, ao
mesmo tempo, um saber, uma experiência e uma compe-
tência normativa, em um contexto particular do agir que é
definido pelo prefixo “bio”. Poderíamos caracterizá-la
melhor dizendo que é uma instância de juízo, mas preci-
sando que se trata de um juízo prático, que atua em cir-
cunstâncias concretas e ao qual se atribui uma finalidade
prática através de várias formas de institucionalização.
Assim, a bioética constitui uma prática de segunda or-
dem, que opera sobre práticas de primeira ordem, em con-
tato direto com as determinações concretas da ação no

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âmbito das bases biológicas da existência humana (LA-


DRIÈRE apud MAYR, 2006, p. 7).

Enquanto isso, o conceito de ecoética ou ética ambi-


ental nasce com Hans Jonas em meados dos anos 1970, e
pode ser classificado como proveniente de uma corrente
preservacionista que “aponta a responsabilidade moral do
homem com respeito à natureza em geral e a outras formas
de vida” (MAYR, 2006, p. 29). Jonas é um judeu alemão e
aluno de Heidegger. Ele se muda da Alemanha durante a
ascensão do nazismo, e por fim, em 1955 muda-se para os
Estados Unidos, onde residiu até o fim da vida.
Profundamente influenciado por Heidegger, Jonas
une a biologia e a filosofia no ano de 1966 com a publica-
ção O fenômeno da vida: rumo a uma biologia filosófica,
na qual estabelece os parâmetros dessa união. Seu pensa-
mento desenvolve-se, principalmente no pós-guerra, quan-
do consegue perceber o perigo de destruição do próprio
homem ao degradar a natureza. Critica veementemente a
dominação humana desregrada sobre o meio ambiente e o
perigo crescente à preservação da vida.
Igualmente Fritz Jahr toma por referência Kant e
apresenta novos imperativos baseados em suas reflexões:

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“Age de tal modo que os efeitos da tua ação sejam com-


patíveis com a permanência duma vida humana autêntica
na Terra” ou “Age de tal modo que os efeitos da tua ação
não sejam destrutivos para a futura possibilidade dessa
Vida” ou “Inclui na tua eleição presente, como objeto
também do teu querer, a futura integridade do Homem”
ou “Não ponhas em perigo as condições da continuida-
de indefinida da Humanidade na Terra” (MAYR, 2006,
p. 28-29).

Os princípios norteadores da ecoética podem ser de-


finidos em responsabilidade, sabedoria, conhecimento e
humildade. Cabe aos Estados nacionais o zelo pelo futuro
do homem, legitimando esses quatro princípios, pois a
ecoética não se limita à questão de qual mundo eu quero
deixar para o futuro, mas em que mundo eu quero viver,
pois as ações humanas sobre a natureza não trazem conse-
quências apenas a longo prazo, elas acontecem neste nosso
tempo.
Por isso o cuidado e atenção com a natureza devem
ser constantes e seguir o princípio de sabedoria que deter-
mina nossa decisão e ação, o princípio do conhecimento
relacionado à necessidade de conhecimento anterior à

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ação, visto que esta é irreversível, na maioria das vezes, o


princípio da humilde, uma vez que os seres humanos são
ínfimos diante da grandeza da natureza, e devemos reco-
nhecer isso para não basearmos nossas ações na ignorância
de que a natureza nos serve. Por fim, o princípio de respon-
sabilidade deve ser direcionado ao mundo, à natureza e aos
ecossistemas na atualidade e nos tempos vindouros.
Como apresenta Silva (2015, p. 11), “Bioética e
ecoética são conceitos que essencialmente têm a mesma
intencionalidade: para recuperar o valor da vida, no contex-
to da disputa entre o natural e o artificial.” Ele ainda apon-
ta que a transdisciplinaridade e a interdisciplinaridade são
características próprias da ecoética e da bioética, e envol-
vem ações conjuntas na solução de problemas.

3. Variações climáticas e mudanças climáticas

Variações e mudanças climáticas se referem a obje-


tos diferentes, e a ética do comportamento humano é um
deles. O ponto máximo de diferença entre os termos está na
abrangência de seu significado. As mudanças climáticas
podem ser classificadas como as alterações de clima no
planeta ao longo do tempo, e a variação climática são as

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variações ocorridas dentro de um determinado período e


influenciadas pela mudança do clima.
Não podemos dispensar a participação humana nas
causas das mudanças climáticas. Elas atingem significati-
vamente todo o planeta e possuem três principais causas:
causas externas naturais (atividade solar, órbita terrestre e
meteoritos), causas internas naturais (terremotos, erupções
vulcânicas, incêndios e furacões) e as causas internas an-
tropogênicas, onde se destaca o aumento de emissões de
gases de efeito estufa. A emissão de gases resultante da
queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natu-
ral, entre outros) desde a Revolução Industrial, causa gran-
de dano à atmosfera e à temperatura terrestre com a libera-
ção da alta quantidade de dióxido de carbono determinante
do efeito estufa.
O efeito estufa prejudica a terra, pois retém parte do
calor proveniente da radiação solar, o que torna a superfície
terrestre aquecida por mais tempo. Mas quando essa situa-
ção atinge níveis extremos encontramos o aquecimento
global, resultado do efeito estufa responsável pelo aumento
da temperatura média da atmosfera terrestre.
Durante certo período, pairou dúvidas sobre quais
as causas levavam a esses dois fatores, mas hoje são unâ-

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nimes os estudos científicos comprobatórios das atividades


humanas determinantes para esse quadro, principalmente a
queima de combustíveis fósseis, queimadas, desmatamento,
decomposição de lixo e atividade pecuária.

4. Análise jornalística

Nossa análise de webreportagem a respeito da bio-


diversidade do Monte Roraima ameaçada pelo aquecimen-
to global passa pelo papel interpretativo do repórter e das
fontes. Simão Almeida (2017) destaca a interpretação cli-
mática de Archer e Rahmstorf em três etapas: detecção,
atribuição e balanço de evidências (apud ALMEIDA, 2017,
p. 29). Cada um desses passos busca informações específi-
cas dentro do texto:

Na Detecção deve ser verificada a) Apresentação e análise


de dados e também b) Apresentação e comparação de fa-
tos e contextos. Na Atribuição deve-se avaliar: a) Enume-
ração de causas, b) Identificação de causas políticas, eco-
nômicas, sociais, ambientais, culturais, etc, c) Hibridismo
de causas e d) Relação entre causas, contextos e sistemas.
Por fim, o Balanço de Evidências deve-se considerar: a)
Apontamento de consequências, b) Natureza política,

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econômica, social, ambiental, cultural das consequências,


c) Hibridismo de consequências, d) Comparação de con-
sequências em distintos contextos e e) Confronto contex-
tual e sistêmico de causas e consequências (ALMEIDA,
2017, p.29).

As etapas interpretativas da análise climática podem


ser aplicadas ao jornalismo, modo de produção caracteri-
zado pela diversidade de fontes informativas. Luft (in AL-
MEIDA, 2018, p.6) salienta a importância do uso das fon-
tes na construção da interpretação jornalística dos fatos:

[…] a produção de notícias em meio ambiente também


tem sido prejudicada pelo uso excessivo de fontes oficiais
em detrimento daqueles sujeitos que são diretamente afe-
tados pelos problemas ambientais, em geral, as vítimas
das tragédias. O emprego de múltiplas fontes de informa-
ção estimula o debate, a diversidade de opiniões, os inte-
resses contraditórios, a busca de consensos etc.

Em outras palavras, Luft chama a atenção para o


uso das fontes de informação como meio de atingir um pú-
blico alvo. As fontes oficiais têm se tornado essenciais à
discussão dos problemas ambientais, mas não devemos

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esquecer daqueles que são diretamente afetados pelas tra-


gédias ambientais, pois além de contextualizar o tema
abordado, ainda desperta empatia da população distante do
conhecimento cientifico que também precisa participar da
preservação ambiental.

4.1 A Webreportagem “Aquecimento global pode extin-


guir espécies do Monte Roraima”

Passaremos agora a analisar a produção jornalística


intitulada Aquecimento global pode extinguir espécies do
Monte Roraima, feita por Rafael Duarte, um dos editores
do Blog Miramundos1, ligado ao jornal O Globo e ao por-
tal de notícias G1 da rede Globo2.

1
Definido como um blog que “realiza expedições jornalísticas e
fotográficas pelo mundo em projetos documentais transmídia. São
aventuras que revelam através de experiências esportivas a importância
da conservação dos patrimônios naturais, artísticos e históricos do
planeta” (informação extraída do site
https://blogs.oglobo.globo.com/miramundos/post/aquecimento-
global-pode-extinguir-especies-do-monte-roraima-352526.html).
2
O grupo Globo é o maior conglomerado de mídia e comunicação do
Brasil e América Latina, tendo sido eleito em 2015, como o 17° maior
conglomerado de mídia do mundo, segundo relatório publicado pela
empresa de Marketing Zenith Optimedia, e única empresa latino-
americana entre as 20 maiores. (informação extraída do site:
https://oglobo.globo.com/economia/grupo-globo-o-17-maior-
conglomerado-de-midia-do-mundo-16159426).

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A produção em questão, nos termos de Nilson Lage


(2006), trata-se de uma entrevista que podemos classificar,
ao mesmo tempo, como temática, pois discorre sobre o
tema do impacto das ações do homem no meio ambiente,
podendo contribuir “na compreensão de um problema, ex-
por um ponto de vista, reiterar uma linha editorial com o
argumento de autoridade” (LAGE, 2006, p. 74), e “dialo-
gal, [que] é a entrevista por excelência” (LAGE, 2006, p.
77). O entrevistado em questão, Roberto Vámos, é consul-
tor ambiental e diretor da Brasil/S. Ele já fez expedições a
importantes locais do planeta, cuja biodiversidade foi afe-
tada pelas mudanças climáticas como os Montes Cotopaxi
(Equador) e Kilimanjaro (Tanzânia).
Como sugere o titulo da entrevista, Vámos faz um
relato dos efeitos do aquecimento global no Monte Rorai-
ma, formação rochosa localizada na tríplice fronteira Brasil
– Venezuela – Guiana. Apesar de o texto focar nesse assun-
to, a entrevista ainda debate temas como conscientização e
gestão de riscos ambientais, investimento e utilização de
fontes de energias renováveis. Por se tratar da transcrição
de uma entrevista, modelo no qual perguntas e respostas
vêm atreladas, as etapas de detecção, atribuição e balanço
de evidências costumam aparecer juntas em cada resposta

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dada pelo entrevistado, pois, sem a intervenção ou a análise


do jornalista, como ocorreria numa matéria tradicional, a
hierarquização dessas etapas fica exclusivamente a cargo
do entrevistado, restando ao entrevistador apenas o papel
de direcionar e editar as perguntas.
Na primeira pergunta feita a Roberto Vámos sobre
os efeitos do aquecimento global nas espécies endêmicas do
Monte Roraima, podemos ver a fase da detecção quando o
entrevistado contextualiza o local do monte em que vivem
essas espécies e a condição de vulnerabilidade delas diante
das mudanças climáticas, como mostra o trecho: “Espécies
da flora e fauna que existem apenas nos cumes de monta-
nhas são especialmente vulneráveis ao aquecimento global”
(VÁMOS em entrevista à Miramundos, 2011).
Em seguida, a fase da atribuição passa a considerar
diretamente o aquecimento global como fator capaz de
modificar a rotina das espécies endêmicas do Monte Ro-
raima:

Isso porque se o clima esquentar, essas espécies vão que-


rer migrar para outras áreas que tenham o mesmo clima
ao qual se adaptaram durante milhares de anos de evolu-
ção. Mas só há dois caminhos para isso: ou migrar em di-
reção aos pólos ou então montanha acima. E espécies

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como as que habitam o topo do Monte Roraima não tem


nenhuma destas possibilidades (VÁMOS em entrevista à
Miramundos, 2011).

Já no balanço de evidências, Vámos destaca como


consequência desses danos ambientais a possível extinção
das espécies endêmicas do Monte Roraima: “Não há mais
para onde subir, e tampouco podem descer a montanha
para procurarem outros habitats. Estarão fadados à extin-
ção” (VÁMOS em entrevista à Miramundos, 2011).
A segunda pergunta feita a Roberto Vámos diz res-
peito à conscientização da sociedade em relação aos riscos
ambientais. Na detecção, o entrevistado sinaliza o alerta já
compreendido pela humanidade e pelas sociedades diante
das provas ambientais: “Existe uma maior consciência por
parte da sociedade de que há algo de muito errado na ma-
neira como o meio ambiente tem sido tratado nas últimas
décadas” (VÁMOS em entrevista à Miramundos, 2011).
Diante da atribuição de causas, Vámos ressalta que
as discussões sobre a preservação ecológica, as quais têm
ganhado cada vez mais espaço na mídia e o reforço da co-
munidade científica, estariam tornando as sociedades mais
abertas a esse ponto:

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Em grande parte este aumento de consciência se deve à


maior exposição que este tema tem tido na mídia à medi-
da que cientistas vêm reportando pesquisas cada vez mais
alarmantes sobre o estado do nosso planeta. A sociedade
então começa a exigir que governos e empresas mudem
suas práticas, e quem não responder corretamente às estas
novas pressões pode não sobreviver muito tempo (VÁ-
MOS em entrevista à Miramundos, 2011).

No balanço de evidências, o entrevistado ressalta


que essa conscientização tem gerado preocupação nas em-
presas ao ponto de elas passarem a estabelecer uma política
de conscientização ambiental mais ampla para não perde-
rem seus clientes e seus lucros, e também poderem explorar
novos mercados. “Mas muitas empresas tem [sic] feito mais
do que simplesmente reagir. Elas começam a enxergar um
novo mercado de tecnologias limpas que pode gerar mi-
lhões de empregos e bilhões em lucros” (VÁMOS em en-
trevista à Miramundos, 2011).
A terceira pergunta diz respeito especificamente ao
uso de energias renováveis e limpas. Nesse caso, a detecção
chega a se confundir com um possível balanço de evidên-
cias quando o contexto utilizado para justificar o investi-
mento nesse tipo de energia é o mesmo tomado pelo possí-

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vel aumento da temperatura do planeta causado pelo aque-


cimento global:

Os cientistas já deixaram claro que se continuarmos a


queimar combustíveis fósseis no mesmo ritmo de hoje, até
o final do século teremos um aquecimento de até 6 graus
centígrados, o que transformará boa parte da superfície
terrestre em áreas inabitáveis para nós, seres humanos
(VÁMOS em entrevista à Miramundos, 2011).

Na atribuição, o entrevistado ressalta como causa da


necessidade do investimento em energias renováveis, o
abuso na utilização das atuais matrizes energéticas poluen-
tes como os combustíveis fósseis e o carvão: “Só que 80%
da energia mundial hoje vem de combustíveis fósseis”
(VÁMOS em entrevista à Miramundos, 2011).
Já no balanço de evidências, o entrevistado usa um
discurso mais pragmático assumindo que o abandono total
das matrizes energéticas atuais seria complicado, mas é
necessário gerar energia limpa para um planeta em constan-
te crescimento demográfico e em favor das próximas gera-
ções:

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Não temos como mudar nossa matriz energética da noite


para o dia, mas precisamos começar a aposentar as anti-
gas usinas movidas à [sic] carvão ou petróleo por novas
fontes limpas, como o vento ou o sol. Só que precisamos
também gerar mais energia, pois as economias dos países
em desenvolvimento estão crescendo e a população mun-
dial também (VÁMOS em entrevista à Miramundos,
2011).

Na última pergunta, Vámos relata algumas atitudes


que poderiam refletir num uso mais consciente da energia.
A detecção inicia ressaltando a importância do uso racional
de energia elétrica e a partir de então a atribuição se con-
funde com um balanço de evidências, demonstrando algu-
mas relações de causa e consequência, caso esse uso mais
racional fosse de fato praticado:

Desta forma, não haverá tanta pressão para


produzir mais energia a curto prazo e pode-
remos concentrar nossos recursos e esforços
na substituição da matriz energética existen-
te. 10% da energia mundial, por exemplo, é
usada para iluminação. Se substituíssemos
todas as lâmpadas incandescentes por fluo-
rescentes ou LED, que usam 80 a 95% me-

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nos energia, já teremos feito uma grande


economia (VÁMOS em entrevista à Mira-
mundos, 2011).

4.2 Análise das fontes

É obvio que por se tratar de uma entrevista exclusi-


va, o material jornalístico é composto por uma única fonte
e, nesse caso, com base na classificação de Lage (2006) po-
demos classificar Roberto Vámos como uma fonte oficial,
porém de caráter independente, pois seu discurso não re-
presenta diretamente nenhuma instituição governamental.
Isso, porém, não faz de Vámos uma mera testemunha dos
fatos e sim um especialista no assunto abordado.
Sendo assim, com seu papel de expert no tema do
aquecimento global, ele consegue fazer uma análise pro-
funda, mostrando conhecimento cientifico aliado às suas
vastas experiências anteriores enquanto agente ambiental.
Ele não convive diariamente com os problemas do local,
constituindo-se numa fonte oficial especializada. Seria per-
tinente a existência de uma fonte não oficial capaz de con-
trapor e também reforçar determinadas colocações de Vá-

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mos, legitimando a humanização dos sujeitos vitimados


pelas mudanças climáticas e de seus discursos.
Por fim, ainda é importante ressaltar a força do dis-
curso do especialista ao considerar o papel humano no
aquecimento global que tem ocorrido no planeta. Confor-
me indica Almeida (2018), a capacidade humana cria ações
capazes de mitigar impactos ambientais e não apenas de-
senvolve soluções que permitam ao homem simplesmente
se adaptar a eles, quando nada mais puder ser feito para
evitá-los.

5. A ética planetária e a influência das mudanças climáti-


cas na vida no planeta

A ética planetária é a expansão dos conceitos de


bioética e ecoética uma vez que considera que tudo no pla-
neta está interligado, e tudo possui uma causa e uma con-
sequência, assim, se quisermos permanecer vivos e manter
o planeta vivo para as próximas gerações precisamos nos
preocupar com as ações antropogênicas de maneira univer-
sal, ou seja, planetária. “É, pois, dos escombros desta crise
que emerge um novo paradigma: o da sustentabilidade”
(TESCAROLO; DARÓS, 2012, p. 2). Pensar e agir etica-

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mente de maneira isolada ou regional é importante, mas


não resolve a degradação e a preservação do planeta. E
para compreendermos melhor esse novo paradigma se faz
necessária a fala de Tescarolo e Darós (2012, p. 2):

Se o paradigma fundado no racionalismo, no individua-


lismo e no materialismo, promoveu a destruição do Pla-
neta e oprimiu o ser humano, o paradigma da sustentabi-
lidade assenta-se na ética da responsabilidade planetária,
que, por sua natureza, tem como princípios cuidar da
existência e da vida e emancipar o ser humano. O para-
digma emergente supera os valores do modernismo e an-
seia pela ética da responsabilidade, da solidariedade, da
sensibilidade e do consumo frugal.

Torna-se essencial que o ser humano deixe de pen-


sar a natureza como obra prima, pois essa “cosmovisão
exclusivamente antropocêntrica [...] separa a Noosfera – a
dimensão humana e social -, da Biosfera – a camada viva
não reflexiva que alimenta e sustenta a Noosfera – que por
sua vez depende de sua preservação” (CHARDIN apud
TESCAROLO; DARÓS, 2012, p. 3).
Dessa maneira, como fala Diagne (2010 apud TES-
CAROLO; DARÓS, 2012, p. 3),

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quando saímos da biosfera e entramos na noosfera – a es-


fera da consciência humana –, algo ocorre: o movimento
vital se torna consciente de si mesmo nos seres humanos,
ocasionando, assim, a questão ética, ou seja, o problema
da ação, do que deve ser feito.

A base da ética planetária está justamente em com-


preender o movimento vital e as ações humanas provoca-
doras da degradação e aquelas preservacionistas. Para al-
cançar a esfera planetária, a ética depende da formação
daqueles que formam os seres humanos: os professores.

A formação dos agentes formadores na escola priorizará o


manejo mais amplo dos saberes pedagógicos como pro-
cesso solidário e construção coletiva, alimentado pela pro-
fundidade e pelo confronto constante e convergente, e o
conhecimento como elaboração pessoal, aceitando a
aprendizagem em suas implicações emocionais, afetivas e
relacionais [..]. Para fazer frente a tantas exigências, a es-
cola deve promover um programa de procedimentos di-
versificados e sistemáticos, organicamente estruturados e
voltados para o aperfeiçoamento e a atualização perma-
nentes de seus agentes formadores. Ela precisa também
considerar esses agentes em sua totalidade humana, con-
tribuindo para o desenvolvimento de todas as suas poten-

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cialidades: profissionais, biofisiológicas, intelectuais,


emocionais, espirituais e sociais (TESCAROLO; DA-
RÓS, 2012, p.7-8).

Assim, a ideia de homem dominador, como aborda-


vam os paradigmas clássicos, deve ser esquecida em sua
forma catequética e substituída pelo conceito de bem-estar
de todas as criaturas vivas ou não que habitam no planeta.
Essa nova consciência parte na direção de colaboração mú-
tua, com responsabilidade, solidariedade e interdependên-
cia.

Em 1987, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e


Desenvolvimento (CMMAD) [...] adotou o conceito de
Desenvolvimento Sustentável em seu relatório [...] o Rela-
tório Brundtland. O conceito foi definitivamente incorpo-
rado como um princípio durante a Conferência das Na-
ções Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a
Cúpula da Terra de 1992 (Eco-92), no Rio de Janeiro3.

O Relatório aponta que “independente da existência


de atores sociais implicados na responsabilidade da degra-

3
Texto extraído do blog:
http://empresaverdebrasil.com.br/blog/?p=23.

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dação ambiental, a busca de soluções seria uma tarefa co-


mum a toda humanidade4”, e toma tal afirmação como
premissa básica por meio da qual cria Os Dez Princípios
da Ética Planetária:

Estas são as Diretrizes do Clube de Budapeste para pensar


globalmente e moralmente na aurora do século XXI.
Viva com respeito pelos outros e pela Natureza
1. Viva de uma maneira que satisfaça suas necessidades
básicas sem tirar dos outros a oportunidade de satisfaze-
rem as necessidades deles.
2. Viva de uma maneira que respeite o direito inalienável
de todas as pessoas à vida e ao desenvolvimento, onde
quer que elas vivam e quaisquer que sejam suas origens
étnicas, sexo, nacionalidade, posição social e sistema de
crenças.
3. Viva de uma maneira que respeite o direito intrínseco à
vida, e a um ambiente que dê apoio à vida, de todas as
coisas que vivem e crescem na Terra.
4. Busque a felicidade, a liberdade e a realização pessoal
em harmonia com a integridade da Natureza e levando
em conta as buscas similares de seus semelhantes na soci-
edade.

4
Texto extraído do blog:
http://empresaverdebrasil.com.br/blog/?p=23.

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Aja para criar um mundo melhor


5. Exija de seu governo que se relacione com os outros
povos e países pacificamente e num espírito de coopera-
ção, reconhecido as aspirações legítimas de todos os
membros da comunidade internacional por uma vida me-
lhor e um meio ambiente saudável.
6. Exija das empresas que manifestem preocupação ade-
quada pelo bem-estar de todos os seus takeholders e pela
sustentabilidade do meio ambiente, produzindo bens e
oferecendo serviços que satisfaçam a demanda corrente
sem degradar ou poluir a Natureza e sem reduzir as opor-
tunidades das pessoas pobres de participar da economia
nem as oportunidades das empresas locais de competir no
mercado.
7. Exija dos meios de comunicação que divulguem infor-
mações contínuas e confiáveis sobre as tendências básicas
e os processos cruciais, assim permitindo que os cidadãos
e os consumidores tomem decisões abalizadas sobre ques-
tões que afetam sua saúde, sua prosperidade e seu futuro.
8. Abra espaço em sua vida para ajudar os menos favore-
cidos do que você a viver com dignidade básica e trabalhe
com pessoas de mente semelhante à sua, próximas ou dis-
tantes, para preservar ou restaurar os equilíbrios essenciais
do meio ambiente.
Desenvolva sua consciência para desenvolver o espírito humano
9. Desenvolva sua consciência para perceber a interde-
pendência vital e a unidade essencial da família humana,
para aceitar e apreciar sua diversidade individual e cultu-

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ral, e para reconhecer que uma consciência alçando-se à


dimensão planetária é um imperativo para a sobrevivência
humana no século XXI.
10. Use o exemplo e a orientação da sua consciência em
expansão para inspirar e motivar os jovens (e pessoas de
todas as idades) a desenvolverem aquele espírito que lhes
dará o poder de tomar decisões morais sobre as questões
críticas que decidirão o futuro deles próprios e o futuro de
toda a humanidade. (RUHO, 20?, p. 1-2).

Mitigar as causas do aquecimento global prejudicial


a biodiversidades endêmicas ao redor do planeta, a exem-
plo da variedade de espécies singulares do Monte Roraima,
passa pela educação ambiental. É ela que nos devolve a
condição humana necessária ao despertar da preservação
da natureza fundamental à salvação da humanidade.

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114

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A agricultura de baixo carbono


em produção webjornalística
da Folha Web

Simão Farias Almeida

1. A Amazônia e o baixo carbono

Pesquisadores de todo o mundo e conferências do


clima vêm alertando há décadas a respeito das causas do
aquecimento do planeta. O uso e a sobrecarga de fontes
energéticas não renováveis e poluentes, a exploração mine-
ral sem controle, o desmatamento, a pecuária e o uso de-
sordenado do solo têm contribuído muito para o aumento
da temperatura. Diante disso, a produção de carbono é
considerada a responsável indireta pelas mudanças climáti-

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cas ou pela mitigação dos desastres ambientais, dependen-


do do nível controlado de sua emissão. O homem tem a
responsabilidade direta no aquecimento global ao manter e
não recuar ou reduzir os comportamentos de alto impacto
do gás carbônico e de outros gases na atmosfera terrestre.

Segundo Philip Fearnside (2003, p.12), a participa-


ção do desmatamento das florestas tropicais é significativa
no aumento de temperatura do planeta e seu impedimento
não pode ser omitido dos planos de mitigação climática.
“O uso da terra e mudança do uso da terra na Amazônia
brasileira no período 1981-1990 contribuiu com 6,6% do
total mundial de emissão líquida comprometida de gases”
(FEARNSIDE, 2003, p.12-13). Os gases liberados pela
queima e decomposição de biomassa e pelos solos se acu-
mulam na atmosfera mesmo quando essa biomassa se re-
cupera totalmente. A mitigação global provavelmente ain-
da não foi legitimada pelos países desenvolvidos e mem-
bros de acordos climáticos devido à desconfiança das deci-
sões de compra e venda de créditos de carbono e seus im-
pactos reais no recuo do aquecimento.

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Importante entre estas considerações são exigências rela-


tivas à certeza (Fearnside, 2000c), permanência (o tempo
ao longo de que o carbono seria mantido fora da atmosfe-
ra) (Fearnside et al., 2000), e várias formas de “vazamen-
to” (efeitos do projeto, tais como a expulsão de população
ou de atividade de desmatamento, que depois continuaria
fora dos limites físicos ou conceituais do projeto), que po-
dem negar a mitigação esperada (Fearnside, 1999c) (FE-
ARNSIDE, 2003, p.13-14).

A desconfiança no “comércio” de carbono em meio


aos acordos, às decisões e às tentativas de mitigação não
precisaria existir se houvesse por parte de países com gran-
des áreas de florestas o planejamento ordenado do seu es-
toque e sequestro. Essa contabilidade deveria ser feita em
uma base de toneladas por ano para “comparar as emissões
de combustíveis fósseis evitadas opções de mitigação no
setor florestal, incluindo tanto desmatamento evitado como
plantações silviculturais”, sob métodos naturais e artificiais
de controle de pragas, e os créditos girariam em torno do
número de toneladas de carbono mantido fora da atmosfera
a cada ano (FEARNSIDE, 2003, p.73). O uso do solo é
preponderante na regulação dos impactos dos gases carbô-
nico e metano na camada de ozônio. Mudanças nas cama-
das superficiais do solo acontecem mais rapidamente do

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que nas camadas mais profundas porque as superficiais


possuem maior concentração de carbono (FEARNSIDE,
2003, p.55). Para Philip Fearnside (2003, p.55), o desma-
tamento libera mais gases tendo em vista o papel das árvo-
res em estocar e conservar o carbono nas subcamadas da
terra:

O estoque de carbono no solo profundo pode ser diminuí-


do até um novo nível de equilíbrio mais baixo no decorrer
de um longo período de tempo, porque as raízes profun-
das de árvores na floresta natural são uma fonte de entra-
da de carbono para esta camada do solo, e pode ser espe-
rado que a substituição da floresta por pastagem e outros
tipos de vegetação de raízes pouco profundas mude o
equilíbrio entre as entradas de carbono e a oxidação na
camada de solo profundo.

Daí a ideia de floresta em pé ser compatível com a


real capacidade de mitigação dos efeitos do aquecimento da
Terra. O uso desgovernado do solo pode pôr a perder o
compromisso de controlar até 2°C o aumento da tempera-
tura de nosso planeta, definido no tratado assinado no final

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do Acordo de Paris em 2015. A Amazônia brasileira con-


tribui nesse acordo reduzindo as áreas de pastagem e as
queimadas na agricultura itinerante e de florestas secundá-
rias (FEARNSIDE, 2003, p.58). O propósito não é só dis-
cutir as consequências, mas também reconhecer as causas a
fim de controlá-las e evitá-las, além de buscar as soluções
políticas, econômicas, sociais e ecológicas. Conforme suge-
re Fearnside (2003, p.70), “Reduzir a velocidade do desma-
tamento requer a compreensão das suas causas e a criação
de modelos funcionais capazes de gerar cenários de mu-
dança de uso da terra com e sem diferentes mudanças de
política e outras atividades”. O exemplo do grande incên-
dio em Roraima entre dezembro de 1997 e março de 1998,
numa área de mais de 11 milhões de Km² de floresta intac-
ta de terra firme, demonstra o fator político na interferência
da degradação do solo e seus efeitos na liberação de gases
na atmosfera terrestre:

O incêndio de Roraima aconteceu durante um evento El


Niño, mas o incêndio não teria acontecido sem a inter-
venção humana. Os fogos mais prejudiciais para a flores-
ta começaram em áreas de assentamento que foram insta-
ladas na floresta pelo governo no início dos anos 1980,

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providenciando-se assim, o início dos focos de incêndio.


É significativo que estas áreas de assentamento tenham
sido implantadas deliberadamente pelo governo, ao invés
de serem áreas onde migrantes ocuparam a floresta espon-
taneamente, com o papel do governo sendo restrito à lega-
lização de um fato consumado (FEARNSIDE, 2003,
p.74).

A denúncia das causas políticas, econômicas, sociais


e ambientais é fundamental para evitar o aquecimento glo-
bal. Veremos na próxima seção como o jornalismo inter-
pretativo de mudanças climáticas pode contribuir à mitiga-
ção dos impactos dos comportamentos humanos.

2. Os discursos das mudanças climáticas

O jornalismo media fatos e discursos a respeito do


aquecimento global, todavia muitas vezes se limita a tratar
dos seus efeitos na natureza e, principalmente, nas socieda-
des, comunidades e na humanidade. “Mudanças climáticas
é um discurso confrontado por um antropocentrismo moti-
vador de um construto interpretativo precário e limitado a
indicar fatores naturais, mas deve ser legitimado por uma

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ecocrítica a incluir causas e consequências antropogênicas”


(ALMEIDA, 2017, p.124). O risco da produção jornalística
sobre essas mudanças no planeta é cair numa cobertura
paralisante, descrita por Wilson Bueno (2008, p.170) en-
quanto isolada das causas e da denúncia dos interesses
promotores da destruição ecológica.
David Archer e Stefan Rahmstorf (2010, p.62-63)
podem ajudar na construção do jornalismo climático inter-
pretativo preocupado em lidar com causas e consequências
dos fatos ambientais ao apontar linhas de raciocínio na
análise climática:

First, there are so-called “detection and attribution” studi-


es. This refers to a specific set of statistical techniques
which allow us to “detect” climate changes in an observa-
tional data set (that means, to distinguish a real change
from mere random fluctuations) and to “attribute” these
changes to a set of causes [...]
Second, there is the overall “balance of evidence” [...] that
determines the confidence we have in our understanding
of the causes of climate change. This balance of evidence
includes the results of the formal “detection and attributi-
on” studies1.

1
Primeiro, há os conhecidos estudos de “detecção e atribuição”. Estes
referem-se a um conjunto específico de técnicas estatísticas que nos

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A detecção lida com dados climáticos não aleató-


rios, a atribuição angula um conjunto de causas e o balanço
de evidências aponta as consequências dos fenômenos de-
limitados nas duas primeiras etapas. Eles convergem, res-
pectivamente, para as práticas interpretativas de análise
quantitativa ou estatística, da enumeração de causas e do
confronto contextual e sistêmico de causas e consequências
no qual se incluem os elementos avaliados nas etapas ante-
riores. O papel do crítico das mudanças climáticas é similar
ao propósito do jornalista interpretativo, buscando a liga-
ção entre os fatos e sua explicação (BELTRÃO, 1976,
p.54), evitando angular acontecimentos complexos como
eventos simples (SCHUDSON, 2010, p.174) e fazendo a
exposição interpretada de informações, estatísticas e dados,
confrontando-os com depoimentos de fontes especializa-
das, caso de cientistas e intelectuais (WYSS, 2008, p.169-
170).

permite “detectar” mudanças climáticas em dados observados (que


significa, distinguir a mudança real das meras flutuações aleatórias) e
“atribuir” essas mudanças a um conjunto de causas [...]
Segundo, há o “balanço de evidência” geral [...] que determina a
confiança que nós temos no nosso entendimento das causas de
mudança climática. Este balanço de evidência inclui os resultados dos
estudos formais de “detecção e atribuição” [tradução nossa].

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A forma de o jornalista evitar a cobertura paralisante


e não interpretativa é investigar as causas e as soluções con-
tra o aquecimento global. O tratamento da mitigação vai
garantir a ele fugir do jornalismo meramente de angulação
de fatos, em busca da cobertura engajada nas mudanças
sociais e ecológicas.
Analisaremos o discurso interpretativo das fontes na
webreportagem Embrapa Roraima produz estudos sobre
Agricultura de Baixo Carbono, produzida pela jornalista
Paola Carvalho e publicada em 08 de novembro de 2017 na
Folha Web, meio digital do grupo de comunicação da Fo-
lha de Boa Vista. O jornal impresso começou a circular em
21 de outubro de 1983, na antevéspera da transição do re-
gime militar para a redemocratização, e o site de notícias
foi criado em 2005.
De acordo com Carolina Ribeiro (2008, p.1), o
webjornalismo é caracterizado pela multimidialidade ao
agregar características e recursos de diferentes meios.

No ambiente da web, graças ao processo de digitalização,


imagens, sons, vídeos, animações e textos podem compar-
tilhar de um mesmo espaço e tempo. Já acostumado a li-
dar com esses meios de difusão separadamente, o jorna-
lismo voltado para a web tem o desafio de construir uma

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nova relação semântica a partir da integração dessas lin-


guagens.

Esse caráter híbrido caracteriza a terceira geração do


webjornalismo (MIELNICZUK, 2003, p. 36) e estimula
uma variedade de perfis de matérias jornalísticas, depen-
dendo dos recursos utilizados: algumas podem ter texto
digital e vídeo, outras possuem texto e áudio e há ainda
aquelas que reúnem todos esses meios numa reportagem.
Todavia, mesmo em meio às possibilidades de interação
entre materiais textuais e audiovisuais, alguns sites de notí-
cias e produções jornalísticas na internet persistem em não
explorar a multimidialidade. É o caso da webreportagem
aqui analisada, que contém texto e fotografia e sem a indi-
cação de link no corpo da matéria por meio do qual o leitor
usuário da rede poderia ter acesso a outras informações
sobre o tema tratado pela jornalista. Analisaremos os dis-
cursos das fontes a respeito das mudanças climáticas em
Roraima no texto disponível na matéria jornalística.

Antes de partirmos para a seção de análise deste


capítulo, não podemos dispensar a informação de que a
internet foi criada nos Estados Unidos nos anos 1960 pelo

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Departamento de Defesa pretendendo evitar um possível


ataque nuclear capaz de destruir dados reunidos num ar-
quivo tradicional ou numa única fonte tecnológica (WYSS,
2008, p. 216). Deste modo, a rede mundial de computado-
res surgiu para substituir os meios impressos, portanto, po-
luía menos a natureza, e resguardada de desastres ambien-
tais. Estas origens legitimam o potencial ecológico das mí-
dias digitais, todavia os sites de notícias precisam valorizar
ainda mais as pautas e as coberturas do jornalismo ambien-
tal. Veremos se a webreportagem Embrapa Roraima pro-
duz estudos sobre Agricultura de Baixo Carbono serve de
modelo de uma produção jornalística interpretativa engaja-
da nas questões de proteção ao meio ambiente.

Segundo o site do Ministério da Agricultura, Pecuá-


ria e Abastecimento, o Plano Setorial de Mitigação e de
Adaptação às Mudanças Climáticas Visando à Consolida-
ção de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na
Agricultura (Plano ABC) foi baseado no decreto n°
7.390/20102, e tem a finalidade de organização e planeja-

2
O decreto trata dos princípios, objetivos, diretrizes e instrumentos de
políticas públicas e programas governamentais compatíveis com a
Política Nacional sobre Mudança do Clima, e abrange a revisão de
planos setoriais.

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mento de ações de adoção de tecnologias de produção sus-


tentáveis pela redução de emissão de gases na atmosfera
por parte do setor agropecuário a serem implantadas até
2020. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária é
um dos atores operacionais do plano nos âmbitos estaduais.

De acordo com o site da Embrapa nacional, o Plano


de Agricultura de Baixo Carbono é uma política pública
composta de sete programas e cada um deles tem uma série
de ações convergentes à “ampliação da adoção de algumas
tecnologias agropecuárias sustentáveis com alto potencial
de mitigação das emissões de GEE [gases de efeito estufa] e
combate ao aquecimento global”. Os programas envolvem
a recuperação de pastagens degradadas, a integração lavou-
ra-pecuária-floresta, a fixação biológica do nitrogênio, o
tratamento de dejetos animais e a adaptação às mudanças
climáticas entre outras propostas. A problemática do plano
está em não apresentar uma distinção clara entre mitigação
de comportamentos poluentes e adaptação aos efeitos pro-
venientes dessas atitudes quando se refere às estratégias de
transferência de tecnologia e implantação de Unidades de
Referência Tecnológica. Segundo o site, são necessários a
informação de riscos climáticos, o aperfeiçoamento de prá-

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ticas sustentáveis de manejo e o monitoramento do plano.


O jornalismo pode contribuir com essas missões divulgan-
do regularmente as propostas, as práticas e os resultados
locais, regionais e nacionais.

A participação da Embrapa no Plano de Agricultura


de Baixo Carbono envolve a pesquisa científica e a transfe-
rência tecnológica a seu público alvo, além das estratégias
de diagnóstico, análise de tendências, monitoramento, aná-
lise de risco e sustentabilidade social, econômica e ambien-
tal, estudo de obtenção de créditos de carbono e de políticas
públicas. A conclusão do plano setorial da instituição refor-
ça o atrelamento de fatores financeiros, sociais e ecológi-
cos: “o combate ao aquecimento global deve ser compatível
com o crescimento econômico e sustentável e com o com-
bate à pobreza”. O jornalismo interpretativo pode oferecer
as respostas às demandas de informação sobre mudanças
climáticas e créditos de carbono se for compreendido como
tratamento dos aspectos contextuais dos fatos, plurais das
fontes e convergentes dos discursos.

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3. A webreportagem da Folha Web e as mudanças climá-


ticas

A matéria começa referenciando o interesse da Em-


presa Brasileira de Pesquisa Agropecuária de Roraima em
soluções tecnológicas e estudos voltados à redução da
emissão de gás carbônico, metano e óxido nitroso na at-
mosfera terrestre, causadores do efeito estufa e, consequen-
temente, do aquecimento global.

O pesquisador Edmilson Evangelista da Silva da


Embrapa, em seguida, esclarece que essas ações comple-
mentam a agricultura de baixo carbono, caso da fixação
biológica de nitrogênio realizada por grupos de microorga-
nismos constituídos da enzima nitrogenase funcional pre-
sente nas plantas. O discurso citado entre aspas do especia-
lista informa a respeito de uma bactéria em leguminosas
responsável pela fixação de nitrogênio devido ao processo
de modulação das raízes, no entanto a jornalista não escla-
rece essa explicação científica. Esta lacuna prejudica o en-
tendimento da importância ambiental do processo natural
indicado. Concordamos com Wilson Bueno quando defen-

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de um jornalismo ambiental além das proposições do jorna-


lismo científico tradicional, atrelado apenas ao conheci-
mento de laboratório sem contextualizar as repercussões
das descobertas e das análises (BUENO, 2008, p.166-167).
As duas especialidades jornalísticas podem até convergir,
porém, o valor da preservação ecológica deve se sobrepor
ao caráter da editoria científica de divulgar pesquisas inde-
pendentemente de seus impactos ambientais.

A reportagem segue apontando a utilização do ni-


trogênio em forma sintética, todavia sem compará-lo a sua
forma biológica. O pesquisador denuncia em discurso dire-
to citado a produção do gás sintético utilizando fertilizante
com petróleo que emite dióxido de carbono. Nesta parte da
matéria, fica clara a intenção de Paola Carvalho de permitir
ao leitor a interpretação da distinção entre o processo natu-
ral e artificial de fixação do nitrogênio. Ela apenas oferece
as informações do especialista da Embrapa e resguarda ao
usuário o papel de chegar a suas próprias conclusões. Legi-
tima o jornalismo interpretativo compreendido por Luiz
Beltrão (1976, p.46), no qual os jornalistas são mediadores
dos dados e das informações, e a análise final cabe ao re-
ceptor do texto jornalístico. O construto interpretativo por

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parte dele segue no parágrafo seguinte da webreportagem,


em que a jornalista trata da fixação de carbono por meio de
material produzido por plantas.

O especialista Edmilson Evangelista valoriza a solu-


ção mitigadora do uso de biomassa na agricultura:

Quando eu pratico esse ato de colocar uma planta de co-


bertura, eu faço uma cobertura de subsolo e essa planta é
capaz de absorver esse carbono da atmosfera, se decom-
por e produzir matéria orgânica que vai ficar retida no so-
lo. O fato de não realizar esse revolvimento do solo vai
evitar que essa matéria orgânica fixada retorne para a at-
mosfera através de uma queima microbiana, ou seja, o
microorganismo se alimenta e como ele é um ser metabó-
lico ele vai emitir CO2 na atmosfera (apud CARVALHO,
2017).

A contribuição do material orgânico das árvores na


fixação de carbono depende da atitude de não desmatar as
florestas, deste modo a repórter deixa mais claro ao leitor
qual a técnica agrícola mais responsável pelo aquecimento
global: o uso do fertilizante com petróleo. A biomassa só

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vai aumentar a temperatura do planeta se sofrer queima por


parte de ações humanas.

Na seção da matéria jornalística iniciada pela re-


tranca “OUTRAS MEDIDAS”, o pesquisador compara o
prejuízo causado por outros gases, caso do óxido nitroso
que colabora 300 vezes mais com o aquecimento da atmos-
fera do que o gás carbônico. Após atribuir as causas das
mudanças climáticas na agricultura, ele detecta os níveis de
degradação provocados pelos gases liberados pelo uso dos
solos para pastagem. Além da utilização de biomassa, a
fonte especializada enumera a sugestão das tecnologias de
compostagem por meio da decomposição de resíduos ricos
em nutrientes minerais contra a emissão de metano de
maior potencial poluente por não ter oxigênio em sua com-
posição. Desta forma, a reportagem não implica numa co-
bertura paralisante, denunciada por Wilson Gomes, des-
provida de soluções para evitar os desastres ambientais.

O sistema integrado de produção oferece técnicas


através das quais a criação de gado, o plantio de grãos e de
árvores são agregados com o objetivo de reduzir os impac-
tos climáticos. Segundo Edmilson Evangelista (apud
CARVALHO, 2017),

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Os animais se alimentam de uma planta ou grama e por


outro lado, o animal vira um gerador de gás, pois no pro-
cesso de ruminação, ele produz metano. Atrelado a isso, a
árvore basicamente tem 50% da estrutura dela em carbo-
no e ela retira CO2 do ar, através do processo fotossintéti-
co.

Como especialista, ele detecta a quantidade de car-


bono utilizada na fotossíntese em contrapartida ao CO²
absorvido da atividade pecuária. Assim, legitima a solução
mitigadora do sistema lavoura-pecuária-floresta. Apesar de
discursos de fontes não oficiais (microprodutores, agriculto-
res) não serem reproduzidos na webreportagem, Edmilson
Evangelista valoriza o conhecimento desse sistema integra-
do por parte dos produtores rurais “mesmo sem saber que a
medida é sustentável” (apud CARVALHO, 2017). Este
trecho destaca a possibilidade de massificação da agricultu-
ra de baixo carbono, devido ao uso comum pelos agriculto-
res especializados ou não, tendo como consequência a re-
dução dos impactos no aquecimento global.

Na seção “AUXÍLIO À POPULAÇÃO”, a jornalis-


ta endossa a colaboração da Embrapa Roraima de informar

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a respeito da transferência de tecnologia de baixo carbono.


A Folha Web contribui com os produtores rurais do estado
ao legitimar e sugerir, através do especialista, as alternati-
vas agrícolas sustentáveis. Estas são as três funções do jor-
nalismo ambiental apontados por Wilson Bueno (2008,
p.165-166): a informativa sobre as questões ambientais, a
pedagógica que gira em torno das causas e das soluções
relacionadas aos problemas ecológicos e a política engajada
na defesa da natureza cobrando as ações de responsabilida-
de dos governantes. O atributo informativo da reportagem
é valorizado pelos propósitos interpretativos que passam
pela detecção de dados, atribuição de causas e balanço de
evidências dos efeitos da agricultura de alto e de baixo car-
bono, mesmo as diferenças entre elas não sendo evidentes
no corpo do texto. Apesar disso, direciona à melhor solu-
ção contra o aquecimento global e legitima o papel político
da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária em defesa
da agricultura sustentável.

A webreportagem termina detectando dados divul-


gados pelo Observatório de Agricultura de Baixo Carbono
sobre a contratação de recursos financeiros destinados às
tecnologias agrícolas sustentáveis na região Norte, com

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quase R$ 2 bilhões na safra 2016/2017, um aumento de


10% em relação ao período 2014/2015. A fonte oficial atri-
bui esse potencial ao apoio do Banco Nacional de Desen-
volvimento Econômico e Social (BNDES) e de parceiros
envolvidos na transferência da técnica. No entanto, a ex-
pansão desse tipo de agricultura no Norte do país não foi
acompanhada pelas demais regiões e faltam outros com-
promissos serem assumidos para o sucesso tecnológico e
agrícola no cenário nacional: adequação dos componentes
operacionais, implementação de mecanismos de monito-
ramento, relato e verificação contra a emissão dos gases de
efeito estufa. O estudo do observatório, portanto, defende
uma cadeia de apoio e avaliação da aplicação de tecnologi-
as de baixo impacto no aquecimento do planeta. O sucesso
do tipo de agricultura referenciado implica na união de ins-
tituições financeiras, agropecuárias, pequenos, médios e
grandes produtores rurais. A reportagem da Folha Web
poderia ter convergido esses propósitos, dando espaço a
fontes não oficiais no seu construto interpretativo.

Almeida (2018, p.100) ao tratar do jornalismo de


mudanças climáticas aponta “a mitigação como interpela-
ção democrática de discursos contra as causas e os impac-

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tos, e a favor da cidadania individual, coletiva e global,


agenciados no construto editorialístico das narrativas jorna-
lísticas”. Para o autor,

As comunidades tradicionais têm autoridade e legitimida-


de de falar sobre as variações naturais e as interferências
antropogênicas no clima. E os jornalistas muitas vezes
podem contar com essas fontes não oficiais na detecção
de dados, na atribuição de causas e no balanço de evidên-
cias. Basta guiá-las seguindo os propósitos do jornalismo
ambiental contextual e de prevenção de erros e desastres
(ALMEIDA, 2018, p.102).

No caso da reportagem Embrapa Roraima produz


estudos sobre Agricultura de Baixo Carbono, agricultores
poderiam falar sobre uso de técnicas de baixo carbono
mesmo desconhecendo a tecnologia ofertada pela Embra-
pa. Inclusive, o pesquisador Edmilson Evangelista informa
que alguns produtores rurais já utilizam técnicas similares
mesmo desconsiderando seus valores sustentáveis. As fon-
tes não oficiais detentoras das tecnologias de baixo impacto
também contribuiriam na matéria jornalística, atestando a

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qualidade agrícola associada à preservação do meio ambi-


ente. Ao contrário de valorizar a pluralidade de fontes, a
wereportagem se ateve aos dados e às informações geradas
pela instituição pública e pelo Observatório da Agricultura
de Baixo Carbono. Neste sentido, a predominância apenas
de fontes oficiais insinua o caráter da produção jornalística
mais apropriado ao jornalismo institucional, resultado de
entrevistas com os pesquisadores da própria instituição. A
autora da webreportagem informou em entrevista3 que a
produção do texto partiu de realease enviado à redação do
jornal pela assessoria de imprensa da Embrapa Roraima. A
cobertura só não se torna paralisante porque as causas e as
soluções são apresentadas pela repórter. Seus propósitos
informativos, pedagógicos e políticos da mitigação climáti-
ca poderiam ser alargados se os discursos das fontes não
oficiais fossem reproduzidos. Assim, a jornalista Paola
Carvalho cumpriu o construto interpretativo do jornalismo
de mudanças climáticas, todavia não democratizou a com-
preensão dos valores mitigatórios da agricultura de baixo
carbono.

3
Entrevista concedida a este pesquisador em 05 de novembro de 2018
por meio de rede social.

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Edgar Morin (2003, p.94) defende que “Devemos


pensar em termos planetários a política, a economia, a de-
mografia, a ecologia [...] buscar sempre a relação de insepa-
rabilidade e de inter-retroação entre todo fenômeno e seu
contexto, e de todo contexto com o contexto planetário”. A
tecnologia agrícola discutida na webreportagem deve ser
adotada por todos os países e produtores rurais. Além de
oferecer retorno financeiro, ela contribui ao presente e ao
futuro de nosso planeta.

4. Considerações finais

A agricultura pode contribuir na redução dos impac-


tos do aquecimento global por meio da adoção de tecnolo-
gias sustentáveis e integradas às atividades florestais e pe-
cuárias. As produções de baixo carbono associam a garan-
tia da produtividade desejada e a necessária preservação do
meio ambiente.

O jornalismo de mudanças climáticas deve abranger


atitudes individuais e coletivas, soluções urbanas e rurais,
fontes oficiais, especializadas e não oficiais. A cobertura de

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armazenamento e sequestro de carbono precisa considerar


vozes plurais, desde o pequeno agricultor até o engenheiro
agrônomo. A ideia de uma natureza e de um planeta pre-
servados para todos justifica a diversidade de angulações no
jornalismo ambiental.

A webreportagem de Paola Carvalho mesmo não


primando pela multimidialidade, percorreu todas as etapas
do construto interpretativo pertinente à análise climática e
evitou a cobertura paralisante porque não fugiu da enume-
ração de soluções aos problemas apresentados. Engajou-se
informativa, pedagógica e politicamente na redução de im-
pactos e na legitimidade dos valores sustentáveis. Essa pro-
dução jornalística serve de modelo às coberturas de mu-
danças climáticas no estado de Roraima. Também desperta
os jornalistas a não se contentar com o agrupamento exclu-
sivo de fontes institucionais. As angulações do jornalismo
de aquecimento global devem ser mais amplas, afinal todos
nós juntos estamos interessados no destino do planeta Ter-
ra.

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Referências

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Disponível em:
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“O propósito comum dos autores é


alertar para as causas e os efeitos
das mudanças climáticas evidentes
no estado de Roraima e enumera-
dos pelos sites de notícias locais e
nacionais. Nestes tempos urgentes,
é necessário saber distinguir entre
as variações naturais do clima e as
alterações da temperatura do plane-
ta provocadas pelo homem. As
consequências podem ser globais e
locais, daí o papel dos meios de
comunicação de cobrir os fatos nos
contextos mais próximos. O propó-
sito final é despertar na comunida-
de local e nacional a conscientiza-
ção da mitigação ambiental, ou
seja, do recuo dos comportamentos
de degradação da natureza cujos
ganhos serão sentidos inclusive por
nós humanos.”

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