Você está na página 1de 84

PSICOFARMACOLOGIA

PROF.A DRA. VIVIAN TACIANY BONASSOLI SHIMA


Prof. Me. Ricardo Benedito de Oliveira
REITOR

Reitor:
Prof. Me. Ricardo Benedito de
Oliveira
Pró-reitor:
Prof. Me. Ney Stival
Gestão Educacional:
Prezado (a) Acadêmico (a), bem-vindo Prof.a Ma. Daniela Ferreira Correa
(a) à UNINGÁ – Centro Universitário Ingá.
PRODUÇÃO DE MATERIAIS
Primeiramente, deixo uma frase de Só-
crates para reflexão: “a vida sem desafios não Diagramação:
vale a pena ser vivida.” Alan Michel Bariani
Thiago Bruno Peraro
Cada um de nós tem uma grande res-
ponsabilidade sobre as escolhas que fazemos, Revisão Textual:
e essas nos guiarão por toda a vida acadêmica Gabriela de Castro Pereira
e profissional, refletindo diretamente em nossa Letícia Toniete Izeppe Bisconcim
vida pessoal e em nossas relações com a socie- Luana Ramos Rocha
dade. Hoje em dia, essa sociedade é exigente
e busca por tecnologia, informação e conheci- Produção Audiovisual:
mento advindos de profissionais que possuam Heber Acuña Berger
novas habilidades para liderança e sobrevivên- Leonardo Mateus Gusmão Lopes
cia no mercado de trabalho. Márcio Alexandre Júnior Lara
Pedro Paulo Liasch
De fato, a tecnologia e a comunicação
têm nos aproximado cada vez mais de pessoas,
Gestão de Produção:
diminuindo distâncias, rompendo fronteiras e
Kamila Ayumi Costa Yoshimura
nos proporcionando momentos inesquecíveis.
Assim, a UNINGÁ se dispõe, através do Ensino
Fotos:
a Distância, a proporcionar um ensino de quali-
Shutterstock
dade, capaz de formar cidadãos integrantes de
uma sociedade justa, preparados para o mer-
cado de trabalho, como planejadores e líderes
atuantes.

Que esta nova caminhada lhes traga


muita experiência, conhecimento e sucesso.

© Direitos reservados à UNINGÁ - Reprodução Proibida. - Rodovia PR 317 (Av. Morangueira), n° 6114
UNIDADE ENSINO A DISTÂNCIA

01
DISCIPLINA:
PSICOFARMACOLOGIA

CONCEITOS GERAIS, VIAS DE


ADMINISTRAÇÃO E FARMACOCINÉTICA
PROF.A DRA. VIVIAN TACIANY BONASSOLI SHIMA

SUMÁRIO DA UNIDADE

INTRODUÇÃO.............................................................................................................................................................. 5
1 - CONCEITOS GERAIS EM FARMACOLOGIA......................................................................................................... 6
2 - VIAS DE ADMINISTRAÇÃO.................................................................................................................................. 8
2.1. VIAS ENTERAIS................................................................................................................................................... 9
2.2. VIAS PARENTERAIS............................................................................................................................................10
2.2.1. VIA ENDOVENOSA............................................................................................................................................10
2.2.2. VIA INTRAMUSCULAR....................................................................................................................................11
3 - FARMACOCINÉTICA.............................................................................................................................................11
3.1. ABSORÇÃO ..........................................................................................................................................................13
3.1.1. VIA DE ADMINISTRAÇÃO.................................................................................................................................13
3.1.2. VARIABILIDADE BIOLÓGICA............................................................................................................................13

WWW.UNINGA.BR 3
3.1.3. CIRCULAÇÃO NO LOCAL DE ADMINISTRAÇÃO.............................................................................................13
3.1.4. ÁREA DE ABSORÇÃO........................................................................................................................................13
3.1.4. SOLUBILIDADE.................................................................................................................................................14
3.1.5. PKA DO FÁRMACO E PH DO SÍTIO DE ABSORÇÃO.......................................................................................14
3.2. DISTRIBUIÇÃO....................................................................................................................................................14
3.2.1. IONIZAÇÃO........................................................................................................................................................15
3.2.2. PERMEABILIDADE CAPILAR..........................................................................................................................15
3.2.3. FLUXO SANGUÍNEO ........................................................................................................................................15
3.2.4. LIGAÇÃO A PROTEÍNAS PLASMÁTICAS........................................................................................................15
3.3. METABOLIZAÇÃO................................................................................................................................................16
3.4. ELIMINAÇÃO.......................................................................................................................................................16
4 - FARMACODINÂMICA...........................................................................................................................................17
4.1. FÁRMACOS QUE INTERAGEM COM ENZIMAS................................................................................................17
4.2. FÁRMACOS QUE INTERAGEM COM PROTEÍNAS CARREGADORAS.............................................................17
4.3. FÁRMACOS QUE INTERAGEM COM CANAIS IÔNICOS...................................................................................18
4.4. FÁRMACOS QUE INTERAGEM COM RECEPTORES........................................................................................18
4.4.1. FÁRMACOS AGONISTAS..................................................................................................................................18
4.4.2. FÁRMACOS ANTAGONISTAS......................................................................................................................... 20
5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................................................... 22

WWW.UNINGA.BR 4
ENSINO A DISTÂNCIA

INTRODUÇÃO
Embora reconheçamos a importância dos tratamentos não medicamentosos, como
mudança de hábitos alimentares, atividade física, diminuição do consumo de bebidas alcóolicas
etc., na prevenção de doenças, melhora da saúde e qualidade de vida das pessoas, o tratamento
farmacológico ainda constitui importante ferramenta para alcançar melhores resultados no
reestabelecimento da saúde.
Apesar dos benefícios obtidos quando utilizados corretamente, os medicamentos também
podem trazer riscos à população quando prescritos, dispensados, armazenados, administrados
ou descartados de maneira errada. Assim, o conhecimento sobre os produtos farmacêuticos
contribui tanto para a eficácia dos tratamentos quanto para a segurança da população.
Os principais responsáveis pela prescrição de medicamentos são os médicos, dentistas e
médicos veterinários, porém os demais profissionais da saúde também devem ter conhecimento
suficiente para compreender e, assim, contribuir para a recuperação do paciente.
Para tanto, elaboramos cuidadosamente um material que contempla os principais tópicos
da farmacologia, de modo a colaborar na formação acadêmica de futuros profissionais que irão
contribuir para o uso racional de medicamentos.
Sendo assim, desejamos a você ótimos momentos de estudo e aprendizado. Para que

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
possa aproveitar ao máximo o conteúdo deste material, não deixe de conferir também os
materiais complementares, participar dos fóruns e ficar atento a todas as orientações da equipe
que o acompanha.
Bons estudos!

WWW.UNINGA.BR 5
ENSINO A DISTÂNCIA

1 - CONCEITOS GERAIS EM FARMACOLOGIA


A psicofarmacologia é a ciência que estuda a relação ente os transtornos mentais e os
fármacos que atuam no sistema nervoso central, com o objetivo de tratar estes transtornos. Por
envolver a interação de compostos químicos com organismos vivos, requer tanto o conhecimento
das propriedades físicas e químicas dos compostos, como a compreensão de suas ações fisiológicas
e usos terapêuticos.
Nesta unidade, apresentaremos definições de conceitos gerais importantes em
psicofarmacologia, apresentaremos as principais formas farmacêuticas e vias de administração
de substâncias psicotrópicas e conheceremos os processos farmacocinéticos envolvidos na ação
de fármacos.
Para iniciar a apresentação dos conceitos, trazemos a definição de duas palavras que
apresentam significados diferentes, porém são comumente utilizadas como sinônimos pela
população em geral. Estamos falando de REMÉDIO e MEDICAMENTO.
O termo REMÉDIO tem significado amplo e se refere a algo que serve para destruir ou
minimizar o sofrimento do paciente, podendo tanto ser um fármaco, como outros recursos não
farmacológicos disponíveis, como psicoterapia, banhos terapêuticos, massagens, psicoterapia etc.
Resumindo: aliviou o sofrimento do paciente, pode ser considerado remédio, sendo este
um medicamento ou não.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
O termo MEDICAMENTO se refere ao produto farmacêutico, tecnicamente obtido ou
elaborado, com as seguintes finalidades:

• Preventiva. Exemplo: vacinas;


• Curativa. Exemplo: antibióticos;
• Paliativa. Exemplo: analgésico opioide;
• Reposição. Exemplo: insulina em pacientes diabéticos tipo I.
• Diagnóstico. Exemplo: contrastes utilizados em exames de imagem

Quando conhecemos a diferença entre estes dois conceitos, podemos afirmar que todos
os medicamentos são remédios, mas nem todos os remédios são medicamentos.
Outros termos que, para algumas pessoas, podem gerar dúvidas são DROGA e
FÁRMACO.
O termo DROGA pode ser definido como toda substância com capacidade de modificar
algum sistema fisiológico, que pode ou não apresentar propriedades terapêuticas e podendo ou
não ser utilizada com a intenção de trazer benefícios para o organismo. Este conceito é utilizado
com muita frequência por pesquisadores no meio acadêmico para descrever substâncias com
potencial terapêutico, mas que ainda estão em fase de estudo; ou, até mesmo, pela população em
geral, como sinônimo de substâncias de abuso.
FÁRMACO/PRINCÍPIO ATIVO é toda substância com estrutura química conhecida
e propriedade de modificar alguma função fisiológica ou estado patológico, quando usada com
finalidade preventiva, diagnóstica ou terapêutica. Consiste na substância principal da formulação
do medicamento, responsável pelo efeito terapêutico, conhecida também como princípio ativo.
Considerando as exigências de testes para obtenção do registro de um medicamento,
temos 3 tipos: Medicamentos de Referência, Genéricos e Similares. Eles apresentam diferenças
quantos aos testes realizados nas fases de pesquisa, desenvolvimento e registro dos produtos, o
que impacta tanto no preço de venda quanto na forma como serão vendidos, podendo ou não
ser intercambiáveis.

WWW.UNINGA.BR 6
ENSINO A DISTÂNCIA

O MEDICAMENTO DE REFERÊNCIA é um produto inovador (o primeiro a ser


lançado contendo certo princípio ativo), registrado no órgão federal responsável pela vigilância
sanitária e comercializado no país, cuja eficácia, segurança e qualidade foram comprovadas
cientificamente junto ao órgão federal competente, por ocasião do registro. Serve de parâmetro
de eficácia, segurança e qualidade para os registros de medicamentos genéricos e similares.
O MEDICAMENTO GENÉRICO contém o mesmo fármaco (princípio ativo), na mesma
dose e forma farmacêutica, é administrado pela mesma via e com a mesma indicação terapêutica
do medicamento de referência no país, apresentando a mesma segurança que o medicamento de
referência, podendo, com este, ser intercambiável. A substituição do medicamento de referência
pelo seu genérico, é assegurada por testes de bioequivalência apresentados à ANVISA, do
Ministério da Saúde. Os medicamentos genéricos são, geralmente, produzidos após a expiração
ou renúncia da proteção patentária ou de outros direitos de exclusividade, comprovada a sua
eficácia, segurança e qualidade (Figura 1).

Quanto à forma de apresentação é importante saber que os medicamentos ge-


néricos irão apresentar uma faixa amarela na embalagem em que deverá estar
escrito: “Medicamento Genérico”, e a letra G aparecerá em tamanho maior. Logo
abaixo aparecerão as informações referentes à Lei 9787, de 1999. Dependendo

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
do caso, se for um medicamento de venda sob prescrição médica, a embalagem
ainda poderá apresentar a faixa vermelha, ou a faixa preta, para medicamentos
capazes de causar dependência (Figura 1).

Figura 1 - Medicamento genérico. Fonte: David (2017).

WWW.UNINGA.BR 7
ENSINO A DISTÂNCIA

Avaliação de Biodisponibilidade e Bioequivalência.


Disponível em: <https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/farma-
cia/avaliacao-de-biodisponibilidade-e-bioequivalencia/12461>.

O MEDICAMENTO SIMILAR é aquele que contém o mesmo ou os mesmos princípios


ativos, apresenta a mesma concentração, forma farmacêutica, via de administração, posologia
e indicação terapêutica, preventiva ou diagnóstica do medicamento de referência registrado no
órgão federal responsável pela vigilância sanitária, podendo diferir somente em características
relativas ao tamanho e forma do produto, prazo de validade, embalagem, rotulagem, excipientes
e veículos, devendo sempre ser identificado por nome comercial ou marca. Outra diferença
importante em relação aos medicamentos de referência e genéricos se refere aos testes aos quais
foram submetidos para se obter o registro junto a ANVISA, muitos medicamentos similares não
têm sua bioequivalência comprovada e, portanto, não são intercambiáveis.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
Significado das tarjas de medicamentos.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ZfZWo8o7F90>.

2 - VIAS DE ADMINISTRAÇÃO
Para continuarmos nosso estudo, vamos conhecer as principais vias de administração
e formas de apresentação dos medicamentos psicotrópicos (demais fármacos podem ser
administrados por outras vias e apresentar formas farmacêuticas que não serão apresentadas
neste material).
A via de administração do medicamento é o caminho pelo qual ele é colocado em contato
com o organismo. Para que o efeito terapêutico seja obtido, além da escolha do fármaco correto,
a escolha da via de administração também é essencial. Esta escolha leva em consideração os
seguintes fatores:

✓ Rapidez de ação desejada;


✓ Efeito (local ou sistêmico)
✓ Natureza do fármaco
✓ Forma farmacêutica (liberação lenta ou rápida do princípio ativo)

De forma didática, classificamos as vias de administração em vias enterais, parenterais


e tópicas. O conhecimento das vantagens e desvantagens das diferentes vias de administração é
fundamental para a indicação mais segura e eficaz.

WWW.UNINGA.BR 8
ENSINO A DISTÂNCIA

2.1. Vias Enterais


Constituem as vias mais comuns de administração de fármacos. As principais vias enterais
de administração de psicotrópicos são as vias oral e sublingual.
As vantagens são:

• Comodidade, pois permite autoadministração


• Esquemas terapêuticos fáceis de serem cumpridos
• Baixo custo se comparada a outras vias
• Maior segurança, pois diminui os riscos de contaminação e má administração e aumenta
as chances de intervenção em casos de intoxicação (via oral).

Na via oral, o medicamento é ingerido pela boca e sua absorção geralmente ocorre no
estômago ou no intestino. Na via sublingual, o medicamento é depositado debaixo da língua e
é absorvido pelas mucosas situadas na região sublingual que são altamente vascularizadas. A via
sublingual apresenta tempo de latência (intervalo de tempo entre a administração do fármaco
e a observação de seu efeito terapêutico) menor que a via oral, por isso pode ser utilizada pelo
próprio paciente, em situações de emergência (exemplo: comprimidos sublinguais de clonazepam
em crises de transtorno do pânico).
As desvantagens são:

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
• A taxa de absorção variável.
• Pode ocorrer irritação gástrica ou da mucosa sublingual.
• Vias oral e sublingual não podem ser utilizadas em pacientes inconscientes.
• Sabor desagradável de alguns fármacos.

As principais formas farmacêuticas utilizadas para a administração oral de psicotrópicos


incluem comprimidos, cápsulas e soluções (líquido/gotas) (Figura 2). Já a administração
sublingual utiliza, principalmente, fármacos na forma de comprimidos.

Figura 2 - Formas farmacêuticas mais utilizadas para psicotrópicos. Fonte: SlideShare (2012).

WWW.UNINGA.BR 9
ENSINO A DISTÂNCIA

Tabela 1 - Formas farmacêuticas. Fonte: Allen; Popovich; Ansel (2007).

2.2. Vias parenterais


Utilizam dispositivos que auxiliam a administração dos medicamentos, como seringas e
agulhas, por exemplo.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
As vantagens são:

• O fármaco atinge mais rapidamente o local de ação, produzindo uma resposta rápida,
que pode ser necessária em situações de emergência.
• A dose pode ser administrada com maior precisão.
• A administração parenteral pode ser utilizada quando a via enteral é impossível.

As desvantagens são:

• A absorção mais rápida do fármaco pode resultar em o aumento dos efeitos adversos.
• É necessária uma formulação estéril, bem como uma técnica asséptica da administração.
• Pode ocorrer irritação no local da injeção.
• Requer profissional treinado para a aplicação.
• Pode ser dolorosa.

As principais vias parenterais de administração de psicotrópicos são:

2.2.1. Via endovenosa


Por esta via o medicamento é administrado diretamente na circulação venosa e apresenta
efeito rápido. É indicada para situações de emergência, porém com a presença de um profissional
capacitado para executar.

WWW.UNINGA.BR 10
ENSINO A DISTÂNCIA

2.2.2. Via intramuscular


Por esta via o medicamento é administrado diretamente no músculo, podendo agir
rapidamente ou ficar armazenado e apresentar efeito prolongado. É indicada para a administração
de formas farmacêuticas de liberação prolongada, como o haloperidol decanoato no tratamento
da esquizofrenia, por exemplo.
As formas farmacêuticas utilizadas para a vias enterais são soluções ou suspenções líquidas
estéreis (Figura 2). Para a via endovenosa, o líquido deve ser obrigatoriamente hidrossolúvel
(compatíveis com o plasma sanguíneo); e para a administração intramuscular podem ser
hidrossolúveis (ação rápida) ou lipossolúveis (ação lenta).

O processo de desenvolvimento de um medicamento: da pesquisa até o uso pela


população.
Disponível em: <https://extensao.cecierj.edu.br/material_didatico/sau2203/pdfs/
aula04.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2019.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
3 - FARMACOCINÉTICA
A divisão da farmacologia que explica a movimentação dos fármacos no corpo, do
momento de sua administração até sua saída do organismo, é a farmacocinética. Considerando
que esta movimentação é realizada por processos fisiológicos, podemos dizer que a farmacocinética
é o que o corpo faz com a droga. Estudaremos, nesta unidade, sobre as etapas envolvidas neste
processo.
O conhecimento da farmacocinética permite otimizar os efeitos, aumentando as chances
de sucesso terapêutico, além de evitar e tratar eventuais interações medicamentosas e efeitos
adversos e intoxicações causadas por esses agentes.
Do momento da administração até a saída do corpo, os fármacos passam por diversos
compartimentos e seu deslocamento é influenciado tanto por características do ambiente
fisiológico em que se encontra, como por características do próprio fármaco.
Para exercer efeito terapêutico, a maioria dos fármacos deve satisfazer certas exigências
mínimas para ter efetividade clínica. Uma delas é a capacidade de atravessar as barreiras
fisiológicas que existem no corpo para limitar o acesso das substâncias estranhas.
Os fármacos atravessam as membranas por processos de transporte passivo (do meio
mais concentrado, onde foi depositado na administração, para o meio menos concentrado –
exemplo: do estômago para a circulação sanguínea) ou por transporte ativo, contra o gradiente
de concentração (do meio menos, para o meio mais concentrado), com gasto de energia na forma
de ATP.

WWW.UNINGA.BR 11
ENSINO A DISTÂNCIA

Figura 3 - Transporte através de membranas. Fonte: Aprile (2017).

Agora que já conhecemos as formas de transporte de fármacos através das membranas

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
biológicas, vamos estudar as etapas pelas quais ele passa após sua administração (SANTOS;
TORRIANI; BARROS, 2013).
Podemos dividir a farmacocinética em quatro processos principais, sendo eles: absorção,
distribuição, metabolismo e excreção. Vamos discutir sobre eles agora.

Figura 4 - Representação dos processos farmacocinéticos (Absorção, Distribuição, Metabolização e Eliminação –


ADME). Fonte: Ibuprofeno (s.d.).

WWW.UNINGA.BR 12
ENSINO A DISTÂNCIA

3.1. Absorção
É definida como a passagem de uma substância de seu local de administração para a
circulação sanguínea local. No caso de formas farmacêuticas sólidas, a absorção depende
inicialmente da dissolução do comprimido ou da cápsula que, então, libera o fármaco.
Esta etapa farmacocinética pode ser influenciada por diversos fatores.

3.1.1. Via de administração


A escolha da via de administração pode influenciar tanto a absorção quanto o tempo de
latência para se observar os efeitos terapêuticos.
Para compreender melhor esta influência, basta comparar a rapidez do efeito observado
quando um mesmo fármaco é administrado por duas vias diferentes. Exemplo: após administração
oral, seu tempo de latência sempre será maior que o tempo observado após a administração
pela via sublingual ou endovenosa. Por este motivo estas duas últimas vias são preferidas para
situações de emergência. Essas variações se devem a diferenças na quantidade de membranas que
precisam ser atravessa pelos fármacos administrados por estas duas vias.
Por ser considerada como processo de passagem até o sangue, a etapa de absorção não é
considerada para os fármacos administrados por via endovenosa, pois, por esta via, os fármacos
já são depositados no sangue.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
3.1.2. Variabilidade biológica
Decorre de diferenças fisiológicas observadas entre indivíduos. Como exemplo temos
a velocidade de trânsito intestinal. Em indivíduos com trânsito mais lento, os medicamentos
podem ficar mais tempo em contato com as mucosas intestinais e, assim, apresentar variações
quanto a taxa de absorção.

3.1.3. Circulação no local de administração


Quanto maior a circulação sanguínea no local de depósito do fármaco, melhor a absorção.

3.1.4. Área de absorção


Quanto maior a área exposta ao fármaco, melhor a absorção. Neste sentido, órgãos com
grandes superfícies de contato, como o pulmão e o intestino, quando forem locais de depósito
de fármacos, podem resultar em um menor tempo de latência, comparados ao mesmo fármaco
administrado pela via oral.
No caso da via oral, ainda devemos considerar a presença de alimentos no estômago, o
que pode aumentar o período de latência.

WWW.UNINGA.BR 13
ENSINO A DISTÂNCIA

3.1.4. Solubilidade
Considerando que as membranas fisiológicas são constituídas por células, que possuem
como envoltório a bicamada fosfolipídica, é importante sabermos que os fármacos precisam ser
lipossolúveis o suficiente para atravessar estas bicamadas. A partir do momento que a droga
alcançou a corrente sanguínea, é necessário que ela alcance seu sítio de ação, e à esta próxima
etapa denominamos distribuição.

3.1.5. pKa do fármaco e pH do sítio de absorção


As moléculas do fármaco podem se apresentar na forma não ionizada, ou seja, sem cargas,
sendo esta a forma mais lipossolúvel (melhor absorvida); ou na forma ionizada, por interações
com componentes do meio. Nesta última forma, por apresentar cargas, as moléculas são mais
hidrossolúveis (pior absorvidas).
A forma predominante será determinada pKa do fármaco e pH do sítio de absorção.
O pKa se refere à constante de dissociação e é definido pelo pH, no qual 50% da droga
encontra-se no estado ionizado e 50% em estado não ionizado.
Drogas com pKa ácido (menor que 7) em meio com pH também ácido (exemplo:
estômago) terão sua absorção favorecida.
A mesma regra vale para drogas com pKa básico (maior que 7) em meio básico, onde

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
também terão sua absorção favorecida.
De forma oposta, drogas com pKa básico no meio ácido ou drogas com pKa ácido no meio
básico encontram-se predominantemente na forma ionizada, e terão sua absorção diminuída
nestes meios opostos ao seu pKa.

3.2. Distribuição
Distribuição é a passagem de um fármaco da corrente sanguínea para os tecidos, quando
o fármaco reversivelmente abandona o leito vascular e entra no líquido extracelular e/ou nas
células dos tecidos.
Assim como na absorção certos fatores ligados ao fármaco e fatores fisiológicos também
podem interferir na distribuição, como por exemplo:

WWW.UNINGA.BR 14
ENSINO A DISTÂNCIA

3.2.1. Ionização
Fármacos ionizados (com cargas) tem dificuldade de circulação em direção a outras
regiões do organismo.

3.2.2. Permeabilidade Capilar


Em estruturas nobres do organismo existem barreiras específicas, com o objetivo de
protegê-las da ação dos fármacos. São elas:

• Barreira Hematoencefálica – localizada no sistema nervoso;


• Barreira Placentária – localizada na placenta;
• Barreira Hematotesticular – localizada na região dos testículos.

Considerando as semelhanças entre a barreira hematoencefálica e a placentária,


é possível compreender porque o uso de drogas de abuso pode ser prejudicial
durante a gestação. Para as drogas de abuso, como o álcool, por exemplo, exer-

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
cerem seu efeito, precisam alcançar o cérebro. Se são capazes de alcançar a cir-
culação cerebral, serão também capazes de alcançar a circulação fetal, podendo
comprometer o desenvolvimento do feto, provocando futuras doenças nele. No
caso do álcool, uma das consequências é a síndrome alcoólica fetal.

3.2.3. Fluxo sanguíneo


Quanto mais irrigado for o órgão, maior a quantidade de fármaco que deve chegar a ele.

3.2.4. Ligação a proteínas plasmáticas


As drogas sofrem ligação a proteínas plasmáticas. A eficácia de uma droga é afetada pelo
grau em que ela se liga a proteínas no plasma sanguíneo. Quanto menos ligante a droga for, mais
eficientemente ela pode transpor as membranas celular ou se difundir. O aumento na fração
da droga livre (não ligada à proteína) acarretará em uma maior quantidade de fármaco capaz
de deixar a circulação, o que poderá resultar em efeitos tóxicos. Esta situação pode acometer
pacientes com desnutrição proteica, por exemplo, e exige ajuste na dose.
Os fármacos são eliminados pelo processo de excreção em sua forma original, ou são
convertidos em metabólitos. Os compostos hidrossolúveis são eliminados mais facilmente. Já os
fármacos lipossolúveis precisam ser metabolizados em compostos mais hidrossolúveis para que
possam ser eliminados também.

WWW.UNINGA.BR 15
ENSINO A DISTÂNCIA

3.3. Metabolização
A metabolização tem como principal objetivo a conversão de fármacos em metabólitos
mais hidrofílicos, capazes de serem eliminados mais facilmente pelos órgãos excretores (exemplo:
rim – urina). Além disso, a metabolização ainda contribui para a cessação das atividades biológica
e farmacológica dos compostos (BRUNTON, 2012).
Na maioria dos casos, a metabolização gera compostos inativos mais polares, facilmente
excretados pelo organismo. Entretanto, em alguns casos, a molécula original do fármaco pode
ser pouco ou não ser farmacologicamente eficaz, mas após ser metabolizada, origina metabólitos
mais eficazes. Nos casos em que a forma ativa é o metabólito, dizemos que se trata de um pró-
fármaco.
A metabolização de fármacos é realizada, principalmente, por enzimas hepáticas, que
podem ser induzidas ou inibidas, e diferenças nas taxas de metabolização entre um indivíduo e
outro pode resultar em diferentes respostas farmacológicas, frente a mesma dose administrada.
O uso concomitante de indutores e inibidores enzimáticos altera o tempo de meia vida
da droga (t1/2) (Tabela 2).
O t1/2 se refere ao tempo necessário para que a concentração plasmática de determinado
fármaco seja reduzida pela metade. O uso de indutores reduz o t1/2 de algumas drogas e o uso de
inibidores aumenta este tempo. Nos dois casos os níveis terapêuticos poderão ser corrigidos com
ajuste da dose.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
Na forma hidrossolúvel os fármacos ou seus metabólitos estão prontos para deixar o
organismo.

3.4. Eliminação
A eliminação consiste na saída do fármaco do organismo. A principal forma de eliminação
de drogas é pela via renal, sendo os rins os órgãos mais importantes para a excreção dos fármacos
e seus metabólitos. Devido ao caráter aquoso da urina, a excreção renal baseia-se na natureza
hidrofílica do fármaco ou seu metabólito. Neste momento, espera-se o oposto ao desejável na
absorção, quanto mais hidrossolúvel o fármaco/metabólito melhor sua eliminação.
Semelhante ao observado durante a absorção, na excreção renal o pKa do fármaco/
metabólito e o pH da urina também irão influenciar a predominância das formas ionizadas ou
não ionizadas.

É importante lembrar que há um declínio da função renal com o avançar da idade. Por
isso, indivíduos idosos podem ter maior dificuldade para eliminar medicamentos por esta via,
resultando em um aumento do tempo de meia-vida, que deve ser considerado no momento da
determinação da dose.
Além da excreção renal, os fármacos ainda podem ser eliminados pelas fezes, suor, leite,
saliva, lágrimas, sêmen ou ar exalado pelos pulmões (via pulmonar).

WWW.UNINGA.BR 16
ENSINO A DISTÂNCIA

4 - FARMACODINÂMICA
Uma vez alcançados os órgãos alvo, os fármacos irão interagir com moléculas biológicas
para exercer seu efeito. A divisão da farmacologia que explica o mecanismo de ação dos fármacos
para produzir efeitos biológicos é chamada farmacodinâmica.
Considerando que o efeito observado é consequência da interação já citada, podemos
dizer ainda que a farmacodinâmica descreve o que a droga faz com o corpo. Após interagir com
o organismo, os fármacos irão provocar manifestações nos sistemas orgânicos que resultarão
em diversos tipos de efeito, sendo o principal deles, o efeito terapêutico, que representa o efeito
benéfico e desejado provocado pelo fármaco quando administrado no organismo.
Além do efeito terapêutico, a maioria dos fármacos exibirá efeitos indesejáveis juntamente
com os efeitos terapêuticos esperados deles.
Os efeitos indesejáveis ou adversos podem ser caracterizados como:

• Efeitos colaterais: atribuíveis ao mecanismo de ação das drogas. Ocorrem juntamente


com os efeitos que a droga deveria produzir.
• Efeitos tóxicos: só se manifestam durante a superdosagem intencional ou acidental.

Agora que já conhecemos os possíveis efeitos da administração de fármacos, vamos

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
entender como ocorre sua interação com os alvos farmacológicos. Os locais onde o fármaco
interage e produz um efeito farmacológico são chamados de receptores farmacológicos.
Todos os possíveis efeitos observados após a administração de medicamentos se devem a
interações moleculares entre o fármacos e sítios de ligação presentes no organismo.
Quanto aos alvos de ação dos fármacos no organismo, temos:

4.1. Fármacos que Interagem com Enzimas


Estes fármacos podem atuar de duas formas:

• Ativação (indução) de enzimas: atuam levando a ativação da enzima em questão. Como


exemplo de fármaco ativador (indutor) enzimático temos os barbitúricos, utilizados no
tratamento da epilepsia.
• Inativação (inibição) de enzimas: atuam levando a inibição da enzima em questão, que
deixa de exercer sua função, podendo provocar acumulo de seu substrato, bem como a
falta de seu produto.

4.2. Fármacos que Interagem com Proteínas Carregadoras


Estes fármacos irão interagir com proteínas carregadoras que facilitam o transporte de
substâncias através de membranas biológicas. A inibição destas proteínas leva ao acúmulo de
determinada substância em um compartimento, enquanto pode provocar deficiência da mesma
em outro compartimento. Como exemplo de fármacos que atuam por este mecanismo, temos
antidepressivos tricíclicos que bloqueiam a captação de noradrenalina no terminal adrenérgico.

WWW.UNINGA.BR 17
ENSINO A DISTÂNCIA

4.3. Fármacos que Interagem com Canais Iônicos


Os canais iônicos estão presentes na membrana celular e permitem a passagem de íons
entre os dois lados da membrana. Como exemplo de fármacos que atuam por este mecanismo
temos os ansiolíticos da classe dos benzodiazepínicos, que interagem com receptores GABA,
aumentando a entrada de íons cloro para o meio intracelular.

4.4. Fármacos que Interagem com Receptores


De forma geral, como já citado, o termo receptor pode se referir aos locais onde o fármaco
interage e produz um efeito farmacológico. Podem caracterizar moléculas proteicas cuja função é
reconhecer sinais químicos endógenos e responder a eles.
De forma simples, podemos dizer que os receptores existem, pois o próprio organismo é
capaz de produzir substâncias capazes de ativá-los. A estas substâncias damos o nome de ligantes
endógenos ou agonistas endógenos.
A maioria dos receptores pode se apresentar em dois estados: ativos ou inativos, que são
diretamente influenciados pela ação de ligantes endógenos ou fármacos.
Para produzir efeito farmacológico o fármaco precisa ter duas características:

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
• Afinidade pelo receptor: a afinidade é a atração mútua ou força de ligação entre um
fármaco e o seu receptor alvo. Para que um fármaco consiga interagir com estes receptores
é necessário que sua estrutura química seja compatível com os sítios de ligação presentes
no receptor, permitindo uma interação efetiva entre eles.

• Atividade intrínseca: após a ligação com o receptor, a interação poderá resultar no


aumento ou na diminuição da atividade exercida por este receptor. A capacidade de
ativar a atividade de um receptor e produzir efeito farmacológico é o que caracteriza sua
atividade intrínseca.

De acordo com este critério, podemos classificar os fármacos como AGONISTAS ou


ANTAGONISTAS.

4.4.1. Fármacos agonistas


São fármacos que, por ter afinidade pelo receptor, se ligam ao mesmo sítio de
reconhecimento que o ligante endógeno e o estabiliza em um determinado estado, geralmente
no estado ativo. Podem ser divididos em:

• Agonistas plenos: além de apresentarem afinidade, apresentam atividade intrínseca


máxima, sendo capazes de ativar 100% da atividade de um receptor.

•Agonistas parciais: além de apresentarem afinidade, apresentam atividade intrínseca


parcial, não sendo capaz de alcançar a atividade máxima mesmo com ocupação da
totalidade dos receptores.

• Agonistas inversos: ligam-se seletivamente à forma inativa dos receptores, estabilizando-


os nesta conformação (Figura 5).

WWW.UNINGA.BR 18
ENSINO A DISTÂNCIA

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
Figura 5 - Efeitos dos agonistas. Fonte: Whalen; Finkel; Panavelil (2016).

Figura 6 - Representação dos tipos de antagonismo. Fonte: Golan (2014).

WWW.UNINGA.BR 19
ENSINO A DISTÂNCIA

4.4.2. Fármacos antagonistas


São fármacos que também possuem afinidade pelo receptor, porém não possuem
atividade intrínseca. Seu efeito farmacológico se deve ao bloqueio ou redução da ação do ligante
endógeno ou do fármaco agonista.
O antagonismo competitivo é exercido por fármacos que competem com o agonista
(endógeno ou fármaco) pelo sítio de ligação do receptor. A preferência de ligação pelo receptor
será determinada pelas concentrações do agonista ou do antagonista. Assim, mesmo na presença
do antagonista, se o agonista estiver em maior concentração poderá se ligar aos receptores alvo
e desencadear resposta máxima. Enquanto que se o antagonista estiver em concentração maior,
poderá reduzir a resposta do receptor a zero.
Exercido por fármacos antagonistas que se ligam ao sítio ativo do receptor com afinidade
muito alta, fazendo com que sua dissociação seja tão lenta, que sua ligação ao receptor pode
ser considerada irreversível. Neste caso, mesmo altas concentrações do agonista não poderão
deslocar o antagonista do receptor.
Temos ainda os antagonistas alostéricos não-competitivos, que se ligam em sítios
diferentes do agonista, no mesmo receptor. Neste caso, o receptor pode acomodar ambos
simultaneamente, mas a ligação do antagonista inativa o receptor, de modo que o estado inativo
não possa ser revertido, mesmo na presença de grandes concentrações do agonista ligado (Figuras
6 e 7).

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1

Figura 7 - Efeito dos fármacos antagonistas. Fonte: Whale; Finkel; Panavelil (2016).

Agora que já conhecemos os possíveis tipos de interação com receptores biológicos, vamos
conhecer as diferenças entre alguns conceitos que, de forma errada, são as vezes usados como
sinônimos. Para quantificar as respostas produzidas pelos fármacos, é importante diferenciar
eficácia de potência.
A eficácia de um fármaco é sua capacidade de promover efeito biológico quando ligado
a um receptor, e refere-se à resposta terapêutica potencial máxima que um fármaco pode induzir.

WWW.UNINGA.BR 20
ENSINO A DISTÂNCIA

Já a potência está relacionada à quantidade de fármaco (geralmente expressa em


miligramas) necessária para produzir um efeito, como aliviar a dor ou diminuir a pressão
arterial. A potência de um fármaco é um parâmetro relativo, que só pode ser avaliado a partir da
comparação de fármacos que possuem a mesma eficácia. Como exemplos vamos considerar os
fármacos A e B, sendo necessário 5 mg do fármaco A para aliviar a dor ou 10 mg do fármaco B
para se obter o mesmo efeito. Como o fármaco A produz o mesmo efeito de B em uma quantidade
(em mg) menor, dizemos que, apesar de ambos terem a mesma eficácia (produzirem o mesmo
efeito), A é mais potente que B (Figura 8).

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
Figura 8 - Curvas dose-resposta típicas para fármacos que mostram diferenças entre em potência e eficácia. Fonte:
Whalen; Finkel; Panavelil (2016).

Ao longo deste estudo pudemos compreender como a interação dos fármacos com
receptores farmacológicos é capaz de produzir efeitos biológicos. Além disso, é importante saber
que o tempo de exposição à determinado fármaco, nos tratamentos agudos ou crônicos, pode
influenciar a intensidade de resposta de determinados receptores a eles.
Da mesma forma como são capazes de regular diversas atividades celulares, os receptores
também estão submetidos a mecanismos de controle reguladores e homeostáticos. Esses controles
incluem a regulação da síntese e degradação de receptores, que irão provocar mudanças nas
quantidades dos mesmos, dependendo dos estímulos aos quais eles forem expostos.
Na exposição prolongada, observada em tratamentos crônicos, estas mudanças são
bem mais evidentes. A estimulação prolongada das células por fármacos agonistas pode levar
a um estado de dessensibilização (também conhecido como adaptação, refratariedade ou
hiporregulação). Do ponto de vista clínico, esta dessensibilização é evidenciada pela diminuição
do efeito observado ao longo do tratamento, quando se utiliza a mesma dose do fármaco por
longos períodos e resulta da diminuição do número de receptores disponíveis para interagir com
o fármaco.

WWW.UNINGA.BR 21
ENSINO A DISTÂNCIA

Para compensar esta diminuição do efeito ao longo do tempo, é necessário um aumento


na quantidade do fármaco administrado. Este processo é o que caracteriza a tolerância, e leva à
necessidade de doses cada vez maiores para se obter o efeito experimentado inicialmente.
A ocorrência de dessensibilização e tolerância é observada tanto na exposição crônica a
fármacos agonistas, como na exposição prolongada a drogas de abuso agonistas, como o álcool,
por exemplo. Neste sentido, a tolerância ao efeito de determinada substância é um dos parâmetros
considerados no diagnóstico da dependência de drogas.
E, por fim, temos os conceitos relacionados à terapia: janela terapêutica e índice
terapêutico.
A janela terapêutica define a faixa de doses de um fármaco que produz efeito terapêutico
sem causar efeitos adversos inaceitáveis. Este parâmetro é quantificado pelo índice terapêutico
(IT), que é definido com a relação entre a dose que produz respostas tóxica em 50% da população
(DT50) e a dose terapêutica efetiva em 50% da população (DE50). Quanto maior o IT, maior a
janela terapêutica, maior a diferença entre a dose efetiva e a tóxica e, consequentemente, maior a
segurança que o tratamento oferece.

5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS
E, assim, finalizamos nossa Unidade I.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 1
Nesta pudemos conhecer os conceitos fundamentais em farmacologia e compreender o
caminho percorrido pelos fármacos, de sua entrada até sua eliminação do organismo. Também
conhecemos os fatores que influenciam cada etapa farmacocinética e farmacodinâmica.
Bons estudos!

WWW.UNINGA.BR 22
UNIDADE ENSINO A DISTÂNCIA

02
DISCIPLINA:
PSICOFARMACOLOGIA

FISIOLOGIA DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL,


ANSIOLÍTICOS E TRATAMENTO FARMACOLÓGICO
DO DÉFICIT DE ATENÇÃO COM HIPERATIVIDADE
PROF.A DRA. VIVIAN TACIANY BONASSOLI SHIMA

SUMÁRIO DA UNIDADE

INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................. 25
1 - FISIOLOGIA DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL (SNC).................................................................................... 26
1.1. NEUROANATOMIA.............................................................................................................................................. 26
1.2. CÉLULAS DO SNC............................................................................................................................................... 27
1.3. POTENCIAL DE AÇÃO......................................................................................................................................... 29
1.4. SINAPSES............................................................................................................................................................ 30
1.5. NEUROTRANSMISSORES (NT)......................................................................................................................... 30
1.5.1. AMINAS BIOGÊNICAS..................................................................................................................................... 32
1.5.1.1. MONOAMINAS............................................................................................................................................... 32
1.5.1.1.1. NORADRENALINA....................................................................................................................................... 32
1.5.1.1.2. DOPAMINA.................................................................................................................................................. 32

WWW.UNINGA.BR 23
1.5.1.1.3. -HIDROXITRIPTAMINA (5-HT, SEROTONINA)........................................................................................ 32
1.5.2. AMINOÁCIDOS................................................................................................................................................. 33
1.5.3. GLUTAMATO..................................................................................................................................................... 33
1.5.4. OUTROS............................................................................................................................................................ 33
2 - ANSIOLÍTICOS E HIPNÓTICOS........................................................................................................................... 34
2.1. ANSIEDADE......................................................................................................................................................... 34
2.1.1. CLASSIFICAÇÕES DE DESORDENS DA ANSIEDADE ................................................................................... 35
2.1.2. FISIOPATOLOGIA DA ANSIEDADE.................................................................................................................. 35
2.1.3. BENZODIAZEPÍNICOS (BZDS)........................................................................................................................ 35
2.1.3.1. MECANISMO DE AÇÃO................................................................................................................................. 36
2.1.3.2. FÁRMACOS................................................................................................................................................... 36
2.1.4. BARBITÚRICOS............................................................................................................................................... 37
2.1.4.1. MECANISMO DE AÇÃO................................................................................................................................. 37
2.1.4.2. FÁRMACOS................................................................................................................................................... 37
2.1.5. DROGAS Z ........................................................................................................................................................ 37
2.1.5.1. MECANISMO DE AÇÃO................................................................................................................................. 37
2.1.5.2. FÁRMACOS................................................................................................................................................... 38
2.1.6. BUSPIRONA..................................................................................................................................................... 38
3 - TRATAMENTO DO TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO COM HIPERATIVIDADE (TDAH)................... 39
3.1. FÁRMACOS PSICOESTIMULANTES.................................................................................................................. 40
3.1.1. METILFENIDATO (RITALINA).......................................................................................................................... 40
3.2. AGONISTAS Α2- ADRENÉRGICOS.....................................................................................................................41
3.3. ATOMOXETINA....................................................................................................................................................41
3.4. MODAFINILA.......................................................................................................................................................41
4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................................................................41

WWW.UNINGA.BR 24
ENSINO A DISTÂNCIA

INTRODUÇÃO
Agora que já estudamos o caminho que o fármaco percorre no organismo, farmacocinética,
bem como, de que maneira o fármaco interage com o organismo, farmacodinâmica; iremos, de
fato, adentrar no estudo da fisiopatologia e do tratamento farmacológico das principais patologias
do sistema nervoso central.
Nesta unidade iremos, primeiramente, relembrar detalhes da anatomia e fisiologia do
sistema nervoso central. Por conseguinte, estudaremos todo arsenal farmacológico disponível
para o tratamento dos transtornos ansiosos e do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).
Desejamos a você ótimos momentos de estudo e aprendizado e, para que possa aproveitar
ao máximo o conteúdo deste material, não deixe de conferir também os materiais complementares,
participar dos fóruns e ficar atento a todas as orientações da equipe que o acompanha.
Bons estudos!

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2

WWW.UNINGA.BR 25
ENSINO A DISTÂNCIA

1 - FISIOLOGIA DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL (SNC)

1.1. Neuroanatomia
O sistema nervoso central (SNC) é uma estrutura simétrica composta por duas partes
distintas, o encéfalo e a medula espinhal (Figura 1). Ainda, o encéfalo se divide em 3 partes
diferentes. Sendo elas:

• Cérebro (Telencéfalo e Diencéfalo): região responsável pelas atividades consideradas


“finas” no SNC, isto é, comandam as atividades relacionadas ao pensamento, percepção,
atenção, raciocínio, cognição e comportamento emocional. Também controla a atividade
endócrina, por meio da ação do hipotálamo sobre a hipófise.

• Tronco encefálico (Mesencéfalo, Ponte e Bulbo): atua como centro integrador no


SNC, pois envia informações do cérebro à medula espinhal e ao cerebelo e da medula e
cerebelo ao cérebro. Além disso, aqui estão localizados os centros do vômito, vasomotor,
da respiração e da temperatura; regiões muito importantes para a manutenção da vida.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
• Cerebelo: possui extensa conexão com o cérebro e medula espinhal. Nesta estrutura
está localizada o centro do controle dos movimentos coordenados, equilíbrio e da
aprendizagem motora.

A medula espinhal tem como principal função receber informações sensitivas e vegetativas
de todo o corpo e enviar para o encéfalo. Ademais, ela também atua enviando informações de
resposta, movimentação e vegetativas do encéfalo para o corpo.

Figura 1 - Ilustração do sistema nervoso central e das divisões do encéfalo. Fonte: Wikipedia (2019a, b).

Segundo Rang e Dale (2017), a função cerebral é a parte mais importante da fisiologia que
define a diferença entre os seres humanos e as outras espécies. De fato, o encéfalo é considerado
o centro da razão e da inteligência. Devido sua capacidade de coordenar a cognição, percepção,
atenção e a emoção. Além de executar as funções automáticas indispensáveis para manutenção
da vida, tais como, vigília, marcha e homeostáticas, como frequência cardíaca, pressão sanguínea
e temperatura corporal.

WWW.UNINGA.BR 26
ENSINO A DISTÂNCIA

1.2. Células do SNC


Há duas classes distintas de células no SNC, os neurônios e as células gliais. Os neurônios
possuem morfologia bem conhecida, a qual compreende:

▶ Corpo celular: estrutura necessária para a continuidade da vida de todo neurônio, pois
nela se encontra toda “maquinaria” dessa célula.

▶ Dendritos: na grande maioria dos neurônios, tratam-se da parte receptora, isto é,


recebem os sinais que chegam até o neurônio.

▶ Axônios: trata-se da fibra nervosa que transmite os sinais neurais para o neurônio
seguinte no cérebro ou na medula, ou para os músculos e glândulas nas regiões periféricas do
corpo.

▶ Terminal sináptico: região na qual os sinais (elétricos ou químicos) são transmitidos de


um neurônio para outro (Figura 2).

Vale a pena ressaltar que, segundo Bruce e Stanton (2009, p. 53),

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
O neurônio é a unidade funcional do sistema nervoso e os circuitos neurais são
formados por neurônios conectados sinapticamente. A atividade neuronal é,
geralmente, codificada por sequências de potenciais de ação propagados ao longo
dos axônios nos circuitos neuronais. A informação codificada é transportada de
um neurônio para outro por meio da transmissão sináptica.

Figura 2 - Principais características de um neurônio vertebrado. Fonte: Brunton et al. (2012).

WWW.UNINGA.BR 27
ENSINO A DISTÂNCIA

Embora se apresentem em maior quantidade no SNC (estima-se que existam cerca de 10


células da glia para cada neurônio), as células da glia não são tão estudadas quantos os neurônios,
portanto, muitos dos seus mecanismos ainda são desconhecidos. Atualmente, sabe-se que estas
células possuem a função de dar suporte à rede neural e podem ser classificadas em:

✓ Oligodendrócitos: sintetizam lipídios que são matéria-prima da mielina, membrana


que reveste o axônio, cuja principal função é proteger o axônio e acelerar a velocidade do
impulso nervoso.

✓ Astrócito: participam da nutrição do neurônio e da recuperação de certas lesões do


sistema nervoso.

✓ Micróglia: recolhem resíduos de células lesadas (Figura 3).

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2

Figura 3 - Principais tipos de células da glia. Fonte: Wikipedia (2019c).

WWW.UNINGA.BR 28
ENSINO A DISTÂNCIA

Camillo Golgi, médico e histologista italiano, conhecido pelo descobrimento e des-


crição do complexo de Golgi, foi o inventor da coloração com o nitrato de prata,
que provocou uma revolução no estudo do SNC. Esta coloração, hoje é conhecida
como coloração de Golgi-Cox, identificou uma classe de célula nervosa dotada de
extensões (ou dendritos) que se ligam entre si a outras células nervosas.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
Figura 4 - Método de Golgi-Cox. (A) Fotografia do médico italiano Golgi. (B) Desenhos originais de
neurônios feitos por Golgi. (C) Fotomicrografia da coloração de Golgi no Cortex pré-frontal. Fonte:
Wikipedia (2019d, e); a autora.

1.3. Potencial de ação


O potencial de ação é o meio utilizado pelas células (incluindo os neurônios) de conduzir
informações de uma célula para outra. Para melhor compreensão é necessário relembrarmos que
a membrana celular é a “barreira” impermeável que separa duas regiões (meio extracelular do
intracelular): uma de alta concentração de sal (cátion e ânion) e outra de baixa concentração de sal.
Nesta membrana estão inseridas uma série de proteínas denominadas proteínas transmembranas,
as quais servem como canais permeáveis aos cátions (Na+, K+, Ca+ e Cl-), como por exemplo a
bomba Na+/K+ ATPase.
Em uma situação fisiológica comum, o potencial em repouso da membrana celular se
apresenta em torno de -70mV, isto porque o potencial de ação é medido no meio intracelular e,
em repouso, existe um acumulo de carga positiva no meio extracelular e carga negativa no meio
intracelular.
Mediante um estimulo o potencial da membrana pode ser alterado, dessa forma,

A injeção de carga positiva, que altera o potencial de membrana de –70 mV para


–60 mV, é despolarizante, porque torna a célula mais positiva (i. e., diminui a
diferença de potencial entre os dois lados da membrana celular). Por outro lado,
a alteração do potencial de membrana de –70 mV para –80 mV, resultante da
injeção de carga negativa, aumenta a polarização da membrana; essa alteração
do potencial é chamada hiperpolarização (BRUCE; STANTON, 2009, p. 65).

WWW.UNINGA.BR 29
ENSINO A DISTÂNCIA

Para nossa melhor compreensão vamos pensar no íon Na+. Em potenciais de membrana de
-70 mV, os canais de sódio se encontram fechados. Mediante estímulo, que pode ser fisiológico ou
induzido (fármacos), ocorre rápida abertura do canal e uma rápida corrente de Na internamente
dirigida, despolariza a membrana para o potencial de equilíbrio do sódio de +40 mV. O canal é
inativado em cerca de 1 milissegundo (ms) e os canais de K+ se abrem, o fluxo de potássio para
fora repolariza a membrana e ela, então, volta ao potencial de -70 mV.
Já a hiperpolarização ocorre quando uma célula recebe um estímulo inibitório, nesse
caso íon K+ sai da célula enquanto o íon Cl- entra, tornando o meio intracelular mais negativo
que o meio extracelular e, consequentemente, inibindo a propagação do potencial de ação. Nessa
condição, o potencial de membrana pode chegar até -90mV.

1.4. Sinapses
Por meio das sinapses, um neurônio envia mensagens (impulsos nervosos) para centenas
ou até milhares de neurônios diferentes. As sinapses podem ser classificadas como químicas
ou elétricas. O sinal que será emitido do neurônio pré-sináptico para o pós-sináptico é o que
determinará o tipo de sinapse.
Na sinapse química um neurônio se comunica com outro(s) neurônio(s) por meio
de mediadores químicos, denominados neurotransmissores (NT), neuromoduladores e/ou
neurohormônios, sendo o NT o mais comum deles (Quadro 1). A sinapse química pode ser

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
subdivida em:

• Inibitória;
• Excitatória.

Na sinapse elétrica, a comunicação nervosa dispensa mediadores químicos. O potencial


de ação gera uma corrente iônica que flui pelos poros da junção de um neurônio para outro.
Este tipo de sinapse é caracterizado por uma transmissão rápida, quase que instantânea,
característica importante para o funcionamento do músculo cardíaco e do músculo liso. Não é
muito predominante no SNC.

1.5. Neurotransmissores (NT)


Os neurotransmissores (NT) são substâncias químicas, sintetizadas pelos próprios
neurônios e armazenadas dentro de vesículas. Quando os impulsos nervosos (potencial de ação)
chegam até o neurônio, essas vesículas localizadas no terminal axônio se rompem e os NT são
liberados para o meio extracelular por meio de exocitose.
A membrana que libera os NT é conhecida como membrana do neurônio pré-sináptico
e a membrana que recebe o NT é denominada membrana do neurônio pós-sináptico. Entre elas
há um espaço chamado fenda sináptica.
Receptores ionotrópicos e/ou metabotrópicos (acoplados a proteína G) (unidade
anterior), presentes na membrana dos neurônios pós-sinápticos, recebem os NT e dão início a
uma cascata bioquímica a qual irá culminar nos seus efeitos terapêuticos.
Por fim, mecanismos específicos de remoção e término do efeito dos NT (bombas de
recaptação e enzimas) são acionados, afim de que o NT seja removido da fenda-sináptica e seu
efeito sobre aquela sinapse cesse (Figura 5).

WWW.UNINGA.BR 30
ENSINO A DISTÂNCIA

Figura 5 - Ilustração de uma neurotransmissão no sistema nervoso central. Fonte: Wikipedia (2019f).

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
É importante mencionar que a identificação dos NTs proporcionou uma melhor
compreensão da fisiologia e fisiopatologia de várias patologias. Além disso, essa descoberta
também trouxe avanços no que diz respeito à intervenção terapêutica.
Todas as substâncias químicas consideradas NTs estão listadas no Quadro 1. A seguir
abordaremos os NTs que mais possuem aplicação terapêutica na prática clínica.

Quadro 1 - Classificação dos neurotransmissores. Fonte: Katzung et al. (2013).

WWW.UNINGA.BR 31
ENSINO A DISTÂNCIA

1.5.1. Aminas Biogênicas


• Acetilcolina (Ach)
Foi o primeiro neurotransmissor (NT) a ser identificado. Encontra-se bem difundido
no SNC, pois inúmeras vias contêm acetilcolina (Ach), principalmente vias relacionadas aos
processos de cognição.
A Ach se liga tanto a receptores metabotrópicos (M1-M5), os quais podem ser do tipo
inibitório ou excitatório, quanto receptores ionotrópicos (receptores nicotínicos). O receptor M1
é o mais distribuído no SNC.
Atualmente, fármacos que interagem com a Ach, aumentando o tempo de exposição da
Ach na fenda sináptica, são utilizados para o tratamento da doença de Alzheimer (DA).

1.5.1.1. Monoaminas

1.5.1.1.1. Noradrenalina
Os neurônios noradrenérgicos estão localizados em uma estrutura do tronco encefálico
denominada locus coeruleus ou na área tegmental lateral da formação reticular.
A noradrenalina se liga a receptores metabotrópicos, do tipo α ou β. O receptor α2 é um

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
importante alvo terapêutico para o tratamento dos transtornos efetivos. Esse receptor se encontra
no terminal axônico de neurônios pré-sinápticos e é um receptor inibitório, isto é, quando ativado
aumenta a condutância de K+, hiperpolarizando-o.

1.5.1.1.2. Dopamina
As principais vias dopaminérgicas se originam na substância negra e seguem para o
estriado, área tegmental ventral e estruturas límbicas.
A dopamina se liga a receptores metabotrópicos (D1-D5), que podem ser inibitórios
ou excitatórios. Fármacos que interagem com esses receptores no SNC são utilizados para o
tratamento da doença de Parkinson, esquizofrenia e adicção.

1.5.1.1.3. -Hidroxitriptamina (5-HT, Serotonina)


As principais vias serotoninérgicas se originam nos neurônios da rafe e se difundem para
estruturas límbicas.
Trata-se de uma neurotransmissão complexa, pois a serotonina é capaz de se ligar em mais
de uma dúzia de receptores. Atualmente são conhecidas 7 classes de receptores metabotrópicos
serotoninérgicos (5HT1-5HT7), algumas dessas classes possuem subtipos, como, por exemplo,
5-HT1A-HT1D.
No geral, fármacos que interagem com esses receptores são utilizados para o tratamento
dos transtornos ansiosos e depressivos.

WWW.UNINGA.BR 32
ENSINO A DISTÂNCIA

1.5.2. Aminoácidos
• Ácido gama-aminobutírico (GABA)
Trata-se de um NT inibitório do SNC, se liga a receptores GABAA (ionotrópicos) e GABAB
(metabotrópicos).
Fármacos que interagem com esses receptores são utilizados na prática clínica como
ansiolíticos, anticonvulsivantes e anestésicos.

1.5.3. Glutamato
A neurotransmissão excitatória do SNC é mediada pelo NT glutamato. Esse aminoácido,
quando liberado na fenda sináptica, pode se ligar a três tipos de receptores ionotrópicos diferentes
(NMDA, AMPA e kainato) e uma classe de receptores metabotrópicos, conhecida como mGLU.
Curiosamente, todos esses receptores apresentam subtipos de receptores.
Fármacos que alteram a neurotransmissão glutamatérgica são utilizados para o tratamento
da epilepsia e da doença de Alzheimer (DA).

1.5.4. Outros

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
Os endocanabinoides e os neurotransmissores gasosos (óxido nítrico e monóxido de
carbono) não são considerados NTs convencionais, pois não são armazenadas em vesículas
sinápticas e executam mecanismo de sinalização retrógrada, isto é, podem transmitir mensagens
do neurônio pós-sináptico para o neurônio pré-sináptico. Ademais, os NTs gasosos podem
atravessar a membrana celular e agir diretamente nas moléculas dentro da célula.

Mediante a tudo que foi abordado, já pararam para pensar por que tantos tipos e
subtipos de receptores e diferentes mecanismos de sinalização? A resposta para
esse pergunta, não está totalmente esclarecida, porém baseado nos avanços da
neurociência já é possível afirmar, que o efeito final de toda a ativação dessa ma-
quinaria sempre será a soma dos efeitos. E ainda, que todos esses mecanismos
diferentes corroboram para homeostase do organismo.

WWW.UNINGA.BR 33
ENSINO A DISTÂNCIA

2 - ANSIOLÍTICOS E HIPNÓTICOS

2.1. Ansiedade
Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, a ansiedade é caracterizada por uma
tensão, apreensão e/ou desconforto, que se origina de perigos ameaçadores ou não.
A distinção entre a “ansiedade fisiológica” e a “ansiedade patológica” não é algo claro nem
fácil de fazer. Existe, porém, um consenso geral: que a ansiedade é considerada patológica a partir
do momento em que ela influencia e/ou prejudica as tarefas do dia a dia.
Embora o sentimento de medo e de preocupação sejam as duas principais características
dos transtornos ansiosos, outras manifestações clínicas podem surgir em decorrência desses
sentimentos:

• Taquicardia;
• Fadiga;
• Dificuldade de concentração;
• Tontura/boca seca;
• Agitação;

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
• Tensão muscular;
• Sudorese;
• Distúrbios do sono;
• Irritabilidade;
• Compulsões (Figura 6).

Figura 6 - Manifestações clínicas dos transtornos ansiosos. Fonte: Stahl (2017).

WWW.UNINGA.BR 34
ENSINO A DISTÂNCIA

2.1.1. Classificações de desordens da ansiedade


Os distúrbios de ansiedade reconhecidos clinicamente incluem os seguintes:

✓ Transtorno da Ansiedade Generalizada (TAG): estado de ansiedade excessiva ou


apreensão por mais de 6 meses.
✓ Transtorno de Ansiedade Social: ansiedade experimentada em situações sociais.
✓ Transtorno do Pânico (TP): caracterizado por ataques recorrentes de pânico
inesperados ou associados com medo intenso.
✓ Transtorno Obsessivo – Compulsivo: caracterizado por pensamentos negativos e
comportamento estereotipado
✓ Transtorno do estresse pós-traumático (TEPT): revivência de acontecimentos
extremamente traumáticos.

2.1.2. Fisiopatologia da ansiedade


Para muitos dos transtornos de ansiedade existe comprovação de uma predisposição
genética. Entretanto, cientistas ainda tentam identificar quais genes estariam de fato envolvidos
na fisiopatologia da ansiedade. Também já foi estabelecido que outros transtornos ansiosos

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
parecem ter suas origens em decorrência dos eventos estressantes da vida.
No que tange o estudo dos neurotransmissores, é sabido que a serotonina (5-HT) é
uma substância importantíssima no estudo neuroquímico da ansiedade. Pois foi demonstrado
que tanto o bloqueio de seus receptores, quanto o bloqueio da sua síntese, produzem efeitos
ansiolíticos. Isso acontece porque a 5-HT exerce um papel dual na regulação da ansiedade –
ansiogênico na amígdala e ansiolítico na substância cinzenta periaquedutal dorsal (SCPD). Sendo
assim, fármacos que interagem com esse neurotransmissor podem ser úteis para o tratamento
dos transtornos ansiosos.
Outro neurotransmissor extremamente importante na fisiopatologia da ansiedade é o
ácido gama-aminobutírico (GABA), como vimos anteriormente, o principal neurotransmissor
inibitório do SNC. Drogas que se ligam a receptores gabaérgicos reduzem a ansiedade, pois agem
suprimindo a atividade dos circuitos cerebrais utilizados na resposta ao estresse.
É importante mencionar, que o receptor GABAA é uma estrutura pentamérica composta
de cinco subunidades, selecionada a partir de múltiplas classes polipeptídicas (α, β, δ, γ, κ, ε,
ρ). Uma isoforma importante desse receptor na fisiopatologia da ansiedade consiste em 2
subunidades α1, duas subunidades β2 e uma subunidade γ2 (Figura 7).

2.1.3. Benzodiazepínicos (BZDs)


Esses fármacos são úteis para o tratamento da ansiedade e para a sedação e indução do
sono (hipnótico). Embora com menos frequência, podem ainda ser utilizados como relaxante
muscular e agentes anticonvulsivantes.

WWW.UNINGA.BR 35
ENSINO A DISTÂNCIA

2.1.3.1. Mecanismo de Ação


Os benzodiazepínicos (BZDs) se ligam a um sítio específico nos receptores do tipo
GABAA, situado entre as subunidades α1 e a subunidade γ2, e modulam alostericamente a
neurotransmissão GABAérgica mediante a potencialização da capacidade do GABA de aumentar
a condutância de cloro para o interior do neurônio. Ademais, esses fármacos também aumentam
a frequência da abertura dos canais de cloreto.

2.1.3.2. Fármacos
Usualmente esses fármacos são administrados por via oral, podendo também ser
administrados por via endovenosa, em ambiente hospitalar (pre-anestesia). Possuem boa
absorção, com pico de concentração plasmática em torno de 1h e sofrem efeito de primeira
passagem se tornando em metabólitos mais ativos, isso explica o fato de muito deles apresentarem
longos tempos de meia-vida. São rotineiramente excretados na urina.
Os principais efeitos colaterais dos BZDs são:

- Sonolência;
- Coordenação motora prejudicada;
- Amnésia;

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
- Confusão mental.

O uso prolongado de BZDs pode desencadear um processo de tolerância e dependência,


caracterizado pela presença da síndrome de abstinência.
Atenção: é proibida a associação de BZDs a outra substância depressora do SNC (exemplo:
álcool), devido ao risco de o paciente apresentar um quadro de depressão respiratória, podendo
chegar a óbito.
Os principais fármacos BZDs estão listados no Quadro 2. Note que as ações farmacológicas
desses fármacos são bastante semelhantes, sendo assim, a escolha geralmente é feita com base na
duração do efeito terapêutico.

Quadro 2 - Fármacos benzodiazepínicos. Fonte: Katzung et al. (2013).

WWW.UNINGA.BR 36
ENSINO A DISTÂNCIA

O flumazenil é um fármaco antagonista de BZDs, o seu uso é indicado para rever-


ter à toxicidade dos BZDs ou interromper sedação.

2.1.4. Barbitúricos
Foram os primeiros fármacos ansiolíticos e hipnóticos comercializados. Atualmente,
devido ao baixo índice terapêuticos e o potencial de causar dependência, são utilizados somente
como anestésicos gerais.
As principais ações farmacológicas desses fármacos são:

- Redução da ansiedade.
- Sedação e indução do sono (anestesia).
- Anticonvulsivante.

2.1.4.1. Mecanismo de ação

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
Ligam-se ao receptor GABAA em um sítio diferente dos BZDs, aumentando a atividade
do GABA e potencializam a transmissão gabaérgica.
Diferentemente dos BZDs, são capazes de abrir o canal de cloreto, facilitando a duração
de tempo que o canal de Cl- permanece aberto.

2.1.4.2. Fármacos
São classificados de acordo com a duração do efeito terapêutico, por exemplo:

• Ação ultracurta: duração 20 min – Tiopental.


Indicação: indução anestésica (IV).
• Ação curta: duração 3-8h – Pentobarbital.
Indicação: eficaz como sedativo e hipnótico.
• Ação longa: duração 1 a 2 dias – Fenobarbital.
Indicação: tratamento de convulsões (antiepiléptico).

2.1.5. Drogas Z
São os fármacos mais indicados para o transtorno do sono.

2.1.5.1. Mecanismo de ação


Possuem mecanismo muito parecido com os dos BZDs, porém, são considerados
agonistas seletivos do sítio dos BZDs que contém uma subunidade α1.

WWW.UNINGA.BR 37
ENSINO A DISTÂNCIA

2.1.5.2. Fármacos
- Zalepron: início de ação rápido e duração curta, apresenta meia-vida plasmática de 1h.
Indicado para pacientes com dificuldade de iniciar sono.
- Zolpidem: ação relativamente curta, apresenta meia-vida plasmática de 1.5 – 3h.
Indicado para pacientes com dificuldade de iniciar sono.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
Figura 7 - Ilustração do receptor GABAA. Fonte: Katzung et al. (2013).

2.1.6. Buspirona
Em contraste com os outros ansiolíticos apresentados até então, a buspirona altera a
neurotransmissão serotoninérgica, sendo um agonista parcial do receptor 5HT1A.

Atualmente, têm-se duas hipóteses sobre o mecanismo de ação da buspirona


ao agir como agonista parcial dos receptores 5-HT1A, a saber: primeiramente,
interagindo com os receptores présinápticos somatodendríticos diminuindo a
frequência de excitação dos neurônios serotoninérgicos pré-sinápticos; e/ou
atuando como agonista parcial nos receptores póssinápticos, competindo com
a serotonina por esses receptores, consequentemente, diminuindo a ação da
buspirona (FERREIRA et al., 2012, p. 172).

As principais vantagens do seu uso são:

- Não potencializa efeito de depressores do SNC;


- Ausência de dependência e sintomas de abstinência em uso prolongado;
- Apresenta poucos efeitos adversos, os quais podem ser: tontura, náusea e cefaleia.

WWW.UNINGA.BR 38
ENSINO A DISTÂNCIA

A principal desvantagem desse fármaco está relacionada ao seu início ação, uma vez que
ele pode demorar dias ou até semanas para começar a produzir efeito ansiolítico.
Os demais fármacos que interferem com a neurotransmissão serotoninérgica (conhecidos
como antidepressivos), utilizados no tratamento dos transtornos ansiosos serão discutidos na
Unidade III.

Para maiores informações sobre o mecanismo farmacológico da buspirona, ver:


FERREIRA, P. B., SANTOS, I. M. S., FREITAS, R. M., 2012. Aspectos farmacológicos,
efeitos anticonvulsivantes e neuroprotetores da buspirona. Revista de Ciências
Farmacêuticas Básica e Aplicada. 33(2):171-179.
Disponível em: <http://serv-bib.fcfar.unesp.br/seer/indexemplophp/Cien_Farm/
article/viewFile/1684/1232>. Acesso em: 25 jan. 2019.

3 - TRATAMENTO DO TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO


COM HIPERATIVIDADE (TDAH)

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
Comportamentos de hiperatividade, impulsividade e desatenção são as principais
manifestações clínica do paciente com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade
(TDAH).
O TDAH é uma patologia com prevalência maior em crianças e adolescentes, e suas
causas ainda são totalmente conhecidas. Pesquisadores identificaram que pré-disposição genética
pode desencadear distúrbios nas vias da noradrenalina e dopamina no córtex frontal e gânglios
basais, e dar origem a sintomas muito semelhantes aos do TDAH. Além disso, fatores ambientais
(exposição a substâncias tóxicas) e/ou psicossociais (condição socioeconômica, família numerosa,
criminalidade paterna) também podem ser causa primária do TDAH.

1. Incapacidade frequente em fixar atenção em detalhes ou erros por descuido nas tarefas
escolares e outras atividades;
2. Dificuldades frequentes em manter a atenção em tarefas e atividades lúdicas;
3. Parecer não ouvir com frequência ao participar de conversas diretas;
Não seguir instruções com frequência e não conseguir finalizar tarefas;
4. Dificuldade frequente de organizar tarefas e atividades;
5. Evitar, não gostar ou relutar em desenvolver tarefas que exijam manutenção de esforço
mental;
6. Perder coisas necessárias às tarefas frequentemente;
7. Ser facilmente distraído por estímulos externos;
8. Mostrar-se esquecido durante as atividades.

WWW.UNINGA.BR 39
ENSINO A DISTÂNCIA

3.1. Fármacos psicoestimulantes


3.1.1. Metilfenidato (Ritalina)
Seus principais terapêuticos são a estimulação da concentração e a diminuição da
sonolência. São os fármacos de escolha para o tratamento do TDAH.
Assim como as anfetaminas, o metilfenidato inibe as enzimas transportadoras
(responsáveis pela remoção dos NTs da fenda sináptica) da noradrenalina (NET) e da dopamina
(DAT) na membrana plasmática neuronal (e, com potência bem menor, inibe o transportador
5-HT, SERT). Esse mecanismo produz uma elevação profunda e sustentada da noradrenalina e
dopamina extracelular.

O metilfenidato é oralmente ativo, sendo absorvido pelo intestino e cólon, mas


sofre um metabolismo pré-sistêmico de modo que apenas cerca de 20% entram
na circulação sistêmica. Após a administração oral a absorção é lenta – pico
depois de aproximadamente 2 horas – a qual pode limitar a intensidade de
alguma resposta eufórica à substância. É metabolizado pela carboxilesterase e
tem uma meia-vida de cerca de 2-4 horas (RANG; DALE, 2016, P. 1372).

Entre os principais efeitos adversos estão:

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
• Insônia;
• Perda de Apetite;
• Cefaleia;
• Xerostomia;
• Ansiedade;
• Psicose aguda;
• Risco de dependência.

Atualmente, formulações de anfetamina e metilfenidato de liberação lenta têm sido


desenvolvidas, a fim de que a euforia provocada por esses fármacos seja abolida. A D-anfetamina,
conjugada com a lisina (lisdexanfetamina), é um pró-fármaco inativo que, após administração
oral, é clivado enzimaticamente para liberar D-anfetamina, resultando em um início de ação
mais lento e, possivelmente, em um potencial de uso abusivo mais reduzido.

Uma revisão interessante sobre o uso abusivo de ritalina pode ser visualizada em:
Ritalina sem prescrição | Drauzio Comenta.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=fPplwRuHHmI>. Acesso em:
25 jan. 2019.

WWW.UNINGA.BR 40
ENSINO A DISTÂNCIA

3.2. Agonistas α2- adrenérgicos


A clonidina e a guanfacina são fármacos α2- adrenérgicos indicados para pacientes com
TDAH que não respondem adequadamente ao metilfenidato.
Ao se ligar ao receptor α2- adrenérgicos (receptores inibitórios) esses fármacos diminuem
a concentração intracelular do segundo mensageiro monofosfato cíclico de adenosina (AMPc, do
inglês cyclic adenosine 3’,5’-mono- phosphate), promove fechamento dos canais de Ca+ e abertura
do canais de K+, hiperpolarizando o neurônio e, consequentemente, diminuindo a propagação
dos impulsos nervosos.
Os efeitos terapêuticos resultantes das ações citadas são: ansiolíticos, sedativos e anti-
hipertensivos.
Entre os principais efeitos adversos estão: a xerostomia, o cansaço, a tontura, os desmaios
e a constipação.

3.3. Atomoxetina
Trata-se de um potente inibidor da captura de noradrenalina, indicado para o tratamento
do TDAH.
Insônia, cefaleia, perda de apetite, irritabilidade, náuseas e xerostomia são os principais

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 2
efeitos adversos da atomoxetina.

3.4. Modafinila
A modafinila é indicada para pacientes adultos com TDAH. Seu efeito terapêutico se
deve à inibição da captura de monoaminas.
Não deve ser utilizada para uso pediátrico.

4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesta unidade foram abordados tópicos relacionados a anatomia e a fisiologia do sistema
nervoso central (SNC). Vimos as principais características dos neurônios (células funcionantes
do SNC) e compreendemos de que maneira eles atuam para comandar as mais diversas atividades
do organismo.
Ainda neste contexto, estudamos os principais fármacos utilizados para o tratamento dos
transtornos ansiosos e do déficit de ação com hiperatividade.

WWW.UNINGA.BR 41
UNIDADE ENSINO A DISTÂNCIA

03
DISCIPLINA:
PSICOFARMACOLOGIA

TRATAMENTOS FARMACOLÓGICOS DA
DEPRESSÃO, TRANSTORNO BIPOLAR,
E DA PSICOSE E ESQUIZOFRENIA
PROF.A DRA. VIVIAN TACIANY BONASSOLI SHIMA

SUMÁRIO DA UNIDADE

INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................. 44
1 - DEPRESSÃO E ANTIDEPRESSIVOS.................................................................................................................... 45
1.1. DEPRESSÃO......................................................................................................................................................... 45
1.2. ANTIDEPRESSIVOS............................................................................................................................................ 46
1.2.1. INIBIDORES DA MONOAMINOXIDASE (IMAO)............................................................................................. 47
1.2.2. ANTIDEPRESSIVOS TRICÍCLICOS (ADT)...................................................................................................... 47
1.2.3. INIBIDORES SELETIVOS DA RECAPTAÇÃO DE SEROTONINA (ISRS)........................................................ 48
1.2.4. ANTIDEPRESSIVOS ATÍPICOS....................................................................................................................... 49
1.2.4.1. INIBIDORES SELETIVOS DA RECAPTAÇÃO DA SEROTONINA E DA NORADRENALINA (ISRSN)......... 50
1.2.4.2. BUPROPIONA............................................................................................................................................... 50
1.2.4.3. TRAZODONA E NEFAZODONA..................................................................................................................... 50

WWW.UNINGA.BR 42
2 - TRANSTORNO BIPOLAR E ESTABILIZADORES DO HUMOR............................................................................51
2.1. TRANSTORNO BIPOLAR.....................................................................................................................................51
2.2. LÍTIO: ESTABILIZADOR DE HUMOR CLÁSSICO.............................................................................................. 52
2.3. ANTICONVULSIVANTES COMO ESTABILIZADORES DO HUMOR................................................................. 53
3 - PSICOSE E ANTIPSICÓTICOS............................................................................................................................ 54
3.1. PSICOSE E ESQUIZOFRENIA............................................................................................................................. 54
3.2. ANTIPSICÓTICOS............................................................................................................................................... 56
3.2.1. ANTIPSICÓTICOS CONVENCIONAIS (TÍPICOS).......................................................................................... 57
3.2.2. ANTIPSICÓTICOS ATÍPICOS.......................................................................................................................... 59
4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................................................... 60

WWW.UNINGA.BR 43
ENSINO A DISTÂNCIA

INTRODUÇÃO
Bem-vindo a nossa Unidade III da disciplina Psicofarmacologia!
Nesta unidade iniciaremos o estudo dos principais grupos farmacológicos utilizados no
tratamento medicamentoso dos transtornos mentais. Para tanto, detalhes da fisiopatologia dos
transtornos estudados serão apresentados, o que embasará o uso de fármacos para o tratamento
das doenças em questão.
Desejamos a você ótimos momentos de estudo e aprendizado e, para que possa aproveitar
ao máximo o conteúdo deste material, não deixe de conferir também os materiais complementares,
participar dos fóruns e ficar atento a todas as orientações da equipe que o acompanha.
Bons estudos!

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3

WWW.UNINGA.BR 44
ENSINO A DISTÂNCIA

1 - DEPRESSÃO E ANTIDEPRESSIVOS

1.1. Depressão
A depressão é um transtorno mental caracterizado por tristeza persistente e pela perda
de interesse em atividades que, normalmente, são prazerosas, acompanhadas da incapacidade de
realizar atividades diárias. Na pior das hipóteses, a depressão pode levar ao suicídio.
Atualmente, a carga da depressão está em ascensão em todo o mundo e estima-se que
mais de 300 milhões de pessoas, de todas as idades, sofram com esse transtorno, que representa a
principal causa de incapacidade em todo o mundo e contribui de forma importante para a carga
global de doenças.
Pacientes com depressão, normalmente, apresentam um ou vários dos seguintes sintomas:

• Perda de energia
• Mudanças no apetite
• Alteração do sono (Aumento ou redução)
• Ansiedade
• Perda de concentração

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
• Indecisão
• Inquietude
• Baixa auto estima
• Culpa ou desesperança
• Pensamentos de suicídio ou de causar danos a si mesmas.

O diagnóstico da depressão baseia-se na história do paciente. Os atuais critérios utilizados


e a classificação dos estados depressivos se encontram no Manual Diagnóstico e Estatístico dos
Transtornos Mentais – DSM 5.

DUAILIBI, K.; SILVA, A. S. M. Depressão: critérios do DSM-5 e tratamento. Revista


Brasileira de Clínica e Terapêutica. Vol. 40, nº 1, ago. 2014.

As principais teorias relativas à base biológica da depressão situam-se nos estudos


sobre neurotransmissores cerebrais e seus receptores, sendo que alterações na atividade das
monoaminas constituem-se na principal hipótese.
A hipótese das monoaminas baseia-se no conceito da deficiência das aminas biogênicas,
particularmente dopamina (DA), noradrenalina (NE) e serotonina (5HT), como a causa das
depressões.

WWW.UNINGA.BR 45
ENSINO A DISTÂNCIA

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
Figura 1 - O esquema representa: (A) a condição normal do indivíduo. (B) A condição em um quadro de Depressão,
em que há a diminuição da quantidade de monoaminas (representadas, aqui, pelas bolas azuis). (C) O círculo em
azul representa a redução da metabolização das monoaminas presentes e o aumento na quantidade restabelecendo
à quantidade normais. Em resumo, a ação dos antidepressivos. Fonte: Suman (on-line).

Tal hipótese derivou inicialmente da observação de que drogas (exemplo: reserpina)


que depletam esses neurotransmissores são capazes de induzir depressão. Posteriormente, a
compreensão advinda do conhecimento sobre o mecanismo de ação dos primeiros antidepressivos
inibidores da monoaminoxidase (IMAO) e tricíclicos mostrou que estes aumentam as
concentrações das monoaminas nas fendas sinápticas cerebrais, e precursores da serotonina
(exemplo: 5HT: L-triptofano) apresentam efeito antidepressivo leve, também colaboram para
esta hipótese.
Com base nessa hipótese, pode-se deduzir que o aumento na neurotransmissão das
monoaminas citadas pode melhorar ou reverter a depressão e, por se tratar de uma doença
biológica relacionada com alterações patológicas a longo prazo na atividade das monoaminas, a
depressão deve ser passível de tratamento com medicamentos.
Existem vários tratamentos para depressão e as principais opções incluem a psicoterapia,
a farmacoterapia, a combinação da psicoterapia e da farmacoterapia e a terapia eletroconvulsiva.

1.2. Antidepressivos
Os antidepressivos são os fármacos de escolha para o combate à depressão, podendo ser
usados isoladamente ou em associação, para se obter uma recuperação mais rápida e eficaz. Existem
várias classes de antidepressivos que, embora possuam estruturas químicas e mecanismos de ação
diferentes, promovem o aumento dos neurotransmissores na fenda sináptica, particularmente o
aumento da noradrenalina e da serotonina.

WWW.UNINGA.BR 46
ENSINO A DISTÂNCIA

Com este aumento, os receptores pós-sinápticos (que se encontram aumentados durante a


depressão) sofrem uma diminuição e dessensibilização (down-regulation). Contudo, é importante
saber que, enquanto o aumento dos níveis dos neurotransmissores é imediato, a diminuição dos
seus receptores só se manifesta após 2 a 3 semanas, período que coincide com o tempo de latência
para observação do efeito clínico, podendo ser uma possível explicação para esta latência.

1.2.1. Inibidores da monoaminoxidase (IMAO)


A monoaminoxidase (MAO) é uma enzima encontrada em tecidos neurais e não neurais,
como o intestinal e o hepático. No neurônio, a MAO oxida (e inativa) o excesso de monoaminas,
impedindo que estas extravasem das vesículas sinápticas quando o neurônio está em repouso. 
A MAO pode apresentar duas isoformas diferentes, sendo elas: MAO-A, presente no
sistema nervoso central (SNC), intestino, placenta e fígado, sendo responsável, preferencialmente,
pelo metabolismo de noradrenalina e serotonina, apesar de, também, metabolizar dopamina
e tiramina em menor proporção; e a MAO-B, presente no SNC, fígado e plaquetas, sendo
responsável pela inativação da dopamina e tiramina.
Os IMAO constituem a classe mais antiga de antidepressivos identificada. Atualmente,
seu uso é reservado para casos resistentes à fármacos mais seguros, pois apresentam grande
número de reações adversas e interações medicamentosas.
Os IMAO inativam a enzima MAO, reversível ou irreversivelmente, permitindo que

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
as monoaminas escapem da degradação e, consequentemente, tanto se acumulem dentro do
neurônio pré-sináptico como extravasem para a fenda sináptica. Isto causa ativação de receptores
de noradrenalina e serotonina e pode ser responsável pelos efeitos antidepressivos desses fármacos.
Os principais fármacos representantes da classe dos IMAOs são a tranilcipromina,
moclobemida e fenelzina.
Os IMAO são classificados de acordo com sua seletividade, podendo ser seletivo da
MAO-A; seletivo da MAO-B (degradação seletiva da dopamina); ou não seletivos (capazes de
inibir MAO-A e MAO-B). Os inibidores da MAO não seletivos (tipo A e B) e os inibidores que
inibem reversivelmente a MAO-A são os que, de fato, têm ação antidepressiva.
As principais reações adversas dos medicamentos desta classe incluem: agitação, insônia,
convulsões, alucinações, vertigens, náuseas, cefaleia, tremores, frio, hipertensão, turvação visual,
disúria e constipação, ganho de peso e distúrbios sexuais.
Quanto às interações medicamentosas observadas em pacientes, a maior preocupação é de
que, em uso desses fármacos, seja desenvolvida uma crise hipertensiva após consumir alimentos
ricos em tiramina (exemplo: queijo, cerveja, vinho, defumados, café, frutas cítricas, enlatados).
Durante o uso de IMAO, a tiramina terá sua metabolização diminuída, e seu “acumulo” pode
provocar o aumento da pressão arterial, situação conhecida como “reação do queijo”. Se associados
com outro antidepressivo capaz de aumentar os níveis de serotonina – serotoninérgicos – pode
desencadear síndrome serotoninérgica, quando o paciente irá apresentar delírios, tremores e
hiperreflexia.

1.2.2. Antidepressivos tricíclicos (ADT)


Os ADT são assim denominados por apresentarem três anéis em sua estrutura química,
partilhando, a maior parte deles, as mesmas propriedades farmacológicas e clínicas.
Os principais representantes desta classe incluem: imipramina, clomipramina,
amitriptilina, nortriptilina, maprotilina e amoxapina.

WWW.UNINGA.BR 47
ENSINO A DISTÂNCIA

O mecanismo de ação dos fármacos desta classe se dá pela inibição da recaptação da 5HT
e NE, por meio do bloqueio das bombas de recaptação destes neurotransmissores que, assim,
ficam aumentados na fenda sináptica. Esses agentes também podem afetar a recaptação da DA,
porém, em proporção muito menor.

Figura 2 - Mecanismo de ação dos antidepressivos tricíclicos. Inibição da bomba de recaptação de serotonina (a) e

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
de dopamina (b). Fonte: adaptado de Stahl (2013).

Os antidepressivos desta classe não se limitam ao tratamento da depressão, sendo úteis


ainda para tratar transtornos de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno
do pânico, além de também mostrarem eficácia no tratamento de dores crônicas, como as
neuropáticas e fibromialgia, por exemplo.
Apesar de serem fármacos muito efetivos, a principal limitação de seu uso se dá por alguns
de seus efeitos adversos, pois fármacos desta classe apresentam ação inespecífica, sendo capazes
de bloquear, também, receptores colinérgicos (de acetilcolina), histaminérgicos (de histamina) e
adrenérgico (de noradrenalina/adrenalina).
O bloqueio de receptores colinérgicos pode causar boca seca, visão turva, retenção
urinária e constipação intestinal, enquanto o bloqueio de receptores histaminérgicos resulta
em sono e ganho de peso. E, finalmente, o bloqueio de receptores adrenérgicos pode causar
hipotensão e tontura. E superdosagem pode causar convulsões e alterações do ritmo cardíaco, o
que pode ser fatal.
As principais interações medicamentosas apresentadas pelos ADT envolvem sua
associação com outros fármacos anticolinérgicos, anti-histamínicos e anti-hipertensivos, o que
aumenta o risco de surgimento de efeitos adversos graves, e sua associação com IMAO, que
poderia resultar em síndrome serotoninérgica.

1.2.3. Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS)


O tratamento da depressão foi revolucionado com a introdução dos ISRS nos anos 80.
Este grupo de antidepressivos começou, rapidamente, a substituir os tricíclicos como tratamento
de primeira linha na depressão, isso porque eram mais seguros, principalmente em casos se
superdosagem, e melhor tolerados.

WWW.UNINGA.BR 48
ENSINO A DISTÂNCIA

Os principais representantes desta classe incluem: fluoxetina, paroxetina, sertralina,


citalopram e escitalopram.
Devido à variabilidade das respostas singulares dos pacientes a cada antidepressivo, pode
ser necessário que um paciente utilize mais de um ISRS para encontrar o fármaco mais efetivo.
Estes fármacos atuam sobre as bombas que medeiam a recaptação de 5HT no terminal
pré-sináptico, processo pelo qual a neurotransmissão medicada por 5-HT é encerrada. O
tratamento com os ISRS bloqueia de forma seletiva e potente esta recaptação, o que resulta em
aumento da disponibilidade deste neurotransmissor na fenda sináptica e, consequentemente, em
uma neurotransmissão aumentada e prolongada, devido ao aumento de ativação do receptor de
5HT e intensificação das respostas pós-sinápticas.

(a) (b)

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
Figura 3 - Antidepressivo inibidor seletivo da recaptação de serotonina (a), e representação de seu mecanismo de
ação (b). Fonte: adaptado de Stahl (2013).

As indicações clínicas para o uso dos ISRS vão além do tratamento da depressão,
abrangendo transtornos de ansiedade, transtorno disfórico pré-menstrual, transtornos
alimentares, entre outros.
Os efeitos adversos observados durante o tratamento com os fármacos desta classe são
menos graves que os observados com os IMAOs e ADT. Os mais frequentes são as cefaleias,
a disfunção sexual e sintomas gastrointestinais, que podem surgir também como sintomas da
descontinuação do tratamento.
Quanto às interações medicamentosas, o efeito mais grave observado é síndrome
serotoninérgica, pode ocorrer com a administração simultânea de um ISRS e de um IMAO
(citado no item 1.2.1).

1.2.4. Antidepressivos atípicos


Os antidepressivos atípicos constituem um grupo heterogêneo de fármacos com ação
antidepressiva que não atuam como os antidepressivos clássicos (IMAO, ADT e ISRS), e não
compartilham um mecanismo de ação comum, atuam de formas diversas.
A seguir apresentaremos os principais representantes deste grupo.

WWW.UNINGA.BR 49
ENSINO A DISTÂNCIA

1.2.4.1. Inibidores seletivos da recaptação da Serotonina e da No-


radrenalina (ISRSN)
Os fármacos deste grupo combinam a inibição da bomba de recaptação de serotonina,
exercida pelos ISRS, com a inibição da recaptação de noradrenalina, sem apresentar o bloqueio
de receptores inespecíficos, consequentemente, sem os efeitos adversos observados com os ADT.
Os principais representantes desta classe incluem: venlafaxina, desvanlafaxina e
duloxetina.
Os efeitos adversos observados com o uso dos ISRSN são muito semelhantes aos dos SSRI,
particularmente náuseas, vômitos e disfunção sexual. Porém, este grupo ainda está associado
a efeitos adversos relacionados à ativação noradrenérgica, como o aumento da frequência
cardíaca, dilatação pupilar, sudação excessiva, constipação intestinal e boca seca, além, ainda, da
hipertensão arterial.
As principais interações medicamentosas observada com os ISRSN se dão pela sua
associação com outras drogas que também aumentam os níveis sinápticos de serotonina, como
os antidepressivos IMAO, ADT e ISRS, podendo causar síndrome serotoninérgica. Além disso,
sua associação com IMAO ainda pode causar crise hipertensiva.

1.2.4.2. Bupropiona

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
O mecanismo de ação da bupropiona ainda é controverso, mas a principal hipótese
sustenta que ela atua na inibição da recaptação de noradrenalina e de dopamina.
Além de atur como antidepressivo, ainda apresenta eficácia comprovada no tratamento
da dependência de nicotina, sendo capaz de reduzir a “fissura”, sem provocar uso abusivo. Outra
característica deste fármaco é não causar disfunção sexual, como ocorre frequentemente com
fármacos que inibem a recaptação de serotonina (exemplo: ADT, ISRS e ISRSN), sendo uma
opção para pacientes que não toleram os efeitos adversos destes medicamentos.
Os efeitos adversos mais comuns com o uso de bupropiona incluem cefaleias, sonolência,
insónia, agitação, diarreia, náuseas, entre outros.

1.2.4.3. Trazodona e Nefazodona


Estes fármacos têm dupla ação pois atuam como inibidores da bomba de recaptação de
serotonina e, ainda, exercem antagonismo sobre os receptores serotoninérgicos dos subtipos 2A e
2C (5HT-2ª e 5HT-2C). O primeiro mecanismo aumenta a disponibilidade do neurotransmissor,
e o bloqueio destes receptores evita a manifestação de efeitos adversos como disfunção sexual,
insônia e ansiedade. A Trazodona atua bloqueando receptores histaminérgico (H1), sendo capaz
de induzir sono, o que também permite seu uso no tratamento da insônia. Tanto a Nefazodona
quanto a Trazodona também bloqueiam receptores adrenérgicos, podendo causar efeitos
adversos, como hipotensão e disritmias cardíacas.
Além dos antidepressivos citados, temos ainda a Mirtazapina atuando de forma atípica
em receptores adrenérgicos.

WWW.UNINGA.BR 50
ENSINO A DISTÂNCIA

DOLDER, C. NELSON, M.; ILER, C. Uso da Mirtazapina em Pacientes Depressivos


com Distúrbios do Sono. Instituição: Wingate University School of Pharmacy, Win-
gate, E.U.A. Fonte: Annals of Clinical Psychiatry 24(3):215-224, ago. 2012.

2 - TRANSTORNO BIPOLAR E ESTABILIZADORES DO


HUMOR

2.1. Transtorno Bipolar


O transtorno afetivo bipolar é uma doença crônica que representa uma das principais
causas de incapacitação no mundo. Se trata de um transtorno crônico e complexo em que o
pensamento, as emoções e o comportamento de uma pessoa alteram-se visivelmente durante
um período considerável, o que afeta o cotidiano, incluindo episódios de depressão, mania ou

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
hipomania, de forma isolada ou mista, com grande morbidade e mortalidade.
O transtorno bipolar é caracterizado por quatro episódios de doença:

• Episódio maníaco - Envolve humor excessivamente feliz, expansivo ou irritado e, pelo


menos, três outros sintomas.
• Episódio depressivo maior - Se manifesta por humor deprimido ou perda de interesse
associado a 4 outros sintomas. Seus sintomas são suficientemente graves para fazerem
sentir-se angustiado ou para ter uma influência desestabilizadora em seus relacionamentos,
seu trabalho ou nas atividades diárias.
• Episódio de hipomania - Ocorre quando o indivíduo tem sintomas semelhantes aos
de mania, mas estes são mais leves e não condicionam tanto suas atividades cotidianas.
• Episódio misto - Inclui critérios tanto do episódio maníaco quanto do episódio
depressivo maior. Os sintomas causam uma desestabilização significativa no cotidiano,
podendo ser necessária a hospitalização.

Os “outros sintomas” citados, podem ser consultados com detalhes no Manual Diagnóstico
e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição – DSM-5.
Por vezes, o paciente poderá ter apenas alguns sintomas em vez de um episódio
propriamente dito.
O paciente bipolar pode, ainda, estar eutímico. A eutimia é definida como a remissão
dos sintomas, entretanto, idealmente, seria o período no qual o paciente não, apenas, estaria sem
sintomas, mas (re)integrado funcionalmente a suas atividades de rotina.
A causa efetiva do transtorno bipolar ainda não foi esclarecida, porém, sabe-se que fatores
genéticos, alterações em certas áreas do cérebro e nos níveis de vários neurotransmissores estão
envolvidos. Também já ficou demonstrado que alguns eventos podem precipitar a manifestação
desse distúrbio do humor nas pessoas geneticamente predispostas.

WWW.UNINGA.BR 51
ENSINO A DISTÂNCIA

Entre eles destacam-se: episódios frequentes de depressão ou início precoce dessas crises,
puerpério, estresse prolongado, remédios inibidores do apetite (anorexígenos e anfetaminas) e
disfunções da tireoide, como o hipertireoidismo e o hipotireoidismo (Figura 4).

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
Figura 4 - Modelo Integrado dos Transtornos de Humor. Fonte: Barlow (2008).

Os tratamentos disponíveis para o transtorno bipolar incluem a psicoterapia, o uso


de medicamentos e mudanças no estilo de vida, tais como o fim do consumo de substâncias
psicoativas (cafeína, anfetaminas, álcool e cocaína, por exemplo), o desenvolvimento de hábitos
saudáveis.
A prescrição de medicamentos para tratar o paciente bipolar leva em consideração o
tipo, gravidade e evolução da doença. Pode incluir neurolépticos, antipsicóticos, ansiolíticos,
anticonvulsivantes e estabilizadores de humor. Especialmente o carbonato de lítio tem-se
mostrado útil para reverter os quadros agudos de euforia e evitar a recorrência das crises. Com
exceção dos anticonvulsivantes e do lítio, as demais classes de fármacos citadas serão discutidas
detalhadamente em tópicos específicos desta disciplina.

2.2. Lítio: Estabilizador de Humor Clássico


O lítio é o principal tratamento farmacológico existente para o tratamento do transtorno
bipolar, sendo útil na mania, hipomania e na prevenção de recorrência, tendo efeito, inclusive, na
prevenção de suicídio em pacientes com transtornos de humor.

WWW.UNINGA.BR 52
ENSINO A DISTÂNCIA

O mecanismo de ação do lítio ainda não está bem esclarecido, porém, existem vários
mecanismos possíveis. Ele pode atuar na transdução de sinais, talvez pela inibição de enzimas que
são segundos mensageiros, da modulação das proteínas G ou da interação em diversos locais em
cascatas de transdução de sinais corrente abaixo. Atualmente, as prescrições de lítios, geralmente,
indicam doses baixas e de apenas uma administração ao dia.
Apesar de ser eficaz em torno de 70% a 80% dos pacientes bipolares, a monoterapia
dificilmente é empregada devido à demora no seu início de ação, mas, mesmo assim, é o
medicamento de primeira escolha.
A associação de lítio com antidepressivos e anticonvulsivantes tem demonstrado maior
eficácia para prevenir recaídas. No entanto, os antidepressivos devem ser utilizados com cuidado,
porque podem provocar uma guinada rápida da depressão para a euforia ou acelerar a incidência
das crises.
Os principais efeitos adversos do lítio consistem em sintomas gastrointestinais como
dispepsia, náusea, vômito e diarreia, bem como ganho de peso, queda de cabelo, acne e prejuízo
na cognição e na coordenação motora. Também são observados efeitos adversos a longo prazo,
sobre a tireoide e os rins. Por se tratar de um fármaco de baixo índice terapêutico, a dose escolhida
costuma ser a menor dose efetiva possível. Seus níveis plasmáticos devem ser monitorados pela
realização de exames de sangue para determinar sua concentração plasmática (litemia).

2.3. Anticonvulsivantes como Estabilizadores do Humor

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
O valproato ou o divalproato (um composto contendo iguais proporções de ácido valpróico
e valproato de sódio) têm sido amplamente utilizados, nos últimos anos, para o tratamento do
transtorno bipolar. Existem estudos controlados mostrando sua eficácia no tratamento da mania
aguda; há também dados indicando que o valproato pode ser mais eficaz do que o lítio para a
mania mista e para os cicladores rápidos. 
Efeitos colaterais comuns do valproato incluem: sedação; perturbações gastrointestinais;
náusea; vômitos; diarreia e tremores. Leucopenia (diminuição do número de leucócitos, que são as
células de defesa do sangue) assintomática e trombocitopenia (baixa quantidade de plaquetas no
sangue) podem ocorrer. Outros efeitos incluem: queda de cabelo (às vezes acentuada) e aumento
do peso e do apetite. Em alguns casos, a leucopenia pode ser severa e acarretar a interrupção do
tratamento.
Outro fármaco desta classe utilizado no tratamento do transtorno bipolar é a
carbamazepina. Vários estudos sugerem taxa de resposta em torno de 60% para quadros de mania
aguda, além de eficácia na profilaxia da doença bipolar. A limitação de seu uso se dá devido a
sua atividade indutora de enzimas hepáticas. Assim, a carbamazepina induz ao aumento de seu
próprio metabolismo, suas doses devem ser ajustadas depois de algum tempo, para que os níveis
no sangue sejam mantidos. Além disso, vale lembrar que a indução de enzimas hepáticas também
reduz os níveis de várias outras substâncias (como os hormônios tiroidianos); medicamentos,
como os anticoncepcionais, devem ter suas doses reajustadas, em acordo com o ginecologista,
sob risco de gravidez não planejada.
Os efeitos colaterais mais frequentes da carbamazepina são: diplopia, visão borrada,
fadiga, náusea e ataxia. Esses efeitos, geralmente, são transitórios, melhorando com o tempo e/
ou com a redução da dose. Menos frequentemente observam-se “rash” cutâneo, leucopenia leve,
trombocitopenia leve, hipo-osmolaridade e leve elevação das enzimas hepáticas (em 5% a 15%
dos pacientes).

WWW.UNINGA.BR 53
ENSINO A DISTÂNCIA

Caso os níveis da leucopenia e a elevação das enzimas hepáticas se agravem, a CBZ deve
ser interrompida. A hiponatremia deve-se à retenção de água devido ao efeito antidiurético da
CBZ, mais comum nos idosos; às vezes, a hiponatremia leva à necessidade de interromper o uso
desse medicamento. A CBZ pode diminuir os níveis de tiroxina e elevar os níveis do cortisol. No
entanto, raramente esses efeitos são clinicamente significativos. Efeitos raros, mas potencialmente
fatais, incluem: agranulocitose, anemia aplásica, dermatite esfoliativa (por exemplo, Stevens-
Johnson) e pancreatite.
Outros anticonvulsivantes têm sido testados no transtorno bipolar, como a oxcarbazepina,
a lamotrigina, a gabapentina e o topiramato, porém, ainda não existem muitos estudos controlados
com esses medicamentos, o que faz com que sejam empregados com cautela e para casos resistentes
aos tratamentos já estabelecidos.
Além dos tratamentos farmacológicos citados, a eletroconvulsoterapia conserva lugar
de destaque no tratamento dos casos resistentes, mostrando ação antidepressiva, antimaníaca e
estabilizadora do humor.

3 - PSICOSE E ANTIPSICÓTICOS

3.1. Psicose e Esquizofrenia

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
A psicose é uma síndrome que pode ser associada a diversos transtornos mentais.
De maneira simples, observamos que, durante a psicose, o indivíduo apresenta delírios e/ou
alucinações. Pode ainda envolver comportamentos e discurso desorganizados. Assim, a psicose
pode ser considerada um conjunto de sintomas nos quais a capacidade mental, a resposta afetiva
e a capacidade do indivíduo de reconhecer a realidade, de se comunicar e de se portar estão
comprometidas.
Esta síndrome constitui característica definidora para diagnóstico de transtornos
psicóticos, como esquizofrenia, por exemplo; mas, também, pode estar presente em quadros de
mania, depressão e transtornos cognitivos, como na Doença de Alzheimer.
Assim, fica claro que nem toda psicose é esquizofrenia. Para ser diagnosticado com
esquizofrenia o paciente deve apresentar, por aproximadamente 6 meses, os sintomas positivos e
negativos, que descreveremos a seguir.

Sintomas positivos:
• Alucinações
• Distorções ou exageros da linguagem e da comunicação
• Fala desorganizada
• Comportamento desorganizado
• Catatônico
• Agitação

WWW.UNINGA.BR 54
ENSINO A DISTÂNCIA

Sintomas negativos:
• Alogia (diminuição da fluência da fala)
• Anedonia (redução da capacidade de sentir prazer)
• Avolição (diminuição do comportamento orientado para metas)
• Embotamento afetivo (diminuição na gama ou intensidade de expressão emocional)
• Passividade
• Prejuízo na atenção

O paciente, ainda, pode apresentar sintomas afetivos, cognitivos e/ou agressivos.


A esquizofrenia é um transtorno do neurodesenvolvimento, com genética complexa e
fisiopatologia não entendida completamente. Acredita-se que seus sintomas estejam relacionados
a níveis elevados ou desregulados de neurotransmissão mediada por dopamina no cérebro.
Esta hipótese derivou-se da descoberta da eficácia terapêutica da clorpromazina para tratar
esquizofrenia, e o esclarecimento de que o antagonismo de receptores dopaminérgicos pós-
sinápticos do tipo 2 (D2), era o mecanismo que explicava seu efeito antipsicótico. Esta teoria
ainda foi reforçada pela observação de que drogas que aumentavam os níveis de dopamina, como
a cocaína, anfetaminas e drogas utilizadas para tratar o mal de Parkinson, como L-dopa, por
exemplo, apresentavam alto risco de provocar psicose.
A DA atua em diferentes regiões do cérebro, exercendo diferentes funções. Compreender
a neuroanatomia das vias neuronais dopaminérgicas é essencial para a compreensão dos sintomas
da esquizofrenia, bem como os efeitos terapêuticos e efeitos colaterais dos medicamentos

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
antipsicóticos.
Existem cinco grandes vias dopaminérgicas no encéfalo (Figura 5):

a) Via nigroestriatal: se projeta da substância negra para os núcleos da base, especificamente


para a porção dorsal do estriado e modula, junto com o cerebelo, a função motora e o
movimento voluntário. A função desta via encontra-se normal na esquizofrenia e está
relacionada com um dos efeitos colaterais mais frequentes do tratamento antipsicótico
típicos, os chamados efeitos extrapiramidais, que surgem após o bloqueio dos receptores
D2 dopaminérgicos no estriado.
b) Via mesolímbica: projeta-se da área tegmental ventral do mesencéfalo para a porção
ventral do estriado, chamado de nucleus accumbens, uma parte do sistema límbico
que, por fazer parte do sistema de recompensa cerebral, está envolvida em muitos
comportamentos, como sensação de prazer, euforia intensa, como aquela produzida
por uso abusivo de substâncias psicoativas (drogas). Acredita-se que a hiperatividade
dopaminérgica nesta via seja responsável pelos sintomas positivos da esquizofrenia.
c) Via mesocortical: projeta-se, também, da área tegmental ventral do mesencéfalo,
só que as projeções são para áreas do córtex pré-frontal, onde desempenham papel na
medicação de sintomas cognitivos e afetivos da esquizofrenia. Acredita-se que que a
hipoatividade desta via seja responsável pelos sintomas negativos da esquizofrenia.
d) Via túbero-infundibular: projeta-se do hipotálamo para a adeno-hipófise e controla
a secreção de prolactina. Encontra-se normal na esquizofrenia e está relacionada com
um dos efeitos colaterais do tratamento antipsicótico típico, a hiperprolactinemia e
ginecomastia, que podem surgir pelo bloqueio dos receptores D2 dopaminérgicos nesta
via.
e) A quinta via não tem um nome definido, pois surge de múltiplos locais e projeta-se
para o tálamo. Sua função ainda não está bem elucidada.

WWW.UNINGA.BR 55
ENSINO A DISTÂNCIA

Figura 5 - Vias dopaminérgicas cerebrais. Fonte: Stahl (2013).

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
A causa da esquizofrenia ainda é desconhecida, porém acredita-se que exista um
forte componente hereditário, com a participação de muitos genes, além de um fator
ambiental (epigenético) que favorece o desequilíbrio na atividade dopaminérgica cerebral e,
consequentemente, no desenvolvimento da doença mental.
Em geral, o acompanhamento do paciente esquizofrênico requer o envolvimento
de uma equipe multidisciplinar, cuja finalidade é melhorar a qualidade de vida do paciente,
diminuindo seus sintomas psicóticos, prevenindo recaídas e, sempre que possível, evitando a
institucionalização. Entretanto, nos momentos de crise, se necessário, deve-se considerar uma
internação como medida protetora.
O tratamento sintomático da esquizofrenia, bem como das demais psicoses, requer a
retirada do agente desencadeante, quando possível (exemplo: interrupção do uso da substância
causadora, no caso de psicoses induzidas por drogas de abuso), e o uso de agente farmacológicos
conhecidos como antipsicóticos.

3.2. Antipsicóticos
Os antipsicóticos são os medicamentos mais comumente prescritos para o tratamento da
esquizofrenia. São utilizados para controlar os sintomas, agindo diretamente sobre a desregulação
dos neurotransmissores.
A escolha do fármaco dependerá da condição do paciente em cooperar com o tratamento,
fazendo a autoadministração de comprimidos ou gotas corretamente; ou da rede de apoio
familiar, auxiliando na administração do medicamento. Caso seja resistente a tomar a medicação
oral, pode ser necessário a indicação de formas injetáveis de efeito prolongado, administrada por
profissional de saúde capacitado.

WWW.UNINGA.BR 56
ENSINO A DISTÂNCIA

As indicações de uso dos antipsicóticos não se limitam ao tratamento das psicoses e da


esquizofrenia, podendo, também, ser úteis em episódios de mania, estados mistos maníaco-
depressivos, depressões psicóticas, comportamento de violência impulsiva, distúrbios de
comportamento em doenças de Alzheimer, Parkinson etc. Além disso, alguns fármacos desta
classe podem, ainda, ser indicados para o controle de náuseas e vômitos, para o tratamento dos
soluços incoercíveis e para aumentar a produção de leite em mulheres que amamentam.
Os fármacos antipsicóticos utilizados atualmente são classificados como convencionais
(típicos) ou atípicos e detalhes sobre os representantes destas classes serão apresentados a seguir.

3.2.1. Antipsicóticos convencionais (típicos)


Os antipsicóticos convencionais (típicos), também denominados clássicos, de primeira
geração ou neurolépticos, foram os primeiros fármacos que demonstraram ser efetivos no
tratamento da esquizofrenia.
Foram descobertos casualmente na década de 50, quando observaram que o fármaco anti-
histamínico (com propriedade antialérgica), clorpromazina, exerceu efeito antipsicótico quanto
administrado a pacientes esquizofrênicos. A descoberta do mecanismo de ação antipsicótico
deste fármaco (antagonista de receptores D2), contribuição para a elaboração da hipótese
dopaminérgica.
Os principais medicamentos representantes desta classe incluem: haloperidol,

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
flufenazina, pimozina, clorpromazina, tioridazina, trifluoperazina e levomepromazina.
O mecanismo de ação geral dos representantes desta classe, como já citado, para um de
seus representantes (clorpromazina), se dá pelo bloqueio dos receptores de dopamina D2. Este
bloqueio, quando exercido sobre a via mesolímbica, diminui a hiperatividade dopaminérgica,
sendo responsável pelo controle dos sintomas positivos, o que resulta em seu efeito antipsicótico
(Figura 6).

Figura 6 - Mecanismo de ação dos antipsicóticos convencionais. Fonte: adaptado de Stahl (2013).

WWW.UNINGA.BR 57
ENSINO A DISTÂNCIA

Porém, infelizmente, para bloquear os receptores D2, na via mesolímbica, ocorre


simultaneamente o bloqueio destes mesmos receptores em todo o cérebro, o que provoca os
efeitos adversos, em decorrência de alterações de atividade exercida por estes receptores nas
diversas regiões cerebrais.
A seguir, vamos recapturar as funções das vias dopaminérgicas e discutir com mais
detalhes como o bloqueio de receptores D2 em cada uma está relacionado aos efeitos adversos
apresentados pelos pacientes em uso de antipsicóticos convencionais.

• Via mesolímbica - Apesar de ser responsável pelo efeito terapêutico, bloqueio excessivo
de receptores D2, nesta via também provoca a anedonia e falta de motivação, pois a
atividade dopaminérgica nesta região é responsável pela sensação se prazer, que também
acaba sendo “bloqueada” com o uso destes fármacos. Assim, o quadro que o paciente irá
apresentar se assemelha muito aos próprios sintomas negativos da esquizofrenia que, se
já estiverem presentes, poderão ser agravados.

• Via mesocortical - O bloqueio dos receptores D2 nesta via também contribui para
o agravamento dos sintomas negativos, pois, nesta região, a DA já está deficiente no
paciente esquizofrênico.

• Via nigroestriatal - Considerando o papel desta via no controle da função motora


e o movimento voluntário, o bloqueio de receptores D2 nesta região resulta em

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
distúrbios de movimento, que podem se assemelhar muito aos da doença de Parkinson
(parkinsonismo induzido por fármaco). Estes efeitos colaterais também são chamados de
sintomas extrapiramidais ou SEP. Quando este bloqueio ocorre de forma constante, após
a administração prolongada de fármacos desta classe, pode ocorrer um grave distúrbio
de movimento hipercinético, conhecido como discinesia tardia, que inclui movimento
faciais, da língua e de membros, possivelmente mediado por alterações irreversíveis nos
receptores D2 desta via.

Imagens bem representativas da discinesia são mostradas nessa pequena série


de vídeos.
Tardive Dyskinesia.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=FUr8ltXh1Pc&list=PLqNEW-
qYF9iiuxPYk8F0RRvSpejf_y5JY1>. Acesso em: 26 jan. 2019.

O efeito dos antipsicóticos convencionais sobre esta via ainda pode causar uma complicação
rara e potencialmente fatal, denominada “síndrome neuroléptica maligna”, caracterizada pela
ocorrência de rigidez muscular extrema, febre alta, podendo evoluir para coma e morte se não
tratada a tempo.

WWW.UNINGA.BR 58
ENSINO A DISTÂNCIA

• Via tuberoinfundibular – O bloqueio dos receptores D2 nesta via resulta em aumento


da prolactina, conhecido como hiperprolactinemia, que provoca diminuição da libido,
galactorreia (secreção mamária e amenorreia (menstruação irregular ou ausente),
interferindo, assim, na fertilidade feminina. Nos homens pode ocorrer ginecomastia
(crescimento de mamas), o que pode contribuir para o abandono de tratamento.

Além da ação sobre receptores dopaminérgicos, os antipsicótico convencionais também


bloqueiam receptores de acetilcolina, o que causa efeitos adversos como boca seca, visão turva e
constipação intestinal; receptores histaminérgicos, o que pode causar ganho de peso e sonolência,
e receptores adrenérgicos, o que também pode causar sonolência, além de hipotensão ortostática.

3.2.2. Antipsicóticos atípicos


Os antipsicóticos atípicos, também chamados antipsicóticos de segunda geração, surgiram
na tentativa de minimizar os efeitos colaterais causados por antipsicóticos típicos. São uma classe
de medicamentos capazes de promover a ação antipsicótica em doses que não produzam, de
modo significativo, sintomas extrapiramidais. Outras características dos representantes desta
classe incluem: ausência de hiperprolactinemia e ausência, ou pelo menos menor risco, de
discinesia tardia após administração crônica.
Os principais fármacos representantes desta classe são: clozapina, risperidona,

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3
olanzapina, quetiapina, ziprasidona, sulpirida e aripiprazol.
O mecanismo de ação dos antipsicóticos desta classe apresentam como características
diferenciais uma menor afinidade pelo receptor D2 e maior afinidade pelos receptores de
serotonina do tipo 5-HT2. O efeito sobre D2 também se dá pelo bloqueio destes receptores, porém
com menos intensidade, comparado ao realizado pelos antipsicóticos típicos. Já a serotonina,
está relacionada às funções cognitivas e à manutenção do humor. Assim, a ação destes fármacos
(menor bloqueio D2 e maior bloqueio 5HT-2) melhora tanto os sintomas positivos, quanto os
sintomas negativos, típicos da esquizofrenia. 
Estes também demonstram menor propensão para provocar efeitos colaterais
como hipotensão e efeitos anticolinérgicos (boca seca, constipação intestinal e visão turva),
provavelmente devido à sua menor afinidade pelos receptores adrenérgicos e colinérgicos,
respectivamente.
Por serem mais seguros em termos de efeitos colaterais neurológicos, existe um consenso
crescente de que esta classe de medicação seja utilizada como primeira escolha no tratamento da
esquizofrenia e deve ser a primeira escolha para pacientes de primeiro episódio psicótico.
No entanto, os antipsicóticos de segunda geração estão relacionados a alguns riscos,
como alterações no metabolismo de lipídeos, distúrbios de utilização de glicose e ganho de peso
que, apesar de também serem conhecidos em antipsicóticos convencionais, podem ser mais
pronunciados com o uso dos atípicos.
Por fim, atenção maior deve ser dada aos pacientes em uso de clozapina, pois, apesar
da sua eficácia, esta pode induzir agranulocitose, alteração que ocorre no sangue por conta
da neutropenia e leucopenia, podendo ser fatal. Por este motivo, estes pacientes devem ser
submetidos a monitoração hematológica (exames de sangue – hemograma completo) periódica,
para investigação de agranulocitose associada ao uso deste antipsicótico.

WWW.UNINGA.BR 59
ENSINO A DISTÂNCIA

4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao fim desta unidade pudemos compreender a sintomatologia e a fisiopatologia
envolvida na depressão, transtorno bipolar e psicóticos e esquizofrenia. O conhecimento das
bases biológicas destas doenças permite um melhor entendimento do mecanismo de ação dos
principais medicamentos utilizados para o tratamento destes transtornos.
Ainda pudemos conhecer detalhadamente as diversas classes farmacológicas disponíveis
para tratar cada condição, bem como suas indicações, mecanismos de ações e efeitos adversos.
Não se esqueça, em caso de dúvidas não deixe de contatar o nosso pessoal. Estaremos
prontos para atendê-lo!

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 3

WWW.UNINGA.BR 60
UNIDADE ENSINO A DISTÂNCIA

04
DISCIPLINA:
PSICOFARMACOLOGIA

TRATAMENTO DA DEMÊNCIA E
FARMACOLOGIA DAS DROGAS DE ABUSO
PROF.A DRA. VIVIAN TACIANY BONASSOLI SHIMA

SUMÁRIO DA UNIDADE

INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................. 63
1 - DEMÊNCIA E SEU TRATAMENTO....................................................................................................................... 64
1.1. DEMÊNCIA........................................................................................................................................................... 64
1.1.1. DOENÇA DE ALZHEIMER ................................................................................................................................ 65
1.1.2. DEMÊNCIA VASCULAR.................................................................................................................................... 66
1.2. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO DA DEMÊNCIA........................................................................................... 66
1.2.1. INIBIDORES DA COLINESTERASE................................................................................................................. 66
1.2.2. TRATAMENTO PARA OS SINTOMAS PSIQUIÁTRICOS E COMPORTAMENTAIS DA DEMÊNCIA............ 66
2 - FARMACOLOGIA DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA................................................................................................ 67
2.1. CIRCUITO DA RECOMPENSA............................................................................................................................ 69
2.2. CLASSIFICAÇÃO DAS DROGAS DE ABUSO...................................................................................................... 70

WWW.UNINGA.BR 61
2.2.1. DROGAS DEPRESSORAS .........................................................................................................................................70
2.2.2. DROGAS ESTIMULANTES......................................................................................................................................... 71
2.2.3. DROGAS PERTURBADORAS..................................................................................................................................... 71
2.3. DROGAS LÍCITAS.................................................................................................................................................71
2.3.1. ÁLCOOL..............................................................................................................................................................71
2.3.2. NICOTINA........................................................................................................................................................ 73
2.4. DROGAS ILÍCITAS.............................................................................................................................................. 75
2.4.1. MACONHA........................................................................................................................................................ 75
2.4.2. COCAÍNA ......................................................................................................................................................... 76
2.4.3. ECSTASY...........................................................................................................................................................77
2.4.4. LSD................................................................................................................................................................... 78
3 - CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................................................... 78

WWW.UNINGA.BR 62
ENSINO A DISTÂNCIA

INTRODUÇÃO
Bem-vindo a nossa Unidade IV da disciplina de Psicofarmacologia!
Nesta unidade vamos estudar os tratamentos farmacológicos de dois transtornos bem
relevantes na atualidade. Iniciaremos com a apresentação dos fármacos para tratamento da
demência, condição frequente na população idosa, que vem crescendo a cada dia, pelo aumento
da expectativa de via. E, posteriormente, vamos abordar a fisiopatologia da dependência
química, bem como o mecanismo de ação das drogas de abuso, citando ainda os tratamentos
farmacológicos disponíveis para tratar a dependência e/ou abstinência de cada substância.
Desejamos a você ótimos momentos de estudo e aprendizado e, para que possa aproveitar
ao máximo o conteúdo deste material, não deixe de acessar os materiais complementares
sugeridos, participar dos fóruns e ficar atento a todas as orientações da equipe que o acompanha.
Bons estudos!

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4

WWW.UNINGA.BR 63
ENSINO A DISTÂNCIA

1 - DEMÊNCIA E SEU TRATAMENTO

1.1. Demência
O esquecimento e a desorientação já foram considerados um processo normal do
envelhecimento. Acreditava-se que tais sintomas seriam inevitáveis, bastando viver tempo
suficiente para experimentá-los.
A demência é caracterizada por declínio cognitivo ou modificações comportamentais
(neuropsiquiátricas) em relação a um nível prévio de desempenho que causa perda da independência
para as atividades de vida diária. O paciente demente apresenta prejuízo da memória (amnésia),
déficits de linguagem (afasia), de função motora (apraxia), de reconhecimento (agnosia) ou de
função executiva, como memória de trabalho e resolução de problemas. Podem ocorrer, ainda,
alterações na personalidade (Tabela 1).

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4

Tabela 1 - Funções cerebrais: cérebro normal versus cérebro com demência. Fonte: Steele (2019).

WWW.UNINGA.BR 64
ENSINO A DISTÂNCIA

Atualmente, a demência é considerada um evento anormal, sendo causada por diversos


fatores, muitos deles identificáveis.
Sabe-se que, aos 65 anos, aproximadamente 7% dos indivíduos têm demência. Entre 75
e 85 anos, o percentual aumenta para cerca de 16% e, aos 85 anos, acredita-se que, pelo menos,
metade da população terá demência.
A doença de Alzheimer e a demência vascular são as principais formas de demência
no idoso, correspondendo a cerca de 80% a 90% das causas, por isso serão estudadas com mais
detalhes neste material. Assim, o principal fator de risco para demência é o envelhecimento,
porém alguns fatores de risco modificáveis devem ser considerados, como baixa escolaridade,
hipertensão, diabetes, dislipidemia e tabagismo. Além disso, aspectos de estilo de vida estão
inversamente associados à demência, como participar de atividades de interação social e de
estímulo intelectual.

1.1.1. Doença de Alzheimer


A doença de Alzheimer caracteriza-se, pela maciça perda sináptica e pela morte neuronal
observada nas regiões cerebrais responsáveis pelas funções cognitivas.
As características histopatológicas presentes no cérebro de pacientes portadores da
doença incluem depósitos fibrilares amiloidais associados a uma variedade de diferentes tipos
de placas senis, acúmulo de filamentos anormais da proteína tau e consequente formação de

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
novelos neurofibrilares (NFT), perda neuronal e sináptica. Além disso, foi observado que
cérebros de pacientes portadores da doença de Alzheimer mostraram degeneração dos neurônios
colinérgicos (produtores de acetilcolina) e diminuição de marcadores colinérgicos, sendo que as
enzimas colina acetiltransferase e a acetilcolinesterase tiveram sua atividade reduzida no córtex
cerebral de pacientes portadores da doença de Alzheimer.

(a) (b)

Figura 1 - Comparação cérebro normal versus cérebro de paciente com Alzheimer. Visão macroscópica (a), e repre-
sentação das placas amiloides e novelos neurofiblilares (b). Fonte: Clínica Dr. Alexandre Cruzeiro (2016).

Assim, duas hipóteses principais foram propostas, a fim de explicar a etiologia da


doença: a hipótese amiloidal e a hipótese colinérgica, que servem de base para os tratamentos
farmacológicos atuais.

WWW.UNINGA.BR 65
ENSINO A DISTÂNCIA

1.1.2. Demência vascular


A demência vascular resulta da diminuição de suprimento de sangue ao cérebro. A causa
mais comum da doença é uma série de pequenos acidentes vasculares encefálicos, muitos deles
não detectáveis. Estes acidentes interrompem o fluxo de sangue, oxigênio e nutrientes para a
área afetada. O quadro clínico de demência surge quando, aproximadamente, 50 ml de tecido
cerebral está comprometida. As alterações na capacidade funcional podem ocorrer repentina ou
gradualmente, à medida que mais tecidos forem danificados.

1.2. Tratamento Farmacológico da Demência


Apesar dos esforços realizados para a compreensão e tratamento da doença de Alzheimer
e das demências em geral, infelizmente, a terapia atual está longe de ser satisfatória.

1.2.1. Inibidores da colinesterase


Considerando que a acetilcolina é um neurotransmissor importante para a memória
e o paciente com Doença de Alzheimer têm níveis baixos deste neurotransmissor no cérebro,
foram desenvolvidos fármacos inibidores da enzima acetilcolinesterase (enzima que degrada

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
acetilcolina).
Embora estes fármacos tenham demonstrado eficácia sintomática e redução na progressão
da patologia, costumam produzir melhora em apenas 30 a 40% dos pacientes portadores da
doença de Alzheimer de grau leve a moderado.
Os principais fármacos representantes desta classe são: tacrina, rivastigmina, donepezil,
galantamina.
O mecanismo de ação destes fármacos se dá pela inibição das designadas colinesterases
(acetilcolinesterase e butirilcolinesterase). Estas enzimas destroem a acetilcolina no cérebro e, se
a sua ação for inibida, mais acetilcolina estará disponível para se ligar a seus receptores cerebrais e
realizar a comunicação entre os neurônios, o que, por sua vez, pode, temporariamente, melhorar
ou estabilizar os sintomas da demência.
Desde que foram introduzidos na prática clínica, os medicamentos desta classe constituem
o tratamento sintomático de escolha para a doença de Alzheimer.
Os efeitos adversos destes fármacos são mais comuns quando alguém os toma pela
primeira vez e, na maioria das vezes, diminuem com o tempo. Os efeitos mais comuns são a
diarreia, náuseas, vômitos, cãibras musculares, diminuição da pressão arterial, insônia, fadiga e
perda de apetite.
Fármacos que atuam sobre as placas amiloides estão em fase de estudos e, no momento,
ainda não são utilizados na rotina clínica.

1.2.2. Tratamento para os sintomas psiquiátricos e comportamentais


da demência
Além de distúrbios de memória, a demência também apresenta uma série de sintomas
emocionais e comportamentais.

WWW.UNINGA.BR 66
ENSINO A DISTÂNCIA

Para o controle da agitação e agressividade, antes de utilizar medicação, os possíveis agentes


precipitantes devem ser controlados, incluindo dor, abstinência de nicotina, efeitos colaterais
de medicamentos, doenças não diagnosticadas e ambiente provocativos (com estimulação em
excesso ou insuficiente). O tratamento de primeira escolha para estes quadros na demência
inclui inibidores seletivos da recaptação de serotonina (exemplo: citalopram e escitalopram) ou
inibidores seletivos da recaptação de serotonina e noradrenalina (exemplo: venlafaxina).
Nos casos de agitação e agressividade causados pela doença de Alzheimer, os medicamentos
de primeira linha incluem os inibidores da colinesterase. O uso de antipsicóticos típicos é
contraindicado pelos seus riscos, porém o uso de antipsicóticos desta classe ou dos atípicos
pode ser necessário. Neste caso, a risperidona, em doses muito baixas, é uma das opções. Para se
evitar o uso de antipsicóticos, tratamentos de segunda linha podem incluir anticonvulsivantes,
benzodiazepínicos, buspirona ou trazodona.
Para o tratamento da depressão em idosos com ou sem demência, os inibidores da
recaptação de serotonina são usualmente as drogas de primeira escolha. Os antidepressivos
tricíclicos não devem ser utilizados como primeira opção terapêutica em pacientes portadores
da doença de Alzheimer, pois efeitos prejudiciais sobre a cognição podem advir de suas ações
anticolinérgicas e sedativas. Por fim, temos, ainda, os inibidores da monoamina oxidase (MAO),
que apresentam poucas propriedades anticolinérgicas, porém seu uso deve ser indicado apenas
nos casos refratários às demais opções, pela ocorrência de hipotensão postural (risco de quedas
e fraturas) ou crises hipertensivas por falhas dietéticas.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
2 - FARMACOLOGIA DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA
A dependência química constitui um padrão comportamental de uso abusivo de
substância(s), caracterizado pelo envolvimento extremo com a obtenção e uso de seu suprimento,
bem como alta tendência a recaídas após a interrupção do uso.
Em relação aos critérios diagnósticos, há dois códigos internacionais vigentes que
precisam ser conhecidos. O primeiro é a publicação da Organização Mundial de Saúde (OMS),
atualmente na décima edição, denominada de Classificação Internacional de Doenças (CID-
10), que apresenta critérios diagnósticos gerais de uso nocivo e dependência de substâncias. O
segundo é o Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, atualmente na quinta edição
(DSM-5), que traz critérios diagnósticos específicos para cada substância.
Segundo o CID-10, o diagnóstico de dependência deve ser feito se três ou mais dos
seguintes critérios são experienciados ou manifestados durante o ano anterior:

1. Forte desejo ou senso de compulsão para consumir a substância.

2. Dificuldades em controlar o comportamento de consumir a substância, em termos de


início, término e níveis de consumo.

3. Estado de abstinência fisiológica quando o uso da substância cessou ou foi reduzido,


evidenciado pela síndrome de abstinência de uma substância específica, ou quando se faz
o uso da mesma substância com a intenção de aliviar ou evitar sintomas de abstinência.

4. Evidência de tolerância, de tal forma que doses crescentes da substância psicoativa são
requeridas para alcançar efeitos originalmente produzidos por doses mais baixas.

WWW.UNINGA.BR 67
ENSINO A DISTÂNCIA

5. Abandono progressivo de prazeres e interesses alternativos, em favor do uso da


substância psicoativa. Aumento, também, da quantidade de tempo necessário para obter
ou ingerir a substância, assim como para se recuperar de seus efeitos.

6. Persistência no uso da substância, a despeito de evidência clara de consequências


nocivas, tais como: danos ao fígado, por consumo excessivo de bebidas alcoólicas, estados
de humor depressivos, períodos de consumo excessivo da substância, comprometimento
do funcionamento cognitivo etc. Nesse caso, deve-se fazer esforço para determinar se o
usuário estava realmente (ou se poderia esperar que estivesse) consciente da natureza e
extensão do dano.

Quanto ao termo tolerância, citado nos critérios, é importante esclarecer que esta
condição pode se manifestar sob diversos aspectos, tais como:

• Tolerância inata: refere-se a variações individuais na sensibilidade à droga que estão


presentes desde sua primeira administração. São decorrentes de polimorfismos nos genes.

• Tolerância adquirida: não tem relação com fatores genéticos (inatos). Resulta
de adaptações orgânicas (farmacocinética e farmacodinâmica) ou comportamentais
(aprendida), adquiridas após o início de uso da substância de abuso.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
• Farmacocinética: surge quando há aumento da capacidade de metabolizar ou excretar
a droga ao longo do tempo.

• Farmacodinâmica: é causada por alterações na interação droga receptor (diminuição


do número de receptores).

• Aprendida: o indivíduo aprende a modificar seu comportamento para ocultar os efeitos


da droga.

Como citado no CID-10, tolerância e abstinência são características presentes na


dependência de qualquer tipo de substância. Além disso, após períodos prolonga-
dos de abstinência, o indivíduo pode apresentar sensibilização ao efeito da subs-
tância de abuso. O termo sensibilização, também conhecido como tolerância in-
versa, refere-se à necessidade de uma dose menor para obter o mesmo efeito. Em
exemplo de situação envolvendo a sensibilização pode ser observado alcoolistas
abstinentes de longa data, que decidem consumir pequenas quantidades de be-
bida alcóolica pois “se consideram curados”. Por se encontrarem sensibilizados,
mesmo pequenas doses podem ser capazes de provocar sensação de euforia e
prazer intenso (recompensa), o que leva a perda de controle sobre o consumo,
provocando as recaídas. O gráfico 1 relaciona as doses necessárias para se obter
o efeito máximo da substância, em cada momento da dependência.

WWW.UNINGA.BR 68
ENSINO A DISTÂNCIA

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
Gráfico 1 - Relação entre dose administrada e porcentagem de resposta máxima. Fonte: Golan
(2010).

Assim como o tratamento da demência, o tratamento da dependência química requer


a atenção de uma equipe multidisciplinar, com abordagem biopsicossocial. Neste sentido, o
conhecimento das bases biológicas que permeiam esta condição, permite aos profissionais
envolvidos uma melhor compreensão da doença e dos possíveis tratamentos farmacológicos,
contribuindo, assim, para a tomada de decisões.
Cada droga de abuso tem o seu mecanismo de ação particular, mas todas elas atuam,
direta ou indiretamente, ativando uma mesma região do cérebro: o circuito de recompensa
cerebral.

2.1. Circuito da Recompensa


O circuito de recompensa é formado por circuitos neuronais responsáveis pelas ações
reforçadas positiva e negativamente.
Quando nos deparamos com um estímulo prazeroso, nosso cérebro lança um sinal: o
aumento de dopamina, na região do cérebro denominada núcleo accumbens.
Normalmente, existe um aumento de dopamina com estímulos prazerosos (exemplo:
alimentos saborosos, atividade sexual e/ou estímulos ambientais agradáveis). As drogas de abuso
agem no neurônio dopaminérgico, isto é, neurônios cujo principal neurotransmissor é a dopamina,
induzindo um aumento brusco e exacerbado deste neurotransmissor no nucleo accumbens, que
faz parte de via mesolímbica, já apresentada na Unidade III, no item que descreve a ação dos
antipsicóticos. O aumento de dopamina nesta via é o mecanismo comum para praticamente
todas as drogas de abuso. Esse sinal é reforçador, associado a sensações de prazer, fazendo com
que a busca pela droga se torne cada vez mais provável.

WWW.UNINGA.BR 69
ENSINO A DISTÂNCIA

Figura 2 - Neurônio dopaminérgico da via mesolímbica, que parte da área tegmentar ventral (lado esquerdo da
figura) e inerva o nucleo accumbens (lado direito da figura). Fonte: UFSC (2019).

Hipoteticamente, esta via está hiperativa na psicose, o que medeia os efeitos positivos da
esquizofrenia.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
Mecanismo da Dependência Química no Cérebro.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6hK9PM1uM8U>. Acesso
em: 30 jan. 2019.

2.2. Classificação das Drogas de Abuso


As drogas psicotrópicas são classificadas em três grupos, de acordo com os estímulos que
promovem no sistema nervoso central.

2.2.1. Drogas depressoras


Fazem com que o cérebro funcione lentamente, causam uma diminuição da atividade
global ou de certos sistemas cerebrais. Como consequência dessa ação, há uma tendência de ocorrer
uma diminuição da atividade motora, da reatividade à dor e da ansiedade, atenção, concentração,
capacidade de memorização e a capacidade intelectual. É comum um efeito euforizante inicial
e, posteriormente, um aumento da sonolência.  Exemplos: álcool e medicamentos ansiolíticos,
como os barbitúricos e benzodiazepínicos.

WWW.UNINGA.BR 70
ENSINO A DISTÂNCIA

2.2.2. Drogas estimulantes


Aumentam a atividade de determinados sistemas neuronais, o que traz como
consequências um estado de alerta exagerado, insônia e aceleração dos processos psíquicos.
Exemplos: anfetaminas, cocaína e nicotina.

2.2.3. Drogas perturbadoras


Produzem uma série de distorções qualitativas no funcionamento do cérebro, como
delírios, alucinações e alteração na senso-percepção. Por este motivo, são também chamadas de
alucinógenos ou psicotomiméticos. Exemplos: maconha, alucinógenos, LSD, êxtase.

As drogas de abuso ainda podem ser classificadas do ponto de vista legal, em


drogas  lícitas e ilícitas. As definições desta classificação, bem como as características das
drogas representantes de cada grupo estão descritas com mais detalhes nos itens a seguir.

2.3. Drogas Lícitas


As drogas lícitas são as que podem ser livremente comercializadas. Algumas têm sua

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
comercialização autorizada por legislação específica e estão submetidas a certas restrições.
Exemplo: bebidas alcoólicas e nicotina não podem ser vendidas para menores de 18 anos. No
caso de medicamentos, alguns só podem ser adquiridos por meio de prescrição médica especial.

2.3.1. Álcool
O que genericamente chamamos de álcool é, na verdade, etanol (fórmula química:
C2H5OH), encontrado em todas as bebidas com teor alcoólico. Suas propriedades psicotrópicas
são conhecidas desde tempos pré-históricos e, praticamente, todas as culturas têm ou tiveram
alguma experiência com sua utilização. É seguramente a droga psicotrópica de uso e abuso mais
amplamente disseminada em grande número e diversidade de países na atualidade.
Mesmo o álcool sendo uma droga depressora, logo após a ingestão de bebidas alcoólicas
podem surgir efeitos estimulantes, como euforia, desinibição e desembaraço. Porém, com o
passar do tempo e/ou com o aumento da dose, surgem os efeitos depressores, como falta de
coordenação motora, descontrole e sonolência. Quando há o consumo exagerado, o efeito
depressor é exacerbado, podendo, até mesmo, provocar estado de coma.

WWW.UNINGA.BR 71
ENSINO A DISTÂNCIA

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
Figura 3 - Equivalência da quantidade de álcool em diferentes bebidas, em termos de dose-padrão. Fonte: UFSC
(2019).

Após a administração oral, o etanol é rapidamente absorvido no estômago e no intestino


delgado e se distribui na água corporal total (0,5 - 0,7 L/kg). Os níveis sanguíneos máximos
ocorrem cerca de 30 minutos após o consumo, quando ingerido em jejum.
Uma visão simplificada do mecanismo de ação do álcool é que ele potencializa a
neurotransmissão inibitória do ácido gama-amino butírico (GABA), aumentando a condutância
de cloro (Cl-), o que provoca inibição pós-sináptica por meio da diminuição transitória do
potencial de membrana. Além disso, ainda atua inibindo a neurotransmissão excitatória mediada
por glutamato. O aumento na atividade de GABA e a diminuição na de glutamato resulta em
sintomas como sedação e diminuição do tônus muscular observados na intoxicação alcoólica.
Como é comum às drogas de abuso, o reforço é, teoricamente, mediado pelo efeito que
as mudanças nos sistemas de GABA e glutamato exercem sobre a liberação de dopamina na via
mesolímbica.
Sendo o etanol uma droga capaz de causar dependência, a descontinuação de seu uso
crônico está associada à síndrome de abstinência, decorrente de alterações neurobiológicas nos
mesmos sistemas neurotransmissores envolvidos na dependência.
A síndrome de abstinência alcoólica em humanos tem início de 6 a 24 horas após o último
consumo. Seus sinais e sintomas incluem o anseio pela substância ou “fissura”, além de ansiedade,
tremor, irritabilidade, náuseas, taquicardia, distorções da percepção, agitação, alucinações,
convulsões e delirium tremens. Estes sintomas, muitas vezes, fazem com que o indivíduo volte
a usar a substância, não mais pelo prazer que ela proporciona, mas para amenizar os efeitos
aversivos experimentados na abstinência, o que constitui um grande obstáculo no tratamento
clínico do alcoolismo, estando associado a recaída de etilistas abstêmios.

WWW.UNINGA.BR 72
ENSINO A DISTÂNCIA

Os atuais tratamentos da dependência alcoólica incluem programas sociais, como


os Alcoólicos Anônimos (AA), comunidades terapêuticas, acompanhamento psicológico e
tratamentos farmacológicos. Quando necessário, a intervenção é feita principalmente com
drogas aversivas, como o dissulfiram ou drogas capazes de reduzir o desejo intenso de beber,
como naltrexona e o acamprosato. Estes dois últimos, quando combinados, atuam sobre
diferentes aspectos do uso de etanol, sendo a naltrexona responsável por diminuir o consumo e
o acamprosato por estabilizar a abstinência.
Na tentativa de amenizar sintomas excitatórios da abstinência de etanol, vários
psicofármacos são utilizados, sendo os benzodiazepínicos a medicação de primeira escolha,
administrados conforme a intensidade dos sintomas de agitação e convulsões. Esta classe
de medicamentos também atua como depressora do sistema nervoso central, sua eficácia na
abstinência está baseada na tolerância farmacológica cruzada com o etanol.
Apesar da eficácia, o uso de benzodiazepínicos no tratamento da dependência/
abstinência está associado à elevada incidência de tolerância, dependência e a ocorrência da
síndrome de abstinência quando se interrompe ou diminui o seu uso. Estas características,
somadas à possibilidade de abuso dessas drogas durante a detoxificação alcoólica e efeitos
colaterais desses compostos, como a inibição cognitiva e a sedação, limitam seu uso na clínica.
Além dos benzodiazepínicos, outros depressores, como os barbitúricos, e antipsicóticos como
o haloperidol, também podem ser utilizados para controlar as manifestações excitatórias e
alucinações, respectivamente.

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
2.3.2. Nicotina
Considerado um dos maiores problemas de saúde pública em diversos países do mundo,
o tabagismo é uma das principais causas potencialmente evitáveis de doenças e morte.
O tabaco é um produto agrícola processado a partir das folhas da planta denominada
Nicotiana tabacum, originária da América do Sul. A composição química do fumo pode
variar conforme o tipo de folhas de tabaco, o modo como são cultivadas, a região de origem,
as características de preparação (compactação, filtro e papel) e as variações de temperatura
resultantes da combustão incompleta do tabaco.
Sabe-se que a fumaça do cigarro contém mais de quatro mil substâncias químicas, muitas
das quais podem contribuir para os efeitos reforçadores positivos do tabaco. Contudo, a maioria
dos estudos demonstra que a nicotina é o principal agente responsável pelo desenvolvimento da
dependência ao tabaco, apesar de não estar necessariamente associada a todos os problemas de
saúde provocados pelo cigarro.
As ações psíquicas da nicotina são complexas, com uma mistura de efeitos estimulantes
e depressores. Menciona-se o aumento da concentração e da atenção, a redução do apetite e a
redução da ansiedade. Muitos fumantes relatam sentir uma sensação de relaxamento após fumar,
mas, na verdade, a nicotina apresenta um efeito estimulante sobre o sistema nervoso central. A
sensação de relaxamento é provocada por uma discreta diminuição no tônus muscular.
Além dos efeitos psíquicos, o tabagismo também está relacionado ao maior risco de
doenças cardiovasculares, doenças respiratórias e diversas formas de câncer. Seus efeitos sobre
as funções reprodutivas incluem redução da fertilidade, prejuízo do desenvolvimento fetal,
aumento de riscos para gravidez ectópica e aborto espontâneo. Além disso, existem evidências
de que pessoas não fumantes expostas à fumaça de cigarro do ambiente (fumantes passivos) têm
um risco maior de desenvolver as doenças citadas, quando comparados a pessoas não expostas.

WWW.UNINGA.BR 73
ENSINO A DISTÂNCIA

Cada cigarro fumado apresenta uma quantidade de nicotina entre 7 e 9mg, dos
quais pouco mais de 1mg é absorvido pelo fumante. A absorção de nicotina varia
de acordo com a forma de consumo do tabaco. No caso do tabaco curado, utiliza-
do para fazer cachimbos, charutos e as gomas, a nicotina é alcalina, sendo assim,
mais bem absorvida pela mucosa oral. Já a nicotina dos cigarros é mais ácida e,
por isso, praticamente não é absorvida pela mucosa bucal, devendo ser tragada
para que possa ser absorvida pelos pulmões.

O mecanismo de ação da nicotina se dá pela interação com os receptores colinérgicos


nicotínicos presentes na junção neuromuscular, nos gânglios autonômicos e no sistema nervoso
central. No SNC, ela age como agonista desses receptores, atuando de forma rápida, ao ocasionar
a abertura desses canais, provocando o influxo de cálcio (Ca+ e Na++). A ativação de receptores
nicotínicos provoca um aumento na liberação de outros importantes neurotransmissores, como
a noradrenalina, a acetilcolina, a serotonina e a dopamina.
O aumento da produção de noradrenalina provoca aumento da frequência cardíaca
aumento do estado de atenção, náuseas e piloereção; já o aumento da acetilcolina levaria a uma
melhora relativa da memória; o aumento da serotonina levaria a piora da ansiedade; e o aumento

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
da dopamina levaria a euforia, o que reforçaria o uso da nicotina (sobretudo, porque os receptores
nicotínicos implicados na ação da nicotina estão localizados na via mesolímbica.
A nicotina induz tolerância e se associa a uma síndrome de abstinência com alterações
do sono, irritabilidade, diminuição da concentração e ansiedade. Além dos efeitos já citados,
a nicotina também atua como agente indutor enzimático, acelerando o metabolismo de
outras drogas (inclusive medicamentos), que podem ter seus efeitos diminuídos. Os fármacos
afetados são: codeína, teofilina, heparina, warfarina, amitriptilina, imipramina, propranolol,
clorpromazina, diazepam, clordiazepóxido e indometacina. Pensando assim, fumantes deveriam
necessitar de doses diferenciadas desses medicamentos para obter o mesmo efeito terapêutico.
O tratamento do tabagismo não é fácil. Acredita-se que a dependência de nicotina comece
com o primeiro cigarro e que a primeira dose mostre sinais de duração de mais de um mês. A
fissura começa em 1 mês de administração repetida.
Um dos primeiros agentes de comprovada eficácia é a própria nicotina, administrada
por uma via diferente, como em forma de goma de mascar, pastilha, adesivos transdérmicos e
inaladores. A liberação de nicotina por estas outras vias não causa reforço, porém, é capaz de
diminuir a fissura.
Outros tratamentos disponíveis incluem a vareniciclina, um agonista de receptores
nicotínicos (colinérgicos), e a bupropiona, inibidor da recaptação de noradrenalina e dopamina,
capaz de reduzir a fissura.
Entre as drogas licitas ainda podemos citar os medicamentos capazes de causar
dependência. Neste grupo destacamos o uso abusivo de fármacos da classe dos benzodiazepínicos
e dos barbitúricos, descritos com detalhes no item sobre ansiolíticos, na Unidade II.

WWW.UNINGA.BR 74
ENSINO A DISTÂNCIA

2.4. Drogas Ilícitas


As drogas ilícitas têm sua comercialização proibida por lei. Pertencem ao grupo de
substâncias relacionadas na Lei Federal nº 6.368, de 21 de outubro de 1976.

2.4.1. Maconha
A maconha, cuja planta tem o nome científico de Cannabis sativa, constitui uma droga
(vegetal) que se caracteriza por seu cultivo milenar, é utilizada nos diversos lugares e épocas,
com aplicações na medicina, indústria (confecção de papel, cordas e velas para navios) e, até, em
rituais religiosos.
A maconha contém mais de 400 componentes ativos. Dentre esses, pelo menos 66 são
canabinóides, sendo que o mais bem estudado deles é o Δ9-tetraidrocanabinol (Δ9-THC).
Dependendo da quantidade de Δ9-THC presente na planta, a maconha poderá apresentar
potencial diferente e, com isso, mais ou menos efeitos.
As ações da maconha e de seu agente ativo, o Δ9-THC, sobre os circuitos de recompensa, são
exercidos nos receptores canabinóides, que consistem em locais onde os canabinóides endógenos
são utilizados naturalmente, como neurotransmissores retrógrados. Assim, as preparações de
Cannabis (fumada ou ingerida) liberam canabinóides, que interagem com os receptores de mesmo

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
nome no cérebro, desencadeando a liberação de dopamina pela via mesolímbica de recompensa.

MOREIRA, F. A.; CRIPPA, J. A. S. O Sistema Canabinóide Endógeno. Disponível em:


<https://www.uniad.org.br/images/stories/publicacoes/texto/selecoes_maco-
nha/O_Sistema_Canabinoide_Endogeno.pdf>. Acesso em: 29 jan. 2019.

Em doses habituais, o consumo da maconha produz sensação de bem-estar, amistosidade,


relaxamento, perda da consciência temporal, lentificação dos processos de pensamento,
comprometimento da memória e sensações de insights pessoais. Em doses altas pode provocar
pânico, delírio tóxico e até psicose.
Os efeitos agudos do Δ9-THC ainda podem incluir hiperemia de conjuntiva (olhos
vermelhos), boca seca e taquicardia ou, ao contrário, a chamada bad trip: angústia, sensação
desagradável de perda de controle, mãos tremulas e úmidas, delírios e alucinações. Além disso,
existe uma importante variação individual em relação aos efeitos psíquicos do Δ9-THC, mas
sabe-se que a memória de curto prazo, em particular, é bastante afetada.
A interrupção abrupta do uso diário ou quase diário de Cannabis pode resultar no
aparecimento da síndrome de abstinência da substância. Sintomas comuns de abstinência
incluem irritabilidade, raiva ou agressividade, ansiedade, humor deprimido, inquietação,
dificuldade em dormir e redução do apetite ou perda de peso. Embora não seja, em geral, grave
como a abstinência de álcool ou de opiáceos, a síndrome de abstinência de Cannabis pode causar
sofrimento significativo e contribuir para dificuldade em abandonar o hábito ou para casos de
recaída.

WWW.UNINGA.BR 75
ENSINO A DISTÂNCIA

As intervenções farmacológicas visam proporcionar o auxílio na aquisição da abstinência;


controle dos estados de intoxicação; tratamento de comorbidades psiquiátricas; controle sobre a
fissura ou auxílio na recuperação do controle sobre os impulsos (ou compulsão).
Infelizmente, pouca evidência científica ainda se tem disponível sobre o tratamento
farmacológico para a dependência de maconha. Entre as poucas opções, temos a fluoxetina e
a buspirona, que mostraram uma diminuição no número de cigarros de maconha consumidos.
Assim, sugere-se que que os antidepressivos ou medicamentos ansiolíticos podem ter um papel
no tratando da dependência a esta substância.

2.4.2. Cocaína
A cocaína é uma substância natural extraída de plantas da espécie Erythroxylon coca e age
como um estimulante do sistema nervoso central.
Os tipos de preparações contendo esta droga incluem:

• Folhas de Coca: podem ser mascadas ou ingeridas como chá de coca.

• Pasta de Coca: composta por folhas de coca mais solventes orgânicos (exemplo:
querosene ou gasolina combinada ao ácido sulfúrico)

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
• Cocaína em pó: substância em forma de sal, resultado da reação da pasta de coca com
ácido clorídrico. Esta preparação pode ser aspirada ou dissolvida em água e ser usada via
endovenosa. Não pode ser fumada, pois é volátil, ou seja, grande parte de sua forma ativa
é destruída em altas temperaturas. Para ser fumada, o sal de cocaína precisa retornar a
forma de base. Nesse caso o produto resultante será o crack.

• Crack (rock): conhecido como cocaína alcalóide ou base livre, comercializado na forma
de pedras porosas.

• Merla: semelhante à pasta de coca, porém o teor de solventes contaminantes é maior.

Figura 4 - Tipos de preparações da cocaína. Fonte: Brasil (2019).

WWW.UNINGA.BR 76
ENSINO A DISTÂNCIA

Considerando suas formas de preparação, a cocaína pode ser usada por diferentes vias
de administração, sendo que as principais incluem, via oral, fumada, aspirada ou intranasal
(“cheirada” ou “cafungada”) e endovenosa, injeções subcutâneas ou através da mucosa genital –
na forma de cocaína em pó, dissolvido em água.
A cocaína exerce efeito estimulante por meio do bloqueio da recaptação da dopamina,
serotonina e noradrenalina nas sinapses. Os neurotransmissores, então, estimulam seus receptores
pós-sinápticos de modo mais intenso e prolongado.
Os efeitos experimentados pelos usuários da cocaína incluem sensação intensa de euforia
e poder, estado de excitação; hiperatividade; insônia; falta de apetite; diminuição da sensação de
cansaço. Doses maiores podem provocar irritabilidade, agressividade e até delírios e alucinações,
que caracterizam a “psicose cocaínica”. Também podem ser observados aumento da temperatura
e convulsões, elevação da pressão arterial e taquicardia.
Durante a abstinência da cocaína, os efeitos físicos são brandos (se comparados aos efeitos
da abstinência de outras drogas, como o álcool, por exemplo) e os psíquicos, mais pronunciados.
Infelizmente não há uma abordagem terapêutica que suprima os sintomas de abstinência
como um todo. O alívio de sintomas, como a inquietação, a insônia e outros sintomas na linha
ansiosa e depressiva podem ajudar o paciente.

2.4.3. Ecstasy

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
Ecstasy é o nome popular do 3,4 metilenodioximetanfetamina (MDMA), é uma
anfetamina alucinógena. Originalmente ele foi sintetizado pela indústria farmacêutica com a
finalidade de ser usado como anorexígeno (inibidor do apetite).
O mecanismo de ação do MDMA envolve vários neurotransmissores, causando liberação
de serotonina, dopamina e norepinefrina no sistema nervoso central, os quais estão envolvidos no
controle do humor, termorregulação, sono, apetite e no controle do sistema nervoso autônomo.
Os efeitos estimulantes do MDMA incluem um aumento da frequência cardíaca, aumento
da pressão sanguínea, boca seca, diminuição do apetite, atenção dispersa, elevação do humor e
contratura mandibular.

Tabela 2 - Sintomas da intoxicação aguda, complicações orgânicas e causas de morte associadas ao uso do ecstasy.
Fonte: Xavier et al. (2008).

WWW.UNINGA.BR 77
ENSINO A DISTÂNCIA

2.4.4. LSD
A Dietilamida do Ácido Lisérgico (LSD) é uma substância sintética, porém originada do
fungo Claviceps purpurea. É uma das substâncias mais potentes com ação psicotrópica que se
conhece, sendo que doses de 20 a 50 milionésimos de grama produzem efeitos com duração de
4 a 12 horas.
Os efeitos do uso de LSD são distorções perceptivas (cores, formas e contornos
alterados); fusão de sentidos (por exemplo, a impressão de que os sons adquirem forma ou cor);
perda da discriminação de tempo e espaço (minutos parecem horas ou metros assemelham-
se a quilômetros); alucinações (visuais ou auditivas) podem ser vivenciadas como sensações
agradáveis, mas também podem deixar o usuário extremamente amedrontado; estados de
exaltação e até delírios. Além destes, ainda pode causar manifestações físicas, tais como pupilas
dilatadas, aumento da temperatura do corpo, aumento dos batimentos cardíacos e da pressão
arterial, suores, perda de apetite, falta de sono, boca seca e tremores.

3 - CONSIDERAÇÕES FINAIS
Finalizamos por aqui a disciplina de Psicofarmacologia. Pudemos conhecer o estudo dos

PSICOFARMACOLOGIA | UNIDADE 4
conceitos fundamentais em farmacologia, também como agem as principais drogas psicotrópicas,
sendo elas de uso terapêutico, como os medicamentos, ou drogas de abuso.
Para melhor aproveitamento do conteúdo, explore todo material complementar e tire
suas dúvidas no chat e com o tutor da disciplina.
Bons estudos!

WWW.UNINGA.BR 78
ENSINO A DISTÂNCIA

REFERÊNCIAS
ALLEN JUNIOR, L. V.; POPOVICH, N. G.; ANSEL, H. C. Formas farmacêuticas e sistemas de
liberação de fármacos. Artmed, Porto Alegre, 2007.

AMERICAN PSYCHIATRY ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental


disorders - DSM-5. 5ª ed. Washington: American Psychiatric Association, 2013.

ANDRADE, R. F. Antipsicóticos De Segunda Geração No Tratamento Da Esquizofrenia. Revista


Acadêmica Oswaldo Cruz. Ano 4. nº 16.

APRILE, M. Membranas biológicas. Uol Pais e Professores. Disponível em: <http://educacao.


uol.com.br/planos-de-aula/medio/biologia-membranas-biologicas.htm>. Acesso em: 28 de maio
de 2017.

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. 2019. Disponível em: <https://www.apa.


org/>. Acesso em: 25 jan. 2019.

AUSTRALIA. O que é demência? Disponível em: <https://www.dementia.org.au/files/helpsheets/


Helpsheet-AboutDementia01-WhatIsDementia_portuguese.pdf>. Acesso em: 30 jan. 2019.

BARLOW, D. H.; DURAND, V. M. Psicopatologia: uma abordagem integrada. 4ª Ed. Trad.:


Roberto Galman. São-Paulo: Cengage Learning, 2008.

BARREIRO, E. J.; FRAGA, C. A. M. Química medicinal – As Bases Moleculares da Ação dos


Fármacos. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

BERK, L. Guia para cuidadores de pessoas com transtorno bipolar. São Paulo: Segmento
Farma, 2011.

BRASIL. Ministério da Justiça. Secretaria Nacional Drogas. Cocaína e crack. Disponível em:
<https://obid.senad.gov.br/nova-arquitetura/dados/drogas-de-a-a-z/cocaina-e-crack>. Acesso
em: 30 jan. 2019.

BRASIL. Ministério da saúde, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), Conceitos


técnicos. Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br/medicamentos/conceito.htm#1.2>. Acesso
em: 21 mar. 2017.

BRASIL. Ministério da Saúde Secretária de Atenção à Saúde. Resumo Clínico – Demência.


Disponível em: <https://www.ufrgs.br/telessauders/documentos/protocolos_resumos/
neurologia_resumo_demencia_TSRS.pdf>. Acesso em: 30 jan. 2019.

BRASIL. Ministério da saúde, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), Genéricos.


Disponível em: <www.anvisa.gov.br/hotsite/generico/profissionais/conceitos.htm>. Acesso em:
21 mar. 2017b.

BRASIL. Neurobiologia: mecanismos de reforço e recompensa e os efeitos biológicos e os


efeitos comuns às drogas de abuso - Eixo Políticas e Fundamentos. Disponível em: <http://

WWW.UNINGA.BR 79
ENSINO A DISTÂNCIA

REFERÊNCIAS
www.aberta.senad.gov.br/medias/original/201704/20170424-094615-001.pdf>. Acesso em: 30
jan. 2019.

BRICK, V. S.; HOSSNE, W. S.; HOSSNE, R. S. Clinical research on new drugs (Phase I). Profile of
scientific publications: data from the pre-clinical phase and 31 bioethical aspects. Acta Cirúrgica
Brasileira. São Paulo, vol. 23, nº 6, p.531-535, 2008.

BRUCE, M. K.; STANTON, B. A. Berne & Levy Fisiologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.

BRUNTON, L. L.; CHABNER, B. A.; KNOLLMANN, B. C. Bases Farmacológicas da Terapêutica


de Goodman e Gilman. Mc Graw Hill , Artmed, AMGH Editora. São Paulo, 2012.

CLÍNICA DR. ALEXANDRE CRUZEIRO. Doença de Alzheimer. (2016). Disponível em:


<https://clinicadralexandrecruzeiro.webnode.com.br/doen%C3%A7a-de-alzheimer/>. Acesso
em: 27 jan. 2019.

DAVID, J. P. A. Medicamentos Genéricos, Similares Intercambiáveis e Referência – Confuso?.


FARMACÊUTICAS. Disponível em: <http://www.farmaceuticas.com.br/medicamentos-
genericos-similares-intercambiaveis-e-referencia-confuso/>. Acesso em: 25 maio 2017.

DEL PORTO, J. A. Transtorno bipolar do humor. Disponível em: <http://www2.unifesp.br/


dpsiq/polbr/ppm/atu3_07.htm>. Acesso em: 22 jan. 2019.

DELUCIA, R.; OLIVEIRA-FILHO, R. M.; PLANETA, C. S.; GALLACCI, M.; AVELLAR, M.C.W.,
(Eds). Farmacologia integrada. 3ª ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2007.

DEMINCO, M. Transtorno bipolar Aspectos Gerais. Disponível em: <http://www.psicologia.


pt/artigos/textos/A1190.pdf>. Acesso em: 27 jan. 2018.

FERIGOLO, M; SIGNOR, L. Cocaína. Disponível em: <http://ibb.unesp.br/Home/


UnidadesAuxiliares/CentrodeAssistenciaToxicologica-CEATOX/cocaina.pdf>. Acesso em: 30
jan.2019.

FERNANDES, A. C. Tratamento farmacológico da depressão. Universidade de Coimbra, 2014.

FERREIRA, A. B. H. Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa. Disponível em: <https://


dicionariodoaurelio.com/remédio>. Acesso em: 31 mar. 2017.

FERREIRA NETO, J. M. Tabela de indutores e inibidores enzimáticos. Universidade Aberta


do Sistema Único de Saúde - UNA-SUS; Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UNA-SUS/
UERJ. Disponível em: <https://ares.unasus.gov.br/acervo/handle/ARES/2569>. Acesso em: 29
maio 2017.

FERREIRA, P. B., SANTOS, I. M. S., FREITAS, R. M. 2012. Aspectos farmacológicos, efeitos


anticonvulsivantes e neuroprotetores da buspirona. Revista de Ciências Farmacêuticas Básica
e Aplicada. 33(2):171-179.

WWW.UNINGA.BR 80
ENSINO A DISTÂNCIA

REFERÊNCIAS
GOLAN, D. E.; TASHJIAN JUNIOR, A. H.; ARMSTRONG, E. J.; ARMSTRONG, A. W. Princípios
de farmacologia:  a base fisiopatológica da farmacoterapia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara
Koogan, 2014.

IBUPROFENO. Representação dos processos farmacocinéticos (Absorção, Distribuição,


Metabolização e Eliminação – ADME). Disponível em: <http://ibuprofeno20152016.wixsite.
com/toxiffup/blank-3>. Acesso em: 23 jan. 2019.

KANDEL, E. R.; SCHWARTZ, J. H.; JESSELL, T.M. Princípios da Neurociência. 5ª ed. Manole.
São Paulo, Brasil, 2014.

KATZUNG, B. G. Farmacologia Básica e Clínica. 10a Ed. São Paulo: McGraw-Hill, 2010.

KATZUNG, B. G.; MASTERS, S. B; TREVOR, A. J. Farmacologia Básica e Clínica. 12ª edição.


Rio de Janeiro. McGraw-Hill, 2014. 1228 p.

LIMA, J. S.; REZA, D. L.; TEIXEIRA, S.; COSTA, C. Pesquisa clínica: fundamentos, aspectos
éticos e perspectivas. Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro, Vol. 16, nº 4, p.225-233, 2003.

MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS. Disponível em:


<https://aempreendedora.com.br/wp-content/uploads/2017/04/Manual-Diagn%C3%B3stico-e-
Estat%C3%ADstico-de-Transtornos-Mentais-DSM-5.pdf>. Acesso em: 25 jan. 2019.

NASCIUTTI, P. R. Desenvolvimento de novos fármacos. 2012. 36 f. (Seminário apresentado


junto à Disciplina Seminários Aplicados do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal) -
Escola de Veterinária e Zootecnia, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2012.

NELSON, M. D. C.; ILER, C. Uso da Mirtazapina em Pacientes Depressivos com Distúrbios do


Sono. The Annals of Clinical Psychiatry. 24(3):215-224, ago. 2012.

OLIVEIRA, I. R. Antipsicóticos atípicos: farmacologia e uso clínico. Bras. Psiquiatr.  vol.


22 s.1 São Paulo May 2000.

OLIVEIRA, M. A. P.; PARENTE, R. C. M. Entendendo Ensaios Clínicos Randomizados. Brazilian


Journal, Vol. 3, nº 4: 176-180, 2010.

PARMERA, J. B.; NITRINI, R. Demências: da investigação ao diagnóstico. Investigation and


diagnostic evaluation of a patient with dementia. Rev Med (São Paulo). 2015 jul. - set. 94(3):179-
84.

PIMENTEL, L. C. F.; CHAVES, C. R.; FREIRE, L. A. A.; AFONSO, J. C. O inacreditável emprego


de produtos naturais químicos perigosos no passado. Revista Química Nova. Rio de Janeiro, Vol.
29, nº 5, p.1138-1149, 2006.

WWW.UNINGA.BR 81
ENSINO A DISTÂNCIA

REFERÊNCIAS
RANG, H. P.; RITTER, J. M.; FLOWER, R. J.; HENDERSON, G. RANG & DALE – Pharmacologic.
8ª ed., Editora Elsevier, 2016.

SANTOS, L.; TORRIANI, M. S.; BARROS, E. Medicamentos na prática da farmácia clínica.


Porto Alegre: Artmed, 2013.

SECOLI, S. R. Interações medicamentosas: fundamentos para a prática clínica da enfermagem.


Rev Esc Enf USP, Vol. 35, nº 1, p. 28-34, mar. 2001.

SERENIKII, A.; VITAL, M. A. B. F. A doença de Alzheimer: aspectos fisiopatológicos e


farmacológicos. Rev Psiquiatr RS. 2008;30(1 Supl).

SILVA, P. Farmacologia. 8a ed., Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 2010.

SLIDESHARE. Formas farmacêuticas mais utilizadas para psicotrópicos. 2012. Disponível


em: <https://pt.slideshare.net/Jecivane/aula-1-1>. Acesso em: 23 jan. 2019.

SHIRAKAWA I. O Manejo do paciente com diagnóstico de esquizofrenia. In: SHIRAKAWA, I.;


CHAVES, A. C., MARI, J.J. Editores. O desafio da esquizofrenia. São Paulo: Lemos Editorial;
1998.

STAHL, S. M.  Psicofarmacologia: bases neurocientíficas e aplicações práticas. 4ª ed. Rio de


Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.

STEELE, C. D. Cuidados Demência Enfermagem. Amgh editora, 2018.

SUMAN, P. Antidepressivo funciona? Disponível em: <https://priscilarech.com/2018/03/09/


antidepressivo-funciona/>. Acesso em: 25 jan. 2019.

UFSC. Neurobiologia: mecanismos de reforço e recompensa


e efeitos biológicos comuns às drogas de abuso. Disponível em: <http://sgmd.nute.ufsc.br/
content/portal-aberta-sgmd/e01_m03/pagina-02.html>. Acesso em: 28 jan. 2019.

WHALEN, K.; FINKEL, R.; PANAVELIL, T. A.  Farmacologia ilustrada. 6ª ed. Porto Alegre:
Artmed, 2016.

WIKIPEDIA. Ficheiro: C Golgi.jpg. 2019d. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/


Ficheiro:C_Golgi.jpg >. Acesso em: 25 jan. 2019.

WIKIPEDIA. Ficheiro: central nervous system.svg. 2019a. Disponível em: <https://pt.wikipedia.


org/wiki/Ficheiro:Central_nervous_system.svg>. Acesso em: 25 jan. 2019.

WIKIPEDIA. Ficheiro: encephalon human sagital section multilingual.svg. 2019b. Disponível


em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Encephalon_human_sagittal_section_multilingual.
svg>. Acesso em: 25 jan. 2019.

WWW.UNINGA.BR 82
ENSINO A DISTÂNCIA

REFERÊNCIAS
WIKIPEDIA. File: Folgi 1885 Plate XIII.jpg. 2019e. Disponível em: <https://commons.wikimedia.
org/wiki/File:Golgi_1885_Plate_XIII.JPG >. Acesso em: 25 jan. 2019.

WIKIPEDIA. File: glia.png. 2019c. Disponível em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/


File:Glia.png>. Acesso em: 25 jan. 2019.

WIKIPEDIA. File: Synapse Illustration unlabelled.svg. 2019f. Disponível em: <https://commons.


wikimedia.org/wiki/File:Synapse_Illustration_unlabeled.svg>. Acesso em: 25 jan. 2019.

XAVIER, C. A. C.; LOBO, P. L. D.; FONTELES, M. M. F.; VASCONCELOS, S. M. M.; VIANA,


G. S. B.; SOUSA, F. C. F. Êxtase (MDMA): efeitos farmacológicos e tóxicos, mecanismo de ação e
abordagem clínica. Rev. Psiq. Clín 35 (3); 96-103, 2008.

WWW.UNINGA.BR 83

Você também pode gostar