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Curso de Comércio Internacional – 2017

Teoria e questões comentadas para AFRFB


Prof. Thális Andrade – Aula 02

AULA 02 – TARIFAS E BARREIRAS NÃO


TARIFÁRIAS

Sumário
1. Introdução ................................................................................................ 2
2. Barreiras Tarifárias .................................................................................... 5
3. Barreiras Não-Tarifárias (BNTs) ................................................................. 15
3.1. Cotas Não Tarifárias de Importação e Acordos Voluntários de Restrição às
Exportações (AVRE) ....................................................................................... 20
3.2. Licenças de Importação ...................................................................... 22
3.3. Direitos Antidumping e Compensatórios ................................................ 24
3.4. Formalidades Aduaneiras .................................................................... 26
3.5. Taxas Múltiplas de Câmbio e Desvalorização competitiva de moeda .......... 27
3.6. Pauta de preços mínimos e práticas arbitrárias em Valoração Aduaneira .... 29
3.7. Medidas de Investimento Relacionadas ao Comércio (TRIMs) ................... 30
3.8. Tratamento favorecido aos produtos nacionais em licitações .................... 31
3.9. Barreiras Técnicas, Sanitárias e Fitossanitárias ...................................... 32
4. Exceções do GATT que justificam a imposição de barreiras ao comércio ........... 36
4.1. Proteção à Indústria Nascente ............................................................. 36
4.2. Exceções de balanço de pagamentos .................................................... 38
4.3. Exceção de emergência econômica (surto de importações) ...................... 39
4.4. Exceções de integração regional .......................................................... 40
4.5. Exceções gerais ................................................................................ 40
4.6. Exceções de Segurança ...................................................................... 46
5. Revisão dos pontos mais importantes ......................................................... 48
6. Lista de questões resolvidas nesta aula ....................................................... 50
7. Gabarito ................................................................................................. 53

Nessa aula irei enfatizar as barreiras que um país pode se valer


para alcançar o seu intento protecionista: Barreiras Tarifárias (leia-se
Imposto de Importação) e Barreiras Não-Tarifárias (BNTs, ou tudo que
não for Imposto de Importação).
Vamos nessa?
“Bora” estudar então...

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1. Introdução

As barreiras ao Comércio Internacional sempre existiram desde


que as trocas comerciais tiveram início. Por meio do Comércio
Internacional entre Metrópole e Colônia, por exemplo, a Metrópole já
buscava ter saldo em sua balança comercial, impedindo importações de
produtos das mais diversas formas, sendo comum a proibição de
entrada de navios que não fossem oriundos de sua colônia, carregados
de metais preciosos.

Era uma clara discriminação comercial impensável nos dias de


hoje. Mais tarde, como vimos, as ideias de Adam Smith derrubaram
esta concepção, pregando a liberalização e queda de barreiras como
uma coisa boa! No entanto, com o passar dos anos, o ímpeto
protecionista veio novamente à tona.

Afinal, é possível alcançar o desenvolvimento econômico sem a


imposição de barreiras?

A resposta não é simples. O que se pode afirmar é que muitos


países desenvolvidos como os Estados Unidos e a Alemanha se valeram
de barreiras comerciais para erguerem suas indústrias.

Feito essa ressalva, meus amigos, nosso recorte histórico


começa no período entre guerras. Isso porque logo após a primeira
guerra mundial os Estados Unidos se vê em uma profunda crise, tendo
um de seus marcos a quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929.

Fonte: www.haikudeck.com e www.profi-forex.us

O cenário desolador colocava enorme pressão sobre os políticos


nos EUA. Num período da história conhecido como “a grande
depressão”, os EUA se valeram de altas tarifas protecionistas para
tentar proteger seu combalido mercado de trabalho.

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No começo dos anos 40 vem então a 2ª Guerra Mundial,


acirrando ainda mais essa depressão. Em Julho de 1944, pouco antes
do fim da 2ª Guerra, os países mais industrializados do mundo tentam
restabelecer as “regras do jogo”, ou seja, criar as bases jurídicas para
que a economia intenacional voltasse a caminhar.

Surge então o Sistema Bretton Woods, que é o primeiro


exemplo na história de uma ordem monetária totalmente negociada
com o objetivo de reger as relações monetárias entre os países.

Em 1947, surge dessa conferência o Acordo Geral de Tarifas e


Comércio - GATT/1947 (voltaremos adiante em nosso curso com mais
detalhes dessa história). Basicamente, esse é um acordo internacional
que buscava na parte comercial, ao lado da criação das instituições do
Banco Mundial (BM) e do Fundo Monetário Internacional (FMI), impor
limites às práticas protecionistas. Para isso, o GATT/1947 tem como
pedra fundamental limites para a aplicação de tarifas, conforme
previsto no art. II do GATT que veremos ainda nesta aula.

À época, o GATT detinha apenas 23 Partes Contratantes (dentre


eles o Brasil, EUA, Cuba, China, alguns países europeus), mas já existia
o consenso de que rodadas de redução tarifária seriam necessárias para
fazer andar a locomotiva do comércio internacional.

Assim, o Acordo Geral de Tarifas de Comércio de 1947 cuidou


em 8 rodadas de desgravação tarifária, até a criação da OMC em
1994. Não obstante esse ser o propósito último do GATT, os países
também reconheceram desde o princípio do acordo que em algumas
situações conjunturais, determinado membro poderia se valer de
barreiras as suas importações, dando lugar ao famigerado
“protecionismo”.

Podemos dizer que com a desgravação tarifária promovida ao


longo das rodadas do GATT (compromissos multilaterais), por acordos
regionais e iniciativas unilaterais, reduziram-se as barreiras tarifárias.
Isso é verdade. Hoje se vê uma imensidão de acordos regionais (mais
de 400), que de certa forma auxiliam o impulso liberalizante no
cenário multilateral.

No entanto, na medida em que se reduziam as tarifas,


começaram a se intensificar formas de protecionismo sob nova
roupagem. Eram as Barreiras Não Tarifárias (BNTs), instrumentos
de proteção contra as importações ou incentivos do Estado que eram
difíceis de serem identificados, não assumindo o mesmo grau de
transparência que as barreiras tarifárias.

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Isso ocorreu a partir da década de 60 e se intensificou nas


décadas de 70 e 80, quando houve um recrudescimento (aumento)
do “neoprotecionismo” em virtude do contexto recessivo herdado
das décadas anteriores.

Com as sucessivas rodadas do GATT que rebaixaram tarifas, os


países passaram a se valer de exigências administrativas (ex. licença
de importação, certificado de origem), padrões técnicos (ex. selos de
órgãos de metrologia), controles relativos às características sanitárias
(ex. certificado sanitário) dos bens transacionados, uso abusivo de
medidas de defesa comercial como direitos antidumping, ampliação de
programas de subsídios à exportação, etc.

Portanto, o protecionismo atualmente assumiu uma feição


preponderamente não tarifária, de difícil identificação, controle e
quantificação.

Vale ainda destacar que apesar do Brasil ter uma alta tarifa
consolidada na OMC, isso não significa que o país não se valha de outras
formas de protecionismo não tarifário, como é o caso de medidas
antidumping. Veja por exemplo o ano de 2011, em que o Brasil
enfrentava a valorização do real na economia (e consequentemente um
dólar barato), o governo usou muito a faculdade de aplicar medidas de
defesa comercial como o antidumping. Apesar das mais de 150 medidas
antidumping em vigor no Brasil, o país nunca perdeu uma disputa na
OMC sobre a aplicação destas medidas. Em outras palavras, apesar das
críticas da larga utilização dessas barreiras não tarifárias pelo Brasil, a
autoridade de defesa comercial brasileira é respeitada pela qualidade e
rigor nas investigações.

BARREIRA TARIFÁRIA = IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. É o instrumento


por excelência para se fazer Política Comercial. É a barreira mais
transparente ao Comércio Internacional.
BARREIRA NÃO-TARIFÁRIA = Conceito residual (tudo que não é o
Imposto de Importação). São inúmeras maneiras de o Estado intervir
na economia e conter a importação ou estimular a produção e
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exportação, distorcendo, neste último caso, os preços do mercado


internacional.

Feita essa distinção, passamos agora à análise do que pede


explicitamente nosso querido edital ESAF.

2. Barreiras Tarifárias

Para começar este tópico, a primeira pergunta que devemos ter


a noção precisa é...

O que é uma tarifa?

A tarifa, no comércio internacional, é um encargo financeiro


exigido na forma de tributo, que, a depender de seu valor, pode
desestimular ou estimular a entrada de bens naquele país que a utiliza.

No Brasil, o termo não deve ser confundido com as tarifas


exigidas pelas concessionárias prestadoras de serviço público, mas sim
identificado com o Imposto de Importação (II). Também não se
confunde instrumentos de política comercial como medidas
antidumping e compensatórias, tampouco com os demais tributos
devidos na importação (ex. IPI, ICMS, PIS/COFINS importação,
AFRMM, taxa de uso do SISCOMEX) ou ainda os custos do serviço de
importação (ex. despesas com despachante aduaneiro, capatazia,
armazenagem, etc).

Embora o termo se aplique também à exportação, usamos a


expressão quando nos referimos ao imposto de importação, uma vez
que o interesse primordial do GATT e da OMC é regular esse direito na
importação de mercadorias, certo?

De modo geral, a sua imposição confere uma vantagem para o


produtor doméstico ao inserir um custo ao produto importado, além de
aumentar a arrecadação para o governo.

Na sua aplicação em geral, identificamos diversas roupagens


que suas alíquotas podem assumir, evidenciando-se diferentes
modalidades de tarifas: ad valorem, específica, mista, composta ou
“técnica”.

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A tarifa ad valorem é um percentual aplicado sobre a base de


cálculo. Por exemplo, 35% de Imposto de Importação sobre o Valor
Aduaneiro da mercadoria.

A tarifa específica (ad mensuram) é calculada em unidade de


medida, tal como peso, volume, par, etc. Por exemplo, podemos ter a
alíquota do imposto de importação em bebidas à base de R$
12,00/garrafa ou ainda, R$ 5,00/litro. A tarifa ad valorem, por sua vez,
é calculada um percentual sobre o valor da mercadoria. Por exemplo,
35% de tarifa para veículos importados. Assim, um veículo que possui
como valor aduaneiro R$ 20.000,00, teria uma tarifa de R$ 7.000,00.

Já a tarifa mista (ou compostas) é calculada pela aplicação


de tanto pela soma de um direito ad valorem como de um específico.
Dessa forma, podemos ter na importação de amendoim, uma alíquota
de 7% acrescida de R$ 5,00/Kg, tudo numa mesma importação.

Podemos ter também nesta modalidade, uma espécie de “tarifa


móvel ou dinâmica”, que conjuga uma alíquota ad valorem adicionada
ou subtraída de uma alíquota específica, variando conforme o valor
aduaneiro da mercadoria importada.

Por fim, a tarifa técnica é calculada com base em conteúdo


específico do produto importado, ou seja, leva em conta seus
componentes ou faz referência aos direitos aplicáveis a determinados
itens (ex. R$ 0,40/kg de cloreto de sódio).

Seja em qual modalidade for, um dos efeitos da tarifa é


aumentar o custo do envio de bens para um país (KRUGMAN,
2010, p. 140).

Sendo a forma mais antiga de política comercial, as tarifas têm


também servem como fonte de renda governamental. Podemos
citar o exemplo dos EUA, que até a introdução do imposto de renda,
este país aumentou sua receita graças às tarifas praticadas ao comércio
internacional.

No entanto, destacamos que essa finalidade é mais relevante


para países menores, que não possuem seu sistema de arrecadação
interna bem desenvolvido.

Na verdade, a tarifa tem finalidade extrafiscal, ou seja, o


fator arrecadação deve ser secundário, pois o Estado não deve se
preocupar com essa fonte de receita, mas sim, com a necessidade de
estimular ou não determinada importação.

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Como o Imposto de Importação é extrafiscal, o governo precisa ter


agilidade e liberdade para alterar suas tarifas sem se preocupar com
questões de segunda ordem, como o caráter arrecadatório, tampouco
obedecer às garantias constitucionais de anterioridade, legalidade,
noventena. Como o foco desse imposto não é arrecadatório, suas
receitas para os cofres da União giram em torno de 3% do total
arrecadado. Isto é muito pouco se comparado aos demais tributos
como IPI, Imposto de Renda e Contribuições Sociais.
Nesse esforço de estímulo e desestímulo às importações, a tarifa pode
ser reduzida, por exemplo, para se incentivar a importação de bens
que estão em falta (desabastecimento), ou importar a menor custo,
bens que não possuem produção nacional.

Ainda que seja o mais famoso instrumento de política comercial,


o fato é que, depois de sucessivas rodadas de negociação no GATT, a
importância das tarifas diminuiu nos tempos modernos, já que os
governos preferem proteger as indústrias domésticas por meio de
outras formas de proteção não tão transparente, tais como
barreiras não tarifárias, cotas de importação (limitações à
quantidade) e restrições voluntárias à exportação (limitações à
quantidade de exportações).

No entanto, as tarifas deveriam preferíveis às BNTs pelas


seguintes razões:

a) A tarifa gera renda para o governo, enquanto a cota não gera renda,
mas apenas ganhos para os detentores de licenças de importação;
b) com as cotas o aumento da demanda representa aumento de custos
de sua administração, enquanto que na tarifa o aumento de
importações representa apenas aumento na demanda e arrecadação;
c) enquanto as tarifas seguem procedimento único e regular, as cotas
impõem custos de administração e conformidade a elas.

No entanto, as cotas são mais efetivas quando se quer a proteção


do mercado, pois elas acabam restringindo a entrada da mercadoria no
território nacional.
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É por isso que o GATT vai explicitamente proibir esse tipo de


restrição, conforme veremos em seguida.

Continuando o tema “barreira tarifária”, tarifa é sinônimo de


Imposto de Importação (II) e, no Brasil, se trata do único tributo que
é passível de utilização discriminatória no Comércio Internacional.

Lembrem-se que a tarifa pode ser aplicada com base em unidade


de medida (ad mensuram) ou mesclar percentuais com essas unidades.
Aliás, a OMC não proíbe que os seus membros, desde que respeitado
este teto, formulem tarifas sobre modalidades diferentes da “ad
valorem” (ex. específica, mista, composta ou técnica).

Mas... e se o Brasil, por exemplo, subir o II acima de 35% para


veículos, sendo que este percentual é o teto consolidado na OMC...

Pode isso, professor?

A regra é clara. Se o país exceder sua tarifa acima do que se


comprometeu na OMC estará incorrendo em ilícito internacional,
passível de acionamento no Órgão de Solução de Controvérsias da
OMC. Não pode!

Isso porque desde o GATT/1947, os países negociaram em suas


Listas de Concessões Tarifárias os limites para a aplicação de seu
imposto de importação:

GATT, Art. II, §1º:


(a) Cada Parte Contratante concederá às outras Partes Contratantes,
em matéria comercial, tratamento não menos favorável do que
o previsto na parte apropriada da lista correspondente, anexa ao
presente Acordo.
(b) Os produtos das Partes Contratantes, ao entrarem no território
de outra Parte Contratante, ficarão isentos dos direitos
aduaneiros ordinários que ultrapassarem os direitos fixados
na Parte I da lista das concessões feitas por esta Parte
Contratante, observados os termos, condições ou requisitos
constantes da mesma lista. [...]

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Assim, de acordo com a alínea “a” do § 1º do art. II do


GATT/1947, as Partes Contratantes daquele Acordo não poderiam dar
um tratamento menos favorável ao previsto para sua lista.

Imagine que naquele período o Brasil tenha consolidado na sua


respectiva lista o teto tarifário de 120% para importação de
sardinhas, sem impor qualquer condição para gozar daquela tarifa de
importação:

Lista de Concessões do Brasil (Anexo hipotético)

Produto Teto tarifário Condições

0303.53 - (Sardina
pilchardus, Sardinops spp.,
Sardinella spp.), 120% Nenhuma
anchoveta (Sprattus
sprattus)

Portanto, pela alínea “a” do § 1º do Art. II do GATT/1947, o


Brasil não poderia impor alguma condição para que uma Parte
Contratante conseguisse exportar a sardinha, a não ser a tarifa máxima
de 120%.

Já de acordo com alínea “b” do § 1º do Art. II do GATT/1947, o


Brasil não poderia impor uma tarifa com alíquota de 121% para
importação dessa sardinha, pois seu teto consolidado junto às Partes
Contratantes do GATT foi de até 120%.

É claro que quando um país tem essa flexibilidade para subir a


tarifa até o limite de 120%, isso dá uma ampla margem discricionária
para o país importador proteger esse setor. Assim, quando isso ocorre,
falamos que o país possui muita água na tarifa (water tariff).

Além disso, um país pode ter uma tarifa aplicada (applied


rate) abaixo da sua tarifa consolidada (bound rate), mas não
acima. Se o fizer, estará, como vimos, violando o Art. II do GATT.

Vale ainda destacar que a OMC respeita a soberania dos países


membros quanto à forma de aplicação da tarifa. Isso quer dizer que o
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país que a tenha consolidado “ad valorem”, pode aplicar alíquota


tarifária sob a forma específica, desde que não viole o seu teto
consolidado equivalente em “ad valorem”.

Tomemos agora o seguinte exemplo:

Lista de Concessões do Brasil (Anexo I)

Produto Teto tarifário Condições

2204.10 - (Bebidas,
líquidos alcoólicos e
vinagres - Vinhos de uvas 10% Nenhuma
frescas, incluídos os vinhos
enriquecidos com álcool;
mostos de uvas)

Veja que a tarifa limite é um “ad valorem” de 10%. Assim, na


importação de um vinho que tenha como valor aduaneiro US$ 10,00, o
montante de tarifa final a pagar será de:

10% x US$ 10,00 (Valor Aduaneiro) = US$ 1,00

Agora imagine que o Brasil aplique uma tarifa específica para


vinhos em US$ 1,00 a garrafa de 750 ml. Quando convertemos para
essa garrafa que custava US$ 10,00 seu equivalente “ad valorem”
temos:

US$ 1,00/garrafa 750ml : US$ 10,00 (valor da garrafa) = 0,1 ou 10%

Agora imagine que essa mesma garrafa tenha reduzido seu


preço à metade..

US$ 1,00/garrafa 750ml : US$ 5,00 (metade do valor) = 0,2 ou 20%

Viram como houve violação ao consolidado ad valorem de 10%?

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A tarifa de US$ 1/garrafa de 750 ml representa em termos


percentuais, 20% do “ad valorem”. É isso que o país tem que se
certificar de que não vai ocorrer...

Seguimos o baile...

Professor Thális, e é possível uma Parte Contratante não


consolidar seu teto tarifário?

Sim, meus caros.

Vejam o exemplo do Canadá.

Há uma seção de produtos lácteos em sua lista de concessões


que este país não consolidou teto tarifário algum. Isso permite ao país
impor a tarifa que quiser.

Essa “disparada” da tarifa gera o que chamamos de “pico


tarifário”, pois não há margem de segurança para os operadores de
comércio exterior sobre qual tarifa será a realmente aplicada. Assim, o
Canadá pode aplicar uma tarifa de 800% para importação de queijo, o
que seria até inviável economicamente, sendo por isso, chamada de
“tarifa proibitiva”.

Vale destacar que durante a 8ª Rodada do GATT (Rodada


Uruguai), os países membros da OMC foram demandados para que no
setor agrícola convertessem suas barreiras não tarifárias em tarifas.
Assim, tivemos o processo de “tarificação”, dando mais transparência
na proteção desse importante setor de bens negociados na OMC.

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Há outro detalhe previsto no GATT relativo à possibilidade de


modificação das listas, ou seja, possibilidade de renegociação das
tarifas, inclusive aumentando as concessões:

GATT, Art. XVIII


§1º. [...] qualquer Parte Contratante (determinada no presente
artigo "a Parte Contratante requerente") poderá modificar ou retirar
uma concessão contida na lista correspondente anexa ao presente
Acordo, após uma negociação e um Acordo com qualquer Parte
Contratante, com a qual esta concessão tiver sido negociada
privativamente, bem como qualquer outra Parte Contratante
cujo interesse como principal fornecedor for reconhecido
pelas Partes Contratantes. Nestas duas categorias de Partes
Contratantes, do mesmo modo que a Parte Contratante requerente,
são denominadas no presente artigo "Partes Contratantes
principalmente interessadas" e sob reserva de que e a tenha
consultado qualquer outra Parte Contratante cujo interesse
substancial nesta concessão for reconhecido pelas Partes
Contratantes.
§2º. No decorrer dessas negociações e neste acordo, que poderá
admitir compensações sobre outros produtos, as Partes
Contratantes interessadas esforçar-se-ão em manter as
concessões outorgadas sobre uma base de reciprocidade e de
vantagens mútuas a um nível não menos favorável do que
aquele que resultava do presente Acordo, antes das negociações.

De acordo com Art. XVIII, §1º do GATT, se uma Parte Contratante


do GATT quiser elevar sua tarifa (modificar/retirar a concessão) a Parte
Contratante que deseja modificar deve consultar as Partes Contratantes

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cujo interesse substancial for reconhecido. Geralmente essa previsão


de que o país há interesse substancial naquele produto consta na
própria lista daquele produto. Pode-se ainda buscar os principais
exportadores daquele produto, com o intuito de se aferir se há
“interesse substancial” na modificação daquela concessão.

O segundo parágrafo cuida do desenrolar das negociações,


afirmando que o país que quer retirar/modificar a concessão pode
admitir compensação sobre outros produtos. Ademais, as Partes que
negociam devem tentar buscar fazer concessões recíprocas nesse
esforço de obter vantagens mútuas, de modo que a tarifa destes outros
produtos oferecidos na barganha não resulte em concessão mais
elevada que a existente antes das negociações.

Esse esforço mútuo na modificação de listas de concessões é


chamado de PRINCÍPIO DA RECIPROCIDADE. Ele busca a
negociação justa, na medida que os benefícios sejam retornados da
mesma forma em que foram concedidos. Percebam que ele é mais uma
diretriz de negociação – no campo das expectativas de que haja
contrapartida – do que uma obrigação mandatória para os países que
estão na negociação.

Vejamos o seguinte exemplo:


Imagine que a União Europeia queira revisar sua concessão tarifária
em bananas que é de 10%, aumentando para 30%. Neste caso,
deverá chamar os interessados reconhecidos que tenham interesse
substancial, por exemplo, Brasil e Equador, que não possuem acordos
preferenciais para exportação destes produtos para a UE.
A UE deve então buscar, neste esforço de negociações sob base de
reciprocidade, oferecer compensação como por exemplo, a redução
da tarifa para suco de laranja (de interesse de Brasil e Equador),
reduzindo a tarifa consolidada de 10% para 5%. Assim, a tarifa deste
outro produto oferecido na negociação implica vantagem a um nível
não menos favorável do que antes de começarem as negociações...

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01. (Do autor)

Sobre tarifas, é correto afirmar:

a) Quando a tarifa de um produto é reduzida a 0%, significa que o


governo não tem indústria local a proteger.

b) As medidas antidumping são exemplos de tarifas.

c) De acordo com a OMC, os países podem adotar a modalidade de


tarifas que bem entenderem, desde que respeitem o seu teto
consolidado junto à organização;

d) A tarifa, no Brasil, tem natureza fiscal, representando por volta de


2,75% da arrecadação de tributos federais.

e) Tarifas específicas são aquelas estabelecidas para produtos


determinados, não sendo aplicada de modo geral para um setor.

Comentário

Quando a tarifa é reduzida, não necessariamente é porque não


tem indústria local a proteger. Pode ser que seja por motivo de
desabastecimento, por exemplo. Errado, portanto, o item “A”.

O item “B” está errado também, pois a medida antidumping não


é forma de tarifa, mas sim barreira não tarifária (alguns autores
chamam de para-tarifária)

O item “C” está perfeito, pois os países, de fato, têm autonomia


para compor sua estrutura tarifária da forma que bem entenderem,
desde que respeitem o seu teto consolidado junto ao GATT/OMC.

O erro do item “D” é que o percentual de 2,75% de arrecadação


é ínfimo na esfera dos tributos federais, o que revela o seu caráter
extrafiscal e não caráter fiscal.

Por fim, tarifas específicas são aquelas expressas na unidade de


medida estabelecida para a mercadoria (ex: US$ 10,00/par, US$
1,00/KG, etc.). Falso o item “E”.

Vamos então ao outro “lado da moeda”.

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3. Barreiras Não-Tarifárias (BNTs)

As “Barreiras Não Tarifárias” (BNTs) são formas não tão


transparentes empregadas pelos países para restringir o fluxo
comercial. Para este objetivo, os países se valem de controles ou
exigências que constituem obstáculos ao comércio internacional. O
aumento de sua utilização se deu com a diminuição das tarifas ao longo
das rodadas de negociação do GATT.

Os países então passaram a buscar outros subterfúgios para


protegerem suas indústrias, criando barreiras de feições
preponderantemente não-tarifárias, como procedimentos
administrativos, padrões técnicos e sanitários aos bens importados.
Justamente para conter seu uso indiscriminado, alguns desses padrões
ganharam limites nas regras e acordos da OMC.

Então uma pergunta vem à tona...

Apesar de o GATT e a OMC pregarem o livre comércio, eles


também permitem a adoção de barreiras protecionistas?

De certa forma sim! Vejam que os acordos da OMC – como TBT


e SPS – admitem que em situações excepcionais um membro possa
adotar alguma restrição para proteger outro interesse compartilhado
pelos membros da organização. No entanto, há diversas obrigações
para a imposição dessas barreiras. Nestes acordos também não há a
definição do que sejam essas restrições, mas tão somente diretrizes de
como fazê-las.

Ainda sobre a ideia de “Barreira Não Tarifária” (BNT), podemos


dizer que seu uso se intensificou na década de 80 e tem sido entendida
então de forma residual, ou seja, quaisquer medidas restritivas ao
comércio que não sejam tarifas. Apesar da diferença conceitual, tem
propósito semelhante às tarifas ao encarecer o produto importado, ou
por vezes, inviabilizar sua entrada no território aduaneiro de
determinado membro. Nesse caso, a BNT é extremamente gravosa ao
comércio, pois muitas vezes se torna um impeditivo à importação.

Como é uma forma diferente da tarifa para se praticar o


protecionismo, as BNTs são identificadas como elementos de um
“neoprotecionismo”. Podemos listar como exemplos de BNTs (e sua
respectiva regulamentação no GATT/OMC), as seguintes barreiras:

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Teoria e questões comentadas para AFRFB
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Barreira Não Tarifária (BNT) Dispositivo/Acordo do GATT/OMC


que a regulamenta
- Cotas/contigentes não tarifários na
importação - Art. XI:1, GATT
- Acordos Voluntários de Restrição
às Exportações (AVRE)

- Práticas abusivas em Licenças de - Acordo de Licenciamento de


Importação Importações da OMC

- Art. VI, GATT


- Direitos Antidumping - Acordo Antidumping
- Direitos Compensatórios - Acordo de Subsídios e Medidas
Compensatórias
- Art. XIX, GATT
- Medidas de salvaguarda - Acordo de Salvaguardas

- Art. VIII, GATT


- Formalidades Aduaneiras - Acordo de Facilitação do Comércio da
OMC

- Exigências de ordem técnica, - Acordo de Barreiras Técnicas da OMC


qualidade, pesos, medidas, rotulagem (TBT)

- Acordo de Barreiras Sanitárias e


- Exigências sanitárias e fitossanitárias Fitossanitárias da OMC (SPS)

- Taxas Múltiplas de Câmbio - Art. XV, GATT


- Desvalorização competitiva de moeda

- Pauta de preços mínimos - Art. VII, GATT


- Práticas arbitrárias em Valoração - Acordo de Valoração Aduaneira da
Aduaneira OMC

- Exigência de conteúdo local/nacional - Acordo TRIMs (Trade-Related


para empresas poderem importar bens Investment Measures) da OMC
- Requisitos de desempenho exportador
de bens para empresas

- Tratamento favorecido aos produtos - Acordo de Compras Governamentais


nacionais em concorrências públicas da OMC

Vamos a uma questão antes de passar à análise de cada uma


delas a seguir.

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02. (ESAF/AFRF-2000-adaptada)

Sobre as Barreiras não tarifárias, julgue os itens:

a) As Barreiras não-tarifárias são frequentemente apontadas como


grandes obstáculos ao comércio internacional. Podem vir a se constituir
Barreiras não-tarifárias (BNT) as medidas fitossanitárias, normas de
segurança, as licenças de importação e as cotas.

b) É exemplo de prática restritiva adotada pelos governos a negociação


de acordos voluntários de restrição às exportações.

c) É exemplo de prática restritiva adotada pelos governos a


manutenção de barreiras à entrada no mercado de produto estrangeiro
para proteger o produtor doméstico.

Comentário

O item “A” está correto, pois, de fato, tudo que não é tarifa pode
vir a ser considerado barreira não tarifária, sendo as barreiras citadas
exemplos.

O item “B” está correto também, pois os ARVE são exemplos de


Barreiras Não Tarifárias.

O item “C” está correto, pois as BNTs são práticas restritivas


adotadas por governos para dificultar a entrada (importação) de
produtos estrangeiros e, assim, proteger os concorrentes nacionais.

03. (ESAF/AFRFB/2009-trecho)

Países que adotam políticas comerciais de orientação liberal são


contrários aos esquemas preferenciais, como o Sistema Geral de
Preferências, e aos acordos regionais e sub-regionais de integração
comercial celebrados no marco da Organização Mundial do Comércio
por conterem, tais esquemas e acordos, componentes protecionistas.

Comentário

O item está errado, pois todos os membros da OMC (isso


mesmo, todos!!) já celebraram acordos regionais. Ademais, esses
acordos são estimulados por auxiliarem no processo de liberalização,
ainda que para um número reduzido de países.

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4. (Simulado/ACE-MDIC/2012)

Sobre protecionismo e barreiras ao comércio, assinale a alternativa


correta:

a) A substituição de importações é uma forma de industrialização


empreendida pelos países em desenvolvimento na década de 60;
apesar de ter tido sucesso em alguns países, nunca foi levada a efeito
no Brasil pela dificuldade de se eleger um setor prioritário.

b) Apesar da valorização do real na economia, não se verifica grande


utilização de medidas de defesa comercial pelo governo brasileiro. Esta
uma das razões pela qual o Brasil nunca foi demandado na OMC sobre
este tema.

c) A elevação de outros tributos incidentes na importação diferente das


tarifas, não se constitui num elemento protecionista, pois os países não
outorgaram para esses mecanismos as “consolidações tarifárias”.

d) Diante de argumentos de “desindustrialização”, o Brasil poderia


utilizar, quantos fossem os segmentos da indústria prejudicados, a
aplicação de medidas antidumping, desde que comprovados requisitos
que justifiquem a imposição dessas medidas.

e) O Brasil não busca outras formas de proteção além da tarifária, uma


vez que as tarifas nacionais estão entre as mais altas do mundo, sendo
suficientes para garantir a proteção à indústria nacional.

Comentário

A letra “A” está errada, pois o Brasil levou a cabo a substituição


de importações. Exemplo disso foi a introdução da Lei de Informática
no Brasil em 1980.

A letra “B” está errada, pois o país usa bastante o recurso do


antidumping, para conter, principalmente, o avanço das importações
chinesas no mercado brasileiro.

A letra “C” está errada, pois todo aumento de quaisquer outros


tributos que não sejam o Imposto de Importação será considerado
barreira não tarifária. Cita-se por exemplo o aumento de 30 pontos
percentuais da alíquota de IPI para veículos importados, medida que
levou a União Europeia a acionar o Brasil na OMC por conta dessa
prática.
https://www.wto.org/english/tratop_e/dispu_e/cases_e/ds472_e.htm

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A letra “D” está correta, pois, o Brasil pode sim usar a defesa
comercial quantas vezes for necessária, desde que estejam presentes
os requisitos para aplicação da medida.

A letra “E” está errada, pois o Brasil busca outras formas de


proteção como a defesa comercial.

5. (ESAF/AFRFB/2003 - adaptada)

Sobre o protecionismo, em suas expressões contemporâneas, é correto


afirmar-se que:

a) tem aumentado ao se verificar a ampla celebração de acordos


regionais, que mitigam o impulso liberalizante da normativa
multilateral.

b) possui expressão eminentemente tarifária desde que os membros da


OMC acordaram a tarifação das barreiras não-tarifárias.

c) assume feições preponderantemente não-tarifárias, associando-se,


entre outros, a procedimentos administrativos e à adoção de padrões e
de controles relativos às características sanitárias e técnicas dos bens
transacionados.

d) vem diminuindo progressivamente à medida que as tarifas também


são reduzidas a patamares historicamente menores.

e) prepondera nos países em desenvolvimento na medida em que estes


possuem tarifas mais altas que os países desenvolvidos.

Comentário

O item “A” está errado porque a justificativa para o movimento


protecionista não passa pelo aumento de acordos regionais. Na verdade
acordos regionais aumentam a liberalização e são – por essa razão –
até estimulados pela OMC.

O item “B” está errado, pois o protecionismo tem feição não


tarifária nos dias de hoje.

O item “C” está perfeito. A “cara” atual do protecionismo é não


tarifário, que é mais difícil de ser descoberto e combatido.

O item “D” está errado, pois não se pode afirmar que o


protecionismo contemporâneo está em patamares historicamente
menores. Apesar de as tarifas estarem de fato em patamares menores,

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a imensidão de barreiras não tarifárias continua a atrapalhar o fluxo


comercial.

O item “E” está errado. De fato, países em desenvolvimento


geralmente possuem tarifas para bens industrializados em níveis mais
elevados. Isso não obstante, não é possível afirmar que BNTs só
existam em países em desenvolvimento. Países desenvolvidos são
também bastante adeptos a essas barreiras.

Analisemos então as BNTs em detalhes.

3.1. Cotas Não Tarifárias de Importação e Acordos Voluntários


de Restrição às Exportações (AVRE)

Restrições quantitativas são aquelas limitações que impedem o


fluxo comercial, seja pelo lado da exportação, seja pela importação.
Como são barreiras extremamente eficazes para conter o fluxo do
comércio internacional, elas são condenadas pelo GATT, desde 1947:

GATT, Art. XI, §1º.


Nenhum Membro instituirá ou manterá, para a importação de
um produto originário do território de outro Membro, ou para a
exportação ou venda para exportação de um produto destinado ao
território de outro Membro, proibições ou restrições a não ser
direitos alfandegários, impostos ou outras taxas, quer a sua
aplicação seja feita por meio de contingentes, de licenças de
importação ou exportação, quer por outro qualquer processo.

A regra do Art. XI, § 1º do GATT impede então que uma parte


Contratante venha a colocar uma restrição que limite o fluxo comercial,
seja pela exportação ou pela importação.

Pensando pelo lado da importação, a barreira mais comum é a


cota. Ela é uma das medidas mais eficazes para se barrar a
importação de determinado produto e, por essa razão, a 8ª Rodada
do GATT (Rodada Uruguai) tentou converter as cotas existentes para
produtos agrícolas em tarifas (“tarificação”), que são mais
transparentes e menos impeditivas ao comércio internacional.

Assim, cotas quando no formato de cota física (ou cota não


tarifária), literalmente impedem a entrada da mercadoria no país. Isso

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ocasiona uma elevação do preço doméstico, vez que o mercado interno


não é exposto à competição com o produto importado.

Além disso, essas cotas não conferem nenhuma receita ao


governo. Eventualmente, quando o governo promove o leilão destas
cotas ou as empresas detentoras desses direitos o fazem, pode se
auferir alguma receita com as mesmas. Por outro lado, algumas cotas
são vinculadas a faixas de tarifas aplicáveis (cotas tarifárias).

Importante destacar que a cota não tarifária não deve ser


confundida com a cota tarifária. A cota tarifária é o controle do
quantitativo de produtos importados para fins de uma redução na tarifa.

Assim, por exemplo, o Brasil quando cria cotas tarifárias para a


importação de veículos do México, está, na verdade, não impedindo a
importação, mas sim, controlando quantos veículos podem ser
importados no país com tarifa 0% e quantos ficarão com a tarifa cheia
de 35%. Veja que se a cota estiver esgotada, não haverá restrição à
importação, desde que o importador pague a tarifa “cheia”.

O governo importador não cai então na regra do Art. XI:1 do


GATT quando aplica cotas tarifárias, mas somente cotas não
tarifárias, que impedem a entrada da mercadoria no país e,
consequentemente, o fluxo comercial.

COTA NÃO TARIFÁRIA = RESTRIÇÃO QUANTITATIVA FÍSICA, é talvez


a medida mais gravosa ao comércio Internacional, pois impede que
ele aconteça. É, portanto, medida proibida pelo artigo XI:1 do GATT,
pois os países membros da OMC estão proibidos de proibir a
importação. (é proibido proibir)
COTA TARIFÁRIA = trata-se de contingentes que não limitam a
entrada da mercadoria, mas somente administra a quantidade de
mercadorias a serem importadas que fará jus a uma tarifa mais
benéfica (tarifa intracota) que a tarifa normalmente aplicada. Após o
esgotamento da cota, o importador pode importar normalmente,
desde que pague a tarifa “cheia” (tarifa extracota)

Por outro lado, atos por parte dos governos impedindo a


exportação de mercadorias acima de determinado volume também
podem recair sobre o Art. XI:1 do GATT. Exemplo disso foram os
“Acordos Voluntários de Restrição às Exportações” (AVRE), em

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que um país importador ameaçava o exportador, para que este último


limitasse suas vendas. Do contrário, caso não o fizesse, estaria sujeito
à retaliações comerciais.

Exemplo desta prática ocorreu entre Japão e os EUA na década de 80.


As montadores americanas sofriam com a popularidade dos carros
mais baratos e mais econômicos fabricados pelos japoneses no
começo dos anos 80. Daí haviam duas maneiras para conter as
importações: os EUA aplicarem uma cota não tarifária, e que ficaria
muito “na cara” a violação à regra de proibição de restrição
quantitativa do art. XI:1 do GATT, ou pedir “gentilmente” ao governo
Japonês para que, “voluntariamente”, limitasse a quantidade de
carros exportados aos EUA.
E assim foi feito. O Japão adotou no ano de 1981, “voluntariamente”,
exportar a quantidade de 1,68 milhão de veículos para os EUA.
Algumas companhias japoneses como Suzuki e Mazda foram se
estabelecer nos EUA para fugir deste contingente, agora imposto pelo
governo japonês. Por outro lado, outras montadoras como Honda,
Toyota e Nissan desenvolveram carros de alto luxo, maiores e
melhores e mais caros, no intuito de justamente lucrar mais com cada
unidade exportada ao mercado americano. Esses carros viriam a dar
origem a luxuosas marcas como Acura, Lexus, e Infiniti.

Esse é o jeito japonês de fazer do limão uma limonada...

Este AVRE expirou em 1994!

3.2. Licenças de Importação

O uso distorcido da Licenças de Importação (LI) também pode


se constituir numa barreira não tarifária. Os governos em geral utilizam
a Licença de Importação como uma autorização para importar. Para
tanto, importadores de determinadas mercadorias devem obter
certificados de conformidade técnica, certificados sanitários, etc. Se a
documentação estiver toda em ordem, o governo defere essa Licença
prévia de Importação, permitindo que a mercadoria seja então
embarcada para o país de destino.

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Só com a LI deferida é que em geral é permitido esse embarque.


é o que chamamos de Licenciamento Não Automático das
importações, cuja a análise será feita por algum servidor do governo,
no prazo de até 60 dias.

Por outro lado, há casos que o governo também queira


monitorar a descrição das mercadorias que vem sendo importadas.
Neste caso, é comum exigir um Licenciamento Automático, que
deve ser analisado em 10 dias pelo pelo órgão anuente competente
para aquele produto e, neste caso, a mercadoria pode ser embarcada
a qualquer momento, inclusive, antes de obter o deferimento, pois a LI
é usada tão somente para fins de monitoramente estatístico. Não há a
chamada “restrição de embarque”.

É claro que as Licenças de Importação não podem ser utilizadas


como instrumento para se barrar injustificadamente as importações ou
servir como instrumento de política comercial. Mercadorias que causam
prejuizo à indústria nacional devem ser combatidas por outros
instrumentos legais como tarifas, antidumping, salvaguardas, etc.

Assim, a LI não deve servir como medida de defesa


comercial.

A LI NÃO se pode usada para...

 selecionar mercadorias importadas que podem causar dano à


indústria nacional ou prejudicar a produção;

 selecionar mercadorias importadas que possam, em razão da


qualidade superior, dominar o mercado doméstico cuja produção
interna seja de qualidade inferior;

 selecionar mercadorias importadas com tarifas mais elevadas,


para que a importação ocorra sobre a entrada de bens que
possam resultar numa maior arrecadação;

 selecionar mercadorias importadas com o intuito de evitar que


sua entrada implique a formação de estoques;

 selecionar mercadorias importadas de origens que dificultam as


exportações brasileiras, usando a LI como forma de retaliação
comercial.

A LI pode ser usada para...

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 Controle cambial nos casos em que os países estejam com


dificuldades em seu balanço de pagamentos, conforme
requisitos previstos no art. XII do GATT

 Controle por órgãos governamentais específicos para proteção


dos valores que a sociedade defende, usando o a negativa do
deferimento da LI como medida necessária para proteger a moral
pública, saúde humana, animal, vegetal, bem como preservação
de recursos naturais esgotáveis, tudo conforme justificado pelo
Art. XX do GATT;

 Excepcionalmente como restrição quantitativa, desde que a


proibição de importação via LI esteja justificada por uma exceção
específica do GATT (ex. cotas como salvaguardas para conter o
surto de importações que causa prejuízo grave à indústria
doméstica).

É comum alguns países alguns países usarem a LI para


combater o preço das importações. O procedimento é ilegítimo, pois o
Acordo de Valoração Aduaneira, administrado pelas Aduanas (no Brasil
pela RFB) é que é o instrumento para se encontrar o real valor da
transação, combater subfaturamento, remessa de lucros para o
exterior, etc.

Exemplo do mau uso foi o abuso por parte dos nossos “hermanos”
argentinos que impuseram licenciamento de importação para os
produtos brasileiros (ex. carnes), suspendendo sua análise e
impedindo que esses produtos cruzassem a fronteira entre os dois
países. Logicamente, isso trouxe prejuízos irreparáveis ao comércio
das duas nações e desgastou ainda mais o relacionamento entre os
parceiros comerciais históricos. O caso foi parar no Órgão de Solução
de Controvérsias da OMC que naturalmente condenou a prática.
(https://www.wto.org/english/tratop_E/dispu_E/cases_e/ds444_
e.htm)

3.3. Direitos Antidumping e Compensatórios

Exemplo de Barreiras Não Tarifárias amplamente


disseminadas são as medidas para combater as práticas desleais de

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comércio de dumping e subsídios: são, respectivamente, as


medidas antidumping e as medidas compensatórias.

Podemos resumir brevemente que o dumping consiste na


exportação a preços menores que o praticado nas vendas internas do
mercado do mesmo membro exportador.

Já a prática de subsídios consiste no auxílio financeiro


governamental a uma indústria ou ramo de indústria. Para impor
sobretaxas nas importações a preços desleais é preciso que elas ainda
deem causa a um dano à indústria doméstica do país importador.

Vejamos a redação do art. VI do GATT:

GATT, Art. VI,


§2º. Com o fim de neutralizar ou impedir “dumping” a Parte
Contratante poderá cobrar sobre o produto, objeto de um “dumping”
um direito “antidumping” que não exceda a margem de “dumping”
relativa a esse produto. [...]
§3º. Nenhum “direito compensatório” será cobrado de qualquer
produto proveniente do território de uma Parte Contratante
importado por outra Parte Contratante, que exceda a importância
estimada do prêmio ou subsídio que, segundo se sabe foi concedido
direta ou indiretamente à manufatura, produção ou exportação
desse produto no país de origem ou de exportação, inclusive
qualquer subsídio especial para o transporte de um produto
determinado. A expressão “direito compensatório” significa um
direito especial cobrado com o fim de neutralizar qualquer prêmio
ou subsídios concedidos, direta ou indiretamente à manufatura,
produção ou exportação de qualquer mercadoria.

Após concluir um procedimento investigatório dessas práticas


desleais, os membros da OMC podem aplicar barreiras não tarifárias
sobre a importação de produtos originários das origens que exportam
produtos com preços desleais.

Essas barreiras não tarifárias serão estudadas nas aulas 4 e 5


de nosso curso, quando falarmos de Defesa Comercial. Por ora, resta
saber que são barreiras não tarifárias que, se aplicadas de acordo com
as regras que as regulamentam, o país importador pode cobrar este
encargo na importação destes produtos.

Agindo assim, o país importador estaria “apenas” neutralizando


os efeitos nocivos dessas práticas desleais, trazendo o produto de volta
a um preço justo, em pé de igualdade com os praticados no livre
mercado.

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3.4. Formalidades Aduaneiras

As formalidades burocráticas feitas pela aduana quando da


importação podem se tornar um inferno para qualquer importador.
Tendo em vista que essas exigências podem se constituir numa barreira
não tarifária, os negociadores do GATT buscaram regulamentar as
taxas que são cobradas seja na importação ou na exportação,
vinculando o seu custo com o valor do serviço prestado pelo Estado:

GATT, Art. VIII, § 1º (a)


Todos os emolumentos e encargos de qualquer natureza que sejam,
exceto os direitos de importação e de exportação e as taxas
mencionadas no artigo III, percebidas pelas Partes Contratantes na
importação ou na exportação ou por ocasião da importação ou da
exportação serão limitadas ao custo aproximado dos serviços
prestados e não deverão constituir uma proteção indireta dos
produtos nacionais ou das taxas de caráter fiscal sobre a
importação ou sobre a exportação.

Como sabemos, as taxas são tributos vinculados a uma


contraprestação estatal. No Comércio Exterior não é diferente. As taxas
de utilização do Sistema Integrado de Comércio Exterior (SISCOMEX)
ou do Sistema Mercante, devem estar vinculadas ao serviço prestado.

É interessante notar que o art. VIII do GATT é complementado


pelo o art. 77 do Código Tributário Nacional (CTN), que prescreve que:

Art. 77. As taxas cobradas pela União, pelos Estados, pelo Distrito
Federal ou pelos Municípios, no âmbito de suas respectivas
atribuições, têm como fato gerador o exercício regular do poder de
polícia, ou a utilização, efetiva ou potencial, de serviço público
específico e divisível, prestado ao contribuinte ou posto à sua
disposição.
Parágrafo único. A taxa não pode ter base de cálculo ou fato gerador
idênticos aos que correspondam a imposto nem ser calculada em
função do capital das empresas.

Enfim, as taxas não podem se constituir numa formalidade


aduaneira que ofereça uma proteção indireta ao mercado doméstico.

Há ainda o esforço de se reduzir a burocracia documental:

GATT, Art. VIII,


§1º
(b) As Partes Contratantes reconhecem a necessidade de
restringir o número e a diversidade dos emolumentos e
encargos a que se refere à alínea (a).
(c) As Partes Contratantes reconhecem igualmente a necessidade
de reduzir a um mínimo os efeitos e a complexidade das

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formalidades de importação e de exportação e de reduzir a


simplificar as exigências em matéria de documentos requeridos para
a importação e a exportação.
[...]
§4º. As disposições do presente artigo se estenderão aos
emolumentos, taxas, formalidades e exigências impostas pelas
autoridades governamentais em conexão com a importação e
exportação, inclusive no que disser respeito:
(a) às formalidades consulares, tais como faturas e certificados
consulares;
(b) às restrições quantitativas;
(c) às licenças;
(d) ao controle de câmbios;
(e) aos serviços de estatística;
(f) aos documentos a exibir, à documentação e à emissão de
certificados;
(g) às análises e às verificações;
(h) à quarentena, à inspeção sanitária e à desinfecção.

Vejam que as mais diversas formalidades que podem ser exigidas


dos órgãos anuentes podem recair sob a regra do art. VIII do GATT.
Tratam-se geralmente das exigências que a autoridade aduaneira pode
fazer no curso do despacho, ou que os órgãos governamentais fazem
durante o Licenciamento de Importação. Tudo pode se constituir
barreira não tarifária ilegítima.

Mais adiante em nosso curso, falaremos do Acordo de


Facilitação do Comércio negociado em 2013 (Conferência Ministerial
de Bali), que regulamentou um pouco mais essa disciplina do art. VIII
do GATT.

3.5. Taxas Múltiplas de Câmbio e Desvalorização competitiva


de moeda

Outra medida muito utilizada por alguns países é a desvalorização


competitiva da moeda e taxas múltiplas de câmbio. Essas práticas
podem ser resumidas no que chamamos de “política cambial”.

No que diz respeito à queda das taxas de câmbio, a moeda


nacional fica mais barata em relação às demais. Essa desvalorização
tem um efeito benéfico sobre as exportações, na medida em que as
vendas do país se tornam mais baratas e competitivas.

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Por exemplo, se um exportador brasileiro recebe em dólares de


um comprador lá fora, ele precisa converter em reais quando do
ingresso dessa divisa no país. Se a moeda nacional (ex. Real) está
desvalorizada, o exportador receberá mais reais pela sua venda, do que
num câmbio valorizado.

Por outro lado, essa prática inibe as importações, auxiliando o


saldo do balanço de pagamentos. Por exemplo, se o importador
brasileiro adquire insumos estrangeiros, ele terá que dispender mais
reais para pagar a operação em dólar.

Neste cenário, se um país como o Brasil não produz um


determinado bem e este é importado, sua compra continua sendo
necessária, agora a um preço mais alto por conta da política cambial.
Isso tende a gerar inflação, pois esses aumentos são repassados aos
consumidores internos.

Em 2011, o Brasil era estava sendo bastante afetado pela


apreciação do US$ frente ao R$ (dólar custava R$ 1,50). Assim, uma
enxurrada de importações ameçava o que os jornais divulgavam como
a “desindustrialização” brasileira. Não foi à toa que o Brasil
emplacou no final da Conferência Ministerial da OMC em 2011 uma
menção à necessidade de se discutir a manipulação cambial como
forma de anular a proteção tarifária negociada ao longo dos tempos.

O argumento elaborado pela Prof. Vera Thorstensen (FGV-RJ) foi


batizado de desalinhamento cambial e se constituía na base para o
Brasil demandar a China na OMC, alegando uma violação ao artigo XV
do GATT. Isso porque o Art. XV determina que os países não devem
frustrar os objetivos do acordo de comércio com o câmbio, tampouco
os objetivos do acordo sobre câmbio com o comércio:

GATT, XV, § 4º
As Partes Contratantes abster-se-ão de qualquer medida cambial
que possa frustrar os objetivos considerados no presente Acordo
e de qualquer medida comercial que possa frustrar os objetivos
visados pelos Estatutos do Fundo Monetário Internacional.

Porém, esse artigo raramente foi mencionado e nunca foi testado


nos painéis do GATT ou da OMC. Diante da ausência de precedentes
sobre o assunto, o Brasil não teve coragem de iniciar tal disputa, afinal
não se sabe qual é o patamar cambial que deveria ser considerado
como ponto de partida para se aferir se houve
valorização/desvalorização cambial. E por falar nisso, a lógica cambial
se inverteu em 2015, tendo o dólar ultrapassado a barreira dos R$ 4,00,
o que poderia levar a “reindustrialização” do país.

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O fato concreto é que na ausência de um contencioso na OMC, ou


seja, uma resposta em nível multilateral, o Brasil adotou respostas
unilaterais, usando bastantes medidas antidumping com o forma de
defesa comercial para combater esse “desalinhamento”. No entanto,
curiosamente, o Brasil nunca foi demandado na OMC pela aplicação
dessas medidas.

Sobre taxas múltiplas de câmbio, essa também pode ser uma


barreira não tarifária na medida em que consiste em ter mais de uma
taxa em que suas moedas são trocadas. Diferente de um sistema fixo
(governo controla o câmbio) ou flutuante (governo não intervêm no
câmbio), os sistemas múltiplos possuem taxas diferentes, fixas e
flutuantes, que são utilizados para a mesma moeda, ao mesmo
tempo.

A título de exemplo, podemos mencionar em primeiro lugar, uma


taxa fixa aplicada a certos segmentos do mercado, tais como
importações de bens “essenciais” e exportações. Em segundo lugar, os
importadores de bens “não-essenciais” ou supérfluos podem ter uma
taxa de câmbio mais cara, que dificulte as importações deste segmento.

3.6. Pauta de preços mínimos e práticas arbitrárias em


Valoração Aduaneira

A pauta de preços mínimos e a imposição de preços arbitrários à


importação é outra prática que se constitui numa barreira não tarifária.
Isso porque, a partir de uma pauta, a autoridade aduaneira poderia se
valer de preços de transação pré-fixados para cada produto.

Por exemplo, se o importador pagar pela importação de canetas


ao custo de US$ 0,10 a unidade, a aduana utilizaria uma pauta
estabelencendo, arbitrariamente, que as canetas não podem custar
menos de US$ 1,00 a unidade, ou seja, 10 vezes mais!

Mas para que a aduana faria isso professor?

Ora meus caros, com isso, os governos inflam artificialmente a


base de cálculo dos tributos aduaneiros, fazendo com que se arrecade
mais e a mercadoria entre a um custo mais alto para o importador,
ajudando a indústria doméstica concorrente.

Esse artifício é uma barreira não tarifária combatida, desde


1947, pelo Art. VII do GATT:

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GATT, Art. VII, §2º, (a)


O valor para fins alfandegários das mercadorias importadas deverá
ser estabelecido sobre o valor real da mercadoria importada à
qual se aplica o direito ou de uma mercadoria similar, e não sobre o
valor do produto de origem nacional ou sobre valores arbitrários ou
fictícios.

A partir da década de 70, o tema foi detalhada no Acordo de


Valoração Aduaneira da OMC.

3.7. Medidas de Investimento Relacionadas ao Comércio


(TRIMs)

Tendo em conta a divergência existente no âmbito da Rodada


Uruguai, não houve consenso sobre a celebração de acordo sobre
proteção de investimentos.

Na verdade, houve tão somente um acordo baseado nas normas


do GATT relativas ao comércio de mercadorias. Assim, o Acordo TRIMs
(Trade-Related Investment Measures) não cuida de regulação do
investimento estrangeiro, mas sim, foca em disciplinas que
infringem os artigos III (Tratamento Nacional) e XI (Proibição de
Restrições Quantitativas).

Em outras palavras, discriminações entre produtos importados e


exportados e/ou criação de restrições à importação ou exportação.

Por exemplo, o requerimento de determinado país sobre a


necessidade de a empresa estrangeira e nacionais instaladas no país
produzir utilizando conteúdo local numa base não discriminatória é
também inconsistente com o TRIMs porque envolve um tratamento
discriminatório de produtos importados em favor dos produtos
domésticos.

TRIMs, Art. 2º
§1º. Sem prejuízo de outros direitos e obrigações sob o GATT 1994,
nenhum Membro aplicará qualquer medida de investimento
relacionada ao comércio (TRIM) incompatível com as disposições do
Artigo III ou do Artigo XI do GATT 1994.

Por outro lado, a eliminação de requisitos de desempenho


exportador de bens para que empresas se instalem no país, ou
requisitos de transferência de tecnologia são formas de barreiras não
tarifárias que foram discutidas na Rodada Uruguai, mas não foram
contempladas pelo Acordo TRIMs.

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3.8. Tratamento favorecido aos produtos nacionais em


licitações

É outra possibilidade de barreiras não tarifárias o tratamento que


o governo dá no âmbito das suas compras governamentais (licitações)
quando concorrem fornecedores estrangeiros e nacionais.

Vide, por exemplo, a Lei n. 8.666/1993, que institui margem de


preferência em licitações:

Art. 3º,
§ 5º. Nos processos de licitação, poderá ser estabelecida margem de
preferência para: (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015)
I - produtos manufaturados e para serviços nacionais que atendam
a normas técnicas brasileiras; e (Incluído pela Lei nº 13.146, de
2015)
II - bens e serviços produzidos ou prestados por empresas que
comprovem cumprimento de reserva de cargos prevista em lei para
pessoa com deficiência ou para reabilitado da Previdência Social e
que atendam às regras de acessibilidade previstas na legislação
[...]
§ 8º. As margens de preferência por produto, serviço, grupo de
produtos ou grupo de serviços, a que se referem os §§ 5º e 7º, serão
definidas pelo Poder Executivo federal, não podendo a soma delas
ultrapassar o montante de 25% (vinte e cinco por cento) sobre
o preço dos produtos manufaturados e serviços estrangeiros.

Portanto, as empresas nacionais podem, nas compras do governo


federal brasileiro, oferecer proposta até 25% mais cara que a melhor
proposta e ganhar o certame licitatório.

Essa medida tenta ser coibida na OMC por meio da aplicação da


regra da Não-Discriminação entre produto importado e nacional nestas
licitações no Acordo de Compras Governamentais:

Acordo de Compras Governamentais


Artigo III: Tratamento nacional e não discriminação
§1º. Com respeito a todas as leis, regulamentos, procedimentos e
práticas relativas às compras governamentais cobertas por este
Acordo, cada parte deve dar imediatamente e incondicionalmente
aos produtos, serviços e fornecedores das outras Partes que
oferecem produtos ou serviços das Partes, tratamento não menos
favorável que:
(a) O acordado para produtos, serviços e fornecedores domésticos;
(b) O acordado para produtos, serviços e fornecedores de qualquer
outra Parte.

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No entanto, o Acordo Plurilateral de Compras Governamentais,


enquanto Acordo Plurilateral, não obriga a todos os membros da OMC,
mas somente aqueles que aderem. Como o Brasil não aderiu a este
Acordo, pode ainda o governo discriminar suas licitações. (veremos
mais detalhes sobre acordos plurilaterais e multilaterais na aula sobre
OMC).

3.9. Barreiras Técnicas, Sanitárias e Fitossanitárias

Destacamos ainda a imposição de barreiras por via de


regulamentos técnicos ou sanitários, os quais ganharam normas mais
precisas nos acordos de barreiras técnicas (Technical Barriers to Trade
- TBT) e barreiras sanitárias e fitossanitárias (Sanitary and
phytosanitary measures - SPS) da OMC. No entanto, da mesma forma,
seu uso distorcido tem prejudicado o comércio.

O art. 2.2. do Acordo de Barreiras Técnicas da OMC prescreve o


seguinte:

TBT, Art. 2º
§ 2º. Os Membros assegurarão que os regulamentos técnicos não
sejam elaborados, adotados ou aplicados com a finalidade ou o
efeito de criar obstáculos técnicos ao comércio internacional.
Para este fim, os regulamentos técnicos não serão mais restritivos
ao comércio do que o necessário para realizar um objetivo legítimo
tendo em conta os riscos que a não realização criaria. Tais objetivos
legítimos são, inter alia, imperativos de segurança nacional, a
prevenção de práticas enganosas, a proteção da saúde ou segurança
humana, da saúde ou vida animal ou vegetal ou do meio ambiente.
Ao avaliar tais riscos, os elementos pertinentes a serem levados em
consideração são, inter alia, a informação técnica e científica
disponível, a tecnologia de processamento conexa ou os usos finais
a que se destinam os produtos.

O Acordo TBT assim determina ainda que os regulamentos


técnicos, normas e procedimentos de avaliação da conformidade devem
ser abolidos se as circunstâncias específicas que deram origem a sua
adoção (como ameaça à saúde pública ou ao meio ambiente) deixarem
de existir.

Devem ainda os Membros fazerem com que os regulamentos


técnicos nacionais, normas e procedimentos de avaliação da
conformidade observem normas internacionais pertinentes, quando
existentes. Podemos citar a “ISO" (International Organization for
Standardization), que é a organização internacional para padronização.

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Este acordo também determina que os Membros da OMC


considerem a possibilidade de reconhecer a equivalência dos
regulamentos técnicos e dos procedimentos de avaliação da
conformidade de outros Membros, mesmo que esses regulamentos
sejam diferentes, desde que essas medidas atendam aos objetivos de
seus próprios regulamentos técnicos ou procedimentos de avaliação da
conformidade (como a proteção da saúde pública).

Vale lembrar ainda que o Acordo TBT impõe a obrigação de


publicar (transparência) e notificar as medidas, além de determinar
que os regulamentos técnicos, as normas e os procedimentos de
avaliação da conformidade sejam adotados e aplicados em
conformidade com as obrigações do tratamento da nação mais
favorecida e do tratamento nacional.

O Acordo TBT prevê que cada Membro assegure que exista um


Ponto Focal no seu país para dar acesso às informações sobre
regulamentos técnicos, normas e procedimentos de avaliação da
conformidade, prover esclarecimentos bem como documentos
relevantes sobre o assunto. No Brasil, o INMETRO é este ponto focal.

Em 1994, a União Europeia determinou que as bananas importadas


deveriam ter, pelo menos, 14 centímetros de comprimento e 2,7
centímetros de largura; obviamente, o tema acabou sendo ironizado
por diversos jornais, como o britânico “The Sun”, que publicou um
molde em papel e disponibilizou uma linha telefônica exclusiva para
quem encontrasse um exemplar fora das especificações. (Fonte:
Krugman, Paul; Economia Internacional, 2010)

Continuando...

Agora sobre o Acordo SPS a lógica é muito semelhante.


Basicamente o que ele faz é que prescrever as regras básicas para
segurança alimentar, bem como padrões de saúde animal e vegetal.

Ele permite que os países determinem seus próprios padrões


de proteção adequada (Adequate Level Of Protection), mas também
determina que os regulamentos estejam baseados em evidência

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científica. Esses regulamentos devem ser aplicados na medida


necessária para proteger a vida humana, animal ou ou vegetal.

Ele também não podem se constituir em discriminação arbitrária


ou injustificável entre países em que existam condições idênticas ou
similares. Assim, se o Brasil oferece condições similares à Rússia
relativas à rastreamento do gado e sanitização do mesmo, a Rússia não
pode opor barreiras não tarifárias a este respeito, pois poderia ser
injustificada e discriminatória, com o único propósito de impedir a
concorrência da carne brasileira naquele mercado.

Os membros são ainda encorajados a usar padrões


internacionais, quando estes existirem. Todavia, como já dissemos,
eles podem usar medidas que resultem em padrões mais elevados se
houver justificativa científica. Assim, podem impor padrões mais
elevados de proteção baseados na avaliação de risco desde que a
abordagem seja consistente e não arbitrária.

Sobre isso, podemos citar a disputa n. 291 da OMC, em que os


EUA demandam a União Europeia pelas barreiras aos alimentos
geneticamente modificados (transgênicos). A Barreira foi considerada
ilegal frente ao Acordo SPS, por não haver justificativa científica de que
estes produtos causam mal.

SPS, Art. 5º
§1º. Os Membros assegurarão que suas medidas sanitárias e
fitossanitárias são baseadas em uma avaliação adequada às
circunstâncias dos riscos à vida ou à saúde humana, animal ou
vegetal, tomando em consideração as técnicas para avaliação de
risco, elaboradas pelas organizações internacionais
competentes.
§2º. Na avaliação de riscos, os Membros levarão em
consideração a evidência científica disponível, os processos e
métodos de produção pertinentes, os métodos para teste,
amostragem e inspeção pertinentes, a prevalência da pragas e
doenças específicas, a existência de áreas livres de pragas ou
doenças, condições ambientais e ecológicas pertinentes e os regimes
de quarentena ou outros.

Assim como o Acordo TBT, o Acordo SPS mantém a noção de


equivalência de tratamento ao dispor em seu art. 4º que “os Membros
aceitarão as medidas sanitárias e fitossanitárias de outros Membros
como equivalentes, mesmo se tais medidas deferirem de suas
próprias medidas ou de medidas usadas por outros Membros que
comercializem o mesmo produto, se o Membro exportador
demonstrar objetivamente ao Membro importador que suas
medidas alcançam o nível adequado de proteção sanitária e
fitossanitária do Membro importador”.
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Vejamos então exemplos práticos do que acontece em termos


de barreiras sanitárias contra a carne brasileira.

Em 2013, o Serviço Veterinário e Fitossanitário da Rússia – VPSS


(sigla em inglês), similar a nossa Secretaria Nacional de Defesa
Agropecuária, do Ministério da Agricultura, determinou a suspensão
das importações, por parte daquele país, de carne advinda de dez
frigoríficos brasileiros. Em comunicado o órgão afirma de forma
genérica “violação de regras”.
As transações comerciais globais são administradas no âmbito da
OMC e, para evitar abusos unilaterais se baseiam no princípio básico
da “EQUIVALÊNCIA”, que consiste que nenhum país comprador pode
exigir do país vendedor mais do que ele pratica, de forma idêntica ou
equivalente as normas internas adotadas em seu território.
Assim, um país só pode impedir o ingresso de produtos de outros
países portadores de determinada enfermidade animal (por exemplo,
febre aftosa ou brucelose) se seu país for livre da mesma doença, com
o reconhecimento da Organização Mundial de saúde Animal – OIE.
Óbvio que em assuntos comerciais e de governo que envolvam somas
absurdas de dólares, as vezes tenta-se burlar ou mascarar estas
normas. Caso clássico foi a alegação da doença da “vaca louca” –
encefalite espongiforme bovina (BSE) no Brasil, por parte do governo
canadense, com o simples propósito de retaliar o governo brasileiro
pelo avanço da empresa EMBRAER sob os negócios da canadense
BOMBARDIER na área de aviação comercial. Nestes casos os governos
jogam com o tempo, pois o contencioso a nível de OMC é complexo e
lento.
Embora neste último quinquênio o Brasil venha constantemente
perdendo espaço no que diz respeito aos superávits da balança
comercial, é inegável que hoje ainda somos um grande agente no
comércio internacional, especialmente quando se fala em produtos
agropecuários (soja, milho, café, carnes bovina, suína e de aves, etc.).
Mas o que ocorreu com os seis frigoríficos da JBS/FRIBOI, dois do
MINERVA, um do MARFRIG e um de carne suína PAMPLONA? O
governo russo informou a violação técnica, que pode ter sido
microbiológica, uso de substâncias proibidas ou em níveis superiores
ao permitido na norma russa, dentre outros aspectos, observados
durante as missões internacionais ou análise de produtos importados.
Nestes casos o retorno à condição de exportador para a Rússia é
estritamente técnica. A marca JBS/FRIBOI, que foi a maior impactada
(seis unidades), terá que fazer mais do que peças publicitárias com

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artistas globais para comprovar sua qualidade. Terá que melhorar e


comprovar seus programas de autocontrole que envolvem a qualidade
e inocuidade da carne.
Entretanto, como as empresas afetadas pelos embargos têm outras
plantas habilitadas a exportar para a Rússia, sendo que as restrições
são específicas para cada unidade fabril, as mesmas já divulgaram
que estarão remanejando suas produções, evitando prejuízos às
exportações. (fonte: www.saudeinspecaoanimal.com.br)

Vamos então a uma questão sobre esse assunto...

4. Exceções do GATT que justificam a imposição de barreiras ao


comércio

Conforme vimos até aqui, são inúmeras as barreiras não


tarifárias existentes, de forma que o GATT e os acordos da OMC
buscam regulamentar sua utilização.

Via de regra, quando uma barreira destas (tarifária ou não


tarifária) é aplicada conforme as “regras do jogo”, não há maiores
problemas em sua aceitação, pois o comércio internacional não é um
fim em si mesmo.

Há valores maiores – como a vida humana – que merecem a


proteção do Estado acima de tudo. No entanto, ainda que os Estados
violem alguma regra do GATT para proteger seus mercados, ou sua
população, o próprio Acordo traz uma série de exceções que
justificariam essa inconsistência, desde que a medida seja aplicada
exatamente conforme prescrito nas exceções.

Vejamos quais são elas...

4.1. Proteção à Indústria Nascente

Como já dissemos na aula demonstrativa, baseado nas ideias de


Alexander Hamilton e Friederich List, os países, quando nos primeiros
estágios de seu desenvolvimento, poderiam buscar uma proteção
temporária para que conseguissem amadurecer suas indústrias.

No espírito destas teorias o GATT trouxe em seu art. XVIII uma


autorização chamada “ajuda do estado em favor de
desenvolvimento econômico”. Essa ajuda permite que os governos

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imponham barreiras às importações no intuito de levar à cabo a política


de proteção às indústrias nascentes:

GATT, Art. XVIII


§1º. As Partes Contratantes reconhecem que a realização dos
objetivos do presente Acordo será facilitada pelo
desenvolvimento progressivo de suas economias, em particular
nos casos das Partes Contratantes cuja economia não asseguram
à população senão um baixo nível de vida e que está nos
primeiros estágios de seu desenvolvimento.
§2º. As Partes Contratantes reconhecem além disso que pode ser
necessário para as Partes Contratantes previstas no parágrafo
primeiro, com o objetivo de executar seus programas e suas políticas
de desenvolvimento econômico orientados para a elevação do nível
geral de vida de suas populações, tomar medidas de proteção ou
outras medidas que afetem as importações e que tais medidas são
justificadas na medida em que elas facilitem a obtenção dos
objetivos deste Acordo. Elas estimam, em consequência, que estas
Partes Contratantes deveriam usufruir facilidades adicionais que as
possibilitem:
(a) conservar na estrutura de suas tarifas aduaneiras suficiente
flexibilidade para que elas possam fornecer a proteção tarifária
necessária à criação de um ramo de produção determinado, e,
(b) instituir restrições quantitativas destinadas a proteger o
equilíbrio de suas balanças de pagamento de uma maneira que
leve plenamente em conta o nível elevado e permanente da procura
de importação suscetível de ser criada pela realização de seus
programas de desenvolvimento econômico.

O GATT/OMC permite, então, em determinadas condições, a


imposição de barreiras tarifárias às importações de mercadorias para
dar fôlego a um ramo de indústria que precisa de proteção para se
desenvolver, ou imposição de barreiras não tarifárias.

Ressalte-se que não se cuida de intervenção estatal para corrigir


falha mercado, mas sim, para, temporariamente, permitir países mais
pobres (baixos níveis de vida) a buscarem também o seu “lugar ao sol”,
ou seja, desenvolver alguma indústria mediante a aplicação de tarifas
ou cotas não tarifárias.

Exemplo de sua utilização foi na década de 60, quando a Coreia


do Sul impôs restrições quantitativas para a importação de bife. Países
interessados como Austrália, EUA e Nova Zelândia então pediram a
instauração de um painel no GATT, o qual determinou que as barreiras
fossem removidas, pois deveria haver a progressiva eliminação destas
barreiras não tarifárias. Além do mais, elas devem ser removidas se as
circunstâncias que as deram causa, não mais existirem.

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4.2. Exceções de balanço de pagamentos

Outra exceção é permitida para países com problemas de


balanço de pagamentos (art. XII). Isso porque, em algumas
circunstâncias, os países precisam salvaguardar sua posição financeira
externa, sendo uma medida eficaz para tanto que adotem restrições
às importações. Essa situação é comum quando o país importa mais
do que exporta, enviando para o exterior mais divisas do que entram,
gerando um déficit de recursos financeiros para honrar seus
compromissos internacionais.

Esse desequilíbrio em sua posição pode ser corrigido com a


imposição de barreiras às importações. No entanto, há um
deslocamento de recursos de sua atividade mais eficiente para a menos
eficiente, pois o país deixará de comprar do exterior o produto que é
mais barato e investirá na sua indústria que é menos eficiente. A
exceção vai então na contramão da teoria das vantagens comparativas
e não pode perdurar indefinidamente.

GATT, XII, §1º


Não obstante as disposições do parágrafo primeiro do artigo XI, toda
Parte Contratante, a fim de salvaguardar sua posição financeira
exterior e o equilíbrio de sua balança de pagamentos, pode
restringir o volume ou o valor das mercadorias cuja importação ela
autoriza, sob reserva das disposições dos parágrafos seguintes do
presente artigo.

A título de exemplo, Equador notificou em 2015 o uso dessa


faculdade à OMC, em razão da “forte conjuntura adversa” que
atravessava o país. Aplicou então sobretaxa que afeta cerca de 30%
das importações, da seguinte forma:

 Uma taxa de 5% para importações de “bens de capital não


essenciais e matérias-primas não essenciais“
 Uma taxa de 15% para importações de “sensibilidade
média”.
 Uam taxa de 25% para importações de cerâmica,
pneumáticos, motocicletas e televisores, e
 Uma taxa de 45% para importações de bens de consumo
final.

O país vem retirando essa sobretaxa gradualmente em 2016,


eliminando-a totalmente em Junho de 2016.

Outro país que lançou mão deste recurso desde fevereiro de


2015 foi a Ucrânia. No entanto, apesar de o país ter informado que já
eliminou sua sobretaxa, não há consenso entre os membros afetados

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de que a medida que havia sido tomada era compatível com as regras
da OMC.

4.3. Exceção de emergência econômica (surto de importações)

Apesar de não ser uma prática desleal de comércio, é possível


aplicar medidas de salvaguarda (também por meio de sobretaxa)
quando houver aumento substancial de importações de determinada
mercadoria do mundo inteiro que causem ou ameacem causar dano.

É o combate ao chamado surto de importação que também será


tema da nossa aula sobre defesa comercial.

Sua primeira previsão legal veio já em 1947 quando da


pactuação do GATT:

GATT, Art. XIX, § 1. (a)


Se, em consequência da evolução imprevista das circunstâncias
e por efeito dos compromissos que uma Parte Contratante tenha
contraído em virtude do presente Acordo, compreendidas as
concessões tarifárias, um produto for importado no território da
referida Parte Contratante em quantidade por tal forma acrescida
e em tais condições que traga ou ameace trazer um prejuízo
grave aos produtores nacionais de produtos similares ou
diretamente concorrentes, será facultado a essa Parte Contratante,
na medida e durante o tempo que forem necessários para
prevenir ou reparar esse prejuízo, suspender, no todo ou em parte,
o compromisso assumido em relação a esse produto, ou retirar ou
modificar a concessão.

Assim, quando houver esse surto de importações decorrente de


uma evolução imprevista das circunstâncias e esse aumento repentino
e inesperado cause ou ameace causar prejuízo grave à indústria
doméstica que fabrica o produto similar ou diretamente concorrente ao
importado, o país importador pode se valer dessa barreira não
tarifária conhecida como medidas de salvaguarda.

Na verdade, a salvaguarda se revestirá de forma de barreiras


que já abordamos antes como, por exemplo, aumento da tarifa (agora,
além do teto consoildado) ou cotas físicas (restrições quantitativas).
Como sabemos, a elevação de tarifas além do limite consolidado e a
aplicação de cotas violariam, respectivamente, os artigos II e XI do
GATT. Percebam que a salvaguarda pode então ser aplicada tanto na
forma de uma barreira tarifária como barreira não tarifária.

É claro que se essas medidas forem aplicadas em observância


ao art. XIX do GATT, as eventuais violações estarão justificadas.
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4.4. Exceções de integração regional

Temos ainda a exceção para integração regional (tema que


será alvo de aula específica), por meio da qual os membros da OMC
permitem que, em certas condições previstas no artigo XXIV do
GATT/1994 e o artigo V do GATS, possam “se esquivar” da cláusula da
Nação Mais Favorecida (NMF), podendo discriminar barreiras
tarifárias em favor dos países que fazem parte da Zona de Livre
Comércio ou da União Aduaneira, sem estender esse privilégio aos
demais membros da OMC.

Além disso, a Cláusula de Habilitação de 1979 permite que


países em desenvolvimento celebrem acordos de livre comércio de
modo mais flexível, sem a exigência de reciprocidade quanto às
tarifas aplicadas exemplo.

GATT, Art. XXIV, §5º


Em consequência, as disposições do presente Acordo não se oporão
à formação de uma união aduaneira entre os territórios das Partes
Contratantes ou ao estabelecimento de uma zona de livre troca ou à
adoção de Acordo provisório necessário para a formação de uma
união aduaneira ou de uma zona de livre troca [...]

Trata-se então mais de uma autorização para discriminar uma


barreira tarifária aplicada, sem a necessidade de aplicar exatamente a
mesma alíquota para os demais membros da OMC.

4.5. Exceções gerais

O Artigo XX do GATT/1994 veicula o que chamamos de


Exceções Gerais, que permitem que os membros adotem barreiras ao
comércio. Ainda que violem outros dispositivos do GATT, o Art. XX pode
justificar a eventual inconsistência dessas barreiras frente às demais
normas do GATT eventualmente violadas.

Os valores justificáveis são, por exemplo, moral pública, saúde


animal vegetal, conservação de recursos naturais não esgotáveis, etc.

Vejamos um exemplo. Em 2005 o Brasil foi demandado pela


proibição de importação de pneus usados para consumo (Portaria
DECEX n. 08/91). Apesar de violar o Artigo XI:1 do GATT, a restrição
foi considerada justificada em virtude de servir à proteção da saúde
pública (art. XX(b) do GATT) por reduzir os focos de proliferação do

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mosquito da dengue decorrente do descarte prematuro de pneus


usados.

(vide https://www.wto.org/english/Tratop_e/dispu_e/cases_e/ds332_e.htm )

Assim, a exceção assegura que os compromissos assumidos


pelos membros não impeçam que busquem a implementação de
políticas públicas com objetivos legítimos.

GATT, Art. XX
Desde que essas medidas não sejam aplicadas de forma a constituir
quer um meio de discriminação arbitrária, ou injustificada, entre os
países onde existem as mesmas condições, quer uma restrição
disfarçada ao comércio internacional, disposição alguma do presente
capítulo será interpretada como impedindo a adoção ou aplicação,
por qualquer Parte Contratante, das medidas:
(a) necessárias à proteção da moralidade pública;
(b) necessárias à proteção da saúde e da vida das pessoas e dos
animais e à preservação dos vegetais;
(c) que se relacionem à exportação e a importação do ouro e da
prata;
(d) necessárias a assegurar a aplicação das leis e regulamentos que
não sejam incompatíveis com as disposições do presente acordo, tais
como, por exemplo, as leis e regulamentos que dizem respeito à
aplicação de medidas alfandegárias, à manutenção em vigor dos
monopólios administrados na conformidade do § 4º do art. II e do
art. XVII à proteção das patentes, marcas de fábrica e direitos de
autoria e de reprodução, e a medidas próprias a impedir as práticas
de natureza a induzir em erro;
(e) relativas aos artigos fabricados nas prisões:
(f) impostas para a proteção de tesouros nacionais de valor artístico,
histórico ou arqueológico;
(g) relativas à conservação dos recursos naturais esgotáveis, se tais
medidas forem aplicadas conjuntamente com restrições à produção
ou ao consumo nacionais;
(h) tomadas em execução de compromisso contraídos em virtude de
um Acordo intergovernamental sobre um produto de base, em
conformidade com os critérios submetidos às Partes Contratantes e
não desaprovados por elas e que é ele próprio submetido às Partes
Contratantes e não é desaprovado por elas.
(i) que impliquem em restrições à exportação de matérias primas
produzidas no interior do país e necessárias para assegurar a uma
indústria nacional de transformação as quantidades essenciais das
referidas matérias-primas durante os períodos nos quais o preço
nacional seja mantido abaixo do preço mundial, em execução de um
plano governamental de estabilização; sob reserva de que essas

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restrições não tenham por efeito reforçar a exportação ou a proteção


concedida à referida indústria nacional e não sejam contrárias às
disposições do presente Acordo relativas à não discriminação.
(j) essenciais à aquisição ou a distribuição de produtos dos quais se
faz sentir uma penúria geral ou local; todavia, as referidas medidas
deverão ser compatíveis com o princípio segundo o qual todas as
Partes Contratantes têm direito a uma parte equitativa do
abastecimento internacional desses produtos e as medidas que são
incompatíveis com as outras disposições do presente Acordo serão
suprimidas desde que as circunstâncias que as motivaram tenham
deixado de existir. As Partes Contratantes examinarão, em 30 de
junho de 1960, no máximo, se é necessário manter a disposição da
presente alínea.

Cuida-se em exceção muito utilizada em disputas da OMC, onde


um país membro que aplica uma exceção ao comércio, busca
demonstrar que aquela barreira é necessária para se assegurar a
proteção de um valor naquele país.

Sobre a aplicação do Art. XX do GATT, primeiramente, os países


devem buscar na aplicação da medida, demonstrar que ela é necessária
para o atingimento daquele objetivo. Para isso, os países poderiam
aplicar barreiras comerciais sobre mercadorias, por exemplo, proibindo
sua importação, dando tributação diferenciada, aplicando tarifa acima
do teto consolidado, etc.

Por exemplo, na alínea “a” temos que barreiras ao comércio


podem ser aplicadas se necessária para a proteção da moral pública.
Trata-se de conceito aberto. Bens que ofendem a moral poderiam ser
revistas pornográficas, bebidas alcoólicas, máquinas de jogos de azar,
etc.

Na alínea “b”, temos a proteção da saúde e vida humana,


animal e vegetal. Assim, a proibição de comercialização e fabricação
de telhas de amianto do tipo crisótila (cancerígena) seria uma medida
autorizada pelo Art. XX “b”.

Outro exemplo é a proibição de importação de pneus na


condição de usados, pelo Brasil, conforme já falamos. A UE encampou
o pleito de empresa Michelin Francesa e levou adiante na OMC este
contencioso de n. 332. O Brasil conseguiu justificar que a barreira não
tarifária era necessária para a proteção à saúde humana, pois o
descarte mais acelerado de pneus e a dificuldade de incineração das
carcaças faz com que estes desjam jogados em terrenos baldios,
implicando aumento de foco do mosquito da dengue.

Outros exemplos estão na alínea “g” que cuida de medidas


incompatíveis com o GATT, mas que sejam relativas à conservação

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de recursos naturais, desde que o país também as aplique com


restrição à produção e consumo nacionais.

Vale destacar que a jurisprudência da OMC já entendeu que esta


alínea “g” não abrange apenas os recursos naturais esgotáveis. Isso
porque quando GATT foi assinado em 1947 havia uma preocupação com
o esgotamento de combustíveis fósseis, como gasolina, carvão, etc. No
entanto, a preocupação com a preservação de recursos naturais
renováveis também deve ser contemplada pela alínea, razão pela qual
há uma “interpretação evolutiva” do Órgão de Solução de Controvérsias
da OMC sobre este aspecto.

Assim, na primeira disputa da “era OMC”, Brasil e Venezuela


demandam os EUA por aplicarem uma medida discriminatória na
gasolina reformulada. Os EUA alega que a medida é relativa à
conservação do “ar puro”, contemplado pela alínea “g”. O argumento é
aceito pela OMC.

O grande detalhe de todas essas medidas é a dificuldade de sua


implementação. Isso porque para uma barreira ao comércio ser
justificada pelo artigo XX, ela deve passar por um “teste de duas
fases”:

1º (alíneas do Art. XX) deve se demonstrar que a medida é


necessária (teste de necessidade) para o atingimento daquele
valor previsto na exceção (ex. saúde)

2º (caput do Art. XX) deve se demonstrar que sua aplicação:

 Não se constitua discriminação arbitrária, ou injustificada,


entre os países onde existem as mesmas condições,
 Não se constitua uma restrição disfarçada ao comércio
internacional.

Assim, geralmente as barreiras ao comércio, ainda que


justificadas como necessárias para o atingimento daquele valor
almejado, elas falham na sua implementação, pois escondem uma
restrição disfarçada ao comércio. Por exemplo, no caso dos pneus
usados, o Brasil venceu ao demonstrar que a medida era necessária
para diminuir os focos de dengue. No entanto, o país falhou ao
demonstrar que não constitui restrição disfarçada, pois o país permitia

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importações do Uruguai e juízes do Rio Grande do Sul concediam


liminares para importação destes pneus.

Ora, se o país quer, de fato, fazer acreditar que a barreira faz


parte de uma política séria de combate à dengue, ele deve evitar a
entrada de pneus usados de toda e qualquer origem, correto?

Foi esse o entendimento da OMC. O Brasil assim, teve que


ajustar sua restrição quantitatitiva, para que não a aplicasse de forma
discriminatória.

Caso das focas da OMC (Disputa n. 400) – Em 2010, a União Europeia


implementou uma importante proibição do comércio de produtos
derivados de peles de foca e, com isso, acabou com um mercado
primário para a indústria de peles de foca do Canadá.
Os preços das peles desabaram no país e centenas de milhares de
filhotes de foca foram poupados de um destino horrível.
Agora, o Governo do Canadá está tentando derrubar o veto junto à
OMC. A Humane Society International lançou uma petição para que
seja mantida a proibição da comercialização de peles de foca, de modo
a salvar milhões de focas nos próximos anos.
Produtos derivados de foca que são comercializados pelo mundo
incluem não só as peles mas também a gordura, as carnes, e ossos.
Muitos países realizam o massacre de focas para lucrar com a venda
de seus corpos no mercado, porém o Canadá é o mais representativo.
Estima-se que entre Canadá e Groenlândia, 300 mil focas são mortas
por ano.
O método mais comum pelo qual as focas são mortas é pelo
esmagamento de seus crânios com uma espécie de machado com um
gancho na extremidade; outro método é por tiros de rifles. Grande
parte das focas assassinadas para consumo humano são ainda
filhotes; muitos deles com menos de 4 semanas de vida também são
esfolados vivos.
(Fonte: Agência de Notícias de Direitos Animais – ANDA)

Nesta disputa sobre proibição de importação de casaco de pele


de foca, a União Europeia teve reconhecido seu direito de proibir a
importação, ou seja, impor barreira não tarifária. Apesar de violar o art.
XI:1 do GATT, a medida se justificava pelo Art. XX, alínea “a”, pois era
necessária para proteger a moral pública.

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O único detalhe é que ela deveria proibir importações de


quaisquer origens, inclusive da Groenlândia, se a UE considerava
realmente a medida como necessária para o atingimento do objetivo
de proteger estes animais do modo cruel que são exterminados (moral
pública). Falhou portanto na implementação da medida, violando o
caput do art. XX.

06. (Do autor)

Sobre justificativas às barreiras comerciais reputadas inconsistentes


frente às normas do GATT, assinale a alternativa errada:

a) É possível que países muçulmanos proíbam a importação de bebida


alcóolicas alegando que as medidas são necessária à proteção da moral
pública.

b) Segundo a jurisprudência da OMC, os países somente podem


justificar barreiras relativas a conservação de recursos naturais
esgotáveis, mas nunca para os recursos renováveis.

c) Os membros da OMC podem justificar uma barreira que viole o GATT


desde que necessárias à proteção da vida humana.

d) O Brasil poderia ter justificada na OMC a proibição de importação de


pneus usados tendo em vista que seu acúmulo em terrenos baldios dá
causa aos focos do mosquito aedes aegypti, ou seja, é medida
necessária à proteção da saúde humana.

e) É possível justificar uma barreira que impeça a venda de papel não


reciclado desde que esse medida seja necessária à preservação dos
vegetais. No entanto, tal medida não pode se constituir numa
discriminação arbitrária ou injustificada ao comércio, tampouco uma
restrição disfarçada.

Comentário

A letra “A” está correta, pois a moral pública é um dos valores


previstos na alínea “a” do artigo XX, sendo uma exceção geral a alguma
inconsistência às regras do GATT, tal qual a proibição de importação
(restrição quantitativa) que viola o artigo XI:1 do GATT.

A letra “B” está errada, sendo o gabarito. Isso porque a OMC


tem adotado uma “jurisprudência evolutiva” permitindo que a alínea
“g” do Artigo XX contemple também outros recursos naturais como o

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“ar”. Esta foi a decisão adotada na disputa da Gasolina, a primeira da


era OMC.

A letra “C” está correta, pois a vida humana é valor previsto na


alínea “b” do art. XX do GATT.

A letra “D” está correta também, pois o Brasil ganhou a disputa


sobre proibição de importação de pneus usados (DS 332) contra a
União Europeia alegando a vinculação da proibição de pneus usados
como medida que contribui para o atingimento do objetivo de proteger
a saúde humana. Isso porque o descarte de pneus usados ocorre de
forma mais rápida, permitindo focos de criação deste mosquito.

A letra “E” está correta, pois além de a medida ter que se


enquadrar no valor previsto nas alíneas do Art. XX do GATT, sua
implementação deve se dar de acordo com o caput, ou seja, de maneira
que não se constitua numa discriminação arbitrária ou injustificada ao
comércio, tampouco uma restrição disfarçada.

4.6. Exceções de Segurança


Além das exceções gerais, um membro da OMC pode adotar uma
medida essencial aos interesses de segurança nacional (exceção de
segurança), seguindo os propósitos das obrigações constantes na
Carta da Nações Unidas de manutenção da paz e segurança.
Para comércio de bens, o artigo XXI do GATT/1994 prescreve,
por exemplo, a possibilidade do membro tomar qualquer medida para
necessária proteção dos essenciais interesses de segurança, incluindo
controle de materiais de fissão nuclear e seus derivados, tráfico de
armas, munições e outros bens que servem ao propósito de
abastecimento de estabelecimento militar.

GATT. Art. XXI


Nenhuma disposição do presente Acordo será interpretada:
(a) como impondo a uma Parte Contratante a obrigação de fornecer
informações cuja divulgação seja, a seu critério, contrária aos
interesses essenciais de sua segurança;
(b) ou como impedindo uma Parte Contratante de tomar todas as
medidas que achar necessárias à proteção dos interesses essenciais
de sua segurança:
(i) relacionando-se às matérias desintegráveis ou às matérias primas
que servem à sua fabricação;
(ii) relacionando-se ao tráfico de armas, munições e material de
guerra e a todo o comércio de outros artigos e materiais destinados

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direta ou indiretamente a assegurar o aprovisionamento das forças


armadas;
(iii) aplicadas em tempo de guerra ou em caso de grave tensão
internacional;
(c) ou como impedindo uma Parte Contratante de tomar medidas
destinadas ao cumprimento de suas obrigações em virtude da Carta
das Nações Unidas, a fim de manter a paz e a segurança
internacionais.

Assim, um país pode requerer que outro divulgue as estatísticas


de produtos usados para fabricação de material bélico (dever de
transparência e publicidade que aparece no art. X do GATT). No
entanto, o país demandado pode, a seu critério (auto-julgamento),
alegar que tal divulgação pode violar a segurança nacional, razão pela
qual, eventual violação ao dever de transparência do Art. X estaria
justificado pelo Artigo XXI.

Bom pessoal, essa foi nossa primeira aula. Se liguem que agora
é a hora da revisão!

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5. Revisão dos pontos mais importantes

 Com redução das barreiras tarifárias, o protecionismo ganhou a


partir da década de 60 feição preponderamente não tarifária, de
difícil identificação, controle e quantificação.
 Barreira Tarifária = imposto de Importação. Barreira mais
transparente ao Comércio Internacional.
 Tarifa tem como modalidades “ad valorem”, específica, mista
(composta) ou técnica. Tem finalidade extrafiscal.
 Quanto ao valor de suas alíquotas, podemos ter água na tarifa
(muita flexiblidade), picos tarifários (sem teto consolidado), tarifa
proibitiva (% tarifário inviável economicamente). Produtos agrícolas
passaram por processo de tarificação durante Rodada Uruguai
(conversão de barreiras não tarifárias em tarifas, mais
transparentes).
 Sua regulamentação básica é o Art. II do GATT (concessões
tarifárias), tendo como princípio negociador a reciprocidade de
concessões.
 Barreira Não-Tarifária = Conceito residual (tudo que não é o
Imposto de Importação). Menos transparente. A depender de seu
formato, pode ser proibida ou apenas regulamentada.
 Cotas/contigentes não tarifários na importação e Acordos
Voluntários de Restrição às Exportações (AVRE). Barreiras não
tarifárias proibidas pelo Art. XI:1 do GATT. Restringem o fluxo
comercial.
 Práticas abusivas em Licenças de Importação são evitadas pelo
Acordo de Licenciamento de Importação da OMC. Órgãos anuentes
de governo podem via LI automática e LI não automática,
autorizarem, de modo não discriminatório, importações de bens.
 Direitos Antidumping e Compensatórios permitem neutralizar,
respectivamente, as práticas desleais de importações a preços de
dumping e importações subsidiadas.
 Formalidades Aduaneiras só devem ser exigidas na medida do
necessário. Encargos ligados ao uso de sistema de importação e
exportação devem ter seu custo próximo ao serviço prestado e não
se constituir em proteção indireta (Art. VIII)
 Exigências de ordem técnica, qualidade, pesos, medidas, rotulagem
são regulamentadas pelo Acordo de Barreiras Técnicas da OMC
(TBT). Essas medidas para os importados devem ser equivalentes
às aplicadas aos produtos nacionais similares.
 Exigências sanitárias e fitossanitárias são regulamentadas pelo
Acordo de Barreiras Sanitárias e Fitossanitárias da OMC (SPS).
 Desvalorização competitiva de moeda e taxas múltiplas de câmbio
são medidas de política cambial. Apesar de o Art. XV do GATT

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mencionar que essas políticas não podem frustrar os objetivos do


GATT, nunca houve pronunciamento da OMC sobre o tema
 Pauta de preços mínimos e práticas arbitrárias em Valoração
Aduaneira são combatidas pelo Art. VII do GATT e Acordo de
Valoração Aduaneira da OMC. É princípio básico que a base de
cálculo dos tributos aduaneiros deva ser o valor real da transação.
 Exigência de conteúdo local/nacional para empresas poderem
importar bens são combatidos pelo Acordo TRIMs (Trade-Related
Investment Measures) da OMC. Não há, entrentanto, proteção
extensiva ao investimento estrangeiro na OMC.
 Tratamento favorecido aos produtos nacionais em concorrências
públicas é combatido pelo Acordo Plurilateral de Compras
Governamentais da OMC. Brasil não é signatário deste acordo,
podendo então discriminar fornecedores em suas licitações.
 As barreiras comerciais, ainda que violem alguma das regras do
GATT, podem ser justificadas se estiverem de acordo com as
diversas exceções do GATT.
 Proteção à indústria nascente é facultada por período determinado
aos países que estejam nos primeiros estágios de desenvolvimento
econômico (art. XVIII).
 Exceções de emergência econômica (art. XIX) permitem a
imposição de barreiras chamadas de salvaguarda quando surto de
importações der causa ou ameaçar causar prejuízo grave.
 Exceções para correção temporária de desequilíbrio de balanço de
pagamentos (art. XII) permitem a imposição de barreiras para
conter o déficit de divisas.
 Exceções gerais (art. XX) permitem imposição de barreiras
consideradas necessárias para proteger saúde e vida humana,
animal e vegetal, moral pública, conservação de recursos naturais,
entre outros valores.
 Cabem medidas para proteger segurança ou interesse nacional (art.
XXI)
 É possível ainda que a aplicação de barreiras se dê de forma
discriminatória se estiver em perfeita consonância com a exceção
para integração regional (art. XXIV + Cláusula de Habilitação)

Espero que tenham gostado e aguardo vocês em nossa


espaçonave para a aula número 2. Não deixem de fazer as questões
sugeridas e qualquer dúvida, sabem que estou aguardando vocês no
fórum de dúvidas.

Na aula seguinte voltaremos com força total para dar cabo do


tema OMC!

Um forte abraço e até a próxima.

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6. Lista de questões resolvidas nesta aula

01. (Do autor)

Sobre tarifas, é correto afirmar:

a) Quando a tarifa de um produto é reduzida a 0%, significa que o


governo não tem indústria local a proteger.

b) As medidas antidumping são exemplos de tarifas.

c) De acordo com a OMC, os países podem adotar a modalidade de


tarifas que bem entenderem, desde que respeitem o seu teto
consolidado junto à organização;

d) A tarifa, no Brasil, tem natureza fiscal, representando por volta de


2,75% da arrecadação de tributos federais.

e) Tarifas específicas são aquelas estabelecidas para produtos


determinados, não sendo aplicada de modo geral para um setor.

02. (ESAF/AFRF-2000-adaptada)

Sobre as Barreiras não tarifárias, julgue os itens:

a) As Barreiras não-tarifárias são frequentemente apontadas como


grandes obstáculos ao comércio internacional. Podem vir a se constituir
Barreiras não-tarifárias (BNT) as medidas fitossanitárias, normas de
segurança, as licenças de importação e as cotas.

b) É exemplo de prática restritiva adotada pelos governos a negociação


de acordos voluntários de restrição às exportações.

c) É exemplo de prática restritiva adotada pelos governos a


manutenção de barreiras à entrada no mercado de produto estrangeiro
para proteger o produtor doméstico.

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03. (ESAF/AFRFB/2009-trecho)

Países que adotam políticas comerciais de orientação liberal são


contrários aos esquemas preferenciais, como o Sistema Geral de
Preferências, e aos acordos regionais e sub-regionais de integração
comercial celebrados no marco da Organização Mundial do Comércio
por conterem, tais esquemas e acordos, componentes protecionistas.

04. (Simulado/ACE-MDIC/2012)

Sobre protecionismo e barreiras ao comércio, assinale a alternativa


correta:

a) A substituição de importações é uma forma de industrialização


empreendida pelos países em desenvolvimento na década de 60;
apesar de ter tido sucesso em alguns países, nunca foi levada a efeito
no Brasil pela dificuldade de se eleger um setor prioritário.

b) Apesar da valorização do real na economia, não se verifica grande


utilização de medidas de defesa comercial pelo governo brasileiro. Esta
uma das razões pela qual o Brasil nunca foi demandado na OMC sobre
este tema.

c) A elevação de outros tributos incidentes na importação diferente das


tarifas, não se constitui num elemento protecionista, pois os países não
outorgaram para esses mecanismos as “consolidações tarifárias”.

d) Diante de argumentos de “desindustrialização”, o Brasil poderia


utilizar, quantos fossem os segmentos da indústria prejudicados, a
aplicação de medidas antidumping, desde que comprovados requisitos
que justifiquem a imposição dessas medidas.

e) O Brasil não busca outras formas de proteção além da tarifária, uma


vez que as tarifas nacionais estão entre as mais altas do mundo, sendo
suficientes para garantir a proteção à indústria nacional.

05. (ESAF/AFRFB/2003 - adaptada)

Sobre o protecionismo, em suas expressões contemporâneas, é correto


afirmar-se que:

a) tem aumentado ao se verificar a ampla celebração de acordos


regionais, que mitigam o impulso liberalizante da normativa
multilateral.
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b) possui expressão eminentemente tarifária desde que os membros da


OMC acordaram a tarifação das barreiras não-tarifárias.

c) assume feições preponderantemente não-tarifárias, associando-se,


entre outros, a procedimentos administrativos e à adoção de padrões e
de controles relativos às características sanitárias e técnicas dos bens
transacionados.

d) vem diminuindo progressivamente à medida que as tarifas também


são reduzidas a patamares historicamente menores.

e) prepondera nos países em desenvolvimento na medida em que estes


possuem tarifas mais altas que os países desenvolvidos.

06. (Do autor)

Sobre justificativas às barreiras comerciais reputadas inconsistentes


frente às normas do GATT, assinale a alternativa errada:

a) É possível que países muçulmanos proíbam a importação de bebida


alcóolicas alegando que as medidas são necessária à proteção da moral
pública.

b) Segundo a jurisprudência da OMC, os países somente podem


justificar barreiras relativas a conservação de recursos naturais
esgotáveis, mas nunca para os recursos renováveis.

c) Os membros da OMC podem justificar uma barreira que viole o GATT


desde que necessárias à proteção da vida humana.

d) O Brasil poderia ter justificada na OMC a proibição de importação de


pneus usados tendo em vista que seu acúmulo em terrenos baldios dá
causa aos focos do mosquito aedes aegypti, ou seja, é medida
necessária à proteção da saúde humana.

e) É possível justificar uma barreira que impeça a venda de papel não


reciclado desde que esse medida seja necessária à preservação dos
vegetais. No entanto, tal medida não pode se constituir numa
discriminação arbitrária ou injustificada ao comércio, tampouco uma
restrição disfarçada.

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7. Gabarito

1. C
2. V, V, V
3. F
4. D
5. C
6. B

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