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Prof.

Carvalho – Gramática
1 – A IMPORTÃNCIA DA LÍNGUA

• A maior conquista da humanidade é o domínio da linguagem: o homem é


um ser social; como um ser social, é um ser que se comunica; como um ser
que se comunica, é um ser que tem linguagem.
• A linguagem está presente em todos os domínios da vida em sociedade, em
todas as profissões: do lixeiro ao advogado, da doméstica à empresária, da
balconista à filósofa, do feirante ao médico, não há atividade humana sem
linguagem. É o instrumento que permite ao indivíduo debater idéias,
apresentar opiniões, argumentar em defesa de um ponto de vista, persuadir e
ser persuadido.
• A linguagem está tão presente em nosso cotidiano que normalmente nem nos
damos conta de sua presença: usar a linguagem, isto é, comunicar-se, parece
um processo tão natural quanto respirar, comer ou dormir. Por isso talvez
sua importância passe despercebida para muitos. O texto a seguir chama a
nossa atenção exatamente para essa importância:

A linguagem é uma inesgotável riqueza de múltiplos valores. A linguagem é


inseparável do homem e segue-o em todos os seus atos. A linguagem é o
instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos,
suas emoções, seus esforços, sua vontade, seus atos, o instrumento graças ao
qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade
humana. (...) Antes mesmo do primeiro despertar de nossa consciência, as
palavras já ressoavam à nossa volta, prontas para envolver os primeiros
germes frágeis de nosso pensamento e a nos acompanhar inseparavelmente
através da vida, desde as mais humildes ocupações da vida cotidiana aos
momentos mais sublimes e mais íntimos (...). A linguagem não é uma simples
acompanhante, mas sim um fio profundamente tecido na trama do pensamento;
para o indivíduo, ela é o tesouro da memória e a consciência vigilante
transmitida de pai para filho. Para o bem e para o mal, a fala é a marca da

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personalidade, da terra natal e da nação, o título de nobreza da humanidade. O
desenvolvimento da linguagem está (...) ligado ao da personalidade de cada
indivíduo, da terra natal, da nação, da humanidade, da própria vida (...). (Louis
Hjelmslev, Prolegômenos a uma Teoria da Linguagem, São Paulo, Perspectiva,
2003, p. 1)

2 – A LÍNGUA E O DIREITO

• A utilização da língua pressupõe o conhecimento de regras: não é à toa que


se fala em gramática normativa. As regras gramaticais disciplinam o
comportamento lingüístico das pessoas, do mesmo modo que o Direito
procura orientar a conduta dos cidadãos. A Gramática e o Direito, portanto,
são disciplinas normativas.
• Como disciplinas normativas, organizam-se em torno das chamadas
“modalidades deônticas” (o “dever” e o “poder”). Vejamos uma
esquematização gráfica dessas modalidades:

REPRODUZIR ESQUEMA DO “DEVER” E DO “PODER”

• A Gramática, como instância normativa, condiciona os comportamentos


lingüísticos, criando obrigações aos falantes: define o que se deve ou não
dizer, o que se pode ou não falar. O que está prescrito é o que o falante
“deve dizer”; o que está interditado é o que “deve não dizer”. O “poder” do
falante depende das construções normatizadas.
• Na Gramática, portanto, como no Direito, existe a figura do legislador, que
define a jurisdição do dizer, tipificando os comportamentos lingüísticos.
• Como desdobramento, há na Gramática também a figura do julgador, que
avalia e sanciona os comportamentos dos usuários da língua.

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• O legislador, assim, define uma imagem ideal de falante; o julgador
considera como bom usuário da língua o falante que se comporta segundo as
regras arbitradas.
• Cada atividade cria a sua imagem de profissional ideal. O bom uso da língua
é um dos fatores de que resulta a imagem de competência nas diversas áreas
de atuação. A competência depende de um “saber fazer”: o bom falante é
aquele que sabe se comportar como deve.
• Aquele que julga o nosso comportamento lingüístico, portanto, avalia o
nosso “saber fazer” (isto é, o saber se comportar de modo adequado à
situação concreta de comunicação).
• Na Retórica Clássica, a imagem que o orador constrói de si é denominada de
ethos. Ao falar ou escrever, revelamos a quem nos ouve ou lê uma imagem
de nós, um ethos. É exatamente esse ethos o objeto de julgamento.
• O julgamento recorre a três noções básicas: a insuficiência, a justa medida e
o excesso.
• O usuário da língua que passa uma imagem de desconhecimento gramatical
é julgado como “insuficiente”: constrói uma imagem de “falante ignorante”.
Vejamos um exemplo:
“Sem comentários
Do delegado regional do Ministério da Educação no Rio, Antônio Carlos
Reboredo, ao ler ontem um discurso de agradecimento ao seu chefe, o ministro
Eraldo Tinoco: Os convênios assinados traduz (sic) os esforços...” (Painel,
Folha de S. Paulo, 12/09/92).

(UNICAMP) O título da nota acima, “sem comentários”, é, na verdade, um


comentário que expressa o ponto de vista do jornal, motivado por um problema
gramatical no discurso lido por Reboredo.
A) Que problema gramatical provocou o comentário do jornal?
B) Explicite o comentário que está sugerido, neste caso específico, pela
expressão “sem comentários”.

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• Se é negativa a imagem do “falante insuficiente”, é também negativa a do


“falante excessivo”: aquele que “peca” pelo excesso é julgado como “sujeito
pedante”. Vejamos um exemplo:
“B.O. troca morte por ‘exílio da carne’
O boletim de ocorrência sobre os crimes dos skinheads, feito pelo delegado
Sebastião Lopes, do 4º Distrito, é tão incompreensível quanto a atitude da
gangue. ‘O presente noticiário é instruído com a notícia de que, na alva do dia
corrente, uma transferência do exílio da carne para os espaços das nebulosas se
materializou’. Outro trecho diz: ‘O desertor dos cânones, o autor, fazia parte de
um grupo de pessoas envoltas em uma derriça (...). Que o Sublime Jardineiro
que criou as flores receba em seu encantado a alma do Siludo’” (O Estado de S.
Paulo, 18/09/1996).

• A imagem do “falante ideal” está associada à “justa medida”: o usuário


competente da língua é aquele que escreve ou fala com clareza e
objetividade, respeitando as normas gramaticais.

REPRODUZIR IMAGENS DO CD (OS NOVE TIPOS DE “FALANTES”)