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TELA CHEIA SUMÁRIO

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Autor
Marcos Antônio Mattos dos Reis

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José Antonio Bezerra Junior

Capa
Marcus Arboés

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TELA CHEIA SUMÁRIO

Sumário
ESTRUTURANDO O SETOR SCOUT E ANÁLISE .......................................................................................................................................................................................................4
1. INTRODUÇÃO.....................................................................................................................................................................................................................................................................................................................5
2. SETOR DE SCOUT NO DEPARTAMENTO DE ANÁLISE DE DESEMPENHO: UMA PERSPECTIVA
HIERÁRQUICA ................................................................................................................................................................................................................................................... 7
3. DEPARTAMENTO DE SCOUT INDEPENDENTE DO DEPARTAMENTO DE ANÁLISE DE DESEMPENHO:
VANTAGENS E DESVANTAGENS......................................................................................................................................................................................................................................................8
4. ESTRUTURAÇÃO DO DEPARTAMENTO DE ANÁLISE E SETOR DE SCOUT................................................................................................10
4.1 Seleção e contratação de profissionais........................................................................................................................................................................................................................10
4.2 Materiais e equipamentos................................................................................................................................................................................................................................................................11
4.3 Softwares e sites .............................................................................................................................................................................................................................................................................................12
4.4 Parcerias.......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................13
5. PERSPECTIVAS PROFISSIONAIS NO BRASIL...........................................................................................................................................................................................................14
6. SCOUT E ANÁLISE DOS SISTEMAS E ESQUEMAS TÁTICOS DO TREINADOR ............................................................................................16
7. SCOUT E ANÁLISE DA ESCALAÇÃO E SUBSTITUIÇÃO DO TREINADOR............................................................................................................17
REFERÊNCIAS.........................................................................................................................................................................................................................................................................................................................19
AUTOR .................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................20
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Estruturando o Setor
Scout e Análise
Marcos Reis

4 SCOUT APLICADO – CFC


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1. INTRODUÇÃO
No futebol contemporâneo, um dos departamentos que mais cresce é
o de recolhimento de informações acerca do desempenho tático, técnico,
físico e psicológico dos jogadores e das equipes para a tomada de decisão
dos treinadores e da comissão técnica nos treinos e nos jogos. Esse depar-
tamento muitas das vezes é intitulado de centro de inteligência ou de análise
de desempenho. O principal objetivo desse departamento é recolher, anali-
sar e interpretar as informações sobre os comportamentos táticos, técnicos
e motores-físicos da equipe e do adversário a partir de análises quantitativas
e qualitativas (Figura 1).
Uma das ferramentas utilizadas por esses departamentos é o scout. Scout
consiste em técnicas de registros de informações a partir de variáveis quan-
titativas e qualitativas que representam o desempenho individual, setorial,
intersetorial e coletivo das equipes. Uma variável consiste em um dado que
pode representar ou caracterizar determinado comportamento. Nessa pers-
pectiva, no caso do futebol, uma variável, como o próprio nome já diz, é uma
característica de determinada ação que pode variar ao longo do tempo
(THOMAS, NELSON e SILVERMAN, 2012).
As variáveis que podem representar o comportamento e o desempenho
de jogadores e equipes de futebol podem ser divididas em duas perspec-
tivas: qualitativa e quantitativa. Uma variável qualitativa apresenta um grau
de subjetividade grande, porém o nível de descrição do fenômeno é muito
aprofundado. Já uma variável quantitativa consiste naquela que o grau de
subjetividade é diminuído drasticamente, ou até mesmo anulado, e foca na
frequência de ações realizadas e no nível de desempenho obtido (THOMAS,
NELSON e SILVERMAN, 2012).
Por exemplo, analisar a tomada de decisão de jogadores pode tanto ser
feita em uma perspectiva qualitativa quanto quantitativa. Uma tomada de
decisão avaliada em uma perspectiva qualitativa ocorre quando o scouter
(profissional que faz o scout) seria defini-la como bem-sucedida quando
permite a equipe marcar gols ou manter a posse de bola, e como malsuce-
dida quando expõe a situações de risco para perder a posse de bola. Nesse
exemplo, o grau de subjetividade do scouter e a sua visão de futebol afetam
drasticamente na interpretação dos dados. Já uma análise quantitativa da
tomada de decisão dos jogadores se estabelece através da coordenação
interpessoal que pode ser expressada através de ângulos de passe formados
pela distância entre o portador da bola, o receptor do passe e o adversário
mais próximo do portador da bola, por exemplo (Figura 2) (CORRÊA et al.,
2016).
Laakso et al. (2019) utilizaram essa perspectiva para mensurar a tomada
de decisão dos defensores em situações de 2 vs. 1 nos corredores central,
lateral direito e lateral esquerdo do campo de jogo. Quando tais situações

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ocorreram no corredor lateral esquerdo o ângulo do passe diminuía, pois o


defensor tomava a decisão de se aproximar do potencial receptor do passe.
Já quando as situações ocorreram nos corredores central e lateral direito o
ângulo do passe aumentava, pois o defensor tomava a decisão de proteger
a meta do adversário.

Figura 1 – Comportamentos e desempenhos manifestados através dos diferentes aspectos do


jogo através de variáveis quantitativas e qualitativas que devem ser levadas em consideração pelo
scouter e analista.

Geralmente, o scout coleta variáveis quantitativas para fornecer infor-


mações ao clube (direção, comissão técnica e treinador) a fim de ser o mais
coeso e objetivo no que concerne ao recolhimento de informações que
podem ser transformadas em conhecimento pelo treinador e sua equipe
técnica, tanto nas partidas quanto nos treinos. Porém, variáveis e métodos
qualitativos também poderão ser utilizados pelo scouter, desde que haja uma
sinergia entre as suas ideias e a sua forma de enxergar o comportamento
e o desempenho dos jogadores e das equipes com as ideias e a forma de
enxergar o jogo do treinador e sua comissão técnica.
Após essa breve introdução, o objetivo desse capítulo é apresentar o scout
como um setor de análise de desempenho, mas também como um depar-

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tamento independente dele, apresentando as vantagens e desvantagens


disso. Além disso, também é objetivo mostrar como se pode estruturar o
departamento de análise e o setor de scout no futebol, além das perspectivas
dessa função no futebol contemporâneo.

Figura 2 – Ângulo do passe formado pelos vetores portador da bola-adversário mais próximo
e portador da bola-receptor do passe. Uma perspectiva quantitativa para analisar a tomada de
decisão dos jogadores.

2. SETOR DE SCOUT NO DEPARTAMENTO DE ANÁLISE DE


DESEMPENHO: UMA PERSPECTIVA HIERÁRQUICA
Ao montar o departamento de análise de desempenho um clube de fute-
bol pode ter um setor somente voltado ao recolhimento de informações, que
pode ser chamado de scout. Os profissionais desse setor teriam como função
o recolhimento de informações do comportamento e do desempenho dos
jogadores e das equipes através de variáveis quantitativas e qualitativas. A
partir disso, a análise de desempenho receberia essas informações e realizaria
a interpretação dos dados coletados.
Nessa perspectiva, o setor de scout seria um subsistema do departamento
de análise de desempenho com a finalidade de oferecer informações para
que os analistas de desempenho possam produzir os relatórios (Figura 3).
Dessa forma, existe uma perspectiva hierárquica nesse processo, em que o
setor de scout é uma parte do departamento de análise de desempenho. A
hierarquia é uma forma de simplificar um sistema complexo sem perder a
coordenação entre os seus componentes (WU, 2013).
Com isso, os processos de scout seriam objetivos e práticos a fim de
oferecer o máximo de variáveis quantitativas e qualitativas para a análise de
desempenho que, por sua vez, passa a ser responsável por analisar e inter-

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pretar os dados para produzir os relatórios que serão passados ao treinador


e sua comissão técnica.

Figura 3 – Exemplo de organização hierárquica em que o Scout é uma parte da análise de


desempenho e atuação desse setor está altamente coordenada com todos os processos do
departamento de análise.

3. DEPARTAMENTO DE SCOUT INDEPENDENTE DO


DEPARTAMENTO DE ANÁLISE DE DESEMPENHO:
VANTAGENS E DESVANTAGENS
Outra possibilidade da implantação do scout nos clubes de futebol é a
função ter o seu próprio departamento, ou seja, não estar dentro do de-
partamento de análise de desempenho. Nessa perspectiva, o departamento
de scout teria um caráter meramente prático de recolhimento de informa-
ções que seria, posteriormente, passado para o departamento de análise de
desempenho. Portanto, nesse exemplo, apesar de serem departamentos
distintos, eles continuariam dialogando, porém cada um com suas especifi-
cidades e hierarquia.
A vantagem desse modelo com dois departamentos é que os processos
estariam muito bem definidos para o que cada departamento deve fazer
(scout: recolhimento de informações; análise: interpretação de dados e pro-
dução de relatórios). Nesse sentido, o controle e avaliação dos processos
seria facilitado, pois todos os papéis e responsabilidades estariam muito bem
definidas.

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Outra vantagem desse modelo seria a terceirização do scout por parte do


clube, o que poderia (não necessariamente vai) reduzir os custos da análise de
desempenho. Diante desse cenário, uma boa perspectiva profissional seria a
abertura de sites e aplicativos que fizessem apenas esse serviço terceirizado
de scout para os clubes (já existem sites que fazem esse serviço, porém de
maneira integrativa com a análise de desempenho, o que deixa o valor ina-
cessível para clubes de médio e pequeno porte), com diferentes protocolos
de recolhimento de informações e variáveis analisadas. Você já pensou em
trabalhar nessa perspectiva e montar o seu próprio negócio? Essa questão
será abordada de maneira aprofundada a seguir no tópico 5.
Porém, esse modelo também traz desvantagens. A principal delas é a falta
de coordenação com o departamento de análise, mesmo com os protocolos
bem definidos, a ausência de diálogo e de proximidade física entre os de-
partamentos pode gerar prejuízos ao trabalho dos dois departamentos, que
no final é o mesmo, oferecer informações fidedignas sobre os jogadores e a
equipe, além do adversário. Portanto, ao montar o departamento de análise
e scout, as questões levantadas no tópico anterior e nesse devem ser levadas
em consideração, influenciadas pelo contexto em que o clube está inserido.

Figura 4 – Exemplo de organização de um Centro de Inteligência em que o Scout se encontra


no mesmo nível hierárquico da Análise, porém atua de maneira “independente”.

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4. ESTRUTURAÇÃO DO DEPARTAMENTO DE ANÁLISE E


SETOR DE SCOUT
A estruturação do departamento de análise e setor de scout passa por
duas estruturas: técnica e física. A estrutura técnica consiste na contratação
de profissionais qualificados que possam exercer os pilares do departamento
que são o recolhimento e análise de informações, como também a produ-
ção de relatórios para o treinador, comissão técnica e direção do clube. Já
a estrutura física consiste no espaço em que o departamento será instalado
no clube, como também os equipamentos que serão utilizados para o reco-
lhimento e análise de informações, como também a produção de relatórios.
As duas estruturas serão abordadas nos subtópicos abaixo.

4.1 Seleção e contratação de profissionais


O profissional que presta serviços relacionados ao departamento de scout
e análise deve apresentar as seguintes competências e habilidades: a) aná-
lise quantitativa de padrões de jogo da equipe e dos jogadores; b) análise
qualitativa e quantitativa de padrões de jogo dos adversários; c) produção
de relatórios da equipe, dos jogadores e da equipe adversária; d) avaliação
do desempenho individual e treinamento de vídeo com os jogadores; e)
filmagem dos treinos e de jogos.
Em relação à análise quantitativa de padrões de jogo da equipe e dos
jogadores, o candidato à vaga no departamento de análise e scout deve
apresentar domínio sobre variáveis que representem significativamente a
cultura e o modelo de jogo do clube, como também o modelo de jogo do
treinador. Entende-se por cultura de jogo regras de ação e valores constru-
ídos e perpetuados ao longo do processo histórico do clube, podendo ser
reforçada ou rompida a partir da implantação e/ou manutenção do modelo
de jogo. Já o modelo de jogo consiste em um conjunto de regras de ação
específicas que permitem a identificação das ideias de jogo da equipe e do
treinador. Tanto a cultura quanto o modelo de jogo são influenciados por
diversos fatores, como: características dos jogadores, comportamento do
torcedor, expectativas na temporada, entre outros (REIS e ALMEIDA, 2019).
A análise qualitativa e quantitativa de padrões de jogo dos adversários
exige do candidato à vaga no departamento de análise e scout capacidade
de coerência e coesão, ou seja, ele deve ser capaz de absorver informações
primordiais acerca dos comportamentos táticos, técnicos, físicos e psicoló-
gicos do adversário transmitindo da forma mais simples e direta possível ao
treinador e comissão técnica. Devido a alta demanda de trabalho, geralmente
a análise do adversário é feita em uma perspectiva qualitativa, porém, quando
houver possibilidades, recomenda-se que o recolhimento de informações
sobre o adversário também envolva uma perspectiva quantitativa, podendo
ter dois scouters para tal finalidade (análise qualitativa e quantitativa).

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A produção de relatório da equipe, dos jogadores e da equipe adversá-


ria é uma demanda da análise de desempenho, pois é o processo em que
se transforma os dados coletados em informações e, posteriormente, em
conhecimento sobre a equipe, os jogadores e a equipe adversária. Nesse
sentido, caso os processos estejam bem definidos, o scouter atua em uma
situação anterior a essa, que é o levantamento de dados. Contudo, é impor-
tante que esse profissional apresente tais competências.
A avaliação do desempenho individual e treinamento de vídeo com os
jogadores também é uma demanda que geralmente não é atendida pelo
scouter, porém, como já citado anteriormente, é de suma importância o do-
mínio sobre tais questões. Por fim, a filmagem dos treinos e de jogos é outra
competência do scout, sobretudo quando o recolhimento de informações
não é feito in loco, portanto uma boa filmagem garante ao scouter uma boa
perspectiva de extração dos dados. Em suma, conhecimento técnico sobre
o jogo de futebol, conhecimento tecnológico básico relacionado à filmagem
de treinos e jogos, e utilização de softwares para transmissão das informa-
ções de maneira coerente e coesa são as competências que se espera de
um profissional que deseja atuar como scout.
Dentro dessa perspectiva, o processo de seleção de profissionais que
desejam atuar como scouters deve envolver as seguintes etapas: a) análise
de currículo; b) atividade prática; c) entrevista. Na análise do currículo, o
que se deve observar é a formação específica do indivíduo para exercer tal
função, como especialização lato sensu e cursos de capacitação profissional
aplicados ao esporte e ao futebol. Na atividade prática, o objetivo é avaliar se
o indivíduo consegue resolver problemas cotidianas relacionados à função,
por exemplo, coletar dados quantitativos do desempenho tático ofensivo de
um jogador de futebol. Por fim, a entrevista visa compreender a persona-
lidade do sujeito e se ele se adequa a função, que exige uma alta demanda
de concentração e paciência.
Dessa forma, o coordenador do departamento e análise conseguirá mon-
tar uma estrutura técnica qualificada, heterogênea e que consiga exercer
com eficácia as funções de analista e scouter. No próximo subtópico, vamos
analisar a estruturação física do departamento, tanto do ponto de vista de
equipamentos e materiais, como também de softwares e sites que podem
ser utilizados.

4.2 Materiais e equipamentos


Os materiais e equipamentos da estrutura física do departamento de aná-
lise e scout estão relacionados ao processo de filmagem dos jogos e treinos,
e observação desses vídeos produzidos. Nesse sentido, o primeiro equipa-
mento que deve ser adquirido são as câmeras de filmagem. Recomenda-se
que sejam câmeras que aliem boa qualidade da imagem, com suporte para
um cartão de memória e baterias portáteis que permitam a duração de

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no mínimo duas horas de filmagens. Para sustentar as câmeras, também é


preciso adquirir tripés, de preferência profissionais, pois a depender do local
da filmagem, caso tenha muito vento, por exemplo, o scout consegue fixar
bem a câmera sem risco de quedas.
Um investimento mais alto, mas que a longo prazo pode ser mais viável,
é a aquisição de drones. Os drones podem se posicionar acima do campo
de jogo e capturar imagens que podem ser transmitidas em tempo real.
Porém, muitos drones apresentam baixo tempo de autonomia de voo (30
minutos), o que pode impossibilitar a sua utilização em jogos e deixá-los em
uso somente nos treinos ou em situações específicas.
Para a coleta de informações dos vídeos, como também em tempo real
in loco, podem ser utilizados tablets e notebooks. Os tablets permitem uma
acessibilidade e portabilidade maior, sendo recomendados para situações
de coleta de informações em tempo real in loco. Já os notebooks podem
ser utilizados para produção de materiais dentro do próprio material e que
tenha um prazo maior para entrega.

4.3 Softwares e sites


Os softwares são ferramentas primordiais que o scouter deve conhecer
e dominar, desde os mais básicos até os mais sofisticados, pois acelera todo
o processo de recolhimento de informações, análise dos dados e produção
de relatórios. O mais básico de todos são os softwares do pacote Microsoft
Office Excel, Word e Power Point. Um bom domínio no Excel facilita a or-
ganização dos dados, bem como o acúmulo de informações ao longo do
processo e acesso a eles de maneira rápida. O Word e Power Point servem
para a produção dos relatórios, tanto quantitativo quanto qualitativo.
O LongoMatch é um software que permite o registro das informações
em tempo real conectado ao vídeo do jogo. Com esse programa, o scout
consegue configurar os comandos para coletar diferentes informações em
tempo real durante o jogo e depois apresentar vídeos que reflitam os da-
dos. Por exemplo, o scout pode categorizar os passes de acordo com a sua
direção (para frente, para os lados e para trás) em tempo real e depois re-
cortar exemplos dessas ações no vídeo da partida em que os dados foram
coletados.
O Soccer Analyser é um software que coloca um campograma no vídeo
formado por três corredores, quatro setores e doze zonas do campo de jogo.
A partir dessas referências espaciais, o scouter consegue mensurar o com-
portamento tático dos jogadores (COSTA et al., 2011). Uma das limitações
desse programa é que a câmera deve estar estática para que o campograma
seja montado, além de não ter como utilizá-lo em situações de tempo real,
somente com o vídeo após os treinos e partidas.

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O TACTO é um software de rastreamento semiautomático de jogadores, o


que permite coletar o posicionamento deles a partir das coordenadas x (eixo
longitudinal) e y (eixo transversal) do campo de jogo. Dessa forma, a utiliza-
ção desse programa permite acessar informações sobre o comportamento
tático dos jogadores e das equipes através do seu posicionamento exato no
campo (DUARTE et al., 2010). O DVídeo é um outro software que também
permite rastrear o posicionamento dos jogadores através das coordenadas
do campo de jogo (FIGUEROA, LEITE e BARROS, 2006).
O Kinovea é outro programa que pode ser utilizado para mensurar va-
riáveis físicas (distância entre dois jogadores, por exemplo) que podem ser
utilizadas para quantificar e avaliar o comportamento e o desempenho dos
jogadores. Ele é um software de análise de movimento 2D, gratuito e que
mede parâmetros cinemáticos (GRIGG et al., 2018).
Após apresentar os softwares, agora iremos abordar sites que podem ser
utilizados para recolher informações dos jogadores, como também os vídeos
das partidas que podem ser analisadas. Os dois sites abordados aqui serão
o Instat e o Wyscout, que são ferramentas profissionais para avaliação de
desempenho individual e de equipe, escotismo, análise de condicionamen-
to físico, dinâmica de transferência e tecnologia de filmagem panorâmica.
Todos os dois sites cobram anuidades para acessar ao sistema, o que pode
inviabilizar o acesso para clubes de médio e pequeno porte, porém existem
parcerias que podem ser feitas para viabilizar o acesso a esse tipo de serviço.
Tais aspectos serão abordados no próximo subtópico.

4.4 Parcerias
Como já abordado no subtópico anterior, muitos clubes de futebol, em
especial de médio e pequeno porte no que concerne à captação de recur-
sos financeiros, apresentam dificuldades para montar um departamento de
análise e scout. Nesse sentido, parcerias podem ser feitas para viabilizar a
criação e manutenção do departamento com recursos financeiros captados
pelo próprio departamento. Essas parcerias podem ser feitas com os sites
especializados em scout (como Instat e Wyscout, citados no subtópico ante-
rior), universidades, empresas com prestação de serviços ao esporte, como
também a realização de eventos e cursos de capacitação.
A parceria com os sites especializados em scout pode ser feita na seguin-
te perspectiva, o departamento de análise e scout utiliza o serviço por três
meses gratuito e, em contrapartida, realiza ações para disseminar a marca da
empresa. Outra possibilidade é estimular a federação estadual a investir na
compra da licença desses sites e passar para os clubes. Uma outra estratégia
seria comprar uma licença em conjunto com os outros clubes e utilizar o
serviço compartilhado.

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A parceria com as universidades (públicas e privadas) e com empresas


com prestação de serviços ao esporte seria no sentido de realizar cursos
de capacitação com os profissionais do departamento de análise e scout,
em que os recursos financeiros arrecadados seriam divididos em conjunto.
Além disso, a captação de profissionais qualificados seria maior, pois teria
uma sinergia entre o departamento de análise e scout com os ambientes
de formação profissional formal e não-formal.
Por fim, o próprio departamento de análise e scout poderia realizar cur-
sos de capacitação profissional, abrindo as portas do clube para indivíduos
que desejam trabalhar com futebol. Dessa forma, os melhores alunos das
turmas do curso de capacitação poderiam concorrer a materiais do clube
(como camisas, por exemplo), a estágios remunerados e não-remunerados
no departamento, como também a vagas de analista e scouters. Ações como
essa potencializam a marca do clube e, ao mesmo tempo, permitem a cap-
tação de recursos financeiros para investimentos estruturais do ponto de
vista físico do departamento de análise e scout.

5. PERSPECTIVAS PROFISSIONAIS NO BRASIL


Para finalizar esse capítulo do material didático do curso, vamos abordar
nesse tópico as perspectivas profissionais no Brasil para quem deseja entrar
no mercado de trabalho da análise e scout, ou para quem já atua, vislumbrar
novas perspectivas. Uma possibilidade de atuação profissional é na coorde-
nação ou gerência do departamento de análise e scout. Essa função exige
competências técnicas e gestão de recursos humanos.
No que concerne às competências técnicas, na implantação, avaliação e
reimplantação dos processos de recolhimento de informações, análise dos
dados e produção de conhecimento, o coordenador deve levar em consi-
deração a cultura e o modelo de jogo da equipe (REIS e ALMEIDA, 2019),
pois isso permitirá entender como está o desenvolvimento dos jogadores
e da equipe a partir de variáveis quantitativas e qualitativas. Por exemplo,
nenhum clube no futebol brasileiro tem variáveis quantitativas que podem
refletir a sua cultura de jogo de maneira criteriosa e objetiva. Um coorde-
nador de departamento de análise e scout que o fizer pode se destacar no
mercado de trabalho.
No que se refere à gestão de recursos humanos, o perfil de liderança do
coordenador é fundamental ao longo da estruturação e consolidação do
departamento. O perfil de liderança envolve tomadas de decisão autocrá-
tica e democrática. Um estilo de decisão autocrático prevalece as ideias do
coordenador, mesmo que a sua equipe de trabalho pense de forma anta-
gônica. Já um estilo de decisão democrático envolve a participação ativa de
todos os componentes do departamento, e os protocolos utilizados, bem

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como o planejamento realizado, são ideias oriundas da maioria que formam


o departamento.
A função com mais oportunidades de atuação no departamento são
de scouter e analista. É importante conceituar de maneira simples e direta,
porém profunda, o que fazem as duas funções. O scouter atua simples-
mente no processo de recolhimento de informações. Já o analista atua na
interpretação dos dados e na transformação deles em conhecimento para
o treinador, comissão técnica e direção. Dessa forma, todo analista é um
scouter, mas nem todo scouter é um analista.
Essas duas funções são as que mais crescem no Brasil e é a forma mais
rápida de um indivíduo chegar na categoria profissional de um clube de fute-
bol. Os clubes têm investido bastante no departamento de análise e scout, o
que faz com que as oportunidades nessa área sejam cada vez mais grandes,
mesmo que o salário seja muito abaixo dos outros membros da comissão
técnica, como treinador, auxiliar técnico e preparador físico, por exemplo.
Para quem deseja ser treinador de futebol, começar como um analista
ou scout em um clube de futebol pode fazer com esse profissional tenha
uma visibilidade maior e consiga ascender ao cargo de treinador profissional
mais rapidamente. Esse boom da análise e scout no Brasil se assemelha ao
ocorrido com a preparação física nas décadas de 1980 e 1990, em que
muitos preparadores físicos chegavam ao profissional rapidamente e depois
consigam se tornar treinadores.
Por fim, uma grande perspectiva que não é explorada na análise e scout
no Brasil é a criação de um serviço que atenda clubes de pequeno porte
que não podem ter o departamento e escolas de futebol. O profissional
pode criar um site ou um aplicativo em que as equipes e escolas de futebol,
ou até mesmo os pais dos alunos, possam inserir os vídeos dos jogos e em
24/48 horas após receberão uma análise dos jogadores e das equipes a
partir de diferentes protocolos de scout. Dentro dessa perspectiva, o serviço
pode ser avulso (por equipe ou por jogador) ou pode ser feito um pacote
em que o consumidor (clube, escola de futebol ou pessoa física) pagam
uma mensalidade e tem direito a carregar uma quantidade de vídeos pré-
-estabelecidas por mês.
Esse tipo de empreendedorismo na análise e scout é inovador e apresenta
diversas vantagens: a) trabalho autônomo; b) serviço com amplo alcance de
clubes e escolas de futebol nacional e internacional; c) investimento baixo
para iniciar o negócio. Portanto, nota-se que a análise e scout apresentam
grandes possibilidades de atuação para quem deseja trabalhar com futebol,
desde o alto nível e rendimento, como também um serviço que pode atender
ao esporte em diferentes dimensões.

15 SCOUT APLICADO – CFC


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Conheça a história de Thiago Larghi, o analista de desempenho da


Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2014, que após anos como
Veja ao vídeo
clicando aqui analista virou treinador de futebol profissional

6. SCOUT E ANÁLISE DOS SISTEMAS E ESQUEMAS TÁTICOS


DO TREINADOR
No tópico anterior, a análise do perfil e do desempenho dos treinadores
teve como foco a organização funcional, que consiste na relação entre os
processos de uma equipe de futebol através dos tipos de ataque e de defesa
e suas respectivas variáveis, além dos princípios táticos específicos. Neste
tópico o foco será a organização estrutural que os treinadores utilizam nas
suas equipes através da conceituação e análise dos sistemas e esquemas
táticos. Dessa forma, os scouters e analistas devem recolher informações e
preparar relatórios, quando solicitados, para a direção no processo de con-
tratação e avaliação de treinadores de futebol.
O sistema tático consiste no todo da organização estrutural de uma equi-
pe de futebol e trata da relação entre as partes através das funções gerais
que os jogadores podem fazer de acordo com a sua posição. Por exemplo,
o sistema tático 1-4-4-2 possui 4 linhas transversais: 1 – refere-se ao
goleiro; 4 – refere-se aos defensores; 4 – refere-se aos meio-campistas;
2 – refere-se aos atacantes (TEOLDO, GUILHERME e GARGANTA, 2015).
Dessa forma, o sistema tático é o suporte das equipes de futebol, fazendo a
analogia ao corpo humano, é o esqueleto dá sustentação aos grupamentos
musculares.
Já os esquemas táticos consistem em figuras que não representam o
sistema, enquanto figura, porém são os canais de comunicação dele, ou
seja, é a partir dele que as funções do sistema se estabelecem (TEOLDO,
GUILHERME e GARGANTA, 2015). Além disso, os esquemas táticos são
a variabilidade dos sistemas táticos, é por isso que duas equipes de futebol
podem jogar em dois sistemas táticos iguais, mas esquemas diferentes, ou,
uma equipe pode se manter no sistema tático, contudo variar os esquemas
ao longo de uma partida (Figura 4).

16 SCOUT APLICADO – CFC


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Figura 4 – Exemplo de duas equipes jogando no mesmo sistema tático (1-4-4-2), porém com
esquemas táticos diferentes no meio-campo: losango (equipe preta) e linha (equipe branca).

São indicadores de características e desempenho da organização estru-


tural (sistemas e esquemas táticos) dos treinadores: frequência geral que
o treinador utiliza determinado sistema e esquema tático, frequência de
utilização de determinado sistema e esquema tático a partir do resultado
da partida, nível de competição, nível do adversário e localização da partida,
limitações dos sistemas e esquemas táticos utilizados pelo treinador (espa-
ço entre as linhas transversais defensivas, por exemplo) e potencialidades
dos sistemas e esquemas táticos (triangulações nos corredores laterais que
permitem a infiltração na área do adversário, por exemplo). Dessa forma,
existem parâmetros quantitativos e qualitativos de como descrever o perfil
da organização estrutural através dos sistemas e esquemas táticos utilizados
pelo treinador.

7. SCOUT E ANÁLISE DA ESCALAÇÃO E SUBSTITUIÇÃO DO


TREINADOR
O scout e a análise do treinador deve verificar os padrões de escalação
e substituição do treinador. Algumas medidas complementares podem ser
utilizadas para tal. Elas são serão apresentadas a partir de agora.
A primeira dessas medidas para avaliação da escalação do treinador é de
caráter mais qualitativo, mas também apresenta um viés quantitativo. Con-
siste nas tendências a uma escalação mais ofensiva, mais defensiva ou mais
equilibrada por parte do treinador. Essa análise pode ser feita através do
sistema e esquema tático implementado, como também das características
dos jogadores.
Outro parâmetro de avaliação da escalação do treinador é a consistência
e a variabilidade, ou seja, quantas vezes o treinador modifica sua escalação e

17 SCOUT APLICADO – CFC


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por que ele faz isso (lesão e condicionamento físico dos jogadores, prioridade
de competições, localização do jogo, etc.). Através disso, pode compreender
se o treinador prefere dar sequência aos mesmos jogadores como titulares
(consistência) ou se ele prefere modificar suas escalações com frequência
(variabilidade) e qual o nível dessas mudanças (muita ou pouca variabilidade,
por exemplo).
O efeito das substituições do treinador na partida é outra importante
observação que precisa ser feita a fim de compreender melhor o traba-
lho do treinador ao longo da partida. A quantidade de substituições por
jogo, o tempo para fazer a primeira substituição, o intervalo de tempo en-
tre a primeira e a segunda, a segunda e a terceira, e a primeira e a terceira
substituições, o que faz com que o treinador substitua (resultado do jogo,
localização do jogo, lesão e condicionamento dos jogadores, etc.), perfil de
jogadores substituídos e que entram, são variáveis quantitativas e qualitati-
vas que permitem entender o comportamento do treinador em relação às
substituições. Além disso, pode-se criar uma escala Likert (escala de ponto de
1 a 5, por exemplo), que aponte a influência das substituições do treinador
na partida (Figura 5).

Figura 5 – Exemplo de Escala Likert para avaliar a influências das substituições do treinador na
partida.

18 SCOUT APLICADO – CFC


TELA CHEIA SUMÁRIO

REFERÊNCIAS
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19 SCOUT APLICADO – CFC


TELA CHEIA SUMÁRIO

Autor
Marcos Antônio Mattos dos Reis, Professor Assistente da Es-
cola Superior de Educação Física (ESEF) da Universidade de
Pernambuco (UPE). Doutorando em Ciências na Escola de
Educação Física e Esporte (EEFE) na Universidade de São
Paulo (USP). Mestre em Educação Física pelo Programa de
Pós-Graduação em Educação Física (PPGEF) da Universidade
Federal de Sergipe (UFS). Especialista em Futebol pela Universidade Fe-
deral de Viçosa (UFV/MG). Bacharel e Licenciado em Educação Física pela
Universidade Tiradentes (UNIT/SE). Autor do livro Futebol, Arte & Ciência:
construção de um modelo de jogo, Editora Primeiro Lugar, 2019.

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ED U C A Ç Ã O para

um F U T E B O L
ainda melhor!

CAPA

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