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Antonio Skármeta

A INSURREIÇÃO

Tradução de REINALDO GUARANY

Revisão Tipográfica:
Helena dos Guimarães Bastos
Hilber Mathias Cunha Filho
Umberto F. Pinto
Rachel Orind Tarnapolsky

Francisco Alves
1983

© Antonio Skármeta

Título Original: La Insurrección

Impresso no Brasil/Printed in Brazil


Ao povo de León
Aproveita para dançar
que te vão pelar
se não vais ao quartel
te virão buscar

“Twist do recruta”
de ANDY MACÍA-FICCO,
interpretado por The Ramblers.
CAPÍTULO I

QUANDO AGUSTÍN colocou a carta na caixa de correio em frente ao


regimento, o correio a expediu com perfeita indolência. Três meses mais
tarde, depois de terminada a greve dos transportes, lojas, operários,
camponeses, funcionários públicos, portuários, mineiros, atores,
radialistas, telegrafistas, poetas, musas, estudantes, jornalistas, bancários,
burocratas e atletas — o funcionário dos correios Sublime Salinas freou
seu triciclo na frente da caixa de correio. Com perícia, descarregou seu
conteúdo na bolsa de lona e foi-se orientando em direção ao escritório.
Tirou do bolso a manilha da porta, encaixou-a na fechadura e, ao ouvir o
irritante chiado das dobradiças, propôs-se pela centésima vez nesse ano
conseguir lubrificante com seu cunhado Plutarco. A brecha no teto era
imponente e a bacia em cima do classificador de correspondência havia
sido generosamente transbordada pela chuva. Com a manga do avental
esfregou o barro de sua coberta e só então virou a bolsa de lona. Ao
observar o conteúdo, explicou para si mesmo mais uma vez a miséria de
seu salário. Em um país em que sessenta por cento eram analfabetos,
escrever uma carta era considerado esnobe. Em seu ofício de carteiro,
muitas vezes lhe tocara não só distribuir envelopes, mas também ler as
cartas para seus perplexos destinatários que as recebiam como um
presente de cristal que em qualquer momento viraria estilhaços entre seus
dedos. Proveitos marginais, claro, eram os jantares e as cervejas com que
deixava compensar seus cultos serviços. Os iletrados eram tão entusiastas
nos confins da estação que se poderia dizer que eram profissionais na
matéria. Quando o carteiro aparecia no bairro, os meninos o escoltavam
com a mesma euforia que aos gigantes bonecos que por umas moedas
contavam histórias e piadas. Quando se detinha com a suada carta em
alguma dessas casas sem porta, os vizinhos se congregavam discretamente
na calçada da frente. Algum parente da vizinha virou finado, pensavam.
Salinas espantava o calor com uma cerveja gelada por conta do cliente e,
depois de acariciar sua escura garganta, procedia a rasgar com simples
cerimônia o envelope. Uma ou duas horas mais tarde, terminada a janta,
saía da casa com ar misterioso, sem olhar para os grupos que demoravam
em dispersar-se, esmagados em conjecturas. Essa mesma majestosidade
invadia o destinatário que, na hora do crepúsculo, tirava sua cadeira de
balanço para a calçada e, carta no colo, balançava-se com expressão
ausente. Finalmente, a curiosidade podia em algo mais que a inveja, e se
aproximava do beneficiário com casual indiferença: “Recebeu carta,
vizinha?”. A aludida procedia a estudar o perguntante, baixava com
inapetência os olhos em direção a sua saia, observava o envelope aberto,
recém se dando conta de sua existência, voltava ao interlocutor e
respondia: “Sim, claro”. Ao longo do mês se iria revelando por pedaços o
conteúdo: protesto por letra, compra a prazo máquina de costura, batizado
do neto em Masaya, morte da avó perto de Bluefields, petição aumento de
mesada filho estudante em Manágua.
Houve um tempo em que não faltaram algumas cartas diárias com que
alegrar o bolso e, de passagem, o magro estômago. Mas desde que a
insurreição havia começado e revolvido o mundo, a carta diária só trazia a
notícia da morte dos vizinhos do bairro que andavam com a guerrilha.
Quando a greve dos correios estourou, não lamentou perder a cerveja nem
os pedaços de carne ao alho. Pouco antes da penúltima ofensiva dos
rebeldes, quando o bairro o via chegar, tremia.
Quem teria morrido?, era a pergunta.
Naquelas manhãs ensolaradas quando a única frescura vivia nas bocas
entreabertas das adolescentes sempre dispostas a fazer sonhar os rapagões
e os carteiros com um beijo impossível, sentia distribuir-se em suas costas
a sombra incomensurável de seu novo apelido: o abutre. Quando os
meninos se ocuparam com o apelativo, acompanhando-o a distância com
torvas batidas de asas de cotovelos e guturações ásperas da garganta, o
rubor que o impregnou foi mais pesado e quente que sua transpiração e
infinitamente mais torrencial. A partir desse dia transportava a
correspondência da central até o galinheiro coberto do pátio dos fundos e
acumulava ali os trêmulos envelopes à espera de tempos melhores. A
operação lhe parecia de equilíbrio salomônico: às mães lhes salvava de
dores e ele se poupava tanto o escárnio como o trabalho. A justiça se
aperfeiçoava com uma última consideração: no último ano as coisas
haviam subido uns cinquenta por cento e seu salário no entanto seguia
imperturbável desde havia um triênio, salvo uma contribuição voluntária
obrigatória que Somoza havia recebido emocionado dos funcionários
públicos consistente em um cinco por cento do salário mensal descontado
na folha para combater a insurreição dos sandino-comunistas. Com tal
perda de seu poder aquisitivo, o pagamento, se disse, não dava mais do que
para suar uma sesta na branda sombra da pousada do correio. O bairro o
deixava em paz porque assumia espontâneo que os carteiros haviam
incorrido em greve desde os tempos imemoriais. Às vezes, forçando as
dobradiças, algum impertinente impunha sua presença e invocava o nome
do capitão Flores, amigo carnal de Chigüin Somoza. Dotado de
transparente humildade, Salinas ouvia as recriminações e, com voz baixa e
rouca, emitia o valor do selo. Depois de pesar a carta em uma balança
cujas bolas de ferro haviam sido usadas para jogar a bocha amarelinha
com os compadres do quarteirão, recebia o dinheiro, untava sua língua
melancólica sobre a parte engomada da estampilha, fixava-a no envelope e
então atacava-a a socos, garantindo ao cliente que com esse mesmo vigor e
confiança a missiva chegaria a seu destino. Enquanto o prepotente usuário
se retirava, arrancava o selo de um tirão, voltava a classificá-lo na pasta e
sepultava a carta no bolso traseiro da calça para finalmente fazê-la ancorar
no galinheiro. Por volta das cinco ou seis trazia a cadeira de balanço para a
rua e se preparava para receber amigos ou padecer intrusos. Em uma
categoria nada intermédia definia o advogado Rivas que fechava a essa
hora seu pedante escritório.
— Como vai, Mercúrio? — cumprimentava-o.
— Não me chame assim.
— Mercúrio era um sujeito formidável. Um deus que tinha asas nos
pés.
— Pois eu só tenho micose.
— Mercúrio é um bom apelido, bróder. Se eu fosse escritor gostaria
que me chamassem Shakespeare. Mercúrio é um nome para qualquer um
se sentir orgulhoso.
Em cima da mesa de classificação foi abrindo em leque o folhame de
panfletos mimeografados ou escritos a mão contra Somoza. Alguém,
talvez a ponto de ser surpreendido distribuindo-os nas próprias barbas da
Escola de Treinamento Básico de Infantaria, havia acudido à parca boca da
caixa de correio para desfazer-se deles. O resto: envoltórios de bombons,
um exemplar do La Prensa com a foto do bispo Salazar na primeira
página, um preservativo em segundas núpcias, um caderno de matemática
cheio de subtrações infantis, a maioria correta e uma dica dramática: “às 5
no lugar de sempre”.
Ao fundo, levemente colada a uma folha seca, estava a carta de
Agustín. Salinas a agarrou por uma ponta, sacudiu-a golpeando-a contra a
coxa direita e, enfocando-a sob o luminoso orifício do teto, leu o
remetente.
— Agustín Menor — disse em voz alta.
Fixou a vista na parede, sem vê-la. Com as palmas das mãos foi
estirando a carta em uma paciente carícia, até começar a perder
consciência do tempo. Finalmente, um fundo suspiro o trouxe de volta e
com o dedo médio secou a parte inferior de suas pálpebras. Pôs a carta em
cima da mesa, recostou-se no espaldar da cadeira e, cruzando as mãos
atrás da nuca, espreitou verticalmente o pedaço de céu que o último
bombardeio somozista havia aberto no teto. Sentiu a calma desse azul
objetivo e tenaz. Com um impulso enérgico da cintura abalançou-se sobre
a carta e a considerou pela última vez sem tirar as mãos da nuca. Ao cabo
de dois minutos, colocou-se de pé, tomou-a com delicadeza e, a passo
lento, avançou até o galinheiro.
CAPÍTULO II

O CAPITÃO FLORES atravessou o pátio perseguido pelo bafo dos


recrutas que praticavam flexões sob o bronco estímulo do sargento
Cifuentes. Ao perceber seu superior, alinhou ainda mais suas ordens. O
capitão se deteve diante de um esmerado recruta e, cruzando os braços,
observou seus exercícios. Cifuentes veio correndo para seu lado:
— Bom dia, capitão.
Este levou os dedos lassos ao quepe.
— Bom, ora. Quero que me emprestes Agustín por algumas horas.
Colocando as mãos em forma de concha junto aos lábios, o sargento
gritou “alto” e sua voz ultrapassou os muros e alcançou nítida as velhas
que pilhavam o quartel, afugentadas a cada certo tempo pela guarda. O
capitão conduziu dissimuladamente a mão ao lóbulo como se assim
pudesse amortecer o zumbido desse grito arteiro, consumado a
centímetros de sua orelha. “Apodrecerás sargento”, sentenciou sem
palavras. Ao notar que se preparava para emitir outra instrução, cobriu o
ouvido inteiro com a palma da mão.
— Modere-se, cara.
— Capitão?
— Menos volume, sargento.
Cifuentes pigarreou e conseguiu impor o nome sem estridência.
— Agustín Menor!
O rapaz pôde perceber a aguda inveja de seus colegas nesses olhares
laterais que à medida que avançava ia acumulando em sua nuca. Ao chegar
diante de seus superiores, perfilou-se conforme a cortesia militar. Flores
deu um quarto de volta, indicando a Agustín que o seguisse. Três segundos
depois, trovejou a voz do sargento em suas costas:
— Tigres! A trote, marchem!
Os soldados se formaram em círculo e começaram a saltar em volta de
Cifuentes. Antes que o jovem e o capitão tivessem atravessado o pátio,
este se pôs a trotar com eles no interior da figura.
— Têm sede, soldados?
— Sim — respondeu a tropa.
— De que têm sede?
— De sangue — gritaram.
O capitão deteve-se a observar o zombador giro dos recrutas atiçados
pelo instrutor.
— Têm fome, soldados?
— Sim, senhor!
— De que têm fome?
— De carne!
— Têm sede, soldados?
— Sim, senhor!
— De que têm sede?
— De sangue!
— Têm fome, soldados?
O capitão agarrou Agustín pelo cotovelo e lentamente o foi levando
para a saída.
— Me diga uma coisa, este é sempre assim?
— Senhor?
— O sargento. É sempre assim?
— Assim como agora, senhor?
— Sim.
— Sim, é. Assim é ele, senhor.
— Sempre diz essas baboseiras de sangue e de carne?
Agustín sondou a pergunta e pôs a vista na ponta das botas, sem
responder. O outro arrancou um pelo de seu frondoso bigode e o observou
intensamente ao esfregá-lo na ponta dos dedos.
— Estás com sede? — disse.
O rapaz sustentou por um instante seu olhar e engoliu a saliva.
— Não, senhor.
As velhas agruparam-se a eles na porta do regimento, mas os guardas
cruzaram os fuzis sobre o tórax e as empurraram suavemente. Flores
chegou até o enorme Chevrolet sem atender aos gritos e reclamações, e
indicou a Agustín que tomasse o volante.
— Veja que barulho tem, para ver se o tira.
Deu partida no motor, acelerou, e foi desacelerando lentamente, atento
ao escapamento. Flores estendeu-lhe um boné azul de motorista, igual ao
que havia visto no carro da embaixada da Venezuela. Quando Agustín deu
marcha à ré, cruzou no espelho retrovisor com os olhos suplicantes da mãe
do recruta Marcelo. Com a velocidade da gaivota que bica a presa no mar,
apropriou-se compulsivamente de seu olhar obrigando que o jovem
adivinhasse essas três sílabas em seus lábios tensos: “Mar-ce-lo?”
Acionou o pisca-pisca e ainda pensou cinco segundos antes de
retroceder impulsivamente e dobrar violento em direção à rua. O primeiro
semáforo estava verde e deixou o carro fluir em terceira. Logo depois foi
alcançado por um ruído de partes metálicas que se golpeavam entre si e
diminuiu a velocidade auscultando a origem do enguiço.
Indicou que dobraria à esquerda. Flores o conteve colocando um dedo
em cima do volante.
— Se na próxima viras à esquerda, teríamos de passar pela igreja de
Subtiaba. Siga em frente até a Rubén Darío.
Agustín dirigiu o carro com ziguezagues que aumentaram os sintomas
de um defeito na engrenagem. Na 11 de Julio, virou fechado à esquerda
sem apertar a embreagem. Como havia suposto, produziu-se um estrépito
de matracas.
— Não entres também por aqui — disse o capitão.
O carro se deteve no meio da avenida. Os automóveis tocaram
agressivos as buzinas, mas assim que Flores pôs os pés no asfalto,
calaram. Avançou até o centro da calçada e, erguendo o braço, conteve a
marcha de um caminhão da empresa de petróleo Molière. Então, abanando
o tórax, indicou a Agustín que retrocedesse.
— E agora siga em frente até Guadalupe — ordenou-lhe dentro do
automóvel.
— Sim, senhor.
— E sobre o barulho, que dizes?
— O eixo, meu capitão. A qualquer momento a direção vai se partir, e
isso é grave, não?
— Dá para você consertá-lo?
— Demora, senhor.
— Isso não tem importância. Estou perguntando se dá para você
consertar ou não.
— É mais seguro se o senhor levá-lo para a oficina.
Flores tirou um maço de Camel do bolso de sua jaqueta, colocou o
cigarro na boca e o mordeu antes de aplicar-lhe a chama do isqueiro de
prata.
— Para a oficina, não.
Tragou satisfeito a primeira baforada e se desfez de uma penugem de
tabaco sobre seu lábio inferior cuspindo-a suavemente com a ponta da
língua:
— Esses veados são capazes de meter uma bomba no motor.
CAPÍTULO III

SENHOR PRESIDENTE da República


General de Divisão, don Anastasio Somoza D.
Casa Presidencial
Manágua

Senhor Presidente:
Valho-me deste meio de comunicação em vista de, não ter outro para
comunicar-me com Vossa Excelência.
Quero chamar a sua consciência cidadã para pedir-lhe seus bons
ofícios a fim de impedir a situação conflitiva que estamos sofrendo nesta
cidade. Ademais, como pastor da grei, tenho o sagrado dever de velar em
todos os setores da vida humana.
É possível que minha postura de hoje provoque novas acusações contra
a Igreja, mas já não se pode tolerar que siga a morte ceifando a vida dos
homens sem juízo nenhum e só prevaleça a lei da selva. Agora vivemos no
salve-se quem puder.
Esta cidade está hoje sob os piores dias de sua história. Ninguém tem a
vida segura. É uma cidade ocupada e morta. As tropas vão e vêm pelas
ruas semeando o terror e ceifando vidas sem nem escapar as crianças. Que
está acontecendo? Por acaso perdemos o uso da razão? Será que a lei do
mais forte deve aplicar-se a este amado povo leonês? Será que não há
moral nem lei de Deus que acatar? Por acaso matando, podem ser
solucionados os problemas da pátria?
Por que não sentar-se em mesa de amigos e compatriotas e julgar ou
procurar os meios civilizados? Por que não respeitar a pessoa humana? Por
que jogar no esquecimento as palavras do Mestre: “Que a paz esteja
convosco”?
Eu imploro pelo amor de Deus que se contenha esta onda tremenda de
criminalidade com as consequentes vinganças e atropelos ao ser humano.
Deus quer que sejamos irmãos. Deponhamos o orgulho, a soberba ou a
vaidade e cubramo-nos com as armas de luz que são benignidade,
bondade, mansidão, compreensão, amor.
Senhor Presidente, ponha fim a tanta dor. Há muitíssimos lares que
choram a perda dos seres queridos. A pátria está ficando sem os homens
do amanhã. Teremos uma pátria sem norte nem bússola. No passo que
vamos, acho que se assenhoreará a morte.
Cristo aceitou a morte e foi a ela para dar-nos vida. Por que tornar
inútil seu sacrifício?
Para que os filhos de Deus tenham seus direitos inalienáveis e sua
condição não deteriore, é necessário voltar de novo à luta da vida: no
campo com as colheitas, onde o Deus de todo bem derrama sua chuva
sobre bons e maus e faz sair o sol para vivificá-los. Na vida familiar, para
que todos gozem de bem-estar e paz. Na vida cidadã, para que
construamos uma nação digna, próspera e feliz.
Senhor Presidente, nada perde abundando em generosidade, tudo se
acaba nesta vida, só as boas obras nos seguirão à eternidade.
Deus nos dará a graça da concórdia se a pedimos deveras. Que esta
Páscoa que estamos celebrando seja realmente florida e não sangrenta.
Espero que atenda a alma dolorida deste Pastor que clama por
misericórdia. Que a morte volte a seu tenebroso esconderijo e não caminhe
impunemente por nossas ruas nem consuma a vida dos nicaraguenses que
queremos continuar vivendo sob o amoroso olhar de Deus e a proteção da
Mãe dos homens, Maria. Atentamente no Senhor,
Monsenhor Manuel Salazar Espinoza
Bispo de León.
CAPÍTULO IV

DEPOIS DE VESTIR as luvas, estirou a branca jaqueta com botões


dourados puxando-a pelas bordas. Marta de Flores fez-lhe um gesto para
que desse um giro, examinou o caimento das costas e depois o obrigou a
que rodasse outra vez.
— Abotoe o botão de cima.
Agustín emaranhou sem êxito os dedos no estreito ilhós.
— Com as luvas não posso.
— Vem aqui — disse a esposa de Flores. A presença respirável dessa
pele madura, atordoantemente untada de maquilagem, o aroma jamais
cheirado, a maquilagem espessa sobre os olhos castanhos, fez com que
suas mãos naufragassem em suor dentro das luvas. As incisivas unhas da
mulher laceraram seu pescoço e o botão coube drástico na jaqueta de
servente. Ao afastar-se centímetros para medir o efeito total de sua
postura, pôde captar os olhos do rapaz esgaravatando-lhe os selos.
— Que estás olhando, insolente? — disse sem afastar-se.
Ele se enterrou na ponta dos flamantes sapatos, herdados do filho mais
velho do capitão, e engoliu um sorvo de dificultosa saliva. Odiou seu
cogote submisso. Obstinada, a esposa do capitão esperou que a olhasse ou
respondesse, mas Agustín não mudou sua atitude, menos preso da teima do
que do desconcerto.
— Agarre já os copos e saia.
Protegido na ordem da senhora Marta, foi até a bandeja, pôs as mãos
enluvadas nas bordas e, ao esforçar-se por erguê-la, notou com pânico que
o exercício feito às quatro havia consistido em passear o arsenal de
coquetéis com os copos vazios. Agora, só em movê-lo um milímetro,
pareceu-lhe que em cada dedal de champanha se tramava uma tempestade,
um ciclone que o arrancaria de um tirão desses tapetes e o lançaria sem
escalas ao calabouço do sargento Cifuentes. Em meio dessa aflição, o
relativo alívio, que lhe produziu deixar na cozinha os olhos obstinados da
capitã foi espedaçado pelo estalido de luz, risos, música, perfumes e joias
do salão. A filha de Flores posava de braço dado a seu noivo e ambos
queriam comprazer o fotógrafo de Novedades colocando em um ostentoso
primeiro plano as alianças de ilusão. Ao seu lado, com a mesma gravata, o
exato lenço preso com prendedor de ouro, o penteado à bofetada, e o ar
sóbrio de quem chega para adornar a foto com a auréola do colégio norte-
americano, sorriam os irmãos da namorada. Embora os alto-falantes
insistissem no irresistível e celestial Feelings, ninguém dançava,
pendentes do esquivo clarão. As moças flutuavam em lamê e veludo, e os
jovens aproveitavam a entusiasta refrigeração dos Flores para ostentar, em
plena Nicarágua, terno escuro e severo nó de gravata italiana sobre
pescoços escanhoados a lupa. Agustín teve a sensação de que seus pés se
enjoavam no brando tapete. O trecho até o capitão custou-lhe um jorro de
transpiração que veio a nublar-lhe as pálpebras e que não pôde secar com
as mãos comprometidas na bandeja. Os homens levantaram dois copos e
quando Agustín fez gesto de retirar-se, Flores o conteve agarrando-o pelo
ombro. O gesto obrigou Agustín a complicar-se em um suspeito equilíbrio
para evitar que seu suor pingasse sobre o champanha.
— Fique aqui — disse-lhe o militar, pousando sua taça vazia na
bandeja e convidando o industrial a que tomasse outra. Chocaram os
cristais e provaram a segunda dose.
— Amigos? — disse o homem de branco.
— Amigos, prezado, amigos. Só que eu vejo as coisas de um modo
diferente de você. Antes de tudo eu sou um militar e você um civil, e isso
significa não só esse terno e este uniforme, mas sim duas maneiras de
pensar a realidade. Como soldado, sempre procuro lutar nas melhores
condições. Taticamente, ter protegida minha retaguarda é minha garantia
para travar uma boa guerra. É uma coisa pessoal e profissional.
Simplesmente rendo melhor quando sei que minha família está a salvo.
O industrial colocou afável a mão em cima do ombro de Flores.
— Então não me expressei bem, capitão. Assim como você, penso que
o principal é a família.
— Isso diz agora, mas não o disse antes.
— É que não me quis entender.
— Se você arrisca negócios, eu arrisco a vida. É o que começa a
diferençar um soldado de um civil.
— Continua muito rabugento, capitão. Eu só lhe sugeri que a viagem
de sua família se fizesse com discrição.
— Dizer-me isso é acusar-me.
Flores colocou sua taça vazia na bandeja e agarrou outra, mas sem
levá-la aos lábios. O homem de branco olhou com receio para Agustín e
depois experimentou um sorriso conciliatório.
— Pelo santo Deus, homem! Não sou eu que o digo. É o que as pessoas
vão dizer.
— Que pessoas?
— Para começar, León inteira, ora. E depois os jornalistas. Desde o
assassinato de Chamorro que eles estão com olhos grandes. Veem por
baixo da terra e o que não veem inventam.
— O assassinato de Chamorro foi uma estupidez.
— Capitão, todo crime é reprovável.
— Os estúpidos mais do que os outros.
O homem de branco abandonou sua taça na bandeja e se acariciou
melancólico o queixo.
— Por exemplo — disse depois de algum tempo —, não deveria ter
dado esta festa.
— Minha filha a quis! Quem sabe quanto tempo estará sem ver seu
namorado! Você acha que nós os militares não temos sentimentos?
O industrial ergueu os braços parodiando uma súplica e sorriu com
desesperança.
— Você interpreta todas as palavras de um amigo fiel como sendo
agressões.
Flores bebeu impulsivo o champanha e, ao fazê-lo, pôde perceber que
um grupo próximo havia calado ao ouvir-lhe subir o tom.
— Esqueçamos isso — disse —, esqueçamos.
Entreteve-se no rígido queixo de Agustín e depois percorreu seu traje
de garçom até os pés. O rapaz molhou os lábios com a ponta da língua e
engoliu o gosto acre da transpiração.
— Preferia estar aqui olhando as meninas do que fazendo as flexões
com o idiota do Cifuentes, não é mesmo?
— Sim, senhor.
O homem de branco suspirou fundo e quis aproveitar a trégua para
escapulir. Flores o reteve vigoroso, agarrando-o por um cotovelo. Disse-
lhe, os dentes cerrados:
— Que vão dizer, senhor Zurita? Que merda que as pessoas vão sair
dizendo?
O industrial devolveu um silêncio obstinado ao uniformizado. Este o
cominou apertando-lhe o antebraço a que se pronunciasse, mas convencido
de que o outro continuaria refugiado em sua mudez, ele mesmo se
respondeu:
— Que os ratos abandonam o navio antes que afunde. É isso?
Nos alto-falantes soava Love is in the air, e o homem de branco não
pôde atrair a atenção de seu filho que sorria efusivamente para uma
menina de quinze anos encremada de tules.
— Lamento que esta conversa o tenha irritado, capitão. Sinto-o
verdadeiramente porque aprecio muito sua amizade.
— Não se preocupe, don, que a mim as palavras me botam colérico,
mas não me matam. Outra coisa são as balas, não?
Os filhos do capitão chegaram ávidos até a bandeja, apertaram corteses
a mão do industrial e, ao vê-los a ambos tão próximos, tão parecidos, tão
bem-educados, tão rigorosamente penteados e europeamente elegantes,
Flores sentiu que a ira se liquefazia em um sorriso cálido.
— Saúde! — convidou ao senhor Zurita com essa nova luz no olhar.
CAPÍTULO V

MINHA QUERIDA Vicky, vitoriosa, vitriólica, vikinga, vitamina,


vitalíssima, virulenta, vívida, visionária, vilã, vento, vida, vida minha:
aqui vai outra carta de teu poeta que se afoga de tanta ausência, que se
desespera porque talvez estes papéis nunca te cheguem, ou os receberás
quando não queiras nem ouvir meu nome. Não sei onde ir guardando tanta
lágrima que não me brota e que a ando guardando como se me tivessem
metido umas balas e eu me dessangrasse. Todo o tempo tenho os olhos
úmidos e se não é pelo que vejo, é pelo que me lembro. Muito poucas
vezes durmo, e quando durmo, sonho e os sonhos são nada mais que a
continuação do que vejo, a repetição do que vejo. Mas estou são, muito
queimado, um pouco louco, mas nem a menor das balas me tocou. Eu acho
que o mesmo medo de que me matem, as afugenta. Aqui ninguém diz que
tem medo da morte e eu, de tanto acreditar neles, acredito neles. Mas eu
tenho medo dela porque quero voltar a ver-te. Antes sempre pensava que
te encontraria depois do triunfo. Imaginava-me entrando em León com
minha mochila cheia de flores e os bolsos da jaqueta e as calças salpicadas
de poemas, abraçando as pessoas do povo e que tu aparecias então no meio
da multidão e me beijavas forte na boca, me metias toda tua língua nas
minhas gengivas, banhavas com ela meus dentes secos e famintos, me
arrastavas correndo a teu quarto e me despias com a frescura de uma
chuva ao meio-dia. Mas a vitória demora. Essa vitória, por enquanto, são
dias inteiros que passo beirando o lago sem ver-te, sem poder falar
contigo. Agora já não crio sonhos nem ilusões. Gostaria de ver-te hoje
mesmo, haver-te visto já ontem. Não importa que Somoza ainda esteja no
governo, não importa que a morte cresça a nossa volta como erva daninha.
Gostaria de ver-te. Oferecer-te minha luta, embora não possa levar-te ao
triunfo. Sou o mais louco dos sandinistas. Ocorrem-me imagens que voam
como pássaros que estivessem desesperados batendo asas em minha
cabeça. Escrevo-as e nunca é a mesma coisa. Tudo acaba sendo muito
complicado para mim e o que acontece é que o que vejo é complicado. Eu
tenho medo da morte. Disse-o para meu comandante. Me disse: tens medo
do combate? Do combate, não, disse-lhe. Da morte. Sou o mais delirante
de todos os da minha unidade. Tenho três cadernos escritos com poemas e
carrego mais livros do que balas. Gostaria de encontrar-me um dia com o
padre Cardenal e mostrar-lhe meus poemas. Eu tenho medo da morte.
Ando no bolso com um poema de Javier Heraud que sempre vejo e penso
nele.

Eu nunca rio
da morte.
Simplesmente
acontece que
não tenho
medo
de
morrer
entre
pássaros e árvores.

Eu penso que se morro por aí, os pássaros e árvores continuarão aí,


absolutamente indiferentes à minha morte. Que terias tu de mim? Nada
mais que minha ausência! Amor! Vou viver até a vitória porque esta
vitória é para todos, mas também eu quero desfrutá-la. Quero ver como
brilha a vitória em teus olhos, que é que a vitória faz a teu corpo que tanto
desejo e que tanto me recusaste. Sei que não sou um belo tipo, mas
tampouco feio. E se agora me visses de barba e com este cabelo! Se
quisesses beijar-me, terias que explorar em uma espessa vegetação para
achar meus lábios. Não sei se gostaria de que esta carta te chegasse. Leio-a
e não gosto. Sinto-me débil. Me dão aflição os enormes dias sem ações.
Me dá pena o juízo, a disciplina, a estratégia, que nos faz avançar e retirar.
Quisera chegar cada minuto ao final de tudo, sem adiamentos, sem pausas.
Não quero deprimir-te com estas linhas e, no entanto, à medida que
escrevo, vou ficando mais triste. Pensei que te escrevendo poderia dizer-te
todas essas coisas que calava ao teu lado nesses domingos no El Sesteo,
quando tomávamos café antes de entrar no cinema e quando tu, a cada
momento, me perguntavas em que pensas, e como eu não gostava de dizer
nada, te dizia alguma coisa que inventava aí mesmo e via como tu me
estavas sorrindo, mas também via, lá no fundo, uma praia longínqua, tua
tristeza, lenta como uma sombra, ou um enorme cachorro espreguiçando-
se aos pés do leão da catedral. Como posso gostar tanto de ti e andar
envolto em meu amor como em um abraço?
Às vezes penso que escrevo e escrevo poesias porque não sei viver.
Sinto que tudo empurra ou passa na minha frente. Quando tomo uma
decisão e faço algo, nunca me inteiro como chegarei a fazê-lo. Hoje estou
aqui, perto do lago com os rapazes, e a única coisa que queria é estar
estendido a teu lado, tão junto a tua pele. Tua própria pele. Não sei o que
sentem os outros companheiros. Para mim o tempo passa lento, para eles
acho que não passa. A espera de notícias ou de instruções os absorve com
tanta intensidade como as ações. Se punem nesse silêncio. Como se calar e
se concentrar sobre si mesmos os fizesse mais fortes. Não queria contar-te
mas houve dias em que estivemos saindo e entrando em Masaya, Granada,
Niquinihomo. Um domingo fomos com um companheiro para fazer um
trabalho em Catarina. A Guarda Nacional havia capturado todos os jovens
do povoado que logo apareceram mortos nos arredores. Te conto para que
te cuides, se tens mais de treze anos eles querem matar-te. Em primeiro
lugar querem matar-te. Tu és mulher, mas não confies nisso. Te conto isso
dos de Catarina porque tenho de dar-te a má notícia de que assassinaram
Francisco Latino. Dizem que foi por uma represália, dizem que os rapazes
haviam provocado um incêndio na casa de um dedo-duro. Não sei se é
certo. Mas aqui no sul estão matando todos os que têm mais de treze anos.
Mataram Francisco Latino. Tenho de comunicar-te também a outra má
notícia de que mataram os irmãos de Francisco. Mataram Domingo
Pompilio e Mario. Conte a Ignacio, porque ele foi muito amigo deles. Ele
esteve com eles uma semana em Poneloya no ano passado. Conte a Ignacio
mas diga-lhe que eu lhe peço que não se amargure. Que se cuide. Aqui
todos os que têm mais de treze anos estão sendo mortos. Não acredites no
que Somoza diz de que governará até 81. Vamos botá-lo para fora antes.
Eu vou viver para vê-lo. Embora eles matem muita gente, eu vou viver
para vê-lo.
Talvez tu estejas formando uma má opinião de mim porque falo tanto
de mim mesmo e pouco dos outros. Em verdade, peço-te desculpas porque
acho que sempre fui um pouco egoísta. Sempre tentando entender o que é
que sinto. Sempre dando e dando voltas nas palavras. Acho que me
aconteceu o que dizia Darío:
Tu, que estás com a barba na mão
Meditabundo,
deixaste passar, irmão,
a flor do mundo.

Mas não serei tão bobo quando te vir. Quando te vir, te vou beijar e
beijar e vou fazer combustão contigo e me fundirei em ti e deixarei que
minha cabeça esteja tão cheia de teu amor que não tenha que pensar em
nada. Dizem que vai chegar um momento em que a Frente dará a ordem de
que todo mundo faça greve e que então será a ofensiva militar definitiva.
Quisera ter esse momento redondo e perfeito entre minhas mãos.
Como essa laranja cheia de néctares que eu comeria em Chinandega. Ando
quebrando a cabeça com esse momento que não chega. Esse momento que
me eleva como um cometa. Aqui, nas noites, caem aerólitos. Parece um
eterno Ano-novo. Mas eu não conheço os nomes dos pássaros. Pergunto
aos camponeses e, conforme pousam nos galhos das árvores, vão-me
dizendo, segundo o voo me vão contando, conforme o canto. Às vezes os
dias são assim longos, um rio. Movem-se mas permanecem. Tão quietos.
E logo estamos em ação. Assaltamos comandos da Guarda na estrada,
entramos em um povoado e o cercamos, as balas substituem os pássaros.
Os rapazes gritam Pátria ou Morte quando avançam. Eu não digo nada.
Tento cumprir o que me incumbem. Acostumei-me a disparar, mas depois
não quero ver se matei alguém. Tomara que Somoza vá embora. Vamos
triunfar, mas o país ficará destroçado. Contam que em Masaya, em
Monimbó, a população resistiu em fevereiro ao ataque da Guarda com
bombas de mecate e pólvora. Dias inteiros. Dos nossos foi Camilo. A
Guarda entrou com tudo em Monimbó: tanques, aviões, infantaria. De
León não sei nada. Dizem coisas, mas sempre tão vagas. Dizem que a
universidade está fechada. E tu, então, que fazes? Teu velho continua
desempregado? Dizem que na Nicarágua metade da população não tem
trabalho. Embora não vás à aula, trates de continuar estudando. Sobretudo
muita prática. Quando vencermos vais fazer muita falta com tua broca e
tua mão de anjo. Alegro-me de ter-te emprestado um de meus dentes para
teus exercícios, porque a obturação continua firme como uma rocha. Mas
o que acho é que ficou um pouquinho grande, porque sinto seu tamanho
quando passo a língua por ela. Ou será que estava acostumado a meter a
ponta da língua no buraco cariado? Conosco está um chileno que também
estudou odontologia em seu país. Diz que nas competições esportivas
entre faculdades o grito deles era: “Canino-canino, molar-molar: Escola
Dental”. Já não sei o que estou te falando, ora. Todas as palavras me
aborrecem e apertam como uma roupa nova ou um par de sapatos dois
números menores. O único que tenho certo são estes braços que voam para
abraçar-te e que eu amarro com esta letra pequena que cada vez diminui e
diminui para que alcance até o final da página. Se tivesse papel te
escreveria mais longo. Agora só me dá para colocar bem pequenino
(embora a intenção seja bem grande) “te amo”.

P.S.: Todo o anterior escrevi ontem. Hoje soubemos que não haverá novas
ofensivas no resto do mês. Em todas as partes se analisam os efeitos da
greve de janeiro. Dizem que o tal de Solaun influiu em setores
empresariais para terminar a greve. Foi o ensaio geral de outra que virá, a
enorme, a triunfal, a que me devolverá a ti (se tu ainda me aceitas). E
agora que me dou conta, quase esqueço o objetivo desta carta. Peço-te
desculpas por não ter ido a tua casa no dia em que prometi: simplesmente
não pude. Não acredito que hoje consiga outra folha de papel. Também não
dará para corrigir a carta porque alguém de muita confiança viaja para
León e fará com que ela te chegue. Ele saberá como. É astuto como uma
raposa e valente como um leonês. Estou contente porque acho que esta
carta, sim, te chegará. E mais contente ainda porque talvez tu poderás
respondê-la. Despede-se de ti com um beijo muito erótico, teu poeta,
Leonel.

Salinas leu o colofão da carta e, indo na ponta dos pés até a cortina verde,
deslizou-a sobre o trilho. A sombra que sobreveio não teve nem a menor
aresta de frescura. Instalou-se rotunda e irrespirável.
Sem procurar alívio, Ignacio passou o empapado lenço uma vez mais
pela testa e pálpebras. Desfez os pés cruzados sobre o canto da mesa de
classificação e apoiou os calcanhares em sua cadeira. Depois afundou o
queixo entre as rótulas e quis identificar a expressão do rosto de Salinas na
úmida penumbra.
— Idiay? — disse-lhe.
Salinas esteve durante alguns minutos acariciando as dobras da
cortina, empenhado em que não se filtrasse um estilete de luz quente.
— Idiay? — insistiu Ignacio sem mudar sua posição. O funcionário lhe
dedicou um olhar sem resposta e voltou a alisar obsessivamente o
cortinado. — Deixe isso, homem, e voltemos a falar do que interessa.
Salinas enfiou sua cabeça pela janela e reviu a dilatada rua com a
minuciosidade de um relojoeiro.
— Não há ninguém — disse secando as palmas úmidas na borda da
cortina.
— Quem haveria de haver?
— Alguém, ora — torceu o pescoço em direção à Ignacio e lhe
dedicou um olhar medularmente suspeito. — Alguém que te tivesse
seguido, ora.
Nem o enorme bocejo com que Ignacio expandiu seu corpo,
derretendo-se plácido sobre a cadeira, fez com que Salinas sentisse a
nimiedade de sua apreensão. Colocou a carta sobre a mesa e, em cima,
cobrindo-a totalmente, o livro Cleópatra de Emil Ludwig.
— Afinal — disse o jovem —, estás com medo.
— Eu? — exclamou Salinas, escandalizado.
— Pois então saia já e a leve.
— Podia ser — disse.
— Como é isso de podia ser? Faze-o ou não faze-o, essa é a questão.
Se o faz, o faz, se não o faz, não o faz.
O homem levantou a ponta do livro e espiou a margem inferior da
carta. Leu: “muito erótico, teu poeta”.
— Por que eu? — disse.
— Por que tu? — gritou Ignacio. — Porque tu és carteiro, idiota. Que
coisa melhor do que um carteiro para entregar uma carta?
Salinas colocou um dedo vertical sobre os lábios e apontou
significativamente para a janela. Foi até ela, correu a cortina e olhou para
ambos os lados da rua.
— Não há ninguém — disse.
Veio até a mesa, levantou o livro e, do alto, estudou a caligrafia dessas
três páginas nutridas de uma letra econômica e tensa.
Ignacio avançou até o flanco da mesa, agarrou a carta e a pôs no bolso
da camisa.
— Deixemos as coisas como estão — disse. — Se não te atreves a
fazê-lo, não o faças.
Salinas, de um tirão rotundo, arrebatou-lhe os papéis, colocou-os com
um golpe em cima da mesa e começou a alisá-los.
— Como o faço? — disse.
— Antes de mais nada, coloques a carta em um envelope. No envelope
coloques um selo. O selo o marcas com o carimbo do correio.
— O carimbo que tenho é daqui. O poeta está pelos lados de Rivas, não
é mesmo?
— Pois então você o coloca e o borra assim com o dedo. Quando
alguém recebe uma carta, lê a carta e não o selo.
— Falas assim porque não és tu quem a levas. Sou eu quem a leva.
Ignacio sorriu. Esse enfático eu de Salinas havia sido também seu um
dia. Em um tempo em que contava mais quem fazia a ação do que o seu
efeito.
— Perdoe — disse —, é um detalhe importante.
— Alegro-me de que te dês conta.
— Me dou conta.
Salinas meteu os papéis em um envelope e quando se dispunha a untar
saliva na parte engomada, deteve sua língua na ponta do triângulo:
— Suponho que dá no mesmo quem põe o cuspe no envelope — disse.
— Dá no mesmo — exclamou com voz afogada, franzindo o sorriso
que puxava para abrir-lhe os lábios.
Salinas deslizou meticulosamente a língua pela borda engomada, como
quem corre uma cremalheira e depois aplanou o envelope em cima da
mesa de classificação dando-lhe pequenos golpes com o punho.
— Te perguntava — disse sem olhar o jovem — por que dizem que no
Panamá treinam os militares com todos os tipos de recursos técnicos.
— Sim?
— É muito possível que pelo cuspe no envelope descubram quem é o
dono da língua. O endereço escreve você.
Ignacio pôs o lápis entre seus dentes, alisou uma vez mais a superfície
com a palma da mão direita, aproximou o lápis e escreveu:

Senhorita
Victoria Menor
4 quarteirões ao sul da Farmácia “Lucy”
León
Nicarágua
O carteiro assomou-se por cima do ombro e conteve a respiração ao ler
o nome.
— A Victoria Menor — disse. — A filha de Antonio Menor! Mas é
para a própria Victoria Menor.
— Onde estão as estampilhas, pois?
— A própria irmã de Agustín, caralho!
Salinas retirou um selo de um córdoba e o pôs sobre a carta. Ignacio
untou-o com saliva e o estampou no canto superior direito. Depois agarrou
o carimbo de borracha, colocou-o no interior da boca para dar-lhe ar e por
último golpeou-o, resvalando-o em cima do selo para que as palavras se
borrassem. Depois assentiu com o queixo satisfeito:
— Nem Cristo poderia ler o que diz o carimbo.
Salinas o estava observando como se tivesse a respiração engasgada e
não se atrevesse a expulsá-la. Engoliu abundante saliva e disse:
— Posso te dizer algo? — Ignacio coçou o nariz, condescendente. —
Houve um tempo em que gostei muito da Vicky.
— Te apaixonaste por ela?
O jovem estudou o lento rubor que avançava sobre a tez do carteiro.
Este pôde adivinhar que uma súbita ronqueira evitaria a resposta e assentiu
com a cabeça, como quem tentasse respirar em um oceano de vergonha.
— E nunca disseste a ela?
— Não — disse com uma voz alheia.
— Anos e anos no mesmo quarteirão, comprando o óleo no mesmo
armazém, ouvindo os mesmos discos, no mesmo grupo de amigos!
— Ela era muito linda.
— Idiay?
— Coisas que acontecem com a gente, ora. As mulheres muito lindas
não são para a gente.
— Essa é uma filosofia idiota e fatalista, Sali. As mulheres lindas
sempre estão imensamente tristes e sozinhas porque só se aproximam
delas os homens lindos que lhes dizem baboseiras e as usam para passeá-
las e mostrá-las tudo isso.
— Eu também não tenho o dom da palavra.
— Nem faz falta. Quando eu sinto algo profundo por alguém, alguma
coisa assim mais ou menos grande, eu só olho para ela e me calo.
— E nunca te falha?
— Nunca me falhou.
— Pois eu nem sequer tenho esses silêncios tão bons.
Salinas levantou a carta da mesa e a sacudiu na frente dos olhos de
Ignacio, esgrimindo a prova definitiva.
— Você viu por quem ela se apaixonou? Por um poeta.
Ignacio cravou-lhe os olhos como o arranhão de um gato.
— Por um companheiro, não?
Salinas pesou a carta e pareceu dar voltas a um carrossel de
recordações. Ignacio foi até o fundo do cômodo e passou a mão sobre o
empoeirado artefato do canto.
— O telégrafo? — perguntou de costas a Salinas.
— Sim.
— Sabes usá-lo?
— Vi como o usam, mas usá-lo mesmo, nunca usei.
Ignacio virou-se e com passo ágil foi até Salinas e cravou-lhe
insistentemente um dedo no peito.
— Tens que aprender a usá-lo — piscou-lhe um olho. — Trata-se de
uma ordem.
O carteiro ficou perplexo no meio do quarto enquanto o jovem
caminhava permitindo que um segmento de luz, já que não o ar, chegasse
até seu corpo. Esteve um longo tempo engulosinado em sua perplexidade
e, de repente, aceso por uma descarga, foi até a rua e se pôs a trotar com a
carta empunhada até alcançar Ignacio. Quando chegou ao seu lado,
ofegando, esgrimiu-lhe uma vez mais o envelope com a mesma evidência
que o havia feito no escritório.
— Por que não entrega você a carta? É vizinho dela. E se não a quer
dar pessoalmente, por que não a joga por debaixo da porta?
Assentindo com o queixo como lhe era habitual, Ignacio ouviu as
perguntas, escrutando no mais alto do céu se nessa tarde choveria.
— Tens alguma outra pergunta?
Salinas se sacudiu, tentando acalmar um ataque de súbitos e
imprecisos comichões.
— Não, ora. Essas seriam todas e nada mais.
O rapaz deslocou a vista em um semicírculo controlando o caminho da
frente e ambas as esquinas. Esperou, pacientemente, com o nariz agarrado
pelos dedos, que passasse um homem desconhecido, e só então tomou as
mãos do carteiro com as suas e as agitou suave e fraternalmente.
— Porque algum dia tinhas que começar.
CAPÍTULO VI

NA ALTURA do hospital San Vicente, pôs as mãos sobre a surrada mala e


tentou concentrar-se em seu conteúdo. O vestido verde com decote
fulminante, para Myriam. Para a velha os sapatos pretos e os marrons para
a vizinha. Melhor seria todos os sapatos para a mamãe e que ela os
distribua. A blusa azul para a Vicky. E a blusa verde para Myriam. Verde
Myriam. Blusa verde, traje verde. No lado direito o pacote de Winston.
Parto-o em dois. Metade para o tio Emilio, metade para papai. E da
metade para o papai, metade para a Vicky. Melhor três maços para o papai,
quatro para a Vicky e quatro para o tio Emilio que é o mais viciado. E
todas as camisas para o velho. Passadas, impecáveis. Quinze córdobas
pagas e bem pagas, senhor, porque as deixaram fulgurantes. Boa gente,
dona Marta. Roupa usada de primeira. “Como novas”, vai dizer o velho.
Sorriu quando o trem fez os freios rangerem. Ao deter-se, o ar pareceu
consumir-se no vagão solitário e o rapaz foi tragado pela familiaridade dos
aromas da feira, a exata disposição de cada um dos negócios de rua,
invariáveis com os anos. Evitou as escadas com um salto e foi percorrendo
a plataforma em um ritmo alheio ao contorno. Balançou a valise. Havia
recuperado a alegria despreocupada com que, havia uma década, nessas
mesmas pistas, voltava do primário brincando com a pasta escolar de volta
a casa, o estômago apressado e ligeiro como cometa, enjoado pelos odores
pefiltrantes dos quiosques de carne, aipim frito e rosas-de-todo-o-ano. Ao
fim da plataforma, sem deixar de balançar a valise, esteve espiando em
direção ao ponto de ônibus interlocais e não pôde resistir ao feitiço do
matizado de viajantes e vendedores ambulantes. Tudo se cingia nesse
sufoco que era León.
Abreviando a rota, de um salto esteve sobre os trilhos que dividiam a
rua. Um rio de ferro. Dos dormentes, foi curioseando os interiores dessas
casas nas quais almoçou algumas vezes, fez os deveres com o
companheiro de turma, ou jogou até tão tarde na noite que Antonio havia
saído de pijama atrás de seu rastro. Em cada pátio se matava a sede
sorvendo longas limonadas. Havia que se ir buscar gelo de bicicleta ao
seduzir o carteiro para que emprestasse o triciclo. No bairro todos
pareciam ser sapateiros ou cabeleireiros. Aos poucos passos, lhe chamou a
atenção não encontrar conhecidos. Porém mais adiante, duas ou três caras
familiares seguiram sem deter-se. Talvez o anonimato do corte de cabelo
militar, disse para si mesmo. A última imagem que dele guardariam os
vizinhos seria sua alvoroçada melena dançando cúmbia com Myriam no
local dos bombeiros. Mas quando ao dobrar a esquina que o conduziria
direto ao lar chocou-se contra Ignacio que transportava o aro de uma
bicicleta, soube que havia outros argumentos ao sentir seu olhar
penetrante.
— Safei-me para o fim de semana — disse Agustín, incômodo.
O outro apertou a camba sobre o metal da roda e prestou uma absurda
atenção a seus mofentos raios. Quis abrir o silêncio, mas não achou nada
mais que turbação na língua e desordem nos dedos. Esquivou-se de
Agustín e dobrou a esquina arranhando o cotovelo contra a parede. O
soldado quis assoviar-lhe, mas o desconcerto pôde mais que a vontade e
seguiu seu caminho balançando a maleta sem entusiasmo.
Chamou-lhe sua atenção que sua casa estivesse fechada. Em León se
perseguia o vento com frenesi e só nas noites, quando o voluntarismo das
pessoas confundia a obscuridade com a frescura, se juntavam as portas.
Palmeou a maçaneta e não pôde deixar de sorrir imaginando-se dentro de
um minuto no meio do salão exposto ao assombro dos parentes. Amalia,
que varria em um canto, virou-se atraída pela súbita luz e ao reconhecer
seu filho deu um tapa teatralmente como se estivesse assistindo a um
milagre. Jogou a escova no chão e encaixou os braços sob os ombros do
jovem, oferecendo-lhe suas faces aos lábios. Agustín nem teve tempo de
soltar a valise. Deixou-se fascinar pelo carinho físico de sua mãe,
tornando-se pequeno no palpitante regaço. Balançou-o seguindo o
compasso de uma valsa invisível e depois afastou-o um pouco, só para
molhá-lo com um longo beijo no rosto, que acompanhou com um ronrom.
Sob o dintel da porta da cozinha apareceu o pai.
Agustín se livrou do abraço de Amalia e pôs-se rotundo na frente de
Antonio, sorridente e balançando a valise. Este pestanejou várias vezes e,
como se uma obsessão o acionasse, foi até a jarra de água e bebeu
longamente pelo canto, afastando o copo.
— Não vai me cumprimentar, velho? — disse Agustín.
Antonio demorou outro gole, limpou-se a boca na manga da camisa e
sem olhar para ele, murmurou:
— Boa tarde.
Pôs as mãos em cima da jarra e pareceu ensimesmar-se.
— Eu avisei que ia chegar — exclamou Agustín. — Não lhes chegou
minha carta?
A mãe levantou o queixo forçando Antonio a que respondesse.
— Não — disse entredentes —, não recebemos nada.
A mãe acariciou-lhe o cabelo.
— O importante é que vieste.
— Só para o fim de semana.
— E Marcelo, o soltaram?
— Não. Esse está dentro. Vi sua velha dando voltas ao redor do
quartel.
— Deixaram-na entrar?
— Era só o que faltava, senhora. Aí já não entra nem sai ninguém.
Antonio pareceu absorvido em decifrar os ruídos da rua, mas virou-se
para Agustín, brusco:
— E tu, como saíste, queres dizer-me?
O jovem recordou os trejeitos picarescos que faziam o pai rir quando
era menino e levantando as sobrancelhas piscou-lhe um olho cúmplice:
— Peixinho na corte, ora.
Em vez do sorriso ou da mão peluda do homem remexendo a melena,
ou os fraternais golpezinhos no queixo, Antonio disse “com licença” e se
foi para a cozinha. Cruzou-se com o tio Emilio. Este veio até o jovem,
deu-lhe um tapinha frio na face e apalpou a valise que ainda pendia de sua
mão.
— Trouxeste cigarros?
Sem ouvi-lo, Agustín virou o rosto para Amalia, pestanejando-lhe a
ausência e a conduta do pai.
— Logo passa — disse ela.
O tio Emilio pôs seu espesso bigode grisalho quase na orelha do jovem
e lhe segredou:
— Desde que ficou desempregado, anda esquisito.
— E que faz?
— Ajuda um pouco no cinema, outro pouco por aí vagando.
A mulher tirou o avental, colocou-o em cima de uma cadeira e
abandonou a casa. Agustín e o tio ficaram de pé no salão e se sorriram
longamente. O jovem suspirou fundo e percorreu com os olhos os
ornamentos com a mansidão carinhosa que se dedica aos velhos amigos: o
calendário do armazém José Jirón de paisagem vulcânica e esse dezembro
de 1960 consagrado eternamente na parede, a foto amarela autografada por
Rubén Darío, o pequeno postal com a urna do poeta na Catedral de León, o
enorme ventilador elétrico que esperava havia anos um conserto, o
bordado desse mantel de Masaya que havia trazido com seu primeiro
pagamento da EEBI. O tio Emilio deixou que o jovem desfrutasse desse
reencontro — dessa trégua — sem falar-lhe. Na quietude, ouviu-se a
sirene policial aproximando-se.
— Cada dia começam mais cedo — disse o tio.
A foto da primeira comunhão o atraiu. Ele e a Vicky levitavam de
espiritualidade para o artista Ebenor: os olhos místicos, o cabelo dele
cimentado de Gumex, o dela tocado de véus, lantejoulas e missangas, e a
faixa impressa em moldes dourados que consignavam para a história o
santo dia. Ao pé haviam assinado: “Tin e Vicky para nossos queridos
papaizinho e mamãezinha”. Embora ela estivesse transida de seriedade,
Agustín soube ler o riso oculto que lhe empurrava a cútis, o gérmen dessa
lâmpada que acendia tudo que lhe ocorresse olhar, a alegre armadilha onde
metiam suas úngulas os sedutores profissionais ou amadores seguros de
suas técnicas nas primeiras escaramuças e que à altura das finais
rondavam pálidos de amor a esquina da casa ou espreitavam o portão do
liceu com a única esperança de escamotear-lhe um sorriso. Seu álbum
confidencial continha incendiados corações, chamuscadas versões dos
Vinte Poemas de Amor de Neruda. Vicky logo foi a Claudia dos epigramas
de Cardenal, mas também as pupilas de Bécquer. No meio de uma página,
algum engenhoso incorria em um “poesia é você”. Victoria era a lua
provinciana que tentava futuros astronautas, traficantes de calçado,
beisebolistas melancólicos, belos com cicatriz e sem, burocratas de
bigodes finamente engomados. Anos mais tarde, quando a insurreição
havia deixado de ser uma tentação e a palavra amanhecer os embriagava
mais forte que o guano matinal, haviam acudido às suas saias pálidos
conspiradores universitários: desaplicados em Histologia ou confundidos
com o enredo do Grande Simpático, mas ávidos leitores de Sandino, Martí
e Mariátegui; defenestrados em álgebra e química, mas adeptos das
fórmulas Molotov, da geografia relativamente invulnerável dos Sherman,
dos ácidos e alcalinos matizes das Ponto 30; e em caso de necessidade, não
sentiam nojo do modesto mecate.
Agustín saía das aulas e a esperava ereto e triunfal agarrado a um
sorvete de casquinha. Ela saía invariavelmente brincando com suas
tranças. Logo depois abria o botão superior de sua blusa colegial e surgia a
sinopse de seus peitos. “Que calor!”, dizia sempre. Iniciavam o caminho
para casa e Agustín percebia que sobre seu lombo crescia irresistível o
concerto de metais e violinos, címbalos floridos, ruminantes celos, que
iam somando os murmúrios e suspiros. Ele mesmo teve notável prestígio
só com a artimanha de ser o legítimo irmão de sua irmã. Desde que ela fez
treze anos e ele doze, deixou de ser o “Tin” para os garotos do bairro e foi
mundialmente conhecido como “o irmão da Vicky”. Até ela peregrinavam
— fora os créditos locais, todos malandrecos de Subtiaba — espertalhões
do Reparto Estrella, das imediações do Campo Médico, e até da própria
Manágua, pantanosa e terremoteada, surgiam candidatos cheirando a
creme de barba e solas sem buracos. Antes do beisebol, os dois capitães
caminhavam passo a passo até que um se pousava sobre o outro. Esse tinha
o direito de escolher os membros de sua equipe. O ganhador diria sem
vacilações: “o irmão da Vicky”, como se Agustín não percebesse que por
trás dessa insensata preferência subjazia a congruente tática erótica
consistente em ir minando os arredores do palácio e suas pontes levadiças,
até assaltar numa noite qualquer a recâmara nupcial da princesa.
Mas Victoria se aborrecia tanto com os galantes lânguidos, como com
os que esticavam muito rápido os dedos. A ambos afugentava com o
socorrido pretexto: “Tenho que estudar com meu irmão”. Àqueles que por
tema de conversa lhe propunham o beisebol ou o brilhante futuro que
teriam quando herdassem as lojas de seus pais, lhes bocejava reluzindo
toda a majestade de seus dentes picarescos. Aos poetas escarlates que lhe
ofereciam mansões de nuvens e anéis de ervas, pedia-lhes que por favor
concretizassem. Àqueles que em cada visita traziam-lhe presentes,
implorava que fossem mais abstratos. Aos concorrentes da maratona do
sexo, ganhadores sucessivos dos troféus “Machismo” e “Virgens
Perdidas”, lhes contava que seu pai possuía um F.A.L. desse tamanho e que
não era para usá-lo na guerrilha. Em um ardente debate político que
culminou com os estudantes levantando barricadas contra as tropas, subiu
no palanque para alegar que na futura ação não haviam dado tarefas às
mulheres. Que todos eram muito revolucionários, mas no fundo não
passavam de machistas e sacanas. “Bem, companheira”, gritou-lhe aquele
que presidia a assembleia, “aqui estamos discutindo a revolução e não
baboseiras feministas”. A única coisa que Vicky teve à mão, um lápis
Faber 2, atirou-lhe no meio da testa com a precisão de uma flecha.
“Quando vamos então falar das nossas coisas?”, gritou atiçando seus
congêneres. “Quando a revolução triunfar”, disse o presidente. Vicky riu
como uma soprano de ópera e, dando um jeito para olhar um a um os
homens do complô, lhes disse: “Os cubanos diziam o mesmo. Vinte anos
de revolução e o machismo segue intacto. Não viram Lucía por acaso?”
Assim, saltando obstáculos, quando terminou o liceu, pôde apresentar
a sua família e aspirantes mais obstinados um fulgurante diploma de
formatura. Na festa respectiva, que começou sendo íntima e que culminou
com um vendaval de convidados, anunciou seu plano quinquenal com a
minuciosidade de um ministro de país socialista:
Primeiro. Seria a única da família a entrar na universidade e agradecia
a seu pai Antonio, a seu irmão Tin, e a minha querida mamãe Amalia, a
quem fiz com que lhe saíssem cabelos grisalhos, seus esforços e
sacrifícios para que eu siga uma carreira.
Segundo. Os confessores íntimos, os companheiros de escola, os
pretendentes oficiais, os arrebatados espontâneos, os autodesignados
namorados, cessavam a partir desse momento em ditas funções e eram
passados à rigorosa categoria de “simplesmente amigos”. Essa mudança
na escala hierárquica não devia ser considerada definitiva, mas sim
transitória. Sua validade não tinha prazos, mas sim metas: o fim de seus
estudos.
Terceiro. Depois de cavilações e leitura de programas, documentos e
análise vocacional, além de custos de material, livros e instrumentos,
considerações sobre a oferta e procura do mercado nacional e centro-
americano, havia optado por seguir a carreira de — pausa tensa —
Odontologia. Capítulo à parte: não tão longa e difícil como a Medicina,
mas também não tão etérea e irreal como o Direito (sobretudo, papai,
neste país onde o código se respeita menos que os sinais de trânsito).
O pai veio de volta ao salão e esteve acariciando-se a rude queixada
por barbear. Havia tirado a camisa que pendia úmida da ponta de um dedo.
— Que está acontecendo com vocês? — disse, sério.
— Como assim, que que está acontecendo conosco? — replicou o tio
Emilio, com os mesmos modos.
— Estão aí os dois calados sem bater um papo, sem dizer nada.
Emilio introduziu a mão na valise e esgaravatou entre a roupa até dar
com o pacote de cigarros. Intencionalmente protelou desprender o
celofane à espera de que o assédio de Antonio minguasse.
A mãe trouxe da rua um frango envolto em plástico, enquanto Antonio
voltava à grande janela, açoitando a coxa com a camisa. Agustín pôs os
presentes em cima da mesa.
— Trouxe-lhes umas bobagens.
Ao levantar as três camisas pulcramente dobradas, Amalia animou-o
piscando um olho a que as entregasse ao pai em suas próprias mãos. O
homem viu a roupa que seu filho lhe oferecia de bandeja, teve um instante
de dúvida, avaliou o calibre da tensão de sua esposa sem necessidade de
olhar para ela e, de um tirão, agarrou as camisas, estendeu-as em cima da
mesa e prestou uma atenção zangada nas manchas de óleo e nos detritos de
pavimento.
— Obrigado — disse já de costas.
— Que é que você tem comigo, velho?
O homem se desdobrou do marco da porta e só quando ficou ereto,
virou devagar.
— Falaste comigo?
— Que é que você tem comigo, velho?
Antonio virou a vista para a rua.
— Tira isso — disse, sem se dirigir a ninguém.
— Velho?
De um salto esteve sobre o filho e crispou sua jaqueta verde claro com
os dedos oprimentes.
— Esta merda! — gritou. — Na minha casa você tira esta merda!
Foi para a cozinha e os velhos tacos do piso rangeram sob seu peso. A
mulher limpou as pálpebras inferiores com a ponta de uma unha e o tio
Emilio se abanou com seu chapéu de pita branca. Tinha um cigarro na
boca sem acender e o fez desfilar de um extremo ao outro entre seus
lábios. Depois, ajustou o chapéu, ausente, como se o estivesse instalando
na cabeça de algum outro, e apalpou inseguro seus bolsos.
— Tens fogo?
— Fique para almoçar — disse Amalia.
— Tenho de abrir o cinema. Tem matinê.
Pôs os maços de Camel nos distintos bolsos de paletó e depois sacudiu
um longo e inexistente pó da lapela.
— Hoje passamos Piranhas.
Ao abrir a porta, uma explosão próxima o paralisou no dintel. O pai
veio até o centro da sala e todos ficaram ouvindo a estranha calma que se
juntou ao ruído. Só a onda sísmica continuou revoando na frágil estrutura
da casa até que a estatueta de São José caiu ao chão, estilhaçando-se. No
minuto seguinte soou a sirene e muitos motores de jipes foram ligados
simultaneamente. E quase em cima, as balas foram desatadas, nutridas
gotas de um temporal na hora da sesta.
— Que fazemos? — perguntou a mãe.
Os homens não responderam. Houve um aulido nas imediações da
vivenda e, sobre o fundo de detonações, alguém gritou “pátria ou morte”.
Então Ignacio irrompeu no dintel sem respiração. Se deu um segundo
para respirar como se o sangue não conseguisse bombear-lhe o coração e
estendeu as mãos pretas de pólvora diante dos olhos de Antonio. Havia
apenas uma hora, Agustín o tinha visto levando nessas mesmas palmas o
pacífico aro de uma bicicleta. O pai forçou-o pelo cotovelo e aos
empurrões o foi levando para o pátio. Agustín os seguiu, imantado.
Chegaram até o muro confinante com o vizinho e de um salto Ignacio
pendurou-se no parapeito. Antonio cruzou suas mãos na altura da barriga e
lhe armou um estribo. O jovem impulsionou-se nele e, escarranchado,
conseguiu ficar em cima do muro. Pestanejou um momento confundido
antes de se deixar cair no quintal vizinho.
Depois de esfregar com força a terra da coxa, o pai segurou o coração
com uma mão, sem dominar a desordem. Ao voltar para o living,
encontraram as perguntas não formuladas de Emilio e da mãe. Com um
movimento de cabeça em direção à casa contígua, Antonio resumiu o
episódio. Ouviram trote de botas militares na calçada. Antonio se sentou
na cabeceira e, com gestos cortantes, indicou a cada um que ocupasse um
lugar nas cadeiras. Os três obedeceram e imitaram o pai quando atraiu
para si um copo e a cerveja. Não olharam para a entrada, mas o ouvido
substituiu a vista. O copo do tio resvalou sobre o mantel e, ao tentar detê-
lo, saltou o canto e caiu no chão sem quebrar-se.
— Calma, porra — sussurrou o pai.
Em cima dos joelhos apertados, o tio pôs seu chapéu como um
funcionário público pulcro. A mãe só se levantou para abrandar as
persianas de madeira, declinando o ângulo de suas ranhuras. Ao voltar, fê-
lo na penumbra. Agustín apalpou a base da lamparina, mas entendeu que
não devia acendê-la.
Cinco minutos depois, Antonio trouxe a garrafa até sua cara e a fez
virar pela frente.
— Essa cerva já está morna.
— Queres outra?
— O cacharolete e o magarefe — exclamou o pai, despejando lento o
líquido no copo para evitar a turbulência da espuma. — E vocês entornem
também esta burundanga antes que lhes queime o paladar.
A mulher pôs de parede entre Agustín e seu esposo um prato com
pedaços de frango. O pai o ignorou, mas o rapaz estendeu os dedos em
pinça e trouxe cauteloso um pedaço até a boca.
— Coma — disse a mãe a Antonio.
Este aquilatou um segundo as presas e as afastou sem brusquidão até o
centro do mantel.
— Não posso.
Agustín teve que coçar-se até que doesse, antes de pôr-se de pé como
se o sangue o levantasse com suas explosões. Mordeu-se os nós de seus
punhos feito um coice só porque o último freio da lucidez lhe ordenou que
não gritasse. Arrancou-se a jaqueta e a pôs diante do prato vazio do pai.
Desfez-se da camiseta, jogou-a sobre a jaqueta e se beliscou a pele do
peito.
— É isto que quer, velho? Que mais quer que eu tire? Quer que eu tire
a pele? Quer que me degole? Que mais quer, velho? Que me mate? Que
desapareça?
O pai empurrou suave a roupa e foi-se levantando, o olhar fixo na pele
do filho.
— Perguntas a sério?
— Antonio — suplicou a mulher.
— Aí me contas — freou-a o homem. — O garotão quer saber o que
quero e vou dizer-lhe exatamente o que quero.
— Diga, ora — arquejou-lhe o rapaz atiçando-o.
— Que desertes! É isso que quero! Que desertes, seu porra! Que
desertes!
— Bom, acho que já vou andando — disse o tio Emilio, mas manteve
seu lugar na cadeira.
Agustín soube que o pai se continha para não pular em cima dele e que
cada palavra que havia mordido significava um soco, uma pedrada.
Inconscientemente levou as mãos para a frente em atitude de proteção.
— És rápido para falar mas muito lento para pensar — disse. — Sabes
o que acontece com os desertores?
— Sim. Quando são agarrados, são mortos.
— E o pai, a mãe, o irmão, o cachorro e o canário, se são encontrados.
— Da nossa parte não há problema, ora.
— Tu não tens problemas. Mas o que é que faço eu fora do serviço?
Vagabundear e pedir esmolas até que me descubram e fuzilem. Por aí
como jacaré sem rabo. Ou será que tu, como desempregado, vais me
manter?
Deu-se um tempo para engolir saliva e nesse mesmo instante viu o
velho derrubar-se sobre a cadeira. Abaixou o pescoço e, absurdamente,
começou a soprar as coxas. Um touro cavando a areia antes de arremeter
contra a turbulência vermelha que o deixava febril. Soube que seu pai se
retorcia em seu próprio corpo, chocava contra sua circulação, mordia a
língua, porque não havia palavras no mundo com que replicar seus
argumentos. A vitória na refrega, provocou-lhe uma tristeza
insubmergível. Ele também se desinchou e os músculos saltaram como
tiras de um trapo. Fez um gesto de que ia colher a cerveja, mas retirou-o.
Enfiou bem fundo as mãos nos bolsos.
O pai olhou com dois breves golpes sua mulher e seu irmão, dois
ladridos, um triste par de queixas, e ao não receber nem a insinuação de
uma resposta, alívio ou consolo, aspirou o acre ar do cômodo e disse:
— Comamos.
CAPÍTULO VII

QUANDO SALINAS saiu do escritório da emérita empresa de


comunicações nicaraguense com a velha bolsa de couro pendurada no
ombro direito, o boné equilibrado no equinócio de sua arbitrária cabeça e a
camisa pulcramente desmanchada com um forte álcool, os vizinhos
suspenderam suas excursões ao armazém e detiveram seu passo ao vê-lo
passar arrogante, certeiro e dignamente profissional. O advogado Rivas,
que lia Novedades reclinado na parede de seu despacho, captou seu
deslizamento de soslaio e o perseguiu alguns metros, incrédulo.
— Salinas — gritou-lhe ao perceber que já não o alcançaria a não ser
arriscando-se a correr sob o entusiasta sol.
O carteiro virou-se e golpeando com o pé o sujo paralelepípedo quis
dar a entender que estava com pressa.
— Estás trabalhando? — exclamou Rivas, ainda a alguns metros de
distância.
— Como de costume — replicou.
— E que estás levando, cartas ou panfletos? — sussurrou, piscando-lhe
um olho.
— Sou apolítico.
O advogado Rivas lhe deu um alegre golpe na carteira.
— Muito treco aí dentro, não?
— Toda espécie de troços e bagulhos, ora.
— Para mim não tens nada?
Salinas evocou com a nitidez de um moribundo todas as vezes em que
hesitara entre enfileirar a carta para o doutor Rivas na coleção do
galinheiro ou avançar sob o sol vertical do meio-dia até seu gabinete e
padecer além disso a pouco refrescante bordoada de suas piadas. Em todas
as ocasiões, segundo havia aprendido no colégio, havia optado pelo
caminho mais curto e econômico.
— A primeira coisa que faço todos os dias é ver se há algo para o
senhor, doutor. De modo que tendo, o senhor já a tivesse cedo.
O advogado enrugou as sobrancelhas. A ironia e a resignação lutaram
em seu olhar para definir o melhor método de inspeção. Ambas
combinadas acabaram sendo eficazes, porque Salinas baixou a vista e
começou a levantar pó com a ponta de seu sapato como se procurasse
cavar um poço onde se sepultar.
— Vamos ter de comunicar ao capitão Flores como andam as coisas no
correio e comunicações.
— O senhor pode avisar a Flores e a Somoza se quiser, doutor. O
problema não é dos correios, mas sim da revolução.
— Que revolução, homem. Tu achas que com uma bala aqui e outra ali
se faz uma revolução? Falta contar com o apoio do povo para vencer.
— De política não entendo — disse Salinas impaciente.
— Somoza vai governar a Nicarágua até o final do século XX.
Subitamente, o advogado avançou audaz sua mão direita e, agarrando o
queixo do carteiro, alçou-o e foi apalpando a textura de sua pele na curva
da queixada. Salinas agarrou-lhe pelo pulso e afastou a mão intrusa com
decisão.
— Homem — disse o doutor Rivas —, não me digas que te barbeaste
de uma vez. Tens a pele como teta de freira.
— Doutor — lhe disse Salinas —, não me diga que o que está
acontecendo nos tornou veados.
Os vizinhos que curioseavam na vereda defronte, haviam vindo
paulatinamente se aproximando.
— Quer dizer que não tens nada para mim? — concluiu Rivas
limpando a testa com um lenço.
— Não, doutor.
— Pois se tiveres algo, me avises.
Quando o doutor se virou, as mulheres lhe lançaram seus olhares como
cachorros emaranhando-se nas pernas dos donos. No primeiro degrau os
olhares fizeram com que tropeçasse e teve que firmar-se no marco da
porta para não dar de nariz no paralelepípedo. Salinas prosseguiu seu
caminho, fingindo um passo eficiente e se dispôs a cruzar o setor dos
ônibus rurais, bordear a estação, para enfiar-se por cima dos trilhos até a
avenida Debayle. Mas já na altura do Palácio Municipal pôde advertir que
nenhuma das anciãs senhoras, testemunhas do diálogo com Rivas, havia
abandonado suas costas. Com precaução de quem pressentia o que ia ver,
diminuiu o ritmo, deteve-se a poucos metros e deu rapidamente volta ao
pescoço. Entre meninos, desempregados, mendigos, velhas e aleijados
calculou que o seguia um grupo de vinte pessoas. Sem a menor
dissimulação, detiveram o passo como se o monolítico olhar do carteiro
lhes tivesse ordenado. Teve de mudar de ombro a bolsa, que
desacostumada com o trajeto começava a conspirar com o suor podendo
gerar uma futura chaga na omoplata. “É isso que levo, só uma carta”,
filosofou passando a língua pelos lábios atrozmente secos. Lamentou não
haver recolhido do galinheiro um antigo envelope para o salão de barbeiro
de don Chepe, onde as possibilidades de capturar uma cerveja gelada eram
cem por cento mais seguras.
Quando Salinas dobrou a esquina que o pôs direto na rua de Victoria,
pôde perceber sem necessidade de virar-se que às suas costas tinha
acumulado tantos acólitos que daria para organizar uma passeata ou uma
procissão. Vinham fofocando e pareciam dispostos a seguir os passos de
Salinas onde este os levasse, mesmo que fosse a pé para Manágua. O
carteiro sentiu que cada poro de sua pele estava obstruído pelo suor, um
pegajoso acento que enfatizava a raiva e crescia à medida que se
aproximava de seu destino. Finalmente a cólera o transbordou e, virando-
se, fez gestos para as pessoas espantando-as como se fossem frangos.
— Está bem então — gritou. — Agora vamos ver se se derramam um
pouco.
O séquito se deteve. Salinas voltou a fazer como se os estivesse
varrendo:
— Vão embora, pô. Que se não, denuncio-os para a Guarda.
— Por quê, ora, don? Que é que lhe fizemos? — perguntou uma velha
procurando apoio no resto do grupo de seguidores.
— Obstruir o caminho de um funcionário público — se precipitou.
— E como é que vamos obstruir se estamos indo por trás e o senhor na
frente?
— A correspondência é privada — disse com voz pomposa. —
Nenhum de vocês gostaria que manuseassem suas cartas.
— Pra começar nem sabíamos que levava carta.
— Não se mete vento dentro da bolsa.
— Pois não vê que andamos vendo vitrines — repôs a velha mostrando
sua bolsa de malha. As outras mulheres a imitaram, fixando a vista no
carteiro, de um certo modo a que chegasse em sua pele como bicadas.
— Galinhas — disse, o suficientemente baixo para que não ouvissem
e, virando-se, retomou a caminhada com um passo inverossímil para o
trópico. Em um minuto avançou quase dois quarteirões, distanciando-se do
enxame de velhas e desocupados que ficaram pilhando na esquina. Só os
meninos o haviam flanqueado dando saltos e fazendo acrobacias no ar.
Defronte da porta da casa de Victoria, temeu que em seu próximo salto o
coração lhe enchesse a boca. Pôs a mão no peito e cuidou de acalmar esse
cachorro descontrolado. Teve a espantosa sensação de que ele mesmo era
uma ducha que jorrava sobre o paralelepípedo esse líquido salobre.
Esfregou a manga contra a testa e, fazendo um esforço que lhe provocou
ardência até nas orelhas, bateu na porta da moça.
Como se seu punho estivesse ajustado com a aldraba, a figura de Vicky
iluminou o dintel. Salinas parou diante dela, tremendo perante esse sorriso
que parecia vir crescendo como uma catarata e perante essa língua
saborosa que veio pulsar com uma enlouquecedora gota de saliva seus
lábios sem batom.
— Cartas? — perguntou ela com sua voz rouca, talhada, cinzelada por
todo seu corpo.
— Carta — disse Salinas sem ouvir-se.
— Para mim? — disse a moça.
— Para ti.
— De quem? — perguntou a menina.
No meio do feitiço, Salinas trouxe a primeira sílaba do nome do rapaz
até seus lábios, mas censurou-se dobrando bruscamente o pescoço para a
terra.
— Este — disse.
A moça esperou até que o envelope lhe fosse entregue, mas Salinas
parecia ereto em sua posição como se ambos estivessem em um baile do
liceu e ele não fosse soltá-la até que o tema terminasse.
— Podes me entregá-la? — disse ela.
— Sim, claro.
Introduziu a mão na bolsa e não teve dificuldades para extrair a única
missiva entregue nos dois últimos meses. Depositou-a na palma dela.
— São boas notícias? — disse a moça.
O carteiro teve a certeza de que se alguém algum dia o obrigasse a
definir um bochorno, recordaria o rubro formigueio de sua cara nesse
momento.
— Estás incendiando! — exclamou a Vicky.
“É o calor”, quis dizer Salinas, mas não pôde formular as palavras.
— Entra para tomar uma cerveja — a moça o havia agarrado pela mão
e com força cordial atraiu-o para o interior. Uma vez ali os olhos
procuraram acomodar-se à sombra.
— Olá, Salinas — disse a voz de don Antonio.
— Boas tardes, don Antonio — replicou sem vê-lo, mas intuindo-o em
direção à esquerda.
— Venha tomar uma cerveja.
O contato com o copo frio foi um mastro em que sujeitar sua
hesitação. Bebeu um longo trago e depois trouxe a língua para recolher a
saliva aninhada nos lábios. Girou o líquido no copo como se se tratasse de
misturar gelo com uísque. Don Antonio apareceu cada vez mais nítido, e
com o frescor da bebida até o barulho da rua teve um timbre mais
agradável. Percebiam-se os passarinhos trinando entre os gritos de
crianças. Victoria havia-se aproximado com o envelope à janela e o
observava à contraluz, indo de seu sobrenome ao remetente e virando-o
para tentar ler o carimbo sobre o selo. Salinas terminou a cerveja
empurrando o copo até colocá-lo vertical sobre a linha de sua garganta e
golpeou-o na mesa ao depositá-lo.
— Obrigado, don Antonio — disse.
— Não ficas para bater um papo?
— Tenho de continuar com a distribuição.
Salinas foi até a moça e antes de lhe falar se deteve um segundo
degustando a tibiez de seu corpo. Sentiu um enjoo só em perceber como a
luz feita penugem desse raio de sol vinha pousar-se tão delicadamente no
lóbulo direito do ouvido da moça. Parecia-lhe uma leve túnica que o
incitava a atravessá-la e rasgá-la com os dentes para morder tênue essa
orelha que admirava desde o liceu, as festas adolescentes do bairro e as
matinês do cinema González, quando na disputada poltrona atrás dela se
concentrava com maior fervor sobre a deslizante curva de seu pescoço do
que nos passeios ciclísticos de Katharine Ross em Butch Cassidy e
Sundance Kid.
Prontamente o olhar de don Antonio havia crescido entre eles como
uma parede.
— Me acompanhas até a porta? — disse.
Victoria virou-se, pôs a carta no bolso da saia e, deixando sua mão ai
dentro, foi com o carteiro para a rua, trazendo os ombros para a frente com
um gesto que a Salinas pareceu-lhe deliciosamente coreográfico. Na
vereda os meninos se aproximaram e um puxou a saia da moça.
— Era para você? — perguntou com o olhar abrindo caminho
dificultosamente no meio da cara suja de terra.
A moça agarrou Salinas pelo cotovelo e o foi acompanhando no
caminho de volta ao escritório. O carteiro pôde perceber a perplexidade
das anciãs e desempregados que o haviam perseguido até aquelas
imediações. Procurou definir como se ia sentindo com essa presença
arrebatadora a seu lado. E subitamente, sem ser poeta, teve a imagem que
precisava sua emoção. Soube que a voz lhe sairia rápida como um
pintassilgo quando falasse:
— Me sinto como uma pipa vermelha que se cortou o fio e que vai
voando lá pelo céu — disse engolindo a saliva.
— Você também deu para falar esquisito — repôs a Vicky abarcando
com o olhar o espaço, dizendo ao vento, ao sol, às árvores, às pessoas, aqui
estou eu com vocês, sou de vocês, gosto como são, gosto de mim como
sou gostando de vocês, gosto que vocês gostem de mim, gosto, me
encanta, me fascina andar de braço dado com Salinas pela rua, gosto da
curiosidade das velhas que torcem a vista para dissimular que estão nos
estripando.
— Sublime — lhe disse.
— Te peço um favor — interrompeu o carteiro — chama-me pelo meu
sobrenome.
A moça pôs o cabelo em cima do ombro do carteiro e andou um trecho
assim, com o olhar divertidamente diagonal sobre os paralelepípedos.
Salinas teve a sensação de que se nesse momento fosse intimado por um
alto tribunal para sentenciar qual era seu conceito de glória, responderia
com a presteza da celagem: “Isto”.
— Sali? — murmurou a menina.
— Vicky? — repôs, untando com devoção o ar nessas duas sílabas.
— Se as coisas mudarem neste país...
Salinas olhou às suas costas e o caminho defronte. A moça observou
seus movimentos, fez uma pausa e prosseguiu:
— Se as coisas mudarem neste país, você acha que me admitiriam de
volta na universidade?
O carteiro assentiu com ênfase. Pela primeira vez as palavras
chegaram aos seus lábios antes que o estupor. Uma nova coragem o levou
a calçar seu braço na cintura da moça, quando disse:
— Se Somoza cai, você será nomeada decano.
Vicky lançou uma gargalhada que lhe levantou os seios e Salinas
percebeu táctil esse tremor no braço com que lhe flanqueava as costelas.
Apertou-a um pouquinho mais e, sorrindo, lhe disse:
— Mas aconteça o que acontecer, não te cases.
— E por que não?
— Porque assim continuas sendo como és.
— Quer dizer como?
— Quer dizer, a namorada de todos nós.
CAPÍTULO VIII

A CLIENTELA de don Chepe não havia diminuído nem sequer durante a


insurreição de setembro, quando tesourou com perícia de cirurgião em
torno de cinquenta melenas “Travolta”, setenta por cento delas a crédito.
Em outubro se fez presente a Guarda Nacional esgrimindo estatísticas
confidenciais (o repito) — que foram o tema de debate dessa noite no
balanceio das cadeiras de balanço nas alamedas —: alguns uniformes de
soldados somozistas haviam sido subtraídos da lavanderia dos quartéis e o
capitão Flores pedia ao senhor cabeleireiro ter por bem proporcionar a
essa alta comandância sobre aqueles jovens que durante os últimos tempos
— dias, horas, semanas — haviam optado pelo fresco corte militar para
amainar os rigores do eterno verão.
— Aqui, nenhum — disse don Chepe escandalizado, exibindo no
Cancionero Centroamericano as últimas fotos dos dois modelos populares
durante a insurreição e sequelas: comanche a Robert de Niro em Taxi
Driver (quatro casos), Travolta em Nos Tempos da Brilhantina (entre
quarenta e cinquenta) e empregado de banco (de sete a oito).
Uma semana mais tarde havia aparecido o próprio capitão Flores da
EEBI no frenético Chevrolet que dirigia o filho de don Antonio,
instalando-se em uma cadeira de vime ao fundo do salão enquanto o artista
das tesouras firuleteava uma mudança de rumo na cabeça de um garoto de
quinze anos até deixá-lo involuntariamente tosquiado a la sioux e não
crew cut segundo seu seco pedido. O capitão não aceitou ser raspado na
hora e, com democrático gesto, deu vênia para que o cabeleireiro
terminasse com seu paciente. Escrupuloso, pegou as gordurosas edições de
Continental e Vanidades e não levantou a vista até que foi convocado à
cadeira pela reverência operosa de don Chepe que despachava
simultaneamente o índio mais curioso da comarca e desinfetava o
barbeador com um litro de ostentoso álcool. Um passeio de vista pelo
local revelou a Flores que o resto da clientela se havia aberto como um
fole desvencilhado. Acedeu até a cadeira oficial e pôs o quepe sobre os
próprios joelhos permitindo que seu fresco corte americano luzisse tão
brilhante quanto impecável. Esse foi o momento em que o barbeiro
pressentiu que se o médico o atasse com o aparelho para medir a pressão
sanguínea, este explodiria como um vulgar balão de aniversário. O capitão
pôs de lado os mofados exemplares das revistas e fez mover para a
esquerda e direita a cadeira giratória. Depois impulsionou-se sobre o eixo
fazendo-a subir alguns centímetros com esse único esforço.
— A teia de aranha — sussurrou, afundando o queixo em suas
medalhas e ensartando o barbeiro com seus olhos.
Mais o instinto de sobrevivência que a urbanidade avisou a don Chepe
que deveria oferecer a seu inédito cliente o mais cordial e inocente de seus
sorrisos.
— Meu capitão?
— A teia de aranha — repetiu este.
Atônito, o barbeiro examinou a gasta mas pulcra superfície de sua
cadeira de trabalho e, ao não perceber nada estranho, percorreu com um
sorriso a meias-tintas entre a candura e o susto as bordas esquineiras do
local para ver que normas, talvez, da higiene pública, havia contrariado
com sua desídia.
— Capitão? — perguntou com voz pequenina.
O uniformizado havia agarrado o quepe de sua calça, o havia feito
dançar em volta de seu dedo indicador durante exatos dez segundos — o
tempo ritual que o juiz conta para o boxeador KO — e antes de sair do
salão para entrar em seu carro, disse:
— A teia de aranha, ora. Essa sua bodega é chamada de “a teia de
aranha”.
Don Chepe surgiu da bruma que levantou o carro ao partir e com olhos
ardentes de gasolina atravessou às cegas a rua rumo ao lar de Ignacio. A
porta, segundo o costume, estava livre e o jovem sustentava entre seus
cotovelos uma trança de lã que sua mãe ia enovelando. Sobre os joelhos do
jovem havia um toca-fitas a pilha e naquele momento soava com volume
discreto Flor de Pino por Carlos Mejía Godoy e os de Palacagüina.
Embebidos pela valsa, nenhum pareceu atender a intromissão do barbeiro,
mas este teve que corrigir essa ideia quando o jovem lhe disse sem olhar
para ele:
— Que te traz, hein?
— Esteve o capitão Flores na loja.
Don Chepe se reservou uma pausa tão arquejante quanto prometedora.
— Degolaste-o? — perguntou Ignacio coçando-se o nariz.
— É melhor que me escutes.
— Por que não se senta, hein — disse a mãe.
O barbeiro nem sequer ouviu o convite. Veio em direção ao jovem e,
ajoelhando-se, expôs-lhe em um murmúrio:
— Esteve um momento, leu umas revistas e logo depois foi embora.
Mas antes de sair, sabes que disse?
— O quê?
— A teia de aranha.
— A teia de aranha?
— Sim, ora. Disse-o duas vezes. E antes de subir no carro, virou o
quepe no indicador, como um redemoinho, me olhou até o tutano dos
ossos e disse para mim: “A teia de aranha. Essa sua bodega é chamada de a
teia de aranha.”
Com duas experientes sacudidelas dos punhos, Ignacio pôs fim à valsa
da lã e apertou a tecla que interromperia ao sonhador ritmo de García
Godoy.
— Tens algum dinheiro? — perguntou levantando-se.
O barbeiro, ainda de joelhos, coçou a orelha.
— Sim, ora. Por quê?
— Bem — disse o jovem —, voltes já à loja, baixa a cortina metálica e
vá para a casa de tua irmãzinha em Manágua. Melhor ainda se conheces
alguém em Miami.
A mãe pareceu ouvir o fundo estupor na sístole do barbeiro e insistiu
sorrindo:
— Tome assento, René.
Don Chepe apressou um “não, obrigado” e se deixou conduzir pelo
braço do garoto até a porta da rua.
— Sabes o que é uma metáfora?
— Saber, eu sei. Mas de sabê-lo bem, não sei — fez uma pausa. — É
perigoso?
— Uma metáfora é quando alguém quer dizer uma coisa por outra,
entende?
— Dá-me um exemplo.
— Bem. Se tu dizes “o céu está chorando”, o que é que queres dizer?
— Cara! Que chove, ora!
— E se te dizem que tua bodega é chamada de a teia de aranha, que
querem dizer então?
Don Chepe se deixou consumir pela perplexidade. Sua mandíbula
havia caído. Era um sinal de interrogação quase físico o que lhe pendia do
queixo. Comparado com ele, uma parede pareceria mais lúcida.
— Não, ora. Não adivinho.
Sem afrouxar o cotovelo do barbeiro, Ignacio o trouxe até a vereda.
— É chamada de a teia de aranha porque aí caem todas as moscas.
Passaram dois carros saltando sobre os paralelepípedos antes que don
Chepe recuperasse a fala. Um frio meticuloso se lhe foi abrindo desde a
coluna até a pele.
— Estás pálido — lhe comentou o rapaz.
— Se por fora estou pálido, por dentro ando lívido — disse o barbeiro,
ausentando com ar fúnebre a vista no ocaso da rua.
— Onde aprendeste esses adjetivos? — disse Ignacio, despertando-o
para que se mexesse.
— Em Darío, homem, em Darío.
O salão de barbeiro esteve fechado durante mês e meio. Don Chepe
sustentou tertúlias com sua irmã em Manágua, que ao terceiro dia
começaram a tornar-se intermináveis. Acostumado a uma variedade
arrebatada de interlocutores — pacientes, como don Antonio os chamava
— a reiterada língua da Matilde resultou-lhe soporífera. No quarto dia
esteve dando voltas pela cidade. Ao cair da tarde foram desatados os tiros
e o latido dos cachorros. Brotados da terra, caídos das árvores, dezenas de
sandinistas avançaram aos tiros rumo ao quartel. Respirou fundo três
vezes para prevenir o infarto e depressa virou para voltar para casa. Nem
bem havia dobrado a primeira esquina, quando viu vir um Sherman da
Guarda Nacional que lhe pareceu com o canhão erecto apontando sua
precisa testa. Sem dar um passo, absurdamente protegido por seu próprio
terror, foi testemunha do tanque transmontando uma barreira e, com uma
severa emissão de faíscas e estrondos, que com mais alvoroço do que
pontaria, fez em frangalhos o frontispício de uma fábrica têxtil. No
segundo seguinte, passou a um metro dele — “roçando-me”, contaria mais
tarde — a bala de um guerrilheiro que de algum telhado tentava distrair os
objetivos do Sherman. Meteu-se no saguão de uma casa e, de cócoras, quis
esperar que o fogo cessasse. Ao cabo de meia hora se havia convencido de
que a ação ia durar mais do que o previsto e, colado aos muros,
incursionando pelos estreitos dintéis durante os episódios mais estridentes,
correu com as artérias incendiadas de volta à casa de Matilde. Quando se
jogou arquejante no sofá de vime exigindo de sua irmã um modesto gole
de guaro e esta — gabando-se — lhe recordou que era abstêmia, decidiu
que no dia seguinte voltaria para León.
— Lá me disparam metáforas, mas aqui são balas — foi a insone
conclusão de seus silogismos.
CAPÍTULO IX

ENQUANTO SEU pai percorria a nave da igreja San Juan de Dios


castigando os ladrilhos, Agustín se pôs sob um dos ventiladores que do
teto ruminavam sua derrota frente ao pegajoso calor. Mais que refrescar, a
brisa confundia os aromas de flores murchas, velas, madeiras, hábitos e
incenso. Acostumado às modernas simetrias do quartel, chamou-lhe a
atenção que cada um dos quatro enormes abanicos tivesse uma forma e
estilo diferente. “Assim se faz tudo na Nicarágua”, lhe dissera uma vez o
capitão. “Nossa grandeza foi conseguida de pequenas coisas. Juntando
anões com pigmeus fizemos um exército. E com um bom exército um
governo forte.” Antonio impaciente foi até o confessionário e bateu na
janelinha do lado livre. O padre desfez sua postura sobre o flanco onde
confessava a mulher jovem ineditamente perfumada, lamentando
abandonar esses prolegômenos que até o momento da interrupção
poderiam ser perfeitamente tanto um atentado contra a Guarda Nacional
como um adultério e, com enfado, abriu a portinhola oposta a essa caixa
de ingenuidades e escândalos que devia administrar, autoaplicando-se
temperança cada dia para vencer o tédio e a sonolência. Um dia, quando
don Chepe veio confessar que se havia permitido conservar a carteira de
um cliente deslizada sobre a cadeira de sua loja, o havia cortado com
roncante respiração através da treliça: “Faze-me o favor, don Chepe, se
não tem nada de interessante que confessar, invente-me algo que estou que
caio de sono”.
— Que queres? — disse a Antonio.
— Falar consigo, ora, padre Pedro.
— Reze alguns Pais Nossos que não demoro — disse e, abrindo a
fenda do lado esquerdo, deixou-se banhar pela louçania desse aroma que o
colocava outra vez na tensão dos antecedentes como a música ambiental
de um filme.
— Idiay? — convidou a dama, suspirando fundamente seu odor.
Antonio, indo até o centro da nave, esgaravatou uma vez mais em
direção ao confessionário e, com renovada impaciência, se deixou cair no
extremo da fileira de bancos. Então foi Agustín quem foi espreitar o
confessionário, e com o ouvido meio alerta ao sussurro da mulher estudou
a estatueta de Santo Antônio tentando entender o que representava esse
homem de hábito marrom com um menino no braço, outro a seus pés em
atitude de suplicar-lhe, e ele mesmo, ausente de ambos, cravando o olhar
através da caixa de vidro sobre o casual visitante. Abaixo havia um cartaz
com letras que sua irmã havia ensinado a chamar de gótica (“Com esta
caligrafia vou escrever minhas receitas, não serei como os outros dentistas
que confundem as aspirinas com os elefantes”) e uma flecha em direção à
porta de saída que indicava: “Cursilhos da Cristandade, secretariado”.
Esteve alguns minutos ali, entretido com o pestanejar dessas velas que as
solteironas haviam oferendado para ganhar os ofícios celestiais do amável
santo.
Quando a dama de aroma distinto terminou de confessar-se, o padre
Pedro não pôde resistir a assomar-se e formar-se ainda que fosse uma
minguada imagem de seu deslocamento. Antonio atravessou seu campo
visual fazendo-lhe sinais, como quem despede um navio no porto.
Resignado, o padre abandonou a cabine, dobrando seu punho sacramental
— o babadouro, o chamava — e avançou com energia até o homem. Este,
alerta à investida, desviou a atenção do padre esgrimindo um tenso
indicador para o filho. Perplexo, Agustín pôde ver que a energia do
sacerdote não se mitigava em absoluto quando esteve tão próximo a ele
que a saia de sua batina lhe roçou o sapato.
— Que está acontecendo contigo?
Agustín se encolheu de ombros e espreitou pelo costado da orelha do
padre Antonio que os vigiava distante.
— O velho me trouxe.
— Idiay?
Virando o pescoço, o padre fez um gesto a Antonio para que falasse.
— Este moleque está como soldado de Somoza.
— Cale-se! — gritou-lhe o padre. Deu uma rápida volta circular sobre
o âmbito da igreja. — Cale-se — repetiu mais tranquilo.
Acomodou a batina, puxando-a pelo peito e agitou a saia tomando ar
nas entrepernas. Depois agarrou Agustín pelo cotovelo e o foi
transportando pela débil nave central rumo ao púlpito.
— Que estás fazendo metido aí, seu cagão — soprou-lhe na orelha.
— O velho não entende, padre. Eu não estou na repressão. No ano que
vem vão me mandar para estudar nos Estados Unidos e ai...
— Aí você vai tirar um doutorado em pentelho!
Agustín resistiu aos impulsos do padre, como uma das pilastras de
gesso ou as vigas de madeira que se cruzavam na abóbada. Imaginou o
padre como um desses boxeadores panamenhos de fôlego escasso e
nervoso punch que buscam o KO no primeiro round. Deu volta no pescoço
e pôde ver seu pai espreitante, parado a alguns metros, na mesma distância
que as damas de honra costumam carregar o véu da noiva nos casamentos.
— Qual é o problema, rapaz — disse o padre, empurrando-o um pouco
para o altar, até que a rigidez de Agustín cedeu em parte e aceitou seguir
caminho.
— Eu estou bem na Escola, padre. Sou o único da família que traz
dinheiro para casa, o senhor sabe?
— Não sabia, ora.
— E agora...
O padre se deteve esperando a continuação das palavras. Agustín
esfregou a testa e quis unir ambas as sobrancelhas pressionando-as para o
tabique do nariz.
— Agora quer que deserte — afirmou e penetrou decididamente com
seu olhar os olhos cinzas do sacerdote. Este lhe pareceu distante e
incomovível como um veleiro visto da praia.
— E que estás esperando? — disse finalmente. — Ou será que gostas
de uniformes, de medalhas e de todas essas baboseiras?
O jovem se desfez da mão do sacerdote que ainda aferrava seu
cotovelo. Falou-lhe com o queixo altaneiro:
— Padre, o senhor sabe o que significa desertar?
O padre acariciou-se a munheca do braço rechaçado e apertou o
cotovelo do menino sem vislumbre de delicadeza. Agustín se sentiu no ar,
até que se detiveram atrás do altar. Ali o sacerdote levantou a cortina que
com grossas franjas douradas fechava a mesa de oferendas e, como nas
aparições dos sonhos, surgiu ajoelhado Ignacio com o Garand apontando
para eles. O padre manteve o cortinado no alto, o olhar superior de
comerciante turco que exibe sua mercadoria e, com o queixo e
sobrancelhas levantados, exigiu um comentário do rapaz. Ao perceber que
Agustín empalidecia, deixou cair o grave tecido púrpura e disse, olhando
para ele por cima do ombro:
— Que calor, não?
Arejou outra vez as coxas com a batina, com um gesto que o atônito
Agustín já chegava a definir como característico, e foi com um ritmo
mordaz em direção ao pai. Ali encolheu os ombros e, permitindo-se um
leve olhar à retaguarda, apontou com o queixo para Agustín, quase dizendo
“aí o tem, dou-lhe de presente”.
Agustín tomou o rumo da pia de água benta, a nuca dobrada por
embriões de ideias, de gestos, de sílabas e nomes contra os quais tropeçava
como com móveis em um quarto escuro.
— Bem? — disse Antonio.
Intuindo que se mantinha a vista em seu progenitor a mais breve
fração de tempo — o que demora uma espada em espedaçar um coração, o
que demora um balão em rebentar sob a unha de uma criança, o espaço que
medeia entre a picada da rosa e o sangue no polegar — as lágrimas o
cobririam inoportunas, refugiou-se em suas mãos ásperas e, sem olhar
para o homem, disse:
— Tenho de pensá-lo, velho.
Don Antonio pôs as mãos nos bolsos de sua jaqueta de linho e saiu do
templo. Sem prestar atenção ao entorno, foi avançando pela Rua 1 até
dobrar a esquina.
CAPÍTULO X

AMOR, AMOR, AMOR. Ajuda-me a dizer amor!


Penso em você. Todas as coisas convergem para você. Você é algo fino
e transparente que envolve minha vida. Você é como uma música, me
segue por todas as partes. Lembro-me dos bailes do colégio e vejo minha
cabeça apoiada em sua face, incapaz de dizer-me uma palavra, emudecido
de amor por você. Amor, amor, ajuda-me a dizer amor. Ontem à noite ouvi
a rádio Reloj com meu transmissor colado à orelha enquanto os
companheiros se dedicavam a olhar as estrelas. Tocaram temas bem
velhos. Velhinhos, mas bons, disse o locutor: Tu serás meu baby, El
cacharrito, Carta fatal, Venecia sin ti. As músicas que seu pai gostava e
que ouvíamos do pátio de sua casa quando eu visitava você e ele
consertava o mimeógrafo que você “tomou emprestado” da Escola de
Odontologia. Como vão seus estudos, rainha? Eu sempre falando para você
de coisas encarameladas, do que sinto aqui, do que sofro lá, e nunca lhe
pergunto sobre as coisas práticas. Você reparou como o mundo agora anda
ao revés? Ao vésre, como dizia o Ché. Acontece que você é a prática e eu o
romântico. Quando vencermos, não sei como é que vou manter-me. Dizem
os companheiros que o problema do desemprego não conseguiremos
resolver de um ano para o outro e nem sequer em um lustro. Uma saída
seria fazer-me militar. Dizem que vão dissolver a Guarda e formar um
Exército Sandinista. Nós seremos o exército oficial da Nicarágua! Imagine
só: em nosso grupo temos um comandante de quinze anos. Muitos
passaram de encumear barriletes e enrolar a piola do peão para a guerra.
Mas eu não vou ficar no exército. Nem mesmo que me nomeiem general.
Fico por aqui até que Somoza vá embora e mais tarde gostaria de voltar
para a universidade. Não sei se para estudar, porque quando penso na
universidade a única coisa que vejo é o café da Faculdade. Gostaria de
passar o resto da vida sentado em uma mesa do café fumando tabaco
negro, olhando como você joga o cabelo para trás com sua mão sem anéis,
sem pulseiras, suas unhas sem pintar e no entanto você toda tão luminosa,
aí ao lado do café aguado do cassino, do triste pão que você mordia e que
eu o fazia em migalhas para golpeá-las com a unha contra a palma de
minha mão, aguardando uma palavra inspirada que seduzisse você, uma
expressão de meu corpo que lhe fosse atraente, até que o recreio se
esfumasse com o calor da xícara, você voltasse para a Fisiologia, para a
Psicologia Geral, para a Estatística e eu, ora, livrasse de minha presença o
professor de Direito Romano, o de Economia Política, o de Constituição e
ficasse conspirando com os rapazes no bar. Você se lembra que seu pai me
chamava de revolucionário de café? Gostaria de ver sua cara agora! Me
diz aqui uma coisa, que é que seu pai vai dizer quando souber que me
dependuro como um macaco das montanhas. Você já pode contar para ele
que estive na ocupação de Masaya em setembro. Já disse isso em minha
carta anterior? Ao menos chegou a você minha carta anterior? Ontem,
pensava: se não recebeu, que culpa ela tem? É que estava chateado com
você. De bobo que sou. Se você quisesse me responder, para qual
endereço? Para que o saibas e possas responder-me agora mesmo, te o
dou: “Sargento Poeta Leonel, imediações de Granada, Serra de Nindirí,
debaixo da Via-láctea, direção diagonal à Estrela-d’alva, a cinco metros de
um ninho de quetçales ao que parece chegados do lhano de Ochomogo, e
entre dois matagais que cochicham quando sopra o vento.”
Quando vencermos Agora que o escrevo de novo, me dou conta de que
é a frase que mais usamos. Deveria haver um mês que se chamasse assim.
Imagina só! Novembro, dezembro. Quando vencermos.
Não é fácil a vida aqui. Sei que em León a Guarda torna a vida de
vocês impossível. Não é fácil nem aqui nem lá, hein. Faz um mês que
chegou um menino de Subtiaba. Demasiado jovem para que o conheças.
Diz que escapou de uma procura. Tiraram todos os rapazes maiores de
quinze anos para Guadalupe e os mataram em um paredão do cemitério.
Seu velho lhe disse que viesse. Que fosse embora para aqui e que nos
procurasse, hein. Esquisito, não? É mais possível sobreviver lutando
contra Somoza do que esperando que chegue a Guarda Nacional para te
matar em casa. Te contei que em Masaya entraram em setembro arrasando
com a população? É que aí todo mundo é da Frente. Não só nós. Em
Masaya nos diziam “somos sandinistas embora a Frente não o queira”.
Nos deixaram tomar posições em cada canto da cidade. Em meio aos
disparos nos traziam aipim frito ou uma limonada. No domingo pela
manhã atacamos o quartel onde estava concentrada a Guarda Nacional e
nesse meio-tempo as pessoas do povoado se organizaram para deter os
veículos que vinham em direção à cidade. Na noite desse domingo acabou
a luz. Se a luz acabou, na certa que a água também vai acabar, disseram.
Encheram os baldes, as panelas e as banheiras. No dia seguinte não havia
água, mas nós a tínhamos. Sabiam eles mais de táticas que os militares.
Quando atiraram em cima da gente todo o arsenal, tivemos que nos retirar.
Os jovens foram embora conosco, mas os velhos ficaram. O que irá
acontecer conosco?, disseram. Mas trouxeram contra os anciãos e
mulheres cinco helicópteros, tanquetas e metralhadoras. Queimaram todo
o comércio. Mataram cerca de quinhentas pessoas.
O comandante me disse: “Se você gosta de escrever, pois então leve a
lista dos que vão tombando”.
Quando vencermos... Quando vencermos eu terei de escrever a seus
familiares, averiguar seus nomes verdadeiros e seus endereços, escarvar
suas cidades natais. Às vezes anoto algum traço na pele, algum lunar na
cara, uma cicatriz no pescoço. Mas esses são os companheiros que olho
com meus próprios olhos. De outros, me contam. Chamava-se Miguel, me
dizem. Dizia que era de Masaya, mas talvez se diziam que era de Masaya é
que era de Rivas. Aqui todos são superclandestinos. Quando vencermos,
irei embora do exército. Não sirvo para isso, Vicky. No meio das ações,
nem me lembro de meu nome, não sei como atravesso uma rua de cócoras
sob o fogo denso de metralhadoras. Não chego a sentir medo porque tudo
me agarra em um turbilhão. É a mesma coisa que se estivesse com os
rapazes metido em uma mesma onda estalando sobre as rochas, levando de
roldão tudo pela frente. O que me dói é isto. Pelas noites, com minha
caderneta de defuntos, e entre eles, meus poemas que não se acabam a não
ser quando o dia também borra as estrelas. Trato de escrever as coisas tal
como me vão chegando. Não quero usar ornamentos, retortas, metaforões
nem símbolos esquisitos. Gostaria que as palavras estivessem tão natural
nas páginas como a arma nas mãos dos companheiros, como a umidade em
teus lábios. Gosto de como escreve o padre Cardenal que de tudo faz
poema: até a palavra Somoza soa quando ele a agarra, e os cartazes da
Esso, e as propagandas da Kodak. Aqui não temos muitas coisas: o que
mais há é barro. É todo o tempo como se Deus tivesse acabado de nos
soprar. Se escrevesse um poema realista, teria de usar a palavra serpente, a
palavra lagarto, porque é assim que nos arrastamos. Usaria muito a
palavra pássaro, mas em León nunca as ouvi. Não sei diferençar nem aos
chorrilhos do martim-pescador ou do cachá. Os rapazes da zona, em
compensação, em qualquer pedaço de erva se sentem em casa. É como se
odiassem as paredes. Já as ruas dos povoados os asfixiam.
Sabes o que gostaria de ter agora?
Um espelho.
Juro como já nem me lembro de como era. Você guarda alguma
lembrança de mim? Alguma vez gostou de alguma coisa de minha
personalidade? De minha cara? Lembro-me que você deixava ser beijada
de olhos fechados, e quando eu aos tapas com as palavras elogiava na sua
frente as pequenas unhas que brotavam de suas sandálias, você nunca me
disse nem uma coisa amável: você sempre foi tão prática? Não me entenda
mal. Eu não digo que você seja fria, porque ainda latem na ponta dos meus
dedos as pulsações dessa sua veia erguida em seu pescoço, e sua face em
chamas, e sua língua enrolando-se morna como uma ave entre meus
dentes. Mas você sempre era a sinopse de um grande filme que nunca se
exibia em nenhuma parte. Algumas vezes apalpei suas coxas, mas nunca
pude realmente acariciá-las. Você me fazia sentir que competia com a Via-
láctea inteira para estar a seu lado: com seus namorados de infância, com
os ajudantes da Faculdade, com seu irmão que lhe cuidava e que ao seu
lado mais parecia um guia de cego, com seu velho e seus sermões
sandinistas que demoravam mais do que a noite em apagar-se, com seus
livros de odontologia e suas placas de gesso que traficavas de uma aula
para a outra, metidas em tua bolsa de Masaya, entre sanduíches e sacos de
leite.
Que pensas de mim, Vicky? Por exemplo, se aparecesse magicamente
em seu quarto trazido por um sonho, você me agarraria lentamente pelo
pescoço com suas pequenas garras, tiraria seus breves braços do meio dos
lençóis e traria devagarzinho minha boca até seus lábios?
Poxa, esta noite corta a respiração!
Muito calor. Os pássaros se calaram. Ao meu lado o comandante fuma.
Os coiotes parecem falar-se com latidos longos. O teto de minha mansão
de ceibas me tapa a lua. Amanhã tentaremos avançar até Jinotepe.
Chegarão forças de outros lados. Algo grande se prepara. Beijo-te
subitamente triste e muito só apesar de tudo.
CAPÍTULO XI

DON CHEPE conta que Ignacio esteve três dias escondido no pátio
traseiro do salão de barbeiro, na casinha de ferramentas — em sua maior
parte, enferrujadas — até que lhe trouxeram a mosca de que teria de unir-
se aos rapazes na frente de Chinandega.
O padre havia confessado em interrogatório que o tal cidadão Ignacio
Ortega havia deixado de concorrer ao seu templo fazia aproximadamente
três anos, quando foi endemoniado pelas ideias do sandino-comunismo.
Nas atas do sargento Cifuentes — que lhe disse “perdão, padre”, quando
apagava o cigarro no dorso da mão direita — consta que o sacerdote Pedro
Muzuraga ouviu em seu ofício de confessor ideias adversas ao governo,
mas que nunca — sem perjúrio — ouviu de nenhum dos fiéis de sua
paróquia que tivesse participado em atentados terroristas e que se inclina a
acreditar que estes são perpetrados por elementos alheios à idiossincrasia
do povo, presumivelmente castros-andino-comunistas.
O capitão Flores foi encarregado pelo Chigüin de estabelecer mão dura
e disciplina na culta cidade de León e, sendo possível, de capturar um tal
de Ignacio Ortega, pois é possível que não só tenha informação sobre a
insurreição dos leonenses, mas também — segundo sua orelha de
fidelidade acreditada — que seja o contato com a frente de Chinandega.
Salinas, de nome Sublime, profissão carteiro, natural de León,
confessou à ex-estudante de Odontologia, Vicky Menor, que desde havia
aproximadamente duas semanas Ignacio Ortega não visitava seu despacho
nos correios, e que o advogado Rivas — declarado orelha do regime — lhe
havia perguntado, olhando-o durante um longo, mas muito longo momento
nos olhos, se o tal de Ignacio Ortega havia deixado de vir ao correio e que
em seu juízo qual poderia ser o possível motivo se o houvesse.
O major Anastasio Somoza — apelidado Chigüin — se fez presente no
próprio Teatro Municipal e, acompanhado pelo capitão Flores, avançaram
até o grifo onde se sabe foi detonada a bomba que voou o jipe da Guarda
Nacional ocasionando a baixa de três leais oficiais do Regime. O major
Chigüin encareceu ao capitão Flores diante da tropa que os protegia com
seus Garands a captura de todo jovem maior de treze anos ao qual
coubesse a mais leve suspeita de colaboração com o sandino-comunismo
e, em caso de confirmar-se a dúvida, sua imediata execução na porta de
seu respectivo domicílio. Com tom altaneiro que fez enrubescer a tensa
jugular do capitão Flores, o Chigüin lhe teria recordado que desde que lhe
encarregara a captura de Ignacio Ortega, o outrora eficiente capitão Flores
não havia produzido as novidades ansiadas. “Quando escreveres a tua
família, envie-lhes meus cumprimentos, hein”, concluiu com um brilho
maligno que cortou a respiração do capitão.
Segundo Myriam Herrera Pérez, irmã de Marta Herrera Pérez, ex-Miss
León, juvenil e simpática personalidade, o jovem Ignacio Ortega não se
conta no seleto círculo de suas amizades e mal poderia haver-lhe dado
alojamento na casa de sua senhora mãe como se diz, se conta e se afirma.
Presente a Guarda Nacional no domicílio da senhorita Myriam não se
encontraram evidências da presença na casa de seres do sexo masculino.
Só cartas sentimentais do cidadão Tico Antonio Iglesias, mas dirigidas a
Marta e não à sobredita Myriam.
Um civil avizinhado discretamente ao domicílio de dona Edelmira,
viúva de Ortega, mãe do suspeito Ignacio Ortega, informa que de acordo
com seus diálogos com a citada pôde declarar à chefatura de León o
seguinte: que a senhora Ortega ignora onde está seu filho Ignacio, de 20
anos, que ignora também onde estão seus filhos Ramón, de 18, Ernesto, de
17, César, de 15, e Daniel, de 14 — mas que presume podem encontrar-se
em algum lugar do território nicaraguense, provavelmente em Manágua, já
que ali têm familiares. Consultada sobre o endereço de ditos parentes,
declara haver esquecido. Atribui esta amnésia à sua idade avançada, já que
segundo afirma começou a parir demasiado tarde. Este informante
constata que não há outro habitante na casa ao qual recorrer para obter os
dados requeridos em nenhuma das modalidades que assinala o formulário.
Uma rápida inspeção visual das habitações, não obstante, permite concluir
que ditos jovens viveram naquela casa até coisa de uma semana, pois não
há atmosfera de habitação longamente abandonada. No quarto do suspeito
Ignacio Ortega não se encontrava material de leitura contraditório com os
interesses do estado democrático. Mas não escapou a este funcionário o
fato de que em capas de discos clássicos de Brahms, Mozart e Mantovani
encontraram-se gravações dos conjuntos chilenos Quilapayún, Intillimani,
e um long-play completo com títulos sandino-comunistas do nicaraguense
Carlos Mejía Godoy e os de Palacagüina. Estes fatos não permitem
concluir diretamente que o jovem Ignacio Ortega tenha sido o autor do
atentado a bomba que custou a vida de três funcionários da Guarda
Nacional e a perda irremediável de um jipe equipado com moderno
sistema de rádio, mas são indícios suficientes para afirmar que: a) o jovem
Ortega, por suas afinidades musicais, poderia chegar a cometer um ato
criminoso e talvez já o tenha cometido, b) o jovem Ortega desapareceu de
seu lar mais ou menos — para não dizer “exatamente” — no dia em que o
lutuoso atentado terrorista comoveu o povo de León, c) que o resto da
família — constituída por outros quatro jovens em idade crítica — em
parecida data fez abandono do seio materno temeroso das possíveis
represálias contra eles antes ou depois desta diligência. Método:
recomenda-se submeter a interrogatório — e em caso propício à prisão —
a todo jovem maior de 15 anos que pudesse ter oculto a um membro da
família Ortega em seu domicílio. Este servidor estima que, encontrando-se
a um deles, pelos evidentes laços ideológicos e carnais que os unem, não
se tardaria em encontrar o resto deles. Com relação ao tratamento especial
a dona Edelmira, o abaixo-assinado informante o desaconselha pela visível
avançada idade da mulher e por sua enfermidade que em suas próprias
palavras consiste em: uma opromissão aqui no peito, que me aturruga a
respiração. Consultado o médico de bem-estar deste serviço, afirma que
não é possível determinar só com este antecedente a enfermidade da
paciente, mas recomenda abster-se também de tratamentos especiais já
que a sobredita “opromissão” pode ser desde uma dispneia dolorosa por
traumatórax, ou uma pleurisia, passando por transtornos bulbares, uremia,
constipação pertinaz, até hepatite. Sem outro particular, cumprimenta
atentamente a Sua Senhoria,
Minolta.

Segundo os croquis adjuntos que se estendem para baixo até a divisa


Paraíso, Cemitério Guadalupe, e para cima até a igreja de San Sebastián,
por onde se viu fugir o jovem causante do atentado, cabem só as
possibilidades de que este tivesse se ocultado em uma das casas
compreendidas entre ambos os setores ou que tivesse buscado refúgio em
algum lugar secreto do cemitério. As patrulhas informam que houve
inspeção minuciosa de todas as habitações eventualmente implicadas
minutos — para não dizer segundos — depois de ocorrido o fato lutuoso,
sem que esta arrojasse o menor resultado. Cabe apontar que se aplicou
aqui também a drástica medida de fuzilar um jovem na porta de sua casa
seguindo ao pé da letra as instruções emanadas do estado de sítio. Apesar
de que este incidente não mudou a indisposição da vizinhança a colaborar,
não se extremou a medida para não castigar em excesso a um setor social
onde contamos com uma minoria que nos apoia e que poderia, por razões
sentimentais, afastar-se de nossa causa. A hipótese dois, que concerne a
um eventual refúgio no cemitério, foi rechaçada por unanimidade por
todos os oficiais que intervieram na operação, já que tendo sido usado e
abusado por elementos terroristas no passado imediato, depois do
corretivo exemplar aplicado há escassos meses, deixou de ser lugar seguro
mesmo que fosse para esconderijos esporádicos.
O civil Jorge Alfaro encontrou em uma das operações de busca um
mapa de León onde o trecho que vai desde a Catedral até mais além do
Comando aparece descrito com minuciosidade caligráfica.
Surpreendentemente se fixa a altura dos edifícios, desde o cinema
González até a Penitenciária 21. O civil Alfaro atribui, primeiro, ao acaso
o haver remexido em um rolo desse tipo, e segundo, a certa intuição —
que não consegue precisar — o fato de fazer chegar o dito mapa à Alta
Comandância para que se faça cargo dele, se a Alta Comandância o estima
procedente. O civil Alfaro, tomando uma espontânea iniciativa que este
departamento esteve prestes a agradecer, se fez presente uma vez mais na
casa onde fora achado o curioso mapa para procurar obter informação
adicional sobre o objeto de autos. O imóvel pertence a don Salvador
Ramírez, antigo habitante desta localidade e pai de Plutarco Ramírez, de
profissão bombeiro, conhecido no bairro como D’Artagnan, nome que não
tem relação com apelidos clandestinos, mas sim que define seu
extravagante bigode que mais recorda o pintor surrealista Dali ou o
mosqueteiro homônimo. A conversa com o senhor Ramírez transcorreu
plácida e não houve em sua voz sobressalto quando o civil Alfaro
perguntou abruptamente sobre a função da planta da cidade de León que
procedeu a desenrolar da fita elástica que o oprimia. O senhor Ramírez
admirou a caligrafia e finura do traço, concluindo, sem que fosse
pressionado a isso, que tal mapa não poderia provir senão que da dotada
mão de seu filho, o dito bombeiro Plutarco Ramírez. Convidado
cortesmente, o senhor Ramírez, a julgar por que seu filho teria um tão
preciso mapa — autoconfeccionado — da cidade, limitou-se a responder
que desde pequeno Plutarco havia mostrado marcada predileção pela
geografia, obtendo a mais alta qualificação em dita matéria. Com ternura
— que ao licenciado Alfaro não pareceu fingida — evocou os tempos do
primário de seu filho e em especial como suas modestas mesadas eram
consumidas em réguas, compassos, esquadros e lápis Faber Nº 2, com os
quais executava toda espécie de figuras geométricas. O diálogo foi
concluído quando ambos elogiaram uma vez mais a fina descrição da
cidade conseguida na planta de Plutarco. Como em si só já é suspeito que
um cidadão comum e corrente possua esse dom de observação e o plasme
em um documento cuja finalidade não parece esgotar-se em um simples
exercício de um talento geográfico-geométrico, o civil Alfaro sugere em
carta à chefatura — e ao capitão Flores da EEBI — que se investigue o
supracitado Plutarco Ramírez com toda a discrição do caso.
O senhor bombeiro, don Plutarco Ramírez, escreveu uma carta que
entregou pessoalmente — para evitar a greve dos correios — no Comando
da Guarda Nacional. O portador exigiu ser transportado pessoalmente até
alguém com autoridade, invocando sua categoria de bombeiro da pátria e a
seriedade do assunto que trazia. Comprazido em seus desejos, foi
conduzido até o gabinete do tenente dou Gonzalo Ebers. Ali manteve o
seguinte diálogo, que reconstituímos em versão gravada no aparelho
cassete Philips desta repartição:

SENHOR PLUTARCO RAMÍREZ (de agora em diante chamado para os


efeitos de transcrição de RAMÍREZ) : Senhor Tenente. Tenho algo grave
para denunciar e sendo eu homem de lábia parca, peço-lhe autorização
para ler em sua presença esta carta redatada com a ajuda de pessoas cultas
e de confiança.
SENHOR TENENTE DON GONZALO EBERS (de agora em diante
chamado para os efeitos de transcrição TENENTE EBERS): É muito
longa?
RAMÍREZ: Uma página.
TENENTE EBERS: Leia a carta então.
RAMÍREZ: “Cidade de León, 25 de maio...”
TENENTE EBERS: Isso você pode saltar.
RAMÍREZ: É que...
TENENTE EBERS: Diga etcétera.
RAMÍREZ: “Senhor Tenente. Venho denunciar que em meu local de
trabalho da companhia de bombeiros, localizada...”
TENENTE EBERS: ... ao lado da praça. Isso você pode saltar.
RAMÍREZ: “Este... patati, patatá... se fez presente uma patrulha da Guarda
Nacional, portando a planta de um setor da cidade de León, cuja
paternidade me pediram para admitir com tom já não altaneiro, mas sim
diretamente ameaçador. Eu expressei aos senhores soldados, do modo mais
cordial, que com efeito este mapa provinha de minhas mãos e que
inconveniente viam os senhores soldados nele. Depois de um momento
que me pareceu de confusão, como se os senhores soldados não soubessem
que mais perguntar, ou como se ignorassem o sentido de sua visita, um
deles me tomou pelo braço esquerdo e, aplicando-me uma dolorosa chave,
me fez ficar de joelhos sobre o piso entre ambos os carros, enquanto
gritava (peço perdão pelas palavras) : ‘Já te fodeste, sacana. Agora vais
confessar para que fizeste este mapa’. Em meio à dor e humilhação que
semelhante tratamento me provocou, só atinei a me queixar sem que me
saísse nenhuma palavra. Os senhores soldados, interpretando talvez este
gesto como um silêncio obstinado de quem algo oculta, proporcionaram-
me pontapés e golpes com os punhos que me causaram fortes danos. Ao
ser golpeado, inclusive nos testículos, perdi por momentos a consciência.
Ao despertar, os senhores soldados me puseram em uma cadeira e
reiteraram suas perguntas, esta vez em tom amável, e eu diria com
arrependimento. Mas os golpes já haviam sido dados e esses não podiam
arrepender-se nem deixavam de doer-me. Já tratado como gente, pois,
respondi a única coisa que havia que responder, e que respondo perante o
senhor, senhor tenente: desenhei a planta deste setor do povoado com toda
minuciosidade porque sou um perfeccionista. Meu ofício de bombeiro
quero cumpri-lo com todo rigor. Assim como o senhor anseia pelo bem da
pátria chegar a General, a mim me agradaria ser um dia Comandante Geral
da Companhia e o melhor estrategista na luta contra o fogo. Em dita
perspectiva, enriqueço minha cultura profissional hora após hora
explorando cada trecho do território a meu cargo. No caso de algum dia
estalar um sinistro — como tantas vezes aconteceu nos atentados sandino-
comunistas ou nas réplicas patrióticas da Guarda Nacional —, conhecerei
os pontos sensíveis como a palma de minha mão. Sei, por exemplo, que
altura tem o Seguro Social e qual jogo de escadas é o mais efetivo. Sei
quais edifícios estão feitos de matéria combustível e quais de concreto em
caso de ter que decidir urgentemente prioridade. Etcétera, etcétera,
etcétera. Este zelo profissional, senhor tenente, que em qualquer lugar do
mundo seria estimulado e recompensado com medalhas, ascensão de grau
e aumentos de soldo, aqui na Nicarágua merece suspeita, constrangimento
e violência sobre o corpo e a alma do funcionário. Mais dói, quando esta
agressão provém de colegas uniformizados, que como eu deveriam fazer
da disciplina e do sentido de justiça um culto. Sem outro particular,
solicito respeitosamente desta Chefatura da Guarda Nacional que se me
exima de suspeitas e interrogatórios brutais e que na medida do possível
os feitores deste atentado se desculpem perante minha pessoa e perante a
de meu senhor pai, que curou minhas feridas como viúvo que é. Não peço
castigo para eles, porque não sou homem rancoroso, mas aproveito a
ocasião para mandar uma duplicata desta carta à Comandância General do
Corpo de Bombeiros com o objetivo de que sejam reconhecidos os meus
méritos, que se considere a triste realidade de meu soldo depois de seis
anos de serviço (anexo liquidação do mês de janeiro, já que fevereiro,
março, abril e maio ainda estão sem pagar), se proceda ao cancelamento
de meus honorários endividados e se coloque em estudos um reajuste que
me favoreça. Sem mais, cumprimenta respeitosamente, ao senhor,
Plutarco Ramírez.”
(PAUSA)
TENENTE EBERS: Está bem, pois. Vamos prestar atenção ao seu caso e
qualquer novidade que haja, lhe avisamos.
RAMÍREZ: Obrigado, tenente.
TENENTE EBERS: De nada, homem, de nada. Estamos aqui para lhe
servir, pois.
(FIM DA GRAVAÇÃO.)

O capitão Flores terminou de ler o material arquivado na carpeta de cor


rosa e esmagou a última folha com o tipo de golpe com que se mata um
mosquito. Pôs o dossiê junto a outros tantos e, apertando o tabique de seu
nariz entre a ponta dos dedos, agredindo o núcleo de sua nevralgia, disse
para ninguém:
— Esta guerra já perdemos, meu General.
CAPÍTULO XII

EMBORA FOSSE pleno dia e o sol caísse do céu irrepreensível, os


veículos militares entraram no bairro com suas luzes acesas. Mantiveram
a formação em fila, até que o primeiro se abriu embalando a vereda e o
espaçoso carro do capitão Flores passou a encabeçar o conjunto. Os
vizinhos, turbulentamente ancorados em suas casas, acabaram de cobrir as
janelas de cortinas estampadas e colocaram o ferrolho nas portas. O
capitão Flores freou diante da vivenda de Agustín e virou o volante
deixando o carro atravessado no paralelepípedo da rua. Assomando a
cabeça pela janelinha, quis discernir os ruídos da vizinhança. Sem descer,
exigiu com a chave do carro no alto que os jipes desligassem os motores.
Quando depois de algumas explosões se produziu a calma, o capitão pôde
jurar que se achava diante de um dos silêncios mais esquisitos que havia
conhecido, e tentou precisar seu matiz e seus riscos potenciais.
Ao sair do carro, saltaram também seus soldados com as armas
preparadas em uma manobra que pareceu aperfeiçoada em laboriosos
ensaios. Flores esfregou com lenço o cinzento suor de suas palmas,
dobrou-o com excesso de meticulosidade, colocou-o no bolso da jaqueta,
alisou o volume que a prenda lhe produziu no peito, como quem sacode
uma obstinada penugem do uniforme e, levantando o enérgico queixo,
ordenou:
— Agustín Menor!
Embora não tenha tirado a vista da casa, por resposta só conseguiu que
o já intenso silêncio se aperfeiçoasse. A árvore ao seu flanco esquerdo
pareceu-lhe pintada por uma criança, de tão quieta e arrebolada.
Estendendo outra vez o lenço, limpou com ele as mãos como se
acionasse uma toalha.
— Agustín Menor — chamou, só subindo o tom.
A porta da casa foi aberta do interior, mas ninguém surgiu no dintel.
Combinados, os rifles de todos os soldados apontaram nessa direção.
Segundos depois apareceu don Antonio enfundado na fulgurante camisa
que lhe trouxera Agustín, acariciando a lapela qual se temesse uma
prematura ruga em sua aparência. Pelos costados de seus pés calçados com
sandálias de cânhamo surgiram duas galinhas que ficaram paralisadas na
vereda, aturdidas pela luz. O capitão pôde perceber que suas mãos
começavam mais uma vez a molhar-se. A queda de ombros de don
Antonio pareceu-lhe humilde, mas reconheceu a altanaria dos rebeldes no
rigoroso maxilar.
— Quem é você? — lhe disse.
— Antonio. Antonio Menor.
— Antonio Menor, “senhor”.
— Antonio Menor, senhor.
O capitão assentiu cerimonioso. Houve um movimento indefinível na
casa vizinha à de Agustín, mas sem necessidade de se virar, soube que
seus recrutas vigiavam. Pôde perceber o cano dos Garands em cada nervo
de suas costas com a lucidez que só duas décadas de quartel dão.
— Venho para buscar seu filho, pois.
Agora indicou sua tropa, ainda sem olhar para ela, com o gesto
informal com que os adolescentes apresentam suas amizades.
— Aqui não está, senhor.
— E onde, pois?
— Não sei, senhor. Se é para estar em algum lugar qualquer, estará no
quartel.
O capitão foi até o muro, junto a don Antonio. Tirou o revólver do
cinturão e com a coronha picou o frágil adobe da parede que se descascou
abundantemente.
— Palha, palha pura — comentou.
Pôs de volta a arma na cartucheira, desceu o pai do degrau estendendo-
lhe com mecânica delicadeza a mão e, já na vereda, segurou-o pelo
cotovelo iniciando um lento passeio em direção à esquina direita. Apertou-
lhe suavemente o antebraço.
— Seu filho não se apresentou na segunda-feira no quartel — e
acrescentou em voz baixa, quase com tristeza. — Anda correndo o boato
no bairro que ele desertou.
— Não pode ser, senhor.
De suas posições, os militares seguiam o passeio imutáveis, cravados
sob o sol. De vez em quando, entravados pelos rifles, passavam a manga
de suas jaquetas pela testa para secar os suores. Flores pôs seus lábios
perto da orelha do pai e lhe disse com o esboço de um sorriso:
— Anda correndo pelo bairro o boato de que você está andando com os
sandinistas, seu sacana.
Desta vez o homem opôs resistência à pressão do capitão quando o
cominou a seguir passeando. Obstinado nesse ladrilho da rua, repôs:
— Isso não é verdade, senhor.
— Você está dizendo que minto, velho?
Don Antonio espiou a rua ao longo até perder-se na transparência
tropical do horizonte. Desta vez tinha de vigiar suas palavras como um
alpinista apalpa as rochas antes de se encumear.
— O senhor não, capitão. As pessoas.
Flores desprendeu sua mão do antebraço do homem. Pestanejou
densamente a centímetros da testa do pai e, como se tivesse sido alertado
pelo cenho franzido deste, seus movimentos se aceleraram subitamente
postos sob pressão. Com tal vigor conduziu don Antonio até o umbral da
casa, que pareceu levá-lo no ar.
— Vá e diga ao rapaz que venha já.
Não se dilatou em examinar a perplexidade do pai. Imantado, avançou
até o carro, introduziu o braço pela janelinha do volante e apagou os
faróis, depois foi até o jipe mais próximo e se sentou no para-choques
apoiando as costas no motor. Dali fez sinais para o homem alentando-o a
entrar de uma vez por todas. Este assentiu com o queixo e, fazendo
ostentação de seu desconcerto, foi perdendo-se no quarto. O capitão
levantou a vista para o sol, tirou o lenço, espremeu-o como quem espreme
uma bola e o introduziu enrugado no bolso do peito.
— Faz uma sede de cerveja, caralho — disse molhando com a língua o
lábio superior.
E cravou a vista na porta.
Don Antonio havia permanecido aquele tempo na sala, a repentina
sombra o exato espelho de sua confusão. Por mais que contemplasse os
móveis familiares, as fotos desbotadas e as manchas nas paredes, não
podia inspirar-se. Sentiu o morbo de sua inatividade, suspenso como um
adicto a sua droga.
“Não sei que pensar, não sei que fazer, nem sequer sei se poderei, se
saberei me mexer quando quiser.” A saliva que derramou sobre seu lábio
inferior cresceu em sua consciência, colocada sob refletores. “Não sei
como recomeçar a pensar. Não sei por que estou aqui. Por que estou
ficando aqui. Só sei que estou ficando. Que não me mexo. Que tenho que
fazer algo que não sei o que é. Vou ficando por aqui.” A porta para a
cozinha, o trânsito para o pátio, os inquietos muros que circundavam sua
casa, ainda em seu desconcerto lhe pareceram inviáveis.
— Que te detém aí, velho?
Como se o grito da rua reciclasse seus movimentos e sua capacidade
de coordenar, foi até o armário, desprezou os guardanapos bordados da
primeira gaveta e afundou as falanges até topar, junto à madeira do fundo,
com a caixa metálica do revólver de família. Colocou-o entre as mãos e
estudou-o longamente com a atitude incerta com que se observa um
pássaro ferido. Voltou a metê-lo na estante, derramou sobre ele os banais
guardanapos, veio outra vez até o centro da sala e esteve um minuto mais
ali, recolhendo com escandalosa ternura as fotos de seus familiares
amados. A partir desses rostos de gala, fez um último esforço por pensar.
Dotado de uma súbita insensatez foi até a porta e se colocou agressivo sob
seu marco, concluindo perante o cenho franzido do capitão:
— Não o encontrei, senhor — disse.
— Velho? — perguntou o capitão, inclinando o pescoço e aconchando
a orelha com a mão.
Don Antonio aclarou a garganta. De alguma maneira, as palavras
estavam ainda ali, com a insistente monotonia do sulco que impede a
progressão da agulha no disco.
— Não o encontrei, senhor.
O militar tirou o quepe e passeou devagar o dedo indicador pela sua
circunferência interior. Durante alguns segundos esteve jogando-se ar,
agitando a viseira sobre a testa, até que depositou com formal gesto —
agarrando com a ponta dos dedos os extremos — o quepe de volta à
cabeça. Girou sobre os calcanhares com presteza disciplinar e avançou
direto para don Antonio, fechando de um só golpe de mão a porta de seu
carro que lhe impedia o trânsito. Com um gesto apenas de seu anular, fez
com que o pai de Agustín descesse o degrau e se lhe unisse na rua.
Agarrando-o pelo cotovelo reiniciou o passeio, como sumido em uma vaga
cavilação. Cada vez que chegavam à esquina, giravam e voltavam para a
casa. O velho se deixava conduzir com o rosto tão inexpressivo como uma
valise.
Mais pensando em voz alta que advertindo-o, o capitão expôs o que
pareceu ser o fim de seu raciocínio:
— Eu contra você não tenho nada. Aprecio seu filho, e como aprecio
seu filho, aprecio você. No fim das contas, seu sacana, você é o pai de seu
filho.
Pôs teatralmente um dedo na fronte, como quem estivesse apontando a
própria cabeça com o cano de um revólver, obrigando com um puxão de
cotovelo a que o pai se detivesse em seco para considerar sua coreografia:
“Seu filho tem isso. É avisado. E se é filho seu, você também tem isso”,
acrescentou, picando agora com seu mindinho a própria fronte de don
Antonio, em um rápido jogo de magos. “E se você tem isso, quero que me
prove.” Levantou-o de volta ao degrau e lhe disse cortesmente, sorrindo
para ele, piscando-lhe um olho: “traga-mo”. O capitão avançou até o jipe,
apertou o interruptor do alto-falante e emitiu seu comunicado:
— Atenção! Muita atenção! Vai ser realizada uma operação de busca
de imediato. Todos os habitantes do quarteirão devem abandonar agora
mesmo suas casas.
Assim que baixou o microfone, as portas começaram a abrir-se com a
coordenação de um leque, a fluidez de um bandoneón. Sem pressa, como
se primeiro surgissem os olhos e os corpos depois, foram saindo
cerimoniosamente crianças, mulheres e alguns anciãos que ante a pedrada
do sol duvidaram entre cruzar os braços sobre os peitos ou enrolar os
dedos à altura do ventre. O capitão percorreu o conjunto dando-se
pequenos golpes insatisfeitos na coxa.
— Sacanas — foi dizendo em seu percurso —, nos deixam os velhos e
os garotos, e os filhos da puta se esfumam.
Foi justamente ao terminar esta frase que lhe atraiu a atenção uma
robusta mulher de vestido floreado que mantinha rígida seu filho nos
braços. Flores pôde sentir exatamente o impacto que seu olhar havia
causado no corpo da mulher. Como se de repente a tivesse eletrizado,
virado sua pele e ela expusesse transparente seu terror. Seus braços
apertaram com mais força o filho. O capitão andou os passos que o
separavam dela e, atrás do passo do capitão, avançaram de soslaio os
olhares de todos os vizinhos. O silêncio pesou para Flores. Um zero na
nuca.
— Que há, comadre? — disse. — O garoto já não está muito crescido
para mimá-lo tanto?
Estranhamente, a mulher foi-se tornando oca, deixando uma
prodigiosa concavidade no peito e ventre como se quisesse devolver o
garotão às suas entranhas. Flores apontou-lhe imperiosamente o
pavimento: “Deixe-o que se sustente pelos próprios meios.”
— Só tem doze anos, capitão.
Seus olhos estavam ajoelhados, suplicantes, tensos como punhos, o
lábio inferior seco.
— Catorze ou quinze — disse Flores, indicando impaciente o chão
com o dedo indicador. — Deixe-o, pois.
A mãe o foi descendo e suas pupilas buscaram uma remota
cumplicidade, assistência ou intervenção dos moradores, cabisbaixos no
encravamento de sua mudez. Quando o depositou no paralelepípedo, com
súbita veemência apertou a cabeça da criança contra seu peito, e seus
braços tremeram quando o capitão os quis afastar, agarrando-a pelos
pulsos. À tácita súplica, o militar repôs um olhar firme e terapêutico e
trouxe o menino para o muro branco, agarrando-o pela mão como um pai a
um escolar no primeiro dia de aula. Depois foi retirando-se para o centro
da rua e, ali, no meio dos jipes e de sua tropa, formou-se uma imagem
total da cena. Um estrategista do campo de batalha, um coreógrafo que
levanta a tela que vai ser inflamada pela dança. Os olhares dos moradores
dividiam-se entre a criança, justo no muro sob as consignas sandinistas
que agora pareciam apontar para ele com seus dedos delatores, sua própria
altanaria dissimulada de mestre de cerimônias com o ouvido vigilante a
alguma surpresa que caísse dos tetos, e o humilde dintel de don Antonio
exasperantemente vazio. Entre esse molho de intenções, tomou cuidado
com aqueles que previam das canaletas nos telhados os derrames dos anjos
sandinistas com espadas de fogo como nas estampilhas paroquiais.
Enquanto se acariciava o bigode, teve a sensação de que pelas telhas e
zincos não transitava sequer um gato. Só então caminhou moroso até a
porta de Agustín, introduziu o nariz na ardente penumbra e disse com voz
íntima:
— Faz o favor de sair um momentinho, velho.
O pai veio até o dintel e lhe pareceu que os olhos dos moradores eram
aerólitos, que estilhaçavam o sol e o penetravam até os ossos. Era como se
o pó da rua levitasse e todos tivessem obstruídas as amígdalas por um
líquido insolúvel, por um silêncio bochornoso, parecido às fezes.
— Parece que não o encontraste — disse Flores, subindo pela primeira
vez o volume de seu diálogo com o velho para que alcançasse a
vizinhança.
Inclinando como um filhote de lânguidos olhos seu pescoço rígido,
murmurou bem baixo, com o tom de um doente:
— Leve a mim, senhor.
— Você? — gritou, batendo o punho contra a palma da mão,
inopinadamente preso de um desassossego que em um segundo fez em
pedaços a temperança de seu posto. — E que é que você sabe fazer? Você
sabe manejar um telégrafo? Conduzir um Sherman? Consertar o pneu de
um carro? Alguma vez você saiu desta merda onde quer enterrar em vida
seu filho? Que tipo de pai é você? Que tipo de pai é você, grandessíssimo
sacana?
As pestanas do capitão relampejaram nutridas na mansa atitude de don
Antonio e sua vista percorreu a vizinhança, quietos pássaros feridos, cujas
cabeças se foram dobrando a seu passo como se fossem velas que ele
soprasse com seu hálito.
— E quanto a vocês, meus senhores, não lhes vamos presentear a
Nicarágua. Antes que os sandinistas cheguem aqui, eu mesmo vou
bombardear León até que não fique nem uma mosca nem uma erva.
Esteve imóvel durante um certo momento, esperando alguma resposta
e depois elevou os olhos para a única nuvem paralisada no céu. Enrugou a
testa, desagradado. “Estou com uma sede do caralho”, pensou.
— Você eu aprecio, velho — gritou para don Antonio sem olhar para
ele. Esgrimiu tenso o dedo indicador apontando para o garoto de doze
anos. Pôde sentir o receio das pessoas como um clarão. Encarniçado na
nova temperatura, foi rápido até o menino, alçou-lhe a cabeça tomando-o
pela nuca e o virou em direção ao pai, exibindo um objeto. Da grande
distância que os separava, afinou a dicção para dizer-lhe, quase silabando:
— Mas esse sacana aqui dá no mesmo para mim.
Empurrou o garoto contra a parede e voltou decidido a instalar-se no
exato centro da rua, coroando o arsenal de seus homens.
— Você ouviu, velho? — gritou.
Foi então que apareceu Agustín no marco da porta, o dorso desnudo, o
boné militar com um sabor impulcro na queda sobre a sobrancelha, a
jaqueta pendendo de seu punho até arrastar-se pelo chão. Observou o
capitão com expressão neutra, ignorou a cerrada tensão dos vizinhos,
vestiu a jaqueta abotoando-a — salvo o botão do pescoço — enquanto o
sol inchava o pó cegando as manchas de óleo dos jipes sobre o empedrado
e depois foi até seu superior balançando seu corpo com movimento
compadre, como se seu peso e altura fossem superiores ao real. A um
metro de distância, Flores esticou o braço e brilhou entre seu polegar e
indicador, perpendicular ao seu corpo, o cromado molho de chaves do
carro. Submeteu-as a um tilintar e, quando Agustín as arrebatou, sem
cortesia nem violência, indicou-lhe com o queixo o automóvel e
contemplou o elástico lombo do rapaz, flexionando-se para ocupar o
assento dianteiro. Quando o motor arrancou, o capitão dedicou-lhe um
leve sorriso de pai e depois estendeu sua amabilidade ao resto dos
moradores. Tocando elegantemente a borda do quepe, lhes disse:
— Assim é que gosto, que nos compreendamos com boas palavras.
CAPÍTULO XIII

O CARTEIRO PESTANEJOU, a cabeça cingida na úmida almofada e


conteve depois os olhos tensamente abertos. Esteve ouvindo o silêncio
crescido pelo toque de recolher, incapaz de discernir se a voz era a
conclusão de um sonho ou em rigor aquilo que o havia despertado.
— Salinas! — insistiu o grito sigiloso.
De um salto estava no portão e pôs a orelha sobre a acre madeira.
— Quem? — disse com um fio de volume.
— Eu, homem.
— Você?
— Abre, caralho.
— Não sabe que há toque?
Perto, talvez a um quarteirão, começou a desenvolver-se o estalido
pesado de um veículo. O bulício típico de um Sherman sobre o pavimento.
Abriu de um empurrão a porta e, colado à sua folha como uma
estampilha, Ignacio entrou e se desfez do fardo jogando-o em cima da
cama. Na focal claridade da lua, incitou Salinas a que, sem estrépito,
procedesse a fechar a porta.
O carteiro não se fez repetir a ordem, agregando-lhe por sua própria
iniciativa duplo ferrolho à chapa.
— Sabe que andam procurando você, não?
— Sim.
— Sabe o que dizem de você, não?
— Cara, estou recém-chegando — arquejou Ignacio sujeitando o
coração. — Não estou aqui para curtição.
— Dizem que foi você quem voou o jipe militar.
— Dizem isso?
— Sim.
— E você acredita nisso?
Quis discernir a expressão do rapaz na irreal leitosidade da noite antes
de lhe responder, como se necessitasse ler a resposta a essa pergunta na
cara de quem a formulava. Passou a manga do pijama pelo nariz e prestou
atenção ao Sherman que se afastava.
Depois não soube que fazer na pausa que ele mesmo havia inaugurado
e, com súbita inspiração, pôs nas mãos do rapaz a garrafa de guaro.
Ignacio bebeu um gole e celebrou seu efeito relaxante com um suspiro.
Salinas foi até o escritório, agarrou um lápis com a ponta quebrada e
começou a aplicar-lhe com todo esmero a lâmina de Gillete,
obsessionando-se no fino pozinho de grafite que saía em cima de uma
folha de papel branco.
— Em que posso lhe servir, hein?
Ignacio pressionou o salto de seu sapato esquerdo com o direito até
descalçá-lo. Com o pé livre, afundou um dedo no couro do outro e também
o tirou. Salinas prestou atenção a esses movimentos como se lhe
correspondesse decifrá-los.
— Você pensa em ficar aqui? — disse incrédulo.
O rapaz deu de ombros e apontou com o polegar em direção às suas
costas.
— O Sherman anda rondando, não?
— Aqui você não pode ficar. Vieram aqui e perguntaram por você.
— E que foi que você lhes disse?
— Dizem que você explodiu o jipe militar... — fez uma pausa solene e,
no mesmo tom, prosseguiu: — Morreram três.
Imutável, o jovem começou a trabalhar os dedos dos pés para tirar a
meia do lado direito.
Salinas abotoou o pijama como se tivesse que sair à rua para receber
alguém.
— Dizem que o padre teve você escondido.
— Só um dia.
— E que depois você foi para Chinandega.
— Venho de lá.
Ignacio moveu os dez dedos dos pés e estalou os calcanhares, como
para despertá-los de um entorpecimento.
Salinas foi até a porta e balançou-a um pouco, comprovando que não
deixara nem um resquício para a rua.
— Defronte está o gabinete do doutor Rivas — disse.
— Vim para te pedir um favor.
— Aqui você não pode ficar.
— Está bem. Esse era o segundo favor e já me disseste que não.
— O primeiro também não.
— Muito obrigado, hein, por tua heroica contribuição para a luta
contra a ditadura.
— Você, pelo menos, se matam, vão botar seu nome numa rua.
— De onde é que tiraste isso?
— Dá para notar que sua cabeça está cheia de fumaça.
— Babaca!
— Se me fuzilam a mim, todo mundo vai dizer: “Coitado do Salinas,
logo ele que nunca fez nada”.
— Agora estás fazendo alguma coisa, ora.
— Sim, mas quem é que o sabe?
— Se você quer que se saiba, amanhã o povoado inteiro fica sabendo.
— Não, obrigado.
Ignacio desfrutou do enfadamento de Salinas resmungando suas
queixas de costas para a lua e o novo gole de guaro deleitou-o com a
parcimônia de um gourmet.
— A tal carta... — disse o carteiro sem virar-se — já a entreguei.
— Me contaram.
— Quem? — gritou impetuoso.
Ignacio deu de ombros.
— Um passarinho, ora.
Salinas baixou a vista e foi até a cama para aplanar desordenadamente
a colcha.
— E a Vicky? Não disse nada?
— Sim. Me disse algo.
Desfrutou enormemente do suspense que havia criado. Salinas
apalpou-se com ferocidade os bolsos.
— Que estás procurando? — perguntou-lhe Ignacio.
— O quê? — disse-lhe Salinas ainda manuseando-se.
— Te perguntei o que estavas procurando, porque se são os cigarros te
aviso que não os encontrarás porque estás de pijama.
Salinas deu um tapa na testa, foi até a cadeira, tirou o maço e colocou
um cigarro na mão de Ignacio e outro em sua boca. Depois de acender
ambos, trouxe a cadeira até bem perto do moço.
— Conta.
— O quê?
— O que te disse.
— Quem? — saboreou Ignacio.
— A Vicky.
— Quando?
Salinas se desvencilhou abruptamente do ritmo das frases e manteve
durante meio minuto um silêncio cauto, que ao terminar transformou-se
para ele em tristeza.
— Você não é meu amigo — disse.
Ignacio deu-lhe uma palmada na coxa.
— Olha para mim — disse.
Um tiro isolado como um meteoro atravessou a noite. Salinas só
levantou um olho, arrastando na sobrancelha um pestanejar de
desconfiança.
— Vou te dizer o que a Vicky me disse.
— Fala, então.
— Me disse: “Quando você vir Salinas, diga-lhe obrigada de minha
parte”.
— “Obrigada”?
— Obrigada.
— E que mais te disse?
— “Se você vir Salinas”, me disse, “diga-lhe que agora que está com
os rapazes acho-o muito mais simpático e atraente”.
Salinas cobriu a cara com as mãos sem permitir-se uma fenda.
— Que está acontecendo com você?
— Nada, homem — disse o carteiro rindo entre os dedos tensos. — É
que fiquei ruborizado.
CAPÍTULO XIV

NO PRIMEIRO DIA, com as mãos cruzadas atrás da nuca, achou que


desfrutaria do cativeiro, privado dos gritos que atiçavam aos soldados com
sangue, carne e sandinistas. Percebia sobre sua cabeça o sapatear
esmagador dos outros recrutas e, esticando-se na tábua de carvalho que lhe
servia de cama, havia determinado que era preferível essa moleza de pão e
água às rudes azáfamas que culminavam com pontapés nas costelas
entusiasticamente infligidas pelo sargento Cifuentes ao vislumbre do
primeiro desmaio.
Na noite desse mesmo dia, depois de dormir uma hora, precisou de
água da jarra, e ávido a levantou, conseguindo umedecer os lábios com a
última gota. Dez minutos depois, a sede já não era um reclamo, mas sim
uma desesperação. Desde então não pôde dormir. Sentado na madeira, com
os joelhos quase roçando a parede — parecia que haviam encaixado esse
leito à pressão no minúsculo espaço —, esteve horas esperando a corneta
das cinco que, junto com despertar o batalhão, trouxesse o carcereiro. Mas
as horas pareciam não avançar e a mesma penumbra silenciosa não
mudava nunca de tom. Depois de algum tempo, notou que o coração
saltava em desordem. Levou uma mão para cobri-lo e, aterrado ante a
dispersão caótica de seu próprio corpo, quase não pôde respirar.
Arquejante, levantou o pescoço até a grade afastada e quis advertir com
um grito que se afogava. Mas só a ideia de que aparecesse Cifuentes de
cuecas perguntando pelo filho da puta que o havia despertado forçou-o a
desistir. A enfermaria estava fechada a essa hora e lhe diriam, sem dúvida,
que as palpitações eram coisa de senhoritas. Com as palmas das mãos no
peito atento a cada uma de suas eletricidades e pontadas, incapaz de pensar
em nada, de projetar uma só ideia no deserto de sua mente, a corneta
encontrou-o a ponto de adormecer. Meia hora mais tarde, pela janelinha da
porta de ferro, passaram-lhe outra jarra, um pão fresco e um copo de leite
morno. O carcereiro que a trouxe não disse nada. Agustín não fez nenhuma
pergunta. Bebeu abundantemente e respirou várias vezes bem fundo até
sentir que as preocupações da noite anterior haviam sido fúteis. Antes de
acentuar o declive da jarra para o segundo gole, deteve o impulso e só
consumiu alguns dedos pensando na reserva noturna.
Durante a manhã — quando a umidade tornou-se esfarrapada e
asfixiante — evocou com alguma saudade, e depois com inveja, os
exercícios de seus colegas que culminariam em uma abundante ducha fria
e uma ceia profusa. Ao meio-dia conseguiu dormir. O sonho não teve
sobressaltos. Ao despertar já era de noite e começou-se a ouvir tiros
isolados nos arredores da escola, que no espaço de dez minutos
aumentaram à dimensão de um combate em regra. De pé sobre o leito,
quis discernir se o tiroteio concernia a um eventual assalto dos sandinistas
ao quartel ou se a fome e o estar enterrado sob o pátio lhe confundia as
distâncias e as proporções. Pôde concluir que as ações não tinham como
objetivo tomar o local da EEBI, pois caso contrário o capitão Flores e
Cifuentes já teriam feito funcionar as Ponto Trinta emparapeitadas em
cada canto do quartel, cujo matraquear lhe era familiar desde que as
cápsulas roçavam suas faces, durante os treinamentos. Acariciando a
madeira do leito, pensou sobre o que lhe aconteceria se os sandinistas
tomassem o quartel, como já ocorrera em tantas cidades do país. Que lhes
diria? Por certo poderia contar a verdade, mas a fúria contra a barbárie da
Guarda Nacional não seria mitigada, com mais palavras, menos palavras.
Em seu descargo, sem dúvida, estava sua presença no calabouço. Em caso
de que lhe pedissem nomes que o recomendassem, poderia dar o de
Ignacio. Na última vez o havia visto escondido sob a tela do altar e embora
não tenha havido diálogo, soube pelo menos ser discreto. Mas uma hora
antes, na rua, não se afastou com displicência — com rancor — quando o
viu chegar ao povoado com uniforme?
Por acaso não poderia convocar o testemunho de todo seu bairro?
Todos haviam visto como o sequestrara o capitão Flores. Mas a boca das
pessoas é maior que a dos peixes: na certa que só recordariam que ele
abandonou o bairro dirigindo o próprio carro do capitão.
À alvorada, a fome o achou com a orelha sobre a portinhola, como se
sua impaciência fosse um chamariz que atraísse a guarda. Só meia hora
depois ouviu os passos no eco metálico do corredor. Ao perceber seu
punho tremendo sobre o ferrolho, tratou em vão de dominá-lo, jogando-lhe
a mão esquerda por cima. Quando a chave foi introduzida, retirou-se com
um salto para o leito e suas costas roçaram com a parede.
Uma súbita lucidez, a de um animal acossado, penetrou-o ao ver que as
chaves pendiam da mão de Cifuentes e não da do carcereiro. A colônia de
barbear do sargento engoliu de uma só vez os outros odores.
— Vista-se.
Afastando-se para o dintel, deu espaço para que o moço pusesse as
calças. Quando corria o fecho da braguilha, o sargento apontou-o com a
chave no pescoço e a pressionou sobre a garganta fazendo com que a
cabeça de Agustín se estrelasse contra a parede. Não pôde engolir a saliva
e lhe custou para respirar. Sem distender a mão que o atormentava,
Cifuentes lhe disse com voz neutra, enfatizando mais o rancor que o
conteúdo das palavras:
— Estou com muita gana em cima de você, garoto.
O rapaz ergueu as mãos até o pescoço e, agarrando o punho do
sargento, quis afastá-lo, mas o antebraço de Cifuentes, que fazia as
primeiras cinquenta flexões junto com a tropa cada madrugada, era um
tronco duríssimo. Só afrouxou a pressão ao perceber que o rapaz se
afogava. Esteve um instante quieto até que a respiração de Agustín se
normalizou, e só então estendeu-lhe a jaqueta do uniforme.
— Tenho gana em você, garoto — lhe disse, quase íntimo.
Agustín foi colocando lentamente a jaqueta, atento aos punhos
cerrados de Cifuentes de onde poderia a qualquer momento saltar o golpe.
Terminou de abotoar-se e esperou com a cabeça curvada a nova ordem.
Cifuentes esticou e contraiu os dedos como se uma súbita cãibra
impedisse a circulação do sangue em seus punhos.
— Um dia no calabouço e já sais. Sabe quanto tempo esteve aqui o
último que fez o que fizeste?
— Não, senhor.
— Daqui não saiu. Entendes o que te digo?
— Sim, senhor.
— Esse não era o menino de recados do capitão.
Com duas pestanejadas, Agustín se fez o quadro definitivo do que
estava acontecendo. Flores o havia mandado tirar do calabouço. Não podia
ser outra coisa. Sentiu que junto com o raciocínio, a ira contida o percorria
até a testa. Desfrutou subitamente o universo de prebendas que se lhe
abriam nesse instante, caso fosse certo seu prognóstico. Carregou de ironia
o lábio superior, olhando fixo nos olhos de Cifuentes.
— O senhor deveria compreender — disse — que as missões especiais
que o capitão me encarrega são parte do serviço — pôs a mão no pescoço e
acariciou a pele. — Isso que me fez com a chave me doeu bastante,
sargento.
Cifuentes adiantou a mandíbula e passou várias vezes bruscamente o
polegar no nariz, como se estivesse convocando as palavras que agora lhe
faltavam.
— Tenho gana em você, garoto — disse finalmente —, lembre-se
disso.
Sem esperar que o sargento lhe ordenasse, saiu do calabouço e foi
caminhando lentamente pelo corredor.
CAPÍTULO XV

A MULHER MAIS velha do povoado recebeu mosca do padre de que


passariam para buscá-la de carro às seis da manhã. Ela replicou que era
muito homem para suas coisas graças a Deus e que podia ir com seus
próprios pés. O padre Pedro lhe pediu que fizesse suas orações e que por
respeito a Deus Santo não continuasse falando pelo telefone a essas horas
da noite. “De qualquer maneira não posso dormir”, disse a mulher mais
velha do povoado, “se estão picotando a balas na virada da esquina”. “Até
as seis, dona Rosa”, desligou o padre e esfregou a mão em cima do tubo do
telefone como se pretendesse limpá-lo de suas impressões digitais.
Cinco minutos antes do encontro, Vicky havia untado a ponta do lápis
de maquilagem na língua e procedia a traçar uma linha sob as pálpebras de
Amalia. E seis minutos depois, trinta segundos mais tarde do ágil trânsito
do triciclo do padeiro, don Antonio pôde ver como ao passo de suas duas
mulheres as portas do quarteirão iam-se abrindo e as velhas começavam a
segui-las a uma distância que lhe pareceu curta para ser prudente.
“Comício ou procissão”, disse para si mesmo.
Ao dobrar a esquina, Vicky e sua mãe reconheceram a mulher mais
velha do povoado que, harmoniosamente curvada sobre sua bengala com
punho de nácar, concedia-lhes uma saudação mais picaresca que cauta.
— O padre vai me levar de carro — sussurrou com um sorriso de
menininha.
As mulheres não tiveram necessidade de virar-se para saber que era o
carrão do homem que anunciava indistintamente falecimentos, funerais,
batizados, bodas e o programa do cinema, o que havia sido colocado à
disposição do padre e que era este em pessoa que o trazia agora
corcoveando às suas costas, traumatizado com seus indóceis mecanismos.
Um pouco mais adiante, Amalia deu uma cotovelada em Victoria.
Metros adiante ia uma mulher solitária vestida com uma longa saia e um
chapéu de pita azul que a banhava em sombra. A María Molina, pensaram.
Apressaram o passo e, ao passar junto a ela, a mãe de Agustín lhe disse
sem parar:
— A senhora também, dona?
— Sim, pois.
— Mas a senhora não tem filho.
— É como se tivesse.
Os diferentes passos as separaram, e Vicky passou o braço pelos
ombros da mãe quando descobriram o ônibus pontual e rotundo ao dar a
volta na última esquina. As mulheres subiram sem falar-se e se
cumprimentaram sem cerimônia, mas com um ar transcendente. Os tiros
isolados não se comentaram por hábito, tato ou omissão. O carro do padre
Pedro ultrapassou o ônibus com a dignidade de uma carroça e esse foi o
sinal que colocou o veículo em movimento. A mulher mais velha do
povoado botou uma mão e o nariz para fazer-lhes caretas.
O sargento Cifuentes mordia um sanduíche de presunto banhado em
manteiga, quando o mais jovem dos guardas chegou para prevenir-lhe que
um grupo de mulheres vinha subindo em direção ao quartel. Antes de
inquirir detalhes, o sargento alertou com um grito os vigias instando-os a
seguir o grupo com suas Ponto 30. Com velocidade incompatível com sua
robustez, trepou até a galeria do segundo andar e, sem bater, fez-se
presente no escritório do capitão Flores. Os dois oficiais saíram para o
corredor. Acotovelando-se no corrimão, o capitão enfocou seu binóculo em
direção à pendente por onde vinham as mulheres fazendo-se mais e mais
compactas, como se a proximidade do quartel as obrigasse a esconder-se
entre elas mesmas.
Cifuentes engoliu o último pedaço do sanduíche e, depois de limpar
com a manga o buço impecavelmente barbeado, comentou:
— “Mão Negra” fez assaltos vestido de mulher.
O foco foi uma a uma às caras das senhoras. A rua subitamente se
havia esvaziado e o sol temporão caía quase em igualdade de nível em
cima da lente. Mudando o rumo, auscultou a posição dos vigias.
— Faz três dias que não chove — murmurou o capitão, retornando a
lente para as mães. Ao apertar a pálpebra direita, pôde discernir com uma
máscara sarcástica o padre como uma espécie de núcleo que concentrava
as mulheres.
— Que pensa, capitão? — perguntou o sargento.
— Que esta guerra tem muitas frentes — disse, tentando esquadrinhar
nos traços do sacerdote as raízes de sua teimosia. — Preferiria uma mais
frontal e clara. Uma onde a gente soubesse exatamente que resposta dar a
cada ataque.
O sargento fez um ademão de desprezo.
— Chama “ataque” a esse cacarejo de velhas?
Vai ser um ato masoquista, mas quero ver a cara desse babaca quando
pensa, disse para si mesmo Flores. Deixou cair o binóculo até o umbigo e
com rosto severo enfrentou a fronte e o rude topete cortado ao céspede de
seu inferior.
— Ao senhor, que lhe parece?
— A mim, capitão?
Mas as mulheres já haviam alcançado os portões de ferro e, como
estudantes em uma passeata de rua, começaram a corear primeiro suave e
espaçado e depois alto e denso:
“Não mortos e sim vivos
queremos nossos filhos.”
Flores distraiu um segundo a vista em direção aos barracões dos
recrutas e pôde captar até os detalhes de suas fisionomias com as frontes
afundadas nas janelas.
— Cifuentes?
— Capitão?
— Chame o Posto Dois e diga-lhes que não me toquem as velhas nem
com a pétala de uma rosa. Afinal de contas são as mães desses marmanjos.
— Sim, senhor.
— E ordene-lhes também que se algum homem atravessar a rua,
derrubem-no sem pedir confirmação.
Olhou para o céu e lhe pareceu desusada a quantidade de aves. Muitos
pássaros, disse para si mesmo.
Os guardas abriram só um trecho do portão e as mães experimentaram
a impressão de ser filtradas e de ficar uma a uma expostas à lente do
capitão, que de cima parecia devolver as lâminas de sol duplicadas. A
poucos metros procuraram reagrupar-se. Agarraram-se pelos cotovelos,
amontoando-se à mãe de Agustín, espremendo as saias, sem que o padre
tomasse a iniciativa de tirá-las dessa turbação. Ele também parecia
refugiar-se nelas e o medo ricocheteava entre todos sem que ninguém o
quebrasse. Finalmente, não querendo dilatar a pausa que começava a
parecer ridícula, circundou o ombro da mulher mais velha do povoado e
avançou com passo solene. Flores sorriu: o mártir. Enquanto avançavam,
Amalia retomou dura e compulsiva o lema:
“Não mortos e sim vivos
queremos nossos filhos.”
Se os querem tanto, deveriam preocupar-se de que não vão ficar
órfãos, pensou o capitão, entretido em pesquisar pela recordação dos
traços de sua tropa que mãe corresponderia a qual soldado. O grito foi
diminuindo até que só se pôde ouvir os saltos das mulheres arranhando as
lajotas do pátio. Desprendendo-se parcimonioso do binóculo, o capitão
percorreu o trecho até a escada e desceu sem pressa, quase parando em
cada degrau. Só quando estava em terra, Cifuentes pôs-se ostentoso às suas
costas.
— Bem. Sou o capitão Flores, para servi-las.
As mulheres não olharam para ele. A mulher mais velha do povoado
começou a percorrer com as unhas cada peça de seu rosário. O capitão
procurou a vista do padre. Este quase não a sustentou, a cabeça levemente
inclinada, um menino arrependido de ter feito uma travessura, e depois
baixou-a, enrubescido.
— E daí? Se deram ao trabalho de vir e ficam tão caladas?
Iniciando um passeio de ida e volta na frente do grupo, fez ostentação
de infinita paciência. Deteve-se diante da mãe de Agustín e a observou um
momento, quase sem duvidar do êxito de sua pesquisa.
— E então?
A mãe manteve obstinada o olhar em seus sapatos, mas toda energia
concentrou-a apertando o punho de Vicky. Pareceu-lhe que o coração de
sua filha latia entre seus dedos. Foi María Molina quem falou:
— Queremos nossos filhos.
O capitão veio até ela com as mãos nas costas e estudou seus olhos
sem permitir-se a sombra de uma ênfase. No mais, calma.
— Se é por isso, eu aos meus também os quero. Digam-me em que
posso servi-las.
A mulher mais velha do povoado irrompeu estridente com sua bengala
e foi até ele vigorosa como uma locomotiva. Antes de lhe falar, procurou o
assentimento do grupo, mas as mães pareciam não pestanejar.
— Só que deixe nossos filhos saírem — disse concludente.
Flores fez um gesto de surpresa e não respondeu só à anciã, mas sim a
todo o grupo, pulando de rosto em rosto.
— Senhoras — seu sorriso procurou ser afável —, isto aqui é um
quartel e não um internato de senhoritas onde se pode sair e entrar quando
se quer.
— Senhor capitão — disse o padre —, faz já três meses que não veem
seus filhos. Não sabem se continuam aqui. Nem ao menos — baixou o tom
da voz — se estão vivos.
Logo todo o grupo pareceu falar simultaneamente, e Cifuentes e Flores
seguiram as exclamações como quem salta atrás da bola em uma partida
de tênis.
— Bem — disse modulando com ironia —, é que a última vez que os
meninos saíram alguns comportaram-se um pouco moloides. Muitos
doentes da barriga, dizem. Outros que iam ficando na casa. Dizem que na
cama, não?
Antes que Victoria falasse, a mãe se lhe adiantou ao senti-la pigarrear:
— Nossos filhos não foram feitos para isto, senhor.
— Feitos para quê, senhora?
— Para que sejam mortos, ora.
O capitão nutriu suas próximas palavras com uma pausa.
— Nenhuma mãe quer ver seus filhos mortos. Mas há uma mãe que é a
mãe de todas as mães e essa é a Nicarágua. Seus filhos estão aqui para
defendê-la.
— De quem, senhor? — gritou María Molina levantando altiva o
queixo sob o chapéu de aba larga.
— Dos velhacos — atravessou-se Cifuentes. — Dos comunistas.
Ignorando a resposta do sargento, a mãe de Agustín assediou o capitão:
— De quem, senhor?
Flores tirou o quepe, colocou-o frente ao rosto e se abanou com
bruscos tiques de punho. Desta vez outorgou à longa pausa a função de dar
por terminado o diálogo. Mas então a mulher mais velha do povoado, com
voz recôndita e rachada, agitou a consigna:
“Não mortos e sim vivos
queremos nossos filhos.”
Atento à ponta dos sapatos lustrados pelo ordenança, o capitão esperou
que a gritaria diminuísse e depois que o murmúrio se fosse esvaindo.
— Minhas queridas senhoras — disse então —, não é por nada, mas
me parece que o que as senhoras querem realmente gritar é “não morto,
mas sim vivo, queremos o Sandino”.
Teatral, colocou rotundo o quepe na cabeça. Girou sobre os calcanhares
e foi subindo a escada sem olhar para trás. A mulher mais velha do
povoado quis aproximar-se dele, mas Cifuentes a deteve. Foi então que
Vicky, de jugular tensa, desprendeu-se do grupo e, antes que o sargento
reagisse, gritou ao pé da escada:
— Capitão!
A frescura dessa voz destacou-se nítida no conjunto. Pôde mais a
curiosidade que o enfado e Flores derramou o olhar em direção à jovem,
do último degrau. Também os vigias da torre se distraíram um segundo.
Outra guerra qualquer. Qualquer, não esta, acariciou-se no bigode o
capitão. A moça insinuou continuar subindo, mas Flores indicou-lhe que
se detivesse no segundo degrau.
— De quem é mãe você?
— Procuro meu irmão.
— Melhor tê-lo vivo aqui dentro que morto aí fora.
— Vivo, capitão? Por quanto tempo?
— Senhoras! — ampliou o diálogo Flores descendo um degrau. —
Falemos a sério. Seus filhos são soldados e não meninos de seio. Se eles
estão aqui dentro, é porque eles mesmos o quiseram.
Vicky nem soube que ao replicar-lhe avançava para cima quebrando a
ordem. Cifuentes veio até a base da escada.
— Aqui os trouxeram enganados! Disseram-lhes que iam estudar e
agora são tirados para a rua para matar.
— São tempos de emergência, ora. Mas em tempos normais nenhuma
veio aqui para queixar-se. Quando não tínhamos essa guerra do caralho,
vocês gostavam que déssemos de comer a seus rapagões até fartá-los.
Quantos na Nicarágua têm esse privilégio? São capazes vocês de dar-lhes
até que se fartem?
A mãe de Agustín veio até o lugar de Vicky e as mulheres avançaram
com ela.
— Porque nossos maridos estão desempregados.
— Porque não têm trabalho. Porque foram colocados no olho da rua.
— Senhoras, eu sou militar e não presidente! — gritou Flores. — Eu
posso dar de comer a seus filhos, eu posso educar a seus filhos, posso fazer
de seus filhos homens, mas não tenho poder para solucionar os problemas
de todo mundo. Compreendam-me! E não confundam a amabilidade com a
brandura: o que havia que falar, está falado. A porta é ali. Façam o favor
de se retirar.
Cifuentes fez soar um apito e a patrulha chegou a trote desde os
portões até o grupo. Apertando o cotovelo da mãe, o padre sussurrou-lhe:
— Vamos embora.
Do corredor do terraço, o capitão ordenou com um dedo categórico que
se procedesse a evacuação.
— Capitão! — gritou Vicky.
Ao ver que este a ignorava, envolveu os trechos da escada e devorou o
corredor, até agarrá-lo pelo braço, fazê-lo virar e contagiá-lo de fúria com
esse breve toque. Os olhares se cruzaram turvos, coléricos, incompatíveis,
desbocados, vitriólicos. A moça fez de seu corpo um pulmão que se
encheu de nervos e metais quando Cifuentes chegou para puxá-la pelo
queixo. Quase estrangulada, procurou manter o olhar em Flores quando lhe
disse:
— Prefiro que meu irmão morra como desertor do que como filho da
puta.
De alguma maneira a voz de Vicky deu o timbre mais agudo dessa
manhã do caralho. Os nervos de Flores abrolharam na pele.
— Você é insolente, sua pentelha! Meter-se a fazer política nos
quartéis.
Só minutos mais tarde, durante o segundo Cuba Libre, lamentaria ter
golpeado com o punho o lombo de Cifuentes quando lhe uivou: “Meta-a
no calabouço!”
As mulheres tentaram abordar a escada e resgatá-la do sargento, mas
os recrutas já haviam definido uma figura tática e, com as armas unidas
em uma espécie de muro as foram empurrando até a porta do quartel com
a precisão de uma máquina. Algumas tropeçaram e, emaranhadas,
custaram a levantar-se. Os soldados meteram-lhes ferrões com as pontas
dos rifles, mais cautos que obedientes. Mas quando o padre quis proteger e
frear a dona Amalia, obrigaram-no a desistir com coronhadas em regra.
“Você é homem, seu veado”, lhe disse um. A mulher perdeu a imagem de
sua filha no meio da poeira da luta e, como certa feita que achou que se
afogava quando a onda de Poneloya derrubou-a para a praia e rezou com
fervor cada sílaba do Pai Nosso ao ver-se viva nessa areia quente, sem
saber que força a havia arrastado para ali, cravou sua testa entre as barras
do portão e rezou Vicky e Vicky e Vicky e Vicky até desmaiar nos braços
do padre Pedro.
CAPÍTULO XVI

ALGO FANTÁSTICO, incrível, inverossímil, prodigioso, extraordinário,


fabuloso, descomunal, grandioso, sublime, magistral, milagroso,
formidável, colossal, tremendo ocorreu! Volto para casa!
Mandam-me para León! Dentro de uma semana o mais tardar estarei
com você, e vou gostar de você, Victoria Menor. Quando me vir com
minha barba quilométrica, frondosa, selvática, labiríntica, espessa,
acumulada, exuberante, tropical, patriarcal, propagada, flutuante, bárbara,
agreste e convulsa, vai implorar que lhe beije e, em meio a esse maremoto
de pelos, vai sair como um tigre minha língua para procurar seus lábios,
para molhar você com minha saliva buliçosa suas gengivas matinais, seus
dentes breves e perfeitos. Cada dia quero você mais. Cada dia cresce o
carinho que tenho por você, meu amor, minha paixão por você, e eu cada
dia cresço mais para estar à altura das circunstâncias. Para carregar o amor
que lhe tenho tornei-me empolado como um elefante, mas também leve
como um pardal.
“Gaba-te pato, que amanhã te mato.”
Vicky, porra: volto para casa!
Somoza — que faz esta palavra em minha carta? — vai embora. Vai
embora e ninguém sabe direito o que vai acontecer. Talvez coloquem
algum da família durante algum tempo. Aconteça o que acontecer, nós não
vamos parar de lutar e logo cairá Manágua. Todos estamos de acordo em
não negociar com Somoza e sua corte. E também não com os norte-
americanos. Nossas condições se reduzem a duas palavras: tudo ou nada.
Mataram muitos de nossos companheiros. Mais novos que eu também.
Garotos de até quinze anos. Quando atacávamos, vinham entre as balas
para nos dizer que queriam entrar para a Frente. Nós os espantávamos
dizendo-lhes que não tínhamos armas para dar-lhes. Não importa, me disse
um, a primeira arma do primeiro guarda que caia, agarro essa. Assim
andamos em Granada e Masaya: cada um com outro atrás como um
homem e sua sombra. Nosso exército aumenta em forma mágica, se
duplica, quintuplica cada dia, cada hora, dentro de uns dias toda a
Nicarágua será sandinista menos a Guarda.
E que se conta de León?
Pergunto-te para que já saibas tudo o que me interessa saber quando te
encontre. Aí vai a lista de perguntas:
1) Se me visses na rua de repente, me reconhecerias?
2) De que cor cresceu minha barba?
3) Vais dormir comigo no mesmo dia que nos encontremos?
4) Onde?
5) Se teu pai não me dá a aprovação, vais dar-lhe ouvidos, ou te
rebelarás?
Agora a sério: como está teu pai? Continua desempregado? E teu
irmão, continua com vento na cabeça e dando-se ares? Disseram-me que
havia entrado para a EEBI, mas não pude acreditar nisso. Sobretudo
conhecendo a don Antonio. Em todo caso, tens de dizer-lhe que deserte,
que vá embora para qualquer lugar onde possa se esconder. Depois da
vitória não vai haver quem o defenda, sabes? Os padres menos ainda.
Dizem os comandantes que quando vencermos — já estamos vencendo! —
ninguém vai ser fuzilado, que a Nicarágua tem de ficar limpa e
transparente como a água, dizem que já se matou bastante. São coisas que
dizem, mas não sei como será mais adiante. Somos muitos os que vimos
coisas muito graves. Nos lembramos de muitos torturadores e criminosos
com nome e sobrenome. Conhecemos até os lunares da cara deles. Dizem
os comandantes que esses serão os primeiros que irão embora. Dizem que
para Honduras, Guatemala ou Miami. Que os que ficarão aqui são os que
esfregam o chão. Os que depois vão dizer: nós só obedecíamos ordens.
Dizem que essa história já é manjada. Que a mesma coisa aconteceu na
Alemanha. Quando tudo estiver em calma, eu também tratarei de acalmar-
me. Faz quase um ano que durmo ouvindo tiros, bombas e aviões voando
baixo. E faz três meses que provei a última cama, e faz quatro... Ponto
parágrafo!
Sim, senhor! Vou para León!
Quando me vires, não te assustes.
Não tens por que querer-me, se não me queres. Não penses que vou
chegar para pressionar-te, nem que vou pavonear-me entre os garotos do
povoado porque fiz o que fiz, e estive onde andei.
Digo-te com toda a responsabilidade, maturidade e companheirismo:
se gostas de mim, maravilhoso, genial, formidável. E se não gostas de
mim: ME MATO!!!
Em realidade já não estou mais para tratar com o tempo e um palito.
Bem, Vicky, antes chego.
Aconteça o que acontecer, tenha sede ou fome, a primeira coisa será te
amar.
A todo fui, te beija,
Leonel.
CAPÍTULO XVII

NA HORA DA SESTA, sem barulhos precedentes, começou a chover. Não


houve um tiro pela manhã e os guardas patrulhavam as ruas eriçados. Os
jipes pareciam ir apalpando com seus pneumáticos cada centímetro do
pavimento. A água caía às vezes copiosa, por momentos leve. Em todo
caso, o calor se obstinava. O negro da bomba de gasolina usou o ventilador
sobre o rosto como se fosse um barbeador elétrico. Quase cabeceando a
modorra em sua casinha, viu chegar o veículo da companhia de bombeiros,
a joia vermelha sob a descarga de chuva, até localizar-se junto ao tanque
de gasolina. Reconheceu ao volante o agudo bigode de Plutarco, mas quem
desceu da bomba e veio até ele, sacudindo a bolsa de couro como se
produzisse sarna, foi Salinas. Quando este entrou na casinha, o empregado
do posto pôs-se de pé e aproveitou a mudança de posição para meter o
pequenino ventilador dentro da camisa e refrescar o peito.
— Que progressos, Sublime! — exclamou. — Trocaste o triciclo pela
bomba de incêndios.
— Um, não me chames de Sublime. Salinas, simplesmente Salinas.
— Está bem, homem, está bem.
— E dois, pare de brincadeira porque se trata de algo sério.
O empregado do posto olhou de soslaio para a bolsa.
— Uma carta de luto?
— Não estou vindo como carteiro.
Salinas registrou o rapaz. Um lutador de boxe que estuda no primeiro
round os flancos débeis do contendor. O outro percebeu o exame a que era
submetido e cortou o ar. Então a chuva se ouviu nítida, enquanto Salinas
coçava o comichão em cima da omoplata.
— Não venho como carteiro — repetiu finalmente.
O rapaz cravou o olhar no carro de bombeiro e depois o trouxe veloz
para os olhos de Salinas.
— Idiay?
Salinas quis parecer natural, mas ao abrir os lábios sentiu a compulsão
de pigarrear. Depois de aclarar longamente a garganta, disse:
— Venho como “companheiro”.
O jovem trouxe o polegar direito a seus dentes e começou a mordiscar
a unha. Depois agarrou bruscamente um trapo de cima da caixa e pôs-se a
esfregar freneticamente a vitrine.
— Em política não me meto.
— Não tens que te meter em nada. Tens que ajudar e é só.
— Não quero ajudar.
— Vou dizer-te do que se trata.
— Não vou escutar.
— Pior então, porque se não queres escutar agora, depois vais te
arrepender.
— Vou me arrepender de quê?
— De não ter ajudado.
— Não quero ajudar.
— É que tens que ajudar, porque não há outra solução.
— Não.
— Não o quê?
— Não.
Salinas amassou a camisa cinzenta sobre o suor e de um golpe agarrou
o punho do jovem impedindo-lhe que continuasse passando o trapo no
vidro.
— Não podes dizer não a algo que não sabes o que é.
O empregado do posto de gasolina quis livrar-se da pressão, mas
encontrou um vigor desconhecido nas falanges do carteiro. O mesmo
empenho lhe foi confirmado por seu olhar e a severidade de seu queixo.
Salinas foi afrouxando pouco a pouco o apertão e, ao retirar sua mão,
percebeu equimoses no punho do outro. Com a mesma mão lhe deu uns
tapinhas fraternais no lugar machucado.
— Queremos que vás agora até o carro e o enchas de gasolina.
O rapaz aliviou a equimose depois de untar os dedos com saliva.
— E qual é a “ajuda”?
— Que botes a gasolina no tanque de água.
— Que vão fazer?
— Não é por não dizer-te o que vamos fazer. Mas te convém não sabê-
lo.
— Por quê?
— É uma coisa séria.
— Se não me diz, não o faço.
— Se não o fazes, vou ter que raptar-te.
— Como?
— Levar você daqui e te guardar até que tudo tenha passado...
— Até que tenha passado o quê?
— Te disse que isso não te convém saber.
— Como é que você vai me raptar?
— Convencendo-te com boas palavras.
— E se me raptam, para onde me levam?
— Para a companhia de bombeiros.
O rapaz aproximou os olhos do vidro e tentou confirmar se no veículo
estava realmente quem tinha que estar.
— É Plutarco?
— Sim. Mas não o contes para ninguém.
— Que vão fazer?
— Vamos tocar fogo no Comando.
— Como?
— Vamos jogar gasolina com a mangueira.
— ... em vez de água.
— Exato.
— E como vão molhar o Comando? Vão dizer que o estão regando?
O rapaz apoiou a testa no vidro deixando que o suor se misturasse com
a umidade da janela. Ali ficou desfrutando a estrondosa arquitetura do
posto, como se duvidasse de sua existência. A persistente chuva foi uma
melodia que ninou sua dispersão, até que a mão de Salinas no ombro o
trouxe de volta.
— Que pensas?
— Há quatro postos de gasolina no bairro e você cisma de vir aqui no
negro.
— Se os rapazes se decidiram por você, por alguma coisa foi, não?
O jovem inclinou a cabeça e examinou Salinas de baixo. Lentamente,
como o mercúrio subindo no termômetro, foi enchendo de brilho seus
olhos negros até que pareceram duas perfeitas robustas uvas cravadas no
coração da chuva.
— Sério, Salinas?
— Sério.
Foi até o cabide onde pendia cheia de graxa sua capa de plástico,
vestiu-a abotoando alguns botões e coroou sua hirsuta melena com o
gorrinho da Texaco.
— Quando? — perguntou.
— Quando os rapazes disserem. Talvez amanhã, ou talvez depois de
amanhã.
O rapaz saiu para o asfalto que o separava da bomba e fez um sinal
para Plutarco. Este vigiou durante alguns segundos o espaço —
perfeitamente vazio, pela chuva, pela sesta, pela retirada que preparava a
ofensiva final — e de um salto foi buscar o cabo do tanque de água.
Quando o empregado do posto esteve a seu lado e atarraxou a mangueira
da gasolina com a precisão de um cirurgião, apertou-lhe cordialmente o
ombro. Os litros cresceram no marcador com a mesma velocidade que os
córdobas, até passar a centena.
Plutarco meteu a mão no bolso da calça e tirou um maço de bilhetes
miúdos, que em suas mãos pequenas e finas pareceu uma fortuna.
— Quanto te devo?
O empregado do posto olhou sem apreensão para o marcador e deu de
ombros.
— Nada.
— Estás louco — disse-lhe Plutarco estendendo-lhe o maço com a
decisão de um estilete. — É teu trabalho.
O jovem considerou a quantidade na mão do bombeiro, afastou com a
manga do impermeável a chuva das pestanas e disse com sua voz de
adolescente, musical, fraca:
— Nada, homem. Já que molhamos nossos pés, molhemos também o
cu.
CAPÍTULO XVIII

REBENTOU A TORMENTA e a chuva repicou a pedradas no pátio do


quartel. O sargento Cifuentes assomou a nuca procurando que o impacto
com a água lhe aliviasse o insone calor. Enquanto esfregava com a rude
toalha de serviço seu cabelo denso, pequenos caracóis, bebeu um terço de
uísque de um só gole. Perto da meia-noite, o pavilhão dos recrutas havia
emudecido sob o efeito dessas mochilas carregadas de areia a pleno sol.
Enquanto eles corriam, ele desfrutou de uma curta, embora úmida, sesta.
Na traposidade desses lençóis havia concebido o plano, provocando-se
febre na antecipação de seus detalhes. À hora do rancho, estudou as cútis
ensolaradas de sua tropa, satisfeito com a avidez com que consumiam as
cervejas geladas que ele pessoalmente havia pedido. Grande exemplo para
os rapazes. Depois do castigo, momentos de prazer. A política do pêndulo,
ensinaram-lhe no Panamá. Com teus chacais, uma de doce e uma de
gordura. Arromba-lhes o cu a pontapés, mas à noite convida-os para um
trago. Todos esses índios querem um pai. Faze-lhes o gosto. Agustín com o
copo nos lábios. Quis comparar seus traços com os da irmã, mas quando os
olhares se cruzaram baixou a vista sobre a carne assada com arroz. Esteve
punçando os grãos até decidir que não tinha fome. Pelo menos não disto.
De soslaio voltou a espiá-lo. O garoto com seus olhos afundados, o nariz
resoluto, o sorriso debulhando-se em seus dentes, podia ficar para uso
exclusivo do capitão Flores. Que fosse seu menino de recados, seu
amanuense, seu puxa-saco e lambe-botas, seu chofer ou seu lenço de
lágrimas. Mas a irmãzinha, com esse cabelo manhoso e esses peitos que
tremiam quando se pôs a uivar no pátio, teria outro dono. Essa boca havia
sido feita para lamber, beijar e chupar, e não para andar gritando
baboseiras sandinistas. Seria deste servidor da boca ao cu. Deste peito
nicaraguense conhecido com muita honra com o nome de Mario Cifuentes.
Bom pai de família, mas também macho dos bons para servi-lo. Para
servir-me dela. Dizem que a cavalo dado não se olha os dentes. E que a
ocasião faz o ladrão. Melhor quando é égua. Potranca em couro, pelada.
Sem a pele dura das bestas mas com esse brilho nos pentelhos, caralho. E a
faísca nos olhos revoltosos e insolentes. O sargento Cifuentes, meu amor,
vai-lhe apagar esses olhinhos ariscos como vela de aniversário. Grande
bolo, grande gostosura. Não olhes, vou dizer-lhe quando esteja mordendo
suas tetas. Grande gala esta noite, pentelha. Som estereofônico e cinerama.
E eu ator e espectador nesse filme onde você goza, amor, e eu a trabalho
para mim com este fogo que me sai pelos poros e que me brota por aqui e
que cresce e que fica teso como madeira entre minha coxas. Dura a vida
militar, mas tem suas compensações. E você, meu amor, não vai ser tão
panaca de estar se manuseando sozinha no calabouço quando tem à sua
disposição um militar de patente, dois galões e três medalhas, que até com
dinheiro a pode mandar de volta para casa. Talvez, queridinha, quem
garante se depois não volta aqui com seu servidor. Mais dinheiro e mais
pau, ora.
Veio até o calabouço sem proteger-se da chuva. Entre granizos e
relâmpagos, lançou mão da garrafa aliviando-a de outro terço. Enquanto
engolia, deixou-se empapar por essas gotas viscosas como baratas.
Esfregou-se o rosto com elas e, com passo resoluto, que foi-se
liquefazendo à medida que se aproximava da masmorra, chegou até a cela
do castigo.
Sua respiração pareceu-lhe contagiada pela tempestade e o eco de seus
passos no corredor de granito ainda o perseguiu quando se deteve. Um
charco se havia formado em seus pés. Afundou uma mão entre o cinturão e
sua pele, e esteve mergulhando até acomodar o sexo na cueca. Com os
mesmos dedos embaralhou depois o molho de chaves e cravou a exata na
fechadura. A aldrava cedeu na segunda volta e Cifuentes irrompeu
avassalador como nos “estouros de aparelhos”. Na obscuridade, o corpo de
Vicky não era mais do que um vulto recuado na cabeceira do catre. Ao
manusear o interruptor, apesar do pó e dos cadáveres de traças que a
impregnavam, a luz que se soltou foi de interrogatório. A moça pôs um
braço a centímetros da testa para proteger-se do clarão e, por debaixo dele,
reconheceu o homem que a havia trazido arrastada para essa cela.
Cifuentes teve a sensação de que o cenário de seu sonho, de seu filme,
lhe havia sido escamoteado. Sua imaginação não lhe preveniu do rigor do
catre, não lhe quis adiantar essa mulher refugiada na parede como uma
órfã. Parecia, isso sim, que queria fundir-se com o reboco, empalar-se
nele. Nada a ver, merda, com a fêmea de cadeiras vertiginosas que me
esquentou quando meus dedos se encheram de seus odores enquanto a
arrastava. Turvo, pesquisou no pescoço essa veia que horas antes o havia
eletrizado. A artéria que lhe subleva os seios por baixo do algodão.
— É meia-noite e você sem acender a luz — disse.
Acostumada à lâmpada, ela baixou o braço que a protegia e o trouxe
lentamente sobre o ombro direito.
— Como quer que saiba se é de dia ou de noite?
O sargento constatou com um sorriso a impenetrável atmosfera do
calabouço, sem grades nem fendas. Uma perfeita caixa de fundos. Uma
ilha remota, queridinha, onde estamos sós tu e eu. Um barco à deriva no
Caribe com um capitão quente e tu a única tripulante. Cifuentes girou a
chave no ferrolho e, depois de localizar-se sob o minúsculo tubo que
jorrava o fio preciso de ar para sobreviver, arrancou-a da porta e a calçou
com o revólver entre a pele e o cinturão.
— Vim te ver — disse sorrindo.
Colocou a garrafa sem rolha sobre o catre e convidou a Vicky com um
gesto a que se servisse. Ela ignorou o convite e concentrou a vista sob as
pálpebras grossas como o porta-moedas do militar, onde parecia residir
toda a expressividade de seu corpo. Quis enrolar-se mais fundo na parede e
soube que já não lhe restava espaço. O homem sentou-se no meio do catre
sem que ela pudesse evitar que a ponta de seus pés roçassem o feltro de
suas calças. Serviu-se de um trago curto e depois esteve bem quieto até
sentir que o uísque lhe subia pela coluna jorrando faíscas. Com uma
sacudidela do corpo, que imitou aos cachorros molhados na praia, recebeu
o benefício desse calafrio e emitiu um ruído bronco. Ao levantar-se,
desprendeu os botões da camisa. Com o dorso livre, agitou a prenda
molhada, ventilando-a. Pôs cauteloso um dos pés no catre, experimentando
sua sustentação e só então subiu nele para envolver a jaqueta molhada em
volta da lâmpada, atando-a no fio com suas mangas.
— Mais íntimo — foi seu comentário.
De um salto esteve outra vez sobre o cimento e, atracando-se à parede,
tomou perspectiva de onde julgar seu fulgurante cenário. Piscou-lhe um
olho quase dizendo “a gente faz o que pode” e então pôs sua barriga a
centímetros da cara da moça. Agarrou-a pelas têmporas e empurrou sua
cabeça para a frente, tentando com que sua boca contactasse a braguilha.
— Vim fazer-te companhia — repetiu com a voz subitamente alterada,
mordida no peito antes que nos lábios.
— Solte-me — advertiu-lhe Vicky usando o mesmo tom de voz com
que nos crepúsculos de Subtiaba havia rechaçado com êxito as incursões
de joelhos dos mais insolentes bandidos enquanto a revolução ainda
andava de gatinhas nos povoados da Nicarágua e ainda não havia êxitos
militares, nem assaltos aos cárceres, nem ocupações do Parlamento, mas
sim só panfletos ordinários, massacres nos paredões de cimento,
camponeses lançados ao mar de helicópteros, companheiros esvaindo-se
em sangue na esquina do armazém, com essa munição tão pouca que
deixava esse forame por onde manava tanta morte. “Não morreu” era a
frase invariável nas homenagens clandestinas do liceu. Mas ela havia visto
os mortos na esquina do armazém. A pétrea palma de Cifuentes apertou-
lhe a cabeça contra a sarja de sua calça, deixando escapar um gemido. A
moça quis desprender-se mas Cifuentes não teve dúvida em estrelar-lhe a
nuca contra a parede. A um passo de distância, arriou ao mesmo tempo as
calças e a cueca e expôs o pênis a centímetros de seus lábios, sua rigidez
debruada de umidade. A moça levantou seu punho esquerdo e encheu seus
dentes com ele. Ao lado da roupa derramada no chão, descobriu acessível
a chave. Quase não tocando a mão que defendia sua boca, Cifuentes lhe
disse:
— É melhor que seja por bem.
Vicky foi afastando sem pressa o braço que a defendia e, aproveitando-
se da obsessão do homem em aproximar o sexo de seus lábios, deixou-se
cair no chão e capturou a chave. Com os pés emaranhados em suas
próprias vestes, o sargento só conseguiu apanhá-la quando a chave já havia
entrado na fechadura. Apertou-lhe os seios por cima da blusa, ofegando-
lhe sobre o lóbulo esquerdo.
— Você é uma babaca.
As mãos subiram dos seios até a garganta com uma pressão que a
Cifuentes lhe pareceu leve e à moça agônica. Manteve-a durante um
momento, até que os dedos de Vicky que só haviam arranhado sua pele
com suas unhas vermelhas afrouxaram desarmados pela inconsciência.
Cifuentes desprendeu-a sobre o leito, desfeita e desforme como um lençol.
A breve luta havia sacudido o fio da lâmpada e esta ainda ondulou a
chicotadas sobre seus corpos. Cifuentes voltou a propor-se. Vicky virou o
rosto para a parede e apertou os joelhos quando a mão do sargento andou
amassando-lhe as coxas. Impregnando seus dedos nas rótulas de Vicky,
venceu sua resistência com a avidez de um nadador. Quando a moça
adiantou as unhas tentando o golpe que lhe rachasse o pômulo, golpeou-a
na têmpora direita, o soco um coice. A cabeça de Vicky estalou contra a
parede e, quando quis gritar, sua boca estava inundada de lágrimas. Em um
segundo pensou que essa era véspera da morte: uma asfixia rancorosa que
se despede das boas coisas do mundo, o balbucio de um sangue e o fluir da
hemorragia, a frágil película de sal sobre o lábio partido: estava no bar da
escola, repassando uma lição de Física e dois estudantes ensaiavam
acordes de La Gloria eres tú em guitarras elétricas que desprendiam
clarões ao ser pulsadas, e ela sorria ante a perfeição do acaso que em um
instante de remota delícia lhe brindava a canção predileta de José Antonio
Méndez, seu pai a desafinava sob a ducha, e León ardia até na sombra das
árvores: voltava à universidade, pátios, gritos, a polícia com cassetetes e
balas, a broca da cadeira de prática, o minucioso ouro na bandeja com
espelhinho de seu ancião tutor (quando morrer, você herdará tudo isso),
esquisito, ela morreria afinal de contas antes, o discurso inaugural do
decano rugindo “defenderemos com a vida a autonomia universitária”, as
frases glutonas e salivosas dos políticos que mandavam as tropas da
Guarda para assaltar os comícios e falavam dos templos do saber onde são
forjadas as futuras gerações. Com a mão espessa de Cifuentes acionando
sua vagina, voltou um fio de consciência. Só lhe restou uma imagem
dando voltas: um grupo de jovens com livros, xícaras de café, cigarros
fumegantes, navios nos portos, trens sobre pontes, que punham as mãos
como cones em suas bocas e lhe gritavam algo: e esse grito era ao mesmo
tempo caminho, era uma chave, era subitamente a palavra que não podia
ouvir, a que a levantaria da morte, a possibilidade de sobreviver à turva
humilhação que o sargento lhe procurava, agora desnudo, cobreado contra
o cimento cinzento do calabouço, o punho com o pênis obsesso frente ao
lábio ferido, faminto por sua língua. Vicky soube numa fração de um
ínfimo instante que não ia chorar. Se podia não chorar, também poderia,
talvez, pensar. E no mesmo instante deteve os afogos e as convulsões. Teve
o controle de um atleta sobre suas fibras e nervos. Não havia que morrer,
disse para si mesma. Não havia que ir-se morrendo assim. Deste modo,
desta merda. Pôs primeiro categórica a mão diante da boca, abriu os olhos
para olhá-lo ao epicentro de sua quentura e mergulhando-o entre suas
pálpebras marejadas de suor, lhe disse:
— Vou deixar. Mas tira isso de cima de mim.
O sargento arquejou um segundo de reflexão e foi afastando-se até
ficar de pé junto ao catre. A moça arrancou a blusa, o sutiã, desceu o fecho
do jeans e puxou o elástico de sua calcinha deixando tudo em ordem, uma
peça em cima da outra, ao lado do precário travesseiro e saco de farinha.
Untando com saliva os lábios de seu ventre, flexionou os joelhos e
entreabriu as coxas. Cifuentes conduziu na mão seu pênis até a vagina e,
depois de metê-lo, desabou como um morro sobre um caminho rural, um
arroio confinante.
— Sabia que você ia gostar, pentelha — soprou-lhe ao ouvido
enquanto afundava a cadeira temendo que a quentura o traísse e se
desfizesse nela já, agora mesmo, com essas gotas informes, gelatinosas,
breves, e que o banquete de suor de Vicky em sua língua durasse o tempo
de um suspiro e que em um instante tivesse que ocultar-se dentro de sua
cueca de náilon, suas calças molhadas no piso de cimento, seu olhar de pai
de família travesso, a camisa que teria de desprender do fio para que o
calabouço se iluminasse como uma tutelada, o fio da navalha; em um
minuto, em uns cagões e fodidos segundos, teria que escovar seu cabelo de
soldado exemplar, coçar o pômulo de sargento meritório e procurar uma
piada que não lhe ocorreria para aliviar a atmosfera, uma mancada mais na
vida, moça, um cabelo branco ao ar. E a ejaculação era já um cachorro que
lhe ladrava, que lhe avultou seu pedaço curto e brioso — exibido no
banheiro diante dos soldados primeira-classe, gritando-lhes “estão
querendo?”, quando os surpreendia olhando com curiosidade — e a frágil
película de escrúpulos antecipados foi pulverizada pelo rugido que lhe
fulminava a coluna, que lhe montava o espinhaço e que se traduziu nas
únicas palavras à mão:
— Você gosta, puta, você gosta — lhe disse.
Victoria assoou-se com os nós dos dedos a ponta do nariz e lhe
respondeu serena:
— Não gosto não, babaca. Estou deixando porque quero viver para te
matar.
O sargento percebeu o jorro de seu sexo e molhou a orelha dela com a
língua inundada de saliva.
— O cantado e o dançado — rugiu.
CAPÍTULO XIX

DEPOIS da emboscada

Logo escurece, começa a chover e


borram-se as pisadas dos guerrilheiros.
Há cansaço em nós;
o lhano que há que se passar é grande,
o lodo e a água nos chegam à cintura
e agora tudo está escuro, nem uma única estrela se vê no céu;
a coluna caminha em silêncio.
Só um guerrilheiro pensa em escrever um poema.
Continua chovendo, os pernilongos saem de suas gaiolinhas,
a fome e o sono são intensos. Recosto-me e se
me cravam espinhos que intumescem meu corpo.
Não se ouvem disparos,
estamos já perto do acampamento;
dá-se a ordem de descanso. Um companheiro,
enquanto fuma um cigarro, me pergunta:
é verdade que você é poeta?
CAPÍTULO XX

QUANDO O Bispo esgotou a paciência de seu secretário fazendo-o discar


sem êxito nem esperança o número do quartel da EEBI, mandou o padre
Pedro falar pessoalmente com a senhora Menor. Fez o seguinte bilhete
com uma lapiseira de ponta penetrante: Querida senhora Menor: o
telefone do quartel está fora do gancho, interceptado ou permanentemente
em uso. Rogo-lhe me desculpe por não poder achegar-me até ali, por
razões que não posso arguir aqui, mas que de alguma maneira a senhora
saberá compreender. Continuarei tentando comunicar-me amanhã, depois
de amanhã e todos os dias a todas as horas. Entretanto, recomendo-lhe
que tente o resgate de sua filha através de um advogado. O doutor Rivas
me parece o homem mais propício. Implorando a Deus pela senhora e sua
filha, cumprimenta-lhe atentamente, seu Bispo.
A mãe de Vicky dobrou o recado em suas dobras originais e devolveu-
o ao padre sem comentários. Antonio veio até o sacerdote, voltou a
desdobrá-lo e leu com gravidade. Enrugou o papel e atirou-o
ostentosamente ao cesto junto aos vidros de conserva e velhos exemplares
de Novedades.
— O doutor Rivas é somozista — disse. — Entregar-lhe o caso de
minha filha a ele, seria como amarrar o cachorro com salsichas.
— É um bom advogado — interveio o padre.
A mãe afastou Antonio e colocou-lhe severamente um dedo vertical
nos lábios. Agarrou na cadeira sua carteira de pita e pendurou-a no
antebraço.
— O bispo tem razão — comentou. — Rivas é o homem indicado para
resgatar a Vicky.
— Estás louca — disse Antonio.
— Os advogados nossos estão todos presos ou mortos — disse Amalia
de pé na porta da cozinha. — Os que restam vivos estão ameaçados ou
escondidos.
— Com o que vais lhe pagar?
— As mulheres a metemos nisto, e as mulheres vamos tirá-la.
— Queres que te acompanhe?
— Não, obrigado.
A mãe foi até o dormitório de Vicky e ali sua ausência a assaltou de
sua típica desordem como um cachorro que a empurrasse contra a parede.
A sós, abrindo a cômoda para procurar os documentos que levaria para o
advogado, limpou-se as pálpebras inscritas de finas rugas com a ponta da
primeira prenda que saltou: uma camiseta de algodão que cingia o começo
dos seios de sua filha como uma duna lisa e tostada.
Na fina caixa de lata que algum dia teve chocolates presenteados em
seu aniversário pela mulher mais velha do povoado e cuja tampa
representava uma cena de cetraria inglesa com lânguidos cavaleiros de
jaquetas vermelhas e plácidos cavalos comendo torrões de açúcar das
mãos de donzelas tão delicadas quanto pálidas, encontrou os documentos
indispensáveis: a carteira de identidade, a certidão de nascimento, uma
foto tamanho passaporte presa a uma folha manuscrita com sua letra
irregular, sensível aos matizes de sua respiração, às efervescências de seus
arrebatamentos e às curvaturas de seus encobrimentos. Sentando-se na
cama, ainda em desordem, a mãe desprendeu o grampo da foto com suas
unhas drásticas e foi lendo o texto como se tivesse esquecido o objetivo de
sua incursão na peça. A caligrafia azul de firmes traços abundava em
pomposos sinais de exclamação com a forma de uma vela.

POETA!!!
Tua carta é a coisa mais amada entre todas as coisas que acumulei
desde minha infância, incluídos ursos de pelúcia, retratos de primeira
comunhão e as sapatilhas de balé de quando eu sonhava em ser artista.
Mas uma coisa são os sonhos e outra é a vida. Em vez de artista, quase
acabei dentista. Como você gosta das palavras, terá notado que artista
e dentista terminam nas mesmas arestas. (Não estou rindo de você,
poetaço, sei perfeitamente diferenciar entre a POESIA!!! e a rima.)
Mas nem sequer dentista serei por que me botaram para fora da
Universidade, parampampam. Disseram para mim “canino-canino
molar-molar, a Vicky vai se arrancar”. Imagine você que só me faltava
um ano. Agora dizem que talvez poderia continuar na Costa Rica, na
ilha. Em algum outro país. Mas como conosco está chovendo no
molhado, meu velho ficou desempregado e desde que você
desapareceu vivemos com alguma coisa de dinheiro que meu irmão
traz e, no resto do tempo, de milagre ou do acaso. Já saberás por nosso
curso comum de latim elementar que este fenômeno é conhecido como
“Síndrome Nicarágua”. Mal de muitos, consolo de tontos??????
Não, senhor!!!!!!!
Cada um na sua. Você, um tigre elástico e saltarino, turisteando por
aí, e eu, um gato de rabo de saia e insidioso, metendo minhas garrinhas
em cada casa desta cidade, que se prepara para receber-te não com gala
mas sim muito oxigenada!!!!!
Tua carta encheu a casa e minha vida de ar!
Quando a li, deu-me a impressão de que de repente você entraria
voando!
Fiquei molhadinha. Tive que trocar de roupa. Quando estiveres
comigo, fala-me assim como me escreves, Leonel.
Leonel, você é meu amor.
Perdoo-te que tenhas ido sem avisar.
Mas embora estejas onde estás e eu esteja onde estou, vamos
esclarecer algo já. Eu sou teu amor, mas TUA não sou. Você é meu
amor, mas MEU não é. Pensei muito todo esse tempo no que é ser
mulher e estou bastante estrita em muitas coisas que não estou
disposta nunca mais a aceitar. Para começar, noto em tua carta que
falas muito de ti e dos outros turistas como se em teu grupo não
houvesse mulheres e eu sei, positivamente, que nesses giros viajam
muitas damas. Mas não contas nada delas, não? Como se não
existissem!
No domingo depois da missa houve um ato cultural na paróquia e
uma moça leu um poema de Gioconda Belli, que dizem que anda por
aí. Copiei-o para que saibas como nós, as “minas”, escrevemos poesia:

Quero uma greve onde vamos todos.


Uma greve de braços, de pernas, de cabelos,
uma greve nascendo em cada corpo.

Quero uma greve


de operários de pombas
de choferes de flores
de técnicos de crianças
de médicos de mulheres
Quero uma greve grande,
que até o amor alcance,
uma greve onde tudo se detenha,
o relógio as fábricas
o viveiro os colégios
o ônibus os hospitais
a estrada os portos

Uma greve de olhos, de mãos e de beijos.


Uma greve onde respirar não seja permitido,
uma greve onde nasça o silêncio
para ouvir os passos
do tirano que vai embora.

É verdade, poeta, que se a Frente tivesse tantos rifles como poetas


a esta hora já estaríamos celebrando nas ruas?
Agora te direi o que farei contigo quando chegares. Quando te veja,
vou colocar-te uma flor na orelha e desmancharei todo teu cabelo
como se minhas mãos fossem pás de moinho ou duas meninas
tremendo, perdidas no bosque. Depois vamos ao banheiro. Enfio-te
debaixo do chuveiro e te ensaboo até deixar-te feito um querubim.
Depois vou jogar em cima de você litros de água até que tua pele fique
brilhante e eu possa refletir-me nela. Em seguida, começo a beijar-te
desde o pescoço para ir descendo milímetro por milímetro até chegar
ali onde você sabe e engolir-te lenta e longamente. Depois disso, sem
te secar, te estenderei em minha cama. Esta modesta pessoa aqui
presente será a tua toalha. O poema se fará realidade. Entretanto, nos
restará todavia alguma lágrima, desta vez para a alegria.
Teu amor,
Vicky vitoriosa.
CAPÍTULO XXI

VIEMOS DESARMADOS, padre Pedro, disseram os rapazes, mas assim


mesmo revisto-os de armas. Só ao flanco direito confinando com o
casario, os vitrais intactos. Para o lado da praça, todos quebrados pelas
pedras ou pelos tiros. O padre pessoalmente varreu os destroços depois de
cada enfrentamento. Pela noite procurava recompor os fragmentos de suas
figuras favoritas. Padre, viemos desarmados, haviam dito os rapazes, mas
assim mesmo revisto-os de armas. O capitão Flores tem sido gente muito
boa comigo, pensou, enquanto remexia entre o tecido, entre os cinturões,
sob suas camisas úmidas. Até com sua família teve boas relações. Muita
relação com a família do capitão Flores. Eu lhe disse pessoalmente em sua
cara que é desonesto estar na Guarda, na EEBI. Eu lhe disse cara a cara
que com Somoza nem para a missa. E quem o diz é um padre, lhe disse.
Por muito que me digam que não trazem nem uma navalha, revisto-os um
a um. O capitão Flores tem fama de decidido, tem nome de homem fino,
sua família foi embora para Miami, e ele aqui. Confessou-se comigo. O
senhor não acreditará em mim, padre, me disse, fico por minhas
convicções. É desonesto, lhe disse eu através da gradinha do
confessionário. Tolero que fale assim porque o senhor é padre, porque eu
sou católico e porque o considero muito amigo meu. Mas não deixo que
nenhum outro me diga isso, don Pedro. Como acha que vamos enganar o
senhor, padre? Juro que viemos desarmados. Vão para casa, rapazes.
Acabou o tempo das faixas, das ocupações, dos gritos nas ruas. Essa
batalha agora se ganha a tiros. Nada mais de botar a faixa só no
campanário. Ficamos no Calvário até a meia-noite. Tudo em calma, sem
gritos, olhe as mãos, mais vazias que as de São Francisco. Um por um,
jovens, vou revistando-os de armas. A cidade de León ficou a cargo de
Flores. Flores, pessoalmente. Não são bispos nem peões, babacas. É o
próprio rei. Vão para casa, rapazes. Os jovens abriram a faixa. Letras
vermelhas sobre o fundo branco: “Não mais mortes em León, que vá
embora o ditador”. Os mesmos argumentos de seu Bispo, padre, disseram
os rapazes: a hierarquia eclesiástica. Lembre-se de Puebla, dos padres de
esquerda. De Helder Câmara. Um a um vou revistando essa garotada. Os
santos de gesso decapitados a rajadas de metralhadoras, o Bispo ameaçado
de morte, nem um centavo dos impostos oficiais para o arcebispado, os
sacos de esmola na missa umas mangas sem fundo. Vou meter a mão até
debaixo das cuecas, babacões. Quem não anda armado hoje em León ou é
burro ou fica em casa. Trata-se de um edital, padre. De um simples edital
no espírito. No espírito do Vaticano!, vão-me dizer agora, caralho. É
Flores quem tomou León a seu cargo. Flores a cargo de León e arredores.
Soldadinhos feitos e direitos. Vêm da EEBI, boa pontaria, treinamento
perfeito. Não são os guardas bêbados e drogados que se arrancam quando
ouvem Pátria ou Morte.
O helicóptero, um olho pestanejando sobre o zodíaco. A multidão que
vinha para argumentar a favor dos rapazes. Deixe-os, padre, gritavam. O
padre apontou com o dedo para o helicóptero e depois deu de ombros. Vão
cair em cima da gente como gaviões, com aviões, com tudo que tenham.
Não escutaram o rádio? Não leem os jornais? Não sabem que Somoza
jurou ficar até o fim do século vinte?
Padre, imploraram os rapazes.
O padre continuou imantando o helicóptero. O estalo das asas lhe
profetizava o das metralhadoras. Garand, FAL, Ponto 30, Bazuca, Ponto
50. Até há um ano distribuía figurinhas de santos nas favelas e agora tenho
um arsenal na boca, maior que a arca bíblica. Pela primeira vez, neste ano,
foram mais os enterros que os nascimentos. O helicóptero um acento
borrento no céu, a coroa vertiginosa. Espreita.
Os estudantes treparam no campanário. O padre não pôde ouvir as
vozes das crianças que lhe puxavam pela manga. Fazia um ano que trajava
essa guayabera branca e havia deixado a solene batina para as pompas
fúnebres, para as confissões. Enlevado em seu pressentimento, um morto
em sua fossa.
Devia tê-los revistado bem de armas. Com um detetor de metais, com
um ímã do tamanho da proa de um navio. Quem anda desarmado hoje em
León? Às vezes eu mesmo duvido se de minhas mãos não sairão tiros, se
minhas próprias unhas não são granadas que explodirão nos aeroportos,
estações ou quartéis da Guarda.
A multidão adejou para o helicóptero, vaiando-o. Buzinas com suas
bocas. Tenho o pressentimento, disse o padre, crescendo-me no estômago.
O gavião com seu ronronear metálico afastou-se em direção ao fortim,
longe do fervedouro de pessoas, como se essas mãos desesperadas
tivessem a força de projetá-lo para fora da cidade. O padre teve a ideia de
que estava chorando, que o sangue lhe corria com lágrimas. Meu Deus,
disse. E os menininhos o puxavam pela manga da guayabera. Por que está
chorando, padre? Não estou chorando, caralho.
O rádio do helicóptero começou a emitir ordens. Agustín com o motor
do jipe ligado, os fones esmagando-lhe as orelhas, o capitão Flores
fumando longamente, os olhos fixos no gavião que vinha para o fortim.
Agustín passou-lhe os fones e Flores pulverizou o cigarro no chão ao
reconhecer a própria voz do Chigüin como se o filho de Somoza estivesse
de corpo presente com seu hálito devastador.
“Flores?”
— Sim, meu major.
“Bem, pois. Este negócio acabou. Venha para o Calvário e meta-lhes
uma bateria da puta que pariu, ouviste?”
— Sim, meu major.
“Deixe de lado a fineza, seu pentelho, ou vamos acabar colhendo
margaridas no Paraguai. Dê um banho nisso, entendes?”
— Sim, meu major.
“Seu filho de uma grande puta, a insurreição está aí em todo o país. Se
perdemos, podes ir te despedindo de tua casa e de teus bagos, pois.”
— Que faço?
“Venha para a praça do Calvário. Tem uma porrada de gente lá. Entra
voando e os babacas que colocaram a faixa, tire-os do campanário.”
— Sim, meu major.
“E te cuida, bróder. Gosto de você como um irmão.”
— Obrigado, major.
Acendeu o novo cigarro assim que desconectou o transmissor. Pôde
perceber que a estridente voz havia alcançado os recrutas mais próximos,
que insinuaram posição de sentido quando o olhar do capitão os
surpreendeu. Viu o helicóptero descer sobre o fortim e se manteve
pensando e repensando até que o matraquear de sua hélice se apagou.
Depois revistou a disposição de seus homens. As Ponto 50 a cargo de
Cifuentes nas camionetas lhe pareceram a magnífica couraça que faria
com que ele entrasse como um cavaleiro medieval no torneio, encapado
em ouro, faiscando balas; seu brio uma lança que subjugaria o povo sem
necessidade de dissuasivos complicados. Era a operação que Chigüin em
pessoa pedia a Flores, e ele era o capitão Flores. O estilo do capitão Flores,
o que teria de dar corte, perfil, fio, precisão ao assalto. A gritaria da
multidão se ouvia agora rouca e longínqua. Tragando uma vez mais o
cigarro, Flores pensou na cara do Chigüin se o visse tão vivamente
involucrado nessa dilação, tragando a fumaça fundo, calmo. No Panamá
lhe haviam ensinado a impor esses segundos transcendentais antes de uma
ação de envergadura. O tempo que durar o cigarro, disse para si mesmo. O
que durar cada partícula desse saboroso tabaco. Agustín acaricia o volante.
Os recrutas haviam ouvido a voz do Chigüin Somoza, mas talvez não suas
palavras. Talvez ignorassem a ordem que viria quando ele, Flores, tivesse
que sacar o revólver, apontar para os estudantes do Calvário e gritar —
com uma voz que antecipasse e provocasse os tiros — matem-nos. Uma
voz como a do Chigüin, sem matizes nem dúvidas. Sem avanços,
parênteses nem retrocessos. Matem-nos, ia ter que dizer. Ontem à noite —
tirou uma remela — na televisão, um jornalista norte-americano havia
entrevistado o presidente: “Se a Guarda vem e diz, General, é preciso que
o senhor vá embora, o senhor iria?” O homem havia sorrido. Replicou
breve: “Não”. “Não poderiam forçá-lo a partir?” O presidente tinha dito:
“Não poderia então eu usar a força contra eles?” “Mas eles têm as armas!”
“Sim”, disse Somoza, “mas eu tenho o povo”.
Há que se ter rins de borracha para padecer o pavimento de León. Se
por buraco se pagasse um córdoba a cada habitante, esta cidade estaria
cheia de milionários. E cu de ferro nos jipes. E a pele seca para não jorrá-
la gota a gota, segundo após segundo. Unidade de merda.
“Vamos”, dissera aos soldados. Outro cigarro pisoteado na areia do
campo de treinamento. Sua pegada cinzenta. As coisas que às vezes a
gente fica olhando! Como o senhor queira, Chigüin. A repressão é um
boato: começas a inchá-la e não para até que arrebente. Cada vez mais
trabalho, cada dia menos ar. Os muros suspeitos, as casas de putas com
pálpebras debaixo dos espelhos. “Vamos”, disse aos soldados. Os jipes e as
mopedes com o mesmo e único estrondo. E atrás o tanque. Tantas vezes só
com a companhia dessa besta os subversivos foram dissolvidos. O ferro
que aguenta, padre, o ferro que mata. Dentro de cada bala, padre, um
morto. O exército é a pátria mais numerosa. Deus, a pátria e o exército.
Nessa ordem os quero. Cálculo simples e eficiente: mais balas em nossos
arsenais que soldados sandinistas. E ainda — disse-o o Chigüin, eu o
confirmo — não começamos a disparar. Uma coisa é a revista, o castigo
exemplar, e outra a rajada. Uma maçã inteira debulhada pelo ar, ponto
final, padre. O exército está aqui para impor-se. Fazemo-lo por vocês.
Ninguém gosta de matar. Seria fácil devolver e se lavar as mãos. Dizer a
Agustín: “Leve-me ao aeroporto, em vez da igreja do Calvário”. Tome
cuidado com você, negro, me escreve Marta.
No largo as pessoas os veem chegar. Mas não saem correndo como
antes. Ficam paradas farejando a morte, com os narizes escancarados. Há
que assustar pelo menos a um para que berrem e se assustem. E então
começam as velhas com suas rezas e seus gritos ao céu. O cheiro de
pólvora sob o sol. Adivinho-o.
O padre deixou-se abraçar por María Molina e leu a faixa sobre a torre
do campanário. Os rapazes saudaram as pessoas. Estudantes em um dia de
festa. Neste país ninguém toma conhecimento da morte. Morre-se já por
hábito. María Molina havia lhe passado o braço por cima do ombro.
Alguma vez teve uma mulher tão perto? Por que chora, padre Pedro? Ele
também nunca havia visto um padre chorando. Os pressentimentos são
mais arrasadores do que o ar. Enchem-te as veias, embalam-nas. É um
corpo maior que o tamanho da gente, um afogo. Duas coisas estranhas,
pensa don Antonio nas grades do Calvário olhando a María Molina e o
padre: uma mulher que abraça um padre, um padre que chora. Nunca, nem
nos filmes havia visto um padre chorando. Don Chepe aperta o braço de
don Antonio e lhe diz: estás ouvindo? Estás ouvindo?, é a pergunta. Estás
ouvindo? O silêncio que começa a apertar-se sobre o largo quando se
escuta entre os aplausos dos estudantes o arquejante estouro do Sherman.
Estás ouvindo? Por um instante calam-se. Os rapazes no campanário
escondem os punhos voluntaristas. O padre desenrola o apertão de sua
profecia. Abram-se, gritou ao povo. É o tanque, pensam os rapazes. O
barbeiro leva don Antonio pelo braço. Vamos embora, seu fodido. Don
Antonio sempre lento, nascido para caracol. O padre é preciso: fui feito
para este tempo. Nada de voos metafísicos, nem amemos aos que nos
matam, nem a face de merda. Rápido, felino, tranca o portão.
De fato, o tanque, pensa o capitão.
De fato, abracadabra. Em cada uma destas casas neste instante a
vibração de minha besta em seus pés até aturdi-los. O tanque mágico. A
locomotiva do caralho que os dispersa e os confunde. Mas na rua se
juntam, uns com outros se alentam. Ficam em borrões espessos atiçando a
morte. É a EEBI, caralho, pensam. Cheiram, farejam. Aí vêm soldados de
verdade e não maconheiros nem bêbados.
O padre. O padre com os braços abertos nos degraus. Meu amigo, o
santo padreco que Deus o abençoe, brincando de Pedro pescador, de Roque
pirata, de José carpinteiro.
Meu amigo, o padre, feito uma cruz com seu corpo na porta da igreja e
as pessoas que vêm e que saem, que entram e se metem. Como um
coração. Bombeia e segura.
Olhou para Agustín coberto com os fones. Usa-os como capuz. O
microfone na boca qual uma anteface. A antena do jipe jogando sombra
em cima de um olho. Fundido no assento, cu de ferro como se quisesse
dissolver-se no pó que o tanque levanta.
— Que está acontecendo contigo? — perguntou-lhe.
Agustín só pôde perceber o movimento dos lábios de Flores. Com a
mão esquerda se destapou uma orelha.
— Capitão?
— Nada — disse.
Desceu do jipe. Farejou o ar e leu em voz alta a faixa do campanário.
Curioso exército o sandinista, disse para si mesmo, combina as palavras
com as balas.
— Agustín, porra, chame o gavião e pergunte ao Chigüin se sigo as
ordens como as deu ou se as mudo.
O padre com os braços abertos diante da igreja. Hoje todo mundo
brinca de ser mártir. Procuram convencer com gestos operísticos. Quando
o país está fervendo de comunistas lá vão de novo os padrecos sair para as
ruas para bancar o palhaço.
Antonio quis voltar para a praça. María Molina disse: o padre estava
chorando. Don Chepe disse: há algo no ar. É uma guerra de merda, pensou
Flores.
— Tiveste resposta?
— Sim, capitão — disse Agustín.
— Eu mesmo a tomo.
Agustín passou-lhe os fones e Flores secou com a manga do uniforme
o metal da ponte curva entre as orelheiras. O rapaz se sentiu desnudo.
Talvez Myriam. Talvez Ignacio. E se o velho? E se a Vicky também? No
caminho viu don Chepe. Uma vez levara o capitão para que se pelasse,
mas Flores voltara sorrindo, a juba do mesmo tamanho.
O Chigüin desembaraçado:
“Flores, entra voando fogo te digo!”
— O padre está babaqueando na porta.
“Dá-lhe uma porrada tamanha! É a guerra, Flores, seu sacana, não é a
Academia não.”
— Câmbio — disse o capitão e entregou o equipamento a Agustín. Foi
até o tanque. Impôs-se a poucos metros dele e com o dedo indicador no
alto conduziu o canhão até precisar o lavrado portão da igreja.
— Padre! — gritou.
O padre trouxe as mãos até o peito e as cruzou ritualmente. “O povo
unido”, começaram a gritar os jovens no campanário. Agustín ouviu a
gritaria atenuada pelo zumbido da linha direta ao posto de Somoza. Don
Chepe pôs para ferver a chaleira no fogão elétrico da barbearia e passou
para don Antonio uma velha revista.
Flores dispôs a tropa enfrentando o templo e apontou para o
campanário.
— Banhem-nos!
Os soldados demoraram-se um segundo e, com o mesmo movimento,
marcados por um metrônomo, procuraram o capitão para aquilatar a
diferença entre a ordem e a ameaça.
— Fogo, sacanas! — gritou.
A rajada foi-se perseguindo a si mesma no eco e os projéteis
ricochetearam nos sinos. Quando o capitão cortou seco a artilharia com
um grito de “chega”, outro grito partido no ar derramou-se sobre o
povoado vindo da torre do Calvário, girou pelos bairros prenhes de dor,
espesso. Uma garganta cheia de sangue e asma.
— Capitão! — gritou o padre fundido ao madeirame do templo. —
Estão desarmados.
Por cima do aulido do rapaz agonizante no campanário surgiu a voz
rouca do chefe do grupo. Depois o dorso desnudo e a camisa branca atada
a um cabo de vassoura.
— Nos rendemos! — gritou.
Flores teve no ventre o sabor do decisivo. Deixou-se nutrir, avassalar
pela queimação que lhe vinha da cabeça. Correu até o padre, encostou-lhe
na têmpora o revólver do regulamento e, amansando-o com a mão férrea
na nuca, desceu-o da escalinata até localizá-lo junto ao tanque. Só então
apontou para o portão da igreja.
— Sinto muito, padre — lhe disse ao ouvido —, o senhor e eu somos
católicos e um dos dois está equivocado. Mas quem deve decidir é Deus e
não o senhor.
O impacto estilhaçou o portão, penetrou na nave do templo e foi
descascando os relevos do frontispício e as pinturas do teto. Os vidros
ainda soltos rebentaram e a vibração ficou no ar por alguns segundos. O
padre iniciou um gesto de súplica. Achou que pela primeira vez entendia o
que significava ajoelhar-se para implorar, um gesto que lhe vinha não da
consciência nem da fé, mas sim de umas entranhas que até então não
conhecia, e os joelhos se flexionaram, mendigos, avassalados, e suas mãos
quiseram agarrar as coxas do capitão, mas este as esquivou e encabeçando
a tropa foi até o templo para ingressar com seus soldados pela escada em
caracol até o campanário. Subitamente o grito agonizante calou-se. A voz
de Flores havia coroado obesa a torre. Até o salão de don Chepe chegou a
ordem:
— Mãos na cabeça, seus sacanas!
A nova rajada juntou-se ao mandado como um estampido. O padre
observou a praça deserta e quis ter o poder de morrer. Só no cimento,
ouviu a dor das pessoas atrás de cada porta, sem que nem ao menos soasse
a respiração de uma criança. Quando o pano caiu do telhado para o átrio,
viu que dentro do veículo estava Agustín. Sentiu sua guayabera
impregnada de pólvora. Avançou chorando até ele. Quando viu que
Agustín se levantava no jipe, com o transmissor de rádio tremendo no
peito, deteve-se e olhou em direção ao horizonte seguindo o rumo do olhar
do rapaz.
Os recrutas arrastaram os cadáveres pelos degraus sem virar-se para
ver o que carregavam. Uma mistura de terror e esforço, as camisas
chamuscadas pelos impactos, as mãos alvoroçadas de sangue, o fresco
hálito do espanto no último olhar. Flores foi o último a aparecer. O
arrieiro. Destro, preciso, localizou-se diante do pano com a decisão que dá
o fato de se haver ultrapassado um limite. Soube que se agora quisesse
pensar, sua cabeça teria a obstinação de uma pedra. Estava feito de ação.
De ação feita. De vontade cumprida, Chigüin. O rosto dos recrutas
esquivando os cadáveres arrebatou-o de nova coragem.
— Enrolem-nos no pano!
Se não os veem, não sofrem por eles, pensou e virou rapidamente em
direção ao jipe.
— Agustín Menor! — disse. — Comunique-se com o Chigüin e diz
que a operação está okey.
O jovem sentiu que as partes de seu corpo não se calçavam. Que a
espontânea desobediência às ordens do capitão era algo mais indefinível
que um ato da consciência, da rebeldia, da fúria ou do medo. Que o padre
soluçando ao lado do pneu de seu jipe havia perdido a vida rezando a um
Deus que não existia, que certamente, que comprovadamente agora, não
podia existir. Que os recrutas enrolando os cadáveres no pano não podiam
ser os mesmos que aqueles com os quais havia tomado uma ducha nessa
manhã enquanto o sargento Cifuentes lhes dava pontapés no cu. Que o café
da manhã com o leite quente e o café volteador como conhaque pode haver
sido um sonho, apesar de sua fosca presença ainda no paladar. Que devia
ter fugido para as montanhas no dia em que Cifuentes os submergira na
água, quase afogando-os, enquanto lhes gritava: “Sempre se pode aguentar
um pouco mais, seus sacanas, aguentem com o focinho cheio de barro, que
se algum dia os guerrilheiros os agarram, terão que comer sua própria
merda”. Sentiu que seu corpo era um ponto, uma vibração de um espaço
indiferenciado, de um mundo sem pontos cardeais, sem tato nem olfato. Se
não fosse porque agora essa vibração doía como chaga, daria no mesmo
ser uma pedra.
Olhou para o padre rezando sobre o pneu, as faces cheias de pó, a testa
bruscamente envelhecida como a de um moribundo e, desprendendo-se do
transmissor, saltou do jipe. Vigiou que o capitão não o espiasse e saiu
correndo pela praça que se lhe tornou infinita ao sentir o cano dos rifles de
seus camaradas procurando suas costas.
“Matem-me, sacanas”, pensou.
Mas quando as primeiras balas torpes e isoladas soaram, já havia
chegado à esquina e, à medida em que ganhava cada metro de rua,
recuperou uma leveza que não sentia desde sua infância, quando don
Antonio o soltou pela primeira vez pedalando sua bicicleta.
CAPÍTULO XXII

A MÃO QUE passa e agarra, segura a outra mão.


O outro braço agarra com força, atenaza.
A mangueira trepida e estruge, quebra o adobe, atropela o cimento a
garra rápida.
Brusca a mangueira se filtra e enquanto racha dormitórios e fratura
salas de jantar, os rapazes conquistam cidades que se entregam a eles,
jovens apaixonadas.
A mão se faz mão e a mão mão que avança e passa. Os rapazes caem
das montanhas, sulcam lagos, ninguém se esconde e a vitória está que
arde. Os que vão morrer também conhecem as vésperas.
Sublime Salinas vigia na esquina. As balas abundam como as flores na
primavera e a acne nas faces dessas crianças que avançam com FAL e
pistolas até as imediações do quartel e esperam a ordem alertas. Aguardam
o fogo minucioso que vai apertado na mangueira. Sangue na artéria,
atalho, fende as tábuas. Uma proa, companheiro, se alegra Plutarco. A
María Molina quebra seu armário cristal para abreviar o caminho. A
Guarda pede reforços ao Comando e o capitão Flores grita pelos bairros
Agustín Menor entre seus bigodes ásperos e cada vez que grita bala lhe
dialoga e os soldados metralham em carrossel, cegos de pólvora, León
fodida, pátria e morte sem-mais-nem-menos-que-sem-mais-nem-menos
que não eram só palavras. Outra palavra espera. A respiração de Plutarco é
dona desse sinal. Entretanto o salvo-conduto é a mangueira que
desconjunta paredes, alvorece com orifícios cômicos a intimidade dos
vizinhos, um rapaz agarra o punho dela, pulsa-a sedoso, dali desliza a
língua pelo braço deliciosamente salgado, quem é você?, pergunta rindo,
responda-me ou aumento a brecha. Cada trecho a tentação da labareda. A
pegada. A avenida abrindo-se. Veloz embora galanteie. É a guerra, meu
amor, mas antes de tudo estamos na Nicarágua. Agarre, vizinho, diz don
Chepe, seus dedos em travessia de descascar paredes em vez de mechas
juvenis. E vizinho, caralho, soa tão diferente hoje em dia. Abunda e levita.
Ouça, compadre, eu sou tufão. E eu te abro mais do que terremoto. A
empunhadura firme e a ponta crava. Procura o inimigo. Vai abrir-lhe de
uma picada o pescoço incendiado. Um licor de saltimbancos. O risco faz
com que se mije, mas é também uma festa.
A mão que fica atrás vai com a mão que avança. Aguarda e recolhe o
semeado. O ouvido na parede. Quantos metros mais? Quantos se terão ido?
São bons os cálculos de Plutarco?, duvida don Chepe. Uma coisa são os
mapas pentelhos onde a África não é maior que um esquilo colorido, e
outra a porca realidade onde tudo se estica, emaranha e onde quase nunca
se consegue chegar aonde se quer.
Valeu a pena apanhar com a viuvez, começa o monólogo a mulher
mais velha do povoado.
Algo há no ambiente, diz o doutor Rivas revendo o expediente de
Vicky a dois quilômetros da mangueira que a tudo fia e emaranha, tramoia
e amarra. Ante o senhor que tudo ata e desata em fé de promessa, estenda-
me o pé, sussurra Myriam para Antonio, e este desfruta a grossura da lona
elástica na palma de sua mão e caminha até o outro muro transportando
um transatlântico, a primeira mordida da fera que foi levantando a
imaginação do projetista — e Vicky que lhe dissera: leve seu plano para
Hollywood, te fez mal ver tanto filme — açulado pelos cães líricos do
bombeiro. Complô na casinha do cinema, e no salão de bilhar. Na padaria,
na casa de putas e na casa do fotógrafo Ebenor. Salada de complô, prato de
fundo: complô. Você está servido de uma sobremesa, vizinho?
Don Antonio espera que o orifício prospere. O rumor adianta-se à
mangueira. Chegaram para dizer que Flores anda trafegando de jipe pelo
povoado e que cospe em cada esquina Agustín Menor, revistando casas,
estripando com sua metralhadora os porcos, escalavrando porcos, canários
e galinhas, o que apareça pela frente Agustín Menor cachorro desertor e
filho da puta. A don Antonio, o que lhe dizem e lhe mencionam, vizinho,
não lhe entra. Por aí anda o garoto e que é que a gente pode fazer se assim
o quis Deus. Agora só quer desfazer-se da viscosa lona para a casa lateral,
comer esses metros até o quartel. Que grite e que berre. Ele não se agrava
nem se ofende. Não se enfurece nem se irrita. Mais rápida que a
mangueira corre a voz pelo povoado que Agustín Menor desertou. Dizem
que Marcelo desertou. Vê-lo mesmo, ninguém viu, mas Agustín sim que o
viram os pés turbilhões rascando-se do Calvário. Alguém diz que viu o
próprio Flores procurar suas costas com um tiro. E o advogado Rivas viu-o
correndo e despindo-se em plena rua, tirava o uniforme arrancando-se a
pele; outro menos, disse para si mesmo melancólico.
A mangueira pelas casas. Natural. Um rio em seu vale. Mas para
Plutarco nada flui demasiado veloz. Rouco e impaciente manda perguntar
à cadeia de vozes se já solta a gasolina. Quer que o potro escoiceie as
barreiras do curral, destrua a coices a pele que o contém. A garagem o
oprime. O cheiro de gasolina lhe parece perceptível até em Manágua.
Adiante não há resposta. Quem sabe por onde bica agora meu pássaro. E a
cada instante se assoma Salinas e pergunta quando. Plutarco só sabe dizer
que o que a ele lhe consta é que os metros se vão desenrolando, que tudo
terá em algum momento seu final, como a vida mesma sem ir mais longe
que está feita para acabar-se os trens que se enferrujem e os navios para
que naufraguem. Haverá um instante, diz, metendo um dedo no nariz, em
que a voz de mando chegará de volta, a mão apertará outra vez a mão, e a
língua dirá boa sorte. “Língua de fogo” descrevia o jornalista local o
horizonte no dia do incêndio da serraria. Boa morte, Salinas ave agourenta.
Ri com os dentes espaçados para não se mijar. Já vão dizer, agora, já. E
então, virarei muito suave a alavanca, como se dirigisse um Chevrolet
último modelo e depois com toda a vontade feita até da porosa matéria de
seus sonhos farei estourar a pressão para que o jorro flua com ascendência,
para que os vizinhos sintam que levam um tição entre os dedos, o cetro do
rei entre peça e peça, um jorro estival e punçante, fluvial, catarata, pião de
ouro. Intrigante, a gasolina untará cada milímetro do Comando. Haverá
um momento, don Antonio, em que até o céu será uma labareda. O
Comando de tigre a palhaço pobre. O senhor não terá tempo, don Chepe,
para dizer parece um sonho. Os rapazes então se filtrarão das cornijas, se
desenterrarão de buracos impossíveis com as mãos cumuladas de pistolas,
metralhadoras, bazucas, Pontos 30.
Mas a ordem não chega de volta. A merdosa paz do suspense.
Se a outros lhes corre, a Salinas também se lhe tranca. Que puseste a
correr, Pluta? Um verme? Uma tartaruga fria que por cada passo recua
dois? Estás querendo lustrar com um caranguejo invertido? Na porta da
garagem acrescenta: que caralho está acontecendo que não acontece nada?
Manda brasa já. Solte a candeia. E Plutarco que está feito de pura ânsia,
tem que dizer a palavra que não lhe convém a sua boca, as duas sílabas que
o deprimem. Cal-ma.
E Salinas em cada motor que arranca ouve o jipe de Flores, o tanque de
Flores. Difícil que não se inteire, que já não o saiba, pois. Um complô de
mais de dois neste povoado é mais pegajoso que o estribilho de uma
canção da moda, essa moto que está vindo é pelo santíssimo caralho o
tanque de Flores, esse pássaro que trina é seu jipe, o olho imenso do
gavião que pestaneja no céu todo espreita só essa sacana garagem. Vão nos
explodir antes do tempo. A mangueira babaca que se tranca e dilata nas
cadeiras dos conjurados. O que que vocês a ficam manuseando aí, homem.
Flores nos parte com uma bomba. Não será o Comando em chamas, mas
sim a pele de todos os filhos da puta que nos metemos nesta confusão, de
babacas que somos. Pátria ou morte sim, mas por favor mais rápido
companheiros que os alto-falantes de Flores andam gritando pelo povoado
Agustín Menor filho da puta e comunista, bebe cerveja entre os projéteis,
cospe uma saliva bronca, perfura com rajadas densas o adobe dos ranchos,
estilhaça os tetos, explode as telhas, saia filho da puta, grita Flores e a
flácida lona que devia ser celagem vórtice redemoinho emaranha-se,
entretém-se em cada casa. Acreditam os sacanas que é serpentina para o
aniversário! Plutarco com as cutículas sangrentas acha que ouve a ordem,
já estamos indo, mas na realidade não a ouve. Que está demorando? A
cobra perdida duzentos metros mais adiante. Terão tirado-a para passear
no jardim. Estarão fotografando-se com ela. Plutarco que puta azar. Tanto
haver sonhado esse festival de candeia que terminasse com o reduto
inexpugnável de Somoza em Léon, para rifá-lo entre vizinhos adeptos dos
malabares de rei de copas e ases de espada, indisciplinados pardais bons
para trinar mas carentes do canino do chacal, da disciplina prussiana. Que
Prússia, que nada, compadre, estamos de calor para o caralho! E se um dia
nevasse na Nicarágua, hein, Salinas? Só num conto, sacana. Quem sabe,
Sali. Se Somoza cai, vai acontecer sabe-se lá que coisa esquisita. Irmão
Plutarco, se você enfiasse um termômetro pelo cu, acho que o rebentaria.
Fanicos, o que se chama fanicos o encanamento da casa de Antonio
Menor. Mais tocha que mangueira. Golpe sem bússola, povo sem
navegantes. Só passeio em barcos pelo lago namorando traças. A mãe de
Agustín traz um balde, Antonio trapos. Há que correr a tina de banho
porque isto aqui vai se inundar, homem. E já chega ao mesmo tempo a voz
do capitão em sua calçada, trepa nas paredes essa lagartixa, o porta-voz
guincha e triplica o ruído dos projéteis, Flores, velha, Flores. Agustín
Menor, sacana e desertor, filho da puta e sandinista. Vem para cá, diz ela.
Vem para cá, repete. Vem, diz o pai. Anda procurando-o. E agora. Calar-se.
Desta vez traz mais balas que palavras. É Flores, diz Plutarco a duzentos e
vinte metros. Antes que a serpente chegue ao Comando teremos assim uns
buracos nas cabeças. São Paredão, Sali. Meter-se-ão pelas órbitas de
nossos olhos uns vermes maiores que a mangueira babaca. Apressem-se,
sacanas, grita. Corram o dragão que vomita fogo, galopem o cavalo de
Troia — disse a mulher mais velha do povoado — e don Antonio ouve o
barulho do jipe sobre o empedrado díspar, o alto-falante um peito
asmático: saia filho da puta. Vão entrar, diz Amalia. Plutarco e seu mapa,
sorri finalmente Antonio. Um louco. A serpente que tentou Adão seu
sonho da mangueira. Acordes fúnebres em vez da marcha triunfal. Que
fazemos, pergunta o senhor Ramírez: a quem? A duzentos e vinte metros
— segundo seus cálculos — Antonio Menor o ouve: se põe o chapeuzinho
de lona como um guerreiro seu capacete, não beija sua mulher e deixa que
a água jorre do banheiro para o dormitório, não olha os retratos de Vicky e
Tin com caras de anjos na primeira comunhão e surge ao triste sol do
umbral.
Ai está o capitão Flores. Seu próprio queixo, o lento havana que
translada com ironia de um extremo ao outro do lábio, a pupila picante que
atravessa as lentes escuras, mais loquaz que a metralhadora que o aponta
do jipe. E quando coça o peito, naufraga-lhe em meio ao suor a cruz de
ouro:
— Teu filho se passou para os sandinistas, seu sacana.
Antonio assente. Uma súbita lentidão, um desmaio lentíssimo, o
umbral de um sonho desordena-lhe o juízo. Isto é o que precede a bala,
pensa.
Mas levanta o rosto surpreso quando o capitão se joga em cima dele,
agarra-o pela nuca e o vai empurrando para o carro.
— Tu vens de refém, seu sacana, até que teu filho apareça.
CAPÍTULO XXIII

JULHO.
Tem nome de companheiro o mês.
O carro atravessa a noite. A estrada silenciosa. A Via-láctea.
Acima o ruído do avião. Está nublado. Carregamos as armas com
desfaçatez.
Entre o lago e o Pacífico esta franja. Olhada no mapa, a Nicarágua
parece a América Latina. E esta linha caminho para León me lembra o
Chile. América Latina. Zelaya é o Brasil, Manágua é a Bolívia,
Chinandega, Peru; Nueva Segovia, Colômbia; Jinotega, Venezuela. E
Equador?
Volto para casa.
Estranha esta calma imensa.
O carro trepida, mas tudo está em seu lugar. Como nos pátios da
infância. Lembro-me da casinha do cachorro, os ninhos de pássaros. As
formigas que subiam e desciam da árvore, reconhecendo-se cada uma.
Uma a uma, tantas.
León.
Esta calma onde cabe o céu. Nem uma estrela. O céu e a estrada
perdidos em uma só nuvem que me parece infinita. Somoza não caiu e no
entanto vamos fumando tranquilos. A morte não se anuncia. A gente não
chama por ela agora como a um médico. As coisas não falam. Todo o
segredo do universo é o silêncio. Nada fala. Só nós andamos aos
empurrões com as palavras.
Eu, poeta.
Eu, em León.
A Nicarágua inteira liberada e o ditador não cai. Que está
acontecendo? Como é que se decidem as coisas na história? Deixamos
para trás os vulcões e agora a paisagem canta calada. Só os homens
falando. Falamos discursos, gritamos coisas fortes, coisas devagar. Todo o
resto se cala.
Por que é tão nova esta tensão entre fumaça dos cigarros que sai pelas
janelas do carro e a silhueta dos postes?
Sinto que não vivo no presente, mas sim em um presságio.
Digo a Guatón Osorio que ligue o rádio.
Me pergunta com seu sotaque sulino:
Para que queres ouvir o rádio, bobão?
O presságio, digo. Tenho a intuição de que Somoza foi-se embora.
Tás babaca, me diz. Num caiu.
Como o sabes?, lhe digo.
Se tivesse caído se saberia.
Como?
Não sei, pois, bobão. O carro estaria voando, o céu estaria ardendo, se
poriam a cantar os pássaros. Qualquer coisa estranha.
Ponha o rádio, lhe digo.
Osorio obedece. Sua Garand repousa em seu estômago abundante. O
vento lhe endurece o suor na testa. Aperta o botão do High Fidelity do
Pontiac e a primeira coisa que soa é a voz de um cantor americano. Dean
Martin? Sinatra? Quem cantava Money burns a hole in my pocket?
Dean Martin, diz o Gordo. E aumenta o volume e assobia a canção
com Dean, segue as pistas da estrofe como se tivesse ensaiado toda sua
vida para este momento perfeito em que a estrada é uma nuvem. Esse tema
eu ouvi do meu velho. E da minha velha. Dos dois, antes que fossem
embora deste país da grande puta e me deixassem só engasgado com o
Código Romano.
Feliz viagem, velhos. Eu serei poeta.
Todos os pássaros calados. Um festival de pássaros em silêncio. O
Pontiac molenga absorve a noite. Nem ao menos uma estrela. Vamos
metidos nesta solidão como se a rota fosse feita só para nós. O asfalto um
tapete triunfal para o poeta Leonel, para o Gordo Osorio.
Até ontem a cintura nos charcos, abrindo caminho a machete,
dormindo no teto das casas enquanto um gato te observava e depois se
lambia lentamente o rabo, e os refletores da Guarda metendo-te as garras.
Hoje avançamos de carro, a bandeira sandinista drapeja ao vento da antena
e no High Fidelity canta Dean Martin.
Tomada assim desse modo pequeno, a revolução pode parecer uma
coisa estranha.
Estranha também a pausa da emissora atrás de cada tema. Como se os
animadores fizessem as malas no estúdio e não conseguissem voltar para
anunciar outra música.
Osorio olha para mim. Como é que um sujeito tão gordo pode ter esse
olhar tão intenso? Leva o cabelo alvoroçado pelo vento. Nenhum de nós
acredita numa emboscada. A Guarda fugiu para Honduras, se meteu em
aviões americanos ou está refugiada nos bunkers e comandos. Estão
esperando o quê? Os marines? Condições para a rendição? Reforços
prometidos? Somoza disse que governaria até 81 e aqui estamos nós indo
por esta estrada intransitável, tão nossa. Nossas próprias pernas. Osorio
olha para mim longamente e sorri para mim. Eu lhe sorrio de volta.
Tinhas razão, me diz. Assinala com uma piscadela de olho o High
Fidelity. O sacana se calou.
Ouvimos o silêncio. Os rapazes entrando na emissora e tomando posse
de seus microfones, de seus estúdios, suas antenas? Passam dois, três
quilômetros e de repente suave, um beijo de despedida, entra Tito
Rodríguez cantando Quem diria.
Quem diria que aquela menina, hoje é uma mulher completa e que
gosto dela com outra maneira de gostar? Olhem que coisas, quem poderia
dizer.
Já não há locutores.
Só o técnico que crava a agulha precisa no sulco e nenhuma palavra.
Ninguém está berrando com tom de noticiário de cinema que o governo
esmagará a insurreição dos traidores. Só o técnico na casinha acolchoada
esgaravatando entre seus discos preferidos. Talvez depois de Tito, um
Manzanero. E depois de Manzanero talvez já seja a hora de don Carlos
Mejía Godoy e os da Palacagüina. Tens razão, Gordo. Se agora de
Manágua a rádio transmitisse Flor de pino, este automóvel levitaria até
estrelar-se com os aerólitos e cometas, iríamos tão verticalmente para
cima como um jato. Saberíamos em meio a esse caminho corcoveado a
bazucaços e rachado a terremotos que Manágua caiu. Que caiu para cima!
Que vais fazer?, pergunto ao Gordo.
Estuda-me com o pescoço dobrado, reclinando-se no vento.
Depois da vitória, esclareço para ele.
O sorriso lhe abre a fileira de dentes de onde saltam seus caninos
alegres. É como se tivesse a boca cheia de fogos de artifício.
Já vencemos, disse.
Que vais fazer? Voltas para o Chile?
Homem!
Alguma ginástica? Com um pouco de bigode? Um pequeno retoque no
passaporte?
O Gordo mantém o sorriso aceso. Os faróis do automóvel rastreiam a
pista. Subitamente o motorista aperta o botão do rádio e o desliga. Ao
longe, mas inconfundível, está o tiroteio.
León, diz.
Comprovamos que temos as armas sobre os joelhos.
León, penso.
CAPÍTULO XXIV

AS BALAS foram carregando a Guarda em direção ao Comando, como os


cachorros pastoreiam as ovelhas. Ignacio deu a ordem e de cada porta,
teto, sacada, mansarda, saguão, garagem, saíram as pistolas e os rifles
zombeteiros, caóticos ou minuciosos na madrugada. Ignacio disse sim
quando Osorio chegou do sul, quando o tio Emilio apontou a mangueira
com seu olho absorto no muro, quando Myriam abandonou a caixa de
primeiros socorros e agarrou o FAL da cabine do operador dizendo não
sirvo para essas babaquices da Cruz Vermelha, quando Plutarco chamou
pelo telefone a companhia de bombeiros e exigiu de seu assistente que
fizesse soar a sirene, quando o padre contatou os alto-falantes da catedral
ao órgão e deixou que seus dedos tecessem obsessivos compassos
elementares, quando os reforços da Guarda não podiam cair do céu porque
já era Honduras e Miami o rumo das atordoadas andorinhas, quando os
helicópteros davam voltas em volta da Paz Centro, feridos a bazucaços,
quando o sargento Cifuentes passava com a palma das mãos o palmbeach
creme civil e sacudia o pó de suas ombreiras e perfilava com a unha o
vinco das calças e esquartejava o pé do armário onde escondia o dinheiro e
descosturava os galões do uniforme esquentando-os debaixo da cueca,
quando a rádio Venceremos de León anunciava que Anastasio Somoza
havia tomado o avião para Miami, levando o ataúde de seu pai na
bagagem, quando a Flores e sua tropa não lhes restava outro universo que
o emaranhado de cimento e madeirame do Comando, quando todo o resto
do país trinava Sandino, quando de cada janela saía uma bandeira preta e
vermelha de papel, pano ou cartolina, quando Ernesto Cardenal vinha
voando para a Nicarágua e uma grande luz à direita o sobressaltava e não
era um jato contra o aeroplano mas sim a meia-lua sereníssima que saía
iluminada pelo sol.
Mas quando a ordem de Ignacio chegou à garagem, a mão de Plutarco
hesitou em baixar a alavanca. O boato havia chegado mais rápido que a
ordem: Flores tem reféns. A mãe de Agustín alcançou a garagem pelo
interior das casas, trepando pátios, esquivando-se de balas, e disse para
Salinas e disse para Plutarco: agarraram também o meu velho.
Têm reféns, foram chegando os sussurros pelos socavões dos muros,
pelos encanamentos perfurados. Flores os foi sorteando ao acaso pelas
ruas. Em um segundo havia descoberto a magia da técnica: tomava um
morador em seus braços e o fogo vindo dos telhados cessava consternado.
Salinas e Plutarco se olharam. O bombeiro havia vomitado duas vezes
e continuava tomando esse café que lhe chegava do buraco vizinho,
espesso como barro e entulhado de açúcar. E agora soava o órgão do padre
e cada nota já deveria ser uma labareda no frontispício do Comando, o
próprio Plutarco havia ordenado o ronronear circular da sirene para que os
companheiros abandonassem o ataque ao fortim do morro e concentrassem
suas forças na cidade. Por uma vez tudo havia funcionado às mil
maravilhas como sua minuciosa caligrafia e no momento decisivo — no
momento decisivo que já havia passado, que estava a ponto de passar —
não podia descer a alavanca do carro de bombeiro vermelho que semearia
a cidade com a candeia definitiva. Ficaria com o sabor do triunfo sem
mastigar a fruta. Os rapazes sandinistas atacariam o forte pelas ruas ao ver
que o incêndio não vinha e a rua se encheria inutilmente com seu sangue.
Ignacio o enfrentaria em um momento e lhe diria traidor. Os dois se
olharam em um silêncio estéril. Salinas pensou, mas não pronunciou as
palavras: é a mãe de Vicky.
O percurso da mangueira foi recuando com as vozes: agarraram María
Molina. Refém. Agarraram Calixto García. Refém. A Moncha, refém.
Dizem que don Chepe.
Flores os foi arriando. Encontrou o talismã com don Antonio. Depois
só teve que ir aplicando a fórmula. Abracadabra. Havia entrado com suas
mopedes, jipes e tanquetas no Comando. Dali estaria telefonando para o
Chigüin. Pesquisando com radar as pegadas do Chigüin em algum lugar do
céu nicaraguense. Entra voando fogo, lhe havia pedido o Chigüin. Agora
lhe faria falta Agustín para passar telegramas. Os binóculos, por mais
potentes que fossem, não aproximariam os reforços. Nem mesmo se os
esfregasse como a lâmpada mágica.
Plutarco soltou o comando da alavanca e se abraçou a si mesmo.
Envolveu-se com seus dois braços. Cada nervo de seu corpo parecia estar
pensando. Cada gota de seu sangue lhe pareceu alerta, conflitiva. O
calafrio, o sentia nas raízes do cabelo.
Salinas lhe disse:
— É uma ordem.
Encolhido, replicou:
— Eu não sou soldado.
Agora já não eram sussurros filtrados pelos muros. Da rua chegavam
os gritos com nomes e sobrenomes: Plutarco, há reféns! Don Chepe,
refém! Don Antonio, refém! A Moncha! A família Ebenor! Saida
Mendiata, refém!
— Então eu solto o jorro — disse Salinas.
A sirene de incêndios havia deixado de soar e agora o vento enchia os
tubos do órgão em um acorde que descia da coluna aos joelhos, como se
esse ar surdo substituísse a circulação nas veias.
Plutarco respirou fundo e disse:
— Faze-o.
A vibração do líquido aprisionado estremeceu os punhos dos vizinhos.
Não houve tempo para comentários. A flácida lona da mangueira avultou-
se com a rabeadura briosa de um potrilho, e nos pulsos infartantes
descarregou a gasolina seu barulho de avalanche, seu aroma de vulcão que
vai entrar em erupção. As mãos trepidantes se sentiram fundidas a esse
sangue que arderia em minutos, talvez em segundos. Os vizinhos sentiram
seu corpo crescer magicamente, a ação os dotava de mais nervos, de outros
ossos, de outra tensão nos músculos, de uma força que nenhum tinha
humilhado em sua habitação esperando que a Guarda Nacional viesse para
revistar-lhes os papéis, as persianas, as tetas de suas filhas, a baixela onde
em cada garfo viam um fuzil, em cada faca de manteiga a baioneta de um
sandinista, nas migalhas de pão as balas, no galinheiro de galinhas magras,
que de qualquer modo saqueavam para suas canjas, a cavalaria sandinista
que um dia entraria de lança em riste nos quartéis degolando os defensores
dessa Nicarágua generosa, cristã, ocidental, amante da livre empresa, da
nobre Nicarágua de sutiã pródigo, da grande família onde todos têm
direito a viver sob o manto mãe da democracia, fiel a seu padrinho de
cima, poncho fraternal da América, tira-sombras no inverno, sombrinha no
verão.
A gasolina fluvial pelo grande esôfago do povo.
As mãos invadidas de estrelas. O espinhaço de todos flexível, grácil,
poderoso, como um látego.
A mulher mais velha do povoado não recordou tal solenidade nem nas
melhores missas de sua vida. Nem nos funerais de seu santo esposo
Ezequiel Ortega, que morreu sem ter disparado nunca uma bala, mas cujas
últimas palavras foram “quando Somoza morrer, arranja uma maneira de
me avisar”, nem no tumultuado silêncio na catedral quando um ano antes o
Bispo rezou in memoriam do jornalista Joaquim Chamorro, assassinado
por Somoza em Manágua.
A mulher mais velha do povoado viu atravessar o fogo por seu
dormitório bebendo lentos goles de Earl Gray, o único chá decente que
ainda lhe chegava em latas quadradas Twinings anualmente da Inglaterra.
Viu os nicaraguenses, pequenos, morenos, os rostos subitamente elevados
em uma dignidade só comparável às figurinhas dos santos de calendário. A
mulher mais velha do povoado definiu os sessenta ou setenta vizinhos
entre os quais corria a gasolina final com o bufido de uma locomotiva,
como um só animal, um deus arrancado da mitologia maia ou nahuatl, um
deus plural que é ao mesmo tempo nuvem e sol, areia e chuva, planta e
oceano, ventre e inteligência. A mulher mais velha do povoado viu na
arisca gasolina que trepidava em garras da fera latino-americana a artéria
de um anjo apocalíptico. Pensou em meio ao desvario de arquejos,
suspiros, instruções, repechos e convulsões que talvez a queda de Somoza
coincidisse com sua própria morte. Que ela sobreviveria a ele. Teve
alucinações. Pareceu-lhe que tinha cento e cinquenta anos e que todo esse
animal fragoroso era ela que o paria agora. Acalmou-se com uma má
metáfora: era o filho que jamais teve com Ezequiel Ortega. Sorveu com
minúcia filosófica seu chá Earl Gray. Seu fino punho maltratado, mas
preciso, manteve a aba da xícara sem que tremesse. No espelho sem
azougue da parede perfurada pela mangueira viu seu próprio rosto à
margem, oposto à foto de Ezequiel cravada nesse ângulo descascado. “Já
durei mais que as coisas”, disse para si mesma. “Talvez nunca mais morra
e se Deus me dá a saúde necessária aceito a imortalidade sem queixas.” A
mulher mais velha do povoado reconheceu em seu povo, com alegria no
coração, os detritos de sua aristocracia inglesa que em plena adolescência
a havia feito vomitar no Panamá, ao ver a cor da pele latino-americana.
Outro gole de chá a fez lembrar que seu pai lhe havia coberto o nariz com
uma camisa empapada de colônia Atkinson que levava tão
amanuensemente no bolso do paletó com seu quarto de Ballantine’s.
Ezequiel a trouxera para León drogando seu asmático pai com um
mostruário de telas sedosas e multicoloridas que lhe permitiria cimentar
uma loja na Nicarágua, ao estilo de Gath y Chaves do Chile ou Les
Gobelines parisienses. Sua filha, que um dia seria a mulher mais velha do
povoado, teria herdeiros com suficientes libras que dariam para fustigar as
caixas dos hipódromos de Long Champs e Saint Cloud em Paris, os de
céspede em Londres, e tal quantidade de marcos que os secos crupiês de
Baden-Baden se poriam úmidos como baratas depois da chuva quando à
fala de rien ne va plus eles ampliassem alguns milhares em cheio. Foi no
ano em que Darío escreveu: “Midi, roi des étés, como cantava o crioulo /
francês. Um meio-dia / ardente. A ilha queima. Arde o escolho: / e o azul
fogo envia. / É a ilha de Cardón, na Nicarágua. / Penso na Grécia, em
Morea ou em Zacinto. / Pois ao brilho do céu e ao carinho da água / alça-
se defronte uma tropical Corinto.” Havia lido o poema em um intermédio
erótico na cidade de Rivas, enquanto Ezequiel trabalhava ruidosamente
sua sesta recuperando-se de uma viagem de núpcias que teve entusiásticos
trechos iniciais — hotéis atapetados, com ventiladores de mais gabarito
que os utilizados pelos súditos da rainha na Índia e que na altura de San
José se rebaixara às pensões que, junto com tristes colonos, frequentavam
vendedores ambulantes, professores primários e talvez algum colega do
próprio Darío, menos proclamado e de calças infinitamente mais toscas. O
último vocábulo daquele poema constava da palavra “cigarra”. A mulher
mais velha do povoado que naquela época possuía uns articulados seios
duros do tamanho de um pêssego que se endureciam assim que a mais leve
linguada de Ezequiel untava seus biquinhos, havia deixado cair o jornal
com o texto do poeta e se apressava a meditar sobre os contrastes entre o
descrito e sua própria experiência nos lençóis feitos de pano de saco de
farinha daquele hotel sulino, quando um animal, tão grande quanto
repelente, deslizou-se do lavatório para a porta, fatalmente hermética. Deu
uma cotovelada em Ezequiel aterrada e este, sabedor do amor pela lírica
de quem seria um dia a mulher mais velha do povoado, definiu a
repugnante ratazana com a palavra mais fina que encontrou em sua
semivigília: “Mas meu amor”, disse-lhe, “essa é uma andorinha”. Por
volta de 1917 havia adquirido fama como excelente professora de inglês
— “pronúncia britânica” — entre os comerciantes de León que lhe
mandavam suas filhas rubicundas ou magras para adestrá-las no idioma do
futuro da Nicarágua. Em aulas particulares dadas por quem seria alguma
vez a mulher mais velha do povoado aproveitava para surrupiar
intimidades da vida da vizinhança que depois divulgava com discreto
aprumo na praça e nos armazéns. Com semelhante técnica e discrição, em
1978 usava os véus de uma pretendida senilidade ante a Guarda Nacional
para passar até nas casas mais convulsivas as moscas e consignas de
Sandino. “A uma coisa tão linda como uma mensagem revolucionária
chamam de mosca”, disse a Ignacio, “e a algo tão asqueroso como uma
ratazana botam o nome de andorinha. Nicarágua é mais revolta que a
Guatemala, no que se refere à linguagem”. Em 1936 entrou na loja de
tecidos um sujeito de óculos grossos, sorriso longo como uma navalha e
lenço de chulo ao pescoço, que apontando para o lugar mais iluminado da
parede entregou a Ezequiel e esposa o retrato do novo presidente legal da
República da Nicarágua. “Anastasio Somoza”, disse apresentando-o.
Quando o homem foi embora, Ezequiel pôs o retrato no fundo de um
móvel de lastimáveis dobradiças e ordenou à mulher: “Você só pendura
isto em caso de emergência”. E acrescentou, fumando esses havanas que
lhe tiraram todo o ar até fazê-lo morrer de um sufoco por volta de inícios
dos ano 50: “É o sacana que matou Sandino”. Aquela que na década de 70
seria uma das mulheres mais velhas de León, e em 79 a mais velha
absolutamente depois do falecimento por bala perdida de Matilde Iglesias,
havia comentado então com ele: “Mas se são os negros, os índios e os
camponeses que gostam desse Sandino”. Ezequiel examinou-a com o olhar
como quem aciona uma faca e lhe disse, antes de colocar-se o chapéu
Panamá para ir jogar algumas partidas de cartas no clube: “Nicarágua”. E
na porta acrescentou: “Se você está querendo mais daquilo que você gosta
tanto, pare com delicadezas e babaquices”. A 21 de setembro de 1956, dois
rapazes pálidos, dois lírios, consumidos como velas, armados como uma
divisão em campanha, bateram na porta de sua loja pela madrugada e
pediram que os ocultasse por alguns dias. A Guarda Nacional andava por
León procurando jovens e adolescentes atrás da pista de uns loucos que
haviam disparado em cima de Somoza na Casa do Operário. “Sou uma
pobre viúva”, desculpou-se a futura mulher mais velha do povoado. Mas,
simultaneamente, prenhe de uma inspiração, ampliou a fresta da porta e os
trouxe até a loja, onde entre tecidos cheios de traças, metros de veludo
desbotado, percal mordido por andorinhas, ofereceu-lhes um chá Twinings
e escutou com maravilhado interesse o relato dos jovens. Um colega poeta
chamado Rigoberto López Pérez havia descarregado o revólver em cima
do Tacho enquanto a orquestra tocava o mambo do Cavalo Negro,
deixando-lhe no peito uma perfuração tão grande como uma fossa.
“Mortal como uma tumba”, dissera o outro.
A mulher mais velha do povoado, que nesses anos levava a viuvez com
um alegre toque na maquilagem e certo orgulho nos seios altaneiros à
ponta da língua! vitamina do finado Ezequiel, levou o polegar dobrado aos
lábios, beijou-o e disse: “Juro por este que não os trairei”. Moveu a estante
de lamentáveis artérias, retirou o retrato de Tacho, acrescentou-lhe com
fita adesiva um detalhe que se lhe pendurou no sorriso como um vômito
negro, colocou-o no lugar onde havia um quinquênio regia Ezequiel
Ortega, fundador da loja “Mariposa” e, quando no dia seguinte irrompeu a
Guarda Nacional com seus fuzis compulsivos, limitou-se a olhar com
tristeza o retrato e sem muito trabalho — lembrando as novelas de rádio
depois do almoço — deixou cair uma lágrima espessa em sua face
britânica.
Agora, nessa serpentina que confundia e emaranhava o povo, sentiu
não só o sabor do paradoxo e o absurdo que era toda a América Latina
onde os bombeiros lançavam chamas em vez de água, mas também a
plácida carência de surpresa com que havia seguido cada milímetro da
insurreição. Assim como nos bailes de sua juventude também não se dera
conta que sob os flocos de seu vestido rosa de seda e seu manancial de
pérolas os pés se mexiam impudicos ao marcar o compasso do charleston
atraindo o olhar sibilinamente azul dos estudantes ingleses de Norwich, o
ritmo da rebeldia a contagiara sem consciência, quase sem propósito, até
que o padre lhe disse pelo confessionário, uma vez que fora delatar um
eventual adultério contra Ezequiel, concebido mas não executado havia
décadas: “A senhora é agora a mulher mais velha do povoado”. “Como
galanteio é uma merda”, sussurrou-lhe pela gradinha asfixiada do meio-
dia. “Mas como símbolo para a luta contra a ditadura, é um achado”,
insistiu o padre, deixando longamente seus lábios atracados ao sensível
molhe de seus lóbulos britânicos.
— I got it — disse.
Desde então havia tramado bombas de mecate, cedido rolos de brim
vermelho e preto para fazer bandeiras, estandartes e retalhos de seda para
serem enrolados nos pescoços juvenis, algodão para apertar as feridas. Seu
despacho havia sido hospital, arsenal, cova, pousada, relações públicas dos
sandinistas com o clero, secretariado do clero para moderar os sandinistas.
Mas agora, vendo a mangueira pender entre as paredes de seu dormitório
como a corda frouxa do equilibrista suicida na praça central, sentindo o
fundo odor da febril matéria que gotejava sobre seus gobelinos, pôde
perceber que seu pulso, subitamente febril, derramava por sua vez algumas
gotas de chá sobre o pires. Tremendo, chamou o homem de cabelo grisalho
que tentava domar o trânsito do combustível apertando a mangueira contra
o peito e lhe disse: “Não é a doença de Parkinson. É que pela primeira vez
sinto tanta vontade de rir”.
Quando a mulher mais velha do povoado disse isso, Salinas alentou
Plutarco a avançar até o medidor do tanque e o bombeiro, com gesto
resignado, fechou a chave e olhando com olhos suplicantes a mãe de
Agustín, declarou:
— O tanque está vazio.
A senhora Amalia sustentou seu olhar e disse:
— Estará de Deus.
Plutarco foi até ela, tomou suas mãos e as trouxe para que a mulher
comprovasse sobre sua própria pele as lágrimas que fundidas com a
gasolina e o suor manchavam-lhe as faces como se fosse um estudante
travesso.
— É para que a senhora se lembre pelo resto da vida, senhora Amalia,
que o que agora faço, faço chorando.
— Não seja veado, homem — disse ela.
Plutarco foi até o orifício, esse inaugural por onde passou torpe,
impossível, alucinado, arisco, gozado, transumante, o túnel de lona que
concretizaria o plano pirômano educado em insones sessões de
observação, tateio de eventuais dissidentes na vizinhança, interrogatórios
da polícia, altanaria e humilhações perante suboficiais e perante o próprio
Flores, sarcasmos e ironias dos sandinistas que embriagados pelo aroma
da vitória eram capazes de se deixar matar, assaltando uma vez mais o
Comando inexpugnável, vindos da rua, antes de experimentar o desenho
do bombeiro Plutarco Ramírez, para servir-lhe senhor, e sentindo o peso
do olhar de dona Amalia em seu duro pescoço de mestiço, pôs, sem a
unção nem o entusiasmo com que tantas vezes havia sonhado, os lábios no
buraco e inaugurou com sua voz a corrente que em exatos oitenta segundos
teria feito do frontispício do Comando uma fogueira.
CAPÍTULO XXV

DESCABELADO FOGO, enérgico e cheio de olhos, deslinguado, tardio,


repentino, estrela de ouro, ladrão de lenha, calado bandoleiro, cozedor de
cebola, célebre pícaro das faisquinhas, cão raivoso de um milhão de
dentes, ouça-me, centro dos lares, roseira incorruptível, destruidor das
vidas, celeste pai do pão e do forno, progenitor ilustre de rodas e
ferraduras, pólen do metais, fundador do aço, ouça-me, fogo. Arde teu
nome, dá gosto dizer fogo, é melhor que dizer pedra ou farinha. As
palavras são mortas junto do teu raio amarelo, junto de teu rabo vermelho,
junto às crinas de luz amaranto, são frias as palavras. Diz-se fogo, fogo,
fogo, e se acende algo na boca: é tua fruta que queima, é teu laurel que
arde. Mas só palavra não és, embora toda palavra se não tem brasa se
desprende e cai da árvore do tempo. Tu és flor, voo, consumação, abraço,
Mascível substância, destruição e violência, sigilo, tempestuosa asa de
morte e vida, criação, cinza, centelha deslumbrante, espada cheia de olhos,
poderio, outono, estio súbito, trovão seco de pólvora, despenhadeiro dos
montes, rio de fumaça, penumbra, silêncio. Onde estás, que te fizeste? Só
o pó impalpável lembra tuas fogueiras e nas mãos a marca de flor ou
queimadura. Afinal te encontro em meu papel vazio, e me obrigo a cantar-
te, fogo, agora frente a mim, ficas tranquilo enquanto procuro a lira nos
cantos, ou a câmera com relâmpagos negros para fotografar-te. Afinal
estás comigo não para destruir-me, nem para usar-te para acender o
cachimbo, mas sim para tocar-te, alisar-te a cabeleira, todos os teus fios
perigosos, polir-te um pouco, ferir-te, para que te atrevas comigo, touro
escarlate. Atreve-te, queima-me agora, entra em meu canto, sobe por
minhas veias, sai por minha boca. Agora sabes que não podes comigo: eu
te converto em canto, eu te subo e te baixo, te aprisiono em minhas
sílabas, te acorrento, te ponho a assoviar, para derramar-te em trinados,
como se foras um canário enjaulado. Não me venhas com tua famosa
túnica de ave dos infernos. Aqui estás condenado a vida e morte. Se me
calo, te apagas. Se canto, te derramas e me darás a luz que necessito. De
todos os meus amigos, de todos os meus inimigos, és o difícil. Todos te
levam amarrado, demônio de bolso, furacão escondido em caixas e
decretos. Eu não. Eu te levo a meu lado e te digo: é hora de que me
mostres o que sabes fazer. Abre-te, solta teu cabelo embaraçado, sobe e
queima as alturas do céu. Mostra-me teu corpo verde e alaranjado, levanta
tuas bandeiras, arde por cima do mundo e junto a mim, sereno como um
pobre topázio, olha para mim e durma. Suba as escadas com teu pé
numeroso. Espreita-me, vive, para deixar-te escrito, para que cantes com
minhas palavras a tua maneira, ardendo.
CAPÍTULO XXVI

PERPLEXO, Flores levantou a mandíbula e não pôde espreitar no ar o


menor indício de aeroplano ou helicóptero. A Guarda havia abandonado os
postos nas torres e no centro do pátio esperavam suas ordens arrancando as
jaquetas militares para confundir-se com os reféns. O cerco de chamas era
perfeito. Em qualquer momento os sandinistas poderiam dependurar-se
nos tetos, aranhas pelos fios, esquilos pelos postes. Enjoativo o fogo.
Flores tenente dançando com Marta, “tome cuidado, meu preto”, a fenda
dos seios. Açucena. Os Debayle padrinhos de casamento, os ternos brancos
dos homens feitos de espuma, os longos vestidos delas cometas leves. Não
havia nascido Juan Pedro, nem a Alejandra, nem Pablo Andrés. Um país
tão belo, ardendo. O Chigüin talvez viesse logo com tanquetas, com
bazucaços. Ou talvez chegassem os bombeiros. E Tachito — compadre de
alma, padrinho — estaria em seu bunker, correndo o risco. Por projétil que
lhe disparassem, soltaria fogo com bombas. A aviação banhando os pastios
próximos. O Tacho não era desses que deixariam amigos na mão. Não é o
capitão Araya que embarca aos demais e fica na praia. O Tacho vai mascar
Manágua com sua fileira de dentes perfeitos, com o sorriso da televisão e
dali virá a contrainsurreição. Disse que isto era o finish. Pois perfeito.
Aqui está seu capitão Flores metido nesse aro ígneo. Darío. Caem as vigas,
linguetaços verdes, os soldados esperam de mim a saída e eu só olho para
o céu. “Tome cuidado, meu preto.” A Nicarágua está ardendo. Um país tão
lindo. Cavacos do ofício, Chigüin. Um militar tem bagos debaixo das
calças e não porta-ligas, encaixes nem sotainas. As comunicações
cortadas. Agustín Menor sandinista mal-agradecido, malquisto. Não houve
tempo de mudar a chave. Cada índio de merda deve transmitir a Paz
Centro as instruções que tenha vontade. Agustín em cima de um poste de
telégrafo, metendo suas unhas para interceptar meus tanques, meus jipes,
meus rapazes frescos sob o comando de Cifuentes com cantimploras, com
barris de água, com tempestades, com naufrágios, com esta sede, com esta
impotência. Agustín Menor filho da puta e traidor. Já posso vê-lo em cima
do poste de telégrafo confundindo ordens, misturando soldados do norte e
do leste como uma criança com bonecas de chumbo enquanto eu me tosto
nesta merda. A água sai fervendo do encanamento. Gota a gota. Cortaram
os serviços públicos. O último tanque de reserva a terra tragou. Nervosos
estes covardes. Sedentos de que eu os ilumine, de que lhes dê a chave que
os salve. Chamam-me de Vulcano — curioso — e foi com o fogo que me
agarraram. Mas vou viver, Agustín filho da puta e traidor. Vou viver,
Chigüin. Vou sair daqui com esses babacas e irei talhando a balas o
caminho até o bunker do Tacho em Manágua. Se Allende que era
comunista morreu honrando seus culhões, meu Tacho deve estar como um
leão montado em sua Ponto 50. Manágua deve estar cheia de aviões leais,
sincronização americana. Lá estará o Chigüin. Se estás por lá, por lá
estarás. Flores não precisa de você, sacana. Vou sair daqui com um
punhado de cachorros e vou conseguir uma linda coroa de reféns.
Uma couraça de reféns, rapazes. Vamos sair blindados na carne dessas
bestas. Se querem nos matar, que atravessem primeiro seus pais, suas
irmãs, seus avós.
Flores subiu no jipe. Com um dedo, atraiu o motorista. De pé sobre o
assento gritou:
— Vamos sair. Cada guarda agarra um refém e o usa para se cobrir.
Ponham-se todos em volta do jipe!
Os guardas se derramam pelo pátio de terra do Comando. O susto é
mais rápido que o pensamento. Agarram os reféns algemados, manietados.
Aferram-se a seus pescoços com os braços, encaixam o ângulo do cotovelo
em suas carótidas, levantam com a direita o rifle, o poder mágico de
dissuadir com sua presença, o para-raios. Fica quieto, seu sacana, ou te
arrebento já, dizem ao barbeiro. Os outros se deixam tímidos ou
apocalípticos, desafiantes ou esperançosos, tremendo ou decididos. Cada
guarda agarra seu refém como uma criança cobiçosa sua bicicleta. Um
cachorro os restos. Arquejantes, formam-se em volta do jipe. O tanque
instala-se atrás. Já o barulho de seu motor põe em alerta os rapazes na rua.
León inteira está agora um lago em chamas e, através do portão do
Comando que se abre, Flores tem a impressão de ver flutuando navios de
velames vermelho e negro.
Senta a Vicky no jipe, a seu lado esquerdo, passa-lhe o braço pelo
ombro com o revólver crispado nas falanges, põe a coronha da arma em
sua têmpora. Com a direita envolve o pescoço de don Antonio e o sujeita
férreo ao costado do veículo. Indica ao chofer com cara de chinês que vá
em frente. O jipe se move e com os primeiros metros don Antonio
escorrega e o capitão lhe grita:
— Segure-se, seu pentelho, que nós vamos galopar.
Os guardas formam os reféns ainda soltos. Uma ferradura, um para-
choques: a florista e o padeiro, a mulher do padeiro e a estudante, don
Lúcio e o saxofonista, os três principais líderes sandinistas de Matagalpa
com o esqueleto visível e a pele uma chaga só.
O grito de Myriam ergue-se mais alto e veloz que o primeiro projétil.
— Estão com reféns.
— Estamos com reféns! — gritam os guardas tapados com seus
corpos. Na porta do quartel marcada a fogo, ninguém se adianta agora. Os
presos esperam com seus rostos suplicantes que as balas se calem,
pressentem os tiros que de trás lhes estilhaçarão as vértebras se tentam a
fuga, a nuca tombada como uma marionete sem amo. Os projéteis vão
desmaiando longamente. Nos telhados os sandinistas se entreolham com
os FAL ansiosos, o pulso ávido, pensam a gritos, os rostos ardentes sobre
as telhas, sim é um momento para dúvidas. Aos gritos, retorcem as armas
que pedem a queda do pano final, abismo para a Guarda, um sepulcro de
sarça que arde. Não há detonações. Só vaivéns e descompassos do fogo. Os
reféns vagos na fumaça sem transparência.
— Os reféns saem! — grita a Guarda.
— Os reféns saem! — ruge também Flores, levantando-se no jipe com
o pescoço de Vicky envolto em seu braço, a nuca de Antonio crispada por
seus dedos.
É Flores, pensam os rapazes. O gatilho lhes pulsa, a respiração recua
em transe, suspensa como a de don Chepe na porta, a dos sindicalistas de
Matagalpa. O operador do cinema aproxima-se de Myriam com a leveza
de uma sombra que resvala no muro.
— Que fazemos?
Myriam acha que adivinha os olhos de todos alertas à sua ordem de
desatar as balas, como se fosse possível filtrar pelas imprecisas dobras da
fumaça o tiro exato para a Guarda, franzir os canos dos rifles para
debulhar as cabeças assassinas e resgatar a inimitável agudeza de don
Chepe, barbeiro que teve tantas vezes suas próprias cabeças entre seus
dedos ágeis, agenciando-lhes brilhantina, perfume para as festas de
sábado, domando o topete proletário para os casamentos de domingo.
— Que pensa você?
O operador de cinema limpou-se de um golpe de mão do suor da testa:
— Você manda — disse.
Myriam adiantou-se até a metade da rua, alçou o fuzil com o lenço
rubro-negro, exposta, inconfundível, e disparou uma descarga para o ar.
— Ninguém mais atira — gritou.
Dentro do quartel o jipe de Flores toureou as nádegas de don Chepe e
sua guarda.
— Avancem, seus sacanas!
A curiosidade nos telhados substituiu a destreza nos digitais. A tensão
se concentrou nas retinas. Quem vem? Quem estava saindo?
Don Chepe gritou:
— Não atirem.
Embora ninguém disparasse. Os sindicalistas de Matagalpa pendiam
desmaiados nos braços dos carcereiros como panos e os soldados tinham
de levantar-lhes o queixo para conseguirem cobrir-se. Talhados na tortura,
até a inconsciência. Quando a frente do jipe de Flores atravessou o portão,
Myriam soube que um a um todos os fuzis iam ser mais rápidos que seus
donos. Que os tiros voariam antes que a consciência freasse os rapazes.
Compreendeu no entanto a paralisia quando viu ao lado de Flores, afogada
no duro sistema de seus ossos, o rosto tinto de fumaça de Vicky, seu manso
pescoço, e a expressão de cachorro abatido de don Antonio.
— Vicky! — gritou. — Sou eu, Myriam.
A voz alcançou-a com o mesmo vigor de um projétil, a força do
revólver de Flores que a oprimia nas faces.
— Atirem! — gritou Vicky.
A caravana dos dois veículos surgiu de cheio na rua, pesada, o tanque
uma carraca, os guardas manobrando os reféns como escudos, torpes como
banhistas pela areia ardente. Pareciam trazer com eles a fumaça do
incêndio, traços de chamas em seus dorsos, estandartes de panos
calcinados que ondeavam nas notas absurdas do órgão que o padre
oprimia, os pés feitos um vendaval sobre os pedais, as escalas percorridas
pelos braços ou pelo punho antes que por seus dedos contaminados de luta.
Avançaram em uma miragem, quase sem movimentos. Os sandinistas nos
dintéis e nos telhados, as caras ardentes sobre as valetas, as pontas dos
dedos com cócegas sobre os gatilhos, procuraram uma vez e mais outra a
voz alternativa de Myriam, pediram que a garganta dela se contagiasse por
essas chamas, que por uma vez confiasse na pontaria sagaz que saberia
discriminar o coração do guarda fascista do olho do vizinho, a fronte
oleosa de Flores da face cobiçada de Vicky, o mero coração de Vulcano,
que agora estaria palpitando a pontapés, das têmporas companheiras de
don Antonio.
Os vitimários e os cativos foram empantanando-se em direção à
pequena ponte que os abriria para a estrada e dali ao fortim, e do fortim à
fuga. Os guardas livres. As unhas dos pés de Somoza, suas úngulas
familiares à mercê das balas nossas e ganhando, centímetro por
centímetro, a fuga, pensou Myriam, avançando junto com a caravana,
corrigindo com cada milímetro, com cada salto no paralelepípedo, a mira
da arma empenhada no pedaço de nuca que Flores oferecia entre seus dois
prisioneiros. Atirem, havia gritado a Vicky. Mas de que valeria dentro de
uma hora a vitória se ela morresse, se don Antonio fosse esmagado pelo
tanque.
— Myriam — implorou-lhe o operador de cinema.
E Myriam ouviu o que a voz do operador pedia. Era simples: ouvia a
frustração nos corações de sua esquadra tão clara como as explosões do
jipe, o arrastar-se do tanque. Apesar de que o grito a compelisse, ficou
calada. Por resposta, despegou-se do muro e, virando-se para a rua, expôs-
se para que o operador de cinema e cada um dos companheiros não
tivessem dúvida de sua decisão. Essa era a Myriam caminhando à beira do
jipe, familiar e rotineira pela rua de seu povoado, como se Flores e seus
sequazes já lhe pertencessem, como se tudo já tivesse acabado e os
somozistas não estivessem a metros da liberdade, não pudessem fugir de
uma vez massacrando seus reféns, assim que alcançassem a ponte. Se
todos pensassem como eu, pensou Myriam, estaríamos todos mortos.
Tentou discernir a tática de Flores. Um, passar o riacho. Dois, acelerar.
Ali teriam necessariamente de soltar os reféns. Ganhavam os
companheiros e perdiam os torturadores. Estes reforçariam outras
unidades militares. Ou talvez se dispersassem, apareceriam depois da
vitória atirando uma bomba contra um posto de milicianos, metendo fria
uma bala no pulmão de uma alfabetizadora, ateando fogo à colheita,
jogando areia no tanque de gasolina dos ônibus. Ou talvez antes de fugir
lhes brindassem o último presente, o cadáver de seus irmãos dispersos
pela ponte. Com que veículo persegui-los? Como Plutarco, o bom
Plutarco, não havia estendido seu plano com a mesma elasticidade que
quando criança usou a atiradeira para quebrar os vidros de seus rivais
amorosos?
O jipe de Flores chegou à ponte. Pela primeira vez desde havia meia
hora o ar chegou-lhe aos pulmões. O coração lhe dava uma trégua a esse
assédio do sangue, a essa rajada compulsiva.
Uma vez conseguiu respirar antes que seu olhar se petrificasse na
esquina oposta à ponte. Uma vez em que o ar ficou suspenso nos
brônquios. Ali estava o obstáculo, verde e sujo. Sigiloso e sibilino,
escamado, eriçado lagarto. Uma só vez pensou o capitão Flores no jipe que
o enfrentava como um animal, uma jiboia feita da mesma matéria desse
polvo liquefeito, esse barro de que pareciam feitas as choldras. Havia
cravado sua ossamenta com a velocidade de um espectro, o rumor de um
fantasma. Uma vez, um segundo, Flores disse para si mesmo que houve
algo que jamais entendeu na terra, algo que até as centopeias, os insetos,
os pássaros, as espantosas baratas pareciam entender. Uma chave, uma
ponte inacessível, que o unisse com esse povo pelo qual havia feito tanto.
Mas no segundo seguinte, ao ver Agustín descer do jipe oposto com a
pasmosa arrogância dos dezessete anos, a soberba do lenço rubro-negro,
moleque do bairro, um lustra-botas de León que se deixa deslumbrar pelo
coquetismo revolucionário, um galã de dois córdobas fumando devagar à
saída do González enquanto olha as coxas resvaladiças como peixes das
moças estudantes, sua verdadeira imagem apareceu no líquido mágico do
laboratório. Recuperou seu peso, seu aprumo. Aterrissou dono, patrão,
monarca, ídolo na paisagem espreitante. Sentiu cada fuzil, cada olhar em
sua nuca, pressentiu as balas que viriam para voar-lhe... os olhos, para
deixá-los vazios como as covas desses cegos que uma vez havia visto às
dezenas em uma visita de caridade escoltando o Tacho, e se elevou por
cima do povoado, como um monumento, um submarino que emerge desse
mar de merda e guano, de guano circulante por esse sangue sandinista que
entregaria a Nicarágua aos vermelhos que meses mais tarde alimentariam
seus filhos com merda segundo os cálculos mais otimistas — vestiriam-
nos com arruinados tecidos de saco, não teriam sabonete para lavar o cu de
seus bebês que nasceriam como favelados, suas mulheres cheirariam a
patchuli ordinário, os desodorantes ficariam em Miami, em Colón, em São
José, os hierarcas conseguiriam três mulheres besuntadas de fungos,
amebas, tricomonas por um punhado de dólares ou um simples par de
meias. Levantou-se do jipe com o orgulho de uma flecha. Erigiu-se a si
mesmo no corpo de pedra e mármore que em um futuro não longínquo
levantariam em uma homenagem a sua luta leal contra o comunismo, a seu
respeito consequente pelo mundo ocidental cristão e familiar, sem muros
estranguladores, sem sindicatos com corpos gordurosos nadando nas
piscinas dos albergues de luxo. Outros melhores que eles se levantariam
contra essa praga que havia esquentado o nicaraguense com esse delírio
que um dia foram só gargantas que gritavam revolução e que logo haviam
sido balas, e o Tacho, com seu grande coração, até a última hora brincando
de democracia. Ergueu-se como agora Somoza estaria vertical no centro
de seu bunker, distribuindo frases de estrategista que por telefones, rádios,
cabos, alcançariam outros capitães forjados na navalha patriótica da
Academia, que esmagariam a cambada de índios como bichos negros que
eram, como as rangentes baratas vermelhas feitas para seus bototos.
Levantou-se no jipe no nimbo, a embriaguez da glória, o queixo altaneiro,
as pupilas relampejantes, as retinas ardendo, e suspendeu a imagem de
Agustín um instante, um segundo de benevolência, de altiva magnificência
e paz consigo mesmo.
— É a você mesmo que eu andava procurando, seu sacana — lhe disse.
Agustín viu a arma subir até ser tensa extremidade do braço de Flores.
A direção do cano, um sopro em seu coração. Ainda caminhou alguns
passos com a presteza enfastiada que dá o fato de se conhecer cada pedaço
da ponte, os sobressaltos e resquícios de suas pedras, a cor e umidade do
olhar de cada vizinho que agora o aureolavam de uma coisa familiar, a
morna intimidade desse céu abusivamente azul que tantas vezes quis
alcançar quando criança pedalando no único luxo que teve em vida, essa
bicicleta Record presenteada por seu pai Antonio para o natal de 1970, que
fez suas coxas crescerem como troncos, que o levava até a casa das moças
com a celeridade que invejavam os choferes de táxi obstruídos nas placas
de “pare”, feitos pedras nos sinais, que lhe deu abdômen de atleta, que
tornou seu espinhaço flexível, uma pantera, esse lombo que um dia se
inclinou sobre as tetas de Myriam na rede de verão do pátio dos fundos e
as encheu de uma saliva sonora, a exata sinopse da ejaculação que ela
desviou para seu estômago cobreado: não estou tomando a pílula.
Distinguiu sua namorada de então a um lado, a arma vacilante entre os
corpos de don Antonio e Vicky. Agustín não viu o sorriso de sua irmã,
porque ela o olhava grave, uma senhora que acaba de comungar. Como a
mulher mais velha do povoado quando ele lhe trazia de Poneloya em sua
bicicleta a caixa com mostarda e chás ingleses. Mas foi o sorriso dela,
exatamente o ríctus de Vicky, calcado com a ferocidade do grafite, o que
apareceu em sua boca, enchendo-a de um bater de asas, a vibração
prateada de uma enguia elétrica no rio, quando disse:
— Solte minha família, covarde.
Antes que o tiro o tombasse com a profissional precisão da artilharia
de Flores, Agustín conseguiu perceber o grito de alerta no olhar de
Myriam. Fizeram meu sangue ferver, pensou, mas sua arma foi levantada
mais como uma saudação que como uma defesa, como se viesse saindo de
um mar lento em que todas as lembranças estivessem fundidas entre os
tesouros da infância sonhados nos mergulhos filibusteiros com Vicky e
Ignacio e ele os estivesse vendo passar a sua volta com a suspensão de um
astronauta, com um escafandro invisível talhado de odores, entardeceres
no dintel da porta, pavoneio de peito acompanhando do liceu de volta para
casa a menina mais linda do povoado. No asfalto da ponte, não conseguiu
perceber que essa turva emoção, confundida com tantas coisas, era a
morte.
Don Antonio e Vicky despencaram-se sobre o rapaz. Flores, exposto à
metralha sandinista como os mamarrachos onde os recrutas praticavam o
tiro ao alvo, conseguiu perceber a precisa justiça de morrer assim, crivado
pelas balas que vieram rachá-lo de todos os pontos cardeais, todas as
alturas, os níveis e raivas. Sentiu que todo o chumbo do mundo era
convocado em seu arrogante osso esterno e que a força dos impactos o
fazia cair e o meneava: uma lenha que afundava e ressurgia no marulho
quente que o desvaneceu. Antes que Myriam lhe disparasse o primeiro
projétil, dissera para si mesmo: “Cada bala, uma medalha”.
CAPÍTULO XXVII

QUE A VITÓRIA tivesse um dia no calendário lhes pareceu evidente e


incrível. Agrupavam-se em cada esquina, em qualquer viela, nos degraus
da praça, nas grades da igreja e se tocavam e voltavam a tocar, incapazes
de tirar um grito mais da laringe. Quando as tropas sandinistas chegaram
em cima desses tanques magicamente galopados por adolescentes de
barbas emaranhadas, com vozes prematuramente enrouquecidas, os
vizinhos os acompanharam como as crianças ao baliza de uma banda do
interior numa manhã de domingo. Em meio a tanto apertão, cada um pôde
sentir as batidas do coração do outro e já ninguém sabia se o sabor salgado
na boca era o seu ou o do vizinho. Haviam anunciado que Borge falaria em
nome dos vencedores e as filas de pessoas, as colunas extasiadas,
convergiam de todos os pontos para ouvir o que todos queriam ouvir nesse
dia de julho, trovejasse ou chovesse, fervesse a terra ou caísse uma brisa
fresca vinda de Poneloya: todos queriam ouvir Plutarco, dizendo ao
comandante Borge com seu dedo incendiário: “Ai tens chamuscado pelo
povo de León o Comando somozista, companheiro”. Ninguém dava por
impossível, enquanto a manifestação se desemaranhava e enrolava e os
beijos cobravam por momentos a ferocidade de mordidas, que o orgulho
de tantos vizinhos não os levaria a engrandecer com dez mil braços a
bomba de incêndios INSS, FCB 137 até a tarima onde Borge falaria.
Sublime Salinas havia sugerido que se inaugurasse uma praça com o nome
de Plutarco, argumentando que havia tantas ruas com nomes de babacas
que o mínimo que o bombeiro merecia era um nome de avenida, de estádio
de beisebol, de obelisco. Plutarco aceitara as felicitações e as sugestões
com um entusiasmo que não lhe permitiu diferençar — no primeiro dia —
a ironia do provável. A ternura afetuosa com que cada vizinho veio lhe dar
uma palmadinha no ombro, o ruge perturbador das moças pintadas de gala
o fez sonhar com medalhas, galardões, troféus, taças de prata e ouro e fitas
honoríficas lavradas com a minuciosidade inglesa e as telas recônditas da
mulher mais velha do povoado. Um monolito para ele e sua bomba
colorada? Além disso, sim senhor, desenharia no veículo uma trompa
preta.
“Se oferecem-me algum reconhecimento, vou aceitá-lo”, declarou
Plutarco saboreando a sexta cerveja oferecida pela mãe de Ignacio. Ela,
empurrada pelas pessoas, era um feliz veleiro à deriva em um dia de
vento. Pelo horizonte teria que vir a brigada “José Benito Escobar”
trazendo de volta Ignacio depois de meses clandestino, de semanas em que
as adoradas ruas de León lhe estiveram proibidas. Só uma vez, pela noite,
havia marcado um encontro nas aforas que lhe havia moído seus rins e a
pôs à beira do infarto.
Quando Salinas aproximou-se dos segundos de Borge na vertigem da
vitória e a levitação do rum lhes trouxe a encomenda de que o povo de
León não veria mal em que se reconhecessem os engenhosos serviços
prestados à revolução por Plutarco Ramírez com algum tipo de ato
simbólico, os lugares-tenentes lhe perguntaram o quê por exemplo.
Salinas, o pensamento alado, nebuloso e a língua mais ligeira que os pés
de Mercúrio — apelido que sempre abominou com entusiasmo —, achou
oportuno que de seus lábios saísse algo tão contundente como: o
aeroporto. O guerrilheiro apressou o passo para alcançar o Comandante em
chefe e, simulando um adeus contrito, gritou-lhe: “Chegaste tarde, pois. O
aeroporto já foi batizado de César Augusto Sandino”.
Só um, das centenas dos guerrilheiros que avançavam entre os gritos
de vitória para a praça, saltou do caminhão de onde mandavam beijos para
as moças e, apertando o passo, esteve alguns minutos diante da porta da
barbearia. Encontrou don Chepe na frente do espelho atando com esmero o
nó da gravata que se derramava elegante sobre o terno de gala, tecido
inglês, adquirido com o suor da navalha à mulher mais velha do povoado.
— Don Chepe — chamou-o, adiantando com as palavras o abraço que
lhe vinha borboteando do coração. O barbeiro captou seu rosto no espelho
e, incapaz de decifrá-lo sob a sujeira, a barba confusa e os bigodes
derramados que ocultavam a boca que emitira seu apelido com tal
entusiasmo, virou-se e o escrutou com a ansiedade de quem não pode
compreender um hieróglifo.
— Sou Leonel! — gritou-lhe o rapaz afundando-se no peito do
barbeiro que ungiu seus lábios em cada fio emaranhado dessa barba feroz
e clandestina, sem uma mecha identificável.
— Garoto! — disse-lhe. — Meu garoto lindo!
— Voltei, vivo, caralho!
— Vivo, porra! — continuou beijando-o don Chepe. Quis explorar com
seus beijos essa selva e recuperar o pulcro estudante de Direito com quem
havia tido debates tão sentidos sobre todos os temas deste mundo e da
metade do outro.
— Don Chepe! — gritou Leonel. — Don Chepe, porra! Isto é um
sonho. Aqui estou abraçando-o em sua própria barbearia, vivo como um
puma na montanha. Não te solto, velho, nem mesmo se me arrastarem com
um guindaste.
— Abraça-me mais forte, porra! — lhe gritou don Chepe. — Voltaste
inteirinho.
— Um transatlântico, don Chepe! Estou com os músculos da perna
mais duros que coice de mulo.
Don Chepe afastou-o e ficou olhando para ele até que as lágrimas
simplesmente brotaram em suas faces.
— Estás lindo, Leonel!
— Deixa de onda, velho. Estou cheio de ervas daninhas, picaduras de
pernilongos, barro nos dentes, caraca nos calcanhares, terçóis do tamanho
de uma rocha, calos como ferraduras e um cheiro de bode que onde paro as
moscas se acumulam em cima de mim.
— Filho — refletiu don Chepe —, estás perfeito. Como se tivesses
sido pintado por um pintor famoso.
— Sim, claro. Picasso na época do cubismo.
Leonel balançou os frágeis ombros do barbeiro e ao retirar suas mãos
pôde perceber a negra marca sobre o impecável terno de gala. Meteu as
unhas entre os dentes e abriu os olhos compungido como um estudante
colando da prova do companheiro de banco. Quando quis sacudir com o
dorso da mão seu estrago, só conseguiu que este se expandisse feito uma
mancha glutona.
— Perdão, don Chepe — disse.
O velho observou as ombreiras e soprou em cima delas sem
entusiasmo e sem êxito.
— Estava indo para a praça.
— Espere um pouco. Estou precisando que me faças um favor.
— Às suas ordens.
— Primeiro preciso que me capines um pouco. Assim como estou,
pareço um guerrilheiro de filme ianque.
— Queres que faça tua barba?
— Não, homem. Que me sintetizes. Que me rebaixes a barba e me
jogues alguns litros de desodorante.
— Filho, eu com minhas tesouras não mexo em um fio dessa barba.
— Está bem. Pelo menos meta a tesoura no cabelo. Corte-me meio
metro.
Don Chepe examinou a melena com dois mecânicos gestos de cabeça,
os de um títere acionado pela mão de uma criança.
— Leonel Castillo. Mesmo que a moda neste povoado de merda
chegasse a se amarrar os sapatos com a juba e este velho servidor morra
com as tesouras enferrujadas e a navalha sem fio, não mexo em nenhum
fio de cabelo teu porque seria um sacrilégio.
Leonel avançou até os espelhos ovalados, que projetando sua imagem
em um jogo circular lhe permitiram apreciar-se pela primeira vez em
detalhe. Pestanejou ofuscado pelo clarão que emitiam seus próprios olhos.
Esteve dez segundos examinando-se com absorta seriedade e depois se
virou para don Chepe, pestanejando: um inseto aturdido em volta da
lâmpada.
— Don Chepe, eu tinha me esquecido de como era!
— E?
— Se a Vicky me vê assim, ela morre.
— Qual Vicky?
— A Vicky Menor.
Don Chepe esfregou as mãos, secando-as depois de telas lavado e em
seguida afundou-as nos bolsos do paletó. Cinco segundos depois tirou-as e
coçou um pômulo. Depois jogou o cabelo para trás, deu umas palmadinhas
na ondulação grisalha sobre o ouvido esquerdo, voltou a soprar as manchas
das ombreiras, mais uma vez os punhos nos bolsos da calça e ao cabo de
cinco segundos tirou-os e coçou com as dez unhas a testa. Lentamente,
Leonel pôs-se alerta.
— Que foi, don Chepe?
— Vamos bater um papo.
Leonel olhou para ele um segundo e se deixou cair na cadeira giratória
do barbeiro espiando a expressão de don Chepe pelo espelho. Este agarrou
a escova de fibras mais duras e cravou-a na obtusa vegetação do
guerrilheiro sem que chegasse sequer a roçar o couro cabeludo.
— Escova e tesoura — esclareceu don Chepe. — Não cortamos nada,
mas vamos desembaraçando.
Da praça escutou-se o chiado dos alto-falantes. Don Chepe disse:
— Borge vai falar.
— Que foi, don Chepe?
— O quê?
— Ficaste esquisito de repente.
O barbeiro esmagou com vigor a raiz da melena e dali começou com a
escova a desentravar a cascata. Teve a resistência de um emaranhado de
lianas, que obrigaram que suas munhecas girassem como uma batedeira
elétrica.
— Que é que você tem com a Vicky Menor?
A mão de Leonel foi uma bicada de gaivota sobre o pulso do barbeiro.
— Mataram-na?
— Não, homem, não.
O rapaz manteve sua tensão sem pestanejar.
— Está com outro?
— Não — disse o barbeiro. — Quer fazer o favor de me soltar?
Pendente dos lábios do homem, como se apalpasse as palavras antes
que saíssem de sua boca, disse:
— Que foi?
— Mataram o irmão.
Leonel meteu lentamente a mão na barba, pensou meio minuto e,
baixando a vista, deu de ombros levemente.
— Esse sacana quis assim, andava com os somozistas, pois.
Don Chepe sentiu que através do frenesi de seu punho o punho que
agarrava a escova começava a tremer. Adivinhou os olhos molhados, e
agora era outro o sabor da lágrima que o de há cinco minutos, quando
havia apertado e espremido Leonel, e a felicidade era um turbilhão que
subia dos tornozelos e enjoava como um champanhe bebido antes do café
da manhã.
— Antes de falar, pergunte — disse com voz rouca. — Para não andar
dando mancadas.
“O sol do amanhecer deixou de ser uma tentação”, ouviu-se nos alto-
falantes da praça e a gritaria soou incontida na cidade. Os fogos artificiais
quiseram substituir o tiroteio, mas os combatentes mais crianças
acompanharam os luzeiros de bengala, as bombas cabeça de negro, a
cascata de pó de estrelas, com salvas de balas autênticas que levaram os
pais a repreendê-los, a baixar-lhes as armas, assim como quem lhes tira
um saco de caramelos, restabelecendo com os filhos uma dependência
mútua que os deixou momentaneamente desconcertados. O padre havia
pedido ajuda a Salinas e este andava de um lado para o outro no
campanário tocando cada sino de bronze com a ferocidade que havia visto
no cinema, quando os filmes abriam com a imagem do atleta, um músculo
em cada poro, impactando o abdômen do gongo; este prestigioso som que
ficava vibrando desde a matinê durante a semana inteira.
Leonel levantou-se taciturno da cadeira giratória, desencavou com as
próprias mãos o pente perdido qual inseto em sua longa cabeleira.
— Deixa pra lá — disse —, vamos acabar perdendo o Comandante de
babacas que somos.
— E a Vicky Menor esteve presa. — disse don Chepe, como se não
tivesse ouvido o comentário do rapaz, exatamente igual como se ele não se
tivesse levantado da cadeira giratória e não estivesse já na porta. Colocou
em ordem os frascos da prateleira de vidro, só para terminar localizando-
os na posição original. Leonel veio até seu lado e, agarrando-o pelo ombro,
compeliu-o a que continuasse a falar. — No quartel.
O rapaz fez desaparecer suas mãos no meio do cabelo e procurou por
todo o cômodo o ar que subitamente lhe faltou. Com as costas abatidas
voltou até a cadeira, olhou don Chepe pelo espelho e lhe disse suavemente,
como tentando evitar que as palavras convocassem desgraças:
— Conte.
CAPÍTULO XXVIII

MUITO ANTES da insurreição meu filho andava com os sandinistas. Foi


pelos levantamentos do ano 78, então eu ia com uma amiga e olhei para
ele. Disse-lhe eu, ali vai meu rapazinho uniformizado, sabe-se lá para onde
estará indo. Então me dizem, já vão para unidades de combate, me dizem.
Então eu aí fiquei, pois, desejando-lhe pois mais ou menos que lhe fosse
bem. Depois, pois, eu a ele não voltei a ver. O vim vendo mais ou menos
aos vinte e três dias porque no dia em que foi embora da casa eu não
estava aqui. Só me disse sua irmã: mamãe, me disse, este seu filho lhe está
dizendo adeus porque quem sabe se vai voltar para casa ou não. Eles
queriam recuperar umas armas lá pela Casa Blanca. As recuperaram com a
esquadra, pois. A esquadra “José Benito Escobar”, viu? Dias depois, pois,
quando soube que tinham se saído mais ou menos bem, quis ir para a Paz
Centro e aí fui procurando-o, com uma senha que me dera não se imagina
quem. Que não se vá imaginar que fosse o carteiro Salinas, pois. Ele me
disse que não fosse a Paz Centro, que o procurasse pelos arredores do
colégio da Reinaga. E então eu fui e perguntei se ali estava Ignacio. Sou
sua mãe, pois, disse ao seu superior. E já lhe perguntei se poderia estar
chegando a ver. Claro que sim, me disse, se a senhora é sua mãe. Pode vir
a vê-lo todos os dias, mas que não a olhem a senhora. Como é que passa
isso por sua cabeça, senhor?, disse-lhe eu. Tive chegando coisa de quatro
dias para vê-lo. Então no último dia que cheguei, “mamãe”, me disse, “já
amanhã não venha porque quem é que sabe para onde nos vão mandar”.
Então eu insisti. Cheguei todavia. Lhe digo eu, e meu filho? Está tomando
um banho, espere-o, me disse. Então eu o esperei. Já o cumprimentei já
todo. Já foi a última vez que o vi. Depois chegou sua irmã a vê-lo. Porque
eu lhe disse, diz seu irmão que já não vai estar aí e que não sabe para onde
o vão mandar. Sua irmã chegou. Então não o achou. Já a casa estava
desocupada. Já não havia rapazes. Então já depois disso já tinha meses de
não vê-lo, quando mandei a uma filha a buscar uns feijões de quatro pesos,
pois. E ela veio pois com alegria nesse dia. E me diz, mamãe, me disse, já
sei onde vai estar o Ignacio. Então já me disse ela que era ai, pelo lado do
pavimento, perto do hospital. Que don Chepe lhe dissera. Ai!, lhe digo eu,
era uma da tarde quando ela veio. Lhe digo eu, ai em perigo está meu
filho!, lhe digo eu. Por que, mamãe, me diz. Porque não ouves como se
ouve o fortim. Terrível assim se ouve dia e noite. E volto a repetir-lhe,
meu filho está em perigo. E nós também, mamãe, me diz ela. E é que nós
tínhamos a mangueira na casa, pois. A mangueira para que chegasse ao
Comando. Não toda a mangueira, pois. Um pedaço assim daqui até a
parede, viu? E depois eu não pensei mais nele, porque veio o incêndio.
Esteve lindo. E Flores saiu trazendo reféns. E então eu disse onde estará
meu rapazinho. Eu já lhe queria mostrar que havíamos queimado o
Comando. E nesse dia, pois, como lhe digo, foi o dia mais feliz que eu
senti nesse dia desde que amanheceu. Nos chamaram para que andássemos
em passeata. Andamos em passeata. Quando deu as seis, eu lhe disse, eu, a
uma nora minha, vamos à igreja La Merced. Entrei de joelhos na igreja,
pedindo por ele, por nós, pois, porque já olhamos pois que íamos ser
liberados. Comunguei, ouvi a missa, estava alegre nesse dia. Foi nesse dia
que veio Tomás Borge e houve comício. Nesse comício eu desfilei, eu pois
me senti alegríssima, eu aplaudia, eu gritava, eu tudo. Quando chega uma
senhora e me diz, me diz, houve alguns mortos lá pelos lados do fortim,
me diz. A mim, pois, não me veio a ideia de que fosse meu filho. Depois
um rapaz chega alegre abraçando a um seu familiar, pois. Lhe diz, tamos
liberado a pátria. Eu senti uma alegria, porque eu disse em qualquer
momento eu vejo meu filho, viu? Depois passa uma camioneta pela
esquina de San Ramón, em direção ao González, e depois do González
sobe para o lado. E as pessoas dizem, aí vão os mortos. Nessa camioneta.
A mim nunca me passou pela cabeça que fosse meu filho. Eu não senti
nada de tristeza, nada, só alegria. Desfilou pois o desfile de Tomás Borge
que ia para San Felipe. Eu ia alegríssima pois. Eu continuo aí e então me
dizem duas senhoras, me dizem: com quem andas? Sozinha, lhes digo,
porque a minha filha veio. Ainda aí, pois, alegre eu, atrás da manifestação.
Quando chegamos na esquina de La Merced, me dizem elas: voltemos
porque está ficando noite, estão muito escuras as ruas, voltemos. Eram três
senhoras as que íamos. Íamos sempre alegres, batendo papo e tudo, viu?
Quando nós viemos, na esquina daqui que chamam de Las Videntes, uma
senhora chama uma amiga minha que se chama Ramona. Monchitá, lhe
diz, e esta mãe tão contente que anda, diz, não se dá conta de que seu filho
está morto. Ela lhe estava dizendo em segredo e eu lhe ouço. Então lhe
digo eu: Monchitá, meu filho morreu?, lhe digo eu. Não, não, não, me diz,
continuemos o caminho. Quando ao passar na frente do Comando, pelo
lado de Orlando Barros, eu ouço uns gritos. Outro morto, disse eu. Eu lhe
digo: Monchitá, eu sempre disse que no dia em que meu filho cair, não me
o neguem. E ela que não. Me diz que não. Me disse que estava aqui na
casa, mas que estava ferido. A mim, o que me passou pela cabeça foi que
um ferido não iriam levar para casa, mas sim para um hospital. Para uma
clínica, pois. Quando cheguei à esquina para dobrar para minha casa, ela
me diz: chegou o momento, me diz, de que o que você me disse, que ia ter
a fortaleza que Deus te dera. Então lhe digo: sim, eu resisto. Meu filho
está morto, lhe digo. Quando eu saio para a esquina, já vejo aquela
multidão na calçada. Eu via que as pessoas corriam para me avisar, mas
outros lhes gritavam que não lhe diga nada, que já vai vir para a casa.
Então quando eu adentro aqui na porta de minha casa, eu me sinto no ar,
não é verdade? Já me agarram entre as donzelas, pois. Eu via cheio de
gente. Neste lugar que estamos nós, aqui estava estendido meu filho já em
seu caixão. A senhora Rosa estava já ao pé dele. Ela é a mulher mais velha
do povoado, inglesa que foi, e já lhe havia rezado seu rosário. E eu o que
lhe disse só foi que se faça sua santíssima vontade, senhor, lhe disse eu. E
justamente eu lhe botei sua bendição a ele. Lhe fiz suas rezas. E digo eu:
retirem-me daqui aquela roupa que a trazia empapada. Então já, pois, me
deram um comprimidinho e as pessoas iam dando-me os pêsames. Eu,
para que lhe vou dizer? Eu tentei sentir como ele me dizia, que no dia em
que ele morresse eu não tinha que sentir tristeza. Mas nada de tristeza eu
não senti. Me disse ele que eu não o chorasse, e assim fiz, viu? Passou seu
dia, seu enterro, tudo pois, e eu aí, tranquila como você me está vendo. E
ele me dizia: mãe, me disse, no dia em que eu cair se for possível você
ponha um vestido vermelho, uma saia negra com alguma camisa
vermelha. Você nunca ande de preto, porque você vai se sentir a mãe mais
orgulhosa. Então eu lhe dizia: que bárbaro, lhe dizia eu, achas que eu sou o
quê que não vou sentir?, lhe dizia eu. Então ele só se punha a rir.
Pela noite veio Tomás Borge. Veio com seus amigos. E veio com seu
chefe dele, o que mandava em meu filho, Zacarías, pois. Então entraram e
eu estava ai, e aí estavam compondo o corpo de Ignacio. E eu ao pé dele
estava vendo-o. Porque me disseram, se você tem força para vê-lo, aí está,
me dizem. E eu ai e Monchitá me diz: teu filho morreu na caminhonete.
Vinham liberadamente alegres dirigindo, quando dizem que saíram por aí
uns desandados e lhes dispararam. E aí morreram os cinco que vinham na
caminhonete. Meu filho, pois. Dos outros conheço só um que era vizinho
nosso. Se chama Mario Soto. Foram os que caíram do bairro, juntos. Dos
outros um era de Guadalupe e os outros de Cuello Largo. Então veio com
Zacarías, Tomás Borge. Entrou já perguntando, pois, quem era sua mãe. E
já lhe disseram: essa senhora, pois. E já me agarrou, me abraçou, me
beijou finalmente, pois. E então, quantos filhos mais lhe ficam. Varões,
quatro, lhe digo eu. Você não tem só isso, me diz. Você tem milhares de
milhares, me diz, e você não está sozinha, está acompanhada. Obrigada,
lhe digo eu. Porque você é uma mãe que vejo assim. Querendo dizer que
eu nem uma lágrima nem nada. E lhe digo eu, assim me pediu meu filho e
eu tenho que o cumprir. Então, já o mesmo, Zacarías me deu os pêsames
também. Aí estiveram um momentinho e depois foram embora. Do bairro
também morreu o filho de Antonio Menor. Quem sabe se foram para lá,
digo eu. Eu não sinto, pois, que meu filho esteja morto. Eu o recordo vivo.
Eu lhe digo que para mim meu filho não morreu. Ele me disse que quando
estivesse aí estendido, todo o dia lhe pusesse sua música que ele gostava,
viu? Eu lhe dizia, ai filho, apaga esse gravador porque vão vir para nos
matar. Passa um, ouve, e como demoram para nos vir matar. Aqui punha o
gravador forte na mesa. Ele nunca tinha medo. Ele me disse que lhe
tivesse a música todo o dia ligada até que saísse o enterro. Como não havia
luz nem pilha, eu disse aos amigos que saíssem para buscar. Para botar-
lhe, pois, a música que ele gostava. A tumba do guerrilheiro. E essa outra,
O povo unido. E eu digo aos amigos que vão buscar pilhas. E então
mandaram buscar. Um amigo, pois, trouxe um motor. Fixou-se àquele
gravador até que o enterro saiu. Ele me havia pedido.
CAPÍTULO XXIX

VIRAM-NO VAGAR pelos quarteirões adjacentes à casa de Vicky feito


uma mancha hirsuta, o FAL um mastro no ombro direito, a pistola
cintilando no cinturão sobre a meia-lua. Pelas cortininhas, ainda mais
curiosos que exaustos, viram-no deter-se e engolir ar. Depois, cabisbaixo,
viram-no retroceder e recostar-se sobre a vereda como um cachorro sem
dono, e arranhar a madeira de sua porta com um olhar que desvelou as
adolescentes, soergueu as viúvas umbrosas, desviou o trajeto dos gatos
soberbos, e ocasionou um grave delíquio em Salinas para quem a presença
do rapaz foi o furacão que lhe apagou o ânimo que havia alentado para
esgaravatar na mesma rua. Antes de vir, havia construído sua coragem
com mil bochornos, rubores, sufocos, razões ocultas, vermelhidões de face
e suspiros, que até atraíram a atenção do advogado Rivas, que pela
primeira vez nessa noite o havia cumprimentado não só tocando-se o
chapéu de fina pita panamenha, mas sim tirando-o com uma pirueta
cortesã. Com joelhos de lã, passou pela vereda oposta assoviando Cafetín
de Buenos Aires sem que seu rival nem ao menos o percebesse, metido em
seu silêncio como um astronauta no espaço.
Muito, mas muito depois de que o carteiro chegasse até o último bar
onde os bêbados lambiam a umidade da cerveja sobre a mesa exangue e
estendesse nele cinquenta córdobas desesperadas que em um segundo
conseguiram que o rodeassem amigos dedicados de toda a vida, mais
velhos que o urinol e mais antigos que o andar a pé, experientes em
despojar coitas, rigores e aflições. Leonel animou-se a parar a meio metro
da casa de Vicky com uma cautela que não convinha nem a seu tamanho
nem a seu aspecto. Parecia esperar um sinal que acendesse essa casa
fantasma, esse navio de luto cujos invisíveis crepes pendiam de cada
ranhura.
Quando depois de horas seu punho tornou-se a minúscula cabeça de
um quetua para arranhar, resvalar, lamber a entrada, o bairro inteiro com
cerimoniosa discrição apagou as luzes. Os pais arrastaram as jovenzinhas
para a cama e eles mesmos tentaram fechar os olhos, cujas retinas
palpitantes ainda se eletrizavam com Borge no palanque dizendo vitória.
— Vicky — chamou com tal sigilo que duvidou que o pensamento
tivesse saído de seus lábios. Mas provocada por sua voz, acendeu-se a luz
do living. Os pés se enjoaram e estendeu um olhar de animal furtivo ao
longo da rua. Pareceu-lhe que todo seu corpo lhe convergia no ouvido e
que este ampliava cada passo da moça a caminho dele. Antecipando a
textura da pele de Vicky sobre a maçaneta interior do estriado madeirame,
desejou não ter vindo. Teve saudades desses naufrágios de timidez que o
arrojavam à lírica com a espantosa clarividência que dão os lençóis vazios
de que a arte é um espúrio substituto do amor. Havia escrito poesia de
merda, cartas com adjetivos pomposos, e havia calado nos momentos
decisivos, mais atento a não incorrer na frase falsa que a seduzi-la. Meia
vida desarrolhando sílabas que tivessem ímã, celagens, ou pelo menos
esses silêncios graves de seus atores prediletos que o haviam estremecido
na poltrona do cinema Garbo em São José: Tom Courtenay em A solidão
de uma corrida sem fim, Albert Finey em Tudo começou num sábado, e
principalmente Richard Burton em meio à neblina, bêbado, tocando seu
trumpete antes de bufar suado sobre o corpo de sua esposa pusilânime em
Odeio essa mulher.
A moça chegou a ele com a perplexidade de quem acode a um
chamado e no caminho esquece o que lhe traz. Sua vista esteve um
instante no peito do rapaz e morosa subiu até seus olhos. A luz diagonal de
uma lamparina acentuou o mistério de seu pômulo e cobria com outro tom
o fino luto que a crivava até os pés. Leonel apertou o cano de sua arma e
fechou os olhos levantando o queixo rebelde para o céu estrelado.
Ouviram-se respirar mutuamente. A noite também tinha essa calma grave.
— Não chores — disse ela.
O rapaz adiantou uma mão até sua orelha. Vicky recostou seu pescoço
em cima. Estiveram assim um momento e ele não soube respirar. Depois
ela se distanciou meio metro e o observou até os pés.
— Abra os olhos — pediu-lhe em um sussurro.
— Não — disse o jovem.
A moça pôs dois dedos sobre suas pálpebras e apalpou a umidade
trespassando as tênues pestanas.
— Abra os olhos, Leonel...
— Não — respondeu, rouco.
Ela emaranhou as unhas na barba do guerrilheiro e as foi baixando até
que raspassem a vegetação do peito.
— Entre.
Leonel veio rápido até o centro da sala, despojou-se com um golpe de
mão da turva matéria que obnubilava sua visão e aspirou fundo tudo o que
tinha nas narinas, engolindo. A moça esperou que ele virasse e só quando
Leonel, tremendo, o fez, despregou em semicírculo o braço apresentando a
casa e voltou a dobrar manso o pescoço.
— Conte-me — disse, as pupilas agarradas no papel das paredes, nas
lentas trepadeiras.
O jovem pôs a culatra do rifle no chão e se apoiou no cano sentindo
que o luto era um carrossel entre ambos, que tudo estava ali cheio de pó,
que se moviam lerdos, barcos em um mar sem ondas nem ventos, como se
temessem despertar para a morte dormida nas cadeiras, no álbum de fotos
em cima da mesa, no mofo do calendário, nos ladrilhos de cantos roídos,
na noite que se afastava sideral. “Conte-me”, ouviu o rapaz. Sua voz havia
atravessado vidros para chegar tão pálida. Era como se a Nicarágua quente
se tivesse enchido de um gelo taciturno, fugaz, de passo felino, escondido
nas sobrancelhas e nimbando na Via-láctea.
— Aqui estamos — disse, sentindo-se opaco, importuno,
infranqueável, o coração pulsando sobre o rifle, os músculos da cara
tensos, a barba e a melena um refúgio e não a ostentação.
Um fogo artificial póstumo acendeu de uma labareda rosa e amarelo o
quarto e suas flores caíram um segundo mais tarde, diminutos cometas.
— Mataram Agustín — disse ela e apontou com um dedo para o
interior da casa.
— E teus velhos? — Vicky coçou as faces. — Estão dormindo?
Ao negar com a cabeça, pareceu-lhe ao poeta que os gestos que ela
iniciava entravam em um inefável sonambulismo, calcavam-se com
branda precisão, como agora em que continuava dizendo não mais além do
justo e necessário, acompanhando uma valsa apática.
— Aqui ninguém dorme.
Agora Leonel achou que ouvira don Antonio respirar, pequenas
vibrações do ar, a minuciosa teia esquineira de uma aranha. Acomodou o
embornal nas costas e tirando o rifle do chão disse olhando para a ponta
dos coturnos:
— Tenho de ir andando, então.
— Fica — disse ela.
— Aqui? — perguntou Leonel, envolvendo com seu gesto mais que a
casa todas as fauces do silêncio, as coisas mais parecidas a suas sombras
que a elas mesmas, a nuvem carregada de presságios, o leve toque de
arminho nos braços cruzados sobre a ampla saia de luto que neutralizava
sua cadeira.
— Onde se não?
— No quartel, pois.
Jogando para trás o cabelo caído sobre o pômulo que recebia a morna
luz do abajur, a moça foi até o interior da casa e abriu sem bater o
dormitório de seus pais. Como em um retábulo, Amalia e don Antonio
estavam sobre a cama de casal, as costas contra a parede, tramados no
mesmo silêncio que reinava no salão, no pátio, na cumplicidade dos
vizinhos. Com um pestanejar indicou ao jovem que aparecesse no dintel.
Quando o teve no marco, leu em seu pai a tensão por identificar esse rosto
hirsuto, e em Amalia o árduo vagar de sua consciência. As mãos sem
entrelaçar-se na penumbra, como quem tece uma lã invisível, exclamou
subitamente:
— É Leonel, velho.
Antonio assentiu com a gravidade de um juiz.
— O poeta.
— Estou vindo da guerra — disse o rapaz levantando desajeitadamente
o rifle. De alguma maneira, outra vez diante de Antonio, precisava de
provas, argumentos convincentes para esse velho político e manhoso.
— Rapaz — disse-lhe muito suave o pai.
Envolta em um xale preto, Amalia chegou para abraçá-lo e, já nele,
apertou-se ainda mais no emaranhado tecido. A ausência de Agustín era o
frio de um punhal de prata. Pôs a face sobre seu tórax e ouviu o turbulento
rumor do sangue do jovem, mais forte quando este envolveu sua cabeça
em sua mão curtida a pólvora e sol.
— Senhora Amalia — lhe disse o garoto, beijando-lhe o cabelo.
A mãe esfregou a testa sobre o coração de Leonel. Este cravou as
pupilas em don Antonio. Tudo lhe parecia uma dança cujos passos não
conheceu nunca, compassos misturados que havia que dançar sem música,
o cérebro vazio de consolos, de frases superficiais, de que horas serão, de
ajudando a sentir, de vencemos, de vencemos caralho. Nem uma palavra.
— Amanhã — disse don Antonio com a distância de quem lesse algo
no jornal local — iremos cedo para a prisão para declarar. Soubeste que
nos mataram o Tin?
— Sim, senhor.
— Amanhã cedo — disse o homem, e espreitou noite avançada com
indícios de aurora.
— Conte-lhe também que estive presa — disse Vicky, olhando para ele
decidida.
Don Antonio trouxe o lençol da cintura até os ombros. Esteve um
momento esfregando-se a testa, quis iniciar uma frase e se conteve.
— Cifuentes está preso? — perguntou Leonel com vontade de coçar
todo o corpo, mas sem se mexer.
— Sim.
— É disso que se trata amanhã?
A mãe se desprendeu do corpo do jovem e ajeitou-lhe o lenço
sandinista na jaqueta.
— Vou preparar-te uma cama — anunciou encaminhando-se para o
quarto de Agustín.
Antes que chegasse ao corredor, Vicky a deteve.
— Não se preocupe, Leonel dorme em meu quarto.
Amalia não precisou olhar para Antonio para perceber
simultaneamente o esboço de seu escândalo e a vergonha, que como um
antídoto cerrou-lhe o protesto na garganta. Soube do sabor do novo insulto
na saliva.
— Como você queira — disse então.
Os quatro ficaram na semipenumbra, uma foto a mais entre os quadros
das prateleiras, mais ativas as folhas da árvore no pátio, mais buliçosas as
formigas e as borboletas dormindo entre as verduras.
— Melhor dormirmos — rompeu Amalia, a vista vertical no corredor
de ladrilhos.
— Sim, amanhã é o trâmite — murmurou Antonio como se outra
pessoa tivesse usado seus lábios para dizê-lo.
Quando nesse instante Leonel aclarou a garganta, até seu leve
pigarrear lhe pareceu inoportuno.
— Borge disse que não devemos ser revanchistas — baixou o tom de
voz à medida em que avançava a frase —, disse que não valia a pena fazer
a revolução se não se é absolutamente diferente daquilo contra o que se
lutou.
Procurou brusco as pupilas de Vicky. Como encadeada nesse
movimento, sem trégua, a moça disse áspera:
— Borge é Borge e eu sou eu.
Por um momento pareceu que os quatro engoliam juntos saliva, que o
silêncio era uma febre estupefaciente, um país sem fronteiras, a mãe das
cadeiras, a morte de um pássaro.
— Venha — disse então Vicky e o jovem emergiu agradecido desse
pântano, seguindo-a até o quarto. Entraram na penumbra. Ela girou a
volumosa chave na ranhura antes de acender a luz. Avançando às tontas,
evitou a lâmpada que pendia do teto e foi até o interruptor do abajur. Ao
puxar o cordel, este revelou uma polida tela azul-celeste com carneiros
cor-de-rosa, pastores com flautas pânicas, nuvens de louros aquilinos, um
anjo pulsando uma lira não maior que um bombom.
Ao colocar seu FAL em cima do armário, reconheceu sua letra na
carta. Espiou três linhas do texto e se tapou os olhos envergonhado. Depois
cobriu-a com a pistola que tirou da cintura. Ela havia-se enrolado com seu
luto no tosco tecido branco do lençol, em cujo extremo um colibri trançara
suas iniciais.
Contemplava Leonel como um viajante uma paisagem remota.
Estendia um convite para um giro irreal para um quarto, uma cama, um
tapete, uma luz, uns insetos emaranhando-se nas persianas, que não eram
estes daqui, estes de agora.
— Aqui estamos — suspirou Leonel, desguarnecido agora que as
armas companheiras haviam desertado. Quis que seu sorriso fosse a lenta
germinação que alentasse nela esse brilho conhecido na história do bairro
como o magnetismo de Victoria Menor, mas seu esforço chocou-se com
uma ausência ainda mais compacta.
— Estás parado aí como um poste — disse-lhe ela depois de um longo
momento.
O rapaz achou que tinha paralelepípedos que lhe pendiam dos punhos.
Amaldiçoou seus ombros desajeitados. Desejava alguma inspiração que
desatasse pumas no quarto, uma maré que convocasse um delírio de
imagens, de verbos livres no vento, uma pequena trégua para reencontrar-
se com sua graça, com o anjo que havia carregado em sua mochila durante
a insurreição e que agora parecia narcotizado diante da mulher que mais
havia amado em sua vida.
— Sim, pois — disse, submerso em sua imperícia.
— Deite-se ao meu lado.
— Na cama?
— Onde poderia ser, pateta?
O jovem veio até o leito e antes de deitar-se provou a textura do
colchão como um banhista a temperatura da água. Pôs a face sobre a
colcha e, apelando aos ranços de uma fingida serenidade, sustentou o
dúctil olhar dela sem conceder-se pausa.
— Voltaste.
Leonel iniciou outro sorriso e desta vez o manteve. Vicky tocou-lhe a
testa tirando-lhe a temperatura e depois afundou a mão em sua barba. Ele
quis domar o delírio que esse mínimo toque lhe produziu com um sorriso
aprendido de seus atores favoritos. Então pensou dizer, mas não o disse:
“Se isto fosse um filme e eu estivesse atuando, com toda segurança me
dariam o prêmio ‘Judas Iscariote’.” Mas ao calar, seu sorriso se firmou e
ele pôde sentir que lhe subia até os olhos. Que seu rosto, pouco a pouco,
começava a se parecer com ele, como ele mesmo se via.
Um minuto depois o silêncio se havia transformado de cilada e rival
em cúmplice. Inclusive pensou empurrar com a ponta do pé uma bota e
lançá-la ao chão sem que lhe importasse o alvoroço que talvez despertasse
aos galos e vizinhos, e quem sabe se depois não soltaria as âncoras da
outra para aliviar de uma boa vez esses dedos escuros e o calo do
mindinho.
Com a voz já sonâmbula, Vicky lhe disse:
— Vou dormir — e acrescentou imersa no umbral do sono —, cuida de
mim.
O rapaz não pôde se mexer, fascinado só em contemplar como esse
rosto que desperto estava roído pela tensão, ao meter-se na inconsciência
recuperava cada traço de sua sensualidade até ir ganhando o garbo de uma
fruta, a pele cobiçada de um pêssego limpo.
Desejou-a com uma fúria quieta. Seu sexo avultou-se em um mágico
segundo. Segurou-o com uma mão e pesquisou cada exalação da moça
com a boca tão perto de seus lábios como se fosse beijá-la. Foi-se
enchendo desse ar turvador, da lembrança da elástica pátina entre a
ingenuidade e ironia com que deixava exangues os moços de Subtiaba
quando a viam passar rumo às aulas. Recuperou a fragrância sem perfume
que se dispersava de seu sutiã e que parecia rachar o tecido de seu
uniforme. Ali estava essa joia animal, essa inteligência, essa destra artesã
do arsenal cirúrgico, essa respiração morna e úmida tinta de luto,
fulminada de preto sobre esta cama digna de uma proeza, que se lhe fosse
permitido precisaria de sabe-se lá quantos vocabulários galácticos para
retê-la em um poema.
Foi acalmando-se em suspiros. Desviou a vista para o céu raso e
entreteve seus olhos nas manchas e sombras, brincando de perceber rostos
ou silhuetas de animais, como quando era pequeno e se deitava com a
modorra do dever escolar inconcluso, imaginando um universo sem
professores, nem livros de aulas, certificados mensais, mesadas suspensas
e longa lágrima no domingo sem licença para ir ao cinema. Cruzou os
dedos sobre o coração e, ao fechar os olhos, soube que lhe custaria abri-
los. Em uma penúltima rajada de lucidez, o palpitar de uma vela, pensou
outra vez em se desprender das botas, mas a morna falta de vontade foi
mais preguiçosa que o projeto. Antes de dormir com um sono que lhe
pareceu exceder o tamanho de sua própria estatura, achou que ouvia uma
pequena chuva sobre a folhagem do pátio.
Mais tarde, na inconsciência, ouviu passos sigilosos, monossílabos
roncos e foi aureolado por um avassalador aroma de café. No entanto, o
cansaço fez-se manha para virá-lo de lado e a pele sobre a colcha fresca
era uma delícia irresistível. “Estou dormindo um século”, ouviu-se dizer
dentro de um sonho onde uma lancha a motor cortava o lago com uma
esteira levando-o para Solentiname para visitar Agudelo.
O sol foi ganhando espaço sobre a parede; atravessou o pólen solto
pela matéria da noite e, sem pausas, avançou até banhar-lhe a testa.
Foi então que ouviu a voz de Vicky. Sentou-se na cama, os olhos
desmesurados, a garganta áspera.
A moça estava nua no dintel e seus lábios ainda vibravam com a
segunda sílaba de seu nome. Vieram-lhe imagens à cabeça. Disse para si
mesmo: é um sol embaciado, é minha árvore, é a fruta, são todas as
nuvens, são todos os pássaros, é a pele como inundação, é sua saliva, uma
seiva, é seu sexo engolindo-me, chamando-me pela primeira vez de
Leonel, é cada poro de seu pescoço lavrado no sol, é esta febre de
Nicarágua, é minha casa, minha aventura, é o desmaio, a loucura, a cascata
pequena e vegetal no marco da porta, são meus livros, é meu embornal
cheio de poesia, é a companheira, é esta ereção furibunda, escandalosa
visita, são meus veleiros que zarpam, é um turbilhão ao fundo do lago e
uma calma no oceano, meu grito forjado de insônia, minha arma na
estante, minha ortografia de colegial, as palavras que me nadam na boca
como uma guayabera, é Vicky leve, sua plumagem inteira, meu Deus, seus
seios milagrosos, seu sorriso, sua luz envolvendo-a a ela mesma como
uma auréola dos pintores de Masaya.
— Venha — disse-lhe ela.
O rapaz se surpreendeu em um parênteses formal. Súbito sua nudez lhe
havia recordado sua condição de visita, de alojado respeitável.
— Onde estão teus pais? — se ouviu dizer.
Vicky indicou-lhe a rua com um gesto.
— Saíram para ir declarar no cárcere.
Leonel puxou o cabelo uma vez e outra, fazendo de sua unha
debulhadora que o arranhasse e despertasse dessas visões.
— E você?
A moça pôs a unha anular sobre os lábios e botou a ponta da língua
entre seus dentes pequenos ao dizer-lhe:
— Eu te preparei o banho para que tomes banho comigo.
Leonel, ainda sentado na cama, desabotoou os botões da camisa e,
baixando a vista para seu próprio peito, sorriu com modéstia.
Créditos

O capítulo VI se inspira em um motivo de Ariel Dorfman.


O capítulo XIX foi escrito por Iván Guevara.
O capítulo XXV é de Pablo Neruda.
ANTONIO SKÁRMETA nasceu em Antofagasta (Chile) em 1940. Formado pelas
universidades do Chile e Columbia, era professor de filosofia e de literatura hispano-
americana na Universidade do Chile. Em 1975 foi convidado por Berlim Ocidental para o
Programa Artístico daquela cidade, onde reside atualmente e trabalha como professor de arte
dramática na Academia de Cinema e Televisão. Escreveu obras de teatro, roteiros
cinematográficos, contos, romances e traduziu ao espanhol romances de Mailer, Kerouac,
Melville, Webb e Fitzgerald.
Digitalização e revisão

Thiago Cerejeira

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