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Georges Snyders

Escola, Classe e
Luta de Classes

MDM COPIADORA c
EDITORA
FCHF — UFG
Livro Completo
Capa: Paulo Gaia
Editoração: Conexão Editorial
Produção Editorial: Adalmir Caparrós Fagá
Fotolitos de Capa: SM Fotolito
Impressão e Acabamento: Bartira Gráfica e Editora S/A

1º Edição — Abril de 2005


SUMÁRIO
Título Original: École, Classe et Lutte des Classes
O 1976 — by: Presses Universitaires de France
Tradução: Leila Prado

Introdução 11
Primeira Parte
Snyders, Georges A escola e as suas separações
Escola, classe e luta de classes / Georges
Snyders ; (tradução Leila Prado). — São Paulo: Aspectos positivos 17
Centauro, 2005. Primeiro tema: Não se pode entender hoje uma
ideologia que não tome emconsideração a
Título original : École, classe et lutte des classes contribuição dos nossos cinco autores 17
Bibliografia. É Bourdieu-Passeron decifram as desigualdades 19
H- Baudelot-Establet:
A escola e os seus antagonismos 26
1. Baudelot, Christian 2. Boudieu, Pierre, H- Illich abre perspectivas mundiais 28
1930- 2002 3. Conflito social 4. Escolas -— Aspectos
sociais 5. Establet. Roger 6. Iltich, Ivan
Segundo tema: Reclamamos para o marxismo
7. Passeron, Jean-Claude 8. Sociologia educacional umdireito de prioridade 30
I. Título. A luta contra a diferenciação dos Ciclos Escolares
confunde-se com a luta pelo socialismo 33
05-2247 CDD-306.432 H- Como conduzir a luta contra os ciclos diferenciados 45
Primeiro tema: 4 escola divisionista 45
Índices para catálogo sistemático: I- As duas redes de Baudelot-Establet 45
H- Os conteúdos do PP como sub-produtos 56
1. - Escola e sociedade : Sociologia educional HJ- Humilhação, Humildade 68
306.432
Segundo tema: À escola reprodutora e conspiradora 75
O 2005 da Tradução: Terceiro tema: A burguesia não confia na escola 84
CENTAURO EDITORA I A crise da escola atinge também a burguesia 84
Travessa Roberto Santa Rosa, 30
02804-010 — São Paulo — SP
H- A burguesia reconheceuaescola
Tel. 11 — 3976-2399 — Tel./Fax 11 — 3975-2203 como sua cúmplice? 89
E-mail: editoracentauro O terra.com.br HI- Descolarização 91
www. centauroeditora.com.br

feio
GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Conclusão da Primeira Parte 95 Terceira Parte


E Os ciclos, divisão da sociedade em classes 95 Realidade e Irrealidade da Cultura
H- As forças positivas já presentes na escola 99
I- IHlich ou “Não conheço a Luta de Classes” 195
HI- A escola como local de lutas 101
Primeiro tema: A cultura do perito reduzirá a zero
IV- Autonomia do ensino pedagógico? 105
a cultura dó homemvulgar? 196
V- Voltando uma vez mais aos nossos autores 109
I A convivência: recordação de alguns temas 196
Segunda Parte H- Antecipação ou nostalgia? 204
O Combate não principia porfalta de combatentes HI- Uma luta impiedosa entre os especialistas e
os homens vulgares 206
É TIlich - A escola prepara para o servilismo? 115
IV- O sucesso de Illich provém de ele reunir experi-
Primeiro tema: Escola, não-escola, antiescola 116
ências muito fregiientes 210
I O que vem a ser uma escola? 16
V- A cultura dos especialistas já é uma realidade
H- Da boa utilização possível de Illich
e conquistará terreno e eficácia numa
e dos seus limites 120
sociedade transformada 218
Segundo tema: Existirá o marxismo? 123
Segundo tema: Cortar com a escola? 234
Terceiro tema: Soube Illich interpretar a
É Adquirimos os nossos conhecimentos pelo
recusa dos jovens? 129
não-sistemático 234
Quarto tema: O alargamento do ensino: progresso ou
Il- Reflexões críticas sobre as redes 237
condenação? 131
Terceiro tema: A morte da escola para Hlich e para os
H- Baudelot-Establet - A escola transformará os alunos
pedagogos soviéticos da primeira geração 252
em pobres pequenos seres privados da realidade? 135
I A escola definha 252
Primeiro tema: Criança modelo 135
H- O lado exato e o lado utópico 256
Segundo tema: À relação teoria-prática 138
HI- Para uns a escola morre em beleza, para outros
Terceiro tema: O que vem a ser a escola politécnica? 144
apocalipticamente 265
I- O que foi realizado na China é prodigios 145
H- Gramsci como antídoto de Illich 267
Il- Regresso ao marxismo 152
H- Bourdieu-Passeron ou A Luta de Classes Impossível 275
Hl- A escola politécnica na RDA 156
I A seriedade prejudica, a desenvoltura compensa 275
I- Como se realiza a escolha dos estudos 161
H- O ensino constitui o segundo grau dairrealidade 284
I Interiorização do destino estatístico 161
HI- Apesar de tudo alguns momentos dialéticos 290
IÉ- E, contudo... 164
IV- As diferentes utilizações da cultura 297
IV- Bourdieu-Passeron - A ideologia dos dotes 171
Primeiro tema: Utilização conservadora da cultura 297
Primeiro tema: Bourdieu-Passeron desmontam a
Segundo tema: Restituir a cultura a si própria 300
ideologia das classes dominantes 17
H O papel da alegria no combate político 302
Segundo tema: Bourdieu-Passeron ajudam-nosa
H- “Três exemplos das relações entre a ideologia
lutar contra as mistificações 176
dominante e a ideologia dominada 313
Terceiro tema: Subsistem graves problemas 181
V- Baudelot-Establet ou A Luta de Classes Inútil 319
Conclusão da Segunda Parte 191
GEORGES SNYDERS

Primeiro tema: A ideologia proletária como


manifestação repentina ou como conquista 319
I- Constituição da ideologia proletária 319
I- Validade da existência proletária 323
IM- A escola não é necessariamente inútil 333
Segundo tema: Questões de linguagem 339
E As duas linguagens servem uma recíproca INTRODUÇÃO
incompreensão 339
I- Os que viram a cara quando um popular
abre a boca 342
Nl- A contribuição dos lingiistas 349
VI Duplo rosto das crianças do proletariado 357 A falha evidente nos meus dois livros anteriores con-
Primeiro tema: Os que vêem apenas, nos filhos da sistia no fato de eu quererrefletir acerca da pedagogia pro-
classe proletária, a positividade 358 gressista a partir de contextos progressistas e de relações
Segundo tema: Descobrir o duplo rosto do próprio educativas progressistas, mas sem ressaltar os problemas das
proletariado 365 estruturas do ensino e das diversas clientelas privativas dos
Terceiro tema: Voltando às crianças do proletariado 369 vários tipos de ensino. Daí a importância, neste momento, de
Conclusão - Para uma escola progressista 383 um reencontro e de uma confrontação com a sociologia da
E como não chego a uma conclusão 397
educação.
Notas Bibliográficas 399
Novaleitura crítica de cinco autores: todavia, a minha
intenção não é de forma alguma medi-los todos pela mesma
medida; espero que as diferenças surjam, saltando aos olhos,
tanto pelo conteúdo do que será dito a seu respeito como
pelo tom das observações ou da discussão.
Para Bourdieu-Passeron!, todos quantos se ocupam da
escola são devedores de contribuições absolutamente funda-
mentais, quer no domínio diretamente escolar, quer na refle-
xão sobre a cultura livre ou a ideologia dos dotes.
Baudelot-Establet? têm a extraordinária virtude de ha-
ver aplicado à pedagogia uma análise marxista e, assim,
trouxeram à luz do dia as ilusões é os logros que se geravam
em redor do tema da escola única.

' Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, educadorese sociólogos franceses.


2 .... a
* Christian Baudelot e Roger Establet, educadores e sociólogos franceses.

10 ll
GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Com estes quatro autores, muito aprendemos, muito impossíveis de saciar. E deste modo se confirmaria que a
fixamos, mesmo se tentamos interpretá-los diferentemente, escola não possui em si qualquer força capaz de a fazer pro-
inserindo num outro contexto aquilo que nos levaram a gredir. Falta de esperança, fatalismo e responsabilização dos
descobrir. docentes.
Pelo contrário, a obra de Illich! surge-nos como essenci- O que leva uns a abandonara luta, outros a se consa-
almente mistificadora: sem dúvida, que os perigos por ele grar exclusivamente à política, renunciando à fachada peda-
denunciados tanto na nossa escola como na nossa sociedade gógica; se a escola se reduz a uma fraude total ou a um erro
estão longe de ser imaginários, mas sustentamos que, do absoluto, a pedagogia é diversão, ilusão, e assim se manterá
princípio até o fim, ele opera um verdadeiro desvio intelec- até que a sociedade seja abalada.
tual que transforma as acusações em lugares-comuns, acaba Os meus estudantes interpretaram mal os autores, ou sou-
por mascarar as causas e as responsabilidades e propõe solu- beram tirar porsi conclusões que eles não dão explicitamente?
ções emprestadas pelo habitual arsenal da utopia — mas a Foi para lutar contra este derrotismo que quis escrever
utopia evidente remete para a realidade do conservantismo. . o presente livro. Não se trata de desculpar a escola, não se
Por que, então, já que são diferentes, reunir num único voltará ao âmbito das constatações fundamentais, não se apre-
estudo estes cinco autores? sentará a escola como libertadora, ou única, ou acolhendo
Parece-nos que, efetivamente, eles tendem a exercer igualmente uns e outros, não repetiremos que há indistinta-
sobre os seus leitores uma influência muito mais homogênea mente tão bons alunos entre os ricos como entre os pobres.
do que nos permitiria supor o exame das suas obras. O que Mas, precisamente a partir destas acusações, e para que
Julgamos observar nos nossos estudantes — e há vários anos elas não se transformem num travão no preciso momento em
— é que uns e outros, por vias diferentes, lhes transmitem a que nos apontaram o caminho mais justo, em que contáva-
sensação de uma escola onde nada de válido se passa, a cul- mos que fossem abrindo caminho à nossa ação — e até su-
tura aí dispensada não conteria o mínimo valorreal e, desde pomos que estão prestes a fazê-lo — surge uma tarefa»
logo, a escola deixaria de ser um local onde o combate pela urgente: inserir a escola na luta de classes, compreender co- ;
democracia socialista é possível e necessário. mo participa a escola nessa luta de classes; porque é, em;
Uma escola como puro e simples instrumento de re- última instância, o desconhecimento do que é a luta de clas- :
produção social, manobrando para esmagar osfilhos do pro- ses que, nos nossos cinco autores, nos parece arrastar, por '
letariado, ou, segundo Illich, para levar ao servilismo as processos evidentemente muito diversos, âquilo que ousa-
crianças de todas as classes. As matérias estudadas destinam- mos considerar como os seus desvios.
se apenas a permitir aos jovens de boa família distinguir-se Para Illich todos são igualmente culpados e supõem
do vulgo, a fim de convencer os pequenos proletários da sua poder lançar um apelo indistintamente a qualquer um para
indignidade; para perverter todas as crianças arrastando-as a trabalhar a favor da convivência total; as reivindicações do
um consumo desenfreado, excitando desejos e necessidades proletariado não passam de desejos de consumir mais, dese-
Jos tão nefastos e insensatos como os dos burgueses.
i + 2 e.
Ivan Hlich, teólogo e educadoraustríaco.

12 13
GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Para Baudelot-Establet, a luta de classes parece desem- assalariado é a forma extrema da alienação e produz as con-
penhar um papel de primeiro plano. Mas, na realidade, basta- dições plenas do desenvolvimento íntegro e universal das
ria deixar o proletariado exprimir-se, viver a sua cultura, tal forças produtivas do indivíduo.
como ele já a constituiu, não reprimir as suas atitudes espon- Marx acrescenta que é “sob uma forma invertida, de
tâneas; o proletariado e os filhos do proletariado são evoca- pernaspara o ar” — e nisso se situa a resposta a Baudelot-
dos como já havendo atingido, pela sua experiência própria e Establet: o proletariado tem de contribuir com um esforço
imediata, um tal ponto de realização, para não dizer de per- imenso para ultrapassar as suas próprias divisões, concen-
feição, que parece supérfluo um partido operário tendo como trar-se numa força única, escapar às mistificações das ideo-
tarefa organizar as ações, coordená-las e adaptá-las a todo logias dominantes; de onde se deduz que a vanguarda da
momento às possibilidades objetivas desse mesmo momento. classe operária, os sindicatos e o partido desempenham um
Sob este aspecto diríamos que, comeles, a luta de classes se papel insubstituível: fazer jorrar das massas esta verdade
revela inútil. combativa de que são portadoras, mas que tantos riscos corre
À luta de classes parece impossível na perspectiva de de ser sufocada, dispersada, esmigalhada, contrariada.
Bourdieu-Passeron, porque as classes dominadas são a tal É o marxismo no seu conjunto que deveríamos evocar
ponto cúmplices do patronato, convencidas da sua indigni- para respondera Illich, visto que é o marxismo no seu conjun-
dade, que não se distingue verdadeiramente o que poderia to que é ignorado. Como repete Illich e com ele o grupo dos
constituir o elemento propulsor do seu combate. conservadores, eles estão sempre descontentes; quanto mais
f Assume por isso uma extraordinária importância situar têm, mais lhes dão e mais querem. Mas a luta dos explorados
com precisão o conceito marxista da luta de classes.| Não como rompendo caminho até uma sociedade sem classe e
temos a pretensão de o conseguir em breves linhas, masgos- constituindo, assim, a própria positividade da história.
taríamos simplesmente de responder a Bourdieu-Passeron Tendo sido levado sem descanso a combater em duas
que o proletariado encontra na sua experiência cotidiana os frentes: contra o conservantismo, as ilusões lenificantes que
motivos e a força necessários à sua luta. ele quer difundir, para desarmar os trabalhadores e contra
O capitalismo é o mundo da exploração, mas esse mun- certas impaciências que se transformam em renúncias, espe-
do nunca é uma propriedade exclusiva, lugar seguro e ro não ter caído no meio termo, nem no compromisso, nem
aprazível da classe dominante; esta não deixa de esbarrar com no há algo de bom e algo de mau em cada posição e em ca-
as forças da oposição, pois ela própria as suscita. Dirá Marx da autor. Tudo quanto posso afirmar é que me esforcei por
que “todo o desenvolvimento do capitalismo se processa de tomara escola como local de contradições dialéticas”.
maneira antagônica... sob uma forma contraditória”. E, que é
“pelo desenvolvimento histórico dos antagonismos imanen-
tes”, que a etapaulterior, a etapa superior, será atingida.
A história como dialética significa que o proletariado é * Uma vez mais, cumpro o agradável dever de agradecer à Revista Enfunce e à
humilhado, aviltado, e, simultaneamente, forma-se, forja-se, sua Diretora, a senhora Gratiot-Alphandéry, que acolheu o meu artigo: Foi o
adquire podere lucidez. A relação do capital com o trabalho mestre-escola quem perdeu a batalha dasdiferenças sociais? — primeiro esboço
deste trabalho. -

I4 15
PRIMEIRA PARTE

A ESCOLAE AS SUAS SEPARAÇÕES

CAPÍTULOI
ASPECTOS POSITIVOS

PRIMEIRO TEMA:
Não se pode entender hoje uma pedagogia que não
tome em consideração a contribuição dos nossos cinco
autores

Mesmo que Baudelot-Establet só nos tivessem ensina-


do uma coisa: a escola favorece os socialmente privilegia-
dos; desvaloriza os outros; é aos herdeiros de situações
privilegiadas que cabe os sucessos escolares, a possibilidade
de uma escolaridade prolongada, o acesso à Universidade,
portanto, aos postos dirigentes, aos quais sob forma direta ou
implícita são atribuídas as mais elevadas classificações, que
vão em massa para aqueles cuja família já está instalada em
posição dominante — eles assinalariam uma data decisiva na
história da pedagogia.
Mesmo que Baudelot-Establet só nos tivessem ensina-
do uma coisa: a escola única não é única, nãopode sê-lo
numa sociedade dividida em classes; a cultura dispensada

17
GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

pela escola não é una; seus itinerários, seus fins, não são zer recuar até a um inconsciente um tanto vergonhoso aquilo
apenas diferentes, mas opostos, tudo quanto se passa na es- de que suspeitávamos, embora vagamente.
cola é atravessado pela divisão em classes antagonistas — a
sua contribuição seria de uma importância decisiva. Para o futuro, eis-nos constrangidos a olhar os fatos
Mesmo que Illich só tivesse dado ao tema das dispari- frontalmente; o milagre que esperaríamos no íntimo do nosso
dades escolares uma dimensão nova (e a que ponto dramáti- coração: a escola como universo preservado, ilha de pureza
ca, interpretada à escala mundial), não apenas em relação às — à porta da qual se deteriam as disparidades e as lutas soci-
sociedades industriais e ricas mas também em relação aos ais — esse milagre não existe, a escola faz parte do mundo.
países que consideramos em via de desenvolvimento, para Em algumas páginas muito breves, pois estes temas es-
não lhes chamarmos colonizados e explorados — levantaria tão agora muito divulgados, lembraremos o que nos parece
uma questão irreversível. constituir, do ponto de vista da diferenciação dos destinos |
escolares, a contribuição essencial dos nossos autores.:
É preciso dizer que nos ensinaram ou lembraram isso?
“Pois, na realidade, tudo já constava dasanálises de Marx e I — Bourdieu-Passeron decifram as desigualdades
de Lenin; mas nos tínhamos esquecido, por assim dizer, a-
bandonado, tão difícil é enfrentar uma realidade que desmen- Doliceu ou dociclo I do CES! ao CET”, passando pelo
te ideais proclamados, e mais ainda, ideais pelos quais CEG” (ou ciclo II do CES), não há simplesmente, como pro-
efetivamente se luta, clama a doutrina oficial, diferença, diversidade, mas sim uma
Era tão importante defender a escola, a escola laica hierarquia. Significa isto em especial que é difícil a um aluno
contra a escola enfeudada a um dogma, a escola republicana do CEG continuar a sua carreira escolar no liceu — muito
contra a escola diretamente, abertamente reacionária, a esco- mais difícil mesmo do que para quem já fez o primeiro ciclo
la pública contra o embargo patronal — e sobretudo, a escola do liceu. Pois o aluno do CEG vê-se constrangido a adaptar-
em si, a instrução face à ignorância e à utilização do trabalho se a uma instituição diferente no seu corpo docente, no seu
de crianças de oito, dez, doze anos — que varremos do cam- espírito e no seu recrutamento social.
po lúcido da consciência o caráter de classe do mundo esco- Em termos estatísticos, esta hierarquia revela-se pela
lar. Para os combates que íamos travar, seria necessário, percentagem de alunos do CEG que obterão o bacharelato”
mesmo provisoriamente, pôr de lado esta terrível dependên- — percentagem muito mais fraca do que entre os que princi-
cia da escola? piaram logo um sexto ano do ciclo nobre. Ainda muito mais
E depois, esta desigualdade fundamental e constante,
este prolongar incômodo da exploração social dentro das
'Collêge d' Enseignemt Secondaire.
nossas classes, consideramos intoleráveis, quase fisicamente ,2 Collêge d'Enseignement Technique.
intoleráveis, até na medida em que amamos a nossa escola e ; Col lêge d'Enseignement Général.
a nossa tarefa de educadores, portanto, a única saída era fa- * ensino longo (liceus e liceus técnicos) é sancionado pelo bacharelato (filoso-
fia, ciências experimentais, matemáticas elementares, matemáticas técnicas). Este
bacharelato dá acesso ao ensino superior.

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

desiguais são as oportunidades de acesso ao ensino superior didatar: o exame tem por função dissimular a eliminação
a partir dos diferentes tipos de estabelecimentos secundários, sem exame. Todos aqueles de que se dirá que desistiram por
a partir das diferentes carreiras escolares. livre vontade, porsua iniciativa (renúncia voluntária), não se
Ora, o recrutamento social de alunos e de professores candidatam ao ensino longo nem ao ensino superior; trata-se,
não é o mesmo nos CEG e nosciclos I: naqueles a percenta- na realidade, dos que estavam presos nos ciclos onde eram
gem de alunos saídos de meios populares é muito mais ele- tão reduzidas as possibilidades de chegar ao ponto terminal,
vada, ao passo que nestes os alunos vindos de meios Será necessário explicar com números e percentagens que
favorecidos estão fortemente super-representados. estes últimos se recrutam essencialmente dentro de certas
Considerando os respectivos professores, quanto à sua categorias sociais?
origem social e ao tempo que puderam consagrar à sua for- Por que tantas discussões e controvérsias a respeito do
mação profissional e atendendo ao vencimento que auferem, bacharelato, quando esta exclusão lenta e retardada é prati-
chega-se a constatações de igual natureza e as diferenciações camente ignorada ou em qualquer caso passada pudicamen-
orientam-se todas no mesmo sentido. É, portanto, a desi- te em silêncio? É que os debates são conduzidos por
gualdade social que comanda a desigualdade escolar, que representantes de classes sociais para quem o único risco de
constitui a realidade da desigualdade escolar: a hierarquia eliminação é o exame; o ponto de vista das classes sociais,
dos estabelecimentos de acordo com o prestígio escolar e condenadas à auto-eliminação não tem ensejo para se expri-
com o rendimento social dos títulos a que conduzem corres- mir. À perspectiva ilusória que leva a supor que o cursus
ponde estritamente à hierarquia destes estabelecimentos se- escolar depende do resultado do exame quando,na realidade,
gundo a composição social do seu público. é muitíssimo mais importante encarar o caso de todos aque-
Os alunos que se matricularam no ciclo CEG vão ser les que não teriam tido acesso à sala de exame, reflete, no
mais rapidamente eliminados do sistema escolar do que os plano ideológico, um egocentrismo ingênuo, voluntariamen-
do ciclo I; de fato, eles tiveram de sujeitar-se a uma conde- te ingênuo, das classes privilegiadas.
nação por defeito ou por excesso. E são maciçamente ascri-
anças do povo que serão assim marginalizadas sem Assim, para afastar as classes populares, já não se atua
conseguirem alcançar os diplomas mais prestigiosos, esco- por exclusão, por oposição absoluta, aqueles que estão den-
larmente e socialmente — e os mais rentáveis. A escola não tro do sistema escolar e os que ficam de fora, isto é, na fá-
contrariará a reprodução das classes sociais. brica ou no campo: procede-se por sábias gradações e
sabiamente dissimuladas, que vão dos estabelecimentos,
Por conseguinte, a verdadeira clivagem não se joga en- seções, disciplinas ligadas às melhores possibilidades de
tre admitidos e não-admitidos a exame (por exemplo, o ba- êxito posterior, tanto escolar como social, até aos diferentes
charelato), mesmo que o exame seja efetuado em condições graus de relegação. A discriminação das classes populares
formalmente irrepreensíveis, mas sim entre os que se candi- faz-se pouco a pouco, com brandura — e assim se consegue
datam e os que não levam os estudos suficientemente longe, dissimulá-la melhor.
suficientemente na direção requerida, para se poderem can-

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Existe um determinado número de casos de mobilidade fessores, é, em geral, mais favorável, mais estimulante; ou
social — e todos os professores citam o exemplo de determi- ainda, a posição elevada do pai é acompanhada de posições
nado aluno vindo de muito baixo, que graças ao seutrabalho, destacadas de outros membros da família, que proporcionam
ao seu zelo e aos seus dotes, conseguiu tão brilhante situa- deste modo à criança, diferentes modelos de identificação e
ção. Mas, na realidade, a classe dominante conserva ciosa- de êxito, bem como apoios. As vantagens e desvantagens
mente nas suas mãos o controle desta seleção, que não faz sociais atuam em cascata de efeitos cumulativos — e preci-
perigar de forma alguma o conjunto das hierarquias estabele- samente por isso é muito difícil introduzir, por reforma par-
cidas. Precisamente porse tratar de casos, esses poucos vão cial, qualquer modificação durável.
ser absorvidos pelo meio ambiente, modelar-se segundo re-
gras instituídas, arriscam-se mesmo a ficar fortemente alge- A ação da escola exerce-se sobre crianças cujo modo
mados a um sistema que lhes permitiu vencer, sair-se bem. de vida, educação familiar, primeira educação são extrema-
Decapita-se a classe operária, proporcionam-se à classe mente diversos: a cultura das classes privilegiadas aproxima-
detentora do poder alguns elementos válidos que lhe presta- se da cultura escolar, os seus hábitos assemelham-se aos há-
rão serviço, muito mais do que se insuflam na sociedade pos- bitos e aos ritos escolares — e preparam-nas, pois, direta-
sibilidades de renovação. Estas possibilidades de ascensão mente, para as aprendizagens escolares. Os seus filhos vão
social denunciam-nas Bourdieu-Passeron como meio de tornar assimilar a contribuição da escola à maneira de uma herança,
verossímil a ideologia de uma escola que a todos oferece é-lhes familiar, faz parte do seu elemento natural.
iguais oportunidades; um meio de mascarar o peso da origem Para os outros, trata-se de uma conquista muito cara,
social e, finalmente, de negar a existência de classes. Os mira- têm de a conseguir laboriosamente, através de uma espécie
culados constituem a caução do sistema e apesar das aparên- de conversão imensamente difícil. Resumindo, é um empre-
cias lisonjeiras, não passam, na realidade, de reféns. endimento de adaptação a um grupo social, de certa maneira
Resumindo, a organização e o funcionamento do sis- uma reeducação. A escola limita-se a confirmar e a reforçar
tema escolar retraduzem continuamente e segundo códigos um habitus de classe, que constitui o fundamento real de
múltiplos as desigualdades de nível social por desigualdades todos os progressos escolares. Porisso a escola só triunfa em
de nível escolar. relação àqueles que se beneficiaram para lá do recinto esco-
lar e bem antes de lá entrarem, no seio familiar, dos hábitos
Interrogando-se e forçando-nos a interrogarmo-nos so- de família, de um certo estilo de vida.
bre as razões das desigualdades sociais nos sucessos escola- E estes, na escola, procuram menos adquirir algo de
res, Bourdieu-Passeron mostrarão que não se trata de uma novo do que legitimar escolarmente aquilo que em grande
casualidade simples e linear, que torna o sucesso dependente parte já adquiriram pelo modo de inculcação que, desde o
de um determinado fator particular, mas do equilíbrio de nascimento, os envolveu e apoiou. É necessário explicar que
conjunto de um sistema: por exemplo, a posição elevada do este modo de ensinamento é o das classes favorecidas? As
pai implica vulgarmente a residência e a escolaridade numa classes sociais são caracterizadas pordistâncias desiguais até
grande cidade, onde o meio, tanto dos alunos como dos pro-

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

à cultura escolar e por disposições diferentes para a reconhe- ele duplica-as na medida em que as consagra através de re-
cer e adquirir. sultados escolares, pois estes depressa se transformam em
apreciação da pessoa em si: ele não é dotado, não é inteli-
Analisando a cultura extra-social, a cultura dita livre, gente... visto que não triunfou na escola.
Bourdieu-Passeron levam-nos a reconhecer-lhe a importân- Para chegar a semelhante efeito discriminatório e con-
cia no triunfo escolar e a extrema desigualdade nos modosde servador, basta que o sistema escolar deixe agir os mecanis-
aquisição, nas oportunidades de a adquirir; é difícil inter- mos objetivos da difusão cultural, que dê livre curso à
romper o círculo em que o capital cultural acorre ao capital seleção natural — natural numa sociedade essencialmente
cultural. Só as famílias material e culturalmente dominantes desigual. Ele age por uma sutil abstenção, fingindo conside-
possuem um patrimônio próximo da cultura inculcada pela rar cada criança como igual ao seu vizinho — e o filho do
escola — e transmitem-no aos seus filhos como um hábito pedreiro como identicamente preparado, tão apto como o
evidente: por exemplo, viajam com os filhos, acostumam- filho do engenheiro a saborear a ementa escolar. E estes si-
nos pouco a pouco, nem que seja pelo exemplo, pela obser- lêncios cúmplices permaneceram durante bastante tempo
vação, por uma simples exclamação, a prestar atenção aos difíceis de decifrar.
monumentos, à harmonia das paisagens; em breve saberão o Nesta diferença de resultados, a linguagem tem um pa-
que é contemplar um quadro, distinguir as famosas cores da pel de relevo: a escola impõe uma linguagem, uma norma
floresta no outono, e é este modo de sensibilidade que vai lingiística, um certo tipo de domínio da língua; não há qual-
firmar um acordo com as expectativas da escola. quer exercício escolar em que o estilo não acabe porser to-
Sobre crianças diferentemente preparadas, diferente- mado em consideração. Ora, esta linguagem universitária
mente dispostas, a escola só pode triunfar de maneira tam- está desigualmente repartida pelas diversas classes sociais,
bém muito diferente. Na realidade, ela exige uma formação pois está muito diferentemente afastada das linguagens efeti-
elaborada fora do seu âmbito, simultaneamente uma compe- vamente faladas pelas várias classes sociais. Logo de início a
tência e uma determinação na maneira de abordar as coisas a distância que separa as exigênciaslingiisticas da escola e os
que certas crianças se foram insensivelmente habituando hábitos lingiísticos peculiares aos diversos meios sociais
com a família — e as desfavorecidas não. É um pressuposto ameaça seriamente avaliar o afastamento das crianças vindas
implícito, a escola não o fornece, não o dispensa metodica- das classes dominadas pela bitola do êxito escolar.
mente; mas aqueles que não se beneficiaram dele bem cedo Quisemos simplesmente resumir as análises que consi-
ficam desarmados, desamparados perante a cultura escolar. deramos mais válidas, mais decisivas na imensa contribuição
que Bourdieu-Passeron proporcionaram à inteligência do
Daí a hipocrisia da ideologia igualitária, quando finge mundo das Universidades.
ignorar tudo que se passa fora da escola e como dentro dela
as disparidades têm livre curso: omitindo proporcionar a
todos o que alguns devem à sua família, o sistema escolar
perpetua e sanciona as desigualdades iniciais. Ainda mais:

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

IH — Baudelot-Establet: repartir os indivíduos por postos antagonistas na divisão so-


A escola e os seus antagonismos cial do trabalho, quer do lado dos explorados, quer do lado
da exploração. Todos os mecanismos escolares são coman-
Baudelot-Establet são, quanto a nós, os que tiveram a dados, de início, por aquilo que constituirá o seu objetivo,
coragem e a lucidez de desvendara ilusão ideológica da uni- que parece o resultado esperado: a divisão social do trabalho
dade da escola, ilusão de que existiria um tipo único de esco- — e não se trata de uma divisão puramente técnica de com-
laridade e que os diferentes ciclos só diferem entre si em petências, deve, na realidade, ser descrita como divisão da
extensão e duração; resumindo, o grande mito da escola única sociedade em classes antagonistas e a relação entre ambas é,
e unificadora. Ilusão de que as crianças seriam desigualmente na verdade, a exploração de uma pela outra.
instruídas numa só e mesma escola, que seria simplesmente As diferentes direções em relação às quais a escola ori-
abandonada poralguns, na realidade, a maioria, a meio cami- enta os alunos não corresponde a talentos, capacidades, do-
nho — e levada até o fim pelos restantes. tes, mas sim à proporção de mão-de-obra, de funcionários
Para já, proibimo-nos de empregar o termo redes que qualificados, de dirigentes que a sociedade estabelecida cal-
retomaremos para submeter a um exame crítico mais à fren- cula como necessária ao seu funcionamento e reprodução.
te. O que fixamos como contribuição capital de Baudelot- Portanto, os conceitos de inadaptação, com o seu fundo mé-
Establet, é o tema da divisão, da segregação, dos antagonis- dico, patológico, essencialmente individualista, são absolu-
mos dentro da escola, pois consideramos por um lado os ci- tamente incapazes de descrever, de explicar os insucessos
clos longos dos CES, o segundo ciclo liceal, o ensino escolares — insucessos em massa, fracassos da dimensão da
superior; por outro os ciclos III (classes de transição, classes sociedade, fracassos pretendidos e fabricados por essa socie-
práticas) e os CET. dade por serem indispensáveis à sua conservação.
Esta oposição põe em jogo a origem social dos alunos e A escola permanecerá, pois, completamente incompre-
os resultados finais da escolaridade e as práticas ou conteú- ensível, ou antes, completamente mistificada, se não se rela-
dos escolares. O recrutamento diz respeito maciçamente a cionarem todas as modalidades da sua ação com a oposição
classes sociais antagonistas. A partir de estatísticas oficial- de classes na sociedade capitalista, com a divisão da socie-
mente organizadas, os autores estabelecem que os filhos da dade em classes em proveito da classe dominante; porque é a
burguesia têm, na sua totalidade, tantos ensejos de se instruí- partir deste antagonismo que os autores vão inteirar-se não
rem no ensino secundário prolongado e no superior como os só da existência de duas ramificações (não consegui evitar o
filhos da classe operária nas escolas de transição e nos CET. termo) mas também dos mecanismos do seu funcionamento.
O que significa, sobretudo, que os filhos da classe operária Agora nada mais diremos a propósito de Baudelot-
têm tão fracas oportunidades de ingresso no ensino secundá- Establet; basta-nos, de momento, ter levado ao seuativo O
rio longo e no ensino superior como os filhos da burguesia fato de ser impossível ignorar doravante, desconhecer que a
de se matricular em escolas de transição e nos CET. escola está dividida.
Paralelamente, o sistema vai conduzir as duas popula-
ções a duas vias fundamentalmente divergentes: trata-se de

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

UI — Wlich abre perspectivas mundiais ta cinco vezes o rendimento médio de toda uma existência no
seio da metade deserdada da humanidade.
Sente-se uma espécie de vertigem ao avaliar os pro- De fato, o sistema, o jogo escolar, funcionam em cir-
blemas da escola e das desigualdades escolares à escala cuito fechado: quanto mais horas se passa na escola, mais se
mundial. Illich força-nos a tomar consciência de que a escola é valorizado no mercado, nesse mercado de trabalho onde
é um local onde metade dos homens nunca entrou. Na Bolí- são oferecidos lugares vantajosos. O que vai ser engenheiro
via, por exemplo, 2% da população rural conseguem seguir tem o direito, atribui-se o direito, de receber uma parcela
cinco anos de escola primária. Metade do dinheiro consagrado enorme dos fundos públicos destinados à educação; não é,
à escola é gasto em proveito de um centésimo da população pois, legítimo, que vá em breve alinhar com os indivíduos
em idade escolar. Atualmente, os países da América Latina mais produtivos? Mas, na realidade, a produtividade de que
estão em condições de assegurar a cada cidadão oito a quaren- ele se orgulha não é mais do que o investimento educativo de
ta meses de escolaridade. Pode dizer-se o mesmo, invertendo que foi objeto. Os que se conservam no sistema escolar vão
o ponto de vista, que eles não podem assegurar cinco anos tirar vantagem do fato, mas para aí se manterem já foi neces-
completos de ensino a mais de um terço da população. sário pertencerem ao número dos beneficiados.
Há, portanto, uma desproporção simultaneamente dra- Nas sociedades industrializadas e ricas, os pobres dei-
mática e irrisória entre os fatos e a promessa de garantir a xam-se constantemente atrasar: os excluídos do ensino, os
todos iguais oportunidades de ensino, a todas as categorias que são recusados pela escola, pouca esperança têm de aces-
da população. E quando uma fração de tal forma ínfima da so a situações de interesse; em breve terão dificuldade em
população tem escolaridade, o esforço e o dinheiro despen- encontrar trabalho, a não ser que se alistem no exército da
didos só beneficiam, na verdade, um punhado dos já privile- reserva de mão-de-obra ocasional e precária.
giados. É exatamente com o dinheiro das massas populares, Foi, na verdade, a imensa máquina das hierarquias so-
com o dinheiro de todos aqueles que nunca entrarão numa ciais, dos privilégios sociais, que afastou do sistema escolar
universidade, que as universidades funcionam — que asse- e das vantagens que ele implica, aqui a fração desfavorecida
guram, confirmam, as prerrogativas dos diplomados. Illich e nos países desfavorecidos, a enorme maioria: as escolas
oferece dados assombrosos acerca dos desvios entre as cate- justificam cruelmente no plano racional a hierarquia social.
gorias extremas: a educação de um estudante latino- Mais um passo: Illich constrange-nos a admitir que a ins-
americano custa 350 vezes mais ao Estado do que a dos seus tituição escola, não apenas a escola de determinada sociedade,
patrícios de proventos médios. Os números tornam-se ainda de determinada época, mas verdadeiramente a escola, a escola
mais insuportáveis se se compararem nações ricas e nações em si, pode, e deve, ser questionada: não é assim tão evidente
pobres: o que custa anualmente um aluno da instrução pri- que ela constitui o melhor, o único meio de educação.
mária ou um estudante da América Latina entre os 12 e os 24 Tema que retomaremos detalhadamente mais tarde e
anos é igual ao rendimento de muitos latino-americanos em seremos levados, por nossa parte, a nos interrogar sobre se
dois outrês anos; ou ainda o diplomado de uma universidade há, e pode existir um tipo de escola que escape às reprova-
americana se beneficia de uma educação cujo custo represen- ções que Illich supõe estar no direito de dirigir a qualquer

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

escola. O que há de bom em Illich é que ele ecoa como um escolha do público, a seleção dos alunos; a escola só ministra-
aviso de que a escola seria forçada a desaparecer ou, se qui- va conhecimentos aos filhos da burguesia, e ainda os conteú-
ser, se pretender continuar escola, a renovar-se. dos inculcados: “Cada palavra estava adaptada aos interesses
da burguesia”. A burguesia esforça-se por educar a jovem
SEGUNDO TEMA: geração de operários e de camponeses na esperança de formar
Reclamamos para o marxismo um simultaneamente servidores úteis, suscetíveis de lhe propor-
direito de prioridade cionar benefícios e lacaios obedientes que não perturbem a
sua quietude e a sua ociosidade; pode conciliar realmente es-
Reclamamos um direito de prioridade para o marxismo tes dois intentos? Teremos de insistir demoradamente na força
que, sem naturalmente dispor de instrumentos, modelos, mé- revolucionária incluída nesta contradição.
todos contemporâneos, soube desde a sua criação proclamar No momento, basta-nos fixar que tal orientação é, pelo
que, numa sociedade dividida em classes, a escola era uma menos, a que a burguesia imprime à escola enquanto tiver
escola de classe, só podia ser uma escola de classe. poder sobre ela. A proclamação de uma escola apolítica,
Escola de classe pela quantidade de ensino que concede acima de classes, alheia à luta de classes, que estaria a servi-
aos proletários: a burguesia proporciona exatamente aos tra- ço da sociedade no seu conjunto e visaria em relação a qual-
balhadores tanta cultura quanto o seu próprio interesse exige. quer criança o desenvolvimento, o desabrochamento da sua
E não é muita. Escola de classe porque as lutas sociais não se personalidade, não passa de uma hipocrisia burguesa desti-
detêm respeitosamente no limiar do recinto escolar. Não é a nadaa iludir as massas. É precisamente por causa da extrema
educação também determinada pela sociedade? Escola que importância da instituição escolar nos Estados modernos que
não deixará de ser escola de classe senão pela revolução so- a ligação entre o aparelho político e o ensino é imensamente
cial, condição da revolução escolar: os comunistas não in- forte. Uma das contradições da burguesia é não poder con-
ventam a ação da sociedade sobre a escola; somente lhe cordar abertamente com isso.
mudam o caráter e arrancam a educação à influência da clas- Krupskaia, em 1926, analisa o caráter político da escola
se dominante. segundo uma dupla perspectiva: de um lado, a fim de refor-
Lenin definiu a escola como instrumento de predomí- çar os privilégios da sua classe, de eternizar o seu domínio
nio de classe nas mãos da burguesia e precisamente porisso de classe, a burguesia esforça-se por fazer da escola um local
se trata de a transformar em instrumento de destruição deste onde as crianças se habituem, aprendam a estar separadas de
predomínio. A burguesia esforça-se, na medida do possível, acordo com a sua origem social. As crianças do povo amol-
por submeter a escola aos seus próprios objetivos de classe, dam-se aí a um certo tipo de obediência, ao mesmo tempo
por impedir acima de tudo que ela possa contribuir para a em que se imbuem de preconceitos nacionalistas e religiosos.
emancipação do proletariado: “Reconduzir o ensino do povo Mas para os seus filhos, a burguesia tem outras escolas onde
ao nível de lacaios submissos e desinibidos... conseguir cria- os educar.
dos dóceis e operários hábeis”. Para atingir esta finalidade, Por outro lado, a escola, a pretexto de ser neutra, não
uma ação que se desenrola em dois planos: de um lado a aborda as questões que estão na base da existência das crian-

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GEORGES SNYDERS

ças, acima de tudo das crianças proletárias: os salários, as


greves, o desemprego, as guerras coloniais. Tal escola trans-
forma-se numa escola do silêncio para a criança, uma escola
de morte: a escola torna-se estranha e distante, e são os filhos
do proletariado que mais duramente o sentirão, isto é, os que
mais se expõem à reprovação e ao insucesso. Enquanto exis-
tir uma sociedade de classes, a escola será inevitavelmente CAPÍTULO II
escola de classes. A burguesia tenta transformar a escola de
massas em instrumento capaz de subjugar os trabalhadores. A LUTA CONTRA A DIFERENCIAÇÃO
DOS CICLOS ESCOLARES CONFUNDE-SE
As análises estatísticas, certas afirmações dos nossos COM A LUTA PELO SOCIALISMO
cinco autores, precisamente as mesmas que fixamos e apre-
sentamos até agora, embora isoladas, convergem, contudo,
para as teses marxistas anteriores. Na segiiência deste traba-
lho tentaremos, no entanto, explicar como são evidentes, em Ilich insiste em declarar que o projeto de uma escolari-
graus certamente muito diferentes, as divergências, as con- dade igual para todos representa um absurdo; a desigualdade
tradições, as oposições entre os nossos autores e o marxismo. seria inerente à escola, à qualquer escola, independentemente
Agora, visto estarmos ainda no momento feliz da con- do sistema escolar, do regime social. Entre cem argumentos
vergência, a questão que se põe — e que, sem dúvida, para recordemos este: “Os créditos escolares, as possibilidades de
muitos de nós, se impõe, preocupa, é a seguinte: como se escolaridade a um nível elevado serão sempre inferiores à
pode acreditar, como pudemosacreditar durante tanto tempo procura, porque o pedido de escolaridade aumenta precisa-
que, numa sociedade dividida em classes, a escola iria ofere- mente com a escolaridade já começada e por sua causa; ora,
cer a todos iguais oportunidades de promoção social e de se Os recursos são insuficientes para satisfazer a todos, serão
afirmação pessoal? A isto retorquiremos evocando por um fatalmente reservados aos poderosos”.
lado a resistência encarniçada, ora pelo silêncio, ora pelas A prova de que as desigualdades escolares não são se-
deformações, que a burguesia durante tanto tempo manteve gregadas pelo próprio funcionamento da escola, mas que estão
contra a difusão do marxismo; e, por outro, como ela soube ligadas às desigualdades sociais do sistema em que esta escola
espalhar profusamente um grande número de ideologias mis- se insere, são as realizações dos países socialistas. Quanto
tificadoras a propósito da escola. Não ignoraremos que os mais as estudarmos mais nos convenceremos de que a escola
trabalhos dos nossos cinco autores proporcionaram a estes não é uma estrutura eterna, funcionando da mesma forma sob
temas as provas, a precisão que até então eles nem sonha- qualquer regime: é moldada pelo todo de que participa.
vam. Deixamo-nos repetidamente enganar e a primeira van-
tagem dos nossos cinco autores consiste, sem sombra de Os números têm todavia a sua elogiiência. Percentagem
dúvida, na sua ajuda contra a mistificação. de estudantes do ensino superior provenientes de famílias

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

operárias (1965): França, 9,5%; Itália, 15,3%; Alemanha do loga que nos faz sentir como a escola, na construção do soci-
Oeste, 16,5%. Em comparação com 32% para a Romênia; alismo, assumiu um rosto novo. O que caracteriza aqui a
35% para a Polônia e 38% para a Checoslováquia. revolução socialista é a tônica que ela põe na promoção cole-
Encaremos o caso da Hungria e o estudo feito por Su- tiva das classes operárias e camponesas, da qual nos traz
zanne Farge. Por certo, ela acentua a persistência de deter- alguns exemplos:
minadas desigualdades culturais relacionada com a distância Em 1962, nas indústrias de Sverdlosk, 65 a 75% dos
entre os grupos sociais; e considera mesmo que a desigual- engenheiros ou são antigos camponeses, ou filhos de campo-
dade cultural é maior do que a verificada entre os rendimen- neses... calcula-se em cerca de 90% os jornalistas atualmente
tos. O problema das diferenciações escolares não se em exercício na URSS e que são de origem proletária. Em
dissipou; as situações estabelecidas ainda exercem a sua in- todas as democracias populares, este esforço de promoção
fluência sobre as possibilidades de acesso aos estudos pro- maciça também é espetacular. Assim, na RDA, 55% dos
longados. E, todavia, que progresso: por volta de 1930, entre trabalhadores não-manuais vieram da classe operária ou
os camponeses pobres, 1 criança em 478 entrava no liceu, e camponesa, 47% na Checoslováquia. Isto significa até que
em relação aos operários fabris, | em 76. Em 1963, as possi- ponto a promoção profissional das classes desfavorecidas
bilidades objetivas de frequentar uma escola secundária vão conquistou sob os regimes socialistas importantes resultados.
de la 5 ou 6 entre os grupos menos favorecidos e os grupos Portanto, a generalização rápida da educação primária
melhor instalados. Ou, empregando outra linguagem, na e mesmo secundária é em larga medida um dos triunfos
Hungria de antes da guerra, as crianças de origem operária e mais convincentes dos novos regimes. Este esforço espeta-
camponesa apenas representavam 5 a 6% do efetivo dos li- cular surge paralelamente como o símbolo e a vitória de
ceus, quando os pais constituíam 56% da população ativa; uma vontade de difusão universal da cultura, de harmonia
hoje, 60% e os pais formam 78% da população ativa. com a idéia democrática e igualitária que a si própria a so-
Lembraremos alguns aspectos do livro complexo de ciedade se impôs.
Mme. Markiewicz-Lagneau. Considera ela que em se tratan- A partir daí, as dificuldades incontestáveis que estão
do do ensino superior e, portanto, dos postos dirigentes a que em jogo no ensino superior, não podem ser consideradas
ele dá acesso, ainda se mantém uma garganta de estrangula- como um bloqueio, ainda menos como um insucesso: na
mento e uma seleção que atua diferentemente segundo os dinâmica geral do esforço educativo, era preciso primeiro
diversos grupos sociais concorrentes: os filhos de pais instru- assegurar ao conjunto da população o nível cultural simulta-
ídos têm maiores oportunidades objetivas de freqiientar os neamente indispensável a uma tomada de consciência demo-
bancosuniversitários do que os outros. crática e ao progresso das qualificações técnicas. O objetivo
Além disso, a Polônia, a Checoslováquia, estão atrasa- primordial do novo regime consistiu, tanto na URSS como
das em relação à URSS: a distinção entre primário e secun- nas democracias populares, em generalizar e elevar ao
dário continua vincada, os dois graus ainda não realizaram a máximo um ensino de base. Durante anos, foram-se concen-
sua fusão. De uma maneira geral, a clivagem cidades-aldeias trando as energias na construção dos meios que proporcio-
continua a levantar problemas. E, contudo, é a mesma sociéó- nassem ao maior número de cidadãos a possibilidade de

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

adquirir uma cultura correspondente a um contínuo primário- das desigualdades na Europa do Leste, por consegiiência da
secundário. Nesta perspectiva, os problemas específicos do mudança de regime que se seguiu à Segunda Guerra Mundi-
ensino superior foram relativamente negligenciados. Pelo al, foi alcançada, pelo menos em parte, por dispositivos de
que nos diz respeito, concluiremos que nem tudo está solu- regulação direta. Uma portaria ministerial polaca de 1959
cionado, mas que foi criada uma situação absolutamente no- impõe às universidades uma proporção mínima de 60% de
va: a extraordinária difusão da educação primária e estudantes provenientes de famílias operárias e camponesas.
secundária constitui a base a partir da qual os problemas do Medidas semelhantes foram tomadas na maioria das demo-
ensino superior podem ser solucionados — não automatica- cracias populares como na URSS”. E elas tiveram efeito po-
mente, mas porque o Estado Socialista não renuncia, nem sitivo: entre 1931 e 1963, na Hungria, a taxa de disparidade
pode renunciar, a uma ação vigorosa que tende a favorecer classe superior-operários baixou de 17 para 5.
sistemática e abertamente as crianças social e culturalmente E R. Boudon demonstra principalmente que se trata de
desprotegidas. Recorre-se a meios poderosos que contraba- um esforço ligado à própria natureza do socialismo: em re-
lancem o jogo dos critérios universitários de seleção da parte gime socialista, a oferta de educação é tratada como um meio
de privilegiados que vão desde a obrigatoriedade de cotas ao de regulamentar a procura e assim é mais fácil acelerar a
sistema de pontos suplementares; tanto se reserva uma per- atenuação da desigualdade de oportunidades perante o ensino
centagem de admissões à universidade para ao que não pro- ou aumentar a mobilidade. Pelos seus próprios alicerces, um
vêm da intelligentsia como se concedem vantagens, quando sistema social que autorize a intervenção do Estado em rela-
dos concursos de ingresso na universidade, âqueles que já ção à procura de educação pode provocar uma diminuição
participaram na produção. mais rápida da desigualdade de oportunidades perante o en-
Devemos admitir que este esforço não permitiu ainda sino do que um sistema em que esta procura obedece à lei do
ultrapassar disparidades ao mais alto nível do ensino. Mas mercado; e acrescentaremos que, num país capitalista, o
podemos ao mesmo tempo afirmar que tal política da educa- mercado do ensino sofre os mesmos imperativos que o mer-
ção não tem qualquer equivalente nos países capitalistas, que cado dos produtos, faz parte do mesmo conjunto do mercado
já obteve sucessos consideráveis, incluindo um planeamento de produtos — e a soberania do conjunto está nas mãos das
da universidade — e que ela não poderia apresentar resulta- classes privilegiadas.
dos definitivos sem antes as massas operárias e camponesas Illich repete que entre o grupo dos privilegiados instru-
se beneficiarem de uma promoção cultural generalizada e ídos e os outros, constituindo, aliás, esses outros a imensa
maciça; e não se trata de um resultado a ser atingido em al- maioria, a distância não cessa de se acentuar — e tanto mais
guns anos. quanto a escolaridade aumenta. Afirmaremos, o exemplo dos
R. Boudon confirma que, nos países socialistas, as ta- países socialistas a isso nos obriga, que não se trata de um
xas de disparidades (sociais, perante o ensino superior) são caráter fatal ligado ao ensino, a qualquersistema de ensino
evidentemente mais fracas do que na Europa Ocidental. Ele — € que existem regimes onde esse afastamento está em vias
destaca a ação sistemática do Estado Socialista e o caráter de reabsorção, precisamente na medida em que a expansão
considerável dos êxitos já obtidos: “A importante atenuação da cultura vai sendo uma realidade.

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Esta luta efetiva contra as desigualdades escolares está URSS como uma sociedade aonde, por via de regra, os diri-
indissoluvelmente ligada à luta pelo socialismo e é, sem dú- gentes vivem entre trabalhadores, alojados como eles, parti-
vida, a razão pela qual ela é inconcebível para Illich. Implica lhando o mesmotipo de vida que levam os mais qualificados
uma sociedade onde a disparidade dos rendimentos e das e mais ativos social e culturalmente. O salário médio dos
condições de vida só atinge fracas proporções, onde o afas- membros dos serviços é inferior ao dos operários industriais.
tamento entre os privilegiados e os outros se processa dentro Há cada vez menos oposição nos atos e, portanto, na consci-
de limites restritos. Sem dissimular que, também neste do- ência popular entre trabalhadores manuais e intelectuais.
mínio, subsistem muitos problemas e dificuldades reais, par-
ticularmente no que diz respeito a determinadas categorias, A luta contra as desigualdades escolares articula-se
como a dos reformados e por vezes a das mulheres, é essen- num outro painel, o da luta contra as desigualdades dentro
cial considerar não apenas o que já se conseguiu, mas sobre- das próprias estruturas escolares: trata-se antes de mais nada
tudo a dinâmica da evolução. do lugar ocupado pelo ensino técnico. O que pouco mais é
Por exemplo, a diferenciação dos proventos nos assala- do que um tema de elogiiência em país capitalista pode tor-
riados da Checoslováquia é um quarto da que existe na Ale- nar-se real em regime socialista e, pensamos mesmo que só
manha Federal, apesar de esta ser uma das menos elevadas se pode tornar real num país socialista: o ensino técnico con-
da Europa Ocidental. Na Checoslováquia, a relação entre os segue nivelar-se ao ensino geral numa sociedade onde o tra-
salários dos operários e os dos técnicos e engenheiros é de balho técnico, as profissões técnicas estão valorizados, isto é,
100 a 130 ao passo que na França, em 1964, ia de 10 a 337. onde a ação da classe operária for valorizada, o quesignifica
Na Polônia socialista, o leque salarial entre trabalhado- que deixa de ser uma classe explorada, vivendo na obscuri-
res manuais e não-manuais vai de 1 a 3,5 — enquanto na dade e na humilhação, e finalmente, que deixa de ser uma
Polônia de 1928, 18% da população monopolizava 50% do classe frente a outra classe.
rendimento nacional. Sem pretenderafirmarque todos os países socialistas já
O esforço da URSS nesta direção é incontestável: a tenham atingido este ponto, devemos assinalar como um
mobilidade social é superior e a distância social entre as estágio essencial da sua evolução a atração exercida pelo
classes e os grupos é menor. À mobilidade social exclui a técnico e pela técnica — e isto em todos os meios. Enquanto
cristalização de barreiras cavadas entre grupos. As interven- entre nós o ensino técnico se apresenta como um apêndice
ções estatais visam reduzir os riscos sociais e a desigualdade. desvalorizado do secundário nobre, na URSS ele goza de um
A partir de perspectivas marxistas explicitamente afirmadas, estatuto e de um prestígio sensivelmente equivalente aos do
Francis Cohen descreve como a política dos governos socia- ensino politécnico, ou seja, o ensino geral. Este prestígio
listas aspira simultaneamente criar uma ampla base nivelado- confunde-se, e aí reside todo o problema, com o do trabalho
ra pela gratuitidade de grande número de serviços sociais operário e o da classe que o executa.
(assistência médica, atividades desportivas e culturais), pelo Um inquérito efetuado na Polônia demonstrou que, na
baixíssimo preço de muitos outros (aluguel, casas de repou- escala da consideração social e na escolha de carreiras pelos
so), deixando ao salário um certo papel estimulante. Evoca a

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

jovens, as profissões manuais alternam com as não-manuais Ora, encontramo-nos hoje num momento apaixonante
sem discriminação significativa. da história em que se pode começar a distinguir uma mudan-
A dignidade conquistada pelo ensino técnico não é in- ça na divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual; o
dependente da redução do leque salarial e da elevação dos que significa que as tarefas das massas trabalhadoras podem
salários dos operários, do desaparecimento do desemprego deixar de constituir um obstáculo ao desenvolvimento das
que atingia em cheio a classe operária; e também de uma personalidades — e de um só lance se torna possível e ne-
industrialização criadora das fábricas modernas onde o ope- cessário desenvolver um ensino de massa a alto nível.
rário se aproxima do técnico; da importância assumida, entre Numa frase que ficou famosa, teria dito Aristóteles que
os próprios operários, pelos movimentos dos inventores e a escravatura permaneceria incombatível enquanto as lança-
pelas possibilidades de iniciativa, de criação assim abertas: deiras não andassem sozinhas. Tradução muito livre: numa
não se trata de uma atividade individual passageira, eles têm sociedade que comporta um número imenso de postos de tra-
à disposição verdadeiros laboratórios e conselhos científicos; balho embrutecedores, exatamente trabalho escravo, a escola é
resumindo, trata-se do papel político de vanguarda desempe- constrangida a preparar uma parte dos alunos para esta situa-
nhado pela classe operária. Numa sociedade em que desapa- ção humilhante — e cria vias de acesso para os humilhados.
rece a desigualdade inata que opunha exploradores e A nossa época deixa vislumbrar, e pela primeira vez,
explorados, desaparece a desigualdade entre as categorias uma possibilidade de sair do túnel: nas suas formas mais
escolares — o que não significa absolutamente que a escola modernas, em primeiro lugar aquilo que se designa pelo ter-
esteja em vias de desaparecer. mo genérico de automatização, o trabalho operário apela
cada vez menos para a força física ou para a precisão muscu-
A propósito deste inquérito polaco, J. Markiewicz- lar; e o mesmo no que diz respeito à famosa destreza ou gol-
Lagneau nota: “As conclusões devem ser acolhidas com cer- pe de vista pouco a pouco saídos da experiência — de uma
ta prudência: a escolha de profissões manuais visa de prefe- experiência não teorizada, nem teorizável, e que, por conse-
rência fábricas muito modernas e muito automatizadas, onde guência, se adquiria fora do ensino propriamente dito; ficari-
a noção tradicional de operários se apaga perante uma articu- am de uma vez excluídos e não atingidos pelo progresso,
lação de elevadas qualificações”. Queremos sustentar que pela penetração teórica.
não se trata aqui de prudência mas de uma afirmação essen- Agora, trata-se de funções de vigilância e de controle:
cial: a luta entre as desigualdades escolares só é possível, só ler e interpretar os mostradores, permanecer vigilante, ser
pode ser levada a cabo na medida em que os trabalhadores capaz de decifrar rapidamente e sem erro um elevado núme-
sintam globalmente necessidade de uma elevada qualifica- ro de sinais; reagir eficazmente em caso de incidente, execu-
ção; é então que o ensino técnico se torna ao mesmo tempo tar sem demora, em função das informações assim
indispensável e adquire a mesma nobreza do ensino geral: recolhidas, as ações necessárias. Deste modo o operário pas-
ele é, aliás, forçado a abordar matérias cada vez mais seme- sa a ser essencialmente alguém com quem se pode contar; a
lhantes, e a questão da sua unificação pode vir a ser um obje- sua tarefa exige que tenha desenvolvido qualidades de racio-
tivo real. cínio e de sistematização. É uma nova noção de qualificação,

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a nível profissional: codificação e descodificação da mensa- Na realidade, o capitalismo não pode ter por objetivo
gem recebida pelo operário, emitida depois sob a forma de forçar ao máximo os recursos proporcionados pela técnica,
ações atuando na máquina ou de comunicações. Certamente constantemente refreado pelo triplo receio das crises periódi-
que as instruções só exigem reações elementares. Mas na cas, ditas de superprodução, pelo medo de que as inovações
maior parte das circunstâncias será necessário saber reagir a diminuam o lucro, não sejam o melhor meio de o aumentar,
estímulos numerosos, complexos, que comportam algo de enfim, pelo temor de que os operários melhor inteirados de
imprevisto. como e do porquê da produção, alcancem também o como e
Sob outro ângulo, quanto mais a produção se moderni- o porquê de todo o sistema da produção — e se revelem ca-
za mais a complexidade das máquinas multiplica funções pazes de se lhe opor de forma ainda mais enérgica.
muito qualificadas de regulação, de manutenção e de repara- Unicamente uma sociedade que engrene harmonica-
ção. Ainda aqui os operários encarregados são obrigados a mente as suas forças produtivas segundo as linhas grandiosas
preocupar-se com conhecimentos e aptidões técnicas genéri- de um plano único, uma sociedade socialista em que os
cas no que diz respeito à mecânica e à eletricidade. Enfim, grandes meios de produção cessem de ser propriedade priva-
cresce o número daqueles que terão a seu cargo preparar o da, pode ter como objetivo a utilização de todas as possibili-
trabalho, elaborar o programa, prever o desenvolvimento dades da técnica e utilizá-las para o progresso dos homens,
harmônico das operações. Pode-se antever o momento em para o bem estar dos produtores; e não apenas empenhada na
que o operário seja menos o que chama a si a responsabili- produção em si, ou antes, na produção relacionada com o
dade do processo de produção, a cargo da máquina automáti- lucro. E é a este preço que o ensino pode conquistar a sua
ca, do que o homem que, em formas diversificadas de unificação real.
intervenção aplica, propõe até, soluções técnicas elaboradas.

Assim, existe hoje a possibilidade de enriquecer consi-


deravelmente as tarefas operárias — talvez fosse mesmo
preciso falar de necessidade: e isso teria sobre o ensino, sobre
a diferenciação do ensino em ciclos separados, consegiiências
que pressentimos como capitais. Falta compreender porque
são estas possibilidades tão pouco, tão lentamente aplicadas
nos nossos países, a tal ponto que é por vezes a evolução in-
versa que se produz: entre 1954 e 1968, o número de operá-
rios especializados foi acrescido de 850.000. Representam
atualmente cerca de um terço da classe operária. Os profissio-
nais especializados, que reúnem aotrabalho manual uma parte
de trabalho intelectual, não ultrapassam o quarto.

42 43
CAPÍTULO HI

COMO CONDUZIR A LUTA


CONTRA OS CICLOS DIFERENCIADOS

Voltemos agora à nossa sociedade — e igualmente aos


nossos cinco autores. A impressão dominante que ressalta,
mal eles abordam as estruturas diferenciadas, queremos refe-
rir-nos a todas as estruturas diferenciadas do ciclo nobre dos
liceus, é que elas se equivalem, representam um só e mesmo
fracasso.

PRIMEIRO TEMA:
A escola divisionista

1 — As duas redes de Baudelot-Establet

Lembremos que Baudelot-Establet insistem em de-


monstrar que existem duas redes de escolaridade: uma rede
secundária-superior a que chamam SS e que vai do 6º clássi-
co e moderno, ciclo I, ao segundo ciclo secundário, depois
ao ensino superior; e uma rede primária profissional, dita PP,
comportando classes de termo dos estudos, de transição e
classes práticas (ciclo ID, os CET, aprendizagem in loco, o
contato com o trabalho fora do circuito escolar.

45
GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Estas duas redes são descritas não somente em separa- existência material de duas ramificações. Fazem remontar a
do, mas como heterogêneas... opostas... antagonistas; entre 1880 os primeiros esforços para criar um tronco comum;
ambas, há impermeabilidade... divisão intransponível. Se há mas a partir de então o seu único efeito foi camuflar, salvo
entre elas alguns acessos, não passam de passadiços, de aca- precisamente aos olhos de sociólogos experimentados, a
nhados e frágeis passadiços; isto só interessa a um reduzidís- existência e a oposição das redes.
simo número de indivíduos: à escala sociológica, estas Deste modo, é o conjunto das reformas escolares de há
transferências não têm significado — não passam da espe- um século para cá que se apresenta como um puro e total
rança das classes dirigentes em dar crédito à idéia de que a fracasso, em relação aos objetivos sempre proclamados pela
fina-flor do PP chega ao SS, dissimulando deste modo a rea- democracia, nada mais nada menos do que uma gigantesca
lidade do conflito. Estas duas redes correspondem estrita- mistificação.
mente às origens sociais; a rede PP escolariza em massa as Muito mais graves ainda são as negações implícitas ve-
crianças vindas das classes operárias e camponesas, a rede iculadas pela própria noção de rede: as redes (teremos ocasi-
SS reúne as crianças da burguesia. A massa de crianças ori- ão de insistir no assunto a propósito do M2) só merecem tal
ginárias das classes sociais antagonistas é, e continua, esco- nome se forem homogêneas nas carreiras possibilitadas; a
larizada em redes opostas e é assim conduzida, ou antes, rede PP só existe se forinterdito estabelecer qualquer diferen-
reconduzida, a situações sociais opostas. ça entre os CET e a eliminação escolar, entre os CET e as
classes práticas, entre o aluno que obteve um diploma de ele-
A partir disso, Baudelot-Establet chegam aquilo a que tricista e aquele a quem a Lei Royer permite ser arrancado da
nós chamaremos uma série de negações explícitas: nenhuma escola aos 14 anos e que ficará integrado, portanto, na mão-
espécie de valor, nenhum esboço de valor é concedido à lai- de-obra desprovida de qualquer qualificação profissional. A
cidade, logo remetida à ilusão laica, à ilusão de que pode ramificação PP só existe desde que se considere como eviden-
existir um ensino neutro acima das classes. A luta para fazer te a possibilidade de reunir os alunos do 4º ano prático, os do
viver uma escola pública independente do dogma e do cate- primeiro ano do CET e os que já participam da vida ativa.
cismo não passaria de um logro puro e simples. Por outras palavras, a própria noção de rede PP implica
O prolongamento da escolaridade, tanto a voluntária em certeza, uma certeza que nem necessitará de análise, de
como a obrigatória, não é de forma alguma creditado por que os CET nada oferecem de válido às crianças da classe
qualquersignificação positiva: não só subsiste a divisão das operária, nem quanto à preparação técnica, nem quanto à
massas escolares, como também o prolongamento da esco- formação pessoal, à capacidade de resistência à exploração
laridade mínima não a transforma em escolaridade longa, — visto que se colocam exatamente no mesmo plano os alu-
mas afirmam-nos que o aumento do tempo de escola agra- nos do CET e os jovens que já trabalham. E isto não apenas
varia mais a divisão levando ao reforço da oposição entre as hoje, mas igualmente em relação a qualquer esforço de pro-
ramificações. gresso que se vier a empreender. Lutarmos contra a Lei Ro-
O tronco comum é qualificado de absolutamente irrisó- yer, pela extensão dos CET, sermos contra a que a formação
rio pelos autores: não passa de umatentativa para camuflara

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

dos aprendizes caia nas garras do patronato não conduziria, que comanda sozinha o número e a qualidade dos docentes
portanto, a nada. — e que estes correspondem sempre docilmente àquilo que
Por seu turno, a rede SS só surge como tal se a enca- deles se espera.
rarmos na sua especificidade, na semelhança dos seus resul-
tados; isto é, deve-se admitir que todos os que terminaram o Dizem-nos que o ensino técnico não constitui uma re-
liceu, por exemplo os futuros empregados qualificados ou de, em primeiro lugar porque não possui recrutamento pró-
colaboradores secundários de um banco, permaneçam do prio: por exemplo, chega-se ao liceu técnico não a partir
mesmo lado dos poderosos PDG! de monopólios. Todos os desse primeiro grau de tecnicidade que são os CET, mas es-
habilitados com o curso do liceu ascenderiam ao mesmo fu- sencialmente a partir dos terceiros anos de ensino geral. As
turo, o mais brilhante e também o mais ávido. Eles estão formas de ingresso no ensino superior técnico são, também
todos amalgamados, são considerados praticamente explora- elas, muitíssimo heterogêneas: para ele vão inúmeros estudan-
dores ou seus cúmplices diretos; alinham-se todos no mesmo tes que não provêm de terminais técnicos e, inversamente,
setor, que é simultaneamente o abençoado e favorecido pelo muitos estudantes de terminais técnicos se matriculam em
ensino e o amaldiçoado pelos coletores de mais-valia: é que estabelecimentos alheios ao superior técnico. Além disso, é
não se pode estar, no sistema das redes, do lado bom do en- sabido que, em muitos casos, a orientação de um aluno para o
sino sem se cair no lado mau da sociedade. A rede SS forma ensino secundário técnico não resulta de uma escolha apeteci-
um bloco tão monolítico como o outro — e isto surge como da, mas apenas de um meio de segunda ordem de continuarna
o destino definitivo, irrevogável dos que vêm do liceu, de rede SS quando já não precisam dele nas outras seções. Daí
todos eles, pois afiançam-nos que constituem um só setor. quererem os nossos autores concluir que os CET estão ligados
Na realidade, na prática política, não significa isto que ao PP, que os estabelecimentos técnicos de ensino dependem
se considera impossível e, portanto, votado ao abandono, realmente do SS. Assim, nunca o técnico possui unidade e
qualquer esforço de ação progressista sobre a população li- especificidade; não forma, portanto, uma rede.
ceal? O liceu vai ser abandonado aos futuros PDG, é a sua Além disso, lembram-nos que os alunos do primeiro
reserva de caça. ciclo secundário se repartem por três vias, reunindo cada
Enfim, não oferece qualquer dúvida que os docentes uma mais ou menos o terço dos efetivos: clássico e moderno,
são, todos eles, servidores da classe dominante. É bem claro longos ou ciclo I dito MI; transição, CET e outros, ou seja, o
que se a burguesia, a partir de J. Ferry”, se deu ao incômodo PP ou o ciclo HI, e entre ambos, o moderno curto, esse fa-
de recrutar tantos professores e de lhes confiar todas as cri- moso M2, o ciclo II, que equivale mais ou menos aos antigos
anças, incluindo as suas, não foi para os levar a exercer um CEG. Daqui a impressão de existirem três redes e do M2
sacerdócio superior às classes. Assim se sugere, na sutileza também constituir uma, que corresponderia à escolaridade
de uma frase, que a burguesia é a única soberana na escola, das classes médias: empregados, artífices, pequenos comer-
ciantes etc.
Baudelot-Establet quiseram demonstrar que não é nada
1 40 , 20.4
Président Directeur Général.
a
“ Jules Ferry: estadista francês que contribuiu para a organização do ensino pri-
. n A . 1 . ma . .

disso. Se se começar por considerar a média da idade de en-


mário, bem como para a expansão colonial da França.

48 49
-GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

trada na 6º classe, as crianças encaminhadas para o MI têm segiiência, que a sua composição social seja homogênea, que
entre 11 anos e 11 anos e meio; as que são orientadas para o uma percentagem elevada dos que pertencem a certa classe
PP 12 anos e dois ou três meses. Ora, as que encontramos no social permaneça inteiramente em determinado ciclo. E pre-
M2 não estão longe dos 12 anos. Estão praticamente no ciso ainda que as carreiras possibilitadas pelo ciclo sejam
mesmo caso dos alunos do PP, devem contá-los juntamente nitidamente diferenciadas e heterogêneas em relação às car-
com os estudantes do PP, não formam uma categoria à parte. reiras a que dão acesso os outros ciclos.
E, sobretudo, se for considerado o que é o destino escolar, as Adiantando-se na resposta às objeções que lhes irão le-
probabilidades de escolaridade das crianças das classes ditas vantar, Baudelot-Establet declaram: “Acentuando com tanto
médias no SS e no PP aproximam-se muito. Parece, pois, vigor a divisão em duas redes, seremos censurados de todos
que as classes médias não têm escolaridade específica, não os lados por não termos dado importância às tonalidades”.
corresponde às classes médias uma escolaridade que lhe seja Na realidade, não se trata de tonalidades, mas sim de uma
própria — e, portanto, o M2 não pode ser considerado como concepção muito nítida, muito coerente, e igualmente muito
a ramificação das classes médias. parcial do que vem a ser uma rede, isto é, finalmente, daqui-
Pode afirmar-se outro tanto a partir da perspectiva inver- lo que é o ensino.
sa, examinando o recrutamento do M2: constata-se então que A definição da rede PP ia negar o CET assimilando-o à
não existe qualquer classe social que se sinta nitidamente atra- passagem imediata ao trabalho; a definição da rede SS ia
ída poreste ciclo e para a qual a probabilidade de escolaridade excluir qualquer possibilidade de desviar os alunos liceais do
no M2 esteja absolutamente garantida; nomeadamente para os fascínio exercido pelos monopólios; a recusa em considerar
empregados, a possibilidade da rede SS é intermediária entre a como redes o ensino técnico e o M2 traduz-se, de fato, pela
das profissões liberais, quadros formados por funcionários recusa em atribuir um lugar real à escolaridade das classes
administrativos e operários. O que Baudelot-Establet nada médias e, por fim, em não atribuir qualquer papel positivo às
confirmam com a sua convicção é de que o M2 não constitui classes médias.
um ciclo original em relação às duas redes, e ainda menos
uma terceira rede. A conclusão a que pretendem levar-nos é a A rede PP surge como um terreno maldito, deserto, de-
de que existem duas e apenas duas redes antagônicas. solado; a definição de rede significa um remeter do indiví-
duo não apenas à sua classe social, mas propriamente à sua
O leitor pode recear perder-se em discussões supérfluas casta.
e em querelas de palavras: trata-se de rede ou não? São, na Às consegiiências disto são de extrema gravidade, pois
verdade, questões fundamentais postas a partir quer da des- o prolongamento da escolaridade não é para muitos senão o
crição das suas redes, quer da rejeição do M2 e do técnico prolongamento da escolaridade curta. Baudelot-Establet pre-
como redes. Para merecer a designação de rede, é indispen- tendem persuadir-nos de que esse não é um objetivo pelo
sável que um curso atraia com uma probabilidade caracterís- qual valha a pena lutar. Portanto, quando o leitor percebe que
tica tal classe social, que constitua o modo de escolaridade dentro desta escolaridade curta, os CET estão em estagnação
nitidamente preferencial dessatal classe; é preciso, por con- relativa, o que é verdade, o que é escandaloso, tratam de o

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

pôr em condições de não conseguir pensar que a proibição não têm estabilidade e arriscam-se sempre a ser encaminha-
dos CET representa uma cartada efetiva, importante. Lutar dos para o PP. Cada classe de M2 é uma plataforma de sele-
contra a Lei Royer com a qual o poderviola a própria legali- ção entre as duas redes; é verdade que são, em geral, mais
dade (permite-se que trabalhem, pelo menos em alternância, velhos do que seus camaradas do MI, estão atrasados e mui-
Jovens de 15, até mesmo de 14 anos, quando a escolaridade tas vezes os consideram menos dotados; é também verdade
obrigatória está fixada até os 16 anos) não passa, na perspec- que um dos escândalos do nosso sistema é destinar-lhes, co-
tiva de Baudelot-Establet, de irrisória. mo sempre que se trata de alunos em dificuldades, professo-
Na realidade, existe mesmo um combate a ser travado, res possivelmente menos qualificados, certamente formados
não para que toda a escolaridade curta seja de imediato trans- às pressas e pior remunerados. Não é de espantar que no M2
formada em escolaridade longa, o que é puramente utópico as reprovações e Os insucessos sejam mais numerosos; fi-
dentro da nossa sociedade dividida em classes, mas para reti- nalmente, uma escassa metade de alunos do M2 chega ao
rar da escolaridade curta tudo quanto ela for capaz de dar. O segundo ano do liceu — e esses pertencem muito mais às
meio mais seguro de não o conseguiré lançar indistintamen- camadas médias do que à classe operária. É o setor mais frá-
te no bloco indiferenciado do PP aqueles que o Cet prepara gil, o que funciona em condições mais difíceis. Apenasreali-
para a eletrônica e os que, aos 14 anos, varrem as oficinas. zou um progresso muito parcial, absolutamente insuficiente,
e que não jogou a favor de uma promoção coletiva da classe
Baudelot-Establet descrevem muito claramente as fun- operária.
ções do M2: ao mesmo tempo que pesca os alunos mais fra- Progresso, todavia, em que nos devemos apoiara fim de
cos do SS, praticamente alunos frustrados da burguesia, o promover de modo revolucionário. Não é de forma alguma
escolariza os alunos médios da pequena burguesia e até os o que é proposto aqui. Baudelot-Establet não desejam tão ce-
melhores elementos do proletariado. Deste modo, procura do reconhecer no M2 “classes da rede SS desvalorizadas...
ser um meio de compensar um pouco as desigualdades de- uma escolaridade de má qualidade... um estatuto equívoco...
masiado gritantes que resultariam da existência única de se- uma seção bizarra”, e o secundário técnico vê-se reduzido a
ções clássicas e MI; constitui a forma de realização da “uma fração inferior... a ser parente pobre da rede SS”. Eles só
promoção social no SS. levam em conta os fracassos e os aspectos negativos.
Para nós, o M2 representa o setor em que atuou um É demasiado fácil, mas pouco concludente, resumirto-
certo progresso, um esboço de progresso na democratização da a escola ao choque de duas classes antagonistas depois de
do ensino, uma certa possibilidade arrancada das entranhas ter recusado tomar em consideração o que se passa no meio-
da nossa sociedade, conquistada simultaneamente pela ação termo, considerando o M2 e o técnico indignos de se verem
das forças progressistas e pelas exigências do desenvolvi- elevados à categoria de redes. Não mereceria o ensino técni-.
mento científico e técnico. De qualquer forma começaa des- co ser tomado mais seriamente em consideração, se consta-
pontar uma certa abertura. tarmos que 30% dos quadros médios, 15% dos engenheiros,
Sem dúvida, isto é na nossa sociedade, um empreendi- 11% dos funcionários administrativos têm diplomas do ensi-
mento extremamente difícil: é verdade que os alunos de M2 no técnico?

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Vitalizar o M2 e o técnico, é um dos modos de partici- definidos, mais ou menos disfarçados, da classe dominante.
pação da escola na luta de classes. Pois é também aí que se Quando os seus filhos se introduzem no SS, até na Faculda-
Joga a luta de classes no plano escolar, luta constante, cotidi- de, isso não implica qualquer relação com a democratização;
ana, por vezes surda, por vezes ruidosa, onde um importante são os cúmplices dos exploradores que se insinuam.
contingente de estudantes vindos das classes não-dominantes Esta recusa em conceder qualquer validade às classes
reclama o direito à educação. A tarefa dos professores pro- médias é particularmente grave na nossa época em que gran-
gressistas consiste em apoiar com toda a sua força combativa de número de professores, muitas vezes vindos da classe
a luta aqui traçada: preservar, desenvolvereste setor — e há média, ou mesmo tipicamente ligados à classe média pelos
também espaço para uma investigação propriamente peda- seus hábitos e gostos, vêem degradar-se o seuestatuto social,
gógica de originalidade nos métodos e nos conteúdos. É por as suas condições de vida bem como as perspectivas, o sen-
estas vias de promoção serem já reais e ao mesmo tempo tido do seutrabalho; e é à altura em que as idéias progressis-
tragicamente insuficientes, e até desfiguradas, que se pode e tas os atingem a partir de uma tomada de consciência da sua
deve lutar para lhes dar amplidão, força nova, forma nova; verdadeira situação: organizam-se, sindicalizam-se, condu-
sabendo perfeitamente que só numa sociedade renovada o zem lutas maciças e fornecem elevado número de militantes
proletariado poderá lançar-se através da brecha assim aberta. aos partidos da esquerda.
É igualmente a época em que a penetração e o papel
A análise sociológica e a análise escolar efetuadas por das classes médias na universidade passam a serfatores es-
Baudelot-Establet estão evidentemente em íntima dependên- senciais. Boudon calcula que, entre 1950 e 1965, a relação
cia. De fato, as duas redes são esquematicamente decalcadas do número de estudantes saídos das camadas médias (arte-
de uma definição muito esquemática das classes sociais: de sãos, pequenos comerciantes, empregados) e do número de
um lado o proletariado, e do outro, o que não constitua o estudantes saídos das camadas elevadas (chefes de empresas,
proletariado. A verdadeira razão pela qual não existe uma profissionais liberais) quadruplicou. Na realidade, no século
terceira rede, é o fato de o mundo de Baudelot-Establet não XIX e até cerca de 1920, as classes médias não sentiam uma
destinar nenhum local apropriado, nenhumavia autônoma às necessidade absoluta de educação superior; o patrimônio
classes médias; nada do que se passa parece merecer-lhes o transmitia-se sob a forma de terra, de armazém, de pequena
mínimo interesse: “A ditadura da burguesia supõe alianças empresa — o que bastava para assegurar a situação profis-
com a pequena burguesia”. Mas será da aliança sempre mais sional. Mas de um modo cada vez mais violento, o monopó-
importante, mais real da pequena burguesia com a classe lio conseguiu a expropriação ou a avassalação dos pequenos
operária? A rede SS é um dos pontos mais segurosdaaliança produtores. Desde então é com a universidade e com a for-
entre a burguesia e a pequena burguesia é o sentido daquilo a mação aí recebida que as classes médias passam a contar
que chamam democratização do ensino. A pequena burgue- para adquirir, para conquistar um estatuto profissional.
sia, nunca mantendo relações com a classe operária, nunca Perante este duplo ponto de vista, assumindo as classes
Juntando os seusinteresses e as suas lutas aos da classe ope- médias tal lugar no sistema de ensino, torna-se essencial fa-
rária, só aparece como um bando de sequazes mais ou menos vorecer todos os elementos objetivos e subjetivos suscetíveis

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

de promovera sua aliança com o proletariado e afastá-las das a rever, aprofundar, consolidar, repetir, repisar os conheci-
classes dominantes. O menos que se poderá afirmar é que o mentos adquiridos na escola primária — e graças a isso os
livro de Baudelot-Establet não contribui para isso. alunos conservam-se submetidos à disciplina, às práticas
Será preciso, mais uma vez, recordar a frase de Marx escolares características da primária. É assim que em mate-
convidando o proletariado a formar um “coro, sem o qual... o mática se contentam com uma perícia condicionada a limites
seu solo se transformará num canto fúnebre”? As classes restritos e que o ensino do francês nos CET continua a cen-
médias vivem, evidentemente, na confusão das situações trar-se na ortografia e no ditado. O PP não passa de uma
contraditórias: ora se ligarn à grande burguesia, ora lhe resis- primária alongada.
tem, mas por vezes sob um aspecto reacionário, esforçando- Mas, sobretudo, o universo que se manifesta em volta
se desesperadamente portravar as inevitáveis evoluções eco- das crianças é um pseudoconcreto, representado por temas
nômicas. Imaginam frequentemente escapar à luta de classes, do artesanato, do campo, da avó tradicional ou do pormenor
e até constituir o local onde a luta de classes possa ser ultra- ocioso. Um discurso edificante que tem por tema a gentileza
passada — ou diluir-se numa generalização da mediocridade e a honestidade dos pobres, sempre recompensados da sua
mais ou menos dourada. miséria acidental pela generosidade dos ricos — um discurso
Mas Marx demonstra que se “o proletariado sozinho que não corresponde nada às condições de vida da classe
forma uma classe revolucionária”, as classes médias podem operária; é a ela completamente estranho e não pode, portan-
pelo menos aderir às posições da classe operária, na medida to, relacionar-se com os seus interesses: não se refere aos
em que (e é ainda hoje mais verdadeiro do que no tempo do alojamentos superlotados, à vida familiar deslocada pelos
Manifesto) elas se sintam “expostas a cair na condição de horários de trabalho, às crianças privadas das possibilidades
proletários. Defendem então não os seus interesses presentes, afetivas de partir para férias. Passam-se em silêncio a reali-
mas os futuros”. Daí a extrema importância de as ajudar a dade do trabalho penoso, a realidade dos conflitos sociais. É
aperceber-se da realidade desses interesses futuros através da uma imagem trangiilizante e idílica da família pequeno-
aparência dos seus problemas presentes. Retomando expres- burguesa; a solidariedade simplista de todos e de todas as
samente esta passagem do Manifesto, Marx insiste: “É ab- profissões brilha como valor primordial, em perfeita harmo-
surdo fazer das classes médias, conjuntamente com a nia com as ambições de engrandecimento, de promoção in-
burguesia, uma mesma massa reacionária face à classe ope- dividual, mas precisamente sob a condição de que tal
rária”, Deve-se atribuir a Marx o pressentimento e a denún- promoção continue individual.
cia antecipada do que viria a ser para Baudelot-Establet a Mas, na realidade, nada prova que o jardim ou o rouxi-
rejeição do M2? nol representem temas mais concretos, mais facilmente aces-
síveis a estes jovens do que a exploração ou o capitalismo; o
II — Os conteúdos do PP como Subprodutos certo é que constituem assuntos menos perigosos para propor
aos alunos do CET e que estas descrições equivalem a outros
Já se não trata agora de estruturas, mas de conteúdos tantos meios de pôr de lado os temas em -ismo, -dade, -ição,
inculcados e de formas de ensinamento. No PP se limitariam numa palavra, os conceitos que permitiram aos filhos de pro-

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

letários ultrapassar as aparências mistificadoras. Apresentar testáveis; nenhum instrumento é dado ao aluno para saber
deste modo um universo que valoriza as condições de exis- como (sublinhado pelos autores) o texto foi elaborado... nada
tência da família burguesa, é ao- mesmo tempo considerar convida nem autoriza o aluno a discutir o texto. No meio de
como anormal a vida da família operária — e isto pelos pró- uma multidão de anedotas, só se apresenta um corpo com-
prios filhos da classe operária; é fazer com que se envergo- pacto de idéias burguesas simples”.
nhem de si e dos seus pais.
Os autores estudados são do tipo Daudet, Bazin, Fom- Defato, as duas redes não transmitem duas culturas di-
beure, Thiriet. Se se evocam os autenticamente grandes, é só ferentes: é, em um e no outro lado, a mesma ideologia que é
depois de os haverem reduzido a simples matéria de ditados inculcada, a ideologia burguesa, embora não seja propagada
— fragmentando-os, portanto, de maneira a torná-los inofen- da mesma maneira aos futuros exploradores e aos futuros
sivos. Na idade em que os alunos do SS fazem dissertações e explorados. É preciso que ela seja ensinada sob duas formas
enfrentam as obras fundamentais, as crianças do CET estão opostas, características de cada rede de escolaridade. A rede
reduzidas aos temas mais convencionais; devem utilizar um SS visa formar um intérprete ativo da ideologia burguesa,
vocabulário que nem é o falar cotidiano, nem a língua dos preparado para manobrar todos os instrumentos de domínio
autores, mas vocabulário irreal, discurso monótono e pobre, da ideologia burguesa. Da rede PP sairão proletários passi-
sem ressonância nem de personalidade nem deliberdade. vamente submissos à ideologia dominante, estritamente pre-
Em história, a classe operária, a ação específica, autô- parados para suportar a ideologia burguesa dominante.
noma da classe operária são sempre recalcadas, negadas. A Daí chegarem os nossos autores à conclusão de que a
história é constituída por um punhado de grandes homens, cultura dos CET e em geral da rede PP é fabricada a partir de
evocados como unificadores da Pátria, e o seu papel consis- subprodutos empobrecidos, monótonos, vulgarizados, da
tiu em apaziguar todos os conflitos. Mais do que em qual- cultura inculcada no SS. São formas degradadas, que só po-
quer outro lugar, o operário é convidado a assumir a sua dem constituir uma subcultura.
condição dentro das categorias da ideologia burguesa. Bau- E é precisamente esta subcultura que representa a fina-
delot-Establet vão comparar, a propósito de Luís XIV, um lidade e a significação de toda a rede PP: “não se trata de
manual de fim de curso redigido por Lavisse e um volume da educar e de instruir crianças, mas sim de infantilizar os
História da França, também de Lavisse, para uso dos liceus! proletários”; e por essa razão se esforçam por manter, tanto
— e concluem: aos alunos do SS “submetem-se diretamente quanto possível, os alunos do PP dentro dos moldes de disci-
os testemunhos da época, os testemunhos autênticos, discu- plina, das práticas escolares características da juventude e
tem-se esses testemunhos; são reveladas, quando vierem a igualmente das matérias destinadas a prolongar-lhes a igno-
propósito, as lacunas da informação”. Ao contrário, o manu- rância infantil.
al do curso superior “agita dogmaticamente verdades incon-
De nossa parte, manteremos que o CET, por exemplo,
é o que está em jogo numa luta infinitamente mais complexa:
1 M. Testaniêre
a faz notar os .
que se trata da História da França em mais de 30 vo- a cada instante o espreita o risco de vir a confundir-se com
lumes, portanto, muito além dos estudos do segundo grau.

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

essa subcultura. As análises de Baudelot-Establet acabadas procura impor formações limitadas e imediatamente utilizá-
de resumir, talvez um pouco demoradamente, parecem-nos veis, à custa de uma abertura ao mundo; e como presente-
irrefutáveis como evocação de um risco. Porém, o CET não mente isso já não é uma proteção suficiente, ela buscará uma
se reduz a esse risco nem se identifica com ele porque, tam- multiplicidade de refúgios, aliás inconsistentes, tanto do lado
bém a todo instante, entram em jogo forças antagônicas. São de um irracionalismo que declara inútil qualquer noção da
elas a resistência dos docentes, a dos pais operários através verdade, como do lado da não-escolaridade, e aqui voltare-
das associações de pais, enfim, as reações dos alunos. mos à Lei Royer.
São todas uma realidade, pois têm por suporte a resis- Mas o que dá vida ao CET é uma luta constante: o que
tência dos fatos: a escola capitalista, e muito especialmente é inculcado constitui um amálgama que engloba quer o mais
do lado do CET, está marcada por uma contradição funda- reacionário quer o meio de o ultrapassar. Não iremos além
mental, isto é, a de que as classes dominantes se procuram do que Baudelot-Establet nos ensinaram: o CET é por certo,
servir dele para formar uma mão-de-obra dócil e submissa, no plano escolar, a expressão do domínio de classes. Mas ao
sem grande preparação e, portanto, pouco exigente; esfor- mesmo tempo surge-nos, contrariamente ao que eles dão a
çam-se ainda por selecionar um escalão médio, dotado de entender, como a expressão da luta das classes.
uma pequena qualificação — e todas as precauções serão Sob certos aspectos, o CET é pior do que eles dizem, e
tomadas a fim de que não alimentem ambições exageradas € quanto a este ponto nos referiremos a determinadas análises
não se sintam tentados a entrar em concorrência com os des- de Grignon. Mas é também infinitamente mais rico, já na
cendentes do patronato; mas ao mesmo tempo os progressos situação atual, e sobretudo pelas promessas que contém, pe-
técnicos, tanto nos meios de produção como na sua organi- las possibilidades de que é portador; e da nossa luta depende
zação, exigem homens capazes de iniciativa e de decisão, que seja esmagado o que assim é anunciado ou que consiga
capazes de assumir responsabilidades. impor-se. Não é exato que o CET se limite a repisar os ele-
É por isso que a subcultura do CET, se representa um mentos da escola primária. Estuda-se aí álgebra, ciências e a
perigo sempre ameaçador, não constitui de forma alguma um tecnologia tem lugar de relevo: de contrário, a mão-de-obra
fatorirreversível — e fatal. O CET está eivado de exigências que ele forma seria incapaz de desempenhar o seu papel na
contraditórias, onde estão implantados, por consegiiência, os indústria moderna. Alunos preparados para o embrutecimen-
alicerces necessários aos esforços progressistas. Sob pena de to e apenas alimentados de falsidades: isso forneceria mais
se privar a classe dominante da mão-de-obra qualificada de ou menos escravos para a colheita manual do algodão. Entre
que ela carece, o CET não pode abster-se de ensinar a verda- o sonho das classes dominantes de infantilizar os proletários
de sobre as técnicas, e também sobre as ciências, ou seja, um e a necessidade de lhes proporcionar elementos válidos para
espírito de verdade, uma formação na verdade, o senso do o trabalho que deles esperam, entre a pressão das classes
verificável, a distinção entre o verdadeiro e o falso, o apro- dominantes e as reivindicações das classes exploradas, luta-
ximativo e 0 exato, se; e desde que se lute, surge uma possibilidade e uma espe-
A ideologia burguesa esforça-se naturalmente por bara- rança razoável de progresso. É natural que a qualquer mo-
lhar as cartas, quer isolar o técnico dentro da sua técnica,

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mento da história o destino desta luta escolarseja insepará- força de união podem sequer ser evocados nesta solidão de-
vel do destino do movimento operário no seutodo. sesperada.

Toda a teoria das duas redes leva, obriga a apresentar A dicotomia entre as duas redes, remete explicitamente
como um fato inegável, absoluto, a oposição entre elas. Não para a divisão do trabalho manual e do trabalho intelectual,
pode haver entre o PPe o SS nada que se assemelhe a uma que constitui um dos impulsos principais da exploração do
complementaridade, mas unicamente uma exclusão recíproca. trabalho.
Os conteúdos ideológicos inculcados na rede PP não constitu- Encontramos aqui, em Baudelot-Establet, um suave
em a base elementar na qual se apoiaria essa ciência mais perfume do século XIX: os intelectuais evocados seriam, por
complexa dispensada na rede SS: são, muito pelo contrário, exemplo, magistrados, levando à sua maneira uma vida
um obstáculo à sua aquisição; a assimilação dos conhecimen- tranquila, independente, livre de qualquer preocupação ma-
tos da rede SS implica a sua destruição. E este antagonismo terial; os alunos do liceu se resumiriam a alguns herdeiros.
faz parte integrante do domínio da burguesia sobre o proleta- Na realidade, hoje uma grande parte do trabalho intelectual,
riado e dos meios de assegurar a sua reprodução. por exemplo o dos técnicos, está submetido à repartição das
Porém, esta incompatibilidade não tem outra base que tarefas, à especialização, à hierarquia, numa palavra, à
não seja a afirmação de que o PP apresenta um grande núme- exploração.
ro de subprodutos residuais da cultura. Os responsáveis pelos nossos males não são os intelec-
E é, a partir dela, que nos apresentarão a escola como tuais, não são os executivos, certamente, nem tampouco os
um instrumento passivo nas mãos das classes dominantes, que brincam de managers, mas continuam, todavia, subordi-
um local onde nenhum progresso é viável — até o presente nados ao poder e às ordens do grande capital. E a burguesia
nada de eficaz se teria realizado, exige-se que qualquer a- dominante que se esforça para lançar os trabalhadores uns
vançada seja só aparente e que em breve se transforme numa contra os outros, para opor os trabalhadores manuais aos
mistificação habilmente dissimulada. Supõe-se, por exemplo, trabalhadores intelectuais. Parece-nos que Baudelot-Establet
que a burguesia, a ideologia burguesa, sofreram, tanto na se deixaram cair na armadilha.
escola como no mundo, algumas derrotas clamorosas: nome- Deve-se travar uma luta contra a segregação social dos
adamente é hoje impossível justificar pura e simplesmente a trabalhadores intelectuais que, isolando-os, ameaça deixá-los
colonização, difundir um racismo sumário. Mas os autores entregues a posições reacionárias. Mais do que nunca é hoje
querem persuadir-nos de que, na realidade, a burguesia é possível esta luta visto que uma das características do capita-
justamente constrangida a apresentar a sua ideologia com lismo monopolista de Estado, é a de reduzir os intelectuais,
omissões, reticências, compromissos. A escolaridade prolon- por exemplo, uma maioria de engenheiros, a um papel de
gada da classe operária não corresponderia tampouco a qual- executantes subordinados, que suportam cada vez pior essa
quer melhoria real, a partir. do momento em que as práticas subordinação.
da rede PP fossem apresentadas como um bloco inteiriço, na Negar o progresso parcial, é negar a história, não o
verdade, impecável, inatacável. E nenhum aliado, nenhuma querersituar no interior de uma evolução histórica. Os nos-

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

sos autores instalam-nos num universo imóvel, sem referên- Sem dúvida que nenhuma democratização do ensino
cias ao passado — e paralelamente, sem perspectivas de fu- resultará numa sociedade sem classes, pela boa razão de que
turo. Dirão, por exemplo: “Esta divisão dos efetivos em dois nenhuma democratização dará lugar a uma sociedade de
tipos de escolaridade é um traço constitutivo do aparelho classes. Porém, qualquer passo em frente para a democrati-
escolar capitalista; esta divisão é consubstancial a ele; existe zação do ensino faz parte de um todo econômico e social,
desde a sua constituição. Apenas variaram as suas formas que prova ter-se atingido uma fase progressista — ouantes,
históricas e institucionais”; o que de fato significa que esta que se participa numafase, apesar de tudo, progressista.
variação das formas nada muda.
Consegiientemente, já não se trata de prosseguir uma Por outras palavras, a tentação que ameaça sem cessar
luta, de se garantir o que já se obteve graças a ela, a fim de se Baudelot-Establet é recusar as reformas em nome da revolu-
avançar até à sua fase revolucionária. Se nada de válido foi ção, é a de nos encerrarem no dilema: ou reformas ou revo-
conquistado até o presente, como organizar a sequência da lução; ou para realizar reformas se seria levado a renunciar à
ação? Que esperança justificável de que novos esforços reve- revolução, ou então as pessoas se preparam para uma revolu-
lem-se eficientes? Acaba-se por se desesperar da escola, por ção que anula quaisquer reformas, que as tornam irrisórias.
ir ao encontro de Illich. Baudelot-Establet aparecem-nos Lenin soube eliminar o dilema apelando para toda experiên-
como dois illichianos anteriores à revolução, illichianos até à cia da história mundial que mostra em que consiste a verda-
revolução. E só após uma revolução a escola poderá começar deira alternativa: Oua luta de classes revolucionária que tem
a desempenhar um papel progressista. Mas é preciso imagi- sempre por produto acessório as reformas, no caso de suces-
nar uma revolução surgida do nada, sem ter sido preparada so incompleto da revolução; ou nenhuma reforma.
por qualquer progresso, sem que tivesse sido efetuada, assen- O postulado tácito que nos parece animar o livro, é a
tando em objetivos parciais, larga união de camadas eviden- regra do tudo ou nada: enquanto subsistir a oposição classe
temente heterogêneas, mas todas elas ameaçadas pelo dominada-classe dominante, as possibilidades de realização
capitalismo monopolista. reduzem-se a zero. Desde que Baudelot-Establet constatam
que os filhos do proletariado não entram para a universidade
Ao contrário, Lenin mostrará que uma das tarefas essen- na mesma proporção dos filhos da burguesia, concluem que
clais consiste em desenvolver a democracia até o fim e isto nada se avançouaté o presente e que nenhum avanço é prati-
sob todos os aspectos. Não na ingênuailusão de que a revolu- cável no sistema. A partir daí torna-se impossível discernir
ção social brotará muito simplesmente da democracia, ainda entre o que já foi obtido e tudo quanto falta conseguir.
menos na convicção de que o socialismo se confunde com a
democracia. “Mas, na vida, o democratismo nunca será con- Por isso se introduz um aspecto, que ousaremos quali-
seguido em parte; o será no seu todo; exercerá também influ- ficar de aristocrático, nas análises de Baudelot-Establet: ex-
ência sobre a economia da. qual estimulará a transformação: perimentamos, lendo-as, a sensação de que só existe uma
sofrerá a influência do desenvolvimento econômico etc.”. escolaridade digna desse nome, o SS, os que vão entrar para
a Politécnica. Os nossos autores só têm olhos para esses, e os

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esforços que fazem para se debruçar sobre outras formas de procura cada vez mais violentamente maltratar, esmagar,
escolaridade revelam algo deartificial e de forçado. Tudo o expropriar. A revolução se tornará eternamente impossível
mais, comparado efetivamente com os gloriosos alunos da se, em decorrência de progressos evidentemente fragmentá-
Escola Politécnica, só colhe qualificações pejorativas, tudo rios, condenados a permanecer ainda muito tempo fragmen-
o mais tem o cariz da equivalência, da equivalência no tários, a classe operária não consolidar as suas possibilidades
insucesso. de coerência e de austeridade, de maneira a manter até o fim
E eis porque, entre as inúmeras críticas que desabam de o seu papel de força revolucionária. A menos que só se con-
todos os lados sobre a escola, as de Baudelot-Establet aca- siderem revolucionários autênticos os desclassificados e os
bam porse juntar estranhamente com as da burguesia domi- marginais.
nante: sentindo a concorrência que lhe fazem no mercado de A escola, desde que não seja o recinto idílico da unida-
trabalho, mercado do qual, apesar de tudo, deixou de dispor de, não passa de um local de divisão; é também o lugar em
exclusivamente, ela procura desvalorizar tudo que não cor- que esta necessidade de união das massas operárias e igual-
responda à forma mais tradicional e mais repudiada de ensi- mente das classes médias contra o poder dos monopólios
no; por sua vez também ela dirá que a técnica dos IUT não é (necessidade inscrita nas ações da nossa época), se pode
um verdadeiro ciclo de carreira escolar — e se recusará a transformar numa convicção mobilizadora. É precisamente
reconhecer-lhe o diploma nas convenções coletivas. por isso que as classes dominantes sempre foram hostis ao
tronco comum, ao prolongamento da escolaridade, a um en-
Numa sociedade dividida em classes, é impossível que sino técnico público — e infelizmente tão determinadas, tão
a escola consiga contrabalançar o conjunto das condições de desejosas de tomar a dianteira que destruiriam simultanea-
vida e as regras de funcionamento social, as regras de explo- mente um dos instrumentos indispensáveis a ela...
ração social, a ponto de interessar, em massa, os filhos da
classe operária na rede SS. Cabe a Baudelot-Establet o méri- Manteremos, pois, que todas as estruturas escolares, e
to de nos terem recordado vigorosamente que a escola, em si, mesmo as estruturas diferenciadas, segregativas, não são
é incapaz de ultrapassar a divisão da sociedade, da nossa equivalentes. Não é indiferente às classes exploradas que a
sociedade, em classes antagônicas. Isto não é mais do que o escola municipal esteja ali, de um lado, e do outro, as classes
capitalismo secreto das estruturas escolares segregativas — e elementares ligadas ao liceu, pagas, providas de professores
elas não conseguem ser abolidas num regime capitalista; que
cuidadosamente selecionados — ou que os seis primeiros
não há complementaridade simples e harmoniosa entre as anos de escolaridade se façam em comum. Pertence a Baude-
formas da escolaridade reduzida e as da escolaridade prolon- lot-Establet o mérito de acabarem com as ilusões afirmando
gada. Por isso é que a perspectiva revolucionária só pode ser que a escola primária divide e separa aqueles que estão em
a unificação da escolaridade numa sociedade que tiver ven- dificuldade e que, em massa, pertencem à classe explorada.
cido os antagonismos de classes. Mas será só a partir do momento em que estiverem reunidos
Mas não se conseguirá destruir o regime capitalista numa mesma escola que rebentará o escândalo; e contudo, há
sem se reunirem contra ele todas as camadas sociais que ele uma abertura ao progresso, a um progresso que consiste nu-

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ma possibilidade de luta, numa procura das causas e do reduzida são controlados pelos assistentes sociais que deci-
mesmo modo um esforço de ultrapassagem, inconcebíveis dem, por eles, como lhes compete viver.
nos sistemas precedentes. Aqui ocorrem-se as descrições em que Freire nos mos-
Não é indiferente às classes exploradas que o CEG seja tra os pobres simultaneamente convencidos de que lhes cabe
uma instituição à parte ou que comece a ser integrado no a responsabilidade da própria miséria e de que essa miséria é
conjunto do primeiro ciclo. Pois é só então que podemos natural, fatal; chegam deste modo ao ponto de aceitar, de
lutar para que uns e outros se beneficiem de mestres forma- assimilar o ponto de vista, os valores dos ricos, a assumir
dos de forma igualmente válida. E menos ainda é indiferente como seus os valores impostos pelos seus patrões — e que
que o técnico curto se pratique no CET ou sob controle pa- os condenam; resumindo, o dominado, na sua impotência,
tronal direto. Pois neste segundo caso, que oportunidades identifica-se com o poderoso. A tal ponto que perde a sua
teremos de conseguir impor conteúdosreais de história ou de linguagem peculiar e original para balbuciar desajeitadamen-
economia? Bem sabemos que as estruturas segregativas te a linguagem da classe dominante.
permanecem segregativas; a unificação, a revolução escolar, Mas é característico de Illich (e na nossa opinião ele
a revolução, não será assim tão simples. Mas o conjunto das atraiçoa assim um dos temas mais válidos de Freire) imputar
estruturas segregativas não pode ser considerado como um. essencialmente à escola este desencorajamento — a partir
setor uniformemente reprovado; não se trata de esquecer, de das diferenciações que introduz nos cursos escolares e do
minimizar, de adoçar o seu caráter segregativo, mas sim de fiasco total que constituem, nas suas descrições, os ciclos de
procurar caso a caso os meios que elas proporcionam para carreira escolar não-nobres.
fazer avançar o combate.
O que converge com certas análises de Bourdieu-
UI — Humilhação, humildade Passeron afirmando que as crianças matriculadas no CEG só
colherão, de todos esses anos passados no colégio, a convic-
llich afirma que os que vêm de ciclos não-nobres, que ção da sua inaptidão, da sua indignidade; pois a exclusão não
poucos anos permanecem na escola, acabarão persuadidos da se opera por medidas legislativas, brutais, abertamente anti-
sua inferioridade pessoal em relação aos alunos brilhantes; democráticas, mas continuamente, gradualmente, a partir de
sentem-se culpados, perdem o respeito por si próprios. E eis insucessos lentamente acumulados, não podendo os interes-
os pobres dispostos, toda a sua vida, a aceitar, resignadamen- sados compreender as engrenagens do sistema que funciona
te, as frustrações e as chacotas. com uma espécie de habilidade diabólica. Não serão excluí-
É preciso dizer-se muito mais; o papel da escola, a fun- das de imediato as crianças vindas do povo, isto é, só o farão
ção real e oculta que lhe é destinada, é precisamente esta: a depois de lhes terem inculcado o respeito pela escola e pelos
partir dos fracassos escolares dos desfavorecidos, mergulhá- seus veredictos, o respeito pelas instituições educativas, e a
los na humilhação para que não renunciem a uma atitude de partir daí, pelas instituições estabelecidas na sua generalida-
humildade. Em Nova Iorque, os que têm uma escolaridade de. O que é igualmente vantajoso para o conservantismo. A
cumplicidade dos próprios interessados ficará assegurada e

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eles poderão ser convencidos, pouco a pouco, de que é prefe- último ano escolar e o respectivo diploma tinham lugar aos
rível desistir de ambições que ultrapassem as suas possibili- 12 anos; em 1900 nem 2% de jovens de 16 anos fregiienta-
dades; os resultados escolares comprovam. E nem eles se vam a escola; em 1960, 30%. Em 1900, nem 1% de alunos
sentem capazes de..., destinados a... de uma classe com a mesma idade concluía o liceu; em 1960,
Em todas as suas interpretações, Bourdieu-Passeron chegou-se a 11,5%.
vão apresentar como inteiramente ilusórios os conhecimen- As mistificações denunciadas por Bourdieu-Passeron,
tos dos ciclos diferenciados: no CES, continua a antiga cli- apesar de tudo, só existem em relação a um certo esboço de
vagem entre liceu e primário superior, simplesmente sob democratização. Ou melhor, o problema só adquire clareza e
formas mais sutis e mais fáceis de esconder aos olhos dos acuidade sobre um fundo de unificação e que, aliás, foi ar-
interessados. De fato, abriram-se simplesmente ciclos sem rancado pela pressão democrática — e nunca concedido es-
compromisso onde tudo é encadeado de forma a levar os pontaneamente pelo poder.
alunos a uma demissão progressiva. E, de maneira mais ge- Sugerimos que as ideologias educativas são mais com-
nérica, os alunos vindos das classes populares, ao ingressar plexas, desempenham um papel mais complexo do que se
na seção II (ou CEG) pagam a sua entrada para o liceu à cus- depreende de Bourdieu-Passeron: são, sem dúvida, larga-
ta de se verem relegados para instituições e carreiras escola- mente mistificadoras e as proclamações igualitárias servem
res que, como ratoeiras, os atraem com aparências ilusórias incessantemente para dissimular as desigualdades reais. Mas
de uma homogeneidade de fachada, para os encerrar num um progresso que não se deve desfazer é mesmo assim uma
destino escolar truncado. realidade quando se passa das ideologias explicitamente de-
Assim se recusam os nossos autores — e com que siguais às teorias que se reclamam de igualdade: é a prova de
energia — a considerar como um progresso real o prolonga- que a classe dominante foi constrangida a recuar e de que
mento da escolaridade, bem como esse começo, esse arre- novas possibilidades de luta surgiram.
medo de unificação das estruturas escolares. Por certo, a sua O principal mérito de Bourdieu-Passeron, consiste em
posição é de extrema importância como advertência aos que terem desvendado as aparências enganosas, denunciado a
pretendem levar-nos a interpretar tal começo como um su- relação entre a origem social e os resultados escolares, esta-
cesso definitivo, que insistem em nos fazer crer que só falta belecerem que, por exemplo, entre os CEG (ou ciclo III) e o
avançar serenamente por uma estrada uniforme — e que to- liceu não havia apenas uma mera diversidade de vias, mas
das as crianças já se beneficiam de iguais oportunidades. uma oposição no recrutamento social; e é, portanto, a partir
Mesmo assim é preciso levantara este respeito certo número desta oposição, que é preciso compreender as desigualdades
de problemas. de resultados escolares e, sobretudo, as desigualdades de
perspectivas escolares e de inserção profissional: “A proba-
Para começar, parece-nos indispensável comparar este bilidade de concluir o curso do liceu é apenas de 1 para 4 em
pequeno começo de escola comum que é o CES, através de relação aos alunos inicialmente orientados para o CEG, ao
todas as mistificações que ele comporta, não o ignoramos, passo que contempla quase 5 em cada 10 dos que entram no
com a época, e não decorreu assim tanto tempo, em que o liceu”.

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Somos nós, portanto, obrigados a aceitar a identifica- Preparando uma sociedade em que as crianças deixam
ção do CEG como uma armadilha? O CEG é indubitavel- de estar submetidas a semelhantes desigualdades na sua vida,
mente um meio de dissimulação, mas não passará disso, nos seus hábitos e nas suas disponibilidades em relação à
estará condenado a ser sempre assim? No estado atual da escola, temos de lutar continuamente para que o CEG reab-
nossa sociedade e das desigualdades culturais, parece-nos sorva o que contém de relegação, desenvolva as suas poten-
que uma criança do povo teria muito menos probabilidades cialidades de apoio, impeça o poder de utilizar as diferenças
de completar o curso do liceu começando logo pelo liceu do entre seções para bloquear definitivamente todo um conjunto
que se passasse pelo CEG. Neste sentido o CEG pode, num de alunos; procurar graças a que adaptação de métodos e de
dado momento, proporcionar a ajuda de que ela necessita: conteúdos o CEG conseguirá conduzir os seus efetivos ao
professores menos assoberbados que não hesitam em rodear mesmo estágio do primeiro ciclo liceal, particularmente por-
os alunos de mais cuidados, até de solicitude, não apenas que se trata muitas vezes de alunos mais velhos, fator que é
durante as horas de aula mas igualmente nos momentos em em geral considerado um defeito, e que nós devemos trans-
que o próprio aluno fica sozinho entregue aos seus deveres e formar numa oportunidade para se estabelecerem outras rela-
às suas lições. ções, se utilizarem outros procedimentos. Estes alunos
Bourdieu-Passeron reprovam a escola por consagrar e prosseguem os seus estudos em condições precárias — e que
tornar definitivas as desigualdades iniciais ignorando-as pura ameaçam entravá-los; mas também são suscetíveis, na medi-
e simplesmente. Demonstrarão de forma convincente que o da em que trabalhemos para tal, de favorecer uma tomada de
sistema de ensino contradiz a justiça real submetendo às consciência dessas realidades duramente impostas.
mesmas provas e aos mesmos critérios assuntos fundamen- É especialmente neste sentido que o plano de Lange-
talmente desiguais. E esta ação defeituosa só pode resultar vin-Wallon conserva a sua validade e nos mostra o caminho
em benefício dos que já estão instalados entre os favoreci- a ser seguido, naturalmente com as necessárias adaptações,
dos. Não introduzirão deste modo, e num sentido positivo, a pois, entretanto, o tempo passou, novas perspectivas surgiram
noção de ciclos diferenciados, a noção de que, no estado e, sobretudo, a concentração que havia permitido a elaboração
social atual, os ciclos diferenciados podem desempenhar um comum deixou de corresponder ao reajustamento atual. Per-
papel progressista? manece, porém, essencial, a noção de opções que vão surgin-
As crianças colocadas de início em condições muito di- do, sem, todavia, introduzir diferenças de nível entre as
ferentes podem necessitar, a fim de chegar ao mesmo ponto, diversas seções; trata-se de opções de ensaio e que nunca são
de itinerários diferentes. Chegar ao mesmo ponto, tudo resi- irreversíveis, de tal forma que se adaptam àssituações existen-
de nisto, é esse o objetivo da luta — e trata-se, na verdade, tes, não para as congelar, mas pelo contrário, para extrair de
de uma luta revolucionária. Umaluta para instituir um ensi- cada uma delas as suas possibilidades de evolução.
no único quanto ao ponto de chegada, mesmo se os meios
utilizados para esse fim forem diversificados; um ensino em Os reformistas ingênuos não se satisfazem em acreditar
que a partilha não seja relegação, mas efetivamente apoio e que uma vez criado o tronco comum, cada um, ou antes, ca-
ajuda temporários. da classe social avançará ao mesmo ritmo; bastaria deixa-

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ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES
GEORGES SNYDERS

Que se consiga triunfar parcialmente, muito parcial-


rem-se levar pela maré do progresso contínuo. A classe do-
mente nas condições presentes, só mostra que se tem de tra-
minante esforça-se por votar as crianças do povo à segrega-
var uma luta autêntica, luta que está bastante longe da vitória
ção, ao gueto; quer conservar as estratificações existentes — e, todavia, algo começoue há muito tempo; desencadeou-
apontando a cadaclasse o seu tipo de ensino — e então uni-
se um movimento; o que até agora se passou não é um mero
camente os privilegiados terão direito à plena formação, a
logro, um puro zero; teriam deixado envolver-se alunos, pro-
que conduz aos escalões superiores. O sistema estabelecido,
fessores e pais como simplórios sem defesa.
estabelecido pela classe dominante, tende a utilizar o CEG
como ratoeira.
SEGUNDO TEMA:
Os docentes progressistas se apoiarão precisamente na-
A escola reprodutora e conspiradora
quilo que Bourdieu-Passeron nos deram a entender, com a
condição de transformar a atmosfera desolada que lhe é ine-
Pode-se afirmar que todas as análises anteriores con-
rente numa determinação de luta. Não mais uma descrição
vergem para a noção de escola reprodutora e que os nossos
estática, impotente: o CEG é uma armadilha; mas apreender,
cinco autores, apesar da extrema diferença dos seus pontos
já na nossa sociedade, os aspectos contraditórios do CEG e,
de vista, são unânimes nesta afirmação.
precisamente por isso, os recursos que ele pode proporcionar
Segundo Bourdieu-Passeron, dizer que a escola serve a
à nossa intervenção.
classe dominante não basta; ela não está apenas a serviço da
Se o CEG não passa de uma via de relegação, só nos
classe dominante, entrega-se de alma e coração a esse servi-
resta verificar o fato e nos desesperarmos: enquanto se
ço, isto é, ao conservantismo: “O sistema de ensino contribui
aguarda a revolução nada é real. Se, como a propaganda ofi-
de maneira insubstituível para perpetuar a estrutura das rela-
cial declara, o CEG constitui uma via semelhante à do liceu,
ções de classe e ao mesmo tempo para a legitimar”. A escola
em que os resultados são piores pela simples razão dos alu-
confunde-se com uma instituição de reprodução da cultura
nos serem menos dotados, que outra atitude senão a de cons-
legítima e, desta forma, para a ordem estabelecida.
tatarmos e nos desesperarmos?
O que mais fregiientemente é apresentado como fracas-
Na realidade, é por o CEG ser simultaneamente relega-
so do sistema ou pelo menos a sua fraqueza, esses ciclos dos
ção e ajuda efetiva que a ação dos docentes progressistas é
quais se diz que não passam de impasses, esses alunos que
possível e necessária. Esta luta não é um voto piedoso, utiliza
recolherão magro proveito de tantas horas de escolaridade,
como meios de ação as forças já realmente desencadeadas,
constituem o real significado, definem o papel decisivo da
precisamente para lhes imprimir um prolongamento revolu-
escola: “o preço a pagar para continuar mascarada a relação
cionário: de um lado a elevação do grau de cultura e de quali-
entre a origem social e os resultados escolares”.
ficação dos alunos saídos dos CEG; do outro a ascensão, a
Baudelot-Establet empregam naturalmente o mesmo
coerência acrescida da ação progressista favorecem, e sobre-
termo quando declaram: “O aparelho escolar contribui para a
tudo aos jovens das camadas populares, uma aspiração com-
reprodução das relações de produção capitalista”. A escola é
bativa, desde que não sejam abandonados, nem às mistifi-
um “aparelho de luta a serviço da burguesia, um instrumento
cações ambientais, nem a uma nova forma de fatalismo.

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

da ditadura da burguesia”. A sua função efetiva consiste em po, mas sim de uma exclusão exterior ao grupo: “É por in-
provocar o fracasso das crianças proletárias para finalmente termédio da escola que uma maioria é mantida à margem da
as sujeitar aos seus postos de exploradas. sociedade”.
O papel que a nossa sociedade, as classes dirigentes da Resumindo, a escolaridade criou uma nova espécie de
nossa sociedade, reservam à escola e a que ela se presta com pobres, os não-escolarizados, e uma nova espécie de segre-
perfeita docilidade, é o de eliminar o mais rapidamente pos- gação social, a discriminação entre aqueles a quem falta edu-
sível de todos os ciclos válidos as crianças do povo. Para pôr cação e os que se orgulham de a ter recebido. Seríamos
de pé semelhante projeto, irá pô-las logo de início em situa- levados a afirmar de novo esta verdade evidente: num mundo
ção de desfavor: O ensino da leitura e da escrita no ensino em que não houvesse escola, não existiriam barreiras entre
primário desempenha uma função objetiva de divisão visto os que a fregiientaram e os que a ela não tiveram acesso. Mas
separar a população escolar em duas partes: a dos que sabem o significado real, é que a divisão essencial, nas sociedades
ler e escrever e a dos que não sabem. Isto pode parecer uma modernas, é aquela que separa os homens de acordo com o
verdade de La Palisse, mas é preciso o sentido real desta nível de escolaridade — e, portanto, é a escola o agente des-
afirmação: é a escola que transforma esta primeira aprendi- sa separação.
zagem num obstáculo, que dela se serve para a transformar
em obstáculo. Por consegiiência, a escola que se proclama única e
E o mais grave é que a escola é igualmente preparada unificante constitui uma mistificação, um conluio permanen-
para que estes maus resultados pesem fortemente na escola- te, faz um duplo jogo: não há qualquer relação entre o que
ridade posterior; eles serão o ponto de partida, a causa prin- ela afirma fazer e o que realmente faz, a sua ideologia demo-
cipal e sempre presente da grande dicotomia: é sobre esta crática é o oposto da sua existência reprodutora. A sua pro-
divisão inicial que se edificará todo o sistema das divisões clamada função de ensinar a leitura e a escrita é, na prática,
posteriores. Resumindo, a escola transforma as diferenças dominada pela sua função social de divisão.
dos resultados escolares em divisão de classes. Daí a neces- O sistema escolar e universitário tem um rendimento
sidade de se afirmar que a escola primária divide e divide fraquíssimo, parece falhar no seu objetivo, muitos o classifi-
para sempre; ela gera a divisão, é a principal sede da divisão, cam de absurdo. Porém, na realidade, o seu objetivo, para
divisão entre as redes, entre as classes sociais. quem descobrir a maquinação, consiste precisamente em ser
Enfim, Illich salienta que é evidente que a escolaridade absurdo, apresentar um rendimento baixíssimo, precipitar no
é a responsável pela reprodução social e pelas desigualdades: insucesso grande número de jovens — pois, na realidade, os
“O sistema da escolaridade obrigatória conduz inevitavel- reprovados situam-se maciçamente no mesmo lado da barrei-
mente a uma segregação no seio da sociedade”. ra social: a dos desfavorecidos, segundo a maneira de dizer
A escola é evocada como a própria causa: “Nos países de uns, a do proletariado, para os que põem os pontos nosis.
pobres, a escola gera a inferioridade social”; e a sua respon- E como em todos os conluios, o silêncio, a dissimula-
sabilidade é tanto mais dramática quanto é exato que nestes ção, desempenham um papel capital: manter o mistério sobre
setores não se trata de uma subordinação no seio de um gru- as infra-estruturas, só prestar atenção aos resultados obtidos,

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ocultar aos olhos dos interessados a relação entre dificulda- se atribui a missão primordial a um fator puramente espiri-
des escolares e condições de vida. Portanto, como poderiam tual, ideal: a educação — outrora apresentada como capaz
eles mobilizar-se contra o silêncio, o nada, o não-ser? À es- de unificar para além das barreiras declasse, acusada agora
cola persuade da legitimidade da sua exclusão as classes que de suscitar divisões. É exato, a escola reproduz as classes
exclui, impedindo-as de perceber e contestar os princípios sociais, divide segundo as classes sociais; mas não se deve
em nome dos quais ela as exclui; os veredictos do tribunal afirmar que toda instituição está incluída — ou a revolução
escolar são assim decisivos pelo fato de imporem simultane- seria inútil.
amente a condenação e o esquecimento dos considerandos Parece-nos ler nos nossos autores, como primeira espe-
sociais da condenação. rança, que a escola poderia, só por si, pelo vigor das idéias
que difunde, opor-se a todas as outras forças estabelecidas,
O que os nossos autores nos ensinaram, e de forma que poderia só por si resgatar a sociedade da exploração e
lancinante, foi a existência de divisões dentro da escola, tornar igualitária uma sociedade dividida em classes. E de-
divisões que reproduzem divisões sociais — e isto a despei- pois esta esperança é frustrada. Mas sabemos que a atmosfe-
to de todas as esperanças que havíamos sido levados a de- ra de uma esperança frustrada continua a envolver todos os
positar na escolaridade, que tínhamos por hábito depositar argumentos pelos quais se procura escapar-lhe. Então o que
na escolaridade. se faz é inverter a ordem dos fatores, imputando à escola as
Como o afirma e muito justamente Hameline, não que- desigualdades que, sem dúvida, também se processam nela,
remos nem podemos “regressar a uma ingenuidade pré- mas pelo menos outro tanto fora dela e que de forma alguma
sociológica”. Compreendemos definitivamente que o poder lá nasceram.
dos pedagogos não está à altura dos seus projetos ou dos Na verdade, a escola é tanto um efeito como uma cau-
seus sonhos, nem quanto ao curso da história, nem sequer no sa. É certo que há nela uma margem de iniciativa e é possí-
campo pedagógico. Não existe local preservado e puro, onde vel, sobretudo necessário, aumentar essa margem. Mas é
se escaparia dos poderes estabelecidos e da luta de classes — ilusório atribuir-lhe propriamente um desmedido poder de
a universidade não é esse retiro. criação, não é a escola que gera as desigualdades, os ciclos
Resta ainda assim averiguar qual a responsabilidade diferenciados, malgrado as aparências; não é ela que trans-
que incumbe aqui à própria ação da escola e acreditando nos forma em incapacidades as situações desfavorecidas, ela
nossos autores temos repetidamente a impressão de que a registra, e não pode em princípio deixar de registrar, que as
escola desempenharia um papel determinante, ou mesmo um situações de exploração em que vivem determinadas classes
papel decisivo na divisão em classes. As classes sociais seri- de crianças implicam para elas dificuldades especiais a su-
am definidas pela posse ou não de um capital cultural, seri- portar, a suportar especialmente na escola.
am classes escolares, castas escolares — e esquece-se em
parte, ou totalmente, a posse dos meios de produção. Retomando os exemplos mostrados por Illich: se na
De fato, é repisar simplesmente o tema da escola li- Bolívia só 2% da população rural consegue cumprir cinco
bertadora, mas permanecendo no mesmo idealismo, porque anos de escola primária, isso significa acima de tudo que a

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escola só pode desenvolver-se na medida em que se desen- gualdades, na reprodução social e nem tampouco, apesar das
volva o conjunto da vida econômica; num país muito pobre, aparências, na reprodução da ideologia burguesa; esta é sem-
reduzido à pobreza, mantido na pobreza pela pressão dos pre alimentada pelas divisões sociais existentes: de outro
imperialismos, a escola não consegue arrancar. A escola é modo cai-se de novo no idealismo segundo o qual as ideolo-
uma superestrutura e não o princípio motor da sociedade. E gias são apoiadas e mantidas unicamente com ideologias e
nos ricos Estados Unidos industrializados, as desigualdades não com a materialidade dos fatos da existência coletiva.
escolares não saíram da escola, mas da extrema desigualdade
salarial e dos modos de vida das etnias. Que os pobres não Deste modo, está, portanto, em jogo, muito menos a
possam se beneficiar da escola é antes de mais nada um pro- responsabilidade da escola do que a da sociedade — ou an-
blema de miséria. Quando Illich nos diz: “Na América Lati- tes, é essencial reintegrar a responsabilidade da escola no seu
na, as classes dirigentes representam uma minoria inferior a seio e como uma parte das responsabilidades da sociedade. E
3% de diplomados com a escola secundária”, tem-se a im- o mais grave risco que nos fazem correr os nossos autores, é
pressão de que estes privilegiados são dirigentes por terem (queiram-no eles ou não) relegar para último plano os meca-
vindo do liceu, que foi o liceu quem deles fez dirigentes. Na nismos da exploração capitalista — na medida em que a de-
realidade, eles começaram por ser privilegiados, já pertenci- núncia da escola tende a atribuir-lhe todas as culpas. Acaba-
am ao grupo dos privilegiados — e foi isso que lhes permitiu se por imputar à escola uma culpa global, geral, a culpa por
fregiientar o liceu e triunfar. Aqui a escola confirma mais excelência, que não é a sua — e devido a isso se obscurece,
privilégios do que os institui, e esses privilégios, na sua in- se dissimula, o funcionamento da sociedade no seu todo.
contestável realidade, têm uma relação direta com a posse Separando a contribuição da escola da contribuição da socie-
dos meios de produção — e de exploração. Pode ser desani- dade global, os nossos autores ampliam em proporções fan-
mador que a escola não seja capaz de suprir os privilégios. tásticas o papel da escola: fazem surgir a escola como o
Não é o mesmo que acusá-la de os ter provocado. Inimigo. Um inimigo, portanto, a abater: nenhuma ação pa-
Certamente que a nós mesmos perguntamos sem cessar rece suscetível de ser conduzida no seio de uma instituição
que esforço deve empregar a escola para não agravar as difi- que é apresentada como fundamentalmente viciada. Há, sem
culdades das crianças exploradas, talvez para as atenuar e as dúvida, um caminho que liga Bourdieu-Passeron e Baudelot-
remediar. Mas primeiro é preciso tomar consciência disso e Establet a Illich; e a tentação já perceptível em Bourdieu-
das suas causas; pois negar que as crianças das classes explo- Passeron de dar ao termo classes um sentido muito lato e
radas têm maiores dificuldades do que as outras, sem qual- fluido em que a posse do capital cultural substituiria a do
quer comparação com estas, seria pura e simplesmente negar capital propriamente dito, essa tentação atinge o seu ponto
que seja necessária a revolução, negar a luta de classes. An- culminante com Illich quando ele escreve: “Na hierarquia
tes de tudo, a escola é constrangida a constatar fracassos cuja dos capitalistas do ensino, a educação define uma nova pi-
responsabilidade não lhe cabe — e eles foram se desenvol- râmide de classes”.
vendo essencialmente fora dela, por vezes antes dela. Não Por isso espanta um pouco ler sob a pena sutil de M. Le
cabe à escola um papel determinante na reprodução de desi- Thanh Khoi as seguintes linhas: “O desenvolvimento do en-

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sino, longe de contribuir para a democratização, acentua, A escola é um dos momentos, causa e efeito, do pro-
pelo contrário, as desigualdades sociais. Nos Estados Unidos cesso social no seu conjunto. Não queremos de forma algu-
não existe para os não-brancos qualquer relação significativa ma subestimar o que os nossos autores nos ensinaram sobre
entre os anos de estudos suplementares e o rendimento obti- os ciclos diferenciados e as desigualdades escolares, nem,
do. Com efeito, a discriminação que lhes cria barreiras vai tampouco, inocentar a nossa escola. Mas precisamente para a
aumentando à medida que o seu nível de instrução sobe”. revolucionar, é importante situar com precisão a extensão do
Tudo se espera do ensino, incluindo que ele leve a sociedade seu império, avaliar as suas possibilidades positivas ao mes-
a aceitar os não-brancos em pé de igualdade; ora ela será mo tempo que as suas carências: não se dispondo de tais
muito mais reticente em acolher um profissional qualificado pontos de apoio, a luta para a transformação da escola torna-
do que um operário, pois sente-se mais ameaçada pela con- se impossível. Nem é exato que a escola constitua a causa, a
corrência do primeiro do que pela utilização do segundo. causa por excelência que canaliza as crianças do povo para
Uma vez constatada esta discriminação previsível, dela se os postos dos explorados, nem se dirá que ela se tenha em-
conclui que é o desenvolvimento do ensino que acentua as penhado até aqui em solucionar os problemas dessas crian-
desigualdades sociais. Mas apontou-se verdadeiramente o ças, que tenha desenvolvido toda a sua energia a favor da
elo principal? promoção coletiva dessas mesmas crianças.
O que implicaria que ela põe em questão a própria po-
Na realidade, se os nossos autores, e tantos outros, fa- sição dos filhos do proletariado, a posição do proletariado na
zem incidir sobre a escola o maior peso de uma crítica que, sociedade capitalista. O nosso problema consiste em levar a
contudo, se acha integrada numa causa social, somos mesmo escola a participar no combate que trava o proletariado, e
assim induzidos a nos interrogarmos se não seria muito mais nele participar com os seus próprios meios, como ela já o
fácil e muito menos perigoso, mesmo para o pensamento, fez, como já começoua fazê-lo; mas trata-se de nele aplicar
verificar as disparidades escolares em vez de atacar as ori- tanto mais lucidez, tanto mais firmeza quanto necessárias
gens da mais-valia. Ilich faz, aliás, uma confidência bem para que o aumento quantitativo se torne uma revolução qua-
curiosa: “Sem dúvida, este número (que avalia as desigual- litativa; e não renunciar, deixar-se afundar apagando tudo
dades na escola) não deixa de estar em relação com odo quanto ela foi até agora.
produto nacional bruto per capita; mas se este último per-
manece, para a maior parte dos cidadãos de um país, relati- A escola é, portanto, uma maquinação e uma maquina-
vamente abstrato, o primeiro suscita, pelo contrário, uma ção só triunfará se permanecer secreta e tramada na sombra.
reação efetiva muito mais profunda, até dolorosa”. A escola consegue dissimular a função que desempenha. Por
Estava-se prestes a reconhecer que a escolarização não isso, o sociólogo é dito revolucionário só pela virtude da sua
é a causa primordial das desigualdades, mas confessa-se qua- lucidez, num mundo em que todos mentem e se enganam.
se ingenuamente que a escola constitui um terreno de ataque Mas o que nos importa aqui é que, não sendo a maquinação
mais cômodo; é mais fácil daí retirar efeitos imediatos e co- descoberta pelas suas vítimas, alunos e professores são jo-
- movedores. guetes de um sistema que é precisamente o contrário daquilo

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que pretende ser, do que parece ser. A partir daí os nossos os impeça de situar exatamente aquilo a que chamaremos
autores não confiarão mais nos alunos do que se fiarão nos também a crise da escola: de fato, este mundo arcaico e con-
professores ou na cultura. Os alunos não vivem com uma vencional que eles tão justamente descreveram parece tão
consciência embrionária, confusa da sua situação — e pode- irreal às crianças da burguesia como às do proletariado. Sem
riam então recorrer a este princípio para ir mais longe, rumo dúvida, que as primeiras triunfam na escola melhor do que as
a uma ultrapassagem em que, todavia, se reconheceriam; segundas, particularmente porque estão mais apoiadas pela
tratariam então de encontrar a verdadeira palavra de ordem disciplina familiar e pelas ambições do seu meio. Nota-se,
das suas lutas já reais, de compreenderem plenamente o que contudo, que as estatísticas habituais têm uma lastimável
só percebiam em parte — e que, no entanto, pressentiam. tendência para calar os fracassos dos socialmente favoreci-
Aqui é uma consciência inteiramente mistificada, intei- dos: pouco mais da metade das crianças cujos pais exercem
ramente falseada que lhes é atribuída. Os filhos do proletari- profissões liberais consegue o bacharelato.
ado não vêem absolutamente que os enganaram, não têm Mas estamos, sobretudo, perante uma crise global da
qualquer perspectiva precisa sobre o sistema escolar a que nossa sociedade: sendo os seus atos incessantemente contrá-
estão submetidos; os não-privilegiados não têm nenhum pri- rios àquilo que ela proclama, já não lhe é possível dizer, e
vilégio de lucidez, os explorados nem sequer dão conta da antes de tudo aos alunos, a verdade sobre si mesma, apresen-
exploração. tar modelos insinuantes, deixar em aberto possibilidades de
Resumindo, para negar a escola, reduzi-la a um mero ação. Por isso se refugia, quer numa multiplicidade de exer-
papel de reprodução social, foi preciso não apenas esquece- cícios, quer em evocações cujo caráter artificial é notado
rem de averiguar que papel desempenha, na segregação esco- pelos alunos de todas as categorias. Não são apenas as crian-
lar, a estrutura de conjunto da nossa sociedade como, além ças do proletariado que se aborrecem na escola.
disso, de negar clarividência, coerência e, finalmente, tanto Baudelot-Establet sustentam que o universo escolar pa-
valor à vida dos alunos como à dos mestres. O que, feitas as rece estranho e alheio aos filhos dos operários porque repete,
contas, é suficientemente tranqiiilizador em relação ao papel reforça, prolonga e valoriza as condições de existência da
real que a escola interpreta e pode interpretar. família burguesa. Eles imaginam assim uma correspondência
entre o universo escolar e o universo dos filhos da burguesia;
TERCEIRO TEMA: uma escola montada, maquinada para confortar, fortalecer os
A burguesia não confia na escola filhos da burguesia — e que o conseguirá sem resistência. A
realidade parece-nos muito diferente. Por exemplo, os inú-
I— crise da escola atinge também a burguesia meros estudos efetuados em manuais de leitura em uso no
primeiro grau demonstram que eles proporcionam às crian-
A denúncia por Baudelot-Establet desse universo em ças um conjunto de artifícios, onde os burgueses se reconhe-
que o rouxinol ocupa lugar destacado, onde em contrapartida cem tão mal como os proletários. Seria bom chamar aqui a
a Frente Popular apenas é mencionada, parece-nos em si
irrefutável. Receamos, todavia, que um erro de perspectiva
CF. o nosso livro Pédagogie Progressiste.

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otismo, abandonaram a cena sem serem substituídas; a não


atenção para determinados aspectos e conclusões do livro de
ser recorrendo à fantasia: de 1932 a 1961, o espaço destinado
Suzanne Mollo: Nas histórias propostas, pouco espaço 0CU-
às narrativas duplicou, narrativas estas que não comportam
pam as grandes cidades; ao evocar-se Paris, é mais uma Paris
moral, que não constituem uma transposição do nosso mun-
histórica, uma Paris museu, do que a capital contemporânea
do, nem mantêm uma profunda relação com ele. Ainda aqui,
e palpitante — e os seus belos bairros não estão melhor re-
a evasão para um passado idílico e para um mundo rural ar-
presentados do que os seus arredores; trata-se, sem dúvida,
caico constitui um dos componentes essenciais destes livros.
de um mundo onde a mãe permanece no lar, onde não cabe a
Em suma, os modelos degradam-se, inferiorizam-se,
operária, mas onde, tampouco, há espaço para a engenheira
tornam-se insípidos. A ideologia oficial confia muito mais
ou para a médica. A máquina está ausente ou torna-se suspei-
no silêncio quanto ao mundo de hoje do que na proclamação
ta, mas tanto do ponto de vista do operário como do enge-
triunfal do que nele se realiza; demite-se perante a exigência
nheiro. As compras não se efetuam nem nos supermercados
primordial de apresentar aos alunos uma imagem coerente da
nem nos self-services, mas na mercearia ou na loja, a que os
sua vida.
ricos não estão mais habituados do que os pobres. Os edifí-
Por isso desilude tanto as crianças da burguesia como
cios, os bairros residenciais são banidos em proveito da casa
as do proletariado, não correspondendo melhor às aspirações
individual — o que é evidentemente contrário aos hábitos de
de umas do que às de outras; e sobre a questão da linguagem,
todos os cidadãos.
não se encontram nela representadas melhor umas do que
O notável estudo de M. Dandurand nos permitirá en-
outras. E em relação ao conjunto do seu público que a ideo-
tender melhor o que está em jogo. Ele comparou os manuais
logia escolar abre falência. Deste modo a escola não é um
da escola elementar de 1932 aos de 1961: o universo social
objeto da burguesia, o domínio em que a burguesia reinaria
apresentado às crianças está consideravelmente enfraqueci-
gloriosamente; não basta afirmar que ela esbarra com o pro-
do, tende cada vez mais a reduzir-se à dimensão do lar e do
letariado, com a resistência proletária; está minada tanto pela
universo da infância. Em 1932, a caridade, a indulgência
ausência de si própria como das aspirações contemporâneas
estendia-se aos pobres e aos deserdados; em 1961, trata-se,
no seu conjunto.
sobretudo, de ser gentil para com os pais, os irmãos, agradar-
Se o mal atinge, sob formas evidentemente diferentes,
lhes, ajudar na boa harmonia entre os membros da família.
todos os alunos, é desses mesmos alunos que se deve esperar
Os adultos são essencialmente apresentados num papel fami-
uma tomada de consciência e ações renovadoras; as esperan-
liar e muito menos nas suas tarefas profissionais. Na segiên-
ças de mudança escolar não estão todas concentradas em
cia das descrições, as crianças entretêm-se muito mais
redor dos ciclos II — o que eliminaria precisamente toda a
frequentemente com jogos, isto é, confinadas numaatividade
sua viabilidade. Se a escola satisfizesse a expectativa dos
gratuita, que, apesar de tudo, as marginaliza ou as isola; par-
burgueses esmagando com o seu peso os filhos dos proletá-
ticipam muito menos nas atividades dos adultos. Represen-
rios, não existiria a mínima possibilidade de melhoria antes
tam-lhes a sociedade de forma muito mais simples e
do triunfo definitivo do proletariado sobre a burguesia.
esquemática; os múltiplos papéis sociais quase não são evo-
cados; as noções de dever, de coragem, de civismo, de patri-

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Ao mesmo tempo, e isto não é de forma alguma con- W — A burguesia reconheceu a escola como sua
traditório, os melhores aliados dos que pretendem uma revo- cúmplice?
lução escolar, são os alunos mais agarrados ao atual, os mais
sensíveis e lúcidos ao atual, porque o atual já se lhes impõe A escola está a serviço das classes dominantes? E só a
como local de combate: as crianças proletárias, incluindo as seu serviço? Ouvendo de outra maneira: as classes dominan-
do ciclo HI. tes a consideram como um instrumento a seu serviço? Con-
sideremos o século XIX, o momento em que a burguesia
Um exemplo do papel que desempenha a escola, em ainda ousava mostrar cruamente o seu jogo.
atitudes que ela não ditou expressamente, exemplo que ainda É bem verdade que encontram-se alguns autores que
nos parece mais característico por respeitar um domínio niti- contam com a extensão do ensino para fortalecer as forças
damente delimitado e que foi inspirado por um autor pouco conservadoras: por exemplo, Victor Duruy sustenta que as
suspeito de ternura em relação ao mundo escolar. nossas misérias de 1848 provêm, em parte, da ignorância —
Boltanski demonstra de forma muito clara, a propósito e, sobretudo, da ignorância dos fatos sociais, da história so-
de certas regras de puericultura, como a higiene da mamadei- cial; sendo a história simultaneamente pouco conhecida e
ra ou a esterilização da água adicionada ao leite, que o pro- resumindo-se ao estudo das batalhas e das intrigas diplomá-
longamento da escolaridade implica uma mudança global de ticas. A Inglaterra, surgia-lhe como um modelo — modelo
atitude. Deixar de regular a nossa conduta pelo hábito, pela de estabilidade, e, sobretudo, a instrução dispensada na In-
tradição, pela familiaridade, pelos diz-se que ou faz-se as- glaterra, ao mesmo tempo pela sua extensão e pelas direções
sim; a escola desenvolveu a noção da existência de regras que tomou: “A Inglaterra conseguiu atravessar calmamente
baseadas no saber e que foram objeto de umaverificação. É uma crise pavorosa porque os seus operários conheciam tudo
assim que se afirma uma atitude crítica: em face das regras, quanto os nossos jovens ainda ignoram: os meios tão delica-
começa a pôr-se a questão da sua verdade, a questioná-la. O dos da produção e da vida econômica”.
conhecimento racionalizado é uma abertura ao progresso do Mas, incomparavelmente mais numerosos, são os que
conhecimento e ao mesmo tempo um encorajamento desse representam a escola como uma ameaça à sociedade estabe-
progresso; progresso a que não têm acesso as mães que fre- lecida e uma aliada das manobras revolucionárias. Entre tan-
guentaram a escola corrida e que se apegam a fórmulas des- tos outros, Jules Simon afirma que, salvo uma pequena elite
ligadas, entre as quais nem vêem nem procuram ligação, profissional que será formada em estabelecimentos técnicos,
cujos fundamentos desconhecem; interpretam-na no jeito é necessário que a criança do povo entre muito cedo para a
fantasista da analogia sem compreender o porquê, aplicam- oficina: a escola não é o meio que lhe convém, o meio em
nas fatalmente à toa. que pode formar-se dentro das convicções essenciais, como
É a escola, quando exerceu a sua ação durante tempo saber que “a vida é um conjunto de sofrimentos e de praze-
suficiente, que incita a adquirir, com o tempo, conhecimen- res, onde os sofrimentos têm a maior parte” e que a tarefa
tos que não transmitiu. que lhe caberá, que já cumpre, é “seguramente dolorosa,
porque ele é um homem”.

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ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

P. Bourget vê a escola como o local onde se despertam Para sustentar que a escola é o órgão essencial da re-
apetites nos jovens que a realidade não permite satisfazer. O produção social e que trabalha em exclusivo proveito da
que explica esse tema tantas vezes repisado de que acima de classe dominante é necessário pensar que a dita classe domi-
tudo a escola ensina a “condenar em bloco o estado social” — nante não deixou de menosprezar os seus próprios interesses,
e entende o autorser urgente dar o alarme: “é ao sair do liceu visto não ter cessado de desconfiar da escola e de tudo fazer
que aparece primeiro o deslocado, depois o revolucionário”. para lhe diminuir a importância e o papel. Deveria ter toma-
Quanto a Gustave Le Bom, cujos livros tiveram grande do a iniciativa de semear o país de numerosos edifícios esco-
repercussão, e sobretudo, La Psychologie des Foules, os que lares e esforçar-se por lá conservar o mais prolongadamente
concluem o curso dos liceus são na sua essência os recrutas que pudesse o maior número possível de ovelhas.
para “o exército da anarquia, da revolução e da desordem, Aliás, o movimento operário teria vivido no mais com-
dispostos a todas as destruições e apenas a isso”. pleto erro, que sem interrupção reclamou a escola como um
E, naturalmente, que todos pensam em Thiers, mas tal-
dos instrumentos da sua emancipação; e da Comuna à Frente
vez seja vantajoso ler de novo algumas das frases que obtive- Popular, o desenvolvimento da escolaridade sempre foi con-
ram merecida glória — ou uma contra-glória. Sustenta ele quistado pelas vitórias da classe operária. O prolongamento
que as doutrinas sociais, isto é, a teoria da sociedade estabe-
do tempo da escolaridade mínima, os começos de um tronco
lecida, são grandes verdades, mas que é impossível fazê-las
comum foram conseguidos, até arrancados, pela pressão das
serem aceitas pelo raciocínio. A única solução é impô-las às
classes populares, nos momentos em que a sua situação lhes
massas. Pelo que a escola primária não deve ficar ao alcance
permitia exercerintensa pressão sobre o poder.
de todos, não será obrigatória; paralelamente, os seus pro-
Os teóricos marxistas não se teriam enganado menos,
gramas e as suas ambições devem ser estritamente limitados. desde Engels, que declara: “A burguesia pouco tem a esperar
E Thiers explica, sobretudo, porque vê nos professores pri- e muito a temer da formação intelectual dos operários, até
mários não apenas uma ajuda para que se mantenha a ordem Lenin ao proclamar que de uma vez para sempre concorda
social, mas, muito pelo contrário, uma ameaça à ordem soci- com o ministro quando este considera os operários como a
al: socialistas e comunistas igualmente. A virtude de que pólvora, a sabedoria e a instrução comoa faísca. O ministro
mais carecem é a da resignação — e é, portanto, essa não- está convencido de que se a faísca salta sobre a pólvora, a
resignação, para não lhe chamarmos revolta, que se corre o explosão atingirá acima de tudo o governo”.
risco de eles inculcarem nos alunos. Da mesma forma Thiers
se mostra desolado constatando que “na generalidade, são os HI — Descolarização
operários mais instruídos e que mais ganham os que ao
mesmo tempo se mostram mais desregrados nos seus costu-
No período contemporâneo, à classe dominante, quan-
mes e mais perigosos para a paz pública”. 1

do se esforça por conservar a sociedadetal e qual, reproduzir


a sociedade, concentra todos os seus esforços a fim de que as
! Intervenção de Thiers na 3º sessão (10/1/1849) da discussão preliminar da Lei crianças vindas do proletariado fiquem limitadas a uma esco-
Falloux. laridade reduzida, a menos escolaridade do que as- outras;

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bem longe de ter em vista o efeito, para ela vantajoso, da princípio nega-se a estas classes o direito a professores espe-
escolaridade, esforça-se, na medida do possível, para trans- cializados em desenho e em educação física; estas disciplinas
formar em não-escola a escola das classes exploradas. não são, pois, ensinadas — ou o são em condições duvidosas
É nas zonas pobres, nos bairros pobres, nos arredores e precárias.
operários pobres que as escolas primárias estão mais superlo- Descolarização também em relação aos conhecimentos
tadas, que os professores têm menor formação, são menos propostos que muitas vezes se reduzem a noções elementares
estáveis; aí o material é o mais escasso; a influência escolari- executadas com materiais e instrumentos escolhidos à sorte.
zante sobre a criança encontra-se igualmente diminuída. É aí Na idade em que a escola espera, exige bastante dos alunos
que são raros os estabelecimentos do segundo grau, muito das seções modernas e quer exercer sobre eles uma influên-
distanciados, portanto, de vários locais de habitação. Seria cia formadora, o ciclo III é aquele em que a escola abdica,
preciso que prosseguissem estudos em internatos as crianças abandona — e logo de início — a sua preparação para um
que menos podem suportar essa despesa e que são, aliás, as futuro profissional. Espera-se, eles esperam. E isto apesar da
menos preparadas para enfrentar tal prova; assim aumentam dedicação dos professores e de alguns êxitos excepcionais,
as suas probabilidades de desistência. apesar de terem surgido nessas classes, já o afirmamos, pers-
As instâncias de relegação escolar, os ciclos específicos pectivas pedagógicas fundamentalmente válidas mas que
para a formação da categoria mais explorada do proletariado, estão bloqueadas pela subescolaridade geral a que estão cir-
são, segundo nos dizem, os ciclos de descolarização, reto- cunscritas.
mando o termo de Illich, mas imprimindo-lhe uma tonalida- Depois, à medida que os governos se tornam cada vez
de contrastante: a descolarização não significa de modo mais reacionários, isso mesmo lhes parece insuficiente — e a
algum o alvo a ser atingido para libertar a juventude, mas subescolarização transforma-se em descolarização oficial: a
sim a realidade das manobras conduzidas pela classe domi- partir de 1973 a Lei Royer organiza a saída da escola para
nante, que espera ter controle sobre os filhos do proletariado alunos de 15 e por vezes de 14 anos; o ensino dito alternado
diminuindo a influência da escola, e não submetendo-os à os mantém metade do tempo mínimo ligados a uma empresa,
sua ação. as classes preparatórias de aprendizagem são parte integrante
Sabe-se que em 1959 a escolaridade obrigatória ia até dos centros de formação de aprendizes, onde a influência pa-
os 16 anos. Numaprimeira etapa foi então instituído o ciclo tronal é preponderante. E não se trata de uma influência esco-
HI (classes de transição, classes práticas) cuja característica larizante, correspondendo a normas e ahábitos escolares; para
mais impressionante é o fato de constituir, no interior da es- estes jovens, são mínimas as possibilidades de adquirir uma
cola, um sistema de subescolaridade: as horas de presença qualificação profissional, pois em breve são utilizados dentro
são menos numerosas do que nas outras seções, a qualidade dos limites apertados de um trabalho parcelar.
do trabalho exigido destes alunos é consideravelmente infe- Assim, o poder não conta com o aperfeiçoamento pro-
rior, tendo o trabalho de casa um lugar absolutamente restrito . porcionado pela escola, mas sim com a não-admissão nessa
— e de nenhuma forma se encarou a possibilidade de o mesma escola para obrigar a permanecer na mesma posição a
compensar com estudos ou qualquer modo de apoio; em

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fração mais explorada do proletariado: nada é mais evidente igualdade. Mas se a escola ignorasse que constitui um dos
em relação ao papel efetivo que desempenha a escolaridade. locais em que a consciência de classe tem possibilidades de
se formar, tomaria tais medidas, tais precauções para limitar
É destacando-a para esse movimento que vai da não- esse efeito?
escolaridade à descolarização que se poderá compreender a A escola não pode pretender-se inocente quanto ao es-
reforma Haby e os seus intentos cuidadosamente dissimulados. cândalo dos ciclos HI: são estes, ousamos afirmar, os forne-
Com o vocabulário prudente e compassado que a carac- cedores de profissionais especializados e de desempregados,
teriza, ela avança com a ruína organizando e ampliando as recrutados de forma quase exclusiva entre os filhos de pro-
formas de perda escolar: entre as opções figuram os “bancos fissionais especializados e de desempregados — e o plano
de ensaio, com características pré-profissionais, a que se estabeleceu que eram necessários 20 a 25% por ano. É a uma
juntarão estágios de iniciação no 3º ano, de pré-aprendizagem distribuição deste gênero que a escola está acorrentada. Mas
no 4º ano e comunicam-nos que eles serão realizados em em relação a estes alunos, a responsabilidade da escola, e por
liceus de ensino profissional, em centros de formação de que não empregar este termo? a culpa da escola, consiste em
aprendizes, em empresas etc.” haver consentido que a demitissem do seu papel, em ter re-
E principalmente: “Certos alunos, decididos muito ce- nunciado à sua ação, em os deixar fora da sua esfera de ação,
do a seguir determinada profissão, poderão escolher apenas em ter consentido que lhe impusessem formas de descolari-
um único tipo de bancos de ensaio e receber uma formação zação; peca por deficiência, por falta, por ausência mais ou
complementar fora do estabelecimento de ensino sob a forma menos acentuada. O que não autoriza seja como for a apre-
de estágios prolongados. O esquema de organização poderá sentá-la como uma instância que conduz, pela própria força,
ser o de uma formação alternada, organizada por convenção pela própria iniciativa específica, os filhos do proletariado a
entre o estabelecimento de ensino e as empresas interessa- uma resignação humilhadae servil.
das”. Enfim, o CAP podeser igualmente conseguido pela via
da aprendizagem,isto é, em contato direto com as realidades CONCLUSÃO DA PRIMEIRA PARTE
da profissão. Visivelmente, o ministro prefere que toda uma
categoria de crianças — e não é difícil adivinhar qual — Depois de termos acompanhado os nossos autores nas
permaneça o menos tempo que puder na instituição escolar. suas diligências, não resistimos ao desejo de reunir numa
Quanto à educação que receberão nessas famosas empresas, perspectiva de conjunto as idéias assim avocadas. Sentimos
nada de utopias: previnem-nos de que a formação que con- perfeitamente que iremos repetir-nos — mas são hoje tantos
duz ao CAP não se afastaria muito das necessidades, dos os que repetem o contrário...
métodos e dificuldades imediatas da profissão. Assim se jus-
tificaria que a escola se ocupasse o mínimo com elas e as I — Os ciclos, divisão da sociedade em classes
entregasse o mais possível ao patronato.
Sem dúvida, não é a escola a casa fraterna onde crian- Na nossa sociedade, os ciclos diferenciados da carreira
ças de todas as esferas sociais se encontrariam em pé de escolar são a projeção, no plano escolar, da divisão da socie-

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

dade em classes. A burguesia nega a existência dos ciclos o ciclo completo e o superior. Efetivamente, em 1970-1971,
como instrumento de segregação — da mesma maneira que o ciclo HI e a conclusão de estudos reuniram 25% dos efeti-
sempre negou a existência de classes e da luta de classes. vos e o ciclo II, 37%.
Os ciclos diferenciados e segregativos da escola, já não Numa sociedade dividida em classes, em que tudo de-
serão suprimidos com boas palavras, proclamações solenes, pende do lucro, numa sociedade cada vez mais dominada por
algumas disposições regulamentares que não acabarão com alguns grandes monopólios rotulados pudicamente de multi-
as classes. Se pretendem suprimir os ciclos sem abolir a divi- nacionais para indicar que, na realidade, não pertencem a
são da sociedade em classes, a verdade é que eles se recons- qualquer nação, o ensino envereda por formações utilitárias,
trurrão de forma mais encoberta: seções fortes e seções curtas, diretamente utilizáveis e rentáveis na empresa — e
fracas, seções apuradas etc. baratas; o patronato pondera sempre a fm de diminuir as
O que há de negativo na escola culmina na separação despesas da educação. Uma especialização restrita, uma for-
em ciclos, isto é, o ensino como segregação. Os ciclos não ça de trabalho parcelar, reduzida à perícia indispensável. A
correspondem ao insucesso de alguns indivíduos, mas sim a escola transforma-se numa máquina fornecedora de profis-
estruturas destinadas a eliminar os alunos vindos do povo. É sionais especializados, de empregados subalternos. O capita-
bem verdade que o ciclo II reproduz os proletários, constitui lismo exige que a escola lhe forme trabalhadores que se
o sistema que lhes é peculiar e reservado. A promoção indi- saibam vulneráveis; espera-se, devido à sua formação restri-
vidual, um ou outro que escapa, que se defende, não é nisto ta, que não venham a revelar-se demasiado exigentes em
por certo que está a solução. matéria de salários, proporcionam-lhes o mínimo possível de
O ensino da presente sociedade é malthusiano e segre- instrumentos intelectuais que os ajudem a questionar o sis-
gativo, não apenas pelas desigualdades do destino escolar em tema — a começar pelos que nascem diretamente da qualifi-
que tanto insistimos, não apenas porque um terço de uma cação dentro do trabalho. Resumindo, tanto a quantidade
classe de alunos da mesma idade deixa todos os anos a esco- como a qualidade da mão-de-obra formada são determinadas
la sem profissão real, mas, mais fundamentalmente ainda, pelos interesses a curto prazo dos monopólios.
porque ele constitui uma adaptação às necessidades imedia- Evidentemente que os filhos do proletariado é que são
tas do patronato, dos monopólios, ao mesmo tempo que não reprovados, porém, o capitalismo torna de fato estas repro-
cessam de proclamar que ele visa o desabrochar do indiví- vações necessárias: se está prevista tal percentagem de mão-
duo. Lembremos uma vez mais que a Comissão da Mão-de- de-obra sem qualificação, torna-se indispensável que as clas-
Obra do VI Plano reclama comoreserva de população ativa: ses do ciclo III recrutem essa percentagem. Portanto, a escola
24% de profissionais especializados e de mão-de-obra não- primária deve segregar essa percentagem de alunos suficien-
qualificada; 43% de operários qualificados e de empregados; temente fracos e suficientemente atrasados para justificar a
33% de técnicos. Ao que a Comissão Escolar responde em sua passagem para estas classes. Papel seletivo, papel segre-
unissono prevendo que 25% dos alunos deixarão a escola aos gativo da nossa escola, seleção numa base social, seleção que
16 anos, o mais tardar; 40% no fim do segundociclo, isto é, vai eliminar a imensa maioria dos filhos de operários e de
pelos 18 anos — e queficarão, portanto, 35% para alimentar camponeses.

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Assim, sob a pressão do capitalismo monopolista de II — Asforças positivas já presentes na escola


Estado, na medida em que ela não pode escapar à pressão do
capitalismo monopolista de Estado, a escola acaba por parti- Mas a escola é também, e ao mesmo tempo, outra coisa
cipar na manutenção das relações de classe; reflete as divi- — e precisamente o contrário: para começaré a necessidade
sões sociais existentes, tende a perpetuá-las, até a acentuá- de uma qualificação capaz de responder ao progresso técni-
las; da mesma forma como tende a perpetuar o poderda clas- co, à revolução técnica, às constantes modificações técnicas.
se dominante. A escola não é capaz, só com o seu esforço, de Tarefas mais intelectuais de regulamentação, controle, ma-
separar a orientação que impõe aos alunos das forças que não nutenção, programação; e para muitos outros trabalhos,
param de provocar a segregação. complexidade do funcionamento das máquinas, precisão
Porisso as fórmulas frequentemente citadas e que con- indispensável, responsabilidade maior.
densam o peso da classe dominante sobre a escola: “para tal Daqui se conclui que o mundo atual não só proporciona
sociedade, tal escola; para uma sociedade não-igualitária, apoio a um aumento da escolaridade, como o exige. Para
uma escola não-igualitária; para uma sociedade em crise, fazer face às atuais exigências, impõe-se uma formação de
uma escola em crise; em suma, a sociedade de classe gera nível sempre mais elevado, uma formação geral polivalente
uma escola de classe”. Semelhante escola visa a simples re- dirigida a um conjunto cada vez mais vasto de trabalhadores.
produção da força de trabalho. É uma esperança para o po- E aí assenta a base objetiva das forças progressistas que se
der, um sonho de imobilismo. exercem sobre a escola.
Não se negará todos os casos em que a escola difunde a As reivindicações dos alunos transformaram-se numa
ideologia burguesa ou propõe uma cultura de diversão, uma das forças motoras da escola — e igualmente as reivindica-
cultura empobrecida — e também o caso mais insidioso em ções dos pais: umas e outras têm de ultrapassar o estágio de
que, sob a influência da ideologia burguesa, a escola opera utopia anarquizante para tomarem forma em organizações
escolhas, institui critérios que só podem desfavorecer os des- conscientes e responsáveis. É, na verdade, o que está a ponto
favorecidos, por exemplo no quese refere à bela linguagem. de se operar — e o acesso dascrianças de origem mais popu-
E é ainda deixando-se arrastar pela ideologia oficial que a lar ao ensino secundário e ao técnico desempenhou aqui um
“escola tende a excluir dos seus limites a experiência da cri- papel decisivo. O acordo entre as organizações de pais, de
ança em geral, a riqueza da experiência das crianças do povo mestres, de alunos e os reagrupamentos progressistas, sem-
em especial. Na medida em que não resiste à pressão da ide- pre foi considerado impossível pelos nossos autores, mas, na
ologia dominante, a escola desliza para o autoritarismo; a realidade, já começa a tomar corpo e constitui um dos nossos
palavra do professor não aceita discussão, o bom aluno é o motivos de esperança.
aluno submisso — e deste modo o preparam para a passivi- No projeto Haby, nota-se que o capítulo consagrado à
dade e para a dependência. O mestre converte-se na prefigu- regulamentação não menciona nem sindicatos, nem qualquer
ração do contramestre. organização representativa. O objeto da regulamentação, é o
indivíduo isolado, desarmado: sonho do poder, mas que já
não corresponde ao estado atual das forças.

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Enfim, a própria cultura, a cultura dispensada pela es- livre expressão pelos alunos do que lhes diz respeito e lhes
cola, está relacionada com a verdade e a luta por um mundo interessa, instituição de assembléias gerais em que todos os
mais verdadeiro; sabedoria, métodos de pensamento: a cultu- participantes possam exporo seu ponto de vista e assumiras
ra é um dos fatores que pode impedir a escola de pender para suas responsabilidades.
as classes dominantes — com a condição de que a pressão e Ão mesmo tempo tudo isto é falseado e muitas vezes
a experiência vivida pelas massas sejam um obstáculo ao anulado pela segregação que lhes impõem, pela ausência de
disfarce ou à insignificância do que for proposto. perspectivas e de escolha de carreiras — aquilo que desig-
É a pressão destas forças sobre a escola quea tira da namos como descolarização.
ação da classe dominante; é por ela que os mestres se senti-
rão apoiados, escorados, que ganharão confiança — numa É pelo mesmo movimento que os trabalhadores avan-
profissão em que o risco constante é um certo tipo de soli- çam e fazem a escola avançar. São os trabalhadores que rei-
dão, e, portanto, a tentação de se refugiar na abstenção ou na vindicam, para os seus filhos, uma escola realmente aberta a
amizade exclusiva com os notáveis. São as reivindicações todos; a sensibilidade às injustiças da escola torna-se mais
das massas que ajudarão os docentes, simultaneamente, a aguda paralelamente com a convicção de que é possível uma
contestar este funcionamento da escola e a manter a sua con- outra sociedade. São os trabalhadores que reivindicam a
fiança nela. Em decorrência delas tomarão consciência do compreensão e o domínio daquilo que executam. Aspiram
laço entre as condições do progresso escolar e a exigência do dominara técnica em lugarde se deixar escravizar por ela —
progresso social. Não é o professor que assume o papel do e pressentem que uma formação mais avançada os ajudará: a
patrão, mas sim o poder e por conseguinte as estruturas soci- educação como meio de defesa contra o trabalho parcelar e
ais impostas pelo poder. O mestre pode manter-se a uma desqualificado, visto que presentemente a ciência passou a
distância maior ou menor do poder. ser força produtiva direta.
Portanto, para se imprimir à escola um sentido progres- Os trabalhadores não ignoram que um aumento cultu-
sista — e a tarefa primordial é aqui a oposição à comparti- ral, e também um maior domínio dos instrumentos e técnicas
mentação — temos pontos de apoio reais, pontos de apoio da cultura, lhes permitirão compreender melhor o mundo e
em condições de sustentar a nossa luta, desde que esta seja lutar com maioreficácia: é preciso saberler muito bem a fim
suficientemente intensa para neles se escorar. de poder explicar aos companheiros o que se leu, e atraí-los,
Aqui, como na luta social, são os desfavorecidos que convencê-los.
precipitam a situação — com a condição de prolongarmos,
intensificarmos, organizarmos os antagonismos: são os alu- NI — A escola como local de lutas
nos do ciclo WI que destroem o sistema; o seu fracasso arras-
ta o fracasso, o malogro da nossa escola; e a organização que Nenhum esforço pedagógico pode, na nossa sociedade,
se procura criar para eles no meio de múltiplas tentativas, suprimir os ciclos e instaurar a igualdade. Mas, paralelamen-
abre assim mesmo uma via autêntica: trabalho de grupo, pa- te, pode-se dizer que nenhuma das reivindicações operárias
pel representado pela atualidade, esforço para dar lugar à fundamentais pode triunfar dentro do capitalismo. No entan-

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to, em um como em outro caso, é essencial lutar: a luta é ção e a luta contra a exploração. A escola é, simultaneamen-
real, possível, necessária; lutar para dispor de professores te, reprodução das estruturas existentes, correia de transmis-
formados, classes pouco numerosas, não mais do que... alu- são da ideologia oficial, domesticação — mas também
nos porclasse, lutar para desmistificar as matérias transmiti- ameaça à ordem estabelecida e possibilidade de libertação. O
das, é ao mesmo tempo denunciar a incompatibilidade destes seu aspecto reprodutivo não a reduz a zero: pelo contrário,
objetivos com o poder atual e obter de imediato, sem qual- marca o tipo de combate a sertravado, a possibilidade desse
quer dúvida, alguns êxitos. Na escola como no mundo operá- combate que já foi desencadeado e que é preciso continuar. É
rio, os êxitos parciais são condições revolucionárias do esta dualidade, característica da luta de classes, queinstitui a
êxito, pois são elas que consolidam a combatividade. possibilidade objetiva de luta.
E se deixassem delutar... A fórmula utilizada por Brossard parece-nos justíssima
A escola é um local de luta, a arena em que se defron- quando ele declara que a escola transmite uma competência,
tam forças contraditórias — e isto porque já faz parte da es- mas dentro de limites. De limites, e não de um caminho to-
sência do capitalismo ser contraditório, agir contra ele talmente aberrante, totalmente desviado; o que prevê a ma-
próprio, criar os seus próprios coveiros. O patronato prefere neira de agir para acabar com eles. Entende-se pordialética
sacrificar a qualificação a assumir as despesas inerentes e, que cada contrário é penetrado pelo seu contrário, correndo,
sobretudo, os riscos sociais; o patronato prefere moderar a portanto, o risco constante de se perder arrastado por ele,
ciência. A partir do que a seleção escolar assim instituída não mas podendo igualmente encontrar nesse contrário o estímu-
só é injusta como é até contrária às necessidades da produção lo para a luta. A escola nem é um local de vitória, de liberta-
e trava ao mesmo tempo a extensão e a satisfação das neces- ção já assegurada, nem o órgão votado à repressão, o
sidades, portanto, da escolha de carreiras. instrumento essencial da reprodução; segundo as relações de
Segundo os trabalhos do Centro de Estudos e de Inves- força, acompanhando o momento histórico, ela é uma insta-
tigações sobre as qualificações, há, para o período de 1969 a bilidade mais ou menos aberta à nossa ação.
1975, excedentes de mão-de-obra nos dois níveis de mais
baixa formação e déficit, em relação à procura, no nível do Um exemplo bem simples de uma ação serrealizada.
curso liceal e acima dele. O que significa que a política esco- Baudelot-Establet constatam: “A definição de uma idade
lar do capital está em contradição com as próprias necessida- teórica ou normal é um meio (sublinhado no texto) para res-
des da produção capitalista — e esta contradição é essencial, saltar o fator do atraso, para organizar institucionalmente as
pois reflete o receio constante de uma sociedade pouco segu- suas consegiiências práticas: a eliminação das crianças vin-
ra de si enfrentar indivíduos demasiado formados, demasiado das do povo”.
lúcidos. Em um sentido, estamos de acordo com os autores: o
À escola não é o feudo da classe dominante; ela é ter- critério de idade desfavorece as crianças desfavorecidas, e de
reno de luta entre a classe dominante e a classe explorada; maneira bem mais incisiva ainda as que são de origem es-
ela é o terreno em que se defrontam as forças do progresso e trangeira; a decisiva importância prestada à idade é um
as forças conservadoras. O que lá se passa reflete a explora- meio de que a escola burguesa pode servir-se, de que efeti-

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vamente se serve, para excluir dos ciclos nobres as crianças tal, da luta contra a divisão em classes. Certamente, não cabe
do proletariado. à pedagogia fazer a Revolução; com toda certeza só haverá
Não basta afirmar que a escolha deste critério encerra uma sã pedagogia numa sociedade sã — e a nossa não o é.
grande parte de arbitrariedade e que seria absolutamente pos- Não apenas por esta razão evidente de que um poder conser-
sível admitir no 6º moderno alunos com dois anos de atraso, vador sempre se oporá a uma escola progressista e de que
em lugar de os encaminhar de forma quase automática para não é a escola quefará recuar o poder. Mas também porque o
os ciclos de transição. Baudelot-Establet têm razão ao de- nível de democratização do ensino não pode notoriamente
nunciar nessa arbitrariedade, naquilo que se afigura técnica e ultrapassar o nível de democracia do Estado: uma escola
pedagogicamente arbitrário, um alcance político. Foi a escola progressista tem necessidade de ser apoiada pelo conjunto de
que escolheu esse critério. cabe-lhe responsabilidade e neste uma sociedade progressista. É na medida em que as idéias
sentido é legitimamente acusada de aparar o jogo das classes progressistas vão conquistando largas camadas da popula-
dirigentes. ção, em que as forças progressistas se vão afirmando e im-
Mas a escola também comporta forças contrárias e se- pondo, que a escola pode, efetivamente, renovar-se sem
ria usar de parcialidade não as tomar em conta: já são nume- chocar a imensa maioria dos pais.
rosos os professores que chegaram à conclusão de que Uma escola progressista apoiada por pais progressistas,
determinado tipo de alunos levava mais anos do que os ou- isso não só significa que as condições de existência e de tra-
tros a chegar ao fim (não por estar marcado por um ritmo balho desses pais mudaram, como também que eles têm
diferente, mas porque vive em condições diferentes e desfa- acesso a novos papéis, que participam realmente na gestão
voráveis) embora fosse suficientemente capaz de o atingir. E das suas empresas; pois aí reside uma das “fontes da educa-
mesmo que a presença de crianças mais velhas na classe, ao ção”, como muito acertadamente diz Juquin. E acrescenta-
lado de determinadas dificuldades evidentes, se tornasse fon- remos que os pais assim formados estarão mais aptos a
te de diversificações e constituísse uma espécie de teclado educar os seus filhos e a apoiar os esforços de uma escola
mais extenso. Também os pais destes alunos perceberam que reconstruída para educar os seus filhos. Há, todavia, uma
havia algo de fictício na barreira de idades que lhes impu- relação entre a margem de autonomia de um operário dentro
nham. Existe, pois, todo um somatório de forças em que po- da sua empresa, a margem de autonomia que ele supõe ter de
demos basear uma ação positiva — e que se tornariam conceder aofilho e a margem de autonomia de que esse filho
imensamente mais poderosas se enquadradas num regime de dispõe perante o professor.
democracia avançada em que a gestão escolar fosse tripartida
(poder público, pais e alunos) e em que a expansão econômica IV — Autonomia do ensino pedagógico?
exigisse o desenvolvimento da qualificação de cada um,
mesmo dos que demoram um pouco mais para aprender a ler. Só o socialismo resolverá o problema — e como etapa
transitória de um conjunto de medidas simultaneamente
A luta pela escola nunca pode estar separada das lutas escolares e sociais que já caminham para uma democracia
sociais no seu conjunto, da luta das classes na sociedade to- avançada.

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Mas, mesmo no capitalismo, nem tudo é equivalente, aproveitar as possibilidades de progresso que apesar de tudo
várias políticas são possíveis em relação à universidade — e existem, e já no seio do capitalismo.
seria insensato considerar as diferenças como desprezíveis: A escola tem também a sua luta, não está inteiramente
uma política reacionária pode agravar, endurecer a diferenci- entravada pela necessidade social; não lhe assiste o direito
ação entre os ciclos, tornar cada vez mais estéreis os ciclos nem de se submeter, nem de se desculpar inteiramente invo-
em desvantagem; ou, ao contrário, embora a luta progressista cando a necessidade social. Há uma frente pedagógica que
não consiga tornar a escola única e unida — e isto é uma tem a sua especificidade. Se não a mantivermos, quem o
utopia na nossa sociedade — pode, pelo menos, diminuir a fará? Existe o risco, dos docentes descambarem na política,
distância entre os ciclos, valorizar e até vivificar os ciclos de menosprezarem o ensino pedagógico em proveito do
diferenciados e permitir aos alunos de cada ciclo o acesso, compromisso unicamente político.
apesar de tudo, a mais lucidez e combatividade. As modali- Para preparar uma pedagogia individualizada, preocu-
dades segundo as quais funciona a escola são o que está em pada com o progresso de cada um e, sobretudo, dos que têm
evidência numa batalha política constante. Repetiremos que dificuldade em progredir, é necessário, sem dúvida, contar
a solução da crise da pedagogia não virá da pedagogia; mas com o apoio de uma configuração social favorável; mas é
acrescentaremos que também não há avanço pedagógico sem preciso organizar os princípios pedagógicos da individuali-
progresso no próprio seio da escola, lutas pedagógicas, sin- zação. O docente dispõe ainda assim de uma margem de ma-
dicais e, finalmente, também políticas. nobra, pode ou não concentrar a sua atenção nos bons e
deixar os outros de lado, pode ou não valorizar mais certos
Depois de termos apreendido o entremear do pedagógi- tipos de sutilezas em que pressente perfeitamente que inte-
co no social, falta-nos agora encontrar a autonomia relativa ressarão, que favorecerão. Esta margem de manobra real-
do pedagógico às determinações sócio-econômicas, frisando mente utilizada, paralelamente com os limites que cedo a
bem que esta autonomia é muito menos um dado a ser cons- restringem, é uma das vias mais seguras de facultar aos do-
tatado do que uma conquista a ser realizada. Diz Hameline centes uma tomada de posição global.
que a educação é um empreendimento precário, um com- À instituição escolar não está povoada de fantasmas in-
promisso entre a função crítica e a função conformante, para conscientes, não é apenas a máscara dos mecanismos sócio-
não dizer conformista. Isto é certo desde que se repita inces- econômicos, tem também a sua vida própria.
santemente que esta autonomia relativa tem de ser mantida A autonomia do ensino pedagógico não é o ajustamen-
pela luta — e que esta luta pela autonomia do ensino peda- to de tal processo, de tal objetivo parcial, mas a busca de
gógico só pode tornar-se realidade se participar no conjunto uma pedagogia progressista e o esforço para deixar avançar,
das lutas das classes exploradas. num dado momento, tendo em conta as forças em presença,
Afirmar que a escola em relação à sociedade tem mar- tudo quanto possa avançar de pedagogia progressista.
gem de autonomia, é de certo modo inocentar os docentes e
pô-los ao mesmo tempo perante as suas responsabilidades: se Não podemoslargar os dois extremos da cadeia: revo-
o ensino é um ensino de inaptos, é porque não se soube lucionar o ensino, o que implica revolução social — e dar

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aulas todas as manhãs, tentando apesar de tudo melhorá-las e Pode-se hoje fazer mais do que denunciar, recusar? Por
que elas apóiem melhor os mais necessitados. É esta duali- um lado, o Estado não deixará desenvolver uma escola que
dade que caracteriza o ensino e que, em relação a cada pro- possa ameaçá-lo diretamente; e por outro, comandos que
fessor, psicologicamente falando, cria uma situação tão iriam dizer aos alunos — a começar pelos do ciclo HI —
difícil de agiientar. “vocês são explorados, revoltem-se, não aceitem mais este
Por exemplo, os esforços de uma pedagogia de apoio, trabalho”, redundariam num bloqueio em que até aquilo que
de compensação a favor das crianças em dificuldade — e os alunos poderiam esperar da escola se transformaria em
sabemos agora perfeitamente em que lado da sociedade, e fumaça. Tampouco no mundo do trabalho a atitude revolu-
maciçamente, elas se recrutam. Se a pedagogia de compen- cionária consiste em impedir o funcionamento da fábrica.
sação não se unir a um movimento capaz de também com- A única solução válida, o devido equilíbrio das forças,
pensar, modificar as condições de vida destas crianças, as é a união, a ação comum de todos que concordem em ultra-
carreiras ao seu alcance,a situação e as perspectivas familia- passar uma primeira etapa e chegar a um estágio intermediá-
res, é evidente que essa pedagogia não passará de letra morta rio da democracia avançada; e é a própria expressão desta
ou até nem chegará a existir. Torna-se suspeita de má fé a democracia avançada que convencerá a grande maioria dos
prática de certas pedagogias de compensação, nomeadamen- franceses da necessidade de ir mais longe, mais longe rumo
te nos Estados Unidos; os insucessos do que foi assim em- ao socialismo.
preendido limitando-se ao simples escolar e limitando, aliás, Em relação à escola, significa isto que a luta contra a
o esforço escolar a medidas parciais, que nem sequer iguala- segregação social é a questão prioritária. Exigirá medidas
va as escolas dos pobres e as dos ricos. Esses insucessos ser- imediatas, decisivas, simultaneamente com um esforço pro-
vem, portanto, aos que pretendem negar à escola qualquer longado. O que significa que esta luta já está travada, embora
possibilidade de realizar, antes da Revolução, qualquer pro-. o resultado final só seja atingido à custa das transformações
gresso. O problema dos ciclos III é o problema dos profis- sociais essenciais.
sionais especializados: o seu número, a sua sorte, o seu
futuro, o seu desaparecimento. V — Voltando uma vez mais aos nossos autores
Mas ao mesmo tempo essas crianças são umarealida-
de, aguardam, e aguardam também alguma coisa de nós. Os nossos autores tiveram o mérito essencial de denun-
Vamos dizer-lhes que aos 15 anos a sua vida e as suas espe- ciar a função reprodutora da escola. O seu êxito prova como
ranças já estão mortas? Vamos aconselhá-las a atear fogo às a escola é classificada de opressiva tanto pelos alunos quanto
estruturas? pelos professores, mas fizeram-no numa tal perspectiva que
Mesmo assim, dentro da escola, dia a dia, obstinadamen- vedam a possibilidade de luta pelo avanço da escola; Illich
te, alguma coisa se passa — e que pode aumentar a confusão de forma definitiva; Baudelot-Establet, e também, embora
destes alunos, que pode também lhes abrir uma perspectiva. menos abertamente, Bourdieu-Passeron, até à revolução. Há
muito de justo, e num sentido tudo é justo no que afirmam os
nossos autores acerca do papel segregativo da escola; mas

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

tudo é falso, tudo é falseado pela atmosfera de impotência, A burguesia pode muitíssimo bem recuperar alguns
de abandono que envolve as análises; tendo aprendido bas- fragmentos marxistas e até a noção de que a escola é uma
tante com os nossos autores, estamos, todavia, insatisfeitos escola de classes, com a condição de deformar o marxismo
com aquilo que nos ensinaram. num senso fatalista e numa visão apocalíptica: “até agora
Descrevem a escola inteiramente nas mãos da burgue- nada serviu para nada, até agora a escola fez mais mal do que
sia. Os professores se reduziriam a meros agentes de execu- bem”. Por certo, um dia virá a revolução e tudo sofrerá uma
ção de uma gigantesca manobra de divisa, de exploração: "metamorfose. Entretanto, o marxismo pode estar em moda
eles são nada mais nada menos — o seu papel não admitiria na alta sociedade com a condição de ser apresentado como
outra dimensão — do que cães de guarda da burguesia. impossível, apenas propondo o impossível: tudo isso seria
A classe operária aparece como se nuncativesse tido a muitíssimo belo, mas tão improvável, tão remoto, tão pouco
mínima força de resistência, sem nunca ter conseguido pesar relacionado com a vida tal como ela se apresenta no dia a
no sistema, sem nuncater obtido qualquer coisa de real. To- dia! Isto não é mais do que tentar separar o marxismo da luta
das as ações precedentes se reduzem a zero. Quando a luta de classes. Aliás, Marx havia explicado perfeitamente que
de classes é desprezada, desaparece a confiança nas massas. não descobrira a existência de classes, já afirmada por vários
Desmobilização, desmoralização, culpabilização dos do- historiadores burgueses, mas sim a luta de classes e como ela
centes: “sou um inapto, não passo de um inapto”. A escola abre caminho para uma sociedade sem classes.
fica presa na irrevogabilidade das determinações sociológicas. Há necessidade de se revolucionar a sociedade atual, a
Fazem-nos depender de uma espécie de predestinação escola atual; o que não significa que tudo nelas seja destruí-
pelo social: o insucesso do pobre parece normal, garantido, do. A revolução não significa voltar ao zero, como se fosse
evidente; e todos os filhos da burguesia são votados ao êxito, possível começar por criar uma nova raça de homens puros;
pois todos eles têm pais que os levam ao museu, que se inte- é levar até ao paroxismo os elementos positivos hoje em
ressam pelo trabalho escolar, que sabem comunicar à sua ação. Chamamos comunismo ao movimento real que anule o
progenitura esse interesse que eles próprios sentem. A crian- Estado atual; as condições deste movimento resultam de
ça burguesa não tem nenhum problema. É a biblioteca cor- premissas presentemente existentes. E é por este movimento
de-rosa e a Condessa de Ségur, sem dúvida, invertidas, visto já ter marcado pontos que se pode incrementá-lo até sucessos
que o bom aluno só triunfará para melhor explorar os seus decisivos.
semelhantes. Mas continua a ser uma biblioteca cor-de-rosa.
Declarando nulo tudo quanto se passa nas escolas e in- De nossa parte, apelamos para uma luta em duas fren-
teiramente ineficazes as reformas escolares operadas, atribui- tes: contra os que pensam e, sobretudo, proclamam, que a
se ao patronato uma perfeita e boa consciência: por que seri- democratização do ensino está em vias de se realizar de ma-
am as instituições patronais ou a aprendizagem direta ou a neira simples e lisa, sem esforço e sem choque, dos que não
entrada imediata para o trabalho piores do que a escola assim percebem de quanto as melhorias são parciais, fragmentárias,
evocada? incompletas, constantemente postas em questão pelas condi-
ções de vida globais e pelas regras de funcionamento da nossa

HO 11
GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

sociedade. Não cairemos na ilusão reformista confiante em Aí reside a base objetiva da nossa luta, com a condição de
que uma série insensível de modificações pode conduzir ao sabermos organizar essas forças e uni-las a todas as outras.
alvo. Tem razão Juquin ao afirmar que a escola não se modifi-
cará com pequenas reformas parciais: trata-se de operar “uma É raro, atualmente, encontrar um autor que pregue aber-
ruptura e de tornar assim possível uma outra lógica”. tamente uma escola não-unificadora e que justifique a divi-
Mas, igualmente contra aqueles que afirmam a inexis- são do sistema escolar em seções logo de início diferenciadas
tência de qualquer progresso, visto evidentemente, não se ter de acordo com o público a que se destinam.
suprimido a situação oposta das classes exploradas das clas- Vermot-Gauchy (L'Education Nationale dans la Fran-
ses dominantes, contra os que negam toda validade à escola ce de Demain) exige que se mantenham as vias de ensino
enquanto subsistirem as estruturas da sociedade atual, Nem oficial, estruturalmente distintas. Não estamos longe de
sequer se porá a questão de saber como, em que condições, Maurras. O ensino deve ter em conta o meio social e familiar
através de que modalidades, podem as vanguardas, eviden- dos alunos, as aptidões adquiridas por uma criança pelo fato
temente limitadas e comportando até planos mistificativos de pertencer a um dado meio; o ensino deve corresponder às
(pensamos no embrião do tronco comum), contribuir, toda- características médias que as crianças adquiriram pelo fato
via, para uma tomada de consciência progressista. Despre- de pertencerem a um meio geográfico, social e familiar. O
zando-se o lado positivo da escola, os meios de luta serão primeiro imperativo da escola é não desenraizar a criança.
ignorados; não se pode pensar em desenvolver forças liber- Tudo isto para afirmar que há tipos de ensino melhor
tadoras que, de antemão, se declara estarem totalmente au- adaptados às características e aos desejos das crianças vindas
sentes da escola. de meios modestos ou pouco cultivados. E se tais crianças
Nos dois casos, a luta pela escola, a luta de classes na têm dificuldade em triunfar no liceu, isso só prova que de-
escola, é excluída. vem deixar o liceu âqueles que lá se sentem à vontade, preci-
Não se trata de dizer que a escola não vai tão mal as- samente a clientela saída de meios abastados e cultivados.
sim; que devemos conservá-la com algumas modificações. A O desejo intenso do tradicionalismo de conservar as
escola é um escândalo, o ciclo III é um escândalo — e a todo coisas como estão, de não ofender de forma alguma a socie-
instante se expõe a escola a ser apenas o que são as suas ta- dade tal como ela se apresenta, procura apoio num duplo
ras, a permitir que a classe dominante a abafe cada vez mais imobilismo: fixidez das estruturas sociais, das quais nos di-
a ponto de reduzi-la às suas taras e só a elas. zem tratar-se de realidades principais, o que significa que
E um perigo constante, mas que esbarra em resistências não se pode nem pretender tocá-las: elas não se amoldam ao
constantes — e por isso mesmo não se deve recusar em con- sabor dos sistemas que se podem conceber; fixidez das apti-
junto toda a escola por ela conter ciclos e segregação. As dões inerentes a cada categoria de crianças, que foram mar-
forças de renovação da escola, de revolução da escola, já cadas pelos seus estilos respectivos — e isso desde a mais
existem, elas agem dentro e fora do recinto escolar. Aqui tenra idade.
como em qualquer outro lado estas forças não são forças O nosso autor bem reconhece que as aptidões são re-
triunfantes, mas forças exploradas, a força dos explorados. sultantes de um meio de vida, mas conclui daí a necessida-

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GEORGES SNYDERS

de de admitir e de conservar estas aptidões como se apre-


sentam, precisamente a fim de manter os meios tal como
eles são constituídos. Traduzindo: as classes sociais como
elas existem.

SEGUNDA PARTE

O COMBATE NÃO PRINCIPIA


POR FALTA DE COMBATENTES

Gostaríamos agora de interrogar os nossos autores se-


gundo outra perspectiva: não a escola já compartimentada,
diferenciada e diferenciante, mas considerando-a no seu to-
do, será verdade que apenas conduz ao servilismo? Será ver-
dade que não fornece nenhum combatente à luta de classes?

CAPÍTULOI

ILLICH — A ESCOLA PREPARA PARA O


SERVILISMO?

Para não nos perdermos em discussões, principalmente


para estarmos em condições de distinguir entre o sistema
escolar e as ramificações propostas por Illich em sua substi-
tuição, é essencial discernir por que caracteres define Illich a
escola.

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

PRIMEIRO TEMA: do trabalho, tudo que os adultos conquistam pela experiência


Escola, não-escola, antiescola do trabalho, é excluído da educação.
Os autodidatas são os que não respeitaram a regra do
I— O que vem a ser uma escola? jogo, a regra da escola: aliás, são duramente punidos e postos
de lado.
A escola é um lugar especial, nitidamente circunscrito, Assim, a escola mostra a mais paradoxal das preten-
onde se reúnem os jovens agrupando-os — ou antes, sepa- sões: preparar para o mundo cortando os contatos com o
rando-os por categorias etárias, e também segundo o seu mundo, contendo, mantendo o mundo à distância. Ela não
passado, os estudos que já fizeram; são submetidos à autori- pode, pois, ir além de uma detenção dos jovens, com tudo
dade dos professores, a partida não se joga entre parceiros quanto este termo implica de tristemente penoso, de enfado-
iguais; é obrigatória a presença e trata-se da presença em nho — inevitável desde que a escola afaste a educação da
tempo integral, numerosas horas por dia durante numerosos realidade; desde que o sistema funcione em circuito fechado,
anos. É necessário seguir programas pré-estabelecidos, deve- só para si, sem conseguir, sem querer tentar, estar de acordo
se aprender o que consta do programa, não aquilo que se com o conjunto dos comportamentos.
deseja; é em relação a esse programa que serão avaliados,
medidos os resultados atingidos. Assim uma planificação de A escola exige, portanto, que estes súditos trabalhem
conjunto rege a marcha do sistema. diferentemente de todos os outros indivíduos, vivam diferen-
Enfim, o período de ensino na escola deve processar-se temente, sejam tratados diferentemente; como consegiiência,
antes do trabalho produtivo, independentemente deste e de vão formar uma espécie à parte, à qual será imposto um esta-
um modo absolutamente diferente. Equivale a dizer que a tuto especial, o estatuto de ser criança. A escola só consegue
escola representa um recinto muito especial, em que deixam existir transformando em crianças aqueles a quem se dirige;
de ter cabimento as regras da vida vulgar. A partir disto Illich o modo de existência inerente à escola só pode ser imposto a
vai desenvolver umacrítica que ele considera radical. criaturas encaradas particularmente: elas constituirão a cate-
goria das crianças. Ou seja, a infância, tal como hoje a co-
Desde que a escola exista, exige o monopólio; obstina- nhecemos, como a qualificamos, é uma consegiiência da
se em conservar os jovens afastados tanto do mundo da pro- escolaridade e mais ainda da escolaridade obrigatória e
dução como pura e simplesmente do mundo: um único lugar prolongada.
recebe todos os privilégios e nesse lugar aprende-se. O que Porém, esta infância assim estabelecida, é uma criação
significa que tudo quanto se passa fora dele, desde as experi- artificial visto que durante séculos a criança viveu entre adul-
ências vividas na rua até às emissões da televisão, passando tos, partilhando a sua experiência, os seus trabalhos e as suas
pelos elementos da vida familiar, é considerado indigno de alegrias; ela formava-se insensivelmente, com muito menos
contribuir para o ensino — e seria de natureza inferior. E despesa, muito menos dificuldades, em contato com a vida
tudo quanto as crianças poderiam adquirir pela experiência cotidiana. É uma criação que empobrece, visto se pretender
que a criança só tenha relações, pelo menos relações seguidas

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

e consideradas como educativas, com um gênero tão insólito segredos da vida privada dos alunos; entende ser seu dever
de adultos: o dos que foram consagrados como docentes. E influir em toda a sua existência; diante desta força investiga-
uma criação perigosa, pois essa criança, que deste modo se dora, o aluno não pode contar com nenhuma proteção. A
quis isolar dos conflitos do mundo, paga esses poucos anos de escola sonha com uma modelagem totalitária, é no sentido de
segurança, ou pelo menos de tranquilidade relativa, com a sua uma escola totalitária que ela, como pelo seu próprio peso, é
inexperiência e a sua imaturidade. A ponto de os estudantes arrastada.
acabarem por comportar-se como crianças pequenas. Deste modo, a escola escraviza mais o espírito do que a
família, precisamente pelo seu caráter sistemático e organi-
Na realidade, o que se pretende com este método, é O zado; pois que ainda é uma escravatura em que nada foi dei-
meio de subjugara criança. Subordinação do aluno, fraqueza xado ao acaso. A iniciativa pessoal, a capacidade e a alegria
suscitada simultaneamente pelo seu estatuto discriminatório de assumir responsabilidades, de agir e de pensar porsi pró-
e pelo funcionamento inerente ao sistema escolar. O ser de prio, de crescere de dirigir o seu crescimento são incompatí-
que a escola necessita não possui nem independência nem veis com o sistema escolar.
motivos para crescer porsi próprio. Resumindo, a fregiiência à escola e o hábito da disci-
É submetido ao julgamento de um outro, é esse outro plina escolar só podem conduzir a uma atitude servil. Porque
quem irá determinaro que ele deve aprender, em que altura o é um só e único treino que verga o indivíduo à deferência
fará — e que se julga habilitado a avaliar se ele o conseguiu silenciosa face à rotina da escolaridade, à monotonia da se-
aprender. É outro a elaborar o programa; só lhe resta absor- cretaria, ao respeito pelo relógio e pelos horários. Ter estado
ver o que lhe prepararam, e precisamente da forma como o submetido durante anos ao modo de vida escolar, ter apren-
fizeram, só lhe resta o papel de consumidor, com toda a pas- dido a manter-se calado na escola, ter o hábito de disputaros
sividade e inércia que o tempo implica. O professor ordena, favores do burocrata que preside, é a melhor garantia, para
os alunos obedecem e assim aprendem a hierarquia, o respei- os futuros patrões, de abstenção de qualquer tentativa de
to e a ordem, em toda a acepção da palavra. A escola é o subversão contra a ordem estabelecida.
local onde serão moldados para suportar as coisas desagra-
dáveis sem queixas e sem críticas. Logo, objetam a Illich que as universidades represen-
tam precisamente os locais onde o questionar da sociedade
O mestre sente-se investido de um poder ilimitado; assume mais vivacidade, por vezes mesmo maior violência.
menos como direito material do que como domínio espiritu- Hlich sustenta que elas não constituem adversários verdadei-
al. O drama, é que quanto mais a sério leva a sua tarefa, mais ramente perigosos, em relação à ordem estabelecida, porque
se considera encarregado de uma verdadeira missão; persua- a universidade só concede essa liberdade, da contestação, aos
de-se de que não só lhe compete desempenhar um papel de que anteriormente iniciou, aos que formou, isto é, despoja-
professor, como ainda uma função de ajuda, de conselho, de dos de fato de iniciativa e de responsabilidade. Representam
diretor de consciência — e finalmente arvora-se em terapeu- uma comédia, aliviam as suas consciências dilaceradas, mas
ta. À partir de então atribui-se o direito de penetrar até nos

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

são perfeitamente incapazes de levara sua crítica até o ponto verdadeiro atentado à sua legitimidade. De fato, para mais
de ela se transformar em ação revolucionária. facilmente triunfar, Illich imobiliza a escola na fase em que
se encontrava antes do grande impulso da educação perma-
II — Da boautilização possível de Hlich e dos seus nente — e que já não é o atual.
limites É exato, e seria esse o lado verdadeiro de Illich, que a
educação permanente conduz a escola a uma profunda mu-
A escola, tal como nos é apresentada por Illich, é sem- dança — e Illich pode ser interpretado como um aviso de
pre a escola tal como é ou comose arrisca a ser quando se que essa mudança deve avançar até onde um mesmo con-
deixa engolir totalmente pelas tendências mais conservado- junto venha a integrar igualmente a educação dos que não
ras que efetivamente encerra. É a escola bloqueada no seu estão ou já não estão escolarizados. Esta renovação não
estágio mais reacionário: uma escola que ignora, quer igno- passa ainda de um esboço, mas é falso negar-lhe a existên-
rar, tem necessidade de ignorar, sob vários pontos de vista, a cia, ainda mais falso considerá-la, de antemão, inconciliável
contribuição progressista do século XIX e do XX, desde com a escolaridade.
Madame Montessori até Oury — e muito mais ainda os ru-
mos tomados pela pedagogia socialista. O interesse que para Desta forma,Illich participa em certas mistificações em
nós apresenta Illich é o fato de nos advertir dos perigos que moda, e das mais reacionárias: diz-se que a educação dos
corre a nossa escola, abandonando-se a interesses conserva- adultos se desenvolve com muito mais eficácia quanto me-
dores, entregando-se à ideologia dominante. A nossa escola lhortiver sido o desempenhado da escola e os interessados
deve transformar-se fundamentalmente a fim de escapar a nela adquirido mais cedo o domínio das complexas estruturas
perigos que Illich denuncia com razão. de pensamento. A formação permanente não se contrapõe à
Mas o terrível limite de Hlich é ele proibir a escola de formação inicial, não a exclui; muito pelo contrário, ela até vai
operar esta mesma mudança que ele exige; e isto porque, na avançando à medida que melhor se apóia na formação inicial.
própria escola, ele não vê os elementos de renovação agindo Caso contrário, torna-se um logro: pretenderá simplesmente
efetivamente — e fora dela, distingue ainda menos forças dissimular dos pobres que excluíram da escola os seus filhos
capazes de conduzir a uma revolução da nossa sociedade e — em troca da promessa de que amanhã será gratuita e que os
da nossa pedagogia. formarão realmente mais tarde, quando crescerem...

Nlich considera evidente que a escola esteja em radical Illich apresenta-nos a escola como universo fechado,
incompatibilidade com a educação permanente. Afirma que a recinto desligado do mundo, isolado na sua pureza fictícia e
escola, desde a sua existência, exige um monopólio absoluto nessa base pode perfeitamente indignar-se por ela pretender
e torna impossível, desvaloriza, qualquer esforço de instru- formar alunos dentro da realidade isolando-os dessa mesma
ção que aspire processar-sé fora dela, tanto a educação dos realidade. Apresenta-nos como intrínseco da escola que os
autodidatas como a dos adultos. A escola tende a transformar alunos não disponham de qualquerdireito, não possam tomar
toda a educação extra-escolar num acidente, ou mesmo num qualquer iniciativa e que nunca ponham à prova a sua res-

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ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES
GEORGES SNYDERS

de escola paralela, é a possibilidade constante de o professor


ponsabilidade. Poder ilimitado do professor e dependência
responder ao aluno e de retorquir à sua resposta e assim por
humilhante dos alunos. A escola seria o local onde necessá-
diante. Na realidade, na nossa época, a sociedade em crise já
ria e eternamente a criança é o oposto do adulto, só é defini-
não pode apresentar aos jovens uma imagem suficientemente
da pela sua oposição ao adulto — só lhe cabendo em
coerente, suficientemente firme para suscitar uma comunica-
quinhão defeitos, coisas inacabadas, uma vez que todas as
ção viva. Não o fim da escola, mas sim o desta escola que
perfeições cabem aos adultos.
Ainda aqui, para assegurar um sucesso fácil, Ilich pe-
esta sociedade já não consegue manter.
Mesmo deixando de considerar os ciclos diferenciados,
trifica a escola na sua forma caricatural. Ao constatar — o
encarando a escola no seu todo, há certa ingenuidade em
que é autêntico, que uma tal escola não consegue hoje fun-
pensar que ela será, porsi só, libertadora. É essencial tomar-
cionar validamente, isto é, favorecer a evolução pessoal e
se consciência da modelagem ideológica e constante que ela
coletiva dos alunos, ele pretende concluir pelo fim da escola,
exerce e das tensões que percorrem as relações entre mestres
de uma escola eterna, imutável, quando afinal é ele que a põe
e alunos. Mas não é menos ingênuo, ou antes, obedece à
nesse pé. Passa em silêncio a ação de todos aqueles que co-
mesma ingenuidade, simplesmente em sentido inverso, recu-
meçaram a fomentar a comunicação entre o universo escolar
sar-se a ver o que há de específico e de original na ação da
e o universo do cotidiano; inquéritos conduzidos no exterior,
escola e, lá porque é preciso chegar à hora certa, assimilá-la
redações livres em que o aluno refere o que viu, diário esco-
sem mais nem menos à fábrica, por também marcarfaltas.
lar redigido pelos alunos para ser divulgado fora da escola,
cooperativa escolar. E também os que introduzem na escola
SEGUNDO TEMA:
instituições que asseguram autonomia e responsabilidade aos
Existirá o marxismo?
alunos: assembléias gerais onde ao mesmo tempo os jovens
se exprimem e tomam decisões, com o professor em busca
Nãose pode deixar de notar que Jllich trata a pedagogia
de um papel de renovação, em que surja como um ponto de
marxista com desprezo. Não leva o ensino politécnico em
apoio sólido — e jamais como um ditador.
consideração, nem para o criticar; mesmo que a ele caiba o
objetivo de unir o modo de vida escolar e o modo de vida
Já tivemos ocasião de explicar aquilo em que estes es-
produtivo, ligando-se a produção dos jovens à produção das
forços nos parecem relevantes — e não obstante, as insatis-
massas: por consequência temos a escola e a ligação ao
fações que persistem; não voltaremos ao assunto. Mas é
mundo; ou antes, é precisamente pela escola que se constitui
preciso dizer de que maneira, até que ponto, a reflexão de
a ligação ao mundo. Silencia em relação a Makarenko que
Hlich sobre a escola põe de lado tudo isso que causaria engu-
procura tornar realidade o acordo entre a orientação do pro-
lhos às descrições unilaterais, até que ponto ela é metafísica,
fessor e a iniciativa dos alunos; Illich prefere declarar os dois
por oposição a toda consideração de ordem histórica. Nunca
termos irremediavelmente contraditórios. A escola é um
a si próprio ele pergunta porque é hoje tão difícil o diálogo
mundo em que a hierarquia e a autoridade têm lugar assegu-
entre professores e alunos, quando precisamente o que define
rado. Makarenko pergunta a si mesmo em que condições esta
a escola, contrariamente à televisão ou a outras formas ditas

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

autoridade pode deixar de ser opressiva — e os fatores peda- valor, o que implica uma sociedade que ponha em pé de
gógicos postos em jogo remetem para o sentido e para a fun- igualdade trabalho manual e trabalho intelectual — e que
ção que assume, em tal sociedade, a autoridade nos seus dispense ainda plena consideração às atividades de cidadão.
diversos estágios. Illich põe em cena um bloco enorme e
impossível de trinchar, a autoridade do professor, destinada O fato de se tratar de uma escola não significa que este-
através da eternidade a esmagar a menor veleidade libertado- ja fechada ao mundo exterior: tal escola está adaptada a tal
ra por parte dos alunos. fábrica, a tal escritório; os empregados ou os operários pas-
sam parte do seu tempo livre com a sua classe ou preparando
Hlich obriga-nos a formular duas espécies de pergun- atividades destinadas à sua classe. E assim não apenas tais
tas: a escola conduz à passividade servil? Toda escola con- adultos, a título individual, como as instituições adultas, par-
duzirá à passividade servil? Na nossa sociedade a escola já ticipam cotidianamente na vida da instituição escolar.
contém forças positivas e há luta de classes visto que elas se O professor interpreta um papel de guia, o que não sig-
chocam com o seu oposto, quer no interior, quer no exterior nifica servilismo da parte dos que aprendem. Pois entre ele e
da escola. A escola soviética contemporânea, tal como surge os outros intercala-se o grupo: o coletivo dos alunos, a clas-
através das descrições de Urie Bronfenbrenner, o tão conhe- se, a escola, os coletivos extra-escolares. Em princípio é a
cido sociólogo americano, poderia mesmo assim ter propor- coordenação dos desejos e das atividades — e pouco à pouco
cionado ao nosso autor elementos capazes de subverter a o grupo começa a viver a sua própria vida, torna-se senhor
representação que ele nos propõe da escola. de si; sem que isto exija que a experiência dos mais velhos
Certamente, a escola continua a ser um local de compe- seja desperdiçada. O trabalho toma a forma de um empreen-
tição, e a avaliação dos resultados existe. Mas a competição dimento elaborado por toda a classe. Os alunos acabam res-
implica todos os aspectos da atividade e da conduta, e não ponsáveis pela apreciação dos resultados, são eles que
apenas aquilo a que habitualmente se chamam resultados es- procuram solucionar as dificuldades de trabalho ou de con-
colares, mas igualmente o esporte, o trabalho manual e ainda a duta quando elas surgem na vida da classe.
forma como o aluno sabe tomar iniciativas na vida corrente e É existindo umavida intensa e autônoma no grupo que
assume as suas responsabilidades cívicas, por exemplo em o adulto pode traçar as linhas diretivas da ação sem cons-
relação aos mais jovens da sua escola: brinca com eles, ensi- tranger os alunos a uma obediência passiva — e é por o gru-
na-lhes novos jogos, ajuda-os nos seus trabalhosetc. po ter sido progressivamente formado que é capaz de tais
A própria extensão da competição suprime o inconve- efeitos. Do que Bronfenbrenner dá um exemplo característi-
niente essencial: nenhuma criança é posta de lado, cada uma co: um aluno desleixa-se na matemática. Instigada pelos alu-
descobre o campo em que se pode afirmar. Tínhamos encon- nos-monitores, toda a classe se reúne para discutir o seu
trado um esforço semelhante na pedagogia institucional de caso. O próprio aluno não vê nada de especial, mas o grupo é
Oury. Mas, para que tal intenção alcance o seu fim, é neces- de opinião diferente. Dois colegas oferecem-se e serão encar-
sário que o professor pense e convença os alunos que os di- regados de o vigiar a fim de que ele não esqueça os seus de-
ferentes setores da atividade possuem efetivamente o mesmo

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

veres e as suas lições. E o chefe da turma conclui: “Eles nos pes: as honras cabem ao grupo. Quando é concedida uma
dirão quanto você for capaz de trabalhar sozinho”, recompensa a um indivíduo, o que sucede bastante fregiien-
Há nisto uma síntese muito importante de ajuda, de temente, o motivo é indicado da seguinte maneira: “Tal alu-
trabalho em comum e de vigilância que, pelo menos de iní- no ajudou este outro, e graças a esse auxílio mútuo a equipe
cio, está longe de corresponder ao desejo do interessado — não se atrasou”. Assim cada criança aprende a fazer coincidir
e, contudo, ela é necessária ao seu progresso. A conciliação é o seu interesse com o da coletividade em que se integra, ao
possível numa sociedade em que o grupo não for encarado mesmo tempo que aprende a fazer parte de coletividades
como o contrário do indivíduo, que ameaça esmagar o indi- cada vez mais complexas: os resultados a que pode aspirar
víduo, mas como um meio defensor e aberto; o grupo escolar dependem do nível alcançado pelo conjunto. E é a coletivi-
só pode adquirir semelhantes virtudes pela formação que ele dade dos seus companheiros que a educa, a critica, a recom-
mesmo recebeu do conjunto de grupos que se desenvolvem pensa e, sobretudo, a apóia em caso de fracasso.
no país — e aí se justifica a intervenção do professor. Se o quadro de honra citar efetivamente o melhor gru-
po, cada um passará a preocupar-se com os que ameaçam
A intensificação da vida do grupo reside simultanea- comprometer o êxito comum. Ao professor compete ampliar
mente na progressiva aquisição da autonomia dos alunos em as dimensões desta solidariedade fazendo que dela se adquira
relação ao professor e no exercício da solidariedade: é o pró- uma consciência mais nítida, de forma a estabelecer-se um
prio sentido da coletividade, do coletivismo, do comunismo laço entre os alvos da classe e os de um país a caminho do
que é posto em jogo no desenrolar cotidiano da vida escolar. socialismo. E, contudo, não se trata de dinâmica de grupo,
É pela vida do grupo que a competição escolar (de que pois o mestre contribuiu para formar o grupo e os critérios
acabamos de explicar como e por quê pode estender-se a do grupo dos alunos são, no seu todo, os do adulto.
todos os domínios) perde o seu caráter egoísta, conservando
o seu papel estimulante e preventivo frente aos resultados Para Bronfenbrenner, é nisso que reside a dificuldade e
atingidos: a competição processa-se entre os diversos coleti- ele se interroga sobre que solução existe no caso em que o
vos (equipe, classe, escola, cidade, região) e não entre indi- caminho escolhido pelo grupo se afaste ou se oponha ao que
víduos: pelo que se pode manifestar em união, em vez de preconiza o professor; quase se sentiria decepcionado se tais
cair no orgulho do individualismo. Bronfenbrenner ilustra divergências não surgissem e ao mesmo tempo não vê como
com numerosíssimos exemplos como os valores de grupo podem ser, neste caso, neutralizadas.
passam ao primeiro plano: desde a creche que se habituam as Nem tudo está resolvido, longe disso; pelo menos vis-
crianças não só a entreajudarem-se como a inscreverem-se lumbramos um caminho que nada tem de comum com a es-
em atividades coletivas; e igualmente em divertimentos que trutura artificial e subserviente que Illich se compraz em
aludam sem cessar à propriedade comum: “O meu é o nosso, descrever sob o nome de escola.
o nosso é o meu”.
O quadro de honra deixa de ostentar o nome de certos Esta unidade da criança com o seu grupo, esta unidade
alunos como indivíduos, mas o das patrulhas ou o das equi- sucessiva e cada vez mais ampla dos grupos entre si, esta

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

unidade das esperanças da sociedade adulta e dos projetos Na realidade, para nos referirmos apenas ao caso da
elaborados pelos jovens, mesmo que ainda surjam confrontos França, choca a extrema modéstia — é o menos que se pode
e contradições e, até, se não for possível admitir que estes dizer — que caracteriza a cobertura escolar, até mesmo a
acabem por completo, só serão possíveis numa sociedade em famosa explosão escolar. De acordo com os dados estatísti-
que o motivo fundamental das oposições for ultrapassado — cos elaborados sobre o contingente de 1965, 1,5% dos recru-
oposição dos indivíduos entre si como oposição das classes tas não sabem ler nem escrever; 25% sabem ler e escrever
entre elas. E eis por certo a razão que leva Illich a preferir mas não têm certificado de estudos; 51% apresentam certifi-
não encarar este ângulo. Illich não vê, não quer ver, senão cado de estudos como único diploma; 11% são titulares do
indivíduos e então o indivíduo-mestre esmaga o indivíduo- BEPC! ou de um equivalente; 11% chegaram ao curso dos
aluno. Percebemos aqui que, pela via do grupo coletivo, o liceus ou foram mais além. Como se pode afirmar a sério que
aluno escapa ao servilismo sem tombarno anarquismo. o maior risco vem da saturação?
Quanto mais a escola é penetrada pelas influências soci-
alistas, mais vai rompendo com as taras que Illich denuncia. TERCEIRO TEMA:
Nem por isso ela deixa de ser escola. Será possível confron- Soube Illich interpretar a recusa dos jovens?
tar as descrições precedentes com o que Huteau e Lautrey
nos ensinam da vida escolar em Cuba: em cadaclasse, cada É exato que o sucesso de Illich, o enorme sucesso que
semana, uma assembléia de alunos estabelece decisões que alcançaram Illich e os seus seguidores, principalmente na
dizem respeito à vida da classe; e conta-se com a ação da França, mostra uma convergência entre as críticas que ele
coletividade para cada um tomar a peito as regras assim ela- dirige à escola e as acusações correntemente formuladas pe-
boradas em comum; se uma criança tem dificuldades em los interessados e ainda outros, contra o sistema escolar.
especial, vai esforçar-se por explicar ao grupo os motivos do Por isso a necessidade de desvendar, de decifrar as for-
seu comportamento a fim de que em conjunto procurem uma mas que assumem as rejeições dos jovens e de procurar a sua
solução. Ao mesmo tempo intervêm os professores que tra- significação profunda: nem as considerar como desprezíveis,
tam de orientar a discussão generalizando o caso. Levar os nem as tomar ao pé da letra como se fosse evidente que
alunos a exprimir-se evitando que um deles se torne vedete, conteúdo manifesto e conteúdo latente coincidissem.
evitar que o grupo tome como centro, como alvo, um aluno A recusa da escola por alunos do liceu e outros não de-
em particular; isto implica uma maneira inédita de interven- ve ser apenas vista como recusa da escola, mas como recusa
ção dos professores. de inserção social: ela volta-se, muito naturalmente, contra a
instituição que os jovens conhecem, de que eles experimen-
Ao ler Illich tem-se a sensação de que a mais grave tam diretamente o peso e os vícios. Porém, na realidade, o
ameaça, pelo menos nos países ricos e industrializados, é o que está em questão é muito mais vasto: a juventude interro-
crescimento da escola, o superdesenvolvimento da instrução: ga-se, interroga-nos, sobre se, por intermédio da escola, se
haveria um excesso de alunos, como haveria um excesso de
automóveis.
' Brevet d'Etudes du Premier Cycle.

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GEORGES SNYDERS
ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

prepara para se instalar numa sociedade que dela terá neces-


No seu inquérito sobre os liceais, G. Vincent mostra
sidade, que saberá apelar para ela, que lhe proporcionará o
com muita pertinência que se destacam duas direções ao ana-
ensejo de manifestar as potencialidades de que se sente por-
lisar estas reações de recusa: os jovens saídos dos meios fa-
tadora.
vorecidos têm tendência para declarar a sociedade absurda
ao passo que os vindos de meios mais modestos a qualificam
Tal recusa presta-se gravemente à mistificação, e espe-
de injusta. Onde ressalta não só uma diferença de visão, mas,
cialmente à mistificação illichiana, ao apresentar-se como
sobretudo, que os desfavorecidos é que são chamadosa as-
uma oposição de gerações, sem relação com a oposição de
sumir a direção da luta visto pelo menos vislumbrarem pos-
classes e mesmo inconciliável com ela: no momento em que
sibilidades de combater contra 6 que constitui a injustiça; os
os jovens tomam consciência de que existem conflitos, é
outros correm o risco de se deleitar, mesmo que provisoria-
facilmente compreensível que interpretem como conflito
mente, num mundo em que nenhuma força seria capaz de
fundamental o que os opõe aos pais, aos mestres, aos adul-
ultrapassar o contra-senso.
tos. São numerosos os que se entretêm a imobilizá-los nesta
Parece, deste modo, que existe um grande desentendi-
primeira ilusão.
mento entre a convergência, de que se felicitam alguns, entre
É, pois, extremamente importante levá-los a se cons-
os temas illichianos e as atitudes contestadoras da juventude:
cientizar de que, de fato, a juventude não constitui de forma
os jovens mais lúcidos — e não é por acaso que pertencem
alguma uma classe homogênea e que mesmo a sua resistên-
em maioria aos meios não-favorecidos socialmente — não se
cia à sociedade estabelecida não basta para unificar. Isto
deixam levar, nem pela propaganda que apresenta a socieda-
implica a capacidade de se demonstrar que esta resistência
de como inacessível a todo progresso, nem pela miragem de
reveste, na realidade, formas muito diferentes, segundo
que serem jovens no mesmo momento basta para apagar di-
as classes sociais a que o jovem pertence. Daremos dois
ferenças e discriminações.
exemplos.
QUARTO TEMA:
Facilmente nos deixamos levar pelas aparências e os
O alargamento do ensino;
Jovens parecem uniformizar-se porque, em todos os meios,
progresso ou condenação?
seguem os mesmos modelos e modas semelhantes: quanto a
vestuário, e também quanto aos discos ouvidos, às revistas
Nlich nos explica que quanto maior for o aperfeiçoa-
que lêem. Explica Chamboredon comoeste primeiro aspecto
mento do ensino e mais se espere dele, mais lhe exigirão um
é fictício: de fato, para os jovens das classes superiores, esta
aperfeiçoamento ainda suplementar; um ensino breve suscita
cultura, que se comprazem em rotular de adolescente, sofre a
o pedido de mais e mais. À medida que um jovem fregiienta
concorrência da cultura erudita; aceitam-na como um entrea-
a escola vai se tornando mais consciente da necessidade de
to, por um tempo — e sabemos que se trata de uma moda
prosseguir os seus estudos: toma gosto por eles — e o seu
transitória — sem a levar demasiado a sério. Os outros, pelo
rancor aumentará se os tiver de abandonar antes da sua con-
contrário, só contam com ela e entregam-se profundamente.
clusão. A escola desperta assim ambições. Antes de tudo a

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

própria ambição da escolaridade: Quanto mais um ser toma O Pode parecer espantosamente contraditório que a escola
gosto por essa droga da escolaridade, mais sofre ao ter de seja apresentada como o local de aprendizagem da obediên-
renunciara ela. cia servil e paralelamente como o melhor meio de impelir à
Hlich nem por momentos imagina que essa ambição revolta. É que, tanto para Illich como para todos os que des-
possa receber meios de se satisfazer, nunca repara nos países prezam a luta de classes, a revolta é tão inútil, tão estéril,
que se esforçam nesse sentido. Afirma obstinadamente que como a passividade resignada, mal se distingue da passivi-
ela será obrigatoriamente gorada; Illich teima em repetir que, dade resignada. Illich não receia afirmar que o único resulta-
em todos os casos e de todas as maneiras, subsistirá a mesma do esperado da luta de classes, quando ela se alastra, é o
desproporção entre os que ambicionam entrar para a univer- fascismo, a contra-violência, a violência repressiva, que se
sidade e os que a universidade poderá acolher; o desejo de erguem diante da violência das reivindicações e não vê qual-
aumentar a instrução é dado como insensato, torna-se até o quer outra saída: “Só a força permitirá controlaras rebeliões
modelo dos desejos insensatos porque não conhece limites; nascidas desta esperança gorada”.
lança os homens numa escalada sem fim. Que esta busca, É essencial compreender que este mesmo homem de-
esta inquietude, este ultrapassar incessante dos limites ante- clara que a esperança do proletariado estará sempre votada
riormente marcados possam ter um valor criador, eis um ao fracasso e por isso O exorta a cessar a sua ação, deprecia o
tema que não cabe no mundo de Illich: seria necessário reco- elemento criador incluído nessa ação — e quer o desapare-
nhecer positividade o desejo de saber mais, de compreender cimento da escola.
melhor, de agir com mais lucidez. Quando os excluídos do ensino se sentem dominados
pela minoria privilegiada que se mantém no sistema escolar
Há uma passagem notória em que Illich declara que a — e mais diretamente quando têm dificuldade em encontrar
importância conferida ao ensino exacerbou a luta de classes. trabalho — nunca se admite que tais provações possam re-
Desta vez estamos inteiramente de acordo com o nosso autor presentar um papel positivo no combate político de conjunto.
— com a mera condição de dar à sua frase um significado Segundo a mais pura tradição conservadora, o descontenta-
mais justo oposto ao que toma no contexto dele: para nós mento dos pobres é visto apenas como ressentimento por
trata-se do mais belo elogio que se pode dirigir à escola, pois parte de quem já precisa ter um emprego quando tantos ou-
equivale a afirmar que os proletários instruídos estão melhor tros da sua idade ainda frequentam as escolas; ou amargura
armados para o combate e adquiriram uma combatividade de quem se vê afastado da escola depois de lhe ter saboreado
mais firme. o encanto; ou ainda a sensação da sua inferioridade, que nos
Hlich considera como evidente que isto condena a esco- garantem ser ainda mais pungente para os que têm de desistir
la, mal se apercebe de que o ensino, e precisamente o que é depois de sete anos de escolaridade e não de três. Sob uma
atualmente ministrado nas nossas escolas, contribui para aparência de modernidade, Illich incorpora-se ao longo cor-
intensificar a luta de classes. Conclui ele que é necessário tejo dos que nunca deixaram de lamentar que, proporcionan-
renunciar a este tipo de ensino que pretende que os explora- do ao povo uma pequena dose de instrução, apenas se
dos renunciem à réplica.

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GEORGES SNYDERS

conseguiu excitar-lhes os desejos, despertar-lhes os rancores,


inflamar-lhes as reivindicações.
E já em 1850, Montalembert prevenia os seus amigos: a
instrução pública “desenvolve necessidades fictícias impossí-
veis de satisfazer; fomenta uma indescritível multidão de vai-
dades e de ambições cuja pressão esmaga a sociedade”.
Esta reincidência de Illich a favor do conservantismo CAPÍTULO HI
secular, é para nós a prova de que quem não compreende a
luta de classes se torna incapaz de compreender o papel, o BAUDELOT-ESTABLET — A ESCOLA
valor da escola — e ainda bem menos qual metamorfose ela TRANSFORMARA OS ALUNOS EM POBRES
tem de enfrentar. PEQUENOS SERES PRIVADOS DA REALIDADE?

PRIMEIRO TEMA:
Criança modelo

Baudelot-Establet denunciam o mito da infância, o mi-


to burguês em que sendo a criança o inverso do adulto, é um
ser inacabado, apolítico, assexuado, irresponsável.
Este mito leva a criar, consiste mesmo em criar, um ser
batizado com o nome de criança, caracterizado pelo fato de
se recusarem a tomá-lo a sério, a atribuir-lhe direitos e res-
ponsabilidades.
O que se visa aqui é, muito evidentemente, a psicologia
da criança, a psicologia genética, tal como está constituída,
digamos, a partir de Claparêde.
Sem dúvida, a criança de Claparêde está encerrada den-
tro de limites reduzidos, bloqueada num modo de vida simul-
taneamente preservado e inconsistente — transposição nítida
do mundo das crianças burguesas. Para melhor a distinguir
do adulto, Claparêde faz dela um ser à parte, fora da realida-
de, fora do mundo. Para melhor a opor ao mundo dos adul-
tos, a apresenta como um ente completamente votado à
brincadeira. “Diria, por definição, que a criança é um ente

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que só se interessa pela brincadeira”; e muito mais ainda, a Mas nós receamos que os nossos autores, bem longe de
brincadeira se destinaria a compensar a incapacidade de a ultrapassar Claparêde nos deixem aquém dele. As insufici-
criança “se interessar pelas realidades da vida”. ências da criança tal como ela é descrita pela psicologia
burguesa teriam uma única causa: a criança não produz,
E contudo, em dado momento da história da sociedade poupam-lhe o trabalho produtivo. E por isso Baudelot-
e da educação, constituiu um progresso essencial situar a Establet sustentam que “a única condição para tirar as crian-
criança na sua singularidade; apreendê-la com a sua fisiono- ças da infância consistiria em associar o mais rapidamente o
mia própria a fim de que não fosse avaliada em constante trabalho produtivo e a educação”. Não é isto nivelar a juven-
relação com a idade adulta, assimilada, ou antes, confundida tude pela idade adulta e de uma forma tão mecânica que as
com a idade adulta. Assim, as suas qualidades específicas particularidades características da juventude são, na realida-
poderiam finalmente aparecer, a psicologia genética tornava de, negadas?
público o que a criança possui de original e de inimitável — É justo reclamar para a criança direitos que Claparêde
em lugar de se entregar a comparações com as pessoas cres- ignorava. Mas o que nos inquieta aqui, é que só existiria um
cidas, em que os jovens só aparecem em termos de insufici- tipo de direitos, exatamente igual para jovens e adultos — e
ência, de déficit. uma única via de os afirmar: se as crianças são privadas de
Há certamente algo de afetado, de burguesmente afeta- direitos, é por se verem subtraídas às tarefas de produção —
do na criança vista por Claparêde. Importa, no entanto, ava- e os direitos em questão, são direitos conquistados pelos tra-
liar que progresso este mito da infância representa em balhadores. Os nossos autores chegam a esquecer tudo o que
relação à concepção tradicional da infância, tal como ela se a psicologia mesmo assim nos ensinou de válido sobre a es-
exprime. Entre cem exemplos, citamos Le Play: “A persis- pecificidade das idades; a infância é despojada da sua perso-
tente tendência para o mal é habitual mesmo em crianças nalidade; e a partir daí sentem-se autorizados a transportar
vindas dos mais virtuosos dos pais”; daí as consegiiências termo a termo os problemas da fábrica para a escola, a decal-
educativas: “O primeiro fim da educação consiste em domi- car o trabalho da criança pelo da fábrica, isto é, a absorção
nar estas viciosas inclinações da infância... a juventude deve da escola pela fábrica. Negam a psicologia infantil para po-
aceitar docilmente a educação que domina o pecado original derem negar a escola comolocal específico de formação.
da ignorância”, H. Wallon descobriu uma via imensamente mais real
O verdadeiro problema de uma psicologia progressista mostrando a existência de uma força de afirmação inerente à
consiste hoje em manter estas aquisições da genética, acima Juventude, que embora sem estar separada do mundo adulto
de tudo a afirmação de uma coerência, de um equilíbrio pe- se ocupa do seu acesso e ao mesmo tempo dele difere. Si-
culiares da juventude, restabelecendo a ligação entre o uni- multaneamente, “cada etapa funcional da infância deve ser
verso da criança e o domínio dos adultos, o domínio em que descrita por ela mesma, no conjunto total das suas condições
os adultos se esforçam em-atos capazes de modelar, de trans- atuais” e não deve perder de vista que ela é um elo insepará-
formaros dados, incluindo o modo de vida da criança. vel de um conjunto que anuncia.

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SEGUNDO TEMA: da prática escolare à vista dos seus objetivos: notar, classifi-
A relação teoria-prática car, sancionar os indivíduos.

Estamos agora em melhores condições de compreender As crianças não podem enraizar-se, na realidade, de um
como são vistas por Baudelot-Establet as relações da teoria trabalho produtivo, pois a escola não mantém ligações orgá-
com a prática e o que, para ambos, constitui o fracasso da nicas com a produção, as crianças não vão trabalhar em tem-
nossa escola, não apenas no que diz respeito à diferença das po parcial numa fábrica vizinha, uma escola não monta uma
seções, mas na sua integralidade. pequena unidade de produção que mantenha relações com
Que a escola, tanto nas suas estruturas como nos con- outras unidades de produção.
teúdos inculcados, esteja marcada pela ideologia dominante, Nossos autores consideram total esta separação entre as
pelo embargo da classe dominante, é fato incontestável. Mas, modalidades escolares e a prática, marcando todos os mo-
por outro lado, não será evidente que ela se justifica como mentos da vida escolar, constituindo a própria essência da
local onde se transmitem conhecimentos exatos, onde se ela- nossa escola; afirmam eles que ela aniquila tudo que há de
bora uma sabedoria objetiva, precisamente a que será adap- objetividade nos conhecimentos que a escola permite adqui-
tada às exigências técnicas? rir, reduz a zero toda a positividade que se poderia esperar da
escola: “Todos os conteúdos de escolarização são ensinados
Contra isto Baudelot-Establet defendem que todas do mesmo modo que as habilidades escolares — e a partir
(sublinhado no texto) as práticas escolares são práticas de daí tudo quanto se passa na escola faz parte do imaginário”.
ensinamento ideológico; recusam-se a traçar qualquer linha
de demarcação entre a instrução cívica, por exemplo, onde se É certo que existe uma constante ameaça para a institu-
refletem diretamente os interesses da classe privilegiada, e a ição escolar de se colocar como que separada do mundo ex-
física, que parece, todavia, referir-se à realidade do mundo terior, um recinto fechado, preservado. Tentação de se
ou o delineamento industrial que parece diretamente vincu- arvorar numa fortaleza de pureza e de regularidade, esfor-
lado ao funcionamento das nossas máquinas. çando-se por deter qualquer infiltração de acontecimentos
Encaram todas as aquisições escolares em oposição ab- caóticos e corruptos. À escola teria prazer então em funcio-
soluta com as possibilidades efetivas: estas últimas, realmen- nar segundo as próprias leis — e pretende que sejam o mais
te, definem eles como umautilização produtiva que consiste diferentes possível do que acontece no dia-a-dia. É modelo o
na aplicação de produção material, na procura de novos co- Colégio dos Jesuítas do século XVIII, construído peça a peça
nhecimentos e na produtividade intelectual, como elaborar como teatro da latinidade, precisamente numa sociedade que
um livro em que os alunos exprimiriam as suas tomadas de não era a da latinidade; e exortam-se os jovens contemporâ-
posição. Pelo contrário, a escola é apresentada como o local neos de Luís XIV a reinterpretar indefinidamente a rivalida-
em que os conhecimentos inculcados nunca desembocam na de entre Romanos e Cartagineses.
elaboração de uma sabedoria autêntica, pois apenas são utili- É inegável que este passado continua a pesar fortemen-
zados no âmbito de problemas fictícios, fabricados no seio te na nossa escola: daí uma tendência para preferir os conhe-

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cimentos que deixam mais facilmente funcionar a maquina- E eis porque eles se foram revelando literalmente ab-
ria escolar, ou seja, os que permitem com menos dificuldade surdos à medida que lá penetrava uma burguesia preocupada
notar, classificar, sancionar; antes dividir a partir dos conhe- em se afirmar pelo exercício de profissões.
cimentos do que nos interrogarmos sobre o peso real destes Atualmente, as exclusões e o espírito fechado que ca-
conhecimentos. Por exemplo, o ditado tem um lugar conside- racterizavam a escola mais tradicional, tornam-se cada vez
rável no nosso ciclo primário; a expressão criadora é reduzi- mais impossíveis: o progresso das ciências e das profissões,
da ao indispensável. O que, certamente, não deixa de estar as necessidades da industrialização, a circunstância de, ape-
relacionado com a facilidade, pelo menos aparente, de contar sar de tudo, a escola já não ser o exclusivo monopólio da
os erros de um ditado, frente à dificuldade de justificar uma classe privilegiada — e também o progresso da consciência
nota atribuída a um texto livre. E, por estranha coincidência, política tanto nos docentes como nos alunos — levam a
é precisamente o ditado que constitui um dos exercícios mais escola, obrigam-na a estabelecer um laço entre aquilo que
discriminativos do ponto de vista da origem social dos alu- ensina e os problemas que atravessam a nossa existência. Por
nos. O sistema das classificações escolares, privilegiando os bem ou por mal, resignando-se ou opondo-se a classe domi-
exercícios formais, redunda efetivamente em prejuízo das nante ou combatendo ainda na retaguarda a favor do ceticismo
classes desfavorecidas. ou do silêncio, a escola tem mesmo de acolher os
Quanto ao trabalho manual e à tecnologia, é bem certo conhecimentos técnicos e gerais que atingem a realidade
que o espaço que lhes são reservados permanece extrema- contemporânea; e que de um só golpe lançam um apeloa esta
mente restrito — e que a maioria das vezes se processam de realidade, exigem uma opinião, uma atenção para esta reali-
maneira abstrata; são moldados por exercícios escolares tra- dade; o quetanto se verifica na física como na geografia.
dicionais, absorvidos pelos hábitos escolares, em lugar de Que este movimento para se estabelecer um laço entre
constituírem elementos de renovação da escola. a teoria e a prática seja bastante insuficiente, radicalmente
insuficiente, estamos plenamente de acordo; e igualmente
Mas o Colégio dos Jesuítas do século XVII só podia que ele não conseguirá terminar bem sem abalar as estruturas
funcionar sob a condição de se banirem os conhecimentos sociais, pois cada vez mais se vai revelando inconciliável
relacionados com o mundo exterior, que se aplicavam ao com a divisão da sociedade em classes, isto é, com a desva-
mundo exterior, e exigiam, portanto, a elaboração de técnicas lorização dos práticos.
de adaptação. Daí que a matemática, as ciências, a geografia, Mas, Baudelot-Establet apresentam a separação da es-
a história contemporânea,a literatura contemporânea, fossem cola e do mundo, a não-aplicação dos conhecimentos ao
postas entre parêntesis — e dado extremo destaque à Anti- mundo — e, portanto, o aluno desarmado perante o mundo
giidade, às línguas antigas e à incitação constante das insti- — como a definição incômoda e inadmissível da escola.
tuições romanas. Os colégios dos jesuítas eram criados para Desta maneira, no domínio escolar, nadateria sido realizado,
uma determinada clientela, que não necessitava ser prepara- nada seria possível antes da revolução e a revolução deveria
da para exercer profissões. eclodir repentinamente, sem relação e sem compromisso
com tudo quanto até então existisse.

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Uma vez mais receamos que se torne impossível qual- Baudelot-Establet apresentam-nos uma escola perverti-
quer compromisso efetivo, que só pode consistir no apoio do da que se reduz à sua perversão, empenhada numa via que a
movimento real da escola, aos esforços reais das escolas — afastaria tanto mais do fim a ser atingido quanto mais ela
precisamente para lhes imprimir uma sequência revolucioná- tentasse avançar. A escola tradicional é um zero; a contribui-
ria. Mais uma vez é considerado como um destino desespera- ção das pedagogias novas é um zero.
do e desesperante, o que é um risco da escola, risco contra O Entendemos que na nossa escola tudo deve ser trans-
qual é certamente difícil lutar, mas não impossível: pois esta formado mas nem tudo rejeitado; ou antes, a única forma de
luta para abrir a escola ao mundo,articula-se, na prática, numa transformar é nem tudo rejeitar, mas encontrar apoio no mo-
arrancada já desencadeada no domínio escolar — consequên- vimento já existente; o imobilismo não tem melhor aliado do
cia, reflexo dos progressos realizados pelo proletariado na sua que a expectativa de uma inversão total. No âmbito do es-
presença no mundo,isto é, finalmente, na luta de classes. candaloso, intimamente disposto no escandaloso, já existem
Nãosó a produção no sentido industrial, como também realizações; e é, portanto, possível uma luta para as desen-
a produção intelectual estariam inteiramente ausentes da nos- volver. Luta revolucionária, o que não significa que nada de
sa escola. Baudelot-Establet afirmam que procurar novos válido ainda tenha sido efetuado. Segundo a fórmula de
conhecimentos, produzir qualquer coisa que seria da nature- Marx, a ação revolucionária só pode existir desde que seja a
za de um livro constituem fins absolutamente incompatíveis expressão, enfim clara, da seção já desencadeada, já efetiva.
com o nosso sistema escolar, cuja única preocupação reside Mostramos simplesmente ao mundo por que, na realidade,
nas notas e nas classificações. ele luta.
O conjunto dos ensaios da pedagogia contemporânea,
apesar das suas fraquezas e até dos seus desvios, malgrado Baudelot-Establet afirmam que esta separação material
os desvios que a nossa sociedade necessariamente lá introdu- das práticas escolares e das práticas produtivas é um dos
ziria, não mereceria ser tomado em consideração? Por certo é efeitos da divisão do trabalho manual e do trabalho intelectu-
ingênuo pensar-se que qualquer exercício de matemática al. Parecem colocar assim frente a frente duas formas com-
desenvolve o espírito crítico, que qualquer experiência física pletamente heterogêneas de trabalho, sem comunicação entre
liberta da superstição, que cada redação representa imedia- si, sem possibilidade de uma agir sobre a outra. Diríamos
tamente para o aluno um meio de melhor compreender a si e antes, que a extrema dificuldade em que a escola se debate
ao mundo. Mas não se sai desta ingenuidade, ela é simples- para juntar a teoria à prática remete paraa situação explorada
mente substituída pela ingenuidade inversa quando se afirma do proletariado, a classe que se encarrega da prática, para o
que todos estes exercícios são irreais e não-suscetíveis de gueto em que a nossa sociedade se esforça por encerrá-lo —
melhoria. Em ambos os casos se ilude o problema pedagógi- mas igualmente para todas as lutas do proletariado para que
co: como recorrer ao apoio da realidade do ensino a fim de a lhe reconheçam o direito de existir. O que não se concluirá
transformar? Em que condições o ensino das ciências se na nossa sociedade, mas cujo saldo não é nulo, mesmo nela.
transforma em antídoto da magia? Eis o problema colocado Resumindo, sob este ponto de vista a escola reserva,
por Gramsci. sem dúvida, um papel às forças progressistas: proporcionar

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aos professores que visam o contemporâneo, que admitem I — O quefoi realizado na China é prodigioso
uma ligação direta com a prática e a produção (pensamos na
química), valor, vastidão, significação; paralelamente, vincar a Sem a mínima dúvida, o que já foi realizado na China é
sua incapacidade para a escola atual, e dizer por quê; mostrar prodigioso: um povotriunfou da fome, das doenças epidêmi-
o vínculo destes problemas com a entrada e o êxito na escola cas, ao mesmo tempo que da insegurança e da resignação à
de alunos proletários. E, naturalmente, agir em consegiiência. desgraça; um gigantesco esforço virado para a instrução e
É importante, pelo menos, declarar a impossibilidade para a cultura. Tentou-se criar a unidade de uma sociedade
de um tal papel, que pretende colar a história da pedagogia à abolindo a oposição entre trabalho manual e trabalho intelec-
época de Luís XIV. tual, ultrapassando o desprezo do intelectual pelo trabalho
operário e finalmente pelos operários em si. Os funcionários
TERCEIRO TEMA: graduados, os dirigentes, participaram pessoalmente na ges-
O que vem a ser a escola politécnica? tão, a fim de adquirirem gosto pelo trabalho manual e inte-
resse pelos trabalhadores. Acabaram com o intelectual
Afinal de contas, o que importa é a natureza da escola submerso nas suas abstrações, elaborando planos que não
politécnica. Para Baudelot-Establet o fato de a nossa escola foram submetidos aos interessados, que corriam seriamente o
não estar diretamente ligada à produção, o fato de a criança risco de não corresponder ao seu desejo — e, na realidade, os
ter esse estatuto especial de um ser que ainda não produz, interessados sentiam-se marginalizados, sabiam-se excluí-
basta para acentuar a nulidade até dos conhecimentos objeti- dos. A tentação sempre renovada e que era sempre preciso
vamente válidos que aí se ensinam. É afirmar que a escola destruir, era a arrogância do dirigente que se atribuía uma
politécnica é aqui considerada o contrário absoluto da escola essência superior à dos dirigidos. Tratava-se de fomentar um
burguesa — e não o seu prolongamento dialético e revolu- tipo novo deintelectual, cujo destino coincida com o da clas-
cionário. Eles só insistem na ruptura, silenciam sobre qual- se operária, que vívia nas mesmas condições dos trabalhado-
quer continuidade; daí, ao lê-los, esse sentimento de que não res, em comunidade com eles, mergulhado no ambiente
haveria qualquerligação entre a nossa escola e a escola vin- operário; que saberia trabalhar, pensar, sentir em uníssono
culada à produção, o sentimento de que a confrontação com com as massas. Fazer parte das massas, sem que isso fosse
a escola politécnica pulveriza, literalmente, a nossa escola. uma sanção; pelo contrário. O trabalho manual deixou de
É em nome da escola politécnica chinesa que eles jul- constituir um castigo, uma desonra, ou então o povo poderia
gam assim a escola capitalista da França — e não podere- considerar-se maciçamente punido.
mos, portanto, entendê-los, sem evocarmos as realizações Assim rezava O juramento dos estudantes: “Jamais nos
escolares do maoísmo. Confessamos que nos baseamos no deixaremos corromperpelo interesse ou pela busca de glória...
estudo de M. A. Macciocchi e em alguns textos vindos dire- mudando de posto, a nossa consciência revolucionária perma-
tamente de Pequim. M. A. Macciocchi não esconde o seu nece e permanecerá a mesma; mudando de meio, a nossa con-
entusiasmo pelo regime e a sua revolução cultural. dição de trabalhadores do povo mantém-se imutável”.

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Não pode de qualquer modo deixar de se afirmar que o numa espécie de atmosfera de não-diretividade. As mais im-
estágio atual corresponde, na realidade, a um momento do portantes inovações de fabrico foram introduzidas no decur-
desenvolvimento em que se encontra a técnica e que, na sua so da revolução cultural logo que o espírito inventivo dos
maioria, é ainda rudimentar. Naturalmente, o progresso veri- operários se pôde exprimir livremente. Não se correrá o risco
ficado já é imenso e, por outro lado, o atraso tecnológico da de procurar a supressão das categorias e das oposições entre
China é o resultado do estatuto quase colonial a que os pode- categorias negando simplesmente as qualificações?
res imperialistas a haviam reduzido.
O que não impede que nos sintamos muitíssimo inquie- Por isso que esta permuta entre operários-camponesese
tos perante um subestimar, uma desvalorização do conheci- possuidores de uma formação teórica demonstra um aspecto
mento científico, da metodologia científica na produção — estranhamente unilateral: aos primeiros parecem não ter
que é solidária, parece-nos, com o subestimar do papel teóri- grande coisa a aprender com os outros, a esperar deles. To-
co reservado ao Partido na elaboração do movimento revolu- dos os intelectuais lucram trabalhando ao lado dos operários.
cionário das massas. E semelhantemente no trabalho manual, os nossos intelectu-
Contam-nos, por exemplo, que os operários chineses ais frequentam modestamente a escola dos operários e dos
souberam reinventar máquinas e cita-se o exemplo de um camponeses a fim de adquirir as suas boas qualidades.
operário que, em quatro anos e meio, depois de três mil insu- Bastará, portanto, que a comunicação se efetue assim
cessos construiu ele próprio uma máquina de amolar de alta num único sentido? Sem dúvida, que a formação dos intelec-
precisão. Tudo é reinventado pela base. Não se irá ao ponto tuais pela contribuição das massas — aprender com as mas-
de considerar inúteis quer a ciência quer a tecnologia”? Basta- sas — é um dos dados constitutivos do marxismo, mas
ria uma série de tentativas para se atingir um fim, sem se- arrisca-se a ser inteiramente falseada se separada do seu o-
quer se haver vislumbrado o que é a estrutura de um posto dialético, a elevação do nível de organização das mas-
pensamento-científico. Umasérie de ensaios e de resultados sas, a elaboração teórica da sua ação, o poder de síntese
aproximados substituiria, e muito vantajosamente, toda a adquirido pouco a pouco. Aqui tudo se passa, tudo nos é
formulação teórica. apresentado como se os operários-camponeses possuíssem
Para preencher o fosso entre os que concebem um pro- espontaneamente, pela sua própria existência, todas as quali-
jeto e os que o executam, para vencer a distinção entre enge- dades, conhecimentos e virtudes necessários à construção do
nheiro, técnico e operário, temos a sensação de que se confia socialismo. O intelectual é reeducado, para não dizer regene-
na espontaneidade das massas, diretamente capazes, poraí, rado, pelo seu contato com o povo; mas não terá ele nada a
de descobrir tudo O que é necessário. Isolando a espontanei- lhe oferecer em troca?
dade das massas do que lhe é complementar — a formação
científica e técnica —, isolando a prática do que lhe é com- Evidentemente que nos objetarão com o estudo assí-
plementar — o enriquecimento teórico —, consegue-se apre- duo, por todo um povo, do pensamento de Mao Ze Dons.
sentar como modelo, modelo suficiente e até único, o não- Admiramos, sem dúvida, aquilo que representa um formidá-
qualificado, com a única condição de que fique envolvido vel avanço cultural em relação a milhões de pessoas que, até

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então, não tinham praticamente o mínimo acesso à leitura. “Pouco importa que os operários ou os camponeses instala-
Contudo, nos atreveremos a afirmar que os princípios extre- dos nas escolas sejam incultos; é a eles pedido que aceitem o
mamente genéricos postos em evidência, tanto na pedagogia valor da visão do mundo socialista, não por sábios racioci-
das massas como nas escolas, não parecem suscetíveis de nios, mas pela sinceridade do seu testemunho, tanto mais
constituir guia muito seguro para a ação. persuasivo quanto mais ingênuo”.
Para só citar um exemplo, um artigo sobre a recupera- O trabalho manual é apresentado como possuindo, só
ção dos resíduos industriais explica-nos como as empresas por si, virtudes educativas, a virtude educativa: “Através do
chinesas conseguiram extrair importantes produtos de suces- trabalho manual, desenvolveram a ideologia do amor ao tra-
sivos resíduos. Foi ao estudar a dialética materialista e apoi- balhador, de servir o povo. Participar no trabalho manual, é
ando-se muito especialmente no princípio querido de Mao: formar sentimentos proletários”.
“um divide-se em dois”, que os operários chegaram à con- Nãose trata da união da prática à teoria; uma certa prá-
clusão de que não há resíduo absoluto, que qualquer resíduo tica, quase instintiva, é admitida como correspondendo a
pode ser revalorizado, e daí passaram à prática. Disto se de- todas as exigências e vai suplantar a teoria. Aproximamo-nos
duz que uma fábrica se desdobrará em várias, uma matéria- mais de Dewey do que de Marx. Este americano liberal
prima será utilizada de diversas formas, uma peça de máqui- comprazia-se a repetir que “o ensino desenvolve sem esfor-
na serve a inúmeros fins. Não podemoslibertar-nos da sen- ço, naturalmente, o senso social”.
sação de que a uma prática industrial, evidentemente vulgar Parece-nos importante recordar que, logo a seguir à re-
em todos os países e em todos os regimes, colou uma palavra volução de 1917, vários pedagogos soviéticos acreditaram
de ordem chave, que de acordo com utilização aquireferi- que bastava introduzir uma boa dose de Dewey para pôr de
da, deixa de ter qualquer característica, quer dialética, quer pé uma pedagogia marxista. O restabelecimento foi rude.
marxista. Temos a impressão de que os chineses, longe de se aprovei-
Trata-se, ou de uma espécie de espontaneísmo, ou de tarem dos erros cometidos pelos soviéticos e das suas retifi-
preceitos de Mao, que à força de usados, manipulados e, por cações, se precipitaram nas mesmas armadilhas.
assim dizer, esticados, servem seja para o que for e até como A consegiiência disto é um nível muito rudimentar de
sentenças. Entre as duas hipóteses, um vazio assustador. pensamento teórico, de pensamento político; e não basta di-
zer que a escola se satisfaz com isso, ela o apresenta como a
Onde, em relação aos adultos, for recusado o empenho própria finalidade a ser atingida. Eis um exemplo significati-
na formação e na investigação sistemáticas, irá a escola ne- vo: um professor pergunta qual é o metal mais leve, se o co-
cessariamente descurar o papel da elaboração teórica e do bre, se o alumínio. Suponhamos que o aluno nada sabe, mas
esforço de abstração. Dizem-nos que a escola visa, acima de que responde: “Sei que a pátria necessita de cobre para se
tudo, inculcar nas crianças as boas qualidades dos operários defender do perigo de uma eventual agressão”; mesmo que
sem que se mencione nenhum risco inerente a essa instalação não tenha respondido exatamente à pergunta, pode ser apro-
ao nível da existência espontânea. É um admirador do regi- vado. O nosso autor vê e louva aí o primado dado à política e
me que escreve estas linhas, a nosso ver, bem inquietantes: até a prova de um elevado grau deiniciativa política.

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Não se trata de nenhum modo decriticar a presença di- a bons conselhos morais, de uma moral muitíssimo tradicio-
retamente proclamada da política na escola e de escapar à nal para não lhe chamarmos burguesa, frequentemente uma
neutralidade burguesa, da qual sabemos muito bem como exortação bastante estóica à abstinência. “O malogro está na
dissimula os interesses da burguesia. O que nos preocupa, é origem do sucesso. Da infelicidade nasce a felicidade. A
o simbolismo desta visão política, o simplismo desta incur- miséria é também um impulso para transformar o mundo. Da
são da política no conhecimento objetivo, e isto é fácil de preguiça pode nascer a ação. Do medo pode brotar a cora-
prever desde que a escola reserve tão pouco espaço à análise gem e o desprezo pela morte”. Conseguiu-se, na realidade,
científica; ora a escola não faz mais do que seguir o exemplo como sustenta M. A. Macciocchi, refutar o ponto de vista
de todas as instituições de um regime convencido de que só metafísico e atuar audaciosamente em relação aos erros da
minimizando a elaboração teórica pode participar da vida das burguesia quando se proclama, quando se invoca o marxis-
massas, tanto nas relações entre as diferentes categorias soci- mo para proclamar que não existem doenças incuráveis ou
ais como no contato com a realidade. que nenhum escrito científico alcançou uma verdade absolu-
ta e imutável? É tal e qual como descobrir que nos estabele-
Em troca desta desvalorização do pensamento científi- cimentos industriais, os resíduos podem ser utilizados de
co e desta formade se instalar, confortavelmente, ao nível do novo depois de adequada transformação.
imediato, um tipo de educação que nos parece por vezes con- Suzanne Citron evoca com enlevo um mundo onde se
ter mais da boa ação querida dos escoteiros do que de intui- luta contra o sucesso individual, a vaidade, a preocupação de
tos socialistas, M. A. Macciocchi descobre aí os princípios carreira; contra o afastamento social entre trabalhadores ma-
dialéticos da política, ela sente-se em presença de uma nova nuais e trabalhadores intelectuais, contra a existência de uma
moral, anuncia atitudes inteiramente novas dos alunos em camada tecnocrática de trabalhadores e de intelectuais sepa-
relação a si e à sociedade. Não será oportuno confessarmos rados do povo.
que vemos nisso, embora animado de excelentes intenções, Desgraçadamente, mal chega aos exemplos concretos,
um moralismo ingênuo? “Agora, declara um aluno, quando mostra-nos ela professores e alunos limpando em conjunto as
partimos um banco, nós mesmos o consertamosna oficina de instalações da escola, crianças de 9 e 10 anos que fazem ca-
marcenaria, e se rasgamos a roupa, aprendemos uns com os netas e jovens que vendem a sua produção ao Estado Socia-
outros a cosê-la... Cortamos os cabelos mutuamente... cui- lista. Vai uma grande distância das palavras à ação, das
damos uns dos outros nas doençasligeiras”. grandes proclamações à realidade observada.
Um aluno é apontado como modelo, aquele que, findas L. Lurçat, como boa maoísta, leva ao extremo esta es-
as aulas, vai varrer o pátio e soubee persuadir alguns camara- quematização das relações teoria-prática a ponto de pedir
das a se juntarem a ele. que se desloque a escola infantil para a cozinha: ela conside-
ra burguês ensinar gestos às crianças que conservam um ar
Não conseguimos fazer coincidir com uma perspectiva brincalhão e gratuito e que tudo isso se remediará a partir do
socialista os pensamentos do Livrinho Vermelho, que são momento em que as coisas se passem na cozinha da escola,
evidentemente escritos no quadro, e que parecem resumir-se

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onde são as próprias cozinheiras a mostrar às crianças a for- des naturais ou adquiridas”. O fim a se atingir é a “supressão
ma de utilizar os utensílios. da velha divisão do trabalho”.
Umaescola que visava integrar no ensino a prática e a Tal formação está, portanto, em flagrante contradição
vida das massas, mas que não acredita, pelo menos nesta com o modo de produção capitalista, que exige a oposição
fase, nesta primeira fase, poder chegar lá sem negar o enri- entre proletariado executante e pessoal dirigente — e surge
quecimento da prática pela teoria, sem acabar com as quali- por isso como um dos meios mais poderosos de transforma-
ficações para se persuadir da igual classificação de todos. ção da sociedade atual. Tal ensino politécnico constituirá
Paralelamente, ela remete o pensamento do socialismo para uma ruptura propriamente revolucionária em relação a esco-
um catecismo moralizador e um bom senso ingênuo. las, onde só tinha direito de cidadania a intelectualidade pu-
É, efetivamente, em comparação com esta escola, enca- ra, em contraste com locais em que se operava uma
rada como solução modelo, que Baudelot-Establet não reco- aprendizagem limitada; e contudo, as escolas agronômicas,
nhecem a mínima validade na formação dispensada pela criadas pela burguesia para seu uso, por se haverem tornado
nossa escola; na realidade, se a escola politécnica é isso, a necessárias às tendências íntimas da produção moderna. Ali-
crítica da nossa escola feita por Baudelot-Establet, a separa- ás, a dita burguesia evita que ingressem nessas escolas os
ção absoluta que eles pretendem estabelecer entre uma e ou- filhos do proletariado.
tra se justificariam. À escola politécnica tomará por base a compreensão e
o funcionamento da tecnologia prática e teórica. A tecnolo-
H — Regresso ao marxismo gia descobriu o pequeno número de grandes formas funda-
mentais do movimento, em que toda atividade produtiva do
Mas, na realidade, a escolha não reside de forma algu- corpo humano necessariamente se processa, malgrado a di-
ma entre a escola capitalista — da qual é exato dizer-se que versidade dos instrumentos empregados.
está separada da prática, da prática social, da prática das A partir daí o esforço educativo vai prosseguir com um
massas e que está fundamentalmente mutilada por essa am- duplo objetivo: anotar os princípios gerais e científicos de
putação — e essa escola da revolução cultural chinesa em qualquer modo de produção e iniciar as crianças e os ado-
que a conexão com a prática parece realizar-se em detrimen- lescentes no manejo dos instrumentos elementares de toda
to da teoria. É neste ponto queinteressa investigar as idéias indústria.
de Marx e de Lenin sobre a escola politécnica. Semelhante escola realiza uma renovação porque nela
Marx exige que a educação socialista reúna o trabalho teoria e prática se tornam inseparáveis: os princípios dos
socialmente produtivo à instrução e à ginástica. É “o único modos de produção só são, na realidade, compreendidos,
método possível para produzir homens totalmente evoluí- através do manejo dos instrumentos e, reciprocamente, os
dos”, atingir, enfim, o “indivíduo íntegro que sabe enfrentar instrumentos só serão manejados de forma válida e enrique-
as mais diversificadas exigências do trabalho e dá, em fun- cedora por quem tiver compreendido como a multiplicidade
ções alternadas, livre curso à diversidade das suas capacida- dos movimentos e dos processos se concentra, cientificamen-
te, em alguns princípios sintetizados. Renovação revolucio-

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ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

nária, pois deixa de existir uma classe que compreende e é simultaneamente aquilo que adapta a natureza às nossas
uma outra que maneja e, simultaneamente, persistência no necessidades e aquilo que estimula, enriquece a inteligência,
que é essencial à escola. A tecnologia tal como é interpretada até o ponto em queela se irá opor às próprias condições em
por Marx situa-se a um nível de generalidade e de abstração que, até o momento, se desenrola esse trabalho.
semelhante ao das disciplinas escolares, exigindo, no melhor Althusser mostra com lucidez que “não existe de um
sentido do termo, um esforço de tipo escolar: nada de tenta- lado a teoria que seria apenas pura visão intelectual, sem
tivas, de ensaios sucessivos às cegas, nada de nos deixarmos corpo nem materialidade; e do outro, uma prática toda mate-
levar pela rotina da ferramenta; a tecnologia é aquilo que rial, do tipo experimentar sozinho”. Na realidade, está sem-
permite ultrapassar as configurações variadas e aparentemen- pre patente um elemento do conhecimento nos primeiros
te desgarradas da vida industrial para aí descobrir os efeitos degraus da prática, apesar de ser percebido sob formas rudi-
das forças mecânicas simples. mentares e ainda impregnadas de ideologia. E é seguramente
por isso que o ensino politécnico não se situa no domínio da
E a tecnologia permite mesmo ir mais longe: abre ca- utopia: realiza um dos mais surpreendentes exemplos daqui-
minho ao materialismo dialético. “Pondo a nu o processo de lo a que anteriormente chamamos continuidade-ruptura.
produção da vida material, ela desvenda a origem das rela-
ções sociais e das idéias ou concepções intelectuais a elas Para que a escola seja arrancada do domínio burguês,
inerentes”. se torne um instrumento da ditadura do proletariado, Lenin
Mas tal resultado não será evidentemente obtido pela quer a instrução não somente gratuita e obrigatória, mas logo
simples aplicação de técnicas, senão todos os operários e à primeira vista politécnica. Ao mesmo tempo, previne a
desde sempre, teriam sido marxistas; é indispensável que, a
escola politécnica contra o perigo principal que a ameaça e
partir da referida aplicação, os proletários compreendam que consistiria em se reduzir à aprendizagem precoce de de-
primeiramente as leis que levam à unificação das técnicas e terminada profissão; trata-se, sem dúvida, de ensinar a teoria
depois os laços dialéticos que unem infra-estruturas e super- e a prática dos principais ramos da produção.
estruturas. Este árduo itinerário só será cumprido com uma Ainda aqui este ensino é, num certo sentido, o contrário
orientação no sentido do abstrato, que de certo modo retoma da nossa escola, visto implicar uma participação no trabalho
a segiiência da orientação escolar, metamorfoseando-a pela socialmente produtivo que não tem qualquer equivalente na
sua constante inserção na prática. escola, e nunca se deve esquecer que este trabalho tem uma
O ensino politécnico tem porfinalidade a união consci- finalidade revolucionária, faz parte de um projeto revolucio-
ente e elaborada, da prática e da teoria, o que de fato só é nário: o homem que se pretende formar só pode existir ne-
possível, quer se queira ou não, por a teoria e a prática esta- gando a divisão do trabalho, a divisão da sociedade em
rem já unidas. Como sempre o marxismo pretende impelir classes. Mas este ensino é igualmente a resposta finalmente
até o seu termo revolucionário um movimento já existente. É dada àquilo que tantos pedagogos inovadores (e entre eles,
na transformação da natureza pelo homem que reside o fun- pouco numerosos são os que conseguiram ultrapassar as
damento do pensamento. A atividade do homem, o trabalho, fronteiras do seu mundo burguês) procuraram confusamente

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quando sonhavam ligar a escola à vida. Ele conserva da nos- mento dos princípios reúne os fundamentos tecnológicos e as
sa escola a exigência de conduzir os alunos até um grau ele- regras da economia planificada.
vado de conceitualização e de rigor. Mesmo a atuação na Nestes termos, por exemplo, a organização de conjunto
fábrica, abalando de ponta a ponta a escola, inscreve-se de numa planificação socialista é simultaneamente vivida pelos
certo modo no que é escolar, pois se trata de uma instrução alunos como realidade através do seu trabalho produtivo e
metódica, uma progressão pedagogicamente pensada: a tec- constitui um objeto de estudo a ser interpretado e discutido.
nologia visa atingir o ponto em que surgirá a unidade sintéti- Semelhantemente, a tecnologia, como fundamento geral das
ca de uma multiplicidade de comportamentos e de profissões, implica um intercâmbio entre os gestos profissio-
movimentos, desde os movimentos das máquinas até os mo- nais e Os princípios gerais abstratos, cujos maquinismos múl-
vimentos sociais. tiplos representam outras tantas exemplificações. Assim, os
Em 1931, Krupskaia, ao mesmo tempo que organiza o conhecimentos adquirem presença, significado, em relação
trabalho prático e efetivo das crianças com os operários e às necessidades humanas e à energia necessária para os pôr
camponeses, empenha-se precisamente em constituir um em execução e, portanto, em relação à vida das massas ope-
programa, ou seja, uma concepção orgânica do mundo,intei- rárias que os executam; conhecimentos que nem por isso
ramente pensada; exige que cada etapa do trabalho esteja deixarão de ser conhecimentos.
vinculada da forma mais estrita à aquisição de conceitos e de Um exemplo simples demonstra perfeitamente o que
competências. É unicamente na medida em que tal sistemati- está em jogo no plano propriamente pedagógico. De um la-
zação for instituída que a teoria se juntará à prática sem pre- do, um professorde física que dirige um curso sobre indução
tender confundir-se com ela, sem pretender jorrar dela eletromagnética, a partir do esquema clássico: uma espira
devido a circunstâncias fortuitas — e que o trabalho se torna- retangular girando num campo magnético. De outro, o aluno
rá para os alunos um alargamento do seu horizonte cultural. em presença do gerador de corrente: ele já não enfrenta o
fenômeno físico puro, estilizado, reduzido aos seus elemen-
HI — A escola politécnica na RDA tos necessários e suficientes.
À complexidade, a situação excessivamente real, as so-
A escola na URSS e na RDA permite-nos distinguir o breposições e combinações de fenômenos físicos em jogo
que pode ser uma escola socialista politécnica. fazem com que, no primeiro momento, ele não reconheça o
Na RDA o esforço pedagógico visa manter os dois ex- que, no entanto, percebera, sente-se confundido. Por isso a
tremos da cadeia, de um lado a familiaridade com as técnicas importância do ensino constituir um conjunto que engloba a
até as dominar; um trabalho real — o que os alunos fabricam explicação que simplifica, que isola, e a atividade prática
faz parte da produção da fábrica — um trabalho útil e cuja onde o princípio científico se encontra inserido entre múlti-
utilidade eles percebem. Mas ainda, um ensino que lhes in- plas circunstâncias -— antes perdido no meio delas.
culca as bases científicas, técnicas, políticas e econômicas da E porvia interna, intrínseca, que se efetua o trajeto en-
produção. Como essencial, destacaremos que este conheci- tre o funcionamento prático e a perspectiva global: um aluno
se indaga sobre o modo de funcionamento de uma perfurado-

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ra, daí se porá num dado momento a questão: funcionará rem-se nela, quer no seu aspecto técnico, quer no político:
com o máximo das suas capacidades? O que o leva a querer será possível dizer-se deles que são educados, até reeduca-
saber comoestá organizada a produção. Esta questão abstra- dos, por operários e camponeses, o que não significa de for-
ta, complexa, assume todo o seu significado, torna-se um ma alguma que a sua educação se reduza a imitar, a
problema real porque os alunos participam na produção e arremedar a vida de um determinado operário ou de qualquer
podem, desta maneira, perceber como o seu trabalho está camponês, seja ele o mais convicto dos militantes.
incorporado no conjunto das realizações previstas; pouco a Enfim, esta atividade produtora, não é separável da ini-
pouco irão distinguindo como esse trabalho, o seu trabalho, e ciativa assumida pelos alunos; ela só possuirá valor formati-
finalmente o trabalho, contribui para o progresso da socieda- vo se puser ao mesmo tempo em jogo a iniciativa e constituir
de socialista, ao mesmo tempo que para a formação do pró- um campo particularmente favorável à tomada de iniciativa.
prio trabalhador. O trabalho prático efetuado pelos alunos realiza-se sob a
Para isso são indispensáveis duas condições: de um responsabilidade dos alunos, seguros do grupo que constitu-
lado, que à experiência da produção venha juntar-se uma em; e primeiro participaram na preparação do trabalho, for-
teorização metódica, porque a significação do trabalho, a maram-se contratos entre a escola e a empresa, que foram
possibilidade de melhorar o trabalho não estão de imediato debatidos pela escola e pela empresa.
contidas, nem se lêem de imediato nos gestos relativos a uma A escola politécnica exige uma sociedade em que a fá-
profissão. De outro, que a atividade produtora dos alunos em brica deixe de ser propriedade privada e fonte de mais-valia
nada se assemelhe ao amadorismo, mas que se situe num para alguns, local de exploração para outros, podendo, na
elevado nível do progresso técnico, econômico e social. Má- realidade, ser designada como coletividade, esforço comum;
quinas modernas, métodos modernos de produção. os trabalhadores estão efetivamente associados a todas as
Deste modo o trabalho produtivo dos alunos constitui medidas tomadas, e as discussões com os alunos, as decisões
umasíntese do trabalho operário e de certos processos ade- adotadas por estes sofrem intervenção dos trabalhadores pro-
quados à escolarização: em particular são os monitores quali- porcionando um dos momentos da gestão da fábrica realiza-
ficados que preparam tarefas simultaneamente reais e da por todos os interessados.
educativas. Pode acontecer que se institua uma rotação de A união dos alunos com os operários, o papel desem-
funções a fim de os jovens se familiarizarem rapidamente penhado pelos operários junto aos alunos, só podem assumir
com uma multiplicidade de operações, mesmose, de imedia- realidade onde o trabalho operário for valorizado, onde a
to, isso for desfavorável ao rendimento e não corresponder à classe operária se erguer como força dirigente, onde a oposi-
organização do trabalho dos adultos. Pode ainda acontecer ção entre classes for ultrapassada. É numa sociedade que
que em inúmeras circunstâncias os salários inerentes ao tra- recupera a sua unidade que o homem pode recuperar a sua
balho dos jovens sejam, para a fábrica, superiores ao valor integralidade.
daquilo que eles produzem. Ninguém sustentará que a escola na RDA ou na URSS
Os alunos podem, portanto, participar de maneira váli- tenha ultrapassado todas as dificuldades. Seria arriscado
da na experiência da classe operária, aproveitarem-na,inseri- afirmar que o politecnismo tenha conseguido vencer todas as

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reticências da intelligentsia face ao trabalho operário; nem


que a margem de autonomia própria da juventude tenha sido
sempre salvaguardada. O problema foi inúmeras vezes exa-
minado pela imprensa destes países, o que ao mesmo tempo
comprova que não foi resolvido e que se procura atentamente
solucioná-lo.
A escola politécnica nos faz perceber até que ponto o CAPÍTULO HI
nosso sistema escolar é mistificante; é certo que esta só po-
derá ser estabelecida numa sociedade socialista, mas pode e COMO SE REALIZA A ESCOLHA DOS ESTUDOS
deve ser, a partir de hoje, um incitamento para que o nosso
ensino lute contra os privilégios a que pretende atribuir-se
um espiritual desencarnado; contra a ignorância e correlati-
vamente o desprezo em que são tidos a vida, o pensamento, I — Interiorização do destino estatístico
as realizações operárias; contra a separação entre a burguesia
pensante e dirigente e o proletariado reduzido à execução Um simples cálculo permite averiguar, por exemplo, as
submissa. probabilidades que se proporcionam à filha de um operário
Isto não significa que tudo quanto a nossa escola con- de entrar para a faculdade de medicina. Generalizando, para
seguiu até o momento deva ser varrido, porque a escola poli- cada categoria social existe um futuro objetivamente inscrito
técnica, se é o oposto da escola capitalista, defende, integra, em condições objetivas, um sistema de oportunidades que a
prolonga as conquistas reais — reinterpretando-as, transfigu- estatística consegue determinar.
rando-as. A partir do que, Bourdieu-Passeron manterão que mes-
Quando se confronta a escola capitalista da França, não mo sem o interessado possuir qualquer conhecimento científi-
com a experiência chinesa da revolução cultural, mas com as co destes dados, escolherá o seu futuro escolar: com efeito,
realizações da RDA, pode compreender-se ao mesmo tempo ele encontra à sua volta, entre os que lhe são próximos, seus
que revolução a nossa escola — e, portanto, a nossa socieda- iguais, certo número de êxitos, certo tipo de fracassos escola-
de — deve levar a cabo; e que, apesar de tudo, ela agora já res, tal nível de instrução; ele pensará que é esta uma amos-
mantém elementos válidos e forças de oposição, de progres- tragem do que logicamente pode esperar; é a partir dessa
so; na medida em que formos capazes de lhe proporcionar avaliação difusa que regulará as suas ambições e a sua con-
um papel real, ela deixa de estar implacavelmente condena- duta. Assim vai nascendo pouco a pouco nele um cálculo
da, aguardando o Grande Dia, a fazer de todos os seus alunos empírico, uma estatística implícita que lhe revela quais as
seres fracos, desarmados, artificiais — escravos. oportunidades de sucesso em determinado ciclo de carreira
escolar para um indivíduo do seu status social.
Bourdieu-Passeron chamam hábitos de classe a este
conjunto sistemático de disposições inconscientes e duráveis

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que se constituiu a partir de sanções convergentes e repetidas viver-se no melhor dos mundos, o mundo da harmonia pré-
do universo econômico e social. É, portanto, este hábito de estabelecida, aquele em que os indivíduos realizam os seus
classe que leva determinado indivíduo a julgar possível, con- desejos: mas, na realidade, esses desejos foram-lhes ditados
veniente, ou inverossímil, certa opção escolar e profissional. pelas possibilidades de realização efetiva que lhes eram aber-
tas e, naturalmente, para as classes exploradas, desejos e opor-
Disto os nossos autores deduzem que é um só e único tunidades de execução só podem ser extremamente limitadas.
movimento que comanda a escolha em si e as possibilidades Assim os indivíduos não esperaram nada que não obti-
de êxito na direção escolhida. Por exemplo, uma criança vin- vessem e não obtiveram nada que não esperassem. As pesso-
da das classes populares será de opinião de que o secundário as vivem na ilusão bem fundada do imprevisível e, contudo,
clássico não é feito para pessoas como ela (e poderemos dizer nada mais fazem do que repetir o seu passado, o passado da
que esta opinião, por definição, é a da sua família), que é im- sua classe. Na verdade, agem de maneira a que subsistam as
provável, presunçoso da sua parte querer chegar lá; o que vai desigualdades estabelecidas: basta-lhes confiar nos diferentes
inspirar-lhe um conjunto de atitudes e de disposições, de reti- ciclos escolares que lhes oferecem com umacandura duvido-
cências e de receios que ameaçam seriamente levá-lo ao insu- sa — e continuam a seguir o exemplo dos seus semelhantes.
cesso, confirmando, portanto, as suas apreensões iniciais. Ao
passo que uma criança de meio favorecido abordará os mes- Num sentido, poucas passagens, em Bourdieu-
mos estudos como um futuro que lhe é natural, banal, a via Passeron, soam de forma tão próxima do marxismo como
que normalmente lhe estava destinada; e persuadido de que esta célebre análise cujas grandes linhas acabamos de resu-
deve lá estar à vontade, saberá mover-se com desembaraço. mir. A consciência imediata é uma consciência mistificada,
Assim, existe em princípio um processo de interiori- sofre determinismos de classe que se impõem a ela tanto
zação do destino objetivo da categoria — e é esse precisa- mais imperiosamente quanto ela não consegue dominá-los,
mente um dos mecanismos pelos quais se realiza esse nem sequer compreendê-los claramente. Certo tipo de con-
destino objetivo. tentamento sentido pelo proletário não passa da sua aliena-
ção ainda não descoberta, diante de um sistema que é
A conclusão de Bourdieu-Passeron é dupla: o sistema sutilmente ajustado para funcionar em proveito das classes
escolar funciona de forma extremamente conservadora, só se dominantes.
preocupa com a reprodução de situações estabelecidas, visto É, pois, de má fé nos contentarmos com a satisfação
cada um, na sua opção, nas suas ambições, e logo a seguir, dos interessados, a qual encobre em inúmeros casos umareal
na realização dessa opção, se limitar a assumir por sua conta impotência, o futuro amordaçado que só consegue recomeçar
o destino da sua categoria e da sua classe. o passado. Bourdieu-Passeron ajudam-nos a perceber que a
Mas ao mesmo tempo — e é este ponto em que quere- atitude explícita do aluno — o queele diz e supõe sentir e o
mos agora insistir — não há descontentes, nem pode haver, que ele chega a sentir — não constitui um elemento novo,
pois as condições objetivas determinam simultaneamente as auto-suficiente: é indispensável ultrapassá-lo,ir até à percep-
aspirações e até que grau elas podem ser satisfeitas. Parece ção das condições que o suscitaram. Eis porque, consideran-

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do um só exemplo, os múltiplos questionários de interesses e conta do seu papel de vítimas. Como poderiam elas opor
de aspirações, malgrado o seu aparelho estatístico sabiamente qualquer resistência? A classe operária é escrava de um siste-
sofisticado, não nos satisfazem normalmente: os alunos não ma de pressões de que nem desconfia. A classe operária re-
nos confiam, como deveriam, senão o que penetrou até à sua duz-se a uma imensa passividade. Não há descontentes, não
consciência, mas as motivações profundas da sua escolha não há lutas. Como lutar contra o que não oferece resistência?
se inscrevem com a mesmafacilidade com que uma cruz assi-
nala uma resposta sugerida. Mesmo se a aspiração a uma A sociologia escolar de Bourdieu-Passeron insiste no
escolaridade curta é sentida por um aluno de meio popular escolar, isola os fatores escolares, esforça-se por explicar o
como elemento original e determinante, nem porisso deixa de escolar com o escolar; e chega a pôr de lado o conjunto das
ser uma resultante, o resumo das experiências que se pro- determinações sociais. A escola surge como isolada das
cessaram em torno dele e em que ele participou — o que não instituições e dos mecanismos globais. Talvez seja o preço
significa automaticamente que consiga atingir a sua plena de quase ter criado essa sociologia escolar: deixam-se prender
significação. Sobre estes pontos realizam os nossos autores pela sedução do seu próprio fruto. Mas chegam a estas fases
um progresso decisivo: dirigem-nos avisos que não esquece- assombrosas: “Esses mecanismos que asseguram a eliminação
remos. das crianças das classes inferiores e médias agiriam quase
H — E, contudo... com a mesma eficácia... nos casos em que uma política siste-
mática de bolsas ou de subsídios de estudo tornasse formal-
Contudo, o tema global desta análise não nos parece mente iguais perante a escola os indivíduos de todas as classes
convincente. A escolha de determinado ciclo não passaria de sociais... À igualização dos meios econômicos poderia ser
uma opinião, suscitada por uma espécie de rumor coletivo e realizada sem que o sistema universitário cessasse porisso de
confuso; a idéia, a idéia pura e simples que o jovem e a sua consagrar as desigualdades”.
família têm das suas possibilidades de êxito. A classe operá- Vê-se o que está em jogo: as condições de vida dos
ria move-se num mundo de sombras, de fantasmas, de diz-se. alunos são remetidas às suas condições de vida escolar e
As suas atitudes carecem de base real, de causa objetiva. finalmente ao problema das bolsas; a igualização dos meios
Estamos em pleno idealismo. econômicos seria obtida graças a um subsídio de estudo.
Resulta que a consciência operária corresponderia não Esqueceu-se que a desigualdade dos alunosé, na realidade, a
a um começo de compreensão que convidaria ao esclareci- desigualdade global dos seus modos de existência? A exten-
mento, que se abriria ao esclarecimento, mas a um erro total: são das bolsas pouco modificaria a seleção, não porque a
o indivíduo torna-se uma espécie de autômato, que não dis- estrutura escolar seja intocável, determinada pelas suas pró-
corre sobre o que lhe sucede; interpreta de maneira absolu- prias forças, ou antes, pela sua própria inércia, mas porque
tamente falsa as causas que o levam a agir e mascara não bastará evidentemente para preencher os fossos, os abis-
completamente o sentido das suas ações. mos existentes entre as famílias.
A junção dos dois temas, nas classes dominadas, é um
conservantismo sem história: vítimas que nem sequer se dão

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Igualmente, ao considerar a escolha dos ciclos de car- objetiva na opção escolar, no destino escolar, ou seja, a situ-
reira escolar, os nossos autores só tomam em conta uma im- ação desfavorecida das classes desfavorecidas, que o comba-
pregnação dos interessados pelos resultados escolares te é real, constitui a realidade da história.
habituais no seu grupo, considerados como causa principal, Nas suas opções escolares como nas suas outras ações,
desligados das condições que os suscitaram. Por isso as con- a consciência operária não consegue de imediato uma per-
dições objetivas se diluem em convicções. cepção inteiramente lúcida da realidade social, mas não se
Quando se trata de um aluno do CEG que tem de esco- julga condenada a ser o joguete passivo de mistificações que
lher entre continuar no ensino técnico ou enveredar pelo a fariam tomar o negro pelo branco e optar livremente pela
CET e que hesita entre ambos, as explicações que nos são resignação ao conformismo. A classe operária tem uma
propostas contêm porcerto o seu quê de verdade. Mas já será compreensão ao mesmo tempo real e parcial da sua situação;
diferente, por exemplo, se encararmos o problema de entrar e por isso é que um partido da classe operária, esse partido
ou não para o segundo €, a via científica, a via real: tais alu- que falta tão cruelmente nas análises de Bourdieu-Passeron,
nos, e que não estão repartidos ao acaso pela população, fica- é simultaneamente possível e necessário, possível porque
rão bloqueados por um fator bem autêntico, irrefutável, pelo nasce das realidades da experiência operária, isto é, do com-
menos no mundo da orientação escolar, e que não é de forma bate operário e necessário para proporcionara essa experiên-
alguma apenas um rumor: os seus resultados em matemática, cia a vastidão e a coerência que ela não atingiria só porsi.
a insuficiência desses resultados. E estas dificuldades reme- Isto significa em relação à escola, que existem — di-
tem para o modo de vida, para as dificuldades de vida que gam o que disserem Bourdieu-Passeron — descontentes e
tiveram de enfrentar os jovens das classes dominadas. lutas, lutas de classe: não é só este ou aquele indivíduo re-
Se são tão poucos os filhos dos operários que se matri- clamando contra a sua sorte, mas também a classe operária,
culam na Politécnica, não é pela circunstância de se impres- no seu todo, sempre protestando contra o sistema que pre-
sionarem pela raridade de alunos da escola Politécnica que tende afastá-la ou encurralá-la em formas exangues de esco-
encontram no seu meio. De fato, a exploração que pesa sobre laridade. As reivindicações escolares sempre constaram do
eles e a família não lhes permite desenvolver à vontade as programa das forças progressistas; resultados ao mesmo
suas qualidades científicas. tempo reais e parciais foram obtidos sempre que estas forças
estiveram em situação de influenciar o poder — ao passo que
E desde que se relacione o destino escolar com as con- Bourdieu-Passeron descrevem um sistema escolar onde não
dições de existência no seu conjunto, deduz-se de formairre- há mudança, onde ela é impossível e a opção dos estudantes
futável que as classes dominadas, bem longe de se não passaria da oportunidade perpetuamente renovada de um
mostrarem satisfeitas com a ordem estabelecida, travam uma não-mudar.
luta sem tréguas simultaneamente contra a exploração em
geral de que são vítimas numa sociedade dividida em classes E em grande parte a escola que gera o descontentamen-
e contra as consequências desta exploração sobre a escolari- to contra a escola; uma escolaridade reduzida desperta o gos-
dade dos seus filhos. É precisamente por haver uma base to por uma escolaridade mais avançada. Isto dizia Illich, e

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ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

com razão, apenas com a diferença de que ele interpreta isso


agora tentadas neste sentido se adaptam muito melhor aos
como uma catástrofe, ao passo que nós vemos aí um motivo
desejos dos jovens vindos da burguesia do que às crianças da
de esperança.
classe operária: “O mito da auto-educação, utopia aristocrá-
Do mesmo modo, são frequentemente os docentes que
tica própria de pequenos grupos de alunos”. Igualmente, a
levam a criança além dos limites a que ia confinar-se, a ul-
tendência do professor para a elite é um risco constante: não
trapassar o grau de aspiração do seu meio. M. Reuchlin ob-
fiscalizar, não vigiar ou pelo menos não abrandar à vigilân-
serva que, no fim do 3º, os professores mostram em geral
cia, é um meio de assumir umaatitude docente de qualidade
tendência para exercer uma influência moderadora sobre as
para discentes de qualidade.
ambições educativas das famílias, mas que a sua atitude é
Analogamente, Monique de Saint-Martin, discípula de
sensivelmente diferente em relação às famílias socialmente
Bourdieu-Passeron, explica que, na faculdade de ciências,
desfavorecidas. Concordamos com os docentes que contri-
são os estudantes dos meios favorecidos que reivindicam
buem para este descontentamento criador. Não se trata de
poder trabalhar à sua maneira, organizar o trabalho sozinhos,
operar alguns salvamentos individuais, mas de uma ação de
a ponto de serem os únicos juízes do seu trabalho: os estu-
conjunto ao nível das classes exploradas.
dantes vindos das camadas populares preferem exames par-
Que este movimento pelo qual a classe operária se
ciais, perguntas de algibeira, modalidades organizadas por
opõe aos aspectos conservadores da escola, ao seu encerra-
uma aprendizagem de conhecimentos sistemáticos.
mento em determinado ciclo truncado não basta, que a coo-
Bourdieu-Passeron receiam que semelhantes tentativas
peração com os docentes nem sempre lhes seja garantida, é
acabem por diminuir a extensão das matérias, impedindo,
fato mais do que indiscutível; os riscos de automatismo re-
portanto, o avanço do aluno em vez de lhe proporcionar o
produtivo e de contentamento passivo das próprias vítimas,
meio de ultrapassar a sua situação: “Certo ensino não-
riscos denunciados por Bourdieu-Passeron, existem. Mas
diretivo podetirar partido de uma elevada taxa de assimila-
existe igualmente um movimento oposto e que não cabe no
ção, mas à custa de uma considerável diminuição da quali-
universo de Bourdieu-Passeron. A partida não se Joga uni-
dade de informação assimilada... o nível de emissão é
camente entre alunos ludibriados e professores cúmplices do
regulado definitivamente por um dado estado do nível de
sistema. À luta contra opções escolares de refugo faz parte
recepção”. A partir daqui será receoso que o grupo não-
da grande luta contra condições de vida de refugo; ela existe
diretivo caminhe ao lado do movimento das liberdades que
porque lhe assistem razões objetivas e por isso o movimento
procura a integração; a sua atividade essencial acabaria então
operário organizado sempre a reivindicou. Temos, pois, de
por se expor a críticas como grupointegrado.
nos apoiarmos nela uma vez mais para a forçarmos a atingir
Bourdieu-Passeron dão mostras de uma extrema luci-
o seu auge.
dez ao recusar a alternativa entre a ingurgitação e a criação.
Para o estudante a escolha real não terá de ser feita entre à
São numerosas as passagens em que Bourdieu-
passividade receptiva e a imagem romântica do trabalho inte-
Passeron são reticentes a respeito das pedagogias não-
lectual como criação livre e inspirada. A participação origi-
diretivas. Começam demonstrando que as experiências até
nal na cultura e a assimilação pessoal da cultura existente

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serão atingidas através do entusiasmo, do exercício, das téc-


nicas metódicas de definição e de classificações; de forma
alguma pelo sonho de se cair de improviso na efusão mútua
ou na audição em grupo.
Será necessário acentuar a nossa alegria por deparar-
mos com tais temas, em convergência tão direta com os que
tentamos sustentar? Todavia, não estamos inteiramente tran- CAPÍTULO IV
quilos, pois a figura do professor, em Bourdieu-Passeron,
provoca-nos inquietação: aparece como que desprovido de BOURDIEU-PASSERON
iniciativa real, um funcionário perfeitamente dócil, mola real A IDEOLOGIA DOS DOTES
de um sistema bem lubrificado. Também é inconcebível que,
para os nossos autores, ele não tenha, nem vontade, nem po-
der de desmistificar aos olhos dos alunos a sua própria esco- PRIMEIRO TEMA:
lha; ainda menos os ajude a ultrapassar-se. Portanto, um Bourdieu-Passeron desmontam a ideologia
professor que, quanto aos pontos essenciais, não pode, nem das classes dominantes
sequer sonha, assumir um papel eficiente. Daí recearmos que
ele apenas escape à não-diretividade para endossar atitudes As classes privilegiadas não vêem, não querem ver, tal-
muito tradicionais em que o ensino não se preocupe sem vez se deva dizer que não podem ver, a conexão entre as
estabelecer um elo, uma continuidade, entre a vida dos alu- desigualdades sociais e as desigualdades de êxito escolar.
nos e as vias que lhes propõem. Para evitar os perigos da Por uma mistificação basilar, elas vão explicar as desi-
não-diretividade, arriscam-se os nossos autores a ficar ainda gualdades de sucesso escolar como desigualdades naturais,
aquém daquilo que essa não-diretividade nos deixará pres- desigualdades de dotes — e, naturalmente, falta de dote nas
sentir, em lugar de avançar ou de a integrar numa pedagogia crianças que sofrem ou são reprovadas na escola, portanto,
renovada, cuja noção continua ausente e talvez, aqui, ainda nas crianças das classes populares. O êxito remeteria para as
não compreendida. qualidades inerentes ao indivíduo, desde o seu nascimento,
até pelo seu nascimento, e que se designam de mil maneiras:
aptidões, talentos, dotes etc.
Noélle Bisseret afirma com razão que “na linguagem
corrente, a palavra aptidão designa um caráter inato, uma
realidade natural, substancial, causal, marcando as condutas
com o sinete da irreversibilidade”. Nem de longe nem de
perto se pensa em investigar o fundamento desses dotes: tra-
ta-se dos insondáveis desígnios da graça. A Providência, ou
a sua sósia, a Natureza, escolheu este para dotar para as ar-

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tes, para o êxito escolar; aquele outro não foi visitado pelo são as suas vítimas: os desfavorecidos, que vão persuadir-se
Espírito. Uns emocionam-se ouvindo Debussy enquanto ou- de que o seufracasso escolar advém da falta de dotes.
tros se enfastiam. De onde se conclui a existência de uma
desigualdade, também ela natural, e justificada, de necessi- Daqui o valor propriamente revolucionário da sociolo-
dades culturais; certos indivíduos são de tal forma constituí- gia da educação, e mais genericamente, da sociologia da cul-
dos que sentem necessidade de uma vida que lhes possibilite tura: a simples descrição das diferenças sociais e das
vagar e disponibilidade para se alimentar de música. Outros desigualdades escolares que elas instituem constitui por si
são alheios a ela. Assim conseguem as classes privilegiadas um questionar do princípio em que assenta o sistema atual.
legitimar — e, portanto, perpetuar — os seus privilégios cul- Ela desvendará a ligação maciça entre o triunfo cultural e as
turais e simultaneamente, os sociais; negando, nem sequer situações sociais privilegiadas, obrigará a aceitar que são as
querendo admitir, que se trata de uma herança social, pro- desigualdades socialmente condicionadas perante a cultura,
clamam-se portadores do mérito pessoal. que prestam contas das desigualdades nos êxitos escolares e
A escola não consegue, nem sequer tenta romper com universitários.
esta doutrina pela qual as classes privilegiadas querem justi- Há um segredo que as classes exploradas não desven-
ficar e impora sua existência. Pelo contrário, participa nesse daram — e os dominantes esforçam-se, o mais possível, para
grande logro: ela decreta uma sanção pretensamente neutra, que ele permaneça um mistério —: esses famosos dotes são
mas que, na realidade, aponta para aptidões socialmente simplesmente o resultado das condições favoráveis que en-
condicionadas, que correspondem diretamente às perspecti- volveram os privilegiados, e absolutamente em nada a auréo-
vas e hábitos das classes favorecidas. Ignorando-o, tomando la que os predestinava a figurar no número dos privilegiados.
todas as precauções para o ignorar, continuando a incensar Desmascarando-a, o sociólogo dá um golpe decisivo em toda
de louvores os favorecidos, de censuras e de interdições de a constituição ideológica pela qual os eleitos pretendem pro-
avançar as crianças vindas das classes não-privilegiadas, ela var o bom fundamento das suas prerrogativas.
assegura ao sistema existente a consagração de que necessita Mesmo se a sociologia escolar não puder ainda ser
para se defender: Ela transforma as desigualdades de fato em considerada uma ciência constituída, que apresente um con-
desigualdades de direito... as diferenças econômicas e esco- junto de trabalhos definitivamente estabelecidos, o impulso
lares em distinções de qualidade. Resumindo, as classes pri- que provoca possui como que um valor de choque, segundo
vilegiadas, com a cumplicidade da escola, impõem uma explicam os autores numa passagem capital: “A investigação
visão do mundoem que haveria como que uma diferença de sociológica é obrigada a suspeitar ou a denunciar metodica-
essência entre duas naturezas e que autoriza, a partir daí, mente a desigualdade cultural socialmente condicionada sob
uma sociedade em que duas classes auferem situações, van- a capa de desigualdades naturais aparentes, visto que só em
tagens, modos de vida totalmente diversos. desespero de causa deve pronunciar-se pela natureza. É uma
O drama é que estas interpretações, esta ideologia dos espécie de ceticismo metódico, um gênero de aposta, de con-
dotes, vão ser consideradas à risca, mesmo por aqueles que jectura favorável por hipótese à causa dos desfavorecidos.
Enquanto não se explorarem todas as vias por onde atuam os

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fatores sociais da desigualdade e que não se tenham esgotado E de maneira realmente magistral, Bourdieu-Passeron
todos os meios pedagógicos de a vencer eficazmente, melhor mostraram como é falsa, e de uma falsidade interesseira, a
duvidar demais do que pouquíssimo”. Trata-se, em princípio, assimilação que apresenta como evidente entre necessidades
de reagir violentamente contra a boa consciência trangúila e culturais e necessidades propriamente pessoais, por exemplo,
a ideologia dos dotes que ela segrega. a fome. Gostariam que pensassem que existe certa falta de
apetite cultural — e, portanto, os que nela participam teriam
Dois domínios bradam por um esforço particular de por destino uma vida privada de cultura — só lhes compete
desmistificação: a primeira educação familiar e o domínio da deixar aos outros, aos que as desejam, tais satisfações, bem
cultura dita livre, em especial a artística, desde o fregientar como os privilégios que lhes são inerentes. Porém, as neces-
concertos e exposições até o conhecimento de obras literárias sidades culturais só são reivindicadas pelos que conseguem
de vanguarda, aquelas que não constam nos programas. Tra- satisfazê-las, a necessidade cultural aumenta à medida que
ta-se, em ambos os casos, daquilo que não se ensina na esco- for saciada, a consciência da privação decresce à medida que
la e que constitui, contudo, um auxílio considerável, até uma a privação cresce.
condição do êxito escolar. O sociólogo descobrirá que mesmo as formas mais lar-
Há necessidade de uma investigação sociológica que gamente difundidas da cultura não têm, de nenhum modo,
revele a que ponto as influências exercidas sobre a criança sobre todas as classes sociais, igual efeito educativo porque
variam segundo as condições de vida das famílias e também não as atingem de forma homogênea. Nunca se pode, pois,
para denunciar, decifrar essas influências, porque elas não afirmar que as oportunidades culturais são idênticas, aprovei-
resultam de um esforço deliberado; são aprendizagens im- tando-as cada um segundo a sua natureza. Por exemplo, é
perceptíveis e inconscientes, uma impregnação ao mesmo extremamente falso supor que a televisão se dirige a todos da
tempo difusa e total. Fregientar os museus desde muito jo- mesma maneira: na realidade, a escolha das emissões, a for-
vem, viver num meio em que se ama a pintura, escutar aqui e ma de as acolher, o tipo de atenção que lhes é prestada e,
ali palavras que constituam uma iniciação no mundo pictóri- finalmente, a formação assim obtida, são outros tantos ele-
co, mergulhar na experiência pictórica, como numa espécie mentos dependentes da educação já adquirida e, portanto,
de evidência, são outras tantas condições desse famoso dote situações diferentes logo de início.
estético. A partir disto, o sociólogo demonstrará que só as Os privilégios ou as desvantagens são fortemente cu-
famílias já cultivadas, já privilegiadas, são suscetíveis de mulativos, o que vem acrescentar a desigualdade das distri-
assegurar aos seus filhos tal familiaridade com a cultura. E buições. É na medida em que pertence a uma família que
são precisamente esses os alunos que enfeitarão as suas reda- viaja, que consagra tempo às viagens, que organiza as suas
ções com um toque que a escola enaltecerá com a designação viagens pensando nos recursosartísticos dos países visitados,
de original, de pessoal. Enquanto a sociologia da educação que dispõe, portanto, de um capital cultural e social impor-
não obrigar a projeção destes dados em plena luz, as classes tante, que uma criança tem oportunidades de ser encaminha-
dominantes ficam perfeitamente à vontade deixando-os num da, muito jovem, para os museus.
esquecimento cúmplice.

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A sociologia de Bourdieu-Passeron sabe opor-se às in- nos assim um instrumento, uma arma essencial para combater
terpretações espontaneístas do prazer estético, como soube mistificações perigosas, não apenas as do passado, mas tam-
resistir ao espontaneísmo da não-diretividade: queriam nos bém as de determinadas correntes contemporâneas.
fazer acreditar que basta nos entregarmos à obra de arte, sem
juízos antecipados nem comentários interpretativos. Uma A sociedade anterior a 1789 assenta ideologicamente
confrontação direta da qual brotaria o prazer instantâneo: um na convicção de que cada grupo social está, pela sua nature-
olhar não precavido, ingênuo e inocente. Assim só estaria em za, destinado a uma função, predestinado tal tarefa e seria
questão uma aptidão para o gosto artístico, aptidão constitu- uma espécie de sacrilégio pretender modificar, abalaras situ-
tiva do indivíduo, inscrita no coração do indivíduo. ações assim estabelecidas. Deus distribuiu diferentes talentos
Contra isto concluirão os nossos autores que o prazer entre os homens assim como plantou diferentes árvores na
estético que se vive ou se supõe viver como natural é, na natureza; por isso cada talento, bem como cada árvore, pos-
realidade, um prazer cultivado. É necessária muita cultura sui a sua propriedade e o seu efeito peculiares. Neste sentido,
para poder, de certa maneira, renunciar à cultura, ou antes, a realidade feudal-nobiliária reconhece-se, projeta-se numa
renunciar a mobilizar de maneira deliberada todos os ele- espécie de teoria das aptidões. Ao que se opõem os esforços
mentos fornecidos pela cultura e nos colocarmos simples- progressistas da burguesia pré-revolucionária.
mente perante a obra numa atitude de receptividade Através do século XIX, todos que sonharam com o re-
aparentemente simples. É indispensável uma aprendizagem gresso à sociedade do Antigo Regime reclamaram, com
longa e paciente, uma habituação tão constante que os exer- energia ou desespero, essa mesma teoria. Assim afirma Le
cícios interpretativos, constituindo a própria trama da exis- Play: “A desigualdade das inteligências e a raridade dos espí-
tência, deixem de ser considerados de forma distinta. ritos superiores constituem uma lei natural e uma das condi-
Mas de que lado da sociedade estão os que consegui- ções manifestas da harmonia social”.
ram formar-se deste modo? Mas gera-se uma situação aparentemente paradoxal:
pouco a poucoa teoria das aptidões vai revestindo-se de uma
SEGUNDO TEMA: forma secularizada e assumindo uma aparência republicana,
Bourdieu-Passeron ajudam-nos a lutar até democrática. O que culminará na psicologia com uma
contra as mistificações determinada orientação profissional: sendo cada um caracte-
rizado portal capacidade, tal conjunto de capacidades parti-
Estamos perante um dos momentos mais fecundos e culares, é necessário e suficiente colocá-lo no lugar preciso
mais reais da obra de Bourdieu-Passeron. Abordam aqui, si- em que estas possam ter livre curso; a partir daí o conjunto
multaneamente, um método de investigação e resultados para social obterá o melhor rendimento possível e, paralelamente,
os quais, sem exceção, devemos todos apelar futuramente. cada um, visto trabalhar no sentido das suas inclinações, usu-
Devemos aproveitar todo o seu alcance no que concerne à fruíria o máximo de satisfação pessoal; naturalmente, esta
história das teorias da aptidão, tal como a evocou Noélle Bis- distribuição estaria indicada a partir do tempo da escolarida-
seret num artigo célebre, e depois no seu livro. Proporcionam- de. Exemplo característico entre tantos outros, o Decreto-Lei

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de 6 de janeiro de 1959 (Reforma Berthoin): “Por uma exata conhecer a existência de diferenças biológicas hereditárias
procura destas diversas aptidões, os diferentes tipos de ensi- entre os indivíduos”. Agiriam não sobre determinada capaci-
no devem receber todos os alunos que estejam mais especi- dade em especial, mas a nível global da inteligência que um
almente aptos para uma ou outra delas. Propõem-se indivíduo pode atingir; esta herança genética não é encarada
substituir a orientação baseada na plena observância das ap- como anulando a ação do meio, mas a sua influência consiste
tidões dos alunos”. De forma muito semelhante, Fouchet em “delimitar a margem das possibilidades entre as quais as
declarará em junho de 1963 que o CES tem por finalidade condições do meio vão proceder a uma escolha”. E Reuchlin
“substituir uma clivagem fundada na situação social, na for- acusa de má fé aqueles que não partilham o seu ponto de
tuna, na geografia ou simplesmente no acaso, por uma ver- vista: eles abafariam a verdade biológica, considerariam seu
dadeira orientação que coloque cada criança, rica ou pobre, dever ignorar as diferentes possibilidades dos diferentes ge-
urbana ou rural, no caminho para que a solicitam as suas nótipos, com medo de serem acusados de perfilhar opiniões
aptidões intelectuais e os seus dotes”. antidemocráticas.
Na verdade, já a mera leitura da exposição dos motivos De qualquer modo, impressiona verificar que os pró-
deixava entender que se trata essencialmente de diminuir o prios biologistas são muito mais prudentes. Segundo Larmat:
número de estudantes do segundo grau — onde havia pene- “Nem sequer há a certeza de não nos enganarmos conside-
trado grande parte dos alunos desconhecendo as suas verda- rando provável que no seio da nossa sociedade o patrimônio
deiras aptidões — e é bem certo que estes extraviados se genético atinja uma proporção compreendida entre um terço
concentram num certo setor da sociedade. Trata-se ainda de e dois terços na aquisição do nível intelectual”, Conclui que
assegurar o recrutamento do ensino terminal em relação ao a genética, no seu estado atual, não pode vir a ser o monopó-
qual não se esconde que se destina a fornecer à empresas lio de qualquerdas partes em questão: “Há algo de inato que
operários não-qualificados que lhes são necessários; isto en- não se pode desprezar nas nossas aptidões. Não é possível
quanto se afirma que o problemanão é a hierarquização, mas avaliá-lo com precisão, mas pode-se afirmar que é suficien-
a repartição, enquanto se preparam de um lado funcionários temente grande para condenar qualquer dogmatismo fechado
superiores e do outro os profissionais especializados e não o bastante para constranger, por muito pouco que seja,
O mérito de Bourdieu-Passeron não peca porter torna- os defensores de conceitos mais avançados”. É numasitua-
do inaceitável estas invocações das aptidões como funda- ção destas, face às incertezas dos cientistas, que a dúvida
mento imparcial da segregação escolar, depois social. metódica preconizada por Bourdieu-Passeron nos surge co-
mo a via mais fecunda.
Hoje a teoria dos dotes e aptidões tem adeptos que de- O mesmo autor mostra, aliás, como esta oposição entre
claram levar em conta as recentes descobertas genéticas. genótipo e meio é falaciosa: não só um mesmo genótipo não
Assim, sustenta Reuchlin que “fatores biológicos hereditá- se exprime da mesma forma nos diversos meios, como ainda
rios desempenham determinada função nas diferenças cons- é num meio rico que as desigualdades de origem genética
tatadas entre os indivíduos, nomeadamente do ponto de vista assumem maior vastidão. Por exemplo, é quando são educa-
da sua educabilidade”. Porisso lhe parece indispensável “re- dos em famílias favorecidas que as diferenças de Q.I. entre

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GEORGES SNYDERS
ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

gêmeos bivitelinos são nitidamente mais fortes do que entre TERCEIRO TEMA:
gêmeos univitelinos. Deste modo, a participação que cabe ao Subsistem graves problemas
inato e ao ambiente no desenvolvimento intelectual variam
segundo o próprio meio. Portanto, o meio não é dado intei- E, contudo, não podemos deixar de pôr algumas difi-
ramente a cada indivíduo, ele não é absolutamente separável culdades essenciais.
do inato. É em parte escolhido ou mesmo criado por cada Antes de mais nada, queremos dizer que a sociologia
sujeito. não tem o monopólio desta desmistificação: a psicologia
É importante observar que na citada passagem, prolon- também dá a sua contribuição, e sobretudo nos seus compor-
ga Reuchlin as suas interpretações tiradas da biologia com tamentos efetivos, quando é arrastada, malgrado os seus pos-
considerações sociológicas: “Parece plausível que as crian- tulados, para situações reais que tem de enfrentar. A prática
ças mais inteligentes de uma certa classe sócio-profissional da orientação profissional levou os psicólogos a atribuir um
tenham mais oportunidades de acesso a uma classe mais ele- papel cada vez mais importante aos fatores afetivos, aos fato-
vada do que as outras”. Haveria, sem dúvida, aqui, uma frase res relacionais, ou seja, às condições existenciais e educacio-
reticente: “o que nãosignifica, de qualquer forma, que a inte- nais, às diferenças entre as situações vividas, e vividas desde
ligência seja o único fator interveniente na promoção social”. a primeira infância, segundo as classes sociais.
Todavia, somos levados a nos interrogarmos com inquieta- As contradições entre os casos tangíveis para os quais
ção sobre se o autor não está a ponto de imaginar, não sente ela tenta achar uma solução e a teoria das aptidões é, sem
necessidade de imaginar, uma sociedade em que nível social dúvida, uma das fontes do mal-estar da psicologia contempo-
e nível de inteligência andassem lado a lado; neste caso o rânea — um aspecto da dificuldade global em queela se de-
conjunto das suas afirmações muito dificilmente se aplicaria bate para operar a síntese entre os seus pressupostos
à nossa realidade. ideológicos e as exigências nascidas da sua prática. Mas é
assim que ela vai evoluindo para atitudes de acolhimento e
É tempo de voltarmos a Bourdieu-Passeron. Num as- de compreensão profunda, onde as noções de dote e de apti-
pecto estamos muito próximos da denúncia desta mesma dão, tal como eram designadas por Noélle Bisseret, são cada
ideologia dos dotes feita por Sêve ao gritar, sob risco de pro- vez mais abaladas na sua teoria, afastadas da prática. Por
vocar escândalo que “os dotes não existem”; parece que caí- exemplo, Reuchlin, cujas concepções teóricas nem sempre
mos numa perspectiva marxista, pois Marx já havia chamado partilhamos, parece-nos adotar atitudes tanto mais justas
a atenção para dois pontos: de um lado a diferença entre as quanto se referem mais diretamente à atividade autêntica do
disposições individuais é bem menor do que o supomos e psicólogo. Nomeadamente, soube ele denunciar com muita
sobretudo daquilo de que as classes dominantes querem nos penetração certas evasivas invocadas em apoio dos ciclos se-
convencer; de onde a fórmula metafórica: um carregador gregativos: as formações concretas, isto é, que pouco apelam
difere menos de um filósofo do que um mastim de um galgo; para o verbal, parecem à primeira vista, as melhor adaptadas
e sobretudo esta diferença não é inata, dada, não constitui às crianças saídas de meios populares; mas ameaçam encerrá-
tanto a causa como o efeito da divisão do trabalho. las dentro de limites tacanhos e criar guetos. Por isso esta re-

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comendação profundamente válida: “Esses métodos devem os confrontar, ele pode ler aí que não existe um “hiato entre
sertransitórios e ter por objetivo proporcionar ao maior núme- os dois grupos extremos que se oporiam totalmente, mas sim
ro possível os meios e as oportunidades de que usufruem mais uma progressão muito regular de possibilidades de acesso ao
fregiientemente as crianças socialmente favorecidas”. E é o ensino prolongado, de um grupo a outro, à medida que se
mesmo que advogara favor da hereditariedade... vão elevando na hierarquia sócio-profissional”. Por exemplo,
a mesma estatística pode ser encarada de duas formas distin-
Bourdieu-Passeron têm tendência a apresentar-nos os tas. A primeira visão nos leva a concluir que, ao término da
sociólogos, e mais precisamente os sociólogos da educação, escola primária, 76% dos filhos dos empregados qualificados
como detentores, mesmo por imperativo profissional, de um estão em dia com os estudos, ou até adiantados, ao passo que
potencial revolucionário. Voltemos a ler esta passagem dos 74% dos filhos dos operários estão atrasados. De acordo com
Héritiers: “A simples descrição das diferenças sociais e das a segunda forma de ver, estão em dia ou adiantados: 27%
desigualdades escolares que elas instituem é por si só a con- dos filhos de trabalhadores agrícolas, 36% dos filhos de ope-
testação do princípio em que se baseia o sistema atual”. Não rários, 41% dos filhos de agricultores, 48% dos filhos de
necessitam, pois, para ser revolucionários, nem de participar empregados, 51% dos filhos de comerciantes e de artífices,
nos movimentos de luta contra o sistema atual, nem de inse- 71% das crianças provenientes dos quadros médios, 69% de
rir o seu pensamento numa concepção teórica global da revo- crianças de industriais e de profissionais liberais, e 76% das
lução; bastaria constatar os resultados dos seus próprios crianças cujos pais são empregados qualificados. Deste mo-
trabalhos. A sociologia escolar constituiria uma arma revolu- do, as estatísticas indicam um aumento encorajador, pois
cionária autônoma, bastando-se a si mesma; daí sugerir-se representam a maioria progressiva das oportunidades no con-
que ela pode ser a arma essencial da revolução... junto das situações sociais.
Porém, o exemplo de Alain Girard vai moderar singu- A. Girard traça, deste modo, o quadro agradável de
larmente tais esperanças. Não se pode negar-lhe conhecimento uma promoção social que, em inúmeros casos, se processa
dos dados em que se apóiam Bourdieu-Passeron, em particu- lentamente, mas sem choques nem revoltas, através de várias
lar dos que dizem respeito à desigualdade das oportunidades gerações; é preciso ter paciência para sofrer certas pausas,
iniciais, visto que, na sua maioria, foi ele quem os elaborou; ocupar alguns escalões intermediários. Mas aqui o sociólogo
aliás, são eles os primeiros a reconhecê-lo. persuade-se de que basta confiar neste movimento, deixá-lo
Mas as suas conclusões são de um conservantismo pru- agir e agiientar as suas conseqiiências; e a fim de que não
dente. Começa por se regozijar por a nossa sociedade não ser subsista qualquer dúvida acerca das suas posições, afirmará
uma sociedade de castas; é inegável uma certa instabilidade; ele: “A noção de luta entre classes antagônicas não parece
existe, apesar de tudo, um terço de alunos das grandes reparar nos mecanismos de seleção que se observam no de-
escolas que vieram de meios intermediários, que incluem, curso da escolaridade”. Ou ainda: “Não há ruptura entre dois
entre outros, funcionários médios e subalternos. Por outro meios antagônicos, mas uma progressão contínua dos menos
lado, quando ele introduz nas estatísticas o conjunto das bem aos melhorcolocados”.
classes médias em lugar de se ocupar dos dois extremos e de

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Neste caso é o sociólogo quem vai evocar as aptidões ca por si só, isolada de qualquer contexto político, se o
individuais para logo as classificar de desigualdades indivi- sociólogo não se apoiar em forças de resistência sociais e
duais: há, e isso parece vir de nascença, sem que seja possí- teóricas, não chegará a romper com a ideologia ambiente.
vel compreendê-lo ou modificá-lo, melhores. E são estes
melhores que devem ser selecionados. E quando o sociólogo Mesmo no caso de sociólogos incontestavelmente pro-
reintegra o seu domínio próprio, é para citar a permanência, gressistas como Bourdieu-Passeron, a denúncia da ideologia
a inércia, a força de inércia do social: “As estruturas sociais, dos dotes, por mais importante que seja, não nos parece ir
tanto como as mentalidades, não podem ser brutalmente além de contrapropostas realmente persuasivas porque não
transformadas para se adaptar, de repente, a um pedido cres- participa de uma visão revolucionária da sociedade. Para
cente de instrução”. triunfar no conceito dos dotes (não se trata da evidente diver-
Por consegiência, sociólogos de primeiro plano e de sidade dos dotes, mas do dote como inerente à pessoa, inde-
uma extrema lucidez podem permanecer conservadores pendentemente da sua história e da sua dependência de tal
quando as suas investigações, necessariamente especializa- grupo), é preciso, pensamos nós, ultrapassar de maneira de-
das e, portanto, parcelares, a tal ponto se apegam mais à cisiva a oposição indivíduo-meio, a oposição entre um pa-
constância, à estabilidade das estruturas sociais do que às trimônio hereditário, biológico ou psicológico do indivíduo e
contradições e às forças renovadoras que elas contêm. a ação, dita socializante, do meio. Isto não parece possível
É com tranquila satisfação que um outro sociólogo fora de uma teoria da realidade social, capaz de romper com
examina a ascendência de antigos alunos da Politécnica: as habituais noções de ambiente, de uma determinação ex-
constata que 50% dos seus avós não ultrapassara o diploma terna que enfrente, que se exerça sobre um indivíduo pré-
primário e que, em 56% dos casos, a ascensão do neto conti- existente; e sem uma teoria da personalidade, essa de que
nua uma promoção que transitou do avô para o pai e deste Seve anuncia assim a linha diretiva: “A forma individual da
para o filho. Aliás, ele não procura averiguar o porquê desta humanidade, do ser homem, não é de modo algum primordi-
escalada miraculosa de determinadas famílias, nem do desti- al como espontaneamente a si própria se apresenta, mas bem
no dos netos da imensa massa de trabalhadores, que ficam secundária, sendo a sua base real constituída fora dos indiví-
bloqueados logo na instrução primária. duos, pelo conjunto objetivo e historicamente móvel das re-
Isto leva-nos a moderar muito seriamente a segurança lações sociais”. O marxismo quer dizer-nos que o indivíduo
de Bourdieu-Passeron e a confiança que depositam na sua isolado não é de forma alguma um elemento natural, não
especialidade: as perspectivas sociológicas podem perfeita- constitui, absolutamente, o ponto de partida da história. É o
mente ser interpretadas num sentido reformista e mesmo tema em que Séve soube centrar a sua reflexão, a nossa re-
conservador, enquanto não forem integradas, como um dos flexão. Marx destrói “a crença numa ilusória essência huma-
elementos a unir os outros, numa síntese resolutamente pro- na abstrata, inerente ao indivíduo isolado, porque descobre a
gressista. A sociologia da educação não permite a fuga a uma realidade da essência humana concreta no conjunto das rela-
posição revolucionária, mesmo que ela possa trazer-lhe ar- ções sociais”.
gumentos novos e de grande valor. A constatação sociológi-

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Bourdieu-Passeron tiveram o mérito de denunciar o uso aceitam, ou antes, aplaudem as condenações que os atingem
mistificador da ideologia dos dotes com que a burguesia se assim tão incisivamente, não nos parece apontar para uma
deleitava, Para minaresta teoria em si, é preciso chegar a um tomada de consciência, mas antes, para uma fuga; há angús-
conjunto sistemático de proposições revolucionárias pelas tias e sentimentos de culpabilidade tais que servem apenas à
quais o indivíduo deixa de ser separável do destino da sua inação.
classe, da história da sua classe — e existe tanto mais como Esta proclamação dos dotes serve de meio de defesa a
indivíduo quanto mais viver como militante da luta histórica. professores entre a espada e a parede que se precipitam sobre
este derradeiro recurso. Mas se os professores conseguissem
Enfim, lendo as divagações de Bourdieu-Passeron ser tomados a sério pelo interesse do que oferecem aos alu-
acerca da ideologia dos dotes, uma conclusão parece impor- nos, ou seja, o laço efetivo entre a experiência vivida e o
se: excetuando o sociólogo, todos aceitam, todos são cúmpli- esclarecimento que dela propõem... Trata-se então de um
ces, não há antagonistas. Depararemos aqui com a mesma caso irreal, e mesmo irrealizável?
dificuldade surgida nas páginas anteriores, dedicadas à sele- A descrição de Bourdieu-Passeron é válida na medida
ção de estudos. em que os professores são, do ponto de vista pedagógico,
Eis os primeiros destinados a ser coniventes da ideolo- desesperadamente reacionários, ou antes, reacionários e de-
gia dos dotes: os professores. Os nossos autores vão evocar sesperados, reacionários e, portanto, desesperados, pois é
uma espécie de psicanálise dos professores: alvo de muitas nesta mesma medida que eles são obrigados a restringir-se à
críticas que desabam de todos os lados, vindas cada vez com ideologia dos dotes. Mas será isto um retrato de todo o do
mais fregiiência de uma pequena burguesia pouco prestigio- corpo professoral?
sa, eles andam à procura da sua própria justificação — e o
seu único título de glória é o título universitário, é haverem Mais uma vez nos garantirão que as classes exploradas
triunfado em um certo número de exames, transposto uma se deixam penetrar inteiramente pela ideologia do adversá-
série de barreiras; perante os alunos, e também perante os rio; não basta afirmar que elas são incapazes de lhe opor a
pais, o seu supremo recurso consiste em se apresentar como mínima resistência e que se deixam cair na armadilha; até no
dotados, possuidores dessas aptidões pessoais que os distin- seu foro íntimo se conformariam com os votos da classe do-
guem dos que os rodeiam e tão alto os erguem acima deles. minante: vivem a sua desvantagem como destino pessoal.
Na realidade, eles querem esquecer, necessitam esque- Não contentes por aceitar, assimilar a teoria dos dotes, pare-
cer que se trata de formas de viver e de pensar que eles pró- cem unânimes em abandonar aos outros a sua posse exclusi-
prios adquiriram mais ou menos laboriosamente. va. Portanto, apenas os sociólogos constatam a verdade, mas
Naturalmente que não estamos absolutamente persua- afinal, eles estão isolados, sem aliados. Com que força pode-
didos por estas análises; pensamos, como sempre, que elas rão contar para tornar eficazes as suas descobertas?
denunciam com justiça uma tentação que ameaça os profes- Professores e escola manobram de forma a não causar
sores, embora elas a transformem indevidamente numa defi- o mínimo incômodo à ideologia e aos interesses das classes
nição total. E o masoquismo com que tantos professores dominantes; os explorados são cúmplices passivos. A socio-

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logia da educação, pelo menos a de Bourdieu-Passeron, pre- dotado. O que executa não é capaz de melhorar o seu traba-
tende-se revolucionária, mas como ela é a única força revo- lho; os processos que utiliza, ou mesmo que elabora a partir
lucionária, seria preciso que ela fosse, que ela fizesse sozinha da sua própria experiência, não têm qualquer relação com os
a revolução; isto equivale à sua impotência. que permitem uma melhoria autêntica; é mais evidente que
se trata de um não-dotado.
Felizmente, não é absolutamente exato que as classes Há mais: de oito homens que constituem uma equipe
dominadas se precipitem assim ao encontro de teorias que as encarregada de carregar gusa, afirma Taylor que só um deles
condenam e desprezam. A história da classe operária — quer foi feito para a tarefa — e os outros sete serão eliminados. A
se evoque a Comuna, a Frente Popular, a Resistência — seleção dos operários consiste em escolher os indivíduos
mostra que ela adquiriu uma justa consciência, um justifica- adequados a um determinado gênero de trabalho. O nosso
do orgulho do seu valor, e sempre a sua ação lhe fornece autor julga as aptidões simultaneamente específicas em rela-
motivos legítimos para o confirmar. ção a tal tarefa e coladas em definitivo à pessoa. Certos indi-
A difusão do marxismo a faz perceber cada vez melhor víduos nasceram com faculdades de percepção e de ação
que são as classes exploradas que, com as suas lutas, ora reflexa e, por exemplo, essas faculdades habilitam-nos a ve-
surdas, ora clamorosas, abrem caminho à história; são elas rificar as esferas das bicicletas; é preciso excluir da oficina
que têm a coragem e a clarividência necessárias para fazer de bicicletas todos que não estejam marcados por tal pré-
brotar uma nova sociedade. É este aspecto da realidade que disposição.
parece inacessível a Bourdieu-Passeron bem comoo fato de Esta dicotomia será confrontada com a proposta por
não repararem no número sempre crescente de intelectuais Henry Ford numa frase famosa e que, na verdade, chega aos
que se tornam solidários à classe operária; entre eles, os pro- mesmos resultados: “A maioria dos trabalhadores, digo-o
fessores são cada vez em maior número; e mesmo os seus com pena, procura ocupações que não lhes imponham um
colegas menos avançados têm por única ambição colar-se à excessivo esforço muscular, mas interessa-se, sobretudo, por
classe dominante. aquelas que não os obrigam a pensar”. Ford encontrou pou-
cas pessoas que desejassem pensar por ele, com ele, e con-
Para uma melhor compreensão dos problemas postos cluiu que havia poucas pessoas dotadas para pensar.
pela escola, é, pois, indispensável, sair da escola, avaliar o Voltemos a Taylor: jamais a ideologia dos dotes se
que se passa nas fábricas: nelas, uma das formas mais con- afirmara com tanta severidade, tendo como corolário o evi-
cretas e mais violentas que assumiu a ideologia dos dotes, foi dente desprezo por toda a classe operária. Mas foi precisa-
o taylorismo. Taylor apresenta de um lado um tipo técnico, mente a classe operária que lutou com todas as suas forças
prático, entregue a tarefas de execução — e ele se limitará a contra o taylorismo.
cumprir cada gesto que lhe foi determinado, exatamente co- Sem dúvida que não conseguiu facilmente tirar as suas
mo lhe foi determinado, no tempo que lhe determinaram. E conclusões — e a transposição dessa luta para a ideologia
do outro, um tipo teórico, que prepara, que dirige o trabalho; escolar dos dotes é difícil — mas o impulso de luta, a pri-
ele pensa, é pago para isso; e todos deduzem que ele sim, é meira tomada de consciência, nasceram das próprias massas,

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e coube aos partidos operários prolongá-los e organizá-los. rio. Caso contrário, constatará que, reduzida só às suas for-
Nada de comparável à passividade cúmplice e autodesvalori- ças, permanecerá ineficaz; e será tentada a daí concluir que
zante pintada por Bourdieu-Passeron. A luta da classe operá- tudo é ineficaz e que as estruturas escolares não podem fun-
ria contra os métodos de trabalho, uma concepção de cionar a não ser esmagando ainda mais os que já estão humi-
trabalho que tão rudemente opõe dotados e não-dotados, lhados. A sociologia não pode reivindicar que é o principal
prova a lucidez combativa da classe operária. motor da revolução, mesmo escolar; tampouco está conde-
nada a ser um elemento solitário pregando no deserto. Jun-
É com o desenvolvimento deste movimento, saído das tando-se à oposição real das massas, ela encontrará vigor
próprias fábricas, que será desmistificada a ideologia escolar. porque, de fato, terá mantido as suas descobertas, aprovei-
Mais uma vez a tarefa dos intelectuais, sejam professores ou tando-as como momentos de uma unidade complexa e não
sociólogos, é a de se basear na luta existente dos explorados. conservando-as como uma tentativa, umatentativa isolada.
Há, sem dúvida, um papel a ser desempenhado pelos profes-
sores progressistas, e no interior da escola: levar a classe CONCLUSÃO DA SEGUNDA PARTE
operária a estabelecer laços (o que de forma algumasignifica
que ambas sejam idênticas) entre a fábrica e a escola, entre a Corremos o risco de sermos acusados de má fé pelo lei-
teoria das aptidões proposta na fábrica e a que reina com tor atento, pois não chamamos a atenção para certas passa-
demasiada freqiiência na escola; é assim que o fracasso esco- gens em que Bourdieu-Passeron por um lado e Baudelot-
lar ou o dote escolar aparecerão aos explorados não como Establet por outro, se esforçam por demonstrar que a escola
um setor à parte, mas como parte integrante da exploração. não é um bloco único e totalmente a serviço da classe domi-
À crítica da ideologia dos dotes feita por Bourdieu- nante, se esforçam por não perder as esperanças na escola,
Passeron inclui perspectivas fundamentalmente justas e, con- numa palavra, para não ser illichianos. Em particular as
tudo, está desviada a ponto de levar à renúncia, de favorecer últimas folhas de Héritiers em que são traçadas as linhas
a própria atitude derrotista que descrevem como característi- mestras da luta por uma pedagogia racional e por um ensino
ca das classes dominadas. Sentem-se autorizados a pintar a democrático.
classe operária como inerte, fazendo da escola um mundo Sustentaremos, todavia, que esse último apelo não é
fechado e desviando os seus olhares do domínio em que os compatível com o que estes autores têm afirmado insisten-
trabalhadores situam o seu principal posto de combate. temente: eles apresentaram-nos a escola, a escola inteira,
A sociologia da educação pode proporcionar à emanci- tanto a de hoje como a de ontem, como que compactuando
pação da classe operária uma contribuição real, pode e deve com os interesses dos dirigentes, a tal ponto que os fracassos
encontrar o seu lugar na luta de classes, com a condição de das crianças vindas do povo parecem normais, necessários,
saber evitar dois perigos maiores: ignorar os recursos de que inevitáveis, pelo menos enquanto subsistir a nossa sociedade;
as massas são portadoras e acreditar que se baste ideologi- sobretudo a um ponto em que qualquer ação progressista da
camente a si própria e, portanto, que nada terá a aprender, escola é assim negada, e quase parece inconcebível. Como
nem com a história nem com a teoria do movimento operá- esperar da escola iniciativas, um sobressalto, se a submetem

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GEORGES SNYDERS
ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

a um fatalismo sociológico, preço provisório de descobertas texto escolar, se não tem qualquer ligação com a pedagogia
reais?
restante — considerada de ponta a ponta como conservadora
Baudelot-Establet tomam em conta o antagonismo e as e embrutecedora — é por demais evidente que não terá a
lutas peculiares à escola: a escola é “local de múltiplas con- mínima oportunidade de criar raízes na escola.
tradições... O aparelho escolar francês não deve ser conside- De nada vale aos nossos autores afirmar que tal tentati-
rado como um sistema, como uma máquina bem lubrificada va é parcialmente eficaz, eles se limitarão a chamar-nos a
e que, faça-se o que se fizer, sempre funcionará para máximo atenção para o risco que corre esta pedagogia de ser simulta-
benefício da burguesia”. neamente reprimida e recuperada.
Consegiientemente, importância concedida às lutas que Apenas uma abertura, uma possibilidade de luta no in-
se processam no interior da escola, possibilidade destas lutas,
terior da escola já apontada como completamente bloqueada.
porque a escola depende de uma relação de força política, De onde a atmosfera de desespero, de fatalidade; parece irri-
portanto, precária; realidade atual destas lutas: “Os professo-
sório pretender conduzir uma ação válida na escola, pelo
res progressistas já deram e podem dar uma contribuição
menos enquanto uma revolução, cultural — maoísta para
decisiva”. Daí duas exortações que parecem responder às
Baudelot-Establet, muito mais indiferenciada para Bourdieu-
objeções que não deixamos de lhes dirigir: “Em lugar de Passeron — não tiver agitado todos os horizontes. Resta adi-
aguardar passivamente (ou de profetizar, o que irá dar no
vinhar o que iremos fazer amanhã nas nossas classes; resta
mesmo) o grande milagre revolucionário que fará ir pelos
ainda saber como serão reunidas e conscientizadas as forças
ares O sistema, que se analisem as contradições, que as ex-
capazes de operar essa revolução.
plorem uma a uma”. E esta, que toca o mais justo e mais
profundo: “Não se trata tanto de preparar uma nova luta que
seria preciso criar a partir do nada, como de entender o cará-
ter de classe das lutas em curso”. Eles evocarão a fusão da
concepção científica da história e da experiência concreta da
luta de classes.
Mas estas perspectivas realmente marxistas não podem
estar de acordo com o livro no seu conjunto — e esta luta a
partir de dados reais preconizados por eles, é tornada, de
fato, impossível.
O exemplo essencial que nos é dado de uma pedagogia
capaz de proporcionar material a estas lutas, está em Freinet:
“Um esforço... para virar a escola, pouco que seja, mas desde
Já, contra as suas funções oficiais”. O que implica que todas
as funções oficiais da escola são igualmente negativas. Mas
se a pedagogia de Freinet está inteiramente isolada do con-

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TERCEIRA PARTE

REALIDADE E IRREALIDADE DA CULTURA

Parece-nos que, de modos diferentes, os nossos autores


nos envolvem no sentimento da irrealidade da cultura, o que
só pode ter como consegiiência a irrealidade da escola; e isto
por desconhecimento da luta de classes. Perante isto um
Gramsci abre o acesso a uma escola possível, um Brecht a
uma cultura efetiva.

CAPÍTULOI

. ILLICH OU
“NÃO CONHEÇO A LUTA DE CLASSES”

Hlich ou não conheço a luta de classes ou ainda a luta


de classes, é a luta dos competentes contra os incompeten-
tes, sendo os competentes comparados aos exploradores e os
incompetentes aos explorados...

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

PRIMEIRO TEMA: E, em breve, os produtos saídos da megamáquina se


A cultura do perito reduzirá a zero voltam contra si mesmos, contra nós mesmos: em princípio o
a cultura do homem vulgar? automóvel surgiu como um meio de poupar tempo, mas ago-
ra o americano deve trabalhar muito mais horas a fim de pa-
I— A Convivência: Recordações de alguns temas gar a sua viatura e todas as despesas inerentes. Quanto mais
rapidamente estes automóveis são fabricados, mais conso-
A — Necessidadesfictícias mem o nosso tempo nos engarrafamentos e o nosso dinheiro,
e, portanto, ainda o nosso tempo, na construção de auto-
A sociedade industrial moderna, a sociedade da mega- estradas; e a nossa saúde, com a poluição pelas emanações
máquina, só pode funcionar em moldes de crescimento inde- da gasolina.
finido e de criação ilimitada de novas necessidades. Hoje em O progresso da medicina começou por significar uma
dia ter sede, é precisar de coca-cola: as exigências naturais redução importante da mortalidade e da doença, mas acabou
transformaram-se na procura de produtos manufaturados. Há porcriar por si novos tipos de doenças: doenças infecciosas
dez anos um mexicano morria em casa e os amigos encarre- nos hospitais, doenças causadas pelos próprios medicamen-
gavam-se do enterro; só a Igreja intervinha. Atualmente, a tos. E, sobretudo, os hospitais ultramodernos só são constru-
doença e a morte pôem em movimento o corpo médico, o ídos em correspondência direta com a cidade moderna, isto
hospital, as empresas funerárias, em suma, as instituições efe- é, compartilhando a sua insalubridade.
tivamente industrializadas, segregadas pelo mundo industrial.
Em todos os domínios, desde beber até morrer, se cri- Daí as múltiplas formas da nossa dependência: o con-
am normas de consumo obrigatórias e, contudo, fictícias. sumidor não tem possibilidades de escolher, de fiscalizar o
que recebe; um consumo de rebanho, ditado de fora, a opres-
As necessidades geradas pela produção em massa são são constante, exercida pelo vendedor, ou antes, pelas mer-
fictícias numa segunda acepção: não dão satisfação ao nosso cadorias. Quanto aos produtores, esses estão subjugados por
pedido. Por exemplo, o agricultor necessitaria de um veículo um trabalho que deixou de ter sentido para eles; a alegria do
à prova de terrenos, sólido, fácil de consertar, não muito ca- trabalho não existe. Para todos, a liberdade de escolha indi-
ro; propõem a ele e o persuadem a comprar uma máquina vidual, a capacidade inata de as pessoas agirem como que-
munida de todos os aperfeiçoamentos e futilidades em moda, rem são sacrificadas, pois as pessoas passam a desejar tipos
que são caros, frágeis e na maioria dos casos, completamente de objetos ou de condutas que só podem advir-lhe de mágui-
inúteis. Porém, a constante pressão da publicidade — doutri- nas: o automóvel destrói a mobilidade natural do homem.
namento a serviço da máquina industrial — conduz a uma Por isso há um enfraquecimento das iniciativas próprias, um
produção a toda a velocidade e à venda cada vez mais cara definhamento, que só pode acabar na passividade e na nega-
de máquinas sempre mais sofisticadas. ção da felicidade.
A máquina fez do homem seu escravo; o homem trans-
formou-se na matéria-prima da máquina, a mais maleável

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das matérias-primas. Um mundo propriamente absurdo em monopólio radical em proveito de um pequeno grupo de pri-
que os resultados não cessam de contradizer e de ridiculari- vilegiados — convidados porisso para nossos amos e senho-
zar, as intenções e as esperanças. Todas as instituições com res: por exemplo, as redes elétricas concentram nas mãos de
as quais o homem pretendia exorcizar os males originais se alguns o controle da energia; portanto, o poder de decidir
transformaram em túmulos cuja laje se abateu sobre ele. sobre o destino de todos.

Em semelhante mundo, as desigualdades não cessam E, principalmente, é a megamáguina que lança os ho-
de se tornar gritantes e mais cruéis. Desigualdade entre na- mens na insaciabilidade e na instabilidade: os objetos que
ções ricas e nações pobres: menos de 10% dos homens con- cobiçamos, que estamos certos de ambicionar visto terem
somem mais da metade dos recursos do mundo. conseguido persuadir-nos disso, não deixam de se suceder,
Desigualdade também dentro das nações mais ricas: nos Es- depressa se desatualizam, se desvalorizam, e nós mesmos
tados Unidos, nas classes pobres, a mortalidade infantil con- nos sentimos desvalorizados por os possuirmos, é preciso
tinua a comparar-se à de certos países tropicais, enquanto substituí-los a curto prazo, há sempre necessidade de outra
uma pequena elite se beneficia de cuidados extraordinários e coisa que apresente, pelo menos, o mais aperfeiçoado dos
extraordinariamente dispendiosos. Resumindo, os subprivi- aspectos, o mais complicado; é sempre necessário mais e
legiados crescem em número, enquanto os privilegiados con- mais. Jamais alcançaremos algo que nos contente, algo de
somem mais; consegientemente, a fome aumenta em relação repousante: cada nova unidade lançada no mercado cria mais
aos pobres e o medo em relação aosricos. necessidades e às quais não corresponde.
É que a importância da evolução das técnicas ultra- Este consumo efêmero de coisas irá comunicar-se às
modernas é vã, ela não converge com as necessidades que se instituições, às relações humanas, que perdem tudo que con-
impõem e continuam a impor-se às massas. Por exemplo, tinham de duradouro e de sólido: isto é chamado por Ilich
cirurgiões da América Latina vão a Nova Iorque iniciar-se de o desgaste irritante do tecido social.
em processos cirúrgicos de última geração; entretanto, a di-
senteria amebiana obstina-se em molestar 90% da população. As necessidades aumentam mais depressa do que as
Onde se necessitaria de grande assistência médica simples, possibilidades de as satisfazer, ou antes, sem haver qualquer
sem pretensões e eficaz na maior parte dos casos, o mundo esperança de as satisfazer, pois é a satisfação parcial que
industrial sente prazer em criar uma elite restrita de especia- desperta uma nova procura é ainda mais importante: é preci-
listas ultraqualificados, pois eles é que estão credenciados samente quando os hospitais, os serviços sociais, bem como
como representantes do progresso, é deles que os dominantes as escolas, começam a estar bem equipados que as pessoas
aguardam soluções miraculosas. ainda mais exigem.
Assim, a megamáguina e o conjunto das instituições Por isso o mundo da megamáquina só pode ser um
das burocracias que ela desencadeia, são denunciados. Pare- mundo de frustrações, de reivindicações e de exigências
cem predominar dois temas: primeiro, é a megamáguina que, crescentes. Os pobres se beneficiam, nos Estados Unidos, de
pelo seu próprio e fatal funcionamento, cria situações de hospitalização gratuita; mas como, apesar de tudo, são exclu-

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ídos dos cuidados médicos mais aperfeiçoados, só dispensa- É abolir o projeto do homem prometeano! que só vive
dos em algumas clínicas particulares, acabam formando uma para afrontar o destino e modelar o mundo de acordo com o
nova categoria de deserdados — portanto, de pessoas que se plano por ele arquitetado. Illich chama epimeteano? aquele
lamentam. Voracidade sem limite, desmedida. Em suma, a que, pelo contrário, deposita suficiente confiança na bondade
taxa de crescimento da frustração excede largamente a da da natureza para respeitar a ordem que nela está inscrita;
produção. conforma-se com a terra maternal. Ele instala-se no mundo
Seria possível encarar uma produção de bens de con- da aceitação que é simultaneamente o da renúncia: “Respon-
sumo em tal abundância que cada um tivesse a sua parte, a der com um sim, sem pensamento reservado à experiência da
sua justa parte? Illich garante que tal anseio é mera utopia: vida”. Começar, portanto, a elaborar um programa de limita-
poluição, erosão dos solos, diminuição da sua fertilidade e, ções racionais, determinar os limites a impor ao crescimento,
por outro lado, pressão demográfica: “Os limites dos recur- restringir a taxa de inovação — e assim reduzir a produção é
sos terrestres começam a mostrar-se”. E para proporcionar a o consumo. A diminuição das aspirações exigirá a destruição
todos os homens dos países deserdados simplesmente os da megamáquina e inversamente, a destruição da megamá-
bens e serviços de que dispõem os pobres dos países ricos, quina é a mais segura garantia da redução dasaspirações.
seria preciso multiplicar por cem a extração das matérias- Por exemplo, no que diz respeito a transportes, serão
primas — o que é absolutamente inconcebível. excluídos todos os veículos de velocidade superior à da bici-
cleta, promovendo por um lado os velocípedes, por outro um
O impasse quantitativo é, afinal, o indício de um erro tipo de carros motorizados de duas rodas, simples e resisten-
propriamente qualitativo: as necessidades geradas pela civi- tes: as pessoas depressa tomarão consciência de que esta
lização industrial a leva a viver de forma artificial, e o inte- velocidade moderada, mas real, é bem mais rápida do que a
resse pelo artificial cria aspirações ainda mais violentas de velocidade fictícia dos bólides. E irão, sobretudo, reencontrar
cevar, ainda mais desejos artificiais — e também o despeito a alegria de um instrumento que tanto dá lugar à autonomia
por uns poderem saciar melhor e mais desejos do que outros. como à iniciativa: eu próprio consigo consertar o carro de
duas rodas, pois o motor não é sofisticado — e na bicicleta a
B — As soluções em perspectiva minha força não é substituída pela da máquina.
As próprias pessoas construirão as suas casas: não se
Tendo o mundo enveredado por uma solução radical- trata, aliás, de inutilizar às cegas todas as máquinas, pois é
mente falsa, torna-se necessário realizar uma série de mu- precisamente graças aos elementos pré-fabricados, forneci-
danças de direção, de inverter o movimento. dos em grandes séries, que a montagem por pequenas equi-
pes será possível. Quanto a estas casas edificadas pelo seu
O ponto fundamental é a redução das aspirações, a li- usuário, primeiro o preço de custo descerá bastante e deixará
mitação das necessidades: tomar consciência da inutilidade
do artifício daquilo que nós consideramos necessidades.
' De Prometeu.
2 . . me
“* De Epimeteu, irmão de Prometeu e companheiro
.
de Pandora.

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de ser preciso que uma pessoa se embruteça trabalhando para Trata-se, portanto, de determinar, de referenciar os li-
pagar a renda; depois, as habitações poderiam corresponder miares críticos e de manter dentro desses limites o desenvol-
ao modo de vida de cada um: o camponês acabado de chegar vimento dos nossos aprestos e das nossas aspirações. Ora, é a
à cidade já não seria alojado no 11º andar de um arranha-céu, natureza quem fornece o critério da ferramenta que não é
constrangido assim a submeter-se a hábitos que na sua vida a nociva: não cabe ao homem fixar-lhe os limites, eles são
nada correspondem. naturais, ou seja, ao mesmo tempo inexoráveis, o que signi-
E as pessoas vão, principalmente, redescobrir uma sa- fica efeito de necessidade e esta necessidade é infinitamente
tisfação fundamental: a de se sentir em casa o que, pelo me- boa e providencial, assegura o equilíbrio e instala a alegria.
nos em parte, só acontece desde que isso represente o fruto A história é então suprimida, o que no mundo é essen-
do próprio trabalho; e resulte das iniciativas pessoais. cial foi fixado de uma vez para sempre: “Os limiares confi-
Cuidarão uns dos outros: a avó, a tia ou uma vizinha guram o direito constitutivo de qualquer sociedade... a
assistirão a mulher grávida, o doente ou o moribundo — em necessidade de determinar os limiares sem lhes franquear os
vez de eles serem transferidos, engolidos por instituições limites é igual para todas as sociedades”.
gigantescas e impessoais.
A ferramenta familiar é comunitária, é em torno dela
O mundo da megamáquina é um mundo desumano; que se forma a comunidade; será exagerado afirmar que ela
mas Illich está persuadido da existência de um limiar aquém cria a comunidade? Não apenas o uso que cada um faz dela
do qual o sistema é benéfico: as forças produtivas e os pro- não usurpa a liberdade de outrem agir de igual forma, como
cessos de produção mantêm-se compreensíveis e controlá- suscita também relações pessoais, convida às relações ami-
veis; o indivíduo aumenta o seu poder sem perder nem o gáveis. Nada de cidades gigantescas exigindo industrializa-
domínio nem a responsabilidade daquilo que executa; ele ção, mas reagrupamentos à escala humana. O indivíduoliga-
tem voto na matéria, pode fazer valer os seus direitos, é, na se harmoniosamente a tais conjuntos visto que a ferramenta
verdade, ele quem conduz a sua vida. A ferramenta familiar está a serviço do indivíduo integrado na coletividade.
é simples, pobre, transparente. O homem conserva a sua Ji-
berdade, pois a ferramenta familiar pode ser utilizada por Num mundo que é familiar, o homem só busca satisfa-
cada um sem dificuldade, tão regular ou raramente quanto o zer as suas verdadeiras necessidades e é precisamente nessa
deseje, para fins que ele determine. renúncia que encontra a sua felicidade: “alegria da sobrieda-
O trabalho autônomo passa a trabalho criador, expres- de... austeridade libertadora... pobreza voluntária... renúncia
sivo, aberto à surpresa das ações pessoais — valores que no alegre e equilibrada”, e isto é indissociável de uma inversão
dizer de Illich estão do lado do existir em lugar de só tomar das técnicas: “Escolher uma via austera com ferramentas
em conta o ter, e que irão permitir ao homem a realização da familiares”. O alvo consistirá em viver dentro de determina-
sua face espiritual. Cada um pode levaradiante os seus fins à dos limites; a insatisfação que a sociedade industrial guarda
sua maneira, com originalidade. É uma expansão e não uma em si, O inimigo a ser combatido.
acumulação.

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Esse mundo da frugalidade será um mundo igualitário: do começo do século XIX. Depois, os pequenos empresários
nunca mais alguns dentro de carros luxuosos e milhões a pé, foram devorados pelos grandes, e nunca mais se recompuse-
mas que cada um tenha acesso a veículos simples; portanto, ram — e procuram-se mutuamente ao abrigo do illichismo,
uma sociedade sem conflitos nem rivalidades: o desejo na medida em que ignoram que o imperialismo monopolista
frenético de enriquecer acabará desaparecendo e com ele o é o estágio supremo do capitalismo.
cortejo de ansiedades, de desapontamentos e de rancores. De outro lado, a desconfiança indiferenciada de Illich a
respeito de todas as instituições, consideradas como igual-
Desde que se ultrapasse o limiar, a ferramenta (famí- mente corruptoras, assemelha-se estranhamente à saudade do
lias) transforma-se em máquinas (indústrias) — e esta exerce capitalismo liberal; o sonho de restaurar a bela época do ca-
os seus efeitos destruidores sobre a sociedadeinteira. pitalismo liberal: os teorizadores do sistema afirmavam en-
Ela é elaborada, complexa; ao mesmo tempo só pode tão que a Providência assegura o acordo, tanto entre a oferta
ser secreta; transita para o serviço de um corpo de especialis- e a procura, como entre os interesses dos proletários e os dos
tas, só beneficia a casta dos técnicos e dos seus aliados, ou capitalistas, com a condição de que nem uma intervenção
antes, dos seus cúmplices: unicamente eles são capazes de a sacrílega das instituições e, sobretudo, do Estado instituído,
utilizar, só eles experimentam um prazer tirânico em fazê-lo; venha a contrariar o seu desenvolvimento harmonioso e es-
de lá apenas sairão objetos padronizados, embalados pela pontâneo.
instituição — e ao recebê-los passivamente, as pessoas redu- O que resultava em que se indignassem, em nome des-
zem-se a ser bons consumidores e bons usuários. Tudo quan- sa liberdade, por uma lei proibir o trabalho fabril a crianças
to podem fazer a partir de então, é ingerir instruções de 8 anos.
maciças, observar modos de emprego, utilizar maquinismos
sem lhe perceber a razão de existir: é o homem ajustando-se As duas virtudes aqui requeridas são a moderação e a
às exigências da máquina. As pessoas deixam de saber, de obediência, precisamente duas virtudes cuja ausência as
poder fazer as coisas por si mesmas. classes dirigentes não deixam de deplorar... em relação aos
outros.
IH — Antecipação ou nostalgia? Pregando a pobreza voluntária aos pobres, Illich se
iguala perigosamente com os conservadores mais clássicos
Mencionaremos rapidamente determinadas críticas que que sempre se queixaram de que se excitam artificialmente
os especialistas desenvolveram muito mais detalhadamente os humildes, de que se desperta neles necessidades, ambi-
do que nós. ções, que os vão tornar infelizes, pois não conseguirão satis-
fazê-las; pelo menos neste mundo. Sem os políticos, os maus
R. Gentis definiu claramente a nostalgia sócio- pastores — e Illich acrescenta, sem a escola e a megamáqui-
econômica peculiar a Illich: “um capitalismo de pequenos na — todo mundo estaria satisfeito com a sua sorte e igual-
empresários”. O mundo familiar não está assim tão distante mente mais tranqúilo. A limitação das necessidades é ainda,
das empresas de âmbito restrito e de estilo um tanto artesanal e acima de tudo, a limitação da necessidade de combater.

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E quando se constata como os grupos privilegiados são de duas rodas, mas simples e lentos, em que a iniciativa e a
hostis ao crescimento econômico, é possível que se queira personalidade terão um papel essencial a desempenhar, ou
saber o que a sua atitude encobre de autêntico egoísmo: não recorrem a veículos modernos, e os seus usuários estão con-
recearão eles uma espécie de concorrência, quando outros denados a manter-se receptivos, passivos: a serem transpor-
tiverem um standing idêntico ao seu, como sucedia na época tados. Ao menor contratempo mecânico, o seu único recurso
da Frente Popular, com essa gente que se recusava a freqiien- é correr a um mecânico especializado, o representante dessa
tar a praia receosa de lá encontrar os que estavam gozando marca, O único a conhecer-lhe os mistérios.
férias pagas? Se não forem as próprias pessoas construindo as suas
Hlich apresenta semelhantemente a pobres e a ricos as casas, as suas casinhas, não passarão, dentro dos grandes
alegrias da pobreza. Mas irá dar ou mesmo propor aos opu- blocos habitacionais, de escravas dos regulamentos e dos
lentos a renúncia a algumas necessidades supérfluas e con- assistentes sociais que devem, daí em diante, ensinar-lhes
firmar aos mais desprovidos a sua sorte, minando-lhes assim, aquilo que se tem o direito de fazer e, sobretudo, o que é
irremediavelmente, a força de resistência” proibido fazer.
Perde-se, então, quer a aptidão inata das pessoas para
HI — Umaluta impiedosa entre os criar o seu próprio ambiente, quer a sua habilidade para in-
especialistas e os homens vulgares vestir o seu tempo pessoal na criação de valores de utiliza-
ção, ao mesmo tempo desaparece a possibilidade de aprender
Porém, o ponto sobre o qual nos propomosinsistir por construindo, visto as pessoas não trabalharem umas com as
nos parecer crucial na discussão sobre a realidade ou a irrea- outras, já não evoluírem pelo conselho mútuo.
lidade da cultura, é o traço comum a todas as soluções pro- Desde que não se ajudem mutuamente, gera-se uma po-
postas por Illich: elas nascem de uma incompatibilidade pulação submissa e dependente, subjugada ao monopólio mé-
entre a cultura e as realizações dos especialistas e a cultura e dico e aos tabus dos especialistas. Só conta a salvação vinda
as realizações daqueles a quem chamaremos homens vulga- de fora, confiando beatamente na operação-milagre. A velha
res; uma incompatibilidade que nos é apresentada como de- sabedoria em matéria de saúde e de cura desmorona-se.
finitiva e irremediável, pois tem origem na própria técnica, E como último exemplo em que não intervêm nem má-
técnica das máquinas e das instituições; e nenhuma modifi- quinas, nem técnicas, mas sim instituições mecanizadas e
cação na sua estrutura ou na sua preparação seria, portanto, tecnicizadas: basta os pobres se beneficiarem do auxílio soci-
suscetível de provocar qualqueralteração; e poristo nos ga- al, da hospitalização gratuita e acabam se tornando incapazes
rantem que se os homens vulgares não quiserem renunciar de organizar sozinhos as suas vidas. Torna-se impossível a
aos seus recursos e aos seus poderes próprios, devem então eles tirar proveito da sua experiência e das suas práticas pes-
destruir as contribuições dos especialistas. soais, deixam de conseguir inserir-se no âmbito da sua comu-
nidade: a assistência social deverá guiá-los passo a passo.
Esta dicotomia é descoberta por Illich em todos os
domínios: ou se servem de bicicletas e de carros motorizados

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Não só as realizações de que acabamos de citar quatro pecialidades descobrem, em operações espetaculares, opor-
exemplos, como a cultura naquilo que ela tem de específico; tunidades para se colocar em primeiro plano.
é mesmo a nível da sabedoria que os efeitos desta distorção Na medida em que o perito detém a sabedoria, priva
se manifestam em toda a sua rudeza. Ou uma sabedoria obje- dela todos os outros: o médico transforma-se em mago, o
tiva, definida pela ciência e divulgada por porta-vozes peri- único com o poder de fazer milagres. Sobre esta sabedoria
tos e o efeito do querer e do poder de outros; ou o poder ele exerce um domínio exclusivo; esta sabedoria é funda-
imediato de apreender o real, a sabedoria que provém de mentalmente não-transmissível e o perito sente prazer em
relações criadoras entre o homem e o seu ambiente; é o efei- aumentar-lhe a opacidade.
to de relações que se estabelecem espontaneamente entre as Com este corolário fatal: diante do perito, os indivíduos
pessoas pela utilização de ferramentas familiares. Por exem- abdicam de todo o poder, despem-se da sua competência,
plo, os camponeses aprendem o folclore e esta aquisição de perdem confiança na sua capacidade de agir. Deixam de con-
sabedoria opera-se pela interação no meio circunscrito por fiar no seujuízo. Acaba a curiosidade pessoal, o homem sen-
uma tradição. te-se desenraizado, atado de pés e mãos, decai.
Ou o racional, que não é mais do que o previsto e que Estes resultados catastróficos são considerados ineren-
cala a espontaneidade, a expressão criadora, a solução inven- tes à existência do perito.
tiva, que só nos aprisiona dentro de entraves ideológicos; ou
nós coincidimos com a realidade viva e sem peias, tornando- O perito priva-nos das qualidades e virtudes inerentes
se o mundo simultaneamente atraente e próximo, sentindo- ao nosso ser, daquelas a que teríamos acesso espontaneamen-
nos tomados por uma espantosa surpresa que ultrapassa e te, bastando que nos deixássemos ir, que nos deixássemos
confunde a razão. levar: a sua intromissão estragou tudo. Sem ele nos teríamos
O primeiro tipo de sabedoria só conduz à catástrofe, e deixado conduzir pela nossa boa mãe, a Natureza; ela nos
sobretudo, Illich obstina-se a repetir que só pode existir abo- tomaria pela mão mantendo-nos dentro dos limites das nossas
lindo-se o segundo, fazendo todo o possível para abolir o verdadeiras necessidades, que são essencialmente necessida-
segundo; na medida em que se acredite que o mundo ultra- des limitadas; ela nos conduziria até à felicidade, com a única
passa o alcance de qualquer um, apenas têm direito à palavra condição de sermos dóceis e desistirmos de a desnaturar.
aqueles a quem, ironicamente, Illich chama “os grandes ini- No universo de Illich, a luta entre os homens vulgares e
ciados e os seus discípulos”. o perito é inexorável, estando todos os peritos colocados no
mesmo plano, de Lenin aos tecnocratas: eles representam o
O perito, não satisfeito em acumular desaires e em tor- outro, o inimigo...
nar inextricável qualquer situação, funda um imperialismo
intelectual que, como todos os imperialismos, se alimenta
das suas conquistas; o perito vai buscar a sua satisfação no
seu podere na sua habilidade, que em breve passam a ser os
únicos motivos reais da sua ação: os virtuosos de novas es-

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IV — O sucesso de Illich provém de ele reunir neira absolutamente idêntica, as multidões passivas deixam-
experiências muito freqiientes se impressionar por golpes publicitários, por maquinismos
enormes e anônimos. Comportamentos de rebanho, produção
Devemos dizer quanto a exortação de Illich e o sucesso padronizada.
que alcançou, quer diretamente, quer por interpostas pessoas, Os objetos que nos oferecem não são aqueles de que
que nos advertem da profunda insatisfação que suscita o mo- necessitamos: frágeis, irreparáveis, custosos, tantas vezes
do de vida atual; daí, por um retrocesso, uma espécie de ten- supérfluos; mas a sedução da moda, e mais ainda, das mo-
tação generalizada de illichismo. Reconhecemos ao lê-lo das, o receio ciumento de se ser ultrapassado pelos outros...
alguns sentimentos simples, algumas experiências frequentes Em contrapartida, a sensação de que determinadas ale-
e que aparentam conter uma verdade indubitável: em primei- grias singelas e autônomas se perderam; o sonho de regresso
ro lugar, que a riqueza ou a produção não fazem a felicidade, a uma existência mais calma, de pequenas comunidades,
que as pessoas não são mais felizes podendo mudar constan- unidas, calorosas, acolhedoras; a alegria de aprendermos por
temente de automóvel em troca de outro mais luxuoso; e, nós mesmos e de acordo com as nossas intenções; então seria
contudo, é precisamente a isso que a nossa sociedade de con- reanimado o contentamento que atribuímos ao artista ou ao
sumo nos incita constantemente; melhor — ou pior — a so- agricultor, que projetamos no artista ou no agricultor.
ciedade não pode funcionar, os operários em breve ficam
reduzidos ao desemprego, se por momentos esta escalada for E é exato que notamos fregiientemente o contraste en-
interrompida. tre os peritos e o comum dos mortais; não se percebe o que
É todos nós experimentamos os engarrafamentos: a par- eles dizem, o que eles querem: o médico nos fala uma lin-
tir do instante em que cada um possua um automóvel, nin- guagem incompreensível ou quase não nos fala, nada nos
guém avança; o aumento das ambições conduz a uma situação explica; os especialistas organizam os transportes ou a Segu-
em que elas se contradizem e se opõem mutuamente. rança Social de uma maneira tão estranha, tão desenvolta,
O sentimento de que, na civilização industrial, as tare- que não atamos nem desatamos e depois, incansavelmente,
fas já não conseguem tornar-se atraentes, simultaneamente mandam-nos de guichê em guichê, e agora tendo todos nós a
porque o seu conteúdo, devido a uma mecanização parceli- consciência de que esse é o chamado mundo de Kafka.
zante, fica vazio de qualquerinteresse e porque, dado o gi- Estamos perdidos perante o burocrata que nos parece
gantismo das organizações, os interessados são conduzidos representar a onipotência e ser, ao mesmo tempo, o emissário
passivamente, deixam-se conduzir passivamente; não podem do mais gélido de todos os monstros gélidos. Ele reina, nós
fazer ouvir a sua voz no meio de tal alarido, assumindo este nos sentimos perdidos, absorvidos pelo imenso anonimato.
termo um sentido ao mesmo tempo material e espiritual.
Mas, no grande conjunto da grande cidade, deixa de ser O que escandaliza em Illich, é ele instalar-se ao nível
possível agir sobre a própria existência, e até esse desejo se destas experiências sem as criticar; tomá-las tal como elas se
perde: o enquadramento da vida é imposto como é, nada po- apresentam a cada um de nós. A partir daí, a si mesmoproí-
de ser modificado, não pedem a nossa participação; e de ma- be aperceber-se do papel do capitalismo nas dificuldades que

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denuncia, que tem razão em denunciar: pretende considerá- víduo pode libertar-se por si; nada de ações coletivas condu-
las como inerentes a toda sociedade industrializada — e no zindo, organizando.
interior da nossa sociedade não distingue nenhuma força Isto quer dizer que basta de profetas e de prédicas. Ali-
organizada capaz de lutar contra elas. ás, Illich não tem grandes dificuldades em acreditar no poder
O problema capital que Illich nos propõe consiste em da sua palavra, visto que se move num mundo idealista, em
saber se os males da nossa sociedade industrial provêm da que os monopólios são poderosos porque, despertando ne-
industrialização em si ou de uma certa direção que o capita- cessidades artificiais, dominam a imaginação dos consumi-
lismo lhe impõe. E, correlativamente, o que se passa numa dores. O que a fantasia criou, pode desfazer um escrito. Mas
sociedade onde os grandes meios de produção pertencem à estamos no reino das sombras. E as sombras não são suscetí-
coletividade, são dirigidos para e pela coletividade? Será que veis nem de consistência, nem de espessura, que precisassem
se passa algo de novo, de revolucionário ou a megamáquina ser investigadas por uma cultura elaborada.
impõe ao socialismo que ele seja a repetição do capitalismo?
De fato, não se trata dos mesmos privilégios, simples- Existe, para Illich, um equilíbrio e um só, definido para
mente transferidos de um grupo para outro, mas sim da abo- sempre. O Bem foi determinado de uma vez para sempre e
lição da lei do lucro, da lei da selva. O homem não está ficou para trás; o homem deve reencontrar o antigo meio em
dominado pelo mercado, pela rentabilidade; ele chamareal- que se formou. O mundo é imutável e proclama, pois, pela
mente a si a máquina, a produção, adquire o domínio da sua voz de Illich, a vaidade de tudo quanto havia sido considera-
vida social. do um progresso, a vaidade de toda a evolução social.
Se a história inteira se confunde na mesma aberração,
Visto tratar-se de levar os homens à moderação, à fru- não há lugar para estudá-la, não há nela nada a ser compre-
galidade, não há necessidade da cultura do especialista: a endido e, sobretudo, nada que se possa esperar — e sob este
cultura cotidiana dos homens vulgares basta-se a si própria, segundo aspecto, de novo a cultura dos especialistas parece,
não precisa ser elaborada pela dos peritos. evidentemente, inútil.
Para o homem se reconciliar com as suas verdadeiras
necessidades e com os seus verdadeiros valores, para ele se Todos, tal como somos — chefe de partido, contesta-
conformar com a sua natureza, e para reencontrar em si a voz dor, homem de negócios ou trabalhador, professor ou aluno
imediata da natureza, bastaria que ultrapassasse algumas — partilhamos uma culpa comum. Já que todos somos cul-
ilusões — e antes de tudc, a ilusão produtivista —, bastaria pados e que a luta de classes é inteiramente ignorada, Illich
que as instituições, desde a publicidade até à escola, deixas- não vê a mínima dificuldade em apelar para a união sagrada
sem de o manipular e de o intoxicar; e então, cada um,refle- de todos: trata-se de conscientizar indivíduos ou grupos até
tindo, consentindo em se assumir, adquiriria a consciência aqui divididos, de que as mesmas ameaças pesam sobre as
lúcida e infalível daquilo de que carece para ser feliz. Desde suas liberdades fundamentais. E inversamente, mostra ele
que se varram as construções parasitárias, o lugar ficará livre que toda exigência de liberdade real, formulada seja por
para se desfrutarem as harmonias providenciais. Cada indi- quem for, serve sempre o interesse de grande número.

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É um amontoar de todas as boas vontades, sem que de persuadi-lo de que até o momento nenhum resultado válido
modo algum seja preciso discernir como elas se situam soci- foi obtido, para o convencer de que é impossível contar com
almente, a que tipo de interesse se ligam. É assim dispensado qualquer conquista válida. A burguesia conquistadora afir-
um terceiro componente da cultura dos especialistas: o que mava ao proletariado que as suas reivindicações eram inúteis
incide sobre as estratificações sociais. visto que, graças ao progresso (isto passa-se em 1789), tudo
Enfim, é um fundo de falência integral: o mundo inteiro quanto ele tinha a pedir já fora conquistado. A burguesia
tomou uma má direção, a má direção. É um local de perver- decadente diz ao proletariado que as suas reivindicações são
são, e nada mais. Trata-se de inverter o seu funcionamento, de inúteis, pois que tudo quanto se fez até então só conseguiu
operar uma mudança radical. Quando tudo é negado, para quê aumentar a desventura comum.
tentar compreender? Que necessidade há disso? Para que se Sem dúvida que não se deve ver nisto simples tática e
esforçariam as pessoas? maquiavelismo consciente: o burguês treme e benze-se pe-
rante tudo que signifique verdadeiramente o ponto de partida
A frugalidade satisfeita: este é o remédio que as classes de um progresso; não pode reagir de outro modo, pois daí em
favorecidas recomendam aos que nada possuem além da sua diante o progresso anunciará o fim de um mundo emqueele
força de trabalho. estabelecera o seu domínio; o que ele só pode interpretar
A conversão de cada um no seu foro íntimo: a ação po- como o fim do mundo, o apocalipse.
lítica global da classe operária seria assim posta fora de jogo; Onde não existe a mínima confiança nos homens, nas
identificam-se um a um os grandes sonhos conservadores da massas, não é possível a mínima perspectiva de progresso. A
burguesia. Se todos somos culpados, não existe qualquer convivência familiar, como todas as doutrinas de catástrofe,
força organizada que tenha dado provas, que seja capaz de as doutrinas que querem condenar indistintamente o passado
resistir, de progredir: o movimento operário não existe. e romper em bloco com ele, cai no misticismo: é apenas num
Uma revolução essencialmente moral; não nos preocu- outro mundo que podemos depositar esperanças, quer dizer,
pemos tanto com as estruturas globais da sociedade e confi- exatamente no outro mundo.
emos na exortação do homem providencial: afirma a De fato, a burguesia tem uma cartada para jogar: decla-
burguesia outra coisa? O apelo à união sagrada de todos, é a rar que o seu mundo é bom e a sua escola libertadora; e
negação do conflito social. Raramente se tem ido assim tão quando isso deixar de lhe parecer provável, garantir que o
longe na recusa de tomar em consideração não apenas a luta mundo é absurdo, inteiramente absurdo, e que toda a escola é
de classes, mas sim, genericamente, as contradições dos inte- nefasta.
resses e das aspirações no interior da sociedade.
Se nada de real se conseguiu durante séculos, se os Quanto à cultura dos peritos, é evidente, visto que Illich
homens no seu conjunto caminharam pela estrada errada a caracteriza por um conjunto de defeitos, que deva ser aban-
séculos e séculos, por que milagre gozar antecipadamente os donada. Notemos que todas as ideologias são assim colocadas
sucessos do futuro? É este o último método utilizado pela num mesmo plano, sendo igualmente vãs, igualmente opressi-
classe dominante a fim de tentar deter a luta do proletariado: vas. Nada serve melhor aos interesses estabelecidos do que

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este ceticismo, esta renúncia à compreensão que desarma a Porém, a cultura dos homens vulgares que se pretende
classe operária; e, a partir daí, ela se deixará impregnarpelas resgatar e expandir, não ficará, na realidade, melhorreparti-
ideologias dominantes, sem conseguir opor resistência. da: o sucesso de Illich demonstra quanto os homens aspiram
a certas alegrias que ele evoca. Mas só sabe introduzi-las
Sem o citar, R. Leroy parece verdadeiramente descre- empobrecendo. Trata-se de despedir o perito, de dispensar os
ver o autor de La Convivialité ao fazer esta acusação: “Hoje, seus conhecimentos: a partir daí a atividade se irá degradan-
o grande capital repudia completamente o racionalismo e o do até cair no improviso, no biscate, com tudo quanto isso
otimismo... senilidade e tendências seculares, regresso ao comporta de impreciso; os limites, a exigiiidade e, em breve,
passado e à utopia, fuga medrosa diante de um universo em a rotina do biscate, condenarão à estagnação.
que se erguem as acusações dos revolucionários... A grande A originalidade pessoal, está, asseguram-nos, dentro de
burguesia já não pode edificar grandes sistemas ideológicos, cada indivíduo (não será, na verdade, apenas a sua alma?),
reduzida à defensiva, esforça-se por desviar e retardar a to- pronta a manifestar-se — e teria estado pura e simplesmente
mada de consciência da crise semeando em seu redor a dúvi- bloqueada até agora pelas instituições estabelecidas. Tllich
da e o sentimento de culpa”! leva ao paroxismo o contraste entre o indivíduo e a sociedade,
Não é por acaso que o representante por excelência da pondo de um lado o social, o conjunto das instituições desde a
classe no poder volta a encontrar reflexos do apocalipse ili- medicina até à construção civil monumental, o perito com os
chiano: “O mundoé infeliz porque não sabe para onde cami- seus conhecimentos; e mantendo no outro o indivíduo reduzi-
nha e adivinha que se o soubesse, seria para descobrir que do a uma espécie de artesanato, à participação calorosa em
marcha para a catástrofe”2. A burguesia, incapaz de propor pequenos grupos e à convicção da sua originalidade.
uma explicação do mundo, uma teoria geral, preferiu lançar Em que pode consistir, na verdade, o conteúdo desta
suspeitas sobre todo esforço teórico; refugia-se no irraciona- originalidade e, finalmente, desta cultura? Só está de pé a
lismo. Prefere renunciar à cultura e mesmo à sua cultura do presunção de se tratar de um caso único. Voltamos a essa
que enfrentar as terríveis verdades que os seus pensadores atitude de que Gorki fez uma descrição famosa. O pequeno-
lhe lançam ao rosto. burguês exclama com arrebatamento: “A minha personalida-
Lucien Febvre notou perfeitamente que a burguesia de, todo o caminho da minha vida é individual, incompará-
voltou as costas e jogou fora a razão, que proclamou a falên- vel, inimitável, ninguém mais percorrerá estas etapas e
cia da ciência e do progresso a partir do momento em que as ninguém antes de mim as transpôs”. Não ser como os outros
dificuldades na partilha do mundo se anunciavam e em que, parece a ele motivo largamente suficiente para se sentir ad-
simultaneamente, as massas se organizavam. mirado consigo mesmo e com as suas palavras; o direito de
manifestar o seu eu transforma-se na sua razão de existir.
Na realidade, esta originalidade é uma fuga: entrinchei-
rar-se no seu foro interior, numa tentativa desesperada para
!R. Leroy, discurso no 25º aniversário de La Nouvelle Critique em La Nouvelle se proteger contra as agressões de uma sociedade em que só
Critique, janeiro de 1974.
pode representar o papel de agressor ou de oprimido; a me-
2 v, Giscard d'Estaing, 2º Conferência de Imprensa, 25 de outubro de 1974.

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nos que alguém se deixe embalar pela esperança impossível der, em dado momento, que são esses os objetivos prioritá-
de assumir uma atitude conciliadora entre os que devoram e rios a serem alcançados.
os que se deixam devorar. Disse Gorki, de forma impressio- Deste modo, o perito trabalhará para os homens no seu
nante, que a sociedade capitalista é constituída à semelhança conjunto com a condição de que não fique ele próprio prisio-
dos jardins zoológicos, em que os animais são encerrados em neiro de um sistema que o submeta aos interesses privados.
jaulas de ferro. As jaulas reservadas aos privilegiados são, Outro exemplo: se a luta contra a poluição continua
naturalmente, mais cômodas e mais confortáveis do que as ainda tão embrionária, não é por os peritos estarem desarma-
destinadas aos explorados; mas está cada um numa jaula. A dos perante os prejuízos. De fato, eles podem perfeitamente
originalidade com que nos acenam aqui é a originalidade da assumir essa tarefa de maneira frutífera, com a condição de
jaula; encolhido, isolado dentro de si, um reino de proprie- que a sociedade os encarregue dela. E a sua perícia irá enri-
dade privada, disfarçado de propriedade espiritual. quecendo de acordo com a procura. O problema reside em
Não é, certamente, por esta via que se atingirá uma ori- que a fiscalização social seja autenticamente eficiente, isto é,
ginalidade criadora, a união dos homens numa obra que os que não sejam os senhores das indústrias vergando a socie-
ajude a progredir. dade à sua lei, à lei do lucro privado, portanto, imediato —
mas sim, a sociedade impondo a sua lei aos industriais, a lei
V— A cultura dos especialistas já é uma do bem estar, tomando por base uma planificação global e a
realidade e conquistará terreno e eficácia numa longo prazo; ora a planificação não pode ser real e realmente
sociedade transformada pensada pela coletividade senão a partir do momento em que
a coletividade seja senhora de si, e, portanto, da sua produ-
Deste modo, para voltarmos ao nosso tema central, ção, dos seus meios de produção.
conclui-se que o especialista não está condenado desde sem-
pre e eternamente, a opor-se às necessidades dos homens. Não só o especialista não está condenado a interromper
Ilich tem razão quando se indigna por se construírem tantas a iniciativa dos homens, como é graças a ele que essa iniciati-
geladeiras para uso privado e tão poucas câmaras frigoríficas va pode desenvolver-se. Illich tem razão ao declarar que, sem
coletivas, que se pense tanto nos automóveis particulares e iniciativa, nenhuma tarefa é interessante ou válida para o tra-
tão pouco nos transportes públicos. Mas a causa disto não balhador; ele tem razão quando afirma que a industrialização
reside absolutamente nada na megamáquina em si, nem na capitalista tende a despojar o trabalhador da sua iniciativa..
intervenção do perito. Os proprietários privados da megamá- Mas ela só lhe parece possível no artesão — e, portan-
quina supõem — e do seu ponto de vista assiste-lhes razão to, absolutamente incompatível com a produção industrial.
— que é mais rentável fabricar e vender geladeiras a quem Isto evoca um passado idílico; não nos deixaremos atrair por
pode pagá-las do que fornecer câmaras frigoríficas a quem esses bucolismos.
não tem dinheiro. Uma produção coletivizada pode fugir a E importante, acima de tudo, nunca esquecer que o
este critério, oferecer câmaras frigoríficas e transportes cole- nosso mundo é o da penúria — e nunca o da superabundân-
tivos a preços extremamente baixos se a coletividade enten- cia. E certo que há uns tantos que satisfazem gostos supér-

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fluos, mas no seu conjunto os homens não possuem o indis- deiras cegas aos quinze anos; não mais se verá a bela carne
pensável; uma imensa parte da humanidade padece de fome. de outrora sem hormônios nem suplementos, que metade da
A idéia de renunciar à técnica, de limitar a técnica, é população comia uma vez por ano”.
obra de ricos, de abastados. Pela primeira vez na história, o Iniciativa e instituição. — Efetivamente, na nossa soci-
desenvolvimento da técnica oferece à humanidade uma pos- edade, é mais do que falso rotular igualmente toda institui-
sibilidade de sair da privação. Eis o verdadeiro problema: ção, como destruidora da individualidade. Mal se consegueir
comoutilizar os conhecimentos adquiridos, o domínio adqui- além das aparências, logo se repara quea instituição sindical,
rido, em proveito do bem estar dos homens? Não se pode por exemplo, proporciona ao indivíduo um aumento de per-
pensar em destruir a capacidade, finalmente vislumbrada, de sonalização.
abrandar a existência endêmica da subnutrição, dos pardiei- O capitalismo, e sobretudo o capitalismo em crise, tem
ros e do analfabetismo à escala mundial. como consegiiência fatal a diversidade das formas de explo-
O doce passado. — Um mundo de técnicas limitadas, ração e a acentuação dos contrastes: os operários franceses
onde os especialistas pouco sabem e pouco intervêm, não é face aos operários imigrados, os profissionais especializados
novidade, a humanidade já passou por essa experiência his- face aos operários qualificados — e ainda os operários face
tórica que esteve bem longe de ser sedutora; pois nesse fa- aos funcionários qualificados. Se o operário se deixa entusi-
moso mundo do artesanato, há o cuidado de nos ocultarem asmar pelas primeiras idéias, por reflexos imediatos, expõe-
que lado a lado com um pequeno punhado de artesãos reais, se a perder paralelamente a sua força e a sua autonomia; é
a imensa maioria de homens e de mulheres se fazem de ani- grande o risco de mil tensões contraditórias e votadas rapi-
mais de carga, puxam, arrastam, empurram um material ru- damente ao fracasso — e também o risco de cair na escrava-
dimentar. Onde estão as suas possibilidades de iniciativa? E tura de comportamentos instintivos.
a sua alegria criadora? O objetivo comum, a unidade de luta, não é prova evi-
Não resistimos ao desejo de transcrever a página se- dente de que cadatrabalhadorestaria penetrado por uma es-
guinte, pela sua importância como tema derefutação de Illi- pécie de graça: ela só seria alcançada pouco a pouco, por via
ch: “Esta natureza que é hoje de bom tom descrever como da organização sindical, da instituição sindical, só possível
infinitamente benéfica, como a mãe aleitadora que os seus desde que as competências viessem a elucidar e ordenar a
filhos ingratos magoam e desfiguram é a mesma, temos ten- agitação confusa dos antagonismos. A instituição será vigo-
dência a esquecê-lo, que tantos rigores e terrores inflige ao rosa, e não hostil à vida, na medida em que se apóie no que
homem até ele conseguir aprender a decifrar-lhe os segre- Já tor consciência de classe e nas reivindicações em que essa
dos... De qualquer maneira, não se voltará atrás. Não se verá mesma instituição se exprime — e ela tem por tarefa clarifi-
mais o bom lavrador caminhar a passos lentosatrás dos bois car, alargando assim as experiências comuns. É precisamente
brancos com malhas ruças, catorze horas por dia; nem, cons- neste ponto que cabe um papel aos peritos.
tantemente lavando no ribeirão, Janneton a mulher com Sem dúvida que as instituições estão ameaçadas de es-
quem ele teve doze garotos, dos quais morreram dez em ten- clerose, que se arriscam a soçobrar na burocracia; o perito
ra idade; não mais se verão as belas rendas do Puy e as ren- corre o risco de se transformar num simples técnico, afastado

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daqueles de cujos problemas lhe cabe ocupar-se. O remédio uniformização e ausência de relações autênticas. Não é a
não é acabar com as instituições para assim dar lugar à dis- pequena comunidade artesanal, rústica, que está encarregada
persão de pequenos grupos autônomos e que convivem fami- de desenvolver a originalidade de cada um e de criar entre os
liarmente. É única e simplesmente com a ajuda da massa seres o calor humano que nós tanto desejamos.
popular que se consegue evitar o afundamento das institui- Na cidade como no campo, o que padroniza, é o que
ções, o que exige um povo politicamente educado e, portan- empobrece; a minha originalidade é a minha contribuição
to, um impulso geral da cultura. As massas a nível da pessoal, autêntica, para a luta comum e não o absorver-me na
competência, e não a competência rejeitada como maldita: é descoberta extasiada das diferenças que me isolam, me blo-
esse o preço do progresso das instituições e também de uma queiam dentro de mim. Os homens tornam-se originais, con-
conexão sempre mais íntima, mais rica, entre a cultura dos quistam pouco a pouco a sua originalidade, na medida em
especialistas e a das massas. que cooperam, cada um a seu modo, de acordo com a sua
As possibilidades de iniciativa numa sociedade capita- experiência pessoal, numa obra capaz de mobilizar a todos
lista. — Narealidade, a condição preliminar para o fomento por eles sentirem que ela é de todos; é assim que se comple-
da força da iniciativa, reside na circunstância de o progresso mentam mutuamente e se estreitam as amizades.
técnico ser capaz de libertar as massas dos trabalhos mais Esta tarefa a ser cumprida em comum, não a realizare-
rudes, mais monótonos, o que equivale a um incremento dos mos entregando-nos passivamente às decisões dos peritos,
nossos conhecimentos e a um aperfeiçoamento das nossas nem tampouco os dispersando na esperança de descobrirmos
técnicas; depois se tratará de aplicareste acréscimo de poder no fundo de cada um de nós uma sabedoria espontânea, ime-
não em benefício do lucro, mas à vontade constante de coor- diata e, de certa maneira, rústica.
denartarefas. Portanto, peritos que sejam igualmente peritos
em utilizar os seus conhecimentos para aliviar o esforço do Do mesmo modo como é um determinado tipo de soci-
homem e uma sociedade que apele para eles neste sentido: edade, uma sociedade baseada no lucro, que desvia a técnica
melhorar de acordo com osinteressados as suas condições de para as produções consideradas mais rentáveis pelos proprie-
vida e de trabalho, até o ponto de elas permitirem, espera- tários dos meios de produção, em lugar de a pôr a serviço da
rem, exigirem deles uma resposta pessoal. E só então se con- comunidade, igualmente é um certo tipo de sociedade, por
seguirá desenvolver uma iniciativa de um tipo novo: a assim dizer a mesma, querepete aos operários: “Vocês não
participação na elaboração, na modificação, no progresso e precisam pensar, já há quem o faça, que para isso é pago”.
na execução de um plano de conjunto, a partir do momento Assim se tenta persuadir as massas de que a sua experiência,
em que o trabalhador se convença, pela sua experiência real, a soma das suas reflexões e do seu saber, não estão relacio-
de que o plano que ele traça não servirá para enriquecer al- nados com o verdadeiro conhecimento, detido só por alguns.
guns, para reforçar o poder de alguns, mas que participará E isto porque a classe dominante tem medo do que
numa construção destinada a todos. pensam os explorados e não está interessada na evolução dos
A cidade. — Não é a grande cidade que, porela e por seus pensamentos. Jamais irá pedir aos seus especialistas que
fatalidade, caminha para a perda da individualidade, para a tornem mais claros aos operários os processos de produção,

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inseparáveis das formas de organização dentro e fora da fá- tomóveis para utilizarmos a bicicleta, e renunciar a tudo que
brica. Nem tampouco que expliquem aos usuários o objeto seja mais complexo do que esta.
fabricado: operários e usuários são demasiado parecidos. Mas, se o perito utilizar a sua cultura para que os dese-
Isto nada tem de fatalista: se o regime incitar os ho- jJosos explicitem os seus desejos, surgem mais aberturas: por
mens vulgares a aumentar a sua cultura, e particularmente a exemplo, esta famosa ambição de possuir um automóvel, de
cultura técnica, e se, correlativamente, a fábrica inscrever andar de automóvel, pode ultrapassar as suas formas imedia-
entre os seus objetivos o apelo à intervenção dos operários tas e revelar-se como desejo de conhecer outras pessoas, de
em lugar de os temer, será levada a incrementar ao máximo a participar em outros modos de vida ou de dominar um meca-
compreensão do que lá se executa; o perito poderá dirigir-se nismo poderoso que aumente o próprio poder, ou pode se
às pessoas, comunicar-se com elas, intervir, quer para lhes tratar ainda da necessidade de abandonar uma habitação des-
aumentar os conhecimentos, quer para levar em conta as suas confortável.
necessidades: uma cultura progressista é a mútua fecundação Semelhante dissecação deste desejo isenta-o da acusação
da cultura erudita e da cultura popular. Não deixaremos de de esnobismo e de vaidade; nesse sentido, as ambições dei-
dizer que a cultura do especialista não é, afinal, mais do que xam de se apresentar como antagônicas e inconciliáveis: em
a cultura dos homens vulgares, que conseguiram a explica- lugar de se repetir que é impossível todo mundo possuir um
ção que a própria cultura reclamava. Não há outra força mo- automóvel, sob pena de engarrafamento e de acidente, será
triz da história senão a imensa combatividade das massas possível concluir que alguns encontram nas formas de turismo
oprimidas; e por isso a fonte de toda cultura é a vida, as es- coletivo uma resposta mais adaptada à sua ânsia de entrar em
peranças e as lutas do povo; perito, intelectual, especialista é contato com diferentes modos de vida; ou que nos clubes ou
todo aquele que, tendo capacidade para se inquietar com as nos centros culturais deparam com possibilidades mais amplas
mesmas coisas que inquietam as massas, contribui para que de pôr em execução uma gama de realizações técnicas.
as aspirações globalmente vividas pelas massas dêem um Menos pessoas se precipitariam para os automóveis se
passo em frente — como na Resistência, em que Aragon e as habitações fossem salubres e confortáveis. Mas por que
Eluard, proclamavam em voz mais alta, mais cheia, as razões raramente elas o são? E, por outro lado, que condições de-
de lutar, o drama delutar, as razões de ter esperança. O sábio terminam que uma sociedade favoreça ou não a existência e
ocupa os tempos livres do técnico, que é um prolongamento o desabrochar de centros culturais e inculque nas pessoas
do operário. uma preparação que lhes possa ser proveitosa?
A cultura do perito é indispensável para esclarecer as A cultura do perito é indispensável para explicitar os
aspirações. — Nlich considera as aspirações tal e qual, como desejos do proletariado. — O doente poderia escapar da
surgem à primeira vista; depois se rende à constatação da sua dependência em relação ao médico, ainda mais, encontrar
fragilidade e das suas contradições e é levado a concluir que Junto do médico a compreensão de que necessita: seria preci-
só há uma solução: limitá-las. Da mesma forma como pre- so, para começar, que lhe tivessem posto à disposição meios
tende que renunciemos ao conhecimento em prol do bom de elevar o seu nível cultural, a fim de compreender as expli-
senso cotidiano, igualmente nos exorta a renunciar aos au- cações que o médico lhe presta. E a fim de que o médico pres-

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te de fato estas explicações, é necessário que ele tenha se for- rém, a luta do proletariado é diferente. Hlich tem prazer em
mado, não só no manejo dos instrumentos terapêuticos, como confundir o desejo de possuir um automóvel como o vizinho,
também no diálogo em profundidade com o seucliente. e um tanto mais bonito, com a luta do proletariado contra a
O que leva muito longe: por exemplo, um operário opressão.
queixa-se de fadiga, termo infinitamente complexo que re- Pondo de lado a cultura dos peritos, pretende ele su-
mete para um conjunto de doenças, de sofrimentos confusos; primir os que entendem e dão a entender que, em qualquer
para que o diálogo represente mais do que uma série de boas revolução do proletariado, a reivindicação de um bem mate-
palavras banais ou uma simples disponibilidade indiferenci- rial, e a da dignidade, andam de mãos dadas: mal o operário
ada, é indispensável que o médico tenha, de certo modo, par- exige um automóvel também parasi, exige o direito de parti-
ticipado nas experiências de vida do seucliente; isto é, que o cipar, de ter a sua parte no que produz, de ser reconhecido
perito não tenha perdido o contato com a vida das massas; como merecedor de ter e de conduzir um automóvel, visto o
finalmente, que a sociedade não esteja fragmentada em cas- haver fabricado — e capaz de ser um condutor responsável,
tas que se ignoram, se desprezam. aliás, não só de um automóvel.
A oposição entre o perito e o vulgo, não é absoluta- Torna-se aqui indispensável a cultura do perito queul-
mente um elemento fatal na competência do perito, é a pro- trapassará as contradições imediatas e fáceis entre a exigên-
Jeção, neste plano especial, da divisão da sociedade em clas- cia dita espiritual e a dita material, entre a riqueza da vida
ses antagônicas, em níveis de instrução e em modos de vida pessoal e as necessidades prosaicas; as contradições imedia-
separados, compartimentados e sem comunicação ativa. tas e fáceis entre a imobilidade da felicidade e o ardor das
É mais fácil suprimir a medicina e voltar aos cuidados reivindicações.
da avozinha do que procurar em que condições médico e O perito compreenderá e fará com que compreendam
doente podem entrar em contato — mais fácil e infinitamente que é precisamente nestas reivindicações que se gera o que
mais conservador. há de mais precioso: a força capaz de fundar uma sociedade
A cultura do perito é indispensável para isolar o lado nova, a classe que só pode emancipar-se emancipando todas
positivo da luta de classes. — Illich quer manter-nos na idéia as classes, ou seja, suprimindo a divisão em classes... Em
mais simples, mais simplista, mais burguesmente simplista: a suma, que este impulso reivindicativo sempre mais enérgico,
felicidade consiste em nos contentarmos com o que temos, ligado a um acréscimo das necessidades, tem valor criativo €
com o que somos. À partir disso, qualquer desejo de mais — não remete de forma alguma para uma sucessão de caprichos
ter mais, produzir mais, procurar mais longe — é perigoso e nem acentua a direção nefasta que seria necessário inverter
nocivo. Em particular, assimilam-se grosseiramente as rei- por um movimento contrário e unânime rumo à pobreza, pois
vindicações das massas com a inveja, a insatisfação sem li- as solicitações aumentam, atingem um nível sempre crescen-
mites e sem finalidade, e que se volta, por uma espécie de te: a fome do escravo, o desejo do proletário de manobrar as
fatalidade, contra si. máquinas mais aperfeiçoadas, a pretensão do homem socia-
É bem certo que determinado tipo de desejo, de ambi- lista de se tornar capaz de participar no governo da empresa
ção, de cupidez, é vão e testemunha uma febre doentia. Po- a que pertence e, em breve, do seu país.

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Hlich, ao eliminar o papel do perito, vai manter-nos ao guesia que desempenham um papel progressista ou reacioná-
nível da mais superficial das aparências — e das mais enga- rio na história”.
nadoras, e a sua sabedoria será do tipo: “Quanto mais têm Mesmo assim, foi o capitalismo que eliminou as for-
mais querem”, “Para se viverfeliz, viva-se com pouco”. | mas de dependência pessoal inerentes aos velhos sistemas
A cultura do perito é indispensável para se conseguir econômicos e nenhuma reflexão tem aqui cabimento — des-
uma leitura da história em profundidade. — Eliminando a de que não seja capaz de confrontar o capitalismo com as
cultura do especialista, Illich nos bloqueia com visões sim- estruturas escravagistas e com as estruturas feudais — de
plistas da história: outrora, o simplismo era ver nada mais do explicar que a persistência da exploração (o proletário é fre-
que progresso e triunfo; hoje, o mesmo critério invertido, é qtentemente apelidado de escravo) quer o abismo que separa
denunciar por todo lado o fracasso e o absurdo. as diferentes formas de exploração (nenhum proletário pode
A cultura do especialista é indispensável para se distin- ser equiparado a um escravo).
guirem as premissas de uma existência não-opressora já em As liberdades formais, outorgadas pela burguesia, ar-
ação na sociedade atual; e é porque algo de positivo já come- rancadas à burguesia, comportam algo de enganador que é a
çou que se deve procurar avançar. A idéia, hoje cômoda, é liberdade de expressão: cada um tem o direito de comunicar
condenar em bloco todas as realizações do capitalismo, de as suas opiniões e de fundar um jornal. Mas, na prática,
considerar como equivalentes todas as realidades do capita- quem poderá fundar e divulgar um jornal? Contudo, Lenin
lismo e confundir capitalismo, socialismo e sociedade indus- adverte-nos de que essa república democrática e burguesa é
trializada. Excluindo a cultura do perito, Illich cai neste um progresso em relação à aristocracia feudal, e incita-nos a
duplo erro; talvez seja preciso dizer que foi para nos arrastar não abandonarmosa luta pela liberdade política a pretexto de
nesse duplo erro que ele excluiu a cultura do perito. ela ser uma liberdade política burguesa. Não porque ela re-
presente um ponto de chegada onde se possa descansarsatis-
O capitalismo é o inimigo a ser abatido, o que de modo feito; ela vale precisamente na medida em que constitui o
algum significa a negação das conquistas positivas que ele terreno mais favorável à luta do proletariado.
permitiu e, sobretudo, das possibilidades que abre. Do mesmo modo, nem todo Estado é equivalente. É
O capitalismo é regime de exploração e foi, contudo, necessário começar por denunciar em qualquer Estado a
ele que proporcionou uma cultura e uma organização demo- opressão de uma classe por outra, mas isso em nada significa
crática a todos os homens. Lenin inscreve no ativo do capita- que a forma de opressão deva serindiferente ao proletariado.
lismo que os camponeses nos quais o capitalismo mal Ainda aqui, determinadas formas mais amplas, mais livres,
aflorou vivem muito menos decentemente do que aqueles em de lutas de classes e de opressão de classes o arrebatam por-
que ele penetrou. que facilitam consideravelmente a luta do proletariado pela
A classe burguesa é a classe exploradora, o que não supressão das classes.
significa que tudo quanto ela instituiu constitua uma forma Nem as realizações da burguesia podem ser encaradas
equivalente e unívoca: “O proletariado é hostil a toda a bur- como um único bloco, a serrejeitado de um só golpe, nem a
guesia, mas é necessário distinguir os representantes da bur- própria burguesia será tratada como um corpo único: na nos-

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sa época, mais do que nunca, se desenrola uma luta pelo po- do por elas, mas não conseguirão decifrá-lo distintamente
der entre os diferentes partidos burgueses e pequeno- sem juntar a sua experiência vivida a uma elaboração teórica:
burgueses. O proletariado progride aproveitando-se destas é aqui que a contribuição do perito — e queé, afinal, o con-
dissensões. junto dos dirigentes do movimento operário — passa a ser
O capitalismo marca um avanço, não por ter instaurado indispensável; de contrário, teremos tendência a tudo rejeitar
um mundo pacífico e justificado, mas porque estabelece ou a tudo aceitar, o que torna o esforço impossível, tanto
condições que possibilitam a sua própria abolição em provei- num caso como no outro: tal é a consegiiência do illichismo.
to do socialismo. Suscitando uma produção concentrada e
um grande mercado nacional, ele acabou com as estreitas Na verdade, a expansão industrial é, no mundo contem-
uniões corporativas locais a favor de associações amplas, porâneo, um acontecimento propriamente vertiginoso e sem
fortes, suscetíveis de assumir um papel dirigente; é assim precedentes. Se tomarmos o índice 100 em 1920 para o volu-
que ele cria as bases necessárias a uma unidade e a uma to- me da produção industrial francesa, o número será somente de
mada de consciência dos trabalhadores. Só o grande capita- 105 em 1939; mas em 1960 é de 230. Cabe à nossa época
lismo, baseado na produção racional, coloca o produtor em dominaresta subida. Não é de espantar que quem não a com-
situações que lhe permitem refletir, ganhar coragem. | preenda, se recuse a compreendê-la, rejeite a cultura capaz de
Enfim, o capitalismo possibilitou um enorme crescimen- a explicar, que tenha medo: Tllich é o símbolo deste medo.
to das forças produtivas: é a etapa indispensável para que os Em particular, eles não ficarão em condições de expli-
homens saiam da penúria e da fome que ainda pesam sobre os car porque se manifestam os progressos de forma tão irregu-
países que mantêm estruturas mais ou menos feudais e que lar segundo os setores: a medicina permitiu prolongara vida,
foram reduzidos, aliás, a este estado, pelos imperialismos co- porém, a preocupação de criar uma existência agradável às
lonizadores; torna-se então viável às massas regatar momentos pessoas idosas não acompanhou, nem de longe e nem de
de liberdade; a sociedade pode sair da escravatura, entenden- perto, o mesmo ritmo. É que, na nossa sociedade, os mais
do-se por escravo aquele que não vive um minuto fora do seu notáveis avanços nunca deixam de relacionar-se com os lu-
trabalho. Este salto em frente, que o capitalismo autorizou, só cros dos que detêm os meios de produção: a criação de lares
se torna efetivo na medida em que for arrancado pela ação e acolhedores para a chamada terceira idade não dá a mesma
pela revolta dos próprios interessados. rentabilidade da indústria médico-farmacêutica, a qual lhe
Explica Engels que só no capitalismo, e pelo capitalis- permitiu, precisamente, chegarà terceira idade — e porisso
mo, é que toda a classe dominante não apenas se tornou inútil a sua Situação de impasse.
como passou a constituir um obstáculo ao desenvolvimento Uma interpretação superficial deixa supor que sofre-
social. Daí a consegiência: “E é só então que ela será impie- mos de uma superabundância de progresso, quando afinal é o
dosamente eliminada”. déficit e as deslocações egoístas do progresso que provocam
Este misto de exploração desumana e malgrado as os nossos problemas.
perspectivas abertas pelo capitalismo, ou pelo menos sob o Em suma, a cultura do perito pode e deve juntar-se à
reinado do capitalismo, é sentido pelas massas, experimenta- das massas, enriquecê-la e ser porela enriquecida. Obstinan-

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do-se em opô-las, Illich nos condena a ficarmos prisioneiros vamente os seus caracteres: a velocidade da bicicleta é sem-
de falsas aparências, que se intitulam revolucionárias e que, pre e eternamente boa, a do automóvel é irremediavelmente
com efeito, alimentam os rancores da decadência burguesa. nefasta. E por ignorara luta de classes queele imputa toda a
opressão à técnica e nunca a uma estrutura social que permi-
Efetivamente, o socialismo nunca é levado a sério, ob- te a uns posições de exploradores, a outros o destino de ex-
jeto de um exame real, mas imediatamente assimilado ao plorados; e é por ignorara luta das classes que ele representa
capitalismo, manifestadamente ao capitalismo americano. os operários como passivamente submetidos à máquina, sem
Dado que a sociedade socialista é uma sociedade industrial, qualquer poder para a forçar a outra serventia. Assim Illich
não pode haver lugar para diferenças entre sociedade socia- vai arrastar, desviar, este descontentamento tão justificado
lista e sociedade capitalista: o socialismo envolve a noção de em face da nossa sociedade, para uma série de confusões,
que os pobres se beneficiarão dos privilégios até então reser- sendo a primeira, evidentemente, aquela pela qual ele acusa a
vados aos ricos e que invejavam. máquina, a própria técnica, dos malefícios cuja responsabili-
Por que ignorar as relações de produção? Por que llich dade atribui a um certo modo de utilização dessa máquina
se recusa a averiguar se existe outro meio, que não o capita- por determinado regime social.
lismo, de pôr em prática os recursos da máquina? É que tais
questões ultrapassam o que se vê, o que se aborda nas práti- Ninguém mais do que Illich é escravo da ilusão que ele
cas cotidianas, remete para essa cultura sistemática que Illich pretende denunciar, que ele julga denunciar: a sujeição do
se esforça por abolir. A partir daí, entra em cena o mais evi- homem à máquina. Ou, por outras palavras, Illich surge-nos
dente, mas que é, na realidade, o mais enganador: os modos como o tipo de tecnocrata, ou seja, do homem que não vê
de consumo, essencialmente a frugalidade no consumo e o nada além da técnica. Simplesmente ele inverte os termos; a
gênero de ferramenta utilizada. E querem encurralar-nos na técnica, em vez de trazer felicidade, só é evocada como ca-
alternativa: ou o fabrico industrial — e eles são todos idênti- tástrofe e perdição e é de uma outra técnica, que é renúncia
cos — ou uma espécie de artesanato: “O que me interessa ao progresso técnico, que brotará a salvação da convivência
não é o antagonismo entre uma classe de homens explorados familiar.
e uma outra classe que detém a ferramenta; é a oposição en- Os coeficientes de valor ligados aos termos mudaram,
tre o homem e a estrutura técnica do instrumento”. mas mantiveram-se no mesmo plano. Recusando, repudiando
o conhecimento elaborado, Illich contenta-se com as aparên-
Por não relacionar a luta das classes com a utilização a cias evidenciadas pelos objetos padronizados ou pelos engar-
que a nossa sociedade condena a técnica, Illich nega-se a rafamentos, mas que escondem os mecanismos da mais-
aceitar, mesmo hipoteticamente, que ela possa ter outro em- valia, da circulação do capital, da luta das classes.
prego; por conseguinte, só resta transformá-la numa força
autônoma, num elemento último e dominante.
É a estrutura inerente à ferramenta que comanda tudo o
mais, é a ferramenta que dirige o homem e impõe definiti-

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SEGUNDO TEMA: então considerados não-escolares serão integrados na rede


Cortar com a escola? educativa.
Consegiientemente, outras redes permitirão trocar co-
Diante de um sistema escolar que lhe parece sinônimo nhecimentos, partilhar interesses em determinado domínio
de rotina, de servilismo e de desigualdade social, Illich visa especial: discutir um livro com quem o aprecie, falar uma
promover uma espécie de não-escola. Sem dúvida deveria língua estrangeira com quem a tiver por língua materna. Cada
falar-se de antiescola, comose fala de antipsiquiatria. jovem, e também cada adulto, poderá entrar em contato não
apenas com um ou outro condiscípulo, mas com todos os que
I — Adquirimos os nossos conhecimentos pelo não- a ele se sintam ligados por comunhão de gostos. E Illich está
sistemático persuadido de que, por este processo, tomarão forma as co-
munidade já em estado latente, mas que permanecem incoe-
O essencial da nossa cultura, sustenta Illich, adveio de rentes no meio do atual desmoronamento da nossa sociedade.
experiências realizadas fora da escola, que surgiram como
uma aventura: não por procura sistemática, mas como fruto Estas redes não são escolas; todas as suas característi-
do acaso. Mesmo para as crianças escolarizadas, o mais im- cas se opõem a isso, são feitas para se oporem à escola. Para
portante daquilo que aprendem vem do exterior da escola, começar, são admitidos todos os que se mostrem empenha-
sem a ajuda do mestre; adquirem a sua formação a partir da dos em determinada investigação, sem que seja imposta a
maneira de brincar do seu grupo de jovens ou aproveitando mínima separação relativa a idades, nem qualquer grupo re-
as observações tiradas do seu dia a dia ou ainda pelas infor- gulamentar. Nenhum atestado deste ou daquele ciclo de es-
mações tiradas de revistas e do que viram na televisão. tudos é exigido a troco de uma autorização para o início. O
passado do indivíduo não conta.
É nesta extra-escola que Illich quer, essencialmente, Depois, nada de programa pré-estabelecido; ninguém
inspirar-se: a criação de estruturas de um tipo novo, a que ele será obrigado a aprender aquilo que não deseja; será possível
chama redes de comunicações culturais. A rede é o meio de que cada um faça a sua escolha, o traçado do seuitinerário
ligação graças ao qual os que se interessam por determinado educativo. A formação se dará a partir de uma escolha pes-
assunto, que pretendem enveredar por determinada atividade, soal, nunca de disposições administrativas.
estarão à altura de entrar em contato com outras pessoas com E, sobretudo, todas as precauções serão tomadas para
o mesmo interesse; a rede é o que permite a cada um desco- não se reconstituir a figura de um professor, para não se desta-
brir um parceiro, ou parceiros, com quem cooperar num car do conjunto qualquer personalidade que se evidencie nos
mesmo domínio. debates. Só ao participante, e apenas a ele, competirá a inicia-
Umaprimeira rede põe à disposição dos interessados o tiva de fixar o momento, a duração, a forma e o local dos en-
máximo de objetos educativos, desde bibliotecas até labora- contros; aliás, esse local pode perfeitamente ser a sala do café.
tórios, passando igualmente por oficinas e fábricas, onde Apenas, trocas, uma ajuda entre camaradas livres e iguais.
todos nós temos o que aprender. Desta maneira, setores até

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Alguns dispõem de educadores, de instrutores profis- ensinar — ou, mais exatamente, que favoreça com as suas
sionais. O interessado será levado a procurar o conselho de experiências outros que nem por isso deixam de ser seus
uma pessoa qualificada, uma ajuda para executar um novo iguais. Cada um terá direito a receber uma parte igual do
projeto, um aviso sobre as dificuldades que irá encarar. Mas orçamento da educação e utilizá-la cedo ou tarde. Assim, um
esses educadores não serão representados à imagem dos pro- rapaz de 13 anos que só ganhou quatro anos de formaçãoterá
fessores; serão muito mais bibliotecários ou guias, até guar- à sua disposição um montante superior ao que resta a quem
das de um museu, como todos cujo papel consista em indicar Já gastou oito anos.
o que há para ver aos que pretendem ver. Cabe-lhes, essenci-
almente, proporcionar encontros entre pessoas adequadas. Em nenhuma parte a descolarização surgia mais niti-
Desta maneira, cada um compreenderá qual o caminho mais damente do que nas escolas técnicas: Illich quer realizar uma
apropriado à conduta ou finalidade que a si mesmo se impôs. transformação das explorações industriais que converta as
Por exemplo, um quer aprender chinês com o seu vizinho fábricas em centros educativos. Por um lado, depois do ex-
chinês: o educador conversará com eles sobre o método mais pediente da fábrica, se asseguraria uma formação, a cargo do
apropriado às suas respectivas personalidades e ao tempo de próprio pessoal, a quem a pretendesse. Por outro lado, e aci-
que dispõem. ma de tudo, o processo de fabrico seria de tal maneira trans-
Hlich estabelece como princípio que, seja quem for que formado que assumiria valor educativo, e assim, no trabalho,
deseje instruir-se, saiba daquilo de que precisa; porque um pelo trabalho, se conseguiria adquirir um aperfeiçoamento
verdadeiro sistema educativo nada impõe a quem se instruir. simultaneamente profissional e geral.
Haverá simplesmente a probabilidade de recorrer a certos Estas vantagens serão proporcionadas a quem as solici-
apoios: reparos e observações vindos de um companheiro, tar, sem limite de idade, sem qualquer exigência de estudos
um mais velho que ofereça a vantagem de uma experiência ou de diplomas anteriores. Deste modo, o mundo profissio-
mais vasta mas, de forma nenhuma para influir na solução, nal assumiria o papel que a escola reclama como exclusivo.
apenas para orientar as verdadeiras questões que se devem Por isso, Illich se convenceu de ter libertado a educa-
pôr de igual para igual. ção: cada um pode da mesma formaparticipar no seu próprio
crescimento, aumentar a sua autonomia e a sua responsabili-
No seio desta estrutura igualitária, não basta dizer que dade, pois é ele que, a cada instante, será mestre e senhor do
cada um contribui para a aprendizagem do outro: Illich exige que quiser aprender e de como o aprender.
que aprender não se diferencie de ensinar. Todos conquista-
rão a sua educação, partilhando-a. II — Reflexões críticas sobre as redes
Ilich está convencido de que as redes serão uma solu-
ção para as desigualdades da escolaridade: todo cidadão terá Sem dúvida alguma, Illich tratou de questões que são
direito a um primeiro crédito educativo, que lhe permitirá reais, prementes, daí a sua audiência. A nossa escola não
adquirir conhecimentos de base. Em seguida, para se benefi- proporciona um lugar que satisfaça a originalidade do aluno,
ciar de novos avanços, será pedido a ele que se dedique a nem a sua necessidade de iniciativa, de realização pessoal.

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Muito raramente lhe oferece meios de exprimir aquilo que Em 1856, estas linhas tantas vezes lidas em transcri-
sente para ele sair do seu aparente conformismo. ções contemporâneas e que eram consideradas inovadoras:
Daí o apelo a um ensino que ofereça aos educandos “É tal a rapidez do progresso dos conhecimentos que no se-
uma multiplicidade de contatos com o mundo, englobando gundo terço da sua existência o pai de família já não está a
encontros e viagens, que facilite a conexão entre locais e par do que é preciso saber; já não é ele quem ensina os seus
métodos de produção por um lado, locais e métodos de for- filhos, são os seus filhos que refazem a sua educação; ele
mação poroutro: criar novas relações entre o homem e o que representa para eles a velha rotina, a prática gasta, a resistên-
o rodeia, que venham a ser fonte de educação. E também o cia que é preciso vencer”.
prazer e as vantagens do diálogo, e o sentimento de que o Enfim, Taine faz com que os estudantes da sua época
diálogo só é possível mediante a abolição de determinado digam: “Amaldiçoamos e injuriamos o vosso mundo inteiro
tipo de desigualdade entre os participantes. O tema, enfim, e rejeitamos as vossas pretendidas verdades que, para nós,
de uma sociedade globalmente educativa onde seria possível são mentiras... Eis o que a nossa juventude contemporânea
e natural partilhar a sabedoria. nos grita bem alto há quinze anos”.
Cada época se julgava perdida num universo em que
Nlich tem boa percepção das necessidades justificadas tudo lhe parecia necessário ser reinventado. E aqueles que
de transformação da nossa escola, mas pensamos que a solu- não se deixavam arrastar pelas aparências sempre consegui-
ção porele proposta as desnatura cruelmente. ram descobrir a perspectiva histórica, síntese de rupturas e de
Um dos argumentos mais peculiares a Illich para recu- continuidades. E as rupturas só são eficientes desde que te-
sar a escola, a sua própria estrutura, consiste em afirmar que nham sido estudadas e as continuidades garantidas. Sem dú-
o mundo atual atravessa uma situação tão nova que tudo vida que a nossa época vê realizar-se uma mutação de
quanto já foi estabelecido e constituído deixou de ter utilida- extraordinária envergadura; é, todavia, ingênuo supô-la única
de: as verdades de hoje tornaram-se caducas, a continuidade e que a cultura constituída já não possa ajudar a interpretá-la,
da história está suspensa, a herança tornou-se bruscamente a dominá-la. E a nova cultura que se procura instituir em
inútil e incômoda. correspondência com a agitação da nossa época, exige um
Ora, isto não passa de uma ilusão que, por seu turno, avanço, mas, contudo, uma assimilação do passado; física
cada geração alimentou. Apontaremos três citações. Em nuclear não pertence, de fato, aos que desconheciam a física
1835, Tocqueville concluía assim a sua obra dedicada à clássica.
América: “Não se conseguiria comparar o estado atual nas-
cido da Revolução (de 1789) com algo que o mundo já tenha Não sendo uma autoridade de tipo universitário, habili-
observado. Recuo século a século até à antiguidade mais tada a atribuir um diploma, apropriando-se do direito de atri-
remota, não distingo nada de comparável ao que está sob os buir um diploma, estas redes seriam julgadas pelos seus
meus olhos. Se o passado não iluminar o futuro, o espírito clientes, através de seus resultados. Masisto só é possível —
avançará para as trevas”. e Illich tem perfeita consciência disso — no caso de uma
sabedoria imediatamente aplicável.

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Semelhantemente, os exames de tipo universitário serão para se formarem, mesmo em relação ao que não é logo apli-
substituídos por provas mais limitadas e precisas para que não cável; confia-se no valor que a escola lhe atribuir, apesar de
se perca de vista a objetividade: trata-se, efetivamente, de o aluno não estar apto a avaliá-lo de imediato. E o diplomaé
conseguir que elas se processem à margem da intervençãoe, o intermediário entre aquilo que o aluno já sabe fazer e a
principalmente, do juízo de todo o poderdocente. afirmação, a garantia, do que mais tarde ele será capaz de
Em todo caso, o alvo visado consiste em estabelecer a executar.
competência peculiar a um determinado trabalho. E o exem- Não há dúvida de que a escola precisa se transformar
plo invocado é bem significativo: o postulante, para não di- até às entranhas para merecer, para reconquistar tal confiança
zer o candidato, consegue ou não se servir de determinada — e de formaa que a visão do futuro não seja um meio de
máquina? eliminar a alegria e o progresso presentes. Porém, esta revo-
O conhecimento em rede está condenado a limitar as su- lução escolar não consistirá em cingir o ensino a uma contri-
as ambições educativas àquilo que puder servir de imediato e buição imediata, a menos que se trate de uma revolução
de forma absolutamente evidente: não ultrapassa as fronteiras essencialmente conservadora.
de uma prática restrita. Trata-se muito menos de compreender
do que de tirar partido de... e um partido imediatamente utili- Dizem-nos, sem dúvida, que o conhecimento em rede
zável. Montar, desmontar, consertar, enfim: trabalhos manu- utilizará e desenvolverá os cineclubes, as exposições itineran-
ais. O conhecimento em rede corresponde a um conhecimento tes etc. Mas, devido ter por alvo suprimir qualquerorientação
a curto prazo, encarado unicamente no aspecto das suas apli- e qualquer prerrogativa exercidas por um professor, a rede
cações pragmáticas e imediatas. Sacrifica-se alegremente tudo deverá utilizar as possibilidades educativas contidas nas coisas
o que abriria perspectivas mais vastas, de contrário como po- e é necessário que as características das coisas sejam assaz
deria se proceder a uma ratificação instantânea? Como passar evidentes para que sejam distinguidas quase por si, ou pior
imediatamente ao ensaio e à verificação”? ainda, de acordo com o mais ligeiro aceno do apresentador.
Tal educação constitui o melhor meio de não interpre- Isto leva Illich a só introduzir na rede máquinas sim-
tar os conjuntos, os problemas globais; em particular os con- ples e rudimentares que todos, dentro de um ou dois meses,
juntos sociais. Afirmamos que a aprendizagem em rede saberão montar, desmontar, conservar e consertar. Porque as
corresponde à escola idealizada pelo patronato para fornecer realizações complexas dos técnicos modernos, não podem
uma mão-de-obra rentável e que se abstivesse de reivindicar: inserir-se no não-diretivismo do conhecimento em rede.
repisar a competência limitada, diretamente aplicável à tare- À escola precisa lutar contra estas tentações do passa-
fa, sem ultrapassar as exigências dessa mesma tarefa — não dismo — e pode fazê-lo apoiando-se, como já dissemos deta-
permitindo, portanto, à classe operária uma visão mais vasta. lhadamente, na forças mais diretamente interessadas na
mudança da sua situação presente. Mas é pela sua própria
Ressaltamos, de uma leitura inversa, uma das funções natureza que o conhecimento em rede fica prisioneiro do
essenciais da escola e incluindo esses exames e esses diplo- passado.
mas tão depreciados: na escola dispõe-se de tempo, há tempo

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E bem nítida a convergência entre o mundo da convi- mo interesse. A força que os anima é a propensão natural que
vência familiar, o seu regresso ao rudimentar e estes meios nos impele a crescere a aprender.
de limitação educativa. A partir daí passamos a encarar problemas que evoca-
mos detalhadamente a propósito do não-diretivismo de Neill:
Ilich reprova as desigualdades da escola, e com razão. nada de mais desigual do que as inclinações naturais, pois
Afirma ele que a aprendizagem porredes é igualitária, que a não são absolutamente espontâneas, visto refletirem a posi-
austeridade é igualitária. Apesar do que ele nos diz sobre o ção do indivíduo na sociedade e cuja tendência é mantê-los
crédito educativo concedido a cada um, parece-nos haver nessa posição. A inclinação natural do filho de um profissio-
muito mais desigualdades no conhecimento por redes do que nal especializado leva-o, pelo menos, à esperança de chegar
na escola. E a escola conserva, sobretudo, certa possibilida- a contramestre.
de, evidentemente parcial, de vencer a sua desigualdade; A escola, na medida em que tomar partido na luta de
pelo contrário, a desigualdade incorpora-se às redes e torna- classes, tem por papel desmistificar aos olhos da própria cri-
se insuportável. ança as origens das suas aspirações, de fazer com que com-
Há desigualdades nas redes primeiro por defeito: é por preendam que elas resultam do seu modo de vida e das
demais evidente que esse saberrestrito não bastará para man- dezenas de biscates que lhe são familiares; e, por consegiiên-
ter em funcionamento uma sociedade técnica e economica- cia, que ela deve vencera sua aspiração. A rede é incapaz de
mente desenvolvida. E, aguardando a instauração do mundo cumprir semelhante tarefa, pois exige do que ensina uma
da convivência familiar, torna-se inevitável que uma reduzi- orientação demorada, contínua, que deverá, em determinadas
da elite de apodere dos conhecimentos profundos que o sis- alturas, de forma provisória, ter a coragem de não coincidir
tema de redes não demonstrou a todos. com o desejo imediato do interessado.
Aguardando a instauração desse mundo de convivência Poderemos afirmar que a rede está montada de tal mo-
familiar, já não há motivo para esperar que o sistema de re- do que essa tarefa não será executada e que o filho de um
des escape pura e simplesmente, como se isso não constituís- profissional especializado não conseguirá ultrapassar os con-
se problema, à pressão dos interesses estabelecidos, às dicionalismos das suas aspirações?
contradições entre os interesses estabelecidos e à assustadora
disparidade das situações adquiridas. As redes de conhecimento só podem ser niveladas na
medida em que tudo que certo indivíduo exprimir possa
E as redes de conhecimento são desiguais, sobretudo, equivaler à expressão de um outro qualquer, com a única
nas suas consegiiências diretas: com efeito, recusando toda a condição de que haja atuado numa forma de espontaneidade
regulamentação institucional, elas apenas se baseiam, apenas patente, mal tenham sido anuladas as coações do professor
existem pela necessidade que delas revelarem os participan- ou da instituição escolar; e finge-se ignorar as muitas outras
tes. Illich nos diz que o sistema de redes facilita o encontro pressões que não cessam de se exercer sobre o cliente; fica-
entre dois seres que, num dado momento, partilham o mes- se então alheio a qualquer critério supra-individual; só é vá-
lida a manifestação encarada como inerente a cada indivíduo

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e isso, absolutamente, sem comparação possível com qual-


com explicações mais numerosas. Cada participante, a pre-
quer outra. texto de ser senhordesi, de ser o único responsável pela sua
Tudo que se assemelhe a uma investigação autêntica, a formação, mantém-se, na realidade, abandonado e pregado
uma norma de verdade, será assim abandonado, mas tam-
ao mesmo lugar em que já estava.
bém, paralelamente, desaparecerão as bases comuns de pen- Não é possível haver oportunidade para um questionar
samento, de ação, de organização. O ceticismo, a idéia de profundo, radical, pois esse esforço, que por vezes chega a
que todas as opiniões são equivalentes e, portanto, o isola- ser doloroso, exige uma persistência demorada; há momen-
mento de cada um dentro do seu ponto de vista, são inerentes tos em que se está num túnel, sem se encontrar a saída: é
à rede para a desmobilização da luta operária. então que se torna necessário ao aluno o apoio de uma insti-
É aqui que nos viramos para Althusser, que não cessa tuição duradoura e sólida, de um professor em quem confie
de nos precaver contra a ilusão do concreto como elemento porque a experiência lhe mostra que ele inspira confiança;
imediato, experiência imediata em que bastaria confiar. Ele reconhece o papel específico do professor, não como um
trouxe de novo à tona e reinterpretou os textos essenciais de escravo que se submete, mas como quem observa que só
Marx, principalmente aquela passagem da Critique de unindo os seus esforços a uma orientação mais firme conse-
PEconomie Politique que denuncia a tentação de se tomar guirá obter uma resposta, a sua resposta, às perguntas que
por base do conhecimento aquilo que se vê e se toca, que se formulava, às contradições em que se debatia. Mas só por
apresenta de mais palpável: por exemplo, a população, a dis- ele, e menos ainda com a ajuda dos companheiros, não con-
tribuição dos habitantes entre cidades e aldeiasetc. seguiria avançar decisivamente.
Uma verdadeira sabedoria exige uma orientação para Ou a nossa sociedade não está dividida em classes an-
elementos só alcançáveis devido a pensamentos sutis: traba- tagônicas e não tem, portanto, de se proteger com ideologias
lho. assalariado, capital, troca, divisão de trabalho; sem o enganadoras — nesse caso as redes podem constituir um
que, a noção de classe, a separação em classes, nem sequer processo de educação suficiente; ou a nossa sociedade é
pode ser pensada. A sabedoria exige uma combinação de atravessada pela luta das classes e segrega mistificações,
perspectivas: o concreto da ciência é um resultado, torna-se noções que encobrem a realidade ao pretenderem explicá-la
concreto como recompensa de um longo processo, só é con- ou descrevê-la; por exemplo, quando se interpreta o salário
creto por sera síntese de múltiplas determinações. O conhe- como preço do trabalhoe, portanto, o seu justo preço, quan-
cimento porredes conseguirá atingireste esforço? do ele é o preço da força do trabalho, força capaz de produzir
mais do que consome,e é isso que permite a coleta da mais-
As redes de Illich em que cada um dialoga com os seus valia. A tomada de consciência real exige que se enxerguem
companheiros em pé de igualdade, deixam por isso mesmo
através das aparências, que o pensamento desafie o radical-
cada um na sua perspectiva peculiar; instalam-na, cimentam- mente novo, que se questione novamente o que lhe parecia
na, no seu modo vulgar de pensar e de viver. Cada um pros- evidente e o reconstrua. Não é pelo sistema das redes que
segue aí calmamente o seu caminho, tudo continua a ser con-
isto será conseguido.
siderado de forma usual, apenas com mais alguns detalhes,

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Surgem-nos, portanto, as redes do conhecimento como Enfim, é porque a escola envereda pela aceitação das
o mundo que antecede Marx: a classe explorada, privada de soluções pré-fabricadas que conduz a um contínuo desenvol-
armadura teórica, privada dos conceitos que lhe permitiriam vimento das aspirações materiais. Por um lado, devido às
compreendera situação, fica presa na passividade e nas ideo- promoções, às competições, às rivalidades, a escola inocula
logias envolventes, demasiadamente conservadoras. Na ver- uma paixão pelo jogo, uma paixão incurável. E quando não
dade, a classe no poder nada tem a recear dessas redes. mais se alimentar de notas e de exercícios de avaliação, pas-
E, naturalmente, este estado rudimentar das atitudes so- sará a ter em vista o consumo, o consumo frenético, criará O
ciais, colado ao imediato e ao conformismo, será reposto, mito de um paraíso terrestre do consumo sem fim. E, por
transferido para o domínio do pensamento científico e técnico. outro lado, a disciplina da escola adapta o homem ao consu-
mo disciplinado, começando pelo consumo escalonado dos
Ilich constata que a escola não ensina a renunciar, a programas escolares para terminar com a mentalidade do
viver dentro de limitações, de restrições, e isso o deixa in- consumidor habitual, persuadido de que só um acréscimo de
dignado. Para nós é o mais belo dos elogios dirigido a uma produção é capaz de conduzir a uma vida melhor.
escola. A escola pode sentir-se orgulhosa ao ser apontada por Resumindo, a escola forma o homem condenado ao
Hlich como o inimigo principal, orgulhosa por ser o principal consumo do progresso e trata-se de uma terrível condenação,
obstáculo à limitação dos desejos e à abdicação que lhe é primeiro porque o lança numa corrida sem objetivo. Em se-
inerente, bem como pela acusação de atiçar as ambições dos guida, porque esses bens que todos cobiçam continuarão
pobres — enquanto tantos a censuram precisamente por repi- sempre reservados a um pequeno número de privilegiados. A
sar a resignação. escola forma simultaneamente os criadores do progresso € os
seus consumidores: os diplomados pelas universidades vão
Para Hlich, a nossa escola não constitui simplesmente construir aeroportos e hospitais superaperfeiçoados e consti-
uma instituição entre outras, mas a instituição fundamental e tuirão eles próprios a sua clientela
determinante da nossa sociedade. Primeiro porque é ela Ilich concluiu que a escola desempenha hoje o papel
quem instala determinado indivíduo em determinado nível, primordial que coube outrora à religião; ela representa a no-
quem o engrena em determinada carreira e quem, portanto, o va Igreja mundial. Isto significa que é ela o modelo das ou-
gruda a uma situação social definida. Quem aceitaresta ava- tras instituições, a instituição que serviu de molde às outras,
liação de uma instância exterior está prestes a admitir que para que fosse possível compreendê-las e transformá-las; e
toda a sua existência seja determinada pela burocracia dos significa ainda que é agora ela a depositária das expectativas,
tecnocratas. dos grandes sonhos humanos. Porém, ela os conduz a um
Depois, são os programas escolares que constituem resultado catastrófico.
uma preparação para a planificação institucional: pois aquilo E porisso afirma que o projeto revolucionário e a liber-
que se aprende na escola, não evidentemente pelo discurso tação do homem devem obrigatoriamente implicar a não-
explícito do mestre, mas através da modelagem ideológica escolaridade, o termo da era escolar, como quem se refere à
contínua, é o “medir o tempo pelo relógio do programador”.

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era feudal e ao seu desaparecimento, isto é, o fim da época modifica a ordem, a hierarquia dos fatores: em lugar de enal-
em que o ensino na escola era considerado indispensável. tecer a sabedoria do professor (o perito) e considerar não-
válidas, até falseadas e perigosas, as vivências dos alunos (e
Tiramos daqui uma tripla conclusão: Illich defende de nisso se fundamenta o tradicionalismo pedagógico), vai glo-
fato o tema da escola libertadora, a escola como motor de rificar a existência imediata das pessoas vulgares, jovens e
todo o desenvolvimento social, simplesmente ele troca a es- adultos, e votar a perda do professor-perito. Mas não se sai
perança pelo desânimo. Basta que se reconheça a necessida- do tradicionalismo, pois a ruptura, o contraste entre os dois
de da escola para ela se tornar presa das outras instituições. termos foi mantido tal e qual; e é precisamente este contraste
Em lugar de ser tida como uma salvação, leva à perda, po- que é ruinoso.
rém, quer num caso, quer noutro, é investida de uma força Hllich é o porta-voz de uma escola tradicional ingenua-
miraculosa, quase sobre-humana, ora diabólica ora divina. O mente invertida e não de um requestionar progressista da
que evita repô-la entre o conjunto dos mecanismos da socie- escola, ainda menos de uma escola progressista, cuja base é
dade e implicar a crítica da escola na crítica da sociedade. E o vaivém, a continuidade vivida entre a própria experiência
isto impede que se situe a escola dentro da luta das classes, dos sujeitos interessados e a formação teórica e organizadora
que se perceba que ela está fundamentalmente dominada que lhes permite uma cultura elaborada; o enriquecimento
pela luta de classes e que pode e deve ao mesmo tempo ad- das iniciativas e dos primeiros entusiasmos pelos conheci-
quirir uma margem de autonomia. mentos culturais e, em contrapartida, os fomentadores da
cultura, ou antes, os que lhe dão forma, vão buscara sua for-
As redes de conhecimento estão adaptadas ao mundo ça nas perguntas, nas esperanças, nas riquezas ainda em es-
da convivência — mas só o estão ao mundo da convivência e tado bruto, quer dos seus alunos, quer do seu público.
à teoria illichiana das duas culturas. Uma vez que se concor- Parece-nos, deste modo, que a escolha se processa en-
de que a cultura dos especialistas é um obstáculo irremediá- tre a escola tradicional — incluindo Illich — e o marxismo,
vel para o bom senso cotidiano, que é necessário excluir a o marxismo que torna possível uma sabedoria em que o peri-
intervenção dos especialistas por ser catastrófica e que basta to se alie ao bom senso, na medida em que a vanguarda se
nos deixarmos impregnar pelos hábitos envolventes, pela aliar às massas.
experiência das pessoas vulgares, as redes de conhecimentos
justificam-se perfeitamente. Se o alvo é nos restringirmos e O parentesco entre Illich e a não-diretividade é tão evi-
nos submetermos, as redes de conhecimento estão no lugar dente que nos bastará evocar por alusões as convergências
que lhe compete. Mas esse lugar é o do impasse, o da estag- mais manifestas: os educadores profissionais previstos nas
nação, e não o de um questionar revolucionário. redes de conhecimento conformam-se com esquemas de não-
diretividade, grande número das acusações que Illich formula
Na realidade, Illich partilha, em relação ao saber, o contra as escolas são precisamente as mesmas dos não-
mesmo conceito da escola tradicional; nunca conseguiu ul- diretivistas. Explicitamente, Illich retoma a afirmação essenci-
trapassar as concepções da escola tradicional. Simplesmente al da não-diretividade: a intervenção do mestre só pode resul-

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tar como uma oposição ao verdadeiro desejo, à verdadeira realizem com mais plenitude; se os agrupamentos espontã-
natureza de quem se instrui. Tema da incomunicabilidade neos dos discentes não sentem necessidade de uma instância
entre os seres, mais ainda entre as gerações e que atinge o de vanguarda que guie, filtre, regularize a sua riqueza implí-
ponto culminante nas relações entre professores e alunos: cita, então não passa de uma solução tímida e desajeitada.
“Acreditar que se pode agir sobre os outros para seu bem” não Insistir, como insiste Lobrot, numa escola como local em
passa de presunção pedagógica; isto é orgulhoso, impiedoso. que o professor abdicará solenemente dos seus poderes a
Ihch denuncia como ilusão perigosa a noção de que favor do grupo-classe ou, como Rogers, em ter assento numa
seríamos capazes de distinguir entre o que é necessário a universidade na esperança de poder travar diálogos de igual
outrem em matéria de educação e o que não o é. Em suma, para igual: de fato, é a escola comoinstituição, a escola intei-
quaisquer formas de influenciar um discípulo, mesmo que ra que deve ser revogada, incluindo os locais.
sejam consideradas educativas, precisamente quando assim Numa primeira fase, a dos não-diretivistas propriamen-
são, não passam de traições em relação àquilo de que ele re- te ditos, a escola, deixando mal esboçadas as matérias a se-
almente necessita; nada que se assemelhe a uma orientação rem transmitidas, punha todas as suas esperanças no modo
podeser frutuoso visto que cada indivíduo é o único a saber, a de transmissão que se esforçaria por tornar igualitário; pedi-
sentir o que lhe falta para progredir. A educação recusa qual- ria humildemente um lugar entre as outras instituições que
quer diretivismo e mesmo toda direção porque define a si têm por tarefa a comunicabilidade. Mas em breve Illich vai
mesma como surpresa; é sempre da ordem do imprevisível. proclamar o seu desaparecimento porque, apesar de tudo, o
que ela conserva de pretensão em formar jovens, parece in-
As redes de Illich vão levar às suas consegiiências ex- justificável.
tremas a pedagogia não-diretiva. Lobrot e até Rogers manti- O equívoco da não-diretividade, reside na circunstância
nham a estrutura escola ou universidade. Illich suprimiu-a; e de ela dar simultaneamente guarida a uma intenção real, a de
a razão está com ele, pelo menos se nos inserirmos no não- transformar a relação pedagógica, e a uma indiferença pelo
diretivismo, se enveredarmos pela aceitação dos seus postu- saber, que impede a realização das suas esperanças. Como
lados, sem unir o que existe de fecundo na sua inspiração pode a relação docente-discente afirmar-se se nada mais há
original, ou seja, a preocupação da relação educativa e da de verdadeiramente válido para ensinar? Bem longe de eli-
vida do grupo, a um esforço que incida sobre a renovação minar esta ambigiiidade, o illichismo corre o risco de vir a
dos conteúdos ensinados, uma vontade de manter, contra as constituir o mais infeliz dos resultados da não-diretividade.
facilidades do ceticismo, a procura da verdade — ou, pelo A enveredar-se pela não-diretividade não se procurando pa-
menos, de um mais verdadeiro. ralelamente a síntese entre a expressão pelo aluno daquilo
São as consegiiências extremas que constituem as con- que ele vive e uma herança de pensamento e de ação que ele
sequências lógicas e, na realidade, obrigatórias: se não for o tem de assumir e de perfilhar, a lógica das situações conduz
docente, embora mantendo um contato constante com a vida ao encontro das redes de conhecimento.
c as aspirações dos alunos, a tomariniciativas para que pre- Por conseguinte, todos os perigos que receávamos em
cisamente essas aspirações e essa vida se compreendam e se relação aos não-diretivistas e todas as críticas que julgamos

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dever apontar a Illich, convergem, reforçam-se mutuamente. para que a mentalidade socialista surja espontaneamente,
As redes de Illich, colocando em prática, mas de maneira organicamente.
unilateral, certos temas da não-diretividade, permitem deci- Daí a conclusão lógica de que Hoernle exige a supres-
frar-lhes, claramente, o sentido — o sentido perigoso: oposi- são tão completa quanto possível da autoridade, ou seja, da
ção estéril entre o saber constituído e o saber espontâneo,daí intervenção de adultos. A tripla fórmula educativa que ele
a renúncia ao saber organizado; o que mais ou menos se sub- tem em vista: a auto-administração, a autodeterminação e a
entendia nos primeiros não-diretivistas e que se transforma auto-educação recíproca da infância, da juventude pela ju-
na proclamação solene de Illich. A partir da qual pretendem ventude, deixa perceber bastante claramente, recuando no
conduzir-nos a uma sociedade primitivista e resignada. tempo, que tal escola está em vias de se dissolver.
Quanto à URSS, começaremos por nos referir a peda-
TERCEIRO TEMA: gogos para quem, semelhantemente, subsiste a escola; mas,
A morte da escola para Illich na realidade, eles vão perdendo espaço e diminuindo o seu
e para os pedagogos soviéticos da primeira geração papel a ponto de nos inquirirmos se não será por mero hábito
que ainda conservam a noção de escola.
É exata a relação entre a não-escolaridade de Illich e os Por exemplo, Bukharin afirma que, uma vez levada a
temas de morte da escola lançados por numerosos pedagogos cabo a revolução, o trabalho se torna, para a criança, uma
soviéticos nos anos imediatamente posteriores à revolução, manifestação natural e espontânea das suas aptidões. Numa
retomados depois, vigorosamente, quando das discussões de sociedade comunista, e mais precisamente numa escola co-
1926. Falta averiguar até que ponto, nesses anos por vezes munista, a criança entraria imperceptivelmente no trabalho
atrozes, pela resistência encarniçada dos capitalistas ou pela como numa continuação natural das suas brincadeiras e o
intervenção estrangeira, eles conseguiram manter-se fiéis ao trabalho se tornaria uma necessidade, como beber e comer. A
marxismo. Não é de menor interesse mostrar como a simili- partir daí se conclui que a escola pode e deve reabsorver-se,
tude dos temas remete, todavia, para duas atmosferas intei- tornando-se progressivamente inútil.
ramente diferentes. Pistrak sustenta que “sobre a base do trabalho se forja
inevitavelmente uma determinada compreensão da atualida-
I— A escola definha de”, a partir do momento em que esse trabalho tenha sido
concebido e organizado numaperspectiva socialista.
Começaremos salientando a influência de Hoernle, teó- Ao mesmo tempo, ele atribui às crianças, desde que se
rico do partido comunista alemão, por volta de 1919. Por reúnam em grupo em busca de solução para os seus proble-
certo, Hoernle mantém a idéia e o termo de escola socialista, mas, para os seus conflitos, todas as virtudes e nenhum fra-
mas nesta escola que se pretende de um tipo novo, bastam as casso: “A assembléia geral dos alunos não seria nem parcial
experiências próprias das crianças, as novas relações de vida nem subjetiva; e isto porque as resoluções são resoluções
entre as crianças e, sobretudo, do trabalho comum das crian- coletivas e não ditadas por circunstâncias acidentais”, de
ças para se desenvolverem as virtudes socialistas coletivas e onde ele conclui, logicamente, que o adulto só deve intervir

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em caso de absoluta necessidade. É uma espécie de transpo- uma instituição que só tem lugar na sociedade capitalista. A
sição do Contrato Social de Rousseau e da perfeita retidão escola desaparece, integrando-se em outras esferas de ativi-
porele conferida à vontade geral, aqui atribuída ao conjunto dades da sociedade, confundindo-se com a vida social, e os
das decisões infantis. jovens participando diretamente da vida ativa dos adultos.
Quando a escola está organizada de maneira tal que o Fundamentalmente, Blonski insiste em que “as disposi-
trabalho prático tenha uma finalidade social, é a própria for- ções inatas da criança são naturalmente boas, ou seja, comu-
ça da vida escolar que levará a criança a solucionar a antítese nistas. A natureza das crianças é, no sentido latente,
eu e os outros, indivíduo e sociedade. Na assembléia geral proletária, e encontra sozinha, evoluindo naturalmente, o
dos alunos, o educador não passa de mais um membro, e não
caminho para o comunismo”, ou ainda: “A criança é boa e
goza de qualquer prerrogativa. É de certo modo um camara-
ignora o que sejam as classes”. Basta, portanto, que o meio
da mais velho e Pistrak considera simultaneamente, como
em que vivem os jovens não contrarie a sua natureza nem o
possível e desejável, que ele mantenha essa atitude, que in-
desvie do seutrilho. E por isso se entende poder confiar em
sista nela.
diligências imediatas para autogestão: por menos que parti-
Mesmo quando o nosso autor encarrega o adulto de
cipe num meio comunista ou em vias disso, a criança se de-
orientar as disposições das crianças para determinada finali-
senvolverá naturalmente de forma correta, pois ela própria
dade, de “lhes suscitar preocupações carregadas de sentido
irá descobrir, por uma busca ativa e criadora, as noções, os
social, de ampliá-las, de desenvolvê-las”, uma restrição sig-
conhecimentos e as regras de conduta. E então este grito tri-
nificativa, precisamente a esta frase, indica que tal papel
unfante: “Ela mesma vai elaborar o seu próprio mundo, que
consiste em “ajudar imperceptivelmente em casos difíceis”.
será um mundo comunista”. Como não notar que este meio
A escola ainda existe, a escola parece manter-se, mas,
de vida não necessita ser uma escola, nunca mais o será?
na realidade, desintegra-se, visto transformar-se num simples
meio de vida que age pelo manejo direto das suasestruturas,
O que é que suplanta a escola? O quadro real da educa-
pelo seu dinamismo imediato, sem que os docentes tomem
ção passa a ser a fábrica e a comunidade agrícola. Em relação
alguma iniciativa original, e assumam uma tarefa específica.
ao que ele designa como escola de produção ou ainda escola
de trabalho operário, é o trabalho na fábrica ou na cooperativa
É em Blonski que encontramos, explicitamente enunci-
que basta para desenvolver o conhecimento e estimular a
ado, o tema da morte da escola e sua influência considerável
consciência coletivista, visto ser um trabalho socialista e a
sobre a pedagogia da URSS até cerca de 1923. “A instituição
vida se processar de forma comunitária. O local de produção
escola está destruída, dissolvida... decadência da escola... à
transforma-se em local de formação, único e suficiente, que
escola deixou de ter razão de existir... a escola como tal de-
irá brotar da prática em si. À juventude se educará sem nunca
saparece”. Não passou de uma instituição transitória, uma
se separar do mundo adulto; 150 a 200 adultos e crianças tra-
necessidade imposta pela divisão do trabalho, pela separação
balham, vivem e se divertem em conjunto; as oficinas e os
do trabalho manual e do trabalho intelectual, isto é, final-
campos permitem suprir as necessidades da comunidade, ao
mente, pela divisão da sociedade em classes: é, portanto,
mesmo tempo que constituem a verdadeira escola.

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GEORGES SNYDERS
ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Para os mais crescidos, horas dedicadas especialmente


de qualquer forma, os interesses da criança dependem do
ao trabalho intelectual, porém Blonski considera que para eles
meio social em que ela vive, e estes interesses não podem
trata-se de uma simples recapitulação, de uma arrumação,
servir de base à sua educação. Pistrak teve a preocupação de
sobre o que já tiverem adquirido e que conseguiram agindo
definir a ligação entre trabalho escolar e trabalho social: as
simultaneamente sobre a natureza de forma direta e vivendo
crianças tomarão parte nas formas mais aperfeiçoadas da
lado a lado com trabalhadores adultos. Passa-se dos diferentes
produção, na planificação do trabalho, no que se refere às
maquinismos, considerados isoladamente, à mecânica geral e
técnicas e à organização: “Fazer com que o aluno interprete
à cinemática teórica, simplesmente a partir da própria experi-
todos os meandros e toda a rede relacionada com a fábrica”,
ência e das respostas dadas pelos adultos, segundo as oportu-
problemas científicos, problemas econômicos, problemas
nidades, às questões postas pelas crianças; e o diálogo
diretamente políticos. Daí ele atinge uma espécie de lirismo,
prosseguirá à medida que os problemas forem surgindo.
mas um lirismo bem fundamentado, exaltando a fábrica e o
É a morte da escola como instituição particular, onde
seu valor formativo: “A fábrica, grande porta aberta ao mun-
profissionais formados para esse fim põem em prática uma
do”, a fábrica como local em que se geram “as emoções ne-
orientação elaborada e metódica. A escola anula-se em pro-
cessárias à educação social”, e onde os interesses individuais
veito do meio global de vida, meio em que basta às crianças
se transformarão em aspirações coletivas.
tirar partido dos acontecimentos e dos acasos. O que explica
Precisamente no momento em que distinguiam o alvo a
o arrebatamento de Blonski, e que corresponde profunda-
ser atingido, o ensino politécnico, conseguiremos perceber
mente ao seu projeto: “O passeio pelas ruas constitui o me-
porque esses pedagogos chegaram à conclusão de que a uni-
lhor método de ensino”.
ão entre a teoria e a prática, como aliança indivíduo-
coletividade, se processaria porsi, só pela virtude espontânea
IH — O lado exato e o lado utópico do trabalho, da fábrica ou do meio coletivo, tornando-se en-
tão inútil a escola como tal?
Seria, evidentemente, muitíssimo injusto não mencio-
Um dos motivos essenciais dos seus erros parece provir
nar o que consideramos de positivo na contribuição destes
da circunstância de terem de se opor à escola czarista, sem
pedagogos. Hoernle deu uma belíssima definição da escola
que a Rússia passasse pela fase da democracia burguesa; é
politécnica: “Um escola de produção onde escola e fábrica, a
preciso imaginar a influência total sobre a escola czarista de
iniciativa criadora e a disciplina organizada, o trabalho ma-
uma religião, de uma culpabilidade religiosa e também de
nual e o trabalho intelectual, hoje em contradição exacerba-
uma severidade, até de uma desvalorização em relação à
da, se reúnem numa unidade superior”. Por isso é tão
juventude, vindas diretamente de uma sociedade em que essa
lamentável que ele tenha sacrificado uma faceta dos seus
religião constituía a justificação teórica.
objetivos a favor de outra.
Deste modo, parece que os nossos pedagogos enten-
Pistrak soube dizer que a escola tem o direito de orien-
dem não poderlutar contra este pessimismo senão refugian-
tar as preocupações da criança num determinado sentido, e
do-se num otimismo impenitente. Bukharin torna a escola
isso não é usar de injustificada violência para com ela, pois,
muito vaga, muito fluida, na medida em que pretende estabe-

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

lecer uma relação imediata e simples entre o trabalho da cri- vel qualquerluta no seu seio; era bem uma reserva do poder,
ançae a satisfação que este lhe proporcionará, uma via direta
onde nenhuma ação das forças progressistas seria concebí-
e cômoda entre a alegria do trabalho e o prazer da brincadei- vel. Assim se pode compreender por que, por volta de 1919,
ra, Por certo que se trata de lutar contra o mais tradicional
a posição cômoda para os revolucionários consistia em afir-
dos conceitos escolares, ou seja, o de trabalho-punição, tema,
mar que toda a escola (visto que, na realidade, só havia co-
na realidade, transferido das doutrinas do pecado original.
nhecido a versão czarista) estava condenada a reproduzir o
Porém, o nosso autor acaba por ignorar a diversidade das tipo tirânico e, portanto, em procurar um modo de formação
alegrias e da sua proveniência: a alegria do trabalho é dife-
que nada mais tivesse de comum com a escola.
rente da de brincar, penetrada por elementos absolutamente Era preciso o talento extraordinário de Lenin para ao
diferentes. E há necessidade precisamente de uma escola, de
mesmo tempo condenar a escola tal como ela funcionava e
uma escola progressista como instância encarregada de con- afirmar que era essa mesma escola que deviam metamorfo-
quistar pouco a pouco — metódica e por vezes rudemente —
sear para a transformar no instrumento de formação do prole-
a transição entre satisfações imediatas e satisfações imensa- tariado. Lenin soube exortar o proletariado a apoderar-se dos
mente mais difíceis de atingir. elementos de verdade que a escola contém, sem deixar de se
A fim de se opor a toda umatradição que vê a juventu- opor às mistificações que dela transbordam e que constitui a
de marcada por uma espécie de desvio, de falsidade funda- única forma real de oposição.
mental, Blonski é levado a realçar o arrebatamento inovador
Ao contrário, para os pedagogos da morte da escola,
que a caracteriza, a sua força de ruptura em relação às posi- esta, na verdade, reduzida ao seu molde czarista, obedece a
ções estabelecidas por uma possibilidade indubitável de um único impulso. As crianças que fregientam a escola ape-
igualar-se ao movimento do proletariado. nas aprendem os limites tacanhos da felicidade burguesa;
Por manter que a simples ação do meio social constitui tendo como único ideal o conforto doméstico, as pequenas
força suficiente para a tomada de consciência revolucionária,
distrações domingueiras, as festas religiosas tradicionais;
ele chega a calar todos os elementos contrários: de fato, a
assim, a escola aumenta a submissão do proletariado sem
Juventude não escapa à divisão em classes, nem ao prolon-
que seja sequer mencionada qualquer força antagônica.
gadíssimoe lento sobreviver desta divisão.
Noplano intelectual, o êxito do poder não é menos ab-
É verdade que suporta menos as situações injustas de soluto: as escolas apresentam o regime estabelecido como
que é vítima do que quem há mais tempo as sofre, e mesmo natural, eterno e melhor que qualquer outro possível. Nem
as que a beneficiam; mas não é menos verdade que, estando
nas reações, dos professores ou dos alunos, nem no próprio
ainda desprovida de experiência e de inserção, será presa
conteúdo da história ensinada, surge a mínima possibilidade
fácil de múltiplas mistificações. E, porisso, é necessária uma
de contrariareste propósito. Quem sustentava que os regimes
instituição formadora especial, especializada: a escola. autoritários desconfiam da história? Aqui ela é apresentada
como uma aliada cujo poder não corre o risco de qualquer
E em especial a escola czarista estava a tal ponto sub- fracasso.
Jugada ao despotismo que se tornava praticamente impossí-

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Não é, evidentemente, por coincidência fortuita, que que precisamente por isso, há espaço para outra coisa e o
Chulgine, apontado por Lindenberg (infelizmente sem citar o vazio é um apelo a essa outra coisa. O silêncio da escola ofi-
texto persuasivo) como um dos protagonistas da morte da cial jamais é designado como um ensejo, uma possibilidade,
escola, é simultaneamente um dos que negam com a maior um convite aos outros para usar da palavra — mesmo dentro
violência toda a possibilidade de evolução real, de progresso do regime capitalista. Menos ainda se mostrou como uma
efetivo, nas estruturas escolares: a escola única não passa de outra escola irrompe na escola burguesa, por toda a parte em
uma artimanha da burguesia para decapitar as massas. Se os que o silêncio deixou de constituir um dique suficiente.
filhos do proletariado se introduzem nas escolas, até na uni- - Hoernle destaca com muita lucidez a contradição fun-
versidade, é somente porque a burguesia “quer aproveitar e damental da escola burguesa: por um lado, é indispensável
absorver as cabeças mais competentes do proletariado a fim dar ao proletariado a formação necessária ao seu trabalho,
de fortalecer as suas fileiras e separá-los da classe a que per- um trabalho que apela cada vez mais para técnicas comple-
tencem”?. Quando a burguesia utiliza assim a escola, mostra- xas. Mas, por outro lado, “há um elemento revolucionário
se, como sempre, vitoriosa; vitoriosa sem luta, pois nem se- escondido em toda sabedoria” e ameaça, portanto, pôr em
quer parece admissível que estes alunos façam abortar os perigo a supremacia da classe dominante. O autor retira da-
planos da classe dominante e se sirvam da instrução alcança- qui, como únicas conclusões, que a cultura deverá ser admi-
da para travar um combate mais lúcido. nistrada ao proletariado em pequeníssimas doses e que irão
Para Bukharin: cada vez que crianças vindas do povo empenhar-se em apresentá-la sob uma forma que exclua
triunfam nos seus estudos, “os talentos dos trabalhadores ser- qualquer ação subversiva. Entre outras medidas, os trabalha-
vem em definitivo à opressão da sua própria classe”. É essen- dores serão preparados para uma única tarefa, excelente meio
cial perceber-se que só devido a esta visão não-dialética da de bloquear a sua tomada de consciência reivindicativa.
escola é que fica de pé a tese do enfraquecimento da escola. Porém, Hoernle não reconhece que este esforço, esta
esperança da classe dominante está inexoravelmente fadada
Em certos momentos, apesar de tudo, não se pode dei- ao fracasso porque o elemento revolucionário oculto na sa-
xar de chamara atenção para as dificuldades com quea clas- bedoria cada vez menos se esconde, e vai manifestar-se à luz
se dominante se depara na sua própria escola. do dia, transformar-se numa força revolucionária — e isso na
Pistrak observa que se torna cada vez mais incômodo medida em que a pressão do proletariado vá aumentando de
introduzir idéias conservadoras num aluno proletário. A es- intensidade, em que o capitalismo for forçado a apelar para
cola, por conseguinte, vê-se constrangida ou Julga mais pru- uma mão-de-obra cada vez mais concentrada e instruída.
dente renunciar à educação como evolução geral do Assim, as forças progressistas possuem uma base objetiva de
indivíduo e vai experimentar limitar-se a simples exercícios ação mesmo no interior da escola, dentro dela e porque ela
de ginástica mental. E assim se irá refugiar “confuso... na existe.
ausência fregiiente de idéias... no ecletismo... na falta de ela- Pinkevitch, enfim, reconhece que a classe dominante
boração de uma concepção definida” — derradeira salvação não pode pretender o domínio simples e total da escola: ca-
da ideologia conservadora. Mas, no que nunca se repara, é madas sociais diferentes partilham o poder, por conseguinte,

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a instrução pública. Vêem-se reduzidas a negociar, a estabe- ção do proletariado, o aumento da sua capacidade de luta
lecer compromissos, a fazer concessões. O equilíbrio é frágil contra a burguesia. Compreendendo perfeitamente que não é
tanto no domínio educativo como no plano econômico. Con- de forma automática que a instrução exerce estes efeitos re-
tudo, ele de forma alguma deduz que a escola, atravessada volucionários, mas sim, na medida em que ela se torna parte
por tais falhas, ofereça menos resistência à ação das forças integrante de uma luta revolucionária.
progressistas e constitua, pois, um local onde a sua luta possa
ser avivada até uma considerável intensidade. Estas ideologias do enfraquecimento da escola reme-
tem para dois postulados essenciais: “cada instituição de
É do maiorinteresse observar que, a partir de 1933, o Estado não faz mais do que executar as diretivas da socieda-
PCF, no prefácio de Gilbert Masson da tradução do livro de de” e a escola nos será apresentada como uma instituição
Hoernle, Education Bourgeoise et Education Prolétarienne, semelhante às outras, pouco diferente da polícia. A relação
soube relevar os mais graves erros destas posições e marcar infinitamente complexa da escola com uma verdade simulta-
algumas balizas essenciais: sem nunca pretender que a escola neamente oculta, mascarada e, contudo, sempre presente, ou
possua o poderde transformara sociedade, interessa trazerà pelo menos sempre pressentida, uma verdade que é impossí-
luz a realidade, a eficácia da luta conduzida pela classe ope- vel evitar, apesar de tudo, é inteiramente silenciada. Sendo
rária como força constante de oposição ao Estado burguês no assim, negada a tensão fundamental que percorre a escola, o
seu conjunto e em particular ao domínio que a burguesia esforço da burguesia para tornar a escola um objeto seu pa-
exerce sobre a escola. É esse movimento, já incontestável, rece não deparar com qualquerresistência.
que interessa ampliar: o proletariado deve utilizar a escola E o segundo pressuposto, que mostra a que ponto se vão
burguesa para adquirir conhecimentos que lhe facilitemele- pouco a pouco afastando do marxismo autêntico, é uma abso-
var a sua consciência de classe e a participar ativamente na luta falta de confiança nas massas de hoje — que aliás se une
luta de classes. O proletariado tem de lutar primeiro para à negação total de evolução do proletariado através da histó-
tentar submeter a escola e finalmente, para conseguir contro- ria. A distância entre a cultura do operário moderno e a do seu
lá-la. Mas nem antes nem depois se trata de suprimir a escola patrão, conserva-se exatamente igual à que ia do escravo
como instituição particular, pois é ela a depositária do siste- egípcio ao seu senhor. Ou ainda: “o proletário atual mostra-se
mático, de um tipo de trabalho metódico e organizado — tão inapto como o escravo de outrora para dominar a máquina
insubstituível na sociedade moderna. incrivelmente complexa do Estado e da economia”.
O próprio Gilbert Masson, em Cahiers du Bolchevisme O tema do trabalho e do meio de trabalho considerado
(agosto de 1931) se ergue contra os que só vêem na escola como valor educativo bastando-se a si mesmo constitui uma
laica um instrumento de sujeição do proletariado, que a pin- reação contra o intelectualismo de uma escola que se deter-
tam como um aparelho pura e simplesmente manobrado à mina relativamente a seu público burguês, o qual em caso
sua maneira pelas classes dominantes. Na realidade, é uma algum se prestará a tarefas manuais. Mas ele não abrange, de
faca de dois gumes. A burguesia é obrigada a instruir O pro- fato, a noção de escola politécnica: de um lado, estabelece
letariado, mas, paralelamente, a instrução facilita a organiza- uma interpretação obreira de Marx, onde a classe operária é

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

isolada de todos os seus possíveis aliados, a começar pelos


III — Para uns a escola morre em beleza,
intelectuais. De outro, significa uma fuga ao aprofundamento
para outros apocalipticamente
teórico graças ao qual o trabalhador ficará metodicamente
ligado aos problemas globais que se pôem à sociedade, sob
Insistimos sobre uma certa convergência nas palavras
pena de perder todo o valor político.
de ordem, bem como nas conclusões entre esses soviéticos e
Porsi próprio, o trabalho permanece um elemento ain- Nlich. Porém, o que é notório, se examinarmos o problema
da neutro, e é capaz de favorecer uma consciência artesanal
mais de perto, é que os objetivos e as razões que conduzem
da obra-prima, pacientemente aperfeiçoada, pela qual uma
uns e outros à mesma palavra de ordem “descolarização...
pessoa se deixará absorver a ponto de esquecer os problemas
abaixo a escola”, são diametralmente opostos.
do mundo. Mesmo organizado em bases comunitárias, O tra-
Os nossos pedagogos soviéticos supõem poder renun-
balho não conduzirá à tomada de consciência das tarefas ciar à escola por terem plena confiança no trabalho em si, na
revolucionárias sem entrar em síntese com um esforço global
organização coletivista de um meio de trabalho que induza as
de lucidez e de ação, ponto de apoio indispensável de exis-
crianças a atitudes revolucionárias; têm plena confiança na
tência de um partido da classe operária. É pela escola, essa vida das crianças entre si. Trata-se, de certo modo, de uma
escola que nós queremos fundamentalmente transformare, morte da escola em beleza. A agitação e o avanço do socia-
contudo, manter, e em primeiro lugar, a escola de hoje nasua lismo vão criar uma vida tão rica que será por si própria edu-
contradição dialética, que passa o nosso caminho. cativa; vai assumir as duas funções da escola: despertar a
Atualmente, na França, é essencial não seconfundires-
sede de conhecimento e satisfazê-la — e isso sem necessida-
cola czarista e escola da democracia burguesa, não confundir
de de nenhum intermediário. Estão persuadidos de que será
regime absolutista e capitalismo mais ou menosliberal — e,
pela morte da escola que se passará à edificação de uma so-
portanto, não pretenderaplicar à escola burguesa o quejá era
ciedade industrializada, de um alto nível técnico, pois eles
extremamente contestável em relação à escola czarista. Pre-
não dissociam, segundo o famoso dito de Lenin, a eletrifica-
cisamente por lutarmos a fim de que as matérias a serem ção e os sovietes.
transmitidas e as modalidades de apropriação sejam revolvi-
Ao contrário, para Illich, a morte da escola é o desen-
das, é indispensável que a regulamentação metódica do ensi-
cantamento diante dos resultados da industrialização capita-
no e a sua atividade específica subsistam; continuará a existir
lista, mas este conceito é desconhecido por Illich; é a recusa
um local escolar mesmo após a revolução.
do progresso técnico, até científico. Illich exige a morte da
Aquilo que em quarenta anos o movimento operário escola para conseguir a morte da sociedade das grandes ma-
conquistou, as tentativas anarquizantes que pouco a pouco
quinarias e das grandes organizações; e vai a ponto de ani-
foi vencendo, se perderiam com a não-escolaridade.
quilar o desejo dos conhecimentos elaborados, racionais. De
resto, em ambosos casos, aquilo que se diminui é o papel de
uma vanguarda, de um partido como vanguarda capaz de
desempenhar um papel educador junto dos adultos — e por
isso mesmo de abrir caminho à educação dos jovens. .

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GEORGES SNYDERS

Quem tem razão? Incontestavelmente Illich. Tem razão


na coerência da sua argumentação — o que para nós signifi-
ca que quem está profundamente mais errado é ele. Quanto
mais se avança num raciocínio em si lógico, mas partindo de
hipóteses errôneas, maior será o afastamento de uma tomada
de consciência real do mundo. Masé sem dúvida Illich quem
atinge a coerência: o que se pode esperar do fim da escola, é CAPÍTULO II
a limitação da sabedoria e do progresso técnico-científico, o
regresso a um primitivismo. GRAMSCI COMOANTÍDOTO DE ILLICH
As ilusões dos pedagogos soviéticos surgem agora em
plena luz graças a um recuo no tempo, através do que foi
realizado nos países socialistas e, finalmente, pela própria
ação de Illich. Contrariamente ao que supunham, se a escola Gramsci é o melhor antídoto para Illich, pois auxilia-
morrer, a cultura elaborada nunca será reconstituída pelos nos a basear a escola na continuidade entre cultura popular é
próprios jovens a partir da sua cultura espontânea, mesmo cultura elaborada, no enriquecimento recíproco de uma pela
comunitária; eles não se afirmarão ao nível dos técnicos avan- outra, ao contrário de Illich, que só visa opô-las. A referência
gados. Illich viu acertadamente que se querem a morte da es- constante, o ponto de partida, e que nunca deixará de estar
cola, só renunciando às conquistas da sociedade moderna, só presente e ativo, é o senso comum,a filosofia direta da mul-
erguendo uma separação estanque entre cultura espontânea e tidão e aquilo a que Gramsci chama folclore, alargando o
cultura elaborada; e recusando a segundapara depositar todaa sentido do termo para aí incluir igualmente as contribuições
confiança no isolamento da primeira. Mas demonstramos que modernas: é um sistema de opiniões, de formas de ver e de
o preço a pagar será a esterilização de umae de outra, a irrea- agir — e pretende-se deste modo discernir-lhe a coerência —
lidade de uma e de outra, e o conservantismo. o conjunto de sentimentos e de idéias vividos pelas massas e
O que aproveitaremosde Illich é a advertência de que a que se formam à custa da sua experiência, da sua existência
escola deve transformar-se no mais profundo desi se quiser cotidiana, e sempre em conexão com as suas lutas sociais.
evitar as acusações que ele lhe lançou, se quiser continuar Em primeiro lugar, trata-se de ser sensível às suas vir-
como escola. O que temos a opor a Illich é que a escola pode tudes de espontaneidade e de robustez; a recusa do artificial;
transformar-se, é possível uma escola progressista, a partir um poder de estimulação e de oposição, uma força que vise a
de uma luta política geral por uma sociedade renovada, e transformação da realidade; o povo adquire aí a consciência
conservando, simultaneamente, a fachada pedagógica, pois da sua própria personalidade; consegue assim separar-se,
ela possui a sua especificidade. levar a cabo uma cisão, quando a ideologia burguesa quer
persuadi-lo de que os homens são como são e todos iguais.
Daí a afirmação de que cada homem (e é preciso interpretar-

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

se isso como cada proletário) é filósofo, porque existe uma Por conseguinte, entre os sentimentos espontâneos das
filosofia em prática. massas, as concepções das massas e as dos intelectuais, exis-
te uma diferença de grau, não de qualidade; entre uma e ou-
Porém, o folclore é formado por uma confusão de da- tra nenhuma ruptura, nenhuma oposição. O essencial é a
dos, um mosaico, com tributos diversos, até contraditórios, passagem de umas a outras: a tarefa consiste em atingir um
em particular noções que remetem para períodos muito dife- senso comum dotado da coerência e do nervo das filosofias
rentes da história; ele arrasta concepções científicas que es- individuais e que esteja ao mesmo tempo ligado à vida práti-
tão ultrapassadas, representações idealistas e religiosas ca (das massas) e nela implicitamente contido.
misturadas com visões materialístico-revolucionárias. Tudo Com isso, a obra elaborada deixa de representar o pri-
isso se constituiu e passou a ser aceito sem críticas: daí um vilégio de alguns, pois possui possibilidade e poder de difu-
caráter fragmentário, incoerente, inconsegiente. O perigo é o são. A literatura, que Gramsci não separa da filosofia, nem
folclore representar um apelo, mas pode também transfor- naturalmente da política, testemunha este enriquecimento e
mar-se em narcótico que adormece a sensação de desgraça; o este contato sempre presente: os romances de Dostoiesvski
romance-folhetim, para utilizar um exemplo típico, é como derivam culturalmente dos romances-folhetins tipo Eugêne
um sonho acordado. Exprime paralelamente os complexos de Sue; de certa maneira, Hugo e Balzac podem incluir-se na
inferioridade social do povo e exige a punição dos responsá- literatura de folhetim.
veis pelas provações sofridas — mas também desvia para aa Esta continuidade entre o senso comum e as grandes
fantasia as necessidades da luta. obras já conseguiu delinear-se, em alguns casos até mesmo
Em suma, o que caracteriza a afirmação do senso co- realizar-se. Com efeito, ela não é um dado a ser apurado,
mum é o fato de ela conter uma multiplicidade de elementos mas um ato a ser concluído: compete-nos a tarefa de desen-
conscientes, sem que qualquer deles predomine. Portanto, o volver ao mesmo tempo uma literatura e uma prática, que
elemento de convite à ação organizada não triunfou verda- irão mergulharas suas raízes no húmus da cultura popular tal
deiramente do elemento fictício. como ela é.
E porisso está reservado um papel, um papel necessá-
rio, essencial, âquele a que Gramsci chama o novo intelectu- O novo intelectual é aquele que, de maneira consciente,
al. O novo intelectual não despreza nem descura os explícita, está em adesão orgânica, em conexão de sentimen-
componentes do folclore, encontra aí a sua substância, o seu tos com a vida e a experiência das massas; apenas existe gra-
princípio, mas cabe-lhe discipliná-los, conferir-lhes um rigor ças a esta comunicação e a toda riqueza concreta que o povo
lógico, situá-los nas suas diferentes etapas históricas, purifi- assim lhe transmite; ele sente as paixões do povo, não para
cá-los de tudo que, do exterior, ameace corrompê-los: trata- as oporà cultura elaborada, muito menos para aí encontrar o
se de criar com eles um todo ordenado, tornar homogêneo o esquecimento da cultura elaborada, mas, ao contrário, para as
senso comum e aumentar-lhe assim, substancialmente, a efi- explicar, as justificar, às relacionar dialeticamente com o
cácia. Renovar o senso comum, equivale a educá-lo levando- saber. Assim, será capaz de viver as exigências globais da
o a avançar para uma concepção unitária. comunidade ideológica, porque existe, apesar de tudo, uma

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

comunidade que abarca os pensamentos percebíveis e expe- industrial e técnica são para eles fatores cada vez mais con-
rimentados pelas massas, algumas das obras mais eruditas e, sideráveis.
sobretudo, as de transição, que conduzem de uns a outros. Se a cultura real, representa assim a unidade do espon-
Malgrado as aparências, malgrado o seu aparelho de tâneo e do elaborado, implica a presença e a ação do partido
tecnicidade, os peritos em ciências tampouco estão indepen- da classe operária, pois a integração de um no outro será
dentes da vida do povo, e menos ainda em oposição com ela. efetuada graças à atividade educadora sistemática por parte
Para se servir de um exemplo simples, Gramsci demonstra de um grupo dirigente já consciente; e será na medida em
que o progresso decisivo levado a cabo pela ciência ao con- que esse grupo participe na experiência de vida e nas lutas do
seguir expulsar do seu domínio a autoridade da Bíblia e de povo que escapará ao risco de se apresentar como um con-
Aristóteles, só se tornou possível pelo progresso geral da junto de especialistas, de puros e simples especialistas.
sociedade moderna.
o O intelectual do tipo novo é a expressão da sua época, Nestes termos, passa a ser viável uma escola progres-
Junta-se, quer juntar-se e isso por uma ambição propriamente sista, O que significa, ao mesmo tempo, uma escola em que
política, aos homens e aos acontecimentos que marcam a sua as crianças do proletariado deixam de constituir um corpo
época, são as exigências contemporâneas do povo que ele estranho e votado ao fracasso — e é bem este o caso, em que
traduz, e prefigura o que está prestes a nascer, com um vigor aquilo que é ensinado nasce da experiência do proletariado e
que é vedado aos outros, e isso porque as condições de vida, permanece em continuidade com ela; e uma escola onde o
no seu conjunto, lhes cortaram as asas. O que converge com aluno é feliz, de uma felicidade intensa que não exclui mo-
a afirmação de Gorki: “O grande homem é um homem apre- mentos difíceis, austeros — e é por certo o caso presente, pois
sentado como uma prova de talentos escondidos, potenciais, ele sente a sua experiência pessoal completada, enriquecida
da massa”. com o que aprende. E esta escola é necessária: sem ela as cri-
Isto significa que este intelectual é um homem político, anças, começando pelas do proletariado, continuam a ser alvo
que contribui para a luta de classes do proletariado e que por de forças contraditórias e morreriam no campo de batalha.
isso exige que o proletariado cesse de ser a classe despreza- Os alunos, no seu todo, partilham a cultura das massas;
da, desvalorizada, da qual a elite desvia os olhos ou que con- o professor tem por tarefa representar a cultura elaborada e
templa ostentando uma piedade melíflua. Por isso ele assume que, até esta data, só pode ser elaborada pelas classes diri-
não apenas um papel de militante, mas também o de persua- gentes. Mas compreende-se que, de nenhum modo, o seu
sor permanente; não que se confunda necessariamente com papel consistia em se opor à vida da criança, nem tampouco
um profissional do interesse público, mas a partir da tarefa em confirmá-la pura e simplesmente, mas, de acordo com as
que lhe é própria e sem nuncaa renegar, ele participa na vida palavras essenciais de Gramsci, “em acelerar e disciplinar”
cotidiana do proletariado e contribui para alargar as ambi- os métodos de vida e de pensamento da criança — e, sobre-
ções e as perspectivas dessa vida cotidiana até o ponto de ela tudo, são agora visíveis as condições políticas e pedagógicas
ganhar dimensão política. Quer dizer que o intelectual não é em que tais medidas poderão ser tomadas.
apenas o homem de letras, o artista, o filósofo: a ativida
de

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

A escola é o local onde a criança irá passar da vê progressivamente evoluir a sua individualidade, sente que
representação aproximativa e mágica do mundo, que se se enriquece, que se cria, em decorrência dessa apropriação
limitou a absorver no seu meio impregnando de folclore, da riqueza social.
para uma certa objetividade, para a compreensão das leis da
natureza e da sociedade. Resumindo: para as premissas do Gramsci liberta-nos dos pesadelos acumulados por
espírito científico, do senso do verificável. Hlich à nossa volta, porque soluciona os antagonismos em
Para isso contribuirá fortemente o caráter politécnico que Illich procurava envolver-se: não há oposição entre o
da escola: as tentativas inventivas e exploratórias da criança perito e o senso comum, entre a cultura do intelectual e a
transformam-se, pouco a pouco, num trabalho organizado e cultura popular, entre o que os jovens experimentam porsi e
ligado ao conhecimento tecnológico. O trabalho em comum aquilo que o docente se propõe a transmitir-lhes, como tam-
de uma classe evolui progressivamente para uma experiência pouco há antagonismos entre os produtos fabricados pela in-
social coletiva. E assim se destacam os primeiros elementos dústria e as necessidades dos consumidores. Ou, melhor
de uma percepção do mundo livre de toda magia. Pelo mes- dizendo, esses antagonismos não são definitivos, irremediá-
mo movimento, a escola valoriza a força de trabalho e arran- veis — e não estamos reduzidos a acabar com tudo que con-
ca o aluno do caos das paixões contraditórias. quistamos para regressarmos docilmente à Boa Mãe Natureza.
Graças à escola, o aluno começa a percorrer o caminho Por certo eles marcam, ficam estampados na nossa so-
ao fim do qual alguns conseguem dominar a oposição entre ciedade capitalista, mas pressentimos a forma de os ultrapas-
teoria e prática. O sábio ensaísta é ao mesmo tempo um teó- sar, qual a luta político-cultural que os ultrapassa. E já
rico e um operário: o seu pensamento é controlado sem ces- despontam na nossa sociedade realizações culturais e educa-
sar pela prática e dessa prática brotam pensamentos novos; tivas que deixam antever o que pode vir a ser a fecundação
logo que lhes transmita uma forma teórica definida, serão recíproca da cultura popular pela cultura erudita — ao passo
submetidos, de novo, à experiência da prática. À sua ima- que Illich pretende convencer-nos que uma não pode sub-
gem, mesmo consideravelmente atenuada, o aluno estabele- sistir sem arruinar a outra. É talvez a música, desde a IX
cerá um laço entre as tentativas e os erros que por vezes lhe Sinfonia de Beethoven até à obra de Chostakovitch, que
permitem alcançar os seus fins e em outros meios (por que representa o exemplo mais flagrante.
não?) o desiludem — e o rigor de uma experimentação ga- É possível uma escola progressista, e não estamos de
rantida e controlada pelo raciocínio. forma alguma perante a opção entre uma escolaridade opres-
Enfim, a escola é a síntese que vai do individual ao co- siva e a não-diretividade das redes de conhecimento como
letivo. Um conhecimento científico, objetivo, é aquele que entre a espada e a parede. Mas já não podendo subsistir o
tem a aprovação do grupo dos peritos, um grupo unificado, mundo e a escola na sua forma capitalista, talvez isto signifi-
relativamente unificado de peritos; o aluno que fixa algumas que para Illich que só lhes resta ou tornar-se marxistas ou pro-
frases, que distingue entre as suas opiniões as que se relacio- clamar a falência desse capital cultural de que nos honramos.
nam com o patrimônio coletivo, e isso à custa de certo núme-
ro de retificações, de clarificações ou até de reconstituições,

272 273
CAPÍTULO HI

BOURDIEU-PASSERON OU
A LUTA DE CLASSES IMPOSSIVEL

I — A seriedade prejudica, a
desenvoltura compensa

Como nos é apresentado o estudante de elite, o que tri-


unfa, o que encarna o êxito das classes dominantes? O que o
caracteriza é o diletantismo, a elegância do abandono, a gra-
ça e a naturalidade aparentes, a desenvoltura, o ar distante e
requintado. Visto que lhe bastou conformar-se com o estilo
de vida e de pensamento de que o seu meio o impregnou,
visto que só deve ter de se deixar levar pela corrente cultural
dos seus, ele sabe sem se ter esforçado para adquirir essa
sabedoria. Desde a mais tenra idade encontrou à sua volta
com o que completar, compensar, matizar, até contradizer, as
contribuições dos professores; por conseguinte, para ele é
possível assumir em relação aos professores uma certa dis-
tância, onde irá insinuar a sua originalidade peculiar.
Evidentemente, a sua segurança tem por base prioritá-
ria a convicção de que o seu futuro, tanto material como uni-
versitário, não comporta ameaças graves. É brilhante, a sua
desenvoltura, ou antes, a sua desenvoltura reservada, acen-
tua-lhe tanto as atitudes como as palavras; evita discutir aca-

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

loradamente, não sublima com ênfase ou superficialidade, do que perturba a todos porque se percebe que ele não está à
mas sem mudar o tom de voz, impressionará com arte: dará vontade. Nada consegue dissimular o acanhamento: ao fazer
discretamente a entender que o que sente e o que pensa, vão uma exposição papagueia o texto que prepara porque se dei-
bastante além do que deixa entrever. Em suma, a sua afeta- xa levar pela tentação da elogiiência.
ção natural possui todos os encantos da naturalidade e todos
os recursos e eficácia do que é cuidadosamente preparado; é Estas análises célebres parecem-nos constituir, contu-
mestre na arte de escondera arte. do, uma das facetas mais ilusórias da obra de Bourdieu-
Além dele, o estudante saído das classes médias, das Passeron.
pequenas classes médias e que ocupa socialmente a parte Sem dúvida que contêm uma parte de verdade. Moni-
inferior da escala universitária, já que a classe operária não que de Saint-Martin analisou o que representam esses estu-
desempenha um papel real no nosso ensino superior: esse dos feitos na incerteza e de incerteza: semelhantes estudantes
estudante reduz-se a um ou a outro miraculado. Ele encara os mostram-se propensos a pouco valorizar, a considerar fracas
estudos dentro do culto do trabalho executado rigorosa e ou muito fracas as suas oportunidades de êxito, mesmo se os
dificilmente, pois nisso residem as virtudes profissionais que resultados conseguidos foram, na realidade, satisfatórios; do
valorizam o seu meio. Convicto de que há regras a serem seu futuro não têm mais do que uma imagem muito vaga,
respeitadas, regras de trabalho e regras de acesso à cultura, nomeadamente porque, para eles, a continuação do aperfei-
ele as procura e as vigia não só com rigor, mas rigorosamen- çoamento dos estudos oferece sempre dificuldades: ano a
te. Esta seriedade que ele confere aos estudos, comoaliás, a ano, a fim de saber o que irão fazer no ano seguinte, aguar-
toda a sua vida, não cessa de se traduzir exteriormente pelo dam o resultado do exame; em caso de sucesso, prosseguem;
caráter laborioso e tenso das suas produções. Uma obstina- de contrário, desistem frequentemente e não ficam prestes a
ção crispada domina tudo quanto ele faz. A ansiedade que recomeçar. Os outros, os favorecidos, esses têm de antemão
não o larga transparece numa falta de jeito, até num cons- um projeto global que pode conduzi-los ao mais alto grau.
trangimento constante. Procura continuamente a atitude cor- Entendemos, pois, que as interpretações de Bourdieu-
reta, a que é devida, e nada lhe é mais contrário do que espiá- Passeron estão muito longe de esgotar a realidade, mas os
la sem descanso; nada há de mais incômodo para o especta- acusamos de só apontaremdela alguns aspectos pitorescos e
dor. Por exemplo, ele sente-se tão ávido pelas regras grama- fáceis. Para começar, muito poderia ser dito do diletantismo
ticais que cai na hipercorreção errada e na proliferação de
dos estudantes favorecidos; sem dúvida que isso se verifica
indícios de vigilância gramatical. em relação a determinado tipo de estudantes, por exemplo, o
No trabalho universitário, tem de tal forma necessidade
de sociologia: prepara uma licenciatura, dispõe de todo o
de adquirir segurança que está constantemente solicitando
tempo, acabará por consegui-la, e no fundo não é com ela
uma aprovação; espera tudo do professor, bebe-lhe as pala-
que conta para assegurar o futuro, mas muito mais com as
vras. Este poderia sentir-se lisonjeado, mas depressa se exas-
relações e as situações já estabelecidas, dos pais; e é exato
pera. Sempre no receio de não fazer bastante, excede-se; há
que tudo que aprendeu de preciso e de custoso em sociologia
algo de ostensivo naquilo que apresenta, um caráter empola-
terá na sua vida um papel muito menor do que uma certa

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

forma de falar e de estar que ele terá conseguido assim, refi- Não se trata de uma inocente e um tanto ridícula deformação
nar, confirmar. profissional, um pecadilho de intelectuais, que aliás, não os
Porém, o filho do engenheiro, que sabe a que ponto irá impediria de desempenhar as suas tarefas sérias: eles não
desiludir os seus familiares se não ingressar, depois de n sabem realmente propor outros objetivos.
concursos, na Escola Central ou na X, mas numa escola in- Consideremos a linguagem. Bourdieu-Passeron soube-
significante, onde vai buscar a sua desenvoltura? Não corre, ram, sem dúvida, interpretar a relação entre a língua e o pen-
certamente, o risco de interromper os estudos por falta de samento: a língua fornece um sistema de categorias mais ou
dinheiro ou de ser posto na rua, mas representa-se à imagem menos complexas, de forma que a habilidade para decifrar e
das esperanças dos que o rodeiam,e isso nada vale. manipular as estruturas complexas depende em boa parte da
As descrições de Bourdieu-Passeron reduzem, acima sua complexidade. E, contudo, a língua dos favorecidos, a
de tudo, a superioridade escolar e universitária das classes língua rica, sutil e cultivada irá ser assimilada a uma das bo-
cultas a atitudes mundanas, artificiais, convenção, esnobis- as maneiras mundanas, nada mais nada menos do que deter-
mo. O triunfo exige condutas irreais: desenvoltura e des- minada maneira de vestir. Afirmam-nosque no dia do exame
prendimento; mais do que isso, reduz-se a elas. Triunfam são postos no mesmo plano os extremamente pobres quanto
precisamente melhor os que vivem os estudos como uma a estilo ou maneiras, à entoação ou à elocução, à postura ouà
experiência lúdica, um jogo que só admite como sanção a mímica, ou até quanto a vestuário ou cosmética. Chega-se a
que for admitida pela respectiva regra; isto é, os que não declarar que nem a cultura elaborada nem a decisão dos pro-
ficam surpreendidos, magoados ou desconcertados pelo cará- fessores estabelecem uma diferença verdadeiramente nítida
ter fictício atribuído pelos nossos autores às tarefas escola- entre gestos, vestuário, cosmética, mímica e o mangjo, a
res. À habilidade de um estudante do século XX para se compreensão da língua, e, finalmente, do pensamento de um
inserir, no espaço de uma dissertação,nassutilezas da paixão Spinoza.
raciniana, será tomada como exemplo característico.
Desta forma foram os nossos autores da cultura à forma
O que, afinal de contas, só é sustentado por dois postu- de a abordar, à relação cultural. Dizem-nos queisto represen-
lados: a redução da cultura a um mero piscar de olhos entre ta papel essencial no sucesso escolar e universitário. Graças
iniciados e a redução da cultura ao proveito que dela setira. ao que, a cultura se reduz a essa relação, ouseja, finalmente
Como cúmplices que trocam um sutil sorriso quando se ela se desfaz, se dilui nos tiques e manias dos profissionais,
encontram e uma citação que tenha o bom gosto de não figu- nas alegrias e tristezas que não passam de convenções mun-
rar nas páginas cor de rosa do Larousse: tudo quanto é inclu- danas: a hierarquia escolar das aptidões organiza-se harmo-
ído sob a designação de cultura está em jogo no pequeno niosamente com os contrastes entre o indivíduo brilhante e o
nada que separa a alusão erudita do comentário escolar. O grave, o elegante e o trabalhador, o distinto e o vulgar. No
que garante o domínio prático da língua e da cultura? É o píncaro está a naturalidade, a desenvoltura irônica.
que permite alusões e cumplicidades, que serão rotuladas de Os estudantes, nos quais se nota certa ascendência po-
cultas e monopolizarão de fato essa designação de cultas. pular, são desacreditados porque as pessoas autenticamente

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

distintas, e, portanto, os professores, não apreciam nem a por instâncias que conseguiram armar-se de semelhante po-
ostentação do novo rico, nem o que traz a marca plebéia do der de persuasão.
esforço. Têm algo de vulgaridade interesseira e a delicadeza Mas estamos submersos no arbitrário cultural, ou antes,
dos professores sente-se ofuscada. Mas desde que se conju- no irreal cultural, porque nunca se descobrirá, nunca se pro-
guem facilidade e distinção, eles deliram — e o êxito do alu- curará, parece impossível e ilusório pretender encontrar um
no passa a depender da vontade do professor. Em particular o fundamento válido em que tais instâncias teriam baseado seu
sentimento da presença de um candidato (no sentido em que Juízo: o sentimento de que determinadas obras são admirá-
se emprega o termo ao falar de um fator) ou da sua insignifi- veis confunde-se com o número de pessoas que foram con-
cância, ocupa um lugar importantíssimo na nota que lhe vão vencidas a admirá-las.
atribuir e quase não há outra base além deste sistema das Portanto, também a cultura artística é uma das facetas
marcas sociais. das boas maneiras: nas suas deslocações turísticas, os mem-
A cultura das classes dominantes parece tocada pela ir- bros das classes cultas sentem-se impelidos a obrigações
realidade; a ligação com a linguagem e com a cultura reduz- culturais que lhes são impostas como inerentes à sua perso-
se a uma soma infinita de diferenças infinitesimais nas for- nalidade social. Por isso, concluímos que não há diferença
mas de atuar ou de dizer; a das classes dominadas não é me- entre visitar uma igreja romana e usar um colar de pérolas
nos irreal. Reivindicar a promoção em nome da cultura para jantar na cidade: ambas as atitudes se impõem como
ensinada pela escola das culturas paralelas, que incidem so- obrigatoriamente constitutivas da personalidade social e não
bre as classes menos favorecidas, não passa de uma ilusão têm outra justificação.
populista. Do mesmo modo, os nossos autores se negam à Do que se resulta ter esta cultura por única razão de ser
tentação populista de canonizar pura e simplesmente a cultu- o desejo de se integrar num pequeno grupo, a chamadafina-
ra popular. Certamente que lhes cabe aqui o mérito de uma flor da cultura, de o manifestar aos outros e de a si próprio se
reação corajosa contra tantas ilusões baratas que florescem persuadir disso: o amor pela arte é a marca da eleição, que
ao redor do espontaneísmo. Porém, não se contentam em separa como barreira invisível e intransponível, os tocados
recusar à cultura popular o sagrado e as suas beatitudes: nem pela graça e os que não a receberam.
sequer a consideram como portadora de elementos válidos e
eficientes, nem ao menos como meras promessas. Estamos, sem dúvida, em presença de uma obra não de
De uma forma ou de outra, não há mais solidez do lado estetas, mas de sociólogos — e é uma obra que denuncia
cultural dos pobres do que no dos privilegiados. aquilo que descreve: ideologia dos dotes, confronto entre
uma natureza bárbara e uma natureza culta como meio de
A cultura artística não dá mostras de mais autenticida- legitimar a reprodução social. Mas, Bourdieu-Passeron pare-
de: se certas obras parecem intrinsecamente ou, melhor, na- cem-nos prisioneiros daquilo que criticam: nenhum outro
turalmente dignas de serem admiradas, a única razão é de conceito cultural, nenhuma outra função cultural será sequer
terem sido objeto de uma fregiiência assídua e numerosa — e apontada, nenhuma outra possibilidade além da cultura será
isso porque foram apontadas como merecendo ser visitadas capaz de ter conteúdo próprio.

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

Nota-se a ironia com que os autores evocam o gosto única função excluir o vulgar, criar uma zona interdita ao
cultivado: “Uma atitude devotada, cerimoniosa, ritualizada, vulgar, se a regra das regras é não fazer como os outros, os
os acompanhamentos ritualizados do saborear erudito”: em incultos, e, sobretudo, não ser tomado por um inculto, então,
suma, algo que nos parece hesitar entre a missa domingueira é evidentemente absurdo fazer participar dela o povo, a idéia
das onze horas e a paródia à religião. Não vemos definição de democratizar a cultura é, nesse caso, precisamente contra-
mais perfeita do esnobismo do que a dada aqui como apre- ditória. A própria definição de cultura é a de servir e delimi-
sentação da própria cultura: o dever de admirar e de apreciar tar grupos sociais, conservar os privilegiados na posse de
certas obras que vêm surgindo pouco a pouco como queli- seus privilégios culturais e sociais. E a ambição de democra-
gado a determinado estatuto escolar e social. tizar a cultura também é absurda num segundo sentido: o que
Bourdieu-Passeron imaginam um operário que decidis- encontraria o miraculado popular que apesar de tudo conse-
se decorar o seu quarto guiando-se mais pela reprodução de guisse penetrar no círculo cultivado, senão vaidade, dupla-
quadros do que por cores: romperia com as normas estéticas mente significativa do orgulho e do nada?
e naturais do seu meio, seria chamado à ordem pelo seu gru-
po, pronto a interpretar esse esforço para se cultivar como A cultura como penetração pessoal e, com mais forte
um esforço para se aburguesar. Mas, mal os seus camaradas razão como arma no combate social, a idéia de um valor re-
lhe dissessem: “Você se aburguesa”, a mim próprio pergunto volucionário da cultura, de um reforço do povo pela cultura;
com inquietação se não resumiriam numa só palavraas pers- o esforço para distinguir entre uma utilização conservadora
pectivas culturais de Bourdieu-Passeron — que não são da cultura, ou antes, uma perversão conservadora e as condi-
apresentadas senão como um meio hábil do indivíduo se ções em que ela se pode transformar em patrimônio do pró-
desburguesar? prio povo: não basta dizermos que Bourdieu-Passeron não
Esse papel de barreira social, parece que qualquer có- encararam estas questões, receamos até que eles tornem im-
digo cultural o pode interpretar de maneira equivalente, possível apresentá-las aqui corretamente.
igualmente fundada ou infundada, seja a música de Xenakis
ou outro jogo de regras suficientemente complicadas. Do Alguns poderão objetar que, como sociólogos, eles se
mesmo modo nos explicarão que se passa gradualmente de contentam em descrever o que se passa. Porém, esta neutra-
artes plenamente consagradas como o teatro e a pintura, à lidade é só aparente, pois, em primeiro lugar, ela só conside-
cosmética ou à cozinha, que só se distinguem das primeiras ra as práticas culturais sob determinado ângulo, precisamente
por estarem muito mais entregues ao arbítrio individual. o mais favorável ao ponto de vista sociológico — e não nos
Os autores pressentiram estas críticas e anteciparam-se falarão, por exemplo, nos esforços, evidentemente vagos e
a neutralizá-las; o sociólogo é sempre suspeito de contestar a pouco institucionalizados da nossa sociedade, pelos quais os
autenticidade e a sinceridade do prazer estético pela única militantes operários não se cultivam para vir a ser militantes
razão de descrever as condições da existência. Na verdade, mais completos.
não é aí que está em jogo a questão decisiva; mas sim no que Umavez mais o que representava um risco, que é pre-
diz respeito à significação da cultura: se a cultura tem por ciso reconhecer como risco real e grave e que importa ultra-

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

passar, é apresentado como uma definição inalterável e inul- O ensino, tal como aqui é evocado, parece-nos mais re-
trapassável. Podemos lutar para que a cultura venha a ser lacionado com a revista do final do ano letivo, interpretada
algo mais do queisto, visto que hoje ela contém elementos, alegremente de modo caricatural. O curso magistral, decla-
apelos diferentes — apelos a que daremos toda plenitude mado perante trezentos estudantes, evidentemente reduzidos
unindo nossas forças às forças daqueles que não pertencendo ao silêncio, é o que há de mais criticável num certo funcio-
à categoria dos eleitos, aspiram, todavia, à cultura, pois dela namento, num certo modelo de faculdade; e também o mais
carecem para sacudir o jugo da exploração. criticado: em maio de 1968 foi condenado quase por unani-
midade por professores e alunos. Sobreviveu, mas a concor-
JE — O ensino constitui o segundo grau rência vitoriosa dos trabalhos orientados em grupos restritos
da irrealidade e ativos força-o a ir perdendo terreno sem cessar. Ainda aqui
uma crítica: mesmo que vise elementos absolutamente justi-
O ensino, e trata-se do ensino superior, é descrito como ficados, despreza as forças renovadoras e mina toda a espe-
uma dupla ilusão: ilusão dos professores de saberem ensinar rança de lhe aumentar a amplitude.
e a ilusão dos estudantes de conseguirem aprender. O termo Com Bourdieu-Passeron, a cultura não passa de uma
mal entendido é bastante fraco para o caso, deve-se falar de comédia que a classe dominante interpreta para si mesma
absurdo. Enquanto o mestre sustenta, em idioma universitá- com o único fim de afastar todos que não pertencem à con-
rio, um monólogo teatral, os estudantes já se dão porsatisfei- fraria; por isso o ensino só pode ser uma comédia dessa co-
tos se conseguirem vislumbrar no nevoeiro semântico média, comédia de segunda ordem, transmissão teatralmente
algumas frases soltas, de certo modo afins, mas sempre de incoerente do que já não continha a mínima realidade; exceto
sentido duvidoso. As duas partes estão ligadas por uma in- no que diz respeito à exclusão social dos ignorantes, isto é,
consciência feliz e também por um pacto tácito de cumplici- das classes dominadas. O curso da faculdade é irreal em si,
dade: “Não exijam demasiado de mim, que por meu lado não com relação às matérias transmitidas; só tem um significado
lhes perguntarei mais nada”. Quando o auditório não conse- social: o mestre do ensino superior felicita-se por não ser um
gue perceber, não cai na asneira de pedir explicações e muito monitor ou um professor primário, a sua finalidade consiste
menos de protestar; o professor não interrompepara verificar em garantir o seu estatuto superior e seus alunos irão reco-
se os seus auditores o entenderam porque se exporia a apare- lher as migalhas do seu prestígio.
cer aos olhos dos alunos como um professor primário perdi- A cultura como rito, sem qualquer contato com o mun-
do no ensino superior. do, corresponde, muito naturalmente, a um ensino em que
Bourdieu-Passeron afirmarão que este tipo de curso uma aparência espectral de compreensão erra no espaço dos
magistral constitui o principal meio de formação dos estu- discursos vãos.
dantes e que a leitura dos livros, em relação à qual não se
justificaria o mesmo gênero de críticas, ocupa um lugar re- Tais argumentos não nos convencem. Em primeiro lu-
duzidíssimo. gar, não acreditamos que o interesse por Racine, o acordo
com o universo raciniano, a presença do trágico raciniano

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sejam necessariamente acolhidos como uma autêntica dádiva nante, do idioma universitário, do monólogo; se uma ou ou-
por essas crianças cujos pais enriqueceram no comércio ou tra criança vinda da classe dominada consegue chegar à uni-
dirigem uma fábrica. Certamente que nas exposições de pin- versidade, ou se adapta aos privilegiados ou em breve é
tura é insignificante a presença de profissionais especializa- marginalizada. Nunca há forças de oposição e, portanto, ne-
dos acompanhados de seusfilhos; falta igualmente averiguar nhuma possibilidade de evolução, de progresso; nunca os
qual a proporção de burgueses que as frequentam com suas explorados estão prestes a conquistar algo, as coisas são co-
famílias. mo são, estaticamente, definitivamente sub specie aeternita-
Mas, acima de tudo, as forças capazes de se opor a esta tis. É sempre uma questão de classes; a luta de classes está
perversão do ensino, estão ausentes: bem pior, são negadas, ausente, e é, por assim dizer, impossível.
declaradas impossíveis. Afirmam-nos que tudo se passa em
redor do mundano, do distinto, do desembaraço: ora, por
Atualmente, nas escolas, os alunos menos favorecidos
definição, distinção é privilégio de poucos — e o desemba- são numerosos, ativos. Os seus pais € as associações de pais
raço está reservado só às famílias abastadas. têm um papel, tentam mais ou menos abertamente ligar-se ao
É como e por que entrariam as classes exploradas em movimento operário. Somos levados a ir ao encontro deles,
luta para se apoderar dessa cultura, que nadasignifica — ou podemos fazê-lo para que o ensino reaja contra a contamina-
para a transformar? Ela é, se é que nos é permitido dizê-lo, ção burguesa. E essa luta fará um só corpo com a luta para
tão insignificante, que o projeto de lhe extrair uma força ati- libertar de mistificações o núcleo racional, a aprendizagem
va, uma força revolucionária, parece inconcebível. Com que de atitudes racionais em tudo o que lhes ensinarmos.
capacidade progressista se pode contar para fazer voar em De resto, na universidade já existem estudantes que se
estilhaços essa paródia de ensino, se a apresentam comoine- vêem forçados a andar com os pés assentados na terra; não
rente à universidade e nos afirmam que ela é portodos admi- só não podem arrastar os estudos anos e anos, como, acima
tida? Como poderia haver um esforço que desembaraçasse a de tudo, não se darão porsatisfeitos com aproximações mais
linguagem escolar dos seus floreados ocos, visto ter sido ou menos incoerentes, que não respondem às questões que
afirmado que os professores esperam unicamente da lingua- eles pjem — que o mundo, o seu mundo, os obriga a pôr.
gem que ela se afaste do comum; assim eles próprios se po- Procuram na cultura uma ajuda para as suas lutas, descobrem
derão convencer que são fora de série. A cultura surgiu como que a cultura pode constituir essa ajuda e esforçam-se para a
palavra de passe para fregiientar a boa sociedade; algo, por- transformar em realidade.
tanto, sem significação e sem nada de progressista. Então, exigem outras formas de ensino diferentes do
Umaescola, por todos os modos, injustificável, onde Já curso magistral, tendem a imprimir à universidade um outro
nem intervém uma verdade elementar, o domínio do real, estilo de vida. E encontram docentes dispostos a partilhar a
nem qualquer força capaz de aumentar-lhe a autenticidade. sua preocupação, tornam maleável a conduta dos docentes.
Bourdieu-Passeron continuam a falar de classes, mas cada Estes docentes já são uma realidade, já meteram mãos à
classe parece encerrada na sua essência, imutavelmente, de- obra; trata-se, simultaneamente, de atuar com eles e de os
finitivamente: o ensino superior é o feudo da classe domi- auxiliar a multiplicar as suas forças para que consigam opor-

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GEORGES SNYDERS
ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

se mais eficazmente aos perigos que Bourdieu-Passeron tive-


dos projetores; e, por isso mesmo, a escola, isolada do mun-
ram o mérito de denunciar — embora pretendam que os en-
do operário, do movimento operário, é apresentada como um
globemos no conjunto da cultura e do ensino. monopólio da classe dominante, local em que nenhuma con-
testação chegará a representar um papel efetivo. Com os pro-
Para Bourdieu-Passeron, o ensino é uma comédia, mas fessores não se conta, deles nada se espera. Entre o laço
uma tragicomédia, pois para eles a regra das regras assenta cultural reconhecido pela escola e o laço cultural cujo mono-
na eliminação dos não-privilegiados. O ponto de conver-
pólio pertence às classes dominantes, asseguram-nos a exis-
gência dos temas precedentes é a afirmação de que na desi- tência de uma harmonia pré-estabelecida sem a mínima
gualdade dos resultados escolares referentes às posições nuvem ou sombra de uma discordância. Se os docentes reas-
sociais, a escola fica com a principal e mais esmagadora sumem espontaneamente os critérios da fina-flor da cultura,
responsabilidade. isso não significa quetais critérios correspondam a qualquer
É, com toda a evidência, o conceito da escola reprodu-
realidade cultural, mas apenas que esses professores e pe-
tora que vemos aqui, mas extraído com mais precisão a partir
queno-burgueses só acalentam um sonho: compartilharessa
da irrealidade da cultura e, portanto, do ensino; se a cultura
famosa distinção, serem encarados em pé de igualdade pela
difundida pela escola visasse valores existentes, coerentes,
classe dirigente. Quando muito, pode argumentar-se em sua
seríamos obrigados a, pelo menos, formular esta pergunta:
defesa com a sua inconsciência ou simplesmente com a sua
em que medida os obstáculos, as limitações que a vida esco-
ingenuidade: estes critérios provêm de vias secretas, proibin-
lar impõe aos explorados serão a causa dos seus desastres
do a censura que sejam expressamente tomados em conta. O
escolares? Quando se vive com seis pessoas num único quar- que não impede queseja, na verdade, com base neles, que se
to e sem água corrente, será possível estudar devidamente as
aprecie o valor dos candidatos.
lições e chegar às aulas bem disposto? Não será basicamente
Nãose trata de protestar virtuosamente. Uma vez mais,
o sistema social, no seu conjunto, que dificulta assim a essas
Bourdieu-Passeron souberam denunciar tentações de que
crianças o desabrochardas suas possibilidades?
todos nós pudemos medir a gravidade. Porém, de novo, eles
Mas, para os nossos autores, é a escola que escolhe os
a apresentam como algo de inevitável e que, aliás, nenhum
critérios de cultura da classe dominante, critérios infundados,
grupo de interessados tentaria de modo algum evitar. Nessas
arbitrários — se é que são estes os mais indicados para repelir
descrições, reconhecemos aqueles momentos de desânimo,
o povo. À escola é um mecanismo cuidadosamente montado
em que, mais ou menos, todos sucumbimos — mas nunca o
para organizar o fracasso dos socialmente desfavorecidos e
nosso esforço para outra coisa; e que não é um sonho, uma
assegurar, por conseguinte, o conservantismo. Afirmar queela
boa vontade simplesmente moral visto sermos apoiados, ou
é cúmplice, e cúmplice voluntária, não chega, ela surge como
antes, pressionados, quer pelos nossos alunos, quer pela con-
o elemento chave da reprodução. figuração objetiva das situações — desde o ponto de vista
Digamos ainda uma vez: a sociedadecapitalista está fo-
cultural à preocupação com a escolha de carreiras.
ra de questão, absolvida sem restrições; em qualquer caso, o
É interessante observar a conexão entre Goblot e Bour-
seu papel fica em plano de fundo, não é ela que suporta a luz
dieu-Passeron: Goblot via no latim a barreira que separa a

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

burguesia do povo; é a desigualdade de cultura que distingue como a confundi-lo com o reflexo de um estado do sistema
as classes sociais — e isto de forma irrefutável: os que tra- econômico. A partir daí, nem a escola seria única culpada de
duziram o De Viris, os que não se misturam. O latim é aque- todas as desigualdades que gera, nem ao sistema social cabe-
la espécie de cultura que distingue a fina-flor, o que, na ria a única responsabilidade. Será necessário discernir simul-
realidade, quer apenas dizer que o seu único significado é taneamente a autonomia relativa e a dependência do sistema
permitir que essa fina-flor se destaque. de ensino em relação à estrutura das relações de classes.
Seria possível dizer que Bourdieu-Passeron estendem a Mas eles não conseguirão, efetivamente, manter esta
toda a cultura o que Goblot afirmava a propósito do latim, dupla exigência, que nos aparece, todavia, como a verdadeira
mas esta generalização parece-nos abusiva. Talvez Cícero só exigência; eles não são, nem podem ser, fiéis a este desígnio:
tenha valor para os jovens de hoje como distinção escolar — a autonomia relativa do sistema escolar vai surgir, não como
o que continua objeto de discussão. Mas de todos os conhe- um dos componentes de um movimento dialético, mas unica-
cimentos, de todas essas obras ao nosso alcance, seremos nós mente como aquilo que permite à escola dissimular as funções
incapazes de extrair elementos mais expressivos, mais enér- sociais que desempenha; ela reduz-se ao desconhecimento
gicos, mais próximos da vida dos nossos alunos? da estrutura das relações sociais que servem de base ao pe-
dagógico.
II — Apesar de tudo, alguns momentos dialéticos Por onde eles passaram não deixaram à escola possibi-
lidades de subsistir: terá de concluir-se que ela apenas dá
À nossa parcialidade nos teria levado a deixar em bran- cobertura à dissimulação indispensável à grande conspiração.
co algumas passagens importantes dos nossos autores por
não coincidirem com as nossas análises? Defato, aquilo que Paradoxalmente, é talvez em relação à cultura livre que
designávamos no nosso artigo por segunda resposta, e, por Bourdieu-Passeron atribuem à escola o papel mais positivo.
exemplo, esta frase dos Héritiers: “Não basta verificar que a Estabelecer que a cultura extra-escolar dá lugar às desigual-
cultura escolar é uma cultura de classe, deve-se fazer tudo dades mais gritantes, não equivalerá a reconhecer, apesar de
para que ela continue comotal, agir em conformidade”, onde tudo, uma certa eficiência, uma espécie de função reguladora
procurávamos em Bourdieu-Passeron uma visão dialética da da escola?
escola, aparece depois, singularmente atenuada, na publicação Explicam eles, e quanto a nós é esse um dos pontos
posterior de La Reproduction. Algunsfatores da segunda res- mais positivos das suas análises, que é a cultura escolar que
posta parecem-nos agora com tantas tentativas que abortam proporciona o gosto pelas práticas culturais; por exemplo, a
sem conseguir influir no equilíbrio do conjunto do sistema. taxa de frequência dos museus aumenta de 1 para 10 entre o
Em dados momentos, La Reproduction esforça-se por nível do diploma primário e o do BEPC. Mesmo apesarde a
conferir eficácia própria à escola — quando nós os acusáva- escola, infelizmente, reservar pouquíssimo espaço ao ensino
mos de transformar a escola num mero instrumento nas mãos artístico, ensina pelo menos, a propósito da literatura, a lidar
das classes dirigentes. Eles vão negar-se tanto a conceder ao com um certo número de categorias, o jeito e o hábito de
sistema de ensino a independência absoluta a que ele aspira assinalar os traços estilísticos distintivos que fazem a origi-

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nalidade de uma obra ao mesmo tempo quea situam entre as O gosto cultivado, e, portanto, o gosto acadêmico, são
obras aparentadas. considerados desligados das aspirações da imensa maioria
Terão a este propósito a coragem de defender a escola dos alunos ou, mais exatamente, fazem-lhe oposição, pois
contra as censuras que vulgarmente lhe dirigem: muitos alu- apenas foram arquitetados para se opor à multidão. Nestes
nos, mal deixam a escola, abandonam o comportamento edu- termos, a escola de Bourdieu-Passeron confunde-se com a
cativo em relação ao qual a escola se esforçara precisamente escola tradicional, com o que nela existe de mais contestável
em formá-los; dizem alguns que eles apenas rejeitam o lado — e de morto: a ruptura com a vida dos alunos e os objetivos
escolar, que já estariam fartos de exercícios, de explicações e que a escola lhes propõe, e não aquela continuidade-ruptura
por isso abandonam livros, teatros e museus. A isto replicam que já invocamos detalhadamente por outra via.
Bourdieu-Passeron, e muito acertadamente, que, pelo contrá-
rio, a escolaridade não foi suficientemente longa nem a edu- Bourdieu-Passeron propõem reformas escolares, não
cação bastante profunda para constituírem uma atitude culta podem deixar de propô-las. Mas receamos que elas demorem
em relação aos que não receberam estímulo do seu meio. muito a processar-se. Como melhorar o que não contém a
Igualmente, pertence a eles o mérito de recusar a opo- mínima realidade, a mínima validade?
sição tão fregiente entre a cultura escolar, estereotipada, A arrancada que eles dão a entender partirá essencial-
rotineira, e a cultura autêntica, que dá lugar a apreciações de mente dos mecanismos de aprendizagem: a habilidade para
gosto pessoal. Com efeito, libertar-se das pressões escolares, falar e escrever e mesmo a multiplicidade de aptidões e ainda
ultrapassar os conformismos escolares, só é permitido aos a virtuosidade verbal e retórica. Ficarão limitados, aliás, a
que conseguiram a plena posse dessa formação dispensada pedir a organização contínua do exercício como atividade
precisamente pela escola. orientada para a aquisição tão completa quanto possível das
Enfim, a escola vê-se empossada de umatarefa essenci- técnicas materiais e intelectuais do trabalho intelectual, exer-
al: é encarregada da legitimação cultural e possui, realmente, cícios preparados de maneira sistemática, entregues e corri-
o monopólio desta legitimação: o jazz, o cinemae a fotografia gidos pontualmente, a ampliar o domínio do que pode ser
situam-se fora da esfera de cultura consagrada porque não racional e tecnicamente adquirido com uma aprendizagem
participam dos conhecimentos organizados pela escola. metódica. Exigirão que se dê, em simultaneidade com a
mensagem, o código para a decifrar, ou seja, uma explicação
Seria possível dizer que a escola fica, deste modo, exal- escrupulosa do que ficou dito; será instaurado um controle
tada ou, pelo menos, justificada. Mas, infelizmente, não de- progressivo em que cada momento se encadeará no momento
vemos esquecer que esta cultura só tem para os nossos seguinte, preparará o momento posterior.
autores o fundamento de ser monopolizada por determinada
classe social: por isso de nada vale à escola favorecera difu- Tudo isto nos parece muito útil, muito razoável, muito
são cultural. Será ela mais do que um porta-voz dos que pre- necessário. Porém, estas medidas, unicamente formuladas,
tendem distinguir-se e cuja vaidade, temos repetido, se não implicam um novo questionamento das matérias ensi-
alimenta da vaidade inerente à cultura? nadas, nem do funcionamento geral da instituição. Há um

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

abismo enormeentre estas ligeiras precauções de bom senso este resultado está longe de ser perfeito: a escola, enquanto
e a gravidade das ameaças e das acusações que põem em conservadora e reprodutora, constitui uma ameaça ao con-
evidência a validade, a própria existência da escola. Se estu- servantismo e às situações estabelecidas, é local de lutas e de
dantes e professores se contentam igualmente com um dis- progresso, porque a cultura que espalha é, ao mesmo tempo,
curso nebuloso, como esperar uma mutação, de onde virá a fictícia e verdadeira. É esta ambigiiidade criadora que Bour-
força capaz de impor exatidão, objetividade? Confia-se tanto dieu-Passeron desconhecem e que só o marxismo nos parece
quanto possível que a escola inculcará mais racionalmente capaz de desvendar.
uma cultura cujo vazio não se tem deixado de proclamar, que
imprima mais equitativamente uma cultura que só existe pela
e para a desigualdade. Não será esta contradição que revela a
timidez dos projetos pedagógicos aqui presentes?
Dizem-nos: será reprovado determinado número de es-
tudantes socialmente privilegiados — porque serão sacrifi-
cados, deverão sacrificar-se para maior glória do interesse
coletivo. Pensamos detectar, enfim, um momento em que o
conflito se instala no ensino pedagógico; haveria uma possi-
bilidade de resistência, os dominantes e os seus cúmplices,
passivos ou mistificados, não continuariam sozinhos a mexer
os cordões.
Mas olhando mais de perto, verificamos que esse con-
flito não passa de hábil encenação: trata-se, na realidade, do
interesse coletivo das classes dominantes; e isso exige que,
pelo menos, se salvaguardem as aparências — e que se faça,
uma vez ou outra, uma exceção à automaticidade do sucesso
dos favorecidos.

Não vale a pena afirmarem-nos que a hipótese de um'


sistema de ensino que só tivesse por função técnica a sua
função social de legitimar a cultura e a sua ligação com a
cultura das classes dominantes representa um caso limite,
temos a percepção de que toda a obra assenta nesse caso li-
mite, considerado como o único caso real. “O sistema de
ensino só consegue desempenhar com perfeição a sua função
ideológica de legitimação da ordem estabelecida se...”, Não,

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CAPÍTULO IV

AS DIFERENTES UTILIZAÇÕES DA CULTURA

Será que uma reflexão sobre a cultura nos permitirá ul-


trapassar o ponto de vista de Bourdieu-Passeron — visto nos
ter parecido que era sobre a cultura, como aparência irrisória,
que se fundava a sua negação da escola?

PRIMEIRO TEMA:
Utilização conservadora da cultura

Bourdieu-Passeron trouxeram à luz a questão de que


existe, dentro e fora das aulas, uma utilização reacionária da
cultura e que a cultura se presta a esta utilização.
Os modelos culturais podem ser conservadores, apre-
sentados de forma conservadora, quando se pretende fazer
deles a garantia da imutabilidade do homem e, portanto, da
imutabilidade da sociedade. Entre uma centena de casos,
anotemos esta declaração de Léon Bérard: constitui-se atra-
vés dos séculos “um capital de conhecimentos, de idéias, de
verdades morais praticamente invariáveis, definitivamente
asseguradas, um fundo estável de verdades, sobre o justo e o
injusto, o homem e a família, o homem e a cidade, a guerra €
a paz”. Tais tomadas de posição levam, inexoravelmente, a
desvalorizar o mundo contemporâneo, e a cultura seria um

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

convite à procura de refúgio num passado, evidentemente podem compensar as dificuldades de uma vida profissional
mítico. exigente. E é, antes de mais nada, no seio da escola, que a
Outro exemplo: uma comissão francesa, a pedido da burguesia se esforça por interpretar as obras culturais impri-
Unesco, formulou em 1959 um relatório acerca do papel dos mindo-lhes um sentido suscetível de a servir — ou, pelo me-
estudos humanistas. Ela empenhou-se, em primeiro lugar, nos, que não constitua um perigo para ela.
em traçar a oposição entre “essas grandes obras do espírito
humano em que ficam depositadas as normas da verdade, do Fayolle mostra bem como certa tradição escolar apaga,
bem e do belo, cujo valor permanente corresponde ao que de em relação aos filósofos do século XVIII, as idéias de pro-
eterno existe na natureza humana” e “o mundo atual em que gresso e de renovação, minimiza e adoça as contestações, as
valores e contravalores se misturam na maior das confu- lutas, as revoltas, mas privilegia tudo quanto seja confissão,
sões”!. Do ponto de vista pedagógico, estando tais normas sonho, e denota um prazer sempre renovado em descobrir o
fatalmente desligadas da experiência vivida pelo aluno, recu- homem por detrás do livro. A partir daí o estilo e a lingua-
sando esta experiência, visto que ela não passaria de confu- gem passam a ser temas válidos em si e temas de predileção.
são, torna-se impossível a ele encontrar uma resposta “O acadêmico dá a primazia ao século XVI — a um século
pessoal, tomar uma iniciativa que só pode, portanto, ser im- XVII que transmite, do homem, uma imagem eterna, univer-
posta de fora: torna-se inevitável o autoritarismo escolar. sal — e que permite confrontar todo o projeto inovador com
a representação definitiva de um ser marcado pelo vício e
São estes, efetivamente, os mesmos que pretendem pelo pecado, que se debate inextricavelmente entre paixões
apresentar a cultura como o lugar imediato da reconciliação: contraditórias.
“Os bens da cultura constituem um patrimônio coletivo ina- Tudo isso é verdade, tudo isso existe. E existem, sem
lienável e indivisível em fatores discriminatórios, sejam eles dúvida, obras culturais reacionárias. Serão elas assim nume-
de que natureza forem. Situam-se num domínio que trans- rosas e haverá muitas realizações de vulto que pôem em cena
cende as divisões”? A cultura ficaria desligada dos aconte- a escravatura e a tortura a fim de as glorificar? São, sobretu-
cimentos que se desenrolam no espaço e no tempo, isto é, do, imitadores pobres, que tentam remendar o vestuário filo-
realmente desligada das lutas dos homens, acima delas, re- sófico e religioso da burguesia, há muito gasto e sujo,
presentando um domínio à parte; seria um oásis preparado profusamente manchado com o sangue do povo trabalhador.
para que se esqueça o contemporâneo e se renuncie a uma A utilização, para fins reacionários, de valores culturais pe-
tomada de posição. Uma evasão mágica, um ópio. A cultura los administradores, políticos e também professores, é fenô-
como calmante, bálsamo, compensação para a vida como ela meno constante. Resta saber se ela se inscreve no objetivo
é, resignação à vida tal como ela é. O interesse pela arte das obras ouse é uma marca de traição.
dramática, o cinema, o canto coral e as atividades ao ar livre O irrealismo da cultura — da cultura erudita, acadêmi-
ca — não é de forma alguma a sua definição, mas pelo con-
trário, o desvio de sentido que a burguesia pretende operar.
I . . 2. .
, La Documentation
! Française, Notas e estudos documentários, maio de 1959. A prova já está à vista do número ínfimo de famílias burgue-
* Perspective pour le Vº Plan.

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sas que participa da cultura: que proporção vai ao museu e elas, como efeito, evocar a realidade de tal forma que ela se
incentiva os seus filhos a irem? E hoje, principalmente, em mostre finalmente como é, ou seja, intolerável? O mundo no
situação de perigo, a burguesia não hesita em renegara cul- banco dos réus e, portanto, a boa consciência, o conforto mo-
tura, a sua cultura, desde que se convença de que esta renún- ral. Conseguirão arrancar dos acontecimentos o sinete do fa-
cia pode ser-lhe útil na luta de classes. Ela já não grita miliar, o sentimento que é habitual, estabelecido, natural, que
pedindo que se abram os museus a todos; prefere sussurrar; não pode ser de outro modo? Farão surgir o mundo na sua
os museus, são coisas mortas, um passado que se tornou inú- mobilidade, provisória, problemática, instável, tendo mudado,
til, um mero luxo, algo que nada oferece de atual ao homem, podendo mudar, devendo ser mudado? Existe, pois, um futu-
numa palavra, isso é burguês. A desvalorização da cultura ro. Saberão elas representar a luta do que é novo contra o que
como burguesa é uma atitude fundamentalmente burguesa, é velho, como as contradições se desenvolvem, se enrique-
onde é evidente que a classe dominante já nem em si própria cem, que força da evolução, ou antes, de progresso repentino
confia, nem nas criações a que deu a sua contribuição, pelo estas contêm, que carreira traçam às forças libertadoras?
menos com a matéria inicial; pressente mais ou menos con- É porestas três formas combinadas que a cultura será
fusamente os riscos que encerra a sua cultura e que a amea- luta contra o afundamento nas areias movediças e nos impli-
çam a partir do momento em que o proletariado conseguir cará nessa luta. Devemos lembrar a frase de Lenin: “Para os
dominá-la. Então não se esforçará muito para divulgar esse analfabetos não há política no verdadeiro sentido da palavra,
fracasso. mas só mexericos”. Nem acreditar na harmonia como se já
Não pode dissimular o risco inerente à cultura: pela tivesse sido realizada, nem na desgraça fatal, mas pressentir
magia das palavras, dos sons e das cores constituir um uni- uma plenitude, o ultrapassar da exploração e da divisão.
verso que a si próprio se baste, muitíssimo mais belo, dei- Mesmo o proletariado, que vive a exploração na sua
xando ao alcance da mão satisfações muito mais agradáveis carne, corre sempre o risco de a sentir de modo resignado,
do que a realidade e que irá permitir o esquecimento dessa como uma fatalidade. Ele pode encontrar na cultura meios
realidade; uma pessoa perde-se a contemplar. Quanto mais se para abrir perspectivas. E os não-proletários, para não lhes
fregiienta um concerto menos se milita; os melhores militan- chamarmos burgueses, descobrem muitas vezes, através da
tes não são os que vão mais assiduamente a concertos. cultura, a realidade da luta de classes e conseguem assim
aproximar-se das posições da classe operária. Já o Manifesto
SEGUNDO TEMA: dizia: “Uma parte da burguesia passa para o proletariado e
Restituir a cultura a si própria nomeadamente essa parte dos ideólogos burgueses que se
promoveram à inteligência teórica do conjunto do movimen-
E, contudo, a cultura, ao ser recuperada pela burguesia, to histórico”.
é traída porela e é a nós, à classe operária, que compete re- Bourdieu-Passeron, como Baudelot-Establet, recusam a
encontrar-lhe o significado, o valor, e dizendo tudo, a honra. hipótese de um papel progressista de uma facção das classes
Perante as obras culturais, eis o tipo de perguntas que médias e a realidade da cultura: a coincidência não é fortuita.
poremos e que procuram cingir-se ao nosso objetivo: terão

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I— O papel da alegria no combate político pelo desespero. “A obra de Delacroix surge-me por vezes
como uma espécie de mnemotecnia da grandeza e da paixão
Deste modo se conclui que a obra cultural é inseparável primitiva do homem universal... ele desconhece a decadên-
da política, mas que de forma alguma se confunde com a cia, só aponta o progresso”; é isto que justifica as linhas an-
política. A obra cultural é alegria, ela transfere o aconteci- teriores: “Eugêne Delacroix conservou sempre os traços
mento para o domínio da alegria — evidentemente também desta origem revolucionária”.
para o do sofrimento, mas um sofrimento sentido diferente-
mente, que já não é esmagador. Corresponde à sua função na A cultura passa a ser local de combate porque nunca
medida em que conseguir fazer da dialética um prazer. As escapa à luta de classes que se processa consubstancialmente
contradições deixam de ser meramente constatadas, dão lu- com a história. As idéias dominantes são as idéias da classe
gar a um humor; a transformação torna-se surpresa, isto é, dominante; mas elas não se obstinariam a apresentar-se co-
certo distanciamento, um distanciamento que não é evasão, mo dominantes se não soubessem e se ao mesmo tempo não
mas pelo contrário, um meio de ação, pois a evolução dos se sentissem, ameaçadas pela constante pressão das classes
fatos é vista globalmente. Daí um prazer que aumenta o nos- dominadas. Os criadores burgueses verdadeiramente impor-
so vigor, estimula a alegria de viver, o que não significa, de tantes continuam, de qualquer maneira, burgueses, e sepa-
modo algum, que tenham desaparecido as provações. ram-se da suaclasse, enfrentam-na e propõôem-lhe uma nova
Barberis soube definira literatura com um meio termo imagem do homem: protestam nas suas obras, mesmose nas
entre o devirhistórico e os homens: é graças à literatura que opiniões políticas que exprimem, naquilo em que não pas-
um tema abandona o domínio da ideologia abstrata, para se sam de uns simplórios, deram tão frequentemente provas de
tornar exigência viva, e ser interpretado como tal. É então uma triste incompreensão, como é o caso de Flaubert.
que ele se transforma numa procura individual e individuali- A obra cultural nunca está, certamente, independente
zada, humanizada, expressiva. O que as obras culturais têm das forças sociais que o autor representa, de que é até o por-
para nos comunicar, não é apenas que uma outra vida é dese- ta-voz e tem, ao mesmo tempo, limites de classe que nunca
Jável e possível, mas que essa exigência está ligada às pró- transporá. Mas não é menos importante recordar que os filó-
prias pulsações do nosso sangue, não é um desejo frio. sofos da burguesia progressista não vão buscara sua inspira-
Esta alegria dolorosa não será o indício de que então o ção nas mesmas fontes em que bebem os empreendedores
indivíduo ultrapassa os limites do seu eu, se une e se identi- capitalistas. O criador, na medida em que sua obra reflete
fica com aquilo que ele não é e que nem é capaz de ser — a uma tomada de consciência da realidade mais vasta do que a
experiência coletiva, o conjunto dos sofrimentos, mas tam- vida corrente, mais sensível, aberta e mais atormentada pelo
bém do combate humano? Já Baudelaire o exprimia em ter- sofrimento dos homens, não pode deixar de fazer eco aos
mos notáveis a propósito de Delacroix: pressentimento do protestos e projetos que, de uma forma ou de outra, sempre
indivíduo escapando à dispersão, à fragmentação contraditó- foram manifestados pelos oprimidos. Rastignac lamenta:
ria; dignidade possível do homem, prometida mas ainda a ser “Como se alinhariam os grandes sentimentos a uma socieda-
conquistada; recusa de se deixar influenciar pela dúvida e 1 de mesquinha, pequena, superficial?”.

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Parece-se, então, que as obras não devem estar dividi- riam ao lote comum da humanidade, seriam capazes de subli-
das em duas simples categorias, as reacionárias e as revolu- mar as suas paixões num heroísmo cavalheiresco e estariam,
cionárias, mas que desvendam, de maneira mais ou menos por índole, destinados a comandaros outros.
pronunciada, perspectivas progressistas — sendo raras as Há em Mozart um pequeno marquês, empoado, amável
grandes obras conservadoras, inteiramente conservadoras, e e elegante, uma atmosfera de corte principesca. Mas é ele
frequentemente pergunto a mim mesmo se isso existe. que transporta para a música, que transforma em música as
A noção de cultura dominante, de cultura da classe tomadas de posição mais progressistas da sua época: o ate-
dominante, não deve ser, portanto, interpretada como um ísmo e o protesto contra determinado tipo de moralismo
dado estatístico, mas como um resultado complexo e sempre (Don Juan), a luta de um criado e da mulher contra os direi-
móvel das forças em questão. É bem notório que até agora as tos feudais que iam a ponto de escravizar o homem (As Bo-
obras que ficaram consagradas no nosso patrimônio foram das de Fígaro), a regeneração do mundo por uma vanguarda
produzidas por homens vindos das classes dominantes que se que terá a coragem de se purificar, de superar as provações
dirigiam essencialmente aos da sua classe. Porém, deve-se — e o homem do povo teve aí lugar, a ação não se limita a
também recordar que a cultura da classe dominante é a cultu- reunir personagens já estabelecidas, não poderia desenrolar-
ra a que essa mesma classe teve de aderir — muito mais fre- se sem a participação de todos esses que exprimem uma es-
qientemente de má vontade do que de bom grado e à custa pontaneidade natural e popular (A Flauta Mágica). Musi-
de muitos sofrimentos. O desprezo da burguesia pelos gran- calmente, ele atua unindo a música popular à erudita,
des artistas, em particular no decorrer do século XIX, con- reunindo a área de tradição vienense ao coral e à fuga; assim
firma-o plenamente. ele visa chegar a um público vastíssimo, a todos os públicos
France Vernier revela por um lado, numa análise de ex- simultaneamente, e a experiência lhe dará razão em múltiplas
tremo rigor, que “a classe dominante se vê constrangida a circunstâncias. É para os fregiientadores de uma espécie de
valorizar como literárias obras que põem em evidência a teatro ambulante dos subúrbios de Viena que Mozart escreve
coerência e a harmonia (do seu sistema)”; por outro, que ela A Flauta Mágica; essa gente aplaude, pede bis em determi-
Jamais conseguiu impor de forma durável como“textos lite- nadas passagens divertidas, e ao mesmo tempo percebe o
rários escritos que a serviam sem falhar”. Deste modo se alcance da obra, demonstra-o em certos momentos culminan-
infiltra no coração da cultura existente “uma contradição que tes com a sua aprovação silenciosa — e isso Mozart comen-
a classe dominante não consegue evitar nem solucionar”. ta com alegria numa carta ao pai.
A pintura dos impressionistas pode parecer desligada
É esta contradição constitutiva das obras culturais, o seu de preocupações, das lutas cotidianas; pode ver-se umatenta-
peso conformista e o seu valor contestatário, que seria neces- tiva de fuga às duras realidades, no requinte, na iridiscência,
sário esclarecer. Racine apresenta, evidentemente, a corte de no prazer desfrutado com as cores e as formas evanescentes.
Luís XIV, os seus hábitos, a sua hierarquia consentida, os seus Mas representa, acima de tudo, uma reabilitação do mundo
faustos. Mas Racine destrói, torna impossível a ideologia feu- do dia a dia, das cenas familiares e próximas; que todos con-
do-nobiliária em que certos homens, os bem-nascidos, escapa- sigam penetrar a poesia, ou pelo menos, as promessas por ela

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encerradas; e é essa recusa dos motivos nobres, históricos, superestrutura... igualmente exercem a sua ação nas lutas
mitológicos, simbólicos, que na época provocou a indigna- históricas e em muitos casos lhe determinam, de maneira
ção doscríticos instalados. É igualmente o acordo possível, o preponderante, a forma”. Comenta Althusser: o marxismo
acordo prometido entre o mundo e o homem: a natureza, as “oferece-nos os dois extremos da cadeia”; de um lado, o mo-
coisas simples do mundo têm beleza, constituem uma festa, do de produção e do outro, as superestruturas e “é entre os
devem transformar-se em festa e é escandaloso que tal não dois extremos da cadeia que é preciso investigar”, investigar
acontecesse ainda. como a economia dirige o curso da história e em particular a
Não se pode afirmar que os criadores escapam à luta de ideologia; mas ela atua em última instância, o que significa
classes, pois, muito pelo contrário, à sua maneira, eles a vi- ao mesmo tempo que há ação e reação das superestruturas
vem intensamente: Mozart participa, por intermédio da fran- sobre a base. Althusserinsiste na acumulação de determina-
co-maçonaria, no movimento das forças progressistas do ções eficientes, vindas das superestruturas — e isso só se
século XVII, na sua confiança redescoberta nas virtudes, a torna viável pela existência real, em grande parte específica e
virtude do povo — e assim se esquiva ou compensa a pres- autônoma, das formas da superestrutura.
são da aristocracia e mantém um constante contato com o É esta existência de superestrutura que nos parecefaltar
folclore. Racine é, seguramente, um homem da corte, mas em Bourdieu-Passeron, onde surgem apenas como decalque
Port-Royal, que teve tão grande papel na sua vida, é interpre- das posições de classe, instrumento tão dócil da classe domi-
tado como uma ameaça autêntica ao poder e perseguido, nante. E Althusser acrescenta estas frases que talvez consti-
como todos que partilham o jansenismo. Os Impressionistas tuam a melhorcrítica a estes dois autores: “Jamais a dialética
são excluídos da alta sociedade. econômica manobra no estado puro, jamais se vêem na His-
Deste modo, a ideologia e a cultura existentes são fun- tória as estruturas afastarem-se respeitosamente ou dissipa-
damentalmente animadas pela burguesia, mas também, de rem-se a fim de dar passagem, respeitosamente, à sua
forma contraditória, pelas lutas da classe operária e das mas- majestade a Economia; a hora solitária da última instância
sas populares. nunca soa”.
Temos de lutar para restituir às grandes obras culturais
Necessidade de reconhecer uma originalidade do cultu- o senso revolucionário que de fato possuem e que a tradição
ral; por certo este nunca consegue ser autônomo em relação à burguesa se esforça por sufocar. Temos igualmente de lutar
classe que lhe dá e à qual, apesar de tudo, se destina, mas, para impor obras que a burguesia não pode recusar (pense-
pelo menos nas suas obras mais perfeitas, o cultural não se mos em J. Vallês), mas que deixará astuciosamente na som-
reduz a um reflexo, um disfarce, um mero anteparo dos inte- bra e no esquecimento se não nos precavermos. Esta luta é
resses da classe dominante. possível porque a cultura, tanto a que é inculcada na escola
Para melhor compreensão devemos nos referir a uma como a que evolui fora dela, pode servir de meio para pre-
passagem onde Althusser interpreta com extrema clarividên- servar a ordem estabelecida, mas constituindo, ao mesmo
cia a famosa carta de Engels a Bloch. Dizia Engels: “A situ- tempo, um dissolvente corrosivo desta mesma ordem.
ação econômica está na base, mas os diversos elementos da

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R. Leroy introduz a noção essencial de um afastamento das e que significam, especificamente, algo que não se iden-
entre a obra cultural e as lutas sociais. Este afastamento não tifica com as obras da cultura reconhecida — e que não fo-
representa, certamente, um vôo para um céu quimérico; desti- ram admitidas por esta mesma cultura? Será preciso procurar
na-se a longo prazo a ser reabsorvido e, finalmente, no tempo do lado das realizações que saem um tanto da rotina, como o
histórico, o movimento social revolucionário e o movimento artesanato? Mas isso mais se assemelha a um passado re-
cultural acertam o passo. E, todavia, em dado momento, ele constituído do que a uma existência ativa. Enquanto perma-
marca a especificidade e a realização artística ou científica e necer como classe explorada, a classe operária exprime-se
acima de tudo a possibilidade de a criação intelectual se ante- culturalmente por aspirações ou rejeições, não com realiza-
cipar. E eis porque a luta de classes no domínio cultural, e, ções que possam ser apresentadas nas escolas.
portanto, na escola, reveste formas próprias, não se pode apli- Talvez um paralelo com a ciência seja esclarecedor: não
car-lhe o rótulo de predomínio da classe dominante. se pode sustentar que a classe dominante tenha deixado de
lado descobertas científicas proletárias, equivalentes às que
Objetarão alguns que mais valeria recorrer a obras dire- haviam sido realizadas pelos burgueses e que até o presente
tamente proletárias do que procurar numa cultura, evidente- continuam eles a ser os únicos em condições de realizar.
mente marcada pela burguesia, elementos progressistas, ou Quando o proletariado deixar de ser uma classe explo-
até uma inspiração revolucionária. Mas numa sociedade ca- rada, talvez venha a ter o seu Mozart; talvez se exprima de
pitalista, a classe dominada terá conseguido levar a cabo maneira diferente, inédita, ainda dificilmente imaginável,
obras plenamente significativas? mais com tendência para a diversidade do que para algumas
À cultura proletária, uma cultura que assume conscien- obras-primas. A este ponto ainda não chegamos; e a cultura
temente a tarefa de absorver e traduzir a energia emotiva da proletária não pode constituir-se por cisão ou repúdio do
massa, apresenta-se hoje como um fim a ser atingido, ainda patrimônio conquistado.
não constitui uma realidade. Uma cultura que se dirige à mas-
sa, é compreendida pela massa; e presume-se que a massa não O que há de justo em Bourdieu-Passeron e que nos toca
é apenas um público que assiste; a participação na obra e a no mais íntimo, é a denúncia do escândalo que representa
transposição para a vida do que a obra sugeriu são insepará- uma cultura de uma insignificante fina-flor. O que nos desi-
veis da sua apresentação. É evidentemente o contrário de lude, é que a cultura parece, quase por definição, condenada
Salzburg com vestidos de noite e festas de galas estereotipa- a semelhante solidão.
das; é de fato aquilo com que sonhara Mozart — e que emtal Com efeito, a classe dominante exerce sobre os criado-
época, com tal sociedade, não podia passar de sonho. Mozart res uma constante pressão a fim de os encerrar num círculo
só será Mozart após a Revolução, quando um público não- restrito de admiradores confessos: ela pressente que a difu-
alienado conseguir finalmente gritaro significado da sua obra. são da cultura estaria para ela repleta de perigos e isolando
Devemoscultivaros princípios desta cultura proletária, os criadores, desligando-os das massas, espera reduzi-los a
sem escondermos que não passam ainda de princípios. Have- temas e a sutilezas inofensivas. A isto vem juntar-se, eviden-
rá na França obras de vulto executadas por classes explora- temente, em relação aos explorados, a extrema dificuldade

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de acesso ao que vai do habitual ao novo — depois de tantas Muito ao contrário, Brecht leva-nos a compreenderque
horas de trabalho extenuante e com tão ligeira preparação o prazer proporcionado pelas obras antigas, começa porser a
inicial, satisfação de descobrir as distâncias, as diferenças, de parti-
O que não impede que os grandes criadores tenham de- cipar no desenrolarda história através dos caracteres peculia-
sejado ardentemente dirigir-se ao mais vasto conjunto huma- res a cada época e aos seus contrastes: os modelos do
no; lançam um apelo a todos — e só depois de desanimar, passado trazem-nos o reconhecimento de transformações já
quando se julgam constrangidos a isso, é que alguns se iso- atingidas e que são garantias de transformações a serem con-
lam num clube de iniciados. quistadas. E é precisamente assim que o antigo pode assumir
Haverá, sob este ponto de vista, exemplo mais caracte- para cada um de nós um significado pessoal e vivo, exercer
rístico do que o de Mallarmé? O seu nomeé o próprio sím- uma incidência direta, pois a humanidade enternece-se ao
bolo de uma arte limitada a um reduzido grupo esotérico; e, recordar as suas lutas e as suas vitórias. E reviver até aquilo
contudo, ele mesmo declara que essa situação é adversa, que não passou de mera tentativa pode aumentar-lhe a de-
transitória: uma época não passa de um interregno,no entanto, terminação e a confiança.
Já atravessada pela presença do novo, está em efervescência A obra pode, portanto, ser interpretada como presente
preparatória; e se o poeta se vê provisoriamente condenado a sem deixar de ser história, com a condição de que esteja de-
só se dirigir a alguns, é enquanto aguarda que a multidão se senvolvido o sentimento — diríamos o prazer da continuida-
defina. O próprio Mallarmé espera, prevê que a multidão se de dialética da história — de tal forma que o passado cultural
realize plenamente. se unisse à atualidade da ação: a continuidade da luta, a
À nossa sociedade, que voga de guerra em guerra, não mesma luta e sempre por formas novas. Pensemos na ima-
saiu da pré-história. É esta mesma expressão que os cubanos gem da espiral que volta periodicamente a passar pelo mes-
retomam ao declarar: “A cultura reservada a uma classe pri- mo ponto, mas sempre mais acima. A unidade do presente e
vilegiada só permitiu a raros indivíduos distinguir-se; não é do passado está em primeiro plano nesta definição da cultura
uma característica inerente à cultura, é apenas um indício da dada pelo autor soviético, Vladimir Mshvenieradze: “Apti-
pré-história da cultura”! dão para utilizar os resultados obtidos, para subjugar as for-
Seria necessário, ainda, explicar como se processam a ças elementares da natureza e resolver os problemas
evolução e a revolução culturais. imediatos e urgentes do progresso social”.
É demasiado fácil afirmar que a cultura como passado, Por isso, não há contradição entre criar-se um presente
visto manterestreita relação com o passado, conduz obriga- a partir do presente e criar-se um presente a partir das obras
toriamente ao conformismo e nos encerra numa eternidade do passado; é preciso não nos deixarmos iludir por uma po-
desesperadamente estática: essa obra antiga ou não nos im- sição fictícia entre a cultura prestes a ser realidadee a cultura
pressiona ou é a prova de que o homem não muda, de que o Já inscrita nas obras consagradas; nem ter de um lado um
mundo não consegue modificar-se. patrimônio a conservare transmitir tal como é e nem de ou-
tro, inovações a promover numa efervescência repentina.
1º Congresso da Educação em Cuba, 1971. Citado por Huteau e Lautrey. Simultaneamente, o passado diz respeito aos homens de hoje

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se soubermos examiná-lo no seu encadeamento dialético E, de resto, pode suceder que o fato de me ter assim
com o nosso hoje e o presente tanto da cultura como da ação, preparado para melhor ver e amar Picasso me leve, não a
só atingirá a criatividade se conseguir alicerçar-se nas aqui- pretender pintar, mas a interpretar o mundo de forma mais
sições já realizadas. clarividente, a atuar no mundo com mais convicção. R. Le-
roy diz com toda justiça: “A cultura é feita igualmente de
A oposição entre a cultura-consumo de obras já feitas e ciência, de técnica, de atividade profissional, de atividade
a cultura como manifestação nova do meu projeto pessoal física; está nas relações que se estreitam entre os homens a
não parece menosfalsa: não assisto passivamente a um espe- cada instante da sua vida”.
táculo — de contrário é porque lhe permaneci indiferente. Repudiar tudo em um bloco só, aí vendo uma mistifi-
Prova-o a fadiga a que a minha cooperação dá origem, mes- cação tirânica ou o esplendor fingido dos privilegiados, é
mo silenciosa e imóvel. Inversamente, de cada vez que se superestimar as posições da classe dominante, supô-la todo-
imagina encontrar algo de novo, sem que esse entusiasmo poderosa, fechar os olhos à influência política e cultural que
pessoal parta de qualquer coisa já elaborada, deixa-se influ- o movimento democrático exerce, e há tanto tempo, seja jun-
enciar pela mais banal das ideologias dominantes. Os textos to dos criadores, ou no conjunto das correntes intelectuais.
livres, os desenhos livres das crianças são exercícios indis-
pensáveis ao seu progresso e indiscutivelmente muito se as- H — Três exemplos das relações entre
semelham uns aos outros e ao que já é conhecido. a ideologia dominante e a ideologia dominada
Por um lado, não posso deixar-me embalar, é demagó-
gico deixar-me embalar pela ilusão de que estou, estamos Para tentar definir as relações entre ideologia dominan-
todos, ao mesmo nível dos fundadores de cultura. O que de te e ideologia dominada, tomaremos como primeiro exemplo
forma alguma significa que eu esteja condenado a uma ab- a noção de igualdade e o estudo que dela fez Engels.
sorção inerte daquilo que os outros conquistaram: interpreto À noção burguesa de igualdade, é a igualdade civil: to-
e assimilo a obra dos outros de acordo com a minha própria dos os cidadãos são iguais perante a lei. Ora, o proletariado
individualidade, participo nela de modo original, a partir bem sabe que a igualdade não deve ser simplesmente estabe-
daquilo que eu próprio sou, situo-me em relação a ela; e é, lecida como igualdade de direitos formais, mas que ela en-
finalmente assim, que modiífico a minha vida, a vida; graças globa o estatuto econômico-social; em outras palavras: não
à obra dos outros exprimo e exprimo-me. há igualdade enquanto não se abolirem as classes. Desem-
Para eu pintar validamente, é necessário que tenha con- pregados e milionários têm o mesmo direito de dormir de-
templado demoradamente a pintura dos outros — e apesar de baixo das pontes, e também o mesmo direito de fundar um
tudo, aquilo que eu executar ficará à grande distância, muito jornal. Falta saber em que se transformará esse direito.
atrás, digamos, de Picasso; mas precisamente por eu ter ex- Num certo sentido, a idéia de igualdade burguesa só vi-
perimentadopintar é que verei Picasso de maneira mais lúci- sa uma aparência e a reivindicação proletária de igualdade é
da, mais pessoal; e será essa repercussão que irá permitir nada mais nada menos do que uma reação contra esse con-
manifestar-me de maneira mais pertinente. ceito-chave da ideologia dominante.

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Mas, mais profundamente, é muito pouco dizer que a é pela cultura que se escapará à luta de classes e que se al-
reivindicação proletária se baseia na teoria burguesa, não cançará uma unificação idílica. Mas a cultura dominante não
basta sequer afirmar que ela tira essas conclusões ultrapas- se reduz a um disfarce opressivo em face do qual uma cultu-
sando-a; a realidade, é que os proletários tomam a burguesia ra de explorados se ergueria como um outro bloco: é preci-
ao pé da letra; se a burguesia, na sua luta contra o Velho Re- samente à cultura dominante que os explorados devem ir
gime, teve de reconhecer que os homens não nascem já sepa- buscar os elementos que irão reconstituir por sua conta e que
rados, não poderá, impune e definitivamente, fechar os olhos irão metamorfosear.
perante o fato de o ter nascido numa família proletária não Terceiro exemplo: a noção de verdade. A ideologia
implicar as mesmas oportunidades de êxito — e para come- dominante tende a fechar-se numa alternativa: ou o nosso
çar, na escola — que se teriam sendo-se um herdeiro; a ideo- pensamento é capaz de vencer a corrente movediça das apa-
logia dominada, e sobretudo quando é o contrário da rências e atingir conhecimentos absolutos, definitivos; ou
ideologia dominante, é tudo quanto já continha de real a ide- então é o ceticismo em que todas as idéias são equivalentes,
ologia dominante, mas metamorfoseado, sem subterfúgios, tudo pode ser admitido segundo os casos e as pessoas.
finalmente liberto das suas mistificações. Num primeiro período, o marxismo recusa esta escolha
Outro exemplo: o patriotismo. Se existe um conceito forçada e afirma, paralelamente, que o homem não pode
que pertence à ideologia dominante, ou antes, à ideologia abraçar, reproduzir e representar a natureza na sua totalidade
reacionária, que é quase o símbolo do imperialismo, do mili- imediata, mas que consegue ir abeirando-se perpetuamente
tarismo, de todo o cortejo de logros, de massacres que infli- desta finalidade. Há uma longa evolução da ciência que vai
giram, e em primeiro lugarà classe operária, esse conceito é subindo degrau a degrau, sempre mais alto. E é esta mesma
o de pátria. Por isso o Manifesto Comunista proclama que os evolução, progressiva e interminável, que constitui a verda-
operários não têm pátria. de. Neste sentido, o marxismo instala-se na própria contradi-
Mas, acrescenta esta restrição capital, ou antes, esta ção entre ceticismo e dogmatismo que faz o desespero da
considerável abertura: existe uma realidade nacional que não ideologia dominante e que marca o seu malogro, esta contra-
é de forma alguma o sentido burguês do termo. Mal o prole- dição transforma-se na principal alavanca de todo o progres-
tariado se erige em força dirigente, mal cessa a exploração de so intelectual.
uma nação por outra, visto cessar a exploração do homem O que não impede que o marxismo retome do dogma-
pelo homem, o patriotismo adquire um significado revolu- tismo a noção de que a verdade não é umaleitura simples e
cionário, que recusa basear-se na hostilidade recíproca dos imediata do real; o conhecimento é, sem dúvida, a reflexão
povos. E, contudo, esta transmutação não teria sido possível da natureza pelo homem, mas essa reflexão é um processo
se o conceito burguês de nação não contivesse esta possibili- feito de uma série de abstrações, de aplicações, de formação
dade de acepção nova, perdida, dissimulada, nas deforma- de conceitos, leis etc. E são estas contribuições que ele vai
ções que o imperialismo a fez sofrer. fundir numa síntese inteiramente nova, que repõe a verdade
Portanto, existe, realmente, uma cultura da classe do- na história, e mais precisamente, na história do trabalho, da
minante, e que não corresponde à das classes dominadas; não

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relação entre infra-estrutura e superestrutura, na história da fia clássica alemã. O torneiro, herdeiro de Kant e de Hegel...
prática das massas. Que estranha ruptura e que espantosa continuidade! O co-
nhecimento, com efeito, elabora-se de acordo com os inte-
Nada é mais característico a este respeito do que a aná- resses e as aspirações da classe operária e por isso se dirige a
lise da escravatura feita por Engels. A ideologia dominante ela e nela encontra compreensão.
afirmará que a escravatura é um erro que desonra a humani- Paralelamente, a ideologia dominada defende o contrá-
dade ou que é a prova de que tudo é possível e pode ser justi- rio da ideologia dominante, o que sabe e experimenta o nos-
ficado. Engels vai situar a escravatura em correspondência so torneiro, a partir da luta de classes e do desenvolvimento
com um estágio em que o trabalho humano é muito pouco das forças produtoras, não é verdadeiramente o jogo dialético
produtivo; a sociedade só consegue sobreviver se os traba- do Ser e do Absoluto; e contudo, isso constitui a sua herança,
lhadores estiverem inteiramente monopolizados pelo seu em que nada de valorfoi dissipado.
trabalho e, literalmente, acorrentados a ele. À medida que as Consegiientemente, a cultura e a escola deixam de ter o
forças produtivas se desenvolveram, a escravatura tornou-se rosto que lhes emprestam Bourdieu-Passeron: é por a cultura
uma indignidade e provocou indignação. O que não significa inculcada conter elementos heterogêneos, por ser suscetível
que ela fosse abolida imediatamente, porque as classes do- de utilizações contraditórias, que depende a todo momento
minantes se combinam para entravar o que há de fatal na do equilíbrio das forças vigentes verificar qual delas a arre-
história, já que não podem evitá-lo. batará. Há uma tarefa para os docentes progressistas: conso-
Portanto, o repúdio da escravatura não é em nada uma lidar a sua participação no movimento operário a fim de
verdade eterna que teria sido, em dado momento, ignorada desmistificar uma cultura em que tantas noções, tantas obras,
por um erro coletivo e, contudo, atualmente, é sem dúvida foram pervertidas, por si ou pelo público a quem estavam
uma verdade, corresponde a um progresso para a verdade; reservadas, pelo lucro que a classe dominante delas conta
não que esse progresso seja contínuo, unilateral e triunfal; é obter: são, contudo, estas mesmas obras que esperam ser
feito de aproximações sucessivas, interrompido por recuos; fecundadas. Enfim, é prosseguir a luta de classes no domínio
todavia, existe. O dogmatismo não interpretava a verdade das idéias.
como história, mas tinha razão em admitir a oposição verda- As obras que estão em jogo são sempre suscetíveis de
deiro-falso; o ceticismo recusava com acerto imobilizar a uma interpretação reacionária, pois não cortaram todos os
verdade; mas ia a ponto de a anular. Distinguimos aqui, não laços com as idéias dominantes das classes dominantes; mas
dois mundos estanques, a ideologia dominante e a ideologia se é verdade que brotaram do protesto e do conflito e de uma
dominada, mas o movimento palpitante de continuidade e de perspectiva aberta ao futuro, temos de exprimir o seu valor
ruptura entre a ideologia dominante e o marxismo, ideologia explosivo, o seu acerto de denúncia e de esperança. Devemos
dominada, ideologia dos dominados. lutar até chegar lá, até sermos suficientemente fortes para o
conseguir.
E é assim que Engels chega a este paradoxo extraordiná- A cultura geral constitui a iniciação nas diversas for-
rio de apontar o movimento operário como herdeiro da filoso- mas de atividade humana que possibilitam continuar em con-

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tato com os outros homens, aprender a apreciar o interesse e


os resultados de atividades diferentes da nossa própria, situar
perfeitamente esta em relação ao conjunto. Pode alcunhar-se
a cultura de idealista, tal como é assim evocada no projeto
Langevin-Wallon; pode causar espanto ela não suporos pro-
blemas que levanta, numa sociedade de classes, a existência
de uma cultura dominante como cultura da classe dominante, CAPÍTULO V
tentativa da classe dominante de justificar, pela cultura, o seu
domínio e, por conseguinte, os conflitos entre esta cultura BAUDELOT-ESTABLETOU
dominante e as aspirações da classe explorada: “A cultura A LUTA DE CLASSES INUTIL
geral representa o que aproxima e une os homens, ao passo
que as profissões retratam, muito fregiientemente, aquilo que
os separa”. Não é menos exato que os homens se expõem
tanto mais a permanecer bloqueados em si próprios quanto PRIMEIRO TEMA:
menos houverem participado na busca da objetividade e da A ideologia proletária como manifestação
verdade que a todos é imposta. repentina ou como conquista
Seria um erro completo considerartal cultura geral um
dado imediato capaz de unir futuramente os homens, disfar- Qualquer livro de Baudelot-Establet põe no mesmo
çando os antagonismos e os conflitos. Mas não será legítimo plano, como duas forças equivalentes, dois parceiros compa-
mantê-la presente no espírito como ponto de chegada, como ráveis, dois adversários igualmente autênticos: a ideologia
ideal, projeto regulador — com a condição de se saber que burguesa e a ideologia proletária. É só do ponto de vista bur-
um ideal só será realidade na medida em que as nossas lutas guês que a ideologia proletária é inferior à ideologia burgue-
reais tiverem ultrapassado as explorações reais? sa; de fato, a ideologia proletária é uma ideologia positiva,
em pleno desenvolvimento.
Entre elas, a única relação é de oposição: a ideologia da
classe dominante é contrária aos interesses objetivos das
classes dominadas, apenas existe por esta oposição e reduz-
se porinteiro a ela.

I — Constituição da ideologia proletária

Vejamos como os nossos autores nos apresentam a


ideologia proletária.

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Para eles é a existência de um proletariado revolucioná- inculcação tem por condição sine qua non a repressão, a su-
rio que faz dele, diretamente, o portador de uma ideologia Jeição e o disfarce da ideologia proletária. E tal como no
nova. A ideologia proletária surge como resultado da forma- mundo adulto, os comportamentos dos alunos proletários vão
ção recebida em contato com a vida dura, com as condições brotar do seu instinto de classe. A versão pequeno-burguesa
materiais da existência e do trabalho. Ela constitui um todo da ideologia dominante é interpretada pelos alunos da rede
com a resistência à exploração e o seu princípio único e sufi- PP como uma autêntica provocação e por isso suscitará resis-
ciente é a instrução direta para a vida. tências violentas, a saber: a oposição ativa ou passiva à dis-
Daí, esta conseqgiiência essencial de que a consciência ciplina, fuga, destruição.
de classe é um instinto de classe, uma consciência espontã- Estas atitudes de protesto ou de inércia são habitualmen-
nea. O que constitui a força viva da ideologia proletária são te consideradas como fortemente negativas; fala-se de pregui-
as formas espontâneas, não organizadas e teorizadas, mas ça, de inadaptação (para uns as crianças é que não estão
que possuem o mérito de haver nascido da experiência. Des- adaptadas à escola, para outros a escola é que não está adapta-
te modo, sem necessitar serem estruturadas ouelaboradas, as da às crianças; em qualquer caso, a estas crianças), classifica-
experiências operárias bastam para suscitar idéias diretivas se o caso de capricho juvenil, de reação a um complexo —
originais da ideologia proletária, evidentemente inseparável ou como formas de passar o tempo mais agradavelmente do
das condutas proletárias. que estudando, formas mais movimentadas e mais fáceis.
Disto nos dão, como exemplos, o afrouxamento da pro- Baudelot-Establet afirmam, pelo contrário, que isso revela a
dução, e não o seu esforço máximo; nunca ultrapassar um limi- expressão direta da consciência proletária, da ideologia pro-
te determinado e evitar, assim, um reajustamento das normas, letária: “Essas resistências e essas formas em que se manifes-
mesmo quando se é pago à peça. E ao mesmo nível, citam a tam são próprias da rede PP, e a este título têm, pois, caráter
luta contra a diminuição do salário, contra o prolongamento do de classe”; e do mesmo modo“se avaliarão o caráter de clas-
horário de trabalho. O conjunto das lutas sindicais. se desta reação”.
Malgrado esta alusão aos sindicatos, está bem definido Os nossos autores citarão entre os efeitos mais nítidos
que isso faz parte das práticas espontâneas da luta econômica da ideologia proletária o comportamento bem conhecido dos
de classe — e é suficiente este tipo de ações para os operá- alunos do CET que recusam a história, a geografia, o francês,
rios se sentirem solidários entre si contra o capitalismo. em suma, o ensino geral e só aceitam o que for diretamente
útil à sua profissão. Nisso, que a maior parte das vezes é de-
A partir disso gera-se uma transposição para o domínio nunciado como preguiça de garotos, vêem Baudelot-Establet
escolar. Não só não existe, na escola, formação ideológica um meio de os principiantes testemunharem a sua maturida-
que permita à classe operária interpretar-se, como, efetiva- de, o que fica comprovado pelo fato de esses comportamen-
mente, o sistema escolar está encarregado de assegurar o tos se organizarem no âmbito da condição futura dos
domínio burguês contra o seu adversário. trabalhadores; simultaneamente, eles retomam uma atitude
Trata-se, pois, da mesma luta que se trava no mundo do universal de resistência do proletariado às belas frases, às
trabalho entre duas potências antagonistas. O processo de belas frases que pretendem resolver os conflitos de classe

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numa harmonia moralizadora. E julgam-se autorizados a Particularmente quando as resistências enveredam por
afirmar: “Trata-se de condutas mais diretamente proletárias”. formas selvagens de tendências pequeno-burguesas anarqui-
Último exemplo: é agora na rede SS, principalmente no zantes, toda a culpa incide nas formas escolares de inculca-
técnico ampliado, que se instala, com fregiiência, uma con- ção da ideologia burguesa. Exemplo característico: os alunos
testação endêmica, numerosas faltas de disciplina geral — e do CET recusam-se, fregientemente, a designar pelos seus
isto à medida que lá se introduzem os filhos dos operários; nomes a aparelhagem e,a propósito de tudo, falam de apare-
ainda aqui, mas a um nível escolar mais nobre, estes serão lhômetro ou qualquer outro termo vago, em moda. Repudiam
logo à primeira vista os representantes da oposição proletá- a linguagem técnica, na mesma atitude global que os leva a
ria. São movidos pelos seus interesses de classe; e se protes- repudiar a linguagem escolar, a linguagem burguesa. Assim,
tam é porque as tarefas propostas pela escola estão em se privam de um instrumento preciso e precioso. Mas, para
contradição com esse Instinto. Baudelot-Establet, a razão desta falta deve ser procurada
unicamente no lado da organização burguesa da escola: a
Da mesma forma que os operários adultos, basta aos nossa escola está desligada da fábrica, os alunos não partici-
alunos deixarem-se conduzir pelo que há de mais espontâneo pam na vida fabril e é isso que os impede de aprendera dife-
na sua existência, pelas formas imediatas e diretas da sua rença entre os dois vocabulários, de distinguir entre o que
vontade, para aí encontrarem, ao mesmo tempo, os meios soa falso e o que é eficaz. Basta que o aluno passe a ser um
para resistir e os valores em nome dos quais eles resistem. operário inserido na produção e quediscuta os problemas da
Aquilo que provoca os antídotos contra a inculcação burgue- produção para que comece a mostrar que sabe do que fala.
sa é a vida que as crianças da classe popular levam fora da
escola. Ela chega para vincar o irrealismo dos conteúdos II — Validade da existência proletária
ideológicos que a escola gostaria que elas tomassem por fa-
róis. É então que se vislumbra o campo em que a escola pre- Primeiramente, diremos como nos parecem importan-
tendia agir: os seus comportamentos, as suas noções pessoais tes certas perspectivas assim abertas por Baudelot-Establet;
só terão de ocuparo terreno. elas constituem uma indispensável reação contra os que só
E se surge algum desvio, até mesmo algum erro nestas vêem uma desvantagem no proletariado, tanto no seu modo
lutas, os jovens proletários não têm culpa, o seu instinto de de viver como no de pensar. A vida real dos alunos, a vida
classe não está em questão; o único responsável é o adver- real dosfilhos do proletariado é reabilitada; deixa de sera de
sário, a ideologia burguesa, contra a qual se levantam, visto uma grande quantidade de preguiçosos, de inadaptados, ou
ser ela que consegue, nesta mesmaluta, contaminar e des- até de vítimas de uma escola inadaptada. Há um esforço no-
nortear determinadas formas deagir. É a ideologia fictícia, tável para atingir o ponto de vista dessas crianças, avaliar a
fabricada no PP, que vai desnaturar o significado de certo escola, a sua disciplina e a sua linguagem tal como elas à
número de atitudes espontâneas do proletariado; o adversá- interpretam.
rio provoca e consegue imprimir a sua marca na resposta A denúncia da ideologia burguesa, mesmo nas suas
que lhe vão infligir. formas escondidas de modelagem constante e imperceptível,

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é igualmente de extrema importância. Quanto ao que se refe- objetivos diretamente tangíveis, portanto, limitados, parciais,
re a matérias, faz-nos recordar uma conhecida passagem em próprios de certa categoria — e, finalmente, contraditórios.
que Klineberg se indigna por os problemas de aritmética Para ultrapassar esta fase, o movimento operário tem neces-
retomarem, como coisa evidente, os conceitos do capitalis- sidade de uma organização e de uma teoria gerais, que são,
mo: empréstimos e juros, transações comerciais na base de nada mais nada menos, que a evolução explícita da luta sem-
lucro — e propõe problemas de um tipo novo: “Se uma pre travada e por isso reconhecida pela classe operária— e,
família necessita de quinze dólares mensais para se contudo, elas devem vir até ele do exterior, de fora. O instin-
alimentar, mas apenas recebe cinco, qual é a percentagem da to de classe exige esclarecimento, purificação, unificação;
subalimentação?”. Ou ainda: “Se numa fábrica de tecelagem uma vanguarda que terá, entre outras, uma dimensão peda-
de algodão um operário em cada cem é atingido pela pelagra, gógica, instala-se no combate dos adultos. Althusser diz,
quantos casos novos se manifestarão se a fábrica contratar muito acertadamente, que o marxismo não é uma expressão
mais cem operários”. direta, uma produção direta do proletariado. É indispensável
que haja produção da teoria marxista devido a uma prática
Mas isso não significa que tenhamos sido convencidos teórica específica e que esta teoria tenha importância para o
pelo conjunto das teorias desenvolvidas por Baudelot- movimento operário em ação. A tarefa do marxismo, como
Establet. O operário adulto, como eles o apresentam, parece definiu Lenin, consiste em “generalizar, organizar, tornar
passar sem choque nem dificuldade, de um afrouxamento de conscientes das formas de lutas as classes revolucionárias
produção como resistência aos ritmos infernais, à luta pela surgidas espontaneamente”.
redução do horário de trabalho e daí a objetivos propriamen- Percebe-se a distância que separa a reivindicação ime-
te revolucionários. O instinto de classe constitui o único es- diata da luta revolucionária — e que não será transposta sem
timulante, o fio condutor, ao mesmo tempo necessário e um imenso esforço teórico e organizado: “A luta operária só
suficiente, como guia através de um tal itinerário. Se os pro- se transformará em luta de classes quando todos os represen-
letários podem agir assim, a partir unicamente da prática, se tantes da vanguarda do conjunto da classe operária do país
basta a prática coletiva para eles afirmarem a sua solidarie- tiverem consciência de formar uma única classe operária e
dade e serem capazes de conduzir conjuntamente ações revo- começarem a agir, não contra este ou aquele patrão, mas
lucionárias, poderiam acreditar, bastaria que confiassem na contra a classe dos capitalistas no seu todo e contra o gover-
espontaneidade que os orienta e os arrebata em nome da si- no que a apoiar”. E Lenin insiste: “Será apenas quando cada
tuação de explorados. operário tiver consciência de ser membro da classe operária
Mas, de fato, tudo quanto o movimento operário con- no seu todo, quando ele considerar que lutando cotidiana-
quistou de proveitoso há um século converge para os pontos mente por reivindicações parciais, contra certo patrão e certo
de vista de Marx e de Lenin: as contestações operárias, redu- funcionário, se bate contra toda a burguesia e todo o gover-
zidas a isto, correm sempre o risco de se fechar no confor- no, será então, e só então, que a sua intervenção se transfor-
mismo, isto é, serão incapazes de atacar os alicerces do mará numa luta de classes”.
regime capitalista, pois sofrem a tentação de se agarrarem a

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O espontaneísmo, o instinto de classe, que apenas se guir-se da massa. Em Baudelot-Establet, existe uma cultura
exprimem e são objetos de desabafo, negam, tornam inútil a como dado efetivo, realidade existente: a cultura proletária.
luta de classes, a qual exige organizações que se constituam, Contudo, afirmaremos que os nossos dois pares de au-
se estruturem, conquistando pouco a pouco a sua unidade de tores estão mais próximos um do outro do que o supõem: por
teoria e de luta. um lado, em Bourdieu-Passeron as diferenças de quantidade
O proletariado não é um dado, uma totalidade, não pos- e de distância, chegam a transformar-se em diferença de qua-
sui esta ou aquela qualidade de forma imediata e definitiva, lidade. Por outro, e acima de tudo, esta cultura proletária,
como uma propriedade; transforma-se no que é pela ação do esta ideologia proletária, não nos parece que consiga ter o
partido da classe operária e dos sindicatos. As condições de tipo de existência que lhe atribuem Baudelot-Establet.
uma existência explorada porcerto o incitam à solidariedade;
porém, esta se arrisca a ficar estagnada em pequenos círcu- Baudelot-Establet souberam demonstrar que existe uma
los, em clãs, até em meros grupos de recreio, se não evoluir verdadeira ideologia proletária, mas, ao mesmo tempo, en-
até à luta unida, sob o impulso teórico e prático da vanguarda tendemos que eles mascararam, desfiguraram essa verdade,
que a própria classe operária soube extrair de si. admitindo três postulados que nós recusamos.
O primeiro consiste em apresentar a ideologia domi-
Para Baudelot-Establet há, de um lado, uma ideologia nante, e em particular a cultura incutida na escola, como uni-
burguesa, que não passa de burguesa e mistificadora; do ou- camente opressiva e mentirosa; não passaria de cultura de
tro, uma ideologia proletária e específica, colocada ao mes- classe. De nenhuma forma permite que o operário se apro-
mo nível de uma coerência comparável. Defrontam-se dois xime da verdade, da verdade de que precisa como arma. A
poderes adversos e do mesmo nível. escola, unicamente feudo da burguesia, é negar ao mesmo
Eles mesmos se situam em relação a Bourdieu- tempo qualquer relação do que é ensinado comoreal e toda a
Passeron: para estes últimos, a escola transmite “a mesma presença das forças progressistas dentro da escola — esfor-
cultura, mas segundo um código mais ou menos decifrável ços constantes para que a escola não tombe completamente a
para os diferentes receptores em função da sua origem soci- serviço da classe dominante — e os poucos resultados já
al”; distâncias diferentes e, portanto, oportunidades de êxito obtidos; são, contudo, as garantias indispensáveis de que,
diferentes, separam os estudantes da mesmacultura enraiza- num sentido, umaluta revolucionária é viável. A escola capi-
da. Ao passo que Baudelot-Establet colocam em primeiro talista na França é uma escola integralmente, unicamente
plano a oposição entre ideologia dominante e ideologia do- capitalista, que só tem como função repudiar o seu adversá-
minada; da mesma forma centram a sua análise da escola na rio. De fato, e pensem eles o que quiserem, não há luta de
oposição entre os dois modos de inculcação da ideologia classes na escola de Baudelot-Establet, porque as forças pro-
burguesa, segundo ele visar o PPouo SS. gressistas não dispõem aí de nenhum ponto de apoio a quese
A divergência pode parecer importante: em Bourdieu- agarrar, uma vez que toda a escolaridade é apresentada como
Passeron, a cultura nos é revelada como irreal, conjunto de mistificação burguesa.
convenções fictícias pelas quais a burguesia tende a distin-

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O segundo postulado é o de que a ideologia proletária apenas porque garantem a perpetuação do poder da classe
está posta como uma espécie de dado imediato, já completo; dominante, porque garantem... Agir como se as diferentes
não precisa lutar para conquistar a si mesma e se constituir, culturas das diferentes classes sociais pudessem ser postas
trata-se simplesmente de se defender contra as usurpações da em pé de igualdade é fechar os olhos às desvantagens e às
ideologia dominante; as suas forças são reprimidas, recalca- dificuldades que marcam o proletariado e os seus filhos; é
das, pela ideologia dominante; o proletário e os seus filhos negar a exploração e as suas consegiiências; é uma vez mais
teriam simplesmente de se proteger da ameaça de as classes negare tornar inútil a luta de classes. Enquanto o proletaria-
dominantes não permitirem que exprimam o que são — e O do for classe explorada, não poderá criar uma cultura compa-
que já é em si inteiramente válido. rável à da classe dominante. A revolução se tornaria
Por isso nos permitimos afirmar que, para Baudelot- completamente supérflua se, na nossa sociedade, os filhos
Establet, a luta de classes desaparece, torna-se inútil: a ideo- das classes exploradas alcançassem no plano cultural uma
logia proletária não resulta mais de um combate do que a expansão da mesma amplitude da dos favorecidos. É tornar
prática proletária; as condições de vida do proletariado bas- inútil a luta de classes — e desfigurá-la: a luta de classes na
tam para a provocar e, por assim dizer, para a segregar. À escola deixaria de ser um dos setores, uma das projeções
escola não tem de lutar para auxiliar a classe operária a con- neste plano particular da luta de conjunto da classe operária;
quistar a cultura; tudo que dela se espera é que se abstenha, a luta de classes na escola concentraria a totalidade da luta de
que deixe de transbordar mistificações burguesas; bastaria classes, a escola seria o alvo principal, a instância essencial
acabar com a escola e então desabrocharia uma cultura vinda de não-libertação, pois fabricaria, e quase artificialmente,
diretamente da prática proletária e que nunca mais seria su- inferioridades para uns para garantir o reinado dos outros.
focada pelas contribuições burguesas. Espontaneidade que, Não há matemática proletária diferente da matemática
mais cedo ou mais tarde, se juntará a Illich. E após a revolu- burguesa porque foi a ideologia dominante, aproveitando-se
ção, a salvação virá, e ao que parece, da fábrica como local das condições conquistadas, que conseguiu, neste domínio,
de formação, de um modo que pouco conservará do que ca- toda a verdade de que a nossa época é capaz. Tampouco
racterizava a escola. existe um Victor Hugo saído do proletariado nem um Marx
O terceiro postulado — talvez lhe devêssemos ter cha- proletário, porque a doutrina socialista nasceu das teorias
mado o primeiro, pois é ele que suporta todo o edifício — filosóficas, históricas e econômicas elaboradas pelos repre-
considera a cultura proletária possuidora da mesma consis- sentantes instruídos das classes possidentes. Parece-nos de
tência, do mesmo grau de existência que a cultura burguesa; extrema clareza esta passagem de Rosa Luxemburgo: “A
e se a escola escolheu a cultura burguesa, foi por motivos classe operária tem toda sede de saber, de um saber em que o
unicamente políticos. imediatamente utilizável não se opõe à perspectiva teórica
Pensamos que, pelo contrário, na nossa sociedade não global; será ela a renovar a cultura da sociedade”.
existe uma pluralidade de normas culturais diferentes, mas Mas, mesmo na sua marcha em frente, ela não podecri-
sim iguais, do mesmo valor; a escola poderia propor outras e ar sem falhas uma cultura intelectual e isso enguanto se
se escolheu estes modelos, modelos burgueses, teria sido mantiver no âmbito de uma sociedade burguesa. A sua luta

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cultural é dupla: a burguesia abandona as próprias conquistas Sendo assim, a ideologia dominada tem necessidade,
culturais, tornadas perigosas na época da sua decadência; é a ao mesmo tempo, de desconfiar da cultura dominante, de
classe operária que vai proteger a cultura da burguesia contra revelar as suas mistificações, e ainda de se apoiar nos seus
o vandalismo da reação burguesa. E, simultaneamente, “for- conhecimentos, de utilizar alguns dos seus métodos e até
jar as armas intelectuais necessárias à sua emancipação... parte dos seus resultados. Pensamos que a ideologia domi-
criar as condições sociais necessárias... ao livre desenvolvi- nante contém, ao mesmo tempo, mistificações e facetas de
mento da cultura” — e estes próprios termos dão bem a en- realidade, no setor científico e técnico e igualmente como
tender que o proletariado não é detentor de uma cultura, mas produção artística, filosófica, literária; que a ideologia domi-
que incita a... nada não deixa de ter, paralelamente, a sua existência mas,
devido às condições de exploração em que vive e luta a clas-
Na verdade, a ideologia proletária tem uma existência, se operária, não consegue um mesmo tipo, um mesmo grau
mas de um modo essencialmente diferente da ideologia do- de elaboração; o real e o mistificante apontam um ao outro
minante, e isto porque os explorados não podem levar o — e eis porque é necessária a luta para pesar, vergar, resistir,
mesmo tipo de vida dos privilegiados. Nizan soube dizer opor-se; e por isso mesmo a luta se tona possível, pois já
bem, em 1930: “Não é exato que o povo venha de mãos va- dispõe de pontos de apoio.
zias, a sua cultura abrange a vontade da revolução, a lem- Poristo confirmamos que somos fiéis a Lenin e damos
brança da opressão, o próprio repúdio e a crítica dos valores a devida interpretação a esta citação do próprio Lenin a que
dos seus mestres”. A ideologia dominada é real, mas como Os nossos autores recorrem em seu livro: “Cada cultura na-
um grito de protesto — a partir do qual se passa a construir; cional comporta elementos, mesmo em embrião, de uma
ela é força combativa, apelo, intuição das linhas diretivas de cultura aristocrática e socialista, pois existe em cada nação
uma luta; de uma luta que é preciso estruturar o que só se uma massa laboriosa e explorada cujas condições de vida
conseguirá com o apoio da cultura estabelecida — e um es- criam, forçosamente, uma ideologia democrática e socialista.
forço para a pôr de pé; quer dizer que ela não é de forma Mas, em cada nação, existe igualmente uma cultura burguesa
alguma comparável com a cultura instalada pela classe do- e que é também, na maiorparte do tempo, ultra-reacionária e
minante, porque mal a separem da luta e a queiram avaliar clerical, não apenas num estado elementar, mas sob a forma
pelas obras, pelas realizações já concluídas, equivalentes às de cultura dominante; (não aceitamos) a posição da burgue-
dos outros, traem-na. sia que tem todo o interesse em propagar a fé numa cultura
France Vernier explica-o perfeitamente: enquanto a nacional sem classes... aproveitamos de cada cultura nacio-
classe operária for a classe dominada, os elementos culturais nal unicamente os seus elementos democráticos e socialistas,
que lhe são inerentes não podem “manifestar-se positivamen- em contraste com a cultura burguesa, com o nacionalismo
te” sob a forma de uma“estética antagonista constituída”, mas burguês de cada nação”.
sim como “distorção significante das normas em vigor”, uma Os nossos autores fazem o seguinte comentário: “Para
certa maneira de agir contra, uma força para agircontra... Lenin, a cultura em vigor sob a forma de produção capitalista
é uma cultura de classe, uma cultura burguesa. A tomada do

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poder pelo proletariado não consiste no mero retomar da NI — A escola não é necessariamente inútil
cultura existente, mas numa transformação radical, destinada
a elaborar uma nova cultura, a cultura proletária”. Daí em diante a escola volta a ter um papel, sem nada
Na realidade, todo o esforço de Lenin se concentra na de comum com o indicado por Baudelot-Establet: levar as
recusa do dilema em que o Proletkult o pretendia encerrar: crianças da classe operária a assimilar a cultura dominante,
ou optar pela continuação da cultura burguesa ou fundar uma ou a desmistificá-la. A escola reencontra um papel, e mesmo
cultura radicalmente diferente. O seu objetivo é o prosse- que seja a escola capitalista, na medida em que as forças
guimento crítico e revolucionário da cultura existente. É isso progressistas nela se introduzam, e ajam ativamente — e a
que a citação anterior já significava e que será de novo pro- história recorda facilmente que as classes dirigentes não pa-
clamado num discurso famoso: “É preciso saber distinguir o raram de se lamentar da intromissão destas forças progressis-
que tinha de mau a antiga escola e o que nela havia de útil tas na educação dos filhos dos operários. Teriam elas se
para nós, e é preciso saber extrair-lhe o que é indispensável comprazido tanto tempo forjando um inimigo imaginário?
ao comunismo... é apenas o perfeito conhecimento da cultura Devendo a cultura proletária ser considerada muito
criada durante a evolução da humanidadee a sua transforma- mais um fermento do que um conhecimento, a luta de classes
ção que permitirão criar uma cultura proletária... a cultura torna-se possível e necessária no seio da escola; ao passo que
proletária deve ser o desenvolvimento lógico do somatório Baudelot-Establet visam montar uma máquina de guerra
de conhecimentos que a humanidade acumulousob o jugo da contra a escola, e a escola quase se torna inútil se o objetivo
sociedade capitalista”! residir em salvaguardar na sua pureza uma ideologia que só
Para Baudelot-Establet, ao contrário, a cultura burgue- pretende alimentar a si própria. Na realidade, a luta de clas-
sa, que se obstina a recalcara cultura proletária, parece pri- ses na escola, é o combate prolongado, duro, organizado,
vada de qualquer realidade. Só nela encontram discursos uma lenta ascensão preparando a explosão revolucionária,
considerados perfeitos e profundos de umaelite que se ali- pela qual as crianças proletárias desviam os conhecimentos
mentava de ilusões para fortalecer a sua consciência de clas- culturais do sentido que a burguesia dá a eles; o que só é
se e consolidar o seu domínio. O que confirma que os nossos realizável pela união de grande número de alunos, de docen-
dois autores não estão tão longe comoeles imaginavam, co- tes, de pais e também pela revelação do que já existe de ver-
mo eles esperavam, de Bourdieu-Passeron: para estes, a vida dade na escola.
cultural burguesa na base de mundanidade e de repercussão Não se trata de se satisfazer com resultados já obtidos,
política; para aqueles, o vazio cultural burguês de base dire- ainda menos de imaginar que basta reforçá-los pouco a pou-
tamente política — e os burgueses procuram aí menoso pra- co; são, de fato, lutas decisivas que devem ser conduzidas —
zer de se encontrar no seu meio do que a possibilidade de e que seriam, todavia, impossíveis, se não continuassem lu-
calar o proletariado. tas já existentes. Para evitar que os filhos do proletariado
enfrentem disciplinas que para eles seriam insuportáveis,
temos de lutar no sentido de que não sejam empurrados para
I Lenin,
. no /// Congrês
, ro. ,
de [Union de la Jeunesse Communiste.

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os ciclos de impasse das escolas capitalistas. O que não auto- propaganda burguesa não desiste de perseguir as crianças,
riza a eliminar todo o mundo do ensino. mesmo, e principalmente, quando elas abandonam os bancos
da escola.
As consegiiências desta discussão são essenciais em re-
lação ao jovem proletário escolarizado. Para Baudelot- Se examinarmos mais de perto os exemplos citados por
Establet qualquer alarido, qualquer contestação na escola, Baudelot-Establet, chegaremos a conclusões bem diferentes.
desde que desencadeados pelo PP, ou mesmo pelo SS, por Dizem que os alunos do CET rejeitam o ensino geral porque
parte dos filhos de operários, assumem imediatamente a dig- eles só selecionam os aspectos que mais tarde lhes serão
nidade de ações de classe, testemunhos da política proletária. úteis e dão assim provas da sua maturidade rejeitando planos
Isto só pode justificar-se em virtude dos pressupostos que tanto enganadores quanto inúteis.
acabamos de examinar: ideologia burguesa e ideologia do- Muito daquilo que Baudelot-Establet afirmam é exato,
minada como dois blocos equivalentes e monoliticamente mas eles falseiam a própria autenticidade dos seus propósitos
antagônicos; assim, a cada vez que os alunos se opuserem a negando-se a situá-la no contexto geral. Não se trata de
um deles, ficará provado que optaram pelo outro, que deram acalmar, de suavizar, mas ao contrário, de adaptar as suas
primazia ao outro. É o instinto de classe no seu estado puro, descobertas válidas a perspectiva que tornem a luta válida.
perfeito logo à primeira vista; não há necessidade de ser nem Para nós, naquilo que ensina a escola, a escola da burguesia,
limado, nem ordenado; o único risco que corre é o de ser há uma mistura de conhecimentos reais, de falsidades e de
corrompido pela ideologia burguesa inculcada. logros — ao mesmo tempo devido ao que é omitido, repri-
Os alunos proletários fazem-me pensar no Vigário Sa- mido e, como demonstraram os nossos autores, pelos aspec-
boiano de Rousseau, bastando que fiquem no apelo que brota tos tão frequentemente irreais do universo evocado. A
da sua consciência, que chamaremos aqui consciência de literatura e a história são os meios de melhorinterpretar, de
classe: “Imortal e celeste voz... guia seguro... juiz infalível melhor combater, apesar de, ao mesmo tempo, os autores
do bem e do mal” — por exemplo quando ela lhes sugere responsáveis pelos programas serem aqueles que pregam a
que protestem ruidosamente contra o que não lhes interessa; resignação ou o regresso a um passado idílico, apesar de a
e ei-los certos de cumprir assim uma boa ação proletária. história ensinada favoreceras interpretações conservadoras e
Desse modo se compreenderá a admiração incontestável que chauvinistas, apesar de o sistema servir-se deste ensino geral
votam os nossos autores a todas as formas não-escolares e para eliminar a crianças de origem popular.
extra-escolares da vida dos alunos proletários, seja lá onde Rejeitar estes conhecimentos, rotular de ideologia bur-
for desde que se sintam no seu meio, unicamente no seu guesa todo o domínio escolar do literário, do científico e do
meio: visto que escapam dos ensinamentos da burguesia, é técnico, é para o proletário, enfraquecer-se perigosamente.
evidente que estão em contato direto com a verdade. Admitir, engolir tudo quanto lhe propõem, é trair a si pró-
Tentação não-diretivista que vai a ponto de desconhe- prio. Trata-se, pois, de operar uma revisão crítica, uma reva-
cer os meios indiretos e vagos — da publicidade, dos jornais, lidação crítica da escola.
das histórias em quadrinhos e da televisão — pelos quais a

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Nacitada revisão, os alunos, e especialmente os vindos realizar algo na escola, abandona-se esse campo de luta que é
do proletariado, têm papel decisivo a desempenhar. Baude- a escola.
lot-Establet conseguiram mostrar a existência de uma relação O combate na escola não se trava entre o instinto de
entre a recusa de tais matérias, de tais formas de disciplina e classe que irromperá armado até aos dentes, da vida dos alu-
as posições de classe das crianças proletárias — e não é pos- nos vindos do povo — e todo o resto, em que professores e
sível, depois de tê-los lido,atribuir muito simplesmente estas matérias ensinadas seriam equivalentemente qualificados de
revoltas à preguiça ou à pobreza de espírito. burgueses. O combate implica um duplo movimento: de um
Mas a oposição àquilo que o ensino apresenta de misti- lado, o esforço dos professores progressistas a fim de tornar
ficação é, paralelamente, um apelo a um ensino mais autênti- convincentes, visíveis, a utilidade e a realidade do que ensi-
co, só tem sentido revolucionário como apelo a um ensino nam; o questionar, portanto, dessa realidade e dessa utilidade
mais verdadeiro. Por isso os alunos são levados a elaborar a e, afinal, um empenho tão profundo quanto possível em pe-
sua recusa, sob pena de cair num desdém indiferenciado por netrar a realidade e a utilidade do que eles ensinam. Eles são,
tudo quanto seja cultural. desde já, suficientemente numerosos e poderosos para avan-
Por conseguinte, parece-nos insensato supor que eles çar com tais tentativas. Baudelot-Establet terão ensinado que
consigam só por si, pelas suas próprias forças, proceder a eles só o conseguem com o apoio do que constitui o instinto
essa revisão, fiando-se a cada instante na sua opinião, na sua de classe dos alunos proletários. Por outro lado, os alunos
opção. Contudo, é o que admitem os nossos autores ao acei- têm de apurar o seu sentido do útil e do real; o que exige
tar, sem examinar, os seus protestos, as suas posições e as confrontação com as obras elaboradas, portanto, de difícil
suas oposições tal como eles as vivem dia a dia. É indispen- acesso; e é então que os professores são necessários para
sável aos alunos o apoio de umateoria e de uma organização esclarecer e apoiar essa aproximação.
capazes de os esclarecer acerca dos seus próprios sentimen- Uns e outros têm de se apoiar, em conjunto, na própria
tos e de levá-los atingir o sentido das suas respostas. Preci- classe operária, nas suas teorias e nos seus reagrupamentos
sam de uma aliança com os professores progressistas, com os — as intervenções e as retransmissões serão asseguradas por
aspectos progressistas da escola. organizações sindicais de professores, bem como por organi-
É utópico pensar que a escola capitalista apresentará, e zações de pais e de alunos. Nem uma aceitação admirativa
sobretudo aos alunos do CET, umaliteratura e uma história perante a espontaneidade dos alunos, nem uma escola que
purificadas das mistificações burguesas: mas não está certo considere como insignificantes as respostas, as reações dos
negar tudo que há de real nessa literatura e nessa história, alunos e queira orientá-los não tendo em conta as suas rea-
tudo que se pode, mesmo hoje, extrair-lhes de real e que é ções, ou seja, contrariando-as; particularmente neste caso,
indispensável para que eles consigam conduzir a sua luta; pretendo ignorar o que os alunos do povo esperam do ensino,
não é menos falso considerar que os conhecimentos no seu como exigem que ele tome parte nas suas preocupações e
conjunto se colocam, de forma indistinta e análoga,a serviço nos seus projetos, como se sentem predispostos a revoltar-se
da classe dominante. E não se pode, então, escapar ao derro- contra o que lhes pareça ofender os seus direitos.
tismo: aguardando a revolução, renuncia-se à esperança de

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O que se acaba de dizertanto vale para as práticas pe- SEGUNDO TEMA:


dagógicas como para as matérias do ensino. Baudelot- Questões de linguagem
Establet têm razão em afirmar que os atos de vandalismo e
de destruição, nas classes de transição, constituem uma res- A linguagem vai servir-nos, ao mesmo tempo, de exem-
posta direta e selvagem ao desprezo de que elas são objeto e plo particular na discussão sobre as ideologias e de transição
não se esquecerá que elas incluem as crianças de origem para o nosso último capítulo.
proletária. Os alunos, portanto, recusam formas disciplinares Retomando sobre este tema o que afirmam nas suas in-
que os infantilizam e, principalmente, que os repelem. Os terpretações genéricas, Baudelot-Establet explicam muito
autores têm razão em denunciar uma segregação destas clas- claramente aquilo que os mantém afastados de Bourdieu-
ses, que já é nítida nos locais que lhes estão atribuídos, nos Passeron: para estes últimos, “as línguas faladas nas diferen-
gêneros desses locais. tes classes sociais afastam-se da norma lingiiística imposta
Esta resistência é fundamentada, e ao mesmo tempo pela escola”. Baudelot-Establet sustentam que existe uma
constitui uma força sobre a qual qualquer ação pedagógica verdadeira oposição entre o discurso falado na classe operá-
progressista terá de se apoiar. O que não significa que se ria e o francês imposto pela escola.
deve sacralizá-la tal como é, em cada uma das suas manifes-
tações. Todas as organizações progressistas têm de procurar, I — As duas linguagens
em comum com os alunos, que modalidades de disciplina servem uma recíproca incompreensão
podem ser aqui formadoras — e lutar para as impor.
Em dados momentos, Baudelot-Establet são, todavia, Estamos mais uma vez perante dois blocos equivalen-
levados a aceitar que os filhos do proletariado não estão li- tes, contrários um ao outro e, portanto, impermeáveis entre
vres de riscos e de erros: “Seja a adesão à ideologia pequeno- si. De um lado o francês escolar, o bom francês. Do outro, a
burguesa, seja, o que é mais grave ainda, uma resistência linguagem das classes populares. Oposição total: a língua
generalizada a qualquer ideologia. Por pouco reconheceriam escolar e as suas normas nada têm a ver com as da língua
eles a existência de oposições à escolaridade que não possu- realmente falada pelas classes exploradas. Entre estas duas
em o mínimo valor revolucionário: não é com uma lingua- práticas lingiúísticas, a única relação existente é a de contra-
gem indecente ou escatológica, nem com alarido, que o dição; a fala da criança proletária difere radicalmente, tanto
proletariado acabará com a burguesia”. pela estrutura como pelo significado, do discurso escolar.
Mas que partido tiram os autores destas observações O contraste não provém do fato de o discurso escolar
tão pertinentes? Julgamos não terem ainda dado ensejo a ser mais complexo, mais requintado do que o das classes
consegiiências — nem poderia ser de outro modo numa at- populares. Bem longe de corresponder a uma maior penetra-
mosfera de espontaneísmo, inconciliável com uma aliança ção, o bom francês não passa de uma língua artificial, con-
metódica e premeditada que reagrupa as forças progressistas vencional. É diferente, porque é o veículo de uma outra
dentro e fora da escola. ideologia, da outra ideologia.

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Em compensação, não é permitido incluir no léxico es- imposto pela escola é um subproduto construído em benefí-
colar termos que permitiriam ao filho de um operário com- cio de causa”. Invoca-se o testemunho de todos os casos em
preender e descrever as condições materiais de existência da que ele não está de acordo com o francês efetivamente falado
sua família. Assim a linguagem da escola impõe, com o uso na burguesia.
do francês correto, a expressão das aspirações em conformi-
dade com as exigências da classe dominante; ou dizendo o Daí o papel da escola, a mistificação fundamental da
mesmo inversamente, ela recalca, privando-as dos processos escola: ela é o local preparado pela burguesia para que o
de elocução e de redação autorizados, a expressão das condi- francês escolar e tudo que ele acarreta consiga impor-se re-
ções reais de existência das classes exploradas, e, por conse- duzindo o outro ao silêncio; a escola tem por função vedar a
qiiência, as reivindicações daí emergentes. expressão direta, em relação às crianças do povo, do seu
Esta opacidade total entre as duas línguas precipita no mundo e da sua vida. É em redor desta repressão que se or-
insucesso escolar as crianças de origem popular; o discurso ganizam todas as práticas pedagógicas da escola primária,
escolar não faz sentido para elas, não se reconhecem nele; e, nela a disciplina e a aprendizagem formam um todo.
gradualmente, será todo o universo escolar que lhes parecerá Modalidades desta repressão: a escola põe o ferrete da
estranho. Desta maneira, como conseguiriam elas utilizar interdição na expressão falada espontânea, nega-lhe todo o
com prazer (em toda a acepção do termo) uma linguagem valor, penaliza-a. Isto significa que se corta sistematicamente
que não é a sua, como chegariam a mover-se à vontade num a palavra a quem a quiser tomar sem se conformar com as
universo que não se comunica com o delas? A adaptação é leis do texto escrito. Pelo que, a escola acentua o imobilismo
impossível. destas crianças criando-lhes um sentimento de culpa: se elas
Alguns mantêm — e pensamos em Bourdieu-Passeron erram, a culpa é delas ou da família. E também uma culpa
— que para as crianças da burguesia, o discurso escolar, o deturpada: a repressão por parte da escola da linguagem es-
bom francês, se situa na continuidade direta dos discursos pontânea e, simultaneamente, da espontaneidade da vida,
proferidos e ouvidos no meio familiar de origem, elas não se forçam as crianças a recalcarem os seus problemas, a vive-
sentem deslocadas, ao passo que as crianças vindas do povo rem-nos como dificuldades familiares, isto é, como um com-
não se beneficiam de igual conforto. Tal interpretação parece plexo de inferioridade. Em suma, a escola da burguesia
radicalmente insuficiente a Baudelot-Establet, pois deixaria organiza, a partir de uma linguagem que só foi criada para
supor que essa feliz harmonia entre a linguagem e determi- esse fim, uma barreira social: trata-se de domesticar e de
nada categoria de crianças se estabelece porsi, pela força das eliminar o mais rapidamente possível as crianças das classes
circunstâncias, a partir da constituição e do funcionamento populares. E afirmar que a responsabilidade da escola é total:
peculiares à linguagem culta. Na realidade, eles querem di- foi ela que escolheu, minuciosamente afinado, o instrumento
zer-nos que este francês escolar foi montado, inteiramente de expressão (ou de silêncio) mais adequado para desorientar
manipulado, na intenção sempre escondida, mas sempre pre- os filhos da classe proletária.
sente, de ser diferente da linguagem popular e de excluir,
dessa forma, os emissários da linguagem popular: “O francês

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WH — Os que viram a cara quando ano”. As idéias da Antiguidade são apresentadas como “sem
um popular abre a boca relação aparente com o atual, o instável, o controverso” — o
que será elevado à categoria de serenidade, pretendendo-se
Devemoscreditar a Baudelot-Establet a importância de ver nisso oportunidade para uma cura de modéstia. E o mí-
terem mostrado que o tipo de linguagem utilizada e o seu nimo que se poderá afirmar é que essa modéstia não combina
emprego, quer nos textos escritos, quer no diálogo escolar, bem com o espírito reivindicativo.
definem com a maior profundidade o papel da escola e a sua Eis uma pedagogia da qual não se ignora que afastará e
fisionomia. E, principalmente, devemos creditar a eles essa impedirá o avanço das crianças do povo com muito mais
valorização da linguagem popular. Talvez um bom meio de severidade do que as outras, pois elas estão ligadas ao pre-
lhe medir o alcance seja considerá-la no seu contraste com o sente, que representa a seus olhos a família, a luta indispen-
desprezo com que os professores mais reacionários desapro- sável para se manterem à superfície. E é precisamente esta
vam o que dizem os alunos e acima de todos, os alunos das pedagogia que vai levar a cabo a distinção, a oposição, entre
classes exploradas. as duas linguagens, a escolar e a espontânea, a ponto de uma
Por exemplo, Raymond Picard explica-nos que o delas passar a ser o latim. Ao mesmo tempo é uma pedago-
professor não deve perder o seu tempo “ouvindo a tagarelice gia, em si, conservadora, visto esforçar-se por manter os alu-
das crianças que tantas vezes praticam nas aulas o francês nos no recinto fechado de uma escola fechada sobre si, no
incorreto e pobre que escutam em casa... os alunos da escola artifício de um universo diferente do mundo cotidiano, con-
primária tudo ignoram (da língua francesa) até o mais trastando ponto a ponto com o mundo cotidiano. Este exem-
rudimentar”. plo extremo revela a enorme importância da valorização, por
Se todos os alunos parecem assim visados, é, contudo, Baudelot-Establet, da linguagem popular — que constitui
evidente, que os que ouvem em casa um francês incorreto e evidentemente um todo único com a valorização da existên-
pobre estão do mesmo lado da escala social. A linguagem é, cia popular.
seguramente, o fator da rejeição daquilo que os alunos ex- Enfim, afirmamos existir um risco constante da escola
primem, produzem; rejeição, finalmente, do que eles são — organizar uma repressão propriamente política dando lugar
e para as crianças proletárias isso é o mais brutal. essencial a certos requintes de vocabulário, a sutilezas de
É essencial sublinhar aqui que essa recusa em se levar frases intermináveis e afetadas; considerando escandaloso
em consideração a linguagem e, portanto, a experiência dos que as crianças falem e escrevam como se fala nas suas ca-
alunos, está diretamente ligada à vontade de escolher como sas, confundindo geralmente o francês e a ortografia, o fran-
modelos educativos autores e temas sem relação com a vida cês e o bom francês, sem querer levar em consideração o que
dos alunos, que se caracterizam precisamente pela circuns- se introduz de vivacidade, de realidade, nos ditos proferidos
tância de não oferecerem qualquer relação com a vida dos por certas crianças — ainda que isso implicasse algumas
alunos: quando um Léon Bérard enaltece os estudos gregos e incorreções. É bem evidente que a interdição de tais temas,
latinos é porque a familiaridade com os antigos “afasta os de tais termos, os silêncios impostos, os disfarces sugeridos,
jovens cérebros das preocupações e das discussões do cotidi- estão longe de serem distribuídos ao acaso ou por mera im-

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perícia: o seu resultado consiste em desarmar as crianças da os dois, haja intermediários que estabeleçam uma continui-
classe operária e tornar-lhes mais difícil uma tomada de dade — e o papel da escola consiste, precisamente, em asse-
consciência autêntica. gurar esta continuidade que levará a criança da sua
linguagem e experiência habitual até à leitura, digamos do
E, contudo, não aceitamos o conjunto destas análises Manifesto; e nesse longo itinerário, talvez alguns passem por
que assenta em dois postulados, transposição dos postulados Maurice Genevoix — sem aí se deterem definitivamente.
genéricos que havíamos criticado anteriormente, visto que a Para Baudelot-Establet, a luta de classes acaba por se con-
linguagem constitui um caso particular. fundir com o tema banal do absurdo na incomunicabilidade.
O primeiro postulado, que sintetiza de certo modo o Quem diz luta, diz possibilidade de avanço e, natural-
primeiro e daqui a pouco o segundo, é que as duas lingua- mente, também de derrota. Neste sentido, nos permitiremos
gens constituiriam dois blocos incomunicáveis: o francês da afirmar que não se luta no universo de Baudelot-Establet,
escola permite ler Maurice Genevoix mas não um boletim pois toda a sua argumentação tende a apresentar como impos-
sindical. Pode-se replicar que isso não passa de exagero retó- sível — e, sobretudo, como inútil — qualquer esforço para
rico; de fato, muito mais está em jogo: as duas linguagens introduzir mais realidade no artificial, o voluntário e bur-
formam dois todos separados, porque as duas classes consti- guesmente artificial da linguagem escolar e, portanto, dos
tuem dois adversários sociais — e pretende-se concluir daí conteúdos que ela veicula. Até à revolução, nenhuma ação
que todas as suas características são heterogêneas ou, mais poderia ser conduzida na escola. Voltamos a encontrar o nos-
exatamente, opostas termo a termo. Esta transposição mecà- so tema fundamental, mas aqui num domínio um tanto mais
nica da luta de classes para todos os comportamentos de cada preciso e que nos permite abrangê-lo melhor: o que é um risco
classe está muito longe de convencer. Visto a relação entre da escola contra o qual se pode lutar, contra o qual alguns já
as duas classes ser de exploração, quer concluir-se que a re- lutam — e essa luta só se torna real participando no conjunto
lação entre as duas linguagens só pode ser de repressão. da luta de classes — transformando em algo de irrevogável
A luta de classes parece ter sido introduzida no coração que esmaga e condena globalmente o mundo escolar.
da escola; na realidade, entendemos que os nossos autores a
alojaram assim. Não é exato que a luta de classes se jogue, O segundo postulado consiste na não-existência de su-
ouantes, não é umaluta de classes que está em jogo, entre os perioridade da linguagem escolar, da linguagem burguesa
que utilizam a bela linguagem e os outros; para o admitir é sobre a linguagem espontânea das crianças do povo. Esta
necessário, uma vez mais, tirar de jogo as classes médias e afirmação pode explicar-se como reação contra a boa consci-
os alunos do M2, e é, sobretudo, preciso derrubar todos os ência ingênua dos que supõem poder desprezar toda frase
escritores que alinham com a classe dominante, proibindo desprovida de elegância, de brilho — e, ao mesmo tempo,
qualquer distinção entre Victor Hugo, Aragon e Maurras quem a pronuncia. Vê-se, contudo, surgir a ameaça desta
porque todosos três falam bem. Inversamente, é concluir que solução oportunista; não é mais cômodo declarar que todos
ler Maurice Genevoix não tem a mínima relação com leitu- falam bem, bem de acordo com as suas próprias normas,
ra de um boletim sindical; nem sequer se admite que, entre com os seus próprios hábitos, do que colaborar nummelhor

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domínio da língua? E quem são os que mais urgentemente sua palavra de clichês imprecisos e o seu pensamento do
carecem desse auxílio? visgo das primeiras aparências.
E, acima de tudo, sustentaremos que a linguagem esco- A tarefa de uma escola progressista consistirá em
lar-burguesa pode, certamente, satisfazer-se com criações constituir uma linguagem escolar que seja um passo adiante
artificiais, sutilezas vãs, cuja função política é agora muito na linguagem dos alunos, que mantenha contato com a
nítida, mas que também dispõe de recursos, de precisão, de linguagem das crianças do povo, mas permitindo-lhes um
possibilidades de gradação e de sistematização; em suma, avanço em direção à linguagem elaborada. Dez passos
uma superioridade que reflete a situação privilegiada de que separam o estilo, o vocabulário do poema que lhes propõem,
as classes dominantes se apropriaram — graças à exploração do que lhes é próprio e o texto só conseguirá atolar ainda
dos outros. A linguagem popular tem valor — valorde inter- mais as crianças em dificuldades, convencê-las da irrealidade
Jeição, de acusação, de apóstrofe — mas não escapa a defici- da escola e da sua incapacidade para essa escola. Se os
ências, a uma fraqueza, a uma pobreza, que é precisamente a alunos estão prestes a interpretar o poema, ou seja, se no
dos pobres, ou seja, dos explorados. fundo estão prestes a interpretá-lo porque da sua linguagem à
E essa deficiência não foi provocada pela escola, mas deles só vai um passo, e se o professor os ajudar a dá-lo, o
por esse mesmo conjunto de condições de vida e, portanto, escritor os terá auxiliado a sentir e a exprimir-se com mais
de pensamento, que a nossa luta se propõe a abolir. plenitude do que nas primeiras frases que eles próprios
Por conseguinte, a linguagem escolar perde o seu as- haviam esboçado.
pecto abrupto e unilateral na repressão que os nossos autores A ação das forças progressistas apóia-se em bases re-
lhe atribuem; serve, simultaneamente, para iludir a classe ais: a confiança nos filhos dos proletários. O que significa,
operária e constituir um meio de progresso que lhe é indis- neste domínio, reconhecer o sentido da linguagem popular e
pensável. Como toda ideologia burguesa, é uma mistura de atribuir-lhe um papel, o direito primordial e quase o dever de
mistificação e de verdade — e entrelaçamento constante de as crianças do povo utilizarem a sua linguagem e, em parti-
uma na outra. cular, não passar em silêncio as expressões que correspon-
Porisso há, efetivamente, um papel a ser desempenha- dem à situação proletária; é a presença e a pressão da
do por uma escola progressista, uma luta a ser travada, e que linguagem das crianças do povo que deve impedir a lingua-
está, neste ponto especial, a serviço da luta de classes; sepa- gem escolar de se constituir em código hermético, de cair em
rar por um esforço cotidiano, na linguagem escolare na sua requintes fictícios; acabaria por assustar todos que não estão
utilização, o que represente uma armadilha que manterá pri- preparados para manejar semelhante linguagem preciosa. A
sioneira a tomada de consciência (os exemplos citados por repressão está sempre presente numa sociedade dividida em
Baudelot-Establet são, a este respeito, convincentes), em que classes — e também a linguagem serve à repressão.
certa categoria de crianças continuará prisioneira, e sempre À outra base da ação progressista, o complemento dia-
do mesmo lado — e os termos, as expressões, as constru- lético da primeira, é o valor da linguagem culta — e a escola
ções, que auxiliarão essas mesmas crianças a libertarem a é o local em que a linguagem popular se apura pela impreg-
nação da linguagem culta. É para ultrapassar a sua lingua-

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gem que as crianças do povo se servirão dela; aqui como no HI — A contribuição doslingiiistas
conjunto da sua existência, as crianças proletárias, sendo as
que estão pior instaladas na sociedade, são as que melhorse Este duplo aspecto da linguagem popular, o seu valor
situam para denunciar, recusar, e também pressentir a dire- contra os burgueses que querem considerá-la como mero
ção a ser tomada; a sua linguagem merece crédito. Há ainda déficit, e também as desvantagens que lhe cabem, este duplo
um imenso esforço a ser feito para elaborar, clarificar, eluci- aspecto afasta-se pouco a pouco de determinado número de
dar, e nem o termo mais-valia, nem o de germinação, se in- investigações contemporâneas em lingiiística. A linguagem
troduzem porsi no seu discurso. popular encerra um apelo para ser ultrapassada e uma possi-
Ser progressista aqui, é utilizar toda a margem de ma- bilidade para essa ultrapassagem.
nobra que a escola deixar (não é exato que esta margem seja, Sabe-se que, pelo menos numa certa fase dos seus in-
neste momento, insignificante, e de qualquer maneira nós quéritos, Bernstein tendia a encerrar as classes trabalhadoras
lutaremos para a aumentar) a fim de assegurar o vaivém entre num código lingiiístico restrito e a reservaràs classes médias
os dois pólos. Depende da coerência organizada dos professo- e superiores o código elaborado. As classes trabalhadoras
res progressistas, depende, igualmente, da pressão dos alunos não conseguiam ter acesso à expressão de um mundo orde-
de origem popular, portanto, do seu número e da sua força, nado, onde os acontecimentos estão integrados num sistema
que o contato entre as duas linguagens seja um enriquecimen- de relações de um mundo concebido em função de um futuro
to, seja sentido como tal — e não como uma ameaça. e dando ensejo a um projeto a longo prazo. O código restrito
Não desprezar a ortografia, pois é, todavia, um pensa- está condenado a descrever o que é imediato, a constatar o
mento mais claro, o que distingue entre ou e oi; não menos- que é, sem poder nem demonstrá-lo nem tirar conclusões, a
prezar a correção, pois é mesmo assim um pensamento mais anotar estados sem poder encadeá-los num processo.
elástico o que é sensível à eventualidade e que diz para que tu Sob uma forma precisamente muito elaborada, equiva-
sejas e não por que tu és; mas não confundir a ortografia e a lia, de fato, a reconhecer as opiniões burguesas que desvalo-
correção com o interesse e a vivacidade das idéias exprimidas, rizam a existência operária e a sua linguagem, que só retêm
trata-se, enfim, de uma luta simultaneamente pedagógica e os aspectos que podem depreciar a existência operária.
política. Uma escola em que o proletariado não consegue fa- Ora, Lawton retomou as mesmas experiências, não na
zer-se ouvir, exprimir as suas exigências como ele as entende perspectiva de uma constatação do que é dado, mas de uma
e, portanto, antes de tudo, com as palavras que lhe são pró- pedagogia preocupada em criar situações múltiplas e enri-
prias, não conseguirá fazê-lo progredir. Mas, de forma alguma quecedoras. Estabeleceu que as crianças das classes traba-
uma escola que pretendesse negar a superioridade da lingua- lhadoras são totalmente capazes de utilizar o código
gem culta, da linguagem dos escritores e o fato de ela estar à elaborado, com a condição de que o tipo de perguntas postas,
disposição das crianças sob a forma de linguagem escolar; o gênero de exercícios propostose, sobretudo, o contexto das
caso contrário a linguagem das crianças do povo seria consi- provas as convidem a isso. Não há, pois, qualquer ruptura,
derada perfeita — convidando-as a recusar, em bloco, a he- heterogeneidade entre as duas línguas — e, portanto, inferio-
rança cultural e o seu veículo: a linguagem. ridade de uma em relação à outra.

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Contudo, Lawton mostra que as crianças do povo de crianças sejam constrangidas a normas ideais do alto das
início não adotam espontaneamente o código elaborado co- quais seriam avaliadas — sendo a sua linguagem declarada
mo fazem os favorecidos: é indispensável uma incitação por má linguagem. Vale a pena deixar que comecem porseinsta-
parte do pedagogo; depois, e principalmente, experimentam lar ao nível real da sua expressão, sem que lhes seja imposto
uma dificuldade especial: sendo ao mesmo tempo o trabalho um idioma.
destinado a todos e utilizado por todos, as crianças do povo E, contudo, essa linguagem acabaria por travar a
ou devolvem os trabalhos mais abreviadamente ou, se não se transmissão da vivência, o requinte e a explicação da vivên-
resignam a essa brevidade, correm o risco de cair nas peque- cia, pois sente certa dificuldade de abertura às conseqiiências
nas frases de simples constatação, de pura descrição, e desa- lógicas remotas, ao que se distancia em relação ao expressa-
jeitadamente justapostas. mente transmitido pela experiência presente. É, pois, legíti-
Por outras palavras, para manter a qualidade, as crian- mo e necessário que o pedagogo facilite a todos os alunos o
ças das classes trabalhadoras vêem-se forçadas a reduzir a acesso à linguagem elaborada; ele o conseguirá, não devido a
quantidade — e isso tanto mais quanto a questão posta se meros processos retóricos, mas fazendo-os viver situações
afaste da experiência (“Explica como se joga a bola ou o que pedagógicas cada vez mais complexas e ricas (inquéritos,
você faz na escola”) para enveredar pela abstração (“Como discussões) em que eles experimentarão a necessidade de
será a sua vida dentro de dez anos; por que é preciso fre- estruturas cognitivas e de modos de comunicação capazes de
quentar a escola?”). ultrapassar as primeiras impressões.
Semelhante esforço é possível porque a linguagem po-
A linguagem das crianças do povo alcança o código pular possui o seu valor, a sua riqueza específica — e ela não
elaborado, mas para elas o não-verbal, gestos, mímicas e de está separada por um abismo da linguagem dos escritores.
maneira geral, a ação, desempenham um papel muito mais Segundo a feliz expressão de Lawton, trata-se de uma “ex-
importante do que no meio favorecido. E é por isso que a sua tensão” e não de uma “conversão”.
linguagem mantém uma relação privilegiada, mais direta, O estudo efetuado por Laurence Lentin, a propósito de
mais imediata, com o código restrito, isto é, com as condutas uma criança de 3-4 anos, uma dessas crianças rotuladas de
em que o indivíduo é guiado mais pela corrente afetiva, pe- socialmente desfavorecidas, pareceu-nos muito característi-
los desejos, pela satisfação imediata dos desejos, do que pela co. De fato, a autora preocupa-se, sobretudo, com a valoriza-
objetividade do conhecimento. E, sobretudo, as crianças do ção da inteligência e das atitudes deste menino. Tanto para
povo sentem muito mais dificuldade do que as outras em ele como para um adulto: “O indivíduo que não domina fa-
passar de um código para outro. cilmente uma linguagem elaborada não é necessariamente
De onde tiramos uma dupla conclusão: é essencial incapaz de qualquer pensamento abstrato, de qualquer dis-
manter coesão entre esta linguagem e esta experiência, si- cernimento lógico a alto nível”. Verbaliza extremamente
multaneamente a vivacidade da experiência e os seus conte- pouco, e, contudo, exerce “uma atividade mental que ultra-
údos específicos, como, por exemplo, pelo valor de palavras passa os comportamentos sensório-motores”; brinca de ma-
como trabalho, desemprego, ritmos; isto evitará que estas neira coerente, tem excelente memória. Deste modo ela

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sente-se autorizada a recusar a noção de avanço ouatraso (da Últimareflexão acerca destes problemas da linguagem:
linguagem) em relação a uma fase e quer que cada lingua- no conjunto, as crianças oriundas do povo estão mais à
gem seja considerada como sistema que possui as suas pró- vontade nos trabalhos orais do que nos escritos. É, pois,
prias modalidades de funcionamento. Nós respiramos a fundamental, que a escola não conceda à escrita uma pre-
atmosfera de Baudelot-Establet, ou seja, uma espécie de tei- ponderância, até quase uma exclusividade, reservando antes,
mosia em negar que os privilégios de que gozam os social- largo espaço a exposições, a discussões — o que, aliás, con-
mente privilegiados sejam reais. A incapacidade para a duz diretamente a problemas de efetivos por classe: um gru-
linguagem, que é, evidentemente, um dos traços mais mar- po numeroso pode escrever ao mesmo tempo, mas não
cantes das crianças proletárias, diria respeito, simplesmente, podem falar todos ao mesmo tempo —minimizar o tempo
a um setor particular entre outros e não acarretaria conse- concedido à parte oral poderá ser, e é, efetivamente, uma
quências ao desenvolvimento global da personalidade. arma dirigida contra as crianças da classe operária.
Mas, parece-nos que a materialidade dos fatos, tão Isso não impede que a passagem para a linguagem es-
notavelmente observados e entendidos, introduz — sem dú- crita represente um progresso. Afirma muito acertadamente
vida, contra as intenções da autora — uma segunda perspec- Vigotski: “Mesmo o desenvolvimento mínimo da linguagem
tiva: a pobreza da linguagem, devido a um meio social tão escrita requer um alto nível de abstração: a criança deve Ji-
explorado e aos hábitos de vida que lhe são impostos, acaba- bertar-se dos aspectos sensoriais da palavra e substituir as
rá, igualmente, por constituir um obstáculo; e não é só na próprias palavras pela sua imagem”.
escola que a criança corre o risco de esbarrarnele. Martinet analisa com sutileza a diferença entre as duas
Daí a justaposição, não diremos contraditória, mas de situações: na oral, podem-se utilizar rodeios elípticos, alusi-
forma divergente, de dois tipos de enunciados: uns do gêne- vos, por exemplo a utilização de certos pronomes sem ser
ro: “O desenvolvimento da linguagem da criança reflete o necessário precisá-los; intervêm gestos e entonações, e, por
meio sócio-cultural em que ela cresce; não se trata de uma outro lado, confia-se numa situação global onde quem fala
diferença de inteligência”; outros, do tipo: “Dada a natureza vive de acordo com os seus interlocutores.
dialética das relações que unem o desenvolvimento da lin- Quando se recorre à linguagem escrita, não se pode
guagem e o desenvolvimento do pensamento pode recear-se prever em que condições se encontrará o destinatário no
quanto à evolução dessa criança as maiores dificuldades no momento em que tiver de decifrar a mensagem; já não se
plano cognitivo”. pode aludir a uma realidade comum; ela terá de ser reconsti-
Não propomos nenhuma solução milagrosa que reduza tuída a partir das palavras e só à força delas. Daí as exigên-
esta divergência; entendemos que é indispensável reconhecê-la cias de clareza e de precisão — difíceis, mas frutuosas.
de maneira explícita afirmando, simultaneamente, a validade da Martinet convida-nos a refletir acerca do esforço que o aluno
experiência de vida das classes proletárias e a desvantagem que terá de dispensar para identificar um com o outro, “o sintag-
pesa sobre elas, devido precisamente à sua proletarização — e ma /izem/ que pronuncia desde que sabe falar e o grafismo
será esse o objeto do nosso último capítulo. ils aiment”. Mas este esforço é salutar, adquire rigor, desejo
de generalidade e de permanência.

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Queremos ainda destacar o valor da linguagem espon- Pelo contrário, o processo de escrita, por ser mais lento e por
tânea da criança do povo — principalmente a linguagem oral implicar uma materialização, um traço visível, permite-lhe
— e, portanto, a necessidade de lhe garantir um lugar, um organizar melhor o que tem para dizer”.
lugar permanente na pedagogia; mas também os limites desta Por conseguinte, é possível e necessário manter, nas
linguagem, que são, apesar de tudo, os limites de um certo crianças do povo, a vivacidade, a vivência da linguagem oral
modo de vida, a vida dos explorados — e, portanto, a neces- — e auxiliá-las a aceder ao nível da linguagem escrita.
sidade de levar estas crianças, precisamente estas, o mais Terminamos com dois exemplos muito simples: na lin-
longe possível no domínio da língua escrita. guagem mais imediata, podre qualifica indistintamente o que
Esta passagem de uma para a outra pode, sem sombra é desagradável, porco, degradado, mau, ruim — seja o objeto
de dúvida, servir de meio para precipitar as crianças do povo em questão um lugar ou um rosto. E cretino significa, na me-
em dificuldades inextricáveis: isso se constatará sempre que dida das circunstâncias, desajeitado, besta, mentiroso, hipócri-
o afastamento entre a sua língua falada e a língua escrita for ta, falso, injusto, desonesto, violento, enfadonho, estúpido. A
excessivo, a ponto de esta última se tornar uma espécie de fala popular espontânea possui um notável vigor de expressão,
língua estrangeira. Mas isso de forma alguma representa uma mas está também marcada por uma grande imprecisão, cada
fatalidade pedagógica, trata-se, pelo contrário, de uma per- palavra abrange uma multiplicidade confusa de sentidos e de
versão pedagógica, e, evidentemente, política, de uma situa- indicações. A criança consegue, pois, um progresso real ao
ção que, por si mesma, proporciona a base favorável a uma aprender a servir-se de termos em relação aos quais não se
ação educativa. É, sem dúvida, possível, a educadores pro- deve apenas afirmar que são mais polidos, mais civilizados,
gressistas, auxiliar a criança a passar da sua linguagem fala- mas sim, que conotam tonalidade e exatidão. A passagem para
da à sua linguagem escrita, isto é, uma escrita que começou a a língua culta, erudita, não é simplesmente um artifício escolar
elaborar a espontaneidade da conversa sem interromper o e político — apesar de ameaçar constantemente vir a sê-lo se
contato com ela; depois à linguagem escrita no seu conjunto. os docentes progressistas deixarem de se opor ao movimento
Contrariamente ao que se afirma com tanta freqiiência, natural da sociedade capitalista.
não é de forma alguma constitutivo da língua escrita formar
uma outra língua, ser especificamente diferente da língua
oral. Beaudichon e Strock mostraram, perfeitamente, que
durante muito tempo a linguagem escrita da criança é, na
realidade, uma linguagem falada: ela profere em voz mais ou
menosalta o que está prestes a escrever. Dos 7 aos 9 anos, a
criança exprime-se de maneira mais fluente e variada por
escrito do que oralmente. O que estes dois psicólogos expli-
cam assim: “Na linguagem oral, a sucessão temporal de pa-
lavras é dificilmente perceptível e, portanto, a criança
encontra dificuldade em dominar o conjunto do seu discurso.

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CAPÍTULO VI

DUPLO ROSTO DAS CRIANÇAS


DO PROLETARIADO

A partir deste caso particular que constitui a lingua-


gem, talvez nos seja permitido pôr o problema em toda a sua
vastidão. A burguesia se satisfaz vendo no povo, e especial- .
mente nas crianças de origem popular, unicamente o que vai
considerar como falta, insuficiência — até desvio, sendo a
criança burguesa transformada, muito naturalmente, em
exemplo; todas as diferenças são interpretadas como outras
tantas inferioridades.
Contra isso temos a impressão, ao ler Baudelot-
Establet, de que as crianças do proletariado detêm, e unica-
mente porque existem, pela sua existência imediata, a reali-
dade da linguagem — bem como a posse da cultura, o senso
da exploração comoa justa orientação da luta a travar contra
ela. Que papel resta à escola desempenhar? Ela é, de parte a
parte, repressão de condutas, já completamente adequadas e
que só esperam manifestar-se, que bastaria deixar que o fi-
zessem — o que aconteceria mal as crianças abandonassem a
escola e voltassem ao seu meio.

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GEORGES SNYDERS ESCOLA, CLASSE E LUTA DE CLASSES

PRIMEIRO TEMA: Afinal de contas, a autora vai reduzir-nos a esta alterna-


Os que vêem apenasnosfilhos da tiva: ou só existe “um modelo único... um protótipo da espé-
classe proletária, a positividade cie humana, a criança burguesa; e o melhor serviço a ser
prestado à criança proletária consistirá em transformá-la em
Baudelot-Establet estão longe de ser os únicos a apre- criança burguesa”; ou existe uma pluralidade de modelos
sentar assim a infância proletária. A Senhora Lurçat, por entre os quais não se pode, nem deve, estabelecer confronto.
exemplo, não consente que a propósito das crianças do prole- É, ao que nos leva, a noção de diferenças específicas que
tariado se fale de privações, carências, desvantagens — em desempenha aqui um papel central.
particular de desvantagens sócio-culturais — que as conside- Explicaremos um pouco mais aprofundadamente por-
rem em desvantagem, desfavorecidas, culturalmente desfa- que recusamos esta espécie de racismo, mesmo inverso, que
vorecidas. Os termos, e, principalmente, as idéias, de divide a nossa sociedade em espécies diferentes entre as
desenvolvimento insuficiente, de carência na aprendizagem quais seria impossível manter comunicação.
e, principalmente, as da linguagem, devem ser banidos. Se Combessie, num artigo célebre e de elevada qualidade,
estas crianças reagem pior às experiências de testes e tam- “acusa de etnocentrismo de classes os que falam de deficiên-
bém a tantos exercícios escolares, é só porque lhes repugnam cia a propósito das crianças do povo; segundo ele, é apresen-
as tarefas gratuitas, formais, privadas de motivação prática. tar a classe média como protótipo que serviria de modelo a
Para apresentar desta forma a criança da classe operá- todas as classes; é apresentar a cultura das classes médias
ria, isenta de qualquer deficiência, fugindo a qualquer defici- como termo absoluto, definitivo, evidentemente válido e
ência, a Senhora Lurçat vai apresentá-la como distinta da fundado: “os outros só existiriam porque careciam de... grau
criança burguesa, sem que seja possível uma comparação, zero destes valores, e a raiar o absurdo”. Dão-se ao conforto
pois trata-se de dois modos de realização heterogêneos. A moral de reduzir o que os outros fazem a uma série mais ou
criança da classe operária não deve ser considerada como menos incoerente de erros; proíbem-lhes interpretar a cultura
uma criança burguesa inacabada, incompleta, com fraco êxi- na sua especificidade e nas suas características positivas. E a
to; deve dizer-se que ela é diferente, que representa outra partir disso a educação consistiria em introduzir no seu seio,
forma de equilíbrio e de coerência. No fundo, o operário como protetores benévolos, os valores de que necessitam.
adulto será evocado como diferente, quase se ousaria dizer, Atitudes que oscilam entre o paternalismo e a colonização.
em-natureza, do adulto burguês. Um exemplo característico: os inquéritos sociológicos
A Senhora Luçart proíbe que seja interpretado como mostram, sem dificuldade, que os pais da classe operária
uma imperfeição, o fato de o filho do operário se prestar aplicam com mais fregiiência castigos corporais quando as
mais à ação, ao que é imediato, e se sentir pouco à vontade consegiências da falta lhes parece grave, e castigam em fun-
falando ou diante de perspectivas teóricas. Está pronta a con- ção das consegiiências imediatas do ato; procuram, antes de
siderar que ele é que está prestes a restabelecer a verdadeira mais nada, garantir a obediência e a manutenção da ordem;
hierarquia de valores, falseada pelo domínio burguês. os pais da classe média preferem apelar para os sentimentos,
lançam a ameaça de privação afetiva, ao mesmo tempo que

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procuram interpretar a intenção da criança e agem de acordo não se correrá o risco de justificar o fato de os pequenos pro-
com essa suposta intenção. letários ocuparem os últimos lugares, elevados por artes má-
Para explicar estas duas maneiras de intervir, o autor gicas à categoria de lugares proletários”?
leva em consideração os valores populares como tais; reco- Num estudo cujo interesse é inegável, Burguiêre e
nhece que os pais operários passam a vida a manipular as Seydoux afirmam que as crianças assinaladas, pela professo-
coisas, e não as idéias ou as palavras; que estão submetidos a ra, no grande setor da escola infantil, como tendo problemas
tarefas padronizadas e a um controle apertado, que não le- de adaptação, são, com mais fregiiência, filhos de operários e
vam em consideração as intenções, mas apenas o resultado de pessoal doméstico do que crianças da burguesia.
atingido. Depreende-se, assim, que as suas práticas educati- A explicação que os autores dão, é a de que existe uma
vas são absolutamente coerentes com as suas condições de identidade, ou pelo menos uma aproximação, entre as nor-
vida, como nas classes médias as práticas educativas diferen- mas culturais da escola e as de certos meios que utilizam a
tes correspondem a condições de vida diversas. escola. São favorecidas as crianças já familiarizadas com
O autor nega-se a formular um juízo de valor para estas normas — isto é, os meninos-família.
comparar estas duas maneiras de proceder; nega-se a classi- Por isso, foi a escola que escolheu entre os modelos
ficar as atitudes educativas como mais ou menos fundadas, possíveis, uma escolha aparentemente arbitrária, na realidade
mais ou menos favoráveis ao desabrochar da criança. Mas, política, e destinada a conservar o domínio das classes domi-
ao mesmo tempo, transmite-nos a sensação de que nada de nantes. A fim de que nada venha a embaçar-lhe a pureza,
negativo se introduz na situação da criança proletária quando negam-se a admitir que os filhos dos operários são freqien-
a exigiiidade da habitação, o excesso de trabalho dos pais temente assinalados porque o modo de vida a que estão sub-
etc., os fazem utilizar uma disciplina repressiva. Não se cor- metidos lhes tornou mais difícil alcançar o domínio de si
rerá o risco de concluir que não há urgência em modificar próprios e a harmonia dos seus impulsos. Na verdade,
este estado de coisas? Burguiêre e Seydoux dizem, no começo do seu estudo, que
De maneira análoga, Combessie recusa interpretar o de- as causas devem ser procuradas tanto dentro das classes so-
sinteresse pela escola e pela promoção que ela anuncia como ciais como no aparelho escolar. Mas à medida que o artigo
preguiça ou apatia, que a burguesia denuncia virtuosamente avança, mais a responsabilidade se centra, de fato, no apare-
em tantas crianças proletárias; ele vê nisso um comportamento lho escolar: “Não haverá na própria forma das normas cultu-
completamente adequado aos que sentem muitíssimo bem e rais valorizadas pela escola uma determinada maneira de
que, de qualquer maneira, não terão da escola essa promoção; favorecer mais determinadas crianças do que outras”?
e os sermões são irrisórios, pela sua irrealidade. Enfim, Eric Plaisance e Olga Baudelot, ao estudarem
E aqui nos convidam a compreender, na sua especifici- as dificuldades escolares das crianças da classe operária, dão
dade, a conduta destas crianças, e a descobrir-lhes a coerên- a impressão global de hesitar entre duas hipóteses: será que
cia; para que não a qualifiquem de inferior, será dito que ela as crianças esbarram com problemas, com obstáculos reais
consegue um equilíbrio, que diverge, simplesmente, do das — ou será o aparelho escolar que aciona desde o princípio,
crianças burguesas. Mas, malgrado as intenções do autor,

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na escola infantil, mecanismos de rejeição em relação a alu- importante pôr em discussão as normas da escola, e dessa
nos de certas categorias? forma, em consideração, as normas do proletariado, o que
Por isso, os nossos autores nos deixam numa espécie exige que não o reduzam a um conjunto de frustrados.
de ambigiiidade e sugerem, simplesmente, que nos interro- Ficamos diante da noção, tão confusa, de desvantagens
guemos sobre as continuidades ou, ao contrário, sobre as sociais ou sócio-culturais. Compreendemos que ela se arrisca
discordâncias entre as normas culturais escolares e as normas a remeter-nos para um plano de fundo patológico e que se
culturais das diferentes classes sociais. assimilem confusamente essas famosas desvantagens em
Com muito mais reserva se recusa sempre a idéia de simultaneidade com perturbações individuais, e com algo
que à situação explorada da classe operária se reflete em que evoque privações de ordem motora ou sensorial; e então,
determinado número de elementos negativos no tipo de vida seria cada indivíduo da classe operária potencialmente um
e de escolaridade destas crianças. transviado. Pode ser este um pretexto para transferir para
Estas interpretações parecem-nos importantes de um estruturas mais ou menos médicas, em qualquer caso, segre-
triplo ponto de vista: primeiro, constituem uma relação, sem gativas, crianças que a escola tem de tomara cargo; isto po-
dúvida alguma indispensável, contra a opinião tão divulgada de ser para a escola um meio de fugir a um novo analisar da
que apenas vê nas crianças das classes desfavorecidas o questão: será que todas estas crianças fracassam por serem
déficit do seu desenvolvimento intelectual, não só em rela- como que atingidas por uma doença — e, se é permitido di-
ção à escola, mas a toda a sua vida; e as qualidades, os re- zê-lo, por um antidote?
cursos, as possibilidades que encerram são silenciados. As Mas, devemos insistir nos perigos que tais interpreta-
crianças do proletariado só seriam caracterizadas por defi- ções contêm.
ciências. Portanto, mesmo que se pretenda ser democrata, Comecemos por dizer que se pode evitar o ponto de
como ajudá-las a progredir, em que força confiar para pro- vista patológico da desvantagem mantendo sempre presente
vocar o seu progresso? no espírito — e na ação — a conexão desvantagem/condição
Depois, estas interpretações, forçam-nos a uma descen- de vida das classes exploradas. Como seus adversários, os
tralização em relação às regras culturais e escolares estabele- autores, que acabamos de evocar, só concebem um único mo-
cidas, a pormos o problema dos caracteres singulares do de desvantagem, a do tipo da deficiência fisiológica, uma
inerentes a outras formas de viver, e, em primeiro lugar, às espécie de falha biológica desses famosos méritos pessoais —
do proletariado. Somos assim levados a romper com a confi- e têm razão em recusá-los. Deixam de debater desvantagens
ança ingênua na infalibilidade dos valores burgueses e com a bem mais complexas, sem qualquer correspondência no do-
convicção de que eles se destinam a ser, identicamente, valo- mínio dos déficits sensoriais, quando elementos negativos
res de todos; os critérios da escola deixam de se impor como extrínsecos vêm bloquear uma riqueza potencial; e é o que
absolutos. Percebemos, então, que, na medida em que nos tentaremos analisar um pouco mais adiante.
deixamos conduzir, os valores contidos no comportamento Mas, sobretudo, eles arriscam-se a travar, e sem dúvida
popular tendem a ser considerados como nulos e não como alguma contra o seu desejo, a indispensável ação transfor-
acessos ao poder — e isso no interior da escola. Torna-se madora: primeiramente, se a classe operária não for atingida

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por desvantagens fundamentais, a responsabilidade total dos so; cada uma seria encerrada na sua forma de cultura poden-
insucessos escolares destas crianças cabe à escola — e a es- do, perfeitamente, contentar-se com isso.
cola mostra-se tão viciada, visto ter organizado meticulosa- Por vezes chegamos a temer que quem assim tenta con-
mente essa acumulação de derrotas, que é impossível ferir uma espécie de estatuto particular às crianças do proleta-
proceder no seu âmbito a qualquer ação renovadora. Em se- riado a fim de as proteger de qualquer avaliação, de qualquer
gundo lugar, lendo os autores citados, tem-se a impressão de comparação depreciativa, acabe por alinhar, efetivamente,
que a principal, por assim dizer, quase a única, coisa a ser com os seus adversários, com aqueles que identificam proleta-
mudada na nossa sociedade, seria a escola e as exigências riado e déficit, que julgam esse déficit definitivo e enaltecem,
por ela impostas. Quanto à situação objetiva das crianças do à maneira de Vermot-Gauchy, os ciclos de carreira escolar
proletariado, não nos convidam de modo algum a modificá- diferenciados: o mesmo imobilismo, e, principalmente, em
la, pois declaram não haver qualquer certeza de que estas relação à escola, às ações a serem empreendidas na escola.
crianças enfrentam, realmente, na sua evolução global, difi- Uns consideram a luta de classes como irrisória, pois negam
culdades mais graves do que as crianças de outros meios. ao proletariado a força organizada e a exatidão de pensamen-
Dizer que essas crianças proletárias são diferentes das tos necessários à condução dessa luta; quanto aos outros, de
crianças burguesas, das crianças que triunfam na escola, mas Baudelot-Establet a Olga Baudelot, não podemos fugir à in-
que no seu gênero são tão realizadas, tão perfeitas como elas, quietação de que essa luta pareça estranhamente inútil.
faz com que se perca a vontade de as ajudar a progredir — é
correr o risco de as encerrar, pacífica e gloriosamente, nas SEGUNDO TEMA:
suas dificuldades. E isto acabará criando observadores curio- Descobrir o duplo rosto do próprio proletariado
sos, que olham as crianças do proletariado vendo nelas uma
espécie distinta com as suas particularidades próprias, acabará Para se sair deste impasse, para descobrir o duplo rosto
criando atitudes típicas do naturalismo — feliz por existirem das crianças do proletariado e deixar de as imaginar na sua
muitas espécies diferentes e ansioso por as mantertal e qual. riqueza idílica ou de as reduzir unicamente em proporção
Combessie tem razão ao afirmar que o comportamento com as suas desvantagens, parece-nos indispensável desco-
desinteressado destas crianças, está adaptado à sua situação, brir o duplo rosto do proletariado adulto — e pedimos des-
à sua situação de impasse. Mas, acrescentaremos que ele só culpas por algumas citações marxistas.
está adaptado ao impasse da sua situação. E, portanto, a sua Por um lado, o proletariado é rebaixado ao nível do
especificidade deve servir de ponto de partida a uma vontade animal de carga; a concorrência faz dele uma coisa e uma
de transformação — e não para uma mera contemplação das mercadoria. O Capital dirá que “pelo jogo de leis imanentes
diferenças, como se elas constituíssem um elemento inultra- da produção capitalista”, aumentam não apenas “a explora-
passável ou satisfatório. É mais fácil, mais lisonjeiro, mais ção”, mas igualmente “a miséria, a opressão, a escravatura” e
glorioso, negar as desvantagens das crianças da classe operá- Marx não receará acrescentar “a degradação”.
ria do que tentar remediá-las. Mas é, na realidade, bloqueá- Para caracterizar esse proletariado, que acaba de reali-
las no estado em que se encontram, impedir-lhes o progres- zar a maior revolução da história, Lenin empregará os termos

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“ignorância, falta de cultura, barbárie e embrutecimento”. que uma promessa e, por assim dizer, uma fuga para um
Mesmo na URSS, e com mais forte razão nos países capita- mundo diferente, uma antecipação.
listas, “o proletariado ainda está retalhado, humilhado, cor- O que não impede que, no plano histórico, seja o lado
rompido”. mau, no feudalismo os servos e o proletariado no capitalis-
E, contudo, precisamente por isso, o proletariado as- mo, que provoca o movimento, determina a luta e acaba der-
sume a missão real de revolver as suas condições de vida. rubando a sociedade antiga. É, simultaneamente, falar do
Não a deterioração por um lado e pelo outro a tarefa revolu- papel do lado mau e ele continuar, todavia, o lado mau, ex-
cionária, é a própria deterioração o motor da tarefa revolu- plorado e, portanto, fatalmente degra