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Perspectivas, São Paulo

6:11-18, 1983.

DA "REVOLUÇÃO FUNCIONALISTA" ÀS NOVAS


SÍNTESES ANTROPOLÓGICAS

Maria Amália Pereira BARRETTO*

RESUMO: O trabalho procura analisar as novas linhas antropológicas surgidas a partir das pers-
pectivas teóricas funcionalistas.

UNITERMOS: Funcionalismo: Malinowski e Radcliffe Brown; evolucionismo; difusionismo; es-


truturalismo: Lévi-Strauss e Victor Turner.

INTRODUÇÃO puro, mas que é sempre colorido pelos


matizes de sua civilização, que solicita de-
O objetivo deste trabalho é ir das le até um certo tipo de processo operató-
propostas fundamentais dos iniciadores rio. Creio que esta via podemos encontrar
do funcionalismo a uma das novas sínte- em V. Turner, além da possibilidade que
ses "pós-estruturalistas" ou "pós-lévi- sua teoria coloca de apreender o processo
straussianas", tomando como fio condu- da mudança nas sociedades humanas.
tor a noção de "centro", ou como estas
abordagens se organizam frente a seu ob- DO DIFUSIONISMO E E V O L U C I O -
jeto: ou deixando-o falar ou acercando-se NISMO A O F U N C I O N A L I S M O
dele com discurso preestabelecido.
Toda antropologia é antropologia do Numa rápida recapitulação da situa-
conhecimento: é, antes de tudo, tradução ção no início do século X X , encontramos
para a "nossa" linguagem do discurso ou os etnólogos, difusionistas, em busca da
categorias alheias. Posso partir do determinação dos traços culturais que se
princípio que a inteligibilidade total esteja difundem e os sociólogos, evolucionistas,
dada e tudo seja transparente a partir de convencidos de que a cultura é dotada de
um princípio organizatório buscado "ex- uma dinâmica interior.
máquina" para justificar o processo (evo- O traço comum a estas escolas de
lucionismo); posso reconhecer no outro pensamento é a proposição de hipóteses
discurso metáforas inteligíveis e tra- históricas conjecturais geralmente não ve-
duzíveis (funcionalismo), ou posso aceitar rificáveis e de procurar explicar a vida so-
a validade da apreensão do real por ra- cial em função do passado. Os difusionis-
ciocínios ou operações mentais diferentes tas partem do fato, até certo ponto evi-
daquelas que habitualmente considera- dente, de que a cultura é freqüentemente
mos como científicas. Isto é reconhecer emprestada; grande número de invenções,
que o pensamento não existe em estado por exemplo, não surgem em sociedades

* Departamento de Socioligia e Antropologia — Faculdade de Educação, Filosofia, Ciências Sociais e da D o c u m e n t a ç ã o


— UNESP — 17.500 — Marília — SP.

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BARRETTO, M . A . P . — Da "Revolução funcionalista" às novas sínteses antropológicas. Perspectivas, São
Paulo, 6:11-18, 1983.

diferentes pelo mesmo processo de gera- mais nada, povoa a mente do pesquisador
ção espontânea. Os centros maiores de de- "cuja cabeça opera como um grande sin-
senvolvimento existem em número bas- tetizador de todas as crenças e de todos os
tante limitado — o que pode levar a con- costumes" (6:329).
cluir que conceitos e costumes foram di- Quando Malinowski diz:
fundidos da mesma forma a partir desses
centros mais desenvolvidos. As reconstru- " O que me interessa realmente
ções dos itinerários seguidos por estes no estudo do nativo é sua visão das
"traços" culturais tornam-se, no entanto, coisas, sua Weltanschauung, o sopro
tão abstratas e conjecturais quanto as re- de vida e realidade que ele respira e
construções genéticas às quais os difusio- pelo qual vive." (5:370),
nistas pretendiam se opor. notamos que a postura do investigador
O evolucionismo é, antes de mais na- mudou. Isso não constitui um movimento
da, uma mundivisão, é uma maneira de isolado, mas tornou-se possível graças a
enfeixar a sociedade mundial e nô-la apre- um tipo de produção intelectual pertinen-
sentar ordenada através de um princípio te à nossa época, cujos precursores foram
transcendente: a própria idéia de evolu- Marx, Freud e Nietzsche; sem alongar-me
ção. Manifesta-se sob vários aspectos: em suas descobertas e avanços, digo ape-
evolucionismo social, histórico, cultural, nas que a própria etnografia só pode
psicológico, geográfico etc, que parecem tornar-se ciência a partir do momento em
ser expressão direta do evolucionismo que, deslocado o Homem como centro
biológico de Darwin (note-se que, histori- absoluto e consciente das decisões, a pró-
camente, o evolucionismo sociológico é pria crítica do etnocentrismo tornou-se
anterior ao biológico). Procura, atuali- possível. Como conseqüência, a cultura
zando uma preocupação tipicamente oci- européia perdeu seus privilégios e deixou
dental (e mais ainda, tipicamente vitoria- de ser considerada como cultura de refe-
na), a legitimação através do conhecimen- rência, abrindo campo à etnografia como
to da origem e do que vem depois, numa ciência.
evolução por etapas sucessivas. Sendo da-
da a sociedade ideal, torna-se relativa- Ao procurar
mente fácil reencontrar as etapas evoluti- "apreender o ponto de vista do nati-
vas anteriores nos povos "primitivos" vo, seu relacionamento com a vida,
que ainda existem em diversos pontos des- sua visão do seu mundo" (5:33-4),
ta escala ascendente e progressista. Estas
"sobrevivências" exemplificam, em nega- temos o foco da análise, ou o centro colo-
tivo, a grande síntese ideológica que é o cado na própria cultura nativa.
evolucionismo. O funcionalismo parece realmente
firmar-se com o trabalho de campo etno-
A civilização ocidental é tomada co- gráfico, pois como proposta teórica já
mo paradigma e modelo ideal; é o término existia com H . Spencer:
do processo e serve não somente para
orientá-lo e organizá-lo, como também "Uma sociedade é um organismo
para delimitar suas possibilidades. A di- (sistema)." (cit. L . White (9:143).
nâmica interior impulsiona as sociedades
na mesma direção. Há, no entanto, algo A tese central de Malinowski é que as
que é subtraído ao movimento — há uma culturas formam unidades funcionais. Os
imobilidade fundadora que o fundamenta costumes ou instituições existem para
e define: é a própria idéia de evolução que preencher determinados propósitos e são,
sobrevoa todas as épocas e as organiza nessa medida, meios para satisfazer neces-
num todo coerente. Essa noção, antes de sidades.
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Malinowski, no entanto, não fez uma construções abstratas. Há fatos, portan-


descrição completa e coerente da cultura to, que não podem ser captados com
trobriandeza, único foco de sua atenção: questionários ou documentos estatísticos,
pelo contrário, descreve-a parceladamen- mas devem ser observados em plena reali-
te em sete monografias sobre as Ilhas Tro- dade — são os imponderáveis da vida real
briand(1922 a 1935). (rotina de trabalho diário do nativo, deta-
Se abordarmos uma dessas monogra- lhes dos seus cuidados corporais, tom das
fias, cujo foco institucional descrito é o conversas, hostilidades, ou fortes laços de
comércio (Argonautas do Pacífico amizade, reações emocionais frente a um
Ocidental), vemos delinear-se as proposi- acontecimento etc). Creio que esta pro-
ções funcionalistas já em suas propostas posta permanece hoje com muita atuali-
metodológicas, que ele agrupa em três dade.
unidades. Resumindo, temos em suas pró- 3.°) Finalmente, o pesquisador deve
prias palavras, na Introdução: aplicar certos métodos especiais de coleta,
manipulação e registro da evidência. Na
1. °) O pesquisador deve possuir ob- pesquisa de campo, o etnógrafo tem o de-
jetivos genuinamente científicos e conhe- ver e a responsabilidade de estabelecer to-
cer os valores e critérios da etnografia mo- das as leis e regulamentos que regem a vi-
derna, isso não significa estar sobrecarre- da tribal, tudo o que é permanente e fixo;
gado de idéias pré-concebidas; o trabalho apresentar a anatomia da cultura e descre-
será inútil se o pesquisador parte decidido ver a constituição tribal. Mas estes ele-
apenas a provar certas hipóteses. A im- mentos não se encontram formulados;
portância do conhecimento da teoria resi- não há códigos nem leis escritas. Para su-
de no fato de que ela permite que o pes- perar a dificuldade de ausência de leis es-
quisador leve consigo um maior número critas, o etnógrafo deve coletar dados
de problemas. O investigador de campo concretos sobre todos os fatos observáveis
depende inteiramente da inspiração que e através disso formular leis gerais. A co-
lhe oferecem os estudos teóricos. As leta de dados referentes a um grande nú-
idéias pré-concebidas são perniciosas a mero de fatos é, pois, uma das fases princi-
qualquer estudo científico; a capacidade pais da pesquisa de campo. Nas buscas
de levantar problemas, no entanto, cons- destes fatos, terá mais êxito o pesquisador
titui uma das maiores virtudes do cientis- cujo "esquema mental" for mais lúcido e
ta. Em resumo: os fatos é que são impor- completo. Sempre que o material da pes-
tantes em relação à teoria, embora sem ela quisa o permitir, esse "esquema mental"
não haja ciência. Essa proposição valeu a deve transformar-se em "esquema real",
Malinowski muitas críticas. ou seja, materializar-se na forma de dia-
2. °) Em segundo lugar, deve o pes- gramas, planos de estudo e pesquisa e
quisador assegurar boas condições de tra- quadros sinóticos completos.
balho, o que significa viver mesmo entre O etnógrafo, para merecer confian-
os nativos, sem depender de outros bran- ça, deve distinguir de maneira clara e con-
cos. Isso sugere o contato direto com os cisa, sob a forma de um quadro sinótico,
nativos, sem intermediários. entre os resultados de suas observações di-
A vida real jamais adere rigidamente retas e de informações que recebeu indire-
a uma regra, a uma fórmula. São precio- tamente — pois seu relato inclui ambas.
sos dados sobre o comportamento real, Esse método pode ser chamado de méto-
que dão a "carne e o sangue" ao esquele- do de documentação estatística por evi-
to de uma constituição tribal. Vivendo na dência concreta.
aldeia, então, "a carne e o sangue" da vi- Assim, para alcançar os objetivos da
da real preenchem o esqueleto vazio das pesquisa, que se resumem em "aprender o
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ponto de vista do nativo", existem três ca- fias de Malinowski que oferecem maior
minhos diferentes: ensejo a crticas. Como assinala E.R. Dur-
1. °) A organização da tribo e a ana- ham:
tomia de sua cultura devem ser delineadas "Os ataques (a Malinowski)
de modo claro e preciso. O método da do- concrentram-se geralmente na difi-
cumentação concreta e estatística fornece culdade de generalização que resulta
os meios com que podemos obtê-las. da metodologia proposta por Mali-
2. °) Este quadro precisa ser comple- nowski." (2:7).
tado pelos "imponderáveis" da vida real, Quando Malinowski diz:
bem como pelos tipos de comportamento, " A cultura não deve ser tratada
coletados através do contato íntimo com a como um aglomerado solto de costu-
vida nativa e que devem ser registrados mes, como um amontoado de curio-
em algum tipo de diário etnográfico. sidades antropológicas, e sim como
3. °) O corpus inscriptionum — que é um todo vivo e interligado... O méto-
uma coleção de asserções, narrativas típi- do funcional insiste em reconhecer o
cas, palavras características, elementos processo cultural como um processo
folclóricos e fórmulas mágicas — deve ser suigenerís... A cultura é viva, é dinâ-
apresentado como documento da mentali- mica, todos os seus elementos são in-
dade nativa. terligados e cada um preenche uma
função específica no esquema inte-
Em resumo, Malinowski propõe uma gral". (1929:864a, cit. L . White
descrição minuciosa da cultura nativa es- 9:145),
tudada (o que exige demorada permanên-
cia do pesquisador entre os nativos), que abre novamente o flanco a uma outra ba-
deve ser acompanhada de uma teoria das teria de críticas. Se nos limitarmos à no-
necessidades universais que se torna, em ção de função, como a concebe Mali-
última a instância, o instrumento básico da nowski, temos que, segundo Lévi-Strauss,
organização do material empírico consi- ela reintroduz noções de pouco valor
derado. científico, anulando progressos anterio-
res. E ajunta o crítico:
Mas, como observa Lévi-Strauss "Mas ele (Mauss) não lhe teria
(3:26): dado (à noção de função), segura-
"Quando nos limitamos ao estu- mente, a forma regressiva que deve-
do de uma única sociedade, podemos ria receber de Malinowski, para
fazer uma obra preciosa; a experiên- quem a noção de função, concebida
cia prova que, geralmente, se deve às por Mauss com o exemplo de álge-
melhores monografias a investigado- bra, isto é, implicando que os valores
res que viveram e trabalharam numa sociais são passíveis de conhecimento
única região. Mas nos proibimos em função uns dos outros,
qualquer conclusão para as outras". transforma-se no sentido de um em-
pirismo ingênuo, para só designar o
O problema é que a análise funcio- serviço prático prestado à sociedade
nal, como Malinowski a concebe, permite por seus costumes e suas instituições.
a passagem do particular ao geral, toma- Onde Mauss encarava uma relação
do como universal. Aparece constante- constante entre fenômenos, onde se
mente a noção de que, a partir da obser- encontra sua explicação, Malinowski
vação empírica de uma sociedade qual- apenas se pergunta para que eles
quer é possível atingir motivações univer- servem, a fim de dar-lhes uma justifi-
sais. É este um dos flancos das monogra- cação" (4:23).
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Apesar de todas as críticas a Mali- linowski), mas, a partir de Radcliffe-


nowski (e não se pode deixar de citar a Brown, a conceituação é baseada na lógi-
que se refere ao seu "reducionismo": a ca, na lingüística, na matemática, etc.
cultura existe para satisfazer necessidades
biológicas do homem), sua maior grande- DE LÉVI-STRAUSS A T U R N E R
za, reconhecida até por seus mais ferre-
nhos opositores, parece ser a qualidade do
seu trabalho etnográfico e por ter procu- Uma estrutura sem centro é impensá-
rado atingir o Homem real, sempre dota- vel (1:102). O grande debate do pensa-
do de "razão". mento contemporâneo é determinar onde
se localiza este centro. As duas vertentes
Embora sendo também um dos fun- da discussão podem ser encontradas sob
dadores da escola funcionalista inglesa, a as égides de Platão e Nietzsche, respecti-
posição que Radcliffe-Brown nela ocupa vamente. Os que se colocam sob a linha
difere muito da posição de Malinowski. platônica, se propõem à exploração do
Radcliffe-Brown propõe, como obje- que diz a linguagem. Sob a égide de
to de estudo, o sistema social ou o proces- Nietzsche, se discute aquilo que rege a pa-
so social. A estrutura social é constituída lavra e ordena seu funcionamento.
pelo sistema de "relações reais de enca- Se a primeira posição leva à conside-
deamentos entre indivíduos" ou melhor, ração da estrutura com o centro em seu
entre indivíduos que ocupam papéis so- próprio interior, a segunda, levada às últi-
ciais, entre "pessoas" (7:20). A forma es- mas conseqüências, deveria conduzir ao
trutural está implícita nos usos ou normas total descentramento interno. O que deve
sociais — pode ser extraída por observa- subsistir é o jogo dos elementos no inte-
ção. A base do procedimento científico rior da estrutura, sem qualquer significa-
propriamente dito reside na comparação e ção transcedental. No entanto, aparente-
classificação entre formas sociais (7:13). mente, os próprios conceitos não podem
Creio que é exatamente este procedi- ser nunca abandonados: por exemplo, a
mento metodológico que consiste em to- metafísica da presença é abalada através
mar uma relação social, fazer dela um do conceito de "signo" já de antemão de-
problema teórico e a partir dai estabelecer finido com signo de significante remeten-
comparações com outras sociedades, co- do para um significado. O que parece im-
mo teste demonstrativo para hipóteses portar, portanto, é a maneira de utiliza-
abstratamente propostas, que faz do fun- ção desses conceitos, como um instrumen-
cionalismo de Radcliffe-Brown a vertente tal para a nova ciência, sem conservar, ne-
que influiu mais significativamente no es- cessariamente, seu valor de verdade. Ne-
truturalismo de Lévi-Strauss (Matta, nhuma ciência existe fora de linguagem e
6:330). Não há mais a proposta de uma nenhuma cria a totalidade de seus concei-
descrição minuciosa de uma cultura, mas tos, mas reutiliza o discurso pré-existente.
estamos frente a uma nova perspectiva Há uma necessidade irredutível de ceder a
teórica, que leva novamente a uma des- esta evidência - mas o que é realmente sig-
centralização, na medida em que não há nificativo é a maneira de como ceder a es-
mais um sujeito, tomado como objeto de ta irredutibilidade — o vigor e a novidade
investigação, mas há um problema teóri- de qualquer nova abordagem está no mo-
co, levantado previamente e depois este do da utilização dos conceitos tradicio-
problema é levado, de modo comparativo nais. Os conceitos de natureza/cultura,
a várias culturas; não há mais um sistema utilizados por Lévi-Strauss, têm no míni-
fixo de referência, onde as relações são in- mo, a idade da sofistica. Lévi-Strauss não
terligadas num todo coerente, com as ana- procura, no entanto, fazer filologia e as-
logias buscadas no sistema orgânico (Ma- sim buscar a destituição desses conceitos;
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sua opção consiste em utilizar estes con- Com V . Turner encontramos uma
ceitos como um instrumental prático, sem nova maneira de "centrar", talvez mais
procurar atribuir-lhes significação preci- explícita. Senão vejamos: no Processo
sa; são explorados em sua Ritual, propõe, à p. 24 o objetivo do
"eficácia relativa e utilizam-se capítulo: Planos de Classificação em um
para destruir a antiga máquina a que ritual da vida e da morte:
eles pertencem ".(1:110) "explorar a semântica dos
símbolos rituais no I soma... e cons-
Apesar de reconhecer a fecundidade do truir, a partir de dados exegéticos e
estruturalismo de Lévi-Strauss no tocante de observação, um modelo de estru-
à utilização de conceitos tradicionais, tura semântica desse simbolismo".
Derrida, no entanto, parece acusá-lo de
colocar o "centro" tanto fora, como den- Seu empenho é descobrir a "visão in-
tro da estrutura. Primeiramente, ele o terior ndembo" (p. 25), isto é, como eles
acusa de logocentrismo, isto é, apelar a sentem e pensam.
uma razão como uma legalidade mantida Para alcançar este objetivo, ele pro-
fora do jogo. Em segundo lugar, há em põe o método indutivo:
Lévi-Strauss como que uma nostalgia da
presença; percebe-se nele como que "meu procedimento consistirá
em começar pelos aspectos particula-
"uma espécie de ética da presen- res echegar à generalização". (8:24)
ça, da nostalgia da origem, da ino-
cência arcaica e natural, de uma pu- Os passos deste método seriam
reza da presença e da presença a si na os seguintes: (8:23)
palavra; ética, nostalgia e mesmo re- 1. °) obtenção de informações dignas
morso que ele apresenta muitas vezes de confiança dos símbolos empregados
como a motivação do projeto etnoló- nos rituais;
gico quando se debruça sobre socie-
dades arcaicas, isto é, exemplares a 2. °) estas informações, reciproca-
seus olhos". (1:121) mente consistentes, constituem a herme-
nêutica padronizada da cultura ndembo e
E não é precisamente esta mesma não associações livres ou opiniões excên-
"nostalgia da presença" que encontramos tricas;
em R. da Matta, no final de Poe e Lévi-
Strauss no Campanário: ou A obra literá- 3. °) daí a construção de um corpo de
ria como etnografia? dados de observação e de comentários in-
terpretativos;
"Talvez o que nos deixe perple- 4. °) e, finalmente, este corpo de da-
xos seja precisamente constatar, na dos, submetidos à análise, começa a mos-
visita aos índios, a possibilidade de trar certas regularidades, das quais foi
realizar a mais utópica das Utopias: possível extrair uma cultura, expressa
viver numa sociedade onde o homem num conjunto de padrões.
e o grupo estão equilibrados entre si e
com a natureza, como uma pensée Desse resumo, rapidamente exposto,
sauvage, uma flor, com suas pétalas, podemos considerar:
suas cores e seu chão." (p. 124) 1. °) V . Turner se preocupa com a es-
trutura semântica e não com a estrutura
Assim, a etnografia estruturalista de
enquanto feixe de relações lógicas for-
inspiração lévistraussiana estaria nostal-
mais;
gicamente virada para a presença, que é,
de certa maneira, uma forma de "cen- 2. °) seu ponto de partida são os
trar". "blocos básicos da construção", as "mo-
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léculas" do ritual, que ele chama de por exemplo, onde, na Introdução ao Cru
símbolos. Procura entender a estrutura e o Cozido, considera a busca do mito de
interna das idéias contidas no ritual, isto referência como uma prática abusiva; pa-
é, como é que os ndembo interpretam seus ra Lévi-Strauss, tudo começa pela estrutu-
símbolos; isto significa buscar fazer a exe- ra ou pela relação interna dos elementos,
gese nativa; com abandono declarado de qualquer re-
3.°) seus informantes não são quais- ferencial privilegiado (origem, versão
quer, mas são aqueles que podem forne- mais significativa, etc.). V . Turner, pelo
cer informações dignas de confiança dos contrário, procura, deliberadamente loca-
símbolos empregados nos rituais. lizar e fixar um referencial que lhe dará
maiores condições de alcançar seus objeti-
Pode-se lembrar ainda que, para V . vos, segundo sua ótica.
Turner, o social não se identifica com o
sócio-estrutural exclusivamente; há outras Outro ponto a considerar é que V .
modalidades de relações sociais. O univer- Turner se interessa, neste texto, pela pró-
sal cultural é a dialética (relacionamento pria interpretação nativa (como eles sen-
dinâmico e contínuo) estrutura/antiestru- tem e pensam); neste sentido, ele me pare-
tura, que tem por palco a cultura. Consi- ce mais distante de Durkheim do que
dera, portanto, a sociedade como um pro- Mary Douglas, por exemplo, que procura
cesso vital em que episódios sócio- ver nos símbolos apenas metáforas da or-
estruturados são seguidos de fases carac- ganização social. O que o nativo sente ou
terizadas por antiestrutura social. A pensa não é absurdo ou idiota, mas tem
"communistas" é um tipo de relaciona- um sentido (não necessariamente para
mento não-estruturado; é o relacionamen- nós), mas no contexto social e cultural em
to entre indivíduos em passagem, in- que o ritual se realiza. Esta é uma posição
divíduos limiares, portanto indivíduos em parte devedora da grande conquista
concretos, totais, que não se escondem do funcionalismo, que é a valorização do
atrás de status socialmente definidos. Es- contexto, mas em parte o supera, pois o
te tipo de relacionamento não é produto funcionalismo, grosso modo, procura
de impulsos biologicamente herdados, "razoabilizar" o pensamento selvagem
mas é o produto de faculdades tipicamen- em termos da razão ocidental. Explicando
te humanas, tais como a racionalidade, melhor: o funcionalismo teve, sem dúvi-
voliçâo, memória, etc, que são desenvol- da, uma importância fundamental na A n -
vidas pela experiência da vida em socieda- tropologia pela ênfase que dá ao contexto
de. Assim, a mente humana não é a capa- (V. Turner, em certas afirmações suas,
cidade estática e sempre idêntica de classi- neste texto, pode ser aproximado a Mali-
ficar, mas os diferentes grupos humanos, nowski). No entanto, para o funcionalis-
embora tenham uma idêntica estrutura mo, tudo é tomado como razoável (nos
cognoscitiva, articulam experiências cul- nossos termos), pois o que aparece como
turais diversas. absurdo deve ter uma "função" - basta
procurar no contexto - isto, em outros ter-
Desses pontos levantados, podemos, mos, é legitimar o pensamento selvagem
sem alongar muito a análise, verificar ini- através da razão ocidental.
cialmente que V . Turner penetra na inter-
pretação nativa dos símbolos, através de V. Turner se preocupa menos com as
um ponto referencial ou informantes defi- regras inconscientes ou relações lógicas,
nidos (não busca opiniões excêntricas de que constituem estruturas vazias do que
indivíduos quaisquer, mas busca "infor- com as estruturas semânticas. O símbolo
mações dignas de confiança"). Isso já é é, para ele, a unidade de significação
"centrar" a análise. V . Turner não proce- dentro do contexto ritual. O que ele busca
de como Lévi-Strauss nas Mitológicas, é estabelecer a estrutura interna das idéias
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contidas no ritual, a partir das "molécu- tural), na medida em que são os momen-
las" do ritual, que ele chama de símbolos. tos antiestruturais os que possibilitam a
Para V. Turner, os ndembo têm noção da mudança sob uma nova ordem (a "com-
função simbólica ou expressiva dos ele- munistas" espontânea em pouco tempo
mentos rituais dai ser possível a exegese tende a organizar-se e a transformar-se
nativa (crítica dessa posição em Dan Sper- em sistema social duradouro).
ber - Le symbolisme en general,
especialmente p. 124 ess.).
Em conclusão, a contribuição mais
Mas, em resumo, sua preocupação é significativa de V . Turner parece ser, a
mais com a semântica do que com a sinta- meu ver, a reintrodução da noção da pos-
xe. Preocupa-se mais com problemas do sibilidade de estudar as sociedades huma-
homem enquanto ser concreto, com emo- nas, antes de mais nada, como servindo
ções e sentimentos (na fase antiestrutu- aos interesses dos homens e não apenas
ral), do que com o homem enquanto sob o como um feixe de relações lógicas e for-
domínio da ordem e da regra (fase estru- mais.

B A R R E T T O , M . A . P . — From the "funcionalist revolution" up to new anthropological synthesis.


Perspectivas, São Paulo, 6:11 -18, 1983.
ABSTRACT: This paper triesto analyse the new anthropological currents that have appeared from
the theoretical funcionatistic perspectives.
KEY-WORDS: Funcionalism: Malinowski and Radcliffe - Brown; evolutionism; difusionism;
structuralism: Lévi-Strauss and Victor Turner.

REFERÊNCIAS B I B L I O G R Á F I C A S

1. DERRIDA, J. — A estrutura, o signo e o jogo 6. M A T T A , R. da — Centralização, estruturas e


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