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Todos os direitos desta edição reservados à
SUMARIO
Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venânclo/l und* Mi
APRESENTAÇÃO 7

INTRODUÇÃO À FILOSOFIA POLÍTICA EM PLATÃO 13


Lethicia Ouro
Editoração Eletrônica
Marcelo Paixão
LIÇÕES ARISTOTÉLICAS DA NATUREZA 39
Cláudio Gomes Ribeiro / Felipe Gonçalves Pinto
Capa
Marcelo Paixão
ENSINO DE CIÊNCIAS E FORMAÇÃO PROFISSIONAL
Imagem da capa EM SAÚDE OE NÍVEL MÉDIO: NO LIMIAR ENTRE
"As Fiandeiras", de Diego Velásquez (cerca de 1657) O OTIMISMO E O CIENTIFICISMO 61
Jairo Dias de Freitas / Silvia Barreiros dos Reis

ALGUMAS QUESTÕES SOBRE O ENSINO DA ARTE E A


EDUCAÇÃO MUSICAL DIANTE DAS ORIENTAÇÕES
CURRICULARES PARA O ENSINO MÉDIO 73
Marco Antônio Carvalho Santos

Catalogação na fonte O CRITÉRIO DE UNIDADE: FUNDAMENTO DA


Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio PRODUÇÃO DE TEXTO E LEITURA 95
Biblioteca Emília Bustamante Mario César Newman de Queiroz
R375t Reis, José Roberto Franco (Org.)
Temas de ensino médio: política, ciência e cultura / 111
CULTURA, EDUCAÇÃO E INDUSTRIA CULTURAL
Organização de José Roberto Franco Reis e Cláudio Marco Antônio Carvalho Santos
Gomes Ribeiro. - Rio de Janeiro: EPSJV, 2010.

REENCARCERANDO GRAMSCI 141


198 p. :il.
Márcio Rolo
ISBN: 978-85-98768-48-9

1. Educação Profissionalizante. 2. Ensino Médio. POLÍTICA SOCIAL E WELFARE STATE:


3. Política. 4. Cultura. 5. Filosofia. 6. Saúde. I. Ribeiro, ALGUMAS BREVES CONSIDERAÇÕES 161
José Roberto Franco Reis
Cláudio Gomes. II. Título.

CDD 370.113 PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO E SAÚDE: UMA


LEITURA A PARTIR DA OBRA DE BOAVENTURA SANTOS 181
Gustavo Corrêa Matta
INTRODUÇÃO À FILOSOFIA POLÍTICA EM PLATÃO
Lethicia Ouro1

É possível dizer que a política se torna um tema filosófico nos


diálogos de Platão. A filosofia se caracteriza por uma reflexão sobre a
arkhé, o princípio ou fundamento do todo. Sabemos que ela nasce na
Grécia, no séc. VII a.C., com os filósofos pré-socráticos, assim caracte-
rizados porque viveram antes de Sócrates, ou pensadores da natureza,
physiologoí, como são chamados por Aristóteles2, já que os primeiros
filósofos identificaram a arkhé do todo a um ou mais elementos da na-
tureza, physis.
O termo grego arkhé engloba dois sentidos principais: por um lado,
quer dizer princípio, início, nascimento; por outro, significa governo. Se-
gundo a compreensão grega, há uma identidade entre o que gera e o
que governa algo. A causa de um ente, isto é, de algo que é, existe, é
também seu fundamento. Encontrar o princípio de algum ente é encon-
trar também seu governo, as leis segundo as quais ele existe, o que o
funda, seu fundamento.3 A busca por esse princípio ou fundamento de
tudo o que existe por meio da razão é o que caracteriza o pensamento
filosófico.
Tomemos como exemplo alguns filósofos pré-socráticos: Tales de
Mileto, o primeiro dentre todos os filósofos, disse que tudo é água; a
água é o princípio e o fundamento de tudo o que existe. Heráclito de
Efeso, talvez o maior filósofo da escola jônica, afirmava que esse princí-
pio é o fogo. Empédocles de Agrigento relacionava a arkhé aos quatro
elementos da natureza: água, terra, fogo e ar.

1
Mestre em filosofia, PPGF - UFRJ. Professora convidada da EPSJV/Fiooruz.
2
Cf., por exemplo, ARISTÓTELES, Metafísica, 990a3. O termo é uma junção de dois outros:
physis, que quer dizer natureza, e lógos, que, nesse caso, significa discurso. Esses filósofos
pensaram e produziram discursos sobre a natureza.
3
Em português, também encontramos os dois sentidos no próprio termo "princípio", já que este
pode significar o início, a geração, mas também podemos falar que agimos segundo certos
princípios, isto é, que somos governados segundo determinados ditames.
14 TEMAS ni ENSINO MÉDIO POUTICA. CIÊNCIA l CHI IIIHA INTRODUÇÃO A FILOSOFIA POLÍTICA EM PLATÃO 19

É certo que os filósofos da natureza também refletiram sobre o Não há um consenso quanto a essa questão. A maioria dos co-
homem e a sociedade, mas não fizeram desses o tema principal de mentaristas de Platão classifica seus diálogos em três fases, que se
seu pensamento. Com Sócrates, a filosofia passa a privilegiar as- distinguiriam pela influência ou não da filosofia de Sócrates.
suntos concernentes ao homem e à sociedade. Sócrates dialoga,
Na primeira fase, chamada socrática, teríamos diálogos que re-
conversa, em praça pública, com ilustres cidadãos gregos e seu in-
teresse não se reduz à busca do princípio e fundamento de tudo o produzem fielmente a prática de Sócrates em praça pública. Nesses
que existe em elementos naturais, ao estudo da natureza e do uni- diálogos, Sócrates procura, discutindo com jovens e homens ilustres
verso, mas ele também investiga sobre o homem, sua airna, a socie- gregos, em linhas gerais, a definição das virtudes e não encontra uma
dade, a arte do governo, a educação, as virtudes, a felicidade, den- resposta, o que os caracterizam como diálogos aporéticos. 4 Nesse
tre outros. grupo encontramos: Apologia de Sócrates, Criton, Hípias Menor,
Hípías Maior, íon, Laques, Cármides, Eutífron, Lísis, Primeiro
Tais buscas e investigações socráticas somente nos foram
Alcebíades, Segundo Alcebíades, Protágoras, Górgias, Menéxeno e
legadas por seus seguidores e por poetas que com ele conviveram.
o primeiro livro da República.
Como sabemos, Sócrates nada escreveu. Sobre ele e sua maneira
de filosofar nos contaram, por exemplo, pertencentes ao círculo filo- Na segunda fase, Platão começaria a incluir suas próprias teses
sófico de Sócrates, Xenofonte, general e escritor com viés filosófico nos diálogos, mesmo ainda usando Sócrates como personagem prin-
e historiográfico, e Platão; e Aristófanes, comediante grego que tro- cipal deles e, assim, como porta-voz delas. Neles encontramos a fa-
çou da figura de Sócrates em /As Nuvens. Todos eles escolheram mosa "teoria das idéias", assim como as teorias relacionadas a essa,
Sócrates como um dos personagens de suas obras. como a compreensão do conhecimento como reminiscência, isto é,
Dentre esses, o que mais escreveu e influenciou a história da lembrança das idéias já conhecidas, e a defesa da imortalidade da
filosofia foi Platão. Há uma discussão entre os estudiosos dos tex- alma, pois somente sendo a alma imortal poderia ela ter conhecido as
tos de Platão quanto à predominância ou não da filosofia tal como idéias antes de se juntar a um corpo.
feita por Sócrates nos seus escritos. Platão escreveu suas obras em
Neste grupo de diálogos temos: Mênon, Fédon, Eutidemo, Ban-
forma de diálogos. Em todos eles, ele coloca suas palavras na boca
quete, Crátilo, Fedro e os livros II a X da República, onde encontra-
de outros, nunca fala em seu próprio nome. Na maior parte dos diá-
mos sua reflexão mais famosa acerca da política.
logos, o personagem principal é Sócrates. E ele quem defende as
teses que, atualmente, nomeamos como platônicas. No diálogo A Por fim, há uma terceira e última fase, na qual, segundo grande
República, por exemplo, é Sócrates quem conta sua visita à casa de parte dos comentadores, Platão abriria mão de algumas teses defen-
Céfalo, onde discutiu, principalmente, com Trasímaco, Gláucon e didas anteriormente e escreveria textos influenciados por suas experi-
Adimanto sobre o que é a justiça e quais são as suas propriedades. ências de vida, principalmente pelo fracasso de sua viagem à cidade
Sócrates imita, reproduz a fala desses personagens, e temos um de Siracusa, na qual pretendia colocar em prática os princípios políti-
diálogo entre ele e os mesmos, o qual é uma narração do próprio cos defendidos na República, com o intuito de possibilitar a existência
Sócrates, escrita por Platão. Ora, se Platão escreveu os diálogos,
mas quem defende as teses é Sócrates, como poderíamos saber se " O termo "aporia" compõe-se da partícula grega privativa a- e do termo pore/a, que quer dizer
caminho, trajeto. Quando nos encontramos em aporia, portanto, estamos sem caminho, sem
tais teses são socráticas ou platônicas? '..li " ' l | "H lllldl' M>l|llll l l" n l " , l, II Ir l . 1 < | ' " ' l''V, IV, l II l l . ll.lln. |í ' , . l l l, l l . " ,
1B TEMAS St ENSINO MÉDIO POLÍTICA, CIÊNCIA E CULTURA À POiniC* M PLATÃO 17

histórica da cidade mais justa de todas construída nesse diálogo.5 Na que, por exemplo, o todo se caracteriza pelo perpétuo movimento, que
velhice, Platão provavelmente escreveu os diálogos Teeteto, Parmênides, podemos perceber nas chamas de um fogo. Como Platão não usou um
Sofista, Político, Filebo, T/meu, Crítias e Leis.6 símbolo corporal, mas afirmou que a arkhé do todo é a Idéia do Bem,
inteligível, costuma-se dizer que com Platão temos o nascimento da
A falência do projeto político de Platão em Slracusa não foi motivo
metafísica. A nascente filosofia metafísica de Platão defende ser a Idéia
suficiente para que suas posições defendidas na República não reper-
do Bem o que constitui tudo.8
cutissem ao longo da história da filosofia e da humanidade. As utopias
nas quais se inspiraram as idéias socialistas, por exemplo, têm origem É importante ressaltar que o termo "bem", em grego agathós, quer
na primeira utopia social existente, narrada na República. dizer cumprir uma tarefa com excelência, finalizá-la, atingir sua
completude (BAILLY 2000). Algo é bom quando alcança o seu fim, seu
É neste diálogo que a arkhé, o princípio e o fundamento de tudo o
objetivo. O que determina a existência de algo é a condição excelente
que existe, que com Platão deixa de ser relacionada a um ou mais ele-
deste mesmo enquanto realiza sua função que o identifica, lhe dá um
mentos da natureza; é relacionada a um elemento propriamente huma-
nome. Nomeamos, por exemplo, um homem como médico quando ele é
no e social, o Bem, a Forma do Bem ou a Idéia do Bem - Platão usa as
capaz de curar pacientes, isto é, quando ele exerce bem sua função,
três expressões para falar desse princípio metafísico, isto é, desse prin-
realiza sua tarefa, alcança o objetivo da medicina. Outro exemplo: cha-
cípio que constitui e fundamenta tudo.7
mamos um objeto de giz quando ele é capaz de escrever em um
Toda filosofia busca o princípio ou fundamento do todo. Essa busca quadro-negro, isto é, quando realiza o que esperamos de um pedaço
pertence ao principal campo de investigação da filosofia, chamado de giz, sendo este útil, bom, aos homens. No próprio significado do
metafísica. Esse fundamento do todo não pode ser encontrado em ne- termo agathós encontramos uma indicação da razão pela qual Platão
nhum corpo, em nada sensível. Se todo corpo possui limites espaciais, pode afirmar que a Idéia do Bem é a realidade, o ser.9
como poderia abarcar o fundamento de todos os outros corpos e de A Idéia do Bem de Platão certamente ultrapassa esse significado
tudo que é incorpóreo? Dada a impossibilidade de o fundamento do por corresponder ao nível de abstração mais elevado de um conceito, já
todo se encontrar em qualquer corpo sensível, convencionou-se chamá- que se trata do princípio metafísico de todas as coisas. Mesmo assim, o
lo de fundamento metafísico, isto é, segundo a etimologia da palavra, termo agathós não foi escolhido pelo filósofo por acaso e certamente
que está para além, meia, do físico, corporal, material ou sensível. O mantém alguma ligação com seu significado corrente na Grécia Antiga.
mais importante filósofo grego a afirmar que o princípio do todo é algo O importante é que nos lembremos de que esse significado difere do
inteligível, não sensível, foi Platão com a defesa da Idéia do Bem como que compreendemos contemporaneamente quando dizemos que ser
fundamento último de tudo. Como vimos, os filósofos pré-socráticos, bom é ajudar ao próximo ou ser generoso, concepção que herdamos de
anteriores a Platão, identificavam esse fundamento a um ou mais ele- nossa tradição judaico-cristã.
mentos da natureza, physis, elementos corporais e sensíveis, mesmo
Com a identificação de arkhé e bem em Platão, temos sua diferen-
que esses fossem usados como símbolos de seu pensamento. Heráclito,
ça em relação aos pensadores da natureza, ou filósofos pré-socráticos.
por exemplo, ao afirmar que o fogo é o princípio fundante, quer dizer

" Niotzsche, por exemplo, caracteriza Sócrates e Platão como criadores da metafísica por, além
6
Cf. o que é dito na Sétima Carta de Platão. de valorizar o que não é material, como a alma, desvalorizar o corpo e as sensações (cf.
8
Podemos encontrar essa classificação dos diálogos platônicos, entre outros, na Cronologia de NIETZSCME, F. O crepúsculo dos ídolos: ou como se filosofa às marteladas. Tradução: Delfim
Platão presente na edição da República, de J. Guinsburg, Sáo Paulo: Perspeotlvn, ?006. ' ..ml i l I-.IMI. , n . H " , l i l i t i M i v , , MIH!i < i i ' pmblnm.i cie '.'»'« i . i h - . )
1
' Nos diálogos anteriores à República, Platão privilegia a Idéia do Belo. A nlontldad* entre Bem e Ser encontra »• otn PLATÁO. República. 51 Be.
11 UMA:; oi ENSINO MÉDIO HHno. CIÊNCIA t CULTURA INTRODUÇÃO A FILOSOFIA POLÍTICA EM PLATÃO 19

Em Platão, sendo diretamente influenciado por Sócrates, como vimos, adiante, já conhecidos na República, como a distinção das diversas for-
um aspecto humano, social e político constitui o fundamento de tudo o mas de constituição 12 e a crítica a leis como forma de impor o bem
que existe. A natureza é, com Platão, interpretada pelo uso de um ter- (PLATÃO, 294a)13, mesmo reconhecendo seu valor na organização so-
mo que concerne estritamente aos homens, e não os homens, como cial. Após o percurso do diálogo, chega-se enfim à definição da arte
parte da natureza, são compreendidos pelo uso dos elementos naturais política como a ciência que dirige todas as ciências, cuida das leis e dos
como princípios fundantes. assuntos que se referem à cidade, unindo todas as coisas como em um
Por essa razão, podemos afirmar que, com Platão, surgem a filoso- tecido perfeito.
fia política, a reflexão acerca da cidade, da polis, e sua organização, de As Leis é o último escrito de Platão, inacabado devido a sua mor-
como e por quem é exercido o poder, de como pode ser boa a vida dos to. Diálogo extenso, criticado pelo pedantismo no estilo e pelas temáticas
homens em sociedade, como pensamento metafísico, como filosofia tediosas14, apresenta os princípios políticos tratados na República, como
primeira. O político não se subordina a outra reflexão qualquer, mas veremos, sob um diferente ângulo. Trata-se da construção da constitui-
constitui um ponto central e, portanto, de destaque, em sua filosofia. ção de uma cidade a ser fundada em Creta, com a ajuda de um cretense,
Trataremos nesse texto de apresentar o leitor ao nascimento da Clínias, um espartano, Megilo, e o Ateniense, os personagens do diálo-
filosofia política limitando-nos à abordagem de alguns temas encontra- go. Eles formulam leis inspiradas nos ideais da República e nas consti-
dos no diálogo mais importante de Platão quanto ao assunto, a saber: A tuições das três cidades de origem dos personagens, Creta, Esparta e
República, onde ele constrói uma cidade utópica, ideal.10 Além da Re- Atenas. Já pelo seu título constatamos uma diferença em relação à
pública, duas outras obras de Platão têm como tema principal questões República. Neste diálogo, todos os homens da cidade utópica seriam
políticas: O Político e As Leis. bons, sendo assim, não haveria necessidade de leis para coagi-los a
agir bem. Já nas Leis os personagens tratam, na construção da consti-
No Político, o personagem Estrangeiro de Eléia conduz Sócrates,
tuição, de controlar diversos aspectos da vida humana por meio de nu-
o jovem - que não deve ser confundido com o Sócrates mestre de
merosas leis. Além disso, diferente de uma cidade ideal, somente possí-
Platão -, por meio de suas argumentações, a encontrar, junto com ele,
vel quando um filósofo se tornasse rei ou um rei se tornasse filósofo,
a definição da arte política, isto é, eles querem saber o que essa arte é.
como é o caso da República, o tema das Leis é a constituição de uma
Seus argumentos seguem o método da divisão, segundo o qual é possí-
cidade com fins explicitamente práticos, já que ela seria fundada e ins-
vel distinguir a arte política das outras artes, explicitando seus caracteres
pirada em constituições existentes: há uma mudança do plano ideal da
específicos. A arte política será das outras "dividida", distinguida das
demais artes por ser uma ciência" teórica diretiva e não crítica, por não
12
se limitar a julgar, como o faz a crítica, mas dirigir e ordenar. Ao longo da Elas são a monarquia, governo de um, onde, caso haja liberdade, riqueza e legalidade, é uma
realeza, e, caso haja opressão, pobreza e ilegalidade, trata-se de uma tirania; o governo de um
busca por essa definição, o diálogo percorre caminhos, como veremos pequeno número que, caso possua as boas qualidades citadas, se chama aristocracia, e caso
possua as más, oligarquia; por fim, a democracia onde o povo é soberano. Na República, essa
classificação é feita de forma diferente, ainda que contenha os mesmos elementos, isto é, tipos
10
Este texto não é, portanto, um artigo acadêmico direcionado aos especialistas, mas uma breve de constituições, além da timocracia, que se caracteriza pelo governo de homens que desejam
introdução geral à filosofia política platônica, visando a quem começa seus estudos no tema, honra. Retomaremos a classificação da República ao longo do texto.
13
assim como aos alunos de ensino médio estudantes de filosofia. Cf. na cidade construída na República não há leis, já que os homens são naturalmente bons,
11
A política é compreendida como uma arte, tékhne, assim como o é a agricultura, a arquitetura, fazem espontaneamente o que é melhor sem serem constrangidos por conseqüências jurídicas
a culinária etc. Toda tékhne possui uma ciência, episteme, um conhecimento teórico necessário (cf. PLATÃO. República, 425e-426a).
14
para sua boa execução. Assim acontece no caso da política: a arte política é, segundo Platão, Cf., por exemplo, a introdução de R. G. Bury à edição das Leis da coleção The LOEB Classical
uma ciência, prescinde de conhecimentos teóricos para ser bem exercida. Library, Cambridge: Harvard University Press, 2001.
20 TEMAS DE ENSINO MÉDIO POLÍTICA, CIÊNCIA t CULTURA INTRODUÇÃO A FILOSOFIA rOLÍTICA EM PLATÃO 2T

República ao plano das práticas políticas tal como eram feitas na Grécia, A conversa pela qual se buscava saber o que é a justiça, como
época de Platão. Essas leis seriam o caminho apontado pelo pensa- podemos ilclini Li. acaba incluindo onh.i (jiicstao: ;i dúvida ü respeito
mento, noüs em grego, no qual encontramos as virtudes, as excelências das propriedades da justiça, se ela é boa ou ruim, por si mesma e/ou
humanas. No caso desse diálogo, os personagens tratam principalmen- poi .u.r. ie< ompensas. O objetivo de Sócrates após a colocação de
te da temperança, sophrosyne, e da sabedoria prática, phrónesis, pelas Traslmaco será de mostrar que, diferente de como pensa o sofista, a
quais se participa do Bem, que é divino. Essas idéias relativas ao pensa- IN ilii . 1 ('• l)oa, n.io somente por suas recompensas, mas também por si
mento, às virtudes, ao Bem e à divindade, compartilhadas pelos dois mesma. Para isso, diz Sócrates, é preciso que se tenha anteriormente
diálogos, República e Leis, aparecem no último em meio a diversas re- i M n oi ii i, ido o que ela é, qual a sua definição.
flexões e temáticas sobre, por exemplo, as vantagens de se beber vi-
No intuito de encontrar tal definição, Sócrates sugere dois lugares
nho, o que determina a beleza nas artes, qual a melhor idade para o
possíveis de investigação: no homem e na cidade. Tanto um homem
casamento, quais limites deve-se impor ao apetite sexual, as tarefas
corno uma cidade podem ser justos e sendo ela fisicamente maior do
dos homens mais velhos, a igualdade na educação de homens e mulhe-
que ele Adimanto, que nessa altura do diálogo, no livro II, é o interlocutor
res, a existência de deuses, a natureza da alma, entre outras.
de Sócrates, concorda em procurá-la onde se pode vê-la com maior
Após breve resumo do Político e das Leis, tratemos, por fim, da facilidade: na cidade.
República, texto central da filosofia política platônica, que influenciou,
Essa é a razão da construção da cidade ideal, a cidade mais justa
como vimos, os dois diálogos posteriores. A questão que guia toda a
possível, no diálogo. É nela que o homem com natureza filosófica deve
discussão do diálogo é a definição da justiça, dikaiosyne, e a determi-
ser educado tal como um prisioneiro é liberto de uma caverna de som-
nação das suas propriedades, dynámeis. A obra foi dividida em dez li-
bras para contemplar o sol, análogo à Idéia do Bem. Os três temas mais
vros. No primeiro livro, Sócrates, Céfalo, Polemarco, Trasímaco, Adimanto
comentados do diálogo, a cidade utópica, a Alegoria da Caverna e a
e Gláucon, personagens desse diálogo, procuram saber o que é a justi-
Idéia do Bem, fazem parte da busca pela definição da justiça e a desco-
ça.15 Após a discussão sobre algumas definições, Trasímaco, um grande
berta das suas propriedades.
sofista da época, afirma que a justiça é o interesse do mais forte pre-
sente nas leis que cria. O governante de uma cidade, possuindo o poder A filosofia política, a reflexão sobre a ordem e o poder sociais, sur-
e sendo, por isso, o mais forte, cria as leis sociais conforme lhe interes- ge da determinação de uma ordem e poder ideais. A ordem: a cidade
sa, isto é, de forma que elas lhe tragam vantagens. Assim sendo, o que os personagens criam para encontrar nela a justiça se dividiria em
homem justo que age segundo as leis atende ao interesse do governante, três classes, a dos agricultores, comerciantes e artesãos, que Sócrates
proporciona vantagens a ele, não a si próprio. A justiça não seria, de chamará, ao longo do diálogo, de classe dos artesãos; a dos guardiões;
acordo com a definição de Trasímaco, boa por si mesma, isto é, uma e a dos governantes. A divisão entre as classes seria feita de acordo
ação justa não proporciona nenhum bem àquele que a faz. Ela seria boa com a natureza de cada homem, já que os personagens concordam que
somente por suas recompensas sociais, isto é, somente porque a so- todo homem nasce com uma natureza que determina sua tarefa ou
ciedade reconheceria como bom um homem justo e, não sendo injusto, função social. O poder: o homem com natureza filosófica é quern deve
ele não seria punido por nenhuma lei. governar, quer dizer, somente o filósofo que conhece o que é o Bem
verdadeiro pode governar a cidade para que ela seja boa para todos.
16
Por se tratar da busca da definição de uma virtude e finalizar em aporia, sem resposta, os Ele não governaria por amor ao poder. O que determinaria seu governo
comentaristas de Platão classificaram esse livro como socrático, como dissemos. é sua alma que, como conta Sócrates no mito da origem do homem no
22 TEMAS DE ENSINO MÉDIO POLÍTICA, CIÍNCIA E CULTURA INTRODUÇÃO A FILOSOFIA POLÍTICA EM PLATÃO 23

interior da terra, no livro 3 da República, foi feita de ouro, enquanto a do sente em toda cidade. Outros defendem que Platão guardaria o desejo
guardião foi composta de prata, e a do agricultor, comerciante ou arte- de reformar a cidade em sua atividade política efetiva, como atesta sua
são, de bronze. i. nl.ih./.i de educação íilosolica do (jovomaiih; (Ir oiinciÜMi ii;in;ul;i i;m
um.! de 31188 cartas ICAHIA SÉTIMA, 2002); ou havoii;i moldado ;i ei
O delineamento dessa ordem e desse poder sociais fez com que
Platão, enquanto filósofo político, fosse visto como um revolucionário, dade ideal para que todo homem, independentemente da forma política
da cidade em que habite, pudesse agir, ao menos individualmente, de
já que apresentava uma proposta social bastante diferente da demo-
lonn i justa e ideal, corno indica Sócrates numa passagem no final do
cracia ateniense vigente em sua época, pois na cidade ideal, por exem-
livio IX do diálogo, que transcreveremos ao longo do nosso texto.
plo, não havia leis, as mulheres poderiam ocupar os mesmos cargos que
os homens - o que era novo para a Grécia Antiga, na qual as mulhe- Dado o exposto, perguntaríamos: Platão seria, enfim, um revolu-
res, os jovens e os escravos não eram considerados cidadãos, não • ano ou um conservador? Um fascista ou um socialista? Um sonha
tendo direitos políticos -, os guardiões e governantes compartilhariam dor ou um reformador político? Mais importante que tomar uma posição
as mesmas mulheres e filhos, e os filósofos governariam! Assim como é, por ora, perceber como todas essas reflexões e posteriores teorias
revolucionário, Platão foi também chamado do oposto, de conservador, políticas encontraram sua semente em Platão. No texto da República
já que no diálogo Sócrates defendia as idéias tradicionais do senso co- temos, como já afirmamos, o nascimento da filosofia política. É desse
mum grego de que, por exemplo, a justiça é boa e de que o governante diálogo que surge toda reflexão sobre a pó//s, seja quando essa refle-
é um homem ligado ao divino, segundo a tradição, com descendência xão se fundamenta nas idéias platônicas, seja quando as critica.
divina e, segundo A República, ligado à divina Idéia do Bem.
Demoremo-nos agora um pouco mais nas concepções de Platão
Sendo, além de revolucionário ou conservador, precursor do comu- que são, afinal, o principal tema de nosso texto. Já sabemos que Sócrates
nismo, ao defender a comunidade de bens, mulheres e filhos para os decide criar uma cidade imaginária, isto é, que existe como obra de pa-
guardiões e governantes, Platão foi tomado como defensor de uma po- lavras, literatura. Ele cria uma cidade capaz de atender a todas as ne-
lítica totalitária, já que o poder seria exercido verticalmente e as classes cessidades humanas: alimentos, habitação e vestuário. Para isso, são
de artesãos e de guardiões viveriam de acordo com as diretrizes apon- necessários lavradores, pedreiros, tecelões, sapateiros, carpinteiros e
tadas pela classe dos governantes. Foi também caracterizado como fas- ferreiros para produzirem seus utensílios; boiadeiros e pastores, pois o
cista devido à restrição do poder a essa classe - mesmo que ele não gado é necessário para lavrar, transportar os materiais do pedreiro e
seja absoluto e ilimitado, já que é determinado pela própria Idéia do para prover as peles e lãs usadas pelos tecelões e sapateiros; negoci-
Bem; o problema aqui seria que somente o(s) filósofo(s), o(s) antes, pois será preciso importar os produtos que a cidade não produz
governante(s), a conheceria(m), não podendo, portanto, comprovar à por meio de uma permuta pelos produtos que ela produz; marinheiros,
totalidade dos habitantes dessa cidade que seu poder não é ilimitado e para que as importações e exportações possam ser feitas pelo mar;
absoluto. Além disso, Platão, com A República, seria também inspirador varejista, responsável pelo comércio interno da cidade; e, por fim, tra-
do socialismo, por, principalmente, valorizar o bem comum. balhadores que vendem sua força física.
Ainda encontramos interpretações opostas a respeito de outro as- Assim, estaria pronta a cidade, se Glaucon não percebesse que
pecto: a tensão entre teoria e prática. Para alguns leitores, a cidade ela se parece mais com uma cidade de porcos do que com uma de
descrita na República não passa de um mero sonho: seu caráter utópi- homens. Somente os animais vivem com somente o necessário. Os
co desligaria a especulação filosófica e política da prática política pré- homens não vivem atendendo somente às necessidades naturais, rnas
24 TEMAS Dl ENSINO MÉDIO POLÍTICA, CIÊNCIA E CULTORA INTRODUÇÃO À FILOSOFIA PD LÍTICA EM PLATÃO 29

procuram realizar os desejos culturalmente criados pelos costumes de que é conveniente a sua natureza. A cultura e as "necessidades cultu-
seu povo. Glaucon diz que, para serem felizes, os homens precisam de rais", presentes na cidade com a colocação de Glaucon, não existem
leitos, mesas, iguarias e sobremesas. Segundo ele, a felicidade está na em oposição à natureza. Modernamente entendemos como cultural tudo
aquisição de algo para além de simplesmente viver, o que é garantido aquilo criado pelo homem e, portanto, não natural tudo aquilo criado
pelo atendimento às necessidades básicas. Sócrates concorda com a pela natureza.
sugestão de Glaucon, pois acredita que numa cidade de luxo como essa
Em Platão, assim como em toda cultura grega antiga, a cultura - os
que ele propõe será mais fácil de se encontrar a justiça, objetivo dos
u n .oi MI:: é compreendida como parte da natureza, ou melhor, como
personagens. Mesmo acreditando que a primeira cidade seja saudável
i KM|I MI , K i de uma exigência natural. Na República, a natureza huma-
e verdadeira16, ele parte para a construção da segunda. Para que a
na é caracterizada por uma tarefa, por algo a ser feito. A tarefa de um
primeira cidade se torne uma cidade de luxo, Sócrates acrescenta a ela,
além do sugerido por Glaucon, guloseimas, todas as outras espécies de homem na cidade é determinada pela sua natureza. Ele fará o que es-
gado, perfumes, incensos, adereços femininos, pinturas coloridas, ouro, pontaneamente, naturalmente, o faz de melhor. A cultura social é natu-
marfim, cortesãs e mais terras - e tudo em toda sua variedade. ralmente delineada, é uma expressão da natureza.

Para abranger essa multiplicidade de bens, a cidade precisará de A educação para a realização dessa tarefa também será
poetas, rapsodos, atores, coreutas, empresários, artífices para toda direcionada segundo as aptidões naturais de cada um. O homem
espécie de utensílios, pedagogos, amas, governantes, camareiras, ca- torna-se excelente ou, com as palavras de Platão, belo e bom17, quan-
beleireiros, cozinheiros, açougueiros, porqueiros, médicos e guerreiros, do sua alma conhece música e literatura com mensagens úteis ao
estes últimos chamados de guardiões. trabalho que deve cumprir, narradas de forma simples, e quando seu
corpo se exercita com a ginástica de forma moderada. Somente os
Toda essa descrição que fizemos de como a cidade saudável, se-
homens que apresentam facilidade de raciocínio e boa memória es-
gundo Sócrates, ou cidade de porcos, segundo Glaucon, torna-se uma
tudariam ciências complexas, como as matemáticas e a astronomia.
cidade luxuosa - onde há mais possibilidade de doenças, pelo consumo
O conhecimento adquirido pela educação não é enciclopédico. Não
de alimentos pobres em nutrientes, e de guerras, para que a cidade
se dá valor ao acúmulo de informações ou saberes, mas, ao contrá-
tenha terras suficientes para sua maior população e para a defesa de
rio, toda informação ou saber terá valor quando seguir natureza e
ataques externos - foi feita para mostrar que a cidade ideal construída
no diálogo não é uma cidade perfeita. Nela há males, como doenças e espontaneidade e se refletir praticamente para o bem da cidade como
guerras. Sócrates aproxima sua cidade daquela onde vivemos; ela está um todo. Convém lembrar que algumas naturezas, devido a sua for-
entre o sonho de perfeição e a cidade tal como se nos apresenta em ça, conseguem realizar estudos e tarefas difíceis e, em alguns ca-
seu âmbito prático. sos, dolorosas, sem comprometer a qualidade da sua vida e a sua
felicidade. Guardiões enfrentam muitos perigos e governantes pas-
Nessa cidade luxuosa, ou ideal, ou utópica, ou mais justa possível,
sam por tarefas árduas até que estejam preparados para o governo.
os homens não viverão de acordo com o necessário, mas respeitando o
Essas dificuldades, enfrentadas por homens com natureza propícia
3
a superá-las, são necessárias para que todos na cidade vivam bem.
Para Platão, a verdade não quer dizer a correspondência com os fatos, mas se relaciona com
a Idéia do Bem, da qual trataremos um pouco mais detalhadamente adiante. Por ora, basta
que percebamos que, para Platão, algo verdadeiro é algo bom, excelente, virtuoso. Quando
17
ele diz que a primeira cidade é verdadeira, devemos compreender que, para Sócrates, ela é Pela expressão "belo e bom" (kalòs te kaí agathós) é caracterizada a excelência, a virtude
melhor que a segunda. humana, nos diálogos de Platão.
28 TEMAS III ENSINO MÉDIO POLÍTICA, CIÈNDIA E CUUORA INTRODUÇÃO À FILOSOFIA POLÍTICA Elfl PLATÃO 27

As dificuldades próprias à educação do(s) governante(s) são existe, possui como temáticas principais a alienação - se optarmos por
indicadas na Alegoria da Caverna. Depois de construída a cidade, no vocabulário moderno, da maioria dos cidadãos frente àqueles que co-
começo do livro VII da República, Sócrates conta uma história que re- :,i,m.I.mi suas opiniões <; cionuis, os homens que transporiam as ima-
presenta o processo educativo. Nela os homens estão presos numa gens dos objetos em frente ao fogo - e a necessidade do conhecimento
caverna, em frente a uma parede onde podem ver a sombra das ima- do Bem para bem governar. Na alegoria, somente um ou poucos ho-
gens de objetos transportados por outros homens, que estão atrás de- moris são libertos; a maioria está e ficará presa. O filósofo governará
les e à frente de uma fogueira. Como, por estarem presos, só conse- ibriulu il.i impossibilidade da educação filosófica de todos - a maioria
guem ver sombras, os homens pensam que essas sombras constituem lfin'1 KMiipre urn conhecimento obscuro da realidade. Mas esse conheci-
a realidade, que elas são os objetos verdadeiros. Segundo Sócrates, mento pode ser, ao menos, bem dirigido: aí estaria, talvez, o papel dos
nós, homens, vivemos como esses prisioneiros, sem compreender que, nulos, das histórias fantasiosas, mentirosas, contadas nessa cidade,
para se obter o conhecimento, é preciso libertar-se da visão comum, da quo auxiliariam na formação de homens virtuosos.18
maioria, que só vê sombras. É preciso ver que as opiniões anteriores
A filosofia política em Platão, como vimos, correlaciona-se à
tomadas como corretas são sombras da imagem dos objetos, e essas
metafísica, por abordar a Idéia do Bem, e à epistemologia ou teoria do
imagens, por estarem dentro da caverna, não correspondem à realida-
conhecimento, já que trata do conhecimento dos objetos. Veremos agora
de, pois esta não é uma representação imagética obscura, ao contrário,
como ela também se relaciona à psicologia. As palavras, lógoi, de
é iluminada, clara e perfeitamente visível. O homem liberto pode, per-
Sócrates na República sobre a alma, psykhé, estruturam-na em três
correndo um difícil e doloroso caminho para cima, sair da caverna e ver
partes: uma responsável pelo desejo, epithymía, chamada de
a lua, as estrelas e, durante o dia, o sol. O sol, por meio de sua luz, é o
epithymetikón; outra, pelas emoções que nos levam a agir, como a cóle-
que faz com que possamos ver, conhecer verdadeiramente, os objetos
ra, thymós, cujo nome é thymoeidés; e, por fim, a parte que deve gover-
e a realidade.
nar as outras, logistikón, pela qual o homem encontra o sentido das
O sol é uma metáfora para a Idéia do Bem. Fora da caverna está a coisas através da razão, usando o discurso, sendo sentido, razão e dis-
realidade, o que existe. Conhecer algo, sua verdade, é encontrar nele o curso três traduções possíveis para o termo lógos. A tripartição da alma
que há de bom, ver onde ele participa da Idéia do Bem. O homem que corresponde à da cidade dividida em três classes. A cidade se estrutura
sai da caverna e contempla o céu é o filósofo que, com o conhecimento como a alma. Essa é a conclusão a que chegam os personagens do
do que é bom, deve voltar à caverna e governar os outros homens. diálogo após encontrada a definição da justiça.
Somente o filósofo pode governar porque somente ele sabe o que é A cidade mais justa possível é construída e a educação dos seus
melhor para todos. Somente ele possibilita a felicidade de toda a cida- habitantes determinada. Feito isso, os personagens tentam encontrar
de, que cada um seja feliz a sua maneira. Os personagens do diálogo nela a justiça. No livro 4, do diálogo, após a definição das outras virtu-
concordam que cada homem possui uma natureza que indica com que des, temperança, coragem e sabedoria, chega-se à justiça. Os perso-
tarefas e de que maneiras ele pode ser feliz. nagens concluem que ela é simplesmente a obediência a urn princípio
A Alegoria da Caverna é um texto cuja abordagem é essencial- estabelecido no momento em que é criada a cidade: de que cada ho-
mente política. Mesmo englobando noções epistemológicas, já que tra-
18
ta do conhecimento dos objetos, e metafísicas, pois o filósofo contem- Uma interessante apropriação da Alegoria da Caverna que a relaciona à nossa sociedade
capitalista, científica e técnica de forma poética e livre encontra-se numa linda obra de Saramago,
pla a Idéia de Bem, que é, segundo Platão, o fundamento de tudo o que intitulada A caverna.
21 TEMAS Dl ENSINO MÉDIO FOÜTICA, CIÊNCIA l CULTURA INTRODUÇÃO A HLOSDFIA POLÍTICA EM PLATÃO 2B

mem nasce com uma natureza para a realização de determinada tare- paia que se forme um todo belo (PLATÃO, Rep. 420c-
fa. A realização dessa tarefa é justiça. Fazer além ou menos do que nos i 'Icj). Além disso, o próprio mundo foi confeccionado, segundo o mito
propõe nossa natureza própria é injusto. mu iilo poi l u 11« -u, como i mi; i ohia de ;irtu, já que u at tesão ou demiurgo,
Na cidade, cada uma de suas classes deverá cumprir o seu traba- dêinlourgós, do mundo contemplava um modelo a ser impresso na ma-
lho. Artesãos devem confeccionar objetos, guardiões devem defender IMI U, .1. UM Io lhe loima.'"
a cidade e filósofos, governar. Quando cada classe cumpre sua tarefa, l m Platão, seja lá qual for o objeto de investigação, se se estruturar
temos uma cidade justa. Já se um homem naturalmente artesão viesse MU dl id.i l oi ma, sendo belo, respeitando os devidos limites estabeleci-
a governar, por exemplo, exercendo uma função estranha à que foi de- iln i » l.i M.iliiieza, ele e metafísico, isto é, expõe o princípio do todo, a
terminada naturalmente, a cidade tornar-se-ia injusta. lilnin do l Sem; como é sugerido no Timeu, acompanha a ordem de tudo,
O mesmo ocorre em relação à alma humana. Quando a parte que ilo universo, kósmos. Também no final do livro IX da República, Glaucon
deseja é governada pela parte que, por meio da razão, sabe o que e ' h ,i Sócrates:
quanto se deve desejar para que se possa realizar esses desejos, com (...) Referes-te à cidade que edificamos há pouco na nossa
a ajuda das emoções para tanto, temos um homem com alma justa, um exposição, àquela que está fundada só em palavras, pois
homem justo. Já quando isso não ocorre, quando são os nossos dese- creio bem que não se encontra em parte alguma da terra.
jos, sem conhecer o verdadeiro fim e sentido do que quer, que gover- (PLATÃO, Rep. 592b, 2001).

nam a alma, temos a alma de um homem injusto.


E Sócrates responde:
A justiça e a injustiça operam na cidade como operam no ho-
mem. Compreender o funcionamento e as estruturas de uma cidade Mas talvez haja um modelo no céu, para quem quiser
contemplá-la e, contemplando-a, fundar uma para si mes-
é compreender o mesmo na alma humana.19 Em Platão, o mais im-
mo. De resto, nada importa que a cidade exista em qualquer
portante não é o tema, a matéria, mas a sua forma. Se tratamos da lugar, ou venha a existir, porquanto é pelas suas normas, e
cidade, de filosofia política, ou da alma, de psicologia, o principal é pelas de mais nenhuma outra, que ele pautará o seu com-
investigar sobre sua forma. A justiça é boa, é parte de uma forma, a portamento. (PLATÃO, Rep. 592b, 2001).
Forma do Bem ou Idéia do Bem. A estrutura, a organização, é mais
importante que a matéria. Esse modelo da cidade que pode ser visto no céu para orientar
nossas ações e comportamentos é desenhado, em certo sentido, no
Neste ponto, temos a relevância da estética na filosofia platônica.
Mito de Er, que finaliza o texto da República.
Em Platão, os conceitos de bem e belo são inseparáveis, já que a exce-
lência se caracteriza pelo alcance de um fim ou limite, que delineia a Segundo conta Sócrates, Er é um mensageiro chamado pelos deu-
bela forma. O belo relaciona-se à forma e à proporção harmoniosa. A ses para dizer aos homens o que ocorre com a alma dos mortos. Ele
própria cidade construída pelos personagens na República é compara- conta que a alma dos justos vai para o céu e tem boas e belas experiên-
da a uma bela escultura cujas partes devem ser pintadas com as cores cias, mas a dos injustos vai para baixo da terra, onde sofre terríveis
torturas. Quer dizer, a vida justa engloba boas experiências, enquanto a
19
Esse ponto será criticado por Aristóteles, que afirma que Platão teria confundido os âmbitos injusta, dores. No céu está um exemplo da cidade justa na medida em
público e privado e que cada um deles merece um tratamento específico. Cf. ARISTÓTELES. A
política. Tradução Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 2002. Cap. Exame das duas
constituições de Platão. Cf. o início da narrativa de Timeu no diálogo que leva o seu nome.
30 TEMAS Dl ENSINO MÉDIO PUU1ICA, CIÊNCIA E CULTURA INTRODUÇÃO Á FILOSOFIA POLÍTICA IM PLATÃO 31

que os homens justos correlacionam-se ao bem, como concluirão os l in um;i íiltna justa encontramos as virtudes também localizadas
personagens. • •MI i h -i i 'i 1 1 n 1 1, K i; is partes. A parte da razão, lógos, que governa, é sábia;
A forma da alma e da cidade se encontra também no céu. A ,1 . 1 . 1 i cilciii, thymós, que auxilia no governo, é corajosa; e a do desejo,
cidade ideal imaginada no diálogo segue princípios universais e natu- "1'iihymla, é, assim como as outras, temperante.
rais. O estudo da política é um desdobramento do estudo da totali- Todas essas virtudes existem em cada parte da alma ou da cidade
dade do que existe. Aqui, ficam claras as correlações com o kósmos 1 1 ii.i [|uc | ( M | , I | > ; u t < ! possa ser justa. Justiça é cumprir a tarefa própria.
e com a nossa alma. Sendo assim, um bom político precisa de co- l in n •!, u.:, 10 ;'i cidade, nosso tema principal, temos que a tarefa do gover-
nhecimentos metafísicos sobre a ordem e beleza do universo, kósmos; pnssível qiüindo se possui o conhecimento da totalidade; a guarda,
deve ser filósofo. > p i nulo se mantém a opinião certa do que se deve e do que não se deve
O governante filósofo não tomaria decisões baseadas em sua "mera I I M M C M , ,i obra do artesão e todas as demais funções, quando se concor-
vontade", mas seguiria a ordem percebida quando contempla, no céu, a • i i i -m relação a quem deve governar.
Idéia do Bem. O governo filosófico é, na verdade, a observância a prin- Quando não há esse acordo, quando as partes da cidade pensam
cípios naturais, cosmológicos. Trata-se de cuidar para que cada homem que um homem de natureza guerreira, por exemplo, deve governar, a
realize sua tarefa natural e fazer com que a cidade siga os princípios i K l, ide torna-se injusta. A determinação do governante da cidade ca-
"escritos nas estrelas", como diríamos coloquialmente. racterizará o tipo de constituição em que se vive e o grau de justiça e
Como podemos imaginar na Modernidade, o homem não deve iludir- Injustiça presente nela.
se pensando que pode governar bem a cidade como quiser, seguindo sua Após a construção da cidade e da educação de seus habitantes, de
liberdade de escolha. Segundo Sócrates, a melhor forma de governar, se encontrar a definição de todas as virtudes, inclusive a da justiça, de se
assim como a justiça, existe e pode ser conhecida; ela não é relativa. O apontar a composição tripartite da alma, de se mostrar o processo
homem também, e principalmente, não deve acreditar que pode controlar educativo do governante na Alegoria da Caverna, deve-se retomara ques-
a natureza. Segundo o pensamento grego antigo, como parte da nature- tão presente no começo do diálogo. Dada a definição de justiça, Sócrates
za, ele deve respeitá-la. Deve, ao contrário, perceber o que ela indica e e seus interlocutores podem então pesquisar quais são suas proprieda-
seguir o que ela aponta. Para que uma alma, ou uma cidade, seja bela e des, se ela é boa ou ruim, por si mesma e/ou por suas recompensas. Para
boa, virtuosa, excelente, ela deve seguir princípios naturais. isso, diz ele, é preciso comparar a vida do mais justo dos homens com a
A excelência ou virtude de cada parte da cidade ou da alma ocorre do mais injusto, percebendo, assim, qual deles é mais feliz.
de forma diferente. Em uma cidade justa, a classe dos governantes é Para determinar quem é o mais justo e quem é o mais injusto dos
sábia, pois ela possui o conhecimento certo para deliberar sobre a tota- homens, Sócrates usa como instrumento a cidade. Na cidade rnais jus-
lidade da cidade, e assim é definida a sabedoria no diálogo. A classe dos ta encontraremos o homem mais justo, e na mais injusta, o rnais injus-
guardiões é corajosa, pois é a única que mantém, por todas as vicissitu- to. Ora, a cidade é determinada pela alma dos homens que a habitam.
des, a opinião correta sobre o que se deve temer e o que se não deve; Porque os homens da cidade ideal são justos, é essa cidade justa. Sen-
por fim, os artesãos, assim como os homens das outras classes, são do assim, é preciso que se encontrem os tipos de constituição possíveis
temperantes por concordarem em relação a quem deve governar e por para que se chegue à determinação dos tipos de alma humana existen-
quem deve ser governado. tes, da mais justa a mais injusta. No livro VIII do diálogo, Sócrates descre-
32 TEMAS Df ENSINO MÉDIO POÜTICA, CIÊNCIA F CULTUBA INTRODUÇÃO A FILOSOFIA POLÍTICA ENI PLATÃO 33
l
ve os vários tipos de constituição, podendo observar como seria a vida MI liiuii.r., •.omriite prazeres. Ele é o único dentre os outros tipos
do homem que sob cada uma vivesse. i.ibalha tendo em vista o dinheiro, pelo qual pode com-
Na cidade ideal construída no diálogo mora o homem mais justo. i.oipoiais obtidos pela comida, bebida e sexo. Os desejos
Esta cidade tem a aristocracia como forma política, já que o governo ou iloantiB tipos de prazer são chamados por Sócrates, nessa altura do
a força, krátos em grego, é do(s) melhor(es), do(s) nobre(s), ár/sros. Ela > i i ilmi". i l i - 'losejos necessários, já que são imprescindíveis para a vida
é regida pelo desejo da sabedoria próprio ao filósofo governante, ele- i, u,:; K) humana.
mento mais importante para o nascimento e a sobrevivência da cidade ........ l- um artesão ostn no governo, a cidade deseja, acima de
ideal. Do ponto de vista da cidade, os desejos de honra são próprios à i u. 1. 1 in ilielro. Tendo como valor a riqueza, os homens mais ricos gover-
classe dos guardiões e os de prazeres estão presentes na classe dos 'lade. Ela deixa de ser única e é dividida em duas: a dos ricos e
artesãos. Todos esses desejos, de sabedoria, honra e prazer, existem ' ' l"-, pobres. Note-se que a descrição das cidades na ordem de sua
na cidade em limites apontados pelo(s) governante(s), que fazem com 'l • n li -i H 1.1 v, n da mais justa à mais injusta, assim como da mais unida
que esses desejos só tragam coisas boas e nunca algo ruim. ' i u. UM dividida. Na cidade com constituição oligárquica encontramos a
Quando esse tipo de governo ocorre na alma, a parte logistikón, i 'limeira divisão na cidade, entre os ricos e os pobres.
onde há razão, governa as outras. O homem cuja alma é governada
A oligarquia corresponde, em nossa alma, ao governo da parte que
pelo lógos obtém sabedoria, a parte thymoeidés encontra honra e a
i d < M '•inihymetikón. Quando esta parte governa, nossos desejos de
parte que deseja, epithymetikón, encontra os prazeres de comida, bebi-
prazer, desejos necessários para a nossa sobrevivência, não encontram
da e sexo. Nenhuma das partes deseja algo para além do que pode
limites. Sendo assim, nunca se pode realizar a todos. Sem realizar tudo
alcançar e do que seja bom e belo que alcance.
O que deseja, o homem com esse tipo de alma nunca está satisfeito,
Se a classe de guardiões toma o governo da cidade, o desejo que sempre quer algo além do que tem.
prevalece nela deixa de ser de sabedoria para ser o de honra. Trata-se
Depois da aristocracia, timocracia e oligarquia, Sócrates descreve
da timocracia. Uma cidade timocrática quer, além de tudo, ser honrada,
a democracia. Essa parte do texto é bastante interessante para nós, já
pois seu governante possui a alma de prata, a alma de guardião.
que, tendo escrito há tanto tempo, Platão soube descrever diversos
Repare que a honra depende dos outros homens que honram. Não males de nosso sistema político como se pudesse prever o futuro ou
pode ser adquirida de forma autônoma, como a sabedoria. Além disso, como se a democracia ateniense tivesse os mesmos defeitos que a nossa.
para obter honras, a cidade deverá envolver-se em guerras, o que traz à
Como o próprio termo diz, a democracia é o governo de todos,
vida de seus habitantes dor e tristeza. Somente por esses fatores po-
do povo, dêmos. Nessa constituição, não há somente desejos ne-
demos perceber como a aristocracia é uma forma política melhor do que
a timocracia. cessários, mas se deseja além daquilo que se precisa e daquilo que
convém, pois todos são livres para desejar o que quiserem, como qui-
Em nossa alma, esse governo corresponde à injustiça do poder da serem, quando quiserem. Todos são tidos como iguais, então nenhum
cólera, thymós, sobre a razão, lógos, caracterizando um homem aman- desejo prevalece frente aos demais. Não há um valor comum a todos,
te de guerras para obtenção de honras.
como acontecia antes, em que todos valorizavam a sabedoria ou a
Já uma cidade oligárquica nasce quando um homem naturalmente honra ou os prazeres necessários. Nessa sociedade, cada um tem o
artesão torna-se governante. O artesão, na cidade, não deseja sabedo- seu valor e vive de acordo com ele. É manifesto que a unidade da
34 TEMAS Dl ENSINO MÉDIO POLÍTICA. CIÊNCIA f CULTURA INTRODUÇAO A IIIUSnHA POLUIU) El» PLATÃO 13

cidade aristocrática, perdida na oligárquica que se divide em duas, é MU l HMII ,i<|c <)o forma justa, isto é, cumprindo sua tarefa natural
ainda mais comprometida na democrática. Nela, cada um parece viver - 1 < •. nu quando cada parte de sua alma faz e deseja o que é bom
por si. A cidade não parece uma, mas várias. A variedade é caracterís- iluml, i'k vive realizando seus desejos, desfrutando de todos os
tica marcante da cidade democrática. i li- j n. i/i M do forma harmônica e saudável.
1
O homem cuja alma corresponda à estrutura democrática encon- 'iiundo um homem com alma de prata é justo, isto é, defende sua
tra-se numa situação um pouco pior que o homem oligárquico. Nele n ioi i a, ele proporciona não somente o bem da cidade, mas
governam, sem medida, não somente os desejos necessários, mas tam- i niiismo. É por meio da guerra que ele pode obter as honras que
bém os não necessários. À medida que aumentam seus desejos, au- • • que o tornam satisfeito e feliz. Agir de forma justa faz bem aos
menta sua insatisfação, dada a impossibilidade de realizá-los. • ,i si mesmo. Há um encontro do bem de todos com o bem de
i n n l ,1/1-i o que é bom para todos é fazer o que é bom para si mesmo,
Por fim, Sócrates descreve a pior constituição de todas: a tirania.
i. . /eisã. Não há separação entre os dois âmbitos. A proposta de
Nela, nenhum desejo governa. Os homens de uma cidade tirânica são
IIM.ICO, colocada no livro l do diálogo, de que um homem, quando
escravos do governante, não podendo realizar nada do que queiram.
m i|c lorma j u s t a , não faz bem a si mesmo, mas somente; no
Tendo apresentado os cinco tipos de constituição possíveis - aris- >'Minute, é refutada. Trasímaco defendeu que a justiça é cumprir leis
tocracia, timocracia, oligarquia, democracia e tirania -, Sócrates passa i n.iilíis pelo governante para seu próprio bem. Assim, como vimos, um
à comparação entre o mais justo e o mais injusto dos homens. A alma l Munem justo não faria bem a si mesmo, somente ao governante. Se
do homem mais justo, como vimos, deseja na medida em que pode ' ioi mtos nos persuade de que o bem próprio, individual, é equivalente
realizar o que deseja. Realizando seus desejos, ela é feliz. Além de rea- n > |>i-n lê todos fazei bem ao governante, ou a qualquer outro hnbi
lizar tudo o que deseja, ela é a única a obter o melhor prazer dentre da cidade, e razet bem a todos e, assim, também a si mesmo.
todos: o prazer do conhecimento. Homens com outros tipos de alma,
governadas pelo desejo de honra ou de prazeres, não desenvolvem seu A posição de Sócrates em relação à política é estranha a nossa
lógos, não podendo conhecer. dado contemporânea. Atualmente, quem "faz política" precisa es
colher entre o bem do povo e o bem das classes favorecidas, ou entre o
Já a alma do mais injusto dos homens, o tirano, não governada bem de todos e o bem próprio, ou entre qualquer outra disputa de van-
pelo conhecimento do que é melhor, deseja sem limites e, portanto, tagens entre grupos sociais ou indivíduos; a política tornou-se um jogo
como já afirmamos, torna impossível a realização de seus desejos. Um
de interesses onde todos querem "levar a melhor", onde, na maioria
homem com uma alma injusta está sempre insatisfeito, deseja sempre
dos casos, quem está no poder promulga leis que visam a seu bem
algo a mais do que tem. Um homem injusto não é livre; é sempre escra-
particular, ou, se optarmos pela visão de Sócrates, seu bem particular
vo dos seus desejos. Ele é o mais infeliz de todos os homens. E quando,
ilusório, já que, para ele, o bem particular é idêntico ao bem de todos. A
como é o caso de um homem numa cidade tirânica, não pode realizar
política está em crise: poucos se interessam por ela e quem com ela se
nenhum, temos a maior das desgraças.
envolve corre o risco de se misturar, mesmo indiretamente, com a
Glaucon obtém de Sócrates o que desejava. Eles concluem, junto corrupção. A corrupção, assim como todo ato que vai contra a lei, é um
com Adimanto, que o homem justo, cuja alma faz e deseja o que con- reflexo da política feita segundo a compreensão de Trasímaco. Se ser
vém por natureza, é o mais feliz de todos os homens. A justiça é boa justo é fazer bem ao criador da lei e se o bem dele é diferente do meu,
não somente por suas recompensas sociais, mas por si mesma. Ouan- por que não tentar burlar a lei para conseguir vantagens particulares?
38 TEMAS DE ENSINO MÉDIO POLÍTICA. CIÊNCIA l CULTURA INIROIIUÇAll A FILOSOFIA POLÍTICA EM PLATÃO 37

Se a justiça é boa somente pelas suas recompensas sociais e a injusti- • Cartas. 4. ed. Lisboa: Estampa, 2002.
ça ruim só pelas punições estabelecidas, se é possível escapar dessas Inws. Tradução: R. G. Bury. Ed. bilíngüe. Cambridge: Harvard
, Press, 2001 (LOEB).
punições e obter vantagens, por que não o fazer? A prática política per-
1'olltico. Tradução: Jorge Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo:
deu o seu sentido. Os homens vivem cada vez mais isolados e preocu-
i uliiii.il, 1972 (Os Pensadores).
pados com suas conquistas individuais. A causa dessa crise política, //meu. Tradução: Carlos Alberto Nunes. 3. ed. Belém: Edufpa, 2001.
segundo alguns autores, é o abandono das concepções políticas clássi- IA( i(), J. A caverna. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
cas (STRAUSS, 1964, p. 1-2). Somente a partir da concordância com a J. C. de (Org.). Os pré-socráticos. São Paulo: Abril Cultural, 1973 (Os
tese de Sócrates, somente concordando com a tese de que o bem pú-
blico corresponde ao particular, somente percebendo a necessidade da l M i r ;s, L. The city and man. Chicago: The University of Chicago Press, 1964.
boa condição dos outros para a nossa, que a prática política faria senti- l N( >M )NTE. Ditos de feitos memoráveis de Sócrates. Tradução: Edson Bini.
do. Mas vivemos hoje numa sociedade capitalista onde alguns vivem MU l dipio. 2006.
muito bem enquanto outros passam por dificuldades em relação às ne-
cessidades humanas básicas. Isso é fato. Mas poderíamos nos pergun-
tar: será que é agradável viver nessa sociedade? Nossa cidade nos traz,
ricos ou pobres, harmonia, saúde e bem-estar? Estamos ao ar livre con-
templando o céu e os astros ou em prisões cavernosas, mesmo sendo
elas luxuosas, em condomínios gradeados?

REFERÊNCIAS

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ARISTÓTELES. A política. Tradução: Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins
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. Metafísica. Tradução: Marcelo Perine (da tradução italiana de
Giovanni Reale, edição bilíngüe). São Paulo: Loyola, 2002. v. 1-3.
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BAILLY A. Lê grand Bailly. Dictionnaire Grec-Français. Paris: Hachette, 2000.
NIETZSCHE, F. O crepúsculo dos ídolos: ou como se filosofa às marteladas.
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