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A AFETIVIDADE NA EDUCAÇÃO INFANTIL:

UM ELO INDISPENSÁVEL À TEORIA WALLONIANA

MILAN, Simone Galiani- FCT UNESP


simonegaliani@hotmail.com

GARMS, Gilza Maria Zauhy- FCT UNESP


gmzauhy@hotmail.com

LOPES, Carolina da Silva – Prefeitura Municipal de Presidente Prudente


carolzinh4@yahoo.com.br

Eixo Temático: Educação da Infância


Agência Financiadora: Não contou com financiamento

Resumo

O presente trabalho se constitui como um recorte do projeto de pesquisa intitulado “Formação


Profissional para a Docência na Educação Infantil: contribuições a partir da análise de
Propostas Pedagógicas/Curriculares praticadas em creches e pré-escolas”, em
desenvolvimento pelo Grupo de Pesquisa “Formação de Professores em Educação Infantil” –
FOPREI, vinculado a linha de pesquisa “Infância e Educação” do Programa de Pós-
Graduação em Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, apresentando reflexões teórico-metodológicas e resultados
de um trabalho sobre a Afetividade na Educação Infantil, que objetivou conhecer o que
pensam os profissionais da educação infantil sobre o papel da afetividade no cotidiano escolar
e suas contribuições no processo de desenvolvimento e aprendizagem. Por meio de estudos
bibliográficos buscou-se algumas reflexões a partir da existência de diversos fatores que
interferem no relacionamento entre professores e crianças, muitas vezes, deixando de
valorizar no cotidiano escolar a importância dos vínculos afetivos, consequentemente,
dificultando um processo natural da vida: o de aprender. A metodologia baseou-se,
inicialmente, no levantamento bibliográfico pertinente à área, fundamentado na teoria de
Henri Wallon e na realização de entrevistas semiestruturadas com algumas professoras de
educação infantil da Rede Municipal de Ensino de Presidente Prudente-SP, que trabalham
com crianças na faixa etária entre 2 e 5anos. Os resultados demonstraram que é necessário
que os profissionais da educação infantil ampliem seus conhecimentos sobre afetividade,
conheçam os estados emocionais e suas manifestações no contexto das relações, repensem sua
prática pedagógica, buscando desenvolver um trabalho que respeite as especificidades da
infância, bem como, busquem conhecimentos que possam acrescentar ao seu trabalho em sala
de aula visando favorecer positivamente o desenvolvimento social, cognitivo e afetivo das
crianças pequenas.

Palavras-chave: Afetividade. Educação Infantil. Prática Pedagógica. Instituição de Educação


Infantil.
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Introdução

No cotidiano das instituições de Educação Infantil, a afetividade tem influenciado o


relacionamento entre professores e crianças, bem como intensificado seu vínculo com o
processo de construção do conhecimento.
Essa pesquisa constitui-se como um recorte do projeto de pesquisa intitulado
“Formação profissional para a docência na educação infantil: contribuições a partir da análise
de Propostas Pedagógicas/Curriculares praticadas em creches e pré-escolas”, em
desenvolvimento pelo Grupo de Pesquisa “Formação de Professores em Educação Infantil” –
FOPREI, vinculado a linha de pesquisa “Infância e Educação” do Programa de Pós-
Graduação em Educação da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” e tratou de investigar as concepções sobre afetividade
presentes na prática das professoras de educação infantil e suas contribuições no processo de
desenvolvimento e aprendizagem de crianças na faixa etária entre 2 e 5 anos.
Por meio de estudos bibliográficos fundamentados, como os de Mahoney e Almeida
(2005), Dantas (1992), Almeida (2008), Rodrigues e Garms (2007), Galvão (1995), entre
outros, que têm se dedicado a investigar a influência da afetividade na educação, pretendemos
trazer algumas reflexões a partir da existência de diversos fatores que interferem no
relacionamento entre professores e crianças, muitas vezes, deixando de valorizar no cotidiano
escolar a importância dos vínculos afetivos, consequentemente, dificultando um processo
natural da vida: o de aprender.
O tema aqui proposto foi embasado teoricamente na perspectiva walloniana,
considerando que a afetividade e a emoção são o eixo central dessa teoria, relacionada à
prática cotidiana das professoras de educação infantil selecionadas, na intenção de direcionar
as reflexões e buscar resultados significativos que puderam contribuir no âmbito educacional.

A afetividade na perspectiva de Henri Wallon

De acordo com Almeida (2001), nos estudos realizados por Henri Wallon e suas
contribuições na educação, considera-se que a dimensão afetiva é destacada de forma
significativa na construção da pessoa e do conhecimento. Para a autora, a afetividade e a
inteligência, apesar de terem funções definidas e diferenciadas, são inseparáveis na evolução
psíquica do sujeito.
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Tanto afetividade como inteligência ao longo do seu desenvolvimento evoluem, se


construindo e se modificando de um período a outro, justamente, porque à medida que o ser
se desenvolve, suas necessidades afetivas tornam-se cognitivas.
Ainda, de acordo com a teoria walloniana, trabalhar a afetividade no ato educacional,
mais precisamente na relação adulto-criança, é saber como lidar com as emoções, com a
disciplina e com a postura do conflito eu-outro.

No que diz respeito à afetividade, esta é sempre referida às vivências individuais dos
seres humanos, são formas de expressão mais complexas e essencialmente humanas.
A afetividade diz respeito a um conceito amplo, uma situação mais permanente, que
engloba em seu interior os sentimentos, as emoções e as paixões e manifesta estados
de sensibilidade, que vão de disposições orgânicas às sociais/existenciais ligadas à
percepção que o indivíduo tem de si mesmo. (WALLON apud RODRIGUES, 2008,
p.18).

Segundo Lopes (2009, p 2-3) “ainda que, para área da psicologia os conceitos de
afetividade, emoção e sentimentos sejam diferentes, entre os profissionais de educação, tal
percepção não está presente”. De forma geral, as definições de emoção e sentimento se
confundem, de maneira errônea o caráter duradouro é apontado como uma qualidade da
emoção.
Para Almeida (2001, p. 52), enquanto o sentimento se caracteriza por reações mais
pensadas, logo, menos instintivas, as reações emocionais são de tipo ocasionais, instantâneas
e diretas. Assim, enquanto a emoção é orgânica, o sentimento é psicológico. Ainda de acordo
com a autora, “as emoções, uma das formas de afetividade, são verdadeiras síndromes: de
cólera, medo, tristeza, alegria, timidez” (ALMEIDA, 2001, p. 53)
Pela grande dificuldade de interpretar as emoções, os professores se tornam mais
suscetíveis ao contágio, e consequentemente passam a fazer parte do circuito perverso.

O “circuito perverso” se instala quando o indivíduo não consegue reagir de forma


corticalizada diante de reações emocionais alheias. O perigo de não reagir a este
circuito está no fato de que uma vez instaurado, o sujeito torna-se mais vulnerável à
ampliação das reações afetivas. (ALMEIDA, 2001 apud LOPES, 2009 p. 4)

Para conseguirem suavizar a crise emocional faz-se necessário que os professores


tenham acesso aos mecanismos que diminuam a emoção ou os deixem menos suscetíveis a
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ela. A emoção precisa de platéia, e ignorar sua manifestação é uma maneira de fazê-la ceder à
razão, as crises emocionais acabam por perder a sua força.
Desta maneira, é possível controlar as emoções, desde que o professor, tenha
conhecimento sobre o que é emoção, como funciona, para tentar administrá-la tanto em si
como no outro.
Ter conhecimento de como enfrentar as situações emocionais em contexto de sala de
aula, pode proporcionar mais segurança ao professor no desenvolver de suas atividades
escolares.
Dantas considera que “A educação da emoção deve ser incluída entre os propósitos da
ação pedagógica, o que supõe o conhecimento íntimo de seu modo de funcionamento” (1992,
p.89). Desta forma, se a escola é um espaço onde os sentimentos estão presentes, o professor
acaba por ter um papel essencial no desenvolvimento de uma prática que valorize a interação
cognitivo-afetiva, visto que, “a partir da convicção de que educar é desenvolver a inteligência
conjuntamente com a emoção, a escola não pode ignorar a vida afetiva de seus alunos”
(RODRIGUES e GARMS, 2007, p.35).
Segundo Lopes, (2009, p.2)

Quando a criança vai para a escola, leva consigo todos os conhecimentos já


adquiridos, bem como os prenúncios de sua vida afetiva. Estes aspectos se
relacionam dialeticamente, interagindo de forma significativa sobre a afetividade do
conhecimento. Com isso, a escola, bem como todos os envolvidos no exercício de
promover a socialização, possui papel de grande relevância no desenvolvimento
infantil.

Wallon (1979), em sua teoria, afirma que o desenvolvimento intelectual envolve muito
mais do que o cérebro, e as relações afetivas têm papel fundamental no desenvolvimento do
sujeito. É por meio delas que a criança exterioriza seus desejos e suas vontades. Embora essas
manifestações expressem um universo importante e perceptível, são pouco estimuladas em
algumas situações do cotidiano escolar.
A interação entre professores e crianças ultrapassa os limites da prática docente, do
ambiente escolar, do semestre e do ano letivo. É, na verdade, uma relação que deixa marcas, e
que deve sempre buscar a afetividade como forma de construção das interações e do
conhecimento. Assim, considera-se o papel do professor como elo fundamental na busca de
relações interpessoais que valorizem o universo afetivo.
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É importante ressaltar que as relações afetivas se evidenciam, no contexto escolar, pois


a transmissão do conhecimento implica, necessariamente, uma interação entre pessoas
(ALMEIDA, 2001). “A afetividade é também uma fase do desenvolvimento, ela reflui para
dar espaço à intensa atividade cognitiva; a afetividade é pura emoção, onde as trocas afetivas
dependem inteiramente da presença concreta dos parceiros” (DANTAS, 1992, p.90).
Essa relação busca a efetivação da aprendizagem, o exercício do diálogo, o fazer
compartilhado, o respeito pelo outro, o estar aberto, o saber escutar e dizer, e o olhar do
professor, que são atitudes indispensáveis na construção e sucesso do desenvolvimento e da
aprendizagem. De acordo com Mahoney e Almeida (2005, p. 26):

Na relação professor aluno, o papel do professor é de mediador do conhecimento. A


forma como o professor se relaciona com o aluno reflete nas relações do aluno com
o conhecimento e nas relações aluno-aluno; queira ou não, o professor é um modelo,
na sua forma de relacionar-se, de expressar seus valores, na forma de resolver os
conflitos, na forma de falar e ouvir”.

O professor pode fazer toda a diferença, cabe a ele investigar com maior cautela as
especificidades de cada criança, o que implica em uma pré-disposição para estabelecer
vínculos afetivos. Afinal, o ato de educar e aprender são uma constante troca, onde é
imprescindível que o professor enfrente os desafios e possa encarar os problemas presentes
em sua formação, e assim, compreender que o conhecimento se processa através de valores
que embasam e justificam a aprendizagem e as relações vivenciadas no cotidiano escolar.
“Quando não são satisfeitas as necessidades afetivas, estas resultam em barreiras para o
processo ensino-aprendizagem e, portanto, para o desenvolvimento, tanto do aluno como do
professor” (MAHONEY e ALMEIDA, 2005, p.26).
Pode-se dizer que a escola exerce um papel fundamental no desenvolvimento sócio-
afetivo da criança, já que ela, segundo Almeida (2001, p. 99):

Como meio social, é um ambiente diferente da família, porém bastante propício ao


seu desenvolvimento, pois é diversificado, rico em interações, e permite à criança
estabelecer relações simétricas entre parceiros da mesma idade e assimetria entre
adultos. Ao contrário da família, na qual a sua posição é fixa, na escola ela dispõe de
uma maior mobilidade, sendo possível a diversidade de papéis e posições. Dessa
forma, o professor e os colegas são interlocutores permanentes tanto no
desenvolvimento intelectual como do caráter da criança, o que poderá ser
preenchido individual e socialmente.
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Sendo assim, evidencia-se que a criança, a partir de uma relação vincular com o meio,
adquire novas formas de pensar e agir, apropriando-se assim de novos conhecimentos, porém
o processo de construção do conhecimento acontece no decorrer do desenvolvimento da
criança.
Para Wallon (1979), é nos anos iniciais, objeto de nossa investigação, que a criança, a
partir da relação com o outro, através do vínculo afetivo, começa a ter acesso ao mundo
simbólico e conquistar avanços no âmbito cognitivo. Assim, os vínculos afetivos vão
ampliando-se e o professor representa figura fundamental no processo educativo. Afirma,
ainda, que existe uma base afetiva permeando as relações no espaço escolar; toda
aprendizagem está impregnada de afetividade, não acontece somente no cognitivo.
Então, a perspectiva walloniana considera que a afetividade que se manifesta na
relação adulto-criança constitui-se elemento inseparável do processo de construção do
conhecimento.

As concepções docentes sobre afetividade na Educação Infantil

A Educação Infantil, na LDBEN (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) de


1996, é considerada, de acordo com o artigo 29, a primeira etapa da educação básica, e tem
como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus
aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da
comunidade. Entretanto, em 2009, a faixa etária foi regulamentada pelas Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (Resolução nº 5, 17/12/2009):

Art. 5º A Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, é oferecida em


creches e pré-escolas, as quais se caracterizam como espaços institucionais não
domésticos que constituem estabelecimentos educacionais públicos ou privados que
educam e cuidam de crianças de 0 a 5 anos de idade no período diurno, em jornada
integral ou parcial, regulados e supervisionados por órgão competente do sistema de
ensino e submetidos a controle social.

É importante que os profissionais da educação infantil repensem sua prática


pedagógica quanto à importância da construção de vínculos afetivos essenciais para o
desenvolvimento e aprendizagem da criança, que de acordo com as Diretrizes Curriculares
Nacionais para a Educação Infantil (Resolução nº 5, 17/12/2009), respeite-a como sujeito
histórico e de direitos, que nas interações cotidianas vivenciadas constrói sua identidade,
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brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa e busca significados importantes para o seu
desenvolvimento e aprendizagem; de forma que possam contribuir na efetivação de uma
educação mais íntegra, pautada no respeito às especificidades da infância.
Para esta pesquisa adotou-se como técnica de investigação a entrevista semi-
estruturada, por possibilitar ouvir seus sujeitos e conhecer seus conceitos e opiniões.
O roteiro da entrevista foi elaborado com questões abertas, no intuito de indagar as
professoras com relação às suas concepções sobre afetividade e a importância da mesma na
educação infantil, os conceitos de emoção, as diferenças entre emoção e sentimento, e, a
presença do afeto e da emoção na sala de aula e sua influência na aprendizagem.
Sobre a entrevista,

A grande vantagem [...] é que permite a captação imediata e corrente da informação


desejada, praticamente com qualquer tipo de informante e sobre os mais variados
tópicos. Do mesmo modo, a entrevista semi-estruturada, desenrola-se por meio de
um esquema básico, não aplicado de forma rígida, possibilitando que o entrevistador
faça as adaptações que se fizerem necessário. (MENGA, L. e ANDRÉ, M., 1986,
p.26)

Desta forma, procuramos conhecer o que pensam e sabem algumas professoras de


educação infantil da Rede Municipal de Ensino de Presidente Prudente-SP sobre a
importância da afetividade no trabalho com crianças pequenas. As professoras entrevistadas
possuem idade entre 33 e 42 anos. O tempo de serviço é variável, de 5 meses até 10 anos de
profissão. Todas afirmaram que gostam da profissão e do zelo pela aprendizagem e dedicação
ao desenvolvimento integral das crianças. Quanto à formação das professoras, quatro
possuem magistério, e uma delas fez licenciatura em Pedagogia. Das que possuem magistério,
uma está cursando Pedagogia e outra já é formada.
Em relação ao primeiro aspecto, às suas concepções sobre afetividade e a importância
da mesma na educação infantil, nota-se que o conceito que se possui de afetividade está
pautado no senso comum, ainda de maneira superficial, não a compreendendo como uma
forma mais complexa de expressão, abrangendo tanto as emoções, como os sentimentos e as
paixões, por meio de manifestações de nível tanto orgânico quanto social. Sobre o afeto
afirmaram que:
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O afeto é um sentimento bom que a gente procura ter para com as outras pessoas,
em relação às crianças; a gente acaba se apegando”; “o afeto é algo que nunca passa,
é um sentimento duradouro, diferente da emoção e do sentimento que passam”;
“afeto é tudo que é feito com amor, dedicação, respeito ao próximo”; “afeto é gostar,
é querer bem, zelar por alguém”; “é uma forma de carinho, de demonstrar nosso
amor por alguém.

Nas palavras de Mahoney e Almeida (2007, p.17), “a afetividade refere-se à


capacidade, à disposição do ser humano de ser afetado pelo mundo externo e interno por meio
de sensações ligadas a tonalidades agradáveis ou desagradáveis”.
No que se refere ao conceito que as professoras possuem de emoção, verifica-se
opiniões que apontam para a compreensão de manifestação, sendo elas positivas ou negativas,
que segundo Almeida (2001), a emoção é uma expressão da afetividade e enquanto
manifestação orgânica é efêmera, como cólera, medo, tristeza, alegria e timidez, também
podemos inferir que não há clareza conceitual quando explicam o que é sentimento, isso se
retrata na fala das professoras:

A emoção tem [...]. acho que [...]. dois jeitos. A emoção quando você está bem, você
está alegre, está brincalhona, sem nenhum problema, você está bem. Agora, quando
você estiver meio pra baixo, que eu falo, aquela emoção... com algum problema ou
alguma coisa, ai você vai estar mais triste. Ah, então a emoção tem dois jeitos. A
gente sempre tem que estar procurando trabalhar a emoção boa. Não deixar a peteca
cair, tentar sempre estar por cima; Eu descrevo a emoção como assim uma surpresa,
uma coisa boa, eu me sinto emocionada a cada descoberta que eles fazem [...].

Uma das professoras demonstra conhecimento sobre o que é e como funciona a


emoção, apontando ser uma reação: “diante de uma situação reagimos de alguma maneira, positiva
ou negativa. Acho que a emoção é uma reação”.
Para Almeida (2001) enquanto o sentimento se caracteriza por reações mais pensadas,
logo menos instintivas, as reações emocionais são de tipo ocasionais, instantâneas e diretas.
Ainda segundo a autora (2001), a emoção é um fato fisiológico: tem uma base
orgânica ligada ao cérebro. Contudo [...] a emoção tem também um caráter social, que lhe é
peculiar, pela sua função de apelo ao outro durante a fase de inaptidão infantil.
Quanto à diferença entre emoção e sentimento, as professoras evidenciaram que:
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Acho que emoção e sentimento é a mesma coisa. Você se sentir emocionada com
alguma coisa, porque se você não tiver sentimento então não tem emoção, se você
não tiver emoção você não tem sentimento, pra você ter emoção você precisa ter
sentimento, e pra você ter o sentimento você tem que ter a emoção. Um é interligado
ao outro.

No que tange a essa questão, é possível confirmar o fato de muitos profissionais ainda
permanecerem confusos em seus conceitos, afirmando que emoção é um sentimento, não
conseguindo diferenciar tais aspectos, o que podem torná-los mais suscetíveis ao contágio das
emoções, passando a fazerem parte do ‘circuito perverso’.
Como apontado por Almeida (1994, p. 240),

[...] é necessário que o professor conheça o fenômeno emocional para conseguir


quebrar o “circuito perverso” em que se vê envolvido. O “circuito perverso” se
instala quando o indivíduo não consegue reagir de forma corticalizada diante de
reações emocionais alheias. O perigo de se estabelecer o “circuito perverso” é o fato
de que, uma vez instaurado, o sujeito torna-se ainda mais vulnerável à ampliação das
reações emotivas. Envolvido de tal forma nas ondas do circuito, o sujeito fica
completamente alheio à realidade circundante.

Desta forma faz-se imprescindível que os profissionais da educação infantil conheçam


e diferenciem as manifestações da afetividade (emoção, sentimento, afeto), para que possam
interferir com lógica em cada situação no cotidiano escolar. Os conceitos de emoção,
sentimento e afetividade são inconfundíveis, pois, enquanto o sentimento é ideativo e, por
conseguinte, duradouro, a emoção, pelo contrário, revela um estado fisiológico e efêmero
(WALLON apud ALMEIDA, 2001, p-52-53). Denota-se na fala de uma das professoras:

Na minha opinião o sentimento é algo construído e pode ser bom ou ruim, já a


emoção é algo momentâneo e também pode ser boa ou ruim. Se você trata bem uma
pessoa, respeita-a, ouve-a, provavelmente o sentimento será recíproco: bom. Se há
desavenças, brigas, falta de respeito, o sentimento será ruim.

É importante ressaltar que essa não separação e definição dos conceitos implicam,

[...] diretamente nas intervenções que caberia ao professor em sala de aula, mas que
pelo desconhecimento das reações emocionais típicas deste período do
desenvolvimento da criança, podem atrapalhar ou mesmo impedir o processo de
construção dos aspectos cognitivo/afetivo. (LOPES, 2009, p.4)
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Em relação à presença do afeto e da emoção na sala de aula e suas contribuições na


aprendizagem, uma das professoras evidenciou que,

Com certeza estão presentes, se você não tiver emoção, afeto, você não consegue
desenvolver, você não pode ser uma máquina, não tem como você trabalhar aqui
com as crianças, você sendo uma máquina, nada te emocionar, que você sinta aquele
prazer no que as crianças tão fazendo, aquela alegria, aquele entusiasmo, tem que
ter, acho que a gente como ser humano, o ser humano que não tem sentimentos, eu
acredito sendo como anormal.

Essa mesma professora soube definir emoção e sentimento, e demonstrou


compreender melhor o contexto em sala de aula, as relações e conflitos que surgem, bem
como, proporcionar às crianças um suporte maior para resolução desses conflitos cotidianos.
Uma delas aproximou bastante sua resposta do senso comum:

Sim, porque se não tiver nada disso, não vira. Apesar de que se não tem afeto com a
criança lá, como trabalha? Tem que ser... vai ser cruel... chega a professora carrasca.
Não tem sentimento, não tem nada”; “Essas coisas. Como é a criança? A criança
percebe. E ela não vai... se ela estiver também com o dela, o sentimento dela, a flor
da pele, também balançado, como vai aprender? Regride. Acho que é que nem
aqueles casos daquelas crianças que tem auto-estima baixa, se o professor também
não tiver jogo de cintura, não estiver com a sua estima alta, ela vai por a criança
mais para baixo.

Em relação às contribuições da afetividade/ emoção na aprendizagem, algumas


professoras responderam que,

Sim, eu acredito que estão presentes e interferem na aprendizagem, pois o professor


se torna um modelo para a criança e um apoio no desenvolvimento cognitivo e
sócio-afetivo. Por isso, a relação professor-aluno deve ser uma troca, uma relação de
respeito mútuo”; “Sim. Porque estamos lidando com ser humano, e “estas coisas”
fazem parte da nossa vida; e quanto mais a criança e o professor se interagem em
amor e afeto o trabalho de aprendizagem tem maior sucesso.

Assim sendo, verificou-se que as professoras reconhecem a importância da afetividade


na aprendizagem, mas as respostas anteriores evidenciam que na prática, há ausência da
compreensão das manifestações no contexto das relações em sala de aula.
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Nas transcrições anteriormente citadas, denota-se que apesar de ainda haver uma
indefinição nos conceitos sobre afeto, emoção e sentimento, as professoras acreditam que e
essas relações se evidenciam, pois,

De acordo com a teoria walloniana, desde o princípio da vida, são as relações


afetivas que possuímos com o meio humano que começam a determinar o nosso
comportamento. O espaço escolar torna-se assim o responsável por promover o
desenvolvimento da personalidade da criança. E isso significa ultrapassar o mero
provimento das usuais funções intelectuais, neste espaço as relações afetivas ficam
em evidência, pois a transmissão do conhecimento implica, necessariamente, numa
interação entre pessoas. (LOPES, 2009, p. 4)

Outro fator interessante é que para uma professora as manifestações de afeto na sala de
aula ainda estão muito relacionadas ao contato físico, à proximidade corporal, como
demonstrar carinho, segurar a mão e abraçar: “... a partir do momento que você começa, que
você trata a criança ali com atenção, com amor, com carinho, você consegue transmitir, além
da criança ta aprendendo, ela sente que tem em você ali, um afeto, alguém que ela pode
segurar a mão, que ela pode abraçar...”
Na perspectiva walloniana:

Um novo campo começa a se abrir à atenção da criança e faz com que os sinais de
um provável êxito muito depressa se localizem na pessoa de quem ela espera o
atendimento, os seus gestos, a sua atitude, a sua fisionomia e a sua voz também
entram no domínio expressivo, que, dessa forma, vai apresentar uma ação de
reciprocidade: ao mesmo tempo em que traduz os desejos da criança, traduz a
disposição que esses desejos provocam nos outros ( DÉR, 2004, p.65)

É notável que as manifestações de afeto ocorrem de acordo com o desenvolvimento


psíquico da criança, o que permite a ampliação dos estados emocionais tornando-os mais
complexos. Desta forma a afetividade torna-se independente de fatores corporais, passando a
ser provocada por ideias e situações abstratas. Assim “A dimensão expressiva tenderia, então,
a se reduzir, pois o fortalecimento do processo ideativo possibilita que a pessoa experimente a
emoção por uma espécie de desdobramento intimo, isto é, por imagens mentais (GALVÃO,
2003)
E assim sendo, ocorre o distanciamento das manifestações corporais, avançando às
mentais e consequentemente apoiando a criança na formação da personalidade.
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Para a teoria de Wallon, o espaço de sala de aula é observado como uma grande
oficina de convivência, em que o professor é o mediador das relações. Aceitar que essas
relações afetivas ocorram é função do professor em sua prática de sala de aula, portanto, é
função pedagógica.

Considerações Finais

Diante das análises realizadas, é possível considerar necessário aos professores um


estudo mais aprofundado sobre a afetividade, abrangendo toda sua complexidade, para que se
possa compreender de forma mais clara todo o contexto de sala de aula. Conhecer como
ocorrem as situações emocionais pode propiciar ao professor maior segurança no
desenvolvimento de suas atividades na educação infantil.
Os resultados demonstraram que as professoras acreditam que a afetividade está
presente no cotidiano escolar, contudo ainda há necessidade de compreender com maior
amplitude a concepção e o trabalho com a afetividade na educação infantil, afim de que
repensem sua prática pedagógica quanto à importância da construção de vínculos afetivos
essenciais para o desenvolvimento e aprendizagem da criança, contribuindo desta forma na
efetivação de uma educação pautada no respeito às especificidades da infância.
Ainda, torna-se cada vez mais imperioso que se aprenda a realizar a diferenciação
entre emoção e sentimento, para que se consiga intervir com coerência nos conflitos do dia-a-
dia escolar. Com o apoio de informações teóricas sobre as características das atitudes
emocionais e utilizando sua capacidade de análise reflexiva, o professor ao invés de se deixar
contagiar pelo descontrole emocional das crianças, deve procurar corticalizar suas ações, isto
é, contagiar as crianças com sua racionalidade (GALVÃO, 1995)
Assim sendo, é possível inferir por meio da análise dos dados, que a maioria das
professoras entrevistadas acredita na importância do papel da afetividade na relação com as
crianças e suas contribuições na aprendizagem. Contudo, ao indicarem desconhecimento dos
estados emocionais e suas manifestações no contexto das relações, podem estar impedindo ou
dificultando o processo de construção da personalidade da criança ao atribuir ao conflito eu-
outro um significado negativo.
Desta forma, pode-se inferir que os profissionais da educação infantil percebem a
afetividade no espaço da sala de aula, porém desconhecem a sua importância e como pode
contribuir no desenvolvimento humano, bem como, na aprendizagem da criança, tendo que,
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constantemente buscar conhecimentos que possam acrescentar à prática pedagógica visando


favorecer positivamente o desenvolvimento social, cognitivo e afetivo das crianças pequenas.

REFERÊNCIAS

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