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N AT I O N A L G E O G R A P H I C .

P T | SETEMBRO 2020

A ERA
DOS

ROBOTSViveremos melhor
com máquinas
inteligentes?
N.º 234 MENSAL €4,95 (CONT.)
00234

603965 000006

LEÕES-MARINHOS AV E S T RU Z E S , A S T U TA S G DA N S K : L E GA D O
DA C A L I F Ó R N I A SOBREVIVENTES D E S O L I DA R I E DA D E
5
N AT I O N A L G E O G R A P H I C SETEMBRO 2020

S U M Á R I O

2
Os robots já chegaram
A revolução da robótica
32
A força da protecção
A National Geographic Society
48
O mundo das avestruzes
Esqueça o estereótipo da
está iminente e as máquinas lançou o projecto Mares ave limitada: a avestruz é
assumem um número cada Prístinos em 2008 para explorar uma sobrevivente astuta
vez maior de funções há muito e preservar os oceanos. num mundo de predadores e
desempenhadas por seres A iniciativa já promoveu um prodígio da evolução.
humanos, mudando a nossa 30 expedições e contribuiu Dotada de força e estratégias
vida. Tudo indica que ainda para a criação de 22 reservas. de ataque suficientes para
não estamos preparados Agora, identificam-se áreas dissuadir predadores, a
para um mundo muito mais cruciais que deverão ser avestruz é também uma das
automatizado e impessoal. salvaguardadas no futuro. aves mais rápidas do globo.
T E X T O D E D AV I D B E R R E B Y T E X T O D E K E N N E D Y WA R N E T E XTO D E R I C H A R D C O N N I F F
F OTO G R A F I A S D E S P E N C E R L OW E L L F OTO G RA F I A S D E E N R I C SA L A F OTO G RA F I A S D E K L AU S N I G G E

SPENCER LOWELL
R E P O R TA G E N S S E C Ç Õ E S

64
A S UA F OTO

VISÕES

E D I TO R I A L
À espera de Gdansk
A Polónia é inspirada pela cidade
3 Q U E STÕ E S
que, há 40 anos, viu nascer o
movimento Solidariedade, mas Jeff Goldblum
Gdansk já era um bastião do
liberalismo desde os tempos N A T E L E V I SÃO
da Liga Hanseática.
T E XTO D E V I C TO R I A P O P E P RÓX I M O N ÚM E RO
F OTO G R A F I A S D E J U ST Y N A
MIELNIKIEWICZ

76
Futuro menos gelado
A vida cultural e económica
da região dos Grandes Lagos
é moldada por invernos gelados.
À medida que o aquecimento
transforma a tradição em lama,
a sensação de perda vai
aumentando.
Na capa
T E X TO D E A L E JA N D R A B O RU N DA
Esta mão robótica,
F OTO G R A F I A S D E A MY S AC K A
construída com materiais

96
flexíveis para proporcionar
um desempenho preênsil
mais delicado, foi desenvolvi-
da no Laboratório
de Robótica e Biologia
da Universidade Técnica
Leão-marinho da Califórnia de Berlim, na Alemanha.
Numa área marinha protegida SPENCER LOWELL
do mar de Cortés, no México,
uma colónia residente de leões-
-marinhos prospera e muda
a percepção dos cientistas sobre Envie-nos comentários
a predominância do macho alfa para nationalgeographic
nos haréns desta espécie. @ rbarevistas.pt

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portugal
As paisagens impressionantes
da Terra podem tirar o fôlego,
mas, para Reuben Wu, isso não
era suficiente. Este fotógrafo
Assinaturas e
considerou que faltava algo
atendimento
aos majestosos glaciares,
ao cliente
montanhas e praias do planeta.
Telefone 21 433 70 36
T E X TO D E DA N I E L STO N E (de 2.ª a 6.ª feira)
I M AG E N S D E R E U B E N W U E-mail: assinaturas@vasp.pt

DE CIMA PARA BAIXO: JUSTYNA MIELNIKIEWICZ, AMY SACKA, JOÃO RODRIGUES E REUBEN WU
GRANDES MULHERES

JÁ NAS BANCAS
V I S Õ E S | A SUA FOTO

N O R B E R T O E S T E V E S Em Castro Laboreiro, um pequeno grupo de cabras-montesas dirige-se ao seu refúgio, trepando


pelas rochas íngremes. O grupo estranhou o intruso, mas permitiu que o autor as acompanhasse durante algumas horas.

A N T Ó N I O C A I A D O A fotografia de natureza tem destas coisas: o autor ansiava por captar um bico-grossudo e surgiu, no
seu campo de visão, esta alvéola-branca. Com apetite voraz, ingeriu com gulodice todos os tenébrios que conseguiu apanhar.
E D U A R D O S A M PA I O Em Al-Qusair, no Egipto, o autor, que também é biólogo, fazia trabalho de campo. “Sempre que
passava um grupo de lulas, ficava hipnotizado com a panóplia de cores iridescentes que estes animais exibem”, conta.
V I S Õ E S

Portugal
Em Julho, o Centro e Sul de Portugal
foram afectados por uma noite
épica de descargas furiosas. Lisboa
parou durante alguns minutos para
sentir a tensão. Junto do Museu de
Arte, Arquitectura e Tecnologia,
criou-se um anfiteatro natural para
presenciar os raios sobre o rio Tejo.
CARLOS ANTUNES
Portugal
Seis milhas a sul de Lajes do Pico,
nos Açores, um grupo de golfinhos-
-pintados reunia cerca de quinhentos
animais deslocando-se contra a
ondulação. Um dos animais saltava
mais alto do que os outros. Na
natureza como na vida, uns navegam
por obrigação; outros fazem-no com
uma pitada de aventura.
PEDRO MADRUGA
Portugal
O trânsito do cometa Neowise
foi avistado em milhares de
posições no hemisfério norte.
Na serra da Atalhada, perto
de Penacova, as pás dos moinhos de
vento contracenam com o colorido
das luzes das turbinas eólicas
observadas atentamente pelo
cometa Neowise. A fotografia foi
captada numa noite de Lua Nova.
PAULO NABAIS CRUZ
«Acreditamos no poder da ciência, da exploração
e da divulgação para mudar o mundo.»

A National Geographic Society é uma organização global sem fins lucrativos que procura novas fronteiras da
exploração, a expansão do conhecimento do planeta e soluções para um futuro mais saudável e sustentável.

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S E T E M B R O | EDITORIAL

ROBÓTICA
Conheça as máquinas
do nosso futuro
POR SUSAN GOLDBERG F OTO G R A F I A D E SPENCER LOWELL

um relacionamento
A H U M A N I DA D E T E M Keynes, em Inglaterra, carregam merca- Nesta mão robótica
semelhante à mão humana,
complicado com os robots. Por um lado, dorias num hospital de Dallas, desinfec- criada numa universidade de
aprecia a forma como eles podem rea- tam os quartos dos doentes na China e na Berlim, os dedos são como
lizar trabalhos repetitivos e perigosos. Europa e vagueiam por parques de Sin- balões de ar “inteligentes”.
Cheios, de acordo com espe-
Os robots não precisam de férias ou gapura, insistindo junto dos peões para cificações precisas, podem
de seguro médico. E em áreas como a respeitarem o distanciamento social”, fechar-se em torno
de um objecto com um
agricultura, onde nem sempre é possível escreve. O jornalista encontrou robots aperto que é ao mesmo
encontrar trabalhadores para as colheitas, a abrirem buracos para instalação de tempo hábil e delicado. No
os robots podem assumir algumas dessas turbinas eólicas, a cortarem alface e até futuro, robots com este tipo
de “mãos” poderão manipular
tarefas. Todavia, a maioria das sondagens a recitarem textos religiosos no Japão. mercadorias num armazém ou
assegura que a crescente robotização do “É um facto inevitável que vamos ter trabalhar como recepcionistas
em parques de diversões.
planeta faz-nos sentir profundamente máquinas, criaturas artificiais, que farão
desconfortáveis e ameaçados. parte da nossa vida quotidiana”, acres-
O Centro de Pesquisa Pew apurou centa Manuela Veloso, investigadora
que mais de 80% dos norte-america- portuguesa sediada na Universidade
nos acreditavam que, até 2050, os robots Carnegie Mellon. “Quando começamos
executariam grande parte do trabalho a aceitar robots à nossa volta, como uma
que os seres humanos desempenham terceira espécie, juntamente com ani-
agora e cerca de 75% acreditava que a mais de estimação e seres humanos,
desigualdade económica agravar-se-ia. vamos querer relacionar-nos com eles.”
Obviamente, estas sondagens foram Uma terceira espécie? É realmente
realizadas antes da pandemia. Esta crise uma ideia inovadora. Mas ainda não
levou a que a substituição de pessoas chegámos lá. Até agora, os robots não
por robots ganhasse outro mérito como conseguem igualar a capacidade da
medida de distanciamento social e supe- mente humana para realizar muitas
ração da facilidade de contágio. tarefas, especialmente as inesperadas
Para a reportagem deste mês, David e ainda não dominam o bom senso…
Berreby correu o mundo a examinar as afinal, as competências necessárias
potencialidades dos robots e descobriu para dirigir uma revista! Mas dêem-lhes
uma confiança crescente neles. “Agora, alguns anos. Até lá, muito obrigado por
os robots entregam comida em Milton ler a National Geographic. j
A revolução da robótica está iminente e as máquinas
assumem um número cada vez maior de funções há muito
desempenhadas por seres humanos, mudando a nossa vida.

O S __ R O B O T S __ J Á __ C H E G A R A M

Texto de D A V I D B E R R E B Y
Fotografias de S P E N C E R L O W E L L
Com um movimento
preênsil firme, mas
delicado, uma mão
robótica do Laboratório
de Biologia e Robótica
da Universidade Técnica
de Berlim segura uma
flor com os seus dedos
pneumáticos. Progres-
sos recentes permitiram
que os robots se
aproximassem, mais do
que nunca, de imitar as
capacidades humanas.

3
Alguns investigadores criaram máquinas que imitam os seres humanos em pormenor, como a Harmony
(à direita), uma expressiva cabeça falante que se anexa a uma boneca sexual de silicone e aço fabricada
pela Abyss Creations. Outros acreditam que as pessoas se sentem mais à vontade com robots parecidos
com o Curi (à esquerda). Se um robot parecer demasiado humano, a aceitação poderá entrar no “vale da
estranheza”, o termo cunhado por Masahiro Mori para definir os nossos sentimentos quando um robot se
parece menos com uma máquina aperfeiçoada e mais com um ser humano perturbadoramente diminuído.
Novas tecnologias
permitem aos robots
lidarem com a mudança
constante e as formas
irregulares que os seres
humanos encontram
no trabalho. O Foodly,
um robot cooperante
desenvolvido pela
RT Corporation, utiliza
a visão avançada,
algoritmos e uma mão
preênsil para colocar
pedaços de galinha
numa caixa.
Se o leitor for
como a maioria
das pessoas,
nunca deve ter
conhecido um robot.
MAIS VAI CONHECER.
de forte ventania do passado mês de Janeiro na fronteira
C O N H E C I UM N UM D I A
entre os estados do Colorado e do Kansas (EUA), na companhia de Noah Rea-
dy-Campbell. Turbinas eólicas estendiam-se até perder de vista, em fileiras
irregulares. À minha frente, vi o buraco que serviria de fundação a mais uma.
Uma escavadora abria o buraco, com 19 metros de diâmetro, paredes for-
mando um ângulo de 34 graus e a base nivelada a três metros de profundida-
de. Empilhando a terra removida num local onde esta não estorve, a máquina
está programada para construir outra pilha. Cada movimento executado pela
máquina de 37 toneladas exige controlo firme e decisões afinadas. Na Amé-
rica do Norte, um operador destas escavadoras ganha 85 mil euros por ano.
No entanto, nesta escavadora, o lugar do condutor apresentava-se vazio.
O operador estava no tejadilho da cabina e não tinha mãos. Três cabos pretos
serpenteantes ligavam-no directamente ao sistema de controlo da escavado-
ra. Também não tinha olhos nem ouvidos, pois utilizava laser, GPS, câmaras
de vídeo e sensores semelhantes a giroscópios que calculam a orientação de
um objecto no espaço para supervisionar o trabalho. Noah Ready-Campbell,
co-fundador de uma empresa de São Francisco chamada Built Robotics, su-
biu para a escavadora e levantou a tampa para me mostrar o produto da sua
empresa: um dispositivo de 90 quilogramas capaz de executar um trabalho
que antigamente era realizado por um ser humano.
“É aqui que corre a IA”, disse enquanto apontava para a colecção de placas
de circuitos, cabos e caixas de metal que compunham a máquina: esses sen-
sores “dizem-lhe” onde está, as câmaras que lhe permitem “ver”, os controlos
transmitem “ordens” à escavadora, os dispositivos de comunicação permitem
aos seres humanos monitorizá-la e o processador contém a inteligência arti-
ficial, ou IA, que toma as decisões que um operador humano tomaria. “Estes
sinais de controlo são transmitidos aos computadores que costumam respon-
der aos manípulos e pedais na cabina.” (Continua na pg. 14)

Um exoesqueleto é uma combinação de sensores, computadores e motores que


ajudam um ser humano a fazer trabalho pesado. Braços com ganchos, demonstra-
dos pelo engenheiro Fletcher Garrison, da Sarcos Robotics, podem levantar
90 quilogramas e ajudam carregadores de bagagem nos aeroportos.

8 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
O manuseamento de
objectos é uma compe-
tência essencial para
robots que trabalham
com pessoas. As mãos
humanas são mais
sensíveis e ágeis do que
as que de qualquer robot,
mas as máquinas estão a
aperfeiçoar-se. Utilizando
dedos insuflados com ar
comprimido para imitar o
toque suave da mão
humana, este robot da
Universidade Técnica de
Berlim pega numa maçã.
1. DETECTAR 2. SEGURAR
A câmara sente o objecto visado Ar pressurizado de um compressor activa os
e transmite dados para o software dedos, permitindo-lhes enrolar-se ou esticar-se
do “cérebro” do robot que conforme necessário. Os dedos moldam-se em
transmite instruções à mão. torno do objecto para o segurarem com firmeza.

Foles
para o
Pontos de contacto Pontos de contacto
Fluxo polegar
mão rígida mão flexível
de ar
Câmara de ar
Foles Fibras radiais ajudam
para a
o dedo a manter a forma
palma
quando insuflado.
Foles
Accionador para dedos
leve de silicone
por força
pneumática

Objecto-
m
ar

-alvo
ad

Borracha
e
ar

O robot identifica a Pressão de ar


Borracha crescente
posição, orientação e com tecido dobra o dedo.
volume do objecto.
Ar

A MÃO
QUE AJUDA
Força

Os responsáveis pela concepção da revolucionária Superfície


RBO Hand 3, uma mão robótica macia fabricada com de contacto
materiais flexíveis, estão a trabalhar para lhe dar algo
semelhante ao sentido do tacto humano.
As especificações incluem sensores capazes de medir
o esforço através de resistência eléctrica, bem como a
acústica incorporada para monitorizar os pontos onde
os dedos entram em contacto com os objectos (ou os
seres humanos) e a quantidade de força.

DAS GARRAS
AOS TENTÁCULOS
A mão humana não é perfeitamente
adequada a todas as tarefas manuais.
Muitas mãos robóticas são concebidas Pega de vácuo Tentáculo preênsil
para executar tarefas especializadas A pega, no seu estado macio, A pega inspirada num polvo,
e repetitivas. A concepção de algumas envolve o objecto e depois com as suas filas de ventosas,
foi inspirada pelo mundo animal. cria vácuo para o segurar. envolve o objecto.
3. MANUSEAR
A mão flexível e um polegar oponível
permitem ao robot mudar a posição do
objecto e executar várias tarefas, como
segurá-lo com mais firmeza ou entregá-lo.

Sensores (tubos de silicone


cheios de metal líquido)
alteram a resistência Libertação
eléctrica para transmitir
Sensor acústico
a posição dos dedos (microfone)
ao computador.

Sensores
metais líquidos

Polegar
oponível Contacto

Um microfone instalado na
câmara de ar do dedo permite
Manipulação
ao robot “ouvir” qualquer
contacto com o seu ambiente.

4. INTERAGIR
Polegares oponíveis, Os robots macios são mais seguros do que os
semelhantes a humanos, robots rígidos com metal, no que diz respeito
podem aplicar força em ao trabalho com seres humanos. Qualquer
Polegar múltiplas direcções para um impacte ou força capaz de lesionar um humano
centrado
manuseamento mais hábil. é reduzido pela suavidade dos materiais.

Abas flexíveis Garra de alta velocidade Mão humanóide Mão biomimética


Abas macias e flexíveis usam Esta mão robótica pode Este robot tem sensores ultras- Imita a mão humana com
forças electrostáticas para segurar um objecto em cinco sensíveis e mexe-se de modo articulações, ligamentos
pegarem num objecto frágil. centésimos de segundo. semelhante à mão humana. e tendões de borracha.

MONICA SERRANO; KELSEY NOWAKOWSKI. ARTE: INTERVOKE. FONTES: OLIVER BROCK E STEFFEN PUHLMANN,
LABORATÓRIO DE ROBÓTICA E BIOLOGIA, UNIVERSIDADE TÉCNICA DE BERLIM; JACEK SZKOPEK, UNIVERSIDADE DE TECNOLOGIA DE GDANSK
No século XX, quando eu era criança e acalen- Mesmo antes de a crise da COVID reforçar a sua
tava esperanças de travar conhecimento com um relevância, as tendências tecnológicas estavam a
robot quando crescesse, achava que ele teria for- acelerar a criação de robots com potencial para
ma humana e comportar-se-ia como tal, como o afectar as nossas vidas. As peças mecânicas torna-
C-3PO de “A Guerra das Estrelas”. Porém, os ro- ram-se mais leves, mais baratas e mais resisten-
bots então instalados em fábricas eram diferentes. tes. Os componentes electrónicos conseguiram
Hoje em dia, milhões destas máquinas industriais integrar mais capacidade de computação em em-
aparafusam, soldam, pintam e executam tarefas balagens mais pequenas. Graças a inovações, os
repetitivas de linha de montagem. Frequen-
temente isolados por vedações para manter
os trabalhadores humanos em segurança,

OS ROBOTS
são aquilo a que a especialista Andrea Tho-
maz, da Universidade do Texas, tem cha-
mado mastodontes “mudos e brutos”.
O dispositivo de Noah Ready-Campbell
é diferente. É um novo tipo de robot. Nada GEREM STOCKS
tem de humano, mas, apesar disso, é inteli- e limpam grandes superfícies.
gente, competente e móvel. Outrora raros,
estes dispositivos concebidos para “viver” e
Patrulham fronteiras, celebram
trabalhar com pessoas que nunca conhece- cerimónias religiosas

E AJUDAM CRIAN-
ram um robot estão a migrar para o quoti-
diano a um ritmo gradual e constante.
Em 2020, os robots já tratam da gestão
de stocks e limpam pavimentos no Wal-
mart. Fazem a reposição nas prateleiras ÇAS AUTISTAS.
e vão buscar os artigos aos armazéns.
Cortam alface, escolhem maçãs e até
framboesas. Ajudam crianças autistas a
socializar e vítimas de AVC a recuperar
movimentos. Patrulham fronteiras e, no
caso do drone israelita Harop, atacam alvos que engenheiros conseguiram instalar poderosas fer-
consideram hostis. Compõem arranjos florais, ramentas de processamento de dados nos corpos
oficiam cerimónias religiosas, dão espectáculos dos robots. O aperfeiçoamento da comunicação
de comédia em palco e funcionam como parcei- digital permitiu manter alguns “cérebros” robóti-
ros sexuais. cos num computador externo ou ligar um simples
E tudo isso existia antes da pandemia da robot a centenas de outros, deixando-os partilhar
COVID-19. Subitamente, a substituição de pes- uma inteligência colectiva, como numa colmeia.
soas por robots (uma ideia com a qual a maioria Num futuro próximo, o local de trabalho “será
das pessoas discorda, segundo a generalidade das um ecossistema de seres humanos e robots traba-
sondagens) parece medicamente sensata, senão lhando juntos de modo a maximizar a eficiência”,
mesmo essencial. disse Ahti Heinla, co-fundador da plataforma
Agora, os robots entregam comida em Milton Skype e actual co-fundador e director tecnológi-
Keynes, em Inglaterra, carregam mercadorias co da Starship Technologies, cujos robots de seis
num hospital de Dallas, desinfectam os quartos rodas com piloto automático circulam em Milton
dos doentes na China e na Europa e vagueiam por Keynes e noutras cidades da Europa e dos EUA.
parques de Singapura, insistindo junto dos peões “Habituámo-nos a ter máquinas inteligentes
para respeitarem o distanciamento social. que podemos transportar connosco”, acrescen-
A pandemia permitiu que mais pessoas per- tou Manuela Veloso, especialista portuguesa em
cebessem que a “automação vai fazer parte do robótica e inteligência artificial da Universidade
trabalho”, disse-me Noah Ready-Campbell em Carnegie Mellon. A minha interlocutora pegou
Maio. “De início, o elemento impulsionador foi a no seu telefone inteligente. “Agora teremos de nos
eficiência e a produtividade, mas agora há outro habituar a uma inteligência que possui um corpo
nível que é a saúde e a segurança.” e que se desloca sem nós.”

14 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Do lado de fora do seu gabinete, os “cobôs” (ou manter aquilo que já conhecem. E outros aborre-
robots cooperantes) da sua equipa deambulam pe- cem-se por estarem sentados porque estavam ha-
los corredores, conduzindo os visitantes e entre- bituados a mexer-se constantemente no campo.”
gando documentos. Parecem iPads montados em A Taylor Farms é uma das primeiras grandes
suportes com rodas, mas deslocam-se sozinhos e empresas agrícolas da Califórnia a investir em
até apanham elevadores quando precisam (emi- agricultura robótica. “Estamos a passar por uma
tem um bip e mostram no ecrã aos seres humanos mudança geracional… na agricultura”, disse-me
que se encontrem por perto um pedido bem-edu- Mark Borman, presidente da Taylor Farms Cali-
cado para carregarem nos botões por eles). fornia, enquanto circulávamos pelo campo na sua
“É um facto inevitável que vamos ter máqui- carrinha de caixa aberta. Quando os trabalhado-
nas, criaturas artificiais, que farão parte da nossa res antigos se vão embora, os mais jovens prefe-
vida quotidiana”, disse Manuela Veloso. “Quan- rem não fazer trabalho duro. As restrições globais
do começamos a aceitar robots à nossa volta, aos movimentos de migração transfronteiriça
como uma terceira espécie, juntamente com ani- também não ajudaram. A agricultura está a ser
mais de estimação e seres humanos, vamos que- robotizada em todo o mundo, acrescentou Mark
rer relacionar-nos com eles.” Borman. “Estamos a crescer e a nossa força labo-
Todos teremos de descobrir como fazê-lo. “As ral está a diminuir. Por isso, os robots oferecem
pessoas têm de perceber que isto não é ficção cien- uma oportunidade positiva para ambos.”
tífica. Não é algo que acontecerá daqui a 20 anos”, Foi um refrão que ouvi frequentemente no ano
disse a especialista. “Já começou a acontecer.” passado de trabalhadores agrícolas e da constru-

V
ção civil, operários fabris e profissionais de saúde:
do seu novo co-cola-
I DA L P É R E Z G O S TA andamos a atribuir tarefas aos robots porque não
borador. Durante sete anos, enquanto conseguimos encontrar pessoas que as façam.
trabalhava para a Taylor Farms, este No parque eólico do Colorado, executivos da
homem de 34 anos servia-se de uma faca Mortenson Company, uma empresa de constru-
com 18 centímetros para cortar alface. ção civil que contrata os robots da Built desde
Dobrando-se pela cintura, em movimen- 2018, relataram a falta de trabalhadores qualifi-
tos repetidos, cortava uma alface, desbastava as cados na sua indústria. Os robots de construção
folhas imperfeitas e punha-a dentro de um caixote. escavaram 21 fundações no parque eólico.
Desde 2016, porém, é um robot que trata do “Os operadores queixam-se e dizem: ‘Olha, lá
corte. É um equipamento de colheitas com oito vêm os assassinos de postos de trabalho’”, disse
metros e meio parecido com um tractor que se Derek Smith, director de inovação simplificada da
desloca de forma constante pelas filas, envolto Mortenson. “Mas depois de verem que o robot eli-
numa nuvem de vapor gerada pelo jacto de água mina muitas tarefas repetitivas e eles ainda ficam
de alta pressão usado para cortar uma alface sem- com muito que fazer, isso muda rapidamente.”
pre que o sensor detecta uma. As alfaces cortadas Quando a escavadora robótica terminou de es-
caem numa correia de transporte inclinada que cavar o buraco, um ser humano num bulldozzer
as transporta até à plataforma do equipamento, finalizou o trabalhou e criou rampas. “Neste local,
onde uma equipa de cerca de vinte operários as temos 229 fundações e, no essencial, quase todas
separam em diferentes caixotes. obedecem às mesmas especificações”, disse De-
Encontrei-me com Vidal Pérez às primeiras ho- rek Smith. “Queremos eliminar tarefas repetitivas.
ras de uma manhã de Junho de 2019, enquanto ele Assim os nossos operadores podem concentrar-se
fazia uma pausa no trabalho, numa plantação de nas tarefas que implicam mais arte.”
alfaces com nove hectares destinada aos restau- O maremoto da perda de postos de trabalho
rantes de refeições rápidas e mercearias que são causado pela pandemia não alterou este cenário,
clientes da Taylor. A alguns metros de distância, asseguraram os fabricantes e utilizadores de ro-
outra equipa trabalhava à moda pré-robótica. bots. “Mesmo com uma taxa de desemprego altís-
“Assim é melhor porque cansamo-nos muito sima, não podemos simplesmente estalar os de-
mais a cortar alface com uma faca do que com esta dos e preencher postos de trabalho que precisam
máquina”, disse o meu interlocutor. Sentado no de competências especializadas porque não te-
robot, ele orienta os caixotes, rodando-os sobre a mos pessoas com a devida formação”, disse Ben
correia de transporte. Nem todos os trabalhadores Wolff, presidente do conselho de administração
preferem o novo sistema, disse. “Alguns querem da Sarcos Robotics. (Continua na pg. 20)

O S RO B OT S JÁ C H E GA R A M 15
Os projectistas moldam cada robot à medida das suas funções e das necessidades das pessoas que trabalham
com eles. Com 182 centímetros e 101 quilogramas, o HRP-5P (à esquerda), desenvolvido pelo Instituto Nacional
de Tecnologia e Ciência Industrial Avançada do Japão, tem braços, pernas e cabeça e transporta cargas pesadas
em locais de construções e estaleiros. Em contraste, o SQ-2, um robot de segurança (à direita), não tem
membros e é bastante discreto, com 130 centímetros de altura e 65 quilogramas. A sua forma incorpora uma
câmara de 360 graus, um sistema cartográfico e um computador que lhe permite fazer patrulhas sozinho.
Na Fluidics Instruments, em Eindhoven (à esquerda), um operário trabalha com sete braços robóticos para
montar peças para aquecedores. Tal como os robots fabris tradicionais, estas unidades são eficientes e podem
produzir mil bocais por hora. No entanto, ao contrário de máquinas mais antigas, adaptam-se depressa a
mudanças nas especificações ou a novas tarefas. Num hospital de Dallas (à direita), os enfermeiros trabalham
com Moxi, um robot concebido para aprender e executar tarefas que afastam os enfermeiros dos doentes,
como ir buscar material necessário, entregar amostras no laboratório e remover sacos de roupa de cama suja.
D
A empresa sediada no estado de Utah fabrica IAS DEPOIS de ter visitado o laboratório
exoesqueletos robóticos que se podem vestir de Maja Matarić, num mundo diferente a
como um fato, dando a força e a precisão de uma 30 quilómetros da universidade, centenas
máquina aos movimentos de um trabalhador. de estivadores manifestavam-se contra os
A Delta Air Lines começara recentemente a tes- robots. Foi na zona de San Pedro, em Los
tar um dispositivo da Sarcos com mecânica de Angeles, onde gruas de movimentação de
aeronáutica quando a pandemia dizimou as via- contentores pairavam sobre uma paisagem de arma-
gens aéreas. zéns, docas e modestas ruas residenciais. Gerações
Quando conversei com Ben Wolff na Primavera desta comunidade unida trabalharam como estiva-
passada, ele estava animado. “Há um abranda- dores nas docas. A geração actual não gostou de um
mento de curto prazo, mas estamos à espera de plano para trazer operadores de carga robóticos para
mais volume de negócios a longo prazo”, disse. o maior terminal do porto, apesar de essas máquinas
Ben Wolff disse-me que a Sarcos registou um já serem comuns em portos de todo o mundo,
aumento do número de pedidos desde o início da incluindo na área de Los Angeles.
pandemia, com o qual ele não estava a contar. Um Os estivadores não estão à espera de que as mu-
fabricante de equipamento electrónico e outro de danças acabem, disse Joe Buscaino, que represen-
medicamentos queriam deslocar mercadorias pe- ta San Pedro no Conselho Municipal de Los An-
sadas com menos pessoas. Uma embaladora de geles. San Pedro já passou por outras convulsões
carne estava interessada em aumentar a distância económicas, quando as indústrias da pesca, dos
entre os seus colaboradores, que trabalhavam em enlatados e da construção naval prosperaram e de-
proximidade excessiva. pois desabaram. O problema dos robots, disse Joe
Num mundo agora receoso do contacto hu- Buscaino, é a velocidade a que os empregadores
mano, não será fácil preencher postos de tra- estão a introduzi-los na vida dos trabalhadores.
balho de prestação de cuidados a crianças ou “Há muitos anos, o meu pai percebeu que a
idosos. Maja Matarić, cientista informática e da pesca iria acabar e, por isso, começou a trabalhar
Universidade do Sul da Califórnia, desenvolve numa padaria. Ele conseguiu fazer a transição.
“robots de assistência social”, máquinas que dão Mas a automação tem a capacidade de extinguir
apoio social em vez de executarem tarefas físi- postos de trabalho da noite para o dia.”
cas. Um dos projectos do seu laboratório é um Há divergências entre os economistas quanto à
treinador robótico que orienta um utilizador medida e à forma como os robots afectarão os em-
idoso ao longo do seu programa de exercício e pregos no futuro. No entanto, muitos peritos con-
depois encoraja-o a sair e a caminhar. cordam num aspecto: alguns trabalhadores terão
“O robot diz: ‘Eu não posso sair, mas por que não mais dificuldade em adaptar-se aos robots.
vai dar um passeio para depois me contar como “Há provas claras de que passaram a existir mui-
foi?’”, contou Maja. O robot é um tronco, cabeça e to menos postos de trabalhos para operários de pro-
braços de plástico branco apoiados num suporte dução e montagem nas indústrias que optam pelo
de metal com rodas. Os seus sensores e programas uso de robots”, disse Daron Acemoglu, economista
informáticos permitem-lhe fazer algumas das ta- do MIT que estudou os efeitos da robótica e de ou-
refas que um treinador humano faria. tras formas de automação. “Isso não significa que a
Visitámos o laboratório de Maja Matarić, um la- tecnologia do futuro não possa criar empregos, mas
birinto cheio de jovens em cubículos, trabalhando a ideia de que vamos adoptar a automação à es-
nas tecnologias que poderão permitir a um robot querda, à direita e ao centro, ao mesmo tempo que
manter uma conversa num grupo de apoio ou rea- criamos numerosos postos de trabalho, é uma fan-
gir de forma a que um ser humano sinta empatia tasia intencionalmente enganadora e incorrecta.”
por parte da máquina. Perguntei à minha interlo- Apesar do optimismo dos investidores, inves-
cutora se os utilizadores ficavam assustados com a tigadores e accionistas das empresas de tecnolo-
ideia de terem uma máquina a tomar conta do avô. gia, muitas pessoas, como Joe Buscaino, preocu-
“Não substituímos os cuidadores”, disse ela. pam-se com um futuro cheio de robots. Temem
“Estamos a preencher uma lacuna. Os filhos adul- que estes não assumam apenas o trabalho pesa-
tos não podem acompanhar os pais idosos. E as do, mas todo o trabalho ou, pelo menos, as fases
pessoas que cuidam de outras pessoas neste país desafiantes, honrosas e bem pagas. Também re-
são mal pagas e subvalorizadas. Até isso mudar, ceiam que os robots tornem o trabalho mais ener-
teremos de utilizar robots.” vante ou até perigoso.

20 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Beth Gutelius, especialista em planeamento os robots em troca de formação de “melhoria de
urbano e economista da Universidade de Illinois, qualificações” para 450 mecânicos aprenderem a
investigou a indústria do armazenamento e falou- trabalhar com eles. Outros 450 trabalhadores se-
-me sobre um armazém que visitou após a intro- rão “requalificados”: formados para executar no-
dução de robots. Os engenhos agiam com rapidez vos trabalhos mais tecnológicos.
na entrega das mercadorias aos seres humanos Quanto à eficácia dessa requalificação, sobre-
para empacotamento e isso poupava-lhes muitas tudo para os trabalhadores de meia-idade, é uma
deslocações para trás e para a frente. Também os questão em aberto, disse Joe Buscaino. Ele tem
um amigo que é mecânico e a sua expe-
riência com carros e carrinhas habilita-o
a acrescentar a manutenção de robots às

“ISTO NÃO É FICÇÃO suas competências. Por outro lado, “o meu


cunhado Dominic, que é estivador, não faz

CIENTÍFICA.
a menor ideia de como trabalhar com estes
robots. E tem 56 anos.”

A
Não é algo que acontecerá PAL AVRA “ROB OT ” faz precisamente
daqui a 20 anos. 100 anos este ano. Foi cunhada pelo
autor Karel Capek, numa peça que

JÁ COMEÇOU definiu o modelo para os sonhos e


pesadelos mecânicos do século. Os

A A C O N T E C E R .”
robots dessa peça, R.U.R., parecem-
-se e comportam-se como pessoas e fazem
— Manuela Veloso, investigadora de IA, Carnegie Mellon todo o trabalho dos seres humanos. Antes de
o pano cair, eliminam a raça humana!
Desde então, robots imaginários como
o Exterminador, o japonês Astro Boy e os
faziam sentir-se apressados, eliminando a opor- andróides de “A Guerra das Estrelas”, exerceram
tunidade de conversarem. enorme influência nos planos dos fabricantes de
Os empregadores deveriam pensar que este tipo robots. Também moldaram as expectativas sobre
de pressão exercida sobre os empregados “não é o que são os robots e o que estes podem fazer.
saudável e é real e tem impactes no bem-estar dos Tensho Goto é um monge da escola Rinzai de
trabalhadores”, disse Dawn Castillo, epidemio- budismo zen japonês. Homem rijo e vigoroso de
logista responsável pela investigação de robots disposição alegre, encontrou-se comigo numa
ocupacionais no Instituto Nacional de Segurança sala simples e elegante do Kodai-ji, o templo
e Saúde Ocupacional do Centro de Controlo de seiscentista de Quioto pelo qual é responsável.
Doenças. O Centro de Investigação de Robótica Tensho parecia a imagem viva da tradição. No
Ocupacional espera que as mortes relacionadas entanto, ele sonha com robots há muitos anos.
com robots “devam aumentar com o tempo”, se- Tudo começou há várias décadas, quando leu so-
gundo o seu sítio da Internet. Isso deve-se ao facto bre mentes artificiais e pensou em reproduzir o
de haver mais robots em mais sítios a cada ano que Buda com silicone, plástico e metal. Com versões
passa, mas também mais robots a trabalhar em no- andróides dos sábios, disse, os budistas poderiam
vos ambientes, onde conhecem pessoas que não “ouvir directamente as suas palavras”.
sabem o que esperar e situações que os responsá- No entanto, quando começou a colaborar
veis pela sua concepção podem não ter previsto. com especialistas em robótica da Universidade
Em San Pedro, depois de Joe Buscaino vencer a de Osaka, a realidade robótica atenuou o sonho
votação para travar o plano de automação, o Sin- dos robots. Ele descobriu que “com a IA que
dicato Internacional de Estivadores e Armazéns hoje existe, é impossível criar inteligência hu-
negociou aquilo a que o presidente do comité mana, muito menos as personagens que alcan-
local do sindicato chamou um acordo “agridoce” çaram a Iluminação”. À semelhança de muitos
com a Maersk, o conglomerado dinamarquês que especialistas em robótica, porém, ele não desis-
gere o terminal de contentores. Os trabalhadores tiu, contentando-se com aquilo que é possível
das docas concordaram em pôr fim à luta contra fazer actualmente.

O S RO B OT S JÁ C H E GA R A M 21
Um robot de colheita,
desenvolvido pela
Abundant Robotics,
usa sucção para colher
maçãs num pomar
em Grandview, no
estado de Washington.
Os robots são cada
vez mais capazes
de executar tarefas
agrícolas que, no
passado, exigiam a
destreza e precisão de
mãos humanas. Isso é
bom para explorações
agrícolas com falta de
mão-de-obra humana.
Ei-la no ponto mais distante de uma sala com Matt lidera uma equipa de programadores, es-
paredes brancas nas instalações do templo: uma pecialistas em robótica, peritos em efeitos espe-
encarnação de metal e silicone de Kannon, a di- ciais, engenheiros e artistas que criam compa-
vindade que representa a compaixão e a mise- nheiras robóticas capazes de apelar ao coração,
ricórida do budismo japonês. Durante muitos à mente e também aos órgãos sexuais.
séculos, os templos e santuários usaram está- A empresa fabrica as RealDolls, com pele de
tuas para atrair pessoas, de modo a que os fiéis silicone e esqueleto de aço, há mais de uma
se concentrassem nos mandamentos budistas. década. O modelo padronizado custa cerca de
“Agora, pela primeira vez, temos uma estátua 3.400 euros. Actualmente, porém, se pagar mais
que se mexe”, disse. 6.800 euros, o cliente recebe uma cabeça robó-
O robot, chamado Mindar, faz sermões pré- tica com componentes electrónicos capazes de
-gravados com uma voz feminina vigorosa e não reproduzir expressões faciais, voz e uma inteli-
muito humana, gesticulando suavemente com gência artificial que pode ser programada atra-
os braços e virando a cabeça de um lado para o vés de uma aplicação para smartphone.
outro para examinar o público. Quando os seus À semelhança da Siri ou da Alexa, a IA da bo-
olhos incidem sobre alguém, essa pessoa sente neca fica a conhecer o utilizador através das ins-
algo, mas não é a inteligência de Mindar – ela truções dadas e perguntas que lhe fazem. Abai-
não tem IA. Tensho Goto espera que isso mude xo do pescoço, por enquanto, o robot continua a
com o tempo e que a sua estátua móvel se torne ser uma boneca e os seus braços e pernas só se
capaz de conversar com pessoas e responder às mexem quando o utilizador os manuseia.
suas perguntas sobre religião. “Actualmente, ainda não dispomos de In-
Do outro lado do Pacífico, numa casa de as- teligência Artificial que se assemelhe a uma
pecto banal, num subúrbio sossegado de San mente humana”, reconhece Matt McMullen.
Diego, encontrei-me com um homem que pre- “Mas acho que vamos tê-la no futuro. É inevi-
tende proporcionar um tipo diferente de expe- tável.” O empresário afirma não ter dúvidas
riência íntima com robots. quanto à existência de mercado para estes pro-
O artista Matt McMullen é o director executi- dutos. “Acredito que há muitas pessoas que
vo de uma empresa chamada Abyss Creations, podem beneficiar de robots parecidos com pes-
que fabrica bonecas sexuais em tamanho real. soas”, explicou.

CADA VEZ MAIS A


NUCLEAR
eu impulso A
MÓVEL
l conduziu

INTELIGENTES
ao desenvolvimento dos robots. à ascensão da inteligência
Foram usados braços telecoman- artificial. A NASA introduziu
dados para trabalhar com os robots móveis, capazes
materiais nucleares perigosos. de explorar planetas.
Alguns dos primeiros
robots, em meados do
século XX, eram dispo-
sitivos controlados por 1960 1970
seres humanos que se
encontravam perto Shakey
1950
deles ou ferramentas Unimate Primeiro robot com IA
Primeiro robot
capazes de executar industrial.
capaz de detectar
objectos e contorná-los.
tarefas limitadas. Waldo
Braços robóticos controla-
dos por seres humanos para
Autonomia robótica manipular material nuclear.
Operado remotamente
Automatizada
Inteligência Artificial Firebee Lightning Bug
Continua a ser o Equipado com sensores
drone-alvo mais para vigilância durante
O ano assinala a data utilizado por militares. a guerra do Vietname.
de comercialização ou
uso extensivo. As ilustrações
não estão à escala.

24 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
J
a alguns
Á E S TA M O S A A F E I Ç O A R - N O S te a introduzir novos tipos para executar tarefas
que não se parecem minimamente con- como carros sem condutor que transportam as
nosco. Algumas unidades militares cele- peças pela fábrica. O meu interlocutor mostrou-
braram exéquias fúnebres por robots -me uma combinação de fios que iriam serpen-
desmanteladores de bombas que explo- tear por uma secção curva junto da futura porta
diram em serviço. Enfermeiros provocam traseira de um automóvel.
os seus colegas robots nos hospitais. Participantes “O direccionamento de um feixe de cabos num
em experiências recusaram-se a denunciar os seus veículo não se presta à automação”, disse Chico
colegas de equipa robóticos. À medida que os robots Marks. “Requer um cérebro humano e feedback tác-
se tornam mais realistas, os seres humanos deverão til para saber que está no sítio certo e bem ligado.”
começar a depositar mais afecto e confiança neles. As pernas robóticas não são muito melhores.
A influência de robots oriundos do universo da fan- Em 1996, a portuguesa Manuela Veloso partici-
tasia leva muitos a pensar que as máquinas reais de pou num desafio para criar robots capazes de
hoje são mais competentes do que o são na verdade. jogar futebol melhor do que os seres humanos
Os robots podem ser programados ou treinados até 2050. Ela era um dos membros de um gru-
para executarem uma tarefa bem definida com mais po de investigação que, naquele ano, criou o
eficiência ou, pelo menos, de forma mais constante, torneio RoboCup para estimular o progresso.
do que os seres humanos. Mas nenhum consegue O RoboCup é hoje uma tradição muito aprecia-
igualar a capacidade da mente humana para exe- da por engenheiros de vários continentes, mas
cutar várias tarefas diferentes, sobretudo se forem nenhum, incluindo Manuela Veloso, espera que
inesperadas. Até ao momento, nenhum conseguiu os robots joguem futebol melhor do que os seres
ainda perceber com mestria o que é senso comum. humanos num futuro próximo.
Os robots actuais também não conseguem fa- “A sofisticação dos nossos corpos enquanto má-
zer o trabalho das mãos humanas, disse Chico quinas é uma loucura”, disse. “Bons a gerir a gra-
Marks, director de engenharia de produção na vidade e a lidar com as forças enquanto caminha-
fábrica de automóveis da Subaru, em Lafaye- mos, quando somos empurrados e ao mantermos
tte (EUA). A fábrica, à semelhança de todas as o equilíbrio. Vão ser precisos muitos anos para um
marcas de automóveis, utiliza robots de classe robot bípede conseguir caminhar tão bem como
industrial há décadas. Agora, está gradualmen- um ser humano.” (Continua na pg. 30)

INDUSTRIAL DRONES
O riais O não tripulados foram
automatizaram linhas de montagem utilizados pela primeira vez na Segunda
com robots programados para Guerra Mundial, como alvos móveis para
acelerar tarefas repetitivas e facilitar treino. Hoje, têm aplicações militares,
a produção em massa. comerciais e recreativas.

1980 1990 2000 2010 2020

SCARA Mars rover Roomba Amazon Robotics


Braço robótico Sojourner, o primeiro rover O primeiro robot A empresa começou
para montagem que explorou Marte, em com IA comercializa- a fabricar robots para
comercial. Setembro de 1997. do: um aspirador. trabalho em armazéns.

Predator Quadcopters
Aeronave com piloto automá- Drones baratos para fins
tico com transmissão de de consumo, segurança
vídeo ao vivo, transformada pública e industriais.
em arma na Guerra do Iraque.

MONICA SERRANO; KELSEY NOWAKOWSKI. ARTE: MATTHEW TWOMBLY. FONTE: ROBIN MURPHY, TEXAS A&M
ANYmal é um robot capaz
de subir degraus, pisar
delicadamente detritos
ou rastejar em espaços
estreitos. Aqui, passeia
numa rua junto das
instalações do seu
fabricante, a ANYbotics,
em Zurique (Suíça).
Ao contrário dos robots
com rodas, os dispositivos
com pernas como o
ANYmal são capazes
de aceder a quase todos
os sítios que os humanos
conseguem e a outros
que estes não conseguem,
como áreas contaminadas
por resíduos radioactivos
ou químicos.
Mindar, encarnação
robótica de Kannon, a
divindade da Misericór-
dia e da compaixão
do budismo japonês,
encara Tensho Goto,
um monge do templo
Kodai-ji, em Quioto
(Japão). Criado por uma
equipa liderada por
Hiroshi Ishiguro, da
Universidade de Osaka,
Mindar consegue recitar
ensinamentos budistas.
Os robots não vão ser pessoas artificiais. Como papel revestida com plástico mostrava as foto-
disse Manuela Veloso, teremos de nos adaptar a grafias e os nomes de três mulheres, dois ho-
eles como se fossem uma espécie diferente e a mens e quatro robots.
maioria dos fabricantes estão a trabalhar ardua- Os robots de dois braços cintilantes, levemen-
mente para conceber robots capazes de fazerem te parecidos com os descendentes de um fri-
cedências aos nossos sentimentos humanos. No gorífico e do robot WALL·E, receberam o nome
parque eólico, aprendi que, quando o balde den- de moedas. Enquanto eu observava a equipa a
teado de uma escavadora de grandes dimensões montar velozmente as peças de uma máquina
“ressalta” no solo, isso é sinal de inexpe-
riência num operador humano. O safanão
daí resultante pode até ferir a pessoa que

OS ROBOTS
se encontra na cabina. Para um operador
robótico, o ressalto faz pouca diferença. No
entanto, a Built Robotics alterou o algorit-
mo do seu robot para evitar esse ressalto,
pois é mal-visto pelos profissionais huma- PODEM EXECUTAR
nos e a Mortenson quer que os trabalhado-
res de todas as espécies se dêem bem. TAREFAS BEM
Não são só as pessoas a mudar à medida
que os robots vão entrando em cena. Mark
Borman disse-me que a Taylor Farms está
DEFINIDAS,
a trabalhar numa nova alface em forma de mas nenhum tem capacidade para
lâmpada com um caule mais comprido. tarefas em simultâneo nem de fazer
Esse formato será simplesmente mais fácil
de cortar para o robot.
A Bossa Nova Robotics fabrica um ro- USO DO SENSO
bot que deambula por milhares de lojas na
América do Norte, examinando as pratelei-
ras para gerir os stocks. Os engenheiros da
COMUM.
empresa perguntaram-se a si próprios quão
amigáveis e acessíveis os seus robots deve-
riam ser. O resultado final parece um equipamen- de trocos, um robot chamado Dollar precisou de
to de ar condicionado portátil com um periscópio ajuda algumas vezes – uma delas por não conse-
de dois metros de altura. Não tem rosto nem olhos. guir retirar a película da parte de trás de um au-
“É uma ferramenta”, explicou Sarjoun Skaff, tocolante. Uma luz vermelha junto do seu posto
co-fundador e director tecnológico da Bossa brilhou e um ser humano saiu rapidamente do
Nova. Ele e os outros engenheiros queriam que seu lugar na linha de montagem para corrigir o
os clientes e os colaboradores gostassem da má- problema.
quina, mas não demasiado. Se fosse demasiado Dollar tem câmaras nos “pulsos”, mas tam-
industrial ou demasiado estranha, os clientes bém tem uma cabeça com duas câmaras como
fugiriam. Se fosse demasiado amigável, as pes- olhos. “Em termos conceptuais, pretende ser
soas iriam querer falar e brincar com ela, abran- um robot com forma humana”, explicou o admi-
dando o seu ritmo de trabalho. A longo prazo, nistrador Toshifumi Kobayashi. “É por isso que
os robots e as pessoas vão aceitar “um conjunto tem uma cabeça.”
comum de normas de interacção entre seres hu- Essa pequena cedência não convenceu imedia-
manos e robots”. Por enquanto, os fabricantes tamente os seres humanos de carne e osso, disse
de robots e as pessoas normais estão a apalpar Shota Akasaka, de 32 anos, um gestor de equipa
terreno neste domínio. de aspecto juvenil e sorridente. “Eu não tinha a
Nos arredores de Tóquio, nas instalações da certeza se ele conseguiria fazer trabalho huma-
Glory, que fabrica máquinas de contagem de di- no, se conseguiria apertar um parafuso”, disse.
nheiro, parei num posto de trabalho onde uma “Quando vi o parafuso entrar na perfeição, aper-
equipa constituída por nove membros estava a cebi-me de que estávamos a assistir ao nascimen-
montar uma máquina de trocos. Uma folha de to de uma nova era.”

30 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
N
a nordeste
UM A SA L A D E C O N F E R Ê N C I A S lhores.” Além disso, os robots são mais excitantes
de Tóquio, descobri como é trabalhar com do que os meros seres humanos.
um robot da forma mais próxima possível: Existe um “zeitgeist específico entre tecnológi-
vestindo-o em mim. cos e gestores, que acham que os seres humanos
O exoesqueleto, fabricado por uma são problemáticos”, resumiu Daron Acemoglu. “É
empresa japonesa chamada Cyberdyne, um sentimento do género que sugere que os hu-
era constituído por dois tubos brancos interliga- manos cometem erros e fazem exigências, o que
dos que se curvavam nas minhas costas, um cinto justifica uma aposta na automação.”

D
na minha cintura e duas correias nas minhas co-
xas. Curvei-me ao nível da cintura para levantar ter
E P O I S D E N O A H R E A D Y- C A M P B E L L
um recipiente de água com 18 quilogramas, o que decidido investir nos robots de constru-
deveria ter magoado a minha zona lombar. Em ção, o seu pai Scott Campbell perguntou-
vez disso, um computador alojado nos tubos usou -lhe delicadamente se ele achava que
a mudança de posição para deduzir que eu iria le- aquilo era mesmo boa ideia. O Campbell
vantar um objecto e os motores entraram em ac- mais velho, ele próprio antigo trabalhador
ção para me ajudar. no sector da construção, representa actualmente a
O robot fora concebido para dar assistência ape- cidade de Saint Johnsbury na assembleia geral do
nas aos músculos das minhas costas. Quando eu estado de Vermont. Rapidamente se convenceu da
me agachava e o esforço era transferido para as validade do trabalho do filho, mas os seus eleitores
pernas, como deve acontecer, o dispositivo não estão preocupados com os robots e não apenas por
me dava grande ajuda. Apesar disso, quando fun- motivos económicos. Talvez um dia seja possível
cionava, parecia um truque de magia. Primeiro, entregarmos todo o nosso trabalho aos robots. No
sentia o peso e depois deixava de o sentir. entanto, os eleitores de Campbell querem reservar
Segundo a Cyberdyne, existe um grande merca- algo para a humanidade: o trabalho que faz os seres
do na área da reabilitação clínica. A empresa fa- humanos sentirem-se valorizados.
brica um exoesqueleto para os membros inferio- “O aspecto mais importante no trabalho não é
res que está a ser utilizado para ajudar as pessoas aquilo que obtemos em troca dele, mas aquilo em
a recuperarem o uso das suas próprias pernas. que nos transformamos, ao fazê-lo”, disse Scott
Para muitos dos seus produtos, “outro mercado Campbell. “Acho que isto é uma verdade profunda.
será o dos trabalhadores, para conseguirem tra- É o aspecto mais importante de ter um trabalho.”
balhar mais tempo e com menor risco de lesões”, Um século depois de terem sido, pela primei-
afirmou Yudai Katami, porta-voz da Cyberdyne. ra vez, imaginados, os robots reais estão a tornar
A Sarcos Robotics, outro fabricante de exoes- a vida mais fácil e segura para algumas pessoas.
queletos, está a pensar de forma semelhante. Um Também estão a torná-la um pouco mais robótica.
dos objectivos dos seus dispositivos, segundo Ben Para muitas empresas, isso faz parte do encanto.
Wolff, era “tornar os seres humanos mais produti- “Actualmente, todos os locais de construção
vos para poderem acompanhar as máquinas que são diferentes e todos os operadores são artistas”,
possibilitam a automação”. disse Gaurav Kikani, vice-presidente da Built Ro-
Os especialistas sonham com máquinas que botics. Os operadores gostam da variedade, mas
tornem a vida melhor, mas por vezes as empresas os empregadores nem por isso. Poupam tempo e
têm incentivos para instalar robots que não o fa- dinheiro quando sabem que uma tarefa é sempre
zem. Afinal, os robots não precisam de férias pagas executada da mesma maneira e que não depen-
nem de seguro de saúde. Além disso, muitos paí- dem das decisões de um indivíduo. Embora os
ses obtêm vastas receitas fiscais com trabalho, ao locais de construção precisem sempre da adap-
mesmo tempo que encorajam a automação com tabilidade e do engenho humano para algumas
isenções fiscais e outros incentivos. As empresas tarefas, “com os robots, temos uma oportunidade
podem, por isso, poupar dinheiro reduzindo o nú- de uniformizar as práticas e criar eficiências para
mero de funcionários e acrescentando robots. tarefas adequadas a eles”, disse.
“Recebem-se muitos subsídios por instalar Quando uma sociedade tem de escolher as pre-
equipamento, sobretudo equipamento digital e ferências que devem prevalecer, a tecnologia não
robots”, disse Daron Acemoglu. “Isso incentiva as consegue dar respostas. Por mais avançados que
empresas a preferirem as máquinas aos seres hu- sejam, há algo em que os robots não podem ajudar-
manos, mesmo quando as máquinas não são me- -nos: decidir como, quando e onde utilizá-los. j

O S RO B OT S JÁ C H E GA R A M 31
Abaixo da superfície
de um mar tempestuoso,
ao largo de Palau,
localiza-se uma grande
diversidade de corais
pujantes. Este minúsculo
país insular transformou
80% das suas águas em
áreas protegidas,
interditando a pesca ali.
É a maior percentagem
de território marinho
protegido no mundo.
Nos restantes 20%, só
os habitantes de Palau
podem pescar.
O P R O J E C T O C O N C E B I D O P A R A S A LVA R

O S O C E A N O S F O I A M P L I A D O PA R A

I N C E N T I VA R O C R E S C I M E N T O D E

R E S E R VA S E M I T I G A R O S E F E I T O S D A S

A LT E R AÇ Õ E S C L I M ÁT I C A S N O M A R .

A FORÇA DA PROTECÇÃO
T E X T O D E K E N N E D Y WA R N E

FOTOGRAFIAS DE ENRIC SALA


Quando Enric Sala deixou o seu
emprego como professor no
Instituto Scripps de Oceanografia,
em 2007, fê-lo por se sentir
cansado de escrever notícias sobre
morte. “Dei por mim a escrever o
obituário do oceano com uma
precisão cada vez maior”, conta.
Em vez de passar mais tempo da sua vida a do-
cumentar os moribundos, o biólogo decidiu
proteger os seres vivos nos poucos pedaços de
oceano onde a Grande Ceifeira ainda não pas-
sara. Esses últimos bastiões da biodiversidade
são os derradeiros lugares selvagens do mar, o
equivalente marinho às mais isoladas exten-
sões de floresta virgem sobreviventes na Ama-
zónia. Ainda não foram destruídos pelo excesso
de capturas, pela poluição ou pelas alterações
climáticas. “Foi preciso visitar os lugares que
ainda se assemelham ao oceano tal como este
existia há 500 anos”, diz Sala. “Foi um regresso
às referências passadas para percebermos como
seria antigamente um oceano saudável. Estes lu-
gares são a matriz, o manual de instruções. Tal-
vez não consigamos devolver todo o oceano ao
seu estado original, mas estes lugares mostram-
Perto do Gabão, um -nos o potencial que existe e dão-nos esperança.”
cardume de Carangidae
refugia-se entre os Para proteger estes lugares, Enric Sala e a Na-
tentáculos de uma medusa. tional Geographic Society lançaram o projecto
A Rede de Áreas Marinhas Mares Prístinos em 2008. Nos últimos 12 anos, o
Protegidas do Gabão
abrange 28% das águas projecto contribuiu para a criação de 22 reservas
territoriais gabonesas, marinhas. As reservas representam agora dois
dando abrigo a duas terços das áreas marinhas totalmente protegidas
dezenas de espécies
de baleias, golfinhos do planeta, abrangendo mais de 5,5 milhões de
e tartarugas. quilómetros quadrados.

34 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Sala e a sua equipa fixaram uma meta ainda
mais ambiciosa: querem assegurar a conservação
de mais de um terço da extensão total do oceano,
não apenas para sustentar a biodiversidade, mas
também para recuperar as populações de peixes
e sequestrar o carbono.

PA R A E N R I C S A L A , um
dos aspectos mais gratifi-
cantes do seu trabalho é a colaboração com as
comunidades locais nos territórios que ele e a sua
equipa se esforçam por preservar. Na ilha Pitcairn,
um território ultramarino britânico do Pacífico Sul,
a equipa do projecto desenvolveu uma colaboração
estreita com os cerca de cinquenta habitantes da
ilha, muitos dos quais descendentes dos amotina-
dos do HMS Bounty, o navio da Marinha de Guerra
sequestrado pelos membros da tripulação em 1789.
“Viemos mostrar-lhes um mundo subaquático
que eles nunca tinham visto”, recorda o biólogo.
“Cardumes de barracudas, aglomerados de bi-
valves gigantes, tubarões-dos-recifes nadando
em algumas das mais límpidas águas alguma vez
estudadas no Pacífico. Dissemos-lhes que este é
um dos lugares mais intactos do planeta e que
lhes pertence, embora se encontre em risco por
vários factores. Dissemos-lhes assim que ainda
existiam oportunidades para corrigir a situação.”
Os ilhéus de Pitcairn começaram a ver-se como
heróis da sua própria narrativa e, em 2015, a pedi-
do da população local, o governo britânico criou
uma reserva marinha com 834 mil quilómetros
quadrados em redor de Pitcairn e das ilhas vizi-
nhas desabitadas: Ducie, Oeno e Henderson.
Bem longe de Pitcairn, para oeste, na Micro-
nésia, o projecto Mares Prístinos desenvolveu Os mangues das águas
baixas e turvas da orla
também colaboração com os indígenas de Pa- costeira da ilha Isabela
lau no sentido de apurar, recorrendo a métodos são berçários para
modernos, uma antiga prática de conservação. os tubarões-de-
-pontas-negras.
Durante muitos séculos, os habitantes de Palau Algumas espécies
utilizaram períodos de defeso temporários para de tubarões põem
repor as populações de peixes dos recifes. Ao lon- os ovos, mas as fêmeas
de tubarão-de-
go dos anos, criaram 35 reservas que protegiam os -pontas-negras dão
animais marinhos em torno das suas ilhas e in- à luz, em cada
terditavam a captura de algumas espécies. O pre- ninhada, quatro a dez
crias que já nadam.
sidente de Palau, Tommy Remengesau, pediu à
equipa de Enric Sala que comparasse a abundân-
cia de peixe dentro e fora das reservas integrais.
A equipa descobriu que as espécies procuradas
pelos pescadores eram quase duas vezes mais
abundantes nas zonas de captura interdita.
A equipa filmou os mergulhos e mostrou os
vídeos em todo o arquipélago. “Quisemos que os
habitantes de Palau vissem como funciona a sua

36 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
gestão tradicional e que, além de proteger os reci- tória do oceano é de dilapidação constante. Cada
fes, também é benéfica para o turismo”, comenta geração humana cresce, adaptando-se a uma nova
o biólogo. Em 2015, o parlamento local criou um normalidade, uma referência de base cada vez mais
santuário marinho com pesca interdita que abran- baixa de diversidade e abundância marinha. A
ge 80% da Zona Económica Exclusiva do país. maior parte das pessoas nem sabe o que se perdeu.
Muito do que se perde desta biomassa resulta
universalmente reconhecida.
E S S A V E R DA D E N ÃO É das perturbações e destruição dos habitats, do
Na maior parte do mundo, a conservação marinha excesso de capturas e das alterações climáticas
é travada pela oposição movida por interesses pes- que aquecem o oceano e agravam a sua acidez.
queiros, petrolíferos e mineiros. Escassos 7% do O projecto Mares Prístinos está actualmente
oceano mundial beneficiam de algum tipo de pro- a redefinir a sua missão, de modo a enfrentar
tecção e só 2,5% contam com protecção real contra estas três ameaças. Se existir uma rede global
a exploração dos recursos. Fora destas zonas, a his- de áreas marinhas protegidas (AMP) sem qual-
quer actividade extractiva, Enric Sala acredita
que será possível beneficiar, simultaneamen-
A National Geographic Society, organização sem fins
lucrativos que desenvolve esforços para conservar os te, a biodiversidade, a segurança alimentar
recursos da Terra, ajudou a financiar esta reportagem. e o clima. (Continua na pg. 46)

A FO RÇ A DA P ROT EC Ç ÃO 37
Duas mantas gigantes
alimentam-se de
plâncton oceânico
trazido pela maré
cheia num recife de
Palau. As áreas
protegidas deste país,
comparativamente com
as áreas protegidas das
redondezas, asseguram
o sustento de duas
vezes mais peixes e cinco
vezes mais predadores.

38 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
A FO RÇ A DA P ROT EC Ç ÃO 39
AMÉRICA
ÁSIA DO NORT
E
PACÍF ICO NORT E
OC EA NO
Hawai
MON. NACIONAL MARINHO
PAPAHANAUMOKUAKEA
PARQ. MAR. REVILLAGIGEDO
120 35 20
MON. NACIONAL MARINHO Il
DAS ILHAS REMOTAS DO PACÍFICO
Península Osa

ha
286 50 25 ÁREA MARINHA PROTEGIDA

sd
DA ILHA CLIPPERTON 223 185 30
EQUADOR

aL
105 10 20

inh
M I C R K I RESERVA MARINHA SANTUÁRIO MARINHO
O N É

a
S I R I B I DAS ILHAS DE LINHA DARWIN E WOLF
A A T
325 112 71 122
ÁREA PROTEGIDA SANTUÁRIO
SANTUÁRIO NACIONAL DAS ILHAS PHOENIX I. Galápagos DE FAUNA
MARINHO DE PALAU ÁREA DE GESTÃO DOS E FLORA
196 109 76 ÁREA MARINHA PROTEGIDA MONTES SUBMARINOS MALPELO
NIUE MOANA MAHU 95 145
295 59 121 175
Ilha da 9
Rapa Iti Páscoa PARQUE MARINHO
Nova Caledónia RES. MATR. MOTU MOTIRO HIVA
182 44 89
ILHA PITCAIRN 62 40 20 10
OCE A NO
203 64 70
P.N. DO MAR DE CORAL
325 115 62 PACÍ F ICO PARQUE MAR. NAZCA-DESVENTURADAS
SUL 25 96 49
A
NI

PARQUE MAR. JUAN FERNÁNDEZ

AM O SU

58 120 47

ÉR L
D
OC

ICA
Fiordes da Patagónia
19 137
PARQUE MARINHO DAS Terra do Fogo
ILHAS DIEGO RAMÍREZ Ilha dos Estados
ÁREA MARINHA E PASSAGEM DE DRAKE
PROTEGIDA DA RES. MAR.
REGIÃO DO MAR 25 122 NAMUNCURÁ-
DE ROSS BURDWOOD
BANK II
Península Antárctica P.N. MARINHO
26 165 32 YAGANES
35
A N TÁ R C T I D A 132

E A SEGUIR?
Z O N A S P R I O R I TÁ R I A S
Se houvesse protecção de 35% do
oceano (zonas verdes), isso seria
vantajoso para a biodiversidade, a
A National Geographic Society lançou o projecto Mares Prístinos abundância alimentar e o sequestro
em 2008 para explorar e preservar o oceano. A iniciativa já de carbono. As zonas a verde-es-
promoveu 30 expedições e contribuiu para a criação de 22 curo identificam as principais
reservas marinhas. A sua mais recente investigação identifica prioridades de conservação.
áreas cruciais que deverão ser salvaguardadas no futuro.

Expedição Designação da área protegida Baixa Alta


Oceano não-prioritário

to

Jo
fic

ue
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os
ilh
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co

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la
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Mo

I. D
I. R

No
I. P

Ga
I. C
Fu
Ilh

Ilh

Su
Sa

Te

2005 2008 2009 2010 2011 2012 2013


Uma expedição Primeira expedição Descoberta da planta Censo da floresta de
desencadeou o oficial que vive na maior laminárias mais
projecto profundidade setentrional
ÁREA MAR: PROTEGIDA
TUVAIJUITTUQ

PARQUE NACIONAL 5.633


DO ÁRCTICO RUSSO Número de mergulhos

A M NO
16 113 216
IC 113.305
DO
ÉR A
RT Quilómetros percorridos
E
OC 137
M.N.M. DOS AT E A N Mergulhos em submersível
MONTES LÂ O
N
SUBMARINOS
N O T ICO
E DESFILADEIROS
NORDESTE RT E E U R O PA A
I
ÁS
Açores
95 120 104

Ilhas Selvagens
51 31 69

ÁFRICA NO
C EA O
O DIC
AMÉ EQUA DO
R ÁREA MARINHA ÍN
RICA PROTEGIDA DE CHAGOS
DO S
UL ÁREA MARINHA
PROTEGIDA DA P.N. MARINHO DO GRUPO ALDABRA
ILHA ASCENSÃO REDE DE ÁREAS 360 35 165
28 MARINHAS PROTEG.
DO GABÃO
41
40
OC E A NO 43
A T L Â N T IC O Sul de Moçambique
358 58 50 48
SU L

Tristão da Cunha
42 7 2

A N TÁ RC T I DA

C O N S E RVA Ç Ã O M A R I N H A CENSOS DE ESPÉCIES CHRISTINE FELLENZ, TAYLOR MAGGIACOMO E IRENE


BERMAN-VAPORIS
Embora 7% do oceano beneficie A equipa realizou medições FONTES: MARES PRÍSTINOS, NATIONAL GEOGRAPHIC
de algum tipo de protecção, só do tamanho, abundância e SOCIETY; ENVIRONMENTAL MARKET SOLUTIONS LAB, UC
2,5% está seguramente protegido biomassa de mais de sete mil SANTA BÁ RBARA; TRISHA ATWOOD,
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO UTAH
das indústrias extractivas. espécies até ao presente.

Peixes 3.812 espécies


Área marinha com protecção elevada
associada aos Mares Prístinos Invertebrados 1.828
z
de

Outro tipo de AMP bem protegida Algas 1.089


án

Corais 756
ern

Outro local de expedição do projecto


nF

5.855.210
ne
Jua

quilómetros
ga
, I.

quadrados
, Ya
ke
lo

protegidos
i
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I. C


I. J
Se

Ár
Pa

Pe
Tri

2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020


Expansão do Palau prote- Descoberta da maior A maior rede de Descoberta de um novo A maior AMP
Mon. Nac. das ge 80% das biomassa de tubarões AMP de África campo hidrotermal do Atlântico
Ilhas Remotas suas águas
PRIMEIRA FILA
Caranguejo, ilha dos
Estados, Argentina; góbio
sobre coral mole,
Palau; bodião, ilha da
Páscoa, Chile; polvo,
San Ambrosio, ilhas
Desventuradas, Chile

SEGUNDA FILA
Tartaruga-verde, ilha
Cocos, Costa Rica; sargo
dourado, Palau; lagosta,
Ilha dos Estados;
peixe-porco,
ilha da Páscoa

TERCEIRA FILA
Peixe-palhaço-rosa,
Nova Caledónia;
pargo-vermelho-de-
-pintas, Palau; medusa,
Jellyfish Lake, Palau;
moreia sobre leito de
corais, Gabão

Q UA RTA F I L A
Coral gigante,
provavelmente com
vários séculos de idade,
ilha da Páscoa; tubarão-
-martelo, ilha Cocos;
peixe-falcão, ilha
Henderson, arquipélago
de Pitcairn; leão-marinho-
-sul-americano,
ilha dos Estados

42 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
A FO RÇ A DA P ROT EC Ç ÃO 43
44 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Golfinhos-roazes nadam
no Parque Nacional
de Revillagigedo, a sul
da Baixa Califórnia.
Com cerca de 148 mil
quilómetros quadrados,
é a maior reserva marinha
integralmente protegida
da América do Norte,
habitada por tubarões-
-sedosos, tubarões-
-martelo, tubarões-
-baleia, mantas-gigantes,
atuns e baleias-de-bossa.

A FO RÇ A DA P ROT EC Ç ÃO 45
O benefício para a biodiversidade é óbvio, tal
como acontece em solo firme, onde os parques e
reservas protegem milhares de espécies ameaça-
das. A forma como as AMP beneficiarão as pescas
é menos óbvia. Segundo o entendimento geral,
a criação de áreas fechadas será prejudicial aos
interesses das pescas, mas esse pressuposto está
errado, argumenta Sala.
“A indústria da pesca alega que não podemos
criar mais zonas de captura interdita porque temos
de alimentar quase dez mil milhões de pessoas”, a
população mundial prevista para 2050. “Mas o pior
inimigo da pesca é o excesso de capturas.”
O total mundial de capturas de peixe estabili-
zou desde meados da década de 1990, na melhor
das hipóteses apesar dos esforços desenvolvidos
pela indústria das pescas no sentido de continuar
a capturar peixe. A razão é óbvia: muitas popula-
ções de peixe estão enfraquecidas e precisam de
uma oportunidade para recuperarem. “As áreas
protegidas não são inimigas das pescas”, diz Sala.
“De acordo com a nossa análise, a protecção do
oceano pode trazer benefícios líquidos às pescas.”
Pode parecer contra-intuitivo, mas quanto mais
integralmente protegida se encontra uma área
marinha, maiores as vantagens para os pescado-
res que exercem a sua actividade em redor dos
seus limites. Esse resultado já foi documentado
em espécies que vão do atum à lagosta e aos bi-
valves. Segundo Enric Sala, as reservas marinhas
integralmente protegidas assemelham-se a uma
conta-poupança com um capital no qual não se
toca: permitem obter rendimentos todos os anos,
sob a forma de peixes, adultos e em estado larvar,
e invertebrados que se propagam para fora das re- Morsas alimentam-se e
descansam sobre um
servas e fazem crescer as populações de espécies baixio na ilha
procuradas pelos pescadores. Northbrook, na Terra
Ainda assim, as AMP só são seguras na medida de Francisco José. Este
arquipélago foi
em que existir vontade política para mantê-las. acrescentado ao
Nos Estados Unidos, Donald Trump já decla- Parque Nacional do
rou a sua intenção de abrir à pesca comercial o Árctico Russo em 2016
para proteger espécies
único monumento marinho do país situado no como o urso-polar, a
oceano Atlântico. baleia da Gronelândia,
As vantagens climáticas das AMP decorrem a gaivota-marfim e a
morsa do Atlântico. As
do facto de o dióxido de carbono ser o principal morsas encontravam-se
gás com efeito de estufa presente na atmosfe- à beira da extinção
ra e de os sedimentos marinhos serem um dos no século XX devido
à caça. Agora, existem
principais reservatórios de carbono da Terra, mais de dez mil.
armazenando mais carbono do que os solos ter-
restres. Se não forem perturbados, os sedimen-
tos conseguem sequestrar o carbono durante
milhares de anos. Quando os sedimentos são
perturbados, devido à pesca de arrasto pelo fun-

46 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
do ou à mineração do leito marinho, o carbono aumentar 14 vezes (de 2,5% para 35%), resultaria
armazenado entra de novo em circulação. num incremento de 64% dos benefícios associa-
Da mesma maneira que existe mais do que dos à biodiversidade e uma protecção suplemen-
uma razão para salvar uma floresta, também tar de 28% do carbono instável, ao mesmo tempo
há mais do que uma vantagem em proteger o que o total de capturas a nível mundial crescerá
oceano, o que torna essa protecção ainda mais aproximadamente dez milhões de toneladas.
relevante. “Deixou de ser possível pensarmos na Se em vez de se focarem nas suas prioridades
biodiversidade de forma isolada”, afirma Sala. estritamente nacionais, os países cooperarem e
“Não podemos pensar no clima isoladamente. reservarem áreas estratégicas do oceano, conse-
Será impossível cumprir os objectivos do acordo guirão obter os mesmos resultados protegendo
climático de Paris [impedir que o aquecimento menos de metade desta área.
global ultrapasse o limiar catastrófico de 2ºC] se Até isso pode parecer impossível, mas a alter-
não mantivermos uma percentagem significati- nativa é calamitosa. Será que queremos mesmo
va do planeta em estado natural.” continuar a escrever e a ler obituários marinhos
Que tamanho deve ter essa percentagem? Se- ou preferimos que os nossos filhos herdem um
gundo cálculos de Enric Sala e da sua equipa, oceano abundante e produtivo? Por enquanto,
se a superfície totalmente protegida do planeta ainda temos a oportunidade de escolher. j

A FO RÇ A DA P ROT EC Ç ÃO 47
TEXTODE RICHARD CONNIFF
FOTOGRAFIAS DE KLAUS NIGGE

Ninguém as
engana
ESQUEÇA O ESTEREÓTIPO DA
AV E L I M I TA D A : A AV E S T R U Z É U M A
S O B R E V I V E N T E A S T U TA
NUM MUNDO DE PREDADORES

48
Na extremidade
meridional de África, um
macho examina a costa
junto do cabo da Boa
Esperança, erguendo
a cabeça. Podendo
atingir três metros de
altura e 135 quilogramas,
a maior ave da Terra
não tem falta de
atractivos cómicos e
desengonçados, mas
não é presa fácil para
os que a tentam incluir
no seu menu.
Três avestruzes fêmeas
(penas castanhas), três
machos (penas pretas)
e 42 pintos mantêm-se
atentos a chacais e a
outros predadores
no Parque Nacional de
Tarangire, na Tanzânia.
As crias que eclodem
em ninhos comunitários
mantêm-se, por
vezes, juntas durante
um ou dois anos.
A maioria das pessoas
acredita numa única forma de
ver as avestruzes, herdada dos desenhos
animados: são aquelas aves grandes
que enfiam a cabeça na areia
em momentos de crise, pensando
que se não conseguem ver
o perigo, o perigo não
conseguirá vê-las.
Na nossa colecção de estereótipos, as avestruzes
tornaram-se assim o arquétipo do animal limita-
do. Até a Bíblia assegura que elas são tontas, além
de más progenitoras.
A ideia da cabeça na areia já é antiga. Tem
cerca de dois mil anos e foi inventada pelo na-
turalista romano Plínio, que por vezes escrevia
crónicas falsas. As avestruzes têm pernas com-
pridas e ossudas e um tronco suspenso no ar,
semelhante a um grande casco flutuante de car- A avestruz é o animal
bípede mais rápido do
ne e penas. O pescoço é parecido com um peris- planeta. Já foi cronome-
cópio, encimado por uma cabeça em forma de trada a correr a quase
cunha com olhos maiores do que os de um ele- 70 quilómetros por hora
e pode percorrer longas
fante, a três metros de altura. É uma anatomia distâncias a cerca de
improvável para resolver problemas enfiando a 50 quilómetros por
cabeça na areia. hora. O segredo da sua
velocidade? Enormes
No entanto, as avestruzes baixam mesmo a ca- músculos nas coxas,
beça até ao nível do solo (e não abaixo deste) para patas compridas e
se alimentarem de plantas ou tratarem dos ni- magras, tendões
elásticos e uma enorme
nhos. Os seus pescoços são leves e flexíveis, com garra em cada pata para
17 vértebras cervicais, enquanto nós temos sete. garantir boa tracção.

52 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Deslocam-se facilmente para cima
e para baixo, de um lado para o
As avestruzes são As avestruzes são incorrigivel-
mente promíscuas, pois os ma-
outro e da frente para trás. Os seus no fundo galinhas chos e as fêmeas estabelecem
olhos gigantes ajudam-nas a vigiar
atentamente o mundo em redor.
sobredimensiona- relações com múltiplos parcei-
ros. Da perspectiva evolutiva, a
E têm boas razões para se man- das em zonas multiplicação de parceiros é uma
terem alerta. Para começar, são
basicamente galinhas sobredimen-
povoadas por forma de conseguir DNA diversi-
ficado e de compensar o facto de a
sionadas em habitats povoados por leões, leopardos, maioria dos ninhos fracassarem.
leões, leopardos, hienas, mabecos
e chitas esfomeados. As avestru-
hienas e chitas. É assim que às 10h30 de uma
manhã encontramos um par a
zes adultas são demasiado impres- Mas cada pontapé acasalar a cerca de quinhentos
sionantes para constituírem uma
caçada fácil: um único pontapé
seu pode quebrar metros da estrada principal do
parque. Quando se separam, o
pode partir ossos. No entanto, elas ossos e elas conse- macho começa a andar, seguido
são melhores a fugir do que a lutar,
pois atingem uma velocidade de
guem correr a da sua consorte mais recente e de
mais duas fêmeas. Uma delas não
ponta de 70 quilómetros por hora. quase 70 quilóme- tarda a pedir a sua atenção, afas-
Outro factor que as mantém aler-
ta é o perigo enfrentado pelas crias.
tros por hora. tando as asas do corpo e abanan-
do-as como se fossem pompons.
As avestruzes constroem os ninhos Na época de acasalamento, as fê-
em simples clareiras no solo, em meas podem gerar um ovo a cada
espaços abertos, onde os ovos podem ser desfei- dois dias. Contudo, a escassez de machos é fre-
tos em mil pedaços por um elefante desastrado quente, talvez porque cada um defende ciosamen-
ou por qualquer predador esfomeado. O suces- te o seu território, o que obriga os outros a migrar.
so requer uma sorte improvável. A maior ave do O macho ignora-a. A sua caminhada leva-os
planeta precisa de impedir que o seu ninho seja ao longo de um caminho serpenteante, junto de
detectado durante mais de dois meses, desde o acácias dispersas e embondeiros atarracados.
momento em que que põe os primeiros ovos até Junto da estrada, a fêmea volta a tentar, com
à sua eclosão. O fracasso é frequente e é essa a as asas a oscilar. Um veículo de safari passa ve-
força motriz para o engenhoso comportamento lozmente pela estrada, lançando uma nuvem
comunitário de nidificação. de poeira sobre esta demonstração romântica.
Estamos no Parque Nacional de Tarangire, no O macho continua a andar. Sem se deixar esmo-
Norte da Tanzânia. São 2.850 quilómetros qua- recer, ela arranja uma desculpa para se atraves-
drados de colinas secas e planícies cobertas de sar à frente dele, de asas baixas e a tremer.
capim ao longo do rio Tarangire. Muitos elefan- “Mas ele não está convencido”, explica Flora.
tes vivem aqui em grandes manadas, juntamen- O processo de sedução dura mais de uma hora.
te com zebras e milhares de gnus. As avestruzes Descem até uma praia de areia no rio Tarangire.
também são comuns, mas difíceis. Junto-me a Quando ela se afasta, ele deixa-se cair no solo,
Flora John Magige, ecologista especializada no finalmente apaixonado. De seguida, ele executa
comportamento das avestruzes, da Universidade todo o ritual pré-copulatório, parecendo um gui-
de Dar-es-Salam, enquanto ela procura ninhos. tarrista a abanar a cabeça: as asas a espiralar, o
A nossa primeira descoberta é um fracasso. Há corpo a abanar loucamente de um lado para o ou-
nove ovos dispersos no mato, numa zona com tro, a cabeça tão projectada para trás que bate nas
cerca de 25 metros de perímetro. Flora examina costelas. Catapum de um lado, catapum do outro.
a área como um detective numa cena de homi- Ela continua a andar, mostrando-se agora
cídio. A dispersão foi, mais provavelmente, obra indiferente. Por fim, juntam-se no leito seco
de um predador esfomeado, mas não grande, do rio. Ele contorce-se sobre ela durante um ou
porque todos os ovos estão intactos. Talvez um dois minutos, enquanto ela se senta como uma
chacal? Seja como for, o macho e a fêmea muda- esfinge, digna, com a cabeça bem erguida no ar.
ram de sítio, como frequentemente fazem quan- No momento de maior êxtase do macho, ela vis-
do um ninho é perturbado. É possível que voltem lumbra qualquer coisa saborosa na areia e esti-
a nidificar juntos. ca-se para comer.

54 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
ARGÉLIA EGIPTO
S A A R A PENÍNSULA
MAURITÂNIA ARÁBICA
MALI
NÍGER
SENEGAL S A SUDÃO ERITREIA
E L
BURKINA CHADE
FASO DJIBUTI
TERRAS ALTAS
NIGÉRIA CORNO DE
REPÚBLICA SUDÃO DA ETIÓPIA
ÁFRICA
CENTRO- DO SUL ETIÓPIA
-AFRICANA

CAMARÕES As avestruzes encontram-se


Avestruz-comum sobretudo em áreas QUÉNIA SOMÁLIA
protegidas. As do Norte de
UGANDA
até 2,75m
África, agora raras na sua área
geográfica, tiveram uma RESERVA
diminuição acentuada. NACIONAL
MASAI MARA
PARQUE NACIONAL
Á F R I C A TARANGIRE

TANZÂNIA
ANGOLA

ZÂMBIA

AR
MOÇAMBIQUE
ZIMBABWE

SC
Macho Fêmea Ovo NAMÍBIA

AGÁ
DE
A extensão do território das avestruzes é difícil de
S. D
BOTSWANA

MAD
definir, devido ao decréscimo das populações. Na
A

DE SE R TO D O
NA M ÍB

década de 1960, uma subespécie extinguiu-se devido à


caça e à perda de habitat. Segundo alguns peritos, o KA LA HAR I
território da avestruz da Somália encolheu, ocupando ESWATINI
IA

agora apenas o Corno de África. (SUAZILÂNDIA)


Avestruz-comum (Struthio camelus) ÁFRICA DO
SUL
Avestruz-norte-africana (S.c. camelus)
500 km
Avestruz de Masai (S.c. massaicus) Oudtshoorn
Avestruz-sul-africana (S.c. australis) RESERVA NATURAL DO CABO
DA BOA ESPERANÇA
Avestruz da Somália (Struthio molybdophanes)

Depois, todos comem e bebem durante algum spero território de avestruzes. Algures à nossa
tempo junto do rio, numa espécie de piquenique nte, encontra-se uma fêmea sentada no ninho.
n
de avestruzes. Viramos as costas para irmos tam- macho nidificante está a pastar a algumas cen-
m
bém almoçar e, quando fazemos uma pausa para nas de metros à esquerda e não parece muito
as observar pela última vez, as três fêmeas estão tento. No entanto, quando outro macho apare-
de novo a aproximar-se do macho, de asas aber- ce a 750 metros de distância, ele começa a andar
tas e a tremer suavemente. na sua direcção com uma atitude determinada e,
depois, a correr. Tal como acontece entre os seres
de avestruzes na esperança
S E G U I MO S E ST E G RU P O humanos, a promiscuidade e a possessividade
de elas nos conduzirem a um ninho, mas um ninho podem coexistir: o macho nidificante pretende
de avestruz pode ser difícil de ver, mesmo que sai- monopolizar os acasalamentos da parceira e isso
bamos exactamente onde está. Por norma, o macho implica afugentar os machos rivais.
cuida dele durante a noite, sentando-se de cabeça O mais surpreendente é a forma como o casal
erguida. A fêmea assume o posto de dia. Quando nidificante reage às fêmeas que o visitam. Outras
deita as penas da cauda para trás e o seu longo pes- espécies desenvolveram mecanismos de defesa
coço para a frente, pode parecer um simples monte sofisticados para dissuadir “parasitas da ninha-
de térmitas ou um toco de árvore. Por vezes, a forma da”, aves que tentam fugir ao entediante trabalho
mais fácil de encontrarmos um ninho é sentarmo- da parentalidade colocando os seus ovos nos ni-
-nos e esperar que apareça outra avestruz de visita, nhos de outras aves. As avestruzes são diferentes.
o que acontece com frequência surpreendente. Quando outra fêmea se aproxima, é frequente a
Certa tarde, optamos por posicionar-nos numa fêmea nidificante levantar-se e afastar-se, permi-
planície aberta e não tardamos a descobrir um tindo à visitante pôr os ovos ao lado dos seus.

CHRISTINA SHINTANI E TAYLOR MAGGIACOMO. FONTES: UICN; BRIAN BERTRAM; FLORA JOHN MAGIGE, UNIVERSIDADE DE DAR-ES-SALAM
56 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
DA ESQUERDA
PA R A A D I R E I TA ,
A PA RT I R D O T O P O
Chegou a época de
acasalamento das
avestruzes no Parque
Nacional de Tarangire.
O pescoço e as patas
vermelhos e inchados
anunciam que ele está à
procura de parceiras.

Após uma dança de


cortejamento, durante a
qual abana as asas e
ostenta a sua elegância
emplumada, o macho
monta uma fêmea.
Ao contrário da maioria
das aves, os machos
possuem um pénis e
inseminam interna-
mente as fêmeas.

A fêmea põe os ovos


no solo. Outras fêmeas
podem pôr ovos ao
lado dos seus (uma
estratégia de nidificação
comunitária), mas só
a fêmea principal e
o seu parceiro guardam
e chocam os ovos.

Os ovos eclodem
após 42 dias de
incubação, mas apenas
cerca de 10% dos ninhos
são bem-sucedidos.
Os pintos que
sobrevivem tornam-se
independentes após
um ou dois anos.

AV E S T R U Z E S 57
Segundo alguns estudos, tipicamente, a fêmea bretudo os da fêmea nidificante, e o seu cheiro
nidificante só é a progenitora biológica de cerca atrair hienas ou chacais.
de metade dos 19 ou 20 ovos que pode incubar A nidificação comunitária confere algumas
com sucesso. Outras fêmeas, de estatuto inferior, vantagens egoístas ao casal nidificante, acres-
contribuem assim para a ninhada. Trata-se de ni- centa Brian. Para o macho, as suas voltas pelo
dificação comunitária e, à semelhança da promis- “bairro” significam que ele poderá ter produzido
cuidade, é uma forma de as avestruzes alcançarem cerca de um terço dos ovos acrescentados pelas
sucesso reprodutivo num mundo adverso. vizinhas. Quanto à fêmea nidificante, a existên-
Isto não significa que o mundo destas aves cia de ovos adicionais no ninho dilui o risco. Nin-
seja de amor perfeito. A fêmea nidificante pode guém sabe como consegue distingui-los, mas ela
não ter grande escolha, explica Brian Bertram, costuma manter os seus próprios ovos no meio
o biólogo que apresentou a primeira descrição do ninho, relegando os das outras fêmeas para
pormenorizada da nidificação comunitária em aquilo a que Brian Bertram chama “o condena-
1979. A resistência a uma fêmea visitante pode do anel exterior”. Ter mais pintos juntos após a
conduzir a conflitos e atrair leões e outros pre- eclosão também diminui as probabilidades de os
dadores. Também pode quebrar os ovos, so- seus serem mortos por um predador.

58 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
O caminho para o centro do comércio de aves-
truzes conduz-nos a uma passagem estreita de
rocha vermelha nas montanhas de Swartberg,
na província sul-africana do Cabo Ocidental. De-
baixo daquela fenda natural, campos agrícolas
semelhantes a mantas de retalhos estendem-
-se sobre um planalto semiárido circundado de
montanhas irregulares. Little Karoo é a fonte,
estranhamente distante e isolada, dos excessos
emplumados das senhoras que frequentam as
corridas de Ascot e das bailarinas de Las Vegas.
No entanto, a zona em redor da cidade de Oud-
tshoorn é o centro do comércio mundial de aves-
truzes há mais de 150 anos.
A partir da década de 1860, quando o comér-
cio de penas já empurrava as avestruzes para a
extinção em algumas regiões, os criadores locais
Hienas-malhadas na foram pioneiros da reprodução em cativeiro.
Reserva Nacional de A natureza comunitária das avestruzes poderá
Masai Mara, no Quénia,
banqueteiam-se com ter tornado estes animais mais receptivos à vida
um ovo de avestruz. em cativeiro. A sua incapacidade para voar ou
A maior ave do mundo saltar também ajudou. Nos campos (ou “acam-
põe os maiores ovos do
planeta. Têm o tamanho pamentos”) delimitados por vedações de arame
de uma meloa madura e pela altura do peito, existem actualmente milha-
equivalem ao volume res de avestruzes, por vezes espalhadas como pe-
de duas dúzias de ovos
de galinha. Para abrirem ças de xadrez emplumadas.
as cascas resistentes, os Durante a época de acasalamento, os traba-
predadores têm de ser lhadores recolhem ovos e transferem-nos para
engenhosos. Por vezes,
os chacais arremessam unidades de incubação artificial: 112 ovos por
um ovo contra outro. prateleira, 1.008 ovos por unidade, rodando len-
Os abutres do Egipto tamente, a 36 graus. “No dia 42, o pinto irrompe
atiram-lhes pedras.
CHRISTINE E MICHEL DENIS-HUOT,
por uma bolsa de ar no ovo, inspira e reúne forças
NATURE PICTURE LIBRARY
para partir a casca”, diz Saag Jonker, um proemi-
nente criador local. Poderá viver um ano, se for
criado pela sua carne e pele, ou até 15 anos, se for
para penas, sendo estas arrancadas em interva-
los de cerca de nove meses.
que mais me impressionou nas
UM D O S A S P E C TO S O comércio de avestruzes sempre foi um ne-
avestruzes, além do seu tamanho, foi a sensação de gócio imprevisível, pois os preços flutuam lou-
estarem sempre em movimento, mesmo quando camente ao sabor dos caprichos da moda in-
paradas. Isto aplica-se à fêmea, em particular, por- ternacional. Neste momento, está num ciclo de
que a sua coloração acastanhada torna os tremores baixa, e Saag Jonker e a mulher, Hazel, falam
das penas mais visíveis. Em ambos os sexos, as com esperança sobre o gosto de Kate Middleton
penas são invulgarmente compridas e entufadas, por chapéus com penas de avestruz e sobre a pos-
sobretudo nas asas e na cauda. Além disso, ao con- sibilidade de a Louis Vuitton voltar a usar pele de
trário da maioria das aves, as suas penas não têm avestruz nas suas malas.
as barbicelas, minúsculos ganchos que mantêm as A época áurea do comércio de avestruzes e
penas unidas e ordenadas. É isto que lhes dá a ten- de Oudtshoorn começou aproximadamente em
dência cativante para enfunarem ao vento. A aves- 1870, estimulada pela procura de penas de aves-
truz pode afrouxar as penas para ajudar a dissipar truz para os chapéus das senhoras elegantes. As
o calor corporal ou apertá-las para conservá-lo. Foi “mansões de penas” daquela época ainda ale-
esse aspecto que fez a moda humana apaixonar-se gram as ruas de Oudtshoorn com torres, alpen-
pelas penas de avestruz vezes sem conta. dres e frisos requintados.

AV E S T R U Z E S 59
As avestruzes são os
únicos animais do
mundo com rótulas
duplas, excentricidade
que talvez as ajude a
correr mais depressa.
Contudo, a velocidade
não é a única qualidade
que permite a aves tão
grandes escaparem aos
perigos. Encontram-se
também equipadas com
os maiores olhos de
qualquer animal
terrestre e possuem uma
visão tão aguçada que
conseguem detectar
ameaças a quase três
quilómetros de distância
em campo aberto.
RICHARD DU TOIT, NATURE
PICTURE LIBRARY

60
A carga mais valiosa do Titanic não era dia- “E os afrikaners receberam-nos de braços aber-
mantes nem ouro, mas 12 caixas de plumas de tos”, lembra Maurice. Os primeiros imigrantes
avestruz, avaliadas em 1,97 milhões de euros a tornaram-se vendedores ambulantes, mas aque-
preços actuais, bem demonstrativo de como o co- les que se seguiram trabalharam frequentemen-
mércio era próspero em 1912. Tudo isso acabou, te no comércio de mercadorias ou vestuário, e a
porém, em 1914, quando a guerra e os automó- diáspora permitiu o estabelecimento de ligações
veis descapotáveis tornaram desactualizados os com comunidades de imigrantes nesses ramos
chapéus grandes e emplumados. em Londres, Nova Iorque e noutras grandes ci-
Certo dia de manhã encontrei-me na cidade dades. O comércio de penas de Oudtshoorn cres-
com Maurice “Mickey” Fisch, criador de aves- ceu, em grande parte, devido a essas ligações,
truzes reformado e um dos últimos membros da formando uma rede do comprador de penas, de
comunidade judaica que, em tempos, dominou o língua yiddish, que viajava de quinta em quinta,
comércio mundial de avestruzes de Oudtshoorn. aos artesãos que fabricavam produtos com penas
Os imigrantes judeus, forçados a deixar a Europa de avestruz e aos vendedores a retalho que as ven-
devido à opressão política e económica, começa- diam. Na fase áurea do negócio, várias centenas
ram a chegar em finais do século XIX. de famílias judaicas viviam em Oudtshoorn.

62 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
ços dos dias sagrados. Após 50 anos de criação,
também Maurice Fisch abandonou o negócio das
avestruzes e não sente saudades. A sua opinião
das avestruzes ecoa a de Job em 39:16-17, que lhes
chama “privadas” de sabedoria e indiferentes até
ao bem-estar da sua própria descendência. As
avestruzes, diz Fisch, são “aves estúpidas que se
limitam a ter penas bonitas”.
Não lhe faço perguntas sobre as competências
parentais das avestruzes, mas tenho a oportuni-
dade de chegar à minha própria conclusão pouco
depois. Numa manhã, na Reserva Natural de De
Hoop, na extremidade meridional de África, vejo
um macho e uma fêmea a alimentarem-se. Eles
também me observam, mas passado algum tem-
po, descontraem-se e, como se recebessem um
sinal, nove crias de avestruz saem dos esconde-
rijos. São criaturas pequenas e redondinhas com
uma ou duas semanas de idade, parecidas com
dodós, de pescoços castanhos e sarapintados e
Numa unidade de penugem curta e eriçada no corpo. Começam a
criação de avestruzes na
Alemanha, uma ave comer e os progenitores, seguindo-as de perto,
pequena aninha-se sob fazem o mesmo.
as patas do progenitor. Pouco depois, um trio assassino de babuínos
No século XVIII, as
penas de avestruz atravessa o campo, aproximando-se. O macho
tornaram-se uma moda fica furioso e corre em frente, afugentando-os. Os
tão famosa na Europa babuínos voltam, uma e outra vez, mas o macho
que a caça provocou um
declínio das aves. bloqueia-os sempre. De seguida, um batalhão in-
Domesticadas na África teiro de babuínos aparece na clareira. Os pintos
do Sul na década de juntam-se, nervosos, enquanto as duas avestru-
1860, são criadas em
todo o mundo devido zes adultas fitam os intrusos. Os babuínos pas-
às suas penas, carne sam por elas cautelosamente, desviando o olhar,
e pele macia. como se uma sanduíche de avestruz fosse a últi-
ma coisa que lhes passasse pela cabeça.
Mal os babuínos desaparecem de cena, desata
a chover: uma chuvada costeira forte e súbita, ba-
tida a vento. O macho e a fêmea sentam-se ime-
Maurice Fisch abre um livro de história local e diatamente e levantam as asas enquanto as crias
mostra-nos uma fotografia do seu avô e homóni- se aproximam a correr para se abrigarem. Há tan-
mo, Maurice Lipschitz. “Foi o maior criador de tas enfiadas sob a asa esquerda do progenitor que
avestruzes do mundo”, diz. “Quando morreu, em parecem leitões a mamar. Depois as asas descem
1936, tinha 35 quintas.” Montague House, a man- e elas desaparecem, completamente protegidas
são de penas que construiu, tinha um salão de da chuva fria. Quando a chuva pára, a cabeça de
baile, uma adega e uma banheira com 1.500 litros uma das crias espreita entre as penas da asa e
de capacidade revestida a mármore de Carrara. olha em redor, usando literalmente o progenitor
A casa ainda existe, encontrando-se actual- como gabardina. É basicamente o oposto de en-
mente subdividida num restaurante, numa loja, fiar a cabeça na areia. Como as condições atmos-
numa residência e num consultório médico. féricas já parecem aceitáveis, ela emerge, ainda
O comércio de avestruzes está nas mãos de uma quente e seca, regressando ao mundo.
cooperativa laica e o número de famílias judaicas Talvez não possamos chamar-lhe inteligência,
diminuiu tanto que a sinagoga remanescente mas sugere um certo génio para a sobrevivência.
tem de chamar crentes dos arredores para con- E eu afasto-me a pensar se não devíamos todos
seguir reunir minyan, o quórum, para os servi- ser tão bons pais como elas. j

AV E S T R U Z E S 63
Dominik Lubecki treina
saltos mortais sobre
um banco em Nowy
Port, um bairro de classe
operária onde, em 1946,
os estivadores lançaram
uma das primeiras
greves da era comunista,
exigindo melhores
condições de trabalho.
Quando não está
a praticar skate, nem a
compor hip-hop, “Lulek”
faz voluntariado com
jovens de Gdansk.

64
A POLÓNIA É INSPIRADA PELA CIDADE QUE, HÁ 40 ANOS,

VIU NASCER O MOVIMENTO SOLIDARIEDADE .

À ESPERA DE GDANSK
TEXTO DE VICTORIA POPE FOTOGRAFIAS DE JUSTYNA MIELNIKIEWICZ
Durante a era comunista,
os estaleiros de Gdansk
chegaram a empregar
20 mil trabalhadores e
neles nasceu o Solidarie-
dade, o primeiro sindicato
independente do país.
Hoje em dia, estaleiros
mais pequenos fabricam
iates de luxo e torres para
turbinas eólicas.
DURANTE MUITO TEMPO,
ASSOCIEI A CIDADE
DE GDANSK À MINHA
DETENÇÃO PELA POLÍCIA.
FOI NO DIA 16 DE
DEZEMBRO DE 1982 Uma manifestação
de mulheres percorreu

E, UM ANO ANTES, as ruas da Cidade Velha


na passada Primavera,
dando voz a preocupa-

AS AUTORIDADES ções feministas e


ambientais e proferindo
palavras de ordem

COMUNISTAS
como “As Mulheres
e a Terra têm de
suportar demasiadas

TINHAM IMPOSTO
agruras”. Com a sua
história multicultural,
há muito que Gdansk
promove os movimentos

A LEI MARCIAL. sociais progressistas.

Quiseram dar sinais de um abrandamento das


restrições, ao libertarem o líder do Solidariedade, Para o mar
Báltico
o sindicalista Lech Walesa, após onze meses de
prisão. Com ar arrogante, um porta-voz do gover-
Ilha
no descreveu-o como “o antigo chefe de um anti- Ostrow Gdansk
go sindicato”. Uma vez que estava previsto Walesa E S TA L E I RO S
POLÓNIA
HISTÓRICOS DE
fazer um discurso nesse dia, cerca de quarenta GDANSK (LENINE) EUROPA
Centro Ma
pessoas do nosso grupo (correspondentes estran- Europeu de rtw
a
Solidariedade
geiros, fotógrafos e os nossos assistentes polacos) W
Monumento aos Porta 2 is
ła
amontoámo-nos à porta do seu prédio, na expec- Operários Mortos
nos Estaleiros Museu da Segunda
tativa de entrarmos para uma entrevista. Guerra Mundial
Em vez disso, a polícia impediu a nossa entra- G D A N S K
da. Como o Solidariedade se encontrava interdito, Złota Brama CIDADE
(Ponte VELHA
Dourada)
o discurso de Walesa e a nossa tentativa para falar Ilha Granary
com ele foram considerados ilegais. A princípio, Ulica Długa
500 m
o confronto causou alarme. Sabíamos que muitos

68 N AT I O N A L G E O G R A P H I C SOREN WALLJASPER E SCOTT ZILLMER


FONTE: ANNA MYDLARSKA, CENTRO DE SOLIDARIEDADE EUROPEIA
polacos tinham sido encarcerados. Porém, a ten- Agora, estou de volta a Gdansk. Passaram 40
são deu lugar a um alívio cómico. Eu estava grá- anos desde as greves de Agosto nos estaleiros que
vida de quatro meses e os polacos do nosso grupo deram origem ao movimento do Solidariedade,
mostraram-se indignados pelo facto de a polícia conduzindo a Polónia para a rota da democracia.
me sujeitar a stress. Pouco depois, parecia que Essas greves atraíram jornalistas como eu ao país,
metade dos moradores do prédio sabiam que eu para a cobertura da revolução pacífica. Vivendo
estava à espera de bebé. As mulheres paravam em Varsóvia durante três anos, fiz reportagens
para gritar contra a polícia, que aceitou a descom- sobre a ascensão do sindicato com dez milhões de
postura com um embaraço silencioso. Nessa épo- membros. Em 1989, escrevi crónicas sobre o com-
ca, poucos polacos contestavam as autoridades e promisso alcançado entre a oposição e o Partido
foi com certeza catárctico dar uma lição àqueles Comunista que permitiu eleições e uma vitória
representantes do poder. Mesmo assim, levaram- esmagadora do Solidariedade. Desde então, o país
-nos para a esquadra. Uma vez ali chegados, limi- aprovou uma nova Constituição, protegendo a in-
taram-se a fazer-nos um aviso e a instruir-nos que dependência do poder judicial e de outras institui-
nos mantivéssemos longe de Walesa, libertando- ções, embora muitos considerem que o actual go-
-nos em seguida. verno está a minar esses alicerces democráticos.

À E SPERA DE GDANSK 69
Jerzy Bohdan Szumczyk
criou a sua escultura
móvel “SOS” como
forma de protesto
contra a destruição de
gruas e edifícios dos
estaleiros históricos,
numa zona marcada
para demolição.
lhe peço que fale sobre o momento em que entrou
nos estaleiros, no dia 14 de Agosto de 1980. Ele re-
corda-o como “uma certa etapa, um certo momen-
to”, acrescentando: “Esperava que não fosse a últi-
ma etapa da minha luta.” Durante as negociações,
conta, “eu sabia que não tinha muito a ganhar,
pelo que tentei agir de forma a não perder muito”.
A dado momento da nossa conversa, lanço uma
graçola amigável: “Sei que não esteve a bordo de
um barco a motor”. Refiro-me às alegações de
que, quando a greve já estava a decorrer, ele apa-
receu a bordo de um navio militar. A acusação,
feita por alguns dos seus críticos, procura provar
Lech Walesa, electricista foi eleito presidente da a colaboração da polícia. Walesa limita o seu des-
dos estaleiros navais, Polónia em 1990. Com 76 mentido a um revirar de olhos.
tornou-se líder do anos, continua empenha- Regressamos ao significado da camisa. Segun-
Solidariedade em 1980, do na vida política, exigin-
conquistou o Prémio do ao governo que do o meu interlocutor, a Polónia encaixa-se num
Nobel da Paz em 1983 e respeite a Constituição. movimento mundial para enfraquecimento dos
valores democráticos. Ele destaca as leis que o
governo fez aprovar no Parlamento para vergar
a independência dos tribunais. “Também para
Neste porto marítimo do Báltico, com uma mim, o sistema judicial e outras acções represen-
história de intercâmbio de mercadorias, pessoas taram um obstáculo”, reconhece, lembrando os
e ideias que remonta à Idade Média, a rebelião desafios enfrentados quando foi presidente entre
mantém-se activa. A cidade tem desafiado o par- 1990 e 1995. Mas, segundo afirma, não se esforçou
tido Lei e Justiça. Quando a Polónia se recusou por “liquidar” a independência do poder judicial.
a receber refugiados, no âmbito da iniciativa de “Assim que se elimina um obstáculo, é preciso eli-
abertura da União Europeia, Gdansk anunciou minar o obstáculo seguinte. É desta maneira que
que estes seriam bem-vindos. E quando o chefe as ditaduras emergem.”
do partido no poder, Jaroslav Kaczynski, classifi-
cou a ideologia LGBT como ameaça à identidade resistência e
G DA N S K E M A N A S I M U LTA N E A M E N T E
polaca, as autoridades municipais prometeram elegância. Em redor da zona industrial portuária, a
proteger as minorias sexuais. linha do horizonte é um emaranhado de gruas, guin-
dastes e chaminés de fábricas. Aqui e ali, ainda se
o Centro
S E G DA N S K É A C I DA D E DA O P O S I Ç ÃO, vêem nas fachadas marcas de balas disparadas na
Europeu para a Solidariedade encontra-se no seu Segunda Guerra Mundial. No centro da cidade, con-
coração. Trata-se de um monumento vivo ao sindi- tudo, o horizonte é um panorama intacto de piná-
cato e ao legado das greves, que começaram ali perto, culos de igrejas, torres e telhados com telhas
no Portão n.º 2 dos Estaleiros de Gdansk, também vermelhas. A paisagem das ruas também é caracte-
conhecidos como Estaleiros Lenine. Walesa tem um rística do Velho Mundo, graças a um árduo esforço
gabinete no segundo piso. Quando me encontro com de reconstrução desenvolvido após a guerra.
ele, usa uma camisa cinzenta decorada com a pala- Ulica Dluga, a principal via pedonal, encontra-
vra KONSTYTUCJA. O significado da mensagem: o -se ladeada de edifícios de estilo flamengo dos
partido no poder espezinhou os direitos constitu- séculos XVI e XVII reconstruídos, com fachadas
cionais fundamentais. Os órgãos de comunicação ornamentadas por esculturas, vasos e remates.
social controlados pelo Estado também têm as suas São suficientemente grandiosas para os príncipes
palavras preferidas para referir-se a Walesa, chaman- mercadores holandeses e outros que fizeram for-
do-lhe traidor e ultrapassado. tuna no transporte marítimo de cereais. Ao longo
Após alguns cumprimentos cordiais, Walesa de vários séculos, Gdansk (ou Danzig, como foi
muda para um tom de voz mais grave e diz brus- conhecida durante a maior parte da sua história)
camente “Pierwsze pytanie” [primeira pergunta] foi uma cidade cosmopolita e próspera.
como se estivesse a cronometrar o início de uma Ali perto fica a famosa Zlota Brama, a Ponte
corrida. Depois, responde pacientemente quando Dourada, construída no início do século XVII e

72 N AT I O N A L G E O G R A P H I C MARK HENLEY, PANOS PICTURES


reconstruída após a sua destruição durante a Se-
gunda Guerra Mundial. Com enormes janelas de PERCURSO DA POLÓNIA NO PÓS-GUERRA
dois andares e colunas clássicas, não há como não De satélite soviético comunista a nova
reparar nela, mas eu ando à procura de uma sim- democracia, este país do Leste Europeu
ples placa de mármore negro, incrustada no pas- teve uma história tumultuosa após a guerra.
seio. Diz o seguinte: “Gdansk é generosa. Gdansk
partilha o seu bem. Gdansk quer ser uma cidade
JANEIRO DE 1947 JULHO DE 1983
de solidariedade.” Foram as palavras proferidas No rescaldo da guerra e da Lei marcial revogada.
ocupação soviética, o Partido
pelo presidente da câmara Pawel Adamowicz, Comunista conquista o poder
instantes antes de ser selvaticamente apunha- após eleições fraudulentas. FEVEREIRO DE 1989
Conversações entre o governo
lado nesta zona, perante centenas de pessoas, e o Solidariedade conduzem à
em Janeiro de 2019, num ataque que o matou. O legalização do sindicato, à
formação de um Senado e à
agressor tinha um historial de criminalidade vio- criação do cargo de presidente.
lenta, mas, para muitos em Gdansk, o assassínio
reflectiu o febril ambiente político que opunha a JUNHO DE 1989
O Solidariedade conquista
sua visão aberta da cidade ao nacionalismo ran- todos os lugares parlamentares
nas eleições legislativas,
coroso e vitriólico do partido do poder. excepto um.
“A nossa situação está muito complicada”,
afirma Julia Borzeszkowska, de 20 anos, estu-
DEZEMBRO DE 1970 MARÇO DE 1990
Manifestações contra a subida
Mikhail Gorbachov é eleito
dante do primeiro ano de Direito na Universida- dos preços irrompem em
presidente da União Soviética.
Gdansk, alastrando a outras
de de Gdansk. “A violência e o ódio são tão fortes cidades do Báltico. Pelo menos Promove reformas que se
40 pessoas são mortas, registan- repercutem na Polónia.
que levaram alguém a matar outra pessoa.” No do-se mais de mil feridos.
último ano da escola secundária, Julia organi- DEZEMBRO DE 1990
zou uma manifestação de protesto intitulada OUTUBRO DE 1978 Walesa vence as eleições para
o recém-criado lugar de
Marcha Além das Divisões, que atraiu 1.500 jo- presidente da Polónia.

vens às ruas.
Espreitando sobre as armações sobredimen-
NOVEMBRO DE 1995
Numa eleição renhida, Walesa
sionadas dos seus óculos, as palavras directas e perde a presidência para um
antigo comunista.
duras de Julia abafam o tremor da sua voz. “A mi-
nha geração foi educada a acreditar na liberdade, SETEMBRO DE 2005
Karol Józef Wojtyla, arcebispo O partido Lei e Justiça,
na solidariedade e no combate pela democracia. de Cracóvia, é eleito papa, socialmente conservador,
Aprendemos isto com os nossos pais e avós. Estes com o nome de João Paulo II. vence as eleições gerais.
A sua visita de 1979 à Polónia
temas eram importantes para eles e, agora, são
importantes para nós.” Ela exprime-se com con-
mobiliza milhões de pessoas
descontentes.
OUTUBRO DE 2007
O maior partido da oposição, o
vicção resoluta e faz-me lembrar a frontalidade liberal Plataforma Cívica, vence
as eleições gerais antecipadas.
dos primeiros activistas do Solidariedade. Posso
citar o seu nome? – costumava eu perguntar. E a MAIO DE 2015
O Lei e Justiça conquista a maio-
resposta costumava ser afirmativa, apesar do pe- ria nas eleições parlamentares.
rigo. Mais do que uma vez ouvi dizer: quero que
os meus filhos saibam aquilo por que combati. JULHO DE 2017
Grandes manifestações de
Julia promete que retomará o activismo e eu protesto opõem-se a propostas
acredito nela. AGOSTO DE 1980 legislativas que são considera-
das um perigo para a indepen-
Liderados por Lech Walesa,
O assassínio do presidente da câmara trouxe os trabalhadores dos estaleiros dência do poder judicial.
de Gdansk entram em greve.
milhares de pessoas às ruas de Gdansk e Varsó- No final do mês, as autoridades
via. Aleksandra Zurowska, uma destacada mé- reconhecem o Solidariedade
como sindicato.
dica de Gdansk, que, na companhia da sua filha
Joanna Lisiecka-Zurowska, me apresentou a pes- DEZEMBRO DE 1981
soas da cidade, recorda as manifestações de dor. Com o apoio da União
Soviética, o líder da Polónia
Amigos de toda a Polónia telefonaram-lhe a ex- impõe a lei marcial. Walesa e
outros dissidentes são detidos.
primir pesar. “Diziam-me que estavam a assistir JANEIRO DE 2019
ao que acontece em Gdansk e que estavam, uma OUTUBRO DE 1982 Pawel Adamowicz é assassinado.
A sua morte resulta da crescen-
vez mais, à espera. É sempre Gdansk que nos Interdição do Solidariedade. te intolerância incentivada pelo
guia nestes momentos.” partido Lei e Justiça.

FOTOGRAFIAS (A PARTIR DO TOPO): EDMUND PEPLINSKI, FORUM, ALAMY STOCK PHOTO; WOJCIECH
KRYNSKI, FORUM, ALAMY STOCK PHOTO; PETER MARLOW, MAGNUM PHOTOS; WOJCIECH STROZYK
Nesta imagem da “Ilha
dos Celeiros”, edifícios
remodelados misturam-
-se com edifícios
modernos nas margens
do rio Motlawa. A ilha
foi um entreposto naval
deste porto do Báltico,
onde os cereais eram
guardados em centenas
de armazéns. Grande
parte dos edifícios foram
destruídos durante a
Segunda Guerra
Mundial, mas algumas
ruínas estão
a ser recuperadas,
à medida que a ilha vai
sendo reurbanizada.

Embora o assassínio tivesse ocorrido 14 meses “Uma característica única de Gdansk é ter sido
antes da minha visita, o tema é abordado com sempre uma cidade multicultural”, explica. Como
frequência, mesmo em conversas informais. porto, era um entreposto comercial sem entraves,
É considerado um momento de ponderação para que acolhia comerciantes e outros estrangeiros
a cidade e os seus ideais. “No meu dia-a-dia, não de muitos países, em especial alemães, mas tam-
penso naquele domingo horrível”, afirma a actual bém escoceses, holandeses e ingleses. Durante a
presidente da câmara, Aleksandra Dulkiewicz, Reforma de Gdansk, no século XVII, a cidade aco-
igualmente apoiante de causas progressistas e lheu grupos religiosos perseguidos – menonitas
do acolhimento de não-polacos. Agora, muitas holandeses, bem como huguenotes e judeus. De-
vilas e cidades da Polónia adoptaram o chamado vido à crescente miscigenação étnica da cidade,
modelo de integração de estrangeiros de Gdansk. esse legado está a renascer, afirma Hall.
Estas boas-vindas aos recém-chegados (dos 460
mil habitantes da cidade, 25 mil são imigrantes da num romance de William
H Á UM A FA MO SA T I R A DA
antiga União Soviética, Ruanda e Síria) são coe- Faulkner que ouvi pela primeira vez na Polónia
rentes com o passado da cidade, como observa o quando um amigo jornalista, Jacek Kalabinski, a
historiador Aleksander Hall, natural de Gdansk. citou para explicar por que razão os polacos

74 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
mã, existindo, porém, uma comunidade polaca
implantada. Fora-lhe concedido um estatuto es-
pecial de cidade livre após a Grande Guerra: os
polacos ficaram com o controlo dos caminhos-
-de-ferro e do acesso ao porto. No dia 1 de Setem-
bro de 1939, um navio alemão bombardeou uma
guarnição militar polaca, mas esta conseguiu
resistir durante sete dias, apesar do seu poder de
fogo inferior. O marido da bisavó de Joanna e os
seus três irmãos, membros da elite culta, foram
detidos e internados em campos de concentra-
ção, onde morreram.
No final da guerra, a maior parte da cidade ja-
zia em ruínas. Os sobreviventes da comunidade
alemã fugiram ou foram expulsos. Os polacos
foram retirados à força de regiões como a Ucrâ-
nia e reinstalados por toda a Polónia. As pessoas
à procura de emprego acorreram a Gdansk para
trabalharem nos estaleiros e noutras indústrias.
A mulher de Walesa, Danuta, lembra-se de se ter
virado para a mãe, antes de subir para o autocar-
ro que a levava para longe da aldeia, e dizer com
brusquidão: “Nunca mais cá volto.”
Essa determinação ríspida ainda é caracterís-
tica de Danuta Walesa, apesar dos anos infelizes
que viveu enquanto o marido enfrentava as au-
toridades. Depois de um amigo de um amigo ter
combinado uma reunião, sentamo-nos à mesa da
sua sala de jantar. Recordo-lhe que já nos tínha-
mos encontrado antes, naquele tempo em que o
apartamento estava atravancado com visitantes
ansiando por uma entrevista com Lech. Refiro
que sempre tentei cumprimentá-la, mas ela pa-
recia frequentemente abatida ou mesmo zanga-
da. Ela mostra-se abalada pelo meu comentário,
ficando com os olhos marejados de lágrimas. Ti-
nha seis filhos na época das greves nos estaleiros
parecem fixados nos capítulos dolorosos da sua e sentia-se isolada e sozinha. “Não sei como tive
história. “O passado nunca está morto. Nem sequer forças para sobreviver a tudo”, comenta.
é passado.” Essas frases vêm-me à memória quando Danuta acredita que o país amadureceu e está
me contam os esforços desenvolvidos pelo Estado pronto para a mudança, mas teme que não exista
para controlar a narrativa histórica em Gdansk. um líder para reunir a oposição. “O país precisa
O Ministério da Cultura afastou o director e cura- de um segundo Walesa”, afirma. E não apenas de
dores do museu da cidade dedicado à Segunda um segundo Walesa, sublinha, mas de um núcleo
Guerra Mundial, com o argumento de que as expo- forte de apoiantes e conselheiros como aquele de
sições “não eram suficientemente polacas”. que o seu marido dispunha quando combateu o
Converso com Joanna Lisiecka-Zurowska so- regime comunista. E lança um aviso quanto aos
bre a guerra, durante a viagem de comboio até perigos que se perfilam: “Precisamos de nos er-
Gdansk. Foi ali que ela cresceu e a sua história guer como antigamente ou então algo terrível irá
familiar exemplifica as complexidades do confli- acontecer.” Mesmo assim, mostra-se confiante de
to, da forma como se desenrolou na sua cidade que, quando a mudança chegar, será a sua cidade
natal. Em vésperas da guerra, Gdansk era uma que assumirá a liderança: “Não há lugar mais co-
cidade de expressão predominantemente ale- rajoso na Polónia do que Gdansk.” j

À E SPERA DE GDANSK 75
T E X TO D E A L E JA N D RA B O RU N DA

F O T O G R A F I A S D E A MY S AC K A

FUTURO MENOS GELADO


A V I D A C U LT U R A L E E C O N Ó M I C A D A R E G I Ã O D O S G R A N D E S L A G O S É M O L D A D A

P O R I N V E R N O S G E L A D O S. À M E D I DA Q U E O AQ U EC I M E N TO T RA N S FO R M A A

T R A D I Ç Ã O E M L A M A , A S E N S A Ç Ã O D E P E R D A VA I A U M E N TA N D O .
8 DE JANEIRO
DE 2020, LAGO ERIE
Com a água livre de
gelo estendendo-se
até ao horizonte num
dia de Janeiro, o Par-
que Estadual de Pres-
que Isle, no lago Erie,
exemplifica o aqueci-
mento dos invernos
na região.

77
No Inverno
passado, o
gelo cobria
apenas
19,5% das
superfícies
dos Grandes
Lagos, um
valor próximo
do recorde
mínimo.

8 DE FEVEREIRO DE
2020, LAGO HURON
Em Oscoda, Elena
Mackenzie examina o
lago Huron a partir de
uma das suas cabanas
para arrendamento. As
lajes espessas de gelo do
lago costumam proteger
a costa de tempestades,
mas o Inverno passado
foi quente e as ondas
erodiram a propriedade
situada junto da mar-
gem, causando prejuízos
de milhares de euros.

DIAS COM TEMPERATURA ABAIXO


DO PONTO DE CONGELAÇÃO

93 64
DIAS
Média
1973-2019
DIAS
Inverno
2019-2020
PARA HAVER FORMAÇÃO DE GELO, A
TEMPERATURA DA ÁGUA DO LAGO TEM
DE DESCER ABAIXO DE 0°C E A
ATMOSFERA TEM DE ESTAR AINDA MAIS
FRIA. O AR ABSORVE CALOR DA ÁGUA,
ARREFECENDO-A ATÉ A CONGELAR.
É NECESSSÁRIA UMA ACUMULAÇÃO DE
DIAS COM TEMPERATURAS NEGATIVAS
(DTN) PARA ISSO ACONTECER.

78
As épocas
de gelo dos
Grandes
Lagos estão a
encurtar, em
média, meio
dia por ano.

26 DE JANEIRO DE 2020
LAGO ONTÁRIO
Alex Whitlock vai sur-
far no lago Ontário. Por
norma, nesta altura,
cerca de 13% do lago
está coberto de gelo.
Este ano, porém, ape-
nas 2% da superfície
congelou. O Ontário
está a perder o gelo de
forma consistente junto
da margem e a tem-
peratura da sua água
durante o Verão vem
aumentando.

DIAS COM TEMPERATURA ABAIXO


DO PONTO DE CONGELAÇÃO

75 61
DIAS
Média
1973-2019
DIAS
Inverno
2019-2020

81
A
inda há escuridão e a temperatura está Alguns lagos da região nem sequer congela-
muito abaixo de zero quando Kristie Lea- ram. Outros tiveram meros vestígios de gelo
vitt pára o carro e desliga o motor baru- junto das margens ou congelaram durante pou-
lhento do ATV. Por breves instantes, não co tempo. No fim-de-semana antes da incursão
se ouve qualquer som, com excepção do de Kristie, as temperaturas na região subiram
ténue sussurro do vento soprando sobre o para 4,5ºC e os pescadores no gelo arrastaram-
gelo. O céu azul-marinho começa a aclarar. -se pela lama vestindo T-shirts.
Kristie sente o ar frio a queimar-lhe os pulmões. Uma estação demasiado quente não anuncia
Bem agasalhada num casaco rosa-choque, que necessariamente uma nova tendência climáti-
condiz com a sua barraca e equipamento de pes- ca, mas os cientistas conseguem, cada vez mais,
ca, ela sai do veículo para o gelo com meio me- detectar padrões em registos dispersos de alte-
tro de espessura que cobre este recanto do lago rações na região dos Grandes Lagos e esses pa-
Munuscong, na região da península Superior, no drões apontam para uma conclusão arrepiante:
estado de Michigan. As suas botas esmagam rui- o Inverno de 2019-2020, com os seus ténues ves-
dosamente uma camada fina de neve enquanto tígios de gelo, foi, provavelmente, uma amostra
ela começa o ritual de preparar uma das suas acti- do que acontecerá no futuro.
vidades preferidas: a pesca no gelo.
Kristie é um dos quase dois milhões de pesca-
dores no gelo dos Estados Unidos que passam História definida pelas condições climáticas
o ano inteiro a ansiar pelo frio do Inverno. À se- dos Estados Unidos e do
O S G RA N D E S L AG O S
melhança de tantas outras pessoas da região dos Canadá epresentam cerca de 20% da água doce
Grandes Lagos, ela também depende do frio para existente à superfície da Terra. A pegada geográ-
subsistir. Ajuda a gerir as cabanas turísticas e a fica dos lagos também é difícil de conceber: as
loja de iscos da família, situadas na margem do suas superfícies combinadas abrangem mais de
lago, e o grosso da facturação do negócio faz-se 243 mil quilómetros quadrados, o tamanho apro-
durante a época de pesca no gelo e dos passeios ximado do Reino Unido. A soma das margens dos
em moto de neve. cinco lagos é milhares de quilómetros superior
Mas aquilo que Kristie fazia naquele dia de Fe- à orla costeira do Pacífico ou do Atlântico dos
vereiro foi algo raro no último Inverno nos Gran- Estados Unidos.
des Lagos. A média da cobertura de gelo a longo A presença da água foi moldada por alterações
prazo nos cinco lagos (Superior, Michigan, Erie, naturais do clima da Terra. Agora, porém, os
Huron e Ontário) é de 54%. No último Inverno, o lagos enfrentam alterações sem precedentes e,
gelo cobriu apenas 19,5% da superfície dos lagos, desta vez, os seres humanos têm responsabilida-
um valor mínimo quase recorde. des no assunto. (Continua na pg. 88)

28 DE DEZEMBRO DE
2019, LAGO SUPERIOR
Parte da península Supe-
rior teve mais dias com
temperaturas negativas
do que o habitual em
2019-2020. Apesar disso,
continua a não haver
gelo no lago. Algumas
zonas podem ter inver-
nos normais, mesmo que
tal não ocorra em redor.

DIAS COM TEMPERATURA ABAIXO


DO PONTO DE CONGELAÇÃO

106 130
DIAS
Média
1973-2019
DIAS
Inverno
2019-2020
6 DE JANEIRO
DE 2020, LAGO ERIE
Em Cleveland, Gracie
Ezell, de 13 anos, cami-
nha nas margens do lago
Erie, vestindo calções.
Diz que ainda não está
frio para vestir calças.
É provável que, ao longo
da sua vida, os invernos
mais quentes se tornem
comuns. Os cientistas
prevêem que, até 2050,
se registem 21 a 25 dias
adicionais com tempe-
ratura mínima acima de
zero por ano na bacia
dos Grandes Lagos.

DIAS COM TEMPERATURA ABAIXO


DO PONTO DE CONGELAÇÃO

58 18
DIAS
Média
1973-2019
DIAS
Inverno
2019-2020
CANADÁ
ÁREA EM
DESTAQUE OCEANO
EUA ATLÂNTICO

OCEANO
Thunder Bay PACÍFICO

gelo

ale Wawa
a Roy
Ilh nuvens

gelo
Duluth

Baía
Marquette Whitefish
e
a ri
e. M
S a ult St
Cobertura de gelo (%)

60
Cobertura média
Cob. máx. diária de gelo
40 1973-2019
de gelo, 2020
23%
20 gelo
Cobertura máxima
de gelo diária, 2020 Linha costeira
0
Nov. Jan. Fev. 17 Maio

Lago Superior gelo


Profundidade: média 149m; máxima 406m
Cobertura máxima de gelo na estação passada: 23%
Máxima cobertura de gelo (em média), 1973-2019: 62% 
Ano da máxima cobertura de gelo: 1996 (100%) en
Ano da mínima cobertura de gelo: 2012 (8%) re
G
a

B

Green Bay

Lago Michigan
85m; 281m
Máx. 2020: 17%
Milwaukee
Média: 40% 
Alta: 1977, 2014 (93%) 17%
Baixa: 2002 (12%) Lansing
Fev. 21

South Haven

Chicago

MARTIN GAMACHE Gary


FONTES: JAMES KESSLER E LACEY MASON, NOAA, LABORATÓRIO
DE PESQUISA AMBIENTAL DOS GRANDES LAGOS
Perda maciça
As alterações climáticas encurtaram consideravelmente a época do
243.609
quilómetros
quadrados
244.106
quilómetros
quadrados
gelo nos Grandes Lagos. Uma conjunção complexa de factores (como
o fenómeno El Niño, por exemplo) influenciam o clima todos os anos. Grandes
Por isso, alguns invernos ainda são frios e gelados, mas as estações Lagos
mais quentes e curtas estão a tornar-se mais comuns a longo prazo. R.U. 200 km
Nesta rara imagem de satélite, com um céu quase sem nuvens, cap-
tada no dia 23 de Fevereiro, os cinco lagos apresentam-se quase sem Comparação da área
gelo. Até no menos profundo de todos, o Erie, o gelo mal se vê. do Reino Unido com
a dos Grandes Lagos.

100 1979
Cobertura de gelo (percentagem)

94,7%

80
GELO AO LONGO
60 1973-2019
Média 54%
DO TEMPO
A cobertura média
40 Tendência de gelo a longo prazo
dos lagos é de 54%.
No Inverno passado,
20 2020 o gelo na sua extensão
2002 19,5% máxima cobria
11,8% apenas 19,5% das
0
superfícies dos lagos.
1973 1975 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 2015 2020

Canal
do Norte

nuvens

Baí a Lago Ontário


G e o rgi ana 86m; 244m
Máx. 2020: 11%
Média: 30% 
Alta: 1979 (86%)
Baixa: 2012 (2%) 11% Kingston
Lago Huron Fev. 11
59m; 229m
Oscoda
Máx. 2020: 32%
Cobourg
Média: 65% 
gelo Alta: 1996 (98%)
Baixa: 2012 (23%)
nuvens
Caseville Toronto
Baía
32%
Saginaw

Mar. 1 Rochester
Hamilton Cataratas Niágara
Niá g

ra
a

Buffalo
Sarnia
Lago Erie
Port Dover 19m; 64m
Máx. 2020: 16%
nuvens Média: 83% 
16% Alta: 1978, ’79, ’96 (100%)
Baixa: 2012 (14%)
Detroit PARQUE ESTADUAL
DA ILHA PRESQUE Fev. 29
Windsor Erie
Amherstburg

Geneva

Toledo
Cleveland
O nível de
água dos
lagos atingiu
recordes este
ano, devido ao
aumento da
precipitação.

9 DE JANEIRO DE 2020
LAGO ERIE
Calvin Knechtel, de
Port Dover, posa em
frente do restaurante
da família junto do lago
Erie. Os sacos de areia
protegem o edifício
das cheias. Depois de
esta fotografia ser cap-
tada, o lago quebrou o
seu recorde de altura
máxima das águas
de Fevereiro, estabele-
cido em 1987.

DIAS COM TEMPERATURA ABAIXO


DO PONTO DE CONGELAÇÃO

70 58
DIAS
Média
1973-2019
DIAS
Inverno
2019-2020

87
O planeta aqueceu, em média, quase 1ºC
desde a década de 1880. A região dos Grandes
Lagos acompanha essa tendência global: na ba-
cia hidrográfica, as temperaturas atmosféricas
aumentaram, em média, 0,9ºC em comparação
com os primeiros 60 anos do século XX. E mui-
to desse aquecimento tem-se concentrado nos
meses de Inverno, empurrando o gelo rumo ao
ponto de viragem.
“O gelo lacustre é um fantástico indicador do
clima”, afirma Sapna Sharma, especialista em
ecologia lacustre da Universidade de York. For-
nece uma “indicação clara das alterações climá-
ticas e muitas comunidades já o registam, em
alguns casos, há séculos”.
No Japão, os sacerdotes de um templo xin-
toísta mantêm um registo com quase seiscentos
anos de quando o seu lago congela na totalida-
de. Os ciclos climáticos naturais emergem des-
se registo, perdendo importância, nas últimas
décadas, perante o aquecimento de origem hu-
mana que assolou o planeta. Mercadores que
utilizam o rio Tornio, na Finlândia, para a sua
actividade comercial têm registos das datas em
que o gelo quebra, em cada ano, a partir de 1693.
No lago Superior, as companhias de navega-
ção mantêm registos da formação e decompo-
sição do gelo desde 1857. Os registos mostram
os anos frios com grandes extensões de gelo no Naquele tempo, quando Kristie era uma crian-
início da estação e os anos quentes com menos. ça, tudo parecia simples. Ela levava o pouco
Em geral, contudo, são um sinal evidente do equipamento que tinha para o gelo, empoleira-
aquecimento induzido pelo ser humano desde va-se num balde de 20 litros virado ao contrário
a Revolução Industrial. e permanecia sentada horas a fio, fazendo subir e
“O que está a acontecer na região dos Grandes descer a cana. Não apanhava muito, mas as sen-
Lagos é uma pequena página de uma grande his- sações ficaram-lhe gravadas no cérebro, como a
tória”, diz Lesley Knoll. Especialista em lagos da essência do Inverno.
Estação Biológica de Itasca da Universidade de Kristie Leavitt não é a única. O gelo oferece
Minnesota, ela estuda as relações culturais entre benefícios para aqueles que se aventuram nele:
os seres humanos e os lagos congelados. descanso para alguns, diversão preciosa a outros,
alimento e muito mais. A neve e o gelo também
são componentes essenciais das economias locais
Ameaça aos rituais idílicos de Inverno desta região. A prática de esqui no gelo e de moto
o gelo foi sem-
PA R A K R I S T I E L E AV I T T, D E 3 8 A N O S , de neve valem quase três mil milhões de euros.
pre o lugar onde a vida ganhava sentido. Um único torneio de pesca no gelo pode injectar
Quando a sua família vinha, de automóvel, do centenas de milhares de euros nas comunidades.
Sul do estado de Michigan para visitar os avós, Em algumas regiões do lago Superior, contudo,
que na altura eram proprietários do acampamen- a época do gelo tem vindo a encurtar, em média,
to à beira do lago, Kristie vestia camadas de roupa quase um dia por ano. Isto significa que, no ano
quente, ia buscar uma geleira com vairões à loja em que Kristie nasceu, um Inverno no lago Su-
de isco e caminhava o mais longe possível sobre perior teria mais um mês de cobertura de gelo do
o gelo. Pegava na broca manual, cortava um canal que hoje. O lago também está a aquecer mais de-
no gelo espesso e abria um portal para o silencio- pressa do que quase todos os outros grandes lagos
so mundo subaquático. da Terra. (Continua na pg. 94)

88 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
À E S Q U E R D A E E M B A I XO
10 DE JANEIRO DE 2020
LAGO ERIE
A partir da esquerda: Kirk
Williams, Cole Williams,
Lee Spitzke e Mel Lyall
caçam patos junto de
Amherstburg, no Ontário.
Esperavam fazer a transi-
ção sazonal da caça para
a moto de neve, mas não
fez frio suficiente. “Costu-
mávamos todos andar de
moto de neve aqui”, diz
Kirk Williams. “Tínhamos
imensa neve. Agora dura
pouco tempo. Já não há
Inverno.”

DIAS COM TEMPERATURA ABAIXO


DO PONTO DE CONGELAÇÃO

68 47
DIAS
Média
1973-2019
DIAS
Inverno
2019-2020

FUTURO MENOS GELADO 89


Nos cenários
catastróficos,
mais de 200
mil lagos do
hemisfério
norte poderão
ter mais anos
sem gelo.

29 DE JANEIRO DE 2020
LAGO ONTÁRIO
A pesca no gelo era a
regra de Inverno, mas
agora estes pescadores
precisam de embarca-
ções no rio Niágara.
As águas estão a aque-
cer mais depressa do
que a atmosfera e as
temperaturas atmosféri-
cas subiram, no mínimo,
0,90C desde 1900.

DIAS COM TEMPERATURA ABAIXO


DO PONTO DE CONGELAÇÃO

70 58
DIAS
Média
1973-2019
DIAS
Inverno
2019-2020

91
As diversões
de Inverno
injectam
milhões de
euros nas
economias
locais junto
das margens
dos lagos.

15 DE FEVEREIRO DE
DAYS 2020, LAGO HURON
Em Caseville, esta parti-
cipante no concurso de
mergulho do urso-polar
prepara-se para enfren-
tar as águas geladas do
lago Huron durante a
28.ª edição do Shanty
Days, a festa da cidade.
No passado, o evento
era realizado no gelo.
Agora a maioria das
actividades decorre na
costa porque o gelo
do lago não tem uma
espessura fiável.

DIAS COM TEMPERATURA ABAIXO


DO PONTO DE CONGELAÇÃO

93 64
DIAS
Média
1973-2019
DIAS
Inverno
2019-2020
1 DE MARÇO DE 2020
LAGO MICHIGAN
Uma mulher e o seu
cão passeiam pela
praia lamacenta junto
do descongelado
lago Michigan, onde a
cobertura de gelo no
Inverno de 2019/2020
nunca superou os 20%.

DIAS COM TEMPERATURA ABAIXO


DO PONTO DE CONGELAÇÃO

80 53
DIAS
Média
1973-2019
DIAS
Inverno
2019-2020

Nos outros Grandes Lagos, as épocas de gelo recentes foram gelados. Em 2013-14, o vórtice
também estão a encurtar cerca de meio dia por polar trouxe ar gelado do Árctico para a região
ano, em média. Isto pode parecer pouco, mas continental dos EUA e o frio propagou-se muito
mascara alterações muito mais importantes num para sul dos Grandes Lagos. A cobertura total de
local onde a fronteira entre a existência de gelo, a gelo nos Grandes Lagos foi superior a 90%, sendo
ausência de gelo, a neve e a chuva pode ser extre- tão espessa em alguns sítios que as brocas usadas
mamente ténue. pelos pescadores no gelo não alcançavam a água.
Em alguns casos, é difícil perceber as alterações A parte mais problemática é que a presença
com clareza porque há uma enorme variação de e crescimento de gelo nos lagos a cada Inverno
ano para ano, diz Jia Wang, um climatologista pode desencadear uma sequência de eventos
da Agência Nacional para a Atmosfera e os Ocea- complexa.
nos que estuda a cobertura de gelo na região dos Talvez faça frio suficiente para o gelo se formar
Grandes Lagos. Embora situados a centenas de no início do Inverno, mas se o vento forte man-
quilómetros dos oceanos, os lagos sentem as in- tiver a superfície da água agitada, o gelo formar-
fluências climáticas do Pacífico e do Atlântico e -se-á mais tarde. Talvez o Verão anterior tenha
incorporam esses padrões climáticos nos seus. sido excessivamente quente, introduzindo calor
Por conseguinte, embora um ano possa ser adicional suficiente na água, que demora mais
mais quente do que o anterior, alguns invernos tempo a arrefecer e a chegar ao ponto em que con-

94 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
temperaturas atmosféricas da bacia dos Grandes
Lagos aumentem mais meio grau até 2045 e apro-
ximadamente 3 a 5,5ºC até 2100. Também há mais
calor na água, introduzido à força durante os verões
longos e quentes.
Contudo, alguns cientistas prevêem que se re-
gistem 15 a 16 dias com temperaturas abaixo de
zero na bacia dos Grandes Lagos até ao final da
década de 2030 e que esse número aumente um
pouco na década de 2050. No final do século, de-
pendendo da duração e da agressividade das me-
didas climáticas aplicadas, poderá haver menos
27 a 42 dias por ano com temperaturas abaixo de
zero, na opinião dos cientistas.
Em 2015, no acordo climático de Paris, 195 paí-
ses signatários concordaram em tentar impedir
que o aquecimento planetário ultrapassasse 2ºC
para lá dos níveis pré-industriais. Sharma estima
que, mesmo que esses objectivos sejam cumpri-
dos, mais de 35 mil lagos no hemisfério norte po-
derão perder o seu gelo permanente no Inverno.
Nos cenários mais catastróficos, mais de duzen-
tos mil lagos poderão ter mais anos sem gelo.
“O gelo e a água têm uma memória longa”, diz
Richard Rood, que estuda a forma como as alte-
rações climáticas evoluem na região dos Grandes
Lagos. “Estamos a assistir a aumentos sistemá-
ticos da temperatura a longo prazo, aproximan-
do-nos mais do ciclo da água congelação-degelo.
E os invernos ficam mais quentes e mais curtos.
Por isso, já não há o tempo que havia para a ter-
modinâmica fazer o seu trabalho.”
Se a água não arrefecer o suficiente durante o
Inverno, aquecerá mais e mais depressa na Prima-
vera e Verão. Com o tempo, sobretudo à medida
segue começar a congelar. Talvez caia um nevão que o clima continuar o seu aquecimento inexorá-
no princípio da estação, isolando o gelo existente vel, o sistema poderá alimentar-se cada vez mais
no topo, impedindo-o, contra-intuitivamente, de num ciclo fechado que se reforça a si próprio.
crescer depressa com as temperaturas frias. “A certa altura, estas zonas que talvez desenvol-
Há outros factores menos complexos. A atmos- vam gelo em certos períodos e noutros não, vão
fera está a ficar mais quente. A água também, em mudar e nunca mais desenvolvem gelo”, assegura
alguns locais até mais depressa do que a atmosfera. Knoll. “Como irão as pessoas interagir com essas
No hemisfério norte, quase 15 mil lagos que conge- massas de água quando elas não desenvolverem
lavam repetidamente, congelam agora intermiten- gelo nenhum? Como irão ajustar-se?”
temente e alguns não chegam mesmo a congelar. Kristie Leavitt hesita quando começa a falar
no futuro. Aos seus olhos, o mundo continua
coberto de gelo. Cada ano traz mais uma opor-
“Parece que algo está errado” tunidade de frio. De vez em quando, porém, a
para a região dos Grandes
O I N V E R N O É V I TA L preocupação surge. “Às vezes, simplesmente
Lagos. O futuro trará mais e menos. Há mais calor não sei”, diz enquanto se prepara para pescar,
no ar, retido nos gases com efeito de estufa que os com fios de cabelo soltos em redor do seu rosto
seres humanos continuam a emitir para a atmos- empenhado. “Será que tudo isto ainda vai exis-
fera. Os especialistas em clima prevêem que as tir quando eu tiver 70 anos?” j

FUTURO MENOS GELADO 95


ENQUANTO ALGUNS
LEÕES-MARINHOS
ROÍAM O MEU
EQUIPAMENTO
DE MERGULHO,
OUTROS INVESTIAM
EM BAILADOS VELOZES
À QUEIMA-ROUPA.
DE REPENTE, A SILHUETA
DE UM MACHO ALFA
IMPÔS-SE
À MINHA FRENTE.
T E X TO E F OTO G R A F I A S
D E J OÃO R O D R I G U E S

Através de latidos mais escuros) defende


incessantes, colisões agressivamente o
de peito com peito, seu território.
técnicas de luta livre Os duelos provocam
e poderosas dentadas, ferimentos, mas
o macho alfa (de tons raramente são fatais.

LEÕES-MARINHOS 97
NO “AQUÁRIO DO MUNDO”,
expressão que Jacques-Yves Costeau usou para qualificar o mar de Cortés, uma AMÉRICA
DO NORTE
massa de água estreita que se estende entre o México continental e a península
da Baixa Califórnia, existe um ilhéu encantado com segredos por revelar. UNIDOS
Los Islotes, um conjunto de dois afloramentos de rochas sedimentares vul- MA
AR DE
CO
ORTÉS
RTÉS
canogénicas despidas de vegetação, é o epicentro de uma Área Marinha Pro- MÉXIC
XICO
CO
tegida com 610 mil metros quadrados. Sob a superfície das águas azul-tur-
quesa, um sortido de habitats constituído por pináculos, recifes, cavernas e
cristas rochosas dá origem ao território mais austral do leão-marinho da Ca-
lifórnia (Zalophus californianus). Neste santuário, uma colónia reprodutora
com cerca de seiscentos indivíduos prospera. Embora muito semelhante às
focas, mas dotado de um par de orelhas externas em vez de fendas auditi-
vas, este mamífero marinho carnívoro da mesma família a que pertencem
os nossos cães e gatos domésticos, diferencia-se ainda pela sua capacidade
de rotação pélvica, que lhe permite caminhar ou mesmo correr em terra. No
universo subaquático, as suas velozes e poderosas acrobacias são conferidas
por amplas barbatanas peitorais que varrem a água como vassouras.
De jubas majestosas, os machos alfa são seres poligâmicos com estatuto so-
berano, que lhes confere o direito exclusivo de acasalar com todas as fêmeas
do seu reino ou, pelo menos, era nisso que acreditava a ciência até há pouco
tempo. Durante a época reprodutiva em Los Islotes, enquanto as crias e juve-
nis brincam, as suas progenitoras tomam banhos de sol nas rochas, durante
longas sestas revitalizadoras. Atentos a cada movimento, encontram-se os
machos alfa que patrulham os vinte territórios deste ecossistema. Comple-
tamente focados na sua tarefa, privados de sono e alimento, chegam a perder
muito do seu peso corporal (cerca de quatrocentos quilogramas) em apenas
algumas semanas. É um sacrifício penoso, mas recompensador, tendo em
conta que é o seu harém e a sobrevivência dos seus genes que estão em jogo.
Um estudo genético realizado entre 1990 e 2018, por Claudia J. Hernández-
-Camacho, investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Marinhas
de La Paz, concluiu que apenas 15% dos machos alfa de Los Islotes são proge-
nitores dos recém-nascidos da época reprodutiva seguinte. Isto não se deve
apenas ao facto de as fêmeas se envolverem com machos oportunistas que
aproveitam a ausência dos dominantes. Frequentemente, são os próprios
alfa que decidem não copular as suas fêmeas. Qual será então a lógica por
detrás de tamanho empenho e dedicação?
Como se trata de animais filopátricos, ou seja, que permanecem ou regres-
sam habitualmente à sua área de nascimento para se alimentarem e procria-
rem, muitos leões-marinhos da Califórnia de Los Islotes são, por definição,
parentes. De acordo com a bióloga, os dados da análise comportamental,
combinados com os resultados da leitura genética desta população ao longo
de quase três décadas, revelaram que os machos dominantes estão dispostos
a enormes gastos de energia, não só pelos seus filhos, mas também para pro-
tegerem as famílias extensas. Já no que diz respeito à escolha selectiva das
suas parceiras, o objectivo revelou-se claro: evitar a consanguinidade. Uma
abordagem à vida colectiva que até aqui era associada apenas a mamíferos
com inteligência superior como os primatas, elefantes e golfinhos. Após suster a
respiração durante
Os leões-marinhos da Califórnia são a prova viva de que as aparências ilu- cerca de cinco minutos
dem ou não tivessem sido eles tomados por sultões durante séculos, quando no ritual de acasala-
na realidade se trata de verdadeiros guerreiros altruístas. Será este um sinal mento poligâmico,
uma fêmea regressa
de que chegou o momento de reconsiderar a forma como olhamos para a à superfície para
capacidade cognitiva no reino animal? j recuperar o fôlego.

98 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
LEÕES-MARINHOS 99
RETALHOS DA VIDA DE UMA

COLÓNIA DE LEÕES-MARINHOS

EM CIMA , À ESQUERDA

Ladrando nervosa-
mente, uma fêmea que
descansava profunda-
mente na zona
intertidal tenta chamar
a sua cria que nadava
longe do seu alcance.

E M C I M A , À D I R E I TA

Durante a azáfama
hormonal que se faz
sentir na época
reprodutiva, uma cria
que se encontrava
escondida numa
pequena caverna,
sai para espreitar
timidamente a lente
do fotógrafo.

E M B A I X O, À E S Q U E R D A

Essencialmente rochoso
e de aspecto desértico,
o fundo marinho de Los
Islotes, constituído por
inúmeros habitats,
reúne as condições
ideais de protecção,
maternidade e
alimentação para a
colónia residente de
leões-marinhos.

E M B A I X O, À D I R E I TA

Indiferente ao seu
potencial almoço, um
macho alfa atravessa um
cardume de peixes
durante uma acção de
vigilância apertada, nos
limites do seu território.

100 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
os leões-marinhos
C I O S O S D O S E U T E R R I T Ó R I O E P O N T U A L M E N T E AG R E S S I VO S ,
da colónia do mar de Cortés nem sempre se predispõem a suportar os humores dos
fotógrafos subaquáticos. Esta reportagem de João Rodrigues resulta de diversos
mergulhos nesta área marinha protegida da costa mexicana e respeitou integralmente
os regulamentos de contacto e proximidade com os animais selvagens ali protegidos.

LEÕES-MARINHOS 101
102 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
Como se estivessem a
dormir acordadas, um
grupo de fêmeas em
fase de cio flutua à
superfície, murmu-
rando, enquanto os
juvenis se aventuram
em brincadeiras mais
independentes.

LEÕES-MARINHOS 103
N OTAS | DIÁRIO DE UM FOTÓGRAFO

LUZ EM LUGARES
ESTRANHOS
T E X TO D E DANIEL STONE
ILUSTRAÇÕES FOTOGRÁFICAS
DE REUBEN WU

Reuben Wu criou esta


imagem usando projecto-
res montados em drones
para iluminar de forma
dramática o glaciar
Pastoruri na cordiheira
Branca do Peru.

104 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
LUZ EM LUGARES ESTRANHOS 105
O artista programou
drones com iluminação
para sobrevoarem em
círculos as formações de
arenito de Yant Flat, no
Utah. Em seguida, juntou
várias longas exposições
nesta composição.

106 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
LUZ EM LUGARES ESTRANHOS 107
108 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
A iluminação da
pedreira de Moel
Tryfan, no Norte de
Gales, exigiu uma
espécie de pintura
metódica com a luz dos
drones, de modo a
enfatizar os contornos
das vertentes rochosas.

LUZ EM LUGARES ESTRANHOS 109


N OTAS | DIÁRIO DE UM FOTÓGRAFO

A L U Z A RT I F I C I A L AC R E S C E N TA FA S C Í N I O
AO A M B I E N T E N AT U R A L .

da Terra podem
A S PA I S AG E N S I M P R E S S I O N A N T E S pados com projectores, fazendo-os voar à frente
tirar o fôlego, mas, para Reuben Wu, isso não era das máquinas fotográficas e captando exposi-
suficiente. Este fotógrafo, artista visual e produtor ções longas de 30 segundos. Criou também com-
musical, achou que faltava algo aos majestosos posições com as imagens e, em algumas, retocou
glaciares, montanhas e praias do planeta. a versão final para remover o drone, deixando
Mais especificamente: faltava luz não-natural. apenas a luz que este projectava.
A ideia nasceu de um erro. Certa noite, junto do O resultado foram paisagens sobrenaturais,
vale da Morte, na Califórnia, Reuben montou uma enigmas visuais que desafiam o observador a
máquina fotográfica para captar uma sequência descobrir como tais cenas foram criadas.
em timelapse do cenário escuro que tinha diante Reuben Wu fotografa sobretudo nos Estados
de si. Uma carrinha de caixa aberta passou por Unidos, onde vive. No entanto, com espírito
perto e banhou a cena com a luz dos faróis. de exploração, qualquer paisagem da Terra é
Inicialmente, “fiquei aborrecido”, conta Reu- candidata a este tipo de registo. Qualquer cena,
ben. “Quando vi as imagens, porém, fiquei fasci- em qualquer lugar, pode ser captada de uma
nado. Eis a luz artificial num ambiente natural.” forma artificial.
A justaposição deu origem ao seu desejo de Reuben Wu pretende que a sua série intrigue
tentar acrescentar luz a outras cenas nas quais o leitor, levando-o a debater as fronteiras da arte
ela não penetra: lagos, desfiladeiros ou altos pila- fotográfica. Segundo ele, a desorientação abre a
res rochosos do deserto. Comandou drones equi- mente a outras formas de análise. j

Reuben Wu projectou um tipo de luz diferente sobre formações rochosas


junto de Árbol de Piedra, na Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo
Avaroa na província de Sur Lípez, na Bolívia.

110 N AT I O N A L G E O G R A P H I C
3 QUESTÕES | E X P L O R E

JEFF Em busca de surpresas


do quotidiano
GOLDBLUM

científico e algo da nossa própria his-


tória, desencadeada por esses assuntos.

Tem curiosidade em saber de onde


vem a sua curiosidade?
Como tenho dois filhos, estou num
ciclo de curiosidade apetitosa. Os meus
filhos olham à volta e perguntam de
onde vem cada objecto. Talvez seja algo
que transmitimos. Ou talvez a nossa
espécie tenha de ser curiosa para se
ligar ao mundo em redor. Enquanto
fazia este programa, li alguns livros de
Yuval Harari como “Sapiens”, “Homo
Deus” ou “21 Lições para o Século XXI”.
O programa “O Mundo JEFF GOLDBLUM parece ter sempre a Questões de fundo como as alterações
segundo Jeff Goldblum” postura alerta e os olhos arregalados. climáticas, os perigos da proliferação
é transmitido na Disney+ Gesticula com a expectativa. É uma nuclear ou as perturbações tecnológi-
a partir de 15 de Setembro.
qualidade que imprimiu a uma série de cas só podem ser resolvidas através da
Para uma versão alargada
desta entrevista, visite personagens em filmes como “Jurassic cooperação global. Na verdade, a única
www.nationalgeographic. Park” e “Dia da Independência”. Agora, razão pela qual a espécie humana
co.uk/jeffgoldblum o actor e músico de 67 anos nascido na prosperou foi por termos cooperado
Pensilvânia revela a sua curiosidade em grupos e, portanto, termos ficado
excêntrica num novo programa para curiosos uns sobre os outros.
a National Geographic e Disney +. Não
quer explorar temas de política, doença Se pudesse viajar no tempo, quem
ou crime, mas vai falar de bicicletas, gostaria de conhecer?
piscinas e tatuagens. É “O Mundo Comecei a ler um livro sobre o natura-
segundo Jeff Goldblum”. lista Alexander von Humboldt. Dizem
que o nome dele foi mais usado do que
Os seus temas parecem bastante qualquer outro para nomear objectos
díspares, mas universais. Porque esco- ou teorias. Ele previu os desafios das
lheu estes? alterações climáticas, as consequên-
Porque são eclécticos, uma mistura, cias não-intencionais da civilização,
uma caldeirada, uma amálgama com a revolução industrial. Acho que o
muitas surpresas. Recentemente, apre- cérebro dele seria um bom candidato.
sentei três episódios de um programa da O meu programa revelará o que sou,
National Geographic chamado “Explo- sem fingir que sei mais do que sei, mas
rer” e adorei. Foi assim que surgiu o interessado, a conversar com pessoas
programa. Pensámos em abordar temas interessantes de sítios inesperados.
familiares, nos quais fosse possível E a deixar a minha mente, tal como ela
encontrar algo inesperado, histórico, é – a vaguear livremente. j

FOTOGRAFIA E ENTREVISTA: SIMON INGRAM


N AT I O N A L G E O G R A P H I C | NA TELEVISÃO

Gordon Ramsay:
Uncharted 2
E S T R E I A : 4 D E S E T E M B R O, À S 2 2 H 1 0
TO DA S A S S E X TA S - F E I R A S

Em Setembro, estreia no canal National Geographic


a segunda temporada da série “Gordon Ramsay:
Uncharted”. Carismático, duro e directo, o chef

MayDay Desastres Aéreos britânico é proprietário de centenas de restauran-


tes em todo o mundo e oito deles foram reconhe-
E S T R E I A : 1 0 D E S E T E M B R O, À S 2 2 H 1 0 cidos com estrelas Michelin. Em “Gordon Ramsay:
Uncharted”, dá continuidade à sua volta ao mundo
Sempre que um avião se despenha, o mundo em busca de culturas e receitas locais menos conhe-
sabe. E começa o trabalho de uma casta cidas. Nesta temporada, visita a África do Sul, a
especial de investigadores, cuja missão é
Noruega, a Tasmânia, Samatra, entre outros ter-
descobrir as causas da catástrofe. Cada
episódio da série “MayDay” conta com ritórios. Numa floresta esquecida ou nas margens
testemunhas oculares, encenações realistas, de um lago pouco conhecido, pode estar uma receita
animações e entrevistas com investigadores. que mudará a gastronomia.

Controlo Durante décadas, criaram-se mitos e teorias


da conspiração sobre projectos ocultos dos
Mental, Aliens Estados Unidos. Terão mesmo existido? Como
e Área 51 seria possível manter em segredo projectos como
a famosa Área 51? Que fundo de verdade existe
5 D E S E T E M B R O, À S 1 7 H nesse mundo oculto?

NATIONAL GEOGRAPHIC (NO TOPO); CINEFLIX 2018 (AO CENTRO)


E NATIONAL GEOGRAPHIC CHANNELS (EM BAIXO)
Europe’s New Wild
E ST R E I A : 5 D E S E T E M B RO, À S 1 7 H

No Velho Continente, a vida selvagem ressurge


graças a inovadores projectos de conservação.
A série “Europe’s New Wild” parte em busca das
histórias mais inspiradoras sobre as espécies sel-
vagens da Europa: do Círculo Polar Árctico aos rios
e zonas húmidas mais inóspitos, das florestas den-
sas às montanhas escarpadas, espécies resilientes
Secrets of the Zoo 2.5 de fauna e flora renascem e prosperam se lhes forem
E S T R E I A : 7 D E S E T E M B R O, À S 1 7 H dadas condições de recuperação. O primeiro docu-
mentário da série acompanha precisamente o
Regressamos aos bastidores de um dos maiores projecto de reintrodução do lince-ibérico na Penín-
zoológicos dos Estados Unidos: o Columbus sula Ibérica. Filmado em Portugal e em Espanha,
Zoo and Aquarium. “Secrets of the Zoo” conta
dá conta dos esforços de reprodução em cativeiro,
as histórias mais dramáticas e hilariantes da vida
selvagem ali exibida e da equipa que torna mas também das iniciativas de recuperação de
possível a existência de um ambiente saudável habitats e reabilitação das cadeias alimentares.
e calmo para os animais e para os visitantes. A nova fauna europeia recupera.

Wild Nas quartas-feiras de Setembro, regressam os


documentários de vida selvagem. “Secrets of the Zoo:
Experts The Wild Side”, “Fish My City Comp”, “Dog: Impossi-
ble Compilation” e “Wild Men: Simon Keyes” reúnem
Q U A RTA S - F E I R A S , histórias sobre a convivência de seres humanos com
ÀS 17 HORAS espécies animais em ambientes urbanos.

NATIONAL GEOGRAPHIC (NO TOPO, AO CENTRO E EM BAIXO)


P R Ó X I M O N Ú M E R O | OUTUBRO 2020

À redescoberta Um continente Reflexos do Uma das maiores


dos dinossauros indestrutível passado romano águias do planeta
Novos métodos de Melhorias dos índices Quem era a mulher Cientistas, agricultores,
investigação e uma de saúde, educação e sepultada há dois mil proprietários e agentes
vaga de fósseis direitos das mulheres anos na antiga cidade turísticos formaram uma
recém-descobertos começam a transformar de Emona? Por que razão coligação improvável
estão a transformar a realidade de um o seu túmulo serviu de no Brasil para salvar
tudo o que sabemos continente que luta referência para muitos uma das maiores águias
sobre estas criaturas. contra a adversidade. outros enterramentos? do planeta.

N AT I O N A L G E O G R A P H I C ILUSTRAÇÃO: DAVIDE BONADONNA


História Juvenil


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