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República da Guiné-bissau

supRemo tRibunal de Justiça


a pResidente
República da Guiné-Bissau
pRefácio

Constitui grande honra para mim na qualidade de Presidente do Supremo


Tribunal de Justiça e do Conselho Superior da Magistratura Guineense, redigir o
prefácio da coletânea que ora se representa.

É público e notório que existe imensa dificuldade na publicação e distribuição


das leis no nosso país, particularmente nas regiões, o que afecta sobremaneira os
cidadãos em geral quanto ao acesso à justiça e à segurança juridica, afectando
consequentemente o Eatado de Direito.
coletânea fundamental Assim,

de direito penal A publicação deste instrumento de suma importante, vai certamente permitir
aos profissionais de Direito, nomeadamente aos “Magistrados e aos demais ope-
e legislação complementar radores judiciários”, o acesso com maior facilidade a vários textos legais.
Esta é uma de entre vários acções gentilmente sustentadas pelo UNIOGBIS, no
quadro da reforma dos sectores da Segurança, Justiça e Defesa - RSS - Nacional;

E é também de conhecimento público, que a reforma nesses sectores prioritários,


da nossa vida política e social, para ser efectiva e eficaz, tem que necessária e
forçosamente atribuir devida importância à justiça que conta já com um instru-
mento de crucial relevância qual seja - a política nacional do Governo no
sector da Justiça e o respectivo plano de acção elaborado para o ano 2010 -
2015, formulado com o intuito de melhorar a planificação e o funcionamento da
justiça como forma de promover a consolidação da paz, o desenvolvimento
económico - social e o acesso à cidadania.

A melhoria significativa do funcionamento das nossas instituições judiciárias


contribuirá por um lado para a pacificação da sociedade e por outro para a me-
lhoria do supra referenciado índice do nosso desenvolvimento económico e
Bissau 2012 social.

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Os problemas da justiça são de há muito conhecidos, e estão claramente identi- Índice
ficadas as causas dos seus estrangulamentos e ineficiência, pelo que há que esta-
belecer uma metodologia de trabalho que passa por reformar gradual e equili- Págs.
bradamente o sistema existente, nomeadamente no capitulo concernente à capa- Prefácio ........................................................................................................... 05
citação institucional e ao acesso de toda a população a uma justiça transparente.
Decreto-Lei n.º 4/1993, Código Penal............................................................ 07
Daí que, assegurar a independência do poder judicial e a autonomia do Decreto-Lei n.º 20/1977, Infracções antieconómicas e contra a saúde
Ministério Público devem constituir objectivos estratégicos do executivo, impon- pública............................................................................................................. 95
do-se assegurar garantias que tranquilizem os cidadãos, relativamente ao bom Decreto-Lei n.º 2-B/1993, Legislação relativa a estupefacientes.................. 113
funcionamento das instituições judiciárias e a um eficaz desempenho de todos os Lei n.º 7/1997, Repressão da contrafacção e falsificação da moeda .............. 139
operadores - dignificando-os.
Lei n.º 12/1997, Uniforme relativa a Luta Contra o Branqueamento
Como dizia platão: de Capitais ...................................................................................................... 145
Lei n.º 13/1997, Usura - UEMOA.................................................................. 185
A justiça é a Saúde do Estado. Lei n.º 14/1997, Cargos Políticos ................................................................... 191
Porém, a razão de ser das profissões jurídicas assenta menos na sua existência Lei n.º 12/2011, Lei de prevenção de combate ao tráfico de pessoas,
corporativa e mais, indubitavelmente muito mais, no imperativo sacrossântico de em particular mulheres e crianças .................................................................. 207
servir os cidadãos. Lei n.º 14/2011, Lei que visa prevenir, combater e reprimir a excisão
feminina em todo o território nacional ........................................................... 223
Feitas estas considerações, resta-me agora enaltecer o empenho do UNIOGBIS
Decreto-Lei n.º 5/93, Código de Processo Penal............................................ 229
na implementação deste e mais trabalhos já realizados, sempre na expectativa de
que continuará a labutar para a consolidação da paz e da estabilidade nesta glo- Lei n.º 3/2002, /Lei Orgânica dos Tribunais Judiciais, Revista pela Lei
riosa Pátria de Amilcar Lopes Cabral e de todos os demais combatentes que 6/2011 ............................................................................................................. 345
empenharam as suas vidas e as suas juventudes à nobre causa da nossa inde- Decreto-Lei n.º 11/2010, Assegura aos cidadãos o acesso ao Direito
pendência. e a Justiça......................................................................................................... 379
Decreto-Lei n.º 4/2009, Conselho Nacional de Coordenação Judiciária ........ 391
A todos, um próspero e coroado de realização.
Decreto-Lei n.º 7/2010, Regulamento da Lei Orgânica dos Tribunais
Bissau, 02 Abril de 2012 Judiciais........................................................................................................... 399
Decreto-Lei n.º 8/2010, Regulamento de custas judiciais.............................. 411
Decreto-Lei n.º 10/2010, Regulamento dos centros de detenção................... 427
Decreto-Lei n.º 14/2010, Estatuto Orgânico da Polícia Judiciária ................ 437
Lei n.º 3/2011, Estatuto da guarda prisional................................................... 499
Lei n.º 7/2011, Lei de organização e funcionamento do Tribunal
de execução de penas ..................................................................................... 515
Lei n.º 8/2011, Lei de organização de Investigação criminal ......................... 537
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decreto-lei n.º 4/1993, código penal Eis a razão por que na refrega entre teorias etiológicas e utilitaristas, acabaria por
se enveredar pela terceira via - a ecléctica.
preâmbulo
Se é hoje um dado adquirido o desacordo com a teoria do "Homo-delinquens",
Este primeiro Código Penal Guineense vem conhecer a luz do dia, precisamente, não deixa de ser outro dado adquirido a repulsa da utilização do delinquente
numa altura em que o País, a Guiné-Bissau, comemora o seu vigésimo aniver- como cobaia tal como pretendem as teorias utilitaristas. Aliás tem vindo a ser
sário de proclamação de Independência Nacional e se prepara para uma reforma aceite, já maioritariamente, a ideia segundo a qual não ser "o mal da pena que
Político-Social que, certamente, será marcada sob o signo de democracia multi- repara o dano do crime nem tão pouco previne, por si só a repetição dos danos,
partidária na senda de um Estado-de-Direito Democrático. mas sim, uma justa e ponderada coordenação de medidas em que o propósito pre-
ventivo supera o repressivo". Daí que a tónica da prevenção especial, só, ver-
Expõem-se desta forma, os motivos e a razão de ser Politíco-Histórico-Social da dadeiramente, ganhe sentido e eficácia se houver uma participação real, dialo-
revogação do Código Penal herdado do colonizador. Diploma com, aproximada- gante e efectiva do delinquente.
mente, um século e meio de existência que, tendo servido aos Monarcas, também
Estas as razões por que o presente Código se enveredou pela assunção da "des-
servira aos Republicanos. Daí que, apesar das várias roupagens com que se veio
dramatização do ritual", co-responsabilizando as entidades penitenciárias no
desfilando através das sucessivas reformas, há que reconhecer que uma simples
êxito ou fracasso ressocializador.
reforma não almejaria o espírito e a substância do novo pulsar Sócio-Criminal de
uma Guiné Independente e Democrática.
Constituem, assim, as traves mestras do diploma os consagrados princípios da
legalidade e da culpa como limite da pena. E isto sem se olvidar ser nas medidas
A acrescer a tudo isso está que o texto do diploma dos meados do século
não detentivas que se depositam as maiores esperanças. Aliás, numa política
dezanove, já não corresponde nem à filosofia doutrinal, nem à técnica jurídi-
criminal cuja tónica se vem voltando para uma pedagogia social e, sobretudo, de
cocriminal hodierna. Aliás, fora um diploma idealizado e corporizado para
responsabilização de pais, educadores e toda a sociedade, em geral, outro não
uma comunidade concreta - a Lusitana - e que só por razões políticas acabaria
seria de se esperar que tais medidas. O recurso às medidas detentivas e outras que
por vir a estender-se, a sua aplicabilidade, à então Colónia da Guiné. impliquem o corte das liberdades e garantias surgem, assim, como a última e
extrema alternativa que se oferece ao decisor.
O presente diploma é resultante da necessidade de modernização e da harmo-
nização da Justiça penal. Dai Em suma, pugnamos pela tese segundo a qual a nossa maior segurança está na
que o presente Código, apesar de substancial incorporização de matrizes sócio- preservação da nossa liberdade. Não somos livres porque somos fortes: ao con-
culturais Guineenses, seja embebido nos ensinamentos filosóficos Romano- trário, somos fortes porque somos livres.
Germánicos e, sobretudo, de jurisprudências e doutrinas portuguesas de que o O Conselho de Estado decreta, nos termos do artigo 133.º da Constituição, o
nosso direito é legatário. seguinte:

Tem o actual Código Penal como pressuposto basilar, no plano de ciência penal,
a máxima segunda a qual "o mal não se cura com outro mal mas, sim, com exem-
plo e a prática do bem!".
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ARTIGO 1.º TÍTULO I
da lei penal
É aprovado o Código Penal, que faz parte do presente decreto-lei.
capÍtulo i
ARTIGO 2.º DISPOSIÇÕES GERAIS
Consideram se feitas para as correspondentes disposições do Código Penal todas ARTIGO 1.º
as remissões para as normas do Código anterior contidas em lei penais avulsas. (aplicação da lei penal)

ARTIGO 3.º Salvo os crimes essencialmente militares, as disposições deste Código são
aplicáveis a todas as demais infracções criminais, independentemente da lei que
1. Com excepção das normas relativas a contravenções, são revogados o Código as tipifique.
Penal aprovado pelo Decreto-Lei de 16 de Setembro de 1886 e todas as dis-
posições legais que prevêem e punem factos incriminados pelo novo Código ARTIGO 2.º
Penal. (princípio da legalidade)
2. Continuam em vigor as normas de Processo Penal contidas nos tratados e con- 1. Só constitui crime o facto descrito e declarado como tal por lei ou que esta san-
venções internacionais. cionar com uma das penas previstas no presente Código.

ARTIGO 4.º 2. A lei criminal só se aplica aos factos praticados posteriormente à sua entrada
em vigor.
Mantém-se em vigor as normas de Direito substantivo e processual relativas a
contravenções. Aos limites da multa e à prisão em sua alternativa, aplicam-se as 3. A lei que tipifique um facto como crime ou que determinar a sanção aplicável
disposições do novo Código Penal. é insusceptível de aplicação analógica mas admite interpretação extensiva.

ARTIGO 5.º ARTIGO 3.º


(Retroactividade da lei penal)
O presente diploma entra em vigor no trigésimo dia a contar da data da sua pu-
1. A lei penal posterior à prática de um crime será aplicada sempre que se reve-
blicação.
lar concretamente mais favorável ao agente.
Aprovado em 15 de Setembro de 1993.
2. O disposto no número anterior é aplicável aos casos em que a decisão já tenha
Promulgado em 6 de Outubro de 1993. transitado em julgado mas a sanção ainda não tenha sido cumprida nem declara-
da extinta.
Publique-se.
3. O disposto nos números anteriores implica a aplicação global do regime resul-
O Presidente do Conselho de Estado, General João Bernardo Vieira. tante da lei nova mais favorável.
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ARTIGO 4.º a) Tais factos sejam criminalmente puníveis pela legislação do lugar em que
(momento da prática do facto) foram praticados;
b) Constituam crime que admita extradição e esta não possa ser concedida.
O facto considera-se praticado no momento em que o agente actuou ou, no caso
de omissão, deveria ter actuado, independentemente do momento em que o resul- ARTIGO 8.º
tado típico se tenha produzido. (Restrições à aplicação da lei Guineense)

ARTIGO 5.º 1. A lei penal guineense só é aplicável a factos praticados fora do território
(aplicação territorial da lei penal) nacional quando o agente não tenho sido julgado no lugar da prática do facto ou
tendo-o sido, se subtrair ao cumprimento total ou parcial da sanção.
A lei penal guineense é aplicável aos factos praticados em território da Guiné- 2. Sendo aplicável a lei penal guineense o facto será julgado segundo a lei dolu-
Bissau, independentemente da nacionalidade do agente. gar da sua prática se esta for concretamente mais favorável ao agente. A sanção
aplicável será convertida na que lhe corresponder no sistema penal ou inexistin-
ARTIGO 6.º do correspondência, na que a lei guineense prever para o facto.
(crimes praticados a bordo de navios ou aeronave) 3. No caso de o agente ser julgado na Guiné-Bissau tendo-o sido anteriormente
no lugar da prática do facto atender-se-á à pena que já tenha cumprido no
Para efeitos do disposto no artigo anterior consideram-se território da Guiné- estrangeiro.
Bissau os navios e as aeronaves de matrícula ou sob pavilhão guineense.
ARTIGO 9.º
ARTIGO 7.º (lugar da prática do facto)
(factos praticados fora do território nacional)
O facto considera-se praticado tanto no lugar em que, total ou parcialmente, e sob
1. Salvo tratado ou convenção em contrário, a lei penal da Guiné-Bissau é qualquer forma de comparticipação, o agente actuou ou, no caso de omissão,
aplicável a factos praticados fora do território nacional desde que: deveria ter actuado, como naquele em que o resultado típico se tenha produzido.
a) Constituam algum dos crimes previstos no título VII, no Capítulo III do título
III ou nos artigos 203.º, 204.º e 205º do Código Penal; TÍTULO II
b) Constituam algum dos crimes previstos no título I ou nos artigos 124.º, 125.º, do cRime
195.º e 196º do Código Penal e o agente seja encontrado na Guiné-Bissau não
sendo possível a sua extradição; CAPÍTULO I
c) Se trate de factos praticados por guineenses ou por estrangeiros contra dos aGentes do cRime
guineenses, sendo os agentes encontrados na Guiné-Bissau.
ARTIGO 10.º
2. No caso previsto na alínea anterior, se o agente não viver habitualmente na (pessoas singulares)
Guiné-Bissau ao tempo da prática dos factos, a lei penal guineense só se aplicará As pessoas singulares apenas são susceptíveis de responsabilidade criminal a
desde que: partir dos 16 anos de idade.
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ARTIGO 11.º ARTIGO 16.º
(pessoas colectivas) (co-autoria)

1. As sociedades e quaisquer pessoas colectivas de direito privado são suscep- 1. Se vários autores, por acordo, tácito ou expresso, tomarem parte directa na
tíveis de responsabilidade criminal pelos crimes praticados com o objectivo de execução ou actuarem conjuntamente em conjugação de esforços para a prática
realizar fins próprios em execução de decisões tomadas pelos seus órgãos. do mesmo facto, responderão como co-autores.
2. Os titulares dos órgãos de uma sociedade ou de quaisquer pessoas colectivas,
ou quem actue em nome de terceiro, respondem individualmente pelos factos que 2. Salvo disposição legal em contrário, a co-autoria é uma circunstância agra-
praticarem como representante, no seu próprio interesse ou com excesso de vante de carácter geral.
poder.
ARTIGO 17.º
ARTIGO 12.º (cumplicidade)
(Jovens delinquentes)
1. É punível como cúmplice quem, dolosamente e fora dos casos previstos nos
Aos delinquentes com mais de 16 e menos de 20 anos será aplicável a pena artigos anteriores, ajuda terceiro a praticar um crime.
abstracta correspondente ao tipo de ilícito violado especialmente atenuada.
2. É aplicável ao cúmplice a pena correspondente ao tipo de ilícito, especial-
ARTIGO 13.º mente atenuada.
(inimputabilidade em razão de anomalia psíquica)
ARTIGO 18.º
É inimputável quem, no momento da prática do facto, em virtude de uma ano- (culpa na comparticipação)
malia psíquica não intencional, é incapaz de avaliar a ilicitude da sua conduta ou
de se determinar de acordo com essa avaliação. Cada comparticipante é punido segundo a sua culpa, independentemente da
punição ou do grau de culpa dos outros comparticipantes.
ARTIGO 14.º
(agentes do crime) ARTIGO 19.º
(ilicitude na comparticipação)
A participação na prática de um crime pode assumir a forma de autoria, co-auto-
ria ou cumplicidade. A ilicitude ou o grau de ilicitude do facto, quando depender de certas qualidades
ou relações especiais do agente, reflecte-se na responsabilidade criminal dos
ARTIGO 15º demais agentes que tenham conhecimento de que essas qualidades ou relações
(autoria) especiais se verificam num dos comparticipantes.

É punível como autor quem executa o facto, por si mesmo, por intermédio de
outrem ou, dolosamente, instiga um terceiro à prática de um crime.
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CAPÍTULO II ARTIGO 23º
da conduta do aGente (espécies de negligência)

ARTIGO 20º Age com negligência quem, por não proceder com cuidado a que, segundo as cir-
(equiparação da omissão à acção) cunstâncias, está obrigado e de que é capaz:
a) Representa como possível a realização de um facto correspondente a um tipo
1. Salvo se outra for a intenção da lei, o tipo legal de crime prevê não só a de crime, mas actua sem se conformar com essa realização;
punição da acção adequada a produzir o resultado típico, mas também da omis-
são da acção adequada a evitá-lo sempre que existir um dever jurídico que pes- b) Não chega sequer a representar a possibilidade da realização do facto.
soalmente obrigue o omitente a impedir o resultado.
ARTIGO 24º
2. Ao emitente é aplicável a pena correspondente ao tipo de ilícito violado, (erro sobre factualidade típica)
atenuada especialmente se as circunstâncias do caso o justificarem.
1. Erro sobre os elementos de facto ou de direito de um tipo de ilícito exclui o
ARTIGO 21º dolo, sem prejuízo de a conduta do agente poder ser punida a título de negligên-
(Responsabilidade penal) cia nos casos previstos na lei.
2. O preceituado no número anterior abrange o erro sobre um estado de coisas
1. Regra geral, o agente só é susceptível de ser punido criminalmente quando que, a existir, excluiria a ilicitude do facto ou a culpa do agente.
tiver agido com dolo.
2. O facto praticado com negligência só é punível criminalmente quando a lei o ARTIGO 25º
determine expressamente. (erro sobre a proibição)
3. Quando a pena aplicável a um facto for agravada em função da produção de
um resultado não intencional, a agravação só é relevante se esse resultado puder 1. O erro sobre a proibição afasta a culpa do agente sempre que lhe não for cen-
ser imputado ao agente a título de negligência, pelo menos. surável.
2. Se o agente, actuando com a normal diligência, pudesse ter evitado o erro, será
ARTIGO 22º punido com a pena correspondente ao tipo de ilícito doloso especialmente ate-
(espécies de dolo) nuada.

1. Age com dolo quem, representando um facto que preenche um tipo de ilícito, ARTIGO 26º
actua com intenção de o realizar. (erro na execução do facto)
2. Age ainda com dolo quem representando a realização de facto que preenche
um tipo de ilícito como consequência necessária da sua conduta, o realiza. O agente que actua para realizar um determinado tipo de ilícito mas que, por erro
3. Quando a realização de um facto for representada como uma consequência na execução, vem a atingir um objecto diferente do pretendido será punido ape-
possível da conduta, haverá dolo se o agente actuar conformando-se com aquela nas pelo crime consumado ou pelos crimes efectivamente tentado e consumado,
realização. conforme exista ou não identidade típica do valor protegido criminalmente.
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ARTIGO 27.º ARTIGO 31.º
(actos preparatórios) (crime continuado)

Os actos preparatórios não são puníveis, salvo disposição em contrário. Constitui um só crime continuado a realização plúrima do mesmo tipo de crime
ou de vários tipos de crime que fundamentalmente protejam o mesmo bem jurídi-
ARTIGO 28.º co, executada por forma essencialmente homogénea e no quadro da solicitação
(tentativa) de uma mesma situação exterior que diminua consideravelmente a culpa do
agente.
1. Há tentativa quando o agente pratica actos de execução de um crime que
decidiu cometer, sem que, por facto independente da sua vontade, o crime se CAPÍTULO III
chegue a consumar.
2. A tentativa é punível nos crimes dolosos a cuja consumação corresponda pena
das causas de eXclusÃo da ilicitude
de prisão superior a 3 anos e nos demais casos que a lei expressamente determi-
e da culpa
nar. ARTIGO 32.º
3. Salvo disposição em contrário, a tentativa é punível com a pena correspon- (princípio geral)
dente ao crime consumado, especialmente atenuada.
O facto não é criminalmente punível quando a sua ilicitude for excluída pela
ARTIGO 29.º ordem jurídica considerada na sua totalidade.
(não punibilidade da tentativa)
ARTIGO 33.º
1. A tentativa não é punível se o meio empregue for inapto ou o objecto for inidó-
(legítima defesa)
neo para a consumação do crime.
2. A tentativa não é punível se o agente voluntariamente abandonar a execução 1. A actuação do agente em legítima defesa exclui a ilicitude da conduta.
da resolução criminal, ou, terminada a execução, impedir a consumação do 2. Considera-se legítima defesa a actuação necessária ao afastamento de uma
crime, ou, consumado este, obstar à verificação do resultado não típico. agressão ilícita, iminente ou em início de execução mas ainda não terminada, a
3. Nos casos de comparticipação a desistência da tentativa só afasta a punição se quaisquer interesses protegidos pela ordem jurídica e pertencentes ao agente ou
o desistente, independentemente dos demais comparticipantes persistirem na a terceiro.
execução do desígnio criminoso, impedir ou actuar de forma adequada a obstar
a consumação ou à verificação do resultado não típico. ARTIGO 34.º
(excesso de legítima defesa)
ARTIGO 30.º
(concurso de crime) 1. A conduta do agente é ilícita se empregar meios que pela sua espécie e grau de
utilização forem manifestamente excessivos para a acção defensiva, mas a pena
O número de crime determina-se pelo número de tipos de crimes efectivamente pode ser especialmente atenuada.
cometidos, ou pelo número de vezes que o mesmo tipo for preenchido pela con- 2. O excesso de meios utilizados devido a perturbação, medo ou susto com-
duta do agente. preensíveis, exclui a culpa do agente.
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ARTIGO 35.º TÍTULO III
(estado de necessidade justificante) das conseQuÊncias JuRÍdicas da infRacçÃo cRiminal
Não é ilícito o facto praticado como meio adequado para afastar um perigo actu- CAPÍTULO I
al que ameace interesses juridicamente protegidos do agente ou de terceiro, das penas
quando se verifiquem os seguintes requisitos:
SECÇÃO I
a) Não ter sido voluntariamente criada pelo agente a situação de perigo, salvo disposiçÕes GeRais
tratando-se de proteger o interesse de terceiro;
ARTIGO 38.º
b) Haver sensível superioridade do interesse a salvaguardar relativamente ao
(Regras gerais)
interesse sacrificado;

c) Ser razoável impor ao lesado o sacrifício do seu interesse em atenção à 1. Ninguém pode ser submetido apenas ou tratamentos cruéis, desumanos ou
natureza ou ao valor do interesse ameaçado. degradantes.
2. A execução das sanções criminais far-se-á respeitando a dignidade humana dos
ARTIGO 36.º condenados.
(estado de necessidade desculpante) 3. São proibidas as sanções criminais de duração ilimitada.
4. As sanções criminais são pessoais e intransmissíveis.
1. Age sem culpa quem praticar um facto ilícito adequado a afastar um perigo
actual, e não removível de outro modo, que ameace a vida, a integridade física, ARTIGO 39.º
a honra ou a liberdade do agente ou de terceiro, quando não seja razoável exigir (sanções criminais)
dele, segundo as circunstâncias do caso, comportamento diferente.
No presente Código encontram-se previstas as seguintes sanções:
2. Se o perigo ameaçar interesses jurídicos diferentes dos referidos no número a) Penas principais: a prisão, a multa, a prestação de trabalho social e a admoes-
anterior, e se se verificarem os restantes pressupostos ali mencionados, pode a tação;
pena ser especialmente atenuada ou, excepcionalmente, o agente ser dela isento. b) Medidas de segurança: internamento em estabelecimento hospitalar, inter-
dição de profissão e expulsão de estrangeiros;
ARTIGO 37.º c) Penas acessórias: suspensão temporária de profissão, demissão e expulsão de
(conflito de deveres) estrangeiros.

1. Não é ilícito o facto de quem, no caso de conflito no cumprimento de deveres ARTIGO 40.º
jurídicos ou de ordens legítimas da autoridade, satisfaz o dever ou a ordem de (penas aplicáveis às pessoas colectivas)
valor igual ou superior ao do dever ou ordem que sacrifica.
As penas aplicáveis às pessoas colectivas e sociedades são: a multa, a exclusão
2. O dever de obediência hierárquica cessa quando conduz à prática de um crime temporária de concursos públicos ou de acesso a subsídios estatais ou de organi-
zações supra estaduais, o encerramento temporário e a dissolução.
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SECÇÃO II 2. Um mês de multa corresponde a 30 dias e um ano a 365 dias.
penas pRincipais 3. Cada dia de multa corresponde a uma quantia entre 5.000.00 pesos e 50.000.00
pesos que o tribunal fixará em função da situação económica e financeira do con-
ARTIGO 41.º denado.
(duração da pena de prisão) 4. Sempre que as circunstâncias do caso o justifique, o tribunal poderá autorizar
o pagamento em prestações até ao limite de dois anos subsequentes à conde-
1. A pena de prisão tem a duração mínima de 10 dias e máxima de 25 anos, sem nação.
prejuízo do que se vier a estabelecer sobre a prisão perpétua. 5. O não pagamento injustificado de uma das prestações importa o vencimento
2. No caso da acumulação de infracções em que a soma material das penas conc- de todas.
retamente aplicadas ultrapassar 50 anos de prisão, pode a pena única resultante 6. Se o tipo legal do crime não indicar a duração da multa, esta será correspon-
do cúmulo jurídico ser fixada até ao máximo de 30 anos de prisão. dente à pena de prisão fixada no tipo.

ARTIGO 42.º ARTIGO 45.º


(substituição da prisão por multa) (prisão alternativa à pena de multa)

1. A pena de prisão não superior a 6 meses será substituída por multa sempre que A decisão que aplicar a pena de multa fixará prisão em alternativa pelo tempo
as exigências de prevenção de futuros crimes não imponham o cumprimento da correspondente à multa reduzido a dois terços.
prisão e, face às circunstâncias do caso, o tribunal entenda não dever suspender
a execução. ARTIGO 46.º
2. A duração da multa substitutiva é igual ao tempo de prisão que tiver sido apli- (substituição da multa por trabalho social)
cada.
3. É aplicável à multa substitutiva da prisão o regime dos artigos 44º e 45º. 1. A requerimento do réu ou do Ministério Público, o tribunal substituirá a pena
de multa, não superior a um ano, por trabalho social.
ARTIGO 43.º
2. O requerimento, sob pena de indeferimento, conterá a indicação das condições
(substituição da prisão por trabalho social)
em que se oferece a prestação de trabalho social.
3. A decisão de substituir a multa por trabalho pode ser proferida na sentença ou
A pena de prisão não superior a um ano pode ser substituída por prestação de tra-
em despacho posterior, desde que o requerimento tenha sido apresentado antes
balho social sempre que, por razões de prevenção criminal, o tribunal não deva
de ordenada a penhora no processo de execução instaurado por falta de paga-
decretar a suspensão da pena de prisão e o delinquente aceite expressamente
mento da multa.
prestar o trabalho.

ARTIGO 44.º ARTIGO 47.º


(pena de multa) (prestação de trabalho social)

1. A pena de multa é fixada em tempo, no mínimo de 10 dias e máximo de três 1. O trabalho social consiste na prestação gratuita de trabalho em organismo
anos. público ou a outras entidades que o tribunal repute de interesse comunitário.
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2. A duração do trabalho que o delinquente deva prestar é fixada pelo tribunal em ARTIGO 50.º
função do tipo de serviço prestado e respectivo vencimento se devesse ser remu- (execução da pena de admoestação)
nerado, mas sem nunca ultrapassar metade do tempo de prisão.
1. A admoestação consiste numa solene e adequada repreensão oral feita pelo tri-
3. O trabalho a prestar poderá ser computado em horas, dias ou meses, ser presta- bunal ao réu, após trânsito em julgado da decisão que a aplicar.
do durante ou fora do horário normal de serviço, de forma contínua ou não con- 2. A admoestação é executada em audiência pública e não se confunde com a
sistir em determinado resultado, de modo a que não seja afectada a sobrevivên- alocução final.
cia do réu nem dos seus familiares.

4. Compete ao organismo a quem for prestado o trabalho social velar pela SECÇÃO III
observância das prescrições técnicas e das normas de trabalho relativas à activi- penas acessÓRias
dade em referência.
ARTIGO 5.1º
5. A recusa injustificada em efectuar a prestação de trabalho depois de aceite, (suspensão temporária)
implica o cumprimento da prisão aplicada inicialmente.
1. O tribunal que condenar um réu a pena de prisão efectiva decretará a suspen-
ARTIGO 48.º são do exercício de qualquer cargo público que exerça, pelo período de cumpri-
(isenção ou redução de pena) mento da pena.
2. Durante o período de suspensão o condenado perde os seus direitos e regalias
1. Se o condenado em multa ou em prestação de trabalho social não cumprir a inerentes ao exercício efectivo da função.
pena devido a circunstâncias posteriores à condenação que impossibilitem ou
dificultem o seu cumprimento e lhe não sejam imputáveis, o tribunal poderá dec- ARTIGO 52. º
retar a redução ou a isenção da pena. (demissão)
2. O disposto no número anterior é aplicável à pena de multa que substitui a
prisão. 1. O funcionário público condenado pela prática de crime a que corresponda
pena de prisão superior a 3 anos poderá ser demitido da função pública se ocor-
ARTIGO 49.º rer alguma das seguintes situações:
(admoestação) a) O crime ter sido praticado com flagrante e grave abuso do cargo que exerce;
b) Ter havido grave violação dos deveres inerentes ao cargo que desempenha;
Se o delinquente for considerado culpado pela prática de crime a que, concreta- c) As circunstâncias do caso revelarem que o agente é incapaz ou indigno de con-
mente, corresponda pena de prisão não superior a 3 anos ou multa até ao mesmo tinuar a exercer a função em que está investido.
limite, o tribunal poderá limitar-se a admoestá-lo desde que: 2. A pena de demissão não importa a perda do direito à aposentação ou à refor-
a) O dano causado pela conduta criminoso tenha sido reparado; ma nos termos gerais.
b) Se trate de delinquente primário; 3. O funcionário demitido poderá ser reabilitado para o exercício de cargos públi-
c) A prevenção criminal e a recuperação do delinquente se bastem com a admoes- cos se, decorridos três anos após a condenação, o requerer e demonstrar com-
tação. portamento adequado ao exercício de funções públicas.
23 24
ARTIGO 53. º 2. A dissolução implica a suspensão de toda a actividade, cancelamento do
(expulsão) alvará, arrolamento dos bens propriedade da sociedade ou pessoa colectiva e a
liquidação a cargo de pessoa idónea nomeada pelo tribunal.
1. Os cidadãos estrangeiros condenados pela prática de crime a que corresponda
pena de prisão superior a três anos poderão ser expulsos do território nacional se 3. O remanescente, efectuada a liquidação, será declarado perdido a favor do
nele residirem há menos de 15 anos: Estado ou reverterá para os sócios, conforme tenha ou não ficado provado a sua
a) Por um período até 2 anos se residentes há mais de 10 e menos de 15 anos; origem criminosa.
b) Por um período até 5 anos se residentes há mais de 5 e menos de 10 anos;
d) Por um período até 10 anos se residentes há menos de 5 anos. ARTIGO 56.º
(exclusão e encerramento temporário)
2. A pena de expulsão será executada independentemente do cumprimento total
ou parcial da pena principal e será suspensa se a pena principal também tiver Nos crimes puníveis com prisão de limite máximo superior a três anos, acessori-
sido. amente à pena de multa, o tribunal poderá decretar o encerramento temporário do
estabelecimento ou instalações da pessoa colectiva ou a exclusão de concursos e
SECÇÃO IV subsídios públicos por tempo determinado, se tais medidas se revelarem
penas aplicáVeis Às sociedades e pessoas colectiVas necessárias para prevenir a prática de futuros crimes.

ARTIGO 54.º SECÇÃO V


(pena de multa) suspensÃo da eXecuçÃo da pena

1. Os limites mínimo e máximo previstos no artigo 44.º, n.ºs 1 e 3, são elevados ARTIGO 57.º
para o triplo sempre que se refira a multa a aplicar às sociedades e pessoas colec- (pressupostos e duração)
tivas.
2. A pena de multa é susceptível de ser aplicável a todos os tipos de crime prati- 1. Sempre que a pena de prisão aplicada não for superior a três anos o tribunal
cados por sociedades ou por pessoas colectivas, independentemente da moldura poderá suspender a sua execução por um período a fixar entre um e cinco anos,
abstracta prevista para a pena de prisão ou tipo violado. a contar do trânsito em julgado da decisão.

ARTIGO 55.º 2. A suspensão será decretada se o tribunal concluir que a simples condenação
(dissolução) constitui advertência suficiente para que o réu, futuramente, não cometa outros
crimes.
1. A pena de dissolução só será aplicável se a sociedade ou a pessoa colectiva
praticar um tipo de crime a que corresponda pena de prisão máxima superior a 3. A decisão conterá os fundamentos que determinaram a suspensão, nomeada-
nove anos e, atentas as circunstâncias do caso, a pena de multa for manifesta- mente, a personalidade do agente, as circunstâncias em que foi praticado o crime,
mente insuficiente, mesmo aplicada conjuntamente com as demais penas, para o comportamento anterior e, muito especialmente, a previsibilidade da conduta
prevenir a prática de futuros crimes. futura e as condições de vida.

25 26
ARTIGO 58.º ARTIGO 60.º
(suspensão da prisão condicionada a deveres) (suspensão da execução da pena de multa)

1. O tribunal deverá condicionar a suspensão da execução da pena de prisão ao 1. A pena de multa só poderá ser suspensa se o condenado não tiver possibilidade
cumprimento de certos deveres não humilhantes que facilitem ou reforcem o de a pagar e estiverem preenchidos os demais pressupostos consagrados no arti-
afastamento do agente da prática de futuros crimes. go 57.º.

2. Podem condicionar a suspensão, nomeadamente, os seguintes deveres: 2. Não é aplicável à pena de multa o regime dos artigos 58.º e 59.º.

a) Reparação ou garantia de reparação dos prejuízos causados pelo crime em ARTIGO 61.º
prazo determinado; (pessoas colectivas)
b) Apresentação pública de desculpas ao ofendido;
c) Desempenho de determinadas tarefas conexas com o crime praticado; Salvo disposição de lei em contrário, o regime da suspensão da execução da pena
d) Entrega de quantia simbólica ao Estado ou instituição de beneficência. não é aplicável às sociedades e pessoas colectivas.
3. É correspondentemente aplicável o disposto no artigo 57.º, n.º 1.
ARTIGO 62.º
ARTIGO 59.º (modificação do regime de suspensão)
(suspensão com acompanhamento social)
Se durante o período de suspensão o agente não cumprir dolosamente os deveres
1. Quando a suspensão simples ou condicionada da pena de prisão for insufi- impostos na sentença ou for julgado e condenado por outro crime o tribunal,
ciente para garantir a recuperação do delinquente e o seu afastamento de activi- atentas as circunstâncias, poderá alterar o regime de suspensão inicialmente fix-
dades criminosas, o tribunal decretará a suspensão sujeitando o réu ao acompan- ado, modificar os deveres impostos ou advertir solenemente o condenado.
hamento por serviço social enquanto o período de suspensão durar.
ARTIGO 63.º
2. Incumbe ao serviço social ou funcionário a indicar pelo Ministério da Justiça, (Revogação da suspensão)
conjuntamente com o réu, o Ministério Público e o Juiz da condenação, elaborar
um plano de readaptação social que, aprovado pelo tribunal, terá de ser cumpri- 1. A suspensão será sempre revogada se, durante o respectivo período, o conde-
do pelo condenado com a assistência do referido funcionário ou serviço social de nado cometer crime doloso por que venha a ser punido com pena de prisão.
reinserção.
2. Se o condenado reincidir no não cumprimento doloso ou nos casos em que não
3. Do plano de readaptação social deverão constar todos os deveres a que o con-
for possível ou se revelar insuficiente a modificação do regime, o tribunal tam-
denado fica sujeito durante o período de suspensão e, se necessário, a obrigação
bém revogará a suspensão.
de internamento ou tratamento em estabelecimentos adequados, sempre que as
circunstâncias o exijam.
3. A revogação da suspensão não dá ao condenado o direito de exigir a resti-
4. É correspondentemente aplicável o disposto no artigo 57.º, n.º l. tuição de prestações efectuadas durante a suspensão e por causa dela.

27 28
ARTIGO 64.º circunstâncias do caso mostrarem que a condenação anterior não constituiu sufi-
(extinção da pena) ciente prevenção contra o crime.

A não revogação da suspensão determina a extinção da pena e dos seus efeitos. 2. Se entre as práticas dos crimes referidos no número anterior mediarem mais
de quatro anos não se verifica a reincidência; para o prazo referido não conta o
CAPÍTULO II tempo em que o agente tiver cumprido pena privativa de liberdade.
da deteRminaçÃo da pena 3. Em caso de reincidência o limite mínimo da pena aplicável ao crime é eleva-
do de um quarto da diferença entre os limites mínimo e máximo da referida pena.
SECÇÃO I
molduRa abstRacta da pena ARTIGO 68.º
(especial tendência criminosa)
ARTIGO 65.º
(escolha da pena) 1. Todo o agente que praticar um crime doloso a que devesse aplicar-se, concre-
tamente, pena de prisão efectiva superior a um ano será declarado delinquente
1. Em princípio, o tribunal aplicará a pena não privativa da liberdade, sempre que
com especial tendência para o crime se, cumulativamente, se verificarem os
o tipo legal o admitir, como alternativa à pena privativa.
seguintes pressupostos:
2. Nestes casos, o tribunal só aplicará a pena privativa de liberdade quando a não
privativa não satisfazer as exigências de reprovação e prevenção criminal ou se a) Ter praticado anteriormente três ou mais crimes dolosos a que tenha sido apli-
mostrar insuficiente para a recuperação social do delinquente. cada prisão;
b) Ter decorrido menos de quatro anos entre cada um dos crimes referidos e o
ARTIGO 66º seguinte;
(circunstâncias agravantes modificativas) c) A avaliação conjunta dos factos e da personalidade do agente revelar acentua-
da tendência para o crime;
1. A circunstância do agente de um crime ser reincidente ou manifestar tendên- d) Esta tendência subsistir no momento do julgamento.
cia para a prática de factos criminosos opera a modificação da moldura penal pre- 2. A pena aplicável ao agente é a do crime cometido elevando-se o limite máxi-
vista no tipo legal violado. mo de um terço da diferença entre os limites mínimo e máximo da pena prevista
2. Estas circunstâncias operam o seu efeito na moldura abstracta da pena poste- no tipo legal violado.
riormente às circunstâncias de facto que apenas qualificam determinados tipos
legais, se concorrerem no mesmo caso. 3. O disposto neste artigo prevalece sobre as regras próprias da punição da rein-
cidência.
ARTIGO 67.º
(Reincidência) ARTIGO 69.º
(sociedades e pessoas colectivas)
1. Todo o agente que, em consequência da prática de um crime doloso, tiver
cumprido pena de prisão e, posteriormente, praticar, sob qualquer forma, um As disposições relativas à reincidência e aos agentes de especial tendência crim-
novo crime a que corresponda pena de prisão, será declarado reincidente se as inosa são aplicáveis às sociedades e pessoas colectivas
29 30
ARTIGO 70.º b) Se o limite mínimo da pena for de três anos ou mais, mas inferior a dez anos,
(circunstâncias atenuantes modificativas ou especiais) passará a ser o mínimo legal da pena de prisão;
c) Se o limite mínimo da pena coincidir com o mínimo legal, substituir-se-á a
1. As circunstâncias de facto que atenuam especialmente a pena abstracta do tipo prisão por multa dentro dos limites legais desta;
legal somam os seus efeitos apenas em dois graus. d) A pena de multa será reduzida conforme for razoável até ao limite mínimo
2. As circunstâncias que ultrapassem esses dois graus revelam como circunstân- legal;
cias de carácter geral na determinação da pena concreta. e) Se, devendo atenuar-se especialmente a pena por duas vezes, não for possível
em nenhum dos casos diminuir o seu limite, isentar-se-á o agente dela.
ARTIGO 71.º
(atenuação especial da pena) 3. Nos casos em que não for possível repercutir o efeito atenuativo no limite mín-
imo da pena deve o tribunal atender a esse facto na determinação concreta da
1. O tribunal pode atenuar especialmente a pena para além dos casos expressa- pena.
mente previstos na lei, quando existam circunstâncias anteriores ou posteriores
ao crime, ou contemporâneas dele que diminuam por forma acentuada a ilicitude ARTIGO 73.º
do facto ou a culpa do agente. (punição do crime continuado)
2. Serão consideradas para este efeito, entre outras, as circunstâncias seguintes:
a) Ter o agente actuado sob a influência de ameaça grave ou sob o ascendente da O crime continuado é punível com a pena correspondente à conduta mais grave
pessoa de quem depende ou a quem deve obediência; que integra a continuação.
b) Ter sido a conduta do agente determinada por motivo honroso, por forte
solicitação ou tentação da própria vítima ou por provocação injusta, ou ofensa SECÇÃO II
imerecida; molduRa concReta da pena
c) Ter havido actos demonstrativos do arrependimento sincero do agente,
nomeadamente a reparação, na medida possível, dos danos causados; ARTIGO 74.º
d) Ter decorrido muito tempo sobre a prática do crime, mantendo o agente boa (determinação concreta da pena)
conduta;
e) Ser portador de imputabilidade sensivelmente diminuída. 1. Encontrada a moldura abstracta da pena nos termos dos artigos anteriores, o
tribunal avaliará todas as circunstâncias que, não fazendo parte do tipo, agravem
ARTIGO 72.º ou diminuam a responsabilidade do agente.
(Grau da atenuação especial)
2. Com base nestas circunstâncias fixar-se-á, dentro dos limites legais da pena, o
máximo exacto que o tribunal considere necessário para sancionar a culpa do
1. Nos casos de atenuação especial da pena o limite máximo será, sucessiva-
agente.
mente, diminuído de um terço.
2. Quanto ao limite mínimo atender-se-á às seguintes alterações: 3. A pena aplicada ao agente não poderá, em circunstância alguma, ultrapassar o
a) Se o limite mínimo da pena for de dez anos ou mais de prisão, passará a sê-lo limite adequado à culpa mas, atendendo à necessidade de prevenção de futuros
de três anos de prisão; crimes por parte do agente, poderá ser inferior àquele limite.
31 32
ARTIGO 75.º ARTIGO 78.º
(cúmulo jurídico das penas de prisão) (duração)

1. Quando alguém tiver praticado vários crimes antes de transitar em julgado a 1. Se o facto praticado pelo inimputável for punível com pena de prisão até três
condenação por qualquer deles, será condenado numa única pena. anos o internamento não poderá durar mais de um ano.

2. Se o conhecimento da prática dos crimes em relação do concurso for posteri- 2. Se o facto praticado pelo inimputável for punível com pena de prisão superi-
or à decisão transitada, proferir-se-á nova sentença determinativa da pena única. or a três anos o internamento terá a duração máxima de seis anos sempre que a
pena aplicável for igual ou superior a este limite e, nos demais casos, a duração
3. A pena única será determinada com base na avaliação conjunta dos factos e da correspondente ao limite máximo da pena.
personalidade do agente.
ARTIGO 79.º
4. A pena única tem como limite mínimo a pena mais grave e como limite máx- (cessação da medida)
imo a soma das diversas penas com respeito pelos limites fixados no artigo 41.º.
A medida cessa quando cessar o estado de perigosidade criminal que a originou
5. As penas acessórias permanecem inalteráveis nos casos de cumulação jurídica ou, mantendo-se este, quando for atingido o limite de duração máxima da medi-
de penas de prisão. da.

ARTIGO 76.º ARTIGO 80.º


(cúmulo das penas de multa) (substituição da medida de internamento)

As penas de multa cumulam-se materialmente entre si e permanecem indepen- 1. A medida de internamento pode ser substituída pela expulsão do território
dentes da pena de prisão. nacional quando aplicável a estrangeiros.

CAPÍTULO III 2. É correspondentemente aplicável o disposto no artigo 53.º, n.º l.


das medidas de seGuRança
ARTIGO 81.º
ARTIGO 77.º (medida de interdição profissional)
(medida de segurança de internamento)
Quando um indivíduo inimputável por anomalia psíquica praticar um acto pre-
Quando um facto descrito num tipo legal de crime for praticado por indivíduo visto num tipo legal de crime, relacionado com a actividade profissional que
inimputável nos termos do artigo 13.º, será este mandado internar pelo tribunal exerce e existir fundado receio de, enquanto mantiver essa ocupação, continuar
em estabelecimento adequado, sempre que, por virtude da anomalia psíquica da a praticar factos idênticos, o tribunal pode proibi-lo do exercício da respectiva
natureza e da gravidade do facto praticado, houver fundado receio que venha a actividade por um período de um a cinco anos, atendendo às circunstâncias do
praticar outros factos típicos graves. caso e à personalidade do agente.
33 34
CAPÍTULO IV TÍTULO IV
outRas conseQuÊncias do cRime da eXtinçÃo da Responsabilidade cRiminal

ARTIGO 82.º CAPÍTULO I


(perda dos objectos do crime) eXtinçÃo do diReito de QueiXa
1. Serão declarados perdidos a favor do Estado os objectos que sirvam ou ARTIGO 85.º
estavam destinados a servir para a prática de um crime, ou que por este foram (prazo para o exercício do direito de queixa)
produzidos, quando pela sua natureza ou pelas circunstâncias do caso ponham
em perigo a segurança das pessoas, a moral ou a ordem pública, ou ofereçam 1. Quando o procedimento criminal depender de queixa esta deve ser apresenta-
sérios riscos de serem utilizados para o cometimento de novos crimes. da nos seis meses após o titular ter tomado conhecimento do facto, sob pena de
extinção do direito de queixa.
2. Ficam salvaguardados os direitos de terceiro que não tenham concorrido nem 2. Se no decurso desse prazo, vier a falecer o titular do direito ou a ficar incapaz,
tirado vantagem de utilização dos objectos de que sejam proprietários. sem o exercer, inicia-se nova contagem de prazo, a partir da morte ou da data da
incapacidade.
3.O tribunal fixará o destino dos objectos declarados perdidos sempre que a lei o
3. O prazo conta-se autonomamente para cada um dos vários titulares da queixa.
não fizer.
ARTIGO 86.º
ARTIGO 83.º
(o direito de queixa na comparticipação)
(perda de vantagens consequência do crime)
Se o direito de queixa tiver de ser exercido contra vários comparticipantes num
Todas as coisas, direitos ou vantagens adquiridas em consequência da prática de
crime, o não exercício tempestivo da queixa relativamente a um deles extingue o
um crime, de forma directa ou indirecta, serão declarados perdidos a favor do
procedimento criminal em relação aos outros, mesmo que contra estes tenha sido
Estado.
tempestivamente exercido aquele direito.

ARTIGO 84.º
CAPÍTULO II
(indemnização pelos danos causados)
pRescRiçÃo do pRocedimento cRiminal
1. A indemnização de perdas e danos emergentes de um crime é obrigatório e ofi-
ARTIGO 87.º
ciosamente decretada pelo tribunal.
(prazos de prescrição)
2. Os pressupostos e o cálculo da indemnização regulam-se pelas normas de dire-
ito civil substantivo. 1. O procedimento criminal extingue-se, por efeito de prescrição, logo que sobre
a prática do crime tiverem decorrido os seguintes prazos:
3. O responsável pela indemnização pode efectuar transacção da mesma dando a) Vinte anos, quando se tratar de crimes puníveis com pena de prisão cujo lim-
disso conhecimento ao tribunal, sob pena de ineficácia do acto. ite máximo for superior a dez anos;
35 36
b) Quinze anos, quando se tratar de crimes puníveis com pena de prisão cujo lim- CAPÍTULO III
ite máximo for superior a cinco anos, mas que não exceda dez anos; pRescRiçÃo das penas e das medidas
c) Sete anos, quando se tratar de crimes puníveis com pena de prisão cujo limite de seGuRança
máximo for superior a um ano, mas que não exceda cinco anos;
d) Três anos, nos restantes casos. ARTIGO 90.º
(prazos de prescrição das penas)
2. Quando a lei estabelecer para qualquer crime, em alternativa, pena de prisão
ou de multa, só a primeira é considerada para efeito da fixação do prazo de pre- 1. As penas prescrevem nos seguintes prazos:
scrição do respectivo procedimento criminal.
a) Vinte e cinco anos, se forem superiores a dez anos de prisão;
ARTIGO 88.º b) Vinte anos, se forem superiores a cinco anos de prisão, mas não ultrapassarem
(contagem do prazo) os dez anos;
c) Doze anos, se forem superiores a dois anos de prisão, mas não ultrapassem os
1. O prazo de prescrição do procedimento criminal corre desde o dia em que o cinco anos;
facto se tiver consumado ou desde o dia do último acto de execução quando se d) Cinco anos, nas restantes penas de prisão;
tratar de crime não consumado, crime continuado ou crime habitual. e) Três anos, nas penas de multa.

2. Nos crimes permanentes o prazo de prescrição conta-se desde o dia em que 2. O prazo de prescrição das penas conta-se a partir do trânsito em julgado da
cessar a consumação. decisão que a aplicar.

3. No caso de cumplicidade atender-se-á ao facto do autor. ARTIGO 91.º


(prescrição das penas acessórias)
ARTIGO 89.º
(suspensão da prescrição) A prescrição das penas acessórias fica sujeita ao regime da prescrição da pena
principal de que for dependente.
1. A prescrição do procedimento criminal suspende-se, para além dos casos espe-
cialmente previstos na lei, durante o tempo em que: ARTIGO 92.º
(prazos de prescrição das medidas de segurança)
a) O procedimento criminal não puder legalmente iniciar-se ou continuar por
falta de autorização legal ou de sentença a proferir por tribunal não penal, ou por
1. As medidas de segurança prescrevem nos seguintes prazos:
efeito da devolução de uma questão prejudicial a juízo não penal:
b) O delinquente cumprir, no estrangeiro, pena ou medida de segurança privati- a) Quinze anos, se privativas de liberdade;
vas da liberdade. b) Cinco anos, se não privativas de liberdade;
c) Dois anos, nos casos restantes.
2. A prescrição volta a correr a partir do dia em que cessar a causa da suspensão.
2. É correspondentemente aplicável o que dispõe o artigo 89.º, n.º 2.

37 38
ARTIGO 93.º 2. A amnistia não prejudica a indemnização de perdas e danos que for devida.
(suspensão de prescrição)
3. A amnistia pode ser aplicável sob condição.
1. A prescrição das penas e das medidas de segurança suspende-se, para além dos
casos especialmente previstos na lei, durante o tempo em que: 4. Regra geral, a amnistia não aproveita aos reincidentes ou delinquentes com
a) Por força da lei, a execução não puder começar ou continuar; especial tendência criminosa.
b) Após a evasão do condenado de estabelecimento prisional ou de internamen-
to em que cumpre a sanção, enquanto não for recapturado; ARTIGO 97.º
c) O condenado estiver a cumprir outra pena ou medida de segurança privativas (amnistia e concurso de crimes)
de liberdade;
d) Perdurar a dilação do pagamento da multa; Salvo disposição em contrário, a amnistia é aplicada a cada um dos crimes a que
e) O condenado estiver temporariamente impedido de prestar o trabalho social. foi concedida.
2. A prescrição volta a cessar a partir do dia em que cessa a causa da suspensão.
ARTIGO 98.º
CAPÍTULO IV (perdão genérico)
outRas causas de eXtinçÃo
1. O perdão genérico extingue, total ou parcialmente a pena.
ARTIGO 94.º
(outras causas) 2. O perdão genérico, em caso de cúmulo jurídico, incide sobre a pena única,
salvo disposição em contrário.
Para além dos casos especialmente previstos na lei, a responsabilidade criminal
extingue-se ainda pela morte, pela amnistia, pelo perdão genérica e pelo indulto. ARTIGO 99.º
(indulto)
ARTIGO 95.º
(morte do agente) 1. O indulto extingue a pena, no todo ou em parte, ou substitui-a por outra pre-
vista na lei e mais favorável ao condenado.
A morte do agente extingue o procedimento criminal como sanção criminal que
lhe tenha sido aplicada. 2. É correspondentemente aplicável o que dispõe o artigo 95.º, n.ºs 2 e 4.

ARTIGO 96.º
(amnistia)

1. A amnistia extingue o procedimento criminal e faz cessar a execução da sanção


ainda não cumprida na totalidade, bem como os seus efeitos e as penas acessórias
na medida em que for possível.
39 40
paRte especial h) Proibição, omissão ou impedimento por qualquer meio a que seja prestada
assistência humanitária aos elementos do grupo, adequada a combater situações
TÍTULO I de epidemia ou de grave carência alimentar; é punido com pena de prisão de dez
dos cRimes contRa a paZ, a Humanidade a vinte e cinco anos.
e a libeRdade 2. Quem, pública e directamente, incitar à prática de algumas das acções anteri-
ormente descritas é punido com pena de prisão de um a dez anos.
ARTIGO 100.º
(incitamento a guerra) ARTIGO 102.º
(descriminação racial)
1. Quem, por qualquer meio, pública e repetidamente, incitar ao ódio contra uma
raça, um povo ou uma nação, com intenção de provocar uma guerra ou de 1. Quem:
impedir a convivência pacífica entre as diversas raças, povos ou nações, é punido a) Fundar ou constituir organização ou desenvolver actividades de propaganda
com pena de prisão de um a cinco anos. organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência raciais, ou que a
2. Na mesma pena incorre quem aliciar ou recrutar cidadãos guineenses para, ao encorajem; ou
serviço de grupo ou potência estrangeira, efectuar uma guerra contra um Estado b) Participar na organização ou nas actividades referidas na alínea anterior ou
ou para derrubar o Governo legítimo doutro Estado por meios violentos. lhes prestar assistência, incluindo o seu financiamento; é punido com pena de
prisão de um a oito anos.
ARTIGO 101.º 2. Quem, em reunião pública, por escrito destinado à divulgação ou através de
(Genocídio) qualquer meio de comunicação social, com a intenção de incitar à discriminação
racial ou de a encorajar, provocar actos de violência contra pessoa ou grupo de
1. Quem, com intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, pessoas por causa da sua raça cor ou origem étnica, e punido com pena de prisão
racial ou religioso, praticar: de um a cinco anos.
a) Homicídio ou ofensa à integridade física grave de elementos do grupo;
b) Por qualquer meio, actos que impeçam à procriação ou o nascimento no grupo; ARTIGO 103.º
c) Separação por meios violentos de elementos do grupo para outro grupo; (actos contra a liberdade humana)
d) Sujeição do grupo a condições de existência ou a tratamentos cruéis,
degradantes ou desumanos, susceptíveis de virem a provocar a sua destruição, 1. Quem, tendo por função a prevenção, a investigação, a decisão, relativamente
total ou parcial; a qualquer tipo de infracção, a execução das respectivas sanções ou a protecção,
e) Confisco ou apreensão generalizada dos bens propriedade dos elementos do guarda ou vigilância de pessoas detidas ou presas:
grupo; a) A torturar ou tratar de forma cruel, degradante ou desumana;
f) Proibição de determinadas actividades comerciais, industriais ou profissionais b) A castigar por acto cometido ou supostamente cometido por ela ou por outra
aos elementos do grupo; pessoa;
g) Difusão de epidemia susceptível de causar a morte ou ofensas graves à inte- c) A intimidar ou para intimidar outra pessoa; ou
gridade física de elementos do grupo; d) Obter dela ou de outra pessoa confissão, depoimento, declaração ou infor-
mação; é punido com pena de prisão de um a oito anos.
41 42
2. Na mesma pena incorre quem, por sua iniciativa, por ordem de superior ou de 2. Todo aquele a quem, por razões profissionais e oficialmente, for dado conhec-
acordo com a entidade competente para exercer a função referida no número imento da prática de factos descritos nos artigos 103º e 104º, e não comunicar
anterior, assumir o desempenho dessa função praticando qualquer dos actos aí imediatamente ao superior hierárquico ou efectuar a respectiva denúncia, é
descritos. punido com a pena prevista no número anterior especialmente atenuada.
3. Considera-se tortura, tratamento cruel, degradante ou desumano o acto que
consista em infringir sofrimento físico ou psicológico agudo, cansaço físico ou ARTIGO 106.º
psicológico grave ou no emprego de produtos químicos, drogas ou outros meios, (escravatura)
naturais ou artificiais, com intenção de perturbar a capacidade de determinação
1. Quem, por qualquer meio, colocar outro ser humano na situação de escravo,
ou a livre manifestação de vontade da vítima.
se servir dele nessa condição ou, para manter a referida situação, o ceder ou rece-
4. O disposto no número anterior não abrange as consequências limitativas da
ber doutra pessoa, é punido com pena de prisão de cinco a quinze anos.
liberdade de determinação decorrentes da normal execução das sanções ou medi-
2. Se os actos referidos no número anterior foram praticados:
das previstas no n.º 1.
a) Como forma de facilitar a exploração ou o uso sexual da vítima, pelo próprio
agente ou por terceiro;
ARTIGO 104.º
b) Sendo a vítima menor de dezasseis anos de idade; ou
(agravação)
c) Desempenhando o agente o cargo que lhe confira autoridade pública ou reli-
giosa perante um grupo, região ou totalidade do país; o agente é punido com pena
1. Quem, nos termos e condições referidas no artigo anterior:
de prisão de cinco a vinte anos.
a) Produzir ofensa grave à integridade física;
b) Empregar meios ou métodos de tortura particularmente graves, designada- TÍTULO II
mente: espancamento, electrochoque, simulacro de execução, substâncias aluci- dos cRimes contRa as pessoas
natórias, abuso sexual ou ameaça sobre familiares;
c) Praticar tais actos como forma de impedir ou dificultar o livre exercício de CAPÍTULO I
direitos políticos ou sindicais constitucionalmente consagrados; contRa a Vida
d) Praticar habitualmente os actos referidos no artigo anterior; ARTIGO 107.º
é punido com pena de prisão de quatro a quinze anos. (Homicídio)
2. Se dos factos descritos neste artigo ou no anterior resultar suicídio ou morte
da vítima, o agente e punido com pena de prisão de cinco a vinte anos. Quem tirar a vida a outra pessoa é punido com pena de prisão de oito a dezoito
anos.
ARTIGO 105.º
ARTIGO 108.º
(omissão de denúncia)
(Homicídio agravado)
1. O superior hierárquico que, tendo conhecimento da pratica, por subordinado, Se no caso concreto, a morte for:
de alguns dos factos descritos nos artigos 103.º e 104.º, não fizer a denúncia nos a) Relativa a alguém cuja função social ou o tipo de relação existente entre a víti-
três dias imediatos ao conhecimento do facto, é punido com pena de prisão de ma e o agente acentuam de forma especial e altamente significativa o desvalor da
um a cinco anos. acção;
43 44
b) Resultante de um modo de preparação ou de execução do acto ou de meios uti- ARTIGO 112.º
lizados que revelam um especial e elevado grau de ilicitude; (aborto)
c) Determinada por motivos ou por finalidade que patenteiam um especial
aumento da culpa do agente; este é punido com pena de prisão de doze a vinte e 1. Quem provocar aborto em mulher grávida contra ou sem consentimento, se for
cinco anos. possível obtê-lo, é punido com pena de prisão de três a dez anos.

ARTIGO 109.º 2. Quem efectuar aborto fora das instalações clínicas, adequadas ou sem que para
(incitamento ao suicídio) tal se encontre profissionalmente habilitado, é punido com pena de prisão de dois
a seis anos, independentemente do resultado.
1. Quem incitar outra pessoa a suicidar-se, ou lhe prestar ajuda para esse fim, é
3. A mulher grávida que consentir ao aborto nas condições descritas no número
punido com pena de prisão até três anos ou pena de multa, se o suicídio vier efec-
anterior é aplicada a pena de prisão aí referida, especialmente atenuada se a con-
tivamente a ser tentado ou a consumar-se.
duta tiver por objectivo ocultar a desonra.
2. Quem, por qualquer forma adequada e repetidamente fizer a apologia pública
de suicídio, é punido com pena de prisão até um ano ou com pena de multa.
ARTIGO 113.º
(abandono ou exposição)
ARTIGO 110.º
(infanticídio)
1. Quem, intencionalmente, colocar em perigo a vida de outra pessoa:
1. A mãe, o pai ou os avós que, durante o primeiro mês de vida do filho ou do a) Expondo-a em lugar que a sujeite a uma situação de que ela só por si, não
neto, lhe tirarem a vida por este ter nascido com manifesta deficiência física ou possa defender-se; ou
doença, ou compreensivelmente influenciados por usos e costumes que vigo-
rarem no grupo étnico a que pertencem, são punidos com pena de prisão de dois b) Abandonando-a sem defesa, em razão da idade, deficiência física ou doença,
a oito anos, se tais circunstâncias revelarem uma diminuição acentuada da culpa. sempre que ao agente coubesse o dever de a guardar, vigiar ou assistir;
2. A mãe que tirar a vida do filho durante o parto, ou logo após este e ainda sob é punido com pena de prisão de um a cinco anos.
a sua influência perturbadora, é punida com pena de prisão de um a quatro anos,
se o fizer como forma de encobrir a desonra ou vergonha social. 2. Se do facto resultar:

a) Uma ofensa grave para a integridade física, o agente é punido com pena de
ARTIGO 111.º prisão de um a oito anos;
(Homicídio negligente)
b) A morte, o agente é punido com pena de prisão de quatro a doze anos.
1. Quem, por negligência, tirara vida a outra pessoa, é punido com pena de
prisão até três anos ou com pena de multa.

2. Nos casos em que o agente actuar com negligência grosseira é punido com
pena de prisão até quatro anos.
45 46
CAPÍTULO II 2. Quem, querendo causar a outra pessoa alguma das ofensas previstas no artigo
contRa a inteGRidade fÍsica 115.º, é punido com pena de prisão de dois a dez anos, se por negligência, lhe
vier a produzir a morte.
ARTIGO 114.º
(ofensas corporais simples) ARTIGO 117.º
(ofensas privilegiadas)
1. Quem ofender o corpo ou a saúde de outra pessoa, é punido com pena de
prisão até três anos ou com pena de multa. Quem, habilitado para efeito e devidamente autorizado, efectuar a circuncisão ou
2. O procedimento criminal depende de queixa. excisão sem proceder com cuidados adequados para evitar que se produzam os
efeitos previstos no n.º 1 do artigo 115.º ou a morte da vítima, e estes sobre-
ARTIGO 115.º vierem, é punido, respectivamente, com pena de prisão até três anos e de um a
(ofensas corporais graves) cinco anos.

1. Quem ofender o corpo ou a saúde de outra pessoa com a intenção de: ARTIGO 118.º
a) A privar de importante órgão ou membro; (ofensas corporais negligentes)
b) A desfigurar grave e permanentemente;
c) Lhe afectar a capacidade de trabalho, as capacidades intelectuais, ou de pro- 1. Quem, por negligência, ofender o corpo ou a saúde de outra pessoa, é punido
criação de maneira grave e duradoira ou definitivamente; com pena de prisão até um ano ou com pena de multa.
d) Lhe provocar doença permanente ou anomalia psíquica incurável; ou 2. O procedimento criminal depende de queixa.
e) Lhe criar perigo para a vida;
é punido com pena de prisão de dois a oito anos. ARTIGO 119.º
2. As intervenções e outros tratamentos médicos feitos por quem se encontra (ofensas corporais recíprocas)
profissionalmente habilitado não se consideram ofensas corporais: porém, da
violação das "legis artis" resultar um perigo para o corpo, a saúde ou a vida do 1. Quando duas pessoas se ofenderem, reciprocamente, no corpo ou na saúde,
paciente, o agente será punido com prisão de seis meses a três anos. não agindo nenhuma delas em legítima defesa e não ocorrendo nenhum dos
efeitos previstos no artigo l44.º, nem a morte dalgum dos intervenientes, são
ARTIGO 116.º punidos com pena de prisão até dois anos ou com pena de multa.
(agravação pelo resultado) 2. O procedimento criminal depende de queixa.

1. Quem, querendo tão só ofender o corpo ou a saúde de outra pessoa: ARTIGO 120.º
a) Lhe causar a morte por negligência, é punido com pena de prisão de um a (participação em rixa)
cinco anos;
b) Lhe causar as ofensas previstas no artigo 115.º, é punido com pena de prisão 1. Quem intervier ou tomar parte em rixa de dois ou mais pessoas, donde resulte
até quatro anos. morte ou ofensa corporal grave, é punido com pena de prisão até dois anos ou
com pena de multa.
47 48
2. A participação em rixa não é punível quando for determinada por motivo não ARTIGO 124.º
censurável, nomeadamente quando visar reagir contra um ataque, defender out- (sequestro)
rem ou separar os contendores.
1. Quem, fora dos casos previstos na lei processual penal, detiver, prender, man-
ARTIGO 121.º tiver presa ou detida outra pessoa, ou de qualquer outra forma a privar da liber-
(ofensas corporais por meio de substâncias venenosas) dade, é punido com pena de prisão até três anos ou com pena de multa.

1. Quem ofender o corpo ou a saúde de outrem ministrando-lhe substâncias 2. A pena aplicável é de dois a oito anos de prisão se a privação da liberdade:
venenosas ou prejudiciais à saúde física ou psíquica, é punido com pena de prisão
de um a cinco anos. a) Durar mais de setenta e duas horas;
b) For efectuada por meio de ofensa à integridade física, tortura ou qualquer
2. Se sobrevier alguma das consequências previstas no artigo 114º ou a morte da outro tratamento cruel, degradante ou desumano;
vítima, o agente é punido, respectivamente, com pena de prisão de um a oito anos c) Vier a causar, por negligência do agente, a morte da vítima ou tiver como
e de dois a dez anos. resultado o suicídio desta;
d) Respeitar a autoridade pública, religiosa ou política.
CAPÍTULO III
contRa a libeRdade pessoal ARTIGO 125.º
(Rapto)
ARTIGO 122.º
(ameaças)
1. Quem por qualquer meio, raptar outra pessoa para obter do próprio ou de ter-
ceiro um resgate, a prática ou omissão de um facto ou a suportar uma actividade,
1. Quem ameaçar outra pessoa com a prática de um crime de forma a que lhe
é punido com prisão de dois a dez anos.
provoque medo ou inquietação ou a prejudicar a sua liberdade de determinação,
é punido com pena de prisão até um ano ou com pena de multa.
2. A pena aplicável é de três a doze anos de prisão se o rapto for efectuado com
2. O procedimento criminal depende de queixa. violência, ou se verificar alguma das circunstâncias previstas no artigo 124º, nº
2, alíneas b) e c).
ARTIGO 123.º
(coacção)

1. Quem, por meio de violência ou de ameaça que não constitua crime, con-
stranger outra pessoa a uma omissão, ou a suportar uma actividade, é punido com
pena de prisão até três anos ou com pena de multa.

2. Se a coacção for realizada mediante a ameaça de um crime ou por funcionário


abusando grosseiramente das suas funções a pena é de prisão até três anos.
3. A tentativa é punível.
49 50
CAPÍTULO IV ARTIGO 129.º
contRa a HonRa (injúrias discriminatórias)

ARTIGO 126.º 1. Se a injúria consistir em expressões ou considerações que visem discriminar a


(difamação e injúrias) vítima por causa da raça, religião ou etnia, ofendendo-a na sua honra e consider-
ação, o agente é punido com pena de prisão até dois anos ou multa.
1. Quem, publicamente e na ausência da vítima, de viva voz, ou por qualquer
2. O procedimento criminal depende de queixa.
outro meio de comunicação, imputar a outra pessoa um facto ou emitir um juízo
ofensivo da sua honra e consideração, ou transmitir essa imputação ou juízo a ter-
ARTIGO 130.º
ceiros se não tiver sido produzida pelo agente, é punido com pena de prisão até
(ofensa ao prestígio de pessoa colectiva ou equiparada)
um ano ou com pena de multa.
1. A prática dos factos descritos no artigo 126º e a difusão de factos inverídicos
2. Quem, na presença da vítima, proferir palavras, praticar ou lhe imputar qual-
susceptíveis de abalar a credibilidade, confiança ou prestígio devidos às pessoas
quer outro facto lesivo da sua honra e consideração, é punido com pena de prisão
colectivas ou quaisquer outras instituições sociais, é punida com pena de prisão
até seis meses ou com pena de multa.
até seis meses ou com pena de multa.
3. O procedimento criminal depende de queixa. 2. O procedimento criminal depende de queixa.

ARTIGO 127.º ARTIGO 131.º


(agravação) (ofensa à memória de pessoa falecida)

1. Se os factos descritos no artigo anterior forem praticados: 1. Quem, por qualquer forma, ofender gravemente a memória de pessoa faleci-
a) Por meio de órgão de comunicação social; da, é punido com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa.
b) Contra quem desempenhar funções públicas, religiosas ou políticas, no exer-
cício dessas funções e por causa delas, o agente é punido com pena prevista nesse 2. É correspondentemente aplicável o disposto no artigo 127.º.
artigo agravadas de um terço no seu limite máximo.
3. O procedimento criminal depende sempre de queixa.
2. A agravação será de metade do limite máximo se ocorrerem cumulativamente
as circunstâncias referidas no número anterior. ARTIGO 132.º
(publicidade da sentença)
ARTIGO 128.º
(prova da verdade dos factos) Sempre que os crimes previstos nesta secção tenham sido praticados com recur-
so a órgãos de comunicação social o tribunal determinará a publicidade de sen-
Tratando-se de imputação de factos, se o agente provar a verdade dos mesmos, a tença condenatória pelo mesmo órgão de comunicação, sob pena de desobediên-
conduta não será punível. cia.
51 52
CAPÍTULO V nação sexual da vítima sendo o agente punido com pena de prisão de dois a dez
contRa a libeRdade seXual anos.

ARTIGO 133.º ARTIGO 135.º


(Violação) (exibicionismo sexual)

1. Quem, através de violência, ameaça grave ou qualquer outra forma de 1. Quem, publicamente, importunar outra pessoa com a prática de actos de carác-
coacção, mantiver cópula com mulher ou a constranger a ter com terceiro, é ter sexual, é punido com pena de prisão até três anos ou multa.
punido com pena de prisão de três a doze anos. 2. Na mesma pena incorre quem praticar acto sexual de relevo ou cópula perante
2. Na mesma pena incorre quem, por alguma das formas descritas no artigo ante- outra pessoa, contra a vontade desta e mesmo que em privado.
rior, praticar qualquer outro acto sexual significativo com homem ou mulher ou 3. A tentativa é punível.
obrigar a que o tenha com terceiro.
3. Nos casos em que a pouca idade, a inexperiência da vida, a afectação por ARTIGO 136.º
anomalia psíquica ou a diminuição física ou psíquica, temporária ou permanente (exploração de actividade sexual de terceiro)
da vítima tenha sido aproveitada pelo agente para mais facilmente praticar os fac-
tos descritos nos números anteriores a pena aplicável será agravada de um terço 1. Quem, com intenção lucrativa ou fazendo disso modo de vida, fomentar, facil-
no limite máximo. itar ou de qualquer modo contribuir para que outra pessoa exerça a prostituição
4. Se a vítima, pelo seu comportamento, tiver contribuído de forma sensível para ou pratique actos sexuais de relevo, é punido com pena de prisão até três anos ou
o facto, a pena é atenuada especialmente. pena de multa.
2. Se o agente se aproveitar dalguma das circunstâncias seguintes:
ARTIGO 134.º a) Exploração de situação de abandono ou de necessidade económica da vítima;
(abuso sexual) b) Exercendo violência, ameaça grave ou coacção sobre a vítima; ou
c) Deslocando a vítima para país estrangeiro;
1. Quem praticar cópula com mulher com mais de 12 e menos de 16 anos de é punido com pena de prisão de dois a dez anos.
idade aproveitando-se da sua inexperiência ou independentemente da idade, se 3. A tentativa, no caso do nº 1, é punível.
aproveitar do facto de a vítima sofrer de anomalia psíquica ou se encontrar
diminuída física ou psiquicamente, temporária ou permanentemente, é punido ARTIGO 137º
com pena de prisão de dois a oito anos. (agravação)
2. Se o agente tiver acto sexual significativo com homem ou mulher, de idade
superior a 12 anos, aproveitando-se de alguma das circunstâncias descritas no 1. As penas previstas nos artigos 133º e 134º, são agravadas de um terço, nos
número anterior, é punido com pena de prisão de um a cinco anos. seus limites, se:
3. Se o agente, sem recurso a violência, ameaça grave ou coacção, tiver cópula a) A vítima estiver numa situação de dependência familiar, subordinação
ou acto sexual significativo com pessoa de sexo feminino ou este último com hierárquica ou sob vigilância ou confiado à guarda do agente;
pessoa do sexo masculino, de 12 anos ou menos de idade, presume-se, até ser b) O agente tiver transmitido à vítima doença venérea, sifilítica ou o síndroma
fundadamente posto em causa, que se aproveitou da incapacidade de determi- de imunodeficiência adquirida;
53 54
c) Em consequência dos factos a vítima tentar ou consumar o suicídio ou resul- ARTIGO 140.º
tar a morte. (introdução noutros lugares vedados ao público)

2. Concorrendo mais do que uma das circunstâncias anteriores só a primeira rel- 1. Quem, nas circunstâncias descritas no n.º l do artigo anterior, entrar ou per-
eva como agravante modificativa e as demais serão valoradas na determinação manecer em qualquer lugar fechado ou vedado e não livremente acessível ao
da pena concreta. público, é punido com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa.

ARTIGO 138.º 2. Se se verificar alguma das circunstâncias referidas no artigo139.º, n.º 2, o


(procedimento criminal) agente é punido com pena de prisão até um ano ou com pena de multa.

1. O procedimento criminal pelos crimes previstos nos artigos 133º, 134º e 135º 3. O procedimento criminal depende de queixa.
depende de queixa, salvo quando resulta a morte ou suicídio da vítima.
ARTIGO 141.º
2. Se o agente do crime for o único titular do dereito de queixa compete ao (Violação de correspondência ou de telecomunicações)
Ministério Público decidir do seu exercício, atento o interesse da vítima e ouvi-
da esta. 1. Quem, sem consentimento ou fora dos casos processualmente admissíveis,
abrir encomenda, carta ou qualquer outro escrito destinado a outra pessoa, ou
CAPÍTULO VI tomar conhecimento do seu conteúdo, ou impedir que seja recebida pelo seu des-
contRa a Vida pRiVada tinatário, é punido com pena de prisão até um ano ou com pena de multa.

ARTIGO 139.º 2. Na mesma pena incorre quem, nas mesmas circunstâncias, se intrometer ou
(Violação de domicílio) tomar conhecimento do conteúdo de comunicação telefónica, telegráfica ou por
qualquer outro meio de telecomunicação.
1. Quem, sem consentimento, se introduzir na habitação de outra pessoa ou, 3. Quem divulgar o conteúdo de cartas, encomendas, escritos fechados, tele-
autorizado a entrar, nela permanecer depois de intimado a retirar-se, é punido fonemas ou outras comunicações referidas nos números anteriores, é punido com
com pena de prisão até um ano ou com pena de multa. pena de prisão até um ano ou com pena de multa, ainda que tenha tido conheci-
2. Se o agente, para mais facilmente cometer crime, se aproveitar da noite, do mento desse contendo de forma lícita.
facto de a habitação se situar em lugar ermo, de serem três ou mais pessoas a
praticar o facto, utilizar arma, usar de violência ou ameaça de violência ou actu- 4. Se o agente que proceder à divulgação tiver praticado alguns dos factos
ar por meio de escalamento, arrombamento ou chave falsa, é punido com pena descrito nos n.ºs l e 2 como meio de adquirir o referido conhecimento do con-
de prisão até três anos ou com pena de multa. teúdo que divulgar, é punido, por ambas as condutas, com pena de prisão até
3. Se existirem pessoas no interior da habitação quando o agente cometer o crime dezoito meses ou com pena multa.
é aplicável a mesma pena do número anterior que será agravada de um terço do 5. Se os factos descritos nos números anteriores forem praticados por funcionário
limite máximo se ocorrer, simultaneamente, alguma das circunstâncias referidas. de serviços dos correios, telégrafos, telefones ou telecomunicações as penas
4. A tentativa é punível. aplicáveis são elevadas de um terço nos seus limites.
55 56
6. O procedimento criminal depende de queixa. TÍTULO III
dos cRimes contRa o patRimÓnio
ARTIGO 142.º
(Violação de segredo) CAPÍTULO I
contRa a pRopRiedade
1. Quem, sem consentimento, revelar segredo alheio de que tenha tomado con-
hecimento em razão do seu estado, ofício, emprego, profissão ou arte, é punido ARTIGO 145.º
com pena de prisão até um ano ou pena de multa. (furto)
2. O procedimento criminal depende de queixa.
1. Quem, com ilegítima intenção de apropriação para si ou para outrem, subtrair
ARTIGO 143º coisa móvel alheia, é punido com pena de prisão até três anos ou com pena de
(devassa da vida privada) multa.
1. Quem, por qualquer meio mesmo lícito, tomar conhecimento de factos rela- 2. A tentativa é punível.
tivos à intimidade da vida privada de outra pessoa e os divulgar publicamente
sem justa causa, é punido com pena de prisão até três meses ou multa. ARTIGO 146.º
2. O procedimento criminal depende de queixa. (furto qualificado)

CAPÍTULO VII Se:


diVeRsos a) A coisa móvel alheia possuir elevado valor científico, artístico ou histórico, ou
for importante para o desenvolvimento tecnológico ou económico;
ARTIGO 144.º b) A coisa móvel alheia for um veículo, transportada em veículo ou por pas-
(omissão de auxílio) sageiro de transportes colectivos, ou se encontrar no cais ou gare de embarque ou
desembarque;
1. Quem, em caso de grave necessidade de outra pessoa que se encontrar em peri- c) A coisa móvel for cabeça de gado não bovino;
go de vida, deixar de a socorrer directamente ou por intermédio de terceiros, d) A coisa móvel alheia estiver afecta ao culto religioso ou à veneração da
quando o pudesse fazer sem qualquer risco pessoal grave, é punido com pena de memória dos mortos e se encontrar em lugar destinado ao culto ou em cemitério;
prisão até um ano ou com pena de multa. e) A vítima ficar em situação económica difícil;
2. Se o agente for médico ou profissional de saúde, é punido com pena de prisão f) O agente aproveitar a noite para mais facilmente se introduzir em habitação,
até três anos ou com pena de multa. estabelecimento comercial ou industrial com a intenção de furtar;
g) O agente usar chaves falsas, escalamento ou arrombamento na concretização
3. No caso previsto no número anterior, acessoriamente, poderá ser decretada a do seu desígnio;
suspensão da actividade profissional do agente por um período de tempo até um h) O agente se aproveitar da situação de especial debilidade da vítima de desas-
ano. tre, acidente ou calamidade pública;
4. O procedimento criminal depende de queixa. i) O agente fizer da prática de furtos modo de vida; ou

57 58
j) O crime for praticado por três ou mais pessoas, incluindo o agente; este é .ARTIGO 148º
punido com pena de prisão até cinco anos. (abuso de confiança qualificado)
2. Se ocorrer alguma das circunstâncias descritas no número anterior e a coisa furta-
da tiver um valor superior a dez vezes o salário correspondente à letra "Z" da Função 1. Se a coisa referida no artigo anterior for de valor superior a dez vezes o salário
Pública, o agente é punido com pena de prisão de seis meses a sete anos. correspondente à letra "Z" da Função Pública, o agente é punido com pena de
3. Se verificada alguma das circunstâncias descritas no n.º l e a coisa furtada tiver prisão até cinco anos.
um valor superior a vinte vezes o salário correspondente à letra "Z" da Função 2. Se a coisa referido tiver um valor vinte vezes superior ao salário correspon-
Pública, o agente é punido com pena de prisão de um a dez anos. dente à letra "Z" da Função Pública, o agente é punido com pena de prisão de um
4. Se, verificada alguma das circunstâncias descritas no n.º 1, o valor da coisa a oito anos.
furtada for superior a quarenta vezes o salário correspondente a letra "Z" da 3. As penas previstas no artigo147.º e nos números anteriores são agravadas de
Função Pública, o agente é punido com pena de prisão de dois a doze anos. um terço no limite mínimo e máximo se o agente tiver recebido a coisa em
5. Se concorrerem mais do que uma das circunstâncias descritas no n.º l só é rel- depósito imposto por lei em razão de ofício, emprego ou profissão, ou na quali-
evante como circunstância modificativa uma delas, sendo as demais ponderadas dade de tutor, curador ou depositário judicial.
na determinação concreta da pena, se não puderem constituir crime autónomo.
6. Se o valor da coisa furtada for superior a um décimo do salário correspondente ARTIGO 149.º
à letra "Z" da Função Pública, as circunstâncias descritas no n.º 1 funcionarão (arrependimento activo)
como agravantes de carácter geral.
Quando, após a prática dos crimes previstos nos artigos 145.º a 148.º e antes de
ARTIGO 146.º-A6 iniciada a audiência de julgamento, o agente praticar actos que visem a restitu-
ição ou a reparação, integral ou parcial, dos prejuízos causados e demonstre um
1. Quem com ilegítima intenção de apropriação para si ou para outrem, subtrair sincero arrependimento, a pena pode ser especialmente atenuada.
cabeça de gado bovino alheio, é punido com pena de prisão até cinco anos.
2. Ao lesado assistirá sempre o direito a: ARTIGO 150.º
a) Restituição imediata do gado roubado; (furto de uso)
b) Indemnização de 5 cabeças de gado ou correspondente, por cada gado rouba-
do. 1. Quem utilizar automóvel ou outro veículo motorizado, aeronave, barco ou
3. No caso previsto no n.º 1 do presente artigo, aplicam-se igualmente as dis- bicicleta, sem autorização de quem de direito, é punido com pena de prisão até
posições dos n.ºs 2, 3 e 4 do artigo 146º. dois anos ou com pena de multa.
2. A tentativa é punível.
ARTIGO 147.º 3. O procedimento criminal depende de queixa.
(abuso de confiança)
ARTIGO 151.º
1. Quem, ilegitimamente se apropriar de coisa móvel que lhe tenha sido entregue (Roubo)
por título não translativo da propriedade, é punido com pena de prisão até três
anos ou com pena de multa. 1. Quem, com ilegítima intenção de apropriação para si ou para outra pessoa,
2. A tentativa é punível. subtrair, ou constranger a que lhe seja entregue, coisa móvel alheia, por meio de
59 60
violência contra uma pessoa, de ameaça com perigo iminente para a vida ou para c) Tiver um importante valor científico, artístico ou histórico ou possuir grande
a integridade física ou pondo-a na impossibilidade de resistir, é punido com pena importância para o desenvolvimento tecnológico ou científico;
de prisão de um a dez anos. d) For meio de comunicação ou transporte de grande importância social; o agente
2. Se o valor da coisa apropriada for superior a dez vezes o salário correspon- é punido com pena de prisão de um a oito anos.
dente à letra "Z" da Função Pública ou se verificar alguma das circunstâncias
previstas no artigo 146º, nº 1, o agente é punido com pena de prisão de dois a dez 2. Se:
anos. a) O agente agir com violência contra uma pessoa, com ameaça, com perigo imi-
3. Se da conduta do agente resultar perigo para a vida da vítima ou lhe forem cau- nente para a vida ou a integridade física, ou pondo-a na impossibilidade de resi-
sadas ofensas à integridade física graves, o agente é punido com pena de prisão stir; ou
de dois a doze anos. b) A coisa danificada tiver valor superior a vinte vezes o salário correspondente
4. Se do facto vier a resultar a morte de outra pessoa, o agente é punido com pena à letra "Z" da Função Pública;
de prisão de três a quinze anos. o agente é punido com pena de prisão de dois a doze anos.

ARTIGO 152.º ARTIGO 155.º


(Violência após a subtracção) (dano involuntário)

Quem, surpreendido em flagrante delito de furto, actuar da forma descrita no arti- 1. Quem, por negligência, praticar os factos descritos no artigo 153.º, é punido
go anterior para conservar ou impedir a restituição das coisas apropriadas, é com pena de prisão até três meses ou com pena de multa.
punido com as penas de crime de roubo.
2. Se o valor da coisa danificada for superior a vinte vezes o salário correspon-
dente a letra "Z" da Função Pública, o agente é punido com pena de prisão até
ARTIGO 153º
seis meses ou com pena de multa.
(dano)
3. O procedimento criminal depende de queixa.
1. Quem, total ou parcialmente, destruir, danificar, desfigurar ou tornar inuti-
lizável coisa alheia, é punido com pena de prisão até três anos ou multa. ARTIGO 156.º
2. A tentativa é punível. (Queimada fora da época)
3. O procedimento criminal depende de queixa.
1. Quem efectuar queimada prematura fora dos meses de Novembro e Dezembro,
ARTIGO 154.º de que resulte a destruição de floresta, plantação ou culturas, é punido com prisão
(dano qualificado) até dois anos ou com pena de multa.

1. Se a coisa danificada: 2. Quem efectuar queimada nos meses de Novembro ou Dezembro e por neg-
a) Se destinar a uso e utilidade pública; ligência provocar os factos descritos no número anterior, é punido com prisão até
b) Tiver um valor superior a dez vezes o salário correspondente à letra "Z" da um ano ou com pena de multa.
Função Pública; ou
61 62
ARTIGO 157.º 2. Se o meio empregue constituir crime punível com pena superior à referida no
(Queimada intencional) artigo anterior será essa pena aplicável.
3. A tentativa é punível.
Quem, independentemente da época do ano, utilizar o fogo para a produção de 4. O procedimento criminal depende de queixa.
carvão, na extracção de mel, para caçar, para abrir caminho ou por qualquer outro
motivo fizer queimada provocando incêndio de que resulte a destruição de flo- ARTIGO 161.º
resta, plantações ou culturas, é punido com prisão até cinco anos. (alteração de marcos)

ARTIGO 158.º 1. Quem, com intenção de apropriação, total ou parcial, de coisa imóvel alheia,
(agravação) para si ou para outra pessoa, arrancar ou alterar marco ou qualquer outro sinal
destinado a estabelecer limites de propriedades, é punido com pena de prisão até
Se os factos descritos no artigo anterior forem relativos a parques nacionais, flo- seis meses ou com pena de multa.
restas estabelecidas ou sob a protecção, o agente é punido com pena de prisão de 2. O procedimento criminal depende de queixa.
um a seis anos.
ARTIGO 162.º
ARTIGO 159.º (procedimento criminal)
(incêndio qualificado)
No caso dos artigos 145.º, 147.º e 151.º, o procedimento criminal depende de
1. Quem, querendo provocar incêndio em casa, edifício, estabelecimento, meio queixa se o proprietário da coisa for cônjuge, ascendente, descendente, adop-
de transporte, floresta, seara ou qualquer outro bem e, desta maneira, criar peri- tante, adoptado, parente ou afim até ao 2.º grau.
go de vida, integridade física ou bens patrimoniais de valor superior a cem vezes
o salário correspondente à letra "Z" da Função Pública, é punido com prisão de ARTIGO 163.º
dois a dez anos. (arrombamento, escalamento e chaves falsas)
2. Se a conduta descrita no número anterior for praticada por negligência, o
agente é punido com pena de prisão de um a cinco anos. 1. É arrombamento o rompimento, fractura ou destruição, no todo ou em parte,
3. Se apenas o perigo referido no número um for criado por negligência, o agente de dispositivo destinado a fechar ou impedir a entrada, exterior ou interiormente,
é punido com pena de prisão de um a seis anos. de casa ou de lugar fechado dela dependente.
2. É escalamento a introdução em casa ou em lugar fechado dele dependente, por
ARTIGO 160.º local não destinado normalmente à entrada ou por qualquer dispositivo destina-
(usurpação de coisa imóvel) do a fechar ou impedir a entrada ou a passagem.
3. São chaves falsas:
1. Quem, por meio de violência ou ameaça grave sobre outra pessoa, invadir ou a) As imitadas, contrafeitas ou alteradas;
ocupar coisa imóvel alheia, ou, pelos mesmos meios, aí pretender continuar b) As verdadeiras quando, fortuita ou sub-repticiamente, estiverem fora do poder
depois de intimado a retirar-se, com intenção de exercer direito de propriedade, de quem tiver o direito de as usar; e
posse, uso ou servidão não tutelados por lei, sentença, contrato ou acto adminis- c) As gazuas ou quaisquer instrumentos que possam servir para abrir fechaduras
trativo, é punido com pena de prisão até três anos ou com pena de multa. ou outros dispositivos de segurança.
63 64
CAPÍTULO II ARTIGO 167.º
contRa o patRimÓnio em GeRal (Receptação)

ARTIGO 164.º 1. Quem, com intenção de obter, para si ou para outra pessoa, vantagem patri-
(burla) monial, dissimular coisa que foi obtida por outrem mediante crime contra o
património, a receber, a empenhar, a adquirir por qualquer título, a detiver, con-
1. Quem, com intenção de obter para si ou para terceiro enriquecimento ilegíti- servar, transmitir ou contribuir para a transmitir, ou de qualquer outra forma asse-
mo, por meio de erro ou engano sobre factos que astuciosamente provocou, gurar, para si ou para outra pessoa, a sua posse ou o valor ou produto directa-
determinar outrem à pratica de actos que lhe causem, ou causem a outra pessoa, mente dela resultantes, é punido com pena de prisão de um a oito anos.
prejuízo patrimonial, é punido com pena de prisão até três anos ou com pena de
2. Se:
multa.
2. A tentativa é punível. a) O agente fizer de receptação modo de vida, ou a pratique habitualmente;
3. É correspondentemente aplicável o disposto no artigo 149.º. b) Os bens, valores ou produtos tiverem um valor superior a dez vezes o salário
correspondente à letra "Z" da Função Pública;
ARTIGO 165.º é punido com pena de prisão de dois a doze anos.
(burla qualificada)
ARTIGO 168.º
1. Se: (Receptação atenuada)
a) O prejuízo causado for de valor superior a vinte vezes o salário correspondente
à letra "Z" da Função Pública; Quem, sem previamente se ter assegurado da sua legítima proveniência, adquirir
b) O agente fizer modo de vida da prática da burla; ou ou receber, a qualquer título, coisa que, pela sua natureza ou pela sua qualidade
c) A pessoa prejudicada ficar em difícil situação económica; de quem a detém ou lha oferece, ou pelo montante do preço ou condições de
o agente é punido com pena de prisão de um a dez anos. venda ou oferta, faz suspeitar a uma pessoa medianamente diligente que provém
2. É correspondentemente aplicável o que dispõe a artigo 149º. de condutas criminosas contra o património de outra pessoa, e punido com pena
de prisão até dois anos ou com pena de multa.
ARTIGO 166.º
(extorsão) ARTIGO 169.º
(ajuda ao criminoso)
1. Quem, com intenção de conseguir para si ou para terceiro enriquecimento
ilegítimo, constranger outra pessoa, por meio de violência ou de ameaça com mal Quem, após a prática de um crime contra o património, ajudar o agente do crime
importante, a uma disposição patrimonial que acarrete, para ela ou para outrem, a aproveitar-se da coisa assim obtida ou de benefício directamente resultante da
prejuízo, é punido com pena de prisão de um a seis anos. coisa apropriada, é punido com pena de prisão até dois anos ou com pena de
multa.
2. Se se verificarem os pressupostos consagrados no artigo 151.º, n.ºs 2, 3 e 4, a
conduta do agente é punida as com penas aí previstas.

65 66
ARTIGO 170.º 2 Se os factos descritos no número anterior, respeitarem a empresas públicas ou
(administração danosa) cooperativas a pena é agravada de um terço nos seus limites.

1. Quem estiver encarregado de dispor ou de administrar interesses, serviços ou ARTIGO 173.º


bens patrimoniais alheios, mesmo sendo sócio da sociedade ou pessoa colectiva (falência ou insolvência negligente)
a que pertençam esses bens, interesses ou serviços, e por ter infringido inten-
cionalmente as regras de controle e de gestão ou por ter actuado com grave vio- Quem provocar falência ou insolvência por grave incúria ou imprudência, prodi-
lação e deveres inerentes à função causar dano patrimonial economicamente sig- galidade ou despesas manifestamente exageradas, ou grave negligência no exer-
nificativo, é punido com prisão até cinco anos. cício da sua actividade, é punido com pena de prisão até um ano ou com pena de
2. Se os bens, interesses ou serviços pertencerem ao Estado a pessoa colectiva de multa, se a falência ou insolvência forem declaradas.
utilidade pública, a uma cooperativa ou associação popular a pena aplicável é de
seis meses a seis anos de prisão. CAPÍTULO III
3. As mesmas penas são aplicáveis a quem se apropriar ou permitir que se apro- contRa a economia nacional
priem ilegitimamente de coisas de que apenas podiam dispor no âmbito e com as
finalidades próprias de quem administra património alheio. ARTIGO 174.º
(fraude fiscal)
ARTIGO 171.º
(administração abusiva) 1. Quem, para não pagar ou permitir a terceiro que não pague, total ou parcial-
mente, qualquer imposto, taxa ou outra obrigação pecuniária fiscal devida ao
1. Quem, estando nas condições descritas no n.º l do artigo anterior, causa grave Estado:
dano patrimonial por não agir com diligência a que segundo as circunstâncias a) Não declarando os factos sujeitos a tributação ou os necessários à sua li-
estava obrigado e de que era capaz, é punido com pena de prisão até um ano ou quidação;
com pena de multa. b) Declarar incorrectamente os factos em que se funda a tributação; ou
2. Se a situação for relativa a bens ou coisas pertencentes ao Estado, pessoa c) Impedir por qualquer meio ou sonegar os elementos necessários a uma cor-
colectiva de utilidade Pública, cooperativa ou associação popular a pena aplicáv- recta fiscalização da actividade ou factos sujeitos à tributação; é punido com
el é agravada de metade no seu limite máximo. pena de prisão de um a cinco anos.
3. O procedimento criminal depende de queixa. 2. Se a quantia devida e não paga por o agente ter actuado nos termos descritos
no n.º anterior for superior a dez vezes o valor do salário correspondente à letra
ARTIGO 172.º "Z" da Função Pública, o agente é punido com pena de prisão de um a oito anos.
(falência ou insolvência intencional)
ARTIGO 175.º
1. Quem, por qualquer meio, conduzir uma sociedade à situação de falência ou (perturbação de acto público)
se colocar na situação de insolvente, com intenção de prejudicar os credores, se
a falência ou insolvência for declarada, é punido com pena de prisão de um a oito Quem, com intenção de impedir ou prejudicar os resultados de arrematação judi-
anos. cial ou contra a arrematação ou concurso públicos, conseguir, por meio de dádi-
67 68
va, promessa, violência ou ameaça, que alguém não lance ou não concorra ou 3. Quem utilizar os valores selados ou timbrados ou as estampilhas fiscais com
que, embora lançando e arrematando, o faça em condições de falta de liberdade as características referidas nos números anteriores é punido com pena de prisão
na prática daqueles actos, é punido com prisão até três anos ou com pena de até três anos ou com pena de multa.
multa. 4. A tentativa é punível.

ARTIGO 176.º ARTIGO 179.º


(contrafacção de moda) (contrafacção de selos, cunhos, marcas ou chancelas)

1. Quem praticar contrafacção de moeda ou depreciar moeda metálica legítima, 1. Quem, com intenção de os empregar como autênticos ou intactos, adquirir,
com intenção de a pôr em circulação como verdadeira é punido com prisão de contrafizer ou falsificar selos, cunhos, marcas ou chancelas de qualquer autori-
três a doze anos. dade ou repartição pública é punido com pena de prisão de um a seis anos.
2. Se o agente além de praticar os factos descritos no número anterior, colocar 2. Quem utilizar os objectos referidos no numero anterior sabendo-os falsifica-
efectivamente a moeda em circulação, a pena é agravada de um terço no seu dos ou sem autorização de quem de direito, para causar prejuízo a outra pessoa
valor máximo. ou ao Estado, é punido com prisão até três anos ou pena de multa.
3. Quem, por acordo com o fiscalizador, expuser à venda, puser em circulação ou 3. Se quem utilizar os referidos objectos for o próprio falsificador a pena do nº l
por qualquer outro meio difundir a moeda referida no nº l, é punido com pena de será agravada de um terço no limite máximo.
prisão de três a doze anos. 4. No caso do nº 2 a tentativa é punível.
ARTIGO 177.º
ARTIGO 180.º
(passagem de moda falsa)
(pesos e medidas)
Quem, fora dos casos previstos no nº 3 do artigo anterior, adquirir para pôr em
circulação ou puser efectivamente em circulação, vender ou por qualquer meio 1. Quem, com intenção de prejudicar outra pessoa ou Estado falsificar ou por
difundir a moeda contrafeita ou depreciada, como se de verdadeira se tratasse, é qualquer outro meio alterar ou utilizar depois de praticados tais actos, pesos,
punido com pena de prisão de um a seis anos. medidas, balanças ou outros instrumentos de medida, é punido com prisão até
três anos ou com pena de multa.
ARTIGO 178.º 2. A tentativa é punível.
(contrafacção de valores selados)
ARTIGO 181.º
1. Quem, para os vender, utilizar ou por qualquer outro modo os puser em circu- (apreensão e perda)
lação como legítimos, praticar contrafacção ou falsificação de valores selados ou
timbrados cujo fabrico e fornecimento pertença exclusivamente ao Estado Serão apreendidas e postas fora de uso ou destruídas as moedas contrafeitas, fal-
Guineense, é punido com prisão de dois a oito anos. sificadas ou diferenciadas, e objectos equiparados, assim como os pesos, medi-
2. Quem praticar os factos descritos no número anterior relativamente a estampil- das ou todo e qualquer instrumento destinado à prática dos crimes previstos neste
has postais em uso pelos Correios da Guiné-Bissau é punido com pena de prisão capítulo.
até três anos ou com pena de multa.
69 70
TÍTULO IV ARTIGO 185.º
dos cRimes RelatiVos ao pRocesso (propaganda eleitoral ilícita)
eleitoRal
1. Quem usar meio de propaganda legalmente proibido ou continuar a propagan-
ARTIGO 182.º da eleitoral para além do prazo legalmente estabelecido ou em local proibido é
(fraude no recenseamento) punido com prisão até seis meses ou com pena de multa.
2. Quem impedir o exercício do direito de propaganda eleitoral ou proceder à sua
1. Quem impedir outra pessoa que sabe ter direito a inscrever-se, fizer constar destruição ilegítima é punido com pena de prisão até dois anos ou com pena de
factos que sabe não verdadeiros, omitir factos que devia inscrever ou por qual- multa.
quer outro meio falsificar o recenseamento eleitoral é punido com pena de prisão
até três anos ou com pena de multa. ARTIGO 186º
(obstrução à liberdade de escolha)
2. Se a pessoa for impedida de se inscrever ou convencida a inscrever-se por
meio de violência ou engano astuciosamente provocado a pena aplicável é a de 1. Quem por meio de violência, ameaça de violência ou mediante engano fraud-
prisão até cinco anos. ulento constranger outra pessoa a não votar ou a votar num determinado sentido
é punido com prisão até três anos ou com pena de multa.
3 A tentativa é punível. 2. É aplicável a mesma pena a quem solicitado a auxiliar na votação pessoa invi-
sual ou quem legalmente a tal tiver direito, desrespeitar o sentido de voto que lhe
ARTIGO 183.º for comunicado.
(candidato inelegível) 3. A tentativa é punível.

1. Quem, sabendo que não tem capacidade eleitoral para ser eleito, apresentar a ARTIGO 187.º
sua candidatura, é punido com pena de prisão até três anos ou com pena de multa. (perturbação do acto eleitoral)

2. A tentativa é punível. 1. Quem, por qualquer meio, perturbar o funcionamento da assembleia de voto é
punido com prisão até seis meses ou com pena de multa.
ARTIGO 184.º 2. Se a perturbação resultar de:
(falta de cadernos eleitorais) a) Violência ou ameaça de violência;
b) Tumulto ou ajuntamento populacional junto da assembleia;
Quem, para impedir a realização de acto eleitoral, estando encarregue da elabo- c) Corte intencional de energia eléctrica;
ração ou correcção dos cadernos eleitorais, não proceder à sua execução ou d) Falta de alguém indispensável ao acto, e a realização do acto deva considerar-
impedir que o substituto legal o faça, é punido com pena de prisão até três anos se gravemente afectada se se iniciar ou continuar; o agente é punido com pena de
ou com pena de multa. prisão de um a seis anos.
3. É correspondentemente aplicável o disposto nos números anteriores ao apura-
mento dos resultados após o acto eleitoral.
71 72
ARTIGO 188.º ARTIGO 192.º
(obstrução à fiscalização do acto eleitoral) (Violação do segredo do escrutínio)

1. Quem, por qualquer modo, impedir o representante de qualquer força Quem em acto eleitoral realizado por escrutínio secreto, violar tal segredo,
política, legalmente constituída e concorrente ao acto eleitoral, de exercer as suas tomando ou dando conhecimento do sentido de voto doutra pessoa, é punido com
competências fiscalizadoras é punido com prisão até três anos ou com pena de pena de prisão até um ano ou com pena de multa.
multa.
ARTIGO 193.º
2. A tentativa é punível. (agravação)

ARTIGO 189.º Se quem praticar algum dos crimes previstos no presente título desempenhar
(fraude na votação) funções públicas, nomeadamente no Governo, na Assembleia Nacional Popular,
no Conselho de Estado, nas Forças Armadas, como Magistrado Judicial ou do
1. Quem votar sem ter direito de voto ou o fizer mais de uma vez relativamente Ministério Público nas diversas forças policiais ou nos órgãos administrativos
ao mesmo acto eleitoral é punido com pena de prisão até três anos ou com pena regionais, é punido com as sanções previstas no tipo preenchido elevados os
de multa. respectivos limites para o dobro.

2. Na mesma pena incorre quem permitir, dolosamente, a pratica dos factos TÍTULO V
descritos no número anterior. dos cRimes contRa a Vida em sociedade
3. A tentativa é punível.
CAPÍTULO I
ARTIGO 190.º a famÍlia, a ReliGiÃo e o Respeito pelos
(fraude no escrutínio) moRtos

Quem, por qualquer modo, viciar a contagem dos votos no acto de apuramento ARTIGO 194.º
ou publicação, dos resultados eleitorais é punido com pena de prisão de um a (falsificação do estado civil)
cinco anos.
1. Quem fizer ou omitir declarações em que se baseie o registo de actos civis com
ARTIGO 191.º a intenção de alterar, privar ou encobrir o estado civil ou a posição jurídica famil-
(Recusa de cargo eleitoral) iar doutra pessoa, é punido com pena de prisão até dois anos ou com pena de
multa.
Quem for nomeado para fazer parte das mesas das assembleias de votos e, injus-
tificadamente, recusar assumir ou abandonar essas funções, é punido com pena 2. Na mesma pena incorre o funcionário que efectuar o registo de tais factos,
de prisão até seis meses ou com pena de multa. sabendo-os não verdadeiros.

73 74
ARTIGO 195.º ARTIGO 198.º
(no cumprimento de obrigação alimentar) (perturbação de cerimónia fúnebre)

1. Quem estiver obrigado a prestar alimentos, tenha condições de o fazer e deixar 1. Quem, por meio de violência ou ameaça grave, perturbar ou impedir a real-
de cumprir a obrigação de maneira a colocar cm perigo a satisfação das necessi- ização de cerimónia fúnebre, é punido com prisão até seis meses ou com pena de
dades fundamentais do alimentando, é punido com pena de prisão até três anos multa.
ou com pena de multa, mesmo que o auxílio prestado por outrem afaste o referi-
2. Na mesma pena incorre quem profanar lugar ou objectos destinados ao ceri-
do perigo.
monial fúnebre ou profanar o cadáver.
2. O procedimento criminal depende de queixa. 3. O procedimento criminal depende de queixa.

ARTIGO 196.º CAPÍTULO II


(subtracção de menor) falsificaçÕes
1. Quem subtrair ou se recusar a entregar menor à pessoa a quem estiver confia- ARTIGO 199.º
da a sua guarda ou determinar o menor a fugir, é punido com prisão até três anos (falsificação de documentos ou notação técnica)
ou com pena de multa.
1. Quem, com intenção de causar prejuízo a outra pessoa ou ao Estado, ou de
2. Se os factos descritos no número anterior forem praticados com violência ou obter para si ou para outra pessoa benefício ilegítimo:
qualquer outra ameaça significativa, o limite máximo da pena é aumentada de a) Fabricar documentos, ou notação técnica falsos, falsificar ou alterar docu-
um terço. mento ou abusar da assinatura de outra pessoa para elaborar documento falso;
b) Fizer constar falsamente de documento ou notação técnica facto juridicamente
3. O procedimento criminal depende de queixa. relevante;
c) Atestar falsamente, com base em conhecimentos profissionais, técnicos ou
ARTIGO 197.º científicos, sobre o estado ou qualidade física ou psíquica de pessoa, animais ou
(perturbação de exercício religioso) coisas; ou
d) Usar qualquer dos documentos ou notações técnicas referidos nas alíneas
1. Quem, por meio de violência ou de ameaça grave perturbar ou impedir a rea- anteriores, fabricado ou falsificado ou emitido por outrem;
lização de actos de culto religioso, é punido com prisão até seis meses ou com é punido com pena de prisão até três anos ou com pena de multa.
pena de multa.
2. É equiparada à falsificação de notação técnica a acção perturbadora sobre
2. Na mesma pena incorre quem profanar lugar ou objecto de culto ou veneração aparelhos técnicos ou automáticos por meio da qual se influenciem os resultados
religiosa de forma a causar perturbação da tranquilidade pública. da notação.
3. A tentativa é punível.
3. O procedimento criminal depende de queixa.
75 76
ARTIGO 200.º TÍTULO VI
(falsificação qualificada) dos cRimes contRa a paZ e a oRdem pública
1. Se os factos referidos no nº l do artigo anterior respeitarem a documento autên- ARTIGO 203.º
tico ou com igual força, a testamento cerrado, a vale de correio, a letra de câm- (organização terrorista)
bio, a cheque, outros documentos comerciais transmissíveis por endosso ou a
notação técnica relativa à identificação, em parte ou todo, de veículos 1. Quem promover, fundar, financiar, chefiar ou dirigir grupo, organização ou
automóveis, aeronaves ou barcos, o agente é punido com prisão de dois a oito associação terrorista, é punido com pena de prisão de cinco a vinte anos.
anos.
2. Considera-se grupo, organização ou associação terrorista todo o agrupamento
2. Se os factos descritos no número anterior ou no nº l do artigo 193º, forem pra- de duas ou mais pessoas que, actuando concertadamente, visam prejudicar a inte-
ticados por funcionário, no exercício das suas funções, o agente é punido com gridade ou a independência nacionais, impedir, alterar ou subverter o funciona-
prisão de dois a oito anos. mento das instituições do Estado previstas na Constituição, forçar a autoridade
pública a praticar um acto, a abster-se de o praticar ou a tolerar que se pratique,
ARTIGO 201.º ou a intimidar certas pessoas, grupo de pessoas ou a população em geral medi-
(uso de documento de identificação alheia) ante a prática de crime.

Quem, com intenção de causar prejuízo a outra pessoa ou ao Estado, utilizar do- 3. Quem aderir ao grupo, organização ou associação terrorista ou de qualquer
cumento de identificação de que é titular outra pessoa, é punido com pena de outra forma ajudar a executar ou executar os actos referidos no número anterior,
prisão até seis meses ou com pena de multa. é punido com prisão de três a quinze anos.

4. Quem praticar actos preparatórios da constituição de grupo, organização ou


ARTIGO 202.º
associação terrorista, é punido com pena de prisão de um a dez anos.
(falsificação por funcionário)
ARTIGO 204.º
O funcionário que, no exercício das suas funções:
(tomada de refém)
a) Omitir facto que o documento a que a lei atribuir fé pública se destina a certi- 1. Quem para realizar qualquer das finalidades descritas no artigo anterior, pela
ficar ou autenticar; ou violência ou ameaça de violência, privar outra pessoa da liberdade a mantiver,
b) Intercalar acto ou documento em protocolo, registo ou livro oficial sem contra vontade, em determinados locais ou a impedir de livremente a abandonar
cumprir as formalidades legais, com intenção de causar prejuízo a outra pessoa ou contactar com outra pessoa, é punido com pena de prisão de dez anos a vinte
ou ao Estado, ou de obter para si ou para outra pessoa benefício ilegítimo; é e cinco anos.
punido com pena de prisão até quatro anos. 2. Os actos preparatórios são punidos com prisão de um a dez anos.

3. Se o sujeito passivo da conduta descrita no nº l for titular de algum órgão de


soberania a pena de prisão é de cinco a vinte anos.
77 78
ARTIGO 205.º ARTIGO 208.º
(desvio ou tomada de navio ou aeronave) (instigação à prática de crime)

1. Quem se apoderar ou desviar da sua rota normal navio ou aeronave, é punido 1. Quem, publicamente e por qualquer meio, incitar à prática de um crime, é
com pena de prisão de dois a doze anos. punido com pena de prisão até dois anos ou com pena de multa.
2. Se o navio ou aeronave transportar pessoas na altura em que forem praticados 2. Quem, também publicamente, elogiar ou recompensar quem tiver praticado
os factos descritos no número anterior a pena de prisão é de cinco a quinze anos. algum crime de modo a que, com tal conduta, incite à prática de idênticos crimes,
3. Se da conduta referida nos números anteriores resultar perigo grave para a vida é punido com prisão até dois anos ou com pena de multa.
das pessoas a pena de prisão é de cinco a vinte anos. 3. Se no caso dos números anteriores vier a ser praticado o crime cuja prática o
agente tinha instigado, a pena aplicável, se outra mais grave lhe não correspon-
ARTIGO 206.º der por força de disposição legal, é de um a cinco anos de prisão.
(armas proibidas)
ARTIGO 209º
1. Quem, fora das prescrições legais, fabricar, importar, transportar, vender ou (atentado contra a saúde pública)
ceder a outrem armas de fogo, armas químicas, munições para aquelas armas ou
qualquer tipo de explosivo, é punido com prisão até três anos ou com pena de 1. Quem colocar à venda, administrar ou ceder por qualquer forma a outra pes-
multa. soa produtos alimentares ou farmacêuticos deteriorados e susceptíveis de pôr em
2. Quem praticar os factos descritos no número anterior relativamente a armas de perigo a vida, é punido com prisão de um a dez anos.
guerra, é punido com prisão de dois a oito anos. 2. Se sobrevier a morte por causa do consumo de tais produtos, a pena de prisão
3. A simples detenção porte ou uso de arma de fogo em que o agente não esteja é agravada de um terço nos seus limites.
legalmente autorizado, é punível com pena de prisão até um ano ou com pena de
multa. ARTIGO 210.º
(proibição de comercialização)
ARTIGO 207.º
(associação criminosa) 1. Quem, sem estar habilitado, vender, administrar ou ceder por qualquer forma,
habitualmente, a outras pessoas, produtos farmacêuticos ou outros cujos comér-
1. Quem promover ou fundar grupo, organização ou associação cuja finalidade cio e prescrição sejam reservados a profissionais da saúde, é punido com pena de
ou actividade seja dirigida a prática de crimes, é punido com pena de prisão de prisão até três anos ou com multa.
três a dez anos. 2. Na mesma pena incorre quem, sem estar habilitado ao exercício profissional
2. Quem aderir, apoiar ou participar em qualquer das actividades de tais grupos, de actos médicos os praticar de forma habitual.
é punido com a pena de um a seis anos especialmente atenuada se as circunstân- 3. Se em consequência da prática dos factos descritos no número anterior resul-
cias justificarem. tar perigo para vida doutra pessoa, a pena é de um a cinco anos de prisão.
3. Quem chefiar ou dirigir os grupos referidos nos números anteriores, é punido
com pena de prisão de dois a oito anos.

79 80
ARTIGO 211.º ARTIGO 214.º
(atentado contra a segurança dos transportes) (exercício de direitos políticos)

1. Quem praticar qualquer facto adequado a provocar a falta ou a diminuição da Quem impedir, por violência ou ameaça, a outrem de exercer os seus direitos
segurança em meio de transporte e, deste modo, vier a criar um perigo para a vida políticos, é punido com pena de prisão de três meses até um ano.
ou para a integridade física de outra pessoa, é punido com pena de prisão de um
a dez anos. TÍTULO VII
dos cRimes contRa a seGuRança do estado
2. A negligência relativamente à conduta ou ao perigo referidos no número ante-
rior, é punida com pena de prisão até três anos ou com pena de multa. ARTIGO 215.º
(traição à pátria)
ARTIGO 212.º
(condução perigosa) Quem, por meio de violência, ameaça de violência, usurpação ou abuso de
funções de soberania, impedir ou tentar impedir o exercício da soberania
1. Quem conduzir qualquer veículo em via pública e, por não estar em condições nacional no território ou em parte do território da Guiné-Bissau ou puser em peri-
de o fazer em segurança ou por violar grosseiramente as regras de circulação go a integridade do território nacional, como forma de submissão ou entrega à
rodoviária, criar perigo para a vida ou para a integridade física de outrem, é soberania estrangeira, é punido com pena de prisão de dez a vinte anos.
punido com prisão de um a cinco anos.
ARTIGO 216.º
2. É correspondentemente aplicável o disposto no nº 2 do artigo anterior, sendo (serviço ou colaboração com forças armadas inimigas)
a pena aplicável de prisão até um ano ou multa.
1. O cidadão guineense que colaborar com país ou grupos estrangeiro ou com os
ARTIGO 213.º seus representantes, ou que servir debaixo da bandeira do país estrangeiro
(participação em motim) durante guerra ou acção armada contra a Guiné-Bissau, é punido com pena de
prisão de cinco a vinte anos.
1. Quem tomar parte em motim público, durante o qual forem cometidas colec-
tivamente violências contra pessoas ou propriedades, será punido com prisão de 2. Os actos preparatórios relativos aos factos descritos no número anterior, são
seis meses até um ano, se outra pena mais grave lhe não couber pela participação punidos com pena de prisão de dois a doze anos.
no crime cometido.
3. Quem, sendo guineense ou residente no território nacional, praticar actos ade-
2. A pena de prisão será de um a três anos, se o agente provocou ou dirigiu o quados a ajudar ou facilitar qualquer acção armada ou guerra contra a Guiné-
motim. Bissau por país ou grupo estrangeiro, é punido com pena de prisão de cinco a
quinze anos.
3. Os limites mínimos e máximos de pena elevar-se-ão no caso dos números
anteriores ao dobro se o motim foi armado.
81 82
ARTIGO 217.º bilo de praticar tais factos mais fortemente do que ao cidadão comum, é punido
(sabotagem contra a defesa nacional) com pena de prisão de um a quinze anos.

Quem destruir, danificar ou tornar não utilizável, total ou parcialmente: ARTIGO 220.º
a) Obras ou materiais próprios ou afectos às forças armadas; (infidelidade diplomática)
b) Vias ou meios de comunicação ou de transporte;
c) Quaisquer outras instalações relacionadas com comunicações ou transportes; Quem, representando oficiosamente o Estado guineense, com intenção de preju-
d) Fábricas ou depósitos, com intenção de prejudicar ou colocar em perigo a dicar direitos ou interesses nacionais:
defesa nacional; a) Conduzir negócio de Estado com governo estrangeiro ou organização interna-
é punido com pena de prisão de cinco a quinze anos. cional; ou
b) Assumir compromissos em nome da Guiné-Bissau sem para isso estar
ARTIGO 218.º devidamente autorizado;
(campanha contra esforço pela paz) é punido com pena de prisão de dois a doze anos.

Quem, sendo guineense ou residente no território nacional, em tempo de ARTIGO 221.º


preparação ou de guerra, difundir por qualquer meio, de modo a tornar público, (alteração do estado de direito)
rumores ou afirmações, próprias ou alheias, que saiba serem, total ou parcial-
mente, falsas, para prejudicar o esforço pela paz da Guiné-Bissau ou para auxil- 1. Quem, por meio de violência ou ameaça de violência, tentar destruir, alterar
iar o inimigo estrangeiro, é punido com prisão de dois a oito anos. ou submeter o Estado de direito constitucionalmente estabelecido, é punido com
prisão de cinco a quinze anos.
ARTIGO 219.º 2. Se o facto anterior for praticado por meio de violência armada, o agente é
(Violação de segredo do estado) punido com prisão de cinco a quinze anos.
3. O incitamento público ou a distribuição de armas para a prática dos factos
1. Quem, pondo em perigo o interesse do Estado guineense relativo à sua segu- referidos nos números anteriores é, respectivamente, punido com pena de corre-
rança exterior ou à condução da sua política externa, transmitir, tornar acessível spondência à tentativa.
a pessoa não autorizada ou tornar público facto, documento, plano, objecto, con-
hecimento ou qualquer outra informação que devessem, por causa daquele inter- ARTIGO 222.º
esse, permanecer secretos em relação a país estrangeiro, é punido com pena de (atentado contra o chefe de estado)
prisão de um mês a dez anos.
2. Quem colaborar com governo ou grupo estrangeiro com intenção de praticar 1. Quem atentar contra a vida, a integridade física ou a liberdade do Chefe de
os factos referidos no número anterior ou recrutar ou auxiliar outra pessoa encar- Estado, de quem constitucionalmente o substituir ou de quem tenha sido eleito
regada de os praticar, é punido com a mesma pena do número anterior. para o cargo, mesmo antes de tomar posse, é punido com pena de prisão de cinco
a quinze anos, se ao facto não corresponder pena mais grave por força de outra
3. Se o agente que praticar os factos descritos nos números anteriores exercer disposição legal.
qualquer função política, pública ou militar que, pela sua natureza, devesse ini-
83 84
2. Em caso de consumação de crime contra a vida, a integridade física ou a liber- TÍTULO VIII
dade, o agente é punido com a pena correspondente ao crime praticado agravado dos cRimes contRa a RealiZaçÃo da Justiça
de um terço nos seus limites, sem prejuízo do disposto nos artigos 41º e 44º.
ARTIGO 225.º
ARTIGO 223.º (falsidade por parte de interveniente em acto processual)
(crime contra pessoa que goze de protecção internacional)
1. Quem, num processo judicial perante tribunal ou funcionário competente
1. Quem praticar qualquer crime contra pessoa que goze de protecção interna- como meio de prova, declaração, informações, relatórios ou quaisquer outros
cional quando esta se encontrar no desempenho de funções oficiais na Guiné- documentos, prestar depoimento de parte, intervier como assistente, testemunha,
Bissau, é punido com a pena correspondente ao crime agravada de um terço nos perito técnico, tradutor ou interprete ou prestar declarações à identidade,
seus limites, sem prejuízo do disposto nos artigos 41º e 44º, e desde que haja rec- antecedente criminais, na qualidade de suspeito, prestando declarações e infor-
iprocidade no tratamento penal de tais factos quando as vítimas representare- mações falsas ou elaborando relatório ou quaisquer outros documentos falsos, é
moutros Estados. punido com prisão até quatro anos.
2. Na mesma pena incorre quem, sem justa causa, se recusar a prestar declarações
2. Gozam de protecção internacional para o efeito do disposto no presente e informações ou a elaborar relatórios ou quaisquer outros documentos.
artigo: 3. Se o agente praticar os factos referidos nos números anteriores depois de
advertido das consequências penais a que se expõe, a pena é de um a cinco anos
a) Chefe de Estado, Chefe do Governo ou Ministro dos Negócios Estrangeiros e
de prisão.
membros de família que os acompanhem;
4. Se, em consequência das condutas anteriormente descritas alguém for privado
b) Representante ou funcionário de Estado estrangeiro ou agente de organização da liberdade, o agente é punido com prisão de dois a oito anos.
internacional que, no momento do crime, gozam de protecção especial segundo
o direito internacional e família que os acompanhem. ARTIGO 226.º
(arrependimento)
ARTIGO 224.º
(ultraje de símbolos nacionais) O arrependimento e a retracção do agente que tiver praticado algum dos factos
descritos no artigo anterior antes da falsidade ter sido tomada em conta na
Quem, publicamente, por palavras, gestos ou divulgações de escrito, ou por outro decisão ou ter causado prejuízo a outra pessoa, equivale à desistência.
meio de comunicação com público, ultrajar a República, a bandeira ou hino
nacional, as armas ou emblemas da soberania guineense ou faltar ao respeito que ARTIGO 227.º
lhe é devido, é punido com prisão até três anos. (suborno)

Quem convencer ou tentar convencer outra pessoa, através de dádiva ou


promessa de vantagem patrimonial ou não patrimonial, praticar qualquer dos
factos referidos no artigo 204º, sem que este venha a ser praticado, é punido
com pena de prisão até três anos ou com multa.
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ARTIGO 228.º ARTIGO 231.º
(coacção sobre magistrado) (não promoção)

1. Quem, aproveitando-se do facto de estar investido em cargo de natureza políti- 1. Quem tendo conhecimento da prática de um crime público por determinada
ca, púbica, militar ou policial ameaçar algum magistrado de qualquer mal ou por pessoa e, estando obrigado a participá-lo, não o fizer, é punido com a pena cor-
qualquer outro meio actuar de forma a impedi-lo de exercer livremente as suas respondente ao crime que encobriu, especialmente atenuada.
funções, é punido com prisão de dois a dez anos.
2. Não é de aplicar a atenuação especial referida no número anterior se o crime
2. Se, em consequência da conduta descrita no número anterior, o magistrado encoberto for algum dos regulados.
omitir ou praticar acto em violação de lei expressa e de que resulte prejuízo para
terceiros, a pena é de três a doze anos de prisão. ARTIGO 232.º
(prevaricação)
ARTIGO 229.º
(obstrução à actividade jurisdicional) 1. O funcionário que em qualquer fase dum processo jurisdicional, com intenção
de beneficiar ou prejudicar outra pessoa, praticar qualquer acto no âmbito dos
1. Quem, por qualquer meio, se opuser, dificultar ou impedir o cumprimento ou poderes funcionais de que é titular, conscientemente e contra direito, é punido
execução de alguma decisão judicial transitada em julgado, é punido com pena com pena de prisão de um a seis anos.
de prisão de um a cinco anos.
2. Se o agente que praticar os factos descritos no número anterior for algum dos 2. Se do facto descrito no número anterior resultar a privação da liberdade de
referidos no artigo 219.º, n.º 3, a pena é de dois a dez anos de prisão. uma pessoa ou se o acto se traduzir numa situação de prisão ou detenção ilegal,
a pena é de dois a dez anos de prisão.
ARTIGO 230.º
(denúncia caluniosa) ARTIGO 233.º
(prevaricação do advogado ou solicitador)
1. Quem, por qualquer meio, perante autoridade ou publicamente, com a con-
sciência da falsidade da imputação, denunciar ou lançar sobre determinada pes-
1. O advogado ou solicitador que intencionalmente prejudicar causa entregue ao
soa a suspeita da prática de um crime, com a intenção de que contra ele se instau-
seu patrocínio, é punido com pena de prisão até cinco anos.
re procedimento criminal, é punido com pena de prisão até três anos ou com
multa.
2. O advogado ou solicitador que, na mesma causa, advogar ou exercer solicita-
2. Se a falsa imputação se referir a ilícito contra-ordenacional, ou disciplinar a doria relativamente a pessoas cujos interesses estejam em conflito, com intenção
pena será especialmente atenuada. de actuar em benefício ou prejuízo de algum deles, é punido com prisão de um a
cinco anos.
3. Se os factos referidos nos números anteriores forem dolosamente promovidos
por algum funcionário encarregado de instaurar o respectivo procedimento, as
penas aplicáveis são agravadas de um terço nos seus limites.
87 88
ARTIGO 234.º ARTIGO 237º
(simulação do crime) (Violação do segredo de justiça)

1. Quem, sem o imputar a pessoa determinada, denunciar crime ou fizer criar sus- Quem, sem justa causa, tornar público o teor de acto processual penal abrangido
peita da sua prática à autoridade competente, sabendo que se não verificou, é pelo segredo de justiça ou em que tenha sido decidido excluir a publicidade, é
punido com pena de prisão até dois anos ou com multa. punido com pena de prisão de seis meses a três anos ou com pena de multa.

2. Se o facto respeitar a contravenção, contra-ordenação ou ilícito disciplinar, o TÍTULO IX


agente é punido com pena de prisão até seis meses ou com multa. 3. Se os factos dos cRimes contRa a autoRidade pública
descritos nos números anteriores forem praticados por funcionários encarregues
de instaurar o respectivo procedimento, as penas aplicáveis são agravadas de um ARTIGO 238.º
terço nos seus limites. (obstrução à autoridade pública)

ARTIGO 235.º 1. Quem, por meio de violência ou ameaça grave contra funcionário ou agente de
(favorecimento pessoal) forças militares, militarizados ou policiais, se opuser à prática de acto relativo ao
exercício das suas funções ou constranger à prática de acto contrário aos seus
1. Quem, total ou parcialmente, impedir prestar ou iludir actividade probatória ou deveres, é punido com pena de prisão de um a seis anos.
preventiva de autoridade competente, com intenção ou com consciência de ten-
tar que outra pessoa, que praticou um crime seja submetida a pena ou medida de 2. Se o acto referido no número anterior for efectivamente praticado ou impedi-
segurança, é punido com pena de prisão até três anos ou com multa. do de ser praticado, a pena é de um a dezoito anos de prisão.

2. A tentativa é punível. ARTIGO 239.º


(desobediência)
3. Se o favorecimento for praticado por funcionário que intervenha ou tenha
competência para intervir no processo ou que seja encarregue de executar pena 1. Quem, depois de advertido de que a sua conduta é susceptível de gerar respon-
ou medida de segurança ou para ordenar a má execução, a pena é de um a cinco sabilidade criminal, faltar ou persistir na falta à obediência devida a ordem ou
anos de prisão. mandado legítimos, regularmente comunicados e provenientes de entidade com-
petente, é punido com pena de prisão até cinco anos ou com multa.
ARTIGO 236.º
(não punibilidade do favorecimento) 2. Nos casos em que a disposição legal qualificar o facto como desobediência
qualificada, a pena é de três anos de prisão ou multa.
O agente que procurar com a prática do facto evitar que contra si seja aplicada
ou executada pena ou medida de segurança ou que agir para benefício do côn- 3. Desobediência a concretas proibições ou interdições cominadas em sentença
juge, ascendente, descendente, parente até ao 2º grau, não é punível. criminal como pena acessória ou medidas de segurança não privativa de liber-
dade, é punível com a pena referida no n.º l.
89 90
ARTIGO 240.º da, para conseguirem a sua evasão ou a de terceiro, ou para obrigarem a prática
(tirada de presos) de acto ou à abstenção da sua prática, é punido com prisão de um a oito anos.

1. Quem, por meios ilegais, libertar ou, por qualquer meio, auxiliar a evasão de 2. Se forem conseguidos os intentos de evasão própria ou alheia, a pena é de dois
pessoa legalmente privada da liberdade, é punido com prisão de um a seis anos. a dez anos de prisão.
2. Se os factos descritos forem praticados com uso de violência, utilizando armas
ou com a colaboração de mais de duas pessoas, a pena é de prisão de um a oito ARTIGO 244.º
anos. (usurpação de funções públicas)

ARTIGO 241.º
Quem:
(evasão)
a) Para tal não estiver autorizado, exercer funções ou praticar actos próprios de
1. Quem encontrando-se legalmente privado da liberdade, se evadir, é punido funcionários, de comando militar ou de força policial, arrogando-se, expressa ou
com pena de prisão até três anos. tacitamente, essa qualidade;
2. Se a evasão for conseguida por algum dos meios descritos no nº 2 do artigo b) Continuar no exercício de funções públicas, depois de lhe ter sido oficialmente
anterior, a pena é de um a cinco anos de prisão. notificada demissão ou suspensão de funções; é punido com pena de prisão até
quatro anos.
ARTIGO 242.º
(auxílio de funcionário à evasão) ARTIGO 245.º
(desencaminho ou destruição de objectos sob poder público)
1. O funcionário que auxilie na prática de algum dos factos descritos nos artigos
233º e 234º, é punido com as penas aí indicadas agravadas de um terço nos seus Quem destruir, danificai ou inutilizar, total ou parcialmente, ou por qualquer
limites. forma, subtrair ao poder público, a que está sujeito, documento ou outro objecto
2. Se o funcionário devesse exercer a guarda ou vigilância sobre o evadido e, móvel, bem como coisa que tiver sido arrestada, apreendida ou objecto de
mesmo assim, tiver auxiliado naqueles factos, a pena é agravada de um quarto providência cautelar, é punido com pena de prisão de um a seis anos, se pena
nos seus limites. mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.
3. No caso do número anterior, se a evasão for devida a negligência grosseira por
parte do funcionário encarregue da guarda ou da vigilância do evadido, a pena é ARTIGO 246.º
de prisão até três anos ou multa. (Quebra de marcos e selos)

ARTIGO 243.º Quem abrir, romper ou inutilizar, total ou parcialmente, marcas ou selos, apostos
(motim de presos) legitimamente por funcionário competente, para identificar ou manter inviolável
qualquer coisa, ou para certificar que sobre esta recaiu arresto apreensão ou
1. Quem, encontrando-se legalmente privado da liberdade, concertada e em providência cautelar, é punido com pena de prisão de três anos ou com pena de
comunhão de esforços com outra pessoa nas mesmas circunstâncias, atacarem ou multa.
ameaçarem com violência, quem estiver encarregado da sua vigilância ou guar-
91 92
TÍTULO X ARTIGO 249.º
dos cRimes cometidos no eXeRcÍcio (peculato)
das funçÕes públicas
1. O funcionário que ilegitimamente se apropriar, em proveito próprio ou de
ARTIGO 247.º outra pessoa, de dinheiro ou qualquer coisa móvel, pública ou particular, que lhe
(corrupção passiva) tenha sido entregue, esteja na sua posse ou lhe seja acessível em razão das suas
funções, é punido com pena de prisão de dois a doze anos, se pena mais grave
1. O funcionário que por si, por interposta pessoa com o seu consentimento ou lhe não couber por força de outra disposição legal.
autorização, solicitar ou aceitar, para si ou para terceiro, sem que lhe seja devi- 2. Se o funcionário der de empréstimo, empenhar ou, de qualquer forma, onerar
da, vantagem patrimonial ou não patrimonial, ou a sua promessa, como contra- valores ou objectos referidos no nº l, é punido com pena de prisão até três anos
partida de acto ou omissão contrários aos deveres do cargo, é punido com pena ou com pena de multa, se pena mais grave lhe não couber por força de outra dis-
de prisão de dois a dez anos. posição legal.

2. Se o facto não for executado, o agente é punido com pena até três anos ou com ARTIGO 250.º
pena de multa. (peculato de uso)

3. Se os factos descritos no n.º 1 do presente artigo o forem como contrapartida O funcionário que fizer uso ou permitir que outra pessoa faça uso para fins
de acto ou de omissão não contrárias aos deveres do cargo, o funcionário é alheios àqueles a que se destinem, de veículos ou de outras coisas obter, para si
punido com pena de prisão até três anos ou com multa. ou para terceiro, benefício ilegítimo ou causar prejuízo a outra pessoa, é punido
com prisão até três anos ou com multa, se pena mais grave, lhe não couber por
4. Se o agente, antes da prática do facto, voluntariamente repudiar o oferecimen- força de outra disposição legal.
to ou promessa que aceitar, ou restituir a vantagem, ou tratando-se de coisa
fungível, o seu valor, não será punido.

ARTIGO 248.º
(corrupção activa)

1. Quem por si, por interposta pessoa, com o seu consentimento ou ratificação,
der ou prometer a funcionário, ou a terceiro com conhecimento daquele, van-
tagem patrimonial ou não patrimonial que ao funcionário não seja devida, é
punido com pena de prisão de um mês a cinco anos.

2. Se o fim for o indicado no artigo 242.º, n.º 3, o agente é punido com pena de
prisão até dois anos ou com pena de multa.
93 94
decreto-lei 20/1977 ARTIGO 3.º
infracções antieconómicas e contra a saúde pública
As sociedades civis e comerciais são solidariamente responsáveis pelas multas e
preâmbulo indemnizações a que forem condenados os seus representantes ou empregados,
Considerando que se torna necessário reagir com prontidão contra todas as ten- desde que estes tenham agido nessa qualidade ou no interesse da sociedade.
tativas de alta artificial dos preços pela onda de oportunismo e pela ânsia
insaciável do lucro, geradoras muitas vezes de agravamentos gerais e ilegítimos ARTIGO 4.º
do custo de vida;
São consideradas circunstâncias agravantes, além das estabelecidas no artigo 34º
Considerando ainda que a legislação disciplinadora das infracções antieconómi-
do Código Penal, as seguintes:
cas e contra a saúde pública se encontra actualmente dispersa impondo-se, assim,
a) Ter a inflação influído na subida dos preços no mercado;
a sua condensação numa só diploma, com a introdução de algumas alterações
b) Ter o infractor favorecido interesses estrangeiros, em detrimento da Economia
ditadas pela exigência dos condicionalismos locais;
Nacional;
Sob proposta do Comissariado de Estado do Comércio e Artesanato;
No exercício das atribuições e competências que lhe cabem ao abrigo dos artigos c) Ter a infracção sido praticada em estado de carência ou insuficiência de pro-
46º e 47º da Constituição; dutos ou mercadorias para o abastecimento do País, desde que o seu objecto
O Conselho de Comissários de Estado decreta, e eu promulgo, o seguinte: tenha sido algum desses produtos ou mercadorias;
d) Ter a infracção sido praticada encontrando-se o País em estado de guerra ou
de mobilização preventiva;
das infRacçÕes antieconÓmicas e contRa e) Ter-se o infractor aproveitado do estado de carência do comprador ou do mer-
a saúde pública cado;
CAPÍTULO I f) Ser manifesto o perigo da saúde do consumidor;
g) Ter a infracção permitido alcançar lucros excessivos ou ter sido praticada com
das infRacçÕes e das penas intenção de os obter;
h) Ser grande o volume de negócios sou das existências do infractor.
ARTIGO 1.º
ARTIGO 5.º
É equiparado a comerciante, para efeitos deste diploma, todo o individuo ou
colectividade que, mesmo acidentalmente, compre para revenda, por grosso ou A pena complementar de multa, relativa a cada infracção, será graduada nos ter-
retalho. mos seguintes:
a) No crime de especulação, terá como limite mínimo a quantia de 10.000.00 PG;
ARTIGO 2.º b) Nas outras infracções, não inferior ao dobro do valor da mercadoria que con-
stitui objecto da infracção, com o mínimo de 5.000.00 PG;
Presume-se que aqueles que actuam em nome e por conta de outrem, procedem c) Em qualquer dos caos será superior a 1.000.000.00 PG.
em virtude de instruções recebidas, sem embargo da responsabilidade que pes-
soalmente lhes possa caber.
95 96
ARTIGO 6.º ARTIGO 11.º

Serão declarados perdidos a favor do Estado os produtos ou mercadorias que As medidas preventivas podem ser impostas cumulativamente com as sanções de
constituam objecto das infracções dolosas previstas nos artigos 19.º, 37.º e 38.º. carácter penal ou ser isoladamente decretadas nos termos da legislação respecti-
va, devendo a sua aplicação ser proposta pelo Ministério Público em processo
ARTIGO 7.º organizado por esta entidade ou à mesma remetidos pelos departamentos do
Estado competentes.
São aplicáveis, no domínio das actividades ilícitas a que se refere este decreto, as
medidas de segurança fixadas pelo artigo 70.º Código Penal. ARTIGO 12.º

A aplicação das medidas preventivas tem por fundamento o perigo de actividade


ARTIGO 8.º
delituosa contra a saúde dos consumidores ou contra os interesses da Economia
A medida de interdição do exercício da profissão pode ser imposta a qualquer Nacional, sendo considerados como indicies especialmente reveladores dessa
comerciante, industrial, com as necessárias adaptações, às sociedades civil e perigosidade:
comercial, é além dos efeitos e consequências prescritas no Código Penal, impor- a) O concurso de três condenações por crime dolosos previstos neste decreto;
ta: b) A condenação por crime que revele manifesto desprezo pelos interesses da
a) Encerramento do estabelecimento; Economia Nacional ou da Saúde Pública.
b) A cessação das licenças ou autorizações relacionadas com o exercício da c) A comparticipação voluntária em associação ou acordo destinada a obter, por
profissão e, para vendedores das feiras ou mercados públicos, a perda da con- qualquer modo, a alteração do movimento normal da vida económica ou o
cessão ou proibição de ocupação dos locais de venda; aproveitamento consciente da actividade da associação ou do funcionamento do
c) A suspensão do exercício dos direitos provenientes da inscrição no respective acordo.
departamento competente.
ARTIGO 13.º
ARTIGO 9.º No caso de reincidência, os limites máximo e mínimo da pena de prisão e de
multa nunca podem ser inferiores ao dobro.
Não obsta à aplicação do disposto no número antecedente a transmissão do esta-
belecimento efectuada quer após a perpetração do crime que dê lugar à interdição
ARTIGO 14.º
do exercício da profissão, quer depois da instauração, conhecido o arguido, do
processo de segurança. São equiparadas à reincidência as circunstâncias d) e f) do artigo 4º e qualquer
outra a que o governo, por decreto, temporariamente atribua igual valor.
ARTIGO 10.º
ARTIGO 15.º
O encerramento do estabelecimento em consequência da aplicação de medida de
segurança não constitui justa causa para o despedimento de empregados ou A pena aplicável de prisão será sempre efectiva quando concorra qualquer das
assalariados nem fundamento para a suspensão ou redução do pagamento das circunstâncias referidas no artigo antecedente ou quando concorra alguma cir-
respectivas remuneração. cunstância agravante.
97 98
ARTIGO 16.º consignadas e derem entrada nos locais de descarga no prazo de dez dias relati-
vamente às respeitantes mercadorias ou produtos.
É vedado o exercício clandestino de actividade comercial, em casas residenciais, § 3.º - É equiparado à recusa:
suas dependências ou anexos, mesmo à porta fechada, ficando os transgressors a) O encerramento voluntário do estabelecimento com fim de eximir à venda a
sujeitos à multa de 5.000.00 a 40.000.00 PG. respectiva existência;
§ único. - Em caso de reincidência, os limites mínimos e máximos das multas b) A limitação de venda de mercadorias, fora dos termos previstos na parte final
anteriormente referidas serão elevados para o dobro. da alínea b) do § 1.º, quando essa limitação tenha sido declarada prejudicial pela
entidade competente.
CAPÍTULO II
das infRacçÕes em especial ARTIGO 18.º

SECÇÃO I O crime do açambarcamento é punível com pena de três dias a dois anos e multa.
das infRacçÕes antieconÓmicas § 1.º - Quando houver mera negligência, a pena aplicável será a de prisão de três
dias e dois meses e multa, podendo esta, excepcionalmente, ser reduzida a
ARTIGO 17.º metade.
Comete o crime de açambarcamento aquele que, em prejuízo do abastecimento § 2.º - A tentativa de açambarcamento, bem como a sua frustração serão sempre
regular do mercado, ocultar as existências de mercadorias ou produtos, ou se puníveis.
recusar a vendê-los segundo os usos normais da actividade comercial, industrial
ou agrícola, ou exigir por eles um preço que manifestamente exorbite os preços ARTIGO 19.º
correntes do mercado. Sempre que o Governo determine o racionamento ou estabeleça o condiciona-
§ 1º - Não constitui infracção: mento de quaisquer produtos ou mercadorias, fixando directamente ou por dele-
a) Ter o produtor recusado a venda nas quantidades indispensáveis à satisfação gação em departamento competente as capitações ou os contingentes cuja dis-
das necessidades do abastecimento doméstico ou da exigências normais da tribuição é permitida, aquele que adquirir ou vender quantidade superior às
exploração durante o período necessário à renovação das existências; fixadas incorrerá na pena de multa de 5.000.00 a 10.000.00 PG, se a sanção
b) Ter o comerciante recusado a venda de mercadorias em quantidades suscep- maior, ou mais grave, lhe não couber nos termos da legislação em vigor.
tíveis de prejudicar a justa repartição entre a sua clientela ou manifestamente § 1.º - Em igual pena incorre o produtor que constituir reservas de mercadorias
desproporcionada às necessidades normais do consumo do adquirente. ou produtos racionados ou condicionados, superiores às legalmente permitidas
§ 2º - É equiparado à ocultação: ou na falta de fixação, às necessidades previsíveis do respectivo agregado famil-
a) O armazenamento de mercadorias ou produtos em locais não indicados às iar.
autoridades de fiscalização, quando essa indicação seja devidamente exigida; § 2.º - Quando as mercadorias ou produtos adquiridos, vendidos ou reservados se
b) A recusa ou falsidade da declaração sobre existências, quando exigida pelas destinem à indústria ou ao comércio, a pena aplicável será a multa de 5.000.00 a
autoridades encarregadas da fiscalização; 50.000.00 ou de 2.000.00 a 10.000.00 PG conforme o respectivo valor exceda ou
c) O não levantamento, pelo destinatário, das mercadorias que lhe tenham sido não 2.000.00 PG.
99 100
ARTIGO 20.º b) Um arquivo em que figurarão as facturas e demais documentos que deram
origem aos lançamentos no livro mencionado na alínea anterior.
A omissão ou falsidade de declarações na sequência dos inquéritos ou manifestos
ordenados pelo governo para conhecimento das quantidades existentes de certos ARTIGO 24.º
produtos ou mercadorias, bem como a recusa de quaisquer elementos oficial-
mente exigidos para o mesmo fim, serão puníveis com prisão até 6 meses O crime de especulação será punível nos termos do artigo 20º.
e multa.
§ único. - Quando houver mera negligência, a pena aplicável será a multa de ARTIGO 25.º
2.000.00 a 10.000.00 PG.
É equiparado à tentativa de especulação, a existência para venda, de produtos
que, por unidade, devem ter certo peso, quando seja inferior a esse mesmo peso.
ARTIGO 21.º
§ único. - Quando se mostre não ter havido propósito de obter lucro ilícito, o
constitui crime de especulação:
facto a que se refere o artigo 25.º constituirá mera contravenção, punível com
multa de 2.000.00 a 10.000.00 PG.
a) A venda de produtos ou mercadorias por preço superior ao legalmente fixado,
ou na falta de tabelamento, com margem de lucro líquido superior à que for legal-
ARTIGO 26.º
mente estabelecida;
b) A alteração, sob qualquer pretexto ou por qualquer meio apropriado, dos Sempre que a venda das mercadorias se processe por unidade de peso ou medi-
preços que do regular exercício das actividades económicas o dos regimes legais da, os estabelecimentos devem possuir, conforme os casos, balanças, pesos e
em vigor, normalmente resultariam para mercadorias; medidas legalmente aferidas.
c) A intervenção remunerada de um novo intermediário no ciclo normal de dis- § único. - É obrigatória a pesagem ou a medição à vista do comprador, sempre
tribuição, ainda que não tenha havido lucro ilícito, salvo quando se mostre que que este o exija.
da intervenção não resultou qualquer aumento de preço.
ARTIGO 27.º
ARTIGO 22.º
A contravenção ao disposto no artigo anterior é punível com a multa de 2.000.00
Considera-se preço legalmente fixado para as mercadorias ou produtos, o que a 10.000.00 PG.
lhes tenha sido atribuído em conformidade com o Decreto nº 21/77 que fixa o
regime de preços. ARTIGO 28.º

ARTIGO 23.º São considerados como contravenções puníveis com multa de 2.000.00 a
10.000.00 PG, quando não constituem crime de açambarcamento ou especu-
Para efeitos de fiscalização de preços, os comerciantes organizarão a partir da lação:
data da entrada em vigor do presente decreto: a) A falta de exposição, no estabelecimento do comerciante retalhista, dos
a) Um livro de cálculo de preços de venda do qual conste todos os elementos géneros ou produtos de consumo cuja exibição corresponda aos usos do comér-
necessários para o cumprimento do imposto no decreto; cio ou que seja superiormente determinada;
101 102
sob pena do disposto no § 2.º do artigo 168.º do Código do Processo Penal.
b) A falta de afixação, nos estabelecimentos da mesma natureza, da relação dos ARTIGO 32.º
preços constantes da lista elaborada pelo Comissário do Comércio ou afixação de
etiquetas nos artigos contrariamente à determinação da referida entidade. Sempre que o governo ordena a requisição de mercadorias consideradas indis-
pensáveis ao abastecimento das actividades produtoras ou transformadoras ou ao
ARTIGO 29.º consumo público, a falta de cumprimento da requisição, nos termos estabeleci-
dos, é punível com prisão de três dias a seis meses e multa correspondente.
O fabrico, comércio ou existência para comércio de produtos que, salvo os req-
uisitos de sanidade, não satisfaçam as características legais constitui contra- ARTIGO 33.º
venção punível com multa de 2.000.00 a 10.000.00 PG.
O transporte de mercadorias sujeitas a condicionamento de trânsito sem a apre-
ARTIGO 30.º sentação imediata ou dentro do prazo que razoavelmente for fixado para o efeito
da guia de autorização, constitui contravenção punível com multa de 1.000.00 a
Todo aquele que, em prejuízo do abastecimento público, destruir quaisquer pro- 20.000.00 PG à qual acrescerá a perda da mercadoria nos caos que, atentos o fim
dutos ou mercadorias ou lhes der aplicação diferente da normal, será punido com de transporte e condicionalismo justificativo do regime do condicionalismo, re-
pena de multa de 10.000.00 a 100.000.00 PG. velar maior gravidade.
§ 1.º - Quando houver mera negligência, a pena aplicável será a de multa de
§ único. - São considerados autores da infracção, o dono da mercadoria trans-
2.000.00 a 20.000.00 PG.
portada, bem assim as pessoas que o efectuaram.
§ 2.º - Considera-se sempre feita em prejuízo do abastecimento público, a uti-
lização dos produtos ou mercadorias para fins diferentes dos impostos por lei.
ARTIGO 34.º
ARTIGO 31.º Sempre que certas actividades relativas a quaisquer produtos sejam limitadas,
por determinação publicada em decreto, às pessoas singulares ou colectivas
Quando a exportação de mercadorias estiver, por determinação publicada no
inscritas em determinados organismos, a prática de actos sem a inscrição exigi-
"Boletim Oficial" dependente de licença do Governo, a exportação ou reexpor-
da constitui contravenção punível com pena de multa de 1.000.00 a 25.000.00
tação não autorizada de mercadorias sujeitas a esse regime, será punida com a
PG.
pena de prisão de três meses a dois anos e multa correspondente, sem prejuízo do
procedimento a que houver lugar por contrabando, por desvio ou outras
ARTIGO 35.º
infracções de natureza fiscal.
Fica proibida a venda nos mercados municipais e postos de venda de produtos
§ 1.º - A tentativa, bem como a frustração da infracção a que se refere este arti-
importados salvo os que forem expressamente autorizados por despacho do
go são sempre puníveis.
Comissário de Estado do Comércio e Artesanato.
§ 2.º - Sempre que se verifique infracção ao condicionamento previsto no artigo § único. - A contravenção ao disposto ao número anterior, será punível com a
31.º, o respectivo auto de notícia será lavrado em duplicado remetendo-se uma multa de 2.000.00 a 40.000.00 PG.
das cópias à Procuradoria da República, e outra à entidade aduaneira competente,
103 104
SECÇÃO II ARTIGO 38.º
das infRacçÕes contRa a saúde pública
1. A venda ou exposição à venda, bem como aquisição, transporte ou armazena-
ARTIGO 36.º mento para comércio de géneros alimentícios falsificados, avariados ou corrup-
tos, são puníveis:
Todo aquele que fabricar, manipular, armazenar, transportar ou vender generous a) Com prisão de três dias a um ano de multa correspondente se os generous
alimentícios infringindo as disposições fixadas na lei ou em regulamentos espe- forem, por sua natureza susceptíveis de prejudicar a saúde do consumidor;
ciais para salvaguardar o asseio e higiene, incorrerá na multa de 5.000.00 a b) Com prisão de três a um ano de multa correspondente, se forem simplesmente
50.000.00 PG. impróprias para consumo;
§ único. - Será comunicada às competentes autoridades sanitárias todas as faltas c) Com multa de 2.000.00 a 50.000.00 PG se o delito for ignorado do respective
ao dever geral da mesma natureza. responsável, por negligência.
2. Presume-se que o transporte dos géneros falsificados, avariados ou corruptos
ARTIGO 37.º é sempre feito para comércio quando esses géneros constituam objecto da activi-
dade normal do destinatário.
A falsificação de géneros alimentícios é punível:
a) Com prisão de três dias a dois anos e multa correspondente quando os gener- ARTIGO 39.º
ous falsificados sejam, por sua natureza, susceptíveis de prejudicar a saúde do
consumidor; 1. É proibido expor produtos alimentares sem a respectiva identificação referente
à natureza, origem, nome, qualidade e prazo de validade, quando isso for útil.
b) Com prisão de três dias a dois anos de multa quando, não sendo nocivas à
2. As faltas determinadas pelo não cumprimento do disposto no número anterior,
saúde do consumidor, os géneros falsificados forem todavia, impróprios para o
serão punidas com multa de 5.000.00 a 10.000.00 PG e, em caso de reincidência
consumo;
com trabalho obrigatório até um ano e multa de 50.000.00 PG.
c) Com multa de 2.000.00 a 50.000.00 PG quando sendo a falsificação nociva à
saúde, houver mera negligência do infractor.
ARTIGO 40.º
§ 1.º - Considera-se género alimentício toda a substância ou preparado usado
como alimento ou bebida humana, exceptuadas as drogas medicinais, bem como 1. Todo o individuo que seja dono, gerente ou encarregado de um estabeleci-
toda a substância utilizada na preparação ou composição dos alimentos humanos, mento em que se vendam produtos alimentares, tem por obrigação fiscalizar e
sem exclusão dos simples condimentos. rever, com assiduidade, esses produtos, de forma a que se evite qualquer possí-
vel contaminação.
§ 2.º - A falsificação compreende a substituição dos géneros alimentícios por sub- 2. A mera suspeita de que os produtos existentes em qualquer local do estabelec-
stâncias alimentares ou não, que imitam fraudulentamente as qualidades daque- imento, podem estar avariados, pode legitimar a suspensão da venda.
les (contrafacção) e bem assim a modificação, capaz de induzir o consumidor em 3. No caso de confirmar a suspeita pode o estabelecimento ser encerrado pelo
erro, da sua natureza, composição ou qualidade (alteração). tempo que a fiscalização determinar e os respectivos donos, gerentes ou encar-
regados presos.
4. A pena de prisão por tempo superior a um ano, será de trabalho obrigatório e
105 106
a multa que for aplicada não será inferior à quantia de 10.000.00 PG.
5. No caso de simples negligência, o disposto neste artigo pode ser punido com ARTIGO 45.º
multa até 5.000.00 PG.
As mercadorias apreendidas, logo que se tornem desnecessárias para a instrução
CAPÍTULO III preparatória do processo, poderão ser vendidas por ordem da procuradoria da
das ReGRas de competÊncia e de pRocesso República, ou proposta do comissariado de estado do Comércio e Artesanato,
observando-se o disposto nos artigos 884º e seguintes, do Código de Processo
ARTIGO 41.º Civil, desde que, relativamente a eles, haja:
a) Risco de deterioração;
A preparação e julgamento dos processos por infracção a que este decreto se ref- b) Conveniência de utilização imediata para satisfação das necessidades de
ere, são regulados pelo Código de Processo Penal e legislação complementar, abastecimento da população, da agricultura ou da indústria;
salvo disposições especiais. c) Requerimento do dono para que sejam alienadas.

ARTIGO 42.º § único. - O produto da venda será depositado no banco à ordem do tribunal, a
fim de ser levantado, sem quaisquer encargos, por quem se mostre ter direito a
Compete aos fiscais de actividades económicas, segundo o Decreto n.º 22/77 a ele conforme o resultado do julgamento.
fiscalização das actividades económicas destinadas a impedir a prática ou pro-
mover a repressão das infracções previstas neste decreto, bem como o exercício ARTIGO 46.º
da acção penal para as que tenham a natureza de contravenções.
É sempre obrigatória a prestação de caução nos termos do § 1º do artigo 297º do
ARTIGO 43.º Código do Processo Penal, desde que para garantir a comparência do arguido
essa caução seja legalmente exigível.
As autoridades competentes para proceder à instrução preparatória enviarão sem-
pre, e dentro do prazo de 48 horas, à Procuradoria da República, cópia dos autos
ARTIGO 47.º
e denuncias relativas às infracções previstas no presente decreto, que sera regis-
tada em livro próprio, ficando a aguardar a remessa dos respectivos processos.
Nos caos de justo receio de insolvência do devedor ou de ocultação de bens e da
l único. - A falta de comunicação referida neste artigo é punível nos termos do multa provável fixada por prudente arbítrio do juiz, não seja inferior a 10.000.00
§ 2.º do artigo 168.º do Código de Processo Penal. PG requererá à Procuradoria Geral da República após o despacho de pronúncia
equivalente, o arresto preventivo sobre bens do indiciado, a fim de garantir a
ARTIGO 44.º responsabilidade pecuniária em que ele possa incorrer.

A apreensão de produtos ou mercadorias pode ter lugar quando necessária à § 1.º - O arresto preventivo pode ser ainda requerido durante a instrução
instrução do processo ou a concessão da ilicitude ou ainda nos casos de indícios preparatória quando, além dos pressupostos fixados neste artigo, ocorrerem cir-
de infracção capaz de importar a sua perda. cunstâncias anormais que criem forte presunção de culpabilidade, como sejam a
ausência em parte incerta do arguido, o abandono dos respectivos negócios ou a
107 108
entrega a outrem da direcção do giro comercial. rateio;
d) A concorrência ilícita ou desleal;
§ 2.º - Ao arresto, que será processado por apenso podem ser opostos os meios
e) A celebração de contratos com pessoas não inscritas nos organismos compe-
de defesa previstos no artigo 414º do Código do Processo Civil, salvo quanto ao
tentes, quando, tendo em consideração o objecto do contrato, a sua inscrição seja
facto constitutivo da responsabilidade.
legalmente exigida;
f) A prática de actos lesivos dos interesses ou do bom-nome do respectivo ramo
ARTIGO 48.º
profissional ou da economia nacional.
A existência de caução destinada a garantir o pagamento da parte pecuniária da
condenação, ficará sem efeito ou será convenientemente reduzida, quando o ARTIGO 51.º
arresto assegure total ou parcialmente esse pagamento.
As infracções disciplinares relacionadas com actividades económicas são
§ 1.º - A caução pode ser voluntariamente prestada, a fim de que o arresto fique
aplicáveis as seguintes penas:
sem efeito.
a) Mera advertência;
b) Advertência registada;
§ 2.º - A caução económica requerida antes de efectuado o arresto fará sobrestar
c) Censura;
na realização deste, depois de a respectiva decisão transitar em julgado.
d) Multa até 20.000.00 PG;
e) Encerramento do estabelecimento comercial, industrial ou suspensão da
CAPÍTULO IV actividade exercida pelo infractor até seis meses;
das infRacçÕes contRa a economia f) Suspensão até dois anos do exercício do direito de inscrição nos organismos
nacional competentes;
g) Eliminação da inscrição nos organismos competentes ou interdição do exercí-
ARTIGO 49º
cio da respectiva actividade.
Constitui infracção disciplinar, no domínio da actividade económica, toda a con- § 1.º - A pena estabelecida no nº 5, só será aplicada quando do encerramento não
duta ofensiva, por acção ou omissão, dos princípios reguladores da vida resultar vantagem para o infractor sujeita este ao regime fixado nos artigos 10.º
económica, inscritos na legislação disciplinadora do País. e 11.º, deste decreto.

ARTIGO 50º § 2.º - A aplicação das penas dos n.ºs 3.º e 7.º poderá ser divulgada através dos
órgãos de comunicação social.
Constituem infracção disciplinar, entre outros, os seguintes eventos:
a) A falta ou inexactidão na prestação de informações relativas às actividades ARTIGO 52.º
económicas legalmente exigidas para fins estatísticos ou quaisquer outros;
b) A desobediência às prescrições que fixam prazo para a realização de certas Existirá nos organismos competentes um cadastro disciplinar relativo à activi-
colheitas, modo ou tempo de as prestar ou lançar nos mercados de consumo ou dade económica das pessoas neles inscritos, do qual serão passados os extractos
exportação; que forem requisitados pelos tribunais pelas autoridades com competência para
c) A inobservância dos deveres respeitantes a reservas contingentes e quotas de proceder à instrução preparatória ou por quaisquer outros organismos que neles
109 110
mostrem ter legítimo interesse.

§ 1.º - Serão averbados no cadastro as penas disciplinares aplicadas aos inscritos,


com excepção da mera advertência, devendo ainda constar desse averbamento
decreto-lei 2-b/1993
uma sumária descrição da infracção.
legislação relativa a estupefacientes

§ 2.º - Serão igualmente averbados os louvores ou distinções recebidos por preâmbulo


serviços prestados à Economia Nacional.
Reconhecendo os esforços, a nível mundial, que têm vindo a travar os Governos
na luta contra o cultivo, o tráfico e o consumo da droga, expresso em legislação
ARTIGO 53.º
nacionais e internacionais atinentes; Concordando e harmonizando-se com os
A Procuradoria da República e os serviços de fiscalização comunicarão aos restantes Países, o Conselho de Estado, logo nos primórdios da Independência,
organismos competentes as infracções disciplinares de que tenham conhecimen- compreendendo a dimensão do problema do tráfico e do consumo de estupefa-
to no exercício da sua actividade. cientes, aprovou, pelo Decreto-Lei n.º 1/76 de 21 de Abril, a Lei de combate à
droga;
Promulgado em 14 de Maio de 1977.
Volvidos, porém, dezasseis anos sobre o início da vigência daquele diploma
O Presidente do Conselho de Estado, Luiz Cabral. impõe, a prática, proceder não apenas a revisão e adequação de alguma das medi-
das no anterior diploma consagradas, mas também ajustamentos estruturais a até
O Comissário Principal, Francisco Mendes.
institucionais;
O Comissário de Estado do Comércio e Artesanato, Armando Ramos. A crescer ao acima exposto consagra-se uma das maiores preocupações do
Programa das Nações Unidas para o Controle Internacional da Droga (PNUCID),
que é o da harmonização da legislação Antidroga a nível da África e do Planeta.

Posto estar harmonizado o presente projecto com a legislação daquele departa-


mento das Nações Unidas; Nesta conformidade;

O Conselho de Estado decreta nos termos do n.º 2 do artigo 64º da Constituição


para valer como lei, o seguinte:

TÍTULO I
disposiçÕes GeRais

ARTIGO 1.º
(direito das convenções e tabelas)

l. As normas do presente decreto-lei são interpretadas de harmonia com as con-


111 113
venções relativas a estupefacientes, substâncias psicotrópicas ou precursores, rat- ou preparações compreendidas nas tabelas I e II, é punido com pena de prisão 12
ificadas ou a ratificar pela Guiné-Bissau. anos.
2. As referências neste decreto-lei a tabelas de estupefacientes, substâncias psi- 2. Quem agindo em contrário de autorização concedida, ilicitamente ceder, intro-
cotrópicas ou precursores entendem-se reportadas às tabelas anexas as quais são duzir ou diligenciar por que outrem introduza no comércio plantas, substâncias
obrigatoriamente actualizadas nos termos aí previstos. 3. Para efeito de aplicação ou preparações referidas no número anterior, é punido com pena de prisão de 3
das disposições do presente decreto-lei, estabelece-se uma distinção entre "droga a 15 anos.
de alto risco", representadas pelo conjunto das plantas e substâncias constantes
dos quadros I e II, "drogas de risco", representadas pelo conjunto das plantas e 3. Na pena prevista no número anterior aquele que cultivar plantas, produzir ou
substâncias constantes do quadro III e precursores, representados pelas substân- fabricar substâncias ou preparações diversas das que constam do título de autori-
cias classificadas no quadro IV. zação.

ARTIGO 2.º ARTIGO 4.º


(definições) (drogas de risco)

No presente decreto-lei: Quem, sem encontrar autorizado, praticar alguma das acções referidas no nº 1 do
a) As expressões "abuso de droga" e "uso ilícito" significam o uso de drogas
artigo 3º, respeitante a drogas incluídas na tabela III, é punido com pena de prisão
proibidas e o uso sem receita médica de outras drogas colocadas sob controlo no
de 2 a 8 anos.
território nacional;
b) O termo "toxicodependente" designa a pessoa em estado de dependência físi-
ARTIGO 5.º
ca e ou psíquica em face de uma droga colocada sob controlo no território
(equipamentos, materiais e precursores)
nacional.
1. Quem, sem se encontrar autorizado, produzir, fabricar, extrair, preparar, ofer-
TÍTULO II ecer, puser à venda, vender, distribuir, comprar, ceder ou por qualquer título rece-
pRoduçÃo e tRáfico ilÍcitos de substÂncia ber, proporcionar a outrem, transportar, importar exportar, fizer transitar equipa-
sob contRolo mentos, materiais ou substâncias inscritas na tabela IV, sabendo que são ou vão
ser utilizados no cultivo, produção ou fabrico ilícitos de estupefacientes ou sub-
CAPÍTULO I
stâncias psicotrópicas, é punido com pena de prisão de l a 10 anos.
incRiminaçÕes e penas pRincipais
ARTIGO 3.º 2. Quem, sem se encontrar autorizado, detiver, a qual quer título, equipamentos,
(drogas de alto risco) materiais ou substâncias inscritas na tabela IV, sabendo que são ou vão ser uti-
lizados no cultivo, produção ou fabrico ilícitos de estupefacientes ou substâncias
1. Quem, sem se encontrar autorizado, cultivar, produzir, fabricar, extrair, psicotrópicas, é púnico com pena de prisão de 1 a 5 anos.
preparar, oferecer, puser à venda, vender, distribuir, comprar, ceder ou por qual-
quer título receber, proporcionar a outrem, transportar, importar, fizer transitar ou
3. Se o agente beneficia de autorização, é punido:
ilicitamente detiver, fora dos casos previstos no artigo 20º, plantas, substâncias
114 115
a) No caso do n.º l, com pena de prisão de l a 12 anos; soas;
b) No caso do n.º 2, com pena de prisão de l a 8 anos. c) O agente obteve ou procurava obter avultada compensação remuneratória;
ARTIGO 6.º d) O agente for funcionário incumbido da prevenção ou repressão dessas
(conversão, transferência ou dissimulação de bens ou produtos) infracções;
e) O agente for médico, farmacêutico ou qualquer outro técnico de saúde, fun-
1. Quem, sabendo que os bens ou produtos são provenientes da prática, sob qual- cionário das alfândegas, dos serviços prisionais ou dos serviços de reinserção
quer forma de comparticipação, de infracção prevista nos artigos 3.º, 4.º, 5.º, 8.º social, trabalhadores dos correios, telégrafos, telefones ou telecomunicações,
e 9.º: docente, educador ou trabalhador de estabelecimento de educação ou trabalhador
a) Converte, transfere, auxilia ou facilita alguma operação de conversão ou trans- de serviços ou instituições de acção social, e o facto for praticado no exercício
ferência desses bens ou produtos, no todo ou em parte, directa ou indirectamente, da sua profissão;
com o fim de ocultar ou dissimular a sua origem ilícita ou de auxiliar uma pes- f) O agente participar em outras actividades criminosas organizadas, de âmbito
soa implicada na prática de qualquer uma dessas infracções a eximir-se às con- internacional;
sequências jurídicas dos seus actos, é punido com pena de prisão de 2 a 12 anos; g) O agente participar em outras actividades ilegais facilitadas pela prática da
b) Oculta ou dissimula a verdadeira natureza, origem, localização, disposição, infracção;
movimentação, propriedade desses bens ou produtos ou de direitos a eles rela- h) A infracção tiver sido cometida em instalações de serviço de tratamento de
tivos, é punido com pena de prisão de 2 a 10 anos; consumidores de droga, de reinserção social, de serviços ou instituições de acção
c) Os adquire ou recebe a qualquer título utiliza, detém ou conserva, é punido social, em estabelecimento prisional, unidade militar, estabelecimento de edu-
com pena de prisão de l a 5 anos. cação, ou em outros locais onde os alunos ou estudantes se dediquem à prática
de actividades educativas, desportivas ou sociais, ou na sua imediações;
2. A punição pelos crimes previstos no número anterior não excederá a aplicá- i) O agente utilizar a colaboração, por qualquer forma, de menores ou de dimin-
vel às correspondentes infracções dos artigos 3.º a 5º, 8.º e 93. A punição pelos uídos psíquicos;
crimes previstos no n.º l tem lugar ainda que os factos referidos nos artigos 3º a j) O agente actuar como membro de bando destinado a prática reiterada dos
5.º, 8.º e 9.º, hajam sido praticados fora do território nacional. crimes previstos nos artigos 3.º a 6.º, com colaboração de, pelo menos, outro
membro de bando;
CAPÍTULO II l) As substâncias ou preparações foram corrompidas, alteradas ou adulteradas,
aGRaVaçÃo das penas por manipulação ou mistura, aumentando o perigo para a vida ou para a integri-
dade física de outrem.
ARTIGO 7.º
(causas de agravação) ARTIGO 8.º
(traficante-consumidor)
As penas previstas nos artigos 3.º a 6.º, são aumentadas de um quarto nos seus
limites mínimo e máximo se: 1. Quando, pela prática de algum dos factos referidos no artigo 3.º, o agente tiver
a) As substâncias ou preparações foram entregues ou se destinavam a menores por finalidade exclusiva conseguir plantas, substâncias ou preparações para uso
ou diminuídos psíquicos; pessoal, a pena é de prisão até 2 anos.
b) As substâncias ou preparações foram distribuídas por grande número de pes- 2. A tentativa é punível.
116 117
3. Não é aplicável o disposto no n.º l, mas as deposições gerais deste diploma, b) No caso do n.º 2, com pena de prisão de l a 6 anos.
quando o agente detiver plantas, substâncias ou preparações em quantidade que
exceda a necessária para o consumo médio individual durante o período de 5 ARTIGO 11.º
dias. (incitamento)

ARTIGO 9.º Aqueles que, por qualquer meio, incitarem ao cometimento de um dos delitos
(abuso do exercido de profissão) previstos nos artigos 3.º a 6.º e 8.º, são punidos com a pena prevista para a
infracção respectiva.
1. As penas previstas nos artigos 3.º e 4.º são aplicadas ao médico que passé
ARTIGO 12.º
receitas, ministre ou entregue substâncias ou preparações aí indicadas, com fim
(incitamento ao uso de estupefaciente ou substâncias psicotrópicas)
não terapêutico.
1. Quem induzir, incitar ou instigar outra pessoa, em público ou em privado, ou
2. As mesmas penas são aplicadas ao farmacêutico ou a quem o substitua na sua por qualquer modo facilitar o uso ilícito de plantas, substância ou preparações
ausência ou impedimento que vender ou entregar aquelas substâncias ou compreendidas nas tabelas I e II, é punido com pena de prisão até 3 anos.
preparações para fim não terapêutico. 2. Se se tratar de substâncias ou preparações compreendida na tabela III, a pena
é de prisão até l ano.
3. Em caso de condenação nos termos dos números anteriores, o tribunal comu- 3. Os limites mínimo e máximo das penas são aumentados de um terço se:
nica as decisões à Ordem dos Médicos, à Ordem dos Farmacêuticos e ao a) Os factos foram praticados em prejuízo de menor, diminuído psíquico ou de
Ministério da Saúde. pessoa que se encontrava ao cuidado do agente do crime para tratamento, edu-
cação, instrução, vigilância ou guarda;
ARTIGO 10.º b) Ocorreu alguma das circunstâncias previstas nas alíneas d), e) ou h) do artigo
(associações criminosas) 7.º.
l. Quem promover, fundar ou financiar grupo, organização ou associação de duas ARTIGO 13.º
ou mais pessoas que actuando concertadamente, vise praticar algum dos crimes (tráfico e consumo em lugares públicos ou de reunião)
previstos nos artigos 3.º a 6.º, é punido com pena de prisão de 4 a 10 anos.
2. Quem prestar colaboração, directa ou indirecta, aderir ou apoiar o grupo, orga- 1. Quem, sendo proprietário, gerente, director ou, por qualquer título, explore
nização ou associação referidos no número anterior, é punido com pena de prisão hotel, restaurante, café, taberna, clube, casa ou recinto de reunião, de espectácu-
de l a 5 anos. lo ou de diversão, consentir que esse lugar seja utilizado para o tráfico ou uso
3. Incorre na pena de 6 a 14 anos de prisão quem chefiar ou dirigir grupo, orga- ilícito de plantas, substância ou preparações incluídas nas tabelas I a III, é punido
nização ou associação referidos o n.º l. com pena de prisão de l a 6 anos.
4. Se o grupo, organização ou associação tiver como finalidade ou actividade a 2. Quem, tendo ao seu dispor edifício, recinto vedado ou veículo, consente que
conversão, transferência, dissimulação ou receptação de bens ou produtos dos seja habitualmente utilizado para o tráfico ou uso ilícito de plantas, substâncias
crimes previstos nos artigos 3.º a 6.º, o agente é punido: ou preparações incluídas nas tabelas I a III, é punido com pena de prisão de l a 5
a) Nos casos dos n.ºs l e 3, com pena de prisão de 2 a 6 anos; anos.
118 119
3. Sem prejuízo do disposto nos números anteriores, o agente que, após notifi- que o resultado que a lei quer evitar se verifique, ou auxiliar concretamente as
cação nos termos do nº 4, não tomar as medidas adequadas para evitar que os autoridades na recolha de provas decisivas para a identificação ou a captura de
lugares neles mencionados sejam utilizados para o tráfico ou o uso ilícito de outros responsáveis, particularmente tratando-se de grupos, organizações ou
plantas, substâncias ou preparações incluídas nas tabelas I a III, é punido com associações pode a pena ser-lhe especialmente atenuada ou ter lugar a dispensa
pena de prisão até 5 anos. de pena.
4. O disposto no número anterior só é aplicável após duas apreensões de plantas,
substâncias ou preparações incluídas nas tabelas I a III, realizadas por autoridade CAPÍTULO IV
judiciária ou por órgão de polícia criminal, devidamente notificadas ao agente medidas e penas acessÓRias
referido nos n.ºs l e 2, e não mediando entre elas período superior a um ano, ainda
que sem identificação dos detentores. ARTIGO 16.º
5. Verificadas as condições referidas nos n.ºs 3 e 4 a autoridade competente para (perda de bens ou direitos relacionados com o facto)
a investigação dá conhecimento dos factos à autoridade administrativa que con-
cedeu a autorização de abertura do estabelecimento, que decidirá sobre o encer- 1. Os tribunais declaram perdidas a favor do Estado as plantas e substâncias
ramento. apreendidas em virtude da prática de infracção prevista no presente diploma, que
não tiverem sido destruídas ou entregues a organismo autorizado para a sua uti-
ARTIGO 14.º lização lícita, ainda que nenhuma pessoa determinada possa ser punida pelo
(desobediência qualificada) facto.
2. Os tribunais declaram igualmente perdidos a favor do Estado as instalações,
1. Quem se opuser a actos de fiscalização ou se negar a exibir os documentos materiais, equipamentos e outros bens móveis utilizados ou destinados a ser uti-
exigidos depois de advertidos das consequências penais da sua conduta, é punido lizados para a prática da infracção, sem prejuízo dos direitos de terceiros de boa
com a pena correspondente ao crime de desobediência qualificada. fé, bem como as recompensas dadas ou prometidas aos agentes da infracção.
2. Incorre em igual pena, quem não cumprir em tempo as obrigações de partici-
pação urgente de subtracção ou extravio de substância ou documentos referidos ARTIGO 17.º
no diploma anteriormente mencionado. (bens transformados, convertidos ou misturados)

CAPÍTULO III l. Nos casos previstos no presente diploma, os tribunais ordenam ainda a perda a
atenuaçÃo ou isençÃo de pena favor do Estado dos produtos provenientes da infracção, directamente adquiridos
em situaçÕes especiais pelos agentes, para si ou para outrem, dos bens móveis ou imóveis nos quais
foram transformados ou convertidos e, até ao montante do valor estimado dos
ARTIGO 15.º produtos em causa, dos bens adquiridos legitimamente com os quais os ditos pro-
(atenuação ou dispensa de pena) dutos foram misturados, bem como dos rendimentos, juros, lucros e outras van-
tagens extraídas desses produtos, dos bens nos quais estes foram transformados
Se, nos casos previstos nos artigos 3.º a 6.º, 9.º e 10.º, o agente abandoner vol- ou investidos, ou bens com que tenham sido misturados.
untariamente a sua actividade, afastar ou fizer diminuir por forma considerável o 2. Se os direitos, objecto ou vantagens referidos no número anterior não puderem
perigo produzido pela conduta, impedir ou se esforçar seriamente por impeder ser apropriados em espécie, a perda é substituída pelo pagamento ao Estado do
120 121
respectivo valor. nistrativamente.

3. O disposto nos números anteriores aplica-se aos direitos, objectos ou vanta- TÍTULO III
gens obtidos mediante transacção ou troca com os direitos, objecto, objectos ou consumo de dRoGa
vantagens directamente conseguidos por meio da infracção.
tRatamento da toXicodependÊncia
ARTIGO 18.º
(destino dos bens declarados perdidos a favor do estado) ARTIGO 20.º
(consumo)
1. Os bens e produtos declarados perdidos a favor do Estado nos termos dos arti-
gos anteriores ou montante proveniente da sua venda, são utilizados em acções e l. Quem consumir ou, para o seu consumo, cultivar, adquirir ou detiver plantas,
medidas de prevenção do consumo de droga, de tratamento e reinserção de tox- substâncias ou preparações compreendidas nas tabelas I a III cuja fraca quanti-
icodependentes e de combate ao tráfico. dade permitida considera que se destinavam ao seu consumo pessoal, é punido:
a) Se se trata de planta ou substância classificada de alto risco, incluindo o oléo
2. A forma e percentagem de distribuição dos bens e produtos são estabelecidas
de cannabis, com a pena de prisão de 2 meses a l ano.
por decreto do Governo.
b) Se se trata de um derivado da planta da cannabis diferente de óleo de cannabis,
3. Na falta de acordo ou tratado, os bens e produtos apreendidos a solicitação de
com a pena de prisão de l mês a 6 meses.
autoridades de Estado estrangeiro ou os fundos provenientes da sua venda, per-
c) Se se trata de planta ou substância classificada como droga de risco, com pena
tencem ao Estado onde se encontrava no momento da apreensão.
de prisão de 15 dias a 3 meses.
2. O interessado pode ser dispensado de pena se cumulativamente preencher os
ARTIGO 19.º
seguintes requisitos:
(expulsão de estrangeiros e encerramento de estabelecimento)
a) Não tiver atingido a maioridade;
1. Sem prejuízo do disposto no artigo 24.º, em caso de condenação por crime de b) Não for reincidente;
tráfico previsto no presente diploma, se o arguido for estrangeiro, o tribunal pode c) Mediante declaração solene perante o Magistrado se comprometer a não
ordenar a sua expulsão do país, por período não inferior a 10 anos. recomeçar.

ARTIGO 21.º
2. Na sentença condenatória pela prática de crime previsto no artigo 13.º, e inde-
(tratamento espontâneo e atendimento de consumidores)
pendentemente da interdição de profissão ou actividade, pode ser decretado o
encerramento do estabelecimento ou lugar público onde os factos tenham ocor- 1. Quem utilize ilicitamente, para consumo individual, plantas, substâncias ou
ridos, pelo período de 1 a 5 anos. preparações compreendidas nas tabelas I a III e solicite a assistência de serviços
de saúde do Estado ou particulares terá a garantia de anonimato.
3. Tendo havido prévio encerramento ordenado judicial ou administrativamente, 2. Os médicos, técnicos e restante pessoal do estabelecimento que assista o
o período decorridos será levado em conta na sentença. paciente estão sujeitos ao dever de segredo profissional, não sendo obrigados a
depor em tribunal ou a prestar informações às entidades policiais sobre a
4. Se o réu for absolvido cessará imediatamente o encerramento ordenado admi- natureza e evolução do processo terapêutico.
122 123
3. O Ministério da Saúde desenvolverá, através dos serviços respectivos, as TÍTULO IV
acções necessárias à prestação de atendimento a toxicodependentes ou outros leGislaçÃo subsidiáRia
consumidores que se apresentam espontaneamente e fiscalizará as condições em
que as entidades privadas atendem os toxicodependentes. CAPÍTULO I
leGislaçÃo penal e pRocessual
ARTIGO 22.º
(suspensão da pena e obrigação de tratamento) ARTIGO 24.º
(legislação penal)
l. Se o arguido tiver sido condenado pela prática do crime previsto no artigo 20º ou
de outro que com ele se encontre numa relação directa de conexão e tiver sido con-
Na falta de disposição específica do presente diploma são aplicáveis, subsidiari-
siderado toxicodependente, pode o tribunal suspender a execução da pena de acordo
amente, as disposições da parte geral do Código penal e legislação complemen-
com a lei geral, sob condição, para além do outros deveres ou regras de conduta ade-
tar.
quados, de se sujeitar a tratamento ou a internamento em estabelecimento apropria-
do, o que comprovará pela forma e no tempo que o tribunal determinar. ARTIGO 25.º
2. Se durante o período da suspensão da execução da pena o toxicodependente (aplicação da lei penal nacional)
culposamente não se sujeitar ao tratamento ou ao internamento ou deixar de
cumprir qualquer dos outros deveres ou regras de conduta impostos pelo tribu- Para efeitos do presente diploma, a lei penal da Guiné-Bissau é ainda aplicável a
nal, aplica-se o disposto na lei penal para a falta de cumprimento desses deveres factos cometidos fora do território nacional:
ou regras de conduta. a) Quando praticados por estrangeiros, desde que o agente se encontre em ter-
3. Revogada a suspensão, o cumprimento da pena terá lugar, de preferência em ritório nacional, e não seja extraditado;
zona apropriada do estabelecimento prisional, sendo prestada a assistência médi- b) Sob reserva de acordos concluídos entre Estado, quando praticados a bordo de
ca necessária. navio em relação ao qual o Estado do pavilhão autorizou o Estado da Guiné-
4. Pode, com as devidas adaptações, ser aplicados o regime de prova. Bissau a examinar, a visitar ou a tomar, em caso de descoberta de provas de par-
ticipação em tráfico ilícito, as medidas apropriadas face ao navio, às pessoas a
ARTIGO 23.º bordo e à carga.
(tratamento no âmbito de processo pendente) ARTIGO 26.º
(medidas respeitantes a menores)
1. Sempre que o tratamento, em qualquer das modalidades seguidas, decorra no
âmbito de um processo pendente em tribunal, o médico ou o estabelecimento Compete aos tribunais com jurisdição na área de menores a aplicação das medi-
enviam, de 3 em 3 meses, se outro período não for fixado, uma informação sobre das previstas neste diploma, com as devidas adaptações, quando a pessoa a elas
a evolução da pessoa a ele sujeita, com respeito pela confidencialidade da relação sujeita for menor, nos termos da legislação especial de menores, e sem prejuízo
terapêutica, podendo sugerir as medidas que entendam convenientes. da aplicação pelos tribunais comuns da legislação respeitante a jovens dos 16 aos
2. Após a recepção da informação referida no número anterior, o tribunal pro- 21 anos.
nuncia-se, se o entender necessário, sobre a situação processual do visado.
124 125
perícia.
ARTIGO 27.º 3. A revista é efectuada pelo funcionário habilitado a constar a infracção, o qual
(legislação processual penal) relatará por escrito à autoridade judiciária competente, no prazo máximo de 48
horas, o resultado da diligência.
Na falta de disposição específica do presente diploma, são aplicáveis subsidiari- 4. Quem, depois de devidamente advertido das consequências penais do seu acto,
amente as normas do Código de Processo Penal e legislação complementar. se recusar a ser submetido a revista ou a perícia autorizada nos termos do número
anterior, é punido com pena de prisão até 2 anos.
CAPÍTULO II
disposiçÕes especiais de pRocesso ARTIGO 30.º
(sistema financeiro e bancário)
ARTIGO 28.º
1. Sempre que haja indícios sérios de que um individuo suficientemente identifi-
(buscas e apreensões)
cado utiliza ou utilizou o sistema financeiro, bancário ou instituições similares,
para efectuar operações relacionadas com prática das infracções previstas nos
1. As visitas, buscas e apreensões aos locais onde sejam fabricadas, transfor-
artigos 3.º a 6.º e 10.º, a autoridade judiciária competente pode autorizar, sem
madas ou armazenadas ilicitamente droga de alto risco, droga de risco ou pre-
que o segredo profissional ou bancário lhe possa ser oposto:
cursores, equipamentos e materiais destinados à cultura, produção ou fabrico ilíc-
a) A colocação sob vigilância, por período determinado, de contas bancárias;
ito das mesmas, são permitidas a qualquer hora do dia ou da noite.
b) O acesso por período determinado a sistema informáticos usados naquelas
2. Às diligências a efectuar em casa de habitação são precedidas de autorização
operações;
escrita da autoridade judiciária competente, nos termos das leis de processo.
c) A exibição ou fornecimento de quaisquer informações ou documentos finan-
3. Em caso de infracções previstas no presente diploma, as drogas e precursors
ceiros, bancários, fiscais ou comerciais.
são imediatamente apreendidos, o mesmo se fazendo quanto a instalações, mate-
2. Os estabelecimentos financeiros bancários e instituições similares, públicos ou
riais, equipamentos e outros bens móveis suspeitos de terem sido utilizados ou
privados, podem, por sua iniciativa, alertar as autoridades judiciárias compe-
de se destinarem a ser utilizados para a prática do crime, somas e valores mobil-
tentes sobre as operações que suspeitem relacionadas com a prática das
iários suspeitos de proveniência directa ou indirecta da infracção, bem como de
infracções referidas no n.º l, não constituindo tal procedimento uma violação do
todosos documentos que facilitem a sua prova ou a culpabilidade dos seus
segredo profissional ou bancário, nem implicando responsabilidade civil.
autores, sem que o segredo possa ser invocado.
ARTIGO 31.º
ARTIGO 29.º
(entregas controladas)
(Revista e perícia)
l. Pode ser autorizada, caso a caso, pelo Ministério Público, a não actuação da
l. Quando houver indícios sérios de quem alguém oculta ou transporta no seu Policia Judiciária sobre os portadores de substâncias estupefacientes ou psi-
corpo estupefacientes ou substâncias psicotrópicas é ordenada revista e, se cotrópicas em trânsito por Guiné-Bissau com a finalidade de proporcionar, em
necessário, proceder-se a perícia. colaboração com o país ou países destinatários e outro eventuais países de trân-
2. O visado pode ser conduzido a unidade hospitalar ou a outro estabelecimento sito, a identificação e arguição do maior número de participantes nas diversas
adequado e aí permanecer pelo tempo estritamente necessário à realização da operações de tráfico e distribuição, mas sem prejuízo de exercício da acção penal
126 127
pelos factos aos quais a lei nacional é aplicável.
2. A autorização só é concedida a pedido de país destinatário, desde que: CAPÍTULO III
a) Seja conhecido detalhadamente o itinerário provável dos portadores e a iden- disposiçÕes de natuReZa inVestiGatÓRia
tificação suficiente destes;
b) Seja garantida pelas autoridades competentes dos países de destino e dos paí- ARTIGO 33.º
ses de trânsito a segurança das substâncias contra riscos de fuga ou extravio; (investigação criminal)
c) As autoridades judiciárias competentes dos países de destino ou de trânsito se
comprometam a comunicar, com urgência, informação pormenorizada sobre os A investigação do tráfico ilícito de plantas, substâncias, preparações e precursors
resultados da operação e os pormenores da acção desenvolvidas por cada um dos compreendidos nas tabelas anexas ao presente diploma é da competência exclu-
agentes da prática dos crimes, especialmente dos que agiram na Guiné-Bissau. siva da Polícia Judiciária.
3. Apesar de concedida a autorização mencionada anteriormente, a Policia
Judiciária intervém se as margens de segurança tiverem diminuído sensivel- ARTIGO 34.º
mente, se se verificar alteração imprevista de itinerário ou qualquer outra cir- (conduta não punível)
cunstânciaque dificulte a futura apreensão das substâncias e a captura dos
agentes: se aquela intervenção não tiver sido comunicada previamente à entidade 1. Não é punível a conduta do funcionário de investigação criminal que, para fins
que concede a autorização, é-o nas 24 horas seguintes, mediante relato escrito. de inquérito e sem revelação da sua qualidade e identidade, aceitar directamente
4. Por acordo com o país de destino, as substâncias em trânsito podem ser sub- ou por intermédio de um terceiro a entrega de estupefacientes ou substâncias psi-
stituídas parcialmente por outras inócuas, de tal se lavrando o respectivo auto. cotrópicas.
5. Os contactos internacionais podem ser efectuados através do Gabinete 2. O relato de tais factos é junto ao processo no prazo máximo de 24 horas.
Nacional da Interpol.
6. Qualquer entidade que receba pedidos de entregas controladas canaliza-os ARTIGO 35.º
imediatamente para a Polícia Judiciária para execução. (protecção das fontes de informação)

1. Nenhum funcionário de investigação criminal, declarante ou testemunha, é


ARTIGO 32.º
obrigado a revelar ao tribunal a identificação ou qualquer elemento que leve à
(prisão preventiva)
identificação de alguém que tenha auxiliado a polícia na descoberta de infracção
l. Sempre que o crime imputado for de tráfico de droga desvio de precursores, prevista no presente diploma.
branqueamento de capitais ou de associação criminosa, e o arguido se encontre 2. Se, no decurso da audiência de julgamento, o tribunal se convencer que a pes-
preso preventivamente, ao ponderar a sua libertação, o juiz tomará especialmente soa que auxiliou a polícia transmitiu dados ou informações que sabia ou devia
em conta os recursos económicos do arguido utilizáveis para suportar a quebra saber serem falsos, pode obrigar à revelação da sua identidade e à inquirição em
da caução e o perigo de continuação da actividade criminosa, em termos audiência dela.
nacionais e internacionais. 3. Na situação prevista na parte final do número anterior, o presidente do tribu-
2. Antes de se pronunciar sobre a subsistência dos pressupostos da prisão pre- nal pode decidir a exclusão ou restrição da publicidade da audiência.
ventiva, o juiz recolherá a informação actualizada que possa interessar ao reex-
ame daqueles pressupostos.
128 129
3. O pedido pode ser apresentado através do Gabinete Nacional da Interpol.
CAPÍTULO IV ARTIGO 38.º
destRuiçÃo de dRoGa e RecolHa (comunicação de decisões)
de amostRas
1. São comunicadas à Entidade Coordenadora do Combate à Droga todas as
ARTIGO 36.º apreensões de plantas, substâncias e preparações compreendidas nas tabelas I a
(exame e destruição das substâncias) IV.
2. Os tribunais enviam à mesma Entidade cópia das decisões proferidas em
l. As plantas, substâncias e preparações apreendidas são examinadas, por ordem processo-crime por infracções previstas no presente diploma.
da autoridade judiciária competente, no mais curto prazo de tempo possível.
2. Após o exame laboratorial, o perito procede recolha, identificação, pesagem- TÍTULO V
bruta e líquida -, acondicionamento e selagem de uma amostra, no caso de a cooRdenaçÃo nacional e coopeRaçÃo
quantidade de droga o permitir, e do remanescente, se o houver. inteRnacional na luta contRa
3. A amostra fica guardada em cofre do organismo que procede à investigação até o tRáfico ilÍcito
decisão final.
4. No prazo de 5 dias após a junção do relatório do exame laboratorial, a autori- ARTIGO 39.º
dade judiciária competente ordena a destruição da droga remanescente, despacho (coordenação do combate à droga)
que é cumprido em período não superior a 30 dias, ficando a droga até à destru-
ição, guardada em cofre forte. l. Será criada, na dependência do Primeiro-ministro, uma Comissão Nacional
5. A destruição da droga faz-se por incineração, na presença de um magistrado, com a finalidade de propor as estratégias e coordenar as acções políticas
de um funcionário designado para o efeito, de um técnico de laboratório, lavran- emanadas do Governo em todos os domínios do combate à droga, sendo a sua
do-se o auto respectivo; numa mesma operação de incineração podem realizar-se composição e atribuição objecto de decreto.
destruições de droga apreendida em vários processos.
6. Proferida decisão definitiva, o tribunal ordena a destruição da amostra guarda- 2. Será igualmente criada uma estrutura de coordenação do combate ao tráfico
da em cofre, o que se fará com observância do disposto no nº 5, sendo-lhe remeti- ilícito, tanto no plano nacional como internacional, na dependência do
da cópia do auto respectivo. Procurador Geral da República.

ARTIGO 37º ARTIGO 40.º


(amostras pedidas por entidades estrangeiras) (cooperação internacional)

1. Podem ser enviadas amostras de substâncias e preparações que tenham sido No tocante a extradição, auxílio judiciário mútuo, execução de sentenças penais
apreendidas, a solicitação de entidades estrangeiras, para fins científicos ou de estrangeiras e transmissão de processos criminais, aplicam-se os tratados, con-
investigação, mesmo na pendência do processo. venções e acordos a que a Guiné-Bissau se vinculou e subsidiariamente o dis-
2. Para o efeito, o pedido é transmitido à autoridade judiciária competente, que posto na Convenção das Nações Unidas de 1988 contra o tráfico de estupefa-
decidirá sobre a sua satisfação. cientes e de substâncias psicotrópicas.
130 131
- As preparações destas substâncias, salvo excepções previstas pela lei:
disposiçÕes finais
tabela i
ARTIGO 41.º
(norma revogatória) QuadRo i QuadRo iV

Fica revogada o Decreto-Lei n.º 1/76, de 21 de Abril. Brolanfetamina Acetorfina


Catinona Alfacetilmetadol
DET
ARTIGO 42.º DMA
Acetil-alfa-metilfentanil
(entrada em vigor) Cannabis e resina de cannabis
DMHP
DMT Cetobemidona
DOET Desomorfma
O presente diploma entra imediatamente em vigor.
Eticiclidina Etorfina
Aprovado em 9 de Setembro de 1993. (+) - Lisergida, LSD, LSD-25 Heroína
MDMA
Alfa-medilatiofentanil
Mescalina
Beta-hidroxifentanil
Promulgado em 9 de Setembro de 1993. Metil-4 aminorex
MMDA Beta-hidroxi-3-metilfentanil
Publique-se. N-etil MD 3 - metilfentanil
Parahexilo 3 - metiltiofentanil
O Presidente do Conselho de Estado, General João Bernardo Vieira. PMA Para-fluorofentanil
Psilocina, Psilotsin
PEPAD
Psilocibina
aneXo Rolicilidina Tiofentanil
(a que se refere o n.º 2 do artigo 1.º) STP, DOM
Tenanfetamina
Tenociclidina
Este anexo compreende: Tetrahidrocanabinol
- As substâncias adiante designadas pela sua denominação comum internacional TMA
ou nome utilizado nas convenções internacionais em vigor;
- Os seus isómeros, salvo excepções expressas em todos os casos onde possam
existir em conformidade com a fórmula química correspondente às ditas sub-
stâncias;
- Os ésteres e éteres destas substâncias em todas as formas em que possam exis-
tir;
- Os sais destas substâncias, compreendidos ainda os sais dos ésteres, de éterese
de isómeros em todas as formas em que estes sais possam existir;

132 133
tabela ii
QuadRo i QuadRo i (cont.) QuadRo i (cont.)
Acetilmetadol Furetidina Oximorfona
Alfameprodina Hidrocodona Petidina
Alfametadol Hidromorfinol Petidina, intermediário A de (ciano - 4 metil-1 fenil - 4 piperidina)
Alfa - metilfentanil Petidina, intermediário B do (éster etílico do ácido fenil - 4 piperidino
Hidromorfona
Alfaprodina carboxílico - 4)
Hidroxipetina
Alfentamil Petidina, intermediário C do (acido metil-1 fenil-4 piperidino carboxílico - 4)
Alilprodina Isometadona
Piminodína
Anileridina Levometorfano
Piritramida
Benxetidina Levomoramida Proheptazina
Benzilmorfina Levofenacilmorfano Properidina
Batacetilmetadol Levorfanol Racemetorfano
Betameprodina Metazonia Recemoramida
Bezitramida Racemorfano
Metadona
Butirato de dioxafetilo Sufentamil
Metadona, intermediário da (ciano -
Clonitazeno Tebacona
Coca (folha de) 4 dimetilamino - 2 difenil - 4,4
Tebaina
Cocaína butano) Tilidina
Codoxina Metildesorfina Trimeperidina
Concentrado de palha de papoila Metildihidromorfina
Dextromoramida Metopão
Diampromida
Moramida
Dietiltiambuteno QuadRo ii QuadRo ii (cont.)
Morferidina
Difenoxina
Morfina Acetildiidrocodeina Mecloqualona
Dimenoxadol
Morfina metobrometo e outros Codeína Metanfetamina
Dimefeptanol
Dextropropoxifeno Metaqualona
Dimetiltiambuteno derivados morfinicos com azoto
Diidrocodeina Metilfenidato
Difenoxilato pentavalente
Etilmorfina Racemato de Metanfetamina
Dipipanona Mirofina
Folcodina Renmetrazina
Drotebanol Nicomorfina
Nicocodina Secobarbital
Ecgonina esteres e derivados
Noracimetadol Nicodicodina
Etilmetiltiambuteno
Norlevorfanol Norcodeína
Etonitazeno
Etoxeridina Normetadona Propirano
Fenampromida Normorfina Anfetamina
Fenazocina Norpipanona Dexanfetamina
Fenomorfano N-Oximorfina Fenciclidina
Fenoperidina Fenetilina
Ópio
Fentanil Levanfetamina
Oxicodona

134 135
tabela iii
QuadRo iii QuadRo iV tabela iV (peRcuRsoRes)
da convenção de 1961 sobre
estupefacientes Este anexo compreende:
Acetilhidrocodeina Alobarbital As substâncias adiante designadas pela sua denominação comum internacional
Codeína Alprazolan
Anfepramona ou pelo nome utilizado nas Convenções Internacionais em vigor;
Díhidrocodeina
Etilmorfina Barbital Os sais destas substâncias em todas as formas que possam existir, à excepção do
Folcodina Benzefetamina ácido sulfúrico e do ácido clorídrico.
Nicocodina Bromazepan
Butobarbital
Nicodicodina
Camazepan QuadRo i QuadRo ii
Norcodeina
Clordiazepóxido
Amobarbital Acetona
Clobazam Ácido lisérgico
Buprenorfina Ácido Antranílico
Clonazepam Efedrina
Butalbital
Clorazepato Ergometrina Ácido fenilacético
Catina
Clotiazepan Ergotamina Anidricdo acético
Ciclobarbital
Cloxazolan Fenil-1 propanona-2 Éter etílico
Glutetamida
Diazepan Pseudo - efedrina
Pentazocina Piperidina
Estazolan Ácido N - acetilantranílico
Pentobarbital Etciorvinol Ácido clorídrico
Isosafrole
Metiletilcetona
Metilenadioxio - 3, 4 fenil
QuadRo iV (cont.) QuadRo iV (cont.) propanona - 2 Permanganato de potássio
Etinamato Meprobamato Piperonal Ácido sulfúrico
Etilanfetamina Metilfenobarbital Safrole Tolueno
Fencanfamina Metilprilone
Fendimetrazina Midazolam
Fenobarbital Nimetazepam
Fenproporex Nitrazepam
Fentermina Nordazepam
Fludiazepan
Oxazepam
Flunitrazepam
Oxazolam
Flurazepam
Pemolina
Halazepam
Pinazepam
Haloxazolam
Ketazolam Pipradol
Lefetamina Prazepam
Loflazepato de Etilo Propilhexedrina
Loprazolan Pirovalerona
Lorazepam Secbutabarbital
Lormetazepan Temazepam
Mazindol Tetrazepam
Medazepan Triazolam
Mefenorex Vinilbital

136 137
lei 7/1997 2. O tribunal pode diminuir a pena prevista no artigo anterior, quando exista cir-
Repressão da contrafacção e falsificação da moeda cunstâncias atenuantes, mas, a pena de prisão a aplicar não poderá ser inferior a
dois anos e a multa inferior a 1 000 000 FCFA.
pReÂmbulo 3. A suspensão da pena não é admitida.

Considerando que a criação da União Monetária Oeste Africana (UEMOA) per- ARTIGO 2.º
mitiu a constituição entre os Estados Membros duma zona monetária dotada de
1. Será punido com prisão de cinco a dez anos e uma multa de 4.000. 000 FCFA
uma instituição emissora e uma moeda comuns;
a 10.000.000 FCFA ou numa dessas penas, quem:
a) Contrafizer ou alterar moedas em ouro ou em prata que tenha tido curso legal
Considerando que os Estados ao delegaram na União o privilégio da emissão,
no território nacional ou no estrangeiro;
expressaram a vontade de pôr à disposição das respectivas economias uma
b) Alterar a cor de moedas metálicas que tenham tido curso legal no território
moeda convertível, sã e estável;
nacional e no estrangeiro, com objectivo de enganar sobre a natureza do metal.
2. A tentativa é punida com pena aplicável ao crime consumado.
E, que tratando-se de uma moeda comum aos vários Estados, a sua defesa face
ao fenómeno da criminalidade, seja que formas ou dimensões revestir, implica
ARTIGO 3.º
que as medidas destinadas à prevenção e repressão da sua contrafacção ou falsi-
ficação sejam adoptadas numa perspectiva integrada, por forma a assegurar a sua 1. Quem contrafizer, falsificar ou alterar notas de banco ou moedas metálicas
credibilidade e solvência; cunhadas em outros metais que não ouro ou prata e, que tenha tido curso legal no
território nacional ou no estrangeiro será punido com prisão de um a cinco anos
Considerando ainda, que a fim de permitir plena aplicação dos princípios da e uma multa de 2.000.000 a 10.000.000 FCFA ou com uma dessas penas.
União definidos pelo Tratado constitutivo, se prevê no artigo 22.º a adopção 2. A tentativa é punida com a pena aplicável ao crime consumado.
pelos Estados Membros de uma regulamentação uniforme nesta matéria;
ARTIGO 4.º
Tendo em conta a adesão da República da Guiné-Bissau à União Monetária
Oeste Africana; 1. Quem participar na emissão, utilização, exposição, distribuição, importação ou
exportação de signos monetários contrafeitos, falsificados ou alterados, sera
A Assembleia Nacional Popular decreta, nos termos da alínea c) do artigo 85.º da punido com as penas previstas nos artigos anteriores, consoante se verifique os
Constituição, o seguinte: factos neles tipificados.
2. A tentativa é punida com a pena aplicável ao crime consumado.
ARTIGO 1.º
ARTIGO 5.º
1. Quem contrafizer, falsificar ou alterar signos monetários, com curso legal no
território nacional ou no estrangeiro, será condenado a pena de prisão ou de tra- 1. Se o agente só teve conhecimento de que os signos monetário foram con-
balho sociais à perpetuidade e a multa, no máximo igual ao décuplo do valor dos trafeitos, falsificados ou alterados depois de a ter adquirido e, apesar disso, deles
signos monetário objecto do crime, e no mínimo de 20 000 000 FCFA. fizer uso ou tentar utilizá-los será punido com prisão de seis meses a um ano e
139 140
com multa, no mínimo, quatro vezes superior, e dez vezes superior ao valor dos 2. As infracções ao disposto neste artigo serão punidas com multa de 50.000 a
dittos signos, no máximo, não podendo, no entanto, a multa ser inferior a 200 000 200.000 FCFA.
FCFA ou com uma destas penas. 3. As notas e moedas, assim utilizadas serão apreendidas nas mãos dos respec-
2. Se o agente os conservar ou recusar a entregá-los às autoridades será punido tivos detentores ou depositários.
com multa duas vezes superior ao mínimo e quatro vezes superior ao máximo,
ARTIGO 8.º
não podendo, no entanto, a multa ser inferior a 100.000 FCFA.
1. Quem fabricar, oferecer, adquirir, importar, exportar, ou retiver, sem autoriza-
ARTIGO 6.º ção, marcas, matérias, instrumentos ou outros objectos utilizados no fabrico, con-
1. Quem fabricar, emitir, utilizar, expuser, distribuir, importar ou exporter meios trafacção, falsificação ou alteração de signos monetários será punido com pena
de pagamento, com intenção de subsistir os signos monetários com curso legal de dois a cinco anos e uma multa de 4.000.000 a 10.000.000 FCFA ou com uma
no território ou no estrangeiro, será punido com prisão de um a cinco anos e uma dessas penas.
multa de 2.000.000 a 10.000.000 ou numa dessas penas. 2. A tentativa é punida com a pena aplicável ao crime consumado.
2. Incorre na pena indicada no número anterior, quem fabricar, emitir, utilizar,
expuser, distribuir, importar ou exportar impressos, chapas, matrizes ou objectos ARTIGO 9.º
que pela sua natureza apresentem semelhança com os signos monetários de tal As penas previstas, nos artigos procedentes, aplicam-se:
forma a induzirem a sua aceitação ou utilização, em substituição destes. a) Às infracções cometidas nos território nacional;
3. A tentativa é punida com a pena aplicável ao crime consumado. b) Às infracções cometidas no estrangeiro, nos termos e nas condições previstas
na legislação penal.
ARTIGO 7.º-A
ARTIGO 10.º
1. É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer processo técnico de sig-
nos monetário com curso legal no território nacional ou no estrangeiro, salvo 1. Serão apreendidos os signos monetários contrafeitos, falsificados ou alterados
autorização prévia do Banco Central dos Estados da África Ocidental ou tratan- assim como os metais, papéis e outros objectos destinados a práticas dos crimes
do-se de signos monetários estrangeiros da autoridade emissora. previstos na presente lei. O produto da apreensão é entregue ao Banco Central a
2. É igualmente proibida, salvo autorização prévia da autoridade emissora, qual- pedido deste, sob reserva das necessidades da administração da justiça.
quer exposição, distribuição, importação ou exportações, de tais reproduces 2. Serão igualmente apreendidos os instrumentos utilizados na realização desses
inclusive por meio de jornais, livros, ou prospectos. crimes, salvo se tenha sido utilizado sem o conhecimento do proprietário.
3. As infracções ao disposto neste artigo serão punidas com prisão de um a seis
meses e multa de 50.000 a 200.000 FCFA ou com uma dessas penas. ARTIGO 11.º

1. Será isento de pena, quem, tendo tomado parte num dos crimes previstos nos
ARTIGO 7.º-B
artigos 1.º, 2.º, 3.º,4.º, e 8.º der conhecimentos dos factos e revelar a identidade
1. É proibido qualquer utilização de notas ou moedas metálicas com curso legal dos comparticipantes às autoridades competentes, antes de ter sido intentado o
no território nacional ou no estrangeiro, como suporte de qualquer forma de pub- processo criminal. Poderá, no entanto, lhe ser decretada a interdição de residên-
licidade. cia.
141 142
2. Poderá ser dispensado de pena, total ou parcial mente, quem nos crimes pre- lei 12/1997
vistos nos artigos 1º, 2º, 3º, 4º, e 8º, tiver após o início do procedimento criminal uniforme relativa à luta contra o branqueamento
contribuindo para a punição dos outros agentes. Poderá, no entanto, lhe ser dec- de capitais
retada a interdição de residência.

ARTIGO 12.º pReÂmbulo

São revogados os artigos 176º e 177º do Código Penal aprovado pelo Decreto- O Conselho dos Ministros da União Monetária da África Ocidental (UMOA);
Lei nº 4/93, de 13 de Outubro e todas as disposições legais que prevêem e punem
os factos incriminados por esta lei. Visto Tratado de 14 de Novembro de 1973 que constitui a União Monetária da
África Ocidental (UMOA), nomeadamente no seu artigo 22.º;
ARTIGO 13.º
Visto a Directiva nº 07/2002/CM/UEMOA de 19 de Setembro 2002 relativa à
A presente lei entra em vigor em 2 de Maio de 1997. luta contra o branqueamento de capitais nos Estados membros da União
Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA), nomeadamente nos seus
Aprovada em 27 de Outubro de 1997. artigos 36.º, 37.º, 39.º, 40.º, 41.º, 42.º e 43.º;
O Presidente da Assembleia Nacional Popular, malam bacai sanhá. Sob proposta do Banco Central dos Estados da África Ocidental (BCEAO);
Adopta a Lei Uniforme com o seguinte teor:
Promulgada em 21 de Novembro de 1997.
Publique-se. TÍTULO PRELIMINAR
O Presidente da República, João Bernardo Vieira.
definiçÕes

ARTIGO 1.º
(terminologia)

No sentido da presente lei, entende-se por:


Actores do Mercado Financeiro Regional:
A Bolsa Regional dos Valores Móveis (BRVM), o Depositário Central/Banco de
Pagamento, as Sociedades de Gestão e de Intermediação, as Sociedades de
Gestão de Património, os Consultores em investimentos de bolsa, os Corretores
e os Vendedores ambulantes.

Autor:

Qualquer pessoal que participa na prática de um crime ou de um delito, seja de


que natureza for.
143 145
Autoridades de controlo: Confiscação:
As autoridades nacionais ou comunitárias da UEMOA que em virtude de uma lei Desapropriação definitiva de bens, por decisão de uma jurisdição competente, de
ou de um regulamento, têm a competência para controlar pessoas singulares e uma autoridade de controlo ou de qualquer autoridade competente.
colectivas.
Estado membro:
Autoridades públicas: O Estado signatário do Tratado da União Económica e Monetária da África
As administrações nacionais e as das colectividades locais da União, assim como Ocidental.
os seus estabelecimentos públicos.
Estado terceiro:
Autoridade competente: Qualquer Estado que não seja um Estado membro.
Órgão que, em virtude de uma lei ou de um regulamento, tem a competência para
executar as acções ou as medidas previstas pela presente lei. Infracção de origem:
Qualquer crime ou delito sentido da lei, mesmo cometido no território de um
Autoridade judiciária: outro Estado membro ou no território de um Estado terceiro, que permite ao seu
Órgão que, em virtude de uma lei ou de um regulamento, tem a competência para autor adquirir bens ou rendimentos.
executar processos judiciais ou de instrução ou para pronunciar decisões de
justiça. OPCVM:
Organismos de Investimento Colectivo em Valores Mobiliários.
Autoridade de procedimento judicial:
Órgão que, em virtude de uma lei ou de um regulamento, é investido, mesmo a Organismos financeiros:
título ocasional, da missão de executar a acção para a aplicação de uma pena. São considerados organismos financeiros:
- Os bancos e estabelecimentos financeiros;
Titular de direito económico: - Os Serviços financeiros dos Correios, assim como as Caixas de Depósitos
O dirigente, isto é, a pessoa por conta da qual o representante age ou por conta e Consignações ou os organismos que realizam essas operações, dos Estados
da qual a operação é realizada. membros;
BCEAO ou Banco Central: - As Companhias de seguro e resseguro, os corretores de seguro e de resseguro;
O Banco Central dos Estados da África, Ocidental. - As instituições mutualistas ou cooperativas de poupança e de crédito, assim
como as estruturas ou organizações mutualistas ou cooperativas que têm como
Bens: objecto a colecta da poupança e/ou a concessão de crédito;
Todos os tipos de bens, corpóreos ou incorpóreos, móveis ou imóveis, tangíveis - A Bolsa Regional dos Valores Móveis, o Depositário Central/Banco de
ou intangíveis, fungíveis ou não fungíveis, assim como os actos jurídicos ou doc- Pagamento, as Sociedades de Gestão e de intermediação, as Sociedades de
umentos que certificam a propriedade desses bens ou direitos relativos. Gestão de Património;
- Os OPCVM;
CENTIF: - As Empresas de Investimento de Capital Fixo;
A Célula Nacional de Tratamento das Informações Financeiras. - Os Instituições autorizadas a praticar câmbio manual.
146 147
UEMOA: ARTIGO 3.º
A União Económica e Monetária da África Ocidental. (conivência, associação, tentativa de cumplicidade com vista
ao branqueamento de capitais)
UMOA:
A União Monetária da África Ocidental. 1. Constitui igualmente uma infracção de branqueamento de capitais, conivência
ou participação numa associação com vista à comissão de um facto constitutivo
União: de branqueamento de capitais, a associação para cometer o dito facto, as tentati-
A União Económica e Monetária da Africa Ocidental. vas de perpetuá-lo, a ajuda ou conselho à uma pessoa singular ou colectiva, com
vista a executá-lo ou a facilitar a sua execução.
ARTIGO 2.º 2. A não ser que a infracção de origem tenha sido objecto de uma lei de amnis-
(definição do branqueamento de capitais) tia, existe branqueamento de capitais mesmo:
a) Se o autor dos crimes ou delitos não for perseguido nem condenado;
1. No sentido da presente lei, o branqueamento de capitais é definido como a b) Se falta uma condição para agir em justiça na sequência dos ditos crimes ou
infracção constituída por um ou vários actos cometidos intencionalmente, a delitos.
saber:
a) A conversão, transferência ou manipulação de bens, cujo autor sabe que eles TÍTULO I
provêm de um crime ou de um delito ou de uma participação nesse crime ou deli- disposiçÕes GeRais
to, com o objectivo de dissimular ou disfarçar a origem ilícita dos referidos bens
ou de ajudar qualquer pessoa implicada na prática desse crime ou delito a escapar CAPÍTULO ÚNICO
às consequências judiciárias dos seus actos; obJecto e campo de aplicaçÃo
b) A dissimulação, disfarce da natureza, da origem, do lugar, da disposição, do
movimento ou da propriedade real de bens ou direitos relativos, cujo autor sabe ARTIGO 4.º
que eles provêm de um crime ou de um delito, tal como definidos pelas legis- (objectivo da lei)
lações nacionais dos Estados membros ou de uma participação nesse crime ou
delito; O objectivo da presente lei é a definição do quadro jurídico relativo à luta contra
c) A aquisição, posse ou utilização de bens cujo autor sabe, no momento da o branqueamento de capitais em (nome do país que adopta a lei, a fim de prevenir
recepção dos referidos bens, que eles provêm de um crime ou de um delito ou de a utilização dos circuitos económicos, financeiros e bancários da União para fins
uma participação nesse crime ou delito. de reciclagem de capitais ou de quaisquer bens de origem ilícita.
2. Existe branqueamento de capitais, mesmo quando os factos que estão na
origem da aquisição, da posse e da transferência dos bens a branquear, são ARTIGO 5.º
cometidos no território de um outro Estado membro ou no território de um (campo de aplicação da lei)
Estado terceiro.
As disposições dos títulos II e III da presente lei são aplicáveis à qualquer pes-
soa singular ou colectiva que, no quadro da sua profissão, realiza, controla ou
aconselha operações que conduzem a depósitos, câmbios, financiamentos, con-
148 149
versões ou quaisquer outros movimentos de capitais ou quaisquer outros bens, a TÍTULO II
saber: da pReVençÃo do bRanQueamento
de capitais
a) O Tesouro Público;
b) BCEAO; CAPÍTULO I
c) Os organismos financeiros; da ReGulamentaçÃo dos cÂmbios
d) Os membros das profissões jurídicas independentes, quando representam ou
assistem clientes fora de qualquer procedimento judiciário, nomeadamente no ARTIGO 6.º
quadro das seguintes actividades: (Respeito da regulamentação dos câmbios)

- Compra e venda de bens, de empresas comerciais ou de fundos de comércio;


As operações de câmbio, movimentos de capitais e pagamentos de qualquer
- Manipulação de dinheiro, de títulos ou de outros activos que pertençam ao
natureza com um Estado terceiro devem efectuar-se em conformidade com as
cliente;
disposições da regulamentação de câmbios em vigor.
- Abertura ou gestão de contas bancárias, de poupança ou de títulos;
- Constituição, gestão ou administração de empresas, de fídúcias ou de estruturas
similares, realização de outras operações financeiras;
CAPÍTULO II
e) As disposições deste capítulo aplicam-se também:
medidas de identificaçÃo
- Aos corretores;
ARTIGO 7.º
- Aos Auditores;
- Aos Agentes imobiliários; (identificação dos clientes pelos organismos financeiros)
- Aos vendedores de artigos de grande valor, tais como objectos de arte (quadros,
máscaras em particular) pedras e metais preciosos; 1. Os organismos financeiros devem assegurar-se da identidade e do endereço
- Aos transportadores de fundos; dos seus clientes antes de lhes abrir uma conta, conservar, nomeadamente títulos,
- Aos proprietários, directores e gerentes de casinos e estabelecimentos de jogos, valores ou ordens de pagamento, atribuir um cofre ou estabelecer com eles quais-
incluindo as lotarias nacionais; quer relações, de negócios.
- Às agências de viagem;
- Às Organizações Não Governamentais - ONG. 2. A verificação da identidade de uma pessoa singular é efectuada mediante a
exibição de um bilhete de identidade nacional ou de qualquer outro document
oficial original, com indicação do lugar, data de validade, e contendo uma
fotografia, da qual se tira uma cópia. A verificação do seu endereço profissional
e domiciliário é efectuada mediante exibição de qualquer documento comprova-
tivo. No caso de uma pessoa singular comerciante, este último deve fornecer,
além disso, qualquer documento que certifique a sua matrícula no Registo do
Comércio e do Crédito Mobiliário.

150 151
3. A identificação de uma pessoa colectiva ou de uma sucursal é efectuada medi- 3. Nenhum cliente pode invocar o segredo profissional para não comunicar a
ante a produção, por um lado, do original, ou da cópia autenticada de qualquer identidade do titular de direito económico.
documento ou extracto do Registo do Comércio e do Crédito Mobiliário, ates- 4. Os organismos financeiros não são sujeitos às obrigações de identificação pre-
tando nomeadamente a sua forma jurídica, a sua sede social e, por outro lado, vistas nos três números precedentes, se o cliente for um organismo financeiro,
os poderes das pessoas que actuam em seu nome. submetido à presente lei.
4. Os organismos financeiros asseguram-se, nas mesmas condições fixadas na nº
2 do presente artigo, da identidade e do endereço reais dos responsáveis, empre- ARTIGO 10.º
gados e mandatários que agem por conta de outrem. Estes últimos devem, por (Vigilância particular de certas operações)
sua vez, produzir documentos que certifiquem, por um lado, a delegação de
1. Devem constituir objecto de um exame particular da parte das pessoas visadas
poder ou do mandato que lhe foi atribuído e, por outro lado, a identidade e o
no artigo 5.º:
endereço do titular de direito económico.
a) Qualquer pagamento em dinheiro ou através de título ao portador de uma
5. No caso das operações financeiras à distância, os organismos financeiros pro-
quantia de dinheiro, efectuado em condições normais, cujo montante unitário ou
cedem à identificação de pessoas singulares, em conformidade com os princípios
total é igual ou superior a cinquenta milhões (50.000.000) de francos CFA;
expostos em anexo à presente lei.
b) Qualquer operação sobre uma quantia igual ou superior a dez milhões
ARTIGO 8.º (10.000.000) de francos CFA, efectuada em condições ocasionais de complexi-
(identificação dos clientes ocasionais pelos organismos financeiros) dade e/ou que não pareçam ter justificação económica ou objecto lícito.
2. Nos casos visados no número precedente, essas pessoas devem informar-se
1. A identificação dos clientes ocasionais efectua-se nas condições previstas nos junto do cliente, e/ou através de quaisquer meios, sobre a origem e o destino das
nºs 2 e 3 do artigo 7.º, para qualquer operação efectuada sobre uma quantia de quantias de dinheiro em causa, assim como sobre o objecto da transacção e a
dinheiro igual ou superior a cinco milhões (5.000.000) de francos CFA ou cujo identidade das pessoas implicadas, em conformidade com as disposições dos nºs
contravalor em franco CFA equivale ou ultrapassa essa quantia. 2, 3 e 5 do artigo 7.º. As características principais da operação, a identidade do
2. O mesmo acontece em caso de repetição de operações específicas num mon- mandante e do beneficiário, se for o caso, a dos actores da operação, são
tante individual inferior àquele previsto no número precedente ou quando existe consignadas num registo confidencial, com vista a proceder a associações, em
incerteza sobre a proveniência lícita dos capitais. caso de necessidade.

ARTIGO 9.º CAPÍTULO III


(identificação do titular de direito economico pelos organismos conseRVaçÃo e comunicaçÃo
financeiros) dos documentos
1. Se o cliente não actua por conta própria, o organismo financeiro informa-se, ARTIGO 11.º
por quaisquer meios, sobre a identidade da pessoa por conta da qual ele actua. (conservação das peças e documentos pelos organismos financeiros)
2. Depois da verificação, se a dúvida persiste sobre a identidade do titular de
direito económico, o organismo financeiro procede à declaração de suspeita visa- Sem prejuízo das disposições que decretam obrigações mais constrangedoras, os
da no artigo 26.º junto da Célula Nacional de Tratamento das Informações organismos financeiros conservam durante um período de dez (10) anos, a con-
Financeiras instituída no artigo 6.º nas condições fixadas no artigo 27.º. tar do fecho das suas contas ou da cessação de suas relações com os seus clients
152 153
habituais ou ocasionais, as peças e documentos relativos à sua identidade. Eles 2. As autoridades de controlo poderão, no domínio das suas competências respec-
devem igualmente conservar as peças e documentos relativos às operações que tivas, em caso de necessidade, precisar o conteúdo e as modalidades de aplicação
eles efectuaram durante dez (10) anos a contar do fim do exercício durante o qual dos programas de prevenção do branqueamento de capitais. Elas efectuarão, se
as operações foram realizadas. for o caso, investigações locais a fim de verificar a boa aplicação desses progra-
mas.
ARTIGO 12.º
(comunicação das peças e dos documentos) CAPÍTULO IV
disposiçÕes aplicáVeis a ceRtas opeRaçÕes
1. As peças e os documentos relativos às obrigações de identificação previstas paRticulaRes
nos artigos 7.º, 8.º, 9.º, 10.º e 15.º e cuja conservação é mencionada no artigo 11.º,
são comunicados, a seu pedido, pelas pessoas visadas no artigo 5.º, às autori- ARTIGO 14.º
dades judiciárias, aos agentes do Estado encarregues da detecção e da repressão (câmbio manual)
das infracções ligadas ao branqueamento de capitais, agindo no quadro de um
mandato judiciário, às autoridades de controlo, assim como à CENTIF. As instituições autorizadas a efectuar câmbio manual, à semelhança dos bancos,
2. Esta obrigação tem como objectivo o de permitir a reconstituição do conjunto devem dar uma atenção particular às operações para as quais não se impõe nen-
das transacções realizadas por uma pessoa singular ou colectiva, ligadas a uma hum limite regulamentar e que poderão ser efectuadas para fins de branquea-
operação que tenha constituído objecto de uma declaração de suspeita visada no mento de capitais, desde que o seu montante atinja cinco milhões (5.000.000) de
artigo 26.º ou cujas características são consignadas no registo confidencial pre- francos CFA.
visto no artigo 10.º, n.º 2.
ARTIGO 15.º
ARTIGO 13.º (casinos e estabelecimentos de jogos)
(programas internos de luta contra o branqueamento de capitais no seio
dos organismos financeiros) 1. Os gerentes, proprietários e directores de casinos e estabelecimentos de jogos
devem sujeitar-se às seguintes obrigações:
1. Os organismos financeiros devem elaborar programas harmonizados de pre- a) Justificar junto da autoridade pública, desde a data de pedido de autorização
venção do branqueamento de capitais. Esses programas compreendem nomeada- de abertura, a origem lícita dos fundos necessários à criação do estabelecimento;
mente: b) Assegurar-se da identidade, mediante exibição de um bilhete de identidade
a) A centralização das informações sobre a identidade dos clientes, dirigentes, nacional ou de qualquer outro documento original no qual se indicam, o lugar, a
mandatários, titulares de direito económico; data de validade e contendo uma fotografia da qual se conserva uma cópia, dos
b) O tratamento das transacções suspeitas; jogadores que compram, fornecem ou trocam fichas de jogos numa quantia supe-
c) A designação de responsáveis internos encarregues da aplicação dos progra- rior ou igual a um milhão (1.000.000) de francos CFA ou cujo contravalor seja
mas de luta contra o branqueamento de capitais; superior ou igual a esta quantia;
d) A formação contínua do pessoal; c) Consignar num registo especial, por ordem cronológica, todas as operações
e) O estabelecimento de um dispositivo de controlo interno da aplicação e da visadas na alínea precedente, sua natureza e seu montante com indicação dos
eficácia das medias adoptadas no quadro da presente lei. apelidos, nomes dos jogadores, assim como do número do documento apresen-
154 155
tado, e manter o dito registo durante dez (10) anos depois da última operação re- constituem objecto de declarações de suspeita às quais são obrigadas as pessoas
gistada; suspeitas;
d) Consignar por ordem cronológica, todas as transferências de fundos efectu- b) Recebe igualmente quaisquer outras informações úteis, necessárias ao cumpri-
adas entre casinos e estabelecimentos de jogos num registo especial e manter o mento da sua missão, nomeadamente as informações comunicadas pelas
ditto registo durante dez (10) anos depois da última operação registada. Autoridades de controlo, assim como pelos agentes da polícia judiciária;
2. Se o casino ou o estabelecimento de jogos é controlado por uma pessoa colec- c) Pode pedir a comunicação, por pessoas suspeitas, assim como por qualquer
tiva que possui vários filiais, as fichas de jogo devem identificar a filial para a pessoa singular ou colectiva, de informações na sua posse e susceptíveis de
qual elas foram emitidas. Em nenhum caso, as fichas de jogo emitidas por uma enriquecer as declarações de suspeitas;
filial podem ser reembolsadas por uma outra filial que não seja aquela situada d) Realiza ou manda realizar estudos periódicos sobre a evolução das técnicas
quer no território nacional, quer num outro Estado membro da União ou num utilizadas para efeitos de branqueamento de capitais ao nível do território
Estado terceiro. nacional.
2. Ela emite pareceres sobre a implementação da política do Estado em material
TÍTULO III de luta contra o branqueamento de capitais. A este título, ela propõe todas as
da detecçÃo do bRanQueamento reformas necessárias ao reforço da eficácia da luta contra o branqueamento de
de capitais capitais.
3. A CENTIF elabora relatórios periódicos (pelo menos uma vez por trimestre) e
CAPÍTULO I um relatório anual, que analisa a evolução das actividades de luta contra o bran-
da célula nacional de tRatamento queamento de capitais, no plano nacional e internacional, e procede à avaliação
de infoRmaçÕes financeiRas das declarações recolhidas. Esses relatórios são submetidos ao Ministro das
Finanças.
ARTIGO 16.º
(criação da centif) ARTIGO 18.º
(composição da centif)
É instituída por decreto (ou um acto de competência equivalente no caso da
Guiné-Bissau), uma Célula Nacional de Tratamento de Informações Financeiras 1. A CENTIF é composta por seis (6) membros, a saber:
(CENTIF), colocada sob a tutela do Ministro das Finanças. a) Um (1) alto funcionário, quer da Direcção das Alfândegas, quer da Direcção
do Tesouro, quer ainda da Direcção dos Impostos, com categoria de Director de
ARTIGO 17.º Administração central, destacado pelo Ministério das Finanças. Ele assegura a
(atribuições da centif) presidência da CENTIF;
b) Um (1) magistrado especializado em questões financeiras, destacado pelo
1. A CENTIF é um Serviço Administrativo, dotado da autonomia financeira e de Ministério da Justiça;
um poder de decisão autónoma sobre as matérias da sua competência. A sua mis- c) Um (1) alto funcionário da Polícia Judiciária, destacado pelo Ministério da
são é de recolher e tratar a informação financeira sobre os circuitos de branquea- Segurança (ou pelo Ministério de tutela no caso da Guiné-Bissau);
mento de capitais. A este título, ela: d) Um (1) representante do BCEAO, que assegura o secretariado da CENTIF;
a) É encarregue, nomeadamente de receber, analisar e tratar as informações ten- e) Um (1) encarregado de inquéritos, Inspector dos Serviços das Alfândegas,
dentes a estabelecer a origem das transacções ou a natureza das operações que destacado pelo Ministério das Finanças;
156 157
f) Um (1) encarregado de inquéritos, Oficial de Polícia Judiciária, destacado pelo ARTIGO 23.º
Ministério da Segurança (ou pelo Ministério de tutela no caso da Guiné-Bissau). (Relações entre as células de informações financeiras dos estados
2. Os membros da CENTIF exercem as suas funções, a título permanente, por um membros da uemoa)
período de três (3) anos, renovável uma vez.
A CENTIF deve:
ARTIGO 19.º a) Comunicar, a pedido devidamente fundamentado de uma CENTIF de um
(dos correspondentes da centif) Estado membro da UEMOA, no quadro de um inquérito, todas as informações e
dados relativos às investigações realizadas na sequência de uma declaração de
1. No exercício das suas atribuições, a CENTIF pode recorrer a correspondents
suspeitas a nível nacional;
no seio, dos Serviços da Polícia, da Segurança, das Alfândegas, assim como dos
b) Transmitir os relatórios periódicos (trimestrais e anuais) detalhados sobre as
Serviços Judiciários do Estado e de qualquer outro Serviço cuja contribuição é
suas actividades à Sede do BCEAO, encarregue de realizar a síntese dos
considerada necessária no quadro da luta contra o branqueamento de capitais.
relatórios das CENTIF para efeitos de informação do Conselho dos Ministros da
2. Os correspondentes identificados são designados és qualité por decisão do seu
UEMOA.
Ministro de tutela. Eles colaboram com a CENTIF no quadro do exercício das
suas atribuições. ARTIGO 24.º
(Relações entre a centif e os serviços de informações financeiras
ARTIGO 20.º
de estados terceiros)
(confidencialidade)
1. A CENTIF pode, sob reserva de reciprocidade, trocar informações com os
Os membros e os correspondentes da CENTIF prestam juramento antes de
entrarem em função. Eles são obrigados ao respeito do segredo das informações serviços de informações financeiras de Estados terceiros, encarregues de receber
recolhidas, que só poderão ser utilizadas para os objectivos previstos pela pre- e de tratar as declarações de suspeitas, quando estes últimos são sujeitos às obri-
sente lei. gações análogas de segredo profissional.
2. A assinatura de acordos entre a CENTIF e um Serviço de informação de um
ARTIGO 21.º
Estado terceiro necessita de autorização prévia do Ministro das Finanças.
(organização e funcionamento da centif)
ARTIGO 25.º
O decreto (ou o acto de competência equivalente no caso da Guiné-Bissau) que
(papel atribuído ao bceao)
institui CENTIF precisa o estatuto, a organização e as modalidades de financia-
mento da CENTIF. Um Regulamento interno, aprovado pelo Ministro das 1. O BCEAO tem o papel de promover a cooperação entre as CENTIF. A este
Finanças, fixa as normas de funcionamento Interno da CENTIF. título, ele é encarregue de coordenar as acções das CENTIF no quadro da luta
contra o branqueamento de capitais e estabelecer uma síntese das informações
ARTIGO 22.º
provenientes dos relatórios elaborados por estas últimas. O BCEAO participa,
(financiamento da centif)
com as CENTIF, nas reuniões das instâncias internacionais que se ocupam de
Os recursos da CENTIF provêm, nomeadamente das contribuições autorizadas questões relativas à luta contra o branqueamento de capitais.
pelo Estado, pelas Instituições da UEMOA e pelos parceiros de desenvolvimen- 2. A síntese estabelecida pela Sede do BCEAO é comunicada às CENTIF dos
to. Estados membros da União, com vista a alimentar os seus bancos de dados. Ela
158 159
servirá de base para a elaboração de um relatório periódico destinado à infor- lar ou colectiva no momento da declaração, e tendente a reforçar a suspeita ou, a
mação do Conselho dos Ministros da União sobre a evolução da luta contra o invalidá-la, deve ser comunicada imediatamente à CENTIF.
branqueamento de capitais. 6. Nenhuma declaração efectuada junto de uma autoridade em aplicação de um
texto que não seja a presente lei, pode ter como efeito, dispensar as pessoas
3. Uma versão desses relatórios periódicos será elaborada para informação do visadas no artigo 5º da execução da obrigação de declaração prevista pelo pre-
público e das pessoas sujeitas às declarações de suspeitas. sente artigo.

CAPÍTULO II ARTIGO 27.º


das declaRaçÕes sobRe as opeRaçÕes (transmissão da declaração à centif)
suspeitas
As declarações de suspeitas são transmitidas pelas pessoas singulares e colecti-
ARTIGO 26.º vas visadas no artigo 5º à CENTIF por qualquer meio por escrito. As declarações
(obrigação de declaração das operações suspeitas) feitas telefonicamente ou por qualquer meio electrónico, devem ser confirmadas
por escrito num prazo de quarenta e oito (48) horas. Essas declarações indicam,
1. As pessoas visadas no artigo 5.º devem declarar à CENTIF, nas condições fix- nomeadamente, consoante o caso:
adas pela presente lei e segundo um modelo de declaração fixado por decisão do a) As razões que levaram à realização da operação;
Ministro das Finanças: b) O prazo durante o qual a operação suspeita deve ser executada.
a) As quantias de dinheiro e todos os outros bens na sua posse, quando estes
poderiam provir do branqueamento de capitais; ARTIGO 28.º
b) As operações sobre os bens, quando estas poderiam inscrever-se num proces- (tratamento das declarações transmitidas à centif e oposição
so de branqueamento de capitais; à realização das operações)
c) As quantias de dinheiro e todos os outros bens na sua posse, quando estes, sus-
peitos de serem destinados ao financiamento do terrorismo, poderiam provir da 1. A CENTIF acusa a recepção de qualquer declaração de suspeita escrita. Ela
realização de operações de branqueamento de capitais. trata e analisa imediatamente as informações recolhidas e procede, se for o caso,
2. Os empregados das pessoas acima visadas devem informar imediatamente os aos pedidos de informações complementares junto do denunciante, assim como
seus dirigentes dessas mesmas operações, desde que tenham tido conhecimento de qualquer autoridade pública e/ou de controlo.
delas. 2. A título excepcional, a CENTIF pode, na base de informações graves, concor-
3. As pessoas singulares e colectivas pré-citadas têm a obrigação de declarar à dantes e fiáveis na sua posse, opor-se à realização da dita operação antes da expi-
CENTIF as operações realizadas desta maneira, mesmo que seja impossível adiar ração do prazo de execução mencionado, pelo denunciante. Esta oposição é noti-
a sua realização ou se, posteriormente à realização da operação, houver indícios ficada a este último e suspende a realização da operação durante um period não
de que ela tenha sido realizada sobre quantias de dinheiro e quaisquer outros bens superior a quarenta e oito (48) horas.
de origem suspeita.
4. Essas declarações são confidenciais e não podem ser comunicadas ao titular 3. Na ausência de oposição ou, se no fim de prazo de quarenta e oito (48) horas,
das quantias ou ao autor das operações. nenhuma declaração do juiz de instrução não for comunicada ao denunciante,
5. Qualquer informação de natureza a modificar a apreciação pela pessoa singu- este pode realizar a operação.
160 161
ARTIGO 29.º ARTIGO 31.º
(seguimento dado às declarações de suspeitas) (Responsabilidade do estado resultante de declarações
de suspeitas feitas de boa fé)
1. Quando as operações põem em evidência factos susceptíveis de constituir a
infracção de branqueamento de capitais, a CENTIF transmite um relatório sobre Incumbe ao Estado a responsabilidade por qualquer dano causado às pessoas e
esses factos ao Procurador da República, que o submete imediatamente ao juiz resultante directamente de uma declaração de suspeita feita de boa fé, mesmo que
de instrução. Esse relatório é acompanhado de todas as peças úteis, à excepção se reconheça a sua falsidade.
da declaração de suspeita. A identidade do empregado na declaração não deve
figurar no dito relatório que faz fé até prova contrária. ARTIGO 32.º
2. A CENTIF informará, em tempo oportuno, as pessoas sujeitas a declarações (isenção de responsabilidade resultante da realização
de suspeitas sobre as conclusões das suas investigações. de certas operações)

ARTIGO 30.º 1. Quando uma operação suspeita é realizada, e salvo cumplicidade fraudulenta
(isenção de responsabilidade resultante de declarações como ou os autores do branqueamento, nenhuma acção penal do autor de bran-
de suspeitas feitas de boa fé) queamento pode ser intentada contra as pessoas visadas no artigo 5º, seus diri-
gentes ou empregados, se a declaração de suspeitas tiver sido feita em conformi-
1. As pessoas ou os dirigentes e os empregados das pessoas visadas no artigo 5º dade com as disposições da presente lei.
que, de boa fé, transmitiram informações ou efectuaram qualquer declaração, em
conformidade com as disposições da presente lei, são isentas de quaisquer 2. O mesmo acontece quando uma pessoa visada no artigo 5º efectua uma opera-
sanções por violação do segredo profissional. ção a pedido das autoridades judiciárias, dos agentes do Estado encarregues da
2. Nenhuma acção em responsabilidade civil ou penal pode ser intentada, assim detecção e da repressão das infracções ligadas ao branqueamento de capitais,
como nenhuma sanção profissional pronunciada contra as pessoas ou os diri- agindo no quadro de um mandato judiciário ou da CENTIF.
gentes e empregados das pessoas visadas no artigo 5.º, tendo agido nas mesmas
condições que aquelas previstas no número precedente, mesmo se decisões de CAPÍTULO III
justiça tomadas na base das declarações visadas nesse mesmo artigo não tenham da inVestiGaçÃo de pRoVas
conduzido a qualquer condenação.
3. Além disso, nenhuma acção em responsabilidade civil ou penal pode ser inten- ARTIGO 33.º
tada contra as pessoas visadas no número precedente por danos materiais ou (medidas de investigação)
morais, que poderiam resultar da interrupção de uma operação em virtude, das
disposições do artigo 28.º. 1. Para constituir a prova da infracção de origem e a prova das infracções ligadas
4. As disposições do presente artigo aplicam-se de pleno direito, mesmo se a ao branqueamento de capitais, o juiz de instrução pode ordenar, em conformi-
prova de carácter delituoso dos factos que estiveram na origem da declaração não dade com a lei, por um período indeterminado, sem oposição de segredo profis-
tenha sido revogada ou se esse factos não foram amnistiados ou não conduziram sional, diversas acções, nomeadamente:
à uma decisão de não pronúncia, de libertação o de amnistia. a) Vigilância das contas bancárias e das contas incorporadas nas contas
bancárias, quando existem índices graves de suspeita de as mesmas serem uti-
162 163
lizadas ou susceptíveis de serem utilizadas para as operações ligadas à infracção pelos artigos 26.º e 27.º da presente lei, a Autoridade de controlo com poder
de origem ou às infracções previstas pela presente lei; disciplinar pode agir de ofício nas condições previstas pelos textos legislativos e
b) O acesso, aos sistemas, redes e servidores informáticos utilizados ou suscep- regulamentares específicos em vigor. Ela informa ainda o facto à CENTIF, assim
tíveis de serem utilizados por pessoas contra as quais existem índices graves de como ao Procurador da República.
participação na infracção de origem ou nas infracções previstas peta presente lei;
c) A comunicação de escrituras públicas ou contrato particular, de documentos CAPÍTULO II
bancários, financeiros e comerciais. das medidas conseRVatÓRias
2. Pode igualmente ordenar a confiscação das escrituras e documentos acima
mencionados. ARTIGO 36.º
(medidas conservatórias)
ARTIGO 34.º
(suspensão do segredo profissional) 1. O juiz de instrução pode prescrever medidas conservatórias, em conformidade
com a lei, que ordena, às expensas do Estado, nomeadamente a penhora ou a con-
Não obstante quaisquer disposições legislativas ou regulamentares contrárias, o fiscação dos bens em relação com a infracção, objecto do inquérito, e todos os
segredo profissional não pode ser invocado pelas pessoas visadas no artigo 5º elementos de natureza a permitir a sua identificação, assim como o congelamen-
para recusa de fornecimento de informações às autoridades de controlo, assim to das quantias de dinheiro e das operações financeiras efectuadas sobre os ditos
como à CENTIF ou para proceder às declarações previstas pela presente lei. O bens.
mesmo acontece com as informações requeridas no quadro de um inquérito sobre
factos de branqueamento, ordenado pelo juiz de instrução ou efectuado sob con- 2. A suspensão dessas medidas pode ser ordenada pelo juiz de instrução nas
trolo, pelos agentes do Estado encarregues da detecção e da repressão das condições previstas pela lei.
infracções ligadas ao branqueamento de capitais.
CAPÍTULO III
TÍTULO IV das penas aplicáVeis
das medidas coeRciVas
ARTIGO 37.º
CAPÍTULO I (sanções penais aplicáveis às pessoas singulares)
das sançÕes administRatiVas
e disciplinaRes 1. As pessoas singulares culpadas de uma infracção de branqueamento de capi-
tais, são punidas com pena de prisão de três (3) a sete (7) anos e uma multa igual
ARTIGO 35.º ao triplo do valor dos bens ou dos fundos sobre os quais foram efectuadas oper-
(sanções administrativas e disciplinares) ações de branqueamento.

Quando, na sequência, quer de um erro grave de vigilância, quer de uma carên- 2. A tentativa de branqueamento é punida com as mesmas penas.
cia na organização dos seus procedimentos internos de controlo, uma pessoa
visada no artigo 5.º subestima as obrigações que lhe são impostas pelo título II e
164 165
ARTIGO 38.º a) Feito ao proprietário das quantias ou ao autor das operações visadas no artigo
(sanções penais aplicáveis à conivência, associação, 5.º, revelações na declaração que eles devem prestar ou nas decisões que lhe
cumplicidade com vista ao branqueamento de capitais) foram reservadas;
b) Destruído ou subtraído peças ou documentos relativos às obrigações de iden-
A conivência ou a participação numa associação com vista à execução de um tificação visadas nos artigos 7.º, 8.º, 9.º, 10.º, e 15.º, cuja conservação é prevista
facto constitutivo de branqueamento de capitais, a associação para a comissão do peto artigo 11.º da presente lei;
dito facto, a ajuda, a incitação ou o conselho a uma pessoa singular ou colectiva, c) Realizado ou tentado realizar sob uma falsa identidade uma das operações
com vista a executá-lo ou facilitar a sua execução são punidas com as mesmas visadas nos artigos 5.º a 10.º, 14.º a 15.º da presente lei;
penas previstas no artigo 37.º. d) Informado por quaisquer meios a ou as pessoas visadas pelo inquérito con-
duzido por actos de branqueamento de capitais de que tivessem tido conheci-
ARTIGO 39º
mento, em virtude da sua profissão ou das suas funções;
(circunstâncias agravantes)
e) Comunicado às autoridades judiciárias ou aos funcionários competentes para
1. As penas previstas no artigo 37.º são redobradas: constatar as infracções de origem e decorrentes dos actos e documentos visados
a) Quando a infracção de branqueamento de capitais é cometida de maneira no artigo 33.º da presente lei, que eles sabem que são falsos ou inexactos;
habitual ou utilizando as facilidades obtidas por exercício de actividade profis- f) Comunicado informações ou documentos às pessoas que não sejam as visadas
sional; no artigo 12.º da presente lei;
b) Quando o autor da infracção se encontra em estado de recidivas; neste caso, g) Omitido de proceder à declaração de suspeitas, prevista no artigo 26.º, quan-
as condenações pronunciadas no estrangeiro são levadas em consideração para o do as circunstâncias levaram a deduzir que as quantias de dinheiro poderiam
estabelecimento da recidiva; provir de uma infracção de branqueamento de capitais tal como definido nos artigos
c) Quando a infracção de branqueamento é cometida por um grupo organizado. 2.º e 3.º.
2. Quando o crime ou o delito resultante dos bens ou quantias de dinheiro objec- 2. São punidas com uma multa de cinquenta mil (50.000) a setecentos e cinquen-
tos de infracção de branqueamento, é punido com uma pena privativa de liber- ta mil (750.000) francos CFA, as pessoas e dirigentes ou empregados das pessoas
dade de duração superior àquela de prisão prevista no artigo 37.º, o branquea- singulares ou colectivas visadas no artigo 5.º, quando estes últimos tiverem não
mento é punido com penas ligadas à infracção de origem de que o autor teve con- intencionalmente:
hecimento e, se esta infracção é acompanhada de circunstâncias agravantes, com a) Omito de fazer a declaração de suspeitas, prevista no artigo 26º da presente lei;
penas ligadas unicamente às circunstâncias de que ele teve conhecimento. b) Infringido as disposições dos artigos 6.º, 7.º, 8.º, 9.º, 10.º, 11.º, 12.º, 14.º, 15.º
e 26.º da presente lei.
ARTIGO 40.º
(sanções penais de certos procedimentos ligados ao branqueamento) ARTIGO 41.º
(sanções penais complementares facultativas aplicáveis
1. São punidos com pena de prisão de seis (6) meses a dois (2) anos e uma multa às pessoas singulares)
de cem mil (100.000) a um milhão cento e cinquenta mil (1.150.000) francos
CFA ou somente com uma das duas penas, as pessoas e dirigentes ou emprega- As pessoas singulares culpadas das infracções definidas nos artigos 37.º, 38.º,
dos das pessoas singulares ou colectivas visadas no artigo 5.º, quando estas últi- 39.º e 40º podem igualmente incorrer as seguintes penas complementares:
mas tiverem intencionalmente:
166 167
a) A interdição definitiva do território nacional ou por um período de um (1) a singulares, sem prejuízo da condenação destas últimas como autores ou cúm-
cinco (5) anos contra qualquer estrangeiro condenado; plices dos mesmos actos.
b) A interdição de estadia por um período de um (1) a cinco (5) anos em certas
circunstâncias administrativas (a designar pelo Estado que adopta a Lei 2. As pessoas colectivas, que não sejam o Estado, podem, além disso, ser conde-
Uniforme); nadas a uma ou várias penas seguintes:
c) A interdição de deixar o território nacional e a retirada do passaporte por um a) A exclusão dos mercados públicos, a título definitivo ou por um período de
período de seis (6) meses a três (3) anos; cinco (5) anos ou mais;
d) A interdição de direitos cívicos, civis e de família por um período de seis (6) b) A confiscação do bem que serviu ou era destinado a cometer a infracção ou do
a três (3) anos; seu produto;
e) A interdição de conduzir engenhos motorizados terrestres, marítimos e aéreos c) A colocação sob vigilância judiciária por um período de cinco (5) anos ou
e a retirada das autorizações ou licenças por um período de três (3) a seis (6) mais;
anos; d) A interdição, a título definitivo, ou por um período de cinco (5) anos ou mais,
f) A interdição definitiva ou por um período de três (3) a seis (6) anos de exercer de exercer directamente ou indirectamente uma ou várias actividades profission-
a profissão ou a actividade no momento em que a infracção foi cometida e inter- ais ou sociais na ocasião em que a infracção foi cometida;
dição de exercer uma função pública;
e) O fecho definitivo ou por um período de cinco (5) anos ou mais, dos estab-
g) A interdição de passar cheques que não sejam os que permitem a retirada de
elecimentos ou de um dos estabelecimentos da empresa que serviu para cometer
fundos pelo sacador Junto do sacado ou os que são autenticados e de utilizar
os actos criminais;
talões de pagamento durante três (3) a seis (6) anos;
f) A sua dissolução, quando elas foram criadas para cometer os actos criminais;
h) A interdição de possuir ou usar uma arma sujeita à autorização durante três (3)
g) A afixação da decisão pronunciada ou a difusão desta pela imprensa escrita ou
a seis (6) anos;
por qualquer meio de comunicação audiovisual, às expensas da pessoa colectiva
i) A confiscação de todo ou parte dos bens de origem lícita do condenado;
condenada.
j) A confiscação do bem ou da coisa que serviu ou era destinada à cometer a infracção
ou do produto da infracção, à excepção dos objectos susceptíveis de restituição.
3. As sanções previstas, nas alíneas c), d), e), f) e g) do nº 2 do presente artigo,
CAPÍTULO IV não são aplicáveis aos organismos financeiros que dependem de uma Autoridade
da Responsabilidade penal das pessoas de controlo que disponha de um poder disciplinar.
colectiVas
4. A Autoridade de controlo competente, informada pelo Procurador da
ARTIGO 42.º República sobre qualquer acção intentada contra um organismo financeiro, pode
(sanções penais aplicáveis às pessoas colectivas) decidir as sanções apropriadas, em conformidade com os textos legislativos e
regulamentares específicos em vigor.
1. As pessoas colectivas que não sejam o Estado, por conta ou em benefício das
quais uma infracção de branqueamento de capitais ou uma das infracções pre-
vistas pela presente lei foi cometida por um dos seus órgãos ou representantes,
são punidas com uma multa de taxa igual ao quíntuplo das incorridas po pessoas
168 169
CAPÍTULO V CAPÍTULO VI
das causas de isençÃo e de atenuaçÃo das penas complementaRes obRiGatÓRias
das sançÕes penais
ARTIGO 45.º
ARTIGO 43.º (confiscação obrigatória dos produtos obtidos do branqueamento)
(causas de isenção de sanções penais)
Em todos os casos de condenação por infracção de branqueamento de capitais ou
Qualquer pessoa culpada, por um lado, de participação numa associação ou numa de tentativa, os tribunais ordenam a confiscação, em benefício do Tesouro
cumplicidade, com vista a cometer uma das infracções previstas nos artigos 37º, Público, dos produtos obtidos da infracção, dos bens móveis e imóveis nos quais
38º, 39º, 40º e 41º, por outro lado, de ajuda, incitação ou de conselho a uma pes- esses produtos são transformados ou convertidos e, na proporção do seu valor,
soa singular ou colectiva com vista a executá-las ou de facilitar a sua execução, dos bens adquiridos legitimamente aos quais os ditos produtos estão ligados,
é isenta de sanções penais se, tendo revelado a existência dessa cumplicidade, assim como os rendimentos e outras vantagens obtidas desses produtos, dos bens
associação, ajuda ou conselho à autoridade judiciária, ela permite deste modo, nos quais eles são transformados ou investidos ou dos bens aos quais eles estão
por um lado, identificar as outras pessoas implicadas e, por outro lado, evitar a ligados à qualquer pessoa à qual pertencem esses produtos e esses bens, a menos
realização da infracção. que o seu proprietário não declare que ele desconhece a sua origem fraudulenta.

ARTIGO 44.º TÍTULO V


(causas de atenuação das sanções penais) da coopeRaçÃo inteRnacional

As penas incorridas por qualquer pessoal, autor ou cúmplice de uma das CAPÍTULO I
infracções enumeradas nos artigos 37.º, 38.º, 40.º e 41.º que, antes de qualquer da competÊncia inteRnacional
acção, permite ou facilita a identificação dos outros culpados ou depois do enga-
jamento dos actos, permite ou facilita a detenção destes, são reduzidas para ARTIGO 46.º
metade. Além disso, a dita pessoa é isenta da multa e, se for o caso, das medidas (infracções cometidas fora do território nacional)
acessórias e penas complementares facultativas.
1. As jurisdições nacionais são competentes para distinguir as infracções previs-
tas pela presente lei, cometidas por qualquer pessoa singular ou colectiva, qual-
quer que seja a sua nacionalidade ou a localização da sua sede, mesmo for a do
território nacional, desde que o lugar onde o acto foi cometido esteja situado num
dos Estados membros da UEMOA.
2. Elas podem igualmente distinguir as mesmas infracções cometidas num
Estado terceiro, desde que uma convenção internacional lhe atribui competência
para tal.

170 171
CAPÍTULO II ARTIGO 49.º
tRansfeRÊncias de pRocedimentos (destino das acções realizadas no estado requerente antes
Judiciais da transferência de procedimentos judiciais)

ARTIGO 47.º Desde que seja compatível com a legislação em vigor, qualquer acção regular-
(pedido de transferência de procedimento judicial) mente executada para efeitos de procedimento judicial ou para as necessidades
de procedimento no território do Estado requerente, terá o mesmo valor como se
1. Quando a autoridade judiciária de um outro Estado membro da UEMOA acha, tivesse sido executada no território nacional.
por qualquer razão que seja, que os processos judiciais ou a continuidade de
processos judiciais que ela já iniciou enfrenta grandes obstáculos e que um pro- ARTIGO 50.º
cedimento penal adequado é possível no território nacional, ela pode pedir à (informação do estado requerente)
autoridade judiciária competente para executar os procedimentos necessários
contra o presumido autor. A autoridade judiciária competente informa a autoridade judiciária do Estado
2. As disposições do número precedente aplicam-se igualmente, quando o pedi- requerente sobre a decisão tomada ou pronunciada na conclusão, do procedi-
do emana de uma autoridade de um Estado terceiro, e que as normas em vigor mento. Para o efeito, ela transmite-lhe cópia de qualquer decisão tomada por
nesse Estado autorizam a autoridade judiciária nacional a submeter um pedido força de caso julgado.
para os mesmos fins.
3. O pedido de transferência de procedimentos judiciários é acompanhado dos ARTIGO 51.º
documentos, peças, processos, objectos e informações na posse da autoridade (parecer dado à pessoa perseguida)
judicial do Estado requerente.
A autoridade, judiciária competente informa a pessoa perseguida de que um pedi-
ARTIGO 48.º do foi apresentado a seu respeito e recolhe os argumentos que ela achar perti-
(Recusa de procedimentos judiciários) nentes antes de qualquer tomada de decisão.

A autoridade judiciária competente não pode dar seguimento ao pedido de trans- ARTIGO 52.º
ferência de procedimentos judiciais emanado, da autoridade competente do (medidas conservatórias)
Estado, requerente se, na data do envio do pedido, a prescrição da acção pública
é obtida segundo a lei desse Estado ou se uma acção dirigida contra a pessoa A autoridade judiciária competente pode, a pedido do Estado requerente, tomar
implicada tenha já obtido uma decisão definitiva. quaisquer medidas conservatórias, incluindo a prisão preventiva e a confiscação
compatível com a legislação nacional.

172 173
CAPÍTULO III c) A indicação da medida solicitada;
coopeRaçÃo JudiciáRia d) Uma exposição dos factos constitutivos da infracção e das disposições leg-
islativas aplicáveis, salvo se o pedido tiver como único objectivo a entrega dos
ARTIGO 53.º processos ou de decisões judiciais;
(modalidades da cooperação judiciária) e) Todos os elementos conhecidos que permitam identificar a ou as pessoas
visadas e, nomeadamente o estado civil, a nacionalidade. o endereço e a profis-
1. A pedido de um Estado membro da UEMOA os pedidos de cooperação rela- são;
tives às infracções previstas nos artigos 37.º a 40.º são realizados, em conformi- f) Todas as informações necessárias para localizar os instrumentos, recursos ou
dade com os princípios definidos pelos artigos 54.º a 70.º. bens visados;
2. As disposições do número precedente são aplicáveis aos pedidos emanados de g) Uma exposição detalhada de qualquer processo ou pedido particular que o
um Estado terceiro, quando a legislação desse Estado lhe obriga a dar seguimen- Estado requerente pretende que se dê seguimento ou seja executado;
to aos pedidos de mesma natureza emanados da autoridade competente. h) A indicação do prazo no qual o Estado requerente desejaria que o pedido fosse
3. A cooperarão pode, nomeadamente incluir: executado;
a) A recolha de testemunhos ou de deposições; i) Qualquer outra informação necessária à boa execução do pedido.
b) O fornecimento de uma ajuda para colocar à disposição das autoridades judi-
ARTIGO 55.º
ciárias do Estado requerente, pessoas detidas ou outras pessoas, para efeitos de
(das recusas de execução do pedido de cooperação judiciária)
testemunho ou ajuda na condução do inquérito;
c) A entrega de documentos judiciários; 1. O pedido de cooperação judiciária só pode ser recusado:
d) As investigações e as confiscações; a) Se ele não emanar de uma autoridade competente de acordo com a legislação
e) A verificação dos objectos e dos lugares; do país requerente ou se ele não for transmitido regularmente;
f) O fornecimento de informações e de peças de convicção; b) Se a sua execução pode causar prejuízo à ordem pública, à soberania, à segu-
g) O fornecimento dos originais ou de cópias autenticadas dos processos e doc- rança ou aos princípios fundamentais do direito;
umentos pertinentes, incluindo extractos bancários, peças contabilísticas, regis- c) Se os factos que estão na sua origem constituem objecto de processos penais ou já
tos que certificam o funcionamento de uma empresa ou suas actividades comer- tenham feito objecto de uma decisão de justiça definitiva no território nacional;
ciais. d) Se as medidas solicitadas ou quaisquer outras medidas com efeitos análogos,
não são autorizadas ou não são aplicáveis à infracção visada no pedido, em vir-
ARTIGO 54.º tude da legislação em vigor;
(conteúdo do pedido de cooperação judiciária) e) Se a decisão cuja execução é solicitada não é viável segundo a legislação em
vigor;
Qualquer pedido de cooperação judiciária dirigido à autoridade competente é f) Se a decisão estrangeira for pronunciada nas condições que não oferecem
feito por escrito. Ele compreende: garantias suficientes relativamente aos direitos de defesa;
a) O nome da autoridade que solicita a medida; g) Se existem razões graves que levam a pensar que as medidas requeridas ou a
b) O nome da autoridade competente e da autoridade encarregue do inquérito ou decisão solicitada só visam a pessoa perseguida em virtude da sua raça, religião,
do procedimento objecto do pedido; nacionalidade, origem étnica, opiniões políticas, sexo ou seu estatuto;
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2. O segredo profissional não pode ser invocado para recusa de execução do ARTIGO 58.º
pedido. (entrega de processos judiciais e de decisões judiciais)

3. O ministério público pode introduzir recurso da decisão de recusa de execução 1. Quando o pedido de cooperação tem por objecto a entrega de processos judi-
pronunciada por uma jurisdição nos (precisar o país que adopta a lei) dias ciais e/ou de decisões judiciais, ele, deverá incluir, para além das indicações pre-
seguintes a esta decisão. vistas no artigo 54º, a descrição dos processos ou decisões visadas.
2. A autoridade competente procede à entrega dos processos judiciais e de
4. O governo da Guiné-Bissau, comunica imediatamente ao Estado requerente os decisões judiciais que lhe serão enviados para esse efeito pelo Estado requerente.
motivos da recusa de execução do seu pedido. 3. Esta entrega pode ser efectuada por simples transmissão do processo ou da
decisão ao destinatário. Se a autoridade competente do Estado requerente for-
ARTIGO 56.º mular expressamente o pedido, a entrega é efectuada numa das formas previstas
(segredo sobre o pedido de cooperação judiciária) pela legislação em vigor para as comunicações análogas ou numa forma especial
compatível com esta legislação.
1. A autoridade competente mantém o segredo sobre o pedido de execução judi- 4. A prova da entrega faz-se através de um recibo datado e assinado pelo desti-
ciária, sobre o seu conteúdo e peças produzidas, assim como sobre a própria natário ou de uma declaração da autoridade competente constatando o facto, a
acção de cooperação. forma e a data da entrega. O documento estabelecido para constituir a prova da
entrega é imediatamente transmitido ao Estado requerente.
2. Se não for possível executar o dito pedido sem divulgar o segredo, a autori-
5. Se a entrega não for possível, a autoridade competente comunica imediata-
dade competente informa o facto ao Estado requerente, que decidirá, neste caso,
se deve manter o pedido. mente o motivo ao Estado requerente.
6. O pedido de entrega de um documento que exige a comparência de uma pes-
ARTIGO 57.º soa deve ser efectuado o mais tardar sessenta (60) dias antes da data de com-
(pedido de medidas de inquérito e de instrução) parência.

1. As medidas de inquérito e de instrução são executadas em conformidade com ARTIGO 59.º


a legislação em vigor, a menos que a autoridade competente do Estado requer- (a comparência dos testemunhos não detidos)
ente não tenha pedido que se proceda de conformidade com uma forma particu- 1. Se numa acção judicial exercida contra o autor das infracções visadas na pre-
lar compatível com esta legislação. sente lei, a comparência pessoal de um testemunho residente no território
2. Um magistrado ou um funcionário delegado pela autoridade competente do nacional for considerada necessária pelas autoridades judiciárias de um Estado
Estado requerente pode assistir à execução das medidas consoante forem execu- estrangeiro, a autoridade competente, interceptado por um pedido transmitido
tadas por um magistrado ou por um funcionário. por via diplomática, obriga-lhe a comparecer ao convite que lhe foi dirigido.

3. Se for o caso, as autoridades judiciárias ou policiais de (nome do país que 2. O pedido tendente a obter a comparência do testemunho comporta, para além
adopta a Lei Uniforme) podem executar, em colaboração com as autoridades de das indicações previstas pelo artigo 54.º, os elementos de identificação do teste-
outros Estados membros da União, medidas de inquérito ou de instrução. munho.
176 177
3. Contudo, o pedido só é recebido e transmitido, na dupla condição de o teste- ARTIGO 62.º
munho não ser nem perseguido nem detido por factos ou condenações anteriores (pedido de investigação e de confiscação)
à sua comparência e que ele não seja obrigado, sem o seu consentimento, a teste-
munhar num processo ou a dar a sua contribuição num inquérito ligado ao pedi- Quando o pedido de cooperação tiver como objectivo a execução de medidas de
do de cooperação. investigação e de confiscação para recolher peças de convicção, a autoridade
4. Nenhuma sanção, nem medida de constrangimento podem ser aplicadas ao competente autoriza o pedido, na medida compatível com a legislação em vigor
testemunho que recusar deferir um pedido tendente a obter a sua comparência. e na condição de as medidas solicitadas não causarem prejuízo aos direitos de
terceiros de boa fé.
ARTIGO 60.º
(a comparência de pessoas detidas) ARTIGO 63.º
(pedido de confiscação)
1. Se, numa acção judicial exercida contra o culpado de uma das infracções
1. Quando o pedido de cooperação judiciária tiver como objecto uma decisão que
visadas na presente lei, a comparência pessoal de um testemunho detido no ter-
ordene uma confiscação, a jurisdição competente estatui sobre a sua submissão
ritório nacional for considerada necessária, a autoridade competente, intercepta-
ao tribunal da autoridade competente do Estado requerente.
do por um pedido dirigido directamente ao tribunal competente, procederá à
2. A decisão de confiscação deve visar um bem que representa o produto ou o
transferência do interessado.
instrumento de uma das infracções visadas pela presente lei e que se encontra no
2. Contudo, só será dado seguimento ao pedido se a autoridade competente do
território nacional, ou consistir numa obrigação de pagamento de uma quantia de
Estado requerente se comprometer a manter em detenção a pessoa transferida,
dinheiro correspondente ao valor desse bem.
enquanto a pena que lhe foi infligida pelas jurisdições nacionais competentes não
3. Não pode ser dado seguimento a um pedido tendente a obter uma decisão de
for inteiramente clarificada, e a devolvê-la em estado de detenção na conclusão
confiscação, se uma tal decisão tiver como objectivo o de causar prejuízo aos
do processo ou se a sua presença deixar de ser necessária.
direitos legalmente constituídos, em benefício de terceiros, sobre os bens visados
em aplicação da lei.
ARTIGO 61.º
(Registo criminal) ARTIGO 64.º
(pedido de medidas conservatórias para efeitos de preparação
1. Quando os processos judiciais são executados por uma jurisdição de um de uma confiscação)
Estado membro da UEMOA contra o culpado de uma das infracções visadas pela
presente lei, o tribunal da dita jurisdição pode obter directamente das autoridades 1. Quando o pedido de cooperação tem como objecto investigar o produto das
competentes nacionais um extracto do registo criminal e, todas as informações infracções visadas na presente lei que se encontra no território nacional, a autori-
relativas à pessoa perseguida. dade competente pode efectuar investigações cujos resultados serão comunica-
2. As disposições do número precedente são aplicáveis quando os processos judi- dos à autoridade competente do Estado requerente.
ciais são executados por uma jurisdição de um Estado terceiro e que esse Estado 2. Para o efeito, a autoridade competente toma todas as medidas necessárias para
reserva o mesmo tratamento aos pedidos de mesma natureza emanados das juris- investigar a origem dos bens, inquirir sobre as operações financeiras apropriadas
dições nacionais competentes. e recolher quaisquer outras informações ou depoimentos de natureza a facilitar a
colocação em mãos da justiça dos produtos da infracção.
178 179
3. Quando as investigações previstas no nº 1 do presente artigo atingem resulta- ARTIGO 67.º
dos positivos, a autoridade competente toma, a pedido da autoridade competente (pedido de execução das decisões tomadas no estrangeiro)
do Estado requerente, qualquer medida tendente a prevenir a negociação, a
cessão ou a alienação dos produtos visados enquanto não for tomada uma decisão 1. As condenações a penas privativas de liberdade, as multas e confiscações,
definitiva pela jurisdição competente do Estado requerente. assim como a libertação pronunciadas para as infracções visadas pela presente
4. Qualquer pedido tendente a obter as medidas visadas no presente artigo, deve lei, por uma decisão definitiva emanada de uma jurisdição de um Estado mem-
mencionar, para além das indicações previstas no artigo 54º, as razões que levam bro da UEMOA, podem ser executadas no território nacional, a pedido das
a autoridade competente do Estado requerente a acreditar que os produtos ou os autoridades competentes desse Estado.
instrumentos das infracções se encontram no seu território, assim como as 2. As disposições do número precedente aplicam-se às condenações pronunci-
informações que permitem localizá-los. adas pelas jurisdições de um Estado terceiro, quando esse Estado reserva o
mesmo tratamento às condenações pronunciadas pelas jurisdições nacionais.
ARTIGO 65.º
(efeito da decisão de confiscação pronunciada no estrangeiro) ARTIGO 68.º
(modalidades de execução)
1. Na medida compatível com a legislação em vigor, a autoridade competente
executa qualquer decisão de justiça definitiva de penhora ou de confiscação dos
As decisões de condenação pronunciadas no estrangeiro são executadas em con-
produtos das infracções visadas na presente lei emanada de jurisdição de um
formidade com a legislação em vigor.
Estado membro da UEMOA.
2. As disposições do número precedente aplicam-se às decisões emanadas das
ARTIGO 69.º
jurisdições de um Estado terceiro, quando esse Estado reserva o mesmo trata-
(interrupção da decisão)
mento às decisões emanadas das jurisdições nacionais competentes.
3. Não obstante as disposições dos dois números precedentes, a execução das
A decisão é interrompida quando em virtude de uma decisão ou de um processo
decisões emanadas do estrangeiro não podem ter como efeito causar prejuízo aos
emanado do Estado que pronunciou a sanção, esta perde o seu carácter aplicável.
direitos legalmente constituídos sobre os bens visados em benefício de terceiros
em aplicação da lei. Esta regra não constitui obstáculo à aplicação das dis-
ARTIGO 70.º
posições das decisões estrangeiras relativas aos direitos de terceiros, salvo se,
(Recusa de execução)
estes não tiverem sido colocados em condições de fazer valer os seus direitos
perante a jurisdição competente do Estado estrangeiro em condições análogas às
O pedido de execução da condenação pronunciada no estrangeiro é rejeitada se
previstas pela lei em vigor.
a pena for prescrita em relação à lei do Estado requerente.
ARTIGO 66.º
(destino dos bens confiscados)

O Estado goza do poder de dispor dos bens confiscados no seu território a pedi-
do de autoridades estrangeiras, salvo decisão contrária de um acordo assinado
com o governo requerente.
180 181
CAPÍTULO IV ARTIGO 73.º
eXtRadiçÃo (complemento de informação)

ARTIGO 71.º Quando as informações comunicadas pela autoridade competente se revelam


(condição de extradição) insuficientes para a tomada de uma decisão, o Estado pede o complemento de
informações necessárias e poderá fixar um prazo de quinze (15) dias para a
1. São sujeitos à extradição: obtenção dessas informações, a menos que esse prazo não seja compatível com
a) Os indivíduos perseguidos por infracções visadas pela presente lei qualquer a natureza do processo.
que seja a duração da pena incorrida no território nacional;
ARTIGO 74.º
b) Os indivíduos que, por infracções visadas pela presente lei, são condenados (prisão preventiva)
definitivamente pelos tribunais do Estado requerente, sem que a pena pronunci-
1. Em caso de urgência, a autoridade competente do Estado requerente, pode
ada seja levada em consideração.
pedir a prisão preventiva do indivíduo perseguido, enquanto se aguarda a apre-
sentação de um pedido de extradição; a autoridade competente decide sobre este
2. Não são infringidas as regras de direito comuns da extradição, nomeadamente
pedido, em conformidade com a legislação em vigor.
as relativas à dupla incriminação.
2. O pedido de prisão preventiva indica a existência de uma das peças visadas no
ARTIGO 72.º artigo 72º e precisa a intenção de envio de um pedido de extradição; ele men-
(procedimento simplificado) ciona a infracção para a qual a extradição é solicitada, o tempo e o lugar onde ela
foi cometida, a pena que é ou pode ser incorrida ou foi pronunciada, o lugar onde
Quando o pedido de extradição se refere a uma pessoa que tenha cometido uma se encontra o indivíduo reclamado, se for conhecido, assim como, na medida do
das infracções previstas pela presente lei, ele é dirigido directamente ao possível, a descrição deste.
Procurador Geral competente do Estado requerido, com ampliação, para infor-
mação, ao Ministro da Justiça. Ele é acompanhado: 3. O pedido de prisão preventiva é transmitido às autoridades competentes, quer
a) Do original ou da cópia autenticada, quer de uma decisão de condenação por via diplomática, quer directamente por correio ou telégrafo, quer pela orga-
aplicável, quer de um mandato de detenção ou de qualquer outro acto que tenha nização internacional de Polícia criminal, quer por qualquer outro meio escrito
a mesma força, emitido nas formas prescritas peia lei do Estado requerente e con- ou aceite pela legislação em vigor do Estado.
tendo a indicação precisa do tempo, lugar e circunstâncias dos factos constitu-
4. A prisão preventiva termina se, no prazo de vinte (20) dias, o pedido de
tivos da infracção e da sua qualificação;
extradição e as peças mencionadas no artigo 72º não tiverem sido submetidos à
b) De uma cópia autenticada das disposições legais aplicáveis com a indicação autoridade competente.
da pena incorrida;
c) De um documento comportando uma descrição tão precisa quanto possível do 5. Todavia, a libertação provisória é possível a qualquer momento, salvo se a
indivíduo reclamado, assim como quaisquer outras informações de natureza a autoridade competente tomar qualquer medida que ela julgar necessária por
determinar a sua identidade, nacionalidade e lugar onde se encontra. forma a evitar a fuga da pessoa perseguida.
182 183
ARTIGO 75.º lei nº 13/1997
(entrega de objectos) usura - uemoa
1. No caso de extradição, todos os objectos susceptíveis de servir como provas pReÂmbulo
ou provenientes da infracção e encontrados na posse do indivíduo reclamado no
momento da sua detenção ou descobertos posteriormente, são confiscados e O presente diploma que integra o conjunto das diligências jurídicas necessárias
remetidos, a seu pedido, à autoridade competente do Estado requerente. a viabilizar a adesão do País à União Monetária Oeste Africana o negócio
2. Esta entrega pode ser efectuada mesmo se a extradição não poder ser executa- usurário e o respectivo quadro sancionatório.
da em virtude da evasão ou morte do indivíduo reclamado. E à semelhança de outros dispositivos legais, a regulamentação nele ínsita é
3. São, todavia, reservados os direitos que os terceiros tenham adquirido sobre os comum à existente nos demais Estados Membros da União e traduz a con-
ditos objectos que deverão, se existirem, ser entregues o mais rapidamente pos- cretização dos princípios decorrentes do Tratado constitutivo em proceder uma
sível e sem expensas ao Estado requerente, em virtude dos processos executados complete harmonização das legislações nacionais no domínio monetário.
no Estado requerente. Considerando que a adesão à União Monetária Oeste Africana vincula o Estado
4. Se ela julgar necessário para um processo penal, a autoridade competente pode Guineense ao cumprimento das disposições consignadas no seu Tratado consti-
reter temporariamente os objectos confiscados. tutivo.
5. Ela pode, no acto de transmissão, reservar-se o direito de solicitar a sua E que um dos vectores estabelecidos é o da harmonização jurídica em sede da
devolução pela mesma razão, podendo esquecer-se de os remeter desde que seja matéria objecto deste diploma.
possível fazê-lo. A Assembleia Nacional Popular decreta, nos termos da alínea c) do artigo 85º da
Constituição, o seguinte:
TÍTULO VI
disposiçÕes finais SECÇÃO I
da usuRa
ARTIGO 76.º
(informação da autoridade de controlo dos processos executados ARTIGO 1.º
contra 1. É havido como usurário o empréstimo, ou qualquer outro contrato que dis-
os indivíduos sob sua tutela) simulando um empréstimo em dinheiro, sejam estipulados juros cuja taxa efecti-
va global exceda, à data da sua estipulação, a taxa de usura.
O Procurador da República informa qualquer Autoridade de controlo competente 2. A taxa de usura é determinada pelo Conselho de Ministros da UMOA e sera
sobre os processos judiciais executados contra os indivíduos sob sua tutela, em publicada oficialmente, por iniciativa do Ministério das Finanças.
aplicação das disposições da presente lei.
ARTIGO 2.º
ARTIGO 77.º
(entrada em vigor) A taxa efectiva global é livremente negociada entre o mutuante e o mutuário, no
entanto, as partes não podem exceder os limites máximos estabelecidos no arti-
A presente lei entra imediatamente em vigor. go anterior. A estipulação da taxa efectiva global é estipulada por escrito.
184 185
ARTIGO 3.º 2. Em caso de reincidência o limite máximo da pena prevista é elevada em cinco
anos e a multa em 15.000.000,00 FCFA.
A taxa efectiva global do juro contratada é determinada em função das amorti-
zações de capital, à qual se somam os custos, as remunerações de qualquer ARTIGO 8.º
natureza, incluindo as pagas a terceiros que tenham intervindo de alguma forma
na concessão do mútuo. Não são consideradas no seu cálculo os impostos ou 1. O tribunal poderá ordenar, cumulativamente com as penas previstas no artigo
taxas pagos no momento da celebração ou execução do contrato. anterior, as seguintes sanções acessórias:
a) Publicação da sentença, a expensas do condenado nos jornais que designer ou
ARTIGO 4.º por qualquer forma;
b) Encerramento provisório ou definitivo da empresa cujos responsáveis se entre-
O limite máximo estabelecido para a taxa efectiva global de juros, pode ser ele- garam a operações usurárias e a nomeação de um administrador ou liquidatário,
vado para certo tipo de operações, que pela sua natureza envolvam custos fixos conforme os casos.
elevados ou despesas estimados. O respectivo montante será fixado pelo 2. Em caso de encerramento provisório o infractor assegurará ao seu pessoal o
Ministério das Finanças, após parecer do Banco Central.
pagamento das remunerações que estes têm direito por força do contrato de tra-
balho. A sua duração não poderá exceder os dois meses.
ARTIGO 5.º
3. Em caso reincidência será ordenado o encerramento definitivo da empresa.
Os créditos concedidos para vendas a prestações são, para efeitos da aplicação
desta lei, assimilados aos empréstimos convencionais e sujeitam-se às dis- ARTIGO 9.º
posições do artigo 1.º.
Sujeitam-se às penas e sanções acessórias previstas nos artigos anteriores, quem
encarregue seja a que título for, da direcção ou administração duma empresa em
ARTIGO 6.º
nome individual, sociedade ou associação ou cooperativa permitir deliberada-
Em caso de empréstimos de géneros ou outras coisas móveis e nas operações de mente que as pessoas sujeitas à sua direcção, autoridade e controlo infrinjam o
compra e venda e troca a crédito, o valor das coisas entregues ou o preço pago disposto nesta lei.
pelo devedor, em capital e em juros não poderá exceder o valor das coisas rece-
bidas num montante superior ao correspondente ao limite máximo da taxa de juro ARTIGO 10.º
fixado no artigo 1.º.
1. Se um empréstimo é considerado usurário, as prestações excessivas são
ARTIGO 7.º imputadas sobre os juros vencidos calculados nas condições fixadas no artigo 3º
e para o excedente, caso se verifique, sobre o capital mutuado.
1. Será punido com prisão de dois meses a dois anos e multa de 100.000,00 2. Se o empréstimo é integralmente liquidado em capital e juros, as somas exces-
FCFA a 5.000.000,00 FCFA, ou com uma dessas penas, quem tiver concedido sivamente cobradas serão restituídas com juros legais a contar da data em que
um empréstimo usurário ou tenha participado deliberadamente seja a que título foram pagas.
ou de que forma, directa ou indirectamente na obtenção ou concessão de um
empréstimo usurário.
186 187
ARTIGO 11.º ARTIGO 16.º
É revogada toda a legislação que contrair e o disposto na presente lei.
A prescrição do crime de usura corre a partir da última restituição, seja de juro
seja de capital ou da última entrega da coisa objecto da operação usurária. ARTIGO 17.º

SECÇÃO II A presente lei entra em vigor 2 de Maio de 1997.


da taXa leGal de JuRo
Aprovada, em 27 de Outubro de 1997.
ARTIGO 12.º O Presidente da Assembleia Nacional Popular, Malam Bacai Sanhá.

1. A taxa legal de juro é fixada pelo período de tempo correspondente ao ano Promulgada, em 21 de Novembro de 1997.
civil. Publique-se.
2. Para cada ano em referência, a taxa legal será igual à taxa de desconto prati-
cada pelo Banco Central reportada a 1 de Janeiro do ano anterior. O Presidente da República, João Bernardo Vieira.
3. Em caso de alteração da taxa de desconto correspondente a uma margem de 2
pontos percentuais ou mais, no decurso do ano em referência, a taxa de juro legal
é igual à nova taxa de desconto.

ARTIGO 13.º

Em caso de condenação a pagamento de juros legais, a respectiva taxa sera


aumentada em metade do seu valor até a expiração de um prazo de dois meses,
a contar do dia em que a decisão judicial se tornou executória, ainda que seja a
título de caução.

ARTIGO 14.º

A presente lei não se aplica aos contratos em curso com data certa.

ARTIGO 15.º

O Ministro da Justiça, o Ministro das Finanças, a Comissão Bancária assim como


o Banco Central são responsáveis, na respectiva área de competência, pela boa
execução do disposto nesta lei.

188 189
nota eXplicatiVa lei n.º 14/1997
cargos políticos
A usura é regulamentada no nosso ordenamento jurídico no artigo 282º e
seguintes do Código Civil4, nos termos do qual, grosso modo o que caracteriza pReÂmbulo
o negócio usurário é o facto de alguém conscientemente aproveitar-se da situação
de inferioridade (inexperiência, dependência, deficiência psíquica de alguém A responsabilização dos titulares de cargos políticos é um dos elementos
etc...) de outrem para dela tirar benefícios manifestamente excessivos ou injusti- intrínsecos do princípio democrático. Por isso a Constituição da República da
ficados. A consequências para quem realize este tipo de negócios é a possibili- Guiné-Bissau, preceitua que "os titulares de cargos políticos respondem política
dade da sua anulação via judicial, não sofrendo, no entanto, o usurário qualquer e criminalmente pelos actos e omissões que pratiquem no exercício das suas
cominação penal. funções".
No quadro regulamentar da UMOA, e ao contrário do que sucede entre nós o
negócio usurário gera responsabilidade civil e criminal. Esta solução jurídica não Os crimes praticados por titulares de cargos políticos no exercício das suas
e de todo singular já vem sendo adoptada em outros sistemas jurídicos. funções constituem a infracção de bens ou valores particulares relevantes da
Embora no diploma o regime fixado seja especialmente estabelecido para ordem constitucional, cuja promoção e defesa constituem dever funcional dos tit-
empréstimo ou mútuo oneroso, ressalva-se a sua aplicação para o comum dos ulares de cargos políticos. Por isso existe uma conexão entre essa responsabili-
contratos em que haja obrigação de prestar capital e que possam verificar-se dade criminal e a responsabilidade política, transformando-se a censura criminal
juros usurários, desta forma o disposto na presente lei é aplicável aos créditos numa censura política, com as necessárias consequências em relação ao desem-
penho do cargo. Posto que a responsabilidade criminal do titular de cargo políti-
concedidos para venda a prestações e aos mútuos de géneros ou outras coisas
co é mais elevada do que a responsabilidade criminal comum, pelo facto do
móveis que não sejam dinheiro.
agente disport de uma certa liberdade de conformação e gozar de uma relação de
Para que um negócio seja havido como usuário os juros fixados pelas partes con-
confiança pública. Daí a existência de especificidades quanto ao tipo de penas e
stituem um elemento determinante e uma vez que ultrapassem o limite fixado
seus efeitos.
considera-se a taxa usurária. Esta é fixada pelo Conselho de Ministros da
UEMOA.
Na Guiné-Bissau a necessidade de consolidação e aperfeiçoamento do sistema
Salvaguardam-se certos negócios que pela sua natureza possam envolver custos
democrático impõe que se torne efectiva essa responsabilidade que se traduz quer
fixos elevados ou despesas imprevisíveis, podendo os juros estipulados pelas
no dever de prestar contas, quer no sancionamento da condução errada ou ilícita
partes, que em sede deste diploma se denominam taxa efectiva global, exceder a
dos negócios públicos.
taxa usurária. Nestes casos o respectivo montante é fixado pelo Ministro das
Finanças. Assim:
Constituindo um crime, a usura é punida com prisão e multa e acessoriamente
com a publicidade da sentença de condenação e o encerramento da empresa. A Assembleia Nacional Popular decreta, nos termos do artigo 61.º e alínea c)
É igualmente definida no âmbito deste diploma a taxa de juro legal por referên- do n.º 1 do artigo 85.º, ambos da Constituição da República, o seguinte:
cia à taxa de desconto praticada pelo Banco Central (BCEAO).

190 191
CAPÍTULO I j) Magistrado Judicial;
k) Embaixador;
dos cRimes de Responsabilidade de titulaR l) Governador de Região;
de caRGo polÍtico em GeRal m) Director Geral.

ARTIGO 1.º ARTIGO 4.º


(Âmbito) (punibilidade da tentativa)

A presente lei determina os crimes de responsabilidade que os titulares de cargos Nos crimes previstos na presente lei a tentativa é punível independentemente da
políticos possam cometer no exercício das suas funções, e por causa delas, as medida legal da pena, sem prejuízo do disposto no artigo 28º do Código Penal.
sanções que lhes são aplicáveis e os respectivos efeitos
ARTIGO 5.º
ARTIGO 2.º (agravação especial)
(definição genérica)
As penas aplicáveis aos crimes previstos na lei penal geral, se cometidos por tit-
Consideram-se crimes de responsabilidade praticados por titulares de cargos ular de cargos políticos no exercício das suas funções e quando qualificados
políticos, além dos crimes previstos na presente lei, os previstos na lei penal geral como crimes de responsabilidade nos termos da presente lei serão agravadas de
com referência expressa ao exercício de funções políticas ou os que se prove um quarto dos seus limites mínimo e máximo.
terem sido praticados com flagrante desvio ou abuso da função ou com grave
violação dos deveres inerentes. ARTIGO 6.º
(atenuação especial)
ARTIGO 3.º
(cargos políticos) As penas aplicáveis aos crimes de responsabilidade cometidos por titular de
cargo político no exercício das suas funções poderá ser especialmente atenuada,
Para efeitos da presente lei, consideram-se cargos políticos, o exercício de para além dos casos previstos na lei geral, quando se mostre que o bem ou valor
funções de: sacrificados o foram para salvaguarda de outros constitucionalmente relevantes
a) Presidente da República; ou quando for diminuto e grau de responsabilidade funcional do agente e não
b) Presidente da Assembleia Nacional Popular; haja lugar à exclusão da ilicitude ou da culpa nos termos gerais.
c) Deputado à Assembleia Nacional Popular;
d) Membros do Governo;
e) Presidente do Supremo Tribunal de Justiça;
f) Procurador Geral da República;
g) Presidente do Tribunal de Contas;
h) Membro de Órgão representativo de Autarquias Locais;
i) Membro da Inspecção Superior Contra a Corrupção;
192 193
CAPÍTULO II do Homem e dos Povos, será punido com pena de prisão de 5 a 15 anos2. Se o
dos cRimes de Responsabilidade efeito do crime previsto no número anterior se não tiver seguido, a pena será de
de titulaRes de caRGo polÍtico 2 a 8 anos.
em especial
ARTIGO 10.º
ARTIGO 7.º (infidelidade diplomática)
(traição à pátria)
1. O titular de cargo político que, representando a República da Guiné-Bissau,
O titular de cargo político que, com flagrante desvio ou abuso das suas funções com intenção de prejudicar direitos ou interesses nacionais, conduzir negócio de
ou com grave violação dos inerentes deveres, ainda que por meio não violento Estado com Governo ou Organismo Internacional ou assumir compromissos em
nome da Guiné-Bissau sem que para isso esteja devidamente autorizado, é
nem de ameaça de violência, tentar separar ou entregar a totalidade ou uma parte
punido com pena de prisão de 2 a 12 anos.
do território da República da Guiné-Bissau a País estrangeiro como forma de
submissão, prejudicar ou puser em perigo a independência do País, será punido
ARTIGO 11.º
com prisão de 10 a 20 anos.
(suspensão ou restrição ilícita de direitos, liberdades e garantias)
ARTIGO 8.º
1.O titular de cargo político que, no exercício das suas funções ou com grave vio-
(atentado contra a constituição da República)
lação dos inerentes deveres, suspender o exercício de direitos, liberdades e garan-
tias não susceptíveis de suspensão ou sem recurso legítimo aos estados de sítio
1. O titular de cargo político que no exercício das suas funções atente contra a ou de emergência, ou impedir ou restringir aquele exercício, com violação grave
Constituição da República, visando alterá-la ou suspendê-la, por forma violent das regras de execução do estado declarado, será condenado a prisão de 2 a 8
ou por recurso a meios que não os democráticos nela previstos, será punido com anos.
prisão de 5 a 15 anos. 2. Se os actos previstos no número anterior forem praticados com uso deviolên-
2. Se o efeito do crime previsto no número anterior se não tiver seguido, a pena cia ou ameaça de violência, a pena será de prisão de 2 a 4 anos.
será de 2 a 8 anos.
ARTIGO 12.º
ARTIGO 9.º (coação contra órgãos constitucionais)
(atentado contra o estado de direito)
1. O titular e cargo político que, por meio não violento e sem ameaça de violên-
1. O titular de cargo político que com flagrante desvio ou abuso das suas funções cia, constranger ou obstacular o livre exercício de atribuições de Órgãos de
ou com grave violação de deveres inerentes, ainda que por meio não violento Soberania ou por qualquer meio actuar de forma a impedi-lo de exercer livre-
nem de ameaça de violência tentar destruir, alterar ou subverter o estado de direi- mente as suas funções, será punido com pena de prisão de 2 a 8 anos, se ao facto
to constitucionalmente estabelecido, nomeadamente os direitos, liberdades e não corresponder pena mais grave por força de outra disposição legal.
garantias estabelecidas na Constituição da República da Guiné-Bissau, na 2. Quando os factos descritos no número anterior forem praticados contra Órgão
Declaração Universal dos Direitos do Homem e na Carta Africana dos Direitos de Autarquia Local, a pena de prisão será de 1 a 5 anos.
194 195
3. Se a coação referida no n.º 1 do presente artigo for cometida contra Membros a) Contraindo encargos não permitidos por lei;
de Órgãos de Soberania, a pena de prisão será de 1 a 5 anos e se praticada con- b) Autorizando pagamento sem o visto do tribunal de contas legalmente previs-
tra Membros de órgãos de Autarquia Local, será de 6 meses a 3 anos. to;
4. Se a coação referida no n.º 1 for praticada contra magistrado, a pena será de 2 c) Autorizado ou promovendo operações de tesouraria ou alterações orçamentais
a 10 anos. proibidas por lei;
5. Se em consequência da conduta referida no número anterior, o Magistrado vier d) Utilizando dotações ou fundos secretos, com violação das normas da univer-
a omitir ou praticar acto em que violação de lei expressa e de resulte prejuízo salidade e especificação legalmente previstas. Será punido com prisão até 18
para terceiros, a pena será de 3 a 12 anos de prisão. meses se ao facto não corresponder outra pena mais grave por força de outra dis-
posição legal.
ARTIGO 13.º
(desacatamento ou obstrução à actividade jurisdicional) ARTIGO 17.º
(corrupção passiva para acto ilícito)
O titular de cargo político que, no exercício das suas funções se opuser, recusar
acatamento ou impedir o cumprimento ou execução de decisão judicial transita- 1. O titular de cargo político que no exercício das suas funções, por si ou inter-
da em julgado, é punido com prisão até 18 meses. posta pessoa, com o seu consentimento ou ratificação, solicitar ou receber, para
si ou para o seu conjugue, parente ou afins até ao terceiro grau, sem que lhes
ARTIGO 14.º sejam devidos, dinheiro, promessa de dinheiro, ou qualquer vantagem patrimo-
(denegação de justiça) nial ou não patrimonial. como contrapartida da prática de actos que impliquem
violação dos deveres do seu cargo ou omissão de acto que tenha o dever de
O titular de cargo político que, no exercício das suas funções, se recusar a aplicar praticar e que, nomeadamente, consiste:
o direito ou a administrar a justiça que nos termos das suas atribuições e com- a) Em dispensa de tratamento de favor a pessoa, empresa, ou organização deter-
petências, será punido com prisão até 18 meses e multa até 50 dias. minada;
b) Em violação de lei, através de intervenção em processo, tomada de decisão ou
ARTIGO 15.º participação em decisão de que resulte concessão de benefícios, subvenções, rec-
(prevaricação) ompensas, empréstimo, prémios, outorga de direitos, exclusão ou extinção de
obrigações e adjudicação ou celebração de contratos.
O titular de cargo político que conscientemente conduzir ou decidir contra dire- Será punido com prisão de 2 a 10 anos e multa de 100 a 200 dias.
ito um processo em que intervenha no exercício das suas funções, com intenção 2. Se o acto não for executado ou se não se verificar a omissão, a pena será de
de, por essa forma, prejudicar ou beneficiar alguém, será punido com prisão de prisão até 3 anos e multa até 100 dias.
2 a 8 anos.
ARTIGO 18.º
ARTIGO 16.º (corrupção passiva para acto lícito)
(Violação de normas de execução orçamental)
O titular de cargo político que, no exercício das suas funções, por si ou interpos-
O titular de cargo político que, no exercício das suas competências de direcção, ta pessoa, com o seu consentimento ou rectificação, solicitar ou receber dinheiro,
conscientemente, viole normas de execução orçamental: promessa de dinheiro ou qualquer vantagem patrimonial ou não patrimonial a
196 197
que não tenha direito, para si ou para o seu cônjuge, parentes ou afins até ao ter- calizar, defender ou realizar, será punido com prisão de 1 a 5 anos e multa de 50
ceiro grau, para a prática de acto ou omissão de acto não contrários aos deveres a 100 dias.
do seu cargo e que caibam nas suas atribuições, será punido com prisão até 3 2. O titular de cargo político que, de algum modo, receber vantagem patrimoni-
anos ou multa até 100 dias. al ilícita por consequência de um acto jurídico-civil concernente a interesses de
que, por virtude das suas funções e no momento do acto tenha, total ou parcial-
ARTIGO 19.º mente, a causa, será punido com multa de 50 a 150 dias.
(corrupção activa) 3. O titular de cargo político que, por qualquer forma, receber vantage económi-
ca por virtude de cobrança, arrecadação, liquidação ou pagamento que, por força
O titular de cargo político que, no exercício das suas funções, por si ou por inter-
das suas funções esteja, total ou parcialmente, encarregado de fazer ou ordenar,
posta pessoa, com o seu consentimento ou ratificação, der ou prometer a outro
desde que se não verificar prejuízo económico para o Estado, será punido com
titular de cargo político, a funcionário ou aos cônjuges, parentes ou afins daque-
multa de 50 a 150 dias.
les, até ao terceiro grau, dinheiro ou outra vantagem patrimonial ou não patri-
monial que não lhes sejam devidos, com prisão de 1 mês a 5 anos e multa de 100 ARTIGO 22.º
a 200 dias. (peculato)
ARTIGO 20.º 1. O titular de cargo político que, no exercício das suas funções, em proveito
(isenção de pena) próprio ou de terceiro, se apropriar ilicitamente de dinheiro ou qualquer outra
1. O titular de cargo político que nos casos previstos nos artigos 17.º e 18.º, vo- coisa móvel, pública ou particular, que lhe tenha sido entregue, esteja na sua
posse ou lhe seja acessível em razão das suas funções, será punido com prisão de
luntariamente repudiar promessa ou oferecimento que tenha aceite, ou restituir o
2 a 12 anos e multa até 150 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de
que ilegalmente tenha recebido antes de praticado o acto ou de consumada a
outra disposição legal.
omissão, ficará isento de pena.
2. Se o titular de cargo político der de empréstimo, empenhar ou de qualquer
2. O infractor que nos casos previstos nos artigos 17.º e 18.º, participe o crime às
forma onerar valores ou objectos referidos no nº 1, com a consequência de poder
autoridades competentes antes que qualquer outro co-infractor o tenha feito ou
prejudicar o Estado ou o seu proprietário, será punido com prisão até 3 anos e
antes que se tenha iniciado investigação oficial ou procedimento criminal, fica
multa até 80 dias.
isento de pena, sendo irrelevante a participação simultânea do facto.
3. O titular de cargo político que der a dinheiro público um destino para uso públi-
3. A isenção de pena prevista no n.º 1, só aproveitará ao agente de corrupção acti-
co diferente daquele a que estiver legalmente afectado, será punido com prisão até
va se o mesmo voluntariamente aceitar o repúdio de promessa ou a restituição do
18º meses ou multa de 20 a 50 dias, salvo caso devidamente justificado.
dinheiro ou vantagem que houver feito ou dado.
ARTIGO 23.º
ARTIGO 21.º (peculato por erro de outrem)
(participação económica em negócio)
O titular do cargo político que no exercício das suas funções, mas aproveitandose
1. O titular de cargo político que, com o propósito de obter, de forma ilícita, para de erro de outrem, receber, para si ou para terceiro, taxas, emolumentos ououtras
si ou para terceiro, participação económica, lesar os interesses patrimoniais que, importâncias não devidas, ou superior às devidas, será punido com prisão até 3
no todo ou em parte, lhe cumpra, em razão das suas funções, administrar, fis- anos ou multa até 150 dias.
198 199
ARTIGO 24.º timo ou de causar um prejuízo do interesse público ou de terceiros, será punido
(abuso de poderes) com prisão até 3 anos ou multa de 100 a 200 dias.
2. A violação de segredo prevista no n.º 1, será punida mesmo quando praticada
1. O titular de cargo político que abusar dos poderes ou violar os deveres iner- depois de o titular de cargo político ter deixado de exercer as suas funções.
entes às suas funções, com o objectivo de receber, para si ou para terceiro, bene- 3. O procedimento criminal depende de queixa da entidade que superintenda,
fício ilegítimo ou de causar prejuízo a outrem, nomeadamente ao Estado, sera ainda que a título de tutela, no órgão de que o infractor seja titular, ou do ofen-
punido com prisão de 6 meses a 3 anos ou multa de 50 a 100 dias, se outra pena dido, salvo se esse for o Estado.
mais grave não se lhe aplicar por força de outra disposição legal.
2. Incorre nas penas previstas no número anterior o titular de cargo político que CAPÍTULO III
efectuar fraudulentamente concessões ou celebrar contratos em benefícios de ter- dos efeitos das penas
ceiro ou prejuízo de Estado.
ARTIGO 28.º
ARTIGO 25.º (efeito das penas aplicadas ao presidente da República)
(emprego de força pública contra a execução de lei ou de ordem legal)
A condenação definitiva do Presidente da República por crime de responsabili-
O titular de cargo político que, sendo competente, em razão das suas funções, dade cometido no exercício das suas funções implica a destituição do cargo e a
para requisitar ou ordenar o emprego de força pública, requisitar ou ordenar esse impossibilidade de reeleição, após verificação pelo Supremo Tribunal de Justiça
emprego para impedir a execução de alguma lei, de mandato regular da justiça da ocorrência dos correspondentes pressupostos constitucionais legais.
ou de ordem legal de alguma autoridade pública, será punido com prisão de 1 a
5 anos e multa de 50 a 150 dias. ARTIGO 29.º
(efeitos das penas aplicadas a outros titulares de cargos politicos
ARTIGO 26.º de natureza electiva)
(Recusa de cooperação)
Perdem o mandato por virtude de condenação definitiva por crime de respons-
abilidade cometido no exercício das suas funções, os seguintes titulares de car-
O titular de cargo político a quem. em razão das competências do seu cargo,
gos políticos:
tenha sido solicitada cooperação, através de requisição legal da autoridade com-
a) Presidente da Assembleia Nacional Popular;
petente para administração da justiça ou qualquer serviço público, se recusar a
b) Deputado à Assembleia Nacional Popular;
prestá-la, sem motivo legítimo, será punido com prisão de 3 meses a 1 ano ou c) Membro de Órgão Representativo de Autarquia Local.
multa de 50 a 100 dias.
ARTIGO 27.º ARTIGO 30.º
(Violação de segredo) (efeitos de pena aplicada ao primeiro ministro)

1.O titular de cargo político que sem estar devidamente autorizado, reveler seg- A condenação definitiva do Primeiro-Ministro por crime de responsabilidade
redo de que tenha tido conhecimento ou lhe tenha sido confiado no exercício das cometido no exercício das suas funções implica a respectiva demissão pelo
suas funções, com a intenção de obter, para si ou para outrem, um benefício legí- Presidente da República, bem como as consequências previstas na Constituição.
200 201
ARTIGO 31.º ARTIGO 34.º
(efeitos de pena aplicadas a outros titulares de cargos politicos (Regras especiais aplicáveis a deputado à assembleia nacional popular)
de natureza não electiva)
1. Nenhum Deputado pode ser detido ou preso sem autorização da ANP, salvo,
Implica de direito a respectiva demissão com as consequências constitucionais e em caso de flagrante delito e por crime punível com pena de prisão maior.
legais a condenação definitiva por crime de responsabilidade no exercício das 2. Movido procedimento criminal contra um Deputado à Assembleia Nacional
suas funções dos seguintes titulares de cargos políticos: Popular, salvo em caso de pena de prisão maior, a Assembleia decidirá se o
a) Presidente do Supremo Tribunal; mandato do deputado deve ou não ser suspenso para efeitos de seguimento do
b) Procurador Geral da República; processo.
c) Presidente do Tribunal de Contas; 3. O Presidente da ANP responde perante o Plenário do Supremo Tribunal de
d) Membros do Governo; Justiça.
e) Governador de Região. ARTIGO 35.º
(Regras especiais aplicáveis a membro do Governo)
CAPÍTULO IV
1. Motivo procedimento contra um Membro do Governo e indiciados este defin-
ReGRas especiais de pRocesso itivamente por despacho de pronúncia ou equivalente, salvo caso de crime punív-
el com pena maior, a Assembleia Nacional Popular decide se o membro do
ARTIGO 32.º Governo deve ou não ser suspenso para efeitos de seguimento do processo.
(princípios gerais) 2. O Primeiro-Ministro responde no Tribunal de Círculo de Bissau, com recurso
para o Supremo Tribunal de Justiça.
Aplicam-se à instrução e julgamento dos crimes de responsabilidade a que se re-
fere a presente lei as regras gerais de competência e de processo com as especia- ARTIGO 36.º
lidades constantes dos artigos seguintes. (do direito de acção)

ARTIGO 33.º Nos crimes a que se refere a presente lei têm legitimidade para promover o
(Regras especiais aplicáveis ao presidente da República) processo penal, para além do Ministério Público:
a) A Assembleia Nacional Popular, em relação ao Presidente da República;
1. O Presidente da República responde perante o plenário do Supremo Tribunal b) A entidade ou cidadão directamente ofendido pelo acto considerado delituoso;
de Justiça pelos crimes de responsabilidade praticados no exercício das suas c) O Membro de Assembleia deliberativa relativamente aos crimes imputados a
funções. titulares de cargos políticos que, individualmente ou através do respectivo órgão,
respondam perante essa Assembleia;
2. Compete à Assembleia Nacional Popular, requerer ao Procurador Geral da d) As entidades que exercem tutela sobre órgãos políticos, relativamente a crimes
República a promoção da acção penal contra o Presidente da República sob pro- imputados a titulares de órgãos tutelados;
posta de 1/3 e aprovação de 2/3 dos Deputados em efectividade de funções. e) A Inspecção Superior Contra a Corrupção;
f) A entidade a quem compete a exoneração ou demissão de titulares de cargos
políticos, relativamente a crimes imputados a estes.
202 203
ARTIGO 37.º CAPÍTULO V
(Julgamento em separado) da Responsabilidade ciVil emeRGente
de cRime de Responsabilidade de titulaRes
Por razões de celeridade a instrução e o julgamento dos processos relativos a de caRGo polÍtico
crimes de responsabilidade de titular de cargo político far-se-ão em separado rel-
ativamente aos processos de outros presumíveis co-autores que não sejam titu- ARTIGO 40.º
lares de cargos políticos. (princípios gerais)

ARTIGO 38.º 1. A indemnização por perdas e danos emergentes de crime de responsabilidade


(liberdade de alteração do rol das testemunhas) praticado por titular de cargo político no exercício das suas funções rege-se pela
lei civil.
Sem prejuízo do disposto no artigo 216.º do Código de Processo Penal, nos
processos de julgamento de titulares de cargos políticos por crimes cometidos no 2. O Estado responde solidariamente com o titular de cargo político pelas perdas
exercício das suas funções são permitidas alterações do rol de testemunhas e a e danos emergentes dos crimes referidos no número anterior.
junção de novos documentos até 3 dias antes da data marcada para o início de
julgamento, sendo para o efeito irrelevante o adiantamento deste. 3. O Estado em direito de regresso contra o titular de cargo político por crime de
responsabilidade cometido no exercício das suas funções de que resulte obri-
ARTIGO 39.º gação de indemnizar.
(denúncia caluniosa)
4.O Estado ficará sub-rogado no direito do lesado à indemnização, nos termos
1. Da decisão de absolver o titular de cargo político acusado de crime de respon- gerais, até ao montante que tiver satisfeito.
sabilidade ou da decisão que o condene com base em factos diferentes daqueles
que constam na denúncia era dado conhecimento ao Ministério Público para o ARTIGO 41.º
efeito de procedimento, ser for esse ocaso, pelo crime previsto e punido pelo (dever de indemnizar)
artigo 230.º do Código Penal.
1. Nos termos gerais do direito, a absolvição do titular de cargo político pelo
2. As penas previstas por aquela disposição legal serão agravadas nos termos Tribunal Criminal não extingue o dever de indemnizar não conexo com a respon-
gerais, em razão do acréscimo da gravidade que empresta à natureza caluniosa sabilidade criminal podendo a respectiva indemnização ser requerida através
da denúncia a qualidade do ofendido. de Tribunal Civil.

2. Sem prejuízo do número anterior, quando o tribunal absolva o réu na acção


penal por força da atenção especial prevista na presente lei, poderá, contudo arbi-
trar ao ofendido uma quantia que, em seu juízo, considere razoável e justificada
como reparação por perdas e danos.
204 205
ARTIGO 42.º lei 12/2011
(opção do foro) lei de prevenção e combate ao tráfico
de pessoas, em particular mulheres e crianças
O pedido de indemnização por perdas e danos conexos com crime de respons-
abilidade praticado por titular de cargo político no exercício das suas funções preâmbulo
pode ser deduzido no processo em que corre acção penal ou requerido, sepa-
radamente, em acção intentada no Tribunal Civil. Apesar de vários esforços empreendidos pela Comunidade Internacional e os
Estados em particular, a dignidade da pessoa humana continua a ser objecto de
ARTIGO 43.º grandes atentados e flagrantes violações no mundo e no continente africano.
(Regime de prescrição) Assim, torna imperioso aos Estados empreender mais esforços para asse-gurar a
efectivação dos Direitos das pessoas, como condição imprescindível para o
O direito à indemnização prescreve nos mesmos prazos do procedimento crimi- cumprimento dos objectivos escritos na agenda do milénio para o desenvolvi-
nal. mento.

CAPÍTULO VI A actual tendência mundial de tráfico de seres humanos à qual a Guiné-Bissau


disposiçÃo final não está imune, requer do Estado a definição de um quadro normativo capaz de
prevenir e reprimir tal prática criminosa, que põe em causa os direitos funda-
ARTIGO 44.º mentais das pessoas, em particular as mulheres e as crianças.
(norma revogatória)
Considerando a imposição da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que
São revogadas todas as disposições legais e regulamentares contrárias à presente nenhum ser humano deve ser traficado, ser mantido em escravidão, servidão,
lei.
sendo proibido estas práticas sob diferentes formas da sua manifestação. De
recordar, que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Carta Africana
ARTIGO 45.º
dos Direitos Humanos e dos Povos, a Convenção sobre os Direitos da Criança,
adoptada pela Assembleia geral das Nações Unidas, em 20 de Novembro de
A presente lei entra imediatamente em vigor, após a sua publicação no Boletim
1989, foram ratificadas pelo Estado da Guiné-Bissau.
Oficial.

Aprovada em 11 de Agosto de 1997. Preocupado com algumas das degradantes formas de trabalho forçado, a escra-
vatura, a Sociedade das Nações aprovou em 1930 uma Convenção Suplementar
O Presidente da Assembleia Nacional Popular, Malam Bacai Sanha.
sobre abolição da escravatura, tráfico de escravos e práticas análogas. Acresce,
Promulgada em 24 de Novembro de 1997. ainda, o facto de a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental,
O Presidente da República, João Bernardo Vieira. CEDEAO, no seu plano de acção sobre o tráfico de pessoas recomendar aos
Estados membros a adopção de instrumentos normativos internos, capazes de
prevenir e desencorajar as referidas práticas.
206 207
Considerando a necessidade imperiosa de salvaguardar os direitos das pessoas, SECÇÃO II
através de instituição de um quadro normativo, capaz de assegurar o respeito pela das definiçÕes
dignidade da pessoa humana, bem como o desenvolvimento das suas potenciali-
dades dentro da sociedade, na base de segurança e protecção jurídica. ARTIGO 3.º
definições gerais
Torna assim fundamental, a monitoria e a troca de informações regionais e inter-
nacionais sobre o tráfico transfronteiriço de pessoas, apetrechando os Serviços a) "Tráfico de pessoas" entende se por tráfico de pessoas o recrutamento ou acol-
de Fronteiras de dispositivos normativos eficazes, com vista a travar o crescente himento de pessoas por via de ameaça, coacção moral ou física, do rapto, da
tráfico de pessoas. fraude, do engano, do casamento forçado, do abuso de autoridade ou aproveitan-
do se da situação de vulnerabilidade da vítima ou da sua incapacidade física, nat-
Tendo em conta a imperiosa necessidade de adopção de medidas legislativas ural ou acidental, ou da anomalia psíquica, ou à entrega ou aceitação de paga-
necessárias e urgentes por parte do Estado, a ANP, preocupado com tráfico de mentos ou benefícios para obter o consentimento da pessoa que tem autoridade
pessoas e actividades conexas, decreta, nos termos da alínea c) do n.º 1 do arti- sobre a vítima, com a finalidade de exploração sexual, casamento forçado,
go 85.º da Constituição da República, o seguinte: extracção de órgãos humanos, trabalho, escravatura ou práticas similares, bem
como a servidão;
CAPÍTULO I b) "Exploração sexual" para a presente lei a exploração sexual é a sujeição duma
disposiçÕes fundamentais pessoa à prostituição ou produção de material pornográfico por meio de ameaça,
engano, coacção, abandono, abuso de autoridade, servidão por dívida, com o fim
SECÇÃO I de obter uma vantagem, patrimonial ou não;
das disposiçÕes GenéRicas c) "Pornografia" é qualquer representação, através da publicidade, exibição cin-
ematográfica, espectáculo indecente, tecnologia de informação, ou por quaisquer
ARTIGO 1.º meios, de uma pessoa envolvida em actividades sexuais efectivas ou simuladas,
objecto ou qualquer representação dos órgãos sexuais de uma pessoa, sem o seu consen-
timento;
A presente lei tem por objecto estabelecer o regime jurídico aplicável à pre- d) "Prostituição" entende se por prostituição o envolvimento, de modo sistemáti-
venção e combate ao tráfico de pessoas, em particular mulheres e crianças, co, em relações sexuais ou outros actos similares em troca de dinheiro, ou qual-
nomeadamente a criminalização do tráfico de pessoas e actividades conexas, a quer outra van-tagem patrimonial ou não;
protecção de vítimas, denunciantes e testemunhas. e) "Servidão por dívida" corresponde à servidão por dívida a prestação, pelo
devedor, dos seus serviços ou trabalho a favor de outrem ou de pessoas que
ARTIGO 2.º exercem controle e autoridade sobre ele, como garantia ou pagamento de uma
Âmbito de aplicação dívida, quando a extensão e a natureza dos serviços não está claramente defini-
da ou quando o valor razoável dos serviços não é aplicado para a lisquidação da
A presente Lei aplica se à prevenção e combate ao tráfico de pessoas, de e para dívida;
o território nacional, e dentro deste, desde que o infractor seja encontrado na f) "Trabalho forçado ou escravatura" entende por trabalho forçado ou escravatu-
Guiné-Bissau ou possa ser extraditado para o território guineense. ra é a obtenção de trabalho ou serviços de outrem por meio de sedução, violên-
208 209
cia, intimidação ou ameaça, uso de força, incluindo a privação da liberdade, ARTIGO 7.º
abuso de autoridade ou engano. transporte e rapto

CAPÍTULO II Todo aquele que recrutar, contratar, adoptar, transportar ou raptar uma pessoa,
cRimes de tRáfico de pessoas e cRimes mediante ameaça ou uso da força, fraude, engano, coacção ou intimidação, com
coneXos a finalidade de remoção ou venda de órgãos da referida pessoa, é punido com a
pena de prisão de 16 a 20 anos.
ARTIGO 4.º
ARTIGO 8.º
tráfico de pessoas
arrendamento de imóvel para fins de tráfico
1. Todo aquele que recrutar, fornecer, transportar, acolher uma pessoa, para fins Todo aquele que conscientemente arrendar ou subarrendar, ou permitir a utiliza-
de prostituição, trabalho forçado, escravatura, servidão involuntária ou servidão ção de qualquer estabelecimento de que é titular ou de cuja administração lhe é
por divida, é punido com a pena de prisão de 3 a 15 anos. confiado a qualquer título, com afinalidade de promoção do tráfico de pessoas, é
punido com a pena de 8 a 12 anos de prisão.
2. Se em consequência dos factos referidos no número anterior resultar a doença
ou a morte da vítima, o agente é punido com a pena de 15 a 20 anos de prisão. ARTIGO 9.º
publicidade e promoção do tráfico
ARTIGO 5.º
pornografia e exploração sexual Todo aquele que fizer publicidade, imprimir, transmitir ou distribuir, publicar,
por quaisquer meios, incluindo o uso de tecnologia de informação e comunicação
Quem praticar os factos descritos no art.º 4.º ou submeter outrem à prática de fac- e a Internet, ou qualquer brochura ou material de propaganda promovendo o trá-
tos descritos no art.º 5.º, ambos da presente lei, é punido com a pena de prisão de fico de pessoas, é punido com a pena de prisão de 2 a 8 anos.
5 a 8 anos.
CAPÍTULO III
ARTIGO 6.º contRabando de emiGRantes
adopção para fins ilícitos
ARTIGO 10.º
1. Todo aquele que adoptar ou facilitar a adopção de pessoas com a finalidade de destruição de documentos de viagem
envolvimento na prostituição, exploração sexual e trabalho forçado, escravatura,
servidão involuntária, será punido com a pena de prisão 10 a 15 anos. Todo aquele que confiscar, esconder ou destruir o passaporte, os documentos de
viagem, os documentos ou pertenças pessoais da vítima do tráfico, para a impedir
2. Se em consequência dos factos referidos no número anterior resultar a doença de se deslocar ou de ir buscar ajuda do Governo ou de quaisquer entidades, públi-
ou a morte da vítima, o agente é punido com a pena de prisão de 15 a 20 anos. cas ou privadas, nacionais ou internacionais, ou mesmo de pessoas singulares,
com a finalidade de tornar a pessoa mais vulnerável ao tráfico, é punido com a
pena de prisão de 2 a 8 anos.
210 211
ARTIGO 11.º ARTIGO 14.º
benefício financeiro pessoas colectivas

Todo aquele que obtém conscientemente benefícios finan-ceiros ou de outra 1. Sendo qualquer dos actos qualificados pela presente lei praticado com o uso
natureza, ou fizer uso do trabalho ou dos serviços de uma pessoa sujeita a uma de meios, recursos, instalações, empregados ou património de uma pessoa colec-
condição de servidão, trabalho forçado ou escravatura, é punido com a pena de tiva, a penalização recai sobre o respectivo presidente, director, gerente, sócios,
prisão de 5 a 8 anos. bem como qualquer funcionário responsável, que tiver participado no
cometimento do crime ou que tenha conscientemente permitido ou não denunci-
ARTIGO 12.º
ado tal crime.
consentimento do ofendido
2. Nos casos previstos no número anterior, as pessoas colectivas são solidaria-
O consentimento do ofendido não exclui nem atenua a responsabilidade penal mente responsáveis pelo pagamento das indemnizações, multas, impostos de
dos agentes dos crimes previstos na presente lei. justiça, custas e demais encargos em que forem condenados os seus responsáveis
ou empregados, desde que estes tenham agido nessa qualidade e no interesse da
ARTIGO 13.º pessoa colectiva, salvo se procederam contra determinações da administração ou
penas acessórias do órgão deliberativo.
3. O património das pessoas colectivas usado na prática de crimes previstos nesta
1. Sem prejuízo do estabelecido nos artigos anteriores, em caso de condenação lei, quer consistam em meios de transporte, acomodação ou financeiros, quer se
por algum crime previsto na presente Lei, sendo o infractor estrangeiro, pode ser traduza em meios de outra natureza, bem como os estabelecimentos, rendimen-
ordenada a sua expulsão do país, após o cumprimento da pena, salvo se o inter- tos e bens ou produtos resultantes do tráfico de pessoas, revertem a favor do
esse nacional recomendar a sua expulsão imediata ou de outro modo estiver esta- Estado.
belecido em acordos de extradição subscritos pelo Estado guineense. 4. Os alvarás, licenças e registos das pessoas colectivas ou estabelecimentos pre-
2. A sentença condenatória por prática de crimes previstos na presente lei deter- vistos neste artigo, são cancelados definitivamente, encerrando se a actividade, e
mina: as pessoas referidas no n.º 1 ficam proibidas de voltar a exercer actividade simi-
a) A reversão a favor do Estado de todos os bens móveis, imóveis utilizados no lar, mesmo que sob firma diferente.
cometimento do crime ou os proventos dele resultante;
b) A interdição, por um período de cinco a dez anos, do exercício de profissão ou ARTIGO 15.º
de actividade, se o crime foi cometido durante ou por ocasião do exercício dessa circunstâncias agravantes
profissão ou actividade;
c) O encerramento da empresa, estabelecimento ou lugar público, onde os factos São circunstâncias agravantes, para além das previstas no Código Penal, as
tenham ocorrido, por período de dois a seis anos; seguintes:
d) O confisco e o cancelamento das autorizações passadas em nome do agente da a) Quando a vitima seja uma criança, mulher ou pessoa com idade superior a
infracção; dezoito anos, mas que não seja capaz de se proteger contra abusos, negligência,
e) A interdição do exercício de outras actividades, que pela sua natureza podem crueldade, exploração ou discriminação, devido a deficiência física ou mental, ou
propiciar o tráfico de pessoas; a situação de extrema pobreza;
f) A indemnização da vítima e a reparação dos danos causados.
212 213
b) Quando o crime seja cometido por parente de qualquer grau na linha recta ou 2.Quem, tendo conhecimento da verificação de um dos crimes previstos na pre-
parente na linha colateral até ao oitavo grau da vítima; sente lei não participar do facto às autoridades competentes é considerado, para
c) Quando o crime seja cometido por curador, encarregado de educação, direcção todos os efeitos, como sendo cúmplice.
ou guarda da vítima, pessoa que a qualquer título tiver autoridade ou respons-
abilidade sobre a vítima, eclesiástico ou ministro de qualquer culto; ARTIGO 19.º
d) Quando o crime seja cometido por qualquer autoridade pública; obrigatoriedade de denúncia
e) Quando o crime seja cometido contra o acolhido;
f) Quando o crime seja cometido por quem tenha o dever especial de proteger a 1. Todo o funcionário dos serviços de Migração, agente alfandegário ou da polí-
vítima; cia da guarda fronteira, médico ou agente de saúde e qualquer funcionário públi-
g) Quando a vítima seja usada para o cometimento de crimes ou em conflitos co que tenha conhecimento de que certa pessoa é vítima do crime de tráfico, tem
armados; o dever especial de denunciar o facto às autoridades competentes.
h) Quando o crime seja cometido por sindicato, associação criminosa ou envol- 2. As autoridades policiais que tenham conhecimento por si ou através de
vendo um grande número de vítimas; denúncia, devem incitar as investigações necessárias para a responsabilização
i) Quando da prática ou por ocasião da prática do crime resultarem doenças de dos infractores.
foro psicológico, a excisão ou contágio de HIV/SIDA e doenças de transmissão
sexual.
CAPÍTULO IV
ARTIGO 16.º
VÍtimas, denunciantes, testemunHas
circunstâncias atenuantes
e actiVistas sociais

Constituem circunstâncias atenuantes, as previstas na lei penal e a colocação vol- ARTIGO 20.º
untária e espontânea do agente perante autoridades competentes para o esclarec- protecção das vítimas
imento do crime.
1. As vítimas dos crimes previstos na presente Lei beneficiam das medidas gerais
ARTIGO 17.º de protecção de testemunhas em processo penal e, em especial, da possibilidade
acção penal de não ser revelada a sua identidade durante o processo crime e mesmo após o
seu encerramento.
A acção penal pelos crimes constantes desta lei não depende de queixa, denún- 2. A protecção especial aplica se, nomeadamente nos seguintes casos:
cia ou participação dos ofendidos ou seus legais representantes. a) Ter entrado ilegalmente no país ou no estrangeiro, com ou sem a documen-
tação legalmente exigida;
ARTIGO 18.º b) Estar no estado de gravidez;
dever de denúncia c) Ser portadora de deficiência;
d) Ter contraído HIV/SIDA, infecção de transmissão sexual ou mal nutrição em
1. Todo o cidadão tem o dever de denunciar às autoridades competentes os fac- consequência do tráfico;
tos que integram os crimes previstos na presente Lei. e) Ser menor de idade.
214 215
3. Beneficiam de especial protecção, nos termos da lei, as pessoas que, em con- ARTIGO 23.º
sequência da sua condição física, psicológica, económica, material ou social, se protecção dos denunciantes e testemunhas
possam tornar vulneráveis à prática dos actos previstos na presente lei.
4. As vítimas de tráfico não são criminalmente responsáveis pela prática de actos 1. Nenhum denunciante ou testemunha pode ser sujeita a medida disciplinar ou
relacionados com o tráfico previstos na spresente lei quando a sua prática tenha prejudicado na sua carreira profissional ou por qualquer forma, ser perseguido
sido determinada pela coacção ou medo, em virtude da sua sujeição ao tráfico. em virtude da queixa ou denúncia dos crimes previstos na presente lei.
2. Todo aquele que violar o disposto no número anterior é punido com a pena de
ARTIGO 21.º prisão até um ano e multa até seis meses.
outras medidas de protecção 3. A qualidade de queixoso, denunciante ou testemunha pode ser exercida por
organizações sociais legalmente reco-nhecidas ou por qualquer pessoa singular.
1. Para assegurar a sua recuperação, reabilitação e reintegração social, as vítimas 4. Sem prejuízo da sanção mais grave prevista no Código Penal, é punido com a
têm direito a: pena de prisão até 1 ano e multa até seis meses todo aquele que, por qualquer
a) Um abrigo de emergência e alojamento apropriado; forma, sancionar, perseguir ou prejudicar os queixosos, os denunciantes, as teste-
b) Uma assistência e acompanhamento psicológico; munhas ou os assistentes na sua carreira profissional.
c) Uma assistência médica e medicamentosa;
d) Um aconselhamento;
e) Uma assistência jurídica e patrocínio judiciário gratuito; CAPITULO V
f) Uma educação e formação profissional ou profissionalizante. ReinteGRaçÃo social das VÍtimas
2. Para efeitos do previsto no número anterior será instituído um sistema de
supervisão, monitoria e acompanhamento da recuperação, reabilitação e reinte- ARTIGO 24.º
gração social das vítimas. instalação das vítimas

ARTIGO 22.º As vítimas do tráfico devem ser instaladas num lugar seguro, digno, favorável e
permanência no país em condições humanas após a sua identificação.

Sem prejuízo das disposições legais sobre a entrada e permanência de ARTIGO 25.º
estrangeiros na República da Guiné-Bissau é emitida pelos serviços competentes direito à informação
uma autorização de residência temporária a favor da vítima do tráfico que:
a) Se encontre no território da República da Guiné-Bissau; As vítimas do tráfico têm o direito a ser devidamente informadas, nomeadamente
b) Concorde em colaborar com as autoridades na investigação de crimes de trá- sobre os seus direitos, as medidas de protecção, as instituições e programas de
fico de pessoas e na perseguição judicial dos seus autores; apoio, o andamento do processo e, em geral, todas as informações úteis a sua
c) Esteja sob cuidados de instituições de assistência ou outras pessoas devida- condição.
mente autorizadas.

216 217
ARTIGO 26.º 3. As vítimas não devem ser repatriadas ao seu país ou região de origem a menos
Responsabilidades dos agentes sociais que, antes do seu regresso, alguém, pai ou mãe, outro parente ou adulto, uma
agência governamental ou uma agência especializada de assistência social às
1. Os responsáveis dos serviços sociais em cooperação com as ONGs e as orga- vítimas no país ou na região de origem, tenha concordado em respon-sabilizar se
nizações internacionais deverão desenvolver padrões mínimos para os cuidados em prestar lhe os cuidados e a protecção apropriado.
as vítimas. 4. Em qualquer dos casos a opinião da vítima deve ser tida em conta ao ponder-
2. Em nenhuma circunstância deverá a vítima ser colocada em instalação de ar se a reunificação familiar e ou o regresso ao país ou a região de origem e na
detenção tais como um centro de detenção, uma cela de polícia, uma prisão ou procura de uma solução sustentável.
em qualquer outro centro de detenção especial. 5. Nas situações em que o regresso seguro da vítima ao seu país ou região de
origem não seja do seu superior interesse, a autoridade central, em cooperação
ARTIGO 27.º com o departamento do Estado responsável pela defesa e protecção da criança,
Repatriamento da vítima deve encontrar uma solução adequada e sustentável.

1. No âmbito das relações internacionais, o Governo deve promover acções ten- ARTIGO 29.º
dentes ao estabelecimento de acordos, visando o repatriamento de guineenses
Vítimas nacionais
vítimas do tráfico que se encontrem no estrangeiro e assegurar o repatriamento
dos estrangeiros que se encontrem na Guiné-Bissau.
As autoridades guineenses competentes devem facilitar e criar condições para
2.O Governo deve providenciar para que as vítimas do tráfico para a Guiné-
que os guineenses ou estrangeiros residentes na Guiné-Bissau traficadas para
Bissau aguardem o repatriamento em centros de acolhimento apropriados, com
outros países possam regressar e ser assistidas em território nacional, nomeada-
direito à assistência médica e alimentação adequada.
mente:
a) Avaliar os riscos para a segurança e vida da vítima após o repatriamento;
ARTIGO 28.º
b) Adoptar as medidas para receber a vítima em qualquer ponto de entrada no
Vítimas estrangeiras
território nacional;
1. Os cidadãos estrangeiros traficados para Guiné-Bissau não podem ser repa- c) Emitir documentos de viagem ou outras autorizações necessárias para que a
triados para o seu país de origem ou de proveniência sem que estejam assegu- pessoa viaje e entre no território da Guiné-Bissau;
radas cumulativamente as seguintes condições: d)Após a entrada no território nacional, encaminhar a vítima para as instituições
a) Garantia de segurança da pessoa durante o processo de repatriamento; competentes para avaliação da sua situação.
b) Garantia de segurança da pessoa no país para onde vai ser conduzida;
c) Risco reduzido de que a pessoa repatriada possa voltar a ser vítima de tráfico.

2. Nos casos previstos no número anterior, a vítima tem o direito a ser informa-
da sobre os pre-parativos e condições que tiveram sido criados para a sua
recepção no local de destino.

218 219
CAPÍTULO VI a) Se as pessoas que atravessam ou tentam atravessar a fronteira com documen-
medidas pReVentiVas tos de viagem pertencentes a terceiros ou sem documentos de viagem são autores
ou vítimas de tráfico de pessoas;
ARTIGO 30.º b) Os tipos de documentos de viagem que as pessoas têm utilizado ou tentado uti-
Governo lizar para atravessar a fronteira para fins de tráfico de pessoas.

Compete ao Governo através das instituições competentes promover, coordenar ARTIGO 33.º
e realizar acções tendentes à prevenção e combate ao crime de tráfico de pessoas, comité nacional
ou nos termos de legislação aplicável às parcerias entre o Estado e a sociedade
civil, nomeadamente: Para efeitos de prevenção e coordenação de acções de combate a tráfico de pes-
a) As campanhas de informação, através da comunicação social e outros meios soas será criado um Comité Nacional de Prevenção, protecção, combate, e apoio
que se mostrarem mais eficazes, sobre as técnicas de recrutamento usadas pelos a vítimas do tráfico de seres de pessoas.
traficantes, as tácticas utilizadas para manter as vítimas em situações de sujeição,
as formas de abuso a que as vítimas estão sujeitas, bem como as autoridades
competentes, organizações e instituições que podem prestar assistência ou infor- CAPITULO VII
mação; disposiçÕes finais
b) A Protecção e reintegração da vítima;
c) A investigação e recolha de informações sobre as vítimas de tráfico, particu- ARTIGO 34.º
larmente as mulheres e crianças, junto da comunidade onde estejam a residir; destino dos proventos
d) A coordenação com o poder local incluindo as autoridades comunitárias no
combate as situações de vulnerabilidade. Os rendimentos, produtos e bens utilizados na prática do crime de tráfico ou
delas resultantes, que nos termos da presente lei revertem a favor do Estado, são
ARTIGO 31.º aplicados em programas de prevenção e reintegração das vítimas de tráfico.
formação

No âmbito da prevenção e combate ao tráfico, o Governo através de instituições ARTIGO 35.º


competentes da área deve promover a formação especializada dos agentes de legislação subsidiária
Migração, de investigação criminal, guarda fronteira, agentes aduaneiros.
Aos crimes previstos na presente lei são aplicáveis, subsidiariamente, as dis-
ARTIGO 32.º posições do Código Penal e legislação complementar competente.
intercâmbio de informação
ARTIGO 36.º
O serviços competentes do Estado, os responsáveis pela aplicação da lei, os Regulamentação
serviços de Migração, de investigação criminal, guardas fronteiras e ONG's da
área devem cooperar entre si, na medida do possível, através da troca de infor- Cabe ao Governo à regulamentação, bem como o estabelecimento de mecanis-
mações, em conformidade com o seu direito interno, afim de poderem determinar: mos e instituições necessárias e adequadas a sua implementação.
220 221
ARTIGO 37.º lei 14/2011
entrada em vigor lei visa prevenir, combater e reprimir
a excisão feminina
A presente lei entra em vigor no dia seguinte ao da sua publicação no Boletim
Oficial. preâmbulo

Aprovada em 6 de Junho de 2011. - O Presidente da Assembleia Nacional A Guiné-Bissau enquanto um Estado soberano abraçou a democracia como a sua
Popular, Dr. Raimundo Pereira. forma de governo e de exercício do poder político. Consequentemente compro-
mete-se a respeitar os valores e princípios nela subjacentes, nomeadamente o
Promulgada em 5 de Julho de 2011. respeito pelos direitos fundamentais, na qualidade do vector axiológico de
Estado de Direito democrático e cristalização do princípio da dignidade da pes-
Publique-se. soa humana, no qual se funda a razão, o limite e o fim do Estado moderno.
O Presidente República, malam bacai sanhá.
A liberdade de manifestação cultural e religiosa integra o catálogo dos direitos
fundamentais, dos quais nasce o dever do Estado, de os assegurar e proteger.
Porém, não sendo direitos autónomos, procuraram a sua perfeição no sistema
jurídico-constitucional em que se encontram consignados, porquanto a
Constituição tem uma estrutura compromissória, na medida em que prevê
inúmeros direitos fundamentais, "prima facie" opostos, cuja coerência prática
cabe ao legislador ordinário esta-belecer o ponto óptimo de equilíbrio entre um
direito fundamental na sua relação com os demais.

Com efeito, na prossecução da sua missão de realização da justiça, de garantir a


segurança e promover o bem-estar social aos cidadãos, incumbe ao Estado adop-
tar medidas legislativas indispensáveis, com vista a sancionar e reprimir as con-
dutas ofensivas dos padrões de conduta numa vida em sociedade, capazes de pôr
em causa a integridade física e moral e a dignidade da pessoa humana.

Assim, ao abrigo da Constituição da República, da Declaração Universal dos


Direitos Humanos, da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, do
Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e ao seu Protocolo Adicional e,
sobretudo, da Convenção dos Direitos das Crianças (CDC), da Convenção
Contra Todas as Formas de Descriminação Contra a Mulher (CEDAW) e do
Protocolo de Maputo, a Assembleia Nacional Popular, preocupada com a cres-
cente dimensão social da excisão, decreta, nos termos da alínea g) do Artigo 86.º
da Constituição da República, o seguinte:
222 223
CAPÍTULO I ARTIGO 5.º
disposiçÕes GeRais (excisão sobre menor)

ARTIGO 1.º 1. A excisão praticada sobre menor de idade é punida com pena de prisão de 3 a
(Âmbito) 9 anos.
A presente lei visa prevenir, combater e reprimir a excisão feminina na República 2. Os pais, tutor, encarregado de educação ou qualquer pessoa a quem cabe a
da Guiné-Bissau. custódia da criança tem o dever de impedir a prática da excisão.
3. O não cumprimento do disposto no número anterior é punido com a pena de
ARTIGO 2.º prisão de 1 a 5 anos.
(conceito de excisão) 4. Para efeitos desta lei, tanto o termo menor de idade como criança se referem
Para efeitos da presente lei entende se por excisão, toda a forma de amputação, a pessoa abaixo da idade da maioridade.
incisão ou ablação parcial ou total de órgão genital externo da pessoa do sexo
feminino, bem como todas as ofensas corporais praticadas sobre aquele órgão por ARTIGO 6.º
razões sócio cultural, religiosa, higiene ou qualquer outra razão invocada. (agravação)

ARTIGO 3.º 1. Quem, com intenção apenas de praticar excisão sobre outrem lhe causar os
(proibição da excisão) efeitos previstos nas alíneas c), d) e e) do artigo 115.º do Código Penal, a pena
será de 2 a 8 anos de prisão.
1. É expressamente proibida a prática de excisão feminina em todo o território da 2. Se, em vez dos efeitos previstos no artigo 115.º referido no número 1 deste
Guiné-Bissau. artigo, resultar a morte da vítima, a pena será de 4 a 10 anos de prisão.
2. A intervenção médica sobre o órgão genital feminino, feita nas instalações sa-
nitárias adequadas por pessoa habilitada com o fim de corrigir quaisquer anom- ARTIGO 7.º
alias resultantes ou não da excisão, não é tida como sendo excisão feminina, para (comparticipação)
efeitos de aplicação da presente lei, desde que o acto médico tenha sido aprova-
do pelo colectivo de médicos afectos ao serviço com base num diagnóstico que Quem facilitar, incitar, incentivar, ou contribuir de alguma forma para a prática
indique a necessidade dessa cirurgia. de excisão feminina é equiparado, para efeitos do presente diploma, ao autor
principal, devendo ser punido nessa qualidade.
CAPÍTULO II
dos cRimes e penas ARTIGO 8.º
ARTIGO 4.º (omissão de auxílio e de denúncia)
(sanção)
1. Quem por qualquer meio tomar conhecimento da preparação conducente à
Quem, por qualquer motivo, efectuar a excisão feminina numa das suas variadas prática de excisão e não adoptar medidas para impedir a sua consumação, poden-
formas (clitoriectomia, excisão, incisão, infibulação) com ou sem consentimento do fazê lo sem riscos para a sua integridade física, é equiparado à omissão de
da vítima, é punido com pena de prisão de 2 a 6 anos. auxílio previsto no artigo 144.º do Código Penal.
224 225
2. Quem, por natureza das suas funções, tiver conhecimento da prática de excisão 2. Quem, por razão da sua qualidade profissional tomar conhecimento da prática
tem o dever de denunciá la à Polícia Judiciária, ao Ministério Público ou a Polícia de excisão feminina, além do disposto no número anterior, fica obrigado ao
de Ordem Pública. regime previsto no artigo 8.º da presente lei.
3. A violação do disposto no número anterior é punido com a pena de multa de
500.000 xof a 2.500.000 xof. ARTIGO 13.º
(Governo)
ARTIGO 9.º
(fraude à lei) O Governo, através das instituições competentes, deve inscrever no Orçamento
Geral do Estado verbas com vista a:
É aplicável o disposto no Artigos 4.º a 8.º da presente lei, os casos em que a a) Apoiar acções de informação, sensibilização da comunidade sobre as conse-
cidadã nacional ou estrangeira residente na Guiné-Bissau seja deslocada e quências da excisão;
excisada num país estrangeiro. b) Apoiar as actividades de assistência e reinserção social das vítimas da excisão;
ARTIGO 10.º c) Promover e encorajar campanhas de sensibilização pela midias e demais
(procedimento criminal) órgãos de informação sobre as conse-quências nefastas da excisão;
d) Promover e encorajar acções de formação e capacitação de líderes de opinião
O procedimento criminal para os crimes previstos nesta lei não depende de e ONG's junto das Comunidades;
queixa, denúncia ou participação das vítimas ou seus representantes legais. e) Promover maior cooperação entre diferentes estruturas defensoras de direitos
humanos, líderes religiosos, poder tradicional no combate e denúncia dos casos
CAPÍTULO III de excisão.
assistÊncia e medidas pReVentiVas
ARTIGO 14.º
ARTIGO 11.º Revogação
(assistência judiciária)
É revogada toda a legislação que contrarie as normas da presente lei.
As vítimas ou quaisquer interessados, que pretendam constituir se assistente nos
ARTIGO 15.º
termos dos artigos 66.º, 67.º e 68.º do Código do Processo Penal, nos processos
relacionados com crimes previstos na presente lei são isentos do pagamento de (entrada em vigor)
quaisquer taxas ou impostos.
A presente Lei entra em vigor 60 dias após a sua publicação no Boletim Oficial.
ARTIGO 12.º Aprovada em 6 de Junho de 2011.- O Presidente da Assembleia Nacional
(dever especial de assistência) Popular, Dr. Raimundo Pereira.

Promulgada em 5 de Julho de 2011.


1. Os responsáveis e técnicos das estruturas sanitárias têm o dever de prestar
Publique-se.
assistência física e psicológica às vítimas de excisão e de lhes assegurar o trata-
mento mais apropriado, de acordo com as legis artis. O Presidente da República, Malam Bacai Sanhá.
226 227
decreto-lei 5/1993 essas traduzidas na vinculação temática do Tribunal, corolário do princípio do
código de processo penal acusatório.

preâmbulo Relativamente às medidas detentivas, elas surgem como alternativa última para
o decisor. Exactamente, por isso, a prisão preventiva, hoje, aceite como
A necessidade e urgência de um novo Código de Processo Penal tem-se feito sen- "agressão" colocando, por isso, em confrontação o indivíduo e o Estado, surge
tir duma forma mais crepitante do que a do direito substantivo a que serve. aqui como uma medida precária.

Necessidade e urgência que se conexionam com as mutações socio-políticas con- Todavia, como remédio heróico contra actos atentatórios à liberdade de loco-
hecidas pela sociedade Guineense nestes últimos sessenta e três anos da vigência moção do cidadão consagra-se mecanismo do "habeas corpus".
do anterior Código de Processo Penal.
Assim:
Necessidade e urgência que se entroncam no facto de este direito adjectivo se
O Conselho de Estado decreta, nos termos do artigo 133.º da Constituição, o
traduzir, em última instância, no direito constitucional aplicado, cujos funda-
seguinte:
mentos e filosofia variam de cada Estado soberano.

Logo nos primórdios da proclamação da sua independência, a nova República ARTIGO 1.º
consagrara, constitucionalmente, o princípio da legalidade e o princípio da ofi-
cialidade como pedras basilares do ordenamento processual penal e que se É aprovado o Código de Processo Penal, que faz parte do presente decreto-lei.
traduzem na estrita vinculação do Ministério Público à lei e na entrega a essa
entidade pública ou estadual a iniciativa e o impulso de investigar a prática de ARTIGO 2.º
infracções bem como a decisão de as submeter ou não a julgamento.
Consideram-se feitas para as correspondentes disposições do novo Código de
Estamos convictos, por isso, mais acertada esta decisão da feitura de um novo Processo Penal todas as remissões para as normas do código anterior contidas em
código, não só em termos de adjectivar o Código Penal ora em vigor mas sobre- leis do Processo Penal avulsas.
tudo, porque uma qualquer tentativa - ainda que a mais engenhosa - de revisão
parcial do diploma antecedente mais poderia ainda, aumentar o acréscimo de ARTIGO 3.º
complexidade e multiplicação das assimetrias.
1. Com excepção das normas processuais relativas a contravenções, fica revoga-
O novo Código de Processo Penal, bem como os diplomas avulsos conexos da toda a legislação anterior sobre o Processo Penal que contrarie o presente
foram leis projectadas em contextos históricos diferenciados e, consequente- código.
mente com nuances ideológicas e culturais também diferenciadas e que "de per
si" já justificariam a confecção de um novo diploma. 2. Continuam em vigor as normas do Processo Penal contidas nos tratados e
Convenções Internacionais.
Neste novo Código de Processo Penal estão consubstanciadas todas as garantias
de defesa do arguido considerado o sujeito e não o objecto do processo. Garantias
229 230
ARTIGO 4.º a) Se traduza num benefício para a posição processual do suspeito ou do réu;
b) Se mantenha a harmonia e a unidade entre os actos processuais praticados e a
As disposições deste código começam a vigorar 30 dias após a sua publicação. praticar.
Aprovado em 15 de Setembro de 1993.
3. Nos termos previstos no número anterior aplica-se a lei nova a todos os demais
Promulgado em 6 de Outubro de 1993. actos a praticar no processo.
Publique-se.
ARTIGO 4.º
O Presidente do Conselho de Estado, General João bernardo Vieira. (aplicação da lei no espaço)

TÍTULO I 1. A lei processual aplica-se em todo o território da Guiné-Bissau.


disposiçÕes pReliminaRes e GeRais
2. Aplica-se também a lei processual penal no território estrangeiro nos termos
ARTIGO 1.º definidos nos tratados, convenções e regras de direito internacional.
(princípio da legalidade)
TÍTULO II
As consequências jurídicas decorrentes da prática de um crime só podem ser do tRibunal
aplicadas em conformidade com as normas deste código.
CAPÍTULO I
ARTIGO 2.º
da JuRisdiçÃo
(integração de lacunas)
ARTIGO 5.º
Nos casos omissos, quando as disposições deste código não puderem aplicar-se (da jurisdição penal)
por analogia, observar-se as normas do processo civil que se harmonizem com o
1. Só os tribunais previstos nas leis de organização judiciária são competentes
processo penal e, na falta delas, os princípios gerais do processo penal.
para administrar a justiça penal.

ARTIGO 3.º 2. No exercício desta função os tribunais apenas devem obediência à Lei e ao
(aplicação da lei no tempo) Direito.
1. A lei processual penal aplica-se aos processos iniciados após a sua entrada em ARTIGO 6.º
vigor, independentemente do momento em que tenham ocorrido os factos objec- (cooperação das autoridades)
to do processo.
1. Todas as autoridades públicas estão obrigadas a colaborar com os tribunais na
2. A lei processual penal nova também se aplica aos processos iniciados antes da administração da justiça penal, sempre que solicitadas.
sua entrada em vigor, sempre que:
231 232
2. A cooperação referida no número anterior prefere a qualquer outro serviço. SECÇÃO II
ARTIGO 7.º da competÊncia mateRial e funcional
(suficiência da jurisdição penal)
SUBSECÇÃO I
1. Salvo disposição legal em contrário, é no processo penal que se resolvem todas
competÊncia em RaZÃo da HieRaRQuia
as questões que interessam à decisão da causa, independentemente de sua natureza.
2. Após a acusação provisória, a requerimento ou oficiosamente, o tribunal pode
ARTIGO 10.º
suspender o processo para que se decida no tribunal competente qualquer questão
(competência do supremo tribunal de Justiça)
não penal essencial à descoberta da verdade e que não possa ser conveniente-
mente resolvida no processo penal.
1. Compete ao plenário do Supremo Tribunal de Justiça, em matéria penal:
3. A suspensão não pode ter duração superior a um ano e não impede a realiza-
ção de diligências urgentes de prova. a) Julgar o Chefe de Estado pelos crimes praticados no exercício das suas
4. Decorrido o prazo referido no número anterior sem que a questão prejudicial funções;
tenha sido decidida, sê-lo-á, obrigatoriamente, no processo penal. b) Julgar os processos-crime instaurados contra juízes do Supremo Tribunal de
Justiça, o Procurador-geral da República e de mais agentes do Ministério
CAPÍTULO II Público, que exerçam funções junto deste tribunal;
da competÊncia c) Julgar os recursos de decisões proferidas, em 1ª instância, pela secção crimi-
nal do Supremo Tribunal de Justiça;
SECÇÃO I d) Uniformizar a jurisprudência, nos termos do artigo 295º;
das disposiçÕes GeRais e) Conhecer dos pedidos de revisão;
f) Exercer as demais atribuições conferidas por lei.
ARTIGO 8.º 2. Compete à secção criminal do Supremo Tribunal de Justiça, em matérias
(determinação da pena aplicável) penal:
a) Julgar os processos relativos a crimes cometidos por juízes dos tribunais da
1. Para efeitos de competência, na determinação da pena abstractamente aplicáv- região ou de círculo ou por agentes do Ministério Público, junto desses
el atender-se-á às circunstâncias que elevam o máximo legal da pena correspon- Tribunais;
dente ao tipo de crime b) Julgar recursos;
c) Conhecer dos conflitos de competência entre os tribunais referidos na alínea
2. Em caso de concurso de crimes releva a pena mais grave abstractamente anterior;
aplicável. d) Conhecer do pedido de "habeas corpus" em virtude de prisão ilegal;
ARTIGO 9.º e) Julgar os processos judiciais de extradição;
(subsidiariedade) f) Julgar os processos de revisão e confirmação de sentença penal estrangeira;
g) Exercer as demais atribuições conferidas por lei.
Em matéria de competência penal aplicar-se-ão subsidiariamente as leis de orga-
nização judiciária.
233 234
ARTIGO 11.º ARTIGO 14.º
(competência dos tribunais de círculo e de região) (tribunal singular)

Compete aos tribunais judiciais de círculo e de região: No exercício das competências fixadas nas alíneas c), e), f) e g) do artigo 11º, o
a) Julgar os recursos das decisões proferidas pelos tribunais inferiores; tribunal funciona com juiz singular.
b) Julgar quaisquer crimes praticados por juízes ou agentes do Ministério
Público, junto dos tribunais inferiores; SECÇÃO III
c) Julgar os recursos interpostos de decisões das autoridades administrativas pro- da competÊncia teRRitoRial
feridas em processo de contra-ordenação;
d) Julgar processo por crimes cuja competência não esteja legalmente atribuída ARTIGO 15.º
a outro tribunal; (Regra geral)
e) Dirimir os conflitos de competência surgidos entre os tribunais inferiores;
f) Conhecer do "habeas corpus" por detenção ou prisão preventiva não ordenada 1. É competente para conhecer de um crime o tribunal em cujo área ele se con-
judicialmente; sumou.
g) Decidir todas as questões não atribuídas expressamente a outro tribunal; 2. Se o crime não chegou a consumar-se ou se consumou por actos sucessivos ou
h) Exercer as demais competências conferidas por lei. reiterados, ou por um acto permanente, é competente o tribunal em cuja area se
praticou o último acto ou em que cessou a consumação.
ARTIGO 12.º
(competência dos tribunais de sector) ARTIGO 16.º
(crime cometido a bordo de navio ou aeronave)
Compete aos tribunais de sector, em matéria penal, julgar os crimes a que corres-
ponde pena de prisão até três anos, com ou sem multa, ou só pena de multa. 1. É competente para conhecer do crime praticado a bordo de navio ou de aeron-
ave o tribunal em cuja área se situe o local onde o agente desembarcar.
SUBSECÇÃO II 2. Se o agente não desembarcar em território guineense, é competente o tribunal
competÊncia em RaZÃo da constituiçÃo da área da matrícula do navio ou da aeronave.
do tRibunal
ARTIGO 17.º
ARTIGO 13.º (crime praticado no estrangeiro)
(tribunal colectivo)
1. Se o crime for praticado no estrangeiro, é competente o tribunal em cuja area
1. No exercício das competências referidas nas alíneas a), b) e d) do artigo 11º,o se situe o local do território guineense onde o agente foi encontrado.
tribunal funciona em colectivo.
2. Não sendo encontrado, ou, mantendo-se o agente no estrangeiro, é competente
2. O tribunal de sector funciona, sempre, em colectivo. o tribunal da área da última residência conhecida em território guineense.
235 236
ARTIGO 18.º
(Regra supletiva) ARTIGO 21.º
(conexão parcial)
1. No caso de crimes relacionados com locais pertencentes a áreas de competên-
cia de diversos tribunais e existindo duvidas acerca da determinação da com- 1. É obrigatória a apensação de processos para julgamento quando, o mesmo ou
petência territorial, ou se for desconhecido o local da prática do crime, é compe- vários agentes forem acusados definitivamente da prática de diversos crimes fora
tente o tribunal onde primeiro houve notícia do crime. dos casos previsto no número anterior.
2. É correspondentemente aplicável o disposto no número anterior sempre que se 2. Se tiverem sido instaurados processos distintos, procede-se, oficiosamente ou
trate de casos omissos. a requerimento, à apensação de todos os processos conexos, logo que a conexão
seja conhecida e os actos se encontrem na mesma fase processual.
ARTIGO 19.º
(processo relativo a juiz ou agente do ministério público) ARTIGO 22.º
(limites à conexão)
Sempre que o tribunal competente devesse ser aquele em que exerce funções
como juiz ou agente do Ministério Público, o suspeito ou o lesado, é competente A conexão não opera entre processos que sejam e os que não sejam da com-
o tribunal da mesma hierarquia ou espécie com sede mais próxima, salvo tratan- petência:
do-se do Supremo Tribunal de Justiça. a) De tribunais de menores;
b) De tribunais militares;
SECÇÃO IV c) Do Supremo Tribunal de Justiça, funcionando como 1ª instância ou dos tri-
da competÊncia poR coneXÃo bunais judiciais de circulo ou de região, no caso previsto no artigo 11º, alínea c).

ARTIGO 20.º ARTIGO 23.º


(conexão total) (determinação da competência por conexão)

1. Organizar-se-á um só processo quando: 1. Se os processos conexos devessem ser da competência de vários tribunais de
a) Vários agentes praticarem o mesmo ou diversos crimes em comparticipação; diferente hierarquia e forma de funcionamento, será competente para todos, o tri-
b) O mesmo ou diversos agentes praticarem vários crimes através da mesma con- bunal de hierarquia mais elevada ou de forma de funcionamento mais solene.
duta, ou na mesma ocasião ou lugar, ou sendo uns causa ou efeito dos outros, ou
destinando-se uns a continuar ou ocultar os outros. 2. Se os processos conexos devessem ser da competência de vários tribunais em
razão do território, será competente para conhecer de todos aquele a que corre-
2. Se tiverem sido instaurados processos distintos, procede-se, oficiosamente ou sponder o crime cuja pena seja mais elevada no limite máximo ou o tribunal da
a requerimento, a apensação de todos os processos conexos, logo que a conexão área onde primeiro tiver havido notícia de qualquer dos crimes no caso de
seja conhecida e os autos se encontrem na mesma fase processual. igualdade do limite máximo das penas aplicáveis.

237 238
ARTIGO 24.º ARTIGO 28.º
(prorrogação da competência) (incompetência do ministério público)

A decisão sobre a competência determinada por conexão matem-se, ainda que: A incompetência do Ministério Público pode ser declarada até que seja deduzida
a) Seja ordenada a separação de processos nos termos do artigo seguinte; acusação definitiva.
b) O tribunal profira decisão absolutória relativamente a qualquer dos crimes da
conexão; ARTIGO 29.º
c) Ocorra a extinção da responsabilidade criminal relativamente a qualquer dos (efeitos da declaração de incompetência)
crimes da conexão.
1. A declaração de incompetência implica a remessa imediata do processo para a
ARTIGO 25.º entidade competente.
(separação de processos)
2. A declaração de incompetência dos tribunais guineenses para conhecer de um
crime, implica o arquivamento do processo, após o trânsito em julgado da
Excepcionalmente, é permitido a separação de processos, oficiosamente ou a
decisão.
requerimento, sempre que da conexão puder resultar para algum dos suspeitos:
a) O prolongamento injustificado da prisão preventiva;
ARTIGO 30.º
b) O retardamento excessivo do julgamento.
(actos urgentes)
SECÇÃO V
O tribunal ou agente do Ministério Público que se declare incompetente pratica
da declaRaçÃo de incompetÊncia
os actos processuais urgentes.
ARTIGO 26.º
(Regra geral) ARTIGO 31.º
(eficácia dos actos anteriores)
A incompetência do tribunal ou do Ministério Público para a fase da investigação
pode ser conhecida ou declarada oficialmente ou, a requerimento. A prova produzida e os demais actos processuais praticados antes da declaração
de competência mantêm a eficácia, excepto se o tribunal competente os consid-
ARTIGO 27.º erer desnecessários ou afectados de nulidade insanável.
(incompetência do tribunal)

A incompetência do tribunal pode ser declarada até ao trânsito em julgado da


decisão final, salvo tratando-se de incompetência territorial em que deverá sê-lo
até ao início da audiência de julgamento.

239 240
SECÇÃO VI 3. Decorrido o prazo referido no número anterior e depois de recolhidas as infor-
dos conflitos de competÊncia mações e provas necessárias à resolução, é proferida decisão.

ARTIGO 32.º 4. A decisão é comunicada às entidades judiciárias em conflito e aos demais


(noção de conflito) sujeitos processuais.

O conflito de competência pode ser positivo ou negativo consoante diversas enti- ARTIGO 36.º
dades judiciárias se considerem, respectivamente competentes ou incompetents (actos urgentes e anteriores)
para conhecer do mesmo crime, ou praticar o mesmo acto processual.
É correspondentemente aplicável o disposto nos artigos 30º e 31º.
ARTIGO 33.º
(denúncia do conflito)
TÍTULO III
dos suJeitos pRocessuais
A última entidade judiciária a declarar-se competente ou incompetente comuni-
CAPÍTULO I
ca a situação de conflito ao presidente do tribunal ou ao superior hierárquico
disposiçÕes GeRais
competente para o dirimir, conforme os casos.
ARTIGO 37.º
ARTIGO 34.º (normas subsidiárias)
(competência para resolução)
Além das disposições deste código aplicam-se subsidiariamente à material regu-
1. Se o conflito surgir entre tribunais ou entre estes e agentes do Ministério lada neste título, as normas relativas à organização judiciária e as diversas leis
Público, a resolução compete ao presidente do tribunal hierarquicamente supe- estatutárias dos vários participantes processuais.
rior.
2. Se o conflito for suscitado entre agentes do Ministério Público, a sua resolução CAPÍTULO II
compete ao superior hierárquico que lhes seja comum. do JuiZ

ARTIGO 35.º ARTIGO 38.º


(instrução e tramitação do incidente) (Regra geral da intervenção do juiz)

1. O conflito pode ser suscitado oficiosamente ou a requerimento e a denúncia é O juiz competente para determinado processo penal, deixa de intervir neste,
acompanhada com todos os elementos necessários a resolução. quando existir motivo de impedimento ou de suspeição.
2. Recebida a denúncia são notificadas as entidades judiciárias em conflito e os
demais sujeitos processuais interessados para, querendo, se pronunciarem no
prazo de cinco dias.
241 242
ARTIGO 39.º ARTIGO 42.º
(motivos de impedimento) (tramitação do incidente de suspeição)

São motivos de impedimento: 1. Se for o juiz a suscitar a suspeição, indica no despacho, os fundamentos e os
a) Ser, ou ter sido, cônjuge, representante legal, parente ou afim até ao 3º garu, demais elementos que considere necessários à apreciação do caso. Seguidamente
do lesado ou do suspeito no processo; notifica o Ministério Público, o assistente e o suspeito para, querendo, se pro-
b) Ter intervindo no processo como agente do Ministério Público, agente da PJ nunciarem em cinco dias.
ou mandatário judicial; 2. Se o incidente for suscitado mediante requerimento, deverá conter os funda-
c) Participar no processo, a qualquer título, o cônjuge, parente ou afim até ao 3º mentos da suspeição e demais elementos pertinentes ao caso. Recebido o reque-
grau; rimento, o juiz despacha nos termos do disposto na segunda parte do número
d) Ser, ou dever ser, testemunha no processo. anterior e, no mesmo prazo, pronuncia-se sobre o requerido.
3. Cumpridas as formalidades referidas nos números anteriores o processo é
ARTIGO 40.º remetido ao tribunal competente para, em três dias ser proferida decisão.
(suspeição)
ARTIGO 43.º
O juiz é suspeito quando existirem fortes motivos que possam abalar a sua impar- (eficácia dos actos praticados)
cialidade, nomeadamente, ter expressado opiniões reveladoras dum prejuízo em
1. Os actos praticados antes de suscitado o incidente são válidos, excepto se se
relação ao objecto do processo.
demonstrar que deles resulta prejuízo para a justiça da decisão.
2. Os actos praticados depois de suscitado o incidente só são válidos se não pu-
ARTIGO 41.º
derem ser repetidos e deles não resultar prejuízo para a justiça da decisão.
(dedução do incidente)
ARTIGO 44.º
1. Até a decisão final transitar em julgado, logo que se aperceba da existência de (Remessa do processo)
motivo susceptível de legitimar a suspeita ou o impedimento, o juiz deve declará-
lo oficiosamente. A decisão definitiva de impedimento ou suspeição, implica a remessa imediata
2. A declaração de impedimento ou recusa por suspeição pode ser requerida pelo do processo para o tribunal competente segundo as leis de organização judiciária.
Ministério Público, pelo assistente ou pelo suspeito, nos oito dias posteriors à
tomada de conhecimento do facto em que se fundamenta. ARTIGO 45.º
(má-fé)
3. A decisão relativa à declaração de impedimento só e recorrível se o juiz não se
reconhecer impedido. A dedução do incidente de impedimento ou de suspeição pelo Ministério
Público, pelo suspeito ou pelo assistente para além dos oito dias após a tomada
4. A decisão relativa a suspeição é sempre da competência do tribunal imediata- de conhecimento de existência de motivos que o fundamentem, determina o
mente superior àquele em que o juiz exercer funções, ou do plenário do Supremo indeferimento do requerido e a condenação como litigantes de má-fé por parte do
Tribunal de Justiça se pertencer à secção criminal. suspeito ou do assistente.
243 244
ARTIGO 46.º j) Promover a execução das decisões judiciais;
(extensão do regime) k) Praticar outros actos que a lei refira serem da sua competência exclusiva.

As disposições deste capítulo aplicam-se aos peritos, intérpretes e funcionários ARTIGO 49.º
de justiça, com as necessárias adaptações. (actos a autorizar pelo ministério público)

CAPÍTULO III Compete ao Ministério Público, durante o inquérito, autorizar:


do ministéRio público a) As buscas e revistas a efectuar nos termos do artigo 138º;
b) As apreensões, salvo as que ocorrerem no decurso de revistas, buscas ou
ARTIGO 47.º detenções em flagrante delito;
(poderes do ministério público) c) Outros casos que a lei determinar.

1. O Ministério Público é o único titular da acção penal. ARTIGO 50.º


2. Exerce as respectivas competências por si ou através da polícia judiciária3, (legitimidade)
sempre que a lei não exija a sua intervenção directa.
1. O Ministério Público tem legitimidade para promover o processo penal.
ARTIGO 48.º 2. Quando o procedimento criminal depender de queixa, do ofendido ou de out-
(actos da competência exclusiva do ministério público) ras pessoas, é necessário que essas pessoas dêem conhecimento do facto ao
Ministério Público, para que este promova o processo.
Compete exclusivamente ao Ministério Público: 3. A queixa é válida quer seja apresentada ao Ministério Público, quer seja às
a) Ordenar a instrução do procedimento criminal, preenchidos os requisitos da autoridades policiais, que a cominicrão àquele.
legalidade;
b) Presidir aos actos processuais, durante a investigação, depois de deduzida ARTIGO 51.º
acusação provisória; (Reclamação)
c) Proceder ao primeiro interrogatório de suspeito detido;
d) Aplicar as medidas de coacção e de garantia patrimonial, durante a investi- Dos despachos do Ministério Público, durante a investigação, apenas cabe recla-
gação, salvo o previsto no artigo 153.º, que pode ser aplicado pela polícia judi- mação para o superior hierarquico, quando a lei expressamente o disser.
ciária e do artigo 160.º, que só poderá ser aplicado pelo juiz;
e) Avocar os processos que entenda dever orientar directamente na fase de inves- ARTIGO 52.º
tigação; (dever de objectividade)
f) Coordenar e exercer a fiscalização das actividades de investigação executadas
pela polícia judiciária, no âmbito do processo penal; A actividade do Ministério Público, nomeadamente durante a investigação,
g) Sustentar em julgamento a acusação que tenha deduzido; orienta-se por critérios de estrita objectividade em vista à prossecução da verdade
h) Decidir acerca do arquivamento da investigação; e à realização da justiça.
i) Interpor recursos;
245 246
ARTIGO 53.º 5. Os actos realizados de acordo com os números anteriores serão reduzidos a
(impedimentos e suspeições) auto a transmitir imediatamente ao Ministério Público.

1. As normas relativas a impedimentos e suspeições são aplicáveis aos agentes ARTIGO 56.º
do Ministério Público, efectuadas as devidas adaptações. (frequência de lugares suspeitos)
2. É admissível reclamação para o superior hierárquico do despacho em que o
Ministério Público se não reconheça impedido. É correspondentemente aplicável o disposto no artigo anterior a quem for encon-
trado em lugares abertos ao público, habitualidade frequentados por delin-
CAPÍTULO IV quentes.
da polÍcia
ARTIGO 57.º
ARTIGO 54.º (informações)
(poderes gerais da polícia)
1. Compete aos agentes da polícia colher informações das pessoas que possam
1. Compete aos agentes da polícia, mesmo por iniciativa própria, impedir a práti- facilitar a descoberta do agente do crime e sua identificação.
ca de crime, colher notícia dos mesmos, descobrir os seus autores e praticar os 2. As informações referidas no número anterior são imediatamente documen-
actos cautelares necessários e urgentes para assegurar os meios de prova. tadas no processo, ou fornecidas ao Ministério Público, se ainda não tiverem sido
2. Compete, também, à polícia coadjuvar o Ministério Público na investigação instaurado processo crime.
quando solicitada.
ARTIGO 58.º
ARTIGO 55.º (buscas, revistas e apreensões)
(identificação de suspeito)
1. Em caso de flagrante delito ou quando haja forte suspeita que alguma pessoa
1. Os agentes da polícia podem proceder à identificação de qualquer pessoa oculta objectos relacionados com um crime ou se prepara para fugir à acção da
quando haja forte suspeita que se prepara para cometer, tenha cometido ou par- justiça, os agentes da polícia podem, respectivamente, efectuar buscas, revistas
ticipado na prática de um crime. ou apreensões desses objectos, observadas as demais formalidades legais.
2. Se a pessoa não for capaz de se identificar ou se recusar a fazê-lo sera con- 2. É, imediatamente, lavrado auto da ocorrência, que deverá ser incorporado no
duzida, com urbanidade, ao posto policial mais próximo. Aqui serão facultados respectivo processo criminal ou remetido ao Ministério Público se não for inicia-
os meios necessários e disponíveis para a pessoa se identificar. do o respectivo procedimento criminal.
3. Se necessário, a pessoa pode ser obrigada a sujeitar-se às provas adequadas à
cabal identificação, nomeadamente dactiloscópicas, fotográficas, de reconheci- ARTIGO 59.º
mento físico e outras que não ofendam a dignidade humana. (equiparação à polícia judiciária)
4. Antes de decorridas oito horas a pessoa deve ser restituída à liberdade total,
independentemente do êxito das diligências efectuadas, desde que não haja 1. É da competência da polícia judiciária, sob direcção funcional do Ministério
motive para detenção. Público, realizar o inquérito.
247 248
2. O Ministério Público pode deferir essa competência a outros corpos de polícia f) Que seja informada a pessoa da família que indicar, quando for detido ou
ou funcionário judicial. preso;
3. No âmbito do processo penal, os agentes da polícia judiciária e equiparados, g) Oferecer provas e requerer as diligências que julgue necessárias à sua defesa;
estão subordinados à direcção funcional do Ministério Público. h) Recorrer, nos termos da lei, das decisões que lhe forem desfavoráveis.
4. As normas relativas a impedimentos e suspeições previstas no artigo 53.º, são
aplicáveis aos agentes da polícia com as devidas adaptações. ARTIGO 62.º
(deveres do suspeito)
CAPÍTULO V
do suspeito e do Réu Para além de outros que a lei preveja, o suspeito está sujeito aos seguintes
deveres:
ARTIGO 60.º a) Sempre que interrogado, fornecer os elementos de identificação solicitados e
(declaração de suspeito) informar acerca dos antecedentes criminais, de forma completa e com verdade;
b) Quando convocado regularmente, comparecer perante as entidades compe-
1. Correndo inquérito contra pessoa determinada, por despacho, será declarado tentes processualmente para o convocar;
suspeito, logo que existam indícios de que cometeu um crime ou nele partcipou. c) Sujeitar-se às diligências de prova necessárias à investigação e ao julgamento,
2. O despacho referido no número anterior é imediatamente notificado ao sus- desde que não proibidas por lei;
peito. d) Logo que tome conhecimento de que pende contra si um processo criminal,
3. O suspeito é obrigatoriamente interrogado nessa qualidade, salvo se, compro- indicar ao tribunal a sua residência, não mudar de residência, ou não mudar de
vadamente, não poder ser notificado. residência sem informar o tribunal e prestar o respectivo termo de identidade e
residência.
ARTIGO 61.º
(direitos do suspeito) ARTIGO 63.º
(Regras gerais do interrogatório)
Para além de outros que a lei consagre, o suspeito goza dos seguintes direitos:
a) Ser informado, sempre que solicitado a prestar declarações, dos actos que lhe 1. Mesmo que esteja detido ou preso, o suspeito deve estar livre na sua pessoa
imputam e dos direitos que lhe assistem; durante o interrogatório, salvo as medidas cautelares estritamente necessárias
b) Decidir livremente prestar ou não declarações e fazê-lo em qualquer altura da para evitar o perigo de fuga ou a prática de actos de violência.
investigação ou da audiência de julgamento, salvo o disposto no artigo 62.º, 2. Não podem ser utilizadas, mesmo com o consentimento do suspeito, métodos
alínea a); ou técnicas susceptíveis de limitar ou prejudicar a liberdade de vontade ou
c) Ser assistido por defensor nos casos em que a lei determine a obrigatoriedade decisão, ou a capacidade de memória ou de avaliação.
da assistência ou quando o requeira; 3. O interrogatório inicia-se com a leitura e explicação dos direitos e dos deveres
d) Que o tribunal lhe nomeie defensor oficioso nos casos referidos na alínea ante- do suspeito, com a advertência expressa de que o incumprimento do que dispõe
rior, se o não tiver constituído; o artigo 62º, alínea a), o poderá fazer incorrer em responsabilidade criminal.
e) Comunicar livremente com o defensor mesmo que se encontre detido ou 4. Seguidamente o suspeito é informado, de forma clara e precisa, dos factos que
preso; lhe são imputados e, se não existir prejuízo para a investigação, das provas que
249 250
existem contra ele, após o que se procede ao interrogatório de mérito se o sus- CAPÍTULO VI
peito quiser prestar declarações, esclarecendo-o de que o silencio o não desfa- do assistente
vorecerá.
ARTIGO 66º
ARTIGO 64.º (legitimidade para se constituir assistente)
(Quem faz e quem assiste ao interrogatório)
Podem constituir-se assistentes em processo penal, além das pessoas a quem leis
1. O primeiro interrogatório após a detenção do suspeito, durante a investigação, especiais conferirem esse direito:
é da exclusiva competência do Ministério Público e visa, além do mais, o exer- a) Os ofendidos, considerando-se como tais os titulares dos interesses que a lei
cício do contraditório relativamente aos pressupostos da detenção e às condições especialmente quis proteger com a incriminação, desde que maiores de 14 anos
da sua execução. à data da constituição;
b) Aqueles de cuja queixa depender o exercício da acção penal;
2. Os demais interrogatórios serão efectuados pela entidade competente para diri- c) Qualquer pessoa, nos crimes de corrupção, peculato ou abuso de funções de
gir a fase processual em que ocorrem ou por quem tiver competência delegada autoridade pública.
para os realizar.
ARTIGO 67.º
3. Aos interrogatórios que tiverem lugar no decurso da investigação só assistirá (constituição de assistente)
quem preside, o defensor, o intérprete e o agente encarregue das medidas caute-
lares de segurança, quando necessárias, além do funcionário incumbido de lavrar 1. As pessoas com legitimidade para se constituírem assistentes podem requere-
o auto de declarações. lo em qualquer altura do processo desde que o façam até sete dias antes da
audiência de julgamento.
4. O interrogatório no decurso da audiência de julgamento, obedecerá ao dispos- 2. Durante a investigação o requerimento é dirigido ao Ministério Público e na
to no artigo 63º. fase de julgamento ao juiz. Antes de se pronunciarem ouvem, respectivamente, o
suspeito ou o suspeito e o Ministério Público.
ARTIGO 65.º 3. Se o requerimento solicitar a constituição de assistente e, simultaneamente,
(Qualidade de réu) deduzir acusação definitiva, competirá ao juiz de julgamento apreciá-lo.
4. Da decisão do Ministério Público cabe reclamação para o superior hierárquico
1. Assume a qualidade de réu todo aquele contra quem for proferida decisão final e a decisão do juiz é recorrível.
condenatória, após o trânsito em julgado.
2. O réu goza dos mesmos direitos e está sujeito aos mesmos deveres do suspeito, ARTIGO 68.º
salvo no que for incompatível com o facto de ter sido condenado definitiva- (poderes do assistente)
mente.
1. A intervenção processual do assistente é subordinada e auxiliar da do
Ministério Público.
251 252
2. Exceptua-se do disposto no número anterior: CAPÍTULO VII
a) Oferecer provas e requerer diligências pertinentes a descoberta da verdade; do defensoR
b) Deduzir acusação definitiva independente e por factos diversos da posição
assumida pelo Ministério Público, no fim da investigação; ARTIGO 72.º
c) Recorrer das decisões que o afectem; (defensor)
d) Formular o pedido de indemnização por perdas e danos emergentes de crime.
1. O suspeito tem direito a constituir defensor ou a que lhe seja nomeado, ofi-
ARTIGO 69.º ciosamente ou a requerimento, em qualquer altura do processo.
(Representação judiciária) 2. A nomeação compete ao Ministério Público ou ao juiz conforme a fase proces-
sual em que ocorra e deverá recair de preferência entre licenciados em direito.
1. O assistente é sempre representado por advogado.
3. É permitida a substituição do defensor por iniciativa do suspeito ou do próprio
2. Se forem vários os assistentes a representação é feita por um só advogado que
defensor, invocando motivo justificado.
competirá ao Ministério Público ou ao juiz, respectivamente, escolher se hou-
verdesacordo entre os assistentes quanto à escolha.
ARTIGO 73.º
(atribuições do defensor)
ARTIGO 70.º
(indemnização por perdas e danos)
1. O defensor assiste tecnicamente o suspeito e exerce os direitos que a lei recon-
hece ao suspeito, salvo os que forem de exercício pessoal obrigatório.
1. O pedido de indemnização por perdas e danos emergentes da prática de um
crime é formulado no processo-crime. 2. O suspeito pode retirar eficácia ao acto realizado pelo defensor em seu nome,
2. Se as pessoas com legitimidade não formularem o pedido de indemnização o desde que o faça antes de ser proferida decisão relativa ao acto e por escrito.
tribunal, oficiosamente, arbitrá-la-á.
3. Excepcionalmente, permite-se a dedução do pedido de indemnização em sepa- ARTIGO 74.º
rado, sempre que: (assistência obrigatória)
a) O processo penal estiver parado por período superior a 6 meses;
b) O processo penal deva correr termos perante o tribunal militar; É obrigatória a assistência por defensor:
c) O processo penal terminar antes de ser proferida sentença final. a) No primeiro interrogatório de suspeito detido ou preso;
b) A partir da acusação até ao trânsito em julgado da decisão, nomeadamente para
ARTIGO 71.º a interposição de recurso;
(Representação do responsável civil) c) Para a apresentação de reclamações;
d) Nos demais casos previstos na lei.
1. Sempre que o pedido de indemnização for deduzido contra um responsável
que não seja o agente do crime, deverá ser representado por advogado.
2. Os poderes deste advogado são idênticos aos do defensor do suspeito.

253 254
ARTIGO 75.º ARTIGO 78.º
(assistência a vários suspeitos) (publicidade)

1. Sendo vários os suspeitos no mesmo processo, cada um pode ter um defensor 1. O processo penal é público a partir da acusação definitiva, tendo até esse
ou terem defensor comum, se isso não contrariar a função da defesa. momento carácter secreto.
2. A publicidade implica o direito de:
2. O tribunal pode nomear defensor aos suspeitos que o não tenham constituído, a) Os meios de comunicação social e o público em geral assistir à realização dos
de entre os constituídos pelos restantes suspeitos. actos processuais;
b) A narração circunstanciada do teor de actos processuais pelos meios de comu-
ARTIGO 76.º nicação social;
(deveres do defensor) c) Consulta e obtenção de cópias, extractos e certidões de qualquer parte do
processo.
1. Para além do cumprimento das normas reguladoras desta matéria e constants 3. A reprodução de peças processuais, documentos juntos aos autos, a captação
do Estatuto da Ordem dos Advogados, o defensor deverá actuar sempre com o de imagens ou a tomada de som relativamente a actos processuais só pode ser
respeito devido ao tribunal, nas alegações e requerimentos que efectue. efectuada mediante autorização do tribunal.

ARTIGO 79.º
2. A conduta violadora do que dispõe o número anterior é, sucessivamente san-
(limitação da publicidade)
cionada com advertência, retirar da palavra ou substituição do infractor pelo tri-
bunal. 1. Excepcionalmente, o tribunal pode restringir, parcial ou totalmente, a publici-
dade do acto processual público desde que as circunstâncias concretas do caso o
TÍTULO IV aconselhem como forma de preservar outros valores, nomeadamente a moral
dos actos pRocessuais pública e a dignidade humana.
2. A exclusão da publicidade nunca abrangerá a leitura da sentença.
CAPÍTULO I 3. Não implica restrição da publicidade a decisão do tribunal de impedir a
das disposiçÕes GeRais assistência de algumas pessoas a todo ou a parte do acto processual, nomeada-
mente, como forma de sancionar comportamentos incorrectos, de garantir a segu-
ARTIGO 77.º rança do local em que se realiza o acto e das pessoas que nele participam ou em
(manutenção da ordem nos actos processuais) razão da pouca idade dos presentes.

1. Compete a quem presidir ao acto processual e ao funcionário que nele partic- ARTIGO 80.º
ipar, tomar as providências necessárias à manutenção da ordem. (segredo de justiça)

2. Para o efeito, poder-se-á requisitar a colaboração da força pública, que actuará 1. Todos os participantes e quaisquer pessoas que, por qualquer título, tomarem
sob a orientação de quem preside ao acto processual. contacto com o processo e conhecimento, total ou parcial, do seu conteúdo,
ficam impedidos de o divulgar.
255 256
2. É proibido a qualquer pessoa assistir à prática de acto processual, a que não ARTIGO 83.º
tenha direito ou dever de assistir, ou por qualquer outra forma tomar conheci- (Regra geral dos prazos)
mento do conteúdo do acto processual.
1. Salvo disposição legal em contrário, é de cinco dias o prazo para a prática de
ARTIGO 81.º qualquer acto processual.
(consulta do auto e obtenção de certidão) 2. O prazo para lavrar os termos do processo e passar os mandados é de dois dias,
excepto se este prazo afectar o tempo de privação da liberdade em que devem ser
1. A consulta do processo e a obtenção de certidão ou cópia, depende de prévia imediatamente efectuados.
decisão de quem presidir à fase processual em curso e tem que ser requerida com
a indicação dos fundamentos. ARTIGO 84.º
(prazo de detidos ou presos)
2. Fora dos casos previstos no artigo 78º, nº 2, alínea c), o suspeito, o assistente
e o lesado, podem obter certidão ou consultar o processo desde que apresentem 1. Os actos processuais relativos a processo com detidos ou presos são pratica-
motivo justificado. dos com preferência sobre qualquer outro serviço.
2. Os prazos relativos aos processos referidos no número anterior correm em
CAPÍTULO II férias.
do tempo, da foRma e da documentaçÃo
dos actos ARTIGO 85.º
(contagem dos prazos)
ARTIGO 82.º
(Quando se praticam os actos) 1. O prazo processual será fixado em horas, dias, meses ou anos, segundo o ca-
lendário comum.
1. Os actos processuais praticam-se nos dias úteis, às horas de expediente dos 2. O prazo que terminar em dia feriado, sábado ou domingo transfere-se para o
serviços de justiça e fora do período de férias judiciais. primeiro dia útil seguinte. Equiparam-se-lhes as férias judiciais, se o acto tiver
de ser praticado em juízo.
2. Exceptuam-se do disposto no número anterior: 3. O prazo fixado em semanas, meses ou anos, a contar de certa data, finda às 24
a) Os actos de processos relativos a detidos ou presos, ou indispensáveis à garan- horas do dia que corresponda, dentro da última semana, mês ou ano, a essa data;
tia da liberdade das pessoas; mas se no último mês não existir dia correspondente, o prazo termina no ultimo
b) Os actos de investigação e audiência em que exista manifesta vantagem em dia desse mês.
que o seu início, prosseguimento ou conclusão ocorra sem aquelas limitações. 4. Salvo disposição legal em contrário, na contagem de qualquer prazo não se
inclui o dia, nem a hora, se o prazo for de hora, em que ocorrer o evento a partir
3. Salvo em acto seguido à detenção ou à prisão, o interrogatório do suspeito ou do qual o prazo começa a correr.
do réu, não poderá ser efectuado entre as zero e as seis horas, sob pena de nuli- 5. O prazo para fazer uma declaração, entregar um documento ou praticar outro
dade insanável. acto na secretaria judicial considera-se esgotado no momento em que aquele
fechar ao público.
257 258
ARTIGO 86.º 3. É correspondentemente aplicável o disposto no artigo 91.º, n.º 2, alíneas a), c)
(a língua a usar nos actos) e e).

1. Sob pena de nulidade insanável, nos actos processuais escritos utiliza-se a lín- ARTIGO 89.º
gua portuguesa. (actos sob a forma oral)
2. Nos actos processuais orais, oficiosamente ou a requerimento, poder-se-á
determinar o uso do crioulo, dalgum dialecto usado pelas diversas etnias da 1. A prestação de declarações em processo penal é feita oralmente e sem recurso
Guiné-Bissau ou de língua estrangeira. a documentos escritos previamente elaborados, excepto nos casos previstos no
3. Para a redução a escrito das declarações em que não tenha sido usada a lingual artigo 87.º, n.º 1, alínea b).
portuguesa, é obrigatório nomear interprete. 2. Excepcionalmente, quem preside ao acto, pode autorizar que o declarante se
socorra de apontamentos escritos para ajuda da memória, fazendo disso menção no
ARTIGO 87.º auto e, se necessário, ordenando a junção dos apontamentos usados ao processo.
(nomeação do intérprete) 3. Os requerimentos e actos decisórios durante os actos processuais que revistam
forma oral, devem adoptar esta forma.
1. Para além da situação referida no artigo anterior é obrigatório nomear intér- 4. Os actos de polícia e de disciplina de actos processuais assumirão a forma oral
prete: e não carecem de ser documentados em auto.
a) Se for necessário traduzir documento que não esteja redigido em lingual por- 5. Exceptuam-se do disposto do n.º 1 as normas que permitam a leitura em
tuguesa e não venha acompanhado de tradução autenticada; audiência de declarações prestadas anteriormente.
b) Se deverem prestar declarações de surdo que não saiba ler, mudo que não saiba
escrever ou surdo-mudo que não saiba ler nem escrever. ARTIGO 90.º
2. O intérprete nomeado presta o seguinte compromisso: "Comprometo-me por (documentação dos actos orais)
minha honra a desempenhar fielmente as funções que me são confiadas."
3. Ao interprete é correspondentemente aplicável o disposto no artigo 46.º. 1. Salvo disposição legal em contrário, os actos processuais sob forma oral, são
documentados em auto.
ARTIGO 88.º 2. A redacção do auto é efectuada pelo funcionário de justiça ou peto agente de
(actos processuais escritos) polícia durante a investigação, sob a direcção de quem presidir ao acto.
3. Compete a quem presidir ao acto velar para que o auto reproduza fielmente o
1. Salvo quando a lei dispuser em contrário, os actos processuais revestem a que se tiver passado ou o contendo das declarações prestadas podendo ditar ou
forma escrita. delegar nos intervenientes processuais.
2. Nomeadamente, são praticados sob forma escrita: 4. Qualquer desconformidade entre o teor do que foi ditado e o ocorrido deve ser
a) Os actos decisórios do juiz e do Ministério Público, não referidos no artigo arguida imediatamente ou antes de encerrado o auto, depois da leitura final.
89.º, n.º 4; Quem presidir ao acto decidira após ouvir os interessados e, se necessário,
b) Os actos a praticar pelos funcionários judiciais no decurso do processo; consigna as posições de cada um, antes da decisão.
c) Os actos processuais realizados pela polícia judiciária ou equiparada; 5. Para a redacção do auto podem utilizar-se máquinas de escrever ou proces-
d) A formulação de requerimentos fora dos casos previstos no artigo 89.º, n.º 3, sadores de texto e socorrer-se de fórmulas pré-impressas ou carimbos a com-
de memoriais e de exposições. pleter com o texto definitivo.
259 260
ARTIGO 91.º ARTIGO 93.º
(Requisitos do auto) (actos decisórios)

1. O auto é o instrumento destinado a fazer fé quanto aos termos em que se Os actos decisórios são sempre fundamentados, de facto e de direito.
desenrolaram os actos processuais que documenta e a recolher as declarações,
requerimentos, promoções e actos decisórios orais. ARTIGO 94.º
(falta a acto processual)
2. São requisitos do auto:
a) Menção da hora, dia, mês e ano da prática do acto; 1. No início da qualquer acto, quem lhe presidir, justificará as faltas, ou, não as
b) O lugar da prática do acto; justificando, condenará o faltoso em multa de 5.000 a 50.000 pesos5, acrescidos
c) A identificação dos participantes no acto; das sanções de natureza processual que a lei especialmente consagrar.
d) Causas, se conhecidas, da ausência de pessoas que devessem estar presents e 2. A falta de advogado nomeado oficiosamente, será comunicada à Ordem dos
a indicação de sanções ou outras medidas aplicadas; Advogados, se for constituído sê-lo-á a quem o tenha constituído.
e) Ser redigido de forma legível, sem espaços em branco, rasuras, entrelinhas ou 3. A falta do Ministério Público à audiência de julgamento será comunicada ao
emendas, por inutilizar ou ressalvar; superior hierárquico.
f) Descrição especificada das operações praticadas, da intervenção de cada um
dos participantes processuais, das declarações prestadas, do modo como o foram
e das circunstâncias em que o foram, dos documentos apresentados ou recebidos CAPÍTULO III
e dos resultados alcançados, de modo a garantir a genuína expressão da ocorrên- das notificaçÕes
cia;
g) Qualquer outra ocorrência relevante para a apreciação da prova ou da regula- ARTIGO 95.º
ridade do acto. (notificação)

ARTIGO 92.º 1. A convocação para comparência ou participação em acto processual e a trans-


(autenticação do auto) missão do conteúdo de acto realizado ou de despacho proferido é efectuada
através de notificação.
1. No fim de cada acto processual o auto elaborado, ainda que o acto processual 2. Em caso de manifesta urgência em convocar alguma pessoa para acto proces-
deva continuar noutra ocasião, é pessoalmente assinado por quem presidir ao sual, a notificação pode ser substituída por convocação telefónica, telegráfica ou
acto, pelas pessoas cujas declarações aí sejam documentadas e pelo funcionário por outro meio de telecomunicação, lavrando-se nota no processo.
que o elaborar. 3. A notificação é efectuada por funcionário de justiça, agente policial ou outra
autoridade a quem a lei atribua essa competência e tanto pode ser precedida de
2. Se qualquer das pessoas referidas não puder ou se recusar a assinar, far-se-á despacho como ordenada oficiosamente pela sercretaria judicial.
declaração no auto dessa impossibilidade ou recusa e dos motivos invocados. 4. As convocações e comunicações feitas aos notificados presentes a um acto
processual por quem lhe presidir, valem como notificações desde que documen-
tadas no auto.
261 262
ARTIGO 96.º ARTIGO 98.º
(formas de notificação) (nulidade da notificação)

1. A notificação pode ser feita por contacto pessoal com o notificado onde for
A notificação é nula quando:
encontrado, por via postal através de carta registada ou editalmente quando a lei
a) For efectuada de forma incompleta;
expressamente o admitir.
b) For usada a notificação edital, fora dos casos legalmente autorizados;
2. Salvo quando a lei dispuser em contrário, a notificação da acusação, do arqui-
c) Se faltar a assinatura do notificado ou menção nos termos do artigo 92.º, n.º 2;
vamento, do despacho que designa dia para julgamento e da aplicação de medi-
d) Se, na notificação edital, não forem afixados os editais ou publicados os anún-
da de coacção ou de garantia patromonial é pessoalmente feita ao assistente e ao
cios quando exigíveis;
suspeito.
e) Se violar a regra do artigo 96.º, n.º 2.
3. As demais notificações podem ser efectuadas na pessoa do defensor ou advo-
gado, respectivamente, do suspeito ou do assistente, ou na pessoa de residente na
CAPÍTULO IV
área do tribunal para esse efeito designado pelo notificando e poderá revestir a
do ReGisto cRiminal
forma postal.
4. As notificações aos agentes do Ministério Público são efectuadas por termo no
ARTIGO 99.º
processo.
(o registo criminal)
5. A notificação de quem se encontrar preso é requisitada ao director do estabe-
lecimento prisional que a mandara efectuar por funcionário prisional através de
O registo criminal é organizado em cadastros individuais pelo Centro de
contacto pessoal com o notificando.
Identificação Civil e Criminal e tem por objecto os extractos das decisões crimi-
6. A notificação de funcionário público é requisitada ao superior hierárquico do
nais proferidos pelos tribunais guineenses, com o fim de permitir o conhecimen-
notificando que, não cumprindo o solicitado, incorrerá em responsabilidade
to dos antecedentes criminais das pessoas.
criminal.
7. A notificação de menores de 14 anos ou de interditos por anomalia psíquica é
ARTIGO 100.º
efectuada na pessoa do seu representante legal.
(actos sujeitos a registo)
ARTIGO 97.º
Estão sujeitos a registo as seguintes decisões:
(comunicação entre serviços de justiça)
a) De acusação definitiva e as que a alterem ou revoguem;
1. Para ordenar a prática de acto processual a uma entidade com competência b) De absolvição quando tenha havido acusação definitiva;
funcional dentro da área da competência territorial de quem proferir a ordem uti- c) De condenação;
liza-se o mandado. d) De revogação da suspensão da pena;
2. Para solicitar a prática de acto processual fora daqueles limites utiliza-se a e) De concessão ou revogação da liberdade condicional;
carta. Esta será precatória ou rogatória, conforme o acto dever concretizar-se, f) De aplicação de amnistia, perdão, indulto ou comutação de pena;
respectivamente, no território nacional ou no estrangeiro. g) Que concedam a revisão das decisões;
3. A entidade que receber a carta precatória só poderá recusar o seu cumprimen- h) Que apliquem medidas de segurança, reexame, suspensão ou revogação da
to se for territorialmente incompetente para a prática do acto solicitado. suspensão daquela e outras medidas relativas a inimputáveis;
263 264
i) Relativas ao falecimento de réus acusados definitivamente ou condenados; ARTIGO 104.º
j) De não inclusão em certificado de registo criminal de certas condenações. (legislação complementar)

ARTIGO 101.º Para além do disposto nos artigos anteriores o registo criminal será regulamen-
(boletim de registo criminal) tado em legislação própria.

1. Os boletins de registo criminal são enviados ao CICC, nos três dias imediatos CAPÍTULO V
àquele em que foi proferida a decisão a registar.
das nulidades
2. Os boletins devem conter:
a) Identificação completa do tribunal remetente, do suspeito ou do réu e do
ARTIGO 105.º
processo;
(princípio da tipicidade)
b) A indicação sucinta do facto sujeito a registo e do teor da decisão;
c) A menção expressa da impossibilidade de preenchimento completo;
1. Os vícios dos actos processuais que violem ou inobservem as normas de
d) A data, assinatura e categoria do responsável pelo preenchimento.
processo penal só geram a nulidade do acto quando a lei expressamente o deter-
3. O não cumprimento ou cumprimento defeituoso do referido no número ante-
minar.
rior, determina a devolução do boletim ao remetente.
2. Nos demais casos o acto ilegal gerará irregularidade.
ARTIGOS 102.º
(decisão de não inclusão no cRc) ARTIGO 106.º
(nulidades insanáveis)
O tribunal que condenar em pena de prisão até um ano ou outra pena equivalente,
poderá determinar a não transcrição da respectiva sentença nos certificados que 1. Para além das que a lei especialmente comine como tal, constituem nulidades
se não destinem a instruir processo-crime, sempre que: insanáveis:
a) Se tratar de delinquente primário; a) A falta ou insuficiência do número de juízes que devam constituir o tribunal;
b) Não existir perigo de prática de novos crimes pelo condenado. b) A falta do Ministério Público a actos aos quais a lei exigir a respective com-
parência;
ARTIGO 103.º c) A falta de comparência ou de nomeação do defensor sempre que a assistência
(cancelamento do registo) seja obrigatória;
d) A ausência do suspeito ou do réu quando a lei exibir a respectiva comparên-
É obrigatório o cancelamento do registo no caso de: cia;
a) Condenação em pena declarada sem efeito; e) A violação das regras de competência material e hierárquica do tribunal.
b) Decurso do prazo de reabilitação;
c) Decisões declaradas sem efeito por disposição legal. 2. As nulidades insanáveis são conhecidas oficiosamente em qualquer fase do
processo até ao trânsito em julgado da decisão final.

265 266
ARTIGO 107.º ARTIGO 110.º
(nulidades sanáveis) (irregularidade)

1. Constituem nulidades sanáveis todas as que a lei não comine expressamente 1. Os actos irregulares só serão declarados inválidos quando o vício puder afec-
de insanáveis, além das seguintes: tar o valor praticado de modo a por em causa a descoberta da verdade e obser-
a) O emprego do processo sumário quando devesse ser utilizado o processo vados os prazos no artigo 107º.
comum; 2. Logo que se tome conhecimento duma irregularidade pode-se, oficiosamente
b) A ausência do assistente em acto processual para que a lei exija a respective determinar a sua reparação desde que se verifiquem os requisitos previstos no
comparência; número anterior.
c) A falta de interprete quando a lei exibir a sua nomeação; ARTIGO 111.º
d) A não realização de diligências, na fase de julgamento, que devam reputar-se (declaração da nulidade e da irregularidade)
essenciais para a descoberta da verdade.
2. As nulidades sanáveis só podem ser conhecidas se arguidas pelos interve- 1. Consoante a fase processual, só o juiz ou o Ministério Público podem declar-
nientes processuais que as não originaram, no prazo legalmente determinado. er a nulidade ou irregularidade dos actos processuais.
2. As nulidades ou irregularidades determinam não só a invalidade do acto vici-
ARTIGO 108.º ado mas também os termos subsequentes do processo que possam ter sido afec-
(prazo de arguição) tados.

1. As nulidades referidas no artigo anterior terão de ser arguidas antes de o novo TÍTULO V
acto estar terminado se o interessado assistir ao mesmo ou nos cinco dias imedi- da pRoVa
atos àquele em que se tome conhecimento do vício que afecte o acto se o interes-
sado lhe não tiver assistido. CAPÍTULO I
2. Presume-se que se adquiriu conhecimento do vício a contar do momento em disposiçÕes GeRais
que se for notificado para qualquer termo do processo, se consultarem os autos ARTIGO 112.º
ou se intervenha em algum acto praticado no processo. (objecto da prova)

ARTIGO 109.º Constituem objecto da prova os factos juridicamente relevantes para a existência
(sanação) ou não do crime, a punibilidade ou não do suspeito e a determinação da pena, ou
da medida de segurança, ou da indemnização que ao caso couber.
1. Consideram-se sanados os vícios susceptíveis de determinar a nulidade do
acto, se os interessados deixarem decorrer os prazos referidos no artigo anterior ARTIGO 113.º
sem arguírem as nulidades ou renunciarem expressamente à sua arguição. (admissibilidade de meio de prova)
2. Consideram-se também sanados a falta ou o vício de notificação em que o
interessado compareça ao acto ou nas demais situações em que se prevaleça da Em processo penal é admissível qualquer meio de prova que não seja proibido
faculdade a cujo exercício o acto viciado se dirigir. por lei.
267 268
ARTIGO 114.º CAPÍTULO II
(proibição absoluta de prova) dos meios de pRoVa
São absolutamente proibidas as provas obtidas mediante tortura, coacção, em SECÇÃO I
geral, ofensa da integridade física ou moral das pessoas. da pRoVa testemunHal
ARTIGO 115.º ARTIGO 118.º
(proibição relativa de prova) (limites do depoimento testemunhal)
Salvo os casos previstos na lei ou em que haja consentimento expresso do titular
1. A testemunha depõe sobre factos de que tenha conhecimento directo e interes-
também são proibidas as provas obtidas mediante intromissão na vida privada,
sem à decisão da causa.
no domicílio, na correspondência ou nas telecomunicações.

2. A parte do depoimento em que se refiram factos que se ouviram a outras pes-


ARTIGO 116.º
soas só servirão como meio de prova se comprovados pelas declarações das
(Valor das provas proibidas)
referidas pessoas, entretanto chamadas a depor.
1. As provas obtidas em violação do disposto nos artigos anteriores ou de qual-
quer outra norma proibitiva de prova são ineficazes sob o ponto de vista proces- 3. É admissível que o depoimento incida sobre meras convicções pessoais se for
sual e apenas podem ser utilizadas para se proceder criminal ou disciplinarmente impossível cindi-las dos factos que se pretendem apurar ou quando resultarem de
contra os seus autores. conhecimentos técnicos, científicos ou artísticos.

2. É obrigatório, sob pena de nulidade processual insanável, proceder ao desen- ARTIGO 119.º
tranhamento de toda a prova proibida. (capacidade para testemunhar)

ARTIGO 117.º 1. Qualquer pessoa tem capacidade para ser testemunha sem prejuízo de o tribu-
(livre apreciação da prova) nal dever avaliar a aptidão física e mental para prestar testemunho sempre que
isso se lhe afigure necessário.
1. A prova, em processo penal, é apreciada segundo a livre convicção da entidade
que se formará a partir das regras da experiência e dos critérios da lógica. 2. Estão impedidos de depor como testemunhas o assistente e o suspeito ou réu
no processo em que assumirem tal qualidade.
2. Constituem excepção ao princípio referido no número anterior o que dispõe o
artigo 131.º, n.º 2 e 136.º. 3. Podem recusar ser testemunhas os ascendentes, descendentes, cônjuge, irmãos
e parentes do suspeito ou réu até ao 2.º grau. Sob pena de nulidade as pessoas
anteriormente referidas serão advertidas do direito que lhes assiste antes de ini-
ciarem o depoimento.
269 270
ARTIGO 120.º 2. A testemunha tem o dever de:
(escusa em responder a perguntas) a) Se apresentar no tempo e lugar para que for notificado;
b) Responder e com verdade às perguntas que lhe forem feitas;
1. As pessoas estatutariamente abrangidas pelo segredo profissional podem c) Prestar juramento se não estiver isento de o fazer;
escusar-se a responder às perguntas que respeitarem a factos protegidos por d) Manter-se à disposição da entidade que presidirá a inquirição até ser desobri-
aquele segredo. gada;
2. O disposto no número anterior é correspondentemente aplicável ao segredo de e) Obedecer as indicações que legitimamente lhe forem dadas quanto à forma de
funcionamento e do Estado. prestar o depoimento.
3. A quebra do segredo profissional pode ser determinada pelo Supremo Tribunal
de Justiça verificados os pressupostos de que a lei penal faz depender a exclusão ARTIGO 123.º
da ilicitude. (Regras da inquirição)

ARTIGO 121.º 1. O depoimento é um acto pessoal que não pode, em caso algum ser feito por
(imunidades e prerrogativas) intermédio de outrem.
2. A inquirição começa pela identificação da testemunha, incide sobre as relações
1. Têm aplicação em processo penal todas as imunidades e prerrogativas estab- de parentesco e interesse com os demais intervenientes processuais e sobre todas
elecidas na lei quanto ao dever de testemunhar, ao modo e local de prestação dos as circunstâncias relevantes para avaliação da credibilidade do testemunho, antes
depoimentos. da prestação de juramento, se dever prestá-lo.
2. Fica assegurada a possibilidade de realização do contraditório legalmente 3. São proibidas as perguntas sugestivas, impertinentes, vexatórias, capciosas ou
admissível ao caso. as feitas de qualquer outra forma que possa prejudicar a verdade das respostas.

ARTIGO 122.º SECÇÃO II


(direitos e deveres da testemunha) declaRaçÕes do suspeito ou do Réu

1. A testemunha tem o direito de: ARTIGO 124.º


a) Não responder a perguntas cujas respostas possam implicar a sua responsabi- (Regra geral)
lização penal;
b) Ser paga, se o solicitar antes de terminado o depoimento, das despesas efec- 1. As declarações do suspeito ou do réu só constituem meio de prova quando
tuadas por causa da prestação do testemunho; aquele decidir prestá-las, o que pode fazer a todo o tempo, até ao encerramento
c) Ser tratado com urbanidade durante o interrogatório relativo às perguntas for- da audiência de julgamento.
muladas; 2. Decidindo prestar declarações o suspeito ou o réu não presta juramento e pode,
d) Apresentar os objectos e documentos que entenda necessários para corroborar sem qualquer justificação, recusar responder a algumas perguntas apenas.
o seu depoimento; 3. São correspondentemente aplicáveis as normas do artigo 118º, além das diver-
e) Não prestar juramento se tiver menos de 14 anos ou for interdito por anomalia sas disposições relativas ao estatuto do suspeito.
psíquica.
271 272
SECÇÃO III SECÇÃO V
declaRaçÕes do assistente do ReconHecimento

ARTIGO 125.º ARTIGO 128.º


(Generalidades) (Reconhecimento de pessoas)

1. O assistente não presta juramento mas está sujeito ao dever de verdade e con- 1. Se quem dever proceder ao reconhecimento dalguma pessoa não conseguir
sequente responsabilidade criminal pela sua violação. identificá-la cabalmente através da descrição das suas características, proceder-
se-á ao reconhecimento físico daquela.
2. São correspondentemente aplicáveis as normas relativas à regulamentação da
prova testemunhal. 2. Fora da audiência de julgamento, a validade deste meio de prova exige que se
coloque a pessoa a reconhecer no meio de várias outras com idênticas carac-
terísticas físicas e modo de vestir, devendo quem proceder ao reconhecimento
SECÇÃO IV
declarar se algum dos presentes é a pessoa a identificar e, caso afirmativo, qual.
da acaReaçÃo
3. Se forem vários os identificados proceder-se-á separadamente para cada um
ARTIGO 126.º deles da forma descrita anteriormente.
(Quando tem lugar)
ARTIGO 129.º
Quando houver contradição entre declarações prestadas pelo arguido, assistente (Reconhecimento de objectos)
e testemunha ou entre si, se forem vários com a mesma qualidade, e não for pos-
sível descobrir qual a verdade a partir do teor das declarações contraditórias, É correspondentemente aplicável ao reconhecimento de objectos o disposto no
ordenar-se-á, oficiosamente ou a requerimento, a acareação dos autores das artigo anterior.
declarações contraditórias.
SECÇÃO VI
ARTIGO 127.º da pRoVa documental
(como se procede)
ARTIGO 130.º
1. Quem presidir à produção de prova esclarece os acareados dos aspectos em (apresentação de documento)
contradição e solicita-lhes que os confirmem, modifiquem ou contestem a
posição contrária. 1. O documento deve ser junto aos autos durante a investigação e, alegando e
provando a impossibilidade, poderá sê-lo até ao encerramento da audiência.
2. Quando necessário, a entidade que efectuar a acareação formulará as pergun- 2. Os interessados contra quem o documento for apresentado poderão opor-se à
tas que entenda necessárias à descoberta da verdade. junção e têm direito a prazo não superior a sete dias para contraditarem o con-
teúdo do documento.
273 274
ARTIGO 131.º ARTIGO 134.º
(Valor probatório) (procedimento)

1. Os documentos particulares são apreciados livremente pelo tribunal. 1. No despacho que ordene a perícia, nomeiam-se os peritos ou o estabeleci-
2. Os factos constantes de documento autêntico ou autenticado consideram-se mento encarregue de a efectuar e ordena-se a notificação do suspeito, do assis-
provados enquanto a autenticidade do documento ou a veracidade do seu con- tente e do Ministério Público, quando for caso disso.
teúdo não forem arguidas de falsas
3. Para tal fim, oficiosamente ou a requerimento, proceder-se-á às diligências 2. Nos sete dias imediatos à notificação os interessados podem indicar um con-
necessárias e competirá exclusivamente ao juiz, independentemente da fase sultor técnico da sua confiança para assistir à realização da perícia. Esta poderá
processual, decidir acerca da falsidade. formular quesitos e sugerir diligências que se afigurem relevantes para a
4. Neste caso e nos demais em que haja fundadas duvidas acerca da falsidade de descoberta da verdade.
um documento deverá participar-se ao Ministério Público para a instauração do
correspondente procedimento criminal. 3. Finda a perícia o perito ou peritos elaboram relatório de que constem, sob pena
de nulidade, os factos apurados, a sua apreciação técnico-científica e as con-
ARTIGO 132.º clusões periciais, sendo admissível voto de vencido se a perícia for colegial.
(lei subsidiária)
ARTIGO 135.º
São subsidiariamente aplicáveis as normas do Código Civil relativas à prova do- (avaliação contínua da perícia)
cumental.
Oficiosamente ou a requerimento, em qualquer altura do processo até haver
SECÇÃO VII decisão transitada, pode-se ordenar a repetição ou renovação da perícia pelos
da pRoVa peRicial mesmos ou novos peritos, desde que se demonstre fundadamente os motivos da
repetição ou da renovação.
ARTIGO 133.º
(Quando tem lugar) ARTIGO 136.º
(Valor probatório)
1. A prova pericial tem lugar quando a percepção ou a apreciação dos factos exi-
girem especiais conhecimentos técnicos, científicos ou artísticos. A discordância relativamente às conclusões do relatório pericial carecem de ser
fundamentadas em juízos de igual valor técnico, científico ou artístico.
2. A prova pericial é efectuada por peritos especializados ou em estabelecimen-
tos oficiais especializados na matéria em apreço.

3. A prova pericial é sempre precedida de despacho em que se fundamenta a sua


necessidade e pode ser requerida ou decretada oficiosamente.

275 276
CAPÍTULO III ARTIGO 139.º
dos meios de pRoVa (busca domiciliária)

SECÇÃO I A busca em casa de habitada ou uma sua dependência fechada só pode ser efec-
das buscas e ReVistas tuada entre as 6 e as 20 horas.

ARTIGO 140.º
ARTIGO 137.º
(Relevância do consentimento)
(conceito)
1. É dispensável o despacho do Ministério Público autorizando a busca ou a
1. É efectuada revista quando houver que apreender objectos relacionados com revista, sempre que o visado consinta por escrito, na sua realização.
um crime ou que possam servir como meio de prova que alguém transporte ou 2. O consentimento relativo a busca domiciliária poderá abranger também o
esconda na sua pessoa. período de tempo em que é proibida a sua realização.
2. A busca é efectuada quando se encontrarem em lugar reservado ou não livre-
mente acessível ao público: SECÇÃO II
a) Os objectos referidos no número anterior e que devam ser apreendidos; apReensÕes
b) Qualquer pessoa que deva ser detida.
ARTIGO 141.º
ARTIGO 138.º (conceito e pressupostos)
(formalidades)
1. Fora dos casos referidos no artigo 58.º, a apreensão de objectos relacionados
1. Fora dos casos previstos no artigo 58.º as buscas e as revistas são autorizadas com o crime ou que possam servir como meio de prova depende da prévia autori-
por despacho do Ministério Público que preside à diligência se assim o entender. zação do Ministério Público.
2. Os objectos apreendidos são juntos ao processo ou, conforme os casos, confi-
2. As buscas e as revistas são executadas pelos órgãos de polícia encarregues de ados a um fiel depositário que poderá ser o escrivão da secção.
efectuar o inquérito ou que o Ministério Público nomeie especificamente para 3. Se a apreensão tiver por objecto coisas perigosas ou perecíveis o Ministério
esse fim. Público ordenará a sua destruição, venda ou afectação a finalidade socialmente
útil, depois de se ter procedido a auto de exame e de avaliação.
3. A execução das buscas e revistas deve respeitar a dignidade pessoal e o pudor
do visado. ARTIGO 142.º
(destino dos objectos apreendidos)
4. É correspondentemente aplicável o que dispõe o artigo 58.º, n.º 2, devendo o
visado assinar o respectivo auto. 1. Os objectos apreendidos são restituídos a quem de direito se não deverem ser
declarados perdidos a favor do Estado.
5. No acto de execução da busca ou revista deve ser entregue ao visado, um 2. A restituição é ordenada logo que se torne desnecessária a apreensão para
duplicado do despacho que a autoriza. efeito de prova ou após o trânsito em julgado da decisão final.
277 278
3. O despacho que ordena a restituição é notificado a quem for titular dos objec- 4. O incumprimento do disposto neste artigo torna inválida como meio de prova
tos em causa. Se os objectos não forem levantados nos 60 dias imediatos à noti- a intercepção ou gravação obtida.
ficação são declarados perdidos a favor do Estado.
ARTIGO 145.º
SECÇÃO III (procedimento)
eXames
1. Efectuada a intercepção ou a gravação é lavrado auto do modo, tempo e lugar
ARTIGO 143.º em que foi realizada e, juntamente, com as fitas gravadas ou elementos análogos,
(conceito) entregue ao juiz competente, fazendo-se menção no processo.
1. Podem ser efectuados exames às pessoas, aos lugares e às coisas relacionadas
2. O juiz procede à análise dos elementos recolhidos e se os considerer relevantes
com a prática de um crime ou que possam servir de meio de prova, respeitando-
para a prova ordena a junção aos autos, caso contrário, a destruição dos mesmos.
se o disposto no artigo 112.º.
2. Os exames servem para documentar os vestígios deixados pela prática de um 3. Em qualquer altura do processo pode ser ordenada ou requerida pelo
crime e que possam indicar o modo como e o lugar onde foi praticado ou as pes- Ministério Público a transcrição em auto da totalidade ou de parte da gravação se
soas que o cometeram ou sobre quando foi praticado. tal se afigurar de interesse para o bom andamento do processo.
3. Os agentes da polícia efectuam os exames necessários e tomam as medidas
cautelares adequadas a garantir a sua realização, sem necessidade de despacho 4. O suspeito, o assistente e as pessoas cujas conversações tiverem sido escutadas
prévio do Ministério Público, excepto no que concerne aos exames às pessoas em podem examinar o seu conteúdo, findo o inquérito.
que a sua execução carece de despacho do Ministério Público.
ARTIGO 146.º
SECÇÃO IV (Gravação efectuada a pedido ou por um dos intervenientes)
escutas telefÓnicas
1. É válida como meio de prova a gravação efectuada por um dos intervenientes
ARTIGO 144.º ou destinatários da comunicação ou da conversação se previamente tiver dado
(pressupostos) conhecimento ao juiz de que vai efectuar ou solicitar a sua realização.

1. Só pode ser ordenada a intercepção ou gravação de conversações ou comuni- 2. Tal gravação não tem qualquer valor como meio de prova se a conversação ou
cações telefónicas relativamente a crimes puníveis com pena de prisão superior comunicação tiver sido provocada por quem a gravar ou pedir a sua gravação
a 3 anos e se a diligência for essencial para a descoberta da verdade ou para a com esse intuito.
prova do ilícito.
2. A escuta telefónica é autorizada por despacho do juiz verificados os pressu- ARTIGO 147.º
postos referidos no número anterior. (equiparação)
3. É proibida a realização de escutas telefónicas às comunicações efectuadas
entre o suspeito e o defensor, salvo se existirem fortes indícios do envolvimento O disposto no artigo anterior é correspondentemente aplicável às conversações ou
criminal deste. comunicações transmitidas por qualquer outro meio técnico diverso do telefone.
279 280
TÍTULO VI ARTIGO 150.º
das medidas de coacçÃo e de GaRantia (Requisitos gerais)
patRimonial
Excepto o termo de identidade e residência, a aplicação de qualquer outra medi-
CAPÍTULO I da de coacção depende da verificação de, pelo menos, um dos seguintes requisi-
ReGRas GeRais tos:
a) Fuga ou fundado perigo de fuga do suspeito;
SECÇÃO I b) Fundado perigo de perturbação da investigação ou da realização da audiência
GeneRalidades de julgamento, nomeadamente, por perigo para a aquisição, conservação ou
veracidade da prova;
c) Fundado perigo de continuação da actividade criminosa ou perturbação da
ARTIGO 148.º
ordem e tranquilidade públicas, em razão da natureza e circunstâncias do crime,
(princípio da legalidade)
da personalidade do delinquente.
1. Só o suspeito pode ser sujeito a medidas de coacção. As medidas de garantia
ARTIGO 151.º
patrimonial podem ser aplicadas tanto ao suspeito como ao responsável civil.
(legitimidade para a aplicação da medida)
2. As medidas de coacção e de garantia patrimonial aplicáveis são exclusiva-
mente as previstas na lei e só poderão ser aplicadas para satisfazer as exigências
1. Qualquer entidade policial ou judiciária encarregue de efectuar o inquérito
processuais de natureza cautelar.
pode aplicar o termo de identidade e residência.
3. Não se considera medida de coacção a obrigação de identificação de qualquer 2. Compete exclusivamente ao juiz decretar a prisão preventiva.
cidadão perante autoridade competente para a exigir. 3. As restantes medidas de coacção serão aplicadas, na investigação, pelo
Ministério Público e, depois da investigação, pelo juiz.
ARTIGO 149.º 4. Na investigação a prisão preventiva é aplicada pelo juiz a requerimento do
(escolha da medida concreta) Ministério Público.
5. O requerimento do Ministério Público é obrigatório sempre que ao crime cor-
Na escolha de medida de coacção ou de garantia patrimonial a aplicar em con- responda pena de prisão superior a oito anos. O juiz só poderá deferir ou inde-
creto, dever-se-á atender à: ferir o requerimento, competindo ao Ministério Público, neste último caso, adop-
a) Adequação da medida às necessidades processuais que se pretendam acaute- tar as medidas adequadas.
lar;
b) Proporcionalidade da medida à gravidade do crime e às sanções que previ- ARTIGO 152.º
sivelmente virão a ser aplicadas no caso concreto; (cumulação de medidas)
c) Preferência pela medida que, sendo adequada às exigências cautelares, menos
interfira com o exercício normal dos direitos fundamentais do cidadão. 1. As medidas de coacção e de garantia patrimonial podem aplicar-se simultane-
amente à mesma pessoa.

281 282
2. O termo de identidade e residência pode cumular-se com as demais medidas, policial em dias e horas preestabelecidas em razão das exigências profissionais e
enquanto a prisão preventiva exclui a aplicação de qualquer outra medida de do local em que o suspeito resida.
coacção. 2. A entidade a quem o suspeito se apresentar preencherá ficha própria das apre-
3. A caução e a obrigação de apresentação são cumuláveis entre si. sentações que, finda a medida, remeterá ao tribunal para junção ao processo.
3. O não comparecimento injustificado do suspeito deverá ser comunicado ao tri-
SECÇÃO II bunal decorridos cinco dias.
medidas de coacçÃo
ARTIGO 155.º
ARTIGO 153.º (caução)
(termo de identidade e residência)
1. Se o crime imputado ao suspeito for punível com pena de prisão superior a
1. Da primeira vez que um suspeito preste declarações durante a investigação e dois anos poderá ser-lhe arbitrada caução.
não dever ficar preso preventivamente, prestara termo de identidade e residência, 2. O montante da caução dependerá da condição socio-económica do suspeito,
independentemente de ficar sujeito a outra medida de coacção ou de garantia pa- do dano causado, da gravidade da conduta criminosa e dos objectivos de natureza
trimonial. cautelar a prosseguir.
2. Do termo deve constar que àquele foi dado conhecimento: 3. A caução pode ser prestada por depósito no Banco Central da GB por hipote-
a) Da obrigação de comparecer perante a autoridade competente ou de se manter ca, por penhor ou por fiança bancária ou pessoal, nos termos a determinar pela
à disposição dela sempre que a lei o obrigar ou para tal for devidamente notifi- entidade competente.
cado; 4. A prestação de caução processa-se por apenso.
b) Da obrigação de não mudar de residência nem dela se ausentar por mais de 5. Posteriormente à prestação da caução, esta pode ser reforçada ou modificada
cinco dias sem comunicar a nova residência ou o lugar onde possa ser encontra- se novas circunstâncias o justificarem ou exigirem.
do;
c) De que o incumprimento do disposto nas alíneas anteriores legitima a contin- ARTIGO 156.º
uação do processo com a realização de notificações editais nos casos em que, (substituição da caução)
normalmente, o deveriam ser pessoalmente.
3. Se o suspeito residir ou for residir para fora da comarca onde o processo corre, Se o suspeito provar que está impossibilitado de prestar a caução por qualquer
deve indicar pessoa que, residindo nesta, toma o encargo de receber as notifi- forma ou que tal lhe causa gravíssimas dificuldades ou inconvenientes, deve ser-
cações que lhe devam ser feitas. lhe substituída por outra medida, excepto a prisão preventiva.
4. O termo de identidade e residência será elaborado em duplicado, que sera
entregue ao suspeito. ARTIGO 157.º
ARTIGO 154.º (Quebra da caução)
(obrigação de apresentação periódica)
1. Por despacho, declara-se quebrada a caução, sempre que o suspeito incumprir
1. Se o crime for punível com pena de prisão superior a um ano de prisão, o sus- as obrigações processuais decorrentes da medida de coacção aplicada ou faltar
peito pode ser obrigado a apresentar-se a uma autoridade judiciária ou entidade injustificadamente a acto processual.
283 284
2. O despacho de aplicação de caução é impugnável por meio de reclamação ou a) Fortes indícios da prática de crime doloso punível com pena de prisão supe-
recurso, conforme tenha sido o Ministério Público ou o juiz, respectivamente, rior a 1 ano;
quem a aplicou. b) Inadequação ou insolvência de qualquer outra medida prevista na lei.
3. Quebrada a caução, o seu valor reverte para o Estado. 2. A prisão preventiva também pode ser aplicada a quem penetrar ou permanecer
irregularmente em território nacional ou contra quem correr processo de
ARTIGO 158.º extradição ou expulsão, nos termos a regular por lei especifica.
(levantamento da caução) 3. Antes ou depois da aplicação da prisão preventiva o suspeito deve ser presente
ao juiz para contraditar os pressupostos da referida medida.
1. Proferida decisão final transitada em julgado, ocorrendo a prisão do suspeito, 4. Quem sofrer de anomalia psíquica, verificados os requisitos de aplicação da
verificando-se qualquer causa de extinção da responsabilidade criminal ou sendo prisão preventiva e enquanto substituir essa anomalia, será submetido a interna-
desnecessário a caução por qualquer motivo, o tribunal, oficiosamente, declara- mento preventivo em hospital psiquiátrico enquanto tal medida provisória se
a sem efeito. mostrar necessária.
2. A declaração sem efeito da caução implica que se ordene o cancelamento do
registo da hipoteca ou a restituição do depósito ou objectos penhorados ou, ainda, ARTIGO 161.º
que se declare extinta a responsabilidade do fiador. (duração da prisão preventiva)

ARTIGO 159.º 1. A prisão preventiva não poderá ultrapassar, desde o seu início:
(obrigação de permanência) a) Vinte dias sem que seja proferida acusação provisória;
b) Quarenta e cinco dias sem que haja acusação definitiva;
1. No caso de crimes puníveis com mais de três anos de prisão, pode sujeitar-se c) Seis meses sem que tenha havido condenação em 1ª instância;
o suspeito a que: d) Dez meses sem que haja condenação com trânsito em julgado.
a) Se não ausente para o estrangeiro, ou não se ausente sem autorização, apreen- 2. Os prazos anteriormente referidos são elevados para trinta dias quando o
dendo-se-lhe o respectivo passaporte e comunicando-se às autoridades emissoras processo se revelar de excepcional complexidade, devendo ser proferido despa-
daquele e às encarregues dos controlos das fronteiras; cho nesse sentido.
b) Se não ausente, ou não se ausente sem autorização, do local em que vive. 3. Antes de ultrapassados os prazos proferidos nos números anteriores, se não for
2. A requerimento, esta medida é obrigatoriamente levantada quando o suspeito previsível o seu cumprimento, o suspeito terá de ser colocado em liberdade,
tiver prestado ou reforçar efectivamente a caução que o tribunal entenda ade- excepto se dever ficar preso à ordem doutro processo.
quada às circunstâncias cautelares exigíveis no caso.
ARTIGO 162.º
ARTIGO 160.º (Reexame dos pressupostos)
(prisão preventiva)
Após audição do Ministério Público e do suspeito, o juiz, reexamina os pressu-
1. Para além da ocorrência de um dos requisitos previstos no artigo 150.º, a apli- postos fácticos de que depende a manutenção da prisão preventiva, todos os
cação da prisão preventiva depende da verificação cumulativa dos seguintes períodos de três meses de duração.
pressupostos:
285 286
ARTIGO 163.º c) Com o trânsito em julgado dos despacho que rejeite a acusação;
(Revogação da prisão preventiva) d) Com a sentença absolutória, independentemente do trânsito;
e) Com o trânsito em julgado da sentença condenatória;
A requerimento ou oficiosamente, o juiz revoga a prisão preventiva e determina f) Com a sentença condenatória, sem trânsito, se a pena aplicada não for supe-
a liberdade do suspeito, quando verificar que aquela foi aplicada fora dos casos rior à prisão preventiva já sofrida.
e das condições previstas na lei ou quando tiverem deixado de subsistir as cir-
cunstâncias que a determinaram. 2. A extinção da prisão preventiva implica a soltura imediata do suspeito.

ARTIGO 164.º 3. É correspondentemente aplicável o disposto no artigo 165.º, n.º 2.


(suspensão da prisão preventiva)
ARTIGO 167.º
1. Por razões de doença grave, puerpério ou gravidez a prisão pode ser suspense
(desconto da prisão preventiva)
pelo período que o juiz considere necessário em função da duração possível
daquelas circunstâncias.
1. A prisão preventiva sofrida pelo suspeito no processo em que for condenado é
2. Durante a suspensão a prisão preventiva pode ser substituída por outra medi-
descontada no cumprimento da pena de prisão aplicada.
da de coacção nos termos gerais, compatível com a situação em apreço.

2. Se for aplicada pena de multa, a prisão preventiva é descontada à razão de um


ARTIGO 165.º
dia de multa por um dia de prisão.
(substituição da prisão preventiva)

1. Na situação prevista no artigo 164º, nº 1 e também no caso de o suspeito sofr- ARTIGO 168.º
er de doença mental grave que se não manifeste continuamente, a título excep- (contagem do tempo de prisão efectiva)
cional, o juiz poderá, em substituição da prisão preventiva, ordenar o interna-
mento hospitalar do suspeito, com ou sem vigilância policial. A detenção sofrida pelo suspeito conta-se como tempo de prisão preventive para
2. Quando ocorrer uma atenuação das exigências cautelares que determinaram a efeitos processuais.
aplicação da prisão preventiva o juiz substitui-a por outra medida menos gravosa,
ouvindo o Ministério Público e o suspeito, oficiosamente ou a requerimento. ARTIGO 169.º
(substituição de medidas de coacção)
ARTIGO 166.º
(extinção da prisão preventiva) 1. É correspondentemente aplicável às demais medidas de coacção o que dispõe
o n.º 2 do artigo 164.º e o artigo 165.º.
1. A prisão preventiva extingue-se de imediato:
a) Com o arquivamento do inquérito, se não for requerida a impugnação contra- 2. Em caso de violação das obrigações impostas por aplicação de uma mediada
ditória; de coacção podem impor-se outras ou outra, ou substitui-se a inicial, consoante
b) Se, com o encerramento da impugnação contraditória, não for deduzida as circunstâncias.
acusação definitiva;
287 288
SECÇÃO III 3. No prazo de sete dias a contar da recepção do requerimento, efectuadas as
impuGnaçÃo das medidas aplicadas diligências necessárias, será proferida decisão relativa ao requerimento apresen-
tado.
ARTIGO 170.º 4. A decisão compete à secção criminal presidida pelo Presidente do Supremo
(Reclamação) Tribunal de Justiça.

1. Excepto o termo de identidade e residência, as demais medidas de coacção são ARTIGO 173.º
impugnáveis por reclamação, se aplicadas pelo Ministério Público ou mediante (cumprimento da decisão)
recurso se forem aplicadas pelo juiz.
2. A reclamação para o superior hierárquico deve ser apresentada no prazo de Se a decisão do Supremo Tribunal de Justiça decretar a ilegalidade da prisão
sete dias após a notificação da aplicação e não impede que nas fases posteriores comunicá-la-á imediatamente à entidade à ordem de quem se encontrar o preso
à investigação o tribunal aplique medida diversa. que o soltará de imediato, sob pena de responsabilidade criminal.

ARTIGO 171.º
(Habeas corpus em virtude de prisão ilegal) CAPÍTULO III
das medidas de GaRantia patRimonial
1. Qualquer pessoa que se encontrar ilegalmente presa pode requerer ao Supremo
Tribunal de Justiça, por si ou por qualquer cidadão no gozo de seus direitos ARTIGO 174.º
políticos, que lhe seja concedida a providência de "habeas corpus". (caução económica)
2. A ilegalidade da prisão deve fundar-se no facto de:
a) Ter sido efectuada ou ordenada por entidade incompetente; 1. Havendo fundado receio de que faltem ou diminuam substancialmente as
b) Ser motivada por facto pelo qual a lei não permita a sua aplicação; garantias de pagamento de pena pecuniária, do imposto de justiça, ou de qual-
c) Mostrarem-se ultrapassados os prazos máximos de duração. quer outra dívida para com o Estado e relacionada com o processo crime, será
ordenada, oficiosamente ou a requerimento, a prestação de caução económica
ARTIGO 172.º pelos suspeito.
(tramitação do incidente) 2. É correspondentemente aplicável o que dispõe o número anterior ao respon-
sável civil no que concerne ao valor a pagar a título de indemnização.
1. O requerimento é elaborado em duplicado, dirigido ao Presidente do Supremo 3. A caução económica mantém-se distinta e autónoma da caução referida no
Tribunal de Justiça e apresentado à autoridade à ordem de quem se encontrar o artigo 155.º e subsiste até à decisão final absolutória ou até à extinção das obri-
preso, que o remete ao Supremo Tribunal de Justiça no prazo de 24 horas com as gações.
informações relativas às circunstâncias que determinaram a prisão e se esta se
mantém.
2. Recebido o requerimento o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça ordena
a notificação do Ministério Público para em 48 horas se pronunciar e nomeia
defensor no suspeito se este o não tiver já.
289 290
ARTIGO 175º ARTIGO 177.º
(arresto preventivo) (participação)

1. Se não for prestada a caução imposta nos termos do artigo anterior pode-se 1. Qualquer agente policial que tomar conhecimento da prática de um crime ela-
decretar o arresto em sua substituição, nos termos da lei processual civil. bora, obrigatória e imediatamente, participação.
2. Aos funcionários públicos, gestores públicos e quaisquer outros agentes ou
2. O arresto a que se refere este artigo pode ser decretado mesmo em relação a autoridades públicas que tomarem conhecimento de crimes no exercício das suas
comerciante. funções e por causa delas é correspondentemente aplicável o disposto no número
anterior.
3. Prestada a caução económica imposta, é obrigatória a revogação do arresto. 3. Se se tratar de crime semi-público, a instauração do procedimento criminal
depende do exercício do direito de queixa sob pena de, não sendo exercido nos
PARTE II oito dias imediatos à elaboração do auto, este se arquivar.
do pRocesso comum
ARTIGO 178.º
TÍTULO I (auto de participação)
da inVestiGaçÃo
1. A participação é efectuada mediante auto de que constem:
CAPÍTULO I a) Os elementos de identificação que se consigam averiguar relativos ao suspeito
disposiçÕes GeRais e ao ofendido;
b) O factualismo que constitui o crime;
SECÇÃO I c) O dia, a hora, o local e as circunstâncias em que o crime terá sido praticado;
da notÍcia do cRime d) Os meios de prova já conhecidos;
e) Se o conhecimento da notícia do crime não tiver sido adquirido pelo próprio
ARTIGO 176.º participante, a forma como o adquiriu;
(aquisição da notícia do crime) f) A data e a assinatura do participante.
2. Sempre que o participante tiver presenciado a prática do crime o auto de par-
1. A notícia do crime adquire-se por conhecimento próprio de quem deva iniciar ticipação denomina-se "auto de notícia em flagrante".
a investigação que elaborará participação da ocorrência, mediante participação 3. Nos casos de conexão previstos no artigo 20º, levantar-se-á um único auto.
efectuada por outras autoridades ou por denúncia apresentada por qualquer
cidadão quando se tratar de crime público e pelos titulares do direito de queixa ARTIGO 179.º
nos crimes semi-públicos. (denúncia)

2. É dado imediato conhecimento da notícia do crime ao Ministério Público se 1. A denúncia pode ser efectuada por qualquer cidadão relativamente a crimes
não tiver sido este quem ordenou a investigação, sob pena de nulidade. públicos e pode ser apresentada ao Ministério Público ou a um agente policial
que a comunicará ao Ministério Público.
291 292
2. O auto de denúncia contém os elementos enumerados no nº 1 do artigo ante- ARTIGO 182.º
rior e, quando feita verbalmente, compete a quem receba a denúncia reduzi-lá a (Renúncia e desistência da queixa)
auto escrito que deverá ser assinado pelo denunciante e por quem o redigir.
1. A renúncia expressa ou tácita ao direito de queixa obsta ao seu exercício pos-
terior. A desistência impede a renovação da queixa.
SECÇÃO II 2. É admissível a desistência da queixa até ser proferida sentença em 1ª instân-
da QueiXa cia. A não oposição do suspeito é condição de validade da desistência.
3. A desistência julgada válida importa a absolvição da instância do suspeito e
ARTIGO 180.º dos restantes comparticipantes a quem possa aproveitar.
(titulares do direito de queixa) 4. Se tiverem ou pudessem ter sido várias pessoas a exercer o direito de queixa,
tanto a renúncia como a desistência, para serem válidas, exigem o acordo de
1. Quando o procedimento criminal depender de queixa, tem legitimidade para todas essas pessoas.
apresentá-la qualquer das pessoas a seguir indicadas, independentemente do
acordo das medidas:
a) Quem estiver na situação descrita no artigo 66.º, alínea a); SECÇÃO III
b) Se o ofendido morrer sem ter apresentado queixa nem ter renunciado a ela, o da detençÃo
direito de queixa pertencerá ao cônjuge sobrevivo ou legalmente equiparado, e
aos descendentes e, na falta deles, aos ascendentes, irmãos e seus descendentes, ARTIGO 183.º
salvo se algum deles tiver participado no crime; (conceito de detenção)
c) Quando o ofendido for incapaz por anomalia psíquica ou menor de 14 anos, o
direito de queixa pertencerá ao seu representante legal e às pessoas referidas no 1. Detenção é toda a privação de liberdade por período de tempo inferior a 48
número anterior nos termos aí mencionados. horas e em que o detido não pode ser colocado em estabelecimento prisional des-
2. A queixa apresentada contra um dos participantes no crime implica a instau- tinado à execução de pena privativa de liberdade nem ao cumprimento de prisão
ração do procedimento criminal contra todos. preventiva.
2. A detenção destina-se a garantir a presença do detido no julgamento em
ARTIGO 181.º processo sumário ou no primeiro interrogatório a que deva ser submetido, ou
(extinção do direito de queixa) assegurar a presença imediata do detido em acto processual a que tenha faltado
injustificadamente.
1. O direito de queixa extingue-se decorridos seis meses, a contar do momento 3. A execução da detenção cabe à entidade policial que a tiver efectuado ou a
em que o titular teve conhecimento do facto e dos autores, ou a partir da morte quem o detido for entregue e deverá limitar-se às medidas cautelares estritamente
do ofendido, ou da data em que ele se tornou incapaz. necessárias para impedir a fuga do detido.
2. O prazo conta-se autonomamente para cada um dos vários titulares do direito
de queixa.

293 294
ARTIGO 184.º b) Existirem fortes indícios de que o suspeito se prepara para fugir à acção da
(detenção em flagrante delito) justiça.

1. Em caso de flagrante delito, por crime punível, com prisão, qualquer das enti- ARTIGO 187.º
dades referidas no artigo 177.º, n.ºs l e 2, deve proceder a detenção. (mandados de detenção)
2. Se nenhuma das entidades referidas no artigo 177.º, n.ºs 1 e 2, puder efectuar
a detenção, qualquer pessoa, em flagrante delito, poderá realizar. 1. A detenção fora de flagrante delito só pode ser efectuada mediante mandado
3. A pessoa que proceder a detenção entrega o detido imediatamente a autoridade cujo duplicado será entregue ao detido.
policial mais próxima, a qual elabora auto da entrega donde constem, para além 2. O mandado de detenção contem, obrigatoriamente:
da identificação do captor e circunstâncias da captura, os elementos referidos no a) Identificação da pessoa a deter e qualidade em que intervém no processo;
artigo 178.º, n.º 1. b) Indicação sucinta dos fundamentos e finalidade da detenção;
4. Tratando-se de crime cujo procedimento dependa de queixa a detenção não c) Identificação e número do processo a que se referir a detenção;
poderá ultrapassar as 21 horas sem que o titular do direito de queixa o exerça. d) Nome, categoria e assinatura de quem ordenar a detenção.
3. O mandado é redigido em triplicado, sendo um dos duplicados para ficar no
ARTIGO 185.º processo depois de certificada a captura, um outro para o arquivo da entidade
(flagrante delito) captora e o original para entregar ao detido no acto da captura.
4. A detenção que não obedecer ao disposto neste e no artigo anterior é ilegal.
1. É flagrante delito todo o crime que se está a cometer.
2. Considera-se flagrante delito todo o crime que se acabou de cometer. ARTIGO 188.º
3. Presume-se também flagrante delito o caso em que o agente for, logo após o (comunicação da detenção)
crime, perseguido por qualquer pessoa ou encontrada com objectos ou sinais que
mostram claramente que acabou de o cometer ou de nele participar. Sempre que for efectuada uma detenção, deve ser imediatamente comunicada:
a) Ao parente, a pessoa de confiança ou ao defensor do detido;
ARTIGO 186.º b) A entidade que a ordenou, se o detido não lhe for presente de imediato;
(detenção fora de flagrante delito) c) Ao Ministério Público nos restantes casos.

1. Excepto magistrados e advogados, qualquer outro interveniente processual ARTIGO 189º


pode ser detido, por ordem do juiz ou do Ministério Público, como forma de (libertação do detido)
assegurar a sua comparência imediata em acto processual a que tenha faltado
injustificadamente. 1. Qualquer entidade que tiver ordenado a detenção ou a quem o detido seja pre-
2. No decurso do inquérito, os oficiais de polícia ou equiparados e os inspectors sente procederá à sua imediata libertação:
da polícia judiciária podem ordenar a detenção, fora de flagrante detido, do sus- a) Logo que se tornar manifesto que a detenção foi efectuada por erro sobre a
peito, pessoa;
quando: b) Se tiver sido efectuada fora dos casos e das condições previstas na lei;
a) O crime indiciado for punível com pena de prisão superior a três anos; c) Logo que se torne desnecessária.
295 296
2. A libertação é precedida de despacho se for o Ministério Público ou o juiz a CAPÍTULO II
ordena-la e, sendo outra entidade, mediante a elaboração posterior de relatório a do inQuéRito
juntar ao processo.
3. É obrigatório comunicar ao Ministério Público qualquer libertação efectuada SECÇÃO I
por agentes policiais, sob pena de procedimento disciplinar. actos do inQuéRito
ARTIGO 190.º ARTIGO 192.º
(Habeas corpus por detenção ilegal) (início do inquérito)

1. Qualquer detido pode requerer ao juiz do círculo judicial da área em que se O inquérito principia com a aquisição de notícia do crime pela entidade encar-
encontrar que ordene a sua imediata apresentação judicial, se: regue de o realizar.
a) Estiver excedido o referido nos artigos 55.º, 183.º e 184.º, ou qualquer outro
prazo para entrega ao poder judicial; ARTIGO 193.º
b) Mantiver a detenção fora dos locais e das condições legalmente previstas; (fins do inquérito)
c) A detenção tiver sido ordenada ou efectuada por entidade incompetente;
d) A detenção não for admissível com os fundamentos invocados. O inquérito é a parte da investigação destinada a recolher provas e a realizar as
2. O requerimento pode ser subscrito pelo detido ou por qualquer pessoa no gozo diligências necessárias à descoberta de um crime e da responsabilização dos seus
dos seus direitos que o apresentará à entidade que o detenha, a qual o remete ime- autores.
diatamente ao juiz com as informações que entenda necessárias.
ARTIGO 194.º
ARTIGO 191.º (actos da competência judicial)
(tramitação do incidente)
São da competência exclusiva do juiz de círculo da área onde correr o inquérito:
1. Recebido o requerimento o juiz ordena, sob pena de desobediência qualifica- a) Decidir do "habeas corpus" por detenção ilegal;
da, a apresentação imediata do detido, de todo o expediente relativo ao caso e da b) Presidir à tomada de declarações para memória futura;
entidade captora. c) Decidir acerca da prisão preventiva;
d) Autorizar as escutas telefónicas;
2. Ouvido o Ministério Público e sido entregue, o defensor do detido e este, o juiz e) A prática de outros actos que a lei lhe atribuir.
decide o incidente no prazo de 48 horas.
ARTIGO 195.º
3. O incumprimento da ordem de soltura proferida pelo juiz ou a não remessa (actos da competência do ministério público)
imediata do requerimento a que se refere o artigo 190.º, n.º 2 implica a respons-
abilização penal de quem omitir ou obstar ao seu cumprimento. No inquérito que não efectue directamente, compete ao Ministério Público, para
além de assumir a direcção do inquérito, praticar ou autorizar os actos previstos,
respectivamente, nos artigos 48.º e 49.º.
297 298
ARTIGO 196.º ARTIGO 199.º
(Realização do inquérito) (inquérito contra pessoa certa)

1. Todos os demais actos processuais a realizar no decurso do inquérito podem 1. A partir do momento em que corra inquérito contra pessoa certa é obrigatório
sê-lo pela polícia judiciária ou equiparada. proceder ao seu interrogatório, se ainda não tiver prestado declarações nessa
2. A competência territorial para os efeitos do disposto no número anterior é qualidade.
determinada pelas respectivas leis orgânicas. 2. Exceptua-se do disposto no número anterior:
a) O suspeito que resida no estrangeiro;
ARTIGO 197.º b) O suspeito que resida na área pertencente ao tribunal de círculo ou de região
(inquérito contra magistrados) diverso daquele onde correr o inquérito;
c) O suspeito que não seja encontrado para ser notificado.
1. Se for objecto de notícia do crime um magistrado, é designado para a realiza- 3. A situação descrita no nº 1 obriga a que se profira, imediatamente, despacho
ção do inquérito magistrado de categoria igual ou superior à do suspeito. de indiciação do suspeito.
2. Se o suspeito for o Procurador-geral da República será nomeado um juiz do
Supremo Tribunal de Justiça, por sorteio, que não participará na fase de julga- ARTIGO 200.º
mento. (duração do inquérito)

ARTIGO 198.º 1. Havendo suspeitos presos preventivamente, é de noventa dias o prazo


(declaração para memória futura) máximo de duração do inquérito.

1. Em caso de doença grave ou de deslocação para o estrangeiro de quem deva 2. Em casos de grande complexidade a nível da investigação, o prazo poderá
depor como testemunha, assistente, perito, consultor técnico ou participar em ser prorrogado, uma só vez, por sessenta dias, por despacho do Ministério
acareação, se for previsível o seu impedimento para comparecer em julgamento, Público.
ser-lhe-ão, antecipadamente, tomadas declarações ou realizada a acareação.
3. Nos demais casos o prazo para a realização do inquérito é de seis meses.
2. As declarações antecipadas nos termos do número anterior serão tomadas pelo
juiz de círculo competente em razão da comarca, mediante requerimento do ARTIGO 201.º
Ministério Público, assistente ou suspeito e reduzidas a auto. (Redução a auto)

3. Poderão assistir às declarações os participantes processuais referidos no As diligências de prova produzida no decurso do inquérito são obrigatoriamente
número anterior que solicitarão ao juiz, a feitura de perguntas que entendam reduzidas a auto.
necessárias.

4. As declarações para memória futura serão livremente valoradas em julgamen-


to.
299 300
SECÇÃO II c) A indicação das normas substantivas aplicáveis:
do enceRRamento do inQuéRito d) A data e a assinatura.
3. Em caso de conexão de processos é deduzida uma única acusação provisória.
ARTIGO 202.º
(Relatório final) ARTIGO 205.º
(notificação)
1. A entidade policial encerra o inquérito elaborando um relatório final com o
resultado da investigação efectuada, após o que conclui o processo ao Ministério O despacho de arquivamento ou de acusação provisória é notificado ao suspeito,
Público. ao assistente e ao lesado ainda não constituído assistente mas com legitimidade
2. Se o Ministério Público achar necessário à descoberta da verdade a efectivação para se constituir, sob a cominação de que se não requererem a impugnação con-
traditória no prazo de oito dias o despacho se torna definitivo.
de diligências complementares ordena-se e fixa prazo para a realização das mes-
mas.
CAPÍTULO III
ARTIGO 203.º
da impuGnaçÃo contRaditÓRia
(arquivamento provisório)
ARTIGO 206.º
(conteúdo e praxe da impugnação contraditória)
1. Cumprido o disposto no artigo anterior ou encerrado o inquérito quando efec-
tuado pelo Ministério Público, este profere despacho de arquivamento pro-
1. A impugnação contraditória visa garantir, ao assistente e ao suspeito, a possi-
visório: bilidade de complementar ou se opor à decisão do Ministério Público, findo o
a) Se não tiverem sido recolhidos indícios suficientes da verificação de crime; inquérito, de arquivar ou acusar.
b) Se não for conhecido o agente do crime; 2. Só o assistente ou o suspeito podem requerer a impugnação contraditória.
c) Se for legalmente inadmissível o procedimento criminal.
2. O arquivamento pode ser total ou parcial. ARTIGO 207.º
(Requerimento)
ARTIGO 204.º
(acusação provisória) 1. No requerimento para a realização da impugnação contraditória deverão
indicar-se as razões, de facto e de direito, que fundamentam a oposição ao
1. Se durante o inquérito tiverem sido recolhidos indícios suficientes de se ter arquivamento ou a acusação e as omissões verificadas.
verificado crime e de quem foi o seu agente o Ministério Público deduz acusação 2. Se for caso disso, indicar-se-ão os meios de prova a produzir para completer
provisória contra ele. ou invalidar as conclusões do inquérito.
2. A acusação contém sob pena de nulidade: 3. Só poderão ser indicados meios de prova produzidos no inquérito se for argui-
a) A identificação, o mais completa possível, do suspeito; da a sua ineficácia, incompletude ou falsidade.
b) A narração dos factos e demais circunstâncias que constituam o crime ou 4. O requerente formulará conclusões no sentido da solução que propõe para ser
relevem para a determinação da sanção e da indemnização; adoptada.
301 302
5. O requerimento só poderá ser rejeitado por extemporâneo ou por falta total das ARTIGO 211.º
exigências consagradas nos números anteriores. (acusação ou abstenção do ministério público)
6. O requerimento é obrigatoriamente notificado aos demais interessados, logo
que apresentado, pelo que deverá fazer-se acompanhar dos duplicados 1. Terminado o prazo da impugnação contraditória ou realizadas as diligências
necessários. requeridas, o Ministério Público encerra-a, proferindo despacho de abstenção ou
de acusação definitiva, consoante as circunstâncias.
ARTIGO 208.º 2. O Ministério Público não está vinculado nem à solução nem ao conteúdo do
(iniciativa do ministério público) arquivamento e da acusação provisória.
3. É correspondentemente aplicável o que dispõe o artigo 204º, nº 2, podendo o
1. Embora o Ministério Público não possa efectuar a impugnação contraditória disposto nas alíneas a), b) e c) ser cumprido por remissões para a acusação pro-
por iniciativa própria, realizará todas as diligências de prova que repute essenci- visória.
ais para a descoberta da verdade, mesmo que não requeridas. 4. O processo prosseguirá com a notificação edital deste despacho ao suspeito ou
2. Compete ao Ministério Público presidir a todos os actos processuais a realizar ao assistente, se não for possível a notificação pessoal.
nesta parte da investigação podendo, no entanto, solicitar a coadjuvação das enti-
dades policiais. ARTIGO 212.º
(acusação do assistente)
ARTIGO 209.º
(formalidades das diligências) 1. Se o Ministério Público tiver despachado no sentido da obstenção, o assistente
poderá acusar definitivamente pelos factos que julgue suficientemente
1. Ao requerente que indicar qualquer pessoa para prestar declarações incumbe o indiciados, nos cinco dias imediatos à notificação referida no artigo anterior.
dever de apresentá-la no dia designado para o efeito. 2. Acusando o Ministério Público, o assistente pode acusar por factos idênticos
2. O suspeito só prestara declarações se nisso consentir e a sua falta nunca é moti- ou acompanhar a acusação do Ministério Público, no mesmo prazo anteriormente
vo de adiamento. referido.
3. O assistente e o suspeito podem, através dos seus representantes, solicitar que 3. Ao deduzir acusação o assistente pode formular o pedido de indemnização
sejam formuladas determinadas perguntas a quem prestar declarações. pelos danos sofridos em consequência do crime.
4. É correspondentemente aplicável o disposto no artigo 207º, nºs 1 e 3.
ARTIGO 210.º
(aplicação subsidiária) ARTIGO 213.º
(arquivamento definitivo)
É correspondentemente aplicável na impugnação contraditória o disposto nos
artigo 194.º, 197.º, 198.º e 201.º. 1. Decorrido o prazo referido nos artigos anteriores sem que tenha sido deduzi-
da acusação pelo Ministério Público ou pelo assistente, o Ministério Público
determina o arquivamento definitivo do processo.
2. Este despacho e inimpugnável.

303 304
3. O conhecimento de novos elementos de facto ou meios de prova susceptíveis 3. Os elementos referidos nas alíneas a), b) e c) do n.º 1 deste artigo podem ser
de conduzir à recolha de indícios suficientes só poderão ser apreciados em novo indicados por remissão para o despacho de acusação.
processo.
ARTIGO 216.º
TÍTULO II (contestação e rol de testemunhas)
do JulGamento
1. Nos sete dias após a notificação do despacho que designa dia para julgamen-
CAPÍTULO I to o suspeito apresentará, querendo, a contestação, o rol de testemunhas e quais-
da pRepaRaçÃo quer outras provas a produzir.
2. O requerimento é escrito e não está sujeito a formalidades, devendo ser apre-
ARTIGO 214.º sentado com tantos duplicados quantos os assistentes, mais um.
(apreciação da acusação) 3. Ao Ministério Público e a cada assistente será entregue um duplicado.

1. Recebidos os autos no tribunal, o juiz conhecerá da competência, da legitimi- ARTIGO 217.º


dade, das nulidades e de outras excepções ou questões prévias que possa, desde (pedido de indemnização)
logo, apreciar e que sejam susceptíveis de obstar à apreciação do mérito da causa.
2. Se considerar a acusação totalmente infundada profere despacho de rejeição, 1. Nos casos em que o assistente não tenha deduzido acusação poderá, querendo,
caso contrário recebe a acusação e designa dia para julgamento. requerer a indemnização a que se julgue com direito e indicar provas não men-
3. O despacho que receber a acusação é irrecorrível. cionadas no despacho de acusação do Ministério Público, no mesmo prazo em
que o suspeito poderia ter apresentado a contestação e o rol de testemunhas.
ARTIGO 215.º 2. E correspondentemente aplicável o que dispõe o artigo 215.º, n.ºs 2 e 3.
(designação de dia para julgamento) 3. Não é admissível a apresentação de qualquer articulado em resposta ao pedi-
do de indemnização. A oposição ao pedido será efectuada na audiência.
1. O despacho que designar dia para julgamento recebe a acusação e contém, sob
pena de nulidade: ARTIGO 218.º
a) Identificação completa do suspeito; (Vista)
b) Descrição dos factos por que é responsável e em que qualidade;
c) A indicação das disposições legais aplicáveis: De seguida o processo é concluso a cada um dos juízes-adjuntos para consulta e
d) Nomeação de defensor se ainda o não tiver constituído ou nomeado para todo aposição de visto.
o processo;
e) Requisição do CRC se ainda não o tiver sido ou estiver caducado; ARTIGO 219.º
f) Decisão ou reexame da situação processual do suspeito; (declarações para memória futura e no domicílio)
g) Solicitação do relatório social caso ainda não o tenha sido efectuado;
h) Ordem de remessa de boletim ao registo criminal. 1. A requerimento do Ministério Público, do assistente ou do suspeito, o tribunal
2. O despacho acompanhado de cópia da acusação é notificado ao Ministério tomará declarações no domicílio aos intervenientes referidos no artigo 198.º, n.º
Público, ao suspeito e defensor e ao assistente e mandatário. 1, sempre que por doença grave ou velhice se encontrem retidos na residência.
305 306
2. A requerimento do Ministério Público, do assistente ou do suspeito é corre- ARTIGO 222.º
spondentemente aplicável o que dispõe o artigo 198.º, n.º l. (princípio do contraditório)
3. Na tomada de declarações observar-se-ão as formalidades estabelecidas para a
audiência, excepto no que respeita à publicidade. O tribunal garantirá o exercício do contraditório, nomeadamente antes da decisão
4. As declarações são reduzidas a escrito. de questões incidentais e na produção de toda a prova apresentada ou examina-
da, em audiência, sob pena de nulidade.
ARTIGO 220.º
(cartas precatórias) ARTIGO 223.º
(publicidade da audiência)
1. Não é permitida a expedição de cartas precatórias para tomada de declarações
aos intervenientes processuais ouvidos durante a investigação. 1. A audiência e pública, sob pena de nulidade insanável.
2. Excepcionalmente, as pessoas não ouvidas em declarações na investigação, 2. É correspondentemente aplicável o que dispõem os artigos 78º e 79º.
que residem fora da área do tribunal de círculo ou de região e tenham graves difi-
culdades ou inconvenientes na deslocação ao tribunal podem ser inquiridas por ARTIGO 224.º
carta precatória a requerimento da acusação ou da defesa. (oralidade da audiência)

Salvo disposição da lei em contrário, os trabalhos e a produção de prova em


CAPÍTULO II audiência processam-se oralmente na presença do tribunal, sem prejuízo da lei
da audiÊncia admitir ou impor a sua documentação.

SECÇÃO I ARTIGO 225.º


disposiçÕes GeRais (documentação de actos da audiência)

ARTIGO 221.º 1. Será elaborada, pelo funcionário da justiça, uma acta da audiência que conterá:
(direcção e disciplina da audiência) a) A indicação do lugar, a data, a hora de abertura e encerramento e o número de
sessões da audiência;
1. A disciplina da audiência e a direcção dos trabalhos compelem ao juiz-presi- b) O nome dos juízes e do agente do Ministério Público;
dente, que adoptará as medidas que considere adequadas e necessárias para que c) A identificação do suspeito, do assistente e dos respectivos advogados;
a audiência decorra com normalidade, desde que não contrariem lei expressa. d) A identificação das testemunhas, dos peritos, dos consultores técnicos e dos
2. É correspondentemente aplicável o que dispõe o n.º 1 do artigo 63.º e o n.º 2 intérpretes;
do artigo 77.º. e) A transcrição dos requerimentos e protestos formulados oralmente na audiên-
3. As decisões relativas à disciplina e direcção da audiência podem ser proferi- cia a posição dos restantes intervenientes quanto a esses actos e o despacho que
das oralmente e sem formalidades especiais. sobre eles incidir;
f) Os termos da conciliação ou desistência, se existir;
g) Quaisquer outras decisões e indicações que a lei determine;
307 308
h) A assinatura do juiz-presidente e do funcionário da justiça que a elaborar. 2. A falta de intervenientes processuais antes de iniciada a audiência só provoca
2. As declarações prestadas perante tribunal singular serão reduzidas a escrito o seu adiamento quando e nos termos que a lei determinar.
sempre que, antes do início da produção de prova, o Ministério Público, o defen-
sor ou o advogado do assistente o requeiram. ARTIGO 228.º
3. O juiz-presidente pode determinar que a transcrição dos autos referidos na (princípio da investigação)
alínea c) do nº 1 deste artigo seja efectuada no final da produção de prova quan-
Por despacho, o tribunal ordenará, oficiosamente ou a requerimento, a produção
do a transcrição imediata puser em causa o bom andamento dos trabalhos.
de todos os meios de prova cujo conhecimento se afigure essencial à descober-
ARTIGO 226.º tada verdade e a boa decisão da causa, respeitando-se o contraditório.
(continuidade da audiência)
ARTIGO 229.º
1. A audiência é contínua, salvo os casos de suspensão ou interrupção previstos (presença do suspeito)
na lei.
1. É obrigatória a presença do suspeito em audiência, salvo quando a lei dispuser
2. O juiz-presidente determinará a suspensão da audiência pelo período de tempo
diferentemente.
necessário à satisfação das necessidades de alimentação e repouso dos partici-
2. Compete ao juiz-presidente tomar as medidas necessárias e adequadas a
pantes. A audiência será suspensa para continuar no dia útil imediato quando não
impedir que o suspeito se afaste da audiência antes desta estar encerrada.
puder ser concluída no dia em que se tiver iniciado.
3. O afastamento do suspeito da sala de audiência só pode ocorrer depois de
3. O juiz-presidente ordenara a interrupção da audiência se depois de iniciada:
interrogado sobre a identificação e antecedentes criminais e por violação repeti-
a) Faltar ou ficar impossibilitada de participar pessoa que não possa ser de ime-
da dos deveres de conduta em audiência.
diato substituída e cuja presença seja indispensável, por força da lei ou de despa-
4. O suspeito também poderá ser afastado da sala de audiências pelo tempo estri-
cho do tribunal;
tamente necessário quando a sua presença possa contribuir para inibir ou intimi-
b) For absolutamente necessário proceder à produção de qualquer meio de prova
dar alguém que deva prestar declarações.
superveniente e indisponível no momento em que a audiência decorre;
5. O suspeito, não obstante o afastamento, deverá assistir à leitura da sentença.
c) Surgir qualquer questão prejudicial ou incidental, cuja resolução seja essencial
para a boa decisão da causa e que torne altamente inconveniente a continuação SECÇÃO II
da audiência antes de decidida aquela questão. actos pReliminaRes
4. A audiência interrompida ou suspensa retoma-se a partir do último acto
processual praticado. Se não for possível retomar a audiência no prazo de 30 dias ARTIGO 230.º
a prova produzida perde eficácia. (Realização da chamada)
ARTIGO 227.º
(adiamento da data designada para audiência) 1. À hora designada para o início do julgamento o funcionário de justiça, publi-
camente e em voz alta, identifica o processo e chama quem nele deva intervir.
1. A impossibilidade de constituição do tribunal e o não cumprimento das 2. Se faltar alguém repete a chamada decorridos quinze minutos.
diligências referidas no artigo 220º, são fundamento para adiamento da data desi- 3. Cumprido o que antecede informa o juiz-presidente de quem está presente e
gnada para a audiência. quem falta.
309 310
ARTIGO 231.º ARTIGO 234º
(início ou adiamento da audiência) (dispensa da presença do suspeito)

1. Se estiverem presentes todas as pessoas que devam intervir ou se, faltando Sempre que o suspeito se encontrar praticamente impossibilitado de comparecer
alguém, não for permitido o adiamento, o tribunal declara a audiência aberta e dá à audiência por idade avançada, doença grave ou residência no estrangeiro, pode
início ao julgamento. requerer ou consentir que a audiência tenha lugar na sua ausência sendo repre-
2. Em caso contrário, o tribunal designa nova data para o julgamento. sentado, para todos os eleitos possíveis, pelo defensor.
3. O adiamento e seus fundamentos, bem como a posição do Ministério Público,
do suspeito e do assistente constarão da acta de adiamento. ARTIGO 235º
(Revelia própria)
ARTIGO 232.º
(falta do suspeito) 1. Nas situações descritas no artigo 233.º, n.º l, em que o suspeito não tenha
prestado termo de identidade e residência, será notificado por éditos de quinze
1. Se o suspeito faltar a audiência, encontrando-se devidamente notificado, esta dias do conteúdo da acusação que pende contra si e para se apresentar no tribu-
será adiada antes de iniciada a produção de prova. nal a fim de ser notificado pessoalmente daquela e da data que designa dia para
2. A não justificação da falta no prazo de cinco dias implica o pagamento da julgamento e prestar o referido termo de identidade.
multa em que tiver sido condenado e a emissão de mandado de detenção para 2. Decorrido o prazo referido sem que o suspeito se apresente ou seja preso ou
assegurar a sua comparência na nova data destinada. detido, designar-se-á data para julgamento à revelia, procedendo-se à sua notifi-
3. Se o suspeito justificar a falta será notificado da nova data de julgamento com cação edital.
a cominação de que, faltando, o julgamento se realizará sem a sua presença sendo 3. Éditos serão afixados na última residência conhecida do suspeito e publicados
representado, para todos os efeitos possíveis, pelo defensor. num dos jornais de maior divulgação no território nacional.
4. O condenado só poderá opor-se à decisão proferida quando se apresentar em
ARTIGO 233.º juízo para dela ser notificado e só poderá fazê-lo por via de recurso.
(impossibilidade de notificação ou de detenção) 5. O tribunal de recurso ordena a repetição do julgamento se entender que, no
caso concreto, a falta do suspeito na audiência de julgamento diminuiu forte-
1. Nos casos em que o suspeito tenha prestado termo de identidade e residência mente as garantias de defesa.
e se não consiga efectuar a sua detenção para assegurar a comparência em
audiência nem notificá-lo pessoalmente do despacho que designar dia para jul- ARTIGO 236º
gamento, proceder-se-á a notificação com afixação de um edital na morada indi- (falta do ministério público, do defensor ou do advogado
cada no termo de identidade. do assistente)
2. A notificação edital assim efectuada deverá sê-lo com pelo menos vinte dias
de antecedência relativamente à nova data de julgamento e com a cominação de 1. A falta do Ministério Público, do defensor ou do advogado do assistente nunca
que o julgamento se realizará como se o suspeito estivesse presente, sendo re- justifica o adiamento da audiência.
presentado, para todos os eleitos possíveis, pelo defensor. 2. O Ministério Público será substituído pelo o respectivo substituto legal e o
3. O uso da notificação edital não obsta a que, simultaneamente, se emitam defensor por pessoa idónea, de preferência advogado ou licenciado em direito,
mandatos de detenção ou de captura. sob pena de nulidade insanável.
311 312
3. Ser-lhes-á facultado o tempo necessário para se prepararem para o julgamen- ARTIGO 239.º
to, nomeadamente pela consulta do processo e contacto com o suspeito. (afastamento de quem deva prestar declarações)
4. O advogado do assistente será admitido a intervir se comparecer no decurso
da audiência. Caso contrário, o Ministério Público, assegurará a sua represen- 1. Durante a produção de prova, todas as pessoas que devam prestar declarações
tação mesmo que não tenha deduzido acusação. permanecem afastadas da sala de audiências e sem acesso a informações do que
aliocorrer.
ARTIGO 237.º 2 Compete ao funcionário de justiça velar pelo cumprimento do disposto no
(falta do assistente, de testemunhas de peritos e de consultores técnicos) número anterior antes e depois de se iniciar a produção da prova.

1. A falta do assistente, de testemunhas, de peritos e de consultores técnicos só ARTIGO 240.º


podem justificar um adiamento e apenas se o tribunal entender que a sua pres- (informação)
ence é essencial à descoberta da verdade e que é previsível assegurar a com-
parência do faltoso na nova data que vier a ser designada para a audiência. A produção de prova é precedida da leitura e da explicação ao suspeito e aos pre-
sentes na audiência do conteúdo da acusação pelo juiz-presidente.
2. Se for previsível que as pessoas mencionadas compareçam ainda no decurso
da audiência ou esta comportará mais do que uma sessão, o tribunal iniciará o jul- ARTIGO 241.º
gamento e admiti-lo-á a depor logo que compareça, caso contrário, aplicar-se-á (ordem de produção de prova)
o disposto no número anterior.
1. A produção de prova respeitara a seguinte ordem:
3. A falta de testemunha ou de outras pessoas a apresentar nunca fundamentarão a) Declaração do suspeito;
o adiamento da audiência. b) Meios de provas indicados pelo Ministério Público e pelo assistente;
c) Meios de prova indicados pelo suspeito e pelo responsável civil;
d) Outros meios de prova que o tribunal julgue necessários.
SECÇÃO III 2. Por fim examinar-se-ão as provas produzidas antecipadamente e por meio de
da pRoduçÃo da pRoVa documentos juntos ao processo desde que algum interessado o requeira.
3. Se o tribunal entender conveniente para a descoberta da verdade poderá alte-
ARTIGO 238.º rar a ordem de produção de prova anteriormente referida, excepto no que con-
(tentativa de conciliação) cerne as declarações do suspeito que será o primeiro a prestá-las e que poderá
faze-lo, novamente, em qualquer altura da audiência.
1. Antes de iniciada a produção de prova, nos crimes cujo procedimento crimi-
nal depende de queixa, o juiz-presidente procurará obter a conciliação entre o ARTIGO 242.º
suspeito e o lesado. (Validade das provas)

2. Se a conciliação for obtida far-se-á constar os respectivos termos da acta e o 1. A formação da convicção do tribunal só poderá fundamentar-se em provas que
juiz-presidente, ouvido o Ministério Público, homologará o acordo obtido. tenham sido produzidas ou examinadas na audiência.
313 314
2. Exceptua-se do disposto no número anterior as seguintes provas que poderão 5. Os juízes-adjuntos, o Ministério Público, o advogado do assistente e o defen-
ser utilizadas mesmo que não tenham sido examinadas em audiência por falta de sor por esta ordem, formularão as perguntas que entenderem necessárias ao
quem o requeresse: esclarecimento da verdade, através do juiz-presidente.
a) Os autos relativos à produção de prova para memória futura a que tenha pre- 6. O suspeito pode, espontaneamente ou a recomendação do defensor, recusar a
sidido um juiz; resposta a algumas ou a todas as perguntas, sem que tal o possa desfavorecer.
b) Os autos de investigação na parte em que não contenham declarações do sus-
peito do assistente ou de testemunhas; ARTIGO 245.º
c) Quaisquer documentos juntos no decurso da investigação. (Vários suspeitos)

ARTIGO 243º 1. Respondendo vários suspeitos, o juiz-presidente determinará se devem ser


(leitura permitida de declarações) ouvidos na presença uns dos outros ou em separado.
2. Em casa de audição separada, o juiz-presidente, ouvidos todos os suspeitos,
1. Os autos de declarações feitas na investigação só poderão ser utilizados na informa-os do que se tiver passado na sua ausência, sob pena de nulidade.
audiência, oficiosamente ou a requerimento, na parte em que houver contradição
ou discrepância sensível entre elas e as produzidas na audiência pela mesma pes- ARTIGO 246.º
soa e que não possam ser esclarecidas doutro modo. (declarações do assistente)

2. O uso da faculdade consagrada no número anterior constará obrigatoriamente Podem formular perguntas ao assistente o juiz-presidente e os juízes-adjuntos ou,
da acta de audiência sob a forma de despacho que o autorize. através daquele, o Ministério Público, o defensor e o advogado do assistente, por
esta ordem.
ARTIGO 244º
(declarações do suspeito) ARTIGO 247.º
(declarações das testemunhas)
1.O interrogatório do suspeito começa pelas perguntas relativas à identificação e
aos antecedentes criminais, precedidas da advertência a que se referem os artigos 1. As testemunhas são inquiridas, uma após outra, pela ordem porque foram indi-
62º, alínea a) e 63.º, n.º 3. cadas, salvo se o juiz-presidente, fundadamente, decidir em contrário.
2. É correspondentemente aplicável ao interrogatório do suspeito em audiência o
2. A testemunha é perguntada por quem a indicou, sendo depois contra-interro-
que dispõe o artigo 63º.
gada. Se no contra-interrogatório forem suscitadas questões não abordadas no
3. Se o suspeito desejar prestar declarações quanto ao mérito da causa o juiz-
interrogatório inicial, a testemunha poderá ser reinquirida.
presidente perguntar-lhe-á se confessa ou nega os factos da acusação.
3. Os juízes podem, a qualquer momento, formular as perguntas que entenderem
Convencendo-se o tribunal que a confissão é, total ou parcial, livre e verdadeira,
pertinentes à descoberta da verdade.
o interrogatório limitar-se-á, bem como a restante produção de prova, aos factos
e circunstâncias não suficientemente esclarecidos. 4. As testemunhas indicadas por um suspeito só podem ser inquiridas pelos
4. Se o suspeito negar os factos da acusação o tribunal ouvi-lo-á em tudo o que defensores dos demais suspeitos se o requererem ao juiz-presidente e este o
for pertinente à causa. entender necessário a boa decisão da causa.
315 316
ARTIGO 248.º ARTIGO 250.º
(declarações dos peritos e dos consultores técnicos) (alegações orais)

As perguntas aos peritos e aos consultores técnicos são tomadas pelo juiz-presi- 1. Finda a produção de prova, é concedida a palavra, sucessivamente ao
dente e pelos outros juízes ou, através daquele, pelo Ministério Público, pelo Ministério Público, ao advogado do assistente e do responsável civil e ao defen-
advogado do assistente e do responsável civil ou pelo defensor. sor para que oralmente formulem as suas conclusões de facto e de direito.
2. É admissível, pela mesma ordem, a resposta para refutação dos argumentos
ARTIGO 249.º que não tenham sido anteriormente discutidos. A resposta só pode ser exercida
(alterações dos factos da acusação) uma vez e cada um dos respondentes usará da palavra por período de tempo não
superior a quinze minutos.
Se, no decurso da produção de prova, surgirem factos que não constem da
acusação e com manifesto interesse para a decisão da causa, o tribunal, oficiosa- ARTIGO 251.º
mente ou a requerimento: (últimas declarações do arguido)

a) Comunica-os ao defensor do suspeito e concede-lhe prazo para a preparação Antes de declarar encerrada a audiência o juiz-presidente perguntará ao suspeito
da defesa, prosseguindo o julgamento, sempre que os novos factos constituam se tem mais alguma coisa a alegar em sua defesa, ouvindo-o em tudo que decla-
circunstâncias agravantes de carácter geral, estiverem numa relação de concurso rer a bem dela.
normativo ou de crime continuado com os da acusação e não promovem
agravação do limite máximo da sanção aplicável; CAPÍTULO III
b) Comunica-os ao Ministério Público presente na audiência que, efectuando ou da decisÃo
não investigação sumária, se os considerar suficientemente indiciados, proferirá
despacho reconformador da acusação, sempre que tais factos constituírem cir- ARTIGO 252.º
cunstâncias agravantes modificativas, estiverem numa relação de concurso nor- (processo de deliberação)
mative ou, de crime continuado com os da acusação mas importarem um aumen-
to dos limites da sanção aplicável ou nos casos de concurso efectivo ideal. Se 1. Ao encerramento da discussão, segue-se a deliberação por todos os juízes que
nenhum interessado suscitar o incidente de suspeição o julgamento prosseguirá constituírem o tribunal.
com o mesmo tribunal depois de se observar o que dispõe alínea anterior, quan- 2. A deliberação é tomada por maioria simples de votos.
to à defesa do suspeito; 3. O tribunal começará por decidir separadamente:
a) As questões prévias ou incidentais de que ainda não tenha conhecido;
c) Se, após a comunicação, o Ministério Público, concluir pela inexistência de b) O julgamento da matéria de facto;
indícios suficientes dos novos factos, requererá a continuação do julgamento c) A subsunção do factualismo provado às normas incriminadoras;
ficando precludido o conhecimento daqueles factos; d) A escolha e medida concreta da sanção.
4. Mesmo que tenha ficado vencido em alguma questão precedente cada mem-
d) Nos demais casos, a comunicação do tribunal ao Ministério Público vale para bro do tribunal é obrigado a deliberar e votar nas seguintes, pressupondo-se a
que proceda autonomamente pelos novos factos. opinião que fez vencimento.
317 318
5. Os juízes, sob pena de responsabilidade disciplinar e criminal, não podem re- 3. A sentença termina pelo dispositivo, que contém:
velar nada do que se tiver passado durante a deliberação e estiver relacionado a) A decisão final condenatória ou absolutória;
com a causa, nomeadamente é-lhes vedado divulgar, sentido das votações. b) Ordem de remessa de boletim ao registo criminal;
c) Condenação em imposto de justiça e demais custas devidas;
ARTIGO 253.º d) A menção de voto de vencido, se o houver;
(elaboração e leitura da sentença) e) A data e as assinaturas dos membros do tribunal.
4. A sentença é obrigatoriamente fundamentada de facto e de direito.
1. Concluído o processo de deliberação, o juiz-presidente elabora a sentença de
acordo com as posições que tiverem feito vencimento, mesmo que tenha ficado ARTIGO 256.º
vencido. (situação processual do suspeito)
2. A sentença é assinada pelo juiz-presidente e pelos juízes-adjuntos, que poderão
emitir declarações de voto relativamente às questões deferidas no artigo 188.º, n.º 1. A sentença absolutória declara a extinção de qualquer medida de coacção e
3, alíneas c) e d). ordem a imediata libertação do suspeito preso preventivamente.
3. A sentença será lida e explicada pelo juiz-presidente, publicamente, em
audiência. 2. Se o crime tiver sido praticado por inimputável, a sentença é absolutória, mas
4. A leitura equivale à notificação às pessoas que deverem considerar-se pre- se nela for aplicada medida de segurança, valerá como sentença condenatória.
sentes na audiência.
ARTIGO 257.º
ARTIGO 254.º (decisão sobre o pedido de indemnização)
(alocução ao suspeito)
1. A sentença, ainda que absolutória, condenará o suspeito em indemnização
Lida a sentença o juiz-presidente dirigir-se-á ao suspeito explicando-lhe o senti- sempre que o pedido vier a revelar-se fundamentado e na medida em que o for.
do da decisão e exortando-o a corrigir-se, se tiver sido condenado. 2. Se o responsável civil tiver intervido no processo penal, a condenação em in-
demnização será proferida contra ele ou contra ele e o suspeito solidariamente,
ARTIGO 255.º sempre que a sua responsabilidade seja reconhecida.
(Requisitos da sentença)
ARTIGO 258.º
1. A sentença começa por um relatório, que contém: (aclaração da sentença)
a) A identificação completa do suspeito, do assistente e responsável civil, se hou-
ver; Enquanto não for interposto recurso, o tribunal, a requerimento, poderá esclare-
b) A indicação do crime ou crimes imputados ao suspeito; cer alguma obscuridade ou ambiguidade que a sentença contenha.
c) O resumo da contestação do suspeito e do requerimento de indemnização se
tiverem sido apresentados;
d) A indicação da alteração de factos se tiver ocorrido.
2. Ao relatório segue-se a descrição dos factos provados.
319 320
ARTIGO 259.º TÍTULO III
(a correcção da sentença) dos RecuRsos
1. O tribunal, a requerimento ou oficiosamente, corrigirá qualquer erro ou lapso CAPÍTULO I
e preenche qualquer lacuna que não importe modificação essencial do conteúdo dos RecuRsos oRdináRios
da sentença.
2. Se já tiver subido o recurso da sentença, a correcção é feita pelo tribunal supe- SECÇÃO I
rior, se ainda for possível. dos pRincÍpios GeRais
ARTIGO 260.º ARTIGO 261.º
(inexistência e nulidade da sentença) (princípios da máxima admissibilidade dos recursos)

1. A sentença é inexistente quando: Sempre que não for expressamente proibido por lei, é permitido recorrer dos
a) Não contiver as menções referidas no artigo 255.º, n.ºs 2 e 3, alíneas a) e e); despachos judiciais, das sentenças e dos acórdãos, na totalidade ou em parte.
b) Condenar por factos diversos dos constantes da acusação ou do despacho
reconformado; ARTIGO 262.º
c) Não for possível identificar o suspeito ou existir erro relativamente à pessoa (decisões que não admitem recursos)
indicada como suspeito ou réu;
d) For proferida por tribunal sem competência criminal; Não é admissível recurso:
e) Não for reduzida a escrito. a) Dos despachos de mero expediente;
b) Das decisões da polícia ou de quaisquer outros actos judiciais, se nelas se não
2. A sentença é nula quando: excederem os limites prescritos na lei;
a) Faltar a fundamentação de facto ou de direito; c) Das decisões que ordenem actos dependentes da livre resolução do tribunal;
b) Não contiver algumas das menções referidas no artigo 255.º, n.ºs 1, 2 e 3, d) Dos acórdãos dos tribunais de círculo ou Regionais proferido na sequência de
alíneas b), c) e d). recurso interposto de decisões dos tribunais de Sector;
e) Nos demais casos previsto na lei.

ARTIGO 263.º
(Quem pode recorrer)

Só pode recorrer quem tiver interesse em agir, nomeadamente:


a) O Ministério Público, de qualquer decisão, ainda que o faça no exclusive inter-
esse do suspeito;
b) O suspeito, o assistente e o responsável civil nas decisões contra si proferidas
e na parte em que o forem;
321 322
c) Quem tiver sido condenado ao pagamento de quaisquer importância ou tiver a) A matéria penal, relativamente àquela que se referir a matéria civil;
que defender um direito afectado pela decisão. b) Em caso de concurso de crimes, a cada um dos crimes;
c) Em caso de unidade criminosa, a questão de culpabilidade relativamente
ARTIGO 264.º àquela que se referir a questão de determinação de sanção;
(extensão do recurso) d) Dentro da questão da determinação da sanção, a cada uma das penas ou medi-
das de segurança.
Salvo se o recurso se fundamentar em motivos estritamente pessoais: 3. A limitação de recurso a uma parte da decisão não prejudica o dever de retirar
a) Quando interposto por um dos suspeitos, em caso de comparticipação, da procedência daquele as consequências legalmente impostas relativamente a
aproveita aos restantes e ao responsável civil; toda a decisão recorrida.
b) Interposto pelo responsável civil, aproveita ao suspeito mesmo para efeitos
penais. ARTIGO 267.º
(proibição de reformatio in pejus)
ARTIGO 265.º
(Reclamação contra o despacho que não admitir 1. Quando apenas o suspeito interpuser recursos ordenatório da decisão final, o
ou que retiver o recurso) tribunal superior não pode aplicar sanção diversa da constante da decisão recor-
rida que deva considerar-se mais grave em espécie ou medida.
1. Do despacho que não admitir ou que retiver o recurso, o recorrente pode recla- 2. A proibição referida no número anterior não se verifica quando:
mar para o presidente do tribunal a que o recurso se dirige. a) O tribunal superior qualificar diversamente os factos, quer quanto às normas
2. A reclamação é apresentada na secretaria do tribunal recorrido no prazo de dez incriminadoras, quer em relação a circunstâncias modificativas;
dias contados da notificação do despacho que não tiver admitido o recurso ou da b) A agravação da pena de multa for consequência da alteração da situação
data em que o recorrente tiver tido conhecimento da retenção. económica do suspeito ter melhorado significativamente;
3. No requerimento o reclamante expõe as razões que justificam a admissão ou a c) For de aplicar medidas de segurança de internamento nos termos da lei penal
subida imediata de recurso e indica os elementos com que pretende instruir a substantiva.
reclamação. 3. O disposto nos números anteriores aplica-se ainda que o recurso tenha sido
4. A decisão do presidente do tribunal superior é definitiva quando confirmer o interposto só pelo Ministério Público ou pelo Ministério Público e suspeito no
despacho de indeferimento. No caso contrário não vincula o tribunal de recurso. interesse exclusivo da defesa.

ARTIGO 266.º ARTIGO 268.º


(limitação do recurso) (Renúncia e desistência do recurso)

1. É admissível a limitação do recurso a uma parte da decisão quando a parte 1. O direito de interpor recurso de determinada decisão é livremente renunciável.
recorrida puder ser separada da parte não recorrida, de forma a tornar possível 2. É admissível a desistência do recurso, antes de proferida decisão relativa à
uma apreciação e uma decisão autónomas. matéria recorrida, mediante requerimento ou termo no processo.
2. Para efeito do disposto no número anterior, é nomeadamente autónoma a parte
da decisão que se referir:
323 324
ARTIGO 269.º SECÇÃO II
(modo de sabida dos recursos) do RecuRso penal
1. Sobem nos próprios autos os recursos interpostos de decisões que ponham ARTIGO 273.º
termo à causa e os que com eles devam subir. (Âmbito dos poderes de cognição)
2. Os recursos não referidos no número anterior, que devam subir imediatamente,
sobem em separado. 1. A interposição de recurso pode fundamentar-se na discordância com a decisão
tomada ou na omissão de decisão relativa a questão de que se devesse tomar co-
ARTIGO 270.º
nhecimento.
(Recursos que sobem imediatamente)
2. Mesmo que o recurso seja restrito à matéria de direito o tribunal, oficiosa-
mente ou a requerimento, conhecerá dos vícios que manifestamente se traduzem
1. Têm subida imediata os seguintes recursos:
em:
a) Da decisão que ponha termo à causa e das que forem proferidas depois desta;
a) Contradição insanável da fundamentação ou da matéria de facto assente como
b) Da decisão que aplicar ou mantiver a prisão preventiva;
provada;
c) Da decisão do juiz que condenar no pagamento de qualquer importância, nos
b) Erro notório na apreciação da prova;
termos deste código;
c) Omissão de alguma diligência que pudesse ler sido efectuada na audiência de
d) Do despacho em que o juiz se não reconheça impedido;
julgamento e se deva considerar essencial à descoberta da verdade.
e) Do despacho de rejeição da acusação.
3. O recorrente pode limitar o recurso a uma parte da decisão desde que essa
2. Também sobem imediatamente todos os recursos cuja retenção os tornaria
parte possa ser apreciada e decidida autonomamente, sem prejuízo de deverem
absolutamente inúteis.
extrair-se as consequências legalmente impostas relativamente a toda decisão
ARTIGO 271.º recorrida se o recurso for julgado procedente.
(Recursos de subida diferida) 4. Se o recorrente limitar o âmbito do recurso a uma parte que o tribunal supe-
rior entenda não susceptível de conhecimento e decisão autónoma, decidirse-á a
Todos os recursos que não subirem imediatamente, sobem e são instruídos e jul- recusa de conhecimento do recurso.
gados com o recurso da decisão final. 5. Nos cinco dias imediatos à notificação da recusa de conhecimento parcial do
recurso o recorrente pode, por requerimento, renovar a instância de recurso
ARTIGO 272.º ampliando o seu objecto.
(Recursos com efeitos suspensivos)
ARTIGO 274.º
1. O recurso interposto de decisões finais condenatórias tem efeitos suspensivos. (prazo de interposição)
2. Suspendem os efeitos da decisão recorrida:
a) Os interpostos de decisões que condenarem ao pagamento de quaisquer 1. O prazo de interposição do recurso é de sete dias a contar da notificação da
importâncias, nos termos deste código, se o recorrente efectuar o depósito do seu decisão ou a partir da data em que deva considerar-se notificada.
valor nos sete dias imediatos à interposição; 2. O recurso é interposto por requerimento ou por simples declaração na acta se
b) Os interpostos no despacho judicial que julgar quebrada a caução. relativo à decisão proferida em audiência.
325 326
ARTIGO 275.º ARTIGO 278.º
(motivação do recurso) (Vista ao ministério público)

1. O requerimento de interposição do recurso é sempre motivado. Se o recurso Recebido o processo no tribunal superior vai com vista ao Ministério Público,
foi interposto por declaração na acta, a motivação será apresentada nos sete dias por cinco dias.
imediatos à interposição. ARTIGO 279.º
(conclusão ao relator)
2. A motivação enuncia especificadamente os fundamentos do recurso e termina
pelas conclusões, formuladas por artigos, em que o recorrente para além de 1. Colhido o visto do Ministério Público ou ultrapassado o prazo referido no arti-
indicar as razões do pedido referirá as normas jurídicas violadas e o sentido da go anterior sem ter sido aposto o referido visto, o processo é concluso ao relator
decisão que pretende. que apreciará todas as questões prévias ou incidentais que possam obstar ao co-
nhecimento do mérito da causa.
ARTIGO 276.º 2. O relator rejeitará o recurso sempre que faltar a motivação ou for manifesta a
(notificação e resposta) sua improcedência.
3. Compete ao relator a elaboração do projecto de acórdão sempre que o proces-
1. O requerimento de interposição ou a motivação serão notificados aos restantes so deva prosseguir.
sujeitos processuais afectados pelo recurso, devendo, por isso, vir acompanhado
do número de cópias necessárias. ARTIGO 280.º
(Vistos aos adjuntos)
2. Os sujeitos processuais afectados pela interposição podem responder no prazo
de sete dias, a contar da data da notificação referida no número anterior. Cumprido o que antecede, o processo é remetido, por cinco dias, a cada um dos
juízes-adjuntos, acompanhado do projecto de acórdão.
3. A resposta será notificada aos sujeitos processuais por ela afectados, obser-
ARTIGO 281.º
vando-se o disposto no nº 1 quanto às cópias.
(deliberação)
ARTIGO 277.º 1. A deliberação será colegial, intervindo o juiz-presidente da secção criminal ou
(expedição do recurso) do tribunal de círculo, que será o relator, e dois juízes-adjuntos.
2. A decisão será tomada por maioria simples de votos, sendo admissível o voto
1. Se o recurso for interposto de sentença ou acórdão final o processo é remeti- de vencido.
do ao tribunal superior logo que cumprido o que dispõe o artigo anterior ou expi-
rado o prazo aí referido. ARTIGO 282.º
(acórdão)
2. Nos demais recursos o processo será concluso ao juiz-presidente para que, no
prazo de três dias, sustente ou repare a decisão recorrida, após o que, se for o 1. O acórdão será sempre elaborado pelo relator, mesmo que tenha ficado vencido.
caso, o processo será remetido ao tribunal superior. 2. É admissível a declaração de voto de vencido que integrará o acórdão.
327 328
SECÇÃO III ARTIGO 287.º
do RecuRso peRante os tRibunais (poderes de cognição)
de cÍRculo ou ReGiÃo
Salvo o disposto no artigo 272º, nº 2, o Supremo Tribunal de Justiça apenas co-
ARTIGO 283.º nhecerá de direito.
(Regra geral)
CAPÍTULO II
Cabe recurso para os tribunais de círculo ou de Região, respectivamente, todas dos RecuRsos eXtRaoRdináRios
as decisões proferidas, em matéria penal, pelos tribunais de Sector e de Região.
ARTIGO 288.º
(Recursos extraordinários)
ARTIGO 284.º
(poderes de cognição)
Os recursos extraordinários podem ser de revisão ou para fixação de jurisprudência.
1. Os tribunais de círculo ou de região, funcionando como instância de recurso,
ARTIGO 289.º
conhecem de facto e de direito.
(fundamentos e admissibilidade da revisão)
2. No julgamento de recurso dever-se-á atender às disposições normativas que
regulam a actividade dos tribunais de círculo e de Região.
1. A revisão da sentença transitada em julgado é admissível quando:
a) Uma outra sentença transitada em julgado tiver considerado falsos meios de
ARTIGO 285.º prova que tenham sido determinantes para a decisão;
(Repetição do julgamento) b) Uma outra sentença transitada em julgado tiver dado como provado crime
cometido por juiz e relacionado com o exercício da sua função no processo;
Poderá ser ordenada a repetição do julgamento com algum dos fundamentos c) Os factos que serviram do fundamento à condenação forem inconciliáveis com
referidos no artigo 273º, nº 2. os dados como provados noutra sentença e da oposição resultarem graves dúvi-
das sobre a justiça da condenação;
SECÇÃO IV d) Se descobrirem novos factos ou meios de provas que, de per si ou combina-
do RecuRso peRante o supRemo tRibunal dos com os que foram apreciados no processo, suscitem graves dúvidas sobre a
de Justiça justice da condenação, excepto se tiverem por único fim corrigir a medida con-
creta da sanção.
ARTIGO 286.º
(Regra geral) 2. Para o efeito do disposto no número anterior, à sentença é equiparado despa-
cho que tiver posto fim ao processo.
Cabe recurso para a secção criminal do Supremo Tribunal de Justiça de todas as
decisões penais proferidas pelos tribunais de círculo, de região quando fun- 3. A revista é admissível ainda que o procedimento se encontre extinto ou a pena
cionarem como tribunais de 1ª instância. prescrita ou cumprida.
329 330
ARTIGO 290.º 3. A decisão de conceder ou negar a revisão é proferida nos dez dias imediatos a
(legitimidade) data em que for aposto o último visto e é inimpugnável.
4. Nos casos em que o Supremo Tribunal de Justiça autorizar a revisão, designará
1. A revisão pode ser requerida pelo Ministério Público, pelo assistente nas sen- o tribunal de categoria e composição idênticas ao que proferiu a decisão a rever.
tenças absolutórias e pelo réu nas condenatórias.
2. Quando o condenado tiver falecido a revisão pode ser requerida pelo cônjuge, ARTIGO 293.º
descendentes, ascendentes, parentes ou afins até ao quarto grau da linha colateral. (novo julgamento)

ARTIGO 291.º 1. O tribunal designado para proceder à revisão, logo que recebido o processo,
(apresentação e tramitação do requerimento de revisão) designará dia para julgamento, seguindo-se os demais trâmites do processo
comum.
1. A revisão de sentença proferida, pelos tribunais sectoriais será requerida no tri- 2. A decisão proferida neste novo julgamento é insusceptível de nova revisão.
bunal regional competente em razão do território.
2. Nos demais casos o requerimento deverá ser apresentado no tribunal em que ARTIGO 294.º
tiver sido proferida a sentença a rever. (indemnização)
3. O requerimento de revisão é autuado por apenso aos autos onde foi proferida
a sentença a rever. Na situação referida no nº 1 requisitar-se-á ao tribunal secto- 1. No caso de a decisão revista ter sido condenatória e o tribunal de revisão
rial o respectivo processo. absolver o réu este tem direito a ser indemnizado pelos danos sofridos e a que lhe
4. Compete ao tribunal referido anteriormente instruir o processo de revisão sejam restituídas as quantias pagas a título de multa, imposto de justiça e custas.
procedendo às diligências que repute necessárias e ordenando a junção dos do- 2. É competente para decidir relativamente à indemnização o tribunal de revisão
cumentos com interesse para a decisão. que poderá, na falta de elementos, remeter para a liquidação em execução de sen-
5. A produção de prova por declarações é sempre documentada. tença.
6. Finda a realização das diligências necessárias ou decorridos trinta dias após a 3. É responsável pelo pagamento das quantias apuradas o Estado.
apresentação do requerimento de revisão será ordenada a remessa do processo
ao pleno do Supremo Tribunal de Justiça, acompanhada da informação do juiz ARTIGO 295.º
instrutor quanto ao mérito da causa. (Recurso para fixação de jurisprudência)

ARTIGO 292.º 1. Quando, no domínio da mesma legislação, o Supremo Tribunal de Justiça pro-
(tramitação e decisão pelo pleno do supremo tribunal de Justiça) ferir dois acórdãos que, relativamente à mesma questão de direito, assentem em
soluções opostas, o Ministério Público, o arguido ou o assistente podem recorrer
1. Recebido no Supremo Tribunal de Justiça, o processo vai com vista ao para o pleno do Supremo Tribunal de Justiça do acórdão proferido em último
Ministério Público, por cinco dias, e, depois, é concluso ao relator. lugar.
2. No prazo de dez dias o relator elabora projecto de acórdão que acompanhará
o processo nos vistos aos demais juízes do Supremo Tribunal de Justiça, se 2. Os acórdãos consideram-se proferidos no domínio da mesma legislação quan-
entender desnecessário proceder a qualquer diligência antes de decidir. do, durante o intervalo da sua prolação, não tiver ocorrido modificações legisla-
331 332
tivas que interfira, directa ou indirectamente, na resolução da questão de direito ARTIGO 299.º
controvertida. (decisões inexistentes)
3. Como fundamento de recurso só é invocável acórdão anterior transitado.
São juridicamente inexistentes e, por consequência, inexequíveis:
ARTIGO 296.º a) As decisões penais proferidas por tribunal sem jurisdição penal;
(interposição e efeito) b) As decisões que apliquem uma pena ou medida inexistente na lei guineense,
nomeadamente, a pena de morte;
1. O recurso para a fixação de jurisprudência é interposto no prazo de trinta dias c) As decisões que não determinem concretamente a pena ou a medida aplicada;
a contar do trânsito em julgado do acórdão proferido em último lugar. d) As decisões não reduzidas a escrito.
2. No requerimento de interposição do recurso o recorrente identifica o acórdão
com o qual existe oposição do acórdão recorrido e, se este estiver publicado, o ARTIGO 300.º
lugar da publicação e justifica a oposição que origina o conflito de jurisprudên- (competência para a execução)
cia.
3. O recurso para a fixação de jurisprudência não tem efeito suspensivo. 1. É competente para a execução o tribunal de 1ª instância em que o processo
tiver corrido termos.
ARTIGO 297.º
(subsidiário)
2. Nos casos em que o Supremo Tribunal de Justiça tiver intervido como tribu-
nal de 1ª instância é competente para a execução o tribunal de círculo ou de
Ao recurso para a fixação de jurisprudência aplicam-se subsidiariamente as nor-
região do domicílio do réu.
mas relativas aos recursos ordinários.
3. A execução corre nos próprios autos e inicia-se com a promoção do Ministério
TÍTULO IV Público.
da eXecuçÃo
ARTIGO 301.º
CAPÍTULO I (suspensão do processo de execução)
das disposiçÕes GeRais
1. Quando for instaurado processo contra magistrado, funcionário de justiça,
ARTIGO 298.º
testemunha ou perito por factos que possam ter originado a condenação do sus-
(força executiva das decisões penais)
peito ou determinado o requerimento de acusação definitiva, será ordenada a sus-
1. As decisões penais condenatórias têm força executiva em todo o território pensão do processo de execução até ser decidido aquele processo.
nacional, logo que transitem em julgado.
2. As decisões penais absolutórias são exequíveis logo que proferidas. 2. A suspensão é requerida ao Supremo Tribunal de Justiça, funcionando em
3. A força executiva das decisões penais proferidas pelos tribunais da Guiné- plenário, a quem competirá determinar a medida de coacção aplicável ao conde-
Bissau é extensiva a território estrangeiro conforme os tratados, as convenções e nado durante a suspensão.
as normas de direito internacional.
333 334
CAPÍTULO II 2. Quando a prisão não for cumprida continuamente, ao dia encontrado segundo
da eXecuçÃo da pena de pRisÃo os critérios do número anterior acresce o tempo correspondente às interrupções.

ARTIGO 302.º ARTIGO 305.º


(início e termo da prisão) (liberdade condicional)

1. Os réus condenados em pena de prisão efectiva iniciam o cumprimento da 1. Quando a pena de prisão a cumprir for superior a seis meses, o tribunal,
pena apôs entrarem no estabelecimento prisional e terminam-no com a libertação cumprida metade da pena, a requerimento ou oficiosamente, solicita parecer ao
durante a manhã do último dia da pena. Ministério Público, aos serviços técnicos prisionais e aos serviços de reinserção
2 A entrada e a saída do estabelecimento prisional, para início e fim de cumpri- social sobre a concessão da liberdade condicional.
2. Os pareceres deverão ser efectuados no prazo de trinta dias.
mento de pena, efectua-se mediante mandado do juiz do processo.
3. Juntos os pareceres referidos no número anterior o juiz, por despacho, decide
sobre a liberdade condicional.
ARTIGO 303.º
4. A concessão da liberdade condicional pode ser sujeita ao cumprimento dos
(suspensão da execução por fuga)
mesmos deveres que condicionam a suspensão da execução da pena de prisão.
A fuga do condenado ou a não apresentação após alguma saída, determina a sus-
ARTIGO 306.º
pensão da execução da pena de prisão que se reiniciará com a captura ou a apre-
(Requisitos da liberdade condicional)
sentação. Para efeitos de contagem do tempo de prisão somar-se-ão os períodos
de tempo interpolados. 1. A concessão da liberdade condicional depende do bom comportamento pri-
sional e da capacidade e vontade séria de readaptação social do condenado.
ARTIGO 304.º 2. É obrigatória a concessão da liberdade condicional, independentemente dos
(contagem do tempo de prisão) requisitos referidos no número anterior, apôs cumprimento de nove dez avos da
pena, se antes o não tiver sido.
1. Na contagem do tempo de prisão, os anos, os meses e os dias são computados
segundo os critérios seguintes: ARTIGO 307.º
a) A prisão fixada em anos termina no dia correspondente, dentro do último ano, (Revogação da liberdade condicional)
ao do início da contagem e, se não existir dia correspondente, no último dia do
mês; 1. A liberdade condicional é revogada se o réu praticar um crime doloso punível
b) A prisão fixada em meses é contada considerando-se cada mês um período que com prisão no decurso do período de liberdade condicional e vier a ser condena-
termina no dia correspondente do mês seguinte, ou não o havendo, no ultimo dia do, por esse crime, em pena de prisão.
do mês; 2. Se durante o período de liberdade condicional o réu for punido por outro crime
c) A prisão fixada em dias é contada considerando-se cada dia um período de ou infringir os deveres que o condicionam, o juiz poderá conforme os casos:
vinte e quatro horas, sem prejuízo do que no artigo seguinte se dispõe quanto ao a) Advertir solenemente;
momento da libertação. b) Prorrogar o período da liberdade condicional por mais um ano;
335 336
c) Revogar a liberdade condicional. 4. Compete ao recebedor do trabalho social velar pela eficácia da sua prestação
3. A revogação da liberdade implica a execução, total ou parcial, da prisão ainda e pela observância das normas relativas à segurança e higiene, nomeadamente no
não cumprida, sem prejuízo de vir a ser concedida nova liberdade condicional que concerne ao seguro do trabalhador.
decorrido um ano.
5. O trabalho social é gratuito e a mais valia produzida reverte para o Estado.
ARTIGO 308.º
(saídas durante o cumprimento da pena) ARTIGO 311.º
(execução patrimonial)
O condenado pode ser autorizado a saídas do estabelecimento prisional, de curta
e media duração, a regular em diploma especial. 1. Findo o prazo de pagamento da multa, de alguma das suas prestações ou
deixando o condenado de cumprir o trabalho substitutivo da multa, proceder-se-
CAPÍTULO III á à execução patrimonial.
da eXecuçÃo da pena de multa
2. A execução patrimonial segue os termos da execução por custas e incide sobre
ARTIGO 309.º
quaisquer bens suficientes e desembaraçados de que o condenado seja propri-
(pagamento voluntário)
etário, podendo este, no mesmo prazo em que poderia ter pago voluntariamente,
indicar bens para serem penhorados.
1. A multa pode ser paga, no prazo de dez dias, após o trânsito em julgado da
decisão que a aplicou e pela quantia aí fixada.
ARTIGO 312.º
2. No mesmo período de tempo pode ser requerido o pagamento da multa em
(prisão alternativa)
prestações.
3. No caso de o pagamento da multa em prestação ter sido autorizado não se apli-
1. Não sendo a multa paga ou substituída no termos dos artigos anteriores sera
ca o disposto no nº 1.
cumprida a pena de prisão aplicada em alternativa.
ARTIGO 310.º
(substituição da multa por trabalho) 2. O tribunal, ponderadas as circunstâncias do não pagamento, poderá reduzir ou
isentar o réu do cumprimento da pena de prisão alternativa.
1. Durante o período de tempo em que a multa pode ser paga voluntariamente o
réu poderá requerer ao tribunal a substituição por dias de trabalho social. 3. No momento em que o réu for preso para cumprimento da prisão alternative
2. O requerimento deve conter as condições em que o condenado se propõe poderá obstar à sua execução pagando a totalidade da multa ao funcionário
prestar o trabalho e, se possível, indicar algum organismo estatal que se propo- encarregue de executar os mandados de captura. Este emite recibo comprovativo
nha recebê-lo. de ter recebido a referida quantia e certifica a razão do não cumprimento dos
3. O tribunal, efectuadas as diligências, que repute necessárias, decidirá acerca mandados.
da substituição e da correspondência entre a multa e os dias de trabalho a prestar,
atendendo à espécie deste.
337 338
CAPÍTULO IV 2. Se as penas suspensas a cumular tiverem diferentes períodos de suspensão ou,
da eXecuçÃo da pena suspensa sendo iguais, se encontrarem em distintas fases de cumprimento, o tribunal esta-
belecerá um período de suspensão único de acordo com as necessidades de pre-
ARTIGO 313º venção e as circunstâncias do caso.
(modificação dos deveres e prorrogação do período de suspensão)
ARTIGO 317º
O despacho relativo à modificação dos deveres que condicionam a suspensão da (extinção da pena suspensa)
execução da prisão ou a prorrogação do período de suspensão é antecedido da
audição do réu e do Ministério Público e da recolha da prova relativa às circuns- 1. Findo o período de suspensão sem haver motivo susceptível de determiner a
tâncias determinativas do incumprimento. revogação ou a prorrogação daquela, a pena será declarada extinta.
2. Se estiver pendente processo por crime que possa determinar a revogação da
suspensão ou incidente processual de que possa resultar a revogação ou a pror-
ARTIGO 314º
rogação, aguardar-se-á que seja proferida a respectiva decisão antes de se
(Revogação da suspensão)
declarar a pena extinta.
Salvo se a revogação da suspensão for consequência da prática de crime doloso
CAPÍTULO V
durante o período de suspensão, o tribunal nos demais casos de revogação pro-
da eXecuçÃo da pRestaçÃo
cederá conforme dispõe o artigo anterior.
de tRabalHo social
ARTIGO 315º ARTIGO 318º
(perdão de pena suspensa) (execução)

O perdão parcial da pena de prisão suspensa será aplicado se e quando a suspen- 1. O organismo público onde o réu tiver de prestar o trabalho social informara o
são da execução for revogada. tribunal, trimestralmente ou sempre que circunstâncias o justifiquem, do modo
como decorre o cumprimento da pena.
ARTIGO 316º 2. A recusa em cumprir o trabalho social ou o seu cumprimento defeituoso sera
(inclusão da pena suspensa em cúmulo jurídico) comunicado ao tribunal que, antes de decidir, procederá de acordo com o que dis-
põe o artigo 311º.
1. A pena de prisão suspensa só poderá cumular-se juridicamente com outras 3. Findo o período de prestação de trabalho e junto ao processo relatório do
penas de prisão quando: organismo onde foi prestado, o tribunal declara extinta a pena.
a) Se tratar igualmente de penas de prisão suspensas na sua execução e a cumu-
lação referida não obstar à continuação do regime de suspensão da pena única;
b) Se, tratando-se de cumulação com penas de prisão efectiva, existirem circun-
stâncias que determinem a revogação da suspensão daquela pena, independente-
mente da cumulação de penas.
339 340
CAPÍTULO VI PARTE III
da eXecuçÃo das medidas de seGuRança do pRocesso sumáRio
ARTIGO 319.º ARTIGO 322.º
(decisão sobre a execução da medida de segurança) (Requisitos do processo sumário)

1. A decisão que aplicar alguma medida de segurança estabelecerá a forma de 1. Serão julgados em processo sumário os detidos em flagrante delito, por crime
execução. a que corresponda pena de prisão até três anos, com ou sem multa.
2. Durante a execução da medida de segurança o tribunal decidirá quais as 2. A audiência de julgamento iniciar-se-á durante as quarenta e oito horas ime-
providências adequadas à fase de execução, ouvido o Ministério Público e o con- diatas à detenção.
denado ou o seu defensor.
ARTIGO 323.º
ARTIGO 320.º (envio a julgamento)
(medida de segurança de internamento)
1. A entidade policial que tiver efectuado a detenção ou a quem o detido for
1. Quando a medida de segurança consistir no internamento do condenado o esta- entregue remetê-lo-á ao Ministério Público ou, em caso de urgência, apresentá-
belecimento onde tal ocorrer organizará um processo individual donde constem: lo-á directamente no tribunal competente para o julgamento, dando simultanea-
a) Comunicações de e para o tribunal; mente conhecimento ao Ministério Público.
b) Relatórios de avaliação periódica da situação do internado; 2. A acusação será substituída pelo auto de notícia que o Ministério Público
c) Exames psicológicos relativos ao estado de perigosidade do condenado; poderá completar antes de aberta a audiência, após ouvir a entidade captora.
d) Demais elementos necessários à avaliação da situação do internado sob o
ponto de vista da sua recuperação. ARTIGO 324.º
2. Semestralmente será reexaminada a situação do internado devendo, para o (notificações)
efeito, ser remetido o correspondente relatório ao tribunal.
3. O reexame semestral é precedido da audição do Ministério Público e do con- 1. Se o julgamento não puder iniciar-se nas quarenta e oito horas imediatas à
denado ou do seu defensor. detenção ou, apresentado o suspeito no tribunal, o julgamento não puder efec-
tuar-se imediatamente, o detido é posto em liberdade mediante termo de identi-
ARTIGO 321.º dade e residência.
(interdição de actividade profissional) 2. No caso referido no número anterior o suspeito e demais intervenientes
processuais serão notificado da data em que se realizará a audiência de julga-
1. A execução das medidas que consistam na interdição do exercício de qualquer mento.
actividade profissional é solicitada pelo tribunal à entidade empregadora a que 3. Após a captura ou a entrega do detido, a entidade policial notifica as teste-
respeitar a actividade em causa. munhas da ocorrência e o ofendido para comparecerem na audiência e informa o
2. Para o efeito do disposto no número anterior o tribunal remetera cópia da suspeito de que pode apresentar até três testemunhas na audiência de julgamento.
decisão ao organismo encarregue de executar a medida. 4. Far-se-á menção de tudo o que antecede no auto de notícia de flagrante.
341 342
ARTIGO 325.º 3. Presume-se que a privação da liberdade é ilegal sempre que a entidade que a
(tramitação do processo sumário) tiver efectuado ou ordenado não elaborar auto, relatório ou despacho de onde
constem os pressupostos que a fundamentam.
1. No processo sumário a prova será sempre reduzida a escrito. 4. É de um ano, o prazo para requerer a indemnização por danos sofridos com a
2. Não é permitida a constituição de assistente no processo sumário mas o tribu- privação da liberdade, a contar do momento cm que esta ocorreu ou em que se
nal, sob pena de nulidade insanável, ouvirá o lesado sobre os prejuízos sofridos for solto.
em consequência do crime.
3. A contestação poderá ser apresentada, por escrito, no início da audiência de ARTIGO 328.º
julgamento. (Revisão e confirmação de sentença estrangeira)
4. O julgamento do processo sumário é efectuado por tribunal colectivo se for da
competência dos tribunais de sector e por tribunal singular se a competência per- A exequibilidade duma sentença penal estrangeira na República da Guiné-
tencer aos tribunais de círculo ou regionais. Bissau, a que a lei atribua eficácia, depende da prévia revisão e confirmação pelo
5. A sentença pode ser proferida verbalmente e ditada para a acta, imediatamente Supremo Tribunal de Justiça.
após terminar a audiência de julgamento. Nos casos em que a complexidade o
justifique será proferida por escrito nos cinco dias imediatos à realização da ARTIGO 329.º
audiência. (Relações com autoridades estrangeiras)
6. São correspondentemente aplicáveis as disposições relativas, à audiência de
julgamento em processo comum. As relações com as autoridades doutro país relativas à administração da justice
penal regulam-se pelos tratados e convenções internacionais.
ARTIGO 326.º
(Recurso)

Em processo sumário só e admissível recurso da sentença ou despacho que ponha


termo ao processo.

das disposiçÕes finais

ARTIGO 327.º
(indemnização por privação da liberdade)

1. Quem tiver sofrido detenção ou prisão preventiva ilegal poderá requerer in-
demnização pelos danos sofridos com a privação da liberdade.
2. Nos casos de privação de liberdade que, embora legal, se revele injustificada
por erro grosseiro na apreciação dos factos de que dependia, haverá lugar à in-
demnização pelos prejuízos anómalos e de particular gravidade que vierem a ser
sofridos.
343 344
lei 3/2002 ARTIGO 4.º
lei orgânica dos tribunais Judicias acesso a Justiça
Revista pela lei 6/2011 1. A todos é assegurado o acesso ao Tribunais Judiciais como um meio de defe-
sa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos, não podendo a justiça ser
CAPÍTULO I denegada por insuficiência de meios económicos.
dos pRincipios GeRais
2. Lei própria regula o acesso aos Tribunais Judiciais em caso de insuficiência de
ARTIGO 1.º meios económicos.
definição
ARTIGO 5.º
Os Tribunais judiciais são orgãos de soberanea com competência para adminis- coadjuvação
trar a justiça em nome do povo.
No exercício das suas funções os Tribunais Judiciais têm direito a ser coadjuva-
ARTIGO 2.º dos pelas demais autoridades.
função Jurisdicional
ARTIGO 6.º
Compete aos Tribunais Judiciais assegurar a defesa dos direitos e interesses decisões dos tribunais
legalmente protegidos, reprimir a violação da legalidade democratica e dirimir os
conflitos de interesses públicos e privados. 1. As decisões do Tribunal Judiciais são obrigatórias para todas as entidades
públicas e privadas e prevalecem sobre as de quaisquer outras autoridades.
ARTIGO 3.º
independência 2. A Lei do processo regula os termos da execução das decisões do Tribunal
Judiciais relativamente a qualquer autoridade e determina as sanssões a aplicar
1. Os Tribunais Judiciais são independentes, estando apenas sujeitos a Lei. aos responsáveis pela sua inexecução.

2. A independência dos Tribunais é garantida pela existência de um Órgão priv- ARTIGO 7.º
ativo dotado de competencia de gestão administrativa e financeira e de disciplina audiências
da Magistratura Judicial, pela inamovibilidade dos respectivos Juízes e pela sua
não sujeição a quaisquer ordens ou instruções internas ou externas, salvo o dever As audiências dos Tribunais Judiciais são públicas, salvo quando o próprio tri-
de acatamento das decisões proferidas em via de recurso por Tribunais bunal decidir o contrario em despacho fundamentado para salvaguardar a dig-
Superiores. nidade das pessoas e da moral pública ou para garantir o seu normal funciona-
mento.
3. Os Juízes não podem ser responsabilizados pelas suas decisões, salvo as
excepsões consignadas na Lei.

345 346
ARTIGO 8.º CAPITULO II
funcionamento dos tribunais da oRGaniZaçÃo e competÊncia
dos tRibunais Judiciais
1. As audiências e sessões dos Tribunais Judiciais decorrem, em regra, na respec-
tiva sede. SECÇÃO I
oRGaniZaçÃo JudiciáRia
2. Quando o interesse da justiça ou circunstâncias ponderosas o justifiquem, os
Tribunais Judiciais podem reunir em local diferente na respectiva área de juris- ARTIGO 11.º
dição ou fora desta, quando tal se mostre indispensável ao apurramento da ver- divisão judiciária
dade dos factos.
1. Para efeitos de organização judiciária, o território nacional divide se em
3. É susceptivel de preencher o condicionalismo referido na primeira parte do
regiões e sectores que devem coincidir, em regra, com a divisão político admin-
número anterior o facto de o número e a residência dos interviniêntes no proces-
istrativa.
so, conjugados com a dificuldades dos meios de comunicação ou com outros fac-
2. Ouvido o Conselho Superior de Magistratura Judicial, o Conselho Superior do
tores atendíveis tornar práticamente gravoza a prática dos actos e deligências na
Ministério Público e a Ordem dos Advogados, pode o Ministro de Justiça pro-
sede.
ceder, por despacho, ao desdobramento das áreas de jurisdição referidas no
número anterior.
ARTIGO 9.º
ano Judicial
ARTIGO 12.º
1. O ano Judicial corresponde ao ano cívil. categorias dos tribunais judiciais

2. O inicio de cada ano cívil é assinalado pela realização de uma sessão solene, 1. Há tribunais judiciais de 1.ª e de 2.ª instância e o Supremo Tribunal de Justiça.
onde usam da palavra, de pleno direito, o Ministro da Justiça, o Bastonário da 2.Os tribunais judiciais de 2.ª instância denominam-se tribunais da Relação e
Ordem dos Advogados, o Procurador Geral da República, o Presidente do designam-se pelo nome da localidade em que estiverem instalados.
Supremo Tribunal de Justiça e o Presidente da República. 3. Os tribunais de 1.ª Instâncias denominam-se tribunais Regionais e tribunais
de Sector e designam-se, em regra, pelo nome da localidade em que estiverem
ARTIGO 10.º instalados.
férias judiciais 4. Poderão existir tribunais de 1.ª instância com competência especializada ou
com competência genérica, para todo o território nacional ou para determinada
1. As férias judiciais são por 30 dias e decorrem durante os meses de Agosto e área territorial.
Setembro.
2. Os magistrados têm ainda direito às férias de Natal, que vão de 18 de
Dezembro a 2 de Janeiro, e uma semana no período da Páscoa.

347 348
ARTIGO 13.º ARTIGO 16.º
classificação dos tribunais judiciais competência material

1. Os tribunais judiciais de 1.ª instância são classificados de ingresso e de aces- As causas que não sejam atribuídas por lei a outra ordem jurisdicional são da
so, de acordo com a natureza, complexidade e volume de serviço. competência dos tribunais indicados no presente diploma.
2. A classificação dos tribunais em ingresso e acesso é feita por Decreto-lei do
Governo, ouvidos o Conselho Superior da Magistratura, a Procurador-Geral da ARTIGO 17.º
República e a Ordem dos Advogados. competência em razão da hierarquia

ARTIGO 14.º Os tribunais judiciais encontram se hierarquizados para efeitos de recurso das
organização e funcionamento suas decisões.

1. Os tribunais judiciais de 1.ª instância podem organizar se em varas ou juízos e ARTIGO18.º


subdividir se em secções quando o volume de serviço o justificar. competência em razão do valor
2. Os tribunais de 2.ª instância e o Supremo Tribunal de Justiça organizam se em
Câmaras. O Supremo Tribunal de Justiça conhece, em via de recurso, das causas cujo valor
3. A entrada em funcionamento dos tribunais judiciais deve ocorrer dentro dos 30 exceda a alçada do Tribunal da Relação e este das causas cujo valor exceda a
dias após a declaração de instalação, sendo determinada em sessão plenária do alçada dos tribunais judiciais Regionais.
Conselho Superior da Magistratura Judicial, ouvido o Conselho Superior de
Ministério Público. ARTIGO 19.º
4. As decisões do Conselho Superior da Magistratura Judicial referidas no competência territorial
número anterior são publicadas no Boletim Oficial.
1. O Supremo Tribunal de Justiça e o Tribunal da Relação, com sede em Bissau,
SECÇÃO II têm competência em todo o território nacional e os tribunais judiciais de 1.ª
competÊncias instância na área das respectivas jurisdições.
2. Os factores que determinam, em cada caso, o tribunal territorialmente com-
ARTIGO 15.º petente são os indicados na presente lei e nas leis de processo.
extensão e limites da jurisdição
ARTIGO 20.º
1. Na ordem interna, a jurisdição reparte se, pelos tribunais judiciais, segundo a proibição de desaforamento
matéria, a hierarquia e o território.
2. A lei do processo fixa os factores de que depende a competência internacional Nenhuma causa pode ser deslocada do tribunal competente para outro, a não ser
dos tribunais judiciais. nos casos especialmente previstos na lei.

349 350
ARTIGO 21.º 2. O Conselho Superior de Magistratura Judicial pode au- torizar a mudança de
alçada câmara ou a permuta entre juízes de câmaras diferentes.
3.Quando o relator mudar de câmara, mantém se a sua competência e a dos seus
1. A alçada é o limite até ao qual o tribunal julga sem recurso. adjuntos que tenham tido visto para julgamento.
2. Em matéria cível, a alçada dos Tribunais da Relação é de 5.000.000 de fran-
cos da Comunidade Financeira Africana. ARTIGO 24.º
3. A alçada dos Tribunais Regionais em matéria cível é de 3.000.000 de francos funcionamento
de Comunidade Financeira Africana.
4. A alçada dos tribunais de sector é de 1.500.000 francos da Comunidade 1. O Supremo Tribunal de Justiça funciona sob a direcção de um Presidente, em
Financeira Africana. pleno e por câmaras.
5. Em matéria criminal não há alçada, sem prejuízo das disposições processuais 2. O pleno do Supremo Tribunal de Justiça é constituído por todos os juízes que
relativas à admissibilidade de recursos. compõem as câmaras e só pode funcionar com a presença de, pelo menos, qua-
6. Sempre que houver a necessidade de actualização dos montantes estabelecidos tro quintos dos juízes em exercício.
para a alçada dos tribunais, o Ministério da Justiça pode, por despacho, proce- 3. As câmaras funcionam sob a direcção de um Presidente, que será o juiz mais
der à fixação dos novos montantes, ouvidos os Conselhos Superiores de antigo em exercício na respectiva câmara.
Magistratura Judicial e do Ministério Público e a Ordem dos Advogados. 4. Os juízes tomam assento alternadamente à direita e à esquerda do Presidente
do Supremo Tribunal de Justiça, segundo a ordem de antiguidade.
CAPÍTULO III
do supRemo tRibunal de Justiça ARTIGO 25.º
sessões
ARTIGO 22.º
composição
As sessões têm lugar segundo a agenda, devendo a data e hora das audiências
1. O Supremo Tribunal de Justiça compreende câmaras em matéria cível, em constar da tabela afixada com antecedência, no átrio do tribunal.
matéria penal e em matéria social e do contencioso administrativo.
2. O quadro de juízes do Supremo Tribunal de Justiça é fixado em lei. ARTIGO 26.º
3. Sem prejuízo do disposto no número anterior o Conselho Superior da conferência
Magistratura Judicial fixa, de dois em dois anos, sob proposta do Presidente do
Supremo Tribunal de Justiça, o número de juízes que compõem cada câmara. Na conferência, participam os juízes que nela devam intervir.

ARTIGO 23.º ARTIGO 27.º


preenchimento das câmaras competência do pleno

1. Compete ao Presidente do Conselho Superior da Magis-tratura Judicial dis- Compete ao pleno do Supremo Tribunal de Justiça:
tribuir os juízes pelas câmaras, tomando em conta as conveniências do serviço, o a) Julgar o Presidente da República pelos crimes e contravenções cometidos no
grau de especialização de cada um e a preferência que manifestar. exercício das suas funções;
351 352
b) Julgar processos por crime e contravenções cometidos pelo Presidente da ARTIGO 29.º
Assembleia Nacional Popular, pelo Primeiro-Ministro, pelos juízes do Supremo competência das câmaras
Tribunal de Justiça e pelos Magistrados do Ministério Público que exerçam
funções junto deste tribunal ou equiparados; 1. Compete às câmaras do Supremo Tribunal de Justiça, segundo as suas com-
c) Apreciar preventivamente a constitucionalidade de qualquer norma constante petências:
de tratado ou acordo internacional submetido à ratificação das autoridades a) Julgar os recursos que não sejam da competência do pleno do Supremo
nacionais competentes, por solicitação destas. Tribunal de Justiça;
d) Apreciar e declarar a inconstitucionalidade e a ilegalidade de quaisquer nor- b) Julgar as acções propostas contra juízes do Supremo Tribunal de Justiça dos
mas ou resoluções de conteúdo material normativo ou individual e concreto; Tribunais de Relação e magistrados do Ministério Público que exerçam funções
e) Julgar os incidentes de inconstitucionalidade suscitados pelos demais tri- junto destes tribunais ou equiparados por causa das suas funções;
bunais; c) Julgar processos por crimes e contravenções cometidas por juízes dos
f) Uniformizar a jurisprudência nos termos da lei de processo; Tribunais de Relação e pelos magistrados do Ministério Público que exerçam
g) Conhecer dos conflitos de competência entre câmaras; funções junto destes tribunais ou equiparados;
h) Conhecer os pedidos de revisão de sentenças penais, decretar a anulação de d) Julgar, por intermédio do relator do processo, as confissões, desistências ou
penas inconciliáveis e suspender a execução das penas quando decretada a transacções nas causas pendentes bem como os incidentes nelas suscitados;
revisão; e) Conhecer os conflitos de competência entre os Tribunais de Relação e entre
i) Julgar os recursos de decisões pelas câmaras; estes e os tribunais de 1.ª instância;
j) Decidir sobre o pedido de atribuição de competências a outro tribunal da f) Conhecer dos pedidos de habeas corpus, em virtude de prisão ilegal;
mesma espécie e hierarquia, nos casos de obstrução ao exercício da jurisdição g) Exercer as demais atribuições conferidas por lei.
pelo tribunal competente; 2. A intervenção do juiz em cada câmara do julgamento faz-se, nos termos da lei
k) Exercer as demais atribuições conferidas por lei. de processo, segundo a ordem de precedência.
3. Quando numa câmara não seja possível obter o número de juízes exigido para
ARTIGO 28.º o exame do processo e decisão da causa, são chamados a intervir os juízes de
distribuição de competências outra câmara, começando pelo imediato ao juiz que tiver aposto o último visto,
sendo chamado de preferência os de Jurisdição Social e do Contencioso
A distribuição da competência pelas câmaras do Supremo Tribunal de Justiça faz Administrativo se a falta ocorrer na Câmara Cível ou na Câmara Criminal, e os
se de harmonia com as seguintes regras: da Câmara Cível, se ocorrer na Câmara Social e do Contencioso Administrativo.
a) A Câmara Cível julga as causas que não estejam atribuídas a outras câmaras;
b) A Câmara Penal julga as causas de natureza penal, nos termos da legislação ARTIGO 30.º
em vigor; poderes de cognição
c) A Câmara Social e do Contencioso Administrativo, julga as causas que, no
domínio laboral, da segurança social e do contencioso administrativo, lhe este- Fora dos casos previstos na lei, o Supremo Tribunal de Justiça apenas conhece
jam especialmente atribuídas pela legislação em vigor. de matéria de direito.

353 354
ARTIGO 31.º ARTIGO 34.º
eleição e mandato do presidente do supremo tribunal de Justiça Vice-presidente

O Presidente do Supremo Tribunal de Justiça é eleito de entre e pelos Juízes 1. O Presidente do Supremo Tribunal de Justiça é coadjuvado e substituído no
Conselheiros em exercício de funções que compõem o quadro do Supremo exercício das suas funções, por um Vice-presidente.
Tribunal de Justiça e por todos os juízes desembargadores, por um mandato de 2. O Vice-presidente do Supremo Tribunal de Justiça é eleito de entre os Juízes
quatro anos, renovável uma só vez por igual período. Conselheiros em exercício de funções que compõem o quadro do Supremo
Tribunal de Justiça e por todos os Juízes desembargadores, por um período de
ARTIGO 32.º quatro anos, renovável uma só vez e por igual período.
precedência 3. Nas suas faltas ou impedimentos, o Vice-presidente é substituído pelo juiz
mais antigo, na categoria, em exercício.
O Presidente do Supremo Tribunal de Justiça tem precedência sobre todos os
magistrados. ARTIGO 35.º
competência do presidente de câmara
ARTIGO 33.º
competência do presidente do supremo tribunal de Justiça
Compete ao Presidente da câmara presidir às sessões e exercer, com as devidas
adaptações, as atribuições referidas nas alíneas b), c) e d) do n.º 1 do artigo 33.º,
1. Compete ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça:
do presente diploma.
a) Presidir ao pleno do tribunal;
b) Homologar as tabelas das sessões ordinárias e convocar as sessões extra-
ARTIGO 36.º
ordinárias;
turnos
c) Apurar o voto de vencido no pleno;
d) Votar sempre que a lei o determine, assinando, neste caso, o acórdão;
e) Empossar os juízes do Tribunal de Relação e dos Tribunais Regionais; 1. No Supremo Tribunal de Justiça organizam se turnos para o serviço urgente
f) Dar posse ao secretário do tribunal; durante as férias judiciais ou quando o serviço o justificar.
g) Exercer acção disciplinar sobre os funcionários em serviço no tribunal relati- 2. A organização dos turnos compete ao Presidente e faz-se, ouvidos os juízes,
vamente à pena de gravidade não superior à de multa; com a antecedência mínima de 60 dias.
h) Exercer as demais atribuições cometidas por lei.
2. Das decisões proferidas no uso da competência prevista na alínea g), do
número anterior, cabe reclamação para o plenário do Conselho Superior da
Magistratura Judicial.

355 356
CAPÍTULO IV funções junto destes tribunais ou equiparados e ainda deputados e membros do
tRibunal da RelaçÃo Governo;
c) Praticar os actos jurisdicionais nas fases relativas à investigação nos processos
ARTIGO 37.º referidos nas alíneas anteriores, nos termos da legislação de processo penal;
tribunal da Relação d) Julgar, por intermédio do relator do processo, as confissões de existência ou
transacções das causas pendentes, bem como os incidentes nela suscitados;
Enquanto existir um só Tribunal da Relação, este exerce jurisdição sobre todo o e) Conhecer os conflitos de competência entre tribunais de 1.ª instância;
território nacional e tem sede em Bissau. f) Julgar os processos judiciais de extradição, no quadro de acordo mútuo entre
tribunais;
ARTIGO 38.º g) Julgar os processos de revisão e confirmação de sentença estrangeira;
h) Exercer as demais atribuições conferidas por lei.
funcionamento
ARTIGO 41.º
1. O Tribunal da Relação funciona sob a direcção de um Presidente, em pleno e presidente
por câmaras em matéria cível, em matéria penal e em matéria social e do con-
tencioso administrativo. 1. O Presidente do Tribunal da Relação é eleito dentre e pelos Juízes
2. O pleno é constituído por todos os juízes que compõem as câmaras e só pode Desembargadores em exercício de funções, por um período de quatro anos, re-
funcionar com a presença de, pelo menos, dois terços dos juízes em exercício. novável uma só vez por igual período.
2. Porém, o Presidente do Tribunal da Relação é designado transitoriamente pelo
ARTIGO 39.º Conselho Superior da Magistratura Judicial até o preenchimento do quadro do
competência do pleno pessoal do Tribunal da Relação.

Compete ao Tribunal da Relação funcionando em pleno: ARTIGO 42.º


a) Conhecer os conflitos de competências entre câmaras; competências do presidente
b) Uniformizar a jurisprudência em matéria de execução de penas de prisão e de
medidas privativas da liberdade nos termos da lei; 1. O Presidente do Tribunal da Relação tem competências idênticas às previstas
c) Exercer as demais atribuições conferidas por lei. nas alíneas a) a d) e g) a h) do artigo 33.º e no n.º 2 do artigo 36.º, e é coadjuva-
do por um Vice-presidente.
ARTIGO 40.º 2. É aplicável ao Presidente do Tribunal da Relação o disposto no n.º 2 do artigo
competência das câmaras 33.º.

ARTIGO 43.º
Compete às câmaras: Vice-presidente
a) Julgar recursos;
b) Julgar os processos por crimes e contravenções cometidos por juízes dos tri- 2. Em caso de igualdade de antiguidade na categoria substitui o aquele que
bunais de 1.ª instância e pelos magistrados do Ministério Público que exerçam ingressou primeiro na Magistratura Judicial.
357 358
ARTIGO 44.º ARTIGO 48.º
disposições subsidiárias organização segundo a estrutura

É aplicável aos Tribunais da Relação, com as necessárias adaptações, o disposto Os tribunais de 1.ª instância funcionam em colectivo ou em singular.
nos artigos 22.º, n.ºs 2 e 3, 24.º, n.ºs 2, 3 e 4, 25.º, 26.º, 28.º, 29.º, n.ºs 2 e 3, 35.º
e 36.º. SECÇÃO II
colectivo e singular
CAPÍTULO V
dos tRibunais Judiciais de 1.ª instÂncia ARTIGO 49.º
tribunal colectivo
SECÇÃO I
oRGaniZaçÃo 1. O tribunal colectivo é composto por três juízes e presidido pelo juiz do processo.
2. Nos tribunais regionais de competência genérica o colectivo é composto pelos
ARTIGO 45.º juízes desse tribunal ou por juízes doutro tribunal nos termos estipulados na lei.
critérios de organização 3. Nos tribunais de sector o tribunal colectivo é constituído de acordo com a lei
orgânica destes tribunais.
Os tribunais de 1.ª instância organizam se segundo a matéria, o território e a
estrutura. ARTIGO 50.º
tribunal singular
ARTIGO 46.º
organização segundo a matéria O Tribunal Singular é composto por um juiz.
1. Os tribunais de 1.ª instância são, consoante a matéria das causas que lhes são
ARTIGO 51.º
atribuídas, tribunais de competência genérica e tribunais de competência espe-
competência e regra
cializada.
2. Quando a lei não dispuser em contrário, os tribunais de 1ª instância são de
As causas não atribuídas a outro tribunal são da competência do tribunal de com-
competência genérica.
petência genérica.
ARTIGO 47.º
organização segundo o território ARTIGO 52.º
tribunais colectivos
1. Os tribunais de 1.ª instância exercem a sua competência, consoante o caso, em
todo o território nacional, em todo o território da região ou do Sector em parte do Compete aos tribunais de competência genérica, funcionando em colectivo, julgar:
território da região ou do Sector. a) Os processos que respeitem a crimes cuja pena máxima abstracta aplicável,
2. Os tribunais de 1.ª instância são designados, em regra, pelo nome da locali- por cada um ou em concurso de crimes, for superior a três anos de prisão;
dade em que estão instalados.
359 360
b) As acções de natureza cível, incluindo as de família, menores e de trabalho, de SECÇÃO III
valor superior à alçada dos tribunais judiciais Regionais, sem prejuízo dos casos tRibunais de competÊncia especialiZada
em que a lei do processo prescinda do colectivo;
c) Exercer as demais atribuições determinadas pela lei. ARTIGO 54.º
natureza
ARTIGO 53.º
tribunais singulares São tribunais de competência especializada:
a) O tribunal de comércio;
1. Compete aos tribunais de 1.ª instância, funcionando como tribunal singular: b) O tribunal de execução de penas;
a) Preparar e julgar processos relativos às causas de natureza cível, incluindo as c) O tribunal administrativo;
de família, de menores e de trabalho, não atribuídas a outro tribunal; d) O tribunal marítimo;
b) Preparar os processos relativos às causas que devam ser julgadas pelo tribu- e) A vara cível;
nal; f) A vara criminal;
c) Julgar os processos de natureza penal relativos a crimes a que não seja g) A vara de família e menores;
abstractamente aplicável pena superior a três anos de prisão; h) A vara laboral;
d) Executar ou proceder à execução dos mandatos, cartas, oficiosos ou telegra- i) O juízo de instrução criminal;
mas que lhe sejam dirigidos pelos tribunais ou autoridade competente; j) O juízo de execuções cíveis;
f) Executar as respectivas decisões conforme a lei determinar; k) O juízo de transgressões.
g) Exercer as funções jurisdicionais relativas às fases de investigação nos termos
do processo penal; ARTIGO 55.º
h) Exercer as funções jurisdicionais relativas à execução de penas e medidas de Vara cível
segurança;
i) Julgar os recursos interpostos de decisões proferidas pelo tribunal de sector ou Compete às Varas Cíveis:
por entidades administrativas nos termos que a lei estipular; a) A preparação, o julgamento e os termos subsequentes de todas e quaisquer
j) Executar as demais atribuições conferidas por lei. causas de natureza cível, incluindo as relativas à família, trabalho ou menores
2. Os juízes são substituídos nas suas faltas ou impedimentos por outros juízes. que não estejam especialmente atribuídas a outros tribunais;
3. Sem prejuízo do disposto no número anterior, o sistema de substituição dos b) Executar as respectivas decisões, salvo as competências legalmente atribuídas
juízes da 1.ª instância será determinado pelo Conselho Superior de Magistratura a outros tribunais.
e a respectiva Resolução publicada no Boletim Oficial.
ARTIGO 56.º
Vara criminal

Compete às Varas Criminais:


a) A preparação, o julgamento e os termos subsequentes das causas crime que
não estejam especialmente atribuídas a outros tribunais;
361 362
b) Executar as respectivas decisões, salvo as competências legalmente atribuídas h) Decidir acerca das causas que os pais devam prestar a favor dos filhos
a outros tribunais. menores;
i) Suprir a autorização dos pais para o casamento de menores;
ARTIGO 57.º j) Decidir acerca de impedimento matrimonial, quando algum dos nubentes for
Vara de família e menores menor;
k) Decretar inibição, total ou parcial, e estabelecer limitações ao exercício do
A vara de família e menores exerce a competência material relativamente à poder paternal, previstas no artigo 1915.º do Código Civil;
família e menores, conforme os artigos seguintes. l) Decidir, em caso de desacordo dos pais, sobre o nome e apelido do menor.
3. Compete ainda à vara social no em matéria relativa à família:
ARTIGO 58.º a) Determinar, havendo tutela ou administração de bens, a remuneração do tutor
família ou administrador, conhecer da escusa, exoneração ou remoção do tutor ou
administrador ou vogal do conselho de família, exigir e julgar as contas, auto-
1. No âmbito da família compete à vara social preparar e julgar: rizar a substituição da hipoteca legal e determinar o reforço e substituição da
a) Processos de jurisdição voluntária relativos a cônjuges; causa prestada e nomear curador especial que represente o menor extrajudicial-
b) Acções de divórcio; mente;
c) Inventários requeridos na sequência de divórcios, bem como os procedimen- b) Nomear curador especial que represente o menor em qualquer processo tute-
tos cautelares com aqueles relacionados; lar;
d) Acções de declaração de inexistência ou de anulação do casamento; c) Converter, revogar e reverter a adopção, exigir e julgar as contas do adoptante
e) Acções propostas com base nos artigos 1647.º e 1648.º, n.º 2 do Código Civil; e fixar o momento dos rendimentos destinados a alimentos do adoptado;
f) Acções de alimentos entre os cônjuges, bem como entre ex-cônjuges e as exe- d) Decidir acerca do reforço e substituição da causa prestada a favor dos filhos
cuções correspondentes. menores;
2. Relativamente a menores e a filhos maiores compete igualmente à vara social: e) Exigir julgar as contas que os pais devem prestar;
a) Instaurar a tutela e administração de bens; f) Conhecer de qualquer outro incidente nos processos referidos no número ante-
b) Nomear pessoas que hajam de celebrar negócios em nome do menor e, bem rior.
assim, nomear o curador geral que represente extrajudicialmente o menor sujeito
ao poder paternal; ARTIGO 59.º
c) Constituir o vínculo da adopção; menores
d) Regular o exercício do poder paternal e conhecer das questões a estes respei-
tantes; 1. Compete à vara social decretar medidas relativamente a menores que tenham
e) Fixar os alimentos devidos aos menores e preparar e julgar as execuções cor- contemplado 12 anos e antes de perfazerem 16 anos, se encontram em algumas
respondentes, nos termos da legislação em vigor; das seguintes situações:
f) Ordenar a entrega judicial de menores; a) Mostrem dificuldades sérias de adopção de uma vida social normal, pela sua
g) Autorizar o representante legal dos menores a praticar certos actos, confirmar situação, comportamento ou tendência que hajam revelado;
os que tenham sido praticados sem autorização e providenciar acerca da b) Se entreguem à mendicidade, vadiagem, prostituição, libertinagem, abuso de
aceitação de liberdade; bebidas alcoólicas ou uso ilícito de drogas;
363 364
c) Sejam agentes de algum facto qualificado pela lei penal como crime, contra- das vítimas de acidente de trabalho ou de doenças profissionais;
venção ou contra ordenação. e) Das acções destinadas a anular os actos e contratos celebrados por quaisquer
2. A vara social é igualmente competente para: entidades responsáveis com o fim de se eximirem ao cumprimento das obri-
a) Decretar medidas relativamente a menores que sejam vítimas de maustratos, gações resultantes de aplicação da legislação sindical ou de trabalho;
de abandono, de desamparo ou se encontrem em situações susceptíveis de pôr em f) Das questões emergentes de contratos equiparados por lei aos do trabalho;
perigo a sua saúde, segurança, educação ou moralidade; g) Das questões emergentes de contrato de aprendizagem e de tirocínio;
b) Decretar medidas relativamente a menores que tenham atingido 14 anos e se h) Das questões entre trabalhadores aos serviços da mesma entidade a respeito de
mostrem gravemente inadaptados à disciplina da família, do trabalho ou do esta- direitos e obrigações que resultam de actos praticados em comum na execução
belecimento de educação e assistência em que se encontrem internados; nas suas relações de trabalho ou que resultem do acto ilícito praticado por um
c) Decretar medidas relativamente a menores que se entreguem à mendicidade, deles na execução do serviço e por motivo deste, ressalvada a competência dos
vadiagem, prostituição, libertinagem, abuso de bebidas alcoólicas ou uso de dro- Tribunais Criminais quanto à responsabilidade civil conexa com a criminal;
gas quando tais actividades não constituem, nem estiverem relacio nados com i) Das questões entre organismos sindicais e sócios ou pessoas por ele represen-
infracções criminais; tadas, ou afectação por decisões suas quando respeitem a direitos, poderes ou
d) Apreciar e decidir pedidos de protecção de menores contra o exercício abusi- obrigações legais, regulamentares ou estatuárias de uns e de outros;
vo de autoridade na família ou insti-tuições a que estejam entregues. j) Das questões entre instituições de previdência ou de abonos de família e seus
3. Quando durante o cumprimento de qualquer das medidas previstas no número beneficiários quando respeitem a direitos, poderes, obrigações legais, regula-
anterior o menor de mais de 16 anos cometer igual infracção criminal, a vara mentares ou estatuárias de uma ou de outras, sem prejuízo da competência
social pode conhecer desta, para o efeito de rever a medida em execução, se a própria dos Tribunais Administrativos e Fiscais;
personalidade do menor e as circunstâncias pouco graves do tráfico assim o k) Dos processos destinados à liquidação e partilha dos bens de instituições de
escolherem. previdência ou de organismos sindicais, quando não hajam disposições legais em
4. Cessa a competência da vara social quando o processo nela der entrada e o contrário;
menor atingir os 18 anos, caso em que é arquivado. l) Das questões entre instituições ou entre organismos sindicais, a respeito da
existência, extensão ou qualidade de poderes ou deveres legais, regulamentados
ARTIGO 60.º ou estatuários de um deles que afecte o outro;
Vara laboral m) Das execuções fundadas nas suas decisões ou noutros títulos executivos,
ressalva a competência atribuída a outros tribunais;
1. No domínio laboral, compete à vara social conhecer em matéria cível: n) Das questões entre sujeitos de uma relação de trabalho ou entre um desses
a) Das questões relativas a anulação e interpretação dos instrumentos de regula- sujeitos, por acessoriedade, complementaridade ou dependência e pedidos que se
mentos do trabalho que não revistam natureza administrativa; cumulem com outro para o qual o tribunal seja directamente competente;
b) Das questões emergentes de relações de trabalho de subordinados e relações o) Das questões reconvencionais que com a acção tenham as relações de conexão
estabelecidas com vista à celebração de contratos de trabalho; referidas na alínea anterior, salvo no caso de compensação em que é dispensada
c) Das questões emergentes de acidentes de trabalho e doenças profissionais; a conexão;
d) Das questões de enfermagem ou hospitalares de fornecimento de medicamen- p) Das questões cíveis relativas à greve;
tos emergentes da prestação de serviço clínico, de aparelho de prótese, ortopedia q) Das questões entre comités sindicais e os respectivos sindicatos, a empresa ou
ou de quaisquer outro serviços ou prestações efectuados ou pagos em benefício trabalhadores desta;
365 366
r) Das demais questões que por lei lhe seja atribuída. a) Actos praticados no exercício da função política e responsabilidade pelos
2. Relativamente às contravenções de natureza laboral compete ainda a este tri- danos decorrentes desse exercício;
bunal conhecer e julgar: b) Normas legislativas e responsabilidade pelos danos decorrente do exercício da
a) As transgressões de normas legais ou convencionais reguladoras das relações função legislativa;
de trabalho; c) Actos em matéria administrativa dos Tribunais Judiciais;
b) As transgressões de normas legais ou regulamentos sobre encerramento de d) Actos relativos ao inquérito e instruções criminais, aos exercícios a acção
estabelecimentos comerciais ou industriais, ainda que sem pessoal ao seu penal, à execução das respectivas decisões;
serviço; e) Qualificação de bens como pertencentes aos domínios públicos e actos de
c) As transgressões de normas legais ou regulamentares sobre higiene, salubri- delimitação destes como bens de outra natureza;
dade e condições de segurança dos locais de trabalho; f) Questões de direito privado, ainda que qualquer dos interessados seja pessoa
d) As transgressões de preceitos legais relativos a acidentes de trabalho e doenças de direito público;
profissionais; g) Actos cuja apreciação a lei atribua a outros tribunais.
e) As infracções de natureza convencional relativas à greve; 5. O Conhecimento dos limites da jurisdição administrativa é de ordem pública
f) Às demais infracções de natureza contravencional cujo conhecimento lhe seja e a sua apreciação precede o conhecimento de qualquer outra questão.
atribuído por lei; 6. Quando o conhecimento do objecto do processo depender, no todo ou em
g) Os recursos das decisões das autoridades administrativas em processos de con- parte, de decisão de uma ou mais questões da competência e outro tribunal, pode
traordenação nos domínios laboral e de segurança social. o juiz sobrestar na decisão até eu o tribunal competente se pronuncie.
7. A lei do processo fixa os efeitos da inércia dos interessados quanto à instau-
ARTIGO 61.º ração ou andamento do processo respeitante à questão prejudicial.
tribunais administrativos 8. A competência dos Tribunais Administrativos fixa se no momento da proposi-
tura da causa, sendo irrelevantes as mo-dificações de facto que ocorram poste-
1. Compete aos Tribunais Administrativos: riormente.
a) A preparação, o julgamento e os termos subsequentes de todos os litígios emer- 9. São também irrelevantes as modificações de direito, excepto se o tribunal a
gentes das relações jurídicas administrativas; que a causa estava afecta for suprimido ou deixar de ser competente em razão a
b) Executar as respectivas decisões. matéria ou da hierarquia, ou se lhe for atribuída competência que não tinha para
2. lncumbe aos Tribunais Administrativos, na administração da justiça, assegurar o conhecimento da causa.
a defesa dos direitos e interesses legalmente protegidos, reprimir a violação da 10. Existindo, no mesmo processo, decisões divergentes sobre a questão de com-
legalidade democrática e de dirimir os conflitos de interesse públicos e privados petência, prevalece a do tribunal hierarquicamente superior.
no âmbito das relações jurídicas administrativas.
3. Nos feitos submetidos a julgamento, os Tribunais Administrativos não podem
aplicar normas que infrinjam o disposto na Constituição ou os princípios nela
consignados.
4. Estão excluídos da jurisdição administrativa os meios processuais que tenham
por objecto:

367 368
ARTIGO 62.º gressões e contravenções que não estejam especialmente atribuídos a outros tri-
tribunal de comércio bunais;
b) Executar as respectivas decisões, salvo as competências legalmente atribuídas
1. Compete ao tribunal de comércio: a outros tribunais.
a) A preparação, o julgamento e os termos subsequentes de todas e quaisquer
causas de natureza comercial ou relativas ao direito dos negócios e conexas a ARTIGO 66.º
este, tal como resulta do tratado da OHADA; Juízo de instrução criminal
b) Executar as respectivas decisões;
c) Outras atribuições legalmente cometidas. Compete ao juízo de instrução criminal:
2. As competências específicas do Presidente do Tribunal de Comércio constarão a) A prática dos actos e diligências que, pela legislação processual penal, com-
de Regulamento Interno a elaborar e aprovar por todos os juízes desse tribunal. pete ao juiz realizar nas fases relativas à investigação processual;
b) Executar as respectivas decisões sempre que a lei não atribuir a competência
ARTIGO 63.º a outro tribunal.
tribunais marítimos
ARTIGO 67.º
1. Compete aos Tribunais Marítimos:
Juízo de execuções cíveis
a) A preparação, o julgamento e os termos subsequentes de todos os litígios emer-
gentes das relações jurídicas marítimas e conexas;
Salvo as competências próprias do Tribunal de Comércio, compete aos juízos de
b) Decidir sobre as infracções à legislação e aos regulamentos de pesca e execu-
execução cíveis:
tar as respectivas decisões.
a) A execução para pagamento de quantia certa com base em qualquer título
2. Incumbe aos Tribunais Marítimos, na administração da justiça, assegurar a
executivo, e, no caso de execução de sentença, quando se frustrarem as diligên-
defesa dos direitos e interesses legalmente protegidos, reprimir a violação da
cias de descontos;
legalidade e dirimir os conflitos de interesses públicos e privados no âmbito das
b) A execução de entrega de coisa certa fundada em título diverso de sentença;
relações jurídicas marítimas.
c) A execução da prestação de facto fundada em título diverso de sentença, sem-
pre que a lei preveja essa hipótese;
ARTIGO 64.º
d) A execução para pagamento de quantia certa, por conversão da prestação de
tribunal de execução de penas
facto, após se gorar a prestação espontânea para que o réu tenha sido intimado na
A competência, a organização, o funcionamento e a forma de processo do acção declarativa;
Tribunal de execução de penas é fixada em lei própria. e) A execução para pagamento de quantia certa decorrente da conversão da
prestação de entrega de coisa certa fundada em sentença, quando a coisa não
ARTIGO 65.º tenha sido encontrada;
Juízo de transgressões f) Executar as respectivas decisões.

Compete aos juízos de transgressões:


a) A preparação, o julgamento e os termos subsequentes dos processos de trans-
369 370
ARTIGO 68.º 2. Os magistrados referidos no número anterior, podem fazer se substituir e ser
tribunais de sector coadjuvados por outros magistrados, nos termos da lei orgânica do Ministério
Público.
1. Os tribunais de sector que não forem extintos passam a ter a categoria de tri-
bunais de ingresso. CAPÍTULO VII
2. A organização e funcionamento dos tribunais de sector consta da respectiva dos mandatáRios Judiciais
lei orgânica que deverá ser revista nos trinta dias imediatos a entrada em vigor
deste diploma. ARTIGO 71.º
advogados

CAPÍTULO VI 1. Os advogados participam na administração da justiça, competindo lhes, com


do ministéRio público as excepções previstas na lei, exercer o patrocínio das partes.
2. No exercício da sua actividade, os advogados gozam de discricionariedade téc-
ARTIGO 69.º nica e encontram-se apenas vinculados a critérios de legalidade e às regras deon-
autonomia do ministério público tológicas próprias da profissão.

1. O Ministério Público é o órgão do Estado encarregue de, nos tribunais judi- ARTIGO 72.º
ciais, representar o Estado, exercer a acção penal, defender e fiscalizar a legali- imunidades dos advogados
dade democrática e promover os interesses que a lei determinar.
2. O Ministério Público goza de autonomia nos termos da lei. 1. A lei assegura aos advogados as imunidades necessárias ao exercício do
3. A autonomia de Ministério Público caracteriza se pela sua vinculação a mandato e regula o patrocínio forense como elemento essencial à administração
critérios de legalidade e objectividade e pela exclusiva sujeição dos magistrados da justiça.
e agentes do Ministério Público às directivas, ordens e instruções previstas na lei. 2. Para defesa dos direitos e garantias individuais, os advogados podem reque-
rer a intervenção dos órgãos jurisdicionais competentes.
ARTIGO 70.º 3. A imunidade necessária ao desempenho eficaz do mandato forense é assegu-
Representação do ministério público rada aos advogados pelo reconhecimento legal e garantia de efectivação, entre
outros, dos seguintes direitos:
1. O Ministério Público é representado: a) Protecção do segredo profissional;
a) No Supremo Tribunal de Justiça, pelo Procurador-Geral da República, ou, em b) Livre exercício do patrocínio em conformidade com o estatuto profissional;
sua substituição, por Procuradores gerais adjuntos. c) Livre comunicação com o cliente, mesmo quando este se encontrar privado da
b) No tribunal da Relação, por procuradores-gerais adjuntos ou procuradores da liberdade;
República; d) Acesso prioritário no atendimento em secretarias judiciais e outros serviços
c) Nos tribunais de 1.ª instância, por procuradores da República e por delegados públicos.
do procurador da República.
371 372
ARTIGO 73.º ARTIGO 76.º
solicitadores manutenção das instalações
1. Os encargos com a reparação, remodelação ou construção de edifícios desti-
Os solicitadores são auxiliares da administração da justiça, exercendo o manda-
nados à instalação de Tribunais Judiciais são suportados pela administração cen-
to judicial nos casos e com as limitações previstas na lei e no Estatuto da Ordem
tral, ressalvada a hipótese de acordo entre o Ministério da Justiça e os municípios
dos Advogados.
referidos no artigo anterior.
2. Sem prejuízo do disposto no número anterior, os municípios referidos no arti-
go 75.º devem proceder às obras urgentes de conservação nos edifícios em que
CAPÍTULO VIII
se encontrem instalados ou destinados à instalação dos Tribunais Judiciais.
das instalaçÕes e encaRGos
dos tRibunais
CAPÍTULO IX
ARTIGO 74.º
dos seRViços de apoio JudiciáRio
Responsabilidade pela instalação dos tribunais
ARTIGO 77.º
atribuições
1. Sem prejuízo do disposto nos artigos seguintes, cabe ao Ministério da Justiça
coordenar as acções necessárias e adequadas à instalação dos tribunais judiciais O expediente administrativo, a gestão financeira e a gestão processual no âmbito
e proceder à decla-ração de instalação dos mesmos. dos serviços judiciários são assegurados por secretarias cujas competências,
2. Anualmente o Conselho Superior da Magistratura e o Conselho Superior do composição, quadro de pessoal, horário e demais condições de funcionamento
Ministério Público podem apresentar ao Ministério da Justiça, propostas funda- constam desta lei e do respectivo diploma regulamentar.
mentadas para a instalação de novos tribunais ou serviços judiciários, respecti-
vamente. ARTIGO 78.º
composição
ARTIGO 75.º
instalações dos tribunais As secretarias compreendem:
a) Serviços judiciais, compostos por uma secção central e por uma ou mais
secções de processos;
1. A instalação do Supremo Tribunal de Justiça e do Tribunal da Relação consti-
b) Serviços do Ministério Público.
tui encargo directo do Estado.
2. Constituem encargo dos municípios a aquisição, urbani-zação e cedência de ARTIGO 79.º
terrenos destinados à construção de edifícios para a instalação dos Tribunais entrada nas secretarias
Judiciais.
3. Nos tribunais com jurisdição em mais de um município os encargos referidos 1. A entrada nas secretarias é vedada a pessoas estranhas aos serviços.
no número anterior são suportados por cada um, na proporção das respectivas 2. Normas de funcionamento interno estipularão, entre outras regras de conduta
receitas. administrativa, um horário semanal para atendimento ao público.
3. O disposto nos números anteriores não é aplicável aos mandatários judiciais.
373 374
ARTIGO 80.º 2. O destacamento caduca ao fim de um ano, podendo ser renovado por dois
fiéis depositários períodos de igual duração e depende da anuência do magistrado e de prévia
autorização do Conselho Superior de Magistratura Judicial.
1. Os funcionários que chefiam as secções centrais, secções de processos ou ou-
tros serviços judiciários são fiéis depositários do arquivo, valores, processos e ARTIGO 83.º
objectos que a elas digam respeito ou lhes sejam confiados nos termos das leis Juiz de instrução criminal
de processo. Enquanto o movimento processual não justificar a criação de um juízo de
2. Os funcionários referidos no número anterior devem conferir o inventário após instrução criminal, as competências do tribunal de instrução criminal na área ter-
aceitarem o respectivo cargo. ritorial dos tribunais regionais de competência genérica são exercidas pelo juiz
3. Nos casos de extinção ou transferência de tribunais e outros serviços judi- do tribunal regional mais próximo que o Conselho Superior da Magistratura
ciários, os funcionários do serviço ou do tribunal extinto ou transferido e os fun- Judicial vier a designar.
cionários daquele para onde forem transferidos ou afectos o arquivo, valores,
processos e objectos, assinam conjuntamente o documento de arrolamento, ARTIGO 84.º
respectivamente recebendo e entregando aqueles. presidente de tribunal judicial de 1.ª instância
Nos tribunais regionais e nos tribunais, varas e juízos de com-petência espe-
CAPITULO X cializada, a presidência administrativa do tribunal compete ao respectivo juiz ti-
das disposiçÕes finais e tRansitÓRias tular e, sendo vários, será designado pelo Conselho Superior da Magistratura
Judicial.
ARTIGO 81.º
acumulação ARTIGO 85.º
competência do presidente do tribunal
1. Em cada tribunal, exercem funções um ou mais juízes de direito.
2. Fora dos casos legalmente previstos, ponderando as necessidades do serviço, 1. Compete ao juiz Presidente dos Tribunais Judiciais, em matéria administrativa:
o Conselho Superior da Magistratura Judicial pode, com carácter excepcional, a) Dar posse ao responsável pela secretaria judicial;
determinar que um juiz, obtida a sua anuência, exerça funções em mais de um b) Exercer a acção disciplinar sobre os funcionários de justiça relativamente às
tribunal, ainda que de jurisdição diferente. penas de gravidade não superior à multa;
3. A acumulação excepcional prevista no número anterior que se prolongue por c) Elaborar anualmente um relatório sobre o estado de serviços;
período superior a trinta dias, será remunerada em termos a fixar pelo Ministro d) Exercer as demais atribuições por lei.
da Justiça, sob proposta do Conselho Superior da Magistratura Judicial. 2. Das decisões proferidas no uso das competências previstas na alínea b) do
número anterior, cabe reclamação nos termos da lei.
ARTIGO 82.º ARTIGO 86.º
Juiz auxiliar utilização de informática
1. Quando o serviço o justifique, designadamente o número e a complexidade 1. A informática será utilizada, na medida do possível, para o tratamento de dados
dos processos, o Conselho Superior da Magistratura Judicial pode destacar tem- relativos à gestão dos tribunais judiciais e à tramitação processual e à recolha e
porariamente para um tri-bunal o juiz ou os juízes que se mostrem necessários. tratamento de dados estatísticos, respeitando as leis em vigor.
375 376
2. Os dados estatísticos recolhidos e tratados serão remetidos de três em três decreto-lei 11/2010
meses pelas secretarias judiciais, aos Conselhos Superiores das Magistraturas e assegura aos cidadãos ao acesso
ao Ministério da Justiça. ao direito e a Justiça
3. Anualmente, o Ministério da Justiça publicará um resumo dos dados estatísti-
cos relativos ao movimento processual, com especial incidência no domínio da pReÂmbulo
criminalidade: investigação, julgamento e execução de penas.
4. Na medida do possível, a publicação referida no número anterior deverá ser As diferentes problemáticas conexas com a efectivação dum real direito de aces-
acompanhada de um parecer elaborado por perito. so dos cidadãos ao Direito e à Justiça têm merecido resposta da sociedade desde
tempos recuados da Humanidade. Há notícias históricas de que já em Atenas se
ARTIGO 87.º nomeavam advogados para defesa dos pobres e de que em Roma a defesa dos
providências orçamentais indigentes era espontaneamente assumida por advogados.

1. O Governo fica autorizado a adoptar as providências orçamentais necessárias Embora a prática de garantir assistência judiciária aos mais necessitados se man-
à execução do presente diploma competindo, respectivamente ao Conselho tenha também durante a Idade Média, é apenas no século XX que, na maioria dos
Superior da Magistratura Judicial e ao Conselho Superior do Ministério Público países, se estabeleceu como garantia constitucionalmente consagrada.
a gestão de forma autónoma das verbas que lhe forem atribuídas.
2. O Governo, anualmente, procederá às transferências de dotações orçamentais A Constituição da República da Guiné Bissau consagrou um amplo direito dos
para os tribunais e para os serviços do Ministério Público para assegurar o cidadãos não apenas no acesso à Justiça como igualmente à informação e a pro-
cumprimento da sua missão. tecção jurídica.

ARTIGO 88.º Dispõe a artigo 32.º da Lei Fundamental guineense que "Todo o cidadão tem o
Regulamentação direito de recorrer aos órgãos jurisdicionais contra os actos que violem os seus
direitos reconhecidos pela Constituição e pela lei, não podendo a justiça ser
1. Nos trinta dias imediatos à entrada em vigor da presente Lei o Governo deve denegada por insuficiência de meios económicos". E o artigo 34.º do mesmo
aprovar o respectivo Decreto-lei que a regulamente. diploma reforça a garantia constitucional no acesso à justiça ao estipular que
2. Nos quinze dias imediatos à entrada em vigor do presente diploma e para efeitos "Todos têm direito à informação e à protecção jurídica nos termos da lei". E, no
do que dispõe o número anterior o Conselho superior da Magistratura Judicial e o caso particular do direito processual penal, estabelece o artigo 42.º, n.º 3 que "o
Conselho Superior do Ministério Público fornecerão ao Ministério da Justiça os arguido tem direito a escolher defensor e a ser por ele assistido em todos os actos
elementos necessários para fixar o número de magistrados de cada tribunal. do processo, estabelecendo a lei os casos e as fases em que essa assistência é
obrigatória".
ARTIGO 89.º
entrada em vigor Não obstante a amplitude programática dos textos consti-tucionais citados, na
prática judiciária, o instituto da assistência judiciária na Guiné Bissau tem fun-
A presente lei entra em vigor imediatamente após a sua publicação no Boletim cionado de forma deficiente e sem conseguir responder às verdadeiras dificul-
Oficial. dades com que a população em geral se depara no exercício do direito de aces-
377 379
so à justiça. Embora as causas mais significativas devam ser imputadas às graves gratuita e, por outro lado, que o Governo implemente soluções que as-segurem o
carências económicas que o Estado gui-neense atravessa, não pode ignorar se patrocínio na totalidade das regiões judiciárias por profissionais aí radicados,
que também a falta de um adequado enquadramento normativo nesta matéria uma vez que a maioria dos escritórios de advocacia se encontram situados na
acentua as dificuldades com que o cidadão frequentemente se depara em situ- cidade de Bissau.
ações justificadoras do recurso aos tribunais.
As propostas legislativas que seguidamente se apresentam, visam cumprir as
No caso específico da Guiné Bissau, o instituto da assistência judiciária não con- intenções programaticamente vertidas nas normas constitucionais anteriormente
seguirá garantir aos cidadãos um efectivo acesso à justiça se a intervenção ficar citadas no pressuposto de que a aprovação dos diplomas em causa seja acom-
apenas pela implementação normativa de mecanismos destinados a permitir a li- panhada das necessárias medidas a nível orçamental.
tigância, de forma mais ou menos gratuita, aos mais desfa-vorecidos economica-
mente, sem resolver ou minorar os bloqueios estruturais que mais frequente- Assim, o Governo, nos termos do artigo 100.º, n.º 1, alínea d) da Constituição da
mente afastam os cidadãos de recorrer aos órgãos jurisdicionais. Referimo nos à República e sob proposta do Ministro da Justiça, decreta o seguinte:
necessidade de mudança de atitudes, sob o ponto de vista cultural, que con-
tribuam para que a justiça seja encarada prioritariamente como função destinada CAPITULO I
a satisfazer um direito pertencente à população em geral e, concomitantemente, disposiçÕes GeRais
proporcione os meios adequados aos operadores judiciários para a sua adminis-
tração eficaz. O equilíbrio na prossecução de tais finalidades impõe que o Estado ARTIGO 1.º
proceda a um investimento racional dos escassos meios financeiros disponíveis objectivos
de forma a que as instituições judiciárias criadas possam ser efectivamente uti-
lizadas pela sociedade a que se destinam, sem descurar a manutenção das 1. É objectivo fundamental do presente diploma proceder ao enquadramento
condições necessárias ao exercício das diferentes profissões da área da justiça. legal de soluções que assegurem aos cidadãos condições eficazes de acesso ao
direito e à justiça que lhes garantam o exercício ou a defesa dos seus direitos.
Dito de outra forma, importa que o Estado não só proporcione o acesso gratuito 2. Para concretizar o objectivo referido no número anterior, criam se mecanismos
à justiça às camadas da população economicamente mais desfavorecidas mas capazes de suprir as diferenças resul-tantes das condições sociais ou culturais, de
que, sobretudo, crie condições institucionais para o seu exercício através de carência económica, de informação ou de localização geográfica que possam
mecanismos de informação geral de tais direitos e da garantia de que esses meios influenciar negativamente o acesso ao direito de cada cidadão individual.
sejam acessíveis aos cidadãos em geral.
ARTIGO 2.º
Em consonância com a realidade guineense, afigura se nos que a garantia de um dever de informação jurídica
efectivo acesso dos cidadãos à justiça carece não apenas de apoio judiciário na
modalidade de dispensa de pagamento de preparos e custas nos termos a definir 1. Compete ao Estado, em geral, realizar acções e criar os mecanismos adequa-
legalmente mas, igualmente, de meios que assegurem a existência de um dos a proporcionar à população o conhecimento necessário a garantir o exercício
patrocínio privado ou oficial eficaz em todo o território nacional. A concretiza- dos seus direitos e o cumprimento dos seus deveres, através do recurso às insti-
ção dos objectivos antecedentes exige, por um lado, que sejam disponibilizadas tuições judiciárias que devem administrar a justiça.
verbas suficientes para suportar os custos decorrentes da assistência judiciária
380 381
2. De um modo particular, cabe ao Ministério da Justiça e à Ordem dos CAPÍTULO II
Advogados prestar a informação jurídica necessária a tomar conhecido o direito condiçÕes GeRais de acesso
e o ordenamento jurídico nacional, através de publicações, campanhas de divul-
gação e outras formas de publicitação. ARTIGO 6.º
Âmbito
ARTIGO 3.º
Responsabilidade pelo funcionamento 1. A assistência judiciária, em qualquer das suas modalidades, e concedida para
questões ou causas judiciais concretas ou susceptíveis de concretização, que
Constitui responsabilidade do Estado, promover a publicação da legislação, a cri- versem sobre direitos directamente lesados ou ameaçados de lesão e desde que o
ação dos mecanismos e a promoção das acções necessárias a garantir um sistema requerente demonstre um intersesse próprio.
de acesso ao direito e à justiça em termos eficazes e de qualidade.
2. Sem prejuízo das normas específicas do processo penal relativamente a esta
matéria, a assistência judiciária pode ser requerida em qualquer jurisdição, inde-
ARTIGO 4.º
pendentemente da posição processual e de já ter sido concedida a uma das partes.
cooperação institucional
ARTIGO 7.º
1. Sem prejuízo do disposto no artigo anterior, os mecanismos e as acções ade-
insuficiência económica
quadas a garantir o acesso ao direito e à justiça, embora constituam prioritaria-
mente obrigação do Estado, devem ser desenvolvidas em cooperação com a
O direito à assistência judiciária só pode ser concedido a quem se encontrar em
Ordem dos Advogados.
2. A cooperação institucional entre a Ordem dos Advogados e o Ministério da situação económica que lhe não permita suportar, total ou parcialmente, as despe-
Justiça compreenderá todas as modalidades de assistência judiciária e as sas normais da causa.
condições da prestação dos respectivos serviços constará de protocolos a estab-
elecer entre as duas Instituições. ARTIGO 8.º
Recusa de assistência judiciária
ARTIGO 5.º
modalidades de assistência judiciária A assistência judiciária, em qualquer das modalidades, deve ser recusada, sem-
pre que:
1. A assistência judiciária compreende as seguintes modalidades: a) O requerente não reunir os pressupostos legais para a solicitar;
a) Consulta jurídica; b) Haja fundada suspeita de que o requerente se colocou dolosamente na situação
b) Apoio judiciário sob a forma de dispensa, total ou parcial, de custas, de de a obter nomeadamente, alienando ou onerando todos ou parte dos seus bens;
preparos e do prévio pagamento de taxa de justiça; c) Ao requerente cessionário do direito ou objecto controver-tido, mesmo que a
c) Apoio judiciário através do patrocínio oficioso. cessão seja anterior ao litígio desde que tenha existido fraude.
2. Ao mesmo requerente, podem ser concedidas cumulativamente ou apenas
alguma das modalidades referidas.

382 383
ARTIGO 9.º 2. A Consulta Jurídica é gratuita para quem estiver na situação prevista no artigo
presunção de insuficiência económica 7.º, os demais cidadãos pagarão uma taxa de justiça a fixar por despacho do
Ministro da Justiça.
Goza da presunção de insuficiência económica o requerente que:
a) Estiver a receber alimentos por necessidade económica; CAPÍTULO IV
b) O requerente em acção para prestação de alimentos; apoio JudiciáRio
c) For filho menor a requerer a investigação ou impugnação da sua maternidade
ou paternidade; ARTIGO 13.º
d) Tiver a seu favor disposição legal que consagre tal presunção. dispensa de pagamento

CAPÍTULO III 1.O apoio judiciário sob a forma de dispensa de pagamento de custas, de
consulta JuRÍdica preparos, do prévio pagamento de taxa de justiça e dos honorários ao patrono,
tem que ser expressamente reque-rida e a sua concessão pode ser total ou parcial,
ARTIGO 10.º consoante as condições económicas do requerente.
finalidades 2. Mesmo que não requerida expressamente, o tribunal pode conceder apenas o
diferimento dos referidos pagamentos ou que aqueles sejam efectuados em
1. A consulta jurídica tem por finalidade proporcionar aos cidadãos que o requer- prestações se a situação económica do requerente o permitir.
erem o conhecimento dos seus direitos e deveres perante uma situação concreta
da sua esfera jurídica. ARTIGO 14.º
2. A consulta jurídica também pode compreender a realização de diligências patrocínio forense
extrajudiciais ou actos de mediação ou conciliação, conforme dispuser o regula-
mento interno de funcionamento dos Gabinetes de Consulta Jurídica. 1. O apoio judiciário sob a forma de nomeação de patrono e pagamento dos
respectivos honorários, tem de ser expressamente requerido ao tribunal e a sua
ARTIGO 11.º concessão é válida tanto para a causa principal, como para o recurso e a exe-
prestação da consulta Jurídica cução, bem como para qualquer processado conexo com a causa.
2. O requerente pode sugerir o nome de advogado para a nomeação oficiosa se
Compete ao Ministério da Justiça em cooperação com a Ordem dos Advogados este residir ou tiver escritório na sede do tribunal.
criar, instalar e assegurar o funcionamen- to dos Gabinetes de Consulta Jurídica
recorrendo aos serviços oficiosos de advogados e advogados estagiários. ARTIGO 15.º
legitimidade para requerer
ARTIGO 12.º
legitimidade para solicitar consulta jurídica O apoio judiciário pode ser requerido:
a) Pelo próprio interessado na assistência judiciária;
1. Todo o cidadão, independentemente da sua situação económica, pode recorrer b) Pelo Ministério Público, em representação daquele;
aos serviços de consulta jurídica. c) Por advogado a pedido, mesmo verbal, do interessado;
384 385
d) Por advogado nomeado pela Ordem dos Advogados quando as circunstancias ARTIGO 18.º
o justificarem. Requisitos do requerimento

ARTIGO 16.º 1. No requerimento, devem ser descritos os factos e os motivos de direito em que
cancelamento do benefício se fundamentar o pedido, mesmo de forma sumária e mencionando obrigatoria-
mente os rendimentos e remunerações que recebe e os encargos, contribuições e
1. O tribunal oficiosamente ou a requerimento do Ministério Publico, deve reti- impostos que suporta.
rar o apoio judiciário, ouvido o requerente: 2. As provas dos factos, nomeadamente em relação à insuficiência económica,
a) Se este adquirir meios suficientes para poder dispensá lo; devem ser apresentadas com o requerimento, sendo aceites todos os meios de
b) Quando se provar por novos documentos a não subsistência dos fundamentos