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LIVRO DOS ESPÍRITOS

Diversidade das raças humanas


52 Donde provêm as diferenças físicas e morais que
distinguem as raças humanas na Terra?
“Do clima, da vida e dos costumes. Dá-se aí o que se dá com
dois filhos de uma mesma mãe que, educados longe um do
outro e de modos diferentes, em nada se assemelharão,
quanto ao moral.”
53 O homem surgiu em muitos pontos do globo?
“Sim e em épocas várias, o que também constitui uma das
causas da diversidade das raças. Depois, dispersando-se os
homens por climas diversos e aliando-se os de uma aos de
outras raças, novos tipos se formaram.”
a — Estas diferenças constituem espécies distintas?
“Certamente que não; todos são da mesma família.
Porventura as múltiplas variedades de um mesmo fruto são
motivo para que elas deixem de formar uma só espécie?”
54 Pelo fato de não proceder de um só indivíduo a espécie
humana, devem os homens deixar de considerar-se irmãos?
“Todos os homens são irmãos em Deus, porque são
animados pelo Espírito e tendem para o mesmo fim. Estais
sempre inclinados a tomar as palavras na sua significação
literal.”
Povos degenerados †
786 Mostra-nos a História que muitos povos, depois de abalos
que os revolveram profundamente, recaíram na barbaria.
Onde, neste caso, o progresso?
1 “Quando tua casa ameaça ruína, mandas demoli-la e
constróis outra mais sólida e mais cômoda. Mas, enquanto
esta não se apronta, há perturbação e confusão na tua
morada.
2 “Compreende mais o seguinte: eras pobre e habitavas um
casebre; tornando-te rico, deixaste-o, para habitar um
palácio. Então, um pobre diabo, como eras antes, vem
tomar o lugar que ocupavas e fica muito contente, porque
estava sem ter onde se abrigar. 3 Pois bem! aprende que os
Espíritos que, encarnados, constituem o povo degenerado
não são os que o constituíam ao tempo do seu esplendor.
Os de então, tendo-se adiantado, passaram para habitações
mais perfeitas e progrediram, enquanto os outros, menos
adiantados, tomaram o lugar que ficara vago e que
também, a seu turno, terão um dia que deixar.”
787 Não há raças rebeldes, por sua natureza, ao progresso?
“Há, mas vão aniquilando-se corporalmente, todos os dias.”
a — Qual será a sorte futura das almas que animam essas
raças?
“Chegarão, como todas as demais, à perfeição, passando
por outras existências. Deus a ninguém deserda.”
b — Assim, pode dar-se que os homens mais civilizados
tenham sido selvagens e antropófagos?
“Tu mesmo o foste mais de uma vez, antes de seres o que
és.”
788 Os povos são individualidades coletivas que como os
indivíduos, passam pela infância, pela idade da madureza e
pela decrepitude. Esta verdade, que a História comprova, não
será de molde a fazer supor que os povos mais adiantados
deste século terão seu declínio e sua extinção, como os da
Antiguidade?
1 “Os povos, que apenas vivem a vida do corpo, aqueles cuja
grandeza unicamente assenta na força e na extensão
territorial, nascem, crescem e morrem, porque a força de
um povo se exaure, como a de um homem. 2 Aqueles, cujas
leis egoísticas obstam ao progresso das luzes e da caridade,
morrem, porque a luz mata as trevas e a caridade mata o
egoísmo. 3 Mas, para os povos, como para os indivíduos, há
a vida da alma. Aqueles, cujas leis se harmonizam com as
leis eternas do Criador, viverão e servirão de farol aos
outros povos.”
789 O progresso fará que todos os povos da Terra se achem
um dia reunidos, formando uma só nação?
1 “Uma nação única, não; seria impossível, visto que da
diversidade dos climas se originam costumes e
necessidades diferentes, que constituem as nacionalidades,
tornando indispensáveis sempre leis apropriadas a esses
costumes e necessidades. A caridade, porém, desconhece
latitudes e não distingue a cor dos homens. 2 Quando, por
toda parte, a lei de Deus servir de base à lei humana, os
povos praticarão entre si a caridade, como os indivíduos.
Então viverão felizes e em paz, porque nenhum cuidará de
causar dano ao seu vizinho, nem de viver a expensas dele.”
3 A Humanidade progride, por meio dos indivíduos que
pouco a pouco se melhoram e instruem. Quando estes
preponderam pelo número, tomam a dianteira e arrastam
os outros. 4 De tempos a tempos, surgem no seio dela
homens de gênio que lhe dão um impulso; vêm depois, como
instrumentos de Deus, os que têm autoridade e, nalguns
anos, fazem-na adiantar-se de muitos séculos.
5 O progresso dos povos também realça a justiça da
reencarnação. 6 Louváveis esforços empregam os homens
de bem para conseguir que uma nação se adiante, moral e
intelectualmente. Transformada, a nação será mais ditosa
neste mundo e no outro, concebe-se. Mas, durante a sua
marcha lenta através dos séculos, milhares de indivíduos
morrem todos os dias. Qual a sorte de todos os que
sucumbem ao longo do trajeto? Privá-los-á, a sua relativa
inferioridade, da felicidade reservada aos que chegam por
último? Ou também relativa será a felicidade que lhes
cabe? Não é possível que a justiça divina haja consagrado
semelhante injustiça. 7 Com a pluralidade das existências,
é igual para todos o direito à felicidade, porque ninguém
fica privado do progresso. Podendo, os que viveram ao
tempo da barbaria, voltar, na época da civilização, a viver
no seio do mesmo povo, ou de outro, é claro que todos
tiram proveito da marcha ascensional.
8 Outra dificuldade, no entanto, apresenta aqui o sistema
da unicidade das existências. Segundo este sistema, a alma
é criada no momento em que nasce o ser humano. Então,
se um homem é mais adiantado do que outro, é que Deus
criou para ele uma alma mais adiantada. Por que esse
favor? Que merecimento tem esse homem, que não viveu
mais do que outro, que talvez haja vivido menos, para ser
dotado de uma alma superior? 9 Esta, porém, não é a
dificuldade principal. Se os homens vivessem um milênio,
conceber-se-ia que, nesse período milenar, tivessem tempo
de progredir. Mas diariamente morrem criaturas em todas
as idades; incessantemente se renovam na face do planeta,
de tal sorte que todos os dias aparece uma multidão delas
e outra desaparece. Ao cabo de mil anos, já não há naquela
nação vestígio de seus antigos habitantes. Contudo, de
bárbara, que era, ela se tomou policiada. Que foi o que
progrediu? Foram os indivíduos outrora bárbaros? Mas,
esses morreram há muito tempo. Teriam sido os recém-
chegados? Mas, se suas almas foram criadas no momento
em que eles nasceram, essas almas não existiam na época
da barbaria e forçoso será então admitir-se que os esforços
que se despendem para civilizar um povo têm o poder, não
de melhorar almas imperfeitas, porém de fazer que Deus
crie almas mais perfeitas.
10 Comparemos esta teoria do progresso com a que os
Espíritos apresentaram. As almas vindas no tempo da
civilização tiveram sua infância, como todas as outras,
mas já tinham vivido antes e vêm adiantadas por efeito do
progresso realizado anteriormente. Vêm atraídas por um
meio que lhes é simpático e que se acha em relação com o
estado em que atualmente se encontram. De sorte que, os
cuidados dispensados à civilização de um povo não têm
como consequência fazer que, de futuro, se criem almas
mais perfeitas; têm, sim, o de atrair as que já progrediram,
quer tenham vivido no seio do povo que se figura, ao tempo
da sua barbaria, quer venham de outra parte. Aqui se nos
depara igualmente a chave do progresso da Humanidade
inteira. 11 Quando todos os povos estiverem no mesmo
nível, no tocante ao sentimento do bem, a Terra será ponto
de reunião exclusivamente de bons Espíritos, que viverão
fraternalmente unidos. Os maus, sentindo-se aí repelidos e
deslocados, irão procurar, em mundos inferiores, o meio
que lhes convém, até que sejam dignos de volver ao nosso,
então transformado. 12 Da teoria vulgar ainda resulta que
os trabalhos de melhoria social só às gerações presentes e
futuras aproveitam, sendo de resultados nulos para as
gerações passadas, que cometeram o erro de vir muito
cedo, e que ficam sendo o que podem ser, sobrecarregadas
com o peso de seus atos de barbaria. 13 Segundo a doutrina
dos Espíritos, os progressos ulteriores aproveitam
igualmente as gerações pretéritas, que voltam a viver em
melhores condições e podem assim aperfeiçoar-se no foco
da civilização. (222)]
Escravidão

829 Haverá homens que estejam, por natureza, destinados a


ser propriedades de outros homens?
1 “É contrária à lei de Deus toda sujeição absoluta de um
homem a outro homem. 2 A escravidão é um abuso da
força. Desaparece com o progresso, como gradativamente
desaparecerão todos os abusos.” 3 É contrária à Natureza
a lei humana que consagra a escravidão, pois que
assemelha o homem ao irracional e o degrada física e
moralmente.

830 Quando a escravidão faz parte dos costumes de um povo,


são censuráveis os que dela aproveitam, embora só o façam
conformando-se com um uso que lhes parece natural?

1 “O mal é sempre o mal e não há sofisma que faça se torne


boa uma ação má. 2 A responsabilidade, porém, do mal é
relativa aos meios de que o homem disponha para
compreendê-lo. 3 Aquele que tira proveito da lei da
escravidão é sempre culpado de violação da lei da Natureza.
Mas, aí, como em tudo, a culpabilidade é relativa. 4 Tendo-
se a escravidão introduzido nos costumes de certos povos,
possível se tornou que, de boa-fé, o homem se aproveitasse
dela como de uma coisa que lhe parecia natural. 5
Entretanto, desde que, mais desenvolvida e, sobretudo,
esclarecida pelas luzes do Cristianismo, sua razão lhe
mostrou que o escravo era um seu igual perante Deus,
nenhuma desculpa mais ele tem.”
831 A desigualdade natural das aptidões não coloca certas
raças humanas sob a dependência das raças mais
inteligentes?
1 “Sim, mas para que estas as elevem, não para embrutecê-
las ainda mais pela escravização. 2 Durante longo tempo,
os homens consideram certas raças humanas como animais
de trabalho, munidos de braços e mãos, e se julgaram com
o direito de vender os dessas raças como bestas de carga.
Consideram-se de sangue mais puro os que assim
procedem. Insensatos! nada veem senão a matéria. 3 Mais
ou menos puro não é o sangue, porém o Espírito.” (361, 803)

832 Há, no entanto, homens que tratam seus escravos com


humanidade; que não deixam lhes falte nada e acreditam que
a liberdade os exporia a maiores privações. Que dizeis disso?

1 “Digo que esses compreendem melhor os seus interesses.


Igual cuidado dispensam aos seus bois e cavalos, para que
obtenham bom preço no mercado. 2 Não são tão culpados
como os que maltratam os escravos, mas, nem por isso
deixam de dispor deles como de uma mercadoria, privando-
os do direito de se pertencerem a si mesmos.”
A GENESE -RAÇA ADÂMICA

38 — De acordo com o ensino dos Espíritos, foi uma dessas


grandes imigrações, ou, se quiserem, uma dessas colônias de
Espíritos, vinda de outra esfera, que deu origem à raça
simbolizada na pessoa de Adão e, por essa razão mesma,
chamada raça adâmica. 2 Quando ela aqui chegou, a Terra já
estava povoada desde tempos imemoriais, como a América,
quando aí chegaram os europeus.
3 Mais adiantada do que as que a tinham precedido neste
planeta, a raça adâmica é, com efeito, a mais inteligente,
a que impele ao progresso todas as outras. 4 A Gênese no-
la mostra, desde os seus primórdios, industriosa, apta às
artes e às ciências, sem haver passado aqui pela infância
espiritual, o que não se dá com as raças primitivas, mas
concorda com a opinião de que ela se compunha de
Espíritos que já tinham progredido bastante. 5 Tudo prova
que a raça adâmica não é antiga na Terra e nada se opõe a
que seja considerada como habitando este globo desde
apenas alguns milhares de anos, o que não estaria em
contradição nem com os fatos geológicos, nem com as
observações antropológicas, antes tenderia a confirmá-las.
39 — No estado atual dos conhecimentos, não é admissível a
doutrina segundo a qual todo o gênero humano procede de
uma individualidade única, de há seis mil anos somente a esta
parte. Tomadas à ordem física e à ordem moral, as
considerações que a contradizem se resumem no seguinte:
2 Do ponto de vista fisiológico, algumas raças apresentam
característicos tipos particulares, que não permitem se
lhes assinale uma origem comum. Há diferenças que
evidentemente não são simples efeito do clima, pois que os
brancos que se reproduzem nos países dos negros não se
tornam negros e reciprocamente. O ardor do Sol tosta e
brune a epiderme, porém nunca transformou um branco em
negro, nem lhe achatou o nariz, ou mudou a forma dos
traços da fisionomia, nem lhe tornou lanzudo e
encarapinhado o cabelo comprido e sedoso. Sabe-se hoje
que a cor do negro provém de um tecido especial
subcutâneo, peculiar à espécie.
3 Há-se, pois, de considerar as raças negras, mongólicas,
caucásicas como tendo origem própria, como tendo nascido
simultânea ou sucessivamente em diversas partes do globo.
O cruzamento delas produziu as raças mistas secundárias.
Os caracteres fisiológicos das raças primitivas constituem
indício evidente de que elas procedem de tipos especiais. As
mesmas considerações se aplicam, conseguintemente,
assim aos homens, quanto aos animais, no que concerne à
pluralidade dos troncos. (Cap. X, n.° 2 e seguintes)
40 — Adão e seus descendentes são apresentados na Gênese
como homens sobremaneira inteligentes, pois que, desde a
segunda geração, constroem cidades, cultivam a terra,
trabalham os metais. São rápidos e duradouros seus
progressos nas artes e nas ciências. 2 Não se conceberia,
portanto, que esse tronco tenha tido, como ramos,
numerosos povos tão atrasados, de inteligência tão
rudimentar, que ainda em nossos dias rastejam a
animalidade, que hajam perdido todos os traços e, até, a
menor lembrança do que faziam seus pais. Tão radical
diferença nas aptidões intelectuais e no desenvolvimento
moral atesta, com evidência não menor, uma diferença de
origem.
41 — Independentemente dos fatos geológicos, da
população do globo se tira a prova da existência do homem
na Terra, antes da época fixada pela Gênese.
2 Sem falar da cronologia chinesa, que remonta, dizem, a
trinta mil anos, documentos mais autênticos provam que
o Egito, a Índia e outros países já eram povoados e
floresciam, pelo menos, três mil anos antes da era cristã,
mil anos, portanto, depois da criação do primeiro homem,
segundo a cronologia bíblica. 3 Documentos e observações
recentes não consentem hoje dúvida alguma quanto às
relações que existiram entre a América e os antigos
egípcios, donde se tem de concluir que essa região já era
povoada naquela época. Forçoso então seria admitir-se que,
em mil anos, a posteridade de um único homem pôde
povoar a maior parte da Terra. Ora, semelhante
fecundidade estaria em antagonismo com todas as leis
antropológicas. n
42 — Ainda mais evidente se torna a impossibilidade, desde
que se admita, com a Gênese, que o dilúvio destruiu todo o
gênero humano, com exceção de Noé e de sua família, que
não era numerosa, no ano de 1656 do mundo, ou seja, 2.348
anos antes da era cristã. Em realidade, pois, daquele
patriarca é que dataria o povoamento da Terra. Ora, quando
os hebreus se estabeleceram no Egito, 612 anos após o
dilúvio, já o Egito era um poderoso império, que teria sido
povoado, sem falar de outros países, em menos de seis
séculos, só pelos descendentes de Noé, o que não é
admissível.
2 Notemos, de passagem, que os egípcios acolheram os
hebreus como estrangeiros. Seria de espantar que
houvessem perdido a lembrança de uma tão próxima
comunidade de origem, quando conservaram
religiosamente os monumentos de sua história.
3 Rigorosa lógica, com os fatos a corroborá-la da maneira
mais peremptória, mostra, pois, que o homem está na Terra
desde tempo indeterminado, muito anterior à época que a
Gênese assinala. O mesmo ocorre com a diversidade dos
troncos primitivos, porquanto demonstrar a
impossibilidade de uma proposição é demonstrar a
proposição contrária. Se a Geologia descobre traços
autênticos da presença do homem antes do grande período
diluviano, ainda mais completa é a demonstração.

A caminho da Luz — Emmanuel


3- As Raças Adâmicas (TRECHOS)

1 O sistema de Capela

1 Nos mapas zodiacais, que os astrônomos terrestres compulsam


em seus estudos, observa-se desenhada uma grande estrela na
Constelação do Cocheiro, † que recebeu, na Terra, o nome de Cabra
ou Capela.
4 Quase todos os mundos que lhe são dependentes já se purificaram
física e moralmente, examinadas as condições de atraso moral da
Terra, onde o homem se reconforta com as vísceras dos seus irmãos
inferiores, como nas eras pré-históricas de sua existência, marcham
uns contra os outros ao som de hinos guerreiros, desconhecendo os
mais comezinhos princípios de fraternidade e pouco realizando em
favor da extinção do egoísmo, da vaidade, do seu infeliz orgulho.
2 Um mundo em transições
1 Há muitos milênios, um dos orbes da Capela, † que guarda muitas
afinidades com o globo terrestre, atingira a culminância de um dos
seus extraordinários ciclos evolutivos.
2 As lutas finais de um longo aperfeiçoamento estavam delineadas,
como ora acontece convosco, relativamente às transições
esperadas no século XX, neste crepúsculo de civilização.
3 Alguns milhões de Espíritos rebeldes lá existiam, no caminho da
evolução geral, dificultando a consolidação das penosas conquistas
daqueles povos cheios de piedade e virtudes, mas uma ação de
saneamento geral os alijaria daquela humanidade, que fizera jus à
concórdia perpétua, para a edificação dos seus elevados trabalhos.
4 As grandes comunidades espirituais, diretoras do Cosmos,
deliberam, então, localizar aquelas entidades, que se tornaram
pertinazes no crime, aqui na Terra longínqua, onde aprenderiam a
realizar, na dor e nos trabalhos penosos do seu ambiente, as grandes
conquistas do coração e impulsionando, simultaneamente, o
progresso dos seus irmãos inferiores.
3 Espíritos exilados na Terra
1 Foi assim que Jesus recebeu, à luz do seu reino de amor e de
justiça, aquela turba de seres sofredores e infelizes.
2 Com a sua palavra sábia e compassiva, exortou essas almas
desventuradas à edificação da consciência pelo cumprimento dos
deveres de solidariedade e de amor, no esforço regenerador de si
mesmas. 3 Mostrou-lhes os campos imensos de luta que se
desdobravam na Terra, envolvendo-as no halo bendito da sua
misericórdia e da sua caridade sem limites. 4 Abençoou-lhes as
lágrimas santificadoras, fazendo-lhes sentir os sagrados triunfos do
futuro e prometendo-lhes a sua colaboração cotidiana e a sua vinda
no porvir.
5 Aqueles seres angustiados e aflitos, que deixavam atrás de si todo
um mundo de afetos, não obstante os seus corações empedernidos
na prática do mal, seriam degredados na face obscura do planeta
terrestre; 6 andariam desprezados na noite dos milênios da saudade
e da amargura; 7 reencarnariam no seio das raças ignorantes e
primitivas, a lembrarem o paraíso perdido nos firmamentos
distantes. 8 Por muitos séculos não veriam a suave luz da Capela,
mas trabalhariam na Terra acariciados por Jesus e confortados na
sua imensa misericórdia.

4 Fixação dos caracteres raciais


1 Com o auxílio desses Espíritos degredados, naquelas eras
remotíssimas, as falanges do Cristo operavam ainda as últimas
experiências sobre os fluidos renovadores da vida, aperfeiçoando os
caracteres biológicos das raças humanas. 2 A Natureza ainda era,
para os trabalhadores da espiritualidade, um campo vasto de
experiências infinitas; tanto assim que, se as observações do
mendelismo fossem transferidas àqueles milênios distantes, não se
encontraria nenhuma equação definitiva nos seus estudos de
biologia. 3 A moderna genética não poderia fixar, como hoje, as
expressões dos “genes”, porquanto, no laboratório das forças
invisíveis, as células ainda sofriam longos processos de
acrisolamento, imprimindo-se-lhes elementos de astralidade,
consolidando-se-lhes as expressões definitivas, com vistas às
organizações do porvir.
.5 Origem das raças brancas
1 Aquelas almas aflitas e atormentadas reencarnaram,
proporcionalmente, nas regiões mais importantes, onde se haviam
localizado as tribos e famílias primitivas, descendentes dos
“primatas”, a que nos referimos ainda há pouco. 2 Com a sua
reencarnação no mundo terreno, estabeleciam-se fatores
definitivos na história etnológica dos seres.
3 Um grande acontecimento se verificara no planeta. É que, com
essas entidades, nasceram no orbe os ascendentes das raças
brancas.
4 Em sua maioria, estabeleceram-se na Ásia, de onde atravessaram
o istmo de Suez para a África, na região do Egito, encaminhando-se
igualmente para a longínqua Atlântida, de que várias regiões da
América guardam assinalados vestígios.
5 Não obstante as lições recebidas da palavra sábia e mansa do
Cristo, os homens brancos olvidaram os seus sagrados
compromissos.
6 Grande percentagem daqueles Espíritos rebeldes, com muitas
exceções, só puderam voltar ao país da luz e da verdade depois de
muitos séculos de sofrimentos expiatórios; 7 outros, porém,
infelizes e retrógrados, permanecem ainda na Terra, nos dias que
correm, contrariando a regra geral, em virtude do seu elevado
passivo de débitos clamorosos.
6 Quatro grandes povos
1 As raças adâmicas guardavam vaga lembrança da sua situação
pregressa, tecendo o hino sagrado das reminiscências.
2 As tradições do paraíso perdido passaram de gerações a gerações,
até que ficassem arquivadas nas páginas da Bíblia.
3 Aqueles seres decaídos e degradados, à maneira de suas vidas
passadas no mundo distante da Capela, com o transcurso dos anos
reuniram-se em quatro grandes grupos que se fixaram depois nos
povos mais antigos, obedecendo às afinidades sentimentais e
linguísticas que os associavam na constelação do Cocheiro. 4
Unidos, novamente, na esteira do Tempo, formaram desse modo o
grupo dos árias, a civilização do Egito, o povo de Israel e as castas
da Índia.
5 Dos árias † descende a maioria dos povos brancos da família indo-
europeia; nessa descendência, porém, é necessário incluir os latinos,
os celtas e os gregos, além dos germanos e dos eslavos.
6 As quatro grandes massas de degredados formaram os pródromos
de toda a organização das civilizações futuras, introduzindo os mais
largos benefícios no seio da raça amarela e da raça negra, que já
existiam.
7 É de grande interesse o estudo de sua movimentação no curso da
História. Através dessa análise, é possível examinarem-se os
defeitos e virtudes que trouxeram do seu paraíso longínquo, bem
como os antagonismos e idiossincrasias peculiares a cada qual.
Emmanuel
NOTA — 1 Entre as considerações acima e as do capítulo precedente,
devemos ponderar o interstício de muitos séculos. 2 Aliás, no que se
refere à historicidade das raças adâmicas, será justo meditarmos
atentamente no problema da fixação dos caracteres raciais. 3
Apresentando o meu pensamento humilde, procurei demonstrar as
largas experiências que os operários do Invisível levaram a efeito,
sobre os complexos celulares, chegando a dizer da impossibilidade
de qualquer cogitação mendelista nessa época da evolução
planetária. 4 Aos prepostos de Jesus foi necessária grande soma de
tempo, no sentido de fixar o tipo humano.
5 Assim, pois, referindo-nos ao degredo dos emigrantes da Capela,
devemos esclarecer que, nessa ocasião, já o primata hominis † se
encontrava arregimentado em tribos numerosas. 6 Depois de
grandes experiências, foi que as migrações do Pamir † se
espalharam pelo orbe, obedecendo a sagrados roteiros, delineados
nas Alturas.
7 Quanto ao fato de se verificar a reencarnação de Espíritos tão
avançados em conhecimentos, em corpos de raças primigênias, não
deve causar repugnância ao entendimento. Lembremo-nos de que
um metal puro, como o ouro, por exemplo, não se modifica pela
circunstância de se apresentar em vaso imundo, ou disforme. 8 Toda
oportunidade de realização do bem é sagrada. 9 Quanto ao mais,
que fazer com o trabalhador desatento que estraçalha no mal todos
os instrumentos perfeitos que lhe são confiados? Seu direito, aos
aparelhos mais preciosos, sofrerá solução de continuidade. 10 A
educação generosa e justa ordenará a localização de seus esforços
em maquinaria imperfeita, até que saiba valorizar as preciosidades
em mão. A todo tempo, a máquina deve estar de acordo com as
disposições do operário, para que o dever cumprido seja caminho
aberto a direitos novos.
11 Entre as raças negra e amarela, bem como entre os grandes
agrupamentos primitivos da Lemúria, † da Atlântida † e de outras
regiões que ficaram imprecisas no acervo de conhecimentos dos
povos, os exilados da Capela trabalharam proficuamente, adquirindo
a provisão de amor para suas consciências ressequidas. 12 Como
vemos, não houve retrocesso, mas providência justa de
administração, segundo os méritos de cada qual, no terreno do
trabalho e do sofrimento para a redenção. — Nota de Emmanuel.

http://bibliadocaminho.com/ocaminho/TKardequiano/TKP/Re60/Jul/
Re60JulA03.htm
Revista espírita — Ano III — Julho de 1860 (Édition Française)
Frenologia e fisiognomonia (Sumário)

1 — A frenologia † é ciência que trata das funções atribuídas a cada


parte do cérebro. O Dr. Gall, fundador dessa ciência, pensava que,
desde que o cérebro é o ponto para onde são conduzidas todas as
sensações, e de onde partem todas as manifestações das faculdades
intelectuais e morais, cada uma das faculdades primitivas deveria
ter ali o seu órgão especial. Assim, seu sistema consiste na
localização das faculdades. Sendo o desenvolvimento de cada parte
cerebral determinado pelo desenvolvimento da calota óssea,
produzindo protuberâncias, concluiu ele que, do exame dessas
protuberâncias, poder-se-ia deduzir a predominância de tal ou qual
faculdade e, daí, o caráter ou as aptidões do indivíduo. Daí, também,
o nome de cranioscopia dado a essa ciência, com a diferença de que
a frenologia tem por objeto tudo o que diz respeito às atribuições
do cérebro, enquanto a cranioscopia se limita às ilações tiradas da
inspeção do crânio. Numa palavra, Gall fez, a respeito do crânio e
do cérebro, o que fez Lavater para os traços fisionômicos.
Não há por que discutir aqui o mérito desta ciência, nem examinar
se é verdadeira ou exagerada em todas as suas consequências. Mas
ela foi, alternadamente, defendida e criticada por homens de alto
valor científico. Se certos detalhes são ainda hipotéticos, nem por
isso deixa de repousar sobre um princípio incontestável, o das
funções gerais do cérebro, e sobre as relações existentes entre o
desenvolvimento ou a atrofia desse órgão e as manifestações
intelectuais. O nosso objetivo é o estudo das suas consequências
psicológicas.
Das relações existentes entre o desenvolvimento do cérebro e a
manifestação de certas faculdades, alguns sábios concluíram que os
órgãos cerebrais são a própria fonte das faculdades, doutrina que
não é outra senão a do materialismo, porquanto tende à negação
do princípio inteligente estranho à matéria. Consequentemente, faz
do homem uma máquina, sem livre-arbítrio e sem responsabilidade
de seus atos, já que sempre poderia atribuir os seus erros à sua
organização e seria injustiça puni-lo por faltas que não teriam
dependido dele cometer. Ficamos abalados pelas consequências de
semelhante teoria, e com razão. Devia-se, por isso, proscrever a
frenologia? Não, mas examinar o que nela poderia haver de
verdadeiro ou de falso na maneira de encarar os fatos. Ora, esse
exame prova que as atribuições do cérebro em geral, e mesmo a
localização das faculdades, podem conciliar-se perfeitamente com
o espiritualismo mais severo, que nisso encontraria a explicação de
certos fatos. Admitamos, por um instante, a título de hipótese, a
existência de um órgão especial para o instinto musical.
Suponhamos, além disso, como nos ensina a Doutrina Espírita, que
um Espírito, cuja existência é muito anterior ao seu corpo,
reencarne com a faculdade musical muito desenvolvida; esta se
exercerá naturalmente sobre o órgão correspondente e estimulará
o seu desenvolvimento, como o exercício de um membro aumenta
o volume dos músculos. Como na infância o sistema ósseo oferece
pouca resistência, o crânio sofre a influência do movimento
expansivo da massa cerebral. Desse modo, o desenvolvimento do
crânio é produzido pelo desenvolvimento do cérebro, assim como o
desenvolvimento do cérebro o é pelo da faculdade. A faculdade é a
causa primeira; o estado do cérebro é um efeito consecutivo. Sem a
faculdade o órgão não existiria ou seria apenas rudimentar.
Encarada sob esse ponto de vista, a frenologia, como se vê, nada
tem de contrário à moral, porquanto deixa ao homem toda a sua
responsabilidade, cabendo-nos acrescentar que esta teoria é, ao
mesmo tempo, conforme à lógica e à observação dos fatos.
Objetam com os casos bem conhecidos, nos quais a influência. do
organismo sobre a manifestação das faculdades é incontestável,
como os da loucura e da idiotia, mas é fácil resolver a questão.
Veem-se todos os dias homens muito inteligentes tornarem-se
loucos. O que prova isto? Um homem muito forte pode quebrar a
perna e não poderá mais andar. Ora, a vontade de andar não está
na perna, mas no cérebro; esta vontade só é paralisada pela
impossibilidade de mover a perna. No louco, o órgão que servia às
manifestações do pensamento, estando avariado por uma causa
física qualquer, o pensamento já não pode manifestar-se de maneira
regular; erra a torto e a direito, fazendo o que chamamos
extravagâncias. Mas nem por isso deixa de existir em sua
integridade,. e a prova disso está em que, se o órgão for
restabelecido, volta o pensamento original, como o movimento da
perna que é curada. Assim, o pensamento não está no cérebro, como
não se encontra na calota craniana. O cérebro é o instrumento do
pensamento, como o olho é o instrumento da visão, e o crânio é a
superfície sólida que se molda aos movimentos do instrumento. Se
o instrumento for deteriorado não ocorrerá manifestação,
exatamente como não se pode mais ver ao se perder um olho.
Entretanto, por vezes acontece que a suspensão da livre
manifestação do pensamento não se deve a uma causa acidental,
como na loucura. A constituição primitiva dos órgãos pode oferecer
ao Espírito, desde o nascimento, um obstáculo do qual sua atividade
não pode triunfar. É o que acontece quando os órgãos são atrofiados
ou apresentam uma resistência insuperável. Tal é o caso da idiotia.
O Espírito está como que aprisionado e sofre essa constrição, mas
nem por isso deixa de pensar como Espírito, do mesmo modo que
um prisioneiro atrás das grades. O estudo das manifestações do
Espírito de pessoas vivas, pela evocação, lança uma grande luz sobre
os fenômenos psicológicos. Isolando o Espírito da matéria, prova-se
pelos fatos que os órgãos não são a causa das faculdades, mas
simples instrumentos, com o auxílio dos quais as faculdades se
manifestam com maior ou menor liberdade ou precisão; que muitas
vezes funcionam como abafadores, que amortecem as
manifestações, o que explica a maior liberdade do Espírito, uma vez
desprendido da matéria.
No conceito materialista, o que é um idiota? Nada; é apenas um ser
humano. Conforme a Doutrina Espírita é um ser dotado de razão
como todo mundo, mas enfermo de nascença pelo cérebro, como
outros o são pelos membros. Ao reabilitá-lo, não será tal doutrina
mais moral, mais humana, que a que dele faz um ser desprezível?
Não é mais consolador para um pai, que tem a infelicidade de ter
um tal filho, pensar que esse envoltório imperfeito encerra uma
alma que pensa?
Aos que, sem serem materialistas, não admitem a pluralidade das
existências, perguntaremos: O que é a alma do idiota? Se a alma é
formada ao mesmo tempo com o corpo, por que criaria Deus seres
assim desgraçados? Qual será o seu futuro? Admiti, ao contrário,
uma sucessão de existências e tudo se explica conforme a justiça:
a idiotia pode ser uma punição ou uma prova e, em todo caso, não
passa de um incidente na vida do Espírito. Isto não é maior, mais
digno da justiça de Deus, do que supor que o Pai tenha criado um
ser fracassado para sempre?
2 — Agora lancemos as vistas para a fisiognomonia. † Esta ciência
é baseada no princípio incontestável de que é o pensamento que põe
os órgãos em jogo, que imprime aos músculos certos movimentos.
Daí se segue que, estudando as relações entre os movimentos
aparentes e o pensamento, dos movimentos vistos podemos deduzir
o pensamento, que não vemos. É assim que não nos enganaremos
quanto à intenção de quem faz um gesto ameaçador ou amigável;
que reconheceremos o modo de andar de um homem apressado e o
do que não o é. De todos os músculos, os mais móveis são os da
face; ali se refletem muitas vezes até os mais delicados matizes do
pensamento. Eis por que, com razão, se diz que o rosto é o espelho
da alma. Pela frequência de certas sensações, os músculos contraem
o hábito dos movimentos correspondentes e acabam formando a
ruga. A forma exterior se modifica, assim, pelas impressões da alma,
de onde se segue que, dessa forma, algumas vezes se podem deduzir
essas impressões, como do gesto podemos deduzir o pensamento.
Tal é o princípio geral da arte ou, se se quiser, da ciência
fisiognomônica. Este princípio é verdadeiro; não apenas se apoia
sobre base racional, mas é confirmado pela observação, tendo
Lavater a glória, se não de o haver descoberto, pelo menos de o ter
desenvolvido e formulado em corpo de doutrina. Infelizmente,
Lavater caiu no erro comum à maioria dos autores de sistemas, ou
seja, a partir de um princípio verdadeiro sob certos pontos,
concluírem por uma aplicação universal e, em seu entusiasmo por
terem descoberto uma verdade, a vê-la por toda parte. Eis aí o
exagero e, muitas vezes, o ridículo. Não nos cabe examinar aqui o
sistema de Lavater em seus detalhes: diremos apenas que tanto é
ele consequente ao remontar do físico ao moral por certos sinais
exteriores, quanto é ilógico ao atribuir um sentido qualquer às
formas ou sinais sobre os quais o pensamento não pode exercer
nenhuma ação. É a falsa aplicação de um princípio verdadeiro que
muitas vezes o relega ao nível das crenças supersticiosas, e que leva
a confundir na mesma reprovação os que veem certo e os que
exageram. Digamos, entretanto, para ser justo, que muitas vezes a
falta é menos do mestre que dos discípulos que, em sua admiração
fanática e irrefletida, por vezes levam as consequências de um
princípio além dos limites do possível.
3 — Agora, se examinarmos esta ciência nas suas relações com o
Espiritismo, teremos de combater várias induções errôneas que dela
poderiam ser tiradas. Entre as relações fisiognomônicas, existe
principalmente uma sobre a qual a imaginação muitas vezes se
exerceu: é a semelhança de algumas pessoas com certos animais.
Procuremos, então, buscar a causa. A semelhança física entre os
parentes resulta da consanguinidade que transmite, de um a outro,
partículas orgânicas semelhantes, n porque o corpo procede do
corpo. Mas não poderia vir ao pensamento de ninguém supor que
aquele que se parece com um gato, por exemplo, tenha nas veias o
sangue de gato. Há, pois, uma outra causa. De início, pode ser
fortuita e sem qualquer significação: é o caso mais comum. Todavia,
além da semelhança física, nota-se por vezes uma certa analogia
de inclinações. Isto poderia explicar-se pela mesma causa que
modifica os traços da fisionomia. Se um Espírito ainda atrasado
conserva alguns dos instintos do animal, seu caráter, como homem,
terá esses traços, e as paixões que o agitam poderão dar a esses
traços algo que lembre vagamente os do animal cujos instintos
possui. Mas esses traços se apagam à medida que o Espírito se
depura e o homem avança no caminho da perfeição. Aqui, portanto,
seria o Espírito a imprimir sua marca na fisionomia; mas da
similitude dos instintos seria absurdo concluir que o homem, que
tem os do gato, possa ser a encarnação do Espírito de um gato.
Longe de ensinar semelhante teoria, o Espiritismo sempre
demonstrou o seu ridículo e a sua impossibilidade. É verdade que se
nota uma gradação contínua na série animal; mas entre o animal e
o homem há uma solução de continuidade. Ora, mesmo admitindo,
o que é apenas um sistema, que o Espírito tenha passado por todos
os graus da escala animal, antes de chegar ao homem, haveria
sempre, de um ao outro, uma interrupção que não existiria se o
Espírito do animal pudesse encarnar-se diretamente no corpo do
homem. Se assim fosse, entre os Espíritos errantes haveria os de
animais, como há Espíritos humanos, o que não acontece.

Sem entrar no exame aprofundado desta questão, que discutiremos


mais tarde, dizemos, conforme os Espíritos, que nisto estão de
acordo com a observação dos fatos, que nenhum homem é a
reencarnação do Espírito de um animal. Os instintos animais do
homem decorrem da imperfeição de seu próprio Espírito, ainda não
depurado e que, sob a influência da matéria, dá preponderância às
necessidades físicas sobre as morais e sobre o senso moral, não
ainda suficientemente desenvolvido. Sendo as mesmas as
necessidades físicas no homem e no animal, necessariamente
resulta que, até o senso moral estabelecer um contrapeso, pode
haver entre eles uma certa analogia de instintos; mas aí se detém
a paridade; o senso moral que não existe num, e que no outro
germina e cresce incessantemente, estabelece entre eles a
verdadeira linha de demarcação.
Uma outra indução não menos errônea é tirada do princípio da
pluralidade das existências. Da sua semelhança com certas
personagens, algumas concluem que podem ter sido tais
personagens. Ora, do que precede, é fácil demonstrar que aí existe
apenas uma ideia quimérica. Como dissemos, as relações
consanguíneas podem produzir uma similitude de formas, mas não
é este aqui o caso, pois Esopo pode ter sido mais tarde um homem
bonito e Sócrates um belo rapaz: Assim, quando não há filiação
corporal, só haverá uma semelhança fortuita, porquanto não há
nenhuma necessidade para o Espírito habitar corpos parecidos é, ao
tomar um novo corpo, não traz nenhuma parcela do antigo.
Entretanto, conforme o que dissemos acima, quanto ao caráter que
as paixões podem imprimir aos traços, poder-se-ia pensar que, se
um Espírito não progrediu sensivelmente e retorna com as mesmas
inclinações, poderá trazer no rosto identidade de expressão. Isto é
exato, mas seria no máximo um ar de família, e daí a uma
semelhança real há muita distância. Aliás, este caso deve ser
excepcional, pois é raro que o Espírito não venha em outra
existência com disposições sensivelmente modificadas. Assim, dos
sinais fisiognomônicos não se pode tirar absolutamente nenhum
indício das existências anteriores. Só podemos encontrá-las no
caráter moral, nas ideias instintivas e intuitivas, nas inclinações
inatas, nas que não resultam da educação, assim como na natureza
das expiações suportadas. E ainda isto só poderia indicar o gênero
de existência, o caráter que se deveria ter, levando em conta o
progresso, mas não a individualidade. (Vide Livro dos Espíritos,
números 216 e 217).
[1] N. do T.: Kardec serviu-se das teorias científicas da época. Só em
1865 Mendel † publicaria seus primeiros trabalhos de genética,
enquanto a molécula de DNA, † base da hereditariedade, nem
sequer era sonhada.
Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da
Lei de Direitos Autorais.

http://bibliadocaminho.com/ocaminho/TKardequiano/TKP/Re62/Abr/
Re62AbrA01.htm
Revista espírita — Ano V — Abril de 1862 (Édition Française)
Frenologia espiritualista e espírita
Perfectibilidade da raça negra

1 — A raça negra é perfectível? Segundo algumas pessoas, esta


questão é julgada e resolvida negativamente. Se assim é, e se esta
raça é votada por Deus a uma eterna inferioridade, segue-se que é
inútil nos preocuparmos com ela e que devemos nos limitar a fazer
do negro uma espécie de animal doméstico, preparado para a
cultura do açúcar e do algodão.
Entretanto a Humanidade, tanto quanto o interesse social, requer
um exame mais cuidadoso. É o que tentaremos fazer. Mas como
uma conclusão desta gravidade, num ou noutro sentido, não pode
ser tomada levianamente e deve apoiar-se em raciocínio sério,
pedimos permissão para desenvolver algumas considerações
preliminares, que nos servirão para mostrar, mais uma vez, que o
Espiritismo é a única chave possível de uma multidão de problemas,
insolúveis com o auxílio dos dados atuais da ciência.
A frenologia nos servirá de ponto de partida. Exporemos
sumariamente as suas bases fundamentais para melhor
compreensão do assunto.
2 — Como se sabe, a frenologia † apoia-se no princípio de que o
cérebro é o órgão do pensamento, como o coração o é da circulação,
o estômago da digestão e o fígado da secreção da bile. Este ponto é
admitido por todos, pois ninguém há que possa atribuir o
pensamento a outra parte do corpo. Cada um sente que pensa pela
cabeça e não pelo braço e pela perna. Mais ainda: sente-se
instintivamente que a sede do pensamento está na fronte; é aí, e
não no occipício, que se leva a mão para indicar que um pensamento
acaba de surgir. Para todo o mundo o desenvolvimento da parte
frontal leva a presumir mais inteligência do que quando ela é baixa
e deprimida. Por outro lado, as experiências anatômicas e
fisiológicas demonstraram claramente o papel especial de certas
partes do cérebro nas funções vitais, e a diferença dos fenômenos
produzidos pela lesão de tal ou qual parte. As pesquisas da Ciência
não podem deixar dúvida a respeito; as do Sr. Flourens, † sobretudo,
provaram à evidência a especialidade das funções do cerebelo.
Assim, é admitido como princípio que as diferentes partes do
cérebro não exercem as mesmas funções. Além disso, é reconhecido
que, originando-se do cérebro, os cordões nervosos, tal como os
filamentos de uma raiz, se ramificam em todas as partes do corpo
e são afetados de maneira diferente, conforme a sua destinação. É
assim que o nervo óptico, que alcança o olho e se abre na retina é
afetado pela luz e pelas cores e transmite essas sensações ao
cérebro numa porção especial; que o nervo auditivo é afetado pelos
sons, os nervos olfativos pelos odores. Se um desses nervos perder
a sensibilidade por uma causa qualquer, não haverá mais a
sensação: fica-se cego, surdo ou privado do odor. Esses nervos têm,
pois, funções distintas e não podem de modo algum se substituir,
embora o exame mais minucioso não mostre a mínima diferença na
sua contextura.
Partindo desses princípios, a frenologia vai longe: localiza todas as
faculdades morais e intelectuais, atribuindo a cada uma um lugar
especial no cérebro. É assim que confere a um órgão o instinto de
destruição que, levado ao excesso, se torna crueldade e ferocidade;
a outro a firmeza, cujo excesso, sem o contrapeso do julgamento,
produz a obstinação; a outro o amor da progênie; finalmente, a
outros, a memória das localidades, dos números, das formas, do
sentimento poético, da harmonia dos sons, das cores, etc., etc. Aqui
não é o lugar de fazer a descrição anatômica do cérebro. Diremos
apenas que, se fizermos uma secção longitudinal na massa,
reconheceremos que da base partem feixes fibrosos,que vão
desabrochar na superfície, apresentando mais ou menos o aspecto
de um cogumelo cortado na sua altura. Cada feixe corresponde a
uma das circunvoluções da superfície externa, de onde se segue que
o desenvolvimento da circunvolução corresponde ao
desenvolvimento do feixe fibroso. Sendo cada feixe, de acordo com
a frenologia, a sede de uma sensação ou de uma faculdade, conclui
ela que a energia da sensação ou da faculdade é proporcional ao
desenvolvimento do órgão.
No feto a caixa óssea do crânio ainda não se acha formada;
inicialmente não passa de uma película, de uma membrana muito
flexível, que se modela, conseguintemente, nas partes salientes do
cérebro e lhes conserva a impressão, à medida que se endurece pelos
depósitos de fosfato de cálcio, que é a base dos ossos. Das saliências
do crânio a frenologia conclui o volume do órgão, e do volume do
órgão conclui o desenvolvimento da faculdade.
Tal é, em breves palavras, o princípio da ciência frenológica.
3 — Embora o nosso objetivo não seja desenvolvê-la aqui, ainda são
necessárias algumas palavras quanto ao modo de apreciação.
Enganar-se-ia redondamente quem acreditasse poder deduzir o
caráter absoluto de uma pessoa pela simples inspeção das saliências
do crânio. As faculdades se contrabalançam reciprocamente, se
equilibram, se corroboram ou se atenuam umas às outras, de tal
sorte que, para julgar um indivíduo, é preciso levar em conta o grau
de influência de cada uma, em razão do seu desenvolvimento, depois
fazer entrar na balança o temperamento, o meio, os hábitos e a
educação.
Suponhamos um homem com o órgão da destruição muito
pronunciado, com atrofia dos órgãos das faculdades morais e
afetivas: será miseravelmente feroz. Mas se à destruição aliar a
benevolência, a afeição, as faculdades intelectuais, a destruição
será neutralizada e terá o efeito de lhe dar mais energia; poderá ser
um homem muito honrado, ao passo que o observador superficial,
que o julgasse apenas pela inspeção do primeiro órgão, o tomaria
por um assassino.
Concebem-se, assim, todas as modificações de caráter que podem
resultar do concurso das outras faculdades, como a astúcia, a
circunspeção, a autoestima, a coragem, etc. A só sensação da cor
fará o colorista, mas não fará o pintor; só a da forma não fará o
desenhista; as duas reunidas apenas farão um bom copista se, ao
mesmo tempo, não houver o sentimento da idealidade ou da poesia,
e as faculdades reflexivas e comparativas. Basta isto para mostrar
que as observações frenológicas práticas apresentam grande
dificuldade e repousam sobre considerações filosóficas, que não
estão ao alcance de todos. Estabelecidas estas preliminares,
encaremos a coisa de outro ponto de vista.
4 — Dois sistemas radicalmente opostos dividiram, desde o início,
os frenologistas em materialistas e espiritualistas. Não admitindo
nada fora da matéria, dizem os primeiros que o pensamento é um
produto da substância cerebral; que o cérebro secreta o
pensamento, como as glândulas salivares secretam a saliva, como
o fígado secreta a bile. Ora, como a quantidade de secreção
geralmente é proporcional ao volume e à qualidade do órgão
secretor, dizem que a quantidade de pensamentos é proporcional ao
volume e à qualidade do cérebro; que cada parte do cérebro,
secretando uma ordem particular de pensamentos, os diversos
sentimentos e as diversas aptidões estão na razão direta do órgão
que os produz. Não refutaremos esta monstruosa doutrina, que faz
do homem uma máquina, sem responsabilidade por seus atos maus,
sem méritos pelas suas boas qualidades, e que apenas deve o seu
gênio e as suas virtudes ao acaso de sua organização. n Com
semelhante sistema toda punição é injusta e todos os crimes são
justificados.
Os espiritualistas dizem, ao contrário, que os órgãos não são a
causa das faculdades, mas os instrumentos da manifestação das
faculdades; que o pensamento é um atributo da alma e não do
cérebro; que a alma, possuindo por si mesma aptidões diversas, a
predominância de tal ou qual faculdade impele o desenvolvimento
do órgão correspondente, como o exercício de um braço induz o
desenvolvimento dos músculos desse braço. Daí se segue que o
desenvolvimento de um órgão é o efeito, e não a causa.
Assim, um homem não é poeta porque tenha o órgão da poesia: ele
tem o órgão da poesia porque é poeta, o que é muito diferente. Mas
aqui se apresenta uma outra dificuldade, ante a qual forçosamente
tropeçam os frenologistas: se for espiritualista, dirá que o poeta
tem o órgão da poesia porque é poeta; mas não nos diz por que ele
é poeta, porque o é, em vez de seu irmão, embora educado nas
mesmas condições; e, assim, em relação a todas as outras aptidões.
Só o Espiritismo o explica.
5 — Com efeito, se a alma fosse criada ao mesmo tempo que o corpo,
a do sábio do Instituto seria tão nova quanto a do selvagem. Então,
por que há na Terra selvagens e membros do Instituto? Direis que
depende do meio em que vivem. Seja. Dizei, então, por que homens
nascidos nos meios mais ingratos e mais refratários tornam-se
gênios, ao passo que outros, que recebem a Ciência desde a infância,
são imbecis?
Os fatos não provam à evidência que há homens instintivamente
bons ou maus, inteligentes ou estúpidos? É preciso, pois, que haja
na alma um germe. De onde vem ele? Pode dizer-se razoavelmente
que Deus os fez de todos os tipos, uns chegando sem esforço e
outros nem sequer com um trabalho obstinado? Seria isso justiça e
bondade? Evidentemente, não. Uma única solução é possível: a
preexistência da alma, sua anterioridade ao nascimento do corpo, o
desenvolvimento adquirido conforme o tempo vivido e as várias
migrações percorridas. Unindo-se ao corpo, a alma traz, pois, o que
adquiriu, suas qualidades boas ou más. Daí as predisposições
instintivas, de onde se pode dizer com certeza que aquele que
nasceu poeta já cultivou a poesia; que o que nasceu músico cultivou
a música; o que nasceu celerado, já foi mais celerado. Tal é a fonte
das faculdades inatas que produzem, nos órgãos afetados à sua
manifestação, um trabalho interior, molecular, que provoca o seu
desenvolvimento.
Isto nos conduz ao exame da importante questão da inferioridade
de certas raças e de sua perfectibilidade.
Antes de mais, admitamos como princípio que todas as faculdades,
todas as paixões, todos os sentimentos, todas as aptidões estão em
a Natureza; que são necessárias à harmonia geral, posto que Deus
nada faz de inútil; que o mal resulta do abuso, assim como da falta
de contrapeso e de equilíbrio entre as diversas faculdades. Porque
as faculdades não se desenvolvem simultaneamente, resulta que o
equilíbrio não pode se estabelecer senão com o tempo; que essa
falta de equilíbrio produz os homens imperfeitos, nos quais o mal
domina momentaneamente.
Tomemos para exemplo o instinto da destruição. Ele é necessário
porque na Natureza é preciso que tudo seja destruído para se
renovar. Por isso todas as espécies vivas são, ao mesmo tempo,
agentes destruidores e reprodutores. Mas o instinto de destruição
isolado é um instinto cego e brutal; impera entre os povos
primitivos, entre os selvagens cuja alma ainda não adquiriu
qualidades reflexivas próprias a regular a destruição em justa
medida. Numa única existência, poderá o selvagem adquirir as
qualidades que lhe faltam? Seja qual for a educação que lhe derdes
desde o berço, dele fareis um São Vicente de Paulo, um sábio, um
orador, um artista? Não; é materialmente impossível. E, no entanto,
o selvagem tem uma alma. Qual a sorte dessa alma depois da
morte? É punida pelos atos bárbaros que ninguém reprimiu? É
colocada em igualdade com o homem de bem? Um não é mais
racional que o outro. É, então, condenada a ficar eternamente num
estado misto, que nem é felicidade, nem infelicidade? Isto não seria
justo, porque se ela não é mais perfeita, não dependeu dela. Só
podeis sair deste dilema admitindo a possibilidade de progresso. Ora,
como pode a alma progredir, a não ser tendo novas existências? Dir-
se-á que poderá progredir como Espírito, sem voltar à Terra. Mas,
então, por que nós, civilizados, esclarecidos, nascemos na Europa e
não na Oceania? † em corpos brancos, ao invés de corpos negros?

Por que um ponto de partida tão diferente, se só se progride como


Espírito? Por que Deus nos liberou da longa rota percorrida pelos
selvagens? Seriam nossas almas de natureza diversa das suas? Por
que tentar torná-los cristãos? Se os tornais cristãos, é que os olhais
como vosso igual perante Deus. E se é vosso igual perante Deus, por
que Deus vos concede privilégios? Por mais que façais, não chegareis
a nenhuma solução, a menos que admitais para nós um progresso
anterior e para os selvagens um progresso ulterior. Se a alma do
selvagem deve progredir posteriormente, é que nos alcançará; se
progredimos anteriormente, é que fomos selvagens, pois se for
diferente o ponto de partida, não haverá mais justiça, e se Deus não
for justo, já não será Deus. Eis, pois, forçosamente, duas existências
extremas: a do selvagem e a do homem ultracivilizado; mas, entre
esses dois extremos, não haverá nenhum ponto intermediário?
Segui a escala dos povos e vereis que é uma corrente ininterrupta,
sem solução de continuidade.
Ainda uma vez, todos esses problemas são insolúveis sem a
pluralidade das existências. Dizei que os zelandeses † renascerão
num povo um pouco menos bárbaro, e assim por diante até a
civilização, e tudo se explica; que se, em vez de seguir os degraus
da escala os transpuser de um salto e chegar sem transição entre
nós, dará o hediondo espetáculo de um Dumollard, que para nós é
um monstro e que nada teria apresentado de anormal entre os
povos da África central, de onde talvez tenha saído. É assim que, ao
nos restringirmos numa existência única, tudo é obscuridade, tudo
é problema sem saída, ao passo que com a reencarnação, tudo é
claridade, tudo é solução.
6 — Voltemos à frenologia. Ela admite órgãos especiais para cada
faculdade e julgamos que esteja certa. Mas vamos mais longe.
Vimos que cada órgão cerebral é formado de um feixe de fibras;
pensamos que cada fibra corresponda a uma nuança de faculdade.
Isto não passa de uma hipótese, é verdade, mas que poderá abrir
caminho a novas observações. O nervo auditivo recebe os sons e os
transmite ao cérebro. Mas se o nervo é homogêneo, como percebe
sons tão variados? É, pois, licito admitir que cada fibra nervosa é
afetada por um som diferente, com o qual, de certo modo, vibra em
uníssono, como as cordas de uma harpa. Todos os tons estão na
Natureza. Imaginemos uma centena deles, do mais agudo ao mais
grave. O homem, que possuísse cem fibras correspondentes os
perceberia a todos; o que só possuísse a metade, não perceberia
senão a metade dos sons, pois os outros lhe escapariam e deles não
teria nenhuma consciência. Dá-se o mesmo com as cordas vocais
para exprimir os sons, com as fibras ópticas para a percepção das
diversas cores, com as fibras olfativas para registrar todos os
odores. O mesmo raciocínio pode aplicar-se aos órgãos de todos os
gêneros de percepções e de manifestações.
Todos os corpos animados encerram, incontestavelmente, o
princípio de todos os órgãos; uns, porém, em certos indivíduos, se
acham num estado de tal forma rudimentar que não são
susceptíveis de desenvolvimento; é exatamente como se não
existissem. Assim, nessas pessoas, não pode haver percepções
manifestações correspondentes a esses órgãos; numa palavra elas
são, para tais faculdades, como os cegos em relação à luz e os
surdos para a música.
O exame frenológico dos povos pouco inteligentes constata a
predominância das faculdades instintivas e a atrofia dos órgãos da
inteligência. Aquilo que é excepcional nos povos avançados é a regra
em certas raças. Por quê? Será uma injusta preferência? Não; é
sabedoria. A Natureza é sempre previdente, nada faz de inútil. Ora,
seria inútil dar um instrumento completo a quem não tenha os
meios para dele se servir. Os Espíritos selvagens são ainda crianças,
se assim podemos nos exprimir. Neles muitas faculdades ainda
estão latentes.
O que faria o Espírito de um hotentote † no corpo de um Arago?
Seria como alguém que nada sabe de música diante de um piano
excelente. Por uma razão inversa, o que faria o Espírito de Arago no
corpo de um hotentote? Seria como Liszt diante de um piano
contendo apenas algumas cordas desafinadas, das quais o seu
talento não conseguiria jamais tirar sons harmoniosos. Arago entre
os selvagens, com todo o seu gênio, será tão inteligente quanto o
pode ser um selvagem, e nada mais; jamais será, numa pele negra,
membro do Instituto. Seu Espírito induziria o desenvolvimento dos
órgãos? Órgãos fracos, sim; órgãos rudimentares, não. n A Natureza,
portanto, apropriou os corpos ao grau de desenvolvimento dos
Espíritos que neles devem encarnar-se; eis por que os corpos das
raças primitivas possuem menos cordas vibrantes que os das raças
adiantadas. Há, pois, no homem dois seres bem distintos: o Espírito,
ser pensante; o corpo, instrumento das manifestações do
pensamento, mais ou menos completo, mais ou menos rico em
cordas, conforme as necessidades.
7 — Chegamos agora à perfectibilidade das raças. Por assim dizer,
essa questão é resolvida pela precedente: apenas temos que deduzir
algumas consequências. Elas são perfectíveis para o Espírito que se
desenvolve através de suas várias migrações, em cada uma das
quais adquire pouco a pouco as faculdades que lhe faltam; mas, à
proporção que essas faculdades se ampliam, necessita de um
instrumento apropriado, como uma criança que cresce precisa de
roupas maiores. Ora, sendo insuficientes os corpos constituídos
para o seu estado primitivo, necessitam encarnar-se em melhores
condições, e assim por diante, à medida que progride.
Assim, as raças são perfectíveis pelo corpo, pelo cruzamento com
raças mais aperfeiçoadas, que trazem novos elementos, aí
enxertando, por assim dizer, os germes de novos órgãos. Esse
cruzamento se faz pelas migrações, as guerras e as conquistas. Sob
esse ponto de vista, há raças, como há famílias, que se abastardam,
se não misturarem sangues diversos. Então não se pode dizer que
haja raça primitiva pura, porquanto, sem cruzamento, essa raça
será sempre a mesma, pois seu estado de inferioridade se prende à
sua natureza; degenerará, em vez de progredir, o que resultará no
seu desaparecimento, ao cabo de certo tempo.
Diz-se a respeito dos negros escravos: “São seres tão brutos, tão
pouco inteligentes, que seria trabalho perdido querer instruí-los.
São uma raça inferior, incorrigível e profundamente incapaz.” A
teoria que acabamos de dar permite encará-los sob outra luz. Na
questão do aperfeiçoamento das raças, deve-se sempre levar em
conta dois elementos constitutivos do homem: o elemento
espiritual e o elemento corporal. É preciso conhecer um e outro, e
só o Espiritismo nos pode esclarecer sobre a natureza do elemento
espiritual, o mais importante, por ser o que pensa e que sobrevive,
enquanto o elemento corporal se destrói.
Assim, como organização física, os negros serão sempre os mesmos;
como Espíritos, é sem dúvida uma raça inferior, n isto é, primitiva;
são verdadeiras crianças às quais muito pouco se pode ensinar. Mas,
por meio de cuidados inteligentes é sempre possível modificar
certos hábitos, certas tendências, o que já constitui um progresso
que levarão para outra existência e que lhes permitirá, mais tarde,
tomar um envoltório em melhores condições. Trabalhando em sua
melhoria, trabalha-se menos pelo seu presente que pelo seu futuro
e, por pouco que se ganhe, para eles é sempre uma aquisição. Cada
progresso é um passo à frente, facilitando novos progressos.
Sob o mesmo envoltório, isto é, com os mesmos instrumentos de
manifestação do pensamento, as raças são perfectíveis somente em
estreitos limites, pelas razões que desenvolvemos. Eis por que a raça
negra, † enquanto raça negra, corporalmente falando, jamais
atingirá o nível das raças caucásicas; † mas, na qualidade de
Espírito, é outra coisa: pode tornar-se e tornar-se-á aquilo que
somos. Apenas necessitará de tempo e de melhores instrumentos.
Por isso as raças selvagens, mesmo em contato com a civilização,
permanecerão sempre selvagens; porém, à medida que as raças
civilizadas se espalham, as selvagens diminuem, até desaparecerem
completamente, como aconteceu com a raça dos Caraíbas, † dos
Guanches † e outras. Os corpos desapareceram; quanto aos
Espíritos, em que se transformaram? Muitos deles, talvez, se
encontrem entre nós.
Já dissemos e vamos repetir: o Espiritismo descortina novos
horizontes a todas as ciências. Quando os cientistas levarem em
consideração o elemento espiritual nos fenômenos da Natureza,
ficarão surpresos de ver que as dificuldades contra as quais
tropeçam a cada passo são removidas como por encanto. Mas é
provável que, para muitos, seja necessário renovar o hábito.
Quando voltarem, terão tido tempo de refletir e trarão novas ideias.
Acharão as coisas muito mudadas aqui na Terra; as ideias espíritas,
que hoje repelem, terão germinado por toda parte e serão a base de
todas as instituições sociais. Eles próprios serão educados e
sustentados nessa crença, que abrirá ao seu gênio novo campo para
o progresso da ciência. Enquanto esperam, e enquanto aqui ainda
se encontram, procuram a solução do problema: Por que a
autoridade de seu saber, e suas negativas, não detêm, sequer por
um instante, a marcha cada dia mais rápida das ideias novas?

[1] N. do T.: Vide Revista Espírita, julho de 1860: Frenologia e


Fisiognomonia.
[2] Vide a Revista Espírita de março de 1861: A cabeça de Garibaldi.
[3] Vide a Revista Espírita de outubro de 1861: Os Cretinos.
[4] N. do T.: Allan Kardec, por certo, está se referindo aos Espíritos
encarnados nas tribos incultas, selvagens, então existentes em
algumas regiões do planeta e que hoje, em contato com outros pólos
de civilização, vêm evoluindo progressivamente, como sói acontecer
com as demais raças, seja qual for a coloração de sua pele. [v. Nota
da Editora em: Nota explicativa]Citação parcial para estudo, de
acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

http://bibliadocaminho.com/ocaminho/tkardequiano/tkp/Op/OpP1C
11.htm
Obras póstumas — 1ª Parte (Édition Française) Capítulo 11

TEORIA DA BELEZA
Será a beleza coisa convencional e relativa a cada tipo? O que, para
certos povos, constitui a beleza, não será, para outros, horrenda
fealdade? Os negros se consideram mais belos que os brancos e vice-
versa. Nesse conflito de gostos, haverá uma beleza absoluta? Em
que consiste ela? Somos, realmente, mais belos do que os
hotentotes e os cafres? Por quê?

Esta questão que, à primeira vista, parece estranha ao objeto dos


nossos estudos, a eles, no entanto, se prende de modo direto e
entende com o futuro mesmo da Humanidade. Ela nos foi sugerida,
assim como a sua solução, pela seguinte passagem de um livro
muito interessante e muito instrutivo, intitulado: As Revoluções
Inevitáveis no Globo e na Humanidade, de Carlos Richard. n
O autor combate a opinião dos que sustentam a degenerescência
física do homem, desde os tempos primitivos refuta vitoriosamente
a crença na existência de uma primitiva raça de gigantes e
empreende provar que, do ponto de vista físico e do talhe, os
homens de hoje valem os antigos, se é que não os ultrapassam.
Tratando da beleza das formas, exprime-se ele assim, nas páginas
41 e seguintes:
“Pelo que toca à beleza do rosto, à graça da fisionomia, ao conjunto
que constitui a estética do corpo, ainda é mais fácil de comprovar-
se a melhoria operada.
“Basta, para isso, que se lance um olhar sobre os tipos que as
medalhas e as estátuas antigas nos transmitiram intactas através
dos séculos.
“A iconografia de Visconti e o museu do Conde de Clarol são, entre
muitas outras, duas fontes donde com facilidade se podem tirar
variados elementos para este interessante estudo.
“O que mais solicita a atenção nesse conjunto de figuras é a rudeza
dos traços, a animalidade da expressão, a crueza do olhar. O
observador sente, com involuntário frêmito, que tem diante de si
gente que o cortaria em pedaços, para dá-los de comer às suas
moreias, como o fazia Polion, rico apreciador de boas iguarias,
cidadão de Roma e familiar de Augusto.
“O primeiro Brutus (Lucius Junius), o que mandou cortar a cabeça a
seus filhos e assistiu a sangue-frio ao suplício de ambos, assemelha-
se a uma fera. Seu perfil sinistro tem da águia e do mocho o que
esses dois carniceiros do ar apresentam de mais feroz. Vendo-o,
ninguém pode duvidar de que haja merecido a ignominiosa honra
que a História lhe conferiu. Assim como matou os dois filhos,
também teria estrangulado a própria mãe, pelo mesmo motivo.

“O segundo Brutus (Marcus), que apunhalou César, seu pai adotivo,


precisamente na hora em que este mais contava com o seu
reconhecimento e o seu amor, lembra, pelos traços, um asno
fanático; não mostra, sequer, a beleza sinistra que o artista
descobre muitas vezes, essa energia extremada que impele ao
crime.
“Cícero, o orador brilhante, escritor espiritual profundo, que deixou
tão grande recordação da sua passagem por este mundo, tem um
rosto acachapado e vulgar, que certamente tornava muito menos
agradável vê-lo, do que ouvi-lo.
“Júlio César, o grande, o incomparável vencedor, o herói dos
massacres, que deu entrada no reino das sombras com um cortejo
de dois milhões de almas por ele previamente despachadas para lá,
era tão feio como o seu predecessor, mas de outro gênero. Seu rosto
magro e ossudo, posto sobre um pescoço comprido e enfeado por
um “gogó” saliente, parecia-se mais com um grande Gilles do que
com um grande guerreiro.
“Galba, Vespasiano, Nerva, Caracala, Alexandre Severo, Balbino, não
eram apenas feios, mas horrendos. É com dificuldade que, nesse
museu dos antigos tipos da nossa espécie, o observador logra
descobrir, aqui ou ali, algumas figuras que possam merecer um olhar
de simpatia.
“As de Cipião o Africano, de Pompeu, de Cômodo, de Heliogábulo, de
Antinoo o pequeno de Adriano, são desse reduzido número. Sem
serem belos, no sentido moderno da palavra, essas figuras são,
entretanto, regulares e de agradável aspecto.
“As mulheres não são melhor tratadas do que os homens e dão
ensejo às mesmas notas Lívia, filha de Augusto, tem o perfil
pontudo de uma fuinha; Agripina faz medo e Messalina, como que
para desconcertar a Cabanis e Lavater, parece uma gordanchuda
serviçal, mais amante de sopas suculentas, do que de outra coisa.
“Os gregos, é preciso dizê-lo, são, em geral, menos mal talhados que
os romanos. As figuras de Temístocles e de Milcíades, entre outros,
podem comparar-se aos mais belos tipos modernos. Mas Alcebíades,
o avô longínquo dos nossos Richilieu e dos nossos Lauzun, cujas
façanhas galantes, por si sós, enchem a crônica de Atenas, tinha,
como Messalina, muito pouco do físico que corresponderia às suas
atividades. Ao ver-lhe os traços solenes e a fronte grave, quem quer
que seja o tomaria antes por um jurisconsulto agarrado a um texto
de lei, do que pelo audacioso conquistador, que foi, de mulheres, que
se fazia exilar em Esparta, unicamente para enganar o pobre rei
Agis e, depois, vangloriar-se de ter sido amante de uma rainha.
“Sem embargo da pequena vantagem que, quanto a esse ponto, se
possa conceder aos gregos sobre os romanos, quem se der ao
trabalho de comparar esses velhos tipos com os do nosso tempo,
reconhecerá sem esforço que nesse sentido, como em todos os
outros, houve progresso. Apenas, convém não esquecer, nessa
comparação, que aqui se trata de classes privilegiadas, sempre mais
belas do que as outras e que, por conseguinte, os tipos modernos
que se hajam de contrapor aos antigos deverão ser escolhidos nos
salões e não nas pocilgas. É que a pobreza, ah! em todos os tempos
e sob todos os aspectos, jamais foi bela e não o é, precisamente,
para nos envergonhar e forçar-nos a um dia nos libertarmos dela.
“Não quero, pois, dizer, longe disso, que a fealdade haja desaparecido
inteiramente das nossas frontes e que a marca divina se acha afinal
posta em todas as máscaras que velam uma alma. Longe de mim
avançar uma afirmação que muito facilmente poderia ser
contestada por toda gente. A minha pretensão se limita a verificar
que, num período de dois mil anos, coisa tão pouca para uma
humanidade que tanto tem de viver, a fisionomia da espécie
melhorou de maneira já sensível.
“Creio, além disso, que as mais belas figuras da antiguidade são
inferiores às que podemos diariamente admirar em nossas reuniões
públicas, em nossas festas e até no trânsito das ruas. Se não fosse
o receio de ofender certas modéstias e também o de excitar certos
ciúmes, confirmaria a evidência do fato com algumas centenas de
exemplos conhecidos de todos, no mundo contemporâneo.
“Os oradores do passado enchem constantemente a boca com a
famosa Vênus de Médicis, que lhes parece o ideal da beleza feminina,
sem se aperceberem de que essa mesma Vênus passeia todos os
domingos pelas avenidas de Arles, em mais de cinquenta
exemplares, e poucas serão as nossas cidades, sobretudo no Sul, que
não possuam algumas…

“…Em tudo o que acabamos de dizer, limitamo-nos a comparar o


nosso tipo atual com o dos povos que nos precederam de apenas
alguns milhares de anos. Se, porém, remontarmos mais longe
através das idades, penetrando nas camadas terrestres onde
dormem os despojos das primeiras raças que habitaram o nosso
globo, a vantagem a nosso favor se tornará de tal modo sensível
que qualquer negação a esse propósito se desvanecerá por si
mesma.

“Sob aquela influência teológica que deteve Copérnico e Tycho


Brahe, que perseguiu Galileu e que, nestes tempos mais próximos,
obscureceu por um instante o gênio do próprio Cuvier, a Ciência
hesitava em sondar os mistérios das épocas antediluvianas. A
narrativa bíblica, admitida ao pé da letra, no mais estreito sentido,
parecia haver dito a última palavra acerca da nossa origem e dos
séculos que nos separam dela. Mas, a verdade, impiedosa nos seus
acréscimos, acabou rompendo a veste de ferro em que a queriam
aprisionar para sempre e pondo a nu formas até então ocultas.

“O homem que vivia, antes do dilúvio, em companhia dos


mastodontes, do urso das cavernas e de outros grandes mamíferos
hoje desaparecidos, o homem fóssil, numa palavra, por tão longo
tempo negado, foi encontrado afinal, ficando fora de dúvida a sua
existência. Os recentes trabalhos dos geólogos, particularmente os
de Boucher de Perthes, n de Filippi e de Lyell, permitem se apreciem
os caracteres físicos desse venerável avô do gênero humano. Ora, a
despeito dos contos imaginados pelos poetas sobre a beleza
originária; malgrado o respeito que lhe é devido, como chefe antigo
da nossa raça, a Ciência é obrigada a atestar que ele era de
prodigiosa fealdade.

“Seu ângulo facial não passava de 70°; suas mandíbulas, de


considerável volume, eram armadas de dentes longos e salientes;
tinha fugidia a fronte e as têmporas achatadas, o nariz
esborrachado, largas as narinas. Em resumo, esse venerável pai
devia assemelhar-se bem mais a um orangotango, do que aos seus
afastados filhos de hoje; a tal ponto que, se não lhe houvessem
achado ao lado as achas de sílex que fabricara e, em alguns casos,
animais que ainda apresentavam traços das feridas causadas por
essas armas informes, fora de duvidar-se do papel que ele
desempenhava na nossa filiação terrestre. Não somente sabia
fabricar achas de sílex, como também clavas e pontas de dardos, da
mesma matéria.

“A galantaria antidiluviana chegava mesmo a confeccionar


braceletes e colares de pedrinhas arredondadas para adorno,
naqueles tempos longínquos, dos braços e pescoços do sexo
encantador, que depois se tornou muito mais exigente, como todos
podem testemunhar.

“Não sei o que a respeito pensarão as elegantes dos nossos dias,


cujas espáduas cintilam de diamantes; quanto a mim, confesso-o,
não me posso forrar a uma emoção profunda, ao pensar nesse
primeiro esforço que o homem, mal diferenciado do bruto, fez para
agradar à sua companheira, pobre e nua como ele, no seio de uma
natureza inóspita, sobre a qual a sua raça há de reinar um dia. Oh!
distanciados avós! se já sabíeis amar, com as vossas faces
rudimentares, como poderíamos nós duvidar da vossa paternidade,
ante esse sinal divino da nossa espécie?
“É, pois, manifesto que aqueles humanos informes são nossos pais,
uma vez que nos deixaram traços da sua inteligência e do seu amor,
atributos essenciais que nos separam da besta. Podemos, então,
examinando-os atentamente, despojados das aluviões que os
cobrem, medir, como a compasso, o progresso físico que a nossa
espécie realizou, desde o seu aparecimento na Terra. Ora, esse
progresso, que, faz pouco, podia ser contestado pelo espírito de
sistema e pelos prejuízos de educação, assume tal evidência que não
há mais como deixar de o reconhecer e proclamar.

“Alguns milhares de anos podiam permitir dúvidas, algumas


centenas de séculos as dissipam irrevogavelmente…

“…Quão jovens e recentes somos em todas as coisas! Ainda


ignoramos o nosso lugar e o nosso caminho na imensidade do
Universo e ousamos negar progressos que, por falta de tempo, ainda
não puderam ser reconhecidos. Crianças que somos, tenhamos um
pouco de paciência e os séculos, aproximando-nos da meta, nos
revelarão esplendores que, no seu afastamento, escapam aos nossos
olhos apenas entreabertos.

“Mas, desde já, proclamemos em altas vozes, pois que a Ciência no-
lo permite, o fato capital e consolador do progresso lento, mas
seguro, do nosso tipo físico, rumo a esse ideal que os grandes
artistas entreviram, graças às inspirações que o céu lhes envia,
revelando-lhes seus segredos. O ideal não é produto ilusório da
imaginação, um sonho fugitivo destinado a dar, de tempos a
tempos, compensação às nossas misérias. É um fim assinado por
Deus aos nossos aperfeiçoamentos, fim infinito, porque só o infinito,
em todos os casos, pode satisfazer ao nosso espírito e oferecer-lhe
uma carreira digna dele.”
Destas judiciosas observações, resulta que a forma dos corpos se
modificou em sentido determinado e segundo uma lei, à medida que
o ser moral se desenvolveu; que a forma exterior está em relação
constante com o instinto e os apetites do ser moral; que, quanto
mais seus instintos se aproximam da animalidade, tanto mais a
forma igualmente dela se aproxima; enfim, que, à medida que os
instintos materiais se depuram e dão lugar a sentimentos morais,
o envoltório material, que já não se destina à satisfação de
necessidades grosseiras, toma formas cada vez menos pesadas,
mais delicadas, de harmonia com a elevação e a delicadeza das
ideias. A perfeição da forma é, assim, consequência da perfeição do
Espírito: donde se pode concluir que o ideal da forma há de ser a que
revestem os Espíritos em estado de pureza, a com que sonham os
poetas e os verdadeiros artistas, porque penetram, pelo
pensamento, nos mundos superiores.

Diz-se, de há muito, que o semblante é o espelho da alma. Esta


verdade, que se tornou axioma, explica o fato vulgar de
desaparecerem certas fealdades sob o reflexo das qualidades morais
do Espírito e o de, muito amiúde, se preferir uma pessoa feia, dotada
de eminentes qualidades, a outra que apenas possui a beleza
plástica. É que semelhante fealdade consiste unicamente em
irregularidades de forma, mas sem excluir a finura dos traços,
necessária à expressão dos sentimentos delicados.

Do que precede se pode concluir que a beleza real consiste na forma


que mais afastada se apresenta da animalidade e que melhor reflete
a superioridade intelectual e moral do Espírito, que é o ser principal.
Influindo o moral, como influi, sobre o físico, que ele apropria às
suas necessidades físicas e morais, segue-se: 1.°, que o tipo da
beleza consiste na forma mais própria à expressão das mais altas
qualidades morais e intelectuais; 2.°, que, à medida que o homem se
elevar moralmente, seu envoltório se irá avizinhando do ideal da
beleza, que é a beleza angélica.

O negro pode ser belo para o negro, como um gato é belo para um
gato; mas, não é belo em sentido absoluto, porque seus traços
grosseiros, seus lábios espessos acusam a materialidade dos
instintos; podem exprimir as paixões violentas, mas não podem
prestar-se a evidenciar os delicados matizes do sentimento, nem as
modulações de um espírito fino. n

Daí o podermos, sem fatuidade, creio, dizer-nos mais belos do que


os negros e os hotentotes. Mas, também pode ser que, para as
gerações futuras, melhoradas, sejamos o que são os hotentotes com
relação a nós. E quem sabe se, quando encontrarem os nossos
fósseis, elas não os tomarão pelos de alguma espécie de animais.

Lido que foi na Sociedade de Paris, este artigo se tornou objeto de


grande número de comunicações, apresentando todas as mesmas
conclusões. Transcreveremos apenas as duas seguintes, por serem
as mais desenvolvidas:
Paris, 4 de fevereiro de 1869. — (Médium: Sra. Malet)

Ponderastes com acerto que a fonte primária de toda bondade e de


toda inteligência é também a fonte de toda beleza. — O amor gera
a beleza de todas as coisas, sendo, ele próprio, a perfeição. — O
Espírito tem por dever adquirir essa perfeição, que é a sua essência
e o seu destino. Ele tem que se aproximar, por seu trabalho, da
inteligência soberana e da bondade infinita; tem, pois, também que
revestir a forma cada vez mais perfeita, que caracteriza os seres
perfeitos.
Se, nas vossas sociedades infelizes, no vosso globo ainda mal
equilibrado, a espécie humana esta tão longe dessa beleza física, é
porque a beleza moral ainda está em começo de desenvolvimento.
A conexão entre essas duas belezas é fato certo, lógico e do qual já
neste mundo a alma tem a intuição. Com efeito, sabeis todos quão
penoso é o aspecto de uma encantadora fisionomia, cujo encanto,
porém, o caráter desmente. Se ouvis falar de uma pessoa de mérito
comprovado, logo lhe atribuis os mais simpáticos traços e ficais
dolorosamente impressionados, quando verificais que a realidade
desmente as vossas previsões.
Que concluir daí, senão que, como todas as coisas que o futuro
guarda de reserva, a alma tem a presciência da beleza, à medida
que a Humanidade progride e se aproxima do seu tipo divino. Não
busqueis tirar, da aparente decadência em que se acha a raça mais
adiantada deste globo argumentos contrários a essa afirmação.
Sim, é verdade que a espécie parece degenerar, abastardar-se; sobre
vós se abatem as enfermidades antes da velhice; mesmo a infância
sofre as moléstias que habitualmente só se manifestam noutra
idade da vida. É isso, no entanto, simples transição. A vossa época
é má; ela acaba e gera: acaba um período doloroso e gera uma época
de regeneração física, de adiantamento moral, de progresso
intelectual. A nova raça, de que já falei, terá mais faculdades, mais
recursos para os serviços do espírito; será maior, mais forte, mais
bela. Desde o princípio, pôr-se-á de harmonia com as riquezas da
Criação que a vossa raça, descuidosa e fatigada, desdenha ou ignora.
Ter-lhe-eis feito grandes coisas, das quais ela aproveitará,
avançando pela estrada das descobertas e dos aperfeiçoamentos,
com um ardor febril cujo poder desconheceis.
Mais adiantados também em bondade, os vossos descendentes farão
desta infeliz terra o que não haveis sabido fazer: um mundo ditoso,
onde o pobre não será repelido, nem desprezado, mas socorrido por
vastas e liberais instituições. Já desponta a aurora dessas ideias;
chega-nos, por momentos, a claridade delas.
Amigos, eis afinal o dia em que a luz brilhará na Terra obscura e
miserável, em que a raça será boa e bela, de acordo com o grau de
adiantamento que haja alcançado, em que o sinal posto na fronte
do homem já não será o da reprovação, mas um sinal de alegria e
de esperança. Então, os Espíritos adiantados virão, em multidões,
tomar lugar entre os colonos deste globo; estarão em maioria e tudo
lhes cederá ao passo. Far-se-á a renovação e a face do globo será
mudada, porquanto essa raça será grande e poderosa e o momento
em que ela vier assinalará o começo dos tempos venturosos.
Pamphile n
II
(Paris, 4 de fevereiro de 1869.)
A beleza, do ponto de vista puramente humano, é uma questão
muito discutível e muito discutida. Para a apreciarmos bem,
precisamos estudá-la como amador desinteressado Aquele que
estiver sob o encantamento não pode ter voz no capítulo. Também
entra em linha de conta o gosto de cada um, nas apreciações que
se fazem.
Belo, realmente belo só é o que o é sempre e para todos; é essa
beleza eterna, infinita, é a manifestação divina em seus aspectos
incessantemente variados; é Deus em suas obras e nas suas leis! Eis
aí a única beleza absoluta. É a harmonia das harmonias e tem
direito ao título de absoluta, porque nada de mais belo se pode
conceber.
Quanto ao que se convencionou chamar belo e que é
verdadeiramente digno desse título, não deve ser considerado senão
como coisa essencialmente relativa, porquanto sempre se pode
conceber alguma coisa mais bela, mais perfeita.
Somente uma beleza existe e uma única perfeição: Deus. Fora dele,
tudo o que adornarmos com esses atributos não passa de pálido
reflexo do belo único, de um aspecto harmonioso das mil e uma
harmonias da Criação.
Há tantas harmonias, quantos objetos criados, quantas belezas
típicas, por conseguinte, determinando o ponto culminante da
perfeição que qualquer das subdivisões do elemento animado pode
alcançar. — A pedra é bela e bela de modos diversos. — Cada espécie
mineral tem suas harmonias e o elemento que reúne todas as
harmonias da espécie possui a maior soma de beleza que a espécie
possa alcançar.
A flor tem suas harmonias; também ela pode possuí-las todas ou
insuladamente e ser diferentemente bela, mas somente será bela
quando as harmonias que concorrem para a sua criação se acharem
harmonicamente fusionadas. — Dois tipos de beleza podem produzir,
por fusão, um ser híbrido, informe, de aspecto repulsivo. — Há então
cacofonia! Todas as vibrações, insuladamente, eram harmônicas,
mas a diferença de tonalidade entre elas produziu um desacordo, ao
encontrarem-se as ondas vibrantes; daí o monstro!
Descendo a escala criada, cada tipo animal dá lugar às mesmas
observações e a ferocidade, a manha, até a inveja poderão dar
origem a belezas especiais, se estiver sem mistura o princípio que
determina a forma. A harmonia, mesmo no mal, produz o belo. Há o
belo satânico e o belo angélico; a beleza enérgica e a beleza
resignada.
Cada sentimento, cada feixe de sentimentos, contanto que seja
harmônico, produz um particular tipo de beleza cujos aspectos
humanos são todos, não degenerescências, mas esboços. É, pois,
certo dizermos, não que somos mais belos, porém que nos
aproximamos cada vez mais da beleza real, à medida que nos
elevamos para a perfeição.
Todos os tipos se unem harmonicamente no perfeito. Daí o ser este
o belo absoluto. — Nós que progredimos possuímos apenas uma
beleza relativa, debilitada e combatida pelos elementos
desarmônicos da nossa natureza.
Lavater n
[1] Um vol. in-12, Paris Pagnerre; preço: 2 fr. 50; franco 2 fr. 75,
Livraria Espírita, 7, rue de Lille. — Les révolutions inévitables dans
le globe et l’humanité - Google Books
[2] Vejam-se as duas obras sábias de Boucher de Perthes: Do homem
antediluviano e de suas obras, brochura in-4, 2 fr. 25 [De l’Homme
antédiluvien et de ses œuvres - Google Books] e Dos utensílios de
pedra, brochura in-8, 1 fr. 50; franco, 1 fr. 75. Paris, Livraria Espírita
[Des Outils de pierre - Google Books] (Links externos)
[3] N. do T.: Este trecho de Obras Póstumas mereceu, em 2004, os
seguintes comentários de Zêus Wantuil:
“Allan Kardec, no seu tempo, estava muito imbuído das ideias
frenológicas de Gall e das da fisiognomonia de Lavater, então
aceitas por eminentes homens de Ciência, embora o próprio
Codificador não concordasse com vários aspectos apresentados por
essas assim chamadas ciências.
“A crença de que os traços da fisionomia revelam o caráter da
pessoa é muito antiga, pretendendo-se haver aparentes relações
entre o físico e o moral. Dos negros, Kardec sabia apenas o que
vários autores contavam a respeito dos selvagens africanos, sempre
reduzidos por aqueles ao embrutecimento quase total. Daí ao
Codificador parecer que “a Natureza apropriou os corpos ao grau de
adiantamento dos Espíritos que neles devem encarnar-se”,
considerando “que Arago, por exemplo, no corpo de um selvagem de
pele negra jamais será membro do Instituto.” [v. Nota da Editora
em: Nota explicativa]

“Naqueles tempos, aos irmãos negros não se concediam os meios e


a oportunidade de evoluir, de crescer mentalmente, achando-se
mesmo uma perda de tempo qualquer tentativa, nesse sentido.
Kardec reproduz na Revista Espírita de abril de 1862, à página 150
(edição da FEB), o que, à época, se dizia dos negros escravos, nestes
termos: “São seres tão brutos, tão pouco inteligentes, que seria
trabalho perdido querer instruí-los. É uma raça inferior, incorrigível
e profundamente incapaz.”
“É baseado nesses informes “científicos” da época que o Codificador
repete, com outras palavras, o que os pesquisadores europeus
escreviam quando de volta das viagens que faziam à África negra:
“Assim, como organização física, os negros serão sempre os
mesmos; como Espíritos, é sem dúvida uma raça inferior, isto é,
primitiva; são verdadeiras crianças às quais muito pouco se pode
ensinar.” (Revista Espírita, abril de 1862, págs. 150-151, edição da
FEB.)”
“Como sabemos, as Obras Póstumas foram organizadas por P-G.
Leymarie a partir de escritos deixados por Allan Kardec e entregues,
após a sua desencarnação, ao próprio Leymarie pela esposa do
Codificador. Entre os papéis achava-se aquele estudo sobre a “Teoria
da Beleza” esboçado por Kardec e que ainda não fora publicado,
possivelmente porque o autor pretendia modificá-lo,
principalmente diante da resposta que os Espíritos deram à
pergunta 217 de O Livro dos Espíritos. Nessa resposta está dito que
“uma pessoa excessivamente feia, quando nela habita um Espírito
bom, criterioso, humanitário, tem qualquer coisa que agrada, ao
passo que há rostos belíssimos que nenhuma impressão te causam,
que até chegam a inspirar-te repulsão. Poderias supor que somente
corpos bem moldados servem de envoltório aos mais perfeitos
Espíritos, quando certo é que todos os dias deparas com homens de
bem, sob um exterior disforme.”
“Kardec tinha opiniões pessoais sobre alguns assuntos, e não
negava. Na introdução de A Gênese, ele declara sem rebuços e com
a honestidade que lhe era peculiar, apresentar “algumas teorias que
devem ser consideradas simples opiniões pessoais, enquanto não
forem confirmadas ou contraditadas, a fim de que não pese sobre a
doutrina a responsabilidade delas.”
“Como vemos, o próprio Allan Kardec deu-nos a liberdade de aceitar
ou de recusar suas opiniões pessoais, numa abertura digna de um
verdadeiro missionário. Cabe, pois, ao leitor aceitar ou não as ideias
emitidas pela pessoa de Kardec a respeito do negro em seu trabalho
sobre a Teoria da Beleza.”
Finalmente, convém lembrar que Obras Póstumas não é um livro
fundamental da Doutrina Espírita.

[4] [v. Pamphile]


[5] [v. Lavater ]

https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/o-
espiritismo-precisa-se-afirmar-antirracista/
DIÁLOGOS DA FÉ
O espiritismo precisa se afirmar antirracista

Franklin Félix FRANKLIN FÉLIX 4 DE NOVEMBRO DE 2019


Foto: Tania Rego/Agência Brasil
FOTO: TANIA REGO/AGÊNCIA BRASIL
Temos a obrigação moral de lutar contra todas as formas de
opressão, em especial aquelas oriundas de raça e cor
“L.E. 803. Todos os seres humanos são iguais perante Deus? Sim,
todos tendem para o mesmo fim e Deus fez as suas leis para
todos/as. Dizeis frequentemente: “O Sol brilha para todos/as”, e com
isso dizeis uma verdade maior e mais geral do que pensais.” – O
Livro dos Espíritos, Allan Kardec
O mês de novembro é conhecido como o mês da Consciência Negra.
Por esse motivo, ativistas da causa negra e da luta antirracista
desenvolvem atividades sobre a temática, estimulando o debate em
todos os espaços, até mesmo dentro das comunidades de fé.
Embora esse não seja meu lugar de fala, já que tem muitos irmãos
e irmãs negros/as invisibilizados/as a partir de suas próprias
narrativas, penso ser importante debatermos – no movimento
espírita, inclusive – o combate ao racismo estrutural, a necessidade
de ações afirmativas para o povo negro e o estímulo da luta
antirracista.
Não basta apenas não sermos racistas, esse é um dever legal, moral
e cristão. Devemos ter uma postura antirracista, condenando,
combatendo e reprimindo, diariamente, todo tipo de preconceito e
segregação por raça e cor, dentro e fora das nossas religiões.
Após essas explicações, peço licença para, enquanto homem branco
e a partir das minhas vivências, trazer esse tema para o debate no
meio espírita, sabendo que há várias produções e contribuições de
pesquisadores/as e educadores/as negros/as na área do direito, da
religião e do bem viver, como do pastor Ronilso Pacheco, da Iyalorisa
Winnie Bueno e do Prof. Dr. Babalawô Ivanir dos Santos.
A única escolha que temos é a opção pelos pobres e marginalizados
Por uma educação antirracista
Não poderia iniciar o debate sem trazer à tona o triste episódio do
racismo de Allan Kardec – fruto de uma visão eurocêntrica da época
– e que deve ser debatido e combatido, para não reforçar ideias
obsoletas, preconceituosas e anticristãs ainda nos dias de hoje.
Sua postura racista se manifestou por meio de dois textos distintos.
Um artigo publicado na Revista Espírita em 1862 e outro, que
aparece em Obras Póstumas (portanto não foi publicado por Kardec
e talvez ele não o publicasse). O primeiro se chama “Frenologia
Espírita e a perfectibilidade da Raça Negra” e o outro “Teoria da
Beleza”. Eis o trecho, ao meu ver, mais problemático:
“Assim, como organização física, os negros serão sempre os
mesmos; como Espíritos, trata-se, sem dúvida, de uma raça inferior,
isto é, primitiva; são verdadeiras crianças às quais muito pouco se
pode ensinar. Mas, por meio de cuidados inteligentes é sempre
possível modificar certos hábitos, certas tendências, o que já
constitui um progresso que levarão para outra existência e que lhes
permitirá, mais tarde, tomar um envoltório em melhores condições.
Trabalhando em sua melhoria, trabalha-se menos pelo seu presente
que pelo seu futuro e, por pouco que se ganhe, para eles é sempre
uma aquisição. Cada progresso é um passo à frente, facilitando
novos progressos. (Allan Kardec, Perfectibilidade da Raça Negra.
Revista Espírita, abril de 1862)”
O espiritismo não é uma revelação sagrada, estanque, “imexível”.
Kardec, como qualquer um de nós, cometeu equívocos e
certamente, de onde ele está (no plano astral), deve se arrepender
de algumas posturas
Kardec não era racista, Kardec foi racista!
Nas palavras da amiga e educadora Dora Incontri: “Os livros de
Kardec não são como a Bíblia é para os cristãos – palavra de Deus,
revelada, que pode ser citada como fonte de autoridade absoluta. A
obra de Kardec é de pesquisa, em que encarnados e desencarnados
participaram da construção. Justamente uma das grandes
contribuições de Kardec foi dessacralizar a revelação. (…) O
conteúdo do Espiritismo está sujeito à revisão, reelaboração e
leituras históricas (compreendendo que algumas coisas que estão
nas obras de Kardec são próprias do século XIX, têm uma influência
da cultura europeia da época).”

Todo conhecimento é fruto de seu tempo e devemos olhar com


cuidado para todas as outras obras de Kardec, que pregou a
fraternidade entre todos/as, o amor ao próximo e a igualdade.
Esse racismo estrutural, fruto de uma sociedade patriarcal, branca,
heteronormativa, machista e preconceituosa, se manifesta,
também, em pequenas brincadeiras, em chacotas, em olhares.
O sociólogo Clóvis Moura e o antropólogo Kabengele Munanga
alertam que o racismo brasileiro é um fenômeno estrutural e
estruturante das relações socioculturais. Moura coloca no centro
do debate o racismo como elemento formador do Estado brasileiro.
O antropólogo brasileiro-congolês aborda a falsa democracia racial
e as particularidades do Brasil em comparação a outros países.

Nós, os/as religiosos/as, temos a obrigação moral de lutar contra


todas as formas de opressão, em especial aquelas oriundas de raça
e cor. É necessário levantar a discussão, estimular e contribuir para
a reflexão e promover ações propositivas para a superação do
racismo e do genocídio negro.
É fundamental o diálogo entre comunidades de fé e movimentos
sociais, a confecção de materiais educativos que abordem o
combate ao racismo e auxiliem na formação de irmãos e irmãs
sensíveis aos problemas sociais. O racismo não pode ser tirado do
debate no campo da fé.
Como lhe disse, enquanto estive na Terra, fiz o possível por ser uma
boa religiosa. Sabe o senhor que ninguém está livre de pecar. Meus
escravos provocavam rixas e contendas, e embora a fortuna me
proporcionasse vida calma, de quando em quando era necessário
aplicar disciplinas. Os feitores eram excessivamente escrupulosos e
eu não podia hesitar nas ordens de cada dia. Não raro algum negro
morria no tronco para escarmento geral; outras vezes, era obrigada
a vender as mães cativas, separando-as dos filhos, por questões de
harmonia doméstica. Nessas ocasiões, sentia morder-me a
consciência, mas confessava-me todos os meses, quando o padre
Amâncio visitava a fazenda e, depois da comunhão, estava livre
dessas faltas veniais, porque, recebendo a absolvição no
confessionário e ingerindo a sagrada partícula, estava novamente
em dia com todos os meus deveres para com o mundo e com Deus.
A essa altura, escandalizado com a exposição, comecei a doutrinar:
— Minha irmã, essa razão de paz espiritual era falsa. Os escravos
eram igualmente nossos irmãos. Perante o Pai Eterno, os filhinhos
dos servos são iguais aos dos senhores.
Ouvindo-me, ela bateu o pé autoritariamente e falou, irritada:
— Isso é que não! Escravo é escravo. Se assim não fora, a religião
nos ensinaria o contrário. Pois se havia cativos em casa de bispos,
quanto mais em nossas fazendas? Quem haveria de plantar a terra,
senão eles? E creia que sempre lhes concedi minhas senzalas como
verdadeira honra!… Em minha fazenda nunca vieram ao terreiro das
visitas, senão para cumprir minhas ordens. Padre Amâncio, nosso
virtuoso sacerdote, disse-me na confissão que os africanos são os
piores entes do mundo, nascidos exclusivamente para servirem a
Deus no cativeiro. Pensa, então, que me poderia encher de
escrúpulos no trato com essa espécie de criaturas? Não tenha
dúvida; os escravos são seres perversos, filhos de Satã! Chego a
admirar-me da paciência com que tolerei essa gente na Terra. E
devo declarar que saí quase inesperadamente do corpo, por me
haver chocado a determinação da Princesa, libertando esses
bandidos. Decorreram muitos anos, mas lembro-me perfeitamente.
Achava-me adoentada, havia muitos dias, e quando padre Amâncio
trouxe a nova da cidade, piorei de súbito. Como poderíamos ficar no
mundo, vendo esses criminosos em liberdade? Certo, eles desejariam
escravizar-nos por sua vez, e a servir a gente dessa laia, não seria
melhor morrer? Recordo que me confessei com dificuldade, recebi
as palavras de conforto do nosso sacerdote, mas parece que os
demônios são também africanos e viviam à espreita, sendo eu
obrigada a sofrer-lhes a presença até hoje…
— E quando veio? — perguntei.
— Em maio de 1888.
Experimentei estranha sensação de espanto.
A interlocutora fixou o olhar embaciado no horizonte e falou:
— É possível que meus sobrinhos tenham esquecido de pagar as
missas; entretanto, deixei a disposição em testamento.
Ia responder, convocando-lhe os raciocínios à zona superior,
fornecendo-lhe ideias novas de fraternidade e fé, mas Narcisa
aproximou-se e disse-me, bondosa:
— André, meu amigo, você esqueceu que estamos providenciando
alívio a doentes e perturbados? Que proveito lhe advém de
semelhantes informações? Os dementes falam de maneira
incessante, e quem os ouve, gastando interesse espiritual, pode não
estar menos louco.
NOSSO LAR
Introdução
Escravidão é a propriedade de uma pessoa por outra pessoa,
negando àquela todos os direitos. As pessoas escravizadas,
chamadas escravos, têm de trabalhar para seus donos, fazendo tudo
o que eles mandam. No passado, muitas sociedades tinham
escravos, comprados em mercados que vendiam as pessoas como se
fossem mercadoria de consumo. Hoje, quase todas as sociedades
consideram a escravidão um crime e acreditam que a liberdade
individual é um dos direitos humanos básicos.

Uma família brasileira do século XIX sendo servida por escravos


Jean-Baptiste Debret - Photo by Wilfredor of a painting under Public
Domain from 'Voyage Pittoresque et Hist (1829)

A vida dos escravos


Uma pessoa podia ser escravizada de várias maneiras. Alguns seres
humanos se tornavam escravos depois de ser capturados em
guerras ou em invasões. Outros viravam escravos por ter cometido
crimes ou por não poder pagar suas dívidas. Algumas pessoas eram
vendidas como escravas por seus parentes. Outras ainda eram
escravizadas porque seus pais também eram escravos — ou seja, já
nasciam escravas.
Diferentes sociedades tinham regras distintas para a escravidão.
Muitos escravos dos muçulmanos, por exemplo, deviam ser
liberados depois de seis anos. As pessoas escravizadas dos Estados
Unidos e do Brasil, contudo, permaneciam escravas para sempre.
Eles não podiam ter propriedades. Seus casamentos não eram legais
e suas famílias podiam ser desfeitas a qualquer momento, com a
venda de um membro da família de escravos a outros senhores.
Havia leis contra matar ou maltratar escravos, mas os governos
não se esforçavam para que fossem cumpridas.
Os escravos não recebiam nenhum tipo de pagamento, não podiam
escolher seu emprego nem podiam pedir demissão.
Os escravos faziam diferentes trabalhos. A maioria trabalhava em
fazendas. Muitos cozinhavam, limpavam, cuidavam de crianças e
faziam outros trabalhos caseiros para as famílias a que pertenciam.
Outros trabalhavam para que seus donos ganhassem dinheiro.
Alguns escravos trabalhavam em minas.
Primórdios da escravidão
Todo o mundo antigo conviveu com a escravidão. No Oriente Médio,
já havia leis regulamentando a escravidão em 1750 a.C. Há registros
de sua existência também na China antes de 1200 a.C. Na Índia, os
primeiros relatos dessa prática são de 100 a.C., aproximadamente.
Em Atenas, na Grécia antiga, cerca de um terço dos habitantes da
cidade eram escravos. Na Roma antiga, escravos trabalhavam em
fazendas, remavam em barcos de guerra, trabalhavam na
construção ou copiavam livros. Nos últimos tempos do Império
Romano, os escravos das fazendas se tornaram servos.
No início da Idade Média, por volta de 500 d.C., os europeus
transformaram muitos eslavos (povos do leste da Europa) em
escravos. Isso explica a origem da palavra “escravo” (que deriva de
“eslavo”). Aos poucos, os servos foram tomando o lugar dos escravos
em toda a Europa. Mas até o século XIX ainda havia escravos em
algumas partes da Europa.
Escravidão africana
A escravidão também existia na África em tempos antigos. O tráfico
de escravos africanos através do oceano Atlântico começou no
início do século XVI. Capitães de barcos europeus compravam
escravos de comerciantes africanos e os levavam para o Brasil e
para uma ilha do Caribe. As condições em um navio negreiro eram
terríveis, e muitos escravos morriam na viagem.
Aqueles que sobreviviam eram vendidos para senhores por toda a
América. Os proprietários punham os africanos para trabalhar em
minas ou em grandes fazendas que cultivavam tabaco ou cana-de-
açúcar. Os fazendeiros precisavam dos escravos africanos para
substituir os trabalhadores indígenas, que foram quase dizimados
porque não resistiam às doenças trazidas pelos europeus.
No Brasil, o tráfico começou na primeira metade do século XVI, com
o início da produção de açúcar, que exigia um grande contingente
de mão-de-obra. Oficialmente, porém, a metrópole portuguesa
passou a autorizar o ingresso no Brasil de escravos vindos da África
em 1559. Os escravos africanos tiveram importante participação na
mineração do ouro, em Minas Gerais, e nos engenhos de açúcar, no
Nordeste do país.
Na América do Norte, os primeiros escravos africanos chegaram à
colônia inglesa da Virgínia em 1619.
Fim da escravidão
Durante o século XVIII, algumas pessoas da Grã-Bretanha
começaram a achar que não estava certo escravizar pessoas e
deram início ao movimento abolicionista, um esforço para acabar
com a escravidão. A Grã-Bretanha e os Estados Unidos acabaram
com o comércio de escravos em 1845, quando o parlamento inglês
aprovou a chamada Lei Aberdeen. Essa lei concedia à Marinha Real
Britânica poderes de apreensão de qualquer navio envolvido no
tráfico negreiro em qualquer parte do mundo.
Nos Estados Unidos, as regiões do norte acabaram com a escravidão
no começo do século XIX, mas mesmo com a lei aprovada, as
imensas plantações de fumo e de algodão do sul do país
continuaram a contar com o trabalho escravo por mais vinte anos.
Em alguns estados, mais da metade da população era de escravos.
A escravidão só foi definitivamente encerrada nos Estados Unidos
após a Guerra de Secessão, que teve na escravidão um de seus
principais motivos. A Guerra de Secessão foi uma guerra civil entre
os estados do norte, que eram contra a escravidão, e os estados do
sul, que pretendiam mantê-la. Em 1865, o legislativo americano
elaborou a 13a emenda à Constituição dos Estados Unidos, que
proibia definitivamente a escravidão.
Nas Américas Central e do Sul, conforme as colônias conseguiam
sua independência, iam abolindo a escravidão. O Brasil foi o último
país do Ocidente a acabar com a escravidão. O tráfico negreiro foi
oficialmente extinto em 1850, com a Lei Eusébio de Queirós, por
pressão da Grã-Bretanha. Em 1871, foi promulgada a Lei do Ventre
Livre, que garantia a liberdade aos filhos de escravos e, em 1885, a
Lei dos Sexagenários, que libertou todos os escravos com mais de
60 anos de idade. Uma forte campanha abolicionista, estimulada por
intelectuais e políticos, como José do Patrocínio e Joaquim Nabuco,
havia se iniciado em 1878, enfraquecendo as bases do sistema
escravista. O fim definitivo da escravidão no Brasil só veio em 13 de
maio de 1888, quando a princesa Isabel, filha do imperador dom
Pedro II, assinou a Lei Áurea.
Na China, a escravidão só terminou em 1910. Algumas regiões da
África e do mundo islâmico continuaram praticando a escravidão
no século XX. A Arábia Saudita, por exemplo, só aboliu oficialmente
a escravidão em 1960.
Oficialmente a escravidão terminou, mas ainda no início do século
XXI há denúncias de que trabalhadores, atraídos por ofertas de
trabalho em regiões distantes, acabam vivendo em condições
semelhantes às dos escravos; fatos assim têm sido denunciados na
América Latina e em outras partes do mundo.
O tráfico negreiro foi responsável pelo desembarque de quase cinco
milhões de africanos no Brasil durante três séculos de existência.
Ao longo dos 300 anos de existência do tráfico negreiro, cerca de 4,8
milhões de africanos|4| foram trazidos para o Brasil, o que significa
que nosso país foi o que mais recebeu africanos para serem
escravizados ao longo de três séculos em todo o continente americano.

O trabalho dos escravos africanos, a princípio, foi utilizado para


atender as demandas da produção de açúcar nos engenhos. A vida
de um escravo era dura e era marcada pela violência dos senhores
e das autoridades coloniais. A jornada diária de trabalho poderia se
estender por até 20 horas por dia e o trabalho no engenho era mais
pesado e perigoso que trabalhar nas plantações.

uadro de Jean-Baptiste Debret representando o açoite de um


escravo. (Foto: Wikipedia

http://bibliadocaminho.com/ocaminho/TXavieriano/Livros/Bcm/Bcm
05.htm
Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho — Humberto de Campos

5 Os escravos

1 Certo dia, preparava-se, numa das Esferas superiores do Infinito,


o encontro de Ismael † com Aquele que será sempre caminho,
verdade e vida.
Por toda a parte, abriam-se flores evanescentes, oriundas de um
solo de radiosas neblinas. Luzes policrômicas enfeitavam todas as
paisagens celestes, que se perdiam na incomensurável extensão dos
espaços felizes.
Rodeado dos seres santificados e venturosos que constituem a
coorte luminosa de seus mensageiros abnegados, recebeu o Senhor,
com a sua complacência, o emissário dileto do seu amor nas terras
do Cruzeiro.
2 Ismael, porém não trazia no coração o sinal da alegria. Seus traços
fisionômicos deixavam mesmo transparecer angelical amargura.
— “Senhor — exclama ele — sinto dificuldades para fazer prevaleçam
os vossos desígnios nos territórios onde pairam as vossas bênçãos
dulcificantes. A civilização, que ali se inicia sob os imperativos da
vossa vontade compassiva e misericordiosa, acaba de ser
contaminada por lamentáveis acontecimentos. Os donatários dos
imensos latifúndios de Santa Cruz fizeram-se à vela, escravizando
os negros indefesos da Luanda, da Guiné e de Angola. Infelizmente,
os pobres cativos, miseráveis e desditosos, chegam à pátria do vosso
Evangelho como se fossem animais bravios e selvagens sem coração
e sem consciência.”
O mensageiro, porém, não conseguiu continuar. Soluços divinos lhe
rebentaram do peito opresso, evocando tão amargas lembranças…
3 O Divino Mestre, porém, cingindo-o ao seu coração augusto e
magnânimo, explicou brandamente:
— “Ismael, asserena teu mundo íntimo no cumprimento dos
sagrados deveres que te foram confiados. Bem sabes que os homens
têm a sua responsabilidade pessoal nos feitos que realizam em suas
existências isoladas e coletivas. Mas, se não podemos tolher-lhes aí
a liberdade, também não podemos esquecer que existe o instituto
imortal da justiça divina, onde cada qual receberá de conformidade
com os seus atos. 4 Havia eu determinado que a Terra do cruzeiro
se povoasse de raças humildes do planeta buscando-se a
colaboração dos povos sofredores das regiões africanas; todavia,
para que essa cooperação fosse efetivada sem o atrito das armas,
aproximei Portugal daquelas raças sofredoras, sem violências de
qualquer natureza. A colaboração africana deveria, pois, verificar-
se sem abalos perniciosos, no capítulo das minhas amorosas
determinações. 5 O homem branco da Europa, entretanto, está
prejudicado por uma educação espiritual condenável e deficiente.
Desejando entregar-se ao prazer fictício dos sentidos, procura
eximir-se aos trabalhos pesados da agricultura, alegando o pretexto
dos climas considerados impiedosos. 6 Eles terão a liberdade de
humilhar os seus irmãos, em face da grande lei do arbítrio
independente, embora limitado, instituído por Deus para reger a
vida de todas as criaturas, dentro dos sagrados imperativos da
responsabilidade individual, mas, os que praticarem o nefando
comércio sofrerão, igualmente, o mesmo martírio, nos dias do
futuro, quando forem também vendidos e flagelados em identidade
de circunstâncias. 7 Na sua sede nociva de gozo, os homens brancos
ainda não perceberam que a evolução se processa pela prática do
bem e que todo o determinismo de Nosso Pai deve assinalar-se pelo
“amai o próximo como a vós mesmos”. ( † ) Ignoram
voluntariamente que o mal gera outros males com um largo cortejo
de sofrimentos. 8 Contudo, através dessas linhas tortuosas,
impostas pela vontade livre das criaturas humanas, operarei com a
minha misericórdia. Colocarei a minha luz sobre essas sombras,
amenizando tão dolorosas crueldades. Prossegue com as tuas
renúncias em favor do Evangelho e confia na vitória da Providência
Divina.”
9 Calara-se a voz de Jesus por instantes; mais confortado, Ismael
continuou:
— “Senhor não teríeis um meio direto de orientar a política
dominante, no sentido de se purificar o ambiente moral da Terra de
Santa Cruz?”
10 Ao que o Divino Mestre ponderou sabiamente:
— “Não nos compete cercear os atos e intenções dos nossos
semelhantes e sim cuidar intensamente de nós mesmos,
considerando que cada um será justiçado na pauta de suas próprias
obras. 11 Infelizmente, Portugal, que representa um agrupamento
de espíritos trabalhadores e dedicados, remanescente dos antigos
fenícios, não soube receber as facilidades que a misericórdia do
Supremo Senhor do Universo lhe outorgou nestes últimos anos. Até
aos meus ouvidos têm chegado as súplicas dolorosas das raças
flageladas por sua prepotência e desmesuradas ambições. 12 Na
velha Península já não existe o povo mais pobre e mais laborioso da
Europa. O luxo das conquistas lhe amoleceu as fibras criadoras e
todas as suas preciosas energias e qualidades de trabalho vêm
esmorecendo sob o amontoado de riquezas fabulosas. 13
Entretanto, o tempo é o grande mestre de todos os homens e de
todos os povos, e, se não nos é possível cercear o arbítrio livre das
almas, poderemos mudar o curso dos acontecimentos, a fim de que
o povo lusitano aprenda, na dor e na miséria, as lições sagradas da
experiência e da vida.”
14 Ismael retornou à luta, cheio de fervorosa coragem e os
acontecimentos foram modificados.
Os donatários cruéis sofreram os mais tristes reveses no solo do
Brasil.
Os Tupinambás e os Tupiniquins, que se localizavam na Bahia e
haviam recebido Cabral com as melhores expressões de fraternidade
reagiram contra os colonizadores, transformados, para eles, em
desalmados verdugos. Lutas cruentas desencadearam contra os
brancos, que lhes depravavam os costumes.
15 A luxuosa expedição de João de Barros, † que se destinava ao
Maranhão, mas que saíra de Lisboa com instruções secretas para
conquistar o ouro dos Incas, no Peru, dispersou-se no mar, sofrendo
os seus componentes infinitos martírios e resgatando com elevados
tributos de sofrimento as suas criminosas intenções, na condenável
aventura.
16 Os tesouros das Índias levaram o povo português à decadência e
à miséria, pela disseminação dos artifícios do luxo e pelas
campanhas abomináveis da conquista, cheias de crueldade e de
sangue. A sede de ouro acarretava o abandono de todos os campos.
17 A Casa de Avis, † sob cujo reinado se iniciou o tráfico hediondo
dos homens livres, desapareceu para sempre, depois de sucessivos
desastres. Após a derrota de D. Sebastião † em Alcácer-Quibir, † o
trono caiu nas mãos do Cardeal D. Henrique † e, em 1580, Portugal,
exânime, entrega-se ao domínio da Espanha, acentuando-se a sua
decadência com Filipe II, † o mais fanático e o mais cruel de todos
os príncipes da Europa do século XVI.
18 Na formação da Pátria do Evangelho, o homem branco alterara
os fatores com as suas taras estratificadas e com a sua vontade
independente, Jesus, no entanto, alterou os acontecimentos com o
seu poder magnânimo e misericordioso.
19 Os filhos da África foram humilhados e abatidos, no solo onde
floresciam as suas benções renovadoras e santificantes; o Senhor,
porém, lhes sustentou o coração oprimido, iluminando o calvário
dos seus indizíveis padecimentos com a lâmpada suave do seu
inesgotável amor. Através das linhas tortuosas dos homens,
realizou Jesus os seus grandes e benditos objetivos, porque 20 os
negros das costas africanas foram uma das pedras angulares do
monumento evangélico do Coração do mundo. Sobre os seus ombros
flagelados, carrearam-se quase todos os elementos materiais para
a organização física do Brasil e, do manancial de humildade de seus
corações resignados e tristes, nasceram lições comovedoras,
imunizando todos os espíritos contra os excessos do imperialismo e
do orgulho injustificáveis das outras nações do planeta, dotando-se
a alma brasileira dos mais belos sentimentos de fraternidade, de
ternura e de perdão.

.Humberto de Camp
http://bibliadocaminho.com/ocaminho/TXavieriano/Livros/Bcm/Bcm
07.htm
Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho — Humberto de Campos
7 Os negros do Brasil

1 Sob o domínio espanhol, Portugal sofria todas as consequências


da sua desídia e imprevidência. A Espanha guardava o cetro de um
império resplandecente e maravilhoso. Suas frotas poderosas
cobriam as águas de todos os mares, carregando os tesouros do
México e do Peru, do Brasil e das Índias, os quais faziam afluir para
Madrid a mais elevada percentagem de ouro do mundo inteiro.
2 Até hoje, comenta-se com espírito a célebre frase [“Gostaria de
ver a cláusula do testamento de Adão que me afastou da partilha
do mundo”] de Francisco I, † exprimindo o seu desejo de conhecer
a disposição testamentária de Adão, que dividira o mundo entre
espanhóis e portugueses e o deserdara [v. O testamento de Adão
rasgado em Tordesilhas].
3 A esse tempo, a terra do Evangelho não é mais conhecida pelo
nome suave de Santa-Cruz. À força das expressões comuns, dos
negociantes que vinham buscar as suas fartas provisões de pau-
brasil, seu nome se prende agora ao privilégio das suas madeiras. Os
missionários da colônia protestaram contra a inovação adotada;
mas as falanges do Infinito sancionaram a novidade imposta pelo
espírito geral, considerando as terríveis crueldades cometidas na
baía de Guanabara, em nome do mais caricioso dos símbolos. A
sanção de Ismael à escolha da nova expressão objetivava resguardar
a pátria do Cruzeiro dos perigos da Inquisição, que na Europa
fomentava os mais hediondos movimentos em nome do Senhor.
4 A situação, no Brasil, sob todos os pontos de vista, como a da
metrópole portuguesa, era dolorosa e cruel, embora governado por
funcionário de Lisboa, segundo as combinações estipuladas na
Península.
A raça aborígene e a raça negra sofriam toda sorte de humilhações
e vexames. Os índios procuravam o Norte, em busca dos seus
amigos franceses, que, expulsos do Rio por Mem de Sá, †
concentravam suas atividades no Maranhão, onde pretendiam
fundar a França Equinocial, preocupando seriamente as autoridades
da colônia. A situação geral era a mais deplorável. Ismael e seus
abnegados colaboradores sofrem intensamente em seus trabalhos
árduos e quase improfícuos, no sentido de organizar o instituto
sagrado da família nas florestas inóspitas onde os brancos não
dispensavam consideração às leis humanas ou divinas, na condição
de superioridade que se atribuíam.
5 Aos céus ascendem os aflitivos apelos dos obreiros invisíveis:
— “Senhor! — exclama Ismael † nas suas preocupações — estendei
até nós o manto da vossa infinita misericórdia. Enviai-nos o socorro
das vossas bênçãos divinas, para que as nossas vozes sejam ouvidas
pelos espíritos que aqui procuram edificar uma pátria nova. Nosso
coração se comove ante os quadros deploráveis que se deparam às
nossas vistas. Por toda parte, veem-se os infortúnios das raças
flageladas e sofredoras.
6 Uma voz suave e meiga lhe responde do Infinito:
— “Ismael, nas tuas obrigações e trabalhos, considera que a dor é a
eterna lapidária de todos os espíritos e que o Nosso Pai não concede
aos filhos fardo superior às suas forças, nas lutas evolutivas. Abriga
aí, na sagrada extensão dos territórios do país do Evangelho, todos
os infortunados e todos os infelizes. No meu coração ecoam as
súplicas dolorosas de todos os seres sofredores, que se agrupam nas
regiões inferiores dos espaços próximos da Terra. Agasalha-os no
solo bendito que recebe as irradiações do símbolo estrelado,
alimentando-os com o pão substancioso dos sofrimentos
depuradores e das lágrimas que lavam todas as manchas da alma.
Leva a essas coletividades espirituais, sinceramente arrependidas
do seu passado obscuro e delituoso a tua bandeira de paz e de
esperança; ensina-lhes a ler os preceitos da minha doutrina, nos
códigos dourados do sofrimento.”
7 Ismael sente que luzes compassivas e misericordiosas lhe visitam
o coração e parte com os seus companheiros, em busca dos Planos
da erraticidade mais próximos da Terra. Aí se encontram antigos
batalhadores das cruzadas, senhores feudais da Idade Média, padres
e inquisidores, Espíritos rebeldes e revoltados, perdidos nos
caminhos cheios da treva das suas consciências polutas. O
emissário do Senhor desdobra nessas grutas do sofrimento a sua
bandeira de luz, como uma estrela d’alva, assinalando o fim de
profunda noite.
8 — “Irmãos — exorta ele comovido — até ao coração do Divino
Mestre chegaram os vossos apelos de socorro espiritual. Da sua
esfera de brandos arrebóis cristalinos, ordena a sua misericórdia que
as vossas lágrimas sejam enxugadas para sempre. Um ensejo novo
de trabalho se apresenta para a redenção das vossas almas,
desviadas nos desfiladeiros do remorso e do crime. 9 Há uma terra
nova, onde Jesus implantará o seu Evangelho de caridade, de perdão
e de amor indefiníveis. Nos séculos futuros, essa pátria generosa
será a terra da promissão para todos os infelizes. Dos seus celeiros
inesgotáveis sairá o pão de luz para todas as almas; mas, preciso se
faz nos voltemos para o seu solo virgem e exuberante a construir-
lhe as bases com os nossos sacrifícios e devotamentos. 10 Ali
encontrareis, nos carreiros aspérrimos da dor que depura e
santifica, a porta estreita para o céu de que nos fala Jesus nas suas
lições divinas. Aprendereis, no livro dos padecimentos salvadores, a
gravar na consciência os sagrados parágrafos da virtude e do amor,
na epopeia de luz da solidariedade, na expiação e no sofrimento.
Sabei que todas as aquisições da filosofia e da ciência terrestres são
flores sem perfume, ou luzes sem calor e sem vida, quando não se
tocam das claridades do sentimento. Aqueles de vós que desejarem
o supremo caminho venham para a nossa oficina de amor, de
humildade e redenção.”
11 E aí, nas estradas escuras e tristes da angústia espiritual, viu-
se, então, que falanges imensas, ansiosas e extasiadas, avançavam
com fervorosa coragem para as clareiras abertas naquela mansão
de dor e de sombras. Todos queriam, no seu testemunho de
agradecimento, beijar a bandeira sacrossanta do mensageiro divino.
O seu emblema — Deus, Cristo e Caridade — refulgia agora nas
penumbras, iluminando todas as coisas e clarificando todos os
caminhos. As esperanças reunidas, daqueles seres infortunados e
sofredores, faziam a vibração de luz que então aclarava todas as
sendas e abria todos os entendimentos para a compreensão das
finalidades, das determinações sublimes do Alto.
12 Essas entidades evolvidas pela ciência, mas pobres de humildade
e de amor, ouviram os apelos de Ismael e vieram construir as bases
da terra do Cruzeiro. Foram elas que abriram os caminhos da terra
virgem, sustentando nos ombros feridos o peso de todos os
trabalhos. Nesse filão de claridades interiores, buscaram as pérolas
da humildade e do sentimento, com que se apresentaram mais tarde
a Jesus, no dia, que lhes raiou, de redenção e de glória.
13 Foi por isso que os negros do Brasil se incorporaram à raça nova,
constituindo um dos baluartes da nacionalidade, em todos os
tempos. Com as suas abnegações santificantes e os seus prantos
abençoados, fizeram brotar as alvoradas do trabalho depois das
noites primitivas. Na pátria do Evangelho têm eles sido estadistas,
médicos, artistas, poetas e escritores, representando as
personalidades mais eminentes. Em nenhuma outra parte do
planeta alcançaram, ainda, a elevada e justa posição que lhes
compete junto das outras raças do orbe, como acontece no Brasil,
onde vivem nos ambientes da mais pura fraternidade. 14 É que o
Senhor lhes assinalou o papel na formação da terra do Evangelho e
foi por esse motivo que eles deram, desde o princípio de sua
localização no país, os mais extraordinários exemplos de sacrifício
à raça branca. Todos os grandes sentimentos que nobilitam as
almas humanas eles os demonstraram e foi ainda o coração deles,
dedicado ao ideal da solidariedade humana, que ensinou aos
europeus a lição do trabalho e da obediência, na comuna fraterna
dos Palmares, † onde não havia nem ricos nem pobres e onde
resistiram com o seu esforço e a sua perseverança, por mais de
setenta anos, escrevendo, com a morte pela liberdade, o mais belo
poema dos seus martírios nas terras americanas.
15 Por toda parte, no país, há um ensinamento caricioso do seu
resignado heroísmo e foi por essa razão que a terra brasileira soube
reconhecer-lhes as abnegações santificadas, incorporando-os
definitivamente à grande família, de cuja direção muitas vezes
participam sem jamais se esquecer o Brasil de que os seus maiores
filhos se criaram para a grandeza da pátria, no generoso seio
africano.

.Humberto de Campos
(.Irmão X)

http://bibliadocaminho.com/ocaminho/TXavieriano/Livros/Bcm/Bcm
26.htm
Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho — Humberto de Campos

26 O movimento abolicionista
1 O Brasil prosseguia na sua marcha evolutiva sob a carinhosa
direção de D. Pedro II. †

Estadistas notáveis pelo seu amor à causa pública assistiam o


imperador em seus nobres afazeres, caracterizando as suas atitudes
e atos com o mais sagrado interesse pelo bem coletivo.
Haviam terminado os movimentos bélicos da guerra com o Paraguai
† e o país voltava a respirar os ares da esperança. Então nessa
época, e nos anos posteriores, todos os espíritos cultos da pátria se
levantaram com desassombro, para amparar o movimento
abolicionista.
2 Os gênios tutelares do mundo espiritual inspiravam a todos os
políticos e escritores e se havia fazendeiros constituindo o mais
sério sustentáculo da escravidão, dentro das classes conservadoras
inúmeros outros elementos existiam, como no Amazonas e no
Ceará, que alforriavam os seus servidores, nos mais belos gestos de
filantropia.
3 As falanges de Ismael † contavam colaboradores decididos no
movimento libertador, quais Castro Alves, † Luiz Gama, † Rio
Branco † e Patrocínio. † A própria princesa Isabel, † cujas tradições
de nobreza e bondade jamais serão esquecidas no coração do Brasil,
viera ao mundo com a sua tarefa definida no trabalho abençoado
da abolição. Os Espíritos em prova no cárcere da carne têm a sua
bagagem de sofrimentos expiatórios e depuradores, mas têm
igualmente a possibilidade necessária para o cumprimento de
deveres meritórios, aos olhos misericordiosos do Altíssimo.
4 Todos os ânimos se inflamavam ao contato das grandes ideias de
liberdade. Publicações e discursos, com a amplitude que a opinião
da crítica conquistara nos tempos do Império, exortavam as classes
conservadoras ao movimento de emancipação de todos os cativos.
5 D. Pedro se reconfortava com essas doutrinações das massas, no
seu liberalismo e na sua bondade de filósofo. Desejaria antecipar-se
ao movimento ideológico, decretando a liberdade plena de todos os
escravos; mas, os terríveis exemplos da guerra civil que
ensanguentara os Estados Unidas da América do Norte durante
longos anos, na campanha abolicionista, faziam-no recear a luta
das multidões apaixonadas e delinquentes. Foi, pois, com especial
agrado, que acompanhou a deliberação de sua filha, de sancionar, a
28 de Setembro de 1871, a Lei do Ventre Livre que garantia no Brasil
a extinção gradual do cativeiro, mediante processos pacíficos. Seu
grande coração, no âmbito das suas impressões divinatórias, sentia
que a abolição † se faria nos derradeiros anos do seu governo. 6
Com efeito, a Lei do Ventre Livre † não bastara aos espíritos
exaltados no sentimento de amor pela abolição completa. Quase
todas as energias intelectuais da nação se encontravam
mobilizadas, a serviço dos escravos sofredores. O ambiente geral era
de perspectiva angustiosa e de profundas transições na ordem
política. A ideia republicana se consolidava cada vez mais no
espírito da nacionalidade inteira. O bondoso imperador nunca lhe
cortara os voos prodigiosos no coração das massas populares; aliás,
alimentava-os com os seus alevantados exemplos de democracia.
7 Nos espaços, Ismael e suas falanges procuravam orientar os
movimentos republicanos e abolicionistas, com alta serenidade e
esclarecida prudência, no propósito de evitar os abomináveis
derramamentos de sangue por desvarios fratricidas.
A esse tempo, já Ismael possuía a sua célula construtiva da obra do
Evangelho no Brasil, célula que hoje projeta a sua luz de dentro da
Federação Espírita Brasileira, † e de onde, espiritualmente, junto
dos seus companheiros desvelados, procurava unir os homens na
grandiosa tarefa da evangelização. 8 Esperando o ensejo de se fixar
na instituição venerável, que lhe guarda as tradições e continua o
seu santificado labor ao lado das criaturas, a célula referida
permanecia com Antônio Luiz Saião † e Bittencourt Sampaio, desde
24 de Setembro de 1885, até que Bezerra de Menezes, com os seus
grandes sacrifícios e indescritíveis devotamentos, eliminasse as
mais sérias divergências e aplainasse obstáculos, utilizando as suas
inesgotáveis reservas de paciência e de humildade e consolidando a
Federação para que se formasse uma organização federativa. 9
Enquanto, lá fora, muitos companheiros da caravana espiritual se
deixavam levar por inovações e experiências estranhas aos
preceitos evangélicos, o Grupo Ismael † esperava uma época de
compreensão mais elevada e harmoniosa para o desdobramento de
suas preciosas atividades. Todavia, nas lutas pesadas do mundo,
Bezerra de Menezes era o impávido desbravador, no seu apostolado
de preparação, fraternizando com todos os Grupos para conduzi-
los, suavemente, à sombra da bandeira do grande emissário de
Jesus.
10 Ismael trazia então a sua atenção carinhosa voltada para a
solução do problema abolicionista, que deveria resolver-se dentro
da harmonia de todos os interesses e estreme do sangue das guerras
civis. Confiando ao Senhor as suas expectativas, falou-lhe o Mestre:
— “Ismael, o sonho da liberdade de todos os cativos deverá
concretizar-se agora, sem perda de tempo. Prepararás todos os
corações, a fim de que as nuvens sanguinolentas não manchem o
solo abençoado da região do Cruzeiro. Todos os emissários celestes
deverão conjugar esforços nesse propósito e, em breve, teremos a
emancipação de todos os que sofrem os duros trabalhos do cativeiro
na terra bendita do Brasil.”
11 O grande enviado redobrou suas atividades nos bastidores da
política administrativa.
A estatística oficial de 1887 acusava a existência de mais de
setecentos e vinte mil escravos em todo o país. † O ambiente geral
era de apreensão em todas as classes, ante a expectativa da
promulgação da lei que extinguiria a escravidão para sempre, o que
constituiria duro golpe na fortuna pública do Brasil. Mas, Ismael
articula do Alto os elementos necessários à grande vitória. 12 O
generoso imperador é afastado do trono, nos primeiros meses de
1888, sob a influência dos mentores invisíveis da pátria, voltando a
Regência à princesa Isabel, que já havia sancionado a lei benéfica de
1871. Sob a inspiração do grande mensageiro do Divino Mestre, a
princesa imperial encarrega o senador João Alfredo de organizar
novo ministério, que veio a compor-se de espíritos nobilíssimos do
tempo. 13 Os abolicionistas compreendem que lhes chegara a
possibilidade maravilhosa e a 13 de Maio de 1888 é apresentada à
regente a proposta de lei para imediata extinção do cativeiro, lei †
que D. Isabel, † cercada de entidades angélicas e misericordiosas
sanciona sem hesitar, com a nobre serenidade do seu coração de
mulher.
13 Nesse dia inesquecível, † toda uma onda de claridades
compassivas descia dos Céus sobre as vastidões do Norte e do Sul
da Pátria do Evangelho. Ao Rio de Janeiro afluem multidões de seres
invisíveis, que se associam às grandiosas solenidades da abolição.
Junto do espírito magnânimo da princesa, permanece Ismael com a
bênção da sua generosa e tocante alegria. Foi por isso que
Patrocínio, † intuitivamente, no arrebatamento do seu júbilo, se
arrastou de joelhos até aos pés da princesa piedosa e cristã. Por
toda parte, espalharam-se alegrias contagiosas e comunicativas
esperanças. O marco divino da liberdade dos cativos erguia-se na
estrada da civilização brasileira, sem a maré incendiária da
metralha e do sangue.
14 Os negros e os mestiços do Brasil sentiram no coração o
prodigioso potencial de energias da sub-raça, com que realizariam
gloriosos feitos de trabalho e de heroísmo, na formação de todos os
patrimônios da Pátria do Evangelho, olhando o caminho infinito do
futuro. E, nessa noite, enquanto se entoavam hosanas de amor no
Grupo Ismael e a princesa imperial sentia, na sua grande alma, as
comoções mais ternas e mais doces, os pobres e os sofredores,
recebendo a generosa dádiva do Céu, iam reunir-se, nas asas
cariciosas do sono, aos seus companheiros da imensidade, levando
às Alturas o preito do seu reconhecimento a Jesus que, com a sua
misericórdia infinita, lhes outorgara a carta de alforria,
incorporando-se, para sempre, ao organismo social da pátria
generosa dos seus sublimes ensinamentos.
.Humberto de Campos

(.Irmão X)
Vinha de luz — Emmanuel 130 Amai-vos
“Não amemos de palavra, nem de língua, mas por obras e em
verdade.” — JOÃO (1 João, 3.18)

1 Por norma de fraternidade pura e sincera, recomenda a Palavra


Divina: “Amai-vos uns aos outros.” ( † )
2 Não determina seleções.
3 Não exalta conveniências.
4 Não impõe condicionais.
5 Não desfavorece os infelizes.
6 Não menoscaba os fracos.
7 Não faz privilégios.
8 Não pede o afastamento dos maus.
9 Não desconsidera os filhos do lar alheio.
10 Não destaca a parentela consanguínea.
11 Não menospreza os adversários.
12 E o apóstolo acrescenta — “Não amemos de palavra, mas através
das obras, com todo o fervor do coração”.
13 O Universo é o nosso domicílio. A Humanidade é a nossa família.
14 Aproximemo-nos dos piores, para ajudar. Aproximemo-nos dos
melhores, para aprender.
15 Amarmo-nos, servindo uns aos outros, não de boca, mas de
coração, constitui para nós todos o glorioso caminho de ascensão.

.Emmanuel
ASSISTÊNCIA SOCIAL
1 Meu amigo, muita paz!
2 A assistência social é a fraternidade em ação. 3 Sem ela,
indiscutivelmente, os nossos mais preciosos arrazoados
verbalísticos não passariam de belos mostruários sonoros.
4 É necessário teorizar com o exemplo se desejamos argumentar
com eficiência e segurança, no campo de nossas realizações.
5 Se é verdade que as obras sem ideal são primorosas esculturas da
arte humana, sem o calor da vida, a fé sem obras, segundo já nos
asseverava a palavra apostólica, há quase dois mil anos, ( † ) não
passa de um cadáver bem adornado.
6 A escola, a maternidade, a creche, 7 o hospital, o refúgio de
esperança aos viajantes da amargura, o albergue, o posto de
socorro, 8 a visitação fraterna aos doentes e aos necessitados, a
palestra amiga e confortadora, 9 a casa de desobsessão, 10 o auxílio
de emergência aos companheiros de angústia, o amparo aos irmãos
presidiários, 11 a cooperação metódica nos centros especializados
de tratamento, quais sejam os sanatórios, os hospitais e os
leprozários, 12 a contribuição desinteressada, enfim, a dor de todos
matizes e de todas as procedências, desafiam a nossa capacidade
de imaginar, organizar e fazer, afim de que possamos momentalizar
a nossa Doutrina de Amor e Luz no mundo vivo dos corações.13
Trabalhemos, auxiliando-nos uns aos outros. Somos associados de
uma só empresa de redenção, usando o sentimento, o raciocínio, as
mãos, a palavra, a tribuna, a imprensa e o livro para o mesmo
glorioso desiderato. 14 Conscientes, pois, de nossas
responsabilidades, marchemos para diante, sob a inspiração do
Cristo, Nosso Senhor e Mestre, entrelaçando braços e corações na
mesma vibração de otimismo e esperança, serviço e sublimação.
15 Hoje é o nosso dia. Agora é o momento.
16 A luta é a nossa oportunidade.
17 Ajudar é a honra que nos compete.
18 Sigamos assim, destemerosos e firmes na certeza de que o
Senhor permanece conosco e, indubitavelmente, alcançaremos
amanhã a alegria e a paz do mundo melhor. .Emmanuel
Taça de luz — Autores diversos
48 -Oração da fraternidade

1 Senhor!
Somos uma só família de corações a se rearticularem no espaço e
no tempo, aprendendo a servir-te.
2 Ensina-nos a ser mais irmãos uns dos outros.
3 Ajuda-nos para que seja cada um de nós a complementação do
companheiro, naquilo em que o nosso companheiro esteja em
carência.
4 Se um tropeça, dá que lhe sirvamos de apoio, se outro descansa,
ampara-nos a fim de que lhe tomemos o lugar na tarefa sem
reclamação e sem queixa.
5 Ilumina-nos o entendimento para que nos convertamos em visão
para aqueles que ainda não conseguem enxergar o caminho claro
que nos traçaste; o ouvido atento para quantos se incapacitarem
no trabalho, entorpecidos na indiferença; a tranquilidade para os
que venham a cair na discórdia e a compreensão de todos os que
ainda não logram divisar a luz da verdade!
6 Senhor, guarda-nos em teu infinito amor para que nos devotemos
fielmente uns aos outros e ainda que a névoa do passado nos
entenebreça os caminhos do presente, favorecendo-nos a separação
ou o desajuste, dá que o clarão de tua bênção nos refaça as energias
e nos restabeleça o senso de rumo para que nós todos, unidos e
felizes, sejamos invariavelmente uma família só, procurando
escorar-nos, no apoio recíproco, de modo a que, um dia, estejamos
integrados em teu serviço na alegria imortal para sempre.

Bezerra de Menezes
Nosso livro — Autores diversos — 1ª Parte
30 Oração fraternal

1 Irmão nosso, que estás na Terra.


2 Glorificada seja a tua boa vontade, em favor do Infinito Bem.
3 Trabalha incessantemente pelo Reino Divino com a tua cooperação
espontânea.
4 Seja atendida a tua aspiração elevada, com esquecimento de todos
os caprichos inferiores.
5 Tanto no Lar da Carne, quanto no Templo do Universo.
6 O pão nosso de cada dia, que vem do Celeste Celeiro, usa com
respeito e divide santamente.
7 Desculpa nossas faltas para contigo, assim como o Eterno Pai tem
perdoado nossas dívidas em comum.
8 Não permitas que a tua existência se perca pela tentação dos
maus pensamentos.
9 Livra-te dos males que procedem do próprio coração.
10 Porque te pertence, agora, a gloriosa oportunidade de elevação
para o reino do poder, da justiça, da paz, da glória e do amor para
sempre.

.Emmanuel
Jesus no lar — Neio Lúcio

46 A árvore preciosa
1 Salientando o Senhor que a construção do Reino Divino seria obra
de união fraternal entre todos os homens de boa vontade o velho
Zebedeu, que amava profundamente os apólogos do Cristo, pediu-
lhe alguma narrativa simbólica, através da qual a compreensão se
fizesse mais clara entre todos.
2 Jesus, benévolo como sempre, sorriu e contou:
— Viviam os homens em permanentes conflitos, acompanhados de
misérias, perturbação e sofrimento, quando o Pai compadecido lhes
enviou um mensageiro, portador de sublimes sementes da Árvore da
Felicidade e da Paz. 3 Desceu o anjo com o régio presente e,
congregando os homens para a entrega festiva, explicou-lhes que o
vegetal glorioso produziria flores de luz e frutos de ouro, no futuro,
apagando todas as dissensões, mas reclamava cuidados especiais
para fortalecer-se. 4 Em germinando, era imprescindível a
colaboração de todos, nos cuidados excepcionais do amor e da
vigilância.
5 As sementes requeriam terra conveniente, aperfeiçoado sistema
de irrigação, determinada classe de adubo, proteção incessante
contra insetos daninhos e providências diversas, nos tempos
laboriosos do início; 6 a planta, contudo, era tão preciosa em si
mesma que bastaria um exemplar vitorioso para que a paz e a
felicidade se derramassem, benditas, sobre a comunidade em geral.
7 Seus ramos abrigariam a todos, seu perfume envolveria a Terra
em branda harmonia e seus frutos, usados pelas criaturas,
garantiriam o bem-estar do mundo inteiro.
8 Finda a promessa e depois de confiadas ao povo as sementes
milagrosas, cada circunstante se retirou para o domicílio próprio,
sonhando possuir, egoisticamente, a árvore das flores de luz e dos
frutos de ouro. Cada qual pretendia a preciosidade para si, em
caráter de exclusividade. Para isso, cerraram-se, apaixonadamente,
nas terras que dominavam, experimentando a sementeira e
suspirando pela posse pessoal e absoluta de semelhante tesouro,
simplesmente por vaidade do coração.
9 A árvore, todavia, a fim de viver reclamava concurso fraterno
total e os atritos ruinosos continuaram.
10 As sementes, pela natureza divina que as caracterizava, não se
perderam; entretanto, se alguns cultivadores possuíam água, não
possuíam adubo e os que retinham o adubo não dispunham de água
farta. 11 Quem detinha recursos para defender-se contra os vermes,
não encontrava acesso à gleba conveniente e quem se havia
apoderado do melhor solo não contava com possibilidades de
vigilância. 12 E tanto os senhores provisórios da água e do adubo,
da terra e dos elementos defensivos, quanto os demais candidatos
à posse da riqueza celeste, passaram a lutar, em desequilíbrio pleno,
exterminando-se reciprocamente.
13 O Mestre fez longo intervalo na curiosa narrativa e acrescentou:
— Este é o símbolo da guerra improfícua dos homens em derredor
da felicidade.14 Os talentos do Pai foram concedidos aos filhos
distintamente, para que aprendam a desfrutar os dons eternos, com
entendimento e harmonia. Uns possuem a inteligência, outros a
reflexão; uns guardam o ouro da terra, outros o conhecimento
sublime; alguns retêm a autoridade, outros a experiência; todavia,
cada um procura vencer sozinho, não para disseminar o bem com
todos, através do heroísmo na virtude, mas para humilhar os que
seguem à retaguarda.
15 E fitando Zebedeu, de modo significativo, finalizou:
— Quando a verdadeira união se fizer espontânea, entre todos os
homens no caminho redentor do trabalho santificante do bem
natural, então o Reino do Céu resplandecerá na Terra, à maneira da
árvore divina das flores de luz e dos frutos de ouro.
O velho galileu sorriu, satisfeito, e nada mais perguntou.
Neio Lúcio
Cartas do Coração — Autores diversos — 1ª Parte

80 A lição das abelhas

1 Copiando as abelhas operosas, aproveitemos os dons do dia e das


flores, no fabrico do mel sublime da fraternidade. 2 O dia é sempre
a hora em que nos movimentamos e as flores são as criaturas de
Deus que nos cercam, em todas as direções.
3 Busquemos em cada uma os elementos mais valiosos e mais puros
a fim de que a nossa obra comum não se envenene e que a noção
do trabalho com Jesus seja o pensamento orientador de nossa vida.

.Nina Arueira

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