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Bronislaw Malinowski

rrm diário no
vztido estrito
. - - do termo

Um diário no
sentido estrito
do termQ
"Durante todo aquele dia senti saudades da civilização.
Pensei nos amigos de Mclbou rne. À noite, no bote,
pensamento agradavelmente ambicioso: eu certamente
serei 'um eminente estudioso polonês'. Essa será minha
última aventura etnológica. Depois disso, dedicar-me-ei à
sociologia construtiva: me~dologia, economia política
etc., e na Polônia posso concretizar minl1as ambições
melhor do que em qualquer outro lugar. Forte contraste
entre meus sonhos com uma vida civilizada e minha vida
com os selvagens."
21 de dezembro de 1917, Ilhas Trobriand

Bronislaw Malinowski
foi um dos mais célebi:~s e influentes ant ropólogos do
início do sécu lo.~~.··~fascido na Polônia em 1884,
graduo~-llc'na Universidade de Cracóvia, indo logo depois
para LÓndres, onde realizou pesquisas no British tv!ust-""'
e, depois, na London School of Economics. Em 1910,
passou a fazer parre do corpo docente da Universidad
Londres. Seu trabaiho marcoL1 o avanço da ancropolo1
cuhur:1l além do estágio simplesmente descritivo, e
continua sendo uma das principais referências acadêrr
nesta ár~a.
Ao ser publicado pela prim~ira
vez, cm 1967, este diário pessoul do
renomado antropólogo Bronislnw
Malinowski, que relata duas c1ap11s
de seu trabalho de campo, na Nova
Guiné (setembro de 1914 a agosto
de 19 15) e nas ilhas Trobriand
(outu bro de 19 17 a julho de 191 8),
causou sensação no meio
acadêmico. Publicado
postumamente por iniciativa de sua
mulher, o Diário foi muito mal
recebido, pois se pensou que
expunha facetas pouco ortodoxas da
personalidade de seu autor e que,
acima de tudo. um relato desse i.ipo
não se destinava à publicação. O
Diário nos mostra um Malinowski
que não se preocupa cm esconder
sua antipatia pelos nativos. às vezes
beirando a agressividade. nem
tampouco suas angústias.
egocentrismo ou hipocondria.
Apenas isso já seria suficiente para
abalar a reputação p6s1uma de um
dos maiores nomes da antropologia
social. Mas Malinowski, além disso,
usa em seus escritos a palavra
inglesa nigf;er (crioulo) para se
r.:ferir aos nativos e, apesar da
conotação negativa do termo ser
mui to posterior à época em que {
o Diário foi escrito, sua uti lização
por um respeitado membro da
classe acadêmica deixou muita
gente de cabelo em pé.

Esta segunda ed ição do Diário,


no entanto, é vista sob uma ótica
diferente. A indignação suscitad<I
por sua primeira publicação
<1rrefeceu. R o Diário aparece como
um docmnenió precjoso sobre o que
signi fica ser um antropólogo.
alguém que trabalha com materi al
humano, que não si mple,mcnte
obsen~a e anota o que vê mas passa
a fazer parte do objeto de seu
es tudo, influenciando.o e sendo por
ele influenciado. O Oiári(J de
Malinowski. além de aprc"·nlar-nos
a persoualidadc controvertida e
complexa ele uma das m11iores
figuras da história tlu ;11111 opc>logia
social, opôs-~e pt:la p1111lt' 11 ,1 v.: 1 ao
estercóLipo SCf UllJ o ,, qual o
pesquisador é um 1wr.011,1r<'111 que
paira acima do~ ;acollll·t·1111c1111." que
relata: Mal i now~~ I , "''Ili -..ihcr
que o fo1ia. dt•u 11111.1 d11 1 wn~an
hu1111mu !Ili pc.,4u1 ,,1tl111 tlc
campll cm 1111111polu11ia.
Bronislaw Malinowski

Um diário no
sentido estrito
do termo
Tradução de
CELJNA CAVALCANTEFALCK

Revisão Técnica de
LYGIASIGAUD

EDITORA RECORD
RIO DE JANEIRO • SÃO. PAl:to·
3'3-0t0.
UFRN/CCHLA H ::J5J.d.._
Bl~l1oteca Setorl1I
~.Qg. ,,2_ )!?.._:_'\'<',;-\" -
f',,1 1, /f"r; 07 / P,,í';:f,. ,Ah ph._
CIJ'l·S:asll. Cau!o,as4o·n:t•for.1e '
Sfrà:c~to Ni~I ®' Edl~Olc~ dt Ü\':CJ, RJ

t.1alinowskí, D:onisl!lw, 1884- 1942


1>1l 17d \Jm. diiri-o no ser.tido 1Jtnlo do c~n:t<> 1 lh011IJl~ ~. falie-°"'ski.
u~ kt de c~"s:11 F~ - R.1odr J211elro Rtt«d. 1991.
,,(,p .,,

'1'11tduçlo de A da.ti)' rn 1llc S!fict .1Ct'ISC o! die tcnn


lnctu: g.lo.JW'to
ISBN 8!.0i·O.t1t'14·X

l. ~-~:i li nowda. 8:~ni$111w. IÜ~ · l 9·1 2 2. Ar.:ropo!~ - Pol&:~.


3, ·r,~.llba.s-P~i~tt."<.po 1 Ti~.tlo

CD!) · 920.93~
97- 1021 CDU · 92(MALINOWSKI. O )

Tílulo 011ginal mgl!•


A OIARY IN THE STl\ICT ·SENSE OF TJIE TEl\M

Cop)'right TC'XIO O l 96 7. Vatc113 >-'1ahnO\'\"Ska


ln1roduç.! o C 1989. Raymo:td Fhth

Todos os dirchos r cscl'\'i\:10s.


rro1bid1 " rieprod~o. armazerwncri~~ ou uar.snus,•o de partes deste
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PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL


Ca1x:. Postal 23.052
l\io de Janoiro, RJ - 20922-970
SUMÁRIO

Prefáci~: VaJccca Malinowskn 11


lntrod11{â1J: Raymond Firch 15
Seg1111da introd11cão - 1988: Raymond Firth 25
Observa'iiÍ!J 37

UM DIÁRIO NO SENTIDO êS'fRITO DO TERMO

- -.
Primeira Parle: 1914-1915 39
Seg111ula Ptme: 1917- 1918 133

GLOSSÁRIO D/! Tl!Ri\IOS NA1'/VOS 317


6 BRONISLAW MIJJNOWSKI

JLUSTRAÇÔ/JS

Página de fac-símile 10
Nova G<tiné Oriental e ilhas adjacentes
Ilha Mailu e li toral adjacente de Papua 62
O distrito do K11/a 168-169
Ilhas Trobriand 189
Um diário no
sentido estrito
do termo
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für-símilt de uma plÍ8inadodiáriodas Trobriands, dat2dadodfa 22 de abril
d< 1918
PREFÁCIO

l lronislaw Malinowski já escava nos Esrados Unidos q uando irrompeu


,, 11Guerra Mundial, e acciro u o que a princípio foi uma cadeira tem-
porária e, posccriormence, um cargo permanence, como professor de
.umopologia na U niversidadc de Yale. Namralmencc, precisou de
uma q uantidade considerável de c>bras orig inais manuscricas, anora-
~ocs e livros que havia deixado na I..ondon School of Economics, ao
partir parn os Estados Unidos, a fim de gozar sua licença-sabática,
no final de 1938; e, depois de aceitar o cargo em Yale, seleciooou
mericulosamence os documencos que deveriam ser enviados a ele em
New Haven, e nquanto a maior parte dos seus livros e crabalhos fi-
«lu guardada na London School o f Econo mics durante roda a guer-
r.1. Em New 1 laven, parce desse marerial ficou na cusn dele, e ores-
1.mcc foi para seu escritório na Escola de Pós-Graduação de Yale.
Em maio de 1942, Malinowsk i mo rreu subitame nte de um
infarto comimente imprevisro. Uma das p rimeiras pessous 11 acorrer a
Ncw Haven, ao receber essa triste notícia, foi o Dr. Feliks Gross, amigo
«ex-aluno de Malinowski, que se ofereceu para ajudar na carefa es-
pecial de selecionar e organizar os livros e documentos de Malinowski,
p rincipia ndo com o conteúdo do escritório da Escola de Pós-Gradua-
12 llRONlSLAW MALlKOWSKI

ção. Enquanto realizava esse crabalho, o Dr. Gross rclefonott·me


inesperadamente de lá, pcrguncando-me se eu sabia da existência
de uma cadernetinha prern e grossa que havia acabado de encontrar,
comendo um diário de Bronislaw Malinowski, quase que intciran1eme
escrito cm polonês na sua caligrafia. O Dr. Gross rrouxe o caderno
direto a mim e traduziu ulgumas anowções selecionadas ao acaso,
que se referiam ao seu trabalho de campo no Sul da Nova Guiné.
Midinowski nunca h:1via mencionado para mim esse diário; cu o
guardei com zelo e o levei para o Móxico quando me mudei definici-
vamence para lá cm 1946.
Algurn tempo depois do fim da guerra, os livros e papéis de
Malinowski furam retirados dos arquivos e estantes da Loudon School
ofEconomics e, porvolca<le 1949, esse considerável acervo de origi-
nais manuscritos, anotações e livros foi enviado a mim, no México;
entre eles, enconrrei dois envelopes comendo cadernos, um deles de-
nominado "Primeiro diário polonês" e o oucro, "Diários". Todas essas
cadernetas esmvum em polonês. Juntei-as ao primeiro caderno en-
contrado em Yale, com a idéia de mandar craduzi- los e possivelmen-
te publicá-los no futuro.
Os diários, portanto, permaneceram guardados até o final de
1960, quando fui a Nova Ymk Ali falei deles a um dos editores das
obras de Malinowski; e resolvemos publicá-los. O Sr. Norberr Gucer-
man fez a gentileza de traduzi-los d o polonês, de forma baseante lite-
ral. Ao corrigir as provas, procurei assegurar n maior adesão possível
ao uso pessoal que Malinowski fazia do vocabulário e da sintaxe do
ing lês, Jfngun na qual se exprimia com facilidade no final da sua vida.
Alguns comentários extremamence íntimos foram omitidos, omissão
essa indicada por um poncilhado. O primeiro diário polonês não foi
incluído porque é anterior à carreira antropológica de Malinowski.
Sempre tive vontade - até mesmo necessidade - de conhecer
algo mais acerca da vida e da personalidade de qualquer pintor, es-
cricor, músico ou cientisca cuja obra renha me ioccressado ou como-
• vido profundamence. Sinto que o esclarecimcnco do ponto de visn1
psicológico e emocional que os diários, carras e autobiografias pro-
porcionam não só oferecem uma visão nova da personalidade do
\;M DIÁRIO NO SENTIDO Esnm"O 00 'fER)IO 13

linmem que escreveu cercos linos, desenvolveu uma cerra ceoria ou


t0mpôs cercas sinfonias; mas creio, além disso, que por meio do co-
11hccimcnco da vida e dos sencimcmos desse homem freqiicnccrncn-
ct· chegamos a um maior concot0 com ele e obtemos uma maior com-
prtcnsão de sua obra. Quando existe, porwnto, o diário ou a autobi- I
"Hrnfla de uma personalidade marcante, acredito que esses "dados"
cdarivos à sua vida cotidiana e interior e seus peosamencos devem
t'r publicados, com o propósico deliberado de revelar essa pcrsona-
hd,1dc e vincular esse conhecimcnio à obra por ele realizada.
Reconheço que, para alguns, um diário é algo de namreza basi-
' ,11nencc privada, e não deveria ser publicado; e aqueles que defcn-
1k•m esse ponto de visca decerto vão critiair severamente minha dcci-
Mln ele pul>Jicar os diários do meu marido. ~fas, depois de ponderar
\!'riamente sobre o assunto, chegue i à conclusão de que é muito mais
11nponnnte dar aos acuais e furu ros estudiosos e leitores das obras
Antropológicas de Malinowski essa visão direta de sua personalidade
mcima, e de sua forma de viver e pensar durante o período de seu
1n.1is imporroote trabalho de campo, do que trancafiar esses sucintos
.!11rios cm um arquivo. Declaro-me, portanto, a única responsável
pclt\ decisão de publicar csce livro.

VALETIA M Al.INOWSKA
Méxiru
1/1,IÍQ r/,g 1966
I NTRODUÇÃO*

l!ssc diário de autoria de Bronislaw Malinowski abrange apenas um


período muito breve de sua vida, do início de setembro de 191 '1 ao
início de agosto de 1915, e do fim de outubro de 1917 a meados de
1ulho de 1918, cerca de 19 meses ao codo. Foi escrito cm polonês,
tomo um documento privado, e nu nca se p retendeu que fosse pubJi-
toido. Qual 6, portamo, a sua importilncia? .Malinowski foi um gran-
clc cientista social, um dos fundadores da moderna antropologia so-
' iul, e llrn pensador que remou esrnbclecer uma relação emrc suas
11cneralizações sobre a natu reza e a sociedade humanas e as questões
<lo mundo que o cercava. O diário refere-se àquele período cxcrema-
mcmc crítico de sua carreira no qual, depois de se municiar reorica-
menre para os estudos empíricos, ele começou a realizar pesquisas de
l,lmpo na Nova Guiné. A primeira parte abmugeo período de apren-
dizado entre os mailus; a segunda, depois de um inconveniente in-
c~rvalo de dois anos, cobre a maior parte de seu último ano nas ilhas
'll:obriand. Atualmente, reconhece-se que, embora a personalidade

• A>tradcto a Audrcy Richard' e Ph;·llis Ka.berl')'. 11n1sos de }\{aJinow~ki, <'2Jó2efa Stuart, •!,li. Olha
ª" ve1l1a, pela a..s;,r~ncia Q('S(il lntrod~ Eles., n•tur.i.ln•.tttc, não (Çm qualquer tC"lpon»b11í·
.....lt pdas oririi6n •q1.1i ((l)rttau..
16 BRONISLA\XI M AUNO\XISKI

de um cicmisra talvez não exerça., necessariamente, uma infl uê ncia


direta sobre sua seleção e abordagem dos problemas, deve influen-
ciar sua obra de outras formas mais sutis. Embora cronologicamente
muito b reve, sem dar muitos detalhes do ponríl de vista profissional,
o diário efetivamente mosrra de forma vivida as opiniões de Mali-
nowski sobre os assuncos e as pessoas - ou, pelo menos, como se
expressava ao escrever quando tinha como p{1blico apenas d e mes-
mo.
Malinowski foi à Nova Guiné cm razão de sua associação com
a anrropologia b ritânica. Ainda não se sabe hem o q ue o levou a
viajar para um lugar tão d istante da Polônia, sLta cerra natal. Mas,
apesar de seus comentários freqüentemente negativos sobre a in-
g late rra e os cavalheiros ingleses, ele sempre pareceu ter u m res-
peito básico pela tradição inre leccual inglesa e a maneira de viver
dos ingleses, e parece provável que, mesmo no início da carreira,
ele se se ntisse atraído por ambus. (Observemos sua descrição
reveladora de Maquiavel nesre diário como "muito parecido comi-
go em muitos aspecros. Um inglês com uma mentalidade cotai-
men te européia e proble mas e uropeus".) Ele mesm0 nos concou
como, l1l\ (jagelonfana) Un iversid ade d a Cracóvia, recebera o rdem
de abandonar durante cerco tempo suas pesquisas de física e quí-
mica em razão de problemas de saúde, mas recebeu permissão de
dedicar-se a "u ma discip lina de S\ta preferência", e, ass im, come-
çou a ler O ramo de 011ro de Frazer, na versão original em inglês -
enrão composrn apenas de rrcs volumes.• Malinowski obteve seu
d outo rado em J 908, em íísica e matemática, e depois de do is anos
de estudos avançados em I..cipúg veio para Londres e começou seus
escudos sisremáricos de anrropologia com C. G. Seligman e Edward

•Par-a ob«r mais infotn,•tõts sobre cHe e outros detalhes, vtr 8. ~f•linowt~I. /lf)1b ,., P1·i,.,iúi-1
P-011»/ug.y (0 1·nito na psicolo;;ii primi1i\';1), Londres. l926, pp. 5·6; ~ tanlh~11\ R:1ym-ond ll111h, cm
1\f,n1 a.'lfiClilfltt'I (Hoinem ecult\lr.t). Londrt$, 1917, pp. 2 -7; Konsiandn S)'mmo-n.s·Symonolewici.
"Bron;sbw ~f ;.li.r..,,-ski: f.,rm'lltivc: lníl .i~n(C$ ai~J Thcort-t!(aJ Evol-.nio!>.. f'Dronisl.t., ~lal1nowski:
InOtiêncN• Íotfl".2ti,.n ~ a"b!nçio t~ria"). T~ P.lill> Rr..-iN, vol. IV. t9S9. pp. 1·23. Nova York.
f\iais a.l.s:uns Í;\t0$ apiroccm ~m •A llricf Jlino:-y (L?l3·1%~)" (Uma btt:\'O J11stó1ia {19 13-1963))
do Ocparu1:11,coto de Ao1r<>potoni11 da London .School of Eeo1\omiçs publicad:1 no prOtfranta
ckpaniumn~ I de cuuoJ, SCS$âO 1963·64 e anos 1n1b-Jeqücntcs.
UM DIÁRIO NO SEl\'Til)O Esll\JTO DO TF.R~.<O 17

\V/c;rermarck, na london School of Economks and Polirical Scicncc.


Ele também encrou em contato com A.C. Haddon e \V. H. R.
Rivcrs, de Cambridge - rodos mencionados no diário. Sua pri·
meira obra de importância, um escudo documental sobre A ft1ml-
lia entreos aborígi11es a11Jtralia110.r, foi publicada em Londres, cm J9 l 3.
Outro livro, em polonês, sobre Religit'io primitiva efom1aJ tle esm1111-
1·11 social, terminado no início de 1914, foi publicado na Polônia cm
191~. Influenciado principalmente por Seligman e Haddon, Ma-
lmowski havia se preparado para as pesquisas de campo no Oeste
do Pacífico, depois de uma tentativa frustrada de Scligman de ob-
ter fundos para ele trabalhar no Sudão. Era muiro mais difícil ob-
rer d inheiro para pesquisas de campo naquele tempo do que é hoje.
Malinowski foi auxiliado por meio de bolsa de esrndos e de uma
subvenção do industrial Robert Mond, obtida primordialmente
pelos esforços de Seligman. Um cargo de secretário de R. R. Maren,
escrivão da Seção H - Seção de Antropologia - da Associação
Brirânica, que estava promovendo uma coníerência cm Melbour-
nc cm 1914, lhe proporcionou uma passagem gratuita para a Aus-
trália. A situação ele Malinowski, com recursos exíguos para as
pesquisas de campo, foi complicada pela deflagração da guerra, pois
ele era rccoicamence cidadão austdaco. Mas, com a ajuda de seus
amigos, as aucoridades australian as se revelaram muito compree n-
sivas, permitindo-lhe cont inuar rcafüando suas pesquisas de cam-
po na Nova Guiné. Sua liberalidade também ficou patente na
suplementação financeira por ele recebida sob forma de uma sub-
venção do Departamento Domésrico e de Territórios da Comuni-
dade Britânica. Depois de viajar até Port .Moresb)•, Malinowski
passou a maior parte de seis meses na área roailu, no sul da Nova
Guiné. Uma breve visita às ilhas Trobriand, na direção da costa
nordeste, estimulou mais seu interesse, e ele volcou lá cm duas ex-
pedições subseqüentes com duração de um ano cada, 191 5- 16 e
19 17- 18.
Uma das contribuições relev11nres de Malinowski para o desen-
volvimento da antropologia social foi a introdução de métodos mui-
18 B ROKISLAW MAl.INOWSKJ

ro mais intensivos e muico mais sofisticados de pesquisa de campo


do que os anteriormente vigentes neste campo de estudo.• As mui-
rns rcfcríincias a seu trabalho cenográfico no seu diário mostram sua
diligência. No dia seguinte ao de sua chegada à Nova Guiné, ele já
havia entrado em contam com ltm informante (Ahuia O va), e, no
outro dia, começou a coletar dados de campo sobre a estrutu ra soci-
al. Apenas uma quinzena <lcp0is 1:iercebcu dois defeiros bí1Sicos cm
sua aix>rdagem - não observava as pessoas o suficiente e não falava
a língua deles. Tentou corrigir ambos os erros arduamente e seu es-
forço conscimiu a pisca para rodo o seu trabalho poscerior. A ceno-
grafia do diário consiste em refcrê ncias a temas de conversas ou ob-
servação - cabu, ricos fünebres, machados de pedra, magia ncgrn,
dança, procissões com porcos-em vez do desenvolvimento de idéias
sobre questões de campo ou pcoblemas rcóricos. Porém, um:1 anota-
ção ocasional os revela nos bastidores. "Perguntei sobre a divisrto da
cerra. Teria sido (1til conhecer o velho sistema de divisão e estudar o
amai como uma forma de adaptação." Este é um indicio inicial de
um interesse na mudança social que posreriormente se transformou
em um tema fundamenral cm seu trabalho. O que o primeiro diário
mostra efetivamente é o desejo incenso de Malinowski em ter, assim
que posslvel, seu marerial redigido e pronto para publicação, e, com
efeito, seu relarório sobre os Nmivos tk Mailu ficou pronto na pri-
meira m etade de 19 15.• • Somos levados a inferir que foi ao escrever
este m<trerial ("na realidade, enquanto redigia minhas anotações")
que Malinowski veio a perceber a importância de muitos pomos do
mérodo do trabalho ele campo que ele posreriormenre desenvolveu
e incorporou no seu tratamento. O relam de Trobriand é mais vívido
- a escolha do local da renda, o enconiro com velhos conhecidos,
incluindo o chefe To'uluwa e o homem "que costumava me trazer
ovos, vestido com uma camisola ele mulher"; a elaboração do plano

•V~ P h)·ll1~ Ktbcrr~ jp /tf111' t1JJ:I ÜÍlilrv Olomein e cultuu.). 1957, p. 71·9 l
• "V<:r r<:fc1êncl• bilJJiogrAílca c1n introdoçXo •o G]o.u.4.rio de Termos N111i ...os ;,,f,.d. O f>~ÍÁcio de
f.{ali"Ow$ki fol datado d-e 9 de junho~ lYl~. cm. S11m11t•i., bndc ele jJ dera inkio •sua scgund..i.
expcdtçio1 Nov-. Goir:é.(Ek rccc-~ º8'"v dedoutottm nêftc:iuda llnivenidadedc Loftd:rts~
1916 (XI'" eut. publicaçio, 11Jntamcnn: com A /:s,.tff.Wr11trt ttl ,,f.,/g1w '111Jlr'.11/i.s~n.)
UM DIÁRIO KO SDNTIOO ilsTRITO 00 TERMO 19

e do censo das aldeias, o ac<1mu lo de informações sobre bt1lomt1 e


111i!t1111i111, sobre gimwili e sagali. As referências ao k11/a são fascinan-
tes pamqualq ller pessoa que tenha acompanhado sua análise daquele
complexo sistcrnade troca de conc has, símbolos de ·!falft.r social, com
suas implicações econômicas, polft:icas e rima.is.
O que um antropólogo pode sentir falta, especialmencc no di-
ário, é de uma narrativa detalhada da maneira como Malinowski
chegou à escolha de seus problemas de campo, por que selecionou
um tópico em vez de oucro pam i nvcscigação num dado momenco,
e se novas evidências o levaram -a reformular uma hipócese. Exis-
rem alguns indícios - como quando ele observa que a lcicura de
Rivers chamou sua atenção para "os problemas do tipo Rivers",
presumivelmcnre aqueles de pare ncesco. Mas, de modo ge ral, es-
sas questões metodológicas não são abordadas neste registro d iá-
rio de seus pensamentos. São de maior interesse suas observações
ceóricus ocasionais, como os comentários sobre a linguagem como
um sisccma de idéias sociais, ta nto instrumento quanco criação
objeciva, ou sobre a hiscória com o "a observação dos faros relacio-
nados a uma decerminada teoria". Estas observações demonstram
sua preocupação com questões então relativamente novas, que,
posteriorme nte, porém, se cornaram parce do discurso no me rcado
acadêmico. Mas, se o diário não se prende à metodologia de cam-
po nem aos problemas de teori:L ancropológica, transmirc de ma-
neira entusiástica as reações d e um antropólogo de campo cm uma
sociedade estranha. Nela ele d eve viver como aquele que regiscra e
analisa, mas, nessa condição, uão pode compartilhar por completo
os costumes e valores do povo, por mais que os admire ou os desa-
prove. A sensação de confinamcnco, o desejo obsessivo de volcar
mesmo que rapidamente a seu próprio meio cultural, o desânimo
e as dúvidas sobre a validade do que se cscá fazendo, a vontade de
fugir para o mundo fanrnsioso dos romances ou devaneios, a
compulsão moral de se arrascar d e volta para a rarefü da observa-
ção de campo - muitos pesquisadores sensíveis experimentaram
csres sentimentos em algum momento, e raramente eles foram mais
bem manifestados do que neste diário. Algumas emoções, sem dú-
20 BRONISLAW :MAllNOWSKl

vida, foram expressas por Malinowski de forma mais violenta do


que reriam sido sentidas -ou, pelo menos, exprimidas -por ou-
rros antropólogos. A ma.ioria dos. pesquisadores, cm algumas oca-
siões, se sentiram entediados pelas suas próprias pesquisas, e expe-
rimencaram sentimentos de exasperação e frustração contra mé
mesmo seus melhores amigos no campo. Poucos podem ter csra<lo
dispostos 1l 11dmirir isso, até para si mesmos. Poucos, a não ser tal-
vez aqueles tão tensos quanto Malinowski, amaldiçoaram as pes-
soas que esravam estudando tanto quanto ele. Concudo, essa reve-
lação do lado mais obscuro da relação de um antropólogo com seu
material humano não deveria nos induzir a erro. Malit1owski cos-
tumava usar uma linguagem igualmente violenta com relação a
<Jutros g rupos e pessoas, européias e americanas. Ele tinha de ex-
plodir para se livrar de suas irritações e era quase um ponto de honra
para ele não reprimir seus sentimentos nem moderar a língua. Isso
rambém não deveria ofuscar para nós o prazer de Malinowski em
desfrutar suas amizades trobriandesas, que o diário rambém men-
ciona. Poucos antropólogos também estariam preparados para es-
crever com a liberdade de Malinowski, mesmo que apenas para si
mesmos, sobre seus desejos e sencimentos sensuais ou ennegar-se
a, muito menos regisrrar, irreverências como cantar ao som de uma
mclodin de Wagner as palavras "kiJs 111y aJs" para afugentar as ma-
riposas!
Como etnógrafo, Malinowski guardou uma certa distância dos
funcionários do governo, missionários e comerciantes que consti-
tufam a sociedade branca da Nov11 Guiné na época. Conseqüente-
mente, obtemos dele novas e às vezes inesperadas tiradas, mesmo
que apenas de passagem, sobre personalidades que conhecemos em
geral apenas a partir de uma literarura mais formal. Seu esboço
conciso da agora quase legendária figura de Sir Huberc Murray, o
vke-govcmador e ápice da pirâm ide oficial, parece-me bastante
perspicaz, embora seus comentários sobre alguns outros conheci-
dos, inclusive Saville, o missionário que o ajudou, possam ser me-
nos justos. É imporcaore observar que a capacidade de Malinowski
para buscar experiências significativas o levava canto a procurar a
UM DIÁRIO NO SEl\,.100 EsnuTO 00 TEl\.\!O 21

companhia de alguns dos compradores de pérolas nas Trobriand


especialmente Raffacl Brudo, que depois o hospedou cm Paris, até
os setores mais oficiais da sociedade branca. Embora insuficientes,
seus come ntários sobre as condições na Nova Guiné há me io séCu·
lo constituem evidências sociológic11s muito úteis. Mas é como do-
tumcnm humano, e não como contribuição científica, que o diário
de Malinowski deveria ser avaliado.
Um diário, no sentido comum, pode ser um simples registro cro-
nológico de cvencoscocid.ianos. Éisso que fazem, ou tentam fazer, muitas
pessoas, como mna espécie de 11ide-111i111oirr para suas recordações ou de
jusrificmiva para provar a si mesmas que os d.ias passados não foram
complecamence desperdiçados. Umaexcensãodcsse ripo de di{~rio, ob-
servad:i nas memórias dos generais, embaixadores e outras figuras pú·
blicas, pode se revelar um indicio internssance, talvez crítico, sobre o
funcionamento dos assuntos públicos. Ao rc,relar os feitos e ditos de
pessoas proeminentes, o registro poderá ser muito mais atraente para o
público cm geral se as questões mencionadas forem controversas 011
abordadas de maneira escandalosa. Mas outro tipo de diário, no qual é
muit0 mais diffcil escrever com sinceridade, é a expressão de uma per·
sona.tidade através do comentário cotidiano dos aconcecimemos, tan-
ro-ou até mais-aqueles do mundo interior quanto os do exterior.
Os grandes diários da história, se não se destacarem pelos esclareci-
mentos qne proporcionam sobre os evcncos públicos, esclarecem os
aspectos privados de uma personalidade que podem ser interprcrndos
como possuidores de um significado geral para o estudioso do caráter
humano. Sua importância esrá na interação de temperamento e cir-
cunstância, nas batalhas inrclectuais, emocionais e morais dos homens
e mulheres que lutam para se expressar, para preservar sua individua·
!idade, para avançar diante dos desafios, cem-ações e adulações da socie-
dade cm que vivem. Para que um diário desses renha significado e
impacto, a habilidade literária pode ser menos importante do que a
força de expressão, a modésria é p:rovavelmente menos eficaz do que a
vaidade, a fraqueza deve ser exibida canto quamo a força, e 11ma espé-
cie de franqueza brutal é essencial. Se algum dia vier a ser publicado
para o leitor comum, o escrit0r deverá expor-se tanto à crítica quanto
22 DRONISLAW MALINOWSKI

ao elogio; para se fazer justiça a ele também deverá ser concedida com-
preensão, e aré mesmo piedade.
Por esses critérios, embora este diário de Malinowski, no seu sen-
tido puramente eroográfico, não possa ser classificado como mais do
que uma nota de rodapé da lústória da antropologia, é certa.mente uma
revelação de uma personalidade fascinante e complexa, que exerceu
uma influência formativa sobre a ciência social. Ao lê-lo, deve-se rer
em mente sua finalidade. Creio que é óbvio que seu objetivo não foi
rnnto manter um registro do progresso científico e das intenções de
Malinowski, nem registrar os acooceclmenros diários de sel1S estudos
110 campo, mas mapear o transcurso de sua vida pessoal, emocional,
bem como intelectual. Na primeira parte, aparentemente, ele consi-
derava a crôt\ica periódica de seus pensamentos e sentimentos como
uma forma de ajudar a organizar sua vida, e a perceber seu significado
mais profundo. Mas, na segunda parte, o diário deveria ser um instru-
mento, além de urna obra de referência; viLt-O como um meio de orien-
tar e até mesmo retificar sua personalidade. Parte do motivo dessa ênfase
intensificada do diário como disciplina foi claramente o relacionamen-
to que ele havia iniciado com a mlJher que rnais tarde veio \\ ser sua
esposa. O que ele descreve como <:arac[erísck as da personalidade de
E. R. M. neste diário seriam confi•madas por aqueles que a conhece-
ram posteriormente, e <> que se evidencia nestas páginas é a profundi-
dade e a sinceridade do amor dele por ela e os esforços que continua-
mente fazia para evitar macufar aquilo que ele tentava conservar como
tun vínculo puramente emocional. O significado desse vínculo para
ele na época, e durante rodos os imos qlte se seguirnm, aos olhos de
rodos que o cestemunhararn, é magnificamente expresso na frase que
diz que para ele ela tinha "tesouros para dar e o poder miraculoso de
absolver os pecados". Parece rec havido poucas coisas que ele não te•
oha lhe confessado; no diário mais recente, na segunda parte do livro,
<>relacionamento emre ambos foi parcialmente responsável no míní·
mo por sua franqueza. Ser sincero com ela, bem como consigo mes-
mo, foi um dos objetivos primordiais de Malinowski. Mesmo assim,
ele não o perseguiu de fonna conscance, e foi seu vínculo emocional
com oucramulher, de qltem ele não havia consegtúdo romper por com-
UM DIÁRJO NO SENTIDO Es1'1UTO DO TERMO 23

pleto, u c11usa de g rande parte de seus :lutoquescionamentos e auco-


acus11çõcs. •
A expressividade de algumas d escrições contidas no dil~rio é has-
tantc notável, revelando a habilidttde que Malinowski tinha de cap-
tar o colorido da paisagem da Nova Guiné, e seu amor pelo mar e
pela nnvesasão. É muito inreressamc tomar conhecimento desseses-
clarecimentos sobre sua personalidade. Mas sempre haverá dúvida
sobre acé que ponto ele expunha seus sentimentos pessoais mais ínti-
mos. Seja qual for a resposta, está absolurnmcnre claro que este diá-
rio é um documento humano comovcmc, escrico por um homem que
desejava não ter qualquer ilusão ou dúvida sobre seu próprio caráter.
Alguns crechos dele mostram suas emoções, enquanto outros iom-
bam delas. Alguns trechos mostram su:l hipocondria, Slta comínua
luta pela saúde, por meio de uma combinação de cxcrcfdos e medi-
camentos. Outros trechos p0<.lem, até mesmo atualmcnce, ofender ou
chocar o Jcicor, e alguns Jcicores podem ficar igualmente impressio-
nados pela revelação de elementos de brutalidade, acé degradação,
ocasionalmente presenres no relato. Minha reflexão sobre isso é acon-
selhar aq11eles que se sintam propensos a considerar com desprezo cercos
crechos deste diário a serem iguulmcnce francos emse11s próprios pen-
s~mc ntos e escritos, e em seg11ida julgar novamente. J\ personalida-
de de Malinowski era comp lexo, e algumas de suas carnccc rfsticas
menos ndmiráveis calvez apareçam, de maneira mai.s clarn ncsre diá-
rio do que suas vircudes. Se isso ocorre, é isso que ele prcrcndeu, por-
que eram seus defeitos, não suas virtudes, que ele desejava compre-
ender e tornar oítidos para si mesmo. Quer a maioria de nós deseje
011 não imitar cal franqueza, devemos admitir sua coragem.

RtWMONO I'utnr
Ltn1dm
março de 1966
•Pdo <1uo uvvi dele próprio muí10 ni;ai ~ tarde, iol o (0:1h«inlc1uo e o engano de Dl'lldwin St">Cnccr
quar110 • coi~ddCnc:ia oo tcrepo du d<iit..s rcl•çikc e a lua 1cn1ativa dcs•jcit2.da de int<'rvil que cau·
.sat<'lm o rou1 1>imcnto~trc ele e ~.faliOO'tio'Ski. E. R. M., como t'ij>Os.11 d~ /o.!aJinowski, :apa1C'n1c1ntnlc
~pi1cith.t•a uopinf&-t dde. cmbof-ase rcfcrt•..c • Spmcn. que bavia ~ ue\ .,.~lho amigod4:1..,
de mine-ir"' m•i• 1n4gM.nim1..
SEGUNDA INTRODUÇÃO - 1988

É inrriganrc, depois de vime anos, lembrar da recepç,ão dos profissio·


nais de antropologia a uma obra controvertida como o Diá1·iq de
Malinowski. Então, aceitei o convite do edicor para escrever cscu nova
[ncrodução, cm parte como uma rcílcxão sobre o que pareceu ser o
efeito desta obra sobre outros antropólogos, e em parte para rever
minhas impressões anteriores sobcc ela.
Redigi a introdução orig inal um canto a contragosto, a pedido
de Valcrca Malinowska, a viúva de Malioowski, que escava decidida
a publicar estes diários privados. Pensei na época que poderia ajudar
a explicar a importância desse documento revelador, egocêntrico, ob-
sessivo, com sua mistura de estimulo, monoronia,pailm e CSC'lndalo,
para aqueles que nunca conheceram u personalidade multiforme de
.Malinowski. Eu também rinh11 cs pcranças, erroneamente, ele atenu-
ar um pouco as críticas que iriam se tibater sobre certas partes d~1 obra.
Malinowski escreveu suas anotações de campo sobre as il has
Trobrial\d cm inglês e na língua lk iriwiniana; 1 seus diários foram re-
digidos em polonês. Eram claramente destinados a serem um regis-
26 BRONISLAW MAL11'"0W'SK1

tro particular, uma confissão paro si mesmo, uma espécie de cacarse


e guia para correção pessoal, quase cer rnmemc reservados apenas à
leitura dele. De certo modo, a 1mblicução dos diários foi um aco de
rraição - não tanto por expor as fraquezas de .Malioowski sem seu
conhecimento, mas por pressupor que cais fraquezas pudessem fazer
parte de uma propriedade come rcial a ser explorada. Não modifi-
quei meu pooto de visra de que a pu blicaç.ão dos diários foi uma
invasão da privacidade, mesmo que o autor já escivesse morto. Não
creio que "o público renha direito de conhecer" os detalhes mais ín-
cimos da vida de quem quer que seja. Nem acredito, como parece
ser o caso de alg uns de meus colegas, que qualquer coisa escrim, por
mais pessoal e particu lar q ue seja, é, em última instância, mesmo
que subconsciemememe, destinada à atenção pública. Mas, como a
p ublicação era inevicável, pareceu-me q ue um prefácio que tentasse
dar alguma perspectiva e interpretação aos d iários era justificável.
Minha introdução original causou comentários adversos de ami-
gos meus que também haviam conhecido e admirado Malinowski, e
ernm cerminanremence contrários à publicação por julgá-la impró-
prio e possivelmence danosa à reputação de Malinowski. Horceose
Powdcrmaker, por exemplo, me escreveu, entriscecida: "Eu e muicos
ourros antropólogos não emendemos como você pode ter dado sua
<\pro vação tácita à publicação do Diâ1·io escrevendo uma inCl'odu~'iío"
(3/l 1/67), e sentimentos eq ui va!cnccs foram manifestados por ou-
rros, como Phyllis Kaberry e Lucy Mair.
A princípio, o livro foi recebido de maneira confusa. O suplemento
literário do Tàmt, num arrigo anônimo (26 de outubro de 1967),
reagiu de uma maneira bem depreciativa - "uma repetição muito
enfudonha de banalidades". Aqueles que haviam trabalhado com
M11Jinowski tenderam a fazer crít icas ferinas. lan Hogbin escreveu:
"A meu ver, o volume não interessa a ninguém, seja antropólogo,
psicólogo, cscud.ioso de biografü1s ou simplesme nte bisbilhoteiro"
(A111eric1t11 A111hrof1o!agist 70, 1968: 5 75 ). Edmund Leach foi mais reflexi-
vo, porém aii1da dccid idameme reprovador. Escreveu que a publica-
ção dos di:írios desacredirava todos os e r\volvidos. Mas frisou que, uma
ve:i publicados, cais documentos privados de pesquisadores de cam-
UM OIÁl\IO NO SEl'.'1100 liSTaJTO DO TERMO 27

po em antropologia deviam ser entendidos como artifícios para man-


ter um pé na realidade cm simações traumáticas, uma espécie de
catarse, e nunca interpretados como wn regiscro equilibrado da per-
sonalidade íntima do autor. Ele camb6Jn sublinhou o abSllrdo que
era a tradução de nigrami como "11igp,en"2 em vez de "negros", o que
coloca Malinowski em uma categoria racista (G11ardia11, 11/8/67).
Amiga Intima e conselheira da família Malinowski, Audrcy
Richards procedeu a uma avaliação ainda mais analítica. Ela havia
sido tcrminantemence contrária à publicação do livro e o considera-
va dcccpcionance do ponto de visu1 etnográfico. Sob o tírnlo ln Darkm
Malit10111sk.i (0 lado obscuro de Malinowski) (The Cambridge Rlview,
19 de janeiro de 1968), porém, ela se esforçou para elucidar o sig ni-
fk ado desce docwnento incensamente pessoal. Via Malinowski, com
seus estados de espírito oscilantes entre a esperança e o desespero, como
"o herói ou o anti-herói" do livro- "anti-herói porque ninguém ja-
mais foi mais brutalmente franco acerca de se11s próprios defeitos".
Ela mostrou como o personagem espirituoso e aparencemence bata-
lhador e angustiado do Diário era uma criacura muito diference do
renomado, cspirimoso e aparencemencc cínico professor de renome.
Eht discutiu detalhadamente a atitude negativa de Malinowski com
relação a seus informantes, cscabclecendo um contraste com as rea-
ções muito mais positivas que ele dcmonstrnu com rcspeitO a eles em
conversas posteriores com seus alunos. Carncteristicamence, também,
Audrcy Richards urilizou csra resenha dos diários de campo de
Malinowski como um bom pretexto para algumas observações ge-
rais interessantes de sua auroria sobre o papel do pesquisador em
antropologia de campo. Mas Richards, como ourros amigos de
Malinowski, preocupou-se com a impressão desagrndávcl que os diá-
rios poderiam causar a pessoas ql1C já se opunham ao professor. Ela
já havia me escrito anteriormente, no seu cscilo vívido: "Deduzi do
que Hortense disse que os amerirnnos jáestão uivando de contenta-
mento - não por causa de quaisquer impropriedades sc:xuais, que
não parecem importar mtlÍtO, mas em razão do uso da palavra '11igget·'
28 fiRON JSLAW :M.UINOWSKI

e da referência constance à sua antipatia por seus informantes e à


quamic.lade de tempo que ele passa com os europeus" (5/4/67).
Porém, as resenhas norte-americanas sérias fornm, na realidade,
muito diferences. Adamson Hocbel, embora dúbio acerca da justifi-
cativa para publicação, e considerando o livro difícil de ser avaliado,
estava consciente do seu caráter ímpar. Belamente descritivo cm al-
gumas partes, desinteressante, monótono, enigmático em outras, o
Diário poderia ser mais bem avaliado, segundo escreveu Hoebel, como
"um arriffcio ingêm10 de autotcrapia", uma l'epetição de lutas p1ué-
cicas e imaruras. Contudo, ele percebeu que por mais crítico que fos-
se acerca das pessoas, .Malinowski, nestes diários, nunca era mais duro
com os outros quanro o era cm relação a si mesmo . .E frisou que ne-
nhum dos defeitos pessoais que Malínowski ridicularizava nos diá·
rios apareceram em suas obras-primas amropológicas (Mimmora
Trib1me, aproximadamente maio de 1967). Numa extensa resenha
escrita em estilo de ensaio, George Stocki ng ficou impressionado com
as evidências de marginalidade cultural e relação ambígua com as
coisas típicas da cultura inglesa que transpareciam ao longo de todo
o livro. Estabelecendo uma analogia com Coração das treva.r, de Joseph
Conrad, Scocking via Malinowski "só com seus instintos" na situa-
ção de campo, embora eles civesscm mais a ver com sexo do que com
a noção de poder, como no romance de Conrad. Seja como for,
Stocking não considerou surprccndencc, de modo 11lgum, que a aci-
rnde de Malinowski para com os "nacivos" fosse ambivalence e fre-
qüencemente agressiva, e não intctprecou nem mesmo seus acessos
ocasiona is de violência como prova clara de tuna ausência de empatia
com o povo com o qual vivia. Aliás, a função catártica de escrever o
diário pode ter encorajado a empada de Malinowski, argumentou
Stocking. Ele tinha tendência a generalizar a reação de Malinowski
à sua situação de campo, e se interessava muito pela "exccnsa crise
psicológica pessoal de Malinowski, cuja aura permeia os diários".
Stocking via nos diários um significado mecodológico na hisrócia da
antropologia, porém apenas se interpretados no coneexco do corpo
da etnografia de Malinowski. Em contrasce com a maioria dos críti-
cos, considerou o livro "uma leitura fascinante", e o recomendou
UM D1.>\ruo NO S~NTIDO JJSTRITO no TERMO 29

enfuticamence aos ancropólogos (}otmkll o/1he Hi.1to1;• ofthe Behavi1Jral


Sciences, vol. IV. nº 2, 1968: 189-94).
Uma extensa resenha feita por Clifford Gccrcz (New Y!irk Re~iew
ofBooks, 14. de setembro de 1967) foi mais çonrida e desmerecedora
de Malinowski de modo basrante daro. Geertz d assificou o livro como
"um documento deveras curioso" e viu nele uma crônica de um
Malinowski trabalhando com afinco num mundo (Nova Guiné), e
vivendo com intensa paixão em outro (um çcnário imaginário 1\us-
trali.ano e europeu). O livro mostrava "uma espécie de quadro vivo
meneai cujos personagens estereotipados - sua mãe, o amigo de
infância com o qual havia se desen.tendido, uma mulher que ele ha-
via amado e desejava esquecer, outra pela qual agora estava apaL'<O-
nado e com a qual pretendia se casar - encontravam-se todos a
milhares de quilômetros de distânda, com seus gestos eternamente
congelados que, com angustiante autodcsprezo, ele conrempla ob-
sessivamente". Nesse r·clato rebuscado, Geerti acentuava dois temas
prindpais, cada qual marcado pot éonttástés. Um tefor<:-s<: à COJ1tra-
dição encre a empatia convencionalmcnte atribuída aos anrrop6lo-
gos com relação às pessoas que escudam, e a atitude aparentemente
dimtnciada, freqüentemente brutal, de Malinowski ao escrever sobre
os kiriwinianos. "O valor do exemplo constrangedor de 1vfalinowski
é que, se alguém levar isso a sério, fica difícil defender a. visão senti-
menrnl da relação como dependenre da evolução do antropólogo e
do informance em um únko universo moral e emocional." O segun-
do rema era que Malinowski se sa.lvou de "um pântano em<Jcional"
de nostalgia e desespero por meio do rrabalho árduo. "Não uma com-
paixão universal, mas uma crença quase calvinista no poder purifi-
cador do trabalho tirou Malinowski de seu próprio mundo obsrnro
de obsessões edípicas e auropiedade e o levou pata a vida cotidiana
de 1í:obriand." Embora a resenha expusesse pontos de vista as euros,
era rebuscada, e deixou uma impressão de disrorção naqueles que
haviam con11ecido Malinowski e trabalhado com ele. Retratar o pes-
quisador de campo arquerípico rnmo "um narcisista hipocond ríaco
rabugento e auwcentrado" parecia uma caricatura. Então Borrense
Powdennaker e Ashley Montagl1e, por exemplo, se sentiram compe-
30 BRONJSLAW MAU!\OWSKJ

lidos a protestar contra a visão inexata de Geercz de que Malinowski


era aparentcmenrc incapaz de se re lacio nar com as pessoas - uma
visão, insistiram eles, desmentida pelas próprias evidêncins de Mali-
nowski em A rg1111a111as e outras obras e por suas relações com os estu-
dantes (Ne'W 11irk RJviw of Books, 9 de novembro de 1967). A crítica
de Geertz ilustrava, ao que parecia, o peri80 que Lcach havia apon-
rado, de tomar os desabafos in tensamente pessoais e privados do Diá-
f'io como pistas para a personalidade do auror como um todo.
Uma das resenhas mais perspicazes e favoráveis foi a de um an-
tropólogo qlte nunca travara contato com Malinowski, mas que ha-
via tido muitas experiências na Nova Guiné. Anthony Forge não
encontrou dificuldade cm interpretar o modo básico de expressão de
Malinowski como uma resposta comparável à de um pesquisador cle
campo moderno na área da antropologia. Sob o tímlo 1'he umt/y
At11hropologiJ1(0 antropólogo solitário) (New Socie1y, 17 de agosto de
1967), ele observou que, embora se aprenda pouco sobre o método
de pesquisa de campo no Diário, ele mostra muito bem o dilema de
rodo anrropólogo no campo - reter sua própria idenridade e ao
mesmo tempo se envolver o máximo possível nos assunros da socie-
dade local. A solidão do antropólogo é de um tipo especial - "cer-
cado de pessoas das quais gosta e que gostam de você ou no mínimo
o toleram de bom g rndo, musque nfto fazem idéi(l de quem você é,
que ripo de pessoa..." As sal1dades de uma civi lização idealizada e
discante são frusmmtes, e as cartas, decepcionances; "há apenas uma
pessoa que pode começar a entender como voce se sente, e é você
mesmo". Portanto, para aqueles que rêm fucilidade para escrever, um
cliário é uma catarse valiosa. "Essa é a função de ltm diário sob tais
condições, um lugar para desopilar o fígado de forma que no dia se-
guinte tudo possa começar do início." .Mas como assinala Forge, de
forma talvez radical demais, os diários dos pesquisadores de campo
nada significam para ninguém, a não ser para eles mesmos, o produ-
to de uma espécie de esrado suspenso entre duas culcuras.
Diante de toda essa diversidade inicial de opiniões, como fica o
Diáriq agom? As opiniões expressas na minha primeira Introdução
aincla são válidas?
IJM DJÁRJO NO SENTIOO flST!UTO 1)0 '!'ERMO 31

Passados vinte anos, as ondas de choque geradas pela publicação


deste documento se arrefeceram. Poucos antropólogos que conhece-
ram Malinowski ainda vivem. Os diários passaram a ser encarados
de tuna perspccciva um ranco diference. Podem ser aceitos como par-
ce da literacura da hiscória da antropologia. Fora de moda, excêntri-
cos, freqüentemente irrelevantes porém permitindo um vislumbre,
mesmo que parcial, da personalidade de um dos fundadores da mo-
derna ancropologia social, ajudaram a esclarecer a quescão do que
significa ser um trabalhador antropólogo engajado no escudo do
material social humano. Quando Hortense Powdermakcr me repre- 1
endeu por escrever a In trodução, parte da minha resposta foi: ''.Ao ler
os Diários, considerei-os fascinantes porque conhecia bem Malinowski.
Outras pessoas que não o conheciam cão bem os acham agora
desconcertantes, tediosos ou uma boa munição contra o mico de
M11linowski. O que me chama a atenção é que, quando tada a poei-
ra se assentar e tivermos partido, os Diários podem, com o auxílio dos
maceriais comidos em resenhas e comenrários, ajudar a elucidar um
pouco mais para as futuras gerações de antropólogos alguns aspectos
da personalidade complexa de Mal i11owski. Isso pode significar mais
no furuco do que significa hoje, embora já haja uma tendência dis-
cinca no sentido de tentar compreender o que um aocropólogo pro-
duz a partir de sua personalidade e de suas relações com as pessoas
qLLe estuda. O que ainda necessicascr elaborado 6 que wn antropólo-"
go não precisa - embora em gecal o faça - g011ar do 'seu' povo
para realiiar um bom trabalho" (7 /l l/67).
Ora, creio que canco minha i1urodução original quanto as opi- ~
niões expressas naquela carca ainda são amplamente válidas. Mas o
que rendi a omitir na introdução original foi o valor do Diário num
sentido analógico. Eu o havia encarado a princípio como uma pista
para a incerpreração da personalidade de Malinowski, e, portamo,
da sua obm. Mas não me dei conta de que, para ancropólogos mais
jovens, não familiarizados com Malínowski, o interesse do livro po-
deria estar naquilo que eles mesmos extraíssem dele como ajuda ou
reafirmação para a compreensão de sua própria posrura ao confron-
car com os problemas de campo. Eis por onde a resenha de Anchony
32 BRO:.llSLAW MALINOWSKI

Forge parece ter captado o significado dos Diári01. A moda acuai da


"antropologia reflexiva" pode às vezes dar a impressão de transfor-
mar a ernog rnfia em autobiografia. M11s há um reconhecimento muico
mais nítido hoje em dia de que a posição do emógrafo não é simples-
mente a de alguém que registra a vida Jc urna sociedade, mas tam-
bém de alguém que canto afeta essa vida como é afetado por ela. Os
primeiros emógrafos não desconheciam isso. llfas, naquela fase do
estudo, a grande tarefa de descrever e analisar as instituições estra-
nhas parecia mais importante do que discorrer sobre nossa percepção
• a rcspeiro de nossos próprios papéis na situação.
'falvez renha havido ainda outro elemento na recepção do Diá-
rio. A relativa falta de informação sobre as reações pessoais dos pri-
meiros antropólogos no campo tendeu a conferir um ar de disran-
ciamcnco olímpico aos relatos publicados - o antropólogo vinha,
via, rcgistrnva e se retirava para redigir o material, aparentemente
incólume diante de suas experiências, com no máximo um capículo
introdutório comendo comentários sobre relações com as pessoas e seu
efcico sobre o pesquisador. Com a 1>ublicação do Diário de Malinowski
este estereótipo foi destruído. Os pesquisadores de campo revelaram-
se cambém humanos - muito humanos. Até mesmo o decano da
disciplina havia sido exposto à tentação, havia mostrado as fragili-
dades do enfado, da rnallcia, da frustração, do desejo de escar junco
aos seus e demonstrado até mesmo suas menores ang ústias. Deve ter
sido com algo semelhante ao alívio que alguns jovens antropólogos
descobriram os "pés de barro" do mais eminente dos profissionais
veteranos. A interpreração mais tolerante ao Diário pode perfeitamente
rer sido reforçada pela percepção de que não só entre os antropólo-
gos, mas também de forma mais abrangente, como, por exemplo,
no campo literário, já se aceitava com mais naturalidade a publica-
ção de detalhes íntimos da vida pessoal.
Diante disso, é inceressance levar em consideração algumas ava-
liações recentes da obra de Malinowski, inclusive o Diário. Uma das
características mais intrigantes de algumas análises modernas é o com
autoritário das declarações sobre Malinowski por paree de pessoas que
nunca o conheceram. FoNl isso, um aspecto ressaltndo nas avaliações
UM DIÁRIO NO SENTIDO Esnum DO TERMO 33

modernas do Diário é o problema de sua valídade coroo evidência do


dilema de traduzir a experiência de c:impo através da redação de uma
cenografia siscemácica. A linguagem do debate foi recentemente
enriquecida por focos de interesse no campo da literatura. Clifford
Geercz dedicou uma parce de um livro sobre o antropólogo como
:mtor (Works and Lim. The Amhropologis1 "J A111hor {Obras e vidas, o
antropólogo como aucor), Scanford Un.iversity Press, 1988) a Mali-
nowski. Seu tratamenro é mais brando e analítico do que na resenha
sobre o Diiltio vinte anos antes, embora ainda com tendência a uma
expressão exagerada. Ele se preocupa principalmente com os textos
de Malinowski. O Diário "presumivelmente não escrico para ser pu-
blicndo" suscita então u m problema não mais psicológico, e sim li-
terário. É '\un gênero de prod11ção literária endereçado íl um ptlbli-
co de um só individuo, uma mensagem do eu que escreve para o eu
que rn". Nele e em seus omros escritos etnográficos, Malinowsk.i -
segundo Geertz - tentou projcc:at duas imagens antitéticas de si
mesmo - por wn lado o Cosmopolita Absoluto empático com um
sentimento solidário em relação aos selvagens que escuda, e por ou-
tro o Investigador Completo (termos de Geercz). neutro, rigorosamente
objetivo. ''.Alto Romance e Alta Ciência... que não se unem facilmen-
c:e" (pp. 78-79). diz Geertz, cm uma magnética simplificação.
James Clifford ("On Ethnographic Self-Fashioning: Conrad anel
Malinowski" (Sobre a auto-adaptação cenográfica: Conrad e Mali-
nowski] em Recom1mcting l11divirl1u1/is111: A11ton~my, llldivir/11alily a11d
tht St/f i11 \fil1stem Tho11gh1 [A recoastrução do individualismo: auto-
nomia, individual.idade e oJt/fno pensamento ocidental, org. Thomas
C. Hcllcr, Morcon Sosna & David E. Wellbery. Sranford Univ. Press
1986: 140-62) escolhe uma linha difcrcnre porém a.inda orientada
pam o literário. Como outros fizeram, Qifford comparou O coração
dar frnJaJ ao Diário de Malinowski e Argo11a111s of 1he \r-lsttm Padfic
(Argonautas do Oeste do Pacífico). Na opinião de Clifford, que se
justifica, Malinowski escava mais pura Zola do que para Conrad -
"um naturalista apresentando 'focos' e uma atmosfera singular".
Clifford vê o Diáriu como um rexco polifónico inventivo e um docu-
mento crucial na hisrória da antropologia porque revela a complex.i-
34 BJ\ONISLAW M/\LlNOWSKI

dadc dos encontros cenográficos. Porém, num lapso de habilidade


crítica, ele trata o Diário e A~go11autrJJ como "um lÍn.ico texto expan-
dido". Ele ignora não só o intervalo de tempo encre eles - quatro
anos aproximadamente - como também o faro de que o Diá,.io foi
escdro, não para publicação, no dia a dia nas ilhas Trobriancl, quan-
do Malinowski era solceiro, numa época de grande tensão; ao passo
que Argo11rmtm foi escrito para publicação, como uma obra unificada,
nas ilhas Canárias, quando Malinowski era um homem bem casado,
numa épocll de relativa tranqüilidade. É claro que são pólos opostos.
Mas ''ê-Jos cfctivamenrecomo dois lados de uma complexa persona-
lidade co11te111porâ11ta de Malinowski é um exagero. Além do mais,
Clifford ficou fascinado pela idéia da fi<fÍÜ> e tende a tratar como
ficcional qualquer texto que contenha um elcmenco de subjcrividade
pessoal. Não está claro o que ele emende por "ficçilo". Mas, parn ele,
o Diário é uma ficção do ser para Malinowski, e Argo11a11ta! a ficção
de uma cultu ra - embora "ficções culturais realistas'', o que quer
que isso queira dizer. (Em alguns conrexws, Clifford parece equipa-
rar "ficção" e "constructo".) No seu zelo pela interpretação literária,
Clifford 6 rencado aré mesmo a propor que uma compreensão etno-
gráfica - empatia coerente e compromisso pam com o povo escuda-
do - deva se r visra mais como uma criação nascida da escrit<1
etnográfica do que Ltma característica da txperit11cia cenográfica (p. 158
- palavras colocadas cm irálico por Oifford). Mas, embora possa-
mos não aceitar todas as interpretações de Geerti ou de Clifford. seu
rracamenco sério do Ditlriq e seus comentários sugestivos mostram que
o trabalho já ocupa um lugar estabelecido na antropologia.
Porcanco, nesta segunda introdução ao Diário, eu modificaria
uma opinião dada na primeira introdução. Embora o livro sem
dúvida deixe a desejar "no seu sentido puramente etnográfico" eu
não o classificaria mais como "nada mais do que uma noca de rodapé
da história da antropologia". O conceito de cenografia se alrerou e
se ampliou, e o livro, conseqüentemence, passott a ocupar Ltm lugar
m;tis cenrral numa literatura de reflexão a respeito da anrropolo-
gia. Não se trata meramente de um registro do pensamento e do
senrimenro de uma personalidade brilhante e rnrbulenrn que aju-
UM DIÁRIO NO SENTI 00 IJSTRJTO DO TERMO 35

.lou a consricuir a antropologia social; também é uma concribui-


\·'º altamente significativa parn a compreensão da posição e do
papel de um pesq uisador de campo como participante conscienic
numa sitllaçiio social dinâmica.

RAYMOND F 11n-H
OBSERVAÇÃO

O~ problemas envolvidos na produção de um ccxco fiel a partir


, los originais manuscritos tornaram necessário o emprego de cer-
1HS artifícios editoriais. Em alguns casos, a cal igrafia escava ileg í-
vrl, e isso foi indicado por reticências encre colchetes{...] ; esses
1rcchos raramente envolvem mais do que uma palavra ou frase
, 11rta. Em outros casos, onde não foi possível compreender bem
11 lg1,1 mas palavras ou g rafias, foram empregados colchetes para
111dicar leituras possíveis. Também se utílizaram colchetes p1\ra
"' r6scimos editoriais comuns visando prestar esclarecimencos,
1 orno na primeira página do texto: {Fritz) Griiboer {antropólogo

1tlcmão); ou oode as abreviaturas talvez não fossem prontamente


w rnpreendidas-como em S[ua} E[xcelência}. Os parênteses são
'e mpre do aucor. As omissões editoriais são indicadas da forma
rnsmmeira, por reticências.
Conforme explica a introdução ao Glossário de Termos Nativos,
o~ manuscritos orig inais concêm muitas palavras e frases das muitas
ltnguas que Malinowski conhecia. Um coque pit<)resco é que o em-
prego de palavras e expressões em línguas estrangeiras foi indicado
destacando-se ern itálico rodas as pahwras que nii,o fossem cm polo-
38 131tONISLAW .MAl.INOWSKI

nês (inclusive trechos em inglês), com rraduções entre colchetes onde


pareceu necessário.
Os mapas dccalhados (da área de Mailu, do distrito dok11/a e das
Trobriand) baseiam-se em mapas pLtblicados nas primeiras obras de
Malinowski sob sua supervisão pcc-ssoal. Alguns dos ropônimos não
correspondem aos dos mapas aruaês (particularmente na ortografia),
mas pareceu preferível mostrar esras áreas como eram dura me o perío-
do abrans ido pelos diários.
PRIMEIRA PARTE

~ 1914 - 1915 ~
Porc .Morcsby, 20 de setembro de 1914. No dia i• de setembro uma
nova fase teve início em minb:a vida: uma expedição* soiinho aos tró-
p icos. Na terça-feira, l.9 .14, acompanhei a Associação Britânica até
Toowoomba. Conheci Sir Oliver e Lady Lodgc.•• Conversei com eles
e ele me ofereceu assistência. A falsidade de minha posição e 1\ tenta-
tiva de Stas' para "corrigir" isso, meu a.fa~camenro de Désiré Di-
ck.inson, minha raiva de Sras, ••* que se transformou em um pro-
fundo ressentimento que persiste até hoje - tudo isso pertence à
época anterior, a viagem à Austrália com a Associação Britânica. \lóltei
para Brisbane sozinho num vagão, lendo o guia rurístko australia-
no. Em Brisbane me senti basta nte abandonado, e jantei sozinho.
Passei as noites com [Fritz} Grabner (antropólogo alemão] e Pringsheim,
que espera conseguir regress\\r à Alemanha; conversamos sobre a
guerra. O saguão do Hotel Danicll, sua mobília barata, suas escadas
aparentes, estão intimamente ligados a minhas recordações deste pe-
ríodo. Lembro-me das visicas matinais ao museu com Pringsheim.
Visita ao Burns Phelp; uma visira ao ourives; uma reunião com (A.R.

$1-Q retac6dodc l'-lalinowski sobre ~t~ cxpediçio intítula•$e7 bt 1'idlitYs ~fAf.!li!:1: Prtlimifidf)' R,.1111fts
11/1/]t! R'Jbm Jif~id /?JJt.1trb W~rk in Jjrili1h l\tu.r C:1i111d(Os nativos de ~.f,,,ilo: res~1 h:1.d0$ prc-li.min,.rC$
dô 1tabalho de pcsquis;i de Rolx:rt Jo.<ond n;& No-va Gu io~ brit§nica), 'I'fd!tJ:ltti~tJs ~ftht KtiJfd S«ilty
tf S4#th ÀNJtra!i:t, XXXIX, 19 15.
• ~S/rO! iver Lodt;e, cminw te físko 1 'nglê$, t::i:nbétl'\ $C inrerC$sava t>ela 1,esquisa nos:<ampos da religião
e d:i p;kolQ!_tia, e j:1 h:.i.via publicado divcrus ol>ra; p!ocurando 11proxima1 os po1n<.l4 de vj~t;-1 éÍ<ló •
tfflco e rcl igio~o. Desde 1900 Cht reitor d;t Ur:iV<.:uida,?e ele Bi1!llÍl\é;h:l(n.
***St:nli$law lz11acy \Xlitkicwjcz (1885- 1939>. filho do tcnomado poet~ e pintor polo n~s e i1rtist11-
n1tco. amigo Cntimo de ~í~tinow.ski desdç a infânci:i.
42 BRONISLAW MAUNOWSKI

Radcliffe-] Brown... Na noite de quinta-feira fui falar com o Dr.


Doug las,• me despedir dos Golding e encregar à sra. Golding uma
carro para Sra$. Devolvi livros a ela.
Era uma fria noite e nluarada. 6nquunco o bonde subia, vi o su-
búrbio lá embaixo, no pé do morro. Tive medo de me resfriar. Saí para
um passeio com a irmã do doutor, uma lou ra roliça. Então chegaram
os Golding. Por sentir saudades d a Assoe. Britânica, Wtrei-os com
uma cordialidade que, no encanto, niio foi rcrribu.ída... 1ivc uma noite
muito mais acolhedora na residência dos Mayo. N o ite; chuva; após o
jantar, fui acé a bam1. Noite calma, tranqüila, a barca se iluminou
subitamente quando a lua saiu de trás das nuvens. Caminhei até o
pé do mo rro e me perdi; começou a chover, e Mayo veio ao meu en-
contro com um guarda-chuva. Falou sobre a possível demissão de
Seymour, plunos para o verão, possibilidade de passarmos as férias
juncos e rc. São pessoas encantadoras ao extremo. Voltei ao bonde. O
condutor me lembrou Lirwiniszyn. Muitos bêbados. No final das
contas, não me senti bem em Brisbane. Um medo incenso dos rrópi-
cos; aversão ao calor e ao mormaço - uma espécie de pânico de en-
frentnr um calor cão terrível como o dos meses de Junho e julho ante-
riores. Apliquei cm mim mesmo uma injeção de arsênico, depois de
esterilizar a seringa na cozinha.
Na manhã de sábado (dia da eleição), fui ao museu enrregar um
livro ao diretor; depois comprei medicamentos (cocaína, morfina e
em6ticos} e enviei urna carta regi~trada a Scligmnn** e vál'ias para
mamãe. Depois de pagar a exorbitance conca do hotel, embarquei
no navio. Diversas pessoas vieram à minha despedida ... Os Mayo fi-
caram na praia; observei-os durante muito tempo pelo binóculo e
acenei para eles com o lenço - senti-me como se ~tivesse deixando
a civilização. Estava um pouco deprimido, com medo d e não me sen-
tir à altura da tarefa que me aguardava. Depois do almoço, fui para
o convés. Navegar rio abaixo me lembrou a excu rsfo com Désiré e os

4Ptova,.dm1:nlc o comtt.dadof John Oougl~, qu-~ h11...·l11 $ido coinisdrio c-src-c1.1I do Pr<Kctorado
Brit&nico d1 l':ova C~\Jiné, ltl86· 1888.
•"(i. C SelisrnAn, ~ntropólogo bcit:inko, m~ntor de ~b.linoWlki e a-;itOf d:! obra 1'JN J\!i/an•i.,•uif
JJn11~ J\':~G•iru.J ({)$ me~césd da Non c;,unt bcitioica)(l?IO).
U~I 0JÁRl0 NO SEWTIOO ESTRITO DO TERMO 43

ourros "Associados". Eurypides fica abaixo <lo g iganresco macadou-


ro. Conversei com comprmheiros de viagem. As margens baixas do rio
se alargam subitamente. Havia morros em toda pane; terra a oeste e
ao sul ; ilhas a leste. A notocsrc, ns formas estranhas e pitorescas das
monrnnhas Glasshouse se elevam de uma planície. Observei-as pelo
binóculo; elas me lembraram a excursão de sábado à cordilheira
Blackall ... Antes, eu havia observado o navio se afascar da ilha; o mar
ficou cada vez mais encapelado, o navio jogava cada vez mais ... Fui
para meu camarote depois do jantar e adormeci após uma injeção de
Alkarsodyl. O dia seguinte pttssci no camarnre, sonolento, com en-
xaqueca e entorpecimento gencrnlizudo. À noire, joguei cartas com
Lamb, o capitão e a sra. McGrath. O dia seguinte foi melhor; li Rivers*
e a gramácka do Moeu.** Fiquei amigo íntimo de 'Iltplin e dancei
com a sra. McGrach. Esse clima pcrsisriu. O mar escava de um verde
lindo, mas eu não conseguia ver teda a extensão dos recifes [da Grande
Barreira]. Muitas ilhotas pelo caminho. Gostaria de cer aprendido os
princípios da navegação, mas tinha medo do capitão. Mamvilhosas
noites enluaradas. Apreciei demais o mar; navegar rornou-se excre·
mamence agradável. De modo geral, ao zarparmos de Brisbane, uma
consci~ncia de qL 1e sou alguém, um dos mais notáveis passageiros a
bordo ...
Saú:nos de Brisbane n<> sábndo, 5 de setembro de 1914, chegamos
a Ciirns na quarta, 9 de setembro. A baía escava encantadora, vista 11
meia-luz da manhã - altas montanhas dos dois lados; a baía emre
corres profundos que desembocavam cm um amplo vale. A cerra era
plana no sopé das monranhas; no fim da baía, cerrados manguC1?ais
verdes. Montanhas envoltas cm bruma; lençóis de chuva desciam con-
tinuamente pelas encostas rumo ao viue e se encaminhavam para o mar.

*W. M. R, l\l\ e1s, nntropólogo ç fl~iolo8i~1 11 ioglê.s, Íundndoc d,l ~col a <lê jlSIMloAfo <'lll)C!timentt1.l
1

de (.a111b1ldgc. Aplico:.i tL'$tC9; l'lo!lico!ó1;icos cn110 o~ mcl:111é;iQ$ , e deieovofo.'tu un1 método d~ rtit;is·
tr.lr d11dos de J>arcnu:s<o que 6e tornou o n161odo n11is imporh\nte p:u• co!<:ta tlc d1doa no uab.dho
de <an11>0. Sua õb;a 1'nOuen600 todo o uabalh(, do e•ms», incluindo o de MalinoW$ki. Sua llUt"")
ef1Y.tlr1-,:f11.1• SKitl) (Hütótia da. sociedade 1ncl•rhi.t) fcM ()'iblica.da. e-m 19 l4.
""~IOH>. a Hngu.a dos mQcuJ (t:m uMno de Pon }.{Of'C:Wy) < lfr1sua. fra.nu <m iían.1m do Sul.
~f•l i~kl u1 ilitoo umagramiOO e um \'OC&bçfirio ~aw.cotia do tcvnendo W. G. l.av.u ( ltt88).
a. únka obft pvb!.t.cla 1obrc a líns,ua naqu<b ~
44 BRONISLAW MAUNOWSKI

Em cc1·ra, escava úmido em razão do clima nopirnl quente e abafado,


a cidade era pequena, desinteressante, o povo marc:ado pela presunção
típica dos rrópicos ... Voltei a pé para o mar e pe1·corri a pé uma praia
de frcnre para o leste. DiversM a\sinholas L~m bonitas com jardins rro-
picais; enormes lúbiscos roxos e cascaras de buganvílias; diferenres
matizes vibrantes de vermelho concrn lustrosas folhas verdes. Tirei al-
gumus forografias. Cruniohei devagar, sentindo-me muito lerdo. (Vi]
um ncampamcmo de aborígines, um rnanguezal; conversei com um
clúnês e um australiano dos quais não consegui obrcr informação al-
guma ... Naquela rarde, li Rivers. À noire, um bando de bêbados. Vi-
sitei um russo e uin polonês embriagados. Consulrn médica com o rus-
so. O russo conm1bandeia aves-do-paraíso. Volcei para esperar o
"Monroro". Lamb estava embriag ado. Fui à praia com PergLtson e
aguardei ali. O "Monroro" aproximou-se bem devagar. Vi os 1Iaddons,•
Balfour,•• Mme. Boulanger, AJcxander, a srta. Crossfield e Johnson.
Mais uma vci, me irritei e me decepcionei do ponco de vista emocio-
nal. Conversamos durante quinze minmos, eles se despediram e se re·
colheram. Eu rambém. Ah, claro, foi daquela vez que eu cometi o erro
de ler um romance de Rider Haggard. Dorm i mal naquela noite, e me
senti péssimo na quinta-feira. O mar estava muito agitado- vomitei
o desjejum, foi para a carna e vomicci mais duas vezes. Passei a noite
no convés com todos os outros passageiros, canrando canções inglesM
no escuro. Na sexta, 11.9, a mesma coisa- não consegui digerir nada,
nem a gramática Moeu. Naquela noite arrumei parte da bagagem.
No sábado, 12.9, chegada à Nova Guiné. Pela manhã, viam-
se as moncanhM enevoadas a distância. Uma cordilheira muito alta
atrás das nuvens, com várias outras cordilheiras abaixo dela. Pe-
nhascos rochosos chegando até o mar. O vento escava bastante frio.
Ao largo, um recife de comi, os de.strOÇ,OJ do "Merry England"••• à
minha direita. Um morro atrás do qual fica Port Moresby. Eu me

• Alf1cd Cort ll1ddo:t, ar.11ot>6fog:o e etnólogo inglês, gu.ntle fi.guta J:1 antrcpolosln da é-p<x:11.
••1-lcnt)' lblf<>1.11, f1. R. S., 11n1topQIQgO insti:" C' (utnJo-r do 1t1011-0u de 11iu•Ri\·cu c-11\ Oxford.
**+"fl.fcrric Engl11nd". unl l>.ltco :i. v.apor do savcrno. q.1e,. mi l904, bavú. sido uudocm um.t ec·
~.Jo ~ dcw,çt•VO i ilha de GO&tibl.ri pau vina1'r o &Ua.u lm10 c-a.nabdnco de J0tt m is~io-nirtOS
e cki: ilhtus Kiw1tí, cm 190 1.
UM DIÁRTO KO SENTIDO E$TRITO 00 TERMO 45

sentia muito cansado e vazio por dentro, de forma que minha im-
pressão foi um canto vaga. Entramos no porto e esperamos o mé-
dico, um homem de cabelos escuros, gordo e desagradável. Deixei
minhas coisas no camarore e desembárquei com a sra. McGrath.
Visicei a sra. Asluon, depois o sr. [H. \Xi'.] Champion [secretário do
Governo da Papua) - telefonei para o governador [juiz J. H. P
Murray, vice-governador da Nova Guiné britânica}; depois]ewell;
depois Stamford Smith,• das 12 às 4 ; fui buscar parte da bagagem
no navio, e naquela noite me recolhi muito cedo e donni dtuame
muito tempo, porém mal.
Na manhã de domingo, fui ao Instituto Stamford Smith e li Rela-
tórios lá, pondo-me a trabalhar de maneira positivamente enntSiásti·
ca. À uma da tarde peguei um barco para o Palácio do Governo, onde
a tripulação de selvagens de carapin ha com uniformes do governo me
deu a impressão de ser wnsahib. Minha disposição geral nas primeiras
horas: cansaço pelo longo enjôo marítimo e a leve omla de calor. Um
tanto deprimido, mal sendo capaz de rne arrastar morro acima até a
casa da sra. Asbron. Port Moresby me deu a impressão de ser justa-
mente o ripo de higar sobre o qual se ouve falar muito e do qual muito
se espera, mas <JLIC acaba se revelando inteiramence diference. Dava-
randa da sra. Ashton via-se um declive acenmado, terminando na praia,
coberta de seixos e capim fulhado e seco, e poluída com dejetos. O mar
havia rccorrado uma pro!Unda baía circular com uma entrada estreita.
Jazia ali calma e azul, refletindo um céti qtie ao menos era límpido. Do
lado oposto viam-se cadeias de montes, não muito altos, de formas
variadas, crestados pelo sol. Na praia próxima, lllll morro cônico se eleva
na entrada de ourra enseada que avança profundamente para o inte-
rior, em baías gêmeas. À direira, o morro próximo impede que se ve-
jam as aldeias nativas e o Palácio do Governo, que para mim eram as

•Ptova...clmcotc }..{i!çs St~ nifo1th Cater Sml11l, <)\,iCCii\ 1907 efà Jitélóf Jc tS:ffouhurt e n\in.u
t' comissítio de 1cu as e lcvantamc-ntos cm Pon: Z..1o r~by, cm l908 foi nomc11doad1niniHr:idor
dn P~ putl, e dcpoi$ ~e torno~1 di~ctor de ~8fku h ura e 1nioas, ca1niuá1io de terras e lcvanca1ncn-
to3 e vicc-a<lininisrrador. Ern l9l0- 19 1 l. lidc1ou uma cxpcdiçiio cxplor;idorn n ~ á rc~ e ntre o
rio -Purari e a b:icia dos r i~ FL)' e Strkklind, pcl:\ qo ~l rccc:IJcu a 1ncdalha da Real Sociedade
Gç08ráfica .
46 BRONISl.AW MALINOWSIG

camcterísticas mais interessantes da paisagem, sua quintessência. Ao


longo tfa praia corre ltma trilha rcfarivamcnre larga - passando pela
estação de rádio, atrav~s de a.lamedas margeadas por palmeirns, atra-
vessando a praia cscreica na q11al alguns mfos de mangue nascem aqui
e ali-levando às aldeias nativas. Eu não fui até lá de jeito algum oo
meu primeiro dia.-
No domingo, dia 13, subi (11t 111pra) ao Palácio do Governo. O
sobrinho do governador veio me receber no meio do caminho. A ala-
meda passa entre coquciws, uma figueira gigantesca; depois dobra
e contorna o palácio an.tigo, cm direção ao novo. O governador
Murray é um homem alco, um pouco curvado e espadaúdo; muito
parecido com o rio Scaszewski. É agradável, calmo e um pouco rísi-
do, não sai da sua concha. Dois garotos scminus serviram o almoço.
Em seguida, conversei com o governador e a sra. De Righi, uma
australiana bondosa e vulgar que me tratou com a deferência de uma
pessoa socialmeme inferior. S(ua) E[xcelência) me enrregou tuna carta
para O'Malley e cu o visitei cmsua pequena casa cercada de palmei-
ras, abaixo do Palácio. Homem gordo, de baixa esrarura, barba fei-
ta, lembrou-me um pouco Lcbowski, só que mais en bem1. Ele man-
dou chamar Ahuia.• O governador e a sra. De Righi se reuniram a
nós, e os três nunamos para a aldeia. Foi mioha primeira visão dela.
Entramos cooos na casinhola de Ahuia. Duas mulheres vcscidas ape-
nas com saias curtas de capim. A s ra. Ahuia e a sra. Goaba ltsav:un
vcscidos feitos de tecido de pêlo de cabra. Murray e cu conversamos
com a sra. Almia, e a sra. De Rig hi com a sra. Goaba; examinamos
cabaças contendo visco para mascar noz de aceca.' A sra. Goaba deu
wna à sra De Righi de preseme. Nós quatro percorremos toda a al-
deia; divisei o d11b11** construído [ ... ) em 1904 em Hododac e ai-

'Noic• v.tnl'lclb..s cnroil.adu tm íolhas de •1«a b>nt efeito auc6tiro q\l.Uldo mnuda.s ~t urto VWI•
da• as Índn1 e no Su.dOC$<tc d• Ásia, ir.cl.i•i'ic, $Cgundo a n11 11:tçio de l\i11linowski, nll 11a1>1>a· Nov1L
Guin6. (N. 'k' T.}
• l\huia Qv,1,, ínfortnantc nativo Uri.:ladOCM c1no103Ja por $cligrnan. que po:stcfiormc:HC dcsenvol•
,.~ s.cu própdo 1µb.lho CO>Ol6.çtco. Vct P. 6. Willi•m•, "'11)C Remini&rcncts of t\huia Ova" (Remi·
nitc<ndMde Ahuia Qva) in} W1.•'1u1/ c,f1ht /?.byp) A n1/n'()/;~J;ifl:IJ lnllittdt, LXIX, 1939, pp. l l·+i; e C
S. l}cl.shiw, "'('he I.a$t Ytarsof Ahui2 Ova" l<n últimot iul(lt de A\ui.\ {)v-;t). in At1i:-, 19)1, oG23().
• '0 glos.s.í.riodc cctmo.s nuhros: •e c:DC001ra na )JÍSirtt 32S.
UM DIÁRIO NO $í;lfl'ID() ESTRITO DO TERMO 47

guns casebres inteiramente novos de folha de flandres, amoncoados


coere as velhas cabanas... Separd-me do gov. e da sra. D. R. Os
meninos do barco me alcançaram. Voltei no barco e lhes dei 2 /-de
gorjeta. Já tinha escurecido quando cheguei à casa dos Praet.* Ahl
sim, no dia anterior, oo hocel Ryan's, ** eu havia encontrado Bell,
que me convidara para jantar na segund11-feira. Noite com os Pratc;
Bel!,•*- Sramford Smith, a sra. Pnct e as duas fiihas. Falamos sobre
as excursões das moças, sobre os 111e1Ji11os etc.
Na segunda-feira, dia 14, fui visitar o juiz Herbert•••• e peguei
Ahuia emprestado durance um dia inteiro. Saí com Ahuia e Lohia
por volta das 11 horas e obtive algumas informações. Depois fui até
o Palácio do Govcroo e aguardei o almoço durante um tempo enor-
me. Só rct0rnei à aldeia às três. Ali, na casa de Ahuia, os anciãos
havfam se relulido para me passar informações. Agacharam-se em
fila ao Joogo da parede, carapinhas sobre corsos neg ros, vescidos com
camisas velhas e rasgadas, roupas de caça 1·emendadas e pedaços de
uniforme cáqui, e sob essM veseimenras civilizadas se entreviam sihiJ,
uma espécie de cinco que cobre as coxas e partes adjaceores do corpo.
O cachimbo de bambu circulou rnpidamencc. Um pouco incimida-
do por esse conclave, sentei-me à mesa e abri um livro. Consegui in-
formações sobre id11h11, genealogia, pergunreí sobre o chefe da aldeia
etc. Ao crepítsrnlo, os Mciãos particam. Lohia e Ahuia ficaram. Andei
aré chegar a Elevala. Já escava escuro quando vokei. Um pôr-do-sol
maravilhoso; estava frio, e eu me sentia descansado. De forma não
nítida nem incensa, mas segura, se ntia que um vínculo estava se for-
talecendo entre mim e essa paisagem. A tranqüila baia escava emol-
durada pelos galhos curvos de um mangue, que também se refletiam
no espelho das águas e na praia úmida. O brilho púrpura no oeste
penetrava pela alameda margeada por palmeiras e banhava o capim

*'S1. e SHI.. :\. E. Pratt. Gle cm. um .;igrimcnwr que:: h:a.,·fa :t('()1l\?1n!lado :i. expedição de Smith .
.,..,l l enr~· Ry:tl'I, :1wi$t<:n1c do 1r111sisua<lo tcsiden.tc, que cm 19 L ~ cxptoro;i a lÍr<:a <1ue S1nith havia
pt("(cndido cxplo111.r.
***l,c$!ie Bel!, inspetor de 8$$UntO$ nativos e um do~ <.JnatrO1ne:r1hr0$ co1opec$ da expedição de
Smith.
••·.,*j uiz C. l!. l-·t'C"rbett, ;idminiHt'-<lor ii:cerino do Te,11il6tio da Papua na époc• de expodiçio de
Srnith.
Bl\ONISLAW MALINOWSKl

cresrado com seu resplendor, resvalando sobre as águas de uma cor


de safira profunda - mdo permeado com a promessa de trabalho
frutífero e sucesso inesperado; i)arecia 11m paraíso cm comparação
com o infe rno monstruoso que et1 havia esperado. Na noite de sc-
gtinda-foira, ChignelJ, tun missionário de boa índole com absoluta-
mente nenh11m conhecimento sobre os nativos, mas, no rodo, umn
pessoa simp~tica e culta.
Na terça-feira crabalhei com Ahuia cm Central Courr pela ma-
nhã; à tarde, fomos para a ak leia. Serviram-me minha primeira be-
bida de coco...
{Na quarra-feira) de manhã rondei a d11rma. À noire, baile na casa
dos .McG rath. Qtiinra, em casa com Ah uia. Na sexta, fui /1 aldeia com
Ahuia e planejamos uma excursão ao incerior para sábado... A essa
a.lrurá, eu já estava cansado. Voltamos para casa [nos lavamos} e pas-
s:unos a noirc com o governador. Entediante ao c.xrcemo. A velha sra.
Lafuyod e a jovem srra. Herbert, que monopolizaram .Murray.
Na manllã de sábado cu estava bastante cansado. Fui a cavalo
para a aldeia. Decepcionado poe esperar em voo um guia que Alntia
havia concordado em conscgLlir para mim. Fui visitar Murray, e ele
mandou chamar Douoa, o guia ausente. Passamos por vilku em
Kanadowa, depois por alguns jardins pertencentes aos habitantes de
Hanuabada e entramos em um valezinho csrreito cobcno de capim
queimado e pandanos esparsos e pequenas árvores da espécie Cycar.
Aqui e ali árvores muiro csrranhas. Scnrimenco de puro encanto por
estar em uma parre cão interessante dos trópicos. Subimos uma la-
deira baseante ln.greme. Às vezes a égua não conseguia avançar se-
qLter um passo; acabei indo a pé até o copo, que me proporcionoLt
uma linda visra do interior... Desci a cavalo, passando por jardins
narivos cercados e ao longo de um pequeno vale, dobrando em um
vale transversal, com capim mais aloo do que eu montado no cavalo.
Encontra.mos Ahuia, vimos mulheres com sacos semelhantes a redes;
alguns selvagens nus com lanças. l.11 Oala, chefe da id11h11 Waha-
namona. Em alguns pontos haviam sido acesas fogueiras. Um espe-
táculo maravilhoso. Chamas vermelhas, por vezes cor de púrpura,
lambiam as encostas <lo morro acima em faixas esrreicas; através da
UM i)lÁRIO NO SENTI DO ESTRITO DO TERMO 49

(i.unaça azul escura ou safira a encosm muda de cor como uma opala
negra sob sua cintilante Sttperficic polida. Da encosra diante de nós
o fogo descia até o vale, devorandCJ as altas gramíne11s vicejantes. Ru-
gindo como um furacão de luz e calor, avançoti bem na nossa dire-
ção, o venro atrás dele açoitando pedaços meio queimados no ar.
Passaram nuvens de pássaros e grilos voando. Penetrei no meio das
chamas. Maravilhoso - uma carástmfe completamente <lesconcro-
Jada correndo direro para mim, numa velocidade furiosa.
A caçada não deu qualquer resulrado. [No caminho para] o jar-
dim de Ahtlia, em Hohola, vi jardins nativos de perco pela primeira
vez. Eram circundados por cercas. de varas; bananas, cana-de-açúcar
e folhas de raioba, e (...). Havia a.lgumas mulheres bonitas, particu-
larmente uma decafttm violera. Passeei pelo jardim <le Ahuiacom ele
e visitei o interior das casas. Lamentei não ter trazido rabaco e doces,
pois sem isso ficava mais difícil fazer conraro com as pessoas. Na vol-
ta passei por nativos que esquartejavam um pequeno canguru. Ca-
valguei através de um bosque que me lembrou muito a vegetaçãCJ
australiana. Eucaliptos ocasionais e cicas enrre o capim queimado.
Depois de diversos quilômetros, fiquei muiro cansado, e minha per·
na esquerda ficou dormente. Fui para a estrada, e fiquei aborrecido
quando me disseram como escava longe da cidade. Não consegui mais
apreciar a paisagem pelo resto do caminho, embora cercamente fosse
bela. A estrada serpeava ao longo da encosta entre arbustos e pal-
meiras, passando por algumas rnsas de narivos civilizados (malaios,
polinésios'). Peguei o caminho mais fücil para a cidade (galopando
pelas prnias). No Palácio do Governo, assisti a uma partida de tênis
e bebi cerveja. Voltei a pé para casa, exausto. Naquela noite, fiquei
em C<l.Sa e comecei este diário.
Domingo, 19.9 [Jic; domingo foi dia 20), dormi acé tarde e es-
crevi cartas. Depois do jantar, fatigado, dormi duas horas. Mais car-
tas, depois uma curta caminhada pela rua, descendo até a iudeia. À
noite o demônio me persuadiu a visitar o Dr. Simpson. Fiquei de
mau humor e completamente lecárgico, e escalei vagarosamenre a
h\deira. A música me lembrou muitas coisas: a.lguns Rosenkavalier,
alguns tangos, o "Danúbio Azul ... Dancei taogo (não muiro bem) e
50 BRONISLAW MALJNOWSKI

valsei com a sra. McGrarh. Em alguns momentos fui assaltado pela


mais negra depressão.
Hoje, segunda-feira, 20.9.14, rivc um sonho cscranho; homosex.
com um sósia meu como parceiro. Esrranhos scncimemos auco-cró-
ricos; a impressão de que eu gosraria de cer uma boca exatamente
como a minha para beijar, um pescoço que se curve como o meu,
uma fronte exaramente igua.l à minha (visca de perfil). Levantei-me
cansado e me recompt~~ devagar. fui visitar Bell, com quem conver-
sei sobre o trabalho nativo. Depois Ahuia, em Central Court. De-
pois do almoço, outra vez Ahuia. Depois me apresentei ao O'Mallcy,
e com ele foi ver McCrann. Em casa escrevi pam mamãe e Halinka.
Subi a ladeira ...

Domingo, 27.9. Ontem fez duas semanas que escou aqui. Não pos-
so dizer que venha me sentindo bem fisicamenre. No sábado passa-
do fiquei extenuado na excursão com Ahuia, e não consegui me re-
cobrar ainda. insônia (não muito acentuada), coração sobrecarrega·
do e nervosismo (principalmente) parecem ser os sintomas, at~ ago-
ra. Tenho a impressão de que a falta de exercício, causada por um
coração fraco, combinados com Lll11 rcabalho inrelectual positivamente
iotensivo silo as ba~es desses sintomas. Preciso fazer mais exercício,
principalmente de manhã, enquanto ainda está fresco, e ii. noite, de-
pois que esfria de novo. O arsênico é indispensável, mas não devo
exagerar no quinino. Quinze gr~ a aida nove dias devem basear.
Quanto a minhas nrividadcs, minhas explorações cmológicas absor-
vem grande parte do meu tempo. Mas têm dois defeitos básicos:(!)
Tenho relativamente pouco a fazc.r com os selvagens no local, não os
observo o suficiente; (2) Não falo a língua deles. Essa segunda defi-
ciência será cxcremamence difícil de ser superada, embora eu esteja
tentando 11prcndcr motu. A extre ma beleza daqui não me afeta tão
imensamente. Aliás, acho 11 região imediacamcnte adjacente a Pon
Moresby bem feia. Cerca de 4/5 da varanda de minha casa são fecha-
dos por uma cortina (de ratã}, de forma que minha única vista da
baía é das duas cxcremidades. O solo é pedregoso e esburacado, co-
berto de todos os tipos de lixo. Parece um depósito de lixo descendo
U M DIÁRJO NO SENTIDO ESTRITO DO T~Rl>IO 51

:1té o mar. As casas são cercadas por varandas de rreliç1\ com abercu-
rns em vários pomos. Contudo, o mar e os morros em corno da baía
são maravilhosos. O efeito é extraordinário, particularmente na es-
rrada para a aldeia Ollde a vista é emoldurada por algumas palmeiras
e mangues. De manhã mdo esrá envolto por uma leve bruma. Os
morros mal podem ser vistos através dela; pálidas sombras rosadas
projerndas sobre uma tela azul. O mar levemente encrespado cinrila
com mil tonalidades brevemente capeadas em sua superfície conr.i-
nuamenre em movimento; em partes rasas, entre 11 vegetação tur-
quesa, vêem-se magníficas pedras roxas cobertas de algas. Nos pon-
tos onde a água está calma, sem ondulações causadas pelo vento, o
céu e a cerra se refletem em cores que vão do safira às tonalidades
róseas leitosas dos montes envoltos pela brnma. Onde o venro en-
crespa a superfície e empana os reflexos das profundezas, das mon-
tanhas e do céu, o mar cintila com seu próprio verde profondo, com
roncos ocasionais de um imenso azul. Um pouco mais carde o sol ou
o venco dispersa <IS brumas, e os contornos das moncanhas podem
ser visros de forma mais distinta; aí o mar se coma safira na baía li.inda,
e turquesa ao longo da costa rasa. O céu espalha seu azul sobre tudo.
Mas as formas funtásticas das moritanhas continuam a resplandecer
cm cores puras e cheias, como se estivessem se banhando no azul
anil do céu e do mar. Só à tarde a neblina desaparece incciramencc.
As sombras sobre as montanhas se tornam de um safira profundo; as
p róprias montanhas 11ssumem uma expressão estranha e fantas-
magórica, como se alguma escuridão de breu as agrilhoasse. Con-
trastam vividamente com o mar e o céu perpetuamente serenos. Pert(>
da noite, o céu está coberto com uma leve névoa de novo, divc;sificada
pelos padrões de nuvens emplumadas acesas pelo resplendor purpú-
reo do sol poence e dispostas em maravilhosos motivos. Um dia, ao
meio-dia, a fumaça de algum incêndio discante sarurou o ar e tudo
assumiu rons pastel extraordinários. Estava cerrivelmeme cansado e
não pude me regalar ramo quanto gostaria com o espetáculo, mas
foi extraordinário. Em geral, o caráter da paisagem é mais desértico
do que qualquer outra coisa, e me recorda paisagens do istmo de
Suez. É uma louca orgia das mais ioceusas cores, com um tipo escrn-
52 BRONISLAW MALINOWSKI

nho de pureza e distinção festiva e refinada que não consigo precisar


- as cores de pedras preciosas brilhando à luz do sol.
Minha vida durante estes últimos dias vem sendo muito monóto-
na. Na terça-feira, 21 [sic) Ahui11 e:steve ocupado na Come o dia intei-
ro. Consegui njuda de lgua• para desfuzer as malas. Na noite de terça
me senti fraco e não tive vontade alguma de ir consultar o Dr. Simpson.
Na m:\nhã de quarta-feira, A. esteve ocupado das 11 em diante. A
tarde visitei O'Malley, que não tinha, na verdade, nada interessante
para me concar. Conheci a bela Kori, cuja pele e cacuagens considerei
cncanCtldoras; um vislumbre dtJ tWig \'f/eiblkht11 [da mulher eterna],
emoldurada em uma pele de bronze. Passei a manhã de quinta-feira
com Ahuia; à tarde fui à aldeia; muito cansado. A noire, Bell veio e
debatemos sobre os natiws. N a sexcu-fcira de manhã conheci o Sr.
Hunter, •• almocei com ele, e à tarde convers!lmos; eu estava espanto-
samente cansado, sem poder fazer absolutamente nada. Ah, sim, nas
noites Mreriores havia revelado algumas fotografias; hoje até isso me
cansa. Na manhã de sábado, Hunccr veio; coroou a ajudar-me muito;
depois passei uma hora com Ahuia, e depois disso fui ver BclJ, convi-
dei-me para almoçar na casa do governador, e depois do almoço li
Tunnell e estudei um pouco dagramifrica do Moui. À noite fui passe-
ar no Monte Pago-me senti um pouco mais furte; falei com Scamfurd
Smith. Fui para a casa cedo... Os eventos políticos não me incomo-
dam; tento não pensar neles. Tenho furtes esperanças de que 11 sima-
ção da Polônia melhore. Quanto às saudades da cerra nacaJ, sofro muito
pouco delas, e de maneira muito egolsta. Ainda estou apaixonado por
[ ...] - mas não conscientemente, cxplicicumente; eu a conheço mul-
co pouco. Mas fisicamente - meu corpo anseia pelo dela. Penso na
mamãe{...} às vezes[. ..}

Mailu, 21. 10.14 {sic}. Plantação, às margens do rio; sábado {21.10].


Ontem, fez uma semana que cheguei a Mailu. Durancc esse tempo
fiquei desorganizado demais. Term inei de ler Vanity Fai1; e li o RP·

•Unl '\'Qalnhdto" mo(u.in.od.c EJeva!a,. (jui: i.;i <on'1 ~flllír.oMki • }.(:ailu e•tuava comoKU Jntérpr~
(C,

.., "P'ovól"<lme-(:tc Robert Hu!lt~ qix acomp..1ribou a ciq>edjçlo ~ Almit. Oe.oton. ca dlacb de 1880.
UM DIÁRIO NO SENTIDQ ESTRITO DO TERMO 53

inteiro. Não conseguilargar Q livro; foi como se eu tivesse sido


1thl11ce
drogado. Contudo, crabalbei um pouco, e os resultados não são ru-
111s para apenas uma semana, considerando-se as terríveis condições
de trabalho. Não me importo de morar com o missionário, especial-
mente porque sei que vou ter de pagar por mdo. Esse homem me
~noja com essa "superioridade" (branca] dele etc. Mas devo admitir
4lle esse trabalho de missionário inglês tem lá seus aspecros favorá-
veis. Se esse homem fosse um alemão, sem dúvida ser.ia absoluta-
mente detestável. Aqui as pessoas são tratadas com uma decência e
Luna liberalidade razoáveis. Aré o missionário joga críquete com elas,
e não se nota que ele as trata mllÍtO mal. - Como a vida de um
homem é diferente do que ele imagina! A iJJia é vulcânica, cercada
de recifes de coral, sob um céu eternamente azul, e em meio a um
mar cor de safira. Há tuna aldeia pa pua bem ao lado da praia, juncada
de barcos. Para mim, a vida entre alamedas de palmeiras é um per-
pémo feriado. Foi a impressão que tive ao ol har do navio. Tive uma
sensação de alegria, liberdade, felicidade. Mas, depois de alguns dias
dessa vida, eu já escava fugindo dela para a companhia dos esnobes
londrinos de Thackeray, seguindo-os avidamente pelas mas da cida-
de grande. Desejei estar no Hyde Park, em Bloomsbury - chego a
g(>star de ver os anúticios nos jornais de Londres. Sou incapaz de me
deixar absorver pelo meu trabalho, de aceirar meti cativeiro volun-
tário e tirar dele o melhor proveico . Agora, vamos aos eventos destas
duas últimas semanas.
Port Moresby. Minha última anornção foi de domingo, 27 de se-
tembro. Eu estava sob o encantamento de Tunnell, que havia lido
horas a fi<>. Prometi a mim mesmo que não leria romances. Duranre
alguns dias cumpri o juramento. Depois caí em tentação. A cois1\ mais
importante naquela semana foi minha expedição para L11loki (uma
aldeia p róxima a P<1rt Moresby). Convidado pelo governador para
janrar na terça-feira - 11. srca. Grimshaw e a sra. De Righi estavam
lá. Planejamos partir na quinta, ou o ma.is cardar na sexta. 1hdo esse
tempo e\1 tive pouca oporcunidade de trabalhar com Ahuia, pois ele
estava ocupado com o julgamento de Burnesconi, que havia enforca-
do um nativo durante cinco horas. Não guardo uma recordação cln-
54 BRONISLAW MALINOWSKI

ra daqueles dias; só sei que não escava me concentrando muito bem.


Ah! sim, cu me lembro: na quarta-feira, jantar na casa de Champion;
antes disso, uma visica ao missionário. No domingo anterior, fui al-
moçar com o governador, o capitão Hunter escava lá e eu li Barbey
d'Aurevilly. Ahuia não escava em casa. Fui ver O'.Malley; depois fui
ao missionário, que me levou para a cidade de barco. Lembro-me
daquela carde; a noite estava caindo na aldeia; o motoc agitava-se e
gemia de forma insrável sob nós; estava frio, e o mar baseante pesado
respingava a valer. Na quarta me senti muito mal; comei uma inje-
ção de arsênico e tencei descansar um pouco. Na manhã de quinta-
feira Murmy me mandou um cavalo com Igua e Douna, que nos
encontraram na aldeia; saí cavalgando por trás da sede da missão por
um vale coberto de pomares e hortas, passando por numerosos gru-
pos de nativos a trabalhar nos campos ou voltando para a aldeia. Perco
da fonte há um desfiladeiro do qual se descortina uma belíssima vis-
rn que se escende até o mar. Cavalg uei pelo vale - no sop~ do morro
um pequcnobMq11e com uma sombra maravilhosa; semi desejo de ver
vegetação tropical. Depois, mais adiante, desci o vale sob um calor
cscaklance. Os mesmos arvoredos secos; pequenas cicus e par1dnnos -
as primeiras lembram focos, os últimos têm fancáscicas cabeças felpu-
das {. ..] - eles atenuam a moooronia longe de ser exótica dos
eucaliptos ressecados. O capim está seco, cor de bronze. 1\ luz forte
penetra cm roda a purce, dar\do à paisagem uma aridez e um!l sobrie-
dade estranhas, que, no final, se tornam muito cansarivas. Aqui e ali
poncos de um verde mais verde sempre que se aproxima wna zona
de maior umidade - um regato seco - ou se cncomrn um solo
melhor. O riacho Vaigana serpeia atrav~s da planície crescada como
uma cobra verde, cortando um trecho de vcgecaçio luxuriante. Hora
do almoço; Alluia me deu algumas infurmações sobre as fronteiras
dos diversos territórios. Concinuamos cavalgando (depois de tirar duas
focos) pela planície. Ahlúa me mostrou a linha de dcrnatcação, a fron-
ceira entre dois territórios; é uma linha reta, sem nenhuma base na-
rural. Subimos um morro. Fui aré o copo com Ahlúa e desenhei um
mapa -ele fez um esboço. Dianre de mim escava a planície atraves-
sada pelo riacho Vaigana, em direção aos pântanos ressecados à di-
UM D!ÁRJO NO SENT!D-0 ESTRITO 00 Tf.l\M() 55

1cita, tendo atrás dela os Morros Bamni. Ao longe, uma cadeül de


morros se estendendo direto até a baía de Port Moresby. Tive um
~·norme trabalho para fazer o mapa direit<>. Descemos cavalgando ao
longo de um vale estreico. À esqlterda escavam campos de capim alco
1 or de bronze que se tornava rubro e violeta, ondlúando e tremelu-
zindo ao sol como veludo acariciado por mão invisível. Almia orga-
nizou wna pequena caçada. Entramos na mara de Agure Tabu -
um regato escuro arrastando-se como uma lesma entre as árvores; vi
um sagüeiro pela primeira vez. A. me concou que se diz uma oraçflo
nessas ocasiões, e que é perigoso beber dessa água ou comer do fruto
do sagüeiro ou de ourras plantas que crescem aqui. Chegamos a um
bosque que se estende em uma faixa estreita por ambos os lados de
Laloki. Havia monumentais árvores (ilimQ) - sobre suas bases muiro
nmplas das se elevam a alruras prodigiosas - e magnífit' as trepadei-
ras ... Atravessamos o vau com altos juncos. Depois, na margem opos-
ca, cavalgamos por ltma tr.ilha margeada por árvores altas, trepadeiras
e arbustos. À minha direita estava o rio; à minh;\ esqw~rda, voh íl e
meia, se viam jardins, Um peq\lcno povoado ~ margem do rio com
qllatro casinhas em tomo de uma clareira de terra seca e lisa. No
meio se encontrava uma pequena árvore com frutinhas roxas, cin-
gindo-se de um maravilhoso escarlate. Alguns nativos; crianças va-
gando na praça entre porcos. Caminhamos por um jardim onde se
cultivavam bananas, tomates e tabaco, e voltamos ao rio. Ali A. es-
tava espreitando um crocodilo - em vão. Voltei caminhando ao
longo da margem, as inflorescências afiadas dos ramos de cinchona a
me rasgar os sapatos. Em casa, sentei-me e conversei com Goaba e
Igua.
No dia seguinte (sexta-feira), levantei-me cedo, mas tarde demais
para ouvir o disrnrso e o grito que marcavam o início da caçada. Fui
com A. para o outro lado do rio, onde nativos de Vabukori escavam
sentados. Ah! sim, eu havia estado lá na noite anterior. Em uma pla-
rnforma, cangurus pequenos estavam sendo defumados sobre uma
fogueira. Cama de folhas secas de bananeira, gravetos sobre suportes
para apoiar a cabeça. As mulheres cozinhavam em !aras de óleo. As
plataformas construídas às pressas que servem de copa e despensa são
56 BRONISLAW MALINOWSKJ

interessantes. Tirei uma foco de algumas plataformas com cangu-


rus. O governador chegou. Poros de caçadores com redes, arcos e
flechas. c~minhamos através de uma plantação, depois através do
capim, em corno da aldeia, pela mata, passamos por um lago com
lótus violeta. Paramos à beira dos bosqLLes; fui direto acé as redes e
sentei-me com dois nativos. As chamas não eram tão belas quanto
as da fogueira dos caçadores que eu havia visco ames; não restava
muica coisa delu, na maior parte uma grande quantidade de fumaça.
O vemo sopron diante do fogo, e se ouviu uma forre crepitação. Um
canguru pequeno caiu na rede, derrubou-a e fugiu para o bosque.
Eu não consegui forografü-lo. Um foi morto à nossa direita. A. ma-
tou um boroma. Volramos passando pela área crestada. Um calor e
uma fumaça inacreditáveis. Almoço com o governador e a sra. D.
R.; conversa sobre csporrcs. Eles safram cedo, às duas. ELL fiquei. De-
pois, para a cama...
Na manhã seguinte (sábado) levantei-me bastante tarde e fui com
Goaba e Dollna até os jàrdins. Observei a colheita e a embalagem
das bananas, depois a perseguição de um (veado}. Sesta à sombra de
uma mangueira; rirei fotos de algnmas mulheres. Almocei (mamão);
dormi. Depois me banhei no rio - muito gostoso - e a seguir ca-
minhei pelo bosque. .Maravilhosos recantos e retiros nacurais. Um
enorme tronco de árvore tinha suporres como esteios - nm ilimo.
Chegamos a uma clareira onde um grupo de nativos csrn.vR sentado
cortando carne de canguru e assan<lo-a. Primeiro eles abrem a barri-
ga e retiram [as vísceras]; depois assam o animal com pele e rudo.
Uma fumaç;i amarela se ergueu no ar e se dirigiu para a floresta.
Volramos, ouvimos cangurus fogindo. A. jli de volta. Conversamos
(no dia anterior havíamos falado sobre brincadeiras infantis, mas in-
felizmence não fiz anotações).
No domingo, começamos cedo a viagem de volta, seguimos pelo
caminho pelo qual havíamos vindo, até o vau, depois pegamos Ltm
atalho por Agure Tabu e seguimos a pé um longo trecho de planície,
acé um outeiro coberto de cinzas, um pouco parecido com um [mtll"ll}.
No sopé dele descrevemos outra volta onde pudemos ver plantações
no local onde cultivam cânhamo mexicano visai). Fiz um novo es-
UM DIÁRIO NO SEl\'Tll)O ESTRITO DO TERMO 57

IH1ç0, do alto de uma peqllCna colina. Uma bela vista das monta-
nhas, do penhasco de Hornbrow e do Monte L1wes. Subitamente
me senti muico cansado. Continuei cavalgando, a cochilar tranqüi-
1.unenre. A. atirou e matou um canguru. Quando chegamos a Hohola
escava muito cansado. Horrivelmente aborrecido com o fuco de qltC
(' 11
t) aparelho N&G escava enguiçado. Pegamos declarações do inten-

dente de Hohola (chefe da iduh11 Uhadi) sobre as condições que antes


prevaleciam entre os koitapuasans. Durante o restante do caminho
para casa tudo decorrel1 como antes. Em Porr. Moresby encontrei
um convite para o chá enviado pela sra. Dubois, cujo marido (um
francês) me parece inteligente e agradável; coo versamos sobre a lin-
gua moeu. Passei a noite em casa.
Segunda, 5 de outubro, trabalheicom A. e telefonei para o Murray.
Não fui visitá-lo senão na quarta(?). Momentos de grave colapso mo-
ral. Toniei a entregar-me àlcirura. Acessos de desânimo. Por exemplo,
ao ler Candler sobre a Índia e sua volta a Londres, fui acometido por
lima saudade de Londres, de N., da minha vida lá no primeiro ano, em
Saville St., e depois em Upper Ma.rylebone St. Vejo-me a pensar cm
1'. •com freqiiência, com muita freqüência. O rompimenr.o ainda me
parece exrremamente doloroso, uma transição súbita da luz resplan-
decence para uma sombra profun<la. Na imaginação, passo e repasso
os momentos cm Windsor e depois da minha volta, minha certeza
complera e senrimenro de segurança. Meus planos sérios, feitos diver-
sas vezes, de viver para sempre com ela. O rompimento efetivo - a
partir de sábado, dia 28.3, aré quarta, 1.4, e depois núnha hesitação
- noite de quinta, sexta, sábado, andando cm círculos - tudo volta,
dolorosamente. Ainda estou apaixonado por ela. Também fico me lem-
brando das últimas vezes depois que voltei da Cracóvia.
Raramente penso na guerra; a falta de detalhes dos relatórios tor-
na fácil encarar com leveza rodas as coisas. De vez em quando rne de-
dico à arte da dança, tentando inscilar o tango na mente e no coração
da srta. Ashton. Belas noites enluaradas na varanda da casa do sr. e

,. Esta$ inicj:ii$ no 01i.gin:il m~n1nc-1ito sã(), nn 1catirb.de, tJ:n.r: e uill tdenuo de unl círculo. Jnidaill
itilicas s! o c-1npcc;;adas no li\'t O inte:ro p~ua indi<ar ™e símbolo.
58 BRONISLAW ).{AJJNOWSKJ

sra. McGrath - sinco antipatia por essas pessoas medíocres que são
incapazes de encontrar wn lampejo de poesia em certas coisas que me
enchem de exalcação. Minha reação ao calor é variada: às vezes sofro
baseante - porém não canto quando 110 "Orsova"• Oll em Colombo e
Kandy. Queras vc-LCs suporco muico bem. Fisicamcnce não sou muito
resiscenrc, mas do ponto de vista ioteleccual não sou cão obcuso. Em
geral durmo bem. Tenho bom apetite. Há momemos de exausrão, do
mesmo modo que na Inglaterra; mesmo assim, sinco-me deàdidameo-
ce melhor do que naquele verão q uente, na época dn coroação.
Um dia típico; levamo-me ca1·de de manhã e me barbeio; volt co-
mar odesjejwn com wn livro na mão. Sento-me diance de Vrolaod e
Jackson. Preparo-me e me dirijo a C[encral) Courc; com Ahuia, ao
qual dou cigarros. Depois almoço ; faço uma sesta; a seguir, vou para
a aldein. À noite, fico cm casa.N unca estive cm Hanuabada ao cair
da noite. L!\ acrás, acima dos morros, através das palmeiras, o mar e
o céL1resplandecem de reflexos vermelhos, em meio a sombras cor de
safira - este é um dos momcncos mais agradáveis. Sonho cm me
estabelecer definitivamence nos Mares do Sul; como vou reagir a tudo
isso depois que tiver voltado para a Polônia? Penso no que está acon-
tecendo aqui agora. Em mamil.c. Aucoccnsura. Ocasionalmente penso
cm Stas', com umtt tunarguta cada vez maior, scncindo saudades dele.
Mas escou feliz por ele não escar aqui.
Sexta, 9 de outubro, ao anoitecer saí para tu11a curta cam inhada
- queria visitar o 0 1'. Simpson, quando o "Wakefield" aportou. Tive
de me recompor e me preparar para minha partida. (Ah! sim, tam-
bém deixei de mencionar o tempo enol'me p or mim desperdiçado
como fotóg rafo amador.)
No sábado fui almoçar no Palácio do Governo, onde conversei
sobre uma carta a ser escrita a Atlee Hunc.** Tarde na aldeia.
Dom ingo, 11.Já de malas prontas; cheguei carde à casa de Ahuia
e com ele fui procurar o missionário; voltei a pé. Na segunda passei

··111~lt unu. fcÍcrência • $\l l vfage1n à A\1$(r6.li11., JXtt v i 11 (!<!Sue? e ao l'lli11Vefn\c-Íh~ t i<.> YetÃO ck 19 14.
**Atice l-h1111, C.M.G, uc1e1ário do Oq)ilf lllt:'lento de An11nte» D o1"4~liros e d°' 'lbu;tórios dn
ltcpéblK:11 d.- Ausctá.lia, 'lºt: ccl'lbor.av.a na obtcnçli1> de fundos. dc $CU dcp:in:trl')enlo p..u11. aji:dar
~t di:>0~"$li.1 tM leu 1riblll•. o de nmpo.
U/.I DIÁRIO NO SENTIDO EsnuTO DO TERMO 59

o dia inteiro fuzcndo as malas, enviando coisas para o "Wakefield",


indo ao banco, escrevendo carcas etc. À tarde, fui ao Palácio do Go-
verno, onde tornei a ver o governador Murray. Visitei o missionário.
ó epois volcei para casa com lgua. Terminei de embalar as coi.sas.
Noite a bordo do "Wakefield".
Terça, 13 de omubro. Zarpamos pela manhã. O ar nflO estava muito
lfmpido, e as montanhas distantes apareciam apenas como silhueras.
/\o oos aproximarmos, a paisagem ficou mais nítida. J\ldeii1s: Tupusdcia
~te. Em Kapakapa, desembarquei. Durante roda a viagem me senti
uin pouco indeciso, de nariz meti{lo nos contos de .Maupassant. As
f}equenas casas de Kapakapa ficam a distância no mar, sobre muitas
pilastras resistentes. Os telhados formam uma linha contínua com as
paredes, de mane.ira que a forma das casas é lL mesma das aldeias como
1\failu. Cada dã ocupa tun grnpo separado de casas. Na praia, apreciei
11 vista do mar aberto, além do recife, da qual senria tanta falrn em Pt.
Moresby. Seguimos viascm - as })lanícies recobertas de pandanos e
maco seco - , de longe vi coqueirnis -Hufaa. Lançamos âncora; um
maravilhoso pôr-do-sol, um sentimento de desamparo. Na sesunda
manhã só me levantei quaodo chegamos a Kerepunu. O estuário é
lindo, com um vasto panoramiL de montanhas que adenuam o interi-
or. De ambos os lados, mna praia cobena de areia com belas palmei·
ras. Algmnas pessoas subiram a bordo; um homem idoso e meio cego,
comerciante local, insistiu que visitasse o lugar Ltm dia. Navegamos
para além de> recife de coral. Mar revolto; me senti pé.ssimo. Só come-
cei a melhorar quando chegamos a Aroma. Desembarquei ali e olhei a
pequena aldeia. As casas eram incomparavelmente mil.is bem construí-
das que em Hanuabada; a plataforma é feita de fortes e largas tábuas.
Em.ra-se na casa em si por um buraco no piso. A aldeia é circundada
por tuna cerca ou, melhor dizendo, tuna paliçada. -Além de Aroma,
emramos na zona de chuvas. Ao nos aproximarmos de Vilerupu (ou
seria Belerupu} - uma região maravilhosa, com manguewis de um
verde intenso, baías pcofundas com fiordes salientes, a aldeia muito
bem situada sobre um m<.mo, alrns momaohas mais ao longe-, tudo
isso forma um todo magnífico. Desembarquei com o comerciante, atra-
vessei para o outro lado ern um barco nativo. Ali conversei com um
60 J3ROJ'.;1SLAW MALlNO\VSKl

policial [atacado de 1ej11111111] que não sabia nada sobre nada. A aldeia é
inteíl'ltmenre nova; foi conscnúda sob a influência dos brancos. As cri-
anças fugiram e se mantiveram a distância. Bebi água de coco e voltei
para o navio. A no ice estava linda. No dia seguinte, deixamos o fiorde.
A viagem foi absolutamente calma; li um livro da sera. Haccison• so-
bre religião. Esta parte da viagem me lembra bastante a travessia do
lago de Genebra: praias recobertas com Juxuriantevcgccação, samradas
de awl, contra uma grande muralha de montanhas. Não consegui me
concentrar em meio a esta paisagem. Não parecia nem um pouco com
nossos Turras [monranhas dos Cárpacos] cm Olcza, onde se cem von-
cade de deitar e abraçar u paisagem fisicrunence - onde cada recanto
sussurra com a promessa de um pouco de felicidade misteriosamente
expcri meneada. Aqui os maravilhosos abismos de vegetação são ina-
cessíveis, hostis, estranhos ao homem. O manguczal incomparavelmen-
te belo é de perto um pântano infernal, fedorento e escorregadio, onde
é impossível caminhar três passos acravés do espesso emaranhado de
raízes e lama macia; onde não é possível cocar nada. A selva é quase
inaccssÍ\•el, cheia de todos os tipos de sujeira e répteis; abafada, úmi-
da, cansaciva - com enxames de mosquitos e oucros insecos abomi-
náveis, sapos ecc. "La be11/llé est la prvmme de bonneht11r"fp'c}.
Não me lembro do cenário coere Belcrupu e Abau. Abau cm si é
maravilhosa-uma ilha basrame alra, pedregosa, com vista para ttma
bafa larga, uma lagoa, cercada de todos os lados por manguezais. Mais
adiante, muralhas de monranhas se erguem uma atrás da outra, cada
vez mais alro, e a cordilheira principal domina rodas as omras. /\emir
[juiz residente de Abau) é cordial, descontraído, não é refinado demais,
um scrranejo brincalhão. Conversei com ele pela primeira vez cm sua
casa. Escalamos o morro e depois conversamos com prisioneiros ... Dor-
mi bem. De man hã subi a bordo do navio. O engenheiro me alertou
para insistir em desembarcar em Mailu. Fiz isso; deixei meu posro na
ponte de comando e -q11ew-gonha!-escávamos exammence entrando
em Mogubo [Poinr] quando vomitei. O Comendador De .Moleyns su-

•J;in~ hlkn H;iuison, &r<)\1eóJog11 insl~ e cuud~a d'O$ cláttlco.s, ll\Hota de Prof(f.Ol!r.t,,\J '" 1/;ç S111d7
t;/(,'rttil Rtlig1M (11111oduçlio ao cst\1do da rd igillo grcsa>. At:\'t4NJ Ar: d.'ld Rr111.1/ (A.rtc e ritunl :uHi~
8()1$) e outrtu Qbr.li de #j:raodC' rcpc1Cu$iiQ.
UM 0 Jf.1UO NO SENTIDO llSTl\lTO DO TEl\MO 61

l1111~ bordo e me disse que o missionário ainda não havia chegado a


M.1ilu. Mailu e a viagem a partir de Mogubo furam maravilhosas.
1k~cmbarquei tun canto aborrecido, mas feliz por estar em um lugar

11ll) 1rwravilhoso. Cinco minutos depois de ter desembarcado e cumpri-


mt•ntado o guarda, e depois que crou.xe minhas coisas para a praia, o
l1,trco do missionário despontou no horizonce. Agora eu escava com-
pletamente sacisfoiro. Os arredores. de Mailu: cem• firme atapetada de
' """' rgueiras com longas agulhas roçando o chão, lembrando aberos,
1 om agulhas de pinheiros mansos e silhuetas de lariços.

Além da planície baixa da (baía] de Baxtei:, perto de Mogubo, pas-


,,1mos por tUna região onde as montanhas assomam direto do mar -
l~mbra-me um pouco da Madeira. Entre a baía Amaione Mailu, duas
li has de coral com praias arenosas, cobertas de palmeirns, brotam da
.ii:ua como tUna miragem no dese rto. Mailu em si é baseante alta (à
primeira vista); os morros são cobe rtos de gramíneas, sem árvores, es-
' ;1rpados, COI!) cerca de 150m de altura {500 pés]. No sopé deles en-
' nntram-se baixios cobertos Jc palmeiras e outras ártrorcs. Há uma
.livore esrranha com folhas largas, cujo fmto tem o formaco de uma
l,1ncerna chinesa. Meus companheiros de viagem do "Wakefiekl" fo-
l':tm o capitão, um alemão croncu.do com uma grande pança, cruel,
<:Ontimtamente injuriando e maltratando os papuas; o engenheiro, um
~scocês vulgar, arrogante e rude; McDean, um inglês de olhos aperta-
J os, alto e belo, que amaldiçoa os austra.lianos e adora os papllas, mas
no rodo aceitável e ttm canto mais culto que a média; All(red}Greena-
way, um quacre idoso e afável - agora realmente lamento não o ter
tonhecido melhor, ele me teria sido de muito maior valia do que esse
~stúpidoSaville.* O capicãoSmall, o mais razoável de rodos, com uma
variedade de interesses arcíscicos, bem-educado-infelizmente parece
ser um alcoólatra. Eu já estava farto de todos eles, principalmente do
capitão e do engenheiro. De Moleyns, filho de tUn lorde, beberrão e
canalha requintado, e cercamente de sangtie azul.

"\'('. j. V. Savillc, misiioná.rio d\'I Sociedade ~lission6.ria d-e Lond~cs. cr:tio crabalhando cm Mnilu.
S-.rn "Grain:ítk.l d:t linguot b.{:iil\.I, de P:1p1m" h;wi:i ~id<.>publkada no)v:nr.alefti~ RllF'f 1}r;:/J,r<,;Ji,'IPgirol
lmrÍINlt cm 19 12.
62 BRONISLAW MALINOWSKJ

ILHAAWW
ECOSTAAOJACINTE
OAPAl'\14
MAR OE CORAl
ratt-~
• 1 i

Diário das minhas experiências em Mailu: sexra, 16 de outubro.


Depois Jc me encontrar com a sra. S[aville], que me recebeu de for-
ma bascanre vaga, cumprimcnr·ei S(aville], que vi acravés das lentes
róseas de meus sentimencos aprioríscicos. Ele generosamente me con-
vidou para passar a noire e comar minhas refeições em sua compa-
nhia, e isso o tornou mais atraente para mim. A carde fui à aldeia e
aos jardins com um guarda; assisti ao culto da noice e, apesar do efcico
cômico dos salmos sendo recicados numa língua selvagem, consegui
suporcar de bom grado aquele ridículo embusce. Passei a noite na
companhia deles. '
Sábado, 17 de ourubro. Pela manhã, S. me levou para percorrer
a ilha-ao mascro da bandeira, até a aldeia, depois aos ja.rdins, atra-
vessando os morros acé o oucro lado, onde recebemos cocos, e eu ob-
servei a confecção de lota (braceletes). Depois contornamos o promon-
tório e seguimos ao longo da praia da missão. Depois do janrar li um
pouco - ainda não tinha trabalhado nada, esperando a ajuda que
S. me havia prometido.
Desperdicei todo o dia de sábado, 17 e domingo, 18, esperando
Saville e lendo Vanity Fair, e, no meu desespero -ofuscação comple-
ta, eu simplesmente me esqueci de onde escava. Havia começado a
ler V. R em Zakopane, tendo-o coroado emprescado a Dziewicki na-
quela primavera em que passei seis dias lá em maio; Sta5 escava na
UM DIÁRIO NO SENTIDO E$TRJTO oO TERMO 63

llretanha, eu estava passando uma temporada com os Taks. Porém,


o destino de Becky Sharp e Amelia não despercou minhas lembran-
~os dos velhos cempos. Aquele período ficou completamente nebu-
loso para mim. Na manhã de segunda-feira (dia 19) falei com S. so-
bre os cermos de minha vida ali e fiquei extremamente aborrecido
(Om a rudeza com que ele tratou do assunco. Muitíssimo decepcio-
nado com a falta de amabilidade e de interesse dele, e, daquele mo-
mcnro em diante, isso, combinado com a atitude de indiferença de S.
para com o roeu trabalho, o tornou.odioso para mim. -Ah! sim, na
noite de domingo saí de barco para. o pequeno vapor, manejei mal os
remos e caí na água. Talvez tenha corrido um risco maior do que
pnrece. Consegui subir no barco virado, e depois a lancha me salvou.
Quando voltei, estando ainda (interiormente) com um bom relacio-
namento com os S's, troquei de roupa e tracei o acontecido como
uma piada. Meu relógio de pulso e alguns objetos de couro que esca-
vam no meu bolso foram irremediavelmente danificados.
Na segunda-feira. fui para a aldeia e remei fazer algumas inves-
tigações, com grande dificuldade. Ressentimentos conrra S. Na noite
de segunda-feira, um conclave de anciãos na Casa da Missão. Na noite
de rerça observei as danças. Fiquei exrremamenre impressionado.
Numa noite escura, sem luar, à luz das fogueiras, uma mu.ltidão de
selvagens, alguns enfeitados com penas e braceletes brancos, rodos se
movimentando ritmicamente.
Na quarta de manhã coletei material sobre as danças. Foi mais
ou menos nessa época que li Rwiance. O espíriro suei! de Conrad
transparece em algumas passagens; no frigir dos ovos, um romance
"mais espasmódico do que interessanre", no sentido mais amplo. -
Ainda penso em T. e ainda esrou apaixonado por ela. Não é um amor
desesperado; o sentimento que eu tinha perdeu o valor criativo, o ele-
mento básico do ser, como aconteceu com Z. É a magia do corpo dela
que ainda me inunda, e a poesia de sua presença. As areias da praia
de Folkestone e o frio e penetrante fulgor daquela noire. Lembranças
de Londres e Windsor. Minhas recordações de momentos desperdiça-
dos - quando estávamos chegando a Paddington ou quando perdi
uma oportunidade de passar uma noite com ela, por ter ido à Escola
64 BRO:-JISLAW MAlJl"OWSKl

de Economia - constituem inúmeros golpes no meu coração. To-


das as minhas associaÇÕC1 levam a ela. Além disso, renho momentos
de me lancolia generalizada. Temas de caminhadas com Kazia e
Wandzia, lembranças de Paris e elementos da frança, que adquiri-
ram um enc:uuo indescridvel para mim cm razão de alguma assoei.a-
ção misteriosa com T., wlvez lembranças de Z., da viagem diurna
auavés da Normandia e daquela noire cnrre Paris e Foncainebleau
- lembranças da última noite com August Z. em Varsóvia, a cami-
nhada com a srta. Nussbaum. Afinal, começo a sencir um desejo
profundo e force por {mamãe] no íncimo do 111eu ser.
Decidi registrar diariamente minhas acividades.

29.10. Na manhã de onrem me Jcvanrci bastance tarde; eu havia con-


trarodo Omaga [informante mailu e delegado da aldeia), que me espe-
rou sob a varanda. Depois do desjcjlHn fui até a aldeia onde Omaga me
encontrou perto de um grupo de mulheres que foziam utensílios de cc-
ramica. Minha conversa com ele foi um ramo lnsarisfarória... [no) meio
da rua w11a mulher escava desenhando. Papari* se rcuiúu a nós; conver-
samos outra vez sobre os nomes dos meses, que Papari não sabia. Piquei
desanimado. Depois do jancar li 7 l~ Goldo11 Legenti (A lenda dourada),
depois tirei wn cochilo. l.cvancei-me às4, dei wn mergulho no mar(cencei
nadar). tomei chá; por volta das cinco fui para a aldeia. Conversei com
Kavaka sobre os ritos fúnebres; sentamo-nos sob palmeiras na extremi-
dade da aldeia. No serão, falei com Saville sobre a cosra meridional da
Inglaterra de Rarnsgate a Brighton. Isso me aforou. Cornuália. Dcvon-
shire. Digressão sobre as nacionalidades e caráter da população (nativos
de Cornuália, Devonshirc e ns escoceses). fiquei deprimido. Li algumas
páginas do Vlad Bolski de CherbuUcz•• - tun esboço de tuna mulher
espiritualmente inusitada; ela me lembrou Zenia. llnrusiasmado, can-
tarolando de boca fechada uma melodia, caminhei até a aldeia. Conver-
sa relarivamenre fmtífera com Kavaka. Assisti a danças encamadora-

•P,,.~ri tt-s thtf'e dos11bdl 81n:agadubu, homc:cn ~.ide p:~ o t<mpo; llialtnows.ki ocomtdc--
r.11\'a Uftl 11migo e um ('1,\·1lhe1to.
• *Victor Chcrbulic?. ( l S2?· 1R99), L'rll'f'IUN~ 1/f l,,t1Jjj/;JNJ liNrki(J\ 11\t1uur;1 de f.Adí.slau,s U(ll11ki).
UM DIÁ.RJO NO SRNTlDO Esmrro 1)0 TERMO 65

1111 1uc poéticas e escutei música de Sttau [uma ilha a leste). Um peque-
'"" lrCLLlo de dançarinos; dois dançarinos de frente wn para o omro com
1•111 bores etguidos. A melodia me lembrou dos lamentos de K\lbain.
\11ltoi para casa, onde matei o tempo folheando a revista P1111ch. Vjsão de
I Ocasionalmente penso em Stas com tun verdadeiro sentimento de
ur11z1tde; principalmente a melodia que ele compôs no caminho para o
• .dlao.

''I. LO. (Escrito no dia 30 à carde.} Levan tei-me antes das 8 da ma-
11h.i e esetevi no diário. Estava ocupado escrevendo quando S. me
1111tLXe a correspondência. Carras de N. (5) e várias daAusmília. Cartas
l t1~1tnradoras, carinhosas, dos Mayo e [Le Sones] me deixaram real-

m<!nre foliz. 'fambém uma carta extremamente agradável da sra.


t ;t>Iding. A carta de Staí me aborreceu profundameme. Ao mesmo
'''rnpo me censurei por não rer procedido de uma maneira absoluca-
111coce irrepreensível, e senti profundo ressenrimemo e ódio pelo com-
pcmamenco dele em rehição <\mim. Meu se mimemo por ele foi quí1$e
totalmente arruim1do pela sua carta. Quase não vejo possibilid11de
•le reconciliação. 'fambém sei qL1e, por mai.s faltas que eu renha co-
metido, ele foi muito desumano para comigo; ditrantc todo o ternpo
ccve 1u imdes e ares de uma grandeza paranóica e moralizando em
wns de sabedoria profunda, madura e objeciva. Não houve um só
rcsqt1ício de amizade na conduta dele para comigo. - Não, objcti·
vmnence, na balança do cerro e do errado, o praro dele pesa mais ...
estou horrivelmente deprimido e desanimado pela derrocada de
minha mais essencial amizade. A primeira reação de me considerar
responsável por rudo predomina, e me sinto capitü di111im11io - tun
homem inútil, de valor reduz.ido. Um. amigo não é só uma quanti-
dade adicionada, é um fator, multiplica nosso valor individual. Info-
lizmente, a responsabilidade do rompimento está antes de mais nada
no orgulho inflexível dele, na sua falta de consideração, na sua inca-
pacidade de perdoar os outros por qualql.ler coisa, embora ele consi-
ga se perdoar um bocado. - Depois leio as carras de N., que são
meu único vínculo com o passado, e o Times, que a sra. Mayo roe
enviou. Visitei a aldeia deprimido. Conferência com Kavaka na casa

\\
66 IJRONISl.AW MAl.lNOWSK I

dele, sobre os ritos fúoebres; análise da pá de sagu. Acarde comecei


a lei· 80/ski e só largLLei o livro às cinw. Fui à aldeia durante meia
horn, me scndndo muito deprimido por causa do romance e da carta
de Sras'. À noite me senti muito permrhado; no entanro, fiz planos
de ncnmpar com S[avillc} e foi 1L aldeia procurar Kavaka e Papari.
Após longas conferências despedi-me deles e voltei para casa. Afi-
nal, o mistério dc>s nomes dos meses está sendo esclarecido. l'ui dor-
mir sem leitura.

30: 1O. Levanrei-me muico tarde, à.ç 9, e liú direto romar o café da ma-
nhã. Depois do desjejum li alguns n{uncros de P1111dJ. A segL1ir, fui para
a aldeia. Com Kavaka as coisas foram muito mal, por algum motivo ele
estava m.endo corpo mole, de má vontade, e cu também não escava em
boa forma. Durnnte o almoço conversei com S. sobre qLtcscõcs ernológiC\\S.
Depois dei uma rápida olhada nos jornais. Fiz uma caminhada. Conver-
sei um pouco mais sobre cmologia e polfrica com S. Ele é liberal -
imediacamenrc descobri um lado dele que me agrada.

D<:rebai [uma aldeia em ccrr.i firme), 31.10. De1>0is escrevi rl.'leu


diário e tentei sincerizar meus resultados, revisando Notes atl(i QllCries. •
Prepi1racivos para a excursão. Ja11 rnr, durante o qual tentei conduzir a
conversa para assunros ernológicos. Depois do janrar, uma conversa
rápida com Vclavi. Li mais um trecho de N&Q e carreguei a câmera.
Depois segui para a aldeia; a noite enhrnrnda escava clara. Não me
sentia muito fucigado, e gostei da caminhada. Na aldeia dei a Kavaka
um pouco de tabaco. Depois, como não havia dança nem assembléia,
fui até Oroobo pela praia. Maravilhoso. Foi a primeira vez que eu vi
essa vegetação :10 luar. Estranha e exótica demais. O exotismo transpa-
rece Jigeiramc1\re através do véu d as coisas familiares. Um clima tirado
do cotidiano. Um exotismo force o suficiente para estragar a percepção
normal, mas fraco demais para criar uma nova categoria de clima.
Entrei no arvotcdll. Por um momenco fiquei assustado. Tive de me re-
compor. Tentei examinar meu próprio coroção. -Qual é minha vida
UM DIARIO NO SE:-JTll)Q ESTRff() 1)() TERMO 67

1111'crior?-Não havia motivo pam eu esrar satisfeito comigo mesmo.


t ) trabalho que cstotl fu~endo é uma espécie de narcótico em vez de
111t1n expressão criativa. Não estou remando vinculá-lo a fomes mais
11rofundas. Organizá-lo. Ler romances é simplesmente desastroso. Fui
11.1ra a cama e pensei em outras coisas de modo impuro.

1L.1O. De manhã S. me acordou. Levantei-me e me vesti bem a rempo


p.tra o desjejum. Depois o desjejum, fazer as malas, e a parcida. O mar
~<cava coberco de bruma, a cerra assomando por trás dela. A lancba jo-
,111wa mtúto. Minha cabeça escava confüsa. Aproximamo-nos de moma-
11has magníficas cobertas de um mamo luxuriante de vegeração. Fiordes,
Vtues, penhascos româmicos erguendo-se acima do mar. Uma aldeia na
extremidade de uma pequena baía. Acima dela, morros col~ctOll_JlOr
uma maca. - Sentei-me numa varanda. As buganvílias res~fandeciam
contra um f:imdo verde, o mar verde emoldurado emre coqueiros.
(Estou terminando esta anotação em Mailu, no dia 2 de novembro.)
Levei Igua e Velavi e entrei na aldeia. Ames disso ouvi S. conversando
disfarçadamente com tun professor nativo, e escutei seus vitupérios con-
tra o guarda. Meu 6dio pelos missionários aumentou. A aldeia é mal"
construída. As casas estão em duas fileiras irregulares, formando uma
rua nem cão bonita nem rão rera quanto em Mailu. No meio, tun sím-
bolo de rabu, um porcão adornado com folhas secas e conchas brancas
no alt<>. Tencei aprender algo, colher informações - nada deu certo.
Pela primeira vez fui recebido com risos. Caminhei pela aldeia com um
sujeito gozador charuado Bonio. Encontrei-me por aca50 com Saville,
que escava tirando furos. A úrúca casa decente, com crocodilos esculpi-
dos no reco da varanda, pertence ao guarda. Vokei para o almoço. De·
pois tirei um cochilo na igreja - nâo foi lá uma soneca muito boa. Fui
olhar o jardim com Jgua, Velavi, Bonio e o sujeico·com .repm11r1. Cami-
nhamos pela selva: árvores giganrescas com "comrafortes", emaranha-
dos de cipós. A floresta não é tão escura e úmida quanto a de Orauro (a
lavoura da missão onde eu havia ido com S.). Perguntei os nomes das
árvores e seus usos. Um pequeno bananal. Aqui e 1ui se podimn ver as
encostas verdes dos morros circundantes, mas o resto estava inteiramente
cobert<> pelo matagal. Atravessamos mn riacho lamacento. Urn jardim
68 13RONISU.W MAJJNOWSKI

em uma encosta. Parei para descansar quando chegamos a um peque


trecho queimado. Esrava quente e muito úmido, eu me sentia mui
bem. Comecei a escalar através do jardim makuidado e das veredas bl
queadas. Vagarosamente wna vista se descortinou: um dilúvio verde
uma ravina íngreme coberta de maro; uma vista bastante estreita para
mur. Perguncei sobre a divisão da terra. Teria sido útil descobrir qual e
o velho sistema de divisão e estud ar o amai como Ltma forma de adapta-
ção. Eu escava muito cansado, mas meu coração estava bem, e cu não
perdi o fôlego ... O pequeno vale é coroado por Ltm morro do qual eu já
havia visto a aldeia-é mais ampla e desmazelada do qLte parecia. Subi
e apreciei a vista de ambos os lados e do mar. Descemos para o outro
lado; fragrância maravilhosa; bela visra do nnficcarro natural das mon-
tanhas - coroado pelo Derebaioro (Monte Derebai]. Meus pés ficaram
dormentes, CLt mal podfa andar. Assim que descemos, atravessamos um
bosque encantador. Atravessei o rio a1rregado. Na aldeia [...], sentei-
me à beira-mar. Ceei; muico cansado; quadro bonito de crianças fu2en-
do fogueiras ao luar. Dormi mal, pulgas.

1. 11. Pela manhã fui à aldeia, onde encontrei porcos. Pensei sobre a
irracionalidade de proibir os porcos e a injunção de concenuar as aldei-
as; sobre as sugestões que gost11ria de fuzcr ao governador, sobre a excur-
são com Ahuia. Escava cansado, mas não muito. Fui de barco aré Borebo
{aldeia em uma baía rasa a oeste da angca Millporr). A bmma tornou
impossível admirar a vista. FLú até a aldeia, acé o dub11. Colhi informa-
ções que aqw smgiram tão rápido q uanto eu podia obtt~las. Voltei para
jantar. Depois não dormi. Tirei quarro foros. Em seguida fui acé a aldeia
e colhi material. Nativos muito inteligentes. Não me ocultaram nada,
não mentiram. Caminhei com pra:-.er até (Dagobo) Unevi [ambas são
aldeias vizinhas}. Ah! - maravilhosa paisagem que admirei: rochas de
cores vivas sobressaindo da vegetação. Um vale profundo com rorres
Fantásticas. A estrada para(Da,gobo) Unevi era maravilhosa. Palmeiras,
bosques cerrados, mangue-lllis próximoo ao mar; pequenos penhascos
do oucro lado. A i1Jdeiaé pequena e miserável; 11/io* construida em duas
UM DIÁRlO NO SENTIDO ESTRITO DO 'fF,l\MO 69

11 11 i\ (Ah! sim, Borcbo é bastante castigada pela pobreza, mas cem


•, '' 11orcões de tabu, d11bu no meio da ma e cada a1tra cem seu próprio
• l <) pequeno anfiteatro natural de Unevi é magnífico; cômoros ter-
," 111 111Jo em forma de torres e cobertO·Sde vegetação; eocre eles um vale
''' 11 o, terminando em wna parede perpendiCLtlar, pela qual urna cas-
" ' despenca no verão. Voltei de canoa, bendizendo as maravilhas <ia
" '"" cza. Semi-me cansado à noite, não tive vontade de ir à aldeia.)Zo- '
. l.1111 durante as preces; fui dormir. O dia inteiro havia sido p<issado cm
1, 111n(lnia com a realidade, ativamente, sem acessos de melancolia. A
, • '"' coberta de alros palmeicas, qllCse curvavam como girafas - for-
" 1111ma linda moldura para a paisagem escarpada.

' 11. Levantei-me com enxaqueca. Caf numa concentração cu-


' 1116sica no navio. Pcrd<t do subjetivismo e privação da vontade (san-
1111c fogindo do cérebro?), viver apenas pelos cinco sentidos e o corpo
!111 rnvés das impressões) causa uma fusão direta com o ambiente. Tive
,, •cnsação de que o chocalhar do mo cor do navio era eu mesmo; scn-
t 111 os movimentos do navio como se fossem meus-eraeu* que es-
1t1va me chocando rnncra as ondas e as cortando. Não fiquei enjoa-
i lo. Desembarquei alquebra<lo; não me deitei de imediato; tomei o
t .1fé da manhã e dei uma olhada nos jornais c<>m ilustrações sobre a
guerra. Procurei alguma notícia da Polônia - nada. Muico cansa-
do. Logo após o jancar, fui para a cama. Dormi das 2 às 5. Não me
senti muiro bem depois. Sentei-me à beira-mar-não tive acesso de
melancolia. O pcoblcma de Sras' me acormenca. Na verdade, a atittt·
de dele para comigo foi inconcebível. Não houve nada de errado no
que eu disse na p resença de Lodge; ele escava errado em me corrig ir.
Suas queixas são injustificadas, e a forma pela qual ele se expressa
impede qualquer possibilidade de reconciliação. Finis a111icititte.
Zakopane sem Sras'! Nietzsche rompendo com Wagner. Respeito a
arce dele e admiro-lhe a inteligência, louvo-lhe a individualidade, mas
não suporto o modo de ser dele.

*Grifado :to 0 1i_;in:tl.


70 llRONJSLAW MALINOWSKI

- Infelizmente, parei de manter o diário durante alguns dias. Vol-


tei de uma excursão - na segunda- e tirei um dfa inteiro de folga.
Na terça, dia 3, não me senti muito bem, também. De manhã fui à
aldeia e, não encontrando ninguém, volrei para casa furioso, com a
intenção de rever minhas anotações, mas na realidade apenas li os
jornais. No dia seguinte (dia 4) mandei lg ua à aldeia para ver se havia
algum informante. Outra vez ninguém estava hí. Fiquei em casa.
NifQ*, isso foi na qltinra. Não me lembro da terça. De qualquer for-
ma, na quinta cu soube que Greenaway havia chegado. Fui à aldeia
e achei G. numa oro'11 com um cortejo de nativos. Voltamos juncos
para a missão. Acarde fomos para a aldeia, onde eu [me queixei] de
!ttt1ra e conversamos sobre roupas e ourrns detalhes. Na manhã se-
guinte (sexta, dia 6) fomos a Port Glasgow. Durante rodo aquele
tempo cu me semi meio mal. Li {0 conde de] Atonte Cristo sem parar.
No camin ho de Pt. Glasgow, aão roe senti muito bem - li o ro-
mance. Passamos por uma pequena ilha habimda, parecida com
Mailn, depois por praias cobertas de vegecação. Eu estava indisp<ls-
tO demais para olhar, atolado com o ral romance o rdinário. Nem
mesmo no fiorde, onde o mar escava mais calmo, conseglti voltar à
realidade. Minha cabeçi1 escava pesada - eu escava sonolento-,
continuava lendo no barco, esperando o chá. Depois foi para a praia,
dcsembarca11do próximo ao pai<'l da lavoura. Algumas casas da al-
deia rinham telhados côncavos, algumas t.inham paredes sob o te-
lhado, não** do tipo Mailu. Tentei reunir anciãos que falassem moru.
Aproximou-se um senhor idoso com ltm expressão agradável e olhar
límpido, repleto de rranqliilidade e sabedoria. De manhã, a colern
de informações se desenvolveu bem. Voltei, comi no navio e li. Por
volta das 5, desembarquei e semei-me à beira-mar, na sombra. A
colem de informações foi menos boa. O senhor começou a mentir
sobre os encerres. Piquei fürioso, levantei-me e foi dar um passeio.
Calor nebuloso e úmido; saglieirns. Jardins; em roda a volta, acima
das árvores, encoscas e cimos de morros coberros de bosques. Um

*Grifado no originat
,.....G!if11do no 01isin11l.
UM OJ,\RIO NO SUNT!DO ESTIUTO DO T ERMO 71

dilú vio de verdura. Uma e ncantadora caminhada que não foi capaz
de apreciar. Comecei a subida - fuscinancc. Quente. Lindo co11pd'oeil
nas encostas. Fragrância ocasional maravilhosa; floração em alguma
árvo1·e. Profunda letargia intelectual; eu apredav11 as coisas re tros-
pect ivamente, como experiências guardadas na memória, em ve;,, de
imediatamente, eo1 razão de meu. estado deplorável. Muito cansado
na volta. Retornamos por um caminho ligeiramenre diference -
senti-me nervoso; rive medo de ter perdido o caminho e isso me ir-
ritou. Noite sob palmeiras. Igua, Velavi; conversamos sobre os ve-
lhos costumes. Vdavi abriu novos horizontes para mim: sobre bobo1~,
sobre luras etc. Dormi mal, um porco ficou me percurbando. Acor-
dei sem cer rescamado as forças. Fui até a lancha e li Mo111e Cristo.
Snville e Hunt apareceram. Continuei lendo. Fomos a .Millport
Harbor. Praias lindas com bosques, me lembraram Clovelly- mas
que clima diforenre! N ão se podem experimentar aquelas coisas aqui.
Entramos na maravilhosa [angra] Millpon ... Em seguida, co morna-
mos até ourra aldeia. Na volra, subimos aré a casa antiga de Saville.
Eu me semi horrível, e mal pude me arrastar. Visca esplêndida. A
leste, praias cobertas por uma vegetação compacta cercam uma ba-
cia un1 canco encuivada; à direita, n1oncanl1as n1ais alta..s, debruçadas
sobre a baía. Brisa intensa e fresca. No caminho de volra vomitei. Li
no barco, depois, à noire, li e te1·minei <> f',fome Cristo, jurando que
jao1ais voltaria a tocar num_romance.
No dom ingo, dia 8, conversei com G [reenaway] pela manhã,
depois fomos aré n ig reja, depois para a aldeia, o nde esrudamos a
tacmigem das meninas. Depois volramos. Haddoo; cnconcro com
toda a turma. Depois do jancar, fomos à aldeia juncos; ames d isso,
mostrei a H addon minhas anornções. Na aldeia, Haddo n e sua filha
jogataf'l conversa fora; ele - [com} barcos, ela - cama de gaco.
Voltamo&--para casa - fonógrafo após o jantar. À noite, estrelas e
ó rgão aucomárico. - Na segunda, dia 9, Haddon e a família foram
à plantação. Fui com G{reenawa.yJ à aldei<l. Cochilo à tarde - Je.
varuei-me tarde com G. em casa. À noite caminhei até a aldeia. Proibi
o cânrico de hinos, imporru nado- por Haddon. Não bouve d anças.
Volramos. Eles jogarnm bilhar. Contemplei as estrelas. - Na r.erça,
72 BRO:.!ISLAW MAUNOWSKJ

dia 1O, com Haddon, fomos à aldeia. Falei com G., Puana e outros
sobre riros fúnebres e exorcismos. Voltamos para casa de barco. À
tarde fui com G. acé a aldeia, crabalhamos no barco. À noite conver-
sei desnecessariamente com S. sobre os casamentos arranjados entr·e
os papuas. Na quarta, dia 11, levantei-me tarde. Senti-me muito
mal pela manhã. Tomei uma injeção de arsênico e ferro. Fiz us ma-
las. A mrde fomos para a aldeia de bote. Partimos bem-humomdos
e fizemos uma linda viagem, com uma magnífica vela amarela.
Laruoro [uma ilha próxilna}, fotos de Mogubo. D{ick] D[c Molcyns]
- filho de um lorde - bêbado. Piquei terrivelmente cansado, não
consegui fazer nada.
Quinta, 12. De manhã falei com Grccnaway sobre barcos, de-
pois com Dimdim. À tarde, Dimdim ourra vez, depois Grecnaway;
depois uma rápida caminhada, jamar e cama. -Paixões e mau hu-
mor: ódio por Haddon me imporcunar, por conspirar com o missio-
nário. Inveja por causa dos espécimes que ele está obtendo. Em ge-
ral, um embocamenco sobre-humano. .Mas, após terminar o Mome
CriJto, um trabalho bastante bom. - O dia 12. ll foi cxccpcional-
mence ativo. De manhã comei um banho. Depois realizei muitas ta-
refas, escrevi e colhi informações de forma eficiente. - 13.11. De-
pois de uma noite de sono razonvelmcntc boa, levantei-me um tan-
to cedo, escrevi meu diário e depois me encaminhei relativamente
cedo cm busca de informações, a uma pequena aldeia (Chadic e
Maya). Foi um pouco difícil colher as informações, mas não infrutí-
fero. Estava muito quente. Comecei a me sentir angustiado. Voltei a
ponto de desmaiar. T!Cei um cochilo sobre alguns sacos de algodão.
Depois jantei - comi demais. Dormi até 4 e meia. Depois me pre·
parei para ir a Kurere {aldeia mailu na baia Amazon, perto de Mogubo
Point, uma colônia da aldeia de Mailu]. Antes de ir conversei com
Dimdim e fiquei extremamente impaciente - fechei o caderno. O
comendador D. D. estava numa ressaca cerrívcl, pois no dia anterior
cinhn :icabado com o 1tísq1te. Grccnaway partiu pela manhã. - À
noite fui a Kurcre. Não muiro cansado. Caminhar foi fácil. A luz da
lanterna rransformou a alameda margcada pelas palmeirns em um
ambiemc composco de recintos escranhos, fancásticos, abobadados.
UM D IÁRIO NO SENTIDO ESTRITO DO TERMO 73

Nn praia, cocos de mangues arrancados. Grandes casas escuras


N1fileiradas. Danças. Tselo - a mais bela melodia que já escutei aqui.
S.1tisfiz ranr.o minha curiosidade científica quanco a artística. Apesar
de cudo, há muito de homem primitivo nisso, remontando à idade
<111 pedra polida. Também refleti sobre a extrema rigidez do hábito.
b~ras pessoas se apegam a formas específicas de dança e melodia -
un1à cerca combinação rígida de bufonaria e poesia. Tenho a impres-
,,ló de que mudanças só ocorrem de forma lenta e gradativa. Sem
,l\'1vida, o contato corre duas esferas cukurais deve ter tido muito a
vl1r com a mudança dos costwnes.

11. l l.14. Noite. Estou sentado em companhia de Dirry Dick, com


quem acabei de falar. Agora ele está lendo algum artigo <m como em
uma revista; estou me entregando a uma melancolia momentânea.
A neblina induzida por ela é como uma névoa sobre as montanhas,
'''' ser impelida pelo venro, e que ora desvenda um ora outro rrecho
dn horizonte. Em cercos pontos, através da escuridão que tudo envol-
w,emergem horiwmçs rçinotos, dismmçs, reçordações; p~sswn. çomo
1111ngens de mundos distantes, depositando-se ao pé da névoa da
111onranha. - Hoje me sinto muito melhor. Momencos de obscuri-
.l.1clc, de insônia, como se eu estivesse na Sala de Leitura. Mas, afinal
eh· contas, nenhum resquício da exaustão total que me paralisou on-
• ~m . - Hoje houve momentos em que inspirei livremente a beleza
dn cenário daqui. Hoje ta mo Charlie quando Dimdim foram à ilha
clt• Anioro. Eu resolvi ir. Sob uma vela amarela, abrindo suas asas,
111 na viagem magnífica. Senti que se é force sobre as ondas - sobre
""'ª jang~da daquelas-, contato direto com o mar. Sobre a água
Yi•rdc -l:or de turquesa, só que transparente - , as silhuecas violáceas
1 111~ montanhas, como sombras projetadas sobre a tela da neblina.
1\1rás de mim, sobre as árvores da selva que recobre a praia, sobe uma
l"11imide majestosa, cobercadc bosques. Diante de mim, um cinturão
l111sqtntc de areia amarela, e acima dele as silhuetas das palmeiras
1»11·ccem brotar do mar. Uma ilha .de coral. A água bate entre as cá-
1.,1111 da jangada-o mar espia pelas frescas e os borrifos batem contra
" bordas da embarcação. Um banco de areia, e os rapazes empur-
74 IJRONISLAW MALINOWSKJ

ram a balsa, desatracando-a. O fondo é visível -11lgas cor de pÚr·


pura no verde rransparcnre. Mailu a distância - a silhueta coberta
de bruma de uma rocha vulcânica com um nobre perfil. Uma aldeia
pequena - com algumas casas bem construídas no estilo mailu e
várias choupanas desmanceladas sem estilo nenhum. Algumas árvo-
res na areia nua - quanco ao resto, casebres cinzentos; colunas es·
curas brotando das ondas de areia amarela. Rodeada por uma cerca
- apesar disso, com porcos andando à vontade entre as casas. Charlie
e alguns anciãos fabricavMn ferramenrns de pedra. Em minha pre·
scnça trabalhavam a obsidiana - cu .mesmo esculpi um lado. Eles
rasparam a cabeça de um garoro. Comi um coço e fui dormir. .. Fadi-
ga. Depois falei livremente sobre madrma, sobre danças, sobre a casa.
Grnnde comoção - apareceram duas pirogas no mar. Os rapazes
co1·reram parn a balsa e remarnm com coda a força. Soaram gritos
cm roda a volca - advertência. As pirogas são equipadas com su-
portes externos para os remos - como se arrastassem uma sombra
estranha acnis de si enquanto fendem o mar. A distância, as ondas
quebravam contra o recife. A oeste, manchas escarlate no céu nubla-
do e escuro - csrranbamcnce sombrio - como rubor cm um rosco
macilento, marcado pela morte (como o rubor anres da morre em um
rosco doentio e agonizante). Senrei-mc - numa posição de equilí-
brio inmível - na piroga e ltti para o l11g111ni. A vela cscnva enfunada.
flutuamos parn a terra. Nuvens escuras de chuva. Tivemos de ir para
o noroeste uma vez que Igu:Lavisou que isso era sinal de LUna violen-
ta laurabada (suescada). Noite com D. D.
Esboços: (a) Brancos. 1. Com. R De Moleyns, apelidado de Dirt)'
Dick- filho de um 1.ocde irlandês procesrance. Personagem nobre,
de sangue azul. Bêbado como uma esponja, enquanto houver uísque
para se consumir. Depois de ficar sóbrio (cu escava presente quando
ele bebeu sua última garrafa de uísque), um canto reservado e culto,
muito boas maneiras e bastanre honesto. Mal-educauo, pouca m ltu·
rn intelectual. 2. Ali\'.red} Grcenaway "Arupe" - de Ramsgate ou
Margate - origem operária - homem humilde, extremamente de-
cente e simpático; pragueja o tempo todo e pronuncia mal as pala·
vras, é casado com Ltma naciva e fica aflito na presença de pessons
UM DIÁRIO NO SENTIDO ESTRITO DO 1'El\MO 75

11 •11ciráveis, especialmente mulheres. Não tem o menor desejo de


urda Nova Guiné. (b) De cor. Dimdim (Owani), um Orestes moder-
1111 era capaz de marar a própria mãe ào se enfurecer. Nervoso,
1111paciente- bastante inteligente. - Vida com De Moleyns inrei-
1,1111c11re não-civilizada- não se barbeava, sempre de pijamas, uma
11111111d ície impressionante - numa casa sem paredes - crês varan-
d " separadas por relas - e gosta d isso. 1foico melhor do que a vid11
ri.1 c.~sa da Missão. Lubrificação melhor. Ter um bando de meninos
1•11r.l servi-lo é muito agradável.

11.warou, 29.1 1.14. Segue-se um período rdarivamcme longo de


r 1lllX>tamenro meneai. No domingo, 15 .11, levantei-me relarivrunente
•••do e tracei de me ocupar. Queria burilar um pouco minhas anota-
\ô<.·s. Temei, mas simplesmente não consegui. Minha cabeça não
•111Tespondia. Por volta das 11, Saville (impressão desagradável). Sen-
1i.l•me angustiado, e não consegui trabalhar. Conversei com D. D.
t)opois do jantar me senti muito mal: fui para a cama. As 5 não quis
1r à residência dos Saville: deitei-me !l<I tarimba ao lado dos sacos de
; lgodão e da bêche-de-mer. Sentia-me solitário e desesperado ao extre-
111t>. Levantei-me e me cobri com tun cobertOI', sentando-me perco
rlc\ mar, sobre um tronco. Céu leitoso, sombrio, como que repleto de
.dgum fluido sujo - a faixa rósea do pôr-do-sol gradativamente se
1xpandindo, cobrindo o mar com Lun cobertor móvel de metal rosa-
dc1- envolvendo o mundo por um momento em algum feitiço es-
1r;mho de wna beleza imaginária. A:s ondas batiam no cascalho a meus
pés. Noite solitária. Mal toquei no lauto jancar.
Manhã de segunda: o mar ligeiramente agitado. Deitei-me e
11.1da v i da'bela paisagem entre Mogubo e Mailu. Em casa, sentei·
111c e li os~jornais; cansado, deprimido, com medo de uma incapaci-
•l11<)c dunidoura: minha cabeça completamente fraca. D. D. partiu
,111tes do almoç(). -Terça, 17, S. saiu de manha. Tentei - sem
111 uiro esforço - revisar algumas anotações. Li Kipling, contos. Fase
rlc dep ressão, sem esperança de trabalhar, me lembra aquele verão
1111Inglaterra. Devo rer me sentido arrasado. Quase desisti de con-
111iua1· meu trabalho. Tentei me livrar do desespero lendo concos.
76 DRONl&L\W MALl~OW&KJ

Mais provavelmente, um enjôo marírimo associado a um resfriado


em Mogubo esrá acabando com a minha saúde. - Na quarta, 17
(18) , tentei ir à aldeia e trabalhar um pouco, mas tudo com muirn
cautela e sem co nfiar na minha força. À noite, li Kipling. U m bom
llmor (naturalmente não se comparado com Conrad) e um sujeito
espetacular. Pelos seus romances, a fndia começa a me arrair. -
Na quinta me senti melho r e comecei a faier alguns exercícios de
g inástica-naquelas noites so fri de insônia, e senti lmla inquieta-
ção nervosa cm todo o corpo. Comecei a me sentir incomparavel-
mente melhor, especialmente num dia em qu.e comei quinino(scx-
rn?). Depois, outra vez, mais um dia de recaída. P rincipais interes-
ses na vida: Kipling, ocasional mente um desejo intenso de estar
com mamãe - realmente, se pudesse me comunicar com mamãe
não me importaria com nada e não haveria qualquer motivo pro-
fundo para me sentir desanim<tdo. - N o fim das com as, comecei
a me sent ir menos desesperançado, em bora tudo menos bem . A
última vez çm que comei uma injeção de arsênico foi no dia 18 -
cerca de doze dias atrás. Inrervalo muito longo! Dmanrc todo aquele
tempo estava sob o feitiço de Ki111- ro mancc mLtito interessante,
fornecendo abundances informações sobre 11 Índia. D urante a au-
sência de Saville, a vida com a sra. Saville foi longe de ser ruim. Bla
esrá muito mais vivai. Conversou algumas vezes comigo sobre
questões ernológicas, e uma vez aré interpretou [~nm11r1J para mim.
- Savillc chegou na segunda, 23 (?)-sim. Partida para Samarai
adiada. Na manhã de segunda fui à aldeia e pesquisei sobre as brin-
cadeiras infantis e educação das crianças, com Dagaea [chefe de um
subclã]. A carde fü um censo genealógico dfl aldeia. As confidên-
cias entre Saville e Armit me perturbam, bem como a perseguição
de pessoas que não vêem com bons olhos a missão. Mentalmence,
reúno argumentos contra as missões e idealizo uma campanha
anti missões realmente eficaz. Os arg wnencos: escas pessoas dcs-
croem a :Liegria de viver dos narivos; destroem sua raiso11 d'êt·re psi-
cológica. E o que eles dão em troca esrá compleramente fora do
alcaocc dos selvagens. Lutam coerente e implacavelmente contra
tudo que seja antigo e criam novas necessidades, canro materiais
UM DIÁRIO NO SENTIDO ESTRITO DO TERMO 77

1•11tnto morais. Simplesmente são prejudiciais. - Desejo debacer


1~sunto com Arin it e Murray. Se possível, também com a Royal
• ,•t11m ission. - Armir p rometeu que vai "me kvar para coohe-
. · 1·" codo o distriro. Isso me tranqüilizou e me agradou muico: ele
1 ilvc~ pudesse ter feito o mesmo na vizinhança de Rigo. - Q uur-
' 1, 25. dia de fazer as malas . Alguma espécie de desorganização

urtvosa, sentimentalismo, agiração. Arrepend imenros com relação


10 período que ccrrninou, e medo quanto ao que acontecerá a se-
r mr. Memalmenre vejo-me fceqücntemeocc de volta à minha casa.
ll• velei e fo:ei focos. Descobri que 1; havia sido revelada em papel
111oio11alizante, e fiz uma cópia. A visão do rosto entristecido dela
calvei ainda apaixonado? - me deprimiu. Recordei a d isposi-
\ '" de espírito na sala revestida de papel preto, naquela rarde es-
' ora, (]uando o marido nos descobritt enfim e ela não pôde sair
n1migo. - Um momento de forte e profundo amor - vejo no
umo dela a corporificação do ideal feminino. Uma vez mais ela está
1ménsáme nte, indescritivelmente perto de mim. Será ela outn1 vez
,1111iJ1ha* T. - O que ela estará fazendo agora? A que distância
1 scará de mim? Será que ainda se lembra de mim emocionalmen-
1c?- Na quarta não fui à aldeia, fui para a cama cedo, dormi mal.
Quinta, 26.11. fLeva1uei-me] às 5 da manhã - maravilhosa
1lisposição marinai. Juta que selnpre me levantarei cedo. - Parci-
mos. Por um momento contemplei .Mailu - magoificas cadeias
1urvilfneas de montanhas. Depois me deirei e assim fiquei durance
l 11 5 horas. De qualq11er maneira, não perdi muita coisa, pois uma
~spessa neblina cobria tudo. Enjoado, porém sem vomitar; insupor-
tável, mas sem desespero. Perco de Bona Bona [ilha na extremida-
de leste d~ _º'aía de Orangerie) levantei-me e sentei-me no rom-
badilly,'Com enxaqueca. Morros cobertos de bruma, positivamen-
te secos e longe de serem terrivelmente bonitos. A baía de lsulele
nrniro bela, a<> encrarmos nela. Traz-me à lembrança montanhas
em tomo do Lago di Garda - a ampla cordilheira coberta de ve-
getação verde. Rich é um sujeito amigável, franco e jovial - creio
78 BRONISLAW MALINOWSKJ

que vou me dar muito melhor com ele do que com Savillc. Subi
para o almoço. Rich me recebeu de forma muito afável. S. no ge-
ral, desagradável. Depois do ai moço e de uma longa conversa so-
bre política ecc., Rich me acompanho ll até embaixo; li alg uns nú-
meros do Times - nada me impele n retomar os estudos ecnográf.
Por volta das 5 d a tarde fui à aldein e me rendi artisticamente à
impressão do novo Kltlt11rkrtis. De modo geral, a aldeia me causou
uma impressão bastante negaüva. As cabanas - amigas, com te-
lhados encurvados - são çerramence mais ioreressantes e mais
bonitas do que as casas de .lllailu . .Mas há uma <:erta desorganiza-
ção, as aldeias são dispersas; a turbulência e persistencia do povo
qlie ri, olha com curiosidade e mcnre me desanimou bascance. Vi
três tipos de casas - vou ter de descobrir o que significa t udo isso.
- Noite com os Rich, jantar, desci e li; fui dormir mrde. De ma-
nhã me levantei, fui comar caf6 carde, depois trabalhei um pouco
com o filho de um samoano. Muito cansado e entorpecido. Isulcle
(;. muiro quenre. Depois do almoço fui para a cama e dormi aré as
4, depois tornei a trabalhar um pouco. Noite - capitão Small,
bilhar, um rápido conflito com Saville. No sábado, 28, às 4, parci-
mos. Fiquei na cama até as 6, depois me levantei. Linda paisagem.
As p raias do lago \XtaJdscadt co.m palmeiras frondosas até o fundo.
Passamos pelo canal de Suau. Pensei como seria perfeiw morar aqui
para sempre. Rochas vulcânicas ;ipnrcmementc d e formação recen-
te, <:om co nrornos acentuados - suas cristas e picos firmemente
incmstados nas ravinas, e pin.lculos acima - desciam íngremes
até o mar, rochas escuras continuando até as profundezas azuis.
Fiquei sencado ali, observando e cancnrolando uma melodia. Com
a mente embocada pelo enjôo, não me sentia hedonista, mas meus
olhos sorviam a beleza da paisagem. Além de Suau, as montanhas
ficam mais baixas e se dirigem para a esquerda; a distância ergue-
se uma <:ocdilheira de altas mo nta nhas do outro lado da bala Milne.
Efcico c ncancador do recife de c:oral, a acenar das profundezas. J\
silhLLCta de Roge'a vagarosamente emerg indo a d istâ nda - emo-
cio nante - uma nova fase do Pacifico. Durante todo esse tempo
fiquei sentado no tombadilho.
UM DIARIO NO SENTIDO ES11U'l'O DO T ERMO 79

( hcgada a Kwacou. Abel* me recorda Don Pepe Duque. Hor-


" Plmence cansado e sonolento. Sentei-me na varanda e folheei
• l1.1l111ers.*~ Um gdlo lá embaLxo. Crianças lindas, mttiro meigas.
\ f,11111lia inceira, aliás, à semelhança da família de Rich, me causa
111i.1impressão bastante favorável. - Almoço, depois para Roge'a.
• 111vcrsa com o Dr. Shaw, colecionador de baratas. Resolvi ficar em
1 w1lt0u. Fiz as pazes com Saville, que se ofereceu para revisar alguns
"11i111ais. ] untar na casa dos Abel. Conversa com Abel sobre os scl-
111uns e sobre Maori. Noite e ma11hã sobre a água. D.iance de mim
'••11lns azuis - ou mais precisamence água rasa e calma. Ao fundo,
, montes cobertos de bosques do promontório. À esquerda, o pró-
1•1111 cume de Roge'a, pequenas casas entre palmeiras. Diante de mim

111çqueno domo verde da ilha. 1hdo muiro bonito. Excelente dispo-


·~·1<> de espírico. -Esta manhã perdi um alfinete que tinha deixado
I 11snr emSandgate. Uma ve-lmais depressão, um sentimento de que
.inclfl escou apaixonado por ela.
No domingo, dia 29, estou em rns~. escrevendo as palavras acima.
11uo um início de escafu. Por volta das 11, Savillc e Ellis desceram e
11111versarrun tllll momento. Depois, por volta das 11:30, subi vagaro-
11ncnce com um sentimenro nítido de fraqueza. Culco religioso com
l\liel. Sentamo-n<~~ na capela retangular ou pavilhão parecido com tlllla
1utunda. Uma catinga baseante acentuada. O culto foi longo, com hi-
nos i:epetidos diversas vezes. Senti-me cansado e discincamence desmo-
111Hzado. Depois do culto, Abel me apresent<>u a Johnnie, seu melhor
111formante. - A seguir, fui almoçar. Depois do almoço, fui a Samarai
11um bocecom lgua, UtataeSaoyawaoa. Passamos bem perco de Roge'a.
Através da água impecavelmente cransparence vi pedras vi<)leca e (... ]
1iedras num brilho verde. As palmeiras encurvadas por sobre o mar se
111xJjecam-das"cercas-vivas verdes. Acima delas encostas íngremes de

•t) rcvcrcttd<> C. \'i/. Abel, dl! Sockd1dc 1'.1i.ss!onirfa. lo!Klrina, au.tor de um livrcto denominado
\..1w~ Lifo h: Ncw c,,.;,;,,"(Vid<.\ $dv~gen1 n~ NO..';l (ll)itlé) ($CJl) d:U!!. de pubticaçi<>)<1uc r..talinowski
·l ~revC\I çOmo ..escrito de foi1\l :l d i ~·ettida, cnlbora supctfkial c frcqüc-ntcrn-cntc indigno de <onfi-
'"\°fl"·
•"t\ev. J. Ch:ilmcr$, ro i~$lt>;'lárlo na COSt:l do solío da l>apua, autor d<: Phnnr Ljfo llt:tl\~rk ,.,, Ntw
1:11//nt11 (Vida<:: trabalho pioneiros n.l Novn Guitté)(l891).
80 IlRONISLA\V MALINOWSKI

morros não muito alros cobercos de árvores altas e uma vegeração ras
reira espessa. Os monres e a selva imponente e bela, de um verde CSC\1
ro, a água cransp:<rentc de tun verde vivo, o céu congelado num tempo
perperuamcnce bom, o mar de um profondo azul anil. Sobre ele os con
tornos de incontáveis ilhas discantes; mais perco de mim, cu disting<ti.1
bafas, vales, picos. As moncanhas da rerw firme - rudo imenso, com·
plicado e mesmo assim harmonioso e belo. -À minha frcnce, Samarru
no lnngor tranqüilo de uma lind<t rareie de domingo. Esperando. Fui ver
(C: B.] Higginson (magiscrado residente de Samarai], que mltico edu-
cadamente me ofereceu ajuda, mas me recebeu de um jeito basmme
lacônico. Depois desci e não cnconcrci o Dr. Shaw em casa; antes ele
sempre era muito gentil, me convidava para ir visicá-lo. No caminho
enconcrei Solomon, com quem fa.lci sobre plantas crnológicas vi(], in-
centivei-o e lhe prometi minha colaboração. Com ele fui visitar Ramsay;
impressão muito favorável e recepção run igávd . - A seguir, vi o Dr.
Shaw, que me pediu para focar pam o janrar; fui absolucamcnre brilhan-
te e me senti em excelente forma. Voltei bem tarde; os meninos esca-
vam famintos. A chuva lrnviacomcçado a despencar mais cedo(por isso
cu não tinha ido jancar cm casa). Naquela noite, surgiram goteiras no
telhado, que me despertarrun; t(mei o ded1io do pé esquerdo. Pela ma-
nhã trabalhei com Saville; depois ele foi comígo a Samarai. Disse-me
que aguardasse até as 12, o que me aborreceu, pois o doutor havia me
convidado para o almoço. Cheguei a Samarai alguns minucos depois das
12. Higginson me deu [uma incrodução) ao pmfdio; Nikoll, wn ho-
mem idoso de nnriz arroxeado, me acompanhou; os prisioneiros se
enfileiraram; escolhi alguns para a carde. O almoço na casa do douror foi
posicivamence rna~':lncc: wn enorme abacru<i basrnntc suculento, 1múto
áddo. Com Shaw fomos ao hospital; depois à prisão. A princípio cu es-
cava um canto indolente; depois me senci melhor. Oiarlic é <to1 sujeiro
muiro agradável, não cão inceligcncc quanco Ah ufa. Voltei em corno das
6; Saville veio às 7.

Terça, l g de dezembro. De manhã, Saville, como sempre; cencei ser


educado e evitar atriros, o que nem sempre é fácil. Por exemplo, um
di!L - nuquela mesma terça-feira, tive de ir à cidade de boce. S. me
UM DIÁRIO 1'0 SENTIDO ESTRITO DO TERMO 81

11 , , n a lnncha, m11s me disse para esperar um cempo indefinido.


11111 .l15se q11e, nesse caso, eu iria de bote mesmo; ele replicou que
1•11<1111 me ceder o boce. Durante roda essa negociação eu coose-
"11111· w ntrolar. -Na terça de manhã trabalhei uma hora, aproxi-
' ..i 1111cnce, no presídio. Shaw tornou a me convidar para o almoço;
11l11nai11os um encontro na q11inta para dar uma carnín11ada até
1111111\l, Depois desci para o presidio. Dois meninos da ilha de Rossel
111«díocrc. Às quatro, fui visitar Ramsay e aré as 6 revisamos os
'"' n~flios de pedra. Um sujeito (Hyland). que prometeu posterior-
'"' 111~ me dar algumas c11rios,*acabou se mostrando inconveniente,
""' nfcrca não deu em nada. - Na noite de terça, creio, Saville
"1 1.unbém, ou calvez eu tenha subido, e conversamos sobre Conrad;
vr1 Yo111h (Juventude). - Na quarta, uma baleeira oficial veio me
~·"" Pela primeira vez naveguei num veleiro. Fiquei extremamen-
1 111camado com a força impessoal, calma, misteriosa do venm. A
11111ulação era composta de dez homens - eu me senr.i um sahib ...
111ml da manhã uoj,restdio-me pr.eparci meio tarde. Almoço, con-
Mindo de três barras de chocolace, comi enquanto percorria a illJa.
1111dn visca a sudeste, sobre o Pacífico aberto, de uma trilha muito
lll'In traçada. Havia momentos em que eu rinba a impressão de que
" 1nar é mais boniro quando o vemos de um ambiente civilizado. -
l.1 rde no /m.rídio. Grnnde agitação. Dois dem·óieres entraram na baía
1111;ilra velocidade. Consegui divisar a bantúira inglesa. Fui à casa de
1t,11nsay - escava ausente. Fui até a praia. Falei com um marujo.
1k pois jantar, muito saboroso e agrad{tvel. Bebi cerveja e ataquei os
111issionários. Hig{ginson} concordou comigo, ao passo que Naylor,
um sujeito simpático, com cara de fuinha, os defendeu. - Ele me
levou até 11baleeira. Fui para Kwacou ao .luar.
Na quinta, 3. J 2.14, eu escava trabalhando com Saville quando a
chegada do "Morinder" foi anunciada. Fui de bttfeeira. _!tescobri o dia
da partida do "Morindcr". No pmidw conheci um g~farda que havia
:icabado de chegar da N[ova) G(uiné] ale111ã, e seis brisioneiros que

~ f'<>rul a 11.bte.,.i1da de tt1fi1JJi/ü;, tc fml) que d:C$ig nav;i objetos. n;1 ti~·os <tu<: <» C'()lonfa.t<h>rct co:uidc-
rn.v;im cx.6tko$,
82 fl.RONIS l.AW MAUNO\XISKI

haviam linchado um missionário. Visira ao navio. Rosros alemães


abruralhados ... Minha despedida dos Saville (foi} fria. (Pela manhã eu
havia rido uma conversa muito desagradável com Savillc sobre o uso e
o pagamenco da lancha.) Conversa com os guardas. Narivos da N. G.
alemã forces e vigorosos. Cheguei muiro carde para almoçar na casa
dos Shaw. Ali conheci Stanley, geólogo do governo. Muiro agradável e
amistoso, LLm pouco mde. Concordamos qL1e no dia seguinte iríamos
trabalhar com pedras. Depois fui até Ebuma com o Dr. Não consegui
crabalhar (uma mti.lher magnífica; a guarda principal de Kiwni). Pro-
ptlS um rmzeiro d~ iate. Fomos a Roge'a, depois a Sariba [um« ilha vi-
zinha}. Em :1lguns momentos, desanimei por causa dos mares revol-
ros. Recomamos. A noite foi maravilhosa. Regressei na minha grande
b11/eeira. Depois fui falar com Ellis e ambos nos queixamos de Saville.
Arrependi-me de haver tratado Saville com cama consideração. Eljjs
desceu e conversou comigo sobre diversos assuncos.
Na manhã de sexca fui a Samarai no bmc [uma vez que tinha}
ncgóçios com Aumiiller; que me levou para almoçar. Depois traba-
lho com Stanley na casa de Ramsay; Charlic não veio. Aprendi mui-
ro e gostei de Scanley. Almoço com Aumüller. Maravilhosa vista pa-
norâmica da varanda. Falamos sobre a Alemanha, n guerra - do
que mais? Depois fomos outra vez para a casa de Ramsay. A seguir
encontrei-me com Hyland, que deu instruções. À noite conversei com
Lcslie* sobre opesc11dor de b1iloir1S acus11do de cc1·contraído doença ve-
nérea. Em Samarai rne senti tlll cas11, t11 P")J dt co1maissana. Voltamos
para Kwarou - eu não me senti muiro forte e fui para a cama ime-
diarameme sem espemr Ellis descer. De quando em quando ficava
furioso com Saville, e fiquei zangado porque não me comaram que
Ruby escava iodo para .Mailu.
No sábado fui a Samarai no bocc, bem cedo. Ao longo de urna
rua cueca, assando sob o sol escaldante, coberta de areia branca e fina,
caminhei à sombra de lima figl1eiru gigantesca, da igreja e da Rei10-
ri11 acé a casa de Sci1nley. Ele me vill de longe e veio ao meu encon-
tro. Ao mesmo cempo contr'dtei Charlie e dois prisioneiros. fizemos

,. Dono de um hoctl cm ~ma1;ai .


UM DIÁRJO NO SENTIDO ESTRJTO DO TERMO S3

uma descoberta com relação ao machado de obsidiana e a classifica-


~Jo dos machados em utilitários e cerimoniais. Realmente interessa-
.lo no que estava fa7.endo. Ao meio-dia quis almoçar no Hotel de
l.cslie, mas um bêbado quis almoçar comigo e tive de pensar numa
desculpa. Sentei-me num banco à beira-mar e mastiguei chocolarc e
biscoitos. À carde vnlcei para a casa de Sranley; Hyland crabalhon
~onosco- depois os orakaivanos vieram e idemificarnm o machado
de obsidiana. À noite passei na casa do doutor rapidamente; depois,
~om Igua, remei acé Kwacou.
Domingo. Mal tive cempo de aprontar a bagagem, peguei o barco
cio doutor, pela p rimeim vez pilotei. Foi devagar porque não enfünei
as velas. O doutor me encontrou no cais. Fomos por intermédio de
tloge'a, depois passando por Sariba, depois outrn am11ra à direita e
entramos na pequena baía. Desca vez o mar conseguiu me desani-
mar - um ligeiro acesso de enjôo. Os rapazes de Dobu* são muito
bonitos e agradáveis- cantaram, e lgua estava bem disposto. Ins-
pecionamos a casa, saqueei um cúmu lo, t)crdi e Cl\Co!\ttei minhat«t-
11e1a-ti11teiro. A viagem de volta foi mais rápida. Jancar na casa do
Dr. P<:nurbildo e futiósó por não dispor de bote. Suspeitei que os
meninos estavam conspirando contra mim, incentivados por Saville.
Passei um sermão em Arysa, que pareceu submisso e obediente. Isso
me tranqüilizou. lgua tez as malas e eu li.
Na segunda, 7.12, me despedi dos Ellise e da velha solteirona,
chamada sra. Darby, da qual não gosto porque a associo a Saville.
Tempo bom - o mar saturado de Joz solar. Despedimo-nos da re-
gião de Samarai. Volcamos a Kwarou (aquele patife do Hyland men-
tiu para mim, não deixon pacote algum no B. P.) De modo geral,
detestei a viagem inteira e os meninos. Tiabubu recusou-se a discutir
nscrologia comigo, o qtte me deixou mesmo de mau humor. Sentei-
me no tombadilho e apreciei a paisagem - eu já a havia quase es-
quecido naquela altura. Não olhei o trecho bonito que lemLJfa Çascel
dcJJ' Uovo [Nápoles}. Paisagem maravilhosa ( ...] cm Suau;'!t direita,
uma cordilheira alta e escarpada ao fundo. À esquerda, diverhs ilhas.
84 BRONISLAW MALINOWSKl

SLtau parece muito bonita. Em terra coohed um grupo de pessoas


que falavam inglês: Biga e Banarina [um ex-guarda}. Depois fui aré
a lagoa. Vista bonita e entrada muito estreita, qnase um lago circu-
lar.; praia plana coberta de árvores altas, ao fundo altas montanhas,
de bela silhueca. Na praia sentei-me num gflhana canibalesco e con-
versei com lmtuaga, mestre escultor; excelente humor. Volramos sob
uma noite cravejada de estrelas cintilantes; conversei com os meni-
nos sobre as estrelas; eles remavam. - A seguir, Biga e Banarioa se
aproximaram e falaram; e11 escava muito sonolcnco.
No dia seguinte, viagem acé Nauabu. Atrás de mim, os planos
e, desce lado, desincercssanccs, escreicos de Suau. Por um momento,
uma vista dá para ll lagoa; depo is baías largas e rasas com picos vul-
câoicos e escarpados e cristas pontiagudas. A bafa de l'arm parece
rasa e dcsinceressance. A medida que entrávamos nela, se coroava
gradacivameote mais bela. Ao fundo, llffia montanha com alguns
picos. Palmeiras revesriam a prnin.

Mailu, 19.12.14. Sinto-me muico melhor-por quê? Será que aquele


arsênico e o ferro levam ramo tempo parn fuzer efeito? Final mence
cheguei a Mailu, e rc:llmeote não sei, ou melhor, não vejo claramen-
ce, o que devo fazer. Período de suspense. Cheguei a lun lugar aban-
donado com a sensação de que logo cerei de terminar, mas nesse meio
tempo preciso dar início a uma 11ova existência.
Devo completar o relato sisrcmácico dos evencos, na ordem em
qne aconccceram. Ao chegar a Nauabu, eu escava um pouco cansa-
do dos mares revoltos, embora não escivesse enjoado para valer.
Quando desembarco sempre me sinto um pouco aliviado. Em
Nauabu fui rodeado, c1wolvido pelo esplendor da vegetaçãosubequa-
torial, espalhada com uma simplicidade majestosa numa ordem quase
geométrica: o semicírculo <la b:lía encre duas pirâmides de monta-
nhas, a linha da praia ocidental correndo direto para o mar. Aqui e
ali casinhas entre as palmeiras. Boo qnebrou um remo ao largo. -
Entre coqueiros baixos a incervalos regulares escava a casa do profts-
1or natiw. Uma mulher samoaoll, magricela e macilenta, ofereceu-
me wn coco: a mesa escava cobcrra com um pano, havia flores sobre
UM DIÁRIO NO SENTIDO ESTRITO D O TERMO 85

l 1, e guirlandas de flores ao redor da sala. - Saí, uma multidão,


•ln1111s 111eni11os falavam o dialeto inglês. Fui até {Rialtt], Samudu sait1
1 n .1 me encontrar. Nem um simples gaha11a sobrou (todos destruídos
p••los missionários!); nem uma únka lápide. (Encontrei uma} casa
1 nnscmída no esrilo "casca de tarttJruga" no Misima. Engarinhei para

1 ntmr nela. Parecia simplesmente um lugar para armazenar coisas

·•casa de i11hame". Adquiri uma "proa" encalhada de uma embarca-


\ ln de guerra. Samudu, ttm rapaz alro, bonachão, obsequioso, fala-
v.1 111glês e moeu muito bem. Aproximamo-nos do barco de Dagoisia
ri hnrlie) de Loupom [uma il ha perco de Mailu]. A seguk, inspeção
d<i~ casas (que os nativos estavam) preparando para uma fescivida-
ilr, Casas magníficas, lindamente decoradas, tendo à frente efígies
tlc ~nimais totêmicos. - Num canto de tuna das cabanas vi bagi
.itc. -Sobo, que é tabu - a princípio achei que isso estava relacio-
nodo com a necessidade de tornar os ·~orcos ab1mda111es", uma espécie
,h' l11tichi11ma.*Mas acabei descobricldo que seu único objetivo é attait
"' porcos p:irn o 1o'i. - Pelo menos uma descoberta importante -
.1 única forma de cerimonial rel igioso. - Eu oão estava com acâma-
1,\, adiei as fotografias. Depois do almoço fui dormir - levantei-me
c.1nsado. Samudu não veio; sai no barco e tomei banho. -Saí à noite,
1rias não houve danças. Eu estava muito cansado. Pela primeira vez

cm1teí o som prolongado e esttídeme de uma concha marinha sen-


do soprada -kibi - e com ela um monstruoso som de porcos guin-
rhando e homens vociferando. No silêncio da noite, dava a impres-
~ilo de que alguma atrocidade misteriosa estava sendo perpetrada, e
esclarecia subitamente - um esclarecimento lúgubre - as esque-
tidas cerimônias canibalescas. - Voltei muito cansado.
9 .12. Depois do desjejum comprei um tapete para lgua, dei tuna
gorjera à samoana e nos separamos amigavelmente. Estávamos ao
largo - não me lembro da paisagem - , alca montanha acima.da /
baía de Farm mudou de posição, cobrindoSuau. lsudau (lsuisu~l não
parecia festiva. Uma estreita faixa de areia com manguezais dÇ am-
bos os lados, e uma forte fodencinade alg11s apodrecendo. Diant e da
86 BRONISLAW M ALINOWSKI

aldeia, a casa do professor, onde "paro" com codo o "kit''. Fomos à al-
deia. Muitas pessoas escavam senradas sob as árvores, perto do bar·
co, nas varandas. Muiros porcos. As pessoas escavam com trajes de
domingo; alg umas tinham ossos no nariz - só as mulheres. Algu·
mas pessoas com bagi e samtmpa nos pescoços, segurando varas de
ébano. Os de Juro recemcmence pimados - brilham como limpado-
res de chaminés. Troquei cumprimenros com o ''patrilo" -o tanawa·
l(rma. Voltei e circulei por ali al~umas vezes para ver como eles esta·
vam transportando os porcos. A tarde fui lá novamente e falei com
Tom e Banari, dois ex-guardas. Tirei um bmam/#uo de um porro sen·
do crazido, passeei pelo local e comprei algumas a1rio1. Na manhã
de quinta-feira dei uma caminhada de pijamas, inspecionei o barco.
Uma am1ti11wa de Amona, magnificamenre encalhada. Ao andar en·
trc as pessoas, quase não me notavam. - Discussão sobre porcos
com o sargenco -creio que foi o primeiro dia à tarde ou à noitinha
que entrei em contato com Sixpçnce e Janus, que depois se roma•
mm meus amigos. Na carde de quinta-feira coroei a perambular pela
aldeia e observar as coisas. Na sexra, 11 .12, de man hã, observei 11
interessante cerimônia do pagamento, com SintJaramoJ1amo11a; de·
pois fui me sencar com os porcos na casa do 1anawaga11a; muito
entediado com o que estava aconcecendo. À tarde, cornei a volcar,
na espcrançít de restcmunhar alguma macança ricuul de porcos. Na
verdade, parece que isso não acontece. - Por volca dns 4 da tarde
fui para Isulele num bote. Tarde maravilhosa, cheia de todos os tipos
de luz. Diante de mim, uma gigantesca muralha verde saturada do
ouro do sol, acompanhando-nos a deslizar e se espremendo por en-
tre a vegetação, faiscando intcnsamence sobre os penhascos calcários.
O mar era de almiramc; aberto em todas as direções, de um azul
profundo. A calma de urna linda carde; disposição festiva. Senti-me
como se estivesse de férias, livre como o ar. Rich me recebeu gentil·
mente, de forma hospitaleira- sem formalidades. Saí para dar uma
caminhada ao longo do sopé do morro. Havia uma vista encan tado·
ra da encosra da montanha, agora banhada pela luz rósea do poenre,
e da baía. Acabrunhado pela tristeza, eu berrava remas da ópera TrisríiQ
e /Jo/da. "Nostalgia". Evoquei diversas figuras do passado, T. S., Zen ia.
UM D1Aruo NO SENTIDO 13STJUTO DO TERMO 87

l'(·llsei em mamãe-mamãe é a única pessoa com a qual 1·eal mente


111c importo e verdadeiramente me preocupo. Bem, também com a
vida, o fumro. -Voltei para a casa dos Rich. Jantar. Viagem de volta.
l luita e Vclavi; eles me carregaram por sobre um pâncano coberto
11or um manguezal.
No sábado, 12. 12, me aprontei d:e manhã (acordei muito tarde)
1 fui para a aldeia. Estava relativamente vazia. Rich veio. Entregou
1,1baco e recebeu porcos. Nós dois examinamos a annadilha para pei-
\<'f. A sra. Rich tirou fucos. - Vc1lcei com eles no bote ... D epois, à
1.1rde, conversei sobre Jo'i, tendo Laure como incérprere. Com Velavi
< u·ctmdei ít ilha de barco. Escava exci·emamente·bem-humorndo quan-

1lo desci à noite por entre as moitas de mang ues luxuriantes - scn-
1lns imersas na água, entre as rrepadefras, na ilhara rochosa. Depois,
cl janrar; Bastard se arrasou. Eles jogaram bilhar. Fiquei escutando
11 m fonógrafo horrível que me monopolizou. (" Umer dem Doppeladler"
1Sob a dupla águia} e valsas ordinárias). Dormi. No dia seguince, café
du manhã na casa dos Ricb, que muito hospitaleirarnenre me convi-
duram para firnr mais Lun pouco. Despedi-me de cada uma das cri-
1nças. Dei 1/· ao sarnoano, que, em troca, me deu um leque.
O mar diante da baía de Fife (observei ilhotas com cemitérios)
('Stava menos calmo d o que na segunda e na quarta. Passamos por
uma baía de ágt1as profundas. Os rapazes não sabiam para onde ir.
fledimos informações a u m homem que passou num barquinho.
Silosilo à direita. Uma bafa circular sem reentrâncias, com u1rn1 cn·
rrada estreita. Tive a impressão de um lago de monta nha. {...} Vir.a-
mos à esquerda, descobrimos onde eca Silosilo: no fundo da única
'uvidade, sob uma aka p irâmide que dominava exclusivamente roda
·~paisagem. Guirlandas de folhas secas atiradas ao mar de dois altos
mang ues, corno em Nauabu, como braços esrendidos pura dar as
boas-vindas aos rurisrns que para Já iam aos feriados. - Uma casa
nova, ou melhor, tun d11b1t, e figuras sujas e macilenrns. O ta11awaga11a.
Aesquerda um segundo d11btt, onde uma verdadeira múmia, K!t11i-
kmlia reinava. Encontrei Sixpence, q ue persuadi a organizar uma
1/11111orea. Algu mas mulheres traziam enfeires de penas na cabeça. Aí
<> primeiro porco chegou, e as mulheres foram recebê-lo, e dan~a-
88 BR01'1SLAW MAJ.INOWSKI

mm. Apreciei o espetáculo, o rufar dos tambores e as decorações. -


Depois do almoço e de uma soneca (no d11b11?) fui até a praia. Damorea.
Anote i a canção e descrevi os 1nssos. As moças não escavam pinta-
das. Si:xpence também cantou, acompanhado pelos outros meninos
-o que não é en ·1~gle. Quando começou a escurecer, li.ti para o d11b11,
onde resolvi passar a noite. Noice péssima.
Domingo, 13.12, acordei me sentindo como se tivesse acabado
de ter descido de uma cruz - simplcsmence não conseguia me mo-
ver. Chuva, tempo enfarruscado - um banho romano à la lmn.
(Remei até a terra firme]; dei uma caminhada enrre os sagüeiros; flo-
resta antediluvianas: [como] as ruínas de um templo egípcio: cron-
cos gigf1ncescos, ou melhor, colossais, cobertos por vagens geomé-
tricas, musgo, presos em um emaranhado de diversos tipos de
convolvuláceas e trepadeiras, com pequenos cocos de folhas - for-
ça, insensibilidade, monstruosidade geométrica. Umbry'o desag(ieiros
dá a impressão de que não pode ser comparado a mais nada no mu n-
do. E um calor terrível e sufocante sempre acompanha tudo. Visitei
algumas cabanas na selva, e entrei numa casa abandonada. Volcei;
comecei a ler Conrad. Conversei com Tiabubu e Sixpence- empol-
gação momentânea. Depois tornei a ser vencido pela apatia - mal
tive furça de vontade para terminar os contos ele Coorad. Desneces-
sário dizer que uma terrível me lancolia, cinzenta como o céu ao re-
dor, rodopiava em tomo dos limites do meu horizonte incerior. Es-
forcei-me por afastar os olhos do livro e mal pude acreditar que esra-
va encre selvagens neolíticos, e sentado aqui pacificamente enquan-
to coisas terríveis ocorriam lá (na Europa}. Em certos momentos,
senti um impulso de rezar por mamãe. Passividade e sensação de que,
em algum lugar, bem longe do alcance de qualquer possibilidade de
fazcc algo, coisas horríveis e insuportáveis estão acontecendo. Uma
necessidade monstruosa, terrível, inexorável assume a furma ele algo
pessoal. O incurável otimismo humano apresenta seus aspeccos sua-
ves e gentis. Flumações subjet ivas - com o motivo principal da
esperança eternamente vicoriosa - são objetivadas como uma di-
vindade boa e pura excepcional mente sensível ao aspecto moral cio
comportamento do sujeito. A consciência - a função específica que
UM D IÁJ\!O NO SENTIDO IlSTRITO DO TERMO 89

nos atribui todo o mal que ocorreu - se torna a voz de Deus. Em


verdade, minha teoria da fé tem muito semido. Os apologistas ig-
noraram esse aspecto, dedicando rodas as suas energias a combater
o ma.is perigoso inimigo da religião - o racionalismo puro. Os ini-
migos da relig ião recorreram a táticas puramente intelectuais, ten-
taram demonstrar como era absurda a fé, porque é a única forma de
,oJapá-la. A consideração da base emociona.! da fé não destrói a reli-
gião nem lhe acrescenta qualquer valor. Deriva única e exdusiva-
mente da tentativa de compreender a essência da psicologia da fé.
Na rarde de domingo, não fui capaz de fazer nada. Voltei com
James (Tetete), muico cedo - ele me ajudou n encontrar um casarão
em Kalokalo. Não posso diz.er que os momentos passados naquela
casa foràm agradáveis. A tedemina, a fumaça, o barulho das pessoas,
eis cães e os porcos - a febre que devo ter tido durante aqueles dias,
tudo isso me irritou profundamente. As três noites que dormi lá não
foram bot1s; durante codo aquele tempo me senti exausto. Na segun-
da-feira de manhã, depois de beber chocolate na p raia, saí com Vclavi
no barco. Não me lembro muico bem do que fiz. Em geral há menos
LLnimação pela manhã. A folia começa à carde. Há sempre algumas
procissões com porcos. -Na segunda à tarde - damorea? Na terça?
- Na quarta os porcos foram finalmente levados ao ltJnawagana.
Disputa - quase uma briga - para decidir sobre a derrubada de
um coqueiro. Dansaram a raNa. Balitante impressionante, quando
um gcupo de sujeitos que pareciam realmente selvagens surgiu no
meio da mulcidão obviamente assustada e nervosa. Não surpreende
q1te cais coisas causassem brigas antigamente. Ames disso cive uma
conversa úcil com Carpencer, que me deu diversas explicações valio-
~as. - De modo geral, estes dias que poderiam ter sido extrema-
mente frutíferos - eu realmente poderia ter obtido uma quantida-
de enonne de coisas imporwoces- foram consideravelmente estra-
gados pela minha falta de forças. Durante o dia o calor era cal que ~u
me senti sufocado na plataforma onde me deitava. A maior parte da
segunda-feira fiquei sentado sobre a plaraforma sem fazer quase nada.
Na carde de terça, fui com Sixpence parn sua minúscula aldeia, onde
t'irei as últimas três focos do dia, depois voltei para a praia, onde dei
90 DRONISLAW MALtNOWSKI

çom uma procissão que marchava direto para mim, com o 1anawaga11a
à frente; eles me ofereceram um porco. Tentei devolvê-lo, mas foi
impossível. Naquele dia (terça) eles comcçacam a dançar a dam~rea,
mas eu estava cão facto do porco e cão monstm()samente exausro que
voltei para o d11b11 e fui para a cama. Escutei mgidos furiosos. Tiabubu
disse que talvez osbosq11í111anos tivessem vindo e estivessem denuban-
do as cabaoas e destruindo as palmeiras. Diversos grites que soaram
como "Hmra!" e as respostas a eles, "\flipp". No dia seguinte, <>bservei
a mesma çoisa e averigüei que a g ritaria ocorreu quando um dos tron-
cos de mangue dos baixios foi derrubado c()m <>auxílio de uma lon-
ga vara, a partir da plataforma, a qual um porco foi atrelado.
Na manhã de terça eu fui para a esquerda, atrás do ria1ho, e vi
que cozinhavam sagu, mexendo-o com uma espécie de remo. Na
manhã de quarta, trouxe k11kt1 para o tm1awagana, que depois me
convenceu a dar-lhe mais, levando-me a Kanikani. A tarde de quar-
ta foi o dia mais intenso: o pomo culminante da ra11a. Durance todo
aquele tempo, infoliimeoee, me scnci bem angustiado. A febre ou o
calot medonho estavam me descruindo. Na manhã de quinta fomos
a Dahuni. Além de Silosilo, uma baía aberta; à esquerda (oeste) um
enorme penhasco projetava-se sobre a extremidade de uma faixa es-
treita: sobre ele, Gadogadoa. Alguns navios de lvlailu - quanto mais
para oeste nós íamos, mais velas e111 forma de pata de ,·aranguejo apare-
ciam. Velejamos concornando outra baía rasa, passamos bem perto
do penhasco, e entramos na bafa de Bona Bona. A ilha de Bona Bona
Rua me lembra o sopé dos Cárpatos com seus muicos braços -
Obidowa além de Nowy Targ. Aqui e ali clareiras - rerrenos mal
irrigados, cobertos de capim - mas eles estranhamente me lembram
as ravinas situadas em algum ponto das encostas de Kopinica, perco
da estrada velba para Morskie Oko. -À direita, a encrada de Mullins
Harbor, Gubanoga. Ao norte, praias planas e um luxuriance cinturão
de vegetação espessa e impenetrável, correndo bem ao longo do lei-
toso mar azul; aqui e ali palmeiras, qual brilhantes linhas geometri-
camente paralelas, calhadas com alguma ferramenta afiada no
cinturão verde. À direita, amplas baias e montanhas cobertas de uma
abundante vegetação. Entramos da baía de Dahuni. Muico callSado.
UM DIAIUO NO SENTIDO ESTRJTO DO TERMO 91

Olhei com prazer as gravuras cm um exemplar de três anos do


Graphic. I'ui dormir. Atarde, caminhei. No segundo d1tb11, visirantes
,1guardavam sentados - 2 maih1 e 2 borowa'i [tribo do interior da
área de Mullins Harbor] - comend o raioba ern grandes travessas de
madeira. Os tipos borowa'i eram extraord inários; rostos compleca-
mcnce australianos, cabelo liso, narizes de macaco, expressão selva-
s emence assustada. - Ainda incapai de trabalhar, voltei e saí de
barco com Ig11a, Boo e Utaca. Encontramos o lugumi Mailu, ao q ual
lancei amarras por um momento. Visra maravilhosa da vela amarela
num fundo de um azul cada vez mais escuro; as praias baixas de
Mullins Harbor assomavam a distância. Na volta tivemos muito tra-
balho C<>m os re mos. À noitinha comp1·ei alguns objetos - o início
de "um novo tipo de museu": objetos domésricos.
A manhã seguinte (sexta, 18.12) foi brilhante e dara- Mullins
Harbor não estava cla ra a d istância, pois havi<t uma tempestade por
lá. Podia-se ver perfeitamente a baía de Orangcrie. D ificuld ades com
os 111eni110J, que escavam se rnbelando. Progredimos ao longo da praia
verde e plana- diversos morros atrás da planície - em meio à ne-
blina e iis nuvens. Gadaisiu; a plan.cação aparentemente morca, som-
bria. Almoço com Meredíth. Conversa sobre os Graham; sobre as
estações nesca região da Nova Guiné. - No bote para a aldeia; a
aldeia miserável, q uase deserta; as casas altas const ruídas à Suau,
embora algumas particularmente pobres. Continuamos a viagem; de
trás das montanhas u ma neblina branca avançava firmemente na
nossa direção, como que impelida !Pºr algum venco vio lento viodo
do outro lado. Aparentemente, a fone monção vinda do ourrn lado
vem para cá no venro sul que a atl"avessa. Vista encantadora de di-
versos montes com auras de neblinai bra nca, evolando-se misteriosa-
mente dos vales profundos. Baibara. Ccmflito com Arysa; fútia. An-
dei ao lo ngo de um caminho colearite entre grossas trepadeiras
enroscadas num jovem palmeira]; sra. Cat e e Cact; prolixos; passei
Os olhos pelos jornais ilustrados; senti que não conseguiria apur~r
muira coisa sobre agricultura nativa por intermédio dele. Fomos dar
um passeio na praia; ele foi efusivo a respeito da plantação, eu me
enchi de admiração. Ele me mosm:>u sua casa an tiga e me contou
92 JlRONISL.:\W .MA.UNOWSKJ

uma história sobre uma cobra - quantas vezes ele havia acompa-
nhado alguém até ali e lhe contado a mesma hist61'ia? Na praia, dis-
cussão sobt'e missionários - ligeiro acriro; perdi qualquer afeição
pnr ele. \7<lltamos; jantar; conversa com a sra. Cate, que é muito
agradável. Fui para a cama muito tarde. Dormi mal.
Não me sentia muito bem. de manhã ... Daba encrou e fomos de
bote para o cemitério. Platafotm;1, ttOm<as com ossos, crânios es-
branquiçados sobre as rochas. Um dos crânios trazia encaixado em si
um narú - deveras impressionante. Perguntei sobre os ritos fi.íne-
bres. Enquanto isso, os meninos bermvam e sopravam a corneta. Fi-
quei fürioso com eles. Despedimo-nos de C.~tt. - A costa é pedrego-
sa, coberta de vegetação acarmcada. A enrrada para a lagoa onde fica,
o cemirério fica entre duas rochas ... Mais adianre os morros são mais
altos e de Lun verde extremamente intenso. lnfelizmente o dia estava
muito nebuloso; não se podia enxergar a uma distâocia muito grande
para rrás. Atingimos Port GlasgO\\\ que parece encantador - um fiorde
flanqueado por dois pilones semelhantes a esfinges, cercados de mor-
ros altos, com as sombras das ,gigantescas montanhas da cordilheira
Principal (cordilheira Owen Stanley) ao fundo. Desembarquei -
imediatrunenre me semi debilitado - e voltei ao barco. Parada perto
de Euraoro. Uma ilhota arenosa e rochosa com uma dúzia de casebres.
- Aringimos .Mailu. Subitamente me senri vazio: o futuro era wn
ponto-de-interrogação. Há apenas um inscanre cu escava p lanejando
minhas atividades em Ma.ilu - descrição e fotos de atividades econô-
micas, no jardim e na casa, um;t tentativa de colher exemplos de todos
os objetos técnicos etc. - Em Mailu aguardei a !a11cha e vadiei. Não
me sentia muito mal; aparentemente tinha jeito para a coisa. Escrevi
no meu diário. Por volta das 6 fui para a aldeia, distribtú tabaco e en-
comendei uma réplica de oro'11.
AJi! claro: ·a pequena casa da missão arrumada para me receber
causou-me uma impressflO agradável e mitigou minha raiva pelos
Saville. Por volta das 7 horas voltei para casa e soube que o '"Elevahl"
tinha chegado. Peguei o bote. Conversei com Murray e Grimshaw.
Jantar com S[ua] E(xcelência} e conversa. Eu escava nos mesmos ter-
mos que anres com eles; conversa livre e amigável, e fui eu que a ror-
U~I DIÁRIO NO SENTIDO EsTIUTO 00 Tuai.10 93

nci pitoresca, sem me sentir importuno. - Li 4 cartas - uma da sra.


Mayo (gencil e amisrosa); uma de A. G. [Alfrcd Greenaway], bem-
wccdido quanro às 200 libras, um ,pouco cuna, mas aparentemcnre
i>em-lmmorada; e duas carras de N., u primeira bastante seca e curta,
n1anifoscando irriração com o meu silêncio. A segunda, cordial, em
resposta a minhas carras de Cairns e Pt. [Moresby], e as focos - meu
único contato com uro mundo que me é amistoso. Contudo, devo
.1dmitir que ns pessoas que conheço aqui cscão, de modo geral, muico
l>em-disposcas e parecem hospitaleiras, de forma que tenho a scnsa-
çlo de escnr coere amigos. Não me sinto muito rejeitado. Até pessoas
wnhecidas "no caminho" - os Rich, Cacr, Meredith - são huma-
nas, são "conhecidas". Em Samarai, os Shaw, os Higginson, os R:imsay,
Staolcy me crnrnram com grande cortesia... lgua foi ao navio. Esta
n1anhã, com avo~ embargada, contou-me que seu "tio" Tanmaku hnvia
1icabado de falecer- desfez-se em lágrimas.

1loje fiquei sentado denrro ele casa o dia inteiro, colocando meu diá-
rio em dia, fazendo um curativo no meu dedo, preparando-me para
urar foros - foi domingo, dia 20. À tarde, comei um banho basean-
te revigorante no mar, nadei e me deitei sob o sol. Senti-me forre,
~.1udávcl e livre. O bom tempo e !l frescura comparativa de Mai lu
t.tmbém ajudaram ti me animar. Po r vol ta das), caminhei até !Lal-
deia e encontrei Vclavi. Encomendei uma ped ra de moer sagu e Ltma
réplica de barco, por 10 bastões de tabaco. - Voltei paw casa -
meudedodofamuito. Sentei-me para ler Gaucier; Vela vi, Booc Ucaca
se comporraram como minha "corce". J\ noite foi muito ruim; des-
pertei com dor de cabeça... meu dedo doeu muico a noite ioceira;
,tparenrcmence eu tomei a infectá-lo no banho.

Oncem, segunda, dia 21, o dia inteiro cm casa. .Manhã e tarde, Puallfl;
conversamos sobre pesca. - Ocasionalmcnte, à tarde - acesso vio·
lento de melancolia; minha solidão me acabrunha. Diverti-me com
os contos de Gauticr, mas senti como eram vazios. Como um pcsn-
tlclo invisível, mamãe, a guerra na Europa, pesam sobre mim. Penso
cm mamãe. Ocasionalmente desejo estar com Toska, costumo con·
94 BRONIST,AW MALINOWSKI

templar sua foto. Às ve·zes não consigo acreditar que aquela mulher
mal'avilhosa ... o trabalho vai muitO mal.

22.12. Terça. Puana veio de manhã e se ofereceu para me levar a


Kurere. • 1brnc.i a me sentar na jangad~t e deslizei pelo espaço, em
meio ao maravilhoso cenário das ilhas e montanhas circundantes. Che-
gamos por volta das 4 e nos ins ralaram na casa do missionário. Meu
pé esrá doendo, nem consigo ficar de sapatos. Volca e meia, encon-
trava na aldeia alguém que já conhecia, e conversávamos. Saímos da
aklcia- a uma cerra distância para a esquerda, uma procissão dan-
çante escava se deslocando peh~ praia. Só se podiam escorar a batida
altamente elaborada dos tambores e a canção. Vi a procissão mais de
perco. Na frente iam dois homens com pequenas mangueiras; delas
pendiam guirlandas de uma espécie de folha, com as outras extre-
midades seguras por dois homens que vinham atrás. Eles eram se-
guidos por dois "chefes" besunrados de fuligem e pintados. A seguir
vinha wna multidão de pessoas cantando e dançando, algumas com
tambores, outras não. A canção era bastante melodiosa. A dança
consistia em pular num pé só, depois no outro, elevando bem os joe-
lhos. llm certos momentos eles dançavam curvado~, de coscas para
as mangueiras, cercando-as corno se as venerassem. - Próximo à
entrada da aldeia vieram ao en contro deles mulheres usando orna-
mentos, com dh1demas de penas brancas de cacatua nas cabeças;
dançaram da mesma forma qlte quando trazem os porcos, ou seja,
pulavam de um pé para o outro, embora não pareçam erguer os joe-
lhos tão alto quanto os homens. Todos agiam com grande seriedade;
obviamenre, tratava-se de uma cerimônia, mas nada havia de esotérico
nela. Além do mais, a maior parte da "compai1hia" era composta de
acorcs. Depois da "entrada" das mulheres, abriram-se grandes ebas;
todos se sentaram - os protagonistas na primeira fita - e conti-
nuaram cantando enquanco comiam nozes de areca. A canção era
oucra vez melodiosa; tenho a impre~são de que se usa a mesma

*LocaJ cu;dç lri ~ :1çontecct uma fes tividade ~J·I~. EMA fuua cr:t ;cmprc cclebrndt1. por voha do ft1n
do ano e inllUJ;Orava uOl J>C'ríock> tle jcjun1 crn prcparns-iio p;ira a fesia principal Jo iUlô 1ü.dvo~ :tpr<>•
xi1uadamcn'c ck>i$ mesc$ dcpoi$,
UM 01,\ruo NO SêNTIDO ESTIUTO DO TEl\MO 95

111dodia para todos os encantamen tos. Dep<>is de se comerem as


uo~es de areca, as mangueiras foram cortadas; depois, envolvidas
r lll eba, servem como tr1ti.r111ã para os porcos. A seguir, voltei para a
1 .l~I\ da missão e tive algumas reuniões com os selvagens. Anoite,

1 xnusro - dol'mi mal - , dor de dente. Houve dança na aldeia ...

Nn manhã de quinta fomos a.Mogubo Point. Como não havia quase


~t'lito, decidimos ficar ali. Camp(b]dJ Cowlcy, m11ito bem-vestido,
li.c~tante vigoroso. Causou-me uma boa impressão. Almoço. A seguir,
<01wersamos. Li Dumas{. .. ] Fiquei sentado sozinho na praia e pen-
•<'l na minha pátria, na minha mãe, m inha última véspera de N atai.
Naquela noite tivemos uma conversa descontcaida sobre assuntos
x•rais. C. C. contou histórias sobre a África; sobre caçadas de elefan·
· ~~ - ele é filho de Sir Alfred C., do qual eu me lembro bem de
llrisbane. Gosco bastante dele; um rípico australiano: aberto, franco,
1 xpansivo (ele me contou sobre suas intenções de concrair marrimô·
lllO), rústico. Nenhum de nós cncont wu nada de bom para dizer so-
lwc Saville. Se.xca-feira (dia de Natal) e sábado passei lendo Dumas
\crn parar. Na tarde de sábado Pua na chegou, e fui me encontrar com
1)11ndim. Depois, ao luar, voltamos ,para .Mailu. No domingo, 27. e
•rgunda, 28, comfouei lendo Dumas. Terça, 29, quarta, 30, quinca,
11. Fiquei doente. Febre. E uma violenta dor de dentes.

S~xta-feira, 16. l. 14 [sic - a data real era 15 .1. 15). Do dia primeiro
t"cxcá) acé <>dia 7 (quinta) até que nã·o trabalhei mal. Pikaoa,• Puana
<' Dngaea vieram procurar-me e conversei com eles. Puana se reve-
11111 bascance inteligente e mais aberto. Com Papari eles me fornece-
••tm alguns dados inte!'essanres, e semi que aprofundei meu conhe·
' 1rnento sobre gora (011 seja, tabu) e problemas de parentesco etc.
11111 dia ou out1·0 fazia uma ei<Cllrsão com Puana, Boo e alg uns ou-
11 os homens acé o alco do morto - tive de ser liceralmence içado.
A,,, acordar, pela manhã (acordei baseante tarde, por volta das 9),

~J l, kiio ri, info-11nante rnailu de nlci ~ ~id:ul c. div;diíl. ''m"' t:tl.$.l <om Om3oga C$Ull. f.\mtlia: lvlalioo\llSki
• 11u1den.i v11 gan.lncioso e sofsuic;ido.
96 DRONISLAW MALINOWSKJ

pedi cacau, aos berros. Como sempre, Puana já escava seotado perto
da casa, depois se levantava e vinha conversar comigo. Pikana vinha
umu Oll duas vezes à tarde. A a ldeia escava cheia, quase todos esta-
vam cm casa. Danças codas as noites - agora com trajes co mplcros,
plumas, pintura no corpo etc. Um calor medonho-às vcies cu me
semia péssim(). Por volta de terça-feira, dia 5, o vento mudou para
noroeste - mais uma vez os ventos alísios - consideravelmente
mais frescos, tempo e céu bonitos, mar azul, ligeira bruma no hori-
zonte. Imcdiacamence a gente se sente mais esperco... Depois de o
venro mudar para noroeste eu mudei n cama... de modo a receber o
ar. Senrei-me à janela e olhei as palmeiras e as agavcs (duas em flor
bem debaixo da janela), os mamõcs e urna estranha arvorei inha com
flores cor de violeca, com aromfl semelhante a benzoímt refinada, e
pi1reccndo ter sido modeladas em cera. Através das árvores vejo um
pedaço do mar. - Depois do a lmoço e à noite li Pa1hfi11der (0 des-
bravador), de Cooper, que considerei agradável, mas que não pare-
ceu imbtúdo da poesia frcnétiC'll que eu havia lido na minha juven-
tude, cm polonês. Iofclizmente, com o vento leste, absolutamente
todos deixaram Mailu. Quis partir com eles, mas barganhei, e eles
não quiseram aceitar o que ofereci pagar, coisa que me enfureccu-
fiquci furibundo com os dois guardas e a maioria dos habiranrcs -
e me desmotivou completamente, também. Além disso, não havia
t1b.rol11t<1111e1ue ninguém. Na quinta-feira comecei a ler Bmgelo1111e [O
vüco1ule de Bragelom1e, de Alexandre Dumas (pai)}, e li-o literalmente
sem interrupção, acé a noice de quarta Oll terça. Dumas, digam o
que disserem, exerce um certo fosdnio. No final, ele me manccve
preso ao enredo, embora sem dúvida renha deficiências enormes... E
a reconstrução do passado é desastrosa. Ararnis se mostra um perfei-
to paspalho, não faz o menor sentido. Eu começava a ler no momen-
to em que me levantava, não parava nem na hora de comer, e conti-
nuava até meia-noite. $6 ao ocaso me arrastava para fora da carna,
safa para dftr uma breve caminhada pelo litoral. Minha cabeça esra-
va Zllnindo, meus olhos e cérebrn escavam (...}- e eu mesmo assim
continuava lendo, lendo e insistia cm ler sem descanso como se esti-
vesse lendo a mim mesmo até a morte. Resolvi que depois de ccrmi-
UM DIÁIUO NO SENTIDO ESTRITO DO TliRMO 97

1mr de ler aquela porcaria eu não tocaria mais em nenhum livro en-
quanto estivesse na N[ova) G[uiné}.
Terça-feira, 13, parei- ou meillor, terminei. Na quarta, dormi
11té tarde. Depois, pela manhã, fui para a aldeia e tirei algumas fo-
1os. Não encontrei ninguém com quem trabalhar por lá, de forma
que volrei e comecei a ler as cartas de 1\-L Mesmo anres do meu período
de intoxicação com Dumas, eu já havia começado a ler e organizar
111cartas de N. Agora continuo lendo-as. Às vezes sinto vontade de
c~crever a história da minha vida. Períodos inreiros já parecem tão
remotos, estranhos. O colégio interno; Slebodzinski-Glowczynski
e• Gorski, Bukovina com Wasserberg = Chwastek ~os preparativos
11nra o doutorado - estas coisas parecem quase não ter nad<i a ver
'omigo. - N>\ quarta-feira fiquei febril, na quinta, também- muito
lr11co, 36,9[ºCJ mas ainda estava exausto. Na noite de terça ou quar-
1,1 tomei quinino, na manhã de quarta arsênico, também. Noites
jlQSitivarnente desagradáveis - insones, com aquela dor de cabeça
dpica depois de se ingerir quinino. Ontem (quinta) recomecei a fazer
;ulotações. Por enql1anto me restringi a crabii.ihar com Ig ua. À tarde
lolheci Shakespeare e tive dor de cabeça. De manhã estudei N orman
Angell e Renan. À carde tirei uma soneca, e às 5, sentindo-me a pon-
1o de morrer, me arrastei para a aldeia. Escavam enfeitando uma casa
para a maduna, pendurando bananas em toda a volta. Voltei no es-
( uroe mais uma vez assustei um garocinbo que diamo de :Macaco;
~lc emite sons estranhos quando assttscado; convencia-o a me acom-
pnnhar durante um trecho do caminho, dando-lhe tabaco, depois
çlesaparecia de repente entre os arbustos, e ele recomeçava a guin-
d1ar. À noitinha eu escava bastante kap11t; não li nada. Passei por
momentos de desejos desenfreados de escutar música e às vezes pare·
da que estava realmente escutando-a.. Ontem, por exemplo, a Nona
Sinfonia. -Ainda estou apaixonado por T., e sinto saudades dela.
Considero seu corpo de uma beleza ideal e sagrada, mas percebo que
psíquicamente não remos nada em comum, não corno com Z., por
t·xemplo. Só que não estou mais envolvido eroticamente com Z. Se
pudesse escolher uma delas como companheira neste momento, de
forma puramente impulsiva, sem hesitação escolheria T. As maiores
98 BRUNISLAW MALJNOWSK!

responsáveis por isso são as maravilhosas furos que tenho cm meu


poder.

S<lbndo, 17. 1.14 [sic]. Depois de uma noire insonc, apesar do bro-
meto, e ucpois de beber muito chá, não escou me sentindo mal, de
jeit0 nenhum; mas o coração não cscá muico forte. Veremos o que
virá 11 seguir! Onrem de manhã trabalhei com Igua e Velí1vi sobre
iguarias nac ivas. Velavi é muito desorganizado. A seguir, luca acléci-
ça com Velavi. Depois, almoço (mamão); depois li Rivers e esrudci de
relance Hill Vachell. O céu ficou nublado; de manhã os rapazes gri-
tam: "Navio à vista!" Chegam o "Wakefield" e uma frota inteira de
oro'ttS. À carde, por volra das três, minha temperatura subiu para 36,9,
quase 37. Isso já vem acontecendo há vários <lias - acompan hado
ele dor de cabeça e confusão mental. A leirura de Rivcrs, e a ceoria
crno16gica cm geral, é inestimCtvel, me oferece uma motivação cocal-
meme diference para trabalhar e me permire aprovcit;1r min has ob-
servasõcs de uma forma cocalmente diference. - Ainda estou obce-
aido pela idéia de conseguir um cargo oficial qualquer em etnologia
no governo da Nova Guiné. Suspeiro que Haddon esteja favorecen-
do l ayard• para obter esse emprego. -Por volta das4, descoroçoado
pela febre, dor de cabeça e pela chuva,1i11 embargo, co11tudo, fui até a
aldeia. As montanhas estavam de uma cor de safira escu ra; cúmulos
ele um branco awlado entre sombrns escuras co1· de chumbo; o mar
bn1xulcia esmerakla contra css(IS cores melancólicas. O tempo escava
abafado e opressivo. Lt1g11mis, cobertos por pequenas cabanas [ou seja,
trunsformados cm casas flutuantes}, estava perto da ogobada (ogoba-
da'a11111a?J. Maré excepcionalmence baixa. Um grande número de
pessoas estavam colhendo /mui di mart [pequenos mariscos}. Sen-
tei-me e fiquei observando as mulheres fazerem ratnis e tecerem ces-
tas. A chuva se intensificou. Sentei-me numa varanda; a princípio,
na de Vavinc, depois inspecionei uma varanda repleta de garotinhas
pequenas; ''acenderam o fogão" e estão cozinhando algum ulimen-
to. Caminhei pela rna, e ao retornar sentei-me na varanda. Cnnsado.
UM OIÁl\JO NO SENTIDO ES'rR!TO DO TERMO 99

A noite caiu. As casas em sombras melancólicas e transparentes; pe-


4uenos riachos de ãgua escorriam pelo meio da rua. Ansiei por mú-
,ica, pelo 1ri.rrão e Isolda. Voltei pata casa e li Rivers, depois Hi ll.
Durante mu ito tempo não consegui conciliar o sono. Fanta~ias er6-
c·icas ... Mas creio que meus instintos monogâmicos estão se forrnle-
wndo cada vez mais. Penso apenas cm 11ma mulher. Só sinco sauda-
des de T. - de ninguém mais. Racionalmeoce me sinto intimado a
esquecer 1: - ela não passa de uma subscicuca temporária do amqr
da minha vida. A luxúria escá comcÇ\lndo a se coroar algo csrranho
p.ua mim. Só me recordo com um estremecimento da noite de 10.9
cm Olcza; lembranças de \1Vindsor, de Meck[lcnburgh) Sr. - penso
110 quartinho de porra trancada em (Chilt) Farm. Sem dúvida, ainda
estou apaixonndo por e.la ...

Domingo, 18.1. 14 [sic]. Depois de fuzer meus exercícios me reco-


brei (baseante devagar) e fui até a aldeia contrariado, porque eles es-
cavam cobrando uma exorbitânçia pelo aluguel de um oro'11 - 20
bastões de tabaco. Maré cheia, mujto alca - '11a nava. Fui com a
1nccnção de fotografar os tipos. Na aldeia, atividades de preparação
para o feriado: cozimento do sagu, descascamento de cocos. Focogra·
íei tudo isso - me descontrolando com freqüência, dizendo im-
precações e tendo acessos de raiva. A seguir, focos com ccleobjctivo.
Por volcn de 12:30 fui para casa. J;i Rivcrs durante algum tempo,
almocei, fiz cópias das fotos. Mais ou menos às 4, levei a cãrnara aré
a aldeia. Tirei duas fotos da vista geral - duas de um oro'11 e 5 de
dançarinos. Mais tarde, observei uma bara. Podia jurar que escava
febril de novo; começou a chover. Em casa, li Hill - com medo de
ç tnsar a vista, e às 9:30 fui dormir. Dormi bem - não tomei ch:I, e
foi bom. - Ocorrem-me problemas como os de Rivers. Até agora
não prestei atenção suficiente a eles. Ontem fui um dia claro e rrans-
parcnce, podin-se ver a paisagem at~ Bona Bona e Gadogadoa. Cor-
dilheira Principal 11ebulosa. Mar semel hante a Ltma placn de metal
esverdeado. Agora que o povo de Mailu voltou, escou menos impa·
ciente çom o governador. Por oucro lado, esca chuva bastante depri-
mente. Esta manhã, quando me levantei e vi o aguaceiro que caía,
100 BRONISLAW MALINOWS!<l

senti Úm desejo incontrolável de simplesmente pegar um barco e cair


fora daqui! Fiz alguns exercícios de ginástica leves. Mais uma vez
eswu continuamence pensando em poesia, e goscaria de escrever al-
guns p<>cmas, mas não sei sobre o quê!

Segunda, 19.1.15 [.ric]. Ontem, antes do meio-dia, Pikanu apare-


ceu. Com grande esforço - porque esrava sonolento, bocejava o
tempo todo, escava com dor de cabeça e me sentia mal - excraí
dele material referente a parentesco. Depois, !is 12:30, me senti cão
exausto que fui para a cama. Depois do alm oço (não tinha :1petitc},
dor de cabeça. Tomei injeções de arsênico e ferro. Comecei a ler
Rivers, mas tive de parnr. Recomecei a ler poemas de L. Hope
[laurencc Hope, pseudônimo de J\dela F. C. N icolson]. Por volta
das 4 saí da cama com grande esforço -dor de cabeça e uma moleza
horrível no corpo - e fui para a aldeia com lgua. Chamei O maga
e Koupa, e sentados no Ur11111orl11 debatemos relações jurídicas. Por
volta das 6:30, me senti outra vez exausto. Em casa bebi ronbaq11t
& si/da; dor de cabeça; bromet o, massagem e cama. Caí no sono
[ ...) À noite uma force lufoda de vento me despertou. Já de ma-
d rugada sonhei com meus ideai s - com Zeoia, T., N., todas num
quarto, dormindo separadas por tabiques de ferro cor111g11do. Isso é
cm alg um lugar entre Zakopan.e* e Nova Guin6. Sensação de feli-
cidade desperdiçada, tesouros perdidos. Levantei-me com Lun pe-
daço de papelão na mão para cobrir a última janela! - O tempo
mudou. O céu ficou nublado desde a manhã, mas não choveu à
carde. Aguaceiros até o 11maohecer. Por estes d ias não fui comado
pelas saudades, mas os poemas me comoveram até as lágrimas
ontem. Decididamente, são verdadeiras obras-primas.

Terça, 20.1. 15 [sk ]. O ntem do rmi acé muito carde. Levantei-me


às 10. No dia anterior havia contracado O maga, Koupa e alguns
oucros. Eles não vieram. Mandei Igua à aldeia - ele volt0u de mãos
vazias. Tornei a me enfurecer. Escudei minhas anotações e as reor-
lJ).( D IÁJ\JO NO SENTIDO ESTRITO DO TERMO 101

11.1nizei. Descobri que um pequeno mapa que fiz do alto do morro


r•d falcando. Senti-me decididamente melhor (arsênico no domin-
1111), embora estivesse agitado e irritadiço. À tarde dei uma olhada
1111 ÇGS [Seligman] e Rivers, e fiz preparativos pata ir à aldeia;
l'1kana apareceu. Q uis trabalhar com ele, falando sobre btJrtJ; usei
1wçns de jogo (padrões) para esse fim. Mas ele não conseguiu me
'" ompanhar e fez a maior confusão; eu me zanguei e gritei com ele
11 situação ficou tensa. Ambos fomos para a aldeia às 5. Eles
•IJl rescntaram algumas danças. - A chuva começou a cair. Eu me
,1hr1guei sob o telhado da casa de O maga. Um pôr-de-sol matavi-
ll1oso. O mundo inteiro impregnou-se de cor de tijolo - era possí-
v(•I 01tvir e semir essa cor no ar. Em alguns pontos o céu aparecia
mitre as nuvens, de um azul estranho. Sobre as montanhas, peque-
1111s nuvens brancas - do tipo que vemos na Polônia durante uma
1crY1pescade -em pontos dispersos, como se os bosques estivessem
r lll chamas nas cncosws. Fiquei de pé, sozinho, na praia, perto do
l11r,11111i; próximo a uma das cabanas uma menininha me olhava fi-
amente. A luz se afastou devagar_.. no que eu estava pensando?
Sobte o que estava causando as nuvenzinhas brancas; sobre as opor-
tunidades pictóricas para StaS'; não era noscalgia, não pensava na
l'rilônia. Quando me sinto muito bem fisicamente, quando tenho
.1lgo para me ocupar, quando não estou desanimado, não entro num
r'!tado co111tante de nostalgia. - Depois do jantar li Conq11m o/
Mexico (A conquista do México) (de Prescotr]. Fui para a cama por
volta das 11 e durante mnito tempo não conseglii conciliar o sono.
Jlcnsava em "mulher", como sempre, sob tais circunstâncias. Em
·1: Lembrei-me de encontros do inverno passado. Terça, dara da úl-
1una conferência, 17 .3, e a viagem a \Xfindsor, 18.3 - ''Windsor
e a volta. À noite, 'janta•· pal'l4mentar". Qui nta, comemoração do
.lia da sanca que deu nome a m inha mãe, K. e Kasia vieram nos
visitar. Sábado: concerto no Palácio Alexandra. Bach(?) com K&K.
- A seguir, dom ingo, 22, audiência de conciliação(?) Debr. x
l'rusz. Encontramo-nos no Prim rose Hill ; bem no final, no cami-
nho paralelo 11 Adelaide Rd. Depois pegamos ônibus para casa
(Gray's Inn Rd.) Recordo-me de quando chegamos a St. Pancras.
102 llRONISL\W MllLINOWSKJ

Perguntei-lhe se ela gostava. daquele lugar - "Não - ( ... ] co


visicas aos Gardiner• [?] quando cu escava com pressa de pegar
crem!" Essa foi a última vez. A seguir, na quarra-fcira, deveríamo
nos encon crar - um obstáculo físico! Depois, na sexta, expedi~ã
a Earls Courr Skating. No sábado, 28.3, Nona Sinfonia - humo
péssimo, resmunguento, desd enhoso. Ela se controlando, eu furi
Depois o domingo; saudades, um remorso e urna raiva deprimen
tes. Na segunda-feira ela veio de vestido violeta com gola de peles
a frente de xadrez preto e branco. Sentei-me ao p iano, canrand
"Uber Allt11 Gipfeln". •• Conversa com mamãe e11 trois; fiz alusõ
estúpidas e maliciosas ao trabalho dela, ao auxílio que ela prcscav
ao marido. Acompanhei-a até a porta - discutimos; le mbrei a cl
a promessa de quarrn-fcira. Na manhã de quarta, um force acess
de sentimento amoroso; telefonei - rcsposca ncg ariva. Implorei
ela; um encontro no ja rdinzinho; negativa; nenhuma acusaçã
Vendo a frieza dela também m e recolhi i1 indiferença. N a noice
o ntem ocorreu-me que, se eu a tivesse arrastado acé minha cas
seduúdo, convencido, implorado - e a violetJtado, tudo teria ficad
bem. E, porcanco, aquele l~ de abril foi um dia de amarga dcce
pção. Na noirc passada rornei a ter um force acaque de monogami
com aversão a pensamentos impuros e desejos sensuais. Será p
causa da solidão e uma verdadeira purificação da al ma ou apen
loucum tropical?

Q uarca-feira, 21.1. 15 [sir]. Oncem me levancei cedo, às 6. (Duran


codo o período da minha fraquew e posteriormente, me levamei ent
9 a 1O horas!) Lavei-me para despercnr (é raro eu me lavar de m
nhã, ao todo me banhei apenas duas ou crês vezes). O puro e fres
ar matinal exerceu um efeito tonificante em mim; como sempr
arrependi-me de não acordar sempre ao raiar da aurora. Fui. à alde
na esperança de fotografar alguns estágios do bara. Distribuí mei

•Provtvclmcncc um3 tc.f'~rência ao Or. Alan Hc-adc110n Gllrdmet. famos.oarq~--occg:ipc.610


amigo<k boi&!1no91lkt
"'•"~"\.t:drcn Nacluliied... famOJO poema c!c GOC(bC', n'l\itfcado po1 divcrt.Ot OC>mpo$.Ít0ft1, JUI
paJJncntc Schubert.
UM DIARlO NO SENTIOO BsTRJTO 00 TF.RMO 103

bastões de tabaco, depois assisti a algLtmas danças; em seguida tirei


foros - mas os resultados fornm mL1ito ruins. Não havia luz sufi-
ciente para os instantâneos; e eles oão posavam durante tempo
suficiente para focos com exposição mais demorada. - Havia mo-
mentos cm que eu me enfurecia com eles, especialmente porque
depois de eu lhes dar suas porções de cabaco eles rodos iam embora.
De modo geral, meus sentimentos para com os nativos decididamente
rendem para "Extemlinrtr os brmos". Em muiros casos agi de forma
1njusta e grosseira - por exemplo, no.caso da viagem 1\ Domam. EL1
devia rer dado 2 libras e eles a fariam. Conseqüemcmcntc, certa-
mente perdi uma das minhas melhores oporrunidades. - Depois
de tirar as fotos[...} comei o desjejum; em seguida, tornei a ir para a
,1ldeia. Enquanto caminhava, já escava meio decidido a ir até Mogubo.
11iquei na casa de Koupa e mandei Jgua fazei· o reconhecimento. Ele
relatou que Pikana il'ia também . Fui para casa, e partimos. Oucra
vez um manwilhoso sencimento de liberdade e felicidade sobre o mar
11beno e translúcido. Conversei com Pi.kana sobre hereditariedade
- mas não deu muito certo ... No caminho de laruoro para Mogubo,
sentei-me na frente - diante de mim encostas arborizadas, esten-
dendo-se bem para o interior da ilha, se abriam à esquerda, onde
ilca Magori, isolada acima da planície aveludada do rio Bairebo, por
entre colinas. Eu em capaz de ver as altas montanhas da cordilheira
Principal. - Hoje um dossel de cúmulos baixos sobre elas, de onde
cai uma dlltva forte. A' direita, o mar e o céu claro - ~una vista até
l)ona Bona. Vento muito fraco. Conversamos com lgua sobre jar-
dins. Interessante, deve ser aprofundado! Só me senti cansado do
halanço das ondas em Mogubo. Cowley não estava em casa. Dei uma
olhada nas revistas que ele havia trazido. [Mais tarde) conversei com
ele soh1·e a guerra, sobre os acontecimentos de P c. Moresby (Fries
matou um camarada com o revólver dele); sobre Armit e sua políti-
ca favorável aos missionários. A seguir pedi-lhe que reservasse uma
passagem no "Wakefield" . No geral, minha conversa com ele não
deixou uma impressão muito agradável. - Começamos a viagem
de volta; vento e ondas forces. Perto de Laruoro entramos no interi·
or de um recife. Eles viraram a vela; fiquei apavorado; 011das bastan-
104 DRONISl.hWI M AL!NOWSKI

te grandes quebrando em torno, contra o recife inteiro; a vela estava


cheia de buracos, e tivemos de atravessar as ondas q11e q11ebravmn. Fora
isso, o tempo ficou calmo e bom. lgua me tranqüilizou; da primeira
vez não atravessamos da maneira adeqliacla - tivemos de voltar.
Na segunda vez tudo foi bem. No caminho para Mailu a água lavou
baseante o convés- fiquei encharcado. Em Mailu, barganhando com
Pikana - não lhe dei nada a mais, a não ser seis bastões de tabaco.
Tornei a me zangar com os nativos. Anoite li A conq11ista do México.
Adormeci rapidamente. Sonhos escraohos. Em um deles eu comei a
experimentar as descobertas químicas foicas pelo [Dr. .Fclbaum] e
Gumplowicz, e esrnva lendo suas obras, ou melhor, escudando suas
teorias em um livro. Escava num canto de um laboratório. Uma mesa,
instrumentos e [Dr. Fclbaum) sentado ali. Aprescnrou seis inven-
ções; estudou química. Vi lun livro aberto diante de mim e li seus
escudos. A seguir Gumplowicz; ele tinha alguns problemas próprios
dele. - Em sonhos, a imensa rapidez das experiências consiste na
apreensão sintética dos complexos. Caracccriscicameme, temos a per-
cepção de experiências sensoriais: enxergamos, escutamos(?), tocamos
(?), cheiramos(?).

Quinta, 22.1.15 {sic]. Ontem levantei-me tarde, às 9. Depois de


tomar o café da manhã e escrever meu diário, fui à rddeia as 10. Em
pcimeiro lugar entrei cm uma casa Um111or/11 e os observei comer, e
comi rambém. Mas vi que o dirnu era desfavorável para delxuer ques-
tões teóricas. Mandei buscar Vclavi e seu pai - eles não vieram. A
seguir, Omaga. Passei-lhe um sermão, depois lhe dei meio bastão de
rabaco, e fomos buscar "um ancião". Enconrramos Kenc11i. Tudo
correu muito bem. A 1 hora volcei para casa. Depois almocei - es-
tava com uma leve dor de cabeça, me sentia sonolenco. t i México,
depois me deicei para descansar, cantarolando. Às 4, vieram Omaga
e Kcneni. Scncei-mc com eles no chão, sobre um tapete, e debati os
assuncos em palita; cudo correu bastante bem. A seguir, fui à aldeia
com Omaga. Visra maravilhosa do conti11ente. Nossa costa escava
imersa cm sombras escuras, e o ar estava de algwna forma impreg-
nado de sombra. Observei - 11 costa perto ele Dorcbo estava de um
UM DJÁRIO NO SENTIDO &;TRITO DO TERMO 105

v1•rde vivo, da cor de uma folha que acaba de brocar na primavera.


llm na dela, uma muralha de nuven·s brancas, além d ela o mar, um
<11111 incenso, polido, censo (algo que aguarda, onde se sente a vida,
, 0 1110 nos olhos de uma pessoa viva- tal é o caráter d a cor do ma r
·''l"i em algumas ocasiões) - o cfci'to é maravilhoso. Fico a imagi-
1a.u· de onde vem essa cor? E esse concrasceencre luz e sombra, aquela
·Hl$ência de escuridão, relacionada com a rapidez com a qual o sol se
11.ie nos trópicos? Ou será a force luz zodiacal, o brilho emitido pelo
oi, que iluminava a onera costa com uma luz amarela? ... Em casa,
1lor de cabeça; cantarolei canções de Zenia - melodias ciganas e
til rania nas. Fui para a missão e distribuí p resentes. Os meninos e
"'cninas se comportaram de maneira tola ou calvez hostil. Voltei e
<Olltcmplci as estrelas. Troquei as chapas [da m inha câmara} e pas-
1cci ao longo da praia; em cercos momentos semi u m pânico nervoso.
A~ estrelas cintilavam; a visão do céu não me encheu com u ma sen-
••ção de oo [iofinico], mas fez minha alma rejubilar-se como ttma
flt'namenração das noites rropicais". - Durante um lo ngo tempo
li11uei sem poder dormir. Sonhei com uma viagem - iR me casar com
1: - mas não tive sonhos eróticos. Também pensei na possibilidade
•lc ficar com E. E. em algum palácio cercado por um parque. -A
11oice me senti baseante debilitado, mas não fraco.

Sexta-feira, 23. l. l 5 [fic}. Estou "cobrindoochão" do meu território de


111aneira cada vez mais concreta. Sem dúvida, se p udesse ficar aqui
por vários meses - ou a11os - mais, conhece rfa esm gente muito
inelhor. Mas para u ma estada curta superficial já flz tudo o que pode
\ér feico. Escou baseante satisfeito com o q ue já fiz sob as circunstân-
d as ruins. - O arsênico fünciona perfeitamente. Esta noite fiz uma
r xperiência. Tomei 10 grt1!!s de quinino e de mad rugada me senti
1)éssimo. Aparentemente o quinino não faz bem, nem me ajuda -
1>odcria ter algom efeito prejudicial nos corpúsculos vermelhos do
1ungue? Será que o arsênico é um específico contra a malária? Se esse
é ocaso, qual o seu valor nos p11íses alpinos?
Ontem caminhei até a aldeia às 7. Fotografei o l11g11111i - de trás
cl.1cc44 flm11ame. Descobri que esse era o lugar adequado para tirar
106 0RONJSUW MALJNOWSKI

focos de Mailu (da aldeia). Depois voltei, chamei Omaga e fui para a
casa de Keneni- Pikana reuniu-se a nós. Eu o ignorei, voltei as cos·
tas para ele. Ele começou a falar por sua própria conta - e se saiu
excepcionalmente bem. Omversamos sobre jardins, sobre "Bi11arbeif'
{troca "ohintária de trabalho no jardim] etc.... Dep0is do desjejum
peguei uma partida de tabaco e fui para a aldeia, fot0grafei o /11g11111i, e
a seguir... fui comprar objetos. Em geral pago muito acima do preço
justo, creio, mas b•irganho até estar pronco para ceder. Dep0is do aJ.
moço deitei-me e li MlxiCIJ. Dois homens me trouxeram obt1'11a -
pequenos machados feitos de conchas. Fui para a aldeia por volta das
4, comprei duas varas de bambu com penas; depois me senrei à beira-
mar com Kcneni e sua família. Dini, o irmão de Kavaki, veio tam-
bém. Kencni (tio deles) e Dini foram p:~ra casa comigo e me deram
descrições dos espécimes. Dcpoi.s do jantar, uma sede terrível - bebi
um pouco de água de soda - e depois, muito cansado - troquei as
chapas; caminhei à beira-mar; as escrelas cincilavam e havia uma lua
crescente a oeste. Sentei-me retraído, sem pensar muito, mas sem
nosrnlghi; senti um prazer melancólico cm me deixar dissolver fria-
mence na paisagem. Caí no sono com dificuldade, sonhando com as
possibilidades de pesquisa na Nova GLtiné.

Sábado, 24.1.15 !;rk}. Ontem, sexta-feira, me semi exrremamence


extenuado. À carde e à noitinha senti uma falta de energia caracterís-
tica, que faz acé mesmo coisas triviais - como guardar chapas, arru-
mar as coisas etc. - parecerem uma cruz monstruosa no Gólgota da
vida. Oncem ao meio-dia comei arsênico + ferro, e hoje, desde o meio-
dia, venho me sentindo melhor. Na manhã de ontem levantei como
sempre. Fotos: construção de barcos; a rua; 4 mulheres. J\ maioria das
focos ficou ruim. Omaga [tcowcc] carta de Cowlcy. Por volta das 10,
Omaga e Keneni vieram. Falaram sobre tabu e sua conexão comprá-
ticas mágicas. Depois do :llmoço aguardei Pikana; fiquei feliz de ele
niio vir, e li i\Uxiro. Muito cailsado. Com um esforço bastante grande
(hoje, agora, à tarde, não me sinto nem LL01 pouco sonolento, e estoL1
impaciente para sair, me vestir etc. - seja qual for o preço, esse é o
resultado do arsênico: vale uma ação de graças) saí depois de sclecio-
UM D1hruo NO SENTIDO ESTRITO DO 1'Bl\MO 107

11i1r os remédios que queria dar ao filho de Kenení (ele está com um
•l ttesso na perna) em troca de penas de aves-do-paraíso. Ele não saiu
110 seu refúgio. Fui à casa de Dini, onde conversei sobre cestas. Voltei
l>t'm cedo, semíndo um cansaço monsnuoso; sentei-me arrás de uma
l"'quena pedra naogobada e contemplei o pôr-do-sol. Muit0 fraco. Comi
•kmais no jantar. Depois tive uma inspiração - escrevi um poema
1 .] lgua me aplicou massagens e comou histórias num mom delicwso,
•••bte assassinatos de homens brancos, bem como f.-tlou de seus temo-
' 11 acerca do que faria se eu morresse assim! Adormeci me sentindo
n111ito mal. Meu coração um pouco agitado. Esta manhã não me senti
11cm 11m pouco bem. Mal pude me arrastar para a aldeia - uma
111clancolia e sonolência caracrerísdcas. Tentei obter cercas pedras de
,\ba'u... Antes do meÍ()-dia, Omaga veio e me revelou seus segredos
1 I~ magia negra. Depois do almoço, li México- neste momento (4 da

1.11·de) me sinto muito bem e estou prestes a sair para ir à aldeia. Hoje
u i meio-dia lavei os cabelos, comei banho e apliquei-me um distcr -
1udo isso me fez bem.

<Juarca-foira, 3 de fevereiro. [A bordo do] "Puliuli" - Escou para


• hcgnc em Kap11kapa. Continuação do me11diário interrompido. Fim
.!e s1\bado, 23. J (cu escava um dia a<liante de mim mesmo): fui para
1 uldeia, danças cerimoniais em andamento - rirei uma série de i11s-
i.mtâneos. A seguir, fui para a praia, onde mulheres realizavam
.dgum ritua.1 estranho numa mulher doente. -Voltei-à noitinha?
Durante alguns dias conremplei com freqüência as csrrelas, du-
1.utte um longo tempo. -No domingo, 24, levantei-me um pouco
1Mis tarde, adiei a ida à aldeia. Por volca das 7, "bttrco à vi.sta", o do
( 1u11emador; aproncei-me às pressas e fui numa p iroga (com um medo
horrível de chegar encharcado) para o "Elevitla", onde foi recebido
• <H11 urna reserva indiferente e fria. Gradativamente me convidei para
vir (l bordo do navio- peguei min.has coisas, me desped i de toda a
111ukidão de selvagens e daqueles que se desfaziam em lágrimas, da
1111ssão. A princípio senrei-me com o Governador, depois fui para a
popa - sentindo-me feliz de esrnr indo embora, uma sensação de
l1hcrdadc - como se cu estivesse entrando de férias ... À mesa do
108 llRONJSL/\W MAllN0\'1SKI

almoço, pouquíssima conversa. Li os romances curtos de Jacobs. De


manhã escalei o mastro um momenro. Um maravilhoso sentimenro
de liberdade mismrado com medo e depressão, pelo meu "atrcvi-
menco". À tarde, escalei mna segunda vez o mastro. Por volta das 4
ou 5, Já escava eu oucra vez, estávamos próximos a um cincucão aluvial
coberto de vegetação, além de Domara, quando batemos contra wna
formação de coral; pude ver o fundo lá do mastro e senti que o navio
raspava conrra a rocha. Desci correndo; operação de salvamcnco.
Desespero: pensei na possibilidade de perder minhas coisas, meus
materiais. Senci comiseração pelo gov. e o jovem Murray•, e uma de-
cepção terrível com o navio em si. Agora compreendo claramente o
que isso devia significar para o capirão. O mLvio se retorcia e girava
sobre uma posição no fundo, exatamente como alguém [com dor de
barriga). Em seguida - e agora, no "Puliuli" - sinro um medo
hisrérico desse contato pav<>roso com<> fundo. Ajudei a puxar o cabo
- euforia quando finalmente nos libertamos outra vez. Restante da
noite: jantar, conversa com S[ua) E(xcelêncial e Murray. Grimshaw
ficou com febre. Sujeito baseante agradável. - Eu também li um
romance idiota no qual enconcrci uma ou duas frases excelentes.
Segunda-feira, dia 25, dormi mal. Levantei-me bem cedo. Subi
no mastro. Aurora. Observei as nuvens fuzendo cerco ao horizonre
inreiro. Amedida que o sol foi subindo, elas se dispersaram. Aparen-
temente são produzidas antes que os raios do sol se intensifiquem. São
cerrivelmenre compactas, cúmulos baixos. li.final, o sol penetrou atra-
vés delas. Café da manhã; H. E. deu a impressão de estar de mau hu-
mor. De manhã li, conversei com lgua, ragarclei com Murray e desen-
volvi teorias às quais ele não presrou atenção alguma, ao contrário,
encarou de modo zombeteiro. Perco de Hulaa enconcramos O'Malley;
Grimshaw me deu uma lição de ceoria da navegação. - Depois de
Hulaa o cempo começou a ficar abafado. Nuvens pesadas pendiam
sobre o licoral, negras ou de uma cor de safira escura, com brilho me-
tálico. Tornei a subir no mastro. A dis~ncia vimos a fumaça de um
vapor holandês; conoornamos um recife. Entramos (na enseada de Port
Uàl DIÁRIO NO SENTIDO llSTRITO no TERMO 109

Moresby] próximo aos rertoI dq 111111/rdgio do "Merry England". Uma


chuv:ll'llda cobriu tudo. A seguir, aporcamos; o sol brilhou através da
chuva, rudo assumiu maravilhosos cons irisados. A noite caiLL rapida-
mente. Fui ver a sra. Ashcon, mas a C'aS{l estava vazia ... Bebi uma cer-
veja e fui dormir. Rugidos monstruosos durante a noite. No dia se-
guinte, Ltm bando inteiro de alcoolizados; um sujeito de óculos, lem-
brando o Prof. Los e Bernie Cybulski; um moreno alto que chegou
carde para um julgamento ecc. - Dividi o quarro com um marinhei-
ro agradável, de nome Pinn. O capitão gorducho é muito simpático e
não se embebeda; mostrou-me mapas da Nova Guiné Ocidencal.
Terça, dia 26, de manhã, me levantei cansado e nervoso. lgua se
acrasou, e tive o trabalho de rornar a fazer as malas. Fiquei profu n-
damente emocionado com as cartas da Polônia. 1:-Ialinka escreveu
sob te mamãe, Sras' sobre [Strzelec). Ao meio-dia fui até a casa de
Champion; fulci durante mLlito tempo com Bcll. Telefonei para o Dr.
Strong• e marquei um encontro com ele à noitin ha. (Esrou terminan-
do essa ano1açlio no dia 4.2, em Rigo, sob um mosquiteiro, ao som
da música de pi"'-peixe.s australia11os e grilos.) À carde, revolvi o de-
pósito do B(ums) P(help], depois fui para a aldeia com lgua. Visitei
as esposas de Ahuia. Fui (num estado mental acentuadamente con-
fuso) para Elevala; sentei-me na aldeia e li :1 carta de Halinka - às
vezes rndo ao meu redor desaparecia. Em um barco fomos pam per-
co do lakntoiJ de Hulaa- quadro csrrMho da vida doméstic-.1 sobre
ti água; eles me ofereceram um peixe. A. ainda não escava em casa.
Voltei a pé; cheguei tarde na casa de Scrong ... Conversa sobre muí-
1as coisas; S. me impressionou pouco com seu conhecimento. Por
exemplo, não sabia que mmhi não é uma pal.avra mom para desig-
nar "prato". A teoria dele sobre o verdadeiro espírito papua não me
pareceu extraordinária. Suas opiniões sobre ovada são inadequadas;
também sobre a narureza da magia. Debi cerveja e debati acalorada-
mente a questão dos missionários.
Na quarta, dia 27, de manhã, tive uma ligeira dor de cabeça;

•or. W. l\lcuh $(tons. freq~ntemcntccit.00 por Sc:l!grn•n. cujo u~balbo principal (o~ co1n at ui·
bos ck l'Q"t0$ í11l.an1« do 8.0fo, e.o in.":t:rior da No'f".a Gi.ainé.
110 DRONISL\W MALINOWSKI

ressaca depois de dois copos de cerveja. Embalei algumas coisas. Às


4 fomos para a aldeia com lgua e meus amigos nabalttir11dog1JV.... A
noirinha fui à residência do Dr. Simpson; ele não escava. A seguir fui
à casa dos Dubois. Dubois muito simpático e ioteligentc ...
Sexta, din 29, manhã com Ahuia. Depois fui à casa de Herbert ...
Com a srta. Herbert e a enfermeira, que me lembra um pouco Hei.
Czcrw. Flertci com ela um pouquinho. Conversamos sobre a guerra.
Tentei provar minha superioridade por meio do pessimismo barato.
Noite na casa do Dr. Simpson. Copo de xerez; conversa sobre a guer-
ra. J aotar; conversa sobre '' Austrália. A scgiúr, música. Convc1·sci
tun bocado e fiquei bastante excitado; empolguei-me com o Rom1-
kaualitr, .. Prcislicd'" [Canção do prêmio] e "Marche Miliraire". Bebi
cerveja a rodo. Estava bêbado quando fui para casa.
Sábado, dia 30, manhn, Ahuia. Igua não vem mais. Despedi-me
do Governador; um po11co decepcionado porque ele não me levou ...
À noite, fui ver Dirty Dick, depois fui ao hospital com algum amigo
e sua esposa, depois à residência do Dr. Duchanan, onde (estavam
no meio de um jogo de b•'irlge]. Dois enormes copos de cerveja gch1-
da - a maior felicidade! Estava bêbado outra vez quando fui para
casa.
Domingo, dia 31, li N. Maquiavel, fui à aldeia. G11rha, taubada.
Plano para excursão a Hanahati, caça. A carde, li Maquiavel, es-
crevi cartas; sob a influ~ncia de certa elevação espirimal, dei um
passeio; pensei cm amor, cm T. Quis visitar os Dubois e depois os
Ashroo; niío estavam em casa. Retornei, conversei com McCrann e
Greenaway.
Seguoda-feira, 1.2. Manhã com Ahuia. Por volca das 12 ou l l
fui ver Sramford Smith- ou melhor, primeiro fui à casa de Kcodrkk,
depois do S. S., que me prometeu um navio. A seguir, à tarde, fui
ver Champion, com quem conversei sobre a promessa do governo
australiano de me maorer na N-G. - Percebo claramente que, seja
o que for que ct1aproveite disso mais tarde, serei subvencionado pelo
govcrno.11iquci muito feliz cora isso, e por esse motivo vadiei a tur·
de inteira. Não fui à aldeia; escrevi algumas carras, li Maqiúavel. À
noire, estava agitado e nervoso, dei um passeio à beira-mar; depois
UM DIÁl\10 NO SENTIDO EsTRrrO DO TliRMO 111

1>ussei na casa dos Asbcon, onde escutamos gramofone. Em seguida,


comei a caminhar à beira-mar, e fui ver Dirty Dick. -Li Maquiavel
durante codo aquele período. Muitas afirmarivas me impressiona·
rum extraordinariamente; além do mais, ele é muito parecido comi-
110 em muiros aspeccos. Um inglês c-0m uma mentalidade inteira-
mente européia e problemas europeus. Descrição da acicudc com
refação a Isabel, amor permeado e enrretecido com compreensão
111rdecrnal - lembrei-me com grande imensidade de Z. Margarec,
1 om sua eterna passividade, toda afirmação, cxpeccaciva e "intuição",

urna incapacidade absoluta de dizer nã<>ou questionar qualqner coi·


'1t ou qualquer pessoa. Essa é uma imagem do vazio que cu sentia, a
nào ser com T. Ler esse livro me afasta de T., me aproxima de !em·
hranças de Z. Apesar disso, sinto 7'. com toda minh11 força, todo o
meu corpo. Hoje (5.2) tornei a sonhar com ela.
Terça, 2.2. Manhã (e o dia anrerior) não tive notícias do "Pufaili".
Às LO, Abuia, Koiari. A. pediu-me 15/-, que eu lhe prometi. Carta de
S, S. dizendo que vamos. Telef. - fomos ao banco, à Afdministração]
tias M[issões], para fazer um relatório sobre minha demora; a seg1lir
( hampion, que me prometeu enviar tun navio no caso de necessida-
de. De 1 hora (bebi dois copos de shandj, dor de cabeça) até as 3 me
.1 ptoncei no hotel de McCrano, com esforço. Reuni minhas coisas do
l3[ttrns] P[help), de casa, e embarquei. Eles hastearam a bandeira azul,
t·u escava no "meu navio" - um forte sentimento de que o navio é
pura meu uso exclusivo, e os observei manobrando. A alegria de nave-
Jl.tr a vela. Recuamos para pegar dois volumes para English.* Nave-
1111mos em direção a uma ilhora ames de recuarmos (vira11no1 de bordo).
- Sentei-me e observei, feliz. Assim que desci para minha pequena
1 .ibina, minha cabeça começou a girar; lá em cima eu me senria bem.

As costas agora são inteiramente verdes, esplêndidas. A noice caiu perto


1k 'Ilturama; depois disso, navegamos ao luar, o timoneiro tenso; devo
confessar que escava tun pouco acemor.izado por causa dos recifes, uma

'M1Ktur11c!e tervçja e gt:ngibirr:i. (N. Jd T.)


• h Ç. Engliih, fllncionário co!onia1 do govcfno em Rigo, onde Mi\lin<>wski pfo.nej;i,·;1 <.-olhcr dados,
'• 1n a ;1juda de Ahui;i., dll trilx> Sin ~ughQJ<.>, 1.1Jn 1'°''º (pr-c viv(a e1n <:ontato ío1frll<) com os nlailus.
112 BRONISLAW MALINOWSKI

sensação desagradável de que poderíamos raspar contra o fundo de


novo. Naquela noice dormi mal. No meio da noite fui despertado pelo
raspar do pau contra o mastro. Subimos ao tombadilho. A lua brilha-
va; o timoneiro escava de pé, imóvel, o rosto com uma expressão
animalesca de Buda, olhando di rernmcncc para u frente. N avcgamos
rente à terra, paralelamente a ela; o vento havia mudado para noroes-
te, mas era muito fraco. - De manhã (quarra, 3.2) singramos ao lon-
go de costas baixas cor de esmeralda; atrns delas, erguia-se um planaJ-
tQ. O vemo escava mais force, nos aproximamos rapidamente, passan-
do por 1ltvai. Escrevi meu diário e reuni minhas coisas. Um barco com
um policial e um intérprete veio na nossa direção. Desembarcamos;
inspecionamos os d11b111, parcialmente em núnas, com colunas dota-
das de encalhes magníficos. Eng lish chegou de bicicleta. A conversa
foi irritante - fiz propostas para organizar as coleções dele, mas ele as
rccebç11de modo bastante frio. Aguardei enquanto ele l!\specionava
seu depósiro... Muito quente, o sol escaldante sobre nós. Feliz de estar
caminhando, um bom exen:ício. À beira da estmd~. coqueiros, jasmins-
de-são-josé, mimosas, frias como gelo com flores cor de cinábrio, aro-
mas deliciosos misturados com fedencinas horrendas. Aqui e ali se viam
sebes e cuias, como nos parques ingleses; áreas culcivadas. Vimos à
missão, depois a casa de English; o morro docscricório de reprcscnta-
çiio do governo. Um senhor agradável, Stanley; almoço. Depois ele
me levou morro acima, acé a e.is~ da missão. Escava muito cansado,
fui dormir. Acerca de English: conversamos contra os missionários; ele
fez uma série de comentários baseante rozoáveis; de modo geral, ele
me deixou uma impressão baseante favorável. Depois, jantar com
Stanley, conversa sobre a guerra. Mosquitos agressivos. Piquei fora de
mim. As pulgas, também, repug nantes. Dormi bem o suficiente.

Quinta, 4. Eu me semi fraco. Durante toda a manhã cochilei e li


histórias obscuras ...

Sexta, 5. Pela ma!\hã me senti bastante frágil; fraco, indolen te e


com tendência a dormir, a tÚle11!rl do sono de Bob Htmter. (Duranre a
noice, de madrugada, sonhei com mamãe. Um e11ormc quarto no
UM DlÁlllO NO SENTIDO ESTR.11'0 DO TERMO 113

111ímero 15 3 da rua Marsz[alkowska], na casa dos Szpotanskis,


111obiliado com camas amplas, guarda-louças etc. Mamãe era
, ,1ranhamcntc dependente de Szpot. e Lach. Ela marca peq11e11r1s
1,1111r1gem. Conversamos sobre alg uma viagem à América do Nor-
1c.) Levantei-me e tentei desajeitadamente escrever no meu diário
através de um a abertura na vara nda pod ia contemplar as
1iradarias e encostas verdejantes-, em como Lun vale primaveril
11 l Europa Central. Por volta das 10 desci, depois de um banho,
""Stanley; catamos cocos; seguimos um caminho bonico margcado
por arbustos, flores brancas com uma fragrância parecida com o
1•crfu me de Z., grandes árvores copadas, para o d1tb11 da aldeia
<:omore. Lindos casarões com varnndas duplas, de dois ou três "an-
d11res". Sentamo- nos na casa do guarda perco do d11b11, e vieram
homens de outrn aldeia nos ver. Conversamos sobre afe11ivid1Jrle do
1.1b11 ••• Com Di ko perambulei pela aldeia, e depois fui procurar
lmglish ... Suttva horrivelmente e semi fadiga cardíaca. Mas não
tr.1balhci h'H\I, nem na aldeia nem na casa de English. Voltei sob
um céu maravilhosamente multkolorido. Pa2, me senti relativa-
mente melhor - muito melhor do que ances, e sencijoie de virm
1r,,picalt, algo como estar embriagado por um vinho force, ao mes-
mo tempo opressivo e escimulanre - amplia os ho rizontes e para-
lisa a gence por completo. Encoot rci Ahuia e lnara catando cocos
110 bosque diante do escriccírio de rc1>rcscntação do g()Verno. Ca-
minhamos juncos, conversei com Inara, um louro de pele clara e
modos extremamente arrogantes. Prognata, ele me lembra M.S. e
M.O de Zwier2yniec {um bairro da Cracóvia}. Também senti simp.
l><lr ele ... Fiquei sentado ali apesar do fedor horrível de cascas de
1 ocos sendo defumadas - conversei com Ahuia. Fui para a cama
11or volta das 9. Não dormi mal.

Sfüado, 6. Hoje creio q ue estou me sentindo um pouco melhor. Le-


vnnrci-me tarde, /15 7 :30. Após o cafC da manhã, debate com ho-
111ens de Kuarimodubu, q ue chcgar:un aqui com um guarda; um forte
vento do noroeste nos levou da frente para a parte craseirn da plata-
lorma. Em certos momentos me sinto cansado, especialmente de-
114 8RONISLAW .MA.UNOWSKI

pois do almoço, diremmenre depois li um livreco sobre Java. Na-


quele momento me sentia altamente iiri111di(o e instável. De modo
geral, estas pessoas {os sinnugholo] são muito simpáticas, incompa-
ravelmente mais agradáveis do que o povo mailu e mais fáceis de se
conviver. Concam cudo sem consrrangimcnto e falam hem o moeu.
Não há dúvida <leque - principalmente com o auxílio de Ahuia-
íui capaz de colher mais macerial aqui cm um mês do que em Mailu
em seis meses. - Ontem trabalhei bem e arduamence durante cer-
rn de 5 horns e com excelente aproveirnmenco. Por volrn de 4:30 fui
ter com English; encontrei-o descendo de um carro de aluguel. Apa-
rentemente ele se ofendeu com meu !ltraso. Fiquei aborrecido, me
1.a11guei, e tive vonrnde de ficar ofendido também e lhe º'dar o des-
preio". Lembrei-me de Srrong cer dito "você /em"' ad11/á-/q" e, com
um cerro desdém, disse n mim mesmo que não vafo a pena. Apesar
disso, enquanto dava uma caminhada, imaginei o que deveríamos
dizer um ao outro ccc., e, cm alguns momentos, fiquei rcalmcnre
furioso. Volcei para casa, depois tornei a sair, fui a Ku:1rimodubu, e a
seguir f)quei sentado durante algum tempo em um lugar encan1:a-
dor - recordou-me o que havfamos visto perto de Btisbáne; ouvi-
mos o som de líquido fluindo de enormes dccancadorcs (pica-peixes)
mas os mosquitos insisriram em estragar o S1imm11ng {clima]. A
noitinha sentei-me ao lado de Ahuia para conversar sobre os bran-
cos, especi~lmcnce os funcion1írios do governo, e conversamos sobre
qucscües scXLtnis entre os nativos. A. diz que Koiari comereu inces-
to. A noite um furioso g11ba - fiquei imaginando, como íamos vol·
car parn Porr?

Domingo, 7. Manhã, como sempre. Levantei-me às 7. Desjejum, di-


ário, craha.lho com Ahuia e os outros. Soube que o "Puliuli" escava aqui.
Por volta das 4 fui f.tlar com English - mandei Ahuia para Gaba-
Gaba. English me recebeu friamente; com a ajuda de sua esposa ele
csrnva numerando bm1iks - me ofereci para lhe confeccionar um cn-
tálogo. Afinal, ele se tomou bascance amável, fazendo planos pam o
futuro, ajudando-me erc. Dono de uma personalidade peculiar (como
eu) - não faz nada que não seja por convcruência, reconhece e apre-
UM DIÁRIO 1'() SE?\TIOO liSTJ\JTO DO T~RMO 115

eia as pessoas apenas na medida cm que precisa delas nwn dado mo-
menro. Maravilhosas nuvenzinhas cor de violeta no pálido céu verdc-
rnar; crepúsculo vermelho, sob ele cincila o estreito cinturão do mar.
Um pequeno vale raso, coberto de vegetação; gosro da visra da varnn-
da dele - cfpico ambicnre nmú. Voltamos para casa, por vezes medo
de gai-gai. Paramos na casa de Stanley; ele falou, en concordei fuzcnclo
gestos afirmativos com a cabeça enquanto folhCllva um arcigo sobre a
história da guerra. Começou a chover, Ahuia voltou. Li algum 1>erió-
dico boboca - o 1itt:es d.-i Pap11a. À noite, sonhei com uma mulher de
corpo branco. De modo geral, sinto-me bem aqui: à sombra <la prote-
ção governamental; com mirú1as relações com o amável povo de Rigo,
com a bela paisagem; com minha boa salíde.

Segunda feira, 8.2.1.evancei-me por volca d11S 7. De manhã, multi-


dões de mulheres; as pessoas saindo para cacarn1Cos. Meus informantes
costwneiros vieram. Foram reunidos mais mrdc por Maganimcro, •com
Qttem imediatamente nnciparizei por mosrrar cerco desmazelo típico
dos missionários. O debate fui animado. Maganimcroeraesponrânco,
espccialmencc ao relarar velhas lendas. Ap6s o alm~ conversamos
sobre magia. M. e os outros 1r.e11inus pareceram atemorizados on cons-
trangidos. Ahuia é um ajudante inestimável. Por volta das 4, corri parn
a residênci{l de English, onde de forma r~pida e eficiente acabei de
catalogar suas coleções..J ancar na cnsa de English. Antes do juncar, pas.wi
pela varanda e tive mc)menros de conccntrnçiio e elevação espirinial,
interrompidos por violentos acessos de desejo sexual por moças m1ti-
v.is, criadas de English. Distraí-me contemplando a paisagem. O pe-
queno vale é cercado por morros baixos, amí.s dos quais assomam pi-
<OS distantes aré a cordilheira Principal. Em rorno da casa, altas árvo-
res com troncos brancos e folhas lustrosas. Através delas se podem ver
"lavourn e os morros cobertos de floresra.~. Horizonte aberro a oeste.
O céu arde acima da estreita faixa de mar - e silhuetas negras de
morros baixos e redondos. Concepções Jiccrárias; na beleza da paisa-

• '•lilS.tin1mc:to.. Rl tivo do d1urito d~ Ri.;:.o, o qii~1, ltgiu11do ~f,.l i:towsk1. era um homc:1n C:X(t
i-.onaln\.cfltt: ••s;aa.
116 llRONISLAW 1'.iALINOWSKI

gem redescubro a beleza feminina ou a busco. Uma mulher maravi-


lhosa como símbolo da beleza da natureza. Sueis hesitações emocio-
nais; a busca da verdade. Lura pela libertação dos grilhões do praze~
por meio da percepção da beleza. - Voltei no escuro, com Diko. Pro·
fundo afeto por ele. Conversamos sobre siharí. "Gagairt?1,11111J, 11.ti ran11
ia !t101 namo hffta''. Ele roe mostrn que {gesto] eles fazem para uma
kekeni quando desejam gagai - como o sihari se senta* em Mom e
Rigo ... Fuí com ele até a cozinha... Iodaguei se eles sabiam da existên-
cia de homossexuais aqui. Ele disse que não, "lutm dika". Por esse
motivo, "la!I he1wt1 heni'" !tlSi. Dohore ila /40 111@11ta" {Não direi mais
nada. Dali a pouco nos recolhemos].

Terça, 9.2.15. Levantei-me bem tarde-Ahuia foi a Gaba-Gaba.


Maganimero e ourros amigos vieram. Eu me sentia completamente
[arrebentado]. Com Aht1ia [procuramos] tabaco (após o desjejtun);
depois, inspeção de toda a mulridão vinda de Ikoro, uma aldeia pró-
xima, que fala um dialeto diferente de Sinaugholo. Os narizes dç-
les são um pouco parecidos com os das figuras de bronze de Benin
[cultura do Oeste da Africa], e o cabelo é encaracolado, porém oão
felpudo. A. diz que esse cabelo assim liso é típico de nativos desta
região - cm Hulaa, Kerepnnu e no i.nterior, mas não muito re-
côndito. Eles também trazem contas bon itas feitas de [fibra ou con-
cha] branca rrabalhada cm círculos e usada na parcc de trás das
cabeças, de orelha a or~Jha. -Conversei com Maganimero - bem
devagar, em razão da fadiga e de interrupções contínuas. Almoço
na casa dos Stanley. A seguir, arrumar a bagagem (A. trnbalhou,
eu cochilei ou li). Depois vieram as kekeniI e as mandamos conse-
guir cestas. Encerramento das conversas; em cercos momentos me
enfureci cm razão da mentalidade tacanha deles, ou melhor, por-
qtte não me entcJJdiarn. Despedi-me (mencalmence) da cas1t 1tgra-
dável e extremamente bela de Rigo. - O horizonte é feiro de
matagal cerrado. Lembra-me algumas vistas do Ceilão - embora

*No ~.eu estudo sobre /\iailo, /.iali1\0V.·.;ki rel:t.tou: MEntr~ 0$ ~(otu, a atitude convencional dur-antc
a cone amotosa é o r:•p:ii s~nt:ir·i>~ sobr~ os joelhos d~ parccir:.t."
UM D1Aruo NO S6:-ITIDO E&Tl\JTO DO TERMO 117

.11 outras sejam mais borlitas, mais modeladas. Contudo, com rela-
~lo ao caráter geral da vegeração, a paisagem poderia pertencer a
qualq uer lugar (Inglaterra, e daí por diante): prados cor de esme-
1.dda em meio a bosques cerrados, cercados de bosques cerrados...
limpolgado, mas também forte e saudável, fui a pé até a aldeia.
Niio sei se é por causa do arsênico ou do clima agradável de Rigo,
rn as me sinto excepcionalmente bem. (A última vez que tomei uma
injeção de arsênico foi no dia 1 ou 2. Eu deveria anotar as daras,
1>W 1desrnbrir o melhor esquema de medição). Colhemos limões e
d~ formigas me ferraram. (Os mosquitos foram monstcuosos du-
i.tnte toda a estada em Rigo. Especialmente ma.is para a noitinha,
•>U quando apenas alguns conseguiam passar para dentro do mos-
qtLicefro.) Enquanto eu caminhava rapidamente para a aldeia, ... a
distância recoQheci as melodias do bara ou, mais precisamente,
111<1/11. A dança foi muito feia; no solo inclinado e argiloso, com poças
lundas deixadas pela chuva, eles não poderiam nem ter Schwtmg
!balanço} nem ampl itude. Chapinharam o tempo todo; o toa não
1we nem a impet uos idade nem a flexibilidade do loa dos maih1s.
!'rês ou quatro kekenis formaram uma roda em wrno dos rapazes.
e ) cfeico arrístico durante o dia - 11il. À noite, à luz ardente das
1ochas, o encanto é sempre o mesmo; aqui, realçado pela rua Jar-
11.1, na qual as árvores e colunas de eva produz.em misteriosas som-
hras. Sentei-me na varanda elevada da casa <lo guarda enquanto
M.iganimero explicava as canções e E. o significado das danças. Toda
d.mça, ao que parece, tem sua própria.badina, só que os mailus não
>11biam. A dança k9al11 é originária de Kerepunu, agora na moda
1•m todo o bemt monde da N.G. Uma prostituta ou divorciada do
l(llllika (grmika haine) atraiu minha acenção - gagaia lfra! Diko e
t' i' fomos à aldeia de Gaba-Gaba. Tornei a me sentir forte e saud1í-
vcl; um pouco farto dos selvagens, ansioso por renovar o contato
'om a natureza. Estou começando a me concentrar e a relaxar! Pla-
nos para o futuro... Enquanto caminhava, projetava compridas som-
l1rus nas palmeiras e mimosas 11 beira da estrada; o aroma da maca
1<era uma disposição característica - fragrância sutil e delicada da
1101: verde de keroro, o inchaço lúbrico da vegeração a desabrochar,
118 BRONJSIJIW MA.UNOWSKJ

fertilizada; jasmim-de-são-josé - cheiro pesado como o do incen-


so, com um perfil elegante, de traços níridos - árvore de silhueta
elegante, com buquê verde de flores esculpidas em alabastro, a sorrir
repiem de pólen dourado. Arvores apodrecendo, ocasionalmente
exa h1ndo um cheiro de meias sujas ou de menstruação, ocasional-
mente embriagantes como um barril de vinl10 "em fermentação''.
Estou tentando c:sboçar uma sfnresc: o humor aberto, jubiloso e
brilhante do mar - a água cor de esmeralda sobre o recife, o aiul
do céu com pequenas nuvens parecidas com flocos de neve. A at-
mosfera da selva é opressiva e saturada com um odor específico que
penetra e encharca a geme como música. O concorno das monta-
nhas, e o carácer geral da ilha é positivamence banal. Antes de che-
g~\l'mos a Gaba-Gaba encontramos keke11i e as acompanhamos.
Sentei-me à beira do mar escuro; mal se viam os concornos da al-
deia, nivelados pela escurid ão. Navegamos por entre grossas
pilasrrns, uma espécie de pa liçada que cc:rca a casa inteira, cheios
de alegria do concaro direto com a "cuJcura das palafitas". O cará-
rer genuíno do scnrimcnco - nesca Veneza do Pacífico - , o som
d11 água batendo contra as pilastras... Conversei com o guarda so-
bre os costumes de Kapakapa. Os lombis lembram os sinaugho los.
O comportamento amável deles com relação aos do concinence pode
ter sido prccisamence o resultado de sua excelente defcs11 conrra o
ataque vindo daquela reg ião.

Quarta, 10. Dormi bem - noite fria e enluarada. Levantei-me às 5.


Ahuia fez as malas. Atravessei algumas plataformas. Pusemo-nos a
caminho. O "PuJiuli" aguRrdou até as velas se abrirem. Despedidas.
Mirigini desaparece - rOÇ11gar de velas tremulances (acabei de es-
crever nesta carde de quinta-feiro, na varanda de Tom McCrann).
De manhã me sentia bem. Por volta das 11 veio um furioso g11ba -
o sol bmiu impiedos1\mente, o vento soprava sem parar - e não tat•
dei a ficar com uma forríssima dor de cabeça, às vezes pMccia que ia
vomitar. Mas particularmente no início e durante um longo tempo
durante o g11ba eu apreciei intensamente a viagem. Deicei-me sobre
cravesseiros sobre a cabina, movendo-me para o outro lado a cada
UM DIÁRIO NO SENTIDO ESTRITO DO TuRt.10 119

vit'adade bordo. Comi o desjejnm. Vendaval, o convés alagado, borri·


fos no meu assento. Mudei-me para a ré, para o toalete elevado, no
qual me senrei envolto oa capa do timoneiro. Além de Kapakapa
estende-se uma série de morros co berros de uma espessa vegetação
com os prados de /alang (rei kt1mk11m) - a região é semelhante àquela
logo em corno da estação de Rigo, só que esta, vista a distãncia, sem
contornos nítidos, é menos bonita. Oiro quilômetros depois de Gaba,
plantação (...]. Depois, estendem-se os mesmos morros culminando
em um consideravelmenre mais alco, coberto de capim, atrás do qnal
fica Gaile. Durante todo esse tempo podíamos ver até bem longe na
direção do interior, um caos de cadeias monranhosas cada vez mais
alcas, misturando-se e desaparecendo na cordilheira Principal adis·
r~ncia. Vagarosamente fomos nos aproximando das encostas de um
1.hapadão alto, cuja forma divisamos de uma grande distância. Uma
muralha muiro alta, de cerca de 1.500m [mais ou menos 5 .000 pés},
coberta de vegetação, sulcada por· canaletas rasas - fazendo lem-
brar as encoscas verdes do vale de Drohawa. Essa muralha obvia-
mente oculta mdo atrás de si e domina a paisagem. Abaixo dela,
diversos morros bai.xos. Bordejávamos conscanccmente, pondo tuna
boa qLtantidade de água que se acumulava sobre o convés inteiro.
Bordejando outm vez aringimos Gaile, depois prosseguimos. Comecei
a me sentir adoentado e não me lembro de muita coisa, em rodo
caso tive, em certos momentos, o sentimenco hedonista de que esta·
va "111e divertind~ como n11nca". Chegamos a Tupuscleia - direnunen-
ce arrás de um pequeno morro redondo se esconde Barakau; borde-
jamos outra vez alguns quilômctws; às 3:30 ancoramos; eu escava
sentado no convés, em depressão. 'füpuselcia é construíd11, como
Gaba-Gaba, sobre a água; casas cobertas de colmo, correndo numa
superfície contínua do telhado até o chão. Parecem uma série de
medas de feno empilhadas sobre a lagoa azul. Cober.tas recentemen-
te (com capim ripo krm1kr1m), são douradas como palha de trigo (cen-
teio), outras, lavadas pela chuva, tê m a cor cinzenta das medas ve-
lhas. Na maré baixa, as casas ficam empoleiradas no alto das pilastras.
Abermcas pequenas, com calha alta, e algo como bicos estranhos sa-
indo do revestimento felpndo; essa ausência coral de um "interior"
120 BRONISIAW MALINO~>Kt

aberro, dá uma estranha r1Ílmn1mg [impressão] de abandono, de au-


sência de vida - algo da melancolia da lagoa veneziana -, uma
atmosfera de exílio ou prisão. Nas aberturas escuras surgem corpos
cor de bronze, o branco dos olhos cincila na penumbra dos aposen-
tos, de quando cm quando surgem seios -maire (conchas peroladas
em formato de meia-lua). Vistas de dentro da aldeia, da rua ou,
melhor, cio canal, há mais vida. As varandas estão repletas de pesso-
as; muiras gôndolas, crianças a gritar e cães... Resolvi passar a noite
na aldeia. Extremamente exausto, fui dormir. Depois... saí navegando
num barco grande ("ca11oa dupla") com o guarda e outro selvagem...
Escava tremendamente cansado, e tive urna crise de "pontofobia"
(aversão nervosa a objetos poncudos - "varofobia"?). Numa ceia
carde da noite, conversei com 1\huia sobre os vadas, sobre belagas,
sobre o foto de que o vada era nncigamcnte uma figura ptíblica, que
se vestia de maneira diferente, e daí por diante. Debatemos a inici-
ação dovad<t; carnbém falamos dob11bt1!1111, dos mécodos de cura etc.,
sobre quando Ahtúa ia ao dogera e quando ia ao b11bt1l1111. - Dormi
bem à noice. Noite numa "palajiUl": crianças gritando, cães lacindo,
urinando de uma alrura de 4m (13 pés]. Pela manhã, maré muico
alta - as medas de feno não se apoiavam em pilastras altas, mas
diretamente sobre o mar, imergindo na água as pontas das hnstcs de
colmo. De manhã, Tt1puseleia é .encantadora. Acima ela aldeia se vêem
colinas, apresentando em vários pontos árvores de copas fantastica-
mente espraiadas; estas g randes (trvores solicárias parcclum um can-
to araneiformes. Paca o oeste -que é agora diretamen te iluminado
pelo sol - ficam ilhotas e monccs ela baía que termina em Tau rama.
Acima da aldeia fica a muralha ligeiramente indinada do planalt0
com os perfis nítidos das ravinas. Na noite anterior, um maravilhoso
jogo ele luzes; a sacuração com um profundo com de amarelo é ca-
racterística desta estação.

Quinta, 11.2. No "Puliuli" almofadas confortavelmente dispostas.


Deitei-me na popa, mudando com cada "virada de bol'do", e conver-
sei com Ahuia sobre a "ciência" papua: sobre os nomes dos recifes,
nuvens, vencos. Conversamos sobre o sol e a lua, sobre as causas dos
U M DIARIO NO SENTIDO EST~JTO 1)0 'fEll-'10 121

lonômenos; e rambém sobre os koia1·as. Passamos por 'faurama; eva-


' uci direto no mar num toalete acima da ág ua. Além de Taurama,
11uri; depois Vabukori e Kila-Kila, sobre um morro. Não me sinto

1.lo fraco. Passamos por 11.fanubada; depois velejamos direto para


Hlc[vala]. Fui oa proa - o iatismo é um esporre maravll.hoso! To -
rnei um almoço leve; os menioos me ajudaram a desembarcar (em
i>ott Moresby}. - Hotel de McCrnnn; me vesti (estava um pouco
rnnsado). Fui procurar Champion - O 'Malley e Champion- am-
bos muiro agradáveis. De volta ao· hotel escrevi e jantei; a chuva
1 <imeçou a cair com força; fui falar com a sra .... - conversei sobre
1 Príddlam}; ela se comportou de maneira cerrivclmeote vulgar, i11-

1uportltvel. A seguir, fui à casa dos Dttbois; diversas pessoas, falei fran-
1 ês com Dubois. De volta ao hotel, debate com McCrann. Sabendo
da posição incômoda do "governo" em cooseqüênciado caso Oelrichs,
liquei bastante perturbado.

l)ikoyas (alcl'eia no licornl norte da ilha de Woodlark (ou Murua));


•Cgunda, 22.2.15. Estou numa renda de folhas de palmeira ar-
mada sobre um estrado instáve l feito de varas. A lateral a berta
<lá para a aldeia a cerca de 60m [mais ou menos 200 pés), abaixo
1le mim, como se coubesse na palma da minha mão. Cabanas
J.uixas brornm direto do chão - parece que subitamente a cerra
·~ abriu em razão de alguma mat·é misteriosa e as engoliu pela
11\é:radc. Depois de chegar a esra a ldeia, dei u m passeio maravi-
lhoso através da selva alt a [e luxuriante], à Kandy - me senti
hem outra vez, no meu elemento .. . Minha saúde não a ndou mui-
rn bem aos últimos dias. Exaustão, falta de força e nervosismo
1.1racte rísticos; acrofobia, ª ''ersão por objetos salientes. - Fiquei
110 porco de quinta acé terça-feira. Quase não trabalhei com Ahuia.
Pla nejei uma expedição com ele a Koiari, pua sábado. Mas, de-
1;ois de romar conhecimento de que o ".Monudu" (atrasado em
1,1zão do naufrágio do "Marsina") talvez chegue na segunda, não
f(ti ver 1\huia. N a t arde d e sábado falei com Stamford Smith, que
f. insuportável e fala incessantemenre sobre política; ttsa constan-
' <·mente o modo condicional (futuro) e sempre fala na primeira
122 13RONlSLAW .MAJJNOWSKI

pessoa, além de não te1· um pingo de modéscia sequer. Na noicei


de sábado fiquei ouvindo g camofooe oa casa do Dr. Simpson, mas
a fadigíl e {efeicos da bebida] (na sexta fui jantar com os Dubois;
xerei e 3 copos de cerveja gelada) me impediram de encontrnr
um prazer genuíno na música. No domingo inteiro me senti es·
pecialmente indisposto. Li co ntos de Kipling, m uito piores do que
os que havia lido em Mailu. Passei duas horas da noite de domin-
go mm Strong , que me convidou para o jantar. - A seguir,
Champion, com quem durante todo aquele tempo eu (me enten-
di bem}. Ah! claro, na manhã do sábado (ou teria sido sexta?) foi
ao museu com Brammcll* e fiz com de uma "fofoca conspiratória"
sobre o est ado da colô nia local. - Na manhã de segunda fiz as
malas e as refiz no Burns Phelp; voltei apenas com um tremendo
esforço e trabalho. À tarde quis escrever cartas, mas Champion
me enviou carras para rraduzir dos parentes de G iulanecci. De-
pois fui com ele até o morro onde ele mora. [H. A.} Symo ns
[magistrado residente da ilha de \ 'l(!oodlarkJ veio - apresenta-
ções. Noite com Strong; conversa sobre divc.rsos outros assuntos
que não ecnolog ia. Na manhã de cerça-feira me preparei às pres-
sas; corri para a sra. Ashton, para o banco, para a casa dos Dubois;
transportei a bagagem para o navio.
A viagem : l 0 - dia (terça), trabalhei. Li Scligman; delineei um
artigo sobre Motu e Sinaugholo. Almoço - furioso com Brammell.
Conversa com Symons. À tarde tornei a t rabalhar um pouco, porém
sem entusiasmo excessivo. O litoral da N .G. envolto em bruma, na
chuva. A carde passamos por iHulaa, Kerepunu. De manhã (à noite
e à rarde li um livro de Kipl ing emprestado), po1· volta das 7, mon-
tanhas da baía na chuva. Conjeturei que estávamos perto do ancora-
douro de Millporc. Voltei aos comos - aparentemente minha saú·
de não escava muito boa. D epois do desjejum (não, ames** do
desjejum) aviscamos Suau. Vi o monte piramidal na entrada da baía
de Farm. Cortinas de chuva impediam a visão da montanha e depois

•U.\V. Uram1nd l, .masistrado tcsidcntc, l) ivis:Io C",cnua.I.


,..,.Grif11do n(> <.trisinal.
U~! DlÂRJO NO SENTIOO ESTRITO 00 TliRMO 123

,,,fam da frente e a revelavam outra vez -o brilho úmido e aveludado


1ltl vegetação, as sombras maravilh.osamente profundas, a frescura
' lus rochas escurecidas pela chuva, o contorno das montanhas atra-
vés das cortinas da precipitação, como sombras da realidade proje-
r.odas na tela das aparências. - A p assagem por Suau foi estragada
pela chuva; mas, mesmo assim, o lugar parece realmente maravi-
lhoso. Não vi o interior da lagoa. - A chuva estiou. Suau à luz do
""I. Semado com um livro (K.ipliog), coocemplei a baía de Modew11
r o lindo promontório de Bucklin sobre o qual, creio eu, vi vacas
pastando' Roge'a emergiu sob a forma de uma silhueta piramidal.
J\ringimos Samarai. Eu estava sob a forre influência de Netuno: dor
olc cabeça e fraqueza gcneralúada. Vento forte; o barco do médico
11íio saiu de imediato para vir ao nosso encontro. Eu o cumprimen-
1ci. Depois, Newcon, • com qL1em conversei por um bom tempo.
Desembarcamos. Almoço com o doutor e sua esposa. A sra. Shaw,
tlcsrn vez, me impressionou de maneira muito mais intensa - uma
1111tlher maravilhosa, um fenômeno estético. À tarde, desci por in-
1crmédio do coneio, Higginson, até a reiraria. Conversamos sobre

ol$Suncos gerais. Newton me deu um livro. Passeamos pela ilha. Fui


v~r o doutor e sua esposa. Voltamos ao navio em companhia deles.
J<1ntar - um graode entusiasmo pela sra. Shaw-, qwise me apai-
~()nei por ela. A seguir, sentamo-nos e veio reunir-se a nós um infe-
liz cockne;.J que cerca vez conseguiu enganar Shaw e arrancar-lhe al-
11um dinheiro. Desembarquei cedo. Depois, por volra das 9, fui à
1citoria; conversa com Newton sobre política; noite perfeita nos
.1poscntos do bispo. Correspondência matinal, Higginson, li Kipling.
Despedi-me de Shaw, Newton etc. A linda filha de Tooth (ah! claro,
onanhã no hospital}.
Viagem a Muma (ilha Woodlark}: à 1 hora, almoço. Eu escava no
1 (>nvés quando passamos pelos estreitos da China. O demônio nada ori-

11lnal da fuga à realidade me instigou a sentar-me no tombadilho com

• fl~. li enry N<:wton, t1.1.1xili11.J do Bhpo dii Nov~ Guin~. m:!'ncion.-do til.nto por Sdigman quanto
lq 1'.idioowsk.i.
1
l'.ltào" lqndrino, pe.$$0ôl originária dn das$C opcc6.ri~ de LondrC$. (N. da 7'.)
124 BRONISL/IW MALINOWSKI

ttm livro (Kipling, Ptli11 Tales -Simples concos das colinas) na mão. O
que ocorria em corno de nós era esplêndido! O mar perfeitamente man
so, dois abismos 32Uis, um dcrnda lado. Adireita as rcenuâncias de SatiOO.
ilhas, ilhotas, cobertas de árvores alras. Aesquerda, as sombras das
monranhas distonres - cosras da b~úa Milne. Mais além, o lirornl S(!
afastava de ambos os lados; à esquerda apenas a muralha alta do cabo
leste, coberta de nuvens, furmando o ponto ameaçador do horizonte; à
direita, furmas pálidas assomam do eterno azul, vagarosamente se trans-
formando em rochas vulcânicas, afiadas, em furmaro de pirâmide, ou
cncão em ilhas planas de coral: florestas fam:asmagóricas fluruando num
espaço azul a se fondir com elas. Uma após a outra surge e a seguir de-
saparece. O espaço se escurece - manchas cor de tijolo nas nuvens -
11 leste, um lençol charo de comi coberto de :üvorcs gigantescas acima
de areia amarela no azul frio- me lembra estranhamente as ilhotas do
Vístula. Jantar. Li um pouco, me recolhi cedo-céu maravilhoso. Dor-
mi até carde -Murua já ao alcance da vista-, paisagem não muito
bela. lagoa com manguezal - ao s11J as montanlillS de Suloga; diante
de nós um monte baixo- KtJu.madau. Longa espera antes de ir à praia.
Viagem numa lancha motorizada; ri,Jd10 com árvores altas cm toda a
volra; casa flutuante, com guardas no seu imerior. Volra ao navio; fw
com Symons na b11/eeira. Tive de marinhar sem ajuda. Estava horrivel-
mente cansado, um calor sufocante e medonho. Nunca antes na N.G.
eu me senti tão mal. .. Escava complcramentedcscoroçoado. Fui cons11l-
car o "Dr." 'foaffc. Depois, ao escrirdtio de M. G. Symons não foi 1m1ito
amável. A seguir, Charpcncier, que me recebeu como um Rev. Padre.
Conversa sobre os nadvos, mas principalmente sobre política. Por volca
das 6 fui jantar, e encontrei McOicsh. Depois tornei a ir à residência de
Charpenrier; um inglêsembriagndo; dois pequenos judeus; bebi cervcjn
e fiquei bêbado; Charp. conversou sobre os nativos, mas esqueci absolu-
ramence tudo. Depois fui para a cama. Dormi razoovelmeoce bem, mas
me senti horrível - pegajoso de suor, insatisfeito com minha indolên-
cia. Fui Calar com Charp., conversamos sobre tecnologia... Voltei para
casa; estava absolutamente exausto. Li Kipliog. De rcpenre um guarda
aparecel1liderando um grupo de meninos. Eu estava cão cansado que
mal pude dar alguns passos. Encrecanto, me preparei; via Charp. -que
UM DIÁRIO NO SrnTtOO EsTIUTO 00 TERMO 1 2~

, mou me convencer de que a ajuda do governo é prejudicial-fui com


. 11;1rotos. Ocasionalmente me apoiava cm [Moreron} e outro rtiptn.
1J, pois, paroda no bosque. Os 111eni11os transporramm minhas coisas.
\.l'tidão imensa e maravilhosa... Como a esmtdri de J.41/y Nor!M, em
1, 111dy. O candelabro de samambaias nas árvores; os enormes tronoos
.1._ gigru1ccsc:\S árvores; wn 111a1dgai tONLlmcncc desenfreado. Escuro, me-
l 111cólico, estranho. Calmamente me apoiei em dois rapazes e prosst'-
111, observando rudo. Depois de algum tempo, entramos em wna selva

.1. Senti uma louca felicidade por estar sozinho de novo com meninos
.I; N.G. Especialmente quando me sentei sozinho numa cabaoa, con-
" 111plando a aldeia auavés das arccas. Novamcme as silhuetas desgrc-
nh idas dos meninos, mais wna vez seocados a alguns passos de distãn-
' 1.1 de mim. Naquela noite, apesar do cansaço, conversei com Aus sobre
1 .1Pui Mé a iJdeia e visitei um ancião.
Na manhã de domingo, encontro científico. Depois, jantar; cm
· 1\1Lida li Shaw na cama, dor de cabeça... Na segunda-feita (temporal
1 noite intcitll, goteiras sobre a cama), chuva rorrencial; sentei-me no

' JJ.1 e rornei a conferenciar com [Moreron] e o ancião. A seguir, depois


Jo almoço, li oucra vez e cive dor de cabeça. Caminhada maravilhosa
11c Spimat ao longo do literal. Arsênico e cafeína {me despertaram].
l m companhia de Ameneu fui de (... ) para \'V'. .. Aí a vasca selva con-
11.1os fragmentos de coral. O caminho, coberto pelas raízes emaranha-
1h1s das nrvo1·es gigantescas, dcsci11 - 11m parque inconccbivelmcnte
l.clo. Mais adi11nre deslizamos sobre [enormes} raízes, rochas úmidas e
•rvores meio apodrecidas-até que, por cncrc os ramos, vimos o bri-
lho :mil do mar e o ruído surdo e monótono das ondas quebrando -
rt<luzido a um barulho indisrinro pelos ecos das árvores e da encosta.
IJ. mbrei-me de Venrnor. Enormes árvores cobertaS de coovolvttláceas,
IK rn, trepadei1m; desci para o mar arravés de um vale circular. O mar e
'' •éu escavam escuros. Praia de areia. branca compacta. A baía é pe·
•111cna, rosa, encerrada entre dois braços curtos e baixos de terra -
.l11:1s mural has de vegeração cerrada. A pmia coberra de bosques e pal-
111ciras. Moitas de folhas de coqueiro e ourras ~rvores pendem sobre a
11cia como rcfugos abandonados da espessa massa verde ao fundo.
1lumor maravilhoso. Ameneu ficou quase rouco de alegria; eu ram-
126 JlRONlSLAW M ALINOWSKI

bém. Inspecionamos o wr1ça de Aus. Depois a volm. Ocasionalmencc


cansado, mas não muito. A noi ce comi salsichas fricas e uma abóbora,
e conversei com Aus sobce espíriros e rab11. - Hoje (rcrça, 23.2.15),
Mewad' me despercou muiro cedo.
Primeiro de março. A bordo do "Marsina", enquanro nos apro-
ximamos de Cairns. Minha cabeça está um pouco congestionada, con-
rudo me si mo relativamente bem e cheio de energia. O mais impor-
rante agora é não desperdiçar minha estnda naAusrrália, mas uti liz:\.
1:1 cuidadosamcnce da forma mais produriva possível. Preciso escre·
ver um artigo sohre MaiJu - calvez alguns outros, em acréscimo, mas,
antes de mais nada, sobre Mailu. Preciso verificar os museus tão logo
seja possível. Portanto, não haverá tempo a perder com besreir:J.S!
Preciso fornecer um relarório detalhado ao sr. Adee Hunt e rencar
impressioná-lo. Dnranrc os últimos dias não me scuti muiro mal, mas
não renho estado forte o suficieme para me enfrooftar no trabalho. L
Newton um pouco - falei comlyons. O furo de nàoesrar flenando
com a srm. Craig e a sra. Ncvitt oão fu la a meu favor. llu precendia
insistir especialmente com csrn última, mns me pcm1rbci com o futo
( 1) de que ela não ia além de Cairns e (2) de que ela é ilimiradamen-
ce estúpida e, na verdade, não me atrai. Mas preciso apresentar os
aconcecimentos na ordem exata. Na :erça, 23, trabalhei em casa de
manhã, e ni'ío foi muito produtivo. Waus [aparentemente grafia al-
ternativa de Aus) tinha um amigo a quem dava l;"gi e com <(llCffi
conversava.• De manhã conversei sobre espíricos cernidos e ricos flí-
nebrcs. Subitamente decidi ficar mais um dia. À carde fui até o ria-
cho de onde eles riram água. Caminhei entre as samambaias-som·
briohas rendadas. Um rio ílui atmvésde um túnel de vesernçãodcns11.
Desci cm meio às folhas em formato de samambaia. O regato, caber·
co de troncos de árvores apodrecidos, a llgua escura e esverdeadasalca

otf.ste foi, ç\'Íd1:nccnHn1e, o p1imd10 indkl<> c1 .;e~1nU nowdd Ul\'C doJ:11/r1, 11 U()Cn romptexa de prC'•
$Cntt $ cm toda a re&iiio, que w cotn0\1 o a$$1l!HO d ~ ArtfJf,Jfit.-11 dü o~sr~ do P,((/jir11. Nt:ste livro ele
tSl!rcvc (p. 471): "'No iiikio de l9 L, , na a!de-i;.i d(' Dikoyu, ouvi $C>atem ~ bú·1i0-1, houve un1a co-
moção s-cral n..l •hlci.t, e: vi a a~cn111çio de: \ll:°* sr111id~ IJJ.i.J:lJ1. Eu, ™"ui1lmc:ntc, <f-'ÍS sotbct o
siini!"1<2dod~~C'lc ~cs11:me_ e me dit.t.crtr11 <px se u .t.t• de u:n:a d~ uocts de pcsen«es !cita qu•n•
°'
do te visita.n1 •mig.~ N~ é~, r.So SUSpt"it.ava que tnt:cmur.lurt.:a uma man:fcstll.çio pormcno•
rit:tda d11;qudo q11c l:lÕUc:rio1mrn1c dticobtj u:r 011;/;;1, ••
UM 01..\RJO NO SI;NnDo ESTRITO 1)() TERMO 127

1l11·c as pedras; as margens suavemente (indinadas} são cobertas de


111~tação - em alguns pomos o 1ir1Cho se espreme através de uma
••v11ia profunda (da qual] vi apenas pequenos trechos . Escalei. -
1l1111 m tipo de resina fedendo a iodo e nim1ro g rudou no meu pesco-
''" me causou tuna horrenda queimadura. Prossegui até um jardim
.1 •.1ndonado- outro trecho do regato - , curva, dois b raços, emrei
1111 túneis fundos e escuros. Um pouco ca nsado quando voltei (visi-
' 1 Ameneu, que escava acamado). No segundo dia (quarta, 24) le-
111cci-me cedo, me preparei e foi até a aldeia (. .. ] a K11lumadau.
~1·wnd e outro menino me transportaram enquanto um grupo de
<>11t1·os levava a bagagem. Cheguei ao porto bem a tempo. Chuva.
l lt 1ci. Embarquei num bote - alegria acanhada por esrnr a cami-
11lio. Navio -almoço - afinal, içaram as â ncoras. Sentei-me a ré e
1111templei a baía Suloga - uma vista adonivcl. Montanhas cober-
' '' t>orvegetação espessa, mar azul com fitas verdes cm diversos pon-
'"" de água mais rasa sobre o coral. A princípio fomos para oeste. Ao
11o1rcc, uma lagoa baixa com mang uezal, ao sul as moncanhas de
11 Ioga - este é o ú nico lugar onde o bjetos de pedra foram produzi-
,(t., .1ntigamente. - Particularmente os bancos d e coral e1n ambos
1 • lados do manso canal que seguíamos, verdes, cercados por uma

' '""deondas de rebentação. Senti-me bem. Aí o mar se encapelou.


1 1111cndrei um plano com Brammell para cont ribuir para a$ coleções
,j .11nadas1\0 museu. Brammell e eu conversamos descontraidamente
·il1rc diversas coisas - bastante Ültercssance; de modo geral, me
'' l.1tiono bem com ele.
À noite foi t<>mad<> de um desejo amoroso pela sra. N. Desci e
l"murei-a - encontrei-a com os Ball na ca bine deles. No d ia se-
11111ce (quinta, 25) despertei às 6, depois de uma noite ruim - cs-
' 1v,ur1os velejando através dos estreicos da China-, o corpo róseo
oi• 1crra nua impregnada da luz do al vorecer surg ia através d a tlores-
1 1 1topical; o mar era de um azul de po1·celana. Vista magnífica da
llt ich] de Samarai. Roge'a, n<> formato de um chapéu tibetano;
"11111'~0 magnífico de morros no conti11e111e. Desembarquei com Shaw,
1•11lll'i <>desjejum, peguei um pacoce para Biddy e uma carta para
\ tt olerson. Passeei pela ilha com Ba li. Vista encantadora. Mar
128 BRONISLAW MAL11'0WSKJ

cngàlanado como que para u m domingo, o licoral de uma elegância


impecável, o quebrar das ondas, depositando uma espuma prate11da
aos pés das palmeiras suavemente inclinadas. Desejava escrever uma
carta para N., e compus uma, menrn lmenre - (3.3. 15) para lhe
con tar sobre a quincessência de minhas experiências aqui. Em certos
momentos, semi uma forte simpatia e amizade por ela. Mas meus
sencimencos eróticos estão reservados exclusivamente para T. -
Encontrei-me com Newton e fui com ele até a Rtiroria - cive wna
conversa muito ag radáve l com ele e a sra. Newton. Fui visitar
Higginson. H. teve malária. Depois de uma conversa com ele, vol·
rei e lhe comei sobre o sargcnco e que cu romei a liberdade de pedir
cocos. Convidei o Dr. Shaw para almoçar e foi buscar os Newton,
q~te educadamente aceitaram meu convice. - O almoço não foi
muito divertido; sentamo-nos à mesa, comemos e conve rsamos de·
pois. Voltei com eles à Rtitol'ia, e ganhei um presente: a proa ema·
lhadade umaca1194, Partida do navio-companhia feminina- seca.
Craig. Sentei-me na popa - a bacia de Samara.i passa por nós em
plena luz solar; mLúto bonim-bosque de um verde dourado, o mar
de uma cor de safira escura. Atrás de Roge'a, diversos penhascos
debruçados direto sobre o mar aberto. A noite caiu ames de Suau.
Passamos singrando pelo lado do mar alto. Conversa descontraída
com Brammell, depois coln Bu rrows, um homem de $amarai, mui·
to agradável e divertido. Debati com ele possíveis expedições e uma
cvencual colaboração, planos para colher dados emológicos.
Sexta, 26. Velejamos ao longo da costada N.G.: Manhã nebulo-
sa. Table Point. Terminei de redigir as instruções e as entreguei a
Brnmmell e Burrows. Contemplei 1Iuhia. Algumas temativa.f frus·
tradas para cortejar a seta. Craig. Tornei-me um amigo baseante afá·
vel da sra. Nevitt. Conversa um bocado comprida com Burrows.
Noite, chegada a P(ort] M[oresby}. De pé, da ponce de comando, v1
nosso navio atravessar ae111rada do recife. A seguir, ancoramos; água
tranqüila e mansa do porco. Os Dubois. Fui dormir wrde, depois de
bebe r cerveja.
Sábado, 27. Dormi mal por causa dos mosquitos e da cela. Pro-
blemas com a papelada cm Port. Tirei minha bagagem do porão e
UM D1Aruo NO SENTIDO ESTRITO DO TERMO 129

1t voi-a para a praia. McCrann, sra. Ashron, Champion, Ahuia, H. E.


1Murrny) - uma vez mais estava muito cansado e não me sentia
• m. forma. Partida. Sentei-me a ré e contemplei o porco, a muralha
,1,. montanhas acima de Tupusele.ia - uma vista magnífica, afi1u1/ de
,, 111a.r. Um pouco de enjôo de mar. Recolhi-me. Noite ...
Domingo, 28. Manhã - ? Li um pouco de [Newton]. À noite,
1•~11sci em Srns' e comecei uma carta para ele. Em certos momentos
111c exaltei; estive na N.G., realizei muitas coisas. Tenho perspectivas
h• fazer trabal ho muito melhor - planos praticamente cerros. E,
n1111to* - as coisas não estão tão perdidas quanto pensei ao chegar
11p1i. Além do mais, não me sinto nem um pouco pior do que quan-
.1,, t heguei. Sou melhor marinheiro e já ando muico melhor - as
h•l.1ndas não mais me assuscam. - Contemplando o mar sinco-me
1111onsamence feliz. É verdade, ainda não rerminei; mas, diance dos
1lhos medos e incertezas, decididamente sou um vicorioso.
Segunda, 1.3. Aproximação ma.gnífica de Cairns. Da manhã em
1h mte, vista do JicoraJ encoberto pela neblina. Passamos bem perro
'" 1recife coa era o qual as ondas estão quebrando. Montanhas cada
•' mais níridas - róseas acima do mar verde. Algumas mostram
" .1crizes de deslizamentos recentes. À esquerda, altas monrnnhas com
1•1«1$ magnificamente abobadados, como agulhas de corres de cate-
lt m. À direita, uma longa cordilheira de lindas montanhas. Acida-
.f <'m um vale entre montanhas, um restinga 011língua de cerra pfa-
" 1 Simplesmente embriagado pela vista. Lembra-me um pouco
I '•ltirmo. As montanhas cobcrws com vegetação luxuriante. Desta
• / ·~inoro os manguezais que tanto me encantavam no começo. O
1. ••ll'Or muito cortês. Controle militar. Caminhada pela praia. Sinco-
1111 incomparavelmente mais forte Jo que em setembro, quando ca-

m111hci por aqui. De volra ao navio - se não tivesse demorado ale-


•11111r âncoras, calvez o tivesse perdido. Partida; em vez de (icar olhan-
111111aisagem, bebi licor com os Bali. Depois li Newton (esrou man-
' 11tlti minha promessa quanto aos r<>mances). A seguir, à carde, cea-
i 1lliei com Lyons, mas na verdade passei a mai()r parte do tempo

1!11tlt1 no órigini'l. DOAÇÃO


~AN • UFRN
Prof,Ut_.;·l f 1«'~ J.-
130 BRONISLAW M ALINOWSKJ

fazendo campanha contra Haddon e L. .M. S. À noire, bebi cerveja (3


copos). Em conseqüência disso, M rerça (2.3) cive uma ressacll ou febre
- indolência, anemia cerebral, csgornmenco. De manhfL rrnbalhe1
no meu original. - Mas no fim me senti indisposto. À car<lc li um
mmancc (de Jacobs) e no tombadilho apreciei a maravilhosa />aJSa·
gt1n de Whiwmday. A noitinha, li o romance (nada màu, aliás). are
(que ele produziu o efeito desejado] e fui <lormir às 10, depois de ro.
mar 10 grãqs de quinino.

Quarra (3.3) não muito melhor. Ainda renho anemia cerebral associa-
<la a uma congesrão característica entre o cérebro e o nervo óptico
De manhã trabalhei com Lyons. A tarde,. .. li um pOLtCO mais de
N[cwron), e em momcncos esparsos planejei minha estada na Aus-
rrúliü; cm oucros momentos pensei acerca de me11artigo sobre Mailu
Anoite, conversei com os homens, fui para a cama antes das 1O. Noite
ruim, as pulgas me acacarnm; o navio jogando e balançando.

Quinca, 4.3. Hoje estou me sencindo muito fraco. Ligeiramente en-


joado. Gosraria de fazer uma sínrcse desra viagem. Na realidade, as
visras maravilhosas me encheram de um encanro escéril. Enquanrcl
eu as apreciava, tudo ecoava denrro de mim, como quando cscum
música. Além disso, escava cheio de planos para o fumro. Em cercos
momenros, ;1s silhuetas rósea~ das monranhas aparecem acrnvés da
bruma, como fantasmas da realidade no dilúvio de azul, como as idéias
inacabi1das de alguma força criariva juvenil. Só se consegue perceber
as formas das ilhas espalhadas por ali - como que rumando para
algum destino iocerco, misteriosas cm seu isolamento, belas com a
beleza da perfeição - auro-suficienres.
Em pomos esparsos, ilhas charas de coral, como enormes janga·
das desl izando sobre a ágm• mansa. Ocasionalmente essas formas
assumem vida, passando por um momento para o reino da [dura]
rcalida.de. Uma silhuern pálida subirnmenre se transforma cm 11ma
il hn rochosa. Árvores gigancescas elevam-se direcamenre do mar,
planwdas sobre uma p lataforma aluvial. Encostas cobertas de maca·
gal vcrdcjancc, ocasionalmente uma árvore alta sobranceira sobre elas
UM DIÁRIO NO SENTIOO EsTlllTO DO TERMO 131

l.m cercos ponros porções de rocha branca ou rosa afloram da vege-


1.1ção.
Primeiro de agosto de 19 15 - depois de uma interrnpção de
, 111comeses. Omarakana.* Que pena cu ter parado de manter meu
diário durancc ranro tempo' - Hoje é um dia importante. Ontem
.. hoje me apercebi claramente de uma idéiit qtte há mui to estava
debilmente prcscncc, errando atrovés do cumulro dos desejos, son hos
.. mcertezas - agora emergiu darnmence - , escou pensando seria-
mente em me casar com N. Apesar disso, estou muito incerto. Mas
•1uero vê-la e tenrar. A começar por amanhã - não, hoje - , vou
111iciar OL1tro diário, e devo preencher as páginas em branco destes
ultimos cinco meses. Se, ao final, me casar com N., março e abril de
1915 serão os meses mais importantes da minha vida emocional.
hvelyn l nnes me deixou urn a forte im pressão - o romance de
C'onrud, uma incomparavelmente mais forte.

• 1 1• I:" únK,. rcícté'ncia aset;ur.d-acxpedjçio de(':11npo ~ ~fdi~W1ki às ilhas Trol>r i;u~. de m.oo
111Jl • ma'6Je l916.
L
SEGUNDA PARTE

~ 1917 - 1918 f':.M


UM DIÁIUO NO SENTIDO ESTRITO DO TERMO

Dia após dia, sem exceção, resistrarei os eventos de minha


vida cm ordem cronológica. -A cada dia um relato do dia
anterior: um espelho dos aconcecimeotos, uma avaliação
moral, a localização das molas propulsoras da minha vida,
um plano para o dia seguinte.

O plano geral depende, acima de tudo, do meu esrndo de


saúde. Atualmente, se estiver fone o suficiente, devo dcdi-
car~mc a meu trabalho, a ser fie 1à minha noiva e ao objeci
00

vo de acrescentar profundidade à minha vida, bem como ao


meu t rabalho.
136 BRONISL,~\Xf MAl!NO\XfSKI

Domingo, 28 out. 1917, Trópico de Capricórnio


Revisão das últimas semanas:•·
Em setembro, fui para Sydney, embarcar no "Marsina" [rumo a
Pon .Moresby]. A última noite passei com E.lsic** oo meu quarto.
Na quinta, fizemos as malas; Paul, HedyH* e Lila.•••• Almoçamos
juntos; Elsie escava lá. Voltamos. Lila foi para casa. Fui com Elsie.
Na escaçao tomamos chií e conversamos sobre a separação de Teppem
e Aon Delprac. Mim, despedidas.
Viagem [a Sydney}. Contei aos compan heiros para onde ia. Sen-
ti-me perfeitamente bem e ficava contente ao pensar que cm breve
estaria em amplos espaços abe.rros outra vez ... Sydney; me aborreci
ao saber que o navio estava lotado. B[urns) P[help}; Charlie Hedley.
Militar. Aversão pela cidade de Sydney.
Volta (aborígines, mestiços & eia.). Paul na estaç-ão. Almoço no

•O :sctunr.lo d i;írio in-çlui um.i putc no fi nul do li\'ro à qu:al i'..falino\-wki $C refere conto "diário rc·
1rospcccivo... O primci!o rcgi1.tto, escrito ap6'$ a chcsaJ ~ :\Nova Coiné 1,ara $u11crtcir;i cx·peidiçio,
e q ue abringe o período imediatamente l\ntc-sior a sua partida, é) na rc:alidadc, o único que t rata dtt
eventos p33sadru. Cotno f<>roecc atsumll d~eríçtícs d<> <:írcu!o d<: i\1:1lii;ow"ki c1n ~ (dbot.1rnc, in-
<:htindo nomC$ eoc-"siõts frcqüe-ntcmecac rnendonadu no segundo diário, este rcgisuo foi in.sctido
antes do ink io do diário pr<>p1ía.mcn~c dito.
O rcst~ntc do ''di.ário rcuospcctivo" <01i.sistc prindp.tl1nente de anotações sob1c- tco:í3 s<1ciol 68k• ~
esboços de possíveis anisot. J\ m;i.Í()r parte <J~5c nmtc::rid foi omítid:i..
**Ehii; R. lti~s!.on. filha de Sir David Orme l\-1a.s~oo. pro(casor de <JllÍtllica na Universidade de-
i\fc-lbournc. Na época da"'ª ti1ÍCtfl'lCÍr~ do Ho$piu1I de Mclbournc. Efa. e MilJJnowski se casaram
c1;t 1919; cl:i morreu cm l93S.
**•Paul e J·ledy cr1m o Sr. e a SI'. Paul Kl:uner <lc Viena, ~1n is<»- aticit<» de t.~a1in<:>w$ki~ (]1.l.C eau1.-
va1n cnt .~fcllKl-on1c nc14" ~poc~.
• ·••U•!.iJa ou l.dla Pcck (~tali r:o1;1;-ski usa .tt duat foHtll\S}. Há ta.inl~m refcrêfu;ii1$ a l-.fími Pc<:k, 11pa·
tentcr1\e1:tc urna itmii.
UM DIÁRIO NO SENTIDO ES'!'RJTO DO TERMO 137

( ·11fé Français; Elsie: "m11i1os regrmos felizes" , concerto, 11s duas senhori-
1 11~. Peck; Brahms; noite na casa dos Peck. Domingo com os Khuncr
(1uiz Higgins}; noite com Mim & Elsie, que acompanhei de volra à
<iJade.
&rttbele§o-me em 1'.1elb. COfllQ se tiverse tle morar lá 4 vida inteira. Fi-
<1uci dentro de casa, e na primeira quinta-feira "Zlocko" [literalmence,
'ouro", um apelido carinhoso que ele dava aElsie] veio me ver à noice.
Bm geral eu passava a tarde e o infcio da noite com ela, das 4 às 8.
Muito apegado 11 ela, gosto muito da sua companhia. Nem consigo
11111ntcr as reações à Dostoievski que costumava ter - uma espécie
de aversão ou hostilidade ocu.lras, mcscla<h1 com uma forte ligação e
111teresse. Na época (antes de ir para Adelaide} estava muito infeliz,
~ nlgumas vezes tive de ''fogir de mim mesmo". Minha hipótese é
•111e meus sencimencos por ela se baseiam em atração intelcccual e
11cssoaJ, sem muita sensualidade.
Durante este período entre minha volta e nova partida, Wtb<1lhei
1icrfeitamenre bem, principalmente com quescões sociocconômicas. Li
\/>ares & Stocks (Ações e títulos} e o livro de economüt de El}" -Fiquei
nmito perrnrbado com wn encontro que tive com Spencer,• e por uma
visita a Adec Hunt. Encontrei Sp. na quarta, fui vê-lo na quinta e es-
' revi uma cana para Hunc na quinta-feira. Elsie viu esta carta no do-
mingo (passei a noite com os Klmner}; depois, na terça, Hum oucra
v~z. Na próxima quinta feira, E. &M. nos Khuncr. Na rerc<úra sema-
1111, na manhã de sábado, eu soube que ia partir no dia 19. Senti-me
.1 bntido. Passeio com Mim e Bron. [Broniowski}. Noite nos Khuner.
Na segunda, E. veio aos Kh.; cu me sentia simplesmente adoen-
1.1do; dormi, depois ela e Paul vieram visitar-me; conversamos; li O.
l lenry; Paul leu trechos de Walter Pater. Elsie acordou, levantou-se.
Conversa sobre a grama. Acompanltei-a ao hospital. Na manhã se-
11uince, "Zlotko" veio me ver, por iniciativa prój>ria. Quarta... ? Na
quinra, encontramo-nos à tarde. Zlotko veio à minha casa naquela

• \rf' \Wlcc-r l.h ldwin Spct:cer, hmos<> ctoó?ogo brit5:nko q·oc com F. J. Gillcn publicou di\'CfS!IS
l!••HlOl)f(l fi;is imponaOtC$ w brcos nborf;;incs da Auu:tilit. (t;CcotN ou :\1a.linow$ki n<> início d:a C-llf·
1 '"' deste.
138 flRONISLAW MilllNOWSKI

manhã, e em seg,tida fui alm<Jçai· com Mim (passando pelo hospital,


M. disse q11c devíamos fuzer silêncio para não acordar E.!)
À carde, por volta das 4, resolvemos ir a Porc .Melboume. Sen-
tei-me na frente. Um n()vo ambieoce nos deu a sensação de uma nova
existência. [Elsie) ficou com fome; bebemos chá em companhia de
alguns jovensf11zi/eiro1. Fomos até a praia; um maravilhoso crepús-
culo; fizemos planos para viajar juntos em díperes-paq11ete1 para a
América do Sul (uma das raras ocasiões cm que admitimos que há
um compromisso entre nós). 'Ibns dourados sobre a superfície do mar,
nuvens de formatos complicados, silhuerns de navios na bruma adis-
tância. Percorremos a praia aré St. Kilda. A noite caiu. Trem de vol-
m à cidade. Último jancar no caf~ de Paris. Voltamos a Pt. Melbour-
nc para comprar urna sombtinha. Passamos rapidamente pelo 128.
- Ela foi para Chanonry, eu para os Khuncr.
No dia seguince, Hedy e cu fomos ao 128 e fizemos as malas; Paul
fez várias compras. (Fiz as malus às pressas, para chegar na hom de me
encontrar com Elsie)... À tarde ... com Elsie ao Militar, onde esperei
durance muito tempo que uma garota ruiva confoccionasse meu sa/-
'O«!rl.JJD.* A seguir, foi procurar Adce Hunr, que, aparememenre,
escavu bem-hltmorado (um aui;ncnro de salário)). Enconcrei-me com
Elsie no parque, fomos juntos ao]ardim Botânico (no dia anterior eu
havia lhe comprado uma sombrinha); naqndc dia compramos artigos
de renda na Casada Missão. No parque, chá e passeio ao redor do lago,
glicínias ao longo do rio; peguei o rrern vespertino, ela comprou um
quimono para .Marian. Na casa dos Khuncr temei diversas doses de
bebida e ofendi Mim com meu ceticismo. Broniowski na última hora;
voltamos para casa, acompanhamo[-la} até Chanomy, conversando.
Sábitdo. E. R. .M. veio; ficamos juncos pefa última vez. Fizemcis
as malas (ela de quimono vermelho). Fui à farmácia, Buckhurst, al-
moço (más notícias pelo telefo ne); fniao 128, E. R. M. de camisola,
vesriu-se depressa; telefonei paraMolly; saímos; tranqüilizamo-nos;
retornamos; minha amada bastante deprimida, eu rrunb6n me per·

*Como dd11.dioaust1faco <lu r!i~tc a 1Gucr1:L ~(.,;:tdiu.I, ~ínli nowski tra tecniCft1l!et.((: \ HO C$tn1ngci•
10iui:ui5<> c1n ter ritório~ lirittinkos.
UM DIÁRIO NO SRNTJOO c5TRJTO DO T ERMO 139

l11rbei. - P(au1} & H(edy); despedidas da família; ida de carro à


•(llfllt~ ao Mclb. H.osp. Eu estava calmo, concenrrado em concluir
111do. Problemas com o envio dos pacotes ...
Sydoey deserta e rrisre. Vitória. O Coffce Palace quence e sujo.
S~ntei-me e escrevi; acabrunhado p ela depressão. Fui até o porto,
1 •crcvi para EJsie e Kh. Ainda não e.scava muito sentimental. À noi-

1~ voltei e fui dormir por volta das 10. Seg unda: B. P., banco, esra-
~110; Mil ir.; B. P. outra vez. Hedley no a) moço ... À noitinha passei na
111 bJioreca Mirchell. Escrevi para E. 1l. M. pela segunda vez. Fui para
,, c;11ma. Na manhã de terça embarquei no navio; comprns; almoço
1 om Br< >niowskiji·ere.
Partida: fundos das casas comerciais - á ltimo vislumbre da ci-
vdização. lvfolheres na ponte. Preocupado com a amai falta de segu-
1.111ça das viagens marícimas. No meio da enseada de Sydney senti-
me subirnmente sozinho e ansiei pela companhia de E. R. M. ,\ noi-
rv fli amizade com o sel,lundo imed.iaco, conversamos sobre a N.G.
e sobre a (1!tüna viagem. N.G. me acraía outra vez; fiquei satisfci-
10 com a idéia de ir até Jl
Quarca-feira sem novidades - · fiz amizade com um oficial de
1nnrinha, Ji, escrevi um pouc(l. Estava ligeiramente enjoado. Quin-
1.1: por volta das 4 da tarde entramos na baía de Morcron. Viagem
( t .Lnqiiila. N ão olhei em volta o suficiente, falei demais. Pirei o rio
•ob o luar e me lembrei da Assoe. Bricftnica, de StaS', de Mackaren, e
d11srca. Dickinson. Melancolia de cais abandonado; enormes navios
1 mzéntos de transporce. Recado dos 1fayo; transporte de carro; ce-

1<-w~una par.a E. R. M.
Na residência dos Mayo, intervenção heróica cm debate sobre re-
li11ião. A seguir conversamos sobre polícica e sobre a atividade dele
1 ncre os operários. Dormi pouco e mal. De manhã, uma cC>nversa bre-
w; escrevi para E. R. .M. Partimos, eles desceram perrodc Quccns Brid-
11c. Peguei um bonde e compr.ci suco de framboesa; o navio; levama-
111os fütcora mais ou menos à 1 da carde; grande número de sibas no
1
l(0 ...

1~1>«1e de molutçocefalópodc. {1'l. dd ·r.}


140 8RONISLJ\W MAIJNOWSKI

Viagem aré Cairns (sexrn a rcrça-feira): cartas para Prazer, para


Gardincr; joguei bridge com nlguns companheiros de viagem; scnri-
me bem, mas não criarivo. Cairns: apresentei-me a dois homens; pri-
meira tragada de ar <los trópicos. Terça a quinta, viagem plt1·a Port
Moresby: enjôo, não comi nada e vomitei de vez em quando; dor de
cabeça mas sem muita aflição; senti-me debilitado, mas "não além
de minha capacidade de suportar".
Em Porr Moresby fui falar com Strong; o safado não me convidou
para me hospedar em sua casa. Eu me convidei para me instalar em
sua vRranda, onde armei minha própria "renda". Calor terrível; ma-
nhãs e noites na varanda e na casa dele. Escrevi cartas; ansiei por wn
copo de conhaque à noite. Scmng ni\o escondia sua irritação com o
faro de eu escar hospedado ua a 1sa dele. De modo gerttl, desHg radávcl
e rnpado. [Boag] mttiro mais alllávcl, mas mmbém pervertido. Refle-
xões sobre a vida vazia daqueles dois homens, sua acirudc com relaçlio
à guerra, às mulheres, seu objetivo na vida. Têm uma tremenda quan-
tidade de material disponível, e nacfa fazem com ele; complicam a vida
normal e não riram vancagem d\lS oportunidades extraordinárias.

Samarai. 10. l 1.17. Onremlevnntei-me por voltadas6:30(na noice


anterior eu rinha ido cedo parn a cama). Li meu diário (um rrccho
que havia escrito previamente) e um conco de O. Henry. Momenros
de desejo violemo por .E. R. M. Rccorr.lei-.rne de sua presença física
- seu impacco emocional direto: os cnconcros com ela na escadaria
da Biblioteca, suas visitas de manhã cedo, para me acordar ecc. -
Por volca das 12, saí, perambulei pela ilha. O chão estava lamacento
- dia chuvoso, frio, o venro soprando das montanhas (escariio co-
bem1s de neve?). Almocei, conversei com Solomon; soneca vesperti·
na, despertado por um grito, "Kayona" [nome de um navio} - con-
f unr.li-o com "Itaka". Foi ao banco, D[urns) P[hclp), & D.N.G. (sr.
\Xii lkes, que conversou comigo sobre Thomas e me deu umas focos,
pedindo-me para ir visitá-lo qualquer noite). A seguir, o hospital.
Mentalmente, acariciei a "supc·rvisora", que parece apetitosa. Tcddy
[Auerbnch] falou sobre as minas de ouro, ações e reivindic11çõcs no
seu jargão engraçado. Tornei n dar um passeio em torno da ilha (cn-
UM DIÁRIO NO SE!><TIOO ESnrr<> DO TE!el.0 141

ronrrci dois sujeiros de Mailu); jamar, conversa com Solomon e o


e .1pitão Hopc, que apresentou o paradoxo de qtte todq negócio l 111n
/ 'f!/1de11zttr, baseado no qual defini o socialismo como a elimi na~ão
riu jogo de aZt11· do negócio. Sujeitos repu lsivos com indolência e [inso-
hlncia] tropical. À noite fui ao hospital. Tcddy (Auerbach] contou
lustórias sobre "recepção de gl'llpos de admiradom"... Esse tempo todo
111 sub<:onscicnremence estava esperando ser apresencado à enfermei-
'·' Às 9, saí com alguém. Fiquei semado até as 10:30 cortejando a
"J..., que não é burra, embora não tenha boa cukura. Eu a acariciei
r• despi na imaginação, e calculei quanto tempo levaria para l-Onsc-
1uur levá-la para a cama. Antes disso, tive pensamentos lascivos so-
1.rc... Em suma, rraí [.Elsic] cm pensamento. O aspecto moral: me
rlou um ponto positivo por não ler romances e por me concc ncrur
niulhor; um negativo por alimentar fantasias de relações sexuais com
t ~upervisora e pela volta cios pensamentos lascivos sobre ... Além
•l"so, ttma tendfocia desastrosa para "passar sermão" e para imagi-
nar uma discussão com todos os patifes que insistem em me ator-
memar aqui, principalmencc o Murray. Essa pregação assume a for-
•M de comentários irônicos no prefácio ao Magnwn Opus, no meu
olr~curso na Royal Society depois da conferência de Murray, cm co-
1>1c11tátios endereçados ao irmão dele. 'fambém discuto com Strong,
li. P., Cnm pbell etc. e os irrito. - Por outro lado, sei como isso é
11<lículo, e resolvo parar de fazê-lo.
Ilsca manhã esrou esperando em vão o "ltaka". Percebo que, se
, •inseguir concrolar minha desordem moral momencãnea, cealmcn-
'' me isolar, começar a escrever o diário com uma determinação au-
'' ntica, minha permanência aqui não será uma perda de tempo. -
1 .1>sim, para o futuro: E. R. M. é minha noiva, e, além do mais,
•penas ela, ninguém mais, existe para mim; não devo ler romances,
• menos que adoeça ou entre num estado de depressão p rofu nda;
l'H.·ciso prever e impedir cada uma dessas cil·cunscâncias. O objetivo
1h• 111inha estada aqui é realizar pesquisa cmológica, que deve absoc-
' 1minhu atenção, a ponto de exclui r tudo o mais. Não devo pensar
1111"vingança" nem em "punições", não devo levara sério o Spencer,
11 11\ o Mum1.y nem quaisquer outros patifes.
142 BRONISl. /\W MALINOWSKI

Domingo, 11.11.17. Onrem: de manhã escrevi um pouco, "pensei" um


pouco e desperdicei o tempo. Porvolca das 11 fui ao B. [> - umacaixa
faltando. Depois ao B.N.G., comprei sapatos, suco. Ted A. me "tratou
mal", o qt1e me aborreceu. Consegui me controlar; voltei para casa, es-
crevi para Brammcll. Almoço; mostrei meus panOetos ao Ted e ao Capi·
tão; tirei um cochilo; escrevi cartas para Leila e para a lSecretaria da
Fazenda}; fui ao Spiller; o Capítã<i estava lá, vicupetando comra os habi-
tantes de $amarai. Depois dei uma caminhada solitária cm volta da ilha;
ligeiramente cansado; mc1anc61iw. Corri de vez cm qtL1ndo; à noite comi
pouco, me senti bem. Ftú procmar Hinton; wn jovem humilde, bonito,
de feições francas, conta piadas sujas com graça e "se interessa. por mú-
sica" - canta e c<JmJ><ie paródias de músicas românticasl
Caminhei em torno da ilh:a pela segunda vez. Vênus estava bri-
lhando sobre Roge'a. Tentei concentrar-me no passado e resumir o ano
anterior. Formulei meti semimento primordial por E. R. M., minha
profunda confiança nela, minha crença de qw: ela tem tesouros 1t dar
e o poder miraculoso de absolver pecados. Daí minhas confissões, é
por isso que eu lhe como minhas experiências "mais profundas". De-
sejo de experiências her6icas e dramáticas, partt poder concá-las a ela.
Depois pensei nela de iuna forma intensa e ardi de paixão por ela.
MeereJle11ch1en [fosforescência): misceriosamence, preguiçosamente, um
frio clarão verde aparece sobre as ondas e torna a desaparecer. Ao vol-
tar para casa, escrevi para Elsie. - Moralmente estou indo bem. Re-
primo pcnsamenros lascivos sobre L. recordando-me da diferença fun-
damental entre minha aricude para com L. e para com E. R. .M. -
Onda de forre afeição por Paul e Jadwiga {versão polonesa do nome
1-Icdy}. - Quase parei de pensar na "persegtiição", posso enfrentar
tudo que vier de furma bastanre tranqüila e pronta. Resolução: hoje,
escrevo para mim mesmo minhas recordações de Mdbourne.

Segunda, 12. 11. 17. Ontem, depois de escrever o diário, dei um pas-
seio curto. O dia estava claro, havia uma brisa fresca, mas o sol esta·
va muico quenre. Eu me senti muito bem, precisava de exercício,
corri duranre uma parte do caminho. Depois do desjejt1m quis co-
meçar o diário rerrospectivo. V.~diei um pouco, dei uma espiada no
UM D J,\J\JO NO SJ>NTJDO ESTRITO DO TERMO 143

r mreilJ de Sydney, nas ilustrações. Peguei de volta meus escritos do


C:,tpitão" e passei-os adiante, para Hinton. O capitão disse que os
1htl:ivos daqui não eram interessanres, nm pessoal ingrato. -A se-
1111ir, com interrupções e digressões, compus as linhas gerais da re-
1wspecciva. Mais ou menos 12:30, ginástica: senti vontade de me
1 xercitar. Um calor terrível. Depois do almoço li Swinobury (croca-
1hlho em polonês com Swinburne - ..porco cinzento']. Deitei-me,
1111ts não dormi, escava afastando os pensamentos lascivos. Levantei-
111e às 3. Com Ted, aguardei o "Itaka", escava quente demais, até
mesmo para o 'Iêd. Eu escava cão exausto que não era capaz de fazer
11 ida. Escrevi cartas: para os Mayo, para Bor (. ..] e para Elsie. Fui
1.imar banho; fui à casa de Spilkr, onde conversamos sobre naufrá-
111os e sobre febre negra. A seguir caminhamos pela il ha; muitas
pc~soas; garotos comendo C()C()S e tocando flauta. O nativo meio civi-
hz.1do encontrado em Samarai é para mim algo a pl'iol'i repulsivo e
1ksi1iteressance; não sinto a menor propensão a trabalhar com eles.
l'Msci cm E]s.ic e recordei as fases de nossos últimos encontros, asso-
111das aos socialistas. Jantar e conversa com o capitão na varanda
11bre política inglesa. Stta invectiva empolgada e apaixonada contra
Auquich e seu conhecimento pessoal de Smuts, Bocha etc. etc. Sua
rlrfesa do conservadorismo. Fiz um gesto de cabeça concordando,
ilr·pois encetei uma arenga antigermânica (aliás, foi estupidez mi-
11h.1). Conversa com as três fil has do hoteleiro. SL1a excursão ao comi-
• r11te, suas orquídeas, suas idéias: a moça que pinta todas as flores
111. e cal. À notinha afaguei o fígado da garçonece [sic] ... em vez de
1\crever algumas linhas para a Elsie. Adormeci fáci l e rapidamente.
Moral: o mais importante é elimi nar os estados de negligência
"11 vazio interior, quando os recursos interiores são insuficientes. Como
11~ carde de ontem, quando eu não sabia o que fazer de mim mesmo,
1111 ll<l noite em que desperdicei tempo seguindo a lei do menor es-
f.,rço, uma lascívia subconsciente (conversas informais com mulhe-
11·~). Eu devia clara e distinramenre me sentir e11 mm110, à parte as
•ondições atuais da minh.i vida, que, em si mesmas, nada significam
1• tra mim. Merafiskamcncc falando, a tendênci<i de se dispersar, de
1.1gnrelar, de fazer conquistas, marca a degeneração da tendência
144 DRONISLAW MALINOWSKJ

criativa de refletir a realidade na nossa própria alma. Não devemos


permirir uma degeneração dessas. Como eu definiria Samarai para
Elsic e o livro dela? A contr.1dição entre a paisagem piroresca, a ca·
rnccerlsrica poética da ilha situada no oceano e a péssima vi(fa que se
leva aqui.

Terça-feira, 13.l l. Ontem: caminhei ao redor da ilha e escrevi meu diá-


rio sentado nwn banco. Llgeiramcncc cansado; pressão nos olhos e na
cabeça (quinino?). Em casa, escrevi a Retr05peaiva de Melbourne. Às
10:30 fui para o B. P. e pedi a Burron para procurar a caixa perdida de
Sras. Chá ("chá matinal') no Hendcrson, orquídeas e samambaias. Sra.
Smith-coitadinha - falou comigo sobre Pt. Darwin e sobre Elsic -
eu havia mencionado o nome dela. Depois, de volta a casa, li co11ro.rfol-
d6rkos no livmdc Scligman, wchilci antes do almoço; à~ 3:30 tomei uma
ducha e recomei a leitura. Não tive forças para terminar o diário. Às 4 :30
ou 5 me levantei e passeei ao redor da ilha. Depois do almoço, um dese-
jo apaixonado por E. º'Se eu pudesse me levantar e ir a pé acé onde ela
está, começaria agora." Mcsm:\ saudade à tarde. Por volta das 4:30,
quando terminei de ler Seligs, uma saudade met:affsica, aprisionamenco
na existência simbolizado pela ilha. Levantar-se, perambular, procurar o
que está oculro ao se dobrar ;1 c-s<1ttina - mdo isso não passa de uma
fogn de si mesmo, é trocar tuna pdsllo pela oucra.
À JlOite, conversei com Tcd, resolvi aguardar o "Irnka" para ir pe-
gar meninos em Dobt1. Fui ao hospital com ele. Hartley, um sujeito
agradável, nos contou sobre Nelson, que se esforçou por sair da po-
breza e aguarda em vão a cspesa, procurando-a em todo navio que
chega. Perambulei pela ilha; as estrelas, o mar estava fusforescence.
Voltei para casa-durante todo aquele tempo, eu tinha pensado em
Elsie; escrevi para ela. - EmocionaJmenc:c, meu amor por ela - for-
te, profundo, penerrante - é o principal elemento dn minha vida.
Penso nela como minha futura esposa. Sinro urna paixão profünda-
baseada numa ligação espiriwar. Seu corpo é como tun sacramento de
iunor. Ilu gostaria de dizer a da q uc estamos comprometidos, que quero
que tudo se coroe público. Mas minha experiência com N. S., a qttem
fü um pedido de casamento impulsivo e prematuro, me faz tender a ir
UM DIÁRIO NO SE1'TIDO ESTRITO DO TERMO 145

r rnn calma. - Ainda estou calmo e tcanqüilo. Encaro meu aprisiona-


111cnro temporário em Samara.i como inevitável e desejável, contanto
11ue eu use esta oportunidade para me recompor e me preparar para o
1'r.1balho etnológico. Livrei-me da minha lascívia mental perturbadora
"dos meus impulsos a flerces superficiais, por exemplo, meu desejo de
r llnh.eccr as 1nLdheres atraentes daqui (especialmenre as supervisoras);
<'Ili mma, esrou tencando s11pcrar meu remorso metafísico quanco a
Vriekh nye pere)•ebiosh!" (Russo, lireralmente: "não poder jamais trepar
rllm todas elas".] Pensamencos: Escrever o diário retrospectivo sugere
m1titas reOexões: um diário é uma "história" de eventos inceiramence
11rcssíveis ao observador, e, mesmo assím, escrever um diário exige wn
1<Jnhecimenco profundo e wn creinamenco meticuloso; mudança do
ponto de vista teórico; a experiência em escrever leva a resultados in-
ll'iramente diferences mesmo que o observador permaneça o mesmo
quanto mais se houver observadores diferentes! Conseqiientemen-
w não podemos falar dos faros ohjcrivamcnte e:xistcnces: a cearia cria
'"' futos. Conseqüentemente, a "história" não existe como ciência in-
1lependente. A história é a observação dos fatos à medida que o rcmpo
.ln origem a eles. - A vida que deixei pam trás é opalescente, um
lirilho de muiras cores. Algumas coisas me surpreendem e me atraem.
Climas já morreram. Meu amor por E., que, d11rante algum tempo,
foi um elemento completamente inerte, agora adquiriu uma vida
111ulricolorida. Meus interesses intelectuais (trabalho científico; p1·oje-
1os sociológicos; debates com Paul) perderam um pouco da sua incen-
•tdacle. Ambições, a necessidade de estar em a1:ividadc e de dar uma
1xpressão mais precisa às minhas idéias, estão ainda mais cinzentas,
11m tetrospectiva.

l)oa1:ta, 14.11. Na manhã de ontem trabalhei absoJucatncme bem no


mm diái-io, escrevi com afinco e constância. E. R. M. ainda permanece
•<>migo. Não leio romances, cscou lendo Swinburne. Guardo as cartas e
t~lcgramas dela quase de cor, e fico ap reciando suas fotos. Tirei um co-
' l1ilo à tardc, li.Sdigman; d11cha; s<Ú para dar tuna caminhada. Senti-me
force o suficiente para escalar um morro pensando o rempo rodo emElsie.
Após o janrar, sentei-me e conversei com Truth.fu!James e a sra. Young
146 BRONISLAW MALIKOWSKI

sobre coqueirais e sobre borracha. A seguir füi para o Hotel de Lcslic


onde conheci um jovem com quem passeei pela ilha. Bebemos gi11gtr
alt; depois fui à casa de Hinrnn e apreciei suas cascas de rarcamga. Em
seguida voltei para casa; escrevi uma carta para E. R. M.
Hoje: Levantei-me us 6:30 e "1wvio à viJ1a!" As 7:30 o "Ma-
kumbo" estava no cais. Dei uma volrn a pé no lado sombreado da
ilha. Escrevi umaCllfta para E. R. M. e N. S., examinei as outras canas
acrescentei coisas, selei-as. Enviei carta registrada a E. R. M . Em·
barquei no navio. O capitão H illman me tratou a clarete e soda
Debate com o comandante Bucrows sobre "adminiscração" <Uemil
Ele elogiou seus hospitais siscemácicos e tfidemes e sua preocupação
com o bem-estar dos nativos. Eu os denunciei e elogiei o laimz-fairt
Ele malhou o Sacré Coeur na Nova Guiné alemã e elogiou a Missão
Marisca. - Depois volcumos parn a cidade; gi11ger ale com Ted e o
capitão Hillman. Mais carde retornamos ao navio, cncregamos um
pacote a McCrann e escrevi uma carta para os Khuner. Conversa com
Higginsoo e o comandanre sobre fenômenos natntais etc. A seguir o
almoço; conversamos sobre emografia. Examinamos um mapa ale·
mão da Glúné alemã. Ele me relatou suas experiências, falou sobre a
diversidade de nativos nas diversas ilhas, sobre os colonizadores ale·
mães e, acima de cudo, sobre Dolly Parkinson, a mãe e tias dela. As
3 :30 regressei a casa, palestrei com Rrunsay. Depois voltei novamente
ao navio; conversa com o Dr. Harse e o comandante acerca da admi·
nistração alemã, da Rússia e da guerra.

Quinta, 15 .11. Ontem: às 5 dei um passeio em torno da ilha, se nu


necessidade de fazer exercidos; escrevi meu diário num banco. Fiquei
um pouco agitado e incapaz de me concentrar depois da visita ao
navio. Fui ao promontório e contemplei o mar. E. R. M. ainda comi·
go. (Mas já me esqueci complcramente do que pensei durante aque·
la caminhada!) Ah! claro - enrre outras coisas, estou interessado na
natutt:zu. Na noite anterior: o verdete venenoso de Sariba está no
mar, a cor de magenta resplandecente ou fosforescente, cendo aqui e
ali pomos de um azul frio reflecindo nuvens cosadas e o vecde elérri·
co do céu azul-saxônico. - Oncem à noite: mar e céu de um azul
llM DIÁ!UO NO SE1'1TID0 Esl'RITO DO TERJ\10 147

, .rimo e incenso, os morros cintilando com profundos púrpura e um


<ohalto imenso de minério de cobre, e acima deles duas ou três c:i-
madas de nuvens resplandeccnd<> com imensos laranja, ocre e rosa.
Gostaria que ela escivesse aqui. Ao volrnr para casa esClltei: My
b11y, fit!fill my tll'eams (.Meu rapaz, realize meus sonhos) no fon6grafo,
e me senti transbordante de desejo por mergulhar no wrbilhão da
vida. lima pena que E. R. .M. não dance no meu escilo. Adágio: "Aque-
les que dançam bem juntos, não viverão em harmonia." Encontrei a
,ra. Henderson, Baldie e Annic. Conversa - cencei ser inceressanrc.
Mulheres outra vez! - Depois da ceia, conversa com o capitão Hopc,
que sai do seu caminho para me cumprimentar rom a11ltlbilidade. A
'cguir, desenhei esboços de pentes. Mania de casco de tartaruga. Dei
uma caminhada em torno da il ha com um rapaz que chegou aqui
rnrnigo e fica hospedado no B. P. Reclamamos da falta de hospirali-
tlndc de Samnrai, e ele me contou sua história. - Conversa com as
mulheres do hotel. Fui para a cama, pensando em Elsie. Sonho: na
csqltina de M.H., estou esperando o bonde pâfâ Btighton (um su-
hí1rbio de Melbourne]. Olho e escuco - será que já vem? Pego-o na
esquina. Entristeço-me por estar só e por E. R. M. não estar lá. Pen-
'° no dia em que voltarei a Melb. e ela vai me encontrar na estação,
t ' ambos rassearcmos de bonde ourru vez, sentados no primeiro banco.
Pensiuncncos: esca manhã: teoria du ação nacional conscience. Umtt
•l\fÍQ coletiva mpon.rávet de 11m Eirado. Teoria sobre aquilo que disse a Elsie
duranrc nossa primeira conversa, de qLte 11rw 1e111 sentido* fular em .. Jngla-
tcrra" e ':Alemanha" como países que "qL1criam" alg1una coisa, "comete·
r.un um erro de cálculo" ecc. Colocar essa teoria no papel para E. R. M.!
Plano para organizar debates escricamence científicos no Royal
Anthropological lnstitute. F.liminu(ãodas rermiiíeJhíbridas, stmipop11lares
•ri// ntnbmn dtburt, que nempop11/arizum a ciência nem prod11zem q11alq11er
1md1m/Q d1finido. Necessário: formulação definitiva dos problemas
húsicos e trabalho em conjunco, todos, ou, pelo menos os homcos
rcpresencatlvos, tomando parte no debate.
148 IlRO:-llSLA\1C1 MAUNOWSKI

Sexta-feira, 16.11. Ontem: pela manhã trabalhei no diário re·


tcosp[ccrivo). A srra. l;l. U., no chá das 11; conversamos sobrl:
um missionário na ilha de Tule que tem filhos; foi expulso e ex-
comungado; casou-se; os nacivos fizeram planrações para ele; ele
enriqueceu para \'aler; foi readmitido na Igreja. (Padre [ ... ]) A
sra. Gofton me contou sobre um agriculcor que se embebedou e
rnprou uma menina nativa de 14 anos, mantendo-a consigo dois
anos, conrra a sua vontade; ele lhe comprou monres de coisas,
um gramofone, um carro etc. Então ela se apegou a ele. Ele foi
parn o Sul, casou-se com uma mulher branca; a negra ficou furi·
osa, foi à casa dele, levou o carro etc. A branca soube disso, aban·
clonou-o e volcou ao Sul. - Depois fui ver Higginson, dei-lhe
minhas rcimprcssõcs, co nversamos dllt'antc algum tempo; ele pe-
gou objetos com Cuscom [no paiol). Conversa com Burron sobre
a terrível onda de calor na Austrália Ocidencal e sobre seu estilo
de vida recl11so cm Samarai. U m indivíduo alto e espadaúdo com
rosto marcante e boas maneiras. Depois do almoço, revisei meu
talão de cheques e as canas de Elsie, e tracei uma cronologia de
nossos encontros. - Por volca das 4 carreguei a cãmurn, prepa·
rei-me para tirar foros de Eli e dos Sm ith ... A noite fu i ver Hincon;
casca de tartaruga; depois telefonei para \'<filkes, que me mos-
trou incontáveis focos e não m e deu nada para beber!. .. Acesso
de sensualidade ind ife rcndada que resolvo supe rar. Pensei em E.
R. M.• mas a violência do desejo foi atenuada. Quase me confor-
mei por estar em Samarai. Afinal de contas, não estou exatamen·
te desperdiçando meu tempo aqui!

Sábado, 17 . 11. Nunca me permito pensar em minha viagem para


as [ilhas] Trobr{iand), finjo que essa possibilidade está fora de co·
giração. Ontem , Diário Rctrosp. sobre E. R. M. de mun hã. In-
censa rememoração daquele outono cm que a conheci. Às 11 fui
ver foros que havia colocado p ara secar, e bebi chá matinal com
as mulheres. Anres disso cu havia procurado Eve rctc e reservado
a lancha para a tarde. Conversei com a sra. Mahoney e um cerco
Osborne, da ilha Rossel. A rei utância deles cm dar qualquer ia·
UM DIÁRIO N O SliN'rJDO ESTRITO 1)0 TF,1\MO 149

l11rmação foi eng raçad,\. SLtponho que seja apenas pregLtiça e uma
• 'Jlécie de vácuo? - Tomei um d rinque com Everetr, ele falou
.111 k11/a* e confirmou que Mísima não pal'Cicipava do kttla, ape-
t1111 Panayaci e Panapompom; 'fübetubc e WMi; Roge'a também
1 .]. Depois do almoço, parti; sentimento de "domínio" e de "an-
d1tr ao léu" em barcos a motor. Vista marnvilhosa. Maca tropical,
10111bras profundas, flo res flamejantes de hibisco. Sentei-me diante
ilc uma casa nativa, onde um so'i escava sendo preparado. Seosa-
1,.10 de desorientação, que sempre tenho em um local novo, não
i lrniliar, entre nativos. Coisas externas (jardins, estrnmra da casa,
11wparacivos para o so'i; trechos invadidos pelo mato na aldeia,
olisposição dos elementos das aldeias) - tudo isso me estimula,
111,1s me sinto impotente - a falca de sentido da visica, a menos
que eu possa ficar alg um t empo. A paisagem, as cond ições de
minha vida aqui - não incentivam a pesquisa. Em Samarni eu
" mplesmencc não consigo fazer nada. Qual é a essência m:üs pro-
l1111da de minhas invescigações? Descobrir quais são as princip ais

'<>hil«, dabor:1.Jo sistco~a de trocas cotrc membro-$ <lc u ibos do IC$CCd a Nova (ltl:né e ~r<1 u:péla•
Ili',. viiinhi>:i:, $<: H>rn<.>u o t<:nl&d• obraAtg!Jtk1Hk1J rir; Ou:r dfJ l!t<ífiftl, 1 ~ rnl>ém de;n1tori1 de ~fa Hnov.~ki
11 1.n2). O k,.·/11 cin si era unl:l uo~ co;np!exa <: ,,Jttiti:ientc tc-gul.i.da d<' prcscnt~ cnuc psrcciros
r ')11hccidw <:nt ;il dci;~ dikrcntcs, Os presentes principais<:t:un de duts C$pÇtics: brat'cl<:tcs(tnu-w/J)
f• 1~<.d de conchas de 1~0\u s003 e usatl0$ pc?m honittn r.i;i. p;incsupc1ior do brao;o1cos colares (Hr.d:;tw)
1 ~h• !'/"11..1lhcrc$, fcito5d1: <.'Onch;,i..-:cspondilos:i.s. Um ,scral esses arcis:os n!o til'lh!'H'l'l v;tl(>r p:tra alc:íin de
• ,1$Ígr.iíiciido no IJ,.,fa, m;u poHoir \llll bo1llt<> 1:1w.1/i ou 1c.vl:1:-:s, c~d., u1n com um nome- e hist6tia
jin)fl-ti-os, al~sn llc ass()('i:1 ÇC1t~ u~dk:ion;i.U, re.ilçav'1õ o pr<stÍgio do p!optictá1 i<> e J c ~u a. ald ci.a . O.s
· hj1:1os nio cr<'mgottrdados pcrmancotementc, porém, llláii<:cdo ()u rn.,iJ t:i.rde, tr11m troc-"dos por
liJetos de impo1tâ1icia com1;1-!l 1:ív~J .
A$ ~p«l içõesd0Ja1!11 er:Lm foitas d-e maneira rn.ais ou mctH)I rcs~1l a1 <.:n trc('.01nu n id~dc$ cspe·
• U1e11s ($inskcta e l)obu, por e;.;cmp!o) por froc:i.~ de cano;is (u·~s) qu: freq üentemente cohri:un
1< 111 11d~ di$:ân<:i<'l\'i. li aví" também 11lguos fc1l/r11 no iru crior da!! ilhas. t>.fcmbr~ de 1nnil cxp«l.içiio
ruou.nte fa;d;i,m t!OC3:Sepc-nas com seus 1J16prJos p:ir.:c:i r~ r«or.hcddos na aldd'ii hos1>cdcita, e se·
l>iiu11«1-se "101ascon\erclái.$'" rcc<>nh~cld,.\'i . l'orcxcmplo, um ho1ncn1deOmata ka1'~ 1:1.lv~ob1i ~·C'3$e.
1••11 p<fir d-e br:i.cd ctcs cm uma tlCp«Hç!io~ Ilha t!c Ki1 :·1\':t (11 lÇ$f<: de Klriwina) e ai, quando um kNlr1
MU!t 1~0 vinha cfo Sinikcta. 1,:1.fa Om;1t'-k;1n11. <:fe os d ewa p..~ 1a SCll p.iucciro de S!n11 kc1 ~ e1n trOC:i. <Jc
11m cotar, Este, por sua \'C2', crocavl\ os b~ccf(>lC) q u:tilJt> <> l.u!.<t de Oobu <:hcg;wa a Si!l\'lkcta. Con·
1iitJ)o, nio havia troc::11 d11.;:1:=. c-ntrc os J;-omens de Om:uakana e oo dobuanos.
A \•id.l dus tribos d essa átca era Cittcica.mer.le ligt1d:t i1 Ín$dtuis·i<.>do l:a4t, o qual influcnd ava1
.i 1 ~ (ertoponto, quase 1odu :is llti,·lda.d(:$ d11$ ccmunidll:dcs panid p'1ntcs. A dC'SCtis:!o que l-.fa,liooW3ki
fa 1. do kv!tJ- e '6U1:'6 r;imifkaçôe$ s-e to~nou um dos 1nat'co11 frnt>C1ri a111es da étnogr.ifl<'I .
1\parcntc-mcnte, de nl o estava c::i<:litc: de :iu:t (mp<:>Hin<:i.;) no inkio d a expedição, embora tl·
~t i«i pilSsado a .se in11:rcl~:tr por c45c fonbmcno dun.01esua peftllattênci"' de l 915· l(Í o:as Tr<>IH~Jõ:<I.
150 BRONJSLl\W M.'\LINOWSKI

paixões dele [o nativo}, os motivos de sua conduta, seus objeti


vos. (Por que um menino "é contratado"? Estará rodo menino, após
algum tempo, pronto a "se demitir"?) Sua forma de pensar cssen·
eia!, mais profunda. Neste ponto, voltamos a nossos velhos p ro-
blemas: O que é essencial em nós mesmos? Voltamos a Ado)
l:lasrian:* U11iversa/geda11ke, Volksgedanke [idéias universais, idéias
folclóricas] etc. ...
À n<lice, na cama,... Pensei no fato de E. R. M. ser a única pessoa
que realmente amo fisicamente. Moral: escou começando a "me es·
cabclcccr" cm Samarai: casca de carraruga; as mulheres; a caminha·
da; a visra da minha janela - tudo isso embebido cm rcflexõês
sobre E. R. M. norma.lmenrc me basta. Mas de vez em quando srmo
falta dela, gostaria de vê-la, d e lhe dúcr o quanto a amo; qnanm
cempo desperdicei amando-a pela metade. - Alguns dias atrás m~
desesperei ao pensar que talvez nu1tca mais a visse. Ontem, por Ol«
rro lado, tentei recordar minha apatia e até antipatia algumas sema.
nas anres de partir para Adelaide. - Não consigo me concentrar
Escrevo p<>uco demais no meu diário, falo demais, e não sou eu mcs
mo. Ontem, após retornar de Sariba, quis ler lUD romance. Nesses
momentos sinto um desejo 11gudo e ardence, porém superficial, pôr
E. R. M. Se ela estivesse aqui, seria eu foliz?
Preciso me recobrar, voltar a escrever o diiírio, preciso me apr<>-
fundar. Minha saúde está boa. Tempo para reunir minhas forças o
ser eu mesmo. Supere os defeitos insignificances e perdas materiais
de somenos importância etc. e sejti** você mesmo!

Domingo, 18. l l. Ontem: de manhã Ginger veio, conversei com el~,


barganhei com ele; contratei-o. Consegui papel fotográfico; volcei, es
crevi o diário; no B.N. G. comprei cigarros e geléia. A seguir escrevi o
diário retrospectivo. E. R. M. Depois do almoço correi o cabelo; li utn•
revista estúpida (que a cada passo me fazia pensar em E. R. M.). Qq

*Adolf B:ut ian (1826-- 1905}. c1nôlot><> alcmi<>, ii:tercsn.docm psicologia natiY'il, que dcsc1lvolvcu ..
conceito de '"id~iis f<:kl6rk.11'", a.$ quolis acr~cl ita••a scrc1u a h:isc das i:tr:H:lh1u;-ç;1.5 de costum-« qu.
havia <.>1:>$<:rv•do em -nrns cxtcnsn; vfasc1lS.
·••Gtifsdo "º ori,,:;i:t11J.
UM DIÁRIO NO SENTIOO EST.l\JTO lJO TERMO 151

pois tornei a escr.cver.; aviso de chegada do "Jtaka"; subi o morro com


ICd, crnbalhei no pence; jantar; conv·ersa com a srn. Gofton; sentei-me
t' pensei em E. R. M. Caminhada pela ilha; em cerws momentos me
•cnci calmo e feliz; em outros, um louco desejo por E. R. M. e pela
'vida". Meditei sobre o meu destino; se eu não tivesse vokado, da
, erramente reria encontrado outra pessoa; pensei em Charles e no faro
rlc que meu comp1Mamentb com relação a ele e o passado dela é real-
n\cntc decente. Sentei-me oum banco durante alg1un tempo; esrr.e-
l,1s; refleti sobre a realidade objetiva: as estrelas, o mar, o enorme vazio
.lo universo no qual o homem escá perdido; os momentos em que você
w fltnde com a realidade objetiva, quando o drama do universo deixa
de ser um palco e se torna um desempenho - estes são os momentos de
4emúno nirvana. A seguir pensei de novo que talvez nunai mais a veja,
v sou tomado pelo desespero. Murmurei o nome dela na esçuridão;
f\OSrnria de poder dizer-lhe que desejava que ela fosse minha esposa;
pensei em como anunciaríamos isso :aos pais dela, se eles gostariam de
111c ter nessa condição, eu não podia ter ressenrimenros contra eles.
l\~crevi uma cana muito apaixonada para ela.
Resolução: calm.amente, sem trinwr os dentes, escreva o diário retr.,
, !\mo trabalho preliminar. A essência dele é rever o passado, uma con-
' ~pção mais profunda da vida (durante a minha caminhada na noite
p.tSsad.i tentei desenvolver esta idéüt}. Mas, pam isso, você deve escre-
ver o diário e recordar os fatos de uma maneira um tanto formal.
Deve eliminar rotalmence os pensamencos sensuais; só exisce meu
uttor por E. R. M. (Na noite passada pensei em L. P. etc., e percebi
d .1ramcnrc que, por um lado, escrevo cartas sincc;as e apaixonadas
p.tra Rose, e, a<> mesmo tempo, fico pensando coisas sujas à Casanova.
l.undo minha carta para E. R. M., e-la jamais suspeitaria de mim. -
Ao perceber isso, minha volúpia desaparece por si só.}

S"gunda, l 9 . 11. Ontem: Chuva de manhã, o resto do dia nublado;


.1té agora não senti o calor. Em ccttos momentos esqueço que estou
1111s trópicos, de tão bem que me sinto subjetivamente. Apesar disso
111do escou consideravelmente menos vigoroso. Depois do desjejum
(11ve uma leve dor de cabeça, com uma pressão atrás dos globos ocu-
t52 llRONISLAW MALJNOWSKJ

lares), deirei-me dutantc algum tempo. A seglúr, retrosp. E. R. M. Às


10:20, num momenro de relaxamento, peguei uma revista e, contra
meus melhores instinros, li-a com repugnância até as 11:20. Haven-
do perdido o rumo, fui dar uma volta a pé para me controlar. Resolvi
qlte devia escrever para E. R. M. cartas mais objerivas, conrando a ela
sobre minhas dúvidas (quando tenro lembrar os defeitos físicos dela e
qLtando lembro e analiso minha anrípatía momentânea por ela), tam-
bém devia descrever minhas marés baixas emocionais, quando estou
relativamente índiference, e meus lapsos morais, quando me relaciono
com outras mufüctcs ou tenho pensamentos lascivos. - Duranre a
caminhada sinto-me perfeitamente bem do ponto de vista fisico; pre-
ciso me movimentar (de manhã fiz muitos exercícios). Subi o morro,
depois desci. Sentei-me num banco. Osborne apareceu. Conversamos
sobre a ilha Rossel . Gostei rnais dele do que da primeira vez, ele me
atraiu. Detalhes que me parecem muito intecessantes. "Gabei-me" de
meus talentos lingüísticos etc. Andamos até Ycla Gili. Depois do al-
moço dormi até as 3. Banho de th11veil'o (um pCJuco indo!ence; a dor de
cabeça piorou). Depois conversei com os meninos e Osborne sobre Yela
Gili. Fui para casa, contornando a ilha; pôr-do-sol; escrevi algumas
linhas para E. R. M. À tatdinha, caHeado; conversa sobre política. Acho
engraçada a violência com que esses homens fulam concra Bmce* e
Murray; também gosro dali11g11agem obscena usada porTed quando Annic
escá deitada do oucro lado da divisória (conversamos sobre vClf'a.r).
Moral: A leitura da revista foi um lapso desastroso. Estou forte
fisicamente o suficiente para superar minha falta de concentração e
controlar estados meneais que não aprovo. Além disso, já é remp.o
de eu me livrar da minha inércia, dessa mania de seguir a lei do menor
esforço. Ontem fiz crês coisas de uma cotai infelicidade: li coisas de
má qual idade; rne deixei ficar apaticamente na companhia dos meus
colegas; e bebi com eles. 1àmbém tive um comportamento excessi•
vamente sensual para com a sra. Gofton e Baldie. Sou pródigo em
cumprimentos e me comporco de uma forma que revela o mais gros·
seiro desejo de minha parte.

*W. e. Utu<c.• com11.o.dantc Ja pntTulha. 1~1H iv3 11rm11d:i..


UM DIA!UO NO SUNTIDO ESTIUTO DO TERMO 153

Resolução: Você não deve se deixar afundar, escolhendo o cami-


11ho mais fácil. Já estragou bastante o mais belo amor de Slla vida. Agora
ptccisa se concentrar nele. Eliminar a lascívfa em potencial do relacio-
111unento com as mu.Jhcres, parar de cratá-las como amigas especiais. De
•1ilalquer maneira, isso não vai dar em nada - na realidade seria de-
1a<eroso para você se desse. Pare de andar atrás de rabos-de-saias. Se
• lit se componassc dessa maneira, cu ficaria ari:asado.
Adendos: Ontem, durante minh<t caminhada vesperc.inà, 11nalisei as
111uS\1S do meu estado doscoicvskiano. A principal foi provavelmente esta,
•I~ qlle, entregando-se a mim, contra.indo tuna relação pessoal comigo,
• l 1 perdeu o cnca11to da lealdade absoluta, bem como o encanto de algo
umcessível e objetivo... Também pensei em N. S. e senti remorsos. Além
1l11So, para mim é nítido que minhas relações com ela reriam sido im-
1<lSSÍvcis. Ell não reria trocado E. R. M. por nada, nem por ningttém.

ll-1·ça 20. 11.17. Desde ontem ao cail' da noire, e hoje, estou entusias-
u11do cm razão de meu êxito na confecção de pentes. Escou inebriado
pda arte, parece um pouco com fazer poesia. - Também estou tco-
1,1ndo impressionar Smirh e rodos qll!e vejo aqui. Além do mais, estou
' ~iitve/ com as mulheres, jogL1ei cartas pela segund11 vez e estou deci-
dlolamenre sob o subfeiciço da sra. Gofton, qlle indubicavelmcntc faz
'' tipo .Marnie Masson. Penso na "alma" dela. Decididamente ela foi
uma mulher" comigo durante cerca de duas horas. Aparentemente
••r:á um processo longo e trabalhoso me curar dessa fraquc~a!
Ontem: manhã límpida porém fria; exercícios; me barbeei. A
•cg1tir visitei Higgins[on);* ele está pronto para uma excursão a
l ~ariba}. Adiou-a até terça-feira. Voltei para casa com a intenção de
1'crever o diário retrosp., e trabalhar só um pouq uinho com casca
olc rarcaruga. Comecei às 9 e continuei até a l, quando foi visitar
~rnith, q1te me deu 11lguns excelentes conselhos. A carde trabalhei
•111trn vez e escrevi uma carta para E. R. M. no térreo, enquanto
t :inger fazia a faxina. Às 5 fui ver Smith, e planejamos lançar 1tm
11> >vo estilo papua. - À tardinha projetei novos modelos; depois
154 BRONJSLAW MALJ1'0WSKI

Smith; depois, carteado com as mulheres. Dirigi alguns galanteios t.


sra. Gofcon, sucumbindo ao inegável encanto dela. A seguir conver-
samos, saboreando carangucjos(elaignorou a alusão quando Ted disso
e.r1ilo degar;oJ1t1e proftssio11t1!); fui para a cama depois de conversar com
1ed. Sob o mosquiteiro projecei novos modelos.

Quarta 21. De modo geral, me sinco bem à wnwk em Samarai. Não


sinto a menor voncade de partir, 1m1ito embora vá 6cnr feliz da vida
quando o fizer. Quando vou sozinho até o a11corr1dq111·0 numa noite
enluarada, aprecio o dima tropical, os navios que pass:llll no mac, sabo-
reio os planos para trabalhar com casca de rarraruga, minha idéia com
relação ao diário recrosp. - Ultimamencc quase nunca tenho ansiado
por E. R. M. Sinto-me bem e force, colesas como Ted, o capitão ecc. m~
cliverrem, e gosco deles. Gosco da família da sru. Young, e me sinto bem
no liocel daqui. Eles me servem chá de manhã e à carde. A sro. G. conta·
me hiStócias sobre seu hotel ccc. J ogo cartas com eles. No encanto, SC1
que E. R. M. é o único ser humano que realmente me compreende e
que ao mesmo cempo me iuna desinteressadamente. Quando examino
o aspecto cômico da sitll<lção ou quando formulo pensamentos mais
profundos sobre meu diário, ela está pracicamenre comigo, no meu sub-
t'Onscieoce.
Ontem: Levantei-me baseante tarde; escrevi o diát·io sem me con.
centrar. Após o desjejum, niío tive vontade de ir a Sariba (inércia!).
Encontrei-me por acaso com Harrison• e ceei planos de ir a Dobu
em companhia dele. A seguir fui visitar Higginson e tratei de me
preparar para poder ir embora, deixando Ted à frente de cudo. Georse
Harris[on} disse que eles podem me levar. A11fo11d2 flquei satisfeito.
Depois do almoço deitei-me e passei quase a carde inteira criando
um novo modelo de pence para Elsie. Chá vespertino. Sr. Osborne.
Às), caminhada pela ilha. Tentei me recompor, afastar a embria-
guez diante do meu sLtcesso arrísrico. Pensei em (?). Percebi que E.
R. M. é minha melhor amiga. Na hora d~ ceia comi mamões e t1ba·

~c~cia.cu cd.. f('g:iio.


Em fra1 K'i~ oo
1 No ft:ndo. original. (fT. (/.,., T.)
UM 0 1,\Juo NO SENTIJ)O ESTRITO J:>O TERMO 155

4\11e Tcd falou sobre o ktda, dizendo que Penayati e Panapompom


wlo haviam participado do k1da. Após a ceia terminei e copiei meu
'lt-scnho. Fui falar com Smith. Osborne leu em voz alta um capítulo
d11 Zanoni de [Bulwer-] Lyrton. (Osborne: primeira impressão: de
l lquena cstatnra, rijo, olha para a gente desconfiado, olhos injera-
.Jus, a gencc fica convencido de que ele bebeu na noite anterior. De
1MO, um teósofo; rodos os dias fica apreciando o crepúsculo, numa
imobilidade total, vegetariano; acredita que os nativos possuam co-
11hcci1nenco místico.) Em seguida, Smith cortou um pence para mim.
111ç1uei orgulhoso da minha obra-prima. Às 10, voltei, sentei-me ao
Lido da sra. Baldie, e assisti ao jogo de bilhar. Capitão Storch. Desci
11é <> ctús. No meu quarto Ted e o capitão H. debateram a ingrati-
.1110 dos natívos.
Mo1:al: Esrou num perlodo de boa saúde e incapacidade de me
t<H1Ccntrar. O calor não me inrnmoda em nada.
Quinta, 22. Ontem: levantei-me bem tarde. De manhã perdi
1lgu m tempo com casca de tartaruga; escrevi o diário com desa-
l••nção. Às 10 procurei casca de tamtruga e forramencas. Chá ma-
1111al com as mulheres, às ll comprei casca de tarcar.uga de Buming
11or uma pechincha. Ele me falou do k11la. Depois escrevi meti di-
,1rio rerrosp. À carde cochilei no bar dq salão. Estava quence, o bar
1·•rava vazio; cadeii-as de ba111b11. Uma joie de vivre indiferenciada:
1<'1Ll idade purificada, possibilidade de respirar livremenre <>ar bom
•h1 vida. Já pela manhã t•ma tendência a resistir a lidar a esmo com
•"sca de tartaruga. À tarde escrevi o retrosp., mas o interrompi às
1para {olhar] pentes. Enquanto escrevi, senti saudades de E. Às 5,
1,1111inhei pela ilha. O governador chegou e Len Murray jogou tê-
11is. Fiquei irritado um momenco, depois rne contive e dei ttm pas-
'~io para me tranqüilizar. Dei outra volta pela il ha; um pôr-do-sol
111 nravilhosamence colorido. Roge'a: verdes e azuis-escmos emol-
.l11 rados em ouro. A seg uir muitos rosa e roxos. Sariba de um
Millgenca flamejante; 11rla de palmeiras com eroncos rosados elevan-
do-se do mar azul. - Durante aquela caminhada descansei ince-
lt·ctualmentc, percebendo as cores e formas como música, sem
lormulá-las nem transformá-las. E. R. M. o rempo todo presente
156 DRONISLAW MAIJNOWSKI

como co-espcccadora. Em alguns trechos eu corri, me sentindo


atlético. Depois <lo janrnr, atraido pela música, encrei e <lancei
Cansado e de escômago cheio. Outra vez dei uma caminhada ao
redor da ilha. Os problemas básicos da arre de viver. A lua e Vênus
ocima de R.ogc'a. 'í\ presença de cercas pessoas nos revela a essên-
cia do universo; a presença de oucras a oculta." Pessoas como Elsic,
cuja presença enche uma paisagem de profundo silêncio; outras a
enchem de biuulhos sem sentido ou, no máximo, de uma melosa
[pretensão} sentimental. (Aumiiller - entendo por que amava
Samarai.) Aí tentei ficitr a sós com a natureza, apagar os pensa-
mencos pegajosos e sem sentido ... Senrci-me num banco perto do
paiol d~ p61wra e ccncei atingir "o silêncio da alma". Fui impedido
por um debate meneai com Higgioson: o que cu diria se ele insis-
tisse para cu ir <\ Makambo (Verrcbcly (. ..) três meses). Debates
políticos 1issociados a isso . Coocornei a il ha duiis vezes. Pensei em
E. R_ .M., dor e remorsos violemos quanco a N. S. Refleti que ago-
ra eu também possuo aquela altgria ddJ /1tq11ena1 coisM, jL1stamente
como ela cosmmava ter, a coitadinha. Lamento horrivelmente cê·
la perdido, mas sei que não podia ccr sido de outra maneira. for-
mulei este problema para Elsie. N. S. = C. E. M. ou Eroest P. K.
Como ela se sentiria? E será que desejaria estar aqui comigo, um
h11mi/de obmvador? Eu anteriormente havia sencido vontade de es-
crever para cln sobre meus lapsos, dizer-lhe que aindn escava man-
tendo um diário. Que gostaria que ela me escrevesse, e percebesse
os problemas da imporr-lncia da vida, da autocrítica. Esta manhã,
no banho, me peguei pensando esporadicamente (nova legislação
sobre preservativos na Austrália) e disse a mim mesmo que o prin·
cipal defeito do ing lês cm a falta de "est ratificação" cm suas vidas
- a vida tltfeJ fl11i 11111na /Inira correlllt. Uma coisa vem, vai t é J11b11i-
111ítla por outra, e pronto! Falta-lhes reflexão, sistematização contÍ·
nua. Devo abrir os olhos de E. R. M. para esses problemas.

Sexca, 23. Há um mês embarqlilei em Sydney. Por volca de segunda/


terça estava super-energético e parei de tomar quinino. Ontem à noicc
uma cerca indolência, sonolência, e hoje também; além disso, escou
UM DIAluo NO SENTIDO ESTRITO DO TERMO 157

nlm a garganta ligeiramente dolorida. Hoje sinto aquele peso na ca-


1..:ça e no corpo-o amnento ll'OJicfd da gravidade upecifica cão carac-
1nístico do men esrndo anrerior nos trópicos. De qualquer forma,

lllmei arsênico oucra vez esca man.hã, calomclano à tardinha, e fiz


irmlaçõcs para a garganta. Na noite passada provavchnencc peguei
um resfriado, porque senti a brisa até mesmo sob meu mosqtliteiro
~ dormi nu.
Oncem: levantei-me às 6. O sr. Bcrnicr chegou; mudei-me para
1111:1 pequeno quarco ao lado do do capitão Hope. Ginástica incen-
•1iva. Desjejum, diário. Às 9, falei com Bunring. Comecei a expli-
' ar a ele o que cu queria; sensação desagradável de que escava bana-
hzando e profanando meu uabalho. Em seguida, encerei uma con-
v~rsa sobre k11/a com o menino de le. K11/a, em Dobu, Tubetnbe,
P~naece. Informações caracreriscicamencc divergentes; contudo, à
luz do meu conhecimento anterior, são perfeitamente úteis . Às 11
íui wmar chá; verifiquei [o trabalho} do pente. Mais carde, traba-
lhei no pente eu mesmo, 11aq11ele calot monstruoso. Às 12:45 tirei
uma pestana antes do almoço. Depois do almoço, canoa prnceden-
t'c de Nua' ata; dois nat.ivos a arrastaram até a praia; mediram-na
rnm Ginger; examinei o interior; uma mulher com seios carun-
~ulados e elefantíase. Fui dominado pela apária no meio do craba-
Jlio. Faúa as coisas superficialmente, não de forma intensiva. Vol-
tei em corno das 4 horas. (Pela manhã havia recebido selos de Port
Moresby e cuidei dos pentes de Ted.) Ocasionalmente pensava em
escrever para E. R. M. Mas os pentes e a conversa mole ocuparam
meu tempo. Caminhada. S(ua] E(x]celência, o Murray, me cum-
t1rimemou amigavelmente. Contei-lhe a história da minha enfer-
midade. Falei um pouco rápido demais, e de um jeito arrogance.
Não fui cu mesmo. Não tive dig11idt1de. Mostrei-me comunicativo
demais. Ele não mencionou meu trabalho nem nada sério, a não
ser a minha saúde. Leonard havia lido meu trabalho e o elogiou
educadamente. O com dele foi muito gcncil, quase adulador, ao
falar do meu trabalho. Comentei sobre minha saúde, sobre os ami-
gos de Melbouroe, e parabenizei-o pelos auscra.lianos. Depois vol-
tamos juncos, eu lhe falei sobre o k1tla, ele mencionou exemplos de
158 131\0~ISLAW M"UNOWSl<J

hiri* e outras formas de comércio. Falei da importância das fun·


ções econômicas. -Antes d isso, ele havia mencionado o arcigo do
capitão Barcon.**Também disse que, se eu fosse até as Trobriand,
eles talvez fossem me visitar Já. A rodas essas tentativas de aproxi-
mação eu respondia, educad1m1ente, cordialmente, como se "nada
houvesse acontecido". Fiquei e;r;11/1arue; afinal de contas, isso elimi·
na tuna desagradável tensão pessoal e me dá algnma cerceza de que,
se solicitar uma prorrogação da permissão, ela me será concedida.
Piquei [superescimulado} e criei diálogos imaginários com Leon[ard)
M(urray] sobre a importância do meu trabalho. Mas imediaramence
tracei de concrolar essa euforia e me obriguei a lembrar qtte o M.
mais velho sorri para t()do mundo, mesmo para aqueles em quem
passa rasteira. Leon M. provavelmente é menos hipócrita, mas não
vale a pe na cukivar a amizade dele. Procurei me concrolar e me
lembrar de que trabalhava com vistas à imortalidade e que dar
atenção a essa corja simplesmente banafüa meu trabalho. À cardi·
nha. dei 11ma. çaminhada. e çonversei çorn 'lêd. Não <lormi mal, mas
proviwelmeme peguei outro resfriado -111 s11pra.
Hoje: levantei-me às 6:30; me senti muito mal. Não me apliqu~i
muico nos exercícios porque me sentia indolente. Dei uma caminhada
curça e escrevi meu diário sentado oum banco. Depois do desjejum con-
versei com M. Bernier, um francês, sobre formação acadêmica cm ma.
temática, e sobre seu amigo Malinowski em Paris. Ele é da Nova
Caledônia, muito viajado, zombeteiro, simpático e civilizado. Cobrou.
me 15/- por um saco de nozes de areca. Às 9 fui ver Higginson; prepa-
rativos par.a a viagem. Às 10:30 parti num barquinho pequeno nuno a
B<>w. Mar de almirante, encrespado, bem no nível do barco; em toda a
volta, uma coroa de morros. A corrente e o vento eram favoráveis. Senti
um pânico nervoso que procurei controlar. Mentalmente me preparei
para trabalhar em Roge'a. Um grupo de nativos estava 1tguardando

*flil'i er:\l'n ex.1*'ieVC$ c:On\ttdai$ t:11tre (>$ rn<HU$ JC$idt11t~ n~ :1 rrcdo1~ d<: Port Morc;$by e crilx-1
do golfu dll P11puu.. Os motus p1tniam em $U!U ca:1.0il$ (/tdar~1) com carregamentos de cetimica f
ornacos de conchas, que co:ncn::ia.liuvatn l'X)l'll ().$ papo:is CfO tr<x;;t de 3agu e dQs pc$ild0$ 1ron~
cKa\•ados que utiliza\'am na consuução de s'1as canoas,
"'*F. R. Bartoi1, C.M.G., <1u<: ('Q:1t1M.ifa º" obr:.r. TI..· 1\Wr.:4$Í#t:1 e/British f\'lw Gxbi«1 (Os md .in~io:s d11
e
No>t'l Guiné brit.in!ot\ de G.Sclisnla.n;-su! dcsc~ Jobil'i é 1?tc11iCio1~d:1. Cl'll .tl rg~uNla$ J6 Ot.wd() P.Kf/k1&
UM DIÁRIO NO SF.NTIOO ESTRJTO 00 TEllMO 159

rtbrcha]. Navegamos na direção de Kwatou. Vimos alguns barcos. Fiz


'k-senhos dos ornamentos. Os intcrc-sscs cientí6cos e artísticos (mania
<lc casca de tartamga) se c<>mbinaram. As dimensões do barco grande.
e.huva. Sentei-me e conversei. Uma l eve fadiga, apatia com relação ao
oneu trabalho. A ingratidão desse trabalho esporádim. A falta de pecu-
l111riclades dessas aldeias. Devia tirar umas fotos dessas aldeias ordinárias,
11.1m meu trabalho descritivo sobre a Nova G1uné. - Sentei-me muna
' 1$a "missionarizada" e conversei com um grupo de indivíduos nativos.
Regresso. Senti-me bem; dia frio e úmidn; céu e mar cinzentos; monra-
11h<JS azuis, cobertas de névoa. Elewara volrou da casa da srta. Grimshaw
e1). Conversa no pát io do pmídh com o sr. Headon. Ele me prnmeteu
11111 barco melhor no dia segninte e uma permissão pMa falar com <>s
1irisioneiros. Peguei os pentes para o Ted ( 15/-!) e recebi recomendações
"bre o meu pence. Depois da ceia, conversa com Aumüllcr sobre
V11rrcbcly. .Manifestei meus sentimen.tos e juscifiguei a conduta d<JS au-
111ridadcs. A seguir conversei durante algnm tempo com Hiocoo, Davis
1 /1 nnie; comei providências com Ted !I respeito das nozes de areca e me

•11cci para escrever uma carta para E. R. .M., mas escava cansado de-
u111is, e em wz da carta escrevi o diário. Agora vou para a c;una.

l lumingo, 25. Ontem não escrevi o registro do dia (1111tito r11i111!). Mas
110 pode se justificar pelo fato de qne na sexta-feira registrei os even-
'"I <)e sexta. Agora devo relatar os acontecimentos de <>mem.
Ontem: sábado, 24, eu me ser\tÍ bem ao me levanrar, mas logo de-
i ~>IS fiquei muito abatido. Não fiz meus exercícios, fui dar wna cami-
11h,1da, e escrevi uma carta para E. R. M., sentado num banco com vista
t• "'' Roge'a. Higginson passou por ali. Os mosq1ucos teimavam em me
11nrmentar. Eu não esravamuiro bem cmocionabnence. Pensei nos meus
1•l 1nos para o dia-terminar os wag-.as em Roge"a; escudos comparati-
"~ das canoas; mas senti que minhas idéias estavam se embaralhando.
l 1111bém achei que devia encarar as <:oisas de 1un ponto de vista mais
1°10(1u1do ao escrever o diário ... Princípio: juntamente com os eventos
1 1~mos, registrar os sentimentos e manifestações instintivas; além dis-
''· 1 ~1· uma idéia clara da nacureza metafísica da existência. Natural-
'"' 1\tc, treinar-me para manter um diário influencia meu estilo de vida.
160 l3RONJSLAW MALJKOWSKI

- Depois do desjejum me apl'ontci. Fui com ChMli.e, seu filhinho, dois


prisioneiros, [Davis}, e Ginger. Havia vemo, navegamos depressa; cen.
tei conversar um pouco com Charlie, ao mesmo tempo apreciando a ex·
pedência c.k velejar. Mar inquieto, cinzento e azul -há 11m q11ê de ex1b
mme iflliifarença n!IJ ,tztds e.ic11r11J e d11za de 11m 111ar bl'aviq. Morros verdes.
Roge'a envolta em vegecação macia, de um verde-escUl'O que sobe, Íll·
g reme, na direção da planície coberta de sagüeiros, coqueiros e areca:s,
entre os quais se encontram casinhas cinzentas. Navegamos à co11M viu•
dos de Kwantou; focografoi 1un pequeno barco e depois o-wagtt; em sC>
guida fui até a casa 011dc havia estado no dia anterior. Q)oversei com
Charlie sobre o k11/a e sobre o comércio entre as ilhas. Depois almocei,
tirei medidas do wagtt, fotografei-o; a chuva escava se aproximando e
amaldiçoei Ginger, que havia saído sem permi.ssão. Desloquei-me para
o lado leste; inspecionei a -waga. Paoayati e seu caráter artístico. Regres·
so; os meni1111J remaram; Giogcr CallSOu uma impressão de simpatia. -
Voltei muito cansado; escrevi uma carta para E. R. .M.; jantar. -Senti·
me 11it1ih1111et11e febril. Conversei cotn :1 sr:i. Gottotl. Mosttei-lhe os pen-
tes. O sr. e a sra. C~tt. Savillc. Fui falar com Smith, que me deu liç<>éS
sobre como curvar os pentes, depois debati os modelos com ele. A se·
gufr volcei e me preparei para me recolher, in<liforence, caosado,ftbriçj.
tante, quase sem tôous emocional. (Mas o pensamento de qllC chegariam
canas do sul me alegrou.) -Ted veio e me convenceu a descer; bebe-
mos gi11gff ale e demos uma voka no t'1is. Planejamos 1una viagem para
Simsim etc. 'fambém a Iwa, Gawa etc. Fomos para a cama carde; em
cercos momentos, ataques de voJúpia, mas eu os repeli. Pensei nos mew
modelos, mas pensei pouco em E. R. M.

Segllnda, 26. Ontem tive o que cosnuno chamar de mn r11aq11e febril,


uma pqutadeftb1~. Indolência física e mental. Ontem, por exemplo, nãó
senti desejo de dar cami)lbadas, nem tinha forças para isso, nem mesmo
em corno da ilha. Nem tenho enel'gia para pegar no trabalho, nem mesmo
de escrever canas para E. R. .M., ou revisar minhas anocações emogt·áficas
Além do miús, escou extremamente irritdw~ e os berros dos meninos e
()litros mídos me atacam horrivelmente os nervos. O tônns moral ram
bém está consideravelmente mais baixo. Um embotamento emocion·al
UM DI.Ál\JO NO SENTIOO ESTRITO 00 Tôl\MO 161

- penso em E. R. M. de maneira menos intensa ()Lte de costume. Me-


uor resistência a pensamemos lascivos. Nitidez da concepção metafísica
.lo mundo completameme empanada: não consigo suportar estar comi-
110 mesmo, meus pensamentos me puxam de cncootro à supcrll:cic do
mundo. Sou iocapaz de controlar as coisas ou de ser criativo com relaçã<>
110 mundo. Tendência a ler coisas d; má q11a!idade; folheio uma revista.
Busco a companhia de diversas pessoas.
Eventos de ontem. Levantei-me às 6:30, sem ter dormido muic<>,
lihviameme. Bal'bcei-me, planejando trabalhar com meu material, es-
\ rever para E. R. M, diário. Antes e depois do desjejum, diário. De
111:1neira não muito intensa. O capitão Hope interrompeu essa ativi-
1li1de. (Conversa sobre a proibição de enviar dinheiro da Inglaterra, suas
111vectivas amiinglcsas e antiaustraüanas.) Depois resolvi dar uma ca-
1ninhada ao redor da ilha e escrever para E. R. M., mas me senti/ebri/
'' füi procurar Smith. Ele falou em enviar meus modelos de pentes para
<-011 irmão; fui colhido de surpresa pela idéia de que idealizei os mode-
los, dei a ele a idéia e ele a iria explorar comercialmente. Mas à colo-
•111ei de lado. Voltei para casa; depois do almoço me sentei e fiz alguns
1lcscohos. A /411cha partiu sem mim .. Deixei claro que estava irritado,
• mbora comigo mesmo tenha decidido que preferia ficar, fazer meus
•lcsenhos e escrever. Um dia ensolarado a oeste. Nuvens azul-escuras.
Annie e a sra. W. ficaram cm casa. Embora apenas alguns minurns
111tes eLt tivesse sencimentos "genuínos" e "profundos" por E. R. M.,
'"'º consegui manter minhas mãos afastadas dos corpos das meninas.
llcpois, ressaca moral. Não consegLLi escrever para E. R. M. nesse es-
111do. Li a revista. Saville apareceu ern companhia de R.1msay. Depois
.lo jantar (conversamos de Lun jeito um canco acídulo sobre a lancha de
li d). Depois me sentei na varanda, fui acé o a11corad&111·0, mandei Ginger
1S,u'iba, apreciei o maravilhoso mar azul-negro, cintilando de um lado
•11111 mn fogo cor de bronze. Conversei com os homens; um deles,
MtCrow, com uma voz bem cultivada, fala com um jeico de clérigo,
1•t1r6n pragueja como wn soldado da polícia momada. Relatou urna
lougu horrível emre dois sujeitos n() "Souchern Cross"*; em segµida,

'1ltvfo um n.i.vio miHionlÍrio ~tólko <om esse n o1:n~.


162 lll\ONISLA.11(' MALLNOWSKI

fulou sobre Wemer e comocle foi assassinado; sobre rert<ibtl«fl'viag


entre Cabo Nelson e Banyara. Conversamos sobre religião; rodos
ses Slljeitos são ateus, não crêem cm Deus, criticam a Bíblia de u
ponto de vistft racionalista e, de modo geral, cêm umapen/Jec1ivtt sau
dável. No dia ftntcrior havíamos debatido religião com Tcd Aucrbac
ql•Ccitou (Joseph} McCabe {famoso racionalista britânico} e {Robe
G.J lngersoJJ [conferencista e escritor americano agnóstko}. Por q
alguns divulgadores têm êxiro e ourros não? - Depois, conversa e
grupo... Subi, sentei-me na varanda. Pensamentos lascivos. Tem
afasc:\-los: ~Submerja na corrente metafísica, mais profunda da vid
onde você não é varrido pelas correntes submarinas nem jogado pel
ondas. Ali essas coisas não existem. Ali sou eu mesmo, dom ino a mi
mesmo e sou livre." Infelizmente, esse lema - poderoso cm si m
mo- n1io é s11ficieotc. Tenho pcnsu mentos lascivos ... Pcuso na récm
ca de dcflornmento gradacivo ... não prccisn ser um aro brucal t11J qu
Maupassant o concebe. - Penso cm E. R. M. quando me deixo lev
pelos excessos lascivos da imaginação e desejos adúlteros - qu11is
riam meus sencimenros se ela... ?... Cunsndo;Jtóril, vou para a cam
durmo um sono leve e ruim. Acordo com freqüência. Esta manhã 1
vantei com a cabeça confusa, sint0ma característico do uso de quinin
dia úmido, pegajoso, cinzento. Camadas de nuvens horizontais e ach
cadas sobre o promontório. Esta mnnhã resolvi aplicar toda a min
força na superação do estado febril. Não ler wmances, não ficar à to
Perceber o que tenho a fazer e fo<.ê-lo; preparar as coisas e tcrminA-hu
escrever !\S cartus indispemá~~is, cortar um ou dois pentes além dos
prontos.

TcrÇ11, 27. Hoje é o último dia do meu cativeiro em Samarai. Pccci


estar muito ativo, recolher minhas coisas, elaborar uma lista de b
gagens, terminar algumus cartas erc. Não estou muito indolente, m
não me importaria em me deixt1r derrubar e ficar lendo romance
Penso com freqüência em E. R. M., porém sem uma devoção absolut
Ainclu a vejo como minha futura esposa, porém estou tenmndo m
perSLLadir ele que ela é realmente a pessoa mais adequada. Em pen
sumenco, volco a Tósk11, e me lembro de cenas da rua Fitzroy, nº l
UM D1Aruo NO SENTIDO ESTRITO DO TERMO l63

<' dn Mccklenburgh, 6, dizendo a mim mesmo que ela ei:a uma aman-
11' incompadvel... Hoje, ao romper da aurora, sonhei com T. R. Gran-
1lc hotel, aucomóveis, procurei-a em diversos quartos; ela estava en-
• .mrndorn, de blusa preta com estampa florid1i, muico atraente. Re-
11cliu-mc, e fugiu à minha tentativa de seduzi-la. Eu estava muito
.1pnixonado por ela no sonho. Isso ainda persiste.
Acontecimentos de ontem: de manhã escrevi meu diário. Depois
'lt1desjejum tentei me organizar; fiz uma lista de coisas a fazer; resolvi
wvisar minhas anotações etnológicas esporád icas e escrevi uma carta
11.1ra E. R. 1vl. Mas não esrava muito bem de saúde; terminei alguns
· l~senhos; às 11:30, quando estava te111tando escrever, [interromp ido]
1•l'lo chá 111a1i11al, e encontrei Saville. Havia planejado escrever para ele,
111~s subitamente reconheci-o pelas costas. Cumprimeorei-o; coostran-
mmenco evidente e educação excessiva de ambas as partes. Fomos para
' tasa deles ({. .. ) sra. Mahoncy). Ali conversamos sobre meu livreco
nhre Mailu; cu o depreciei, ele o elogiou, não muito sinceramente.
Depois, explicações: falei sobre min!\a saúde, sobre minha manja de
porseguição etc., e lhe coocei que talvez tivesse sido menos gentil do
•1uc poderia ter sido. Eles tentaram encobrir minha faka, mas creio
•1µc nos separamos de pazes feitas . .Prometi dar-lhe um exemplar do
111cu livreco. Depois do almoço, cansado; li romances durante algum
1•·1npo, cochilei. Lcvanrci-me às 3, foi ver Higginson, Smith; embru-
lh~i os penres para E. R. M. Voltei cansado. Dei uma caminhada cm
1umo da ilha; pensei em ... ? Depois do <:há fui visirar Saville, Smith-
' b haviam saído. Escrevi l11na carta para P. & H. [Paul e Hedy). Muito
, .1nsado, minha cabeça simplesmente não queria funcionar. - Minha
•..racterísrica com os Saville era minhagé11ér01ité em depreciar meu tra-
1•.llho e criticar roeu próprio comporcamento. Ele era menos toleran-
'"· mas assegurou-me que não poderia ter me ajudado mais do que
l1.1via ajudado. - Em suma, o dia inteiro bastante vazio, do ponto de
1•11.a inrelectua.I. Brinquei com o pacote para E. R. M. Pensei em Saville,
•111cro lhe mostrar a carta de Prazer.•

•\11J11u1es Frax~r, :li.:.(()r de O r':inWd~cilro, e~tudo <.:lá~si<:O $Obre magi" e r<:ligiiio, Es<:rc~·eu o prefi·
••~ l ivro Argqx,?u/as !ÍIJ Onli :W R1tífirtl.
164 BRONlSLAW MAL!NOWSK!

Quarta, 28. Ontem minha saúde melhorou. Senti-me melhor, espe•


cialmentc à tarde. Leve dor de cabeça - livrei-me dela fazendo ai•
guns exercícios. Depois, à noitinha, me senti consideravelmente me·
lhor. À noite, um violcndo suadouro(?). Não vou beber muito hoje,
e conrinuarci fazendo dieca.
Eventos de ontem: de manhã, cuidei dos assuntos amais (Hig.
ginson, Aumiiller); depois, sra. Mahoney e Saville. Mosrrei fotos à
sra. M., que se interessou e prnmeteu me ajudar canto quanto pos·
sa. Saville elogiou minhas fotos, cu elogiei as dele, um pouco
despudorndamem e. Mas ele decerro tem boas CtJn0rts. Depois do
almoço, uma curca soneca. Ted me contou sobre fretes. Retirei
minhas coisas da alfândega. Com Ginger, Bonegai. Ted distribuiu
7'/0l'ifll a bordo do navio. Depois retirei as coisas do B. P. Burton o
nota d$ e111ba1'q11e. Desmontei. meu (?)fogareiro. Encontrei a roupa
de cama que pensei ter perdido e, provavelmenre, as pernas da mesa
Ubi'ubi (cozinheiro nativo que ele havia levado em sua primeira
viagem ?1s Trobriand}. Visita a Kwacou com os Saville e planos com
Saville pa ra desenvolver trabalhos em Mailu. Tornei a me encantat
por velejar até DobLt; além disso, o abJ11rdo de 111do. Antes do almo-
ço li Pembercon e fiz·ginástica. Depois do jantar(Solomon apare·
ceu} foi visitar Smith; alanne falso de "N1wio à vista!" Desenhamos;
ele certamenre está prog redindo, e foi tomado por um acesso de
criarividade. Voltei sonolcoto e cansado. Pensamentos !ase. a res•
peico de L. .. Adormeci apesar dos gritos dos embriagados. Ted
Hope de bateram a existência de Deus e "cu/orar o c1'ocodilo".
Esta manhã me senti deci.didameme melhor, o coração um pou
co cansado. Manha bonita e fria, vento noroeste. Ontem, durante
tarde, te ntei entender meu Sei111m1111g e analisar in flagrante meu es
tado psicológico durante meu e1tt1do febril; naturalmenre, vazio e·in
do!ência, percepçfio ruim da realidade; associações fracas 011 ausên
eia de pensamentos; ausência coral de estados metafísicos.

Quinta, 29. 11. Hoje, creio eu, vou me scmir muita bem, no q
tange à saúde; aparentemente, meu corpo precisa de um suprime
to constante de arsênico! Manhã fresca, vento de oeste, tempo bo
UM 01.Íll!O NO SENTIOO ESTRITO 00 T!iRMO 165

r ) navio está aguardando, eu o escutei soltar vapor esta manhã. Não


I" tdcmos vê-lo da nossa varanda por causa de uma árvore que o es-
11t11de. Fui acé o anco1~tdouro chinês e vi o "Marsina", cinzenco, enor-
111c; minha cabina de 30 meses atrás, associações com N. S. Ted
11\udou a hora de nossa partida para hoje à meia-noite.
Eventos de ontem. Copiei minlrns 110ocações sobre o gahana.
A~ 1O, Smith. Depois conversei com a sra. Gofton, que convenci a
1cnnar um drinque. Às 11, Saville; revisamos o trecho sobre bara'tt.
1[ç se comportou muito bem dessa vez, me contou alguns deta-
lhes mllito interessantes. À 1, almoço. Depois, calor, indolência;
1lc'1tci-me durante algum tempo para descansar. Às 3, levei um
•ln1sílio de vidro grad11ado para Graham. Assisti ao banho de tuna
~1tiça de nome Mary. Conversei sobre Campbell com Bílly Priest.
l 11 i até a varanda de baixo, fiz alguns desenhos. Fui falar com Smith:
1111tado pelo fracasso, reda mações sobre" a estupidez dos ingleses",
' I"~ não cêm ferramentas adequadas nem serras tico-tico. Depois
1ln jantar conversei com a sra. Gofton, que fala sobre qualquer coisa
t11loradamence, mas de quem gosto como uma "Marnie Masson
' ~helezada". As 7 :30 fui ver Savillc. ltnp&r11111a-me reclamando de 'yor-
,, m im1111doJ''. Mostrou-me Sllas anotações. Toma isso como uma
• knsa pessoal. Conversamos sobre a g uerra; ele disse sem nenhum
1 110: "Bein se vê que você não foi partt nenh11m campo de concentra{ão."
Kc pliquei de uma forma baseante incisiva. Ela, como sem pre, mais
1 m comportada, menos indiscreta. - Voltei num estado de Jj.
• 1rn irritação. Dei-me conta de que S. é um grosseirão que me dá
'"" nervos no momento em que põe as manguinhas de fora, e que
111 incapaz de tratá-lo como intermediário p11ro e simples. Na sua
•11ml(da<lc de acessório, ele est<\ associado a minhas impressões e
1ht•Ões tropicais, inspira em mim certa afabilidade. Como perso-
11 didade ele é repulsivo e desprezíveft: rmimfsero q11itanrlei1-o infla@
I t s11a empáfia 4 t1ma raricat/lra de mn mísero saberrmo. Pensei em E.
ti M. e no gênio dela que se harmoniza tão naturahneme com o
111r11, como a Terra Prometida para mim. Chuva corrcr1cial, vento
lo to t de noroeste varre a varanda. Dormi bem.
166 BRONISJ.AW MAUKOWSKI

Segunda, 3.12. Sinaketa (aldeia na ilha de Boyowa, nas 1tobriand],


Varanda de George.* À esquerda, algumas palmeiras, bananeiras e
mamoeiros. Casa nativa, com cem de folhagens de sagüeiro, paredes
de varas de mangtie. Algumas peças de mobília dilapidadas, mome.i
de sapi-st1/Ji. No mínimo 200 cães e gatos. Esta manhã fui desperca-
do pelo ban1lho de wn cão asmático e por nativos que tagarelavam.
Eventos dos últimos dias:
Quinta, 29. l l. Chegada do navio. Depois do desjejum escrevi
para E. R. M., com alguma dificuldade; reatando transcrever odiá-
rio J>ara ela. Dificuldade em descrever meus lapsos eróticos. Pui ai·
gumas vezes ver se havia chegado alguma correspondência. Por vol-
ta das 11 recebi canas: Paul ; o telefone me irritou; afl ito porque
E. R . .M . havia adoecido; (cart.o. de Mim \'=". um tanto desc11idada).
E. R. M. - li rapidamente, sem concentração. N. S. - problema
diticil quanto ao que escrever. Não fiquei ofendido com <t "i11si1111a-
ç,io" na C<trta vinda de Syd ncy. - Depois do almoço, escrevi para N.
S., para Paul (brevemente), e palestrei com diversas pessoas. Mais
para a tardinha, reuni minhas coisas e as enviei para o "'Jtaka". Às 9
Ted disse que escava pronto. Terminei a carta para E. R. M., deJ>OiS
peguei 'Jl:d de barca a vapor. O porco esrava banhado pelo luar. O
"Marsina", imenso e cinzento. Fui para a parce da frente [do navio]
e me deitei sobre ttma vela; estre itos da China. Dormi.
Scxríl, 30. l l. Despertei ao miar do dia perco do Cabo Leste.**
Acima da água, palmeiras e rochas que os reflexos aquáticos pincam
de vúrios rons. [ ...]Maravilhosa impressão da natureza e ambicnce
genuíno. Vista [da ilha) de Normanby arrematada pelo monte
Bwebweso. Impressão de uma sujeira indescritível neste navio. Dor-
mi. Despertei refeiro perto de (Ubui]. Li a última carta de E. R. .M.
Comecei a escrever. Esbocei silltuccas de monranhas e ilhas. Conver-
sei com os meninos sobre cenografia de Nor.manby e Dobu. Bsrrei-
ros de Dawson. Corrigi minha impressão original. Ao chegar lá, diance

•Go0rsc Aucrb:1ch, <.:omc:1dantc das 1tobri:1nd, 11mls;o que a.judo,• ~fo. linow~ki de dlv~t•n~ fu1m-u
lCd /\'.1ttb:11:h <ril, evidcnten~entc, um pAccr:tc d-ele.
~ •f\1 :.hnowski dcscr~·cu C$t;i. \·i,ascm no tt~ l-e11•tt<1.mcnto gcr-1 do dnui'o do •lffJ, no hvro
Arp.1WMLh J., ~Jk J,-, RK/foo, pp. 38·)1.
UM O ! AfuO NO SENTIDO EsTRJTO DO TERMO 167

de nós, <lS costas íngremes da [ilha de} Fergusson; deste lado, uma
ilhota e um ottteirlJ coberco de árvores. Velejamos encre a ilha e o Q1t-
1eiro. Um platô baixo, coberto de jardins e selvas; entrada esrreira,
como uma lagoa. A seguir uma vista mais ampla: do outro lado,
primeiro um litoral escarpado, as montanhas recuam, um planalto
baixo, longo e amplo; à direita um paredão [alto} com muitos desfi-
ladeiros e picos. Depois, uma nova curva; Dobu, vulcão extinto;
Bwayo'u à esquerda e cadeias discances em Normanby, além de Dobu.
Subi a escada e aprecie.ia maravilhosa paisagem. Crepúsculo; desci,
me lavei, me vesri. Fui procurar Scriven. - Aparência de ouro se
derretendo em uma vasilha de calcedônia. Conversamos sobre a be-
leza de Dobu, e etnologia. Ele meocionot1 2 pedras [nas qLta.is] eles
oferecem sacrifícios durante o k11/a.* Comprei uma gramácica. Vol-
tei ao navio. Rapto de Ogisa. **Viagem aré Bwayo'u. Tornei a subir
a escada. Tornei a desembarcar, Ginger com a lanterna e ourros me-
11i11~s - fomos até o local da dança. Lua entre palmeiras, lim<>eiros e
pés de fruta-pão. As aldeias são irregulares, ca.sas sobre pilastras, mal-
c<>nscmídas. Examinei algumas casas - s(mbe que há uma come-
moração cada vc7- que se termina uma nova casa. Cmioa.r do tipo
Boyown; mas nenhum katipo11!0. Voltei e rne recolhi.

•Segundo n. un.dição, 8$ du11.s pedras, Atu'a'inc e Ato1anlo'o, eo1ar1' hona::\.' ciuc hin1i!'lm r.ido erans.·
(onnados em pedra .
.... Niuí~·o (l\lc pc;nnanc<:cu com de do!íl.ntc 1odt1. essa cxpcdisio.
MAS SIM

MAR OE CORAL
O DISTRITO
DOKULA

'IPiVAVA\'IATA
f lt"-CA\VA


""'--- ------------------
MAR
D E _O
SALOMA

l !lNAL
170 DRONISLAW MAl.INOWSKI

Sábado, dia 1.12. De manhã cedo, passamos por Dobu. A ex]


tremidade mais distante dos escreicos, onde exisccm alcas monca
nhas de nmbos os lados, parece belíssima. O sol ergueu-se vagaro-
samente. Conversei com os me11i11os, colhendo dados geográficos
sobre as il has Goodcnough & Fergusson. Aproximamo-nos d~
Koyatabu, • coberta de nuvens. As Amphlecc, diance de nós, bro-
caram do mar. Volta e meia cu assumia o leme. Escrevi e li as carcas
de E. R. M. Almoçamos. Às 4, G umasila. Êxtase diante das bela
formas. Maravilhosas moocanhus escarpadas cobertas de vegcca
ção frondosa, pontilhada a espaços por cabanas. Abaixo, alras pal
mciras curvando-se sobre a água sombreada. ] úbilo: escuto a pala-
vra. "Kiriwina" [out ro nome para as Trobriand; de forma mais es
crita, a pcovíncia secencrional de Boyowa]. Preparo-me; cabana
pequenas, ncinzemadas e róseas. Fotos. Sensação de uomínio: eu
que vou descrevê-las ou criá-las. D esembarquei; cercas escram-
bócicas; casas miseráveis sobre pilasrras; {... ]As mulheres fugiram.
Sob cada casa implcmeneos pafB fabricar cerâmica. Vêem-se uten-
síl ios amarelo ocre sob cada casa. - Tento conversar com eles; fo.
gcm, ou mencem. Canoas: quacro ou seis 11u1sawas, conscruídas com
kalipo11/q, mas se chamnm ketuo'lf. -Vamos para Watobo'u. Koya-
tabu claramcme visível, formas rnaravilhosas. Wawima e \'V'acobo'u
se afastam vagarosamente, desaparecendo poc crás do Koyacabu.
Nuvens escuras. Somente sobre o Koyacabu um anel de faucásci-
cos cúmulos, iluminados de dcl\rro como qtte por um fogo arden-
te, mno bmxa1 em tomo de 111n cri/deirão 110 qual brilha 11111 fogo demonfaco.
Impressão deslumbcance de algo real. Escc grupo é como a parcc
mais bela da aista de Queensland, mas não renho a sensação de escat
num lugar selvagem - atraencc, porém amorfo. Aqu i tenho uma
nítida sensação de estar empanturrado de vida. Aqui poderia me
escabelecer d4 armas e bagagms. - Olho a vise.a maravilhosa para
sudoeste. As rochas íngremes de Gumasila. Depois conccmplo Ní\·
bwagcta e Dil ibaloa e cento decidir em que direção a vista é mais

+0 1-at1.Jc ruonuanha 011 parte nouc da ilh:• fcrgu11on, \'iSívcl ncé t1s 1fobrl11nd, ll1a ronsirlcr•d11um•
tnôntilnha sag~J;i,,
UM DIÁRIO NO SEN'flOO EsTRITO 00 TtR.\IO 17 1

bela. - Chegada a Bilibaloa - uma paredão, contra o qual as on-


das arrcbcnrnm ; entramos devasar, as formas se tornam cada vez
mais distintas, as ondas mais altas; lançamos âllcora. Comemos.
l7lli à cerra numa canoa; cansado. Passi1mos por uma aldeia; brinca-
mos sobre [...}. A lua nasce. Voltamos: rochas, as formas escuras
das árvores. A aldeia escá deserrn. Uma mr<Sawa. Casas miseráveis;
os troncos das árvores parecem escadas. Examino o interior de uma
rnsa: duas lagims. Atravessamos a água até \Vlatobo'u. Ali eu aguar-
do; uma casa vazia em meio ao manguezal. Um grande tambor.
Eu o toco. Regresso.
Domingo, 2. Levamo-me sentindo mal. Dia cinzenco. Fom1as
rs/1arra111ada.1 de \Xlatobo'u & \1í'awima. Esboço um contorno elas
diversas viscas. Nabwagcca. Colin:• baixa e suave, e uma alde ia
be m g rande sobre a areia da praia. Paredões de pedra também.
Casinhas espalhadas entre as árvores. As mulheres não fogem.
Compro três objecos valiosos. Uma velha sob uma casa confecciona
um pequeno objcco artesanal. Vemo e chuva. Partimos. Dou uma
olhada - acima do morro baixo a oesre se pode ver o mar
tinzenro. Nuvens passam depressa 1á no alro... Uma nuvem escura
na direção de Boyowa. .Maravilhado- meus planos estão toman-
do forma. Depois deito-me e cochilo; chuva (após se larg ar todo
o pano e se ferrar otoldo). Ginser fa:1: minha cama. Senco-me numa
vela, que foi forrada e amarrada. Um pouco cansado, mas não
perco a corngc m - esrou resistindo à tentação de ler romances.
J\s Amphlctt se afosrnm. Meus ossos doem horrivelm ente. -
Comemos um jancar frugal. Ted trabalha no mo to r e não esrá
disposro a conversar. Pescamos alguns peixes. - Aparecem umas
1lhoras. Quero chegar ao meu destino, mas me sinco bem. O mar
fica verde escuro. A sutil e fina linhn do horizonte se rompe, fica
mais g rossa, como que desenhada com urn lápis rombudo. Depois
ga nha d imensões e cor - um verde acinzentado vivo. Os 111eni11os
desfiam nomes: N anoula, Yabuanu (?), [Muwa]. Palmei ras e
outras árvores pa recem estar brotando direramence da águn.
Vakuca, G iribwa ; escamos em uma lagoa. As [linhas} amp las de
Kayleula; a ilha inteira diante de m im. Converso com Ted sobre
172 IlRONlSLAW MALJNOWSKI

diversas coisas, sobre Waite, * sobre os antialemães, Osborne, a


l?tview de Stead. ** Lavo-me, visto-me, preparando-me para me
encontrar com George. A baleeira de Campbell. Admiramos as
plantações de Muwa. -Três casas na praia. Elnbarcamos oo bote.
George de camisa amarela e calças cti.q11i. A casa é uma palafica.
Nativos e mulheres vestidos de morim na varand1t da frente. A
v.itanda dos fundos (sem vista para o mar!) é reservada a George.
George, muito gentil para com igo, rep reende Ted imp iedo-
samente na minha presença: por perder navios, por não comprar
coisas cm Saro arai etc. Contou-me histórias sobre Brudo, ••• que
mbesth/14 sct<S prejuízos. Li Boletins. Muito sonolento.

Segunda, 3. Gomaya;**'* eu lhe dou um pouco de tabaco; ele


111endig" m ais. Notícias: Gilayviyaka*** '* e M'rnbalu''***** mor-
reram; 1b'ltJu,va******* e Ba,gido'u******** estão vivos. Nada
sabe a respeito de Vakuca. Com seu 1·osto semelhante ao de um
cão, Gomaya me diverte e me atrai. Os sendmencos dele por mim
são utilitários, em vez de sentimer\tais. Depois do almoço parei,
mos no "lcaka". Conversei com George. Uma vez mais escava na
lagoa verde com as vistas fam iliares - Kayleula, a lagoa com o
canal ao longo dela; Kavataria; Losuya. Desembarcamos; vimos
o molhe onde eu havia caminhado e me sentido tão vazio, rão
infel iz, ol hando para o sul, navios nos quais os prisioneiros traba-

•Tileodor \XlclitC', ar.tropó!o;;o \llcmão, estudioso pio:i.ciro (1821-1$6'1) do pcnsâmcn10 p1i1n icivo,
<1u" acrtdit:tva n ~ i.:;u ~ ldadc (hs r;i.ÇJ1:1 e nos cf:citos prcjudfd ai$ <IQ amb~<::nt<::. $-\:a obt;i nli\i$ im por--
t~:itc foi Ar.fhro}tl').fe>gir:Jçr N:t!JJ•ti~itrr (Anuop-o!o,i;i.a dos povos n:itu tais}.
•A-.J(~1.itu1 of l~vitwJ, d!.'.' \X'illia1n ·n~o:oa~ StcJ.r-1 (f\1ndada ccn lS90).
•**'Sr. e $fit. R~ ff11el ilrudo, c-0mcr<:i11n1cs frnoccses de ptrolas na área das 1fob1iM'ld, se torniu :i.1..11
s1and~ á1nit;os. (:e ~f:l!inov."iki.
'***"'Gc:>1n:i.)':t, n:itivo dcSia.llkCt.'l c.111e foi Vil) d4S primeiros infu1nli.\ntC'S <!e .t.{alino,,...'Ski c1n KiriwiDa,
~ de$Cfito con10 om <analh11 notório cm A tli:ktstxuul t/Q s stl!~ib'"' ·
****kGiltiyvi)·;1ka, filho do d~cfc, i;t:j<> o;1ro C<>Jn VOlil d~$ viú,·;i$dC$CO pii ha\'i:lcausado um gr-an·
d e cscindalo.
*., ****~ft :·1 ln.fv, ('hcfo idos<.> dç Kis;inil'i .
.. .,., .• • il+'JO'ulo\\.'11, <he(cda provincia Kiliwin.11, e, p<>r<anto, o mai$ áh<> ckefod;u. T1obr i~1nd, n'IQr!I
va <.:rl'l On}:1rt1':1 11~ e era ' ' ln gr;ind<: Mni.go e in(onna.ntc d-e h{alinov.-ski.
.,.,.,...,..,. ,...Ua5ido'u era o filho 1n aiSc vcU1ô da ii:nil d-e T<>.uluwa, e, port;utt<.>, ~p;i.rentc herdeiro d.i.
<:hcfi:1. 51,:a expulJâ<> d(ilm ~ tica do fil ho f,,.,•oric<.> do chcfo, doi$ nnos ante$, é de!.<'. tita no livro A v/1/a
uxna! dt.;1 sr/i:-ig,n1.
UM DtÁRIO !\O SF.NTIDO ESTRITO 00 TERMO 173

lham, arecas, a "plantação" de árvores frutíferas;( ... ] Campbcll


pareceu menos odioso agora do que ames (do que eu esperava).
[Acuou corno juiz) no julgamento de W'illiam; aguardei, nervoso
e impudente. - Comportol1-se bem, embora faça objeções sem
1111ponílncia; porém, renovou o conrraro da meu menino sem fü1-
1lores. - N:1vcgamos até Gusaweca; ficamos encalhados n:1 i(lffilt.
C:r111oa1 de Teyava trouxeram minhas coisas. À noire, navegamos
tonrornando a curva conhecida. Billy• havia ido para Kiribi
[cmreposco próximo de Hancock]. Verifiquei meus percences,
volcei ao navio e comei a desembarcar.

Terça, 1. Pelu manhã, desjejum aqui em Gusaweta. Fui tirar o rcs-


ro das minhas coisas do navio; planejava enconrrar-me com Ted
cm Lobu'a; desembarquei. Fui por '!Cyava. Durante todo esse tem po
(desde minha chegada até hoje, sexrn-fcira) não tenho cscaclo mui-
'º alerta, e minhas primeiras impressões dos nacivos são muito
vagas. Uma espécie de lecargia emocional; na primeirn noite ouvi
o ruído discance de um wala111 na aldeia. A seguir os avistei na va-
r.mda de Billy; conhecidos destas aldeias e do incerior. Mas não reagi
<le maneira muico incensa. - Em Gusaweca comecei a organizar
niinhas coisas. Por volta das 4:30 Billy chegou. O que George me
lhtvia dito sobre ele - embora seja obviamenre uma calúnia -
c·~cragou o prazer da primeira impressão. Ele tem urna voz anasuladn
~ parece muito jovem e saudável. Conversamos sobre focografia,
p6rolas, Vcrrcbely, a guerra. Sencamo-oos juntos à tardinha, para
1<>gac conversa fora.

Quarca-feira, 5. Senti-me debilitado o dia inteiro, li romances de


mã qualidade. Eles não prenderam minha atenção, e cu rnmbém
11110 me inccrcssei pelos nativos. Não tinha vonrade nem de falar
1 Cllll Bill...

•1~~11y Han(O(Jc, comcrclantc d;l ár<:;1 d;i,s 'Iiobti~nd, C:fll smit;<> h~ümo de 1'-iilUnowski, o qu.tt
1 oqucntcr:1c-1uets-c: h~pcd;1v;i cm.sua cas:1., c1n (iuj,;1wec.a. DM.11p:ucccu sobdtcun.uin.ci•s miJtcrto•
Ir ct11S•mar11I, no final da d&a.da de 1920. A c$poit dtlr a(r.da C'$t:a.va. rnor;iodo em Sil)lllrr.t1a em
'#li
174 BRON.ISJ.l\W MAU1'0WSKI

Quinta, 6. De manhã, conversei com Cameron. examinei a câmara


dele. Depois (definitivamente de ressaca) rerminei de le r Bmus1er's
Millions {romance de George Barr McCutcheonJ. Depois preparei a
bagagem. Billy foi aré a casa de N onnan Cacnpbell. À tardinha con-
versei com Bill. Com alguma relurância fui até a aldeia de Tu-
kwa'ukwa. Não tinha a menor idéia do que ia fazer por lá. Entabulei
um11 conversa com um dos nativos, depois me senrei, e um grupo se
formou ao meu redor. Conversamos, e eu remei compreender a lín-
gua deles. A seguir, sugeri que me concassem '111kwfmeb1t. Uma se-
11hom começou a falar. Depois de uma pausa, eles começaram a
papaguear - u ma balbúrdü1 horrorosa. A seguir, um homem co-
meçou a falar alto - quase gritando, a dize r indecências, e a aldeia
inreira caiu na risada. Repetiram piadas continuamente, codos gar-
galhavam. Eu me senti um pouco v ulgar. Voltei para casa. Conver-
sei com Bill. Tomei mais quinino e calo melano.

Sexta-feira, 7. Pela man hã (aguaceiro monsmtoso à noite}, barcos


pescando peno de Boymapo'u. Vi as redes triangulares. Depois es-
cutei soar uma ta'11ya. Três barcos voltaram de Vakuta. Fui até a al-
deia, examinei so11ÍfiWtJ. EspccL\lci se eu sou eu mesmo ou meu irmão
caçula. Conversa sobre k11/a. Desjejum. Cem para aprontar a baga·
gem. A noitinha fui atéTukwa'ukwa através de Olivilevi. G inástica;
{Ogisa] segurou a Janrerna; escava apavorado. Regresso. Na aldeia
de cima, os nativos me mostraram redes e conversaram sobre pesca.
IV1'1warieb!I. Sensação de absurdo menos incensa. Forre impressão de
que minhas informações sobre pesca são muico inadequRdas. Depois
de voltar para casa, conversei com Bill, que apontou erros no meu
artigo.

Sábado, 8 . Levantei-me tarde, me senrindo fraco, apliquei-me tun


enema. Por volta das li, saí; escutei gricos; {gente de] Kapwapu
estava trazendo 11ri para Teyava. Sentei-me com os nativos, conver,
sei, tirei foros. Voltei. Bllly corrigiu e suplementou minhas anora-
ções sobre wasi. Em Teyava, u m senhor de idade conve1·sou um bo-
cado de tempo sobre peixes, mas eu não o encendi muito bem. De·
U M DIÁRIO NO SENTIDO ESTIUTO DO T ERMO 175

pois fomos para o bwaymtt dele. Conversamos sobre tili'11. Eles fica·
r1Lm o rempo todo me fazendo perguntas sobre a guecca. - Ao cair
''ª noice conversei com o guarda sobre bwaga'11, lili'11 e yoyova. Irri·
1ci-me com as risadas deles. Billy tornou a me contar diversas coisas
111reressances. Tomei quinino e calomelano.

Domingo, 9. Dormi bem ... Senti-me bem. Billy afirmou que seria
1Mlhor partirmos para Kiribi imediacamence, naquela mesma tar-
de. Fiz rapidamence as malas (estou mais interessado cm desenhar
lkem} do que em emografia, que düá nas bagagens). Fiz listas das
1·oupas de cama <lc que irei precisar e das coisas indispensáveis à
1ninha vida [nômade]. Depois do almoço, terminei de anumar a
l>agagem, às pressas, e partimos às 3 :20. E11 estava cansado, mas
.1inda me restava uma cercajoi~ de vivre. Fitei as águas verdes como
capim, os manguezais com suas sombras suaves e verdes intensos,
os peixes-voadores, as plantas subaquáticas. Chegada; casa cerca-
d(l de palmdras; as profundas e cavernosas sombras entre os tron-
tOS delineiam clareiras no manguezal. Perto da casa, um bwayma;
1lcpois uma casinha de folhas de ílandres. Uma verdadeira mix6r-
dia; quis rirar fotografias dela. Ilumedoi me ignorou. Descmbar-
<1uei na praia arenosa e escrevi uma carta para E. R. M., porém
-.~cn grande entusiasmo. Voltei para almoçar. A seg uir conversei
t om Billy. Anoice sentei-me com Ilumedoi e Moliasi;* esre úlcimo
me mostrou um abscesso horrível na perna. Conversamos sobre
l11wJga'11 e yo;•ova, sobre as mulheres de M'rabalu, que fugiram, e
~obre o fato de que em Kasana'i não havia governante; sobre a
tolhcita de cogumelos, sobre ( ...] odila. Gostaria de compreender
,1Q menos merade do que Moliasi dizia. Não consegui dormir por
" tusa da tagarelice interminável.

• ,\ toliu i Cta 1.:Un d1c(c de SC$Or.<IOC$Cafio, SOVCJn,'fntc da provír.da de Tifatil.U) ~, C, por u;.1.dlção,
u~tl) i6-o e priodp;il ri\'1tl de To'uluw~ . Q ll);l i$ 1-ho çhçfe da províoci; de Kiriwii11. ~1 ali no\\i:lki Jcs-
1ovcu•o n() livro Atgtm.111a111 <l<J On11 r.h l"J<JfktJ co1no u1u "velho patife".
176 DRONJSLAW MAl.INOWSKJ

Segunda, 10. De manhã terminei acarta para E. R. M. Revisei meus


papéis e anotações sobre kayasa, e elaborei uma lisra de problemas.
Sentei-me com alguns nativos, incluindo alguns de Louya e Bwa-
dela, e conversei com eles acerca de ka)'asa, sobre a ida para Oka-
yaulo. * Mas as informações deles fornm vagas, e eles não falavam
com concentração, só para "me despistarem" . À tarde conversa-
mos o utra vez (não me lemb ro sobre o quê). Li vorazmente Whee/J
ofA11a1·chy (As rodas <la anarqu.ia) [romance de Max Pemberton}, e
senri uma aversão crescente a esccs nacivos. Conversa com Mick;* *
afinidade. ".Mcdicerdlneo" quando se sema agachado como Aquiles
num desenho de \'V'i•spianski. Cozi nha grcco-turca. [Pode-se} "fa·
1·ejar odesgraçado do hotel a três q11i/6metros de di.rt/i11cir/'. As idéias cos·
mopolicas de Mick. "Os miseráveis dfJs alemãetrião ten11inam es.ra guer-
..a." Mick me ajuda nos meus estudos etnográficos. "Kayasa 1odos
são a mesma d1·oga de mercado." Q uando mencionei Ilumcdoi e
1mtl11k'/JJtt11.ri: "eles 11rlo comem rN mt1·rmhas, só as cheiram". Afinal, gos-
tamos de Mick. - mar azul-acinzencado; rciroccol, maresia morna;
cabanas amarelas e simples; casas cm tom rosa pastel sobre os ro·
chedos com telhados desbocados. Na noite de segunda-feira ter-
minei o romance; conversei com .BiJJy; senrei-me um momenco com
Ilumedoi e uma mulher tagare la, e conversei sobre ... ? Escutei a
conversa deles mas não consegui entender-lhes muito bem a lin·
guagem. ('lbmei crês doses de calomelano e sais de Epsom.)

Terça-feira, 11. O [giyope11loJ chegou. Examinei e fiz desenhos de


pwata'i. Conversei com (nativos de} Tttbowada. Homens maravilho·
sos - senrí imediatamente a diferença na q ualidade das informa·
çõcs deles. Depois do desjejum conversei com um grupo de nativos
de Vakuta sobre mi{am,tla - ames do [giyope11lo} narrar seu fili'tt so·

it~stas eram u~ daSc a.!dciis na pane n1cddion-i l dç Bo}·ow~ onde as n1ulhc1~. segundo se d'U•.
pr"cil;:l\';1cn um<\ Ío!ma orgiás1ic<1 de l.il)'flJrt<l urilnte a CSl1.Çl <> Jc ClCt1:1ç i~ d1t ç,ipim1. Enl rclzâo dot
boinos, os homens de ou<ras aldd:!~ não $0 :trci!;c;flv4. m <"ir ~ :-é I~ ncssil época.
**t-.1kk G ~orgc, comcrciir.te g,tcs:;o que ji mot;iva na~ 'll ob1iar.d h11.vi:a tlluico 1empo. }.(nlioowsk1
frcq(fontcn1cn1c se ltospcd!lva n:a casa dcfo.
1S/r:x~. ver.H> c1uen:e e o-pressivo. Em itali~r..o no original. (1'i. ' "' T.)
UM DIÁRIO NO SEN"TIDO llSTI\ITO DO TERMO 177

bre Tudava.• Mas a coleta de informações não correu bem (...]. A


tarde escrevi a história de Marianna na varanda. Às 5, saí de barco
para remar. Depois do jantar conversei com os fühos do fgiyope1do} e
fiquei impressionado pela alta qualidade das informações deles. De
maneira séria, escrupulosa e lógica eles explicaram 11 narureza do
kayasa, do trabalho comunal, e corrigiram minha gramática. Depois,
tun deles recitou o Lili'u Dokonikan melhor do qtte qualquer tim já
havia feito aotcs. Resolvi ir a Tubowada imediatàmente, assim que
voltasse das Amph lett. Tagarelei um pouco com BilJy e fui para a
cama. - Coisas que Billy me contou: Brudo não tem kaloma; ele foi
para Samarai, comprou uma pérola bilrata, pagou um preço exor-
bitante. Norman CampbeJJ está completamente "falido", até o na-
vio dele foi confiscado por Qttinn, que havia se tornado seu sócio.
Bill está agindo como inrennediário: Bnu/q está com medo de sair de
Kavataria & não pode ficai· esperrmdo em Bll)~nap'ott. Camp. nem sabe
como comprar cabaço direito. Billy lhe enviou diversos [vid11J; em
vez de costurá-los nwn cinto, deu-os a ele diretamente. N. C. esrá
de bom humor, sem rancor, satisfeito, contanto que tenha nozes de
.ireca. Ele se arrasta (...] de um cxt~emo da varanda para o ourro. A
mulher dele rouba ramo quanto pode. Os amigos se lembravam dele
~omo um jovem robusto, forte e vigoroso, embclra terno. Estou de-
finitivamente comovido. Lembro-me do que E. R. M. disse sobre(...):
10t11() 11mgrande terrieresrocês. Refleti sobre as possibil idades dele. Sem-
pre tenho em menre o problema básico de Bill: seu casamento com
Marianna; o -.unor dele pelos fi lhos. Ele trata Marianna como uma
11aciva, destacando a pele bronzeada dela. Hoje penso que isso cal-
vez renha sido inteligente da parce dele, esperar o pior. Às vezes ten-
to-ou melhor, tenho [uma tendência) a sencir nele um eco de meu
11r6prio anseio pela civilização, por uma mulher branca. Andei cen-
rnndo descobrir o que o tromce para cá. Ele trabalhou 11a ferrovia; corte
tlt•de1pesas; trabalhou e111 mi11as com 2 viroriams; sit11ação precária; Broken
1lill [no sudoeste da Austrália] 011 Charles and Tou,~rs; de C.T vempai·a

•na.dava é<) hcroi c;lc IJ!'l) cic!o<.ie hU.t6d11$ r<:roncad~5 e: 11odisadas cm C<JraJ C:n·Jt,,, aptl'f/;tir AfdJ/r
tÓ'Ij"tdin$ de coral e sua ma,sfa), vol. 11.
178 13RONl~LAW MALJNOWSKI

tiN. G. parrt os campos de 111i11errJ{iiO de 0111·0, perde J.600 libras acmmtla·


daJ em Yodd<t Crl!SJ So111h, g,1sta 460. Volta t'Otli 140. Edifícr1 este l11gr1r. B
H. fala mal de George Auerbach. Fala das 60 libnis de rabaco que
G. A. se recusou a lhe devolvei·, presumindo que \V/. H. esteja em
dificuldades financeiras. Além disso, G. A. supostamente declarou
que abriria um enrreposro debêche-de-mer em Teyava e 1hkwa'ukwa
em retaliação por Mick ter comprado copm~ em Sinake rn. Billy
ameaça-o de se instalar em Kanubumckwa.

Quarta-feira, 12. Levantei-me um bocado carde e comecei a escreveJ


meu diário quando Billy me chamou. Partimos. Senti-me cansado \>
tempo todo. A cfunara me pareceu nmico pesada. Repreendi-me pol
não ter dominado a situação etnográfica e a presença de Bill me cer
ceou um pouco. Afinal de c1mt<1s, ele não esrá tão inreressado quanto
eLt, na realidade acha tudo isso uma grande bobagem. Uma vez mai~
minha propensão a admirar paisagens maravilhosas (às vezes imaginá
rias) me pregou uma peça. -A colaboração de E. R. M. na minha
investigação não é eficaz a distância. Muito pelo contrário, sinto quC'
estou desempenhando tun papel falso e que preciso escrever-lhe di
zendo que esrou decepcionado comigo mesmo. Formulei uma carr.i
para ela à carde, enquanro descansava, após rer saído de canoa sozi
nho. Em Oburaku: fomos à casa [do chefe} (Thwakayse). Lá nos senta
mos no bwr11•11rt. A seguir, assaram-se porcos vivos. Senrimencos c0n
fusos - crueldade e indignação. Trincharam-se os porcos, termos
anarômicos. A seguir fowgrafumos um grupo de homens com enfe1
tes no nariz, e obaktt com porcos. Em seguida nos semamos e saborea
mos a refeiçflo. Caminhei pela aldeia em busca de um lugar para eri,gJr
Luna renda. Comemos bananas e bebemos água de coco. Depois .ragrJfJ
ob11kttbak11. Vanoikiriwina. Enconrrei conhecidos: um homem dei

' IJti'.b t·tk·mt", tripfl.1)l\O$ ou f1<:>lot úria11, os também ch<1;mados pcpinos-do-nuu, nni1u :ik co11sidcrado-
de sr.ind<:: ímportân<ia comerci11.I r.~til rcgiio, pois scn ·cM pt rn pr~p21:1r o trt/Nn;g, pr-.,to chiMl
frito con1 u parede do corpo di!lsct:at?a dt:$k:; lii<hos~ e é o,;u do timbêm no preparo de SO!}'.l.S mult
1\t1t1itiv11::1, junt:im<::ritc:: <:om ()l;tr<» ~ nlmai s marinhos. o~ l'r.aieres anim:ti3 ilc$$:s c.s1>6cie pod<::m -ai
cAnç;ir 9(knl dt' co1np!in1coto e 2Qc1u (lc d iil1nc uo, (f\'. d.I T.)
>;\mêtid~ d<.: coro, se<:•• e prtp~ra.d ~, para dela -se extrair o Cll{>tael, um;. !iu l)l;t~nda vorduros11. pr
ptia pl ra fl prcp..·u açio d e supositó:i<», vdr~i; etc. (N. dt1 T,}
UM DIÁRIO NO SENTIDO ES'l'RffO 00 'fc:RMO 179

Kudokabilia que costumava me trazer ovos, vestido com uma camiso-


la de mulher, Não havia ninguém de Omarakana nem de Kasana'i .
St1ga!i, e rodas as aldeias foram mencionadas. Sensação de ligasão so-
cial neste ato: a ilha inteira como uma unidade: Kayleula e as outras
ilhas não foram mcnciorn\das, mas Kitava e Vi1kura foram. - Depois
çomeçou 11 chovei-. Seoramo-nos nu bwayma [do chefe]. Tirei forogra-
rias da aldeia como um rodo. Duas canoas. Billy foi embora. Eu per-
maneci sentado, desenhando [ ...]. Regressei com Togugua no barco
dele. Sentado na canoa, apreciei estar só. A seguir, tun sentimento
dominante de decepção etnográfica voltou. Enquanto remava, pensei
cm E. R. M., no enrusiasmo dela com os barcos no Yarra [rio de Mel-
bournc). - Em casa, jantar com Mick, que repetia que Kiriwina nunca
linvia rcsccmun hado um sr;ga!i, e depois se desclllpa por niio cer me
dado cabaco. Cochilei na poltrona da vnranda. Recolhi-me às 8. -
Dormi muico bem; meus sonhos me levaram para bem longe das
·1robriand e da cenografia - mas paro onde? - Ah! claro. tlá dois
dias comecei a ler 1iss. Isso me aproxima de E. R, .M. "Não 111aiu!m1ula."
Reflexões acerca da dimensão do meu compromisso com ela. Vejo-a
<orno minha furura esposa, com um sentimento de cerceza, confiança,
mas sem empolgação. Penso freqlicnccmcncc cm N. S. Mostrei fotos
dela a Bill. 1riscc. Eu a amo como tuna criança, mas não tenho ilusões,
1•csrou cerco de qlle ela não tcri:1 sido feliz comigo; e vice-versa. Urrw
111elodia de Sm1sifo eDali!rt a cra;o de volta à minha lcmbrançu. O verso
·Não se vil" me vem à mente, e cn tro num transe amoroso. Costumo
.msiar por cultura - Paul e Hcdy (Khuner] e a casa deles (quase me
l.tz brorn.r lágrimas dos olhos); E. R. M. e M. H. W e t<Klo aquele
.m1bicnce. Será que aqueles dias felizes cm E. MaJvem voltarão 1un
<lia? - Melodias de Beethoven. Sou imensamente apegado a P. e H.

Quinta, 13. Levantei-me por volta das 7, comei o chá matinal; con-
versei com Mick e lhe contei que partiríamos às 11 ; escrevi o diário
"\brc os últimos dias sob o coqueiro . depois recomei. Brudo está de
volca, não conscg1ti11vrtyg11'a. Bc. é um porco. Antigamente, havin
muitos romtrrianteJ aqui, reuniam-se à noice, "parrt tccar e/amar". Ele
me contou como estava exausto; mostrOll·me como sell corpo está
180 BRON!SLAW MALINOWSKJ

magro e flácido. Ele não pode nem ir à casinha. Discussão sobre a ne-
cessidade de casinhas espaçosas. Ele me ofereceu wn bote. Reuni mi-
nhas coisas, acertei mdo com Marianna. Sentia-me maravilhoso fisi-
camente. Canoa nativa, inunda-se de água. Mudamos para o bote.
Chegada. Escolhi um local para a tenda. Boreman, um guarda, e u.roa
dupla de meninos me ajudaram. Observei a tenda durante algwn tempo
e apreciei um pouco a aldeia. Tive a satisfação de ver uma tenda arma-
da. O prazer de fazer tun piquenique. Ilwnedoi estava ali com seus
irmãos e me apresentou a eles. Dei-lhes crês bastões de tabaco. Corl\i
bananas. Depois tracei um plano da aldeia, recebendo muira ajuda de
wn dos irmãos de llumedoi. Volcei, inspecionei a renda e supervisio·
nei a abertura da bagagem. Depois dei uma voka; pensei em E. E,,
M.; alcancei a água e fiz ginástica sueca. Sentia-me bem; embora a
atmosfera seja como um banho turco, não me senti oprimido nem
deprimido. Primeira caminhada em Kiriwina (... ]. Presença espiritual
de E. R. M. Pensei em escrever umacarra para N. S. para romper tudo.
Vokei - me arrasrando. Jantei. Depois saí para fazer uma incursão
nocuroa. Logo próximo de mim - a cerca de 6 metros - itwtla111Ji. O
que escurei foi principalmente ..Lat1tyo, ged11gedo bigadaigtl' - wn
cântico melodioso e monótono - , deve exercer um efeico narcótico
sobre eles. A seguir fui a Towakayse. Lá, cive de insistir baseante para
que eles se dispusessem a falar. Falei sobre po11!0; depois dos k11l::111aneb1(
de dois indivíduos. Estava hocrivdmeme sonolento. Volrei, comei café.
Recolhi-me, mas visões de pentes feitos de casca de tartaruga me man-
civeram acordado. Naquela noite, chuva. B1d11k:u,v14 rondando minha ten-
da.

Sexta, 14. Chnva. Levantei-me às 6:30. Dei wna volta em torno da


aldeia, observei grupos de nativos. Volcei; tomei o desjejum; conversei
fiado na varanda com os policiais e alguns nativos. Depois fui para
minha tenda; algumas tarefas específicas: corrigir o plano da aldeia,
copiar o diário emogrMJço; fü algum~ dessas coisas, mas, embora me
sentisse bem fisicamenre, resistência: o trabalho não me interessou.
Além do mais, a chuva caía torre ncialmente; a água escorria em rios
pela renda, vinda das goteiras. Além disso, Pilapa escava danc!Q
UM DIÁRJO NO SENTIDO EsTRITO 00 TEl\MO 181

chiliques, e isso me irritou. As 12, chegaram nativos de \Ttlaylima e


Osapola. Conversamos sobre caranguejos etc. Esta entrevista me
entediou, e não rendeu muito. Às 2 pedi o almoço - ovos e cacau.
Peosci cm Paltl e E. R. M. Pensei na civilização, angustiado; remei no
Yarra enquanto lia os jornais, dernJhcs sobre Melbourne. A casa de
Malvcrn agora parece o paraíso sobre a terra. Durante todo o tempo
cm que estive com eles, sem dúvida me senti feliz (a não ser por mo-
mentos de melancolia à Dostoievski e enfermidade), cspecialmeme no
final, quando queria muito ficar cm Mclbourne até abril. A guerra
<erramente acabará, e o idilio em Mclbourne se romperá; arrependi-
mento e remorso. - À tarde descansei; caminhei cm torno da aldeia
- preparativos para muna. Às 4:30 assisti ao cozimento da taioba.
Ajudei a colocar os grãozinhos semelhantes a bolinhas; empolgação;
l111oysifa 11rgow11. J:lui de [panela) em (panela]. A animação e o b11oysila
11rgowtt me fascinaram. Caminhar e ficar parado me cansaram, "já es-
tava caindo de exaustão". Sagali cm [Kaycabu]. Sentei-me no btuayma
.!e uma jovem de Sina.keca. - Volrei para [Yasicine]. Anoitecer. Cor
unza. fumaça úmida e azul-escura subindo entre as palmeiras, as ca-
\.\S cinzentas, marrons ou ocre asswnindo tons tépidos. Envolta cm
'SCltridão a aldeia parece menor, mais amontoada, assoma do vácuo
e1rcundancc. Deico-medurante algum tempo na minha tenda. Reman-
,fo no bote, não deixava de sentir te mores: de não encontrar a aldeia,
de encalhar, de que algo "rastejava" do meio da escuridão. E. R. M.
11oscaria de me ver agora. Quando olho para as mttlheres penso cm
"'us seios e formas em função de E. R. M. Volcei, ingeri uma ceia muito
frugal e, deitado na cama, conversei com um guarda de Vakuta e um
n•tivo de /al'a lava amarelo sobre diversos assuncos (pc11/o, tOtl{/'11), e
1 mbém sobre Dokeca e Gabcna. Ele conhecia [Giblcn], Subeca e
1Arse]. Dormi bem, embora com medo de me sencir debilitado (rca-
\•'º <.'ét. vespertina?). Tomei ltm purgante.
S.1bado, l5. Aproximadamente às 6 da manhã um wa/amsi ensurde-
' cdor a duas vozes (Ginger diz que eles não uivam cão continurunemc
1 m Sariba). Levantei-me. Às 6:30 os barcos partiram. Ftú defecar nos

1mu1Suezais; a única ocasião em que entro em contato com a narure-


182 BRONJSLAW MAIJKOWSKI

za!... Grandes árvores, folhas duras e lustrosas, sombras profondas no


chão coberto de folhas em decom posição. Senci-me bem fisicamente~
isso se manteve duninte rodo o dia. Depois do desjejum (chá corn bis-
coitos), censo da a[ldeia) das 9 às 11, depois voltei e fiz lun novo desc-
nl10 da aldeia. Censo: sento-me numa cadeira que as gwadi carregam
em torno da aldeia. As gwadi também dão os nomes dos habitantes
Alguns eles nomeiam apesar do Juto, mas se for kala ka11/o kwaii11a'11,
elas não dizem os nomes. As 12, saí de bore; minha tenda escava friá,
ficou quente no sol. Remei por perto dos manguezais. Scntindo-m'
forte e saudável. Às 12:45, {Galuva] e pão de Mick. Ensinei Gingcr
(aos berros e vitupérios) a frigir. Comi uma omelete feito com banhJ&
de porco. Deirei-me (não estou lendo romances). As 3:30 comecei a
tcabalhar com genealogias [com base nos dados do censo). To'uluw~
veio, precedido por N. G.* Dei-Bhe tabaco. Pergunrei-lhe sobre seu&
amigos. Gilâyviyaka morreu. Vieram outros - Kalumwaywo,*'
(Micaidaili, Oricapa}. Esre úlrimo parece ter os modos mais "huma
nos" denrre eles. Pelo menos, é exrremamente agradável, tem uma
boca bonira e belos olhos, uma expressão muito modesta. É oprimei-rt
cavalbeirotk Kiriwinrt. To'uluwa veio. Cumprimentamo-nos um ao ourm
como amigos. Ele falou sobre mim e me elogiou. Apesar de tudo, hà
um cem> resquício de simpatia. Ele me observou acentamente, com
um sorriso meio irônico, meio indulgente, falando de minhas explora
ções. Piada sobre nosso k11/a. •• • Em seguida, na tenda, Dipapa,
Kenoria.•••• Ftú sozinho para Wawela. Estav<L abafado, mas eu mr
sentia cheio de energia. A vastidão daquelas paragens me fascinou
[...};gi;•ovila; Kenoria é linda, tem wn corpo maravi.lhoso. Impulso dr
"lhe acariciar o ventre". Comrolei-me. À noite, remei outra vez, fm
cedo para a cama.

t.N:11nwAn:·1 Guy:1'v, o filho mi,ii velho de 'fo'ulúwa é .sçu prcdilc:to, uma das fi~o faS. J>rindpaii dt.
Oma.tilkt1.na. Embora tivesse aid() b1nido p;nit outra a.ld<"ia, freqüc:nl<'•"Cllte Yi~i~:iv;1 $1.l;ll ;1ldei11 dl
oriJ;c:ll para r-1.1Klar dt> p;ai.
**K:ill)lll~)'W01 mencionado cm C'Jf1il Gardurs <:orno um jardineiro vic;oroso e dieic111e.
•••Oorante$U:l visita an1crior ~$ Trobri.tnd, Malin->"'-ski havia ~r.tuadido To'1)luwa.-;i le ..·ó.-Jo nun.,
cicpc.Jiçio de kulfl at~ ;i ilhil de ki1ava. O ven10 1nud-ou 110 mtio da vfa.gem e as c:ii~oas ti.,.cu111 ilt
.i:egre$sar. }.{-;ilino-mki sentiu q\H: T<>'u h1~ õ1.c.:haiv.1 q ue.soa pf(SCn~a f1a...ja 1rn11-ido .1i-:1r.
.+.•~•Filho e fill1tt de Tu'ull)w;i.
UM DJ,\RJO NO SENTIDO EsTRJTO DO TBRMO 183

Domi1)go, 16. Dormi até carde. 1àpa1·ofo [Japtvaropo?] (muim curco)


perco da minha tenda, Tomwaya Lakwabulo• e alguns oncros nati-
vos. Excelentes informações sobre po11/o. Ames do almoço 1·emei um
pouco. Depois do almoço, às 2, censo da aldeia. Por volra das 5,
cxauscão (oervosa)- mal podia me movei·. Fui para Kiribwa (toma-
k<1w1.e yamatatdobtuala) . .Mick reclamou, muito pessimista. Uma casa
desoh1da, um oaviozinho solitário - muiro triste. Livros enviados
por E. R. M. Li alguns contos de Srevenson. Voltei remando wdo o
tempo. Conversei com um sujeiro sobre polllo, o plano para mona 11qui
cm volta. Remei com energia, e me senti bem (havia comido um
maravilhoso lombo de porco em Kiribwa). Por volta <las 8 bebi li-
monada e li.ti para Kway {111ilt]. Bwaga'lf 1·ow. Sentei-me; os homens
me contaram sobre kato1tlo, silami ccc. O guarda da aldeia é muito
bom informante. Voltei à minha tenda às 10, lavei o cabelo. Dormi
bem.

17.12. l '7 . Levantei-me às 6:30. Caminhei em corno da aldeia. Sen-


tei-me para esrntar um walam e conversei com um senhor em (\Xfa-
kayse]. Depois voltei para acenda via Okinai, Oloolam (rcncei com-
prar dois lagim). Trouxcrnm Vayo11ÚJ. Trouxeram Tomwaya Lakwabulo
de carroça. T. L. me deu nm vocabtdário da língua Tum,1.** Muito
/lLHural. Depois, ba1'ima. A seguir, Namwana Guya'u voltou. Saí de
barco corno sempre. Depois do almoço {levei] morim amarelo e fulei
sobre o baloma. Fiz um pequeno S4gali, Navavile. •••Já escava farto
de todos aqueles nigge11**** e do meu trabalho. Atravessei o raybwag
.t pé, sozinho. Água. Senti-me force e cheio de energia. Vadeei, mas
.t lama me deceve. Durante a caminhada o esforço físico me absor-

•'li,l'lnw-'>'" U.k\\'abulo, ''{ ) Visiofl:íri<>.., era t;.tn d0$ prin<iplis. inforrnantc~ de ,\(:slinow$ki (\'~r A
J'da Jt.'(J/11/ rJ4j k'fi·agtnJ) .
• •lhrna. l.>ma ilha 11. noroest<' de UO)'Owa, t:l1nbé1n era a tCHil do$ c.spiritos, ondt- ~sid i:t ''' c>$ c$pÍri·
hl'$ dos rno~tos .
•••Na-.·avik , om importante informantt de ()bun.ku.
••••O U~iistN"s l\'tt+- lnu~1t:lli~1t:.1/ Di<ri!Jr.:Jry, $1:'gunda edição, tem coino Ulll ;t :<cgunda iÇ<:pçiio do
tttmo: "U~ :1.1I() de n:odo impróprio ou informal, pc-sso~ de c.1u:dqucr r-.-.ç<'I de pele C$CUh'I, co1no u ul
••ativQd;1f-1ndia$ 01icn1ais:, dts Filipi1,~$. dQEg;t<.>:" l:í* o (C-tnlo coloquial COfôu1nc:·1~tc e1np1çga<lo
;X"I01$ curopc-us, na épocá C(U 1"1ue ).h.Jinowski ('S.Cava ('$(tC \'Cnd<>, p:tra dc:1ign<1r 0$ pO\'OS nativos.
nh1itO$ dos 'l u:l~ , como 0$ mclíi_n~ i~, natotal1ncntc n:i(>cr11.n) ncg 1os.
184 BP.ONISLA\'(' MJ\LINO\'QSKI

veu, e eu não me imponei. Os trópicos tinham perdido inceiramen-


re seu caráter extraordinário par-a mim; não posso crer que pudesse
me sentir melhor em qualquer outro lugar. Canoa; semi-me tão vi-
goroso que depois de voltar tomei a sair com ela. Depois cozinhei
bananas (maravilhosa invenção). Fui visirar Navavile. A essa altura,
já escava cansado. À noite, cempesrnde, mas tornei a adormecer ra-
pidamence. -Já quase não sinto mais as dores rcurnáticas no joe-
lho - 1ts vezes sinco que renho uma perna direita.

18.12.18. (sic}. Levantei-me à~ 7. Venro frio-vesti mais lllna camisa


e ceroulas (e = 24,5°C [cerca de 76° F]). Céu cor de cakcdônia com
partes rosa-chá; mar da mesma cor, com reflexos verdes. - De manhã
reli algumas páginas desce diário e pensei em E. R. M., P. & H, e Mim.
Decidi: organizarei minhas anotações e aperfeiçoarei meus métodos.
Ontem, enquanto caminhava, pensei oo "premeio" ao meu livro: Jan
Kubary• como wn metodólogo concreco. Mikluho-Maclay•• como um
novo ripo. A comparação de Marecc:••• os p1imeiros etrtógra{os explorado-
res. Pensei na minha posição atual <:om relação ao trabalho emogr. e aos
nativos. Meu desapreço por eles, roioha saudade da civilização. - De-
pois do desjejmn, revisei minhas notas, fJZ anotaçf>es e organizei-as. O
rrabalho não fluiu bem, eu estava enrrevado e ligeinuneme confuso. Oca·
sionalmeme diminuía o ritmo. Um P. ]. Black ideal (arremedado por
Greenwood?) com uma lerdeza parit!hante e maneiras fleumácicas. À!.
12 hol:'<lS, quando o sol surgiu, s1ú no barco. Minha dor de cabeça e indo•
lêocia fonun dispersadas pelo exercício. 1ive algumas idéias gerais (rabis•
quei-as atrás do livro) sobre sociologia, Rivers erc. Depois do almoço (pei-
xe frito - minha invenção rnliná:ria) garatujei minhas idéias, por volw
das 3 fui p1\ra (1hbwaba] e 6z tun censo genealógico (nada engraçado!), tt
seguir .füi com o guarda até Lubwoila (Jap1)- fiquei cansado, mas cami·
nhci animadamente e me senti melhor. Depois encrci no barco. No meio
do caminho, parei, agucei os ouvidos, ouvi algo farfalhando no fundo di1

•J. S. Kubl\ry, notor do livro 'fJ.thr.vt,raphhdx Brifr/ig.: Zlfr Kt1;,onnis d.•s Knrolin~n A1r.b1~t.t!s,
*x811ãl) Nicolsi ~iikluh<>·t.fada.y, ci.:p!o.u.dor rU~$0 e ct1\ó!otto <j \IC (cz <liver$M expedições. :\ NCIV•
Guiné,~ pcr:ÍO$Ula d<' }.(11lásit1 e;\$ Filip-i!li'I$ d\.ltilntc ;1s dÇc"das de ISi'Oe l SSO.
*•"R.R. t.f:uct<. snttopólobo inglê:<. {1866-1943).
184 BRONlSLAW MAUNOWSKI

veu, e eu não me importei. Os trópicos tinham perdido inteiramen-


re seu caráter extraordinário parn mim; não posso crer qt1e pudesse
me sentir melhor em qualquer outro lugar. Canoa; senti-me tão vi-
goroso que depois de voltar tornei a sair com ela. Depois cozinhei
bananas (maravilhosa invenção). Fui visirar Navavile. A essa altura,
já estava cansado. À noite, rempesrade, mas tornei a adormecer ra-
pidamente. -Já quase não sinto mais as dores reumáticas no joe-
lho - às vezes siow que tenho uma perna dü·eita.

18.12.18. (sic]. Levantei-me às 7. Vento frio - vesti mais uma camisa


e ceroulas (t = 24,5ºC [cerca de 76° F]). Céu cor de cakcdônia com
partes rosa-chá; mar da mesma cor, com reflexos verdes. - De manhã
reli algumas páginas deste diário e pensei em E. R. M., P. & H, e Mim.
Decidi: organizarei minhas anotações e aperfeiçoarei meus métodos.
Ontem, enquanto caminhava, pensei no ;'prcfiício" ao meu livro: Jan
Kubary* como wn metodólogo concreto. Mikluho-Maclay** como um
novo ripo. A comparação de Maretr:'.. or priJneiros emligrajôt exp/orttdlJ.
re.r. Pensei na minha posição atual com relação ao trabalho ernogr. e aos
nativos. Meu desapreço por eles, minha saudade da civilização. - De-
pois do desjejllm, revisei minhas n()tas, fiz anotações e organizei-as. 0
trabalho não fluiu bem, eu estava entrevado e ligeinuneme confuso. Oca-
sionalmeote diminuía o ritmo. Um P. J. Black ideal (arremedado por
Greenwood?) com uma lerdeza paralisante e maneiras fleumácicas. ÀJ
12 hor-<tS, quando o sol surgiu, saí no barco. Minha dor de cabeça e indo•
lêocia foram dispersadas pelo exercício. 1i"e algumas idéias gerais (rabiil+
qllei-as acrás do livr<>) s()bre sociol<>gia, Rivers etc. Depois do almoço (pei-
xe frito - minha invenção ti.tlinária) garamjei minhas idéias, [)(>r volt11
das 3 fui para [Tubwaba] e fiz tun censo genealógico (nada engraçado!), a
seguir .foi com o guarda até Lubwoila (itJpz) - fiquei cansado, masca.mi.
nhci a.túmadamente e me senti melhor. Depois encrei no barco. No meio
do caminho, parei, agucei os ouvidos, ouvi algo farfalhando no fundo do

•J. S. Kub:i.ry. 11.otor do livro f.ThnGt,n.1phhdx Brifriig..• zpr Kt1nJfnis á.•s Kllrolír.''' A1rhJ~v.:!s.
*M811ãl) Nkolai ~1ikluho-1'h.day, CX'p!ota.dor rUS$0 e et1,Q!ogo <) \~ (C"t <l i\'~rs:u expal iç~ li No.e
Guiné, à pcr:Ín$ula d<' ~fa.l;í$ill <: ls Pi.!ip-fri;i$ d ~r;t ot c ílS décAd11$ de 1870 e ISSO.
**"R.R. t.1acctt, snuopólo;;o inglC!> (1866-1943).
U M DIÃ.1\10 NO SfNTIDO ESTl\ITO D O TERMO 187

Quinta, 20.12. Levantei-me às 6 (despertei às 5:30). Não me sentia


muito animado. Fiz as rondas na aldeia. Tomakapu me deu explica-
ções quanto ao bosque sagrado próximo da sua casa. Havia chovido
" íLOite inteira; lama. Todos escavam na aldeia. O g11arda veio ao meu
encontro às 9, cu me pus a trabalhar com ele. Megwa na casa de Yosala
Cawa. Senti qutra vez a felicidade de estar com gemúnos Nt11111menschen.
Andei de barco. Muitas observações. Aprendi um bocado. O Stimmmzg
[atmosfera, ambiente] geral, estilo, no qLLal observo o tabu. Tecno-
logia da caçada que teria exigido semanas de pesquisa. Horizontes
.1bcrtos me encheram de alegria. Fizemos um cr11zeiropgy ma parte da
lttgM - até Kiribi, e depois a Boymapo'u. Visão extraordinária de
peixes lançando-se ao ar, pulando para dentro de redes. Remei com
des. Tirei a camisa e tomei uma espécie de banho de sol. A água me
atraía, quis tomar wn banho, mas de alguma forma não pude -
por quê? Em rnzào da minha falta de energia e iniciativa, que já me
havia feito tão mal. Então isso começou a me desgastar; fome. O
cncamamenco exe1·cido pelas vastidões abertas deu lugar a um sc11-
ri menco de vazio absoluto. Voltamos (via] Kaytuvi e Kwabulo;
['!bwoma Kacabayluve] na boca dowaya. - Um barco vindo de Billy
çQm (meus sapatos e chaleira de campanha]. Voltei, almocei (às 3 ou
1da carde'). A seguir, por volra das 5, ti.ti para Tudaga, 011dc realizei
um censo. Alg uns nativQS observaram um peixe Tr1mtidtJwtt, e 12 ou
13 barcos saíram cm perseguição a ele. Tentei alcançá-los, mas me
1cnci um pouco cansado. Larguei os remos e pensei em N. S., e no
~111 da Austrália. Os. da A. é para mim uma das partes mais encan-
(Jcloras do mundo. Os intensos semimencos que tive voltando lá da
tiltima vez. N. S. e meu comance com ela é a alma desse paraíso.
/\gora que perdi N. S. cambém o paraíso está perdido. Não quero
voltar lá nunca mais. Pensei em cudo isso e compt1s uma carta para
' l:i em pensamento. Não quero perder a amizade dela. - Sem dú-
vida, meu amor por ela foi t1m dos senrimentos mais puros, mais
1\unâncicos, de toda a minha vida. Amizade por ela? Se ela estivesse
,,tudável, force' Não• - seria impossível para mim aceitar a forma

1
G1ifado l')Q original.
186 8RONISLAW MJ\LINOWSKl

bt'<111C4S de esp111na - isso criou luna espécie de segundo plano de espí·


ricos fesrivos, dos quais sinto falta aqui na lagoa. Uma moita de co-
queiros, a bafa il curvar-se suavemente com sua vegetação verde, que
se ergue como um anfiteatro acima da praia de areia. A costa se esten-
de aré longe na direção de Vakuta, pandanos com folhas largas ao km"
go da praia. Fomos de barco. Pensei em E. R. M. Sinto uma ligação
mística entre da e esnt paisagem, parricularmence por causa da linha
da rebencação. Fico feliz ao pensar que vou morar aqui.
Rua larga em Wawela. KovaJa Koya bem na minha frente. Atraves-
sei, escolhi lun local para minha tenda- logo além da aldeia, à sombra
de algumas palmeiras. Vou precisfü para babayvrt um bocado de odiln.
D<>is ou três ab11k11brtki abandonados. Esta aldeia decadente é tuna triste
visão. Uma cabana Kiravan. Nàguayluva, morando em uma cabaae
isolada. À noite, um poltCO cansado, mas não exausto, cantei, com uma
melodia de \'(fagncr, as palavras "Que merda" para afasrar 11111/11k:wr111Si.
Tentei separar-me dos meus companheiros, mas eles aparenremence
esrav11m nervosos, e a estrada cambém escava ruim. Tomakapu nlio
especoll, mas foi direco para a aldeia. Truque para afastarpirilampos (os
piril,ampqs do t'tt)'bwag são magníficos). Quase caí na água, mas ucn
homem escuro me ajudou a atravessar. Escava ameaçand<> tempestade.
Barulho de chuva e vento. Uma maravilhosa precipitação pendendo
sobre o mar como se fosse uma cortina, apcoximando-se. (Oncem1
enquanco remava, pensei em E. R. M. e em nossos planos sociológicos,
pensei que não teria o direito de obrigá-la a ficar comigo, uma vez que
nossos papéis estão invercidos; meu sacrifício é aquele normalm.enrc
foico pela mulher, e o dela, pelo homem, pois é ela que está se expondo
ao perigo.) Ontem, voltando de Wawela, rive algumas idéias etnoló-
gicas, mas não consigo kmbmrqmtis foram.* Elas tinham wna relaçiju
com o "molho" teórico geral que deve adornar minhas observações
concretas. Por volta das 9 me recolhi para debaixo do mosquiteiro e con•
versei um pOltquinho com N iyova.** Adormeci com ccrtadificludado

*l\bt:1rn;yt/):1J, 't-1atM1i;1r;tr'íl.:I, N1111n·WJG.~r (1digi§o da SH1tutc1a, con1:1t() com. a ti:•tureu, povos po


mitivos]. (Nota de to<l'!l>é J<: ~1:1 l inow,dJ}.
*•Ni)'Ova, n:ui\'o de Obutak\.I que ~Í;alioov"$ki <otuidctav11 u1n i1~fon ml.n 1c $Ólêcl<.>.
188 8RONISLAW MALINOWSKI

dela de levar a vida. Inteiramente impossível. Teríamos conversado


um com o outro como que berrando de quartos diferentes. E mesmo
assim me arrependo. Se pudesse apagar tudo e nunca possuir a alma
dela? Essa necessidade fatal de ir até o fundo, de atingir um domínio
espiritual absoluto. Eu certamente pequei contra ela, sacrifiquei-a
impiedosamente em favor de uma relação mais segura. - Senti-me
mal ao retornar. Só bebi chá. Conversei um pouco, mas sem propó-
sito específico. Clister... Dormi bem.

Sexta, 21.12. Acordei tarde, às 7. Sonhos nos quais S. l. W. (Stanislaw


Ignacy ("Sras') Witkiewicz) e o velho W. [pai de StaS} aparecem con-
fundindo-se um com o outro. Além disso, juiz Herbert e outros. -
Chuva; uma caganeira violenta perco do matagal. Resolvi nunca mais
tomar purgante! - Preguiça: gostaria de quebrar a monotonia, de
"tirar 11mafolgd'. Esra é uma das minhas piores tendências! Mas farei o
contrário: terminarei uroa.5 tare~ de rotina, "o diário cenográfico",
reescreverei minhas anotações do censo e as impressões de ontem. Esta
manhã me senti mal: minhas mãos estavam dormentes (=coração can-
sado); confusão mental; fraqueza generalizada, "atingindo o fundo na
correnteza da vitalidade". - Pensei em E. R. M., em escrever uma carta
para ela. - Apó5 o desjejum, TomwayaLtkwabulo, suas historietas sobre
o outro mundo. A língua baloma. Quando lhe fuço uma pergunta, há
uma pausa curta antes de ele responder, e um lampejo de incerteza em
seu olhar. Ele me lembra um pouco Sir Oliver Lodge. - A seguit ano·
tei minhas impressões sobre a expedição de ontem. Em seglúda fui a
Walasi, onde realizei um recenseamento... Estava muito cansado; de-
pois do almoço(peixe com taioba) fui para a cama. Acordei por voltadas
4, muito cansado. Pensei em um trecho das cartas de [R. L.] Stevenson,
no qual ele fala de uma heróica batalha contra a doença e a exaustão.
- A seguir, embarquei num bote para Kwabulo. Fiz perguntas sobre
os nomes das árvores e da lagoa e resolvi escudar a língua de modo
sistemático, compilando um vocabulário. Waya Kwabulo- um córrego
estreito e sombreado entre manguezais. Em Kwabulo - clima ves-
pertino -o fresco crep(isculo sobre a terra preta e lampejos dourado
15'(

MAR ABERTO

ILHAS TROBRIANO
l:tcala «n """"''
o
• 10
190 J3RONISLAW M1\IJNOWSKI

esverdeados (. ..}. Inspecionei o kwila de Inuvayla'u's.* Comprei bana-


nas, P1QYt1yap11s, uma pedra. Regresso. Brilho incenso no oeste - doura-
do avermelhado, cercado pelo monótono azul líqLtido do céu e do ma11.
Planejei fuzcr um desenho das nuvens para E. R. M., e outros desenhos
para ela - além da silhueta das montanhas que esbocei a bordo do
"Icaka". Escava outra vez sozinho - vazio de uma noite enluarada so-
bre a lagoa. Remava vigorosamente e pensm•a sobre ...? Voltei muito
cansado. Bebi chá e foi dormir, sem comer nada, depois de uma conver·
sa com Morovaco Kariwabu, sobre pesca, nomes de árvores etc. -
Durante todo aquele dia senti saudades da civilizaçflO. Pensei nos a!llí·
gos de Melbourne. Anoite, no bote, pensamento agradavelmente run-
bicioso: eu certamente serei "um eminenceesmdioso polonês". Essa será
minha úJr.i.ma aventura etnológica.. Depois disso, dedicar-me-ei à socio·
logiaconscmtiva: metodologia, economia política etc., e na Polônia p06SO
concretizar minhas runbições melhor do que em qualquer oucro lugar.
- Forre cootraste emre meus son.hos com uma vida civilizada e minha
vida com os selvagens. Resolvo eliminar os elementos (componentes) de
pregui<;1l e indolência da minha vida atual. Não ler roma1Kcs a meoos
que seja necessário. Tentar n!W** me esqttccer de idéias criativas.

Sábado, 22.12. Acordei mtúto tarde (dormi mal, 3gde calomelano na noite
anterior). Sob o mosquiteiro pensei na relação entre opomodevis1a históri•
co ([...}causalidade, como com respeito a coisas extrr1ordi11árias, singulares)
e o ponto de vista sociológico (com respeito ao curso normal das coisas, a
lei sociológica no sentido da~ leis da física, química). "Historiadores" à Rivers
= invesàgam a geologia e a "lúsrória" geológica, ignorando as leis da ffsi.
cae da quúnica. A física e a quúuica da história e da etnografia = psicolo-
gia social. A mecânica e química sociológicas = a alma individual em re-
la~iío a criações coletivas. - Pela manhã caminhei acé t> sopi e pensei na
língua como tun produco da psicologia coletiva. Como tun "sistema dl!
idéias sociais". A linguagem é tunacriaçãoobjctiva, e como tal corresponde
à ins1:imição na equação: imaginação social = instituição+ idéias indivi

*f..iarcos de pedia sssocfados à lenda de lnuva}'la'u, cofttada t'1n /1 tJid.1 ux11t1J <IM Jil1·':1f;f1U.
**Grifado no origin;al.
U M 01;\RJO NO SENTIDO ESTRITO DO T&RMO 191

,l\11lis. Por muro lado, a linguagem é um inscrumenco, um veículo para as


11 léfas individuais, e como cal deve ser considerada em primeiro lugar quando
,, tudo o outro componente da cquaç'ãô. A segtúr trabalhei nos termos
1dacionados com a pesca (prindpalmeme (com Morovaro, Yosala Gawa,
Kariwabu e Toyodala}. Revisei o esboço q ue havia escrico esponcaneamence.
llesultados sacisfutórios. Dormi após o almoço. T.'llnbém antes do almoço
de modo geral, oão me semi muito forte, mas melhor do que na sexta.
Nn sexca, cive reações do tipo Srevenson. No sábado, depois de tomar LOg
tlv quinino, 3 g de calomelano e sais de Epsom, me senti extremamenre
l1cm, mas exausto. As 4, decidi ir até Kiribwa; conrrarei Morovato e
[Wcirove}; breve recenseameoco cm Oloolam; partimos às 5, remei bas-
11111e. Mick muito melhor; conversamos sobre sua enfermidade, e coma-
111os sopa tostada de [ku-wb11]. Pôr-do-sol em uma gama de escarlates e
u!'rcs. Vokrunos uo luar. Debatemos a geografia da lagoa com Morovaco.
llt:mei vigorosamemc. Empanturrei-me de bananas e arroz. Estou mLÚCO
lct1itgico, me enfio debaixo <lo mosquiceiro. Pensiunencos "s11!m.>rsil!QS" -
1«solvi comrolá-los. Mas GHuí} longe demais. Dormi multo m;!l. Coração
lhlCO, mãos dormentes.

l)omingo, 23.12. Dia reservado para escrever cartas de Naral. Pela


1unnhã, diarré.ia. A segLúr, voltei direto para a renda. Li Stevenson um
pôtLco. Sob o mosquiteiro escrevi as cartas mais fáceis e mais triviais
- Dim Dim, Bruno etc. - Por volrn das 12 assisti à confecção de
11ip111at1a na aldeia. Depois voltei, dormi, escrevi mais cartas. 1-fuito
•. insado, deitei-me e cochilei, acordei aindi1cansado porém mais forte.
< .1raoguejo com pepinos. Em seguida urna curca soneca. Os nigf.ert
'~cavam bamlhencos - todos à coa porque era domingo. Escrevi para
I' & H., comecei urna ca.rca para E. R. M.. planejei uma carta para N.
\ - por volra das ó, estava na lagoa. Tarde maravilhosamente
u~nslúcida. Crianças navegam num bote, cantando. Escou repleto de
•nscios e penso em Mclbourne (?). Algumas preocupações com E. R.
M. -quando percebo o que a ameaça flco banhado em suor frio. Penso
11c) quanto ela tem sofrido, aguardando notícias de C. E. M. - Em
u•rros momentos, eu a perco de vista. Sensualmenre, ela não conse-
1111iu me subjugar. Remei até Kaytuvi, retornei ao lrnir; perdido cm
192 BROl':IS~AW M AJ.ll>:OWSKI

quimeras, nuvens, água. Aversão gemi pelos 11iggers, pela monoto


- sinco-mc um prisioneiro. [Perspectiva de] caminhada amanhã a
Billy e visita a Gusawcta não é muito agradável. À noite, kayaht e
termos linglHsticos - todos cm torno, cantando (canção obscena.de
Okaykoda). Adormeci rapidamente mais ou menos às 1O.

Segunda, 24. J.cvantei-mc às 7, caminhei em torno da aldeia. KJ11114id111111


//JJl/llotabil/JJ1SÍ11ktfl<?lllo. (rodos foram J?C$Clr}. Isso me incomodou um pou
co. J(jfesi Imk11baiviraval11J'i Sai}lwa11a. Resolvi tirar foms. Andei às cegas
com a câmara, por volta das !O-estraguei alguma coisa, estraguei um
rolo de filme. Fúria e monilicação. Luco contra o desti110. Afi11al de con•
rns, ele provavelmente se cLUnpriri. fotografei mulheres. Voltei num
estado de irritação. Entreramo, escrevi para E. R. M. Fico na esperança
de receber uma carta dela. Gradativamente ela voltou para mim. Co-
mecei n"senti-la" novamente. Alm~u(ain<la irritado, deiordens a Ginget
com a voz embargada). A seguir, escrevi mais um pouco, um esforço e
taoco, mas senri que havia mtúras cois~s que eu devia dizer a ela. Às
4:30 Wilkes e lzod aparece!".un no horiionte. Eu decididamente fiquei
aborrecido, eles me amolaram. Aliás, estragaram mi11ha caminhada ves-
pertina. Mostrei-lhes o kwifa de lnuvayla'u's em Kwabulo. O recrível 6
que me sinto incapaz de me libertar completamente da atmosfera gera•
da peloswpGse111-a11hos: sua preseoça diminui o valor ciencífico e o prazer
pessoal da minha caminhada. Vi e senci a monotonia ex crema das aldei-
as ele Kiriwina; eu as vi através de seus olhos (é bom ter essa capacida·
de), mas esqueci de olhá-las com os meus. - A conversa: críticas ao
governo, principalmente a Murray. A viagem poética através dos
manguezais estragada pela tagarelice. \X'ilkes gosta de conrarcasos. Um
egoísta obcuso sob um vernii de reílnrunento. lzod é bem agn1dável.
Priest não chegou ainda; provavelmente está bebendo com os Auerbach.
- Omversa com Billy sobre !Ocografüis, uma garrafa de uísque. - Mick
falou sobre seus compfltrioras. Ptu para a cama às 10. Pensrunentos inten·
sos, profundamente emocionais (sensualidade do cipo mais refinado) so-
bre E. R. .M. Sensação de que cu gostaria de fazer dela minha esposa e a
idéia de ter prazer sensual com outros mulheres cem q11elq11ech01edefimesu.
Pensei em 11ossos momentos juncos, e em como nu11ca obtive a genuína
UM DIÁRIO KO SEN'r!D-0 ESTl\ITO DO TERMO 193

ra:ompensa que o fato mesmo de possuí-la deve me dar. Senti fàlca dela
- quis tê-la junto de mim outra vez. Vrsões dela com o cabelo solto.
Será que o desejo intenso sempre leva a extremos? Talvez só sob o mos-
•1uiteiro. - Acordei tarde da noite, cheio de pensamentos lascivos .1abre
111tk1J a.rpcssoa.r imagináveis, a mulher cio meu senhorio! Isso tem de aca-
IJJr! Que eu não esteja absolucamc1tte certo de não poder seduzir a es-
llOSa do meu melhor amigo, que, depois de um forte acesso de desejo
por E. R. M, isso pudesse aconrecer-c'est 1m1pe111rop! Isso tem de parar
ilc uma vez por codas. - Ontem me senti bem durante o dia. Esqueci-
me compleramente de que era v6pcra de Natal. Mas neste momento,
nesta mesma manhã, em que eu não podia dormir, mamãe escava pen-
,,mdo em mim e sentindo saudades. Meu Deus, meu Deus, como é cer-
11vel viver cm um comínuo conflito ético. Minha incapacidade de pen-
1.tr seriamemc cm mamãe, em Stu§, nn Polônia-sobre seus sofrimen-
ws lá e no ordálio polonês - é repugname!
'Ihça, 25. Rastejei para sair ele sob o meu mosquiteiro antes do alvorc-
.:cr. BilJy, banho, conversa sobre Tcd: Ted havia procurado Gilmour• e
lhe disse "estou com gonorréia''. "O que é gonorréia?" "Pústulas san-
11remas". Gilmour lhe deu alguns remédios. -Tcd gaseou em bebida
.u 80 libms que Murphy havia emprenado a George e mentiu para
George, dizendo que lhe pagaria. Tud está com púsrulas no pênis. Bill
perguntou onde - "na droga do meu peru". -Depois do desjejum
wntei-mc sob uma árvore e escrevi uma carta para E. R. M. Ogisa tei-
mou em c-.içar as moscas. Eu me semi imensamente mais próximo dela;
foi m:lis fácil escrever a carta. Sentimentos inteiramente diferences. A
\Cguir, passei para um local mais próximo da casa e continuei escreven-
do. Almoço com Mick. Os bobos voltaram com Bill. Às 3 volrci à mi-
nha carca. Às 5 cu me vesti e fui para Olivilcvi via Tub.-wa'ukwa. Scnti-
me muito bem, mas suci profusamente. Jancar. Passeio de canoa com
Ginger e Gomera'u. Esre último me deu informações valiosas sobre
lrwaga'11 e Ta'ukuripokapoka.•• -Avcrs11oviolenra a escutá-lo; cu sim-

•twv.1l. K. Gilmour, i:1ni<> m• missio mctodiica vbl~li1i dc Oi:1bfa. EmArg.mr11•1r11 ~ialinowikl diz
11i.c n tava "pcr(citumcnte famili.arizado conl os pto«dimcncos do k11/"·".
''Unl tct 1nicol6&ko e um C$p<:ci3.lisca do 1n.aJ. Oia·K <lucas bruxas se encootrarn <:Oúl ele~ nolcc
1 •u d.1nçl'IJ e orgias.
194 BRONISLAW MAUNOWSKI

plcsmente rejeirava intimamente todas as coisas mirabolonces que elt


cinha a me dizer. A principal dificuldade etnográfica é superar isso. Bel
clarete. Conversei com Billy Priest, que vociferou conrra seu patrão
Recolhi-me para sob o meu mosquiteiro e voltei novamente meus pen
smnemos para E. R. M.

26. 12. Pela manhã uma lura louca e desordenada com as carcas
Dificuldades em escrever para N. S. Carcas oficiais com relação à pror
rogação da licença. Depois do almoço, conversa com \'li'ilkcs, que ~
revela amante das mu lheres de cor e diz que algumas regiões d4
Nigéri<t são "muito ruins". Sua admiração por Conmd me mortifi
cou. Depois que eles foram embora, olhei imagens da guerra duran
te uma hora, depois comecei a tratar das mi nhas coisas. Desempaco
tei gêneros r1lime111fcios e separei tudo com a ajuda de Ginger. Isso mr
possibilitanl entender o que e como devo comer etc. A seguir, num
bote, pelo regato, com o espírito de E. R. M. Escava muiro vigoroso,
e me semia cm boa forma (havia relaxado - meu trabalho etno-
gráfico é* árduo). À noirc conversei sobre pérolas com Bill. Ele me
conrou sobre os negócios enrrc Stone e [Grahíun}, e sobre Verrebely,
que se ofendeu porque George Aucrbach havia tomado conhecimento
de que V. havifl aumt11111do stu preço originfll tm I 00 libras.

27.12. Levantei-me basrnnte tarde. Planejavn revisar meus papéis e


começar a crabalhar. Mas fuzer as malas me comou um longo tempo
Depois do almoço, tornei a vistoriar minhas coisas. Por volca das 4 f1u
com Bill à Estação da Missão. Ali, Taylor -jovem, sim1)ácico, agra
dável - e Brudo, muito amável e educado. Volra com Bill. Deprimi
do pelo que havia visco em losuya: vida e pessoas decadcnces. [ ...}
Estremeço ao pensar como a vida parece aos olhos deles. Campbell
Symons (...] L1.1. - piadas estúpidas e desagradáveis sobre minha
111uümalid(l(Ú P11Strfd(IJ. - Odioso, e o efeito é deprimente. Esses ca•
maradas têm essas opommidades fabulosas - o mar, os navios, a selw.
poder sobre os narivos - e não fazem ní1da! Ceia com Bill. Cartu

• Grifz.do no origíntl.
U M D I ÁRIO NO SF.NTJl)Q EsTRJTO 1)0 TERMO 195

l>ajuladora para Symons. Às 8:30 fui para Oburaku. A princípio me


senti indiJjH1sto, e se não me tivesse convencido de q ue um•t caminhada
me faria bem, meu estado de nervos provavelmente resultaria em ro-
t:d. exaustão. Entre Olivilevi e Vilaylima me senti cheio de energia;
depois Ltm tanto cansado, mas não demasiado. Uma lagoa rasa; um
sujeito engraçado de Osaysaya me transportou, a terra nua e escura
com raízes de manguezal parecendo fazer parte da vegetação. Peixes
saltando em toda a volta. Pensamentos, sentimento e humores: ne-
nhum interesse em etnologia. Pela manhã, depois de preparar a baga-
gem e me pôr a perambular cm corno de Gusawera, um anseio cons-
tante por E. R. M. (na noite anterior, um ataque violento de paixão
quando olhei suas fotos). Porte sensação de estar em contato com sua
personalidade; ela é mi11J1a esposa de facto, e devo pensar nela como
minha esposa. Quanto à etnologia: vejo a vida dos nativos como toral-
mcntc dcstinúda de interesse OLt imp<Jrrância, algo cão dista me de roim
como a vida de wn cão. Durante a çaminhada, fiz questão de refletir
sobre o motivo pelo qual me encontro aqui. Sobre a necessidade de
co)her mniros documentos. Tenho uma idéia geral sobre a vida deles e
!ilguma familiaridade com sua língua, e se puder ao menos "documen-
tar" isso de alguma forma, terei um material valioso. Devo organizar
<) material lingüístico e coletar documentos, encontrar melhores for-
mas de escudar a vida das mulheres, g11g11',,, e do sistema de "represen-
tações sociais". Forte impulso espiritual. Examinando meus livros, es-
colhi Rivers, livros alemães, poemas; à parte do. meu trabalho, devü
levar uma vida intelecnial e viver em reclusão, tendo E. R. M. por
companhia. Visualizo a felicidade de posSllí-la cão imensamente que
sou tomado por um medo policrárico de que algo tão perfeito venha
de fato a se rornar realidade. - Conmdo, sabendo que ela me ama,
está pensando em mim, que tudo que sinto por ela é correspondido,
fico feliz.

28.12. Quando voltei à minha renda, às 12:30, encontrei Ogisa,


lbmakapu e os garotos dormindo. Ginger fez minha cama, bebi 2
btvaybwaJ•S e, cansado, me recolhi. Dormi duranre muito tempo, até
L0:30. Levantei. Grande desejo por E. R. .M. -Lí as cartas dela. Desor-
196 BRONlSLAW MA.UNOWSKI

ganizaçào no meu trabalho. Nenhwn desejo de coisa alguma. Resolvi


revisar o recenseamento e dedicar-me à lingüística, dedicar ~ hora di~­
ria a estudar a língua. Todos os prepararivos completados por volta das
12:30. Classifiquei as anotações sobre o censo da aldeia(resulrados muito
ruins). Almoço às 2. Li Swinl.mrnc (inquietação). Depois, outra vez,
r[cccnseamento] da a(ldeia]. (Senti-me fraco, exausto, meu cérebro não
funcionou adequadamente.) A seguir, desorganização; li Swinburnc,
Vitime. Escrevi canas para E. R. M. (grandes saudades). (Z~ngado com
Ginger.) Force sensação da importância de meu relacionamento com E.
R. M. Sai no bocc. Pensei poutX>, mas cencci robustecer mcus pcnsament<XI
para o crabalho. Retorno. Depois do jantar, Gomera'u e Gioger. -
Avaliação daquele dia: indubitavelmente cu esca•-a cansado da minha
caminhad:t no dia ancerior. Preguiça, indolência. Sem força qnando saí
de barco. Efciro de parar de fümar e de pequenas doses de álcool? -
Disposição Wíillichmerz, porém com wn enfoque distinto de E. R. M.
Exceto pelo baixo rendimento, nada de que me rcaiminar.
29.12. Dormi acé as 9. Olhos cansados (campo de visão semelhanrc
a uma tela). Levantei-me de imediato. Dia frio, cinzento, céu e mar
de um 11znl saxônico aguado. Pinguei colfrio nos olhos. Tendência a
pensar cm ll. R. M., desejo de escrever para ela e de reler suas cartas.
Gomera'u estava esperando - ponho maos à obra com ele. Longa
sessão matinal; Toyodala• relat0u um li/i'u. Concinuei durante atar-
de; às 5 fui a Kiribi com Gomcra' u. Remei a maior parte do tempo.
Ililly, Mick, o "Kayona" deve partir aman hã. Escrevi cartas para E.
R. M., Smith, Sra. Gofton e Aumüllcr. - Escava cansado (olhos e
nervos), e me recolhi. Durante o dia inteiro um pensamento cons-
tante voltado para E. R. M., compartilhando meus planos com ela,
pensando nela com ternura, profunda amizade e paixão.

30.12. Levantei-me às 6, ao raiar do dia (havia tomado ~-alomelano


na noite ancerior) e cecminci a carca para E. R. M. (li as cartas dela
com um sentimento cocalmcnce difcremc, mais intenso do que an•
tes); às 9 dispensei Gingcr (o perneta (Mcdo'u] apavora Samarai).
UM DIÁRIO NO SENTIDO ESTRITO DO TSRMO 197

Revisei o lili'11 que havia anotado no dia antel'ior (dia chuvoso). De-
pois do almoço fui para o po11lo, tirei fotos; depois ao longo do riacho
.1té Kaycuvi - manguezais, impressão feliz e alegre. (Contraste:
rnanguezais na maré baixa realmeme um lamaçal mooscruoso; na
maré alta, estão sorrindo para a vida.) A noite, vi Yosala Gawa; con-
versei sobrektdrt, sobre Kudayuri* (tun velho, mas recirou um lili'11).
- A história me fez ficar muito sonolento. Voltei, chateado com a
estupidez de Ogisa. Sob o mosquice.iro, pensei em E. R. M. com afei-
~ão e apahmnadamence.

31. 12.17. Ú ltimo dia deste ano - um ano que pode se mostrar
imensamente importante na minha vida se E. R. M. se toro.ar mi-
nha esposa. Pela manhã, sob o m.osq1licei ro, pensei com grande
intensidade em E. R. M. - Às 8 :30 todos saíram para cJ poulo.
Caminhei em torno da aldeia, reun indo os informantes. Um gru-
po muico ruim (Narubutau, Niyova, (Taburnbi, Bobau)), os dois
(1ltimos mencionados anciões eram os melhorezinhos . - Deses-
pero e impaciência. i\.fas me cont rolei e insisti cm prosseguir. Após
o almoço - por volra da 1, todos voltaram. Yosala Gawa e
t oyodala; copiei o megwa e comecei a traduzir. Às 5, cansado;
escudei um pouco de lingüísrica; assalrado por um violento dese-
jo de estar junto a E. R. M. Último dia de 1917. Mar ligeiramen-
te encapelado; luz e sombra misteriosa, inquietante, flutuante se
alternam continuamente, vindo e indo. O céu claro acima da ca-
beça, no horízonte o brilho dourado do ocaso entre flocos de nu-
vens; entre o mar e o céu, o cinturão negro de manguezais. A
princípio, pensei em Baldwin e pt·eparei uma retaliação (vou apre-
sentar os dados coletados e aCllsá-fo de não ter Cllmprido sua pro-
messa). Depois pensei cm E. R. M. "O que ela está fazendo? - E
se ... ela não estiver lá?" Sensação horrível. Pensei nela e em C. E.
M. Pensei na guerrn. Também tive nlglll1s pensamenros constru-
t ivos sobre g rnmática. Voltei. N avavile me deu megwa (mui to

•·Ku<la)·ud, 1ana aJdc:i::t ela ilha de Kita\':t. O tnito d~ 0 100;1. \ro:•dora de Kudayuri é rel1u~do cm
A ~l)r,,;p/,1s d~ Ou ;r ifq P.trf/k~.
l98 BRONJSJ.AW MAUNOWSl<I

bom). Escrevi uma carta para B. R. M. Tudo que renho sentido e


planejado dfaer se esvanece quando olho para a folha de papel
em branco. A lagoa calma como um espelho, banhada pela lua
do nasce i· da lua; palroeirns incl inando-se sobre a água. Eu cstav1
me sentindo muito bem fisicamente, se bem que os trópicos não
me incomodam em absoluto; si nto mais falra de E. R. M. do que
ela civilização.

1.1.18. Acordei às 7. O ar csrava puro, ligeiramenre colorido, de um


tom cálido e róseo[. ..}Manguezais niridamente delineados, com tufos
macios de vegetação verde e manchas de sombras. Fui despertado
pelos gricos dos narivos partindo(...] para Oiabia [missão metodista
perto de losuya). levantci-mc, pensando no Ano-Novo - senci um
aperto no coração - , 17, símbolo de um período, símbolo de como
os números se impõem implacavchnente sobre a vida mesma. Pen
sei cm E. R. M. Escrevi o di<írio. 1ivc alguns pensamentos essenciais
sobre m:mter um diário e acrescentar profundidade a minha vida ..
Idéias acerca do valor histórico do diário. Concentrei-me, me scnn
bem. Trabalhei sobre lingüística, com bons resultados. A seguir os
balomas. Cansado - a partir de quinze pa,ra uma - tirei urna sooe
ca durante \li hora. Depois sup<:rvisionei o cozimento de costcletaa
na grelha (extremamellfe d11ras), depois k"yak11, conversei sobre os
brtl~11ta,r. Às ), vadiagem: me barbeei, reuni minhas coisas e remei
até a c:1sa de Bill. As estrelas cintilavam (depois de um crepúsculo
resplandescente) - , remei com vigor, pensando em lingüística. Tam·
bém nas csrrelas, e falei com as estrelas sobre E. R. M. - Billy, chá
Contou-me sobre Oiabia; Brudo com esposa e filhos, ilhéus de quin
ta-feira que dançaram depois. Ele me contou que Geo. Auerbach quer
comprar o pomo comercial de Harrison em Vakuca. Falou cm "cor
oar-sc grileiro nos campos de ouro" e em "reunir gence para explo-
rar estanho". Em seguida lhe fü perguntas sobre material cenográfico
-sobre menstruação, concepção, nascimento. Ficamos ali sentados
co11versaodo durante algum tempo, e fui para a cama às 12. Mick
rossio. horrivelmente; depois uma criança guinchou. - Péssima noite
UM DIÁRIO NO SF,NTIDO ESTRITO DO TERMO 199

2. 1.18. Semi-me bem, apesar disso. Saí às 7 de sob o tainamo. Típi-


co Stimm1mg da casa de Bill. Fui para o caid-re. Tomei o cbá numa
mesa sobre a qual os filhos de Bill haviam aprontado uma bagunça
incrível. Depois comecei a tirar fotografias. Rapazes de Omarakana.
~jJl e eu fomos a Tcyava. Voltamos; almoço; a seguir, tornamos a
volrar. Gastamos 6 rolos de filme. Embora estivesse quente, e\l esta-
va baseante cheio de energia, e ao retornar eu teria me ocupado cm
estudar a línglta se tivesse tido tempo. Trabalhei nas minhas foro-
grafias. Depois do jantar, recolhi minhas coisas (injeção de estrepro-
cocos); comi demais, mas remei o tempo rodo e voltei cm l hora e
45 min. Cbá com uma gota de conhaque, conversa com alguns sel-
vagens - às 11 fui para a cama, pensando em E. R. M.
Introspecção: percebo mais uma vez como ininhas reações sen-
soriais são materialistas: meu desejo pela garrafa de gengibirrtt é ex-
tremamente tentador; a ânsia contida com a qual busco uma garrafa
de conhaque e aguardo as garrafas virem de Samar1ti; e finalmente
snrnmbo à tentação de tornar a fumar. Não há nada de efetivamen-
te ruim cm tudo isso. Um gozo sensual do mundo é meramente uma
forma inferior de apreciação artística. O importante é ter absoluta
consciência disso e não deixar que inrerfira nas coisas essenciais. (lem-
bre-se de como foi indulgente consigo mesmo quando se hospedou
com os Khuner.) Por outro lado, sou perfeitamente capaz de uma
vida quase ascética. O principal é que isso não deve ter importância.

). 1.18. Manhã - o inesmo S1i1111111111g sobre a lagoa. Céu azul com


rons róseos tépidos, pequenas nuvens cor de violeta. A lagoa lisa,
perturbada apenas pelos reflexos em mucaçãodas nuvens. Como sem-
pre, sob o mosquiteiro, tento me recobrar e me preparar para o tra-
balho. Estou tentando "aprofundar" o meu diário, tenho trabalhado
nele quase todo dia, mas até agora meu diário ainda não se apro-
fitndou muit0! - Às 7 saí de sob o mosquiteiro. Diário, desjejum,
revisão dos meus papéis. T. L. ('Ibm waya Lakwabula] próximo da
minba tenda. Às 10 comecei a crabalhar(bt1/omai, reencarnação, con-
cepção). Por voltadas 12:30, muito cansado, drei um cochilo. À 1:30
me levantei e supervisionei b1tl11wa, que escova muito saborosa. Às 3
200 BRONISl.AW M'ALJNOWSKI

voltei a trabalhar, mas escava cansado e modorrento. Às 4, Reuma,


prel iminares do k11!a, e teste (échami/1011.r [amostras de]), tJtWttsila. Às
5, muito cansado (no fim da minha consciência, com o combustível
intelectual inteiramente esgotado). Deicei-mc; "Tircsias" de Swin-
burne. Escrevi para E. R. M. -Às 6 saí no bote. Despi-me até mi-
nha cinta; fragmento de associações: pensei em me casar com E. R.
M. B. Sp. também está bastante indiferente a ela - será que vai
romper relações com ela? A sra. Sp. - que atitude tomará? Pensei
com indignação em sua atitude antiaustríaca-polaca - fiz um lon-
go discurso denunciando a ignomínia de uma postura dessas. Ett 111t
altero até oponto da i11dig11t1',1ío. Depois lembro a mim mesmo que ela
só pensa na opinião p!tblica. " W'f1hn, alies \~1/m"{rudo é ilusão]. Pensei
em R. Wagner-seria ele um anglófobo violemo hoje em dia? Uma
canção dançante polonesa me ve m à cabeça: visão de Jul1er e Olga
no Esrúdio E. Malvern. Forte saudade do que eu costumava ser. Pensei
em Ivanova. AJ as estrelas apareceram. Distingui diversas constela-
ções. Rapidamente, me pergunc·ei: até que ponto estou vivendo na
escuridão iluminada pelas estrelas - como o Tiresias de Swinburne?
E. R. M. está sempre comigo. Pensei durante muito tempo na via-
gem de bote que estava planejando fazer. Resolvi carregar a d.mára
para poder citar fotografias, e disse a mim mesmo quais iria tirar. (E
aí esqueci-me de carregar a câmara!) À noite, de 8 às 9, bebi chá. A
seguir, conversei sobre várias coi&as. Das 10:30 até as 11 escrevi pata
E. R. M. Depois pensei nela sob o mosquiteiro. Será que algwn dia
vou voltar a Cairns e acompanhar o desfile? Será que tornarei a ver E.
R. M.? A morte, visitante de vista t11rva, eJto11 pronto a enfrentar. - No
bote, um forte desejo de ter uma família, de me casar com E. R. M, de
me estabelecer.

4.1.18. Levantei-me como sempre e saí às 7 de sob o 1ai11a1111J. Nova-


mente águas tranqüilas, nuvens - cúmulos violeta-escuros no fir.
mamente e nuvens fofus e brancas no horizonte. Forres rajadas [ma-
li111i11aJ, chuva -o mar de um ve.rde vítreo, um pouco sujo. Depois o
brilho verde e monótono dos manguezais através da chuva rarefeita, o
sol sai, tempo boro, e poucas nuvenzinJ1as brancas no céu e sobre a
UM DJ,\IUO NO SEt-.'TJDO ESTJUTO DO Tfü\MO 201

água - mas de volta à etnogra6a! - Comecei a trabalhar às 9, mas


muito breve me cansei. Trabalhei com informantes de má qualidade e
"revisel' meus dados com a ajuda de d-0is indivíduos. Boba'u não é um
mau informante, afinal de contas. -Às 11 parei, exausto, escrevi para
E. R. M. (chuva incômoda, coloquei de lado os papéis); saí de barco,
porém sem energia, "sem ímpeto". -Retornei, comi taioba. Por volta
das 3 recomei o trabalho. (TibayilaJ é um péssimo informante. A se-
g,tir comei a escrever para E. R. M.... Pensei em Józek Koscielski e
como eu o descreveria; filho de um membro do HerrenhatlJ e amigo do
K.aiser; O nero de Bloch - lembro··me de mioha conversa com ele
cm Berlim (conheci esses dois, Morszlyn, Kosciclski, por meio Jan
Wlodek). Depois pensei na srca. (Weissenhof), e se eu a impressiona-
tia agora. Imaginei encontros com vários homens e mulheres polone-
ses. Se eu me casasse com E. R. M., seria afastado da comunidade. Isso
me desMima mais do que qualquer oucra coisa quaodo penso cm des-
1>0sar E. R. M. - E quanco a ela? Depois torrwi a olhar o mar e o çéu
e meus pensamentos voltaram para E. R. M. 'füsteza ao pensar que
calvez eu nunca mais a veja. - Retornei; ceia; li T(ess], no qmll estou
come<;1mdo a enconrrar algo. O rema da falsa [apropriação] sexual é
muito forte, mas o tratamento? Conversa curta com nativos, sem gran-
des remirados. Sob o tainamo, pensei cm E. R. M. Gosro dela profun-
da e imensamente. Meus ·pensamentos não se desviam para qualquer
impasse lascivo. Ao partir apliquei um pouco de vaselina nas mãos;
essa associação trivial despertou cm mim um desejo sensual, profun-
do, sentimental. - Pensei na minha volta; no fervor de nossos olha-
res. O valor incontesre do corpo dela.

5.1.18. Dia úmido, chuvoso, tempestuoso. De manhã, céu e lagoa bien


llectriq11e. Às 10 comecei a trabalhar. Tokabaylisa terminou seu /ili'11.
Diminuí o 1·itmo mais ou menos às 10; comi uma noz de areca e de-
[)(}is saí de barco por volta de 12:4S (senti a necessidade de exercício).
Após o almoço ,,oltei a trabalhar com Yosala Gawa, e 2 horas de tra-
dução do seu megwrt "fdfapara mim". Às 4:30 fui até o olho-d'água e
durante 4 minutos remeivigorosameorc. Às 6 voltei, dcpois"remei mé
Boymapo'u, e regressei. Depois do jantar, Navavile conversou sobre
202 BRONISLhW MAUNOWSKI

[K111n1; tomei nora de tradições, enquanto ele as relawva. Escrevi ai


gumas linhas para E. R M. Sob o mosquiteiro adocmeci rapidamente
A corrente mais profunda da vida. De manhã tmbalhei mas tam
bém trabalhei no diário ccc., sem qualquer necessidade de cscímulo cs·
pccial. Cos111111tira111eme, faço isso de furma espontânea at~ certo ponto
O trabalho cm si não vai bem. Talvez eu não seja um homem nota dez
do ponto de vista físico. (Fiquei um camo deprimido na quinca-feira.) /1
coisa mais impommce seria eli mi mie elememos de pre(IClljldfi!O dq vie11 tra/J.J
lho. Ter unta sensação rle do111!11io nbso/1110 sobrun coisas. Ao ímocar as infor-
maçfies renho( 1) a sensação pedante de que devo atingir uma cerca mei.1
(3 páginar, 2 horas, pretll(htr 111n t!j>4{0 tm b1<111<0 li!) capf111/o X 011 Y), (2) um
desejo grande demais de deixar de fazê.Jo sempre que possível.
Ao final do dia de trabalho desejos oculcos, bem como visões,
começam a vir à rona: ontem cu vi a excrcmidadc ocsceda ruaAJbcrc,
onde o amplo bulevar a atravessa na direção da Lonsdnlc. Em seg11ida
sinto desejo por E. R M. Duranre minha caminhada até oJO{li semi
necessidade de fugit dos 11iggers, mas não consigo lembrar sobre o
qtte esrava pensando. No barco: impressões de Joan Wcigall e d~se­
jo incenso de ver mulheres clegances e bern-vescidas. E. R. M. eclip
sou-se momentaneamente. Bm certas ocasiões sinto uma vontade
violenta de ir para o Sul onera vez. Como eu me senciria se, por aJ.
gum motivo, E. R. M. não estivesse me aguardando ali ? Simples·
mente não suporto nem pensar nisso. - Associações variadas: meu
fucuro com E. R. M. - na [...] na Polônia? Penso em Molly e em
como eu deveria lhe escrever uma ama de Ano-Novo! Sem dúvid11
ela ainda falaria comigo. Uma das minhas características é que pen-
so mais nas pessoas que manifestam hosrilidade parn comigo do qtW
nas amigas. Tcidos aqueles que ccoho de convencer, violentar, subjul·
gar (Joan, Lady Sp., Baldie, Moll}•)em vez dos Khuner, Mim, os Peck,
os Stirling. - Nesta manhã (6.1.18) ocorreu-me que o objetivo de
manrer um diário e remar conrrolar minha vida e pensamentos a
cada momento tleve ser consolidar a vida, inregrar o pensamento,
evitar fragmentar os temas. - T.1.mbém confere uma oportunidade
de reflexão, como minhas observações sobre pessoas que não gos·
camdemim.
UM DlÁl\!O NO SUNTIDO BS'rRITO DO TERMO 203

Volta de Boymapo'u, maravilhosa fosforescência fazendo os pei-


xes se iluminarem. Contemplei Vênus, pensando em E. R. .M. e no
mell uabalho, e planejando ataca.e os documentos etc.

(li. I . 18. Domingo. Levantei-me às 8. Bapoptt. Às lOcomecei a trabalhar


- muitas pessoas em torno porque era domingo. Principalmente
Navavile. Concentrei-me em bwaga'11 e coisas semelhantes. À 1 saí com
1) barco. Aborrecido ao descobrir que tun dos remos escava rachado. Tra-
balhei um pouco com lingüística. A seguir uma chuva monstruosa de-
subou. Dois indivídt1os na minha tenda. Quando as lacerais estão abai-
xadas, fica cão escuro lá dentro que ler ou escrever fica fura de cogicação.
Passei minha mesa pura<> outro lado da renda e mandei chamar [.Mwa-
m1sa]; ele me deu tnegwa. (Ah! sim, no caminho espiei para demro da
c.'llbana onde a esposa [de Weirove], quase uma criança, escava chorando
porque ele a havia espancado. Pensei em E. R. M., associação: casamen-
to e harmonia espiritual.) Dia sombrio e chuvoso. Lembrei-me de dias
como esse em Se. Vigeans, e subitamente senti vonrade de ver N. S. -
Gradativamcme meus nervos pioraram; mulheres começaram a lamen-
car-se (1ualam) em casas vizinhas. Fu.i à casa de Navavile, ele havia saído.
l3usquei Niyova, que não se saiu um bom informante sobre [b11gwaywo].
Ve1·ifiquci os termos de relacionamento. A seguir(desanimado pelo remo
mchado, não saí de barco), fui para osopi. GinílStica enérgica. Escava pen-
sativo; pensei no diário e na integração da vida durante rodo o dia; acé
r)tte renrci dominar tun ataque de depressão que me assaltou entre 4-5.
As 5 saí; tcnrei concrolar e observar me11S pensamentos. De modo geral,
escou calmo, e preocupado com a necessidade de exercícios físicos. Pla-
nejo limpar wn cerre no onde possa .fazer minha ginástica. Fiz exercícios
suecos à ph1Sie1111 reprises: Há um trecho do caminho com tun odi!d wn
ranco mais baixo - ali a vista é mais ampla e mais agradável. Corri e
me exercitei nesse lugar. A seguir fui ao lago, onde me sentei para dcs-
c-ansar. Uma rolha de palmeira alfineta meu111111'tmtt. Pensei em como o
t-abdo dela sempre atrapalhava. Desejo intenso e profundo. Pensei em
N. S. E compus wna cana final (em pensamenco]. Dessa vez não posso
mais adiar. E difícil - detesro ter de magoá-la, mas devo escrever de
wna vez por rodas. Também pense~ cm Paul e Hedy. - Oncem e hoje
204 BRONISU.W M/IJJNOWSKI

tive difiruldades ao rirar focos; desânimo característico, uma das princi-


pais di6culdades no meu trabalho. Anoice, volcei, sentei-me e me se-
quei no calo1·do fogo -perspectivas completamente modlficadas após
a incensa sinástica, os desconfurcos de acampar agora me parecem m1Ji·
co divertidos. Fritei inhame. Escrevi cartas para C. G. S. [Selis man], P.
& H. Depois LUn kayak11 curto em [Sugwaywo]; jovens pintadas de pre-
to, cabeças raspadas, uma delas uma nak11b11Jc.-wab1iya com um rosco
animalesco e brutalmente sensual. Escreme<.i ao pensar em copular com
ela. Pensei em E. R. M. -Enquancocaminhava pensei que se E. R. M.
me deixasse por causa de algmn sujeito simpático de alma modesta, se·
ria a únka coisa que poderia me fuzer vokar ao amor simples à N. S. Só
que isso não vai acontecer.

7.1. lS. Levantei-me às 5:45. Andei cm corno da aldeia. Tudo normal.


Quase todos na bt1g11lt1. Alguns 11akt1ka'11s e tobwtlbwa'11s piorando-se
de negro. Alguns comendo ka11/o frio. Fui para o bt1bopop11 e depois dei
mna caminhada curta. Temei me preparar para a reunião a apromar-
me para tirar foros. Também pensei no diário. Esta manhã, logo de-
pois de me levanrar, pensei cm E. R M., depois perambulei através da
aldeia - associações' Ah! claro, no caminho para o btlbojlo/m observei
que estava andando com os dedõcs dos pés volcados para for:t - como
E. R. M. quando tinha frieiras. Depois, das 8 às 12, examinei o qucs.
tionário com Morovato e Kari wabu. Forces amsos de saudo.dcs de E.
R. M. enquanto repassava as perguntas e planos que havíamos exami-
nado juncos, com os quais ela havia me ajudado. -As 12:30 exercí-
cios suecos, breves porém eficazes. (De manhã os garotos levaram o
bort de Mick). Durante todo o dia fiquei perguntando se alguém havia
visto o barco de Gilmour - mas não. Além disso, de manhã, houve
um incidente com uma cobra que escava nadando perco da aldeia -
tt11wa'11. À tarde trabalhei sozinho com lingüística. - perfeitamente
bem. Às 5 fui com Gioger pelo 1'aybwr1g até [ ...}Semi-me forte e ca-
minhei de maneira desenvolta, o e:sforço flsico não me perturbou. Em
cercos momentos, corri. Sentei-me à beira-mar. Banhei-me na água
tépida, que é rasa e com mn fundo pedregoso. Voltamos com llffia
UM DIÁRIO NO srn·noo ESl'lUTO DO TERMO 205

l.mcerna. Eu escava comendo inhame qtiando alguém me crouicc o


lllalote do correio. Tensão nervosa em vez de sensação de felicidade.
~clecionei as canas; primeiro a da mamãe, depois as menos imporcan-
(CS - Lila, .Mim, Paul, os Mayo - a seguir, E. R. M. Um trecho so-
bi:e Charles me causou fortíssima impressão, me deprimiu e aré me
1~iencu. .Momento de saudades de N. S. Li a carta dela por último, no
fündo remendo as passage11s mais profundas que eu anres procurava
- Fiquei acordado aré tarde, quase até meia-noite. Dormi mal (po1
rnusa do banho de mar ou agitação devida 11s cartas?). Em breve et•
escava inteiramente abalado-hors d# gonds [desequilibrado]. Tenho
de escrever algumas coisas muito importantes para E. R. M. 'fambém
dar um fim não muico cruel porém definitivo no C(iJO com N. S. - N.
lt está pesando na minha consciência - renho pena dela, mas não
1ínco sua falta. - As carras de E. R. M. são consideravclmcme mais
iUbjecivas. Sou cransporrado- imeiramente, em cranse, embriagado
- , os 11iggeu deixam de existir. Não sinto vontade de beber nem de
comer.

H. l. 18. Levantei-me às 7. Escrevi algtUnas carcas menos importantes


(1)ara P. & H., e os 1fayo), e a seguir comecei uma carta para E. R. M.
(não sinto desejo de esçrcvero diário). Escrevi de cerca das 10 acé as 5;
tom peqt1enos intervalos para o almoço etc., durante os quais reli as
cartas dela e pensei nela. Em cercos momentos, fortes emoções. Em
óunos momentos, quando escrevia sobre as sufragistas e sobre os
Gilbraith e cocava em assuntos concrovertidos, cu sentia uma cerca
irritaffio. No final, estava exausto e sentia necessidade de dar uma ca-
iniohada estimulante. De modo geral, nem quando lia sua carca nem
quando escrevia para ela meus sentimentos se ioceosificavam. - Não
posso dizer que() i~1dadeiro ser deL-t, 111a11ijeJt(ft/Q por meio de u1a.r ca1'trts,
esteja tão próximo de mim qnanto o Duplo dela. Semjwe há 11m processo
tle rulapr«{/fo - o res11/t«do éo Dtplo. - E, mesmo assim, as cartas dela,
us hiswríetas dela, a espirimosidade dela ao ler os jornais me abs()r-
vcm de maneira quase exdusiva. Um louco desejo (mrbuJento, ao qual
não renuncio) por ela, um desejo que não senti pelo D11p/o. Só que fico
desequilibrado, e a isso sempre reajo negarivamente. -À noice, expe-
206 BROKISLAW MAl.11\0\X'SKl

dição até Dubwaga. Fui de Kwabulo até Dubwaga pensando nela, cm


Charles, sobre coisas definitivas: (;mais fácil amar aqueles que n~o mais
vivem do que os vivos. Escrevi wn pouco mais para ela e fui para 3 cama.

9.1. LS. Pela manhã, diário etc. A segu ir, o conto. A princípio, desa·
grado, depois, gradativamente, melhor, às vezes chego11 a me como-
ver; no todo, muito bom - só que estou envolvido demais pessoal-
meoce para me livrar de cena desconfiança quaoco ao meu entusias·
mo. Às l l , Navavile - um desejo violento e doloroso por da. Sen-
timento de imperfeição. Semimmto obrt<.r1111e. Após o almoço, li os jor-
nais acé 3:30; a seguir traduzi o megwa de Navavile. Depois füi com
Gioger ncé a lagoa.
"O ttrp!tsetdo 11em1elho mava acabtmdo de se dissif!ar sob 11111 d 11111ri kl de
1111wm 11egms, o longo trecho de 111a111,r1ezfll se rejlelilldo 11a ág11tt 1.r1111b'111 merg11-
/hado e111 11ma l'igida emtridiío ro/ltra od 11 e a ág11a. A /11z ·wrmelhfl pesada e
m'1c11k11/" pamia vazar atra~w do mcho /111nin!JS0 a r,este. Fl11111t1WJ e tremia
ro111 omovillie/l/o vaganM t!aJ vlldaJ, e, e11r1ti.'<Llila 11a mulrlt1ta11rgra tkn 111M11J
t da <OJta, pal'eria s1tf«ada e sllforamc <IJIJIQ ottr tlpido, q11e passam rolt111do tm
l11fodas pegajo!as ei11dllle111es. E11 o~mia tJcalar minhapele n11a e111 wz dt baltr
cq111raf/a." -A seguir ginástica sueca. O conto. O problema do heroísmo.
Force senrimenro de desânimo. Charles e eu. Em certos momencos, fico
triste porque não posso me submeter a um ccste. Recordei-me de meu
sencimenrosupersticioso de que se E. R. M. se apai.xonasse por mim, cu
teria 111t1/a sombra na N[ova} G[ui 116}.- Por wn momento pensei que
não existe lugar para mim no coração dela i\ sombra da fama dele. De-
sejei que ele voltasse e que cu mmCll a tivesse conhecido. Depois pensei
em mim mesmo. Um furte scnrimenco facalista de que "no/mmn /a1t1
tra/Jl(/11, wlm1t111 ditamr" [o destino arrasta o relucance e guia o resoluco].
Um poema provocante me ocorre. Penso no misticismo de E. R. M., na
crença dela de que o destino a enviou e a dominou para dar felicidade a
Charles. "Mirticirmo, niilJ fr1tnlir1110." Por um momento, olhei o Destino
nos olhos. Sei que, se tivesse de ter ido à guerra, reria ido tranqüilamcn·
te e sem muito alvoroço interior. Agom: colocar minha vida cotidiana
naquela moldura heróica; ser implacável com relação aos a{X'ticcs e fra-
quezas; não ceder a depressões e digressões cais como a incapacidade de
UM DIÁRJO NO SENTIDO RSTl\IT(l DO TF.RMO 207

1irar foros. Dispersar a falca de jeito, o desejo sensual, o sentimentalis-


mo. Meu amor por E. R. M. pode ser, deve ser baseado no sentimento
de que ela crê no meu heroísmo, de que, se cu tivesse sido convocado
para defender a pátria, não teria fug.ido ao dever. E eu também preciso
confiar em mim mesmo, ou não vou chegar a lugar algum. Lutar, ir em
frente, estar pronto a qualque1· momento, sem depressões, nem premo-
n.içõesl - felicidade füosófica: "Seja lá o que for que aconteça- não vai
me afernr", sensação de que o caminho mais curto leva ao inferno, para
óllde não posso levar nem tristezas nem alegrias, e que cada momento
da vida é repleto do que será e do que já foi.

10.1.18. Noite mt~iro ruim. Nervos, rnrncão. (Fumei demais?)


Pensei em E. R. M. e senti um arrependimento distinto, definiti-
vo (não foi a primeira vez?) por não me colocar à pmva. Compus
(mentalmente) ttma carta para N. S. - Levancei-me, escrevi o
diário, recolhi minhas coisas, de forma a estar pronto para partir
/is 1O. Pronto por volta das 11, quando um forre ym;ata sopwu;
Íurioso, porém devo esperar chuv·a e venro. Li e corrigi carta para
ll. R. M. Por volra das 12, tempo bom, calmo. Comi mom;wptt e
entrei em um pequeno -waga para Kwabulo, e dali caminhei até
G11saweta, via Vilaylima. Lá Billy comprou uma grande pérola.
Bm seguida, conversamos. Lemos boletins; ligeiramente relaxado.
Dilly me deu alguns dados etnográficos. Depois do jantar foi para
l.1)suya - durante rodo aquele tempo forces sentimentos por E.
l'l. M. - Em Losuya, uma conve rsa amigável com Camp{bell] e
cm O iabia com GiJmour. Este último muito gentil, debatemos
roisas e conversamos. Fiquei nervoso, sem necessidade nenhuma.
Depois, uma sensação agrad{tvel de gue estou sozin ho de novo,
de que posso voltar para E. R . .!vi. em pensamento. Porém, uma
1 erra fadiga e instinto comra a ''monomania telessencimental''.
'lentei pensar de forma mais normal. Perdi o caminho e andei até
Kapwapu; ccmpcscade no horizome disrnme. Voltei, dormi md.
0llfanre codo aquele rempo: problema cm manter a pureza inte-
rio r cm relação a ela, claramente percebendo gue isso pode ser
foi co. Percebo que a pureza das ações depende da pureza dos pen-
208 BRONISLAW MALINO\X'SKI

samencos, e resolvo policiar a cé os meus mais profundos inscin


ros. Por outro lado, meu amor profondo, imensamente terno e
apaixonado por ela, se cristal iza cm um forre sentimento do va·
Jor de sna pessoa, e sinto q ue realmencc desejo unicamente a ela
Posso reprimir imp ulsos ocasio nais vio lentos d e galinhugcm me
apercebendo de que isso não vai me levar a lug ar algu m, de que,
mesmo que cu possuísse m ulheres sob essas condições, estaria
meramente me chafurdando na lama. O mais imporcance é culti·
var uma forre aversão contra chafurdar na lama (onanismo,
galinhagcm etc.) E buscar tudo aquilo que contribua para favo-
recer essa aversão. Um aforismo de Nietzsche me vem à mente:
íhr hiidmet Glilck ist bei einem Weibc z11 liegm [sua maior alegria é
se dcicar com u ma mul her). Mel1 sentimen to por E. R . .M. é algo
absolu tnme nce di feren te: mci11 Leib 1md Seele 111it der i/11·igen zu
vem'hmtlzm [fundir meu co rpo e fil ma com os d ela]. - Por o ut ro
ludo, cento combater as efusões sent imentais e â nsias niilistas e tc.
Volto mentalmente àquele momento de profunda concentração
quando ansiava por levar uma vida heróica, quando olhei "odes-
tino nos olhos": uma vida atravessando o deserto rumo à fclici·
dade, atravessando a felicidade até a rristeza e o desespero. Eu a
:uno profundamente; sinto que cln é a ú nica mul her feita para
ser mi nha espc>sa. Será q ue o destino vai wrnar a nos pregar uma
peça? Aco nteça o q ue acontecer - 110/entem fa ta t1'f1b11111, volentem
d11c11111!

1 l.1.18. Depois de ltma noite muico mim, levantei-me com torci-


colo. Examinei alguns boletins, prestando atenção para ver se en·
contrava algum que falasse de [l. R. M. ou do seu clã - também
despachos políticos. Pensando nela continuamente. O plebiscito foi
um fracasso; sinto por nosso Charles. A seguir li cartas de N. S. e eu
escrevi para ela. Tarefa difícil; apesar dos ruídos e interrupções, cu
me mant ive sob controle, e fiquei feliz cm sent ir q ue c u esmva ag ora
force o suficiente para "niio ficar nervoso". Inre rvalo para o almoço.
Mas após escrever (fui um pouco menos d rástico do que havia p re·
tendido ser) me senti excremamenic aliviado. Contudo, a sensação
UM DIÁRIO NO SENTIDO ESTRITO 00 TERMO 209

de que havia sido injusto com ela e de que agora ia magoá-la é hor-
rível. Mas isso tinha de acontecer. Sinto que fiz algo que tinha de ser
foito. Primeiro passo. E calvez tenha feito isso de maneira a magoar
N. S. o mínimo possível.
Depois do almoço, voltei a minha carta para E. R. M. Li mi-
nha carta para ela; depois a dela, e escrevi de novo, com muita
ternura e paixão. Senti-me dcbi lirado ao pensar que poderia nunca
mais vê-la outra vez . A noire: Billy me contou histórias, depois
revelamos foros - HiJtórias: S11rpeila-se q11e o rei rep,.odutor teve 11111
bebê na sua mamba. Bitly mora com 1J111tt milther (tatuagem no ante/n·a-
'ºvoltadela:a Dew
Billy). C.K. entrtt 11a loja, fala com ela n11m bom inglês sobre
etc., & a convida para vil· mol'ar11rt C,tsa drt Missão. Billy
esc11ta e traduz: "Blefala você ir 111orrtr com ele Missão" "Voe€ diz a ele:
vá se fan·ar." C.K. dá meia-volta e te manda ... O comendador X. Y.
llVrtlsh sempre bêbttdo. Emie Oates e Billy. Bitly co111birui com uma n111-
lher pttra ir a Bogi. Todos eles descem ttpós 11111 mês para a praia, esmá-
rio <lo YQdda, Ali a P,olícia acampa de mn !ado, J. St. R11ssel dá ordein
/1rtrrt t1 polícia não detei· a m11lher. Constrt q11e a prenrfe,.am, apesar di!-
to. Uma expediç,10 de b11sca. Walsh (o rimão de Lady Nol'thcote), bêba-
do, cai ao chão. Pega1·r1111 d11as meninas e 11m cabo. j1dgame11to: R. tom
as pernrts levantadrtI em mzão da gonorréia. \17. embl'ir1gr1do de crtir. Emie
rl'r1d11z o tempo intet'rogativo como imperativo. Menina confirma q11e foi
compl'ada pa1·r1 Billy (B. diz que ela teria prefa1·ido mil tiezes o g11rtr-
da). O cr1bo açoitado por Walsh, meninas 1ra11cafir1das na loja, m.41 por
volta de 11 da noite estão com Ernie e Billy. - Problema! cM1 m11lheres
110 YQddet. Logo etcima de 50 milhas. Monckton * vem r1 Kokada. Os
mineiros dizem "Dane-se". Billy Liltle (o eJlcoviteit-o de G.) repete isso
/Mra Monckto11. AI. en11·a, marchando, "esqmrda, direita", "di1'eita,
eJqtterda", os mineÍt'os zombam dele. B. H. escreve então uma carta para
11111 snjeilo que vem e enc0111ra M. no meio do caminho e o 11·r1tr1 com edn-
'"'f/lo. DepoiJ diu o M. não cl'iott 1nais caso co1111·ela§ão a iSJo.

"Chetrles A.W. }.(or.('kto11, r1uh·od:1 Kova Zcl§1~di'! q ue veio pata a No\'a Goinéem 1891 e $C çor·
nou m:i.gisttado :~!dente de Samilrajcm 1897 e de Xokoda.<.:rn 1903. El.c 11.lcr<>ll a patrulha \'th1ia-
L11kek::imu, 1Jmi1. itnp\'nianu: npe<l1'1o cxploratõtia.
210 BROl<ISLAW MALINOWSKI

Sábado, 12.l.18. Manhã, pedi ao Billy e à sua sra. para me ajuda


rern o.o meu rrabalho. A sra. não me disse nada de inreressancc. O('
pois revisei as anotações sobre gramática. À tarde, cansado, chuva t
mormaço. Li Lockc• e coroei a trabalhar com gramática, sem gran
dcs resultados. À noitinha fui fazer um pouco de exerckio. Volm
escrevi carta a E. R. M. Durante todos esses dias, um amor mais in
censo, ime1m1mc nte profundo e desejo por E. R. M. Resolução de
ser puro. Não posso rer pensamenros lascivos nem scncimencais so-
bre qualquer oucra mulher. "Mulher" = E. R. M. Folheando Foo<r
sinro uma aversão por toda C$pécie de luxúria, e a equação acima 1e
aplica ao meu caso.

Domingo, 13. 1. 18 Acordei às 5- ... Pensei, sencindo-me feliz, na


existência de E. R. M. Como música. Depois despertei carde, en
fraquecido. Li concos de Locke e pensei em E. R. M . - Esperando
por Gilmour. Por volta das 4, quando terminei os comos, comem
a fazer as malas. Gilmour veio; conversa. A scg1Lir, ele se foi. Con
versei com ele sobre grami\cica e planejei uma possível colabora
ção. Conversamos sobre Bromilow. 0 Eu lhe dei minha última car
ta para E. R. M. Antes disso cu havia feito meu cescamemo com
Bill. - Depois do jantar me a1>rontei. Amedrontado no barco qu~
balançava violcnca menre. Estrelas. Pensei em gramática. - E. R
M. todo o tempo - sob o tt1ii1m110, um acesso de desejo físico por
E. R. M. transforma-se gradativamente em lascívia indiscriminnda..
A não ser pclu carde de sábado, durante os últimos dias civcmO!
um tempo maravilhoso, ventos de leste e céus Clllmos e claros, um
pouco quente, apesar de tudo.

14.1. 18. Esta manhã me deitei sob o 1t1inamo, mimando-me um pou·


co; mas naquele momenro eu já não vinha dormindo razoavelmente

•\\:f111iao J. Lod,c, t Ol'lliocis:1a britânico p()l}UfAr r.11 Cpoa.


"*Rc\', \V/. E. D101r.1low, o pri ~'ciro Jni$3ion~rlo de Dobu~ isuiis obsc11t1ç-bct; 301.i:e alguns J M COU'\I
meo nati~·os, nos: 1cgittr0J dít J\$30d ~çiio Auttrflliuni PJfll. o A\'anço cln Ciência, ( Otl$t/tuí111m nf)'I
1cn1co:cn~c o único rcil.11o cscrito$Obtc 0$ d<1bu111~os na ~ll<".ea ( rn que i\f 111ino~ld csctevcu A ~.1111J
Jt ôt11td.J i><Jr~fk.,.
UM DIÁRIO NO SENTIDO ESTRITO DO TERMO 21 l

há muito tempo. - Nunca consigo dormir adequadamente em Gusa-


wcta. Preciso voltar ao trabalho. Estou a rodo vapor cm lingüística.
Mergulhe fundo, ataque enquamo o ferro está quente! Uma vez I)lai.s
um dia claro e boniro. Trabalhei sobre a terminologia dos jardins;
Navavile veio e ajudou. Muito cansado às 12:45, tirei uma soneca.
Depois do almoço trabalhei com terminologia, wagr1, e a seguir anotei
os pomos principais do tur1ga, com a ajuda de informantes. Trabalho
sob alta teruão. Cabeça mtúro cansada. Às 5, Ginger, eu e Toyseoegila
fumos a [L11m'}. Estou com os nervos tão esgotados que nem mesmo
ansiei muico por ela. Algumas perguntas que fiz a Toysenegila já me
cansaram. Caminhava como um autômato. Estrada desimpedida até
o mar. Banho: estott me acosmmando ao coo.tato com a água, embora
ainda me dê nos nervos. A seguir, no çaminho de volta, me sinto de-
IKiinido a respeito de E. R. M. Sobre o mar verde vítreo, as sombras
da noite que se reúnem a leste no céu, com nuvens róseas no alto. Olhei
para o sul, na direção da passagem em Giribwa. Com uma espécie de
falta de entusiasmo e expressão pela paisagem, tl)(J(O a imagem [dela}
- e, de alguma forma, não reajo a ela. Exatamente a mesma ânsia
pela ânsia que rive em Melbourne, quando me "desapaixonei". Ela
subitamente desapareceu do horizonte. Perdeu rodo o significado. Um
vácuo absoluto, o mundo inteiro está sob o meu nariz, concreto, mas
nada derém para mim. Isso é conseq(iência da exaustão. Fiz alguns
exercícios. À noite, Tylor (eu reria me rccollúdo 1ts 9, se não tivesse
sido por1tquelej1atijê). Depois que ele sait1, um súbit0 desejo por E. R.
M. Sob o tr1inamo, um monstruoso desejo físico.

15. 1.18. Céu claro e transparente. Sencimenco forte e profundo por E.


R. M. "Minh~\ esposa" tk faao e de nntimento. Creio que depois de nos
casarmos seremos capazes de contar a Molly sobre nosso relacionamen-
[() atual. Penso cm N. S. - apenas em como devo dar a notícia a ela.
Sinto uma enorme atração por ela e me interesso muito por sua saúde,
mas não penso nela como mulher. De manhã trabalhei no dicionário,
rrmo.4.f-O mesmo assumo de ontem com outros informantes - aprendi
detalhes excrcmamente interessantes sobre construção de kdlipo11lo. O
trabalho não vai excepcionalmente bem, mas continuo sem pressão e
212 BRONISLAW MAllNOWSKI

deixo o1empote i11mmbir do res10. Sinco o efciro do sal nos ossos e músculos
Às l l, ginástica. Depois uma soneca antes do almoço. Não estou fu.
mando, e me sinro muito melhor. Depois do almoço o mesmo assunto
Depois das 5, füi para o mybwag com Gingcr. Recolhi informações dr
Niyom. Cansado. Fiquei nu água tempo demais; volcei exausto, com o
co1·ação aos pulos; mas caminhei devagar e descansei freqüentemente-,
esperando o rirmo do coração volrar ao normal. (A espemnça se mosr111
justi6cada hoje, 16/1). Pensei em E. R. M., imaginando como seria estar
aqui com ela. Sinto cada vei mais claramente qL1e essa seria a "falicidat!t
jle1feild'. (Imag ino-me perguntando a Seligman como ele era com a es-
posa nos trópicos.) - De volta, escutei a l'Onversa deles, comi, escrevi
algumas linhas pam E. R. M., e fui dormir...

16.1. 18. Levantei-me às 7: 15. Sai para fazer ginástica; céu com clÍ·
mulos, entre eles trechos azuis. Sombras profundas sob as palmeiras
e outras árvores, estranhas formas e cores. Entrei muna rouceira de
coqueiros. Ali meditei sobre o significado de um diário: mudanças
no curso da vida, naj11Jtd111e1110 r/e 11dlores - o conteúdo da ética -
com base na introdLtção da harmonia. O controle de meus apetites
sensuais, a eliminação da lascívia, conccncrar-me cm E. R. M. me
deixa feliz; uma sacisfação muiro maior que proporciona o simples-
mente deixar correr. Um hedonismo utilicarisca, se não esquecermos
os outros insrinros (instintos sociais), é o único sistema rncional: a
felicidade do indivfdLtO em harmo nia com a felicidade da coletivida·
de (o fato de que isso deve ser o Gn111d1011 [nora primordial] do ins·
tinro, pode ser deduzido a priori, do fato "homo animal soâaliJ". Pen·
sono valor do diário (com nfort11cia dima a E. R. M.): alcançar as col'-
rcnces mais profondas cm vez de meras ondulações; conversa consi•
go mesmo, e vislumbre do conteúdo da vida. - Obviamente, algo
tem de ser sacri6cado - a geme não consegue as coisas por nada,
mas o que está cm questão é uma escolha. - Planejo uma carta para
E. R. M. sobre esras idéii1s; necessidade de uma aucêncica solidão.
- Voltei cheio de pensamentos elevados: a vida precisa se desenvol·
ver num ritmo vagaroso, para poder se aprofundar. Ou o reflexo dr
efêmeros brilhos faiscantes na superfície murável e ondulada, ou o
UM DIÁRIO NO SENTIDO ESTRITO DO TGRMO 213

uncnso sorriso do fundo - depende do ponto de vista. Devemos


11os Clbrigar a contemplar o vazio da.superfície sem ilusão. Estou scn-
1 indo que o trabalho sistemático embora monótono, com um obje-
rivo, deve ser suficiente para mim. Sinto uma satisfução semelh11nte
.to nirvana com relação à existência ("nada está acontecendo"), olhan-
do as folhas úmidas e o interior sombreado da selva australiana. -
A,xioma: o desejo ardente e contfouo pela mudança resulta de nossa
incapacidade de sentir a plenitude da felicidade; se capcuramos nos-
'º momento de felicidade, não deveríamos precisar mudar.
De volta à minha tenda; o banho de mar me foz doer os ossos;
incapacidade de concentração; paralisia meneai. Lutei contra ela, mas
1cm grande resultado. Às 11 :30 parei e saí para fuzer exercício. Voltei,
L'Screvi para E. R. M. - A seguir, almoço; li Tess. A inrcnsidade de
meus pensamenros cm E. R. M. não diminuiu desde o Natal. - A
seguir, chegou Yasala Gawa; conversamos sobre bwaga'11. Às 5, cansa-
do; Y2 hora de lingüística. Escava ficando escuro, fui para Lubwayla,
fiz exercícios de ginástica na chuva. Controlei os meus nervos, relem-
brando impulsos heróicos. A lua e estrelas entre nuvenzinhas; pensei
cm como era necessário adaptar-me mentalmente à ginástica: a gi-
nástica como forma essencial de isolamento e concentração mental.
Aconteça o que acontecer, nunca devo deixar de fazer ginástica 3 ve-
tes ao dia. Ao volrar me senci bem e tomei parte na conversa com os
11iggm, também me senti mentalmente equilibrado, mas meu desejo
por E. R. M. não diminuiu (fiz obsccvações sobre k11dmnilagttwav11!t1).
!Zscrevi-lhe algumas linhas e fui para a cama. Pensei nela com paixão.

l7.1.18. Despertei às 7:30. Depois de escrever meu diário fui paraosopi


para fuzcr ginástica, sob as palmeiras, peno dos manguczais. Corrida,
depois exercícios bastante üuensi,•os. Além disso, planejei o dia e robtlS·
Irei 111em pensrnnentQJ. A ginástica removeu a lassidão, mas introduziu cer-
ta tensão 11t1wM, uma irritabilidade nervosa, insônia, qt1e já não tenho há
muito tempo. Trabalhei durante 2 horas pela manhã; CampbcJJ che-
gou; isso me frritou e me deprimiu - como tuna revisra na alfândega
da fronteira; um pouco temeroso de que ele talvez me causasse algum
dissabor; depois, novamente, abumcimento, desperdício de tempo, e não
214 JlRONISLhW MAJ.11'0WSKI

gosco dele pessoalmente. Conversa durante a qual fui expansivo. De


pois wna carca cuna para Il. R. M. Ginástica; temei me concencrar, to-
mar a atitude correta com relação ao búlgaro:• "ele não existe, no que
me diz respeito". A giná~tica me acal.mou os ner:vos, rescaurou meu eqrn
líbrio e me colocou numa excelente disposiçào de espírito. - Com •
ginástica e um estilo de vida regular, eu deveria manter-me saudável r
levar adiancc meus planos científicos. O único perigo é sobrecarregai
meu coração. Logo: levar o trabalho imclcctunl, solucionar as di.ficulda
des e esforços diários, na flauta, "não os levar a sério". Eliminar total
mente os rancores pessoais, os mmsiasmos etc. Cultivar o senso de humor
(não o inglês, mas o meu, B. M. + E. R. M.).
A seguir, almoço com um rapaz e conversa - sobre o quê? - a
carde: deitei-me durante wn quarto de hom, e comecei a trabalhar-o
ofício de bwaga'rt. Parei por volra das cinco, já farto. Excitado, impossi
vel me concentrar. Comi abacaxi, bebi eh~. escrevi para E. R. M., dei
um passeio; ginásciai inceosiva. A ginástica deveria ser um momento dr
cot\centra~'iio e isolarnemo; algo que me dá uma oportunidade de fog1r
dos niggm e dn minha própria agitação. Ceia com L1m camarada quem~
conrou anedotas estúpidas, absoluramcntc desinteressantes, sobre ~
ecnologia de Kiriwina. Escutei, donnitei e concordei com a cabeça: que
sujeico grosso. Canacurca para E. R. M. Pensei nela imensamence outra
vez: a única rnLuher para mim, a encarnação de tudo que LUna mulher
pode me ofcm1r. Alguém cantou durante a noire, isso me permrboL1.
não consegui pegar no sono. Dormi m:u.

18.1.18. Levantei-me rardc, 7:30. Ginástica na clareira perco dOI


manguezais. Força, intensidade, irritabilidade, em vez de [scmimen
co]. Pensei em E. R. M.: companheira de viagem cm vez de apenas~
cscrelaque guia 111t1n dmi11os. Mas ela esu1 sempre comigo. Há momen
cos cm que penso que meu desejo por ela se enfraquece, mas aí sou
snbicamemc dominado por ele. Pensei em N. S., sobre Adelaide, a c1
dade e o campo sempre serão o Parafso Perdido para mim: o velho

• Juo ~ lott t.una a1U'Ão ao505J.ado Wfs•ro convC'nricHwl1ntntc hctóko, mr.&.t.do n.t pc-ça ck Sha•
Arm1ar.J1he ....\1'f(Ai iuma.s eo homem).
UM DIÁ!UO NO SENTIDO .E-sTIUTO DO TERMO 2 l~

Stirling, muico fiel, a mãe, e aqtúlo rndo {o acampamento}. Dcp1J1$


voltei; irritado com a impudência de Navavile e dos t'apazes Wawclu
(haviam comido nozes de areca demais). Resolvi passar o dia revisando
minhas anotações e fazendo uma relação de problemas. Isso a princí·
pio caminhou devagar, a seguir problemas cspedficos surgiram.
Depois do almoço, [Tapi Bobmt]. Vento forre; fechei a tenda, e come
çamos a recitar Ji!ami, quando Billy chegou. Fiquei wn tanto ente.'·
diado e irritado com essa intet'rupção, mas o recebi com bonne 11ii11r ti
ma11vais jett, e conversamos (gosco dele como pessoa), seguindo dep01>
para Kiribi. Mick e B. furiosos com N. Camp[bell), que estragou qun·
tro caixas de benzina, ao irem para [a ilha de] Yaga, onde ele rem "(llan•
rações", e a seguir arrasraram tanoas Kavataria atrás dele. Billy tam•
bém me contou uma anedota, como N . C. estava mostrando [bek11I,
(Jue o pai e o avô da sua mulher possuíam; ele passou a língua ao /Ql1go
dele e chorou como um bêbado. Não me senci cem por cento em Kirib1
e não fui ao kayaka coro Moliasi. No caminho de volta o waga fez-se
ao mar. Linda lua, sentei-me na freme da canoa, 'foyodala Vat'C:tw,
Ginger tirava a água. À noite, mudei as ataduras do pênis de Towakaysc.
Depois li cartas de E. R. M. enviadas de Crandon. Compreendo o~
emoções dela a respeico de C. E. M.: ela vê o passado trágico à lu~ tios
seus sentimentos por mim. Como de 11111a praia segm·a. As cartas ddl11
para mim não ficam velhas. Olhei retrntos dela. Gostaria de enviá-lo~
para mamãe.

19.1.18. Primeiro dia realmente infernal. À noice, tempestade com


rrovões e chuvarada furiosa, a ponto de fazer o chão cremer. Além db
so, vendaval. Levantei-me e levei um tempo enorme para tornar 11
adormecer. Nacuralmente, pensei em E. R. M. Levantei-me /is 8 rn,
escrevi o diário sob pressão, pois soube que um sujeito tinha 1norri~l11
cm Kwabulo . .Fui para lá mim bot-c, com Tomwaya Lakwnbuln "
[Wayesi], e falei com eles sobre M[orce) & F[unerais}, mas sem t~·~11I
tados positivos. Em Kwabulo: enormes poças, pessoas acl!bumh1 d1·
volrnr do funeral. Ftú pnra a casa: explosão de gemidos. Ftú até o cü11111111
e falei sobre o corte das árvores e os estragos nas casas após a m11111· 111
ttnl homem. - Sentei-me sobre o baf/JJ, e comprei momyap11 é: tWll"'
216 DRONISl.h\V MALIJ\OWSKJ

Comecei a me sentir dcbilicado, bastance ruim, depois da volca. Al


moço à l; a seguir li Tm d'U. Pensei cm E. R. M., embora ache que 'f
d'U parece mais com N. S. do qul.' com E. R. M. - Passagens marcadas
que eu gostaria de envi:ir para Elsic. O romance me absorveu {e eu me
deixei levar]. Sentei-me à beira-mar. Em ccnos momentos, um desejo
insuportável por E. R. M. - ou seria da civilização?- Caminhei em
como da aldeia, mas, sencindo-me fcbriJ, retornei. Não estava com
disposição para escrever cartas; tentei lei T. d'U. Mas meus olhos fica·
rnm cansados. - Senti que, se ela estivesse aqui, seria um consolo
Imaginei o que estava fazendo um ano ances. - À noilC um vcnco tão
forre que temi que derrubasse a renda. 'fomei calomelano + [plancns
medic. locais) + quinino + aspirina, à noire. Por volm das 2 da ma-
nhã [tive de sai!']. - Ao retornar combati os pensamentos lascivos. E.
R. M. é minha esposa <Ít faao. Na noite anterior, pensei que se nos
encontrássemos agora t1'1!1~11'famos Vl!IOS e çolocarfamos nosso relaciona-
mencoso&re 11ma base sólida. É como se tivéssemos concratado um C4fff·
mwlo dane/mino. - Dumme todo o tempo, o desejo indefinido e vago
e a necessidade de cncrar em comunhão com ela.

20. l. 18. Dia péssimo. Levanrei-me às 8:30. Começei a trabalhar


muico rarde. Anocei canções de Wcirovc. Depois li 'Jtss tl'U. Ginger
veio me dizer que a esposa de Toyodala esrnva doeme. Fui lá; cena
interessante e divertida. Pensei cm termos pessoais sobre mim e E.
R. .M. - qual dos dois mnrrcria ames do outro? "Quando se contrai
novos laços, asswnc-se novas Ctlrgas." Mas eu não trocaria todos os
cuidados nascidos do amor pela severidade estéril do egoísmo. - A
seguir, comi um almoço frugul (taioba). (Antes disso cu havia foto-
g rafado um grupo que trazia {vayewo].) - Turnei a ler Tts1 d'U.,
terminei-o. Ele me causou ltma forte, porém desagradável irnpres·
são: o desenlace dramático e desesperador não se jusrifiça. Depois
circundei a t>é a aldeia; os nativos comiam t/JWámoto na ocasião do
[vayewo], primeiro os homens, depois as mulheccs. Depois, sentei·
me perco da casa de Naruya; çonversei sobce 1n11/11kwa11Si e kayga'11,
A seguir bebi chá (não comi), e também levei 11/a'1t!a para o baloma,
escutei seu tntgwa. Recolhi-me às 10.
UM DIÁIUO NO SENTll)Q ESTl1JTO llO TEl\MO 217

} 1. 1.18. Terceiro dia de tempo i:uim. Fiquei na cama aré as 9. Sonhos


rscranhos. Eu estava inspecionando o teatro de guerra. Estabelecimen-
tos alemães administrados por ing leses. Alguma espécie de máscara
111onsrruosa, gorda, suína, um alemão[ ...] ou coisa do gênero. -So-
nhei com E. R. M. -Eu escava comprometido com uma mulher que
estava me traindo e de quem eu tinha ciúmes. Recordei-me que esca-
vo noivo de E. R. M. - De manhã, irritabilidade característica: os
11iggers me deram nos nervos. -Tinha havido violentas ccmpcstades
nas duas noites anteriores. A noite passada foi calma, e eu dormi rnc-
lhc>t. Hoje, céu encoberto, dmva que vem e vai. Nenhum vento, calor
pegajoso. -Comecei a trabalhar cerca das 11, principalmente escre-
vendo o registro dos acontecimentos do dia anterior. À carde, debati
me 1·egiscro com os rapazes. Eu já havia começado a me sentir melhor
por volca do meio-dia, e à tarde trabalhei baseante bem. Ao meio-dia
comecei uma cmra paraM. H. \\V,, mas não a terminei. Depois do tra-
balho deicei-me na cama para desqnsar. Estava chovendo. A obscuri-
dade prateada de uma noite enluarada. Fui à [...] Missionária. Entre
as palmeiras lufadas e vapor rurbilltonando como num caldeirão e o ar
exatamente como um banho mrco. Dei urna caminhada curca, pen-
sando em E. R. M. Disposição meio sonhadora. Através da monstruo-
sidade curbilhonanre desce banho rnrco, tênues lembranças de esta-
dos de espfrito mórbido em Omarakaoa. A seguir senti um cerc(l alí-
vio: rnmecei a ver cud0 iss<>- através <le tudo .isso - ele um pomo de
vista externo: E11de g11t, allet g11t [1hdo que acaba bem, está bem]. Mas
se esse devesse ser o fim - sensação de que cst0t1 sufocando, que as
garras da morre estão me estrangulando vivo. -Depois de um pOll·
co de g inástica leve me senti incomparavelmente melhor e mais livre
nesta caldeira. Depois do jancar, e âmmda11do a aldeia (reprovei-os por
niio me devolverem 1da'1da do baf.Q111a), comecei a escrever uma carta
para E. R. M., mas parei por causa dos olhos; depois me sentei um
pouco à beira-mar, satisfeito com a estagnação e a solidão, quando soube
que Ineykoya [a esposa de Toyodala) havia piorado - ela est-avRge-
rncndo alto. Fui ver o que era: ela havia sofrido nova hemorragia, ge-
mia horrivelmente, e aparcnccmcnte estava agonizando. Pensei no
horrível cormenro de uma hemorragia e em N. S. e subitamente senti
218 BRONlSLAW MAUNQ\'(ISKJ

que eu a estava abandonando. Também senti que queria estar çom c](I
a todo custo, mitigar seus sofrimentos. Forte reação. Também pens~r
em E. R. M. e, em meu desequilíbrio nervoso, disse a mim mesmo: ''d
so111brt1 dt1 morte está entre n4s e vai nos sejlara1"'. Minha traição com rela-
ção a N. S. Opôs-se a mim em toda sua vio.lência. - Sobre a caball:t
dentro da qual minha lâmpada b.rilbava, altas palmeiras, espessas nu-
vens brancas, através das quais se filtrava o luar. Kabwaku canta me·
!odiosa e claramence. - A morte - tudo isso é como uma maré \<a-
zante, correndo para o nada, a extinção. Através de tudo isso, os cruéis
CQS/l{t11es dos niggm - que novamente a escavam lavando, prcparatl·
do-a para a morre. - Ourante a primeira metade do dia fiquei dep•i·
mido e quase não acreditei na possibilidade da morte. Depois me ani·
mei e criei esperanças. Planejei cartas para o Dr. Srowdl e para Spencer.
A seguir pensei sobre minha teoria da religião com relação a meu livro
polonês.

22.J . 18. Terça-foira. Noite muito rlúm. Acordei e me senti sufocadu


sob o mosqui teiro (havia me entuj)ldo de j)éixe). Levantei-me ·tarde,
não fiz exercícios. Sentia-me incompamvdmcme melhor. Comecei a
rrnbalhar. Rcso.lvi tratar do kayga'u, acerca do qual cu havia tido um
debate interessante com 1bkaba~:ivila e Molilakwa; trabalhei com u
último oaquele dia (das 9 ~s 12:30) (Ginger e Ogisa saíram com Medo\1
para apanhar lenha). Sentei-me em companhia de Molilakwa e dum.
meninas (sua filha e Kava.la, 7 aoos). Sentimentos puramcnce paeer
nais, enodoados depois, e direcionei meus pensamentos para E. R. M
para afastar a lascívia. Depois do almoço (peixe com inhame), escrevo
para E. R. M., descansei. A seguir rirei furos, e tornei a conversar com
Molilakwa. Cansado. Sentei-me à beira do mar calmo, descansando,
não* ansiando. A seguir, ao luar, g inásrica. Cantarolando canções, um
impltlso para compor - captar uma idéia musical e expressá-la com
minha própria melodia. Se eu tivesse um instrumento - mesmo qu~
fosse um piano-, titlvez fosse capaz de compor, ma.1, sem originali·
dade, como meus poemas? Pensei em E. R. M. - E qne cu gosrari1

*Grifa.do no origin<il.
lht DIÁ1ll0 N(l SENTIDO ESTJUTO 00 TERMO 219

de "cantar" para ela o que ela me disse em Belgrave Gully. Em segui-


da, ginástica; eu estava nervoso e me seoci "sobressaltado". Mas coocro-
lei isso, e fiz bem os exercícios. Pensei em futografia. Voltei calmo, ''rijo"
- pedi um waga de Narubuta'u. Depois o jam:ar; quis registrar mi-
nhas observações etnográficas. Discussão desnecessária com Karigudu.
Princípio: nunm perder as estribeirns. Se Lun sujeito se exceder, mandá-
lo embora calmamente, e não emrnr mais em conrnto com ele. Além
disso, reria sido melhor nunca dar nada para Kaukweda, e não incen-
tivar kayaktt na minha renda. - Mais carde, porém, percebi nitida-
mente <L estupidei do meu compomtmenco e a vaidade que havia em
ficar zangado, insistindo cm "poncos de honrá'. Tentei me controlar
cão rápido quanto possível, e me saí bem dentro de pouco tempo. Fui
n um kayak11 nmna casa em Vicabu. A seguir observei uma delegação
diante da casa no ob11k11bakt1, para o qual Ineykoya havia sido levado.
Volcei, comei cM e me recolhi. Pensei em Ineykoya e N. S. Foi o re-
morso mais forre que já senti (depois do que tive quando Ineykoya
sofreu a hemorragia). E se a saúde dela realmente tivesse se detcriora-
<lo? (Stclla, Madge, que não vão abandonar Craig). Em certôs m<lmen-
ros realmente penso que tenho de voltar para ela. Por outro lado, uma
forte atração física por N. S., mais force do que nunca antes. Penso no
físico dela (será v1tlgar de minha pane?) - imaginando o corpo dela
vividamenre, com rodos os detalhes.

23. l. l8. Quarta-feira. Levantei-me bascaore tarde; saí para fazer


ginástica. Precendia me concentrar e pensar no meu trabalho, mas
de algmna forma não consegui nada. Ainda me sinto um pouco in·
fc]iz com relação a N. S. e E. R. M. escá em declínio. Mas, apesar de
mdo, há uma tendência de não deixar um capricho momentâneo
estragar as coisas realmente essenciais. Se h11111om inexplicáveis intl11-
risjef//. ttma lo1tea imj>mdi11cia, 'l//Clt t·it1110 no episódio Tristão-Isolda reria
,,idô consideravelmente mais lento, e cu teria sido mais feliz. Meus
semimemos por E. R. M. são profundos e baseados em um compro-
misso dcfinicivo. Eu devia considerar os alcos e baixos pelo que são,
t•mbora não haja motivo para ignorá-los de todo. A riqueza da vida
•1ue isso implica pode ser {concebida como) pm;ammto experi111en1al.
220 BRONISLAW MAlll'IOWSKI

Por exemplo, na fisiologia do sexo - pensamentos experimentais,


mas no momento em que eles se inrroduzem no organismo e se ror-
nam "fisiológicos", serem rejeitados. E. R. M. é minha esposa. Quanco
n N. S., nada fiz de errado, pois durante o período crítico (março a
rn:lio de 19 16) eu não tive outros sentimentos nem pensamento. -
Após o almoço, barbeei-me e escava para começar a trabalhar com
Kiyova quando me trouxernm a correspondência. - Turbulência
emocion:LI. Terminei de me barbear. Carta curta de C. G. S. - Ernesc
P. K. - Mim. Depois uma longa carta e diário de E. R. M. Li a carca
devagar, e dessa vez a E. R. M. verdadeira é melhor que seu 011p/o.
Mas o diário, por algum motivo, me constrangeu. .Meu retrato nele
não é simp:\rico, conforme o vejo. Não gosto desse sujeito, e creio
que ela não me ama. Além do mais, um sentimento de que aquele
período, conforme ela o descreveu, está se desbotando, se tornando
ciniemo. -Também as desculpi!S de {Diering} e Jim, do qual gos-
to muito, me irriraram um pouco. Deu-me a sensação de que talvez
nunca ccnha ocorrido. De fuco, u crise veio cedo demais e escúvamos
despreparados. Agi de forma muiro brucal. O erro da liberdade cm
demasia. - Fui acé a praia e me scncci lá. N. S. me causa terríveis
senrimencos de culpa. Saí numa canoa. Senrimenro doloroso de que
tudo isso esrá esrragado, guc esse erro fundamental projera uma som-
bra sobre minha vida, so~re min ha relação com E. R. M. En não
dcveri!1 rei· iniciado nada com ela antes de romper definicivamencc
com N. S. À tardinha, uma insatisfação e inquietação caracrcrísricas,
associadt1s ao dia do correio-esca ânsia desconcrolada por impres-
sões forces e complicadas, procumndo pomos de contato com os au-
sentes. Essa súbita urgência de presença, necessidade de uma dose
condensada da personalidade de um amigo. - Reli aquelas cartas
de N. S. que são especialmeoce belas e aferuosas, e simplesmente
uivei de desespero. Depois cami nhci pela aldeia e dei uma olhada
em lneykoya. "Deserção em face do inimigo." Thlvez pela primeira
vc'I. desde tJue saí da Austrá.lia, um scnrimenro nítido de que, se u
saúde ou a vida de N. S. dependessem disso, eu teria de sacrificar E. R.
M. - eu mesmo - e voltar para N. S. Mais daromenre do que nun-
ca, sinro que amo a ambas. - S6 que a doença de N. S. - que acé
UM DIÁlUO NO SENTl[)O ESTRITO DO TllRMO 221

ag<>ra tem sid<>-é agora o vínculo mais forte. Esccticamence, eu nunca


deveria recoroar à Austrália. A morte, a maré baixa da realidade, não
parecerão teft'Ível quanto há alguns <lias. - Fiquei ac<>rdado até tar-
de, li cartas outr.a veb. Fui para a cama muito deprimido e adormeci
rapidamente, pt1ra esq11ear 11/J!u to17~1e1110. Sonhei com C. R.

Quinta-feira, 24.1. Manhã, ginástica com sentimencos muito con-


fusos, Molilakwa e lili'111okabitmn. Depois do almoço tirei fotos de
homens assando peixes e entalhando uma proa de c.a noa na aldeia.
Depois trabalhei um pouco e viajei para Gusaweta. A viagem. Li o
início do diário de E. R. M.; ele me aborreceu. Olhei com prazer os
manguezais e a lagoa; eu "escava só" e não sentia desejo de voltar.
Durante os últimos dias, até chegar o conúo, r1 vida e (t Jociedade na-
livas haviam se tornado aparencememe quase suficientes para mim.
Na casa de Billy, tun pouco de ginástica, revefai;ãu de fotos, mortifi-
cação com os resultados rnins. Para a cama às 12 (senti-me debilita-
do).
Ct·eio, ou melhor, estou num torvelinho mental, com relação às
canas. Não desejo escrever para E. R. M. sobre isso. Não seria justo.
Na pior das hipóteses, caso a saúde de N. S. o exigisse, E. R. M. acei-
taria o i.t1evirdvel.
Compreensão de um aspecto da história: 11tn ser do1<1do de memória
devem· compremdith /l91' meio de s11a história. i'ÍJica (G'esch!orsme s;~te1lie
[sistemasjêchrldos]). Biologia (hereditariedrtde). Psicologia iNdivid11al. S!l-
ciologia. - Debe1w1r;s aceitar 11111a alma coletiva pam tre1Jal' a história de
mt1neira 1·ea!im111e stria?

25 .1. 18. Sexta-feira. Gusaweca. Não consigo escrever o diário. Dis-


persão, retorno a leitura dos romances. Revelação de filmes, e refle-
xão sobre inúmeras coisas. Desejo radical apenas por E. R. M. - O
wrvclinho intelectual e emocional se ameniia. Exaustão, dor de ca-
beça. Impulso de voltar para Oburaku. Volcei; saí remando. Ecos de
Elsie, Mim, Prnl, Hedy, Bronio [BroniowskiJ. Aproximando-me de
n. R. M. em meus pensamentos, mas ai nda estou "sozinho''. .. Fui
ver Toyadala. Ele está claramente mais esperançoso. Sentei-me eco-
222 BRONISLAW .MAJ.JNOWSKI

chi lei. Li algumas passagens do diário de e. R. M. Jim e [Diering]


coroaram a me apoquentar. Eu me senci posco para fora. Meu papel
na vida dela é muito tênue. Fui para a cama; houve momentos em
que me irritava ramo que não conseguia nem pensar. Reação básica:
"Quero ficar só." Mas sei a11 fo11d que isso é n1do passageiro. 'fam·
bém um sent imento jubiloso persiste durante todo esse transe -
agora ela está apaixonada por mim.
Durante a noite lneykoya morreu. Levantei-me às 3:30 e fui para
lá. Impressão prnfunda. Perdi o controle. Todo o meti desespero, por
causa dos mortos na g uerra, recai sobre esta mise rável cabana
mclanésia. Pensei ern E. R. M., Jim e Charles. Em seguida, voltei a
me meter sob o mosquiteiro e não consegui dormir, pensando muito
cm E. R. M. Meus receios à propor são sentimentos dostoicvskianos.
Dúvidas quanto a ela ser ainda a "mulher complem" para mim -
resolvo guardá-las comigo.

Sábado, 26. 1. 18. Lévantei-mc às 8:30 com dor de cabeça. Fui ver
ToyodaJa. Mesmas dificuldades que du rnnre a noite devidas a relado·
namenco pessoal. Fui com lenço e fingi que escava chorando. Depois
lhe dei um b:lscão de rab:lco. MuJ heres dançando o (o}b11k11bak11.

Seg Ter Q11a Q11i Sex Sábad!J


Domingo 2711; 28; 29; 30; 3 1; 1; 2.

Escrito em Gusaweca, 5.2.18.


Depois do almoço, e repouso rápido, trabalhei com um dos ra·
pazes que relataram que Kivi comp ra "Wttyiuo. Fotog rafia.~. Palmeiras
cortadas. Massai:;em. Depois do jantar, o yama/i. Muito cansado, sen-
rei-me e cochilei. Dormi como uma pedra.
27. l. Domingo. Acordei doente. O crânio doendo. Sentimento
de algo "errado". Diagnóstico: ru berculosc (Ineykoya); hemacúria;
seio maxilar; dentes. Subjecivamcme estou muiro indiferente, não
creio na possibilidade de perigo, mas se morrer, seria uma maneira
excclcnre de resolver o impasse. Um pouco ressentido com E. R. M.
-A carde li seu diário. Posei diante dos 11iggen.
U M DIÁRIO 1'0 SENTIOO ESTIUTO DO TERM(> 223

28.1. Segunda-feira. Sinto-me pior. À carde, prostração. Treme-


deira. Tomei quinino e aspirina. Começo a acreditar na bipótese de
que estou para morrer. Estou indifci·ence. Febre, fulta de vitalidade;
condições físicas debilitadas. Nenhwn desejo de viver, não me arre-
pendo de perda alguma. Sinro que esra é uma boa hora para morrer.
Sozi1lho, tra11qüilo, um M de encerramento. À noite, Elaitia veio.
29.1.18. 1hça. O quinino fez efeito: dor de cabeça, fraqueza.
Não me sinco mu.ico melhor. Prostração à tarde. Escrevi para Billy.
Apliquei um clister - isso me aliviou imediatamente. A seguir
calomelano e purga geral. Sais eforvescenres, que se revelam minha
salvação. Incapaz até de ler o diário de E. R. M. ultimamente.
30. l. Quarta. Um pouco melhor. À tarde, Marian. Recebi leite
do Ililly.
31. 1. Quinta. Muito melhor. Creio que vou me recuperar. Viizio
inte6or, depressão. E. R. M.: um cerco ressentimento, injustificado.
Complicação com N. S. me causa grande pesar. - Estou perdendo
a afeição por Ginger, que rouba tabaco. Carta de Bill, pacore de Kiribi.
Incerteza quanto à possibilidade de o "Ka)'ona" trazer o correio.
l. 2.18. Sexta-feira. Muiro melhor, mas ainda incapaz de ler. À
tarde, Billy. C&n-eio. Cura, Cathie. -E. R. .M., forres emoções: carta
apaixonada; a seguir, irritação; as: calúnias de Baldwin. Aborrecido
com a carra, principalmence com a espionagem nojenta dele. - Dei
um passeio; tudo parecia deserto, morro. Sentimentos heterogêneos,
como rajadas de vento vindo de codas as direções de uma vez, que
não combinam, mas rne arrojam para trás e para diante, de uma dis-
posição de espírito para omra; sentimento meio sonhador de falta
de importância da existência.
2.2.18. Sábado. Cartas para N. S. e E. R. M. Muiro devagar e
muito difícil. O dia se passou de modo vagaroso, indolco.te e vazio.
O chão foi arrancado de sob os meus pés.
3.2.18. Domingo. Li Conrad a manhã inteira. Às 4 fui a Gusa-
weca. Desespero com a monotonia da existência; para trás e para
diante entre Oburaku e Gusaweta. Apesar disso, a maresia salgada
e úmida, o exercício de remar, e as maravilhosas cores pastel da pai-
sagem me encheram de alegria, ou então me causam acessos de pra-
224 BRONISLAW MAIJNO\'l'SKJ

zer. Planejei novas excursões e expedições. Resolvi ir a Amphlen•


110 "Kayona", caso ele aguarde cerca de l Odias. Em Gusawera con·
versamos. Barbeei-me e fui panL a cama às 9.
1.2. Segunda-feira. O filme de Toyodala. Li Glory of Cle111e111i1111
\Vi11g (Glória de Cleme11ti11a W ing) (muito fraco). Subconscien·
temente, E. R. M. volta à superfkie. Scnci uma necessidade cspiri·
tua! dela. À noire, revelamos chapas. Recolhi-me às 9:30. Acordei
durante a noite: pensei em E. R. M. profunda e apaixonadamcnce.
5.2. Terça-feira. Li de manhã. Depois caminhei na direção de
Kapwapu. Primeira tentaciva de me concemrar. A seguir escrevi no
diário. Depois do almoço li as cartas de E. R. M e escrevi para ela.
'fambém à noite. Durante toda essa fase vivi lireralmeoce dia após
dia. Impulso de ler romances de bnixa qualidade. Durnncc todo o
período, um desejo fone e nüo rnani fcsrndo por E. R. M. Agora real-
men~e posso dizer que ela é :l únic1t mulher para mim.

6.2. Quarrn-feira. Pela maohã li llgeme Smwo. Terminei com uma scn·
sação de repulsa; mim, desnecessário, arrasrado. A seguir, andei arras-
tando os pés para lá e para cá denrro do meu quarto como um urso
engaiolado. Tornei a ler O mmi~. Princi1>al crítica: a hisc6ria não é
dramática. "Tnuna". Gostaria que ela fornecesse uma erama. Nao es-
crevo para ela, embora pense nela e no problema de contar nosso se·
g rcdo pom Molly. Ornu'a. Às 4 começo a preparar a bagngem. Saí às
6, sem saber para quê- nem meu tmbalho nem Oburaku me armem.
Começo a remar -bmnp. Empurrei o barco através da lama e das pe-
dras; perspecciva de passar a noite na lagoa; felicidade sob forma de

• N111 acmanat kguJ.n1es, l'-•l"-bDO"''.lki tn1c-m\ln1'.ou 'ir~ eventos CfJ<: &.t-ia.m pane Je um 1tt1flr1ú
(l:,..Ltcom~itivoem l11Jgaes«lt)ct:.11cS1naktt:. cOob..i. Nooutoooaütcrior0$ nnh·Ofo de Si:ul.tt&
bavillm fri10 lt"iltNlt.'llnbts p:ira Dobu. e •gc.rt ot doh.1a1}0J c.i<whm Íll.t<'r os s.tui. Suas C'ILl\O.t.~ p11H1
1i11n •'<> fin it.1 de rnilltÇO para um Ji11/r1 not l\;111,bJen, drpott do q~al os anflct;aoot •~ uni1ism • cln
l>ª'"• cxpcdlçlo fl V11.ku1a e, fin;ilmcntc, 11 Stnakttll, onde <fcvi;tm chegar no início de abril. Gm
ptcp111a~\tO t>;i. 111 o CV«HO, os ~·akut Sll')l n &\'Ct1•r111n at~ Kirn.va ll'!fll u1n l:uf,, e volt11.111cn COOl um
>up rinlt•UO de brncektcs. Tu'u!uw1,1. de Kiriwinn 111.mhé1n n1g.;111itou umn. cxpcd iç~o a Kh11v1l p110
pef;Oros l1111e<h:tn, e os sinttkecaoos, por sua ~é!t. fb:<:r.'lm um l:::la i:ucrno na ilhAp.•C4' Om-arnk•ru
p11r1l obt~~fos cm <roca. Assiin, (11$ an6trtõc1 de Vakuu. e Sin1kc1a rCC'C~ram um bonl sup1irncn10 ct.
prcu::nu::s adc<1\llldos quJndo trus visic a1~C ti <hct;;n;am de D.lbu. E.Jtu t raas<l~$ ,Jo d«<1h11s tll
dc1albct no livro A~•..111:.:d ~ Otst1 JiJ P«lfn.
UM DIÁRIO NO SENTIOO ESTRITO 00 TERMO 2 25

uma cama. Apesar de cudo mostro alguma coragem nesta ocasião, sem
mim Ginger teria desistido. Chegada às 9. Direto para a cama.

7.2. Quinta-feira. Sinro-me incomparavelmente melhor em Ob11-


raku. Perdi imediatamente todo o desejo de ler.

Escrito na segunda-feira, 11.2.18.


Quinta, 7.2. Um pouco de ginástica de manhã- mas não esta-
va disposto. A seguir, trabalho. À tarde, muito irritável - às 4 tive
de parar, às 6 fui para a cama. Imediatamente comei uma quanrida-
de grande de calomelano. No dia seguinte (ou calvez na mesma noi-
te), tremores, depois febre - 40 ,5"C- apavorndo - "'lllijo esr:11ro" .
1emeroso dahematltl'ia. Sentado na praia naquele dia pensei sobre E.
R. M. - e me senti debilitado, senti uma dor aguda ao pensar que
poderia nunca mais tornar a vê-la.
Sexta-feira, 8.2. Uts11jira-o diainreiro, me senti depauperado.
A temperatura baixou com a ajuda da aspirina, depois do quinino.
Dor de cabeça. O dia inteiro acamado; sem dores. A febre diminui
minha vi1alidade. A morte (fi nal, creio eu, bastante provável -
hematúria) não me atemorizou.
Sábado, 9.2. Senti-me melhor pela manhã. À carde li Vil/ette [ro-
mance de Charlotte BronreJ, achei fascinante. Fui à praia; frio; con-
tinuei lendo. Tremor; aqueci-me ao pé do fogo com Blaitia. Voltei,
não consegui comer muito. Febre outra vez, a remperncura subiu
vagarosament.e até os 40 graus. Ginger ficol1com cólicas e se recu-
sou a trabalhar. Compressas no peito (hipótese de haver atingido os
pulmões, p.or ca11sa dos sllbitos saltos de temperatura.) - Hipótese de
septicemia: havia comido sop<i rançost1 com{. ..], arroz bichado e mo-
fudo. Noite insonc, urna dor de cabeça lancinante. Tumei purgante
de sais, clister. Um pouco melhor; pela manhã, quinino.
10.2. Domingo. Quinino pela manhã; não comi nem bebi nada.
Senti-me melhor. O quinitlO não me deprimiu muito. Li Villette. Pen-
sei cm E. R. M., porém sem mu.ito entusiasmo. Outra noite quase
insone, ou, mais precisamente, acordei à l e não voltei a dormir se-
não às 6. Soube que o pequeno Charlie havia morrido; abatimento.
226 l.lRONISLAW MAl.lNOWSKI

Carta a Billy. Pensei em Sir B. Sp. e nas diversas formas pelas quais
devo agir. Também pensei no meu comporramenro com relação •
N. S. e B. R. M. e não consegid classificá-lo como rormo. Com rela
ção n B. R. M., minha conduta foi mais afrontosa, mas, como prc
tendo permanecer ao lado dela, sinto menos culpa.
11.2. Melhor. Comi uma torrada no almoço. Li Vil/me; tem para
mim o mesmo encamo de 1ra11qiiila fa.rcina{iio q11e org1i/ho e /mco11ceito
Tato femini no, inruição, domínio do íntimo das coisas e ânsia pel~
vida. Pensei muito em E. R. M., cm momentos sem entusiasmo,
ocasionalmcnre com assomos de paixão. Chocante h11111111' dt ronMlts
ce11ç<1, como nuvens 11avega11t/4 M sd/;!ll'dtvemos amjlitallfes. Ausência de
terra firme onde pisar. De manhã wn vento norosre fresco, rempa bom,
maresia maravilhosa; senti a vida sorrir outra vez; senti o.r grilhões cli1
enfim1idade e fiquei incerto se aquela promessa se cumpriria. Levancei
me, caminhei um pouco pela aldeia. Estava horrivelmente faminto
visões de V()/-atHJetJIS de V()/aille, restaurance de costeletas franceses nu
Soho etc., me atraem mais do que os mais ckvados goz11s espirituais
Momentos de um desejo cremcndo de sair desse buraco fétido.

Escrito no dia 13.2.18 (quarta-feira).


Sentindo-me melhor a cada dia, embora esteja fraco; suor à noite,
necessidade de quinino, e o abscesso do pé me impede de escar cerro dt
que vou me restabelecer, e minha fraqueza física e intelectual embotou
minhas faculdades. Não tenho u.ma "fibra" vital forte. Até ontem eu
estive lendo Ville11e o dia inteiro. Comer também desempenha um pa
pel primordial no meu atual ponto de vista. Na manhã de terça-feira, os
rapazes saíram para um {11111/o. Chuva correncial, portanto, natumlmen
cc, me levantei debilitado; tudo em minha cama escava empapado dt
suor, noire quase insone, preocupação. Comprei um bocado de peixes,
ao meio-dia os cozinhei. Tomei avidamente a sopa de peixe. À noitinha,
caminhada curta e um pouco de remo. Carta de Billy: George está do-
cCJtC, vai para Samal'ai. Altruisticamente pesaroso; egoisticamentc irn
tado. Terminei a carta para E. R. M. (minha cabeça esrá muito cansada,
tive muito trabalho para escrever). Os 111t11i1101 foram para Kiribi, eu mt'
scnrci e conversei com Niyova e outros rapazes. - Dormi bastante bem
l!M DIÁRIO NO SENTIOO llSTRJTO 00 TERMO 227

mas suei profusamente. - Esra manhã, ccmpo chuvoso, úmido. Tumei


a perder o sono durante algwnas horas. l.cvancei-me apesar do frio e da
depressão que sentia, comecei a trabalhar com Navavile. Mas não fui
capaz de escrever: minha cabeça nião funcionava adequadamente. Li
Villeue durante algum tempo. Acarde tornei a rrabalhar, e remei.
Estado emocional melancólico. Penso cm E. R. M. relativ;1 men-
te pouco, ml\s isso ainda significa freqüenremenre. No momento cm
que comecei a trabalhar, a agitação e a nostalgia desapareceram. Minha
temperamra foi de 39,5 na noite de sábado, 38,3 no domingo, 37,3
na segunda e, na terça, de apenas 37,0 esta manhã e às 5 da tarde.
Íogua inchada e dolorosa me incomoda um pouco. Planejo mudar-
me para a praia de Kaybola dentro de uma semana, mais ou menos.

L4.2. 18. Na noite de ontem escutei ns histórias de Molilakwil. Sen-


ti-me sonolento às 9:30 e me deitei. Acordei às 11:30; compressas
quentes na íngua, clister. A seguir, pensamentos lascivos a respeito
do sistema de Rasputin; e imaginei como ckbatê-lo com A. M. B.
Estado psicológico péssimo... Dormi mal, suei de novo. Lcvamci-
me às 8:30; não me sentia bem, não conseguia pensar nem scnri-
mentalmcnce nem sinteticamcnce, mas senria que podia começar a
trabalhar, e que esta era a minha única esperança para me libertar
desce cárcere psicológico. Escrevi sobrebwaga'u. A seguir, Molilnkwn
Kuigau. Fiz um esbO{o, depois, após o almoço, o copiei. Sistema exce-
lente! A carde, trabalhei das 3 às 5, primeiro copiando, depois com
Navavile e Niyova tornei a trabalhar com m11kwa11Ii. Às 5:30 fui ;l
Kiribi - emocionalmente obtuso, apenas a silhueta do Koya, escu-
ra contra as nuvens cinzentas e acima das águas cor de chumbo, me
alegrou: a estrada para o sul. Satisfação com o trabalho do dia. Re-
mei um pouco. Em Kiribi, llumedoi, M ick. Fiquei irritado ao escu-
tar que Billy levaria duas semanas ou mais para volcar - ele fechou
a loja e a casa. Voltei - deitei-me num banco nos fundos; melanco-
lia sonolenta.
Hoje muitos pensamentos sobre N. S. Tive um sonho: estamos
morando cm Litcle Square. Mamãe. Eu volco. N. S. está lá. Mamãe
surpresa e zangada porque não me casei com N. S. "Ela tem apenas
228 BRONISLAW MALINOWSKI

duas semanas de vida." Eu também estava muito trisre. Esra tristeza


se filtra do sonho para a vigília. Remorso: tristeza. O efeito do Villetu
em mim é que sinco u q11anto s<J11 perve110.

15.2.18. Sexta. Pela manhã dei uma caminhada, muito cansado era
bugemo. Precisc.i de quinino(?). Tomei 5g. Os camaradas trom<eram
peixe. Não consegui encontrar informantes decentes. Comecei g es·
crever sobre os b111aga'11 e a fazer um esboço de "Doença e111om". Senti
me debilitado. To roei a caminhar. A seguir os camaradas com os quais
estou compilando um dicionário voltaram. Depois do almoço, me dei·
tei, mas não dormi. Terminei o Villette. O final foi mais fraco do que u
início e o meio. Ponco positivo: a forma dela de lutar contra o destino
e a sua fome de felicidade. Depois do almoço fui ver Toyodala e traba-
lhei no tema de WaribtJ. Ao voltar, li Swinburne, saí com o barco. Re·
mei vigorosamente; me senci melhor. Durnoce todo aquele dia, fiquei
apático; pensei em N. S. como um paraíso perdido. Não pensei muito
em E. R. M., embora. esteja convencido de que, se ela fosse o paraíso
perdido, cu ficaria muito infeliz. Depois do jantar fui ver o nakaka'u,
onde fü. novas observações sobre o \VrJ1ib11. A segtúr .Mokaylepa con·
rou um longo k11kw1111eb11, no meio do qual el1me senti horrivelmente
sonolento. Recolhi-me. Acordei porque havia tomado o purgante, não
consegui pegar no soM depc>is. Pensei em E. R. M com paixão. Sonho:
escou na Alemanha, dois oficiais de cavalaria aleijados; conheci-os em
algum hotel. c~minho com eles em algtuna cidade alemã. Confrater·
nizo-me com eles. Expresso minha simpatia pela Alemanha e pela cu]
turá alemã, e lhes digo que eu füi KJ'iegsgefangener [prisioneiro de guerra)
na Inglaterra.

16.2. 18. Sábado. De modo ger~1l, esrou mlúto mais forte, durmo me·
lhor, cmbora ainda esteja suando à noite (porém menos do que antes)
1ambém consigo remar durante mais de um hora. Eswu com disposi·
ção para trabalhar, o trabalho me absorve e ao acordar faço planos,
rambém durante as caminhadas e no barco. Estou baseante apático~
oprimido por uma profunda melancolia. Sentir que E. R. M. está CS•
perando por mim, que cu poderia dar a da meu trabalho - que ela o
UM DlÁRIO NO SBNTIDO :ES'rRITO 00 TERMO 229

't>mparcilharia comigo - me ajuda e me dá tudo qne o amor pode


1lir - este anseio por felicidade - puro como ouro, puro çomo cris-
1,d, jaz diante de mim como um tesouro sob um feitiço maléfico; con-
' igo vê-lo, mas ele não me alegra os olhos. - Isso vai passar, e a ver-
1h1de e os valores profundos permanecerão. - De manhã acordei tar-
de, depois das 9. Escrevi o diário e remexi nos meus papéis (anotei as
rnnversas e observações). A seguir caminhei até as 11 :30. Morovato e
K,1riwabu: ataquei o problema do sagali e do lt1tQ. Depois do almoço,
mesmo asstulto com os mesmos informantes. Às 5 fui ver Toyodala e
ubtive alguns dados adicionais. Remei durante tuna hora; profunda
111elancolia, pensamentos tenebrosos que l)ão consigo recordar. -
Nostalgia pela civiliz{lção não me atormenta estes últimos dias. À noi-
tç um lauto jantar, a seguir Navavile, e uma olhada em Tomwaya
l,akwabulo. *Recolhi-me às 11; acordei antes do raiar do dia (suando),
1icnsci cm E. R. M. Sonhei com ela: ela e Mim e eu senrados juiitos;
iJla está escrevendo uma carta; sentimentos de ternura. -Além dis-
'IO, à noite, sob o mosquiteiro, pensamenros feios, friamente lascivos
oobrc J,, P. Disse a mim mesmo: "Não me arrependo dos meus peca-
dos do passado, gostaria de ter cometido mais!"

17.2. Domingo. Levantei-me às 7:30 depois de uma uoitecurca po-


rém ótima. Ainda suo à noite - alguma espécie de processo indubi-
mvelmeme está ocorrendo no meu organismo. Logo após me levantar
foi acé o sopi; ainda disposto a trabalhar, fo: planos e esquematizei al-
1tuns problemas. Durante o dia pensei algumas vezes em E. R. M.,
rnas foi mais intelectual do que espontâneo. Mesmo assim, uma per-
tepção clara do que ela significa paca mim nicidamente provocou uma
súbita mefüora emocional. À noite pensei no que aconteceria se C. E.
M. voltasse - e imediatamente a desejei e semi o quanto ela signifi-
rnva para mim. Essa minha característirn revoltante - de que qual-
\[uer coisa que eu possua com cctccz~ perde toda 1i atração para mim
- é um dos meus azares mais füodamenrais. No barco, depois de um

~o \'id<'ntc estava, p1csu1nh•el 1nen~e, i.:1n uin &: $CUS


~wgau.
longos uanses, descritos cm A fliddSfXNdl '°'
230 BRONISLAW MALINOWSKl

longo momento de melancolia profünda e monótona, pensei na possi


bilidade de uma cadeira em (\"<í'olobrookJ (!) e p lanejei conferêneia1,
recepções etc., com E. R. M. como minha esposa. - À noite, depo11
de volrar do barco, uma fadiga monótona porém satisfoita; deirei-mc
e deixei meus pensamenros vagarem preguiçosamente.
Eventos: depois da minha caminhada, do desjejum etc., come
ceia escrever. Navavile preparou da;w.'fts. Eu o observei; a segui~ ele
fez um megwa sobre os daymas. A seguir visitei um jardim com
Morovaco. Depois do almoço (3:30!) anoi:eiJagali e Warib11. A seguir
saí no barco; poemas de Swinburne. Pensamentos como os acim1
descritos. Noite; comi, descansei, me arrastei para um !nvay1114 onde
falei com Bo'usari.* Namyobe'i** e Tomwaya Lakwabulo. A segt1ir,
Y.-isa.la Gawa. Escutei T. L. diante de uma porra. Voltei.

18.2. Segunda. Depois de uma excelente noite (suei, porém nã(l ~om
muita intensidade), levantei-me fisicamente enfraquecido e meneai
mente embQrado. A aldeia pre1>arava-se para o 11/ràda. Eu escava diJ
posto a trabalhai: -Dei um passeio, depois inspecionei [sobt1]. Desjejum
Fui até a casa de Towakayse. Ele preparou um pequeno sagati (vila vila),
e eu pacientemcnre observei a lida preguiçosa e vagarosa deles. Voltct
Com Kariwabu anotei diversos pomos principais do 1tla'11/a. Por volta
das 12, exaustão completa. Deitei-me na minha cama como se e.sti
vesse morco, depois me semi melhor, me levantei e li Kipps [romance
de H . G. Wells}. A seguir escrevi, revisei meus papéis; às 4 :30 tomei
a ficar exausto. Estava chovendo, oão pude ir à lagoa. Senrei-me 011
me deitei, outra vez me sentindo deprimido, um refluxo total da forç~
física e meneai. A seguir, caminhada cmca. Pensamenros triviais. Con
tei meses ames do momento da libemção. Nervosismo estranho: rc
cuava como um cavalo a cada sombra, a cada ruído ll<tselva. Voltei em
pensamentos e emoções para Annie; pensei que, se voltasse acmvés dü

*Bo'osn.ri, uma jovc1n ta.tiva ~tracn.tc de Obvc;1ku ·que ha•>'ia se SCpâtado Jc dói~ 1n2ri<l<k! e esto,V•
prc<urando uo'l tc'(<:ciro.
>Jt<Nan.1y.c.>lie'i era um espírito fo1ninino q~c- rC$idi:·1 cm Tum;i (o mundo pós-mouc de 1h:>bri&.rldl
<om quem 'fOmwaya Lakvni.bulo h;avi11 $C <.·;isado cnl uma de su11s vi s ita$ ~ c$se loc;al (dutdntc um dt
$CUS triUlSc-3).
UM 01AR10 NO SENTIDO ESTPJTO 00 TERMO 23 1

s[ul] da A(ustrália}, calvez pudesse morar com da. Não* - emocio-


nal; estou casado de facto, e uão teoho direito sequer de pensar nisso.
Depois de vokar, comi grandes quautidades de caioba, li Kipps. Às 9
estava cão exausto que me 1·ecirei para debaixo do mosquiteiro.

19.2. Dormi e fiquei na cama até as 8:30. Não comei quinino ontem
e não suei à noite. Mas esca manhã me senri horrivelmente fraco física
e intelecmalmence. .Mal podia me arrastar. Não tinha energia para o
trabalho, nem pata coisa alguma. Pensei afemosamentc cm E. R. M.,
mas no mesmo com anêmico que sobre outras coisas. - Naquele dia,
como nos dois antecedentes, céu nltblado; garoa e pancadas súbitas de
chuva. Fui trabalhar tarde, depois de ler Kippt. Comecei a entrevistar
Morovato às 11. Lembrei-me do meti abscesso e troquei as araduras,
depois me barbeei-eram 12:35 a essa alrura, mas descansei e senti
vontade de trabalhar. Fui até o "mato" na chuva; depois Niyova, com
quem trabalhei em "miuçalhas" - problemas e perguncas. Às 4:30
saí n<>bote - remei com vigor excessivo. Tenrei me recompor, sair de
minha letargia e melancolia. Li Swinburne; pensei em E. R. .M. e na
necessidade de trabalhar inrensivamenre para conservar men amo-res-
peim. Disse a mim mesmo que, embora meu trabalho não fosse diver-
t'ido nemglamouroso, não era inccira.mencedesrinúdo desencido. Vol-
tei; descanso; ceia - complecamence exausto. Contudo, fui ver a
11akr1/ea'11 e lhe dei[ ...}e trabalhei um pouco com Sipwrma e !isa!adab11.
Na volta para casa passei na casa de Molilakwa, onde quase adormeci.

20.2. Acordei cedo. Pensamentos sensuais sobre E. R. M.; depois um


desvio para L. P., que consegui controlar. Dia claro, ensolarado, leve
brisa de noroeste. Fiquei na cama aré 8:30. Levantei-me outra vez me
semi.ndo como se tivesse passado por um espremedor. Vou ter de co-
mer menos ou mais cedo à noite. Manhã: .Morovaro veio; fiz .ragali com
ele, rerminei; mas muitos pontos ainda estão em aberro. Às 12:45,
muito cansado; deitei-me na minlm rnma, depois li Kipps - um pou-
co longo demiús - durame e após o- almoço (experiência com os eras em

,. Grif~cf() (:0 orisind.


232 {lRON!SLAW MALLNOWSKJ

comerva). A seguir recolhi meus papéis e fui ver Rib11 Nakaka'11 e


1ôb11aka 111, onde fiz algumas descobertas com relação aos tem1os de pa.
renrt.sro t amizade adottula, ou antes, llt)'O/a. A seguir, voltei; chuva e
rcmpesracle tornaram difícil a viagem de barco. Li f(jpp1. A seguir per-
corri [ ...} kariketla até Kiribi. Tornei a pensar em Balclwin Spencer e
Seligman, planejei carras e preparei paripl!s. Depois recordei que esse
rema é rabu. Voltei e jantei; passei pela casa de Tomwaya Lak wabulo,
que volrou para TLlffia, até o bwayma de Reuma e conversei lá. Irritado
pela conversa de Muayoulo sobre o pagamento insuficiente. Noire -
tomei chá force den1ais - , não consegui dormir. Pensei em E. R.. M. e
meu anti-B. Scncimencos: desejo de sacudir a poeira anglo-saxônica
de minhas sandálias. Cerra admirnção pela culrura alemã. À tardinha
- ou teria sido à noite- pensei novamente em E. R. M. com ternu•
ra e paixão; oucra vez me desviei. e me corrigi.

"PoiJ q11a1110111aiJ tivel'es ronherido das 011tras


Mt11ôi te co11fom1ards com 11111a."

Estes versos me irritam. - Durante a noite, sonho obsceno sobre


umas rttendentes de b,tr monscruosnmentc ordinárias e desagradavel·
mente sensuais - duas delas - que apalpei dM pls à raber,a.

21.2. Acordei cedo e não conscgu.i recomar o sono. Vento forte de no-
roeste. Resolvi não• ir para Gusaweta, e escrever algumas carcas antes
de ir. Senti-me bastante bem[...] Depois do desjejum fui proa1rar in·
formantes. Moli lakwa, que eu q Lteria entrevistar com respciro ao
kabitam, havia ido dar uma volca. Contratei Mokaylcpa e Mosibua·
daribu. Primeiro olhei meus papéis e copiei anotações esparsas. De·
pois, PO!llo com Muayoulo, e os dois mencionados acima. Não foi mal,
mas M. coroou a me irritar. A segLtir uma breve sessão de remo no /;«#
com vento forte. Após o almoço, me senti mal, comecei a escrever
cartas, porém parei diversas vezes para descansar-seria possível que
a comida mlatada houvesse tornado a me afetar? Fiquei irritado com os

•Grifadc1no o:i.;inal.
UM DIÁRIO NO SENTIDO llSTIUTO DO TERMO 233

11iggers e nostálgico. Escrevi cattas para Seligrnan, Mim, P. & H., E. R.


M., e, como sempre, acarra para ela despercou meus senrimenros ador-
mecidos. Escrevi até as 6, depois o bote. Ocaso cor de sangue, vento,
ondas. Senti-me fraco, não consegt1i remar até muito longe. Um pe-
queno trecho na direção de Kiribi. Reflexões sobre questões teóricas,
não seotimencais -mas quais foram elas? Ah, claro- cu escava con-
rando a Srrong, na presença de E. R. M., qtie 11Inglacerra era a perso-
nificação da auto-afirmação, do status quo, o mundo inteiro na palma
das mtíos deles. Falta de entusiasmo, de idealismo, de p1·opósito. Os ale-
mães têm um propósito, possivelmente revoltante e perverso, mas há
ltan, há um sentido de missão. Os conservadores [pregando] aos "de-
mocraras"; os democratas (se aliao.do} ao prussianismo - é tudo uma
tremenda confüsão de idéias. O episódio com 13aldwin etc. me faz de-
cididamente um anglo-saxo- -não ''fabo", talvez, mas efüninaminha
"filiti'. -Quando voltei deitei·me na cam11, exausto; a seguir, o jan-
t11r, depois escrevi para E. R. M. Por volta das 9 escava tão cansado
que engacinhei para debaixo do mosquiteiro; dormi muito bem. So-
nhei com o sr. Wallace, que adora mfíska mudema; no sonho recordei
alguns temas de R. Strauss. - Pela manhã eu [...]. Meu pens11mento
retrocedeu a Toska; a seguir pcnsouneutos fatais sobre Mecklen[burgh]
Square; afastei-os por causa de E. R. M. Preciso "exprimir" as nutras
coisas.

22.2. Dia frio, encoberto. O vento noroe.sce está mais fraco, mas ainda
sopra. Resolvi ir para Gusaweta. No barco - mar, venco, mudança
- o horizonte urn pouco mais limpo- simo qt1e devo encontrar outro
lttga1· para morar. Veuco furioso; remo com Gingcr. Gusaweta deser-
ta, triste; nenhuma correspondência. Mick me assuscou dizendo que o
''Marsina" vai deixar de navegar. Esc::rcvi cartas, li Zeppeli11 Nights (Noites
no Zepelim) (romance de Violet Hunt e Ford Madox Ford]. Chuva,
venco. Recolhi-me às 8, mas não consegui dormfr. Noite ruim.

23.2. Sábado. Gusaweta. Escrevi cartas, )i o romance. Parti às 4. Ted.


"30%". Semi-me tão deprimido que nem mesmo a companhia da-
\(ueles rapazes me foi agradável. Soube que o "Marsina" não vai dei-
2:H flRONISL/\W MAIJNOWSKJ

xar de navegar e que reremos um navio mensal [ ...] Misima. Volrc1


para Gusawcca com Ted. Meia garrafa de claretc. Ted tornou a de-
senvolver suas teorias ancropol6gicas. Às 12, para a cama. Dormi
1nal.

21.2. Domingo. Acordei carde. Varanda alagada pelas chl1v:1s. Dia


frio, nublado como o dia anrerior. Li- terminei as Noitts 110 Zepelim.
Force acesso de sencimemos pró-brirânicos e remorsos ele não esrar
aa guerra. Além disso, pcnsamencos sobre E. R. M. Escrevi mai\
tuna cnrca para ela. - Nova idéia: 1>0ssivelmente me irritei ao ro
mar conhecimento de que ela me amava porque cu não me senria
digno dela. Se me vestisse de cáqui e fosse para a guerra, ro serait
1111e t111tre cho.re. Mas o amor dela por mim simplesmente a desvalo·
riiava. Aí perdi a cabeça e rodo o se nso de valor e comece i a cracar
R coisa roda como uma 1went11rat111101wa qualquer. - Durante todo
aquele dia eu me semi debi litado. - Voltei para Oburaku às 4
Nf10 tive forças para me concentrar no sentimento de solid~o. Co-
mecei a ler Ali for a Scrap of Paper (Tudo por um pedaço de papcll
[cujo subcítulo era: Um rinnanet da g11erra at11al, de J. Hocking]-
c terminei-o por volta das 10. Um romance bastante ruim, mas l•
tom patriótico me comoveu; pensei em E. R. M.; vaga sensação de
que minha falta de heroísmo fui a causa de sua desvalorização. Bu
a amava em relação a C. E. M. e 1LCrcditava na sua eterna fldclida
de. Se eu me sentisse digno dele ...

25.2. Segunda-feira. Dormi u1é 8:30, me senti debilitado. Comect1


a trabalhar por volca das 11, quando me avisaram que Billy escava
em Gusawera e eu recebi uma carca dele. Fui até h\ com Morovato
Billy: a doença, Samarai -ele rtão escava deprimido demais. Li divcr
sos cxcmpf;1rcs da revista Life. Voltei. Vemo furioso; rive de ficar n
tempo codo fora do 1.11aga. À tarde, de 3: 30 às 6, apesar da exaustão,
m1so dfl ctldeifl. Depois fui até a praia e me sentei ali, cansudo. AtaF
dinha, depois do jancar, vento. As palmeiras balançavam, us folha.1
como braços balanÇ1ndo-se loucruncncc, ou madeLxas de cabelos apa1
xooadarnente arremessadas. Os 11iggtr1 escavam seocados diance da.
UM DrAruo NO SENT[l)O ESTRITO DO THRMO 235

cabanas; Iluwaka'i cantou o megwtt; parte da aldeia escava emigran-


do para [Borwanai]. Kadilakula sentou-se corajosamence e realizou
o megwtt. Senrei-me ao lado dele. Conversamos sobre o 111egwtt e de-
pois sobre o vento e a chuva. A seguir, sobre vilttmtdia - e sobre
caça. - Passei iodo na íngua, e fui para a cama. - Aguardando
impaciente o correio de amanhã. Cartas de E. R. M. cQ11trabala11{adas
/1elb remorso ligado a N. S.

26.2. Vento fresco e frio vindo de noroeste; me semi melhor. do que


no dia anterior, embora tenha me empanzinado de kttimagi. Palmei-
ra e [Kmn'] cortadas de manhã cedo. Inspecionei-as e quis comer pal-
mito. Ginger só apareceu às 10. Trabalhei na palmeira, reuni infor-
mantes, e ataquei <>sproblemas ligado! ao kabitam. Ginger chegou. Es-
cava ansioso, mas trabalhei até a 1. Depois, almocei e abri as cartas.
Primeiro as [me nos pessoais]. Uma carta amigável de C. G. S., da
srra. Hadley; cartas muito agradáveis dos Khuner. E. R. .M. Ot1tra
vez sobre a questão de B. Spencer. Fiquei desapontado. Continuei
lendo. - Fui ao odila. Resolvi escrever uma carta final para N. S., e
para Sir Edward,* na Jng laterra. Depois li as cartas de E. R. M. até
o fim; emb<>ra não c<>nfie na promessa feita por B. Sp., acabo me
sentindo calmo e feliz. Estou novamente em ro11ta10 com E. R. M. e
isso me deixa feliz. Não há a menor dúvida: estamos noivos, e vou
me casar com ela o mais rápido possível. Leio as cartas dela acé as 5,
depois saio na canort. Pensei nela e me senti feliz, e a ânsia e o desejo
de me afastar dela passam - aparentemente me sinto mais saudá-
vel. Voltei, com os olhos doendo, porém me sentindo relaxado. De-
pois do jancar esqueci-me das minhas preornpações preparando coco
[salada], depois fui para o mi1r e conversei com N avavilc. A seguir,
fui à i1ldeia, Molilakwa, Yasala Ga wa. Voltei às 12. Compus uma carta
final para N. S.

·~,ivelmentc urna rcferêi:ci:l :t Sir F.dw:\td J3;ur11ett T)"lor ( 1832- 19 17).. tun dos íundadotc:s d-a
•ntropoJogi.l briulnicil, O.s.o se•;i h$O, l-í<tlinow$ki aind;t n5o havi11 1c.çcbKfo· «otíd.a. de sua rnqrte .
236 BRONISLAW MALIN011''SKJ

27 .2. Tom geral: conrentarnento calmo e sorridente - pensei mui


to em 13. Sp. e em formas de defesa, em C. G. S. (Seligman), R. M.•
e E.C. S.•• -Esrou fcJjz por mi nha relação com E. R. M. estar as
Sllmindo contornos mais nítidos, e me sinto muito mais unido a ela
1llmbém renho wna sensação de ccrreza de que não se poderia ima
gi nar esposa mais ideal. Mas não pcllso muito nela, nem penso nela
com muita intensidade. Penso mu ito cm N. S. - fico compondo
cartas para ela, a fim de esclarecer a simação de uma vez por todas
Possivelmente a imerferênda de B. Sp. contribui para isso, me obn
ga a tomar uma decisão, dar passos decisivos, e acé cerco ponro me
gratifica. - Levantei-me ainda sonolento e sem me sentir muito bem
Diário; li cartas e parte de um romance. Depois as mulheres, censo
A seguir, o 111egwa de Kadilakula. Depois do almoço, descanso, de-
pois ou cm vez Kadilakula e tradução. Minha cabeça está escourando
de cansaço - dci.~ei algwnas expressões por terminar no final. Fua
de ca11M até Kiribi, remando vi.gorosiunente. Visão melancólica de
Mick sentado ali, definhando, a contemplar a lagoa cinzenta; nu
vens rodopiantes [escondem) o sudoeste - a janela dele para o
mundo. Casa vazia. Agachado com a coalha na mão na varanda dcs·
ma~lada. Excelente cenário J>ara um romance. Mas e o enredo? Eu
reria de introduzir Brudo trabalhando com afinco J>ara se tomar um
milionário; transformar Billy, George e Edward Auerbach? M[ick}
G[eorgc] nntes do advento do ,governo. Lura contta os negros, se
coma o dirigente absoluto. Um desporismo benevolente. A seguir
vem o "governo" - Moreton, à. De Moleyns - usurpador embria
gado, bonachão, irresponsável. Ameaça Mick com a pt11a tapital
Escritura fraudulenta e imprecisa; bebedeira; aí entra Edw. A. - A.
seguir o enredo. Brudo tenra eliminar Mick. - Primeiro descrevo
um dtdfllio na fortttna de Mick, depois sua elev11i;ãQ súbita. A seguir,
ele é destronado. Fúria; ele é arrastado para trás das g rades; morre

"Robou l'.fQ1:d, cicn1is1a e fllantropo <1uc conc.cdla., por nlciu d:i Universidade de Lond1c11, 11 Oolat
de 11uudOJ para Vi;ag<a.s Rob«t ~lonJ , utllli,idn por ti.falino\\iski cm .su<ts pc,11uh.,1 de ctmpo
2'0 liLr,LJ por a.no, du1an1c cin«i ~nos.
,.,. P10((1$0t E. C. Sc1rling. de Adelaide, fJtoru.ion1l intimamente lii;ado 110 cr;ib.Alhodt ~ftlino..U..
<' c:J1tot de JCU fftuOO !Obre l\-fai.lu.
UM DIÁRIO NO SeNTJOO Esnrro DO TERMO 237

Volcei. Remei outra vez. Não pensei muico, PQis durante todo
aquele tempo fiquei memalmente e:xausco. A lua oasce. Recoroo. Ceia
(outra vez pnlmico). Kayaku diante da casa de Molilakwa-apenas
mulheres. Depois vi Towakayse. Conversamos sobre Gumas ila e
Domdom [ambas ilhas nos Amphlctr]. Volcci muito sonolcmo e ador-
meci rapidt1mcnce.

28.2. Quinta. De manhã - acordado por g ritos de nativos bem cedo,


de forma que não dormi o suficiente. Apesar disso, me senti bem, e
dei minha caminhada marinai sem me cans!lr. Escrevi o diário com
entusiasmo. Depois do desjejum li algumas das carras de B. R. M.
- eu a amo muito e sinto tuna felicidade tranqüila e alegre. Minha
Loa saúde também contribui para isso. Mas neste exato momenco
11110 estou apaixonado. Bncretanco não sinto nem um pouco da tris-
teza mecafísica, renúncia, pessim ismo que sinto normalmente. Nos
momentos livres componho cartas para Sil' Edw., Sir J11mes, C. G. S.
e Adee Hum (à cardinha, naamoa). Mas cudo isso sem rancor e sem
pessimismo. Penso mais nessas coisas do que em E. R. M. pcssoal-
mencc, mas isso não estraga meu gosto pelo trabalho etnológico nem
meu sencimento por E. R. M., nem meu otimismo. Saúde, saúde!
Trabalhei bem codo o dia até ficar totalmence cansado. Realizei
rnrcfas dcsagrndáveis - wn mapa do mar e da terra. Hoje deveria
terminar (ou seja, lº de março). bem como fazer canto quanto possa
.1 respeito da genealogia. Passei a manhã com Morovato, Bobau e
Muayolllo. 'làmbém falei sobte hábitos dos peixes. Depois do almo-
ço csccevi e fiz desenhos, auxiliado por Niyova. Terrivelmente can-
\Jdo. Comi abaatxi. - Às 5 :30 saí para providenciar palmit0. Às 6,
•anoa, mar vermelho escuro. Voltei às 7 e [cortei) palmico, às 8 taioba
e bate-boca sobre quem queimou a panela (chaleira). A seguir os
<Jmaradas contaram k11kwaneb11 muito indecentes. Didawina, • Suge-
llllna, {Kailavasi]. - Fui dormir às 11. ..
238 BRONISLAW MALIN0\'7SKI

Primeiro de março de 1918. Os rapazes me acordaram às 8, e eu cam


bém precisava acordar cedo por outros moei vos. Agora durmo sem co-
bcrcor nem oucros agasalhos, e me sinto melhor assim. Depois de uma
caminhada, durante a qual redigi. mcntalmenre carras decisivas parJ
N. S. e E. S., trnbalhei com Mosibuadaribu, que explicou [ ...], mas me
senci debilitado, e suas informações sobre L. T. foram insacisfacórias.
Depois de uma tentativa fruscrada de tiror uma sone(a e do almoço,
Yasala Gawa e Morovato; muito cansado, mal podia falar. As 5, parei
e me deitei. Não havia como escrever pam E. R. .M., nem ler nada dela
- (depois do almoço li a carta de E. R. M. e um trecho de Cr:domse).
Na ca11oa f!tmti cm E. R. M., noss.os planos de casamcnco. A idéia de
nos casarmos Jogo me faz feliz. - Voltei, comi muico, me empantur·
rei. Inspecionei uma toca, térmicas. Fui pam a cama às 10. O k!1k1M11cb11
de Iluwaka'i. (A noite inteira me irritei com o faro ele que não podia
visitar Bo'uriosi sem começar uma discussão.) - À carde, resolvi ir
até Sinaketa. - Tendência a trabalhar até a exaustão e incapacidade
de dormir; crabalho sob alta pressão. Amor crnnqüilo por E. R. M., h
as canas dela como se fossem as Escriturns.

2 de março. Excursão à Si11akcra. Pela manhã, chuva e vcnro. Mas es·


cou decidido a ir, de qualquer maneira. Alegria por estar no mar outra
vci. Ondas verdes vítreas em torno de Sinakcta. Fiz um esboço do waga,
não pensei em nada exceto o momento presente. Naturalmente, pen·
sei em E. R. M. - como seria maravilhoso se ela estivesse aqui. -
Duas horas. George A{uerbach] parecia um raoco menos cordial a
prinápio. Escrevi para E. R. M. - isso melhorou coosidcravelmcnte
o humor dele. Depois do almoço, um violento vendaval, chm,a; preo-
cupo-me com a tenda, imagino-a arrasada, meus papéis espalhados,
meus originais destruídos. -Terminei a carta para E. R. M., escrevi
para C. G. S. e P. & H. As 4:30 fui ver os Bmdo. Raffael - jovem,
com um rosto nervoso, inteligente, agradável. Amigável, sincero e fran-
co. Falou sobre política e sobre a guerra. Seus pontos de vista são se-
melhantes aos meus. Convidou-me calorosnmence para visicá-los, até
pcrnoirar. Tenho a impressão de que ele é o único homem cuja compa·
nhia me faria emra,. em col/fd/O roma â11iliZf1!iW. Acho-o extremamente
UM DIÁRIO NO SEN'nDO ESTRITO 00 TEJ\!.!O 239

simpático como pessoa, bem como seus pontos de visca e modo de


.isir. - Voltei para a casa de George; as aldeias de Sinaketa sobre o
mar verde; os frios conrornos violeta das cabanas co111ra as 1ra11sptJ1'ê11cias
rW' de lart11!it1 dqc/11 a ome. A luz quase flmuando, suspensa no ar. Gcorsc
me 111osc:rou strns pérolas. A seguir· falamos sobre Raffael... Ames dis-
so, havíamos falado sobre poürica e cu havia criticado Hughcs e havia
expressado opiniões antialemãs moderadas. - À <ardioha, depois do
jantar (abundante - carne de porco, batatas, creme), perguntei a
George se ele não rem algo contra Tcd, de forma que eu possa servir
de [incermccliário]. Protestos muito educados e amistosos. As 9:30, o
u;agt1 ficou pronro, às 10, partida. Pensei em E. R. M. (andava pcnsan-
clo nch1deste que saí da casa de Brudo). Cochilei. Discuti com Gingcr
em Oburaku. Isso estragou minha noite e acabou com o meu bom
humor, e rcconhed que escava errado.

3 de março. Dom ingo. Chuva e vcn ro à noite e pela manhã. Levan-


tei-me tarde (8:30), tempo cin2Cnto, frio. Escrevi o diário; tensão
encre mim e os meninos. Eu estava nervoso, censo; além disso uma
dor de csrômago forte, devida à gula - não consegui comer n:1da.
De 11 à 1, um pouco de trabalho com Muayou.lo e (Wayci] e [vagi/a,
k111lf1, thdtwo]. Por volta de ! , escava cansado, senci que não hnviu
trabalhado com afinco suficiente. À l, carta para E. R. M. - Sem
dúvida cu escava cansado. Depois - ou melhor, dttrante - o almo·
ço fui ver n sra. Cambol [ ...] e .rr1gti/i na casa de l\for·ovaco (rnrnngue-
jo e peixe, sem legumes nem verduras). A seguir, sencei-me e obser-
vei [...] 1t1ipwa11a. Vento furioso, coloc:unos capachos como prote·
ção. Piadas sobre ir para Tuma e se casar com eles (os espíritos) ro-
dos. Pensei em E. R. M. e quis lhe contar tudo isso. A seguir, as in-
decências dosk.11kwaneb11 de Nanabo. Parrimos por voltadas 4. Tem-
po escuro, chuvoso, rajadas de vento. Meus olhos doíam, não nd ian-
tava tentar escrever nem ler na tenda. Fui à casa de Tcimakapu e fa-
lei - fisicamente me sentia arrebentado, e escava sonolento. Em
seguida retornei à tenda, e li.ti para a cama às 8:30. O k11kwt1neb11 de
Gingcr me irritou. Dormi muitíssimo bem (pó de Dover), pensei cm
E. R. M. fisicamente, e uma vez mais senci que ela era minha única
240 llRONISLAW MALINOWS)()

mulher e minha esposa. - Quero escrever para ela, dizendo q


precisamos nos casar logo.

4 de març(). Segunda. Desperrodo pelos gritos deles às 6:30. Gingcr w


not1 a me irritar (Tropenkoller? (delírio tropical]). Lcvancei-me - rcs11I
me Jivrnr daquela cabeça de vento. l\ndei acé o sopi. Estou m:ds fon
fisicamenre - pensei no trob. ecnogr. 'fambém pensei com orgulho •~
meu trabalho: melhor do que o de Sp. & G. (Spencer e Gillen•J, mcll•
que o de rodos os outros. Devia escrever para Fra:zcr e Seligman? Rcx
brei meu domínio: o que importa é o que escou fazendo aqui nesrc m
menro. Desjejum: combate às cérmicas; Mwagwaya e Medo'u; conv<
sa; diário. O cempo rodo pensei cm E. lt M.; estou apaixonado por d
11'abalhci com M. e M. até us l I - não, até as 12. Depois lu1
até a iildcia, conseguir informantes, mas não cive sorte. Por voltn d
l Jiorn, fu i dar uma caminhada para rehtXar. Pensei em E. R. M
também sobre Lettres pmanes (ÚJ1'ft1S Ptr1tts) . Planejo "His16ri11dtis 111
pú1s'' etrí1ic111 cí11it11s d /,t Swifl. Pensei cm desenvolver esta idéia num
carca p1tra E. R. M. Tencei cirar um cochilo, em vão; ltil11ra irrtg11/Jr
de Cad~mse. Depois (Mobaymoni] veio, e crabalhei com ele e Niyovi
vagarosa e preguiçosamente, em quescões diversas. Às 5:30, cam1
nhada pela aldeia. De 6:15 a 7:30, saída na canoa. Sem apet ite. Irri
caclo pelo roubo do livro de !3ill>" 'fümbóm foi roubado o D1: Pmc11/,
de Zola, pois não vi esse livco oncem. Li Stead** como soporífcrt>
Recolhi-me tarde, às 10:30; forioso com todos esses canalhas.

5 de março. Aniversário de partida de Port Moresby para Sydney há do11


anos. Às 6 da manhã a w;oa não c:srava lá. lrritado e monificado- 1'I
libras. Morovaco encontrou [ ...]. A seguir fui dar uma caminhada e fi,
uma carca para Prazer. (Onccm fiz carcas para Hllm.) Temendo obsessãu
no cocanre às causaçõcs de 13. Sp. -controlei-me e pensei sobre o mé·
todo etnográfico: 11parte a q11estiio da "dimensão social", imagens reli
giosas e fé, há o problema da "dcfmi~iio real" das regras de comunc. H.t

.. F. J. Gl!lcn, co-autór. com St>tr:ccr, de J1..-crt-Oít estudos (ll!\d:s:nc<:.t.:.i$ :até essa ~f*~.
• •Wdlum Thoma.i S<c-.td, hmoso iocn"'l»c• e c•c1i101, fiand;idor de ~il..,; ef P.11.V.• ( 1890).
UM DIÁRIO NO SENTIDO EsTl\ITO DO TER-'lO 241

uma regra, dada num ecrto sentido; uma rrgra ftxa e eJtalJeltâda - co-
.~lS os infurmames concordam que é assim, e não assado; essa regra deve
, r verificada. Além do mais, a forma micológica de descrever cercos fe-
nômenos, por exemplo, mn fiira«ío, 111111/rági~ etc.: tendência a "esque-
11mtizar" os fatos. E, depois, dois cipos de compreensão: observação e
<otusalidade m1\gica. Lttya cai: 11111h1k11111111i sencou-se em cima. Um ho-
mem está pescando epilapa/a o atinge: vingança de 1a11va'11, pois o ÍJt1i111)
de Wawclaomatou.Si/ami abrange as doenças. Feridas também. Kmiyala
- lado a ltulo com ae>-'Plicação natural das coisas. Hoje preciso terminar
o censo; copio tudo[...], cambém reviso minhas anocações e verifico se
l.Jca completar alguma coisa. - Pela manhã li wn pouco da revista de
Swad e o Pt1p11t111 Ttmes, e um romance. Comecei a trabalhar às 1L. Não
me lembro do resto do dia! Como sempre, saí no bacco; recordei-me do
~niversário da viagem de Port Morcsby ucé Sydncy. À noitinha escrevi
e •lrta 11 E. R. M. -Sinto por ela um forte 11mor apaixonado. Devo pcn-
'•'r nela co1no minha esposa.

6 de março. Sagali em Kaynwi. No meu caminho para lá tomei noca


mentalmente de detalhes íntimos e picorescos. Pensei em E. R. M. e
submcci material a ela. Em Kaymvi trabalhei honestamente durante
3 horas, com câmara e caderno, e aprendi um bocado de coisas, mon-
ccs de detalhes concretos. Novo ponco teórico: (1) Definição de uma
(.)ada cerimônia, espoocaneiunente formulada pelos negros. (2) Che-
garam a essa definição depois de terem sido "bombardeados" com
perg11ntaS oriemadas. (3) Definição à qual se chegou por meio da inter-
prec:1Ção de dados concreoos. - Voltei à ceada cansado, porém não
arrasado ou exausro. Li Cadomrt durante uma hora; das 4:30 às 6 Falei
sobre o sagali com Morovato e Kadilakula. Fadiga: esqueço cermos,
fulo devagar; três ~nodos mais carde já esqueci o que tinha em mcn-
ce. Depois na cmwa, no que pensei? Afinal de concus, não cm cartas
pani pocencados e N. S., pois cu me recordava deles e me i1·ricei com
isso. Voltei cansado demais para registrar [a história de ] Digawina.
Conversei com os companheiros sobre assuntos gerais. Morovato e
!lt1waka'i. Li C«doresse durante algum tempo. Depois fui dormir. A
noite, despertado por cães a uivar. Tomei pó de Dover. Vemo matinal.
242 BRONISLJ\.W MALll'iOWSKI

Pensei cm E. R. M. e scnci a falta dela. Senti uma paixão forte porém


pura por ela ...

7 de março. Quinta-feira. levantei-me tarde; chuva; umidade. De-


pois do desjejum li Cmlom1e. Pensei em E. R. M. Momentos de desa~
violenm: se e11 pudesse r10 menos rever se11 corpo eibe/10 e /11111i11010. Em cercc
momentos, desencorajado pelo meu forre ódio pela Inglaterra e pelot
ingleses. Comecei a trabalhar sozinho às J 1:30 e trabalhei bem; até•
l , registrando minhas impressões sobre ost1g,,/i. Depois do almoço m
senti pior. Trabalhei um pouco com Muayoulo e Iluwaka'i (registrt't
k"kwr1neb11). J.i algumas edições do Boletim. Às 5 percorri a aldeia conm
de cosmme; às 6 füi a Kiribi, onde me senti cansado. Marianna m
deu g1tlt1kwd. No caminho de volta, raspei os pés no wt1gr1, apligut
cerato de Goulard; dei um meio cochilo na cadeira. Ll as carcas de li
R. M. e ttm pouco de CtU/oresie. Carna às 11. Dormi muito bem.

8 de março. Levantei-me às 8. Tempo bom, a superficie ondulada d~


água verde, transparente. Senti-me bem, um cerro tontenramento
C(Hn as redondezas e o trabalho. Dei 111na·11otla na aldeia. Saipwa11a d•
Marfanna. A seguir fui até o s!ljJi. Pensei crn publicar minhas foto
grafias em forma de álbum com nocas explicacivas. 'lbmei desjejum
carde. Resolvi tirar algumas focos decentes. Carreguei ambas as cl
maras e descobri a provável causa do embaçamemo na cfi111t1ra de V.
de chaptt. Tirei uma foto do saipwr111t1; depois, de urna pequena em
barcação a vela. Não era lá um fotógrafo muito "brilhr1nte", e trabà
lhava com indolência. Depois do almoço, entrevisrei Marianna: o
"Kayona" vai parcir na semana que vem. Comecei a dprcsst1r 111e1ti
negócios em Oburaku. Traduzi uma canção de Tuma. Em scguidll,
escureceu; no barco tracei um plano para recolher as coisas:
Deixar: ( 1) papéis, originais manuscricos e cartas. Levar apc
nas o arquivo geral.
(2) bolsa {Bulunakao)

Levt1r: 200 folhas de papel e Otttras coisas necessárias pacu


o rcabalho.
LlM DIÁRJO NO $F.N1'100 eSTPJTO DO TERMO 2-13

Qimaras. 12 rolos e 3 dúzias de chapas, além de equi-


pamenro para revelação de filmes.
Comida para 6 semanas.
Farmácia: aspirinas de reserva e o que tenho aqui!

Fazei·: dar instruções a Billy e meu rcsrnmento.


Cartas (1) C. G. S. (2) R. Mond. (3)]. Prazer. (4) A.
Hunr. (5) N. S. e B. S.

Ao rccornar (no barco eu havia contemplado as estrelas e pensado


que isso tinha de ser feico ames de elas codas desaparecerem) traba-
lhei sobre as esrrelas, principalmeme com Morovato, mas também
com Mobaymoni e Wayei. Fui para a cama às 11:30. Dormi bem
após tomar 5g de aspirina.

9 de março. Sábado. Depois da caminhada marinai, desjejum crc.,


redigi carra a E. R. M. - mi melhor, percebi que tinha muito a lhe
dizer. Mas comecei a trabalhar: Morovato me evitou e Karigudu ilada
foz na ausência do primeiro. Furioso, fui acé a aldeia (a curma toda
veio de Kaytuvi jogar críquete). [lbodem:J 1aipwa11a. A seguir, Moro-
vaco 11pareceL1, ajudou, terminei o Jflipwa11a e ;t tradução. Após o al-
moço, li The Vil/age rhm Vored rhe Etmh l1/a1 (J\ aldeia que decidiu
que 11 Terra era plana) e enrcndi o que E. R. M. pensava acerca dele.
O censo com uma mulher cega e M wagwaya. M. é excelente infor-
mante. 'Jl'abalhei até o ponro de exaustão. Parti às 6. Redigi uma
carta para Hunt, mas fiquei cansado; tcrrivelmeore melancólico, e a
f)erspectiva da viagem a Gumasila não me consola. Fórmuh concre-
ta da vida: "Calar-se <6111 tia, ro11rtbtr fi/lm, tJmvrr /ivroi. morrrr" -
que é isso em comparação a ambições cósmicas? Possuir o mar e as
estrelas e o universo - ou no mínimo encerrá-los cm nosso pensa-
mento? Exprimir a atração, a força que me impele a lançar meu es-
pírito realidade adenrro. Algo maior do que a curiosidade e mais
essencial do que o pensamento. - Semi a necessidade de exprimir
isso num poema, e enviá-lo a Elsic. - Voltei. Depois do jMtar, rc-
censeamenr-o oucra vez, até as 10. Cama às 10:30.
244 BRONISLAW MAL11'0WSKI

J Ode março. Domingo. Senti que era meu dever ir a Wawela. Livre
me da preguiça nacural e me decidi a ir. Caminhada curca, duranrc
qual planejei me mudar para Gusaweta. Desde onrem escou irrit.i<lo
com o comporramemo de Billy: suas carras são lacônicas e ele não me
convida para vir a Gusawem ou a bordo do "Kayona". As 9:30 fui 1
Wawela via t'<tyb1uag. A princípio, muito cansado; suando, o sol a pinn.
Perguntei os nomes das árvores; Morovaco, como sempre com niguri
em cais ocasiões, respondeu de forma relutante. - Vista do mar m•
ravilhosa, apesar da fadiga. Em Wawcla dei ordens ele nfto remover
[ ...)e rirei fotos com a Graflex. Em seguida, chuva. Conversa com Kw11
lakayu (LUn colega decente, muito prestativo). Observei a confecç.\o
de uma waga. Almoço na praia: [la11in1ewa] assado com inhamc cozido
e coco; a seguir, tomei coragem e comi towamoro (muito saboroso). 01
ma de piq11miq11e na areia à beira do mar nbcrro. Pensei o cempo rodo
cm E. R. M. - aqui neste lugar, e com uma existência mtlÍCO ma11
livre do que cm Oburaku. Senti-me sonolento e cochilei. Retorno 1
Kicibi. Enorme e profunda selva. A seguir vista do mar depois de
Boymopo'tt. Algo parecido com um clima mediterrâneo no mar. Mick
sozinho, j.larccia melhor. Folheei um exemplar ilustrado de Mai/11
Despedi-me dele e embarquei na sua waga para Oburaku. Morovato
escava amttatlo e relacivamente desagradável. Comecei a escrever uma
cana para E. R. M. -o pôr-do-sol. Canoa. Creio que preciso primeiro
rcrm.inar os /J1mlv1de11egocir1§iJ;J: N. S., E. S., Atlee H une ccc. Depois do
jantar (os 11igge11 vieram e fomm amistosos - rabu) fiz um esboço du
cana para N. S. - muito difícil! Recolhi-me (irritado).

11 de macço. Segunda. Fiz as malas - às 12 já havia rerminado.


Não guardo impressões sentimentais dcsre período - ;1legco-mc
porqLte os 11igger1 de Oburoku ficaram para trás, e porque nunca mais
coroarei a me hospedar nesra aldeia. Procurar por uma waga na aJ.
deia me irritou. Morovato me ajudou lealmente até o fim. Velejei
num inrenso calor; remei bastante; incerteza sobre a aricude de Billy.
Em Gusaweca, Billy, ab1ol111amemebe111. Revelamos fotografias. Mui·
cas canas para mim, as quais li sem grande ansiedade, pois não es-
tou muito interessado no que cscá se passando e me preocupo com
UM DIÁRIO NO SENTIDO ESTRITO DO TERMO 2-15

rudooquc tenho a fuzer. As cartas de E. R. .M. não mecausamgran-


,lc impressão. Cartas de C. G. S. e da sra. S., mu.ito afemosas. Penso
h.1scanrc cm escrever para N. S. e sou incapaz de ler as cartas dela.

12 de março. Terça. Fazer as malas. Estou cheio de energ ia e sistc·


mácico. Continuo a fuzer as malas após o almoço. Cansado à carde.
Terminei mdo à luz do lampião. Às 9 s.entei-me com Bill e conversei
um pouco. Não cuidei do cestamcnco, nem das cartas. Bill revelou
rrês rolos, codos bons. Só a foto de nós dois ficou ruim. Não lembro
<1uais foram meus principais pensamentos e sentimentos duranre esses
dois dias. Não estou cerrivelmcnce feliz por estar partindo (não;• estou
feliz por ter quebrado a horrível monotonia e.la vida de Oburnku, por
ter de prrssar apenas mais cinco meses cm Kiriwina e por escar indo
habitar no fabuloso mundo das ilhorns).

13 de março. Quarca. 6 da manhã. tlim da arrumação das malas.


Um tanto preocupado com "30%", ele pode estar em dificuldades.
fui a pé aré Losuya. Comprei 4 pcnrcs cm Bwoyralu. "30%" foi ca-
marada: me emprestou Boletins. A pequena cabina do "Kayona";
meus pcrcenccs ....Hoje à noice esrarei cm Gumasila." ** Des!OC11mo-
nos para trás e para diante encre LoslLya e Oiabi<L. Manguczais a oes-
te de K!LVa!lltia. Atravessamos a passngem. Mar encapelado. -Fi-
quei deimdo na cabina, ligeiramente e njoado. Boymapo'u, Boyowa
cm meio a uma ligeira névoa; reentrância na costa oo pomo onde
fica Oburaku. Bebi café, cochi lei - os pensamencos vaguearam.
"Lberdade e dom(nio do espaço". Pois sim! Acordei - KO)•acabu,
Domdom e Gumasila. Tons pastel de rosa e verde. Caiu a noite. Pas·
samos próximo a uma ilhota de coral, o mar batendoconcra da. Muico
escuro - Gumasila é uma mancha negra. Procurando local para
lançar ílncorn. O chupéu de alguém cai no mar. 1ravessia. Desperta-
do por g ritos. Borrasca. Uma vela rasgada. Percebo que a situação é
grave. Apavorn-me - tremo de medo! A superstição aflora: 13;

•Gr1f11do no originaJ.
*"G11ma.silt, uma d.u ilhu Ampl-.!eu, ftl; wn dos cb;inos cb n.:p:diçio do á ..h. vinda dt Dobu.
246 BRONISl.J\W MAJ.INOWSKI

premonições sobre as Amphlett . Penso em E. R. M. - ela está d1


mindo cal mamente, e eu nunca mais cornarei a vê-la. Falra de sin1r
ridade e pessimismo característicos com base na superstição: est'"'
com medo de ser ocimisra porq uc acrediro que isso dá t1za1'.

14 de março. Quinta. Acordei por volca das 11 encre Sanaroa e Garca


Alquebrado e dcsan[mado pelo enjôo de mar, tendo perdido á espc
rança de chegar a Nabwagera. Venco sul Cruzamos perto de Sanaroa
Fones correntes atravessam este local, vemos, mares agitados, ruídlll
característicos. O barco conrorna o banco de areia e entra numa calma
ensettdct. Sento-me, cansado, sem fome, só sedento. ["Emerjo"] de m1
nhas impressões. Monal•ya se encontra em um estado de espírito co
talmente pessimista. (Sério, feições serenas. Lembra-me Ahuia_) Dor
mi até as 5. Viagem até Giligili. [Storch.J Conro-lhe minha história
dos últimos dias, ele me conta a dele. Moscra-mc o navio. Conta-mr
uma segunda vez como ficou paralisado, e me relata seus sincomns
Louro; rosto do Francês Agonizante - bigode de pontas caídas, cor
de esropa; magro, sem barriga. Simples, sem afetação ou fingimento
(i\ Geo. Aucru. , Ikudo etc.), sim pácico. Expressamos opiniões políti
cas. A seguir, gramofone. Bebo chá e como XX [ ...) com geléia de
groselha prera. Volcei. Cr. S. + U.M. (Cruzeiro do Sul e Ursa Maior]
E. R. M. Hemisfério Sul incomparavelmente mais bonito que o norte

Sexta, 15. Levantei-me cedo. Escrevi para E. R. M. Dcscml>arquco


Os companheiros amarram a waga. Depois, após o almoço, vamos•
uma grande aldeia e a um morro. Plantas insetívoras e orquídeas.
Linda vista. Um cinturão achatado de mang uezaís se dissolve nwn
labirinto de ilhotas e reentrâncias. Koyatabu invisível. Vemo frio
Recomo. À noite, conversa com Monauya. - Pensamencos sujos
(procuro combatê-los pensando cm E. R. M., mas cm vão) ...

Sábado 16. Pela manhã, expedição: quero ir acé Sanaroa. Mas imc·
diai:amemc após descer na aldeilb, sinto-me muico fraco. Preparação
do sagu. Recoroo. Li as canas de E. R. M. e os jornais de 4 a 19 d~
fevereiro. Depois, 'ºm Ogisa na canoa. Vista maravilhosa. Koyacahu
UM DIA.RIO NO S6NTJl)Q ESTR!'fO DO TERMO 247

visível. Mar.terhorn e Wercerhorn acima dos manguezais. Final de


rarde novamente com .Monauya. Em seguida, cama, muiro cansado
e sonolento...

Domingo, 17. Acordei. Resolvi realiiar uma reforma moral: não é di-
fícil ser honesto num escado de graça. Só quando não remos forças e os
pensrunentos sujos nos atacam - só enrão a fibra moral é postá 1l pro-
va. - Depois do desjejum, subi <> regato de barco com Ogisa. Linha
de altos troncos brancos acima de um verde imenso. Depois, a selva;
1:api111 [/a/a11g} 1l direita, sagu. Observei um pânrano de sagu e abrigo
temporário. Retorno. Escrevi para E. R. M. Li. Almocei, depois rornei
;t ler até anoitecer-é verdade, eu li [Rev. C. W ] Abel e [Põch], mas,
mesmo a.ssim!-A noite, canoa. Ao notee (acima de Sanaroa). sul (acima
do [Monte} Bwebweso), e ao leste, cúmulos brancos rodopiantes so-
brepuseram-se em diversas camadas, tendo ao fundo estrncos negros.
Remamos para a extremidade oeste de Sanaroa. Temi que um venro
forre de noroeste pudesse me afasntr da praia. A corrente também.
Podia escutar o ruído das marés espumantes. Acima de Bwebweso
trovões e relâmpagos constantes. Senti o pânico me invadir. Temei
"reforçar meu ânimo", mas sem pleno êxito. Sentei-me durante longo
tempo observando as nuvens escuras e as cencelhas coruscando entre
elas. Pensei um pouco no trabalho - ruas como? Depois de ter volta-
do conversei com Monauya sobre lwk Recolhi-me às 9. Dormi bem.

Segunda-feira, 18. Despertei às 6. Deitei-me pensando cm E. R. M.


Um dia antes, na ca11oa, havia pen.sado nela e na necessidade da pu-
reza inrelecrual. Esta manhã estremeci ao pensar em traí-la. 'fam-
bém pensei em Kiriwina e no meu trabalho. Preciso me apressar,
para ter certeza de terminar! Ontem me senti debilitado - atribuo
isso à atmosfera terrivelmente abafada. Hoje, sentimento de tensão
e pressão nos globos oculares; terrível indolência e o mesmo cheiro
desagradável de 11ma paníc11/a do lado externo da boca que cosrumava
ter antes da oper. de Andrew. Poderia ser do fígado? Vomitei em
Gumasila; gosm de sangue[...]. Além disso estou com a garganta e
o nariz um tanto congestionados. - Por volta de 7 horas desmonra-
248 BRON l$1.AW MALINOWSKI

mos a renda e a guardamos no navio, zarpando a seguir. Ainda me


sinto debiJicado, e isso me ün ped iu de apreciar essa excursão. Sanaroa
se fez descortinar vagarosamente sob forma de uma plaoície ampla e
excensa - uma fita verde - à direica, e um cinturão de morros bai-
xos porém intrincados (logCl, {amplos}). Koyacabu cnvolca e1n nu-
vens. Os morros verdes (da ilha] de Fergusson se aproximari1m; con-
cornos de cada uma das árvores. O vemo havia amainado quase por
compleco. Desci acé a cabina e li [The} EngtiJhman [periód ico licerá-
rio inglês}, o qu:1l cerminci. Não associo isso a E. R. M.; despertou
senrimcntos anglofóbicos em mim. Pensei sobre isso e sobre as com-
plicações que poderia ter gerad<> nos meus sentimentos por E. R. M.
Passamos por 2 la11cha.s. Vento forte. Nilo me senci muito bem. Dei-
tei-me na coberrn da minha cabina e olhei a paisagem. Baía de Garea,
e, a sudesre, Koyacabu apareceu. A linha chata da praia ao fundo
leva dirctamence a Begasi e Deidei. Um pequeno vulcão (cxcinto]
delineado numa am pla cadeia monran hosa. Observei-o - árvores
altas coberras de flores brancas - , a inacessibilidade física dos cró-
picos. A água verde-escura, as pedras cor de bronze, a espuma bran-
ca, as árvores verdes - tudo isso é en,11nrador, mas silencioso e amea-
çador, cm vez de cloq(ientc e convidativo. - Uma voz invisível vin-
da de uma la11dH1 me convida. Eu me barbeei, li um rrecho de l\1.a11d
Diver. Chuvarada monstruosa. Conversei. Donovan mexeu comigo:
"respcitnr mais nas trincheims alemãs". Volcei e parei para a aldeia numa
canoa. Mudamos de ancoradouro porque estávamos quase num recife.
A noite caiu; trovão; nuvens precas. -Fui até a "aldeia". Uma única
e miserável cabana; alguns indivíduos e mulheres semelhantes a pig-
meus. Nada cinham para vender. Ficaram o tempo todo se coçando e
quase codos tinham [Jep11maJ. A casinha sobre pilastras era muito pri-
mitiva; ci chão e as paredes eram feicos de ramos e eronco de sagüeiro;
o objeto mais viscoso era wna panela das Amphlctc. - Oucrn aldeia:
um par de cabanas, os homens bastante altos. Rostos largos. Os rostos
femininos eram agradáveis, não rinham a eterna expressão de piranha
di1s mulheres de Kiriwina. Alguns dos habitantes haviam parcido numa
expedição para <tmfi<fãO do 1ag11. Anteriormente, moravam nos morros
(por medo dos dobuanos?). Matamos wna cobra. Voltei, dormi bem.
UM DIÁRIO NO SEN11DO ESTIUTO no TER.\10 249

Terça, 19 de março. Dia da sanra de que mamãe detém o nome. Pensei


cm mamãe desde manhã e resolvi escrever um acarta. Também pen-
sei que desembarcar nas Amphlcct naquele dia traria sorte. De ma-
nhã, Monauya e cu fomos à aldeh\. Di:1claro. Árvores 11 beira da ágL1a
cncre rochas cor de brooze. Algumtl!S palmeiras à beira da água, uma
vez mais aquela inacessibilidade. Camiithei algumas centenas de
metros. Árvores escuras e gigantescas. Fiquei impressionado pelo
número e pelo tamanho dos jardins. Ao lado das casas sobre pilastras
[algumas com} telhados cocando o chão, abertos de um lado, muito
primitivas, sem dúvida. Os habiranres não fugiram nem foram inso-
lentes. Venro forte. Domdom está mais perco do que pensei - cm
duas ho ras estaremos lá! Sentei-me, e dess.1 vez apreciei uma visca
magnífirn no sopé do Koyarabu. Uma l:trga cadeia de ilhas; à es-
q uerda, montanha em meio à bruma, contornos abrnpros precipi-
tando-se na água; o mar conado embaixo pelo horfaontc e no alto
pela camada (fe•Tafo) de ouvens lembra-me as ilhas Canárias. (Oh,
mamãe, m:tmic, será que cornaremos um día a viaja.r pela rttmltra
[rodovia] de Tacoronte a Icod de los Vinos?)- Na manhã daquele
dia, momento de intensa reflexão: necessidade de trabalho imelcc-
rual e continuidade. Fiz planos relacivos íls Amphlert- lingüísricos,
tecnológicos etc. - Meus pensamentos se embaralharam e se con-
fondiram em virtude das impressões da paisagem; o ve11to havia amai-
nado, e era como se estivéssemos amarrados, a algumas centenas de
metros, calve~ a um quilômecro, de uma ilhota cobena de 111/tmg e
selva, mas desabitada. Senri-mc pcrfciramenre bem, e Jurei contra o
vazio interior. A vista era magnífica: a pirâmide de Domdom com a
cúpula no alto entre extensões lacerais na base; Gumasila com a du-
pla corcova. As três cúpulas de Nabwageca, mais adiante, sobre os
morros cobertos de bosques de Kwatouto e Yabwaya - tudo isso
com as praias de Fergusson ao fu ndo. - O silêncio do mar e aus~n­
cia de vcnro me deixaram extenuado. (Não consegui escrever o diá-
rio, muito menos canas para M. e E. R . .M.)- Peg uei Carrr1s Penr1J,
quando o vento começou a soprar {Bore111a11t1] e continunmos vele-
jando rumo a Gumasila. Duas maJttWas desapareceram por rnls de
uma ilhota. -Atingimos Gumasila com mar espumoso, encapelado.
250 llRONISLAW MAUNOWSKI

Ncol1uma possibilidade de dcsembnrcarmos. Conrornamos a ilh•


uma bafa calma, uma aldeia pequena porém atraente. Aparentcmeni
abandonnda. Desembarcamos cm cerca de uma hora, colocamos •
coisas na praia entre wttgas e [porcos). Cães m1dttVttm e1111omo, fart·
jando. Meu amigo Kipela apareceu e ofereceu seus serviços. Convcr
sei com ele: uma cert<t capacidade de mentir e imprevisibilidade ne~tr
sujeito, mas ele fala um pidf?.ilt muilO bom. Dormi em freme a um
casebre, meus pertences foram colocados demro das cabanas. Quasr
não há espaço para a tenda.

Quarta· feira, 20 de março. Depois de sair da minha guiola (iaÍlla1r1


espremido encre ;1 /1adioltt e o teto baixo da casa), rodeei a aldeia a
pé, prornrnn<lo um lugar para armar a tenda. conheci um velho se·
nhor e o arrastei para a renda q11e escava sendo armada. Até í1s duas
horas dividi meu tempo entre falar com ele e supervisionar a arma-
çüo da cend1t (com freqüentes irritações). Depois, cacau e biJroitos (cu
não havia tomad<J café da manhã); o pequeno dicionário com oucro
companheiro (não lembro o nome dele). A seguir, mesmo com umn
chuva incessante, saímos na canoa. Senti que viver ncsce Mundo valia
todo o traba lho que duva: uma íngreme muralha de montanhas com
rnchaduras perpendiculares onde crescia uma vegeração luxuriante.
pequenas cascatas, o ruído da água. Dez minutos depois, uma pan-
cada violenra, o barulho de torrcnrcs mon caohosas e logo ao lado da
tenda as águas espumosas e escuras se misruram às profundezas ver·
dcs da bafa. - Saímos mi cmna; 110 sul as coscas de nossa baía se
cscendcm nos b:tixios ao pé dos rnorros cobertas decapi111 la/,mg; para
o norte, os montes se elevam acé formarem um pico montanhoso;
há duas rochas gigantescas que atravessam a praia arenosa. Depois,
bem acima, o penhasco alcantilado com rachadur:is; novamencc a
bnín sernicircular e os jardins da pequena aldeia acima dela. Nave-
gamos entre afloramentos de rochas ao largo (venro e chuva furio-
sos). A aldeia escá deserta. Vista pitoresca de um cinrnrâo de morros
em forma de pir:l.miJc; Domdom e11robe1·1t1por1111lfl rhliVa ci11ze111a. Os
terraços de pedra maciços cintilam sob a umidade. Em certos mo-
mcncos me vem uma sensação voluptuosa ("identidade misturada
UM DIÁRIO l<O SENTIDO llSTRJTO DO TERMO 25 1

olc circunscâncias") - o mar cinzento, o verde coberto de neblina da


ilha em freme, e os compridos terraços de pedra têm uma leve apa-
1ência de uma aldeia de pescadores nórdica. A (massa) escura da ilha
1ssomando por crás [cria] um clima estranho, como eu jamais cxpc-
1·imcntci an tes. As casinholas d>L aldeia me atraem, bem como me
11ltrigum do ponto de visca etnológico. 'fambém bá a dificuldade de
~e fazer pesquisa sob essas condições. Os nativos são desi1gradávcis e
respondem minhas perguntas com uma relucância óbvia. Se cu não
concasse com meus recursos trazidos de !Griwina, nunca conseguiria
nada aqui! - Inspecionei as casas: uma de luto; elas me 1>arccem
muito antigas, "profundamente enraizadas", cm contraste com as
ilhas Trobriand, onde as casas e o mnblisbment é novo. - Voltamos e
eu comi raioba; mtúrocansado, fui pMa a cama às 9 e adormeci. Ames
disso, senrei-me por algum tcmp() e admirei apaisr;ge111. - [... ).

Quinta, 2 1. Dormi durante muico tempo - "colocando o sono em


dia" - semi que precisavil disso. Scncia-me um pouco alrMido; mas
não mal. Chuva, frio(24,)º Q , vemo mudando conrinuamencc. A vis-
ta da minha renda, a apenas alguns passos do mar - rendo à esquer-
da a muralha verde da baía e uma rocha, e a proa de uma waga naufra-
gada il dircirn - é fabulosa. - Escrevi o diário, negligenciado desde
a partida de Sanaroa. Preciso criar um sistema de investigação nas
Amphlctt. Pela manhã escrç>vi dur~u1tc muito tempo, comcçei 11 ecnogr.
tarde dcm:tis. Trabalhei a princípio com Anaibttmna e 'fovasana,•que
não são maus, mas não são i11farmame1 de primeim &me. Depois do al-
moço, Ki1>ela e um senhor de idade; fiquei irritado com este úlcimo e
o enxocci. Por um momento tive medo de que isso pudesse cscmgar
minha pesquisa, mas Kipela conseguiu resolver as dificuldades. Às 6,
na ra11oa com Ginger aré a península /11/a11g. Fiquei feliz outra vez, ao
me ver sobre as profundas águas verdes, e a ilha coberca de tima vcgc-
raçiio verde densa gradativamente se revela. O braço mais baixo da

"1i)';\l!lln:1 Cll\ o lídt"r prin.e:ip:ll d·l$ Amphl«t, t.-hlinowi ki ficbu b:i.$C:ld<.> n:l .-ldci.l dclC', N1.1'•J;'1$1,
cm Gu1n n a.~. e o usou como i:nfot~ante (\'(r 1l r~•rr.1•fJI i.'il O,y, J.t Rs.:lf~11, c!pcd.A?rncntc u Cllj'>Íh1
lo XI ~
252 DRONJSLAW MAJ.JKOWSKI

bafa corre cm direção a algumas pequenas rochas vermelhas e preta\


(11pe1111J 11111 agmpament1J de cálidl! l!in11tlho sangiiíneo 110 111arro111-<ismro>,
envolto cm plu mas verdejantes. A maca luxuriante circunda ns fen·
das, fica suspensa acima de rochas nuas, escala as paredes nuas, dá il
paisagem um com espec.ificamente tropical. E iú emerge o copo arre-
dondado da ilha, coberco de lala11g. Aparentemente, a linha entre lttla11,(
e selva depende da natureza do solo, pois os morcos baixos de Nabwa-
gera são cobertos de selva, enquanro aqui a península baixa (é cobcm1
de] lala11g. - Sinco-me force e saudável, e anseio por uma longa ca-
minhada. Através de wna passagem esrrcira entre montanhas: bre«i11,
com uma granulação baseante g1·ossa, coesa, t1m aglomerndo cor de
sangue enferrujado, que determina a coloração geral das rochas. Ten-
tamos em vão atravessar a pcgucn:t rodiu e as árvores gLte vinha.m ará
a água; voltamos com a canoa para o promontório e acompanhamos a
prnia coberta de areia até os atbuscos. Ali, cercados depalmúrt11 tabu.
A seguir, vista da praia através de troncos de árvore caídos. Remei na
volta. Um gr11nde prazer em explorar, cm entrar em conra10 com os
trópicos. Pensei cm E. R. M., cm lhe contar tudo isso. Quando volta-
mos, Gingcr me concou sobre gom em Sariba, e planejamos pesquisa
ctnogrMica cm Sariba no ano que vem - na verdade, 4 meses seriam
suficientes! A seguir, uma mrta conversa com Tubawona e Kipela;
descoberta importante sobre a heterogeneidade dos 111egtvaJ' - mo-
mento agrndável para tun etnógrafo! Depois do jantar fiz um excelen-
te trabalho sobre a linguagem. Tobawona é meu melhor informante.
- Fui para a cama; pensei outra vez sobre o insulto de Donovun e
tratei de dominar meus sentimentos - porém, o mais importante é a
Íiçiio de que cu devia tomar mais cuidado com essa ralé.
Os principais temas da vida: uro alívio regozijante em viver cm
paz, sem ser perseguido pelos parifos, relacionamento iocompara-
velmeotc mais fácil com os nativos. - Ginger vem se moscrando
um canto cordato; está menos r11re11ido, embora não crabalhe direito.
Concencumento, plenitude de vid:t (onccm, porque me semi mais
saudável), cm conseqliência do novo nml>ienre, do novo trabalho,
novo tipo de trabalho. Minha tend a, a alguns passos d:1 íigua, sem-
pre remo som suave do espadanar da água, e o barulho das corrcn-
UM DIÁRIO NO SENTIDO ESTl\JTO DO TE~IO 253

res lá em cima na elevada muralha verde. - Emocionalmente: uma


ligação calma com E. R. M.; pensamenros sobre mamãe; na noite
passada uma recaída sensual/emocional por N. S. Desde Donovan,
sentirncncos antiingleses, mais precisamente sencimcntos antina-
cionalistas. Incclecmalmente: idéias comp:trativas (histó rias melané-
sias) com relação I• situação desses rapazes. Ontem compreendi o
encanto doJ1111:ey à Rivers, abrangendo amplas áreas como uma única
totalidade. Mas essa projeção do espaço no tempo (entidade bidi-
mensional, ou mel hor, multidimensional) é muito perigosa.

Sexta, 22. Principais correnres da vida: trabalho cenográfico, que vai


muito bem, gr<J(aS a Tobawona. - levantei-me às 9 ([ ... ]'); chuv«,
rortanco nada de se fazer a excursão planejada a Domdom. Pela
man hã, escrevi o diário cu idadosamente, depois fui à aldeia; todos
os Sinesine nas suas cabanas. Tobaw. veio. Trabalhei com a concepção
de morte e da crença no Tt11111J; tudo correu muito bem. À carde (agua-
ceiro violento abriu um riacho para o mar) Outra vez Tobaw. t Cia.
Esta espécie de trabalho - superficial, sem enrrar em detalhes - é
muiro mais leve e mais divenido -do que o trabalho cm Kiriwina. As
6 partimos para Gumawana. • Nuvem negra na parte setentrional
do horizonte. No bote esbocei um plano da aldeia. 1ob. Sem vontade
de desembarcar. Os companheiros ficaram apáticos, senrados nas
pedr.as, isol11do1, amuados, hostil- a111?mü·os ilhh11! Af cu desembar-
quei, caminhei entre as casas. Novamente enfeidçado pela pitoresca
aldeia. Uma sombra escura vagarosamente esrrangulou a luz ama-
relada mescl:lda com o brilho prateado da lua por trás das nuvens.
Domdom: uma grande pirâmide inclinada, 2 réplicas à esquerda, 1 à
direita - 11111a radeia rk 1mifannidade q11tm geométrica, e, co11111do, ad111i-
rát>tl e d11nira. Retornei bastante t arde; nuvens ameaçadoras se apro-
ximam . Rochas em roda a volca. À esquerda, o paredão escuro,
intrincado, profusamente coberto de maca de Gumasil; à direita,
Omea (Domdom), o [topo] mvo/JIJ pela 1111ve111eswra. O I<oyacabu visf-
vcl, azul, cortado apenas no cu me por uma linha de nuvenzinhas

"Cio1:nav..-ar.a cr;1. • tit\loJc atd.cfo. de Gu1n.oít.i, .cm to!no de 11m• pcn1a ck tcrrrt vinda de Nu'as:ui.
254 BRONISLA\\7 MAUNO\WSKI

brancas. Contornamos um rochedo. Vista distante de Nabwageta e


nítidos contornos de ilhotas menores. Por trás do promontório, uma
nuvem de chuva. Senti um curioso desejo de ser pego por uma chu·
va de verdade uma vez sem qualquer proteção. Comecei a vociferar
uma melodia de W'agner. A nuvem, Oll melhor, a chuva, se aproxi·
mou e nos cobriu como um lençol branco. Exatamente como uma
d11cha fria; ve11to. O bote se encheu de água. Meu relógio, medo de
tabekttSi. Voltamos; eu me enxLLguci. - Trabalho no dicionário. Não
consegui dormir durance muito rempo; pensamentos ofensivos a E.
R. M., lu tei contra eles - os mais perigosos dizem respeito a N. S.
Mas, quando cheguei ao pomo de imaginar que teria de renunciar a
E. R. M., percebi que isso seria impossível. Temendo ter contraído
um resfriado, tomei pó de D[over], quin(ino] e asp[irina]. Dormi bem.

Sábado 23. Equinócio. Acordei às 9, um pouco incerto quanto ao


modo como me senda. Saís de Epsom, chá. "lrabalhei com Tobawona,
que está se cansando de mim e que saiu no meio da encrevisra para
ir pescar; Kipela permaneceu, e até que não foi de todo mau. -De-
pois do almoço (li um conto mim de Kipling) parri para Gumawana;
um barco com Nab. (nativos de N abwagem?] havia ido até lá e um
111wt1dr1re deve acontecer. (Pela manhã, muitos barcos saíram para uma
expedição pesqLteira.) Kipela, Anaiburnma e eu. Como sempre, jí1-
biJo; planejei fotografias, observei o fundo do mar. Bem diante de
Gumaw. percebi que "tinha esqu~cido as chaves" - fiquei conster-
nado, mas me controlei. Ciinso. Uma felicidade contíoua nos arredo-
res: encantado diante do Ko)'atabL1; esbocei um desenho de Dom dom.
Servirnm-me sag u. - Fomos para Sarakcikeinc. Contemplei o
Gumawana - urna silhueta imensamente bela. Dois rochedos se
elevam da vegetação, co111q dois pilares tr1mct1dos brotando de ttm monte
de mí11as coberttJS de 1111110. O mar, Jurando, ava11çando em fileiras sis-
temáticas de longas ondas suaves. Remei. Em certos momcncos, eu
não sabia para onde olhar - para a delicad<L silhueca do Gumasila
ou as harmonias vigorosas de Domdom, ou a sinforúa de tons pastel
das distantes montanhas da grande ilha. - Sarakeikeine. Vôos de
pássaros conrra as nuvens, salpicando-as como chumbo grosso. As-
UM DlÁR!O NO SENTIDO ESTIUTO DO T ERMO 25 5

sustamos bandos de dawata e pombos (bu11eb1111e). O penhasco - um


conglomerado vermelho a sudeste e a noroeste escavado formando
uma profunda abóbada - gmcas; dos outros lados, escarpado. -
Voltamos. Lembrei-me da noite com Gilmour, quando ancoramos
aqui. "Meras pedrat" [dissera] ele, e com perfis escuros e nítidos. Eu
as havia imaginado como simples penhascos vulcânicos neg ros -
e as aldeias haviam parecido coladas à encosta íogreme, perto da
água. Isso em parte explica meu desejo de ver esras ilhas. - Pen-
sei nisso cm termos de uma carta para E. R. .M. (No dia anterior,
ao voltar com Tobaw., antes da chuva, quando a luz escava sim-
plesmente mágica, para E. R. M. : Isso se pame muito com 111nt1 si11fo-
11ia.) Recordei-me de Szymbcrski e sua ilha. Estávamos perto de
Domdom. - Voltamos. A grande ilha desapareceu na escuridão. Luz
mesclada do crepúsculo e da lua nascendo entre as ilhas. Remei. Eco.
Planejei outra vez trabalho emogr. - Ceia, dicionário. Caminhei
pelas cercanias, contemplando as estrelas. Marte brilhava vermelho
através de uma fresta encre as nuvens. A lua no alto do céu.

Domingo, 24.3. Primeira manhã clara. O Koyacabu dacamcmc visí-


vel. Consegui enxergar o cume coberco de lalang. O (venco) vindo do
oeste elevava-se bem no alco e o atravessava deixando sombras. Uma
encosta lng reme que se precipitava num paredão inclinado, cortada
por sulcos profundos e estreitos (füns estreitas e escuras) ao longo de
uma <inica depressão profunda à esquerda: uma catarata. 01\Cem,
quando o céu inteiro estava encoberto por espessos escratos escuros, o
Koyatabu escava banhado pelo sol contra o céu claro no horiionce. Pela
primeira vez entendi o efeito da fosforescência: igual ao efeito do luar:
a luz mais concentrada dentro de* tUna pequena área do que em 101110•
dela. (Pensei em como formular iss-0 para E. R. .M. Hoje me levancci às
8, dei um passeio, me encancei com a vista que se estende até o Cllme
pontiagudo (réplica do KoyatabLt) e as montanhas de Goodcnough.
Temia que todos resolvessem ir para o po11lo, pois a água escava calma
e não havia vento nem chuva. - Ainda feliz com o ambiente. Nflo
256 BRONISl.AW MAUNOWSKI

quero mudança, nem novidades, não estou entediado. Os cheiros (ono


tem, musgo, algas marinhas e flores, o venco vinha da ilha; hoje, a
fragrância de angélicas na praia), a corrente rumorejante, a selva, o
paredão sombreado com sua cobercura suntuosa de árvores cropicai1
- De manhã codos os companheiros saímm para o j101do. Kipela e o
ancião - muito devagar. Mais ou menos à l, homens Kaduwaga l!c
Kuyawa - k1dt1.• Q;egaram a Nab(wagtra} 0111t111. Vuram (em} tn>lll
peq11ma ca11oa: 2 b11. de tai!Jba, 1 inht1mt. Indiftrt11ra ti() chegar; i11difal'tll{•
ao 111cebt-los, 11p111semados pelo a11cilío. Depois eln vêm & se se111t1m ""canoa.
Conwrsa: Dimrssão chistosa, 111e111iras sobre os sordava. A seg11ii; e111regt.1111-
110J. Depois11ão ali a r1111m po111a & (raloi] OJ /Mmem. (EJt CQllO 1m11amr;;1
t1retiq11e & !tio 1M11 Kipling 1101 i111e1wlos.) St1110-mt rom eles & tsCJ/JO s11aJ
çgmiersas, depois proCf/ro obter 11lg111nas i11fom1a!ffe1. -A 1eg11i1; bole (esb!Jf.O
do 11111pa), ill!/1tfih do.fardim: muito trabalhode tt11'rlpla11age111, dre11t1ge111 ã
limpeza dos 1erre110J deles. De/1ois co11ti11110 ao l11a1: L1tmi11osidt1tle inesperada
da lua, wi111/o de miJ do morro. Acompanho a «»ta. Trn110 a fonmdt1r tlm.J
t/(Jm{ão sob1t "a disliTlfãO Stf(/Vt de Gmnaw" & o rilmo áspero, porém 1rt1J1-
qliilizar11e de Oomd()f11. "Luzes e 1omb1~JJ 11r1.t fonnrts 111avts e cbeiaJ pa1tcem
ter intensidade & jmo & jlmsio11am-1e t1mtls comra as 011tras. As sombrllS fl11-
111a111 tm locr1is acima da s1i}Jtrftcie da mattl dmsr1, tm algl/IJS po11101 afi111d(lf1I,
em off11YJJ rasgmn grandes ca11idad1S.,. - cm stg11ida ma;niro '""homem q111
drí 11m exemplo de monikiJliki (em Boy1Jwa11) efala 1(obn} okrda de 11111a11híi.
Vollrmdo as rouar parrt a rocha (rem11) ao longo da ttldeir1, de volta a 111JSsa
abrigo. À noite (das 1Olis 11 ), Tobrtwona etc. Explicação s!!bre o k11"1, 1$1/'i·
las, alg1111s miro1. - Noite chtitt de sonhos, Cmr6via. Pmsamtmos, temos t
apaixonados, so/11i H. R. J\f.

Segunda, 25.3. Naquele dia, homens de GW11asila e Nu'agasi parti·


mm para fazer o kula cm Boyowa. ** Seja cm razão da dist:rirlío ou da
supersdção, eles sempre escondem suas paccidas de mim (Mailu,
Omarakana, aqui). - Levantei-me às 9, como sempre. Não percebi

"F.sta vi!it.a de uma cxpcdiçio dcduu ilf\u • onte de Bop>wa f ckKrft~ ~m detalhes r.0Arrµ:.u11n.
pógU... 269· 72.
~ • /\4 ono.u das Atn1,hb:u •co:npa.nhara.rn ª"de Dobv DO l1>/;1 ern Sin•k«• no início de ;i,bril.
UM DIÁRIO NO SENTIDO liSTIUTO 00 TERMO 257

nada (no dia anterior, Kipela havia se lavado-seria para uma última
visitll a sua noiva ou parte do programa dokula?). Fui a Gumawana
(ugascado, porém não [desanimado]). As mulheres se esconderam,
romo sempre. Vi algumas de longe. Não houve muita confosão. Fui
Jté os [bwaymas] e observei como embalavam as peças de cerâmica 1
Apenas utensílios, sagu e mqa. Não consegui convencê-los a saírem
boga11asago. Tirei algumas focos. Vi Bumawana de manhã pela primei-
ra vez. Nem sinal de magia nem de despedida.1. Os meninos vão, in-
dusivc os de 2 e 3 anos. Os botes são impelidos para o promontório,
onde as velas são desfraldadas (eu não vi isso). Voltei às 12:30- os
nu'agasi escavam acabando de sair - não consegui nem focografü-
los. Fadiga. Deitei-me - fechei a mente, e neste momcnco tive reve-
lações: puccia espiritual. "Promrt oósemtr wm dilicadna a alma das 011-
trtJJ ptssl!aJ, mas 11ào se mvolva C6Tll elas. Se foram p11rt11, 1ifle1irl10 a Beleza
a1erna do 1111111<10, e, porta///o, por q11efttar oreflexo, se pode ver a pr6pria coifa
faa a face? 011 entlJo eJ/arlJo >'eplatos dá i11tri11cadt' (1ra111t1} das intrigas
maq11inhas e de wisas sobre as q11ais é 111tU10r 11ada saber". Tive revelações
(muiro familiares) dos fios inrermináveis e mesquinhos que vão de
homem a homem, consistindo de ódio, intriga, incromissfo. Depois
do almoço, ainda cansado; li Kipling; descansei. Às 4, comecei a rra-
balhar com .Maraora - jardins. Eles mentiram, esconderam dados, e
me irritaram. Aqui estou sempre cercado de mcnriras. - Às 6 desco-
bri que os homens haviam retornado. Barcos e Anaibumna. Noire
maravilhosa. Barcos no promonrório. No meu btirco apreciei a vista
do Bumasila desce lado, do Koyarabu e oucras montanhas. A seguir,
remei conrornando o promontório, a lua oculta arcás de nuvens
rendilhadas. Senti que esmva no mar u 8º de .latitude e 149• de longi-
tude (ou coisa assim) de Greenwich. Sensação nítida de que, ao lado
deste oceano real, diference a cada dia, cobcrco de nuvens, chuva, ven-
to, como mn1t t1!111a inco11s1a111e !t m>eStt de h11111ms - que além dele há
um Oceano Absoluto, que é mais ou menos corretamente localizado
no mapa, mas que existe fora de todos os mapas e fora da realidade
acessível à (observação). - Origt111 t11tl}(io11al das ldiias Plt11t11iras. -
Voltei, sentei-me na praia. Noite enluarada. Areia branca, sobre ela
silhuerns escuras se agacham, a distância a imensidão do mar e o con-
258 BRONJSLAW M AJ.INQWSKI

corno dos monces. Ao longe, o mar e os perfis das montanhas. Comb1


nação de humores: J3aia di Napoli e Gumawana "de dencro". Pen
em como descrever tudo isso para E. R. M. A lua, o mar, o humor. A
hrn induz um humor específico, clacan.leme dcfinid<>, cu cantarolo
"{Lamisebrue], e entiío chegou Suzanna, linda, pálida e virtuosa." Ex
pressão de sencimentos, ambiente social complementar, imaginário
Subitamente, wmbo de volta no ambience real com o qual mmbém
estou cm contmo. Em seguida, subitamence, eles deixam de cxisnr
em sua realidade incerior, vejo-os como algo i11congr11enre, fiúrbn esré11~
e [selvagem}, exótico = irreal, imrmgiwl, Jl1t111a11do na u1pe1ffcie tltt 1iaü
datle, como 11111a gr41111ra 11111/ti<olorida sobre tnn m11ro tnatÍ(4 porim opaca
Vokci, Anaibmuna correu com os meninos. Sensaçlo deliciosa de agora
comandar sozinho esta aldeia, cu e meus "meninos". - A lua acima
do monte produz reflexos pálidos sobre as folhas rcluzences. Ceia; comi
lencamentc, preguiçosamente, por estar cansado. Pcnsamenco? - Sal
de barco após a refeição. Contemplei as estrelas: Cruzeiro do S(ul} -
E. R. M. Sta ' s. Atwood (Pudim de SemoliM); Sirius, Canopus- as duas
maiores estrelas um "espetáado fi~tco"! Recomei, e a seguir me recolhi.

Quinta, 26. Planejei eircursão a Domdom. Despcrcado por Tobawona


com um peixe. Lcvancei-cne, ap1·cssei-me para ir a Domdom. - A
seguir, descobri que eles não tinham a menor incenção de ir. Tobawona
escava de mau humoc, mas foi cortês - um excelente info1·mance. Tra·
balbamos acé a hora do almoço. Depois, li desnecessariamence R & B,
e cerminci um conto de K.ipling. Fadiga. À tarde, po11/o, mas o traba-
lho andou muito devagar. Terminei às 6; remei no bocc ao redor da
ilha. Muito cansado. Observei e a11alisti: ( 1) Considero a discrição de-
les, a relutância deles cm definir seus planos (Mailu, Boyowa, aqui).
Percebo que estou fazendo isso e procuro atin,gir uma "isenção incelec-
cual". (2) Penso - no momento de ver o Koya? - no valor de um
dicionário desta língua, na priJiio de Samarai, M11vinabayo em Samarai
- 1mbalhofi11al tle descrição da Papua - despedida tk Sam[a1~1} & Papaa
- smí que vo11 mt ampmdtr? E assim ioda espkk dt "assodaç.ões" em ttrlml
de ill/eresseexplfcito, des')o, sentimento. "O pensame11111 tirase11 impetoda vida,
11,'iiJ a ·vida dopensame1110." 011, melhor, os pe11ra111el//Oi ião as bóias q11t mar·
UM DIA!UO NO SENTIDO ESTRITO 00 TERMO 259

rama corrente & não sãu eles q11e direcioliam a cor1'ente, mas o contrário. -
(Na 1111:111/Jã seg1ti111e pensei naquilo de now. O Vi1t1lreihe [série de vida) de
Ave11ali11s• éainda melhor do q11e o E'.rinnerung w11 Komplexen [lembrança
de padrões psicológicos] de Co111eli11.r.) Os princfpios de associação por espa-
q.i, tempo, simi/arklaík são apenas tts categorias mais externas, q11e 11enh1mu1
pista nos oferecem. -Contornamos o promontório e viramos para leste.
Não há necessidade de bússola porque a lua nascente e o sol poence
determinam [a direção ...) Toda a atenção focalizada na ilha. Sensação
de "outro lado". A praia vai de leste a oeste de promontório a pro-
montório, com reenctâncias (baias). As encostas consideravelmente
menos íngremes, prados de /al<mg cobrem os .morros até o mar, espe-
cialmente na segunda baía. Aqui e ali uma selva densa em camadas.
Duas penínsulas semelhantes a dois braços avançam mar adentro,
cobertas de lalang. Pequenos aglomerados encantadores e engraçados
de vegetação densa se aninham em fendas próximas à praia, ao pé dos
montes cobertos de lalang. Sensação regozijante de reconheciment0.
Esrn ilha, embora não tenha sido "descoberta" por mim, é pela pri-
meira vez experimentada de um ponto de vista artístico e dominada
jntelectualmente. A lua compere com a luz cinzenta do ocaso nebulo-
so, quando contornamos o segundo promontório e avistamos Dom-
dom. Em seguida, grandes ondas, e meus pensamentos se atolam na
indolência e na náusea. Percebo que o trecho entre Gnmawana e a
minha aldeia é de longe o mais belo. Noite; depois do jancar sento-me
numa cadeira à beira-mar, cantarolando valsas. Um momento de te-
mor: será que perdi o gosto pela boa música? Penso em E. R. M. e que
preciso lhe declarar solenemente que a concebo como minha esposa.
"A santidade sacramental do leito nupcial."

Quarta 27. Dia de descanso. Tobawona e Silevo foram a algum lugar,


não se podia encontrar um único informante. Fadiga intelectual por-
que durante toda essa semana trabalhei arduamente. Preciso resolver
se vou escolher Nabwageta ou Domdom. Neste buraco, não há nada
para fazer! - Pela manhã, li Ala11d Diwr. Fotografias, que fotam um

,.Ri<:h'Sltd A"eo:1.riu$ (1843· 1896), filôsofo alemão.


260 BRONIZLAW MALINOWSKI

sucesso. O romance é horrível; detecto erros grosseiros o tempo todo.


E, mesmo assim, concinuo lendo. "Engenharia da t1·ama; violação dos
incidentes etc. etc." - Depois do almoço (episódio com fotos estra•
gadas, que depois fornm recuperadas), li outra vez. Constantemente
planejando começar uma carta para E. R. M., mas sigo a lei do menor
esforço. Por volta das 4, rirei fotos da aldeia, fui até a aldeia grande.
Brndo resolveu ir. Ainda sentia indolência, inceleccual e emocional.
Apreciei a paisagém e descansei ("O descanso é uma das formas mais
importantes de trabalho"). Conversa descontraída com Brudo. Perce-
bo que ele fala sem me escutar (ele me informa sobre o que renho a
fazer aqui, e me conta histórias, mas não presta atenção às minhas his-
tórias ecc.); eu me calo e o escuto. ] á fiquei tempo demais. Volcei ao
luar. Domdom me atrai por sua forma mais do que Gumasila. Retornei;
tomei chá; li Ma11d Diver, me recolhi tarde. (Não com<> à noite.)

Qttinra 28. L!vantei-me tarde; desc:msei deitado na càrha. Ontem>


sob o mosquiteiro, outra vez um feroz, quase (eligioso desejo por E. R
M. Pensei nela constantemente enquanto lia Ma11d Diwr. Resolvi de.
cidir a questão hoje: se os nab[wagecanos) forem para Boyowa, ir para
lá [Nabwagcta) imediatamente; se não, primeiro Domdom durante
dois dias, depois Nab. pottr 1011t de l;on. Cuidar de tudo, planos, mapas,
censo, tirar fotos de Tovasana e do ambiente. - Depois do desjejum
me preparei e parti 11s 11. Na viagem LUna luz ofuscante. Revisei o
material de Amphlecc mentalmente; depois, por associação, compu$
tum\ dissertação sobre<> "Valor dos escudos etnográficos parn a admi-
nistração". Quero escrevei· essa dissertação ao retornar. - Pontos prin·
cipais: posse da letra; mnlfamento; saúde e 11111tk111ra das condi&ões (tal como
tw/(/1$-/os do alto dos morros); aâma de tttdo, o co11hecimento dos cost11mes dt
11111 pwo permite que (se} crie .1i111patia por elei, e que se lhes di ttma oriemm;ão
de acordo m111 s;lflS idéias. Em pvmo de vi.!ki do G!lV.: 1111utfoi~a louca e cega.
agi11do rom u111a imensülmle incontrolát,~/ em direçãe1 i111previstr1J. Às vezei
agindo como 11111a farsa, outms como uma tragédia - m111capodendoser COll•
siderado comocompone111e da vida ttibal. Se oGov. pudesse adorar meprmro dt
vista, mriito hem. Mas não pode. - Solicüação final: valorp111-amen1e ciemí-
fil'o; amigiiidadts mais destrutfveis do qlfe 111n papiro e mais expos!as do q(1t
UM DlÁIUO NO SEN'i'IDO ESTRITO DO TERMO 261

11111a colm1rt expo1ta, e mais v11lio.;r4r partt nosw na! co11hecimet110 de his16ria
do q1a todáS as escavaffes do 1111111do. Depois remei um pouco; observa-
mos opo11/o. Disseram-me que eles irun com bagi para Boi'owa; irritei-
me; num instante odieios niggers e me seotiinscancaneamente desaui-
mado; pensei aré em deixar de lado as Amphlert de vez, ou em me
estabelecer em Kobayto. - Ao chegar, impressão inteiramente dife-
rence: em vez de uma pequena aldeia no litoral, sem vida em razão do
seu isolamento e do vazio do mar imenso - nma aldeia grande, pul-
sando·com uma intensa vida, tiro ccnrro imporcame, muitas árvores,
uma longa fileira de casas, ao sol brilhante. Um gmpo de nativos esta-
va terminando a vela. Fui a 1obwaina. Eles provavelmente não parti-
rão aotcs do fim da semana. Thmbém remei falar sobre assunros
etnográficos, porém sem grandes resu.lrados. Comi kamok11ki e biscoi-
cos com coco. Depois sentei-me na outra extremidade e debati o ktda
e os utensílios com Tolokouba. Escolhi um lugar para a renda, depois
voltei para Tobwaina. Voltamos no barco; olhei pesaroso para a adorá-
vel Gumasila. Resolvi escrever para E. R.. M., rascuti.hci uma carta.
Assado de pombos e peixe. Planejei uma viagem a Nabwageta. De-
pois do jantar, comecei a ama. Li minha carta anterior a ela (que não
era muito romântica). Depois fiquei cão sonoJcmo que me recolhi -
às 11.

Scxw, 29. Nesse dia me mudei de Nu'agasi para Nabwageta.• De


manhã sob o mosqúiteiro - ou à noire, calvez, ou à tardinha -
pensei em N. S., pesaroso, imaginando o que ela seria capaz de me
dar à guisa de amor, comparnndo-'1 a E. R. M. Mas então me dou
conta outra vez de que E. R. M. é a única companheira da minha
vida, e que ela pode me dar incomparavelmente mais do que qual-
quer outra pessoa mesmo no amor, porque nossos temperamentos
são compatíveis. - A visão de sifilíticos ou leprosos em Nab. me
causou uma impressão forre e desagradável. Achei que, se pegasse

>tQs nitivos das Amphlctt tinham muico ciúme de outros bo:'l.1c1u <:01n rcl-açãi<> a suas 1nulhCJC$, e~
J1<>tncns de (lu1n:uita 11!<><1ucri11n p:ucir t>tra.Bo;·oWZI. t:tl>Cndo <11:c Mdinowd·d esç;w~ lá, Ele, pon.1n·
to, prometeu mudar-.s~ p:u:l ;l iJh., próicima de N:ibw.lgct-.i depois que .., cxpediç\io partisse.
262 llRONISLAW MAL!NOWSKJ

uma doença daquelas, teria de renunciar a E. R. M. e me segreg11r


em alguma ilha tropical. Pel'cebo o mal que me faria perdê-la e siOr<
vontade de escrever para ela na mesma hora. - Depois do desjejum
os meninos prepararam a bagagem, cu escrevi. Pouco sentimencah&
mo tt resjleito de remoção. Minha carta não é sentimental; bascanre
prática, l'egistro dos fatos. -Às 12 , pronto para parrir (cerra aprecn
são de que um ou outro pudesse rne abandonar na (1ltima hora); o
vento está soprando, portanto, esperamos. Osme11i11os comem arrii~.
eu verifico os nomes das casas e OL1tras construções para complec11r
meu dicionári<>. - Depois comi, descansei - descoberta acidental
de canibalismo em Kwatout<> e Domdom. (Um ancião me pergut\
tou: "Você come cachorros?" "É claro, alguns cachorros e geme." "N6'
não comemos, mas em Dom dom e Kwacouco, sim.") -Às 4:30 nos
afastamos, remando; tememos que possam roubar alguma coisa
Crepúsculo maravilhoso, que mentalmente descrevo para E. R. M
Chegada a Nabwageta. O lugar parece vaúo, estranho; fico um pouco
irrirndo por pensar que dentro de poucos dias eles partirão para
Boyowa. - Escrevi carta para E. R. M. Em meus pensamentos, prc•
parei-me para trabalhar, mas com alguma resistência. Dormi perto
de uma casa, mas não bem (chá). Pensei incensamente cm E. R. M.
e subitamente, bem 110 111eio dos 1onho1 da11mdos, aparece a cara tio leproJo,
- Em certos momentos anseio, até agora, por Melbourne, E. R. M.,
a civilização. - Hoje incidentalmente abri este diário e encontrei
foros do quarro de N. - e me vieram lágrimas aos olhos.

Sábado, 30 de março. Ontem um /Jicka11irmy me acordou, além de ga-


linhas e meninas pequenas [grasnindo]: "TaNbada raib(1k11." Esraj1raia
sombreada por grandes árvores frondosas, com uma ampla vista para
o mar, tem muitos Stii111111111gm em si. - Durante o resto do dia, tra-
balho etnográfico, mas não foi bcrn. Comecei "kabitam" - copiei al-
guns lt1gitm e t<tbuyos, e comecei a pcrg1totar nomes: eles não conheci-
am os nomes. Perguntei-lhes sobre megwa - eles não tinham megwa,
não tinham kabitam pessoal, nem qualquer megwa empregada durante
a confecção de wr1ga ou dos jardins. Isso (ne irricou, fuj embora e co·
mecei a trabalhar com Tom e Topola; também não deu certo. Tivé
UM DJÁl\JO NO SENTIDO ESTRJTO DO TERMO 263

vontade de parar e ler um romance. Almoço; li Kipliog (muito ruim);


" depois recolhi informações esotéricas acerca do poulo e waila - sem-
r pre que tocava em magia ou assuntos íntimos, sentia que eles esravam
mentindo; isso me irricou. Às 6 fui para o sul para dar uma curta ca-
min.bada. Muito cansado e deprimido. Nem mesmo cive saudades de
Melbourne. Pensei em E. R. M. - será que eu ficaria foliz se ela esti-
(1 vesse aqlú? Fiz alg uns exercícios, fitei o cfo com mn sentimento espe-
t, cial pelo Cruzeiro do Sul. Ao volca1-, li Ma11d Diver e ignorei os 11iggers.

"
u Domingo, 31.3.18. Úkimo dia do mês - colapso completo. De
manhã não fiz nada. À carde, chegou a 111i11a-Dobu [a expedição
vinda de Dobu}.; tirei focos d() barco e conversei com os guardas
de Sanaroa. Subjet ivamenre: escava em estado no qual precisava
de narcóticos mas te nho aversão a eles. Como sempte, meu nar-
cót ico é um romance de mau gosto. De manhã (fui acordado pelo
soar do búzio, um novo barco pedindo presentes) fui aré a praia;
depois do desjejum li Ma11d Diver. Terminei por volta das 12, e
:- me senria cão enfraquecido e sonolento (precisando de arsênico?)
(l que me deitei e cochilei até 3 da carde. Depois do almoço, barcos
[. - a p1·ttia inreira se encheu de pessoas que, sentadas, conversa-
i. vam, porém numa paz absoluca. Ao cair da noite parti - ainda
., com os mesmos senrimentos conflitantes com relação ao ponco
meridional - vi Gumasila e Domdom de um lado e Koyacabu,
'fabwaga e Kwarouto do outro, contra uma nuvem roxa. Impres-
são de beleza, pensei em E. R. M. e se seríamos capazes, juncos,
l· de arrancar da beleza seu seg r·edo. Anseio por ela (momeoros de
'a ânsia feriram minh1i tela de sonolenta cisma melancólica); senti
:a que a queria como uma criança quer a mãe. Pensei cm mamãe,
l• gostaria de vê-las junras. Também me lem bro de N. •, que sem-
l- pre foi muico gentil e leal para com igo. - No caminho de volta
I• inspecionei os barcos Dobu peno da praia. Depois, durante é após
t, o jantar, debati o k11la com o guarda e fi, anotações.
:e
)-
"N<> oriSi:llll n1~no;;c 1 iu>, c-.s$:1 é a le1rinha en,·(1Jt;1p<.>r 1,1rn <.:Ír<e1.1Jo. o $Ín1bolo emp:c:g11do na Pnf(c J,
·e (l\lC ;1 p:irc: r. tem<:n~c de$isnn~·;1 t:n1,, m1.llhcr qu.e ele havi;i conhecido º * Polôni1.
264 Jll\ONISl.AW M.UINOWSKJ

Segunda, 1.4 .18. O "Kayona"chegou; 1'. de abril, "dia do azar" - 1J'


dia nm A111phlt11?- Escrevi carta para Dilly, rerrninei e selei 2 cartill
para E. R. M.; depois assisti à partida do restante dos barcos. Arre
pendi-me de não rer reunido mala e c11ia e não rer ido para Kiciwina
(Hoje, 2/4, esse arrependi mento voka- calvez eu renha sido mesmo
bobo, ficando aqui?) Depois deparei com um sujeito -Toyarima; clt>
quis vec meus dentes e se mostrou um excclence informance. DepotJ
do almoço li Kipling (um pouco excenso demais). Em seguida, u.m1
conversa de uma hora, bastante assisremática. Observei uma senhora
idosa preparar uma refeição. O barco e o barulho e a água me dcsani·
mararn e ti/ rt(llO (wm 011 st1n dig11itfadt?) -A seg11ir [/filio] olhar as 1u1
ril!IJS simetimmtmt t penso 1{(111blm 110praw q11t st11tillillIptlas (()ÍJaI místkaJ
e misteriosas (à propos de Kipti11g e também 11111po11codi!111e11111edo): e reajiY..
1110 mais uma 11tz minha teoria da 1digiã1>-011 /"lrle dela -, e 1tm1btma dt
psicologia soda!. - "o S. Ituegral de 1t1T1 dado ft11ômt110 psicológico."- Dt·
poiI de 1erw/1ado, 1i1110 q11t, st l?. R. M. tJlit'tSJt aqui, eu iria dtst11voluer 11
idéia /iara tia e me semir mim11/ar/Q, e aí romcrtl a escreverpara tia. Depois,
111aiJ uma vez, proc11ro oidoso 'úlriba para C(fll1JMtm11os - termi11a11dJJit.s 1O.
- Es1011 can!fldo dtmai.,·para tsowerpara elt1, tJJtlS penso em 1!/ttlS problemas.
- Também sinto alg11tnas '1t1J1tl{ífts meJ1rais dlftJlál.eis (sedução da srca.
Me(...] - ) mas resisto a elas, vencendo-as. - Q1umdo e romo me en(()n·
mirei com E/Jie? Na eJta{!io, 11a ema dos Kh1111er 011 q11a11do? Não penso
nisso, apenas •iguardo, suporro e o rempo passa ao meu lado.

Terça, 2.4.18. Pela manhã civc algu ns escrúpulos sobre não cer parti·
do no "Kayona"; o "Icaka" chegou.* Eu me aprontei; arrependo-me
de não cer tirado focos e não ter trabalhado com cerâmiCll. Regozijai
vou escar novamente no meio das coisas, e monces de material. -Não
perco muito tempo em rapapés com os companheiros brancos. Um
pouco enjlklM a princípio, e não reajo intensamente à paisagem, en·
quanto nos afustamos das Amphlect. - Todo o visual ~mtímico do

•O b:a,CQ nio e111 ctpc:r~ m~ o upic&o. s1beedoqoe ~WiM9.'lkt a1~n li, pirou pua ver Kdt
at-ava pro~to par.. p.artir. De outt.a louna, ~!. tal\•ct civcue pctdido a cMgadi. dos d.:lbuaoot. 1
Sina.L:cta...
UM DIÁRIO NO SENTIDO llSUUTO DO TERMO 265

Koyarabu e das Amphlett desaparece. Sento-me nas corda.r;desço para


:1 cabina, leio <'..assidy.Forces sentimentos sobre a guerra, e outros muito
pró-britânicos, especialmente dia1Jte das más noticias vindas da Fran-
ça. Penso em E. R. .M. - será qL1e ela me amará sob essas drcunsrân-
cias não-heróicas? Fiquei feliz ao pensar qL1e vou receber cartas dela. A
noite cai. Fico as esrrelas depois de ser lançada a âncora.

Quarta, 3.4.18. Entre Muwa e Yaga, navegando rumo a Trobriand.


G:mtemplo 11s águas verdes da lagoa, pomos pretos como que 11adrmdo
e ciJ11ilando (?) sobre '1J ág11fls vítreas. Em cercos momentos, como u.ma
esmeralda mesdada a uma ametista fosca, onde nuvens escuras lançam
reflexos. Reunião com brancos na casa de George. I;lepois, Llffi longo
trecho até Gusaweta. Estou tomado por uma empolgação nervosa. No-
vamenre a lagoa de Oburaku; penso em escrever uma carta para E. R.
M.; sobre o que farei em Gusawe ra. Chegada. Poucaç carras. Apenaç
uma de E. R. M. - Cartas e presentes de N. - como wn pL1nhal no
meu coração. Não leio as cartas dela. - Dormi bem, mas na quinta me
senti debilitado. Por que Gusaweta exerce esse efeito mim em mim?
Viagem a Kiribi 11a chnva. Fui a Sinaketa e li cartas; de M. H. W., que
"me acorda" (componho mentalmente wna resposta); depois de E. R.
M., objetiva, porém preciosa. (Isso está [mal} redigido!) Depois entre-
viscacom George, que escava examinando pérolas, o sr. C'llnpbcll, Raffacl
(fiquei tun pouco menos enmsiasmado quanto a ele, mas ele é wn bom
SL1jeico). Olhei a casa de Billy. Volrei, ceia com George, depois visira ii
Raffacl e debato sobre "a uniformidade das formas dos implementos de
pedra". (Planejo um arcigo: no museu de Se. Gennain, com comercian-
te de pérolas. "Bek11". Será que todos nós evoluímos a partir do mesmo
ponto? Essas coisas foram 1ransmithl'1J? Ou será que "condições idênti·
cas geram necessidades idênticas"?) -Voltei para casa, escrevi uma carta
a .M. H. W. Noite ruim: os animais, cães, gatos ecc.

4.4.Terça. (Junco com a entrada açima.)

5.4 Sexta. De manhã, escrevi algmnas cartas e tomei o desjejmn com


George. Por volca <las 12 fui ver Kuouba1mkwa. Depois do almoço fui à
266 BRO.'õlSLAW MAl.INOWSKI

aldeia, comi pah1, com•crsei com os meninos, quando os dobus che811"


rum.• Corri para fora (e na pressa não peguei rolos extras de filme!)
pressões do kula (luna vez mais sentimento de alegria etnográficn). Senta-
do no barco de Tovasana apreciei as cerimônias do /1J1lt1. Raffad olhava da
praia. Sinakeca parece quase ltma estância de veraneio, com rodas C$S3t
pessoas g11ma1111111a. - Fiquei absorto - como lllll de etnógrafo - cm
todos os acontecimentos. Ao mesmo tempo, na manhã de sexcac de sáoo
do pensei nascnrrasque rinhade escrever. Também cm Rai, do qual gos-
to muito e que cria a atmosfera social, é lun futor na minha "orientação"
À tardinha foi vê-los, e fui recebido de form:1 hospimleira; eles me pedi-
ram pam voltar rodo fim de tarde. Voltei muito cansado; não me sentia
disposto a escrever nenhuma ~mca para N. S.

6.4. Sábado. De manhã, li e escrevi carcas para N. S., baseante oti·


mistas, embora o otimismo nesse particular seja uma frágil ilusão.
Geo. A. partiu debaixo do meu nariz. Enviamos uma canoa acrá.5 do
"Kayona" com Raffael. Depois fui tirar foros, e fiquei ocioso entre
eles. À noite conversei com um nativo de Domdom.

7.4. Domingo. l\1e11 ttlli~~rs,frio. Tornei a trabalhar com a câmara: ao


crcspúsculo estava simplesmente exausco. Noice com Raffael; deba-
te, primeiro sobre fisica; teoria da origem do homem e do totem ismo
nas Trobriaod. - É impressionante como o rdacionamento com os
brancos (simpáticos, como os Raffacl) coma impossível para mimes-
crever o diário. Caio, confuso, no {estilo de vida] dali. 'fado fica na
sombra; meus pensamentos não são mais caracwríscicos cm si mes·
mos, e adquirem valor q11a conversa com Raf. E, portanto, na ma-
nhã de domingo, vadiei, só parti para To'udawada"* às lO; depois
fotografei alguns barcos-e dessa maneira passei o cempo até as 12
(fiz desen hos de lagi111 e rabllJO, o que é muitO cansativo). A seguir, o
almoço. Por volta das 4, rirei focos mais uma vez na praia e algum~
de um barc(>. Jnspecionei os barcos. À noitinha estava tão cansado

·• Jt,uo dcsc-rlto cm de:calhn no Arln;;;JiUS, Capítulo XVI.


• •O mai:1o impottantechclede Sin1ktta.
U M D t<ÍRIO NO SENTIDO ESTRITO DD TEl\MO 267

que quase desmaiei. Senrei-me com George na varanda. Cheguei


muito tarde oa casa de Raffael.

il.4. De manhã, sem meu c<mhedmento, os barcos dos dobuanos parti-


ram. Trabalhei em casa com alguns rapazes sobre a questão do k1da.
Depois, na hora do almoço, liStcad. Pensei em E. R. M. em imtantâneos.
(Gostaria de ter notícias dos problemas políticos na Austr. e Polônia;
énconrrei tuna nota sobreopob1~ To1n11iy nos jornais; olhando para RaE e
sua esposa, para as feias caricaturas do Vie Parisittme -ela é a única mulher
para mim, com tun a freqüência cada vez maior). Mais tarde, por volta
das 4, trabalhei oovamcnte; às 5 fu< até a aldeia e vi 'foula, que escava
praticando o k11kt. De.pois Raffael. Conversamos sobre os átomos, sobre
eletricidade, a existência da alma, competição; com Auerbach folheei o
Vie Parisiem1e; ele me contou uma anedota sobre lourdes etc. À noite,
na cama, pensei com mtiita incensiclade cm E. R. M.

Terça, 10.4. [fie]. Durante o dia inteiro sentimentos muico forces por
E. R. M. Ao anoitecer ansiei por ela. Pensei em como iria vê-la e
apertá-la de encontro ao meu coração; na felicidade de estar com ela
\)ttcra vez, i11ti111e111e11t. Ontem fiquei imaginando se ela estaria mais
feliz com seu amor absolt1tamcnte monógamo; oão consigo imagi-
nar [outras mu lheres no meu passado]. Erradicar isso, como se
erradica lembranças desagradáveis e luunilhances. Minha realidade
cotidiana é permeada por E. R. .M. Pensei no meu casamenro, como
Marnie o receberia, Leila, a familia Peck (concínuas fantasias român-
ticas). Os mesm.os pensamentos quando fui para a cama, e desper-
tando à noire. ldenrificação deste sentimento com sentimentos de"
uma críança pela mãe (vide teoria freudiana).
De manhã acordei rarde; planejei o que deveria levar comigo etc.
Escrevi o diário, fiz as malas, levei tudo para a casa, mas me esqueci
de inspecionar o bote! A chuva começou a cair. Toula mudou-se para
minha varanda e escá me importunando. Fui ver Raffad. Uma certa
familiaridade, súbita, excessiva, com base na simpatia múrua mas
conhecimento ptév"io insuficiente. Eles me convidaram para déje11net-.
Saí à 1. Nervosismo por causa do desequilíbrio(...] Ao mesmo tem-
268 l.lRON!SLAW MALINOWSK!

po quis pensar numa maneira de desçrever o krda para E. R. M.; li


um romançe e apredei a paisagem. Contínuos vis!11mbres de Sens11cb1
(anseio] por Melbourne, P. & H., e E. R. M. Sensação de que es.rar
na casa em Gusaweta não me dá tempo para uma saudade deseSp<l·
rada (os Raffael ajudam baseante). Comecei a revelar filmes, me scn
ti cheio de energia e çom vontade de trabalhar. - Conversas, du.
rance as quais tentei nã<J demonstrar muito entusiasmo por Raffael
24 chapas no final da carde. À noite, tempestade; duas diapas s~
quebraram; depois crês foram inutilizadas pelos insetos. Isso me
entristeceu.

Quarta, l l .4[sic]. Primeira metade do dia em Gusawera; rotina nor·


mal: levantei-me tarde após um a noite maldormida, conversei com
Bill sobre fuwgrafia etc. Examinei filmes (depois do desjejum), limpei
a câmara, terminei a revelação. Tomei banho e lavei a cabeça. À 1 es·
cava pronto para parrir; chuva; escrevi para E. R. M. Durnnce toda u
manhã me senri vigoroso, bem disposto, apaixonado por E. R. M. -
À tarde, em vez de ler um romançe ou vadiar, li meu diário antigo
Reflexões: perguntei-me se minha vida atual atinge o má.~imo de ili·
rensidade que se pode obter diaare da minha saúde e boas condições
do sistema nervoso. Niio:* inrerpretci a doutrina de que o melhor tra-
balho é feito nas horas tk lazer como uma doutrina de se obedecer à lei
do menor esforço, de se pegar leve. Dúvidas à S. l. W. [Scanislaw J
\'ífickiewiçz] - se(á que vale a pena eliminar as fontes compensadom
de inspiração (que cada pensador e arrisca encontrará obedecendo àfo1
do menor esforço)? Mas é fato que, quando se elimina uma forma de
inspiração, ganha-se (mera, e que eliminar a lei do menor esforço é,
antes de mais nada, dilnic1ar o p11ro desperdício do tempo (leitura de
romances, ficar dnrancc 11m tempo exceisivo sentado conversando com
alguém ctç.) Por exemplo, meu acual ritmo de vida: reçoJho-me tard~
demais, .levanto·me em horários irregulares. Pouquíssimo ccmpo dt'"
clicado a observação, contato com os nativos, tempo demais concen·
trado em coleta improdutiva de informação. Descanso com muita fre·
UM DL\ruO NO SENTIDO ES'flUTO DO TERMO 269

qüência, e me permito ser vítima d.e "desmoralização" (por exemplo,


em Nabwageta). Também refleti sobre os problemas de se manter um
diário. Na imensa dificuldade de se formular a infindável variedade de
coisas que ocorrem no fluir de uma vi.da. Manter um diário como uma
questão de análise psicológica: isolar os elementos essenciais, classificá-
los (de que ponto de vista?), e depois, ao descrevê-los, indicar mais ou
menos claramente qual é sua importância real no momenro específi-
co, proporção; minha reação subjeciva ecc. Por exemplo, na carde de
ontem: primeira versão: "Fui a Sinakeca na waga de Ra(". (Eu poderia
dar centenas de exemplos dessas versões.) Segunda versão: (a) impres-
sões externas; paisagem, cores, hwnor, síntese artística; (b) sentimen-
cos dominantes com relação a mim mesmo, a minha amada, a ami-
gos, a objetos; (c) formas de pensamento; pensamentos específicos
{j)rogramas}, associações soltas; obsessões; (d) estados dinâmicos do
organismo; grau de concentração; grau de consciência superior; pro-
gramas [resulranres]. - Concretamente: (a) depois da partida de
Gusawera (meu h1gar era conforcável, a waga era pesada e está~~!},
nuvens cinientas e escuras. Definição do clima gerado pelo litoral bai-
xo e Losuya, Kavataria: "sensação de tarde de feriado e repouso" (j11n
<1legre rclaxame1110 epromemt de 1m1danf,M); litoral baixo e longo, com
reentrâncias que eram baías rasas; hoje de mnnegro cor de ca1wih sob as
distantes mtwns /111ninqsas e Nm límpido cé11 t1Z11/-esmro com a apartl1cia ca-
rdt/etistica de va.zio - como 11m efeito d.e «ilf esmrecido em ttm velho capitão de
navio mercante. Em seguida a paisagem desaparece; leio o diário, nave-
gando entre mangues. Aí aparece a lagoa verde de Oburaku. Ah! cla-
ro, o manche de Boymapo'u: a águanc111<rt com incensos reflexos violeta
(o azul-escuro das nuvens mesclado com a ágLia). A lagoa de Oburaku:
fosca, de 11111 'l>'Clde pálido, como 11.m crisópraso exposto, tmdg pur cimtt de si o
violeta intenso; ?ICÍmtt, 1111wm awl-esclfrat e mang11es de 11111 intenso verde
douMdo, e 011tras ár110re1. (b) Sentimentos por E. R. .M. estáveis, conri-
nuamence me refiro a ela, mas estou acima de tudo só. Estou inteira-
mente absorto em pensamcncos criativos, tomado por nma onda de
concentração. (e) Idéias c.laramente <lefinidas: a natureiada psicologia
e até que ponto a análise introspectiva está desacreditada porqne mo-
difica os escados?-Problemas históricos (l} - associações: lembranças
270 IlRONJSLA\'(I" MALlNOWSKl

de minha vida em Samarai; lembranças de Paul e Hedy SLtbiramenct


me vêm saldas do nada. (d) Dinamicamence, estou num cscado dr
conccncração; resolvo não ler romances, ir para a cama e me )evanrnr
a horas regulares, escrever uma cacca pata N. S, escrever regularmefl·
re, todos os dias, para E. R. M.; chegar a urna fidelidade menrnl abso
luta em relação a ela, bem como procurar atingir uma "força de von
cade" no sencido que já defini este termo anteriormente.
Depois do cair da noire, saí de barco, naveguei por cerca de 45 mi·
nucos. Depois fiquei sentad<>, apreciando os peixcsfosforescences na água,
tirei dois peixes do barco. Planejei viagem a Vakuca* e crabalho por hl
Chegada: Ted se foi. Ceia com Raf. Lcirnra de (Musset}. Meu comporra
menco foi rnLúro mais objecivo do que ances: fiquei na minha concha é
observei Raffacl de maneicamais crítica, mas não sem simpatia. Fónnu.
la: vejo claramente as diferenças en cre nossos pomos de vista - as idéia1
dele que não aceito, o que é ein iib.erwm1de11er S1andp1mkt (um ponto de
vista já ultrapassado] - mas conc-enho meu impulso de debatê-las.

Qtúnca, 12.4 (jic]. Durante o dia inteiro estive numa disposição de esplciro
favorável à concentração. Depois de escrever o diário, trabalhe( com
Layseta.•• Depois do almoço, li trechos de poemas australianos in
Meml!lial doJ soldados q11e f()t11baram, e trabalhei com outw companheiro
aqui na varanda. Ambas \IS vez-es sobre k11kt. Às 5, fui falar com
Koura'uya;*** passei tuna hora copiando a lista dos kara)'fa'tt dele. De·
pois, na casa dos R.aff.t el; converseii com os nativos; simpatias. Princípi0$
morais: eu nunca devo me pennicir perceber o fato de que outras mu·
lheres cêm corpos, que elas copulam. Também resolvo evicar a lei do
menor esforço na questão dos romances. Estou muito satisfeito por não
ter caído outra vez no hábito de fumar. Agora devo cumprir o mesmo
com respeiro à leirura. Posso ler poemas e coisas sérias, mas devo evitar

•Os d1>b1J(ltH.>s.ci;tiiv11m $tndo esperados novamcnce cm Vakuu.-seu dcStillO fit13 J11nçc$ de rcgret
wtem a seus lares.
•*Layscta era um chefe de Sin>tkec;i; pot3ouÍa ~mp! o.s conhecimencos de Jnasi ~ e liavia 1norado oY;
Arnphlett e em Dobu.
••*Koota'u»a era o$(8undo chefe na hiernrquia de Sinakeca e dC1e1npcnhou u1n p:tpd 11rim<>rdial
na cxpcdi~ão dok11k1 cntcc Sinakcra e ~)obu, dc:~·1 it11 c1n dc1;,lhcs nos Atg1JlStlJJ/t11d1J OM:t.44 P,.J(/fK.f
Efe tlnh:i 116 karay1a'11 {p~1ccir~ de: k.1da),
UM DlARIO NO SENTlDO ESTRffO DO TliRMO 271

:l qualquer preço os romances de 1ná qualidade. E dew• ler obras et00-


gráfkas.

13.4. Planejamos o almoço juncos, focografia e crnq11é. Esca manhã eu


resolvo: ances da~ 10 escrevo algumas linhas para E. R M. A seguir, faço
duas horas de trabalho etnográfico preliminar. Descrevo o k11!a para E.
R M. e faço ti.ma lista de problemas levantados pelo kit/a. - Das JOàs
12:45 revisei anotações sobre ok11/a e asc<>piei para E. R. M. Almoç<> na
residência dos R.affael, cirando fotografias; examinei pérolas. Voltei às 3,
comei a me ocupar do k11/a, depois os meninos de Kicava chegaram. Fui
novamente falar com Kouca'uya e trabalhei perfeitamente bem, apesar
da indolência desses companheiros. Em seguida falei com dois rapazes
de Kitava na praia. Fiquei imaginando se valeria a pena acompanhá-los
a V.1kuta. Resolvi que iria. - Noite nos Raffael. Debatemos os alemães
- estaf'âO eles maiJ mlirintados em.111at.éria de ciência? Coiwersamos sobre
Giligili e Wrigbt, So.lomon e outras pessoas de Samarai. l\fomenco de
simpatia exacerbada, quando ele falc>u sobre "ver através" de wn a pes-
soa. Ele me perguncou se eu fazia isso; cu disse, naturalmente, faço, exa-
tamente como você. Depois misturei limonada e bebemos[ ...] Ah! cla-
ro, wna conversa muito pessoal sobre o casamento de Sam e a influêilcia
de Emma. - \101tei, escrevi para E. R. M. À noite foi desperrado pela
tempestade e por fortes trovões. Fiquei apavorado; por um momento
pensei que nunca mais cornaria a ver E. R. M. outra vez e esse pensa-
mento gerou o medo. Pensei cm C. E. M. e como a morte devia ter sido
terrível para ele. Minha preciosa, maravilhosa Elsie.

14.4. Sábado [sic}. Pela manhã, céu encoberto, chuva. Despertei tar-
de; sob o mosquiteiro, uma rendênda a me deixar levar, como sem-
pre, que eu dominei. Planejei det-alhes da excursão a Kicava, e pensei
cm como documentar o ktda. - Preparei-me. Anocei conversas; cor-
mpondência paraSamarai; cerminei a carta para E. R. M. Às 12:30 foi
até a aldeia; conversa com Kwaywaya,•• Toudawada & Co. Eles se re·

•Grifado no oris inaL


**Chc:fc d'- iih.a Kitava,
272 BnoNJSLAWM,u1NowsK1

cusaram a me levar a V:1kma. Almoço M casa dos Raffael ; ele me


mostrou suas bolhas (pérolas tipo bolha]. Voltei; às 4 :30 saí, fiz dese-
nhos de baKOS aré 6:30. Depois fui para a casa dos Raffacl. Conversa-
mos sobre os nativos: o "peso específico" deles; as idéias deles sobre
causus dos fenômenos naturais - ele não sabia nada sobre kariyala. A
noite conversamos sobre suicídio através do ltlt:a, r1Jag,.i11 d'amour etc.
Ciúme enrre narivos(uma mulher casada miída pelo marido pratica o
tuva - este suicídio é por amor?). Depois lemos Phedre.

Domingo, l)A [fie]. Despertado por gente de Vakma; a wrTga está


me a.guardando. Baseando-me no princípio de que é melhor visitar o
mesmo lugar duas ve-..cs, resolvo passar uma semana em Vakura. -
Fiz as malas (rixa desagradável com Ginger por Çüusa das térmicas;
fiquei enraiveddo e dei-lhe wu 011 dois socos na mandíbula, mas o
tempo inteiro fiquei amcdronrado, com medo de que isso degenerasse
numa briga). Almoço com os Ruffael. Ele me mostrou suas pérolas.
Contei-lhe sobre meus planos de fuzer um dicionário. Fui para o bar-
co; mas me sentia mal. Conversei um pouco com o povo de Vakura;
mas estava chovendo. Depois, c:msado da caminhada, li Le11m pmatm,
mas 1\ão encontrei nenhuma das idéias que buscava, apenas descriçoo
lascivas de haréns ... A noite caiu, atrás de Muwa. Chegada a Giribwd
por volca das 9. Dormi em uma casa nova. Tumei a ler Lmresper!llJieJ...

Ladsch11ftlich [anotações sobre a paisagem}: Depois de sair de


Si11akera navegamos bem perco da costa. Em certos ponros, árvorc1
altas cm um nccho de pmia; o resto, moicas irregulares, desgrenha
das, cortando o verde com seus ramos pequenos semelhantes a braÇO\
brancos em vários lugares - "uma misrurn desorganizada" seria um.1
descrição melhor. A espaços, um trecho baixo de mangue e bosques
acima. A distância, Kaylcula submersa na água; lagoas na costa nom·
No horizonte, Kuyuwaywo, Yaga. De longe, vemos [um desenho do
litoral no original], como que suspensas entre o mar e o céu, Gumasilu
e Domdom. O cinzento céu nublado cai como uma cortina sobre a•
cosras planas e as oblitera, transformando-as em desertos particufar
mente melancólicos. Entl'e .Muwa e a costa um comprido, estreitu
UM OJAruO NO SEN1'1DO ESTRITO UO TEl\/.10 273

kttrikedtt. As altas árvores de Muwa acima da faixa estreita de terra


(formas imponderáveis, fluruan<lo em vei de estarem apoiadas sobre
qualquer espécie de base) fuzem lembrar a atmosfera do Visrnla; em-
purramos o navio para fora do banco de areia [ml praia de] Susuwa-
11ome grt11bico para 11ma série de bafas e promomóri~s rasos. Depois a n()i te
vem; não consigo distinguir os dera.lhes, mas obviamente o raybzMg
está próximo. Água batendo contra rochas, a sombra fica maü sólida e
alta, em vez do e())'ai c1JtJXame t/()J sapos, oprimeiro ffilril11r dos grilos. Amea-
ça cada vez mais ameaçadora de chuva, que afinal começa a cair. Ma-
ravilhosos pomos fosforescentes emergindo na superfície do mar.
Giribwa e o encantador promontório de Vitkuca. O ci11111rão plano evi-
denciado pof' 11111,t ilha 011 rominellfe, como o t·osto de 11111 homem, rodttmdo e
sim/;o/iza11do s11a pmo11alidade. A primeirtt impressão qlfe 111111ca pode ser a
real fpa1~1] desve11dar o rodo, ron11tdo éprovlJl'ado11t e irri1tmte.

Segunda, 16.4 [na realidade, 15 .4]. Pela manhã, aguaceiro. Efeiro curi-
oso: areia amarela (brilhante). Um gmpo de barcos provenientes de
Rirava, e, <leste lado, bem ao lado deles, na areia, tapetes estendidos,
corpos de pessoas nW11a barafunda, algtunas dormindo, outras coúnhan-
do. Tudo isso fulgura mun profundo vermelho fosco conrra o mar verde
vivo com reflexos awis sob o céu cinzenro. Dei wn passeio pelas aldeolas
- 11 cabanas e wn par de bwaymas espalhadas a esmo pela areia. [Fui}
na direç.io do mar (meus olhos e cabeça doíam); vista de Kicava; duas
corremes colidem contra o istmo e formam marolas espumantes. Chuva
sobre Kita.va. Olhei o agrupamento de árvores muito tropical.mente
mescladas com os perfis das rochas na costa em freme. -Eles me falam
sobre tun lili'11 do peixe Baibai. A seguir, vou para V:tkuta; o fundo clam
do mar. Eles me mostram pedras míticas. Dor de ca[?eça (eJljôo de mar);
deitei-me e cochilei. Águas rasa_çe barrentas, manguezais. Entramos no
Wll)'a [regato produzido pela maré], flutuando por entre clareiras aber-
tas inundadas no mangue. A waga passa entre as árvores. Pi.Jcina da ca-
beceira; wt1gas vindas de Kitava. A dor de cabeça é dominance. Caminha-
da; monto a tenda, durmo até as 6. Caminhada na direção de Kaulaka.
Planejo meu trabalho por Já. Pensei em .Melbourne, semi saLtdades de
lá. Volrei: a aldeia à suave luz do luar; vozes das pessoas; a ftunitça cerca
274 BRONJSLAW MA{.11\0WSKI

as casas como uma nuvem e obscurece os croncos <las ;írvores. As copas


<las palmeiras parecem pender do céu. Sensação de esrar voltando a um
ambiente humano, uma aldeia pacffirn. Pensei em E. R. M., em retornar
a Mclboume. {...] F. T. G. O caráter misterioso da vida co11dcnsHda; Lima
intensidade arcificial e ucua illuninHção absurda. - Ao cair da noirc,
senrei-mc com K0tuigaga e Pecai ccrc11do por 1un circulo de observado-
res, e conversamos, a luz da lanterna iluminando a ampla frente orou
mcnroda do lirigr1 onde K. e sua esposa escavam sencados, num nível
mais alco. Um grupo de pessoas de bm1e,,mr1. - À noire, chuva, insô-
nia; pensei cm N. (lecra dentro de um círculo] e To ' skll com wn mistt
de sensualidade e pesar, por algo q uc jamais retomaria. Pensei na Polônia,
na "'mulher polonesa"; pela primeiro vez uma rrisceza profunda por E
R. M. não ser polonesa. Mas rejeitei a idéia de que calvez nosso compro
misso não seja definitivo. Vou regressar lt Polônia, e meus li.lhos serão
polonescs.

Terça, 17.4 [sic}. Sensação gera.I: um forte nervosismo e agirnção, ~


intensidade inreleccua.1 superficial, r1J111bmad1Ju1»n inrapr1ridadetluon
cmlmfiilJ, irri1r1bilidttde txassi11a t 1emi/Jilidr1de dem"1itltÍr1 nr1 tpidtrPll
mtmr1f, afim de""'ª Jtll!ação de t11r1r permantnte111t11/e expo110, 1111111a p1m
ffi/J inrôm. r1os olhos fk 11mr1 vi.a plibfica 111ovimm1r1da: i11Cflpr1ridad1 de obtrr
privaridade imeri!Jr. Estou em pé de s ucrca com meus me11i110.r (oll seja
com Ginger), e o povo de Vakurn me irritn por sua insolência e am·
vicnento, cmbont estejam colaborando cocalmcnce wm melt t rabn
lho. Ainda fazendo planos de subjusar Ginger, e ai oda me sinto irri
tado com ele. Penso conscamemencc cm Elsie, e me sinto deurmim1
do. Olho os corpos esbeltos, ágeis, das garotinhas da aldeia e sincu
desejo - não por elas, mas por ela.
Evencos: de manhã, observei as despedidas do povo de Kicava
Depois do desjejum, o lugar ficou muito barnlhenco; fui até a aldei~
conversei com Samson, Koulisaga e oucros. Chuva. Depois do almoço
(durante o qual também conversei) kabi1m11, fui aos barcos, copiei tll
modelos; n chuva amainou. Voltei, escrevi um pouco, depois fui ~
Kaulnka. Formulei problemas, principalmente aqueles dok,1bi1r1111. -
Kaulaku é uma aldeia poética mun longo vale cercado de palmeiras
UM Oi,\RJO NO SF.NTJ))O ESTl\ITO 00 TEl\MO 275

uma espécie de bosque sagrado. - O prazer de novas impressões -


consciêncía irrequieta, onde ondas de novas coisas, cada uma com sua
individualidade bem defi nida, fluem de t0dos os lados, q11ebram-se 111t/4S
de encomro às outras, 111isturam-.re e .re esvtUm. Um prazer como aq11elc de
escutar uma nova peça musical, ou experimentar um novo amor: a
promessa de novas experiências. Sentei-me em L411ri11, bebi ág11a de
~·o; eles me conraram sobre P111uttri. - Voltei com Ogisa; nuvens amea-
çadoras; caminhei rápido sem per1sar em nada definido. Quacro ovos
no jantar; depois tomei a ir à aldeia; conversei sobre k11la com Perni.
N'oite insone; chuva ininrerrupta, agitação nervosa, coceira no dedão
(lima nova forma de obsessão psicopacológica)... Pensei muiro em 8.
R. M.... como faremos nossa grande entnfe no baile (Sob os Aríetes} (con-
decoração da Legião de Honra).

Quarta, 18.4 [sic). Depois de uma noite ruim, despertados por grita-
ria sobre kiJvelttva. Barcos pa1·rindo para pescar. Levantei-me cheio de
preguiça. O me.smo estado de rens:ào nervosa. Eles me rrouxeram uma
enorme quantidade de (coisas não comestíveis] e dois 11rake111as decen-
tes. Resolvi escolher um ou dois problemas importantes de Vakuta e
desenvolvê-los aré o final . Para começar, kabitam. A seguir, a micolo-
gia local. Depois, examino roda a série de similaridades, diferenças entre
Vakllta e Kiriwina. Levo adiante esca decisão e trabalho bem, esco-
lhendo duas das mais lmporcantes questões (matinais, tradições com
Petai, à carde L. T [lili'111okabitam?] com [ ...]). Alguns informantes
de primeira cacegoria. Aguaceiro duranre todo o dia, com interrupção
de lima hora às 11. Durame o almoço (caranguejo) eu não li. Logo
após o almoço, M'bwasisi* & Cia. Por volta das 6, ainda chove, mas
sinro que devo sair; melodias de Beethoven passam-me pela mente (a
,J;em1ra da ópertt "Fidilio'~, desejo por E. R. M. e reflexões sobre ela. O
tokabita111 me traz ltm pente, <>que me deixa radiante. Na chuva e na
lama caminhei até Kauhka; associações com caminhadas semelhan-
tes em Zakopane [na Polônia, perto de Cracóvia}. Oncem e anreon-
tem, tempo horrivelmente abafado, como nos piores dias em Oburaku,
276 BRONJSLAW !>fALJNOWSKI

tudo t1ma espessa sopa feita de neblina, névoa e fumuça. Agitação


mental, que reprimo. Planejei novos modelos para os pentes. Pensei
no meu trabalho etnográfico. Planejei uma carta final para N. S. Em
Kaulaka, comprei pedras. No caminho de volra planejei um artigo,
"O 11011q h11mt111ismo", no qual mostraria que(!) o pensrunenco humanisra,
cm oposição ao pensamento mono e petrificado, é profundo e impor·
rnnce; (2) associar esse pensamento com os "clássicos" é um erro fatal;
(3) cu analisaria a essência do humanismo e esboçaria um novo plano
no qual o homem vivo, a língua viva e os fatos vivos e convincentes
seriam o âmago da situação, e q mofa, a pá1i11a e a j1oeira não seriam
como 1m1a aurlola sobr' a u1beca de um samo, mms/urma11do 11ina coisa q11t·
brada, pútrida t morta 110 !dolo de f(Jt/a 111nac01n11nidtUkptnsa111t, 111na (()11111·
11idade q11e 111q11opoliza ope11sa111e1110. Um homem de gê11io dá vida a mas roi·
.rt1s, mas por q11e 11tio poderia ele .re inspira,. j)arri isJo tia própfia vida, por q111
não devel'ia ele considerar a vklt1 romo op,.imtiro tema a ser m1a!isttdo et//ftll·
didtJ, e depois, ti l11z dela, duli11dar as 0111rt1J roi.Jas? - Pttra romt{ar, a pi·
t.1da sobre os 2 1mirW/ogos. - ÚJmo corolário, se q1tere/l/()t bt.111ir m11 wisa dt
nossas escolas, dewmos ba11i-lrt primeiro de nosso pensamento amad111<cido. -
Voltei à noite; sensação de intensa satisfação com esta vida: solidão,
possibilidade de concencração, trabalho, idéias essenciais; uma exis-
tência autêntica. - Dcirado na cama, refleti sobre isso. Ceia, depois
escrevi para E. R..M. Almejo acingir um "ritmo", trabalho sem exces
so de tensão nervosa. Noite insonc outra vez... Sonho com Se. Ig. W. e
N. S. Sensaçõo de ter errado, de tê-la decepcionado.

Quinta, 19.4 flicJ. Dia bonito; trechos ensolarados, um pouco de chu·


va. Levantei.me às 8, pretendendo escrever o diário e copiar anom
çõcs soltas, mas meus informantes vieram e colhi informações em
vez de copiar as já feitas. Trabalheei bem, sem apressar as coisas. A 1,
descansei, embora não estivesse cansado. Câmara carregada. Às .1
voltei a trabalhar. G!lt11a 111b1va libaguVJ. - As 5, fui a Kaulaka. Uma
menina linda, com um corpo de formas perfeitas, caminhou à m1
nha frente. Observei os músculos de suas costas, a silhueta, as per
nas e a beleza do corpo tão oculta para nós, brancos, me fascinou
Provavelmcnre não cerei a oporruoidade de observar a movimeacJ
UM DIÁAIO NO SENTIDO llSTRJTO DO TERMO 277

ção dos músculos das costas nem de minha própria mulher duranre
rnnro tempo quanto observei os movimentos dessa femeazínha. Em
certos momentos tive pena de não ser um selvagem e não poder
possuir nquela linda menina. Em Kaulaka, olhei em corno, procu-
rando o que fotografar. Depois fui até a praia, admirando o corpo de
um rapaz muito belo que caminhava à minha frente. Levando em
conra um cerro resíduo de homossexualidade na natureza humana,
o culto da beleza do corpo humano corresponde à definição dada por
Stendhul. - Visra de Kicava: rochas baixas, cobertas de uma vege-
cação luxuriante que se mistura às rochas e pende por sobre um es-
treito cinturão estreito de água, além do qual o mar apresenra um
pronunciado abismo. A distância, Kitava, uma faixa escura contra o
horizonte cinzento. A água rasa é de tuna cor verde fosca, com pe-
dras róseas. Vagatosamenre as nuveos assumem cores, um reflexo
violera na superfície elimina o jogo das cores no fundo, mdo assume
cores na superfície e se mescla cm uma única harmonia vermelho
fosco. Anteriormente eu havia observado a movimentação dos pei-
xes por entre as pedras, e golfinhos além do recife perseguidos por
algum peixe predador. Eles me mostcaram o (local) próximo à praia
onde pegam mi/ama/a. Conversamos sobre isso e voltamos. Na al-
deia sencei-me por um momento no piiapabile, e acariciei uma garo-
ta bonita no /a.11ri11. Em Kaulaka nos sentamos e comamos a falar
sobre a captura do milamalae na comemoração dos yobabalomas. Voltei
ao luar, compondo mencalmentc um artigo sobre o k11lrt, e fazendo
perguntas aos meus acompanhantes. - Na tenda (às 8:30 ovos e
chá), mosquitos terríveis; fui à aldeia e lá fiquei durante algum cem-
po; voltei às !0:30; recolhi-me às 11.
Comentários gerais: trabalho exceleatc. Mas o comportamento
meneai com relação a E. R. M. foi péssimo. Aquela garota nojenta(...}
- rudo foi muito bem, m1\s cu não a devia ter acariciado. Depois
(manhã de 20/4) pensei em Lila Pcck. Ao mesmo tempo pensei muito
cm N. S., com forres sentimentos de culpa. Resolução: iama.is tocar
nenhuma prostituta Kiriwina. Ser mentalmente incapaz de possuir
ninguém que não E. R. .M. EfalivalfUnte, apesar dos lapsos, não sucum-
bi às tentações e as dominei, cada uma delas, em liltima im1tl11da.
278 J3RONJSLAW MALINOWSKJ

Sexca, 20.4 [.ric). Outro dia de trabalho intenso, sem cansaço nem
J11rcha1tffage [superaquecimento), bem dispost<> e satisfeito. Pela JllanhA
escrevi sozinho e apesar de tudo me senti um pouco mais abandonado
do que quando os 11iggers estão aqui. - Levantei-me como de cosmmc
Em ambos os lados do interior (;Ínzenro, paredes verdes - a leste fir
bustos de odi/a fresca, a oeste algumas palmeiras rosadas dividem a
metade superior do quadro vertictlmente: a estrada coberra de [ ...) e ~
distância uma selva de odila com cascaras de vegetação. Interior: var,is
apodrecidas cobertas com montes de detritos, e remendadas em alguns
pomos; no meio, o tapete de Samson; minha cama emronizada, a mesa,
wn monte de pertences meus,. .. etc. - Btm, ctunpri diversas care611
sistematicamente; por volca das 12, os !liggers me ajudaram a terminar
kakima e it traduzir os textos. Depois do almoço, Samson voltou: Yaboaion,
kr.doma libtJgwo - eu escava muito cansado e nflO conseguia raciocinür
Dei uma ciuninhada... ao longo da praia arenosa e pedregosa, depois
voltei. A fogueira lançava tuna luz bruxuleanre sobre o fuodo cor pastel
feito de palmeiras, a noite caiu, Kitava desaparecett sobre o mar disra11
te. Uma vez mais, assomo de alegria por esra existência livre e aberra,
em meio a um cenário fabulos<>(sic!), sob condições exóticas (como •1
Nova Guiné me parece pouco exótica agora!), um verdadeiro piquen1
qlle com base em trabalho real. Também tive a alegria genuína de rca•
Jizar tun trabalho criativo, de supernr obstáculos, abrir novos horizon
res; formas nebulosas adqllirindo contornos nítidos, dianre de mim vejo
a estrada a seguir adiante, ascendente. Tive os mesmos assomos de ale-
gria em Omarakana - na época eles haviam sido ainda mais jllstifica·
dos, pois este foi meu primeiro êxito, e as dificuldades foram maio.res
Essa pode tiunbém ter sido a causa da minha alegria em Nu'agasi, quando
subitamente ové11 se m1gq11 e eu comecei a colher informações. -À bei-
ra-mar, idéias criativas sobre "senso de h11mor, uros e cosutmes". Voltei cansa•
do, deitei-me. Samson me oferccett sua bengala. Fui com ele e ele me
deu [ ...} informações. Também sawa/111. Retornei tarde e dormi bem -
ah! claro, no caminho de volta li.ti ao lago e e me deliciei ao ver as árvo-
res, a água e os barcos ao luar. É nma pena que renha de deixar tudo isso
para sempre. Quis escrever para E. R. .M. sobre tudo isso, e .lembrar-Ih~
de que nos separamos há apenas meio ano.
UM DIÁRIO NO SDNTIOO ESTI\ITO DO TERMO 279

Sábado, 21.4 [ricJ. Primeiro dia do horário novo. Levantei-me wna


hora mais cedo do que de costume, fiquei um pouco sonolento e de-
primido, mas esrou tão bem de sa(1de que trabalhei bem apesar disso,
dei uma longa caminhada até Okina'i, e dura ore rodo o dia pensei cri-
ncivamcnte e intensamente. Do n>onw de vista emocional, a maré ésrá
baixa, e à noite, sob o mosquiteiro, novas e desastrosas recMdas: Re-
cordei-me de (NayoreJ e G. D. etc. De manhã, me instalei no grama-
do em frente à casa e transcrevi conversas. Depois trabalhei com afin-
co no libagwo com meus dois melhores informantes (Tomeynava e
Soapa). A seguir, sob o bwayma, almoço e um repouso de duas horas
- nada li, e não lembro sobre o que pensei. A seguir fui até a a.Ideia,
rornci a chamar 1bm. e So. e tl"'.ibalhei sobre (GND], pressão muito
baixa; apavorado pelas complicações dos novos ricos e necessidade de
mudar de perspectiva. As 6 (do novo horário) fui a Okina'i. A estrada
não apresentava muitas atrações, e cm certos trechos se via uma faixa
à esquerda, odila muico desenvolvida, um caminho ruim, pedregoso e
lamacento. A esttada nova, o novo objetivo, contudo, me inreressa-
vam. V1Sra magnífica da lagoa: o sol estava se pondo; nuvenzinhas
compacras a oeste. As monranhas ao su.1ínvi.$íveis, cúmulos brancos a
amontoar-se, provavelmente ap0iados no cume da cadeia montanho-
sa. Um cinturão de mangues escuros nu direção do raybwag- árvores
isoladas clammcnte definidas - , e.rc11rr1S e illmús sobre a ág11a em movi-
111en101 sobre a qual reflexos co/oridor vilo evêm ro11ti1111atnente. Praias de areia
bmnca, logo além do fundo lodoso da lagoa. Caminhei pela praia até
Okina'i, à frente dos niggers; queria estar só com meus pensamentos:
intensidade inicial - pois sinto que ainda não tenho qualquer cerna
específico na cabeça - Okina'i e Osikweya sobre a areia - as águas
calmas da lagoa através das casas cinzentas e palmeiras me trazem à
lembrança Mailu e a Costa Meridional. Caminhei sozinho acé além de
Osikweya. Form1tleí planos para os cinco meses seguintes: Vakuta deve
sei" a /1rioridade 11~ 1. Revisar e formular as lacunas básicas: magin
M.11.1r1Sila; waga 111egwa; rauva'u cm Vakuca ecc., e depois desenvolver
mdo isso sistematicamente. Eliminar os dias capuenscs' cm Sinaketa
280 DRONISLAW MALINOWSKI

e Gusaweta. Preciso me apressar em todos os aspectos. Trabalhando


no meu ritmo atual devo terminar (?) e pelo menos voltar carregado
com uma bagagem tão pesada quanto um camelo. - No meu cami-
nho de volca, ao luar, pensei na carta que havia planejado para o Ins·
tituto Carnegie, e mcL1pensamento se desviou para B. Sp. e C. G. S.
- "Pensamentos criativos e pensamemos sujos" - evitar os últimos!
Semi que meus pensamentos escavam perdendo a criatividade e os
suspendi - durante o resto do dia fiquei só observando, e minhas
associações forílm insignificanres. Bebi chá diante da casa, os 111mi11os e
11iggt11 ficaram na cozinha. Fui invadido por reminiscências de canções
italianas. Pensei cm E. R. M., P. & H., M. H. \Xi'.comoplaréia. "Marie",
"Sole" etc. - A seguir, Pida examinou o barco que cu havia compra-
do, e fiz duas importantes descobertas: os modelos de barcos são obje-
to de ka)'a.rrt; e Kwaykwa)'a (costume de roubar as casas de parentes
específicos ou oLmos sob condições específicas). Caminhei aré a aldeia;
os cachorros me irritaram. -Sob o mosquiteiro, "ardi nas duas excre-
midades" - pensei em compor um rango com Olga Ivanova. A se-
guir, pensamenros desastrosos - a magia de E. R. M. foi silenciada
por uma onda de corrupção. Adormeci muito carde. Sonhos agradá-
veis e imeressances. - Em suma, a saúde escá de parabéns, alegria de
viver, exiscir nescas condições- esqueço-me, por completo, do ponto
de visca fisiológico, de que minhas condições aqui são negativas. Es-
rou complemmcntc enfeitiçado pelos trópicos, bem como por esta vida
e por meu trabalho. Por oad11 no mundo leria romances de má quali-
dade, e penso com dó aas pessoas que ficam o cempo inteiro romando
remédios! Saúde!!

Domingo, 22.4 [sic]. Levantei-me às 6, depois de seis horas de sono.


Domingo: fui a Tap. - apmast11ais 11t11a txj>triê11cia m1ográ/ita. Uma
brisa seca e fresca - la11rabada. Pensei em E. R. M. - compus
uma carta para ela. Depois escrevi - escrevi o dia inteiro, pela
manhã em uma cabana por causa do sol, à carde sob o bwaymrt. Às
6 fui a Kaulaka e à praia onde as wagas são projetadas. Escava men·
calmencc csgocado e agirado: estanquei deliberadamence meu flu-
xo de pensamenros, que esrava faiscante, porém superficial. Con-
UM 0JÁl\lO NO SENTIDO ESTRJT O DO TERMO 281

versei com os niggers sobre "as posições" durante o ato sexual. Uma
caverna magnífica; areia coere duas rochas, coroadas por uma
touceira de pandanos; ondas espumantes, lua enevoada. Volce.i
muito sonolento e cansado. Em casa, irriração em razão de 11m m-
posto f11r10 de Kaluenia. - Este dia foi uma pausa no trabalho in-
censivo. A carca a E. R. M. é uma formulação baseante apagada,
bruca, das minhas idéias - uma duplicata do diário, não uma ex-
pressão dos mellS pensamentos ou sentimentos em relação à mi-
nha amada. - Tenho um vislumbre: uma inrimidade física com outro
ser humano resulta numa entrega tal de personalidade que um
homem só se deve unir a uma mulher que realmente ame.

Segunda, 23.4 [sicJ. Senti-me um ramo debilitado - incapacidade


de me concentrar, um pouco febril. Levantei-me às 7, nflg* me pus
imediatamcoce a escrever o diário nem a trabalhar. Nenhum pensa-
mento, nem plano espontâneo me vêm à mente. Leio jornais france-
ses durante algum tempo; depois me sento, examino meus papéis, e
converso um pouco com os niggers. Às 12 deitei-me, cod:úlei. De-
pois da 1, almoço com Samson; em seguida, kayaktt na casa dele;
crabalhei sobre os jardins. À noice, saí de barco para a lagoa: sensa-
ção agradável de estar em uma área semicircular fechada; pensamen-
tos fluindo. Uma cerra satisfação passiva; nem mesmo meu desejo
assume alguma forma específica. Voltei através de clareiras banhit-
das pelo luar, pensando em E. R. M., na presença dela; em certos
momentos, dúvida sobre se ela enfeitiçaria tudo, como N. S. fazia.
Então pensei em minhas partidas à propos de N. S. ("0 lago") etc., e
na pouca música que desfrutei na sua companhia, em agosto de 1914,
e cheguei à convicção de que a única mulher que realmente amo é E.
R. M. - À noite, tentações sensuais: vi um corpo de mulher em
uma cerca posição especial, de um cerco aspecto, curvatura - e em
minha percepç-ão sensual, N. S. corresponde a meu anseio emocio-
nal mais do que E. R. M. - Dormi bem apesar de haver 5 mosqui-
tos sob o mosquiteiro.

* Grifo no original .
282 BRC)NISLAW MALINOWSKI

Terça, 24.4. (sic}. Na noite passada e esta manhã procurei em vão pôr
acompanhant~:s para o meu barco. Isso me deixa furioso e sinto ódio
pela pele cor de bronze, combinado com depressão, um desejo de "sen.
car e chorar", e uma vonrnde violenca de ''tlar o fora tl<1qui". Por mdl1
isso, resolvo resistir e trabalhar hoje- "negócios como 1e111p1·e", apesar de
mdo. - Pela manhã, depois de escrever o diário e wna carta, fui até u
aldeia, e111revi.J1ei o guarda, depois fui a Okina'i, e enconcrei Ginger t
Cia [Hiai] ofereceu-se para levar-me a Sioaketa. Ainda tremo de rni
va. Depois do almoço fui a Kaulaka tirar focos. Depois, à praia; umà
n1rde clara com um enorme cúmulo lançando imensos reflexos sobr~
o mar, as rouceiras de arbustos crescendo jumo com a rocha acima dOl>
pandanos. Não pensei nos niggers nem no trabalho, ainda escava de-
primido com o acontecido. Pensei um pouco no con-eio do dia seguin·
te, o qual, corno supunha, me aguardava em Sinaketa. Recolhi-me cedo.

Quarta, 25.4 [sic]. Novamente irricação. Tive de conseguir ajuda de


M'bwasisi para procurar arnrnpanhantes. Afinal, depois de rnuirn con-
fusão, peguei minhas coisas na 1uaga, mas estava tão zangado que sim-
plesmente não conseguia nem olhar para os negros. LI Ctt11as Pmas, que
não me deu muito combustivcl para reflexões, a 1\ão ser por algumas
máximas filosóficas e sugestões sociológicas. Contemplei a paisageJn;
a água, escura a princípio; a costa, depois da praia de Okina'i e
Osi.kweya: pedras pequenas, cobertas de vegetação sobre peqL1enas
faixas de areia. Perco de Giribwa, a água é clara, sobre os recifes viYa•
mente coloridos e arredondados pela areia (ajlbrttmento v11111). Além de
Giribwa, o lirornl não é tão rochoso e alto como cu havia imaginado,
um raybwag achatado se ergue acima da praia, que em alguns poncos
se apresenta até mesmo arenoso. A seguir, manguezais; .Muwa sem-
pre me lembra Saska Kernpa. *Fadiga; dor de cabeça; não me semi pri-
parado para receber <Yirrespondência. - Não havia carcas; passei a ra1·dc
na casa dos Raffael, que me convidaram para ficar com eles, tuna vez
que a casa de Bill estava ocupada. Visita a Auerbach. Noite nos Raffacl.
de lilllnib11J rebus, mas nos recolhemos cedo.

*RC"giii.o rur") famo.;a p:6xõna a V11.1s:Ó\•i11..


UM D IÁRIO NO SENTIDO ESTIUTO 0() TERMO 283

26.4. Levancei-me às 6 - havia planejado trabalhar com gramá-


tica com Raffael. Ele me mostrou Silla enorme bolha [pérola bolha},
conversamos, fizemos planos. Depois, por cerca de duas horas, tra-
balhamos com gramácica,sob grande pressão. Durante o almoço, de-
batemos Napoleão erc. ecc. Depois comamos a nos concentrar na
gramática durante mais Ol• menos uma hora e meia. Às 6 eu j;I
escava cansado de ramo falar. Corri para Kaulasi, deixando a escu-
ridão chuvosa da noite cinzenta me envolver. Meus pensamentos
galopavam. l'v!cmalmeme con tinu-ei falando, explicando, persua-
dindo - mas não sobre o trabalho, só sobre besteiras. Tencei d~s­
viar o mi-so das ({JSOCit1ções, mas em vão. O melhor é parar de pe nsar
cotalmente (tipos de associação: a s:icuação entre George e Raffael.
Lembro-me de toda a minha conversa com Raffacl etc.}. A noite,
conversamos e lemos trechos de Chateaubriand, Victor Hugo etc.
-Dormi mal.

Sexca, 27.4 {sic}. De manhã, chuva, umidade, tempo úmido. Mu-


dei-me para a casa do George. Incapaz de trabalhar: situação incô-
moda, irritado pelos meninos, atormentado pelos mosquitos. Almoço
às duas e meia. A seguir, debate sobre .. .? (Debates: pela manhã, sobre
assassinato rimai, à noice, sobre maçonaria; com relação a esta últi-
ma, fiquei baseante convencido.) À tarde, trabalhei muito mal até as
5; depois foi até a casa do George; a conversa com George também
me causn esgocamenro nervoso. Caminhei até Bwadela. De modo
geral, esses dias, à parte o prazer que tive pelo novo contato com a
língua e literacura francesas, passam em branco.

Sábado, 27.4 (erro nas datas- 8-10.4). Pela manhã, crabalhei so-
br.e gramática, com Raffael e sozinho. A tarde (almoço tardio; de-
pois, das 3 às 4, meninos de Obmaku compraram pérolas), às 4:30
vi George Auerbach, que recebeu uma carga de nozes de areca, de-
pois foi a Bwadela num estado de agitação nervosa. Tirei algumas
fotografias por lá e volcei muito cansado. Fiz anotações sobre a pai·
sagem noturna na aldeia. À noite lemos um pouco, depois nos reco-
lhemos cedo.
284 81lONISLAW MAIJNOWSKJ

Domfago, 28.4. Trabalho pela manhã. À tarde, quase não fiz nada,
conversei com Raffacl, observei os cães e os nativos. Dei uma c urtd
caminhada aré a aldeia, onde fulei com Morngo'i* (i11far111a111e de p,.;.
11111ira cmegoritt). Depois ...

Segunda, 29.4. De manhã, escrevi umn rnrca para E. R. M. e traba·


lhei com Raffael. A sra. Mahoney apareceu para uma visita. Dcspcr·
dicci o dia inteiro com ela. Fui ver Auerbach. Conversas: Headon
matou o cachorro do Dr. Harse; o médico processou-o. Sam arai apóia
Headoo. Dr. H. é um vigari.sra. A sra. Mahoney não quer barga-
nhar; tem dívidas, deseja pôr um t)Qnro final nas coisas, mas não pode.
Ele está apaixonado pela srm. L. - problema: o que ela vai fazer do
seu futuro? - Ela nos conta sobre suas inrerve nções em lucas entre
narivos. Esta mulher de 63 anos, alta, force, com feições anglo·
saxônicas ulrn1vigorosas, que emprega constantemente uma lingua-
gem profana (danado, maldito) é baseante simpática. Voltei. R.
macambúzio. Sam soube pelos meninos de Kavataria que R. os ha-
via expulsado da varanda, e que eles tinham ido para a casa de George.
Criou caso com R. por intermédio de uma carta. R. levou isso a sério
e revela toda som de roisas: S. abre as carras dele, não lhe dá va)'g1t'r1
suficiente, repreende-o constantemente - e além de tudo o mais,
Emma. Tentei acalmá-lo filosoficarnente - mas, naturalmente, é
difícil ser filósofo quando a gente mesmo está agastado. RcçoJhcmo-
nos muito carde, aguardando cartns.
Reflexões sumárias: desde quinta estau num estado de pertur-
bação extrema. Preciso acabar com isso definitivamente. A causa é
um contato muito violento e apaixonado com as pessoas, um11 co-
munhão desnecessária de almas. Não resta dúvida de que a presença
de wn homem inceligeme com passado parisiense é muico impor-
tante e encantadora para mim. Mns não devo fazer disso meu pri11-
âpal dSJ/111/0. Podemos conversar à noire, mas devíamos guardar si-
lêncio <lurfü1cc o dia. O mesmo com George: não devo ser bril hante,

• ~foc:ra.so' I. um d°' mclhc.r~ e mais if:llJ'Ottancu1 u1!0rm•n(cs de ~lalioO\\>--s.ki, citllJo c:tllj11nli1'• t4


cw11/ e cm V-.h U'XJt.:ll.
UM DIÁRIO NO SUNTIOO ESTRITO 00 TERMO 285

não devo lhe repreender o brilhantismo e a ambição dele. Se eu o


dcLxar falar e me limicar a ouvi-lo, ambos nos daremos melhor um
com o OUCl'O.
Observações de instintos e sensações dos cães: Raton escá apai-
xonado por "Vilna", segue-a, fareja-a, ataca-a violenrrunente, mas-
turba-se no ar; ela fica grunhindo e não cede um milímetro. E mes-
mo assim há uma cadela aqui da qual Racon nem mesmo 1:oma co-
nhecimento. Em outras palavras, os animais cêm sensações eróticas
individualizadas, o que (Shand) chama de "m1ti111entos".
Os problemas ecnográfkos não me preocupam, cm absoluto. No
fundo, escou vivendo fora de Kiriwina, embora odeie imensamente
os niggers.
Confortos físicos: cxceleJ1te - morar na varanda deles, alimen-
racão perfeita, sinto-me bem, a não ser por um ligeiro nervosismo.
À noice, lemos obras em francês - a Fedt'a de Racine não me
causa grande impressão; a prosa de·Chateaubriaod e a poesia de Victor
Hugo me impressionam bem mais. Falo fr1rncês fluememente; não
cenho dificnldade de formular minhas idéias lingüísticas para Raffael.
Não penso muito em E. R. M., mas todos os meus impulsos eró-
ticos se concentram nela. Também tenho momentos de forte anseio
emocional por N. S.
Moral: devo evitar com o máximo empenho, seja qual for o pre-
texto, sair do estado de isolamenco completo como aquele em que
me encontro, pois isso apenas me fará ficar nervoso.

Terça, 30.4. De manhã cmbalhei um pouco. Às 12, carcas: Ivy, depois


li N. S. com carra inclusa de Robercson; depois Mim, Paul etc. Por
úlcimo, E. R. M. - as cartas de N. S. são como punhaladas no meu
wração; resolvo escrever para da uma carta absolucrunente irrevogável..
As carcas de E. R. M. me absorvem inteiramente, mas como sempre
fico ligeiramente irrirado depois de lê-las. Essa ir6ração continuou acé
hoje (estou escrevendo esre regiscro na manhã de 2.5). Os rnmentários
dela sobre abandonar os Spencer, Lil. etc., por mim, me irriram um
pouco; cambém me agasco pelo que ela diz sobre Charles. - À noite,
c,tminhei mtm ritmo acelerado até Kumilabwaga, compo1ldo wna carta
286 13RONISLAW MAUNOWSKJ

para N. S. À noite, conversa inofensiva com Johnson e Wills, depois


escrevi cartas para C. G. S. e A. H. G. •

Quarta, 1.5. Pela manhã, terminei a carra para A. H. G., escrevi para
mamãe: autorizações para agir cm meu nome. Depois comecei a es-
crever para N. S. mas não terminei. Depois do almoço tentei escrever
novamence para ela, mas não consegui terminar, não pude nem mes-
mo tomar uma decisão definitiva. Por volca das seis da tarde fui ver
Auerbach; tentei evitar brigas e fflrthait/fage m1 conversa com ele.
Separomo-nos nwn clima amigável. Saí i\s 8:30. Conversa com R., que
me comou seus planos. Depois li as cartas de E. R. M.; a personalida-
de dela sempre me enche de m(1sica. Thmbém estou um pouco orgu-
lhoso e um pouco enciumado, cm razão dos interesses polfricos dela.

Q1únca, 2,5, Passei quase o dia inteiro escrevendo para N. S. e escce-


vi com grande difiCttldadc. N ão consegui escrever espontaneamen-
te. Formulei a coisa como um prnblema a ser resolvido. Em úldma
análise, preciso dizer a ela que estou comprometido com E. R. M.
Agora devo lhe concar que provavelmente vou ficar noivo num fu.
turo próximo. - As canas dela. com expressões de wn amor pro-
fundo e sincero; as carras de Jea11nic, e as de Mary, a ânsia delas por
me ajudar a enconrrar um cargo, aparentemente para me fazer pro-
g redir na minha t11rreira - tudo isso é muito desag rnd;ivel, doloro-
so. Escou profundamente ligado a ela, e meu coração se parte quan-
do penso que ela vai sofrer. Escrevo de uma forma ml(i/q afill(ota. Aliás,
desejo ;1ré conservar a amizade e a confiança dela, se possível. -
Terminei n carta às 4 horas. Depois, red ig i algumas linhas para E. R.
M. Às~ coloquei as cartas no correio e fui dar uma caminhada num
ótimo estado de espírito, deddido a trabalhar, e preparando proble-
mas 1obre os jardi11J. Na aldeia, alguns companheiros me falaram so-
bre jardins. Pretendia trabalhar à noite, mas conversei e li com Raffael
em vez disso. Depois li cartas de E. R. M. até as 12.
UM DIÁRIO NO SEllTIDO ESTRJTO DO TE~!O 287

Sexta. 3.5. Pela manhã, trabalhei com a língua, excremamcnce bem.


O mesmo à carde: terminar a gramática de maneira a abranger todo o
material que já reuni. Vou ter de planejar o que fiuec de agora cm diance.
Sinto um force impulso de erabal har. Devo analisar o material de Vakuta
e Ob11mku, revisar os problcnrns gerais, e mais parcicularmcntc os
linglliscicos. Às 5 fui à aldeia, onde me ocupei um pouco, mas nada fiz
de importante. Depois, uma conversa fücil com George. A seguir, tor-
nei a falar com Raffael; recolhi-me por volta das 11.
Observações: O filho de R. está doente. A mãe está muito boni-
ta assim, apreensiva e pesarosa. R. escá cada vez mais simpático; ela
também. Sinto-me muito à voncade aqui. Ao mesmo tempo, sim-
plesmente sinto foica de Bill.
- Cartas de Gardiner e Robcrcson me animam. Estou plar1e-
jando, ao retornar à Inglaterra, formar urna sociedade OL1acndcmia
com mdos qlle pcllsam como Gacclincr e cu. Uma espécie de R.S.
humanística {Royal Society], muito cxclL1siva e estritamente cicntí-
=
fic.1 e inccrnacional (M.S.H. Me111ber Socitty of Hmna11is1~ - Socie-
dade de /l!t111b1w Humanium) (So<iulade de Huma11ismo Moderno).

Sábado, 4.5. 18. Um dia durante o qual tornei a fazer um pouco de


trabalho dect1111po. Pela manhã, fui aos jardins onde observei o 1apop11;
dia luminoso, nublado. Tirei uns ;,u1a111!i11eos, conversei com Nl'lbi-
gido'u, colhi algt1ns bons {dirns} e trabalhei sozinho, fazendo ob-
servações sem anotá-las. - Anotei-as em parte depois que voltei.
Após o almoço (das 3 às 5 !) com Raffael, fizemos anornç<ies lin-
güísticas, com um dos colaboradores missionários. Depois fomos
falar com Johnson e\Xlills, e à aldeia onde conversei com Motago'i
- ele é um i11for111ame de pri111tirr1 dasst. Depois do jancar, sencei-
mc com os Raffael; conversamos, cantarolamos valsas modernas,
lemos excertos dejoce/y11 {de auroria do poeta româncico francês
J\lphonse de Lamartine]. Depois li canas de E. R. M., e passagens
que quase me haviam irritado a pri11cf[Jio agora me pareciam mag-
níficas. A noite sob o mosqt1iteil'o, e, pela manhã, pensei nela in-
tensamente.
288 lll\ONISLAW MAIJNOWSKI

Domingo, 5.5.18. Levantei-me bem tarde; chuva à noite. Hoje preci·


so escrever tudo o que fiz ontem, e depois ccr um bom dia de crabalho
com Motago'i. De manhã crnbalhci muico devagar. Os menitws me ir-
ricaram, a criança tornou a ficar doente, temperatura de 10) ,3F, fi.
quei realmente preocupado. Pela manhã comecei aler Le11m deifemmes.
Uma delas muito imprópria, me deu nos nervos. Após o almoço fi.ú à
aldeia. Motago'i não estava lá. Voltei com Gigiuri. Trabalhamos perto
da casa; mais tarde, com Morngo 'i. Anoite, dei uma curta caminhada,
escolhi um local para a tenda. Depois, na casa de George, gramofone,
acariciei]abulona e fiquei com sentimcnros de culpa. Voltei para a casa
de RaE, onde, depois do jantar, conversamos sobre Rosrand. - Dese-
jo muito forte por E. R. M., cm quem fiquei pensando durante a con-
versa a respeim de Rostand ... A total ausência de "personalidade mo-
mi" é desastrosa. Por exemplo, minha conduta na casa de George: as
carícias feitas cm ] ab., a dança com ela etc. deveram-se principalmen-
te a um desejo de impressionar os outros companheiros:.... Preciso ter
um sistema de proibições formais específicas: proibir-me de fumar, de
tocar uma mulher com segundas intenções eróticas, de m1ir E. R. M.
em pensamentos, ou seja, recordar minhas relações anteriores com
mulheres ou de pensar cm relações furnrns ... Preservar a personalida-
de imerior essencial acima de todas as dificuldades e vicissitudes: ja-
mais devo sacrificar os princípios morais ou o trabalho essencial em
favor de "me mostrar", doStimmtmg de convivência etc. Minha princi·
pai ocupação agora deve ser: trabalho. lil'go: trabalho!

Segunda, 6.5. 18. Chuva o dia inteiro. Pretendia visitar Billy, mas ele
não me mandou a waga. De manhã escrevi as conversas do dia anterior,
o que demorou, e fiz lentamente, s<Jb pressão. Depois do 1tlmoço, das
4 às 6, conversa com Motago'i. À noite, caminhada a Kaulasi, depois
lemos excertos de Alphonse Karr [jornalista e escritor francês, 1808-
1890) e l.amartine. - Manrive as resoluções de ontem: trabalhei o
dia inteiro, embora tenha perdido muito tempo conversando com R.
(sobre o valor moral dos médicos e outros profissionais etc.). Ainda
estou sujeito a irritações mesquinhas nas minhas relações com osmmi-
1101, a quem devo natar como cachorros. Durante a caminhada à carde
UM DJÃruO NO SUNTIDO ESTRITO DO TERMO 289

tentei me concentrar em obrer "rorpo mentaf', "força espirimal", ser


complctamence inacessível a influências externas perturbadoras, seja
de escuridão, das multidões, ou do ambicllte. Ser capaz de crabalhar
na varanda com rodo o tumulto em rorno de mim. Trabalhar devagar,
sem pressão nervosa, mas sem interrupções efetivas no flu.xo do traba-
lho. Preciso tco.tar não perder nem um único minuto no meu trabalho
atual. Agora que elaborei um sistema para conseguir os materiais
lingüísticos e etnográficos, preciso selecionar dois 011 três pontos -
Wawela, Tubowada, Sinakera - e me contentar em concentrar-me
neles. f.fovimm1ação demais não dará bons resultados. Plano: não correr
até Kaduwaga, mas voltar a Kiriwina. Par exce/lence, a Tubowada. No
caminho, dois dias cm Omamkana, d.ois dias em Liluta (tenrar sair tanto
quanto possível de Namwana Guya'u), dois dias em Kabwaku. De-
pois da volta de Kiriwina, em meados de junho, LLma semana em
Bwoytalu, depois Sinaketa, talvez alguns dias em Kirava ou Kadugawa.
Caminhada vespertina: conrrolando meu medo do escuro. Ca-
minhei através de uma espécie de túnel formado pela folhagem ilumi-
nada contra um fundo escuro. A sensação de que havia silhuetas me
obsen•ando, quase me cocando para um l?ropósico específico. Des-
coberta de que sob cerras circunstâncias é mais fácil sucumbira "cren-
ças emocionais" do que resistir a elas. É simplesmenre a lei do me-
nor esforço. Percebo mrts coisas camo ttfiariçãts reais e i11óc11as, em vez de
C(i!JIO "realidades (físicrtJ) que at11am sobre os 111e11111eiw1".

Terça, 7.5. De manhã escrevi tlffi rasCllaho das conversas, e füi incom-
paravelmente melhor do que no dia anterior: terminei às 11 em vez de às
2. Depois, caminhada com Motago'i até o tapop11. Senri-me vigoroso,
trabalhei otimamenre bem, de forma eficiente apesar das dificuldades
(câmara, o sol, anotações e// rol/le etc.). Momentos felizes de amor à na-
mreza cropical, pena por ter de parti1· no final, mas desejando que E. R.
M. estivesse aqui. - De volra à casa, fiz as malas rápida e vigorosamente,
sem dor de cabeça etc. Parei na casa de George no caminho de volta.
Escava de bom humor. No barco, fiz planos e os anotei. O sol se pôs, as
margens desapareceram, e o mundo inreiro recuou e submergitLnas tre-
vas. O barquinho sobre as ondas. Contemplei o pálido cfo a oeste. Esca-
290 IJR01'1SL.AW M A.UNO\'<'SKI

va traçando planos- estava me concemrando, mas não conseguia pensar


sistematicamente. - Em Gusawera conversei com Billy, selecionei meus
papéis, me senti sonolento. Sob o mosquiteiro pensei cm E. R. M. como
a única possibilidade cróticn. Qtld.ft desmniodedmjo. Eu ;1 iuno loucamente.

Quarm, 85. Dia maravilhoso e fresco, na varanda de Billy. Mar ondu-


hdo, escuro; céu azul-claro com nltvcns brancas imponderáveis. O
horizonte um tanto nebuloso. - Pela manhã escrevi e copiei material.
Manhã bonirn: vi meus cinco meses como um piquenique longo, ado-
rável, agrad~vcl e divertido cm Kiriwina, e desejei estar oucra vez em
Omarakana etc. - Enquanto trnbalhava tenteidelibcradamcnce atin-
gir um ritmo pacifico, animado, ser capaz de rrabalhar, dormir crc.,
apesnr dos ruídos, dos obstácul os etc. Pensei cm E. R. M., uma vez
mais me concentrando em ser fiel a ela, na sua exclusividade. - O
c:rabalho de cópia não foi bem, perdi um bocado de ccmpo examinan-
do papéis e selecionando-os. As l 1:30 fui a Teyava com Billy e tirei
forografias ali, e contemplei o wasi (mmca ir 11compa11hr1do). Tircí fotos
ele mulheres pendurando11oh1. Senti-me um pouco irritado pela pre-
sença de Billy. - Depois do almoço copiei mais um pouco e preparei
a campanha: jogOJ e brinradtiras i11fa111is. Fui à aldeia com Teapot. Al-
guma dificuldade cm enconcrar um informanre. Tencei dominar mi·
nha impaciência e minha raiv<t. Afinal, surgiram um ou dois bons in-
formantes. 1rabalhci com jogos, sentado sob t1ma árvore. Caminhada
rápida até Kapwapu. CQrri por d ois ou três minucos (poncndas do lado
do corpo). Voltei, comi, copiei anorações, depois revelei furos com Billy;
uma horrível dor de bacriga. Recolhi-me - sob o mosquiteiro, desejo
por E. R. M. Doente ou não, gostaria de tê-la sempre a meu lado.

Quinta, 9.). Resolução. Copiar as coisas de oncem cedo pela manhã.


Revisar o material de Vnkuta e mandar buscar mmi110J de Vakuta:
mi/ama/a, kayasa. Carregar a câmara e ir a Tcyava. - Ódio caracterís-
rico pelo pequeno George, que é repugnante, sujo, teimoso e agarra
cudo, e cujo pai não o casriga. Neste exato momento ele está rodo in-
chado e odioso. Gasearia de analisar sua urina. - Trabalhei muito bem
durance o dia inteiro. Pela manhã.copiei anotações e carreguei a câma-
UM DJÁRJO N(l SRNTIOO ESTI\JTO DO T8RMO 291

ra; às 11 me senti muico mal, vadiei e me senti tentado a sentar-me e


ler (me sentia realmente debilitado). Mas, apesar disso, fiz k11kwaneb11
com ótimos resultados. Depois do almoço, terminei o k11kwmieb11, e às
3: 30 fui a Tcyava, tornando a me ocupar de jogos, obtendo resultados
excelentes. (Eu devia fazer uma lista dos jogos enquanto trabalho e
tentar assistir a rodos, documentando-os com foros.) Às 5 voltei, comi
presunto e ovos com Billy. Depois do jantar, conversa con:i um com-
panheiro de Vakuta sobre pequenos barcos e w11yp11!t1. - Depois es-
crevi k11kwaneb11. Pensei freqüentemente cm E. R. M. -com a sensa-
ção de que o c..abalho árduo fuz com que eu me aproxime dela. Algu-
mas vezes resisci com êxito a tentações enquanto pensava nela. Sob o
mosquiteiro, pensei muito incensamente.

Sexta, 10.5. À noite, cemporal (dormi bem); de manhã, aguaceiro con-


tinuo. Céu cinzento, reflexos praceados na superfície do mar, que está
encttj1elttdo e de 11111a cor te11dendtJ "ºroxo. Senti-me "enervado": senci
fisgadas nos olhos, tive uma sensação de leveza e pressão sangüínea
alta, uma sensação de vazio na região do coração. Idéias e emoções
m.eio indefinidas. Quis fazer 111n pouco de ginástica sueca, ou dar uma
longa caminhada. Resolução: se esta clmva concinüar, você deverá fa-
zer um pouco de ginástica. Deve terminar t<xlos os trabalhos penden-
tes: dicionácio, V.1kuca,jogos. Chuva o dia inteiro. De manhã, copiei
textos e os completei com a ajuda do menino. Atarde, tornei a escre-
ver; não me semi cem por ccoco o dfa inteiro. Apesar disso, trabalhei.
Às 4 saí; caminhei até Kapwapu. Cansado, adoto como meu lema:
"11ma tias maü imponanteJfa1111t1S de trabalho éo repo11so", e relaxei. À noi-
te, planejei fotos com Billy. - Pensei continuamente cm E. R. M. Ela
está presente em rodos os meus pensamentos, planos e seocimentos.
Mas não sinto por ela wn desejo violento. Pensei um pouco na minha
conduta com relação ao Sir B. S., aliás pensei nisso um bocado de tempo.
'fambém estou esperançoso e ambicioso com relacão a meu trabalho.
Planejei carcas ao Prof. Goddard, Prazer e Macmillan.

Sábado, 11.5. Manhã luminosa. Levantei-me um pouco cansado,


sentindo dores (reumatismo 011 gi nástica?). Hoje me dediquei à foco-
292 BRONISJ.AW MAL!NOWSKI

grafia. - De manhã, depois de mandar Ginger à casa de Raffael


(esqueci-me de mandar carga t lt11çof), quebrei os dentes. Consrer-
nação, .reg11ida d~ uma cal111r1 fi/osó/ka: afinal efetivamente vivi sem
denres durante dois meses - até mais, pois não pt1dc us11r os den-
tes aré meados de outubro. Tomei o desjejum calmamente, con-
versei com Billy sobre escrever para o dentista. Co11t11do, fiqtLCi t1m
potLCo censo. Às 10 fui <t Teyava, onde tirei fotos de uma casa, um
grupo de meninas e o wasi, e escudei a construção de uma nova
casa. Ncsrn ocasião fiz uma ou <luas piadas grosseiras, e um desgra-
çado de 11m niggtr fez um comentário desaprovador, em razão do qual
eu os descompus e fiquei profundamenre irritado. Co11segui me con-
trolar i111edia1amm1e, mas fiquei terrivelmente aborrecido com o fiuo
de esse 11igger haver ousado falar comigo de um jeito daqueles. De-
pois do almoço, das 2:30 em diante, trabalhei com k11kwm1eb11,
linguistic11menre. As 4 dei urna caminh11da. Tenrei relaxar, não ci-
nha corrente <lc associações. Lembrar: a capacidade de repousar é
um dos mais importances elementos do trabalho! Sem ela, não hã
rrabalho esrável nem frutífero. Agora esrou cão saudável e com cão
boa disposição que não sinco desejo de romper a coociouidadc do
rrabalho lendo romances. Nem mesmo aguardo cartas e não quero
que o tempo passe rápido demais; simplesmcme vivo de e para meu
trabal ho. Não posso me repreender por perder tempo, por não rra-
balhar arduamente e visando a um objetivo. - Durante minhas
caminhadas pensei no meu projeco dosjogo.1, como eu o descreveria
a E. R. M., e tentei formular alguns pontos de vista gerais. O único
descanso que posso me permitir é uma longa caminhada duramc a
qual possa me concencrar ourra vez cm formular pomos de vista
gerais: (])Dogma, V-d'SáQ onodox", ttologia. (2) Fram reflexas, anot.
ti<. (J) A rtgrtt ta rer1lidad~. ou seja, caprar como os 11iggers formu-
lam uma determinada regra, como a conceberíamos, e fioalmcntc
<lar material concreto, com a ajuda do qual possa ser controlada
etc. etc.
N11rmtiva 011tra vez: conheci mulheres na fonte, observei como
elas retiravam a água. Uma delas muito atraente, me excicou sensual·
mente. Pensei como seria fácil estabelecer uma ligação com ela. Sinto
UM DIÁRIO NO SENTIDO Esn\JTO DO TERMO 293

que exista essa incompatibilidade: atração física e aversão pessoal.


Atração física com forte magnetismo físico. Na volta eu a segui e
admirei a beleza do corpo humano. A poesia do entardecer e do cre-
púsculo permeavam tudo. Pensei como E. R. M. teria reagido mara-
vilhosamente a tudo isso, e percebi o abismo entre mim e os seres
humanos em torno de mim. Voltei para casa camiohando. No jan-
tar, uma súbira alegi-ia. Depois tomei a trabalhar, com Marian e
Kaykoba. Recolhi-me às 10:30. Irrirudo com Ogisa, Marianna e os
niggers, que ficaram conversando. Não me importo nem um pouco
com o Governo, mas percebo como são fúteis e rolos ta.is pensamen-
tos.

Domingo, 12.5.18. Uma nova chuvarada, wn dia de ventania. No


dia anterior eu não fiz exercício e não me senti muito bem: tensão
nervosamn excessos, impossível realmente me concentrar. Ao mesmo
tempo, dor de cabeça, pressão atrás dos olhos como na vez, há dois
anos, antes do colapso de Nayore. - Apesar disso, trabalhei o d.ia
inteiro, mas de wna forma não ~ntensiva demais, e sem satisfação
interior. Momentos de ódio violento pelo pequeno George, alternan-
do-se com momentos de uma afeição quase amistosa. Mas o pai dele
oão lhe dá um pingo de educação. De maohã, depois de escrever o
diário, copiei textos, tracei planos lingüísticos etc. Depois desenvol·
vi o rema tapopu. Tudo isso bem devagar e sem concenrra~ão. À noi-
te, depois do jantar, pensei em E. R. M. sentado sozioho do lado agra-
dável e fresco da varanda; pensei nela com wna saudade serena e
satisfeita. Em certos momentos, lembranças desagradáveis: meus
dentes quebrados, Sir B. Sp. etc. - "Associação de idéias" - q11e
principio júri!!

Segunda, 13.5. 18. Decididamerue, sou supersticioso: como hoje é


dia 13, não ouso planejar nada importante e no fundo estou con-
vencido de que qualquer coisa que eu possa começar hoje terá amal-
diroada e vai gorar. Despertei cedo, pensei em E. R. M. Acabo reco-
nhecendo: o contato físico, a entrega desmesurada é válida apenas
tendo como pano de fundo a verdadeira comunhão espiritual. E.
294 BRONlSLAW MALINOWSKl

R. M. é a única mulher pela qual sioto isso. - Os pensamentos


obscenos poluem e destroem roda possibilidade dessa verdadeíu
comunhão. - Embora Sócrates não possuísse a verdade comple1 •
ao dizer rvw0t :Eall'tÓV [conhece-te a ri mesmo) & serás virtuosu
=
porém , elimin11r a equação conhecimento virtude & dizer, vit/111
proboq11e meliora* etc. também é falso, ou no mínimo uma meia ver
dade. -Vadiei um pouco (me barheei, lavei os cabelos, copiei tex
tos), mas por volta das 11 fomos à aldeia. Tirei LUna foto de uma
casa; depois de jogos e redes. Voltamos à l ; o malote chegou. J.1
rnrrns de N . e {Lady Sr.] (apenas corri os olhos por elas, vi que niío
continham nada dramático). Depois Hedy, Paul, Mim, Anna. Pat~.
como sempre, me enche de um contentamento calmo - com o
fato de ele existir. A carta de Mim, muito amigável e pessoal. A
seguir, E. R. M. - como sempre algo me incomoda ou irrita n~•
cartas dela (dessa vez, um panegírico sobre a sra. Gilbraith}. Sü
depois de ler duas 011 três vezes é que eu recuperei meu equilíbrio
- rodas as sombras se esvaeceram e eu senti a música da individua•
!idade dela. Fiquei muitíssimo desanimado pela ausência de carta•
de 1/4 a 14/4. Depois de ler as camts fui a Losuya; sentia-me forrr
e caminhava com vivacidade. Suei e provavelmente forcei meu co
ração. "30%" se portaram muitíssimo bem, mas foi um imbecil
como sempre. Voltei a pé - dessa vez não abandonei nem um
pouco minha reserva pessoal, e, no momento em que voltei as cos
ras para ele, parei de pensar nele. Planejei canas para E. R. M ..
para Mim e Paul. A noite caiu, caminhei rápido sem me cansar. À
noite revelamos fotos, eu não me semi muiro bem.

14.5. De manhã li as cartas de N. S. e uma vez mais semi pena dela,


e desejei dedicar minha vida a ela, consolá-la e aliviar sua enfermi
dade. Mas este senrimenco não é "verdadeiro", pois cu me conheççi,
e sei que sou incapaz de me dedicar etc., e que "o amor e wna caba·
na" não me bastam. Mesmo assim, sinto que sentimentos marav1
lhosos corno os de N . sejam desperdiçados comigo, e por minha cau
UM DJ,\RIO NO SENTJOO ESTRITO DO TERMO 295

sa. Depois do desjejum perdi algum cempo examinando a câmara


nova de Bill e folheando jornais, revistas ecc., sobre a guerra. A se-
guir, escrevi cartas. Durante o dia inceiro me senti mal - secura e
pressão nos globos oculares, falta de· energia e iniciativa, sensação de
esmagamenco por coisas que preciso superar. Cada dificuldade, obs-
táculo, interrupção no trabalho me irrira. Não penso mLúto em E.
R. M. R§solvo que não é possível que ela estej<i doente e que nada de
mau pode acontecer a ela. À tarde, escrevo-lhe uma carta, mas, por
assim dizer, sem contato pessoal. Curiosamente, é mais difícil para
mim estabelecer um contato pessoal com da do que com qualquer
outra pessoa. Talvez porque escrever para ela exija uma concentra-
ção maior e mais intensa do que escrever para qualquer outra pes-
soa. À noite, escrevi para Robertson, Hunt. Reli e selei a carra para
Elsic. Recolhi-me às 10:30.

15.5. Hoje me sinto deçididamence melhor do que Ontem, embora


durma mal, e me levante cedo. Vento frio, não muito forte, maravi-
lhoso, de sudeste. S1i111m1mg. Comecei a fazer planos e a trabalhar cedo,
com confiança e prazer. E. R. M. ainda pouco nítida. Vou cer de es-
crever cartas para N. S., sra. Pat., Mim. Pela manhã wmecei a fazer
as malas e a revisar mdo, de forma a escrever para B. P. [Burns Phdp]
à noite e a empacotar as coisas para Omarakana. Preparei a baga-
gem durance a manhã inteira, depois do almoço inspecionei cudo e
fiquei vadiando. (Às 3 enviei Gingcr a Omarakaoa.) Depois fui até a
aldeia com Billy (ou fui sozinho'). À noite, carta para N. e carras de
negócios. Muico cansado.

16.5. Quinta. Acordei com dor de garganta e um horrível muco ver-


de. Pela manhã, terminei as cartas, depois Billy foi a Kiribi; caminhei
até a aldeia e tirei algumas foros. Depois do almoço sentei-me e li. Às
3 Billy subitamente voltou. Revisei os papéis, depois ambos fomos até
a aldeia. Tiramos fotos dos jogos. Depois fui a um jardim e conversei
com gente de Teyavasobre agric11ltura e wagia dos jardins. VC)lcei ao pôr-
do-sol, sencindo-me febril. Quis tomar um pouco de remédio e escolhi
Chlorodyne. Tive uma conversa agradável com Billy, fui para a cama.
296 8RON1Sl.AW MAUNOWSKJ

Macian se comportou de uma maneira revolcance. Fiquei constrangi-


do pelo Billy. Pensei de maneira muiro intensa em E. R. M.

21.5.18. Parei de escrever o diário. Piorei cada vez mais. Tive fcbw
à carde por dois dias (sexta e sábado); no domingo esrnva bem adoen-
tado. Na segunda (ontem) me senti melhor, mas aindll escava fraco
e com os lltl'VOS til/ frangalhos. Sofri horrivelmeoce por ter de morar
cm meio a este pandemônio de crianças 11iggers; particularmente meus
mt11iJ1os me irritaram, além de Marianna. Conrudo, ontem cu pus de
lado minha indolência, quase no mesmo momento em que me senca
melhor. Mas hoje preciso tomar cuidado outra vez.
17. Sexta. .Manhã, ok:wala; carde, focos. Febre b;1ixa.
18. Sábado. 7i1ma. Senti-me debilitado pela manhã. 1i1rde na
aldeia. Febre.
19. Domingo. Bastante doente. Li as canas de E. R. M. Escrevi
à carde.
20. Segunda. Billy foi a Kiribi. Li primeiro um romance, depois
fui trabalhar.
Saúde: th•e uma gripe violenca na cabeça e dor de garganta. Não
desceu para o peito, mas "insinuou•sc na minha cabeça". O mesmo
estado de indolência e fraqueza que cm Na)'ore. Passei fome, lembran·
do-me da teoria de Elsie de que posso ter um ponto de infec~-ão nos
intestinos. Um sincoma muico desagradável, uma dor inccirmnenw
nova nas costas, que pi1Ssa meia hora depois de eu me levantar.
Problemas: interesses cienc!ficos minguam à medida que me sinto
mais fraco. No domingo fui incapaz de me concentrar ou de traba-
lhar. Desejo incontido por 6. R. M., cujas canas leio, sentindo-me
imensamente próximo a ela.
Emocionalmente: depressão melancólica, me deixando mcrgu·
lhar na inatividade e na indolência. Nem por um momento temo
uma doença incurável - em ra:eão de orimismo, embora a dor lom·
bac me preocupe. Seria o início da cabes?'

•TMJu J.,.,-u/iI, ou aca.xia ICN.:omococ,,,, progc(uiva dcgc"e-raçãO$ifi!ltJa. da coluna pos1crlor e raím


pontrjorc:. da colur.~ etipinhal. (N. ~ T.)
UM D1,\RtO NO SENT!OO ESTRITO DO TERMO 297

Resoluções: a coisa mais importante é não se entregar a essa inér-


cia, "tomar e11itl1tdfJ". Sim, tomar C11id11do, 11uJs traba!hm1dt!. TrrJb11/har c1nn
leveza, sem esforço eheroísmo. Otrabalho deveria ser para você 1t!go natural
e dhinido. Você devia adorar ver !em papéis em tomo de !i, merg11/ha11do
profimdameme no trabalho. Mais 1m1a vez, nifQ se deixe sed11zirpor atr:lho!,
por 11m romance desgarrado largado jlo·r aí, 011, q111111do desej11t jej11ttr, por
11m pouco de alimemo q11e sej11 co!amdo à 111os1tYJ sobre ti 111estt. O principal
agora é retomar a !lia total capacidade de trabalho. Para em fim, você deve
tentar de tlfn)() a c111'a pela fome e não deve de1perdiçar ne111111n só min1110 de
se11 tempo com 1·0111tmces erc.
- Estf)IJ lendo Cha1ea11bria11d. 7õta/111ente sem conteiÍdo. Faltrt-lhe o
sentido cie11tíjifo, a aipira!'ão à Verdade como o insti1110 de ver as coiJa; como
são, em opo1ição àq11ilo q11e nosstt fantasia goSTaria de fazer delat.

Quinta, 23.5. Ontem tornei a me sentir muito fraco. Pela manhã,


ao me levantar, uma dor lombar excruciamc. Alguns minutos de-
pois, ao me levantar (quase não consigo me manrer deicado, tanto
me cansa essa dor estúpida, e em geral passa meia hora depois de eu
me levaocar), quase desfuleci; senti-me tomo e tive de me sentar numa
cadeira. Isso me assustou e me tirou o ânimo. Em vez de trabalhar
ou escrever cartas, comecei outra vez a ler romances. Li srca. Grim-
shaw, lflhen the Rl!d G'odS Cal/ (Quando os deuses vermelhos chamam),
e um romance de [William J.l Locke. Devo assinalar um certo pro-
gresso: depois de ler essas coisas, hoje, quando ainda estou muito
fraco e cansado, os romances me atraem como "uma janela aberta
para a vida". Ontem, além dos mellS sentimentos de wlpa generali-
zados, tive sentimentos específicos com relação a E. R. M.: estou
perdendo tempo, enquanco é meu dever para com ela e para com
"nossos filhos" trabalhar com<> maior afinco possível e atingir uma
"posição" em relação a mim mesmo - ser alguém que realmente
conseguiu algo; deixar minha marca neste mundo. Quando me sin-
to tâ<> debilicado de manhã, sinto um desespero mudo: se me tornar
um aleijado inútil, vou cometer suicídio ou, no final das contas, não
me casarei com ela. - Desejo escrever para ela o tempo todo. En-
quanto leio o r,omance, evoco concinuamence E. R. M. Eu a amo de
298 DRONISLAW MAUNOWSKI

forma cada vez mais profunda, mais verdadeira, mais apaixonada.


Todos os ciúmes bobos e sentimentos secundários (como arrependi·
menco e sentimento de humilhação por causa de C. E. .M., o aborre-
cimento por causa dos Gilbrairh etc.) desaparecem.
Terça, 2 1. Trabalhei bastance bem durante o dia, mas às 5 CO·
mecei a ler Poker's Th11mb, e terminei-o carde da noite.
Quarta-feira, 22. Pela manhã, dor, desespero, dúvidas. Senci-mc
muito debilitado. De manhã, .Bcatrice Grimshaw. À rareie, Tht
WoJ1dtrf11I ~ar (0 ano maravilhoso}, de Locke.

Sábado, 25.5. Ontem e anteontem, saúde muico melhor. Não li ro


mances nem desperdicei tempo alg11m, a não ser pelos momentos cm
que precisava descansar. Não me sinto nem um pouco forte, e nem
me atrevo a sair para dar uma cami nhada. A dor na região lombar
cessou, seja porqL1e o rempo está mais qL1ente, seja porque escou usan·
do cinta de novo durante o dia. Anceonccm e ontem eu trabalhei, m:1.1
sem gmnde energia ou interesse. A saudade de E. R. M. e de Mel·
bourne ainda é imensamente force. Fico o tempo rodo relendo as car
tas dela e pensando em minha volta. Também me recordo do meu
quartinho em Grey Sr., da Biblioceca etc. Esoou mesmo apegado a cl•
e a amo muitíssimo. Em cerros momentos, assusoo-rne por causa d•
semelhança entre ela e Auntie e Maria C., lembrando-me do jciro que
ela era nas piores épocas, julho, 1igost0 e setembro. Ela não 6 "a rcali
wçiio de codas as potenciálidades da mulher", mas preciso abrir m:io
<lesse tipo de coisa. Oncem à noice, tive pensamentos lascivos a rcspe1
to ela sra. C., L. P. e G. D. Mas superei essa tendência e os pensamcn
cos desapareceram por si mesmos. Esta manh<i, depois ele 10 gromu
de quinino, que foi iudispcnsável oncem, me senti um pouco mole, e,
cm vez de me concentra.r eler o diário ecc., li o último Boletim. Porém
veio a reação. Pceciso trabalhar com afinco e de forma consistence. Além
disso, devo me interessar pelo meu trabalho, e "faire 1ravaillt1· 11111•
sommeit'. - Os nativos ainda me irritam, especialmente Gingcr, qur
eu poderia espancar com voncadc flté a morce. Entendo todas as atro
cidades coloniais alemãs e belgas. -Também fico espancado com iu
relações da sra. Bill com wn belo 11igge1· de Tukwa'ukwa (!vlukwadeyJl
UM DlÁ1UO 1'0 SENTIDO ESTRITO 00 TERMO 299

Sabe Deus o que acontece durance o s11pep(t11i!- Estou aguardando o


próximo correio com ânsia e impaciência. Afinal de comas, E. It M.
não me escreve há duas semanas. Ontem passei os olhos pelas cartas
dela e notei que efetivamente elas não estão à sa hrmtmr. Ela devia
manter um diário.
Quinta, 23. De manhã, escrevi para E. R. M. Por volta das 11: 30
fui a Teyava trabalhar com jogos, sob uma árvore. A rarde (comei a
desperdiçar um pouco de rempo), foi a Tt1kwa'ukwa, tentando ob-
cer cópias de [ko11.kwa) da sra. 1bgugua, mas sem resultados excepci-
onais. A noite copiei rexcos com a sra. 1bgugua.
Sexta, 24. Pela manhã terminei carta a E. R. M., que Normao
Campbell vai levar a Samarai. Depois ajudei Billy. Por volta das 12
foi ao so/1iteyava [. ..] ; depois observei jogos e fiz anocações sobre eles.
Almoço com Billy. À tarde, cirei foros do interior da casa. Depois
passeei até Tt1k:wa'ukwa. A noite observei jogos.
Sexca, 24. Sinto-me muito melhor, e estou começando a traba-
lhar. Porém, depois de escrever o diário, pela mánhã, me senti pre-
guiçoso e desanimado. Trabalhei com Togugua, mas ames li Rivers
como uma espécie de aquecimenco. Dessa vez ele pareceu muito
menos absurdo, e, com reservas que ele mesmo reconhece, o livro
dele nfto parece mau. Sua leitura me estimulou, e eu simplesmente
escou fervilhando de ídéias teóricas. No meu caso, aré onde posso
ver, o problema principal será manter minha boca fechada. - De-
pois de trabalhar com Togugua me senti mal. Deitei-me e rirei uma
soneca. Depois Davis veio. Tentei prepará-lo com relação aos nati-
vos de Kiriwina, e ajudá-lo, dando-lhe o Seligman etc., e até prome-
cendo emprestar-lhe {Rev. S. B.) Fellowes {o primeiro missionário
nas ilhas1robriand}. Embora com a barba por fazer e de pijama sujo,
conseglli manter a dignidade. Acompanhei-o alguns passos. Com
Billy [conversei) sobre .Mick, que resmunga sobre Norman: 7Jq11ele
.1afrtdo de Kaiawa10! Você lem metade de f/Vla garrafa de uísque, o s. dQ
Kaiawato e cachorros e gt11os." N. consumia uma caixa de tabaco em
crês semanas, sem comprar pérolas. Anoice fui a Tukwa'ukwa, onde
os negros se recusaram a 1nw1.uawa. Depois 1\ Teyava, onde Madunna
e seu séquico também foram. Caminhei de braços dados com Nop11lt1
300 J3R01'1SLAW MAJ.JNOWSKI

Para incentivá-los a brincar (nã() havia ninguém nobtJktt), comecei a


praticar kasays11ya eu mesmo. Eu precisava de exercício, além disso
podia aprender mais participando pessoalmente. Muito mais diver-
tido do qLte OS pequenos jogos orsanizadOS há alguns dias em (Nyota].
Aqui, pelo menos, há movimento, ritmo e o luar; também a emula-
ção, a i111erprett1r,fío de papéis, a perícia. Gosto de ver corpos humanos
nus em movimento, e, em cercos momentos, eles rambém me exci-
taram. l\fas eu consegui resistir a todos os pensamentos dos quais
pudesse me envergonhar ou tivesse medo de revelar a Elsie. Pensei
nela, em como o corpo humano semp re me faz pensar nela ... A
moralidade consiste em uma luta conrínua, em uma melhoria contí-
nua da situação e nwn aumenc:o de força ...

Terça, 28.5. Onrem foi um dia perdido . Anreonrcm, metade do


dia foi passado cirando fotos de 11asa.11tma em Tukwa\tkwa.* De-
pois de repousar, trabalhei à tarde com Tog ug ua, e obtive resul-
tados mtlico bons, entre ourras coisas uma versão de um silmni.
À noite, um ramo deprimido e indolente; revelamos fotos. Qua-
se todils as fotos de Billy inúteis; deixei de submetei· crês delas à
exposição. Davy James nos fez uma visita; ele não é muito inte-
ressante. - Ontem eu escava num daq ueles humores desastro-
sos que tornam imp(issível para mim fazer qualquer trabalho,
concentrar-se cm alguma cois•t. Pela manhã, não escrevi meu di-
ário. Depois, não*• organizei meus papéis. Depois do almoço li
Rivers, o que foi sa11dável, mas não li com uma concentração ge-
nuín(\. Depois fiz a ronda t/a.s aldeiat. Teyav11 estava vazia ao sol;
todos os companheiros haviam ido para Tukwa'ukwa, de focm(l
que foi para lá. Sentei-me durante algum tempo, para conver.sar
Mosiryba, que como inforrnaclte é péssimo. Volcei, e, depois do
almoço, li romances a tarde in reira com sentimentos de culpa e
desejo por E. R. M. o tempo rodo. Li o Poi.Jon Belt, de Conan Doyle;
o Vicar of \Vakefie!d: é fácil ler dois ou três romances por dia! - À

,._Votos de c~ituônfas li.g:1.d!ls à pri1nelra SrAvidez, jnçfyi(J';$ n;t l'it/a Jl).·11,'1/Justfsttb~»J1 pp. 217-3 l
**Gri{Q niJQrigio:d.
UM 01.Wo NO SE1'Tl00 EsT!uTO DO T!Jl\MO 301

noice, assisti coquanco Billy i111p,.i111ia imagens, praticava ginásti-


ca sueca na parce mais fresca da varanda, e ia a 1ltkwa'ukwa. O
tempo inteiro senci um desejo subconsciente por E. R. M., po-
rém, apesar disso, acariciei escandalosamente Nopula... Concco-
lei-mc na volca ao luar, mas nunca mais devo entregar-me a cais
práticas. - Resolvi hoje, amanhã e depois de amanhã, terminar
meu trabalho sobt·e jogos, kokm11a e bwage1'11; além disso, tirar
ulgumas focos . Depois, ir a Omarakana. - Diagnóstico do com-
porcamenco de ontem: histeria sexual, causada por falta de exer-
cícios. Hoje tornei a ter (desnecessariamente) pensamentos im-
puros a respei to da sra. [ ...).

Quarta, 29 .5. Ontem finalmcncc me livrei da minlrn letargia. Pcht


manhã trabalhei durante duas horas em Teyava; me senci muito
mal e muiro nervoso, mas não parei nem um momenco, e traba-
lhei cal mamcnce, sem tensão, ignorando os niggers. Ao recoroar para
Gusawera, me scnri rão debilitado que presumi que não consegui-
ria trabalhar à t arde. Apesar disso, a descoberrn de yrJgm11orobwa de
Kudukway Kela me inceressou rnnro que conversei com eles diis 3
às 5, depois fui a Kudukway. Senti-me doente, febril - curar ou
marar (suspeitei de pneumonia). Enquanto caminhava não conse-
guia pensar em nada; só fiz imaginar apacicamcnce como sena
minha volta a Melbourne. Não .me senti forte o rnficicnte pura ca-
minhar cem passos. Mas em Kudukway Kela me senri melhor e
volrei me sentindo forre. À noice me senti cansado porém bem -
saí para contemplar as estrelas que brilhavam acima do matagal
baixo, e pensei cm E. R. M. Tinha idéias e planos ambiciosos para
n propaganda jornalística cm Londres (Wmmi11ster G(lzeste ou M(lll-
c/Jestel' G11anlia11, New S1a1esma11). Tentei controlar as/111ilida~les 111t11-
1ais, (fllt ac(!Jnpa11/Ja111 todos orpla11o.s e idéias ambicioso;. Acima de cudo
devo eliminar de todos os meus planos para o futuro a ganância, a
esperança de fazer fortuna. Minha virtude fundamental deve ser n
imparcialidade, e, para cal fim, a pobreza, o desprezo pelo excts'"
e pelas coisas &1pendiosas. D evo viajar de segunda class~ r11 111 n
quanto possível, álimencar-me de pratos baratos, de forn111 dr"11
302 BRONISLAW MAUNOWSKI

ta, trajar-me com simplicidade. Não devo correr o risco de me ven-


der por dinheiro.

Qtúnra, 30.5. Ontem trabalhei bem; me senti melhor, mas à noitioha


os sintomas de indolência vieram outra vez. No caminho pam Teyava,
pratiquei um pouco de ginástica sueca, e me semi melhor depois. -
Pela manhã, diário e carta para E. R. M. Organizei meus papéis. À5
10:30 comecei a trabalhar, mostrando Kavilmn11yu para companhei-
ros de Bwoytalu e Tukwa'ukwn. Estes últimos (principalmente o
guarda e o tokabitam) ficaram até o final. À 1:30 bebi leite, li algu-
mas páginas de Goldsmith, e foi a Tcyava; lá críquete. Voltei e debati
ko11k1twa com a sra. Kaykoba, na varanda de Bill y. Depois, uma cmta
caminhada até o POfO de Kapwapu. Senti-me forre e saudável - pen-
samentos reprimidos sobre Baldw. Sp. etc. Temei ficar a sós com a na-
tureza. Vi um navio - correio? O que me traria? Notícias de E. R.
M.? Vi, como uma sombra, a possibilidade de algo ruim, um aciden-
te, uma enfermidade. Sensação mernfísica de precarieda1k 11,:s-coitas.
Se ela deixasse de existir, o que seria de mim? Será qtte eu ficaria
i.rremediavelmente deprimido? Ela é a esposa ideal para mim, não
resta a menor dúvida. \/oleei me sentindo forte e saudável e não con-
segtú ficar rea]menre deprimido. -À noite conversei com Bill -
sobre romances etc. - depois me rettni ao gmpo na cozinha. Os corpos
nus delineados sob o perca!, as pernas abertas, os seios ecc. me exci-
taram. Estremeci catalepricameme {sic} algumas vezes, fixando fir-
memente o pensamento em E. R. M. Sempre renco reverter o pro-
blema: pensar nela e se os corpos masculinos despertam imtimos bn110J
semelhantes nela. Isso é como um balde de água fria, e ert es1m11efO
fiJicameme. Depois me sentei com a sra. Togugua e escrevi a 111egwa
de Saykeulo. Dei um passeio na estrada aré Teyava e fiz ginástica.
"Busquei a solidão": o venco estava soprando, as folhas das palmei-
ras estalavam, a lua cheia iluminava as árvores, sua luz resvalando
sobre as folhas das palmeiras e formando sombras. Enquanto fazia
gin<\stica, senti uma fone tensão nervosa; uma sensação de centenas
de braços se estendendo na minha direção, provenientes das som-
bras misruradas - senti que algo escava para me tocar, pular em
UM DIARIO NO SENnoo ESTl\ITO DO TERMO 303

cima de mim da escuridão. 'Jencei recuperar a certeza, a segurança, a


força. Quis me sentir só,• e inexp11g114vel.

Scx:ta, 31.5. De manhã, me senti be.m e vigoroso. Escrevi para E.


R. M. e no meu diário. Revisei os papéis e me sent i soterrado. Fui
a Teyava com o povo de Kudukway Kcla. Lá me aborreci com umas
menininhas. Tentei enxotá-las, mas elas teimavam em ficar. Voltei
para a estrada, pani debaixo de tuna árvore. Os nigge11 estavam me
dando nos nervos, e e\1 não conseguia me concentrar. Volcei por
volca da l hora. Às 2:30 fui para a odila com Togugua, e trabalha-
mos com b11gwaywo, mas ele é um informante medíocre, e eu senti
muita dificuldade. Senti moleza no corpo, quis deitar-me e dor-
mir, e ao mesmo tempo uma inquietação nos músculos e nervos.
Tentei me reanimar e foi a Losuya. - Sensação jubilosa de liber-
dade, vegetação tropical. Tentei formular para E. R. M. a impor-
tância de manter um diário como instrumento de auro-análisc.
Depois pensei no meu trabalho sobre psicologia social, que visa a
uma abordagem basicameme nova da sociologia comparativa. Ime-
diaram cote ao rctornat à Melboutne preciso me dedicar a isso -
farei rrabalho prel iminar, e tentarei convocar E. R. M. para me
auxiliar nessa tarefa. - No caminho de volta: a impressão extre-
mamente desagradável em mim causada pelos missionários: arti-
ficialidade, culto da superficialidade e mediocridade. Caráter: "so-
ciedade secreta". Nas preces deles, eles mencionam o Gqvemador e o
G. e111 Conselho e a ügislaçãJJ (=propósito! práticos); oram a Deus para
que seu trabalho possa ser bem-sucedido, que seu exército seja vi-
torioso e bom - sempre "nós". "para nós" e utilitarismo. Isso me
fez pensar sobre religião: este esp írito do clã; "Deus" como uma
instituição para auxílio mútuo, para erguer um muro entre si mes-
mo e perigos metafísicos e econômicos. A idéia básica de Dur-
kheim** é verdadeira, mas sua formulação desprovida de crédito.

•Grihdt'I r.o originilJ,


..,,.Na rcvi$ÃO feita por fi.{aliil(')wtki e1n Rifl-..l.ffl(dc1.-., 19lS)da obra de Durkhcim W flt,rn.~llbr.t1tfl1ir1J
dt tJ 1/Ít ,~·/ig:i:(/t (/\$ forin;1s <:!tm('Otilrcs da \'idt rcHs:iosa), ele tt)Cl)Cêonou (> $Cguinte: "o d<:o& do d ã,...
JX>dc, portanto, ser aptt.-M o pr6p-riot:li ..... O O)tudo se wcontm no Jiv10 ~·iJ, (11/:111'11~ mil6.
304 BR01'15LAW MALINOWSKJ

Al ém do mais, seu ponto de vista é falso, pois ele começa pelo fun-
do, com os ausrralianos. Existem sociedades ec111111111idades não-reli-
giosas• (ilhas Canárias), bem como religiosas. Religião g raL1 de =
coesão no sc nrido do privilégio mcrnfísico. O conceito de "um povo
escolh ido". Esrndar do mecan ismo sociopsicológico disso. - Meu
trabalho cm polones versa sobre "pcnsamenco e ação místicos". Re-
ligião como caso especial = misticismo e coesão. Acrescentar isso!

S~bado, 1.6.18. Onrcm: pela manhã me senci muito mal; dcpais de


escrever o diário, carta a E. R. M. etc., anotei megwa com a sra.
Togugua; não correu muito bem. Depois do almoço, comecei a ler
um romance ordinário; terminei às 5 (Revo/1 [agaim1] the l'nw -
Revolta contra os destinos). A noite, sentimenros de culpa, nervo-
sismo (me cmpantmrci de caranguejos), não fiz nada, me aOigi. Quase
incapaz de pensar em E. R. M. - cm razão dos sentimemos de cul-
pa e uma amnrga autocensurn. (Reg istrarei outra vez os eventos de
cada dia cm sua própria dara, não com a dara do dia seguincc).

1.6.18. Pela manhã me senti mal, remoendo os scntimencos de culpa


do dia anterior. Resolvi dar uma longa caminhada à rareie e trabalhar
em Kudukway Kcla. De manhã havia terminado de revisar meus pa·
péis e escava pronto para começar a crnbalhar, quando Billy propôs
uma caminhada até Olivilcvj ou Tukwa'ukwa. Fomos. Billy tirOLt fo.
tos, el• perambulei pela aldeia. Depois observamos v"'otu. - Isso me
deixou excitado, desequilibrado. l i Rivers; o trabalho ccórico me arrai.
Pensei, ansioso: quando serei eu ca1nz de medicar rranqiíilamcntc cm
alguma biblioteca e revolver idéias füosóficas? Fui a Kudukway Kcla e
resolvi rormular minhas idéias teóricas. Mesclei isso continuamente com
as críticas de Rivers ad homi11em de Scligman. Pensei em formular isso
para E. R. M., e acabei pensando em escrever "lntrod11ç,i.() à sori.()fogir1
co111j!aratit1a" (ln1md11rfío mi es111dorlas11tiologiacompara1iva), que reria um
tom diferente dos livros-textos comuns - mlútO mais livre, mais in-
formal, dt111dq dicns eperfis. Livre da "11e111ralidad/' arndêm ica e comcn-
UM D1Aruo NO SENTIDO Esmrro DO TERMO 305

do mtúcas coisas sub beneficio inventarii. Escrito em um estilo forte,


impressionanre, divertido. Se eu p recisar passar mais um ano em Mel-
bourne com Paul e E. & Mim, vou escrever um rascunho deste livro e
dar um seminário uma vez por semana sobre o assunto. Esca Inrrod.
deve ser diferente do tratado completo, que também devo escrever, e
no qual vou desenvolver a concepção básica (Tono Bungay•): "Corres-
pondências sociojisit·ofógicas"= oes111do principal w1isiJte em compmnder romo
ris idéidS (sociaü) & einstillti§ííes sociais 1'eagem11111as sobre as o/itras. Omt1dtl
do mental (qm é.remfm individ11al, diferencial) se /Qma o~jetivo, <WJJolidada
em 1111NJ imtit11ição & iJso volt.a a at1111r sobre oindivid!lo. Seria ótimo escre-
ver um artigo de cerca de 100 páginas e publicá-lo no]A.l. ou em
algum pea·iódico científico americano. Em Kudukway Kela, um mo-
mento de constrangimento quando me sentei entre niggers e não sou-
be por onde começar. Depois eu os levei para a sombra de uma árvore
e conversamos - os resultados não foram ruins. No caminho de volta
eu já escava cansado, e não consegui pensar intensamente. À noite rra-
balhei com Togugua, que dá um (rabalho enorme. Li as cartas de E. R.
M. Sob o mosquiteiro tive pensamentos lascivos desnecessár(os sobre
E. E. etc.

Domingo, 2.6.18. Senti-me lépido e saud:ível. Pela manhã, um cu-


multo medonho e comoção na varanda. Dei uma caminhada curta
tentando me concentrar. Definição das minhas péssimas condições
psicológicas há alguns dias: ansiedade, espera por algo que estava
por acomecet. Sensação de calma e certeza: continuo fazendo meu
trabalho, sem esforços nem ince.rrupções desnecessários; devo traba-
lhar com constância, sem adiamentos e sem s111·chr111ffage. - Revisei
1\s anotações, copiei. Às 10:30, fui a Tukwa'ukwa; consegui que
Kaykoba trabalhasse bastante comigo sobre o bwaga'11. Pretendi'<! ir
a Kudukway Kela à tarde, mas não fui, li Rivers. Às 4 comecei a
trabalhar com bwaga'n e, apesar de grandes obstáculos (crianças e
niggeJJ berrando e fazendo arruaça na varanda), consegui fazer algum
trabalho. À noite, aguaceiro. Se.ntei-me com Billy; comecei a revisar

,.Ro1n~n<e de l·I. G. \'fcUs (1$109).


306 0R01'1$LAW MALINOWSKJ

e copiar o material sobre bwaga't1. Conversamos sobre maçonaria, e


cu tentei convencê-lo de que esses cais mistérios maçônico; não cxis
tem, que Raffael é um maçom legítimo, e que ele me contou tudo
que há para saber sobre maçom~ria. Manifesrei meu desprezo pcl.1
maçonario brirânica. Excedi-me ao mitm- do assumo. Minha autori-
dade perde força por ser explícita demais. Deve-se debater as coisa1
de homem para homnn, não tx cmhulra. - Recolhi-me às 10. Senti·
me pcrfeirnmence bem o dia inteiro.

Segunda, 3.6. Pela manhã não me semi muitosonolcmo,a/iáJ, dor-


mi mal, pois não caminhei ontem. J..cvamei-me às 6:30, com von-
tade de me dedicar ao trabalho, nrns teórico, não prático. Disse ,,
mim mesmo: preciso observar e conversar, mas também manter os
olhos abertos e não deixar passar nenhum detalhe, nenhu m m/1tc·
to. Pura esse fim, devo estudar continua mente meu material, bem
como ler Rivers e observar os 11iggers, e conversar com eles. Esc.1
manhã, chnva, um idade. Preciso rtvisal' o fonógrafo e Yiteku cem
de canrnr 1>ara mim. Preciso preparar a bagagem e ficar pronro par.1
partir no momento em que o tempo melhorar. De manhã, 11m,1
chuvarada violenca; trabalhei com bwaga'11 até as 12, de forma in
tensa e eficaz; quebrei a "noz" e me preparei para aprofundar-mr
mais ainda e completar a construçiío. - Às 12 quis ir até a aldeia,
m11s me semi fraco e cansado, resolvi descansar e dar nma cnmi
nhada. Contudo, a chuva csrnvn force demais; volcei e, ti/mm· dt·
ttl(/o, fiz ginástica. Depois do almoço, bwt1gt1'u outra vez até as~
Em Tukwa\1kwa não consegu i informantes, e fui a 1eyavu. Um.1
hora na varanda - não das piores. Depois do almoço, outra mc1.1
hora. Depois acionei o fonógrafo, embora não conseguisse arran
car nem uma nora dele - Viteku não quer cantar para mim. -
Voltei, e cm vez de trabalhar (cu esrnva com vontade), converst·1
com Billy - nossas memórias teóricas. Depois, de 9 às 11, comei
notas de Ji/a111i. Recolhi-me. M., 411e é uma proscirnta vulgar, fc1
um alarido tre mendo. Pensei cm como receberia llilly cm Melbour
nc, !l(l casa de Paul, de Emest, na de meus afins - mais umn vc7
falca de entusiasmo pelos últimos.
UM DIÁRIO NO SHN'rJl)O ESTRITO DO TERMO 307

Te1·ça, 4 .6. Dormi mal, bebi chá demais onrem e comei dose dupla
de iodo. Fui despertado por um imbecil que berrava furiosamente.
Pensei em E. R. M. - no silên.cio dela de l .4 a 14.4 - será que
algo poderia ter acontecido naquele período' Teria ela me traído?
- 11111-jiiccolo 11wmen10 di debolezza - com Paul? Eu a rejeitaria? Não.
N ão teria direito de fazer isso. Não sinco que possa nem queira
repud iá-la. Uma complicação terrível. Estrnnhamente, este pensa-
mento aumenta o charme senSllal dela. Um furioso assomo de pai-
xão por ela. Durante d tlis dias e u havia pensado nela continuamen-
te, e ela me atrai demais. Penso nela como m inl1a esposa. De facto
escou casado. - Decisão: fazer as malas e ir para Omarakana ama-
nhã. Hoje é um dia frio e nublado, mas até agora não choveu. -
'frabalhei bem o dia inteiro, sem lapsos. De manhã quis termina r
btvagrà1. Não encontrei informames em Teyava. Fui a uma horta com
um grupo de crianças: excelente·s informações. Anotei tudo ao c he-
gar. Estava exausto. Depois do almoço comecei imediatamente a
organizar os papéis e as coisas. Depois, das 4 às ) , revisei os manus·
critos, também noras sobre Oburaku. Necessidade de exercício físi-
co. Corri até Olivilevi. Idéias gerais sobre metodologia. p,ecendia
revisar meus papéis depois do jantar, mi•s Mukwadeya & Cia. me
deram uma seqüência coerente d e detalhes inceressanccs . Fiz algu-
mas anotações. Depois me sentei para concemplar o horizonce a oes-
re. Passava wn a brisa fresca. Pensei em ... E. R. M., n.acural.m ente, e
cm que mais? Procurei rcla.xar.

Quarta, 5 .6. Senti-me debilitado ao me levantar. Tomei calomclano


e sais, e evitei comer. Depois me senti melhor. Encontrei um 1·0-
mi111ce d e Meredith. Saí para d ar uma volrinha, tentei me concen-
trar. Idéias sobre método. Analisei a 11i1tureza d a minha ambição.
Uma ambição nascida do meu amor ao trabalho, pela e1nbriaguez
pelo meu trabalho, minha crençii Jl<\ importâ ncia da ciência e dn
a rce - ol hos voltados para o trabalho oão vêem o arrisca - uma
ambição que provém de ver consrnncemente a si mesmo-, o ro-
111'tnre ria própria vida; olhos voltados para a própria forma. Lides-
crição de Sigismund Alvan, e isso imcdi>uame nce me de u cqragcm
308 BRONISLAW MALlNOWSKI

para continuar trabalhando. Ambição externa. Quando penso no


meu trabalho, ou nos trabalhos, ou na revolução q ue pre tendo efe-
tuar na antropologia social - essa é uma ambição verdadeiramente
criativa.

Omarnkana, 8 .6. 18 . Naquele &a (5/6), trabalhei a manhã inteira,


revisando minhas notas anteriores e fuzendo planos para o futu ro. A
1, Harrison a pareceu; eu o choquei com min ha ling11agem fJf'di11ária e
comentários insolentes sobre relig ião. Tencei aprender algo inreres-
sante com ele. Notkias da guerra - até elas atualizadas - e fofocas
de Samarai, as únicas[ ...) Depois ele começou a falar de cenografia,
e fe~ algumas observações; conversamos sobre o krda. U ma impres·
são bastante negativa. Ele não consegue captar minha terminologia,
me con tradiz e tem pomos de vista estúpidos e medíocres. - Conver-
sar com ele me causa u ma congesrão cerebral. - Saí de bote; isso
também não me relaxou. À noite, não consegui fazer a bsolutamente
nada. No dia seguince, em vez d.e jejuar, comi um mny pesado, de-
pois fiz as malas. Terminei depois das 12, mas me senti.a comple ta·
mente arrebcncado, tive de me deitar à rarde. Senci-me como q ue
acometido por alguma doença súbita. Simplesmente uma force e n-
xaqueca causada por congestão cerebraL Uma vez mais, o princípi0:
"o descanso é uma forma extremamente importante de trabalho".
5.6. Manhã, trabalho. Meio-dia, Harrison. Tarde, bote, enxaqueca.
6 .6. P reparação da bagagem .. Enxaqueca. Li CtJ/Jt. Calamity.
7.6. Moleza. Acabei de me preparar. Fui para Omaraka na. Sen-
ti-me cem por cento.
8.6. De ma nhã, me semi nitidamente cansado e fraco.
- Manhã de sexta-feira [7.6], estava chovendo. Luta entre a
moleza e o desejo de me libertar.. Finalmente, consegui me pôr em
movimento, embora me sentindo mal-humorado e apático. Parei à
1. Uma cerra empolgação ao pensar que cscariaoucra vez em Kiriwina
e Omarakana. Tracei planos: corno me comportar em Omar. com
relação ao ta baco. O q ue fazer, oo que t rabalhar etc. Idéias acerca de
métodos de trabalho de campo. O principal princípio do meu traba-
lho no campo: evitar as simplificações arcifici11is. Para esse fim, co.
UM DIÁRIO NO Slit>l'IDO ESTRITO DO TBRMO 309

lher tanro marerial concreto quainco possível; observar cada infor-


mante; trabalhar com crianças,joraueit'OJ e especia/is1as. Anotar esc/a-
recimentot mbtidiál'ios e opiniões.
Esta 111a11hã despertei cedo (11ãQ dom1i m1tito bem e tive dois horríveis
pesadelos. No primeiro, do ripo freudiano, scncimenco de pecado, mal,
alg<> decescável, combinado com luxúria-repulsivo e amedroncador.
De onde será q uc vefo? E esse sentimento de maldade, que sobe à
superfície. A seguir, me senti indolente e não sei por onde começar.

25 .6. LS.
8, 9.6 Sábado e domingo me senti fraco- não comi nada.
10, 11.6. Segltnda-feira (dia 1O) escrevi cartas (domingo, malote de
Gusaweta, li febricitante). Segunda, li Pa1riâan. Na manhã de terça, me
senti bem, me levantei. - (...} 2 cartas regiscrada5. • Enviei Ginger -
fi.ú ver se ele não escava roubando yag11111a. Entrei no mato e me desfiz
em lágrimas. Saí por causa dos mosqtúcos. No caminho para Ttlakaywa,
parei em alguns trechos e chorei, aos soluços. (Há experiências às quais
a memória não rerorna.) Depois me sentei dentro da tenda e escrevi uma
cana a E. R. M., na qual crisi:alizei meus sentimentos - frases que so-
bem à supérfkie das emoçfies qltal espwna. - C.aminhei até raybwag
via Tilakaywa. Thkulubakiki•• se juntou a mim.
12.6. Cartas para os Stirlir1g, para N . Walk via Kabwaku,
Okaykoda, Obowada.
13.6. Tomei a escrever cartas, e tornei a dispensar Ginger. Ca-
minhei sozinho até 1hbowada.
14.6. Li Dostoievski - uma vista de olhos, não consegui ler a
sério, medo de trabalhar.
15.6. Li]a11e E;•re. Comecei oum dia e li o romance inteiro até 3
ou 4 da madrugada.
16.6. Buritila'rdo em Wakayse-Kabwaku- as primeiras coisas
nas quais volcei a trabalhar.

t () dia 26.(') moslr.! d a 1a1u cnt~ que c$t11$ i;.11rCa$ trouxer,, m a notkin da morcc da ffiiC> dele, nunHI
.:poc-.J. ;int«ior do a.no.
•·~"!Oku l ubakik i , um i1n1>t>r11uHe info1ma1:te; }.1<J]iiwwski te r<:Ítrfo a de<omo "meu melhor arniSo"
~:n A i-ida StXUf.J/ ~J #ft>a~1n .
310 BRONISLAW MALINOWSKJ

17-24.6. Período de concentração no trabalho. Quase indife-


rente em relação ao pesar. Li romances (trechos de]ane Ey,-e). Trà-
balhei exaustivameote. Cheio de ambição e idéias. Pensei no "Novo
Humanismo" - na minha cabeça, voltava continuamente a meu
tempo de estudos na Cracóvia. Sobre a crítica da história. Sobre a
natureza da soc iologia. Pensei um pouco em E. R. M., mas os pen-
samentos sobre ela são dolorosos. Vivo para o meu trabalho amai e
planos impessoais para o trabalho científico. - Ambições exter-
nas rastejam sobre mim como piolhos . R R. S. [Fellow (Membro)
da Royal Society) - C. S. I. (Membro da Ordem da Estrela da Ín-
dia] - Sit: 7 Pensei em como um dia vou estar no Who'.r \li'ho etc.
etc. É verdade, tentei desviar minha atenção disso; lutar contra essas
idéias. Sei que o momento cm que obtiver um titulo nada signifi-
cará para mim. Que, no fundo, não acrediro em disc.inções, as des-
prezo, que calvez aré mesmo as rernse. Em cercos momentos, sau-
dades da Austrália, de Paul & Hedy, de E. R. M. Pensei em N. [le-
tra dentro de um círculo].
24.6. Caminhei até Kaulagu com Ogisa. Acabrunhado pelo pe-
sar, solucei. Depois uma profunda. tristeza e fadiga. Sentí-me tão fomi
e saudável agora - e tudo isso não tem importância alguma. Sei
que, se eu perdesse a visão ou a saúde a.gora, facilmente cometeria
suicídio.
25.6. De manhã trabalhei com calma, sem s11.-chmiffage, e tirei
fotografias. Depois revíseí minhas notas e as aumentei. A seguir fui
caminhar via Kkabwakt1, Okaykoda. .Mtuco rnnsado. S(>lucei e fi.
quei muito triste. À noite tornei a trabalhar. Maravilhosa noite
cnltrnrada. Ftú a Yourawotu; uma angústia e um pesar irrefreáveis
inundaram c11do. Solucei. Ao luar etc., pensamentos lascivos.

26.6. Esta manhã, senti que deveria retomar o diário. Fui a Yott-
rawocu. Pensei em ambições externas. Planos de ir à 1\mérica, -
1àmbém disrnti mentalmente com Baldwin Spencer. Reflexões an-

'Jl to!<> :1.1Hepo$tQ aoo pre noJn t $ de b:ironctcs e '""a?e-iros. t.íalino·;.·ski ambklona\•a ch~gar a sct
feitoca.,,aleü o. (.~. 11<1'/'.)
UM DIÁRIO NO SF.NTIDO &~nuro DO TERMO 3 ll

gusciantes sobre mamãe - de nflda adi\\Jlcam. De manhã, trabalhei


com afinco, mas idéias gerais me cansaram . Às 11 :30 fui dar uma
caminhada breve. Depois, [bibodt1ya] 111eg1vrt c<>m 1bkulubakiki. De·
pois do almoço, simplesmente exausto; tirei uma soneca, mandei
Ginger a Gusaweta. A seguir megwa b11/t1bwalata. Talvez eu esceja
incapaz de raciocinar, mas consigo escrever. Caminho via Kabululo,
Kudokabilia, {Kanirnuanimuala). Tempo fechado, a garoa vai e vem.
- Eu escava cão cansado que quase adormeci enqltanto andava.
Durante todo o tempo, pesar - como se uma faca tivesse sido en·
cerrada no meu coração-, desespero. Reflexões desenconrradas sobre
o meu trabalho. - Pensamentos metafísicos, um pessimismo irre·
mediável. "Wàne 11111; bt1/de mhest d11 t111ch"' - consolo no pensarnenco
da rnorcalidade. Mal, destruição - durante a manhã, vi uma bor-
boleta com asas multicores, e a forma deplorável como morreu. A
beleza externa do mundo - um brinquedo sem importância. Ma-
mãe j;í não existe mais. Minha vida at ingida pela dor - metade da
minha felicidade foi destruída. - Dnrái'lté todo o tempo senti pesar
e uma tristeza desesperada, cal como senria em criança quando me
separaram de mamãe d urante algu ns dias. Resisti a ela rnm a ajuda
de fürmulas superficiais. Fecho os olhos - mas as lágümas fluem
constantemente. Barbeei-me. Comi pouco, dormi muito be.m.

27 .6. Dia frio, céu e11coberto. Trabalhei até o pomo de rotai exaustão,
com técnica excelente, ou seja, sem esforços desnecessários. De ma-
nhã, Tokulubakiki e Tokaka'u de Tilakaywa. Depois só Tokaka\1.
Depois do almoço, uma conversa rápida com Towese'i, depois füi o b-
serv<tr a construção de uma grai1de g11gl(/'1, e a K waybwaga, onde eles
estão assando b11'11kwtJ. Depois, uma caminhada currn com 1okulu-
bakiki. Senti-me debilirado e fiquei imaginando se deveria arriscar uma
caminhada longa ou me deitar pa(a dormir. - Fui a ~f cava, e isso me
foz um bem enorme. Quando re·cornei, escrevi wosi: para escrever e
traduzir 8 d ísticos myb11ttJ levei 2 horas! Li Ptlp11m1 Times, e fiquei im-

..."Espc1e \!tn pouco, toso dcsc.tns.'!rdr. <a1nbé"m" - o óhin'o vt"rso da canção de Goethe e Schutx-u
mcndon:id<t oa Pnrtc I.
312 BR0NI$LAW MALINOWSKI

pressionado com o artigo de Murrny. Sentimentos e pensamentos: a


tristeza e o pesar tudo permeiam. No momento em que deixo de me
controlar, meus pensamentos vokam à Polônia, ao passado. Sei que
tenho um abismo negro, um váCLto, na alma, e, com toda a mediocri-
dade emocional peculiar. a mim, tento evirnr o abismo. Mas minha
tristeza é imensa e profunda. Não tenho pensamentos alegres. Uma
sensação do mal da existência. - Penso constantemente no otimismo
superficial das crenças religiosas: daria qualquer coisa para acreditar
na imortalidade da alma. O terrível mistério que cerca a morte de al-
guém querido, próximo a nós. A óltima palavra não p ronunciada-
algo que deve.ria esdarecer é enterrado, o resto da vida se encontra
meio oculto na escmidão. Ontem, durante minha caminhada, semi
que a felicidade e a alegria de viver, cm sua forma verdadeira e com·
pleta, fogem de mim sempre que tenro aproximar-me delas. - On-
tem, deliberadamenre afastei as idéias e planos ambiciosos. - Du-
rante minha caminhada pensei que algum dia gostaria de conhecer
Anatole France, Wells - será que conseg\1irci?

28.6. Dia frio e nublado. Estou continuamente à beira da exaustão,


mas desde qtic recomecei a tom;tr iodo não apresentei mais sinto·
mas infecciosos de fadiga, estado fehil, apatia, embotamento men-
tal. Agora tenho freqüentemente a sensação de estar "no fündo da
consciência" - a sensação da base física da vid;t mental, a depen·
dência desta última em relação ao corpo, de forma que cada pensa-
mento que flui sem esforço em algum meio psíquico foi laboriosa-
meme formado dentro do organismo. Também busco uma ccono·
mia interior. Umn vez mais passei o dia inteiro na tenda. De manh~.
Namwana Guya'u, e terminei a cradução de>silami dele; depois do
almoço, Monakewo,• Yobukwa'u e Nabwosuwa; comemos doces, e
terminei as listas de esposas de guya'11. - Durante o i11tcrvalo, ten-
tei cochilar durante meia hora, mas sem resultado. - À noite, ca-
minhad<t até Obweria. 1omei a me sentir acabrunhado pela tristeza

ºi-1onakc--....,o era um informante imponantc, <on~ idcradopor t.talinov..-ski um amigo seu. \"obukwa'u
era t'ilh<> de To'ufu\\>a.
UM DIARIO NO SENTIDO ESTRJTO DO TERMO 313

e pelo desespero. Nenhum pens~\mento brilhante, cálido, ensolarado


pode me ocorrer agora, durante minhas caminhadas solirárias. Pen-
so cm meu desejo de sair daquj - e volto a sentir vontade de ver
mamãe, que jamais será saciada. - Fui dar uma caminhada; estava
chuviscando, a noite caía, a estrada molhada reluzia ao crepúsculo.

29.6.18. De manhã, fui ao ligabe em Kwaybwaga e tirei fotos do


ka/iJMlll)IO. - À tarde trabalhei na tenda. À noice fui a Liluta, onde
um homem havia morrido e eles faziam )'t1w1i/i. Senti-me muito can-
sado e tive medo de cair de cama por vários dias (à 11oite tomei quinino
e aspirina e hoje, 1.7, me sinto bem). - Voltei apoiado em Monakewo
e Yabugibogi.* A noite li um pouco ífane Eyre); a lua - saí e solucei.
'fambém sob o mosquiteiro.

30.6.18. Domingo. Manhã bon~ca; passeamos ao l<mgo dob1dmbrll::u e


contamos tay111. Depois do almoço, rrabalhei um pouco com Toku-
lubakiki e Tokaka'u, depois fui n Kasuna'i, onde eles escavom construin-
do um bwayma. Depois ttabalhci com Paluwa,•• Mooakcwo & Cia. A
noice fui ao [ib11bak11J e conversei com Monakewo sobre cópula. De-
pois me sentei e escrevi, e traduzi Rag<qewo. - A seguir fui dar tuna
caminhada e to~nci a chorar. A()Oitc, sonhos tristes, lastimosos, como
sentimentos infantis. Sonhei com Varsóvia, com nosso apartamento
no internato, com o aparcamen<O de alguém com banheiro (Zenia e
Sra' s) em Va.rsóvia. Tudo permeado com mamãe. Acordei de minuto
em minuro. Pela manhã estava afogado pela rrisreza. Saí e chorei na
estrada. -Súbitos vislumbres de compreensão, visões do passado. A
vida tcanspassada pela flecha do pesar, senrimencos de culpa., coisas
irrecuperáveis. - Pequenos decalhes recordados: as roupas de cama
que mmnãe me deu quando parti. Lembranças e associações toncínuas.
Em certos momentos, um pranto agudo, temo - eu choro (o fausto
dos sentimentos forres. Em outros momentos, sentimento genuíno de

*Y.i bugil>osi, outro filho d<: To'uluwu, é n;cn<ior.;ado cm A v:'da Sr'XNfll co1no ..t-a h•cz o n1ais odioso
C11b:tnjátlor tlAC<)1ll \11i id~de ir11cira."
•"l>aluwa cr11 pai de Monakcwo; a fllhn dele, lscpuna, caso1.1-sccom um íilho do ch<fc, eos proble-
ma.' qu:uu<> a.(I seu <iot<: :iio mençtl.>nidi).$ cm .A :Jid.'l Yxnaf.
314 BRO:-JISLAW MALINOWSKI

luto, desespero, insensibilidade cm razão da crisreza. - Muitas coisas


que não posso encarar - voltar à Polôrúa, lembranças dos últimos
dias, coisas desperdiçadas. Trabalho científico e planos para o fururo
são as únicas coisas que me consolam - mas às vezes sou arrebatado
pelo pesar, mesmo assim.

1.7. 18. Metade deste ano execrável já passou! Noite passada, ima-
ginei o que faria se perdesse o manuscrito inteiro. Será que E. R. M.
não seria roubada de mim de qualquer maneira?

16.7. Duram.e duas semanas não escrevi o diário. Durante rodo esse
tempo minha saúde foi boa, minha capacidade para o crnbalho, exce-
lente, e trabalhei bascance. De manhã, depois de levantar, os 11igget1
vinham para ogimwafi. Trabalhei muito com Tokulabakiki - grande
progresso na magia e na lingüística. Durante o trabalho eu normal-
' vezes - apena~
mente fico calmo, ocasional!ricmc:; jlté me alegro. /\~
à tarde - , acoln panhando as palavras de megwa, emergem imagens
do passado. - Itália, as ilhas Canárias, ou outros !usares que visitei
com mamãe. Depois vou dar u.ma caminhada. Por algum tempo fi-
quei calmo e desligado, depois semi um reaparecimento imensamen-
te forte da tristeza. 1bdos os dias eu dava uma caminhada sozinho e
chorava. Minha vida inteira asstuniu uma ronalidade cinzenta. Somente
em alguns momentos eu desejo intensamente ··viver" - escar com
amigos, com Elsie, estar na Austrália, escrever, exercer atividades.
Ocasionalmente rudo parece cão cinzento que não sinto qualquer de-
sejo atttêntico de mudar de ambiente. - O tempo está maravilhoso.

{Do "diário ret rospectivo"]


18. 7.18.... solm a teoria da religião. Mit1ha posição ética com relaçfü)
a mamãe, Sta' s, E. R. M. Dores de consciência proveniences de falta de
sentimentos integrados e de aucemicidade em relação aos indivíduos.
Minha ética inteira se baseia no instinto fundamental. da personalidade
unificada. A partir disso vem a necessidade de ser o mesmo em diferen-
ces si mações (verdade em relação a. si mesmo) e a necessidade, indispen-
sabilidade, da sinceridade: todo o valor da amizade se baseia na possibi-
UM OlARIO 1\:0 S~NTIOO llsTR!TO DO TERMO 315

!idade de se manifestar, de sermos nós rncsm05 com absoluta franqueza.


Alccrnativa entre wna mentira e estragar um relacionamento. (Minha
conduta para com mamãe, Sras e todos os meus amigos foi arciflciaJ.) -
0 amor não flui da écica, mas a ética do am\>r. Não há como dtoduzir a
ética cristã da minha teoria. Mas essa ética jamais exprimiu a verdade
real - ame o seu próximo - no grau rcaJmenre p05sível. O problema,
no fundo, é o seguinte: por que você sempre deve se comportar oomo se
Deus o estivesse vigiando?

18.7.18. O tempoesrámaravilhoso-océuesnl nublado quase todo


o tempo. Desde 1/7 não chove; está frio, visco agasalhos. - C11da
mín imo detalhe me lembra mamãe - meus rrajes e minha roupa
de carna que ela marcou. Co11tci as daras a partir de 29 de janeiro.
Lcmbrnnças: Cracóvia, incernaco e Varsóvia. Penso - porém (. ..] -
em voltar à Polônia, enconrrar titia, a sra. Boronska, a sra. Wickowska.
Meu rempo de ginásio; lembro-me de Szarlowski e ourros professo-
res, mas Sz. mais vividamcntc que os outros. Plamy (jardins públi-
cos na Cracóvia], disposições marinais, volta para casa. Às vezes vejo
mam1\c ainda viva, com um cha~u cinzenco macio e 11m vestido cin-
za, ou ni1m vestido caseiro, ou de vestido preto, com wn chapéu prero
redondo. - Mais wna vez pensamencos assusradores: morre, um
esqueleto, pensamentos nana rolistas intercalados com dor no cora-
ção. Minha própria morte está se tornando algo infinitamente mais
real para mim. - Forte sentimento - ir me encontrar com ma-
mãe, juncar-me a ela no seu nada. Recordo das coisas que mamãe
costumava dizer sobre a morre. Lembro-me das incontáveis ocasiões
em que eu deliberadamente me separei da mamãe, para ficar só,
independente - não ter a scnsaç~o de ser parte de um todo - re-
morsos violemos e sentimentos de culpa. -Nossos últimos momen-
tos juntos em Londres - nossa. {1ltima noite estragada por aquela
prosciwm! - Sioto que se eu estivesse casado com E. R. M. teria
me comportado de forma mui to diferente. - As úlrirnas palavrus
de mamãe, o que ela teria me dito acerca de seus sentimentos, me-
dos, esperanças. Eu nunca me abri com ela, nunca lhe contei 111do.
Agora, se não fosse por c-ssa gue rra desgraçada, calvez eu civcssc lhe
316 BRONlSLAW MALINOWSKI

dado mais em minhas cartas do que fui capaz de lhe dar pessoal
mente. - .Em cercos momenrns simo que esta é apenas a morre de•
''algo" dencro de mim-minhas ambições e apetites exercem g ran·
de influência sobre mim e me atam à vida. Vou experimentar o júbi-
lo e a felicidade(?) e o sucesso e satisfação no me11 trabalho - ma~
tudo isso perdeu a importância. O mundo se desbo rou. - Todos os
sentimentos de ternura da minha infância recomam: sinto-me como
quando me separei de mamãe por alguns dias, voltando de Zwierzy-
niec com papai. -Retorno mentalmente a Anna Br. - como tudo
desapareceu de minha vida sem deLxar vestígio - à traição de Sta:!
e N . S. Realmente, e u não tcn.ho u ma personalidade genuína.
GLOSSÁRIO DE TER.MOS NATIVOS
Matio Bick

Estes diários abrángem temporadas que Malinowski passou na re-


gião de Porr Moresbi•, na região tk J\failu e nas ilhas Trobriand, e
estadas mais breves na ilha de \Voodlark e nas Amphlett. Ele parece
ter empregado quatro línguas no seu trab,1lho de campo: o Moeu,
nas regiões de Porc Moresby e Mailu, o Mailu, o Kiriwino e opidgin.
Minha pesquisa sugere que termos nativos provenientes de algu mas
das outras ilhas, particularmente de Dobu, também aparecem nos
diários.
Os diários foram escricos em polonês com uso freqüente do in-
glês, de palavras e expressões cm alemão, francês, g rego. espanhol e
latim e, naturalmente, termos das línguas nativas. Uma das ptind-
pais tarefas ao se preparar o G lossário foi selecionar os componentes
dessa miscelânea ling üística, tarefa essa consideravelmente compli-
cada pelo faro de que a caligrafia de Malinowski era diflcil de ser
decifrada. Freqüentemente, no caso de palavrns legíveis apenas pela
mewde, não ficava claro a qual idioma pertenciam. Se for possível
identificar mais dessas palavras, as definições serão inchúd;is cm fu-
turas impressões.
318 BRONJSLAW M11LJNOWSKI

Como eu não conhecia as línguas nativas utilizadas, surgiu um


segundo problema a partir da necessidade de separar os termos na-
tivos referentes a lugares e indivíduos daqueles que aparecem nos
vocabulários comuns. Por conseguinte, compilei três lisrns: topônimos
(complicada pela inclusão de copõnimos da Austráli<i e da Enropa,
nein sempre identificáveis de .imediato como não-melanésios); no-
mes de pessoas (muitas das pessoas mencionadas nos diários eram
européias, e Malinowski costumava se referir a elas por apelidos ou
abreviaturas); e termos nativos.
Identifiquei os topônirnos co rn a ajuda de d iversos mapas conti·
dos nas publicações abaixo:

Bronislaw Malinowski, The Nafives of Nu/Íl11, 'Framac1io11s and P1we-


eding1 o/ the Royal Sociel)' ofSo111h A11st1~J/ia (Os nativ<>s de Mailu,
trabalhos e ações da Royal Society do Sul da Austrália) 39:494-
706, 1915 (lâmina 26)
____, A1-go11a111s of 1he \V.:ste-m Pacific (Argonautas do Oesre do
Pacífic<>), l<>ndres, George Roudedge, l922 (pp. xxxii, 30, 50,82)
____, The Sex11r1/ Lifa o/ Savages in Nonh-Westtrn Me!anesia (A
vida sexual dos selvagem na Melanésia Ocidental), Nova York,
Halc)'Oll House, 1929 (p. xxix)
_ _ __, Coral Gttrdms anr/ Theif Magic (Os jardins de coral e sua
magia) 2 vols., Londres, George Allen and Unwin, 193 5 (figura 1).
Nacional Mapping Office (Departamenco Cartográfico Nacional),
"Map of the Territo ry of Papua a nd New Guinea" (Mapa do ter-
ritório d a P:ipua e da Nova G uiné), compilado e desenhado para
o Departamento de Territórios pelo Deparcamenco Cartognífico
Nacional, Ministério do Inte rior, Canberra, Auscrália, 1954.
H. A. Powell - "Competicive Leadership in Trobria nd Political
Organization (Liderança competitiva na organização polícica das
ilhas Trob riand), j111mal o/ the Royal Amhropological bmit11te,
90: 118- 145, 1960 (p.124)
W.]. V. Saville -ln Unknown New G11ima (Na Nova Guiné desconhe-
cida), Londres, Seeley Service, 1926 (mapa final)
C. G. Seligman, The Mef,mesi,ms ifBritúh New G11illea (Os melanésios
lht DIÁRIO NO SENTfl)O 'ESTRITO 00 TERMO 319

da Nova Guiné Britânica), Cambridge, Cambridge U niversity


Press, 1910 (mapa final)

Muicos nomes de pessoas foram ideocificados em obras de refe-


rência padronizadas, nas próprias obras de Malinowski, nas obras de
Saville e Seligman mencionadas acima e também nas seguinces:

Rnymond Firth (org.) - Mn111111d C11/t111~: An Ew/11atio11 ofthe \ll!lrk


of Bronislaw /\fali11owski (Homem e culcura: Uma avaliação da
obra de Bronislaw Malinowski), Londres, Roudedge and Kcgan
Paul, 1957
Gavin Souccr, Nw G1tinea: Tht Last U11know11 (Nova Guiné: A últi-
ma fronteira desconhecida), Nov.1 York, Taplinger, 1966

A inclusão de címlos de livros e reviscas, bem como nomes de


amores obscuros, aumento u a complexidade. Muitos foram iden-
rilkados por meio de guias de referência padronizados. O fato de
Malinowski gostar de trocadilhos (Firch, op. cir., pp.1 0- 11) acres-
centou mais um risco à identificação de alguos cermos, deixando
diversas dessas identific11çõcs abertas a questionamentos. Por fim,
os vários trechos cmrecortados exisre nces nos diários cornaram di-
fícil ut ilizar o contexto como ferramenta para identificação dos
cermos.
Há poucos bons dicionários e gramácicas das línguas nativas
usadas nos diários e rodos inacessíveis parn mim (para obter uma
relação recente de todas as fontes lingüísricas da região ver H . R.
Kliencberger, Bib/iogtt1phy o/ Ocea11ic Li11gliiuics (Bibliografia da
linguística oceânica), London Oriental Bibliographies, vol. l, Lon-
dres, Oxford University Prcss, 1957. Consegui, contudo, sele<;io-
nar a partir do relatório de Malit1owski sobre Mailu um glossário
dos termos nacivos liberalmente espalhados pelo texco. Este glos-
sário serviu de base pnrn a identificação de termos do M<lilL1, em
conjunto com a obra de Saville anteriormente mencionada e com
\\S seguintes:
}20 .6RONISLA\\7 MAUNOWSICT

Perer A. Lanyon-Orgill, A Dictio11ary o/ tht Mai/11 La11g11agt: lldited


a11d 811/al'ged from the Rman:hes o/ the Rev. \V.]. V. Savillt r,/lld the
Comte d'Argigny (Dicion~rio da língLrn Mailu: organizado e am-
pliado a pnrrir das pesquisas do Rev. W.]. V Saville e do Conde
d'1\rgigny); Londres, Luzac, 1914
W. ). V. Savillc, "A Grammar of rhe Mail u Langui1ge, Papua" (Gra-
mác ica da Língua Mailu da Papua),}011ma/ o/ the R{IJal A111hro-
pologiral 111J1i1111e, 42:397-436

Termos cm .Motu foram identificados com o auxílio das obras


abaixo:

B. Baldwin, English 10 /\fo111a11 a11d Kil'iwi11a11 Voct1/;1d,11y (Vocabulário


ing ll!s- mocuano e kiriwino), darilografad().
\Y/. G. Lawcs, Gm1mnar and V()(ab11lmy of La11g11age Spoken lly 1ht Mot11
Ti'ibe (New Guinea) (Gromática e vocabulário da líng ua falada pela
crioo Mom da Nova Guiné), 2' cd. rev., Sydney, Charles Potter,
1888

Quanto aos termos em Kiriwino, baseei-me antes de mais nada


nos relatórios crnogníficos de Ma linowski (anteriormente citados em
Crime a11d C11s1om in Savage SOl'iely [Crime e costume na sociedade sel-
vagem], Londres, Inccrnational Library of Psychology, Phi losophy
and Scicntific Mechod, 1926), na obra de Powc.11anteriotmencc ci-
tada e no vocabulário inédito dn sr. Baldwin, que recebi apenlls per-
to do fim do meu trabalho, bem como outras obras sobre as ilhas
Trobriand que concêm vocabnlário kiriwino:

L. Austcn, "Procreacioo amoog thc Trobriand Isli•ndcrs" (Procriação


entre os ilhéus de Trobrinnd), Orea11irt, 5: 102-11 3, 1934
____, The Seasonal Gardcnins Calendar of Kiriwina, '.ll:obriand
Islnnds (Calendário sazonal agrícola de Kiriwina, nas ilhas 1i·o-
briand), Oce<111ia, 9:237-253
____ , "Megallthic Stmctures in the Trobriand Islands" (Estru-
mrns megalíticas nas ilhas Tcobriand), <J<ta,,ia, 10:30-53
U~I DIÁRIO NO $F.N1WO llSTRJTO DO T ERMO 321

, "Native Handicrafts io the Trobriand Islands" (Arresa-


----
nato nativo n:is ilhas Trobriand), Mankind, 3: 193-198
B. Baldwin, "Usituma' Song ofHeavcn" (Usitumal Canção celestial),
Ocer111u1, 15 :201 -238
- -- -• "Kadaguwai: Songs of the Trobriand Sunsct Isles"
(Kaclaguwai: Canções das ilhas do crepúsculo de Trobriancl),
Ortania, 20:263-285
Bronislaw Malinowski, "Classificatory Particles in tbc Language of
Kiriwina" (Panículas classificatórias na üngua de Kiriwina),
811llt1i11of1ht School of Oritmtrl and Africa11 S/llditJ, l :3 3-78
, "The Primitivc Economics of thc Trobriand Islandcrs" (A
-- -
economia primitiva dos ilhéus de Trobriand), The Ect111omicjo11mal,
3 l: l - 16.
, "Lunar and Seasonal Calendar in rhe Trobriands" (Ca-
----
lendário lunar e sazonal nas Trobriand),)011ma/ oftbe RfJytil A11thro-
pological lnili1111e, 57:203-215
---~
Ma.gk, Scie11u 11111/ Rtligio11 and Other Essays (Magia, Ciên-
eia e religião e outros ensaios), Glencoe, The Free Prcss, 1948

O Dr. H. A. Powell nos proporcionou um auxílio inestimável na


identificação de alguns dos termos kiriwinos que não li.ti capaz de
traduzir, e na confirmação de alg umas das minh:is tr.aduçõcs (comu-
nicações pessoa.is de Powell). O clássico de Seligman (anccriormente
mencionado) e o de Fortune (fu;o Franklin Fon une, Sorcerm of Dob11
[Pcicicciros de Dobu), Nova York, E. P. Dutcon, 1932) camb~m for-
neceram informações sobre diversos termos usados originários de
Dobu e outras ilhas de área.
Como furam utilizadas ranras funces diferentes na preparação desce
glossário, não surpreende que tenham ocorrido variações na grafüt.
Outro problema foi proven iente do fato de que, enquanto estava es-
crevendo os diários, o próprio Malinowski escava no processo de apren-
der as línguas de seus informantes nativos, os quais, naturalmente, só
podiam lhe dar o som das palavra~, QLte ele, então, transcrevia llsnndo
o alfabeto inglês. Ele descobriu q ue os nativos de roda a região praci-
camence não faziam disrinção entre os sons der e/, ! e/; cm vez disso,
322 llRONISll\W MAUNOWSKt

coscumavam usar um som intermediário - respectivamente, y ou u


(o r das línguas eslavas) - e, quando pressionados no sencido de pro-
nunciar as palavras com mais clareza, diziam às vezes r, oucrns vezes/.
O pr6prio Malinowski, escrevendo cm polonês, costumava alternar o
uso de w e v, hem como i, j e y. Sempre que as palavras podiam ser
conferidas por meio das obms pllblicadas de Malinowski, opc:ou-sc pela
sua decisão fiMI quanto 11 grafia; no caso de palavras e conjeturas não
identificadas, procurou-se graf{1-lns exatamente como apacecem no
original manuscrito, na esperança de que os leitores familiari~ados com
essa área possam reconhecer muitas delas.
Além do relatório de .Mailu, de aucoria de .Malinowski, outro
1·ela16rio inceressance sobre este povo se enconrra em /11 U11k11oum
New G11i11M (Na Nova Guiné desconhecida), de Saville (citndo ame-
riormcnce). As principais obras de M:ilinowski sobre as Trobriand
são Arf!.011r111trt.1 do Oeste rio Pttc/fi~'IJ, Crime e com1111e 11a societle1de .relvage111,
A viria sex11al dos selvr1gens, Os jardins de corr1/ e s11rt 111rtgia, Ciência e t~­
ligião (todas citadas anteriormente) e as seguintes:

Bronislaw Malinowski, M)th i11 Primith'í! PsychdQg) (0 mico na l)Si-


cologia primitiva), Londres, Psyche Miniacures, gen. ser. n• 6, 1926
_ _ _ _, Sex ,md Rep1·essio11 i11 Sflw1ge Soâery (Sexo e repressão na
sociedade selvagem), Londres, Jnrcrnational Librat}' of Psychology,
Phi losophy and Sciemific Mcchod, 1927. Publicado no Brasil pela
Vozes, 197:3

Queras publicações ncsca •lrcn incluem as publicações de Oaldwin


e :1 de Ausccn citada anceriormcncc, com os seguintes acréscimos:

L. Auscen, "'Bocabalu': A Trobriand Chieftainess" ('Bocabalu': uma


chefia nas Trobriand), M1111ki11d, 2:270-273
_ _ _ _ , "Cukural Changcs in Kiriwina" (Mudançns Clllturais
cm Kiriwina), Orem1ia, 16: 15-60

A obra de Powcll é o primeiro reescudo ancropológico sobre as Tro-


brinnd desde Malinowski. Os relatórios dele sobre sua pesquisa podem
l IM DlÃl\JO NO SE!-ITIDO ES1'1UTO DO TFRMO 323

ser enconcmdos na obra anteriormente mencionada e em A11 A11tJ!ysí,ro/


Prnent-DtJy Social Strue1111·e i11 the Trobrim1d lslandJ (Uma análise da esm1-
mra social atual nas ilhas Trobriand). Tese de Doutorado, Universidade
de Londres. A principal obrasobre Dobuéade ReoFortune, eirada acima.
Um res1uno de pesquisa.~ recentes sobre a área do Motu pode ser cncon-
trndo na obrn de .Murray Graves, "Wcstern Mom Descem Groups"
(Grupos de descendência Mom ocidentais), litb11ology, 2: 15-30, 1963.
O melhor estudo histórico da Nova Guiné durante o período da pesqui-
sa de Malinowski pode ser encontrado no livro de Souter, já eirado.
Por fim , podem-se encontrar avalii1çõcs da obra de Ma.l inowski
e a mais compleca bibliografia de seus escricos no livro organizndo
por Firch. Outras avaliações se encontram nos textos abaixo:

George H. Fathauer, "Trobriand", i11 Dav id M. Schncidc:r e Kacblcen


Goug h (org .), /\'ftJtrili11etJI Ki11shij1 (Parentesco mar.ril inear),
Berkeley, Univ. of Califórnia Press, 196 1, pp. 234-269
Max Gluckman, "Malinowski - Ficldworker and Theorisc" (Mali-
nowski como pesquisador de campo e teórico), i11 Gluckrnan,
Ordcr a11tl Rtbellio11 i11 'fri!1ttl Afrka (Ordem e rebelião na África
tribal) Nova York, The Free Prcss of Glencoe, 1963, pp. 244-
252
E.R. Lcach, "Concerning Trobriand Clans and thc Kinship Cace-
gory "fabu'" (Sobre os dãs de 1robriand e a catego ria de paren-
tesco "rnbu") in Jack Goody (org.), The Developmental Cycle i11
Domwic Gro11p1 (0 ciclo de desenvolvimento de g rupos do-
méscicos), Cambridge Papers in Social Anthropology n• 1,
Cambridge, Cambridge Universicy Prcss, 1958
Margucricc S. Robinson, "Complemcmary Fil iarion 11nd .Marriage in
thc Trobriand lslands: A Re-examination ofMalinowski's Mn-
terial" (Filiação complemencar e casamenco nas ilhas Trobriand:
um reex:1me do macerial ele Malinowski"). in Mcycr l'occes (org.),
lrfrtrriage in TribtJI Societies (Casamcnco nas sociedades rribais),
Cambridge Papers i11 Social Anthropology n• 3, Cambridge,
publicado para o Dcpartamcnro de Arqueologia e AnrcopoloBi"
da Univcrsiry Press, 1962, pp. 121-155
324 BllONISLA\V MAL!NOWSKJ

Queras análises críticas e bi.ográficas sobre .Malinowski podem


ser encontradas em:

H. R. Hays, frqm Afie to Ange!: A11 lnfam1al l1.i.J101y efSocia/Amhropology


(Do macaco ao anjo: uma história informal da amropologia so-
cial, Nova York, Capricorn Books, 1958, pp.313-328
Abram Kardiner e Edward Preble, They SJ!l(/ied Man (Eles escuda-
ram o homem), Cleveland, \X'odd, 1961, pp. 160-186
Robert H. Lowie, The History ofEthno!ogical Theory (História da teo-
ria ccnológica), Nova York, Rinehart, 1937, pp.230-242
J P. Singh Uberoi, Politics ofThe K11la Ring: An Analysis o/the Pindings
o/Bro11islaw Matinowski (Polfricado anel do kNla, uma análise das
descobertas de Bronislaw Malinowski), .Manchester, Machester
Universit}' Press, 1962

Ao explicar os problemas da prepara~ão deste Glossário e as fumes


empregadas, meu intuito é que o leitor seja tolerante o suficience no
momento de avaliar os resultados.
Gosraria de agradecer ao Rev. B. Baldwin, do Presbitério de Sta.
1ercsa, Moonah, Tasmânia, pela perm issão que me concedeu de uci-
lizar o vocabulário feito por ele. Gostaria particularmente de expressar
minha gratidão pelo auxílio desinteressado do Dr. H. A. Powell, da
Universidade de Newcastle. Sua pronta e extensa identificação de
111uicos termos kiriwioos, bem como sua gentileia em me fornecer o
original do vocabulário do sr. Baldwin, muito concribuíram para o
valor que este g lossário possa vir a ter. Ao me prestar esse auxílio,
ele não contou com a ajuda do diário original, e foi forçado a se ba-
sear cxclusivamence em minha correspondência com ele. A respon-
sabilidade por quaisquer erros no Glossário deve ser atribuída uni-
camente a mim; a confiabilidade que ele possa ter deve-se em gran-
de parte à consulroria p restada por ele.
a11111i11wa:espécie de canoa feita pelo povo da ilha \Xfoodlark e usada
cm toda a área Massim; também denominada vaga.
(11/l'ft (Mailu): um clã parriJoçaJ e pacrilincur; equivale 110 segundo
significado de d11bl(.
babalan: wna espécie de curandeiro nativo, ou xamã, freqliememen-
ce também intermediário no conraro com 0-s espíritos.
bttdina (Motu): tl raiz ou causa de algo.
bagi: colar pesado, feito de discos de conchas csmerilhudas.
bag11/a: jardim.
bak11: amplo espaço aberto no centro das aldeias de Trobriand, cercado
por um anel de cabanas para mo radia e por um círculo incerno de
paióis para armazenagem de inhamc; as casas dos chefes ficavam
no bdku, e parte dele era usado como pista para dança; uma outra
parte se destinava amigamente aos scpulramencos.
bal11ma: o espírito ou alma de um homem que deixa o corpo após a
morte.
bflpop11: uma forma de verbo /1op", defecar.
bara: dança executada ua área Mailu, originária de Kercpunu, na baía
de Hood, popular na Papua na época; designação genérica de
um grupo de danças originárias de áreas a oeste de Mailu e lá
introduzidas.
bm-a'11: feiticeiro do sexo masculino.
btk11: lâminas de machado grandes e finas, usadas no intercâmbio do
k1da.
326 llRONISLAW MAJ,INOWSKJ

bobo,.e: canoa de guerra Mailu com supone de remo; cada uma pe1'-
cencia a um dececminado clã.
boga/la sago:sago (sagu), amido comes cível considerado gênero de pri-
meira necessidade nas ilhas do Pacífico, extraído da polpa da pal-
meira chamada boga.
bora'a: porco.
boroma (Moeu): porco.
b11lubwala1a: forma de magia maléfica e vingativa; às vezes ucilizada
para danificar o jardim dos vizinhos, às vezes para mandar os
porcos para o matagal, ou afastar esposas ou namoradas.
b11/11k:tvtJ Miki: tipo europeu de porco conhecido como porco de Mick,
crazído por Mick George, comel'dance grego; são animais caros
e valorizados - valem de 5 a 10 porcos nativos, na troca.
buriti/,J'tdo: competição culinária entre duas aldeias.
bwaga'u: feiticeiro que pratica a forma predominame de magia ne-
gra; em gemi bá um ou dois em cada aldeia.
bwaybwaya: coco verde, no estágio em que a carne parece uma gelu-
rina adocicada.
bwt1)'1na: armazém das Trobriand, às vezes com um i1brigo ou placa-
forma. Ver Osjardim de cortJ!, para obter uma descrição comple-
ta.
chdo;•a: enchente ou lago.
da111orea: a d aoça feminina mais popular da área meridional Massim;
apresentada nas cerimônias de mad1111a e freqüencemenre dançada
por puro divertimento.
da)•111a: vara para cavar, o principal implemenro agrícola.
d1Jgeta: médico.
d1di1t (Mailu): sede do clã; também é um termo genérico pílrn desig-
nar clã e subclã.
eba: tapete foito de pandanos.
gagcútt (Moru): relações sexuais.
gaigai (.Moeu): cobra.
ged11gedo: poss.i velmeme o mesmo que geg11da, lavouras ainda não
maduras para a colheita; ou gedageda, dor.
gimwa/i: escambo, contrastando com troca de presentes.
UM i)llÍRJO NO SUN'ílDO 1'5nuro DO TER.\10 327

gi)wilt1: esposas cio chefe.


gom: tabu, termo genérico; também designa sinais de ndvcrtência
cm lugares ou objetos dizendo às pessoas o que é tabu.
g11ba (Moeu): rajadas de venco; (MailL1): chuva.
g11gtl'11: implemenros para o trabalho cotidiano e bens de uso domés-
tico.
g11g11/a: monre; mostra de alimencos empilhados, formando um mon-
te.
g11mf/11111nt1: estrangeiros; cm alguns contextos, homens brancos.
g1111ikt1 (Moeu): interior.
g11yrt'11: chefe (termo genérico); alto escalão.
gw"'li: crianças em geral, do sexo masculino ou feminino, até a ma-
turidade.
hrli11e (Moru): mulher, fêmea.
biri: expedições comerciais entre os moeu de Porc Moresby e as tri-
bos do golfo ela Papua.
id11J;11 (Moeu): rribo ou família.
ilimq (~fotu): árvore a parrir da qual se confeccionam canoas.
ivilfl: pOdc ser iviflti, quente.
itut1l(/lnJ1: eles gritam ou chamam (forma verbal de 111t1/(/!T1).
kr1bi1t1111: destreza, perícia, engenho.
kt1d11111itr1galtt ·vf//11: os pomos onde uma esrn1da acinge a aldeia.
kttio11r1: (não- mitivo, p rovavelmente adaprado do momano faladD
pelos guardas): até breve, adeus.
k,.ta ko1do kwaiwtt'11: luto praticado pelos parentes dos conscernados
(1>0r exemplo, pelo irmão de uma viúva; durante o período de
luro, o irmão não pronuncia o nome nem do falecido nem da
viíava).
k.alimom)O: caramanchão de jardim feito de posces e parrcir,as
de inhame onde a família se acomoda para limpar os inha -
mes.
kali/101110: g rande canoa oceânica empregada em expedições de p~sc,1
nas Trobriand.
kafomrt: pequenos discos circulares perfurados feitas de concho~
cspondilosas, que compõem os colares usados no k1d,1; <is k"f(Jm,1
328 DRONJSLA\Xt MALJNO\"<'SKI

enfeitam quase todos os artigos valiosos ou de acabamento ar-


tíst ico no distrito do ktda.
kara (Moeu): conduta, costume, hábito; kart1 dik.a: mau cosmme.
karayta'11: parceiro de oucra ilha, no kNla.
karikedt1: caminho cercado entre jardins.
katiyt1fa: portemo associado a cada forma de magia.
kasaym)•a: brincadeira de roda, semelhante à ciranda-cirandinha,
acompanhada por cantigas que vão se tornando irreverentes à
medida que a brincadeira progride.
kt1to!l!o: indisposição devida a causas namrais ou reconhecida como o
resultado de causas naturais pelos nativos, mas considerada uma
base fércil para a aplicação da feitiçaria por parte de um xamã.
ktmto: alimentos vegetais, termo genérico.
ka11ikt1vila: provavelmente relâmpagos.
kayc1ktt: reunião para debater negócios ou de cunho puramente social;
conselho da aldeia aoces de se dar início a novos jardins.
kayasa: divertimentos, inclusive dimças çompetirivns obrigíltórins e
diversões das q L1ais as mulheres part icipam, fora da época das
<h•nças; também empreitada comramal.
kt1yga'N: magia da neblina, usada para obter segurança no mar.
ka)'laJi: fornicação; ato sexual ilícito, como o adultério.
kaytafit1: magia do socorro no mar.
kekeni (Mom) : menina.
keroro (Motu): árvore.
kibi (Mom): tro1nbeta feita com uma concha; búzio.
kivi: 1·eunir.
koya: morro ou montanha.
k"k" (Motu): tabaco.
k11ktvaneb11: contos de fadas.
krtla: o famoso ciclo de crorns encre wmunidades melanésias descri-
to em Os Argo11a111as do Oeste <f{} Pacífico.
.l.11m1k1m1 (Motu): capim longo usado em telhados; ver lalang
kwaykwaya: costume.
kwi!a: pênis.
lagif11: !agia/a, imediatamente; ou ligabtt: derramar, despejar.
UM DIÁRIO NO SENTIDO EsTRITO 00 TERMO 329

lagi111: as duas pranchas transversais decoradas que arrematam o in-


terior da canoa nas duus extremidades.
laka1oi (Moru): navio; embarcação nariva composta de três ou m1lis
canoas amarradas eotrc si.
la/a11g: capi m longo, usado parn fazer coberturas e parn confeccionar
papel, que costuma crescer após ser desbravada a maca virgem.
lmmwada (l\foru): esração do vcnro alísio de sudesce.
lava lava (rermo de origem polinésia-fijiana): canga.
ligabe: jardim duranre a colheira.
lili'11: mitos reais ou im porcumes dos nmivos kiriwinos.
lili'11 Dokonikan: lenda de Dokonikan, o mais famoso bicho-papão
do folclore kiriwino.
li/i'111okabitam: mito sobre um perito entalhador.
li.sttla dr16"!1: um da série de rimais mortuários após a morte de uma
mulher, no qual suas parentas do subclã distribuem saias e teci-
dos para saias a parenrcs do sexo feminino do subclã do viúvo, as
quais o ajudam a celebrar os rimais fúnebres.
li.siga: cabana do chefe.
loa (Motu): caminhada, passeio.
l11g11rni (Moru): oro'11.
madrma (Mailu): festividade cerimonial anual, prinàpal evento da vida
social naciv11.
111ah'e (Motu): madrepérola em forma de meia lua.
maJawa: grande canoa para navegação oceânica.
mtgwa: magia, termo genérico; fórmula mágica.
mi/ama/a: fesrival anual e volra dos espíriros, duranre a temporada e
o mês de maior prosperidade enrre o ilhéus de Trobriand; éam-
bém um termo que designa o verme J!alulo, que surge numa cer-
ta lua cheia, e serve para marcar a dara do festival; a aparição do
verme às VC'LCS é associada à chegada dos espfricos.
111irigi11i (1\>fotu): vento norrc.
mo111yap11: mamilo.
111u11a: pudim de t11ioba.
111011ikmiki: siscemademwaJi/a na Boyowa Meridional; grande pane
dele também era usada na Kiriwina.
330 BRONiSLAW 1'.-{ALJN0\'(1$Kl

1md11kw,Jttsi: mariposas.
mwaJawa: divertir-se; aqui, dançar por lazer, contrastando com as
danças obrigatórias de ocasiões sérias.
111wa.iila: mágica realizada ao se atingi1· o destino do k11/a, visando
induzir generosidade nos parceiros anfitriões.
11akaka'11 : viúva.
n,;k11bukwab1t)'a: menina adolescen te.
11a11a111a: carpideira.
na.r,w1111a: gestante.
nok11: planta considerada um alimento inferior pelos nativos, consu-
mid a apenas e m épocas de penúria.
r11tya ou l!iya: coco.
oba'11a: machadinhas feitas de conchas.
ob11k11bak11: aparentemente, alguma parte do b"k11.
odi/a; matagal, contrastando com áreas cultivadas.
ogo!J,/t/a'at1111a: nome da gtt/11/l(t (grande rede) perte ncente aos Mora'u,
1un subclã de Mailu
okwala: ritual para promover o crescimento dos inhames pequenos.
oro (Mailu): morro, elevação.
oro'1t (MailLt): grande canoa duph• com vela em forma de pata de ca-
rang uejo, considerada a melhor canoa p<tnl navegação em alto-
mar d a região.
pak11: folhas impregnadas com substâncias medicinais.
pandmms: cipo de pinheiro de caule espiralado cujas folhas são m Ltito
utilizadas na 1\rea - por exemplo, para fazer pracos.
pilttpala: trovão ou niio.
po11lo: expedição de pesca.
pw,i.1a'i: grandes receptáculos e m formato de prismas para exposição
de alimenros, onde se colocam os menores km,i (inh11mes gran-
des), arrematando-se com nozes de areca e cana-de-açúcar.
m111i: saiote de capim usado pelas nrnlheres.
/'(ttta: dança, imitando um c.1chotro, executada na 111ad1111a; de im-
portância secundária enrre as d a nças incegranres da cerimônia.
raybi,;ttg: anel de coral que circunda a ilha; sobre ele há pequenos
trechos d e solo férril recobertos de mara.
UM DlÁR!O NO SENTIUO ESTIUTO DO TERMO 331

•ú (Motu): capim.
sagafi: distribuição cerimonial de alimencos.
sam<Jmpa: modelagem de colares de discos de conchas usados pelas
mulheres.
sapi: limpeza de jardins, arrancando-se as ervas daninhas, ou por
varredura.
saylet11/o: vestimenta das gestantes, composca de dois manros lon-
gos e duas Sflias, usadas durnnce a g rnvi<.l ez e Jogo após o par-
to.
sihari (.Motu): amante (nos Nativos de Mr1if11; no exemplar do voca-
bulário Motu <.le Mal inowski há uma nota na mars cm na cali-
grafia dele: "sihari- costume de senrar-se nos joelhos das mo-
ças").
sihi: faixa periaeal; cinta que recobre as coxas e partes adjacenres do
corpo.
silami: enfermidade e doença, rermo genérico.
soba: pinrura do rosco.
so'i: festividade cerimonial, em geral semelhante à mad1ma, promo-
vido pelo povo de Bona Bona.
sopi: ;ígua; também provavelmente poço;so1~iteyava pode ser o riacho
ou poço de Tcyava.
so11fat1a: colar de discos de conchas espondilosas, um dos principais
artigos nocados no k11/a.
IllJ>tponi: brincadeira semelhante ao esconde-esconde, praticada pe-
los nativos de Trobriand.
1abtk111i: afundar, capotar.
1ab11Jo: prancha ornamenral parn a proa das embarcaçéi<?s.
tfli11a1110 (Moru): mosquiteiro.
1a11t1wagana: chefe ou "patrão".
1apop11: jardins de raioba.
1apwa;·opo: preces 110 csrilo missionário.
1a11bada raibak:J1: taJ1bada (Mocuano policial) termo de interpelação
empregado para homens brancos; mibflk11, possivelmente 1101 ter-
mo infancil significando cscar deitado na cama; a expressão pa-
rece ser uma exortação para levanrar-sc.
332 DRON!SLAW MALINOWSKI

ta11Va'u; seres antropomórficos maléficos que vêm das ilhas do sul e


causam epidemias.
1a'11ya: búzio soprado como trombeta para mu.icos fins cerimoniais.
tayru: inhames.
tnbwabwa'11: carpidor de sexo masculino.
tuea (Motu): braceletes brancos.
1okabitam: pericia em geral; ou a tradição de arcesões peritos; ou
entalhador perito.
fb111r1kava: forasteiro; uci.lizado freqüentemente enrre os ilhfos das
Trobriand aCJ falar do relacionamento de um pai com sua família
(ver A vida sex11al dos .relvagens).
uma gora: sinal de tabu afixado antes do banquete pará assegurar um
suprimento abundante de cocos.
1ova'11: ver 1a11va'11.
1owamo10: prato quente de vegetais com pimenta.
tbwOsi: mágico do jard im.
mio: dança de importância secundária cxecütada na cetimôofa da
maduna.
7i1111a: terra dos espíritos dos ilhéltS de Trobriand, uma ilha a noroes-
te de Boyowa.
tf/va: trepadeira cujas raízes fome.cem veneno para peixes.
11/a'1tla: alimento oferecido como pagamento por magia.
11m1'1m11: pêlos do corpo, considerados feios pelos ilhéus de Trobriand,
que os mantêm raspados; também designa pêlos nos tubérculos
de inhame e oa parre de trás das folhas.
11rr1. (lvlotu): desejo, anelo.
11ri: taioba.
usike/a: variedade de banana.
vttda: feiticeiro.
VtJgrt: canoa das il has \-qoodlark (ver a111t1i111va); também grafia alter-
nativa de wrtga.
vai: casamento (termo genérico).
va/.avi: grafia alternativa de walam.
va'otr1: um "presente de indução", oferecido por um menino da al-
deia a uma moça numa festa promovida por visitantes de outra
UM DIÁRIO NO S~1'.'TIDO BSTRITO DO TtltU>!O 333

aldeia; se a garota aceitar, significa que ela aceita o rapai como


seu amante naquela noicc.
vt1t11: penedo fixo ao leito de 1·ocha.
va111ni: grafia mais usada para n magia dos jardins de Omarakann.
vayewo: po~sivclmence uma espécie de alimento ou peixe.
11a)·g11'a: objetos de valor narivos importantes para demonsCl'ar e man-
ter JltH11s.
116JOla: parentes.
vi!t1malia: magia ou ritual da abundância, para obter alimencos.
1uaga: nas Trobriands, rodos os tipos de embarcações, designação
genérica; também canoa gra ndc composta.
walam, walamsi: g rito ou chamado.
\~rib11: campo com trinta glebas, pertencentes metade ao st1bclã
Bumyama e metade ao subclã 'faballl (subclã de To'uluwa).
wtt1i: troca de alimeotos de origem vegetal por peixes entre as aldei-
as litorâneas e do interior.
waya: en~eada, rcgaco formado na descida da maré.
•1Jd}P11l11: festivais de penteados.
1uay1uo: manga nativa.
tuosi: canção, canto.
Yaboaim': possivcl menre Yabowaine, ser sobrenatural de Dobt1.
yagm!ltt: abóboras.
y11111a1a11/obwala: sigoifica incerto; ya111atrJ significa cuidar de, t0mar.
coma; tau é a palavra ou prefixo que designa homem, macho;
bwala é uma espécie de casa ou de estrutura qualquer.
)'avara: ventos e clima de monçlo de noroeste.
yawa/i: vigília.
yob" b11/0111as: afasrameoto <los cspiriros aocesrrais dos morcos no en-
cerramento do festival 111ilamala.
YOJOva: feiticeiros.

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