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Supremo Tribunal Federal

HABEAS CORPUS 191.014 DISTRITO FEDERAL

RELATORA : MIN. CÁRMEN LÚCIA


PACTE.(S) : EDUARDO SEARA MACHADO POJO DO REGO
IMPTE.(S) : ANTONIO LAZARO MARTINS NETO
COATOR(A/S)(ES) : RELATOR DO HC Nº 608.886 DO SUPERIOR
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

DECISÃO

HABEAS CORPUS. CONSTITUCIONAL.


INDEFERIMENTO DE MEDIDA LIMINAR
NO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA:
SÚMULA N. 691 DO SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL. HABEAS CORPUS
AO QUAL SE NEGA SEGUIMENTO.

Relatório

1. Habeas corpus, com requerimento de medida liminar, impetrado


por Antonio Lazaro Martins Neto, advogado, em benefício de Eduardo
Seara Machado Pojo do Rego, contra decisão do Ministro Rogerio Schietti
Cruz, do Superior Tribunal de Justiça, pela qual indeferida, em 28.8.2020,
a medida liminar requerida no Habeas Corpus n. 608.886:

“EDUARDO SEARA MACHADO POJO DO REGO alega


sofrer coação ilegal, em decorrência de decisão prolatada pelo
Desembargador relator da Medida Cautelar n. 0728561-
26.2020.8.07.0000, em trâmite no Tribunal de Justiça do Distrito
Federal e Territórios, que decretou a prisão preventiva do paciente.
Informam os autos que o Ministério Público do Distrito Federal
e Territórios representou pela prisão preventiva do paciente e de outros
investigados, no âmbito da ‘Operação Falso Negativo’, em cujo
contexto teriam sido coletadas ‘provas contundentes dos crimes de
fraude à licitação (artigos 90 e 96 da Lei nº 8666/93), lavagem de
dinheiro, contra a ordem econômica (cartel), organização criminosa,
corrupção ativa e passiva com o consequente prejuízo de mais de 18

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milhões de reais aos cofres públicos’.


Neste writ, a defesa sustenta a ausência de fundamentação
precisa da decisão vergastada, a ‘evidente ausência de risco à ordem
pública, ordem econômica e instrução processual’, bem como a
possibilidade de ‘substituição da custódia cautelar em razão do
debilitado estado de saúde do requerente da aplicação das medidas
cautelares diversas da prisão em observância à Recomendação 62/2020
DO CNJ’.
Requer, liminarmente, a soltura do paciente ou,
subsidiariamente, a aplicação do art. 319 do CPP”.

O Ministro Rogerio Schietti Cruz assentou, em sua decisão de


indeferimento da liminar requerida, não se comprovar ilegalidade
manifesta, ressaltando que, em juízo de cognição sumária, os elementos
apresentados demonstrariam haver “riscos concretos de continuidade das
práticas ilícitas, se revogadas as prisões preventivas do paciente e dos demais
agentes que, em posição de destaque, protagonizaram a dinâmica da conjecturada
organização criminosa”.

2. Essa decisão é o objeto do presente habeas corpus, no qual o


impetrante alega flagrante ilegalidade para a superação da Súmula n. 691
deste Supremo Tribunal, pois ausentes os requisitos do art. 312 do Código
de Processo Penal, “os fatos expostos na (...) decisão que determinou a prisão
estão descontextualizados e sugerem hipóteses que não se confirmam no caso
concreto” e que as condições pessoais do paciente evidenciariam a
desproporcionalidade da prisão cautelar.

Sustenta que não teria sido demonstrado o “periculum in libertatis


do Paciente”, que teria sido interrogado, estaria contribuindo para a
elucidação dos fatos, seria possível a aplicação de medidas cautelares
diversas da prisão e que o afastamento dele “da função pública rechaça
qualquer meio possível de se concretizar a temida reiteração delitiva”.

Assevera que o paciente, “afastado do Cargo de Secretário Adjunto de

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Gestão em Saúde, da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal; com


Transtorno de Pânico e Agorafobia; com restrições alimentares decorrentes de
cirurgia bariátrica, sendo o único preso na Operação Falso Negativo que
respondeu aos questionamentos do Ministério Público no interrogatório (os
demais lançaram mão do direito ao silêncio); tendo entregue seu celular e
computador, com as respectivas senhas; permanece preso preventivamente!”.

Ressalta que “não se pode negar que EDUARDO SEARA MACHADO


POJO DO REGO, enquanto Secretário Adjunto de Gestão em Saúde, recebeu
comandos diretos do Secretário de Saúde e repassou aos demais subordinados. No
entanto, em momento algum teve conhecimento de que alguns desses comandos
estavam impregnados de pretensões criminosas.
Ora, a crise deflagrada pelo COVID-19 exigiu a adoção de medidas
extremas e céleres, sob pena de comprometer a vida de muitas pessoas. Nessa
linha, a dispensa de licitações era uma exigência, assim como o estrito
acompanhamento de todo o processo de aquisição do material necessário para o
cumprimento da nobre missão. (…)
Ora, permita-se a insistência, no contexto que o Paciente estava envolvido –
de combate à pandemia de COVID-19 – não seria prudente finalizar um
procedimento de dispensa de licitação pela ausência de um ou outro documento
que poderia ser apresentado facilmente. O caso em tela, sob a ótica do Paciente,
não se trata de privilegiar empresa específica, mas sim salvar vidas!”.

Assevera ser possível a extensão ao paciente dos efeitos da decisão


proferida pelo Ministro Rogério Schietti Cruz, do Superior Tribunal de
Justiça, no Habeas Corpus n. 608.886, impetrado em benefício do
investigado Eduardo Hage Carmo, pois haveria identidade de situações.

Estes os requerimentos e o pedido:


“(...) i. Liminarmente, conceder a ordem de habeas corpus,
revogando a prisão preventiva decretada em desfavor do Paciente, nos
autos do processo 0728561-26.2020.8.07.0000, em curso perante o
Conselho Especial do Tribunal de Justiça do Distrito Federal; ou não
sendo esse o entendimento

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ii. Liminarmente, conceder a ordem de habeas corpus substituir


as prisões preventivas por medidas alternativas previstas no artigo
319 do Código de Processo Penal;
iii. Dispensar a requisição das informações, haja vista
encontrar-se o mandamus suficientemente abalizado;
iv. Conceder, definitivamente, a ordem de habeas corpus após a
análise do mérito”.

Examinada a matéria posta à apreciação, DECIDO.

3. A decisão questionada é monocrática, de natureza precária e


desprovida de conteúdo definitivo. O Ministro Rogerio Schietti Cruz, do
Superior Tribunal de Justiça, indeferiu a medida liminar requerida,
requisitou informações e determinou o encaminhamento do processo ao
Ministério Público Federal para, instruído o feito, dar-se o regular
prosseguimento do habeas corpus até o julgamento na forma pleiteada.

O exame do pedido formalizado naquele Superior Tribunal ainda


não foi concluído. A jurisdição ali pedida está pendente e o órgão judicial
atua para prestá-la na forma da lei.

4. Este Supremo Tribunal tem admitido, em casos excepcionais e em


circunstâncias fora do ordinário, o temperamento na aplicação da Súmula
n. 691 do Supremo Tribunal Federal: “Não compete ao Supremo Tribunal
Federal conhecer de habeas corpus impetrado contra decisão do Relator que, em
habeas corpus requerido a tribunal superior, indefere a liminar”.

Essa excepcionalidade é demonstrada em casos nos quais se


patenteie flagrante ilegalidade ou contrariedade a princípios
constitucionais ou legais na decisão questionada, o que não se tem na
espécie vertente.

5. Sem adentrar o mérito da causa, mas para afastar eventual


alegação de ilegalidade manifesta ou teratologia, é de se anotar que, em

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17.8.2020, ao decretar a prisão preventiva do paciente, o Desembargador


Humberto Adjuto Ulhôa, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos
Territórios, apresentou a seguinte fundamentação:

“(...) Consoante relatado, tramita no Ministério Público do


Distrito Federal e Territórios operação sigilosa denominada
‘OPERAÇÃO FALSO NEGATIVO – FASE 2’, visando apurar a
prática de inúmeros crimes, figurando como investigados os ora
representados.
Conforme indica a farta documentação colacionada pelo
Ministério Público, os representados, servidores do GDF, sob a
liderança do atual Secretário de Saúde, uniram-se para a prática de
crimes de fraude à licitação, lavagem de dinheiro, contra a ordem
econômica, organização criminosa, corrupção ativa e passiva,
aproveitando-se do dinheiro público destinado justamente à saúde,
revertido ao enfrentamento da pandemia mundial desencadeada pelo
COVID-19.
As investigações criminais foram iniciadas pelo Grupo de
Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MPDFT e
culminaram na deflagração da Operação Falso Negativo, em julho do
corrente ano. Durante a referida investigação e diante da
complexidade, reiteração, gravidade e pluralidade de agentes, foi
necessária a utilização de meios mais eficazes para a busca das
informações, que culminou no deferimento de 77 (setenta e sete)
mandados de busca e apreensão, além de pedidos de interceptação
telefônica e bloqueio de bens, bem como afastamentos de sigilo fiscal e
bancário, ocasião em que restou apreendido farto material probatório
que levou à elaboração de diversos relatórios investigativos (…).
Em breve síntese, escolhida a empresa beneficiada por
FRANCISCO ARAÚJO FILHO (Secretário de Saúde - SES), JORGE
CHAMON (Diretor do LACEN), IOHAN ANDRADE STRUCK
(Subsecretário de Administração Geral - SUAG), EDUARDO
SEARA MACHADO POJO DO REGO (Secretário Adjunto de
Gestão em Saúde - SAG), RICARDO TAVARES MENDES (então
Secretário Adjunto de Assistência à Saúde - SAA), EDUARDO
HAGE CARMO (Subsecretário de Vigilânica à Saúde – SVS) e

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RAMON SANTANA LOPES AZEVEDO (Assessor Especial do


Secretário de Saúde – ASESP), todos da administração superior da
Secretaria de Saúde do DF, articulavam-se entre si para a montagem
de um projeto básico que atendesse aos interesses das empresas e do
núcleo de servidores públicos da organização criminosa, chefiada pelo
Secretário de Saúde. Assim, sem que fosse realizado nenhum estudo
que contabilizasse a quantia necessária de testes para o atendimento à
população; sem pesquisas de preços; com publicação de aviso em
feriado e com prazos ordinariamente inexequíveis; além da juntada de
propostas coberturas/fictícias – a partir de todos esses atos
concatenados foram cumpridas as etapas do esquema criminoso, tudo
a fim de concretizar a violação ao caráter competitivo do certame e
desviar o dinheiro público da saúde, conforme identificado pelo
Ministério Público. (…)
- EDUARDO SEARA MACHADO POJO DO REGO,
Secretário Adjunto de Gestão em Saúde: POJO é o terceiro membro na
sucessão organizacional, tendo status de Secretário Adjunto, assim
como RICARDO. Percebe-se que POJO recebe comandos diretos do
Secretário de Saúde e age na intermediação dessas ordens com os
demais subordinados e operadores da organização criminosa, os quais
estão em células inferiores, para que tudo saia perfeito nas dispensas
de licitações. Percebe-se, ainda, que POJO também tem a tarefa de
lidar diretamente com as empresas fornecedoras de testes e informá-las
do que é preciso para que ‘tudo saia perfeito na dispensa de licitação’,
recebendo instruções de o que a empresa deve apresentar, instruções
estas vindas de células compostas por membros de escalão inferior, a
exemplo de EMANNUEL. Atua articuladamente com IOHAN
STRUCK, Subsecretário de Administração Geral-SUAG, na
tramitação do procedimento licitatório direcionada à contratação da
empresa de interesse do Secretário da Saúde, ou seja, na prática de
atos administrativos visando unicamente atender aos ensaios da
organização criminosa. Nesse sentido, contando com o apoio dos
subordinados ERIKA MESQUITA TEIXEIRA e EMANNUEL DE
OLIVEIRA CARNEIRO, respectivos Gerente de Aquisições Especiais
e Diretor de Aquisições Especiais - GEAQ/SUAG, combinaram nos
bastidores – conforme demonstrado pelo laudo pericial do aparelho

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celular de IOHAN e de JORGE CHAMON – as providências


administrativas a serem adotadas para que a LUNA PARK
BRINQUEDOS se sagrasse vencedora da dispensa de licitação nº
16/2020. Feito o ajuste, cada um deles proferiu despachos e outros
andamentos no procedimento de modo que, ao final, a LUNA
realmente foi consagrada vencedora. Exemplo disso foram os
comandos dados por EDUARDO POJO no grupo do WhatsApp
intitulado de ‘PRIORIDADES’ para que fosse oportunizado à
empresa LUNA PARK o prazo para cumprir as exigências editalícias,
tal como descrito no item 51 da inicial da ação cautelar. Em
corroboração, trocas de mensagens entre EDUARDO POJO e
EMANNUEL demonstram a preocupação de POJO em saber se a
empresa LUNA PARK havia mandado a documentação que faltava.
Outra demonstração de atuação concertada entre POJO e IOHAN em
atendimento à determinação do líder FRANCISCO ARAÚJO é
conversa entre ambos no aplicativo WhatsApp a respeito do
quantitativo de testes rápidos que deveria constar no projeto básico do
2º procedimento analisado – drive thru. Após insistência de
FRANCISCO ARAÚJO no montante de 100.000 testes, EDUARDO
POJO informa essa alteração a IOHAN – haja vista que até então
seriam 90.000 testes – que, por sua vez, responde em seguida ao
informar o cumprimento da ordem e envia o projeto básico atualizado.
Além disso, foi captada mensagem de voz em que POJO ajusta com
JORGE CHAMON a aposição de prazo exíguo no projeto básico para
apresentação de propostas nessa 2ª contratação, tudo isso para frustrar
o caráter competividade e, assim, deixar o caminho aberto para que a
BIOMEGA saísse vencedora (…).
A gravidade concreta, revelada pelas peculiaridades do modo de
execução ou pela intensa reprovabilidade dos fatos que lhe são
atribuídos, por denotar a periculosidade do agente, pode evidenciar,
validamente, fundado receio de reiteração delituosa e, nessa
perspectiva, configurar risco à ordem pública (…).
O Ministério Público descreve pormenorizadamente a conduta
individualizada de cada investigado e suas participações na
organização criminosa, inclusive, transcrevendo áudios de algumas
conversas supostamente havidas entre os envolvidos. (…)

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O periculum in libertatis, por sua vez, também se revela


presente, diante da possibilidade dos representados voltarem a
delinquir, enquanto soltos, eis que medidas cautelares de busca e
apreensão anteriores sequer foram capazes de intimidar o grupo
criminoso em sua rotina delitiva, conforme fartamente exposto pelo
M.P.D.F.T. em sua argumentação deduzida, fato que, por si só,
representa a periculosidade dos agentes”.

Ao proferir a decisão objeto da presente impetração, o Ministro


Rogerio Schietti Cruz, do Superior Tribunal de Justiça, afirmou:

“(...) Com efeito, o Desembargador relator da Medida Cautelar


n. 0728561-26.2020.8.07.0000 – após detalhar a participação do
paciente na empreitada criminosa, com suporte na extensa e
minudente representação do Ministério Público do DF e Territórios –
apontou, de forma idônea, a presença dos vetores contidos no art. 312
do Código de Processo Penal, indicando motivação suficiente para
decretar a prisão preventiva, ao salientar que o paciente ‘é o terceiro
membro na sucessão organizacional, tendo status de Secretário
Adjunto’, posto que ‘recebe comandos diretos do Secretário de Saúde e
age na intermediação dessas ordens com os demais subordinados e
operadores da organização criminosa, os quais estão em células
inferiores, para que 'tudo saia perfeito nas dispensas de licitações'’.
Aduziu que ‘POJO também tem a tarefa de lidar diretamente
com as empresas fornecedoras de testes e informá-las do que é preciso
para que ‘tudo saia perfeito na dispensa de licitação’, recebendo
instruções de o que a empresa deve apresentar, instruções estas vindas
de células compostas por membros de escalão inferior’.
Ressaltou que o paciente ‘atua articuladamente com IOHAN
STRUCK, Subsecretário de Administração Geral-SUAG, na
tramitação do procedimento licitatório direcionada à contratação da
empresa de interesse do Secretário da Saúde, ou seja, na prática de
atos administrativos visando unicamente atender aos ensaios da
organização criminosa’, ‘contando com o apoio dos subordinados
ERIKA MESQUITA TEIXEIRA e EMANNUEL DE OLIVEIRA
CARNEIRO, respectivos Gerente de Aquisições Especiais e Diretor de

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Aquisições Especiais - GEAQ/SUAG’.


Sublinhou a decisão impugnada que não houve ‘nenhuma
fiscalização sobre a execução do contrato, absolutamente nenhuma
aferição que pudesse indicar eventuais falhas nos produtos, baixa
qualidade dos testes ou irregularidades nos procedimentos’, asserindo
que, ‘diante de um cenário de robustos indícios da prática de ações
delituosas praticadas por organização criminosa complexa que teria
causado prejuízos de ordem milionária ao Erário, […] que, a par de
resguardar as investigações e viabilizar a consequente
responsabilização criminal, a medida restritiva em tela também
objetiva propiciar o rastreamento e recuperação do produto ou proveito
dos supostos fatos delituosos’.
Sustentou que ‘a existência de novo procedimento licitatório em
curso com fortes indicativos de atuação criminosa da cúpula da
Secretaria da Saúde, [...] reforça [o risco real de] continuidade delitiva
e a manutenção da relação promíscua entre os servidores públicos da
SES/DF e empresas privadas’.
Por fim, no que tange à alegada ausência de fundamentação
quanto à insuficiência de outras cautelares, observo que o
Desembargador relator da Medida Cautelar n. 0728561-
26.2020.8.07.0000, embora de forma não explícita, após enumerar
todos os motivos acima analisados, concluiu, a contrario sensu, que ‘a
exacerbada gravidade em concreto das circunstâncias dos fatos
investigados [...], em atenção à pacífica jurisprudência dos Tribunais
Superiores, é indicadora do vilipêndio à ordem pública, portanto,
reclama a providência extremada da prisão preventiva’. (…)
Ao menos neste momento inicial - em que sequer houve
formalização da denúncia, visto que ainda pendem algumas
diligências investigatórias, inclusive a perícia sobre celulares
apreendidos e sobre outros documentos - considero plausível a
afirmação, tanto da decisão judicial quanto da representação
ministerial, de que há riscos concretos de continuidade das práticas
ilícitas, se revogadas as prisões preventivas do paciente e dos demais
agentes que, em posição de destaque, protagonizaram a dinâmica da
conjecturada organização criminosa”.

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6. Consideradas as circunstâncias do ato praticado e pelos


fundamentos apresentados pelo juízo de origem, mantidos nas instâncias
antecedentes, não se há cogitar de teratologia ou manifesta ilegalidade na
espécie a determinar a superação das regras de competência.

Ao proferir a decisão objeto da presente impetração, o Ministro


Rogerio Schietti Cruz, do Superior Tribunal de Justiça, indeferiu a medida
liminar requerida no Habeas Corpus n. 608.671, concluindo não estar
demonstrada, pelos documentos apresentados, a inidoneidade da
fundamentação apresentada para a constrição da liberdade do paciente,
considerada a apontada participação de destaque no prática criminosa
investigada.

Pelos documentos que instruem estes autos, a constrição da


liberdade do paciente, ato aqui questionado, harmoniza-se com a
jurisprudência deste Supremo Tribunal, pela qual a periculosidade do
agente, evidenciada pelo modus operandi e pelo risco de reiteração delitiva,
constitui motivo idôneo para a custódia cautelar e a não incidência de
medida cautelar diversa. Assim, por exemplo:

“HABEAS CORPUS. DUPLA SUPRESSÃO DE


INSTÂNCIAS. SÚMULA N. 691 DO STF. MITIGAÇÃO.
IMPOSSIBILIDADE. TERATOLOGIA OU FLAGRANTE
ILEGALIDADE. INEXISTÊNCIA. PRISÃO PREVENTIVA.
MANUTENÇÃO. DECISÃO EM CARATÉR PRECÁRIO.
FUNDAMENTAÇÃO. IDONEIDADE. FUMUS COMISSI
DELICTI E PERICULUM LIBERTATIS. GRAVIDADE
CONCRETA. REITERAÇÃO DELITIVA.
CONTEMPORANEIDADE. ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA.
FRAUDES A LICITAÇÕES. CORRUPÇÃO. LAVAGEM DE
DINHEIRO. CRIME PERMANENTE. AGRAVO REGIMENTAL
PROVIDO PARA CASSAR A LIMINAR DEFERIDA NESTA
SUPREMA CORTE. (…)
3. Ao que se tem, a custódia cautelar do paciente foi mantida,
em caráter precário, porquanto indicado que, além de apreendido, na

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residência do paciente, um dossiê sobre a testemunha que teria sido a


responsável por denunciar o esquema criminoso no âmbito da
multinacional, apreendidos ainda documentos que apontavam para
uma possível contemporaneidade dos fatos e para eventual
continuidade da prática, em tese, de delitos, consistentes em fraudes a
licitações, corrupção, cartel, lavagem de dinheiro e pertinência a
organização criminosa que funcionaria na Secretária de Saúde do
Estado do Rio de Janeiro, ‘de lesividade social ímpar, [...] indicando
intensa ofensa (não apenas risco) à ordem pública’. (…)
6. A existir elementos indicativos de que ao menos uma das
condutas delitivas tem seus atos de desdobramento ainda persistentes,
não há que se falar em ausência de contemporaneidade para imposição
da cautela.
7. Assim, preenchidos, primo ictu oculi, os requisitos dos arts.
312, 313, 315, todos do CPP, e ainda demonstrado tratar-se a prisão
da providência cautelar a melhor atender ao caso concreto, consoante o
disposto no art. 282 do CPP, em especial, seus incisos I e II, bem como
seu § 6º, não se mostra cabível a atuação per saltum desta Suprema
Corte.
8. Habeas corpus não conhecido. Cassada a liminar deferida”
(HC n. 160.225, Relator o Ministro Gilmar Mendes, Redator
para o acórdão Ministro Edson Fachin, DJe 6.8.2020).

7. A jurisprudência deste Supremo Tribunal é firme no sentido de


que a “existência de condições subjetivas favoráveis ao agravante, tais como
primariedade e residência fixa, não obsta a segregação cautelar, desde que
presentes, nos autos, elementos concretos a recomendar sua manutenção, como se
verifica na espécie” (HC n. 154.394, Relator o Ministro Dias Toffoli, DJe
24.8.2018).

8. As instâncias antecedentes consideraram o conjunto probatório


para concluir demonstrados indícios de autoria quanto à prática do delito
imputado e dos requisitos para a prisão cautela.

Foram apontados detalhes e fatos da participação do paciente nos

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delitos investigados, respaldados por amplo conjunto probatório


produzido no curso de complexa investigação.

Para rever os pressupostos da prisão cautelar na forma adotada


pelas instâncias antecedentes e concluir que não haveria risco de
reiteração delitiva, como afirmado na inicial desta impetração, seria
necessário reexaminar os fatos e as provas dos autos pelos quais se
permitiu identificar o modus operandi da prática delitiva e a periculosidade
do paciente, ao que não se presta o habeas corpus. Assim, por exemplo:

“AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS.


REITERAÇÃO DOS ARGUMENTOS EXPOSTOS NA INICIAL
QUE NÃO INFIRMAM OS FUNDAMENTOS DA DECISÃO
AGRAVADA. (...) PRISÃO PREVENTIVA COM FUNDAMENTO
NA GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. INVIABILIDADE DE
EXAME DA QUESTÃO ATINENTE À NEGATIVA DE AUTORIA
NA VIA DO HABEAS CORPUS. AGRAVO A QUE SE NEGA
PROVIMENTO. I – O agravante apenas reitera os argumentos
anteriormente expostos na inicial do habeas corpus, sem, contudo,
aduzir novos elementos capazes de afastar as razões expendidas na
decisão agravada. II – Há farta jurisprudência desta Corte, em ambas
as Turmas, no sentido de que a gravidade em concreto do delito, ante o
modus operandi empregado, e a reincidência delitiva permitem
concluir pela periculosidade social do paciente e pela consequente
presença dos requisitos autorizadores da prisão cautelar, elencados no
art. 312 do Código de Processo Penal, em especial para garantia da
ordem pública. III – O exame da questão atinente à negativa de
autoria implicaria, necessariamente, aprofundado exame do conjunto
fático-probatório da causa, o que, como se sabe, não é possível nesta
estreita via do habeas corpus, instrumento que exige a demonstração
do direito alegado de plano e que não admite dilação probatória. IV –
Agravo regimental a que se nega provimento” (HC n. 176246-AgR,
Relator o Ministro Ricardo Lewandowski, DJe 18.11.2019).

9. Ademais, cabe ao Ministro Rogério Schietti Cruz decidir sobre a

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alegação apresentada na inicial deste habeas corpus de que seria possível a


extensão ao paciente dos efeitos da decisão proferida no Habeas Corpus n.
608.886, impetrado no Superior Tribunal de Justiça em benefício do
investigado Eduardo Hage Carmo. Pelo elementos constantes destes
autos, não há como concluir pela similaridade de situações, sendo matéria
a ser dirimida no Superior Tribunal de Justiça.

10. A decisão liminar e precária proferida pelo Ministro Rogerio


Schietti Cruz, do Superior Tribunal de Justiça, não exaure o cuidado do
que posto a exame, estando o habeas corpus ali em curso a aguardar
julgamento definitivo, como pedido pela parte. Confiram-se os julgados a
seguir:
“AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS.
SÚMULA 691/STF. TRÁFICO DE DROGAS. MANDADO DE
BUSCA E APREENSÃO. ILEGALIDADE. PRISÃO
PREVENTIVA. FUNDAMENTAÇÃO. AUDIÊNCIA DE
CUSTÓDIA. USO ARBITRÁRIO DE ALGEMAS. SUPRESSÃO
DE INSTÂNCIA. 1. Não se conhece de habeas corpus impetrado
contra indeferimento de liminar por Relator em habeas corpus
requerido a Tribunal Superior. Súmula 691. Óbice superável apenas
em hipótese de manifesta ilegalidade ou teratologia. 2. Inviável o
exame das teses defensivas não analisadas pelo Superior Tribunal de
Justiça, sob pena de indevida supressão de instância. Precedentes. 3.
Agravo regimental conhecido e não provido” (HC n. 160.507-AgR,
Relatora a Ministra Rosa Weber, DJe 5.10.2018).

“AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PENAL


E PROCESSO PENAL. CRIMES DE TRÁFICO ILÍCITO DE
ENTORPECENTES E DE ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO.
ARTIGOS 33 E 35 DA LEI 11.343/06. ENUNCIADO Nº 691 DA
SÚMULA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. SUPRESSÃO
DE INSTÂNCIA. PLEITO DE REVOGAÇÃO DA CUSTÓDIA
CAUTELAR. TEMA NÃO DEBATIDO PELAS INSTÂNCIAS
PRECEDENTES. INEXISTÊNCIA DE CONSTRANGIMENTO
ILEGAL. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. ‘Não

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Supremo Tribunal Federal

HC 191014 / DF

compete ao Supremo Tribunal Federal conhecer de habeas corpus


impetrado contra decisão do Relator que, em habeas corpus
requerido a tribunal superior, indefere a liminar’ - Enunciado n. 691
da Súmula do Supremo Tribunal Federal. 2. In casu, o paciente teve a
prisão preventiva decretada no contexto de apuração dos crimes
previstos nos artigos 33 e 35 da Lei 11.343/06. 3. A supressão de
instância impede o conhecimento de Habeas Corpus impetrado per
saltum, porquanto ausente o exame de mérito perante o Tribunal a
quo e Corte Superior. Precedentes: HC 100.595, Segunda Turma, Rel.
Min. Ellen Gracie, DJe de 9/3/2011, HC 100.616, Segunda Turma,
Rel. Min. Joaquim Barbosa, DJe de 14/3/2011, HC 103.835, Primeira
Turma, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, DJe de 8/2/2011, HC
98.616, Primeira Turma, Rel. Min. Dias Toffoli, DJe de 22/2/2011. 4.
A reiteração dos argumentos trazidos pelo agravante na petição inicial
da impetração é insuscetível de modificar a decisão agravada.
Precedentes: HC 136.071-AgR, Segunda Turma, Rel. Min. Ricardo
Lewandowski, DJe de 09/05/2017; HC 122.904-AgR, Primeira Turma
Rel. Min. Edson Fachin, DJe de 17/05/2016; RHC 124.487-AgR,
Primeira Turma, Rel. Min. Roberto Barroso, DJe de 01/07/2015. 5.
Agravo regimental desprovido” (HC n. 161.006-AgR, Relator o
Ministro Luiz Fux, DJe 15.10.2018).

“AGRAVO REGIMENTAL. HABEAS CORPUS.


PROCESSUAL PENAL. IMPETRAÇÃO CONTRA DECISÃO
QUE INDEFERIU LIMINAR NO SUPERIOR TRIBUNAL DE
JUSTIÇA: SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA: INCIDÊNCIA DA
SÚMULA 691 DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.
EXCEPCIONALIDADE NÃO DEMONSTRADA. AGRAVO
REGIMENTAL NÃO PROVIDO.
1. A decisão questionada nesta ação é monocrática e tem
natureza precária, desprovida, portanto, de conteúdo definitivo. Não
vislumbrando a existência de manifesto constrangimento ilegal,
incide, na espécie, a Súmula 691 deste Supremo Tribunal (‘Não
compete ao Supremo Tribunal Federal conhecer de habeas corpus
impetrado contra decisão do Relator que, em habeas corpus
requerido a tribunal superior, indefere a liminar’). Precedentes.

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Supremo Tribunal Federal

HC 191014 / DF

2. Agravo regimental não provido” (HC n. 90.716-AgR, de


minha relatoria, DJ 1º.6.2007).

Confiram-se também, por exemplo, os seguintes julgados: Habeas


Corpus n. 186.472-AgR, de minha relatoria, DJe 13.8.2020, Habeas Corpus n.
89.970, de minha relatoria, DJ 22.6.2007, Habeas Corpus n. 90.232, Relator o
Ministro Sepúlveda Pertence, DJ 2.3.2007, e Agravo Regimental no Habeas
Corpus n. 89.675-AgR, Relator o Ministro Cezar Peluso, DJ 2.2.2007.

11. Pelo exposto, nego seguimento ao habeas corpus (§ 1º do art. 21


do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal), prejudicada a
medida liminar requerida.

Publique-se.

Brasília, 8 de setembro de 2020.

Ministra CÁRMEN LÚCIA


Relatora

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