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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

Curso de Arte: História, Crítica e Curadoria


ART-MA2

Caroline Amaral RA00147062


Thais Marinovic Doro RA00147074

Histórias Mestiças

São Paulo
2014
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
Curso de Arte: História, Crítica e Curadoria
ART-MA2

Caroline Amaral RA00147062


Thais Marinovic Doro RA00147074

Histórias Mestiças

Trabalho de conclusão da disciplina


Critica e Curadoria, apresentado à
Profa. Elaine Caramella como
requisito para a obtenção da nota
final.

São Paulo
2014
ANÁLISE DA EXPOSIÇÃO “HISTÓRIAS MESTIÇAS”

“Histórias Mestiças não é tanto uma história da mestiçagem, mas


uma mestiçagem de muitas histórias.” (Adriano Pedrosa, curador
da exposição)

A exposição Histórias Mestiças, com curadoria de Adriano Pedrosa e


Lilia Moritz Schwarcz, exposta no Instituto Tomie Ohtake foi dividida em seis
núcleos: Mapas e Trilhas, Emblemas nacionais e Cosmologias, Ritos e
Religiões, Máscaras e Retratos, Tramas e Grafismos e Encontros e
Desencontros. Os nomes dados a cada sala são gerados a partir de uma
combinação de palavras da cultura europeia e não europeia. A mostra contém
cerca de 400 obras dentre elas pinturas, esculturas, instalações, documentos e
objetos, procedentes da arte indígena, negra, colonial, e de suas
reinterpretações. As obras são provenientes de 60 acervos brasileiros e
europeus.
A exposição trata da miscigenação brasileira do mulato, mestiço de
negro e branco, do mameluco, mestiço de branco e índio, e ainda dos
imigrantes europeus, refugiados das guerras do século XX, com os grupos
étnicos já formados no Brasil. A curadoria organizou as obras de forma a não
hierarquizar os grupos étnicos, desmistificando a história do vencedor para
contar também a história dos vencidos, segundo Walter Benjamin: a história
integral.
Os colonizadores trouxeram consigo sua visão etnocêntrica do mundo,
na sala Trilhas e Mapas podemos ver tanto o método europeu de mapear
territórios, quanto a visão indígena que abole as noções usuais do espaço,
mapas do percurso para os quilombos, e cartas sobre o fluxo do tráfico de
escravos. Ao mesmo tempo as três esferas são colocadas em pé de igualdade.
A exposição está repleta de provocações sutis que induzem o receptor ao
entendimento do discurso curatorial. O crítico-curador não intenta ser imparcial,
ele constrói um discurso e a exposição é pensada a partir dele.
O negro é o povo que foi obrigado a vir para o Brasil, eles não mantêm a
mesma relação de pertencimento a terra que o índio. O índio foi expulso de seu
próprio território, ele entende esta terra e quer estar nela. Para o negro, esta é
a terra que o aprisionou e subjugou, sua terra natal é a África e em bases
africanas que ele irá construir e manter sua identidade.
O processo de mestiçagem dissolveu estas questões. O negro de hoje é
mulato e mantém, ao mesmo tempo, relações enraizadas com o Brasil e com a
África. Os índios mestiços vivem na metrópole sem perder seus laços com a
cultura indígena.
Uma das coisas que percebemos durante a exposição, guiadas pelo
discurso curatorial, é como muitas vezes esquecemos das raízes indígenas
brasileiras, diferente da questão do negro, já que grande parte da nossa
população é negra ou parda e sua luta contra o racismo tem visibilidade e
alcance social, as pautas indígenas acabam ficando em segundo plano. São
Paulo é considerado o 4º município com maior população indígena no país, o
que parece surreal já que quase não os vemos no dia-a-dia.

O núcleo Máscaras e Retratos trata do conceito de persona e da


identidade do povo brasileiro desde os aspectos mais básicos como os traços
étnicos até aspectos mais profundos da nossa cultura. A sala dá uma visão
panorâmica que contrapõe e aproxima as várias culturas que resultaram na
identidade nacional. A sala é uma contraposição de estéticas e,
consequentemente, de visões de mundo.
A forma como as imagens estão organizadas as vezes assumem um
caráter lúdico e parecem nos contar histórias. É o caso de duas obras de
Alfredo Volpi que estão cercadas por uma obra de Di Cavalcanti – em que três
mulheres parecem compartilhar um segredo – e outro retrato. Assumindo esta
ludicidade podemos pensar que as mulheres de Volpi conversam entre si, a
mulher ao lado ouve passivamente a conversa, já as moças acima, no quadro
de Di Cavalcanti, fofocam sobre a conversa das duas abaixo. “A implicação de
que a boa curadoria não tomará como regras as convenções institucionais (tais
como a galeria), mas será tão dialética quanto as obras de arte que pretende
mostrar.”, diz Claire Bishop em seu artigo What’s the curator, o que nos leva a
pensar que a curadoria pode incluir tanto provocações críticas quanto
brincadeiras, sem prejudicar sua seriedade.
Entre as salas da exposição encontra-se a instalação Em busca do
Sagrado Jiboia Nixi Pae, de Ernesto Neto. Nixi Pae é um ritual cantado em
Ratxa Kuin, idioma falado pela população Huni Kuin, que implica na ingestão
ritualística do chá Ayahuasca. A lenda da Jiboia Encantada conta a história da
jiboia branca que se casou com um guerreiro e ensinou a ele os segredos da
miração da Jiboia Encantada, o guerreiro levou esta sabedoria ao povo Huni
Kuin que pratica o ritual até hoje, para eles Nixi Pae está ligado à busca da
sabedoria sagrada da terra, entrando em contato com a energia da terra.
Ao entrar na instalação caminhamos por um “túnel" com bolsas de
cravo, que dão um aroma característico ao espaço. O trajeto leva a uma sala
circular onde os objetos estão dispostos como aconteceria durante o ritual:
chocalhos, pimenta, cravo, velas, locais para sentar, um jarro de chá
Ayahuasca e copos. A instalação é uma experiência sensorial singular e por
meio dela podemos simular a experiência. A reprodução do ambiente em que o
ritual Nixi Pae acontece não desqualifica a instalação enquanto obra de arte,
pois, como diz Boris Groys em seu livro Going Public, “a instalação demonstra
uma certa seleção, uma certa cadeia de escolhas, uma lógica de inclusões e
exclusões” e são as escolhas de Ernesto Neto que vemos na exposição, não é
o ritual em si.
Em relação a parte técnica da exposição, observamos uma preocupação
com a conservação das obras, levando em conta a iluminação e a climatização
do espaço. Nas salas a iluminação era indireta, para não afetar a pigmentação
das pinturas, e era diferente em cada parte da exposição de acordo com a
necessidade de cada trabalho. Haviam filtros sobre as obras e avisos
informativos quando uma obra não podia ser fotografada, além de seguranças
observando e advertindo os visitantes. No piso, as faixas que determinam o
limite de aproximação do público não se encontravam em todas as obras.
Quanto a climatização, as salas estavam frias, temperatura que deve ser
mantida todo o tempo para que as obras, principalmente as feitas em madeira,
não sofram rachaduras, já que a variação da temperatura dilata ou contrai o
material. Algumas obras expostas possuíam uma proteção de vidro, mas não
eram hermeticamente fechadas, o que pode ser prejudicial as obras. Todas as
obras eram acompanhadas por uma placa que informava o nome, a autoria, o
ano de confecção, o material, a técnica utilizada e a qual coleção a obra
pertence. Os textos de parede traziam informações pertinentes e concisas, que
para o receptor auxiliavam no entendimento do discurso curatorial. Todos os
textos eram apresentados em português e inglês.
O núcleo Encontros e Desencontros, era apresentado pela curadoria
como uma “sala síntese”, no texto de parede na entrada do espaço, pois seu
conteúdo sintetizava a visão que se pretendeu abordar na exposição como um
todo.
Três narrativas se desdobram e são sobrepostas em camadas: os
desenhos do índio yanomami Taniki Manippi-Theri, que conta a história da
morte de uma mulher yanomami e o processo funeral dos Yanomami; Abaixo,
encontram-se 38 aquarelas do século XVIII, que mostram um conflito entre
bandeirantes e kaingangs; E por último, a série Marcados (1981), da fotógrafa
suíça-brasileira Claudia Andujar, que fotografou os índios com placas
numeradas que os identificam, já que na cultura Yanomami os indivíduos não
são nomeados da mesma maneira que na cultura ocidental, o projeto era parte
de um projeto de prevenção e vacinação. A sala evidencia o choque cultural
causado pela colonização, além de tratar da violência e da exclusão social.

CONCLUSÃO

A curadoria buscou investigar artistas, autores, suportes e aspectos pouco


conhecidos, ou sob uma visão diferenciada e fazer com que todos
dialogassem. Buscou-se criar “narrativas e cruzamentos de épocas e culturas
que partem de um olhar pós-colonial não acadêmico” (MARTINHO, p.80).
Adriano Pedrosa, um dos curadores da exposição defende que “já houve
exposições com arte africana e arte indígena, mas sempre tratadas como
territórios distintos, segregados, hierarquizados, e nunca cruzados com a
produção moderna e contemporânea”.
A forma com que a curadoria montou esta exposição, fez com que o público
praticasse o exercício de olhar novamente para a história do Brasil, sem
sobrepor nenhuma cultura e dando foco à discriminação e à exclusão social.
BIBLIOGRAFIA

MARTINS, Alberto; KOK, Glória. Artes Indígenas. 2014.

MARTINHO, Teté. Histórias Mestiças. Revista Arte! Brasileiros, São Paulo,


número 26, p.80, setembro/outubro de 2014.

BISHOP, Claire. What is the curator? Disponível em <


http://clairebishopresearch.blogspot.com.br/search/label/articles>. Acesso em
25 de outubro de 2014.

GROYS, Boris. Going public. Stemberg Press, 2010. Disponível em: <
http://indexofpotential.net/uploads/52583/Boris-Groys-2010-Going-Public.pdf >.
Acesso em 25 de outubro de 2014.

Histórias mestiças. 2014. Disponível em


http://www.institutotomieohtake.org.br/programacao/exposicoes/historias-
mesticas/>. Acesso em 25 de outubro de 2014.

Índios na cidade de São Paulo. Disponivel em <


http://cpisp.org.br/indios/html/texto.aspx?ID=207 >. Acesso em 20 de
Novembro de 2014.

KUIN, Leopardo Sales Yawa Bane Huni. A lenda da jibóia branca, guardiã do
nixi pae dos Huni Kuin. Disponível em < http://www.bialabate.net/news/a-lenda-
da-jiboia-branca-guardia-do-nixi-pae-dos-huni-kuin >. Acesso em 20 de
novembro de 2014.
ANEXOS

Em busca do Sagrado Jiboia Nixi Pae, 2014, Ernesto Neto.

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