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Joan Didion

NOITES
AZUIS
a continuação de

O ANO DO
PENSAMENTO
MÁGICO

Tradução de Celina Portocarrero


Título original: Blue Nights
Copyright © 2012 by Joan Didion
Copyright © desta edição, 2012 by Editora Nova Fronteira
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D553j Didion, Joan.


Noites azuis / Joan Didion. ; tradução Celina
Portocarrero. - Rio de Janeiro : Nova Fronteira,
2012. 144p. : 21 cm

Tradução de : Blue Nights


ISBN 978-85-209-2706-9

1. Romance americano I. Portocarrero, Celina.


II. Título.

12-4785. CDD: 813


CDU: 821.111(73)

09.07.12 19.07.12 037149


Este livro é para Quintana.
1

Em algumas latitudes há uma época do ano, anterior e posterior ao


solstício de verão, perfazendo-se algumas semanas, em que os crepús-
culos se tornam longos e azuis. Esse período de noites azuis não existe
na Califórnia subtropical, onde vivi a maior parte do tempo a res-
peito do qual falarei aqui e onde o final do dia é rápido e se perde
na intensidade do sol poente, mas existe em Nova York, onde vivo
agora. Percebemos isso pela primeira vez quando finda abril e princi-
pia maio, uma mudança na estação, não exatamente um aquecimento
— de modo algum, na verdade —, embora de repente o verão pareça
próximo, uma possibilidade, quase uma promessa. Passamos por uma
janela, andamos até o Central Park, nos damos conta de que estamos
nadando na cor azul: a própria luz é azul, e ao fim de mais ou me-
nos uma hora aquele azul se aprofunda, torna-se ainda mais intenso
conforme vai escurecendo e desbotando, aproxima-se enfim do azul do
vitral num dia claro em Chartres, ou da radiação Cherenkov lançada
pelas barras de combustível nas piscinas dos reatores nucleares. Os
franceses chamam esse momento do dia de l’heure bleue ou “a hora
azul”. Para os ingleses, the gloaming. A própria expressão gloa-
ming reverbera, ecoa — the gloaming, the glimmer, the glitter,
the glisten, the glamour —, levando em suas consoantes as imagens
de casas sendo fechadas, jardins escurecendo, rios margeados de grama
deslizando por entre as sombras. Nas noites azuis pensamos que o fim
do dia nunca virá. Quando as noites azuis chegam ao fim (e chegarão,
e chegam), sentimos um verdadeiro calafrio, um temor de doença, no
momento em que percebemos: a luz azul está indo embora, os dias já

Noites Azuis 7
se encurtam, o verão se foi. Este livro se chama Noites azuis porque,
quando comecei a escrevê-lo, senti que minha mente se voltava cada
vez mais para a doença, para o fim da promessa, o minguar dos dias,
a inevitabilidade do esmaecer, o declínio da claridade. As noites azuis
são o oposto do declínio da claridade, mas são também seu aviso.

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2

26 de julho de 2010.
Hoje seria seu aniversário de casamento.
Há sete anos, neste mesmo dia, tiramos os colares havaia-
nos das caixas do florista e os sacudimos para que a água em
que estavam guardados caísse sobre a grama do jardim da ca-
tedral de são João, o Divino, na avenida Amsterdam. O pa-
vão branco abriu o leque. O órgão soou. Ela havia entrelaçado
jasmins-de-madagascar brancos na grossa trança que pendia
às suas costas. Jogou o véu de tule sobre a cabeça, e os jasmins
se soltaram e caíram. A flor de pluméria tatuada logo abaixo
do ombro transparecia sob o tule.
— Vamos lá — sussurrou ela.
As menininhas de colares havaianos e vestidos claros sal-
titaram pelo corredor e andaram à sua frente até o altar prin-
cipal. Depois que tudo foi dito, as meninas seguiram-na até
as portas da frente da catedral e contornaram os pavões (dois
iridescentes pavões azuis e verdes, além do pavão branco) até
a casa paroquial. Havia sanduíches de pepino e agrião, um
bolo cor de pêssego da confeitaria Payard, champanhe rosada.
Escolhas dela, todas.
Escolhas afetivas, coisas de que se lembrava.
Eu também me lembrava.
Quando ela disse que queria sanduíches de pepino e agrião
em seu casamento, lembrei-me dela arrumando travessas de
sanduíches de pepino e agrião nas mesas que armamos em

Noites Azuis 9
volta da piscina para o almoço do seu 16º aniversário. Quando
disse que queria colares havaianos em vez de buquês em seu
casamento, lembrei-me dela com 3, 4 ou 5 anos, descendo de
um avião em Bradley Field, em Hartford, usando os colares
havaianos que ganhara ao sair de Honolulu na noite anterior.
A temperatura em Connecticut naquela manhã era de -6ºC
e ela estava sem casaco (estava sem casaco quando saí­mos
de Los Angeles para Honolulu, não tínhamos planejado ir até
Hartford), mas isso não foi um problema. Crianças com cola-
res havaianos não usam casacos, advertiu-me ela.
Escolhas afetivas.
Naquele casamento, ela realizou todas as suas escolhas
afetivas, menos uma: queria que as meninas andassem des-
calças pela catedral (lembrança de Malibu, ela estava sempre
descalça em Malibu, sempre tinha farpas do deque de madeira
vermelha: farpas do deque, alcatrão da praia e iodo para os
arranhões dos pregos dos degraus que separavam o deque e
a praia), mas as menininhas ganharam sapatos novos para a
ocasião e queriam usá-los.

o sr. e a sra. john gregory dunne


ficarão honrados com sua presença
no casamento de sua filha
quintana roo
com
gerald brian michael
no sábado, dia vinte e seis de julho
às quatorze horas

Os jasmins.
Seriam outra escolha afetiva?
Será que ela se lembrava dos jasmins?
Terá sido por isso que os quisera, terá sido por isso que os
prendeu na trança?

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Na casa em Brentwood Park, onde ela viveu de 1978 a 1988,
uma casa tão decididamente convencional (dois andares, sa-
guão central no térreo, venezianas e uma antessala para cada
quarto), a ponto de parecer idiossincrática (“a casa pretensio-
sa deles em Brentwood” era como ela se referia à casa quando
a compramos, uma garota de 12 anos esclarecendo que não era
dela aquela decisão, nem aquele gosto, uma criança reivindi-
cando a distância de que todas as crianças imaginam precisar),
havia jasmins-de-madagascar crescendo do lado de fora das
portas da varanda. Eu roçava nas flores cerosas sempre que ia
ao jardim. Do lado de fora das mesmas portas havia canteiros
de lavandas e também de menta, um emaranhado de menta,
mantido exuberante por uma torneira que pingava. Nós nos
mudamos para aquela casa no ano em que ela ia começar o
sétimo ano na então escola Westlake para moças, em Holmby
Hills. Parece que foi ontem. Nós nos mudamos daquela casa
no ano em que ela se formaria em Barnard. Também parece
que foi ontem. Os jasmins e a menta já estavam mortos, elimi-
nados quando o homem que iria comprar a casa insistiu para
que nós a livrássemos dos cupins cobrindo-a e pulverizando
pesticidas. Na época em que esse comprador fez uma oferta
pela casa, ele nos mandou um recado pelos corretores, apa-
rentemente como condição para fechar negócio, dizendo que
queria a casa porque podia imaginar sua filha se casando no
jardim. Isso foi algumas semanas antes de ele exigir que pul-
verizássemos o pesticida que matou os jasmins, matou a men-
ta e matou também a magnólia cor-de-rosa que a menina de
12 anos que tanto menosprezava a nossa casa pretensiosa em
Brentwood via das janelas da sua saleta no segundo andar. Os
cupins, eu tinha certeza, voltariam. A magnólia cor-de-rosa,
eu também tinha certeza, não voltaria.
Fechamos negócio e nos mudamos para Nova York.
Onde, na verdade, eu já havia morado antes: dos 21 anos, e
quando tinha acabado de sair do Departamento de Inglês em

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Berkeley e começado a trabalhar na Vogue (um salto tão abso-
lutamente antinatural que, quando o departamento de pessoal
da Condé Nast me pediu que enumerasse os idiomas em que
era fluente, só consegui pensar em “inglês médio”), até os 29 e
quando era recém-casada.
Onde voltei a viver, desde 1988.
Por que então digo que vivi a maior parte desse tempo na
Califórnia?
Por que tive uma sensação tão forte de traição quando troquei
minha carteira de motorista da Califórnia por uma emitida em
Nova York? Não era, na verdade, uma mudança bastante sim-
ples? Nosso aniversário está chegando, a carteira precisa ser re-
novada, que diferença faz onde a renovamos? Que diferença faz
se sempre tivemos na carteira aquele mesmo número desde que
nos foi atribuído, aos 15 anos e meio, pelo estado da Califórnia?
E, afinal, não houvera sempre um erro naquela carteira? Um
erro do qual eu sabia. Aquela carteira não dizia que eu tinha
um metro e cinquenta e sete? Quando eu sabia muito bem que
tinha, na melhor das hipóteses — altura máxima, maior altura
desde sempre, altura antes de perder um centímetro e pouco
com a idade —, quando eu sabia muito bem que tinha, na me-
lhor das hipóteses, um metro e cinquenta e seis e meio?
Por que dar tanta importância à carteira de motorista?
Qual era o motivo?
Abrir mão da carteira da Califórnia significava que eu nun-
ca mais teria 15 anos e meio?
Era o que eu queria?
Ou o problema com a carteira era apenas mais um caso de
“manifesta inadequação ao acontecimento iminente”?
Pus “manifesta inadequação ao acontecimento iminente”
entre aspas porque essa frase não é minha.
Foi Karl Menninger quem a usou, em O homem contra si
próprio, como uma forma de descrever a tendência de reagir
com exagero a circunstâncias que podem parecer banais, até

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previsíveis: uma propensão, diz o dr. Menninger, comum entre
suicidas. Ele cita a moça que entra em depressão e se mata
depois de cortar o cabelo. Menciona o homem que se mata por-
que foi aconselhado a parar de jogar golfe, a criança que comete
suicídio porque seu canário morreu, a mulher que se mata após
perder dois trens.
Observe: não foi um trem, foram dois trens.
Pense nisso.
Reflita sobre quais circunstâncias especiais são necessárias
antes que essa mulher desista de tudo.
— Nessas situações, — nos diz o dr. Menninger — o cabe-
lo, o golfe e o canário tinham um valor exagerado, de modo
que, diante da perda ou mesmo de uma ameaça de perda, o
golpe do rompimento dos laços afetivos foi fatal.
É, evidentemente não se discute.
“O cabelo, o golfe e o canário”, a cada um deles havia sido
atribuído um valor exagerado (como deve ter acontecido com
aquele segundo trem perdido), mas por quê? O próprio dr.
Menninger faz essa pergunta, embora de forma retórica: “Mas
por que existiriam superestimas exageradas de um modo tão
extravagante e avaliações tão incorretas?” Imaginaria ele ter
respondido à pergunta só pelo fato de tê-la feito? Acreditaria
ele que tudo o que precisava fazer era formular a pergunta e se
retirar para uma nuvem de referências teóricas psicanalíticas?
Poderia eu realmente interpretar a mudança da minha carteira
de motorista da Califórnia para Nova York como uma expe­
riência que envolvia “laços afetivos”?
Será que eu a via mesmo como uma perda?
Será que eu a via de fato como uma separação?
E, antes de deixarmos esse assunto de “rompimento de la-
ços afetivos”:
Na última vez em que vi a casa de Brentwood Park, antes
da escritura mudar de mãos, ficamos sentados do lado de fora,
observando o caminhão de mudança de três andares se afastar

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e virar na rua Marlboro, levando consigo tudo o que possuía­
mos naquela época, inclusive uma caminhonete Volvo, já a
bordo e a caminho de Nova York. Depois que o caminhão saiu
de nosso campo visual, andamos pela casa vazia até a varanda,
um momento de adeus tornado menos suave pelo cheiro forte
de inseticida na casa e pelas folhas esturricadas onde antes ha-
via a magnólia cor-de-rosa e o jasmim-de-madagascar. Senti o
cheiro de inseticida até em Nova York, cada vez que abria uma
caixa. Quando voltei a Los Angeles e passei de carro diante da
casa, ela já não existia, havia sido demolida, para dar lugar, um
ou dois anos depois, a uma casa um pouco maior (um novo
quarto em cima da garagem, alguns centímetros a mais em
uma cozinha já grande o bastante para acomodar um piano de
cauda Chickering que passava quase despercebido), mas (para
mim) sem o firme convencionalismo da original. Alguns anos
mais tarde, numa livraria em Washington, encontrei a filha,
aquela que o comprador podia imaginar se casando no jardim.
Ela estudava em algum lugar de Washington (Georgetown?
George Washington?), e eu estava lá para fazer uma palestra
sobre Política e Prosa. Ela se apresentou.
— Cresci na sua casa — disse ela.
“Não exatamente”, pensei, mas não disse.
John sempre dizia que nos mudamos “de volta” para
Nova York.
Nunca o fiz.
Brentwood Park era antes, Nova York era agora.
Brentwood Park, antes do inseticida, tinha sido uma época,
um período, uma década durante a qual tudo parecia estar
conectado.
Nossa casa pretensiosa em Brentwood.
Era exatamente isso. Ela a chamava assim.
Havia carros, uma piscina, um jardim.
Havia agapantos, lírios-do-nilo, explosões intensamente
azuis que flutuavam em longas hastes. Havia gauras, nuvens

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de minúsculas flores brancas que só eram visíveis a olho nu
ao cair da noite.
Havia chintzes ingleses, bordados chineses.
Havia um cão boiadeiro de Flandres imóvel no patamar da
escada, um olho aberto, montando guarda.
O tempo passa.
A memória desbota, a memória se ajusta, a memória se
adapta ao que imaginamos lembrar.
Até mesmo a lembrança dos jasmins em sua trança, até
mesmo a lembrança da tatuagem da pluméria transparecendo
sob o tule.
“É terrível ver alguém morrer sem filhos.” Napoleão Bo­na­
par­te disse isso.
“Que dor maior pode haver para os mortais do que ver seus
filhos mortos?”, Eurípedes disse.
“Quando falamos em mortalidade estamos falando de nos-
sos filhos.”
Eu disse.
Penso agora naquele dia de julho na catedral de são João,
o Divino, em 2003 e fico surpresa por John e eu parecermos
tão jovens, tão bem. Na verdade, nenhum de nós estava bem:
naquela primavera e naquele verão, John havia se submetido
a uma série de procedimentos cardíacos, por último a implan-
tação de um marca-passo, cuja eficácia ainda era duvidosa;
três semanas antes do casamento, eu havia desmaiado na rua
e passado várias noites na UTI do hospital presbiteriano de
Columbia, recebendo uma transfusão por conta de um inex-
plicável sangramento gastrointestinal.
— Você só tem que engolir uma pequena câmera — disse-
ram na UTI, quando tentavam demonstrar para si mesmos o
que causava o sangramento. Lembro-me de resistir: como eu
nunca tinha sido capaz, na vida, de engolir uma aspirina, pare-
cia improvável que eu pudesse engolir uma câmera.
— Claro que consegue, é só uma pequena câmera.

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Uma pausa. A tentativa de imposição deu lugar à persuasão:
— É uma câmera bem pequena mesmo.
No fim, engoli a câmera bem pequena, e a câmera bem pe-
quena transmitiu as desejadas imagens, que não demonstra-
ram o que estava causando o sangramento, mas demonstraram
que com suficiente sedação qualquer um é capaz de engolir
uma câmera bem pequena. Da mesma maneira, em outro uso
não totalmente eficaz da medicina de alta tecnologia, John
pôde levar um telefone ao peito, discar um número e obter
uma leitura do marca-passo, algo que, segundo me disseram,
provou que no exato instante em que ele discou o número
(embora não necessariamente antes ou depois disso) o dispo-
sitivo estava funcionando.
A medicina, conforme pude perceber em mais de uma oca-
sião desde então, continua a ser uma arte imperfeita.
Ainda assim, tudo parecia bem enquanto sacudíamos a
água dos colares havaianos na grama do jardim da catedral de
são João, o Divino, em 26 de julho de 2003. Será que você no-
taria, se passasse aquele dia pela avenida Amsterdam e visse
de relance a festa de casamento, o quão despreparada estava
a mãe da noiva para aceitar o que aconteceria antes mesmo
de 2003 chegar ao fim? O pai da noiva morto em sua própria
mesa de jantar? A própria noiva num coma induzido, respi-
rando por aparelhos, os médicos da unidade de terapia inten-
siva receando que ela não passasse daquela noite? O primeiro
de uma enxurrada de problemas de saúde que culminariam,
vinte meses depois, na morte da noiva?
Vinte meses nos quais ela só teria forças suficientes para
andar sem apoio por um mês, no total?
Vinte meses nos quais ela passaria semanas a fio em unida-
des de terapia intensiva de quatro hospitais diferentes?
Em todas essas unidades de terapia intensiva havia os mes-
mos sons, o mesmo gorgolejar nos tubos plásticos, o mesmo go-
tejamento da medicação endovenosa, os mesmos estertores, os

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mesmos alarmes. Em todas essas unidades de terapia intensiva
havia as mesmas exigências de proteção contra novas infecções,
o uso de aventais hospitalares, os chinelos de papel, o gorro
cirúrgico, a máscara, as luvas que só se punha com dificulda-
de e que deixavam irritações avermelhadas que sangravam. Em
todas essas unidades de terapia intensiva havia o mesmo corre-
-corre pela unidade quando uma emergência era declarada, pés
batendo no chão, o chacoalhar do carrinho de emergência.
“Isso nunca deveria ter acontecido com ela”, lembro-me
de pensar — indignada, como se ela e eu tivéssemos direi-
to a uma isenção especial — na terceira unidade de terapia
intensiva.
Quando ela chegou à quarta, eu já não mais invocava aque-
la isenção especial.
“Quando falamos em mortalidade, estamos falando de nos-
sos filhos.”
Acabei de dizer isso, mas o que isso quer dizer?
Tudo bem, é claro que eu consigo entender, é claro que você
consegue entender, mais uma maneira de admitir que nossos
filhos são reféns da sorte, mas, quando falamos de nossos fi-
lhos, do que estamos falando? Estamos falando do que tê-los
significou para nós? Do que não tê-los significou para nós? Do
que significou deixá-los ir? Estamos falando do enigma que
é a promessa de proteger o que não pode ser protegido? De
todo o quebra-cabeça que é ser pai ou mãe?
“O tempo passa.”
Sei, tudo bem, uma banalidade, é claro que o tempo passa.
Então, por que eu digo isso, por que já disse mais de
uma vez?
Estarei dizendo isso da mesma maneira que digo ter vivido
a maior parte da minha vida na Califórnia?
Estarei dizendo isso sem ouvir o que digo?
Será que eu ouvia assim: “O tempo passa, mas de um jei-
to não tão agressivo, de modo que ninguém percebe”? Ou

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mesmo: “O tempo passa, mas não para mim”? Será que eu
não percebia a natureza geral ou a permanência da desacele-
ração, as irreversíveis mudanças no corpo e na mente, o modo
como acordamos em uma manhã de verão, menos resistentes
do que antes, e no Natal descobrimos que nossa capacidade de
movimento está esgotada, atrofiada, exaurida? O modo como
vivemos a maior parte da vida na Califórnia, e então não mais?
O modo como nossa consciência desse tempo que passa —
essa permanente desaceleração, essa efêmera resistência —
multiplica-se, propaga-se, torna-se nossa própria vida?
“O tempo passa.”
Será que eu nunca acreditei nisso?
Terei acreditado que as noites azuis durariam para sempre?

18 Joan Didion

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