Você está na página 1de 12

Caroline Amaral

ART-MA2

BRASAÏ
O FOTÓGRAFO DA NOITE

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo


2014
Caroline Amaral
ART-MA2

BRASAÏ
O FOTÓGRAFO DA NOITE

Trabalho de conclusão da disciplina


Estudos da Imagem, apresentado à Profa.
Sandra Mraz como requisito para a
obtenção da nota final.

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo


2014
BRASSAÏ
Gyula Halász, mais conhecido como Brassaï, nasceu em 1899 em Braşov (Brasso), um
condado da Transilvânia, na Romênia. Brassaï significa “vindo de Brasso”. Também é
chamado de o fotógrafo da noite ou o olho de Paris.

Sua família morou em Paris quando ele tinha mais ou menos 4 anos, pois seu pai era
professor de literatura francesa e foi convidado a palestrar na Sorbonne durante um ano.
Após este período foram morar em Budapeste, onde anos depois Brassaï estudou desenho,
pintura e escultura na Academia de Belas Artes de Budapeste. Mais tarde quis voltar à Paris,
mas Romênia e França estavam em lados opostos na Primeira Guerra Mundial e após servir
no exército austro-húngaro, ele, assim como todos os cidadãos dos países inimigos, foi
proibido de morar na França.

Em 1924 ele voltou a Paris e lá se instalou definitivamente, trabalhou inicialmente como


desenhista, fazendo charges e caricaturas para jornais franceses e alemães, e como
colunista para revistas austríacas, húngaras e romenas. Brassaï não demonstra grande
interesse por fotografia até os editores destas publicações solicitarem que ele incluísse
fotografias em seus trabalhos, ele pede colaborações de seus amigos fotógrafos e
posteriormente, inspirado pelo trabalho de Andre Kertesz e, percebendo a potencialidade
expressiva da fotografia, ele decidiu tentar por ele mesmo.

Suas primeiras fotografias foram realizadas por volta de 1929, e são justamente estas
imagens que marcam o começo de sua exploração da Paris noturna, e resultam em seu
primeiro livro de fotografias: Paris de nuit, publicado em 1933. A publicação foi um escândalo
por causa de sua temática: o lado obscuro de Paris durante a noite. Mas foi somente com
seu próximo livro, Voluptes de Paris, publicado em 1935, que Brassaï ficou conhecido
internacionalmente.

Brassaï faleceu em 1984, em Nice, na França.


PARIS DE NUIT (1933)
O livro Paris de nuit, publicado em 1933 é a obra introdutória de sua carreira fotográfica.
Resultado de suas andanças noturnas por Paris, a maioria das fotos foi feita na região de
Montparnasse, bairro parisiense conhecido por ser um ponto de encontro de intelectuais e
artistas, além de ser frequentado por prostitutas e delinquentes.

Quase como um flaneury, Brassai andava por Paris de madrugada para fotografar. Ele
montava seu tripé, preparava o enquadramento e fazia suas fotografias em alta exposição,
para isso o obturador da câmera ficava aberto mais tempo que o normal para, com pouca
luz, fazer fotografias de qualidade.

A liberdade que Brassaï tinha em fotografar personagens noturnos se dava pelo bom
relacionamento que mantinha com eles, o próprio fotografo passou a fazer parte daqueles
ambientes.

A publicação de Paris de nuit coincide com a implantação do III Reich, fato que mudará
profundamente o contexto político-social dos anos seguintes. O período vigente era o entre
guerras, que foi um momento de transição cultural, social e econômica na Europa. A capital
francesa continuava sendo a capital cultural do mundo.

Houveram algumas críticas a Brassaï que afirmavam que ele ignorou o contexto conturbado
da época, mas, ao expor uma Paris visceral e excluída, afastada dos moralismos diurnos,
ele retratou o sentimento conturbado dentro da esfera social. Além de provocar a moral
vigente, ele propõe inovações estéticas: Quantos fotógrafos haviam trabalhado com os
porões da sociedade? Esta inovação não está ligada apenas às fotografias externas
noturnas e belas imagens com ar de mistério. A noite de Brassaï não é uma noite bela e
contemplativa, ela é uma provocação ao moralismo da época.

Paris de Nuit é considerado um clássico da fotografia externa, continua sendo o mais


importante registro da Paris noturna.
(1) (2)

(3) (4)
ANÁLISES
As imagens escolhidas têm características comuns, próprias do estilo do fotógrafo e da
temática do livro Paris de nuit. São fotografias em branco e preto, com grande contraste de
claros e escuros, ambientes quase desérticos, iluminação natural, silhuetas anônimas e
clima misterioso.

(1)

Um indivíduo não identificado parece andar apressadamente pela Passagem de Clichy em


Paris, é uma rua de paralelepípedos, estreita, repleta de hotéis e quase deserta. As luzes
acesas no prédio ao fundo indicam vida noturna na região. O céu estrelado se confunde com
os edifícios. A sombra do indivíduo reflete uma versão ampliada de sua silhueta e, ao olhar
desatentamente a fotografia, parece ser uma segunda pessoa.

Há predominância de linhas retas, entre as poucas linhas curvas a mais significativa é a da


esquina da rua, pois leva ao limite do nosso campo de visão, e é para esta direção que o
indivíduo parece caminhar. Ele caminha em direção ao que, para nós, é desconhecido.

Esta fotografia foi feita na Passagem de Clichy, uma espécie de viela que desemboca no
Boulevard de Clichy, rua famosa por seus Cabarés, entre eles o Moulin Rouge. O fotografo
está posicionado no ponto em que a Passagem de Lathuille se torna Passagem de Clichy,
o que pode ser verificado comparando outras fotos do local, esta informação se torna
significativa porque Brassaï escolheu colocar a placa de identificação do lugar dentro da
composição.

A composição parece guiar o nosso olhar, como se esta fotografia fosse o frame de um plano
sequência de um filme noir. Queremos ir além do que a fotografia nos revela, seguir este
indivíduo para além desta esquina e desvendar o mistério a que fomos expostos. Não é uma
imagem que se observe passiva e contemplativamente. O mistério a que Brassaï nos coloca
é inquietante.

Em relação a perspectiva, assim como era feito nas pinturas renascentistas, as linhas retas
da imagem convergem em um único ponto: o ponto de fuga. Brassaï produz o mesmo efeito
nesta fotografia, o indivíduo em movimento se encontra no ponto de convergência destas
linhas.
Ao ampliar a imagem percebemos que talvez o céu não estivesse estrelado, esse efeito pode
ter sido causado pelo uso de filme com alta sensibilidade (ISO alto), que provoca ruído nas
fotografias. O indivíduo desta fotografia certamente não andava tão rápido, essa afirmação
sustenta-se no fato de que para tirar fotografias em local de luz escassa com as câmeras
daquela época era preciso usar tripé, a menor abertura de diafragma possível e alta
velocidade de exposição, o que tende a borrar as figuras em movimento, ou seja, ele não
conseguiria captar esta imagem se o indivíduo estivesse realmente andando rápido. A ampla
profundidade de campo – todos os planos da imagem estão focados – não é uma escolha
de Brassaï, isso acontece porque para usar a velocidade de exposição tão alta ele precisa
manter o diafragma com uma abertura bem pequena.

Os mecanismos da câmera fotográfica influenciam no resultado de uma fotografia. A


tecnologia da câmera fotográfica nos anos 30, ainda impõe muitas limitações ao fotógrafo.

(2)

Nesta fotografia vemos o trecho de uma ponte sobre o rio Sena com um vão em semicírculo
na parte inferior. Acima da ponte, no ambiente cotidiano nada acontece, há apenas um poste
de luz, o prédio ao lado e as arvores. Abaixo dela uma cena inusitada é flagrada: cerca de
quatro indivíduos ao redor de uma fonte de luz, possivelmente uma fogueira. A cena aparece
refletida nas aguas do rio. A falta de nitidez causada pelo uso de filme de alta sensibilidade
(ISO alto) não nos permite ter certeza sobre o local em que eles estão sentados.

Estes indivíduos parecem se sentir seguros ao se esconder neste lugar improvável, o


fotografo ameaça esta segurança – expondo-os.

É uma imagem bastante enigmática, não sabemos onde eles estão sentados, quem eles são
e o que estão fazendo. No entanto, podemos supor uma serie de possibilidades: eles podem
ser moradores de rua, podem ser jovens usando drogas, podem estar em um recuo do rio,
em um barco, etc. Nenhuma dessas possibilidades pode ser verificada na imagem.

A imagem assume outro nível de significação, os indivíduos não são o elemento mais
importante desta composição, nem tão pouco o local. Esta fotografia se desvia da função
referencial presente nas imagens (1) e (3), para assumir a função poética e simbólica, como
na imagem (4).
A linha reta na parte superior da ponte divide a imagem em duas partes. A parte superior é
a parte habitada durante o dia, privilegiada pela iluminação promovida pelo poste de luz e
por sua conexão com a cidade, ali o edifício e a parte superior das arvores pode ser vista. A
parte inferior é proporcionalmente maior e não é contemplada pelas luzes da cidade, seus
habitantes são noturnos e só podemos enxerga-los porque eles produzem sua própria luz.
O rio é um elemento de democratização, pois une os reflexos das duas partes da
composição, mas ele mesmo se localiza na parte inferior.

A composição expõe dois universos presentes na vida social da cidade: o moralismo e os


privilégios das classes mais altas em oposição ao precário submundo noturno, no qual se
observa a desigualdade social. O céu contraposto ao inferno, a luz contraposta à sombra.

(3)

Identificamos uma silhueta feminina parada em uma esquina durante a noite, há uma loja de
queijos (fromages) ao fundo, e outros estabelecimentos que também parecem ser lojas. Ela
está no centro da composição e não olha para a câmera, está iluminada por uma fonte de
luz que não aparece na fotografia, a câmera que registra esta cena está na sombra. Há
predominância de formas retas, as linhas curvas da imagem são as da silhueta e de sua
sombra.

Esta pode ser apenas uma mulher em situação atípica esperando por alguém para busca-
la, mas dado o contexto (é madrugada e o bairro é conhecido por seus pontos de
prostituição) podemos supor que ela seja uma prostituta a espera de clientes. Podemos
considerar também que ela seja um travesti ou uma transexual.

Esta é provavelmente uma rua tranquila durante o dia, dado o tipo de comércio que podemos
ver pelo enquadramento: a loja de queijos (fromages). Como no resto da cidade, o cair da
noite transforma o uso dos espaços.

Nesta fotografia os únicos elementos identificáveis são a silhueta feminina e a loja de queijos.
O fotografo escolhe evidenciar estes dois elementos, igualando seus significados na
composição, indicando ao observador que a mulher coloca seu corpo à venda durante a
noite, assim como o queijo é vendido durante o dia.
O uso de contraluz cria estas silhuetas e promove anonimato ao indivíduo fotografado. Esse
efeito, além de não expor as pessoas, aumenta o fator de mistério da foto, a expressão facial
poderia dar muitas respostas sobre o que está acontecendo, no entanto nós só temos o
contorno de sua expressão corporal. Este mesmo efeito pode ser observado nas imagens
(1) e (2).

(4)

Nesta fotografia, Brassaï transforma um open gutter (uma galeria de aguas pluviais para
contenção de agua da chuva a céu aberto) na letra “S”, que divide a imagem ao meio. Há
predominância de linhas curvas, ao menos três fontes de luz e o tronco de duas arvores.
Aparentemente esta fotografia foi tirada em um dia chuvoso, uma vez que há agua na galeria
pluvial e o chão parece úmido.

A forma curva que protagoniza a composição desenha o percurso do olhar do observador


levando-o até a parte superior da imagem e indicando que há algo além, pois a linha continua
para além da fotografia. Na parte superior da imagem é possível identificar o ambiente
urbano, mas não um local exato, aquele trecho urbano simboliza a cidade como um todo. É
significativo que esta fotografia tenha sido escolhida como a imagem de capa do livro Paris
de nuit, pois é como se o ponto de vista de Brassaï impresso nas fotografias guiasse o olhar
do receptor pela cidade livro adentro.

Esta imagem sintetiza o significado do livro como um todo: um passeio pela Paris noturna
sob as lentes de Brassaï. O artista nos revela foto por foto aspectos sombrios, inusitados e
desconhecidos da cidade da luz, no momento em que a maior parte das luzes se apagam.
Para além do caráter documental, a fotografia em sua função poética não funciona como
mero registro fotográfico, o enquadramento, a perspectiva e os mecanismos da câmera são
trabalhados para produzir um efeito estético desejado. O olho organizador do fotógrafo
transforma um lugar habitual em uma imagem interessante.
IMPRESSIONISMO
As características impressionistas nas fotografias de Brassaï estão muito ligadas à própria
linguagem fotográfica, que influencia e é influenciada por esta vanguarda.

Sabemos que Brassaï muitas vezes combinava as fotos com os “frequentadores” da Paris
noturna, mas as imagens não transmitem esta sensação. Pelo contrário, ela parece revelar
o exato momento da descoberta da Paris desconhecida, como se os indivíduos não
estivessem cientes da presença da câmera e fugissem assustados ao percebe-la, a
instantaneidade está presente. Brassaï produz conscientemente a sensação do instantâneo,
assim como os impressionistas faziam em suas pinturas, nenhum deles estava realmente
captando o instantâneo, mas tinham a habilidade de reproduzi-lo.

O enquadramento destas fotografias contribui com a sensação de mistério. Não sabemos o


que está além da esquina na imagem (1), a história da mulher na imagem (3) ou qual parte
de Paris contem a forma que é captada na imagem (4), o espaço continua além do quadro.
Os impressionistas produziam um tipo parecido de enquadramento por influência direta da
fotografia, para sugerir que a cena continuava além do quadro e evidenciar a seleção do
artista eles faziam cortes abruptos nas figuras, como em “Baile no Moulin de la Galette” de
Renoir, em que o rosto da moça à esquerda aparece pela metade.

É comum nas fotografias de Brassaï a descentralização da figura principal, nas imagens (1)
e (2) isso pode ser observado. Entre os impressionistas, Degas é um bom exemplo dessa
característica, suas figuras nunca estão no centro do quadro.

Quanto a luminosidade, nas fotografias de Brassaï ela é escassa, o que o distancia da


estética do Impressionismo, aproximando estas imagens de outra vanguarda: o
Expressionismo.

EXPRESSIONISMO
Uma das maiores características das fotografias de Brassaï é o grande contraste entre tons
claros e escuros, aproximando-o do Expressionismo alemão, em especial ao grupo Die
Brücke (A ponte), e do cinema expressionista alemão.
As fotografias de Brassaï possuem uma semelhança estética inegável com a fotografia dos
filmes noir que se desenvolveram a partir da década de 40. Estes eram filmes policiais
geralmente protagonizados por anti-heróis e femme fatales, o grande contraste entre claros
e escuros era usado para potencializar o mistério da trama, este contraste causa o mesmo
efeito nas fotografias de Brassaï. É sabido que o cinema expressionista alemão influenciou
diretamente a estética noir.

O expressionismo enquanto movimento realista se propõe a deformar a realidade tanto


quanto sua época é deformada pela guerra. A natureza é pictoricamente deformada, nas
fotografias de Brassaï a natureza humana é evidenciada e a moral é deformada. A
vanguarda também trata da moral, considera que o sexo, tão negado pelos bons costumes,
funda a sociedade e negar isso é deformar. Tanto Brassaï quanto os expressionistas não
criam a deformidade em si, mas as expõem.

No expressionismo há grande uso de contornos e linhas marcadas por cores fortes,


principalmente nas gravuras. Brassaï também faz uso de contornos em suas fotografias,
mas seu pincel neste caso é a contraluz.

Sobre o expressionismo Argan afirma “somente a arte, como trabalho criativo, poderá
realizar o milagre de reconverter em belo o que a sociedade perverteu em feio” (p. 237), é
dentro dessa linha de raciocínio que os expressionistas exibem o feio da sociedade e esta
mesma função pode ser observada nas obras de Brassaï, quando a silhueta de uma
prostituta assume tanta beleza quanto possíveis mendigos em baixo de uma ponte.

É possível encontrar lirismo nos porões da sociedade.

Nosferatu, filme de Friedrich Murnau; Pintura de Erich Heckel e; Gravura de Ernst Kirchner.
BIBLIOGRAFIA

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. 8º Edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
Trad.: Denise Bottman e Federico Carotti.

KEMP, Philip. Tudo sobre cinema. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2011. Trad.: Fabiano
Moraes.

MELTZER, Steve. The piercing eye of Brassaï: the stunning work of a master French
photographer. Disponível em < http://www.imaging-resource.com/news/2014/01/07/the-
piercing-eye-of-brassai-a-brief-history-of-a-master-photographer >. Acesso em: Novembro
de 2014.

HARMON, Alison. Paris in the 1930s: Art and History. Disponível em <
http://www.fordham.edu/normandie/artdeco/ah3%20parisinthe1930s.html >. Acesso em:
Novembro de 2014.

MARTIN, Robert Stanley. Brassaï: A Perspective Knowing. Disponível em <


http://www.hoodedutilitarian.com/2011/12/brassai-a-perspective-knowing/ >. Acesso em:
Novembro de 2014.

SZARKOWSKI, John. Fragmento de “Looking at Photographs”. Disponível em <


http://www.atgetphotography.com/The-Photographers/BRASSAI.html >. Acesso em:
Novembro de 2014.