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Rumi e o jardim secreto do coração

Rumi e o jardim secreto do coração

Mário Guimarães Werneck Filho*


Heliane Miscali de Oliveira**

RESUMO
O presente artigo pretende traçar alguns aspectos con-
cernentes à importância do conceito de coração na místi-
ca Islâmica (sufismo), tendo como base a obra de Rumi,
intitulada Masnavi. O coração, como conceito técnico
no sufismo, possui uma gama vasta de significados que
compõem como que um mosaico para a apreensão do co-
nhecimento místico. Purificar o coração é torná-lo órgão
de recepção dos mistérios do Amado, é purgá-lo de tudo
aquilo que obscureça o conhecimento.
Palavras-chave: Masnavi; Rãm§; Coração; Teofania; Me-
taconhecimento; Mística islâmica; Sufis-
mo.

O POETA SUFI MAWL}N} Khod~vangdar Jal~l al-Din Mohammad


b. Mohammad al Balkhi al-Rãm§ nasceu em Vakhsh, vilarejo pró-
ximo a Balkh, no Khorassan, atual Afeganistão, em setembro de
1207. O pai de Rãm§, Bah~ al-Din Valad, místico e teólogo teve
que migrar com a família após um desacordo teológico com Fakhr
al-Din R~zi (jurisconsulto, teólogo e filósofo). Eles, então, dei-
xam o Khorassan e peregrinam até Meca, vindo a estabelecer-se
em Konya, na Turquia.
Rãm§ estudou teologia, filosofia e jurisprudência. Mas o grande *
Filósofo, Mestre e
marco de transformação em seu percurso místico deu-se com o doutorando em
Ciências da Religião
aparecimento de um dervixe (Sufi, ou místico Islâmico), Shams pela UFJF.
**
de Tabriz, aquele que viria a ser seu mestre (“P§r”), seu amigo e Especialista em
Ciência da Religião
sua grande via de acesso ao Amado (Deus). Rãm§, além de gran- (UFJF) e mestranda
de místico e mestre Sufi, é também um dos maiores poetas da do Programa de
Ciência da Religião
tradição persa. da UFJF.

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Werneck Filho, M. G.; Oliveira, H. M.

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Vê-se imagem se- O presente texto aborda (fazendo uso primordialmente de uma
melhante em al-Gha-
z~l§ (1058-1111) obra de Rãm§, a saber, o Masnavi) a necessidade de se polir o
místico sufi que influ- espelho do coração. Para Rãm§, “O coração é um jardim secreto
enciou Rãm§. “O alvo
da disciplina moral é onde se ocultam árvores/ ele manifesta cem formas, mas não
purificar o coração da tem mais que uma só./ É um oceano imenso, sem limites e sem
ferrugem das paixões
e do ressentimento, rios/ Cem vagas aqui se quebram: vagas de cada alma”. (RâM¦,
até que, como um es- 1993, p. 42).1 O coração – “Dil”2 em persa, “Qalb” em árabe –
pelho claro, ele reflita
a luz de Deus” (GHA- que é um órgão de conhecimento místico e, portanto, de funda-
Z}L¦, 2001, p. 8). mental importância para Rãm§. Para o Ocidental, a noção exata
2
“(...) O órgão mais
querido por Rãm§ é o do que seja a sabedoria do coração, às vezes, se torna um tanto
coração, “dil”. Ele o refratária, ou, por outras, até apresenta uma tendência a que se
canta em muitos ver-
sos delicados e como- veja o termo coração como uma referência à conotação cristã.
ventes, empregando Não obstante possam existir semelhanças entre tais conceitos,
muitas vezes o termo
“dil” como rima re- este termo, em árabe e persa, resguarda ainda uma outra riqueza
corrente, e valeria a semântica tão vasta quanto seu significado para a espiritualidade
pena recolher todos
os versos nos quais mulçumana.
ele descreve esse co-
ração (...) O coração O coração é a morada da segurança, meus amigos;
é uma casa e um jar- Ele possui fontes e roseirais no seio dos roseirais.
dim, é uma mesquita, Voltem-se para o rumo do coração e sigam, ó viajantes da noite;
mesmo a “masjid al-
aqs~”, a ‘mais distan-
Lá se encontram árvores e riachos de água viva.
te mesquita’ em Jeru- (Masnavi, III, versos 515-516)
salém. É a Caaba, a
casa de Deus, é tam- O termo “qalb” ultrapassa a simples forma e vai se resseman-
bém o Trono de Deus
onde Ele-mesmo re- tizando a cada uso do vocábulo. Em um dado momento, seu sig-
ge” (SCHIMMEL, nificado é o de “flutuação”; gira-se, pois, pelos caminhos da pala-
1998, p. 136).
3
“O coração (“qalb”) vra e chega-se a outro sentido: “mudança perpétua”. Uma nova
dos seres humanos elocução e já se tem um novo significado: o que antes era mudan-
perfeitos experimenta
flutuações (“qalb”, ça, agora se exprime como “inversão”. Vê-se, portanto, que esta
“taqallub”) intermi- variedade semântica para o termo é também uma forma de demons-
náveis, já que consti-
tui o lugar no qual trar as muitas epifanias do Uno.3 Nesse sentido, o coração é como
percebem as revela- um cristal que, com grande sutileza, reflete matizes da Luz espar-
ções de Deus que ja-
mais se repetem” gidos em seu cerne. A grande importância dessa pluridimensio-
(CHITTICK, 2004, nalidade do termo “qalb”4 é, portanto, propiciar que o influxo da
p. 54). Para uma
apreensão mais de- multiplicidade, em seu âmago, seja total, de modo que, não se
talhada do termo cf. descurando de qualquer forma, venha-se a provar uma nonada
Kassis e Kobbervig
(1987, p. 412-414). do Maná.
4
“O coração, como
símbolo religioso Eu Estou contido, qual hóspede
Cristão, tem muito No coração do verdadeiro crente,
pouco a ver com sua Sem qualificação, definição ou descrição;
contrapartida Islâmi- A fim de que pela meditação do coração,
ca: é que, no árabe, o Todos os seres possam obter de Mim
vocábulo “qalb”, deri- Soberania e fortuna.
vado da raiz trilítera (Masnavi, VI, versos 3.072-3.073)
“q-l-b” significa tanto

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O coração (usado como termo técnico da mística islâmica) ‘coração’ como ‘flu-
tuação’, ‘mudança
será o órgão de máxima importância no desenvolvimento espiri- perpétua’, inversão,
tual do Sufi, pois, por sua pluridimensionalidade, ele é capaz de entre outras acep-
ções. No contexto
acolher as múltiplas manifestações da Unidade.5 Ele jamais esgo- místico, (...) queda
ta sua capacidade de apreensão, bem como é despossuído de to- imediatamente asso-
ciado ao órgão sutil
da a fixidez formal. Pode, por conseguinte, efetivar a progressiva de percepção mística,
transposição das diversas moradas pelas quais o ser do amante entendido como re-
ceptáculo cristalino e
deverá caminhar em seu intento gradual de aproximação do Ama- protéico capaz de re-
do. Nesse sentido, o coração, como órgão de conhecimento, rece- fletir todas as epifa-
nias dos atributos de
be seu influxo do amor que é em si-mesmo uma gnose, no senti- Deus: a inacabada,
do de ser um princípio que age como revelador da consciência infinita manifestação
da Divindade na mo-
(Cf. RANDON, 1996, p. 136-138). Nas progressivas mudanças rada da União” (LO-
do coração, estão inscritas as verdades da Verdade. PÉZ-BARALT, 1999,
p. 36).
5
Ibn Arab§, (1165-
Que é este pedacinho de carne? 1240) um dos maio-
O coração do santo que vós poderíeis reconquistar res místicos e teó-
Por meio de boas ações e piedade. sofos Muçulmanos,
Se seu coração retornasse a vós, nascido em Múrcia,
Vós seríeis salvos do castigo divino; canta assim: “Meu
De outro modo estaríeis em desespero e morderíeis as mãos. coração tornou-se ca-
paz de todas as for-
(Masnavi, I, versos 2.532-2.533) mas:/ É pasto para as
gazelas e mosteiros
A polissemia para o termo coração deixa ver, de certa forma, para monges cristãos,
/ É templo para ído-
a idéia que rege este órgão enquanto lugar de domínio de uma los e a Caaba do pe-
experiência que, se percorrida com sucesso, objetiva o conheci- regrino muçulmano,/
E as tábuas da Tora e
mento místico – “ma'rifa” –, conhecimento de origem iluminada o livro do Alcorão./
– diferente daquele adquirido pelo processo intelectual – “'ilm” – Eu sigo a religião do
amor: qualquer dire-
ou melhor seria dizer, o metaconhecimento6 dos segredos incria- ção que tomarem os
dos a partir da visão das criaturas. camelos do Amor,/
Lá está minha religião
e minha fé” (IBN
Cada ar, cada átomo está ligado à visão de Deus. 'ARAB¦, 2002, p. 9).
6
Mas até que ela seja aberta, quem dirá: “Rãm§ fala de meta-
conhecimento ou mo-
“Lá embaixo se encontra uma porta”!
dos de certeza espiri-
A menos que o Observador abra a porta, tual. Conhecimento
Esta idéia não nasce no coração dos homens. (“'ilm”) situa-se em
(Masnavi, I, versos 3.766-3.767) uma posição interme-
diária, melhor que a
suposição (“zann”)
Uma das passagens do Masnavi, onde se vê este caráter po- mas inferior à certeza
lissêmico do coração (Cf. SCHIMMEL, 1998, p. 137; 1993, p. (“yaqin”). O conheci-
mento anseia pela
278), narra um concurso de pinturas entre Chineses e Bizanti- certeza e a certeza
nos (a presente versão é resumida): anseia pela visão de
Deus. Rãm§ não nos
oferece uma episte-
Os Chineses diziam: “Somos melhores artistas”. Os Bizantinos re- mologia rigidamente
plicavam: “É a nós que pertencem o poder e a perfeição”. construída, mas ao
Colocarei a prova esta querela – disse o sultão. (...) interpretar a Sura

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102 do Corão, ele E concedeu a cada um, um quarto defronte ao outro.


alude a dois menores Os chineses pediram ao rei que lhes desse cem cores. O rei abriu seu
tipos de conhecimen- tesouro a fim de que eles recebessem o que desejassem. A cada ma-
to que existem acima
do conhecimento nhã, por sua liberalidade, as cores eram dispensadas aos Chineses.
comum” (LEWIS, Os Bizantinos disseram: “Nenhuma tinta ou cor convém ao nosso
2001, p. 403). trabalho, não é preciso nada mais que retirar a ferrugem”. Fecha-
ram a porta e puseram-se a polir: os muros tornaram-se claros como
o céu (...). Quando os chineses terminaram seus trabalhos, soaram
tambores de alegria.
O rei entra e vê as pinturas: esta visão, quando ele a percebeu, arre-
batou seu espírito. Em seguida, ele vai aos Bizantinos: eles retiram
o véu que os separava. O reflexo das pinturas dos Chineses vem to-
car os muros que haviam sido purificados de toda mancha. Tudo o
que o sultão havia visto na sala dos Chineses parecia mais esplêndi-
do aqui.
Os Bizantinos, Ó pai, são os sufis. E eles são sem estudos, livros ou
erudição, mas poliram seus peitos e foram purificados dos desejos
da cupidez, da avareza e do ódio. Esta pureza do espelho é, sem dú-
vida, o coração que recebe incontáveis imagens. (Masnavi, I, ver-
sos 3.467-3.485)

O coração, como órgão de conhecimento, guarda uma certa


7
Em seu comentário similitude com a noção de ocullus cordis7 por ser o órgão da per-
ao Masnavi, Nichol-
son afirma, baseado cepção espiritual: “Se o olho de teu coração visse,/ A visão esta-
no Corão VII 178: ria ao seu redor/ A luz de teus olhos carnais nada lhe traz/ Ne-
“(...) eles têm coração
mas não compreen- cessita teu coração de uma luz interior” ('ATT}R,
.. 1985, p. 147).
dem nada com ele Além de sua acepção orgânica, existe um coração que se situa
(...). ‘wa-lahum
a'yunun la yubsiruna num istmo entre revelação e sentidos formais, cuja capacidade
biha’. O olho clarivi- de conhecimento opera-se por desvelamentos supra-lógico-for-
dente é o oculus cor-
dis o qual é visto (nos mais. Revelação e conhecimento imbricam-se na concepção do
profetas e nos santos) Real.
como um refúgio da
descrença e um guia
para a salvação” Porque todas as coisas são limitadas e numeradas
(NICHOLSON, apud Saiba que o espelho do coração é sem limites
Mawalawí Rúmi’s Aqui o entendimento torna-se silencioso,
works. [s./d., s./p. Senão ele induz ao erro,
1CD]). Pois o coração está com Deus, ou melhor, o coração,
É ELE.
(Masnavi, I, versos 3.489-3.490)

Na visão de Rãm§, a antropologia se remete a uma ontologia


do ser humano, enquanto ser de possibilidade projetiva-reflexi-
va. Em seu sentido projetivo, o ser humano possui a capacidade
de sempre apontar para algo além de si-mesmo. No sufismo, es-
8
ta projeção representifica-se pelo mergulho metafísico no Corão
O sheyk Helminski
(2000) explica que e nos hadiths8 (palavras e ensinamentos extracorânicos). Desse
“um dos axiomas da modo, que se pode dizer que o pensamento de Rãm§ aponta para
tradição é expresso
neste dito de Deus: uma autotransfiguração do ser (Cf. LEWIS, 2001, p. 26). Esta

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autotransfiguração possui um lugar de manifestação conhecido ‘Os céus e a terra não


podem Me conter;
como “dil”, “qalb”,9 sendo este o lócus de seu aspecto reflexivo. somente o coração de
Meu fiel servo pode
conter-Me’” (p. 71).
O centro último da consciência do homem é sua realidade interior, “A vela que iluminava
e seu “sentido”, como conhecido por Deus, é “coração” (“dil”, esta casa, onde está?/
“qalb”). No que diz respeito ao pedaço de carne no peito, o coração Ela estava diante dos
não é mais que uma sombra ou sua membrana mais exterior. Entre olhos, hoje está
este coração e aquele outro, existem níveis de consciência e auto- dentro dos corações/
realização. Como realidade interna do homem, o coração está sem- No coração, qual bela
imagem, ela se
pre com Deus, mas somente os profetas e santos – que são chama-
instalou em seguida
dos “Possuidores do Coração” – obtiveram a Consciência de Deus levantou-se para
por onde são verdadeira e atualmente sabedores de Deus, a partir partir./ Não, não ela
do centro de seu ser. Muitos homens estão velados pelos inumerá- não deixou nossos
veis níveis de ferrugem e escuridão, que na prática o centro de suas corações: é lá sua
consciências ou “coração” é seu espírito animal ou ego. (CHITTI- morada” (RâM¦,
CK, 1983, p. 37) 1993, p. 45).
9
“Este mundo é co-
Se o coração como órgão de conhecimento é muito mais que mo um cântaro/ O
espírito é como um
apenas o seu correspondente carnal, este mesmo órgão carnal rio./ Este mundo é
serve de motivo para alusões metafísicas. Veja-se, por exemplo, uma alcova,/ O cora-
ção, uma maravilhosa
que o Corão fala (XLI:5)10 de Mohammed como um anunciador cidade” (RâM¦. Mas-
da mensagem e, contudo, as pessoas fecharam seus corações para navi, IV, p. 811).
seus ditos. Fechar o coração nesse sentido é muito mais que sim- 10
“Eles dizem: ‘Nos-
plesmente não ouvir a palavra, mas é velar o coração como órgão sos corações estão ve-
lados contra o que
perceptivo para uma verdade da Verdade.11 nos diz/ Em nossos
ouvidos há um peso/
Quantos ídolos Mohamed não destruiu neste mundo E entre tu e nós há
Para que as comunidades pudessem gritar ‘Ó Senhor!’ um véu’” (The Ko-
Se não tivesse havido esse esforço de Ahmad ran, 1998).
Vós também como vossos ancestrais adorariam ídolos. 11
“Os Profetas e os
Vossa face foi liberta de prosternar-se ante ídolos, santos nada adicio-
A fim de que pudesses reconhecer teu direito legítimo à gratidão nam à essência do
das comunidades. homem; somente lhe
Se tu falas, dai graças por esta libertação, revelam seu estado
anterior” (RâM¦,
A fim de que possas também libertar-te do ídolo que há em ti.
1993, p. 61).
Pois ele libertou tua face dos ídolos,
Liberta teu coração por meio desta força. 12
A sutileza ou toque
(Masnavi, II, versos 366-370) de graça (“lat§fa”)
. é
toda alusão esotérica
(“iš~ra”) de significa-
Uma alusão diz respeito ao movimento vital do coração: a sís- do sutil (“daq§qat al-
tole e a diástole. Em seu correlato místico, este movimento pode ma'nà”) que permite
a compreensão da-
ser visto como a contração (qabd) . e a expansão (bast) do conhe- quilo que não está
cimento pela manifestação dos atributos do Real. É nesse sentido contido na expressão
literal (BENEITO
que o coração é concebido como sendo um órgão sensível capaz apud TEIXEIRA,
de conhecer as sutilezas12 (lat§fa)
. do mistério.13 2004, p. 369).
13
Rãm§ (1990) em
Alguma mensagem chegou de lá? Não. uma de suas belas
Algum pássaro pousou em sua eira? Não. correspondências fala

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Werneck Filho, M. G.; Oliveira, H. M.

da via do coração. Após todas as missivas enviadas uma após a outra


“Tuas queridas cartas Chegaste até ti alguma resposta deste vizinho?
me chegam, são lidas Não, mas nosso Amigo conhece esses assuntos,
e vos dou graças, elas
são para mim como Porque inevitavelmente
talismãs. Entretanto, Existe um caminho do coração ao coração.
anteriormente, che- Porque então, deste caminho
gavam-me cartas não Não lhe chega uma resposta do Amigo que é o objeto da vossa
escritas, e a cada re- esperança?
leitura aportavam Existem cem signos de resposta
mensagens quanto a
Cada um a seu modo secreto e manifesto.
tua santa bem-aven-
turança – porque o (Masnavi, VI, versos 2.553-2.557)
coração possui um
caminho secreto para
o coração” (p. 151).
Estes signos são por vezes ocultos e manifestos, e se alternam
E no Masnavi, ele as- em escalonamento superpostos. Da mesma maneira que se pode
sim canta: “Sem dú-
vida existe uma janela
falar em separação e união, como opostos relativos, na aquisição
entre o coração e o do conhecimento iluminado, é importante se pensar igualmente
coração;/ Eles não
são separados e dis-
nesses termos quando se trata de investigar o órgão de conheci-
tanciados como dois mento que é o coração. Remetendo-se novamente à fisiologia
corpos” (III,
p. 3.492).
mística pode-se falar sobre contração (“bast”) e expansão (“qabd”)
.
do coração.

Aquele que engaja-se nessa batalha espiritual,


Prova por vezes de uma alegre expansão do coração;
Em outro momento,
Prova opressão, sofrimentos, tormentos.
(Masnavi, II, verso 2.961)

Entretanto, é necessário sempre ter em mente que ao ser colo-


cado no mundo, operou-se a separação da origem, fato que dei-
xou uma enfermidade ou uma patologia de amor. O tema da cria-
ção – ou seja, Deus dando existência a cada ser a partir da não
existência; ateliê divino, lugar de onde emergem as criaturas pelo
14
A tristeza não é poder do Amor – está intrinsecamente ligado à idéia de desterro,
“privilégio” da cria- tema central de toda mística de Rãm§. A idéia de separação de
tura: está no próprio
Ser criador, é o mo- sua matriz original é cantada por Rãm§ via metáfora da flauta de
tivo que faz dele o junco, que é separada de sua raiz, numa alusão à separação do
Ser primordial, an-
tecipando todas nos- humano de sua fonte criadora Una.
sas deduções. Um Ser A alma enferma, da mesma maneira que os amantes separa-
criador é o segredo
de sua criatividade e dos são acometidos da melancolia da desunião, e sentem a pro-
sua criação não surge funda dor no coração,14 faz o dervixe soprar as dores na melodia
de um nada que seja
outro que Ele, de um queixosa da flauta.
não-Ele, mas sim de
seu ser profundo, das
Possuímos duas bocas,
potências e virtua-
lidades de seu ser não Como a flauta de junco:
revelado (CORBIN, Uma oculta nos lábios,
1993, p. 216). Outra se lamenta a ti;

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Ela deixa uma nota aguda pairando no ar.


(Masnavi, VI, versos 2.002-2.003)

Aqui a poética de Rãm§ canta os lamentos de um peito lacera-


do pela distância, e, em sua linguagem alusiva, mostra um cora-
ção ainda atado aos nós, e que, como a flauta de junco, não pode
soar as melodias das esferas celestiais enquanto não tiver estes
seus nós trespassados pela verruma do Amor.

A sobriedade provém da rememoração do passado;


O passado e o futuro são um véu que te separam de Deus.
Atirai ambos ao fogo:
Até quando, por causa deles, serás pleno de nós como a flauta
de junco?
Enquanto a flauta é plena de nós,
Ela não compartilha segredos;
E ainda não é companheira dos lábios e voz do flautista.
(Masnavi, I, versos 2.201-2.204)

Tudo aqui se passa muito metaforicamente, o coração que la-


menta e sofre deve ser polido como espelho para que reflita os
atributos nele inscritos. Todo o processo de busca visto anterior-
mente visa a preparar o coração para readquirir sua condição de
órgão de percepção sensível, ou seja um órgão de percepção que
guarda em si os atributos do Real. Em outras palavras, o que en-
tra pelos ouvidos e toca o coração tem o poder de transformar,
via olho do coração, o que foi escutado, em visão (Cf. NICHOL-
15
SON, 2001, p. 99).15 Compreendo a
mensagem do vento/
O rouxinol ébrio me
O ouvido é um intrometido, repete seu nome/
Enquanto que o olho conhece a união; Desta imagem estra-
O olho possui uma experiência direta da realidade nha que vi sobre a
Ao passo que o ouvido não percebe mais que palavras. porta do coração/ em
Quando o ouvido entende, sua varanda consinto
Ele destila uma transformação das qualidades. falar (RâM¦, 1993, p.
Na visão do olho, há uma transformação das essências. 177).
Se teu conhecimento do fogo
Não tiver sido transformado em certeza a não ser por palavras,
Buscai ser cozido pelo fogo mesmo
E não tome por certeza qualquer outro conhecimento.
Não há certeza intuitiva de queimar;
Se desejas esta certeza meta-te no fogo.
Quando o ouvido é penetrante, torna-se olho
Senão a palavra de Deus restaria misturada no ouvido
Sem atingir o coração.
(Masnavi, II, versos 858-862)

É este, então, o significado de olho do coração, uma pupila


pela qual Deus vê o mundo através dos olhos dos místicos, dos

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profetas e dos santos. O coração é, pois, o palácio dos mistérios


de Deus.

O Embaixador pergunta: Ó sábios, onde é o palácio do Califa,


Para que eu possa conduzir-me com meu cavalo e minhas bagagens.
As pessoas responderam: Não há palácio:
O palácio de Omar é um espírito iluminado
A despeito de seu renome
16
Esta luz proporcio-
E de ser o comandante dos crentes,
na a santidade à pes- Ele nada possui além de uma cabana como os pobres.
soa que vê através das Como poderias, ó filho!,
coisas e seres, perce- Contemplardes o seu palácio quando teu coração está obstruído?
bendo os pensamen- Purificai o olho de teu coração de toda a imperfeição
tos íntimos do ho- E esperai então contemplar Seu palácio
mem: a cardiognose (Masnavi, I, versos 1.391-1.395)
“fer~sat” é uma das
características distin-
tivas do líder espiri- Este é o real significado de um conhecimento iluminado que
tual. Ele é um leão e poderia ser tido como uma cardiognosis.16 O dervixe deve, por-
os pensamentos dos
outros são como uma tanto, purificar seu coração de tudo que obsta a visão do Real. É
floresta na qual ele preciso descer ao coração em seu âmago mais recôndito para lá
pode facilmente pe-
netrar. Ele é capaz de encontrar as maravilhas do mistério nele inscritas. A experiência
discernir o Sol da do coração como órgão de metaconhecimento possui expressões
Duração já presente
no átomo e todo o de sentido auditivo, tátil, olfativo, visual e gustativo.
abrangente oceano
em uma gota Os cinco sentidos são ligados uns aos outros,
(SCHIMMEL, 1993,
Todos cinco provêm de uma e mesma raiz.
p. 315).
A força de um dá o vigor aos outros;
17
O coração é para o Cada um tornando-se uma escansão para os outros.
sufismo um dos ór- (Masnavi, II, versos 3.236-3.237)
gãos corporais da fi-
siologia mística. Po-
deríamos falar igual- Há, como diz Henry Corbin, toda uma “fisiologia mística”.17
mente aqui de sua Pode-se dizer que de certa forma os seres humanos enxergam da
função “teândrica”,
posto que, em sua su- mesma maneira que os animais, vendo da multiplicidade aquilo
prema visão, será a que ela apresenta à visão. Entretanto, o ser humano cujo coração
Forma de Deus (“Sã- .
rat al haqq”) já que o foi tocado pela Luz transcendente de Deus, recebe esta luz sem
coração do gnóstico é véu. O influxo da Luz no coração polido reflete a alma que foi
o “olho”, o órgão pe-
lo qual Deus se co- nutrida por esta luz e assim pôde renascer de seu mais profundo
nhece a si mesmo, re- âmago.
velando-se a si mes-
mo em formas epi-
fânicas. (...) (COR- O primeiro passo para o autoconhecimento é saber que tu estás
BIN, 1993, p. 257). constituído de uma forma externa, chamada de corpo, e de uma
“Aquele cujo coração entidade interna, chamada de coração ou alma. Por coração não me
puro torna-se vazio refiro ao pedaço de carne situado no lado esquerdo dos nossos cor-
de imagens,/ Vem a pos, mas ao que utiliza todas as outras faculdades como seus ins-
ser um espelho para
trumentos e serventes. Na verdade não pertence ao mundo visível,
as manifestações do
Invisível” (RâM¦, mas ao invisível, e veio para este mundo como um viajante que visi-
Masnavi, I, v. ta um país estrangeiro por causa da mercadoria e em breve retorna-
3.146). rá à sua terra natal. É o conhecimento desta entidade e dos seus

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atributos que é a chave para o conhecimento de Deus. (GHAZ}LI,


2001, p. 6)

A imagem de um coração purificado pelo Amor reflete o plano


de Deus para a criatura que gerada, aparentemente outra que
Deus, reconhece por esta purificação a máxima afirmação mono-
teísta, qual seja, só há Deus e a criatura somente existe se houver
um re-centramento, no movimento de si a si, já que a diferença e
a identidade são co-extensivas a este mesmo movimento.

As boas uvas verdes que são capazes de amadurecer,


Tornam-se finalmente uma para o coração,
Graças ao sopro dos mestres do coração.
Eles avançam rapidamente para a maturidade
De sorte que a dualidade, o rancor e a disputa as abandona. 18
A visão desta face
Pois, na maturidade elas têm suas peles descascadas que por ti é olhada/ É
Até tornarem-se uma só; para nós a luz do co-
Aqui, unidade é um atributo. ração e dos olhos/
Um amigo torna-se um inimigo, porque ele ainda é dois; Esta mesma face que,
da aurora do Ser até
Pode alguém ter querelas com si-mesmo? a eternidade,/ Não
Bendito seja o amor universal do Mestre, cessa um só instante
Que confere unidade a centenas de milhares de parcelas! de olhar tua face
(Masnavi, versos 3.723-3.727) (RâM¦, 1993, p.
172). Observe-se
aqui a voz de Hallaj
Esta manifestação conduz à aquisição do conhecimento ilu- (1998): Com o olho
minado (“ma'rifat”). Rãm§ fala de “luz do coração” (‘nur-i-dil’)” do coração vi meu
Senhor/ E Ele disse:
(Cf. IQBAL, 1999, p. 77-78),18 referindo-se ao fato de que a luz Quem és Tu? Ele me
dos olhos enxerga pela luz do coração. disse: Tu!/ Porque
para Ti “onde” não é
A luz que confere luz ao olho é em realidade a luz do coração um lugar/ E lá onde
Tu és não há “onde”
A luz do olho provém da luz do coração. (p. 43).
E a luz que dá luz aos corações
É a Luz de Deus, que é pura e distinta da luz da inteligência e 19
Ó cristalina fonte,/
dos sentidos. Se nesses teus sem-
(Masnavi, I, versos 1.126-1.127) blantes prateados/
Formasses de repen-
te/ Os olhos deseja-
Captar esta luz somente é possível pelo polimento deste cora- dos/ que tenho nas
entranhas debuxa-
ção de tudo aquilo que não seja sua cristalina fonte,19 para que, dos!/ Aparta-os meu
como um espelho, nele se reflitam os atributos do Real: Amado, /Que alço o
vôo (CRUZ, 1984, p.
32). Ó min’alma, há
Porque eles poliram seus corações pela recordação de Deus uma passagem entre
E pela meditação, teu coração e o meu,/
A fim de que o espelho de seu coração pudesse receber Tendo encontrado a
A imagem original porta, meu coração
(Masnavi, I, verso 3.154) conhece o desvelo./
Ele assemelha-se à
água pura e límpida:/
Possuir um coração polido significa ter o potencial de ver o No espelho de águas
claras se reflete a lua
invisível, ou melhor seria, ter a possibilidade de ver a Realidade (RâM¦, 1993, p. 41).

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103
Werneck Filho, M. G.; Oliveira, H. M.

Una, oculta nas formas da multiplicidade. Algo que se poderia


chamar de visão da visão, pois o dervixe torna-se o astrolábio
20
A purificação é um
dos pilares do amor,
dos mistérios de Deus e o coração um órgão teândrico.
era a isso que fazia
alusão o Profeta Aquele que possui o coração,
quando dizia: “a pu- Torna-se um espelho de mil faces.
reza é parte integran- Graças a ele, Deus olha nas seis direções (...)
te da fé”. (...) As boas (Masnavi, V, verso 874)
obras consistem es-
sencialmente na puri-
ficação do coração Isso é o que se poderia chamar de abraçar a Deus pelo cora-
das coisas deste mun- ção purificado20 que, como órgão de conhecimento, possui a po-
do em primeiro lugar,
e em segundo lugar tencialidade de enxergar os signos do Real. Importante notar que
na permanência desta nesta apreensão do Real, o espelho possui uma dupla finalidade:
purificação. A meta
destas obras é a cons- ele reflete as várias cores da fonte Única, velada por este mesmo
ciência (GHAZ}L¦, espelho que, assim, funciona como um filtro, pois:
[19--] p. 97).
21
Segundo os sufis, é Sem um tal espelho,
muito mais difícil le- Nem a terra, nem o tempo
vantar os véus de luz Poderiam suportar a visão de Minha beleza
do que os das trevas; (Masnavi, VI, verso 3.074)
pois o véu de luz é o
símbolo iluminador e
salvador, o reflexo do Por isso, o conhecimento do coração é algo que instaura sen-
sol na água; ora, a tido visível nos sentidos anteriormente invisíveis da multiplicida-
água ensolarada não
é o sol. “Râmakhris- de fenomenicamente visível, descerrando os véus21 que guarda-
na” dizia que, afinal vam os signos da multiplicidade invisível, que mais não são que a
de contas, era preciso
destruir a imagem de Unidade.
“Kali” com a espada
de “jnnâna”. Sabe-se Pelo galanteio de um olhar,
que o Budismo zen
Aquele que se põe a lançar olhares amorosos,
apresenta natural-
mente as proporções Queima meu coração novamente.
iconoclastas, supon- (Masnavi, I, verso 1.796)
do-se que a Revela-
ção interior queime
suas formas exterio- É nesse sentido que se pode dizer, de um certo ponto de vista,
res (SCHUON, que o sufi que atinge um tal estado é relativamente sem forma,
1997, p. 56).
pois atingiu o re-conhecimento de seu teomorfismo original, que
22
O Ser verdadeiro, é esta forma original não determinada por nenhum atributo par-
conhecendo a Si-
Mesmo, conhece o ticular. Por isso, pode manifestar qualquer atributo, segundo a
mundo de Si-Mesmo, inspiração, segundo a infusão Divina, portanto, um estado de
o qual ele manifesta
segundo a Sua For- essência. Já não predomina sobre ele nenhum atributo particu-
ma. Portanto, o mun- lar.22 Por este motivo, não mais se pode identificar o dervixe com
do se encontra sendo
um espelho para o estado que se manifesta em seu coração – pois identificar a
Deus no qual Ele vê morada é ainda não estar vazio de representações – que flui imerso
Sua Forma: Ele en-
tão, não ama mais no oceano de divinas teofanias e reconhece seu Senhor em todas
que a Si-Mesmo as teofanias, servindo de lugar de contemplação e autoconheci-
(IBN 'ARAB¦, 1986,
p. 60). mento divino.

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104
Rumi e o jardim secreto do coração

Quantos mundos se encontram na Razão!


Quão vasto é o Oceano da Razão!
Neste doce oceano nossas formas movem-se rapidamente,
Qual taças na superfície da água;
Antes de serem enchidas
Flutuam como recipientes sobre o mar,
Mas quando o recipiente se enche, soçobra.
A Razão é oculta e somente o mundo fenomenal é visível;
Nossas formas são vagas ou gotículas.
(Masnavi, I, versos 1.109-1.112)

No momento em que o coração torna-se capaz de refletir qual-


quer forma, todas as ações e visões advêm do único Real agente
por isso Rãm§, com freqüência, alude à imagem do arco e da flecha:

As flechas voam mas o arco é oculto:


Do mundo invisível cem flechas de antigos cavaleiros
Abatem-se sobre nossa juventude.
É preciso colocar os pés sobre o plano do coração
Pois no plano do corpo não há alegria.
O coração é a morada da segurança, meus amigos;
Ele possui fonte e fontes, roseiras e o seio dos roseirais.
(Masnavi, III, versos 513-515)

Esta imagem do arco e da flecha evoca uma idéia de movi-


mento que, pelo lado do arco, traduz-se pela força vital da mão
que o empunha, isto é, Deus. Da mesma maneira, a flecha lança-
da pelo Arqueiro invisível transpõe as fronteiras do visível e do
23
“O homem é como
invisível, do espacial e do temporal.23 um arco na mão da
força divina; Deus, o
Se lançarmos uma flecha, Altíssimo, o utiliza
Isso não provém de nós; para criar atos; esses
Não somos mais que o arco, atos, na verdade, são
O Arqueiro é Deus. o ato de Deus, não do
arco. O arco é um
(Masnavi, I, versos 616) instrumento e um
meio, mas ele não é
consciente de Deus,
No coração polido, já há muito cessou o espaço para dois eus. para que a ordem do
É precisamente nesse sentido que se pode dizer que tudo se pas- mundo seja mantida”
(RâM¦, 1993, p.
sa como se, nesse órgão de metapercepção, se operasse a visão 265).
de que todas as coisas são, em última instância, redutíveis a uma
Única causa (Cf. IZUTSU, 1980, p. 128). Dessa maneira, este
conhecimento pode ser caracterizado como sendo uma noite escu-
ra da alma, pois no lugar onde Deus se manifesta não há nada
que possa ser classificado de existente, pois que tudo advém so-
mente Dele, Único real agente. Daí, o místico dizer do não dizer,
já que nada há o que ser dito; pois dizer é estar ainda fora desta
noite e fora desta epistemologia transracional.

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105
Werneck Filho, M. G.; Oliveira, H. M.

O Califa disse a Layla: “É por ti que Majnun tornou-se louco


e perdido?”
“Mas tu não és mais bela que outras belas!”
24
Nos versos amo- “Silêncio!” Responde Layla;
rosos do Persa, o “Tu não és mais que tu. Não és Majnun!”
amante Majnun abra- Quem quer que esteja desperto para o mundo material,
ça Layla contra seu
peito, e ao fazê-lo,
Não é mais que um adormecido.
abraça a noite escura Seu estado vigil é pior que seu sono.
de sua própria alma. (Masnavi, I, versos 407-410)
O corpo amado se
volatiliza em meio do
abraço, e se torna in-
Rãm§, em várias ocasiões, alude a esta dinâmica própria do
visível: é um abraço Real, isto é: Luz e treva. É este duplo aspecto que também se
carnal e místico. Rã-
m§ antecipa, (...), as
opera na idéia de noite escura da alma na mística de São João da
apaixonadas carícias Cruz.24 Rãm§ irá servir-se do mais insigne par amoroso da poesia
noturnas dos amantes
sãojuanísticos, em es-
persa, Laila e Majnun, para exprimir esta idéia de noite escura.
pecial no momento
em que o Amado se Majnun disse: “Tu és inteiramente forma e corpo:
reclina sob o peito da Entrai e olhai o cão com meus olhos;
amada. Salta a vista Pois este cão é o talismã selado pela mão de meu Senhor;
que os sufis cantavam
o leit motiv da noite
Esse cão é o guardião da morada de Layla.
mística – como sécu- Considera sua alta aspiração,
los mais tarde faria Seu coração, sua alma, sua consciência,
São João da Cruz – Onde escolheu viver e fazer sua morada”.
sob a cobertura do (Masnavi, III, versos 572-574)
amor humano (LÓ-
PEZ-BARALT, 1998,
p. 240). A noite escura é a morada do metaconhecimento. Tomado pe-
25
lo pensamento e imagem de Laila, o coração de Majnun encon-
De outra parte, es-
se estado de consci- tra-se agrilhoado pela pulsante realidade da visão da Amada que
ência produz em Maj- ele reflete. É por este motivo que Majnun desvia seu olhar da Lai-
nun uma interioriza-
ção absoluta da pes- la fenomênica, preferindo abraçar a Amada refletida em seu cora-
soa da amada. E isso ção, pois em verdade ele é Laila e é por este reflexo interior que
vai mesmo tão longe
que Majnun não de- Majnun observa o mundo exterior, se se deixasse encantar pela
seja mais a presença Laila exterior, perderia a beleza e a realidade da Laila interior.25
física de Layla de te-
mor que ela possa
distraí-lo de seu amor Majnun disse: não temo a lanceta
por aquele que lhe é Minha resistência é maior que a montanha rochosa.
interior e mais real Sou um vagabundo.
que a Layla real. Es- Meu corpo não é feliz sem golpes.
ses dois caminhos ca- Sou um amante,
racterizam uma expe-
riência de amor (...) Estou sempre em estreita relação com os corpos.
apresentando Majnun Mas meu ser todo inteiro é cheio de Laila:
como o modelo do Esta concha é cheia com as qualidades da pérola.
verdadeiro místico, Temo ó sangrador,
cuja consciência é tão Que ao verteres meu sangue,
totalmente absorvida Inflijas uma brusca ferida em Laila com a lanceta.
por Deus, que ele não
Aquele que é dotado de razão
percebe o mundo ex-
terior a não ser por E cujo coração é iluminado,
Deus (CORBIN, Sabe que entre Laila e eu não há diferença.
1991, p. 139). (Masnavi, V, versos 2.014-2.019)

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106
Rumi e o jardim secreto do coração

Estar vazio de representações, completamente despossuído de


si enquanto particularidade, enquanto “eu dominante”, esta é a
meta cujo movimento compele o dervixe ao estado do seu cora-
ção polido, em cuja face espelhada se refletem todas as manifes-
tações do Deus Uno.

CONCLUSÃO

O coração visto como órgão de conhecimento associa-se a


um princípio intelectivo translógico, o que permite apreciar-se
este órgão como fonte e reflexo da manifestação teofânica de
Deus no ser do místico. Através do coração, o místico percebe que
somente existe a Unidade; presença e força geradora de seu ser.

ABSTRACT
The present article aims at tracing some aspects on the
importance of the concept of heart in Mystical Islamism
(Sufism), using as the foundation the work of Rãm§, en-
titled Masnavi. The heart, as a technical concept in Suf-
ism, possesses a vast range of meanings which compose it
as a mosaic to be apprehended in mystical knowledge.
Through the purification of the heart, it becomes the or-
gan for receiving the mysteries of the Loved One, and it is
purged of all that darkens knowledge.
Key words: Masnavi; Rãm§; Heart; Theophany; Aim
knowledge; Mystical islamism; Sufism.

Referências
'ATT}R,
.. F. Le livre des secrets. Paris: Les Deux Océans, 1985.
CHITTICK, Willian. Mundos imaginales: Ibn-Arabi y la diversidad de
las creencias. Sevilha: Alquitara, 2004.
CHITTICK, Willian. The sufi path of love: the spiritual teachings of
Rumi. Albany: Suny Press, 1983.
CORBIN, Henry. La imaginación creadora en el Sufismo de Ibn'Arabi.
Barcelona: Destino, 1993.
CORBIN, Henry. Islam Iranien: aspects spirituels et philosophiques.
Paris: Gallimard, 1991. t. 3.
CRUZ, São João. Obras completas. Petrópolis: Vozes, 1984.

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107
O SÁBIO, O SUFI E O CACHORRO

Um sufi, vestido com seu manto de lã burda, passava por uma rua. Bateu num
cachorro com sua bengala, rompendo-lhe uma patinha. O animal saiu uivando e
foi aninhar-se aos pés do sábio Abu Saaid, pedindo justiça.
O sábio disse ao sufi: ‘Como te permitistes fazer tanto dano a este pobre ser?"
Respondeu o sufi: "Oh sábio, a culpa foi do cachorro, não minha! Se bati nele, foi
porque manchou-me a roupa."
O cachorro, porém, gemia cada vez mais.
Disse-lhe o sábio: "Em compensação, o que posso te dar para diminuir tua dor? Se
não queres que eu assuma a culpa desse sufi, farei castigá-lo para que tenhas
justiça."
"Oh sábio sem igual - respondeu o cão - ao vê-lo vestindo o manto sufi, tive
confiança nele. Jamais imaginaria que fosse me machucar. Sem o manto, o teria
evitado. Esse foi meu erro. Se queres castigá-lo, tira-lhe a roupa reservada aos
justos, para que ninguém mais se engane com sua aparência."

A MULHER E O CACHORRO

Disse o Profeta (s.a w.): "Havia uma mulher de costumes depravados, pecadora
impúdica, manchada.
Certo dia atravessando o campo, viu um cão ofegando de sede, com a língua de
fora, à borda de um poço.
Com grande ternura, renunciou ao que iria fazer.
Usando seu sapato por cubo e sua capa por corda, colheu água e lhe deu de beber.
Por esta boa obra, Alláh a exaltou em ambos os mundos.
Na noite de minha ascensão, a vi, bela como a lua, morando no paraíso".
Uma mulher depravada recebeu de Alláh tão grande recompensa por ter dado de beber a
um cachorro.
Se, por um instante, consolas o coração alheio, teu reconhecimento será maior que os
dois mundos.

SHIBLÍ E O CACHORRO

Perguntaram a Shiblí: "quem foi o primeiro a guiar teus passos no caminho do


umbral divino?"
Ele respondeu: "Certo dia , vi um cão à borda da água morrendo de sede. Quando
mirava a superfície da água, via seu próprio reflexo, que ele acreditava tratar-se de
outro animal; diante daquela imagem, sem beber fugia.
Finalmente a sede lhe fez perder todo conhecimento, e com ele, a paciência; de um
salto se jogou na água, e no mesmo instante, o outro cachorro desapareceu.
Desaparecido aquele cão diante de seus próprios olhos, se esfumou entre ele e seu
desejo, aquele obstáculo que não era senão ele mesmo.
Assim, é como desapareceu o obstáculo que se elevava diante de mim; sem dúvida
alguma, quem foi assim aniquilado não foi outro senão meu eu. Desta maneira fui
salvo; meu primeiro guia no Caminho foi um cachorro".
Desvanece também tu, da frente dos teus olhos. O obstáculo que te impede avançar é o
teu eu; faça-o desaparecer.
O menor apego a teu eu é uma pesada corrente que trava teus pés. Se sentes a
necessidade constante de Sua presença embriagadora, nunca voltes a ti. Esse é todo o
vinho que precisas.
Não regresses a ti; renuncies a teu eu, a abnegação de si é "luz sobre luz". (Al Qur’an,
XXIV, 35).

( Farid ud-Din Attar, O Livro


divino)

A PEREGRINAÇÃO

Um dia, quando o Shaykh Abd Allah Mubarak (736-798) encontrava-se em Makka, viu
em sonhos dois anjos descerem dos céus, perguntando-se quantos peregrinos haviam
acudido aquele ano: "Seiscentos mil", disse um deles. "E quantos há cuja
peregrinação tenha sido aceita?" "Nem um sequer", respondeu o outro anjo.
"Entretanto, acrescentou, há em Damasco um sapateiro chamado Ali ibn Mufiq,
que não efetuou a peregrinação em pessoa; pois bem, sua peregrinação foi aceita e
lhe foi concedida a graça dos seiscentos mil peregrinos".

Quando despertou, o shaykh decidiu ir à Damasco conhecer aquele sapateiro.


Finalmente o encontrou e lhe contou seu sonho.

Era um ancião que, ao ouvir aquele relato, começou a chorar. Contou que trinta anos
antes, após haver poupado, a custa de grandes penas, trezentas e cinquenta moedas de
ouro para ir a Makka, soube que seus vizinhos passavam fome. Então, entregou-lhes a
soma dizendo-lhes: "Tomem o dinheiro para atender a vossos gastos, esta será a
minha peregrinação".

(Farid ud-Din Attar, O Memorial dos Santos)

SHIBLÍ E O PADEIRO

Um padeiro havia ouvido falar do célebre Abu Bakr al- Shiblí e desejava ardentemente
conhecê-lo. Um dia, Shiblí foi a sua padaria e, sem esconder-se, pegou um pão. O
padeiro, que nunca o havia visto, avançou sobre ele, tomou-lhe o pão das mãos,
dizendo-lhe: "Vá, mendigo, meu pão não é para ti". Shiblí se foi. Então, alguém disse
ao padeiro: "Não sabes que este homem é Shiblí? Como lhe negas o pão?" Morto de
vergonha, o padeiro correu atrás de Shiblí, o alcançou e jogando-se a seus pés pediu-lhe
mil desculpas. Shiblí disse-lhe: "Se queres ser perdoado, prepare um banquete para
amanhã, e chame muitos convidados".
O padeiro apressou-se a armar uma festa suntuosa, convidando grande número de
pessoas e anunciando a presença de Shiblí. Quando este chegou, todos sentaram-se para
comer.

Um homem piedoso perguntou-lhe: "Como se pode discernir entre um homem bom e


um homem mau?" Shiblí respondeu: "Se queres ver a um homem mau, olha nosso
anfitrião: por mim, gastou cem moedas de ouro; por Alláh, não queria dar um pão.
Ao invés de entregar-se a gastos de loucura para um homem célebre, mais lhe
valeria dar um pão com doçura a um mendigo. Parecer homem generoso não é
nada; o que conta é a pureza da intenção".

(Farid ud-Din Attar, O Livro divino)

HISTÓRIA ILUSTRADORA DA LOUCURA DO INDIGNO

O insolente mendigou a um homem piedoso, mas este não tinha dinheiro na sua casa.
Caso contrário teria jogado ouro nele, como se pó fosse. O espertalhão, portanto, saiu e
começou a insultá-lo na rua.
O olho de quem encontra faltas, não enxerga méritos. Que consideração tem, quem
atuou desonestamente, para com a honra do outro?
Sendo informado dos seus impropérios, o homem piedoso sorriu e disse: "Está bem, ele
apenas numerou poucas, das minhas más qualidades. O mal que supôs em mim,
sei, certamente, que o tenho. Somente faz um ano que me conhece, como pode
saber as faltas de meus setenta anos? Ninguém senão o Sapientíssimo sabe de
minhas faltas melhor do que eu. Nunca conheci alguém que me atribuísse tão
poucos defeitos. Caso ele testemunhe contra mim no dia do Juízo, não terei medo.
Se ele, que pensa mal de mim, procura revelar minhas faltas, di-lhe que venha e
tome nota de mim."
Seja humilde quando o véu da tua reputação é arrancado. Se um cântaro fosse feito do
pó dos homens, os caluniadores o esmagariam a pedradas.

HISTÓRIA DE UM GLUTÃO

Na companhia de alguns religiosos mendicantes, entrei num palmeiral de tâmaras em


Basora. Entre eles havia um glutão. Disposto à ação subiu a uma palmeira, e caindo de
cabeça, morreu.
O chefe da cidade perguntou: "Quem matou esse homem?"
"Fica tranquilo amigo -respondi-, caiu duma rama por causa do peso do seu
estômago".

HISTÓRIA DE UM BURRO SÁBIO


Alguém, jogado na rua, chorava dizendo: "Quem, neste deserto, está mais angustiado
que eu?"
Um burro de carga respondeu: "Oh insensato, durante quanto tempo lamentarás a
tirania do destino? Vá embora e agradece que apesar de que não montes num
asno, você não é um burro sobre quem os homens montam".

(Shaykh Saadi de Shiraz, Al-Bustan, "Jardim de Frutos")


A ANCIÃ DE CORAÇÃO QUEIMADO

Um dia, no mercado de Bagdá, instalou-se um incêndio violento. Todos se puseram a


gritar. O fogo provocou um enlouquecimento como no Juizo final.
Uma anciã aflita, bastão na mão, chegava não se sabe de onde. Alguém lhe disse:
"Estás louca, não sigas, tua casa incendiou-se".
"Cala-te", respondeu ela, "Tu estás mais louco do que eu. Alláh nunca fará arder
minha casa".
Extinguido o fogo, viram que muitas casas haviam queimado, mas a casa da senhora
estava intacta.
Perguntaram-lhe: "Anciã, como sabias que seria assim?"
Ela humildemente respondeu: "Eu sabia que o fogo consumiria ou minha casa ou
meu coração.
Mas Alláh, que já queimou meu coração na provação, não permitiria que minha
casa também ardesse"

(Farid ud-Din Attar, O Livro Divino)

CINZAS SOBRE A CABEÇA DE UM HOMEM CÉLEBRE

A correção dos costumes. Conta-se que Al-Rabi al-Djizi, companheiro do Imam Al-
Shaf'i (fundador do rito jurídico shafi'ita, um dos quatro ritos ortodoxos do Islam.
Morreu no Egito em 204 Hégira/819 d.C.) - que Alláh o tenha em sua estima - passeava
um dia pelas ruas do Cairo. Uma caixa cheia de cinzas foi esvaziada sobre sua cabeça.
Desceu de sua montadura e começou a limpar suas roupas. Perguntaram-lhe:
- Não estás aborrecido?
Respondeu:
- Aquele que merece o fogo do inferno e em lugar deste fogo recebe cinzas, não tem
porque encolerizar-se.
Morreu no ano 250 da Hégira (864 d.C.)

(Ahmad al-Qalyûbî, O
Fantástico e o Cotidiano)

O QUE DIFERENCIA UM SUFI DE UM ERUDITO


Ao começo do Império Otomano, havia um sultão que se interessava pelas Turuq (pl. de
Tariqa) e certo dia, perguntou a seu vizir: "Qual é a diferença entre uma pessoa culta
ou erudita, e o Povo do Caminho?"
"Sua Majestade - respondeu o funcionário - caso aceites, esta noite podemos ir a um
lugar onde a diferença ficará muito clara."
Horas depois, trocaram seus trajes e aparentando ser pessoas comuns, foram a uma
casa-grande onde havia uma reunião da qual participavam como convidados homens
cultos e pessoas da Tariqa. Ingressaram e se acomodaram num canto. Então entrou uma
pessoa a quem o vizir perguntou: "Oh nosso mestre!, quem aqui é o primeiro dos
eruditos?" Recebendo como resposta "Não sabes quem sou eu, para me fazer esta
pergunta; eu sou o primeiro". Depois, apareceu um segundo, e o vizir o interrogou da
mesma maneira. Enfurecido, o homem culto berrou: "Que pergunta é essa? Não sabes
quem sou eu? Sou o primeiro, o melhor!"
Todos os eruditos diziam ser o primeiro, o mais importante nesse encontro. E usavam
enormes turbantes.
Mais tarde começou a chegar o povo das Turuq. O vizir se aproximava e dizia: "As
salaam alaykum, oh meu irmão, oh shaykh Naqshbandi! Dentre os presentes,
quem é o shaykh mais importante da Tariqa?" E escutou: "Está vindo atrás de
mim".
O que veio depois acrescentou: "O irmão que vem em seguida". Os que
chegaram, quarenta no total, responderam: "Vem atrás de mim". E o último afirmou:
"Eles acabam de passar".
Então o sultão concluiu: "Os primeiros são os eruditos, e estes últimos são os da
Tariqa, que treinam seus egos aplicando enxertos para mudar más características
por boas".

(Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshband, O Caminho Naqshbandi)

Dois irmãos compraram um par de calçados e combinaram usá-los alternadamente.


Mas quando chegaram em casa o irmão mais novo afirmou querer usá-los durante o dia.
O irmão mais velho ficou muito aborrecido porque só poderia usar os sapatos à noite, o
que o impediria de dormir. Os sapatos logo se gastaram. Disse o irmão mais novo:
"Vamos comprar outro par". O irmão mais velho respondeu: "Chega de sapatos.
Prefiro dormir à noite".

(O Correio da UNESCO, no. 6, Junho de 1976)

HISTÓRIA DE UMA GOTA DE CHUVA

Uma gota de chuva caiu de uma nuvem de primavera e, vendo a grande extensão do
mar, sentiu vergonha. "Onde está o mar e onde estou eu?", refletiu. "Comparada com
ele, na verdade, eu não existo". Enquanto se julgava assim, com desdém, uma ostra a
tomou em seu regaço e o Destino lhe deu forma em sua trajetória de maneira que uma
gota de chuva se converteu, finalmente, em uma famosa pérola real.
Foi exaltada porque foi humilde. Chamando à porta da extinção, tornou-se existente.

(Saadi de Shiraz, Al-Bustan)


O CREDOR E A VISTA

Um quitandeiro tinha um aprendiz que, por ser vesgo, via tudo duplo. Certo dia, o
quitandeiro lhe disse: "Quero que vás ao depósito e tragas a jarra de azeite que está
na estante". O aprendiz foi e retornou dizendo: "Há duas jarras, qual trago?"
O quitandeiro enfadou-se e disse com sarcasmo: "Rompa uma e traga a outra!"
O aprendiz fez o ordenado, mas quando rompeu uma, a outra desapareceu.

(Farid ud-Din Attar)

PENSANDO NO SULTÃO

O sultão Harun ar-Rashyd perguntou a Bohlul (o louco): "Em que ocasiões pensas
em mim?"
Bohlul respondeu-lhe: "Sempre que esqueço Alláh, me lembro de ti".

(Farid ud-Din Attar)

ARBÍTRIO

Um derviche foi a uma quitanda e pediu alguma coisa. O quiitandeiro disse: "Nada
tenho agora".
O derviche foi embora.
Perguntei ao quitandeiro: "Por que não lhe destes alguma coisa?"
Ele respondeu: "Não estava destinado por Alláh que recebesse alguma coisa".
Eu disse: "Alláh o destinou, mas você não permitiu que acontecesse. Se tivesses
posto tua mão na caixa e a caixa te houvesse agarrado ou a tivesse machucado, de
maneira que não pudesses colher o que procuravas, então dirias que Alláh não o
queria."

(Shams de Tabriz)
FOFOQUEIROS SÃO PIORES DO QUE OS DIFAMADORES

Alguém disse a um homem piedoso: "Sabes o que disseram sobre ti?"


"Silêncio", respondeu, "é melhor não saber o que foi dito por um inimigo."
Aqueles que trazem as palavras de um inimigo, seguramente, são piores que o próprio
inimigo. Somente traz o dito por um inimigo a um amigo quem está de acordo com o
inimigo. Tu és pior do que o inimigo, pois revelas o que ele disse em segredo.
Um fofoqueiro reacende uma velha discórdia; mantenha-se tão longe quanto possas de
quem reacende uma disputa adormecida.
Estar preso pelos pés em um poço tenebroso é melhor do que levar injúrias de um lugar
para outro.
Uma disputa é como um fogo que o fofoqueiro alimenta com lenha.

(Saadi de Shiraz, Al-Bustan)

SOBRE A CALÚNIA

Não fales mal sobre o "bom" e o "mau", pois podes enganar-se com o primeiro e
tornar-se um inimigo do último.
Saiba que quem difama a outrem revela suas próprias faltas.
Se falas mal de alguém és pecador, mesmo se o que dissestes é verdade.

(Saadi de Shiraz, Al-Bustan)

HISTÓRIA SOBRE O MESMO TEMA

Um sábio disse a alguém que soltou sua lingua, dizendo calúnias: " Não fales mal de
ninguém diante de mim para que eu não possa pensar mal de ti. Ainda que tua
dignidade seja rebaixada, tua própria honra não aumenta por isto."

(Saadi de Shiraz, Al-Bustan)

CONTO DE LUQMAN.

Perguntaram a Luqman, o Sábio: "De quem aprendestes bons modos?" Ele respondeu:
"Dos mal educados. Eu evitei fazer tudo o que eles faziam que me parecia
objetável."
Ainda que uma palavra seja dita como broma
É uma lição para um homem alerta
Cem capítulos de sabedoria lidos a um tonto,
Soam como broma a seus ouvidos.

(Saadi de Shiraz, Al-Gulistan)

CONTO - "DA ÉTICA DOS DERVICHES"

Recordo que em minha infância, me inclinava à religiosidade e estava ansioso por


gratificar-me com atos de piedade e abstinência. Uma vez, passei toda a noite em
oração, sem dormir nem por um só momento e sustentando o Alcorão (Al-Qur'an) sobre
minhas pernas, enquanto todos ao meu redor dormiam. Disse a meu pai: "Ninguém
levanta a cabeça do sono para rezar, dormem tão profundamente que poderia-se
dizer que estão mortos." Ele respondeu: "Meu filho, para você, seria melhor dormir
do que encontrar faltas nos outros."

O LOBO EXPLORA A DISPUTA ENTRE DOIS CARNEIROS


Dois carneiros estavam lutando, enquanto o lobo olhava por trás de uma moita. "Lutem,
lutem", disse o lobo para si mesmo. "Lutem até estarem exaustos demais para se
moverem; então eu irei e comerei a ambos".

(Shaykh Muzaffer Ozak al-Jerrahi, Irshad)

O GATO MESTRE

Abu Bakr ash-Shibli conta: Visitei a Nuri (Abu 'l-Husain Ahmed ibn Muhammad an-
Nuri), e o vi sentado em meditação, e não mexia nem mesmo um pelo de seu corpo.
"Onde aprendestes um método de meditação tão excelente?" perguntei-lhe.
"De um gato espreitando diante da toca de um rato" respondeu-me. "E ele estava
muito mais imóvel do que eu".

(Farid ud-din Attar, Tadhkirat-ul-Awliya)

A SERVIÇO DO CÃO

Muhammad Baha'uddin Naqshband disse que ao começo de sua viagem no Caminho


do Sufismo, conheceu um enamorado de Alláh, que ordenou-lhe tomar conta de alguns
cães, com veracidade e humildade, e que a eles pedisse apoio. E disse-lhe "por causa
do teu serviço a um deles, alcançarás enorme felicidade".
"Tomei essa ordem -relata Baha'uddin- com a esperança de achar o cão, e pela
minha dedicação a ele, receber a graça. Certo dia que estava com os animais, senti
que um dos cães adquirira grande estado de felicidade. Comecei a chorar na sua
frente, até que ele deitou-se sobre seu lombo e alçou suas patinhas ao céu. Ouvi que
dele emanava uma triste voz. Então levantei minhas mãos em súplica e comecei a
dizer "Amin" até ele silenciar. Nesse momento, abriu-se uma visão para mim que
levou-me a um estado onde senti que era parte de cada ser humano, e de cada
criação nesta terra".

AS DUAS RAPOSAS

Duas raposas encontraram-se e passaram a compartilhar a mesma comida. Juntas


experimentaram tal deleite que um forte apego surgiu entre elas. Um rei que caçava na
planície com suas panteras e falcões separou essas duas raposas. A fêmea perguntou
então ao macho: "Ó caçador de tocas! quando nos encontraremos de novo?" Ele
respondeu, enquanto abandonavam seu esconderijo: "Minha cara, se nos
encontrarmos novamente será no peleteiro da cidade, pendurados numa estola".
Farid ud-Din Attar, "A Linguagem dos
Pássaros"

A ARANHA

"Não viste a impaciente aranha e como ela passa caprichosamente o seu tempo?
Tecendo com avidez uma rede maravilhosa, veste um canto com sua armadilha e espera
que caia nela uma mosca. Precavidamente constrói sua hábil casa, que abastece com
provisões para seu uso. Quando a mosca precipita-se de cabeça para baixo em sua teia, a
aranha sai de seu esconderijo e suga o magro sangue do pobre bicho. Depois, no mesmo
lugar, deixa secar o cadáver tomando-o como alimento ainda por algum tempo. Um dia
o dono da casa levanta-se, escova à mão, e num instante acaba com essa trama, varrendo
mosca, teia e aranha para fora de sua sala.
Assim é o mundo, e o que o alimenta é a mosca apanhada pelas sutilezas da aranha. A
teia é o mundo, e a mosca a substância que Alláh colocou aí para o homem. Ainda que o
mundo inteiro te estivesse destinado, tu o perderias num instante".

Farid ud-Din Attar, "A Linguagem dos


Pássaros"

A FÊNIX

Na Índia vive um pássaro que é único: a encantadora fênix tem um bico


extraordinariamente longo e muito duro, perfurado com uma centena de orifícios, como
uma flauta. Não tem fêmea, vive isolada e seu reinado é absoluto. Cada abertura em seu
bico produz um som diferente, e cada um desses sons revela um segredo particular, sutil
e profundo. Quando ela faz ouvir essas notas plangentes, os pássaros e os peixes
agitam-se, as bestas mais ferozes entram em êxtase; depois todos silenciam. Foi desse
canto que um sábio aprendeu a ciência da música. A fênix vive cerca de mil anos e
conhece de antemão a hora de sua morte. Quando ela sente aproximar-se o momento de
retirar o seu coração do mundo, e todos os indícios lhe confirmam que deve partir,
constrói uma pira reunindo ao redor de sí lenha e folhas de palmeira. Em meio a essas
folhas entoa tristes melodias, e cada nota lamentosa que emite é uma evidência de sua
alma imaculada. Enquanto canta, a amarga dor da morte penetra seu íntimo e ela treme
como uma folha. Todos os pássaros e animais são atraídos por seu canto, que soa agora
como as trombetas do Último Dia; todos aproximam-se para assistir o espetáculo de sua
morte, e, por seu exemplo, cada um deles determina-se a deixar o mundo para trás e
resigna-se a morrer. De fato, nesse dia um grande número de animais morre com o
coração ensanguentado diante da fênix, por causa da tristeza de que a veem presa. É um
dia extraordinário: alguns soluçam em simpatia, outros perdem os sentidos, outros ainda
morrem ao ouvir seu lamento apaixonado. Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a
fênix bate suas asas e agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que
transforma seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e madeira, que
ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se brasas vivas, e então cinzas.
Porém, quando a pira foi consumida e a última centelha se extingue, uma pequena fênix
desperta do leito de cinzas.
Aconteceu alguma vez a alguém deste mundo renascer depois da morte? Mesmo que te
fosse concedida uma vida tão longa quanto a da fênix, terias de morrer quando a medida
de tua vida fosse preenchida. A fênix permaneceu por mil anos completamente só, no
lamento e na dor, sem companheira nem progenitora. Não contraiu laços com ninguém
neste mundo, nenhuma criança alegrou sua idade e, ao final de sua vida, quando teve de
deixar de existir, lançou suas cinzas ao vento, a fim de que saibas que ninguém pode
escapar à morte, não importa que astúcia empregue. Em todo o mundo não há ninguém
que não morra. Sabe, pelo milagre da fênix, que ninguém tem abrigo contra a morte.
Ainda que a morte seja dura e tirânica, é preciso conviver com ela, e embora muitas
provações caiam sobre nós, a morte permanece a mais dura prova que o Caminho nos
exigirá".

Farid ud-Din Attar, "A Linguagem dos


Pássaros"
A LUA E O SOL

Disse um dia a lua: "Por amor ao sol, inundarei o mundo de luz".


Responderam-lhe: "Se és sincera, haverás de evoluir noite e dia,
Até que estejas em conjunção com ele; então, perder-te-ás nele e te farás invisível.
Te consumirás no ardor de seus raios e te humilharás diante de sua elevação;
Logo, saindo de seus raios, tua beleza maravilhará as criaturas; com o olhar fixo
em teu rosto, indicar-te-ão com o dedo".
Qual é, então, esse mistério? A lua, após perder-se no sol, reaparece fora de seus raios;
Errante aceita a aniquilação, despreocupada de si mesma, se oferece à vista do globo
terrestre, que sempre se apega a seu próprio Eu.
Tem se consumido para o sol, tem encontrado o amado após a separação.
A lua cheia da décima quarta noite, apesar de todo o seu esplendor, não se compara ao
menor dos crentes.
A lua cheia ostenta a sua beleza, e como é vaidosa, ninguém a busca.
Mas quando, na fase crescente, a lua está bem fina, todos põem-se a buscá-la, com um
sorriso nos lábios.
Permanecer aprisionado ao próprio Eu é perpetuar a própria desgraça.

(Farid ud-Din Attar, O Livro Divino)

SALOMÃO E A FORMIGA ENAMORADA

Caminhando, magnífico e nobre, passava Salomão em um lugar ao longe, diante de um


formigueiro.
Todas as formigas aproximaram-se para mostrar-lhe sua submissão; em uma hora havia
milhares delas.
Apenas uma não se apressou a vir, pois havia diante de seu ninho um montículo de areia
cujos grãos contava um a um para fazê-lo desaparecer.
Salomão a fez chamar e disse: "Formiga, não tens aspecto de ter grande resistência
nem força;
E nem com a longevidade de Noé e a paciência de Jó poderias levar a cabo o
trabalho que tens empreendido.
Se sai dos limites de tuas forças; nunca poderias fazer desaparecer esse montículo
de areia".
A formiga, soltando a lingua, disse: "Grande rei, nesta via não se pode avançar senão
com magnanimidade!"
Uma formiga, depois de me haver aprisionado na armadilha de seu amor, ocultou-se de
minha vista dizendo-me:
"Se destroes esse monte de areia e deixas livre o caminho, farei desaparecer o
grande obstáculo que nos separa e aceitarei tua companhia.
Então, me dediquei a este trabalho, sem pensar em outra coisa que em mover a
areia.
Se a faço desaparecer, poderei aspirar à união com minha amada.
E se hei de perder a vida no cumprimento desta obra, não terei sido nem
jactanciosa nem mentirosa".
Amigo, aprende de uma formiga o que é a força do amor; aprende de um cego o segredo
da visão.
Ainda que a formiga esteja destinada ao infortúnio, é um servo no Caminho.

(Farid ud-Din Attar, O Livro Divino)

O SÁBIO DE GORGÁN E A GATA

Havia um grande sábio que vivia em Gorgán. Tinha em sua casa uma gata que o queria
muito. Estava sempre junto a ele, e se não, se acocorava no tapete de oração. Ia
livremente à cozinha, pois sabiam que nunca tocava em nada, contentando-se com o que
lhe davam.
Pois bem, um dia ao entardecer, foi à cozinha e roubou um pedaço de carne da panela.
O servo do sábio se deu conta do ocorrido e lhe bateu. A gata, magoada, colocou-se em
um canto demonstrando seu descontentamento. O sábio perguntou pela gata a seu servo,
que contou-lhe o que aconteceu. Então, chamou a gata e disse-lhe: "Por que fizeste
isso?"
A gata foi-se e retornou por tres vezes, trazendo seus gatinhos recem nascidos. Colocou-
os aos pés do sábio, e triste refugiou-se em uma árvore, abrindo os olhos bem grandes e
guardando silêncio.
O sábio dirigiu-se aos que o rodeavam, dizendo-lhes:
"O delito desta gata é perdoável, pois não cometeu-o pensando em si mesma. Sua
conduta não tem nada de surpreendente, pois o amor materno é algo prodigioso.
Enquanto não se tem filhos, não se pode compreender essa solicitude."
Logo, disse ao servo: "Este pobre animal, privado da palavra, certamente sofreu
muito. Peça-lhe perdão, e sua ira desaparecerá".
Coisa que o servo fez, mas sem êxito. O sábio, por sua vez, falou-lhe, rogando-lhe que
descesse da árvore. Em seguida, a gata desceu e acocorou-se a seus pés.
"Todos os assistentes deram razão ao pobre animal e aderiram a gratidão daquele
doce ser.
Ainda que tenhas laços para encher cem mundos, nunca igualar-se-ão ao de um
único filho. O único acima desse apego pelo filho é Allah, o Puro, o Incomparável".

(Farid ud-Din Attar, O Livro Divino)


Certo dia em que Moisés dialogava com Alláh, pareceu-lhe ouvir uma voz que lhe
dizia: "Oh Moisés! Protege àquele que procura refúgio!" Ele saiu de sua
contemplação e percebeu uma pomba que gritava: "Socorro! Moisés, socorro!" Moisés
abriu sua manga e nela a pomba enfiou-se. Pouco depois, apareceu uma águia que lhe
disse: "Tu encerras na manga algo que me pertence, dê-me o!" "Allah me ordenou
abrigar àqueles que procuram refúgio", justificou-se Moisés, inclinando-se sobre sua
coxa para cortar um pedaço dela e lhe dar. "Não sabes que a carne dos profetas me
está proibida e que eu prometi não comê-la?" disse a águia. A águia elevou-se e pos-
se a voar ao redor da cabeça de Moisés. "Deixe-me partir!" pediu a pomba. "Mas a
águia está aqui, ver-te-á e pegar-te-á!" "Aquele que deu sua palavra não a tomará
de volta e assim saberá mantê-la" disse-lhe a pomba. Moisés libertou a pomba. As
duas aves juntaram-se e ficaram girando ao seu redor. Uma voz disse: "A águia é
Gabriel, e a pomba, Miguel. Eles vieram ver se sabes manter tua palavra".

Abûl'-Hasan Khraqânî, "Nûr al-'ulûm" (A Luz das Ciências)

Um hóspede chega de repente à casa de um beduino. Havia somente um pouco de leite,


que lhe foi oferecido. Mas o hóspede continuava com fome. O beduino entrou dentro de
casa e disse a sua mulher: "Mata a cabra!" "Mas ela é tudo que nós temos, vamos
morrer de fome!" grita ela. "É melhor morrer de fome do que deixar o hóspede
faminto." Eles mataram a cabra e a serviram. No momento de despedir-se, o hóspede
disse a seu servente: "Dá-lhe tudo o que guardas!" "Mas é uma fortuna, mestre, e ele
não matou senão uma pobre cabra!", exclamou o servente. "Exato, porém ele nos
deu tudo o que possuia e nós demos pouca coisa. Sua generosidade ultrapassou de
longe a nossa".

Abûl'-Hasan Khraqânî, (Idem)

Um homem apresentou-se a Bâyazîd al-Bistami, manuseando um tasbih (terço


islâmico) displicentemente. "Precisarás de dois, disse-lhe Bâyazîd, com o primeiro,
computarás as boas ações, e com o segundo, as más."

Abûl'-Hasan Khraqânî, (Idem)


Bâyazîd al-Bistami disse: "Quando a tristeza penetrar em seu coração, guarde-a
preciosamente porque é com a baraka desta tristeza que os Homens atingem o
alvo".

Abûl'-Hasan Khraqânî, (Idem)

O LOBO PASTOR

Conta-se que o profeta Musa (Moisés) - que a benção de Allah esteja com ele - um dia
chegou com seu rebanho de ovelhas a um vale infecto de lobos. Havia alcançado o
limite extremo da fadiga. Sentiu uma grande confusão: não podia ocupar-se de cuidar
das ovelhas, já que o sono e o cansaço terminariam por vencê-lo. Caso deitasse
tranquilamente, os lobos assaltariam o rebanho. Lançou um olhar furtivo ao céu e disse:
- Oh Allah, Tua ciência envolve todas as coisas, Tua vontade supera qualquer
obstáculo, Tua decisão precede qualquer ato.
Depois deitou-se, repousou sua cabeça no chão e dormiu. Quando acordou, viu que um
lobo havia apoderado-se de seu bastão. Bastão no ombro, o lobo tomava conta do
rebanho e o protegia de seus congêneres. Musa surpreendeu-se ao ver esta cena. Allah
Altíssimo disse-lhe em segredo:
- Oh Musa, seja para Mim tal qual Eu quero e Eu serei para ti tal qual desejas.

"Lo Fantastico y lo Cotidiano", Ahmad al-Qalyûbî

O SILÊNCIO QUE SUPERA O BEM E O MAL

Perguntaram a um homem eminente que havia viajado muito ao redor do mundo se


poderia falar sobre alguém que tivesse conhecido.
Ele respondeu: "Viajei pelos sete climas, mas no mundo inteiro não vi mais que um
homem e meio.
A unidade foi um homem que morando numa zawya não falava nada de bom nem
nada de mal de ninguém.
A metade era um homem excelente nisto, que das pessoas somente falava o bem."
Enquanto o bem e o mal te acompanharem, não terás coração clarividente nem alma
consciente; mas depois que deixes um e outro, tua alma será absorvida dentro do
segredo da santidade.

"Le Livre Divine", Farid ud din Attar

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"O que é o melhor para um homem neste caminho?", perguntaram certo dia ao
grande mestre Abu Yazíd al-Bistami.
"A felicidade congênita", respondeu.
"E se lhe falta isso?"
"Um corpo forte."
"E se não o tem?"
"Um ouvido atento."
"E sem ele?"
"Um coração sábio."
"E se carece dele?"
"Um olho que veja."
"E se não o tem?"
"Uma morte súbita."

"Tadhkirat-ul-Awliya" ("72 Santos Sufis"), Farid ud din Attar

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KHIDR E MOISÉS NO NONO PARAÍSO

Certo dia o Profeta Moisés e Khidr estavam no deserto e tinham fome. De repente, uma
gazela apareceu entre ambos. O lado da gazela que dava para Khidr estava assado e o
lado de Moisés, cru. Khidr começou a comer, enquanto Moisés somente podia olhar.
"Colhe uns galhos - disse Khidr - acende o fogo, assa a carne e come."
"Como é possível que a carne no teu lado esteja assada, enquanto no meu está
cru?"
"Eu estou no outro mundo - respondeu Khidr -, tu estás neste. A comida deste
mundo é adquirida, a do outro te é proporcionada já no ponto. O pão deste mundo
é ganho, o do outro é dado. Este mundo é o lugar do trabalho; o outro, da
retribuição."

"El Libro del Hombre Perfecto", 'AzîzuddinNasafi'

AOS POBRES O PARAÍSO

É narrado que um dia Shaquiq encontrou Ibrahim Adham, que lhe perguntou: "Como
estavam os derviches de tua cidade quando os deixastes?"
"Muito bem!"
"Que quer dizer isso?"
"Quando encontram, agradecem; se não encontram, tem paciência."
"Os cães fazem o mesmo em nossa cidade: quando encontram, comem; e quando
não, tem paciência."
"Diga-me então, Ibrahim, o que devem fazer os derviches?"
"Quando não encontrem nada, que agradeçam, e quando encontrem, que sejam
moderados."

(Idem)

"Um policial meio estúpido recebeu ordem de prender um monge que havia cometido
um crime. Para não esquecer alguma coisa, o policial fez uma lista de tudo o que ia
precisar para cumprir a missão: 'bagagem, guarda-chuva, canga para o preso,
documentos, preso e eu'. E passava o tempo todo repetindo em voz baixa essa lista. O
monge logo percebeu que o policial era abobalhado. Uma noite ele o embebedou,
raspou-lhe a cabeça, transferiu a canga para ele e fugiu. Quando acordou, o policial
lembrou-se da lista e começou: 'Vamos ver... bagagem, guarda-chuva...é, está certo.'
Apalpou o pescoço: 'A canga também... os documentos também...' De repentese
assustou: 'Hei, e onde está o monge?' Passou a mão na cabeça e se acalmou: 'Puxa,
que susto! O monge também está aqui.' De repente, novo susto: 'E eu, onde estou?'"

(O Correio da UNESCO, no. 6, Junho de 1976)

GOLPE DE SORTE

Nasrudin perdeu o jumento e saiu à procura dele dizendo o tempo todo:


- Graças a Deus! Graças a Deus!
- Por que graças a Deus? - perguntavam as pessoas.
- Porque eu não estava montado no jumento quando ele se perdeu. Se estivesse, eu
estaria perdido também.

(idem)

CAÇADOR

Alguém consultou Afanti:


- Há anos que caço, mas não compreendo porque os outros caçadores mantêm um
olho aberto e o outro fechado enquanto apontam antes de disparar.
- Tens de fazer o mesmo, - respondeu Afanti - se cerras os dois olhos não verás nada.

(Histórias de Afanti -
este é o nome de Nasrudin na China, Zhao Shijie)
MEVLANA JALALUDDIN RUMI

Mevlana Jalaluddim Rumi nasceu em Balk, antiga Pérsia e atual Afeganistão, em


setembro de 1207. Seu pai, Bahauddin Walad, foi um dos maiores eruditos de seu
tempo, conhecido como Sultan Ulema, o Sultão dos Sábios e teve influência decisiva na
formação de Rumi.
Na iminência da invasão mongol, Bahauddim migrou ao longo de alguns anos com sua
família. Durante essa peregrinação, Rumi - em sua infância e adolescência - presenciou
o encontro de seu pai com grandes mestres do Sufismo, como Faraddudim Attar.
Havia uma disputa entre os sultões e califas pela presença de seu Pai. Todos queriam
construir Madrassas (escolas) para acomodar Bahauddin e sua família, e manter em
suas cidades esta grande eminência. Mas foi em Konia, na antiga Anatólia e atual
Turquia, que Bahauddim e sua família se estabeleceram.
Rumi passou por uma formação clássica que abrangia todas as áreas de conhecimento
Islâmico. Ele estudou Gramática, Jurisprudência, Comentário Corânico, as tradições do
Profeta, Teologia, Filosofia, Matemática, Astronomia, e foi introduzido ao
conhecimento e prática do caminho Sufi. Foi enviado por seu pai às melhores escolas e
logo, passou a ser reconhecido pela profundidade e brilhantismo de sua compreensão.
Com a morte de seu pai, Rumi assumiu a sua madrassa aos 24 anos. Ele era
reverenciado por todos seus discípulos, e a população em Konia o chamava de Mevlana
(nosso mestre).
Para compreender melhor a influência de Bahauddim sobre Rumi, segue abaixo um
trecho de seu livro, o Maarif:
Se Deus diz ‘Nós’, significando EU SOU, então qualquer pronome que eu
utilize se torna supérfluo. As designações caem como pétalas. A sabedoria
vem e eu sinto tamanho deleite a me transbordar, que temo perder meus
sentidos frente a isto. Eu digo a mim mesmo: amante, amado e os outros
caminhos do amor não são uma única coisa?
Da mesma forma com os atributos Divinos e os seres humanos, existe a
unidade no Amor. No coração não existe espaço para diferenciação, somente
unidade e o Amado. Eu desistiria de livros e posses, das minhas virtudes e
reputação, tudo por um único momento dentro desta presença.
Após a morte de Bahauddim, seu antigo discípulo Burhaneddin, veio a Konia para
completar o treinamento de Rumi. E durante muitos anos, mesmo mantendo a madrassa
e seu papel na comunidade, Rumi devotou-se a Burhaneddin e já demonstrava o
desenvolvimento do elemento que iria tornar-se central em sua vida, a compreensão do
papel do Mestre, Amigo e companheiro de Jornada como reflexo da Perfeição e do
Amor Divino.
Após a morte de Burhaneddin, sentindo-se maduro, Mevlana assume integralmente seu
papel na madrassa como Mestre, e sua fama e renome espalham-se para além das
fronteiras de Konia.
E então surge Shamsuddim Tabriz, o homem que iria transformar Mevalana Jalaluddin
Rumi no mestre que renovou o caminho místico e influenciou outros professores e
escolas além das fronteiras do Sufismo ou do Islã. Shams continua sendo uma figura
enigmática, a quem muitos atribuem diversas origens e lendas. Alguns o associam à
tradição Ismaelita e sua forte influência Persa, outros aos Malamati, grupo Sufi que foi
chamado de Povo da Culpa por seu comportamento pouco.
Mas isto é apenas conjectura, pois naquela época, o Sufismo ainda apresentava muita
vivacidade e liberdade e ainda não havia sido formatado em escolas, ordens ou
linhagens, fenômeno que demorou um século para acontecer. Os mestres e dervixes
peregrinavam pelas cidades mesclando conhecimentos e interagindo de forma mais
livre. As Madrassas e outras instalações serviam-lhes de acomodação, mesmo se
fossem dirigidas por outros mestres. Por causa dessa mescla tornou-se possível o resgate
das tradições antigas e o florescimento de um conhecimento novo.
Na época de Rumi o caminho Sufi era dividido basicamente em duas linhas. A primeira,
chamada de caminho dos sóbrios, com origem nos primeiros Sufis de Bagdá, que
prezava o caminho do conhecimento e auto-controle e tentava manter-se em bons
termos com a ortodoxia. Este caminho está geralmente associado ao nome do grande
mestre Junayd, e tem em figuras como Al Gazalli um exemplo posterior.
O outro caminho, conhecido como caminho dos “Loucos de Deus”, ou bêbados, está
associado aos grupos de Basra e ao nome de Bayazid Bistami, e tem em Al-Hallaj, que
foi sentenciado à morte, um expoente posterior.
Rumi já havia percorrido o caminho dos sóbrios e vinha vivendo de acordo com seus
preceitos. Porém, a partir de seu encontro com Shams, ele descobre a dimensão do
Amor, um estado tão celebrado pelos “Loucos de Deus”.
Mas é importante ter em mente que Rumi e Shams não devem ser associados com um
ou outro destes caminhos. Shams era um sufi solitário e selvagem, que desdenhava da
incompleitude daqueles que se aprisionavam a qualquer dos dois caminhos. Um mestre,
para ser digno desse título, deveria aniquilar-se na verdade e queimar suas concepções a
respeito do caminho místico.
Shams, que em persa significa Sol, buscava um companheiro que compreendesse seu
ardor, e se transformasse ele também, em fogo. E para que Rumi pudesse atingir sua
plenitude, ele precisava queimar, tornar-se um sol. É o próprio quem Rumi diz: “Eu
estava cru, e quando encontrei Shams fui cozido e me consumi”.
Mevlana, como no trecho do Maarif citado acima, abandonou os livros, o estudo, seus
discípulos e reputação para mergulhar na presença de Shams. É nesta época que Rumi é
introduzido aos Giros e às cerimônias de Zikr, e de sua madrassa começa a transbordar
a música e poesia.
Mas da mesma forma com que surgiu, Shams some repentinamente, deixando Rumi ser
consumido no fogo do Amor e da Saudade que ele o havia apresentado e que sua
separação abrasava.
É de seu desespero que brotam suas poesias, que lamentam a saudade e a separação do
Amigo que havia se tornado o espelho para sua alma, e em cujos olhos ele contemplava
o Amor que buscava.

Shamsuddin está eternamente vivo em meu coração.


Shamsuddin é a generosidade de toda alma.
Shamsuddin é o brilho do dia,
Shamsuddin é céu que gira.
Eu não sou o único cantando, Shamsuddin, Shamsuddin!
Os rouxinóis cantam dos jardins,
E os falcões nas montanhas.
A beleza da noite estrelada é Shamsuddin.
O jardim do Paraíso é Shamsuddin.
O Amor, a compaixão e a gratidão são Shamsuddin.
Ó Deus, mostre-me aquele local interno,
Onde sentamos juntos
Com Shams entre nós e eu ao seu lado.
Ó Shams, você é a esperança de todo coração,
Aquele por quem todo amante espera.
Ó Shams, retorne!
Não deixe minha alma em ruínas!
Rumi enviou discípulos e o próprio filho em busca de Shams, apelando por sua volta. E
quando seu filho retorna com Shams, novamente eles mergulham em seus mistérios,
transformando um ao outro. Mestre e discípulo, amante, amado e amigo, todos os
limites se consomem na plenitude da Presença divina.

O amigo é o espelho para Alma,


Não respire na face do Espelho, ó minha alma!
Pois o espelho da alma nada mais é que a face do Amigo.
A morte de Shams também está envolta em mistérios e alguns autores sugerem que ele
tenha sido assassinato por discípulos invejosos. Depois da morte de Shams, Rumi
mergulha na saudade novamente e se deixa consumir por inteiro. Mas desta vez emerge
pleno na compreensão de que a separação é somente um véu, imposto pelo próprio ser
humano que insiste em perpetuar sua cegueira e ignorância. Ele vê que a luz que
contemplava em Shams era a Luz da Presença Divina em si, e também a Luz de sua
própria Essência. Nesta transformação, Mevlana pode contemplar a própria realidade
como expressão da unidade, que revela eternamente a beleza e perfeição divinas.
É deste processo que nasce toda sua arte. Nasce também o caminho que ele incita o ser
humano a percorrer, composto da busca pela compreensão da potencialidade humana e
das amarras que o aprisionam aos níveis mais baixos da expressão do seu eu. Esta é a
parte crucial de seu legado, que muitas vezes é ignorado devido à apreciação meramente
poética e superficial de seu ensinamento.

Ó tolo, que com centenas de consentimentos e com teus próprios pés


Ingressas em uma jornada em direção a um destino cruel!
E em teus caprichos buscas estes sonhos de riqueza, poder e domínio!
Fale de Ti mesmo agora!
Tu possuis uma essência humana ou a essência bestial de um asno?
Não vês claramente o mal dentro de ti,
Ou então, irias te odiar com toda tua alma!
Mas se Mevlana acusa com rigor e indignação, também instrui e orienta. Ele traz a
recordação da real dimensão pessoal e também de sua total potencialidade. Ele agita as
almas a romperem os grilhões que as aprisionam, abrasando os corações com a
recordação do verdadeiro amado.

Ouve,
presta atenção novamente ó viajante!
Está tarde e o sol da vida está se pondo.
Enquanto você ainda tem forças
Bata suas asas vigorosamente.
Cuidado!
Não diga Amanhã!
Porque muitos amanhãs já se passaram.
Não deixe que os dias de semeadura passem todos.
Rumi penetra na taverna dos amantes compartilhando o vinho do amor divino,
declarando as belezas e perfeição do Amado. Mas esta dimensão não deve ser associada
com os êxtases que levam à perda de consciência, ou à dimensão dos “loucos de Deus”,
que tanto atiçam as fantasias dos aspirantes nessa jornada. Na presença de Deus esta
embriagues nada mais é que a sobriedade última da contemplação de Sua Face. Por isso,
Rumi declara ser necessária maturidade para trilhar o caminho do Amor, assim como
para aprender os segredos do Giro. Pois mesmo ele, só foi iniciado nestes mistérios após
longos anos de treinamento e transformações.

Ó irmão,
Traga o puro vinho
Do amor e da liberdade.
Sirva o Vinho,
Pois a vida sem Amor
Não é nada a não ser morte lenta.
*
O chão e o teto dos Céus
Estão todos tingidos com vinho!
Mas quem jamais viu
Um único copo de vinho em nossas mãos?
Para se aproximar de seu ensinamento é necessário penetrar no real significado do
caminho que ele apresenta. Mas, o real significado deve ser buscado muito além de uma
apreciação superficial. Ibn Arabi, um Sufi reconhecido como um dos maiores místicos
da História e cujo enteado e discípulo, Sadruddin Konevi, foi amigo de Rumi, diz: “O
místico não pode indicar sua dimensão a outros homens; ele pode apenas indicá-la
simbolicamente para aqueles que começaram a experimenta-la por si próprios”.
Esta trajetória não se limita a leituras e aquisição de conhecimento, seja intelectual ou
poético. É necessário que haja uma transformação que nasce a partir do esforço em
mudar a si mesmo e desenvolver as suas potencialidades latentes.
A morte de Mevlana aconteceu em 17 de Dezembro de 1273, e segundo as descrições
“transportaram seu corpo através da cidade, o povo e os nobres descobriram a cabeça,
mulheres, homens e crianças assistiram ao seu enterro. Estavam presentes membros e
discípulos de comunidades e nações distintas - cristãos, judeus, turcos, árabes e gregos -
cada qual com seu livro sagrado. Leitores do Corão liam belos versículos, os sacerdotes
rezavam as preces da ressurreição com voz melodiosa, grupos de músicos recitavam e
cantavam versos e canções compostos por Mevlana.”
Mas para Mevlana a morte é o dia do retorno ao Amado, e deveria ser celebrada como o
casamento da alma com Ele. Em suas próprias palavras: “Prazerosos, alegres, ébrios,
aplaudamos o encontro final com o Amado”.
Além do Mathnavi, sua maior obra, ele deixou poesias que foram copiladas
posteriormente, sendo a mais famosa, o Divan. Rumi também escreveu o Fihi-ma-Fihi
que é uma compilação de aulas e ensinamentos sobre diversos temas dirigidos
diretamente a seus discípulos.
O impacto de sua obra exerceu transcendeu os limites do Sufismo e do Islão. A
universalidade e humanismo de suas idéias e posturas foram responsáveis por reunir à
sua volta discípulos de todas as religiões e tradições. Após sua morte, seu exemplo e
conhecimentos foram perpetuados, influenciando não apenas todos os grandes místicos
da história, mas artistas, filósofos e pensadores.
O que distingue sua poesia e idéias, bem como sua trajetória pessoal, é a forma
apaixonada com que buscou, nas expressões da Beleza e do Amor, os elementos
intrínsecos da relação do homem com o Criador e com a própria criação.
Rumi busca esta Beleza na música, no Giro dervixe, na poesia e em toda forma de arte,
mas principalmente na própria vida.
Mevlana é o poeta do Amor, mas de uma forma de amor que não está baseado em
fantasias e ilusões, mas na luta desesperada e apaixonada da alma em encontrar a
Verdade. E nessa luta é possível atingir a compreensão de que tudo o que separa a alma
de seu objetivo é a própria incapacidade do ser humano em atingir sua plenitude.
Somente após remover os véus causados pela própria cegueira é que será possível
penetrar nesta saudade e amor, que faz girar o universo, eternamente inebriado pela
beleza e perfeição.

Sou a névoa da manhã e a brisa da tarde.


Sou o vento na copa das árvores e as ondas contra o penhasco.
Sou todas as ordens de seres, e galáxias girantes,
a inteligência imutável, o ímpeto e a deserção.
Sou o que é e o que não é.
Tu, que conheces Jalaludin.
Tu, o Um em tudo,
Diz quem sou.
Diz: eu sou
Tu.
SOBRE TASAWWUF (MISTICISMO ISLÂMICO) E OS SUFIS

( Hadrat „Abdul-Qádir al-Djílání, O Segredo dos Segredos)

O nome sufi é uma expressão derivada da palavra árabe sáf, "puro". A razão pela qual
os sufis foram chamados por este nome é que seu mundo interior está purificado e
iluminado pela luz da sabedoria, da unidade e da unicidade. Outro significado desta
denominação é também porque eles estavam conectados espiritualmente com os
companheiros imediatos do Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê Paz), conhecidos
como "os companheiros com manto de lã".
Eles também podem ter usado o costumeiro manto de lã rústico (súf) quando noviços, e
terem passado suas vidas em roupas velhas remendadas.
Assim como seu exterior é pobre e humilde, também o é sua vida neste mundo. Eles são
frugais na sua comida, sua bebida e demais prazeres deste mundo. No livro "al-Majma‟"
diz-se: "O que os faz vir a ser piedosos ascetas é a mais ordinária e humilde roupa e
maneira de viver". Embora pareçam muito pouco charmosos para o mundo, sua
sabedoria se manifesta pela gentileza e delicadas maneiras, que os fazem atrativos
àqueles que sabem. Na realidade eles são um exemplo para a Humanidade. Seguem as
prescrições divinas. Eles estão à vista de seu Senhor, na primeira fileira da Humanidade.
Aos olhos daqueles que buscam a seu Senhor, eles são formosos apesar de sua humilde
aparência. Eles devem ser distinguidos e distinguíveis e devem ser assim, dessa
maneira, um e todos, porque eles estão no nível da unidade e da unicidade, e devem
aparecer como um.
Em árabe, a palavra tasawwuf (Misticismo Islâmico; designa a disciplina e método dos
sufis), consiste em quatro consoantes, t s w f. A primeira letra, T, representa tawba, o
arrependimento. Este é o primeiro passo que deve ser dado no caminho; é como se
disséssemos um passo duplo, um vai para dentro e outro para fora. O passo exterior do
arrependimento consiste em palavras, fatos e sentimentos: guardar a vida de pecado e de
más ações, e inclinar-se para a obediência; fugir da revolta e a oposição, para procurar o
acordo e a harmonia. O passo interior do arrependimento se realiza no coração. Consiste
em limpar o coração de todos os desejos mundanos e conflitivos, e chegar à total
afirmação do desejo pelo divino. Assim, o arrependimento, é dizer, ser consciente do
errôneo e abandoná-lo, e ser consciente do correto e esforçar-se por ele, leva ao segundo
passo.
O segundo estágio é o estado de paz e alegria "safá". A consoante S é o seu símbolo.
Nesta etapa também há dois passos a tomar: o primeiro, em direção da pureza do
coração e o segundo para seu centro secreto.
A paz do coração chega a um coração livre de ansiedade. A ansiedade está causada pelo
peso de tudo que é material - o peso da comida, a bebida, o sono, a conversa fútil - .
Tudo isto, como a gravidade da Terra arrasta o coração etéreo para baixo, e se liberar
deste peso cansa ao coração. Além do mais, há amarras - desejos, posses, amor da
família e dos filhos - os quais atam o coração etéreo à terra, o que lhe impedem elevar-
se.
A maneira de liberar o coração, de purificá-lo, é louvar a Alláh. Ao princípio esta
lembrança somente pode ser feita exteriormente, repetindo seus divinos Nomes,
pronunciando-os em voz alta, de tal forma que tanto um quanto os outros possam
escutar e recordar. Como a morização de Ele se torna constante, a recordação penetra no
coração e se faz interior, silenciosa. Alláh diz: "Só são fiéis cujos corações, quando lhes
é mencionado o nome de Alláh estremecem, e, quando eles são recitados os Seus
versículos, é-lhes acrescentada a fé, e se encomendam a seu Senhor." (Sura Al-
Anfal,VIII: 2). "Estremecem" significa temor, medo e amor a Alláh. Com sua
lembrança e recitação dos Nomes de Alláh o coração acorda do sono da nconsciência,
limpa-se e chega a brilhar. Então formas e figuras procedentes do reino oculto e
invisível se refletem neste coração. O Profeta (que Allah o abençoe e lhe dê Paz), diz:
"Os homens de conhecimento exterior visitam e inspecionam coisas com suas mentes,
enquanto que o sábio está interiormente ocupado limpando e lustrando seu coração".
A paz do segredo do centro do coração é conseguida mediante a purificação do coração
de toda e cada uma das coisas deste mundo e preparando-o para unicamente receber a
essência de Allah, a qual entra quando o coração tem sido embelezado com o amor do
divino. Os meios para esta limpeza são a constante lembrança interior e a recitação com
a língua secreta da divina Confissão da Unidade, la illaha illa Llah - Não há mais deus
que Alláh -. Quando o coração e seu centro estão em estado de paz e felicidade então a
segunda etapa, representada pela letra S, foi completada.
A terceira letra, W, simboliza a wiláya, que é o estado de santidade e proximidade dos
amantes e amigos de Alláh. Este estado depende da própria pureza interna. Alláh
menciona a seus amigos no Sagrado Alcorão: "Não é acaso, certo que os diletos de
Alláh jamais serão presas do temor, nem se atribularão? Obterão alvíssaras de boas-
novas na vida terrena e na outra..." (Sura Yunis,X: 62 e 64)
Aquele que está no estado de santidade é totalmente consciente disto, está cheio de
amor e está conectado com Alláh. Como resultado é embelezado com o melhor caráter e
comportamento. Este é um presente divino com que foi agraciado. Nosso Mestre o
Profeta (que Alláh abençoe e lhe dê Paz) disse: "Observa as divinas regras e comporta-
te de acordo com elas...". Nesta etapa o homem consciente cobre sua mundaneidade e
suas características temporais e aparece coberto em atributos divinos. Alláh disse
através de seu Profeta (a paz e as bendições de Alláh sejam sobre ele): "Quando Eu amo
a meu servo Eu me converto em seus olhos, sua língua, suas mãos e seus pés. Ele vê
através de Mim, ele escuta através de Mim, ele fala em Meu nome, suas mãos chegam a
ser as Minhas e ele caminha Comigo."
Limpa-te de todas as coisas e somente guarda a Essência de Alláh em ti, pois está
escrito:
"Chegou a Verdade, e a falsidade desvaneceu-se, porque a falsidade é pouco durável."
(Sura Bani Israil, XVII: 81)
Quando a verdade chega a falsidade se desvanece e a etapa de wiláya foi completada.
A quarta letra, F, simboliza faná, a aniquilação de si mesmo, o estado de vacuidade
(estar vazio de tudo o que não é a Essência de Alláh). A falsa identidade de si mesmo se
derrete e se evapora quando os atributos divinos entram no ser íntimo, e quando a
multiplicidade dos atributos mundanos desaparece, seu lugar é substituído pelo único
atributo da Unidade.
Na realidade, a verdade está sempre presente. Nunca desaparece nem declina. O que
sucede é que o fiel se dá conta e chega a ser um com Aquele que o criou. Estando com
Ele, o crente recebe Seu prazer: o ser temporal encontra sua verdadeira existência
realizando o eterno segredo. "Tudo perecerá exceto Seu Rosto..." (Sura Al-
Qassas,XXVIII: 88)
O caminho para realizar Sua verdade é através de Seu prazer, através de Seu acordo.
Quando vossas ações somente são feitas por Ele, somente para obter Sua aprovação,
então os acercais a Sua Verdade, a sua Essência, tudo desaparece exceto Aquele que
está agradecido e aquele com o qual Ele está agradecido, unido. As boas ações são a
mãe que leva em seu ventre o fruto da verdade: a vida consciente de um verdadeiro ser
humano. "Até a Ele ascendem as puras palavras e as nobres ações." (Sura Fáter,XXXV:
10). Se atua-se e existe somente por Alláh, então deixa-se de adjudicar sócios a Allah,
deixa se de por a si mesmo ou a outros em lugar de Alláh (o imperdoável pecado que
cedo ou tarde destrói a si mesmo). Mas quando o ego e o egoismo é aniquilado alcança-
se o estado da união com Alláh. O grau da união é o Reino da Proximidade a Alláh.
Alláh descreve seu Reino desta maneira: "Certamente os homens retos estarão... no
lugar da verdade, em presença do Soberano Onipotente" (Sura Al-Qâmar,LIV: 54 e 55).
Este lugar é o lugar da Verdade Essencial, a verdade de todas as verdades, o lugar da
unidade e da unicidade. É o lugar reservado aos Profetas, para aqueles que são amados
por Alláh, para Seus amigos. Alláh está com aqueles que são verdadeiros. Quando uma
existência criada se une a uma existência eterna já não pode ser concebida como uma
existência separada. Quando todos os laços terrenos são abandonados e se está em união
com Alláh, com a Divina Verdade, recebe-se a pureza eterna, nunca será amaldiçoado, e
chegará a ser um dos "diletos do Paraíso, onde habitarão eternamente" (Sura Al-
„Araf,VII: 42). Eles são aqueles: "que praticam o bem" (Sura Al-„Araf,VII: 42). E no
entanto, "jamais impomos a alguém uma carga superior às suas forças" (Sura Al-
„Araf,VII: 42), mas necessita-se uma grande dose de paciência, "porque Ele está com os
perseverantes" (Sura Anfal,VIII; 66).

SOBRE O JEJUM ESPIRITUAL

(Hadrat 'Abdul-Qádir al-Djiláni, O Segredo dos Segredos)

O jejum prescrito pela religião é abster-se de comer, beber e de relações sexuais desde
o amanhecer até o por do sol, enquanto que o jejum espiritual é proteger todos os
sentidos de tudo o que é ilícito. Isto significa abandonar tudo o que é desarmonioso
interior e exteriormente. A mais insignificante violação desta intenção quebra o jejum.
O jejum religioso é limitado pelo tempo, enquanto o jejum espiritual é para sempre e
permanece através da vida temporal e da vida eterna. Esse é o verdadeiro jejum.
O Profeta Muhammad (a paz esteja com ele) disse, "Muitos dos que praticam a
prescrição de jejum obtêm, pelos seus esforços, somente fome e sede e nenhum outro
benefício..." Existem outros também que quebram o jejum quando comem e aqueles
para os quais o jejum prossegue mesmo após comerem. Estes são aqueles que
conservam os sentidos e os pensamentos livres da inveja e suas mãos e línguas livres de
ferir os outros. É para estes que Alláh, O Mais Alto, promete, "O jejum é um ato
realizado em Minha consideração, e eu sou o que dará a recompensa". Sobre as duas
espécies de jejum o Profeta Muhammad (a paz esteja com ele) disse, "aquele que jejua
tem duas satisfações. Uma quando quebra seu jejum no final do dia. A outra quando ele
vê o seu Senhor."
Aqueles que só conhecem a forma exterior da religião dizem que a primeira satisfação
de alguém que pratica a prescrição do jejum é o prazer de comer depois de um dia de
abstinência, e o significado da satisfação "quando ele vê o seu Senhor" é quando alguém
que praticou o jejum o mes inteiro do Ramadan vê a lua nova marcando o final do jejum
e o começo das festividades. Aqueles que, por outro lado, conhecem o significado
interno do jejum dizem que a alegria do término do jejum é a do dia em que o crente
entrar no paraíso e compartilhar as delícias deste lugar. O significado da grande alegria
de ver, é quando o fiel vê a verdade de Alláh com o olho secreto do coração.
De maior valor que estas duas espécies de jejum é o jejum de verdade que protege o
coração da veneração de qualquer outra coisa que não a essência de Alláh. Isto é
praticado mantendo o olho do coração cego a tudo que existe, mesmo aos domínios
secretos fora deste mundo, com exceção do amor de Alláh. Embora Alláh tenha criado
tudo e todas as coisas para o ser humano, Ele criou o ser humano só para Si. Ele diz, "O
ser humano é Meu segredo e Eu sou o segredo dele". Este segredo é a luz da Divina Luz
de Alláh. Este é o "eu" que conhece todas as verdades secretas. Esta é a conexão
sagrada entre a criatura e o seu Criador. Este segredo nem ama nem se inclina para nada
além de Alláh.
Não há nada de valor para desejar, não há outro objetivo, nem outro objeto de amor
neste e no outro mundo, exceto Alláh. Se um átomo de qualquer outra coisa além do
Amor de Alláh entrar no coração, o jejum de verdade, o verdadeiro jejum, estará
quebrado. Então, deve-se fazê-lo, para reviver aquele desejo e aquela intenção de
retornar ao Seu Amor, aqui e no outro mundo, para então Alláh dizer, "O jejum é só
para Mim e só Eu dou a recompensa."
PUREZA DO CORAÇÃO

Perdoar e perdoar e estar imune à vaidade

Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshband

Em certa oportunidade, o Profeta Muhammad (saws) estava sentado com seus


companheiros, e ao perceberr que um homem vinha se aproximando, disse: "Oh meus
companheiros, se vocês querem contemplar um dos habitantes do Paraíso, vejam
aquele desconhecido que está vindo em nossa direção". O visitante chegou e tomou
seu lugar entre a congregação. No dia seguinte e ainda no outro, o Profeta (saws) deu as
boas novas aos seus irmãos, sobre a felicidade eterna daquele homem (sem dizer nada,
entretanto, àquela pessoa).
Com frequência eu tenho ouvido pessoas proclamarem possuir corações puros.
Especialmente as que rejeitam religião e práticas místicas tradicionais. Adoram dizer
isso. Nós não proclamamos coisas desse tipo, pois acreditamos que o nosso caminho é o
caminho da purificação, e que os esforços deveriam nos dirigir na direção correta.
Quem quer que pense de si mesmo como uma pessoa de coração puro, deveria ter
cuidado com esta consideração e reexaminar sua postura sob essa luz, ou seja, a luz que
indica que o nosso caminho é o caminho da purificação. Isto assim chegou a nós através
de Abdullah, filho de Umar, segundo Khalifa do Islam.
Quando Abdullah ouviu o Profeta (saws) louvar esta pessoa tres vezes, decidiu segui-la
até sua casa e procurar suas bençãos, assim como seu conhecimento dos meios que
exatamente o levaram a atingir uma estágio de perfeição na sua vida. Quando Abdullah
chegou na casa do homem, bateu em sua porta, recebeu boas vindas e foi convidado a
entrar. O anfitrião perguntou-lhe: "Posso saber o propósito de sua visita?" Então ibn
Umar relatou-lhe tudo que o Santo Profeta (saws) disse sobre ele, nos tres dias
anteriores. O homem disse: " Eu sei." Abdullah ibn Umar continuou: "Oh meu irmão.
Gostaria de ser uma dessas pessoas afortunadas e ter assegurado um lugar no
Paraiso enquanto ainda estiver vivendo neste mundo. O que fez para alcançar
tamanha distinção na Presença Divina? Que austeridades praticou? Que
superrogatórias (atos de devoção) fez?"
O homem respondeu: "Oh Abdullah, eu não adoro mais do que você, ou que
qualquer outra pessoa. Essas boas notícias não são resultado da minha austeridade
nem da minha devoção. Existem entretanto tres atributos que tenho cultivado, os
quais prezo muito, como cultivador de pérolas raras. Primeiro quando deito na
cama antes de dormir, digo a Alláh: „Oh Alláh, se qualquer dos Seus servos me
causou mal hoje, com sua mão ou com sua língua, o perdoei totalmente e jamais
me queixarei dele para ninguém, nem para Você, nem agora, nem no Dia do Juízo.
Você é minha testemunha que à todos perdoei. Agora, e para sempre. Aqui, e na
eternidade."
Eu preciso perguntar a todos os que afirmam serem puros de coração: Podem perdoar
desta maneira? (Ou cobrariam retorno por uma simples grosseria, ou correriam para o
Tribunal para disputar 6 centavos?). Iriam correr para o Tribunal por causa de 6
centavos ou retribuir um desaforo com uma reação desmedida? Quando bofetados, dão
a outra face ou respondem com 10 bofetadas? Guardariam ressentimento durante muito
tempo? Se reagem dessa maneira à provocação, precisam saber que estão cultivando
sujeira e doença, não pureza. Não guardem rancor, porque seu fruto é o ódio e a
inimizade. E a sua pureza, onde está?
Então Abdullah disse: "Hummm... Este é um atributo muito difícil de seguir. Diga-
me qual é o segundo atributo, talvez seja mais fácil de alcançar." O homem disse:
"Olhe, se me desse o mundo todo e seus tesouros, e o povo tivesse que me prestar
obediência dizendo „nós estamos fazendo de você o nosso rei, e colocando esse
imenso tesouro a sua disposição; por favor tome o seu lugar agora no trono
imperial e nos mande fazer o que queira, seu desejo é uma ordem‟, não me sentiria
nada gratificado ou feliz com isso. E qual é o sinal de que realmente me sinto
assim? Este é o terceiro atributo, e confirma o segundo; é a prova de que não ligo
para riqueza e poder. Porque se este mesmo povo viesse a mim no dia seguinte,
abusasse de mim e me chutasse do trono dizendo: 'Vá embora. Nós não aceitamos
um rei tão tolo que não se sente feliz por ser coroado rei, nem agradecido por ser
soberano de todo esse mundo outorgado a ele, nem com todas essas riquezas e
tesouros‟, não ficaria minimamente sentido, mas muito, muitíssimo aliviado".
São estes atributos tão fáceis de alcançar que todo o mundo pode sair por aí dizendo
que tem pureza de coração? Se alguém nos desse uma casa - em qualquer lugar -
seríamos felizes? Certamente, se ele viesse no dia seguinte e pedisse a casa de volta, nós
lamentaríamos. Então, imaginem o que seria tendo o mundo sob o seu comando! Uma
renúncia como esta, é um sinal de que o ponto máximo da fé foi alcançado. Alláh disse:
"O mundo material tem menor valor para mim do que a asa de um mosquito."
Aquele desconhecido alcançou a certeza disso; levou esta sabedoria para o coração e
parou de ambicionar este mundo. O verdadeiro crente dirá: "Oh Alláh, o quanto valha
o mundo material para Vós, que assim seja também para mim."

O poder secreto do BISMILLAH

Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshband

"Bismillah ar-Rahman ar-Rahim" são as palavras de abertura do Sagrado Alcorão e sua


tradução significa - "Em nome de Allah, o Clementíssimo, o Misericordiosíssimo". É
aconselhável aos muçulmanos que repitam estas palavras ao iniciar qualquer movimento
ou ação, seguindo o exemplo do Profeta Muhammad (a paz esteja com Ele).
Todo o Poder está com Allah Todo-Poderoso e nós sempre imploramos pela Sua
proteção, porque somos fracos e necessitamos de Sua Divina proteção. Os homens
foram criados fracos. Assim sendo, como vamos pedir pela Proteção Divina?
Através de Suas Mensagens Sagradas, Allah nos ensina que criou o cálamo de Sua
Divina Luz (Nur), a Nur Muhammadi, que é anterior às almas. Da ponta do cálamo sai
tinta e quando Allah ordenou ao cálamo, "Escreva oh cálamo!", ele respondeu, "O que
eu vou escrever?" "Escreva Bismillah ar-Rahman ar Rahim!".
Foi uma imensa escrita, completada em 700 anos, e que todas as criaturas no Céu e na
Terra puderam ver. Trouxe luz, iluminando tudo o que existe. Então Alláh falou,
jurando por Sua altura e glória: "Para todos aqueles que estão invocando Meus Nomes
por meio de Bismillah ar-Rahman ar-Rahim, Eu vou conceder a recompensa de 700
anos de adoração!"
Essa é a proteção de Alláh Todo-Poderoso para todos os servidores, especialmente para
a humanidade. Ele ordenou ao seu bem-amado e louvado servidor Muhammad (a paz
esteja com Ele) para instruir sua nação (ummah), de que todo movimento, ação ou
trabalho, qualquer coisa que se faça sem começar com Seus Nomes Sagrados nunca terá
a proteção de Alláh, e se Ele não vai proteger algo, significa que diminuirá, que não vai
para frente, que não frutificará ou acabará. Entretanto, quem está pedindo Sua Divina
Proteção deve começar tudo com Bismillah ar-Rahman ar-Rahirm, invocando assim
Seus Nomes Sagrados.
Quando Alláh Todo-Poderoso falou sobre a glória de Bismillah ar-Rahman ar-Rahim, o
Profeta Moisés (a paz esteja com ele) perguntou se isto seria concedido à sua nação,
mas Alláh falou, "Não, isto é para Meu bem-amado e louvado servidor Muhammad (a
paz esteja com Ele) e sua nação."
Apenas uma vez foi concedido a Moisés (a paz esteja com ele), quando eles passaram
através do Mar Vermelho. Ele golpeou a água dizendo, "Bismillah ar-Rahman ar-
Rahim", e o mar se abriu para eles. Ele utilizou apenas uma vez. Jesus (a paz esteja com
ele) usou apenas uma vez, quando subiu ao Céu. Abraão (a paz esteja com ele) usou
apenas uma vez quando lançou-se no fogo de Nimrod. Salomão (a paz esteja com ele)
também usou uma vez para governar tudo. Cada profeta foi agraciado uma vez, para
usar na ocasião em que foi mais necessário.
Quem está se sentindo fraco, deve invocá-Lo, que o poder vem. Mesmo uma pessoa de
pouca fé. Se ela inicia a invocação, logo começa a sentir o poder correndo através de
seu corpo físico e coração.
Havia um homem cego nos tempos do Profeta Moisés (a paz esteja com ele) que pediu,
"Oh Alláh! pelo amor de seus Adorados Nomes, abra meus olhos!" E seus olhos foram
abertos. Por isso nós, como servidores de Alláh temos de invocá-Lo pelo menos 100
vezes por dia.
Nosso GrandShaykh, ordenou a seus seguidores para invocar Bismillah ar-Rahman ar-
Rahim e, nós também, aconselhamos às pessoas para não fazer nenhum movimento sem
invocá-Lo antes. Se você o invoca, terá o benefício daquela ação e qualquer mal que
possa estar contido nela abandonará você. Alguns alimentos, por exemplo, podem fazer
mal às pessoas, mas quando você faz a invocação, poderá comer e beber. Seu benefício
vem até você, e o malefício é transmutado. Nós precisamos acreditar. Quem não tem fé
é como madeira, e madeira serve apenas para o fogo.
Acredite no que o Profeta falou e nos outros Profetas. Se você não está atingindo a paz,
o contentamento e o prazer com você mesmo, utilize o que eles ensinam e nunca mais
vai precisar de remédios.

SURAT AL-FÁTIHA

SURATA "A ABERTURA"

Em nome de Alláh, o Clementíssimo, o


Misericordiosíssimo.
Louvado seja Alláh, Senhor do Universo,
O Clementíssimo, o Misericordiosíssimo,
Soberano do Dia do Juízo,
Só a Ti adoramos e só a Ti imploramos ajuda!
Guia-nos à senda reta.
À senda dos que agraciaste, não à dos abominados, nem à
dos extraviados.

O Poder Secreto de AL-FATIHA


(o capítulo de abertura do Sagrado Alcorão)

Em nome de Allah, O Clementíssimo, o Misericordiosíssimo.

Shaykh Nazim Al-Haqqani An-Naqshband

Nosso Grandeshaykh Abdullah Ad-Dagistani an-Naqshbandi (possa Alláh


santificar sua alma abençoada) diz: "AL-FATIHA, a primeira Sura (capítulo) do
Alcorão, veio duas vezes, uma vez em Mecca e outra em Medina. Qual é a razão
pela qual Allah enviou essa Sura duas vezes? "
Porque AL-FATIHA é a mais importante Sura do Alcorão. De acordo com a
Tradição, todos os Livros Sagrados estão contidos no Alcorão e todos os
significados do Alcorão estão contidos em AL-FATIHA. Por isso, se um homem
lê a Sura AL-FATIHA, é como se tivesse lido todos os Livros Sagrados,
incluindo o Alcorão!

AL-FATIHA contém a Bíblia, o Torah, o Livro dos Salmos, centenas de


páginas que foram enviadas antes dos Livros Sagrados e todo o Alcorão. Por isso,
foi ordenada a leitura de AL-FATIHA em todas as orações. Se um homem lê o
Alcorão sete vezes sem AL-FATIHA, não conseguirá alcançar a recompensa
obtida por uma leitura de AL-FATIHA.

Allah enviou AL-FATIHA primeiramente em Mecca. Junto com ela veio a


eterna Rahma (Misericórdia). Gabriel trouxe AL-FATIHA para Muhammad (a
paz esteja com Ele) e disse, "Oh Muhammad! Allah Todo Poderoso, te abençoa e
te diz: „Boas novas a favor de AL-FATIHA; se alguém de sua Ummah (Nação)
ler AL-FATIHA, mesmo que por apenas uma vez em sua vida, isso já terá sido
suficiente, e até mais, para aquele servidor!‟"

Aquele que ler AL-FATIHA, terá suficiente Rahma (Misericórdia) desta única
leitura para o resto de sua vida. Mesmo se ele é um incrédulo, uma leitura o
conduzirá para Iman (Fé), talvez até no último momento da sua vida. Isso porque
a Fé é original, inata na pessoa. A descrença é uma condição temporária adquirida
depois. AL-FATIHA trará a Fé mesmo para um pecador.

A Segunda vinda de AL-FATIHA aconteceu em Medina. De novo ela veio


com a eterna Rahma (Misericórdia), mas esta misericórdia não era como a
primeira. A Segunda Rahma de AL-FATIHA era tão grande e tão poderosa que
os anjos que trouxeram a primeira Rahma foram incapazes de transportá-la. Allah
falou a Muhammad (a Paz esteja com Ele) pela segunda vez: "Oh meu Profeta!
Estou te enviando apenas uma onda de Meus Oceanos de Bençãos pertencentes a
AL-FATIHA; apenas uma onda dos Oceanos de Bençãos de Minha Divina
Presença! Se você conhecesse todo os Oceanos de Graças pertencentes a AL-
FATIHA você não poderia ordenar sua nação a rezar, adorar ou fazer qualquer
outra coisa; porque a Benção de AL-FATIHA seria suficiente! Mas ninguém
conhece a profundidade de Meus Oceanos de Graças."

A Segunda onda de Bençãos de AL-FATIHA era tão forte que, por


comparação, a primeira onda, que veio em Mecca, era nada. Allah Todo Poderoso
disse, "Oh meu amado Muhammad! Se Meus servidores soubessem o que Estou
ocultando deles em Meus Oceanos de Graças, eles diriam que não
necessitariam fazer qualquer adoração". Se um homem faz Sajdah ( prostração)
por toda a sua vida, ele vai tomar daquele Oceano apenas uma gota. Mas Allah
está enviando oceanos não gotas. Ele distribui da Sua generosidade, não por causa
da adoração de alguém ou por descuido de alguém falhar na sua adoração. Essa é
a interpretação do verso "Allah todo poderoso está dando honra e glória eterna
aos filhos de Adão ( a paz esteja com ele)."
***

O poder secreto de La Ilaha Ill'Allah (Não há mais deus que Allah)

Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshband

Estamos sempre implorando pelo perdão de Allah; sem perdão não há proteção e sem
proteção, podemos ter muitos problemas. Nós necessitamos das Suas Bençãos e
Oceanos de Misericórdia.
A proteção mais forte é acreditar e recitar "La ilaha ill'Allah" - não há mais deus que
Allah Todo-Poderoso. Mesmo que dito só "da boca para fora" e não de coração, isto já
nos proporciona benefícios, de tal modo que o fogo do inferno não pode queimar nosso
corpo. Mas queima através do coração.
Por isso é importante acreditar e recitar de coração. Porém, a mais perfeita proteção para
nossa vida e corpos físico e espiritual é recitar com a língua e com o coração.
Essa é a primeira proteção: declarar a Unicidade de Alláh. Afirmando isso, nós
entramos num castelo divino, e quem entrar ficará livre do mal, dos problemas, dos
distúrbios e das coisas ruins, não sendo assim consumido ou punido.
Essa disciplina pode proteger toda a humanidade e Allah é capaz de fazer qualquer
coisa. Ele pode proteger uma nação inteira quando ela está testemunhando "La ilaha
ill'Allah".
Atualmente todas as nações estão em luta, não apenas os soldados, pois todo mundo
parece estar querendo mais e mais destruição.
A humanidade perdeu a Misericórdia em relação ao seu semelhante, construindo armas
terríveis.
Primeira proteção: La ilaha ill'Allah. Então preces, prostrações e submissão à Alláh.
Estabelecer boas relações com as pessoas, sendo útil e misericordioso também é uma
forma de proteção.

DIN (doutrina e prática da religião revelada): ISLAM, IMAN, IHSAN E QADAR

(Hadith ash-Sharif, in al-Bukhari e Muslim)

O Din, ou religião, é uma instauração divina, que dirige aos dotados de intelecto
voluntariamente ao bem neste mundo, e a felicidade no além. Este termo é aplicado à
doutrina de cada Profeta, mas se particulariza no Islam. O Din se atribui a Alláh porque
n'Ele se origina, ao Profeta devido a aparecer pelo seu intermédio, e à comunidade por
observá-lo e conduzir-se de acordo com ele.

Disse 'Abdulláh ibn 'Umar al Khattáb: "Meu pai 'Umar ibn al Khattáb me contou:
"Um dia, estávamos sentados em companhia do Mensageiro de Alláh (saws), quando
apareceu à nossa frente um homem de cabelo muito negro, vestido com roupas
extremamente brancas. Não se viam nele sinais de fatiga da viagem. Ninguém dentre
nós o reconheceu. Finalmente sentou-se frente ao Mensageiro (saws), apoiou seus
joelhos junto aos dele e disse: "Muhammad! Me informe acerca do Islam." O
Mensageiro de Alláh respondeu: "O Islam consiste em que testemunhes que não há mais
deus que Alláh e que Muhammad é o Mensageiro (Kalimat ash-shahada), que
cumpras com a oração (Salat), pagues o Zakat, jejues (Sawm) em Ramadán e
peregrines (Hadjdj) à Casa de Alláh, se tens o suficiente para solventar a viagem." O
que perguntava replicou: "Dissestes a verdade". Disse ('Umar): "Estávamos surpresos de
que fizesse tal pergunta e depois ele mesmo confirmara a veracidade da resposta." A
continuação perguntou (tal personagem): "Me informe sobre a Iman (a Fé)." Contestou
(o Profeta): "Consiste em que creias em Alláh, nos Seus Anjos, nos Seus Livros, nos
Seus Mensageiros, no Dia do Juízo, e que creias em Qadar (é dizer que creias que bem
(khair) e mal (sharr) vem de Alláh; "predestinação")." O (homem) afirmou: "Dissestes
a verdade." E a continuação pediu: "Me informe sobre al-Ihsan ( a
Perfeição)." Contestou o Profeta (saws): "Consiste em que adores a Alláh como se Lhe
visses, porque embora tu não O vejas, Ele te vê". Perguntou novamente: "Me informe
acerca da Hora (Final)." Ele (o Profeta, saws) contestou: "Seus signos são que a jovem
serva gerará a sua senhora e patroa, a que verás pastores descalços, indigentes,
competirem entre si na construção de grandes edifícios". Disse ('Umar al Khattáb):
"Então seguiu seu caminho (o homem) e eu permaneci ali (com o Profeta,
saws)." Então ele me perguntou: "'Umar, sabes quem era esse
interrogador?" Contestei: "Alláh e Seu Mensageiro sabem mais!" Então afirmou: "Era
(o anjo) Gabriel. Veio para instruir-vos sobre vossa religião"."

MEDICINA SUFI:

Depressão: Causa e Cura

O VALOR DE UMA PESSOA CORRESPONDE AO VALOR QUE ELA DÁ AO


SEU TEMPO

Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshband

O Tempo é a Mão de Alláh: ele move tudo ao longo do seu caminho, em direção a seu
destino estabelecido. Alguns conseguem compreender o significado da passagem do
tempo e a observam com o olhar da sabedoria. Estas pessoas lidam com o tempo
segurando as rédeas de cada dia que passa, utilizando esta visão dada por Alláh para
levar suas vidas na direção certa.

Outros percebem o tempo de maneira distorcida, como uma pessoa olhando um espelho
côncavo ou convexo. Esta doença da percepção ocorre porque tais pessoas não estão
harmonizadas com a "Mão de Alláh", não compreenderam a razão pela qual Alláh
nos confinou ao reino do tempo e espaço. Ele tenciona nos dar, por este meio, uma
chance de auto-aperfeiçoamento, de adquirir Atributos Divinos através de nossos
próprios esforços em um ambiente difícil e assim preparar-nos para o dia da reunião
com nosso Senhor.

Alláh disse, em uma Sagrada Tradição: "Os Filhos de Adão amaldiçoam o tempo, e
Eu sou o tempo. Em Minha Mão está a passagem do dia e da noite".
Para aqueles que ainda não entenderam esta verdade, o tempo parece comportar-se de
maneira errática e perturbadora. Como consequência, nossa atenção se volta para a
necessidade de mudarmos para nos sentirmos em harmonia com a passagem do tempo,
pois como é óbvio, o tempo nunca irá passar depressa ou devagar para se acomodar aos
nossos desejos. A percepção de nosso próprio problema com o tempo é uma dádiva de
Alláh, pois do mesmo modo que uma dor de estômago indica a necessidade de
mudanças em nossos hábitos alimentares, esta "doença" nos acorda para a necessidade
de ajustes em nosso estilo de vida.

Para algumas pessoas o tempo parece voar, carregando-as como se fossem desesperados
cavaleiros no meio do estouro da manada rumo a um precipício. Para outras o tempo
parece não avançar, como se estivesse atolado em um lamaçal.

Antes de mais nada, precisamos compreender o valor do tempo; como, uma vez gasto, é
irrecuperável. Se todas as nações reunissem seus recursos para tentar reaver mesmo que
fosse um segundo do passado (para mudar uma decisão catastrófica, por exemplo)
poderiam ter sucesso? Não, uma montanha de tesouros não trará de volta nem mesmo
um segundo da sua vida. Portanto, o valor do tempo é incalculável, mas mesmo assim
as pessoas frivolamente desperdiçam as horas e procuram meios de conseguir ainda
mais tempo para o lazer.

Muitas pessoas (não apenas aquelas que seriam consideradas clinicamente maníaco-
depressivas) sofrem de uma incapacidade de se adaptar à passagem do tempo de
maneira que se sintam em paz.

Os egos das pessoas muito jovens querem devorar o mundo inteiro imediatamente. O
calor febril da satisfação das paixões e a busca do prazer fazem o tempo aparentemente
voar.

Frequentemente, nesta fase crítica da vida das pessoas, a prudência não é exercida e
atendendo os anseios do ego elas gastam toda a sua energia. Tal indulgência ilimitada é
o caminho certo para se esgotar a energia, pois a vida é como uma maratona: requer
controle da marcha, se você disparar no início irá desabar após algumas centenas de
metros. A manutenção de uma reserva de energia requer atributos de auto-controle e
força de vontade que são raros entre os jovens.

A maior parte das pessoas muito jovens se mantém fora das sendas espirituais: só
quando sofrem uma "pane" elas chegam aqui mancando para "reparos". Centenas vêm
a mim dizendo: "Oh Shaykh Efendi, pode me ajudar?" É uma tarefa muito difícil
ajudar pessoas que exauriram todas as suas energias inutilmente e cujos poderes físicos
e mentais estão em um nível lastimável. Algumas vezes eu fico admirado com o que
vejo, pois estas pessoas ainda são, a maior parte, muito jovens. Levantar os mortos é um
milagre possível somente aos Profetas, mas enquanto houver sinais de vida nós temos
esperança de levantar estas pessoas de seu "estado de coma".

Como resultado dos excessos causados pela condição maníaca, manifesta-se nestes
jovens a condição oposta: a depressão. Agora o tempo não mais voa, ele se arrasta a
passo de lesma. Uma pessoa deprimida deseja que o tempo volte a voar, mas ao
contrário, os minutos são como horas, as horas como dias e os dias como semanas.
Normalmente, pessoas que não têm uma atividade útil para canalizar suas energias e se
sentem insatisfeitas consigo mesmas estão sujeitas a isso. Que tolice, desejar que o
tempo passe rapidamente, quando, como havíamos dito, o tempo é uma jóia sem preço.

Na Ordem Sufi Naqhsbandi nós temos uma norma prática: o valor de uma pessoa
corresponde ao valor que ela dá ao seu tempo. Se você considera seu tempo como um
fardo inútil que deveria passar rapidamente, então você é um fardo na face da terra, e
seria melhor estar embaixo que em cima dela. Por quê? Porque você irresponsavelmente
desperdiçou um inestimável tesouro: sua energia vital. Agora aquele outro tesouro, o
tempo, não é como uma riqueza em suas mãos, mas como uma imensa pilha de jóias
sob a qual você está enterrado. Seja sábio com sua energia vital para que o valor do
tempo possa se tornar manifesto a você. Quando você tratar seu tempo como se fosse
um diamante, você será enaltecido aos olhos das pessoas e na Divina Presença, nesta
vida e na futura.

Existe um aforismo Sufi que diz: "O Sufi é filho de seu próprio tempo". Significa que
o Sufi trata seu tempo com a mesma veneração e respeito com que trata seus pais. A
devoção filial é um dever supremo na religião, e no Caminho Sufi somos exortados a
honrar nosso tempo como se estivéssemos honrando nosso pai ou mãe. Um verdadeiro
dervishe nunca desperdiçará um momento sequer, segurá-lo-á como um cavaleiro
segura as rédeas de seu cavalo, usando sua habilidade para que ele avance na direção
certa e na velocidade certa. Observe um verdadeiro dervishe e o encontrará sempre
ocupado com algo útil, nunca com atividades danosas ou inúteis.

Se uma pessoa puder guiar-se desta maneira, ela estará no caminho da perfeição, porque
sabe o que precisa fazer. Os olhos de seu coração nunca estarão cegos; ele terá sempre
uma aguda percepção do significado de tudo o que encontra.

Nosso GrandShaykh (Shaykh „Abd Alláh al-Faiz ad-Daghestani) costumava dizer: "Oh
gente, como estão preenchendo seus dias? Não desperdicem o tempo, mas
esforcem-se para entrelaçar tempo e espaço com tranquilidade, de modo a deixar
um legado duradouro neste mundo e assim ser honrados nesta vida e na futura".

Para os seguidores do Caminho Sufi, desperdiçar tempo, seja ociosamente ou em


atividades inúteis, é o maior dos pecados. Vigie sua energia vital e seu valioso tempo:
faça cada momento viver.

AL-HAKYM
O Sábio
MEDICINA SUFI:
DEPRESSÃO: UM MEIO FÉRTIL PARA O CRESCIMENTO DA LOUCURA

Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshbandi


Pergunta: "Como psiquiatra, que posso fazer pelos pacientes que sofrem de
depressão?"

Shaykh Nazim: Em árabe existe um provérbio: "A loucura se manifesta em pelo


menos setenta variedades diferentes." Este provérbio implica que pode-se facilmente
enumerar pelo menos setenta variedades diferentes de loucura. Isto é um mínimo,
apenas uma ampla classificação; verdadeiramente, não há limite, um máximo.
De fato, cada pessoa tem um tipo único e diferente de loucura dentro de si mesmo: em
alguns está latente, em outros tomou o comando; mas está presente - deve estar presente
- em toda a gente. Como se manifesta a loucura individual de cada pessoa? Mediante a
depressão. A depressão é o meio no qual a loucura desenvolve. Um meio através do
qual essa besta dormente é acordada. Se um paciente vem a ti num estado de depressão,
podes diagnosticar os aspectos particulares da loucura que se está desenvolvendo
através da depressão, e usar esse conhecimento para ajudá-lo a sair de sua depressão,
caso contrário ficará totalmente louco.
Portanto, todos devemos fazer o possível para evitar despertar nossa loucura latente.
Devemos evitar a depressão e as causas de depressão; nunca deixar que a semente de
loucura germine ou brote. Os psiquiatras e a gente em geral, tem que compreender as
causas da depressão. As causas de depressão podem ser as mesmas para todos, mas cada
pessoa pode reagir de maneira diferente frente à mesma coisa, já que os seres humanos
são sutis e manifestam intermináveis reações variáveis para as mesmas causas.
Como os seres humanos são sutis, o psiquiatra deve ser mestre de sutileza para ser
capaz de ajudar a seus pacientes. Deve ser capaz de diagnosticar a direção da depressão
e seu desenvolvimento numa única personalidade, e tem que ser suficientemente astuto
para saber como aproximar-se a essa pessoa deprimida. A forma de conquistar a
depressão é eliminando suas causas, porém para ser capaz de fazer isto, deve saber
como aconselhar um paciente, como dirigir-se a ele. Falar é uma arte, especialmente
falar a gente deprimida que encontra-se num estado tão delicado.
A forma de expressar as próprias palavras é a chave, pode-se obter o resultado desejado
ou seu oposto - como demonstrará a seguinte história:
Certa vez um rei sonhou que cairam todos os seus dentes. Perturbado com este sonho,
mandou chamar um homem que interpretava sonhos. O interpretador escutou o sonho, e
logo disse: "Oh meu rei, todos os teus parentes morrerão antes de ti." O rei
encolerizou-se muito ao ouvir isto e ordenou que o interpretador de sonhos fosse
chicotado cem vezes e expulso do palácio.
Depois o rei mandou chamar outro interpretador e contou-lhe seu sonho. Logo o
interpretador disse: "Sua Majestade, dentre todos os seus parentes o senhor será
quem gozará de vida mais longa." O rei esteve muito satisfeito e ordenou que o
interpretador de sonhos fosse recompensado com cem moedas de ouro pelos seus
serviços.
Olhem, o mesmo sonho, e realmente, a mesma interpretação. Mas um interpretador
deixou o palácio em desgraça com cem chicotadas em suas costas, enquanto o outro o
deixou com honra e uma bolsa carregada com cem moedas de ouro. O segundo homem
era astuto, sabia como dirigir-se a um rei, mas o primeiro era tonto, embora entendesse
de sonhos da mesma maneira que o segundo. Da mesma forma, em tua posição como
psiquiatra, cada palavra tem que ser pesada pelo seu efeito. Uma palavra bem dirigida
pode trazer mais paz ao coração de um paciente que sofre de depressão, do que um livro
inteiro que não acerte no ponto.
A causa principal da depressão é a falta de fé, não acreditar em nada. O elemento
importante ao tratar com deprimidos é fazê-los acreditar, porque se continuam sem
acreditar em ninguém nem em nada, não há o que se possa fazer por eles. Ao menos,
conseguir que acreditem em ti: esse é o meio mais poderoso e a chave essencial para a
cura física e espiritual.
Somente se o paciente acredita em ti, podes ajudá-lo: somente se ele está disposto a
receber de ti, podes efetivamente dar-lhe algo. Se ele acredita em ti, estará aberto, e
então tu serás capaz de trabalhar para mudar-lhe as idéias e atitudes que são parte de sua
depressão. Sim, deves dar tua sabedoria para conseguir que acredite em ti. Esse é o
fundamento de qualquer cura. Constrir firme essa base é essencial, mas é uma questão
de poder espiritual, não de algo que possa ser aprendido na escola. Esse poder pede por
autorização espiritual, e nós te concedemos isso, sendo assim verás que podes realizar
teu trabalho corretamente através de tua inspiração. A autorização que vem a nós
através de nosso Grandshaykh (Shaykh 'Abdullah ad-Daghistanî) aumentará tua
compreensão das situações das pessoas e te fará mais capaz para dirigir-te a eles.

"Wa min Allah at-Tawfîq"

MEDICINA SUFI:

A DEPRESSÃO E O SONO

Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshbandi

Uma pessoa mentalmente saudável sabe que o "sono mora sob o


travesseiro": quando chega a hora de dormir, apaga rápido e facilmente. Mas o
deprimido geralmente sofre de insônia. Essas pessoas teriam que comprometer-se a
realizar forte trabalho físico para cansarem seus corpos e dormirem apesar de seu estado
mental.
Para o deprimido o sono é como um pássaro que aterriza na rama da árvore, e
rapidamente voa. Portanto, quando sintam sono ou estejam fisicamente exaustos,
imediatamente tem que deixar o que estejam fazendo e ir para a cama ou tirar uma
soneca em qualquer lugar tranquilo.
Entretanto, existe uma hora durante o dia em que ninguém, sob circunstância nenhuma,
deveria dormir, e isto aplica-se particularmente ao deprimido: o momento entre al-Asr
(a oração da tarde) e al-Maghrib (a oração do entardecer), duas horas antes do
entardecer até o por-do-sol. Se uma pessoa adormece quando ainda há luz e acorda na
escuridão, encontra-se frente à depressão. Se o deprimido dorme nessa hora, estará
mergulhando na loucura. O Santo Profeta (s.a.w.s.) disse: "Quem dormir no
entardecer, culpar-se-á somente a si mesmo por qualquer calamidade que lhe
aconteça".
Essa é uma hora terrível para dormir. Caso nessa hora sintam que o sono os vence,
tratem de cortá-lo passando água fria no rosto, bebendo chá ou café, trabalhando no
jardim ou na cozinha,dando um passeio ou cuidando das crianças.
Ninguém deveria usar pílulas para dormir e induzir ao sono, já que elas não só criam
hábito, senão que destroem todo o sistema nervoso. Realmente é melhor não dormir do
que tomar essas pílulas. Pode-se usar sedativos naturais como yogurt, erva de aniz, etc.
Também produz depressão dormir de barriga para baixo. Satanás dorme de barriga para
baixo, e jamais o Profeta (s.a.w.s.) nem Santo algum dormiu dessa maneira. Para os
adultos, dormir mais de oito horas é uma causa de depressão. Sem mencionar as
pessoas que dormem extremadamente, há muita gente que tem o hábito de dormir nove
horas. Essa hora extra não é boa, causa desatenção e má memória.
Especialmente aqueles que procuram seguir um Caminho Sufi, tem que ser cuidadosos
em não dormir demais.

"Wa min Alláh at-Tawfiq"


MEDICINA SUFI:
Doenças do coração para serem eliminadas

1. Incredulidade
2. Ignorância
3. Avidez de riqueza, poder, altos cargos ou posições
4. Temor de ser acusado de cometer faltas
5. Amar ser elogiado
6. Inovação (distorção) do Din ("religião")
7. Seguir os apetites, desejos ou prazeres dos Nafs
8. Imitação de pessoas desqualificadas no Din
9. Simulação
10. Ambições mundanas
11. Satisfação dos prazeres mundanos através de métodos proibidos
12. Vaidade
13. Submissão
14 Supervalorização de si mesmo
15. Inveja e ciúmes
16. Ódio (inimizade)
17. Prazer diante da desgraça alheia
18. Ressentimento e discórdia
19. Covardia
20. Ira
21. Ruptura de promessa
22. Traição, deslealdade, perfídia
23. Não guardar a promessa
24. Levantar suspeitas infundadas
25. Amor excessivo pelas coisas mundanas
26. Adiar boas ações
27. Revolta contra Alláh
28. Animosidade contra os sábios do Islam
29. Instigar a divisão do Islam
30. Omissão
31. Obstinação e arrogância
32. Hipocrisia
33. Não pensar profundamente; não ser ponderado
34. Amaldiçoar um muslim
35. Dar nomes impróprios a um muslim
36. Não aceitar pedidos de desculpas
37. Fazer falsas interpretações de Al-Qur'an
38. Insistência no pecado
39. Calúnia
40. Não arrependimento
A PEREGRINAÇÃO À MAKKA E A PEREGRINAÇÃO INTERIOR À
ESSÊNCIA DO CORAÇÃO

(Hadrat „Abdul-Qádir al-Djílání, O Segredo dos Segredos)

Peregrinação, de acordo com os preceitos religiosos, é a visita à Ka‟aba na cidade de


Makka . Existem certas exigências ligadas a esta Peregrinação: de vestir o traje dos
peregrinos - duas peças de tecido branco sem costura, que representam o abandono de
todos os laços mundanos; de chegar à Makka em estado de ablução; de realizar sete
voltas ao redor da Ka‟aba - um sinal de completa entrega; de correr sete vezes entre
Safa e Marwa; de ir até ao monte Arafat e permanecer lá até o pôr do Sol; de passar a
noite em Muzdalifa; de fazer o sacrifício em Mina ; de fazer outras sete voltas ao redor
da Ka‟aba; de beber na fonte de Zamzam ; e fazer dois ciclos de oração perto do local
onde o profeta Ibrahim (Abraão) permaneceu, perto da Ka‟aba. Quando tudo isso é
feito, a Peregrinação está completa e sua recompensa garantida, e, se alguma coisa fica
faltando no ritual, sua recompensa é cancelada. Allah Altíssimo diz:

E cumpri a Peregrinação e a Umra (aos lugares sagrados) por amor a Allah.


(surata Al-Bácara - "A Vaca", 196).

Quando tudo isso está completo, muitas conexões com o mundo que eram ilegais
durante o ritual, passam a ser legais novamente. O peregrino, agora em .estado de
normalidade, faz sua última volta e retorna à sua vida cotidiana.
A recompensa da Peregrinação é anunciada por Allah:

E todo aquele que entre nela está salvo, e a Peregrinação à Casa é um dever que o
homem presta a Allah, todos devem encontrar um meio de realizá-la. (surata Ál
'Imran - "A Família de Imran", 96)

Todo aquele que realizar a Peregrinação estará salvo do fogo do inferno. Esta é a
recompensa.
A Peregrinação interior também necessita de um grande esforço de preparação e
acúmulo de provisões, antes do início da viagem. O primeiro passo é encontrar um guia,
um mestre, alguém que você ame e respeite, que você confie e obedeça. Ele vai
abastecer o peregrino com as provisões que necessita.
Então o peregrino terá que preparar seu coração. Para despertá-lo, deverá recitar a frase
sagrada La ilaha ill Allah - Não há mais deus que Allah - e recordar Allah contemplando
o significado da frase. Com isso o coração desperta, torna-se vivo. Deve recordar-se de
Allah e permanecer em estado de recordação até que todo o seu ser interior esteja
purificado e limpo de tudo o mais, exceto Ele (Allah).
Após a purificação interior, o peregrino deverá recitar o Nomes dos atributos de Allah,
que lhe acenderão a luz da beleza e da graça de Allah. É nessa luz que está sua
esperança de ver a Ka‟aba da essência secreta. Allah ordenou a Seus profetas Ibrahim
(Abraão) e Ismail que fizessem essa purificação quando disse:

E (recorda-te) de quando indicamos a Ibrahim (Abraão) o local da Casa, dizendo:


Não Me atribuas parceiros, mas consagres Minha Casa para os circungirantes,
para os que permanecem em pé e para os genuflexos e prostrados. (surata Al-Hajj -
"A Peregrinação", 26)
Da mesma forma que a Ka‟aba material na cidade de Makka é mantida limpa para os
peregrinos, quanta limpeza não se faz necessária na Ka‟aba interior, através da qual a
Verdade pode ser vista!
Após esses preparativos, o peregrino interior envolve-se na luz do espírito santo,
dissolvendo sua forma material na essência interior, e circunda a Ka‟aba do coração,
recitando internamente o segundo Nome Divino - ALLAH, o nome próprio de Alláh.
Move-se em círculos porque o caminho até a essência não é reto, mas circular. Seu fim
é seu começo.
O peregrino vai então até o 'Arafat do coração, o local interno das súplicas, aquele lugar
onde temos a esperança de conhecer o segredo de: "Não há deus senão Ele, Aquele que
é Único e que não tem parceiros". Lá ele permanece recitando o terceiro Nome, HU -
não sozinho, mas com Ele, pelo que Allah diz:

E (Ele) está convosco onde quer que estejais. (surata Al-Hadid - "O Ferro", 4)

Então recita o quarto Nome - HAQQ, a Verdade, o nome da luz da Essência de Allah - e
em seguida o quinto Nome, HAYY - a vida divina, eterna, da qual toda a vida temporal
deriva. Então ele acrescenta o divino Nome da Existência Eterna com o sexto Nome -
QAYYUM, a Auto-existência, Aquele do qual toda a existência depende. Isto conduz o
peregrino ao Muzdalifa do centro do coração.
Neste momento ele é conduzido à Mina do segredo sagrado, a essência, onde recita o
sétimo Nome - QAHHAR, Ele Quem derrota a tudo, o Dominador. Com o poder
daquele Nome o ego e o egoísmo são sacrificados. Os véus da descrença são afastados e
as portas da ilusão desaparecem.
Acerca dos véus que separam a criatura do Criador o Profeta disse : "Fé e descrença
existem num lugar fora do Trono de Allah. Existem véus separando o Senhor da vista
de Seus servos. Um é negro e o outro branco."
Então a cabeça do espírito santo é raspada de todos os atributos materiais.
Recitando o oitavo Nome divino, WAHHAB - o Doador de Tudo, sem limites, sem
restrições - ele entra no local sagrado da Essência. Lá ele recita o nono Nome -
FATTAH, Aquele que Abre tudo o que está fechado.
Entrando no local da assiduidade onde fica em retiro, próximo a Allah, em intimidade
com Ele e afastado de tudo o mais, ele recita o décimo nome, WAHID - Allah o Único,
Aquele que não tem igual, ninguém é como Ele. Lá começa a perceber a manifestação
do atributo SAMAD - o Absoluto, o Eterno. Ele vê o início deste inesgotável tesouro. É
um espetáculo sem corpo ou forma, semelhante a nada conhecido.
Então a última volta tem início: sete voltas durante as quais ele recita os últimos seis
Nomes e a adiciona o décimo primeiro Nome, AHAD - O Uno. Então ele bebe das
mãos de Allah.

E seu Senhor lhes saciará a sede com uma bebida pura. (surata Al-Insan - "O
Homem", 21)

A taça na qual esta bebida é oferecida é o décimo segundo Nome divino, SAMAD - o
Absoluto, o Eterno, o Capaz de Satisfazer todas as necessidades, o Único Recurso.
Ao beber deste Princípio Absoluto ele vê todos os véus sendo erguidos da eterna face.
Pode ver através deles, pela luz que vem deles. Este mundo não tem semelhança, corpo
ou forma. É indescritível, inassociável, aquele mundo "que nenhum olho viu, nenhum
ouvido pode ouvir sua descrição e nenhum coração humano pode relembrar". As
palavras de Allah não são ouvidas pelo som ou vistas como as palavras escritas. O
deleite que nenhum coração humano pode experimentar é o deleite de enxergar a
verdade de Allah Altíssimo, e ouvir Sua fala.
Após a Peregrinação tudo que está errado transforma-se em certo. Durante a
Peregrinação tudo o que é ilegal é transformado em legal, e tudo isso está dentro da
unidade alcançada, que é contínua. Allah diz:

Salvo aqueles que se arrependerem, crerem e praticarem o bem; a estes,


Alláh computará as más ações como boas, porque Alláh é Indulgente,
Misericordiosíssimo. (surata Al-Furcan - "O Discernimento", 70)

Então, aquele peregrino estará livre de todas as suas ações e livre do temor e da dor.
Allah diz:

Não é, acaso, certo que os diletos de Alláh jamais serão presas do temor, nem se
atribularão? (surata Yunis - "Jonas", 62)

Finalmente, a volta de despedida é realizada com a recitação de todos os Nomes


divinos.
Então o peregrino retorna para casa, a casa de sua origem, aquela terra santa onde Allah
criou o homem como melhor e mais bonito modelo. Na volta ele recita o décimo
segundo Nome divino, SAMAD - o Absoluto, o Eterno, o tesouro do qual todas as
necessidades da criação são satisfeitas. Esse é o mundo da proximidade de Allah, onde
fica a casa do peregrino interior, para onde ele retorna.
Isto é tudo o que pode ser explicado, tudo o que a língua pode dizer e a mente pode
entender. Além disso, nenhuma notícia pode ser dada, mais além está o indescritível, o
impercebível, o inconcebível. Como o Profeta disse: "Existe um conhecimento que
permanece intacto como um tesouro enterrado. Ninguém pode conhecê-lo e ninguém
pode encontrá-lo exceto aqueles que receberam o conhecimento divino". E os sinceros,
quando ouvem sobre a existência de tal conhecimento, não o negam.
Os homens de conhecimento ordinário juntam o que podem reunir da superfície.
Aqueles que possuem a sabedoria divina, recolhem das profundezas. A sabedoria do
sensato é o verdadeiro segredo de Allah Altíssimo. Ninguém conhece o que Ele conhece
além Dele mesmo. Allah diz:

Ele conhece tanto o passado como o futuro, e eles (humanos) nada conhecem de
Sua ciência, senão o que Ele permite. (surata Al-Bácara - "A Vaca", 255)

Aqueles abençoados com quem Ele divide Seu conhecimento são Seus Profetas e Seus
amados que se esforçam para estar perto Dele.

Ele conhece o que é secreto e ainda o mais oculto. (surata Taha - 7)

Allah! Não há mais divindade além d'Ele! Seus são os mais sublimes atributos.
(surata Taha - 8)

E Allah sabe mais.


OS SETE VALES

( "MINHADJ UL-„A‟BIDÎN", Método dos servo-adoradores (de Alláh), do imám Abú


Hamid al-Ghazzali (1058-1111))

Sabei, irmãos meus, que a adoração („ibádat) é o fruto do conhecimento, o benefício da


vida e o capital dos virtuosos. É propósito e objetivo dos homens de nobres aspirações
terem uma aguda compreensão interna. É seu bem supremo e seu paraíso eterno. "Eu
sou vosso Criador", disse Alláh no Al-Qur‟an. "Adorai-me. Tereis vossa recompensa e
vossos esforços serão reconhecidos".
A adoração é então essencial para o homem, porém está bloqueada por dificuldades e
problemas. Há obstáculos e armadilhas em seu tortuoso caminho, cheio de assassinos e
djinns (gênios), a ajuda é escassa e poucos são os amigos. Este caminho de adoração
deve ser perigoso, pois disse o Profeta (s.a.w.s.), "o Paraíso está rodeado de sofrimentos
e coberto de tribulações; e o inferno, do gozo fácil e gratuito das paixões". Pobre ser
humano! É fraco, seus compromissos são pesados, os tempos são duros e a vida é curta;
porém, a viagem daqui para lá é inevitável e, se esquece de levar as provisões
necessárias, seguramente perecerá. Meditai sobre a gravidade da situação e a seriedade
de nosso estado. Certamente nossa sorte é penosa, pois muitos são os chamados, porém
poucos os escolhidos.
Quando percebi que o caminho da adoração era muito difícil e perigoso, escrevi certos
trabalhos, principalmente o Ihya „ulum id-din ("Revivificação das ciências da religião"),
em que indiquei os meios para se superar as dificuldades, enfrentando valentemente os
perigos e percorrendo o caminho com êxito. Porém, algumas pessoas ao verem o
sentido externo de certas expressões da minha obra, não entenderam o seu significado e
propósito, e não só rechaçaram o livro (durante a vida de al-Ghazzali, o livro foi
publicamente queimado pelo qádí-l-qudát - o juiz dos juizes - Abenhamdin, na cidade
de Córdoba, na Espanha muçulmana), como ainda o trataram de uma maneira imprópria
para um muçulmano. Porém, não me desencorajei, pois eram pessoas que
ridicularizariam o Sagrado Al-Qur‟an, chamando-o "Histórias dos antigos". Não me
ofendi porque senti pena deles, que não sabiam o que faziam a si mesmos.
Odeio as disputas, mas me senti no dever de fazer algo por eles. Então, por compaixão
aos meus irmãos, orei a Alláh para que me iluminasse sobre a questão de outro modo.
Sabei então que, o primeiro passo para que o homem desperte de sua própria inércia e
tome a decisão de seguir o caminho, é a graça de Alláh que move a mente a meditar
assim. "Sou abençoado com tantos dons, a vida, o poder, a razão, a fala e me acho
misteriosamente protegido de muitos males e moléstias. Quem é meu Benfeitor? Quem
é meu Salvador?"
Devo ficar-lhe agradecido da maneira apropriada ou os dons me serão tirados e estarei
perdido. Estes dons revelam seu propósito como ferramentas nas mãos de um artesão e
o mundo me parece um belo quadro que guia meus pensamentos até o pintor.
A fala consigo mesmo o leva ao Vale do Conhecimento, onde a fé implícita no
Mensageiro Divino lhe ensina o caminho dizendo-lhe: O Benfeitor é o Ser Único que
não tem parceiros. É teu Criador Onipresente, ainda que invisível, cujos Mandamentos
devem ser obedecidos tanto interna quanto externamente. Ele ordenou que o bom seja
recompensado e o mau castigado. A escolha é sua, pois o único responsável pelas tuas
ações é você mesmo. Adquire conhecimento sob a direção de um „Alim (erudito, sábio)
temeroso de Alláh, com uma convicção sem titubeios. Quando cruza o Vale do
Conhecimento, o homem prepara-se para a adoração, porém, sua consciência culpada o
recrimina dizendo "Podes golpear a porta do Santuário? Fora com tuas abominações
contaminantes!"
O pobre pecador cai no Vale do Arrependimento quando ouve uma voz dizendo
"Arrepende-te, arrepende-te, pois teu Senhor perdoa". Então se entusiasma e,
levantando com alegria segue adiante.
E entra no Vale cheio de tropeços, sendo quatro os principais: o mundo, as pessoas
atraentes, o velho inimigo shaitan (satanás) e um ego desmedido. Que tenha quatro
antídotos para superar as dificuldades. Que escolha a vida retirada, que evite mesclar-se
com toda a classe de pessoas, que combata o antigo inimigo e guarde seus domínios
com as rédeas da piedade.
Que se recorde que as quatro contraforças devem enfrentar outras quatro moléstias
psicológicas, isto é:
1. Ansioso cuidado sobre o pão de cada dia, como resultado de seu retiro;
2. As dúvidas e ansiedades sobre assuntos particulares que perturbam a paz da mente;
3. As preocupações, privações e indignidades por falta de contato social, pois quando o
homem quer servir a Alláh, satanás o ataca aberta e secretamente por todos os lados;
4. Os acontecimentos desagradáveis e sofrimentos inesperados como resultado do
destino.

Estes problemas psicológicos levam o pobre adorador („abid) ao Vale das Tribulações.
E, nesta dificuldade, que o homem proteja-se:
1. Dependendo de Alláh quanto a seu sustento;
2. Invocando Sua ajuda quando se sente desprotegido;
3. Com a paciência (sabr) nos sofrimentos;
4. Pela prazerosa submissão a Sua Vontade.

Ao cruzar este temível Vale das Tribulações, o homem pensa que a situação não será
fácil, porém, para sua surpresa, percebe que o serviço não é interessante, que as orações
são mecânicas e que a contemplação não é prazerosa. É indolente, melancólico e
estúpido.
Assombrado e perplexo, entra no Vale dos Trovões. O relâmpago da esperança o cega
e cai tremendo quando ouve o som ensurdecedor do trovão do Temor. Seus olhos cheios
de lágrimas imitam as nuvens e seus pensamentos puros brilham como o relâmpago. Em
um momento, o mistério da responsabilidade humana com sua recompensa pelas boas
ações e castigo pelas más, é desvendado. Daí em diante, sua adoração não será
glorificação fingida, e seu trabalho diário não será penoso. Elevando-se, viajará nas alas
da Esperança e do Temor. Com o coração alegre e com profundo desejo segue adiante
quando, o Vale Abismal apresenta sua temível visão. Ao olhar profundamente a
natureza de suas ações, percebeu que aquelas que eram boas, se realizavam pelo desejo
de ganhar a aprovação de seus congêneres, ou eram simplesmente resultado de
vanglória. De um lado, viu a Hidra de muitas cabeças (A serpente aquática dos antigos
gregos, que tinha muitas cabeças que ao serem cortadas, eram substituídas por outras
novas) da hipocrisia, e de outro, a feiticeira Pandora do orgulho com sua caixa aberta
(Na mitologia grega, uma bela mulher a quem Júpiter deu uma caixa que continha todos
os males da humanidade; ao ser aberta, aqueles se espalharam pela Terra). Desesperado,
não sabe o que fazer quando, ó! O Anjo da Sinceridade emergiu da profundidade de seu
coração e segurando-o pelo braço o levou através do Vale.
Expressando sua gratidão pelo favor Divino, seguia adiante quando os pensamentos dos
diversos favores recebidos por seu indigno ser e sua capacidade de fazer justiça plena
com ações de graças o oprimiu.
Este era o Vale dos Hinos onde, mortal como era, fez o possível para contar em
glorificação ao Ser Imortal. A Mão Invisível da Misericórdia Divina abriu então a porta
do Jardim do Amor, e o fez entrar em corpo e alma, já que ambos haviam feito sua parte
direta e indiretamente. Aqui termina a viagem. O adorador vive agora entre seus iguais
como viajante, porém seus coração vive n‟Ele esperando o momento de cumprir a
última ordem, "E tu, ó alma em paz, retorna ao teu Senhor, satisfeita (com Ele) e Ele
satisfeito (contigo)! Entra no número dos Meus servos! E entra no Meu jardim!" (Al-
Qur‟an, al-Fadjr, LXXXIX, 27 a 30).

SUHBAH SOBRE SUHBAH

(Shaykh Adnan al-Kabbani an-Naqshband, Pearls and Coral: The Path to the Divine
Presence)

Tradução: Márcia Melo Galliez

"Tariqatuna as-suhbah wa-l khayru fi-l jama‟iia" - "Nosso caminho consiste na


associação e na benção ou bem que será encontrado na conexão" Shah Naqshband.
Suhbah significa uma Associação ou Assembléia em que pessoas reúnem-se para
concentrar-se num ponto, num objetivo.
Algumas pessoas acham que nunca encontrarão nenhuma maldade ou conflito em
lugares como a sagrada Makka, e que não presenciarão tais coisas em frente à Kaaba.
Entretanto, quem já visitou esses lugares sagrados sabe que não é bem assim. Esses
lugares sagrados, talvez até mais do que outros lugares, trazem à tona estas coisas que
pertencem a um mundo diferente; não ao mundo dos espíritos e anjos, senão ao mundo
dos animais.
Então, quando se entra ou se tem a intenção de começar a trilhar um caminho como o
dos Sufis, não importa que as dificuldades e problemas surjam. O que é importante é
que, pela primeira vez, você pode saber porque essas dificuldades e problemas ocorrem,
e com que propósito. Esta é a diferença. Normalmente as pessoas sofrem não pelo que
acontece a elas, mas na maioria das vezes por não compreenderem porque esses
sofrimentos vêm, e com que propósito.
Sendo assim, as pessoas que estão tentando seguir um caminho espiritual devem
compreender, devem saber que pertencer a tal grupo não significa que estão
automaticamente à salvo uns dos outros. Porque nós sabemos que um dos caminhos de
Alláh, Glorificado e Exaltado seja Ele, uma das suas mais famosas formas de testar
Seus servos, é testá-los colocando-os uns contra os outros. Isto acontece tanto dentro,
como fora da tariqah, mas de certa maneira é mais evidente dentro da tariqah, pois ali
não se espera que isto ocorra. Ao mesmo tempo, a pessoa tem que compreender e
aprender a lidar com isto. Mais uma vez, o que acontece dentro da tariqah é apenas um
exemplo do que se passa em todos os lugares, porém lá, é mais evidente. Isto porque
nós devemos estar acordados, e não dormindo, quando estamos seguindo um caminho
espiritual. Se não quisermos seguir, podemos dormir, pois então não importa. Mas se
estamos tentando seguir tal caminho, não devemos dormir. Não é permitido. E se isto
acontece, rapidamente devemos tentar acordar.
Às vezes, falamos aqui genericamente sobre todas as pessoas; vindo de qualquer lugar
ou indo para qualquer lugar. Às vezes, há algo importante que precisa ser dito sobre
eventos ou coisas específicas. Mas qualquer coisa que seja dita tem que ser útil e
benéfica. Não estamos falando aqui para impressionar às pessoas com conhecimento.
O propósito do suhbah ou de se falar em suhbah, reside em dois aspectos. Um, é para
dizer algo benéfico para as pessoas e que possa ajudar em alguma situação específica
delas, e que talvez seja útil para todas ao mesmo tempo. O segundo propósito de se falar
em suhbah, é pedir a Alláh para trazer nessas pessoas que estão sinceramente ouvindo e
estão acordadas, e não dormindo, uma abertura em seus corações, de forma que lhe
possam advir benções. Que elas possam sair de tal reunião com benções de Alláh, de
Seu Profeta (s.a.w.s.), e dos abençoados Grandes Shuyukh (pl. de Shaykh) da Tariqat
Naqshbandiya. Que essa benção possa penetrar em seus corações e ajudá-las neste
caminho.
Agora, gostaríamos de dizer alguma coisa sobre o significado de estar em suhbah, e o
que significa sair de suhbah, ou violar as regras de suhbah. Este é um conselho para
todos em geral, e para algumas pessoas em particular. Eu vou mencionar para
vocês algo do nosso Grande Shaykh Umar al-Suhrawardi Awarif al-Maárif. Ele está
falando sobre o que significa quando alguém diz: "Eu sou um Sufi". Em nossos dias,
muitas pessoas não compreendem mais essa expressão, e estão julgando, criticando e
condenando sem compreender. Assim, elas podem beneficiar-se de suas palavras.
Porém, suas palavras são igualmente importantes, tanto para aquelas pessoas que estão
seguindo, quanto para as que pretendem seguir um caminho espiritual, um caminho
Sufi.
Na tradição do Sufismo, sempre houveram lugares específicos, nos quais os Sufis
viviam. Se você for a Konya, na Turquia, e visitar a tumba de Mawlana Jalaluddin
Rumi (possa Alláh estar satisfeito com ele), verá que junto à tumba, há uma grande
casa, com muitos, muitos cômodos. Nestes cômodos viviam seus discípulos - e os
discípulos de outros shuyukh da tariqah Mevlevi. Isso existia também em outras turúq
(plural de tariqah), mas não em todas.
Na tariqah Naqshbandiya, os shuyukh nos dizem que a construção de tais casas não
constitui um princípio desta tariqah. Por que não? Qual é a sabedoria que está por trás
disto? O que representa tal casa? Significa que as pessoas que estão seguindo um
caminho espiritual vivem juntas numa casa. Seguem regras específicas, que são as
regras dessa casa. Elas estão sob o comando do mestre da casa. Tal casa pode ter
paredes, um teto e um chão de pedra, mas não é necessária. Destina-se apenas às
pessoas que necessitam de tais paredes, e tal teto, e tais pedras, a fim de verem aonde
estão. Tais casas foram construídas e podem ser construídas novamente. Contudo, para
alguém que compreende o que significa viver numa casa, estar juntos e seguir as regras
da casa, andar neste caminho espiritual sob a orientação do mestre da casa, esse alguém
não necessita de tais paredes. Agora, na tariqah Naqshbandiya, quando não temos essas
casas, ou não somos encorajados a tê-las, não significa que inexistam. Significa que
seus Shuyukh e seus muridin (pl. de murid) sabem, sem terem de ser lembrados por
pedras, que eles estão vivendo em tal tipo de casa. Nossa casa é a tariqah. Essa casa tem
regras de convivência uns com os outros. Se alguém não segue as regras da casa, algo
acontecerá. Pode ser que seja afastado por algum tempo, talvez ele seja colocado num
cômodo diferente, ou lhe seja dito: "Retire-se, até que você tenha permissão de
voltar." Não há casa alguma sem regras. Deve-se conhecê-las e obedecê-las. A casa
Naqshbandiya é chamada suhbah. Esta é a casa da tariqah. Se você está em suhbah,
você está na tariqah Naqshbandiya. Se você está aceitando as regras de suhbah, você
está vivendo nessa casa, sob os olhos e supervisão do Shaykh. Se você está violando
estas regras, está violando as regras da casa. Portanto, nós devemos conhecê-las. Não
importa se a casa é material ou não. Isso só é necessário para pessoas que precisam
compreender através de tais coisas, mas nem todo mundo necessita disso. Um seguidor
da tariqah Naqshbandiya deve compreender sem elas.
Quando visitamos Mawlana Shaykh Nazim em Lefke, Chipre, vemos a casa de
hóspedes e a do Shaykh. Mas não pense que quando você sair de Chipre, você não
estará mais na casa do Shaykh. Não importa aonde você esteja. Esta casa está em todo
lugar.
Agora, o que é dito aqui pelo Shaykh Umar Suhrawardi é sobre tais pessoas vivendo em
tais casas. Talvez vocês saibam que a palavra Tasawwf ou Sufi, tem muitos
significados, e cada um encerra alguma sabedoria. Alguns dizem que vem de suf - lã -,
ou da palavra árabe para pureza. Shaykh Umar Suhrawardi está dizendo aqui que o
nome origina-se de Ahl as-Suffah ("as pessoas do banco"; "parte das compridas
colunas de Mesquita (de Madina) estava reservada para os recém chegados, que não
tinham onde morar e careciam de meios de subsistência. Eram conhecidos dessa forma
por causa de um banco de pedra que foi colocado ali para seu proveito, já que a
Mesquita era um prolongamento da própria moradia do Profeta (s.a.w.s.). Ele e os
membros de sua casa se sentiam especialmente responsáveis por este número crescente
de refugiados empobrecidos que viviam na sua própria porta, de cuja condição eram
diariamente testemunhas. Chegavam de um em um, de dois em dois, vindo de todos os
lugares, arrastados pela mensagem do Islam e pelas notícias sobre ele (o Profeta
Muhammad (s.a.w.s.)) e sua comunidade..." - "Muhammad", de Martin Lings). Quando
alguém diz isso, deve-se compreender o que significa: quem foram os Ahl as-Suffah, e
o que isto significa para alguém que está clamando ser um Sufi, e que está vivendo sob
o nome destas pessoas. Há um hadith do Sagrado Profeta (s.a.w.s.) que diz: "As almas
são como exércitos reunidos, aquelas que conhecem umas às outras, concordam
entre si. Aquelas que não se conhecem, discordam."
E há uma afirmação similar de Sayydina Ali, (alayhi wa salam!): "O que você
conhece, você ama; e o que você ignora, você odeia". O hadith do Profeta (s.a.w.s.)
diz o mesmo: "Aqueles que se conhecem, concordam uns com os outros, eles se
juntam, se reúnem, estão em suhbah. Aqueles que não se conhecem, discordam".
Agora, Shaykh Suhrawardi disse: "Através do suhbah, as vidas interiores dos Sufis
são reunidas e suas almas (anfaas - plural de nafs) são mantidas em limites." Por
que? Porque estando em suhbah, eles estão se olhando, observando um ao outro, de
acordo com o hadith de que o crente é um espelho para o crente. Quando em suhbah, os
olhos destas pessoas estão uns sobre os outros. Todo mundo é o espelho do outro,
portanto suas almas são mantidas em limites. Como Mawlana Shaykh Nazim disse um
dia: A razão pela qual estamos sentados juntos é que isto é um treinamento do lado ruim
do nosso ego, nosso nafs-al-lawwaama. Normalmente, o que nosso eu feio, nosso nafs
prefere, é ser notado, exibir-se, ser diferente, ser alguém, ser mais. Entretanto, enquanto
estamos sentados juntos, ninguém é mais do que o outro. Certamente, algumas vezes
isto torna-se muito difícil, e assim um ou outro tem que se exibir. Mesmo em tal
suhbah (associação), ele tem que sobressair. O propósito de suhbah é manter o nafs em
seus limites. Toda vez que uma dessas pessoas que está sentada em suhbah evidencia
um traço de aparecer, de querer aparecer, sobressair-se, ela deve ser trazida de volta.
Pois, o sobressair-se ou querer aparecer ocorre quando o nafs quer vir à tona. O
sobressair-se origina-se da perda do "agora", "hudur", presença. Aqui, presença
significa Presença Divina. Estar na Presença Divina não significa estar em algum outro
lugar, na lua. Significa estar aqui e agora. Isto deve ser aprendido, mantido, e deve-se
praticar o estar sempre no agora, presente. Quando você perde o agora, o momento, a
primeira coisa que ocorre é que você tem que aparecer: "Eu estou aqui. Você me vê?
Todo o mundo está me notando? Sim? Todo o mundo repara no que estou dizendo,
e qual é a minha aparência?" Toda vez que estamos perdendo nosso dhikr, nossa
lembrança, toda vez que estamos desconectados mesmo por um segundo, imediatamente
o ego pula e quer ser notado. Portanto, toda vez que o nafs de uma destas pessoas quer
ser notado, o outro sabe que ela saiu do círculo do suhbah. E ela deve ser trazida de
volta. É muito duro para nosso ego não ser especial, ser apenas um entre muitos. O nafs
está esperando que alguém perca esta vigília de forma a poder rapidamente pular. Uma
das mais conhecidas formas de querer ser notado é através da raiva e inimizade para
com os outros, mesmo para com um irmão ou irmã da tariqah. Nunca esteja muito
seguro de si mesmo; nunca pense que você não está fazendo coisas para ser notado.
Quem não faz isso? Quantas das coisas que dizemos ou fazemos não são com esse
propósito? Uma, duas? Quantas? O que você fala pode ser encapado ou embalado de
algum interesse "profundo", mas pergunte a si mesmo ou a seu coração, porque estás
falando ou agindo. Ninguém está à salvo dos seus egos, até ter atingido a estação da
segurança. Até então, isto pode ocorrer a qualquer momento e em muito menos que um
segundo, mais rápido do que você pensa. Algumas vezes, nós somos até surpreendidos
por nós mesmos ao nos depararmos falando e agindo de uma tal maneira! Nós estamos
dizendo: "Por que estou fazendo tal coisa? Por que estou falando desse jeito?" O
pensamento é muito lento para se dar conta. O ego viaja mais rápido do que o
pensamento! Tentamos compreender, e já aconteceu. Portanto, mais importante do que
pensar, é ficar acordado. Mas o que iremos fazer? Quando o nafs do Sufi dá um passo
para fora, quer ser notado através da raiva e inimizade para com um irmão ou uma irmã,
ficando zangado com o outro, atacando a alguém (esta é a forma mais famosa de ser
notado: criticando, culpando e ficando zangado). Quando isso acontece, quando o nafs
quer ser notado, o dever do irmão/irmã acusado ou criticado é ir de encontro à alma da
pessoa que se opõe a ele com seu coração. Isto é muito importante. Quando alguém o
ataca ou o critica desde o seu eu egoísta, seu ego, seu nafs, não se oponha com seu nafs,
porque quando isso acontece, vocês estão em guerra. Está quase pegando fogo. Esta é
uma regra que todo mundo deveria escutar, porque podemos usá-la a qualquer
momento. Quando alguém o está atacando ou criticando, desde o nafs dele, vá de
encontro a ele/ela a partir do seu coração, não do seu ego. Não gritando em retorno,
criticando em retorno. Isto não ajuda em nada. Isto só coloca os dois de fora. Se você
está dizendo que você é parte deste suhbah, enquanto você está na casa do suhbah,
enquanto você estiver se contando como um seguidor deste caminho espiritual, saiba
que esta casa tem suas regras. E toda vez que você encontra um irmão, aonde quer que
você o encontre, seja quando for que isto aconteça, primeiro preste atenção em si
mesmo. Não tente pular ou atacar. Quando você é atacado ou criticado por alguém, por
irmãos ou irmãs, não devolva a partir do seu ego. Você deve ir de encontro com seu
coração. Por que? Quando você vai de encontro ao nafs com o coração, ele perde o
chão. Ele não sabe o que fazer. Ele fica encantado. Mas se você contra-ataca nafs com
nafs, então a guerra começa e a proteção contra o mal desaparece. Não há mais
segurança contra o mal de um para o outro. Alláh diz: "Fa idfa‟billati hiyya ahsanu,
fa idha alladhi baynaka wa baynahu „adawatun ka annahu waliyun hamin. Wa ma
yulaqaha illallathiina sabaru wa ma yulaqaha illa dhu hadhin adhim." - "Envie
aquilo que é o melhor para repelir o mal, e então aquele entre vocês que é seu
inimigo irá se tornar seu melhor amigo. E ninguém pode fazer isto, exceto aqueles
que acreditam nisto, e ninguém pode realizar isto, exceto através de grande
batalha". Alláh, o Mais Cheio de Graça, diz a Verdade neste verso. Este é o significado
deste verso. Isto é para tais pessoas. Se você não está seguindo a tariqah, e alguém está
lhe fazendo algum mal, não seria ético bater de volta, mas às vezes isto é permitido.
Mas você não tem permissão para isto, não há permissão para isto, pois você está
viajando no caminho espiritual. Quando você afirma "eu sou do povo Sufi", então este
verso se aplica a você. Todos vocês, ou muitos de vocês, conhecem Shaykh Nazim.
Vocês se dão conta com que frequência ele recita este verso? Empurre alguma coisa
ruim através de algo melhor. O que é melhor? O coração é melhor que o nafs.
Às vezes também pode acontecer que um dos dois reclame com o Shaykh. Eles
estiveram se agredindo durante certo tempo, e então um deles diz: agora nós temos que
falar com o Shaykh sobre o que está acontecendo. Então o Shaykh vai admoestar um
deles, realmente não importa qual deles. Por que? Porque os dois estão errados. O
Shaykh pode admoestar um dos dois, mas ele poderia escolher qualquer um, porque isso
realmente não importa. Ambos quebraram o "círculo" de suhbah. Um, através do
ataque para sobressair-se, e o outro, respondendo a este ataque a partir de seu ego, de
seu nafs. Este é um conselho prático, importantíssimo em geral, e em particular para
alguns de nós aqui.
Estas são as duas regras principais de comportamento para suhbah. "Tariqatuna as-
Suhbah." Estas são as regras dos seguidores desta tariqah. Estas são as regras de todo
povo Sufi verdadeiro, as pessoas que estão modelando suas vidas no Ahl as-Suffah.
Isto aqui também é um suhbah, mas não é um suhbah apenas porque estamos sentados
aqui no chão. Para se estar em suhbah tem-se que cumprir as regras do suhbah. Você
pode estar aparentemente sentado aqui, e na verdade, estar em outro lugar. O ponto é
estar aqui, estarem uns com os outros, o estar sob a supervisão do seu Shaykh. Isto é
suhbah. Não apenas sentar aqui, dormir, olhar ao redor, ou brincar. Estar aqui com
atenção, estar acordado.
Os Sufis estão vivendo em suhbah. A vida deles consiste de suhbah. Todos eles têm o
mesmo objetivo, a mesma intenção, mas eles estão em diversos estados. Todos estão em
estados diferentes, mas os estados deles estão afinados com cada um dos outros.
Quando nós estamos em suhbah, não significa que eu tenha problemas diferentes dos
outros, ou meu caráter é diferente do daquele outro, ou eu cheguei com idéias diferentes
daquele outro, não pense que você é alguma coisa por si mesmo. Não. Todos aqueles
que estão se reunindo neste suhbah, quaisquer que sejam suas diferenças, estão
"afinados" uns com os outros. O objetivo de suhbah é estar um com o outro, como
Alláh o descreveu: "Wa naz‟ana ma fi sudurihim min ghillin ikhwaanan „ala
sururin mataqaabiliina" - "Nós devemos arrancar fora todo rancor que esteja em
seus peitos, como irmãos, eles devem estar sentados em almofadas, colocados face a
face".
Shaykh Umar Suhrawardi comentou: "O face a face ocorre quando o lado interno
oculto e o lado aparente exterior são o mesmo." Sim, todo mundo observa o outro,
todo mundo tem uma aparência, mas esta aparência é a mesma da que você está
mantendo internamente? Ou você está mantendo alguma outra coisa internamente?
Quando você senta com alguém em algum lugar, em suhbah, e você tem um lado
exterior que está dizendo uma coisa, e o seu lado interno está dizendo uma outra coisa,
será que você está em suhbah? Não. Você não está sentando face a face, porque você
tem uma outra face. Uma face virada para cá, uma outra face virada para algum outro
lugar. Uma face amigável e uma outra face que está em inimizade. Isto não é suhbah.
Você está sentado face a face quando o lado interno, o qual está oculto da vista das
pessoas comuns, é o mesmo ou parecido com o lado exteriorizado. Não há diferença.
Não duas pessoas sentadas em frente a mim, mas apenas uma pessoa. Então eu estou
sentado face a face, e assim estamos em suhbah. Quando isto não acontece, então este
suhbah se quebra. Se, contudo, alguém mantém em seu peito uma emoção oculta contra
um irmão ou irmã, então não há face a face, mesmo quando sua face está virada para o
outro. Uma face nesta direção e a outra face numa outra direção, e sentados, um em
frente ao outro, falando sobre religião, Sufismo, e tariqah e não sei o que mais. Você
deve compreender e não deve tomar essas coisas muito corriqueiramente e ficar
brincando com elas.
"Tariqatuna as-suhbah". Vocês devem estar uns com os outros, encarando uns aos
outros. Seu lado interno como seu exterior, em direção ao seu irmão/irmã. Os Ahl as-
Suffah, como o Al-Qur'an nos conta, eram assim. Este é um dos significados de Ahl as-
Suffah. Eles estavam abertos uns para com os outros, abertos uns com os outros, sem
rancores: pois o rancor e a raiva são trazidos à tona através do amor de dunya (o mundo
da existência). Pelo amor de dunya, não pelo amor de akhira (o mundo do além), não
pelo amor de Alláh, não pelo amor da religião ou pelo amor da tariqah. Se isto ocorre
mesmo entre as pessoas Sufis, ocorre pela mesma razão. Não importa que palavras são
utilizadas. Estamos falando sobre realidades. Se você está sentado em suhbah e isto
ocorre, isto surge do amor de dunya. Se você sente raiva ou algum rancor para com um
de seus irmãos ou irmãs, isto vem do amor de dunya. E isto não é permitido para o
povo Sufi, e especialmente, não é permitido para o povo Naqshbandiya. Pois rancor e
raiva são trazidos pelo amor de dunya, e o amor de dunya é a origem e a fonte de todo
o mal.
O povo de suhbah está face a face, o dentro e o fora, reunidos em familiaridade e
amor. Eles se encontram para falar juntos, e para comer juntos, e desta forma eles
esperam receber a benção de seu Senhor, se eles estão seguindo as regras de suhbah. Se
não estão seguindo suas regras, não há benção. Está documentado que alguém disse ao
Profeta (s.a.w.s.): "Rasul-Alláh, nós comemos, mas nossa fome nunca é saciada." Ele
respondeu: "Talvez vocês comam separadamente. Reunam-se, e recordem-se de
Alláh, e vocês serão abençoados."
Bi hurmati l-Habibi, bi hurmatil Fatiha.
(Pelo amor do Amado de Deus, conclua lendo a sura Al-Fatiha), o primeiro capítulo do
Alcorão.
Questões:
SM: Você disse, "O crente (mu‟min) é um espelho para seu irmão". No caminho isso
é muito importante. Deveria ser que eu vejo a mim mesmo através de você. Você me
vê...
Sh.Adnan: Quando você me olha, você se vê?
SM: Bem, isto é o que eu estava ponderando. E também...
Sh.A: Ou você está me vendo?
SM: Eu vejo você!!! (risos)
Sh.A: Mas você não deveria me ver, porque eu sou apenas um espelho!
SM: Isto é o que eu quero dizer. Dizer ao outro o que está errado nele é parte de ser um
espelho.
Sh.A: Não! Você não tem que dizer nada. Você só tem que olhar. Você deve só
olhar. Ou eu tenho que olhar. O espelho não fala. Ele só espelha. Sim. Eu não
tenho que te dizer coisa alguma. Você apenas tem que olhar para mim para se ver.
É assim para qualquer um. Se eu começar a falar e dizer coisas para você, então
você vai ficar muito interessado em mim... Você não está mais se vendo. Se eu sou
um espelho, e o hadith diz: Os crentes são espelho. Não todo mundo. Nós somos
espelhos imperfeitos. Os shuyukh e os awliya (pl. de wali, "amigo de Alláh",
"dileto de Alláh") são os espelhos verdadeiros. Eles são espelhos perfeitos. Por
que? Porque eles são desprendidos. Quando você olha para eles, você só vê a si
mesmo. Isto se você for um crente. Se você não acredita o suficiente, você pode até
olhar para Mawlana Shaykh Nazim e não se ver. Esta é a diferença. O espelho não
tem que criticar, que dizer alguma coisa. Ele deve só estar lá, limpo, e refletir.
Todo mundo sabe, nós sabemos o que estamos fazendo, mas nós facilmente nos
distraimos e olhamos para outras coisas, e elas nos fazem esquecer de nós mesmos.
Mas quando você olha para um crente, você não pode escapar de si mesmo. Ele
está justo na sua frente, como Shaykh Suhrawardi disse, porque seu lado interno é
como seu lado exterior. Ele não tenta se esconder. Ele está apenas parado em sua
frente, e você olha e vê. Você se vê. Isto é muito importante. Você deveria aprender
também que o que você vê, não é o outro, é você mesmo. Assim, novamente, não
critique! Olhe para si mesmo.
SM: As falhas que você vê no outro, na verdade, são suas...
Sh.A: Claro.
Que isto possa ser benéfico. Por favor, reze por nós.

NÃO VIGIE OS DEFEITOS DOS OUTROS

Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshband

Como se tornar livre de uma natureza má. Nosso Grande Shaykh está dizendo - cada um
de seus conselhos é como munição para armas, dadas a você para serem usadas contra o
inimigo. Mas você está somente pegando-os e os esconde. E nós os estamos dando a
você para que atire; essa é a nossa intenção. Nós lhe estamos dando cartuchos de todos
os calibres, alguns para perto e alguns para o outro lado da montanha. Ainda assim,
nosso Grande Shaykh está dizendo: "Eu não consigo encontrar ninguém que execute
os meus conselhos". Eu espero que você possa seguir o seu conselho.

Nosso Grande Shaykh está perguntando: o que é que Allah e seu Profeta (saws) não
gostam? Você deve saber, e quando souber, mantenha-se longe disso. Ele responde que
é tomar conta dos defeitos de uma pessoa. Allah proibiu isso. É um grande pecado e a
pior ação que uma pessoa possa executar. Você também tem defeitos - todo mundo tem
tantos - e você tem uma responsabilidade por esses defeitos na Presença Divina. Então
por que você está olhando para os defeitos dos outros; você deve eliminar os seus
próprios.Quando alguém está vigiando os defeitos do outro, o respeito que nós temos
por ele ou ela em nosso coração desaparece, e o amor àquela pessoa é extinguido. Por
essa razão, isso é proibido. Todo mundo tem tantos defeitos, que se estivermos olhando
para eles, todos se tornarão inimigos uns dos outros. Isso causa separação da
Comunidade e então vem Satã para nos capturar. O Sufismo demanda amor e fortes
relacionamentos entre as pessoas, proteger da maldade e dar poder à fé. Portanto, nos é
ordenado adorarmos juntos, tal que a nossa fé cresça mais forte.

Nosso Grande Shaykh diz que devemos ser cuidadosos para que Satã não torne nossa
adoração insatisfatória. Ela é insatisfatória quando nós estamos pedindo quaisquer
recompensas. Nós devemos pedir o prazer de nosso Senhor apenas. Quando todos os
desejos do ego são findados, então se é um servo do Senhor. Procurar alguma
recompensa por adorar é como a adoração de ídolos, é uma forma oculta de politeísmo.
Sinceridade é pedir apenas o serviço do seu Senhor. Tantas pessoas estão adorando e
estão fazendo o que seus egos reclamam. Isso significa que eles são servos de Allah e de
Satã. Esse é um caminho perigoso. Até que nos tornemos limpos de nossa natureza má,
nós não poderemos estar livres de Satã, deste mundo, de nossos egos, e de desejos vãos.
Até que você se torne completamente ciente de tudo o que você faz com seu pé, se
aquele passo está no caminho certo ou no caminho errado, você permanecerá
necessitado de alinhamento em seu coração. Você deve saber e estar vigilante de onde
está colocando os seus pés. O descuido de um segundo pode ser causa de um perigoso
acidente. Portanto, nós estamos sempre necessitados de repetir a palavra de Testemunho
(Shahada), de nos colocar no caminho correto. Até que nos tornemos livres da nossa
natureza má, nós não poderemos atingir a fé real; e sem fé real , então não há vida real,
a vida que é para sempre. Quem quer que realize a fé real neste mundo sobreviverá no
túmulo, seu corpo não virando pó. Isso é um sinal de Alláh de que ele, ou ela, alcançou
a verdadeira vida.

Como é possível nos pouparmos da nossa natureza má ? Uma característica má é o


orgulho. Satã foi expulso da Presença Divina por seu orgulho. Se uma pessoa não é
humilde o suficiente para aceitar que uma outra lhe ensine lições, ela é orgulhosa. Você
deve ter um Mestre Sufi para lhe mostrar como aplicar as Ordens Divinas em si próprio.
Ele aprendeu de seu Shaykh como usar Shariah em si mesmo. Não pode haver cirurgião
que não tenha presenciado uma cirurgia executada, que somente tenha aprendido dos
livros.

Atrás de todo Homem há sempre uma grande Mulher.

Hajjah Naziha Adil


Bismillah ar-Rahman ar-Rahym.

Que a paz esteja com vocês, meus irmãos e irmãs no Islam. Como a organizadora do
Kalimat, é meu prazer recepcionar vocês. Esta é a primeira conferência feminina
conduzida dentro da Conferência Internacional pela Unidade Islâmica.

Estou orgulhosa e honrada de ser Muçulmana. Aqueles de nós que vem de países
Muçulmanos tem um respeito especial pelas mulheres. O Islam deu às mulheres este
respeito. Nos países Muçulmanos, as mulheres tem um importante papel como o centro
da família. As mulheres são suas esposas, mães, irmãs e filhas. Alláh deu à mulher um
amor especial em seu coração. Ela é mais sensível que o homem. É a mulher que dá a
vida para a próxima geração. A mulher dá toda a sua vida para a família. Ela trabalha
duro para proteger e manter os filhos debaixo de suas asas. Ela esquece de suas próprias
necessidades e talvez ainda de sua vida pelos seus filhos.
É muito importante para as mulheres e os homens manter um bom relacionamento entre
si, para que nossas crianças cresçam juntas debaixo do mesmo teto. O divórcio pode
quebrar os corações das crianças, que são tão sensíveis e puras. Como o Profeta (saws)
havia dito, "Os humanos nascem inocentes." O que acontece entre os pais afeta suas
crianças. Quando eles vem a raiva e o mal comportamento dos pais que brigam, as
crianças talvez mantenham esta raiva em seus corpos, almas, e talvez desenvolvam uma
doença contra suas comunidades e êles próprios.

Como mães e esposas, nós devemos ser mais pacientes com nossos maridos. Os maridos
devem, em retorno, ser mais sensíveis com suas esposas. O Profeta Muhammad (saws)
disse a seus companheiros para serem mais sensíveis com suas esposas e família. Ele
disse: "Meu grande conselho para vocês é tratar suas esposas da melhor maneira,
dando a elas o melhor de tudo, sem limitações."

Nós temos um ditado em Árabe: "A mulher é poderosa – com uma mão ela balança o
berco e com a outra ela balança o mundo!" Nao pense que a mulher que está por trás
de seu marido é fraca. Não! Ela o está encorajando para ser um homen. Temos outro
ditado em Árabe, e as minhas amigas Americanas dizem que tem o mesmo ditado em
Inglês: "Atrás de todo grande homen há uma mulher." Estou mudando este ditado
hoje para dizer: "Atrás de todo homen há uma grande mulher!".

A força não está associada com o poder dos músculos. Alláh criou o poder da mulher na
sua habilidade de tolerar a dor do parto, quando elas estão entre a vida e a morte. A
mulher suporta esta dor com felicidade porque é através desta força que novas gerações
são criadas.

Quantas noites uma mãe não dorme cuidando de seus filhos? Depois, durante o dia ela
trabalha fora de casa ou mesmo em casa, e embora esteja sofrendo, ela não reclama. Ao
contrário, ela concentra-se em suas tarefas e responsabilidades. Isto demonstra a força
tremenda de sua capacidade de suportar. Ela devota seu tempo, energia, sua vida e sua
juventude para
construir uma nova geração – nosso futuro – para construir sua família com saúde e
segurança.

Seu maior prazer é ver seus filhos crescerem como jovens homens e mulheres, uma
alegria que a faz esquecer as dificuldades da maternidade, a qual ela carrega por muitos
anos. Um sorriso de seu filho(a) é igual a todas as riquezas do mundo e apaga todas as
suas fatigas. Ela celebra suas alegrias e carrega seus problemas. Oh Homem! Não
esqueça de respeitar a mulher que te criou, e respeitar a mãe de seus filhos, dando a ela
todo o seu amor e respeito. Saiba que Allah colocou a modéstia nos corações das
mulheres, o qual é um sinal de nossa fé. Nós comemoramos o dito do Profeta (saws)
:"O paraíso está aos pés da mãe."

Não pense que sou contra os homens – ao contrário, eu tenho o maior respeito por eles
porque eu fui criada como Muçulmana. Eu gostaria de mencionar o respeito recebido
como mulher por minha família – o respeito que meu pai tem por minha mãe, o respeito
que meu marido me demonstra, e o respeito que meus filhos tem por suas esposas.

Nós rezamos para Allah o Poderoso, e nós trabalhamos duro para ver nossas famílias
sempre unidas. Mulher e homen devem proteger um ao outro e ser o conforto um do
outro. É dito: " Uma mão não pode aplaudir sozinha". Neste país, nesta geração, não
é fácil para as famílias manterem-se unidas. O propósito do Kalimat é reforçar os
casamentos, assim sendo, homens e mulheres podem criar uma geração de alegres e
saudáveis jovens Muçulmanos. Nosso propósito é também ter certeza de que a mulher é
respeitada em seus lares, e que elas não serão espancadas ou abusadas.

Obrigado por ouvirem minhas palavras hoje. Estes são tópicos importantes e esta é uma
ocasião importante. Que Allah abeçõe vocês e suas famílias. Que Ele lhes dê força para
criar seus filhos, nossa nova geração de Muçulmanos, com amor e respeito. Amém.

(Hajjah Naziha, filha de Shaykh M. Nazim Adil e esposa de Shaikh M. Hisham


Kabbani. Organizadora na Kamilat, entidade islâmica de mulheres, durante a 2º
Conferência Internacional pela Unidade Islâmica, Washington, USA, 1998).

SOBRE OS SONHOS

( Hadrat „Abdul-Qádir al-Djílání, O Segredo dos Segredos)

Os sonhos que são sonhados entre a hora exata anterior ao adormecer e o sono
profundo, são verdadeiros e benéficos. Esses sonhos são frequentemente portadores de
revelações e o meio de milagres. Eles são as imagens que caem no olho do coração.
A prova da realidade dos sonhos está nas palavras de Alláh:
"Em verdade, Alláh confirmou o sonho do Seu Mensageiro. Se Alláh quisesse,
entraríeis tranquilos, sem temor (XLVIII, 27).

E verdadeiramente o Profeta ingressou na sagrada mesquita em Makka, a qual estava


ocupada pelos seus inimigos, o ano posterior a este sonho. Outro exemplo está no
sonho do profeta José (paz sobre ele):
"Recorda-te quando José disse a seu pai: Oh pai, vi, em sonho, onze estrelas, o sol e
a lua; vi-os prostrando-se ante mim" (XII, 4).

O Profeta disse, "Nenhum outro profeta virá depois de mim, ainda que venham
outras revelações. Os crentes verão essas revelações em seus sonhos ou as
revelações serão mostradas a eles em seus sonhos". Alláh confirma isto:
"Obterão alvíssaras de boas-novas na vida terrena e na outra" (X, 64).

Sonhos vem de Alláh, porém algumas vezes vem do maldito Demônio.

O Profeta disse, "Aquele que me vê nos seus sonhos, certamente me vê, pois o
Demônio não pode tomar minha forma". Tampouco pode o Demônio aparecer na
forma daqueles que seguem a fé, o caminho, a sabedoria, a verdade e a luz do Profeta
(SAWS). Os que sabem interpretar estas palavras do Profeta (SAWS) declaram que não
somente o Demônio não pode tomar a forma do Profeta (SAWS), como ele não pode
pretender ser alguém ou qualquer coisa que tenha o caráter de misericórdia e
beneficência, ou campaixão, graça e fé. Verdadeiramente, todos os profetas, santos e
anjos, a mesquita de Ka'aba, o sol, a lua, as nuvens brancas, o Sagrado Al-Qur'an, são
entidades dentro das quais o Demônio não pode entrar, ele não pode adquirir suas
formas. Isto é porque o Demônio é o lugar e condição da manifestação da ira, da
punição e da aflição. Ele pode representar unicamente confusão e dúvida. Quando
alguém tem em si mesmo a manifestação dos Nomes de Alláh, o "Supremo Guia da
Verdade", como poderia manifestar-se nele o atributo o "Guia do Caminho Errado"?
Atributos que estão em oposição nunca podem tomar o lugar do outro, como água e
fogo. Ira não pode assumir o lugar da misericórdia, tampouco pode o fogo aparecer
como água. Eles se repelem, eles permanecem em direção oposta, eles pertencem a
espaços diferentes. Assim Alláh separa verdade de falsidade. "Assim Alláh evidencia o
verdadeiro e o falso...com parábolas e exemplos" (XIII, 17).

Por outro lado, o Demônio pode pretender ser Alláh e tentar pessoas, guiando-os
erradamente. Isto ele pode somente com autorização de Alláh. Alláh tem muitos
atributos que parecem ser contrários entre sim. Por exemplo, Seus atributos de poder e
fúria parecem ser opostos dos Seus atributos de beleza e bondade. O maldito Demônio
somente pode assumir o caráter de fúria e poder pois ele está na essência do propósito
da fúria de Alláh. Alláh também tem ambos atributos de Supremo Guia da Verdade e de
Guia do Caminho Errado. O Demônio não pode aparecer com o caráter de algum
atributo divino em que haja um traço de orientação.

Se o Demônio pretende representar algum dos atributos de Alláh, o faz através da


vontade de Alláh, com a intenção de guiar o crente do bem para o mal, guiá-lo da
verdade para a falsidade. Em realidade, o Demônio não tem poder de tirar a fé do
crente; ele pode somente se apropriar dela se o crente jogá-la fora.

Alláh disse a Seu Profeta (SAWS):


"Dize: Esta é minha senda. Apregôo Alláh com sabedoria, tanto eu como aqueles
que me seguem. Glorificado seja Alláh ! E não sou um dos politeistas" (XII, 108).
Neste versículo, "aqueles que me seguem" são os homens perfeitos, os verdadeiros
mestres espirituais que virão depois do Profeta (SAWS), aqueles que terão sabedoria e
percepção interior e estarão próximos de Alláh. Tal pessoa é descrita como protetor e
guia genuíno (XVIII, 17).

Há dois tipos de sonhos, subjetivo e objetivo, e cada um deles está dividido em dois
tipos.

O primeiro tipo de sonho subjetivo é a reflexão de um alto estado espiritual e


consequentemente uma virtude, e aparece em imagens tais como o sol, a lua, as estrelas,
cenas de deserto branco banhado em luz, jardins do Paraíso, palácios, belos espíritus de
forma angelical, etc. Estes são os atributos de um coração puro. O segundo tipo de
sonho subjetivo contém imagens que correspondem ao estado de alguém que está livre
de ansiedade e vem conhecendo-se a si mesmo e encontrou a paz da mente. Essas
imagens são os prazeres que ele encontrará no Paraíso -o sabor do alimento celestial, o
perfume e os sons do Paraíso.

Ele sonhará com alguns animais e pássaros que assemelham-se ao mais belo de seus
complementos no mundo. Os animais vistos em tais sonhos são verdadeiramente do
Paraíso. Por exemplo, o camelo é um animal do Paraíso. O cavalo é enviado como um
animal de carga para carregar o sagrado guerreiro em sua batalha contra o infiel ao
redor dele e dentro dele. O boi foi enviado ao profeta Adão para lavrar a terra e cultivar
o trigo. O cordeiro vem do mel do Paraíso, o camelo é criado da luz do Paraíso, o cavalo
do manjericão doce do Paraíso, o boi do açafrão do Paraíso.
A mula representa o estado mais baixo daquele que encontrou paz do coração e da
mente. Quando se sonha com a mula, isto é um sinal de que se é negligente e preguiçoso
na devoção, porque os desejos de sua carne e do seu ego bloqueiam-no, e seus esforços
espirituais são sem benefícios. Então deveria arrepender-se e ser firme em suas boas
intenções a fim de que possa obter algum resultado.

O burro foi criado da pedra do Paraíso e é dado ao servo de Adão e sua progênie. O
burro é um símbolo da carne e suas necessidades materiais, o ego e seus egoísmos. A
carne é um animal de carga para carregar a alma. Se um homem é um escravo para sua
carne, ele é como um homem carregando um burro em seus hombros, mas o homem
verdadeiro guia o burro do seu ser material. Assim, o burro representa os meios pelos
quais ele direciona os assuntos do mundo do além neste mundo.

Falarmos com uma linda jovem de rosto puro e espiritual é um sinal que manifestações
divinas são alcançadas, porque aqueles que atingiram o conhecimento das
manifestações divinas no Paraíso, aparecerão nesta linda forma. Nosso Mestre o Profeta
(SAWS) as descreveu como seres bem-proporcionados, gentis e de belos olhos negros.
Ele ainda disse, "Eu vi meu Senhor na forma do mais belo jovem". Como Alláh está
além de toda figura e forma, esta descrição é interpretada como a manifestação dos
belos atributos do Senhor, refletidos sobre o espelho da alma pura. Este reflexo é
chamado a criança do coração. A aparência material, o corpo, é o espelho para a
inteligência divina que nos educa e forma. Essa imagem refletida, é também a conexão
entre o servo e o Seu Senhor. Hadrat 'Ali, possa Alláh estar satisfeito com ele, disse "se
eu não fosse formado por meu Senhor, não teria vindo a conhecê-Lo".

Para a formação espiritual, a pessoa precisa de instrução e exemplo de um guia na forma


de um mestre vivo. Esses mestres são os profetas e aqueles próximos a Alláh que
herdaram suas sabedorias. É somente através dos seus ensinamentos, que o coração e o
ser são iluminados, derramando luz no caminho. A pessoa encontra a alma inspirada,
através deles. Alláh disse:
"(Ele é) Exaltador, (Senhor) do Trono; envia o espírito (da inspiração), por Seu
mandato, a quem Lhe apraz, dentre os Seus servos, para advertir (os homens)
sobre o Dia do Encontro" (Yaum at-Talaqq; o Dia do Encontro é um dos nomes do
Yaum ul-Qiyama, o Dia da Resurreição: "Nesse dia, toda alma será retribuída
segundo os seus méritos" (XL, 17) (XL, 15).

Para a salvação de seu coração, você tem que encontrar um mestre que o inspirará com
sua alma.

Imam Ghazali, possa Alláh santificar seu segredo, disse, "é legítimo ver Alláh
Altíssimo em sonhos como uma bela imagem. Esta imagem é um símbolo de acordo
com o nível espiritual da pessoa. Ela não é certamente a Essência divina, porque
Alláh está além de figuras e formas. Nem pode nosso Mestre o Profeta ser visto em
sonhos em sua aparência verdadeira, exceto por aqueles que são herdeiros da
sabedoria, conhecimento e ações, e que o seguem totalmente. Outros, quando
sonham com ele, o fazem com símbolos de acordo com seu potencial e estado, mas
eles na verdade não o vêm.".

No comentário da coleção de Ahadith de Muslim, há uma citação que diz, "é legítimo
sonhar com Alláh Altíssimo, ou como luz, ou em forma humana". Ele (Alláh)
manifesta a Si Mesmo nas formas dos Seus atributos. Para o Profeta Moisés, Ele (Alláh)
apareceu como fogo na árvore de sarsa ardente. Esta foi a aparição da Palavra divina
que o Profeta Moisés ouviu como o arbusto ardente, dizendo Que levas em tua mão
destra, oh Moisés? (XX, 15).

O que apareceu a Moisés como fogo, na verdade, era a luz divina. Ele a viu como fogo
de acordo com seu nível e seu desejo, pois ele estava buscando fogo. Para o homem de
mais baixo nível de ser, é o da vegetação, a árvore, e depois o nível de animal nele. Há
algum milagre se alguém que purificou-se desses níveis mais baixos de ser, e tornou-se
um homem perfeito, vê a divina realidade manifestada como um arbusto ardente? Para
outros homens perfeitos, Alláh manifesta Suas palavras como suas próprias, ditas de
seus próprios lábios. Hadrat Bayazid al-Bistami, possa Alláh santificar seu segredo,
num similar estado de inspiração divina pronunciou, "Minha essência é a do Glorioso
Um. Que imensa é minha honra!". A palavra divina veio dos lábios de Hadrat
Djunaid al-Baghdadi, possa Alláh estar satisfeito com ele, "Não há ninguém além de
Alláh, sob meu manto". Há enormes segredos em tais níveis alcançados pelos homens
perfeitos. Eles são muito difíceis de compreender e muito longos para serem explicados
aqui. Eles concernem somente àqueles que dedicaram suas vidas à busca do
conhecimento interior.

Para ser um recipiente da manifestação divina e ter contato com o espírito de nosso
Mestre o Profeta (SAWS), a pessoa deve estar ensinada e educada e trazer um certo
nível espiritual. O buscador que acabou de ingressar no caminho espiritual não pode
esperar ser capaz de se relacionar com Alláh Altíssimo ou com Seu profeta sem um
intermediário. Primeiro, ele tem que ser preparado e educado por um mestre que esteja
próximo a eles. Entre um mestre genuíno que está próximo de Alláh e nosso Mestre o
Profeta (SAWS) há uma relação que transcende o físico. Se o Profeta (SAWS) estivesse
vivo, alguém poderia obter conhecimento diretamente dele, então não haveria
necessidade de um intermediário. Mas como ele passou para o além, está separado do
mundano e está em estado imaterial. Portanto, a pessoa não pode ter contato direto com
ele. O mesmo é verdade com os mestres autênticos. Quando eles deixam este mundo, a
pessoa não pode mais aprender deles.

Você compreenderá se for perceptivo; se não for, procure ser. Procure encontrar esta
compreensão com contemplação, para que possa vencer a escuridão do ego com a luz da
iluminação. Você precisa luz para ver, para compreender: você não pode ver no escuro.
A luz desce somente em lugares onde há ordem e limpeza, em locais honrados. Os
iniciantes não podem organizar-se sozinhos, portanto precisam de um mestre.

Um mestre vivo tem que possuir conexão com nosso Mestre o Profeta (SAWS) -isto é,
deve ser verdadeiramente um herdeiro do estado do Profeta (SAWS). No seu
aprendizado ele recebe guia do Profeta (SAWS) e é ensinado a ser um verdadeiro servo
de Alláh. Com esta ajuda, ele torna-se o significado da continuação do caminho interior.
O resto é segredo. Somente aqueles preparados para realizar-se podem realizar-se.

"A potestade só pertence a Alláh, ao Seu Mensageiro e aos fiéis" (sobre quem Ele a
concedeu) (LXIII, 8).

Este estado de honra é o segredo


Educação espiritual não é uma questão fácil. A alma material está num corpo e é
educada com ele. O lugar da alma espiritual é o coração. O lugar da alma-sultão é o
centro do coração. O lugar do espírito sagrado é o segredo. Este segredo é o significado
da relação do crente com a verdade. Este é um intérprete, traduzindo a verdade para o
buscador, porque este segredo a Alláh pertence, está próximo d'Ele e é Seu confidente.

Há igualmente sonhos que são o resultado de má característica. Eles mostram os


atributos do ego dominante ou a realização de algum mal, que ainda somos incapazes de
deter.

Mesmo num estado melhor, quando alguém é lembrado por Alláh de seus pecados e
erros, sonha com animais selvagens, leões e tigres, lobos e ursos, cães e javalís e
pequenas bestas -raposas, lebres, gatos, cobras, escorpiões e carnívoros ou
venenosos, animais nocivos.

Menciono um pouco dos vícios que estas imagens representam: O tigre é o símbolo da
sobérbia e egocentrismo, a um passo de que a pessoa se arrogue ser Alláh.
"Àqueles que desmentirem os Nossos versículos e se ensoberbecerem, jamais lhes
serão abertas as portas do céu, nem entrarão no Paraíso, até que um camelo passe
pelo buraco de uma agulha..." (VII, 40)

A mesma punição é também dada àqueles que são arrogantes com as pessoas.

O leão é um símbolo do excessivo amor de si mesmo e de auto-elogios. O urso


representa raiva, ira e tiranía para com aqueles sob o seu controle. O lobo representa
gula sem consideração alguma por legalidade ou ilegalidade ou limpeza ou sujeira. O
cão é símbolo do amor por este mundo e seus transtornos e suas negatividades. Porcos
são o símbolo da inveja, ambição, vinganças e luxúria. A raposa é o símbolo da mentira,
fraude e trapaçaria nos assuntos deste mundo. A lebre é o símbolo das mesmas ações,
exceto aquelas feitas por negligência e inconsciência. Sonhar com um leopardo é um
signo de esforço despendido insensatamente e irracionalmente, assim como o desejo de
ser proeminente. O gato é um símbolo de avareza e duplicidade. A cobra representa
mentira, tagarelice, realizando acusações falsas e tiranizando pessoas com suas palavras.
O escorpião é um sinal de criticismo negativo, fazendo galhofas de pessoas e rejeitando-
as. O vespão representa linguagem destruidora magoando as pessoas.

Se alguém sonha que está lutando com uma dessas bestas, mas não vencendo-as, ele
precisa fortalecer seus esforços, devoção e lembrança (dhikr) consciente, até que de
uma vez por todas esses animais sejam obliterados. Se uma pessoa sonha com a morte
destas bestas, isto significa que cessou o erro de causar dano a alguém. Alláh menciona
isso:
"Alláh absolverá as suas faltas e lhes melhorará as condições" (XLVII, 2)..

Se alguém sonha que um desses animais transforma-se em ser humano, isso significa
que um estado antigo incorreto tornou-se correto, e que seu arrependimento é aceito,
porque o verdadeiro sinal do seu arrependimento ter sido aceito é sua incapacidade de
cometer o mesmo erro:

"Salvo aqueles que se arrependerem, crerem e praticarem o bem; a estes, Alláh


computará as más ações como boas" (XXV, 70).
Quando alguém está a salvo do erro e do demônio, tem que ter todo o devido cuidado
para não se sentir seguro, pois a carne e o ego recuperam sua força com a mínima
lembrança de desobediência, revolta e maldade, e joga-o novamente nos velhos hábitos.
O estado da alma em paz (an-nafs al-mutmainna) pode ser perdido facilmente. A
razão pela qual Alláh ordenou a Seus servos de absterem-se do que é ilegal é para criar
uma prevenção contínua que a mantenha sempre vigilante.

O ego comandado pelo demônio (an-nafs al-ammara) às vezes surge em sonhos como
um infiel; o ego que se censura a si mesmo (an-nafs al-lawwama) pode surgir como
um judeu, e o ego inspirado (an-nafs al-mulhima) às vezes aparece na forma de um
cristão".

SOBRE OS SONHOS

( Hadrat „Abdul-Qádir al-Djílání, O Segredo dos Segredos)

Os sonhos que são sonhados entre a hora exata anterior ao adormecer e o sono
profundo, são verdadeiros e benéficos. Esses sonhos são frequentemente portadores de
revelações e o meio de milagres. Eles são as imagens que caem no olho do coração.
A prova da realidade dos sonhos está nas palavras de Alláh:
"Em verdade, Alláh confirmou o sonho do Seu Mensageiro. Se Alláh quisesse,
entraríeis tranquilos, sem temor (XLVIII, 27).

E verdadeiramente o Profeta ingressou na sagrada mesquita em Makka, a qual estava


ocupada pelos seus inimigos, o ano posterior a este sonho. Outro exemplo está no
sonho do profeta José (paz sobre ele):
"Recorda-te quando José disse a seu pai: Oh pai, vi, em sonho, onze estrelas, o sol e
a lua; vi-os prostrando-se ante mim" (XII, 4).

O Profeta disse, "Nenhum outro profeta virá depois de mim, ainda que venham
outras revelações. Os crentes verão essas revelações em seus sonhos ou as
revelações serão mostradas a eles em seus sonhos". Alláh confirma isto:
"Obterão alvíssaras de boas-novas na vida terrena e na outra" (X, 64).

Sonhos vem de Alláh, porém algumas vezes vem do maldito Demônio.

O Profeta disse, "Aquele que me vê nos seus sonhos, certamente me vê, pois o
Demônio não pode tomar minha forma". Tampouco pode o Demônio aparecer na
forma daqueles que seguem a fé, o caminho, a sabedoria, a verdade e a luz do Profeta
(SAWS). Os que sabem interpretar estas palavras do Profeta (SAWS) declaram que não
somente o Demônio não pode tomar a forma do Profeta (SAWS), como ele não pode
pretender ser alguém ou qualquer coisa que tenha o caráter de misericórdia e
beneficência, ou campaixão, graça e fé. Verdadeiramente, todos os profetas, santos e
anjos, a mesquita de Ka'aba, o sol, a lua, as nuvens brancas, o Sagrado Al-Qur'an, são
entidades dentro das quais o Demônio não pode entrar, ele não pode adquirir suas
formas. Isto é porque o Demônio é o lugar e condição da manifestação da ira, da
punição e da aflição. Ele pode representar unicamente confusão e dúvida. Quando
alguém tem em si mesmo a manifestação dos Nomes de Alláh, o "Supremo Guia da
Verdade", como poderia manifestar-se nele o atributo o "Guia do Caminho Errado"?
Atributos que estão em oposição nunca podem tomar o lugar do outro, como água e
fogo. Ira não pode assumir o lugar da misericórdia, tampouco pode o fogo aparecer
como água. Eles se repelem, eles permanecem em direção oposta, eles pertencem a
espaços diferentes. Assim Alláh separa verdade de falsidade. "Assim Alláh evidencia o
verdadeiro e o falso...com parábolas e exemplos" (XIII, 17).

Por outro lado, o Demônio pode pretender ser Alláh e tentar pessoas, guiando-os
erradamente. Isto ele pode somente com autorização de Alláh. Alláh tem muitos
atributos que parecem ser contrários entre sim. Por exemplo, Seus atributos de poder e
fúria parecem ser opostos dos Seus atributos de beleza e bondade. O maldito Demônio
somente pode assumir o caráter de fúria e poder pois ele está na essência do propósito
da fúria de Alláh. Alláh também tem ambos atributos de Supremo Guia da Verdade e de
Guia do Caminho Errado. O Demônio não pode aparecer com o caráter de algum
atributo divino em que haja um traço de orientação.

Se o Demônio pretende representar algum dos atributos de Alláh, o faz através da


vontade de Alláh, com a intenção de guiar o crente do bem para o mal, guiá-lo da
verdade para a falsidade. Em realidade, o Demônio não tem poder de tirar a fé do
crente; ele pode somente se apropriar dela se o crente jogá-la fora.

Alláh disse a Seu Profeta (SAWS):


"Dize: Esta é minha senda. Apregôo Alláh com sabedoria, tanto eu como aqueles
que me seguem. Glorificado seja Alláh ! E não sou um dos politeistas" (XII, 108).
Neste versículo, "aqueles que me seguem" são os homens perfeitos, os verdadeiros
mestres espirituais que virão depois do Profeta (SAWS), aqueles que terão sabedoria e
percepção interior e estarão próximos de Alláh. Tal pessoa é descrita como protetor e
guia genuíno (XVIII, 17).

Há dois tipos de sonhos, subjetivo e objetivo, e cada um deles está dividido em dois
tipos.

O primeiro tipo de sonho subjetivo é a reflexão de um alto estado espiritual e


consequentemente uma virtude, e aparece em imagens tais como o sol, a lua, as estrelas,
cenas de deserto branco banhado em luz, jardins do Paraíso, palácios, belos espíritus de
forma angelical, etc. Estes são os atributos de um coração puro. O segundo tipo de
sonho subjetivo contém imagens que correspondem ao estado de alguém que está livre
de ansiedade e vem conhecendo-se a si mesmo e encontrou a paz da mente. Essas
imagens são os prazeres que ele encontrará no Paraíso -o sabor do alimento celestial, o
perfume e os sons do Paraíso.

Ele sonhará com alguns animais e pássaros que assemelham-se ao mais belo de seus
complementos no mundo. Os animais vistos em tais sonhos são verdadeiramente do
Paraíso. Por exemplo, o camelo é um animal do Paraíso. O cavalo é enviado como um
animal de carga para carregar o sagrado guerreiro em sua batalha contra o infiel ao
redor dele e dentro dele. O boi foi enviado ao profeta Adão para lavrar a terra e cultivar
o trigo. O cordeiro vem do mel do Paraíso, o camelo é criado da luz do Paraíso, o cavalo
do manjericão doce do Paraíso, o boi do açafrão do Paraíso.

A mula representa o estado mais baixo daquele que encontrou paz do coração e da
mente. Quando se sonha com a mula, isto é um sinal de que se é negligente e preguiçoso
na devoção, porque os desejos de sua carne e do seu ego bloqueiam-no, e seus esforços
espirituais são sem benefícios. Então deveria arrepender-se e ser firme em suas boas
intenções a fim de que possa obter algum resultado.

O burro foi criado da pedra do Paraíso e é dado ao servo de Adão e sua progênie. O
burro é um símbolo da carne e suas necessidades materiais, o ego e seus egoísmos. A
carne é um animal de carga para carregar a alma. Se um homem é um escravo para sua
carne, ele é como um homem carregando um burro em seus hombros, mas o homem
verdadeiro guia o burro do seu ser material. Assim, o burro representa os meios pelos
quais ele direciona os assuntos do mundo do além neste mundo.

Falarmos com uma linda jovem de rosto puro e espiritual é um sinal que manifestações
divinas são alcançadas, porque aqueles que atingiram o conhecimento das
manifestações divinas no Paraíso, aparecerão nesta linda forma. Nosso Mestre o Profeta
(SAWS) as descreveu como seres bem-proporcionados, gentis e de belos olhos negros.
Ele ainda disse, "Eu vi meu Senhor na forma do mais belo jovem". Como Alláh está
além de toda figura e forma, esta descrição é interpretada como a manifestação dos
belos atributos do Senhor, refletidos sobre o espelho da alma pura. Este reflexo é
chamado a criança do coração. A aparência material, o corpo, é o espelho para a
inteligência divina que nos educa e forma. Essa imagem refletida, é também a conexão
entre o servo e o Seu Senhor. Hadrat 'Ali, possa Alláh estar satisfeito com ele, disse "se
eu não fosse formado por meu Senhor, não teria vindo a conhecê-Lo".

Para a formação espiritual, a pessoa precisa de instrução e exemplo de um guia na forma


de um mestre vivo. Esses mestres são os profetas e aqueles próximos a Alláh que
herdaram suas sabedorias. É somente através dos seus ensinamentos, que o coração e o
ser são iluminados, derramando luz no caminho. A pessoa encontra a alma inspirada,
através deles. Alláh disse:
"(Ele é) Exaltador, (Senhor) do Trono; envia o espírito (da inspiração), por Seu
mandato, a quem Lhe apraz, dentre os Seus servos, para advertir (os homens)
sobre o Dia do Encontro" (Yaum at-Talaqq; o Dia do Encontro é um dos nomes do
Yaum ul-Qiyama, o Dia da Resurreição: "Nesse dia, toda alma será retribuída
segundo os seus méritos" (XL, 17) (XL, 15).

Para a salvação de seu coração, você tem que encontrar um mestre que o inspirará com
sua alma.

Imam Ghazali, possa Alláh santificar seu segredo, disse, "é legítimo ver Alláh
Altíssimo em sonhos como uma bela imagem. Esta imagem é um símbolo de acordo
com o nível espiritual da pessoa. Ela não é certamente a Essência divina, porque
Alláh está além de figuras e formas. Nem pode nosso Mestre o Profeta ser visto em
sonhos em sua aparência verdadeira, exceto por aqueles que são herdeiros da
sabedoria, conhecimento e ações, e que o seguem totalmente. Outros, quando
sonham com ele, o fazem com símbolos de acordo com seu potencial e estado, mas
eles na verdade não o vêm.".

No comentário da coleção de Ahadith de Muslim, há uma citação que diz, "é legítimo
sonhar com Alláh Altíssimo, ou como luz, ou em forma humana". Ele (Alláh)
manifesta a Si Mesmo nas formas dos Seus atributos. Para o Profeta Moisés, Ele (Alláh)
apareceu como fogo na árvore de sarsa ardente. Esta foi a aparição da Palavra divina
que o Profeta Moisés ouviu como o arbusto ardente, dizendo Que levas em tua mão
destra, oh Moisés? (XX, 15).

O que apareceu a Moisés como fogo, na verdade, era a luz divina. Ele a viu como fogo
de acordo com seu nível e seu desejo, pois ele estava buscando fogo. Para o homem de
mais baixo nível de ser, é o da vegetação, a árvore, e depois o nível de animal nele. Há
algum milagre se alguém que purificou-se desses níveis mais baixos de ser, e tornou-se
um homem perfeito, vê a divina realidade manifestada como um arbusto ardente? Para
outros homens perfeitos, Alláh manifesta Suas palavras como suas próprias, ditas de
seus próprios lábios. Hadrat Bayazid al-Bistami, possa Alláh santificar seu segredo,
num similar estado de inspiração divina pronunciou, "Minha essência é a do Glorioso
Um. Que imensa é minha honra!". A palavra divina veio dos lábios de Hadrat
Djunaid al-Baghdadi, possa Alláh estar satisfeito com ele, "Não há ninguém além de
Alláh, sob meu manto". Há enormes segredos em tais níveis alcançados pelos homens
perfeitos. Eles são muito difíceis de compreender e muito longos para serem explicados
aqui. Eles concernem somente àqueles que dedicaram suas vidas à busca do
conhecimento interior.

Para ser um recipiente da manifestação divina e ter contato com o espírito de nosso
Mestre o Profeta (SAWS), a pessoa deve estar ensinada e educada e trazer um certo
nível espiritual. O buscador que acabou de ingressar no caminho espiritual não pode
esperar ser capaz de se relacionar com Alláh Altíssimo ou com Seu profeta sem um
intermediário. Primeiro, ele tem que ser preparado e educado por um mestre que esteja
próximo a eles. Entre um mestre genuíno que está próximo de Alláh e nosso Mestre o
Profeta (SAWS) há uma relação que transcende o físico. Se o Profeta (SAWS) estivesse
vivo, alguém poderia obter conhecimento diretamente dele, então não haveria
necessidade de um intermediário. Mas como ele passou para o além, está separado do
mundano e está em estado imaterial. Portanto, a pessoa não pode ter contato direto com
ele. O mesmo é verdade com os mestres autênticos. Quando eles deixam este mundo, a
pessoa não pode mais aprender deles.

Você compreenderá se for perceptivo; se não for, procure ser. Procure encontrar esta
compreensão com contemplação, para que possa vencer a escuridão do ego com a luz da
iluminação. Você precisa luz para ver, para compreender: você não pode ver no escuro.
A luz desce somente em lugares onde há ordem e limpeza, em locais honrados. Os
iniciantes não podem organizar-se sozinhos, portanto precisam de um mestre.

Um mestre vivo tem que possuir conexão com nosso Mestre o Profeta (SAWS) -isto é,
deve ser verdadeiramente um herdeiro do estado do Profeta (SAWS). No seu
aprendizado ele recebe guia do Profeta (SAWS) e é ensinado a ser um verdadeiro servo
de Alláh. Com esta ajuda, ele torna-se o significado da continuação do caminho interior.
O resto é segredo. Somente aqueles preparados para realizar-se podem realizar-se.

"A potestade só pertence a Alláh, ao Seu Mensageiro e aos fiéis" (sobre quem Ele a
concedeu) (LXIII, 8).

Este estado de honra é o segredo

Educação espiritual não é uma questão fácil. A alma material está num corpo e é
educada com ele. O lugar da alma espiritual é o coração. O lugar da alma-sultão é o
centro do coração. O lugar do espírito sagrado é o segredo. Este segredo é o significado
da relação do crente com a verdade. Este é um intérprete, traduzindo a verdade para o
buscador, porque este segredo a Alláh pertence, está próximo d'Ele e é Seu confidente.

Há igualmente sonhos que são o resultado de má característica. Eles mostram os


atributos do ego dominante ou a realização de algum mal, que ainda somos incapazes de
deter.

Mesmo num estado melhor, quando alguém é lembrado por Alláh de seus pecados e
erros, sonha com animais selvagens, leões e tigres, lobos e ursos, cães e javalís e
pequenas bestas -raposas, lebres, gatos, cobras, escorpiões e carnívoros ou
venenosos, animais nocivos.

Menciono um pouco dos vícios que estas imagens representam: O tigre é o símbolo da
sobérbia e egocentrismo, a um passo de que a pessoa se arrogue ser Alláh.
"Àqueles que desmentirem os Nossos versículos e se ensoberbecerem, jamais lhes
serão abertas as portas do céu, nem entrarão no Paraíso, até que um camelo passe
pelo buraco de uma agulha..." (VII, 40)

A mesma punição é também dada àqueles que são arrogantes com as pessoas.

O leão é um símbolo do excessivo amor de si mesmo e de auto-elogios. O urso


representa raiva, ira e tiranía para com aqueles sob o seu controle. O lobo representa
gula sem consideração alguma por legalidade ou ilegalidade ou limpeza ou sujeira. O
cão é símbolo do amor por este mundo e seus transtornos e suas negatividades. Porcos
são o símbolo da inveja, ambição, vinganças e luxúria. A raposa é o símbolo da mentira,
fraude e trapaçaria nos assuntos deste mundo. A lebre é o símbolo das mesmas ações,
exceto aquelas feitas por negligência e inconsciência. Sonhar com um leopardo é um
signo de esforço despendido insensatamente e irracionalmente, assim como o desejo de
ser proeminente. O gato é um símbolo de avareza e duplicidade. A cobra representa
mentira, tagarelice, realizando acusações falsas e tiranizando pessoas com suas palavras.
O escorpião é um sinal de criticismo negativo, fazendo galhofas de pessoas e rejeitando-
as. O vespão representa linguagem destruidora magoando as pessoas.

Se alguém sonha que está lutando com uma dessas bestas, mas não vencendo-as, ele
precisa fortalecer seus esforços, devoção e lembrança (dhikr) consciente, até que de
uma vez por todas esses animais sejam obliterados. Se uma pessoa sonha com a morte
destas bestas, isto significa que cessou o erro de causar dano a alguém. Alláh menciona
isso:
"Alláh absolverá as suas faltas e lhes melhorará as condições" (XLVII, 2)..

Se alguém sonha que um desses animais transforma-se em ser humano, isso significa
que um estado antigo incorreto tornou-se correto, e que seu arrependimento é aceito,
porque o verdadeiro sinal do seu arrependimento ter sido aceito é sua incapacidade de
cometer o mesmo erro:

"Salvo aqueles que se arrependerem, crerem e praticarem o bem; a estes, Alláh


computará as más ações como boas" (XXV, 70).
Quando alguém está a salvo do erro e do demônio, tem que ter todo o devido cuidado
para não se sentir seguro, pois a carne e o ego recuperam sua força com a mínima
lembrança de desobediência, revolta e maldade, e joga-o novamente nos velhos hábitos.
O estado da alma em paz (an-nafs al-mutmainna) pode ser perdido facilmente. A
razão pela qual Alláh ordenou a Seus servos de absterem-se do que é ilegal é para criar
uma prevenção contínua que a mantenha sempre vigilante.

O ego comandado pelo demônio (an-nafs al-ammara) às vezes surge em sonhos como
um infiel; o ego que se censura a si mesmo (an-nafs al-lawwama) pode surgir como
um judeu, e o ego inspirado (an-nafs al-mulhima) às vezes aparece na forma de um
cristão".

QUALIDADES DE CÃES E PROFETAS

Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshband

" Nosso Grandeshaykh, shaykh Abdullah ad-Daghestani disse, " Há doze qualidades
nos cães que somente podem ser encontradas nos Profetas e Awliya. Elas são: Não
esquecimento das bondades, não esquecem daqueles que foram bondosos com eles.
Não guardam rancor quando os seus donos lhes batem ou os abandonam; quando
chamados, vão aos donos balançando o rabo; são modestos; obedientes; ficam
satisfeitos com pequenas coisas; são sinceros; leais, bons amigos; eles são fiéis, ficam
com seus donos e nunca se tornam traidores; são desapegados (zahid), não olhando
para nada deste mundo (dunya). Isto significa que não tem nada deste mundo, nem
lugar para eles; podem dormir em qualquer canto. Se alguém lhes joga uma pedra, se
levantam e imediatamente vão até ele. São muito atentos. Não podem dormir muito, e
acordam rapidamente. São muito pacientes e muito agradecidos por qualquer coisa que
recebem ou ganham. Se uma pessoa tiver esses atributos, ela será um walyy. Esses doze
atributos pertencem aos Profetas e aos Awliya!".

AS-SALAT AL-MASHYSHYAH
(A Oração de Ibn Mashîsh)

O Walyy e Qutb Shaykh 'Abd as-Salam ibn Mashîsh nasceu no povoado de Lahsen, na
comarca de Beniarios, região de Larache (norte de Marrocos), em 1139 e.C, e morreu
assassinado pelas costas enquanto rezava, na madrugada de um sábado de 1201 e.C. Um
de seus mais ilustres discípulos, o Shaykh Abu al-Hassan ash-Shadhili, narra nas suas
memórias "certo dia me perguntei em voz baixa se ele (ibn Mashîsh) conhecia já o
grande nome de Alláh Todopoderoso...E então seu filho, que se encontrava conosco, me
respondeu: "Abu al-Hassan, a questão não consiste em conhecer a grande realidade,
senão em se fundir nessa realidade e formar parte dela". E sorridente, o Walyy ibn
Mashîsh agregou: "meu filho acertou, e te derrotou".
Este grande mestre marroquino se iniciou no Sufismo através do seu primeiro shaykh,
Sidi 'Abdar-Rahman Al-Madaní, quem importou a Taríqa do Iraque por meio de Sidi
Taki ad-Din al-Faqír, quem a recebera de Shams ud-Din, da Turquia. E assim continua a
sucesão da escola Sufi Darqawi até chegar a Hadrat 'Ali ibn Abi Talib, primo paterno do
Enviado de Alláh, o Profeta Muhammad, sobre quem Alláh e os crentes sinceros rezam
sem cessar eternamente. A Oração al-Mashyshyah pelo Profeta Muhammad é hoje
recitada e cantada em todo o Mundo Islâmico, é a que segue:

"En Nome de Alláh, o Clementíssimo, o Misericordiosíssimo

Alláh ora sobre aquele de quem derivam os segredos e brotam as luzes.

Nele ascenderam as verdades e descenderam os saberes de Adam para convencer


aos seres.

Nele se fizeram pequenos os conhecimentos, sem ninguém alcançá-lo, nem antes


nem depois de nós.

Os jardins angelicais florecem majestosamente com sua beleza.

Os raios celestiais fluem sem cessar dos seus gigantescos estanques.

Nada existe sem estar ligado a ele, já que sem sua intercessão desapareceria, como
foi dito, tudo que não fosse ele.

(Abençoa-lhe, Alláhuma) como uma bendição digna de Tua divindade, sobre teu
escolhido como ele merece.

Alláhuma, Tu sabes bem que o teu escolhido é a chave da totalidade de Teu


mistério, que confirma Tua existência e é o único que desvela Tua verdade.

Alláhuma, une-me à descendência de Teu escolhido e enroupa-me no seu seio; faça


com que o conheça de tal maneira que me liberte das garras da ignorância e me
salve do tenebroso mar da soberbia.

Guia-me por seu caminho até a Tua Presença ajudado pela Tua misercórdia.

Conduz-me ao injusto para aniquilá-lo e faz-me navegar nos oceanos da Tua


Unidade.

Liberta-me dos trágicos pântanos das falsas teorias unificadoras e me afogue no


centro de Ti mesmo até que não veja nem ouça nem encontre nem sinta mais nada
que Tua Unicidade.

Faça com que Teu conhecimento se converta no alimento de minha alma e no


segredo de minha verdade, e que Tua verdade preencha toda minha vida com a
ratificação da eterna Verdade.

Oh Tu o Primeiro! Oh Tu o Último! Oh Tu o Manifesto! Oh Tu o Oculto!

Escuta minhas preces como escutastes as preces de Teu servo Zacarias.


Eleva-me até Ti, ajuda-me e arranca de mim tudo aquilo que não seja digno de Ti.

Oh Alláh! Oh Alláh! Oh Alláh!".

"Em verdade, Alláh e Seus anjos abençoam o Profeta. Oh fiéis, abençoai-o e


saudai-o reverentemente!" (XXXIII, 56)

RAMADAN: AS PORTAS DA MISERICÓRDIA DE ALLAH

Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshband

O Profeta (saws) trouxe boas notícias sobre este sagrado mês. Os primeiros dez dias
deste Sagrado Ramadan são dias de misericórdia para todos, dez dias; os segundos dez
dias são os dias de perdão de Alláh subhanaHu wa ta'ala, e os últimos dez dias, são a
libertação do Inferno para os crentes. Alláh subhanaHu wa ta'ala liberta-os do Inferno.
Então, os crentes que esforçaram-se em seguir as ordens do Senhor durante os dias do
abençoado Ramadan através do jejum, e durante a noite rezando Tarawih (orações
especiais realizadas nas noites de Ramadan; podem ser feitas individualmente,
embora seja mais meritório fazê-las em comunidade) e as orações noturnas
(tahajjud; são voluntárias, e podem ser realizadas entre salat al-Isha, a da noite, e
salat al-Fadjr, a da madrugada) e podem ser recompensados por nosso Senhor
tornado-os imune (bara'a) ao Inferno, e dando-lhes boas novas do Paraíso.

A estrutura integral do ser humano é construída na purificação, e é impossível para


alguém aperfeiçoar sua estação espiritual sem antes alcançar, física e espiritualmente,
limpeza completa. O jejum é o início da purificação espiritual. O primeiro passo é o
nível comum do jejum: tentando libertar-se do comando e controle de seus nafs.
Enquanto estiver sob o controle de seus nafs, permanecerá impuro.

Portanto, o primeiro nível do jejum é compelir nosso ego para que possamos tirar o
controle de suas mãos e colocá-lo em nossas mãos -nos abstendo de comer, beber e ter
contato sexual durante o dia.

O primeiro passo é evitar o que é halal (permitido) normalmente, exceto durante


Ramadan. Comer, beber e ter relações sexuais é halal, mas no Ramadan, as coisas
permitidas tornam-se haram (proibidas) durante o dia. Esse é o nível básico de
purificação, porém, esta é uma proposta mais elevada para
alcançar, precisamente, maior purificação.
Para atingir maior purificação, o segundo passo é esforçar-se em estar limpo de
pecados: você tem que resguardar seus olhos, sua língua, seus ouvidos, suas mãos, seus
pés e todas as partes de seu corpo de agirem incorretamente. Tem que dizer a si mesmo
"oh minha língua! Exatamente da mesma forma que você está guardando-se de
saborear comidas e bebidas, contudo, ainda tens que ter cuidado. Não digas nada
que seja proibido!".

Este segundo passo para purificar-se de todas as ações proibidas e pecados nos torna
mais iluminados; podemos dirigir-nos em direção de estações espirituais mais elevadas.
Ainda assím, isto não é suficiente.

O terceiro passo é para os corações: tem que cuidar de seu coração. Alláh
Todopoderoso nos diz: "seu coração Me pertence". Entre os filhos de Adão, toda parte
de seu corpo pertence a eles, mas uma, "seu coração, pertence a Mim, e a mais
ninguém". Ele diz, "Portanto eu estou pedindo que ele esteja puro, absolutamente
puro".

Como ele pode estar puro? Tudo, exceto Alláh Todopoderoso e Seus Agraciados, tem
que ser eliminado de seu coração. O tempo todo você está por conta própria, pode olhar
dentro de seu coração para ver se está com seu Senhor ou com alguém ou algo mais.
Sempre que examine seu coração e se encontre com seu Senhor Alláh Todopoderoso,
tem que considerar-se agraciado. Nesse momento, a luz divina entrará em seu coração, e
você poderá alcançar o verdadeiro deleite da fé. O Profeta (saws) disse: "O olhar
sensual é uma das flechas venenosas de Shaitan. Aquele que por compaixão
abstem-se disso, receberá de Alláh uma recompensa, a doçura com que preencherá
seu coração".

Assím, é importante para todo crente controlar suas ações. Sem a guarda de nossas
ações, estamos destinados ao extravio. E toda ação inicia com um pensamento. Shaitan
é bom conhecedor da natureza do ser humano. Em todo tipo de pensamento ele colocou
alguns de seus truques. Quem quer que seja capaz de controlar seus pensamentos, pode
estar a salvo das insinuações de Shaitan, mas quem quer que seja incapaz de controlá-
los terá sua mente preenchida com idéias diabólicas e falsidades. Quem quer que esteja
sob o controle de Shaitan, não pode ser uma servo obediente a seu Senhor. Como
muslims e crentes, esta tem que ser nossa primeira preocupação -controlar a nós
mesmos. Se você perceber algum controle de Shaitan afetando-o, em ações ou
pensamentos, tem que lutar para eliminá-lo.

INCREMENTANDO A DEVOÇÃO: UMA FORMA DE APROXIMAR-SE A


ALLAH SUBHANAHU WA TA'ALA

Quando o Ramadan aproximar-se do término, poderemos nos encontrar "chorando pelo


Ramadan" . Este mês nos dá infinitas alegrias, através do aumento de nossa
obediência e adoração a Alláh subhanaHu wa ta'ala. Estas duas características são a
fonte de toda felicidade verdadeira. Por esta razão, o Profeta (saws) disse (o Ramadan)
"a maçã de meus olhos é a oração -salaat".

Alláh Todopoderoso enviou-nos Suas mensagens através de Seus profetas. O cerne


dessas mensagens é que as pessoas devem controlar-se a si mesmas. Portanto, Alláh
Topoderoso ordenou fazer orações cinco vezes por dia, mais as sunnah. Há os cinco
momentos de oração que Alláh Todopoderoso faz obrigatório para Seus servos, mas o
Profeta (saws) também fazia as orações sunnah, de dia e à noite, para que esses
momentos de oração estivessem sempre tendo controle de nossos membros e corações.
Alláh Todopoderoso disse em um hadith qudsi ( A palavra de Alláh, narrada pelo
Profeta Muhammad (saws), isto não é parte do Sagrado al-Qur'an): "Oh Meu
servo! Se você der um passo em Minha direção, eu darei dez em sua direção".
Portanto, nós temos necessidade de estar atentos a Seu Propósito. Dia a dia, torne seus
passos mais firmes no Caminho Reto.

Esta é a sagrada estação da adoração, que fará você caminhar em direção a Alláh
Todopoderoso. "Quando chega Ramadan...um visitante o chama todas as noites:
"Oh buscador de Alláh, aproxime-se! Oh buscador do demónio, desista!" (an-
Nasa'i). Desta maneira, este mês apresenta uma oportunidade especial: adoração e
devoção incrementada. Nisto está prescrito Tarawih e as orações noturnas voluntárias,
e desta forma estará aproximando-se ainda mais a Alláh subhanaHu wa ta'ala. Nós
temos uma oportunidade maior (durante o Sagrado Ramadan) que em qualquer outro
momento. Aquele que é capaz de controlar-se durante o Ramadan, será capaz, com o
apoio de Alláh Todopoderoso de ter controle de si mesmo nos outros onze meses. Tudo
começa pequeno e cresce, coisas boas e más, bons e maus hábitos, para tudo há um
início. E o início é dificil, mas tem que ser paciente e persistente; se você sabe que algo
é correto, continue a permanecer no caminho, ainda que isso possa ser tão dificil.
Dificuldades podem ser superadas por uma fé firme, e fé firme é com aqueles que são
capazes de controlar a si mesmos. Assim, coloque a intenção forte e persistente de
aumentar a devoção, não apenas para este mês sagrado de Ramadan,
senão permanentemente". .

SOBRE OS DEVERES DA IRMANDADE

(Imam Abu Hamid Al-Ghazzali)

1.- O primeiro dever é o material

O grau mais baixo: colocar a teu irmão no mesmo nível que teu escravo ou servo,
atendendo suas necessidades com o que te sobra. Dê a teu irmão expontaneamente sem
obrigá-lo a pedir; obrigá-lo é a máxima carência de dever fraternal.

Segundo grau: situar a teu irmão em teu mesmo nível. Gostas de tê-lo como sócio de
teus pertences, e o tratas como a ti mesmo ao ponto de
lhe permitir compartilhar tudo na mesma medida.

Terceiro grau: o mais elevado de todos, no qual preferes antes a teu irmão do que a ti
mesmo e antepões suas necessidades ás tuas. Este é o grau do Siddiq (fiel testemunho
da verdade) e o mais alto para aqueles unidos no amor espiritual.
O auto-sacrifício é um dos frutos deste grau.

2.- O segundo dever:


É dar ajuda pessoal para satisfazer as necessidades de teu irmão, atendendo-as sem
esperar que te peçam, priorizando suas necessidades às tuas.
Aqui também há graus ou níveis como no caso do sustento material.
O grau mais baixo consiste em atender as necessidades do irmão quando ele pede e tens
em abundância, ainda que o faças com bom humor e alegria, mostrando prazer e
gratidão por poder ajudá-lo.
Alguém disse: “Se pedes a um irmão que te ajude diante de necessidade
(seja trabalho ou outra) e não o faz, relembra-o, pois pode ter esquecido. Se depois
disso, continua na mesma atitude, pronuncia ALLÁH-HU-AKBAR !
para ele e recita este verso: “quanto aos mortos, Alláh os ressuscitará” (Al-Qurán, VI,
36).

3.- O terceiro dever:

Refere-se à língua, que às vezes deve estar silenciosa e às vezes falar.


Quanto ao silêncio, a língua não deverá mencionar os defeitos de um irmão nem na sua
ausência nem na sua presença.
É melhor fingir ignorância.
Não deves ocultar qualquer elogio sobre teu irmão. Se calas, é por inveja.
Não critiques o irmão nem a sua família.
O Profeta Muhammad (a paz e a misericórdia de Alláh sejam sobre ele) disse:
“Alláh proibiu que o crente se meta com o sangue, a propriedade ou a honra de
outro; ou de levantar suspeitas contra outro”, e também disse: “Cuida-te de
levantar suspeita, pois ela é o meio mais mentiroso e leva a espiar e bisbilhotar”. E
também: “Não espies nem bisbilhotes. Não rompas relações nem se separem, sirvam
a Alláh como irmãos”.
Oculta suas falhas.
Abu Sa‟id al-Thauri costumava dizer: “Se desejas tomar um homem como irmão,
aborreça-o e depois procura pô-lo em contato com alguém que lhe pergunte sobre
ti e teus segredos. Se fala bem de ti e oculta teus segredos,
então faça-o teu irmão”.

Perguntaram a Abu Yazid al-Bistami: “Quem tomarás como teu companheiro?”


“Alguém que saiba tanto de mim quanto Alláh, e o oculte tão bem quanto Ele”.

Dhul Nun disse: “Não há bem na companhia daquele que espera que sejas
imaculado”.

Alguém que revela um segredo quando está aborrecido é mau-caráter, pois todas as
naturezas normais exigem que este seja ocultado quando se está contente. Um homem
sábio disse:
“Não tomes por companheiro a alguém que seja volúvel sob quatro condições:
quando está aborrecido ou contente, quando está com desejos ou voracidade”.

- Não tenham brigas ou disputas, pois estas são a essência da divergência e da ruptura.
A disputa é somente para mostrar superioridade intelectual e fazer reluzir a ignorância
do outro.
4.- O quarto dever

É o uso da língua para falar. Assim como a irmandade exige o silêncio para as coisas
desagradáveis, requer a palavra para divulgar as favoráveis.
Esta é uma das particularidades mais marcantes da irmandade, pois aquele que se sente
satisfeito com o puro silêncio mais lhe valeria ser irmão da gente das tumbas.
Tu desejas irmãos para te beneficiar por eles, e não para fugir de te ferirem, e o ponto
sobre o silêncio se refere a isso, evitar lastimar ou ferir.

Deves usar a língua para expressar afeto pelo teu irmão, e para perguntar gentilmente
sobre seu estado. Por exemplo: se perguntas sobre algum acidente que lhe aconteça,
deves mostrar a preocupação do teu coração por seu bem-estar e sua recuperação lenta.
Assim, deves indicar com fatos e palavras que desaprovas todos os acontecimentos
desagradáveis que lhe sucedem, e fazer-lhe saber que compartilhas sua alegria em todas
as circunstâncias que lhe dão prazer. Pois, compartilhar tristezas e alegrias é irmandade.
O Profeta Muhammad (Alláh o abençoe e lhe dê paz) disse: “Se um de vocês ama a
seu irmão, faça-o saber”.
Ele deu esta ordem porque a comunicação traz consigo um incremento de amor. Se
sabes que ele também te ama, isso aumentará teu amor por ele. Assim o amor crescerá e
se multiplicará por ambas as partes.

- A Sinceridade significa ser igual na sua presença como na sua ausência.

- Usar a língua inclue a instrução e o aconselhamento.

5.- O quinto dever:

É o perdão dos erros e das falhas. A falha de um amigo é de um dos dois tipos: na sua
religião, através de cometer uma ofensa, ou no seu dever para contigo, através de uma
omissão nas obrigações da irmandade.

6.- O sexto dever:

É orar pelo teu irmão. Deves rezar por ele como rezas por ti mesmo.
O Profeta Muhammad (a paz e benção de Alláh seja sobre ele) disse: “A oração de um
homem em nome do seu irmão sempre é respondida, enquanto que o que pedes
para ti pode ser negado”.

7.- O sétimo dever:

É Lealdade e sinceridade. Lealdade é firmeza no amor e sua continuidade até a


morte com o irmão, e depois da morte, com seus filhos e seus companheiros.
Pois o amor é em benefício da outra vida. Se este é cortado antes da morte, o trabalho é
em vão, e o esforço, inútil.
Inclue considerar a todos os seus companheiros, parentes e dependentes.
A irmandade é uma essência sutil. Se não a cuidas, está exposta a desgraças.
Assim, a guarde através do autocontrole, inclusive ao ponto de perdoar alguém que
tenha cometido uma injustiça contigo, e com alegria para que não sobrestimes tuas
próprias virtudes ou os erros do teu irmão.
Um dos sinais da veracidade, sinceridade e lealdade absoluta na irmandade, é ser
extremamente desconfiado das separações e instintivamente cauteloso pelas suas causas.
Como foi dito: “Concluí que os golpes do destino são assuntos triviais, comparados
com a separação dos amigos”.
A lealdade inclue não ser amigo do inimigo do teu amigo.

8.- O oitavo dever:

É o alívio de incomodidades e inconveniências. Não deves incomodá-lo, forçando-lhe a


ser educado, a se por em tua situação e atendendo a teus direitos. Não, o único objeto do
teu amor deve ser Alláh (Exaltado seja), atendendo a seus direitos e suportando ou
mantendo suas necessidades.

Aquele que exige a seus irmãos o que eles não se exigem, lhes faz dano. Aquele que
lhes exige o mesmo que eles exigem, os cansa.

Aquele que nada lhe exige, é seu bemfeitor.

Um deles disse: “Com os filhos deste mundo, comporta-te educadamente;


sabiamente, com os do outro. Como queiras, com aqueles que sabem”.

Um homem disse a Al-Djunayd: “Os irmãos estão escassos nestes dias. Onde
encontrarei um irmão-em-Alláh?”. Al-Djunayd o obrigou a repetir o mesmo três
vezes antes de responder-lhe: “Se o que buscas é um irmão que veja por ti e carregue
tua peso, esses -na minha vida-, são poucos e muito espaçados. Mas se queres um
irmão-em-Alláh, cuja peso carregarás e cuja dor suportarás, então tenho uma
tropa que posso te apresentar”. O homem calou-se.

O alívio e a comodidade incluem a não objeção às devoções super-rogatórias. Um grupo


de sufis se unia em irmandade somente com uma condição: igualdade em quatro
aspectos. Se um deles comia todo o dia, seu companheiro jamais lhe diria: jejua!; se
jejuava continuamente, jamais lhe diria: come! Se dormia toda a noite, não lhe diria:
levanta-te ! e se rezava durante toda a noite, não lhe diria: dorme! Em vez disto, faria o
mesmo sem agregar ou tirar.
O alívio e a ausência de exageros só se produzem em um ambiente propício, e é quando
tu te sentes inferior a teus irmãos e pensas favoravelmente deles e te consideras pouca
coisa junto deles. Quando tenhas esta atitude, em realidade serás mais valioso que eles.
O Profeta Muhammad (Alláh o abençoe e lhe dê paz) disse: “O crente não pode fazer
algo pior do que menosprezar a seu irmão”.
O bemestar e a liberação de tensão tem um ápice que inclue o consultar com teus irmãos
todos os teus planos e aceitar suas sugestões.

A RECOMENDAÇÃO DE RECITAR DETERMINADOS CAPÍTULOS E


VERSÍCULOS DO SAGRADO AL-QUR'AN
O Imam Al-Nawawi diz que Abu Sai'd al-Khudri - que Allah esteja satisfeito com ele -
narrou: Em certa ocasião, um homem escutou a outro que recitava e repetia a Surat al-
Ikhlas. No dia seguinte, foi ver ao Enviado de Allah (a paz e as bendições de Allah
sejam com ele) e contou-lhe o que fazia aquele homem, como se o considerasse de
pouca valia. Então, o Enviado de Allah (s.a.w.s.) disse: "Juro por Quem tem minha
alma em Sua mão! Que a Surat al-Ikhlas equivale a um terço de todo o Al-
Qur'an".

o o o

O Imam Al-Nawawi diz que Abu Mas'ud - que Allah esteja satisfeito com ele - narrou
que o Profeta (s.a.w.s) disse: "Quem a noite, recite os últimos dois versículos da
Surat Al-Baqara (II: 285 e 286), lhe será suficiente".

o o o

O Imam Al-Nawawi diz que Abu Hurayrah - que Allah esteja satisfeito com ele - narrou
que o Enviado de Allah (s.a.w.s.) lhe encarregou a custódia das esmolas recolhidas
durante o mês de Ramadan.
Certo dia chegou um intruso e começou a recolher a comida entre as esmolas. Agarrei-o
e lhe disse: "Te farei comparecer diante do Enviado de Allah (s.a.w.s.)."
Mas ele respondeu: "Sou pobre, necessitado e tenho uma família grande!" Assim,
permiti que fosse embora.
No dia seguinte, o Enviado de Allah (s.a.w.s.) me perguntou: "Oh Abu Hurayrah! O
que aconteceu ontem com teu ladrão?"
Respondi: "Oh Enviado de Allah! Queixou-se de ter necessidade e uma família
grande, por isso fui benévolo com ele e permiti que se fosse".
Disse: "Certamente te mentiu, pois voltará novamente".
Então soube que regressaria, porque o Enviado de Allah (s.a.w.s.) assim disse. Por isso
fiquei observando.
Pouco mais tarde, chegou aquele homem e outra vez começou a recolher os alimentos.
E lhe disse: "Te farei comparecer diante do Enviado de Allah (s.a.w.s.)" Mas ele
replicou: "Me deixa! Sou pobre, muito necessitado e com família grande. Porém,
não voltarei a fazer isso". Tive compaixão dele e deixei que fosse embora.
No dia seguinte, o Enviado de Allah (s.a.w.s.) perguntou-me: "Oh Abu Hurayrah! O
que aconteceu ontem com teu prisioneiro?"
Respondi: "Oh Enviado de Allah (s.a.w.s.)! Queixou-se de ter muita necessidade e
uma família grande; assim que tive compaixão dele e deixei que se fosse".
Disse: "Pois te mentiu e voltará novamente".
Fiquei de sobreaviso e quando aquele homem retornou e começou a recolher os
alimentos, o agarrei e lhe disse: "Te farei comparecer diante do Enviado de Allah
(s.a.w.s.), pois esta é a terceira e última vez que dissestes que não pretendias voltar,
e retornastes".
Disse: "Deixa-me ir embora! Que em troca, vou te ensinar certas palavras, com as
quais Allah dar-te-á benefício e misericórdia."
Perguntei-lhe: "E quais são?"
Disse: "Quando fores deitar-se, recita o versículo Al-Kursi (II:255). Deste modo,
permanecerás sob a proteção de Allah, e nenhum demônio poderá aproximar-se de
ti, até o dia seguinte". Assim, o soltei.
No dia seguinte, o Enviado de Allah (s.a.w.s.) me perguntou: "Que aconteceu ontem a
noite com teu prisioneiro?"
Respondi: "Oh Enviado de Allah! Disse que me ensinaria algumas palavras, com as
quais Allah me beneficiaria. Por isso, deixei-o ir embora."
Disse: " E quais eram essas palavras?"
Respondi: "Me disse que quando deitasse, recitasse o versículo Al-Kursi." E
também disse: "Permanecerás sob a proteção de Allah e nenhum demônio poderá
acercar-se de ti até a manhã seguinte".
O Profeta (s.a.w.s.) disse: "Certamente que foi verídico contigo, apesar de ser um
mentiroso. Sabes com quem falastes durante as três últimas noites, Oh Abu
Hurayrah?"
Respondi: "Não!"
Disse: "Era Satanás!"

TRATANDO DE ENCAIXAR REALIDADES ESPIRITUAIS DENTRO DE


CABEÇAS FECHADAS

Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshbandi

Hoje em dia não poderão encontrar duas pessoas cujos corações estejam de acordo. Em
toda nação e dentro de cada comunidade podemos observar uma crescente disputa e
desacordo civil. Isto é porque Allah Todopoderoso está castigando à gente deste tempo
pondo-os livres uns dos outros.
Por causa deste castigo Divino podemos encontrar todas as nações divididas em dois
grupos principais - até a gente judia, que é geralmente conhecida por estar fortemente
unida e enlaçada, está dividida. Atualmente, os muslim também estão divididos: um
grupo se aferra às crenças islâmicas tradicionais, seguindo o caminho de Profetas e
Awlya (os prediletos de Allah), enquanto o outro grupo está tentando negar todo o
poder espiritual, dando explicações aos acontecimentos miraculosos como resultantes de
causas materiais, como se fossem eventos facilmente explicáveis que a razão comum
pode aceitar e a mente entender. Este segundo grupo trata de baixar o sol à terra, e a lua
ao chão: tenta mundanizar os eventos celestiais.
Em lugar de tratar de liberar a mente de suas comuns limitações, para assim alcançar um
reino mais transcendental, esta gente tenta encaixar realidades espirituais dentro de suas
cabeças fechadas. Quando tentem prender as infinitas realidades do Islam dentro de
semelhante cubo, eles obterão algo totalmente em desacordo com a guia celestial
original, já que o Islam é uma religião de origem celestial e não um sistema produzido
pelos processos de pensamento do homem.
Desde o século XIX este grupo tem ganho um apoio mais amplo, já que o nível geral de
fé, piedade e conhecimento dos muslim tem decaído, fazendo-os vulneráveis a falsos
argumentos, e inclusive, mais enamorados que nunca das posses materiais, enquanto
tornam-se menos e menos interessados na essência espiritual do Islam. As pessoas deste
grupo estão secas e são torpes - suas cabeças como rochas - e por causa disto o estado
dos muslim torna-se cada vez mais patético.
O Islam sempre é forte, nunca débil: é como o ouro, que pode passar através dos
séculos, através de milhares de anos sem desgartar-se ou perder seu valor, porém,
inclusive tornando-se mais valioso. Não pensem que esta gente tonta, no seu lastimoso
estado, é a possuidora desse ouro fino, não! Eles estão em bancarrota porque perderam
esse tesouro; mas o tesouro não está realmente perdido, encontra-se nos corações dos
verdadeiros crentes.
"Wa min Allah a
PARA CHEGAR A ALLAH

Baba Farid ud-Din Ganj Shakar (Ordem Chisti)

E logo o homem santo disse: Oh dervishes! Uma vez perguntaram a Qutb-ud-Din


Bakhtyar Ushi (Allah o abençoe!): "Como pode o homem chegar até Allah?"
Esta foi sua resposta: "Se um homem escolheu ser cego, surdo e mudo ao mesmo
tempo, terá chegado a Allah! Mas se quem segue a senda do Amor vai na
companhia destes inimigos (que são o olhar, a palavra e a audição), a porta de Allah
está fechada para ele.
Entretanto, há quatro lugares onde pode ficar para unir o coração a Allah. O
primeiro é um lugar de sua casa onde não seja incomodado. O segundo é a
mesquita, que é a morada do Amigo. O terceiro é um cemitério, onde o homem é
prevenido contra seus pecados. O quarto é o deserto, onde salvo Allah e ele, não há
mais ninguém."
E depois disse:
"Hazrat Qutb ad-Din Bakhtyar (que Allah abençoe a tumba de Seu amigo!),
dizendo isto, rompeu em prantos com cálidas lágrimas, e recitou esta quarteta:
Se O amas, busca a teu Amigo na solidão, vem ao abandono do Amor em busca de
Sua manifestação. Se desejas cada dia a graça de Sua Presença, onde não haja
ninguém é onde deves buscá-Lo."
E disse depois:
"- Oh dervishes! As mulheres são muito melhores que nós. Uma vez por mês fazem
uma ablução que elimina a mancha, enquanto nós, em toda nossa vida, não
fazemos nenhuma ablução que afaste a impureza."

MASNAVI: NOS PRIMEIROS 18 VERSOS, A SÍNTESE DA MENSAGEM DE


RUMI

Dr. Erkan Turkmen

O Masnavi de Mevlana Jalal ud-Din Rumi tem em torno de 25.631 versos, e nenhum
deles foi escrito por ele mesmo. Rumi entrava espontaneamente em transe, enquanto seu
querido amigo Husameddin Chelebi escrevia por ele. Mas esses dezoito primeiros
versos de seu trabalho, ele mesmo escreveu. Cuidadosamente. Portanto, isso é
extremamente importante para revelar sua mensagem, que ele tentou dividir em partes.
Esses versos resumem os seis volumes do Masnavi., e este trabalho inclui comentários
originalmente escritos em Urdú, Turco (Otomano), Persa e Inglês.

a) "Escute a Ney (a flauta) que lamenta e tenta narrar a história do desterro."


b) Ney ou Nay = "a flauta de cana/ junco", era conhecida muito antes de Rumi como um
instrumento, com sua voz de lamentação. O Krishna dos Hindus tocava flauta,
intoxicando pessoas e animais. O poeta Khusrau de Delhi, contemporâneo de Rumi
(cujo pai também se originava da Ásia Central e pertenceu a tribo Turca "Lachin"),
expressou as seguintes linhas:
"Eu choro e lamento como a Ney, pois meus ossos tornaram-se vazios e secos como a
Ney."
Rumi usa a Ney de uma maneira inteiramente metafórica. Ela representa o homem que
foi abandonado e privado da presença de seu Amado= Alláh.
A Ney (pedaço de cana) que foi arrancada de sua origem (a raiz da cana), chora e
lamenta; assim como o corpo de um homem que foi preenchido com o Sopro Divino
(espírito) e está vazio de si mesmo.
Mais adiante diz:

a) "Desde que fui arrancada da minha raíz, meus lamentos tem deixado homens e
mulheres em profundo desespero."
b) "Raíz" (da cana) aqui significa o lugar onde o espírito sagrado do homem habitou. A
cana é alimentada pela doce água de um lago ou córrego, assim como o espírito de um
homem é alimentado pelo Afeto e Perdão Divino. Se a cana é desprovida de água, ela
seca. Igualmente, se um homem é desprovido do Perdão Divino, seu espírito se torna
frágil e desprotegido. Quando um homem é afastado de Alláh, como Adão, a quem lhe
foi dado orifícios - orelhas, boca, olhos, nariz , etc..., como os orifícios da Ney, seu
espírito sente-se enjaulado em seu corpo físico e começa a vibrar da mesma forma que o
sopro na Ney. Portanto qualquer pessoa , seja um homem ou uma mulher, começa a
sentir piedade dela.

a) "Aquele que abandonou sua Origem, procura por uma oportunidade para
retornar."
b) Essa é uma regra geral, de que tudo no universo tende a seguir em direção de sua
Origem. Um homem é impaciente e infeliz quando se sente atraído para o Centro, como
no Al-Qur‟an: " De Alláh você veio, para Ele deverá retornar." Então, não dependa
muito de prazeres temporários deste mundo de modelos e formas, porque eles são como
sinais de trânsito que levam até Alláh. Não se encante pela beleza desses sinais e fique
cravado, imóvel. Tente alcançar o real objetivo, a Proximidade de Alláh, onde a
verdadeira felicidade espera por você; em religião, chamado "Paraíso".
Desafortunadamente, aqueles que se afastaram do Centro, vão incompreender o prazer
da Intimidade Divina. Como pessoas que não são capazes de apreciar os sentimentos
daqueles que sofreram o desterro. Assim, Rumi diz:

a) "Eu quero alguém com peito perfurado (cravado e cheio de dores) como o da
Ney, para que possa contar a ele sobre as (insuportáveis) dores de meus desejos."
b) Uma pessoa que ama Alláh e sente solidão, consegue entender o lamento da Ney,
porque ele também tem um peito perfurado e cheio de dor. De qualquer forma, a Ney
pode clamar a ambos, àqueles que querem apenas se divertir ouvindo os sons dos
prazeres físicos, ou àqueles que libertaram seus espíritos de desejos egoístas. Você pode
aceitar isso de acordo com a capacidade de sua mente. Como Rumi afirma:

a) "Estou desolado com todo tipo de companhia e procuro igualmente, tanto o feliz
quanto o infeliz."
b) Aqui denomina-se feliz aquele que é sensível ao Amor Divino, e infeliz aquele que é
desprovido da Dádiva Divina, do verdadeiro amor, porque ele é prisioneiro de modelos
e formas. Como pessoas que tentam avaliar sua personalidade pela aparência externa.
Eles' dificilmente se preocupam em descobrir sua existência interior.

"De acordo com a capacidade de compreensão de cada um, todos se tornam meus
amigos, e muitos não se importam em compreender meu interior oculto."

a) "Meu segredo não está longe de meus lamentos, mas os olhos e ouvidos físicos
não possuem luz para enxergá- lo."
b) Yunus Emre – um poeta Turco contemporâneo de Rumi expressa o mesmo fato
em duas palavras: "Bir bem vardi bende, benden içeru = Existe um segredo no
meu interior". É este segredo que o homem deve tentar seguir dentro de si mesmo e dos
outros. Quando você é capaz de segui-lo, consegue encontrar a porta principal para a
Origem. Portanto, seu corpo sem asas, como uma gota de orvalho, se transforma em um
peixe feliz, que nadando alcança o Oceano.
Um grupo fanático em torno de Rumi não pôde compreender a mudança experimentada
por ele, depois que conheceu o mestre espiritual Shems-i Tebrizi. Além disso, eles
olhavam com desdém os dervishes que giravam ao som da Ney. Para essas pessoas
Rumi disse:

a) "O sopro dentro da Ney não é puro ar, é o fogo do amor; e aquele que não
carrega esse fogo deixa de existir."
b) Naturalmente, sempre que você descobre a luz interior que conduz em direção ao
Amado, o som da Ney o remete a Ele, e Seu sopro (a gota de Seu Espírito) o deixa
queimando por dentro; ele é a vida real e aquele que nunca provou semelhante vida
deveria morrer (matar sua voracidade egoísta). Talvez assim conseguisse ter a
maravilhosa experiência de vivência espiritual e libertar-se de seu túmulo (o corpo) .
Rumi continua:

a) "Nenhum véu esconde o corpo do espírito, nem o espírito do corpo. E todavia,


homem algum jamais viu um espírito."
b) Muitos falharam ao tentar descobrir o segredo da Ney. O segredo de suas saudades.
Como muitos falharam em sentir seus espíritos que são tão próximos de si mesmo.
Qualquer coisa assim tão próxima do homem é imperceptível, como as lágrimas nos
olhos. Al-Qur‟an diz que Alláh está tão perto de você quanto as suas jugulares. Isso
talvez seja o motivo de nós não conseguirmos vê-Lo claramente.
Como nos seis volumes do Masnavi, a idéia principal dos primeiros dezoito versos é
que o amor a Alláh e suas saudades é o que causam motivação em toda existência.

a) "É o fogo do amor que inspirou a Ney, é a saudade do amor que fez o vinho
fermentar."
b) A fermentação do vinho, a vibração de instrumentos musicais ou a energia dos
animais e plantas, são devido à atração secreta do Amor Divino. Portanto, porque o
homem continua inativo e tolo?

"A Ney é amiga de qualquer um que já se abandonou, suas notas musicais rasgam
nossos véus."
E:

a) "Quem já viu veneno e antídoto como a Ney? Quem já viu consolador e amante
saudoso como a Ney?"
b) A Ney é o antídoto para consolar um amante e induz a doce melodia do Amado
Saudoso; ainda, é o veneno, pois incrementa o sentimento da separação. Como
consolador é um bom amigo, mas quando faz alguém chorar pelo envenenamento de
seu ego e o queima por dentro com o amor de Alláh, isto tem o efeito do ácido no corpo
físico.
Rumi nos relembra que o verdadeiro amante tem que sacrificar seus desejos e egoísmo,
devotando-se ao amor como Majnun o fez por Leyla.

a) "A Ney conta sobre o perigoso e sangrento caminho e está narrando histórias de
Majnun (que sacrificou-se por sua amada Leyla)."
b) Se alguém invoca estar em amor com Alláh, então terá que prová-lo pondo seu ego,
inteligência egoísta e preconceitos de lado, e terá que render-se ao Intelecto Universal
(Sabedoria Divina).
Assim, uma vez entregue com sinceridade ao Amor Divino, o medo da morte ou de
momentos perigosos não o incomodarão jamais.

a) "Ninguém senão aquele que abandonou seus sentimentos carnais pode


compreender a história da Ney. Os seus são os únicos ouvidos que podem receber
o idioma expressado."
b) Assim, tente obter ouvidos espirituais para compreender as palavras da Ney, e deixe
seus próprios julgamentos de lado, pois seus sentidos parciais não são capazes de
entender os Segredos Divinos. Seu intelecto astuto pode ser ilusório.

a) "Em sofrimento nossos dias passaram, e tornaram-se companheiros


caminhantes de nosso pesar."
b) Embora a vida comece a evaporar-se, não se preocupe. Enquanto o Amor esteja com
você, será livre do conceito de tempo e espaço.
Rumi acrescenta :

a) " Se os dias esvaem-se não importa, mas que Oh! O Puro (Amor de Alláh) esteja
conosco."
b) Amor é como dinheiro eterno. Dias e fortunas são transitórios, mas o amor é sua
verdadeira moeda corrente para o outro mundo. Então, porque preocupar-se com o
tempo, se tem o amor de Alláh em suas mãos? Quando a morte chegar, é o amor que
nos irá salvar do medo. Apaixonado por Alláh, o homem se preocupa sim,
espiritualmente; e nenhum infortúnio o incomoda. Ele parece um peixe feliz no mar
Divino. Assim, Rumi continua:

a) "Assim como o peixe é saciado com água, todo aquele que não é provido com
recompensa diária não consegue passar seus dias com felicidade."
b) "Um homem sem recompensa diária" aqui significa quem não tem dinheiro em suas
mãos, isto é, desprovido do Amor Divino. Ele é infeliz e miserável, assim como um
homem sem trabalho ou sem o pão diário. Seu tempo não passará, mas aquele que tem o
Amor de Alláh é como um peixe feliz, cuidado e protegido pelo Oceano.
Muitos falharam ao julgar o estado transcendental de Rumi, que o guiou para a música,
dança e poesia. Esses muçulmanos fanáticos recusavam tudo que não fosse a leitura
superficial do Al-Qur‟an e os Ahadith. Dirigido a eles, Rumi diz:

"Visto que o homem imaturo é incapaz de entender o estado de um homem


maduro (pronto), é melhor encurtar uma estória longa dizendo adeus."

*******

Em certa oportunidade, Mevlana Shaykh Nazim Al-Haqqanî an-Naqshbandi, nosso


mestre, manteve o seguinte diálogo com um jornalista:
Jornalista: "Mevlana Jalal ud-Din Rumi introduziu a prática de giros com
acompanhamento de flauta e tambor. Alguns dizem que isto também era uma
forma de oração."
Shaykh Nazim: "Sim, mas você deve saber que Mevlana Rumi não girava da
maneira como as pessoas o fazem agora. Não. Quando ele e seus dervishes
giravam, deixavam o chão e podiam ser vistos suspensos entre o Céu e a Terra,
girando no ar, como Anjos. Este é o verdadeiro giro daquele que está praticando
tanto com seu corpo quanto com seu coração. Mas aqueles cujos corações não
estão purificados, continuam amarrados à Terra e giram como querem. Quando
Mevlana Rumi deixou o chão, foi um importante sinal de que havia aperfeiçoado a
prática interna. Mas até é bom imitá-lo apenas fisicamente, já que se a pessoa
imita durante tempo suficiente gente tão admirável, finalmente também alcançará
suas estações (espirituais)".

MEDICINA SUFI: É MAIS DIFÍCIL MANTER-SE NO CAMINHO CORRETO


DO QUE SEGURAR FOGO NAS MÃOS
Shaykh Nazim al-Haqqani an-
Naqshbandi
Você será testado

Nosso GrandShaykh (Shaykh 'Abdullah ad-Daghestani) disse que Allah testa Seus
servos e o Profeta testa sua Comunidade e também os Awliya e Shaykhs testam seus
murids. Para todos virá uma prova de um ou de outro. O que é necessário para suportar
estas provas? Nós estamos sendo solicitados a ter paciência com tudo, manter nossa fé
solidamente e não abandoná-la. Eles estão testando nossa fé e podem testarnos de
muitas formas; com medo, fome, morte. Nosso GrandShaykh disse que alguém pode
perguntar: "Allah não sabe quem somos nós? Por que razão Ele está nos testando?"
Sim, Ele sabe, mas a sabedoria do teste é dar-nos as recompensas sem fim por nossa
paciência. De Sua generosidade Ele está dando de 10 a 700 níveis de recompensa,
mesmo quando nós não estamos sendo pacientes. Al-Qur'an diz: "Dê boas novas
àqueles que são pacientes."
A importância de suportar as dificuldades

Nosso GrandShaykh falou sobre as provas: todos os dias elas vem novamente, e o murid
tem que estar pronto e atento a cada momento de prova, para que sua fé possa tornar-se
a verdadeira fé. Todos podem aperfeiçoar sua estação. Aquele que ainda está sob o
domínio de seu ego será testado exatamente por aquilo que seu ego não gosta. De tudo;
da família, amigos, trabalho e vizinhos, pode vir para você o que você não gosta. O
caminho do desenvolvimento é o caminho da paciência. Não há desenvolvimento
rápido. Temos que estar satisfeitos e agradecidos com tudo o que acontece conosco e ao
nosso redor. Este é o sinal de desenvolvimento, suportar as pessoas incomodando-o.
Não é importante voar no céu ou andar no mar ou ser visto em vários lugares ao mesmo
tempo ou sonhar bons sonhos. Importante em nosso caminho é ser paciente, resistindo a
toda onda do demônio, como uma montanha em uma tormenta, não sendo puxado. Isto
é desenvolvimento. Ou como o oceano, não tornando-se sujo pelos rios que nele se
vertem. Pessoas com poderes extraordinários podem voar, mas no fim podem perder sua
fé quando Iblis precipitar-se sobre eles. Nós temos que ser capazes de suportar todo
dano vindo de todos. Nosso GrandShaykh disse que temos que estar acordados para
tudo que vem contra nosso gosto e estar prontos para suportar isto. Esta é a verdadeira
estação da fé. Três vezes ao dia o Shaykh olha para seus murids, mas não com um olhar
para dar-lhes prazer; em vez disso, ele olha para enviar ao murid algo que ele não goste.
Você é paciente ou desiste? Quando você é paciente, seu coração tem satisfação e uma
luz vem de seus olhos e sua fé é reforçada. A cada oportunidade você pode avançar ou
decair. Este tempo é particularmente preenchido com coisas desagradáveis, o mundo
está cheio de demônios e malfeitores. O Profeta (s.a.w.s.) disse que neste tempo, é mais
difícil manter-se no caminho correto do que segurar fogo nas mãos. Allah dá àqueles
que suportam coisas desagradáveis recompensas sem fim. Este é o caminho da fé
verdadeira, como o caminho do Profeta (s.a.w.s.) e dos Awliya, suportar a maldade das
pessoas.
Alhamdulillah!

DO TURBANTE AO VÉU"

(Frithjof Schuon, "Compreender o Islam")

A associação de idéias entre o turbante e o Islam está longe de ser fortuita. "O
turbante", disse o Profeta, "constitui uma fronteira entre a fé e a descrença". Ou
ainda: "A minha comunidade jamais perderá a graça divina enquanto observar o
uso dos turbantes". Costumam também citar-se os seguintes ahâdîth: 1) "No Dia do
Juízo, o homem receberá uma auréola de luz por cada volta de turbante (kawrah)
em torno da cabeça"; 2) "Usai turbante, pois assim crescereis em generosidade".
Aquilo que aqui desejamos salientar é o fato de o turbante ser suposto conferir ao crente
uma espécie de gravidade, de consagração e bem assim de majestosa humildade (No
Islam, é hábito representar os anjos e todos os profetas usando turbantes, por vezes de
cores diferentes consoante o simbolismo adotado). Ele resguarda-o das criaturas
caóticas e dispersas - os "errantes (dâllûn) da Fâtihah" -, fixando-o num eixo divino -
a "via da retidão" (eç-çirât el-mustaqîm) da mesma prece - e destinando-o assim à
contemplação. Numa palavra, o turbante, à semelhança de um peso celeste, opõe-se a
tudo quanto é profano e vão. Como, para nós, é na cabeça - no cérebro - que se situa o
plano da nossa opção entre o verdadeiro e o falso, o durável e o efêmero, o real e o
ilusório, o grave e o útil, é precisamente esta que deverá ostentar a marca dessa opção.
O símbolo material é assim suposto reforçar a consciência espiritual, tal como sucede,
de resto, com todo o toucado religioso ou até mesmo com toda a veste litúrgica ou
meramente tradicional. De certa forma, o turbante como que "envolve" o pensamento,
sempre disposto à dispersão, ao esquecimento e à infidelidade, lembrando um pouco o
aprisionamento sagrado da natureza passional e deífuga (São Vicente de Paula, ao criar
a touca das filhas da Caridade, tinha por intenção impor no tocante a estas uma espécie
de reminiscência do isolamento monástico). A Lei corânica faz-se eco da necessidade
do restabelecimento de um equilíbrio primordial perdido, donde o seguinte hadîth:
"Usai turbantes, distinguir-vos-eis assim dos povos ("desequilibrados") que vos
precederam" (O ódio do turbante, assim como o do "romântico", do "pitoresco", do
"folclórico", explica-se pelo fato de os mundos "românticos" serem precisamente
aqueles onde Deus ainda é verosímil. Quando se pretende abolir o Céu, é lógico
começar por criar uma ambiência que leve a que as coisas espirituais surjam como
corpos estranhos. Para se poder afirmar com sucesso que Deus é irreal, importa erigir
em torno do homem uma falsa realidade, a qual será forçosamente desumana, pois só o
desumano pode excluir Deus. Aquilo que está em causa é falsificar a imaginação, logo,
matá-la. A mentalidade moderna representa o mais prodigioso exemplo de falta de
imaginação que se possa conceber).
Impõem-se ainda aqui algumas breves palavras sobre o uso do véu por parte da mulher
muçulmana. O Islam separa com extrema rigidez o mundo do homem do mundo da
mulher, a coletividade no seu conjunto da família singular, seu núcleo primordial, a rua,
espaço aberto, do lar, espaço fechado, tal como separa com idêntica rigidez a sociedade
do indivíduo e o exoterismo do esoterismo. O lar - à semelhança da mulher que o
encarna - possui um caráter inviolável, logo, sagrado. De certa forma, a mulher encarna
mesmo o próprio esoterismo, designadamente em virtude de certos aspectos da sua
natureza e função. A "verdade esotérica" - a haqîqah - é "sentida" como uma
realidade "feminina", algo que também sucede, aliás com a barakah. De resto, o véu e
a reclusão da mulher relacionam-se com a fase cíclica final que hoje em dia vivemos - e
em que as paixões e a malícia se tornam cada vez mais dominantes -, apresentando uma
certa analogia com a interdição do vinho e a ocultação dos mistérios. "BUSQUE
TORNAR AS COISAS FÁCEIS PARA AS PESSOAS, NÃO DIFÍCEIS"

Shaykh Nazim Al-Haqqani Al-Qubrusi An-Naqshbandi

Allah Todopoderoso conhece e entende melhor do que ninguém a Suas criaturas, os


descendentes de Adão. O Todopoderoso conhece suas capacidades e debilidades, suas
excelências e suas faltas, e Ele espera deles somente de acordo com o que Ele sabe
deles.

Como nosso Senhor decretou que através dos anos deveria tornar-se cada vez mais
difícil para os seres humanos viver de acordo com o que é bom para eles, Allah, seu
Senhor, diminuiu sua expectativa sobre eles. O Todopoderoso sabe muito bem que as
pessoas do último tempo não serão capaz de muita obediência ou devoção a Ele, e
portanto, Ele fez as sucessivas Leis Divinas Reveladas através de Seus Profetas
progressivamente mais fáceis e com menos demandas, culminando na Lei revelada ao
Último e o Selo dos Profetas, Muhammad, que a Paz seja com ele, a tolerante Lei do
Islam.

Ainda durante a vida do Sagrado Profeta, Allah Todopoderoso aliviou as cargas que Ele
mesmo havia imposto sobre os crentes, sabendo que estas práticas seriam demasiado
difíceis para que eles as tolerassem. Por exemplo, o jejum iria começar depois da
refeição da noite, ou desde que uma pessoa fosse dormir à noite, e continuava até o
entardecer seguinte. Então Allah facilitou o jejum para os crentes permitindo-lhes que
participem de uma refeição antes do amanhecer e que jejuem somente desde o primeiro
despontar do amanhecer até o por do sol.

Ainda que a Lei revelada do Islam nunca necessite mudar ao longo da história, por ser a
Lei revelada para as pessoas do Último Tempo - desde o tempo da revelação do Sagrado
al-Qur'an até o fim deste mundo -, o nível de observância que nosso Senhor espera de
nós, e o rigor ou a clemência com a qual julgará nossas ações agora não é o mesmo que
no tempo do Profeta.

Sim, a completa Lei Divina como foi revelada a nosso Profeta se mantem inalterável
como modelo de perfeição, para ser procurado pelos crentes de alto nível e aspiração.
Porém, de acordo com a seguinte Tradição de nosso Profeta está claro que as ações das
pessoas de um tempo tão degenerado como o nosso somente serão julgadas em relação
às condições que tenham que suportar. De acordo com a Tradição, o Sagrado Profeta
dirigiu-se a seus companheiros, dizendo: "Oh meus companheiros, se algum entre de
vocês abandona um mandato divino entre cem, estará em perigo de perder sua fé,
mas chegará um tempo quando qualquer um de minha Nação que mantenha-se
firmemente em um Mandato entre cem, pode esperar salvar-se a si mesmo e à sua
fé".

Devemos entender todas as implicações desta profecia, mas geralmente nossos eruditos
islâmicos lêm tal tradição e nunca detêm-se a refletir sobre ela. Portanto, têm por
costume ser muito rígidos e intolerantes em seu trato com os novos muslimun dos
países ocidentais. Tão logo uma pessoa aceita ser muslim, estes eruditos procedem a
sobrecarregá-los com instruções do nível mais completo de devoção, jejum, etc...
requeridos de um muslim responsável, e a lista completa de ações proibidas... todas
entre as quinhentas ordens e oitocentas proibições!

Qual será a reação desta gente nova, que nem sequer converte-se de outra religião com
práticas e proibições duras, senão geralmente de uma forma de vida completamente
irregular? Se vamos apresentar o Islam de tal forma, eles certamente vão pensar duas
vezes antes de comprometer-se com o Islam, já que não estão preparados para observar
toda a Lei imediatamente. Por isto tantos ocidentais vem a mim e me perguntam se é
possível seguir uma Via Sufi sem abraçar o Islam, porque eles vêm o Islam como uma
montanha gigantesca que ordenar-lhes-á escalar até o pico, imediatamente, sem
treinamento, sem equipamento. Então, naturalmente, eles duvidam.

Devemos ser sábios e conscientes de nossa responsabilidade para com as pessoas cujos
corações inclinam-se para o Islam. Devemos recordar que nosso Senhor é o mesmo que
Aquele que realça Seus Oceanos de Misericórdia sobre todos os outros Atributos de seu
Livro Sagrado, e nós devemos aprender da tolerânica de nosso Senhor para conosco,
para sermos tolerantes com aqueles que queremos estabelecer laços desde o coração,
com aqueles a quem queremos guiar para o Amor de nosso Senhor e tomá-los como
nossos próprios irmãos e irmãs.

Ninguém entre os muslimun pode discutir o fato de que a completa ordem da Lei Divina
foi revelada a nosso Profeta gradualmente ao longo de um período de dez anos em
Medina, e isto somente depois de um período inicial de preparação de treze anos em
Makka, quando especificamente nada foi exigido dos crentes exceto crer em Allah, no
Último Dia, em Seus Profetas, e as boas ações. O Santo Profeta resume a sabedoria
desta abordagem em uma famosa tradição: "Busque tornar as coisas fáceis para as
pessoas, não difíceis. Levem-lhes as boas novas, não os afastes."

Olhe, todos sabemos isto, por exemplo, a aprendizagem de uma criança desde o jardim
de infância até a Universidade compreende muito estudo e esforço da parte do
estudante. Mas não digas a esta criança: "A educação é um longo processo que
compreende a aprendizagem e ainda a memorização de tantos livros, a resolução
de problemas difíceis de matemática e ciências, e fazer muitos deveres em lugar de
brincar." Se alguém pinta tal quadro a uma criança que está começando, tratará de
escapar horrorizada. Mas nós, como adultos, sabemos que na educação o estudante será
preparado por seus mestres para resolver cada problema que lhe seja pedido, que lhe
darão desafios de acordo com seu nível, gradativamente. Não se espera que os de
primeiro grau leiam livros ou resolvam problemas de matemática de quinto grau; aos de
primeiro grau devem dizer: "Venham aqui, eu lhes ensinarei o A B C..." - sim, esta é
sua lição, nada mais. Passo a passo este estudante aprenderá a ler tudo. E assim, no
Islam, nós conduzimos as pessoas passo a passo. É um começo e um fim, mas primeiro
devemos ajudar as pessoas a dar o primeiro passo; se não dão o primeiro passo, nunca
darão os últimos.

Desgraçadamente, o Islam havendo sido revelado e propagado desta forma gradual -


sem dificuldade para o aprendiz - não é compreendido por Muslimun nem por não
Muslimun. Por isto, neste tempo estamos necessitados de uma nova guia, e nós não
antecipamos que virá de nossos eruditos. É o entendimento e a guia que virá através do
coração, de coração a coração; não meramente instruções do que deveríamos fazer ou
não com nossos corpos.

Muslimun e não muslimun indistintamente devem entender este ponto, como uma real
compreensão do Islam é capaz de salvar o mundo inteiro. Porém, se nós insistimos em
nossa falta de compreensão é possível que façamos reverter este movimento para a beira
do desastre.

O Sagrado al-Qur'an dirige-se para toda a humanidade, e nós necessitamos de pessoas


que sejam capaz de entendê-lo. Somente tais pessoas são capazes de ajudar as pessoas
às suas porções do Santo al-Qur'an. O Santo al-Qur'an é uma fonte, uma fonte fluindo
que pode aplacar a sede de bilhões, mas muito poucas pessoas estão seguindo o rio até
sua nascente: todos estão afastando-se longe dela, levados pela correnteza abaixo.
Devemos buscar a origem: é a corrente de vida para toda a humanidade.

"Wa min Allah at-Taufiq"


HADJDJ (PEREGRINAÇÃO): INTERPRETAÇÃO ESPIRITUAL

Nâsir-I Khusraw

Agradecendo Allah Benfeitor pela plenitude de seus favores, os peregrinos retornaram


com todo seu esplendor. Haviam realizado a peregrinação Maior (Hadjdj) e a Menor
('Umrah) e haviam regresado a seus lares sãos e salvos. Entre eles encontrava-se um
amigo íntimo, sincero e de natureza afável.
"Diz", disse-lhe, "como resolvestes os azares daquela perigosa e dolorosa jornada?
Durante o tempo de tua ausência uma incessante preocupação foi minha constante
companheira. Estou contente de saber que realizastes a Peregrinação. Penso que
não existe ninguém como tu neste mundo. Mas, diz agora exatamente como
apresentastes teus respeitos àquele grande santuário. Quando vestias as roupagens
do peregrino (Ahrâm), qual era então tua mais firme resolução? Convertestes em
ilícitos para ti (haram) todos os prazeres, salvo os espirituais e divinos?"
- "Não", disse ele.
Então lhe disse: "Quando dizias "Aqui estou a Teu serviço", com reverência e pleno
conhecimento de seu sentido, ouvistes a Voz de Allah e destes uma resposta como
Moisés o fez?"
- "Não", disse ele.
Então lhe disse: "Quando estavas no cume do monte Arafat e fostes admitido em
Sua audiência, soprou acaso sobre ti a brisa de Ma'arafat (Gnosis) fazendo de ti
um Ârif (conhecedor de Allah) e ao mesmo tempo um estranho para ti mesmo?"
- "Não", disse ele.
Então eu lhe disse: "E quando atiravas pedrinhas contra o diabo, também atirastes
contra o demônio que habita no teu interior? Acaso renunciastes a teus maus
caminhos, a teus vícios e a teus maus hábitos?"
- E disse-me que não.
Então disse-lhe: "Quando sacrificavas o carneiro em benefício dos órfãos e dos
cativos, sentias acaso a presença e a proximidade de Allah e sacrificastes também
teu ser inferior antes que nenhuma outra oferenda?"
- "Não", disse ele.
E então lhe disse: "E quando o pleno significado do sacrifício de Abraham
alumbrou em teu entendimento, entregastes teu ser mais íntimo sincera e
totalmente a Allah?"
- "Não", disse ele.
Então lhe disse: "E quando caminhavas ao redor do Santuário em sagrada
circunvalação, evocavas em tua mente a circunvalação dos Anjos ao redor do trono
de Allah?"
- "Não", disse ele.
E lhe disse: "E quando corrias (sa'i) da colina de Safa à colina de Marwa, como está
prescrito pelos ritos de Peregrinação, sentias acaso o movimento de teu ser, da
pureza (safa) à exaltada virilidade (muruwwah), fazendo-te indiferente ao céu e ao
inferno?"
- "Não", me constestou.
E então lhe disse: "E quando te afastavas do Santuário, acaso não partiu em dois
teu coração na agonia da separação e não tivestes que supultá-lo no lugar santo e
agora te sentes como um osso nú?"
- "Não", disse ele, "porque para bem ou para mal, nunca soube antes o que agora
me explicastes".
"Então - lhe disse - não realizastes a verdadeira peregrinação. Nunca alcançastes o
estado de auto-extinção. Tens ido e visto Makka e regressastes a tua casa e,
entretanto, comprastes com ouro e prata no deserto todas as aflições da viagem. Se
empreendes a Peregrinação mais uma vez, age então como te ensinei, porque os
atos religiosos são nulos e vazios se não vão acompanhados pelos movimentos
correspondentes do coração".

ENSINAMENTOS DOS MESTRES DE SABEDORIA

Profeta Muhammad (saws) (570-632): "Quem conhece a si mesmo, conhece a seu


Senhor".

Abu Bakr as-Siddiq (m. 634): "Oh Alláh! me conheces melhor do que me conheço.
Eu me conheço melhor do que me conhece essa gente que me louva. Faça-me
melhor do que eles pensam de mim. Perdoe estes pecados meus dos quais eles não
tem conhecimento. Não me faças responsável pelo que dizem".

Salman al-Farsi (m. 654): O Profeta Muhammmad (saws) estebeleceu um laço de


irmandade entre Salman al-Farsi e Abu Darda al-Ansari. Salman visitou Abu Darda e
encontrou Umm Darda (sua esposa) vestida com roupa gasta. Perguntou-lhe porque
estava nesse estado, e ela disse: "Teu irmão Abu Darda não está interessado nos
luxos deste mundo". Pouco depois Abu Darda chegou e preparou uma comida para
Salman. Este pediu que comesse com ele, mas Abu Darda respondeu que estava
jejuando. Salman respondeu: "Se não comeres comigo, não comerei". Então Abu
Darda sentou-se para comer com seu amigo. Já de noite e transcorrida uma parte da
mesma, Abu Darda levantou-se (para realizar a oração noturna opcional), mas Salman
lhe disse que seguisse dormindo, e Abu Darda dormiu. Logo depois, Abu Darda tentou
levantar-se novamente, mas Salman lhe disse que continuasse dormindo, e Abu Darda
novamente dormiu. Já nas últimas horas da noite, Salman lhe disse que levantasse e
ambos realizaram a oração. Salman disse a Abu Darda: "Teu Senhor tem direito sobre
ti, tua alma tem direito sobre ti, e tua família tem direito sobre ti". Abu Darda narrrou
esta história ao Profeta Muhammad (saws), e ele respondeu, "Salman disse a verdade".

Qassim ibn Muhammad ibn Abu Bakr (m. 726): Algumas pessoas foram ter com al-
Qassim e lhe entregaram suas doações. Este, após distribuí-las, foi rezar. Enquanto o
fazia, alguns começaram a caluniá-lo. E seu filho os recriminou, "Estão falando por
trás de um homem que entregou suas caridades e não ficou nem com uma moeda
para si mesmo." Rapidamente al-Qassim o repreendeu dizendo, "Não fales! Fique
calado!" Assim, queria ensinar seu filho a não defendê-lo, já que seu único desejo era
comprazer a Alláh. A opinião das pessoas não lhe preocupava.

Imam Ja'far as-Sádiq (702-765): "Nossa causa é um segredo dentro de um segredo,


o segredo de algo que permanece oculto, um segredo que somente outro segredo
pode ensinar; é um segredo sobre um segredo que se mantém de um segredo".

Sultan -l 'Arifin Abu Yazid al-Bistami (800-875): "Durante doze anos fui o ferreiro
de meu ego. Por cinco anos fui o polidor do espelho de meu coração. Durante um
ano olhei meu espelho e vi sobre minha cintura a atadura de minha incredulidade.
Tentei cortá-la. Investí doze anos neste esforço. Depois olhei no espelho e vi que a
atadura estava dentro de meu corpo. Investi cinco anos em cortá-la. Então, estive
um ano contemplando o que tinha feito. Alláh abriu para mim a visão de todas as
criações. As vi todas mortas. Rezei quatro exaltações da oração fúnebre para elas".

Abul Hassan 'Ali ibn Ja'far al Kharqani (m.1033): Certo dia lhe perguntaram quem
era a pessoa apropriada para falar acerca do aniquilamento (Faná) e da subsistência
(Baqá). Ele respondeu: "Esse conhecimento pertence àquele que pende do céu num
fio de seda. E logo chega um tornado e arranca todas as árvores e casas e
montanhas e os joga no oceano até que este transborda. Se o tornado não pode
balançar aquele que pende do fio de seda, então esse é quem tem autoridade para
falar de aniquilamento e de susbsitência".

Abu 'Ali al-Farmadi at-Tusi (m.1084): "Quem vigie as ações das pessoas perderá
seu caminho".

Khwaja Abu Yaqub Yusuf al-Hamadani (1048-1140): "A abertura do dom de


audição espiritual nos amigos de Alláh ( Awliya) é como uma mensagem desde a
Realidade, um capítulo no Livro de Alláh, uma benção do conhecimento do
invisível. É o começo da abertura do coração e a desaparição de seus véus -boas
novas das estações celestiais! É o amanhecer do entendimento dos significados
Divinos. Esta audição é sustento para o espírito e vida para o coração. É a
subsistência do segredo. Alláh se faz a Si Mesmo testemunha das visões de seus
servos escolhidos, e os enfeita com seus Benditos Atos e os decora com Seus
Atributos. De Seus Awliya Ele faz com que um grupo escute através de Seu
Elevado Testemunho. Faz com que outros ouçam através de Sua Única Unicidade.
Faz com que outro grupo escute através de Sua Misericórdia. E faz com que alguns
escutem através de Seu Poder".

Sayyidina Al-Khidr, Abul 'Abbas (as): "E encontraram-se com um dos Nossos
servos (al-Khidr), que havíamos agraciado com Nossa misericórdia e iluminado
com Nossa ciência. E Moisés lhe disse: posso seguir-te para que me ensines a
verdade que te foi revelada? Respondeu-lhe: Tu não serias capaz de ser paciente
para estares comigo. Como poderias ser paciente em relação ao que não
compreendes? Moisés disse: Se Alláh quiser, achar-me-á paciente e não
desobedecerei às tuas ordens. Respondeu-lhe: Então segue-me e não me perguntes
nada, até que eu te faça menção disso. Então, ambos se puseram a andar, até
embarcarem em um barco, que o desconhecido perfurou. Moisés lhe disse:
Perfuraste-o para afogar seus ocupantes? Sem dúvida que cometestes um ato
insólito! Retrucou-lhe: Não te disse que és demasiado impaciente para estares
comigo? Disse-lhe: Desculpa-me por me ter esquecido, mas não me imponhas uma
condição demasiado difícil. E ambos se puseram a andar, até que encontraram um
jovem, o qual (o companheiro de Moisés) matou. Disse-lhe então Moisés: Acabas
de matar um inocente, sem que tenha causado a morte a ninguém! Eis que
cometestes uma ação inusitada. Retrucou-lhe: Não te disse que não poderás ser
paciente comigo? Moisés lhe disse: Se da próxima vez voltar a perguntar algo,
então não permitas que te acompanhe, e me desculpa. E ambos se puseram a
andar, até que chegaram a uma cidade, onde pediram pousada a seus moradores,
os quais se negaram a hospedá-los. Nela, acharam um muro que estava a ponto de
desmoronar e o desconhecido o restaurou. Moisés lhe disse então: Se quisesses,
poderias exigir recompensa por isso. Disse-lhe: Aqui nós nos separamos; porém,
antes inteirar-te-ei da interpretação, porque tu és demasiado impaciente para isso.
Quanto ao barco, pertencia aos pobres pescadores do mar e achamos por bem
avariá-lo, porque atrás dele vinha um rei que se apossava pela força, de todas as
embarcações. Quanto ao jovem, seus pais eram fiéis e temíamos que os induzisse à
transgressão e à incredulidade. Quisemos que o seu Senhor os agraciasse em troca,
com outro mais puro e afetuoso. E quanto ao muro, pertencia a dois jovens órfãos
da cidade, debaixo do qual havia um tesouro seu. Seu pai era virtuoso e teu Senhor
tencionou que alcançassem a puberdade, para que pudessem tirar o seu tesouro.
Isso é do beneplácito de teu Senhor. Não o fiz por minha própria vontade. Eis a
explicação daquilo em relação ao qual não fostes paciente." (al-Qur'an, XVIII, 65-
82)
Na recompilação de Ahadith "Sahih al-Bukhari", tomo IV, pag. 406, é narrado que o
Profeta (saws) disse, "al-Khidr (o Homem Verde) foi chamado assim porque uma vez
sentou-se numa terra branca e desértica, depois do qual tornou-
se exuberantemente verde com vegetação". O importante papel de al-Khidr como
iniciador de Awliya pode ser ilustrado pela importância de seu papel como iniciador de
profetas, particularmente o Profeta Moisés. Al-Khidr preservou e manteve a realidade
da Cadeia Dourada até que o próximo elo na cadeia, Abdu-l Khaliq al-Ghujdawani,
pode assumir sua destinada Estação.

Khwaja 'Abd ul-Khaliq al-Ghudjawani (1100-1179): "Oh meu filho! te encorajo a


adquirir conhecimento e conduta reta e temor a Alláh! Segue os pasos da piedosa
primeira geração muslim. Apega-te à Sunnah do Profeta (saws) e mantenha-te em
companhia dos crentes sinceros. Estuda jurisprudência, as Tradições e o
comentário al-Qur'ánico. Evita os charlatões ignorantes e cumpre as orações
prescritas em congregação. Cuidado com a fama e seu perigo. Fica entre as pessoas
comuns e não procures hierarquia. Não estabeleças amizade com reis e seus filhos
nem com os inovadores. Mantêm silêncio. Não comas excessivamente. Foge das
pessoas como fugirias dos leões. Mantem-te em reclusão. Come o alimento lícito e
deixa as ações duvidosas, exceto na extrema necessidade. Afasta-te do amor a este
mundo, já que pode chegar a fascinar-te. Não rias muito, já que rir muito será a
morte do coração. Não humilhes ninguém. Não louves a ti mesmo. Não discutas
com as pessoas. Não peças nada a ninguém, exceto a Alláh. Não peças ser servido.
Serve a teus shuyukh com teu dinheiro e habilidades. Não critiques suas ações. Que
tuas ações sejam sinceras e que a intenção das mesmas somente seja para Alláh.
Reza a Ele com humildade. Que tuas preocupações sejam a jurisprudência, tua
mesquita tua casa, e teu Amigo teu Senhor". (Carta de Khwaja 'Abd ul-Kháliq, a seu
filho al-Qalb al-Mubarak Shaykh Awliya al-Kabir).

Khwaja 'Arif ar-Riwgarawi (m.1239): "Confia em Alláh até Ele te converter em


teu próprio mestre".

Khwaja Mahmud al-Anjir al-Faghnawi (m.1317): "Dhikr (recordação de Alláh) em


voz alta é para quem deseja purificar sua língua da mentira e da calúnia, libertar
suas ações privadas do que está proibido, limpar seu coração do orgulho e do amor
à fama".

Kwaja 'Azizan 'Ali ar-Ramitani' (m.1321): "Para o principiante é melhor que (o


Dhikr) seja pelos lábios, e para o murid (discípulo) que seja pelo coração. Isto é
porque para que o principiante recorde a Alláh deve fazer enorme esforço, já que
seu coração está distraído e instável é melhor que use os lábios. Mas o murid já
poliu seu coração e este é facilmente afetado pelo Dhikr. Todos os seus órgãos se
convertem em recordadores, e todo o corpo do murid, interna e externamente,
recorda a Alláh a cada momento. O Dhikr de um dia do murid equivale ao Dhikr
de um ano do principiante".

Kwaja Muhammad Baba as-Samasi (m.1354): "O buscador tem que esforçar-se
sempre para manter as Ordens Divinas de Alláh. Deve estar continuamente em
estado de pureza. Primeiro, deve ter um coração puro que não olhe outra coisa que
Alláh,Todopoderoso e Exaltado. Depois, deve manter puro seu interior, aquilo que
nunca é revelado a alguém e que percebe a verdadeira visão. A pureza no peito
consiste na esperança e satifação na sua vontade. A pureza de espírito consiste em
modéstia e reverência. A pureza do estômago de comer somente o alimento
permitido, como também da abstinência. Isto é seguido da pureza do corpo, que é
abandonar o desejo. Isto é seguido da pureza das mãos, que é devoção e esforço.
Depois vem a pureza dos pecados que é o lamento e arrependimento por ações
erradas do passado. Depois disto está a pureza da língua, que consiste no Dhikr e
em pedir perdão. Depois deve purificar-se a si mesmo da negligência e das
fraquezas, desenvolvendo temor ao Além".

Kwaja Sayyid Amir Kulal (m.1370): Quando jovem treinava luta. Praticou todas as
técnicas até converter-se em um dos lutadores mais famosos de seu tempo. Certa vez,
um homem o viu lutando e o seguinte pensamento entrou em seu coração, "Como
uma pessoa que descende do Profeta e profundamente conhecedora da Shariat e o
Tariqat está praticando este esporte? "Imediatamente esse homem caiu em sono e
sonhou que estava no Dia do Juízo Final, e se encontrava com Sayyid Amir. Sentiu que
estava em dificuldade e que se afogava. E o Shaykh Amir Kulal o resgatava da água.
Acordou frente ao shaykh, que lhe disse, "Pudestes observar meu poder na luta e
meu poder na intercessão?".

Khwaja Muhammad Baha'uddin Sha Naqshband (1317-1388): "Ao começo de


minha viagem por este Caminho, conhecí um amante de Alláh que me disse:
"Parece que és dos nossos". E respondí, "Espero que tu sejas dos nossos, e espero ser
teu amigo". Em certa oportunidade perguntou-me, "Como tratas a ti mesmo?".
Disse-lhe, "Se recebo alguma coisa, agradeço a Alláh; caso contrário, fico paciente".
Ele sorriu e contestou, "Isso é fácil. O caminho para ti é atormentar o teu ego e testá-
lo; se não comes durante uma semana, tens que poder impedir que te desobedeça".
Fiquei contente com sua resposta e pedí sua ajuda. Ordenou-me que socorrera aos
necessitados e que motivara o coração dos sofredores. Ordenou-me que mantivera
a humildade, a modéstia e a tolerância. Segui suas órdens e assim passei muitos
dias de minha vida. Depois ordenou-me que cuidara dos animais, que curara suas
doenças, que tratara suas feridas e os ajudara na procura de seus alimentos. Segui
neste caminho até que cheguei a um estado que ao ver um animal na rua, parava
para lhe ceder o passo.
"Ele me ordenou que cuidara dos cães com veracidade e humildade, e que a eles
mesmos pedisse apoio. Me disse, "Como consequência de teu serviço a um deles,
alcançarás enorme felicidade". Aceitei a ordem com a esperança de poder encontrar
o cão. E certo dia em que me achava com um dos animais, senti grande alegria.
Comecei a chorar na sua frente até que ele deitou de costas e alçou suas patinhas
ao céu. Ouví uma voz triste saindo dele. Então, levantei minhas mãos em súplica e
agradeci repetindo "Amin" até ele ficar em silêncio. Nesse momento, abriu-se para
mim uma visão que me levou a um estado onde senti que era parte de cada ser
humano e de cada criação nesta Terra".

Khwaja Ala'udddin Attar (m.1400): "Quando Alláh te faz esquecer tanto o poder
mundano como o Reino Celestial, isto é aniquilamento absoluto. Se te faz esquecer
o aniquilamento absoluto, esta é a essência do aniquilamento absoluto".

Shaykh Yaqub ash-Sharkhi (m.1447): "Há uma frase do Profeta (saws) que diz
que quando Alláh faz de uma pessoa seu amigo, essa amizade tocará os corações de
todos os que estão à sua volta".

Hadrat Khwaja Ubaydullah al-Ahrar (1404-1490): "O Sufismo exige de ti que


carregues o peso dos outros, e que não ponhas o teu sobre nenhuma outra pessoa".

Shaykh Muhammad az-Zahid al-Bukhari (m.1529): "Meu shaykh (Ubaydullah al-


Ahrar) costumava falar sobre espiritualidade e conhecimento secreto. Sempre
dirigia o discurso para mim, e um dia perguntou, "Quando me escutas falar sobre as
Realidades Divinas, isto causa algum conflito com as crenças que recebestes de teus
pais, teus mestres e dos eruditos?" Eu disse, "Não, meu shaykh". Ele respondeu,
"Então és um daqueles com quem podemos falar".

Darwish Muhammad as-Samarqandi (m.1562): Certa vez depois de um encontro,


seu mestre, o Shaykh Muhammad az-Zahid, lhe disse que subisse a uma colina e ali o
aguardasse, que ele iria mais tarde. Darwish Muhammad fez o que lhe fora indicado.
Chegou a hora da oração da tarde, e o Shaykh não chegava. Depois, o tempo da oração
da noite, e seu ego lhe disse, "Teu shaykh não vem. Tens que retornar. Talvez ele
tenha esquecido". Mas seu verdadeiro Ser se fez ouvir, "Oh Darwish Muhammad,
acredita em teu shaykh. Acredita que certamente está a caminho, tal como disse.
Deves aguardar".
Chegou a noite e na colina fazia frio. Passou a noite toda acordado. Por única fonte de
calor tinha seu Dhikr, la illaha ill-Alláh. Amanheceu, e o Shaykh não chegara. Ficou
com fome e começou a procurar o que comer. Achou árvores frutíferas. Comeu e
continuou a esperar seu mestre. O dia passou, e depois o próximo. Novamente entrou
em confronto com seu ego, mas continuava pensando, "Se meu shaykh é um
verdadeiro shaykh, sabe o que está fazendo".
Acabou a semana, e depois o mês. Do shaykh, nada. A única distração era o Dhikr
Alláh, e suas orações diárias sua única atividade. Assim fez até que o poder de seu
Dhikr fez com que os animais se aproximassem e fizessem Dhikr com ele.
Compreendeu que esse poder miraculoso vinha de seu guia.
Arribou o inverno e o shaykh não aparecera.Começou a nevar. Estava extremamente
frio. Não havia alimentos. Cortou a cásca das árvores e se alimentou com a humidade
que havia dentro. Comia raízes e qualquer folha verde que encontrava. Os servos
vinham estar com ele, e ele ordenhava o seu leite. Este foi outro milagre. E assim foi
elevado a níveis espirituais cada vez mais altos. Seu mestre lhe enviou conhecimento
espiritual através destes milagres. Al-Khidr (as) lhe apareceu passando ensinamentos.
Passou um ano, depois outro, logo o terceiro...o shaykh não vinha. Mas ele continuava
pacientemente, "Meu mestre sabe o que faz". Finalizando o sétimo ano, sentiu o
perfume do seu shaykh preenchendo todo o espaço. Correu na direção de onde
emanava, acompanhado dos animais selvagens. Os cabelos cobriam seu corpo. E o
Shaykh Muhammad az-Zahid chegou. Ao vê-lo, imensa alegria brotou em seu coração.
Correu e beijou-lhe a mão enquanto chorava, "As Salaam Alaykum, Oh meu mestre!
Quanto o amo, Oh meu shaykh!". E o guia lhe disse, "O que fazes aqui?". Ele
respondeu, "Oh meu shaykh! Tu dissestes que viesse aqui e te aguardasse, e assim o
fiz". E o mestre contestou, "E se estivesse morto ou esquecesse?". Darwish
Muhammad disse, "Oh meu shaykh, como esquecerias se és representante do
Profeta (saws)"? E obteve como resposta, "E se tivesse acontecido alguma coisa?". O
discípulo disse, "Oh meu shaykh!, se não tivesse aqui permanecido, esperado e
obedecido não terias vindo com autorização do Profeta (saws)". O Shaykh sorriu e
disse, "Vem comigo". E nesse momento verteu em seu coração o segredo da Cadeia
Dourada da Ordem Sufi Naqshbandi. E lhe ordenou que fosse shaykh de seus próprios
discípulos.

Mawlana Muhammad Khwaja Kil Amkanaki as-Samarqandi (m.1599): "O


buscador não deve ficar distraído pelos detalhes da criação. Ele tem que dirigir o
poder do coração para o Um cuja Realidade tudo abarca".

Khwaja Muhammad al-Baqi Billah (1564-1605): "Oh Sayyid! Um gnóstico ('Arif)


de elevado grau costumava dizer, "Ser dervishe é corrigir a imaginação". Em
outras palavras, nada mais que o Real deve permanecer no coração. Certamente
disse bem. Oh Sayyid! Já que o véu não é nada mais que a imaginação, noite e dia
deves passar imaginando a Unicidade" (Do filho do Shaykh al-Baqi, Khwaja Khurd).

Imam Rabbâni Shaykh Ahmad al-Faruqi Sirhindi Mujaddidu-l Alfi-th Thani


(1563-1624): "Na viagem que conduz ao descobrimento das Divinas Realidades, o
buscador passa por diferentes estados (Ahwál, sing. Hal) de conhecimento e
proximidade a seu Senhor.
"Movendo-se para Alláh, é um movimento vertical desde as estações (Makámat,
sing. Makám) inferiores às estações mais elevadas, até que o movimento ultrapassa
o tempo e o espaço e todos os estados se dissolvem naquilo denominado o
necessário conhecimento de Alláh. Isto também chama-se aniquilamento;
"Movendo-se em Alláh, é o estado no qual o buscador move-se desde o estado dos
Nomes e os Atributos, a um estado que nem a palavra nem o signo podem
descrever. Este é o estado de subsistência em Alláh;
"Movendo-se desde Alláh, é o estado desde o qual o buscador volta desde o mundo
celestial ao mundo de causas e efeitos, descendo da mais elevada estação de
conhecimento à mais baixa. Aqui esquece Alláh por Alláh, e conhece a Alláh com
Alláh, e retorna de Alláh a Alláh. Isto chama-se o estado do mais afastado e o mais
próximo;
"Movendo-se nas coisas, é um movimento dentro da criação. Isto envolve conhecer
todos os elementos e estados neste Mundo após me dissolver no aniquilamento.
Aqui o buscador deve alcançar o estado de guia, que é o estado dos profetas e das
pessoas que seguem os passos do Profeta (saws). Traz o Divino Conhecimento no
mundo da criação para estabelecer a guia".

Muhammad Ma'sum bin Ahmad al-Faruqi Sirhindi (1599-1688): "Vejo a mim


mesmo -disse a seu pai, Shaykh Ahmad al-Faruqi Sirhindi-, como uma vida que se
movimenta em cada átomo dos átomos desses universos. E esses universos tomam
luz, assim como a terra toma luz do sol".

Muhammad Sayfuddin (1645-1684): "Aqueles que ouvem a flauta de cana e não


sentem compaixão e emoção estão vazíos. Mas quando nós escutamos algo belo,
ficamos tão emocionados que imediatamente somos transportados à Divina
Presença".

Sayyid Nur Muhammad al-Badawani (1664-1723): "O alimento de uma pessoa


orgulhosa e rica contém escuridão".

Shamsudddin Habib Alláh Jan-i-Janan al-Mazhar (1701-1781): "A Existência é


um Atributo exclusivamente de Alláh. Este mundo é uma sombra de realidades
existindo na Divina Presença. A realidade de todas as possíveis criações resulta da
ação dos Divinos Atributos e Qualidades no vazio. A Real Existência de tudo
manifesta-se na criação física e confirma-se como uma luz na Divina Presença.
"Tudo o que aparece na criação física é somente sombra da luminosa realidade
projetada pelas Divinas Qualidades sobre o vazio da não-existência. O Mundo dos
Divinos Atributos é a origem dos mananciais dos universos criados. Porque toda a
criação física surge de uma combinação de Qualidades Divinas de Alláh e o vazio,
a criação tem duas origens de natureza oposta. Desde a natureza do vazio da não-
existência e o nada surgem as duas qualidades da substância física que na esfera da
ação humana produzem a escuridão, a ignorância e o mal. Dos Atributos Divinos
vem a luz, o conhecimento e o bem. Portanto, o Sufi quando olha a si mesmo vê
tudo o que é bom nele como uma luz do Divino que se reflete sobre ele, porém isso
não é dele. Um exemplo poderia ser um traje fino que se toma emprestado e com o
qual o buscador é belamente enfeitado, mas que realmente não é dele, pelo que não
merece crédito algum. Ao contrário, ele se vê a si mesmo como substância base,
cheio de escuridão e ignorância, com uma natureza pior do que a de um animal.
Com esta percepção dual ele afrouxa seu apego às atrações do ser e apaga a si
mesmo, e se volta arrependido à Fonte Divina de todo bem. Ao se voltar a Ele,
Alláh preenche seu coração de amor e anelo pela Divina Presença. Assim como
Alláh disse na Sagrada Tradição, "Se Meu servo se aproxima de Mim à distância
de um braço, Eu me aproximo dele à distância de uma mão; se vem a Mim
caminhando, Eu vou a ele correndo.""

Shaykh 'Abd Alláh ad-Dahlawi (Sha Ghulam 'Ali) (1745-1825): "Os homens são de
quatro categorias: aqueles que são apenas humanos, já que somente pedem por
este mundo; aqueles que pedem pelo além; os humanos maduros que pedem pelo
além e por Alláh; os humanos especiais que somente pedem por Alláh".

Mawlana Khalid al Baghdadi (1779-1827): Estando na cidade do Profeta (saws),


procurou alguém de singular devoçaõ para dele tomar conselhos. E achou um shaykh "a
quem lhe pedí que me aconselhara, um conselho de um sábio erudito a uma pessoa
ignorante. Me advertiu que ao ingressar em Makka, não censurasse assuntos que
pudessem parecer contrários à Lei Divina, senão que ficasse calado. Cheguei à
Makka e mantive este conselho no coração. Fui à Mesquita Sagrada, na manhã de
sexta-feira. Sentei perto da Kaaba lendo o Dalal al-Khayrat (livro de orações sobre
o Profeta (saws) escrito pelo Imam Sidi Muhammad al-Jazuli), quando vi um homem
de barba negra apoiado numa coluna, me olhando. Veio ao meu coração o
pensamento de que esse homem não demostrava o respeito apropriado para a
Kaaba, mas nada lhe disse. Encarou-me, "Oh ignorante, acaso não sabes que a
honra do coração de um crente é muito mais que o privilégio da Kaaba? Porque
me criticas em teu coração por ficar de costas à Kaaba e com meu rosto para ti?
Acaso não escutastes o conselho de meu shaykh em Madina, dizendo que não
criticasses?". Corri na sua direção, pedí perdão, beijei suas mãos e pés e pedi-lhe
que me guiasse a Alláh".

Shaykh Ismail ash-Shirwani (1787-1840): "Quem escuta palavras sábias e não as


aplica, é um hipócrita".

Khas Muhammad ash-Shirwani (1789-1844): "A Ordem Sufi Naqshbandi está


apoiada em quatro regras de comportamento: Não fales exceto quando te é
pedido; Não comas, a menos que estejas débil de fome; Não durmas, a menos que
te vença a fadiga; Não fiques calado quando estejas em Sua Presença (pede
incessantemente a Alláh)".

Shaykh Muhammad Effendi al-Yaraghi (1777-1848): "A depressão no coração


vem de três enfermidades: perda de harmonia com a natureza; manter costumes
com os quais foi criado e que são contrários ao caminho da Sunnah e manter a
companhia de gente corrupta".

Sayyid Jamalu-d din al-Ghumuqi al-Husayni (1778-1869): "Permanece em teu


coração com Alláh Todopoderoso e Exaltado, e permanece em teu corpo com as
pessoas, porque aquele que se afasta da gente ficará isolado do grupo. Aquele que
se isola do grupo, cairá na ignorância. Aquele que utilize seu segredo para ser
exaltado entre as pessoas cairá em provações e tentações e será velado da Presença
de seu Senhor".
Abu Ahmad as-Sughuri (m.1882): "Sufi é quem deixa para trás o mundo, deixa
para trás o além, deixa para trás a Divina Presença, e se submete somente a Ele".

Abu Muhammad al-Madani (1835-1913): Numa noite 27a. de Ramadan, Lailat ul-
Qadr, Abu Muhammad al-Madani liderava o Dhikr de sua aldeia e de repente disse,
"Todos estão engajados no Dhikr, todos os animais fazem dhikr conosco. As
minhocas estão fazendo dhikr conosco. Os pássaros estão fazendo dhikr. Cada ser
desta aldéia está fazendo dhikr, exceto um animal que está desconectado de seu pai
e está deprimido. Alláh não está feliz, o Profeta (saws) não está feliz, os Awliya não
estão felizes, e tudo isto pela brincadeira de uma criança". Conversou com o dono da
casa onde acontecia o Dhikr, "Va até teu filho e pergunta a ele o que guarda na
caixa". O homem foi até o menino e lhe perguntou, "Que tens dentro da caixa? Que
animal aprisionastes?". Confusa, a criança perguntava , "Que caixa? Somente tenho
uma caixinha onde coloquei uma minhoquinha".
Ao que seu pai lhe pediu, "Pega a minhoquinha e a devolve à terra".

Shaykh Sayyid Sharafuddin ad-Daghestani (1875-1936): "O momento mais feliz


para um ser humano é quando morre, porque ao morrer, seus pecados morrem
com ele".

Sultanu-l Awliya' Mawlana 'Abdu-lláh al-Fa'izi ad-Daghestani (1891-1973): Nosso


Grandeshaykh disse, "Não lhes falo sobre nenhuma Estação (Makâm), manifestação
ou hierarquia (Rutbah) sem ter entrado nessa estação ou hierarquia ou
experimentado essa manifestação. Não sou como tantos outros. Eu não falo
afastando a vista do coração, numerando as estações (Makâmât) sem conhecer sua
Realidade. Não! Primeiramente segui esse caminho e vi o que era. Aprendi essas
Realidades e Segredos que podem se encontrar através dele. Trabalhei por meio
deste caminho até que obtive o Conhecimento da Certeza ('Ilmu'l-Yaqin), o Olho da
Certeza ('Ainu'l-Yaqin) e a Verdade da Certeza (Haqqu'l-Yaqin). Somente assim
lhes falo, dando-lhes uma pequena amostra do que degustei. Até posso fazê-los
chegar a essa Estação sem cansá-los e sem dificuldades".

Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshbandi: "Uma pessoa interessada no caminho


Sufi, no Tariqat, deve ser séria, tão séria quanto lhe seja possível. Porque ser sério
abre qualquer porta dificil, já que uma pessoa assim, será paciente. Se uma pessoa
não é paciente, nunca chega a sua meta. Portanto, depois da primeira condição
para seguir o caminho Sufi ou o Tariqat, - buscar um Shaykh como guia -, a pessoa
deve ser paciente e deve praticar a paciência. Este é o meio mais importante para
que alguém alcance estações celestiais. Sem paciência não conheço ainda pessoa
alguma que haja alcançado elevadas Estações nas posições sagradas. Assim, o
caminho Sufi pede paciência, tanta como seja possível, aos que se interessam por
Tariqat. Esta é a chave para qualquer estação celestial".

Bibliografia, "The Naqshbandi Sufi Way", Shaykh Muhammad Hisham Kabbani,


Kazi Publications, Inc., USA, 1995)

O GRANDE MUFTI QUE LAVAVA LATRINAS


Shaykh Nazim Al-Haqqani Al-Qubrusi An-Naqshbandi

Nosso Grande Mestre sempre falava sobre o conhecimento, mas geralmente os sábios
parecem não aceitar o conhecimento dos Awliya; não aceitam outro conhecimento que
não o livresco, porque eles o conhecem muito bem. Por que, deves perguntar, eles
adquirem (os Awliya) este conhecimento dos livros, ainda que não estejam necessitados
disso, graças aos mananciais de conhecimento que foram abertos em seus corações?
Meu Grande Mestre dizia que a gente da Verdade (ahl-ul-haqiqah) utiliza este
conhecimento dos livros com o propósito de "caçar", para atrair os cultos ao caminho
Sufi; porque eles sabem que a não ser que mostrem conhecimento dos livros, esta gente
culta nunca o seguirá nem se submeterá a eles; porém, se exibem e aprendem o
conhecimento dos livros, estarão aptos para efetivamente, trazê-los ao Caminho.
Aqueles que tem recebido o conhecimento divino são caçadores, e caçadores com uma
milagrosa habilidade para aprisionar presas, pois usando estes poderes podem pegar a
gente culta, inclusive dos mais altos cargos: muftis, Grande muftis e shaykh ul-islam
(o mais alto grau dos eruditos externos), que são tão orgulhosos de seus conhecimentos.
Maulana Khalid al-Baghdadi (morto há cento e cinquenta anos) era um grande Shaykh
do caminho Sufi, e também um conhecedor do conhecimento dos livros. Com a
combinação de suas habilidades ele "agarrou" o shaykh ul-islam que era considerado o
mais eminente erudito de seu tempo. Este mestre do Islam, o grande sábio, deixou sua
posição e todas as honras que conlevava para submeter-se inteiramente e seguir os
ensinamentos de Khalid al-Baghdadi. Quando o grande sábio chegou a Khalid al-
Bagdadi, a primeira coisa que este ordenou-lhe foi que fosse a grande mesquita como
limpador de latrinas. "Esta - lhe foi dito - será sua tarefa".
Os grandes mestres podem ordenar a seus seguidores a realizar tais tarefas para
conseguir que seus egos sejam reduzidos ao nível da humildade; porque os egos,
especialmente os da gente culta, são tão orgulhosos - e o orgulho é somente para Allah,
para ninguém mais. Satã se tornou orgulhoso, e por este orgulho ele foi arrojado ao mais
baixo. O Profeta (saws) disse: "aquele que possui a menor partícula de orgulho não
entrará no paraíso". Assim, posto que o orgulho é um atributo tão perigoso e
inaceitável, a primeira coisa que os grande mestres ensinam a seus seguidores é como
esquivar seu orgulho. O grande sábio é uma pessoa tão culta que seguramente está
muito orgulhoso de seus muitos conhecimentos, e este orgulho não é bom para ele.
Assim, lhe foi ordenado deixar seu status de grande sábio e levar seu trabalho al nível
do serviço humilde. Cada serviço é honrável, exceto aquelas ações que Allah o
Todopoderoso proibiu; assim, ninguém lhes pode dizer, "deveis estar envergonhados
deste trabalho", porque vosso trabalho pode ser humilde ou inferior. Agora, limpar as
latrinas de uma mesquita não está proibido de nenhuma maneira - não é como limpar
banheiros em um bar ou cinema. É o vaso de um lugar sagrado, e não há desgraça em
fazê-lo. Qualquer objeção do grande sábio, quando seu mestre lhe ordenou fazer o
trabalho, teria procedido de seu ego, dizendo-lhe: "este trabalho não é próprio de
alguém como tu; olhe a posição de honra que tinhas em comparação com a que
tens agora - limpando vasos!" Na realidade, não há nada de mal neste trabalho, mas
ele está em desacordo com os desejos do ego. Assim, para opor-se ao ego do discípulo,
o grande mestre ordenou a seu aluno fazer este trabalho, e o aluno contestou:
"realizarei isto como me indicas, não como meu ego dita".
Então o grande mestre começou a limpar latrinas todos os dias e voltou-se
completamente devoto a seu serviço, deixando de lado sua família, amigos e todas as
coisas em prol do dever que seu grande mestre lhe havia ordenado realizar. Um dia, um
colega seu - um homem muito culto - veio a grande mesquita e, vendo o grande sábio
em seu novo trabalho, objetou dizendo: "O que estás fazendo? Em que tipo de lugar
estás trabalhando? Acaso o Profeta, bendito seja, não disse: "A limpeza é parte da
Iman (fé)"; assim, como é que podes realizar um trabalho tão profano? Não está
bem que uma pessoa de teu status realize estas tarefas inferiores, sujando-se no
processo".
Este tipo de gente entende a limpeza somente como de tipo externo, a limpeza das
roupas e do corpo, e nunca consideram a limpeza do coração, que não lhes parece
importante. Estão fazendo-o fácil para si mesmos, porque se estivessem empenhados na
limpeza do coração, teriam que submeter-se a um grande Mestre.
Então o grande sábio contestou sua crítica: "tanto como tu sabes, eu o sei também, e
mais; assim que não trates de fazer-me sentir envergonhado pelo serviço que estou
realizando. Não te estabeleças por cima para julgar-me, e deixe o juízo para o Juiz
dos Juízes; vá pensar em teus próprios assuntos. Quando me julgas, estás tratando
de ser um juiz junto a Allah o Todopoderoso, e por isto, neste momento, um infiel.
Todo o teu conhecimento, se não surge da plenitude da herança do Profeta (saws),
é inútil, e nada, senão um véu que evita que sejas testemunha da Realidade. Oh tu!
de escassas capacidades, eu sabia tudo o que tu sabes, antes de que entrasses na
escola".
Na realidade, foi o grande Mestre quem mandou o visitante a ele para prová-lo - para
ver se permaneceria firme ou não. Pelo que lhe fez este homem, ele pode ver que seu
aluno permanecia firme e não franquejava. Essa noite o grande sábio estava na
mesquita. De repente, o grande Mestre apareceu a seu lado e pegando-o pela mão lhe
ordenou: "feche seus olhos". Ordenou-lhe de novo, "abra teus olhos". Quando fez
como lhe foi ordenado, encontrou-se transportado a Makka - por meio do poder de seu
grande Mestre foi de Bagdá a Makka em uns poucos segundos; e enquanto ele mirava a
seu redor, encontrou-se na presença de cento e vinte e quatro mil profetas e o mesmo
número de Awliya, na Mesquita Sagrada de Makka, reunidos ali para dar testemunho ao
Santo Profeta Muhammad (saws), dando a ordem ao grande Mestre Maulana Khalid em
conceder a seu murid, o Mufti, a estação da Sinceridade - a estação na qual o ego não
pode mais assaltar, na qual ele está firmemente sujeito, e nunca mais caem nas
armadilhas do ego. Aqui poderá receber as chaves do tesouro que lhe foram dadas por
seu Senhor no Dia das Promessas, depois de que tenha sido provado que tem poder
suficiente para cuidar e guardar seus tesouros adequadamente. Nem Satã nem seu ego
podem enganá-lo nesta estação, porque ele está sob a especial Proteção Divina que
protege dos inimigos ocultos, mantendo-os longe dele; e neste momento chegou à
Estação Celestial na Divina Presença, seu objetivo nesta vida, e completou o Desígno
Divino destinado para ele. SOBRE O JUÍZO E O SEXTO PILAR DO IMAN:
QUDRAT ALLAH
Shaykh Nazim Al-Haqqani Al-Qubrusi An-Naqshbandi

Há duas maneiras de entender o Sagrado al-Qur'an: uma com nossas mentes, e a outra
somente com a intuição do coração, e esta sim que é uma fonte de conhecimento
ilimitada. Até agora não temos falado a nível dos corações, senão a nível das mentes,
para que se preparem para compreender mais e mais, de acordo com o que diz o
versículo do al-Qur'an: "E Allah é Expansivo e Conhecedor ilimitado".
O Grande Shaykh dizia que como Allah tem repartido aos filhos de Adão de Suas
infinitas Misericórdias, se Allah o Todopoderoso no dia do Juízo te pergunta: "Que
fizeste com tua vida?" Deves responder: "Oh Senhor meu, Tu me deixaste escolher o
caminho, e nos disseste "Faça o que queiras. Se quiseres crer, creia; e se não
quiseres, não creia, és livre em tuas ações". Quando nos deste o livre arbítrio,
fizemos o que queríamos, o que disseste, fizemos. Agora estamos diante de Ti."
O Grande Shaykh disse que quando Allah Todopoderoso cobrar as ações de todos no
Último Dia, também terá em conta o que Ele mesmo predispos Seus servos a fazer e
lhes permitiu relizar.
Cada um tem um corpo e uma alma dentro de seu corpo. Sem alma, este corpo pertence
a terra, e nenhuma ação surge do corpo sem alma. O corpo pede: "Oh meu Senhor, não
posso fazer nada sem uma alma, quando me mandaste uma alma, então pude
realizar as ações, assim que na realidade é a alma que atua, e não eu". Então a alma
será interrogada sobre suas ações, e dirá: "Oh meu Senhor, sabes que estava no
mundo espiritual adorando-Te sem me opor a Ti jamais, adorando-Te inclusive
antes de vir a este corpo. Como poderia pecar se não sou mais que um produto de
Tuas Luzes Divinas? Como poderia haver pecado ou obscuridade em mim se sou
toda luz?"
O Grande Shaykh explica que esta maravilhosa interação do corpo terrestre e a alma
pura somente pode ser entendida como uma manifestação do Poder Divino (Qudrat
Allah). Para ilustrar este ponto, observemos como ao golpear-se uma pederneira e o
ferro produz-se uma faísca. O fogo está na pederneira ou no ferro? Onde está? Quando
se golpeam, produzem fogo, mas não podes afirmar que esteja escondido nem na
pederneira nem no ferro. O que podes dizer é que o fogo vem do Qudrat Allah. O
mesmo Poder Divino que faz com que a faísca surja ao golpear-se os dois materiais,
também faz com que nossas ações surjam da união do corpo e da alma, como Allah
disse no Sagrado al-Qur'an: "Allah os criou, e a vossas ações". Isto é, criou a vós, e a
vossas ações, e estas ações se manifestam pelo Poder Divino.
O sexto pilar da fé (imán) é crer que Allah predestinou tudo que ocorrerá a este mundo,
tanto o bom quanto o mal. Talvez alguém diga "Se isso fosse verdade, qual seria a
responsabilidade real de minhas ações que faça com que Allah me envie ao
inferno?" A resposta é que Allah dá poder a Sua gente para fazer boas e más ações,
alguns elegem a virtude, outros a maldade. Ele criou o Paraíso e o Inferno, e de acordo
como cada qual atua, verá o resultado de suas ações no Dia do Juízo. Não deveis ter
dúvida sobre a Justiça do Senhor, crendo que Ele mandá-los-á ao Inferno. Sua Justiça é
Justiça Absoluta, e deves saber que as pessoas que perpetram a maldade já estão
sofrendo sob a pesada carga de suas maldades, e deveis agradecer a Allah
Todopoderoso que as estejam carregando, porque senão seriam levadas por vós. Deves
pedir a intercessão por essa gente no Dia do Juízo, e Allah dará autoridade a muita gente
neste dia para interceder por aqueles que levaram as pesadas cargas do pecado.
Abdul Wahhab Ash-Sharani, um egipcio erudito sufi muito famoso, rezava a Allah para
que tivesse misericórdia com as prostitutas, dizendo: " Oh Senhor, o Mais
Misericordioso, estas prostitutas são como um enorme muro, uma grande barreira
que protege o honra das senhoras. Poem-se diante das senhoras respeitáveis,
livrando-as dos homens selvagens. Se não fosse por estas prostitutas, os malvados
também arrasariam com as mulheres honráveis, porém estas mulheres se
oferecem, mantendo-se adiante, para que estes venham a elas, e a honra seja
protegida. Assim que por Teu favor, tenha Misericórida dessas mulheres."
Assim que há muita gente levando pesadas cargas, e devemos ver suas situações com o
olho da sabedoria, ou estaremos no estábulo com os burros.
Se não estás satisfeito no estábulo, deves ascender, acima, acima...
Isto é apenas uma pequena gota dos segredos do Sagrado al-Qur'an, um só Raio de Sol
da Divina Predestinação.

LXXXVII. O LIVRO DA INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS:

(“Sahih al-Bukhari”, tradução árabe-inglês do Dr. Muhammad Muhsin Khán; e inglês-


português de Amal Benato)

(1) Capítulo. O início da Inspiração Divina ao Mensageiro de Allah (saws) foi na


forma de sonhos (corretos).

111. Narra Aisha (as) : O início da Inspiração Divina ao Mensageiro de Allah foi na
forma de sonhos corretos (verdadeiros) durante o sono. Ele nunca teve um sonho que
não fosse tão claro quanto a luz do dia. Ele costumava retirar-se à caverna de Hira onde
adorava (a ALLAH tão somente) continuamente por muitas noites (e
dias). Levava alimento suficiente para a estadia e então retornava à Khadija (sua
esposa) para buscar mais provisões para novo período de estadia, até que de repente, a
Verdade descia sobre ele enquanto estava na caverna de Hira. Neste local, o anjo veio
até ele e pediu-lhe que lesse. O Profeta (saws) respondeu: “eu não sei ler”. (O Profeta
(saws) contou: “o anjo me pegou à força e me pressionou tão forte que eu já não podia
suportar. Então me soltou e novamente me pediu para ler e eu respondi: „ não sei ler” e
ele me pegou de novo e me pressionou por um segundo até que não pude suportar.
Então me soltou novamente mandou que eu lesse, mas novamente eu respondi: „ eu não
sei ler (ou „o que devo ler‟) „. Ele então me pegou pela terceira vez, me pressionou e
me soltou e disse: „leia: em nome de seu Senhor, que criou (tudo o que existe). Criou
o homem de um coágulo (de sangue). Leia e seu Senhor é o mais Generoso e
ensinou àquele (o homem) que não sabia “(96:1-5))”.
Então o Mensageiro de Allah (saws) retornou com a Inspiração, seus músculos do
pescoço contraídos de terror até que encontrou Khadija e disse-lhe: “ Cubra-me! Cubra-
me” e ela o cobriu até que seu medo passasse e então ele disse: “oh, Khadija, o que
tem de errado comigo?” Então ele contou o que havia acontecido e disse: „tenho receio
de que algo possa acontecer comigo”; Khadija disse: “nunca! Que venham os bons
ventos, por Allah; Allah nunca o desgraçaria, pois você mantém bom relacionamento
com seus parentes e companheiros, fala a verdade, ajuda os pobres e destituídos, serve
seus hóspedes generosamente e assiste os aflitos e necessitados “.
Khadija então o acompanhou até Waraqa bin Naufal bin Asad bin Abdul Uzza bin
Qusai (primo dela). Waraqa era filho do seu tio paterno, i.e, o irmão do seu pai, e
durante o período pré-islâmico tornou-se cristão, sabia escrever o árabe e costumava
escrever os Evangelhos em árabe como Allah queria que escrevesse. Ele já era um
homem velho e havia perdido a visão. Khadija disse-lhe: “meu primo, escute a história
de seu sobrinho”. Waraqa perguntou: “Meu sobrinho, o que você viu?” O Profeta
(saws) descreveu o que havia visto. Waraqa disse: “este é o mesmo Namus (isto é, o
anjo Gabriel, guardião dos segredos) que Allah enviou a Moisés. Gostaria de ser mais
jovem e viver até o tempo em que seu povo o mandará embora”. O Mensageiro de
Allah (saws) perguntou: “Eles me mandarão embora?” Waraqa afirmou que sim e
disse: “sempre que um homem veio com algo similar ao que você traz foi tratado com
hostilidade. Se eu viver até o dia em que o expulsarem, eu lhe darei apoio”. Mas alguns
dias depois Waraqa morreu e a Inspiração Divina também cessou e o Profeta
(saws) ficou tão triste que por várias vezes tencionou se atirar dos cumes das altas
montanhas e cada vez que subia ao topo da montanha para se atirar de lá, Gabriel
aparecia diante dele e dizia: “Oh, Muhammad! Você é em verdade o Mensageiro de
Allah” e o seu coração se aquietava e acalmava e ele voltava para casa. E quando a
inspiração demorava em vir ele agia como antes, mas quando atingia o alto da
montanha, Gabriel aparecia e dizia o que havia dito antes.
(Ibn Abbas disse, a respeito do significado disto, que „Ele estava no romper da aurora
(saindo da escuridão) (6:96) e que Al-Asbah significa a luz da lua à noite).

(2) Capítulo. Os sonhos das pessoas honestas (que acreditam com fé) e a
declaração de Allah :

“Allah vai tornar verdadeira a visão de Seu Mensageiro! Com certeza você entrará
em Al-Masjid Al-Haram (Makka) se Allah assim o desejar, a são e salvo, alguns com a
cabeça raspada, alguns com o cabelo curto, sem temer. Ele (Allah) sabia o que você não
sabia e previu uma vitória rápida” (48:27).

112. Narrou Anãs bin Malik (as): “o Mensageiro de Allah (saws) disse que um sonho
bom (o que se torna verdadeiro) de um homem honesto tem 46% de profecia”.

(3) Capítulo. Os sonhos vem de Allah.

113. Narra Abu Qatada: o Profeta (saws) disse: “um sonho verdadeiro vem de Allah, e
um sonho mau, de Satan”.

114. Narrou Abu Said Al-Khudri (as): o Profeta (saws) disse: “se algum de vocês tem
um sonho de que gosta, então este sonho vem de Allah, e deve agradecer a Allah por
ele e contar aos demais; mas se o que vê em sonho é algo diferente, isto é, um sonho
que ele não gosta, este sonho vem de Satan e deve então se refugiar em Allah contra o
mal e não contá-lo a ninguém, para que não o atinja”.

(4) Capítulo. “Um sonho correto, que se torna verdadeiro é 46% de profecia”.

115. Narrou Abu Qatada: o Profeta (saws) disse: "um sonho bom que se torna realidade
vem de Allah, e um sonho mau vem de Satan, então, se alguém tiver um sonho mau,
deve procurar refúgio em Allah contra Satan e deve cuspir para a esquerda, então o
sonho mau não lhe fará mal “.

116. Narrou Ubada bin As-Samit: o Profeta disse (saws): “o sonho bom de um crente
fervoroso é uma parte de 46% da profecia”.

117. Narrou Abu Huraira (as) – o Mensageiro de Allah (saws) disse „o sonho (bom) de
um crente fervoroso é uma parte das 46 partes da profetização;
118. Narrou Abu Saiad Al-Khudri: ouvi o Mensageiro de Allah (saws) dizer: “ um
sonho bom é uma parte das 46 partes da profetização”.

(5) Capítulo. Al-Mubashshirat - boas novas

119. Narrou Abu Huraira (as)- ouvi o Mensageiro de Allah (saws) dizer: „nada resta do
profetismo senão Al-Mubashshirat” e perguntaram-lhe: o que é al-mubashshirat”? E
ele respondeu: “Os sonhos bons que transmitem boas novas”.

(6) Capíulo. A visão de José e a Declaração de Allah :


(Lembre-se) quando José disse a seu pai: “meu pai! Vi 11 estrelas e o sol e a lua; vi que
se prostravam diante de mim”. O pai disse: “filho! Não conte sua visão a seus irmãos,
do contrário eles armariam uma conspiração contra você. Realmente! Satan é um
inimigo declarado do homem. Seu Senhor o escolheu e vai ensinar-lhe a interpretação
dos sonhos e outras coisas e aperfeiçoará Suas dádivas em relação a você e à
descendência de Jacob assim como ele fez com seus pais Abraham e Isaac. Realmente!
Allah é Todo-Conhecedor, Todo-Sabedoria”.
E também a declaração de Allah;
(Disse Ele) “Oh, meu pai! Esta é a interpretação do meu sonho de antes. Meu Senhor o
tornou realidade! Ele foi bom para comigo quando me tirou da prisão e o trouxe aqui
(vocês todos) pelo deserto (vida de beduínos) e mesmo depois de Satan ter semeado a
inimizade entre eu e meus irmãos. Em verdade, meu Senhor entende melhor os
Caminhos de tudo o que Ele planeja fazer. Em verdade, Ele é o Todo-Conhecedor,
Todo-Sabedoria. Meu Senhor! Você me tem outorgado da Soberania e me ensinado
algo da interpretação dos sonhos e outras coisas. Criador dos Céus e da Terra, você é
meu Protetor neste mundo e no mundo do além. Tome minha alma (no momento da
morte) como um dos que se submetem à Sua Vontade (como um muçulmano) e me
coloque junto aos íntegros”. (12:100-101).

(7) Capítulo. O sonho (visão) de Abraham (as) e a Declaração de Allah:


„Quando (seu filho) estava crescido o suficiente para caminhar com ele (Abraham),
disse: “meu filho! Vi, num sonho, que devo oferecer-te em sacrifício. O que você
acha?”. O filho disse: “Meu Pai! Faça de acordo com o que lhe foi ordenado. Pela
Vontade de Allah!Você me encontrará pronto”. Então, quando ambos haviam
submetido suas vontades à Allah e ele o havia deitado e prostrado sua cabeça em
sacrifício, Nós o chamamos: “Abraham! Você já realizou o sonho (visão)! Nós
recompensamos os que praticam boas ações” (37:102-105).

(8) Capítulo. Se várias pessoas têm o mesmo sonho.

120. Narrou Ibn Umar (as) - A algumas pessoas foi mostrada a Noite de Qadr (Laylat
al-Qadr, “Noite do Poder”, “Noite do Decreto”, “Noite do Destino”) como sendo nos
últimos sete dias (do mês de Ramadan). O Profeta (saws) disse: “Busque-a nos últimos
sete dias (de Ramadan)”.

(9) Capítulo. Os sonhos de prisioneiros, mal-feitores e pagãos.


Afirma Allah: “E com ele vieram à prisão dois jovens. Um deles disse: „sonhei que
estava esmagando uvas para fazer vinho‟; e contou o outro: „ sonhei que estava
carregando pão na cabeça e pássaros vinham e comiam dele. Revela-nos a interpretação
desses sonhos, pois sabemos que és um dos bem-feitores‟.
Disse: „ posso revelar-lhes o significado antes mesmo que lhes tragam a alimentação
que lhes é destinada.É uma ciência que meu senhor me ensinou, pois renunciei ao credo
de um poço que não crê em Allah e nega a vida futura. E segui o credo de meus
antepassados Abraham, Isaac e Jacob. Nunca vos foi permitido atribuir associados a
Allah: uma graça que Allah nos concedeu e a todos os homens. Mas a maioria dos
homens não agradecem. Oh, meus companheiros de prisão, o que é preferível: muitos
senhores dispersos ou Allah, o Único e Irresistível? O que adorais além Dele não passa
de nomes que vós e vossos pais inventastes. Allah não lhes outorgou autoridade
alguma. A Decisão pertence a Allah tão somente; foi Ele quem mandou que não
adorásseis senão Ele. Essa é a verdadeira religião. Mas a maioria dos homens não o
sabe.
Oh! meus dois companheiros de prisão! Um de vós servirá vinho a seu senhor; o outro
será sacrificado e os pássaros se alimentarão de sua cabeça. Já está resolvida a questão
sobre a qual me consultastes “.
E disse àquele que esperava que fosse salvo: „Menciona-me a teu Senhor”; mas
Satan o fez esquecer de mencioná-lo a seu Senhor. E assim José permaneceu na prisão
por alguns anos a mais.
O rei (do Egito) disse: „vi, num sonho, sete vacas gordas sendo engolidas por sete
vacas magras, sete espigas verdes e sete espigas secas. Oh notáveis! Interpretai meu
sonho se sabeis interpretar os sonhos!”. Eles responderam:” Amontoado de pesadelos! E
nós não somos versados na interpretação dos sonhos!”. Mas o homem que havia sido
solto, um dos dois que estavam na prisão, recordando-se de José depois de tanto
tempo, disse:” Eu vos revelarei a interpretação, enviai-me.
E disse: Oh, José, conhecedor da verdade, explique-nos o sonho de sete vacas gordas
sendo devoradas por sete vacas magras e de sete espigas de milho verdes e de outras
sete secas? Então poderei retornar àquela gente e eles saberão. José disse: „por sete
anos consecutivos vocês devem semear como de costume e deixar a colheita nas
espigas, exceto o pouco que precisais consumir. Então virão sete anos difíceis (de
escassez) que acabarão com tudo o que tiverdes estocado. Depois disso virá um ano em
que haverá água em abundância e o povo poderá prensar (vinho e óleo) “. E o rei
disse:” tragam-no até mim “. Mas quando o mensageiro voltou, José lhe disse:” retorne
a seu senhor “... (12:36-50)”.

12l. Narrou Abu Huraira (as): O Mensageiro de Allah (saws) disse: “se eu ficasse na
prisão o tempo que José ficou, quando o mensageiro voltasse (1) eu aceitaria seu
chamado (de sair da prisão)”.

(10) Capítulo. Aquele que tenha visto o Profeta (saws) em sonho.

122. Narrou Abu Huraira (as) : ouvi o Profeta (saws) dizer: “Aquele que me ver em
sonho me verá em estado de consciência (2) e Satan não pode assumir a minha forma”.
Abu Abdulalla disse : “Ibn Sirin disse que somente se o Profeta (saws) for visto em sua
forma real”.

123. Narrou Anãs (as) - o Profeta (saws) disse: “Aquele que me ver em sonho, não
tenha dúvidas, viu a mim realmente, porque Satan não pode imitar minha forma e os
sonhos de um crente é uma das 46 partes do profetismo”.

124. Narrou Abu Qatada: O Profeta (saws) disse: “um sonho bom vem de Allah e um
sonho mal vem de Satan. Portanto, se alguém ver, em sonho, algo que não goste, então
cuspa (sem saliva) três vezes à sua esquerda e procure refúgio em Allah contra Satan, e
ele não o atingirá e Satan não pode aparecer em minha forma”.

125. Narrou Abu Qatada: O Profeta (saws) disse: “Quem quer que me tenha visto em
sonho, viu a verdade”.

126. Narrou Abu Said Al-Khudri (as) : o Profeta (saws) disse: “quem quer que tenha
me visto em sonho, então viu a verdade, pois Satan não pode aparecer em minha
forma”.

(11) Capítulo. Sonhos noturnos. Narrado por Samura.

127. Narra Abu Huraira (as) : o Profeta (saws) disse “ Foi me dado as chaves do
discurso eloqüente e vitória com assombro (lançado sobre os corações do inimigo) e
ontem à noite, enquanto eu dormia, as chaves dos tesouros da terra me foram trazidas,
até que fossem colocadas em minha mão” . Abu Huraira disse ainda: O Mensageiro de
Allah (saws) deixou (este mundo) e agora as pessoas estão carregando estes tesouros de
lugar em lugar.

128. Narrou Abdula bin Umar (as): O Mensageiro de Allah (saws) disse: ´ontem à
noite ví a mim mesmo (num sonho) próximo da Kaaba e vi um homem, de tez
avermelhada com cabelos longos chegando abaixo das orelhas, no melhor estilo; ele
havia-se penteado e escorria água de seus cabelos, e ele estava realizando Tawaf em
torno da Kaaba, apoiando-se em dois homens ou nos ombros de dois homens. Eu
perguntei: „quem é este homem?‟; alguém respondeu: “Ele é o Messiah, filho de Maria”
(Jesús (as), filho de Maria). Então vi outro homem com um cabelo peculiarmente
encaracolado, cego do lho direito, que parecia saliente como um grão de uva; eu
perguntei „quem é este? ; alguém respondeu : é o falso messiah, “Ad-Dajjal‟(O
Anticristo)”.

129. Narrou Ibn Abbas (as) sobre um homem que veio até o Mensageiro de Allah
(saws) e disse” „foi-me mostrado em sonho, a noite passada... ” e Ibn Abbas menciona
a narração.

(12) Capítulo. Sonhos diurnos. E Ibn Sirin disse: “os sonhos durante o dia são
similares aos sonhos durante a noite”.

130. Narrou Anãs bin Malik (as) : O Mensageiro de Allah (saws) costumava visitar
Umm Haram bint Milhan e ela era a esposa de Ubada bin As-Samit. Um dia em que o
Profeta (saws) a visitava, ela lhe deu do que comer e começou a procurar piolhos em
sua cabeça (1). Então o Mensageiro de Allah (saws) adormeceu e acordou em seguida
com um sorriso. Umm Haram perguntou: „o que lhe faz sorrir, oh Mensageiro de
Allah?‟ Ele respondeu: „alguns de meus seguidores apareceram diante de mim em meu
sonho, lutando pela causa de Allah, navegando no meio dos oceanos como reis em seus
tronos ou como reis sentados em seus tronos‟. (o narrador Ishaq não estava
completamente certo da expressão correta). Umm Haram disse ainda: „oh, Mensageiro
de Allah! Invoque Allah para que faça de mim um deles”; então o Mensageiro de Allah
(saws) invocou Allah por ela e deitou e adormeceu; Então acordou novamente sorrindo.
Umm Haram disse: „o que lhe faz sorrir, oh Mensageiro de Allah?‟ Ele disse”alguns de
meus seguidores foram apresentados diante de mim lutando pela Causa de Allah”. Ele
disse da mesma forma como havia dito antes. Eu disse: Oh Mensageiro de Allah!
Invoque Allah para que faça de mim um deles‟. Ele disse: “você está entre os
primeiros deles”. Então Umm Haram navegou pelos mares durante toda a vida de
Mu‟awiya bin Abu Sufyan, e ao desembarcar em terra morreu ao cair de sua montaria.

(13) Capítulo. Os sonhos das mulheres.

131. Narrou Khárija bin Zaid bin Thabit: Umm Al-Ala Ansari, mulher de Madina que
prometera fidelidade ao Mensageiro de Allah (saws) me contou: „os muhadjirin
(emigrantes maquenses; são aqueles que abandonaram seus lares em Makka, para darem
assistência ao Profeta (saws), na sua migração para Madina (hijra) estavam acolhidos
entre nós por sorteio.
Assim, Uthman bin Mazún tornou-se um dos nossos . Fizemos com que ele ficasse
vivendo em nossa casa. Ele teve uma doença fatal e quando faleceu, foi-lhe dado um
banho e enrolado em suas roupas. O Mensageiro de Allah (saws) veio e disse
(referindo-se ao corpo):
“Oh, Aba As-Saíb! Que Allah seja misericordioso contigo! E eu testemunho que Allah
te honrou”‟. O Mensageiro de Allah (saws) disse “como você sabe que Allah o
honrou?”. Eu respondi: „permita que meu pai seja sacrificado por você, oh Mensageiro
de Allah! Em quem mais poderia Allah conceder Sua Honra? O Mensageiro de Allah
(saws) disse “assim, por Allah, a morte chegou a ele. Por Allah, desejo-lhe todo o
bem (de Allah). Por Allah, apesar do fato de ser Seu Mensageiro, nem eu mesmo sei o
que Allah reserva para mim (1). Umm Al-Ala disse ainda: „depois disso, eu jamais verei
retidão semelhante em quem quer que seja”.

132. Narrou Az-Zuuhri sobre a narração acima: o Profeta (saws) disse: “não sei o que
Allah fará com ele (Uthman bin Mazun)”. Um Al-Ala disse: „senti muita pena e
adormeci e vi, em sonho, uma fonte para Uthman bin Mazún e contei ao Mensageiro de
Allah (saws) e ele disse: “a fonte simboliza as boas ações dele”.

(14) Capítulo. Um sonho ruim vem de Satan, e se alguém tiver um sonho ruim deve
cuspir por sobre seu ombro esquerdo e procurar refúgio em Allah.

133. Abu Qatada Al Ansari, um dos companheiros do Profeta (saws) e um dos homens
de sua cavalaria, narrou: „Ouvi o Mensageiro de Allah (saws) dizer: um sonho bom vem
de Allah, e um sonho ruim vem de Satan; portanto, se alguém tiver um sonho ruim que
o desgoste, então deve cuspir sobre o ombro esquerdo e procurar refúgio em Allah, de
modo que o sonho não o prejudique”.

(15) Capítulo. O leite (visto em sonhos)

134. Narrou Ibn Umar (as) ouvi o Mensageiro de Allah (saws) dizer: „enquanto estava
dormindo foi-me dado uma tigela cheia de leite (em sonho); eu tomei até me saciar e
então notei sua umidade escorrendo pelas minhas unhas e dei o resto (do leite) para
Umar.” Eles (o povo) perguntaram: „como você interpreta este sonho, oh Profeta de
Allah?” Ele respondeu: „é conhecimento (religioso)”.

(16) Capítulo. Se alguém vê, em sonhos, que escorre leite de seus membros ou unhas.
135. Narrou Abdullah bin Umar (as): O Mensageiro de Allah (saws) disse: “enquanto
eu dormia, foi-me dado uma tigela cheia de leite (em sonho) e tomei dela até me saciar e
notei sua umidade escorrendo pelos meus membros. Então dei o resto (do leite) a Umar
bin Al-Khattab”. As pessoas sentadas perto dele perguntaram “como você interpreta
este sonho, oh Mensageiro de Allah? Ele disse: „é conhecimento (religioso)”.

(17) Capítulo. Ver uma camisa em sonho.

136. Narrou Abu Said Al Khudri (as): O Mensageiro de Allah (saws) disse: “enquanto
dormia, algumas pessoas foram colocadas diante de mim (em sonho). Eles estavam
vestindo camisas, algumas mal cobriam seus dorsos, algumas um pouco mais longas.
Então Umar bin Al-Khattab passou diante de mim usando uma camisa que havia
apanhado do chão, perto dele”. Eles (o povo) perguntaram: Como você interpreta este
sonho, oh Mensageiro de Allah? Ele disse: „a religião “.

(18) Capítulo. O que é dito sobre apanhar uma camisa longa do chão em um sonho.

137. Narrou Abu Said Al-Khudri: ouvi o Mensageiro de Allah (saws) dizer: „enquanto
dormia, vi, em sonho, pessoas sendo colocadas diante de mim, usando camisas, algumas
eram tão curtas que mal cobriam seus dorsos e algumas iam um pouco mais abaixo.
Então Umar bin Al-Khattab foi mostrado diante de mim usando uma camisa que havia
apanhado do chão (perto dele); Eles perguntaram: como você interpreta este sonho, oh
Mensageiro de Allah? Ele disse: “a religião”.

(19) Capítulo. A visão da cor verde em um sonho e a visão de um jardim verde em


sonho.

138. Narrou Qais bin Ubada: eu estava sentado numa reunião com Said bin Malik e Ibn
Umar. Abdullah bin Salam passou em frente deles e disse-lhes: „este homem é do povo
do Paraíso”. Eu disse a Abdullah bin Salam: „eles dizem isto e aquilo”; ele respondeu:
“Subhana Allah! Eles juraram não falar coisas das quais não tivessem conhecimento,
mas eu vi (em sonho) que um poste estava fixado no meio de um jardim verde. No alto
do poste havia um cetro e baixo dele um servo. Pediram-me para escalar o poste. Eu
escalei até alcançar o cetro”. Então, narrei este sonho ao Mensageiro de Allah (saws) e
ele me disse: Äbdullah morrerá enquanto segura um cetro firme e confiável (isto é, o
Islam).

(20) Capítulo. Remover o véu de uma mulher em sonho.

139. Narra Aisha (as) – O Mensageiro de Allah (saws) disse-me: “você me foi
mostrada em sonhos por duas vezes. Eis: um homem estava lhe carregando num pano
de seda e me disse: “ela é sua esposa, portanto, descubra-a‟ e eis que era você. Então, eu
disse a mim mesmo, „se isto vier de Allah, vai acontecer”.

(21) Capítulo. A visão de roupas de seda em um sonho.

140. Narrou Aisha (as) – O Mensageiro de Allah me disse: “você me foi mostrada em
sonhos por duas vezes antes que eu me casasse contigo. Eu vi um anjo carregando você
num pano de seda e eu disse a ele: „ Descubra-a‟ e era você. Eu disse a mim mesmo: se
isto vier de Allah então deve acontecer."
(22) Capítulo. Ver em sonhos, chaves nas próprias mãos.

141. Narrou Abu Huraira (as) „ouvi o Mensageiro de Allah dizer: „fui enviado com
Jawami al-Kalim (isto é, a expressão mais curta com o sentido mais amplo) e fui
espantosamente vitorioso (lançado nos corações do inimigo) e enquanto dormia, as
chaves dos tesouros da terra foram trazidas até mim e colocadas em minha
mão‟. Muhammad disse”Jawami-al-Kalim significa que Allah expressa em uma ou
duas sentenças coisas que costumavam ser escritas em livros revelados antes (da vinda)
do Profeta (saws)"
.
(23) Capítulo. Segurar um cetro ou um anel.

142. Narrou Abdulalah bin Salam: vi num sonho, a mim mesmo num jardim com um
pilar no centro e um cetro no topo deste pilar. Pediram-me que o escalasse. Eu disse:
„não posso‟. Então um servo veio e me ergueu e eu escalei o pilar e peguei o cetro e
acordei ainda segurando-o. Contei o sonho ao Profeta (saws) que disse: „o
jardim simboliza o jardim do Islam, e o cetro é o firme cetro islâmico que indica que
você vai aderir firmemente ao Islam, até você morrer”.

(24) Capítulo. Ver em sonhos, uma vara de tenda debaixo do colchão ou travesseiro.

(25) Capítulo. Ver em sonhos, Al-istabraq (um tipo de seda grossa) e entrar no Paraíso.

143. Narrou Ibn Umar (as) – vi em sonho, um pano de seda em minhas mãos e, em
qualquer direção do Paraíso que eu o boleasse, ele voava e me carregava até lá. Narrei
este sonho a minha irmã Haísa e ela o contou ao Profeta (saws), que lhe disse: “na
verdade, seu irmão é um homem direito”ou „na verdade Abdullah é um homem
direito”.

(26) Capítulo. Ver-se em sonhos, agrilhoado.

144. Narrou Abu Huraira (as): O Mensageiro de Allah (saws) disse: quando o Dia da
Ressureiçao estiver para chegar, os sonhos de um crente dificilmente deixarão de ser
verdadeiros e o sonho de um crente é uma das 46 partes do profetismo e aquilo que
pertence ao profetismo não pode ser falso”. Muhammad bin Sirin disse: “Mas eu disse
isto”. Ele disse “costumava-se dizer que há três tipos de sonhos: a reflexão dos próprios
pensamentos e experiências durante o estado de alerta que são sugeridos por Satan para
amedrontar a quem sonha ou boas novas de Allah. Portanto, se alguém tem um sonho
que não goste, não deve contar aos outros, mas levantar-se e orar”. E complementou:
"Ele (Abu Huraira) odiou ver um Ghul (isto é, um colar de ferro em torno do pescoço)
em sonhos, e as pessoas gostam de ver penas em seus pés (também em sonhos). As
penas nos pés simbolizam a constante aderência à religião” e Abu Abdullah disse:
“ghuls (colares de ferro) são usados somente no pescoço".

(27) Capitulo. Ver em sonhos, uma fonte fluindo.

145. Narrou Kharija bin Zaid bin Thabit: Um Al-Ala al Ansari, mulher que havia feito
o pacto de fidelidade ao Mensageiro de Allah (saws) dissera: “Uthman bin Mazun veio
até nossa parte quando os Ansari desenhavam cotas de moradia a ser distribuída entre os
imigrantes, e ficou doente e nós cuidamos dele até sua morte. Então, nós o
embalsamamos em dois panos. O Mensageiro de Allah (saws) veio até nós e eu disse,
dirigindo-me ao corpo morto: “que a misericórdia de Allah esteja com você, oh Aba As-
Saib! Dou testemunho de que Allah o tem honrado." O Profeta (saws) disse: “como
você sabe disso?‟ Eu respondi: “por Allah, não sei”. E Ele disse: "por ele, já que a
morte veio até ele, desejo-lhe todo bem de Allah. Por Allah, ainda que eu seja o
Mensageiro de Allah, não sei o que acontecerá a mim mesmo (1) nem a você”. Um
Al-Ala disse: "por Allah, nunca mais testemunharei a retidão de quem quer que seja
depois disso”. E complementou: “mais tarde, vi em sonho, uma fonte de água corrente
em direção de Uthman. Então fui até o Mensageiro de Allah (saws) e contei a ele. Ele
disse; “Este é o símbolo das boas ações dele e a recompensa que lhe é dada”.

(28) Capítulo. Retirar água de um poço até que a sede de cada um seja saciada. Abu
Huraira contou isto a respeito do Profeta (saws).

146. Narrou Ibn Umar (as): O Mensageiro de Allah (saws) disse: „vi em sonho, que
enquanto eu estava de pé diante de um poço tirando água, Abu Bakr e Umar vieram até
mim. Abu Bakr pegou o balde e tirou um ou dois baldes cheio de água, mas puxava com
muita fraqueza, que Allah o perdoe. Então Ibn Al-Khattab pegou a balde das mãos de
Abu Bakr, que, em suas mãos, se transformou numa balde enorme. Nunca havia visto
nenhum homem forte fazendo um trabalho tão difícil quanto Umar fez, até que todo o
povo tivesse bebido o suficiente, dado de beber aos seus camelos e eles se sentaram
junto à água”.

(29) Capítulo. Colher com fraqueza, um ou dois baldes de água.

147. Narrou o pai de Salim sobre o sonho do Profeta (saws) no qual ele via Abu Bakr e
Umar : O Profeta (saws) disse: “vi em sonho que o povo estava reunido, então Abu
Bakr levantou-se e puxou um ou dois baldes de água de um poço, mas havia grande
fraqueza em sua retirada, que Allah o perdoe. Então Ibn Al-Khattab levantou-se e o
balde tornou-se imenso e eu nunca havia visto nenhum homem forte, dentre o povo,
fazendo trabalho tão difícil. Ele retirou tanta água que o povo todo bebeu até saciar-se e
deram de beber aos seus camelos até que matassem a sede e sentaram-se ao lado da
água”.

148. Narrou Abu Huraira (as): O Mensageiro de Allah (saws) disse: enquanto eu
dormia, vi a mim mesmo diante de um poço sobre o qual havia um balde. Tirei dele
tantos baldes de água quanto Allah o permitiu e então Ibn Abi Quhafa (Abu Bakr)
pegou o balde de mim e puxou mais um ou dois baldes cheios de água, mas com muita
fraqueza, que Allah o perdoe. Então o balde tornou-se imenso e Umar bin Al-Khattab o
tomou. Eu nunca havia visto um homem forte, dentre o povo, tirar água com tanta
força quanto Umar o fez, até que o povo se saciasse, desse de beber aos camelos, e se
sentasse perto da água.

(30) Capítulo. Descansar em sonho.

149. Narrou Abu Huraira (as): O Mensageiro de Allah (saws) disse: „enquanto eu
dormia, vi a mim mesmo de pé junto a um poço, dando de beber ao povo. Então Abu
Bakr veio até mim e pegou o balde para me aliviar, e tirou um ou dois baldes cheios de
água, mas o fazia com fraqueza, que Allah o perdoe. Então, Ibn Al-Khattab puxou o
balde dele e continuou a tirar água até que o povo partiu saciado, enquanto o poço
transbordava de água “.

(31). Capítulo. Ver um palácio em sonhos.

150. Narrou Abu Huraira (as) - nós estávamos sentados com o Mensageiro de Allah
(saws) quando ele disse: “enquanto dormia, vi a mim mesmo no Paraíso; de repente vi
uma mulher fazendo abluções ao lado de um palácio. Eu perguntei” “para quem é este
palácio?”. Eles (os anjos) responderam: „é para Umar bin Al-Khattab”. Então eu
lembrei da honra de Umar e saí correndo rapidamente”. Ouvindo isto, Umar começou a
chorar e disse: „que minha mãe e meu pai sejam sacrificados por você, oh Mensageiro
de Allah! Como eu poderia pensar de minha honra sendo ofendida por você?"

151. Narrou Jabir bin Abdullah (as) – O Mensageiro de Allah disse: vi em sonho, que
entrei no Paraíso e eis que havia um palácio feito de ouro! Eu perguntei: „para quem é
este palácio?”e eles (os anjos) responderam: „para um homem de Quraish”. E o Profeta
(saws) continuou: „oh, Ibn Al-Khattab! Nada me impediria de entrar (no palácio),
exceto sua Ghira”. Umar disse: como você pode pensar que minha honra seria
ofendida por você, oh Mensageiro de Allah?

(32) Capítulo. Fazer abluções em sonho.

152. Narrou Abu Hurraira (as) - estávamos sentados com o Mensageiro de Allah (saws)
e ele disse: “enquanto dormia, vi a mim mesmo no Paraíso e eis que uma mulher fazia
abluções ao lado de um palácio. Eu perguntei: para quem é este palácio? Eles
responderam: para Umar. Então eu me lembrei da honra de Umar e voltei
imediatamente. Umar, ouvindo isto, chorou e disse: „permita que meu pai e minha mãe
sejam sacrificados por você, Oh Mensageiro de Allah! Como eu poderia pensar que
você ofenderia minha honra.

(33) Capítulo. A realização de Tawaf ao redor da Kaaba em sonhos.

153. Narrou Abdullah bin Umar (as) ; O Mensageiro de Allah (saws) disse: „enquanto
eu dormia, vi a mim mesmo realizando o Tawaf da Caaba. E eis que vi um homem de
pele clara e cabelos lisos sendo sustentado por dois homens e com água escorrendo de
seus cabelos. Eu perguntei: quem é ele? O povo respondeu: é Jesus, filho de Maria;
então eu voltei minha face para o lado e vi outro homem, de compleição avermelhada,
grande de corpo, cabelos encaracolados e cego do olho direito, que mais parecia uma
uva saliente. E perguntei: quem é ele? Eles responderam: é Ad-Dajjal. Ibn Qatan se
parece com êle mais que qualquer outra pessoa e Ibn Qatan era um homem de Bani
Mustaliq, de Khuzaa‟.

154. Narrou Abdullha bin Umar (as) – ouvi o Mensageiro de Allah (saws)
dizer: „enquanto eu dormia, uma caneca de leite me foi trazida e eu tomei até me saciar
e notei sua umidade fluindo em meu corpo. Então dei o restante para Umar. Eles
perguntaram “Oh, Mensageiro de Allah! Como você interpreta este sonho? Ele disse: é
conhecimento (religioso) (ver hadith no.134)”.

(35) Capítulo. O sentimento de segurança e o desaparecimento do medo em um sonho.


155. Narrou Ibn Umar (as) – Os homens companheiros do Mensageiro de Allah (saws)
costumavam ver sonhos durante o período de vida do Mensageiro de Allah (saws) e
costumavam contar estes sonhos ao Mensageiro de Allah (saws). O Mensageiro de
Allah (saws) os interpretava conforme o desejo de Allah. Eu era ainda jovem e
costumava ficar na mesquita antes do meu casamento. Eu disse a mim mesmo: se
houver algum bem em mim eu também verei o que estas pessoas vêem. Então ia dormir
e uma noite eu disse: oh, Allah, se você ver algum bem em mim, mostre-me um sonho
bom. Então, enquanto eu estava naquele estado, dois anjos vieram a mim (em
sonho). Cada um deles tinha nas mãos uma clava de ferro e ambos estavam me levando
ao Inferno, e eu estava entre eles, invocando Allah: Oh Allah, procuro refúgio em ti
contra o inferno‟. Então eu me vi sendo confrontado por outro anjo segurando uma
clava de ferro em sua mão. Ele me disse: „não tenha medo, você será um homem
excelente se apenas rezar um pouco mais freqüentemente. Então eles me levaram e
pararam na beira do Inferno e eis que este era construído como o interior de um poço,
com postes nas laterais, com aqueles de um poço e ao lado de cada poste havia um anjo
segurando uma clava de ferro. Vi que haviam muitas pessoas penduradas de cabeça para
baixo com cadeias de ferro e entre eles reconheci alguns homens de Quraish. Então os
anjos me levaram ao lado direito. Narrei este sonho à minha irmã que contou ao
Mensageiro de Allah (saws). O Mensageiro de Allah (saws) falou: „sem dúvidas,
Abdullah é um bom homem “, disse Nafi e desde então Abdullah começou a orar mais”.

(36). Capítulo. Ser levado ao lado direito em sonho.

156. Narrou Ibn Umar (as): eu era um joven solteiro durante o tempo de vida do Profeta
(saws); eu costumava dormir na Mesquita. Todos que tivessem um sonho narravam ao
Profeta (saws). Eu disse: Oh Allah, se tenho algum mérito diante de Ti, mostre-me um
sonho, de modo que o Mensageiro de Allah o possa interpretar para mim. Então eu
dormi e vi em sonho dois anjos que vieram até mim, me levaram com eles e
encontramos outro anjo que me falou: não tenha medo, você é um bom homem. E eles
me levaram através do fogo e eis que o inferno era construído como um poço e ali vi
algumas pessoas que eu conhecia e então os anjos me levaram para o lado direito. Pela
manhã, mencionei o sonho a Hafsa. Hafsa contou ao Profeta (saws) e ele disse:
“Abdullah é um homem direito; ele bem poderia rezar mais à noite”. (As-Zuhri disse:
depois disso Abdullah passou a orar mais à noite).

(37) Capítulo. Ver uma tigela (copo) em sonho

157. Narrou Abdullah bin Umar (as): ouvi o Mensageiro de Allah (saws) dizer:
“enquanto dormia, vi alguém me trazer um copo cheio de leite; tomei e dei o restante
a Umar bin Al-Khattab”. Eles perguntaram: como você interpreta este sonho, oh
Mensageiro de Allah?
O Profeta (saws) respondeu: „é conhecimento religioso “.

(38) Capítulo. Se algo voa em sonho.

158. Narrou Abdullah bin Abbas (as) : O Mensageiro de Allah (saws) disse: “enquanto
dormia vi dois braceletes dourados serem colocados em meus dois braços; eu me
assustei e não gostei disso, mas me foi dada permissão para soprá-los e eles voaram
para longe. Eu interpreto isto como um símbolo de dois mentirosos que vão
aparecer”. Ubaidullah disse: “um deles era Al-Ansi que foi morto por Fairuz no
Yemem e o outro era Musailama (em Najd)”.

(39) Capítulo. Se alguém ver uma vaca (em sonhos) sendo ordenhada.

159. Narrou Abu Musa: O Profeta (saws) disse: „vi em sonhos, que eu estava migrando
de Makka para uma terra onde havia palmeiras. Pensei que talvez pudesse ser Al-
Yamama ou Hajar, mas olhando bem vi que era Yathrib (isto é, Medina). E vi algumas
vacas sendo ordenhadas aí, mas a recompensa de Allah é melhor (que benefícios
humanos). Aquelas duas vacas provaram ser o símbolo dos crentes que foram mortos na
batalha de Uhud e o bem (que vi no sonho) era o bem, a recompensa e a verdade que
Allah nos concedeu depois da batalha de Uhud, que foi a vitória concedida por Allah
na Batalha de Khaibar e a conquista de Makka.

(40) Capítulo. Soprar (sobre alguma coisa) num sonho

160. Narrou Abu Huraira (as) . O Mensageiro de Allah (saws) disse: “Nós, os
muçulmanos, fomos os últimos a surgir, mas seremos os primeiros a aparecer no Dia da
Ressurreição”. O Mensageiro de Allah disse ainda: „enquanto dormia vi os tesouros
do mundo e dois grandes braceletes dourados serem colocados em minhas mãos, mas eu
me senti muito incomodado e aqueles braceletes me incomodaram tanto que fui
inspirado a soprá-los e eles voaram para longe. Então interpretei que estes dois
braceletes eram os mentirosos que estavam comigo (isto é, Sana e o outro de Yamama).

(41) Capítulo. Se alguém ver em sonho que pega algo de um lugar e coloca em outro.

161. Narrou Addullah (as): O Profeta (saws) disse: „vi em sonhos, uma mulher
negra com cabelos soltos saindo de Medina e estabelecendo-se em Maha‟ia, isto é, Al-
Juhfa. Interpretei como um símbolo da epidemia de Medina sendo transferida para
aquele lugar (i.é, Al-Juhfa).

(42) Capítulo. Ver uma mulher negra em sonhos.

162. Narrou Abdullah bin Umar (as) a respeito do sonho do Profeta (saws) em
Medina: O Profeta (saws) disse: Vi em sonhos, uma mulher negra com cabelos soltos
saindo de Medina e estabelecendo-se em Maha‟ia . Interpretei como símbolo da
epidemia de Medina sendo transferida para Maha‟ia, isto é, Al-Juhfa”.

(43) Capítulo. Ver em sonhos, uma senhora com cabelos soltos.

163. Narrou o pai de Salim: O Profeta (saws) disse: „vi em sonhos, uma mulher com
cabelos soltos saindo de Medina e estabelecendo-se em Mahai‟a. Interpretei como um
símbolo da epidemia de Medina sendo transferida para Mahai‟a, chamada Al-Juhfa”.

(44) Capítulo. Se alguém, em sonho, empunha uma espada.

164. Narrou Abu Musa: O Profeta (saws) disse: Vi em sonhos, que eu empunhava uma
espada e ela quebrou-se no meio, e percebi que simbolizava os danos sofridos pelos
crentes no dia da batalha de Uhud. Então empunhei a espada novamente e tornou-se
ainda melhor do que era antes e isto simbolizou a Conquista de Makka que Allah nos
trouxe e a reunião dos crentes”.

(45) Capítulo. Quem quer que minta ao narrar um sonho que não teve.

165. Narrou Ibn Abbas (as) – O Profeta (saws) disse: „aquele que disser ter visto um
sonho que não teve será ordenado a amarrar um nó entre dois grãos de cevada, o que
não conseguirá fazer. E se alguém ouvir a conversa de pessoas que não gostariam que
esta conversa fosse ouvida, então chumbo derretido será derramado nos seus ouvidos no
Dia da Ressurreição. E quem fizer uma figura será punido no Dia da Ressurreição e será
ordenado a colocar uma alma naquela figura, o que não será capaz de fazer “.

166. Narrou Ibn Abbas conforme o já narrado acima (165).

167. Narrou Ibn Umar (as) : O Apóstolo de Allah (saws) disse: „a pior mentira é
aquela que a pessoa diz ter visto um sonho que na verdade não viu”.

(46) Capítulo. Se alguém tiver um sonho ruim do qual não goste, não deve contar a
ninguém, nem mencioná-lo.

168. Narrou Abu Salama: eu costumava ter um sonho que me deixava doente, até que
ouvi Abu Qataba dizer: „eu também costumava ter um sonho que me deixava doente até
que ouvi o Profeta (saws) dizer: um sonho bom vem de Allah, portanto, se alguém tiver
um sonho do qual goste, não deve contar a ninguém, exceto a seus entes queridos; e se
alguém tiver um sonho do qual não goste, então deve procurar refúgio em Allah,
porque o mal vem de Satan, e cuspir três vezes sobre o ombro esquerdo e não contar o
sonho a ninguém, para que não possa lhe fazer mal “.

169. Narrou Abu Saiad Al-Khudri: ouvi o Mensageiro de Allah (saws) dizer: „se
alguém tiver um sonho do qual goste, este sonho vem de Allah, então deve agradecer a
Allah por isto e contar aos demais; mas se for alguma outra coisa, isto é, um sonho do
qual não goste, então vem de Satan e deve-se procurar refúgio em Allah e não contar a
ninguém, para que nada de mal lhe “aconteça”.

(47) Capítulo. Quem quer que considere a interpretação do primeiro intérprete de um


sonho como não sendo válida se ele não interpretá-lo corretamente.

170. Narrou Ibn Abbas (as) – um homem veio até o Mensageiro de Allah (saws) e disse:
„vi em sonho a sombra de uma nuvem, manteiga e mel escorriam dela e vi o povo
juntando as mãos para recolhê-los, uns muito, outros pouco. E olhando melhor, havia
um manto estendido da terra ao céu, e vi que o Profeta (saws) o segurava e subiu, então
outro homem o segurou e também subiu, e depois dele outro homem o segurou e subiu,
e ainda um terceiro e um quarto homem, mas então o manto rompeu-se e não foi
restaurado novamente. Abu Bakr disse: Oh Mensageiro de Allah, deixe-me interpretar
este sonho para você.‟ O Mensageiro de Allah (saws) disse: “Interprete!”. Abu Bakr
disse: A nuvem com a sombra simboliza o Islam e a manteiga e o mel simbolizam Al-
Qur‟an, sua doçura, e algumas pessoas aprendendo muito e outras menos. O manto
estendido entre o céu e a terra é a Verdade que você (o Profeta (saws) ) segue. Você a
segue e Allah o eleva mais e mais alto, e então outro homem a segue e será elevado e
assim como os outros, mas o manto será rompido e será restaurado por aquele que se
elevar junto com ele. Oh Mensageiro de Allah! Permita que meu pai seja sacrificado por
você! Estou certo ou errado?”O Profeta (saws) respondeu: você está certo em algumas
coisas e errado em outras”. Abu Bakr disse: “Oh, Profeta de Allah! Por Allah! Você
deve me dizer em que eu estou errado”. O Profeta (saws) disse: “não jure”.

(48) Capítulo. A interpretação dos sonhos depois da oração Fajr.

171. Narrou Samura bin Jundub (as): O Mensageiro de Allah (saws) frequentemente
perguntava a seus companheiros: „Algum de vocês teve um sonho?„ Então os sonhos
eram a ele narrados por aqueles a quem Alláh desejava que os contassem. Uma manhã o
Profeta (saws) disse: a noite passada duas pessoas vieram até mim, em sonho me
acordaram e disseram „ vamos!‟ Eu saí com eles e encontramos um homem deitado e
havia outro homem de pé sobre sua cabeça, segurando uma pedra enorme. Ele estava
atirando a pedra na cabeça do homem, ferindo-o. A pedra escorregou e o atirador
conseguiu trazê-la de volta. Quando voltou ao homem, a cabeça deste havia voltado ao
normal. O atirador então fez a mesma coisa novamente. Eu disse a meus dois
companheiros: „Subhan Allah! Quem são estas pessoas?" Eles disseram: "vamos!‟.
Então partimos e chegamos a um homem deitado de costas e outro que estava de pé
sobre sua cabeça com um gancho de ferro e ele ia colocar aquele gancho na boca do
homem e arrancar um dos lados de sua face até o pescoço e, da mesma forma, arrancar
do nariz até a nuca e dos olhos até a nuca. Então ele voltou-se para o outro lado da face
do homem e fez a mesma coisa. Quando ele quase havia terminado, o lado que havia
sido ferido anteriormente voltou ao normal. Então ele começou a fazer tudo de volta. Eu
perguntei a meus dois companheiros: „Subhan Allah! Quem são estas pessoas?” Eles
disseram: “vamos!‟. Então seguimos adiante e encontramos com algo parecido com um
Tannur (uma espécie de forno para assar pão). Acho que então o Profeta (saws) disse:
naquele forno haviam muitas vozes e ruídos‟. O Profeta disse ainda: olhamos para
dentro do forno e vimos homens e mulheres nus e uma chama de fogo os alcançava e
eles choravam alto. Eu lhes perguntei: „quem são eles?“; Eles disseram:
„Vamos!Vamos!‟. E seguimos adiante e encontramos com um homem de aparência a
mais repulsiva possível que vocês jamais tenham visto. Ao lado dele havia fogo que ele
alimentava e se espalhava ao redor. Eu perguntei a meus companheiros: „quem é este?‟
Eles disseram: „Vamos! Vamos!‟; então prosseguimos e chegamos num jardim com
uma vegetação densa com todo tipo de cores da primavera. No meio do jardim havia um
homem alto, tão alto que eu não conseguia ver seu rosto e em torno dele havia crianças,
tantas como eu nunca havia visto antes. Eu disse a meus companheiros: „quem é
este?‟ Eles responderam: „Vamos! Vamos!‟. Então prosseguimos e chegamos
num imenso e majestoso jardim, muito maior e melhor que qualquer outro que tenha
visto! Meus dois companheiros me disseram: „suba!‟ Então subimos até que chegamos
a uma cidade feita de tijolos de ouro e prata e fomos ao seu portão e pedimos ao
guardião que abrisse o portão. O portão foi aberto e entramos na cidade e vimos homens
com um dos lados do corpo tão belo como jamais havia visto e o outro lado do corpo o
mais feio quanto a pessoa mais feia que vocês já viram. Meus companheiros ordenaram
a estes homens que se atirassem no rio. Havia um rio que corria pelo meio da cidade e
suas águas eram brancas como o leite. Os homens atiraram-se no rio e retornaram assim
que a parte feia de seus corpos havia desaparecido e estavam então em sua melhor
forma “. O Profeta (saws) então disse: „meus dois companheiros (anjos) me
disseram: este lugar é o Éden, Paraíso, e aquele é o seu lugar‟; eu olhei para cima e vi
um palácio como uma nuvem branca! Meus dois companheiros disseram: „este palácio é
seu!‟. Eu respondi: „que Allah os abençoe! Permitam-me entrar”. Eles responderam: „
por ora você não pode entrar no palácio, mas um dia, quem sabe?‟ Eu lhes respondi:
„esta noite vi muitas maravilhas. O que significa tudo o que vi?‟ Eles responderam: „
vamos lhe contar: o primeiro homem que estava sendo ferido com uma pedra é o
símbolo do homem que estuda Al-Qur‟an, mas nunca o recita nem age de acordo com
ele e dorme, negligenciando as orações. O outro homem com os lados da face, o nariz e
os olhos sendo arrancados é o símbolo do homem que sai de casa pela manhã e espalha
mentiras pelo mundo. Os homens e mulheres nus que você viu dentro de uma
construção semelhante a um forno de assar pão são os adúlteros e as adulteras; o homem
que você viu nadando no rio, ao qual foi dada uma pedra para que engolisse, é o que se
alimenta da usura (riba) e o homem feio com fogo ao redor de si é Malik o guardião do
inferno, e o homem alto no meio do jardim é Abraham e as crianças ao seu redor são
aqueles que morreram com Al-Fitra (A Fé Islâmica) “. O narrador falou ainda: alguns
muçulmanos perguntaram ao Profeta (saws): „o que acontece com as crianças dos
pagãos?‟ O Profeta (saws) respondeu: „as crianças dos pagãos também‟; e o Profeta
(saws) falou ainda: „meus dois companheiros disseram: os homens metade belos metade
feios são aquelas pessoas que misturam uma atitude boa com uma negativa, mas Allah
os perdoou‟”.

OH FILHO! (AYYUHA' L WALAD)

Imam Abu Hamid al-Ghazzali (1058-1111)

INTRODUÇÃO

Bismillah ar-Rahman ar-Rahym

Na etapa final de sua vida, o iraniano de Tus, Abu Hamid Muhammad al Ghazzali
(1058-1111) escreveu Ayyuha 'l-Walad. As poucas páginas desta obra encerram -na
plenitude espiritual do autor-, a síntese do seu pensamento: a obra, 'amal, é superior à
ciência, 'ilm.

Pouco importa quem foi o discípulo que consultando-o estimulou ao mestre a que
produzisse estas linhas tão importantes para o trabalho daqueles que se encaminham na
senda (taríqat) do Tasawwuf (Sufismo). Nada de abstrações, são ferramentas para uso
constante do murid (discípulo); para o dia-a-dia.

Aquele buscador da Verdade inquerira al-Ghazzali -com quem aprendera e servira-


sobre quais das ciências que estudara lhe seriam de proveito no sucessivo e lhe dariam
satisfação no mundo futuro; para escolher umas, e abandonar outras, conforme o hadith
do Profeta Muhammad (saws): "Oh Senhor ! Em Ti busco amparo contra a ciência
inútil".
O discípulo pedia direção e conselhos, e uma oração em forma de súplica (Du'a) (ver
no final do texto) para avançar corretamente. E o Ayyuha'l Walad foi a resposta do
Imám Ghazzali.

Em Nome de Alláh, Clementíssimo, Misericordiosíssimo!

Louvado seja Alláh, Senhor dos Mundos! Aos piedosos, a recompensa! Benção e
paz a Muhammad e a toda sua família!

Oh filho e caro amigo! Que Alláh te outorgue longa vida em seu serviço e
encaminha-te pela senda de seus Amigos!

I. Deves saber que as exortações correntes todas emanam da mina da Missão


Profética que é al-Qur'an e a pauta dada pelo Profeta (saws). Se chegaram a teu
conhecimento, que necessidade tens de meus conselhos? E se não, me diz: o que
aprendestes durante todos estes anos passados?

Filho: Uma das admoestações que deu o Profeta (saws) a seu povo reza assim: "Sinal
de que se afastou Alláh de seu servidor é que este se ocupe no que não lhe
importa". Efetivamente, quem deixa passar somente uma hora da sua vida ocupado em
algo distinto ao serviço de Alláh para o que foi criado, merece que se lhe prolongue o
pesadelo no Dia do Juízo. Porém, se ultrapassou os quarenta sem que suas boas obras
pesem mais que as más, já pode se preparar ao fogo eterno. Com esta admoestação o
discreto tem bastante.

Filho: Dar conselho custa pouco; o que custa é recebê-los (e praticá-los).


Efetivamente, amargam ao paladar de quem se deixa arrastar por seus apetites, já que as
coisas que se lhe proibem são precisamente as que mimam seu coração. Isto que aplica-
se fundamentalmente a quem se dedica exclusivamente à ciência especulativa formal,
preocupado com as excelências de seu próprio espírito e com os homens mundanos.
Este acredita que a ciência simplesmente lhe propiciará a libertação e a salvação
(eterna), sem se lhe dar nada pelas obras. Tal é a atitude dos filósofos. Louvado seja
Alláh! Não sabe esse ingênuo que se não age de acordo com a ciência que haja
adquirido, essa mesma ciência será o argumento mais contundente contra ele no Dia do
Juízo, conforme disse o Profeta (saws): "Mais duramente será castigado no Dia do
Juízo a quem não lhe dera proveito a sua ciência diante de Alláh". É narrado que
apareceu al-Djunaid (Abu 'l-Qasim; célebre Sufi de Baghdád; fez a peregrinação à
Kaaba trinta vezes, sozinho e foi a pé. O chamavam Ta'ús ul-'Ulamá, "o pavão dos
sábios", e foi o maior representante da denominada escola Sufi "sóbria"; morreu em
910) depois da morte e como lhe perguntaram que tal tinha ido, contestou: "Acabaram-
se as frases sutís e as sugestões engenhosas (da teologia mística); o único de proveito
foram as prostrações que fiz durante minhas vigílias noturnas".

Filho: Não desdenhes as boas obras nem fiques vazio de graças espirituais. Entende
bem que somente a ciência não alongará a mão (para te salvar). Um exemplo
esclarecerá: Supõe que um homem valente e aguerrido, armado com dez espadas
indianas e outros apetrechos, se vê atacado no deserto por um leão descomunal. Que te
parece? O salvarão em tal situação as armas, se não as maneja e as esgrime? Pois tal é o
caso de quem haja lido e tenha aprendido cem mil questõs científicas, se depois não age
de acordo: não aproveitará mais que a prática. Outro exemplo: Um homem com febre e
amarelado, cujo remédio é o oxymel (bebida composta de água, vinagre e mel) e o chá
de cevada; claro que não curará senão o bebe, como disse o poeta:

Embora te sirvam mil odres de vinho


Não estarás ébrio enquanto não o bebas.

(Filho: A ciência é a árvore e as obras seu fruto). Apesar de teres lido a ciência
durante cem anos e reunido mil livros, somente com as obras te prepararás para solicitar
a misericórdia do Altíssimo. (Diz o Senhor): "Não tem o homem senão o que
trabalha" (L, 39 ou 32), e "quem deseje encontrar ao Senhor, pratique as boas
obras" e terá "uma recompensa conforme ao que tenha merecido" (XVIII, 10), pois
"os crentes que praticarem o bem, terão por abrigo os jardins do Paraíso, Onde
morarão eternamente e não ansiarão por mudar de sorte" (XVIII, 107-108).
(Acabarão mal) "Salvo aqueles que se arrependerem , crerem e particarem o bem"
(XIX, 60).

Assim reza também o seguinte hadith: "O edifício do Islam descansa em cinco
pilares, a saber, testemunhar que não há outro deus senão Alláh e que Muhammad
(saws) é seu Enviado (Shahada); a oração canônica (Salat); a esmola de preceito
(Zakat); o jejum (Sawmi) durante o mês de Ramadan e a peregrinação à casa de
Alláh (Hadjdj), para quem tem possibilidade".

(E este outro): "A fé (Imán) consiste em confessar de palavra, em afirmar com o


coração e cumprir com os preceitos (do Islam)".

Incontáveis são os argumentos em favor das obras. E embora seja verdade que o
servo de Alláh obtém o Paraíso por graça e favor divinos, não é menos certo que se
pressupõe certa preparação mediante a observância da Lei (Sharíat) e o serviço de
Alláh, porque a misericórdia divina está sempre próxima dos que agem corretamente. E
se alguém refuta que o Paraíso é alcançado apenas com fé, contestaremos-lhe: Sim, é
verdade; mas, quando se chega? quantas e que empinadas encostas não teremos que
escalar antes de chegar ao Paraíso! E antes de tudo, precisamente a da fé. Efetivamente,
quem está seguro contra a apostasia? E ainda quando chegássemos ao Paraíso somente
com a fé, quem afirma que não se sentirá defraudado? Disse Hasan de Basra (Nasceu
em Medina em 642, este que é tido como um dos maiores Awliya dos primórdios do
Islam; morreu em 728) : "No Dia do Juízo dirá o Senhor aos seus servos: "Entrem
servidores meus ao Paraíso pela minha misericórdia e participem dele conforme
vossas obras."

Filho: Enquanto não trabalhes não terás salário. Conta-se que um homem filho de
Israel, servira a Alláh durante setenta anos. Querendo Alláh dar-lhe a conhecer aos
anjos, enviou um deles com o recado de que a pesar de todo seu serviço, não era digno
de entrar no Paraíso. Quando isto escutou o servo de Alláh, respondeu: "Para servir
Alláh fomos criados e por isso devemos serví-lo." Quando o anjo regressou, disse: "Ó
Alláh! Vós sabeis melhor que ninguém o que vosso servo disse." Contestando o
Senhor: "Já que ele não se afastou de nosso serviço, tampouco nos afastaremos dele
em misericórdia. Sejam testemunhas, anjos meus, de que lhe são perdoados seus
pecados."
Diz o Enviado de Alláh (saws): "Peçam conta a vocês mesmos antes que lhes
sejam pedidas e pesem vossas ações antes que lhes sejam pesadas no Dia do Juízo."
Dizia 'Ali ibn Abu Talib (as): "Quem pense chegar ao Paraíso sem se esforçar, esse
homem é apenas de desejos, e quem pense chegar pelas suas próprias forças,
presume de si mesmo, sem contar com a graça divina." E Hassan de Basra: "Aspirar
ao Paraíso sem as boas obras é um dos tantos pecados." E também: "Sinal de estar
no justo é afastar os olhos das próprias obras, porém sem descuidar as obras."
Dizia o Enviado de Alláh (saws): "Sensato é aquele que age com a mira posta no que
lhe aguarda depois da morte; nécio, aquele que se deixa levar pelas paixões
confiando no perdão de Alláh."

Filho: Quantas noites passastes em claro, empenhando-te no estudo da ciência, lendo


livros e privando-te do sono! Não sei o que te inclinou àquilo. Se tua intenção era ser
uma pessoa renombrada no (este) mundo, fazer acúmulo de suas vaidades ou alcançar
altos cargos rivalizando em prestígio com teus iguais e semelhantes, ai de ti! ai de ti
mais uma e outra vez! Mas se o que pretendias era fazer reviver na tua alma a Lei do
Profeta, reformar teus costumes e ter controlados teus maus institntos, então mil e mil
bem-aventuranças! Com razão disse o poeta:

"A vigília dos olhos, abertos para ver a outro que ti, é
perdida,
E as lágrimas derramadas pela ausência de quem não és tu,
são vãs."

Filho: Vive quanto queiras, que ao final morrerás; ama o que queiras, que acharás teu
merecido.

Filho: O que ganhas com estudar Teologia, as Controvérsias, a Medicina, a Poesia e


as coleções poéticas, a Astronomia, a Métrica, a Sintaxe e a Morfologia? O que ganhas
senão perder a vida ocupado no que desagrada ao Altíssimo? Recordo ter lido no
Evangelho estas palavras de Issa (Jesus, as): "Desde o instante em que se coloca ao
morto no ataúde até que o colocam a beira do sepulcro, exige-lhe sua Divina
Majestade severas contas, fazendo-lhe quarenta perguntas, a primeira das quais é
esta: Servo meu! Muitos anos procuraste parecer bom aos olhos dos homes e nem
sequer uma hora reservaste de parecer bom aos meus. Diariamente olhava eu teu
coração e te dizia: "O que não fazes por (agradar) aos outros, estando como estás
envolvido nos meus favores? Mas estavas surdo e não ouvias."

Filho: A ciência sem a prática é loucura, e a prática sem a ciência (isto é,


rotineiramente, cegamente) é nula. Sabe que a ciência que hoje não te afaste dos
pecados nem te induza à observação dos preceitos não te liberará do fogo do Inferno no
dia de amanhã. Pois, se o dia de hoje não obras o bem, resgatando assim o tempo
perdido nos dias passados, dirás amanhã, no Dia do Juízo: "Faze Senhor, que voltemos
ao mundo e obremos o bem", e te será respondido: "Nécio, pois não vens agora de
alí? (XXXII, 12).

Filho: Ponha na mente o ideal, a concupiscência fora de combate e no corpo a


mortificação, pois tua moradia será o sepulcro e os habitantes dos cemitérios te
esperam, aguardando que a cada instante vás reunir-te com eles. Lembra bem de
apresentar-te alí sem provisões para a viagem. Abu Bakr as-Siddiq (as) (O primeiro
khalifa, após o Profeta Muhammad (sws)) dizia: "Estes corpos são como gaiolas de
pássaros ou como estábulos de bestas." Pensa, pois, a qual dessas categorias
pertences; se às aves das alturas, quando ouças o som dos atabaques: "Retorna a teu
Senhor!" (LXXXIX, 27-30), elevarás o vôo até pousar nas mais altas torres do Paraíso.
Sobre isto disse o Enviado de Alláh (saws): " Estremeceu o trono do Misericordioso
quando da morte de Saad ibn Muadh (morreu em consequência das feridas que
sofreu no braço -uma flecha lhe cortou uma veia- na batalha do "Fosso", em Medina,
contra os agressores mekkanos, no ano V da Hégira)". Mas se te contas entre as bestas,
que Alláh te socorra!, que já disse o Senhor: "São como as bestas, quiçá pior" (VII,
179), e não esperes liberar-te de passar do rincão de tua casa aos cimos do fogo eterno.
Conta-se de Hassan de Basra, que um dia lhe deram um copo de água fresca e que ao
tomá-lo com a mão desmaiou e o copo caiu. Quando acordou lhe perguntaram: "O que
foi isso, Abu Saíd?", e contestou: "Lembrei dos que estão no Inferno, de como se
dirigem aos bem-aventurados do Paraíso suplicando-lhes: "Nos dem um pouco de
água ou disso com que Alláh os agraciou".

Filho: Se a ciência te fosse suficiente, sem ter necessidade das boas obras, seria coisa
perdida e sem proveito o sermão divino no Dia do Juízo: "Há alguém que tenha
rogado? Há alguém que haja pedido perdão de seus pecados? Há alguém que
tenha se arrependido?" Narra-se que certo dia um grupo de Companheiros do Profeta
(saws) mencionou na sua presença a Abdullah ibn Umar (filho de Umar ibn al-Khattab
(as), o segundo dos quatro Khalifas Bem Guiados, e a ele se remontam numerosos
Ahadith), e que o Profeta disse: "Que pérola de homem, se fizesse oração pela
noite!". Outra vez disse a um de seus Companheiros: "Fulano, não durmas demais na
noite, pois dormir muito deixa pobre ao dorminte para o Dia do Juízo."
(Sabyli al-Haqq)

Filho: As palavras do al-Qur'an (XVII, 79) "E pratica, durante a noite, orações
voluntárias", são uma ordem formal; e estas outras: "E, ao amanhecer, imploravam o
perdão de suas faltas" (LI, 18) são uma louvação que Alláh lhes tributa, e estas: "E nas
horas de vigília imploram o perdão a Alláh", uma menção honorífica. Dizia o Profeta
(saws): "Três vozes são gratas a Alláh, o canto do galo, a voz de quem salmodia al-
Qur'an e a dos que imploram perdão na madrugada". Sufyan ibn Sa'íd Thawrí
(Naceu em 715 na cidade de Kufa, e morreu em 778, em Basra. Criador de uma escola
de jurisprudência, exímio conhecedor das Tradições, é considerado pela vida simples
que levou um dos Amigos de Alláh, Waly) dizia: "Alláh criou um vento que sopra ao
amanhecer levando à presença do Rei soberano as plegárias e pedidos de perdão".
E também, "Quando às primeiras horas da noite ecoa um pregão de baixo do trono
divino: " Não levantarão os devotos?", levantam-se estes e ficam em oração quanto
agrade ao Senhor; depois se escuta outro pregão à meia-noite: "Não se levantarão os
piedosos adoradores?", e levantam estes e se põem em oração até a madrugada;
quando está amanhecendo volta a ouvir-se: "Não se levantarão os penitentes?", e se
levantam estes para pedir perdão; e, finalmente, já amanhecido, novamente um pregão:
"Não se levantarão os negligentes?", e se levantam de seus leitos como ressuscitarão
os mortos dos sepulcros."

Filho: Entre as recomendações do sábio Luqman (XXXI) a seu filho, há a seguinte:


"Meu filho, não seja o galo mais espevitado que tu, já que ele canta de madrugada
enquanto ainda dormes". E certamente, que bem o diz o poeta!
"Geme na noite escura uma pomba
Pousada numa rama, enquanto durmo.
Pela casa de Alláh! Mentira disse:
Se namorado fosse, as pombas
Não adiantariam-se a mim; e ainda pretendo
Estar fora de mim de amor divino:
Não choro eu e os animais choram!"

Filho: A substância da ciência está em saber o que é a obediência e o que é serviço


divino. Saiba, pois, que a obediência e o serviço divino resumem-se aos preceitos e
proibições da Lei de Alláh, de palavra e de obra. Quero dizer que em tudo o que digas,
faças ou omitas, tomes por norma a Lei; por exemplo, se jejuas o dia de festa (Aid al-
Fitr, a festa que é realizada no fim do jejum do Ramadan), ou nos dias do Tashríq (11,
12 e 13 do mês islâmico Dhu'l-Hijjah; esses dias formam parte da Aidal-Adha,
quando se sacrificam os animais ao final da Peregrinação à Ka'aba), delinques; o mesmo
se fizeres oração com roupa roubada, pecarás aparentando devoção.

Filho: É mister que tuas palavras e ações estejam de acordo com a Lei, pois a ciência,
o mesmo que a prática, que não vá regulada pela Lei, é um extravio. Não convém que te
deixes seduzir pelas locuções e frases peregrinas dos Sufis, pois este caminho espiritual
é percorrido mediante a luta, a abnegação das paixões da alma e a mortificação da
concupiscência com a espada da disciplina ascética, não com extravagâncias nem fúteis
lorotas. Sabe que uma língua desatada e um coração endurecido, repleto de indolência e
de paixões, são indícios de malícia; se, pois, não mortificas os apetites com sincero
combate espiritual, não vivificarão teu coração os raios da ma'rifa(t) (gnóse) ou
conhecimento (iluminativo) interior.

Compreende que a algumas das perguntas que me diriges não se pode dar resposta
adequada de palavra nem escrito, senão que as compreenderás quando te encontres em
certa estação de vida espiritual (makam). Sem ela, é absurdo querer compreendê-las,
pois são coisas que se relacionam com o gosto (al-dhawq); agora bem, o que se refere
ao gosto é inútil querer descrevê-lo com palavras, como o doce e o amargo, que não se
percebe senão saboreando-os. A este respeito conta-se que um impotente escreveu a um
amigo seu: "Explica-me o deleite carnal", ao que este respondeu: "Fulano, até agora
te sabia somente impotente, agora penso que também és estúpido; tal deleite é
coisa do gosto, assim que se o experimentas o compreenderás, e se não, é inútil
querer explicar-te oralmente ou por escrito."

Filho: algumas de tuas perguntas são deste estilo. Enquanto as outras, que podem ser
respondidas, as tratei na minha obra "Vivificação das Ciências da Religião" (Ihyâ'
'ulum ad-din), e em outras; por agora me limitarei a breves indicações e sugestões.
Quatro coisas se necessitam para andar pelo caminho espiritual:
Primeira: Uma crença ortodoxa, sem mistura de novidades ou heresias.
Segunda: Sincero arrependimento, evitando reincidir no pecado.
Terceira: Dar satifação a teus contendentes, de maneira que nada possam já te
reclamar com direito.
Quarta: Aprender da Lei religiosa o indispensável para cumprir os preceitos divinos,
e dos outros conhecimentos o necessário para a salvação. Conta-se que ash-Shiblî (Abu
Bakr (Dulaf) ibn Giahdar; 861-945) esteve ao serviço de quatrocentos mestres de
espírito e que dizia: "Depois de ter lido quatro mil ahadith, escolhi um deles e o
coloquei em prática deixando de lado todos os outros, pois, meditando, ví que nele
se cifrava minha saúde e minha libertação; efetivamente, a ciência toda dos
antigos, nele se resumía. Aquí ele: Disse o Profeta (saws) a um de seus
companheiros: "Consagra-te ao daquí conforme o tempo que viverás neste mundo,
e ao do além em proporção com a vida futura; obra para Alláh de acordo a
necessidade que d'Ele tens, e obra para o Inferno conforme a capacidade que
tenhas para suportá-lo."

Filho: Se sabes na prática este hadith, não terás necessidade de muita ciência. Medita
também nestes outros exemplos. Hátim al-Asamm (grande mestre Sufi que se fingia de
surdo; m.851) era dos discípulos de Sakîk al-Balhî (m.aproximadamente 815). E um dia
este lhe perguntou: "O que sacaste dos trinta anos que viveste na minha
companhía?" Respondendo Hátim: "Aprendí oito coisas úteis e não desejo mais
ciência, pois delas espero minha saúde e minha libertação". Sakîk lhe disse: "Quais
são?" E Hátim: "A primeira é que considerando as pessoas, ví que cada um tem seu
amigo e querido, em quem põe seu coração; dos amigos, uns o acompanham até
sua última enfermidade, outros até a beira da tumba; depois retornam deixando-o
sozinho e abandonado sem que nenhum deles entre com ele no sepulcro. Então
pensei e pensei e disse: E amigo mais fino será quem entre na tumba conosco e faça
boa companhía; e achei que tais são unicamente as boas obras. Assim, pois, resolví
tomá-las por amigos para que sirvam de lanterna no sepulcro, me façam boa
companhia e não me deixem sozinho e desamparado.

"A segunda coisa de proveito que aprendi é que vendo as pessoas irem atrás de
suas paixões e se esforçarem para dar pasto a sua concupiscência, considerei as
palavras do Senhor (LXXIX, 40-41): "Quem tiver temido o comparecimento ante o
seu Senhor e se tiver refreado em relação à luxúria, Terá o Paraíso por abrigo."
Então ví com certeza que al-Qur'an é a pura verdade e corri a contrariar meus
impulsos de concupiscência e me dispus a combatê-la, negando-lhe seus caprichos
até que se rendeu e aceitou o jugo da obediência à Lei de Alláh. Louvado e
Glorificado seja!

"A terceira coisa de proveito é que ao ver todos sem exceção pugnar por
acumular os bens da terra, agarrando-se bem a eles para que não lhes escapem das
mãos, considerei as palavras do Senhor (XVI, 96): "O que possuis é efêmero; por
outra, o que Alláh possui é eterno.", e me desprendi de minhas posses terrenas
repartíndo-as entre os pobres para que me convertessem de reserva na
proximidade do Altíssimo.

"A quarta coisa de proveito é que vendo como algumas pessoas põem toda sua
nobreza e prestígio em ter multidão de chegados e parentes, do que vanamente se
vangloriam, enquanto outros se ufanam em ter quantidade de riquezas e de filhos,
do que se vangloriam, e de que outros ainda, tem como o máximo da honradez
arrebatar os bens alheios violando a justiça e derramando sangue, e que outros,
finalmente, creem que a nobreza e a glória consistem em gastar suas posses, em
jogá-las fora esbanjando-as, considerei as palavras do Senhor (XLIX, 13): "Sabei
que o mais honrado, dentre vós, ante Alláh, é o mais temente.", e optei pelo temor
de Alláh, convencido de que al-Qur'an é a verdade pura e de que todas as opiniões
e cálculos dessas pessoas são vans e deploráveis.
"A quinta coisa de proveito é que tendo visto como as pessoas se censuram
mutuamente e se denigram uns aos outros e que tudo isto provêm da inveja em
matéria de riqueza, de status social e de saber, considerei as palavras do Senhor
(XLIII, 42): "Certamente, sobre todos temos domínio absoluto.", e conclui que
Alláh é quem tem feito as partes desde a eternidade, e não tenho porque invejar
ninguém, senão me contentar com a partição de Alláh.

"A sexta coisa de proveito é que quando ví como se inimizam os homens uns com
os outros por fins e motivos diversos, considerei as palavras do Senhor (XXXV, 6):
"Posto que Satanás é vosso inimigo, tratai-o pois, como inimigo", e deduzí que
nenhuma inimizade é lícita senão a de Satanás.

"A sétima coisa é que, como vi que cada um se desvive e põe extremado
empenho em procurar-se o sustento e os meios de vida, coisa que o leva a cometer
coisas de duvidosa moralidade e inclusive abertamente ilícitas, que o rebaixam e o
desprestigíam, considerei as palavras do Senhor (II, 8): "Não há besta sobre a
terra, cujo sustento não corra por conta de Alláh.", e entendí que meu sustento
está em mãos de Alláh que o garante, e me entreguei, por tanto, a seu serviço sem
ambicionar coisa alguma.

"A oitava coisa de proveito é que uma vez que ví que todos, quem mais e quem
menos, poem sua confiança em alguma coisa criada, alguns nas moedas de ouro e
prata, os outros nas propriedades e posses, outros nas artes e ofícios, e outros
finalmente em outra criatura qualquer semelhante a eles, considerei as palavras do
Senhor (LXV, 3): "Quanto àquele que se encomendar a Alláh, saiba que Ele lhe
será Suficiente, porque Alláh cumpre com o que promete. Certamente Alláh
predestinou uma proporção para cada coisa.", e consequentemente depositei em
Alláh minha confiança, pois "Ele me basta e é bom fiador (Hasbuna Llahu wa
Ni'Amal Wakíl (III, 173) . Al-Wakíl, "o Fiador", "o Guardião", é um dos 99 Noventa e
Nove Mais Belos Nomes de Alláh)."

Então Hakîk disse (a Hátim): "Bravo! Que Alláh te proteja! Eu lí a Torah, o


Evangelho, os Salmos e al-Qur'an e achei que estes quatros livros giram em torno
destes oito ensinamentos. Assim, quem os ponha em prática é como se praticara a
doutrina destes quatro livros".

II. Filho: Por estas duas passagens terá compreendido que não necessitas acumular
muita ciência. Agora vou te explicar o que necessita quem quer empreender o caminho
da Verdade.

Primeiro: A aquele lhe faz falta um mestre que o dirija e o eduque de tal maneira que
vá desarraigando de sua alma os maus hábitos e plantando no seu lugar outros bons. A
educação pode ser comparada com o labor do agricultor, que arranca os abrolhos e
extirpa as hervas daninhas da sementeira para que cresça melhor e chegue a sazão.
Assim pois, é indispensável ao aspirante (murid) um mestre que o discipline e o
encaminhe à senda de Alláh. Com esse objetivo enviou Alláh a seu Profeta (saws), para
que guiara aos homens a seu caminho. E ao sair deste mundo deixou o Profeta (saws)
em seu lugar, como sucessores ou vigários seus aos Khulafa (sing. Khalifa. Eles
foram: Abu Bakr as-Siddiq; Umar ibn al-Khattab; Uthman ibn 'Affan e Ali ibn
Abi Talib) para que eles continuassem dirigindo-se ao Senhor. É mister que o mestre
que fará as vezes de Profeta seja pessoa culta, embora não homem totalmente instruído
é próprio para esta função. Por isso, vou te explicar em linhas gerais algumas de suas
características, de maneira que qualquer um não possa presumir de guia espiritual.

Digo, pois, que o será quem haja deixado de lado o amor pelo mundo e pela fama, e
tenha se formado com algum mestre reconhecido, cujo ensinamento ascenda, em cadeia
não interrompida, até o Senhor dos Profetas (saws); que tenha se disciplinado bem por
meio da restrição em comer e beber, no pouco falar e dormir, na muita oração, jejum e
esmola; que seguindo a dito mestre maduro tenha se fixado como regra a conduta dos
hábitos louváveis, como a paciência, a oração, a
gratidão a Alláh, o abandono na sua providência, uma fé firme e viva, a tranquilidade, a
paz da alma, a calma, a humildade, a ciência religiosa, a sinceridade, o pudor, a
lealdade, a firmeza, o silêncio, o perdão,etc. Esse tal será um reflexo das luzes do
Profeta (saws), e portanto, estará bem que seja imitado. Agora, um guia semelhante é
mais raro de encontrar que o enxofre
vermelho (Em árabe, kibríyt ahmar. No Sufismo, designa o Homem universal; quando
alguém é especial é chamado de enxofre vermelho. Para o grande alquimista iraniano
Aydamur Jaldakî, o enxofre vermelho é comparado à transubstanciação da alma pela
ascese; é a matéria capaz de transformar a prata em ouro). Mas se alguém tem a sorte de
dar com um mestre de espírito como o que acabamos de descrever e este o admite sob a
sua direção, haverá de tê-lo interiormente em consideração e dar-lhe exteriormente
mostras da mesma.

Acerca da consideração externa, não discutirá com ele nem porá objeções a cada
questão que se apresente, embora saiba que está equivocado; não abrirá seu tapete de
oração diante dele senão durante a oração ritual, e o recolherá uma vez terminada
aquela; não repetirá suas orações de pura devoção em presença do mestre, e ao contrário
cumprirá os exercícios que ele lhe prescreva, enquanto esteja em sua mão e na medida
do possível. Sobre a consideração interna, não desminta interiormente, de palavra ou de
obra, o que tenha escutado e aprovado exteriormente a fim de que não se lhe possa
chamar de hipócrita. Se não pode, abstenha-se algum tempo de frequentá-lo até que seu
interior fique de acordo com seu exterior.

Segundo: Deve o principiante cuidar-se de tratar com más companhias, jogando fora
do recinto do seu coração toda familiaridade diabólica -com maus espíritos ou com
demônios humanos-, e purgando-se assim de fama de cumplicidade na suas maldades.

Terceiro: Sempre deverá preferir a pobreza à riqueza.

III. Tens que saber que o Sufismo (at-Tasawwuf), o caminho de perfeição, do que
vamos tratando, se apoia em duas qualidades: a retidão para com Alláh e as boas
disposições para com as criaturas. Quem é reto para com Alláh e utiliza boa maneira
com os homens, tratando-os com suavidade, esse é Sufi. A retidão para com Alláh
consiste em sacrificar os próprios apetites aos verdadeiros interesses da alma. E o bom
trato dos homens está em não trazê-los ao que a gente quer, senão em se acomodar a
seus gostos, sempre que não se oponham à Lei de Alláh.

Todavía consultaste acerca da submissão a Alláh. Três elementos a integram: 1) A


permanência dos preceitos da Lei (Sharíat); 2) A conformidade com os decretos
divinos, com a predestinação e a partilha que Alláh fez do seus dons, 3) A renúncia ao
próprio desejo em gratidão ao beneplácito divino.

Também me consultaste acerca do abandono (at-tawakul). Consiste este em ter uma


fé inquebrantável nas promessas divinas, isto é, que creias que todo o que Alláh tenha
disposto acerca de ti, se cumprirá impreterívelmente, embora todo o mundo busque
impedí-lo; e que, pelo contrário, o que não esteja escrito para que te suceda, não te
sucederá, ainda que todo o mundo fique de teu lado.

Consultaste-me também acerca da sinceridade (ikhlâs) ou pureza de intenção.


Consiste em que todas as tuas ações faça-as por Alláh, sem que teu coração descanse
nas louvações dos homens nem te preocupes pelas suas censuras. Entende que a
ostentação nasce do respeito humano, que consiste em dar importância às criaturas.
Seu remédio está, assim, a olhar estas como sujeitas à onipotência divina e em
considerá-las como seres inanimados, incapazes de nos causar satisfação ou incômodo.
Desta maneira, te liberarás da ostentação; ao contrário, enquanto a creias dotada de
algum poder ou vontade não andarás longe deste vício.

Filho: As outras questões que me propussestes as tens em parte tratadas nos meus
livros e neles as podes consultar. Algumas delas havería que evitá-las: age de acordo
com o que sabes e te será revelado o que ainda não sabes.

Filho: No sucessivo não me consultes sobre tuas dificuldades senão com a língua do
coração, pois disse o Senhor (XLIX, 5): "Mas, se aguardassem pacientemente, até
que tu saísses ao seu encontro, seria muito melhor para eles." Que é o conselho que
Khidr (as) dá ao Profeta Moisés (as): "Não me perguntes nada, até que eu te faça
menção a isso." (XVIII, 70). Não tenhas pressa, aguarda o momento oportuno em que
se te revele e o verás, como disse o Senhor (XXI, 37): "Não vos apresseis, pois logo
vos mostrarei os Meus sinais." De forma que não perguntes antes do tempo, e tenhas
certeza que não chegarás ao fim senão caminhando, como disse o Senhor no al-Qur'an
(XII, 109): "não percorreram a terra para observar qual foi o destino dos seus
antecessores?".

Filho: Se caminhas, a fé que vês maravilha em cada uma das etapas da senda
espiritual. Aplica generosamente teu espírito a esta empresa, pois o êxito depende dessa
entrega generosa. Neste sentido dizia Dhu'n-Nún al-Misrí (Egípcio que nasceu em 796 e
morreu no Cairo, em 861. Sufi, alquimista e taumaturgo, conhecia os segredos dos
ieroglíficos egípcios. A noite de sua morte, setenta pessoas revelaram que viram (essa
noite) o Profeta Muhammad (saws) dizer: "Estou aqui para reencontrar Dhu'n-Nún,
o Amigo de Alláh" ) a um de seus discípulos: Se és capaz de entregar sem reserva
teu espírito, segue-me; senão, não te ocupes nas ninharias dos Sufis.

IV. Filho: Vou encomendar-te oito coisas. Recebe-as de mim para que a ciência não
venha a ser teu adversário no Dia do Juízo. Destas oito coisas, quatro deves praticar, e
as outras quatro evitar. As que deves evitar são:
Primeira: Não discutas com ninguém acerca de questão alguma, enquanto de ti
dependa, pois em discutir há não poucos inconvenientes; a discussão acarreta mais
danos que vantagens, já que é um manancial de vícios, como a ostentação, a inveja, o
orgulho, a aversão, as inimizades, a rivalidade e outras. Claro está que se surge alguma
questão entre ti e algum indivíduo ou grupo e desejas unicamente que se esclareça a
verdade em lugar de que fique desaproveitada, nesse caso não haverá inconveniente em
discutir e examinar a questão; mas então dois serão os indícios de tua retidão de
intenção: o primeiro, que te seja indiferente que a verdade saia à luz de teus lábios ou de
qualquer um; o segundo, que aprecies mais discutir em privado que em público.

E agora escuta, que devo te fazer uma advertência: Entende bem que consultar
nossas dúvidas é como expor ao médico a doença que sofre o coração, assim como a
resposta equivale ao esforço que põe o médico para curar a enfermidade de seu cliente.
E note que os ignorantes são os que tem enfermo o coração, enquanto os médicos são os
sábios. Meio sábio não acerta curar, como nem sequer um sábio consumado cura toda
classe de enfermos, senão somente aos que se espera aproveitem o tratamento e que
sarem; que em caso de doença crônica e incurável a perícia do médico consistirá em
dizer-se: "Isto não tem remédio, assim que não te esforces em medicá-lo, pois
passarias a vida à toa." Tem presente também que a enfermidade da ignorância é de
quatro classes, uma delas, susceptível de cura, as três restantes não.
A primeira das três doenças incuráveis é a de quem consulta ou propõe dificuldades por
motivo de inveja ou de ódio. Embora lhe dês a melhor resposta do mundo, a mais clara
e correta, não conseguirás mais que exacerbar seu ódio, sua inimizade e inveja. Com um
sujeito semelhante, o único procedimento é não contestar-lhe, pois como disse o poeta:

Qualquer inimizade pode-se esperar que cese


Menos a de quem por inveja é teu inimigo.

Afasta-te portanto dele e deixa-o com sua enfermidade. Que já o disse o Senhor
(LIII, 29): "Afasta-te pois, de quem desdenha a Nossa Mensagem e não ambiciona
senão a vida terrena." O invejoso, com todo o que diz e faz, pega fogo ao semeado de
suas próprias ações. A inveja devora as boas obras, como o fogo consome a lenha.

A segunda enfermidade da ignorância que não admite cura é a necedade, como disse
Jesus (as): "Nunca fui incapaz de ressuscitar aos mortos, porém o fui para curar
aos nécios." O nécio de que se trata aqui é o homem que dedica um pouco de tempo ao
estudo da ciência, que aprende algo das ciências racionais e reveladas e logo se põe a
consultar e argumentar neciamente ao sábio completo que encaneceu no estudo dessas
ciências; esse necio, como ao mesmo tempo é ignorante, imagina que onde ele encontra
dificuldades, também as encontrará o sábio consumado. Como não sabe apreciar estas
diferenças, pergunta por necedade; assim que não há que incomodar-se em responder-
lhe.

A terceira enfermidade incurável em matéria de ignorância é a de quem vai realmente


em busca de direção ou instrução e cada vez que não entende os ensinamentos dos
grandes mestres, critica sua própria estreitez de entendimento. Pergunta sim, com o fim
de evoluir, mas como é tonto, não alcança compreender a realidade das coisas; assim
que também a este não há que preocupar-se em responder-lhe. Já disse o Profeta (saws):
"Nós, os Profetas, temos ordem de Alláh de falar a cada tipo de pessoa de acordo a
sua capacidade."

Finalmente, a enfermidade da ignorância que admite cura é a do discípulo inteligente


e capaz, que não está dominado pela inveja e o ódio nem pelo amor das paixões, da
fama ou do dinheiro, que busca o caminho reto e não pergunta por emulação ou por
espírito de contradição nem por vontade de por a prova a seu mestre. Esta enfermidade
sim que admite cura e, portanto, está bem responder suas perguntas; ou melhor, há
obrigação de responder.

A segunda coisa que deves pensar bem é de exercer a profissão de predicar ou


admoestar, pois nisso há muitos incovenientes, a menos que ponhas em prática o que
predicas antes de predicar aos demais. Considera bem o que foi dito a Jesus (as) (Lucas
IV, 23: "Médico, cura-te a ti mesmo"): "Oh filho de Maria! Admoesta-te a ti mesmo
e quando hajas aplicado a admoestação a ti mesmo, admoesta aos outros. Caso
contrário, fica com vergonha de teu Senhor." Mas, se não podes esquivar tal
profissão, cuida-te de dois defeitos: O primeiro é a afetação na fala, com discursos
cheios de expressões de retórica, de simbolismo e frasseologia mística, de versos e
estrofas, que Alláh detesta aos amaneirados; além do mais, que o enfeite que passa dos
limites é sinal de descontrole interior e de frivolidade do coração.

A prédica salutar consiste em trazer à memória o fogo eterno e as deficiências do


homem no serviço a Alláh; em fazer refletir sobre a vida passada, gasta em coisas sem
proveito para a alma, e sobre os percalços a que se pode ver exposto o homem, como é o
perigo de não conservar até o fim a integridade da fé; o comportamento ao ficar nas
mãos dos anjos da morte, como terá de ser engenhoso no interrogatório dos anjos
Múnkar e Nakir (as para os dois); em preocupar-se com a situação em que se encontrará
no Dia do Juízo com todos os seus lances, a saber, se conseguirá cruzar são e salvo a
ponte as-sirat ou se pelo contrário, cairá no abismo do inferno (as sirat, a ponte que
segundo o hadith "é mais fina que um cabelo e mais filosa que uma espada"); em
gravar profundamente estas coisas no coração, impressionando-o e tumultuando sua
falsa tranquilidade.

A ebulição que produz na alma a ardência destas lembranças, com os gemidos que
provocam tais calamidades, é o que se chama propriamente prédica. E o instruir às
pessoas fazendo-lhes presentes estas coisas, chamando-lhes a atenção sobre suas
deficiências e seus excessos, pondo diante de seus olhos seus próprios defeitos, de
forma que o auditório saiba por dizer assim a queimação destas idéias e fique comovido
diante da perspectiva de tais calamidades, para consertar no possível a vida passada,
lamentando os dias perdidos em coisas alheias ao serviço de Alláh: tudo isto junto,
apresentado desta maneira, é o que se chama predicar. Um exemplo: Se notasses que a
crescida do rio estava invadindo a casa de teu vizinho e visses que estava dentro com
toda sua família, lhe gritarias: Cuidado! Cuidado! Fujam da crescida! Ou terias vontade,
nessa situação tão delicada, de informar ao dono da casa com frases rebuscadas, ditados
criativos e imagens alegóricas? Nem passaria pela tua cabeça. Pois este é o caso do
predicador; e assim mesmo deve evitar a linguagem amaneirada.

A outra barreira que tens de esquivar é a vontade de ver muito concorridos os teus
sermões, e que os ouvintes manifestem sua emoção rasgando suas vestes dizendo: "
Que magnífico sermão!". Tudo isto é amor do mundo, que nasce da leviandade. Teu
único empenho e preocupação deve ser o de levar as pessoas das coisas do mundo às do
além, da vida torta ao serviço de Alláh, da cobiça à austeridade, da avareza à
generosidade, do extravio à piedade; fazer-lhes amáveis as coisas do céu e odiosas as do
mundo; ensinar-lhes a ciência do serviço de Alláh e da abnegação, já que a inclinação
natural os leva regularmente a se desviarem do caminho da Lei, a seguir o que não é
bom aos olhos divinos e a enredar-se nos maus hábitos. Portanto, procura infundir nos
corações um saudável temor, atemoriza-os e previne-os contra os graves perigos que os
ameaçam. Dessa forma, pode ser que modifiquem suas disposições internas e se reforme
sua conduta externa e que comecem a mostrar desejo e inclinação pela virtude e
retraimento do vício.

Esta é a boa maneira de predicar e de exortar. Qualquer outro gênero de prédica é


uma calamidade para o ouvinte e para quem predica. Há mais: alguém disse que o mal
predicador é um gul (Monstro anstropófago que adota diversas formas e se apresenta
aos andarilhos noturnos como companheiros de caminho) ou monstro e um demônio
que desvia as pessoas do bom caminho levando-as à perdição. Por isso, os fiéis devem
fugir de semelhante predicador, pois o dano espiritual que infere às almas excede tudo o
que o mesmo demônio é capaz de tramar. Por isso, mesmo quem tenha autoridade e
poder para isso deve afastar dos púlpitos esses predicadores, impedindo-lhes que
continuem em seu empenho, com o que não fazem mais que cumprir o preceito do zelo
religioso, que obriga a fomentar o bem e combater o mal.

A terceira coisa que tens de evitar é misturar-te com príncipes e sultões, inclusive vê-
los, porque há grandes inconvenientes em vê-los, tratá-los e se dar com eles. Mas caso
tenhas necessidade, cuida-te de louvá-los e lisonjeá-los, pois abomina os elogios que se
tributam ao malvado e ao tirano, e quem faz votos para que se lhes prolongue a vida,
deseja implicitamente que Alláh seja ofendido por eles na terra.

A quarta coisa que tens de evitar é aceitar doação ou presente algum de príncipes,
embora esteja certo de que são coisas bem adquiridas, pois a cobiça de tais doações é
uma ruína para o espírito, já que gera a falsa lisonja, a obsequiosidade e a conivência
com suas injustiças, tudo o que corrompe a moral. O mal menor que pode acarretar isso
é que aceitando seus brindes e aproveitando-te de seus presentes, acabarás amando-os;
agora bem, quem ama alguém lhe deseja vida longa e duradoura; mas desejar vida longa
ao injusto é desejar que se perpetue a injustiça em prejuízo dos sábios de Alláh, e com
ela, a ruína do mundo. Pois bem, que coisa mais prejudicial que isto para a religião e
para o além? Cuidado! Cuidado com deixar-te fascinar pela ilusões diabólicas nem
pelos que te digam que é melhor e que vale mais receber dos tiranos o ouro e a prata
para distribuí-los entre os pobres e necessitados, já que aqueles os gastam em seus
vícios e pecados e tu em câmbio lhe dás melhor destino empregando-o em socorrer aos
indigentes. Porque o Maldito fez sucumbir a muitos com estas armadilhas, como já o
dizemos no "Vivificação das Ciências da Religião", que podes consultar.

Com relação às quatro coisas que deves observar:

Primeira: Deves trazer-te para com Alláh tal linha de conduta que, se a tivesse
contigo um servo teu, te deixaria satisfeito sem ocasionar-te pena nem raiva. Pois bem,
o tratamento que não gostarias de receber de teu servo -que finalmente não é servo teu,
pois és criatura como ele- não deves gostar de dar tu mesmo a Alláh, que é teu
verdadeiro Senhor.

Segunda: Tudo o que tenhas que fazer aos homens, faze-o como gostarias que o
fizessem a ti, que não será cumprida a fé do servo de Alláh enquanto não desejes para os
outros o que desejas para si mesmo.

Terceira: toda ciência que leias ou estudes deve ser tal que contribua para melhorar
teu coração e para purificar tua alma. Precisamente, se soubesses que somente ficava a ti
uma semana de vida, não a empregarias em estudar o Direito, nem a Moral, nem a
Teologia fundamental (a kalam) ou a Escolástica nem coisas deste estilo, sabendo que
de nada te serviria tudo isto. O que farias seria esforçar-te em vigiar teu coração, em
descobrir tuas disposições interiores, em desfazer-te das coisas do mundo, em purgar a
alma dos maus hábitos, consagrando-te exclusivamente ao amor e ao serviço de Alláh.
Pois bem, não passa nenhum dia sequer, nem uma única noite, em que não possa
surpreender ao homem a morte.

Filho: Escuta outra coisa que vou te dizer e medita-a bem, que nisso está a salvação.
Suponha que te anunciam que dentro de uma semana te vás a visitar o sultão: estou
certo de que porias todo teu empenho em arrumar todas as tuas coisas, a roupa, tua
aparência, a casa, o enxoval, etc., sobre as que soubesses que poria os olhos o Sultão.
Reflete, pois, bem no que acabo de indicar-te, já que és inteligente e que "ao bom
entendedor poucas palavras". Disse o Profeta (saws): "Não olha Alláh a vossa
aparência nem as vossas ações, senão ao coração e à intenção". Se desejas conhecer
a ciência dos estados do coração, podes consultar a Vivificação e outras de minhas
obras. O conhecimento desta ciência é um dever individual (Há os preceitos individuais,
fard al-'ain, ou coletivos, fard al-kifâya), que obriga a todos e a cada um dos homens,
enquanto as outras ciências são obrigatórias somente comuniatariamente (isto é, em
cada comunidade tem que existir alguém que as conheça) excetuando o estritamente
necessário para cumprir os deveres religiosos (que são obrigatórios para todos). Que
Alláh te ajude a adquirir esse conhecimento!

Quarta: Não acumules mais bens terrenos do que baste para passar um ano,
conforme o exemplo do Profeta (saws) que ao prover a algumas de suas esposas dizia:
"Oh Alláh! outorga o sustento suficiente à família de Muhammad". Porém não
provia desta maneira a todas, senão únicamente às que sabia que tinham frágil o coração
(isto é, que não tinham certeza da Providência); às que tinham fé firme e viva, não lhes
provia mais que o sustento necessário para um dia ou para meio.

Filho: Compilei nestas a resposta a tuas consultas. Convém, pois, que atues de acordo
e que, assim o fazendo, não esqueças de ter-me presente nas tuas orações. Enquanto à
oração que me pedias, busca-as entre os (ahadith) bem creditados; e em todas as horas,
especialmente ao terminar tua oração ritual, recita esta súplica (Du'a)

Oh Alláh! Rogamos nos outorgues, da graça a perfeição, e da imunidade (do mal


e do pecado) a duração; de tua msericórdia a extensão, e da saúde da alma a
consecussão; do sustento a maior facilidade, e da vida a maior felicidade; de teus
benefícios o que nos corresponda, e de teus favores o mais universal; a mais sutil
de tuas bondades, a mais delicada de tua benignidade. Oh Alláh! Seja por nós e
não contra nós. Oh Alláh! Sela o fim de nossa vida com felicidade e colma nossas
esperanças em abundância; junta nossos dias e nossas noites em saúde e faça com
que alcancemos a meta de tua piedade; derrama as torrentes do perdão sobre
nosso pecado e nos ajuda a desencaminhar o mal andado; dá-nos por viático a
piedade, faça-nos pela religião aspirar, em ti aguardar e confiar. Oh Alláh!
Confirma-nos na boa senda e livra-nos das torturas do remorço o dia vindeiro;
alivia-nos a pesada carga dos pecados e nutre-nos com o manjar dos justificados;
dá-nos a suficiência e desvia de nós a malícia dos malvados; do fogo do inferno
resgata-nos, a nossos pais e mães, irmãs e irmãos. Por tua Misericórdia, Oh
Potente (Ya-Azýz !) e Perdoador (Ya Ghaffar!) , Oh Generoso (Ya Karym !) e
Encobredor (dos pecados) (Ya Sattar !), Oh Sapiente (Ya Aliym) e Dominador (Ya
Djabbar !) Oh Alláh, Oh Alláh, Oh Alláh! Por tua misericórdia, Oh o mais Piedoso
(Ya Rahman !) dos compasivos! Oh o Primeiro (Ya Awwal !) dos primeiros, e o
Último (Ya Akhir !) dos últimos! Oh Tu, que possuis a força inquebrantável (Ya
Qawy !)! Oh o Piedoso dos indigentes, o Mais Piedoso (Ya Rahym) dos
compassivos! Não há outro deus senão Tu. Glória a Ti! Me confesso por um dos
iníquos.

Abençõe Alláh a Muhammad, nosso Senhor, a sua Família e a todos os seus


Companheiros. Glória a Alláh, o Senhor dos Mundos!

NOS PASSOS DE ABRAHAM (IBRAHIM) (AS)

Texto baseado em palestra do Dr. Seyyed Hossein Nasr, editado por Alessandra Bain, e
traduzido para o português por Amal Benato

O Hajj, a jornada a Makka e seus arredores, é incumbência de todo muçulmano ao


menos uma vez na vida. De acordo com a Tradição islâmica, muçulmanos seguem os
passos de Abraham, conforme foram descritos pelo Profeta do Islam, Muhammad
(saws). Estes deveres obrigatórios foram determinados pela palavra de Allah. O Hajj
representa a renovação dos ritos abrahamicos no seio da tradição Islâmica.
O Hajj inclui várias atitudes, começando pela mudança do vestuário, das vestes normais
do cotidiano e associadas ao mundo, à uma única peça de pano branco para os homens e
um puro e simples vestido branco para as mulheres. Isto implica em fazer uma ablução
completa, significando pureza interior e exterior. Também implica na circunvolução da
Ka´aba, que para os muçulmanos não é meramente um símbolo, mas a presença real do
tempo primordial, o reflexo real do Trono de Allah na terra, visto e construído por
Adam após sua queda do Paraíso. Abraham (as) não construiu a Ka´aba; ele a
reconstruiu. Foi reconstruída novamente durante os primórdios do período Islâmico,
após as grandes enchentes do primeiro século e o final do período Umayyad, e
novamente durante o período Abbasid. O Hajj também implica em viajar aos arredores
de Makka, em três sítios principais: a Arafat, que é uma vasta planície, Mina e
Muzdalifa, onde ficam os pilares simbolizando Shaytan, o demônio. Aí atira-se pedras
nos pilares, novamente um ressurgimento do antigo rito semita.
O Hajj maior, anual, acontece durante quatro ou cinco dias, dependendo de quando
comece. O Hajj menor, conhecido como Hajj al-umra, normalmente dura um dia e
é freqüentemente realizado por muçulmanos sempre que tenham a oportunidade de
visitar a cidade sagrada. O final do Hajj é celebrado com um festival chamado id ul-
adha, em árabe, que é normalmente traduzido por Celebração do Sacrifício. Esta idéia
de sacrifício está no coração do Hajj. O fato do filho de Abraham (Ismail) ter sido
preparado para o sacrifício é recontado, e ovelhas e camelos são sacrificados em
memória disto; mas é o auto-sacrificio que devemos ter em mente. O Hajj implica em
sacrifício; isto é difícil e deve permanecer difícil. Mesmo as ditas comodidades
modernas, tais como hotéis com ar-condicionado e limusines resultaram em
dificuldades ainda maiores para grande número de peregrinos. Novamente isto implica
em sacrifício, dificuldade. O elemento sacrifício deve estar presente e é por isso que
antigamente os muçulmanos costumavam rezar para morrer durante o Hajj. Isto porque
a pessoa que morre durante a peregrinação morre como mártir e o Paraíso está garantido
para ela. É uma ocasião alegre e não triste, se um peregrino morrer a caminho de
Makka. Portanto, a primeira imagem importante do id ul-adha é a idéia do sacrifício.
O segundo conceito mais importante é o da iluminação, ou luz. A palavra árabe Adha
vem de uma raiz que significa claridade ou iluminação. É através do sacrifico que
somos, de fato, iluminados. A experiência do Hajj é também a experiência da
iluminação na qual o véu da opacidade que nos separa da Realidade Divina é removido,
pelo menos para aqueles que entendem o que o Hajj realmente significa.
O terceiro termo, que está relacionado com o segundo, diz respeito ao Dia do
Julgamento, também conhecido como yawm al-adha. Um dos mais famosos trabalhos
escritos pelo grande filósofo persa Ibn Sina ou Avicena, é Al-risalatu al-adhawiyya, o
tratado da ressurreição. Para o pensamento islâmico clássico, o termo adha está ligado
`a ressurreição, renascimento e ressuscitamento. De acordo com o Profeta (saws), a
pessoa que faz o Hajj pela primeira vez com uma intenção clara, sem querer ganhar
dinheiro no bazar ou algo parecido, mas com a intenção de fazer o Hajj por Allah
exclusivamente, tem seus pecados perdoados, e volta para casa purificada. Portanto,
nossa intenção deve ser viver uma vida de pureza e virtude, o que realmente significa
morte e ressurreição. A morte e ressurreição implícitas no Hajj são uma premonição e
um prelúdio para a Grande ressurreição no Dia do Julgamento. De fato, o
conglomerado de pessoas de todos os cantos do mundo na grande planície de Arafat é
uma imagem do Dia do Julgamento. Centenas de árabes, persas e outros poetas
escreveram sobre esta imagem onde, até onde a vista alcança não se pode ver nada
além de seres humanos vestidos em branco, orando diante de Allah.
O Hajj é também uma jornada. Seu simbolismo mais profundo é a jornada da
vida.
No final desta jornada está a morte e o encontro com Allah. Não importa o que façamos
neste período, sabemos onde vai dar o final da estrada. Não podemos evitar o encontro
final com Allah, um final feliz para aqueles que são crentes. A jornada para o Hajj é
semelhante, onde o final da jornada é o encontro com a casa de Allah, a Ka´aba. Para
os muçulmanos isto representa estar diante do cubo do universo, ou o axis mundi, o eixo
do mundo. Este é o local onde a presença de Allah é experienciada imediata e
diretamente. É uma jornada em direção ao centro e em direção ao que nos orienta.
A Ka´aba é para os crentes o ponto de orientação, o espaço orientador de suas
vidas. Por exemplo, quando você entra em uma sala nova, deve se orientar em direção a
Qiblah. Deste modo o espaço se orienta de uma certa forma, se polariza. Isto tem o mais
profundo dos impactos psicológicos sobre aqueles que vivem uma vida islâmica, que
vivem em um espaço sempre polarizado em direção a Makka. A Ka´aba é também o
centro. O centro do mundo islâmico; o centro do plano terrestre; o centro do cosmos. É
também o centro, simbolicamente no microcosmo, de nós mesmos. É por isso que o
Profeta (saws) disse em um hadith famoso que “o coração do crente é o trono da Divina
Misericórdia, o Trono de Allah”. Portanto, o coração é a Ka´aba e este é um dos grandes
temas espirituais no Islam ao longo de séculos. Há uma correspondência entre a jornada
da vida mesma e o Hajj para aqueles que estão realmente presentes e entendem
completamente, porque o fim de ambos é o encontro com Allah. Depois vem a
ressurreição, o renascimento do ser humano.
Agora vamos nos voltar para alguns dos detalhes do Hajj, conforme se relacionam com
a vida espiritual. Todos os atos que o Hajj tenta nos colocar se referem a nossas vidas
aqui e agora. Nós fazemos o Hajj porque pretendemos obedecer aos comandos de Allah.
Gastamos milhares de dólares, nos separamos de nossas famílias, de nossos pertences;
as preocupações do mundo sempre existem, não importa que seja uma pequena loja em
Isfahan na metade do século 13 ou nosso computador em Chicago no final do século
vinte. Ir para o Hajj significa cortar todas as ligações com o mundo ao nosso redor.
Isto é muito, muito difícil, porque para se ir ao Hajj, de certa forma, cria-se um senso
de estar ilhado, uma ilha temporal.

É significativo que vamos ao Hajj vestindo um shurud.

Por que fazemos isto? Porque queremos obedecer à vontade de Allah. Assim, o Hajj ele
mesmo é a intenção de seguir os comandos de Allah.
Aqui, novamente, a atitude do Profeta Abraham (as) é significativa. Abraham (as)
tornou-se o grande amigo de Allah, khalilullah, por causa de duas coisas. A primeira
delas, a perfeita fé, e a segunda, a perfeita entrega à vontade de Allah.
Al-Qur´an diz : “Kaana Ibrahim musliman hanifan”, Abraham (as) era membro da
tradição primordial. Aqui a palavra muslim com certeza não significa o mesmo quando
a usamos em português, ou seja, a pessoa que pertence à revelação que foi dada ao
Profeta do Islam (saws), no século sete da era cristã. O significado aqui se refere ao
Islam primordial, ou a entrega à vontade Divina.. Neste verso, Al-Qur´an define
Abraham (as) pela sua entrega à vontade divina. Todo o processo do Hajj é uma
referência a esta grande virtude do profeta Abraham (as). Esta virtude é de fato,
característica do próprio Islam, essencialmente a entrega à vontade de Allah. O próprio
nome Islam significa ao mesmo tempo paz e entrega, casa duas idéias e cria a religião.
Através da entrega à vontade de Allah você ganha paz. Tudo isto está contido na
etimologia da palavra Islam. Isto é o centro da atitude que deve ser inculcada. Os
movimentos entre Safa e Marwa, dois pequenos montes nos arredores da Ka´aba,
simulam os movimentos de Hagar, a mulher de Abraham (as), que procurava encontrar
água para seu filho, Ismail. Ficamos então conscientes de que o Profeta (saws) trouxe
esta velha tradição para o Islam, revivendo-a como parte da prática islâmica.
O que isto significa praticamente? Significa que o Islam é uma reafirmação do
monoteísmo primordial. Se o Islam não for isto, então não é nada. Isto é, compreender
completamente o significado do Islam é compreender que não há nada de novo no
Islam, exceto sua finalidade. O núcleo desta mensagem é a renovação do que sempre
existiu. Abraham (as), ele mesmo, conhecido como o pai do monoteísmo, foi de fato,
um renovador de um monoteísmo que surgiu com Adam. No Al Qur´an, quando Allah
se refere a Adam e sua progenitude no famoso verso `Alastu bi rabbikum?´ (não sou
eu seu Senhor?) toda a humanidade responde ´sim´, um ´sim´ muito dificil e, como
resultado disto, aceitamos a grande responsabilidade e o peso de ser humano. Portanto,
o estado adâmico implica a aceitação do Senhorio e Vontade de Allah. Abraham não
originou o monoteísmo. O monoteísmo começa com Abul Bashar, o pai da humanidade,
o primeiro ser humano ele próprio. Originalmente, de fato, não era somente masculino,
mas masculino e feminino. Adam e Eva juntos eram um só ser. A palavra hebraica
Adam, originalmente contém este significado.
O Hajj é uma confirmação da natureza primordial do Tawhid, a Unidade Divina, idéia
muito enfatizada no Islam, de que ser humano é fundamentalmente sempre aceitar a
Unidade de Allah. Isto está entranhado na substância da natureza humana. Não importa
o quanto isto tenha sido encoberto pela poeira e ferrugem do esquecimento e do mal,
esta assertiva e reconfirmaçao do Tawhid está em nossas almas. Tudo o que temos que
fazer é remover a ferrugem.
Para realizar o Hajj deve-se colocar o ihram, isto é, retirar nossas roupas do dia-a-dia
alguns quilômetros antes de Makka e colocar as duas peças de pano que devem ser
dobradas, sem nós, botões, costuras ou zíperes. Deve-se tirar toda e qualquer jóia, tudo
o que possa significar apego ao mundo.
O Hajj realmente começa com a morte, a morte no sentido do desapego. Para muitos, o
primeiro ihram é guardado para mais tarde servir como mortalha. É significativo ir ao
Hajj já vestindo uma mortalha. A cor branca simboliza o desapego de todas as ataduras
do mundo. Também simboliza unidade, uma forma de retorno à simplicidade com
desapego. Uma das coisas mais notáveis do Hajj é sua inabilidade em diferenciar
um rei de um mendigo. Todos são parecidos, toda distinção social é removida. É
notável como uma vez que estas distinções sejam removidas, lembramos do famoso
verso corânico: “para Allah, o mais valoroso dentre vocês é o que mais O teme”.
Taqwa não pode ser traduzido exatamente para o português; significa ao mesmo tempo
virtude e medo de Allah. O que realmente distingue os seres humanos nao é seu status
social, o apego ao mundo e suas atrações, mas o que estes são internamente, como eles
se apresentam diante de Allah. Esta é uma das grandes lições do Hajj, aquela que é
difícil de trazer.
Uma vez encerrado o Hajj, você toma seu banho e coloca suas roupas comuns
novamente, uma pessoa entra num Mercedes Benz e outra monta num burrico. Estão de
volta ás divisões da vida ordinária. O ideal é tentar manter algo daquela unidade,
profundamente, dentro de si mesmo, para o resto da vida. É impossível, numa
sociedade, não haverem diferenças. Isto está na nossa natureza como seres humanos.
No entanto, o Hajj tenta criar pelo menos uma realização interna do quanto estas
diferenças são transitórias. Quanto pode durar a riqueza do mundo? Pode ser perdida em
um momento. O Hajj é uma boa lição para preparar uma pessoa para o que possa
acontecer em suas vidas.
Voltando ao aspecto central do Hajj, o tawaf ou circunvolução da Ka´aba, você tem um
mar de gente andando em torno de um centro estacionário, fixo. O que isto significa? É
um rito profundo para aqueles que entendem seu significado interno. Em primeiro
lugar, é necessário entender a Ka´aba ela mesma. É uma estrutura simples, a mais
simples que você pode ter. Não é um cubo perfeito, mas um tanto quanto retangular
com a altura um pouco mais alongada que as outras dimensões. É coberta por um pano
negro, chamado de kiswa. A kiswa é pontilhada de negro com versos do Al Qur´an
belamente bordados em ouro. A cor simboliza o fato de que Allah está além de qualquer
concepção. É outra expressão para a frase Allahu Akbar ou la ilaha illa Allah. Allahu
Akbar não significa somente que Allah é grande; significa que Allah é maior do que
qualquer coisa que você possa dizer a respeito Dele. Isto é, qualquer coisa que você diga
que Allah é, Hu Akbar (Ele é maior). Este é o verdadeiro significado, mas a maioria das
pessoas não pensa sobre isto deste modo. É uma outra fórmula para a expressão la
illaha illa Allah.
A cor da Ka´aba é outra expressão da verdade de la illaha illa Allah. Está além de todas
as cores, todas as formas. Porque nós vivemos num mundo de cores, e cores simbolizam
formas. A cor preta transcende todas as cores. De um ponto de vista, o preto é
concebido como o nada. De outro, o preto é a intensidade da luz. O preto está acima de
todas as cores, não pela sua pobreza, mas pela sua transcendência. É a cor preta que
sustenta o fruto dos versos de ouro do Al-Qur´an. O ouro simboliza o sol, a luz, a Luz
pela qual os versos do Al-Qur´an foram escritos. A kiswa é trocada todos os anos,
cortada em pequenos pedaços e dada como tabarruk (isto é, algo contendo as bênçãos
Divinas) a dignatários e outros peregrinos.
A Ka´aba situa-se no centro, como uma presença de Allah, como um símbolo do templo
primordial construído por Adam e posteriormente por Abraham, bem como pelo profeta
Muhammad, que a paz esteja sobre todos eles. Por ordem do Profeta
Muhammad (saws), a Ka´aba foi purificada dos 360 ídolos que estavam dentro dela,
reafirmando a natureza primordial do monoteísmo. Quando alguém caminha ao seu
redor está na presença do imutável. Não evoluiu, não se modificou.Está além da
temporalidade. Nós é que somos o temporal quando a rodeamos. A circunvolução é
contrária aos movimentos da terra, o que significa que é contrária ao fluxo do tempo. O
reverso do tempo no tawaf é o oposto da queda do homem, é uma reconstrução do
estado humano em sua perfeição adâmica. Adam antes da queda viu os sinais de Allah
por toda parte. Ele era o perfeito servo de Allah, o perfeito Muçulmano. Como resultado
de sua desobediência, saiu do estado de perfeição. Todas as tentativas dos seres
humanos são para retornar àquele estado de perfeição.
Finalmente, desde o começo do Hajj repete-se a frase em árabe: ´labbayk,
Allahumma, labbayk´, isto é, ´ao Teu serviço, Senhor, ao Teu serviço´. Durante o
Hajj, nós asseveramos que somos servos de Allah. Esta de fato, é uma atitude que deve
ser levada pela vida. Nós devemos sempre dizer labbaik. Devemos sempre dizer
labbaik pelo próprio fato de existirmos, por termos vida. Allah também diz labbaik
para nós. Allah, num certo sentido, também está a nosso serviço. Ele nos dá vida,
derrama dons sobre nós. Nós vamos para a cama à noite esperando que pela manhã o sol
surja e que não nos queime, e que a água não esteja tão fria a ponto de nos congelar as
mãos. Esperamos que tenhamos comida o suficiente para comer e que quando pusermos
o pedaço de pão na boca, este não se transforme em fogo em nossos estômagos. Nós
simplesmente presumimos todas estas coisas pelo que chamamos de regularidade da
vida, as chamadas leis da natureza. Portanto, também existe um labbayk Divino, e, num
sentido ainda mais profundo, o labbaik do Hajj é nossa resposta ao labbaik de Allah.
Há uma bela estória sobre um muçulmano piedoso, um sufi. Ele invocava o nome de
Allah em uma caverna, dizendo`Allah, Allah` o tempo todo. O demônio ficou muito
perturbado por isto (como sempre fica quando os Nomes de Allah são mencionados).
Então ele chega até o homem e tenta dissuadi-lo de invocar o Nome de Allah. O
demônio diz a ele: por que você continua invocando? Todas as vezes que você disse
´Allah, Allah´, Allah alguma vez respondeu sim? Ele alguma vez lhe respondeu?` o
homem ficou muito entristecido e ficou quieto. Imediatamente Allah chamou o arcanjo
Gabriel dizendo: ´o que aconteceu? Nosso servo não está mais invocando Nosso Nome?
Vá até lá e verifique o que aconteceu´. Gabriel então perguntou ao homem, que lhe
contou a estória, e Gabriel a reportou a Allah. Allah disse a Gabriel: volte até lá e diga-
lhe que todas as vezes que Nós lhe damos a força, a inteligência, e a consciência para
dizer Allah, nós já respondemos sim à sua invocação.
Allah ele próprio diz ´labbaik´ por toda nossa vida. Ele nos deu existência, vida, todos
estes dons, todos os elementos que nos fazem ser o que somos. Portanto, o ´labbaik,
Allahumma, labbaik´ é uma afirmação muito mais profunda do que a maioria das
pessoas pensa. Não é somente ´estou fazendo meu Hajj agora e obedecendo a Allah e
depois esqueço disso´. É, num certo sentido, a realização da reciprocidade entre os dons
Divinos e as atitudes que devemos ter em relação a eles.
Eu comecei falando do símbolo da Ka´aba como o coração. A jornada à Ka´aba é o
símbolo externo de um ato ritual poderoso que deve servir como suporte à ainda mais
profunda jornada ao centro de nosso ser. O Hajj real é a pessoa que faz uso desta
oportunidade externa para ser capaz de se interiorizar. O Hajj mais difícil, muito mais
difícil que caminhar pelos desertos como nos tempos antigos, é ir dos círculos externos
de nossa existência ao centro, onde Allah reside dentro de nós por todos os tempos.
Jesus (as) disse: o reino de Allah está dentro de você. O Profeta do Islam (saws) disse:
o coração do crente é o Trono da Compaixão Divina, isto é, o Trono de Allah. Portanto,
nós devemos alcançar este Trono.
DALA‟IL UL KHAYRAT
( Testemunhos das Bondades )

Imam al-Djazuli

O Dala‟il ul Khayrat é um canto de amor ao Profeta Muhammad (Saws) . As poucas


páginas deste pequeno livrinho comovem até as lágrimas a milhões de homens e
mulheres no universo Islâmico. No prefácio são enumerados os Noventa e Nove Nomes
de Allah TodoPoderoso. E a continuação explica a forma de rezar sobre o Enviado de
Allah e seus duzentos e um nomes. Depois, as belas orações sobre Sidna Muhammad
(Saws) para cada dia da semana, que publicamos a continuação.
O autor desta obra é o Shaykh Sid Muhammad Bem Suliman al-Djazuli ou,
simplesmente Imân Djazuli. Seu imenso amor pelo Profeta atraiu o ódio dos sectários
Wahabitas, que em 1457 o assassinaram envenenando-o. Ocorreu quando se dispunha a
realizar salat al fadjr, dentro da mesquita que ele mesmo construiu na aldeia de Fugal,
entre as cidades de Safie e Essauira, tribo de Abda, Marrocos, e nela foi sepultado.
Hoje, seus restos encontram-se no majestoso mausoléu de Riad al-„Arus (“Oásis do
Noivo”).

Orações das Segundas-feiras

“Allah Onipotente, Rei dos reis, conceda-me a graça de permanecer sempre orando
sobre teu Enviado na Terra e no Universo, Sidna Muhammad; uma oração constante,
sem interrupção até a eternidade; uma oração que supere qualquer número e que
transborde qualquer dimensão; uma oração acompanhada de beleza, bondade e
plenitude. Peço-te, Oh Allah, que me concedas alento suficiente para estar rezando até
superar em quantidade as folhas das árvores, as gotas de água dos mares e rios e os
grãos de areia dos desertos.”

Orações das Terças-feiras

“Oh Allah! Suplico-te que me concedas progredir no bom que eu possa ter e que tu
sabes, e que afastes de mim todo o mau que me possui e que Tu também conheces. Tu
sabes tudo, eu tudo ignoro. Tua sabedoria é infinita. Oh Allah!, me socorre na
circunstância em que me encontro, me protege dos perigos que me cercam, aproxima-
me a Ti para permanecer a salvo das maquinações dos governadores que estão me
explorando. Oh Allah!, afasta de mim a maldade dos homens até que chegue protegido,
feliz e salvo à tua Presença. Oh Allah!, ajuda-me a permanecer orando sobre teu
Enviado, Sidna Muhammad (Saws), a quantidade equivalente dos que rezam e dos que
não rezam sobre ele desde que criaste o mundo até a eternidade”.
Orações das Quartas-feiras

“Oh Allah! Envolve-me na oração sobre teu Enviado, Sidna Muhammad, oração que
seja aceite por Ti e recebida por ele que é o mar de Tuas iluminações, a mina de Teus
mistérios, a língua de Tua justiça, o noivo mais belo de todo o Teu reino, o líder mais
valente do Teu partido, o manancial de Tua misericórdia, o caminho mais reto e curto
até Tua Presença, o apreciador da doçura de Tua Unidade e o único e absoluto
interceptor entre Ti e a Criação. Que esta oração permaneça protegida por Ti, Oh
Allah!, até a eternidade”.

Orações das Quintas-feiras

“Oh Allah! Rogo-te que convertas minha vida numa contínua oração sobre Teu
Enviado, Sidna Muhammad, e me concedas morrer rezando sobre ele, e me concedas a
graça de ressuscitar recitando a mesma oração sem interrupção nem esquecimento. Oh
Allah!, me banhe e me purifique no Seu Rio, apaga minha sede com a água da sua taça
diamantina e não me mistures com os arrependidos, renegados, nem com os estranhos,
nem com os agitadores, nem com os agitados. Oh Allah!, aproxima-me a Teu Enviado,
Sidna Muhammad (Saws), cume da retidão e cúspide da bondade, luminária da razão e
profeta da piedade e último de Teus Enviados na Terra e no Universo”.

Orações das Sextas-feiras

“Oh Allah! Suplico-te e aclamo-te com os Nomes que empregou em te chamar Teu
profeta Adam, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que empregou em te
chamar Teu profeta Noé, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que
empregou em te chamar Teu profeta Hud, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os
Nomes que empregou em te chamar Teu profeta Abraham, sobre ele minhas orações e
Tua Paz; com os nomes que empregou em te chamar Teu Profeta Salih, sobre ele
minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que empregou em te chamar Teu Profeta
Jonáh, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que empregou em te chamar
Teu Profeta Job, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que empregou em
te chamar Teu Profeta Jacob, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que
empregou em te chamar Teu Profeta José, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os
Nomes que empregou em te chamar Teu Enviado Moisés, sobre ele minhas orações e
Tua Paz; com os Nomes que empregou em te chamar Teu Profeta Aaron, sobre ele
minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que empregou em te chamar Teu Profeta
Shuaib, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que empregou em te
chamar Teu Profeta Ismail, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que
empregou em te chamar Teu Profeta Elias, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os
Nomes que empregou em te chamar Teu Profeta Ezequiel, sobre ele minhas orações e
Tua Paz; com os Nomes que empregou em te chamar Teu Profeta David, sobre ele
minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que empregou em te chamar Teu Profeta
Suleiman, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que empregou em te
chamar Teu Profeta Zacarias, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que
empregou em te chamar Teu Profeta João Batista, sobre ele minhas orações e Tua Paz;
com os Nomes que empregou em te chamar Teu Profeta Jeremiah, sobre ele minhas
orações e Tua Paz; com os Nomes que empregou em te chamar Teu Profeta Elias, sobre
ele minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que empregou em te chamar Teu Profeta
Esaú, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os nomes que empregou em te chamar
Teu Profeta Dhu Kifl, sobre ele minhas orações e Tua Paz; com os Nomes que
empregou em te chamar Teu Enviado Jesus, filho de Maria, sobre ambos minhas
orações e Tua Paz; com os Nomes que empregaram todos eles, Teus Enviados e
Profetas, te rogo e te suplico, Oh Allah!, que me guardes ao pé do Teu excelso Trono
louvado ao último dos Teus Enviados e Profetas, Sidna Muhammad, sobre quem Allah
e seus crentes oram sem cessar eternamente desde antes que o céu fosse construído, a
Terra estendida, as montanhas encravadas, os oceanos, os mares e os rios correntes
repletos de minúsculos e gigantescos seres viventes; e desde antes que o sol brilhasse, a
lua e os astros iluminassem...estejas aonde estiveres, salvo Tu, ninguém sabe aonde
estás”.

Orações dos Sábados

Suplico-te Oh Allah! Em nome de todos os espíritos e corpos antigos e em nome dos


espíritos que retornam a seus corpos; em nome dos corpos que se recompõem sobre
suas veias e em nome do sangue que volta a regar essas veias; em nome de Tua sábia e
reta palavra do al-Quran, peço, Oh Allah! Que ilumines minha mente e minha vista para
que a doçura e a eminência de Tua existência não se afaste jamais de minha mente e de
todo o meu ser durante todos os dias, noites, meses, anos e séculos até a eternidade.
Concede-me a força necessária para permanecer rezando sobre Teu Enviado, Sidna
Muhammad, de maneira tão intensa e numérica como a quantidade das palavras que
compõem Teu Sagrado Livro, que demarca Tua infinita sabedoria, e como a quantidade
de gotas que caíram desde que criastes o mundo até a eternidade. Invoco-Te, Oh Allah!
Com os restantes Nomes Teus que criatura alguma conhecera, com o Nome que
colocastes sobre a noite para se obscurecer, sobre os céus para se tornarem
independentes, e sobre a Terra para se assentar, e sobre os mares e oceanos para
se agitar e se acalmar, e sobre os mananciais para que brotassem, sobre as nuvens para
que derramassem as chuvas. Suplico-Te Oh Allah! Em nome do escrito diante de
Miguel, Gabriel e Rafael, e do escrito diante de todos os Teus Anjos, que me associes a
Teu Enviado, Profeta, Escolhido e Amado, Sidna Muhammad, sobre quem Allah e os
Crentes rezam sem cessar eternamente”.

Orações para os Domingos

“Oh Allah” Converte-me no baluarte principal da vida celestial junto ao Amo e Senhor
de todos os filhos de Adam, que reencarna e transmite a bondade, a fecundidade, a
verdade, a moral, a sabedoria, a resignação e a proteção; portador e divulgador de Tua
Sagrada Palavra que encerra al-Quran; guia e acompanhante dos crentes no Teu Paraíso,
ajudado por Teus Anjos Gabriel e Miguel, tal como foi anunciado na Torah e na Bíblia,
escolhido por Ti para ser o último de Teus

O FOGO É PARA QUEIMAR EGOS

Shaykh Nazim Al-Haqqani Al-Qubrusi An-Naqshbandi


Shaykh Nazim: Físicamente é impossível reunir a todos nesta pequena habitação, mas
espiritualmente podemos fazê-lo. Cada qual pode estar aqui com sua luzes espirituais. O
fogo está aí como um símbolo de que há que queimar teu egoísmo e teu ego. Apenas
sou um tradutor e não vim a este lugar por acaso. Ninguém vem aqui por acaso. Não
estou falando por mim mesmo. Vosso Chefe me faz falar e há uma importante
declaração d'Ele: estais fazendo fogueiras pela manhã e à noite... Tudo seria inútil se
não queimasses vosso egoismo e vosso ego...Deves pôr fogo em vosso ego e queimá-lo.
Quando todos hajam queimado seus egoismos, poderemos reuní-los nesta habitação
porque quando não tenham mais egoismo, caberão. Não trarão nada consigo. Serão
como a luz, como 100 volts. Embora ponhas 200 volts neste quarto, não será demasiado
pequeno. Se pomos 1000 volts de luz aqui, a habitação continuará a mesma. Inclusive
se pusesses 1 milhão de volts, a habitação seria mais brilhante, mas as paredes não
cairiam. O que desejo dizer é que, se pudermos queimar nosso egoismo, a única coisa
que restará será nosso poder espiritual. Teremos lugar suficiente para todos nesta
habitação. Não há problema. Está bem. Somos como luzes, todos nós. Porém, quando o
egoismo te alcança, será demais inclusive para vinte pessoas. Até uma reunião com
vinte pessoas seria demais para este lugar.
Isto é um Centro. Me fazem falar e traduzir. Se andasse de acordo com meus desejos
não viria aqui. Não! Mas não vim pela minha vontade, porque este lugar não é para
judeus nem para cristãos nem para muslims. Nunca pertenceu a nenhuma religião
celestial. Não! Porém, nosso Senhor, o Senhor dos Céus, o Senhor do Ser, o Senhor dos
universos, o Criador do fogo e da água e dos filhos de Adão, programou isto. Criou um
grupo dos seus servidores no cume desta montanha para trabalhar aqui. Huwa (Ele) E
também nos deu outro trabalho. Estamos trabalhando, destruindo, construindo.
Assim todos nós não viemos nem nos encontramos aqui por acaso. Eu não encontrei
com 'Abd us-Samad por acaso e ele também não me achou por acaso. Não encontrei o
Doutor Ibrahim por acaso. Da mesma forma nosso sacerdote que veio de Gana para
assistir a uma conferência de Pentecostes, não perdeu a dita Conferência por acaso. Foi
inscrito por alguém que não é da Conferência para estar comigo, ontem e hoje. Não veio
por acaso. Temos que haver sido reunidos em um mundo espiritual, espiritualmente,
para sermos capazes de nos reunir aqui. E voltaremos a nos reunir em um mundo
espiritual. Senão pudéssemos, haveria sido impossível nos reunir aqui.
Podemos ser muslims, cristãos, judeus ou budistas, porém, nossas almas são todas
iguais. São todas escravas de nosso Senhor. Somente aqui nossas denominações são
diferentes. Porém, não podes ser mudado pela tua denominação. Deves recordar tua
promessa feita a teu Senhor: servir a Ele, o Todopoderoso. Isso é importante.
Assim, queimar madeira nesta montanha cada manhã e cada entardecer, a cerimônia,
não é algo simples como pôr madeira e queimá-la. Não! Poderias queimar o bosque
inteiro.

O VINHO MÍSTICO (KHAMRIYA)

Omar ibn al-Farid (111182-1235)

Tradução: André Sena

03 de junho de 2004
Em memória do Bem-Amado
Bebemos o Vinho que nos inebria
Antes mesmo da criação da videira

A taça que o contém


é um disco lunar brilhante
O Vinho, é sol.
Um crescente luminoso,
Um mordomo o serve à roda.
Com que luminosidade resplandece,
Já que no Vinho
Se misturam as estrelas !

Sem o perfume que exala


Um precioso perfume de musque
Eu jamais teria encontrado
o caminho da verdade
que conduz às suas tavernas.
Sem a luz que indica
Sua presença ao longe,
Sua imagem jamais teria
Nascido em meu espírito.

Pois neste século,


Sobrou dele apenas
um ligeiro sopro.
Como se no fundo dos corações
Um pacto secreto
Tivesse encerrado sua lembrança.

Então, apenas na tribo


Seu nome é mencionado,
Pois que uma embriaguez
Toma conta de seu povo.
Embriaguez sem vergonha
E sem pecado.

Por entre os flancos de uma ânfora


Lentamente ele subiu.
E logo, seu nome apenas
Permanece, em verdade,
Para o resgate de sua lembrança.

Tal lembrança
Visita , um dia
O espírito de alguém,
E por isso nesse alguém
A alegria passa a residir,
E a tristeza cela seu cavalo
Para ir-se embora, em longa viagem.
Os convidados descobrem
A tampa que fecha os vasos
Que o contêm.
Só esta visão já basta
Para inebriá-los
Antes mesmo de provar
A bebida.

Este Vinho, o derramamos


Sobre o solo
Onde um morto se enterra :
E tão logo o sopro o reanima
O cadáver e o morto
Levanta-se transbordante de vida.

Não se abandona um doente


Em seu terreno sombrio
Onde crecerá sua videira
Quando o mal tiver partido

O paralítico,
Assim que se aproxima
De suas tavernas,
Volta a caminhar.
Os mudos falam,
Quando se fala
diante deles
da sabor desse Vinho.

Assim que no Oriente


Sopra a brisa
Que traz o seu perfume,
No Ocidente,
Aquele que é privado de sua fragrância
Pode sentí-la
ainda outra vez.

Se, de dentro da taça


Uma gota respinga
Caindo sobre a palma da mão
Daquele que a segura,
Ele jamais se perderá
Caminhando pelas trevas
Pois em sua mão resplandecerá
Uma estrela.

Tal Vinho, é apresentado em segredo


A um cego de nascença :
E no dia seguinte, em plena alvorada
Ele se levanta, tendo recuperado a visão.
Quando se torna claro
o doce murmúrio desse Vinho,
Já logo recupera o ouvido
Aquele que é surdo.

Um tropel de cavaleiros
Ao trotar por sobre a terra
Onde cresce sua videira,
Jamais levaria no casco de seus cavalos
Qualquer resquício verminoso.

Um mago desenhou
Na testa de um possuído
As letras que formam seu nome
O que basta para curá-lo
Tal nome está bordado
No estandarte de um exército,
E todo o que marchar
Na sombra desta bandeira
É conduzido pela embriaguez

Ele educa seus convidados


E por eles, o homem indeciso
Adota o caminho
Das fortes resoluções

Ele sucita a generosidade


Na alma daquele
Cuja mão sempre ignorou doação
Ele ensina a doçura
Àquele que jamais a conheceu
Em seu momento mais colérico.

O mais forte da tribo


Tem o privilégio de beijar
A borda da taça,
Apenas este beijo
Permite-lhe saber
O sentido de suas perfeições

Dizem-me :
Descreva-o para nós,
Já que conheces tão bem
suas qualidades.
Sim, eu o descreverei,
Pois suas qualidades
Conheço-as perfeitamente.

Pureza !
Mas não a da água.
Sutileza !
Mas não a do ar.
Luminosidade !
Mas não a do fogo.
Alma carnal,
Sem corpo de carne.

Suas palavras precederam


Tudo o que existe aqui embaixo,
Quando nesse mundo
Faltavam a forma e a imagem

Por ele constituíram-se


Todas as coisas ;
Em seguida,
Por um certo saber, esconderam-se
Diante dos olhos que não compreendem.

Minha alma amou-o por inteiro.


Eles se misturaram
Para unirem-se
Mas não como uma simples
Mistura de duas matérias

Esse Vinho não foi extraído


De uma Vinha :
Adão é para mim um pai.
Vinha que não dá vinho :
Sua mãe é para mim uma mãe.

A pureza das taças


Contém na verdade
A pureza do sentido secreto
E cujo significado aparece
Através Dele.

A separação veio
Mas o todo é Um.
Nossas almas são o Vinho,
E nossa forma a videira.

Antes dele, não há antes ;


Depois dele, não há depois.
Sua necessária condição
É ser anterior
Ao mais recuado dos tempos.

Seu tempo
Precedeu o limite extremo do tempo.
O tempo de nosso pai
Veio apenas depois do seu.
Nossos pai viveu muito depois dele,
Como um órfão.

Seus admiradores
Celebram seus louvores,
Emocionados por sua beleza
São estes exelentes
Em verso ou mesmo em prosa.
Ao escutar os seus propósitos,
Regozija-se o que jamais ouvira,
Como o amante apaixonado
Pela bela Nou´m,
Assim que se pronuncia diante dele
O nome de sua amada.

Alguns me disseram :
Ao beber esse Vinho,
Cometeste iniquidade !
Isto não é verdade,
Pois iniquidade teria eu cometido
Ao privar-me de bebê-lo !

Que esta bebida


Alegre o coração
Dos habitantes do monastério !
A que embriaguez se abandonaram !
Entretanto não o beberam,
Mas apenas alimentaram
Sua intenção em bebê-lo.

Sua embriaguez, eu a experimentei


Antes de minha puberdade.
Em mim, ela será para sempre,
Mesmo depois de terem os meus ossos
Tornado-se poeira

Tal Vinho, bebe-o puro,


Pois, ao querer misturá-lo
A um outro licor
Que não a saliva do Amado,
Aí cometerás um crime !

Ele te espera nas tavernas,


Descobre o seu esplendor.
Bebe-o ao som de músicas,
Pois com ele, a música
É como uma presente que se oferece
Jamais ele habitou
Onde vive a tristeza.
E jamais a tristeza permaneceu
Na casa onde as canções se fundem

Embriaguez de uma hora !


O tempo se torna teu escravo
Sempre submetido,
Ainda que tua vida se interrompa
no final desta hora.
A ti então, o poder !

Aquele que viveu neste mundo


Sem embriaguez,
É como se não tivesse vivido !
Aquele que não morre
Desta embriaguez
Faltou-lhe a coragem
Neste mundo onde passou.

Que ele chore então por si mesmo,


O homem que abriu mão de seu direito,
Durante a vida inteira,
Direito de beber deste Vinho,
Vinho que rejeitou.

PRATICAR SEM CONHECER É UM EXTRAVIO

Imam Jafar as-Sâdiq

Nosso mestre o Imam Jafar as-Sâdiq disse, respondendo acerca de qual é a diferença
entre Islam e Iman:
"O Islam consiste nos aspectos exteriores, aos quais aderem as pessoas (al-islam huwa
l-zâhir alladî 'alahy l-nâs): os dois testemunhos concernentes à unicidade de Allah e à
missão profética de Muhammad (saws), o zakát, a peregrinação à Makka, a oração e o
jejum do mês de Ramadan. Pois, a fé (Iman) é, além de tudo isso, o conhecimento de
nosso ensinamento (ma'rifa amrinâ); aquele que professa e pratica o Islam sem
conhecê-lo é um extraviado, apesar de que seja muslim (kâna musliman wa kâna
dâllan)."
E ainda mais: "O Islam é a profissão da unicidade divina e a aceitação da missão de
nosso Profeta; é pelo Islam que o preço de sangue é pago, as condições do matrimônio
e da herança regulamentados; é (um conjunto) de leis exotéricas (zâhir), às quais
obedecem a maioria das pessoas. Quanto à fé, é um guia (hadâ), que se manifesta ao
coração; exotericamente, a fé se associa ao Islam, embora esotericamente o Islam não
se associe à fé (inna l-îmân yushârik al-islam fi l-zahir wa l-islam lâ yushârik al-
iman fi l-bâtin), portanto, a fé (Imân) é superior (arfa) ao Islam".

GRITOS DO CORAÇÃO
Pir 'Abdullah Ansari

"Sabe que o Profeta construiu


uma Kaaba exterior
De argila e água,
E uma Kaaba interior na vida
e o coração.
À Kaaba exterior a construiu
Abraham o Santo.
A interior é santificada pela glória de Allah mesmo.

Na senda de Allah
Dois lugares de culto assinalam os estados.
O templo material,
E o templo do coração.
Procura adorar
No templo do coração."

"Jejuar é somente poupar pão.


A plegária formal é assunto
De idosos.
Peregrinar é um prazer do mundo
Conquista o coração,
Dominá-lo é verdadeiramente um triunfo."

"O coração perguntou à alma.


Qual é o princípio deste assunto?
Qual é seu fim e qual seu fruto?
A alma respondeu:
O princípio é o aniquilamento do eu,
Seu fim a fidelidade
E seu fruto a imortalidade.

O coração perguntou:
O que é o aniquilamento?
O que é a fidelidade?
O que é a imortalidade?

A alma respondeu:
O aniquilamento é libertar-se do eu;
A fidelidade é a realização do amor;
E a imortalidade é a união de imortal com mortal."
"Há duas Kaabas:
A Kaaba construida na terra,
E a Kaaba do coração.

"A primeira é a que frequentam


os pés dos peregrinos;
A outra é o secreto lugar
Que descobrem os Buscadores
da Verdade

"A primeira
Enche os olhos dos fiéis;
A outra é somente encontrada pelo devoto
Sob o olhar do próprio Allah.

"Peregrinar à Kaaba terrenal


É uma questão de disciplina formal.
Encontrar a Kaaba do coração
Depende da graça de Allah.

"Numa, os peregrinos bebem das águas


de Zam-Zam;
As fontes da outra manam
Ao brotarem os suspiros.

"A Kaaba terrenal


Está custodiada pela montanha de 'Arfat,
O templo do coração
Está radiante com a luz de Allah.

"Da Kaaba terrenal


expulsaram aos ídolos de pedra;
Da Kaaba do coração
Destronam-se a codícia e o desejo."

Se fores um vagabundo
Em busca da Verdade
Não trarás teu segredo
Ao mundo exterior.

"Se um cão aleijado


É admitido em Sua porta,
E se Sua visão alenta aos abatidos
Não há razão para que eu desespere."
O Esotérico e o Exotérico

O exotérico da revelação
é como água salobra,
mas o esotérico é como pérolas
para os sábios.

Desde que pérolas e jóias são


encontradas no fundo dos mares,
busque a ostra
ao invés de correr pela praia.

Visão Interna

Com a visão interna


olhe para os mistérios do mundo.
A visão externa
não pode descobri-los.

Este mundo é a escada


que leva ao mundo mais elevado.
E temos que subir estes degraus.

O Momentum do Tempo

Oh! Tu que dormes à noite.


Se repousas,
não imagines que o tempo
também o faça.

Considera que tua


personalidade está sempre
em movimento - não
imagines que ela come ou dorme
ainda que por um momento!

O momentum do tempo
e a rotação planetária
arrastam todos os seres,
pelas noites e dias,
para o movimento incessante.

PALAVRAS DO SUFI ABU'L-HASAN KHARAQANÎ

"Todo coração que no seu interior há outra coisa que não Allah, mesmo que sejam
práticas piedosas, esse coração está morto."
"Mas como é o teu coração?" perguntaram-lhe.
"Faz quarenta anos que Alguém me separou do meu coração" respondeu ele.

---------- * ----------

"É melhor cantar pensando em Allah do que recitar al-Qur'an pensando em outra coisa."

---------- * ----------

"Jamais imagines estar a salvo de Iblis, ele te falará das setecentas estações
(espirituais)."

---------- * ----------

"Existem cinco Qiblas: a qibla dos crentes, o Templo sagrado (Jerusalem) que era a
qibla dos profetas e comunidades anteriores, a "Casa bem frequentada", que é o lugar
de reunião dos Anjos dentro do céu, e o Trono, que é a qibla das orações rogatórias.
Porém, a qibla dos Homens é: "Onde quer que te voltes, ali encontrarás o rosto de
Allah)." (II, 114)

---------- * ----------

JIHAD?

Shaykh Nazim Al-Haqqani Al-Qubrusi An-Naqshbandi

Não pode haver jihad antes que o Imam Mahdi (as) venha. Aqueles que estão
proclamando o direito de declarar jihad agora, são mentirosos. Primeiro, temos que ter
um Sultão, então a jihad poderá ser permitida. Quem está dando a ordem para a jihad
agora? O preciso comando de Allah é que antes haja um Sultão para toda a ummah.
Somente este Sultão terá autoridade para declarar guerra. Mesmo que tivéssemos cem
bilhões de muçulmanos, somente um (Sultão) teria autoridade para ordenar guerra.
Quem quer que faça isso agora, está errando por ir contra as Sagradas Leis de Allah.

ASSASSINATO DA FAMÍLIA DO PROFETA (S.A.W.S.)

Shaykh Nazim Al-Haqqani Al-Qubrusi An-Naqshbandi

"No Irak, eles mataram Ahl al- Bait (Família do Profeta, saws). Em uma noite,
toda a família foi morta, os velhos e os novos. Possam todos esses satanazes que
fizeram isso estar abaixo dos sete infernos. Por que o povo do Iraque não tentou
impedir isso? Por que eles não se levantaram e se lançaram contra eles? Por que
eles se renderam a eles? Por que eles não protegeram a família do Profeta
(s.a.w.s.)? Por isso os Awliyâ do Irak estão insatisfeitos com seu povo. Agora, todas
as calamidades estão ocorrendo àquele país, são resultado disto. Até que eles se
arrependam e tragam de volta um sultão, Allah não removerá o castigo deles. Mas
eles ainda não estão pensando sobre isto!". (Fala de Mawlana Shaykh Nazim em
1996, referindo-se aos assassinatos cometidos por Saddam Husayn e o seu tirânico
governo; assim, Mawlana previa os atuais acontecimentos no Irak). ABU YAZÍD AL-
BISTAMI, O AMIGO DE ALLÁH

Um homem cruzou comigo - recordou Abu Yazíd al-Bistami.


"Onde vais?" perguntou-me.
"À peregrinação" respondi.
"Quanto dinheiro tens?"
"Duzentos dinares."
"Vamos, me dê tudo!" exigiu o homem. "Tenho uma família para manter. Dê sete
voltas ao meu redor. Esta é a tua peregrinação."
Isso fiz e retornei à minha casa.
Walíy Abu Yazíd al-Bistami
("72 Santos Sufis"), Farid ud din Attar

*******

"Caminhas sobre a água!", lhe disseram.


"Também o faz um pedaço de madeira" respondeu Abu Yazíd.
"Voas pelo ar!"
"Também os pássaros o fazem"
"Viajas à Kaaba em uma noite!"
"Qualquer feiticeiro viaja da Índia a Demavand em uma única noite"
"Então qual é a tarefa apropriada para os verdadeiros homens?!"
"O verdadeiro homem compromete seu coração somente com Allah" contestou.
Idem, Farid ud din Attar

*******

Allah Todopoderoso - disse Abu Yazíd - me admitiu na Sua Presença e em duas mil
estações (espirituais), e em cada uma delas Ele me ofereceu um reino, mas eu não
aceitei. Allah disse-me: "Abu Yazíd, o que desejas?" E eu respondi: "Desejo não
desejar."

Idem, Farid ud din Attar


O HOMEM INSTRUÍDO ESTÁ VIVO, E O IGNORANTE MORTO

(Nasir-i Khusraw, O Livro Reunindo as Duas Sabedorias)

Tradução: André Sena

Dísticos 75-82

Busca e escreve; então, novamente, lê e questiona; em seguida, aprende; finalmente


sabe, e semeia em teu coração!

A preza do leão são as cabras; a da pantera é a gazela; conhecimento e sabedoria são as


prezas do homem sensato.

Pois assim se diz: um homem sábio, ainda que em seu túmulo, não está morto; já o
ignorante, mesmo sentado em um trono é um cadáver.

Estarei em pleno júbilo, se aquele que prova a verdade e faz o chamado responder
minhas perguntas.

Entretanto cale-se, todo aquele que não tendo aprendido, ignora os princípios; suas
palavras, sem peso nem critério, não terão qualquer valor.

Oh Tu, que reinas sobre o destino. Tu, que és a Origem das coisas, através de nossa
veneração e nosso respeito por Muhammad, o Eleito:

Liberta-nos - e a qualquer um que busque a gnose (ma'rifat) - dos grilhões da aflição,


Oh Tu, o Clemente!

E aquele, que por suas más ações abate o inocente, atinge-o Senhor com tua maldição!
Arruina-o!

Saber que o ignorante assemelha-se ao morto, e que em contrapartida, aquele que


caminha da ignorância ao conhecimento é como o morto a quem a vida é restaurada;
saber que a luz, na realidade é a Fé; que dúvidas e trevas, sem exceção, são sinônimos
de ignorância e extravio, tais são os sinais pelos quais se distinguem os adeptos da casa
do Profeta, que a paz esteja sobre ele!. Deus nos diz sob a forma de pergunta:

Pode, acaso, equiparar-se aquele que estava morto e o reanimamos à vida,


guiando-o para a luz, para conduzir-se entre as pessoas, àquele que vagueia nas
trevas, das quais não poderá sair? Assim, as ações dos incrédulos são revestidas
de aparência, belas e enganadoras. (VI/122)
Desse versículo pode-se compreender que os fiéis são como seres viventes, e que em
meio aos homens, eles se dirigem à luz do saber e da ciência; já os incrédulos são
ignorantes em meio as trevas; como a ressurreição dos homens após a morte é uma
promessa divina, a ressurreição da qual nos fala o versículo acima é a verdade original e
absoluta. Consequentemente, aquele para quem Deus Altíssimo clama a ressurreição
não está morto. Ele está vivo. E renascer desta forma para a vida é uma tarefa de todos
os homens.

Dentre o conjunto de fiéis, os conformistas da letra possuem uma interpretação diferente


deste versículo. Sobretudo no que se refere a identidade daquele que Deus Altíssimo
pretende ressuscitar. Segundo alguns, trata-se do Profeta, (que Deus lhe confira bênçãos
e salvação) que Deus reviveu através da luz da Revelação. Quanto à figura do cadáver
impuro, engolido pelas trevas, dizem eles, trata-se dos idólatras.

Nossa intenção é demonstrar que tal ressurreição dos homens após a morte, pela mão de
Deus, representa fundamentalmente a passagem da ignorância ao conhecimento. A
figura do homem, tal como proposta nos dois últimos dísticos do poema – onde a
imagem do sábio é associada ao vivo e a do ignorante ao morto – designa os peregrinos
no caminho de Deus Altíssimo, ou seja, os adeptos da Ahl-e Ta‟yid, aos quais a
Inspiração divina auxilia, assim como os hermenêutas.

DO DESTINO (E DA ALMA)

Shaykh al-Yunani, Plotino (n.205 m.270 e.C)

(As Enneadas, III, 1º Tratado, VIII)

“Há que incluir entre os seres outro princípio, a saber: a alma (nafs). Não só a
Alma universal (nafs-kullîya), senão também a alma de cada ser. Esta alma não é um
princípio que tenha pouca importância no encadeamento universal das causas e dos
efeitos, porque em lugar de nascer de uma semente, como as demais coisas, constitui
uma causa primeira. Fora do corpo, é senhora absoluta de si mesma, livre e
independente da causa que administra o mundo. Uma vez que desceu a um corpo, já não
é tão independente, pois então forma parte da ordem à qual as outras coisas estão
sujeitas. Agora bem: como quer que os acidentes da fortuna –isto é, as circunstâncias
em cujo centro se acha localizada a alma-, determinem uma multidão de
acontecimentos, ocorre que a alma umas vezes obedeça à influência das circunstâncias
externas ou que, em outras ocasiões, domine essas circunstâncias e faça o que queira.
As domina mais ou menos, segundo seja boa ou má. Se cede ao temperamento do
corpo, fica necessariamente abandonada à concupiscência ou à cólera, abatida na
pobreza ou orgulhosa na prosperidade, ou tirânica no exercício do poder. Caso se ache
dotada de boa índole, resiste a todas essas más inclinações; modifica o que a cerca, em
lugar de ser modificada por aquilo; muda determinadas coisas e tolera às demais sem
cair no vício.

“(...) quando a alma toma uma determinação, a executa por ser movimentada a
isto pelas coisas externas; quando a alma cede a um arrebato cego, sua determinação e
sua ação não devem ser consideradas como livres. A alma não é livre quando se
perverte, adotando determinações que não a dirigem pelo caminho correto. Porém,
quando segue seu próprio guia, à razão (‘aql) pura e impassível, a determinação que
adota é verdadeiramente voluntária, livre, independente, a ação que realiza é realmente
obra sua e não conseqüência de um impulso externo; extraída de seu poder interior, de
sua essência pura, do princípio primeiro e soberano que a dirige e a quem não extravia a
ignorância nem vence a violência dos apetites; porque, quando os apetites invadem a
alma e a subjulgam, a arrastam com sua violência, e a alma é antes passiva que ativa em
tudo o que faz.

“A conclusão desta discussão é que tudo é anunciado e produzido por causas:


primeiro, a alma humana; depois, as circunstâncias externas. Quando a alma obra
conforme a reta razão, obra livremente. Fora disto, se vê coagida nos seus atos, é
passiva antes que ativa. Assim, quando carece de prudência, as circunstâncias externas
são causas dos seus atos. Com razão é dito então, que obedece ao Destino –
principalmente se o Destino é olhado como uma coisa externa. Os atos virtuosos,
contrariamente, emanam de nós: é-nos inerente produzi-los quando somos
independentes. Os homens virtuosos atuam, fazem o bem livremente. Os demais não
obram o bem senão quando suas paixões os deixam respirar: se nesses intervalos,
praticam os preceitos da sensatez, não é que os recebam de outro ser, senão unicamente
que suas paixões não lhes impedem, então, dar ouvidos à voz da razão”.

"ORAÇÃO A DEUS"

("Tratado Sobre a Tolerância", Voltaire, 1694-1778)

"Não é mais aos homens que me dirijo, é a Ti, Deus de todos os seres, de todos os
mundos e de todos os tempos. Se é permitido a frágeis criaturas perdidas na imensidão e
imperceptíveis ao resto do Universo, ousar Te pedir alguma coisa, a Ti que tudo criaste,
a Ti cujos decretos são imutáveis e eternos, digna-Te olhar com piedade os erros
decorrentes de nossa natureza. Que esses erros não venham a ser nossas calamidades.
Não nos destes um coração para nos odiarmos e mãos para nos matarmos. Faz com que
nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de uma vida dificil e passageira; que as
pequenas diferenças entre as roupas que cobrem nossos corpos diminutos, entre nossas
linguagens insuficientes, entre nossos costumes ridículos, entre nossas leis imperfeitas,
entre nossas opiniões insensatas, entre nossas condições tão desproporcionadas a nossos
olhos e tão iguais diante de Ti; que todas essas pequenas nuances que distinguem os
átomos chamados homens não sejam sinais de ódio e perseguição; que os que ascendem
velas em pleno meio-dia para Te celebrar suportem os que se contentam com a luz do
Teu sol; que os que cobrem suas vestes com linho branco para dizer que devemos Te
amar não detestem os que dizem a mesma coisa sob um manto de lã negra; que seja
igual Te adorar num jargão formado de uma antiga língua, ou num jargão mais novo;
que aqueles cuja roupa é tinjida de vermelho ou de violeta, que dominam sobre uma
pequena porção de um montículo de lama deste mundo e que possuem alguns
fragmentos arredondados de certo metal usufruam sem orgulho o que chamam de
grandeza e riqueza, e que os outros não os invejem, pois Sabes que não há nessas
vaidades nem o que invejar, nem do que se orgulhar.

"Possam todos os homens lembrar-se de que são irmãos! Que abominem a tirania
exercida sobre as almas, assim como execram o banditismo que toma pela força o fruto
do trabalho e da indústria pacífica! Se os flagelos da guerra são inevitáveis, não nos
odiemos, não nos dilaceremos uns aos outros em tempo de paz e empreguemos o
instante de nossa existência para abençoar igualmente em mil línguas diversas, do Sião
à Califórnia, Tua bondade que nos deu esse instante".

OLHAR AMOROSO

(Copyright, 2003. Shaykh Nazim Al-Haqqani An-Naqshband)

Se alguém ama a uma pessoa, ele nunca vê algo desagradável nela, tudo é perfeito: seus
traços, sua forma de falar e suas ações. Praticando, vocês podem estar nesse nível.
Como Layla e Majnun. Ele amava tudo que pertencia a ela, seus cachorros, seu povo,
incluindo as pedras.

O amor perfeito faz com que, ao olhar uma pessoa, você veja toda perfeição. Para um
enamorado, nada pode ser desagradável em sua amada. Se olharmos para a pessoa em
sua perfeição, nós vamos querê-las. Porque somos únicos na Sua criação: há uma
completa e especial perfeição nelas. Inclusive fisicamente, cada um de nós é um
indivíduo. Este é o poder sem fim de Allah, fazer com que todos estejam no cume.

Olhando com esses olhos, os corações tratam de, ao menos, ser amigos de todos. Assim,
todos vem a nós com amizade e a amizade leva ao amor. Quanto mais amemos às
pessoas, mais estaremos firmemente amando ao Senhor. Sempre olhem a perfeição das
pessoas e busquem por suas boas ações. Allah diz, não olhem as faltas dos outros, isso
os leva ao ódio e à inimizade. Vocês vão ter essas mesmas faltas. Devem controlar seus
olhos.

***

OS HOMENS E AS MULHERES

Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshbandi


(Tradução de Nur Dórea Gomes da Costa)
Londres, 19 de maio de 1991.

O homem é como uma concha e a mulher como uma pérola. Não há identidade perfeita
entre a concha e a pérola. Mas uma concha sem pérola não tem valor. E uma pérola não
pode existir sem a concha.

Porém, os fanáticos espalham idéias falsas para semear a confusão na cabeça das
mulheres. Eles afirmam que os homens não concedem a elas a plenitude de seus direitos
e que elas não têm direitos idênticos aos dos homens.

Mas isso é uma loucura. Vocês acreditam mesmo que uma concha daria os direitos de
que dispõe a uma pérola? Uma pérola é uma pérola. Ela é perfeita enquanto tal. A
concha também é perfeita por ela mesma.

Para ilustrar o que estamos dizendo agora, todos os Livros Sagrados mencionam que
Deus Todo-Poderoso cria primeiramente a concha. E em seguida a pérola. Isso significa
que o primeiro ser criado foi Adão e que, dele, foi criada logo depois a mulher. Como
uma pérola.

O homem tornou-se então a concha. Ao mesmo tempo ele tornou-se uma proteção para
a mulher. Sem essa proteção, a pérola não poderia existir. Tudo isso é arranjado pela
Sabedoria Divina. Ela arranja a vida da humanidade neste planeta. Até o Dia da
Ressurreição.

A perfeição para os representantes dos dois sexos reside na sua satisfação em ser aquilo
que eles são. Um é um homem e o outro é uma mulher. Se um dos dois não está de
acordo e deseja trocar de sexo, então deixa de estar conforme sua natureza. Uma mulher
que deseja ser um homem, ou um homem que deseja ser uma mulher, são malditos por
isso. Eles são malditos também por todos os profetas. Eles são malditos por todas as
criaturas.

A perfeição para um homem significa que ele está 100% satisfeito de ser um homem.
Para uma mulher, que ela está 100% satisfeita de ser uma mulher. Se não for esse o
caso, e se eles desejam assemelhar-se ao sexo oposto, então a maldição se abate sobre
eles.

O paraíso estava vazio quando o primeiro homem foi criado. Ele encontrava-se no
Jardim do Éden. Adão sentia-se só, pois não havia ninguém que se assemelhasse a ele.
Ele estava só. Ele sentia o peso da solidão. Ele estava entediado. Alguma coisa lhe
faltava, mas ele não sabia o quê. O paraíso era repleto de perfeição, mas esses
sentimentos lhe davam a impressão de que algo estava incompleto.

Então, Deus Todo-Poderoso deu ao primeiro homem, ao pai da humanidade, em um


segundo, enquanto ele estava dormindo, uma nova criação: Eva (que a Paz seja com
ela). Adão abriu os olhos. Nossa mãe estava sentada ao lado dele. A beleza de todas as
gerações futuras das mulheres estava expressa em Eva. Ela assemelhava-se a uma lua
cheia. Vocês conseguem imaginar essa beleza?
Tudo isso foi concedido a Adão. Assim, quando ele a viu, ele constatou que o paraíso
estava completo, que ele era perfeito. Deus Todo-Poderoso criou o primeiro homem e,
dele, criou a primeira mulher. O homem foi o primeiro e Eva a segunda.

O homem está sempre voltado para a terra. Ele é feliz com a terra, pois ele foi criado de
um punhado de terra. Mas as mulheres são habitualmente mais interessadas pelos
homens do que pela terra. Adão foi criado de um punhado de terra. Seus sentimentos
pela terra são de natureza filial. Como se a terra fosse sua mãe. Ele ama muito a terra,
enquanto que as mulheres amam muito os homens.

Aos homens e às mulheres foi dada a perfeição. Não se pode dizer que os homens e as
mulheres são idênticos. Fisicamente, não há igualdade entre eles, uma vez que são
diferentes. Mas eles são iguais ou idênticos ao olhar de Deus, na Presença Divina. Cada
pérola está assentada com uma concha. Vocês, enquanto pérolas, estarão assentadas
com suas conchas na Presença Divina, com sua proteção. Esta é a mais alta distinção
para uma mulher e para um homem.

Os homens devem ser reconhecíveis perante Deus por suas mulheres e as mulheres
devem ser reconhecíveis por seus maridos. Cada um deve se comportar e agir em
conformidade com a sua natureza na Presença Divina. Cada um foi honrado e obteve
bênçãos infinitas da parte de seu Senhor, de seu Criador. Cada um dos dois sexos,
homem ou mulher, obteve bênçãos preciosas e sem limites. Cada um deveria ser
suficientemente feliz de ser o que é, nesta vida aqui em baixo e na Outra.

***

(Em Nome de Allah, O Clementíssimo, O Misericordiosíssimo)

DO CRISTIANISMO

Mahmud Shabistari, "É Nosso Roseiral"

(traduçao, Abd ul-Wáhid)

A meta do cristianismo, como eu percebo,


é a purificaçao de si mesmo,

A libertaçao das cadeias do conformismo,

O bendito portal da Unidade é o santuário

da alma

Que é o ninho do Eterno, o Simurgh*.

Esta doutrina ensinou-a o Espírito de Deus* *

que procedia do Espírito Santo.

Em ti Deus pôs uma alma,

parcela do Espírito Santo.

Se de tua alma carnal chegas a libertar-te

Obterás o acesso à vida da Divindade:

Como os anjos puros, todo homem purificado

Ascenderá ao quarto céu como o Espírito de Deus.

* Simurgh: pássaro mitológico que mora na montanha Qaf, símbolo do Ser


Supremo e da pluradidade na Unidade.

* * Espírito de Deus: Ruh Alláh, Jesus (as)

***

(Em Nome de Allah, O Clementíssimo, O Misericordiosíssimo)


O BAY'AH DE NASIR-I KHUSRAW

"Diwan de Nasir-i Khusraw"


(Tradução de Latifa)

Aquele sábio colocou sua mão sobre meu coração

(uma centena de bençãos, naquela mão, naquele peito!)

e disse: "A ti ofereço o remédio

de prova e demonstração; mas se

aceitares, colocarei um selo nos teus lábios,

que jamais quebrará: "Consentí e ele

fixou o selo. Gota por gota e dia

a dia ele me alimentou com a poção curadora, até

desaparecer minha doença, minha língua tornou-se

plena de elegante discurso; minha face,

pálida como açafrão, tornou-se rosada com alegria;

eu, que fôra uma pedra, rubí sou agora;

poeira fui -âmbar, agora. Ele pôs minha mão sob a mão do Profeta,

o bayat disse eu sob a exaltada Árvore

tão carregada com frutas, tão doce como refrescante sombra.

Já ouviu falar de um mar que escoa do fogo?

Já viu uma raposa se tornar num leão?

O sol pode transformar um seixo, o que a mão

da natureza jamais poderia fazer, numa jóia.

Sou aquela pedra preciosa, meu Sol é ele,

por cujos ráios este tenebroso mundo é chéio de luz.

Enciumado não menciono seu nome


neste poema, apenas posso dizer a ele,

que Platão por ele mesmo se tornaria um escravo. Ele

é o professor, curador de almas, favorecido de Deus

imagem de sabedoria, fonte de conhecimento e Verdade.

Abençoado é o navio que o tem como âncora, abençoada

é a cidade cujo portão sagrado ele sempre protege !

Ó Face do Conhecimento, Modelo da Virtude,

Coração da Sabedoria, Alvo da Humanidade,

Ó Prêmio do Prêmio; me coloquei diante de Ti, pálido

e esquelético, vestido num manto de lã,

e beijei tua mão como se ela fosse a sepultura

do Profeta ou a Pedra Negra da Kaaba.

Seis anos servi a Ti, e agora, onde que que esteja

enquanto viver usarei minha caneta e tinta,

meu tinteiro e meu papel...em louvor a Ti !

***

ALLÁH, O CURADOR

Poema de
Kabir

O sofrimento dos olhos,

a voz compreende-o;
o sofrimento da voz,

o ouvido compreende-o;

o sofrimento do corpo,

o sopro compreende-o;

o sofrimento do sopro,

a morte compreende-o;

o sofrimento do desejo,

o sequioso compreende-o;

o sofrimento do sequioso,

a água compreende-o,

o sofrimento do Amor Divino,

só Alláh o compreende.

***

SE (IF)

Se és capaz de manter tua calma, quando,


todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,


ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,


de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,


em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.
Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,


a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,


e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,


ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling
Tradução de Guilherme de Almeida

***

IMAM MAHDÎ (AS): SENHOR DA RESSURREIÇÃO

Abû Ya‟qûb Sejestânî

O (Imam) Mahdî (as), é aquele que mostra a via às pessoas. Todos os profetas que o
antecederam guiaram as pessoas sobre a via de Alláh. Quando os tempos são
cumpridos, quando a retirada dos véus é próxima, e iminente a vinda do Ciclo de
Epifania (dawr al-kashf), eis que brilham as provas luminosas e os indícios se mostram
num estado perfeito. Então, aquele que faz sua aparição nesse tempo, mostra a via às
pessoas, sem necessidade de véu nem símbolo. Toda a ciência esotérica que estava
escondida nas religiões positivas e nos Livros, toda a sabedoria, todo o segredo que
permanecia sob um véu, ele revela-as às criaturas. Eis porque seu nome (Mahdî) deriva
etimologicamente da (raiz) HDY (guiar). Quer isto dizer que ninguém pode sair da sua
ação, nem ser excluído do seu apelo (da’wa); ninguém, do mesmo modo, fugirá diante
das suas razões e provas, porque ele mostra precisamente às pessoas a via para o que, na
realidade e no verdadeiro sentido, é elas mesmas. Ele mostra a via para essas altas
ciências às que rendem testemunho “os horizontes e as almas”. Ele abre às almas o
conhecimento do mundo angélico, de maneira que as almas consumem sua união com
as verdadeiras realidades e o influxo divino que as assiste. Grande paz e alegria
desabrocham; todos os persistentes entram finalmente dentro da pura religião espiritual
(din-e izad) com liberdade, zelo, consciência verdadeira e devoção. Eis porque é dado
ao (Imam) Mahdî, o nome de Senhor da Ressurreição.

***

IMAM MAHDI (AS): O SENHOR DO TEMPO

Pergunta: Há pessoas que dizem que o Mahdi é uma superstição. Que resposta
devemos dar a elas?

RESPOSTA

Nos livros 'Alamaati 'l-Mahdi (Sinais do Mahdi) de Ibn Hajar Makki, Al-Burhan
(A Prova) de Imam-i Suyuti e Mukhtasar Tadhkirat Qurtubi (Resumo da Recordação)
de Imam-i Sharani, estão escritos aproximadamente 200 sinais do Mahdi. Dizer
“superstição” ao se referir ao Mahdi é infidelidade ao conhecimento e um presságio do
Dia do Juízo. Alguns dos pertinentes ahadith ash-sharif (nobres tradições) do Profeta
(s) são:

“Antes do Último Dia, Allah, O Altíssimo criará um de meus descendentes,


cujo nome e cujo nome de seu pai serão os mesmos que os meus. A terra, a qual
terá sido preenchida com crueldade antes dele, será preenchida com justiça
durante o seu tempo.” [Tirmidhi, Ibn Asakir]

“Haverá uma nuvem bem em cima da cabeça do Mahdi. Um anjo da nuvem


dirá, „Este é o Mahdi. Sigam o que ele diz.‟” [Abu Nu'yam]

“O Dia do Juízo não virá até que uma pessoa de minha ahl-i bait (o povo da
casa; a sagrada família do Profeta Muhammad s.) governe o mundo. Ele possui uma
testa ampla e um nariz aquilino. Quando a terra estiver preenchida com
crueldade, ele a preencherá com justiça. Ele reinará por sete anos.” [Muslim]

“Os Ashab-i Kahf (Companheiros da Caverna) serão os assistentes do Mahdi, e


„Isa (Jesus Cristo as.) descerá do Céu durante seu tempo. Quando „Isa combater o
Dajjal (o Anticristo), o Mahdi estará com ele.” [Imam Suyuti]

“Quatro pessoas tomaram posse da terra. Dois deles eram Crentes, mais
precisamente, Dhulqarnain (Alexandre Magno) e Sulaiman (Salomão). Os outros
dois eram descrentes, mais precisamente, Namrud (Nimrod) e Buhtunnassar
(Nabucodonosor). Na quinta vez, a terra será possuída por um dos meus
descendentes.” [Imam Suyuti]

“Juntem-se àqueles que virão da direção de Khorasan com bandeiras negras.


Entre eles estará o Mahdi, o califa de Allah.” [Hakim, Imam Ahmad, Daylami]

“Como uma Ummah (comunidade) pode perecer, quando ela começa comigo,
termina com „Isa, filho de Maria, e tem o Mahdi, que é do meu ahl-i bait, no meio
dela?” [Hakim, Ibn Asakir]
“Um grupo de pessoas saindo do Oriente ajudará o Mahdi.” [Ibn Majah,
Tabarani]

“Quando o Mahdi aparecer, Allah Altíssimo derramará Sua Misericórdia


sobre ele.” [Imam Ahmad, Hakim]

“O Mahdi é da minha progênie. Ele preencherá a terra com verdade e


justiça.” [Abu Dawud]

“O Mahdi não virá até que a terra esteja coberta pela descrença.” [Maktubat
Rabbani, Vol. II, Carta 68]

“Quando o Mahdi vier, haverá abundância. Minha Ummah viverá no


conforto.” [Ibn Abi Shayba]

“O Mahdi é de ahl-i bait. Allah Altíssimo o fará maduro (yuslihahu) dentro de


uma única noite.” [Ibn Majah, Imam Ahmad]

“Aquele que não acredita na vinda do Dajjal ou do Mahdi se torna um kâfir


(não-muçulmano; descrente, infiel).” [Fawaid-il Ahbar, Shar`is-Siyar]

“O Mahdi é de Quraish (a tribo a que pertencia o Profeta Muhammad s.) e de


minha ahl-i bait.” [Imam Ahmad, Bawardi]

“O Mahdi será dos meus descendentes.” [Ibn Majah]

“O Mahdi será da descendência de Fatimah (a filha iluminada do Profeta s.).”


[Abu Dawud, Hakim]

“O Mahdi será dos descendentes de meu tio Abbas.” [Ibn Asakir, Dara Qutni]

“Ó Abbas! Um jovem dentre seus descendentes preencherá a terra com


justiça. Ele fará salat (oração congregacional islâmica) com „Isa.” [Hatib, Ibn Asakir,
Daraqutni]

[Não há contradição entre essas afirmações. Hadrat Abdul Qádir Jilani, por exemplo,
era um sayyid (descendente do Profeta s. através do seu neto Hussein ra.) pelo lado de
sua mãe e um sharif (descendente do Profeta através de seu neto Hassan ra.) pelo lado
de seu pai.]

Hadrat Ali afirmou, apontando para seu filho Hassan, “Um homem da
descendência deste filho meu aparecerá. Ele preencherá a terra com justiça” (Abu
Dawud).

Nenhuma pessoa que tenha sensatez e fé pode rejeitar estes ahadith ash-sharif
relatados por Muslim, Abu Dawud, Ibn Majah, Tirmidhi, cujas coleções de hadith
são chamadas juntas Kutub-i Sittah (Os Seis Livros), e por outros eruditos em hadith e
as explanações dadas pelos eruditos de Ahl as-Sunnah (O Povo da Tradição do Profeta
Muhammad s.). É contrário à nossa religião dar-lhes um significado diferente. Se todos
tentassem interpretar cada regra Islâmica de uma forma diferente, não haveria algo
como a religião.

Hadrat Imam A`zham Abu Hanifah disse:

“Nós acreditamos (sem lhes dar um sentido figurativo) que o surgimento de


Gog e Magog, o nascimento do sol no Ocidente, a descida de Hadrat „Isa do Céu, a
vinda do Dajjal, e todos os outros sinais antes do Dia do Juízo irão se realizar em
seu curso devido, exatamente da mesma forma em que eles foram narrados nos
ahadith ash-sharif” [Fiqh-i akbar].

***

"DESCALÇAR DAS SANDÂLIAS"

Imam Abû al-Qâsim ibn QasÎ (s. XII,


de Silves ou Mértola, Portugal)

Tira as sandâlias e ascende altivo

acima das estrelas cintilantes !

une-te à Verdade !

quem as desprezou

ficou chorando por todas as coisas.

o olhar do mais firme

-tal como o céu-

convoca a beatitude da verdade clara.

descalça as sandâlias sinceramente,

desde os umbrais do esplendor.

une-te ao Ser !
vale-te mais essa uniao

que todas as provas da Razao.

quem viu o que eu gritei à multidao´

àcerca da realidade da uniao

tem de deixar o mundo da dualidade

que sao duas sombras sob o sol.

o espírito venceu a dôr ao aproximar-se do distante.

ò mae dos meus irmaos !

o Amado é a meu lado !

ò povo ! se a paixao me der a morte

toma o meu amor, como vingança,

e vinga-me !

***

POEMAS DE AMOR, MORTE E RESSUREIÇÃO (I)

HUSAYN MANSÛR HALLÂDJ

(Tradução de André Sena)

Bismilláh al-Wadud
Yâ Wadud !

Ao entrar numa mesquita de Bagdad, foi interpelado por certo


conhecido, e respondeu: "Eu sou Ele...eu sou a Verdade !"
Apaixonado pelo Amorosíssimo, suas palavras o condenaram
diante dos literalistas que o acusaram de estar blasfemando; os que apenas
enxergam o visível para seus olhos de carne, apavoram-se frente almas
apaixonadas.
Husayn Mansûr Hallâdj foi preso, torturado, crucificado e
esquartejado.
Ressuscitado pelo seu amor por Deus, continua vivo.
Rios de lágrimas vivificam e testemunham a sua memória.
Aconteceu em 27 de março de 992.

Ramadan 1430 H./ Agosto-Setembro 2009


(A.R.al-Fatá)

1 Eis-me aqui, Eis-me aqui!

Eis-me aqui, eis-me aqui!


Oh, segredo meu e minha confidência!
Eis-me aqui, eis-me aqui!Oh, minha me ta e sentido
Eu Te chamo...! Não! És, Tu quem me chamas a Ti!
Como poderia eu dizer "És Tu",
Se não me houvesses antes sussurrado, "Sou Eu"?
Oh, Essência da essência do meu existir!
Oh, extinção do meu desejo!
Tu, minha locução, balbuciado e balbúcie!
Oh, Todo de meu todo! Meu ouvido e minha vista!
Minha totalidade, minha composição e partes!
Oh, Todo de meu todo!
O Tudo de um tudo é um enigma que escurece
Quando desejo expressá-lo.
Oh, Tu, a quem meu espírito, moribundo de êxtase,
Havia ascendido,
Te convertes agora, durante minha aflição, em seu guardião!
Lamento e choro, longe de minha pátria
Por obediência,
E meus amigos se lamentam comigo.
Me aproximo, meu medo me afasta, mas no fundo de minhas entranhas lateja um
desejo, a fazer-me tremer.
Que farei, meu Senhor, com este Amante que me tem fascinado?
Minha doença esgotou meus médicos.
Eles me dizem: "Cura-te com ele com ele!"
Mas eu lhes digo:
"É possível que nos curemos de um mal com esse mesmo mal?"
Meu amor por meu Senhor PE arruinou e me consumiu,
Como poderia queixar-me a meu Senhor de meu Senhor?
Sem dúvida O sinto e meu coração O conhece,
Mas nada, exceto o piscar de meus olhos poderia expressá-lo.
Ah, por culpa de meu espírito, desgraçado é meu espírito!
Sou eu mesmo a origem de minha própria desgraça!
Como os dedos de um náufrago, surgindo solitários no vasto mar, a pedir ajuda.
Ninguém, exceto Ele, que meteu-se em meu coração,
Sabe o que me sucede.
Ele conhece o bem e o mal que me afetam.
Dele depende que eu morra ou viva.
Oh suprema exigência e esperança!
Meu hóspede!
Oh, vida de meu espírito!
Minha fé e minha parte neste mundo!
Diga-me: "Expiei tuas faltas".
Oh, meu ouvido e minha vista!
Afastei-me por demais de Ti!
Até onde permitirás que assim seja?
Embora, no invisível, Te oculter de meus dois olhos,
Meu coração observa ao longe o Teu amanhecer.

2. Atravessei um oceano

Para a ciência há vocações. Para a fé, uma progressão.


Tanto para a ciência como para os santos
O mais importante são as experiências.
É portanto a ciência duas ciências:
A que se rejeita e a que se aceita.
O oceano, dois mares:
Um navegável, o outro perigoso.
O tempo, dois dias:
Um nefasto, o outro favorável.
O gênero humano, dois destinos:
Um pleno, o outro despojado.
Guarda pois em teu coração
O que te diz uma testemunha honesta,
E observa com atenção, graças a teu entendimento,
Já que o discernimento é um dom.
Quanto a mim, escalei até o cimo
Sem que fosse necessário por os pés na montanha
Subida que reserva a todos, menos a mim, incontáveis perigos.
Atravessei um oceano
Sem que fosse necessário tocarem-no meus pés
É meu espírito quem o atravessou
É meu espírito quem o saboreou
Seu fundo de gravas e pérolas é inacessível às nossas mãos
Mas apenas uma tomada de consciência basta para possuí-lo
Nele serenei sem abrir a boca,
Todavia trata-se de uma água familiar para as bocas que já beberam.
Meu espírito, desde o princípio teve sede
Quando meu corpo nela se molhou
Antes mesmo de ter sido formado.
Eu, órfão, tenho um Pai a quem recorrer
Meu coração, enquanto durar minha vida, sofrerá por não poder vê-Lo
Cego, sou vidente.
Simples de espírito, sou sagaz.
Mas se me prendo a estes adjetivos
Poderei acabar sendo mal interpretado.
Os bravos sabem o que eu sei,
Já que são meus companheiros.
Pois aquele que é virtuoso busca companheiros.
Suas almas foram apresentadas umas as outras
Na origem da humanidade.
Depois luziram feito sóis enquanto o tempo,
Como uma senda,
Submergia á sombra da montanha.

3. Oh Visão de Onde Parte o Meu Olhar

Oh visão de onde parte meu olhar!


Lugar onde introduz-se minha inspiração!
Conjunto de tudo
Mais querido do que tudo ou parte de mim mesmo!
Desejam que tu sejas compassivo com aquele
Cujo coração está preso em duas garras de pássaro.
Perdido fora de si
Como um selvagem que foge de um deserto ao outro,
A vagar sem saber por onde,
Suas idéias erram como o resplendor que traça um relâmpago,
Ou como o leve e tênue presságio que se lança
Na sombra do futuro e no fluir do oceano do pensamento,
Onde é arrastado pela graça da onipotência divina.

4. Etapas na Ascese Mística

Primeiro o recolhimento, depois o silêncio.


Mas tarde a afasia e o conhecimento
Por último, a nudez.
Primeiro a argila, depois o fogo.
Mais tarde a claridade e o frio,
Depois a sombra
Por último, o sol.
Primeiro as rochas depois, frestras
Mais tarde o deserto e o rio,
Depois a crescente
Por último, a seca.
E primeiro vem a embriaguez
Depois a desilusão
Mais tarde o desejo de aproximação,
Depois a união,
Por último, a consolidação.
Primeiro a angústia, depois a lembrança.
Mais tarde a atração e a conformação,
Depois a aparição divina
Por último, a investidura.
Têm acesso a essas frases apenas aqueles que atribuem a este mundo valor inferior de
uma simples moeda.
Há vozes detrás da porta,
Mas sabe-se que as conversas dos homens
Quando deles nos aproximamos
Convertem-se em meros murmúrios
A última idéia apresentada ao fiel, quando alcançada a barreira é:
"Meu prêmio" e "meu eu"
Posto que as criaturas são escravas de suas inclinações
E a verdade de Deus quando descoberta,
É que Ele é Santo.

5. Sarcasmos referentes às doutrinas esotéricas

Aquele que recebeu confidências,


Publicando depois, tudo que outrora mantiveram
Em segredo
Sem continuar indo a eles,
É um caloteiro.
Que desperdício seria, se as almas anunciassem tudo
O que sabem em segredo
E tudo o que comoveu sua razão!
Quando alguém viola o segredo de seu mestre e senhor
Nada mais lhe é confiado pelo resto de sua vida.
É punido por causa de sua negligência
É banido e confinado ao isolamento, longe dos seus,
Todos se afastam dele, sendo mal visto até por seus
Vizinhos,
Se for pego exumando segredos.
Aquele a quem um segredo foi revelado e o divulga como eu,
É visto como um desequilibrado,
Eles, os iniciados, feitos para a disciplina arcana,
Não suportam a falta de pudor
Nem os indiscretos em suas reuniões
Não apreciam o descotirnar do véu que os cobre
E por serem tão ciumentos com seus próprios mistérios,
Não admitem convidados!
Sua glória está longe de vós e vossos atos!
Mostrai-lhes pois, doravante e sempre, reverência
Em sua casa.

6. A queda após o Êxtase

Eu te grito: luto pelas almas cujo testemunho


Temporal (eu) vai através do além para unir-se ao
Testemunho eterno!
Eu te grito: luto pelos corações,
Tão amiúde orvalhados em vão pelas nuvens da Revelação,
Onde a sabedoria se amontoa como o oceano!
Eu te grito: luto pela palavra de Deus!
Faz tanto tempo que morremos
E sua lembrança não se manifesta mais em nossa imaginação.
Eu te grito: luto pelas demonstrações dos inspirados,
Diante dos quais cedem
todos os discursos de oradores dialéticos
Eu te grito: luto pelas alusões insinuadas
Pelas inteligências.
Nada senão ruínas subsiste de todas elas nos livros!
Eu te grito: luto em nome do Teu amor!
Pelas virtudes dos que tiveram suas carcaças
Moldadas para obedecer!
Todos eles já se foram, atravessaram o deserto sem deixar marcas
Nem poços nem pegadas.
Passaram como a tribo de „Ad, e como a cidade
De Iram, por eles tão pranteada.
Atrás dele uma multidão abandonada divaga,
Tateando mais cega que os animais
Mais cega ainda que uma manada de camelos

7. Vôo espiritual

Meu olhar, olhar de ciência,


Libertou o segredo puro de minha meditação
Um resplendor, mais tênue que qualquer concepção compreensível
Brotou em minha consciência
Submergi ante a onde oceânica de minha reflexão,
Deslizando como uma flecha
Meu coração revolto emplumado de desejo,
Montado firme sobre as asas do meu intento,
Ascendendo rumo Aquele que,
Ao me indagarem,
Oculto com meus enigmas escondendo Seu nome.
Ao fim do vôo,
Ultrapassado todos os limites,
Passeei pelas frestras da proximidade,
E olhando então um espelho d‟água,
Não pude ver mais que alguns traços do meu rosto.
Fui rumo a Ele, afim de apresentar minha submissão
Arrastado pela força de minha capitulação.
Que marca já havia gravado o Seu amor em meu
Coração, com o ferro ardente do desejo!
A intuição de minha personalidade me abandonou.
Estive tão perto d‟Ele que esqueci meu nome.

8. Criador e Criatura

De agora em diante
Não há mais explicações intermediárias entre mim e Deus.
Nem tão pouco demonstrações e milagres para convencer-me.
Eis a explicação
Que transfigura os fogos divinos que flamejam em mim
A seduzir-me qual pérola irrecusável!
A prova é Sua, d‟Ele para Si.
Ele é o testemunho do próprio real
Formulando-se em uma Revelação.
A prova é Sua, d‟Ele para Si.
Em verdade é Ele a quem encontramos na prova.
Como uma ciência em processo de demonstração
Que não se deduza mais o Criador de Sua criatura
Vós todos,
Efêmeros, capazes de testemunhar apenas os tempos!
Esta é minha existência
Minha confissão
E minha convicção.
Esta é a unificação divina de minha
Profissão de fé e crença
Assim manifestam-se aqueles
Que Ele isola em Si
Mesmo dotando-os de sabedoria no seu interior e em público.
Tal é a consumação daqueles que Ele extasia,
Filhos do mesmo Pai
Meus companheiros, meus amigos.

9. Ele e Seu desejo

O desejo,
Na preeternidade das preeternidades
É o absoluto.
Nele apareceu para Ele, d‟Ele.
O desejo não é efêmero,
Posto que é o atributo entre os atributos d‟Aquele que
Ele mata e ressuscita.
Seus atributos são apenas Seus, Nele.
Não são algo criado.
O criador de algo é quem projeta suas coisas
Quando Ele originou o começo
Seu desejo projetou um atributo no que começava,
E o desejo fez com que Seu resplendor se derramasse
Sobre Ele.
O Lam se compôs unindo-se ao Alif.
Ambos predestinaram assim o "Uno".
A partir da perspectiva da diferença, são dois.
Contudo a partir de um referencial de unidade
Sua única diferença é aquela entre
O servidor e seu Senhor.
Tais são as realidades.
O fogo do desejo as inflama no real,
Estejam próximas ou afastadas.
Diminui, perdem suas forças,
Depois tornam-se perdidas de amor
E os fortes, na medida em que se enamoram
Se fazem humildes.

10. Tu és meu Desejo

Sinto Tua falta e de mim mesmo,


Oh promessa de meu desejo!
Aproximara-me tanto de Ti que cheguei a acreditar ser meu o Teu "sou eu".
Enetão, no Teu êxtase Te explicaste tanto,
Que em ti me
Dispensaste de mim mesmo.
Oh! Minha felicidade nesta vida!
Oh! Meu descanso e minha sepultura!
Exceto Tu, já não há para mim nenhuma alegria,
Já que és meu medo e minha confiança.
Nos jardins de Teus emblemas estão incluídas todas as
Ciências e se ainda tenho algum desejo,
Tu és todo esse desejo!

11. Em minha morte está minha vida

Em minha morte está minha vida


Matem-me, meus fiéis camaradas,
Pois em minha morte está minha vida!
Minha morte é sobreviver e minha vida, morrer!
Sinto que a abolição de meu ser
É o presente mais nobre que podem me oferecer
E minha sobrevivência, tal e como ora sou,
Seria o pior dos tormentos.
Minha vida, entre as ruínas derrubadas
Repudiou minha alma.
Matem-me, pois, e queimem esses ossos perecidos!
Então, quando passarem perto dos meus restos
Entre as tumbas abandonadas
Encontrarão os segredos de meu amigo,
Nas pregas das almas viventes.
Fui um patriarca de alta estirpe
Tornei-me depois uma criança mimada
Por entre o encanto das babás
Ao mesmo tempo que seguia permanecendo
Sob a louça de uma tumba
Em terras salinas.
Minha mãe deu a luz a seu pai
Eis uma de minhas maravilhas!
Minhas filhas, que engendrei eu mesmo
Converteram-se em minhas irmãs
Sem que isto tenha acontecido
No sentido do tempo
E sem que houvesse adultério
Juntem pois, minhas partes todas, reuni-as
Os pedaços de corpos cristalinos,
De ar, fogo e de água pura
Depositem tudo em uma terra seca
Reguem-na depois, com riachos cantarinos,
Deixem que as servas vertam seus cântaros
E uma planta perfeita germinará em sete dias.

12. Sobre o Mundo Invisível

Ah! quantas vezes escapamos das formas visíveis


Graças a uma simples gota
Brilhante como a lua!
Gota de sézamo, de azeite de sézamo
Com caracteres inscritos
E com jasmim ungido em nossa frente!
Vós caminhais,
Nós caminhamos
E percebemos vossas silhuetas,
Mas vós não nos vedes

13. Que terra é esta tão vazia de Ti?

Que terra é esta tão vazia de Ti


Para que eles se enxerguem buscando-Te nos céus?
E tu vês que olham para Ti aparentemente
Mas não Te percebem na Sua cegueira.

14. Até quando afundando-te no mar dos pecados...

Até quando, afundando no mar dos pecados,


Lutarás contra Aquele que te vê
Sem que tu O vejas?
E assinalei-te um caminho:
O da continência e piedade,
Mas teus atos são arrastados por tuas inclinações
Tu, que passas as noites trancado e só com as tuas faltas!
O olho de Deus é uma testemunha que te observa!
Desejas obter o perdão d‟Aquele a quem ofendes,
Ao mesmo tempo em que não tentas agradá-Lo?
Pede perdão antes de tua morte,
Antes do dia em que o servidor
Marche ao encontro do que suas duas mãos ganharam.
Como podes ficar satisfeito com tuas quedas
E teus pecados, e esquecê-Lo a Ele, o Único?

15. No meu coração havia muitos desejos...

No meu coração havia muitos desejos


Mas todos se foram desde que meus olhos Te viram.
E os que eu envidava agora me envidam a mim,
Mestre das criaturas, já que agora Tu és o meu Mestre.
Amigos e inimigos
Me condenaram por Tua causa
E porque eles conhecem a minha angústia
Deixei aos demais este mundo presente e sua devoção
Para entregar-me somente a Ti
Minha devoção e meu mundo presentes.

***

São Jorge, celebrado por Attar, o sábio Sufi

Farid ud-Din Attar, “Elahi-Nâmeh” (O Livro Divino)

Tradução: André Sena

"Três vezes por entre fogo e sangue o pagão girava a roda sobre o corpo de Jorge.

Seu corpo despedaçou-se, pulverizado; e de sua poeira nasceu um jardim de tulipas.

Em meio a este suplício e tormento, a Voz divina alcançou o supliciado através de um

mensageiro celeste:

“Aquele que aspira e busca o Nosso amor não poderá beber vinho límpido e
imaculado.

Pois tal é a recompensa eterna dos que são Nossos amigos: a roda que lhes
esmagará

os sete membros.”

Perguntou-se a Jorge: “Homem, puro, desejas algo sobre esta terra?”

Ao que ele respondeu: “O que ora desejo é passar mais uma vez pelo suplício da
roda

e ter meus membros rompidos afim de que a Voz divina me alcance ainda uma segunda

vez,

Pois Deus prescreveu todas estas penas a minha alma para caminhar

ao meu lado em amizade.”


Não reconheces em absoluto a grandiosidade dos amigos d‟Ele, pois levas uma

vida descuidada.

Sê tu alguém que cultiva Sua amizade, ou então coloca-te na fileira dos

amigos de Seus amigos.”

***

ID AL-QURBAN ! FESTA DO SACRIFÍCIO !

“CABRAS CHORAM QUANDO ESTÃO SENDO SACRIFICADAS”

Muhamad Raheem Bawa Muhaiyaddeen

Tradução: „Abd as-Sabwr

Pergunta: E sobre comer carne ou vegetais com a intenção de alcançar o Espírito de


Alláh?

Bawa Muhaiyaddeen: Há diferenças, tem diferenças. A folha ou vegetal nascem de


uma semente. Exemplo, o caroço da manga, ou a semente de arroz que foi lançada num
campo irrigado, podem trazer outras vinte e cinco peças. E isto pode ser realizado com
apenas uma semente. Ela crescendo bem, pode trazer outras trezentas e quarenta e cinco
sementes. As vinte e cinco que vieram, mais tarde vão se multiplicar em outras
duzentas. Assim podem reproduzir-se ainda mais, e teremos sete mil e quinhentas que
irão se espalhando.

Mas no caso de uma vaca, de uma cabra, de um homem, do que cresce


aproximadamente durante 120 anos de vida, não é igual. O sistema da família dos
vegetais funciona de tal maneira que permite ser incrementado milhões de vezes. A vida
deles dura vinte e oito dias, quarenta dias ou seis meses, em média, depois de três
meses, eles morrem. Humanos e animais, nesta vida, o sistema é diferente. Seus planos
sãos distintos, seus corpos e seus estados também, e suas formas não são as mesmas.
Então, vegetais e animais não podem ser vistos como parte do mesmo sistema.

Durante um ano, a macieira pode render centenas de frutos, e pode viver por outros
cinqüenta ou cem anos. Sementes serão produzidas aos milhares. . . Depois, morre. Não
acontece o mesmo com humanos e animais. Isto é assunto em que temos que meditar.
Existem especificidades próprias para isso. No ser humano, há sementes divinas.

Em certa oportunidade, Rasul Alláh, o Mensageiro de Alláh, Muhammad (saws), disse a


seu sobrinho „Alyý (as), “Ó Alyý ! não deves comer carne. Se a comes durante
quarenta dias, as qualidades dela ficarão em você. As ações (do animal) ficarão em
ti, o sangue (do animal) também. E tua condição mudará, a essência de teu corpo
mudará. Ò Alyý ! Não comas carne durante quarenta dias. Tens que reduzir isto.
Não comas isto. As qualidades derivas disto (de comer carne), prejudicam
características humanas.”

E sugeriu a „Alyý (as): “Tens que comer bananas, pois se houver calor na tua
cabeça, vai te fazer bem, vai esfriá-la e teu cérebro funcionará melhor. Trará luz a
teu qalb (coração}. Bananas possuem qualidades excelentes. Porém, não comas
muitas tâmaras, já que aumentam a arrogância. Tâmaras, leite e manteiga são
muito fortes, e juntas, são quentes demais, e pela sua causa desejos mundanos
virão.”

“Ó Alyý –agregou Muhammad (saws)- Alláh Todo Poderoso pôs vários tipos de
energia nos vegetais. Há ferro, cálcio, ouro, prata, cobre e muitos outros minerais
que podem fortalecer teu corpo. Alláh os colocou generosamente nos vegetais;
contém antídotos, perfumes e sabores específicos. É disto que deves comer em
abundância, pois será muito bom para teu corpo, tua mente e tudo mais.” Nesse
hadiz, o Profeta (saws) deu bastantes explicações sobre cada uma das razões para agir
corretamente. Naquele tempo, os árabes costumavam ter camelos, cabras, manteiga,
farinha de trigo. Não comiam vegetais ou ervas. Eram épocas em que se comia muita
carne. Então, veio Muhammad (saws). Ele não podia fazê-los parar de comer carne
completamente,já que era quase sua única comida. Não podia dizer que não comesse
mais carne, pois iria matá-los. Se tivesse dito: “Vocês não devem matar e comer
animais”, seria assassinado. Teve que ir explicando aos poucos, lentamente.

O Sacrifício

O qurban (método de abate apropriado) foi instaurado porque os árabes tinham que ser
educados em que deveria existir uma boa razão para falar de Islam e não poderiam
matar sem propósito algum. Antes do qurban, quando alguém matava uma cabra, o fazia
indiscriminadamente. Desejava uma galinha, a matava e a comia. Não importava o que
fosse...o matavam sem dor.

Então disse: “Ó Muhammad !, diga para seus seguidores que você lhes fará
conhecer o que é halal, ou seja, o que é permitido. O que é qurban, o que lhes
permitirá matar esses animais invocando o nome de Alláh”.

Pessoas boas podiam matar centenas e milhares de vacas e camelos. O faziam


facilmente; podiam matar tantos animais, que formavam rios de sangue. Por isto, para
diminuir estes assassinatos, Alláh disse: “Ó Muhammad ! diga a eles, que para matar
os animais em nome de Alláh, no qurban, devem fazê-lo de maneira correta.
Devem pôr a intenção em Alláh, e depois sacrificá-los. Devem torna-los halal,
permitidos, deixando assim o sangue nocivo ir embora.”

Sangue é algo que pode deixar o humano em estado de topor; pode aprisioná-lo (Nota:
psíquica e espiritualmente). Sangue pode aprisionar ao humano completamente. Quem
matar centena de vezes sem ver sangue, sua mente não será abalada. Mas, se vê o
sangue fluindo de sua vítima, esta sensação ficará na sua mente. Entrará em estado de
topor e dirá: “Aiyo, isto é pecado !” Então, quem vê sangue, sente pena; há esta relação
com o sangue. Quando é feita esta conexão com o sangue, ele fluindo, entra-se em
estado de topor. Possivelmente não cometerá mais este tipo de assassinato, não fará tais
pecados e pode deixar de comer animais. Esta é a razão pela que Alláh disse: “Diga
para que fazam qurban. Diga para o realizarem com o pensamento em Alláh”.

Como é feito o qurban? O qurban, o sacrifício, é feito por alguém que reza cinco vezes
ao dia; um religioso. Fica numa mesquita e quando o povo vem, faz o qurban. No
espaço onde os animais serão sacrificados, é feita salat al-fadjr (oração da alvorada) e
salat ad-duha (oração em médio da manhã). Quem chama à oração e quem guia a
oração, ficam na mesquita; eles podem sacrificar os animais. Na hora de ad-duha devem
abrir e limpar a mesquita, arrumar o lugar e deixar tudo pronto. Ás dez horas em ponto,
tudo tem que estar preparado. Depois de essa hora, matarão a galinha ou a cabra. Mas
também existem leis para isto. A faca, possuir aproximadamente 23 cm. Para vacas, a
arma, afiada ao ponto de cortar um fio de cabelo.

Após feita a exaltação a Alláh, se qualquer alimento for regurgitado pelo animal, isto o
torna haram (proibido) e ele não pode ser comido. Quando vão dizer a profissão de fé e
cortar ao animal, há que dar água para ele beber. E estar de frente para a Ka‟aba
(Makka). Assim, matarão o animal em este estado, qurban. Esta é exatamente a forma
como deve ser feito. Enquanto a alma do animal sai do corpo, quem o mata tem que
olhar diretamente nos olhos (da vítima) e dizer as preces. Depois que a vida se extingue,
há que lavar o instrumento e dizer o testemunho de fé. Após fazer tal ritual, vai matar a
próxima vaca. Quantas poderá sacrificar? Até a próxima oração (quase ao meio- dia),
poderá fazer o mesmo com cinco animais.

Nos países árabes, se houver dez mesquitas, serão mortos vinte e cinco animais,
cinqüenta no máximo. Onde eram sacrificados cinco milhões, agora são cinqüenta.
Assim, estes assassinatos foram diminuindo. Quando vieram as ordens de Alláh, estes
pecados foram diminuindo. Porque estas ordens foram dadas (aos muçulmanos)? Para
diminuir estes pecados, estas mortes. Para que pudessem olhar diretamente nos olhos
dos animais e pudessem enxergar o seu sangue. Algumas cabras choram quando estão
sendo assassinadas. Reses e galinhas choram...e choram. Ficam em lágrimas. A razão
para o qurban, é para que (os humanos) possam sentir piedade por estes animais, e para
que vejam suas lágrimas e o seu sangue.

(...) Animais que não forem mortos por qurban, serão proibidos. Então as pessoas não
cometerão tais crimes. Antigamente, abatiam pássaros na selva e os comiam, mas pelo
qurban, não pode mais ser feito.

Deve se agir assim, no Islam. Aquele que estuda o hadiz e al-Qur‟an e se a sabedoria
nascer nele, nunca mais fará destas coisas e viverá em paz. Tal explicação é tão
profunda, que jamais voltará a cometer aqueles pecados, será bom. Deixará a ignorância
e nunca mais matará ou fará algo maligno. Em cada verso, em cada surat do al-Qur‟an,
este hadiz está presente.

Sendo assim, estas duas categoria não podem ser misturadas. Cortamos um pedaço da
árvore de sândalo, sentiremos seu perfume. Comemos alho, sentiremos o seu cheiro. Ao
cozinhá-lo, sentimos o aroma que expele. Um aroma emana de cada vegetal, não é
mesmo? Da mesma maneira acontece com os animais. Comemos porco, teremos as
qualidades do porco. Comemos vaca, teremos as qualidades da vaca. Comendo cabra,
galinhas, teremos suas qualidades. Suas essências emanarão de você, seus sangues
estarão no nosso sangue e incorporaremos as suas ações. Então, a sabedoria humana não
será utilizada, ficará escondida.

Pense nisto inteligentemente. O mensageiro de Alláh, o profeta de Alláh, nos revelou


todas estas coisas. Se realmente pensarmos nisto, nossos corações irão derreter. Se
olharmos realmente para tais coisas, nossos corações ficarão amedrontados; sentirão
piedade e medo de fazé-las. Existe muita diferença entre estes dois tipos de comidas
(vegetais e carne). Filhos, estas são as palavras de Alláh, as palavras do mensageiro de
Alláh, as palavras do profeta de Alláh.

Sabedoria

Alláh deu aos humanos, sete tipos de sabedoria. A outras criaturas, de um a cinco tipos.
Se a neve vem, a erva morre. Você não precisa se preocupar com ela. Quando o sol sair,
dali a três meses, ou quando o verão chegar, renascerá por conta própria. Não necessita
replantar ou algo assim, por que verdadeiramente não está realmente morta. Esta erva
virá novamente. Então, uma categoria é diferente da outra. Temos que pensar e olhar
para isto. Não podemos ter ambas.

Pergunta: Algumas pessoas não gostam nem de usar couro por conta da compaixão.
Sendo assim, devemos nos desfazer de todos os nossos artefatos de couro? Não
devemos usar couro?

Bawa: Pode usar. Não use pele de burro, mas use a da vaca ou semelhante. Se uma
folha cai da árvore e você passa em cima, não será culpa sua. Alláh deu isto para nosso
próprio benefício. Podemos usar as coisas, mas precisamos de sabedoria. Respondendo
o que nosso irmão perguntou –algumas pessoas realmente não comem carne. Comem
apenas vegetais. Mas vacas, cabras, cavalos também, todos comem capim, grama e
coisas assim. Podem se tornar Alláh por isto? Não. Todos os tigres comem carne. Eles
irão para o Inferno por causa disto? A coisa não acontece assim. Vacas, cabras e
camelos comem capim e grama. Não comem nenhum tipo de carne. Por causa disto
alcançarão iluminação? Não. Muitas pessoas não comem carne. Seus pecados cessarão
automaticamente por causa disto? Não. Não acontece assim. Não há utilidade em comer
assim. É inútil comer apenas carne. É inútil comer apenas vegetais.

Devemos ter compaixão, paciência, tolerância e amor por outras vidas e pela nossa.
Devemos ter paz, justiça e consciência. Precisamos reconhecer as tristezas, feridas e
dificuldades do outro como as nossas próprias, e precisamos dessas explicações
iluminadas. Trazendo compaixão às nossas vidas, tendo amor e entendimento e agindo
corretamente, significa ter as características d‟Ele.

Aquele que entende todos os erros e benções, o que é halal e haram, o que é bom e mal,
certo e errado; aquele que entende isso e age consequentemente, é um Humano e se
beneficiará por isso. Será aquele que vai receber a Graça Divina. Não entender isto e
agir como uma vaca, só comendo vegetais é inútil, não há esperança, não há nada disto.
Você pode usar sapatos sem precisar matar. Pode ser feliz, por não necessitar pisar em
espinhos.

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“Nem suas carnes, nem o seu sangue chegarão até Alláh; outrossim, alcança-
O a vossa piedade.” (al-Qur‟an, XXII, 37)

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“AL-BAYAWÁN WA-AL-INSÁN” (O Animal e O Homem)

Ikhwan al-Safa‟ (Irmandade da Pureza)

Análise da “Disputa dos Animais contra o Homem”, do plágio da Epístola 21º (das
Rasa‟il, Epístolas da Irmandade da Pureza; são 51) pelo frade professo da Ordem de
Menores (franciscano) Fr. Anselmo Turmeda (s. XIV), catalã (de Mallorca), arabista,
e finalmente muçulmano com a Sahahada realizada na Tunísia, sob o nome de „Abd
Alláh ibn „Abd Alláh; concluiu a presente obra em 15 de novembro de 1418. Passou ao
Outro Mundo em 1420, e ainda hoje é venerado pelos devotos tunisianos. Este trabalho
foi realizado pelo catedrático e arabista espanhol , Miguel Asin Palácios(m. 1944),
e publicado por primeira vez nos “Estúdios de Filologia Românica”, Madrid, 1914.

“Prólogo: Os homens, ao princípio, viviam em cavernas, e na parte mais íngreme das

montanhas, para melhor defender-se das feras. Comiam só vegetais, vestiam com as
folhas das árvores e trocavam de clima segundo as estações. Mas pouco a pouco
perderam o temor, desceram às planícies e fundaram cidades. Desde então começaram a
submeter às bestas, servindo-se das vacas, camelos, mulas, asnos, etc., para seu
proveito, é dizer, monta-los e carrega-los e para as tarefas agrícolas, impondo-lhes
fadigas superiores às suas forças e privando-os de sua natural liberdade. Os demais
animais conseguiram evitar a escravidão fugindo dos lugares povoados para os desertos:
assim escaparam as feras e muitas aves. Os homens dedicaram-se a caçá-los com todas
as artes e habilidades imagináveis, pois os consideravam como seus escravos que
haviam iludido injustamente o jugo a que pela sua natureza deveriam estar sujeitos.

“Passaram os anos, e Muhammad foi enviado por Alláh como profeta para os homens e
os jinn (gênios). Uma raça destes últimos converteu-se ao Islam. Tempo depois chegou
a reinar sobre os jinn um príncipe sábio e prudente, chamado Biwarasb, e seu
sobrenome Sab Mardán, que tinha sua corte numa ilha chamada Blasagún, em meio do
mar Verde, vizinho ao Equador (estes nomes próprios são persas: Biwarasb é o nome de
um rei mítico da Pérsia, a quem os historiadores árabes o fazem viver no tempo do
profeta Abraham. Sab Mardán é título real, “Rei dos Mortais”. Blasagún é uma cidade
do Turquestão oriental, próxima a Kashgar, província chinesa uigur de Sinkiang).

“A esta ilha certo dia arribou uma embarcação com numerosos passageiros, mercadores,
artesões, sábios, etc., que ao desembarcarem ficaram maravilhados, não só com a
formosura e abundância de sua vegetação, senão porque animais de toda espécie ali
conviviam com os jinn, sem temor de gênero algum.
“Tais homens, encantados com a bondade do clima e das excelentes condições de vida,
construíram em dita ilha casas que habitaram. Imediatamente também começaram a
querer empregar às bestas para os mesmos ofícios de carregamento, arraste e montaria
às que submetiam nos seus países; mas as bestas escaparam igualmente, e viram-se
perseguidas sem descanso pelos homens, que as caçavam astutamente porque
acreditavam ter direito de submete-as a seu serviço.

“As bestas então se reuniram em conselho e enviaram aos seus respectivos


representantes e oradores para reclamar diante do rei dos jinn, Biwarasb o prudente.
Este enviou um emissário obrigando aos homens a ele se apresentarem.

“Os homens eram quase setenta e procediam de diferentes etnias e países da terra. Uma
vez na Corte do rei, este os recebeu três dias depois. No lugar, o rei lhes pediu
explicações por chegarem à ilha sem prévio aviso. Um dos homens contesta recorrerem
a ele, fiados na sua justiça, para reclamar contra a insubordinação das bestas, que não
querem submeter-se à escravidão à que estão obrigadas. Ordena o rei que exponham as
razões em que se apóiam para dizer que as bestas são seus escravos.

“Um orador dos homens sobe à tribuna e começa sua alegação, fundamentada em razões
teológicas e filosóficas. As teológicas são textos do al-Qur‟an, coerentes com outros da
Torah e do Evangelho, nos que se afirma que as bestas foram criadas por e para o
homem e que são seus escravos.

“Pergunta o rei às bestas, o que respondem a tais argumentos. A mula, deputada das
bestas, se levanta e faze outro discurso, mais retórico ainda, para evidenciar que aqueles
textos só significam que os animais foram criados para benefício do homem, assim
como o sol, a lua, as nuvens e ventos, sem que estes sejam por isto, servos do homem.
Os animais viviam na Terra, livres e seguros antes da criação do homem, servindo a
Alláh e cantando suas louvações; mas o homem, com sua tirania, lhes tirou injustamente
essa felicidade com que foram constituídos pelo Criador. E agora pretendem, sem
provas, que é insubordinação dos animais, o que é só reivindicação de um direito.

“O rei envia um arauto a pregoar por todo seu reino, a convocatória de assembléia à que
devem assistir os juízes, testemunhas e juristas dos jinn, e na que se propõe dirimir com
sua ajuda a disputa entre as bestas e os homens. A continuação pede a estes que
aleguem provas e razões.

(1ª Prova)

“O deputado dos homens dá suas primeiras razões de superioridade, fundamentadas na


beleza de sua forma, na correta proporção de sua figura e aspecto, na postura ereta de
seu corpo, na excelência de seus sentidos, na agudeza sutil de seu discernimento, no
engenho sagaz de suas almas e na faculdade de pesar as razões que possuem suas
inteligências.

“Refuta a deputada das bestas a primeira razão, da postura ereta, explicando-a como
efeito necessário da fraqueza do homem, que nasce sem meios para subsistir, se não
aproveita dos frutos das árvores para alimentar-se e de suas folhas para cobrir-se.
Todavia, as bestas são quadrúpedes, para poder pastar do chão. Um sábio dos jinn
intervém para complementar a explicação.

“Fala o deputado dos homens sobre a desproporção dos animais: do camelo, cujo corpo
grande, tem pescoço cumprido, orelhas pequenas e rabo curto; do elefante, cujo corpo
muito grande, com dentes cumpridos e orelhas largas, tem olhos pequenos; dos bois e
búfalos de rabo cumprido, chifres duros e sem dentes na parte superior; do carneiro, de
grandes chifres, rabo duro e sem barba; do bode, de longa barba e sem rabo; do coelho,
pequeno de corpo e com grandes orelhas. O mesmo adverte-se na maioria dos animais.

“Contesta a deputada dos animais que quem deprecia a obra, deprecia ao artífice, e os
animais são obra de Alláh, quem os criou sabia e perfeitamente. Explica a razão das
aparentes desproporções do camelo, elefante, coelho, etc.

“Refuta a razão fundamentada na excelência dos sentidos do homem, com exemplos de


animais cujo instinto supera aos mais finos sentidos dos humanos.

“Refuta, finalmente, a excelência do entendimento humano, porque o fato de


envaidecer-se de possuí-lo tira-lhe todo valor discernente, pois não é obra do homem,
senão de Alláh.

(2ª Prova)

“Apresenta o homem outros títulos de domínio sobre os animais: o homem compra-os e


vende-os, da-lhes de comer e de beber, apóia-os e defende-os, cura-os e educa, etc.

“Responde a deputada das bestas que também se compram e vendem os homens uns aos
outros alternativamente pelo direito da força na guerra. E o outro que dizem, não o
fazem por amor aos animais senão para explora-los melhor.

“Confirmando isto, intervém na disputa o asno, o boi, o carneiro, o camelo, o elefante, o


cavalo e a mula, alegando maus tratos que do homem recebem.

“O camelo roga ao porco que exponha as injustiças do homem para com ele. Alegação
do porco.

“O asno roga à lebre que alegue as injustiças do homem para com ela. Alegação da
lebre, em meio do que censura esta também ao cavalo, porque ajuda ao homem para que
persiga à caça.

“O homem defende ao cavalo, fazendo apologia de seus méritos físicos e morais.

“A lebre opõe a esta apologia as más qualidades do cavalo, semelhante aos vícios
humanos.

“Intervém o asno para dizer que a perfeição absoluta só é de Alláh.

“O boi agrega que as criaturas que possuem mais perfeição devem aperfeiçoar às menos
perfeitas. Isto não é feito pelos homens.
“Em coro, todas as bestas pedem ao rei dos jinn que lhes faça justiça contra os homens.

“ O rei consulta a seus sábios e juízes, os que aceitam as razões das bestas, e as
confirmam dizendo que também os jinn fugiram da convivência com os homens por
análogos motivos.

“Finaliza a sessão, convocando um arauto a todos os presentes para reiniciar os


trabalhos no dia seguinte.

II

“O rei dos jinn conferência com seu vizir Baydar, pedindo-lhe que o aconselhe acerca
da estratégia mais certa para dirimir o pleito. O vizir sugere reunir uma assembléia de
seus filósofos, juízes e juristas, para que estudem e resolvam. Reunida a assembléia,
propõe um jurista que as bestas redijam um escrito de denúncia, informado por vários
advogados, e que logo sentencie o juiz se os homens devem vender as bestas, ou da-lhes
liberdade, ou que proceda em Direito.

“Refuta tal solução outro conselheiro e propõe que todas as bestas fujam durante a
noite, abandonando as moradias dos homens com ajuda dos jinn, para que a
Humanidade sofra s conseqüências da sua injusta conduta com as bestas. O chefe dos
sábios desestima esta solução, por impraticável. O mesmo opina o chefe dos filósofos.

A discussão encaminha-se então, sobre a inimizade ingênita que existe entre jinn e os
homens.

“Um sábio dentre os jinn explica ao rei, com este motivo, a história da criação dos jinn e
a dos homens (Adam e Eva, Paraíso bíblico, pecado dos primeiros pais, expulsão do
Paraíso, penitência, etc.). Os primeiros homens conviveram com os jinn, os quais lhes
ensinaram as artes; mas como um destes, Azazil ou diabo, foi quem tentou e fez pecar a
Adam e Eva, os homens odiaram já sempre aos jinn, aos que atribuíram todos os males
da Terra. O narrador refere as alternativas de concórdia e inimizade dos jinn com os
homens, através dos séculos da lei mosaica, da lei evangélica e do Islam. Muhammad
conseguiu finalmente reuni-los sob sua religião. Por tudo isto, não é prudente que agora
os jinn ajudem às bestas em contra do homem, já que renasceria novamente sua secular
inimizade.

“O rei, escutada a história, pergunta ao sábio dos jinn que meio lhe aconselha empregar
para dirimir a lide das bestas e os homens. O sábio propõe ao rei retome novamente o
expediente do pleito, fazendo comparecer e falar aos contendores. Outro sábio dos jinn
permite-se duvidar que as bestas possuam a facúndia e eloqüência precisas para
contender dignamente com os homens.

“Entretanto, os homens, reunidos, conversam longamente para adivinhar o que pensará


resolver o rei dos jinn sobre seu pleito. Cada um emite sua opinião e propõe meios para
iludir uma sentença adversa, em caso de que assim seja. Depois de alguns proporem
comprar com presentes o favor dos conselheiros, juízes e ministros do rei, um deles
levantou esta grave questão: E se o rei, ou seus juízes nos obrigam a exibir os títulos de
propriedade que provem juridicamente que as bestas são nossos escravos, o que
faremos? Um dos homens, árabe, propõe contestar que tais títulos pereceram no Dilúvio
e que não querem substituí-los mediante juramento, porque isto deve faze-lo quem
reclama e não o possuidor. Se as bestas juram, recusaremos seu juramento como falso, e
aduziremos provas filosóficas em apóio de nosso direito. Outra questão é levantada: Se
o juiz nos condena a vender as bestas, o que faremos? Os homens cidadãos admitem
satisfeitos tal solução; porém, é rejeitada pelos camponeses.

“Simultaneamente a esta assembléia dos homens, as bestas também estão reunidas para
trocar idéias sobre sua conduta no futuro. Todas concordam em que o rei dos jinn
voltará a convoca-as para discutir mais sobre o pleito; mas temem não ter eloqüência
necessária para fazerem valer seus direitos durante a discussão. Diante de tal conflito,
uma delas propõe enviar embaixadores a todas as espécies animais, rogando-lhes que
cada uma designe um deputado de seu seio que seja orador eloqüente, para que na nova
vista do pleito argumente os méritos e razões que possua sua espécie. Aceita a idéia,
enviam seis embaixadores a cada uma das seis espécies zoológicas (sem contar a sétima,
a das bestas, constituída pelos animais ali presentes): feras, aves de rapinha, pássaros,
insetos, répteis e animais aquáticos).

III

“O embaixador primeiro comunica ao leão, rei das feras, o acordo de que envie um
deputado que as represente e defenda no pleito. Por um arauto, o leão convoca aos seus
súbditos para que designem quem os representará. O tigre, seu vizir, argumenta que ao
leão deveria, como rei, mandar, e às feras obedecer-lhe, pois nisto assenta o bom
governo. Com este motivo, o tigre explica ao leão as condições, direitos e deveres do
bom rei e dos bons súbditos. Oferecem-se depois como candidatos para a deputação
sucessivamente o tigre, a pantera, o lobo, a zorra, a doninha, o macaco, o gato, o cão, a
hiena e a ratazana que ponderam suas respectivas aptidões. O leão desestima seus
oferecimentos, porque as qualidades de todas as feras são úteis só para o combate
guerreiro, não para serena discussão científica. Volta, pois, o leão a pedir seu conselho
ao tigre sobre quem seria o candidato mais apto. O tigre pede ao leão dizer as
qualidades que deva reunir o deputado. Numera-as o leão: inteligência, bondade,
eloqüência, memória, cautela, discrição, prudência, sigilo, etc. O tigre afirma que tais
dons só os reúne Kelilé, irmão de Demné , ou seja o chacal. Aceita este a nomeação e
pede instruções para defender-se contra os inimigos de sua própria linhagem, que são os
cães domesticados. Explica o chacal com este motivo a amizade e convivência do cão
com o homem, e sua causa (a semelhança de qualidades psicológicas). Pergunta o leão
se há outra fera que, como o cão, se haja habituado a conviver com o homem. O urso
responde que os gatos, por análogas causas que os cães; e assim mesmo o rato, a
ratazana e o furão, e as panteras e macacos em cativeiro. Termina o urso explicando a
origem histórica da convivência de cães e gatos com o homem e os tristes efeitos dela
para ambas raças canina e felina. O leão, finalmente, envia ao chacal como deputado
das feras.

“O embaixador segundo comunica ao Simurg, rei dos pássaros, o acordo que envie um
deputado que os represente e defenda no litígio. O rei convoca por um arauto a todas as
aves terrestres e marinhas e pede a seu vizir, o pavão-real, que designe deputado. O
pavão-real numera as aves que a seu juízo possam servir, e vai sucessivamente
ponderando as habilidades canoras que reúnem as seguintes: poupa, galo, perdiz,
pombo, francolín (família da perdiz), calhandra, corvo, andorinha, grou, chocha (ave de
arribação, da família das galinhas, menor que uma perdiz) e rouxinol. À descrição de
cada uma destas aves acompanha a interpretação de seus respectivos cantos. O rei das
aves, por conselho de seu ministro o pavão-real, designa como deputado ao rouxinol,
quem vai embora rapidamente a cumprir sua missão.

“O embaixador terceiro comunica ao rei dos insetos, é dizer, ao Yasúb, príncipe das
abelhas, o acordo que envie um deputado que os represente e defenda no pleito. O rei
convoca por um arauto a todos seus súbitos e dize-lhe do que se trata. O chefe das
vespas e o das lagostas voam a oferecer seus serviços, crendo que se trata de machucar
aos homens. Seguidamente ponderam o molesto efeito de suas picadas, os carrapatos, as
vespas, as moscas e as moscas-varejeiras. Porém, o rei lhes faz compreender que o
deputado que seja escolhido não irá machucar aos homens, senão persuadi-los com
razões. Finalmente, um sábio indivíduo da família das abelhas se oferece para o serviço,
e vai embora a cumprir sua missão.

“O embaixador quarto comunica ao „Anqá, rei das aves de rapinha, o acordo de enviar
um deputado. O rei convoca por um arauto a todos seus súbditos, os que a ele se
apresentam. Consulta o rei a seu vizir, o falcão, sobre qual das aves de rapinha deve ser
designada, e o falcão designa à coruja, que é a única que não foge do homem, a quem
não teme e cuja linguagem, ainda, compreende. Mas a coruja não aceita, porque sabe
que o homem a odeia. Propõe que seja nomeada uma ave qualquer da família dos
falcões, que são amados dos magnatas e reis dos homens.

“O falcão recusa também, pois diz que o homem só o aprecia como instrumento para
seus prazeres cinegéticos. Propõe pela sua vez que seja nomeado o papagaio, que é ave
grata para os homens de toda idade, sexo e condição, com os quais conversa. Aceita o
papagaio, e pede ao rei e a seus irmãos orem a Alláh para que lhe ajude na empresa.

“O embaixador quinto comunica ao rei dos animais aquáticos, que é o dragão ou


serpente de mar, o acordo de enviar um deputado. O rei convoca por um arauto a seus
súbditos, que se apresentem agrupados em quase setecentas famílias, e pergunta o
embaixador a título do que se vangloriam os homens de serem superiores aos animais,
pois se é pela força e a corpulência, ele, pessoalmente, é capaz de lhes demonstrar o
contrário. Mas ao escutar ao embaixador que se trata só de superioridade mental roga-
lhe o rei que lhes explique no que consiste esta. O embaixador pinta as habilidades dos
homens para pescar aos animais aquáticos, e em geral para a navegação, caça,
exploração de minas, etc. Ouvida a explicação. O rei pergunta a seus súbditos quem
deve ser elegido deputado. O golfinho propõe à baleia, que não só é maior e mais
formoso dos peixes, senão também o mais aceite ao homem, desde que a um profeta
(Jonas) serviu-lhe de moradia. A baleia se desculpa, porque carece de pés para ir ao
lugar da discussão, de língua para falar e de resistência contra a sede, fora da água.
Propõe pela sua vez ao golfinho. Este propõe à tartaruga, que está isenta destes defeitos;
mas a tartaruga também rejeita o cargo, porque seu lento passo para tão longo caminho
e seu taciturno caráter lhe impedem aceitar. Propõe pela sua vez ao golfinho. Este
propõe ao caranguejo que tem muitos pés para a marcha e que é arrojado para o
combate; mas o caranguejo também recusa, porque sua figura ridícula e
desproporcionada será objeto de escárnio dos homens. Propõe ao crocodilo, que é de
rápido andar e de cumprida língua; mas o embaixador torna a faze-lhes notar que o
candidato necessita ser de caráter manso e justo, além de inteligente. Então o crocodilo
propõe a rã, que reúne todos esses dotes e ainda está feita para conviver com o homem.
Aceita a rã, e marcha para desempenhar sua deputação.
“O embaixador sexto comunica à serpente, rei dos répteis e gusanos, o acordo de enviar
um deputado. O rei convoca todos seus súbditos por um arauto, em inumeráveis
falanges das mais variadas figuras, cores e tamanhos. O rei consulta à serpente, que é o
seu vizir, se acredita que algum de seus répteis ou gusanos é apto para a deputação, pois
que a seu juízo ninguém possui tal aptidão. Diante de tal pessimismo da serpente, toma
a palavra o grilo para descrever e ponderar as maravilhosas habilidades do instinto nos
gusanos e a inefável providência com que o Criador há suprido neles a força que
outorgou aos demais animais. O rei, maravilhado de tão eloqüente discurso, designa ao
grilo como deputado. A serpente aconselha ao grilo que não diga diante da assembléia
dos homens que vai em representação das cobras e serpentes, porque isto afastará a
simpatia dos humanos, a causa da antiga inimizade que os afasta dos répteis. Com este
motivo, explica ao grilo à cobra as utilidades de seu veneno para os homens, assim
como a finalidade que em geral cumprem as cobras e as feras daninhas no mundo. É um
discernimento filosófico sobre otimismo na Criação, para demonstrar que o
aparentemente pequeno, inútil e daninho preenche um fim importante em relação com o
todo, sem que exista coisa alguma desprezível, vã, injusta ou irracionável

IV

“Reunidos já na Corte do rei dos jinn os deputados de todas as espécies zoológicas,


maravilha-se o rei de ver uma tão grande e variada multidão de formas. Um filósofo de
sua Corte lhe explica com este motivo a teoria neo platônica das formas corporais ou
tenebrosas como imitações ou cópias dos protótipos luminosos do mundo divino dos
espíritos, que são eternos, enquanto que aquelas são temporais. Pronuncia depois seu
discurso o sábio dos jinn ponderando a generosidade de Alláh na criação dos espíritos
angélicos, humanos e jinn.

“O rei dos jinn dirige seu olhar ao grupo dos homens e ordena que falem
sucessivamente os representantes das distintas raças, povos e línguas. Um atrás do outro
se levantam e pronunciam seu discurso para ponderar as excelências e história de seus
representados, os seguintes: um iraniano do Iraque, um hindu, um hebreu, um cristão
siríaco, um muslim da tribo de Quraish, um grego e um persa do Khorasan. Terminado
os discursos é levantada a sessão, convocando todos os presentes, homens, animais e
jinn, para continuar ao dia seguinte.

“Aberta a sessão, o rei dos jinn começa interpelando ao chacal acerca do seu rei, o leão,
e o chacal descreve ao rei das feras e de todos os animais. Depois interpele ao papagaio,
que descreve ao „Anqá, rei das aves de rapinha. Seguidamente o grilo descreve à
serpente, rei dos répteis. Depois, a rã explica as qualidades físicas e morais do dragão ou
serpente marinha, rei dos animais aquáticos. No seu discurso faz uma digressão para
demonstrar que se entre os habitantes das águas uns comem aos outros, o mesmo
acontece entre os animais terrestres e entre os homens; pois se estes se nutrem de carne
dos animais, os animais pela sua vez comem também a carne dos cadáveres humanos.
É, pois, lei do Cosmos: corruptio unius conservatio alterius. E, assim, nisto não
superam os homens aos animais: uns e outros procedem do pó e ao pó vão parar.
Termina a rã com o seguinte argumento, para provar que os homens não são os senhores
dos animais. Se as feras, aves de rapinha, serpentes, dragões e crocodilos se jogassem
sobre os homens, nenhum ficaria com vida.
“O rei dos jinn interpela aos homens perguntando-lhes pelo seu rei. Os homens
respondem que eles não tem apenas um, como cada espécie animal, senão vários. O
homem do Iraque explica esta diferença através de um discurso filosófico sobre a
organização das sociedades políticas e seus elementos diversos em função da variedade
de climas, línguas, costumes, idéias, etc., que reclamam reis distintos.

“O rei passa a interpelar ao deputado dos insetos, que é a rainha das abelhas, a qual
descreve longamente seus maravilhosos dotes arquitetônicos, a saborosa doçura de seus
excrementos, a prodigiosa anatomia de seus corpos, predisposta por Alláh para aquelas
finalidades, a organização política de sua colmeia,etc. Admira-se o rei da perseguição
injusta com que os homens premiam a bondade das abelhas. A rainha de aquelas
pergunta então ao rei dos jinn qual é a organização política de sua sociedade e como os
jinn estão submetidos a seus príncipes. Com este motivo o rei disserta longamente sobre
os jinn nas suas relações com os anjos, com os homens e com o Criador. Tão extensa e
íntima é a conversa que mantém o rei dos jinn com a rainha das abelhas, que os homens
se indignam de tão extraordinária evidência do real aprecio a um inseto. Porém, um
sábio dos jinn tranqüiliza ao respeito da imparcialidade do rei nos seus julgamentos.

(3ª Prova)

“O rei dos jinn resume as alegações dos animais na sua defesa e contra os homens, e
pergunta a estes se tem mais alguma coisa que alegar no seu próprio favor, e contra os
animais. O deputado grego se levanta e argumenta outra prova de superioridade dos
homens sobre os animais, fundada nos conhecimentos científicos que só eles possuam,
nos seus talentos para a política e a economia social, nas suas artes e ofícios, no
comercio, etc. À instancia do rei dos jinn contesta a esta objeção a abelha expondo
sucintamente: 1º, as provas de inteligência que dão as abelhas por suas perfeita
organização social e política, por seus conhecimentos em geometria e arquitetura e pela
fabricação da cera e o mel, de cujos excedentes se aproveitam os homens; 2º, a
habilidade da formiga na construção de seus ninhos e silos e na coleta e conservação das
sementes para seu sustento; 3º, a previsão da lagosta na conservação de seus ovos; 4º, os
maravilhosos dotes técnicos do gusano da seda; 5º, as virtudes domésticas das vespas e
todos os insetos e répteis, como pulgas, chatos, piolhos,etc., que cumprem com
admirável abnegação os deveres da paternidade melhor que os homens.

(4ª Prova)

“O rei dos jinn pergunta aos homens se tem alguma coisa para alegar. Levanta-se o
deputado árabe e agrega, como prova da superioridade humana, as maiores
comodidades que desfrutam os homens na sua vida fisiológica, a rica variedade de suas
deliciosas comidas e bebidas, de seus jogos, festas e divertimentos, a moleza, luxo e
delicadeza de seus perfumes, vestes, etc., todo o qual é sintoma de que os homens são
senhores e os animais escravos. O rouxinol, deputado dos pássaros prova por partes.
Primeiro evidencia que o goze das delícias da gula pre exige dos homens uma enorme
quantidade de esforços, trabalhos, incômodos e cuidados para a aquisição da riqueza
com que obte-as, para a transformação engenhosa dos produtos naturais por meio das
artes e ofícios da alimentação, para estoque e conservação dos alimentos e da moeda
com que adquiri-los; e além de mais, aqueles deleites trazem como triste seqüela para os
humanos, uma série infinita de doenças e enfermidades longas e molestíssimas, quando
não mortais. Entretanto os animais não estão sujeitos nem às necessidades fictícias da
industria e o comércio para a compra e transformação dos alimentos, nem a tais doenças
que derivam da gula. São, assim, mais livres, menos escravos que os homens. É certo
que também alguns animais padecem destas mesmas doenças; mas são só aqueles que
pela convivência com os homens adquirem seus vícios, perdendo a retidão natural do
instinto; os que vivem em liberdade e longe do homem, só comem e bebem na
quantidade e ocasião estritamente necessárias para a vida. Mas, ainda, o alimento e a
bebida e a medicina melhor que usam os homens é o mel, baba da abelha. Por outra
parte, homens e animais, nos primeiros tempos, participavam da mesma sobriedade na
sua alimentação vegetariana e naturalista, e só mudaram os gostos depois do pecado.
Finalmente, os divertimentos e regozijos de que se gloriam os homens vão sempre
acompanhados ou seguidos de tristezas e penas: do lado das núpcias, dos risos e das
músicas, estão como contraste e compensação o luto e os gemidos do cortejo fúnebre.
Entretanto os saudáveis prazeres e alegorias da vida do campo, que os animais
desfrutam, estão isentos de toda tristeza, e equivalem ainda, senão superam, a todos os
artificiais divertimentos dos homens.

(5ª Prova)

“O rei dos jinn torna a perguntar se tem os homens mais alguma coisa para alegar.
Levanta-se o deputado hebreu e argumenta como prova de superioridade da espécie
humana o fato de ter sido distinguida por Alláh com a graça sobrenatural da inspiração e
missão profética, é dizer, com a revelação das Sagradas Escrituras, nas quais se contem
tão sublimes documentos e exortações morais para a perfeição das almas, e tantos ritos e
cerimônias e festas religiosas para tributar, com elas a Alláh o culto que Lhe é devido.

Também o rouxinol se encarrega de contestar esta prova, fazendo ver como todos os
preceitos e proibições pela lei religiosa foram dados cabalmente como freio contra os
vícios dos homens, e as cerimônias do culto como estímulo para a prática da virtude; e
isto é sintoma evidente da natural perversão dos homens, que de tamanhos remédios os
necessitam para ser bons. Inclusive nem todos eles cumprem a lei religiosa
espontaneamente, senão violentando-se pelo temor do castigo. Sintetizando: a revelação
é uma prova de que os homens na sua maioria ignoravam a existência de seu Criador e o
ofendiam; por isto foi necessário que Alláh enviasse aos profetas como mestres e lhes
impusesse ritos religiosos para expiar e corrigir seus vícios: a ablução ritual para limpar
as manchas morais contraídas pelo abuso do deleite venéreo; a oração e o jejum,
medicina expiatória dos pecados da língua; a esmola, contra a avidez e roubo,etc.
Todavia, a falta de livros revelados é uma prova de superioridade nos animais, pois não
necessitam de tal revelação escrita como lei à que sujeitar-se, é porque Alláh inspira-los
direta e individualmente pelo instinto à reta norma que devem seguir e da que jamais se
afastam; e se não necessitam festas nem templos, é porque espontaneamente dão a Alláh
o culto que devem todos os dias no grandiosos templo na Natureza.

(6ª Prova)

“O rei dos jinn pergunta novamente se tem os homens alguma coisa para alegar.
Levanta-se o deputado iraniano do Iraque e alega como prova da superioridade o uso de
roupas finas e ricas para cobrir o corpo e para seu enfeite, enquanto os animais, ou o
levam impudicamente ao nu, ou se o levam vestido, é com cobertas ásperas e feias. O
chacal, deputado das feras, desfaz facilmente a objeção, observando que os homens
roubam aos animais as matérias primas para seus vestidos; os animais, portanto, teriam
mais direito a vangloriar-se, já que eles possuem essas matérias primas desde que
nascem, e não os homens, que nascem nus e que para cobrir-se necessitam arranca-las
dos animais e trabalhar-las com arte depois. Cabalmente este foi o castigo imposto por
Alláh a Adam e Eva a raiz do seu primeiro pecado: no estado de inocência cobriram-se
como os animais: o cabelo, caindo sobre todo o corpo, ocultavam suas nudezes, os
preservava das inclemências do tempo e lhes servia de vestido, de almofada e de
enfeite; mas depois de pecar, perderam a felicidade que desfrutavam, foram tirados do
paraíso e, caindo-lhes o cabelo, ficaram nus.

“O homem iraquiano interrompe ao chacal, desviando a polêmica com este ataque


pessoal: as feras são as que menos deveriam falar neste pleito, porque é a espécie
zoológica menos numerosa, a mais cruel, a menos útil, a mais daninha, a menos sóbria,
a mais voraz, a que mais persegue a todos os outros animais. Mas o chacal responde que
dos homens aprenderam as feras esta crueldade para com as bestas: antes de Adam, as
feras se nutriam das carnes mortecinas, sem necessidade de caçar, e matar às bestas
vivas; os homens, depois escravizaram à maioria delas; e desde então, falta às feras
daquele natural sustento, tiveram por força, de procurá-lo violentamente. Na forma cruel
e sanguinária de despedaçar às bestas, também imitam as feras aos homens, que ainda
agregam os tormentos da arte culinária depois de matá-las, e os golpes e castigos
injustos às que submetem em vida. Ainda, mal podem falar de injustiça e crueldade os
homens, que com tal sanha se ferem e matam uns aos outros, se enganam, traem e
perseguem com esquisitas manobras, desconhecidas das feras mais sanguinárias. E no
que diz respeito à pretendida inutilidade, tampouco podem falar dela os homens, que se
servem de suas peles, pêlos, lãs, etc. Nem que proveito reportam os homens aos
animais? E no que diz às guerras ou ataques das feras contra as bestas mais fracas, não
são senão imitações do assassinato de Caim contra Abel e das violências de todos os
conquistadores em todos os séculos e países. Finalmente, se os homens examinassem
sem paixão a condição das feras, se convenceriam de que são melhores que eles.
Veriam, claramente, que os ascetas, devotos e santos não conseguem a meta de sua
perfeição senão quando fogem da sociedade dos homens para buscar a convivência das
feras nos montes e nos desertos. Um sábio dos jinn confirma esta última explanação do
chacal, com o que os homens ficam confundidos, e levanta-se a sessão.

(7ª Prova)

“No dia seguinte, novamente reunida a assembléia, pergunta o rei dos jinn se tem os
homens mais alguma coisa para alegar. Levanta-se o deputado persa e aduze outro
motivo de superioridade, fundamentado no fato de que tem os homens reis e califas,
ministros e secretários, capitães e governadores, nobres e proprietários e ricos
mercadores, artistas e artesões, literatos e sábios, oradores e poetas, teólogos e
canônicos, historiadores e filólogos, filósofos e matemáticos, astrônomos e físicos,
médicos e adivinhos, alquimistas e magos e astrólogos e outras inumeráveis categorias
eminentes que nos animais não existem. À sua alegação responde o papagaio
recordando, em geral, primeiro, as categorias de pássaros que o rei das aves numerou
em sessões anteriores; depois, contrapondo àquela classe de homens eminentes outras,
não menos numerosas, de homens depravados e prostituídos. Passa logo a fazer uma
crítica severa de cada uma de tais categorias humanas, para demonstrar que todas elas
adoecem de graves vícios e defeitos, os que não existem nas categorias similares, que
também se encontram nos animais.
“A política altruísta e liberal da rainha das abelhas ou do rei das formigas, serve-lhe de
motivo para censurar o egoísmo e tirania dos reis humanos. Com este motivo. Um sábio
filósofo dos jinn, intervêm para expor a seu rei a teoria do bem governo monárquico,
que não deve ser mais que uma fiel representação do governo do Cosmos pelos anjos,
inspirado pela sua vez, na economia divina, a que é todo amor e misericórdia para suas
criaturas. E penetrando mais no tema, estende-se em considerações psicológicas acerca
da natureza dos anjos e suas relações com as almas humanas.

“Retorna o papagaio sua réplica com a crítica dos artistas humanos, que são inferiores à
andorinha e as abelhas em ciência arquitetônica, às aranhas e ao gusano da seda na
habilidade têxtil, etc., e segue ponderando as artes sutis do instinto em diversos animais,
como a avestruz e muitos insetos e répteis, para a incubação dos seus ovos e a criação
de seus filhos.

“Passa logo a tratar dos poetas, oradores e literatos humanos, para ponderar a
eloqüência e harmonia da linguagem dos pássaros e de alguns insetos e répteis, nos seus
trinos, gorjeios e cantos, que os homens depreciam porque ignoram seu significado.

“Com relação aos astrólogos, o papagaio começa afirmando que muitas de suas
predições são ridículas farsas, boas só para enganar aos néscios, às mulheres e às
crianças, pois que predizem o que acontecerá nas longínquas terras e tempos e não
aproveitam sua ciência para adivinhar o que pode interessar a eles mesmos. Ademais, os
astrólogos são honrados tão somente pelos tiranos e reis incrédulos, que se servem deles
para satisfazer suas más paixões, porque são ateus e prestam às estrelas a fé que negam
a seu Criador providente, Com este motivo, narra o papagaio a história evangélica da
matança de crianças inocentes, como acontecida no tempo de Nemrod e de Abraham; a
de Moises, perseguido por Farão, etc., para fazer ver o inepto da ciência dos astrólogos.

“Chegado a este ponto, o rei dos jinn roga ao papagaio que explique o que haja de
verdade em todo gênero de adivinhação, é dizer, nos augúrios, aruspicação, astrologia
judiciária, sortilégios, etc. O papagaio responde que nenhum desses ritos supersticiosos
serve para evitar os males ou conseguir os bens que seus adeptos pretendem: o meio
seguro de êxito é em todos esses casos o cumprimento estrito das leis divinas e dos
preceitos e conselhos da religião revelada pelos profetas. Todos os ritos de adivinhação
servem, efetivamente, quiçá, para saber de antemão quais fenômenos ocorrerão pela
permissão e providência de Alláh; logo mais útil e seguro é para o homem tratar de
atrair-se a benevolência deste Alláh criador de tais fenômenos. A este propósito
estabelecemos um diálogo entre o rei dos jinn e o papagaio, durante o qual este lhe
explica a influência da oração e das práticas religiosas para obter de Alláh o máximo
bem das criaturas neste ou no outro Mundo. Com idêntico espírito religioso devem
seguir-se os conselhos dos médicos na cura das doenças, é dizer, subordinando sempre
sua intervenção aos universais desígnios da presença Divina, mediante a oração
humilde.

“No que faz aos filósofos e polemistas, de que se vangloriam os homens, o papagaio os
deprecia e vitupera, como causadores que são do extravio religioso e impiedade dos
humanos, pelas contradições e discrepâncias mutuas que em seus sistemas reinam: uns
defendiam a eternidade do mundo, outros a da matéria, outros a da forma; os que
explicam o Cosmos mediante duas causas, aqueles mediante três, quatro, cinco, seis ou
sete; para uns o mundo é infinito, e para outros limitado; há os que admitem a vida
futura, e os que a negam; como hás os que acreditam na revelação e os que a rejeitam, e
os que ficam na perplexidade do cepticismo, etc. Entretanto, todos os animais
comungam em idêntico sistema e professam um mesmo credo monoteísta, servindo dia
e noite a um só Alláh criador e evitando todo mal a seus próximos.

“No que faz aos geômetras e astrônomos, o papagaio reconhece que sua ciência é
abstrusa e sutilíssima, mas também revela nos seus cultivadores um desequilibro
evidente, pois que gastam o tempo e o talento em calcular as dimensões, volumes e
pesos dos corpos físicos, enquanto ignoram tudo a quanto se refere a seu próprio corpo
e a sua alma, e, sobre tudo, depreciam a ciência da revelação divina, que lhes seria mais
útil.

“Enquanto aos médicos e farmacêuticos, explica o papagaio que aos homens lhes sejam
tão caros, porque a gula e a luxuria, de que estes adoecem, são fonte inesgotável de
enfermidades sem conto; porém, pela sua parte os médicos e farmacêuticos são, para
seus clientes, verdugos mais cruéis que a enfermidade mesma, pois os atormentam com
dietas ou com remédios, quando quiçá se curariam antes e melhor deixando agir à
natureza. Todavia os animais, pela sua sobriedade, nem tem tantas doenças nem
necessitam de médicos.

“Enquanto aos proprietários, mercadores e ricos, são os que menos direitos tem a se
vangloriar como homens livres, pois sua vida, agitada e cheia de desgostos e
preocupações, é pior que a dos escravos: sempre estressados pela ânsia de adquirir
riquezas que não levarão ao sepulcro; expostos dia e noite à tentação do lucro injusto e
ao perigo de perder seus caudal, sem preocupar-se da miséria alheia nem da sorte futura
de suas próprias almas; de maneira que nem gozam tranqüilos de suas riquezas neste
mundo, nem lhes servem para o outro.

“Tampouco é motivo de justo orgulho para os homens possuir secretários, funcionários


e governadores, pois estes são malvados e iníquos, e toda sua ciência se apóia na
habilidade de enganar aos súbditos e aos príncipes por médio da hipocrisia e as más
artes da retórica, já na violência desenfreada para tiranizar aos povos.

“Os leitores al-qurânicos e os que professam vida devota são também tidos pelos
homens em grande estima, entretanto, só capa de devoção, humildade e abstinência,
seus corações estão cheios de hipocrisia, ira, inveja, soberbia, ignorância da lei divina e
outras más paixões, preocupando-se tão só dos externos rituais e fórmulas da religião. O
mesmo acontece com os canônicos e teólogos, que se estudam o dogma e a moral, é só
como meio para satisfazer sua ambição de riquezas e de cargos honoríficos, e por isso
são vistos interpretando leis segundo convêm a seus interesses bastardos, e não segundo
reclamam os interesses da religião.

“E mais ainda são vituperáveis os juízes, tabeliões e arrecadadores do zakat ou caridade


legal, pois em lugar de fazer justiça entre os súbditos e frear os desaforos das
autoridades políticas, colaboram com estes a despojar aos órfãos de seus patrimônios e a
cometer todo gênero de violência e injustiças nos pleitos, depósitos judiciais, etc. E
finalmente, os califas, reis e sultões tampouco são motivo justo de vanglória para os
humanos, já que em lugar de comportar-se como herdeiros e representantes dos
profetas, vivem entregues a todo tipo de desordens: para satisfazer seus apetites,
perseguem, seqüestram, roubam e assassinam a todos seus parentes, à menor suspeita de
conspiração, e de tudo se preocupam, menos de dirigir sua grei pelo caminho da religião
e do bem.

“Concluído o longo discurso do papagaio, pergunta o rei dos jinn aos sábios de sua
linhagem e aos da espécie humana quem fornece aos gusanos da carcoma o barro de que
servem-se para construir seus ninhos em forma de rosário, quando carecem de assas e
de pés para busca-lo. O sábio hebreu explica o enigma, mediante uma lenda na que
intervêm Salomão e os jinn. O sábio grego explica-o naturalmente pela fisiologia desses
vermes. O grilo, deputados dos répteis, é consultado pelo rei dos jinn para que dê sua
opinião sobre o tema. O grilo aprova e completa a explicação do grego, dizendo que
Alláh, para ser justo na distribuição de seus dons, equilibra e compensa as dotes do
espírito com as do corpo: às bestas corpulentas, como o camelo e o elefante, as dota de
almas fracas e infantis; aos insetos minúsculos e débeis, lhes outorga um espírito
enérgico, varonil e sagaz; assim o escorpião pese a ser pequeno, mata facilmente ao
enorme elefante; e assim também, o vermezinho da carcoma. O mesmo que ao da seda,
a aranha, a abelha, etc., possuem uma força espiritual, muito superior às exíguas
proporções do seu minguado organismo, afim de que possam suprir com a astúcia à
força; e Alláh priva deste instinto mais sutil aos animais corpulentos, porque do
contrário evitariam todo trabalho pesado, para o que são aptos; todavia, esses insetos só
são aptos para as artes de engenho, e toda a habilidade nas artes consiste em ocultar aos
demais o segredo da técnica respectiva; assim, ninguém é capaz de pesquisar o mistério
da fabricação da cera e mel das abelhas, ou o da seda pelo gusano, a causa de que a
pequenez de seus corpos escapa a toda observação. E assim poderiam os filósofos
encontrar, se quisessem, na fabricação do mel, por exemplo, uma prova da possibilidade
da criação ex nihilo, que negam a Alláh, já que esse mel o tirassem das flores as abelhas,
melhor a tirariam os homens, dotados como estão de tantas habilidades de que se
vangloriam. Por isto também, para confundir a soberbia dos homens, castigou Alláh
muitas vezes aos mais arrogantes e endeusados tiranos, como o Farão, por exemplo,
com exércitos de gafanhotos, formigas, etc. Igualmente, todos os homens são incapazes
de fabricar as pérolas ou a seda, apesar dos vivíssimos desejos de possuí-las para vestir-
se e enfeitar-se com luxo, e apesar também da inteligência e habilidade de que se
vangloriam, enquanto o gusano da pérola e o da seda fabricam com toda facilidade seus
produtos, como as abelhas o mel, que tanto anelam os humanos.

(8ª Prova)

“O rei dos jinn pergunta novamente se tem os homens algo mais para alegar. Um dos
homens se levanta e argumenta, como nova prova de superioridade sobre os animais,
que tem estes formas e figuras muitas e diferentes, enquanto todos os homens tem uma
só figura e forma; e a unidade é sinal de senhorio e domínio, assim como a multidão o é
de servidão e escravidão. O rouxinol, deputado dos pássaros, responde confessando a
verdade do fato argumentado; mas agrega que se as formas dos animais são muitas e
diferentes, todavia suas almas são uma só; enquanto que os homens tem uma única
forma, mas muitas e diferentes almas, como o demonstra a variedade e diferença de suas
opiniões, doutrinas e crenças religiosas: entre eles há judeus, cristãos, sabeus,
zoroástricos, politeístas, idólatras, astrólatras, etc, e ainda dentro de uma mesma
religião, como no cristianismo, há nestorianos, jacobitas e melquitas, e no Islam há
khariyias, muryi‟ias, qadrías, mútazilías, asha‟rias, shi‟itas, sunnitas, etc., todos os quais
mutuamente se contradizem, perseguem e ex comungam; todavia, todos os animais são
monoteístas.
“O deputado persa replica que também os homens acreditam todos em um só Deus, e se
discrepam nas respectivas religiões, é porque estas são só meios ou caminhos para um
mesmo fim, ao qual todas as religiões tendem. As perseguições religiosas não obedecem
a motivos de fé, senão a razões de domínio político. Ainda, a morte e a mortificação
própria são os mais caros sacrifícios, em todas as religiões, para atrair-se a benevolência
de Alláh, mediante a purificação das almas.

(9ª Prova)

“O deputado hindu se levanta e agrega outra razão de superioridade, fundamentada em


que os homens são mais em número que os animais, pois a quarta parte habitada da
Terra, quase tem 19.000 cidades que povoam um número incontável de pessoas e raças
diversas. E a continuação numera as nações todas do mundo conhecido, com suas
principais regiões e as diferentes qualidades físicas de seus habitantes.

“A rã contesta esta nova razão, ponderando pela sua parte a multidão inumerável e a
diversidade dos animais que povoam as águas, e fazendo ver que só na quarta parte
habitada da Terra há quase 14 mares, uns 500 rios pequenos e 200 mais caudalosos e de
longuíssimo percurso, sem contar os riachos, acéquias, lagoas, poucas, etc., e todos eles
estão povoadíssimos de inumerável quantidade de peixes de mais de 700 espécies e
famílias diversas. Aos quais, se somam quase mais 500 gêneros de animais terrestres e
voláteis, resultando um número e uma variedade superior às que tanto envaidece aos
humanos.

“Um sábio dos jinn intervêm na disputa para ponderar a multidão e variedade de
criaturas espirituais e simples, que assim os homens como os animais esqueceram na
sua discussão, a saber: anjos, querubins, jinn e demônios, cuja natureza imaterial e
inextensa se diversifica em tantas variedades, espécies, formas e indivíduos, que podem
preencher a imensidão das esferas celestes, apesar de ser estas muitíssimo mais extensas
que a Terra. De onde infere que os homens não podem invocar sua própria multidão
como razão de superioridade e domínio sobre os animais, pois a afirmação única que
cabe estabelecer é esta: animais, homens e espíritos são todos servos de Alláh.

(10ª Prova)

“O rei dos jinn pergunta novamente se tem os homens algo mais para alegar. O
deputado árabe se levanta e argumenta, como prova de superioridade, que os homens
receberam de Alláh a promessa da Ressurreição no dia do Juízo Final, e de uma vida
imortal e eterna no Paraíso celestial, gozando ali de infinitas delícias e da presença de
Alláh; todo o que não tem sido prometido aos animais.

“O rouxinol, deputado dos pássaros, responde afirmando a verdade da alegação, mas


agrega que o deputado árabe deixou de consignar os castigos do Inferno, que Alláh
estabeleceu assim mesmo contra os homens na sua revelação, excluindo aos animais
tanto das penas como dos prêmios; assim, os animais são nisto igual aos homens.

“O deputado árabe replica que não existe tal igualdade já que os homens, se perfeitos,
gozarão eternamente da felicidade e dignidade dos profetas e santos, semelhantes aos
anjos e Amigos de Alláh; e embora fossem condenados ao fogo, dele poderão sair pela
interseção dos profetas; todavia os animais, depois da morte, não voltarão jamais a
ressuscitar.

“Neste ponto, os deputados de todos os animais e os sábios dos jinn exclamam a uma
voz que agora é quando os homens disseram a verdade, porque só de isto tem justo
motivo para vangloriar-se; mas de aí resulta que só são superiores aos animais quando
são e porque são perfeitos; consequentemente, deveriam acomodar a esse critério sua
vida e seus atos; mas a realidade é bem diferente, já que a vida e os atos de muitos
homens não possuem essa alta perfeição espiritual em que apóiam sua superioridade
sobre os animais.

“Em médio de profundo silêncio, sintoma evidente da confusão dos homens, se levanta
finalmente e deputado persa, para resumir o debate e pedir ao rei dos jinn sua definitiva
sentencia. Resumindo faz constar: 1º Que ficou demonstrada a superioridade dos
homens sobre os animais em algo, é dizer, na perfeição moral ou mística. E 2º Que de
fato existem entre os homens alguns que realmente a possuem. O rei dos jinn sentencia
que, verdadeiramente, esses homens perfeitos são superiores e donos respeito dos
animais, e que estes estão obrigados a submeter-se a seu domínio. Com o qual o litígio
fica sentenciado definitivamente e aceite pelas partes litigiosas, que abandonam a Corte
satisfeitas e contentes.

EPÍLOGO

“O autor encerra a fábula advertindo ao leitor que estas qualidades místicas em que o
homem supera aos animais, apóiam-se todas nas doutrinas que se contem nos 51
Tratados ou Epístolas da Irmandade da Pureza (Ikwan al-Safa‟, Basrá, atual Iraque,
século IV H/X e.C) , de cuja coleção faz parte está fábula. Agrega que, se em ela se
permitiu pôr em boca dos animais idéias de tão grave transcendência, não foi por jogo
pueril, senão por acomodar-se ao estilo de todas as Epístolas antes citadas, nas quais as
idéias mais recônditas se expõem sob o véu das alusões, alegorias e similares. Termina
fazendo votos para que o leitor atento e reflexivo acerte a decifrar os símbolos, e saia de
sua letargia espiritual, em virtude das exortações e avisos que Alláh lhe envia por boca
dos animais.”

***

O POVO DA CASA (Ahl ul Báyt)

Nasir Khusraw

Eu escolhi o al-Qur'an e a fé de Muhammad, pois essa é a escolha


que foi feita por Muhammad. Eu estou certo de que, seguindo-os
fielmente, minha certeza será como a de Muhammad. Minha chave para
os Céus, minha guia para o deleite, meu castelo fortificado: a fé de
Muhammad! Muhammad é enviado como Profeta de Deus para nós:
assim é a marca do sinal de Muhammad. A fé, o al-Qur'an – eles estão
assentados no meu coração, do mesmo modo como eles estavam
assentados no coração de Muhammad. Minha esperança é ser – pela
graça do Senhor – o mais humilde dentre o povo de Muhammad. No
oceano de fé que você vê, o al-Qur'an foi a pérola mais preciosa na mão
de Muhammad. Todo ser possui um tesouro escondido; assim é o al-
Qur'an: o tesouro valioso de Muhammad! Agora, olhe a jóia que senta-se
sobre esse tesouro! Quem você considera o confidente de Muhammad?
Seus seguidores encontraram aquela jóia da fé em ninguém mais do que
nos filhos de Muhammad. Muhammad confiava seu tesouro e bens para
uma pessoa digna de valor e próxima a Muhammad. Quem era esse
amigo chegado? Ele, cuja querida esposa era ninguém menos do que a
dileta de olhos negros de Muhammad. Dessa dileta filha (Fátima) e desse
primo („Ali) apareceram Hassan e Hussayn, letras próximas de
Muhammad. Eu sei com certeza isso: Hassan e Hussayn eram jasmim e
rosa em ambos os mundos, de Muhammad. Onde poderiam uma rosa
como essa e um jasmim como esse aparecer em ambos os mundos, mas
do solo de Muhammad! Eu não ouso selecionar alguém dentre os homens
acima desses dois filhos, encantadores filhos de Muhammad; eu me
envergonharia de Muhammad franzindo-me as sobrancelhas! A espada
do puro Haydar, o Poderoso al-Qur'an são pilares da forte fé de
Muhammad, pois ele esteve como mestre e com Dhu‟l-Fiqar em cada luta
à direita de Muhammad. Uma vez que a espada de „Ali socorreu o
Poderoso al-Qur'an, „Ali era o socorredor, sem dúvida, de Muhammad.
Como Aarão para Moisés, assim era „Ali em sua posição, um companheiro
na fé e próximo a Muhammad. No Dia do Juízo, ambos, Moisés e Aarão
beijarão o manto de „Ali, a praia de Muhammad. A religião de Muhammad
lembrava uma mata; o leão: „Ali, nos bosques de Muhammad.
Muhammad disse: “Vão e busquem sabedoria na China!” Eu fui a essa
China, a terra de Muhammad. Eu ouvi do herdeiro do Profeta palavras
que eram como o mel, tão doce, de Muhammad!

Nasir Khusraw

***
DIÁLOGO ENTRE MESTRES: SHAMS E RUMI

Shams de Tabriz perguntou a Mevlana Jalal ud din Rumi:


- Qual o objetivo dos esforços espirituais e das mortificações, da repetição
das preces e do conhecimento ?

Mevlana Rumi respondeu:


- Compreender a Tradição e os costumes da Lei religiosa.

Shams contestou:
- Tudo isso é exterior.

Rumi inquiriu:
- Que há além disso tudo ?

Shams respondeu:
- O conhecimento consiste em passar do desconhecido ao conhecido -e
recitou versos de Hakym Sanâî: "Se o conhecimento não te ensina a ti mesmo,
Vale mais a ignorância que um tal conhecimento."

***

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