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FACULDADE DAMÁSIO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM DIREITO


CONSTITUCIONAL APLICADO

ALEX DOUGLAS MEAUX DIAS RODRIGUES

A NACIONALIDADE BRASILEIRA E A LUSOSFERA

João Pessoa - PB
2017
FACULDADE DAMÁSIO
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM DIREITO
CONSTITUCIONAL APLICADO

ALEX DOUGLAS MEAUX DIAS RODRIGUES

A NACIONALIDADE BRASILEIRA E A LUSOSFERA

Monografia apresentada à Faculdade


Damásio, como exigência parcial para
obtenção do título de Especialista em Direito
Constitucional Aplicado, sob orientação do
professor Eduardo Alves Lima Chama.

João Pessoa - PB
2017
ALEX DOUGLAS MEAUX DIAS RODRIGUES

A NACIONALIDADE BRASILEIRA E A LUSOSFERA

TERMO DE APROVAÇÃO

Esta monografia apresentada no final do


Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em
Direito Constitucional Aplicado, na
Faculdade Damásio, foi considerada
suficiente como requisito parcial para
obtenção do Certificado de Conclusão. O
examinado foi aprovado com a nota
________.

São Paulo, ____ de ________ de 2017.


RESUMO

O presente Trabalho de Conclusão de Curso, intitulado: “A nacionalidade brasileira e a


lusosfera” tem como objetivo precípuo a investigação da relação entre os nacionais dos
países de língua portuguesa e a nacionalidade brasileira, segundo a Constituição Federal
de 1988. De natureza qualitativa e abordagem indutiva, a pesquisa é levada a cabo a partir
de um estudo descritivo documental e bibliográfico, assumindo discurso dissertativo,
através de operação argumentativa. Adentra, inicialmente, nas dimensões do direito à
nacionalidade, para, em seguida, esmiuçar as espécies do precitado direito dentro do
ordenamento jurídico pátrio. A relação da lusosfera com o direito à nacionalidade
brasileira, na Constituição Federal de 1988, é feito levando-se em consideração o método
histórico-descritivo, esmiuçando-se o que vem a ser denominado de “Lusotropicalismo
normativo”, conceito que pretende demonstrar como as relações político-diplomáticas
luso-brasileiras da segunda metade do século XX implicaram na constitucionalização de
facilidades de aquisição da nacionalidade brasileira para os originários dos países de
língua portuguesa na hodierna constituição. Em seguida, aborda, perfunctoriamente,
iniciativas contemporâneas para institucionalização da cidadania lusófona, pela
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, concluindo com as considerações do autor
sobre o tema.

Palavras-chave: Nacionalidade brasileira. Lusosfera. Constituição Federal de 1988.


ABSTRACT

The present study, entitled "Brazilian Nationality and the Lusosphere", has as its main
objective the investigation of the relationship between the people from the Portuguese-
speaking countries and Brazilian nationality, according to the Federal Constitution of
1988. Of a qualitative nature and an inductive approach, research is carried out from a
descriptive documentary and bibliographic study, assuming a dissertative discourse,
through an argumentative operation. Initially, it enters into the dimensions of the right to
nationality, and then to scrutinize the species of the aforementioned right within the legal
order of the country. The relation between the Lusosphere and the Brazilian nationality
in the Federal Constitution of 1988 is made taking into account the historical-descriptive
method, analyzing what is called "normative Lusotropicalism", a concept that intends to
demonstrate how relations Political-diplomatic relations of the second half of the
twentieth century implied the constitutionalization of facilities for the acquisition of
Brazilian nationality for those originating in Portuguese-speaking countries. Next, it
approaches, perfunctorily, contemporary initiatives for the institutionalization of
Lusophony citizenship, by de Community of Portuguese Language Countries, concluding
with the author's considerations on the subject.

Keywords: Brazilian nationality. Lusosphere. Federal Constitution of 1988.


LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.................................................9


Figura 2 – Carta de Portugal insular e ultramarino.........................................................39
Figura 3 – Portugal insular e ultramarino.......................................................................40
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...............................................................................................................8
CAPÍTULO I – A NACIONALIDADE BRASILEIRA..............................................12
1.1 O direito à nacionalidade.......................................................................................12
1.2 Espécies de nacionalidade......................................................................................16
1.3 Hipóteses de aquisição da nacionalidade brasileira.............................................19
1.4 Distinções entre brasileiros natos e brasileiros naturalizados............................27
1.5 Perda e reaquisição da nacionalidade brasileira..................................................30
CAPÍTULO II – A AQUISIÇÃO DA NACIONALIDADE BRASILEIRA AOS
ORIGINÁRIOS DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA..................................32
2.1 O privilégio dado ao estrangeiro originário de país de língua portuguesa.........32
2.2 O Lusotropicalismo normativo.............................................................................35
2.2.1 O Tratado de Amizade e Consulta, de 1953........................................................36
2.2.2 A Emenda nº 1 à Constituição da República Federativa do Brasil, de 1969........38
2.2.3 O Decreto-Lei nº 70.391, de 1972.......................................................................41
2.2.4 O Decreto nº 3.927/2001....................................................................................43
CAPÍTULO III – DA NACIONALIDADE BRASILEIRA À CIDADANIA
LUSÓFONA...................................................................................................................46
3.1 O Projeto de Convenção-Quadro relativo ao Estatuto do Cidadão da CPLP..46
3.2 O que há de concreto?............................................................................................50
3.3 Hipóteses para a dificuldade de aprovação do Projeto de Convenção-Quadro
relativo ao Estatuto do Cidadão da CPLP....................................................................54
CONSIDERAÇÕES......................................................................................................59
REFERÊNCIAS.............................................................................................................61
ANEXO...........................................................................................................................65
8

INTRODUÇÃO

Compreendida em grande parte da história ocidental como o direito do indivíduo


à participação política1, a cidadania, contemporaneamente, tem associado ao seu
significado, conforme assevera Trindade (2003a, p.207), as relações entre Direitos
Humanos, democracia e desenvolvimento, abrangendo e ampliando as necessidades
básicas dos seres humanos.
De acordo com Bonavides (2009, p.7), a concepção hodierna de cidadania se
estendeu em direção a uma perspectiva na qual cidadão não é apenas aquele que vota,
mas aquela pessoa que tem meios para exercer o voto de forma consciente e participativa.
Além do mais, cidadania é a condição de acesso aos direitos civis e políticos, mas também
aos direitos econômicos e sociais, que permitem que o cidadão possa desenvolver todas
as suas potencialidades, incluindo a de participar de forma ativa, organizada e consciente,
da construção da vida coletiva do Estado.
Dentro de cada ente estatal, por conseguinte, a condição de nacional, advinda do
direito à nacionalidade, implica no exercício da cidadania, possibilitando à pessoa
humana, que tenha vínculo jurídico-político com o Estado, a participação em uma
determinada comunidade, tanto no aspecto político, jurídico-moral quanto no
socioeconômico, o que caracteriza marco fundamental para a garantia e disponibilidade
dos direitos civis e políticos, econômicos e sociais.
A condição especial do nacional/cidadão antagoniza-se, entretanto, com a do
estrangeiro, pois, uma vez ausente neste a condição advinda da nacionalidade (a
cidadania), carece-lhe o acesso amplo aos direitos civis e políticos, econômicos e sociais
do Estado em que se encontre, arrefecendo o desenvolvimento de suas potencialidades
enquanto pessoa humana.
A aquisição da nacionalidade por estrangeiros, e, por conseguinte, a ampliação da
cidadania é tema que nos interessa no presente trabalho de conclusão de curso. Isto por
que, em profundidade, o conceito de cidadania lusófona2 se insere neste âmbito. Ela tem
sido concebida como um processo de ampliação da cidadania, nos países que possuem o
português como língua oficial, a partir de um elemento comum entre o nacional e o

1
"O termo participação, tomado em sentido estrito, poderia ser reservado, finalmente, para situações em
que o indivíduo contribui direta ou indiretamente para uma decisão política. (BOBBIO, 1998, p. 889).
2
“Relativo àqueles que falam português como língua materna ou não” (HOUAISS, 2009, p.812).
9

estrangeiro, a língua, que “permite a expressão direta de uma espécie de cidadania natural,
pré-jurídica e pré-política, se pensarmos que a participação começa por se sustentar na
possibilidade de comunicação” (PIRES, 1997, p.37).
No âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa3 (CPLP), por
exemplo, há significativa atividade de concertação diplomática e técnica, esta
representada pelo Grupo de Trabalho Alargado sobre Cidadania e Circulação no Espaço
da CPLP, empenhada em promover a cooperação dos Estados-membros4 na
institucionalização da cidadania lusófona, principalmente no que tange à circulação de
pessoas e à consonância dos ordenamentos jurídicos internos com a concessão de direitos
de participação política, econômica e social aos seus nacionais, no espaço territorial e
linguístico comum (a lusosfera), propondo, assim, a adoção do Projeto de Convenção-
Quadro relativa ao Estatuto do Cidadão da CPLP.

Figura 1 - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa

Fonte: UOL (2017)

3
De acordo com Saraiva (2001), a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é uma Organização
Intergovernamental Internacional, com personalidade jurídica internacional e autonomia administrativo-
financeira, constituída em julho de 1996 na I Conferência dos Chefes de Estado e de Governo, na cidade
de Lisboa, sua atual sede.
4
Atualmente, são nove os Estados possuem o português como língua oficial e que fazem parte da
organização: a República Popular de Angola, a República Federativa do Brasil, a República de Cabo Verde,
a República da Guiné-Bissau, a República da Guiné Equatorial, a República Popular de Moçambique, a
República Portuguesa, a República Democrática de São Tomé e Príncipe e a República Democrática de
Timor-Leste. A CPLP converge, portanto, países que não mantém contiguidade territorial entre si
(fronteiras), divididos em quatro continentes diferentes: Europa (Portugal), Ásia (Timor-Leste), África
(Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe) e América
(Brasil).
10

O precitado projeto, de acordo com a CPLP (2017b), possibilitaria aos cidadãos


dos Estados-membros da comunidade o gozo de igualdade de direitos e deveres com os
respectivos nacionais no espaço territorial lusófono, excetuando-se do regime de
equiparação os direitos constitucionalmente reservados e os direitos inerentes aos
processos de integração regional. O estatuto foi primeiramente discutido na IV
Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, realizada no ano de 2002, em
Brasília e, segundo Leitão (2009, p. 8), não veio a ser adotado, à época, porque os
representantes de Angola e Moçambique afirmaram não reunirem, seus Estados,
condições de implementá-lo àquela altura.
A despeito da cidadania lusófona, nos termos do Projeto de Convenção-Quadro
relativa ao Estatuto do Cidadão da CPLP, ainda ser uma quimera, implicando o esforço
político-diplomático nacional e comunitário para a sua adoção, importa consignar que em
âmbito normativo-regulamentar o tema já se encontra vigente na República Federativa do
Brasil.
Neste país, além da cidadania se constituir como um dos fundamentos do Estado
Democrático de Direito, encontra, na Constituição Federal de 1988, no capítulo dedicado
à nacionalidade, disposição expressa permitindo a aquisição da nacionalidade brasileira,
e por extensão, a condição de cidadão, aos originários dos países de língua portuguesa,
demandando apenas a residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral.
Ora, levando-se em consideração que a República Federativa do Brasil, no
contexto dos países de língua oficial portuguesa5, abriga cerca de 80% do território e 75%
da população lusófona do mundo6, considerar a vigência de disposições normativas
concedendo-se a nacionalidade brasileira (e por extensão a cidadania) a pessoas
originárias dos países de língua portuguesa, implica constatar que expressão da quimérica
cidadania lusófona já existe em espaço territorial significativo da CPLP (o próprio Brasil).
Além do mais, a concessão de direitos ao estrangeiro, nacional de país de língua
portuguesa, mediante o exercício da cidadania, conferida a partir da ação soberana do

5
Segundo dados disponíveis no sitio eletrônico da CPLP (2017a), a área do globo terrestre ocupada pelos
nove Estados-membros da precitada comunidade é de 10.742.000 km². Deste total,
8 515 767,049 km² são apenas do Estado brasileiro.
6
Segundo dados da ONU (2017c), em 2016, a população total dos países que possuem o português como
língua oficial é de 217.200.000 milhões de pessoas, distribuídas da seguinte forma: Angola (25,8 milhões),
Brasil (209,6 milhões), Cabo Verde (500 mil), Guiné Equatorial (900 mil), Guiné-Bissau (1,9 milhões),
Moçambique (28,8 milhões), Portugal (10,3 milhões), São Tomé e Príncipe (200 mil) e Timor Leste (1,2
milhões).
11

Estado brasileiro – possibilidade que incide, em profundidade, na proposição de


investigação deste trabalho de conclusão de curso – pode significar a existência de um
instituto jurídico bastante singular, já que restrito ao universo lusófono. Destarte, importa-
nos investigar a relação, já vigente no Brasil, entre a lusosfera e a nacionalidade brasileira,
na Constituição Federal de 1988.
A investigação desta relação foi levada a cabo, nesta pesquisa de natureza
qualitativa, a partir de uma abordagem indutiva. A abordagem indutiva, segundo Platon
“pode ser definida como aquela em que o pesquisador parte de observações particulares,
deixando que categorias e interesses emerjam progressivamente durante o processo de
coleta e análise dos dados” (1986 apud ALVEZ-MAZZOTTI e GEWANDSZNAJDER,
1998, p. 131), colhidos a partir de bibliografia especializada e documentos normativos.
O trabalho segue, ainda, metodologia que implica o estudo descritivo dos dados
coletados, assumindo discurso dissertativo, através de operação argumentativa, adotando-
se a metodologia histórico-descritiva para a organização capitular, que restou estruturada
da seguinte forma: no primeiro capítulo apresenta-se como a Constituição Federal de
1988 definiu as dimensões do direito à nacionalidade. Trata, por conseguinte, do precitado
direito e definições a ele associadas, importantes para a compreensão do objeto de
investigação do presente trabalho.
No segundo capítulo, trata-se das disposições constitucionais referentes aos
originários dos países de língua portuguesa atualmente vigentes. Faz-se, também,
apanhado histórico sobre o principiar da relação entre a nacionalidade brasileira e a
lusosfera. Neste âmbito, adentra, inicialmente, no conceito de Lusotropicalismo
normativo para descrever o processo que culminou na vigência da parte final do artigo 12
da Constituição Federal de 1988.
Em seguida, no terceiro capítulo, trata-se da relação entre a nacionalidade
brasileira e cidadania lusófona, a partir da expressão nacional da naturalização concedida
aos originários dos países de língua portuguesa. Em seguida, demonstra-se a interface da
realidade normativa brasileira sobre a questão com o Projeto de Convenção-Quadro
relativa ao Estatuto do Cidadão da CPLP.
Finalmente, nas considerações finais, objetivamos, após a investigação da relação
entre a lusosfera e a nacionalidade brasileira, a partir dos dados presentes nos três
capítulos anteriores, pontuar questões pertinentes, colhidas no decorrer da pesquisa
referentes a possibilidade de adoção, pelo Brasil, do Projeto de Convenção-Quadro
relativa ao Estatuto do Cidadão da CPLP.
12

CAPÍTULO I – A NACIONALIDADE BRASILEIRA

1.1 O direito à nacionalidade

O direito e o Estado possuem um vínculo estreito. Desde as primeiras formulações


teóricas modernas, no século XVI, a concepção ontológica e deontológica do Estado, bem
como a relação deste com os seus pares e com seus súditos, seja a partir de uma atuação
negativa ou positiva, tem propiciado a formação de novos paradigmas7 responsáveis pela
construção de realidades, implicando assim no reconhecimento de novos conceitos
jurídicos e direitos.
A nacionalidade, por exemplo, é um termo que exemplifica bem esta assertiva,
pois, hodiernamente, têm associado à sua ontologia o valor de um Direito Humano e a
possibilidade de acesso aos direitos civis e políticos, mas também aos direitos econômicos
e sociais, sendo fundamental para exprimir a noção hodierna de cidadania.
Em profundidade, há certa conformidade na sua definição. Neste sentido, a
nacionalidade pode ser compreendida como o “ vínculo jurídico-político de direito
público interno que faz da pessoa um dos elementos componentes da dimensão pessoal
do Estado” (PONTES DE MIRANDA, 1973, p.352 apud SILVA, 2010, p. 204), como “o
vínculo jurídico político que liga um indivíduo a um certo e determinado Estado, fazendo
deste indivíduo um componente do povo, da dimensão pessoal deste Estado, capacitando-
o a exigir sua proteção e sujeitando-o ao cumprimento de deveres impostos” (MORAIS,
2011, p.218), ou como “o vínculo jurídico-político que liga um indivíduo a um
determinado Estado, fazendo com que esse indivíduo passe a integrar o povo daquele
Estado e, por consequência, disfrute dos direitos e submeta-se a obrigações” (LENZA,
2008, p.669). Outrossim:

7
Abbagnano (2007, p.864), explica com base em Kuhn (Estrutura das revoluções científicas, 1972), que o
conceito de paradigma assume um significado epistemológico e é usado em diversas acepções integráveis,
tendo dois significados básicos. O primeiro é que o paradigma é uma “constelação de crenças comungadas
por um grupo”, ou seja, um conjunto de teorias, valores e técnicas de pesquisa de determinada comunidade
científica. O segundo é que o paradigma é o exemplar das soluções concretas para os quebra-cabeças que
constituem a organização típica da ciência normal, aquela que se funda num resultado atingido pela ciência
do passado, que por determinado período de tempo atribui e constitui os fundamentos da práxis ulterior.
13

Os elementos clássicos de um Estado são seu território, sua soberania e


seu povo. Para a formação deste último, é necessário que se estabeleça
um vínculo político e pessoal entre o Estado e o indivíduo. É a
nacionalidade que efetiva tal conexão e faz com que uma pessoa integre
dada comunidade política. Portanto, é natural e necessário que o Estado
distinga o nacional do estrangeiro para diversos fins. (MENDES, 2017,
p. 628).

Ainda, no mesmo sentido:

Pode-se conceituar nacionalidade como o vínculo jurídico-político que


liga o indivíduo a um determinado Estado, tornando-o componente do
povo, o que o capacita a exigir proteção estatal, a fruição de
prerrogativas ínsitas à condição de nacional, bem como o sujeita ao
cumprimento de deveres. Referida associação – entre indivíduo e
Estado – é que determina e permite a identificação dos sujeitos que
compõem a dimensão pessoal do Estado, um dos seus elementos
constitutivos básicos. (MASSON, 2015, p.307).

Destarte, vê-se que a nacionalidade constitui como um vínculo jurídico-político,


cujas partes componentes são o indivíduo e o Estado e que implica na assunção de deveres
e no reconhecimento de direitos. Possui, portanto, uma dimensão basilar na relação entre
o indivíduo e o Estado.
Conforme explica Morais (2011), a competência para legislar sobre nacionalidade
é exclusiva do próprio Estado, sendo incontroversa a impossibilidade de ingerência
normativa de direito estrangeiro. Não obstante esta premissa, é cediço que,
contemporaneamente, que a nacionalidade se encontra alçada à categoria de direito de
caráter histórico, inalienável, imprescritível e irrenunciável8, estando presente no artigo
XV da Declaração Universal dos Direitos Humanos9. Desse modo:

[...] a nacionalidade é um direito fundamental ao estabelecer um vínculo


jurídico político que conecta os indivíduos nacionais a um determinado
Estado, conferindo-lhes direitos e obrigações; ao ser um pressuposto
para a cidadania e para o exercício dos direitos civis e políticos; ao
permitir a identificação e a determinação da origem dos nacionais, ao
possibilitar a permanência no território nacional e, em regra, ao ser
pressuposto para a obtenção de visto de imigração para outros Estados;
ao impedir a deportação de indivíduos; ao permitir aos nacionais o
reconhecimento de um local físico que os acolha no mundo; ao impedir
que os indivíduos sejam expatriados ou proscritos de seu território de
origem; e ao dificultar o desenvolvimento da sensação de isolamento
do ser humano. (BAPTISTA, 2007, p.14).

8
Referência às características dadas por Komparato (2015) aos Direitos Humanos.
9
“Artigo XV. 1. Todo indivíduo tem o direito a ter uma nacionalidade” (ONU, 2017a).
14

É por tal razão, explica Mendes (2017), que a embora a prerrogativa de adotar
legislação sobre nacionalidade pertença ao direito interno, a importância desse tema e a
preocupação de que se evite a existência de apátridas, isto é, pessoas sem vínculo com
nenhum Estado, são expressas em diversos instrumentos internacionais, implicando um
dever de não privar do indivíduo de sua nacionalidade ou do direito de mudá-la.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU – 1948) consagra


que o Estado não pode arbitrariamente privar o indivíduo de sua
nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade (art. 15) No
mesmo sentido, a Convenção Americana de São José da Costa Rica
estabelece que toda pessoa tem direito à nacionalidade do Estado em
que tiver nascido, na falta de outra (art. 20, 2). Trata -se de medida que,
desde que conte com a adesão dos demais Estados, afigura -se apta a
banir a grave situação de apátrida. (MENDES, 2017, p. 628).

É preciso consignar, ainda, que se associa à nacionalidade o conceito de cidadania,


fundamentalmente uma expressão daquela enquanto direito. Ora, se compete
soberanamente ao Estado reconhecer no indivíduo o vínculo jurídico-político,
determinando aqueles que são seus nacionais e que formarão o seu povo10, estabelece-se,
a partir da relação formada, a cidadania, compreendida como a condição (ou como direito)
de acesso do nacional aos direitos fundamentais do Estado, principalmente em âmbito
político.
Acerca da distinção entre nacionalidade e cidadania, Cunha Júnior (2013) explica,
acertada, mas restritivamente, que não se deve confunde nacional com cidadão, pois este
é o nacional no gozo dos direitos políticos, isto é, o nacional alistado na justiça eleitoral,
apto a gozar do direito de votar e ser votado. Assim, nem todo nacional seria cidadão,
mas todo cidadão seria nacional.
Não obstante, “se aceitando o pressuposto de que toda pessoa humana tem direito,
ao menos, a uma nacionalidade, lícito é então supor que dessa atribuição de nacionalidade
decorram outros direitos, dentre eles o direito de cidadania, na qual estão contemplados
o de participação política”. (SORTO, 2009, p.41). Constata-se, portanto, que a dimensão
de votar e ser votado é só um aspecto da cidadania, decorrente da nacionalidade.

10
Sobre o termo, povo, Fernandes (2016) explica que quando o vínculo jurídico-político entre o indivíduo
e o Estado é formado, àquele integra à dimensão pessoal deste, formando o seu povo. Raciocínio idêntico
ao de Morais (2011), para quem povo remete ao conjunto de pessoas que fazem parte de um Estado,
constituindo seu elemento humano. Povo diferencia-se, entretanto, de população. Esta, para Fernandes
(2016) representa o conjunto de habitantes de determinado Estado, sejam eles nacionais ou estrangeiros.
15

Ora, sabe-se que a compreensão de cidadania varia em termos de tempo e espaço,


revelando uma dimensão histórica intrínseca, de modo que “em decorrência disso, novos
valores vão se incorporando ao conceito de cidadania11, que é construída com o passar do
tempo” (PINSKY, 2003, p. 09).
Hodiernamente, por exemplo a cidadania encontra-se inextricavelmente
relacionado com os Direitos Humanos, seja em sua gênese, no vínculo jurídico-político
existente entre o indivíduo e o Estado (a nacionalidade), seja na abrangência de direitos
que sua condição determina:

A cidadania se refere, por sua parte, ao exercício de determinados


direitos e deveres, dentro e fora do espaço estatal. Por isso, esta se
preocupa da práxis política, da participação do cidadão na via pública.
Ademais, a cidadania se dá de maneira escalonada nos níveis local,
nacional e comunitária e, ainda, internacional, sempre, naturalmente,
alicerçada no reconhecimento de certos direitos universais peculiares a
pessoa humana, os quais devem ser observados por todas as ordens
jurídicas. (SORTO, 2009, p.42-43).

Dentro de cada ente estatal, por conseguinte, a condição de nacional implica no


exercício da cidadania, possibilitando à pessoa humana que tenha vínculo jurídico com o
Estado a participação em uma determinada comunidade, tanto no aspecto político,
jurídico-moral quanto no socioeconômico, o que caracteriza marco fundamental para a
garantia e disponibilidade dos direitos civis e políticos, econômicos e sociais.
Na República Federativa do Brasil, por exemplo, a cidadania é um dos
fundamentos do Estado Democrático de Direito12, “sendo ao mesmo tempo um status e
um direito” (FERNANDES, 2016, p.303). Para gozar da condição de cidadão, no Brasil,
faz-se necessário pertencer ao povo brasileiro, ou seja, à dimensão humana deste Estado
e a Constituição Federal de 1988 traz, em seu Capítulo III, no artigo 1213.

11
Neste mesmo sentido, de acordo com Carvalho (2000) existiriam três versões do conceito de cidadania
herdados da tradição democrática ocidental: a primeira delas refere-se ao conceito liberal de cidadania como
titularidade de direitos. A segunda versão enfatiza a preocupação com a res publica, com o bem coletivo,
ainda que seja exigido o sacrifício individual. A terceira versão, por fim, refere-se a uma percepção
comunitária da cidadania, relacionada muito mais ao sentimento de pertencimento que à titularidade de
direitos.
12
“Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e
do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: II - a
cidadania”. (BRASIL, 2017a).
13
“Art. 12. São brasileiros: I - natos: a) os nascidos na República Federativa do Brasil, ainda que de pais
estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país; b) os nascidos no estrangeiro, de pai
brasileiro ou mãe brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do Brasil;
c) os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de mãe brasileira, desde que sejam registrados em
repartição brasileira competente ou venham a residir na República Federativa do Brasil e optem, em
16

O estrangeiro que adquire a nacionalidade brasileira, tornando-se cidadão,


portanto, estará apto a participar do universo político, jurídico-moral e socioeconômico,
o que caracteriza marco fundamental para a garantia e disponibilidade dos direitos civis
e políticos, econômicos e sociais garantidos no Brasil, excetuando-se os casos previstos
na Lei maior.
Para adentrar nesta discussão, faz-se premente distinguir os conceitos de brasileiro
nato e brasileiro naturalizado, esmiuçando-se, quanto ao último, seus critérios de
aquisição e as distinções que lhes são concernentes, aspectos tratados nos seguintes
subcapítulos, de fundamental importância para que se possa investigar a relação entre os
nacionais dos países de língua portuguesa e a nacionalidade brasileira.

1.2 Espécies de Nacionalidade

Segundo Masson (2015), distinguem-se, doutrinariamente, duas espécies de


nacionalidade, a primária (também denominada de origem ou originária) e a secundária
(ou adquirida) 14. A nacionalidade primária seria aquela resultante de um fato natural,
podendo ser estabelecida por critérios sanguíneos (nacionalidade dos pais), territoriais
(local de nascimento) ou mistos (conjugação dos dois anteriores). A nacionalidade
secundária, por sua vez, seria aquela resultante de um ato voluntário, manifestado após o
nascimento.
É da discricionariedade soberana de um Estado definir quais serão os critérios para
atribuição da nacionalidade primária, bem como os requisitos para a concessão da

qualquer tempo, depois de atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira; II - naturalizados: a) os que,
na forma da lei, adquiram a nacionalidade brasileira, exigidas aos originários de países de língua portuguesa
apenas residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral; b) os estrangeiros de qualquer nacionalidade,
residentes na República Federativa do Brasil há mais de quinze anos ininterruptos e sem condenação penal,
desde que requeiram a nacionalidade brasileira. § 1º Aos portugueses com residência permanente no País,
se houver reciprocidade em favor de brasileiros, serão atribuídos os direitos inerentes ao brasileiro, salvo
os casos previstos nesta Constituição. § 2º A lei não poderá estabelecer distinção entre brasileiros natos e
naturalizados, salvo nos casos previstos nesta Constituição. § 3º São privativos de brasileiro nato os cargos:
I - de Presidente e Vice-Presidente da República; II - de Presidente da Câmara dos Deputados; III - de
Presidente do Senado Federal; IV - de Ministro do Supremo Tribunal Federal; V - da carreira diplomática;
VI - de oficial das Forças Armadas. VII - de Ministro de Estado da Defesa § 4º - Será declarada a perda da
nacionalidade do brasileiro que: I - tiver cancelada sua naturalização, por sentença judicial, em virtude de
atividade nociva ao interesse nacional; II - adquirir outra nacionalidade, salvo nos casos: a) de
reconhecimento de nacionalidade originária pela lei estrangeira; b) de imposição de naturalização, pela
norma estrangeira, ao brasileiro residente em estado estrangeiro, como condição para permanência em seu
território ou para o exercício de direitos civis”. (BRASIL, 2017a)
14
Compartilham da classificação doutrinária explícita pela precitada autora Fernandes (2016), Morais
(2011) e Lenza (2008).
17

nacionalidade secundária. No que concerne ao primeiro caso, adotam-se,


majoritariamente, os critérios do jus sanguinis e do jus solis.
Conforme explica Fernandes (2016), o critério sanguíneo (jus sanguinis) delimita
que será nacional de um país o indivíduo que for descendente dos nacionais daquele país.
Já o critério territorial (jus soli) delimita que será nacional de um país aquele que nascer
no território daquele país, independente de seus ascendentes. Neste mesmo sentido:

A nacionalidade primária é imposta, de maneira unilateral,


independentemente da vontade do indivíduo, pelo Estado, no momento
do nascimento. Falamos em involuntariedade, pois, de maneira
soberana, cada país estabelece as regras ou critérios para a outorga da
nacionalidade aos que nasceram sob o seu governo. Alguns adoram o
critério do jus sanguinis, ou seja, o que interessa para a aquisição da
nacionalidade é o sangue, a filiação, a ascendência, pouco importando
o local onde o indivíduo nasceu. [...]. Outros adotam o critério do jus
soli, ou critério da nacionalidade, vale dizer, o que importa para a
definição e aquisição da nacionalidade é o local de nascimento e não a
descendência. (LENZA, 2008, p.670).

Na República Federativa do Brasil, por exemplo, as hipóteses de atribuição da


nacionalidade primária estão taxativamente previstas na Constituição Federal de 1988.
“Portanto, temos um rol fechado que não é meramente exemplificativo, não havendo
hipótese de nacionalidade primária na legislação infraconstitucional” (FERNANDES,
2016, p.697).
De acordo com Cunha Júnior (2013), a Constituição adotou, como regra, o critério
territorial (jus soli) para definir os seus nacionais originários, o que importa afirmar que
são brasileiros natos aqueles nascidos no território brasileiro. Em profundidade:

Trata -se de critério que enfatiza o aspecto territorial (jus soli). Questão
básica concerne à definição do território nacional para os fins do
reconhecimento da nacionalidade brasileira. Evidente que esta abrange
toda a massa territorial brasileira, aqui contempladas as unidades
federadas e as diversas entidades municipais. (MENDES, 2017, p.629).

Sobre o critério territorial, Fernandes (2016) explica que território brasileiro deve
ser compreendido como todo o território físico: o solo, o mar territorial, o espaço aéreo
nacional e o território ficto: navios e aviões de guerra, no espaço aéreo ou marítimo,
nacional ou internacional, navios e aviões mercantis.
Morais (2011) reforça e esmiúça a precitada assertiva, afirmando que o art. 12,
inciso I da Constituição Federal de 1988, embora adote o critério territorial (jus soli) para
18

definir seus nacionais originários, mitigou-a pela adoção do jus sanguinis somado a
determinados requisitos. Neste sentido, são brasileiros natos:

 os nascidos na República Federativa do Brasil, ainda que de pais


estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país (jus soli);
 os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe brasileira, desde
que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do Brasil
(jus sanguinis + critério funcional);
 os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de mãe brasileira, desde
que sejam registrados em repartição brasileira competente (jus
sanguinis + registro); e
 os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou de mãe brasileira,
desde que venham a residir na República Federativa do Brasil e optem,
em qualquer tempo, depois de atingida a maioridade, pela nacionalidade
brasileira (jus sanguinis + critério residencial + opção conformativa).
(MORAIS, 2011, p.221).

Os requisitos para a concessão da nacionalidade secundária, ou naturalização, por


outro lado, decorre de ato voluntário manifestado após o nascimento e demanda revelação
da vontade do indivíduo interessado em compor o povo, a dimensão pessoal de um Estado
específico. Esta espécie de nacionalidade decorre por determinação normativa dos países,
situação que implica em uma grande variabilidade nas possibilidades de naturalização:

De referência à nacionalidade secundária, cumpre lembrar que ela


decorre do concurso de vontades entre o interessado que deduz o seu
pedido perante determinado Estado, que o examinará e decidirá a
respeito, em consonância com as regras que fixou. (CUNHA JÚNIOR,
2013, p. 754).

Geralmente, distinguem-se, doutrinariamente, as modalidades tácita e expressa. A


primeira, segundo com Morais (2011) consistiu em uma concessão automática da
nacionalidade, segundo determinados requisitos e interregno temporal15. A naturalização
expressa, por outro lado, “é aquela que depende de requerimento do interessado,
demonstrando sua manifestação de vontade em adquirir a nacionalidade brasileira”.
Na República Federativa do Brasil, no âmbito da Constituição Federal de 1988,
segundo o art. 12, II, ela deve ser expressa, ou seja, deve haver dependência de declaração
volitiva (manifestação de vontade) do indivíduo interessado, efetivando-se, segundo

15
Neste âmbito, é comum fazer menção ao art. 69, §4º da Constituição de 24 de fevereiro de 1891, dos
Estados Unidos do Brasil, segundo o qual seriam cidadãos brasileiros os estrangeiros que, achando-se no
Brasil aos 15 de novembro de 1889, não declararem, dentro de seus meses depois de entrar em vigor a
Constituição, o ânimo de conservar a nacionalidade de origem. De acordo com Morais (2011), o citado
dispositivo da naturalização tácita, quando aplicada aos pais, acarretava a naturalização dos filhos menores
em sua companhia.
19

Masson (2015), nas modalidades ordinária ou extraordinária. Passemos, assim, a


esmiuçar tais aspectos.

1.3 Hipóteses de aquisição da nacionalidade brasileira

Para aquisição da nacionalidade secundária, necessário se faz que o estrangeiro passe


pelo processo de naturalização. A República Federativa do Brasil explicita essa
necessidade no art. 12, II da Constituição Federal de 1988, a partir da modalidade
expressa, de modo que a aquisição da nacionalidade secundária dependa da declaração
volitiva do estrangeiro interessado e da satisfação de determinados requisitos
constitucionais e legais. Neste sentido:

A naturalização é o único meio derivado de aquisição da nacionalidade,


permitindo-se ao estrangeiro, que detém outra nacionalidade, ou o
apátrida (também chamado de heimatlos), que não possui nenhuma,
assumir a nacionalidade do país em que se encontra, mediante a
satisfação de requisitos constitucionais e legais. (MORAIS, 2011,
p.227).

Conforme o precitado autor16, não existe direito público subjetivo à obtenção da


naturalização, eis que esta se configura como um ato de soberania estatal, sendo um ato
discricionário do Chefe do Poder Executivo, assim, a: “satisfação das condições,
exigências e requisitos legais não assegura ao estrangeiro direito à naturalização. A
outorga da nacionalidade brasileira secundária a um estrangeiro constitui manifestação
de soberania nacional, sendo faculdade discricionária do Poder Executivo” (MELLO
FILHO, 1986, p.404).
A Constituição Federal definiu duas hipóteses de aquisição da nacionalidade
brasileira (de naturalização), no âmbito a modalidade expressa: a ordinária, prevista no
art. 12, II, “a” e a extraordinária, prevista no art. 12, II, “b”. A primeira hipótese, que trata
da naturalização ordinária determina que poderão se naturalizar brasileiros os estrangeiros
que, na forma da lei, preencherem os requisitos para adquirir a nacionalidade brasileira,
a segunda hipótese, do mesmo modo, também exige o preenchimento de requisitos, são
eles: a capacidade civil, mais de 15 anos de residência ininterrupta no Brasil e ausência
de condenação penal.

16
Ibidem, p.227.
20

No que concerne à naturalização ordinária, observa-se que o art. 12, II, “a” da
Constituição Federal de 1988 tem eficácia limitada, porque dependente de
regulamentação legal. Neste sentido, ao expressar “aos que, na forma da lei, adquiram a
nacionalidade brasileira, exigidas aos originários de países de língua portuguesa apenas
residência por um ano ininterrupto e idoneidade moral” (BRASIL, 2017), a Lei Maior faz
referência à Lei nº 6.815, de 19 de agosto de 1980, recepcionada pela Constituição Federal
de 1988, que deixará de vigorar, no país, aos 24 de novembro de 2017, quando passará a
viger a Lei 13.455, de 24 de maio de 201717.
Pois bem, hoje, no que tange à naturalização ordinária, levando-se em
consideração a dicção do art. 12, II, “a”, primeira da Constituição Federal e a Lei nº 6.815,
de 1980, existem duas hipóteses. Na primeira delas, de acordo com Masson (2015) e
Fernandes (2016), poderão se naturalizar brasileiros os estrangeiros que cumprirem os
requisitos legais estabelecidos no art. 112 da Lei 6.815, de 198018, o Estatuto do
Estrangeiro.
São oito os requisitos: a) capacidade civil, segundo a lei brasileira; b) ser
registrado como permanente no Brasil; c) residência contínua, pelo prazo de quatro anos;
d) ler e escrever português; e) boa conduta e boa saúde; f) exercício de profissão ou posse
de bens suficientes à manutenção própria e da família; e g) inexistência de denúncia,
pronúncia ou condenação no Brasil ou no exterior por crime doloso a que seja cominada
pena mínima de prisão, abstratamente considerada superior a um ano.
Outrossim, deve-se levar em consideração, segundo Masson (2015), que as
precitadas exigências, constantes no art. 112 do Estatuto do Estrangeiro vigente, são
relativizados no artigo seguinte19. Neste mesmo sentido:

17
É preciso consignar que as modalidades de naturalização explícitas pela maioria dos constitucionalistas
pátrios (ordinária ou extraordinária), a exemplo de Fernandes (2016), Masson (2015), Cunha Júnior (2013),
Morais (2011) e Lenza (2008) não leva em consideração, até pelo próprio requisito temporal, a Lei nº
13.445, de 24 de maio de 2017, o novo Estatuto do Estrangeiro, em vigor somente aos 24 de novembro do
ano de 2017. É relevante destacar, neste sentido, que o artigo 64 da Lei 13.447, de 2017 enumera 04 (quatro)
tipos de naturalização: ordinária, extraordinária, especial e provisória.
18
“Art. 112. São condições para a concessão da naturalização: I - capacidade civil, segundo a lei brasileira;
II - ser registrado como permanente no Brasil; III - residência contínua no território nacional, pelo prazo
mínimo de quatro anos, imediatamente anteriores ao pedido de naturalização; IV - ler e escrever a língua
portuguesa, consideradas as condições do naturalizando; V - exercício de profissão ou posse de bens
suficientes à manutenção própria e da família; VI - bom procedimento; VII - inexistência de denúncia,
pronúncia ou condenação no Brasil ou no exterior por crime doloso a que seja cominada pena mínima de
prisão, abstratamente considerada, superior a 1 (um) ano; e VIII - boa saúde”. (BRASIL, 2017b).

19
“Art. 113. O prazo de residência fixado no artigo 112, item III, poderá ser reduzido se o naturalizando
preencher quaisquer das seguintes condições: I - ter filho ou cônjuge brasileiro; II - ser filho de brasileiro;
III - haver prestado ou poder prestar serviços relevantes ao Brasil, a juízo do Ministro da Justiça; IV -
recomendar-se por sua capacidade profissional, científica ou artística; ou V - ser proprietário, no Brasil, de
21

É interessante observarmos uma relativização na própria Lei 6815/80,


constante no seu artigo 113. Nesses termos, o prazo de 4 (quatro) anos
de residência pode ser diminuído em algumas situações. Senão
vejamos, a redução para 1 (um) ano. Se o estrangeiro: a) tiver filho ou
cônjuge no Brasil; b) ser filho de brasileiro (explicação: a Lei 6815/80
é obviamente anterior a atual Constituição de 1988, e, se o estrangeiro
vinha a residir no Brasil, após a maioridade, não teria como ser nato,
visto que a Constituição de 67-69 exigia, em uma de suas hipóteses, que
o mesmo viesse antes de sua maioridade para poder ser nato. Em assim
não sendo, o mesmo teria que providenciar a sua naturalização) c)
comprovar a prestação de serviços relevantes para o Brasil. Temos
também a redução para 2 (dois) anos se o estrangeiro: d) demonstrar
capacidade técnica, artística ou científica. E por último, a redução para
3 (três) anos: e) se o estrangeiro demonstrar certa capacidade financeira,
envolvendo propriedade de bem imóvel, industrial ou ações
explicitadas no diploma normativo. (FERNANDES, 2016, p.701).

Destaca-se, entretanto, que a “simples satisfação dos requisitos não assegura a


naturalização do estrangeiro, uma vez que a concessão da nacionalidade é ato
discricionário do Poder Executivo” (MORAIS, 2011, p.229). Esta assertiva é válida,
igualmente, na segunda hipótese de naturalização ordinária, que em profundidade
representa o núcleo do objeto de estudo tratado na presente pesquisa.
Trata-se da hipótese referente aos estrangeiros originários dos países de língua
portuguesa, a quem se demanda as seguintes condições para a aquisição da nacionalidade
brasileira: a) capacidade civil, b) 1 (um) ano de residência ininterrupta e c) idoneidade
moral.
Como já afirmado na introdução do trabalho, contemporaneamente são 09 (nove)
os países que possuem como língua oficial o português, incluindo-se o Brasil. Assim, a
retrorreferida possibilidade de naturalização ordinária direciona-se aos portugueses,
cabo-verdianos, bissau-guineenses, são-tomenses, equato-guineenses, angolanos,
moçambicanos e timorenses20, enquanto a primeira hipótese de naturalização ordinária,

bem imóvel, cujo valor seja igual, pelo menos, a mil vezes o Maior Valor de Referência; ou ser industrial
que disponha de fundos de igual valor; ou possuir cota ou ações integralizadas de montante, no mínimo,
idêntico, em sociedade comercial ou civil, destinada, principal e permanentemente, à exploração de
atividade industrial ou agrícola. Parágrafo único. A residência será, no mínimo, de um ano, nos casos dos
itens I a III; de dois anos, no do item IV; e de três anos, no do item V.” (BRASIL, 2017b)

20
Adotando-se uma interpretação literal do artigo 12, II da Constituição Federal de 1988, não se permitiria
que os estrangeiros originários de territórios que compuseram o império colonial português, como o Estado
Português da Índia (hoje composto pelo Estado indiano de Goa e pelos territórios indianos de Damão e Diu
e Dadra e Nagar-Haveli), como a Fortaleza de São João Baptista de Ajudá (a cidade beninense de Ouidá) e
Macau (hoje uma região administrativa da China), gozassem do benefício previsto no precitado artigo.
Mesma situação deve ser levada em consideração com os estrangeiros originários da Comunidade
Autônoma da Galiza, na Espanha, cujo idioma oficial, o galego, é inteligível com o português, sendo
considerado por pesquisadores e pelos políticos reintegracionistas locais variantes do mesmo idioma.
22

hoje vigente no Brasil, é direcionada a todos os estrangeiros que não sejam originários
dos países de língua portuguesa.
É preciso consignar que além desta possibilidade de aquisição da nacionalidade
brasileira aos originários dos países de língua portuguesa, a Constituição Federal de 1988,
em seu §1º do art. 12, permitiu aos portugueses (e somente a eles), com residência
permanente no Brasil e se houver reciprocidade em favor dos brasileiros 21, a atribuição
de direitos inerentes ao brasileiro, excetuando-se os casos previstos na Lei maior.
Esta disposição, denominada doutrinariamente como “quase-nacionalidade”, não
implica, para o nacional português que a requeira, na perda de sua nacionalidade
originária. Isto quer dizer que ele permanece português, mas possui, no Brasil (e vice-
versa) direitos equivalentes aos do brasileiro naturalizado, excetuando-se que o português
“não pode prestar serviço militar, se sujeita à expulsão e também à extradição (esta
requerida pelo Governo português) e, por fim, em situação no exterior na qual necessite
de proteção diplomática, deverá requerê-la a Portugal e não ao Brasil” (MASSON, 2015,
p. 322). O trâmite para requerimento da quase-nacionalidade, pelos portugueses, é
administrativo, devendo ser, pelo demandante, comprovada a nacionalidade portuguesa,
a capacidade civil e a admissão na República Federativa do Brasil em caráter permanente.
É preciso consignar, com base em Masson (2015), que o Estatuto do Estrangeiro,
em seu artigo 115, §2º22 traz, ainda, duas hipóteses de aquisição da nacionalidade
brasileira pela via ordinária: a radicação precoce e a conclusão de curso superior. A
primeira delas refere-se aos que venham residir no Brasil até os cinco anos de idade
incompletos, desde que requeiram a naturalização dentro de dois anos, após completarem
a maioridade. A segunda hipótese destina-se aos estrangeiros que venham residir no
Brasil antes de completar a maioridade e tenham concluído curso superior em

21
Ela existe. Encontra-se vigente no Decreto nº 3.927, de 2001, que promulgou o Tratado de Cooperação,
Amizade e Consulta Brasil/Portugal.
22
“Art. 115. O estrangeiro que pretender a naturalização deverá requerê-la ao Ministro da Justiça,
declarando: nome por extenso, naturalidade, nacionalidade, filiação, sexo, estado civil, dia, mês e ano de
nascimento, profissão, lugares onde haja residido anteriormente no Brasil e no exterior, se satisfaz ao
requisito a que alude o artigo 112, item VII e se deseja ou não traduzir ou adaptar o seu nome à língua
portuguesa. § 2º. Exigir-se-á a apresentação apenas de documento de identidade para estrangeiro, atestado
policial de residência contínua no Brasil e atestado policial de antecedentes, passado pelo serviço
competente do lugar de residência no Brasil, quando se tratar de: I - estrangeiro admitido no Brasil até a
idade de 5 (cinco) anos, radicado definitivamente no território nacional, desde que requeira a naturalização
até 2 (dois) anos após atingir a maioridade; II - estrangeiro que tenha vindo residir no Brasil antes de
atingida a maioridade e haja feito curso superior em estabelecimento nacional de ensino, se requerida a
naturalização até 1 (um) ano depois da formatura.” (BRASIL, 2017b).
23

estabelecimento de ensino nacional, permitindo-lhes a nacionalidade brasileira desde que


a requeiram em até um ano após a formatura.
Para todas as hipóteses de naturalização ordinária, o procedimento é
administrativo, com seu trâmite no Ministério da Justiça. Encontra-se previsto no art. 115
do Estatuto do Estrangeiro e, de acordo com Fernandes (2016), a instrução do processo é
feita no Ministério da Justiça até que ele seja levado ao Presidente da República, que terá
a discricionariedade de decretar, ou não, a nacionalização.
Caso o Presidente decrete a nacionalização, a formalização será na Justiça Federal
da região na qual o estrangeiro residir, neste sentido, este receberá o certificado de
naturalização, que opera com efeitos ex nunc, ou seja, a partir do dia de sua entrega.
Corroborando com esta descrição:

[...] o procedimento de naturalização ordinária é sempre administrativo,


afinal transcorre perante o Ministério da Justiça até a decisão final do
Presidente da República. Há de se reconhecer, no entanto, um ato
jurisdicional que finaliza o procedimento da concessão: a entrega do
certificado de naturalização feito pela Justiça Federal, nos termos do
art. 109, X, CF/1988, que estabelece (com efeitos ex nunc, isto é, sem
possibilidade de retroagir) o marco inicial da obtenção da nacionalidade
secundária. (MASSON, 2015, p.320).

A segunda hipótese de aquisição da nacionalidade brasileira (de naturalização), a


extraordinária, prevista no art. 12, II, “b” da Constituição Federal de 1988 exige, do
estrangeiro, as seguintes condições: a) residência ininterrupta no país há mais de 15 anos;
b) ausência de condenação penal e c) requerimento do interessado.
De acordo com Morais (2011), até a Emenda Constitucional de Revisão nº 3/1994,
o precitado artigo constitucional demandava a necessidade de 30 anos de residência, do
estrangeiro, no Brasil. Outrossim, acerca do termo “ininterrupta”, explícito na alínea “b”
do inciso II do art. 12 da Constituição, Masson (2015) assevera que o Supremo Tribunal
Federal (STF), no Agravo 32.074-DF, que teve como Relator o Ministro Hermes Lima,
decidiu que ela não se abala por meras ausências temporárias, decorrentes, por exemplo,
de viagens de férias no exterior ou compromissos laborais fora do Brasil.
Finalmente, destaca-se que, ao contrário da hipótese de aquisição ordinária da
nacionalidade brasileira, o preenchimento dos requisitos constantes no art. 12, II, “b” da
Constituição Federal, pelo estrangeiro requerente, é suficiente à aquisição da
nacionalidade, ou seja, existe direito público subjetivo à naturalização extraordinária.
Corroborando com esta perspectiva:
24

[...], se o indivíduo reside no país ininterruptamente por mais de quinze


anos, não tem nenhuma condenação penal e requer a naturalização, esta
lhe será concedida – não há discricionariedade para o Presidente da
República, que não poderá recusar o pleito. Esta é a conclusão da
doutrina majoritária e encontra fundamento no próprio texto
constitucional, quando este expressamente determina serem brasileiros
naturalizados os estrangeiros de qualquer nacionalidade, residentes na
República Federativa do Brasil há mais de quinze anos e sem
condenação penal, “desde que requeiram a nacionalidade brasileira, isto
é, desde que apresentem o pedido de aquisição da nacionalidade. Vê-se
que a locução desse “desde que requeiram a nacionalidade brasileira” é
interpretada pelos constitucionalistas pátrios da seguinte forma: se o
indivíduo preenche as duas condições impostas pela Constituição,
bastará solicitar a nacionalidade que alcançará a condição de
naturalizado. (CUNHA JÚNIOR, 2012, p. 804 apud MASSON, 2015,
p.321).

Com a entrada em vigor da Lei 13.455, de 24 de maio de 2017, em novembro do


precitado ano, alguns aspectos da naturalização, no Brasil, serão modificados. Haverá,
por exemplo, a “ação de opção de nacionalidade” para o filho de pai brasileiro ou de mãe
brasileira, nascido no exterior e que não tenha sido registrado em repartição consular,
podendo este, a qualquer tempo, promover a referida ação23.
Esta possibilidade de naturalização, sem dúvida, abrange os casos que não se
amoldam ao previsto no art. 12, I, “c” da Constituição Federal de 1988, para a aquisição
da nacionalidade primária, referentes aos nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de
mãe brasileira, desde que sejam registrados em repartição brasileira competente ou
venham a residir na República Federativa do Brasil e optem, em qualquer tempo, depois
de atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira.
O novo Estatuto do Estrangeiro além de arrefecer os requisitos para a
naturalização ordinária e explicitar, veementemente, o direito público subjetivo à
naturalização extraordinária, quando preenchidas as condições demandadas
constitucionalmente24, regulamentará, ainda, mais duas modalidades de naturalização
além da ordinária e extraordinária, quais sejam, a especial e a provisória25.

23
“Art. 63. O filho de pai ou de mãe brasileiro nascido no exterior e que não tenha sido registrado em
repartição consular poderá, a qualquer tempo, promover ação de opção de nacionalidade. Parágrafo único.
O órgão de registro deve informar periodicamente à autoridade competente os dados relativos à opção de
nacionalidade, conforme regulamento. ” (BRASIL, 2017c).
24
“Art. 67. A naturalização extraordinária será concedida a pessoa de qualquer nacionalidade fixada no
Brasil há mais de 15 (quinze) anos ininterruptos e sem condenação penal, desde que requeira a
nacionalidade brasileira”. (BRASIL, 2017c).
25
“Art. 64. A naturalização pode ser: I - ordinária; II - extraordinária; III - especial; ou IV – provisória”.
(BRASIL, 2017c).
25

Os novos requisitos que serão demandados aos estrangeiros, a partir da vigência


do novo Estatuto, para requererem a naturalização ordinária, serão: a) a capacidade civil,
segundo a lei brasileira; b) a residência em território nacional, pelo prazo mínimo de
quatro anos; c) comunicar-se em língua portuguesa, considerando-se as condições do
naturalizando e d) não possuir condenação penal ou estiver habilitado, nos termos da lei26.
Registre-se que o prazo mínimo de quatro anos de residência em território
nacional, que será demandado ao estrangeiro que for requerer a naturalização brasileira
na modalidade ordinária, poderá ser arrefecido se ele ou ela: a) tiver filho brasileiro; b)
tiver cônjuge ou companheiro brasileiro e não estiver dele separado, legalmente ou de
fato, no momento da concessão da naturalização; c) houver prestado ou puder prestar
serviço relevante ao Brasil; d) recomendar-se por sua capacidade profissional, científica
ou artística, estando estas duas últimas possibilidades sujeitas, ainda, a regulamentação27.
Observa-se, portanto, que o legislador optou por suprimir os requisitos do ainda
vigente Estatuto do Estrangeiro que burocratizavam o requerimento, pela apreciação
discricionária do poder público sobre questões de feitio subjetivo, como a necessidade de
comprovação de boa conduta e boa saúde, o exercício de profissão ou a posse de bens
suficientes à manutenção própria e da família. De igual forma, ao estrangeiro não será
mais demandado, no requerimento de naturalização ordinária, o visto de permanência.
Será abrandada, também, a necessidade de comprovação de leitura e escrita do
português, levando-se em consideração as condições subjetivas do requerente em relação
à comunicação em língua portuguesa. Situação semelhante será aplicada à necessidade
de comprovação dos antecedentes criminais, atualizando o requisito que demanda a
inexistência de denúncia, pronúncia ou condenação no Brasil ou no exterior por crime
doloso a que seja cominada pena mínima de prisão, abstratamente considerada superior a
um ano, com o princípio da presunção de inocência, previsto no artigo 5º, inciso LVII da
Constituição Federal de 1988.

26
“Art. 65. Será concedida a naturalização ordinária àquele que preencher as seguintes condições: I - ter
capacidade civil, segundo a lei brasileira; II - ter residência em território nacional, pelo prazo mínimo de 4
(quatro) anos; III - comunicar-se em língua portuguesa, consideradas as condições do naturalizando; e IV -
não possuir condenação penal ou estiver reabilitado, nos termos da lei”. (BRASIL, 2017c).
27
“Art. 66. O prazo de residência fixado no inciso II do caput do art. 65 será reduzido para, no mínimo, 1
(um) ano se o naturalizando preencher quaisquer das seguintes condições: I - (VETADO); II - ter filho
brasileiro; III - ter cônjuge ou companheiro brasileiro e não estar dele separado legalmente ou de fato no
momento de concessão da naturalização; IV - (VETADO); V - haver prestado ou poder prestar serviço
relevante ao Brasil; ou VI - recomendar-se por sua capacidade profissional, científica ou artística. Parágrafo
único. O preenchimento das condições previstas nos incisos V e VI do caput será avaliado na forma disposta
em regulamento”. (BRASIL, 2017c).
26

A naturalização especial, modalidade surgida com a Lei 13.445, de 2017, poderá


ser concedida ao estrangeiro que se encontre nas seguintes situações: a) que seja cônjuge
ou companheiro, há mais de cinco anos, de integrante do Serviço Exterior Brasileiro em
atividade ou de pessoa a serviço do Estado brasileiro no exterior, ou b) que seja ou tenha
sido empregado em missão diplomática ou repartição consular do Brasil por mais de dez
anos ininterruptos28. Nestes dois casos, será demandado do estrangeiro29: a capacidade
civil, segundo a lei brasileira; comunicar-se em português, consideradas as condições do
naturalizando e não possuir condenação penal ou estiver reabilitado, nos termos da lei.
A segunda modalidade de naturalização que passará a existir será a provisória.
Esta será concedida ao migrante, criança ou adolescente, que tenha fixado residência em
território nacional antes de completar dez anos de idade, devendo ser requerida através
de seus representantes legais. Esta possibilidade poderá ser convertida em definitiva se o
naturalizando expressamente assim o requerer no prazo de dois anos, após atingir a
maioridade30.
Será mantida, no novo Estatuto do Estrangeiro, o procedimento administrativo,
com seu trâmite no Ministério da Justiça, passando a existir recurso em caso de denegação
do requerimento. Será possibilitado ao naturalizando, ainda, a possibilidade de, querendo,
traduzir ou adaptar seu nome à língua portuguesa31.
Finalmente, corroborando com a perspectiva defendida no subcapítulo 1.1 deste
trabalho, no sentido de que a cidadania decorre do direito de nacionalidade, restou
consignado em lei que o naturalizado, no prazo de um ano após a concessão da
naturalização, deverá comparecer à Justiça Eleitoral para se cadastrar32.

28
“Art. 68. A naturalização especial poderá ser concedida ao estrangeiro que se encontre em uma das
seguintes situações: I - seja cônjuge ou companheiro, há mais de 5 (cinco) anos, de integrante do Serviço
Exterior Brasileiro em atividade ou de pessoa a serviço do Estado brasileiro no exterior; ou II - seja ou
tenha sido empregado em missão diplomática ou em repartição consular do Brasil por mais de 10 (dez)
anos ininterruptos”. (BRASIL, 2017c).
29
“Art. 69. São requisitos para a concessão da naturalização especial: I - ter capacidade civil, segundo a
lei brasileira; II - comunicar-se em língua portuguesa, consideradas as condições do naturalizando; e III -
não possuir condenação penal ou estiver reabilitado, nos termos da lei”. (BRASIL, 2017c).
30
“Art. 70. A naturalização provisória poderá ser concedida ao migrante criança ou adolescente que tenha
fixado residência em território nacional antes de completar 10 (dez) anos de idade e deverá ser requerida
por intermédio de seu representante legal. Parágrafo único. A naturalização prevista no caput será
convertida em definitiva se o naturalizando expressamente assim o requerer no prazo de 2 (dois) anos após
atingir a maioridade”. (BRASIL, 2017c).
31
“Art. 71. O pedido de naturalização será apresentado e processado na forma prevista pelo órgão
competente do Poder Executivo, sendo cabível recurso em caso de denegação. § 1 o No curso do processo
de naturalização, o naturalizando poderá requerer a tradução ou a adaptação de seu nome à língua
portuguesa. § 2o Será mantido cadastro com o nome traduzido ou adaptado associado ao nome anterior”.
(BRASIL, 2017c).
32
“Art. 72. No prazo de até 1 (um) ano após a concessão da naturalização, deverá o naturalizado
comparecer perante a Justiça Eleitoral para o devido cadastramento”. (BRASIL, 2017c).
27

1.4 Distinções entre brasileiros natos e brasileiros naturalizados

Embora a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º, caput, estabeleça que
todos são iguais perante a lei, alçando à categoria de Direito Fundamental a igualdade,
estabelece expressamente as distinções, de ordem constitucional (já que há vedação, para
tanto, em âmbito infraconstitucional), entre brasileiros possuidores de nacionalidade
primária e secundária (ou seja, brasileiros natos e naturalizados). Sobre esta questão:

A Constituição proíbe que se estabeleça distinção entre brasileiros natos


e naturalizados, salvo nos casos nela previstos (art. 12, § 2º). Nos termos
da Constituição, são privativos de brasileiro nato os cargos de
Presidente e Vice-Presidente da República, de Presidente da Câmara
dos Deputados, de Presidente do Senado Federal, de Ministro do
Supremo Tribunal Federal, da carreira diplomática, de oficial das
Forças Armadas e de Ministro de Estado da Defesa. Por compreensão
ampliada, a proibição estende -se aos eventuais substitutos dos titulares
dos cargos para os quais se prevê. O texto constitucional impediu, deste
modo, que brasileiros naturalizados ocupem cargos de chefia de algum
dos três poderes ou exerçam função estratégica para a defesa ou
representação política brasileira no exterior. Ademais, a garantia de não
extraditabilidade aplica -se tão somente ao brasileiro nato. O brasileiro
naturalizado poderá ser extraditado por crime praticado antes da
naturalização ou, na forma da lei, no caso de comprovado envolvimento
em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, por crimes praticados
após a naturalização (CF, art. 5º, LI). O texto constitucional também
impõe restrições em relação à propriedade de empresas jornalísticas e
de radiodifusão, que são privativas de brasileiros natos ou naturalizados
há mais de dez anos (art. 222, CF). Trata-se de previsão que objetiva
garantir o controle e o domínio sobre um setor considerado estratégico.
(MENDES, 2017, p.632-633).

Morais (2011), para efeito didático, explica que tais distinções encontram-se
divididas em quatro categorias: cargos, função, extradição e direito de propriedade,
estando previstas, respectivamente, no artigo 12, §3º; no artigo 89, inciso VII; no artigo
5º, inciso LI e no artigo 222, todos da Constituição Federal.
Existem, portanto, cargos privativos de brasileiros natos, ou seja, de brasileiros
detentores da nacionalidade brasileira primária. A discrição destes cargos encontra-se
explícito no §3º do artigo 12 da Constituição Federal de 198833, que determina que apenas

33
“Art. 12. § 3º São privativos de brasileiro nato os cargos: I - de Presidente e Vice-Presidente da República;
II - de Presidente da Câmara dos Deputados; III - de Presidente do Senado Federal; IV - de Ministro do
Supremo Tribunal Federal; V - da carreira diplomática; VI - de oficial das Forças Armadas. VII - de
Ministro de Estado da Defesa”. (BRASIL, 2017a).
28

os brasileiros natos podem ocupar os cargos: de Presidente e Vice-Presidente da


República, de Presidente da Câmara dos Deputados, de Presidente do Senado Federal, de
Ministro do Supremo Tribunal Federal, da carreira diplomática e de oficial das forças
armadas e de Ministro de Estado da Defesa.
A vedação constitucional à assunção destes cargos, que em profundidade
abrangem a linha sucessória do Poder Executivo e a segurança nacional, por brasileiros
naturalizados, ou melhor, a ratio legis que justifica tal disposição, se dá porque, em tese,
“seria perigoso que interesses estranhos ao Brasil fizessem alguém naturalizar-se
brasileiro, para que, em verdade, os representasse” (PONTES DE MIRANDA, 1936,
p.504 apud MORAIS, 2011, p.233). Neste sentido:

[...], em relação à linha sucessória, nos termos que o art. 79 da


Constituição Federal prevê que substituirá o Presidente, no caso de
impedimento, e suceder-lhe-á a vaga, o Vice-Presidente. Da mesma
forma, no art.80, temos a determinação de que em caso de impedimento
do Presidente e do Vice-presidente, ou vacância dos respectivos cargos,
serão sucessivamente chamados ao exercício da presidência o
presidente da Câmara dos Deputados; o do Senado Federal e o do
Supremo Tribunal Federal (cuja presidência pode ser ocupada por
qualquer dos Ministros). No tocante à segurança nacional, devemos ter
em mente as funções exercidas pelos diplomatas e oficiais das Forças
Armadas, que em virtude de suas posições estratégicas nos negócios do
Estado, mereceram maior atenção por parte do legislador constituinte.
(MORAIS, 2011, p.233).

O doutrinador Lenza (2008), no que tange à vedação de ordem constitucional ao


exercício de função por brasileiros naturalizados, destaca que o artigo 89, VII da
Constituição Federal34, que trata dos membros do Conselho da República – órgão que tem
a competência de se pronunciar ao Presidente da República sobre questões atinentes à
intervenção federal, estado de defesa, estado de sítio e sobre questões relevantes para a
estabilidade das instituições democráticas – determina que este seja composto por seis
brasileiros natos, com mais de trinta e cinco anos de idade, todos com um mandato de três
anos, vedada a recondução.

34
“Art. 89. O Conselho da República é órgão superior de consulta do Presidente da República, e dele
participam: I - o Vice-Presidente da República; II - o Presidente da Câmara dos Deputados; III - o Presidente
do Senado Federal; IV - os líderes da maioria e da minoria na Câmara dos Deputados; V - os líderes da
maioria e da minoria no Senado Federal; VI - o Ministro da Justiça; VII - seis cidadãos brasileiros natos,
com mais de trinta e cinco anos de idade, sendo dois nomeados pelo Presidente da República, dois eleitos
pelo Senado Federal e dois eleitos pela Câmara dos Deputados, todos com mandato de três anos, vedada a
recondução”. (BRASIL, 2017a).
29

Entretanto, há a possibilidade, explica Morais (2011), de que o brasileiro


naturalizado, na condição de líder da maioria e da minoria na Câmara dos Deputados e
do Senado Federal ou como Ministro da Justiça, ou seja, as possibilidades insertas nos
incisos V e VI do art. 89 da Constituição Federal de 1988.
A Lei maior também veda a extradição35 de brasileiros natos em seu art. 5º, inciso
LI36, permitindo-a, expressamente, aos brasileiros naturalizados, em duas hipóteses: a)
em caso de crime comum, praticado antes da naturalização ou b) em caso de comprovado
envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei.
Conforme assevera Masson (2015), a primeira hipótese, frise-se, trata de crime
comum praticado antes da naturalização, o que implica afirmar que um brasileiro
naturalizado que tenha cometido crime político ou de opinião não poderá ser extraditado.
Na segunda hipótese a extradição do brasileiro naturalizado pode se dar se o cometimento
do crime de tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins for anterior ou posterior à
naturalização. A precitada autora37, entretanto, sobre a segunda hipótese, pontua que:

[...] parcela da doutrina aponta que o trecho final do dispositivo (art. 5º,
LI, CF/1988) encerra norma de eficácia limitada, dependente de
regulamentação normativa posterior, a fim de produzir com plenitude
seus efeitos jurídicos. Isso significa que a viabilidade da extradição,
neste caso, está na dependência de edição de lei ordinária que prescreva
procedimento de cognição do pressuposto de mérito autorizador da
extradição: o confirmado enlace com a atividade delituosa. (MASSON,
2015, p. 327).

Finalmente, a derradeira distinção de ordem constitucional entre brasileiros natos


e naturalizados determina cumprimento de interregno temporal ao naturalizado para o
exercício do direito de propriedade, de manifestação de pensamento e de informação. De
acordo com o artigo 222 da Constituição Federal de 198838, a propriedade de empresa
jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa de brasileiros natos
ou naturalizados há mais de dez anos.

35
Hodiernamente, o procedimento de extradição está previsto na Lei 6.815, de 1980 e no RI/STF, que
deverão adequar-se às determinações constantes nos incisos LI e LII da Constituição Federal de 1988.
36
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros
e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança
e à propriedade, nos termos seguintes: LI - nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em
caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito
de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei”. (BRASIL, 2017a).
37
Ibidem, p.327.
38
“Art. 222. A propriedade de empresa jornalística e de radiodifusão sonora e de sons e imagens é privativa
de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos, ou de pessoas jurídicas constituídas sob as leis
brasileiras e que tenham sede no País”. (BRASIL, 2017a).
30

1.5 Perda e reaquisição da nacionalidade brasileira

As hipóteses de perda da nacionalidade brasileira encontram-se expressamente


elencadas nos incisos I e II do §4º do art. 12 da Constituição Federal de 198839. Segundo
explica Lenza (2008), a primeira das hipóteses refere-se ao cancelamento da
naturalização, situação que só atinge o brasileiro naturalizado e que é levada a cabo
mediante procedimento judicial, em virtude de atividade nociva ao interesse nacional.
De acordo com o precitado doutrinador40, o procedimento para cancelamento da
naturalização encontra-se previsto nos artigos 24 usque 34 da Lei 818, de 1949. Neste
mesmo sentido:

[...] a Lei federal nº 818/1949 prevê o trâmite processual a ser observado


no Poder Judiciário para a ação de cancelamento da naturalização. De
início, cumpre salientar que a ação será proposta pelo Ministério
Público Federal. Como estamos frente à ausência de tipificação penal
específica (não há lei, em definição categórica, acerca do que seja
“atividade nociva ao interesse nacional), caberá ao Parquet análise
específica da conduta para fins de enquadramento na expressão
juridicamente indeterminada e oferecimento da denúncia. Pela mesma
razão, deverá o juiz federal designado para o caso receber ou não a
denúncia, a partir de sua particular análise interpretativa. Se recebida a
denúncia, tem-se instaurada a ação penal; procedente o pedido, tem-se
a decisão de cancelamento da naturalização (que opera efeitos tão logo
a sentença transita em julgado). (MASSON, 2015, p.334).

Ainda sobre a hipótese de perda da nacionalidade brasileira pelo cancelamento da


naturalização, em virtude de atividade nociva ao interesse nacional, Fernandes (2016)
destaca que, uma vez transitada em julgado a sentença que cancela a naturalização, não
poderá o estrangeiro naturalizar-se brasileiro novamente pela via administrativa, mas
somente mediante ação judicial, que, segundo Lenza (2008), consistiria em uma ação
rescisória.
Já a segunda das hipóteses constitucionais de perda da nacionalidade refere-se ao
brasileiro nato ou naturalizado que, voluntariamente, adquirir outra nacionalidade.
Excetuam-se, desta determinação, os casos nos quais haja o reconhecimento de

39
“Art. 12. § 4º - Será declarada a perda da nacionalidade do brasileiro que: I - tiver cancelada sua
naturalização, por sentença judicial, em virtude de atividade nociva ao interesse nacional; II - adquirir outra
nacionalidade, salvo nos casos: a) de reconhecimento de nacionalidade originária pela lei estrangeira; b) de
imposição de naturalização, pela norma estrangeira, ao brasileiro residente em estado estrangeiro, como
condição para permanência em seu território ou para o exercício de direitos civis”. (BRASIL, 2017a).
40
Ibidem, p.679.
31

nacionalidade primária pela lei estrangeira ou os casos em que a imposição da


naturalização, pela norma estrangeira, ao brasileiro residente em Estado estrangeiro, dê-
se como condição para permanência no território ou como condição para exercício dos
direitos civis. Nestes dois casos, o brasileiro não perderá a sua nacionalidade, tornando-
se binacional.
O doutrinador Morais (2011) esmiúça os três requisitos previstos
constitucionalmente para a hipótese de perda da nacionalidade brasileira pela aquisição
voluntária de nacionalidade estrangeira: a) voluntariedade da conduta; b) capacidade civil
do interessado e c) aquisição de nacionalidade estrangeira. Cumpre destacar, ainda, que
“a mera formalização, perante Estado estrangeiro, de pedido que vise à obtenção de sua
nacionalização não gera, por si só, a perda da nacionalidade, que supõe efetiva aquisição
da nacionalidade estrangeira” (MORAIS, 2011, p.237).
Outrossim, deve-se levar em consideração, de acordo com Lenza (2008), que o
procedimento para a perda da nacionalidade brasileira pela aquisição voluntária de outra,
estrangeira, é administrativo (transcorre no Ministério da Justiça) e se encontra previsto
no artigo 23 da Lei 818, de 1949 e os efeitos do decreto do Presidente da República é ex
nunc, não retroagindo, portanto. Finalmente, cumpre destacar, com base em Morais
(2011), que o brasileiro nato ou naturalizado que perder essa condição, em virtude do art.
12, §4º, II da Constituição Federal, poderá readquiri-la, por meio dos procedimentos
previstos para a naturalização.
32

CAPÍTULO II – A AQUISIÇÃO DA NACIONALIDADE BRASILEIRA AOS


ORIGINÁRIOS DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA

2.1 O privilégio dado ao estrangeiro originário de país de língua portuguesa

Abordou-se, no capítulo anterior, dimensões e definições concernentes ao direito


de nacionalidade importantes para a compreensão do objeto de investigação deste
trabalho: a investigação da relação entre os nacionais dos países de língua portuguesa e a
nacionalidade brasileira, segundo a Constituição Federal de 1988.
Neste sentido, já foi pontuado no subcapítulo 1.2 que os estrangeiros originários
dos países de língua portuguesa podem requerer, nos termos do art. 12, II, “a” da Lei
maior, a cidadania secundária brasileira (a naturalização) pela via ordinária, demandando-
se deles apenas a capacidade civil, um ano de residência ininterrupta no Brasil e
idoneidade moral.
Estes requisitos requeridos pela Constituição Federal aos estrangeiros oriundos da
lusosfera, isto é, do espaço geográfico abrangido pelos países que possuem a língua
portuguesa como idioma oficial do Estado, para a aquisição da nacionalidade brasileira,
diferenciam-se daqueles requeridos aos demais, pela sua acessibilidade.
Seja na hoje vigente Lei nº 6.815, de 1980, seja com a entrada em vigor da Lei nº
13.455, de 2017, é nítido que os requisitos demandados aos demais forasteiros (art. 112
do atual Estatuto dos Estrangeiros e artigo 65 do novo Estatuto dos Estrangeiros), pelo
seu extenso rol e, principalmente, pelo lapso temporal definido, implicam em clara opção
política do legislador constituinte, em privilegiar grupo de pessoas em função do idioma
do país do qual provêm, possibilitando-lhes acesso mais fácil à nacionalidade brasileira.
Muito embora se esteja tratando de uma hipótese de aquisição de nacionalidade
que demanda ato volitivo do estrangeiro, com procedimento administrativo perante o
Ministério da Justiça e com a discricionariedade do Presidente da República em concedê-
la, ou não, o fato é que houve nítido privilégio a determinado grupo de estrangeiros na
Constituição Federal de 1988.
Neste sentido, cumpre destacar que das cento e noventa e duas possibilidades de
nacionalidades existentes no mundo41, a República Federativa do Brasil privilegiou oito

41
Segundo dados informados pela ONU, existem, hoje 193 países (2017b).
33

delas, ou seja, a portuguesa, a cabo-verdiana, a bissau-guineese, a são-tomense, a equato-


guineense, a angolana, a moçambicana e a timorense, pela partilha do mesmo idioma de
Estado, o português.
Ora, esta realidade jurídica existente no Brasil, qual seja, a naturalização facilitada
pela proveniência da lusosfera, implica que, num âmbito de 7.223.400.000 (sete bilhões,
duzentos e vinte e três milhões e quatrocentos mil) estrangeiros, segundo dados da ONU
de 2016 (2017c)42, podem usufruir dessa prerrogativa, inscrita no art. 12, II, “a” da
Constituição Federal, apenas 69.600.00043 (sessenta e nove milhões e seiscentas mil)
pessoas.
É preciso destacar que basta que o país de origem do estrangeiro tenha a língua
portuguesa como oficial que o privilégio constitucional, para aquisição da nacionalidade
brasileira, é passível de ser invocado para que se dê início ao procedimento administrativo
perante o Ministério da Justiça. Esta assertiva tornou-se evidente aos 23 de julho de 2014,
quando da realização da X Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP 44,
em Díli, capital da República Democrática do Timor-Leste, quando foi admitido, como
Estado membro da comunidade, a República da Guiné Equatorial.
Este país, cuja população fala, majoritariamente, o espanhol e o francês (que
também são idiomas oficiais), peticionou e foi admitido como Estado membro da CPLP
por unanimidade, isto é, pela aprovação dos oito países partícipes. Foram invocados e
aceitos argumentos de base histórica, relacionados ao pertencimento de ilhas da Guiné
Equatorial ao império colonial português até o século XVIII, bem como a presença de
crioulo de base léxica portuguesa na ilha de Annobon, levando-se, ainda, em
consideração, a adoção do português como língua oficial da Guiné Equatorial, em 200845.
Esta realidade implica uma situação delicada. Em verdade, argumenta-se que parte
da população lusófona mundial - isto é, falantes de português ou de crioulos de base léxica
portuguesa - que não é originária de país de língua portuguesa, mas que provém de
espaços territoriais relacionados ao domínio colonial ou histórico português, não pode

42
O número em epígrafe foi o resultado da subtração da população brasileira (209.600.000) do total da
população mundial (7.443.000.000), no ano de 2016.
43
O número em epígrafe foi o resultado da soma da população dos oito países de língua oficial portuguesa,
excetuando-se a população brasileira, no ano de 2016: Angola (25,8 milhões), Cabo Verde (500 mil), Guiné
Equatorial (900 mil), Guiné-Bissau (1,9 milhões), Moçambique (28,8 milhões), Portugal (10,3 milhões),
São Tomé e Príncipe (200 mil) e Timor Leste (1,2 milhões).
44
A entrada da Guiné Equatorial na CPLP foi confirmada pela Declaração de Díli, de 23 de julho de 2014,
cujo teor encontra-se presente no sítio eletrônico da CPLP (CPLP, 2017c).
45
As maiores discussões à admissão da Guiné Equatorial se deram em função da cláusula democrática, da
comunidade, em cotejo com o controverso governo de Teodoro Obiang, à frente da presidência da Guiné
Equatorial desde 1979.
34

gozar do benefício inscrito no art. 12, II, “a” da Constituição Federal de 1988. Poderiam
ser abrangidos, neste âmbito, segundo informações colhidas do Instituto Camões (2017):
a) os originários da região da Casamansa, no Senegal (cujo território, tal qual a
Guiné Equatorial, fez parte do Império português, até meados do século XIX
e que parte da população fala crioulo de base léxica portuguesa, assemelhado
ao falado na Guiné-Bissau);
b) os originários do antigo Estado Português da Índia (atual Estado de Goa e
territórios de Damão e Diu e Dadra e Nagar-Haveli, na Índia), extinto em
1961, com a invasão da União Indiana e outras cidadelas do Decão e ilha do
Sri Lanka, com população falante de crioulos indo-portugueses;
c) os originários da região administrativa chinesa de Macau (portuguesa até
1999, quando entregue ao Estado Chinês);
d) a população Kristang da cidade de Málaca, na Malásia;
e) a população de Larantuka, na ilha de Flores, Indonésia;
f) os falantes do papiamento em Aruba, Bonaire e Curaçao, ilhas neerlandesas
no Mar do Caribe; e
g) os falantes de saramacano, no Suriname.
Poderia se incluir, neste conjunto, também, os originários da Galiza, região
autônoma espanhola que tem como idioma oficial o galego, língua inteligível com o
português, sendo considerada por pesquisadores e pelos políticos reintegracionistas locais
variantes do mesmo idioma, como explica Santana (2014).
Do mesmo modo, poderia se incluir neste âmbito parte dos uruguaios,
provenientes do Estado que pertenceu, sucessivamente, ao Império Espanhol e ao Império
Português (a antiga Província Cisplatina, do Brasil), entre os séculos XVII ao XIX, até
conseguir sua independência do Brasil, em 1828, pelo Tratado do Rio de Janeiro. Neste
país, o Uruguai, nos departamentos fronteiriços com o Brasil, falam-se os “dialectos
portugueses del Uruguay”, segundo Elizaicín, Behares e Barrios (1987).
Não obstante exista esta perspectiva limitadora em relação à totalidade da
lusosfera, pela própria dicção da norma constitucional brasileira, o fato é que a República
Federativa do Brasil está a consagrar dispositivo que facilita a aquisição da nacionalidade
brasileira aos originários dos países de língua portuguesa, valorizando elemento
linguístico comum e, com isso, deixando entrever a expressão de uma cidadania bastante
singular, a cidadania lusófona.
35

Vale a pena, neste sentido, perscrutar a história que descambou na hodierna


vigência do art. 12, II, “a” da Constituição Federal de 1988 para, assim, melhor expressar
as especificidades da cidadania delineada pela CPLP, demonstrando, em seguida, a
relação entre a perspectiva brasileira e a comunitária acerca desta possibilidade jurídica.

2.2 O Lusotropicalismo normativo

O que se convenciona, neste trabalho, denominar “Lusotropicalismo normativo”


refere-se a série de tratados e acordos firmados por Brasil e Portugal, a partir da segunda
metade do século XX, reforçando, entre ambos, convergências econômicas, políticas e
culturais, aludindo-se à partilha de um universo identitário comum. Este estudo esteve
inserto no escopo da dissertação intitulada “A Questão Portuguesa e a Política Externa
brasileira no âmbito da Organização das Nações Unidas (1960-1976)”, desenvolvida por
Meaux (2016).
A precitada pesquisa sistematizou, descreveu e analisou os votos brasileiros
durante o processo de descolonização das províncias ultramarinas portuguesas, entre
1960 a 1976, no âmbito da Assembleia Geral e Conselho de Segurança da Organização
das Nações Unidas.
Assim, ao perscrutar as motivações que levaram o Brasil à assinatura do Tratado
de Amizade e Consulta com Portugal, em 1953, considerado um marco na assunção da
postura contemporizadora brasileira em relação à descolonização do ultramar português,
nos anos 1960 e 1970, foram constatadas alusões aos escritos de Gilberto Freyre sobre a
colonização portuguesa, justificando-se ideologicamente os aspectos positivos de tal
empreitada.
Em profundidade, pode-se dizer, com base em Cervo (2011, p.27), que entre o
Brasil e a República Portuguesa, ao longo da história, foram firmados três importantes
tratados: o Tratado de Amizade e Aliança, de 1825; o Tratado de Amizade e Consulta, de
1953 e a sua versão atualizada, firmada no ano 2000, que entrou em vigor no ano
seguinte46.
Para compreender o Lusotropicalismo Normativo, demonstrando como a alusão a
um universo identitário comum luso-brasileiro implicou, diretamente, na
constitucionalização do artigo 12, II, “a” da Constituição de 1988, investigar-se-ão os

46
O Decreto nº 3.927, de 2001.
36

dois últimos tratados assinalados por Cervo (2011) e a Convenção sobre Igualdade de
Direitos e Deveres entre Brasileiros e Portugueses (o Decreto-Lei nº 70.391, de 1972).
Também será analisada a iniciativa nacional presente na Emenda nº1 à Constituição da
República Federativa do Brasil, de 1969.

2.2.1 O Tratado de Amizade e Consulta, de 1953.

Conforme explica Meaux (2016), o Tratado de Amizade e Consulta entre o Brasil


e Portugal foi firmado aos 16 de novembro 1953 na cidade do Rio de Janeiro, durante o
segundo governo de Getúlio Vargas. Foi estabelecido a partir da referência, no
preâmbulo47, “aos princípios que norteiam a Comunidade Luso-Brasileira no mundo”, o
que, segundo Santos (2011), retomava os escritos de Gilberto Freyre dos anos 1930 sobre
o Lusotropicalismo.
De acordo com Leme (2011, p.37-38 apud MEAUX, 2016, p.59-60), o termo
Lusotropicalismo também é chamado, por vezes, de lusotropicologia e se refere ao estudo
da colonização portuguesa no mundo. Caracteriza-se pela busca de traços comuns da
experiência colonizadora lusitana nos trópicos, reunindo elementos do que pode ser
considerado como uma “civilização luso-tropical”, objeto de estudo de obras de Gilberto
Freyre como Casa Grande & Senzala (1936), O mundo que o português criou (1940),
Aventura e rotina (1953), Um brasileiro em terras portuguesas (1953), Novo mundo nos
trópicos (1972) e O Luso e o Trópico (1962).
Segundo o precitado autor48, o regime ditatorial vigente em Portugal, o
Salazarismo, utilizou-se do Lusotropicalismo como justificativa para manutenção do
domínio colonial português sobre o ultramar, num período turbulento da segunda metade
do século XX no qual pululavam, em África e Ásia, os movimentos de libertação colonial.
Em profundidade, o conceito de “Comunidade Luso-Brasileira” contido no
preâmbulo do Tratado, evocando o universo cultural comum brasilo-português, consistiu
num meio importante, utilizado por Portugal, para vincular o Brasil na defesa do seu
império colonial:

47
“O Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil e o Presidente da República Portuguesa,
conscientes das afinidades espirituais, morais, étnicas e linguísticas que, após mais de três séculos de
história comum, continuam a ligar a Nação Brasileira à Nação Portuguesa, do que resulta uma situação
especialíssima para os interesses recíprocos dos dois povos, E animados do desejo de consagrar, em solene
instrumento político, os princípios que norteiam a Comunidade Luso-Brasileira no mundo, Resolveram
celebrar o presente Tratado de Amizade e Consulta”. (BRASIL, 2017d).
48
Ibidem, p.10 (apud MEAUX, p.60).
37

Como parte integrante do Tratado, a menção a uma Comunidade


cumpria a função de vincular a diplomacia brasileira ao esforço
português de manutenção de seu império colonial, o que criava amplos
constrangimentos e tornava extremamente vulnerável a posição
brasileira, tanto no que diz respeito ao relacionamento com o continente
africano, quanto na convivência com a própria chancelaria portuguesa.
(SANTOS, 2011, p. 80 apud MEAUX, 2016, p.60).

À parte o histórico que remete aos esforços da República Portuguesa em


salvaguardar os territórios afro-asiáticos que dominava, importa consignar que o Tratado
de Amizade e Consulta, de 1953, com sua referência à Comunidade Luso-Brasileira, no
preâmbulo, também continha determinação, no artigo segundo49, para que as partes
contratantes, isto é, os “Estados Unidos do Brasil” e a “República Portuguesa”
concedessem aos nacionais da outra, tratamento especial, equiparando-os na esfera
jurídica, comercial, econômica, financeira e cultural. Observe a dicção do precitado
artigo, no Tratado de Amizade e Consulta, de 1953:

Artigo Segundo. Cada uma das Altas Partes Contratantes acorda em


conceder aos nacionais da outra tratamento especial, que os equipare
aos respectivos nacionais em tudo que, de outro modo, não estiver
diretamente regulado nas disposições constitucionais das duas Nações,
quer na esfera jurídica, quer nas esferas comerciais, econômica,
financeira e cultural, devendo a proteção das autoridades locais ser tão
ampla quanto a concedida aos próprios nacionais. (BRASIL, 2017d).

Estava contido, portanto, neste artigo, a gênese do que hoje se encontra previsto
no artigo 12, II, “a” da Constituição Federal de 1988. É preciso consignar que a sua
implementação restou carente de regulamentação à época, principalmente porque na
ordem constitucional de 1946, como na atual, cabia à União a legislação sobre questões
atinentes a nacionalização de estrangeiros50, não tendo a proposição sido levada adiante,
na precitada ordem constitucional, para fins de validação.

49
“Artigo Oitavo. As Altas Partes Contratantes comprometem-se a estudar, sempre que oportuno e
necessário, os meios de desenvolver o progresso, a harmonia e o prestígio da Comunidade Luso-Brasileira
no mundo.
50
“Art. 5º - Compete à União: XV - legislar sobre: n) naturalização, entrada, extradição e expulsão
de estrangeiros”. (BRASIL, 2017e).
38

2.2.2 A Emenda nº 1 à Constituição da República Federativa do Brasil, de 1969.

O artigo segundo do Tratado de Amizade e Consulta entre o Brasil e Portugal só


veio a ser objeto de regulamentação, no Brasil, em 1969, por iniciativa do Primeiro
Ministro português, Marcelo Caetano junto às autoridades brasileiras, como explica
Santos (2011). Este pedido, de acordo com o referido autor51 foi aceito pelo Brasil, que
através da Emenda nº 1 à Constituição da República52, tornou vigente a partir de 30 de
outubro de 1969, o artigo 199 da Emenda Constitucional.
O precitado artigo rezava o seguinte: “Respeitando o disposto no parágrafo único
do artigo 145, as pessoas naturais de nacionalidade portuguesa não sofrerão qualquer
restrição em virtude da condição de nascimento, se admitida a reciprocidade em favor dos
brasileiros” (BRASIL, 2017f). Constata-se, portanto, que a partir da dicção do artigo
segundo do Tratado de Amizade e Consulta entre o Brasil e Portugal, firmado em 1953,
constitucionalizou-se, em 1969, no artigo 199 da Emenda Constitucional, o instituto
concebido atualmente como a quase-nacionalidade.
Como restou explícito no subcapítulo 1.3, do presente trabalho, a quase-
nacionalidade, hoje, encontra-se prevista no §1º do artigo 12 da Constituição Federal de
1988, permitindo aos portugueses com residência permanente no Brasil e se houver
reciprocidade em favor dos brasileiros, a atribuição de direitos inerentes ao brasileiro,
excetuando-se os casos previstos na Lei maior, não implicando, para o português que a
requeira, na perda de sua nacionalidade originária.
É preciso destacar, entretanto, que a quase-nacionalidade, em 1969, conferida aos
portugueses, possuía dimensão bem diferenciada da que temos hoje. Se atualmente, na
vigência da Constituição Federal de 1988, somente os portugueses, no âmbito da
lusosfera, podem gozar desse benefício, em 1969 a República Portuguesa abrangia os
territórios afro-asiáticos como províncias, o que implicava que todos os povos submetidos
ao governo português, portugueses que eram, não sofreriam qualquer restrição em virtude
da condição de nascimento, se admitida a reciprocidade em favor dos brasileiros.
Observe, a seguir, mapas oficiais do período, ilustrando os territórios portugueses:

51
Ibidem, p. 208 (apud MEAUX, 2016, p. 147-148).
52
A Emenda Constitucional nº 1, foi promulgada aos 17 de outubro de 1969, quando o Presidente Costa e
Silva já se encontrava afastado por problemas de saúde. Foi promulgada, portanto, durante a vigência da
Junta Governativa Provisória.
39

Figura 2 – Carta de Portugal insular e ultramarino

Fonte: ALMEIDA (1970)


40

Figura 3 – Portugal insular e ultramarino

Fonte: Litografia Lusitana-Gaia (1970)


41

Conforme explica Meaux (2016), o Estado Português passou a se constituir como


um Estado pluricontinental em 1951, quando da reforma constitucional que pôs termo a
diferenciação entre o território metropolitano e as colônias, tendo sido dado a estas
últimas o status de Províncias Ultramarinas. Assim:

[...] de acordo com o Art. 1º, incisos 1 a 5, da Constituição de 1933, já


reformada, o território português, naquela época, se compunha daquele
que lhe compreendia, na Europa, pela parte continental e pelos
Arquipélagos da Madeira e dos Açores; na África Ocidental, o
Arquipélago de Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe e suas dependências,
S. João Baptista de Ajudá, Cabinda e Angola; na África Oriental,
Moçambique; na Ásia, Estado da Índia, Macau e respectivas
dependências e o Timor e suas dependências. (PORTUGAL, 2017a;
2017b apud MEAUX, 2016, p.49).

Portanto, a quase-nacionalidade vigente no Brasil em 1969, conferida aos


portugueses, manteve essa abrangência em relação aos povos dos territórios afro-asiáticos
portugueses, situação que permaneceu vigente até o esfacelamento do império colonial,
com as independências da Guiné-Bissau (setembro de 1973), Cabo Verde, Moçambique,
São Tomé e Príncipe (julho de 1975), Angola (novembro de 1975) e Timor-Leste (maio
de 2002)53.

2.2.3 O Decreto-Lei nº 70.391, de 1972

Segundo Meaux (2016, p. 163), no marco das celebrações do sesquicentenário da


independência do Brasil, em 1972, foram reforçados os laços de amizade entre o Brasil e
Portugal. Neste âmbito, foi regulamentada a “reciprocidade”, demandada
constitucionalmente no artigo 199 da Constituição vigente à época, para que os
portugueses – incluindo-se no conjunto populacional os originários dos territórios afro-
asiáticos dominados - pudessem usufruir, no Brasil, dos direitos civis em paridade de
igualdade com os brasileiros, e vice-versa.
Foi assinado, então a Convenção sobre a Igualdade de Direitos e Deveres entre
Brasileiros e Portugueses, incorporada no direito interno como o Decreto-Lei nº 70.391,

53
Embora invadido pela Indonésia em 1975, enquanto eram organizados os movimentos para a
independência do Timor-Leste em face de Portugal, este último país manteve, até 2002, perante as Nações
Unidas, a condição de potência administrante, velando, internacionalmente, pelo direito do povo timorense
à autodeterminação.
42

de 12 de abril de 1972. Observe, dessa forma, a descrição contida no preâmbulo e no


artigo primeiro do precitado decreto:

O Governo da República Federativa do Brasil, de uma parte, e o


Governo de Portugal, de outra, Fiéis aos altos valores históricos
morais, culturais, linguisticos e étnicos que unem os povos brasileiros
e portugueses, Animados do firme propósito de promover o gradual
aperfeiçoamento, em todos os planos de suas relações, dos instrumentos
e mecanismos destinados a lograr o harmonioso desenvolvimento da
Comunidade Luso-Brasileira, Convencidos de que a efetivação do
princípio de igualdade inscrito no artigo 199 da Constituição brasileira
e no artigo 7º, parágrafo 3º da Constituição portuguesa corresponde aos
mais profundos anseios da Nação Brasileira e da Nação Portuguesa.
Cônscios da transcendência, para os destinos comuns das Pátrias irmãs
da adoção de um estatuto que reflita o caráter especial dos vínculos
existentes entre brasileiros e portugueses e sirva de inspiração e guia às
gerações futuras, Resolveram concluir, em testemunho solene de
fraternal e indestrutível amizade, a seguinte Convenção: Art. 1º Os
portugueses no Brasil e os brasileiros em Portugal gozarão de igualdade
de direitos e deveres com os respectivos nacionais. (BRASIL, 2017f).

Como se pode observar, foi expressa a referência ao Lusotropicalismo, ao


promover a “Comunidade Luso-Brasileira”, alicerçando a igualdade de direitos e deveres
entre brasileiros e portugueses, nos respectivos territórios, sem que tal norma implicasse
na perda das nacionalidades originárias54, o que significava que o direito à proteção
diplomática só poderia ser demandada ao Estado da nacionalidade55.
Consigna-se, ainda, que a equiparação, na Convenção, nos artigos 3º e 4º, garantia
aos brasileiros e aos portugueses todos os direitos e deveres inerentes às respectivas
nacionalidades, excetuando-se as que ofendessem a soberania nacional, a ordem pública
do Estado de residência e os direitos previstos constitucionalmente aos que tivessem
nacionalidade originária.
Também lhes foi negado o serviço militar no Estado de residência56, excluindo-
lhes, ainda, a possibilidade de serem extraditados, salvo se houvesse solicitação do
governo do Estado de nacionalidade57.

54
“Art. . 2º O exercício pelos portugueses no Brasil e pelos brasileiros em Portugal de direitos e deveres,
na forma do artigo anterior não implicará em perda das respectivas nacionalidades”. (BRASIL, 2017f).
55
“Art. . 11. O português ou brasileiro, no gozo da igualdade de direitos e deveres, que se ausentar do
território do Estado da residência terá direito à proteção diplomática apenas do Estado da nacionalidade”.
(BRASIL, 2017f).
56
“Art. . 10. Não poderão prestar serviço militar no Estado de residência os portugueses e brasileiros nas
condições do artigo 1º. A lei interna de cada Estado regulará, para esse efeito, a situação dos respectivos
nacionais”. (BRASIL, 2017f).
57
“Art. . 9º Os portugueses e brasileiros que gozem do estatuto de igualdade não estão sujeitos à extradição,
salvo se requerida pelo Governo do Estado da nacionalidade”. (BRASIL, 2017f).
43

A Convenção regulamentou o gozo dos direitos políticos aos brasileiros e


portugueses que assim o requeressem e pudessem comprovar cinco anos de residência
permanente, de modo que, uma vez concedido o precitado direito, no Estado de
residência, suspender-se-iam os mesmos direitos no Estado de nacionalidade58.
O procedimento para a concessão da quase-nacionalidade era administrativo,
ocorrendo no Ministério da Justiça, do Brasil e no Ministério do Interior, em Portugal,
demandando-se, dos requerentes, apenas, a comprovação da capacidade civil e da
nacionalidade originária. Extinguia-se a concessão, por outro lado, com a cassação da
autorização de permanência no território do Estado ou com a perda da nacionalidade59.
Finalmente, acordou-se a determinação para que, aos portugueses no Brasil e aos
brasileiros em Portugal fossem fornecidos, para uso interno, documentos de identidade
em modelos iguais aos dos respectivos nacionais, com a menção da nacionalidade do
portador e referência à Convenção60.
O Decreto-Lei nº 70.391, de 1972 foi recepcionado pela Constituição Federal de
1988, detalhando as disposições constantes no art. 12, §1º da Lei maior. Esteve vigente,
entretanto, até o ano de 2001, quando entrou em vigor o Tratado de Amizade, Cooperação
e Consulta entre a República Federativa do Brasil e a República Portuguesa, firmado no
marco das celebrações dos 500 anos do descobrimento do Brasil, sendo incorporado no
direito interno como o Decreto nº 3.927, de 2001.

2.2.4 O Decreto nº 3.927/2001

O Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta entre a República Federativa do


Brasil e a República Portuguesa, incorporado como Decreto nº 3.927, de 19 de setembro
de 2001, foi assinado pelos Presidentes da República Federativa do Brasil e da República
Portuguesa na cidade de Porto Seguro, Bahia, no dia 22 de abril. Rememorou-se, naquela

58
“Art. . 7º (1) O gozo de direitos políticos por portugueses no Brasil e por brasileiros em Portugal só será
reconhecido aos que tiverem cinco anos de residência permanente e depende de requerimento à autoridade
competente. (2) A igualdade quanto aos direitos políticos não abrange as pessoas que no Estado da
nacionalidade, houverem sido privadas de direitos equivalentes. (3) O gozo de direitos políticos no Estado
de residência importa na suspenção do exercício dos mesmos direitos no Estado da nacionalidade”.
(BRASIL, 2017f).
59
“Art. . 6º A igualdade de direitos e deveres extinguir-se-á com a cessação da autorização de permanência
no território do Estado ou perda da nacionalidade”. (BRASIL, 2017f).
60
“Art. . 13. Aos portugueses no Brasil e aos brasileiros em Portugal serão fornecidos, para uso interno,
documentos de identidade de modelos iguais aos dos respectivos nacionais, com a menção da nacionalidade
do portador e referência à presente Convenção”. (BRASIL, 2017f).
44

oportunidade, a chegada das naus comandadas por Pedro Álvares Cabral, descobridor do
Brasil no imaginário português.
Este Tratado representa, em profundidade, como explica Cervo (2011), a versão
atualizada, contemporânea, do Tratado de Amizade e Consulta entre o Brasil e Portugal,
firmado em 1953, sobre o qual nos debruçamos no subitem 2.2.1 deste trabalho de
conclusão de curso.
Foram discriminados, ao todo, setenta e oito artigos envolvendo a cooperação nos
mais diversos âmbitos, envolvendo, também, as delimitações normativas atinentes a
quase-nacionalidade, especificando-se os direitos e deveres concedidos aos brasileiros e
portugueses no Estado da residência e no Estado da nacionalidade. Neste mesmo sentido:

A Convenção sobre igualdade de direitos e deveres entre brasileiros e


portugueses, firmada em 7-9-1971, foi substituída por novo tratado
bilateral, que entrou em vigor em 2001. “ Tendo em mente a secular
amizade que existe entre os dois países”, o Estatuto de Igualdade
contempla duas questões básicas: igualdade de direitos e de obrigações
civis e igualdade de direitos políticos. (MENDES, 2017, p.633).

O Estatuto da Igualdade, em dez artigos, reproduziu praticamente as mesmas


disposições normativas do Decreto-Lei 70.391, de 1972, reduzindo-se, para três anos de
residência habitual, entretanto, o interregno temporal demandado ao solicitante, no
Estado de residência, para gozo dos direitos políticos61.
Desse modo, conforme explica Mendes (/2017), no caso de igualdade de direitos
e de obrigações civis, o português deverá fazer o requerimento da quase-nacionalidade
dirigido ao Ministro da Justiça, com prova de sua nacionalidade portuguesa, capacidade
civil e admissão no Brasil em caráter permanente.
Outrossim, no caso de pretender a obtenção dos direitos, deverá fazer prova do
seu gozo em Portugal e da residência no Brasil há pelo menos três anos. Assim, uma vez
reconhecida a igualdade plena, poderá o beneficiário votar e ser votado, bem como ser
admitido no serviço público. Assinale –se, por fim, que o titular do estatuto pleno passa
a ter deveres como o concernente à obrigatoriedade do voto.

61
“Artigo 17. 1. O gozo de direitos políticos por brasileiros em Portugal e por portugueses no Brasil só será
reconhecido aos que tiverem três anos de residência habitual e depende de requerimento à autoridade
competente. 2. A igualdade quanto aos direitos políticos não abrange as pessoas que, no Estado da
nacionalidade, houverem sido privadas de direitos equivalentes. 3. O gozo de direitos políticos no Estado
de residência importa na suspensão do exercício dos mesmos direitos no Estado da nacionalidade”.
(BRASIL, 2017g).
45

Nos termos do tratado, os direitos políticos não podem ser usufruídos


no Estado de origem e no Estado de residência. Assim, assegurado esse
direito no Estado de residência, ficará ele suspenso no Estado de
origem. No que tange aos cargos públicos, o beneficiário português do
estatuto pleno poderá ter acesso a todas as funções, excetuadas aquelas
conferidas apenas aos brasileiros natos. (MENDES, 2017, p. 633).

O precitado autor62 explica ainda que há distinção entre o português admitido no


Brasil no âmbito do Estatuto de Igualdade e o brasileiro naturalizado, pois, ao contrário
do naturalizado, o português beneficiário do Estatuto de Igualdade plena não pode aqui
prestar serviço militar, estando submetido à expulsão e à extradição, esta quando
requerida pelo Governo português. Ainda, no caso de necessidade de proteção
diplomática no exterior, ela deverá ser prestada por Portugal e não pelo Brasil.
Finalmente, consigna-se que o benefício da quase-nacionalidade será extinto em
casos de expulsão ou perda da nacionalidade portuguesa e, caso se verifique a perda de
direitos políticos em Portugal, haverá igualmente a perda desses direitos no Brasil,
fazendo com que o titular do estatuto pleno passe a deter apenas a igualdade civil.

62
Ibidem, p. 633.
46

CAPÍTULO III – DA NACIONALIDADE BRASILEIRA À CIDADANIA


LUSÓFONA

3.1 O Projeto de Convenção-Quadro relativo ao Estatuto do Cidadão da CPLP

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é uma Organização


Intergovernamental Internacional (OIG), com personalidade jurídica internacional e
autonomia administrativo-financeira, constituída em julho de 1996 na I Conferência dos
Chefes de Estado e de Governo, na cidade de Lisboa, sua atual sede.
A referida organização foi criada para ser um foro multilateral, objetivando o
aprofundamento da amizade mútua, da concertação político-diplomática e da cooperação
entre os Estados-membros: qualquer país que tenha o idioma português como idioma
oficial. A pressuposição da cooperação entre os Estados é, assim, um elemento basilar
para a vigência da comunidade.

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa tem uma dimensão


político-diplomática prevista em seu nascedouro. Uma plêiade de
instrumentos jurídicos enfatiza essa vertente, condição para que a CPLP
possa ser, de fato, uma entidade que vincula Estados soberanos ao
sistema internacional. Vale notar que a ordenação da dimensão jurídica
expõe o intrincado movimento de construção de consensos. O processo
decisório que culmina com o nascimento de tais atos jurídicos, quase
sempre, demandou considerável esforço negociador dos Estados-
membros. (SARAIVA, 2001, p. 46).

O aprofundamento da cooperação entre os países de língua portuguesa,


propugnado pela CPLP, espraia-se pelos mais diversos domínios, a exemplo da educação,
saúde, ciência e tecnologia, defesa, agricultura, administração pública, comunicações, justiça,
segurança pública, cultura, desporto e comunicação social. Igualmente, pela importância e
atualidade, os Direitos Humanos e, especificamente, a ampliação da cidadania, tem tido
relevância no seio da comunidade.
No âmbito da CPLP, portanto, tem havido significativa atividade de concertação
diplomática e técnica, esta representada pelo Grupo de Trabalho Alargado sobre
Cidadania e Circulação no Espaço da CPLP, empenhada em promover a cooperação dos
Estados-membros na criação da cidadania lusófona, principalmente no que tange à
circulação de pessoas e à consonância dos ordenamentos jurídicos internos com a
47

concessão de direitos de participação política, econômica e social aos seus nacionais, no


espaço territorial e linguístico comum, propondo, assim, a adoção do Projeto de
Convenção-Quadro relativa ao Estatuto do Cidadão da CPLP.
O precitado projeto, de acordo com a CPLP (2017b), visa possibilitar aos cidadãos
dos Estados membros da comunidade o gozo de igualdade de direitos e deveres com os
respectivos nacionais no espaço territorial lusófono, excetuando-se do regime de
equiparação os direitos constitucionalmente reservados e os direitos inerentes aos
processos de integração regional. Seria um equivalente ao disposto no art. 12, II, “a” da
Constituição Federal de 1988, em âmbito comunitário, isto é, vigente nos nove países
lusófonos.
Em profundidade, o Projeto de Convenção-Quadro relativo ao Estatuto do
Cidadão da CPLP implica na criação de uma comunidade baseada, substancialmente, no
idioma português. É principalmente a partir deste elemento comum partilhado, ao menos
formalmente, pelos nacionais dos Estados-membros da CPLP, que se propõe a
abrangência espacial para o gozo de direitos que seriam cabíveis, em tese, apenas a um
cidadão nacional, simplesmente pelo fato do Estado ao qual ele está político e
juridicamente vinculado, ter o português como idioma oficial.
Não se pode negar, de acordo com Santos (2004), que a língua portuguesa e a
defesa da lusofonia constituem parte integrante dos Estados-membros da CPLP, porque
faz parte do seu patrimônio cultural e linguístico, definindo-se como fator identitário e de
coesão interna. O elemento linguístico se coloca, portanto, indissociavelmente, como um
amálgama para a construção do projeto de cidadania e mobilidade de pessoas dentro de
um espaço estato-geográfico variado:

A existência de uma língua partilhada, a língua portuguesa, permite um


elevado grau de comunicabilidade entre os cidadãos dos seus Estados-
Membros e que se faça a experiência espontânea da pertença a uma
mesma comunidade. Simultaneamente, exige que se criem condições
para uma maior aproximação entre os povos de língua portuguesa e que
se dê tradução prática a esse sentimento de pertença através do que se
pode designar como cidadania lusófona, ou cidadania da CPLP.
(LEITÃO, 2009, p.5).

Ele foi primeiramente discutido na IV Conferência de Chefes de Estado e de


Governo da CPLP, realizada no ano de 2002, em Brasília e, segundo Leitão (2009), não
veio a ser adotado porque os representantes de Angola e Moçambique afirmaram não
48

reunirem, seus Estados, condições de implementá-lo àquela altura. Entretanto é de se


destacar que sua viabilidade não é uma quimera, pois:

Os textos constitucionais dos países-membros da CPLP partilham dos


mesmos princípios político-culturais básicos, a saber: a democracia, a
liberdade de expressão do pensamento e o direito de difundir seu
pensamento político, gozando todos os cidadãos do direito de aceder às
mais altas funções políticas. No âmbito do direito dos estrangeiros,
também se conclui da existência de certa conformidade normativa.
(OLIVEIRA, 2002, p.29).

Identificam-se ainda, outros elementos em comum partilhados entre os Estados-


membros, que os envolve na construção do ideário proposto pela CPLP, a exemplo dos
direitos já reconhecidos pelos países a partir de acordos realizados bilateralmente, que
conforme Leitão (2009) existem entre Portugal e o Brasil: o Estatuto da Igualdade,
abrangido pelo Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta entre a República Federativa
do Brasil e a República Portuguesa, incorporado na República Federativa do Brasil como
Decreto nº 3.927, de 19 de setembro de 2001.
O Projeto de Convenção-Quadro relativo ao Estatuto do Cidadão CPLP, quando
de sua apresentação na IV Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP,
realizada no ano de 2002, em Brasília, reuniu vinte artigos que versaram sobre temas
relevantes para compreender como a temática fora esboçada pelo Grupo de Trabalho da
organização. Alguns artigos são dignos de nota, principalmente pela promoção que fazem
de princípios presentes na Declaração Universal dos Direitos Humanos, equiparando-se
o cidadão CPLP aos nacionais dos Estados-membros em uma pluralidade de assuntos.
Assim, por exemplo, o art. 1º do projeto de Convenção-Quadro proscreveu que
tantos os cidadãos da CPLP quanto os respectivos nacionais dos Estados-membros
gozariam de igualdade de direitos e deveres, excetuando-se do regime de equiparação os
direitos reservados pela Constituição de cada um dos Estados aos seus nacionais e os
direitos inerentes a processos de integração regional. No artigo segundo, descreveu-se o
modo de aquisição e perda da cidadania CPLP.
Neste sentido, a aquisição, pelo projeto, seria dada ao nacional de um Estado-
membro que recebesse título de residência, sendo este direito igualmente reconhecido aos
membros da família dependentes do cidadão em questão. A condição de cidadão CPLP,
por outro lado, nos termos do artigo mencionado, seria retirada caso o beneficiário viesse
a perder a qualidade de residente nos termos da lei interna, ou caso viesse a perder ou
49

renunciar a nacionalidade de origem, sem aquisição de qualquer outra nacionalidade dos


restantes Estados-membros.
Observa-se, no projeto, a pressuposição, portanto, de duas condições para gozo da
cidadania CPLP, a primeira é a existência de uma nacionalidade de um dos Estados-
membros da CPLP, isto é, um “vinculo político entre o Estado soberano e o indivíduo,
que faz deste um membro da comunidade constitutiva da dimensão pessoal do Estado”
(REZEK, 2005, p.180), e a segunda é a concessão de um visto de residência a este
nacional por outro Estado pertencente à comunidade.
Foram também elencados no Projeto de Convenção-Quadro, para os cidadãos
CPLP, o gozo de capacidade eleitoral ativa e passiva e demais direitos políticos, bem
como o direito de exercer a atividade política conexa com a sua capacidade eleitoral, em
partido político nacional, do Estado em que estejam a residir (Art. 3º); a proteção
diplomático-consular de qualquer dos Estados-membros, caso seu país não se encontre
representado num território de um terceiro (art. 4º); a garantia do reconhecimento de
constituir associações e fundações (art. 5º); o direito à propriedade privada (art. 6º); os
mesmos direitos, garantias e obrigações conferidas aos investidores nacionais (art. 7º); a
igualdade de tratamento fiscal (art. 8º) e o reconhecimento de direitos sociais, econômicos
e culturais (art.9º).
Garantiram-se as mesmas condições de trabalho entre os nacionais e os cidadãos
CPLP (art. 10); o direito de acesso às funções públicas no Estado de sua residência (art.
11); a igualdade de tratamento com os nacionais no que concerne à saúde, à educação e
ao acesso à justiça (art. 12); o direito de continuar a receber, no território do Estado em
que residam, as pensões, subvenções e rendimentos constituídos em um dos Estados
membros (art. 13); sem que as regras presentes no Projeto excluíssem aquelas que fossem
mais favoráveis aos cidadãos CPLP, constante na legislação interna do Estado em que
viessem a residir (art. 16) Reconheceu-se, ainda a submissão dos cidadãos CPLP às leis
penais do Estado da comunidade em que estiverem (art. 14).
A livre circulação de pessoas, no art. 15, foi colocada como uma norma
programática, uma vez que se pressupôs que os Estados-Membros, com observância das
respectivas legislações internas e, ainda, dos Acordos respeitantes às organizações e aos
Agrupamentos Regionais em que se inserissem, adotassem por Convenção Multilateral
celebrada no âmbito da CPLP ou ainda por Acordo Bilateral, as medidas tendentes a
facilitar a circulação dos cidadãos entre si.
50

Esta hipótese confirma, assim o desenvolvimento de cooperação, pela CPLP, entre


os Estados-membros para a formação de um espaço alargado (território dos Estados-
membros) para a o potencial direito de migrar dos cidadãos destes mesmos Estados.
O Projeto de Convenção-Quadro relativo ao Estatuto do Cidadão da Comunidade
dos Países de Língua Portuguesa refletiu um plano visionário e, de acordo com Leitão
(2009), teve grande consenso entre os chefes de Estado e de Governo, embora não tenha
sido aprovado na IV Conferência dos Chefes de Estado e de Governo em virtude de
Angola e Moçambique terem considerado que, naquela altura, não estariam reunidas
condições para se avançar neste sentido.

3.2 O que há de concreto?

Excetuando-se a possibilidade vigente na República Federativa do Brasil, tratada


nos capítulos anteriores, em relação aos originários dos países de língua portuguesa, a
República do Cabo Verde, a República da Guiné-Bissau e a República Portuguesa já
dispõem, em seus ordenamentos jurídicos internos, de normas que possibilitam a
concessão da cidadania aos nacionais dos países de língua portuguesa, deixando entrever
que, embora não esteja vigente em toda lusosfera, a cidadania lusófona, em suas acepções
de direito interno, parece vigorar em espaço territorial considerável da comunidade.
A República do Cabo Verde, por exemplo, atribui constitucionalmente aos
cidadãos dos países de língua oficial portuguesa direitos políticos e direitos e deveres
reservados constitucional ou legalmente aos cidadãos nacionais, excetuando-se, apenas,
o acesso à titularidade dos órgãos de soberania, o serviço nas Forças Armadas e a carreira
diplomática63.
Neste país, vigora, ainda, a Lei nº36/V/1997, conhecida como “Estatuto do
Cidadão Lusófono”, possibilitando, para quaisquer dos nacionais dos Estados-membros
da CPLP o gozo amplo da cidadania cabo-verdiana, compreendendo-se, inclusive, a
capacidade eleitoral ativa e passiva e o direito a adquirir a nacionalidade cabo-verdiana
sem perder a anterior.

63
“Art. 24. 3.Poderão ser atribuídos aos cidadãos dos países de língua oficial portuguesa direitos não
conferidos aos estrangeiros e apátridas, exceto o acesso à titularidade dos órgãos de soberania, o serviço
nas Forças Armadas e a carreira diplomática”. (CABO VERDE, 2017a).
51

Estatuto inspirado no do Cabo Verde foi aprovado pela República da Guiné-


Bissau em 2008, conforme assevera Gomes (2008), ressaltando-se, ainda que este Estado
ostenta em sua constituição, norma aberta ao reconhecimento de direitos a estrangeiros64.
Finalmente, a República Portuguesa, no que concerne ao estatuto constitucional
dos estrangeiros, reconhece65 aos cidadãos dos países de língua portuguesa, com
residência permanente em Portugal, direitos não conferidos aos demais estrangeiros,
salvo o acesso a determinados cargos.
Como se pode observar, portanto, a existência de normas disciplinando a
concessão da cidadania aos nacionais dos países de língua portuguesa é uma realidade
tangível em quatro Estados membros da CPLP (Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau e
Portugal), deixando entrever a possibilidade de interseção dessas normas e a existência
de uma expressão de cidadania bastante singular.
No âmbito específico da CPLP já se conseguiu a aprovação, pelos Chefes de
Estado e de Governo, de oito acordos concernentes à desburocratização e facilitação de
concessão de vistos de entrada entre os nacionais dos países de língua portuguesa e até
extradição, promovendo maior mobilidade entre os nacionais. Este tem sido considerado
um marco nos esforços para se consolidar a livre circulação de pessoas e a
institucionalização da cidadania lusófona. Os acordos foram os seguintes:

a) Acordo sobre Concessão de Vistos de Múltiplas Entradas para


Determinadas Categorias de Pessoas66: Os cidadãos de um dos Estados-
membros da CPLP, portadores de passaporte válido, sem distinção de gênero e
que sejam profissionais liberais, cientistas, investigadores/ pesquisadores,
desportistas, jornalistas e agentes de cultura/ artistas (credenciados ou
recomendados por instituições públicas e privadas sediadas nos Estados-membros
da Comunidade), são habilitados a vistos para múltiplas entradas em qualquer dos
outros Estados-membros da Comunidade, com a duração mínima de um ano. A

64
“ARTIGO 28° 1 — Os estrangeiros, na base da reciprocidade, e os apátridas, que residam ou se
encontrem na Guiné-Bissau, gozam dos mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres que o cidadão
guineense, excepto no que se refere aos direitos políticos, ao exercício de funções públicas e aos demais
direitos e deveres expressamente reservados por lei ao cidadão nacional”. (GUINÉ-BISSAU, 2017).
65
“Artigo 15.º Estrangeiros, apátridas, cidadãos europeus. 3. Aos cidadãos dos Estados de língua
portuguesa com residência permanente em Portugal são reconhecidos, nos termos da lei e em condições de
reciprocidade, direitos não conferidos a estrangeiros, salvo o acesso aos cargos de Presidente da República,
Presidente da Assembleia da República, Primeiro-Ministro, Presidentes dos tribunais supremos e o serviço
nas Forças Armadas e na carreira diplomática”. (PORTUGAL, 2017c).
66
Promulgado, no Brasil, através do Decreto nº 6475, de 5 de junho de 2008.
52

permanência no território de qualquer um dos Estados-membros, no entanto, não


poderá, salvo regime mais favorável previsto em legislação interna, ser superior a
90 dias consecutivos por semestre em cada ano civil, a contar da data da primeira
entrada, prorrogáveis mediante apresentação do respectivo justificativo;

b) Acordo sobre concessão de visto temporário para tratamento médico a


cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa 67: Os Estados-
membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa outorgarão
reciprocamente aos seus cidadãos visto temporário, de múltiplas entradas, para
tratamento médico com validade de até dois anos, a critério da autoridade consular
e passível de prorrogação por um período mínimo de um ano; exigindo-se, além
dos documentos necessários a indicação médica para o tratamento e a
comprovação de que o requerente atende a um dos seguintes requisitos:
capacidade para custear o tratamento e meios de subsistência suficientes para a
sua manutenção durante o período de duração do tratamento, seguro de saúde
válido no território nacional que ofereça cobertura para o atendimento específico
e certificado de prestação de serviço de saúde previsto em acordo internacional ou
outro meio de ressarcimento, quando o tratamento for efetuado pelo sistema de
saúde nacional;

c) Acordo sobre estabelecimentos de balcões específicos nos postos de entrada


e saída para o atendimento de cidadãos da Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa: prevê o estabelecimento de balcões específicos nos postos de entrada
e de saída para atendimento privilegiado dos cidadãos da CPLP, que deverão estar
identificados e, na medida do possível, serão utilizados nas mesmas condições
daqueles destinados aos nacionais do País de embarque;

d) Acordo sobre o estabelecimento de requisitos comuns máximos para a


instrução de processos de vistos de curta duração68: determina a adoção de
medidas comuns para agilizar a concessão de vistos de curta duração (trânsito,
turismo, e negócios) – não devendo ultrapassar o prazo máximo de sete dias - para
os cidadãos da CPLP, nos respectivos Estados membros, devendo ser exigidos

67
Promulgado, no Brasil, através do Decreto nº 6.471, de 4 de junho de 2008.
68
Promulgado, pelo Brasil, através do Decreto nº 6.529, de 4 de agosto de 2008.
53

apenas os seguintes documentos: duas fotografias iguais, tipo passe (3X4) a cores;
documento de viagem com validade superior em, pelo menos três meses à duração
de estada prevista; prova de meios de subsistência; bilhete de passagem de ida e
volta e certificado internacional de imunização (vacinação);

e) Acordo sobre isenção de taxas e emolumentos devido a emissão e renovação


de autorização de residência para os cidadãos da CPLP69: os cidadãos dos
Estados-membros da CPLP, residentes nos outros Estados-membros, estão isentos
do pagamento de taxas e emolumentos devidos na emissão e renovação de
autorizações de residência, com exceção dos custos de emissão de documentos;

f) Acordo sobre a concessão de vistos para estudantes nacionais dos Estados-


membros da CPLP70: estabelece a duração mínima de 04 meses e máxima de 01
ano para os estudantes, nacionais dos Estados-membros, que requeiram o visto no
prazo de 30 (trinta) dias após a aceitação da candidatura em estabelecimento de
ensino reconhecido internamente;

g) Convenção de Extradição entre os Estados membros da Comunidade dos


Países de Língua Portuguesa71: os signatários se comprometeram a cooperar
para entregar as pessoas que se encontrem nos seus respectivos territórios e que
sejam procuradas pelas autoridades competentes de outro Estado Contratante,
para fins de procedimento criminal ou para cumprimento de pena privativa da
liberdade por crime cujo julgamento seja da competência dos tribunais do Estado
requerente; e

h) Acordo de cooperação consular entre os membros da Comunidade dos


Países de Língua Portuguesa: estabelece as possibilidades de cooperação e os
limites de cooperação entre os postos consulares de qualquer das Partes.

De acordo com Leitão (2009), os acordos retrorreferidos têm vindo a ser


ratificados pelos Estados-membros, e, se forem corretamente aplicados, contribuirão para

69
Promulgado, pelo Brasil, através do Decreto nº 6.771, de 16 de fevereiro de 2009.
70
Promulgado, pelo Brasil, através do Decreto nº 9.100, de 19 de julho de 2017.
71
Promulgado, pelo Brasil, através do Decreto nº 7.935, de 19 de fevereiro de 2013.
54

enraizar o pertencimento à comunidade nos seus respectivos cidadãos. De fato, não


restam dúvidas, há atividade sendo desenvolvida, no seio da comunidade, para a
aprovação de acordos sobre a livre-circulação de pessoas no espaço territorial lusófono.
Entretanto, especificamente no que concerne à adoção do Projeto de Convenção-Quadro
relativo ao Estatuto do Cidadão da CPLP, por que ainda não se chegou a um consenso?

3.3 Hipóteses para a dificuldade de aprovação do Projeto de Convenção-Quadro


relativo ao Estatuto do Cidadão da CPLP

Os debates para a consolidação do Projeto de Convenção Quadro relativo ao


Estatuto do Cidadão da CPLP tem sido um tema intermitente nas Conferências dos Chefes
de Estado e de Governo e, mais recentemente, no âmbito das Reuniões Ordinárias do
Conselho de Ministros.
De fato, o que se constata é que, até o presente momento, a concertação política
para criação do Estatuto, com a livre circulação de pessoas, tem implicado na paulatina
assinatura de Acordos sobre vistos concernentes, sobretudo à facilitação da cooperação
na circulação de pessoas entre os Estados membros, bem como dos procedimentos
relativos à aquisição para permanência de pessoas naturais dos países da comunidade em
situações específicas – e só.
Embora se reconheça certa indefinição na aprovação do texto final do projeto, em
função de reservas feitas principalmente por Angola e Moçambique, na IV Conferência
dos Chefes de Estado e de Governo, em 2002, o que se observa é que a CPLP tem
trabalhado na convergência de temas afeitos à livre circulação de pessoais e a cooperação
consular entre os Estados membros, não havendo definição quanto ao Projeto de
Convenção Quadro relativo ao Estatuto do Cidadão da CPLP.
Recentemente, na XI Conferência dos Chefes de Estado e de Governo, em 2016,
no Brasil, foi divulgado pela imprensa que a República Portuguesa estava a objetivar a
liberdade de circulação e residência entre os países lusófonos, mas que o Brasil enxergava
a medida com cautela, principalmente por não enxergar na comunidade uma “vocação
supranacional”72. Esta informação converge com as hipóteses aventadas,
academicamente, para os imbróglios existentes na CPLP.

72
Disponívelem:<http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/12/151217_portugal_circulacao_paise
s_rm>. Acesso em: 03 ago 2017.
55

Assim, em profundidade, as prováveis razões que explicariam a hodierna falta


aprovação de um texto final para a Convenção-Quadro relativa ao Estatuto do Cidadão
da CPLP não estariam, como demonstrou Leitão (2009), no direito interno dos Estados
membros, pois a proposta amolda-se à maioria dos ordenamentos jurídicos internos.
Neste sentido, a problemática parece se centrar na provável falta de empenho ou fôlego
por parte de alguns governos na consolidação do próprio projeto.
Uma das respostas à possibilidade aventada poderia ser identificada em Freixo
(2017b) que explica o fato de que a agenda da comunidade é estruturada nos interesses
prioritários de Portugal e do Brasil, sem que possibilite aos Países Africanos de Língua
Oficial Portuguesa (PALOP) e ao Timor-Leste, tratativas que representem os interesses
de suas próprias agendas para a cooperação no âmbito da CPLP.
Isto porque os PALOP e o Timor-Leste estariam mais interessados em cooperar
em temáticas relativas ao desenvolvimento econômico-social, o que não é a área de
cooperação preponderante da organização. Corroborando com este autor:

As agendas políticas dos estados membros da CPLP “estão longe de se


compatibilizar. A falta de um conteúdo econômico determina a
fragilidade institucional da CPLP. As agendas políticas, sobretudo em
política externa, também têm ditado as opções diferenciadas. No
contexto dessas agendas políticas, a CPLP parece ser, essencialmente,
perspectivada como uma instância instrumental de recurso, cuja
importância varia segundo o grau de prioridade estratégica evolutiva
que cada estado membro decide atribuir-lhe, em cada circunstância e
em momentos determinados, correspondendo a um espaço de expressão
própria e de defesa prioritária dos interesses nacionais de cada estado
membro. (SANTOS, 2004, p.139).

Esta visão é endossada por outros pesquisadores, que observam que a CPLP é,
geralmente, utilizada como “um foro para dar apoio às pretensões da política externa
brasileira multilateralmente” (MIYAMAMOTO, 2009 p.33); “como um espaço de
manutenção da zona de influência portuguesa estabelecida desde o período colonial”
(FREIXO, 2017a, p.2) ou como “um locus no qual os PALOP e o Timor-Leste podem
buscar o estabelecimento de parcerias que lhes permitam buscar o desenvolvimento ou a
resolução de seus graves problemas sociais” (FREIXO, 2017b).
Esta dimensão, que envolve uma percepção antiga sobre a comunidade, referente
a existência de uma “triangulação” de poderes, isto é, Portugal, Brasil e os PALOP (com
o Timor-Leste), que explicita sérios constrangimentos para a afirmação contemporânea
da CPLP, segundo Saraiva (2001). Desse modo, para o referido autor, cada um dos três
56

ângulos carrega uma série de dificuldades estruturais e estão submetidos a uma plêiade
de constrangimentos internacionais que tornam a vontade de fazer da CPLP um agente
relevante na cena internacional uma realidade difícil.
No ângulo brasileiro, por exemplo, a CPLP já surgiu coincidindo com um ciclo
de retraimento das relações comerciais, diplomáticas e estratégicas com os países
africanos e mesmo neste âmbito, é a relação com a Nigéria e a África do Sul, e não com
os PALOP, que é privilegiada. Assim, a comunidade se insere dentro de um contexto
desprivilegiado e, ainda, associado ao contexto das relações especiais mantidas pelo
Brasil com a Angola, o terceiro parceiro estratégico brasileiro no continente africano.
Um segundo constrangimento, que não contribui para o avanço da comunidade
advém da “insistência de que a CPLP é um instituto em construção” (SARAIVA, 2001,
p.63), um explícito imobilismo e falta de interesse político do Brasil – convergente,
inclusive, com a notícia veiculada pela BBC (2017), citada acima.
Situação diversa da brasileira, por outro lado, é a de Portugal. Neste ângulo, há
uma política bem definida e a imbricação de consolidação da comunidade lusófona com
a própria parceria estratégica lusa, no contexto da União Europeia. O maior
constrangimento português, sem dúvida, reside no antilusitanismo dos PALOP, que
associa a vigência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa a uma manutenção
contemporânea dos vínculos coloniais que uniram Portugal aos seus territórios de além-
mar.
Consistiria a CPLP, assim, como um espaço para o esforço neocolonizador
português:

Portugal foi uma metrópole que ficou muito tempo na África. Há ainda
uma memória anticolonial nos PALOP, criando, em certos casos,
resistências subterrâneas à CPLP. As longas lutas anticoloniais ainda
não desapareceram da memória coletiva dos países africanos de língua
oficial portuguesa. A força mobilizadora dessas lutas, mesmo perante
as novas gerações, não pode ser subestimada. (SARAIVA, 2001, p.68).

Por fim, para os Países Africanos de Língua Portuguesa - incluindo-se, neste


âmbito, o Timor-Leste - o rol de dificuldades em relação à CPLP, apesar das
especificidades de cada Estado, possui em comum o fato de haverem partilhado uma luta
de libertação colonial complexa, inibindo sua projeção no cenário internacional:
57

Estados que derivam sua modernidade de um processo tardio de


colonização atabalhoada, algumas dessas cinco nações estão esgarçadas
por guerras fraticidas ou desinteligências domésticas que
comprometem a transformação positiva. Países que contextualizam
suas políticas exteriores em meio a tragédias sociais e políticas tão
graves não possuem peso relativo no cenário internacional. A redução
dos países africanos a mera peça marginal no xadreza das novas formas
de organização da ordem internacional faz que a concertação de países
sem excedentes de poder na cena internacional não encontre ambiente
propício para a sua afirmação soberana. (SARAIVA, 2001, p.63).

Ainda, é preciso consignar, neste âmbito dos PALOP, que a língua portuguesa não
é fator de unidade nacional para todos, é associada, na maioria das vezes, à língua do
colonizador sofrendo, também, concorrência com a aproximação de países como
Moçambique e Guiné-Bissau a outras comunidades linguísticas ocidentais, a exemplo da
britânica Commonwealth73 e da francesa Organisation Internationale de la
Francophonie74, respectivamente.
Finalmente, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e
Príncipe e o Timor Leste, além do mais recente Estado membro, a Guiné Equatorial,
acabam sendo vítimas da ausência de conteúdo político e econômico nas formulações e
práticas da instituição. Segundo Saraiva (2001), o desejo por cooperação técnica,
científica e tecnológica é frustrado pelo tratamento dado ao Brasil, à comunidade, por um
lado, e, por outro, contrasta com o caráter quase que exclusivamente cultural da política
portuguesa para a CPLP.
Há, por fim, um elemento importante a ser considerado, nesse conjunto, que é a
fragilidade financeira da organização, que implica em dificuldades para aprofundar a
agenda de cooperação. Este aspecto amolda-se, perfeitamente, ao cenário hodierno, pois
“o Brasil e os países africanos de língua portuguesa não têm condições, no momento, de
aportar recursos líquidos suficientes para tais projetos” (SARAIVA, 2001, p.97).
Sobre as hipóteses para a dificuldade de aprovação do Projeto de Convenção-
Quadro relativo ao Estatuto do Cidadão da CPLP, poder-se-ia arguir, também, que o
elemento mais importante a congregar os Estados-membros no projeto de livre-circulação
de cidadãos no espaço CPLP, que é a partilha, pelos Estados-membros, da língua
portuguesa, talvez não tenha gerado a experiência espontânea de pertencimento à
comunidade que implique na assunção de compromissos pelos países.

73
Disponível em:< http://thecommonwealth.org/>. Acesso em: 24 jun. 2017.
74
Disponível em:< https://www.francophonie.org/>. Acesso em: 24 jun. 2017.
58

Esta perspectiva seria, inclusive, estrutural, pois a viabilidade da própria CPLP


estaria em cheque. Pode não ser que isto seja de todo verdade, mas, de fato, pode-se
aventar que, certamente, os cidadãos dos países da organização não tenham noção do
projeto e das implicações que adviriam de sua aprovação, de maneira que estas discussões
se mantêm restritas aos altos círculos políticos e meios acadêmicos.
Enfim, o fato é que as hipóteses sugeridas aqui como responsáveis pela mora na
aprovação do projeto, são brilhantemente resumidas por Santos (2004), para quem a
pouca experiência no desenvolvimento das potencialidades de uma multilateralidade
linguisticamente definida, em relação a qual se evidencia a ausência de uma percepção
comum trazida em coerências fundamentais, lógicas, de interesses partilhados e planos
estratégicos de ação coletiva consistentes.
A CPLP, ao que parece, carece de identificação, no sentido da materialização, em
termos de benefícios concretos, da cooperação proposta, tanto para os Estados quanto
para os povos lusófonos o que implica, portanto, na parca prioridade dada ao Projeto de
Convenção-Quadro relativo ao Estatuto do Cidadão da CPLP.
59

CONSIDERAÇÕES

O Projeto de Convenção-Quadro relativo ao Estatuto do Cidadão da CPLP é, de


fato, visionário pela amplitude de direitos e pela de livre-circulação que possibilita aos
nacionais dos Estados-membros da CPLP, mas ainda é uma quimera. Há de se consignar,
entretanto, que quatro países de língua oficial portuguesa (Brasil, Cabo Verde, Guiné-
Bissau e Moçambique) já dispõem de normas vigentes que implicam na concessão ampla
de direitos aos originários dos países de língua portuguesa.
A República Federativa do Brasil, em seu artigo 12, II, “a” da Constituição Federal
de 1988, por exemplo, privilegia claramente os estrangeiros provenientes da lusosfera ao
demandar-lhes apenas a capacidade civil, 01 (um) ano de residência ininterrupta e
idoneidade moral para que possam requerer a nacionalidade brasileira. Assim, permite-se
aos portugueses, cabo-verdianos, bissau-guineenses, são-tomenses, equato-guineenses,
angolanos, moçambicanos e timorenses a possibilidade de, querendo, tornarem-se
brasileiros via naturalização e, assim, usufruírem dos direitos e deveres previstos na lei
maior.
É preciso consignar que além desta possibilidade de aquisição da nacionalidade
brasileira aos originários dos países de língua portuguesa, a Constituição Federal de 1988,
em seu §1º do art. 12, permitiu aos portugueses (e somente a eles), com residência
permanente no Brasil e se houver reciprocidade em favor dos brasileiros 75, a atribuição
de direitos inerentes ao brasileiro. Trata-se da quase-nacionalidade, regulamentada pelo
Estatuto da Igualdade, vigente em ambos os países e incorporado no direito interno
brasileiro como o Decreto nº 3.927/2001.
Mas não há dúvidas no fato de que a ampliação de direitos ao estrangeiro, com
base na nacionalidade de origem e em função da língua mediante o exercício do direito
de nacionalidade, conferida a partir da ação soberana do Estado – possibilidade que
incide, em profundidade, na proposição de investigação deste trabalho de conclusão de
curso – já representa uma faceta singular e relevante de um projeto que se pretende
implementar em âmbito muito maior e mais visionário: a cidadania lusófona.
Não restam dúvidas que o posicionamento brasileiro reticente em relação à própria
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é um empecilho forte à concertação

75
Ela existe. Encontra-se vigente no Decreto nº 3.927, de 2001, que promulgou o Tratado de Cooperação,
Amizade e Consulta Brasil/Portugal.
60

diplomática desejada para a aprovação do projeto, situação que, associada aos problemas
estruturais existentes na maioria dos PALOP e no Timor-Leste, arrefece o esforço
português em relação a aprovação do Projeto de Convenção-Quadro relativo ao Estatuto
do Cidadão da CPLP.
Para que a cidadania lusófona, nos moldes preconizados pela CPLP, logre existir,
será necessária a convergência nas relações “triangulares” existentes na Comunidade.
Neste âmbito, caberá ao Brasil, especificamente, convencer-se de que a CPLP se
constitui, já, como uma organização com plena capacidade de propiciar a concertação
diplomática neste aspecto e que a extensão da cidadania aos nacionais dos países
lusófonas já uma realidade que aqui vigora – eis a contribuição do trabalho.
A adoção do projeto, em profundidade, beneficiaria aos próprios brasileiros, que
teriam a garantia da reciprocidade jurídica nos territórios da lusosfera: direitos civis e
políticos, mobilidade internacional, residência em espaços do mundo (Europa, África e
Ásia) no quais compartilhamos a mesma língua. Significaria um formidável e ambicioso
passo na extensão e cooperação de direitos aos nacionais dos Estados membros.
61

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Acesso em 17 jun. 2017.
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ANEXO
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ANEXO A – Projeto de Convenção-Quadro relativo ao Estatuto do Cidadão Lusófono


da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa

Artigo 1.º Cidadão da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa


1. Para efeitos da presente Convenção considera-se cidadão da CPLP o nacional de
qualquer Estado-Membro.
2. Os cidadãos da CPLP gozarão em qualquer dos Estados-Membros de igualdade de
direitos e deveres com os respectivos nacionais, nos termos dos artigos seguintes.
3. Exceptuam-se do regime de equiparação os direitos reservados, exclusivamente, pela
Constituição de cada um dos Estados-Membros, aos seus nacionais e os direitos inerentes
a processos de integração regional.
Artigo 2.º
1. Aos cidadãos da CPLP portadores de um título de residência emitido por um dos outros
Estados-Membros, será reconhecido Estatuto de Cidadão da CPLP pelas autoridades
competentes desse Estado.
2. O estatuto de cidadão da CPLP residente é igualmente reconhecido aos membros da
família dependentes do cidadão da CPLP que possuam a nacionalidade de um dos
Estados-Membros.
3. Aos cidadãos da CPLP residentes serão fornecidos, para uso interno, pelo Estado de
residência, documentos de identidade, com a menção da nacionalidade do portador. A
emissão do documento de identidade do cidadão lusófono será regulamentada pelos
Governos dos Estados-Membros.
4. O Estatuto de Cidadão da CPLP será retirado automaticamente quando o seu
beneficiário: a) Perder a qualidade de residente nos termos da lei; b) Perder ou renunciar
à nacionalidade de origem sem aquisição de qualquer outra das nacionalidades dos
restantes Estados-Membros.
Artigo 3.º Direitos Políticos O cidadão da CPLP, tal como definido no artigo 2.º da
presente Convenção, gozará de capacidade eleitoral activa e passiva e demais direitos
políticos, nos termos de acordo bilateral ou multilateral subscrito pelos respectivos
Estados-Membros, se for o caso, bem como o direito de exercer a actividade política
conexa com a sua capacidade eleitoral, em partido político nacional, do Estado em que
resida.
Artigo 4.º Protecção Diplomática e Consular Qualquer cidadão da CPLP pode beneficiar
do direito à protecção diplomática e consular de qualquer dos Estados-Membros, caso o
seu país não se encontre representado no território de um país terceiro, nos termos dos
Acordos Internacionais celebrados entre as partes.
Artigo 5.º Associações e Fundações É garantido ao cidadão da CPLP o reconhecimento
do direito de constituir associações e fundações, desde que cumpridas as disposições
legais vigentes no território de outro Estado-Membro.
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Artigo 6.º Direito à Propriedade


1. Ao cidadão da CPLP é garantido o direito à propriedade privada;
2. Qualquer expropriação [privação de propriedade] só poderá ser efectivada com base na
lei, mediante o pagamento de justa compensação [indemnização], garantindo-se o direito
de acesso aos tribunais em caso de litígio.
Artigo 7.º Protecção do Investimento O cidadão da CPLP goza, no território de qualquer
um dos Estados-Membros, dos mesmos direitos e garantias concedidos ao investidor
nacional, estando também sujeito às mesmas obrigações, observados os dispositivos
constitucionais dos Estados-Membros e nos termos dos Acordos Internacionais em vigor.
Artigo 8.º Igualdade de Tratamento Fiscal O cidadão da CPLP goza da igualdade de
tratamento fiscal com os nacionais do Estado-Membro onde reside e beneficiará, nesse
Estado, de isenção ou redução de taxas, impostos, emolumentos e quaisquer outras
receitas tributárias, nos mesmos termos e condições que o cidadão nacional.
Artigo 9.º. Direitos Sociais, Económicos e Culturais
1. Os cidadãos da CPLP de cada um dos Estados-Membros beneficiarão, no território de
outros Estados-Membros de igualdade de tratamento com os respectivos nacionais desta,
no que se refere a:
a) exercício de direitos culturais, religiosos e sociais;
b) gozo e exercício dos direitos civis;
c) aplicação da legislação sobre trabalho e segurança social.
2. Para além dos Direitos consagrados no número anterior os cidadãos da CPLP, de cada
um dos Estados-Membros, beneficiarão, no território do outro, em igualdade de
tratamento com os respectivos nacionais, de:
a) exercício de direitos económicos e profissionais;
b) possibilidade de instalar e exercer qualquer actividade de carácter industrial,
comercial, agrícola ou artesanal;
c) exercício de qualquer profissão liberal, em termos a acordar entre os Estados
Membros;
d) reconhecimento de diplomas académicos, em termos a acordar entre os Estados-
Membros;
e) faculdade de obter e gerir concessões, autorizações e licenças administrativas.
Artigo 10.º Actividade profissional O cidadão da CPLP beneficia, no exercício da sua
actividade profissional, de condições de trabalho idênticas às dos nacionais do Estado de
residência.
Artigo 11.º Funções Públicas Observados os dispositivos constitucionais e legais dos
Estados-Membros, o beneficiário do Estatuto de Cidadão da CPLP gozará do direito de
acesso a funções públicas no Estado da sua residência.
Artigo 12.º Prestações Sociais Os cidadãos da CPLP, de cada um dos Estados-Membros,
terão acesso, no território do outro, em igualdade de tratamento com os respectivos
nacionais:
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a) à saúde
b) à educação
c) ao direito e aos tribunais.
Artigo 13.º Pensões, Subvenções e Rendimentos Ao cidadão da CPLP é garantido, nos
termos da legislação aplicável, designadamente nos termos de Convenções Multilaterais
celebradas no âmbito da CPLP e dos Acordos e/ou Protocolos Bilaterais existentes ou que
venham a ser celebrados, e de acordo com os princípios da igualdade de tratamento e do
pagamento extraterritorial de 11 pensões, o direito de continuar a receber no território de
qualquer Estado-Membro em que passe a residir quaisquer pensões, subvenções ou
rendimentos constituídos no território de um dos Estados-Membros, com excepção das
pensões sociais que tenham natureza não-contributiva.
Artigo 14.º Lei penal. Os cidadãos da CPLP estão sujeitos à lei penal do Estado de
residência.
Artigo 15.º Circulação de Pessoas Os Estados-Membros, com observância das
respectivas legislações internas e ainda dos Acordos respeitantes às organizações e aos
Agrupamentos Regionais em que se inserem, adoptarão por Convenção Multilateral
celebrada no âmbito da CPLP ou ainda por Acordo Bilateral, as medidas tendentes a
facilitar a circulação dos cidadãos entre si.
Artigo 16.º Tratamento Mais favorável Os Estados-Membros poderão conceder, a título
unilateral ou por força de obrigações emergentes do direito internacional, que tenham por
base instrumentos existentes ou que venham a ser celebrados entre Estados-Membros, e
de acordo com os respectivos ordenamentos jurídicos nacionais, um tratamento mais
favorável aos cidadãos da CPLP do que o previsto na presente Convenção.
Artigo 17.º Depositário
1. Os instrumentos de ratificação serão depositados junto do Secretariado Executivo da
CPLP.
2. O Secretariado Executivo da CPLP notificará os Estados-Membros do depósito
daqueles instrumentos.
Artigo 18.º Entrada em vigor
1. A presente Convenção entrará em vigor no primeiro dia do mês seguinte ao do último
depósito do instrumento de ratificação junto do Secretariado Executivo da CPLP.
2. Até à entrada em vigor da presente Convenção, qualquer Estado-Membro pode, ao
proceder ao depósito do instrumento de ratificação, ou em qualquer outro momento,
declarar que a presente Convenção lhe é aplicável nas relações com os Estados Membros
que tiverem feito a mesma declaração. Essas declarações produzirão efeitos 90 dias a
contar da data do seu depósito.
Artigo 19.º O presente Acordo está aberto à adesão de Estados que venham a obter o
estatuto de Estado-Membro da CPLP.
Artigo 20.º O texto original da presente Convenção será depositado na Sede da CPLP,
junto do seu Secretariado Executivo, que enviará cópias autenticadas do mesmo aos
Estados Membros.
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