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Revista Espaço Acadêmico, nº 97, junho de 2009

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A meta-história de Hayden White: uma crítica construtiva à
“ciência” histórica1
Paul Sutermeister*

O homem é a medida de todas as coisas.
Protágoras

Faz algumas décadas que o historiador norte-americano Hayden White2 propôs uma
teoria meta-histórica através da teoria literária. Considerando a historiografia como
narrativa, ele começou a desafiar construtivamente os historiadores, sua consciência e
sua prática. O debate já tem aproximadamente trinta anos, mas vale a pena lembrá-lo,
pois serve também para outros campos de conhecimento (veja metageografia3).
Os argumentos apresentados são baseados em textos-chave de White (especialmente a
Meta-história (1995)) por um lado e, por outro, numa seleção de literatura secundária;
tentamos captar o mais essencial da problemática. Consideramos quatro partes: 1) as
origens e o conteúdo da teoria de White, 2) como White critica outros historiadores, 3)
como White é criticado por outros historiadores e 4) porque a teoria de White representa
uma abordagem construtiva para historiografia.
1) A obra principal de Hayden White é intitulada Meta-história, conceito que significa
“estudo referente à história enquanto historiografia; por exemplo, o estudo da
linguagem, ou linguagens, da historiografia”4. Nessa obra, White diz que todo trabalho
histórico utiliza como “veículo” a narrativa, ou seja, utiliza uma representação ordenada
e coerente de eventos/acontecimentos em tempo seqüencial. Ele conclui que toda
explanação histórica é retórica e poética por natureza (WHITE, 1995, p. 11).
Para chegar a essa conclusão, White analisa quatro historiadores, Jules Michelet,
Leopold von Ranke, Alexis de Tocqueville, e Jacob Burckhardt, e quatro filósofos da
história, G. W. F. Hegel, Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Benedetto Croce. Nesses
autores ele identifica quatro estilos retóricos – tropos – considerados como estratégias
poéticas que os historiadores usam para construir seus textos: metáfora, metonímia,
sinédoque e ironia. Ele também identifica quatro gêneros literários pelos quais os
historiadores entendiam o processo histórico em seus trabalhos: estória romanesca,
tragédia, comédia e sátira. White chama esses gêneros literários de emplotment

1 Este artigo é parcialmente traduzido de meu artigo “Hayden White, history as narrative: a constructive
approach to historiography”, disponível em: http://www.grin.com/e-book/109135/hayden-white-history-
as-narrative-a-constructive-approach-to-historiography [acesso em: 31 março 2008]
* Mestrando em Geografia Humana na Universidade de São Paulo. Licenciado em Relações
Internacionais pela Universidade de Genebra (Suíça).
2 Hayden White é professor emérito de história da consciência da Universidade de Califórnia, Santa Cruz
(Estados Unidos).
3 Falamos de metageografia “ao tomar a própria produção teórica da geografia acadêmica como objeto
de sua análise e interpretação”. MORAES, A. C. R. Território e história no Brasil. São Paulo:
Hucitec/Annablume, 2002. p. 14.
4 Definição de FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia, tomo III (K-P), São Paulo: Edições
Loyola, 2001, p.1956.

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p. 1999. p. White chama de não-disconfirmabilidade (nondisconfirmability) o fato de que todas narrativas históricas serem igualmente plausíveis. como Geschichte é igual à Geschichte. O historiador Gilderhus (2000. uma concepção de linguagem emergiu como sistema independente de sinais e símbolos. 2) A obra de White contém uma crítica radical à historiografia e à consciência dos historiadores. Em trabalhos subseqüentes de Foucault. ele questiona a veracidade da historiografia (GILDERHUS. e seus pensamentos e percepções estão condicionados pelas categorias de linguagem nas quais ele opera”. 2). precisa-se necessariamente de passos “imaginativos” para colocar esses “fatos” em uma história coerente (IGGERS. p. 1999. p. Como ele diz. 134-135) situa White na linha dos seguintes autores: Nietzsche. 29). metafóricas e ideológicas que os 44 . ou seja. nº 97. 2003. p. Assim. seus conteúdos seriam tanto inventados quanto comprovados. 130).uem. Barthes. que “rejeitou a história como uma forma de conhecimento argumentando que não poderiam existir relatos objetivamente verificáveis independentemente das parcialidades e inclinações do historiador”. e histoire é igual à histoire. p. Revista Espaço Acadêmico. os trabalhos históricos conduziriam o leitor suavemente mas diretamente à conclusão que o autor tem em mente (MANNING. junho de 2009 http://periodicos. p. 2004. 111). Lévi-Strauss que “remeteu em questão as reivindicações que a racionalidade científica ocidental possuiria alguma superioridade intrínseca sobre formas míticas do pensamento”. p. ou igualmente falsas (FULBROOK. Wilson (1999. As narrativas históricas seriam ficções verbais. Sua concepção de obras históricas como “artifícios” literários funde a distinção entre história e “estória”. 111). p. Derrida. 114) supõe que a distinção entre history e story tem mais a ver com as características da língua inglesa do que com uma descrição precisa de diferenças últimas entre história e narrativa. 1997. que o passado histórico foi um meio. tendência nas ciências humanas que dá prioridade à linguagem. seguindo a teoria de ficções de Northrop Frye (THOMPSON. e elas teriam mais em comum com suas contrapartidas da literatura do que com ciência. 2000. Desta maneira. enquanto as narrativas históricas vêm de fatos ou eventos empiricamente válidos. nós temos que levar em conta as estratégias retóricas. p. que se referem não a algo externo mas somente a si mesmos. Gilderhus (2000. Saussure que observou que “a linguagem molda imagens da realidade mas não se refere a essa”. White diz que a ciência histórica falha se sua intenção for a reconstrução objetiva do passado. 134-135) cita Iggers: “o historiador sempre está preso ao mundo dentro do qual ele se pensa. A obra de White contextua-se no linguistic turn (WILSON. Comparavelmente às boas narrativas. 309).br/ojs/index.php/EspacoAcademico/index (“elaboração de enredo”. estimulou a “historiografia pós- modernista” que é crítica relativo à “verdade científica”. de Man. 1995. 12). No caso do inglês. as narrativas também somente representam uma seleção de eventos históricos. 2003. mas não a mensagem do trabalho histórico (MANNING. e Hayden White. Essa dicotomia entre história enquanto relato sobre o passado e história enquanto ficção não existe na maioria das outras línguas européias. p. 130). White argumenta que os quatro historiadores analisados por ele tinham outras mensagens por detrás das narrativas que eles queriam comunicar. WHITE. p. storia é igual à storia. 2002. pois o processo envolvido é um processo literário da narrativa interpretativa. 310). e não se trata estritamente de empirismo objetivo ou de teorização social. Seu conceito de história-narrativa põe em questão as pretensões de verdade e a objetividade do trabalho dos historiadores (WILSON.

22-23). 26: the concept of history as narrative has a status of a “theology with no foundation” beyond the indisputable “gospels” of White and other “prophets”). 94-95). 3) Os historiadores oferecem. nº 97. O trabalho dos historiadores evidenciaria o passado de maneira abrangente e tentaria estabelecer uma interpretação do passado que serviria a outras ciências humanas. necessariamente influenciadas pelo narrador: circunstâncias políticas. p. THOMPSON. as condições e as mentalidades estudadas (THOMPSON. “desconhecendo o significado do conteúdo do trabalho de um historiador” (“downplaying the significance of the content of the historian’s work”. Além disso. além das indiscutíveis “posições” de White e outros “profetas” (THOMPSON. 1998. enquanto fragmentos do passado podem ser verdadeiras. 2002. p. 1986. junho de 2009 http://periodicos. também é controversa (THOMPSON. 59): os argumentos de White parecem construídos arbitrariamente. 10). com uma noção de verdade (IGGERS. p. 1997. por exemplo. A identificação de somente quatro gêneros literários. p. classe social. é um dos oponentes principais de White.uem. 1997. mas são dominadas por suposições do historiador sobre as forças que influenciam a natureza da causalidade. 73). contexto histórico no qual o historiador vive. 62). p. todos da tradição literária ocidental. como mais “esclarecida” (“enlightened”). narração é a única representação realista do passado (BENTLEY. de um cauteloso cuidado para evitar a falsificação. Críticas conceituais alegam que a teoria de White não tem nada para oferecer aos historiadores e visaria somente a prejudicar a historiografia tradicional. 1997. p. e quatro estilos retóricos básicos. O trabalho trazeria à tona as épocas. p. 2002. 2004.br/ojs/index. as seguintes críticas à teoria de Hayden White: A argumentação de White é considerada como formalista demais. 2004. 49). a narrativa como uma coleção ordenada desses fragmentos é mais que sua soma (MUNSLOW. Revista Espaço Acadêmico. p. p. raça. 2004. p.. sexo etc. operando. White foi criticado por basear seus argumentos só em trabalhos históricos do século XIX. conhecimento e questões que são preexistentes e coletivamente desenvolvidas (FULBROOK. eles operariam dentro de sistemas de hipóteses. As críticas dizem que. de maneira geral. 2004. não incluindo a história contemporânea que poderia ser considerada como renovada. As narrativas são subjetivas. historiador italiano conhecido pelos seus estudos micro- históricos. O fato de que a realidade histórica seja acessível somente através da língua não deveria permitir afirmar que nós somente teríamos que estudar a linguagem (NOIRIEL. 5). 1997. p. Os críticos de White defendem o valor do trabalho histórico: o trabalho depende de uma dura pesquisa arquivística. Carlo Ginzburg (1999. 67).php/EspacoAcademico/index historiadores empregam para explicar o passado (MUNSLOW. porque historiadores são seres humanos (FULBROOK. sua localização / perspectiva geográfica / região. A observação de Thompson mostra a irritação de alguns historiadores. Thompson comenta que o conceito de história-narrativa tem um status de uma “teologia com nenhuma fundamentação”. As narrativas explicam porque os eventos aconteceram. Os historiadores não inventariam nada. p. a criatividade e a imaginação entrariam inevitavelmente no trabalho histórico. Como dizem os historiadores. repreende White por ignorar os Annales. p. 2004. Carrard (1998. 9). 130). dada a natureza do tempo (CARR. p. p. Então. e que o pensamento de White emergiu e teve seu sucesso durante a “náusea da ressaca de 1968” (“nausea of the 1968 hangover” THOMPSON. cultura. 124-125). assim. Ele o responsabiliza por eliminar o 45 . 140). 855).

2002. Querendo parecer científica e objetiva. por um lado. p. FULBROOK. Segundo Ginzburg. O objetivo de White é.e ignorando outros . fenômeno que “envergonha” os historiadores. preferindo alguns exemplos “representativos” de fenômenos no passado . p. 46 . admitindo que a narrativa continua sendo a manifestação principal da historiografia. teríamos que dizer que não há conexões reais entre coisas diferentes que aconteceram no passado. 2003. junho de 2009 http://periodicos. 4) Argumentamos que White pretendeu salvar a ciência histórica de uma crise mais geral (SOUTHGATE. ele não sai do dilema entre ciência e retórica. como ele mesmo diz. p. nº 97. p. White teria contribuído para que a ciência histórica deixaria de servir a elites brancas masculinas de origem européia (depois de White.21) de querer alcançar resultados significativos às expensas de rigorosidade científica. p. 1979). Talvez exagerando a importância de White poder-se-ia dizer que. cada uma tentando de aumentar a credibilidade da “ciência” histórica: neo-marxismo. Ginzburg admite também que existe a “armadilha historiográfica” (STONE. “resgatar” (“rescue”) a história. Annales e cliometria (como descrito por STONE. Mas mesmo um micro-historiador como ele é seletivo. historiadores que temem questões epistemológicas profundas e outros que não temem essas questões. 1979.a fim de criar seu argumento próprio. questões que todos os historiadores devem encarar (FULBROOK. como revela bem o livro Hayden White. por negar verdades universais. a história teve “represada e negada para si mesma sua fonte maior de força e renovação” (citando WHITE. p. seguindo o raciocínio de Ginzburg. Por exemplo. 55: history had “repressed and denied to itself its greatest source of strength and renewal”). 136). 2002. Revista Espaço Acadêmico. o que significa analisar fenômenos numa escala de observação muito reduzida. 17). Carlo Ginzburg e o problema da linguagem na historiografia (que ainda não foi traduzido ao português) no qual o historiador austríaco Alessandro Barberi (2000) analisa e desconstrói a oposição entre os dois historiadores. White estimulou o debate sobre a natureza do conhecimento histórico entre. por exemplo substituindo a narração pela quantificação. i). história “devoted exclusively to the activities of white male elites of European extraction is no longer the standard”) (GILDERHUS 2000. o mais exaustivo possível na exploração das fontes. p. Por exemplo. Se nós acreditássemos nisso.br/ojs/index. 2002. Ele criticou o “empirismo ingênuo” (“naïve empiricism”) e chamou a atenção para questões teóricas chaves sobre a verdade e a objetividade. que não haveria conexão alguma entre a nomeação de Hitler como Chanceler (Reichskanzler) da Alemanha em 1933.5-6). e o Holocausto de 1941-5 (FULBROOK.uem. crise que se reflete nas correntes contraditórias que surgiram ao longo do século XX. 1979. 134). 2000. mas que isso implica reconhecer o problema da cientifidade (problema adequadamente descrito por STONE.php/EspacoAcademico/index pressuposto da verdade da pesquisa como principal tarefa do historiador (mas ele reconhece no mesmo contexto que o debate sobre a verdade é a questão intelectual mais importante). o relativismo de White seria tão perigoso que poderia ser até mesmo responsável pelo revisionismo “negacionista”. seria possível concluir que as relações entre acontecimentos históricos existem somente na mente do historiador. Afinal. White criticaria o racionalismo ocidental percebido muitas vezes como justificativa para o uso e abuso de poder e autoridade (GILDERHUS. p. Ginzburg nos oferece o “método” micro-histórico. 66) – uma conclusão perversa.

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