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Govinda

Lilamrita
ASHTA KALA VRAJA-LILA
PARTE UM

SHRILA KRISHNA Dasa Kaviraja

Tradução e comentário por Gadadhar Pran das


(discípulo de Shrila Lalita Prasada )
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Prelúdio
Em primeiro lugar temos de nos situar como seguidores de Cheitanya Mahaprabhu, ou seja,
Cheitanyaita ou Gouria mais precisamente na linha de Rupa Gosvami.
Há uma clara distinção do Vaishnavismo Gaudiya antes e após Bhaktisiddhanta no que se
refere a metodologia . Bhaktivinodha Thakura explicita em suas obras o ekadas bhava como
primordial já na iniciação Raganuga onde se abre as portas para o lila ao sadhaka, esse tipo de
bhajana foi praticado e aprovado por ele ou seja , o lila smarana ou preces ardorosas(em manjari-
bhava) pode e deve ser praticado antes de se alcançar o estágio de bhava, mais ainda, é
exatamente a prática disso que vai levar o sadhaka a chegar a bhava.
No ocidente a Iskcon e a Gaudiya Math diferentemente de todos os parivaras na
sampradaya de Cheitanya procrastinam o ekadas bhava ou siddha pranali para um estágio final
das práticas, o que era dado já na iniciação passou a ser assunto praticamente proibido, já na
iniciação eram dadas as chaves para adentrar no mundo interno eterno do lila. E por que alguém
não o faria?
É obvio que ao se fechar e travar as portas dos humores internos dos Vaishnavas obrigou os
devotos a voltarem sua atenção integral para algo externo(uma vez que no Ocidente não há
mundo interno) ou seja, os devotos ocidentais passaram a acreditar que religião é publicar livros,
comprar terras, entrar na sociedade laica, ganhar dinheiro, se envolver em ações judiciais, abrir
templos, fazer bhaktas e vender livros. Quanto mais livros vendia , mais elevado era considerado
o devoto e outros grandes absurdos. Assim chegou o Vaishnavismo ao Ocidente através da
Iskcon, como feirantes fazendo barulho para chamar a atenção dos fregueses. Há algo de
positivo, é claro, que é para que no futuro esses devotos atraídos pelos feirantes se voltem para a
dimensão interna do Cheitanya Vaishnavismo. É uma transição que se precisa fazer. Porém não é
para todos, é para rarissímas pessoas, a esmagadora maioria deverá ainda permanecer por
algumas vidas na vida religiosa externa , ou seja, trancafiados do lado de fora do verdadeiro
Vaishnavismo, vivendo a dimensão externa para que o processo de bater latas prossiga.
Porém, quer se adote um método ou outro, adoção esta feita pelo sadhaka com base no
que sente como mais confortável e produtivo no seu bhajana pessoal, o resultado final será o
mesmo. É apenas questão de ordem dos fatores e algumas vidas a mais no processo.
A decisão de cada um dos praticantes é se tem ou não o direito de tentar praticar manjari
bhava, de voar tão alto quanto possa. Este processo não é secreto, todos os acharyas do
passado falaram sobre ele, e se prática enquanto se canta a japa, ou seja, ao mesmo tempo,
canta Hare Krishna e se medita. Enfim , se com isso se traz um progresso verdadeiro, qual o
problema? Se o sadhaka se acha desconfortável nessa meditação, sem problema , não faça.
Porém, jamais se pode impingir tal entendimento aos demais, isso é questão pessoal ( o que
se deve ou não fazer espiritualmente) ninguém pode invadir esse reino sagrado onde impera
supremo o cheitya Guru . Evidente que todos nós temos bom senso e ninguém jamais daria
siddha pranali a um devoto recém chegado, porém após o devido tempo de apreensão da
Verdade Absoluta no seu aspecto de poder e majestade (aishavarya) com uma forte
compreensão básica filosófica , a doçura (madhurya – Raganuga bhakti) deve se impor como
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compulsória e a questão interna do ekadas bhava é questão de necessidade interna de cada um,
porém não se pode esconder a verdade sobre o caminho esotérico interno e sua necessidade.
Evidente que não estamos advogando que um caminho seja correto e o outro incorreto, é
questão de foro intimo, e de se deixar aberto e livre todos degraus da religião Vaishnavas, tanto
exotérico quanto o esotérico, e cada um se encaixe segundo seu desenvolvimento e impressões
das vidas passadas(samskaras ) pois, ninguém pode proibir o coração de amar.
Somos contrários sim a camisa de força espiritual na dimensão do Cheitya Guru onde
mesmo a manifestação externa do Guru deve respeito e acatamento, ou seja, que cada devoto
possa decidir se quer ficar nesta vida trabalhando na parte externa(templos, fazer bhaktas,
publicações, dinheiro, sociedade) ou a parte interna(lila smarana, siddha pranali) . Essa decisão é
individual e deve ser oferecida ao devoto com clareza, embora de antemão saibamos que a
minoria vai se voltar para o trabalho interno ou lila smarana.
O lila Smarana, os sonhos e a visão espontânea são tipos diferentes de união com Krishna .
Evidente que tudo isso não é a união ‘física’, direta e concreta perseguida pelos sadhakas.
O lila Smarana e a prece são no final das contas uma e a mesma coisa e se trata de uma
extática experiência genuína de Krishna . O que ocorre em Raganuga ou mais precisamente em
Rupanuga é que essas experiências do sadhaka são temporárias e portanto assoladas de
separação. Os sadhakas se empenham na prática de lembranças dos lilas e nessas lembranças
ele ora para obter o tema do Smarana, desse modo, Smarana , a prece pelo serviço e a entrada
no lila não apresentam diferença prática. O que ocorre em quem prática logo se dá conta disso é
que na meditação o estado de consciência de realmente se encontrar no lila é muito transitório,
quase um vislumbre fugaz . Assim a constante é o estado de separação durante a meditação ,
porém , a medida que se avança na prática o sentimento e percepção de se estar no lila
aumenta , porém enquanto estivermos neste mundo material haverá interrupções da lembrança
ou meditação seja por nossa própria fraqueza nos estágios primários ou pela vontade de Krishna
para fortalecer nosso próprio desejo nos estágios superiores.
Evidente que nada em Raganuga é dogmático e não existe procedimentos fixos, assim tudo
que se dá aqui são indicações dos mestres do passado.
O sadhaka vai aprendendo a ir seguir atrás de sua meditação onde ela for, de um modo
muito natural, enquanto ao mesmo tempo se canta Hare Krishna , não existe regras e disciplinas
na meditação, ela deve ser natural, livre e não algo imposto. Não existe aqui a instrução final,
cada um vai descobrir seu próprio caminho, só temos a indicação e o resultado será a realização
de cada devoto em seu próprio bhajana. Só estamos recebendo a semente, a idéia sobre a
necessidade de se entrar na meditação e as indicações de como fazê-lo, é apenas um caminho
para a mente focalizar no serviço seja no Goura lila ou no Radha Krishna lila, pois bhakti tem seu
próprio caminho e modo de agir. É claro que a meditação inicial não é uma realidade
transcendental, porém é uma aspiração , um ideal, um desejo veemente que se torna realidade
por ser a realidade do Guru, daí a necessidade de um Guru elevado.
Assim o que se decide é se realmente queremos adentrar nessa dimensão(Goura e Radha
Krishna lilas), isso resolvido vamos orar “quando o dia chegará que estarei lá” e ao fazer isso
realmente imaginarmo-nos lá fazendo algum seva (lila smarana) em um “corpo aspirativo” ou
corpo que se deseja ter, é claro que esse corpo ainda não existe na realidade transcendental,
para entender se dá o exemplo de duas meninas brincando de casinha fazendo de conta que
estão casando dois bonecos e no casamento de brincadeira fazem comidinha para a festa
imaginária. Embora seja o uso da imaginação do casamento, essas coisas todas existem num
plano da realidade substancial, assim o que as meninas estão fazendo de fato é se prepararem
para algo real, preparando suas mentes e corações para a coisa real, acostumando-se com as
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idéias que envolvem toda a situação, assim há um elemento de realidade em tudo isso. Por isso,
se diz na cultura cristã que devemos voltar a ser crianças, pois a dificuldade é que os devotos
estão com suas mentes enraizadas na própria concepção corpórea conectados com essa
realidade mundana (tenho que ganhar dinheiro para comer), por isso é difícil se dar o primeiro
passo na tentativa de se desconectar desta realidade(jagat) da matéria que estamos vivenciando
e irmos para outra realidade transcendental, chamada Vraja. Phanindra Mohan das
OS MÉTODOS PRINCIPAIS
Há dois processo para a prática de lila-Smarana –
Mantramayi – O devoto iniciado tem que se ocupar na lembrança de seu
mantra três vezes ao dia, ou seja , o mantra de dezoito sílabas, klim krsnaya
govindaya gopijana-vallabhaya svaha, que é o mantra mais importante junto com o
maha-mantra para o lila smarana. Também se ocupa na adoração da Deidade , etc.. –
Parte desse processo se chama bhuta-suddhi, cujo principal significado é LEMBRAR
DE SEU CORPO ESPIRITUAL. O dhyana ou meditação é feita com base em vários
livros como o Vrindavana-mahimamrita, e outros. bhuta-suddhi significa um ritual
purificatório antes da adoração da deidade. Essa purificação é basicamente a
mudança de identidade adequada para o serviço direto, em outras palavras, o siddha
deha correto
Bhuta-suddhi (purificação da entidade viva)- extraído do livro archana
padhati esse verso está em Dasa bhava portanto no estágio preliminar.
O devoto deve meditar em sua posição cantando o mantra:

naham vipro na ca nara-patir napi vaisyo na sudro


naham varni na ca grha-patir na vanastho yatir va
kintu prodyan nikhila paramananda-purnamrtabdher
gopi-bhartuh pada-kamalayor dasa-dasanudasa

"Não sou nem brâmane, kshatrya, vaishya , nem shudra. Tampouco


pertenço aos ashramas de brahmachari, grihastha, vanaprasta ou sannyasa. Em um
exame minucioso posso ver que nada sou mais que um escravo do escravo do escravo
da poeira dos pés de lótus do oceano de nectar auto manifestado da benção mais
elevada que emana do Senhor das Gopis, Shri Krishna .” (Padyavali 74).
Para uma meditação mais dirigida a gopi-bhava, recomenda-se
contemplar os versos no Paddhati de Dhyanachandra Gosvami que tratam do siddha
deha.
1) Existem dhyana-mantras que auxiliam nessa fase, esses versos podem ser
encontrados também no Radha-rasa-sudha-nidhi, e muitos outros livros.
Deve-se dar a partir daí asas à imaginação ativa. Nisso, medita-se nos vários serviços à deidade
como se estivessem sendo executado diretamente em Goloka Vrindavana. Essas são as mais
importantes considerações para os iniciantes.
2) Astakaliya-smarana. Nesse processo as pessoas se dedicam tempo integral
ao lila-Smarana, então elas memorizam livros como o Govinda Lilamrita e o Krishna Bhavanamrita
e outros. Pela madrugada o lila é muito doce e pode-se começar por aí. Deve-se incorporar a
adoração à Deidade ao Astakaliya-smarana do praticante. Caso o praticante tenha uma deidade
em casa deve fazer a programação para seguir as descrições das atividades de Krishna conforme
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expostas no Govinda Lilamrita.. Por exemplo, ao acordar a deidade na manhã, utilizam-se dos
versos do Govinda-Lilamrita e Krsna-bhavanamrita. As canções devem refletir o lila, como no
bhoga arati de Bhaktivinoda Thakura. O usual Gurvastakam (Samsara dava...) deve ser cantando
por todos os devotos ao acordar, mas não se destina ao mangala-arati.
Para os devotos muito avançados no processo, o Smarana se torna svarasiki ou
espontâneo. Aqui não há metodologias , tudo depende da doce vontade do Supremo.
Evidentemente, para os recém chegados o primeiro passo é ouvir e ler sobre
Nama, Rupa , Guna e Lila de Shri Shri Gouranga e Radha-Krishna e se lembrar dEles.
Durante o cantar do Hare Krishna –mantra japa passa-se a desenvolver a
meditação interna. Assim o sadhaka começa com Nama, depois medita nas formas de Shri
Shri Radha –Krishna , depois medita nas qualidades do Casal Divino e finalmente passa-se a
meditar no Lila, Seus doces passatempos enquanto se canta o Maha-mantra.
Se há o desejo então o devoto está qualificado para executar Manjari-bhava
raganuga-sadhana.. É óbvio que antes desse estágio há a necessidade do sadhaka estar
familiarizado com o humor das manjaris, que tipo de seva elas executam, qual o nome delas,
roupas, idade, etc. Se não se fizer isso não há sentido para o próprio termo Raganuga que
significa seguir o humor, o seva delas. Todos os detalhes são fornecidos no livro de Kunja
bihari das babaji chamdo Manjari Svarupa Nirupana, já traduzido ao português
Assim resumidamente podemos sistematizar o método inicial:
1. Estudar livros voltados ao lila-Smarana como o Govinda-Lilamrita, Vilapa-
kusumanjali, Shri Cheitanya-charitamrita, Krishna Bhavanamrita, para conhecer Nome, formas,
qualidades e passatempos de Radha-Krishna. Recomenda-se ler ao menos uma hora todos os
dias.
2. Cantar Harinama Maha-mantra, enquanto se medita nos mencionados Nama,
Rupa, Guna e Lila.
3. Das práticas acima brota o desejo (lobha-laulyam-lalasa) de servir Radha
Krishna em manjari siddha deha. A partir daí começa o Manjari-bhava raganuga-sadhana.
4. Detalhes mais específicos sobre o manjari-siddhadeha de cada devoto , bem
como o mantra-diksha será dado pelo Guru do mais alto nível, pertencente a um manjari-
parampara. Daremos mais a frente os detalhes e o amparo das escrituras.

Guru TATTVA

Guru-tattva está constantemente se manifestando neste mundo e está no levando


por entre a correnteza dos pensamentos Vaishnavas segundo nossa natureza.
Todos nós temos que nos conscientizar que não existe um ponto final na apreensão
espiritual, jamais vai acontecer de um dia chegarmos a perfeição neste mundo, nós
permaneceremos como indivíduos com livre arbítrio até a hora final neste planeta. Assim, se este
livro chegou às suas mãos é porque Guru-tattva está se manifestando em sua vida.
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Por isso é necessário desde já compreendermos o que vem a ser Guru.


O Guru é, antes de tudo, aquele que nos dá humildade. Ele é quem ao entrarmos
em sua esfera sentimos e vemos que existe uma verdade divina. Essa visão pode ser
momentânea – uma experiência transcendental . Tal Guru pode abrir apenas uma janela ou a
porta para a luz espiritual, mas é essa pessoa que devemos considerar Guru. E terminantemente
nos afastarmos se detectarmos apenas intelecto, sem o necessário sentir do amor fluindo do
Guru.
A partir disso, o Guru se manifesta em diferentes formas.

“na hy ekasmad guror jñanam susthiram syat supuskalam


brahmaikam advitiyam vai giyate bahudharsibhih
Bhagavata Purana 11.9.31.
“O conhecimento claro e firme não pode ser obtido de um mestre apenas. A verdade
suprema é una e indivisível, contudo é descrita pelos videntes em diversas formas.”
Quando as escrituras dizem que o objetivo da vida espiritual é o Guru, isso é o
mesmo que dizer que no momento adequado teremos que estar aptos para ouvir e responder ao
Guru.
Enfim, o Guru é Krishna , externamente manifesto como o preceptor e internamente
como a inteligência superior e intuição.
Sem dúvida , nós temos um svadharma (ou svadharmas – alguns são afortunados e
podem lidar com mais de um) ou o caminho espiritual pessoal. Para estabelecer os limites de
nosso svadharma, precisamos de um mestre espiritual, um preceptor, que nos auxilia nessa
tarefa.
Porém, não nos iludamos, há limites ao que qualquer mestre espiritual, de qualquer
categoria pode fazer por nós.
No final das contas, como indivíduos que somos e que devemos continuar sendo,
teremos que tomar nossas próprias decisões, em outras palavras, temos que aprender a ouvir a
voz do cheitya-Guru.
No decorrer de nossa vida espiritual muitos fatos abalam nossa fé, somos pisados,
humilhados, espoliados por homens da estrada mas não do caminho, por isso nossa fé depende
sempre mais da Graça .
Temos que ver que os gurus estão em toda parte, em especial nos estágios infantis.
Porém , seus ensinamentos são eternos, não podem ser apagados.
Por exemplo, o que nossos pais deixaram para nós , mesmo se quiséssemos não
poderíamos simplesmente deixá-los, abandoná-los, isso faz de nossos pais nossos gurus eternos.
Os pais fazem o papel de Krishna para os filhos, eles foram Krishna para nós . Nós podemos até
mesmo rejeitar alguns aspectos do que eles nos ensinaram, porém é fato eterno que a vida de
todos nós vem por intermédio deles, você terá que ser grato a eles eternamente, senão correrá o
risco de cometer Guru-avajna aparadha.
O mesmo que se aplica a nossos pais, se aplica ao Guru, pois é ele que dá
nascimento espiritual a nós.
Todavia, o êxito da missão do Guru é medido em como os frutos de sua instrução
estão chegando ao coração do seu discípulo, assim, um Guru cujos discípulos sejam caídos,
falhou na sua missão.
O objetivo do discípulo não é ser um clone de seu Guru, pois, esse não é o objetivo
da vida espiritual, mesmo porque seria algo impossível, mesmo que pronunciemos as mesmas
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palavras, com o mesmo modo de falar, mesma cadência, ao final, nós somos todos almas
individuais, diferentes de todas as outras almas individuais.
Temos de entender que o papel do preceptor , do mestre , no que ele realmente
pode nos ajudar, é circunscrever certos limites, mostrar técnicas, e se ele for auto-realizado pode
dar shakti para o discípulo progredir ainda mais, mas tudo ao final depende de nós mesmos etc.
O discípulo que anseia pode e deve ir de um preceptor a outro impelido pelo desejo
de aprender, como a abelha que busca o mel indo de uma flor a outra. Cada um tem de encontrar
o caminho mais simples para alcançar, pedindo esmolas, roubando, pedindo emprestado,
assaltando, o que for necessário, procura-se o caminho mais fácil para tornar o amor disponível –
ISSO É O QUE DEVE SER FEITO
Como Jiva Gosvami estabeleceu nos Sandarbhas, iniciação é de importância
secundária, porém não se pode considerar irrelevante.
É óbvio que é necessário um período para travar conhecimento com a pessoa que
você deseja aceitar como Guru. Isso é sábio, é necessário para que a relação tenha algum
significado tanto para o discípulo quanto para o iniciador.
Qualquer discípulo vai desejar que seu relacionamento com o Guru tenha algum
significado.
Porém, há que se ter clareza de que o Guru iniciador pode não ser o Guru mais
importante na vida do discípulo.
A iniciação poderá ser apenas uma relação formal, como geralmente ocorre, temos
que dar mais atenção ao diksha.
Nossa obrigação é avaliar cada ensinamento deixado por nossos pais ou do mesmo
modo, por nossos gurus em termos de tempo, lugar e circunstância.
Se adotamos o fundamentalismo puro, o menor desvio dos ensinamentos é
considerado algo muito maléfico, terrível, mas Shrila Prabhupada fez várias inovações, podemos
citar algumas: mulheres adorando a deidade, uso de harmônio, o canto de Hare Krishna inteiro ao
invés de metade de cada vez(como o adotado por Bhaktisiddhanta Sarasvati na Gaudiya Math),
porém podemos dizer que não se pode ser um Acharya a menos que estabeleça inovações.
Não se pode criticar esses inovadores, Shrila Prabhupada, Shrila Bhaktisiddhanta
Sarasvati que tomaram as medidas necessárias para a época que viveram (domínio britânico), no
entanto, pode-se e deve-se cada um de seus discípulos e discípulos de seus discípulos analisar
por si, todos os ensinamentos, há muitas coisas ambíguas e controvertidas que foram deixadas
para serem avaliadas pela circunstância de momento, por exemplo, poligamia, inferioridade da
mulher e muitos outros temas que devemos confiar em nossa inteligência, mais do que as coisas
que estão escritas nos livros .
Se lemos com atenção o que está nos livros de Shrila Prabhupada temos que em
cada declaração analisar seu valor relativo, tentando harmonizar falas contraditórias.
Esse é o procedimento de todas as religiões e escolas de pensamento, isso não é
novo, isso é chamado de INTERPRETAÇÃO DA TRADIÇÃO. E isso precisamos fazer para não
nos tornarmos FUNDAMENTALISTAS. Esse é um processo contínuo. Temos a cada momento
histórico que decidir o que é essencial e o que é periférico na experiência religiosa dos
Vaishnavas.
E concomitante, há uma contínua reinterpretação e mesmo rejeição de certos
ensinamentos em termos dos aspectos de essência/ relatividade .
Isso está acontecendo na consciência de Krishna . O resultado desse processo é a
formação de mais e mais grupos separatistas, uns mais liberais na interpretação e outros
totalmente fundamentalistas (ou adeptos da interpretação literal dos ensinamentos) , isso é
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normal e desejável, pois cada um dos devotos que chegam vão poder encontrar e se associar
com pessoas que tenham tendências semelhantes, gostos afins e adhikara compatíveis.
Quando saímos de nossas casas foi por termos nos abrigado no Santo Nome, agora
na busca do amadurecimento continuamos abrigados no Santo Nome, porém, se queremos sair
da estagnação espiritual e parar o processo de buscar prazer em outras coisas (maconha, o chá
de cipó-daime, dinheiro, fama, prestígio, adoração, viagens internacionais, intoxicação, mulheres,
doutorados) temos que nos ocupar em Smarana ativamente. Existe inúmeras evidências das
escrituras , porém , vamos citar apenas uma , daquele a quem todos seguimos, Rupa Gosvami e
é , sem dúvida, o mais importante sloka na fase da busca da maturidade-BRS 1.2.295: (CC
Madhya 22.158).
Evidente que existem diferentes tipos de Smarana, mas já desde a iniciação se deve
começar com o Smarana, a prática de Smarana é compulsória, necessária e imprescindível – ao
menos deve-se praticar o Smarana do yogapitha durante o canto do diksha mantra.
O Shastra nos adverte que “DEVO BHUTVA DEVAM PUJAYET” deve-se ser um
deus para adorar os deuses.
Por isso , só se compreende adoração verdadeira, só se admite serviço real quando
se está em um corpo espiritual(siddha deha).
Assim, se queremos , de fato, servir Radha e Krishna , mesmo na forma da Deidade
no altar, é necessário se imaginar em seu siddha deha.
No momento em que se canta japa, deve-se praticar ashta-kala Smarana, para
detalhes de como é a prática deve-se ler o Bhajana-rahasya de Bhaktivinodha Thakura, já
traduzido ao português, onde cada uma das 8 partes do dia está relacionado com os oito versos
do sikshastakam e cada parte termina com o verso correspondente do Govinda Lilamrita que fala
com a lembrança daquela hora determinada.
Não existe adoração a deidade verdadeira se não seguir o astakaliya paddhati. Esta
é a ordem dos acharyas Gaudiya Vaishnavas.
Não podemos esquecer que o ashta-kala Smarana dá uma referência fixa (este
Govinda Lilamrita narra o passatempo ocorrido em um determinado momento), porém, Krishna
não está preso ao que vamos ler, nem nós, leitores e praticantes, ninguém está preso a estrita
narração da história. Assim o Smarana com a prática se torna svarasiki Smarana, onde a
imaginação pode trabalhar livre e espontaneamente dentro do passatempo preferido pelo devoto.
Na prática da meditação prestamos serviço a Krishna oferecendo as coisas que nós
mais amamos , pois, ao fazer o que mais gostamos, nosso serviço é prestado com muito mais
entusiasmo e por isso mesmo dará muito mais prazer a Ele.
Nenhum de nós deve desconsiderar que Krishna mesmo nos está inspirando do
fundo do coração, como o cheitya-Guru. Por que nós a cada passo deveríamos levantar tantas
indagações, tantas dúvidas, tantas angustias e ficar procurando alguém que nos instrua e só
ouvindo disparates, fruto da frustração espiritual dos próprios pseudo-instrutores, fruto do orgulho
e da soberba de indivíduos que pensam que podem controlar a vida interna das pessoas,
mantendo a si próprio e aos outros nas trevas tenebrosas sob o jugo de interpretações
paralisantes da palavra, que esses arautos contrários ao desenvolvimento progressivo interno do
ser propagam como se fosse a única verdade.
Para ser instrutor é necessário perceber amor, saber dar estímulo, força de ir
avante. Temos que ter fé que nossas inspirações vem de Krishna , não podemos desconfiar
delas, aí podemos realmente avançar, devemos ficar atentos de preservar essa relação particular
com cheitya-Guru e nos manter independentes.
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O conceito de Guru-seva deve se ampliar de um tal modo que temos que ficar
atentos para ver Krishna refletido em toda humanidade e em tudo a nossa volta e estarmos
prontos para servir Krishna e Radha quando Eles se revelarem para nós.
Smarana é uma prática, não é a perfeição em si, é apenas o sadhana que o
Ocidente ainda tem medo de adentrar devido tantas placas de perigo colocadas no iniçio do
século XX numa Índia dominada e humilhada, mas que já não se justificam, e não podemos
esquecer que A PRÁTICA FAZ A PERFEIÇÃO.
Concordamos que é necessário primeiro o cantar do santo nome, ouvir e cantar,
acumular algum sukriti, fazer alguns atos purificatórios, mas , com toda certeza , Smarana não é
algo que se deva abolir , ou retardar indefinidamente, por temor de sahajismo.
Todos nós temos de ser audazes em estudar a nossa própria história e compreender
o que os seguidores de Mahaprabhu fizeram após sua partida para propagar o santo nome.
Sim, os Mahajanas na Bengala, seguidores de Mahaprabhu praticavam Smarana,
não só lila Smarana, mas também lila-kirtana, lila-sravana e se utilizaram disso para a pregação.-,
juntamente com o nama-kirtana. Esse era o processo para a propagação da consciência de
Krishna até a mudança que ocorreu com Bhaktisiddhanta Sarasvati.
Lemos isso na vida de Srinivasa Acharya, que foi um grande ghostyanandi e
também um extraordinário bhajananandi, a pedido de Jahnava devi(esposa de Nityananda
Prabhu) Jiva Gosvami mandou Srinivasa levar a literatura dos Gosvamis para Bengala e lá
Srinivasa divulgou e estabeleceu o Vaishnavismo.
Certamente surgiram os sahajiyas. Será que os acharyas associados de
Mahaprabhu não estavam cientes, não previram, seriam tão tolos que não tinham a menor idéia
do que suas obras e pensamentos daria abertura para o surgimento dos sahajiyas?
A resposta parece óbvia demais, é claro que eles sabiam do perigo, é claro que eles
previram que isso ocorreria, mas qual foi a consideração, qual foi a principal preocupação dessas
grandes almas? Foi de que era mais importante tornar aberto, disponível, acessível a todos os
devotos e que esse lila-shravana, kirtana e Smarana seria benéfico mesmo para as pessoas com
baixo adhikara, imagine o benefício que traria ao Ocidente!
Será que poderíamos dizer que uma pessoa que canta Hare Krishna , que foi
iniciada não possui nenhum adhikara?
O que os acharyas prévios nos estão dando é a possibilidade de modificar o mundo,
não com extensa distribuição de livros, que já provou ser inoperante tanto para o receptor quanto
para o distribuidor, vamos modificar o mundo a nossa volta transformando nosso mundo interno,
subjetivo, e para isso o Smarana é imprescindível.
Transformamos nosso coração, isso está a nosso alcance, assim transformamos
nossa visão de mundo e assim de fato haverá um efeito sobre o mundo, é claro que para isso
teremos que ter um vida espiritual interna poderosa. E para se ter uma vida interna com shakti
não é possível sem Smarana e sem sadhana.
Temos de entender, não se admite mais a japa, o cantar de Hare Krishna das
paixões desenfreadas, temos que nos sentar quietos, realmente praticar ioga, e fazer nossa
meditação, cantar japa e lembrar dos passatempos ao mesmo tempo, aí está a mágica divina.
Qualquer outra coisa não funciona como o tempo provou, e pior que isso , a real prática de
nossos acharyas prévios vem sendo afastada por forças de Maya que impede a vivência interna
no coração de devoto, isso não nos vai dar amor, sentimentos, pelo contrário, nos tornaremos
frios impersonalistas e fatalmente cairemos.
É necessário acalmar a mente a fim de poder direcioná-la para a visão de Radha e
Krishna .
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A história de nossa sampradaya relacionado com o conceito de siddha-pranali


apresenta uma seqüência que deve ser notada, a seguir citamos alguns versos do Cheitanya
Charitamrita que foram escritos antes que o conceito de siddha pranali tivesse sido desenvolvido
por Gopalaguru, Dhyanachandra e outros.
Algumas evidências encontramos no CC.antya 6.237 e Madhya 8.229.
O que é lila –Smarana? A tradução literal é “lembrar-se dos passatempos”.
Quem escreveu esses passatempos? Foram os acharyas de nossa sampradaya.
Esses passatempos são reais? Aceitamos que são reais pela fé, por isso devemos
pensar e lembrar desses passatempos escritos em tantas obras deixadas pelos nossos acharyas.
Sridhar Maharaja explica no capítulo Tese, antítese & síntese do livro Evolução
subjetiva da consciência:
“Da mesma forma, o que existe atualmente no plano da imaginação, tem de ter
existido na realidade em algum tempo no passado, ou no futuro, mas presentemente encontra-se
em algum outro lugar. É dito que os passatempos de Krishna movem-se de um universo a outro,
da mesma forma que o sol se move de uma zona de tempo à próxima. Agora a manhã está aqui.
Dentro de cinco minutos o nascer do sol e a manhã acontecerão em outro lugar. Dessa maneira é
sempre alvorada em algum lugar. Se pudermos mover-nos à velocidade do sol, então estaremos
sempre vendo o sol nascer. O que veio à mente de Bhaktivinodha Thakura em sua obra Jaiva
dharma, o que ele pode ter descrito de forma aparentemente fictícia(uma comunidade vaishnava
ideal), tem que existir em algum lugar no plano da realidade, no passado ou no futuro. É
realidade. Não é imaginação. Tudo é real. Isso não é imaginação. O que vejo em meus sonhos é
agora falso. Mas, em alguma vida anterior, em meu passado, ou no futuro, eu experimentei essa
realidade. Tive esse tipo de visão e isso agora veio a mim na forma de sonho. Foi ou será um fato
e agora é apenas um sonho. O que está na mente pode ser abstrato para nós, mas na Mente
Universal tudo é concreto. O que quer que exista no plano da imaginação tem de ser , e pode ser,
encontrado em outro lugar. Temos de entender que a realidade se ajusta conforme nossa própria
experiência, o que a mente percebe não é imaginação, e , sim realidade. O que é imaginação
para mim é realidade para outro. O nascer e o pôr-do-sol podem ser percebidos simultaneamente
de dois pontos de vista distintos. Todas as experiências coexistem dentro da criação inteira. . O
que se sente hoje como frio, pela vontade do Senhor Supremo, amanhã poderá ser sentido como
quente, pela vontade dEle tudo é possível. Ele é a causa última. Somente Ele conhece o
propósito de tudo. Ele é o Autocrata que só pode ser capturado pelo amor e não pelo
conhecimento. Conhecimento é fútil em relação ao infinito. Primeiro Ele se move de uma maneira,
depois de outra. Como podemos fazer algum cálculo? Ele muda tudo sempre por Sua doce
vontade” (pag 70-72 da edição de 1990- editora Prema) .
Assim, o método de Bhakti ou seja o meio pelo qual o amor pode acontecer no
coração do devoto é com a leitura constante dos passatempos do Senhor , conforme sentencia o
Srimad Bhagavatam 11.l0.26:
“como um ungüento curador que faz enxergar , a leitura constante dos textos
sagrados relacionados ao divino Lila, purifica o coração e se vê Krsna face a face .”
O devoto então pode passar a prática da lembrança dos passatempos , e o que
ocorre? Ocorre uma vivência que está além de nossa experiência corriqueira diária.
Por exemplo, quando nos concentramos na leitura de um livro interessante, nós nos
absorvemos de tal modo que perdemos a conexão com a realidade externa, do mesmo modo, na
lembrança do lila, nós a pouco e pouco vamos obter o gosto por essa outra dimensão e nos
absorver nela, mergulhando profundamente.
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É como assistir um filme, ou ler um bom livro, nós entramos na história, e passamos
a nos ver como parte do que estamos assistindo ou lendo.
Como será nosso corpo, o que faremos com esse corpo? Qual será nosso papel
nesse filme ou livro ou passatempo? Como poderemos servir da melhor forma Radha e Krishna ?
Tudo isso primeiramente ocorre na mente. É como o oleiro ou artesão ou qualquer
coisa neste mundo, primeiro a obra acontece na imaginação, nos pensamentos e depois se torna
realidade. Esse é o princípio de evolução subjetiva.
Quem nos guia e dá o direcionamento de nosso trabalho interno, mental, subjetivo e
ontológico são os grandes devotos do passado, que lançam fagulhas em nossa imaginação, pois
deles é que estamos ouvindo os Radha Krishna lilas e assim seguimos os passos deles, do que
eles vivenciaram em samadhi.
Será que temos uma evidência empírica, experimental, fatual de que Deus , Sua
parafernália, Sua morada existem?
Creio que nada disso é provável em laboratório pelo método científico experimental
reconhecido pela sociedade atual.
Bhakti possui outra natureza, ela está alicerçada na fé que se desenvolve pela
audição, pela leitura, pelo sadhu-sanga, pelo contato com os homens de fé e principalmente
temos a fé fortalecida, aumentada e substanciada em algo forte por meio de nossa própria
experiência, de nossa vivência com a dimensão superior, por isso a prática é imprescindível, A
PRÁTICA FAZ A PERFEIÇÃO, o Smarana é necessário se queremos realmente ser devotos de fé
interiorizada , ultrapassando a concepção kanistha adhikari.
Deus é achintya, a filosofia e concepção de Cheitanya Mahaprabhu é achintya
bheda. Por isso nenhuma quantidade de argumentos de racionalistas de profundas raízes cristãs,
que ainda acreditam que a alma caiu do céu, que saiu da presença face a face com Deus (como
poderia?), nos afasta um milímetro de nosso ideal, que é o ideal de todos os acharyas prévios, de
todos os seguidores de Mahaprabhu.
A prática é pessoal, particular e privada. Narottama das Thakura em sua obra prima
Prema bhakti Chandrika, dá alguns conselhos aos seguidores de Raganuga bhakti:
mahajaner jei patha, tate habo anurata,
pTrbapara koriyAbicara
sadhana-smarana-lila, ihate nAkoro hela,
kayamane koriyAsu-sara
14) Sigamos o caminho trilhado pelos mahajanas, examinando com muito cuidado
as diferentes explicações e interpretações que foram apresentadas no passado bem como no
presente. Em nossas práticas diárias de sadhana, NÃO PODEMOS NEGLIGENCIAR lila-
Smarana, pois as atividades devocionais devem ser executadas tanto mental , interna, quanto
com o corpo físico, externamente.”
kame mora hata cita, nahi mane nija-hita,
manera nAghuce durbasana
more natha a›gikuru, tumi ba–cha-kalpa-taru,
karunAdekhuka sarba-jana
ragera bhajana patha, kahi ebe abhimata,
loka-beda-sara ei bani
sakhira anugAha–a, braje siddha-deha pa–a,
sei bhabe ju¨abe parani
48. é o veredicto dos Vedas, dos Vaishnavas e meu próprio que o caminho de
Raganuga-bhajan é a essência de tudo. Seguindo os humores das Vraja gopis obteremos um
12

siddha deha em Vrindavana; desse modo os desejos de nosso coração serão completamente
satisfeitos.”
jugala-carana sebi, nirantara ei bhabi,
anurage thakibo sadaya
sadhane bhabibo jaha, siddha-dehe pabo taha,
raga-pathera ei se upaya
55. Mentalmente eu sempre me contemplo servindo com entusiasmo os pés de lótus
de Radha e Krishna. Todos os desejos há muito acalentados do sadhaka pelo seva direto ao
Senhor será satisfeito na hora em que receber o siddha deha, pois esse é o método para aqueles
que trilham o caminho de Raganuga bhakti.”
manera smarana prana, madhura madhura nama,
jugala-bilasa sm¨ti-sara
sadhya sadhana ei, ihAboi ara nai,
ei tattva sarva-siddhi-sara
61. Cantando esses doces nomes e praticando Smarana mentalmente é tudo em
minha vida. Esse radha-krsna-yugala-vilasa (passatempos amorosos) formam a essência de
todos os tipos de smarana. Em todos os processos para se alcançar o objetivo da vida, e o
próprio objetivo em si, todo esse tattva forma o centro, o âmago de todos os princípios
regulativos.”
brajapura-banitara, carana-asraya sara,
koro mana ekanta koriya
anya bola gandagola, nAsuniha Ttarola,
rakha prema h¨daye bhariya
68. Se abrigar nos pés de lótus das Vraja gopis é a essência de todos os princípios
religiosos. Ö mente, siga esse caminho sem hesitação. Qualquer argumento oposto a isso só cria
perturbação , por isso ignore essas objeções e mantenha prema iluminando o seu coração.”
Essas são apenas algumas evidências das escrituras que provam a necessidade
imperativa de praticar lila-Smarana, agora de um modo bem prático podemos dizer que se ao
utilizarmos nossa imaginação podemos experimentar, vivenciar algo sobre rasa, por que
deveríamos lutar contra isso, se o que nos oferecem na não-prática, é apenas a consciência de
Krishna sem gosto, sem sabor, sem rasa , sem Radha, estão nos oferecendo apenas jnana , que
só leva ao nirvisesa- Brahman sem forma e sem atributo, e mesmo a imersão nesse Brahman é
algo impermanente e fadado a queda.
Apesar de todas evidências das escrituras que nos impelem a ir adiante há os
opositores que negam tudo isso e pregam apenas a manifestação externa da vivência de Deus,
eles dizem que os ocidentais não são capazes de absorver nada disso, dizem que só daqui a cem
vidas poderá se falar dessas coisas, são os elitistas da religião, que Deus só abriga os
renunciantes, que estão mais preocupados com local de nascimento, cor da pele etc., para eles
deixo as sábias palavras de Jesus Cristo em Mateus cap. 23, vers. 13: -
"Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Vós fechais aos homens o reino dos céus:
vós mesmos não entrais e nem deixais que entrem os que querem entrar".
Eles estão barrando a manifestação do divino nos devotos, põem freio no amor,
onde quer que haja algum sintoma de amor e carinho eles vem para refrear, para abafar, para
dizer que o importante é vender livros, é seguir algum messias que não dá amor, que só pede
dinheiro, que está preocupado com construções, com universidades, enfim, com projetos
materiais e não com almas. Krsna das Kaviraja ou Kausturi Manjari nos fornece uma visão do
13

sambhog bihar de Shri Jugal-Kishor nesta obra. Os passatempos acontecem sob a direção de
Vrinda devi com o seva perito das Sakhis,
Nunca é demais repetir que este livro é o desenvolvimento dos seis sutras da obra
de Rupa Gosvami chamada ‘Smarana –mangala”. No sutra Rupa Gosvami apenas cita os
passatempos Banshi-harana , Holi , Bon-bihar , Jhulan , Madhu-pan , Rati-keli, Surja-puja e indica
a existência de muitos outros que são descritos em detalhes por Shri Krishnadas Kaviraj
Para o Raganuga-sadhaka (o praticante de Raganuga) é como se Kausturi
manjari(Krishna das Kaviraja) é que leva o Sadhak-Manjari pela mão nos vários locais onde
ocorrem os passatempos, os nikunjas de flores , é ela, Kausturi Manjari que entreabrindo as
folhagens oferece o Binoda-keli-darshan(visão do casal divino) ao leitor .
Assim, o Govinda-Lilamrita é mais que um simples livro – é uma vivência viva direta da dimensão
espiritual e com a ajuda desta obra podemos aprender a arte de ‘estar lá agora’ .
Falamos aqui de ”Sadhaka-manjari”(o sadhaka que segue os lilas aqui narrados
enquanto medita em seu corpo manjari-Svarupa concebido mentalmente).
Os devotos ocidentais costumam fazer acusações nesse assunto dizendo que isso é
imaginação, porém, meditar em si mesmo como uma manjari para o serviço mental no lila de Shri
Krishna é exatamente a clara instrução deixada por Shrila Kaviraja Gosvami, isso é realmente o
que devemos fazer, é o que se espera que façamos – ‘ESTAR AGORA LÁ’ – por meio de
manasa-sanga ou associação dentro da mente.
siddha-deha chinti kare tahai sevana /
sakhi-bhave paya radha-krishnera carana //
C.C. Madhya-8,229
Tradução: ”Enquanto contempla seus siddha deha como uma Sakhi e executa
manasi – seva mentalmente, se alcançará os pés de lótus de Radha e Krishna “

Esse consellho representa a própria essência dos ensinamentos dos Gosvami e ao


aplicar-se esse ensinamento , podemos fazer brotar nosso Vraja-Gopi-janama(nascer em Vraja
como uma Gopi). Essa é muito mais do que uma experiência agradável e excitante – pois o
Kaviraja nos assegura que ao praticarmos isso podemos alcançar o charan –seva de Radha e
Krishna.
Temos de ter em mente que este livro, o Govinda Lilamrita é o manual prático de
Shrila Krishna das Kaviraja para seguir Raganuga e na própria obra Krishna das Kaviraja declara :

Srirupa darsita disa likhitastakalya /


Shri radhikesa kritakelitatir mayeyam //
Sevahasya jogyavapushanisamatra casya /
Ragadhva sadhakajanair manasa vidheya //
Govinda.Lilamrita.23-94
Tradução: ”eu segui a direção do Smaran-mangala de Shri Rupa Gosvami para
elaborar o asta-kala-seva de Radha –Krishna desses passatempos, enquanto mentalmente
concebendo o siddha-deha adequado para servir no lila.”
Shri Vrindavana Chakravarti neto espiritual de Shrila Vishvanatha Chakravarti no seu
comentário sobre o verso acima diz:
Sriguruvajna tatsevajogyasiddha vapusa /
”Pela instrução do Guru a pessoa recebe um siddha deha adequado, apropriado
para servir no lila.”
14

Shrila Bhaktivinoda Thakura fornece detalhes sobre esse processo no último


capítulo do seu livro Harinama-Chintamani :
Radha Krishna asta kala jei lila kare /
Tahar sravane lobha haya atahpare //
Lobha hoile guru pade jijnasa udaya /
Kemane paiba lila kaha mahasaya //
Gurudeva kripa kori karibe varnana /
Lila tattve ekadasa bhava sangatana //
Prasanna haiya prabhu karibe adesa /
Ei bhave lila madhye karaha pravesha //
Suddha rupe siddha bhave kariya sravana /
Ei bhava sviya citte karibe barana //
Tradução:
”Se lobha (anseio) desperta no coração do bhakta após ouvir sobre o asta-kala-lilas
de Radha Krishna ,ele deve perguntar: Oh gurudeva , como posso alcançar esses lilas?
Se o Guru estiver satisfeito com o discípulo o Guru explicará o lila no contexto do
‘ekadasha bhava ‘ do discípulo, dizendo; ‘Você pode entrar no lila dessa maneira!”
No Harinama-Chintamani esse estágio de progresso devocional é chamado Bharana
–Dasa, momento em que gurudeva concede o ekadasa bhava do discípulo, ou seja, os onze
aspectos que formam o manjari-siddha deha do discípulo. :
Sadhite ujjvala rasa , ache bhava ekadasa
Sambhandha , bayasa , nama , rupa /
Jutha , besha ,ajna vasa seva , parakasthavasa
Palyadasi ei aparupa //
Hari Nama Chintamani . –15-27
Tradução:
”Quanto ao madhura-rasa-sadhana existem onze itens: a relação , idade , nome ,
tez , grupo , roupa , ordem , residência , serviço , ambição mais elevada , e a sakhi sob as ordens
de quem o sadhaka-dasi presta serviço.”
O comentário de Bhaktivinodha Thakura sobre o verso acima é o seguinte:
Gurudeva sisyera svabhaviki pravritti /
Parikha kariya jakhon dekiben je , sisyera sringara rasera adhikari //
Bate takhon tahake Shri radhara jhute Shri lalitaganmadhye /
Sadhakera siddha manjari svarupa avagata kariben sadhakgoto //
ekadash bhava o sadhyagata astakaliya lila dekhaya parasparera /
sambhandha sam stapana koria diben sadhakera siddhidehagata //
nama , rupa , guna , seva , bhala kariya dekhayia diben sadhika je /
ghare janamgrahana kariya je patira sahita tahar vibaha haya //
taha baliya diben veda dharma parityaga karata Shri juthesvarira /
palyadasi bhava o tahar asta-kaliya-nitya-seva dekhaya diben //
sadhika sei bhava varana kariya smarana dasaya prabesa kariben/
ihai sadhakera braja-gopi-janama //
Tradução”
O Guru testará o discípulo para ver se ele possui o adhikara( e a atitude) para o
sringar rasa. Se positivo, ele indicará o siddha manjari Svarupa do discípulo dentro do campo de
Radha , no grupo de Lalita. O Guru explicará o ekadasa bhava do discípulo no contexto com o
asta-kala-lila. Então, ele cuidadosamente revelará ao discípulo os detalhes de sua forma
15

manjari(nome, compleição, qualidades, seva, etc.) , o Guru dirá ainda em que casa o sadhaka –
manjari nascerá em Vraja, e com qual gopa ele/ela casará.
O sadhak-manjari se tornará o humilde servo de sua jhutesvari (Shri Radha ) para o
asta kala nitya seva dEla. Dessa forma o sadhaka executará smarana-sadhana para fazer brotar
seu braja-gopi-janama no grupo de Lalita ou das muitas outras do grupo das asta sakhis..”

Barana-kalete nija ruchi bichariya /


Gurupade janaibe sarala hoiya //
Prabhu , tumi kripa kari jei parichaya /
Dile more tahe mora purna priti haya //
Svabhavata mora ei bhave ache ruchi /
Ataeva ajna sire dhaari haye suchi
Hari Nama Chintamani 18-30
Tradução :
”Ao aceitar o Ekadasa-bhava , o discípulo deve cuidadosamente considerar quais são suas
preferências pessoais, e declará-las com franqueza dizendo: “Oh gurudeva, por favor,
misericordiosamente conceda-me a identidade espiritual que eu possa aceitar totalmente com
priti. Minha natureza e ruchi são como agora estou expondo, assim me aconselhe para que eu
possa seguir suas instruções como minha vida e alma.”
Porém se posteriormente o discípulo descobre que alguns aspectos de seu siddha deha não
satistaz totalmente suas preferencias ou seja o devoto não está confortável com algumas
características, isso pode ser alterado conforme Shrila Bhaktivinoda explica :
Ruchi jadi nahe tabe akapata mane /
Nivedibe nija ruchi sriguru charane //
Bichariya gurudeva dibe anyabhava /
Tahe ruchi haile prakashibe nija bhava //
H . N . C . – 18 , 30- Tradução: ”Se o rucchi do discípulo não ocorre com o ekadasa
bhava que recebeu, ele deve francamente informar seu Guru Então, após cuidadosas
considerações, o Guru ajustará o siddha deha para que o humor acalentado do discípulo possa se
manifestar totalmente no siddha deha recebido.”
Essas instruções de Shrila Bhaktivinoda são de importância fundamental para todos
os aspirantes raganuga-sadhakas . É aqui que aprendemos como nosso siddha-deha de fato
passa a existir.
É o ruchi pessoal do sadhaka combinado com a vasta vivência do Guru e seu
julgamento que forma a semente do siddha Svarupa do sadhaka.
Porém, temos de ver que tudo isso é apenas o início, após receber a semente
(ekadasa bhava) agora passa a ser obrigação do devoto fazer a semente frutificar e brotar em
toda uma vida de sadhana.
E esse registro dentro dos passatempos madhura de Shri Krishna pelo manasi –
seva constante em Gopi-bhava fará brotar o destino supremo que o devoto anseia.
Pois, em Raganuga SADHANA O PROCESSO E O OBJETIVO SÃO O MESMO.
Em outras palavras, nosso siddha deha juntamente com nossa elegibilidade para
servir as outras sakhis e manjaris vem simplesmente da absorção na própria atividade de
servirmos em nossa identidade espiritual. Esse é o nosso profundo anseio durante o sadhana
(auxiliado pelo sadhu, Guru e vaishnava kripa) que faz brotar o desejado siddhi.
Shrila Narottama das Thakura confirma essa afirmação em seu Prema bhakti
Chandrika:
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Sadhane bhavibe jaha , siddha-dehe paibe taha


Raga marge ei se upaya /
Prema bhakti Chandrika 54
Tradução :
”Nosso siddha-deha será formado a partir do que contemplamos durante o sadhana – pois esse é
o método no ragamarga.”
Essa é a máxima em Raganuga-bhajan , pois todo o sistema repousa nessa fórmula.
Na aplicação prática esse principio é simples e lógico. Ele atua da mesma forma que
a lei do karma atua neste mundo material. Por exemplo, do mesmo modo que nosso corpo
material atual com seu conjunto de sentidos específicos, mentalidade e desejos é o resultado de
nossas atividades anteriores – o nosso corpo espiritual é formado a partir de nosso desejos
concentrados pelo Jugal seva acumulados durante o sadhana que praticamos.
E o fator decisivo é prema.

Sakhigan gananate , amare ganibe tate


Tabahi purabha abhilasa /
Prema Bhakti Chandrika – 56

Tradução :
“eu estarei entre as sakhis – então todos os meus desejos serão satisfeitos.”
Essa instrução deixada por Shrila Narottama se aplica tanto ao presente quanto ao
futuro, para isso ele prescreve a meditação (dhyana sadhana) que o devoto deve contemplar
agora:
Sakhinam sangini rupam atmanam vasanmayim /
Ajna seva paraparam kripalankara bhusitam //
P . B . C . – 57
Tradução :
”Temos de meditar em nós mesmo como Sakhi manjarinis (companheiras das sakhis) possuindo
um corpo com características e vestimentas similares as delas. Ansiosos em seguir as ordens que
delas emanam, podemos usar os ornamentos de suas bênçãos.”

SHRILA BHAKTIVINODHA THAKURA INSTRUIU


BHAKTISIDDHANTA SARASVATI E SHRILA LALITA PRASADA DE
FORMA DIFERENTE
Thakura Bhaktivinoda teve 13 filhos, de sua primeira esposa teve um filho chamado
Annapurna. Do segundo casamento, teve 12 filhos, dentre eles , 2 se tornaram Param-bhagavatas
– o sexto, Shri Bimala Prasad(depois conhecido como Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura e o
nono, Shri Lalita Prasad Thakura. Os dois cresceram como seguidores fiéis de bhakti marga,
porém logo Bhaktivinodha detectou as diferentes naturezas deles, e por isso instruiu e os
encorajou de modos diferentes. Bimala, que era forte e tinha a coragem de um leão, foi destinado
pelo seu pai como a pessoa ideal para propagar o culto de bhakti em larga escala. E assim
Bimala foi instruído pelo seu pai para pregar o varna-ashrama-dharma, estabelecer muitos maths
e mandirs ,e converter o maior número de pessoas possível ao prema-dharma de Shri
Cheitanya .
17

Shrila Lalitaprasad Thakura era um bhajananandi, um Siddha-Mahatma, que


praticou Raganuga-sadhana, que envolve lila-Smarana, manasi-seva combinado com Harinama-
japa. Ele cantava diariamente 192 voltas de Hare Krishna-mantra. Esse era seu sadhana.
Na autobiografia de Bhaktivinodha Thakura ele mesmo descreve que no nascimento
de Lalita Prasada teve um sonho com Narada Muni que lhe dizia que um grande devoto estava
nascendo como seu filho e que ele pregaria o Vaishnavismo. Em 1896 Bhaktivinodha Thakura
escreveu: “Espero que você realize a predição de Narada Muni. Não existe riqueza maior neste
mundo do que a riqueza do serviço devocional”. Foi Lalita Prasada Thakura que redescobriu o
local de nascimento de seu pai, Bhaktivinodha Thakura em Birnagar em 1927. Lalita Prasada
nunca foi a favor de se construir muitos templos e Maths porque seu sentimento era que nesse
tipo de organização haveriam muitos problemas inerentes como pratistha, procura de
seguidores , adoração a personalidade , e outros.
A pregação de Lalita Prasada Thakura se desenvolveu mais a nível pessoal para
seus discípulos no seu templo - Dvadas mandir em Birnagar, próximo Krishnanagar na Bengala
Ocidental. Ele não viajava para pregar, nos últimos 40 anos de sua vida não saía de seu ashram,
como um Babaji (embora ele não tenha tomado Babaji-vesha formalmente).
Raganuga não é algo que se pregue, há proibições das escrituras, mas algo para se
praticar.
Ele escreveu poemas, trabalhos teológicos e comentários. Ele revelou seu manjari-
Svarupa em um pequeno livro, aí ele descreve sua relação interna com seu pai e Guru Shrila
Bhaktivinodha Thakura , nessa obra ele revela o seu próprio manjari-Svarupa e descreve que a
recebeu de seu pai/gurudeva. Ele abertamente declarava que praticava o método de bhakti que
recebeu em Guru-parampara. Ele não apresentou nada novo, não imaginou nada, tudo que ele
falou e escreveu foi o que ele recebeu de Shrila Bhaktivinodha Thakura –
Toda a inspiração que ele gerava era de total absorção nos Lilas de Shri Shri Radha
–Krishna , foram observados lágrimas, arrepios e tremores em seu corpo por parte de seus
discípulos e testemunhas, várias emoções sattvika apareciam simultaneamente.
Com isso todos podiam entender que se tratava de uma alma muito avançada, um
siddha mahatma – alma perfeitamente realizada. Sua pregação insistia em abandonar Maya e se
abrigar em Svarupa-shakti, a energia espiritual.
O seu manjari Svarupa era LATA MANJARI, ou seja já não havia nenhuma
identificação com a forma material.
Lalita Prasada Thakura e Bhaktivinodha Thakura estão na linha de Shrimati
Jahnava-parivara (esposa de Nityananda Prabhu).
Com as bênçãos de seu pai, Bimala Prasada alcançou tremendo êxito em sua
missão de pregação, que se propagou por todo o planeta, esse lado do prachara vani (instruções
para pregação) de Shrila Bhaktivinodha é bem conhecido e dispensa elogios.
O que não se divulga e poucos sabem é sobre a outra faceta do kripa de Shrila
Bhaktivinodha Thakura que se mantém dentro do campo de bhajana-siksha que ele passou para
o outro seu filho, Shrila Lalita Prasada.
Assim, glorificar Shrila Lalita Prasada é glorificar o herança de raga marga bhajan
herdade de Bhaktivinodha Thakura, pai e diksha/siksha Guru de Lalita Prasada, que deixou
instruções no sentido do esotérico individual.
Bhaktivinoda Thakura disse a Lalita Prasada: “Eu não desejo que você estabeleça
maths e mandirs, ou faça muitos discípulos, estabeleça-se no meu local de nascimento (Ula,
Birnagar) e cante três lakhas(cem mil) de nama em Gopi-bhava”.
18

Após os 60 anos Lalita Prasada seguiu fielmente o que seu pai esperava dele,
deixando este planeta aos 101 anos de idade.
Qualquer devoto poderia depreciar tal posicionamento imaginando que muito mais
elevado é a pregação.
Porém ao se estudar as obras deixadas por Bhaktivinodha Thakura em especial o
JAIVA DHARMA E O Harinama Chintamani, o estudante atento vai se deparar com o conceito de
‘EKADAS BHAVA’ .
Muitos podem vir a falar que isso é inapropriado, que não é para nós, porém por que
teria Bhaktivinodha escrito tão explicitamente sobre isso? A conclusão é que se Bhaktivinodha
escreveu em tantos lugares sobre esse assunto é porque é desejável, totalmente autorizado e a
certa altura da vida espiritual, compulsório. Ora, o próprio Lalita Prasada recebeu diretamente de
Bhaktivinodha seu ekadas bhava em 1890. E o próprio Bhaktivinodha recebeu seu ekadas bhava
de seu Guru Vipina Bihari Gosvami. A linha de sucessão discipular diksha de Bhaktivinodha
descende de Shrimati Jahnava Thakurani (esposa de Nityananda Prabhu) que em Vraja é Shri
Ananga Manjari, irmã mais nova de Radharani, tão bela que é desejada pelo próprio Cupido, de
pele dourada clara, usa trajes azul, seu nome significa , o botão do Cupido.
Um dos siksha gurus de Bhaktivinodha foi Jagannath das Babaji.
Mas em sua autobiografia chamada “Svalikhita-jivani” Shrila Bhaktivinodha Thakura
escreve: :

ami 42 vatsara vayakrama kala parjanta diksa grahan kari nai /


Ihate gura rahasya ache /
ami nija guru labher janya sadhana kariachi /
jake sadhana pai , tara mana bhala lagche na /
dukha thekei jacche /
mahaprabhu nivedana kariyaci jahate amara diksa guru labha haya /
prabhu svapne dukha dura karilen /
sei divase mana anandita hailo /
dui eka dina pare Shri vipn bihari goswami amake patre likhlen je
ami sigra giya diksa dana kariba ,
gurudeva asilen , diksa karja haiya gela /
Tradução :
“ Eu só recebi diksha ao atingir meus 42 anos, eu buscava por um Guru, e ao
encontrar alguém eu imaginava que era essa pessoa, mas pela associação com ela, percebia que
não era. Por isso fiquei deprimido e orei a Mahaprabhu para que me mandasse um Guru
adequado. Mahaprabhu atendeu meu pedido e uns poucos dias depois eu encontrei Vipina Bihar
Gosvami que me escreveu dizendo que me daria diksha, e fizemos a cerimonia”.
E Kedarnath Datta ficou sendo Thakura Bhaktivinoda com os inúmeros escritos
devocionais que foi apreciado pelos Gosvamis de Bagna.
Bhaktivinodha em outra obra “Srimad Bhagavatarkamarichi-mala” explica que:
Punaraya mane haila srigurucarane /
Akritajna haile bhakti sadhibokemokemane /
Lajja teji likhi eve tadiya ajnaya /
Aparadhi jadi haya , khama mahasaya /
Vipina-bihari prabhu mama prabhubara /
Shri vamsibadanananda bamsa sasadhara /
Sei prabhupadera anujna sire dhari /
19

Bhagavata slokasvada nirantara kari /


tradução :
”outra vez me lembro dos pés de lótus de meu Guru, pois sem mostrar gratidão como poderia
executar bhakti-sadhana? Deixando a timidez eu passei a escrever pelas ordens dele. Porém se
cometi algum aparadha, por favor me perdoe. Vipina Bihari Gosvami é meu Prabhu e ele é a lua
cheia no Shri Bansa de Vamsi-badanananda Thakura (que é o avatar da bansi-flauta de Shri
Krishna no Goura lila. Assim colocando as ordens de Prabhupada sob minha cabeça, eu,
constantemente saboreio esses bhagavat-slokas.”
Ramai Thakura se tornou o filho adotivo e discípulo de Shrimati Jahnava Thakurani.
Shri Vipina Bhihar é a nona geração na família bangsa de Shri Ramai Thakura.
Na verdade Vipina bihari Gosvami é Shri Vilas Manjari e no gita mala Bhaktivinodha
expressa seu desejo de seguir no caminho de seu Guru.:
hena kale kabe vilasa manjari
ananga manjari ara /
amare heriya ati kripa kari
balibe vachana sara //
eso eso sakhi , Shri lalita gane
janiba tomare aja /
griha katha chari radha Krishna bhaja
tyajiya dharama laja //
sei madura vani suniya e jana
se duhara Shri charane /
asraaya laibe duhe kripa kari
laibe lalita stane //
lalita sundari sadaya haiya
karibe amare dasi /
svakunja kutire diben basati
jani seva abilasi //
Gita-mala , siddhi-lalasa – 3
*Murali-vilas : escrito por Raja-ballabha Goswami , discípulo de Ramai Thakura .
Tradução: Nessa hora Vilasa Manjari(Vipina Bihari Gosvami) e Ananga Manjari (Jahnava devi)
chegarão e ao me verem(Bhaktivinodha ou Kamala manjari) elas me darão instruções:
”Venha, Venha, Sakhi, venha para o grupo de Lalita, hoje vamos contar tudo a você! Esqueça das
conversas familiares e apenas adore Radha e Krishna deixando o recato do seu dharma familiar.”
Ao ouvir essas instruções madhura, eu me abrigarei em Vilasa Manjari e Ananga
Manjari. Depois elas misericordiosamente me levarão até Lalita. Que vendo minha ansiedade por
servir, será providenciado uma residência para mim no Kunja de Lalita sundari como uma de suas
dasi servas.”
Por isso qualquer ofensa a Lalita Prasada ou Vipina Bihari Gosvami só irá atrasar o
avanço do devoto e a possibilidade de sentir o sabor transcendental dos santos nomes, mesmo
que seja em nome da pregação. Não é à toa que Shrila Prabhupada chamou os vairagis, os
brâmanes de casta e seus próprios irmãos espirituais e pediu perdão a todos por seu
comportamento agressivo durante a sua pregação no Ocidente.
Disso podemos entender que o Cheitanya Vaishnavismo opera de dois modos: um
exotérico ou Vaidhi bhakti sadhana para preencher as necessidades dos seguidores em geral e o
esotérico ou Raganuga sadhana que corporiza os aspectos místicos da tradição e que dá ignição
às inspirações espirituais.
20

Bhaktivinodha Thakura extrai seus ensinamentos basicamente de três autores: Rupa


Gosvami(1489-1564), Gopala Guru(1550) e Dhyanachandra Gosvami(1600), os dois últimos
fizeram importantes adições ao sistema de Rupa Gosvami do Raganuga-bhakti sadhana.
Bhaktivinodha entretanto faz acréscimos ao sistema de Vaidhi de Rupa Gosvami
ressaltando a importância de varnasrama dharma ou vaijnanika varnasrama na prática do
sadhana bhakti devido as práticas estranhas de alguns raganugas no século XIX e a má aplicação
do original varnasrama que na Índia funcionava como smarta-varnasrama, que se baseava no
nascimento.
Bhaktivinodha assinala que em Raganuga o devoto deseja vivenciar lila diretamente
como um participante , para isso precisa receber o siddha deha(corpo perfeito) de seu Guru e
com esse corpo participar do lila.
Raganuga basicamente significa a mudança de identidade com o devoto detectando
seus sentimentos internos que correspondem , similarmente, aos sentimentos e características
dos associados de Krishna no Vrindavana lila.
Daí pode-se entender o que fazem esses homens santos meditando e cantando 192
voltas de japa todos os dias.
Esses homens estão absortos no lila e pensando em si mesmos como Vraja-gopis.
O fato é que após 30 anos de pregação no Ocidente os devotos em sua grande
maioria ficaram estagnados em Vaidhi bhakti e mesmo que se passar mais mil anos nada
acontecerá, nenhum vislumbre do amor de Radha, nenhum carinho de um devoto pelo outro,
nenhuma ânsia espiritual, só temos orgulho, orgulho, orgulho dos chamados panditas, dos
PhDs(doctor of philosophy) , orgulho, soberba e maus tratos, isso não queremos, isso é mundo
material disfarçado com vestes de vaishnava.
O bhakta-rasika já não mais se debate em guerras argumentativas, ele só está
interessado em obter o sabor de rasa cada vez mais.
A dimensão tridimensional de homens exploradores não é no que estamos
interessados, queremos mergulhar profundamente no oceano de Radha Krishna rasa.
Por isso tudo, ficamos a vontade para expor pensamentos dos Vaishnavas
maduros, há muitos que contribuíram para cada frase que aqui está, Jagadananda das,
Gadadhara Pran das, Premananda das, Rai charan das, Haridhama das, Narayana Maharaja,
Shridhara Maharaja, Jiva Gosvami, Dr. Kapoor, Bhaktivinodha Thakura, Bhaktivedanta Swami
Maharaja , o infinito leque dos Prabhupadas, é assim que podemos crescer, sendo iluminados a
cada passo, cada estágio, cada frase por algum vaishnava, que não precisa ser o mesmo sempre,
aliás nem pode ser o mesmo.
Assim é , pois cada um desses mestres tem sua própria personalidade (luz própria),
seu modo de ver , um ângulo diferente.
Ainda reina entre nós conceitos errôneos, mal formulados e mal apreendidos,
distorcidos mesmo para atender interesses não-espirituais, um deles é sem dúvida o conceito de
ananya bhakti , serviço exclusivo, o de ver um único Prabhupada, é a idéia infantil de só meu
Guru salva, “só papai é um bom homem”, isso é distorção do Guru tattva e só se presta ao
estágio kanistha kanistha .

Shridhara Maharaja dizia que o Guru é o lado inspirado do Vaishnavas, estamos


falando de um desses casos, seu nome , Krishna das Kaviraja, por isso suas palavras purificam,
não nos espantemos com Deus e Suas atividades, não há nada para ficar espantado, para Ele
tudo é possível, tudo depende de Sua doce vontade, e tudo o que Ele faz é bom para todos, traz
alegria e felicidade inefável para todos, se não enxergamos desse modo, ainda estaremos no
21

estágio Kanistha-adhikari, de trazer Deus ao nosso mundo cercado de sexo, prestígio, fama,
dinheiro, é melhor esperar mais um pouco para adentrar em Raganuga bhakti, aguardar o
momento oportuno, mas se esse livro chegou a sua mão , acredito piamente , é porque você está
preparado, ou pelo menos acalenta em seu coração a prece , a oração ao Guru, a Lalita , a
Radharani de obter esse interesse, esse desejo, essa ânsia (lobha, asa, laulyam, lalasa), se você
ora desse modo, não importa que esteja no estágio inicial de shraddha (fé) ou esteja em bhava,
você está apto, por isso, ousamos traduzir este livro porque o progresso na vida espiritual não
advém de uma adaptação as circunstâncias que cercam o buscador da verdade, vem da ousadia
em obedecer ao ímpeto forte(lobha ou laulyam) em obedecer à crença que o mundo pode e deve
seguir em frente. De que a ordem que recebemos é sair do estágio kanistha e avançar. O
progresso sempre dependeu dos homens irrazoáveis, pois os razoáveis apenas se adaptam.

adhikara na labhiya siddhadeha bhave,


viparyaya buddhi janme saktira abhave
“se você medita no siddha deha sem o adhikara apropriado, seu intelecto se torna
confuso”.
Esse verso é citado muitas vezes para invalidar a dimensão Raganuga no mundo
ocidental, porém o significado de adhikara vem descrito no Bhakti rasamrita sindhu. Temos de
entender que adhikara significa que alguém após ouvir o santo nomes, os passatempos de
Krishna ou ver a deidade e com isso obtiver o desejo de servir aos pés de um ragatmika bhakta.
O desejo é o adhikara porque sem essa qualificação, não se terá atração pelo seva. Assim desejo
e adhikara estão em uma relação diretamente proporcional.
O praticante de Raganuga deve entender que se for desafiado , se for acusado de
estar praticando algo sem adhikara, deve agradecer pela preocupação e concordar com o
desafiante e continuar suas práticas, isso evitará muita perda de tempo inútil.
A própria idéia de raga não se presta a pregação, isso só vai levar a argumentações
e perturbações no bhajana pessoal.
Se quisermos meditar no Radha Krishna lila, devemos fazê-lo , mas não podemos
perturbar os outros devotos tentando convencê-los que devem fazer o mesmo.
Quem é qualificado para apaixonar-se? Quem pode decidir que eu sou ou que você
não é qualificado? Quem controla o modo que o amor se propaga? Quem pode impedir ao outro
de parar de pensar em seu amor?
A força purificadora desses lila-kavyas(passatempos amorosos de Radha e Krishna)
a necessidade imperativa de Raganuga bhakti para os devotos ocidentais, único açude que pode
saciar a sede espiritual , que , caso contrário, como estamos testemunhando acabam indo buscar
seu lenitivo em outras barragens, nos tóxicos, chamados de santo (daime), nos hábitos já
abandonados e a conseqüência direta é que param de cantar Hare Krishna porque não
encontram nenhum prazer nisso. Todos nós caminhamos na busca do prazer e se não nos
predispormos a ler e meditar durante a japa ou depois nos lilas, não haverá deleite, e cairemos
em busca de algo palpável. Puri Maharaja (o mais antigo discípulo vivo de Bhakti siddhanta)
afirma no seu nama-bhajana ( livro de vyasa puja) que no mês de kartika seu mestre reunia
devotos para praticarem lila –smarana.
Afinal , qual a dificuldade de ler o que os Gosvamis escreveram, não é assim que
podemos crescer, progredir, o fato é que ninguém pode refrear esse ímpeto espiritual do sadhaka
que busca a verdade, nem o próprio Guru iniciador pode fazer isso, Jiva Goswami, cujos escritos
são aceitos como princípios em toda Gaudiya Vaishnavismo proíbe:
sri-gurv-ajñaya tat-sevanavirodhena canyesam
22

api vaisnavanam sevanam sreyah


. Anyatha dosah syat.
Bhakti Sandarbha, p. 122.
“O Guru iniciador não deve interferir com a associação de seu
discípulo com outros Vaishnavas avançados, pois tal associação é uma parte
essencial no progresso da vida espiritual desse discípulo”.
Às vezes na concepção dos discípulos as palavras de seu guru pode parecer
diferente das de outros santos e/ou das escrituras reveladas autênticas. Em qualquer caso o
discípulo não deve ofensivamente pensar que o guru está errado, ou achar que o outro santo está
errado ou ainda que o shastra está errado. Deve, isso sim, se lembrar de uma famosa canção de
Narottama dasa Thakura:
sadhu sastra guru vakya hrdaye kariya aikya
satata bhavisa prema majhe
karmi jnani bhaktihina ihare karibe bhina
narottama ei tattva gaje
"Narottama canta o tattva que o discípulo deve harmonizar o direcionamento que é
dado pelos sadhus, shastras e guru em seu coração e assim pode navegar sempre no oceano de
prema. Quanto aos jnanis e karmis desprovidos de bhakti é melhor se manter longe deles"
Assim, Narottama dasa Thakura nos aconselha a conciliar as palavras do sadhu,
shastra e guru. Se as palavras do sadhu parecerem diferentes das do shastra e das do guru, não
se deve achar que o sadhu está errado , isso é ofensivo, o que o devoto deve pensar é que ele
deve se considerar incapaz de compreender as palavras desse sadhu e deve seguir guru -vakya.
E se ocorrer que as palavras do guru seja diferente das do sadhu e dos shastras, então, ao invés
de achar que o guru está errado , deve considerar inapto de entender a finalidade verdadeira do
guru-vakya , mas deve seguir sadhu-vakya. Quanto aos shastras nunca há erros neles. Assim
seja quem for nosso guia nesses casos, sadhu ou guru-vakya eles nos guiarão no necessário
direcionamento dos shastras.
Todo o progresso é conseqüência daqueles que tomaram posições impopulares ,
por isso, as sociedades os enquadra com nomes feios, afasta-os , denigrem sua imagem como
danosos, chamam-no de sahajiyas, impersonalistas, etc. como se a verdade fosse algo exclusivo
, como se pudéssemos colocá-la em algum contrato social , em normas e regras, como se amor
fosse sujeito ao aprisionamento de algum grupo institucional.
Essa obra traz em seu bojo muitas expressões(embora traduzidas nos parênteses)
em Bengali para uma melhor familiarização do leitor e possibilidade de externar sentimentos
puros com a palavra adequada, sem necessidade de recorrer as línguas ocidentais que trazem o
peso da mentalidade sexualmente voltada.
O assunto que trata esse livro, não é para a pregação ao público em geral. Isso só
se pode tratar em grupos selecionados em um estado de espírito de profunda reverência.
Contudo, absolutamente isso não quer dizer que esse assunto é só para os ouvidos de alguns
privilegiados.
É entendimento pacífico entre os Vaishnavas que o cerne dos ensinamentos dos
Gosvamis se delineia na discussão sobre Raganuga bhakti.
A definição de Raganuga bhakti é fornecida pelo Cheitanya Charitamrita 22.149: “O
habitantes extraordinários de Vrindavana tem apego espontâneo ao serviço devocional, que é
23

chamado ragatmika bhakti. Se um devoto segue o caminho de um desses devotos de Vrindavana


seu serviço devocional é chamado Raganuga bhakti.”
O primeiro conceito importante na vida espiritual é sadhya.
Sadhya é a clara idéia que se dá ao devoto a respeito de seu objetivo, mostra-se a
razão pela qual o devoto está se esforçando, sob a pena de uma prática vaga, dispersa, sequer
será sadhana bhakti realmente.
80% do livro Néctar da Devoção de A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada discute
sadhya ou qual é o objetivo do devoto.
O devoto(sadhaka) deve ter consciência do seu destino para poder desejar ,
acalentar. O sidhanta de nosso parampara não admite um destino contrário ao anseio do devoto –
em palavras simples, você não vai para aonde não quer(ex.; um devoto nascer como uma pedra
em Vrindavana se não acalentou tal destino, etc.).
Outro sidhanta aceito por todos os Vaishnavas é que seguindo o caminho de
sadhana bhakti, gradualmente, chega-se a Raganuga.(vide texto 8 do néctar da instrução de
Shrila Prabhupada). Infelizmente ou felizmente, isso não se dá automaticamente, (isso é o mesmo
que acreditar que o universo foi criado em uma grande explosão cuja ignição se deu
automaticamente), nada acontece no universo separado do desejo, mesmo o universo não foi
criado automaticamente, há um desejo por detrás de tudo.
A idéia moderna de automático é de uma máquina trabalhando inconscientemente,
autômato, robô, sem vontade própria, ora será isso que pensamos de nós mesmos, ou que
almejamos?
Todavia, se adentrarmos com profundidade no significado da palavra automático ,
teremos: auto (eu) e matic( movimento, pensar), que redunda em movimento e pensamento do
eu. Krishna diz no Bhagavad guita, que satisfaz nossos desejos segundo a natureza de nossa fé.
Por isso a expressão de nossa vontade em ação(movimento) e pensamento é que
vai resultar em iluminação sob a guia dos mestres espirituais.
Não existe avanço espiritual sem vontade(volição, querer),nada é automático
(sentido popular) em tudo há o querer. Assim, o sadhya(objetivo) é estabelecido (fixado) pelo
desejo sincero do sadhaka. Nem milhares de vidas praticando atividades piedosas espirituais tais
como serviço regulado, pregação , publicar livros, ou archana(adoração a Deidade) não podem
dar a absorção nas doçuras da devoção pura. Não há nenhuma garantia nos shastras que Vaidhi
se transforma em raga em algum lugar ( lugar esse não determinado).
Não há garantia nas escrituras que afirme que o que não aconteceu aqui, enquanto
estamos nesse corpo material, irá acontecer após a morte.
Sem saber qual o destino(sadhya) como pode alguém se preparar? Se vou para um
clima frio, quente, úmido, gelado, moeda corrente, língua do local, etc. Há tanto que saber. Essa é
a informação que a literatura dos Gosvamis veio nos dar, sem discriminação, para as almas
caídas da kali-yuga.
O motivo confidencial da vinda de Cheitanya Mahaprabhu foi saborear a posição de
Shrimati Radharani, compreender as doçuras transcendentais dEle mesmo e desfrutar da alegria
sentida por Radharani. As razões secundárias foram pregar os santos nomes , responder ao
chamado de Adueita Acharya (Mahavishnu)..
Em toda kali-yuga vem o yuga avatara para estabelecer o yuga-dharma , que nesta
era é o Hari Nama Sankirtana, mas, isso é para a população em geral através de Vaidhi bhakti e
se subordina a razão principal.(vide C.C. adi-6)
Mahaprabhu diz que o yuga-dharma é propagado por Seu angsa(expansão
plenária). Portanto o movimento de Sankirtana é a razão externa da vida do Senhor.-C.C.adi-3
24

O motivo principal da vinda do Senhor é dar Vraja-prema.


Ora, Krishna descende uma vez a cada kalpa(dia de Brahma). O yuga-avatar
(expansão de Shri Krishna ) é que descende uma vez a cada yuga. a função do yuga-avatar está
prevista no Bhagavad gita, aliviar o peso da terra e estabelecer o yuga-dharma.
Porém, Cheitanya Mahaprabhu não é apenas um yuga-avatar, Ele é o próprio
Swayam Bhagavan Shri Krishna, Ele advém uma vez em cada dia de Brahma(kalpa). Em Sua
vinda, todos Seus avataras também vem dentro dEle(inclusive Mahavishnu que estabelece o
yuga-dharma). Essa é a razão do famoso verso anarpita-carim-cirat-karuna de Rupa Gosvami,
que fala da misericórdia há muito tempo não oferecida. Essa é a misericórdia inconcebível, que
qualquer patife caído da kali-yuga pode caminhar direto para o Krishna –lila por meio dos
processos estabelecidos por Mahaprabhu em sua própria vida.
Em relação ao movimento de Sankirtana, há que se ver o Harinama como a base
tanto do Vaidhi quanto do Raganuga sadhana (cujo objetivo é despertar prema) como
estabeleceu Sanatana Gosvami no livro Bhihad bhagavatamrita 2/5/219 .
Os Gaudiyas Vaishnavas , todavia, estão no humor mais íntimo, confidencial de
Cheitanya Mahaprabhu, onde o nama é dado com vistas a Vraja prema, esse é o mula-
karam(razão principal) para a vinda de Cheitanya Mahaprabhu (vide C.C. Adi-4)
“Não tente compreender esses assuntos que são inconcebíveis (achintya) com a
lógica mundana, pois o significado de achintya é estar além da natureza material. (Mahabharata,
Bhahma-parva, 5. 22)”
Todos os devotos começam suas práticas em Vaidhi bhakti, e o sadhana é
convertido em Raganuga apenas no momento em que a fé e a aspiração(ânsia, desejo) acordam
( são despertadas) ao se ouvir Hari-katha de devotos que estejam situados no humor dos
associados eternos do Senhor em Vraja.
Essa é a conclusão de Rupa Gosvami e todos os acharyas em nossa linha.
Nós estamos importando consciência de Krishna porém no atual momento histórico
não podemos deixar vir com os ensinamentos , com a luz e o amor, os desentendimentos do
passado , mesmo entre os Acharyas, nós podemos e devemos no Brasil nos unir em uma família
vaishnava onde se sentam todos os Vaishnavas sem barreiras do parivara(família) vaishnava a
que pertença o devoto, devemos pensar que não compreendemos e jamais seguir qualquer um
que nos diga que o outro vaishnava é nosso inimigo, isso é feito apenas para dividir e governar,
isso apenas espalha sentimentos de ódio.
Não desfrutamos de condições ideais , nossa sociedade caminha no sentido do
materialismo, raramente encontramos um vaishnava, qual a razão de se por benção divina
encontrarmos um vaishnava no deserto do amor ocidental ficarmos questionando se o avô do
devoto ofendeu meu bisavô? Isso é absurdo. Temos que respeitar a todo ser vivente o que dizer
então de um vaishnava. Queremos amor irrestrito, incondicional a todos os devotos. Essa é a
essência dos ensinamentos de Cheitanya Mahaprabhu.
E esse é o motivo de termos traduzido esse livro ao português, ouvirmos o Hari-
katha de um associado eterno, Krishna Das Kaviraja que cumprindo a ordem de Rupa Gosvami
escreveu esse Govinda Lilamrita para todos nós.
Phanindra mohan das
25

O Vaishnavismo e seus aspectos históricos


Jagadananda das
A questão do siddha pranali em termos de sua história, é um assunto que merece que nos
debrucemos amiúde. Há muitos, muitos outros nuanças do que simplesmente está previsto nas
escrituras .
A história registra, até onde eu sei, que Radhakrishna Goswami na sua obra Sadhanadipika
foi o primeiro a especificar que só renunciantes (sanyasis) são elegíveis para a prática de
Raganuga-sadhana. Esse livro data do princípios do século XVII. Na obra Bhaktisandarbha, Jiva
Gosvami adverte também que desde que (um homem) não tenha ereção enquanto pratica lila-
Smarana, ele é qualificado. Eu duvido que essa declaração queria dizer que essa pessoa jamais
tenha ereção . A menos que se faça como Orígenes, famoso filosofo grego que ao ler as
instruções deixadas por Jesus Cristo “se torne um eunuco para o Reino de Deus”,
impetuosamente se castrou. Única maneira de não se ter ereção de nenhuma forma.
Ou, como alguns outros interpretam essa passagem famosa, purusendriya-vikara, como
significando ejaculação simplesmente. De qualquer modo, algum grau de controle por parte do
sadhaka que pratica lila smarana é esperado. É difícil precisar a data do aparecimento do
Gaudiya vaishnava sahajismo. Falando de modo geral localiza-se traços do sahajismo já antes
de Mukunda Goswami, um discípulo de Krishnadas Kaviraj que viveu no Radha Kunda mais ou
menos na mesma época. Rupa Kaviraj foi discípulo de Mukunda dasa e apresentou uma versão
do sahajismo na Bengala antes do século XVII.
A Bengala já estava praticamente amadurecida espiritualmente. Por que? Porque Jnana
Das, Govinda Das e outros haviam inundando o Leste com canções de lila-kirtan. Poder-se-ia
comparar essas canções em termos de popularidade com o sucesso de uma dupla sertaneja
atual. Elas eram as canções de sucesso da época e se espalhavam como fogo. Vocês pode
imaginar pessoas do povo cantando essas canções de amor de Radha-Krishna enquanto colhiam
arroz no campo .
Claro que, Vidyapati com as suas canções rústicas sobre Radha e Krishna e Chandidas, o
que falar de Jayadeva, já eram parte integrante da cultura popular. Chandidas é uma figura
controversa e B. B. Majumadar fez uma análise bastante boa do que é o " verdadeiro " Chandidas
e o que não é, mas em última instância ninguém realmente sabe. Mesmo assim, as canções de
Chandidas são fundamentadas certamente em uma real relação de amor . Baru Chandidas, claro
que, tinha escrito Shri Krishna Kirtana que é um jeito de olhar bastante humano os romances
amorosos de Radha Krishna. (Entretendo totalmente aqueles que nunca tiveram a chance de ler )
Vidyapati é o mais erótico dos três e escreve em um estilo elegante, como seria esperado de um
poeta da corte. Nenhum deles coloca muito ênfase na divindade de Krishna.
O que podemos concluir com isso? Uma primeira idéia é que na Bengala, as canções de
amor (que são um gênero quase universal) especificamente foi expressado no Radha Krishna lila
kirtana. Com o advento do siddhanta dos seis Gosvamis, um lila-kirtana purificado passou a
existir, agora se dava maior ênfase na divindade da pessoa de Krishna. Porém, os Gosvamis
jamais rejeitaram os lila kirtans como um gênero universalmente aplicável. De fato, os Gosvamis
apenas mudaram o modo que o lila de Krishna era apresentado.
Nos séculos XV e XVI o gênero escolhido preferencialmente foi o mangala-kirtana no qual a
pessoa com um grupo de apoio cantava textos como o dos livros: Cheitanya Mangala, Shri
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Krishna vijaya, Gopala-vijaya, etc., etc. Esse foi um gênero que se usou por todos os deuses e
deusas; Chandi Mangalas também era um gênero muito popular.
O Lila Kirtana foi um tipo completamente novo de música ( essa é a razão de se dar tanta
importância aos estilos de música " Mananshahi e Garanhati" que foram propagados por Srinivasa
Thakura e Narottama das Thakura.)
Na época do festival de Kheturi, Gourachandrikas se tornou outro costume usual. Srinivasa
e Narottama introduziram esse algo novo chamado Gourachandrika, ou seja todos o lila Kirtana
sempre começava com uma introdução em Goura-lila antes de adentrar no Vraja lila.
Pode-se averiguar , então, que nos idos de 1575 (época do famoso festival de Kheturi), um
esforço combinado foi feito para a utilização do lila-kirtana como um meio de propagar a
consciência de Krishna. Nós provavelmente jamais saberemos a razão por detrás dessa tentativa,
todos os Vaishnavas opinavam que Jangadas e Govindadas eram gênios poéticos que podiam
comunicar o rasas extático de Vraja-lila na língua bengali popular que causava alegria em todos,
quer fossem devotos ou não-devotos. Contudo, o que se pode salientar é que não houve na
época (e nem há nos dias de hoje) qualquer política de exclusão de metodologia para propagar a
consciência de Krsna. Todas as pessoas tinham liberdade de ouvir o lila-kirtana e também
participar no Harinam e ouvir o Srimad Bhagavatam. A combinação dessas atividades era para
favorecer a entrada de pessoas comuns no caminho devocional. Porém, temas específicos como
siddha-pranali ou manjari-bhava sadhana não estavam tão disponíveis.
Será que haveria perigo de sahajismo resultante da disseminação irrestrita do lila-kirtan? A
resposta parece ser sim. Será que essa ameaça sahajiya foi o suficiente para os acharyas como
Srinivasa, Narottama e Jahnava Mata por considerar muito problemático a apresentação ao
público em geral do lila-kirtan, que basicamente versava sobre madhura? Evidentemente a
resposta é um estrondoso "Não".
Além disso, há evidência que Gaudiya Vaishnavas fidedignos como Virabhadra Goswami e
Ramachandra Goswami (ambos discípulos de Jahnava-devi- esposa de Nityananda Prabhu) não
só eram contemporâneos mas até mesmo cooperaram entre si com o " Neraneris " e outros
Vaishnavas tântricos. Eles podem não ter concordado com a doutrinas dos tântricos, mas eles
jamais declararam uma guerra aberta.
Há pequeníssima ou quase nenhuma condenação pública contra os Sahajiyas nas escritas
dos Vaishnava Acharyas. Podemos inferir que havia um pressuposto negativo claro nos escritos
do Bhagavata e Cheitanya Charitamrita que dispensava qualquer comentário enfático . É bastante
estranho, porém, que Visvanatha Chakravarti, na sua crítica famosa do Sauramya-mata, não fala
sobre aberrações sexuais, mas só sobre o não uso de malas de tulasi e não seguir o ekadasi .
Considerando que esse Sauramya-mata é identificado com Rupa Kaviraj, parece uma omissão
bastante estranha.
Nós podemos inferir que a pregação de Jiva Gosvami sobre svakiya-vada (amor do
casamento) ao invés do parakiya(amor de amante) foi divulgada simplesmente pelo temor de que
o " exemplo impróprio" de Krishna causaria a destruição da moralidade pública, mas Jiva
Gosvami não faz qualquer declaração sobre isto em qualquer lugar em qualquer dos seus
escritos. É impossível estabelecer padrões de comparação entre as condições culturais na
Bengala nos séculos XVI e XVII com o que vemos nos dias de hoje. Mas é certamente estranho
que o moderno Gaudiya Vaishnavismo acredite que seja necessário eliminar a prática de lila-
kirtana e lila-Smarana completamente do seu " arsenal " de sadhana e atividades de pregação .
Nós todos, devido esse mal entendimento, ficamos privados das jóias escritas em bengali e
sânscrito dentro da literatura Gaudiya Vaishnava: essas escritos tem como principal preocupação
os romances amorosos de Radha e Krishna.
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E o medo primário que gerou a atual posição de afastamento dessa metodologia


anteriormente consagrada pelos vaisnavas é baseada na presunção de que os que lesses esses
escritos cairiam na sexualidade mundana. Como Tripurari Maharaj tentou mostrar recentemente
no sua pregação semanal , em uma sociedade como a nossa, inundada com pornografia e
sexualidade gráfica e virtual, as descrições prazerosas dos passatempos de Radha e Krishna
encontradas na literatura Gaudiya Vaishnava nem de leve se assemelham com as nojentas
descrições Ocidentais.
Porém, no contexto do século XIX na Bengala, debaixo dos pés das tradicionalistas regras
britânicas vitorianas, esses temas com descrições de amores eram colocados sob um enfoque
bastante diferente. Há várias coisas que precisam de ser discutidas sobre esse importante
período do século XIX na história bengali. Um detalhe em especial precisa ser discutido:
O que ocorria era que os homens bengalis, como conquistados, eram vistos como "
efeminados " pelos britânicos , que era uma tradicional " raça marcial e masculina ". Essa era a
propaganda usual do britânicos no século XIX, uma linha comum do seu discurso, especialmente
no período em que Bankim Chandra e Bhaktivinoda Thakura escreveram seus trabalhos.
Praticamente quase toda crítica da cultura bengali feita pelos invasores foi colocada em termos do
"homem bengali efeminado".
O comportamento sexual bengali também foi taxado pelos britânico como " descontrolado ".
Isto devido ao sistema de matrimônio de crianças no qual a tradição bengali rezava que as
meninas não poderiam ter a primeira menstruação estando solteiras.. O livro " Masculinidade
Colonial " por Mrinalini Sena discute esses assuntos com seus detalhes históricos.
RAm Mohan Ray, Bankim Chandra, Vivekananda, Aurobindo e a maioria dos outros reformadores
bengalis estavam devidamente envergonhados pela condição de subjugados da nação indiana e
assim buscaram uma transformação da própria cultura . Eles exigiram um retorno ao Krishna do
Bhagavad-Gita e rejeitaram o Krishna de Vraja como sendo impróprio para aquela época que
passavam.
Nós temos assim que entender Bhaktivinoda Thakura e as reformas de Bhakti siddhanta Saraswat
sob a luz e enfoques do discurso pertencente aquela época. E utilizando as luzes de nosso
próprio tempo, devemos considerar se a atitude de Bhaktivinodha/Bhaktisiddhanta continua sendo
apropriada ao tempo em que vivemos.
A pergunta básica é a seguinte: Se um chefe de família que está ocupado em atividades
sexuais deve ou não ouvir e cantar sobre o prema-khela de Radha e Krishna ou tal grihastha está
impedido de entrar em ragamarga? E se tal devoto/a não estiver ocupado em qualquer outra
prática devocional? Será que nós temos fé no processo purificante que é enfatizado
repetidamente no Srimad Bhagavatam, no verso 10.1.4:
nivRtta-tarSair upaglyamAnAd chrotra-manobhirAmAt de bhavauSadhAc
uttama-zloka-gunAnuvAdAt de ka pumAn virajyeta vinA pazughnAt
tradução de Shrila Prabhupada: "as descrições do Senhor são o remédio correto para a alma
condicionada que se submete a repetidos nascimentos e mortes. Quem se nega a ouvir, é
açougueiro ou o que prefere matar seu próprio eu. " Esse belo verso só pode estar se referindo ao
prema-keli (atividades amorosas) de Krishna. É prazeroso a ambos: os liberados e os não-
liberados, e é a esse não -liberado que se destina, afinal , o remédio para a condição material.
No Bhakti-rasamrita-sindhu (3.5.2), Rupa Goswami especifica três razões para não dar
explicações nessa obra sobre os detalhes de madhura-rasa. (Claro que Rupa Gosvami explicou
tudo isso no Ujjvala Nilamani.) a primeira razão é nivRttAnupayogitvAt--" é impróprio para os
devotos que são renunciados " (!) Algo espantoso aqui, a Renúncia parece ser uma
desqualificação. Nesse caso, devotos que sofrem de safronismo estão corretos em se afastar do
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Vraja-lila . Se alguém tem medo de cair em vida sexual ilícita por causa de se ocupar em
Raganuga-bhakti, então é melhor mesmo não se atrever a tal, Rupa Gosvami já os desqualifica
por excesso de renúncia.
Um dos principais rasikas Babaji Vaishnavas, Dinasarana Das Babaji, costumava narrar a
um outro devoto que era casado Sasanka-sekhara Balniyogi (um chefe de família) que se ele
nunca tivesse estado casado, ele nunca teria podido apreciar o lila de Radha-Krishna. Portanto, a
Experiência sexual mundana pode ser mesmo uma bênção disfarçada.
Vishnudas discute o mesmo verso no seu comentário do Ujjvala Nilamani 1.2 e diz também que
nivRtta pode significar 'aqueles que não estão no humor adequado (santa, etc.). Basicamente,
todos os três comentaristas (Jiva Gosvami, Visvanatha Chakravarti e Visnudasa Gosvami) do
Ujjvala Nilamani dizem que o problema é ver os passatempos de Krsna como algo mundano.
Porém nos tempos modernos na pregação ocidental há algo a mais que precisa ser analisada.
Será que os devotos ocidentais que passaram a indagar sobre Raganuga-bhakti e siddha-pranali
estão fazendo perguntas porque pensam que os passatempos de Radha Krishna são mundanos e
esses devotos estão procurando excitações eróticas? outro estrondoso não. Para melhor
entendermos vamos a outro verso.
Visnudas também cita um verso do início do Vidagdha Madhava de Rupa Gosvami:
nAma udAsatAM rasAnabhijnAH Rtau tavAmI rasikAH sphuranti
upekSite'pi de kAmam de kramelakaiH pikAH sukhaM yAnti paraM rasAle
" Que a esses que carecem de experiência sobre rasas permanecem indiferentes a esse
trabalho teatral (Vidagdha Madhava) enquanto os rasikas sentirão prazer ao ler esta obra. Os
camelos ignoram o broto de manga onde o papagaio encontra grande prazer ".
A premissa básica de raganuga bhakti é o desejo (lobha). Esta é uma sensação poética e
estética que tem pequeno ou nada que ver com a renúncia seca e os dois assuntos não podem
ser confundidos. Todavia, há outras questões que a mentalidade ocidental coloca grandes
barreiras para assimilar. Para exemplificar trazemos a colação uma citação de um analista
freudiano , texto escrito em 1955,:
" [Krishna] é retratado como um homem que adota aparência feminina, sedutor e ainda com
uma juventude divinamente poderosa. Alguns de Seus devotos parecem se identificarem com Ele
quando Ele faz as Suas conquistas amorosas , há os que se identificam com as gopis que são
tomadas de um grande prazer na antecipação do encontro com Ele. Essa específica figura do pai
pode ser categorizada como revelando um desejo velado por Ele como um amante homossexual.
(Carstairs, Os Duas vezes Nascido)
Essa declaração abre um leque de fortes tormentos para o devoto. Pode ser visto como uma
continuação da crítica britânica do "indiano afeminada" mencionado anteriormente. Mas o assunto
é mais complexo que isso. Os pensadores ocidentais mesmo antes do advento de Freud tinham
uma tendência de pensar em religião e renúncia como algo " afeminado " ou pelo menos
atividades "não masculinas " . Tal atitude encontramos até mesmo na era medieval européia.
Celibato é o que os antropólogos gostam de chamar um " estado do limbo(local onde se atira
coisas inúteis)", e um estudioso da época medieval chama o padre celibatário de um " terceiro
sexo ". É dito historicamente que os motivos que levaram os padres a aceitarem concubinas era
para se protegerem contra acusações de sodomia (pedofilia) com os coroinhas. Esses padres
foram de uma forma tão generalizada acusados de impropriedade sexual (como são até os dias
de hoje) que tais imputações eram prontamente utilizadas como uma ferramenta através de
manobras que ocultavam outras preocupações mais terrenas como a política e a economia contra
o rico e poderoso clero em geral.
29

Em nosso mundo atual é bem comum ouvirmos falar sobre homens " que assumem que têm
um lado feminino". Nós podemos dizer sem medo de errar que Mahaprabhu é um símbolo de um
homem (Krishna) que foi subjugado pelo Seu lado feminino (Radha-bhava-dyuti-suvalita). Nessas
considerações, não podemos esquecer que estamos lidando com uma premissa que algo a
respeito da emotividade feminina está intimamente relacionada com bhakti (e aqui nós temos que
nos lembrar que nós estamos lidando com uma idéia já universalmente aceita) -- pelo menos no
que se refere a lágrimas, preces, humildade, submissão, etc...--e isso tudo põe-se contra a
masculinidade vigente na cabeça dos ocidentais , que é considerada como uma coisa superior.
Se quisermos quebrar a propalada superioridade basta ler a crítica que Nietzche fez contra os
cristãos que chamou de "moralidade de escravo". Essa atitude 'machista' foi colocada na berlinda
pelo feminismo nascido no século XX e, sem dúvida, deve ser posta em discussão em face da
chegada recentemente ao Ocidente das premissas básicas de raganuga bhakti.
Nós somos Prakriti e só Krishna é purusha, porém a masculinidade arraigada na consciência
ocidental é algo muito difícil de o homem abrir mão. Nós estamos entrando com certa
profundidade na psique (processos mentais conscientes e inconscientes) do chamado "homem
ocidental " e por isso temos que levar esse problema de "desistir da masculinidade enraizada "
-concepção cristã ocidental - com muita cautela. Um estado de emotividade permanente como
observamos em Cheitanya Mahaprabhu é claramente extraordinário e a colocação desse
sentimento como 'algo desejável ' é um tanto questionável. Como caminho místico, porém, tem
um certo fascínio. Nós temos que ampliar os nossos próprios limites estabelecidos no passado
em relação a tudo que considerávamos como estabelecido para podermos adentrar na relação "
cara a cara" com o divino.
O caminho de devoção é essencialmente um pessoa que busca o divino mais pela emoção
do que pela razão ou esforço. Quando nós falamos sobre devoção misturada, nós estamos
falando sobre uma mistura de atitudes mentais. Alcançar a perfeição mística requer compromisso
absoluto e exclusivo com um único caminho; misturas com outros caminhos podem ser úteis em
certas fases do processo, mas no final das contas verdadeira transcendência vem por meio de um
compromisso de exclusividade. Vivenciar Deus como sendo Ele uma pessoa exige o caminho de
bhakti e o caminho de bhakti apenas. O Srimad Bhagavatam enfatiza repetidamente que jnana e
vairagya seguem atrás de bhakti.
Em última instância bhakti não podem ser compreendida em termos de atividades externas
(vender livros, fazendas, compras, pregação, gurukula, faculdades) . É, exclusivamente, um
processo interno. Isto é o que quer dizer raganuga bhakti. Corroborando isso o Srimad
Bhagavatam diz:
romaharSaM de vinA de kathaM
vinA de dravatA de cetasA
vinAnandAzru-kalayA
vinAzayaH de bhaktyA de zuddhyed
Como pode o coração de uma pessoa se purificar sem a devoção extática que faz com que
o cabelo dessa pessoa se arrepie, sua mente se derreta de amor e lágrimas fluam dos seus
olhos? (SB 11.14.23)
Talvez, em uma fase preliminar nós possamos declarar que o mérito da emoção e amor,
etc.., é um modo de dar valor ao lado feminino de nosso ser e que nós devemos cultivar essa
atitude. Rasika Vaishnavas como Kanupriya Goswami desenterrou uma citação do Cardeal
Newman (teólogo inglês do século XIX) que diz: " Se a tua alma está destinada a ir a bem-
aventurança espiritual mais elevada, deve se tornar uma mulher, sim, porém , de modo másculo
deve permanecer entre os homens ".
30

Na Gaudiya Math, a característica de monge tende a comparar o celibato com um espírito


masculino heróico chamado--Vira-rasa. No final das contas, exatamente isso pode ser o
impedimento bem maior para o devoto atingir madhura-rasa do que a falácia da possível queda
libidinosa se adentrar em raganuga ". Essas críticas para se evitar o caminho de raga bhakti traz
em si todos os perigos que ela pretende evitar, ou seja , a falta da busca pelo sentimento natural
do amor , faz com que tais devotos se voltem , em nome de pregação, de falsa fidelidade, para
outros tipos de pecado, como a arrogância autoritária, desejo de lucro e vantagem, adoração e
reconhecimento pelos seus pares, prestígio social que essencialmente são defeitos e falhas
masculinas. Sadhu savadhana! como os Gaudiyas amam dizer.
Dessa simples análise, cada um pode fazer sua apreciação crítica, mas há algo que merece
destaque, é o que diz o Cheitya guru - ou seja, 'simplesmente , siga o seu coração. Todos nós
temos de encontrar um mahatma rasika e nos abrigarmos nele, ou a alternativa será nos
abrigarmos nas críticas e advertências do medo que dizem "não vá ver àquele mahatma, não vá
lá". Os recursos que nós dispomos e circunstâncias em que vivemos nos dias de hoje são bem
diferentes dos acharyas do passado. Vemos que extraordinárias ferramentas são utilizada para
criticar, denegrir, menosprezar tantos vaisnavas fidedignos do passado e mesmo para atacar o
humor do Gaudiya Vaishnavismo, e a estrutura social ateísta com olhos apenas para o dinheiro,
conforto, luxo e luxúria ataca com todas suas forças o teísmo e a religião em geral, nós ,
seguidores de Mahaprabhu, temos obrigação de tratar todos esses assuntos e sabermos lidar
com todas essas acusações oriundas das chamadas 'classes dirigentes'' "líderes da sociedade"
que tanto Prabhupada queria penetrar.
Se alguém pensa que basta apenas dizer " Os amores de Radha e Krishna não
estão na plataforma material" e isso bastará para a sociedade que cada vez mais busca os
'analistas' para resolverem sua crescente insatisfação, QUALQUER psicólogo, lhe dirá que você
está completamente errado. Eles dirão que "sexo é sexo " idealizado ou real. Radha e Krishna
representam a vida sexual idealizado ou de fantasia para o psicanalista. Quem é que pode dizer
que não é assim? Como você provará isso, além de citar os acharyas qual o outro meio de prova?

Shridhara Maharaj, em Evolução Subjetiva (pág. 87), aceita " o conceito de paralelismo"
enunciado por Platão até um certo ponto. De acordo com Platão, as formas que nós vivenciamos
são uma reflexão da forma ideal. Esta era a compreensão de Platão de como as formas que nós
percebemos são apenas um reflexo pervertida do mundo espiritual original". Assim a diferença
está em se a forma " ideal " é uma projeção de nossa experiência ou se esse mundo é que é um
reflexo da forma ideal.
O que antigos discípulos de Prabhupada dizem é que " ninguém tem medo de
raganuga bhakti, " mas a evidência é exatamente o oposto. Toda vez que um acharya da Gaudiya
math (com a possível exceção de Narayana Maharaj, que por suas posições atrai para si a ira de
todos os demais e portanto tem que se resguardar ) menciona raganuga bhakti, só faz a menção
com o intuito de colocar milhões de placas de sinalização " perigo " em volta do assunto. Se isso
não for medo, não sei o que será.
E o que é esse medo? Que nós caiamos em vida sexual lícita, não é exatamente
isso que pensa a Gaudya Math como um todo?
Por isso o ponto principal de nosso estudo é salientar e tornar visível mesmo aos
recém chegados que , historicamente, essa idéia que hoje se propaga no Ocidente, jamais foi
promulgada por nenhum dos acharyas do passado, não foi assim que os mestres nos ensinaram
a pregar no princípio, por exemplo, o lila-Smarana foi encorajado por todos os mestres espirituais
de todas as parivaras(famílias) vaisnavas fidedignas, independente do estudante ter lido ou não
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os primeiros nove cantos do Srimad Bhagavatam. Os processos de lila-kirtan, bhagavata-sravana


e harinama eram recomendados simultaneamente . É assim que se formou a família Gaudya
vaishnava, e as razões que aqui foram trazidas referentes a época histórica de um povo
dominado e humilhado (chamado de afeminado) pelos britânicos que ensejaram uma reviravolta
da forma de pregação , (do Krsna de Vrindavana para o Krsna da batalha de Kurukshetra) foram
circunstâncias já passadas e por isso mesmo sem razão de ser no contexto atual da sociedade
moderna de livre manifestação do pensamento e sexualmente bem mais aberta a discussões.
Temos que ter claro que os acharyas como Rupa Gosvami, Krsnadasa Kaviraja, Visvanatha
Chakravarti , Narottama das Thakura e outros estavam completamente cientes da existência do
sahajismo e isso jamais fez com que eles se calassem, omitissem informações ou pusessem
placas de 'não entre, não vá' quando falavam sobre raganuga bhakti, muito pelo contrário, todos
eles afirmaram em alto e bom tom que sem raganuga bhakti não se adentra em Vrindavana.
O segundo ponto que foi destacado é que historicamente a reação contrária ao lila-kirtana
(canções e teatro simultâneos sobre os passatempos de Krsna) veio com a era vitoriana e a
reforma bengali. Esses são fatos históricos e ninguém pode contestar!
O terceiro ponto enfatizado foi que estamos vivendo outros tempos e hoje
sexualidade é discutida abertamente nas escolas, o que enseja uma visão mais serena dando
possibilidade a todos de apreciarem a " vida sexual ideal " de Radha e Krishna como algo puro e
divino.
Essa compreensão da pureza dos romances amorosos do Vraja-lila , como o Srimad
Bhagavatam diz, é exatamente o que vai purificar a nossa vida sexual. De natureza mundana,
com a leitura e meditação da vida sexual espiritual, passa a adquirir , gradualmente , uma
concepção espiritual pura, transformando luxúria carnal em amor transcendental. É claro como o
sol que, se nós temos medo de atividade sexual e a etiquetamos como algo " mal " ou " maya, "
então nós somos também etiquetados como " nivRtta " ou seja, inábil para o bhajan de raganuga
em madhura-rasa. Esse é o sentimento e a sentença definitiva de Shrila Rupa Goswami .
Outra questionamento necessário para que não nos tornemos seguidores cegos é sobre os
devotos casados (vimos o naufrágio que foi a Iskcon obrigar tantos a tomarem sanyasa) e sobre
sahajismo. Prabhupada diz no seu comentário do verso nivRtta-tarSair no Livro de Krishna que as
pessoas vêem Radha Krishna e ficam atraídas escutando porque pensam que se trata de uma
história de amor comum.
Os Vaishnava Sahajiyas continuam vendo Radha e Krishna e Radha com o enfoque
do Divino (não diferente dos demais vaisnavas) , entretanto o conceito deles de sadhana é um
pouco diferente, para falar pouco do assunto. A Gaudiya Math condena os Nomes de Radha e
Krsna que eles cantam, o lila -smarana que eles praticam, tudo que eles fazem. O mesmo se diga
aos casados que são considerados não aptos a adentrarem em raganuga. Um famoso guru,
discípulo de Prabhupada, disse esta semana na VNN "Eles ainda nem abandonaram a vida
sexual mundana, como querem falar de coisas elevadas". Porém , será que Narottama das e
Srinivasa Thakura que pregaram abundantemente em diversos meios diferentes teriam tanta
intolerância religiosa quanto a devotos casados, que alias são a grande maioria? Com certeza,
eles teriam sido mais liberais, além do que Srinivasa era casado.
Nos primórdios , mais generosos de Iskcon, os devotos estavam prontos para ocupar qualquer
pessoa de qualquer forma, não havia uma política de exclusão. Se dizia naquela época "
Permaneça no seu modo de vida, simplesmente acrescente consciência de Krishna, ". Essa
atitude salutar de bom convívio com os diferentes humores, mudou completamente. Chegou ao
ponto de ouvirmos , " Se torne um monge celibatário e permaneça morando no templo. Corte seu
cabelo ou caia fora ".
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Talvez uma atitude mais liberal para os chamados "aspectos esotéricos " da
consciência de Krishna abra a ampla visão da sexualidade simplesmente restabelecendo a
harmonia perdida no século XIX e inicio do XX. Em lugar de aumentarmos o lucro dos
psicanalistas pela imensurável "culpa" que assola os devotos porque caiu em vida sexual,
gerando uma massa de desajustados, suicidas, pudéssemos olhar com olhos mais atinentes a um
ser humano que quer se aproximar do lado humano de Deus, assim mesmo as falhas podem ser
vistas como um ímpeto para se lembrar de Radha e Krishna, mesmo que sejam atos defeituosos,
são imperfeições reflexos do Casal Divino perfeito.
Essas e muitas outras coisas precisam ser analisadas se queremos ver deidades de
Radha-Krsna ou Mahaprabhu instaladas nas casas dos homens comuns, que podem sim
desenvolver amor a Deus mesmo com as falhas humanas.
As sampradayas foram formadas para se manter uma coerência de idéias na
pregação e controle da ortodoxia.
A tradição exerce assim seu peso, para que não se passe a formar sub-seitas de
acordo com as ‘necessidades’ das personalidades dos gurus, isso impede inovações em matéria
de doutrina. O Guru, todavia, tradicionalmente, é uma instituição em si mesmo , além disso é
independente e a relação Guru/discípulo é algo particular, individualizado
A conseqüência disso é óbvia, cada vez mais surgem grupos atrelados a um líder
carismático, em uma crescente sub-ramificação devido ao sistema da autoridade do Guru.
O mestre ou Guru , em geral, declara sua lealdade a uma sampradaya (família
espiritual )específica, onde foi iniciado e de onde provem seus insights, suas vivências espirituais.
Surgem , como é natural, divergências de visões nos ensinamentos, daí a
necessidade da sampradaya, onde se mantém a coerência pelos ditames da tradição. Ou seja,
não se admite inovações em matéria de doutrina sob pena de surgir a apasampradaya(sub-seitas
fora da linha ortodoxa). A doutrina de Cheitanya é a grande árvore do Vaishnavismo.
A Gaudiya Math formou sua própria organização quebrando várias tradições,
inovando na doutrina de seu tempo, obra feita por Bhaktisiddhanta Sarasvati
Bhaktisiddhanta se distanciou do tradicional e hereditário sistema de diksha gurus e
dos praticantes vairagis da fé.
Ele , diferente de todo o Vaishnavismo até então, construi um parampara
diversificado, de gurus que contribuíram para o Cheitanya Vaishnavismo, mas sem relação entre
si de iniciação, ao que ele chamou de siksha parampara.
Todavia, manteve que para ser Guru é necessário um estágio elevado de realização,
ao menos ter atingido nishta. Shridhara Maharaja justificou esse ato da seguinte maneira:
Apenas os grandes baluartes devem ser mencionados, fazendo uma analogia com a
ciência onde apenas os grandes são mencionados, Galileo , Newton, Einstein etc., valendo os
grandes colaboradores e os menores podem ser omitidos, tal idéia desvaloriza o sistema de
iniciação em corrente.
Bhaktisiddhanta filho natural de Bhaktivinodha Thakura, não recebeu a iniciação
diksha de seu pai, que , por sua vez, foi iniciado por Vipina Bihari Gosvami, um descendente de
Ramachandra, o filho adotivo de Jahnava devi(esposa de Nityananda) e fundador de uma dinastia
de gurus iniciadores com sede em Baghna Para, uma aldeia a cerca de 20 km a sudoeste de
Navadvipa., Lalita Prasada , também filho natural de Bhaktivinodha recebeu iniciação diretamente
de seu pai mantendo a tradição da linha discipular.
A acusação de Bhaktisiddhanta é que Vipina Bihari Gosvami não aceitava que um
vaishnava (independente da casta) fosse superior a um brâmane, mas isso foi veemente negado
pelo seu irmão natural Lalita prasada, que afirmava que o respeito que Bhaktivinodha tinha por
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Jagannatha das como bhajana-shiksa Guru não necessariamente queria dizer que ele não tinha o
mesmo respeito por seu mantra diksha Guru Vipina Bihari.
Curioso é que o Siksha Guru de Jagannatha Dasa Babaji , Madhusudana Dasa
Babaji, desconhecia a identidade de seu próprio Guru, ele obteve seu siddha-pranali em sonho e
por isso foi aconselhado por Siddha Krishna Dasa Babaji a não fazer discípulos(Gaudiya
Vaishnava Jivana , l97).
No pensamento reformador de Bhaktisiddhanta o monopólio da instituição do Guru
por linhas discipulares hereditárias perturbava o fluxo da experiência religiosa, era não
democrática e levava a corrupção. Ele mesmo, não sendo brâmane, fez veemente guerra contra
esse monopólio. Na Gaudiya Math , Bhaktisiddhanta instituiu a concepção de daiva-varnasrama,
afastando-se o Vaishnavismo Gaudiya de sua época, por meio da nova compreensão do
significado de parampara. Esse foi o motivo pelo qual Bhaktisiddhanta não quis tomar iniciação de
seu pai Bhaktivinodha, embora o tivesse na mais alta conta, pois negaria a própria razão de sua
luta que era contra conexões familiares. Daí Bhaktisiddhanta buscou iniciação de Goura kishora
das, renunciante de grande reputação da época.
Shridhara Maharaja fornece outras razões, além da citada, diminuindo o valor da
sucessão discipular de Vipina Bihari:
Em Shri Guru e Sua Graça ele narra:
“Temos que seguir o espirito; caso contrário após Jahnava devi, a esposa de Senhor
Nityananda, até Vipina Bihari Gosvami, de quem Bhaktivinodha Thakura tomou iniciação existem
muitas senhoras gurus desconhecidas. Por meio delas o mantra chegou a Vipina Gosvami e
depois Bhaktivinodha. Nós aceitamos Bhaktivinodha Thakura, mas deveríamos adotar todas
essas senhoras na nossa sucessão discipular? Qual foi a realização delas?”
Shridhara Maharaja acrescenta: “A essência do Guru-parampara, a sucessão
discipular é siksha, o ensinamento espiritual, e onde há vestígios dele, há Guru... Aquele que
possui conhecimento do amor divino absoluto puramente , ele é Guru. Senão seria apenas uma
sucessão de corpos. Assim os brâmanes de casta, Gosvamis de casta seguiriam com seu
negocio, o mantra que passa de um corpo a outro. Contudo tal mantra está morto. Buscamos pelo
mantra vivo, e onde detectamos uma tendência viva para um tipo de serviço devocional superior,
lá estará nosso Guru.”
Lalita Prasada , por sua vez, afirmava que Bhaktivinodha desaprovava a atitude
militante de Bhaktisiddhanta contra Vaishnavas seniores, como seu próprio Guru e em particular
ficava irado pelo desrespeito que ele demonstrava para com Vipina Bihari. Bhaktivinodha afirmou
posteriormente que jamais Goura Kishora deu um mantra formal de iniciação a Bhaktisiddhanta.
Todavia, tendo havido ou não tal iniciação(Goura kishora a Bhaktisiddhanta), o próprio
Bhaktisiddhanta jamais reconheceu a sucessão discipular de seu ‘ Guru’ Goura Kishora das, que
havia tomado diksha de uma linha de gurus de casta.
Os praticantes vairagis são os interessados nos aspectos mais esotéricos da
devoção a Krishna o que os leva a buscar instrução nas escrituras que atendem esses aspectos.
Os devotos ocidentais que foram pesquisar para conhecerem outras abordagens
além das que só priorizam a pregação, tiveram que retroceder 3 ou quatro gerações para
encontrar uma visão da verdade diferente entre os Cheitanitas.
A GAUDIYA MATHA APÓS BHAKTISIDHANTA
Bhaktisiddhanta Sarasvati deixou um conselho de três governadores para
administração do Math, Ananta Vasudeva, Paramananda e Kunjabihari, sem designar ninguém
como Acharya. Todos os três eram brahmachari. Posteriormente Kunjabihari tomou sannyasa
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com o nome Bhaktivilasa Tirtha em 1948 e Ananta Vasudeva tomou sannyasa em 1943 como
Bhaktiprasada Puri. Todavia, resolveram fazer uma eleição e Ananta Vasudeva foi aclamado
Acharya, Kunja Bihari e seus seguidores entenderam que isso era contrário ao desejo de
Bhaktisiddhanta que havia demonstrado certa predileção por Kunja Bihari chamando-o de Guru-
prestha(mais querido pelo Guru).Batalhas processuais nos tribunais se seguiram, os discípulos de
Bhaktisiddhanta ou se filiavam a um dos dois, ou seguiam seus caminhos independentemente, o
que fizeram Shridhara Maharaja, Kesava Maharaja, Madhava Maharaja, Gosvami Maharaja,
Bharati Maharaja e outros que fundaram seus próprios Maths na década de 40 e 50.
Puri Maharaja(Ananta Vasudeva), chamado depois Puri das e seu associado
Sundarananda Vidyavinoda passaram a uma investigação das escrituras visando reformar seu
próprio movimento. Eles se concentraram nas obras dos seis Gosvamis de Vrindavana. Puri
Maharaja estava particularmente desgostoso com o caminho de proselitismo escancarado da
Gaudiya Math, que ele considerava excessivamente entusiasta e desinformado, ofensivo e
contrario ao espirito verdadeiro do Vaishnavismo.
A avidez pela sucessão nos Maths era tanto que os dois oponentes das instituições
(Ananta Vasudeva e Kunja Bihari) concordavam que isso era devido a própria natureza da
instituição do Math. Acumularam-se vícios associados com riqueza, reputação e poder, o que não
é nem nunca foi monopólio de nenhum grupo religioso.
O associado de Puri Maharaja, Sundarananda elaborou extenso trabalho com as
escrituras mostrando os desvios dos shastras e da tradição praticados pela Gaudiya Math, entre
os quais se ressaltava a questão da necessidade da conexão ao Guru para se ocupar no serviço
a Radha e Krishna em uma identidade espiritual. Para isso ele citava Jiva Gosvami que sustenta
que na hora da iniciação, o Guru revela a relação do discípulo acompanhado do mantra.(vide
Bhakti Sandarbha, 283: “O termo ‘divino conhecimento” aqui se refere ao conhecimento da forma
especifica do Senhor contida nas silabas sagradas do mantra e o conhecimento de uma relação
especifica com o Senhor” divyam jnanam hy atra srimati mantre bhagavat Svarupa-jnanam, tena
Bhagavata sambandha –visesa-jnanam ca”
Esse tipo de informação que segundo Jiva Gosvami o Guru deve dar ao discípulo é
chamado siddha-pranali, ou às vezes chamado ekadasa-bhava(Bhaktivinoda Thakura aderiu a
essa ordem de Jiva Gosvami como pode ser visto em várias de suas obras Jaiva dharma,
Harinama Chintamani etc.).
Os renunciantes da comunidade Gaudiya que vivem em Vraja e Radha kunda (em
sua grande maioria ex-discípulos de Ananta Vasudeva, e o kirtana promulgado por Puri Dasa
(Shri Krishna Cheitanya gunadhama)pode ainda hoje ser ouvido lá, esses vairagis sustentam que
historicamente os devotos devem buscar iniciação do mestre espiritual da família de onde
receberá seu siddha pranali. Somente assim , poderão praticar Raganuga bhakti. Há muitas
histórias que corroboram essa assertiva para se poder entrar nos aspectos mais esotéricos da
vida religiosa.(vide Shri Shri Gaudiya vaishnava jivana- 195-7 e 128-130)
Em relação a isso a Gaudiya Math sustenta que a tradição do siddha pranali não é
encontrada nos mais antigos textos da tradição vaishnava. Para eles a identidade espiritual é algo
que brota do ser interno como resultado da purificação que é levada a cabo por meio de práticas
espirituais e não pode ser através de instruções formais. Isso é o que explica Shridhara Maharaja:
“Obter o mantra de um sad-Guru, um Guru genuíno, significa obter a boa vontade
interna ou concepção verdadeira sobre o Senhor. É como a semente da figueira da bengala, no
início pequena, mas dali brotará uma grande árvore. O desejo que vem no mantra dado pelo Guru
ao discípulo é o mais importante. Havendo uma circunstancia favorável a semente brotará e se
desenvolverá no tempo adequado.”
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UMA INCURSÃO NAS ESCRITURAS


O sistema parampara está descrito no Bhagavad gita onde Krishna diz; evam
parampara –praptam...(4.3) e ao final do verso , vemos que Krishna veio restabelecer o que havia
sido perdido e por isso falou a Arjuna.
Atualmente, em toda Índia ninguém se autoproclama como estando nesse
parampara, embora o Bhagavad gita seja por todos reverenciado.
Do Bhagavad gita então só resta a idéia, o principio. Na grande maioria dos grupos
da Índia, segue-se uma estrutura de parampara de ensinamentos, não de mantra.
Quanto aos Gaudiyas Vaishnavas proclamam uma sucessão discipular chamada
Brahma-madhva-Gaudiya-sampradaya.
O primeiro período é mitológico, começa como o deus criador Brahma que traz os
ensinamentos para a dimensão da matéria. O Bhagavata Purana conta que Vishnu falou o catuh-
sloki Bhagavata ao criador deus Brahma, que o repetiu mais elaboradamente a Narada, Narada
ensinou Vyasa que escreveu o Bhagavata. Claramente pode-se notar que não há relação de
iniciação aqui, apenas transmissão de conhecimento. O segundo período começa com
Madhvacharya(ou Ananda Tirtha- ano 1.300) clamava ser um discípulo direto de Vyasa, tendo
recebido os ensinamentos do Vedanta de Vyasadeva, outra vez não se falou em iniciação,
descreve-se a iniciação de Madhva na linha de Shankara, Madhva estabelece um monastério em
Udipi, atual Karnatak, e ali estabeleceu um rígido sistema de sucessão.. O terceiro começa com
Cheitanya Mahaprabhu embora de fato podemos estabelecer o inicio com Madhavendra Puri que
deu iniciação a vários dos associados de Cheitanya como Adueita , Nityananda e o próprio Guru
de Cheitanya , Isvara Puri. Cheitanya Mahaprabhu jamais deu iniciação a ninguém.
Posteriormente a esse período os seguidores de Cheitanya identificaram-se com a linha de
Madhva, embora muitos argumentem que praticamente não exista nenhuma conexão, nem
quanto aos ensinamentos, nem nas iniciações, nem nos mantras, seus sannyasa são raríssimos e
recebem o unicamente o título de Tirtha. De fato, os mantras e em grande parte os rituais vem da
Nimbarka sampradaya, a maioria incorporado a tradição vaishnava por Gopala Bhatta na obra
Hari-bhakti-vilasa(2.22).
Os estudiosos são levados a acreditar que por não haver nenhuma conexão real
com a linha de Madhva tudo foi artificialmente construído por uma questão de conveniência, fato
ocorrido no século XVIII quando os filiados a Cheitanya Mahaprabhu foram pressionados a se
filiarem a uma das quatro principais seitas Vaishnavas; Nimbarka, Madhva, Ramanuja e
Visnusvami. Surge aí a obra de Baladeva Vidyabhushana o Prameya Ratnavali que tenta
estabelecer um conexão doutrinaria com Ananda Tirtha da Madhva sampradaya. É fato notório
que Baladeva Vidyabhushana pertenceu a Madhva sampradaya e só se filiou aos Gaudiyas
posteriormente, há sérias duvidas quanto a interpolação de textos na obra de Karnapura Goura
ganoddesa dipika e nava-ratna de Harirama Vyasa, mas isso é assunto dos doutos. o quarto
período , só aceito pela Gaudiya Math e seus ramos, é o período de Bhakti siddhanta Sarasvati ,
nesse período a iniciação está nas mãos dos chamados por Bhaktisiddhanta de jati gosani. Eram
brâmanes em sua maioria, poucas vezes da família vaidya, que vinham em linha familiar direta de
associados de Cheitanya Mahaprabhu . Líder entre esses era a família de Nityananda-vamsa-
vistara que recebeu instrução diretamente de Cheitanya para casar e estabelecer uma sucessão.
Conta-se que foi no momento de Cheitanya estabelecer a pregação para Nityananda, não havia
outro motivo para Nityananda se casar. Nityananda é chamado o adi Guru tanto no Cheitanya
Charitamrita quanto no Cheitanya Bhagavata. Sua esposa Jahnava continuou as iniciações após
sua morte, e seu sobrinho Virabhadra e filho adotivo Ramachandra se tornaram discípulos de
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Jahnava estabelecendo templos e dinastias. O Guru de Cheitanya Mahaprabhu, Isvara Puri, não
é considerado de nenhuma importância em nenhuma linha de sucessão ante ou depois de
Mahaprabhu , todavia é sempre contado como parte da linha discipular.
Pode ser enfatizado que esse método de continuidade da sucessão discipular foi o
único na era pós-Cheitanya , ou seja, Os sanyasis como os 6 Gosvamis não aceitaram muitos
discípulos fiéis a injunção do BhP VII, 13.8 e enfatizado por Rupa “Gosvami no Bhakti-rasamrita
sindhu (I.2.110) . Eles estabeleciam templos e asseguravam a continuidade do serviço a deidades
deixando nas mãos de chefes de família que se obrigavam a manter junto com as gerações
futuras. Essas famílias centradas em torno de grandes templos, se tornaram mestres espirituais
iniciadores da sampradaya. Os que não se casaram como Gadadhar Pandita, Narottama das,
Ramachandra Gosvami de Baghna Para estabeleceram dinastias espirituais através de seus
discípulos casados ou por membros familiares. Há pouquíssimas linhas que mantém apenas
renunciantes.
Assim, sempre que há uma grande modificação na sucessão discipular ou seja com
Madhva, Cheitanya e Bhaktisiddhanta, dá-se precedência aos ensinamentos, relegando-se a
iniciação. Madhva rejeitou o ensinamento sobre o monismo e estabeleceu uma nova linha com
base no dualismo. Madhavendra, externamente pareceu aceitar o sannyasa de Shankara, como
fez Cheitanya , mas ambos aderem a uma bhakti emotiva do tipo de Alvar. Com o aparecimento
de seres altamente carismático como Cheitanya e Nityananda ninguém fez conta de Suas
ligações anteriores até que posteriormente a pressão social exigiu a aderência a uma das
sampradayas. A opção era óbvia , Madhva, pois a linha de Madhavendra Puri já haviam se
perdido seus elos.
Cada um desses reformadores, inclusive Bhaktisiddhanta aceitou nominalmente
iniciações, mas na prática eles e seus descendentes agiram independentemente de suas origens.
O fato é que embora tanto tenha se falado sobre diksha e sucessão discipular, isso fica totalmente
relegado a um segundo plano diante do carisma, da auto-refulgência, do poder espiritual. Cada
revolução é seguida por uma nova institucionalização que inclui um sistema de iniciação, mas a
linha discipular é para todos os fins nova, tendo como seu ponto inicial o fundador carismático.
Cada um dos reformadores é dado um status transcendental, Madhva é a
encarnação de Vayu, Cheitanya é o próprio Krishna e Bhaktisiddhanta é o ‘raio de Vishnu’.
Os escritos dos seis Gosvamis, são os livros fundamentais com autoridade teológica
(as regras básica da fé) aceitos por todos os Gaudiyas Vaishnavas, veremos o que dizem.
Rupa Gosvami deixa claro que a rendição ao mestre espiritual e aceitar iniciação
são os primeiros passos na pratica devocional(BRS i2.74)
Jiva Gosvami se aprofunda no assunto no bhakti-Sandarbha(seções 202-214-283,4).
Todavia, nenhuma dessas autoridades discute o conceito de sucessão discipular.
Gopala Bhatta Gosvami usa a palavra amnayagata(vindo na sagrada tradição), em
relação ao Guru, que Sanatana chamou de kula-kramagata(vindo na linha da família) ou veda-
vihita(ordenado pelas escrituras). Afirma mais que na hora da iniciação o Guru outorga a tilaka da
escola ao discípulo [os subgrupos ou famílias(parivaras) da Gaudiya sampradaya(Nityananda,
Adueita, Narottama, Gadadhara, Vakresvara, Shyamananda , Srinivasa, etc.) possuem sinais
particulares. A tilaka utilizada na Gaudiya Math é a da Narottama-parivara], utilizando a palavra
sampradayika ao que Sanatana chamou parampara-siddham (autorizado pela linha de mestres
espirituais), a qualificação principal do Guru é mencionado no Bhagavata Purana sabde para ca
nisnatam brahmany upasamasrayam(o Guru deve ser bem versado nas escrituras Vaishnavas
que apresentam a verdade mais elevada e Ter ele próprio uma experiência direta da verdade
Suprema, tendo finalizado todo o apego a sensualidade. As escrituras acima são levadas muito a
37

sério pelos gurus chefes de família ou prabhu-santanas, especialmente a proibição taxativa de


renunciantes aceitarem muitos discípulos.
Do mesmo modo que Rupa, Jiva coloca a associação(sadhu sanga) com os devotos
como algo anterior ao começo das praticas devocionais(bhajana kriya). Jiva Gosvami declara que
a vivência espiritual do significado das escrituras só é possível através dos ensinamentos do
mestre espiritual. bhakti-Sandarbha 208. Se não se pode encontrar tal Guru, deve-se aproximar
de vários mestres a fim de conhecer os diferentes argumentos lógicos(yukti-bheda), ele sentencia:
Na hy ekasmad buror jnanam susthiram syat supuskalam
Brahmaikam advitiyam vai giyate bahudharsibhih BhP xi.9.3l
“O conhecimento claro e firme não pode ser obtido de um mestre apenas. A verdade
suprema é uma, contudo é descrita pelos videntes em diversas formas.”
Jiva Gosvami diz que o siksha Guru é essencial, porém Jiva enfatiza que o mantra-
Guru é ainda mais importante(ato mantra-guror avasyakatvam sutaram).
O mantra-Guru é apenas um , ao passo que o siksha permite-se muitos.
Jiva Gosvami discute o ato da iniciação em varias passagens. Ele discute a
soberania do santo nome , afirmando que mesmo a iniciação no mantra é desnecessária.
Nanu bhagavan-namatmaka eva mantrah
Sruti,-smrti-puranadi... Bhakti S 284
Jiva Gosvami afirma:
“O mantra é o nome do Senhor. Adiciona-se algumas palavras como namah, svaha
pelos mestres, indicando submissão ,dotando o mantra com alguma potência especial. Daí pode-
se despertar a relação pessoal especifica com o Senhor. Contudo, apenas os nomes do Senhor é
capaz de outorgar independentemente ao recitador o supremo objetivo da vida(prema). Assim, no
mantra há um poder ainda maior. Afinal, qual a necessidade de haver iniciação? Não existe
necessidade fundamental de se iniciar alguém. Todavia, porque as pessoas estão geralmente
aprisionadas por maus hábitos e são incapazes de se concentrar devido a má associação, os
grandes videntes, no caso, estabeleceram algumas regulações fundamentais, como adoração a
deidade a fim de reduzir os maus hábitos e diminuir a falta de concentração. Onde as aberrações
mentais e corpóreas não existirem não há necessidade de iniciação. “
Jiva Gosvami deixa claro que a iniciação não é um ato mágico como o shakti –pati
de Kasmiri Saivas, não é fundamental. Funcionalmente tem seu valor porque abre as portas para
a adoração a deidade, pela qual a pessoa se purifica e reforça sua identidade com relação ao
Senhor. Assim, ele sobrepõe o poder absoluto de qualquer ato devocional.
Jiva Gosvami ao final aconselha a ser iniciado para poder adorar a deidade porque
tal adoração outorga conhecimento divino e destrói os pecados. O termo ‘conhecimento divino’
significa ao conhecimento da forma especifica do Senhor contida nas silabas sagradas do mantra
e o conhecimento da relação particular com o Senhor.BhaktiS.283
Jiva Gosvami esclarece mais sobre o archana e o desenvolvimento do siddha deha.
“A purificação da existência de alguém(bhuta-suddhi) indica que se deve meditar
segundo o corpo espiritual conveniente como um associado de Krishna , apropriado para o
desempenho do serviço que se acalenta no coração. Meditar no objeto de devoção é olhar para si
mesmo como um associado da deidade adorável. BhaktiS.285
astu tavat tad-bhajana-prayasah,
kevala-tadrsatvabhimanenapi siddhir bhavati BhaktiS 304
“Só com essa simples identificação pode-se alcançar a perfeição” Essa é toda a
idéia de Raganuga bhakti, desenvolver a identidade específica do devoto.
38

INTRODUÇÃO
Shri Govinda-Lilamrita é um lila-Smarana paddhati que apresenta o
‘manovistha(desejo íntimo) de Shri Cheitanya –deva em distribuir Vraja-prema-bhakti.
No Bhakti-rasamrita –sindhu, Shri Rupa Gosvami aconselha:
Smartavyah satatam visnur vismartabhya na jatucit
Sarve vidhinisedhah syur etayor eva kinkara B.R.S. 1/2/3
Tradução:
“o Senhor Vishnu (Shri Krishna ) sempre deve ser lembrado e nunca esquecido;
todas as regras e proibições são subalternas desse princípio.”
O Govinda-Lilamrita mostra como aplicar essa instrução ao nos proporcionar
detalhes para que possamos nos lembrar dos passatempos de Shri Govinda. Aprendemos do
Cheitanya Charitamrita, Antya 5, que a fórmula de Shriman Mahaprabhu ao conceder Vraja-prema
centraliza-se no ouvir, recitar e lembrar dos Vraja-lilas de Shri Krishna . O próprio Senhor declara:
Vraja-badhu sange krsnera rasadi-vilasa
Je iha kahe sune koriya visvasa
Hrdroga kama tara tat kale hoy khaya
Tin gna khobha nahimahadhira hoy
Yjjvala madhura prema bhakti sei paya
Anande krsna madhurjye bihare sadaya
Je sune je pore tara phala etadrsi
Sei bhavavista sei seve aharnisi
Tradução
“A doença da luxúria que ataca o coração será extirpada de todos os que ouvir ou
receitar com devoção os tópicos relacionados com o rasa de Krishna e outros lilas com as gopis.
Desse modo os três modos da natureza material não poderão afetar tal pessoa que conseguiu
assim auto-satisfação, e obterá ujjvala-madhura prema bhakti. Essa é a felicidade final, , pelo
meio de que se saboreia constantemente a doçura incomparável de Krishna. Por isso, eu declaro
que se alguém houve ou lê esses tópicos, alcançar com certeza a perfeição, e absorto em lila-
rasa, presta seva durante o dia e a noite.”
A partir daí, Shriman Mahaprabhu nos assegura que virá dois resultados importantes
durante o desenvolvimento do apego ao Vraja-lila-katha:
1) obtenção de madhura prema bhakti;
2) desapego do prazer material dos sentidos
Nesse diapasão, Shrila Kaviraja Gosvami apresenta seu livro no sloka 5 do texto:
Yat pitam srutivag manobhira nisam trsnaparadam tvadbutam
Samsaramayahari yapi pranayajonmadandhya mohadi krta
Saiva charbitameva bhuri rasadam dehadi-hrtpustidam
Tajjiyadmrta sprhaharam idam Govinda lilamritam
Tradução
O Govinda Lilamrita é extraordinário porque por meio da audição constante,
recitação ou meditação – o fascínio das orelhas, língua e mente só aumentam! E embora esse
mahaushadha (grande remédio) cure o bhava-roga(doença material), há efeitos colaterais como
confusão, cegueira e loucura por prema! A partir daí, ao saborear repetidamente esse livro divino,
o corpo e coração do leitor se acalmam de tal forma que mesmo o desejo de beber o elixir da
imortalidade passa despercebido!
39

Portanto, será saudável aceitar a prescrição médica do Kaviraja- empenhemo-nos


para saborear o Vraja-lila-rasa. Bhaktas ansiosos de adentrar nessa dimensão verão que o
Govinda-Lilamrita não só oferece o sadhana apropriado, mas também o mahat-kripa(poderosa
misericórdia, que provém do mahatma) dos Gosvamis. Não outro livro que contenha tamanha
quantidade de kripa-ashirbada(bênçãos). Ao final de cada capítulo, Shrila Krishna Dasa Kaviraja
revela a autoridade que está por detrás de seus escritos:
Shri caitanya padarinda madhupa –Shri Rupa seva phale disthe Shri raghunatha
Dasa
Kritina srijiva sangodgate kavye Shri raghunatha bhatta boraje Govinda lilamrte
Tradução
Como conseqüência do seva maduro de Shri Rupa Gosvami nascido do sorver o
Madhu(mel) dos pés de lótus de Shri Cheitanya Deva, o pedido de Shri Raghunatha Dasa, a
associação de Shri Jiva e as benção de Shri Raghunatha Bhatta, brotou esse Shri Govinda
Lilamrita.
O Govinda-Lilamrita lida exclusivamente com a narração do ashta-kala lilas de Shri
Krishna em Goloka Vrindavana. O termo Ashta –kala significa oito períodos de tempo. Em outras
palavras, ao se dividir o dia de vinte e quatro horas em oito partes, vemos formado o programa
diário de Shri Krishna executando muitos passatempos seletos. Sadhaka bhaktas devem meditar
nesses lilas na seqüência que eles se desdobram. Assim, em qualquer horário, o bhakta pode se
sintonizar em um nitya lila especifico que Krishna executa em Goloka. Essa prática traz muitos
benefícios. O mais importante é que se pode saborear o esplendor de goloka-lila mesmo em um
corpo material nesse mundo; além de despertar o prema auspiciosa que torna tal pessoa elegível
para o serviço direto nesses passatempos.
Ashta kala lila Smarana não é um novo processo. Menciona-se sua existência nas
mais velhas literaturas védicas como o Padma Purana e Sanata kumara samhita. Nesse samhita,
Shri Vrinda devi descreve esses passatempos a Shri Narada Muni. O livro de Shri Rupa Gosvami,
Smarana-mangala segue essa antiga tradição estabelecendo o antaranga sadhana(adoração
interna) para os Gaudiya sampradaya. Smarana mangala compõem-se de dez sutras, ou códigos,
que descreve em resumo o ashta kala lilas de Radha-Govinda. Quando Shri Rupa notou o poder
excepcional nos escritos de Krishna Dasa Kaviraja, ordenou que ele expandisse o formato do
Smarana mangala e o abençoou. Por isso o livro do Kaviraja inclui os dez sutras originais de Shri
Rupa no Govinda Lilamrita e expande o lila rasa em vinte e três capítulos. A partir daí, pelas
bênçãos dos Gosvamis, não causa surpresa que a doce narração de Krishna Dasa faz com que o
leitor se torne viciado na felicidade que se extrai do lila-Smarana
O Govinda Lilamrita começa com o primeiro verso do Smarana mangal de Shri
Rupa, pois esse é o shloka chave e a guia de todo o livro:
Shri radhapranabandhos caranakamolayoh kesa sesadyagamya
Ya sadhya prema seva Vraja caritapardir gadhalolaika labhya
As syat prapta yaya tam prahayitum adhuna manasi masya seva
Bhavyam ragadhva panthari vrajam anu caritam naityikam tasya naumi
Tradução
“O sadhya ( objetivo final) das práticas espirituais é o prema seva ao Prana bandhu
de Radha, Shri Krishna . Brahma , Shiva e Ananta desconhecem esse prema seva, todavia, está
disponível para aqueles que seguem em grande ansiedade o caminho trilhado pelos vrajavasis.
Passo agora a sistematizar o manasi seva (serviço prestado mentalmente) executado pelos que
trilham o caminho de Raganuga bhakti, ofereço prostrados pranams aos passatempos de Radha
Krishna que diariamente ocorrem em Vraja.”
40

Significado:
Devido o prema-seva de Radha-Govinda ser raro e exaltado, mesmo importantes
devatas como Brahma, Shiva e Ananta jamais recebem o privilégio de poder executá-lo. Ainda
assim, pela graça do parama-karuna de Shri Cheitanya e dos Seus seguidores, esse presente
inigualável está disponível para os caídos desta era.
O que se deve fazer para se tornar merecedor? A Segunda parte do verso responde.
Deve-se aceitar ragamarga. Isso é enfaticamente ressaltado por toda a obra dos Gosvamis. No
Cheitanya Charitamrita, Shrila Krishna Dasa declara:
Raganuga marge tare bhaje jei jana
Sei jana paya vraje vrajendra –nandana
C.C. Madhya 8
Tradução:
“Os que executam a adoração pelo processo de Raganuga bhakti alcançam o filho
de Nanda em Vrindavana.”
Vaidhi-marga na paiye vraje krsna-candra
C.C. Madhya 8
Tradução
“Alcançar Krishna Chandra em Vrindavana por meio de Vaidhi-bhakti é impossível.”
Qual o motivo desse ênfase? Devemos lembrar que os doces humores dos
associados de Vraja de Krishna não são impelidos por motivos que envolvam os sentimentos de
reverência e temor, nem estão atados pelas injunções shastricas (Vaidhi marga). Portanto, o
próprio Krishna declara no Cheitanya Charitamrita , adi 4:
Sakala jagate more kore Vaidhi bhakti
Vaidhi bhaktye Vraja bhava paite nahi sakti
Tradução
“Todo o universo pode Me adorar pelo processo de Vaidhi bhakti, mas Vaidhi bhakti
não tem a potência para permitir a entrada de alguém no humor de Vrindavana”.
Quando se percebe que Krishna espera algo mais que Vaidhi bhakti e que apenas
por ser um seguidor de regras e regulações não atrai Krishna , com certeza então a atracão de tal
pessoa por executar Raganuga bhakti vai acordar. Os associados eternos de Vraja são chamados
de ragatmika bhaktas. “O termo ragatmika se aplica àqueles que tem raga ou atracão espontânea
por servir ao Senhor. A partir daí, os que desejam seguir o caminho são chamados Raganugas.
Isso se confirma por Cheitanya Mahaprabhu em Seus ensinamentos a Sanatana Gosvami:
Ragamayi bhaktir hoy ragatmika nama
Taha suni lubdha hoy kono bhagyavana
Cheitanya Charitamrita Madhya 22
Tradução
“A devoção espontânea dos vrajavasis é chamada ragatmika, se alguém ouve sobre
essa devoção e fica atraída, então é uma pessoa afortunada.
Smarana sadhana possui duas divisões:
1) lila Smarana –lembrança dos passatempos
2) manasi seva – lembrança dos passatempos mesclando serviço a Radha
Krishna com o corpo concebido mentalmente siddha Svarupa.
O primeiro processo representa o estágio inicial de Raganuga sadhana , o outro é
para sadhakas avançados. Bhaktivinodha Thakura em sua obra Harinama-Chintamani dá o nome
ao primeiro estágio do Raganuga sadhana de shravana Dasa, ou estagio de ouvir. Quando o
devoto percebe um crescimento do lobha(avidez) por ouvir Vraja lila katha, essa obra o Govinda
41

Lilamrita constitui o sadhana inicial ideal. Deve-se ler este livro como sadhana diário de tal modo
que os lilas possam estar sempre preenchendo a mente do devoto e fiquem marcados a ferro e
fogo no coração do devoto.
Durante esse primeiro estágio sravanadasa, é vantajoso estudar os rasa-
granthas(rasa shastras) como o Bhakti rasamrita sindhu e Ujjvala –nilamani , Dan-keli kaumudi,
Vidagdha Madhava e Madhava mahotsava e muitos outros.
Os Gosvamis escreveram uma imensa biblioteca de livros, mas o Shri Govinda
Lilamrita representa a nata da nata, porque esse livro-gema preciosa- revela o significado de
prema-rasa shuddha sindhu de Shri Vrindavana, é um dos mais atrativos livros do Gaudiya
Vaishnavismo.
Espero que o encanto de Vraja prema respingue por entre as linhas que externam o
sentimento desse grande vaishnava Krishna das Kaviraja e amoleça o coração do leitor.
OBSERVAÇÒES
(rasa-tarangini-tika)
Muitos Gaudiya Mahajanas escreveram sobre ashta-kala lila. Por exemplo, Shri
Vishvanatha Chakravarti na obra Krishna Bhavanamrita segue de perto o Govinda Lilamrita e
acrescenta mais detalhes sem repetir os movimentos, apresentando alguns lilas que Krishna
Dasa não mencionou. Na obra de Shrila Kavikarnapura , Krishnahnika-kaumudi, as seqüências às
vezes correspondem outras não a obra Govinda Lilamrita. Por isso , as observações feitas
incluirão muitos slokas desses dois principais lila-kavyas, ressaltando as diferenças. Também
estão incluídos referências que tocam nos mesmos assuntos de obras como:Radha rasa-suddha-
niddhi, Vilapa-kusumanjali, Guita Govinda, Ujjvala–nilamani e outros textos dos Gosvamis.
Siddha-mahatma, Shri Krishna Dasa Baba de Govardhana* compilou dois ashta kala
lila que desfrutam de alto conceito no mundo dos Gaudiya Vaishnavas, o Shri BHAVANA SARA
SAMGRAHA E O GUTIKA(é um manual de lila Smarana que correlaciona os passatempos
correspondentes entre Vraja e Navadvipa , ou seja, delineia o ashta kala lilas de Shri Gouranga e
Shri Krishna combinando-os de tal forma que um(Goura) leve ao outro(Krishna).
A obra Shri Bhava-sara-samgraha é uma compilação de 3.100 versos selecionados
dos 34 maiores trabalhos dos Gosvamis. No Gutika, siddha-Baba apresenta orientação detalhada
de como meditar no Vraja lila em manjari-bhava.
Nessa edição foram acrescentadas o Gourachandrika(resumo dos passatempos de
Gourasundara) antes de cada período correspondente do Krishna lila; no final de cada capítulo
uma análise do rasa explicando as doçuras.
*Sida Krishna Dasa(também conhecido como Dina Krishna Dasa) foi contemporâneo
de Vishvanatha Chakravarti. A própria Radharani o incumbiu e escrever o Gutika.

Jaya Shri Shri radha –keli –chanda


Shri Shri Gadai-Gouranga Kunja

O caído sadhaka

Gadadhara-prana dasa-
42

CAPÍTULO UM
MANGAL-ACHARANA
(INVOCAÇÃO INICIAL)

1/1 – Ofereço meus pranamas ao Senhor de Vrindavana, Shri Govinda – o Mandira


de todo prazer, o doador de prazer dos Vrajavasis – cujo prazer pessoal transborda quando está
na associação de Shri Radhika.
Rasa-tarangini-tika –
O tema do Govinda-Lilamrita é apresentado neste nandi-sloka(verso de abertura).
Govinda é um dhira-Lalita nayaka e um rasamaya-nagara. Podemos traduzir por Jovem romântico
despreocupado que está transbordando na rasa das brincadeiras de amor e flertes com as Vraja-
sundaris. Nisso reside o mais doce aspecto de Shri Bhagavan e Sua eterna ocupação. O nandi-
sloka do livro Krishna-Bhavanamrita acrescenta:
“Rasamaya-nagara Shyama e Rasamayi-nagari Radha são , ambos, peritos na
prática da arte marcial do Cupido. Por isso, o desejo incontrolável de exercitar esse talento acaba
instigando a ‘guerra de Ananga(Cupido). Após, finalmente, a Sakhi da fadiga convida Nidra-
devi(sono) para o término da batalha. Em outras palavras, devido o cansaço do Kandarpa-keli,
Radha e Krishna caem no sono.”
Utilizado essa bela metáfora, Shri Vishvanatha Chakravarti delineia um quadro
vívido da mútua submissão de Shri Yugal-kishora. Esse shloka é o mula-bija(semente principal)
do livro Krishna-Bhavanamrita, e é nesse contexto que Shrila Vishvanatha apresenta um
interessante sidhanta:
“Os passatempos óctuplos diários de Radha-Krishna são como uma japa-mala de
jóias, na qual, cada lila representa uma conta-jóia. Esse sloka é a conta principal. Assim, como o
meditador inicia e termina seu canto na mesma conta principal da japa-mala, também o Smarana
dos passatempos que são como jóias de Radha-Krishna iniciam, terminam e continuam na
mesma conta principal.”
Desse modo, Shrila Vishvanatha indica que a medida que se canta japa em uma
mala, a atenção do meditador deve se voltar profundamente no ashta-kala-lila-mala de Radha–
Govinda. Assim, o maha-mantra Hare Krishna e o lila-Smarana seguem lado a lado.
Os rasa-granthas são as escrituras que com exclusividade tratam do madhura Vraja-
lilas de Radha-Govinda, O Shri gita-Govinda de Shri Jayadeva Gosvami é um rasa-grantha e
começa da seguinte forma:
Jadi Hari smarane sarasam mano
Jadi vilasa –kalasu kutuhalam
Madhura-komal-kanta padavalim
Srnu tada jayadeva sarasvatim
Tradução:
“Se alguém quer revigorar a mente ao se lembrar dos passatempos madhura de Shri
Hari, se a curiosidade sobre prema-vilasa de Shri Krishna desperta – então, por todos os meios,
leia a doce poesia composto por Shri Jayadeva Gosvami.”
De modo similar, esse simples desejo e essa inocente curiosidade são os recursos
naturais que confere elegibilidade aos Vaishnavas para apreciar o Govinda-Lilamrita.
43

1 / 2 – Ofereço minhas reverências a Shri Krishna–Cheitanya cujo comportamento é


extraordinário. Ele veio para aliviar as pessoas do bhava-roga(doença material) com o remédio
inebriante de Seu próprio prema-amrita!
Rasa-tarangini-tika –
O aspecto parama-karuna do Senhor Gouranga está aqui contido. O prema nectáreo
que Shriman Gourasundara quer distribuir é Vraja-prema. Ao saborear as doçuras de Vraja-lila,
nosso Gouranga mostra ao mundo como alcançar esse supremo tesouro. Assim, esse propósito
duplo, ou seja, experimentar Vraja-prema e permitir que outros saboreiem, forma a coluna mestra
do Goura-Avatara:
Je lagi avatara kahi se mula karana
Prema rasa nirjase korite asvadana
Raga marga bhakti loke korite pracarana
Rasika sekhara krisna parama karuna
Ei dui hetu hoite icchara udgama
Cheitanya Charitamrita Adi-4
Tradução
“O mula-karana(razão principal) para o aparecimento de Cheitanya Mahaprabhu é:
1) saborear pessoalmente a essência de prema-rasa (mahabhava de Shri Radha)
2) pregar Raganuga-bhakti para as pessoas.
Essas são as duas razões principais pela qual Shri Krishna , o líder de todos os
rasikas (peritos) dotado de uma misericordiosa personalidade advém em pessoa como Shri
Cheitanya Mahaprabhu “
Os meios para conseguir o presente excelso de Shriman Mahaprabhu (Vraja-prema-
bhakti) está mencionado especificamente no próximo shloka.

1/3 – O sadhya (meta final) das praticas espirituais é o prema-seva ao Prana-


bandhu de Radha, Shri Krishna . Embora esse prema-seva seja desconhecido para Brahma,
Shiva e Ananta, está disponível para os que seguem no caminho das vrajavasis(sakhis e
manjaris) com profundo querer. Assim, agora passo a desenvolver esse método, o manasi-seva
executado por aqueles que trilham a estrada de Raganuga bhakti, ofereço meus prostrados
pranams aos passatempos de Radha–Krishna que diariamente se manifestam em Vraja.
Rasa-tarangini-tika –
Aqui está a linha norteadora do Govinda–Lilamrita. Esse é o primeiro verso de Shri
Rupa Gosvami no Smarana-mangala. Como o Acharya da sampradaya, Shri Rupa ordenou a Shri
Kaviraja Gosvami que ele escrevesse um livro completo para tornar exeqüível a instrução desse
verso – assim nasceu o Govinda-Lilamrita. Esse upadesh-amrita forma o sadhana para os
Rupanugas Vaishnavas inveterados, e a prática é o caminho rápido e seguro que leva ao prema-
seva de Shri Shri Radha-Govinda. Por isso é de bom alvitre que se memorize esse sloka e siga
suas instruções como vida e alma.

1 /4 – Abriguemo-nos em Shri Krishna quando Ele:


I- nos nikunjas da floresta entra no goshta no final da noite(Nishanta)
II- III- ordenha as vacas e saboreia Sua refeição pela manhã e à noite(pratah e
Sayam)
IV – V – brinca com as sakhas no meio da manhã e final da tarde enquanto
apascenta as vacas(purbahna e aparahna)
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VI – participa de várias diversões com Seu pai e os vrajavasis no meio da tarde


(pradosha)
VII – VIII – ao meio-dia e meia-noite executa passatempos prema-keli com Shri
Radhika dentro dos chalés na floresta de Vrindavana (madhyahna e Nisha)
Rasa-tarangini-tika –
Nesse shloka, (também do Smarana mangala 2) Shri Rupa Gosvami apresenta a
base para o ashta-kala-lila-Smarana ao resumir os eventos de cada prahara (período de 2 horas e
vinte e quatro minutos). Embora o Govinda-Lilamrita se concentre nos passatempos madhura de
Shri Shri Radha-Govinda , Shrila Kaviraja Gosvami também apresenta belas narrações de outras
doçuras de Vrindavana: santa, dasya, sakhya e vatsalya rasa.
Cada prahara está dividido em seis dandas(24 minutos cada). As horas preferidas
de Krishna são o meio-dia(madhyahna) e a meia-noite(nisha) pois são as horas em que Ele
executa agradáveis passatempos com Shri Radha e Suas sakhis ; por causa disso esses
períodos são dobrados (dois praharas ou 4 horas e 48 minutos).

1/5 – Govinda-Lilamrita é maravilhoso porque à medida que o ouvimos , recitamos


ou meditamos incessantemente– as orelhas, língua e a fascinação da mente não param de
crescer! E embora esse maha-ushadha (grande remédio) cure o bhava-roga (doença material),
ele causa cegueira, confusão e loucura devido ao prema! Daqui por diante, ao saborear esse
divino livro uma e outra vez, o corpo e coração se acalmam de uma tal forma que mesmo o
desejo de beber o elixir nectáreo da imortalidade é esquecido!
Rasa-tarangini-tika –
A fé na natureza transcendental do Vraja-lila de Shri Krishna torna a pessoa elegível
para a leitura do Govinda Lilamrita; e o efeito colateral será que a doença-luxúria diminuirá no
coração gradualmente. Esse é o veredicto dos devotos de Govinda , também a fé nas palavras de
Shri Krishna Dasa Kaviraja é necessária. As pessoas que são dotadas dessa dupla fé colherão os
resultados mencionados nesse verso. A versão do Bhagavatam desse verso corrobora esse
siddhanta:
Vikrditam vrajabadhu vhirdanca visnoh
Sraddhanvito ‘nusnuyad atha varnayed yah
Bhaktim parambhagavati partilabhya kamam
Bhrdrogam asv apahinoty acirena dhirah

“Pelo constante ouvir e falar com fé sobre Rasa de Krishna e outros passatempos
com as gopis, alcança-se parama-bhakti(devoção suprema). E com esse auxílio de bhakti, obtém-
se controle dos sentidos, paz e a capacidade de extirpar a doença do coração , kama .

VIJYAPTI
( a humilde rendição do autor)

1/6 – Não sou aquinhoado com inteligência afiada, pelo contrário , minha mente é
inconstante. Além disso, sou indigno, desajeitado e inexperiente, apesar disso tento descrever a
rasa do Lilamrita-sindhu de Shri Krishna . Será que os Vaishnavas que navegam incessantemente
dentro desse oceano de néctar irão rir de minha estupidez?
45

1/7 – Os Vaishnavas vrajavasis são todos muito experientes no assunto, já leram


vidagdha-Madhava e outras obras do poeta principal Shri Rupa Gosvami. Talvez me torne motivo
de risadas quando eles virem esse livro escrito por um tolo palhaço gaguejante como eu.

1/8 – O Srimad Bhagavatam declara: “Mesmo que os nomes, formas, qualidades e


passatempos de Shri Bhagavan sejam narrados sem perícia, ainda assim, os pecados daqueles
que ouvem serão destruídos”. Devido a firme fé que tenho nessa palavras, minha esperança se
recrudesce porque esses sadhus irão dar as boas vindas a esse meu escrito de qualidade inferior
devido a magnanimidade deles; por isso eu escrevo o Shri Govinda Lilamrita, que é uma
descrição dos passatempos do Senhor.

1/9 – Do mesmo modo que um oásis dá abrigo a uma vaca com sede no deserto,
oro que as descrições do gokula-lila que emana de minha língua desértica se tornem refrescantes
ao chegar aos ouvidos de pujante frescor semelhantes a açudes dos eruditos Vaishnavas.
Rasa-tarangini-tika –
Nesses quatro versos, observamos a magnanimidade do Kaviraja.
Dainya(humildade) é o próprio retrato de prema. Quando a humildade floresce, prema se
manifesta proporcionalmente. Krishna Dasa poderia com franqueza se apresentar como perito de
sanskrita-kavya(poesia), lankara(metáfora), byakarana(gramática) e chanda(métrica), e embora
adornado com o pomposo título de kaviraja pelos mais reverenciados estudiosos de seu tempo,
ainda assim, Krishna Dasa se considera um tolo iletrado. Por outro lado, embora ele próprio seja a
encarnação de um uma das oito principais manjaris de Radha (Shri Kausturi) que era testemunha
ocular dos mais confidenciais colóquios, ele se acha desqualificado para descrever os
passatempos de Shri Govinda. Tal humildade predispõe as bênçãos de todos. De fato, Shrila
kaviraja Gosvami é o exemplo ideal de sua própria instrução dada no Cheitanya Charitamrita:

Uttam hoiuya vaisnaba habe-nirabhimana


Jive sanmana dibe jani Krishna adhisthana
Ei mata haiya jei Krishna nama loya
Shri Krishna carane tara prema upajaya
Premer svabhava jaha premer sambandha
Sei mane Krishna mora nahi prema gandha
Cheitanya Charitamrita antya 20

“Embora seja a pessoa mais exaltada na sociedade, um vaisnava é desprovido de


orgulho. Por ter percebido a presença de Krishna no coração de todos, ele oferece respeito a
todos. Cantando os nomes de Krishna com essa humildade faz com que prema desabroche no
serviço aos pés de lótus de Shri Krishna . E aqueles que possuem prema consideram: ‘Sou
desprovido de Krishna prema”.

Goura Chandrika
Ei chaya gosai jabe vraje kaila vasa
Radha-Krishna nitya –lila korila prakasha
46

Com as bênçãos de Cheitanya Mahaprabhu , os seis Gosvamis partiram para


Vrindavana para estabelecer as bases do renascimento da cultura centrada nos nitya-lilas de
Radha-Govinda. Executando o manovistha(desejo íntimo) de Cheitanya deva, os Gosvamis se
juntaram a seu mestre, apresentando vários tesouros do cofre da literatura divina. O Govinda
Lilamrita foi escrito no auge dessa renascença sob a guia madura de Shri Rupa-pada. Logo
depois os passatempos terrenos de Shri Gouranga Mahaprabhu encerraram-se, todavia, uma
segunda onda surgiu como o resultado de o Senhor ter batido o néctar do madhura – prema rasa
suddha sindhu de Vrindavana.
Esse amrita –taranga(onda nectárea) quebrou em Goura-mandala(Bengala) com os
esforços de pregação refinados de Srinivasa Acharya, Narottama Thakura e Shri Shyamananda
Prabhu. Embora trouxessem o bhajana –paddhati puro de Shri Rupa e Sanatana em uma carroça
de néctar, esses três acharyas apresentaram uma inovação chamada “ Goura Chandrika”. Na
Gaudiya sampradaya, tanto os madhura lilas de Radha Govinda quanto de Shriman
Gourasundara são igualmente dignos de adoração, ainda que sem a benção misericordiosa de
Gourahari, eles não podem ser alcançados, nem compreendidos. Goura Chandrika é a
absorção no Goura lila que precede a entrada no madhura Vrindavana por meio do kirtana, do
discurso do Bhagavata ou lila-Smarana. Em sua essência, Shri Yashoda-nandana e Shri Sachi
nandana não são diferentes, pois cada Krishna lila encontra sua correlação em Navadvipa. Por
isso Narottama Dasa Thakura conclui:

Shri gaura prema rasarvave, sei trarange jeba dube


Sei hoy radha-Madhava antaranga
Prarthana
-
- “Quando alguém se debate nas ondas do nectáreo oceano de Goura-prema-
rasa irá ressurgir como um associado confidencial de Shri Radha-Madhava,”

NAVADVIPA NISHANTA LILA


(Os passatempos do final da noite)

Shri Sachi-nandana descansa em uma refrescante cama coberta de pétalas de


flores que fica no mandira ornado de jóias no encantador jardim de Shrivasa Thakura. Ao ouvir o
zumbir das abelhas e o chilrear do pássaro kokila, Ele desperta. Ainda que a consciência do
Senhor transbordasse no Seu próprio madhurjya, a lembrança do nikunja-vilasa de Radha-
Krishna fazia com que uma extraordinária refulgência emanasse do corpo de Gourasundara ,
havia um mescla de sanchari-bhavas conflitantes como júbilo, temor e remorso. Assim, uma
corrente de lágrimas de prema fluía dos olhos de lótus do Senhor enquanto brotavam arrepios em
Seu corpo!
Os bhaktas observavam a cena pela janela e flutuavam em prema-ananda vendo os
olhos avermelhados de Gouranga cheios de anuraga(profundo apego) pelo Divino Casal!
Nisso, levantando-Se da cama, o Senhor elevou Seus dois braços dourados,
entrecruzando Seus afilados dedos por sobre Sua cabeça e esticando-os para aliviar a fadiga.
Quando Gourachandra bocejou, uma brilhante refulgência emanou de Seus dentes luzidios e a
pérola que estava dependurada em seu nariz com movimentos ligeiros balançava. Nesse ínterim,
os bhaktas entraram no shayana-mandira(aposentos) de Gourasundara e Svarupa Damodara deu
inicio ao Goura-aratika. Os bhaktas dançavam em êxtase com os olhos fixos no semblante de lua
47

de Gourachandra, ao ritmo do madhura kirtana acompanhado de kartala e moham-mridanga.


Assim, todos mergulharam em um indescritível oceano de bem aventurança! Após o arati,
Shriman Mahaprabhu seguiu para casa e ao chegar no Seu portão, pediu a Seus devotos que
voltassem para suas respectivas casas. E lá Dvija mani Gourachandra descansou. Ó mente! Por
favor saboreie o prazeroso nishanta lila de Gourachandra nessa visão.”

Rasa-tarangini-tika
Os Acharyas Vaishnavas Gaudiya apresentam o nishanta lila de Shri
Gourasundara de diversas maneiras. A versão acima de siddha Krishna das no Shri Shri
bhavana-sara-sangrah foi escolhida porque ela corresponde ao formato do Govinda Lilamrita.
Apresentou-se apenas um resumo, no Gutika de Siddha Baba descreve-se esses eventos em
riqueza de detalhes.

VRAJA - NISHANTA LILA


Das 3:36 às 6:00 horas

O sutra de Shri Rupa Gosvami:

1/10– Ao final da noite, Shri Vrinda-devi fica apreensiva observando a situação


precária de Shri Yugala-kishora. Assim, ela sinaliza para que vários pássaros silvestres comecem
a chilrear, se combinando com a poesia seleta dos papagaios (agradáveis e penetrantes),
fazendo com que Radha e Krishna acordem. As sakhis e manjaris então adentram no shayana-
mandira com sorrisos e brincadeiras. Contudo, quando Vrinda percebe que todos se esqueceram
da urgência de voltar rapidamente para casa, Ela apela a Kakkhati(a velha macaca) que grita:
‘Jatila está vindo! “ Com isso, apressados e temerosos, Radha-Govinda se separam em
desabalada correria rumo a suas casas para caírem na cama antes que o sol nasça.
rasa-tarangini-tika –
Esse sutra resume os eventos que serão descritos no primeiro capítulo (de 117
versos) do Govinda-Lilamrita.
Shri Vrindadevi é a personificação da potência de lila-shakti e mantenedora da
floresta de Vrindavana. Ela toma conta de incontáveis servos e deusas da floresta, tudo para
facilitar os passatempos eternos do Casal Divino , ao suprir todas as necessidades relativas a
decoração, ornamentos, arranjos , refeições. Sua pele é dourada, se veste em cor azul, e gosta
muito de usar pérolas.

O PôR-DO-SOL EM VRINDAVANA
O Nishanta lila ocorre no mais aprazível local de Vrindavana – ‘Shri Govinda–sthali’
– uma grande ilha banhada pelo Shri Yamuna e seus afluentes, a ilha tem a forma de uma colina
que se parece com os costados da tartaruga tendo em seu cume o arrebatador yoga-pitha
mandira de Radha-Govinda. Esse mandira encantador está rodeando por quatro tipos de árvores
do desejo, ou seja, harichandan, santanak, mandar e parijata. Quando o pólen fragrante das flores
caem decorando o chão, enxames de abelhas zig zagueiam executando seu zumbido. Esse som
assemelha-se ao zunido do arco do Cupido. Em volta das árvores do desejo ficam quatro belos
48

mandaps(assento elevado) com parreiras de flores de madhavai, malat, mallika e svarna-juti que
crescem em suas bases.
Adiante dos mandaps ficam quatro kunjas:
1) svetambhuja Kunja( chalé feito de flores de lótus brancas) no norte, local do
Madhu-pan lila de Radha-Govinda.
2) Nilambuja Kunja( chalé de lótus azul) no leste. Após o rasa-lila e o Yamuna-
jala-keli, Radha-Krishna vem se vestir neste local. Indo a seguir para:
3) Arunambuja Kunja (chalé de lótus vermelha) no sul. Local onde Radha e
Krishna desfrutam bhojan as altas horas da noite, retiram-se depois para:
4) Hemambuja Kunja( chalé de lótus dourado) no oeste. Esse imenso chalé é o
local de descanso para todas as sakhis e manjaris no yutha (grupo de gopis) da yuteshvari (líder
do grupo) Radha. No centro fica o shayana mandira ornado de jóias de Radha-Govinda
circundado por um bosque de bananeiras douradas. Mais adiante nas oito direções , ficam os
shayana mandiras das ashta-sakhis. Observando-se consecutivas áreas onde ficam os kunjas
que dobram em número começando com 16, 32, 64 e assim por diante onde infinita quantidade
de gopis descansam. No perímetro externo do hemanbuja Kunja(nas quatro direções), Shri Vrinda
devi, Shri Vrindarika, Shri Menaka e Shri murala-devi são as guardiãs das entradas(portas).
Gutika

(descreve-se o Govinda Sthali com mais detalhes no capítulo 21 desta obra).


O SEVA DAS MANJARIS
Shri Yudanandan Thakura comenta:
“No sutra anterior, as regras do nishanta lila foram apresentadas. Ouçam agora o
desenvolvimento do assunto que trará mais prazer:
“No final da noite, Radha e Krishna dormem na cama de flor no Kunja carregado de
flores para mitigar a fadiga do Seu prema-keli. Abraçados, Krishna parece uma safira azul murati
e Radha uma murati de ouro puro. Sentindo a chegada do dia, as manjaris se levantam para
executarem alegremente seus deveres respectivos.”

Rasa-tarangini-tika -
Shri Yadunandan Thakura insere esse verso para resumidamente incluir as manjaris
e o serviço que prestam. No Krishna Bhavanamrita , Shrila Visvanatha Chakravarti traz mais luz
ao assunto: “Estando ansiosas por executar o oportuno nishanta-seva, as manjaris levantam-se
automaticamente na madrugada – será que não foi a própria Nidra-devi que as foi pessoalmente
acordar? Quando os olhos das manjaris se abrem, elas olham em pânico para os lados,
pensando: “Será que perdemos a hora de nosso seva ?”
Nisso, elas percebem que o rasika-nagara e rasika-nagari ainda dormem (após
terem concluído o festival Ananga), as manjaris sem fazer barulho sentam-se em suas camas.
Ainda bocejando, com habilidade, uma dá sinal para outra (como se para avaliar a rasa da noite
anterior ) . “Ó sakhis! “elas disseram, “vocês estiveram dormindo após desfrutar a noite com o
nikunja-raja, mas terá ele terminado Seu repouso? ”Devido a noite mal dormida, contudo, os olhos
de todas elas giram como abelhas cansadas. Assim, quando os olhares delas pousam em seus
próprios seios que têm a forma de um lótus, eles exibem as feridas-pólen deixadas pelas unhas
de Krishna !
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Enquanto isso, algumas das manjaris fazem guirlandas de flores, outras preparam
pan para o próximo passatempo. De repente, a refrescante brisa malaia(ou ventos do sul
carregados de aroma do sândalo) leva o cheiro corpóreo de Radha-Krishna a suas narinas. E
como demorassem em suas tarefas, uma seva-dasi chega falando: “
Ó manjaris, venham ver o jovem casal para quem vocês estão fazendo as malas e o pan. Vejam
como Eles se abraçam apertadamente dentro do Kunja!
Ó priya-narma-sakhis(manjaris) venham e coloquem seus rostos de lótus sobre a
janela do nikunja mandira e deixem que seus olhos vagueiem livremente! Após a hábil dança de
Kandarpa(cupido), kishora e kishori foram honrados por Nidra-devi que agora Os abraçam
alegremente.!”
As manjaris observam: “Radha e Krishna estão enganchados – Suas roupas,
ornamentos e guirlandas claramente foram todos perdidos! Devido a luz fugidia que emana das
ricas lamparinas de ghee, o corpo de Radha parece-se com uma doce flor champaka (tipo de
magnólia) e o corpo de Krishna um delicado indibara(lótus azul).
Saboreando esse yugala-madhuri, uma manjari diz a outra: Ah sakhi! Olhe, a
primeira vista esse Casal parece uma escura nuvem enguirlandada pelo traçado do raio! Estarão
Eles se banhando na chuva de néctar de Seu próprio madhuriya?
Atônitas, essa manjaris concluem: “O normal é que o mestre recompensa suas
criadas após o término do seva. No entanto, para nós – a recompensa veio antes de começar o
serviço! “

OS PÁSSAROS COMEÇAM A CHILREAR


A gentil brisa malaia(refrescante e fragrante) penetra o Kunja relutante em sair como
uma pessoa embriagada que acabou de acordar. A brisa beijando as flores recém desabrochadas
escolta a gentil fragrância em todas as direções. As abelhas intoxicadas que dormem nas flores
se levantam e começam seu zumbir aqui e ali. Ouvindo as abelhas, Shri Vrinda-devi acorda e vê
que a noite finda. Assim, ela ansiosamente sinaliza para que os pássaros cujo madhura-kala-
dhvani (gorjeio melodioso) despertem Vrindavana-ishvara e Vrindavana-ishvari.
No Krishna –Bhavanamrita, Shrila Chakravartipada entrelaça sua descrição com o
diálogo do Govinda–Lilamrita. Esses dez versos revelam uma direção importante que Shrila
Krishna Dasa não havia tocado. De fato, vemos que o bhava-dhara( linha de pensamento) e
profundo avesha(absorção) de Shrila Chakravarti-pada foi oriundo do bater do néctar no
Govinda-Lilamrita-rasa.
Retornando ao texto:

1/12 – Os pássaros da floresta que estão em volta do nikunja-mandira chegaram


cedo, ansiosos pelas ordens de Vrinda-devi, e ali permanecem quietos (como figuras de uma
pintura). Nisso, ao receberem o sinal de Vrinda, inicia-se o cativante chilrear que emana de todas
as partes!

1/13 – Os sharis (papagaios fêmeas) falantes se encontram nas videiras e os


shukas (papagaios machos) tagarelam a partir das romãzeiras. O arrulhar dos pombos acontece
na árvore pilu. As árvores kadamba tremem com o pupilar dos pavões, e as abelhas que zunem
nas flores latas e os galos cocoricando no chão, todos cantam para despertar o Divino Casal.
50

1/14 – O nikunja-mandira está decorado com guirlandas de flores dependuradas e


uma cama de tenras pétalas de flores densamente comprimidas. As abelhas machos entram
nesse mandira encantador em busca de pólen; o zumbir do zangão se parece com o som
auspicioso da concha de Rati-pati(Cupido, o senhor de Rati- sua esposa).

O estrondoso som das abelhas, kokilas e pombos


1/15 – Intoxicado com o mel das flores em júbilo, as abelhas femininas em delírio
ecoam seu zumbido (‘gun-gun-gun). Isso parece o som do jankriti (karatala grande) sendo tocado
pela esposa do Cupido.
Rasa-tarangini-tika –
Do mesmo modo que os instrumentos musicais tocados habilmente induzem a
mente e o corpo a dançarem em júbilo, o concerto enebriante das abelhas começa dentro das
parreiras de flores. Então adentram o vilasa mandir para envolver a cama de flores com suas
doces vibrações.
Por isso, como conchas e jankriti que são agradáveis ao Devata do mandira, o
zumbido enebriante das abelhas macho e fêmea prestam o seva apropriado a Radha-Madhava.

1/16 – Um grupo de kokilas machos(cuco) gritam continuamente: ‘kuhu kuhu” na alta


quinta nota ; o som reverbera produzindo um som como o da vina do Cupido.

1/17 – As kokilas fêmea, intoxicadas de desejos amorosos, sentam-se ao lado de


seus maridos nas mangueiras, elas saboreiam o doce suco dos botões de manga macios e
ecoam um som leve e doce de ‘kuhu kuhu’ para acordar o Senhor. Parece a vina de Rati que
emana das gargantas delas.
rasa-tarangini-tika
Peritos em estridentes gritos e invocando prazer, o canto dos kikila é tão choroso e
doce que parece que o Cupido e sua esposa em pessoa apareceram para tocar a vina e o
vipanchi(pequena vina tocada por mulheres). Assim, Radha–Govinda não conseguem nem
dormir, nem ficarem tranqüilos!

1/18 – Um repentino arrulhar dos pombos ecoa! Será que o Cupido assumiu a forma
de uma hiena para saquear a compostura de corça, recato e dharma das Vraja-gopis e disfarça o
som parecendo ser pombos? Esse rugido que parece um filhote de tigre do kama afugenta os
chacais do orgulho das gopis !
O chamado do pavão e do galo
1/19- Somente Krishna pode desabar a compostura de montanha de Shrimati
Radharani. E além de Radha, ninguém mais pode controlar Krishna , que se comporta como um
elefante intoxicado. Então, como será possível a esses pavões executarem a missão de acordar o
Casal Divino com suas canções respeitosas matinais de ke ka ke ka?
Rasa tarangini-tika
Os pavões perguntam:
51

‘ke’ (quem) pode derrubar a compostura de montanha de Radha? ‘ka’ significando


“Krishna , é a resposta. No sentido oposto, somente com ‘ke ‘( o laço de Radha ) o elefante
embriagado de ‘ka’ (Krishna ) é capturado!
Os pavões consideram: A atração mútua de Radha –Govinda não é favorável agora,
pois eles negligenciaram todo temor, recato e família. Nessa situação precária, nós Os
despertaremos com um agradável kirtana de Suas glórias!

1/20- Do mesmo modo que os meninos brâmanes recitam os Vedas bem cedo de
manhã com a métrica hrisv€ (curta), dirgh€ (longa) e pl™ta (longa efetiva ), os galos na floresta
cantam , ku-ku-ku-ku!”
Rasa-tarangini-tika -
“ku” significa inauspicioso. Quando o galo canta: “ku-ku-ku-ku-ku,” eles informam
que: “Para os dois amantes que são par€dhina(sob sua guarda), dormir juntos em um Kunja em
uma floresta distante durante o nascer do sol pode decerto levar a uma catástrofe!
“Krishna Bhavanamrita descreve a reação de Radha Thakur€ni ao cantar dos galos.
Mentalmente, ela os amaldiçoa:
“Oh galos! Por que vocês não vão para o inferno acordar Yamaraja! Você não são
dignos de permanecer em Meu Ananda-Vrindavana produzindo essa desagradável algazarra!”
Após alguns momentos os galos param, assim Radhika considera: “oh, por
receberem Minha maldição, eles devem ter ido ao inferno – agora a chegada da manhã será
adiada!” Assim, Shrimati Radharani continua cochilando nos braços de Krishna . Porém no
momento seguinte, os estridentes gritos dos galos voltam! Shrimati desperta outra vez pensando:
“oh galos! Por favor, esqueçam de mim – deixe-nos descansar só um pouco mais!”
Para um su-prabhata (belo dia), palavras auspiciosas são agradáveis. Os galos,
contudo, recitam “ku” repetidamente o que significa inauspicioso’. Por isso Shri Radha fica
sarcástica com eles.

1/21 – Ouvindo os pássaros, Radha e Krishna acordam e sentem que a noite finda;
embora um não saiba que o outro acordou. E ao Se aperceberem do final da noite, Eles ficam
assustados com o pensamento de ter que abandonar o prazeroso abraço um do outro! Daí em
diante, os olhos de Radha e Krishna permanecem fechados fingindo dormir , continuando o
abraço.

1/22 – O papagaio(shari) de estimação de Shri Radhika chamado ‘Manjubhasini’ fica


em uma gaiola dourada brilhante no canto do vilasa-mandira. Esse papagaio fêmea testemunha
os mais íntimos passatempos de Radha-Govinda. Como o sol está se levantando, esse erudito
pássaro recita as seguintes poesia seletas para o Casal
rasa-tarangini-tika
Shari além de papagaio fêmea pode significar também um “jogo de morte’.

1/23 – “Jaya, jaya! Krishna Chandra, o amigo de Gokula! Jaya Vrindavana natha!
Você é o Rasa-sindhu! Por favor, levante-Se da cama de flores que é refrescante como a lua!
Desperte sua amada Kanta(Shri Radha ) que repousa em Seu ombro cansada do rati-keli e que
aceitou o abrigo amoroso de Seus dois braços, fatigada pelos passatempos noturnos.
Rasa-tarangini-tika –
52

Desse verso até o verso 37, os shukas e sharis recitam suas poesias para
acordarem o Casal Divino. Esses papagaios podem falar como humanos. Isso não é assombroso,
anteriormente eles eram todos sábios e munis eruditos.

1/24 – Manjubhasini continua a falar: “hey Vraja–raja! O sol é muito cruel com as
Vraja-kishoris porque se eleva rapidamente! Assim depressa pegue Sua amada e deixe este lugar
indo pelas margens arborizadas do Yamuna e secretamente volte para casa”:
Rasa-tarangini-tika:
Ao mencionar o 'Yamuna-kula' Manjubhasini adverte que os Vrajavasis poderiam
descobrir Radha-Govinda quando viessem para o banho matinal, Yamuna-snana (banho no
Yamuna).

1/25- Nisso Manjubhasini chama Radha:


"Oh Sakhi de olhos de lótus! Oh, castíssima! Em você não há falta por estar dormido
agora no findar da noite com Seu Vilasa-nagara (amante) no kunja! De fato, todos seus membros
estão exaustos de terem desfrutado de tantos passatempos. Entretanto, veja que o céu oriental
está se avermelhando, do mesmo modo que Sua rival, Chandravali(a líder do grupo antagonista
a Radha , reside próximo a colina de Govardhana na aldeia chamada Sakhi-sthali, esposa de um
vaqueirinho malvado chamado Govardhan Malla, associado do perverso Rei Kamsa) que fica
vermelha de ira porque ela não pode tolerar Sua felicidade!”
Rasa-tarangini-tika:
Quando Krishna passa a noite com Chandravali, Radha sofre muito. Então Radha
sente como se o sol demorasse eras para se levantar. Por outro lado, Quando Radha passa a
noite com Krishna , parece que em um instante o céu oriental se avermelha de ciúmes! Assim
Shri Yadunandan Thakura descreve o sol (análogo a Chandravali) como sendo o adversário de
Radha .
Esse verso nos faz lembrar o sidhanta que Radha experimenta um momento de
separação de Krishna como sendo uma yuga – E quando Ela está com Krishna uma yuga passa
como se fosse um instante! Esse é o significado de madan-akya mahabhava.

1/26 -Manjubhasini continua: "Oh Padmanayani (de olhos de lótus) Rai! A noite
findou e o sol se aproxima no horizonte para começar um novo dia. Portanto, deixe de lado a
felicidade de Sua cama refrescante de macias flores viçosas!"

1/27 – O shuka (papagaio ) chamado Bichakshana é um eloqüente orador e sóbrio


filósofo. E devido ao excessivo carinho que sente por Krishna , ele entusiasticamente recita os
versos encantadores seguintes que são ideais para o despertar do Senhor Krishna :
1/28- "Todas as glórias, todas as glórias, a raiz da boa fortuna dos Vrajavasis! Oh
achyuta! Você é a vida das Vraja-ramanis (as belas Vraja-gopis) e a morada de lótus para os
olhos delas que são como abelhas! A cada momento Você incrementa o prazer de Maharaja
Nanda! Hey Govinda! Ó origem da felicidade de Seus devotos rendidos – todas as glórias a
Você !"
Rasa-tarangini-tika:
Bichakshana significa habilidoso. Esses nomes de Krishna são adequados para o
momento e sutilmente assinala a intenção de Bichakshana de fazer com que Krishna retorne para
casa o mais cedo possível.
53

Porque Krishna é a fonte da felicidade dos Vraja-vasis, com certeza eles O visitarão
ao despertarem. Do mesmo modo, todas as Vraja-gopis correrão para Nandagrama como abelhas
inquietas que se atiram ao desabrochar do indibara(lótus azul) pela manhã. Nisso, Bichakshana
faz menção a Maharaja Nanda: "Se ele entra em Seu quarto e não O encontra, o que vai
acontecer? Porém, naturalmente, você chegará em casa bem rápido. Porque Você é achyuta
(Infalível), ninguém vai descobrir Seu prema-lila com Radharani.”

1/29 - "Hey Govinda! Você é o lótus para os olhos-abelhas sedentos dos Vrajavasis!
Olhe bem, a manhã chegou! Por isso rapidamente busque refúgio nos Seus familiares e
superiores em Nandagrama. Caso contrário, você ficará desconcertado diante deles!”

1/30 – “Hei kamala-nayana!(Krishna de olhos de lótus) Olhe bem como a esposa de


Surya (o céu oriental) pôs uma veste avermelhada ao ver a chegada de seu marido. Portanto, oh
Krishna , é hora de levantar!”
Rasa-tarangini-tika –
Nos Puranas, o céu oriental é descrito como sendo um nayika(heroína)
independente e atrevida, e o sol é o kanta(amado) mais querido dela. As paixões desenfreadas
amorosas entre esses dois amados é um caso público. Muito embora a abóbada celeste oriental
seja incasta, ela preserva seu recato diante de Surya deva ao cobrir sua cabeça com as vestes
vermelhas dos raios de sol matinais. Assim as palavras de Bichakshana também sutilmente
insinua a Radha : “Para uma mulher casta(como você), perder seu recato é mais temerário que a
morte!”
“oh Krishna ! ”Bichakshana continuou. “O Seu dever é proteger a reputação de
Radharani. Por isso, como Você é kamala-nayana, por que Seus olhos de lótus não se abrem
como as outras flores de lótus nos primeiros sinais dos raios solares?”

1/31 – Bichakshana continua:


“Oh Krishna ! Temendo o surgimento do sol, a lua foge com sua esposa, a noite!
Portanto, deixe bem rápido as margens florestais do Yamuna com Sua inocente Radha!”

1/32 – “Hey Govinda! Com o levantar do sol, os pássaros chakravaki ( garça fêmea)
com um olho observam os raios do sol que surgem no leste, enquanto com o outro olho procuram
pelo marido. As corujas, cegas durante o dia, agora entram nos buracos das árvores temendo o
arquiinimigo, os corvos. Portanto, Você tem de Se levantar da cama.”
Rasa-tarangini –tika –
Pelo arranjo da natureza , existe um horário e local apropriados para todas as
formas de amor conjugal. Nessa hora, o ansioso chakravaki aguarda o marido porque durante a
noite ficaram separados. E o que poderia ser uma provar melhor de que a noite já findou ao se
observar o comportamento das corujas? Devido ao afeto que elas têm pela noite, entram agora
nos buracos das árvores para se abrigarem. Bichakshana assim assinala a Krishna que a hora
adequada para compartilhar os passatempos amorosos com Radha encerrou.

A NARRATIVA DO SUKSHMADHI SHARIKA


1/33-34 – O papagaio fêmea chamado Sukshmadhi(inteligência afiada) tem uma
natureza madhura bhasini(de fala meiga) devido a seu Radha prema embriagante. Ela sabe de
54

cor todos os comandos de Vrinda por ser sua estudante íntima . Assim, dançando em êxtase com
as penas eriçadas devido ter bebido o mel do grande amor por Radha , ela cuidadosamente recita
sua poesia que aprendeu com Vrinda para acordar Shri Radhika-devi.

1/35 – “Olá, Vrajendra –nandan –Priya! Levante-se rápido e siga para casa antes
que os Vrajavasis peguem a estrada para iniciarem seus afazeres diários, o sol está se
levantando!”

1/36 – Sukshmadhi continuou : “Ei, Sumukhi-rai(de belo rosto)! Olhe como o sol
aponta no horizonte! Assim não demore; a hora é agora de deixar este Kunja da floresta”.

1/37 – ei Sakhi Radhe! Deixe a sonolência e acorde Seu kanta(amado Krishna ). Se


você se demora em ir rapidamente para casa, será que não irão desrespeitá-la? Lembre-se de
que o sábio jamais desconsidera a necessidade do momento.”
Rasa-tarangini-tika –
Devido a determinação mútua de Radha e Krishna , o prema-alingana (abraço
amoroso) dEles fazia com que nem se mexessem apesar dos chamados apreensivos de
numerosos pássaros da floresta e das poesias seletas dos shukas e sharis. Finalmente, o shari
mais erudito de Vrinda-devi, ‘Sukhamadhi’, conseguiu soar o sinal de alarme nos corações do
Divino Casal. Embora desprovido de brilho, as palavras simples de Sukhamadhi foram muito
pertinentes, porque para uma mulher respeitável , o temor de escândalo público é especialmente
forte. Assim, essa forma de apelo com preocupações afetuosas para que Radha obtivesse o
melhor destino tiveram efeito.
O Padyavali de Shri Yadunandan iniciando com o verso 21 (jaya jaya Krishna candra
gokuler bandhu...) são os versos ideais para os pujaris recitarem ao despertar Radha Krishna no
Brahma muhurta. Esses padas devem ser cantados em kirtana, Versos 41-44 recitado pelo shuka
chamado ‘Dakha’ também pode ser utilizado nessa hora. No Krishna Bhavanamrita, o shari
chamado ‘Shubha” chama Radharani da seguinte forma:

He bhanu nandini, prema soubhagini, Nari curamani jayua


Ramana badana padma, madhupane matta haiya, Tumi nidrejao
Prabhata samaya, eto bhalo nahi, Jago badhure jagao
Tvro Nidra charo, niti anusaro, Rakho lajja grehe fao
Ke sikhabe toma nitira mahima, Sabare tumi sikhou

Tradução:

“Hei Vrishabhanu nandini Radhe! Todas as glórias a você! Devido a Seu prema
elevado, você é a Gopi mais afortunada e a jóia da coroa de todas as mulheres. Embora dormir
após beber o Madhu enebriante da mukha aravinda(face de lótus) de Krishna pode vir a lhe trazer
problemas esta manhã.
Assim levante-se , Ó jovem! Saia do sono e vá rapidamente para casa para proteger
sua honra. Pois, além disso o seu comportamento é exemplo para todos.”
No krishnahnika kaumudi de Shrila Kavikarnapura , os sharikas falam para que
Radha acorde com as seguintes palavras:
“Ei Chandra mukhi rai! Com a chegada da manhã, por que você ainda está
descuidadamente dormindo no colo de Vraja pati nandana? Você não deve demorar nem um
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pouco mais neste Kunja carregado de abelhas! Será que você se esqueceu das zombarias
impróprias e maldições que Seus guardiães podem lhe fazer? Portanto, rapidamente preserve
Sua imaculada reputação e se levante.
Hei Vilasini(desfrutadora) Radhe! Preste atenção, o céu oriental está ficando com
um tom vermelho profundo, tentando se igualar a cor dos Seus pés de lótus, os chakravakas
estão velozmente voltando para seus companheiros, parecendo estar desapontados por não
terem obtido uma beleza como a do Seu rosto de lua – a lua deseja por fim a própria vida e
mergulha no horizonte!
Oh, olhe aqui Sumukhi(rosto formoso)! aquelas manjaris que lhe trouxeram ontem a
noite a este Krishna keli Kunja estão voltando. À medida que se juntam vindas de seus
respectivos keli-kunjas, elas sorriem e vêm para encontrar Você no param-ananda! Ei Sumukhji-
rai! Por isso, levante-se, abra Seus olhos e admire essas jovens donzelas de pele clara como um
relâmpago. Elas querem vestir e decorar Você para esconder a evidência do seu surata-samara
( batalha amorosa do rati-keli)! “

Shri YUGALA SHAYANA-MADHURI


(A beleza de Radha–Krishna adormecidos)

1/38 – Embora Radha e Krishna permaneçam deitados, Eles já acordaram, pois,


Eles não são capazes de deixar o abraço amoroso um do outro. E embora o findar da noite crie
alarme, nenhum deles é capaz de descartar a felicidade da encantadora cama de flores!

1/39 – O nitamba(as ancas) de Radharani repousam entre os joelhos de Krishna e o


stana yugala(seios) dEla deitam-se oferecidos no peito dEle. Assim descansando rosto com rosto,
Radha abraça Krishna em volta do pescoço e utiliza os dois braços dEle como travesseiro.
Embora acordados, Radha é incapaz de sair dessa posição .

1/40 – Krishna está ansioso em voltar para casa , mas o pensamento penetrante de
deixar o abraço prazeroso de Radha é doloroso. Assim Ele finge estar dormindo.
Rasa tarangini tika –
Quando dois ou mais sanchari bhavas conflitantes atacam o coração ao mesmo
tempo, isso é chamado bhava shabalya. Aqui, austsukhya(o desejo da união), e vishada
(remorso) causados pela necessidade de voltar para casa, causam angustia a Krishna . Embora o
pensamento de abandonar Seu desfrute pessoal do amritamaya-sanga(associação nectárea) de
Radha aflija o coração de Krishna , a dor que Ele sente quando considerando a difícil situação de
Radha é maior.

1/41 – Como o mestre de 100.000 shukas, o papagaio chamado Daksha é um


orador perito dos passatempos de Krishna . Empoleirado na porta do Kunja, ele começa batendo
sua asas em Krishna prema ananda e recita:

1/42 – “oh Krishna ! volte já para o Seu quarto antes que Sua mãe entre. Ele estará
dizendo as suas servas; ‘oh dasis! Por favor batam o iogurte em silêncio . E se ela notar Sua
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ausência vai comunicar todo mundo– Krishna ainda repousa feliz para aliviar Sua fadiga do
pastorear!”

1/43 – “ei Govinda! Você decerto sabe que Suas vacas surabhi, entre elas Kalindi
estão com os olhos fixos na estrada por onde Você entra no goshala. Elas estão ansiosas por vê-
lO, elas levantam suas orelhas e mugem , empinando as cabeças. Assim chamando, elas estão
aflitas devido a que seus úberes sobrecarregados por não terem sido ordenhados.”

1/44 – Após o término dos deveres, Bhagavati Paurnamasi-devi ansiosamente


acompanha Sua mãe para receber o Seu darshan matinal. Antes que ela chegue, levante-se já e
volte para sua própria cama!
Rasa-tarangini tika –
Os eventos descritos no slokas 42, 43 e 44 acontecem diariamente. Dakha com
habilidade lembra a Krishna do afeto de Sua mãe, de Suas vacas e da mãe de Seu Guru,
Santipani muni (siddha tapasvini-senhora asceta liberada- Shri Paurnamasi-devi, a própria
personificação de Yoga-maya, que gerencia todo o nitya-lila. Ela se veste toda de branco, com tez
dourada, é a autoridade mais respeitada de Vraja, avó de Nandi-mukhi e Madhumangala). Shri
Krishna está comprometido com essas três mães, e qualquer negligência de Sua parte com
certeza resultaria em aparadha.

1/45 – Ouvindo as palavras de Dakha, Krishna se prepara para voltar a sua casa.
Após a cuidadosa separação do abraço de Radha , todavia, Ele silenciosamente sentou-Se na
cama.
Rasa tarangini tika –
Dakha conseguiu, mas devido ao bhava –shabalya(dois ou mais sentimentos que
vêm ao mesmo tempo) a mente de Krishna cambaleia em duas direções. Porém, o encanto
desnudo de Priyaji surrupia sua atenção.

1/46 – Anteriormente as manjaris haviam se encontrado com Vrinda. Agora , elas


estão esticando-se na janela do nikunja-mandira para saborear o nishanta –keli-Vinoda de Radha-
Krishna .
rasa-tarangini-tika –
O primeiro verso do Krishnahnika-kaumudi de Shrila Kavikarnapura e os outros
versos do Krishna Bhavanamrita descrevem em resumo o que está acontecendo.
1. “ Quando as pálpebras de Radha e Krishna se abrem, Eles se entreolham
insaciavelmente! Porém a beleza insuperável dEles faz suscitar
‘gurna’( vertigens) – e de gurna, surge angústia que prejudica o darshan
recíproco!”
2. “Ah! O jugal-madhuri de Radha-Shyamasundar é indescritível – Seus
encantadores ornamentos que tinem , tornozeleiras e braceletes – a refulgência
em ondas de Seus corpos cintilantes – Suas madeixas de cabelos encaracolados
com colares e brincos balançando – tudo enaltece Seus iluminados rostos de
lua!”
3. “Quando Suas mãos de lótus espicham-se inquietas a procura de Seus trajes
jogados, os olhos observadores de pétalas de lótus de Radha –keli-
chanda(Krishna a lua de prema-keli) se enchem de amor! Será que todo o
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esplendor universal está aparecendo em Seus membros a medida que o Criador


oferece arati a Eles? “

1/47 – Com o coração cheio de Radha –prema, o pavão-fêmea chamado ‘Sundari’


de repente deixa seu marido e desce da árvore Kadamba para aparecer no quintal do rati –
mandira, onde o Casal Divino executava passatempos.

1/48 - Então, o pavão chamado ‘Tandavick’ faz o mesmo. E no seu orgulho


amoroso por Krishna ele abre sua calda e dança satisfeito!
Rasa-tarangini-tika –
Tandavick é o mais querido pavão de Krishna e Sundari é o pavão-fêmea de
Radha . Certa vez, Radha e Krishna executaram um divertido passatempo fazendo a união
desses dois pássaros.

1/49 - Enquanto isso, a corça de Radharani chamada ‘Rangini’ deixa a companhia


de seu marido e saltitante sai detrás das mangueiras e entra colocando sua cabeça na entrada
do mandir e com seus olhos ternos afetuosamente observa a mukharavinda de Radha –Krishna .

1/50 – Atrás de Rangini está o cervo chamado Suranga, seu marido e animal de
estimação de Krishna . Para aliviar a sonolência, ele dança ao redor para o prazer de Krishna e
amorosamente dirige ondas e ondas de olhares para Seu rosto de lótus.
Rasa-tarangini –tika –
A vida de Rangini é Radha , e Krishna é tudo para Suranga. Devido a afeição dEles
por esses dois animais, Radha e Krishna fizeram arranjos para o casamento deles. Os olhos de
Rangini inquietos primeiro olhou para Radha , depois para Shyama. O olhar de Suranga, porém,
se fixou apenas na beleza de Krishna .
No Krishnahnika-kaumudi, um shari fala o seguinte para acordar Radharani: “Ei
chandramukhi! Olhe aqui! A Sua bela corça de estimação Rangini está vindo para vê-lA. Assim
por que Você não é misericordiosa e deixe que Seu olhar repouse sobre a corça? Isso vai
aumentar o priti(amor) dela para com Você.
“Oh Krishna–kante (amado de Krishna ) rai! As corças são animais muito inocentes.
Observe por que: Rangini está pensando que Seus pés de um vermelho vivo são folhas recém
florescidas – assim ela vem para mordiscá-los – mas Suas manjaris sempre a está enxotando!
“ei Sashi-mukhi(de rosto de lua)! Esse harini(corça) ficou alegre ao provar Seu
remanescente – e gosta de beber Seu charanamrita. Mas , devido a que Você não está olhando
para ela, a corça está triste. Assim com olhos rasos d’água, ela fica fixamente olhando para Seu
rosto de lua! Portanto, ó Rai-sishori! Por favor, salve essa pobre corça abrindo Seus olhos só uma
vez para lhe dar o Seu darshan-amrita!
“oh, Veja aqui, Radhe! O Seu priya-kanta(querido amado), Krishna , está brincando
com Rangini,a corça. Ele está medindo os olhos dela e vem para medir os Seus! (Ele quer ver se
de fato os Seus olhos são similares aos da corça). Nisso, quando Hari está segurando uma
imaculada cordão de pérolas que Ele utiliza para comparar os dois olhos, Ele declara: ‘Que
maravilhoso – esses são de fato harin-akhi (olhos de corça)!
O verso acrescentado por Shri Yadunanda Thakura:
“observando o madhuri incomparável de Radha – Shyamasundar, as manjaris
passam a discutir o assunto.”
Rasa-tarangini-tika –
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A descrição resumida das manjaris de Shri Yadunandana Thakura é adequada. A


alegria de olhar através da folhagens para testemunhar o prema–keli de Radha –Govinda constitui
a mais elevada recompensa para os Vaishnavas Rupanugas. No Krishna Bhavanamrita, Shrila
Visvanatha Chakravarti revela o kathamrita das manjaris como se segue:
Uma dasi fala para outra: “ó encantadora! Não terá sido nosso Yugala-kishora mal
vestidos pelas sakhis? Certamente a roupa e ornamentos dEles foram postos de lado pela Sakhi
do shringara (amor conjugal)! Olhe bem – essa Sakhi Os decorou com suas próprias rati-chinas
(marcas amorosas)! Assim, agora a beleza do shringara (rati-keli ou vestes e decoração) está
totalmente visível!”
Outra manjari pondera:
“ó auspiciosa! Eu posso imaginar a razão pela qual a roupa azul de Radha e
amarela de Krishna estão faltando: A refulgência do corpo azulado de Krishna elegantemente
cobre o corpo de Radha . E do mesmo modo, a refulgência dourada de Radha adorna o corpo de
Krishna . Portanto, Kamadeva imaginou: ‘Decerto seria inadequado e redundante vesti-lOs outra
vez com roupas azuis e amarelas!’
A primeira seva dasi continua: “Ei Sakhi! Quando Madan raja(Cupido) conquistou o
reino corpóreo de Radha , ele permitiu que o ‘pudor/Modéstia’ fosse residir nos olhos, rosto e
seios dEla. Porém, como todo sinal de pudor desapareceu, Ela, o pudor/Modéstia-devi, deve ser
culpada de alguma grave aparadha! Ou, talvez, ‘Subha-dristi’ (a devi das visões auspiciosas) veio
pessoalmente para saciar nossos olhos com prazer! Talvez, contudo, a Modéstia-devi quisesse
deixar por sua própria conta, porque quando Radha despertar, Ela voltará com força revigorada
para reconquistar o reino corpóreo de Radha !”
No Krishnahnika-kaumudi, uma manjari se dirige a outra: “Oi, Será que nosso Priya
yugala se tornaram um? Devido ao forte abraço dEles, não consigo diferenciar Um do Outro! E a
noite passada, o maravilhoso rati utsava dEles aconteceu – mas a pedido de Kamadeva, será que
recomeçaram outra vez ? Certamente Kamadeva pensou: ‘oh, agora o milan(união) de Radha e
Krishna está findando – assim é melhor eu fazer algo!’ Assim, utilizando das agulhas tipo gemas
do romancha(cabelos eriçados) dEles e dos cordões do rati-ananda dEles, Kamadeva costurou
Um no Outro os corpos divinos e saudáveis de Radha e Govinda.”

1/51 – Krishna ergueu Radha e A colocou em Seu colo; Ela está fraca devido a
fadiga. Enquanto Krishna contempla o anga-madhuri dEla, Shri Radhika finge estar dormindo.
Rasa-tarangini –tika
Como a descrição do sloka 45, Krishna se separou do Seu prana-koti-
priyatama(aquela que é mais querida que mil vidas), sentou-Se na cama de flores e Se perdeu
devido ao fascínio! Compreendendo que o sono de Radha era fingido, Krishna sorri meigamente.
Assim, aproveitando-Se da situação , Seus olhos bebem a maravilhosa doçura dos membros
corpóreos dEla enquanto Ele banha Radha com lágrimas de êxtase ! Porém, agora, Radha
sabendo dos desejos íntimos de Krishna , continua Seu sono fingido para que o netra-
utsava(festival para os olhos) de Krishna aumente ainda mais. O paddhati recomenda que
contemplemos internamente Shri Krishna em Vraja com a idade de 15 anos, 9 meses e 7 dias e
meio e Shri Radha com a idade de 14 anos, 2 meses e 15 dias.

A conversa entre Lalita e Vishaka


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No Krishna Bhavanamrita, Lalita ( chamada também de Anuradha. a Sakhi mais


velha, 14 anos, 8 meses e 27 dias, protetora de Shri Radhika . Dona de uma língua muito afiada e
líder de todas as gopis, perita em arranjos florais e em resolver disputas. Tez dourada, vestes
estampada com pinturas de penas de pavão) e as outras sakhis chegam agora para se juntar as
manjaris que saboreiam o shayana-sobha(beleza do descanso) de Radha-Shyamasundar.
Enquanto olhando pelas frestas da janela do nikunja-mandira, Vishaka ( nasceu no
mesmo dia e hora que Radha porém de outra mãe, por isso é chamada de gêmea de Radha ,
além de ser muito parecida com Radha . Perita na arte da representação teatral, pele clara,
vestes cheio de desenhos de estrelas, idade 14 a, 2m e 13 dias e meio) fala: “Oh Sakhi Lalite!
Veja que os corpos de nossos Radha–Govinda nunca estão desprovidos de maravilhosos roupas
e ornamentos! Olhe! Embora estejam niransuka(sem roupas), Eles estão ansuka(cobertos de uma
radiante refulgência). Embora não esteja lá o manihara (colar de jóias) Eles são manohari
(ladrões da mente) com um colar feito de marcas de unhas! Embora Seus angada( braceletes)
estejam perdidos – Eles são anangada (outorgam aventuras amorosas) ! E embora Eles tenham
niranjan-nayana (olhos untados de rímel) – Eles são nirantara-ranjana (sempre agradáveis) um ao
outro! Ao observar esses sinais auspiciosos em Radha–Madhava e também na cama de flores, eu
conclui que um festival ilimitado de prema ocorreu aqui!”
Lalita nota que: “ Os cabelos de Radha-Krishna estão desmanchados, embora
pareçam formosos. Seus lábios estão machucados, embora fascinantes! O peito dEles estão
cobertos de marcas de unhas, porém os Dois parecem incontáveis raios de lua! Vendo o Divino
Casal igualmente agredidos, contudo, minha mente ficou estarrecida: Durante a batalha de
Kandarpa da noite passada, quem saiu vitorioso?”
Vishaka responde com um gracejo: “Ninguém saiu ganhando! Veja bem, o kunkuma
do seio da Sakhi Radha agora pode ser visto nos pés de lótus de Shri Krishna , e a laca vermelha
do solado do pé charana padma de Shri Radha está claramente visível na testa de Krishna .
Portanto , eu declaro – ‘prema’ é que saiu vitorioso!”

O LEVANTAR DE SHRI YUGALA KISHORA


1/52 – O rosto de Radha é como o svarna padma(lótus dourando) em flor e os
cabelos encaracolados caindo sobre Sua fronte parece ser abelhas negras ali pousadas. Além
disso, Seus olhos inquietos poderiam ser tomados erroneamente pelo dardejar de beija flores. Ao
visualizar a beleza estonteante de Radha , Krishna sorri.

1/53 – Radharani entrelaça Seus dedos, levanta Seus braços e estica Seu corpo
inteiro para se aliviar da fadiga. Enquanto Ela boceja, uma raio de luz é emitido de Seus dentes
cintilantes. Ao ver Radha nessa posição Krishna fica fascinado!
Rasa-tarangini-tika –
Devido a habilidade de Radhika , Ela é chamada pelas sakhis de Chaturini-rai.
Nessa posição, Ela despreocupadamente exibe Seus belos kucha-yugal (seios) para aumentar o
encanto de Krishna ! Como o dente dEla fica ligeiramente a mostra , o brilho que produz ilumina o
nikunja-bhavana. Assim Krishna observa – boquiaberto!
No livro Krishnahnika kaumudi acrescenta-se que quando Radha e Krishna bocejam
– ‘um raio de paz’ reluz de Seus dentes. Nisso com o auxílio de Seus brilhantes rostos, a
refulgência combinada atua como se fosse o mangala-arati de Shri Yugala-Kishora.
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1/54 – A fim de aumentar o ananda de Krishna , Radha se senta no Seu colo e olha
para Ele com os olhos cansados e vagueantes ! O cabelo dEla está ligeiramente desarrumado, a
Sua pushpa-mala está quebrada e Seu colar de jóias quebrado. Então, junto com Seu sofrimento
fingido e o biquinho que faz na boca , Ela mostra um terno sorriso que revela a alegria interna de
Seu coração abrindo repetidamente Seus olhos cansados e girantes par explorar a face de Seu
amado Vrajendu(a lua de Vraja).

1/55 – Radha ainda sentindo-Se cansada do kandarpa-keli da noite anterior, entrega


Seu próprio corpo macio como um arbusto nas mãos de Shyamasundara, que é como uma árvore
tamala escura. Talvez a cena de um raio estável deitado calmamente dentro de uma nuvem
recém-formada, pudesse ser comparada com a beleza de Radha abraçando Krishna .

1/56 – Os olhos de Krishna mostram-Se cansados e intoxicados, Seu corpo está


coberto de marcas de unhas e untado com kajjala (rímel), embora o aroma dEle seja como o do
lótus fragrante! Sua testa é decorada com madeixas, e brincos Makara (no formato de golfinho ou
tubarão) que incitam a mente dançando em Suas faces refulgentes, porém nisso há um matreiro e
doce sorriso! Ao ver o rosto de Krishna assim cativante, padma-lochana(de olhos de lótus) Radha
outra vez é atingida pelas flechas de Kamadeva ficando ansiosa por mais vilasa!

1/57 – Quando os olhos de Krishna pousam nos de Shrimati, Ela sorri e aperta os
olhos devido a timidez. Contemplando a doçura sedutora de Radha , Krishna também sucumbe a
tentação para reiniciar o Ananga-keli(vilasa)!

1/58 – Krishna segura a base da trança(veni) de Radha com Sua mão esquerda.
Então coloca Sua mão direita no queixo dEla, Ele assim levanta o rosto dEla que está abaixado
devido a timidez, para beijar as Suas faces sorridentes e a Sua formosa boca uma e outra vez!

1/59 – Radha levemente fecha Seus olhos e mergulha em um ananda-sagara no


toque dos lábios de Krishna ! Porém, com Suas mãos inquietas, Ela dificulta a ação dEle –
expressando as palavras “na, na “(não, não) com uma voz abafada e frágil! Essas palavras dão
grande deleite às sakhis que olham através das frestas das janelas.
Rasa-tarangini-tika –
Ao obter o adhar-suddha-rasa(doce sabor de Seus lábios) de Krishna , isso satisfaz
o Shyama-sohagini(objeto da afeição de Shyamasundara) que é Radha . Porém, devido ao recato
e devido a ser uma bama-nayika (uma Gopi no humor que opõe resistência ) Ela rebate Krishna
para aumentar a bem aventurança transcendental dEle! Embora emoções ashta-sattvic façam
com que as palavras de Shrimati sejam hesitantes, ainda assim Sua voz derrota o volume do
som madhura da vina. Ah! Essas duas simples sílabas (na, na) são expressadas de uma forma
tão cativante que Krishna fica completamente subjugado.

1/60 – Ouvindo as palavras contidas de Radha , os corpos das sakhis se arrepiam


enquanto elas fazem gracejos , elas vacilam em ir importunar Shrimati . Uma empurra a outra e
dizem: “Oh Sakhi, vá você na frente! Oh Sakhi, você primeiro! ‘ Alarmadas com a aproximação da
luz do dia, elas entram no nikunja mandira que ecoa com o firme cantarolar das abelhas
intoxicadas .
rasa-tarangini-tika –
61

O Krishna Bhavanamrita relata lucidamente o humor svadina bhartrika (a Gopi que


submete Krishna a servi-la, mantendo-O sob o controle e bem próximo dela) bem como uma
descrição do seva das manjaris:
“Enquanto as sakhis olhavam pelas frestas da janela e desfrutavam do Yugala-
darshan – de repente o estame(manjari) da Rupa(divina beleza) de Radha–Krishna aparece
proveniente desse festival! Em outras palavras, a serviçal mais querida de Radha-Krishna , Shri
Rupa Manjari se adianta para executar o seva necessário. Pedindo permissão de Bhanumati
Sakhi e outras, ela entra no vilasa mandira e contempla a roupa espalhada no Radha nikunja
nagara, os ornamentos desmanchados, a maquilagem borrada e guirlandas de flores removidas!
A cama de flor de fato dava gosto de se ver! Assumindo o comando, Shri Rupa primeiro instrui
uma das seva-dasi s para arrumar os travesseiros e encostos do rasika-yugala. Outra seva-dasi
se encarrega de cobrir as formas do Casal com um pano de seda transparente. Ainda outra
manjari prepara a bebida chamada 'piyush-bati' para aliviar a sonolência de Radha –Krishna .
Lajja-devi (a deusa do recato/pudor) esteve dormindo fora do keli-mandira. Ao ouvir
os sinos das tornozeleiras das manjaris, todavia, ela acorda e entra no mandira do coração de
Radha e (com grande dificuldade) separa Radha dos braços de Govinda! Em outras palavras, ao
ouvir o som das tornozeleiras e braceletes das manjaris, o humor apaixonado de Radha se
apazigua.
Vendo Radhika-devi ansiosamente tentar desatar Seus brincos e beshora (anel de
nariz) dos cabelos de Krishna , outra manjari sorrindo brinca:
“Oh rasika yugala! Quando Kamadeva viu o anuraga(profundo apego) mútuo de
Vocês atraindo um o corpo do outro, Kamadeva decidiu algemá-lOs em um cativeiro! Vendo a
separação iminente os colares, brincos e malas de flores etc., resolveram se atar em um nó!”
Irritada pela afirmação, Rai-Kishori disse; “hei dasis, fiquem quietas! Conheço bem
todas vocês!”
Sem se afetar pelo temperamento de Radha , a dasi continuou sorrindo e
rapidamente desatou os ornamentos de Shrimati do cabelo de Krishna . Durante o rati-vilasa, o
rímel de Radha –keli-chanda borrou Seus lábios, e a umidade dos lábios dEle borrou a
maquilagem dEla. Shri Krishna estava com o vermelhão dos pés de Radha em Sua cabeça. Ao
ver a condição que estava o romance, uma seva-dasi pegou uma pano macio extremamente
refinado (levemente molhado com água de rosas) e com devoção limpou as faces de Radha e
Krishna até que brilhassem como um espelho polido.
Algumas preparam tambula(pan – que é uma preparação feita de folhas de bétel
com fruto da limeira, catechu- substância vegetal, noz de areca-tipo de palmeira, preparação é
mastigada) e colocam nas bocas do Casal Divino. Outras dasis seguram uma lamparina de ghee
de múltiplos pavios e executam mangala-arati a Radha Govinda como se estivessem oferecendo
suas próprias vidas milhões de vezes! Alguém traz uma caixa de jóias com os ornamentos de
Radha e Krishna e outra manjari gentilmente abana os Dois para remover as gotas de suor.
Enquanto isso, Radha pega um espelho para Se olhar. Ao ver em Seu rosto de lótus
as escoriações causadas pelos dentes de Krishna , Ela fica admirada; “Hoje, Madhusudana(a
abelha que rouba pólen ou Krishna que rouba o madhu dos lábios das gopis) saqueou o néctar de
Minha mukharavinda!”
Enfeitiçada por esses pensamentos, Shrimati é incapaz de tirar Seus olhos do
espelho como se estivesse mergulhada em um bem aventurado samadhi! Quanto mais Radha
olhava para Seu rosto, mais Ela considerava que as marcas dos dentes de Krishna era algo doce
de se ver! Sorrindo para Si mesma Ela concluiu:
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“A beleza e doçura suprema de Minha juventude alcançou o êxito hoje porque Meu
Priyatama(mais querido amado) desfrutou totalmente este Rupa-amrita-madhurjya!”
Enquanto Radha Se olhava, os olhos de Krishna aproveitou a oportunidade para
saborear a delicadeza dEla. E sentindo Seus olhares, a felicidade de Radha não encontrou
limites, enquanto a face de lótus dEle se tornou a menina dos olhos dEla!’ Compreendendo a
submissão de Krishna , o orgulho de Shri Radhika veio à tona. Assim, no torpor do humor
svadhina bhartrika, Radha chamou Krishna da seguinte forma:
“Hei vilasina(desfrutador dos sentidos) ! Hoje Minhas roupas e ornamentos
maravilhosos foram desmantelados devido a Sua tendência de ceder aos próprios desejos! Será
que Você quer Me atirar no oceano da dificuldade ao Me exibir dessa forma? Por que Você fica aí
impassível? Rápido, venha Me vestir antes que Minhas mais queridas sakhis voltem!”
“Hei Nirlajja-raja(Rei dos atrevidos)! Você é agora um aparadhi do adorável devata,
Shri Ananga-deva(Kamadeva-Cupido). Por isso, já, Me vista com destreza da mesma forma que
Eu estava vestida! Só assim o Seu ishta-deva vai Lhe perdoar!
“Veja o exemplo de um pujari . Primeiro ele retira o devata do altar e após o puja,
limpa o local e repõe o devata no altar. Se o pujari negligencia a limpeza após a adoração, ele é
culpado de aparadha. O mesmo acontece com Você! Depois de trazer o Seu kamadeva do
mandira de Sua mente e executar o puja, Você ainda não limpou o local nem repôs Kamadeva de
volta no altar! Assim o que você está esperando? Rápido , peque o kunkuma , chandana, almíscar
e os demais ingredientes para cobrir os vilasa-chihnas (as marcas das escoriações) em Meu
corpo! Depois , vista-Me e decore-Me de tal forma que as sakhis não possam saber o que
aconteceu aqui!”
Rasika-churamani , Krishna , responde:
“Radhe! Você está certa! Ananga-deva decerto fez seu aparecimento no altar de
Seus membros corpóreos! Portanto, Eu utilizarei dos cinco artigos : basana(vestes) ,
bhushana(ornamentos), gandha(incenso), pushpa(flores) e chandana(pasta de sândalo) para
satisfazer totalmente Meu ishta-devata!”
Ao escutar as palavras de Krishna , Bhanumati Manjari se adiantou e ofereceu-Lhe
um pente. Então Nagar-shekar(Krishna, o maior galanteador romântico) pegou o cabelo de
Shrimati e começou a penteá-los com máxima concentração para poupar Sua amada do mais
leve desconforto. Após fazer o rabo de cavalo(veni) de Priyaji, Krishna o decorou com flores
malati .
Em seguida Ele cuidadosamente untou a borda dos olhos de Shri Radhika com
anjan (rímel) preparado por Ragalekha manjari. Krishna pegou o colar de pérolas oferecido por
Ruchi manjari e afetuosamente colocou-o em volta do pescoço de Rai-rangini(Radharani, a
prazenteira). Na mesma hora a auto-estima de Shri Radhika–devi se ergueu, e com uma voz
orgulhosa Ela se dirigiu a Shyamasundar:
“Hei enganador, perito no vestir! Antes de repintar os atrativos desenhos de
chandana que Você borrou dos Meus seios, por que Você os cobriu com o colar de pérolas? Se
Você coloca primeiro o colar, depois não poderá pintar os desenhos. Portanto, essa Sua vanglória
diante das sakhis de ser um perito camareiro é pura presunção!”
Ao ouvir a fala de Radha , o orgulho de Krishna aumentou, e Ele continuou a Se
vangloriar da seguinte forma:
“Oh Radhe! A Sua artista mais celebrada é Vishaka – mas observe aqui – eu farei
desenhos tão maravilhosos no Seu seio que mesmo Vishaka ficará aturdida!”
Falando assim, Krishna fez um sinal a Shri Rupa, Shri Rati e Shri Lila Manjari para
passarem os ingredientes necessários. As seva-dasis obedeceram e ficaram de prontidão para
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assistirem o roho-lila(o mais confidencial dos passatempos, Kandarpa-keli). Porém assim que
Krishna pegou o pincel, de uma só vez Ele foi atingido pelas cinco flechas de flores de cinco tipos
diferentes de plantas (Pancha-bana) de Kamadeva, que são : 1) aravinda(lótus vermelho); 2)
ashoka (árvore com flores vermelhas); 3) chuta(mangueira)’4) nava-mallika (tipo de jasmim) e 5)
nilotpala(lótus azul). O resultado de cada flecha são respectivamente: 1) sanmohan (paixão cega),
2) unmadan(intoxicação), 3) shoshana (emagrecimento), 4) tapana(queimadura),
5)stambhana(paralisia)! A corda do arco é feito de uma linha produzida pelas abelhas.
Assim as mãos de Shyama-nagara incessantemente tremiam e as linhas do
desenho ficavam tortas. Com isso, uma e outra vez Ele esfregava com Seu próprio peito os traços
estranhos que Ele produzia nos seios de Radha querendo apagá-los! Enquanto isso as manjaris
observavam:
“Fingindo estar apagando os traços tortos no kucha jugal(seios) de Radha,
Vidagdha(habilidoso, genial, ou seja, Krishna é o raja de todas as astutas nagaras) raja
Shyamasundara está ateando fogo na fortaleza da tranqüilidade de Radha ! Além do mais Ele
mesmo está ardendo no kamagni(fogo da paixão) de Kandarpa-raja(cupido)!
Mas daí em diante Kamadeva nota que as decorações de Krishna são inadequadas!
Assim, pela ordem do cupido, o sringara é rearranjado em nova disposição para os Dois
parceiros! Em outras palavras, após remover o comedimento e tranqüilidade de Shri Shri Yugala-
Kishora – o Kandarpa-keli se reinicia e durante o conflito mútuo , a roupa de Radha é transferida
para o corpo de Krishna e vice-versa! Assim, na avaliação do Cupido, agora o Yugala-sringara
exibe incomparável assombro!
As manjaris ao visualizarem esse lila através das janelas do keli-mandira declaram
agora: “Ah! Se esse momento ‘afortunado para os olhos’ pudesse durar para sempre! “ Mas, elas
vendo que o novo dia chega, lamentam: “ai de mim!” o Criador tem um coração de gelo, pois o
prema-keli de Radha-Govinda está chegando ao fim!”
O rasika-bhakta-churamani Shrila Vishvanatha Chakravarti-pada aconselha em
seguida:
“Os sadhakas bhaktas devem contemplar esses tópicos para poderem cultivar
humores similares, porque da mesma forma que as manjaris fazem, essa meditação-madhura
deve ser usado em volta do pescoço como um precioso medalhão. “
Uma exclusividade do Krishna Bhavanamrita é que o roho-lila (mais confidencial
passatempo) de Radha –Govinda aparece em cada um dos oito períodos do dia. Acima temos o
primeiro.
Retornando ao texto:

1/61 – Depois disso, Shri Radhika devi vê que as sakhis de belos rostos se
aproximam com um largo sorriso com inquietos e movimentados olhos. Então , Radhika sai do
colo de Krishna para duplicar o ananda dEle e para ir de encontro a elas!
Rasa-tarangini-tika –
Tomada de surpresa e intoxicada com o rasamay sanga de Shyama-nagara,
Premamayi Radha não pode compreender por que as sakhis sorriam tão amplamente. Nisso
quando Radha levantou os olhos para ver cada uma das sakhis admiradas, Ela compreendeu a
razão. Assim Ela saiu do colo de Krishna .

1/62 – Sentindo-Se embaraçada , Radha rapidamente pegou o chaddar amarelo de


Krishna para Se cobrir. Então, enquanto Se sentava do lado esquerdo de Krishna , Ela recuperou
sua gravidade e ficou embaraçada em relação as sakhis!
64

1/63 – As sakhis alegremente observaram: “Nossa despida rasika-yugal está coberta


de marcas de unha, Seus lábios estão machucados e Eles Dois estão sonolentos devido a fadiga
do prema-keli! Além disso, os cabelos dEles se espalham e os colares e pushpa-malas estão
jogados!” . Assim as sakhis ficaram repletas de felicidade!

1/64 – Bem no meio da cama de flores há manchas de abundante kunkuma


(açafrão) que caiu do corpo de Krishna e dos dois lados da cama há laca do solado dos pés de
Radha . e aqui e ali em volta da cama há espalhados vermelhão (sindura), maquilagem,
chandana (pasta de sândalo) Portanto, ante os olhos das sakis , tudo isso denunciava um tipo
especial de brincadeira amorosa!
Rasa –tarangini-tika –
A tradução do padya de Shri Yudananda Thakura define esse tipo especial de
brincadeira amorosa como viporit-keli ou viparita-vilasa( fazer amor invertido) . Nessas horas,
surata –rangini(a senhora da brincadeira do kandarpa-keli) assume o papel dominante para
satisfazer os desejos de Krishna (até o ponto de Krishna desmaiar)!

1/65 – para as sakhis – as flores murchas, manchas de pan e nódoas de vários


ungüentos corpóreos na cama e as marcas das carícias de um apaixonado amor, tudo lembra
Radha (uma vez que esses mesmos sintomas aparecem também no corpo dEla).

1/66 – Observando os lábios de Krishna que está prestes a dizer algumas


brincadeiras, e vendo que Shri Radhika baixou Seu semblante de lótus devido ao recado, o gosto
das sakhis aumenta ainda mais!

1/67-68 – Krishna conhece a mente das sakhis e Ele deseja ver o madhuri(doçura)
do rosto de Radha contorcido. Assim Ele abertamente exibe Seu peito e fala sorrindo:
“hei sakhis! Olhe! Com a chegada da manhã, a estrela chamada ‘Radha’ (outro
nome da constelação nakshatra) ficou amedrontada vendo Seu amado kanta( amor – a lua)
desaparecer! Assim desejando que se demorasse mais, ela marcou a tela do céu com centenas
de raios de lua!”
o significado íntimo:
“oh sakhis, vejam bem como Radha arranhou o Meu peito, que é como o amplo céu
azul, com centenas de unhadas, ansiosa e em viraha quis retardar a Minha partida pela
manhã!”(dizendo isso, Krishna exibe a todas as sakhis as marcas).

1/69 – Ao ouvir as palavras de Krishna e vendo o sorriso das sakhis, as robustas


bochechas de Radha se revitalizaram como uma flor que desabrocha. Então, Seus olhos
inquietos se alinharam com Suas sobrancelhas dançantes para lançar um olhar de soslaio
destinado a espetar o coração de Krishna !

1/70 – Os olhos de Radha estavam levemente fechados, cheios de lágrimas e


avermelhados de ira nos cantos, radiante de desejos eróticos. Eles se moviam inquietos e
pareciam tímidos devido o temor dEla de ter sido embaraçada. Nisso, Ela viu o rosto de Krishna e
Seus olhos se arregalaram e o Seu gentil sorriso reapareceu! Mergulhada em extremo êxtase
devido a Sua fixação no mukharavinda(rosto de lótus) de Madhava, os olhos fascinantes de
Radha outorgam param–ananda (alegria) a Seu Nagara-nilamani, Krishna !
Rasa-tarangini-tika –
65

Essas passagens clamam por meditação. Quando a escrita de Shrila Kaviraja


Gosvami mergulha no prema-sindhu de Shri Yugala-Kishora, esse bhavadhara(onda de emoções)
retrata uma personalidade dhira-Lalita(um nayaka despreocupado, espirituoso e amoroso que
permanece sob o controle de sua amada) e Radha como a Rasabati-sarvasva-shiromani (a jóia
da coroa das consortes rasika dEle). Aqui Radha satisfaz os desejos mais íntimos de Krishna com
Sua famosa kila-kinchita bhava que inclui um buquê de sintomas divinos: ao arquear as Suas
costas (Radha projeta os seios) e girando Seus olhos com sobrancelhas dançarinas, Shrimati
exibe o alankara chamado hela que revela as intenções amorosas dEla. O Seu leve fechar de
olhos exibe ciúmes, a vermelhidão de Seus olhos mostram ira, enquanto suas torrentes de
lágrimas imploram: ‘por favor, Me proteja!’ O Se beicinho fingido e nervoso sugere temor, e Seus
olhares de soslaio sinuosos fortalecem um orgulhoso ciúmes que diz ;’Espere só!’ Eu me vingarei!
Desse modo, quando os oito sintomas de orgulho, desejo, choro, sorriso, ciúmes, medo, ira e
jubilo se combinam, o kila-kinchita bhava de Shrimati Radharani brota para dar prazer a mente de
Krishna , um prazer que transpõe o gozo da união conjugal milhares de vezes!

1/71 – Assim, as sakhis e manjaris mergulham completamente dentro do prema-


sukha-sagara(o oceano do prazeroso prema) do vilasa-madhuri(doces folguedos amorosos) e a
necessidade de voltar para casa é simplesmente esquecida!
Rasa –tarangini-tika –
Aqui se dá os meios para sobrepujar os apegos mundanos. Ao se contemplar os
lilas de Radha –Krishna seguindo os passos das afortunadas gopis, se esquece da família, lar,
amigos e identidade mundanas. No seu lugar, um apego crescente é despertado pelo nikunja-
seva de Shri Shri Radha–Raman.
O Cheitanya Charitamrita aconselha:
Sei Gopi bhava amrita jara lobha hoy,
Vea dharma loka tyaji sei Krishna bhajaya
Raganuga marge tare bhaje jei jana
Sei jana paya vraje vrajendra –nandana
Vraja lokera kona bhava loiya jei bhaje
Bhavajogya deha paiya krsne paya braje (C.C. Madhya – 8)
Tradução:
“Aqueles que estão ansioso pelo amrita-seva de Krishna como uma Vraja-Gopi deve
descartar as seções não relacionadas dos Vedas e pessoas desinteressadas. Ao se fazer a
adoração no caminho de Raganuga bhakti , o Krishna de Vrindavana se torna alcançável, i.e.,
seguindo os humores de um residente específico de Vrindavana se concede um siddha–deha
similar para servir Krishna em Vrindavana.”

O ALARME DE VRINDA
1/72-73 – Vendo Radha e Krishna mergulharem mais fundo no Lilamrita-sindhu, e ao
ver as sakhis e manjaris intoxicadas e cegas devido a loucura de prema, Vrinda fica receosa.
Assim , ela sinaliza ao seu shari (papagaio fêmea) treinado chamado ‘Shubha’ que com perícia
faz soar o alerta interno de Radha para trazê-lA a consciência em relação a Seus superiores, a
Seu marido e o ridículo que poderia resultar se outras pessoas soubessem, tornando-a motivo de
risadas.
Rasa-tarangini-tika –
66

No Krishna Bhavanamrita, Shrila Chakravarti-pada desenvolve o assunto do dilema


de Vrinda quando ela pondera: “O prema-keli de Radha –Govinda trouxe luz as faces redondas
das Vraja-kishoris , mas esses rostos ficarão pálidos quando a lua se for. Embora os Vedas
comparem a luz com o conhecimento e a escuridão com a ignorância , aqui no madhura
Vrindavana estamos vendo o efeito oposto. Pois, a medida que a luz do dia se aproxima, uma
profunda ansiedade só vai escurecendo os corações puros das Vraja-sundaris. Por isso, mesmo
os Vedas podem ser ingênuos em relação aos passatempos únicos de Shri Krishna em
Vrindavana!”

O RECITAL DE SHUBHA-SHARIKA
1/74 – Shubha fala: “hei Sakhi de olhos de lótus! é melhor Você se apressar porque
Jatila logo vai entrar em Seu quarto dizendo; ‘oh Radhe! Abhimanyu e o seus servos estão vindo;
eles trazem os baldes de leite do goshala. Antes que ele chegue, levante-se e faça suas
obrigações de limpar a casa! “
rasa-tarangini-tika –
Abhimanyu nasceu eunuco. A fim de manter isso em segredo de Radha , ele passa
suas noites dormindo no goshala.

1/75 – Subha continua: “Veja bem, oh inocente! As estrelas estão desaparecendo


após terem desfrutado de uma noite romântica com o marido delas, a lua. Do mesmo modo, Você
deve partir deste Kunja rapidamente!”
rasa-tarangini-tika –
As estrelas representam as esposas da lua. Como elas são devis que permanecem
no céu , ninguém critica seus romances amorosos. Contudo, ao desaparecerem no momento
oportuno, elas, as estrelas, exibem uma etiqueta adequada a mulheres casadas. Com esse
exemplo, Subha insinua que uma mulher que passa a noite com seu amante deve terminar esse
fascínio no findar da noite; caso contrário, com certeza a desgraça lhe aguarda!

1/76 – “oh virtuosa Radhe! A pintura do céu está alaranjada devido aos raios do sol.
As pessoas estão tomando as estradas principais. Assim, deixe de lado o Seu folguedo e siga
para casa pegando o atalho oculto da floresta.”

1/77 – Subha após fala a Krishna ; “hei Shyama! Será que Você desconhece que a
shashuri(sogra) de Radha (Jatila) está coberta com a lama da suspeita? Além disso, o áspero
marido de Radha faz jus ao nome que recebeu ‘Abhimanyu (sempre zangado, falando
asperamente e continuamente vive procurando erros nos outros) , e a nanadini (cunhada) de
Radha é uma fofoqueira vulgar sempre nervosa. Como os membros familiares de Radhika são
todos sórdidos, como Você a pode segurar em uma hora dessas?”
rasa-tarangini-tika –
Esse verso revela a posição de Radharani. Da mesma forma que o lótus reside
dentro da lama mas exibe o seu esplendoroso desabrochar acima da água, nossa padmini-Radha
vive temerosa quanto aos Seus cruéis parentes por parte de marido, mas exibe Seu florescer fora
da lamacenta associação dEla.
67

1/78 – Os presságios do shari chacoalharam o coração de Radha da mesma forma


que o Montanha Mandara foi batida dentro do oceano de leite! Assim, à medida que se
aproximava a separação entre Radha e Krishna , os olhos de peixe de Radha dardejavam para lá
e para cá; assim Ela saiu da cama!
Rasa-tarangini-tika
Premamayi-Radha sente o desconforto de Shri Krishna um milhão de vezes mais
que o Seu próprio, e assim pondera; “Deixe que os Meus familiares e superiores Me critiquem ou
torturem à vontade – eu posso tolerar tudo isso, mas se o nome de Meu Praneshvara Shri Krishna
for tocado – isso Eu não tolero!”
Pensando assim, a mente e os olhos de Radha começaram a girar. Quando os
devatas e asuras bateram o oceano de leite com a Montanha Mandara, os peixes ficaram
atormentados. Da mesma forma, ao ouvir as palavras de Subha, os olhos de Shyama-
gorabini(aquela cujo orgulho cessa diante da dignidade de Krishna ) ,Radha , são jogados em
ondas de ansiedade enquanto Ela delibera; “Se Eu for pega hoje talvez Meus parentes imponham
um castigo tão severo que o Meu Krishna–seva fique prejudicado por toda essa vida!”

1/79 – Quando Shri Krishna notou os olhos inquietos e o belo rosto de Vrishabhanu-
nandini se encher de medo, Ele Se cobriu , por engano, com o orana (xale de seda de Radharani)
azulado e Se levantou da cama de flores rapidamente.

1/80 – Colocando os outros ornamentos e estando tomados de pânico, Radha e


Krishna seguraram-se pelas mãos e deixaram o nikunja-mandira!
Rasa-tarangini-tika
Shri Radhika-devi também por engano Se cobriu com o chaddar amarelo de Krishna.

1/81 – Ao sair do Kunja, Krishna segura na Sua mão direita a mohan-vamshi (flauta
encantadora) e Priyaji na esquerda, Ele se assemelha a uma nuvem carregada de chuva
estivesse abraçando o relâmpago radiante!
Rasa-tarangini-tika
No Krishna Bhavanamrita, Shrila Chakravarti-pada acrescenta: “Quando Radha sai
do vilasa-mandira para o quintal do Kunja , Ela lamenta-Se; “Ai de mim! O breve prazer da noite é
fugaz! Agora o longo período de escuridão da repressão de Jatila irá esmagar a próspera
trepadeira de Meu desejo!”
“Quando os pavões vêem Radha se aproximar com as mãos de Krishna em cima
dos ombros dEla, eles erroneamente pensam que uma majestosa nuvem carregada abraçando o
raio descendeu para caminhar pelas florestas de Vrindavana! Assim, eles abrem suas caldas e
dançam, gritando, ‘ke ka, ke ka!’ As sakhis e manjaris iludidas pelo comportamento dos pavões
também concluem: ‘de certo uma bela nuvem enguirlandada pelo raio caminha por esta floresta!’”

1/82 – Agora as manjaris juntam a parafernália do seva da noite anterior. Uma


carrega um lota dourado, outra pega a cchamara de cabo da cor de ouro, ainda outra manjari vai
pegar o espelho cravejado de jóias , mais outra pega a caixa de chandana colorido e o recipiente
ornado de jóias do pan, enquanto que outra seva-dasi leva o Manjubhasini (shari-papagaio de
estimação de Radha ) em uma gaiola amarela. Assim , as manjaris alegremente saem do Kunja-
bhavan logo atrás do Casal Divino.
68

1/83 – Outra manjari sorrindo carrega o pote especial de kunkuma que tem o
formato do seio orgulhoso de uma Vraja-ramani. O pote é feito de marfim, cravejado de ouro e
com uma safira azul na tampa.
Rasa-tarangini-tika
Com um alegre sorriso e risadinhas, essas rasabati(mulheres sensuais) manjaris
zombam de Shri Krishna ao balançar o pote de kunkuma diante dos olhos dEle, o motivo delas é
de fazer com que Ele se lembre do esplendido kucha-yugal(seios) de Ramani-mani-rai. Elas
assim aumentam o orgulho das serviçais de Radha.

1/84 – Uma manjari habilidosa junta as pérolas perdidas e as envolve com sua
roupa. As pérolas são do colar quebrado de Radha em Sua luta amorosa com Krishna .

1/85 – Shri Rati manjari com rapidez correu para a cama de flores, recuperando um
conjunto de brincos que havia se perdido durante o ato de amor e depois saiu para recolocá-los
nas orelhas de sua Praneshavari(Radha ).

1/86 – Shri Rupa recuperou o bustiê (kanchuli) de Radhika que estava no canto da
cama de flores e discretamente devolveu a Ela.
Rasa-tarangini-tika
Certa vez (após desfrutar com Krishna ) Radha esqueceu de se cobrir com o Seu
kanchuli e Lalita-ji aproveitou a oportunidade para admoestar Radha :
Kanchuli chariya aji bujhi tumi purusha
Sajiya vilasa-vikrama matiachile
‘oh, Vejo Seu êxtase! Hoje Você assumiu o papel do homem para conquistar Krishna
na batalha de Kandarpa” E é para proteger Radha desse tipo de brincadeira que Shri Rupa
devolve o kanchuli secretamente. Assim Shrimati sorri expressando gratidão.

1/87 – Shri guna Manjari pegou a cuspideira , pegou o tambula que Radha e Krishna
haviam mastigado e distribuiu o prasadi(remanescentes) de pan para todas as outras sakhis.

1/88 – Nisso Manjulali manjari vai até a cama, recupera a guirlanda de flores prasadi
e chandana e sai do keli-mandira para distribui-los a todas.
Rasa-tarangini-tika
Nos slokas anteriores, Shrila Kaviraja Gosvami dirige sua atenção ao manjari-seva.
Ele menciona os nomes de Shri Rupa, Shri Rati, Shri Guna e Manjulali manjari. Se
acrescentarmos Shri rasa, Shri Vilasa, Shri Lavanga e Shri Kasturi Manjari – temos formado o
grupo superior das seva-dasis de Radha . Essas oito manjaris líderes são conhecidas como
‘ashta manjaris de Radha “ . Da mesma forma que as ashta-sakhis predominam em especial,
essas ashta-manjaris dirigem todas as outras manjaris no lila-seva. Suas identidades no Goura-
lila são as seguintes:
1 – Shri Rupa manjari - Shri Rupa Gosvami
2 – Shri Rati manjari - Shri Raghunatha Dasa Gosvami
3 – Shri Lavanga manjari – Shri Sanatana Gosvami
4 – Shri Guna manjari – Shri Gopal Bhatta Gosvami
5 – Shri Vilasa manjari – Shri Jiva Gosvami
6 – Shri Rasa manjari – Shri Raghunatha Bhatta Gosvami
7 – Shri Manjulali manjari – Shri Lokanatha Gosvami
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8 – Shri kasturi manjari – Shri Krishna Dasa Kaviraja

Nessa hora, Shri Prabodhananda Sarasvati (embora seja no Vraja-lila Tungavidya


Sakhi, ele revela seu intenso desejo de se ocupar no dasya-rasa de Radha ) ele faz preces
pedindo o jaru-seva (serviço de varrer o chão). Assim enquanto estiver arrebatadamente absorto
no lila de varrer, ele ouvirá a seguinte conversa: “oh hei! Eu não sou o asura Trinavarta – assim
não despedace meu pescoço com Suas unhas! Uh! Não Me tome pela asura Putana – e pare de
beliscar os mamilos de Meus seios!”
Assim , Prabodhananda ora no humor de uma Vraja Gopi:
“oh Sakhi Radhe! Enquanto varro o Seu keli-mandira bem cedo pela manhã, posso
ouvir por acaso os papagaios repetirem o Seu rasamaya-Katha (as palavras que foram trocadas
durante o Vilasi-nagara!)” (extraído do livro Radha-rasa suddha-nidhi)

Retornando ao texto:

1/89 – As sakhis dão risadinhas (cobrindo suas bocas com suas mãos) ao verem o
xale azul de Radhika adornando o corpo de Krishna e o pitambara amarelo de Krishna cobrindo
Radha . Como essa visão as diverte, elas trocam olhares brincalhões para compartilhar a alegria
que sentem em seus corações !
rasa-tarangini-tika
As sakhis consideram: “o que causou a confusão na troca do vestuário de nossos
Radhe-Shyama?”
Zombeteiramente alguém declara: “os pertences de Shyama são queridos por
Radha – como os pertences de Radha são queridos por Shyama. Por isso, essas roupas
compreendendo isso mutuamente fizeram a troca!
Outra Sakhi contestou: “Na, na (não , não) . eu acho que durante o prema-keli de
Radha Krishna essas roupas se sentiram negligenciadas porque foram colocadas de lado. Assim
por ciúmes, elas se refugiaram no outro parceiro.” Desse modo, o rasamaya-Katha das sakhis
prossegue.

1/90 – Os sorrisos das sakhis causam embaraço em Radha e Krishna . Assim, o


Casal Divino Se entreolha e ficam estancados imóveis! A partir daí, Shri Yugala-kishora fica
parecendo um quadro pintado , com Eles profundamente mergulhados em um oceano túrgido de
bem aventurança!

1/91 – Da mesma forma que o leite desaparece quando dentro da concha branca,
devido a coloração semelhante, Radha não pode detectar Sua meghambara (veste azulada) em
oposição a tez da cor escura de Krishna . Similarmente, o pitambara de Krishna (chaddar
amarelo) fica imperceptível em contraposição a refulgência corpórea dourada de Shrimati.

1/92-93 – Lalita está zangada com o recente nascer do sol por ele ter estragado o
prazer de Radha –Krishna . Assim , Lalita insulta Surya-deva: “hei Radhe, olhe aqui! Embora o sol
tenha se tornado um leproso e perdido seus dois pés por perturbar o passatempos amoroso de
todo casal romântico – ainda assim ele não para de pecar, devido ao hábito!” Portanto, os sábios
estão certamente corretos ao declararem: “é muito difícil abandonar a própria natureza!”
70

1/94-95 – Balançando a cabeça em concordância e sorrindo, os olhos de Shri


Vrishanbhanu-nandini se avermelharam de ira devido a interrupção do Seu prema-keli com
Krishna . contudo, permanecendo calma, Ela perguntou a Lalita com um doce sorriso: “Sakhi,
embora o sol tenha perdido suas pernas (após ter se posto no oeste) , ele volta em um mero
clarão para repetir seus feitos pecaminosos! Considere, se ele tivesse pernas, mesmo a breve
noite não existiria!”
rasa-tarangini-tika
Shrimati Radharani não pode tolerar a desconsideração pela precedência do amor.
A esse respeito, o sol nem tem daya(misericórdia) nem rasa-bodha (discernimento das doçuras
transcendentais) – então, suas duas pernas foram extirpadas devido a lepra!”

1/96-97 – Inspirado pelo encanto da manhã que nasce e intoxicado pelo kathamrita
de Radha , Krishna esquece outra vez da necessidade imperiosa de voltar para casa e diz: “hei
Priya! Do mesmo modo que o rosto jovem se avermelha de ira ao ver os amores de seu
namorado com outras senhoritas, a esposa do sol (o céu leste) está vermelho de ciúmes vendo
que no retorno matinal de seu marido é revelado as marcas de unha da outra amada!”
rasa-tarangini-tika
O vermelho do céu de Vrindavana reativa o doce perfil do humor khandita-bhava e
mana-lila de Shrimati Radharani devido a lembrança de Krishna . Assim para saborear outra vez
essas doçuras ao ver a reação de Priyaji. Krishna habilmente lembra a Ela desses momentos ao
usar o exemplo da esposa do sol (céu leste) . No Ujjvala-nilamani, Shri Rupa descreve a khandita-
nayika como se segue:
Tradução:
“um heroina que passa a noite inteira ansiosamente esperando diante da ausência
do Seu amado, que o vê se aproximar pela manhã com marcas de amor de outra senhorita é
chamado khandita. Essa nayika exibe ira, respiração pesada e silêncio.”
Vamos ver um exemplo do que acontece quando Radharani descobre a
propensidade de enganar de Krishna :
“Foi marcado um encontro à noite no sanketa(local do encontro) para a união(milan)
entre Radha e Krishna . Assim, muito ansiosa, Shrimati adentrou no sanketa-Kunja e iniciou os
preparativos para a chega de Krishna . Krishna estava a caminho do encontro, porém, as sakhis
de Chandravali O capturaram para uma noite de prazer com sua senhora, Chandravali. Com isso,
a promessa de Krishna a Radha foi quebrada. Na manhã seguinte Krishna chegou na porta do
Kunja onde estava Radha , Ele estava se sentindo culpado pela grave aparadha. Quando Radha
olhou para Ele pelo canto dos olhos, Ela já pode entender tudo que havia acontecido! Ela na hora
ficou cheia de ciúmes, zangada e sofrendo muito – o coração de Radha se despedaçou! Ela tinha
arriscado tudo para encontrar com Krishna na calada da noite, a correnteza do rio do coração de
Radha em anuraga(profunda atracão) deu uma parada!
Os mahajanas dizem:
Premer sadai abhimana
Prema chai solo ana prana
“Prema sempre vem com orgulho, pois em prema, é exigido total atenção do
amado”.
Prema não se compromete em dar e receber, ele não abarca as razões lógicas, nem
espera que o destino atue. Do mesmo modo, senso de dever, etiqueta ou diplomacia não
encontram lugar em prema.
71

A obstrução que Radha sentiu foi causada pela desconfiança de Shrimati em relação
ao eka-nishta-prema (amor exclusivo) de Krishna (ou seu Prana-ballabha-amado mais querido).
Podemos usar o exemplo da represa; . Imagine que de repente uma represa é colocada nas
águas desse rio, a força da água nas paredes é imensurável. Do mesmo modo, quando o desejo
incontrolável de Radha de encontrar com Krishna é refreado (devido ao mal comportamento dEle)
, a água que fluía não para, ela transborda! Essa condição se chama tecnicamente de mana (ira
ciumenta amorosa) . Como o mana-rasa de Shri Vrindavana é um fenômeno incrível , Shriman
Mahaprabhu declara: Vraja gopir mana hoy raser nidan: “O mana das Vraja-gopis é o reservatório
das doçuras transcendentais.”
Nessa situação , Radha se torna dhira-adhira(ora orgulhosa, ora zangada) e fala
com Krishna com uma sobriedade falsa:
Eso eso bandhu, karunar sindhu
Rajani goile bhale
Amare chariya ana sukha peye
Bhaloto sukhete chile?
Kandiya yamini pohaila ami
Tmi to sukhete chile? (Chandi Dasa)

“Bem vindo, eu O saúdo oh amigo! Você é um oceano de misericórdia! Tendo me


esquecido, é maravilhoso que Você tenha encontrado prazer em outro lugar – como foi Sua noite,
boa? Embora eu tenha passado toda a noite chorando, você estava feliz (com ela)?”
Quando Krishna se adiantou para se desculpar, o tom da voz de Radha mudou – ela
passou a censurá-lO da seguinte forma:
Chuio na , chuio na, bandhu oikhane tako
Mukura loiya chanda mukha-khani dekho
Nayaner kajor bayane legeche
Kalo upore kalo
Prabhae uthiya o mukha dekhinu
Din jabe aja bhalo
Tradução:
“Não me toque, nagara, não encoste em mim! Fique onde está! Seu rosto redondo
revela o rímel da senhorita – é como um mancha negra sobre uma tela negra. Eu já estou tendo
um darshan matinal com Você, já é o suficiente e meu dia se tornou auspicioso!
“Krishna foi pego de surpresa! Ele tentava ocultar Sua ofensa, Ele fingia que não
havia feito nada. Porém , todas Suas tentativas falhavam e Shrimati falou a Ele com clareza: “eu
já ouvi outras pessoas dizerem que Você é paquerador. Porém hoje posso comprovar com meus
próprios olhos! Assim, aceite meus pranamas a distância. Eu já entendi tudo, Você pertence a
outra!
Para lhe dar prazer, eu joguei fora meu orgulho, compostura, dharma, lar, família e
tudo mais! E depois, na escuridão da noite, adentrei pela floresta na esperança de O encontrar.
Porém, além de me esquecer, onde Você foi parar? À distancia, eu ofereço milhões de reverencia
a Seus pés. Eu posso entender – Você não é meu!” Dizendo isso, Shrimati cobriu Sua cabeça,
virando-se de costas para Krishna e começou a chorar! Ali Radha fez um juramento de nunca
mais olhar para o rosto de Krishna e o mana dEla se transformou em durjaya(extremamente difícil
de ultrapassar). Quando Radha está longe de Krishna , Ela costuma cantar os nomes de Shyama
para aliviar Sua dor – porém, agora é diferente, o Seu Prana-Govinda(Vida da vida de Radha ) cai
aos pés dEla e oferece centenas de palavras tranquilizadores, mas Ela se mantém grave com o
72

denso peso do humor duraya-mana – a língua que continuamente canta os nomes de Krishna
agora permanece em silêncio!
No Shri Gita Govinda, esse terno momento é descrito em detalhes. O param rasika
Vaishnava Kavi, Shri Jayadeva Gosvami, alcançou aclamação imortal ao registrar as palavras de
coração aberto que Shri Govinda proferiu para apaziguar o durjaya-mana de Shrimati Radharani.
Vamos a um trecho:
Tradução
“oh Priya! Se você falasse apenas algumas palavras, apenas o vislumbre do brilho
de Seus dentes sobrepujaria o temor da escuridão de Meu coração! E a refulgência de seu
semblante de lua faz com que Meus olhos (como o pássaro chakora) procure o néctar de Seus
lábios. Ó meiga, por favor, deixe de lado essa sua ira(mana) sem fundamento! Por favor, extirpe
Meu sofrimento pelo toque de Seus doces lábios!
Oh Radhe, seus dentinhos são perfeitos. Se você está zangada coMigo – por
gentileza, pode Me ferir com a lança do Seu olhar, sufoque-me com seus braços , e Me morda
com esses dentes, ou sei lá, faça o que você achar que está certo!
Você é o ornamento de Meu corpo, a Vida de minha vida, e a jóia que vem à tona no
oceano de Minha existência! O único desejo que Meu coração ainda acalenta é que Você
corresponda a Meus sentimentos!
Oh graciosa! Embora Seus olhos sejam como o lótus azul , hoje, zangada como
você está, eles parecem o lótus vermelho. Se você gentilmente utilizasse esses olhos para
arremessar as flechas de flores de Kamadeva em Mim, então um novo encanto ainda maior
fariam eles renovados!
Oh Priya! Deixe que esse colar de pérolas se solte nos seus seios que são como
taças, decorando assim seu coração. E o som encantador dos pequenos sinos ensartados no seu
quadril proclamam o nascimento do Cupido!
Ah, sedutora! Basta que você me dê as ordens, e eu com todo cuidado vou Me
abaixar aos seus pés graciosos que são mais adoráveis que uma rosa vermelha (que alegra Meu
coração) e os decorarei com o vermelhão chamado alta!
Seus pés Me deixarão completamente satisfeito. Oh Priya! Por bondade, coloque
seus pés como uma decoração em Minha cabeça! Eu estou ardendo nas chamas da fogueira de
Kamadeva, por obséquio, alivie Meu sofrimento com o toque dos seus delicados pés de lótus!”
Refrão :
Oh sensível , deixe de lado essa ira(mana) sem fundamento . Só por olhar você, o
fogo de kama está inflamando minha mente! Por bondade, alivie Meu sofrimento com o toque de
Seus doces lábios!
No momento de compor esses versos, Shri Jayadeva Gosvami ficou perplexo.
Quando ele escreveu, ‘smara garala kandanam,’ ele começou a pensar: “Será que Krishna pediria
mesmo para Radharani colocar os pés dEla sobre a cabeça dEle? De fato , isso tudo não é um
assunto barato; como que eu posso escrever uma coisa assim?... Porém – se eu não escrever, o
excepcional padrão de prema de Shrimati Radharani ficará desconhecido.” Mesmo diante dessas
considerações Shri Jayadeva não conseguiu reunir coragem para terminar a frase incompleta do
verso.
Com essa preocupação , Jayadeva foi se banhar no rio Ajaya. Enquanto isso, seu
devata adorável , Shri Madhava-ji apareceu no local, pegou a caneta e terminou Ele mesmo o
verso escrevendo:
‘dehi pada-pallaba mudaram’
73

Assim, nós aprendemos sobre o entusiasmo do próprio Krishna em revelar Sua


completa submissão a Shrimati Radha ; pois, com Suas mãos, Ele escreveu: “oh Priya, seja
generosa, coloque Seu pés de lótus avermelhados sobre Minha cabeça !”
Esse é o aspecto encantador do madhurjya de Krishna : quem poderia imaginar algo
assim – o Senhor Supremo cujos pés de lótus não se consegue ver em meditação nem pelos
grandes sábios e yogis, chegou ao ponto de cair aos pés de uma jovem vaqueirinha – implorando
que ela colocasse seus próprios pés de lótus sobre a cabeça dEle! Os Gaudiyas Vaishnavas
podem apreciar isso – Esse é o Bhagavan que adoramos – Ele é o aparadhi–lampat (libertino
ofensor). Cujas lágrimas de arrependimento lavaram o Shri charana-kamala(pés de lótus) de
Priyaji!
Os sadhakas que executam o Smarana-sadhana lembram-se nessa hora do mana-
bhanjan lila ( o passatempo de destruir o mana de Radha) , isso ocorre ocasionalmente quando
Ela arde de raiva após Krishna ter lhe dado o cano.
Retornando ao texto:

1/98 – Shri Krishna diz: “oh Priyatama( mais querida amada) , olhe aqui! A orgulhosa
amante do sol, o lótus, está falando com o lírio branco: ‘Oh kumudini, Seu amante (a lua) é o líder
da comunidade brâmane ( lua é chamada dvijesha, porque nasceu na primeiro vez dos olhos de
Atri e no segundo nascimento do oceano de leite), o destruidor dos pecados das pessoas, e
pacífico por natureza. Porém, após ele ter bebido o vinho Varuni no seu oriental, ele perdeu sua
casta!’ . Vendo as palavras brincalhonas do lótus, os lírios que estão agora alegres na companhia
do sol, ficaram embaraçados ( como uma dakhina-nayika-uma Gopi tímida e submissa) e assim
fechou suas pétalas de vergonha.”

1/99 – Oh Radhe! Quando a luz do dia destrói a noite, os kokilas negros(cucos)


consideram: “porque somos negros, talvez a luz solar vá nos destruir também!” Assim eles
ansiosamente chamam pela amabasya ( lua cheia) aos gritos: ‘kuhu-kuhu’ . a razão disso é que
nesse momento a lua cheia e o sol ficam juntos no mesmo lugar. Os kokilas estão pensando: “ Se
a noite vier com esse momento especial, então Rahu cobrirá a ambos, então, nem a escuridão
nem os kokilas terão razão para se preocuparem!”

1/100 – Krishna continua: “oh Priye! Como o nayika extaticamente grita (shil –
palavra sânscrita que significa prazer ou dor repentino – especialmente durante o desfrute sexual)
no clímax do prema-vilasa – da mesma forma fazem as pombas enquanto descansam no colo de
seus maridos (a estação da primavera ) ,”
rasa-tarangini-tika
Indiretamente Krishna deseja informar a Shrimati que o som das pombas faz com
que Ele se lembre do prazer extático que Ele vivenciou enquanto o grito –madhura dEla no ápice
do rati-keli. O exemplo dos kokilas no verso anterior também indica outro lila intimo: Embora os
kokilas tomem erroneamente o sol e a lua como seus inimigos e os chame para o castigo, ainda
assim suas doces vozes provocam bem aventurança intoxicante.
Do mesmo modo, Krishna lembra a Radhika: “Mesmo quando você Me considere
um aparadhi e ordene a Suas sakhis para escoltar Me com crueldade fora do Kunja – ainda assim
Sua voz denuncia o som madhura dos kokilas comunicando incessante prazer!”
Shri Krishna diz no Cheitanya Charitamrita, adi 4:
Priya jadi mana kori koraye bartsana
Veda stuti hoite Hare sei mora mana
74

Tradução
“Quando Minha ‘Priya” (Shri Radha ) castiga-Me com mana, Suas palavras rouba
Minha mente de uma forma que nenhum hino védico consegue!”

1/101 – “hei Chandramukhi! Observe bem como uma abelha fêmea pega em uma
armadilha dentro da flor de lótus escapa quando o lótus se reabre diante dos indícios da luz do
dia. Uma abelha amarela macho incansável marcada com o pólen amarelo do lírio branco agora
corre atrás da abelha fêmea.”
Rasa-tarangini-tika
Aqui Krishna outra vez lembra Shrimati Radhika do mana lila dEla usando para isso
o exemplo da abelha fêmea. “hei Radhe! Quando uma jovem vê seu namorado após ele ter
desfrutado com outra moça, ela fica zelosa em proteger seu rasa-marjada( seu apreço do amor) .
eu estou bem familiarizado com esse rasa-marjada, pois obtenho grande prazer ao ver Sua
exibição. Oh Radhe! No seu Prema-dham, Shri Vrindavana, mesmo os pássaros e abelhas sabem
desse Meu apreço. Olhe bem: Enquanto uma abelha fêmea ficou presa toda a noite dentro do
lótus, o seu amante passou o seu tempo desfrutando o pólen do lírio. Agora quando ele aparece
coberto com o pólen amarelo, a abelha fêmea o castiga! Vendo o ciúmes dela, eu mergulho em
um oceano de bem aventurança lembrando-Me da sua bela face de lua quando ela fica retorcida
de mana!”

1/102 – Temendo a demora do seu marido, o Chakravaka fêmea extaticamente beija


o raktotpala (lótus vermelho) que é ainda mais vermelho do que os raios solares matinais.
Rasa-tarangini-tika
Krishna continuou: “oh Radhe, que encantador! Aqui há outro fato que faz Meu
coração dançar quando Me lembro do seu lila de, por engano, abraçar a árvore tamala! Veja
bem, quando os raios avermelhados do sol matinal pousam no lótus vermelho, isso aumenta o
brilho da flor, um pássaro chakravaki por engano , pensa que se trata de seu marido e
extaticamente começa a beija-la! Não é incrível como prema causa cegueira!”

1/103-104 – “oh delicada! Olhe aqui, o cisne chamado kalamban está se


aproximando. Ele bate suas asas em êxtase após ter desfrutado do amor! E olhe mais, Tundekeri
( a esposa de kalamban) segura a haste do lótus em sua boca e olha fixo no Seu rosto de lótus,
oh Radhe. O cisne fêmea nada rapidamente atrás do seu marido fazem um som doce vibrante!”
rasa-tarangini-tika
Como o cisne Kalamban é o mais querido de Krishna e Tundikeri é a fêmea cisne
mais querida de Radha , o Casal Divino fizeram os arranjos para o matrimônio dos dois.
Krishna assinala: “oh Radhe, veja só o prema desses dois cisnes! Só por Nos ver,
eles param de fazer amor e vem para ficar perto de Nós!”

1/105 – “Oh Priya! A brisa malaia se uniu ao ar fresco das montanhas para levar a
fragrância do lótus e ensinar os latas(um vinha ou trepadeira) da floresta a dançar. Essa brisa
abranda a fadiga de todos, mas em especial atua para aliviar a transpiração da dupla amorosa
ocupada no prema-keli!
“rasa-tarangini-tika
Rasika –shekar , Krishna , continua: “oh Priye! Por que apenas os pássaros e os
animais – e mesmo as árvores , parreira , o ar e águas do madhura-Vrindavana podem
compartilhar incondicionalmente o Seu maha-prema! Perceba o amor abnegado da brisa do sul!
75

Essa brisa atua como Guru para as jovens vinhas da floresta que são como ordenhadeiras, essa
brisa ensina a arte da dança. Ela também carrega a refrescante humildade do Yamuna para
aliviar o suor daquelas naiyikas (especialmente Você, Radha ) que se ocupa no Ananga-keli.
Vendo o fantástico prema-seva do vento, eu glorifico sua boa fortuna!”

1/106 –108 – Desse modo, Shri Krishna faz o intercâmbio de madhura-rasamaya-


Katha com Radha e as sakhis, todos se esquecem , outra vez, da necessidade urgente de voltar
para casa. Assim Vrindadevi ansiosamente dá sinal para a velha macaca chamada ‘Kakhati’.
Compreendo seu dever, ela de repente grita do alto das árvores : “Louvada pelos sadhus, a
yoguini da manhã e do nascer do sol – Jatila (cabelos emaranhado) – está rapidamente vindo
para cá vestida com trajes alçafrão com seus cachos emaranhados !
Rasa-tarangini-tika
O verdadeiro significado desse palavras enigmáticas é : O sol recém chegado está
vindo para propagar seus raios que se comparam a Jatila ou esses raios que são como fios do
longo cabelo emaranhado como de uma yoguini.

1/109 – Quando o mangala-Svarupa (o reservatório da auspiciosidade), Shri Radha-


Shyama, de repente ouvem o nome “JÁ-TI-LA’ ( que é iracunda por natureza) , Eles ficam
tomados de medo e pânico! Embora estejam ainda ansiosos pelo prema-vilasa, Eles rapidamente
saem do Kunja!
Rasa-tarangini-tika
Retornando ao texto do Krishna Bhavanamrita vamos seguir a descrição de Shrila
Chakravarti-pada;
“Sem a proteção do imponente rei da noite, o arquiinimigo de Radha, o sol, começa
a torturar a Ela e as Vraja-sundaris. Vendo um tronco árido de árvores sem folhagem, as gopis
assustadas pensam – ‘Lá está Jatila! “ Na verdade, devido ao intenso pavor, onde os olhos delas
pousem, elas imaginam que Jatila está se aproximando daquela direção!”
Embora Krishna caminhe com Seus braços nos ombros de Radhika, ainda assim o
Madan-raja(Cupido) não é capaz de penetrar com seu estoque de flechas. E qual o motivo disso?
No reino de Kandarpa , todos sabem que quando Padmini-bandhu(o sol, amigo do lótus) se
levanta, os flores de lótus ficam revigoradas. Porém , hoje quando o sol se levantou no céu, as
Vraja-padminis(Radha e suas sakhis) estavam furiosas! Vendo o apelo delas, Madan –raja ficou
confuso e pensou: “Deve ter acontecido alguma revolução em meu reino!” Assim, atônito, o
Cupido não pegou seu arco, se isso não tivesse ocorrido, também nessa hora, o Cupido com
certeza teria atingido a Shri Yugal-kishora com suas flechas de flores!
Como Radha –Shyamasundar estavam abraçados enquanto saiam do quintal do
nikunja, ao se aproximar do cruzamento que vai para Vraja, Krishna removeu rapidamente Seu
braço dos ombros de Shrimati. Assim Radha agitou-se e pensou: “protegida pelos ‘soldados da
alegria’(dentro do Kunja) , eu desfrutei do maha-nidhi(grande jóia) do abraço de Madhava! Porém,
ai de mim! Agora o ‘culpado do pânico’ está à força roubando Minha jóia!” Vendo essa tragédia ,
as sakhis e manjaris se desmancharam em lágrimas e em gritos de desespero!
1/110 – Ao ouvir o nome de Jatila , Radha e Krishna ficaram com tanto medo que
Eles se separam. Vendo que Eles fugiam por caminhos separados com Seus ornamentos
balançando, com as peças do vestuário caindo e com os cabelos desmanchados – as sakhis
ficaram desnorteadas e foram se esconder!
Rasa-tarangini-tika
76

Continuando do Krishna Bhavanamrita; “Quando Radha e Krishna tomaram


caminhos diferentes, viraha (saudade) fez com que o rosto de lua dEles ficassem pálidos. Nisso é
muito surpreendente que as estrelas que estavam minguando(com a chegada do sol) pudesse
fazer aquelas duas luas murcharem – ninguém jamais ouviu falar de algo assim!
“Ninguém se sente deprimido ao receber uma jóia preciosa . Embora Radha e
Krishna tenham cada um uma hridaya-mani(jóia do coração, ou seja, prema) , a separação entre
Eles causa sofrimento! Portanto, a extraordinária influência de prema faz os arranjos para uma
reunião posterior!”(devido ao intenso prema, um sphurti (visão) do amado se manifesta, e ocorre
então uma união mesmo estando Eles separados).
No Krishnahnika-kaumudi, ocorre nesse momento um interessante lila: Quando
Radhika e Krishna-Chandra com rapidez percorrem a estrada, os Seus olhos temerosos rasteiam
todas as direções para se certificarem de que ninguém o está espiando. Ainda assim, a sede
dEles pelo rati-keli permanece constante! Assim, com a ajuda da Sua própria Hladini-shakti (e o
profundo anuraga que os Dois sentem), Shri Yugala Kishora, encantador para os três
mundos(Tribhuvan-manohari) executa rati-bihara e mesmo a perigosa caminha para casa se
torna uma aventura de prazer para o Casal Divino!! E assim as sakhis e manjaris vivenciam um
completo nayan-ananda (prazer para os olhos). Após o Surata-yajna( o sacrifício de fazer amor)
Radha e Krishna tomam um banho (Yamuna-snana) que anuncia a última função do sacrifício
noturno de Rati. É digno de nota que quando Radha fica em Javata ( a aldeia onde Radha reside
com Abhimanyu, Jatila e Kutila), Ele continua com Krishna até o kadamba-khandi pouco antes de
chegar em casa. E durante a estada de Radha em Varshana, a despedida entre Eles ocorre no
dhumanban.

1/111 – Depois de deixar Radha , Krishna sente melancolia e luta angustiado pelo
caminho, olhando para todos os lados. As sakhis de Chandravali estão a espreita do lado
esquerdo, os membros mais velhos da comunidade gopa estão a frente. Krishna aguarda a
chegada de Jatila pelo oeste, e o olhos de Krishna olham para trás para Radha que temerosa
prossegue rumo a sua casa na direção sul.
Rasa-tarangini-tika
Krishna conjectura: “Talvez seja a ciumenta Chandravali que informou Jatila que
estamos aqui. Portanto, Krishna tema a ira de Chandravali e com cautela tenta evitar encontrá-la.
Krishna também pensa: “ao ouvir o aviso mal-agourado de Kakhati, adentramos pela floresta para
evitar Jatila. Embora, por agora, ela já deve ter entrado em Nosso Kunja pelo caminho do
Yamuna. Então, não tendo nos encontra lá, com certeza ela deve estar vindo atrás de nós
brandindo seu bastão. Estará minha nitambini(moça de belas nádegas) em local seguro? Será
que ela foi percebida por algum desafeto? Ou será que ela caiu inconsciente pela estrada devido
as dores severas da Minha separação?” esses pensamentos ocupam a mente de Krishna
enquanto Seus olhos conscientemente olham para trás na direção de Radha .
O Krishna Bhavanamrita descreve: “Quando Madan-mohan voltou sozinho para
Vraja, a “forma feminina do sofrimento” O abraçou com força fazendo com que Ele ficasse
paralisado. Em outras palavras, devido a dor intolerável da saudade de Radha , Krishna é incapaz
de se mover enquanto um torrente de lágrimas quentes caem de Seus olhos!”
No Stava-mala vemos a descrição da chegada de Krishna em Sua casa: ‘veja,
Krishna retorna antes que os vrajavasis acordem. Ele só ostenta a Sua Vaijayanti-mala(guirlanda
de flores) dentro do Seu coração, porque as flores murcharam e a guirlanda se quebrou devido
Ele a ter pressionado contra os seios rijos de Radha . Seu colar também arrebentou, Seus lábios
77

estão manchados de kajjala(rímel) dos olhos de Radha e Seu corpo está cheio de unhadas feitas
por Ela. Temendo ser visto Ele sorrateiramente entra despercebido em Sua casa’.

1/112 - Com medo e palpitação, Ishvari-Radha pensa que Jatila está bem no seu
encalço! Piorando as dificuldades está o grande seio de Radha e seu largo nitamba (quadril ) que
impossibilita que Ela se mova com rapidez. Contudo, usando uma mão para segurar sua veste
que está caindo e a outra para segurar Suas tranças que se desmancham, Shrimati se move com
um gracioso movimento manso e pesado em direção a Vraja – tão rápido quanto pode!
Rasa-tarangini-tika
O livro Shri Krishna Bhavanamrita adiciona os seguintes detalhes:
Quando Krishna fica aflito, o mesmo ocorre com Radha ! Ela sente o Krishna –
viraha(saudade de Krishna ) como uma praga com ferimentos que se espalham por todo Seu
corpo! A cada passo, Ela quase tropeça, mesmo estando apoiada por uma Sakhi. Ao falar com
suas serviçais, Radha diz; “eu estou sendo torturada por uma dor pungente devido a saudade de
Meu Hridaya-natha( o Senhor do meu coração ) ! assim, por que vocês estão me escoltando para
casa? Será que isso é o que deve ser feito? O Destino Cruel roubou o meu Prana-natha! Porém
não posso imaginar por que vocês sakhis, que Me são mais queridas que minha própria vida, se
voltaram contra Mim? Por favor, não Me atirem de volta ao poço escuro do samsara (vida familiar)
de Jatila! Hei! Será que não encontro ninguém que me dê abrigo?”
Embora tivesse passado toda a noite desfrutando do amritamaya-sanga de Krishna ,
ainda assim devido ao extremo anuraga, Radha considera: “eu estou desprovida da associação
com Krishna “!
Com isso, Radha chama Lalita: “oh Sakhi! Você não prometeu: ‘Radhe, venha
comigo, eu A banharei no oceano nectáreo do anga-sanga( associação corpórea) com Shri
Krishna !’ Hei! Por que você me atraiu com falsas promessas? Não faz nem um instante nós
saímos de casa – e agora já estamos voltando, por que tanta rapidez? Hei priya-Sakhi! Por que
você não Me banhou nesse amrita-sagara? Será que cometi alguma ofensa? Oh Lalite! Acabei de
ver o sol se pôr, apenas alguns segundo atrás, e agora o sol já se levanta no horizonte do leste –
será que a noite deixou de existir? Hei prana-Sakhi! Os Meus ouvidos desprovidos já não podem
ouvir o kathamrita maravilhoso de Krishna , meus lábios não consegue saborear a doçura do
adharamarita de Krishna e meus olhos não podem beber a doçura do rupamrita de Krishna ,
portanto, meus ouvidos, lábios e olhos foram todos amaldiçoados”
Lalita responde: “Oh Radhe, durante toda essa noite Você executou yoga com
Krishna de acordo com o Nirbheda (exterior aos vedas) paddhati (as prescrições védicas para
transgressão do dharma). E agora, durante o viyoga(separação) , Você ainda está seguindo o
processo Nirbheda (ao amaldiçoar Sua má fortuna). Durante a yoga, de fato Você saboreou o
kathamrita, adharamrita e rupamrita de Krishna , e agora em viyoga, Você bebe veneno!
“(Bhagavati Radha por estar totalmente desvairada não pode compreender as palavras de Shri
Lalita)

1/113 – Para escoltá-la com segurança , Shri Rupa Manjari coloca Radha dentro da
carruagem de sua mente , assim Rupa Manjari caminha logo atrás de Radha e com os olhos
seus olhos produz uma cortina protetora para abrigar Svamini-ni de ser vista por outras pessoas
(ou seja Rupa manjari com extrema cautela vigia os dois lados do caminho a medida que elas o
percorrem). Devido ao medo, os olhos cinzentos de Rupa tremulam enquanto esquadrinham o
caminho a ser percorrido!
Rasa-tarangini-tika
78

Da mesma forma que alguém é levado em um palanquim em total dependência de


que quem está carregando, Shri Radha prossegue dependendo da vigilante guia de Shri Rupa
Manjari.

1/114 – Quando o rei caminha pela estrada, seus batedores vão a frente para
limpar o caminho. Do mesmo modo, os olhos de Shri Rati manjari se tornam como lanças
dardejantes para precaver-se de que pessoas indesejáveis possam interferir com a jornada
secreta de Shrimati .

1/115 – Chegando em Suas respectivas casas, Radha e Krishna nervosamente


olham para a porta dos membros mais velhos da família. Então, com um suspiro de alívio, eles
nas pontas dos pés se dirigem a seus próprios quartos de dormir enquanto o temor que sentem
se acalma. Assim, Shri Shri Yugala-Kishora angustiados e fadigados finalmente caem dormindo
nas Suas próprias camas.
Rasa-tarangini-tika
No stava-mala vemos a descrição da chegada de Radha que entra secretamente em
Sua casa. O echarpe azulado que ela usa insiste em escorregar de Sua cabeça e Ela já
desgastada tenta colocá-lo de volta repetidamente. Toda Sua roupa e ornamentos estão
desmantelados devido a brincadeira do Cupido e Ela olha em volta com Seus olhos cansados, e
Ela tenta debilmente refazer sua trança que se soltou.

1/116 – Em cada uma das Yugas, o Criador (Maha-Vishnu) cria, mantém e destrói o
universo. Então, retornando ao Seu próprio dhama, Ele descansa na cama de Ananta-shesha
enquanto os shrutis védicos personificados que descrevem esse lila de criar secretamente
retornam para suas moradas celestiais sem serem vistos. Do mesmo modo, Shri Krishna executa
esse lila do Kunja-vilasa com Radharani, e volta furtivamente para os braços de Seus membros
familiares para cair adormecido em Sua própria cama. Coincidentemente, as hábeis sakhis e
manjaris que enriquecem esse Vraja-lila com seus amorosos gestos e graça também
secretamente voltam para suas próprias residências .

1/117 – Como resultado do seva maduro de Shri Rupa Gosvami ao beber o Madhu
dos pés de lótus de Shri Cheitanya Deva, a pedido de Shri Raghunatha Dasa, com a associação
de Shri Jiva e as bênçãos de Shri Raghunatha Bhatta, o primeiro capítulo do Govinda Lilamrita
intitulado “Nishanta keli” foi completado.
( horário do término desse período : às 6:oo horas)

Shri Yadunandan Thakura conclui esse primeiro capítulo dizendo:

Govinda Lilamrita Katha anupama


Arapura rasete juraya karna mona
Visvasa koriya jei koraye shravana
Ihate paya radha-krsnera carana
Tradução
“O Govinda-Lilamrita é incomparável; esse rasa fascinante satisfará completamente
a mente e o ouvido. Aqueles que ouvem com fé e atenção alcançam o yugala-charana Radha –
Krishna “.
rasa-tarangini-tika
79

Os Gaudiya Mahajanas afirmam que aquele que possui fé (sraddha) é elegível para
ler o Govinda-Lilamrita. Similarmente, com a fé elevada no processo de ouvir, se alcança os pés
de lótus de Radha –Krishna .

ANÁLISE DO RASA
Este livro, o Govinda-Lilamrita é um manual de lila-Smarana que leva o sadhaka
ao seva direto nos passatempos de Vrindavana de Krishna . Sabemos que a mente é quem
controla o corpo e suas atividades, e uma vez que a natureza da mente é estar apegada a algo, o
lila-Smarana, se baseia no apego ao nitya-seva de Krishna e Suas associadas de Vraja, é o meio
ideal para direcionar as diversas atividades devocionais do sadhaka praticante.
No Bhakti-rasamrita sindhu, Shri Rupa aconselha:
Krsnam Smarana janah casya prestham nija samihitam
Tattatkatha ratas casau kurjad vasam braje sada
B.R.S. 1/2/294
Tradução
“O Smarana deve ser executado concentrando-se em Krishna na companhia da
priya específica , associada de Vrindavana, que o sadhaka deseja servir eternamente. O lila-
Katha relacionado com essa companhia sempre deve ser discutido enquanto se fixa residência
em Vrindavana.”
Sob a luz trazida com essa instrução , os bhaktas que anseiam pelo privilégio de
servir Gopi-jana-vallabha com Radha e Suas mais queridas associadas farão o uso mais
adequado desta obra, Govinda Lilamrita. O Smarana desses passatempos que inclui o lila-Katha
interligado com as priyas de mesma mentalidade constitui o significado do verso citado de Rupa
Gosvami.
O ashta-kala lila-Smarana também é conhecido por dandtmika-seva (meditação
devocional que continua de uma danda para a próxima). Existem 6 dandas no Nishanta –lila.
Vamos agora fazer um resumo de acordo com cada danda dos eventos, formando assim um
sumário desse primeiro capítulo :
1) das 3:36 às 4: 00 horas (da madrugada)
As manjaris despertam, iniciam os diversos seva, e vão até o nikunja-mandir para o
Yugala-darshan.
2) das 4:00 às 4: 24 horas
Com a ordem de Vrinda, numerosos pássaros da floresta rodeiam o keli-mandira e
começam a chilrear. As manjaris enlevadas visualizam o shayana-madhuri de Radha
–Krishna e descrevem a beleza do que vêem uma para a outra.
3) das 4:24 às 4:48 horas
Quando o Casal Divino desperta e saboreia o Seu mútuo esplendor, as sakhis e
manjaris entram no vilasa-mandira com sorrisos e brincadeiras rasamaya.
4) das 4: 48 às 5: 12 horas
Shri Lalita-devi executa o arati enquanto as Vraja-sundaris se juntam cantando e
dançando. Devido a intoxicação , todos se esquecem da necessidade de voltar para
casa.
5) das 5: 12 às 5:36 horas
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Com o sinal de Vrinda, o shari chamado “Subha” fala de modo que cause temor no
Casal Divino. Assim, Radha e Krishna saem do Kunja, as manjaris Os seguem
carregando a parafernália do seva . Vendo que as roupas do Casal está trocada, as
sakhis sorriem e brincam uma com a outra. Utilizando-se de vários exemplos,
Krishna assinala alguns aspectos interessantes do panorama matinal de
Vrindavana.
6) das 5: 36 às 6:00 horas (manhã)
A macaca chamada Kakkhati grita o aviso da chegada de Jatila. Radha e Krishna
entram em pânico e Se separam indo direto para casa. Ao chegarem em Suas
respectivas residências , deitam-Se em Suas camas em segurança.

O lila Smarana se combina esplendidamente com o Goloka-prema-dan-Sankirtana


de Shriman Gourasundara. A fim de auxiliar a pregação do Senhor, muitos Gaudiya Mahajanas
registraram o lila-rasa de Vrindavana por meio do instrumento do padavali-kirtana. O “pada” é
uma canção composta poeticamente em Bengali descrevendo a forma, passatempos e doçuras
do Senhor. O Lila-Smarana é normalmente executado “pari passo” ou simultaneamente com o
canto da japa, embora o Mahajana-padavali proporcione uma alternativa maravilhosa. Esses
padas seletos se combinam com cada dhanda do Nishanta lila. A raga adequada ‘vem expressa
acima da canção .
(1)
bibhasa
nisi abasane, vrindadevi-jagalo, sakala sakhigana meli
nibhrta nikunja, davara korimocana, mandira majhe caligelo
ratan palanke, sute rohu duhujana, atisaya alase, bhora
ghana dAmini kiye , markata kANchana, aicana duhU tanu jora
bigalito veNi, cAruSikhi-candraka, TuTala maNimaya hAra
pahiraNa basana, Adhabhela bigolita, candana AbharaNa bhara
ratisuKha baNgabhaye sabsakhIgaNa,vidikadei bau gAli
ihA sukha rajani, tvarita, bhelo abasAna, nirdaya hRdaya tohAri
niSi abaSeSa, kamala AdhavikAsala, Dasa diSa aruNita manda
kaicana duhuka, jagAibo rocaite, uddhava Dasa hiya dhanda
tradução
“Com o findar da noite, Vrindadevi e as sakhis(manjaris) acordam e seguem para o
nikunja oculto onde Radha e Krishna descansam. Após destrancar a porta, elas entram no vilasa
mandira. O Casal Divino está deitado dormindo sob uma cama incrustada em jóias , eles estão
cansados pelo esgotamento do prema-keli. Eles estão enlaçados em um forte abraço -
lembrando uma nuvem enguirlandada pelo relâmpago , ou um medalhão dourado ornamentado
por uma esmeralda. O cabelo de Radha está solto, as penas de pavão de Krishna estão
esparramadas. Os colares de pedras preciosas foram jogados de lado. As roupas foram
praticamente perdidas junto com vários outros ornamentos dourados pois haviam se tornado uma
carga desnecessária. Observando que a noite terminava, as sakhis desprezam o “desejo da
Providência” dizendo: “Por que Você levou a escuridão? Decerto Seu coração é duro como
pedra!”
“Com a chegada do dia, o lótus floresce enquanto o céu se avermelha devido aos
primeiros raios solares. Nessa situação , a mente de Shri Uddhava Dasa( discípulo de Shri
Radha-mohan Thakura- neto de Srinivasa Acharya) rodopia – dilacerada em duas direções : “O
que se pode fazer quanto ao despertar de Shri Yugala-Kishora?”
81

(2)
Lalita
Jagahu vrsabhanu nandini mohan –jubaraje
Ei nava kunje bhramara guNje kikila ghana gAje
AkarunA punaH , taruNa aruNa, udita mudita kumuda badana
Camaki cumbi cacuri, paduminika sadana sAje
KijAni sajani, rajani bhora, ghu-ghu ghana rhoSata ghora
Gato jAmini, jita dAmini, kAmini kUla lAje
Phukarata hata Soka-koka, jAgahu eba sabahu loka
Suka, SarikA pika kAkuli nidhuban bhori gAje
Galti lalila basana sAja, maNijuta veni phani virAje
Uchu karaka, ruca coraka, kuca joraka mAjhe
Otirto jorito jalada bhAti, duhu sukhe sute rohalo mAti
Jini bhAdara, rasabAdara, para mAdara Seje
Baraja kulaja nayani, ghumalo bimala kamala bayani
KRta lAlisa bhuja bAliSa AliSa nAhi tyaje
TuTala kitra phula dhanuguNa, kitra ratiraNe bhelo tuNa Suno
Samara mAjha, poralo jAjja, ratipati bhaye bhAje
Vipatti porala jubati vRndA, gurujana suni kahabi manda
JagadAnanda sarasa birasa rasabati rasarAje
Tradução
“Levante, oh Vrishabhanu-nandini e Mohan–juba-raja! O cruel sol nascente da
manhã está aparecendo outra vez! Enquanto os lírios fecham suas pétalas , as abelhas lhes
outorgam o último beijo e voam para o campo de lótus. Oh Sakhi Radhe! O que aconteceu a Sua
noite plena de prazer? Os sons baixos do pombos distintamente ecoam na névoa da escuridão, e
agora as Vraja-kaminis de tez clara serão humilhadas! ( a breve noite parecia a chispa de um raio
que só queria embaraçá-las!)“os pássaros chakravaki ( espécie de pato- a lenda conta que se
trata de almas de dois amantes pecadores, que por isso só podem dormir separados à noite, que
passam chamando um pelo outro) alegram-se com o findar da noite porque eles já podem se
juntar a seus maridos. Os vrajavasis acordarão em breve, assim a floresta nidhuban ressoa com
os gritos chorosos do kokilas, shukas e sharis. A vestimentas adoráveis de Radha caíram de lado,
e o veni(penteado rabo de cavalo) decorado com pérolas parecem como uma serpente rastejante
sobre os eriçados seios de lótus dourado. Yugala-kishora estão saturados com o Seu próprio
prema rasa como um raio descansando dentro de uma nuvem de monção escura. Radha a ,
kamala-nayani(moça de olhos de lótus) parece com uma raja-kumari quando Ela dorme feliz nos
travesseiros dos braços de Krishna .
O que aconteceu com o vigor das flechas das flores de Kamadeva? Durante a
batalha de prema-keli , todo seu estoque de flechas foi gasto! Ai de mim! Devido estar
embaraçado, Ratipati(Cupido, o Senhor da relação sexual) bateu em retirada do campo de
batalha! As Vraja-kishoris se encontrarão com o perigo, e se forem descobertas, serão motivo de
escândalo! Assim, o poeta Shri Jagadananda (contemporâneo de Narottama das Thakura na
família(vamsa) que descende de Shri Narahari de Shri –khanda) e Rasa-raja Shyama!”
(3)
Radhe Govinda jaya, Radhe-Govinda, Radhe govindajaya Radhe
Thakura hamari Nanda-ki-lal, Thakurani srimati Radhe,
Vrishabhanu nandini srinanda –nandam, sakala gruna agadhe
82

Bhora samay kale, kikila kuhu dhale , bhramara Hari guna gaoye
Ratanpalanke-apari,baitaloduhujana,duhu mukha sundara saje
Syamer bame,navina kisori, mucaki mucaki hase
Pitambar dhora,nila patta dharini,ghana saudamini saje
Syama sire sikhi,cura ciraje, rai sire vfeni saje
Syama gale bona, mala viraje, rai gale gojamoti saje
Syamer kore, mohan Murali viraje, rai kore kan-kana saje
Syama koti late, gur-gura viraje, rai koti kin-kini baje

Jugala-carane, manimaya nupura,runu junu runu junu baje


Sakhi manjari jato, mangala gaota,jaya-Radhe Govinda jaya Radhe
]sundar badane, arunima locana, bankima cahani saje
suka pika sari, mayaura mayuri, Kunja bhavan bhori gaje
vrsabhanu –nandini, ramani-siromani, nava-sakhigana majhe
Shri vrindavane, susuma kanane, bhramari radha guna gaoye
dina krsna Dasa bhane madhura Shri vrindavane, yugala kisora viraje
- Dina Krishna Dasa
- Tradução
- As gopis cantam:
Radhe-Govinda, Jaya Radhe-Govinda, Radhe-Govinda
Jaya Radhe!

Shri Nanda-lala é o nosso adorável Thakura, e Shrimati Radha é nossa Thakurani;


as virtuosas qualidades de Vrishabhanu-nandini e Shri Nanda-nandana são ilimitadas!
“Antes que o dia nasça, os kokilas gritam das árvores enquanto as abelhas cantam o
guna-kirtana(recitação das qualidades de Radha e Krishna ) . Ao despertarem, Radha e Krishna
Se sentam na cama de armação de jóias e exibem Suas faces amorosas. Radha se senta
`esquerda de Shyamasundar e o sorriso azulado dEla é adequado a uma nava-kishori. As vestes
de seda de Krishna são de um amarelo cintilante e as de Radha são de uma azul escuro –como
uma nuvem de chuva recém formada acariciada pelo relâmpago . O turbante de Shyama está
ornado com penas de pavão e os cabelos encaracolados de Radha está amarado em uma
veni(rabo de cavalo) . Shyama ostenta uma guirlanda de flores silvestres e um colar de pérolas
adorna o peito de Rai. Shyama segura Seu notório mohan-Murali(flauta), enquanto numerosos
braceletes e pulseiras brilham no pulso de Radhika. O quadril de Shyama está enamorado do
tilintar dos sinos e o quadril de Rai exibe um kin-kini mala. O Sringara de Radha e Krishna está
completo com as tornozeleiras de jóias que tinem ‘runu junu runu junu ‘dos pés de lótus do Dois.
“Em júbilo, as sakhis e manjaris gritam: “jaya Radhe-Govinda – Jaya Radhe’! o
mukharavinda de Kishora-Kishori retrata a trama com dardejantes olhares de lado; Seus olhos
tem uma coloração levemente avermelhada .
“os cucos, kokilas , pavões, papagaios e outros pássaros da floresta preenchem o
Kunja com uma sonoridade tumultuosa: “jaya ramani-shiromani Vrishabhanu nandini Radhe! Jaya
Jaya nava-nava Sakhi-vrinda!”
“Nesse Kunja florido, mesmo as abelhas cantam as glórias de Radha ,Shri dina
Krishna Dasa conclui: ‘Assim Shri Shri Yugala-kishora reina dentro do Seu madhura Vrindavana
dhama!”
(4)
mangala
83

mangala arati yugala0kishora


jaya jaya koratahi sakhiugana bhora
atana pradipa koru talamala thora
jhala –kato bidhumukha syama sugaura
Lalita visakha-Sakhi permete agora
Korato nirmancana dohe duhu bhora
Vrindavana kunjahi bhuvan ujora
Murati manohara yugala kisora
Gaoato suka pika nacato mayura
Canda upekhi mukha nirakhe cakora
Bjata vividha jantra baje ghana ghora
Syamananda anande bajaya jaya tora
Shri Shyamananda Prabhu
Tradução
“Observando o mangala-arati de Yugala-kishora , as sakhis e manjaris cantam ‘jaya
jaya’ e aplaudem em uníssono! Enquanto um lamparina preciosa de ghee é oferecida com
movimentos circulares, os olhos de todos se fixam nas faces refulgentes como a lua de Shyama e
Gouri.;
“Lalita, Vishaka e outras sakhis estão totalmente tomada da fascinação do prema enquanto
o arati continua! Todo o Kunja e a floresta em volta se aviva com o jyoti do manohara murati de
Yugala-kishora! Os papagaios e cucos cantam, e os pavões dançam – mesmo os pássaros
chakora (perdiz dos Himalaias, também conhecida como ‘amante da lua’ crendo-se que se
alimenta dos raios do luar. Suas penas são cinzenta-marron e pata vermelha) se esqueceram da
lua para beber a doçura do semblante do Casal Divino! Todos os tipos de instrumentos
reverberam no éter. O poeta Shyamananda conclui alegremente: ‘Deixe que a musica toque!’

(5)
bibhasa
nisakara ghare gelo aruna udaya bhelo
tarapati kati milan
kumuda mudita bhelo, kamala parasalo,
prabas ta pralo katina
dekhiya dohara rite, vrindavara vikala cita
adesita kikila kikili
tara sab gan kore bhramara jhankar kore
keka rabe mayura bikali
kakhati uthaye tana, ki korahe radha kana
tvaratahi karaha payana
raiare nadekhi ghare, jatila laghudha kore
bone asi koraye sandhana
kak-khati kapata Katha, suni vrasabhanu suta
tarase taralo bhelo mana
rai-kanu Sakhi sathe, calila guptata pathe
tvarite tejala sei bona
cancala harini jeno, aichana ramani gana
camakito cari pane caya
nagari nagara pase, sekhar daraye hase
84

bhaya nai sabare bhujaya


Shri Raya-Shekhara
Tradução
“a lua retorna para casa enquanto o sol se levanta para destruir o brilho das estrelas. Os
lírios se fecham e o lótus desabrocha – assim a atracão mútua de Radha e Krishna se torna a
causa da calamidade! Observando a situação , Vrindadevi fica temerosa e ordena os kokilas que
cantem e que as abelhas executem o seu zumbido. Os pavões apaixonados ressoam ‘ke-ka, ke’-
ka’. No final a macaca kakhati dá seu ultimato : ‘Jatila entrou na floresta brandindo um bastão a
procura de Radharani!”
“O que podem fazer Rai-Kanu fazer além de correrem para um local seguro? Vrishabhanu –
suta está temerosa! Assim Rai e Kanu fogem com as sakhis pela trilha oculta. As Vraja-kihoris
levantam seus olhos em todas as direções como se fossem corças amedrontadas! Ficando ao
lado de Shri Shri Nagari-Nagara (Radhe-Shyama), o poeta Raya-Shekhara(quase
contemporâneo de Cheitanya Mahaprabhu e discípulo de Shri Raghunandana Thakura) sorri
para tranqüilizar o ambiente:
- “Nada há para temer!”

(6)
suhai
pada adha calato kholate punah beri
punah pherei cuymbai duhu mukha geri
duhu jana nayane galaye jaladhara
ro roi sakhigana caloi na para
khone bhoye sacakito nayane nehara
galito basana phula kuntala bhara
nupura abharana acare nelo
duhu ati katore duhu pathe gelo
punah punah keraite heai na paya
nayanak lorahi basana bhigaya
calite heralo nikatahi geho
pita basone sab gopai deho
apada masaka basane beyapi
alape alape cole pada juga capi
nija mandire dhani ayali dekhi
gurujana bhaye puna sakita pekhi
uritahi paithali mandire majhe
sutali sundari apana seje
niti niti aicana dukuka vilasa
niti niti herabo balarama Dasa
Shri Balarama Dasa
Tradução
“Krishna dá meio passo na direção de Sua casa – nisso volta-se para Radha para dar-lhe o
último beijo! Olhando um no rosto do outro, uma corrente de lágrimas desliza por Suas
bochechas – as sakhis debulham-se em prantos ficando inertes! Atingidos pelo temor , os olhos
de Radha Krishna giram, Suas roupas frouxas caem, e as flores ornamentais ficam
dependuradas – tudo se torna uma sobrecarga! Após remover Suas tornozeleiras e os
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ornamentos que produzem tinidos , Radha e Krishna angustiados pegam diferentes trilhas. Os
Dois se ensopam em lágrimas à medida que um vê o outro se afastar! Ao se aproximar de casa,
as gopis se cobrem com chaddars amarelos em um esforço para manterem-se invisíveis. Na
ponta dos pés lentamente (o mais silenciosamente possível) , Radharani e as sakhis entram no
mandira de Jatila; com medo dos membros familiares mais velhos, as pálpebras de Radha
tremulam! Nisso, finalmente Radhika-sundari chega na Sua própria cama e cai adormecida. O
poeta Shri Balarama Dasa(nitya parshada de Cheitanya Mahaprabhu e discípulo de Shri
Jahnava-Ishvari) finaliza com uma prece : ‘à medida que harmoniosamente se desdobra os
passatempos de Radha Krishna – deixe-me ver cada um dos lilas na sua ordem estabelecida!’”.

Assim terminam os comentários rasa-tarangini-tika do Nishanta lila.

CAPÍTULO DOIS
PRATAH-LILA
(Passatempos matinais 6:00 às 8:24 horas)
resumo
Krishna Se levanta da cama, O seva de Yashoda e Paurnamasi,Krishna vai ao Goshala,
Radharani Se levanta, Rasodara, banho e o vestir de Radha pela manhã

Gourachandrika
Antes de iniciar os passatempos da manhã de Radha Govinda, vamos primeiramente
adentrar no Navadvipa Prata-lila de Shriman Mahaprabhu :
Pasyantim sva-sutam sacibhagavati Sankirtana ikhatam
Pratarha kathamebate bapuridam suno babhuva khatam
Itham lapnatah svaputra vapusi vyagra sprsanti muhu
talpaja jagarayancakara jamaham tam gouracandram bhaje
bhataih sarddham upagayaiar bhuvi nataih srivasa guptadibhih
prcchadbhih kusalam prage parimilan praksalya vaktram jalaih
puspadi prativasitaih sukathayan svapnanubhutam katham
snatvadyad dhari sesam odana varam yas tam hi gauram bhaje
- Shri Bhavana-sara-sangraha

tradução

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