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Entre janelas

volume I

Primeira edição impressa em papel


Pólen Bold 70g/m² com capa em Color
Plus Aruba 240g/m²pela Editora Oribê
em agosto de 2020

Todos os direitos desta edição re-


servados à
Oribê Editorial - MEI
e-mail: oribeeditorial@gmail.com
Faz parte do Coletivo Fissura e do Coletivo
de Escritorxs LGBTs do DF – Celgbt/DF, confa-
bulando para a equidade.
Onde encontrar:
Instagram: @ninaferreira.mus
Link: https://linktr.ee/ninaferreira

Entre janelas

volume I

Organização
Mayã Fernandes

Oribê Editorial—2020

[70]
ⒸOribê Editorial, 2020 Naomi Cary
Edição e coordenação: Mayã Fernandes
Revisão: Bianca Cabral
Capa: Anace Lima É formada em Ciências Sociais pela Universi-
Diagramação: Oribê Editorial dade de Brasília. Nascida em Santos (SP) em
Auxílio Jurídico: Ana Karoline A. de Freitas
uma família de comunicadores, vive no Distri-
to Federal há tempo demais. Quase escritora e
aspirante a cineasta, mãe, preta e bissexual,
participou de algumas coletâneas literárias,
abordando temas raciais, feministas, indeni-
Dados internacionais de Catalogação na tários, misérias e liberdades.
Publicação (CIP)
Onde encontrar:
E-mail: naomicaryb@gmail.com
FERNANDES, Mayã (org.)
Entre Janelas - vol. I / organi-
zação e apresentação de Mayã Fer-
nandes - Brasília: Oribê Edito-
rial, 2020.

70 p. Nina Ferreira
1ª Edição
ISBN: 978-65-991902-0-9
CDD 800 literatura Compositora e cantora, poeta, artista visual
e livre pesquisadora de imagens, nasceu em
1990 no Distrito Federal. Tem textos e traba-
lhos de artes visuais publicados em revistas
e coletâneas literárias e em 2018 publicou o
livro Pérola marrom, pela padê editorial. É
candomblecista e convergente de quilombagens
Todos os direitos desta edição reservados à
Oribê Editorial - MEI LGBT+. Hoje ministra oficinas de escrita,
e-mail: oribeeditorial@gmail.com palestras e workshops sobre questões que im-
plicam raça, gênero, sexualidade e imagem.

[69]
Kati Souto Sumário
Sapatão não binárie. Possui um livro de poe-
sias lançado pela Padê Editorial. Estudante
Apresentação 10
de Letras e poeta.
Onde encontrar: Mayã Fernandes
Instagram: @soutokatito
Outra perspectiva 14
Facebook: kay souto

Anace Lima

Ar 15

Marobah Edivar Noronha

(Iso)lamento 16
É escritora publicada em seis antologias. De-
pois da primeira publicação, com Tiago Nova-
Gabriela Andrade
es, aceitou isso como um sinal para deixar o
Direito um pouquinho de lado e ir atrás da
Pássaros 19
Escrita Criativa. Adora tudo que se relaciona
com cultura e tenta aprender o máximo de lín-
Nina Ferreira
guas possíveis por causa disso.

A Cigana do Atlântico 22
Onde encontrar:
Douglas Rafael
Instagram: @marobah_
Portifólio: https://marobah.contently.com Cubóide 27
Site: https:;oquefreudnaoexplica.com
Camilla Loreta

[68]
Onofre 30 ações iniciais do coletivo, enquanto projeto
de extensão, foram relatadas no texto “Usina:
Caio Siqueira casa, quintal, cidade” publicado no livro
“Universidade para o século XXI: educação e
Eu vou sentir o calor da rua 39 gestão ambiental na Universidade de Brasí-
lia”.
Marobah

Onde encontrar:
Pós Pandemia (?) 47
Academia Edu: https://unb.academia.edu/
Kati Souto EdivarNoronha
Instagram: @olivetti_lettera82
Boletim Andrômeda Redshift x 51

Naomi Cary

(com)partilhar – as tramas do nós e do eu 54


Gabriela Andrade
Aline Ludmila
É mestra em Metafísica, licenciada em Artes
Sobre nós 59
Visuais, bacharel em Direito e especialista
em Gestão Cultural. Livreira, mãe, escritora
Sobre a autoria 60 e pesquisadora em Estética. Possui dois li-
vros publicados, Launa e Educação Anarquista
em Cultura Visual, além do CD infantil Onde
está o Saci? com histórias de sua autoria.

Onde encontrar:
Instagram: @Gabriela.ela.la.

[67]
no Concurso Rocha Moutonnee de Poesia de Sal-
to/SP. Em 2007 conquistou o 3º lugar no Con-
curso Literário Dr. Ermelindo Maffei, promo-
vido pela Academia Ituana de Letras e Facul-
dade de Direito de Itu/SP.

Onde encontrar:
Instagram: @literadoug.
Medium: https://medium.com/@literadoug “A casa, cujas janelas estavam
entreabertas, apressava-se a
fruir esse brilho amarelo antes
de entrar no sombrio outubro ou
na noite, quando, por uma inver-
são de papéis, seria ela, a aca-
Edivar Noronha
sa, que projetaria a luz no sa-
lão sobre o gramado [...]”
É licenciado em filosofia e mestrando em edu- Anne Cauquelin, A invenção da
cação. Nos últimos anos vem escrevendo o li- paisagem, 2007.
vro Lata de Lixo, composto por colagens de
textos e imagens, a partir de experimentações
com o uso simultâneo de recursos analógicos e
digitais. Em 2019 expôs a série de colagens
“Quando mudam as capitais” no Ateliê Galeria
AP da artista Tkuri (@tkuri.art). Desde 2009
integra o Coletivo Usina que surgiu na Casa
do Estudante da UnB. Com um trabalho orienta-
do para a mobilização social e a coleta sele-
tiva, passando depois a desenvolver oficinas
de educação ambiental e artística voltadas
especialmente ao público infantojuvenil. As

[66]
Janeiro e Brasília em 2019; The Artist mee-
ting em Marianowo (Polônia) onde iniciou a
escrita do livro Sândalo Vermelho e os Gatu-
nos Olhos Dela, será romance de estreia como
escritora, no momento em fase de aguardo para
o mundo se assentar.

Onde encontrar:
Site: www.camillaloreta.com
Instagram: camilla_loreta

Douglas Rafael

Douglas Rafael se entende como escritor, poe-


ta, amante das artes e da filosofia. Também é
Advogado, bacharel em Direito pela UDF Brasí-
lia, onde foi bolsista pelo ProUni. Retirante
do interior de São Paulo, vive há 10 anos
nessa capital estranha, em que não se habita.
Escritor de textos engavetados, encontrou na
escrita criativa e no contato com artistas a
forma de libertar sua poesia.
Em 2006 venceu em 1º lugar o II Concurso de
Literatura da Casa do Escritor da Região de
Sorocaba/SP. No mesmo ano ficou em 5º lugar

[65]
Newsletter: https://tinyletter.com/
caiosiqueira/archive
Instagram: @caio.sq
Facebook: @CaioSiqueira

Camilla Loreta

É formada em Audiovisual e História da Arte,


em São Paulo. Pesquisa a escrita o corpo e a
imagem através das artes gráficas e audiovi-
suais. Seu trabalho foi publicado pela Edito- Às pessoas que se foram na pandemia.
ra Caixa e participou de feiras com a Plana
(SP e RJ) e Tijuana (SP e RJ) em livros e zi-
nes individuais e coletivos. Dirigiu dois
curtas-metragens,Clara e O Silêncio das Pe-
dras, sendo esse último selecionado para a
Semana Paulista de Curta-metragem. Participou
de diversas residências internacionais e na-
cionais, entre elas: Kaaysa em Boiçucanga
(Brasil) com o estudo Como se salvar de afo-
gamentos; Encosta Residência na Ilha do Mel
(Brasil), onde desenvolveu projetos de impac-
to local, dialogando com as comunidades e
histórias da região; a residência solo FUGA
(Nova Iorque) que rendeu seleção no Festival
do Filme Livre, exibido em São Paulo, Rio de

[64]
Aline Ludmila

Graduada em História pela Universidade Fede-


ral de Uberlândia (2010) e mestre na linha
Política e Imaginário pela mesma instituição
(2013). Atualmente ocupa o cargo de Analista
Técnico de Políticas Sociais. Experiência nas
Apresentação áreas de Teoria Política Contemporânea, Memó-
ria e Esquecimento, Teoria da História, Filo-
sofia Política e Instituições.
Mayã Fernandes
Onde encontrar:
Medium: https://medium.com/@ludmilalinelud
Lembro quando a Oribê Editorial era um em-
brião. Vejo este livro como uma maneira de
valorização da produção de escritoras e es-
critores que necessitam de espaço para suas
publicações, principalmente em tempos de pan- Caio Siqueira
demia.

A pandemia teve início na primeira semana de Natural de Brasília, Caio Siqueira vive atu-
fevereiro. Munidos pela incerteza e em um ce- almente em Uberlândia, Minas Gerais. Funcio-
nário público federal e estudante de Letras,
nário de instabilidade política, social e
é editor do Folhetim Literário: Newsletter e
econômica, para muitos a escrita mostrou-se escreve ocasionalmente em seu espaço no Me-
um refúgio da calamidade pública em que en- dium. Sonha com um mundo onde muitos outros
contra-se nosso país. sejam possíveis.
Onde encontrar:
Assim, surgiu a primeira chamada de textos
Medium: https://medium.com/@caiovsiqueira
escritos na quarentena, que desde o início

[10] [63]
buscou receber reflexões de temática livre,
contanto que tivessem sido escritas neste pe-
ríodo de isolamento. Para o primeiro volume,
foram selecionados 3 poesias, 1 ensaio e 7
contos.

Anace Lima apresenta poesia pulsante, mos-


trando as contradições que o vírus evidenci-

Sobre autorias ou. Edivar Noronha aborda a visualidade do


poema, enquanto Gabriela Andrade aborda a an-
gústia do tempo que vivemos de maneira inti-
mista.

Coloco-me na janela, lado a lado com os pás-


Anace Lima saros, acompanhando a oscilação da respiração
da narradora de "Pássaros", de Nina Ferreira.
Compartilho do olhar privilegiado do tanque
É mestranda em Filosofia da Arte (PPGM-UnB),
professora de cursos livres de Artes Visuais, de lavar roupas e das imagens nostálgicas que
consultora da Oribê, criadora de conteúdo no Douglas Rafael nos presenteia.
projeto Fissura. Define-se como poeta, es-
crevendo desde 2017, é multiartista e ilus- Quando a escrita é imagética, embalo-me nas
tradora. narrativas em busca de Pedro em “Cubóide”, de
Camilla Loreta, e encaro o personagem Onofre,

Onde encontrar: de Caio Siqueira, na intimidade, imaginando


longos passeios sem a pandemia. Por fim, com
Instagram: @anace.lima
o conto “Eu quero sentir o calor da rua”, re-
Medium: https://medium.com/@anace_lima
cordo-me da busca pelo amor em momentos de

[62] [11]
luta.

Desde o início esperávamos textos distópicos


que demonstram a linha tênue entre realida-
de, distopias e utopias. Com “Pós Pandemia
(?)”, de Kati Souto, percebe-se a aflição
pelo que vem depois, enquanto que o conto
“Boletim Andrômeda Redshift x” de Naomi
Cury, mostra-nos o poder da utopia e da
criação de um presente que poderia ser o
Sobre nós
nosso. Aline Ludmila, em seu ensaio “(com)
partilhar – as tramas do nós e do eu”, indi-
ca a construção de uma nova história e a ne-
A Oribê Editorial é um projeto
cessidade de ressignificar a humanidade.
independente idealizado e reali-
Entendo que neste momento histórico o COVID- zado por mulheres. Atua nas áreas
19 pode ser lido literalmente como uma amea- de Letras, Artes e Humanidades
ça à humanidade, e como metáfora, evidencia com o intuito de difundir o pen-
todas as contradições da contemporaneidade e samento político e crítico por
escancara o abismo que existe entre as meio de cursos livres, materiais
didáticos e consultorias. A pre-
sente obra é a primeira publica-
ção literária da editora.
1. BUTLER, Judith. Quadros de Guerra. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
2. MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo:
N1 - edições, 2018.

[12] [61]
“histórias de vida e as histórias de mor-
te”¹. Consequentemente, o COVID-19, compara-
do ao projeto de necropolítica² e ao descaso
institucional, é o menor do problemas.

Indico de antemão que as páginas seguintes


contam histórias de vida. Em um país onde não
se valoriza a cultura e as artes, a prosa e a
poesia mostram-se vias de fuga que imprimem
em nossas narrativas criações de mundos pos-
síveis.

Para a confecção deste livro, agradeço a co-


laboração de Anace Lima e das consultoras da
Oribê que o prepararam com esmero este livro.
Agradeço também as escritoras e escritores
que compartilharam seus textos conosco e
acreditaram no projeto.

Mo júbà aos oriṣás que sempre estiveram co-


nosco desde o início do projeto, sobretudo à
Iyá mi Nàánàá, pela sabedoria e ar que corre
em meus pulmões. A Ògún e a Oyá que mantive-
ram a editora firme em tempos de crise. E a
Èṣù, pela amizade e troca constante.

Mayã Fernandes

Editora e Organizadora

[13]
Outra perspectiva

Anace Lima

Toca a sirene
outra vez
mas
quem diria
que
o perigo virulento
é o egoísmo humano?

[14]
purram-nos para a frente, no esforço de re-
tornar àquela normalidade sórdida que segre-
ga, oprime e empobrece os nossos cotidia-
nos.

Por isso, evocamos o verbo (com)partilhar co-


mo ação (direta e indireta), no intuito de
recuperarmos a autenticidade das experiên- Ar
cias, não como uma atitude resignada, mas co-
mo ação que busca (re)organizar os afetos pe- Edivar Noronha

la tradição, tecendo os laços entre o eu e o


nós, entre o passado e o presente, dando coro
às melodias que são cantadas coletivamente
nos espaços em que (co)habitamos.

ar
ar ar
ar ar a

[58] [15]
duais, ao espetáculo do imediato e as suas
fantasmagorias. É evidente a presença de mo-
ribundos em nossa sociedade quando visualiza-
mos a desconsideração com a vida dos/as ido-
sos/as e todas as suas histórias e memórias -
invisibilizando toda a tradição que os acom-

(Iso)lamento panha. No viés perverso de uma sociedade mer-


cadológica e pobre em experiências, os mais
velhos não têm mais valor, justamente porque
Gabriela Andrade
a tradição é corroída pela ética do imediato.

Emerge dessa pobreza de experiência a natura-


Não me sinto mal.
lização da catástrofe que “impele a partir
Eu entendo a angústia que come.
para frente, a começar de novo, a contentar-
Devora o peito, a barriga e os intestinos.
se com pouco, a construir com pouco, sem
Medo. olhar nem para direita nem para a esquer-
Vontade de ir embora. da”³.Empilham corpos, apagam os números e em-
Medo.
Nada faz sentido e o amor vira ódio.
Desejo criar asas e ganhar o mundo. 1. ROUDINESCO, Elisabeth; DERRIDA, Jacques.
Escolher sua herança. In: De que ama-
Alguém entende. nhã: diálogos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2008, p.13.
Tantas já passaram por onde caminho. 2. BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza.
Tantos molharam essa lama em que chapisco. In: Magia e técnica, arte e política; ensaios
sobre literatura e história da cultura. 7. Ed.
Eu gargalho da lama por cima da lama. São Paulo: Brasiliense, 1994, p.114.

Uma risada que acaba em lágrimas. 3. Ibidem.

[16] [57]
construindo um relicário de cultura, memória Tudo é engraçado e maior,
e tradição. Tudo é pequeno e bobo.

Herdar não é um verbo passivo que significa Eu continuo pequena,


apenas receber uma tradição, trata-se de dar contemplando a grandeza,
vida ao que se recebeu. Assim, a relação dos querendo participar da festa.
que vieram antes e o nós não é uma relação de
A comemoração de um novo tempo.
submissão, mas de troca; de (com)
Eles se vestem de branco, seus cabelos enca-
partilhamento. Conforme nos lembra Derrida, a
racolados, voam ao vento.
herança - nessa dimensão não atrelada à ri-
Eu só observo abobalhada, pequena e besta.
queza material - almeja impedir a morte, ten-
Eles são deuses e eu, nada.
do em vista que para preservar a vida, ela
Queria ser grande, mas só consigo me debater.
exige que a transformemos - “para que alguma
Escorregar na lama e rir.
coisa aconteça, um acontecimento, da histó-
ria, do imprevisível por-vir”¹. Gargalhar da minha pequenez.

Rio tanto que inflo.


Entretanto, para preservamos essa vida é ne-
Talvez comece a sentir minhas asas se abrindo e,
cessário que (re)acendamos o gesto de (com)
de repente, planar acima da besteira.
partilhar atrelado à tradição, uma vez que
estamos diante daquilo de que Benjamin chamou A morte não é besta, é feia.

de empobrecimento da experiência - “que mori- O resto é besteira e a vida é maior.

bundos dizem hoje palavras tão duráveis que Eu sou maior, mas ainda não enxergo.

possam ser transmitidas como um anel, de ge- Meus olhos estão grudados,
ração em geração?”² As atuais configurações fitando meus pés.
políticas visam nos deixar incapazes de (com) Abobalhada.
partilhar e de fortalecer redes de memória, Sinto meus pulmões se enchendo,
atrelando-nos sempre às experiências indivi-

[56] [17]
tusso o que ainda me prende. mais e vegetais - e que somos o que somos por
Meus pulmões continuam se enchendo. causa de um pronome poderoso, mas que, por

Sou um anjo que não carrega asas. vezes, é esquecido pelo o resplandecimento do
eu – o nós. Os tempos egocêntricos - fortifi-
cados pelo capitalismo - divide o tempo e o
espaço em partículas do eu, desfazendo o tra-
balho artesanal que tece os laços entre o eu
e o nós. Essa tessitura se dá nos espaços dos
comuns que, por mais que nos esforcemos em
dividi-lo em propriedades, a natureza grita
que não é possível.

Uma das formas de fazer esse minucioso traba-


lho de tecer os fios, entrelaçando o eu e o
nós, é através do (com)partilhamento de pala-
vras e gestos, revigorando algo que o filóso-
fo Walter Benjamin explanou em 1933 - a expe-
riência. A experiência é como um tesouro que
passa, mediante a tradição, de geração em ge-
ração. Quem veio antes de nós porta esse te-
souro, (com)partilhando-o como uma herança
aos que vieram depois. Os povos originários
detêm a riqueza do trabalho de tecer os fios
da memória ao proclamarem a importância dos
mais velhos, considerando-os como anciões que
transmitem o tesouro chamado experiência,

[18] [55]
(com)partilhar – as tramas do Pássaros
nós e do eu
Nina Ferreira

Aline Ludmila
Cê ouviu? ó: é o sabiá, fazendo barulho na
calha. Ele pousa lá pra tomar sol em cima da
(Com)partilhar - verbo transitivo direto terra fria que se acumula. É bem escura, mas
quando dividimos algo e verbo transitivo in- não mancha o peito amarelo e cheio de ar de-
direto quando partilhamos algo com alguém. le, que canta alto, com toda a força, junto
Evoquemos aqui a (bi)transitividade desse com as maritacas, na árvore depois do muro,
verbo para endossar a sua potência e ressal- chegando o pôr do sol. Na minha cabeça, o
tar a necessidade de o resgatarmos como ação único bem realmente próximo mora ali, nessa
(direta e indireta) na terra em que (co) árvore depois do muro: no dia em que eu esta-
habitamos e nos tempos que experienciamos – va sentada na cama olhando fixamente pro es-
sejam eles pandêmicos, endêmicos e naqueles, pelho e minha asma atacou, e meus pulmões ar-
por demais, egocêntricos. diam enquanto eu puxava o ar e corria pra
Entrelacemos o verbo (com)partilhar ao (co) procurar a bombinha, os pardais ficaram pou-
habitar, no intuito de refletirmos que divi- sados na janela. Um entrou no meu quarto, pa-
dimos a terra com vários outros seres - ani- rou no pé da cama pra me olhar. Achei que ia

[54] [19]
me olhar morrer. Por um segundo pensei nas coloniais e ideais antirracistas, o boicote à
pessoas me encontrando podre e que vestia empresas racistas e ligadas a todo tipo ex-
sempre as mesmas bermudas: devia ter comprado ploração perdem espaço, levando a população a
mais roupa, pensei, o corpo tremendo, especi- recuperar a lógica de economia colaborativa e
almente camisas vermelhas muito largas, onde decrescimento.
tá meu violão?, pensei, não devia ter amado O rompimento de acordos econômicos e diplomá-
tanto, cadê meu violão?, devia ter. Sacudir, ticos faz com que os Estados Unidos repitam
expira tudo, aspirar fundo, mais uma vez: sa- Hiroshima e Nagazaki, agora no brazil. Depois
cudir, expirar, aspirar tudo. Devia ter tido de anos de guerra, a Terra explode. 8 bilhões
mais camisa regata, foda-se se não fiz porra de corpos humanos morrem.
de mestrado, devia ter me apaixonado menos,
Gás e poeira.
cadê meu violão?, umas lágrimas molhando mi-
nha cara e minha camisa, sacudir, expirar, Nenhum planeta próximo sofreu consequência
aspirar, mais uma vez: sacudir, expirar, as- alguma. O sistema solar e a Via Lactea seguem
pirar tudo pra dentro, segura!, conta até intactos.
dez. Devia ter ficado na praia, cadê meu dis-
co do Milton Nascimento?, uma camisa muito
Por ser verdade, assino a presente declaração
vermelha, meu violão, devia ter me apaixonado
menos?, devia ter: no barato do aerolin, um
frescor. kosamsngahsd 45874h fhbsuus

Recostei na parede pra ver a árvore, tão ver- Assinatura


de, cheia de pássaros, e as luzes do fim da
tarde colorindo o muro de um jeito tão suave,
feito um filtro de foto digital. Meio rosa.
Seria “Rio de Janeiro”, no Instagram. Os par-

[20] [53]
Com a criminalização do pretocídio e a polí- dais da janela continuaram parados, três ou-
tica de tolerância zero para outras formas de tros pássaros, menores e mais agitados entra-
racismo, o perfil des presidiaries no brazil ram, como pra caçar sementes, e o pardal den-
mudou drasticamente. Branques deixam univer- tro do meu quarto, me fitou. Sorriu? Eu sor-
sidades para habitar as cadeias em massa. ri, ou quase, com o rosto molhado. No que me
assustei, ele voou. Ou então foi o contrário.
A partir das medidas de taxação de grandes
fortunas, e a inevitável prisão dos maiores
empresários do país por racismo, e uma real
distribuição de renda, a população passa a
ter excelente educação, fazendo com que o
brazil virasse a economia mais próspera do
mundo.

Pretos embranquecidos fora de idade escolar


em 2020 – que, portanto, não podiam receber a
educação antirracista decretada a partir da-
quele ano – acusados de reproduzir racismo
passaram a ser beneficiados com o programa de
desintoxicação branca. Na época, os casos de
mais sucesso foram dois personagens ligados
ao governo: Sérgio Camargo e Hélio Negão do
Bolsonaro que, depois de um processo árduo e
intenso de ressocialização conquistaram seu
direito de conviver em sociedade.

Em poucos anos de disseminação de teorias de-

[52] [21]
A Cigana do Atlântico Boletim Andrômeda Redshift x

Douglas Rafael Naomi Cary

Eu ficava com o queixo apoiado no tanque ven-


Depois das manifestações de 2020 em anos ter-
do os raios de sol que adentravam pelos ca-
restres, em que os pretos do brazil se rebe-
chos dela. Igual a copa de uma grande árvore.
laram contra o sistema hegemônico da branqui-
Eu podia sentar ali embaixo e descansar. Mas
tude, protagonizando a maior revolta preta já
o que eu gostava mesmo era de ficar olhando
vista pelo planeta. O estopim foi o pereci-
pra água. Sentir o cheiro do sabão. Ver as
mento de um ser chamado Miguel, um menino
formas que a espuma fazia.
preto assassinado, vítima do racismo estrutu-
Ela esfregava. Molhava. Batia a roupa na pe- ral. As reivindicações que transformariam o
dra. Torcia. Depois fazia tudo de novo. Na sistema judicial definitivamente dividiram
ponta dos pés, esticava meu braço. Com os de- opiniões entre a população humana: alguns
dos fazia um bonequinho que caminhava na bei- julgavam demasiado radicais, outros, achavam
ra. Parecia que ela não notava. Mas depois um absurdo que não se admitisse sua necessi-
tirava minha mão sem falar nada. O que signi- dade. A seguir, as principais consequências
ficava que eu devia ir brincar. sociopolíticas de tais atos:

[22] [51]
gente ter uma febre noturna que só passa com Como me recusava, deslumbrado com a espuma,
banho e paracetamol. ela colocava a mão gelada na minha cabeça. Um
leve carinho. A gente se entendia. Mas não
“é pior que morrer” disse minha mãe que teve
olhava diretamente para mim. Quero dizer nos
que enterrar sua melhor amiga com câncer. Até
olhos. Que é modo de ver de verdade. Os ca-
hoje ela chora pelos cantos olhando as fotos
chos faziam sombras nos seus, vistos daqui
dela.
debaixo.
Ficou entubada por cinco dias e morreu.
Eu não distinguia choro ou suor quando via uma
A gente cuida da filha Isabela, que tomou va- gota cair e se misturar na confusão das águas.
cina pra covid-19 e todo dia pergunta pela Não sabia o que fazer. Então ficava quieto,
mãe dela. fingindo que brincava.
Os dias são todos iguais, pessoas desconfia- Olhando a espuma, imaginava a onda de um mar.
das. Os desconfinados são esquisitos, alguma Porque eu não conhecia o mar. Achava que
coisa que não era, agora é. Não dá pra negar: aquele alvoroço devia ser um oceano. Atlânti-
menos calo no pé, mais feijão no prato. Agora co. Aprendi na escola.
tem sabão em todo banheiro que quiser.
E nessa imaginação era como se ela brincasse
Banhos solidários. também. Dentro de minha cabeça eu compunha um
A Europa chora. sonho e ela executava. Ao esfregar fazia tem-
pestade. E o vento balançava as árvores-
O Brasil (que veio dos avós indígenas):
cachos. Das ondas surgia espuma. A espuma se
Banhos desprendia. Virava nuvem. Nascia o céu. De-
Cuidados pois o céu caía de novo e formava o mar. Pen-
sei essa história que mais parecia um grande
Medicinas naturais
teatro.
Nós somos nossos ancestrais.

[50] [23]
Lembrei que a água do mar é salgada. Disse a ....
professora. Igual lágrima. Talvez fosse assim
Alguns anos se passaram e mesmo depois da va-
de tanto mamãe chorar. Ao menos no nosso tan-
que. cina eu não fui mais a mesma. Penso em me

Foi aí que me veio uma ideia. Essas que cri- limpar, penso em germes, penso que toda hora
anças têm, mas não conseguem expressar. Quase alguém pode ter alguma bactéria ou vírus pra
um segredo. Concebi que a vida era mesmo um me passar.
teatro, uma eterna brincadeira. Porque mamãe
fingia que lavava. Percebi há tempos. Por is- Uma louca. Minha psicóloga me acompanha desde
so eu brincava ali, um jeito de estar junto. então para me reconfigurar.
Aprendi que quando alguém chora é preciso fi-
car do lado. Silêncio. Acredita que o CCBB nunca mais abriu? Acho

Nessa fábula éramos atores de uma peça itine- que os brasilienses gostam mais de bailes
rante. De cidade em cidade. Rezando para que funk do que um passeio de lunático em algum
a próxima fosse melhor. Onde podíamos nos museu.
instalar de verdade. Fazer morada.
Sigo rebolando a raba no PVT da samamba, al-
A gente também quer um pedaço de chão. E é
por tanto procurar que não paramos de andar. tas gatas.
Juro que a gente tenta. Será que mamãe ainda Porque museu é pra isso mesmo, né? Pra lem-
aguentava me carregar? Esse pensamento me as-
brar sem ter de volta.
sustou.
Acho que quando ela lavava roupa, numa estra- Sinto falta de muitas pessoas, mas acho que
nha mudez, se acalmava pra não desabar. Como daqui mais alguns anos terá sido só mais um
se no contraste da quentura do esfregar com a
controle biológico da população. Lembro que
água gelada, fosse possível não sentir mais
nada. Esquecer. Na fricção depositava ali uma minha avó morreu de gripe suína... Isso nin-
dor. guém mostrou no jornal.

Bateram no portão. O mar então se acalmou. ....


Eram as irmãs. As tias que eu estranhava.
Criança é mesmo coisa desconfiada. Eu sabia Passei tanto mal. A vacina da COVID-19 faz a

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Nem os bancos investidores. de muitas coisas. Não tinha as palavras.
Vieram ver onde é que ela morava agora. Em
Antes podia ficar, tipo, todo mundo junto em
que buraco a gente cabia. Vieram ver se apro-
um cômodo? vavam. Não pedimos opinião. É que mamãe vivia
As pessoas (sobre)vivas que degustavam de calada. Mas nem por isso a deixavam quieta.

amores proibidos e escondidos finalmente en- Ela passou café. Serviu. Ouviu. Continuou sem
voz. As irmãs fizeram promessas. Por fim, a
tenderam o que se passa numa vida inteira de
chamaram de cigana. Porque não parava em lu-
armário: gar nenhum. Depois, se foram.
O armário fechado está dentro de nossas pró- Achei estranho, porque pra parar em algum lu-
prias casas. Uma escuridão de armário ou uma gar, é preciso ter um lugar. E quem não tem,
vive a procurar, que é uma maneira de estar
caverna e os olhos já não tão acostumados com
vivo.
o sol se espelham nos dela com tanta vontade
Quem não tem um pedaço de mundo pra caber,
e paixão.
constrói a felicidade em si, e a carrega. E
A empresa funerária que meu pai trabalha fez como o mundo é tão grande e a gente não sabe
a gente ficar rico onde vai dar, vivemos do andar, fingindo que
Era madeira derrubada pra todo lado pra fazer não dói.
caixão. Se ser cigana era isso, eu era feliz por ma-
Ainda bem que planto árvores em todo lugar mãe ser. Porque cada vez que estacionávamos
que vou com minha máscara. nossa trupe ela compunha uma nova felicidade.
Abria as cortinas, interpretava seu papel.
Será que um dia vou poder ver o rosto dela,
da minha bela Isabela? Será que um dia vou Em pouco tempo já estava tudo instalado e ela
estava ali, lavando as roupas do brincar da
poder espirrar sem todo mundo me expulsar de
vida. Quem não vive não tem roupas pra lavar.
qualquer que seja o lugar? Pensei isso também.
Será? E naquela ideia, em meio a espumas e o cheiro

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do sabão, eu assistia mamãe: uma atriz já
feita. Ia ensaiando uma esperança. Fingir era
viver.

Essa ideia não saía de mim. Apenas explicava


as coisas. O teatro do mundo. Eu assistia
aqui debaixo. Com o queixo apoiado no tanque.
Pós-Pandemia (?)
Ela percebeu que eu não ia sair dali. E foi
então que parou de lavar. Se virou para mim.
Kati Souto
Passou a mão no nariz. Afastou os cachos. Me
olhou nos olhos. E na espuma dos seus olhos
vi o mar. Não enxerguei mamãe. Naquele atlân-
Eu nasci pouquinho depois de uma pandemia.
tico eu vi a cigana. A estrangeira do mundo.
Dizem que antes, as pessoas andavam com seus
Eu vi a Mulher que havia ali.
rostos livres;
***
Que era possível abraçar e beijar pessoas em
festas sem ao menos saber o nome

Olha que perigo.

À mulher que habita em minha mãe. Repensaram a saúde de uma forma tão obrigató-
ria.

Agora é lei se cuidar.

Nasci no ano do azar?

Os cinemas cobertos de poeira já não sabiam


mais o que era uma poupança.

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de pesquisa, passava o dia procurando ruivas
na Paulista. Eventualmente resolveu apenas
esperar outra manifestação – já que não tinha
outra saída –, sabia que do jeito que o go-
verno estava indo, logo haveria passeatas.
Dito e feito! Pouco tempo depois lá estava
ela de novo, militando contra o fim do mundo. Cubóide
Finalmente chegou terça-feira, o dia da mani-
festação. Marcela se aprontou e saiu correndo Camilla Loreta
para chegar antes que escurecesse. Aproximan-
do-se da Paulista, ela viu o local lotado,
Quando a mente separa do corpo, não separa,
parecia que a cidade inteira estava lá rei-
mas viaja, se dobra, ficam duas, diriam por
vindicando direitos. Ela andou um pouco per-
aí que é imaginação. Seria essa imaginação
dida no meio daquele mar de pessoas, curtindo
recordações passadas todas refeitas?
o início do protesto, enquanto não tinha re-
cebido nenhuma bala de borracha. Se estou no meu quarto e logo vem a imagem
que nunca vi da porta da casa de Pedro. Ela
Quando percebeu Bruna no meio dos manifestan-
tem que tamanho? De todas as portas que já
tes, correu ao seu lado e assim que estava no
vi. Ela tem aquele tamanho médio de porta.
campo de visão de Bruna, esta sorriu, esten-
deu uma mão aberta para Marcela segurar e le-
vantou a outra para cima com o punho fechado. Na porta da casa de Pedro.
Marcela não sabe ainda se vai ter um final
feliz o relacionamento, mas com certeza foi
um ótimo começo. Ele e eu, seu nariz redondo, olhos abertos de
curiosidade. Peito suave, tenso?

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Respira. Na barriga: o ar, no peito: a falta. tentativa fraca de iniciar essa conversa, ela
apenas abriu um sorriso enorme, estendeu a
mão para cumprimentar e falou:
Todas as vezes que imaginei, agora de novo,
- Costumo aparecer quando não acho nada de
sob a luz da tarde... seu corpo, sulcos, im-
bom na televisão para assistir, e esses dias
pressos nas minhas pálpebras. Cada parte de
a programação não anda, boa! Eu sou a Bruna e
seus pés. Pedro, vou cuidar dos seus metatar-
você?
sos, suas falanges, seu cubóide, vou massage-
ar, você vai ver, vai sentir tudo soltar até Daí para frente a conversa fluiu, não eram
em cima, até sua mandíbula. duas estranhas se conhecendo e sim parceiras
de luta se reencontrando. Passaram o resto da
manifestação andando, rindo, militando e cor-
Sobre ele meu quadril encaixado. Suas mãos rendo da polícia juntas. No final da noite
nos seios, maciez. Marcela não queria ir embora e não tinha in-
tenção nenhuma de deixar a Bruna sumir, por
isso, juntou toda sua coragem para pedir o
Seria outono?
número de telefone e Bruna, por sua vez, ape-
nas se aproximou e falou no seu ouvido:
Já estaria vacinada, um animalzinho assustado “vamos deixar as próximas manifestações nos
com a lomba doendo e as reações adversas. Da unirem”, com isso ela piscou, sorriu e foi
vacina ou da notícia daquele dia? embora.

E aí sim, com tudo em lugares estranhos, mas Marcela ficou arrasada, passou alguns dias
sem perigo, sairia correndo atrás dele, meu analisando se ela tinha interpretado tudo er-
músico. Amando? Imagino essa palavra dentro, rado e que na verdade Bruna não tinha inte-
e ela não tem som, só imagem da boca mexendo, resse nenhum nela. Perdeu o foco nos grupos

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de todos os tipos, Marcela só tinha olhos pa- articulando as três vogais e duas consoan-
ra uma. Procurava na passeata incessantemen- tes.
te, enquanto ainda havia sol. Sempre que en- Na porta da casa de Pedro, o cheiro de fazen-
contrava alguém de cabelo vermelho seu cora- da, os tantos ruídos que ouvi em seus áudios,
ção parava apenas para se quebrar um pouco alguém grita: Tem alguém aí na porta! Que es-
quando percebia que não era quem procurava. sa menina quer, vai ver Pedro!
Às 21:00, 21:21 para ser mais exato, Marcela
estava desanimada até que encontrou uma ruiva
Tenho frio, tá no pé. O sol acabou, parece
com um boné verde escuro e sabia. Foi corren-
que foi nuvem. Pedro continua impresso nas
do atrás dela até estar ao seu lado e foi aí
minhas pálpebras, como um fantasma do futuro.
que percebeu que passou tanto tempo procuran-
do e sonhando com elas juntas e felizes para
sempre, que não tinha analisado o que diria
quando a encontrasse.

Depois de alguns minutos de silêncio, e vá-


rias encaradas, Marcela não aguentava mais e
resolveu falar a primeira coisa que veio à
cabeça.

- Parece que eu já te vi por aqui antes, você


vem sempre aqui?

Assim que terminou de falar sentiu-se o pró-


prio homem branco heteronormativo dando em
cima de mulher e com isso desviou o olhar.
Para sua sorte, a ruiva não ligou para sua

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taurante vegano com seus amigos amantes da
natureza, estudava sobre anarquismo e comuni-
cação não-violenta, e em algumas noites ia
tomar uma cachaça com os companheiros.

Em agosto não aguentava mais pensar naquela


ruiva, começou a achar que ela tinha imagina-
do tudo, talvez fosse uma miragem ou alucina-
Onofre ção de todos os gases lacrimogêneos. Às vezes
ela procurava nas fotos das manifestações,
outras vezes contava e recontava aos amigos,
Caio Siqueira
esperando uma solução mágica, mas nada. Até
pensou em colocar na pesquisa de internet,
mas acabou desistindo quando não tinha mais o
Hoje você me olha assim e vê que já não estou
que escrever além de “militante linda e rui-
no melhor dos meus dias. Os fios brancos não
va”.
me dão paz, se espalham por todos os lados.
Quantas saudades tenho da minha antiga pela- Alguns dias depois, ela estava quase desis-
gem ruiva! Era exuberante. Eu desfilava pom- tindo de sua paixão impossível até que seus
poso e orgulhoso de meus dotes físicos. O amigos falaram sobre a grande manifestação
tempo, porém, é senhor cruel e sua sentença é que aconteceria e como todos “deveriam parti-
infalível – se a justiça tarda, mas não fa- cipar para conter o impeachment e fazer com
lha, o tempo não tarda nunca. Ele vem. que as vozes da rua fossem ouvidas”. Marcela,
na verdade, não precisava de nenhum incentivo
Lembro bem de quando encontrei o primeiríssi-
para ir.
mo fio branco! Lembro como se fosse ontem. De
lá pra cá muitos anos se passaram, mas essa Entre bandeiras de todas as cores e pessoas

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Sua primeira grande manifestação foi na Ave- memória permanece nítida. Estava no auge de
nida Paulista contra o golpe machista e neo- meus dias, feliz e serelepe, tendo todas as
liberal que estava acontecendo no país. Ela atenções do mundo para mim. Ajudou ainda mais
escolheu cada detalhe de sua roupa, seus car- receber todo esse biscoito ter meu amigo to-
tazes e suas bandeiras e foi para rua. No co- dos os dias em casa, já que um tempo antes
meço estava tudo calmo, com algumas crianças disso – na época em que nos conhecemos, aliás
e vovós participando da movimentação, mas – ele começou a trabalhar de casa. Lembro que
quando o sol foi embora e a polícia chegou, o no fatídico dia fiquei um tempo na janela,
clima se modificou de forma drástica. Entre observando o movimento na rua e os odores que
uma bomba de gás e outra, Marcela viu uma me- dela emanavam. Quando deu sede, levantei pra
nina ruiva gritando na cara de um policial e me hidratar e vi meu reflexo na água: um ou-
teve certeza absoluta que era amor à primeira sado fio branco se destacava próximo de minha
vista. orelha direita!

Depois de muita correria e algumas balas de De início tentei me livrar dele, mas foi em
borracha, Marcela se perdeu da ruiva. Ela e vão – outros surgiram. Tentei ignorar, fingir
seus amigos resolveram ir embora todos come- que não estavam lá. Não funcionou também. Só
morando e trocando histórias do que tinha restou me conformar e ainda hoje assento esse
acontecido na noite. Chegando em casa, Marce- fato. Confesso que me resignei quando vi a
la pediu para todas as deusas uma chance de barriga avançar, os pelos caírem e a vista se
reencontrar aquela mulher. desgastar. Até meu nariz já não funciona como
antes! A idade definitivamente vem.
Os dias se passaram lentos. Marcela continuou
na sua rotina de faculdade, militância e sal- Esta é a minha história. Prazer, sou Onofre.
var o mundo. Ela acordava cedo todo dia, bri- Tudo começou quando fui adotado, ainda muito
gava com os fascistas na internet, tomava ca- petiz, muito bebê. Desses tempos lembro pouco
fé da manhã, ia para aula, almoçava no res-

[42] [31]
ou quase nada. Lembro que as brincadeiras das, Marcela resolveu sair com seus amigos e
eram constantes e borbulhava em mim um inten- depois de algumas cervejas e várias cachaças
so sentimento de felicidade – era a aurora de ela acabou dando seu primeiro beijo em uma
minha vida, então nada mais natural. Guardo menina e com isso inúmeros sentimentos toma-
ainda a preciosíssima lembrança de quando vi- ram conta do seu corpo.
sitei a rua pela primeira vez – ou pelo menos Dessa primeira grande paixão só recebeu um
a primeira vez que tive consciência de que coração partido, que não é muito incomum para
realmente estava nela. Você deve naturalmente amores não recíprocos do colégio. Mas, com
entender que a rua, ainda mais naquela época, muito pesar, notou como a sociedade trata
era um espaço muito hostil, perigoso até. aqueles que estão fora da heteronormativida-
Sempre foi muito fascinante também, é verda- de. Viu alguns dos seus amigos sumirem, ou-
de. Mas os barulhos incessantes dos carros, tros xingarem e a grande maioria dos familia-
os passos apressados dos pedestres, tudo res rezaram pela sua alma – esses eram os que
aquilo era adrenalina demais para alguém tão mais incomodavam, com certeza. Tudo isso que
jovem como eu. Havia uma outra preocupação na aconteceu fez com que Marcela colocasse mais
época, ainda por cima, pois as pessoas morri- uma reivindicação na sua lista de lutas.
am aos montes e todo mundo vivia tenso. Era
Depois de muita briga em casa, Marcela estava
insuportável ter que me limpar sempre que
livre, morando em São Paulo e fazendo facul-
voltava da rua.
dade de ciência sociais. Lá ela tinha todos
Mas voltemos ao primeiro passeio. Eu não sa- os meios de se rebelar contra a sociedade.
bia que conheceria a rua, na verdade eu nem Achou um grupo de amigos plurais engajados na
sabia o que era uma rua, seu conceito e espí- política, se reuniam todos os dias para pro-
rito. Foi completamente inesperado. De supe- blematizar, militar e beber – porque afinal
tão, lá me vi. Os cheiros, o movimento, as das contas eles também eram universitários.
luzes, o barulho. Tudo era tão intenso. A

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como: “ficou tão gostoso que já está pronta primeira vontade que senti, que foi surgindo
para casar” ou “você vai fazer seu marido de alguma caverna muito profunda no meu inte-
muito feliz”, mas ninguém comentava sobre su- rior, foi a de correr. Correr a plenos pul-
as notas altas em história e geopolítica. Re- mões, cheirar todos os odores, ouvir cada ru-
parou, também, que seu irmão muito mais novo ído, acompanhar cada brilho que se afastava e
tinha certas liberdades que Marcela nunca te- se aproximava. Eu queria dar conta de tudo.
ve, ele arrumou uma namoradinha bem cedo e Não fiz isso, nem poderia, pois foram logo me
passava o dia trancado no quarto com ela, e a puxando para ir com eles. Era muito pequeno,
resposta dos seus pais quando questionados não podia sair por aí a correr perigos. É
porque ela não podia fazer o mesmo era: “mas preciso que haja uma confiança construída an-
meninos são assim mesmo”. tes de deixar os jovens saírem por sua pró-
pria conta e risco.
No terceiro ano colegial já problematizava
tudo. Discutia com adultos sobre questões so- Aquela experiência foi lisérgica e catártica,
ciais, racismo, igualdade de gênero, desflo- até mais do que quando tive que fazer uma ci-
restamento e legalização do aborto. Seus pais rurgia para ter minhas bolas retiradas – fa-
não aguentavam mais ela e tentavam de todos laremos disso adiante, ainda é traumático. A
os jeitos acalmá-la, mostrando que por pior rua era um lugar realmente fascinante, tinha
que tudo isso fosse, nunca ia atingir ela e tanta coisa. Gente indo e vindo, os carros
sua família e que talvez estivesse na hora de cruzando por nós em alta velocidade, o vento
mudar um pouco o foco, “você não pode ficar batendo farto na minha cara. Dava um pouco de
tão fixada em um assunto só! Ninguém vai que- medo sim, mas era aquele medo que atiçava cu-
rer ser seu amigo assim. Melhor você sair um riosidade e causava bem-estar, entende? Eu
pouco e mudar de assunto”, sua mãe sempre di- gostei tanto que quis mais e mais.
zia. Pouco depois conheci o amigo com quem até ho-
Em uma dessas discussões quase que roteiriza- je convivo. Sou seu companheiro e confidente

[40] [33]
– nós nos fazemos muito bem, adoro a presença
do Sálvio.

Numa dessas saídas, que se tornaram rotinei-


ras, mas ia sempre acompanhado, conheci a vi-
zinha da frente. Nossos percursos se cruzavam
por volta das cinco da tarde, que é quando eu
ia dar minha volta crepuscular para aliviar Eu vou sentir o calor da rua
as necessidades fisiológicas de ar puro e es-
paço. Reparei que invariavelmente nos encon- Marobah
trávamos quando voltava dos passeios, sempre
na mesma esquina no bairro Bela Vista, próxi-
Aos 13 anos Marcela aprendeu na escola que o
mo à avenida 9 de Julho. Por fim descobri que
meio ambiente estava entrando em colapso: os
ela morava num prédio do outro lado da rua.
ursos polares estavam morrendo afogados por
Inicialmente fui indiferente, mas conforme os
causa do derretimento das geleiras; as abe-
encontros se tornavam frequentes, construiu-
lhas – tão importante para a polinização –
se em mim uma afeição por aquela rebenta de
estavam sendo envenenadas pelos agrotóxicos;
mocidade. Nos aproximamos, trocando olhares e
as tartarugas engasgavam com canudos jogados
odores, e em pouco tempo me vi apaixonado.
na praia; e, em 2050 haverá mais plástico do
Foi avassalador.
que peixes na água. Foi uma semana dura no
Passava noites e mais noites a sonhar com
colégio que fez ela chorar por um mês.
ela. Tentava espiá-la pela janela, esperanço-
Um tempo depois chegou a reparar a diferença
so de encontrar algum feixe de luz que a ilu-
de tratamento entre homens e mulheres. Dentro
minasse. Cantava longas serenatas de amor pa-
de sua casa percebia como todos ficavam feli-
ra me declarar em plena lua cheia. Eram uivos
zes quando fazia o almoço, recebendo elogios
do fundo de meu coração arrebatado. Ela cor-

[34] [39]
deiro. respondia. Brilhava como flor ao receber os
raios do sol quando me via, alterava seu es-
De resto a minha vida tem sido muito boa,
pírito para o de um jovem cão quando conhece
longa e próspera. Recebo amor, carinho e
a liberdade dos pastos. Éramos só amor. Rosi-
atenção todos os dias, tenho comida farta e
nha era a paixão de minha vida.
descanso assegurado. Avancei muitas casas no
tabuleiro da vida, o que é incomum para um Todos os dias ia passear aos fins de tarde
cão vira-lata. Não se pode ter tudo, mas eu com meu amigo Sálvio pelo bairro, para re-
acho que tive o suficiente. frescar as ideias e observar a cidade, sentir
seus cheiros, observar suas cores. Sálvio e
- Onofre, amigão, vamos dar uma volta?! Va-
eu éramos muito próximos, ele me confiava
mos, Onofre?! gritou Sálvio. Deixa eu pegar a
seus problemas, reflexões e alegrias. Plane-
coleira.
java reduzir sua rotina de viagens para poder
Aqui me despeço. É hora do passeio da tarde. ficar mais em casa. Naquela época houve uma
pandemia de algum vírus muito letal que mudou
todos os planos então estabelecidos, inclusi-
ve os de Sálvio de manter a rotina constante
de viagens. Foi uma importante decisão em sua
vida, me confiou. Nos conhecemos pouco depois
e em seguida nossa grande amizade floresceu.
Desde então ele me conta tudo, às vezes duvi-
dando se eu realmente o entendo, mas eu ouço
e entendo tudo perfeitamente – eu o escuto,
me deixo estar disponível. É uma via de mão
dupla, já que adoro a atenção dele também.

Assim os dias se repetiam e tudo estava óti-

[38] [35]
mo, até que algo aconteceu. Hoje eu nem me de quadro depressivo, pois o desânimo era ta-
recordo bem, mas fato é que fiquei estéril. O manho que cheguei a pensar se não foi um erro
Sálvio conversou comigo na época, falando que confiar em Sálvio, mas logo superei. Acabou
seria para meu bem, que do contrário eu pode- sendo melhor, no final das contas. Sinto que
ria ter problemas de saúde. Me pediu para de lá para cá me tornei mais paciente, sóbrio
confiar nele. Fui para a cirurgia. De lá saí e ponderado. Se perdi o vigor e virilidade da
sem minhas bolas. mocidade, ao menos conquistei a sabedoria e
equilíbrio dos anciãos. Já não deixo os sen-
Foi um divisor de águas. Ganhei peso e a mi-
timentos palpitarem exasperados como o bater
nha libido despencou. Foi uma coisa absurda,
de um rabo em frenesi quando o passeio é
pois desde então a pipa do vovô, que na época
anunciado – pelo contrário, espero calmamente
ainda era muito jovem, nunca mais subiu. O
se diluírem e se assentarem em meu peito. A
meu interesse por Rosinha evaporou da noite
vida é o que é, afinal.
para o dia – acabamos por nos afastar. Desen-
volvi o hábito de ficar mais em casa, já não Acho que o único arrependimento que tenho é o
saía tanto. A rua tem seus perigos, por que de ter me afastado de Rosinha. Não sei o que
me sujeitar de forma tão imprudente a eles? me deu, mas aquela paixão carnal e intensa
Além disso, em casa tinha tudo de que preci- que tanto queimava meu peito se extinguiu as-
sava: comida, água sempre fresca, cama e meu sim, num piscar de olhos. Poderia ter insis-
espaço separado para fazer as necessidades. tido, penso às vezes, vai que era do ciclo
Se saía? Ainda saía, é claro, pois algumas das coisas. Não dizem que toda paixão tem
coisas não têm cômodo separado que dê conta, aquela etapa mais ardente? Vai ver a minha só
mas essas saídas já eram mais modestas. cessou e eu, assustado, estraguei tudo. Nunca
vou saber. Já não me importa também, porque
Nunca mais fui o mesmo.
não tem como voltar atrás. Rosinha há muito
Às vezes me pergunto se não entrei num início que se mudou e nunca mais soube de seu para-

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