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Lembro de brincar criança na beira da praia, folgando com as marolas que rebentavam na areia.

Acreditava que elas podiam me ouvir e entender. Cresci com as ondas querendo ser um homem do
mar.
N a escola desenhava sempre nos cantos dos cadernos as ondas nas quais começava a surfar. O
gosto pelo desenho, aprendido com minha mãe, misturado com o gosto de saber como as coisas
eram feitas , herdado do meu pai, me levou a escolher a graduação em desenho industrial, na minha
cabeça da época, a média aritmética entre arte e técnica.
Durante o curso tive dois grandes professores: Urian Agria de Souza que me conduziu no processo
de investigação da linguagem plática e Ana Maria Branco que foi mestra, companheira e me
ensinou a transpor o diálogo plástico para uma dinâmica projetual que incluia a experimentação
material orientada pela interação e convivência com um grupo social.
Conheci Urian quando ele veio substituir o professor de desenho de observação Germano Brum.
Urian chegou com uma tela embalada em papel kraft. O embrulho tinha um pequeno rasgo através
do qual pude ver uma tecitura leve, suave como se fossem brumas. Fiquei vidrado na dimensão
espiritual daquele pequeno pedaço de pintura e me senti impulsionado a estudar com aquele
professor. Descobri que um grupo de doze alunos se encontrava todas as sextas feiras epara estudar
pintura com Urian.
Fui até lá, era um dia de apresentação, cada um dos integrantes do grupo tinha uma pilha de
trabalhos do ano, eram pinturas sobre papel, cada monte devia beirar uma centena de pinturas.
Folheando os trabalhos pude perceber como cada conjunto tinha uma unidade, uma coerencia
própria e uma pergunta muito forte nasceu para mim: como será o meu trabalho? O que acontece
quando a gente se dedica profundamente ao diálogo com materiais, técnicas gestos e temas como
aquele grupo fazia?
Comecei pelo óbvio: ondas! Onda de surfista, queria fazer alguma coisa bem parecida com aquelas
que apareciam nas revistas. Tubos! Ah! Tubos perfeitos. O Velho Urian parecia não ser seduzido por
aquelas idéias e, muitas vezes, olhava os trabalhos e não dizia nada, exceto algumas diretrizes
como: quantidade é qualidade; pense na diferença entre idéia e pintura; continuidade é o grande
segredo; inspiração é “papo de amador”.
Bem, de tanto desenhar ondas fui exaurindo as possibilidades. De início os mesmo ãngulos e
posições, depois variações de aproximação, enquadramento, quantidade de elementos, normalmente
desenhos rápidos, de quinze minutos, até que consegui ficar quase uma hora no mesmo trabalho,
cheio de detalhes e achei que estava no caminho certo.
Minha surpresa foi descobrir no desenho seguinte uma grande explosão de traços, praticamente
agredindo o papel. Descobri então que a sensação e o gestual estavam intimamente ligados ao ato
de pintar e podiam ser expressão do tema de uma forma mais ampla e profunda simultaneamente.A
força da arrebentação, a fluidez da água, o rítmo. O mergulho nesse processo abriu meus olhos para
as propriedades dos materiais, suas possibilidades, pintar dialogando com a matéria e com o tema .
A continuidade do processo me levou ao elemento água de uma forma ainda mais abstrata, fui
tomando consciência de sentidos arquetípicos desse elemento e, com isso, uma prrofunda mudança
no olhar. O mar lá fora não era mais o mesmo, nem era mais possível estabeler uma fronteira entre o
dentro e o fora e eu então começava a entender o que o Urian queria dizer com perceber a diferença
entre ter uma idéia e pintar.
Ainda como alunotive aulas de projeto com a professora Ana Branco. Aulas diferentes, em uma sala
de aula sustentada por duas jaqueiras, paredes de treliça e cobertura de lona . No centro o lugar do
fogo. Como aprendizado principal a observação do outro. A partir da escolha de um grupo social,
conviver com eles e,em suas atividades, exercitar o olhar , compreender, representar e interagir
plásticamente a partir de suas próprias metas. Conhecer cultura e valorizar modos de fazer, artes de
fazer, saberes locais.
Em meus projetos de graduação conheci gente de verdade, fiz amigos. Conheci Itaércio Rocha,
maranhense, artista popular, ator e bailarino e seu grupo de folguedos populares. Acompanhei seu
processo de organização do conhecimento empírico, trocamos reflexões e afinamos as
representações plásticas convivendo com o processo de aprendizagem de um grupo de Cacuriá,
dança de roda maranhense.
Conheci jaime Aroxa e seu grupo de dança de salão , valorizamos juntos, utilizando ilustrações em
aquarela a formação do casal, os diferentes dpapéis exercidos por dama e cavalheiro, a preparação
para a dança.
Também Charles Nelson, coreógrafo e professor de dança afro-brasileira. Acompanhei seu grupo
em ensaios, apresentações, aulas, terreiros de candomblé, festas. Fizemos juntos um vídeo com o
“making of” do seu trasbalho, usando trechos de animação stop motion.
Para concluir trabalhei em uma escola montessoriana com a professora Flávia de Souza Pires com o
tema educação dos movimentos. Fizemos sequencias ilustradas das ações do cotidiano da criança na
escola, estudando uma linguagem apropriada aos objetivos da professora e à compreensão da
criança.
A vontade de conhecer e continuar os processos de aprendizagem detonados por esses professores
me fez monitor de suas disciplinas seguidas vezes. Descobri no diálogo com pesquisadores e alunos
a oportunidade de reflexão, aprofundamento, e elaboração do discurso.
Ainda aluno da graduação comecei a trabalhar com um grupo de crianças na escola onde fazia o
projeto de conclusão da graduação, trabalhando na oficina de artes.
Como continuidade da graduação continuei na PUC com uma bolsa de aperfeiçoamento do CNPq,
trabalhando com o pesquisador José Luiz Mendes Ripper, sendo o responsável pelo setor de
documentação das pesquisas, registrando os processos, experimentos e resultados obtidos.
Utilizávamos ilustração, animação, fotografia e vídeo.
Meus professores e Heliana Pacheco, então coordenadora do curso, me ofereceram outra
oportunidade e tive em 1996 minha primeira turma de desenho de observação na PUC.
Já no semestre seguinta minha primeira turma de projeto.
Em 1999 concluí o mestrado: Contrução de Casa e Pensamento com Terra e Bambu, orientado pelo
professor Ripper, onde pesquisei a elaboração de um processo de construção possível para crianças
a partir de diversos experimentos realizados com um grupo da escola Aldeia, a mesma em que fiz o
projeto final. Durante a pesquisa buscamos definir o processo de construção levando em
consideração sustentabilidade, coletividade, afetividade entre outros aspectos.
Desde então participei de diversos projetos como o programa Universidade Solidária em Queimadas
no sertão da Bahia, onde conhecemos, acompanhamos, interagimos e documentamos processos de
produção de artesanias.
Trabalhei também com um grupo de professoras da Rede Municipal de Ensino, numa parceria com
o Conselho Comunidade Escola do CIEP João Goulart onde, com o apoio da Fundação ABRINQ
para os direitos da criança orientei junto com a professora Renata Mattos Eyer o desenvolvimento
de brinquedos paradidáticos a partir da experiência das professoras em seus campos de trabalho.
Participei da equipe do Departamento de Artes e Design como piloto de comunicação do
componente social do Programa de Assentamento popular ( PROAP II ), projeto social da
prefeitura, onde realizamos o mesmo trabalha de observação participante nas comunidades
beneficiadas pelo projeto, documentando as inciativas locais e seus resultados alcançados com o
apoio da prefeitura.
Como professor de projeto básico na PUC, formamos um grupo de pesquisa, reunindo 6
professores, realizando experimentos didáticos, estudadndo e formatando a proposta da disciplina,
escrevendo artigos, apresentando em seminários e expondo alguns dos resultados obtidos.
Essa proposta do desenho interativo ou desenho social, na qual o aluno convive através de
observação participante com um grupo social em suas atividades, nos rendeu diálogos e parcerias
com outras instituições como ABBR, INES, INOSEL, EQUITAR, Benjamim Constant, APAE,
Escola Nacional de Circo, Hospital da Lagoa, Rede Municipal de Ensino, entre outras.
Atualmente integro a equipe do projeto: “O Caminho das Coisas – Estética e Cultura em uma
Comunidade Quilombola” que conta com apoio da FAPERJ e tem por objetivo a realização de um
inventário de fazeres e saberes da comunidade e o modo como são produzidos os objetos
reconhecidos como próprios da cultura da comunidade.