Você está na página 1de 25

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PLANO DE APERFEIÇOAMENTO TÉCNICO


CIENTÍFICO

PROJETO DE PESQUISA

A CONSTRUÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DO
PROTAGONISMO DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL NO
DEBATE DA ECONOMIA ANTIGA

PROF. DR. ALEXANDRE GALVÃO CARVALHO


Prof. Titular do Departamento de História da Universidade Estadual do
Sudoeste da Bahia (UESB)

PLANO DE APERFEIÇOAMENTO TÉCNICO CIENTÍFICO


apresentado ao Departamento de História como Pré-requisito para fruição
de Licença Sabática a ser desenvolvida no programa de pós-graduação
em História da Universidade de Brasília

Vitória da Conquista
Setembro de 2015

1
PLANO DE APERFEIÇOAMENTO TÉCNICO CIENTÍFICO
PLANO DE TRABALHO

TÍTULO: A CONSTRUÇÃO E CONSOLIDAÇÃO DO PROTAGONISMO DA


CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL NO DEBATE DA ECONOMIA ANTIGA.
PROPONENTE: PROF. DR. ALEXANDRE GALVÃO CARVALHO.

1. INTRODUÇÃO

A cultura ocidental costuma realçar a singularidade da civilização grega


na Antiguidade como um elemento fundamental em seu desenvolvimento. O
alfabeto e a democracia são alguns dos elementos atribuídos à cultura clássica
com reflexos nos dias atuais. Tal perspectiva sugere que a Grécia clássica
criou o mundo moderno, mas talvez seja melhor afirmar que o mundo moderno
criou a Grécia Clássica. Mas, segundo Jack Goody (2008), a historiografia não
costuma atribuir aos gregos a invenção da economia, pois, dentre outros
motivos, não se encontrava lá uma economia de mercado. Mas, se de acordo
com Finley, o mundo Greco-romano não apresentava aspectos capitalistas em
sua economia, ele também não era igual ao Antigo Oriente Próximo. Havia
também na economia um corte em relação à Idade do Bronze que mais tarde
iria contribuir para o caráter singular da Europa. É a construção desse caráter
particular no debate acerca da economia antiga que pretendemos investigar
nessa pesquisa.
A relação entre Ocidente e Oriente foi constante nos debates acerca da
economia antiga. Desde o centenário debate do oikos, iniciado na Alemanha,
na segunda metade do século XIX, até os trabalhos de Moses Finley sobre a
economia Antiga, as comparações entre o Ocidente, particularmente, o mundo
Greco-romano; e as sociedades do Antigo Oriente Próximo, particularmente,
Egito e Mesopotâmia, estiveram no centro dos debates. As comparações entre
comércio e mercado, além do papel do mercador foram temas privilegiados de
tal abordagem comparatista.

2
No centenário debate do oikos, Eduard Meyer (1955), estudioso alemão
do mundo antigo, crítico à teoria de que o oikos dominou todo o mundo antigo,
defendida por Karl Bücher e Karl Rodbertus, destacava a importância do
comércio e dos transportes na vida econômica da Antiguidade, tanto no mundo
Greco-romano quanto no Antigo Oriente Próximo. Ao afirmar a existência de
manufaturas e de dinheiro em grande escala, Meyer pressupunha que a
organização das atividades econômicas da Antiguidade seguia o modelo do
mercado.

2. DELIMITAÇÃO DO TEMA

O debate do oikos se iniciou em 1895, no III Congresso de Historiadores


alemães, quando Eduard Meyer teceu críticas contundentes ao modelo
evolucionista dos estágios econômicos do economista Karl Bücher. Entretanto,
para se entender os argumentos que permeiam este debate e seus
desdobramentos, é fundamental conhecermos as reflexões de Karl Marx (1818-
1883) das sociedades pré-capitalistas - tecidas no contexto mais geral do
capitalismo - de características abstratas, gerais e dispersas no conjunto de
sua obra, mas que se constituem em uma referência fundamental para o
entendimento das ideias dos protagonistas do debate do oikos e de outros
pensadores paradigmáticos da historiografia moderna que se debruçaram
sobre a economia antiga, como Max Weber, Karl Polanyi e Moses Finley.
Em seu modelo das relações de produção de formações pré-capitalistas,
no capítulo dos Grundrisse, intitulado Formações Econômicas pré-capitalistas,
Marx parte do pressuposto de que as sociedades pré-capitalistas diferem das
sociedades capitalistas porque naquelas o indivíduo se relaciona com as
condições objetivas de seu trabalho como sua propriedade, configurando uma
unidade natural do trabalho com seus pressupostos objetivos. Tal unidade é
vista por Marx como uma relação espontânea – natural - e sua dissolução, que
só é completada no capitalismo, é um processo histórico, no qual há uma
transformação das relações do indivíduo com a comunidade, uma
individualização, sendo a troca um dos agentes dessa individualização.
Portanto não é a unidade do ser humano com as condições naturais,
inorgânicas, nos quais as condições originais de produção aparecem como

3
pressupostos naturais, que se constituem como resultado de um processo
histórico, mas a separação entre essas condições inorgânicas da existência
humana e essa existência ativa, uma separação que só está posta por
completo na relação entre capital e trabalho assalariado. Marx, portanto, está
preocupado aqui, antes de tudo, com o processo que supõe a dissolução do
indivíduo como proprietário, em relação à terra - condição natural de produção
-, como os seus instrumentos de trabalho e condições objetivas de produção,
das quais os próprios trabalhadores fazem parte diretamente (MARX, 2011, p.
648-660). Marx tende a acentuar em sua análise mais os pontos de contato
que as diferenças específicas entre as várias formações econômicas pré-
burguesas, entendidas primordialmente como distintas do capital.
Nas distintas formas de propriedade nas sociedades pré-capitalistas, a
finalidade do trabalho não é a criação de valor, mas a conservação do
proprietário singular e de sua família, bem como da comunidade como um todo.
Estas formas, advindas das sociedades tribais, são definidas por Marx como
asiática, eslava, antiga e germânica. Na forma oriental, a propriedade só existe
como propriedade comunitária, o membro individual enquanto tal é somente
possuidor, hereditário ou não, de uma parte particular como membro imediato
da comunidade. Existe só comunidade coletiva, e só posse privada, sendo
modificada historicamente de forma muito desigual, dependendo se o trabalho
é realizado isoladamente pelo possuidor privado ou determinado pela
comunidade ou pela unidade pairando acima da comunidade particular, que se
situa acima de todas essas pequenas comunidades, que aparece como o
proprietário supremo ou o único proprietário, sendo o déspota o proprietário
real e o pressuposto real da propriedade comunitária. Com isso, o produto
excedente pertence à coletividade, extraído por meio do tributo ou no trabalho
coletivo para a glorificação da unidade, em parte do déspota real, em parte do
ente imaginário do clã, do deus determinado legalmente em razão da
apropriação real pelo trabalho (MARX, 2011, p. 628 - 630).
Na segunda forma de propriedade, relacionada com as sociedades greco-
romanas, o solo é ocupado pela comunidade, é solo romano (Marx se voltou
prioritariamente para a sociedade romana); uma parte continua sendo da
comunidade, outra parte é repartida e cada parcela do solo é romana pelo fato
de ser a propriedade privada, o domínio de um cidadão, a cota que lhe

4
pertence. Ser membro da comunidade continua sendo aqui pressuposto para a
apropriação de terras, mas, como membro da comunidade, o indivíduo singular
é proprietário privado. Como a comunidade (Estado) é aqui o pressuposto da
propriedade da terra – i.e., da relação do sujeito trabalhador com os
pressupostos naturais do trabalho como pertencentes a ele –, esse
pertencimento, no entanto, é mediado pelo seu ser como membro do Estado
(MARX, 2011, p. 635-636).
Tanto no Ocidente como no Oriente a propriedade da terra e a agricultura
constituem a base da ordem econômica, contudo a forma asiática se mantém
com mais tenacidade, resistindo mais as mudanças históricas em virtude da
unidade entre agricultura e manufatura e pela ausência de autonomia do
indivíduo em relação à comunidade. No Ocidente, onde já existe a separação
entre os membros da comunidade como proprietários privados de si mesmos
como comunidade urbana e proprietários de território urbano, já estão dadas as
condições pelas quais o indivíduo singular pode perder sua propriedade, i.e., a
relação dupla que o torna cidadão igual aos demais, membro da comunidade, e
que o torna proprietário. Na forma oriental, essa perda dificilmente é possível,
exceto por influências completamente externas, uma vez que o membro
singular da comunidade jamais entra em uma relação livre com ela, e pela qual
ele possa perder seu vínculo (objetivo, econômico com a comunidade). Ele é
enraizado. Por outro lado, isso depende também da associação entre
manufatura e agricultura, entre cidade (o povoado) e campo. Entre os antigos,
principalmente os romanos, a manufatura já aparece como corrupção (negócio
de libertos, clientes, estrangeiros) etc. Esse desenvolvimento do trabalho
produtivo, que necessariamente resulta do intercâmbio com estrangeiros,
escravos, do desejo de trocar o produto excedente etc., dissolve o modo de
produção sobre o qual a comunidade se baseia (MARX, 2011, p. 655 - 656).
É importante ressaltar aqui que Marx conhecia bem a história da
Antiguidade clássica (greco-romana), mas, tinha pouco conhecimento do Egito
e do antigo Oriente Próximo. Marx não tratou dessa região nesse período.
Mesmo referências casuais a ela são escassas, embora isso não signifique que
eles desconsiderassem seus problemas históricos. Suas menções às
formações asiáticas estão mais voltadas para a Índia, com material que
adquiriu com os economistas clássicos que leu ou releu no começo da década

5
de 1850 (Princípios, de J. S. Mill; Adam Smith; Palestra introdutória, de Richard
Jones, em 1851). A forma “asiática” apresenta-se como um dos modos de
realização da “propriedade comunitária”, uma primeira diferenciação histórica.
Para Marx, a existência de uma forma relativamente elaborada de Estado, o
despotismo oriental, que detém a propriedade do solo, não parece contradizer
o fato de que na base deste tipo de sociedade encontra-se a propriedade tribal
coletiva. Ele parecia discernir na Índia os vestígios, os documentos ainda vivos
daquilo que julgava ser o primeiro tipo de comunidade humana, tornado mais
complexo por processos históricos particulares (SOFRI, 1977, p. 39-40).
Marx parte do exame da essência da sociedade capitalista para extrair
alguns conceitos metodológicos fundamentais: correspondência entre forças
produtivas e relações de produção no modo de produção; relação entre o
trabalhador e condições de seu trabalho; a distinção entre relações de
propriedade e apropriação; distinção entre valor de uso e valor de troca. Seu
método, portanto, é partir do concreto (o capital) para formular suas abstrações
(os conceitos metodológicos gerais), em seguida, retornar ao concreto, às
formações pré-capitalistas, buscando nelas os modos de existência das
categorias que o capital lhe forneceu (SOFRI, 1977, p. 38).
Portanto, de acordo com Marx, no mundo antigo não era possível se
encontrar uma economia unificada em torno do capital, pois o mundo pré-
capitalista se caracterizava por desenvolvimentos limitados e locais, múltiplos,
paralelos e extremamente diversos. Apesar do capital realizar momentos de
unificação, como nas economias dos povos comerciais, estes apareciam como
entidades separadas do resto das comunidades, já que viviam nos poros,
interstícios do mundo antigo. A economia agrária dos povos clássicos e a
mercantil dos povos comerciais, fenícios e cartagineses, apareciam
justapostas, separadas e não como partes de uma mesma economia integrada.
Mesmo limitados, o processo de circulação de bens e o surgimento do valor de
troca podem modificar a produção, com uma ação desagregadora, mas na
antiguidade Clássica, isto ocorre sem que cheguem a provocar a derrubada
das relações econômicas predominantes. Nas sociedades greco-romanas, mas
não nas asiáticas, o processo de troca, apesar de separado da produção, tem
efeitos parciais sobre a própria produção, cedendo lugar a conjunção parcial
entre valor de troca e valor de uso, pois este aparece no início e no fim do

6
processo: o dinheiro é um mediador da troca de produtos. Assim, o capital
comercial aparece como um mediador entre extremos que ele não domina e
entre pressupostos que não cria (CARDOSO, 2011, p. 33-36).
Mesmo com a separação do trabalho artesanal e comercial da agricultura,
a Antiguidade Clássica, mesmo que de forma embrionária, era mais dinâmica
que o mundo asiático, mais próximo da “comunidade primitiva”, mais “estático”,
contudo, o capital e as mercadorias nunca conseguiram integrar a economia do
mundo greco-romano. Daí o caráter limitado do poder de dissolução das trocas
sobre a economia das comunidades antigas, que, em última instância,
dependiam da estrutura interna dessas comunidades (CARDOSO, 2011, p. 37).
A influência de Marx sobre a historiografia alemã voltada para a economia
antiga e sobre alguns autores paradigmáticos do debate da economia antiga no
século XX é mais clara entre os primitivistas, e, posteriormente, entre os
substantivistas, que ressaltam as diferenças de natureza econômica entre o
mundo antigo e o moderno, presentes em toda a análise de Marx, que localiza
o capitalismo no bojo de transformações históricas originária do mundo
moderno.

Max Weber (1864-1920) retomou as questões levantadas por Bücher e


Meyer, e, em um primeiro momento, imergiu em um projeto histórico, discutindo
questões prementes da controvérsia do oikos; em um segundo momento, após
seu colapso nervoso, apresentou uma série de estudos teórico-metodológicos,
por meio dos quais procurou solucionar as lacunas teóricas dos membros da
“Escola Histórica de Teoria Econômica”; finalmente, em um terceiro momento,
já maduro, desenvolveu um projeto histórico-sociológico, no qual seus
conceitos teóricos são complementados por uma erudição histórica
impressionante, sobre os mais diversos temas.

As análises mais específicas de Weber sobre a civilização grega antiga


estão contidas em dois livros. O primeiro, Agrarverhältnisse im Altertum,
inicialmente escrito em 1897, reescrito no ano seguinte e, finalmente, publicado
em 1908, foi traduzido para o inglês, em 1909, sob o título The agrarian
sociology of ancient civilizations. Nele, Weber apresenta um painel amplo
da organização econômica e social das sociedades do mundo antigo, última
contribuição mais direta de Weber para a controvérsia do oikos. O segundo é

7
Economia e sociedade, no qual Weber escreve um capítulo intitulado
dominação não legítima (a tipologia das cidades), escrito entre 1911-1914.

Weber cede às críticas dos historiadores modernistas ao limitar a


importância do oikos na economia do mundo antigo e ao seccionar a
Antiguidade em zonas socioeconômicas e culturais distintas, em civilizações,
em que cada uma passou por formas específicas de desenvolvimento. Weber
dá um passo além dos primitivistas, ao separar a pólis clássica da economia do
oikos, associando o declínio do oikos ao desenvolvimento da pólis e,
posteriormente, ao capitalismo. O oikos tem um papel de destaque na Grécia
nos estágios iniciais, no Oriente Próximo e, no final da Antiguidade, no Império
Romano. Esse papel do oikos está associado à realeza no Ocidente e Oriente,
sendo, no entanto, interrompido no Ocidente com o surgimento da pólis
aristocrática e a abolição da realeza. A historicidade desses estágios históricos
dissolve os conceitos unitários elaborados por Bücher, em que a visão linear é
substituída por uma visão cíclica, diferente daquela de Meyer, que relacionava
períodos da Antiguidade com períodos da Idade Média de forma homóloga.

Em The agrarian sociology of ancient civilizations, Weber aponta o


desenvolvimento de um particularismo militar urbano da pólis grega como o
principal elemento diferenciador das monarquias burocráticas do Oriente
Próximo. Em contraste com o crescimento de um séqüito real extremamente
dependente do rei no Oriente, na Grécia assistiu-se a uma dominação dos
séqüitos reais e, conseqüentemente, ao desenvolvimento de um exército
recrutado entre os pequenos fazendeiros rurais que podiam prover seu próprio
equipamento militar. Esta particularidade levou ao enfraquecimento do poder
real e à ausência de burocracias reais e de grandes Estados, traço marcante
do desenvolvimento das monarquias orientais (WEBER, 1998, p. 157-158).

A linha de continuidade entre The agrarian sociology of ancient


civilizations e Economia e sociedade é o estudo dos fundamentos da cidade
associados ao desenvolvimento também peculiar ao Ocidente. A perspectiva
da burocracia como um elemento fundamental da dominação racional em
Economia e Sociedade parece entrar em contradição com o papel da
burocracia apresentado em The agrarian sociology of ancient civilizations,
embora seja preciso especificar a que burocracia Weber estava se referindo.

8
Em algumas conferências, proferidas em 1909, ele teceu críticas à burocracia
prussiana de forma muito parecida às críticas feitas em The agrarian
sociology of ancient civilizations às sociedades do Antigo Oriente Próximo e
mesmo à Roma imperial. A Grã-Bretanha, os Estados Unidos e a França
forneciam, naquele momento, os pontos comparativos positivos. Apesar de
criticar o ideal burocrático de vida, Weber preferia a burocratização da
sociedade capitalista moderna à paz e segurança da burocracia total prometida
pelo socialismo. É à burocracia prussiana e ao socialismo que Weber se volta
na época de The agrarian sociology of ancient civilizations, e não às
sociedades capitalistas modernas, consideradas por ele mais “arejadas”
(NAFISSI, 2005, p. 122).

A grande contribuição de Weber em relação à controvérsia do oikos é o


redirecionamento do caráter “primitivo” do mundo antigo, deslocado do oikos,
segundo ele, predominante no Oriente, para a pólis. Este redirecionamento
levou-o a explorar os traços distintivos da organização política da cidade-
Estado para caracterizar suas formas de dominação e seu capitalismo. A sua
preocupação obsessiva com a racionalidade burocrática, em Economia e
sociedade, como característica definidora do mundo moderno, limitou seu
interesse e obscureceu sua visão da Antiguidade, dificultando uma melhor
construção das especificidades históricas daquela realidade. Na verdade,
Weber abriu um caminho a ser explorado por aqueles que queriam trilhar pelas
pegadas do primitivismo, sem continuar nas teias do evolucionismo linear de
Bücher e Rodbertus.

O substantivismo polanyiano foi a mais elaborada resposta às críticas


modernistas dirigidas aos primeiros trabalhos dos primitivistas em relação à
economia antiga. Em 1947, o húngaro Karl Polanyi se tornou professor visitante
da Universidade de Columbia, e trabalhou em um programa de pesquisa
interdisciplinar acerca da origem das instituições econômicas intitulado “os
aspectos econômicos de crescimento institucional” com um grupo de
colaboradores que desembocou na publicação de Trade and market, em
1957. Neste livro, Polanyi escreveu um capítulo sobre Mesopotâmia e a Grécia,
além de capítulos teóricos sobre o processo de institucionalização da
economia. Em 1977, Harry Pearson editou uma série de escritos dispersos de

9
Polanyi, nos quais este aprofundava muitas das questões teóricas de Trade
and market, e teceu uma série de reflexões sobre a Grécia antiga. Este livro foi
intitulado The livelihood of man, e sem dúvida, é o trabalho que está mais
próximo do objetivo de nossa pesquisa.

A emergência das transações econômicas, segundo Polanyi, deve ser


procurada nas formas integrativas das sociedades tribais e arcaicas, e não na
dissolução dos tabus e no nascimento dos instintos aquisitivos naturais dos
homens. Diferente do que sugeria o racionalismo econômico do século XIX, a
troca expandiu-se na economia quando podia servir à validação da
comunidade, isto é, quando podia ser feita sem lucro, podia ser conseguido por
meio de equivalências. A troca era legitimada, na medida em que se
estabelecia a equivalência daquilo que era trocado. Tal processo foi
reconhecido pelo Estado mesopotâmico, no qual as equivalências eram
legitimadas, inclusive pelos representantes da divindade. No caso das
pequenas cidades-Estados - como Atenas (parcialmente) e Israel, de tipo
camponês, - já são permitidas transações lucrativas, como meio de
sobrevivência, feitas abertamente no mercado, sem a exclusão das
equivalências. Contudo, a ágora ateniense, apesar de ter admitido a troca
lucrativa entre seus membros, não conheceu a liberdade de comércio no
sentido moderno, e a cidade-Estado continuou a praticar todas as prerrogativas
do corpo tribal sobre seus membros. Tais desenvolvimentos desiguais das
transações econômicas no tecido social resultaram em desenvolvimentos
políticos e econômicos diferenciados (POLANYI, 1977, p. 61-62).

Enquanto Weber acreditava que o poder da burocracia estatal, no


Oriente, inviabilizava a formação de cidadãos que pudessem fazer frente ao
poder do soberano, tornado-os muito mais dependentes do poder real que no
Ocidente, Polanyi acreditava que a ausência de mercados era resultado de
métodos administrativos poderosos fortemente mantidos nas mãos da
burocracia central, pois, as transações sem ganho e as disposições reguladas
pela lei revelavam uma esfera de liberdade pessoal nunca anteriormente vista
na vida econômica do homem. Parece-nos, aqui, que as formas de integração
assumem uma importância superior àquela que Weber dedica à intervenção
estatal nas formas de organização econômica. Por outro lado, tanto Weber

10
quanto Polanyi viam um incremento das transações econômicas no Ocidente.
Enquanto Weber via tais transações marcadas pela ausência de racionalidade
econômica voltada para o lucro, principalmente pela ausência de um mercado
livre, não estamental, Polanyi não acentuava a questão da racionalidade
econômica para diferenciar o mundo antigo do moderno, mas, sim o
predomínio de certos tipos de integração e a presença do caráter transacional
no Ocidente e disposiocional no Oriente. Uma conseqüência dessa perspectiva
foi a presença de um mercado de alimentos na Grécia antiga, a ágora, e a
ausência de mercados no Antigo Oriente Próximo.

Desde os alemães, passando por Polanyi, há pontos similares na


defesa de alguns pressupostos sobre a economia antiga, em particular, a
oposição aos cânones modernistas e a procura de uma especificidade ao
mundo antigo. Essas similaridades podem ser entendidas como uma tradição
de pensamento no seio desse debate. Os trabalhos de Finley relacionados com
a economia antiga vêm consolidar esta tradição. As grandes questões
investigadas por Finley sobre a economia e sociedade grega, desde os anos
30, estão presentes nos capítulos de A Economia Antiga, daí a importância
deste livro, escrito na fase mais madura de Finley, sua maior contribuição ao
debate do oikos.

As reflexões de Finley sobre a economia da Grécia antiga inserem-se


no seio da História Social. A análise de Finley constitui o ponto culminante dos
temas de economia antiga desenvolvidos pela tradição primitivista-
substantivista, agora no constexto da História Social. Na verdade, desde
Bücher, ainda no âmbito do historismo, esboçam-se temas e análises de uma
História preocupada com setores da sociedade que ultrapassam os muros de
uma estrita História Política.

Finley (1980) define “antigo” apontando as diferenças culturais, sociais e


políticas entre o Mediterrâneo e as civilizações do antigo Oriente Próximo. Sua
delimitação parece ser coerente com os modelos weberiano e polanyiano na
utilização do Antigo Oriente Próximo como parâmetro diferenciador ao mundo
greco-romano.

Englobar os dois mundos sob a mesma etiqueta de “antigo” seria ocultar


profundas divergências quanto à propriedade, comércio e indústrias privadas.
11
Delimitando o mundo greco-romano como seu objeto e tomando as condições
climáticas e os tipos sociais e políticos dominantes, o mundo greco-romano a
ser explorado concentra-se no período entre 1000 a.C. e 500 d.C., se
configurando, contudo, em uma abstração bastante fluida (FINLEY, 1980, p.
25-29). Finley reconheceu a diversidade de arranjos econômicos nesta enorme
extensão de tempo e espaço, mas coerente com uma proposta weberiana,
insistiu na idéia de que era necessário se concentrar nos tipos dominantes, nos
modos característicos de comportamento (FINLEY, 1980, p. 34).

As justificativas para falar de economia antiga não são os elementos que


caracterizam as economias modernas, mas a unidade política e o quadro
cultural-psicológico comum nos séculos finais do mundo antigo (FINLEY, 1980,
p. 23). Em escritos posteriores sobre o livro A Economia Antiga, Finley
continuou defendendo esta categoria e insistindo nas razões não econômicas
para falar de economia antiga. As exceções não invalidavam seu modelo, pois
a existência de exceções era inerente ao conceito de tipo ideal. Os erros de
sua análise não deveriam ser atribuídos aos exageros ou exceções
esporádicos, mas aos exageros que pudessem invalidar seu modelo como um
todo. Finley continuava defendendo o uso de modelos, tipos ideais e teorias de
forma explícita, em detrimento do acúmulo de evidência (FINLEY, 1984, p. 5-
11).

3. JUSTIFICATIVA

O trabalho que pretendemos desenvolver tem um caráter historiográfico


e transdisciplinar. O diálogo entre a História, social e econômica, e a
Antropologia econômica será permanente no desenvolvimento da pesquisa.
Procuraremos desvendar as contribuições da Tradição Histórica Alemã, da
Antropologia econômica e da História social para o entendimento da
construção da particularidade do Ocidente em relação ao Oriente na economia
antiga.

O contexto intelectual do debate do oikos, das reflexões de Weber, da


guinada antropológica dos trabalhos de Karl Polanyi e da defesa da História
Social no seio do debate da economia antiga, feita por Moses Finley, são
fundamentais para se entender como se forma uma tradição de pensamento,
12
que definimos como primitivista-substantivista, responsável pelos paradigmas
da particularidade do Ocidente.
A contenda Bücher e Meyer abre uma discussão sobre o mundo antigo
e traz em seu bojo o papel da História no seio das ciências naturais e culturais.
O Idealismo (Idealismus) exerceu forte influência sobre os historiadores
alemães, estando presente nas obras de Humboldt, Hegel, Dilthey, Herder e
Ranke, entre outros. As obras desses autores foram as mais representativas da
tradição histórica alemã e, similarmente ao movimento iluminista, opunham-se
à idéia de que o passado devesse ser utilizado como “uma coleção de
exemplos a ser usados para glorificar o homem, o progresso e o presente, para
construir máximas genéricas da arte do governante, ou para tabular os avanços
da ciência e da razão” (RINGER, 2000, p. 104-105).

Outro traço desta tradição é a crença de que a História deve constituir-se


em uma disciplina científica. O ambiente político e cultural do processo de
cientificização da História nas universidades alemãs do século XIX refletia uma
ordem social moderna, em que a sociedade burguesa integrava-se a um
estado monárquico burocrático. Contudo, como ciência cultural, a História
distanciava-se do objetivo cognitivo das outras ciências ao não formular
regularidades e ao sublinhar elementos do singular e espontâneo, preocupada
em entender as intenções e os valores humanos (IGGERS, 1995, p. 15-23).

Esta particular concepção de ciência histórica foi denominada de


historismo (Historismus). Tal concepção remonta a Herder, que fundou a idéia
de que cada povo tem seu próprio devir, cujo entendimento não se dá pela
projeção do presente no passado, mas, sim, pela percepção do que é próprio
de cada época. Suas idéias representavam uma reação às tendências
generalizantes do Iluminismo e foram retomadas por Meinecke, na segunda
metade do século XIX, que negava qualquer concepção de leis explicativas
para o processo histórico. Como visão de mundo, o historismo significa que a
realidade tem um sentido e só pode ser compreendida em seu
desenvolvimento histórico, portanto como teleologia social restrita a um
determinado povo (IGGERS, 1995, p. 25-30).
Os trabalhos de Max Weber (1864-1920), na primeira metade do século
XX, sobre a “economia antiga”, estão inseridos no seio do fervoroso debate

13
iniciado na Alemanha no final do século XIX e início do XX, protagonizado por
historiadores e economistas alemães. A posição de Weber nesse debate
encontra-se no liame entre a Escola Histórica de Teoria Econômica e a Ciência
Econômica Austríaca. Em relação à esfera do objeto de estudo da Ciência
Econômica, sua posição está mais próxima à de Schmoller, porém aproxima-se
mais da de Menger quanto ao uso da racionalidade como método da pesquisa
econômica e quanto à idéia que as instituições são o resultado involuntário de
ações individuais.

O contexto da obra de Polanyi e do substantivismo se dá no final dos


anos cinqüenta, momento em que a História seguia em sua progressão para a
captação da “totalidade” auxiliada pelas outras ciências sociais, e a
Antropologia, por outro lado, era dominada por três paradigmas hostis à
investigação histórica: o funcionalismo estrutural britânico (descendente de
Radicliffe Brown e Bronislaw Malinowski); a Antropologia cultural e psico-
cultural norte-americana (herdeira de Margaret Mead e Ruth Benedict) e a
Antropologia evolucionista norte-americana (de forte afiliação arqueológica,
formada em torno de Leslie White e Julian Steward). Para estes antropólogos,
a Antropologia social era uma ciência próxima das ciências naturais pela sua
tendência a generalização, enquanto a História era incluída entre as ciências
“particulares”. A ruptura do diálogo entre as duas disciplinas levou a
Antropologia a um “empirismo abstrato” e “grandes teorias” que caracterizavam
a Sociologia nesta época. Predominou entre os antropólogos a concepção de
que antes da dominação européia, todas as sociedades “primitivas” eram
estáticas. Conseqüentemente, estes antropólogos acabaram reduzindo o
problema da História à dualidade primitivo-moderno. Mesmo o estruturalismo
de Claude Levi-Strauss também subestimava a História ao negar qualquer
impacto significativo do acontecimento na estrutura. Esta tendência, entretanto,
não foi geral. No final dos anos setenta, a chamada escola antropológica de
“economia política”, centrava seus interesses nos sistemas econômico-políticos
de “grande escala” e a análise dos efeitos da penetração do capitalismo nas
sociedades agrárias. Para estes autores, os fatores fundamentais da mudança
são o Estado e o sistema capitalista mundial. Não obstante, todos os
antropólogos destas correntes antropológicas, além dos marxistas estruturais,

14
acreditam que a ação humana e o processo histórico são determinados pela
mão oculta da estrutura ou por forças do capitalismo. Neste sentido, a
sociedade (ou a cultura) é uma realidade objetiva com dinâmica própria,
separada da ação humana (CASANOVA, 1991, p. 64-67).

Na segunda metade dos anos quarenta, a Antropologia Econômica já


era um ramo vigorosamente desenvolvido da Antropologia Cultural. Esse
desenvolvimento foi motivado tanto pelas tendências culturais inerentes da
disciplina quanto por fatores externos. A difusão de visões estrutural-
funcionalistas contribui para o desenvolvimento dos estudos das relações
econômicas, particularmente depois das monografias das ilhas Trobriand de
Malinowski. Os estudos de Thurnwald, Malinowski e outros antropólogos
levaram Polanyi a concluir que a economia do homem, em geral, está imersa
em suas relações sociais. A partir destes trabalhos antropológicos, Polanyi
tomou as sociedades primitivas para formular sua alternativa do anti-mercado
evolucionista. Contudo, além de utilizar estes conceitos para as sociedades
primitivas, os ampliou para além das formações primitivas, utilizando-os como
uma alternativa para a teoria geral de desenvolvimento econômico de Bücher
ou a teoria de modos de produção de Marx.

O paradigma de Polanyi, apesar dele mesmo ter afirmado ser uma


contribuição institucionalista para a História econômica, um desenvolvimento
do legado de Weber, permanece não somente pré-weberiano, mas, também,
pré-sociológico e transhistórico (NAFISSI, 2005, p. 166-167). Acreditamos que
esta postura está intrinsecamente relacionada com a tendência, na primeira
metade do século XX, de proximidade da Antropologia com as ciências naturais
e seu pouco contato com a História. Esta tendência a-histórica de Polanyi se
confirma pela sua crença da imutabilidade da natureza humana.

A mudança de perspectiva na tradição primitivista-substantivista está


presente nos trabalhos de Finley, que constituem uma defesa dos princípios da
História Social no campo da História Antiga, particularmente, na economia
antiga, pela exploração de três temas: discussão sobre os fatos e as fontes;
utilização de modelos; e defesa da História total.

A partir dos anos 60 e 70, do século XX, a História Social consolidou-se


nas universidades como uma tendência dominante, contudo a sua definição é
15
ampla e ambígua. Todos os esforços de definição de seu objeto e vocabulário
oscilam entre aquelas mais amplas – “história dos homens que vivem em
sociedade” – e outras mais restritas que a reduzem a descrições de grupos
sociais. No primeiro caso, toda História é social, uma idéia que remete à idéia
de totalidade; no segundo, a História Social é vista como um campo de estudo
parcial, comparável a outros âmbitos da História como o econômico, o
demográfico, o político ou o militar. Tudo isso depõe a favor de uma História
Social plural e diversa. A ausência de uma teoria única, de um paradigma
único, ou de um aparato conceitual único para tratar cientificamente os
fenômenos sociais amplia o conhecimento histórico e legitima novas áreas de
investigação. A tendência a um retorno do empirismo e a um ecletismo teórico
deve ser substituída por um entendimento mínimo do vocabulário e da
conceituação teórica indicados para explicar o real significado dos fatos
selecionados. Dessa forma, diferentemente de uma História total, a História
Social constitui-se em uma dimensão presente em qualquer forma de abordar o
passado (CASANOVA, 1991, p. 46-48) e que tem, como elemento constitutivo,
a relação com as outras ciências sociais, com quem, em oposição ao
historismo, alérgico a teorizações, estabeleceu um intenso diálogo desde o
início de sua trajetória, embora nem sempre a disposição dos cientistas sociais
estivesse afinada com a dos historiadores.

Ao longo de sua produção historiográfica, Finley não se furtou em aplicar


modelos explicativos elaborados em outras ciências sociais, dos quais os tipos
ideais de Weber eram os mais familiares aos historiadores. O historiador não
deveria se preocupar em acumular massas de fatos dispersos, mas se
concentrar na experiência típica dos fatos concretos que trouxessem à tona um
conjunto geral mais amplo, isto é: a experiência, junto com suas massas e
interconexões, faria aflorar idéias gerais (FINLEY, 1989, p. XX).

Finalmente deve-se ressaltar que todos estes autores acentuam muito


mais as diferenças do que as similaridades entre as sociedades Greco-
romanas e o Antigo Oriente Próximo. Tal acento é produto do contexto em que
suas reflexões são produzidas. Na versão Finley/Polanyi, a atividade
econômica era em toda parte embedded (imersa) em grandes interesses
sociais, mas os interesses do mundo greco-romano eram muito diferentes

16
daqueles do Egito e do Oriente Próximo. Na Grécia e em Roma, a cidadania
igualitária masculina era muito importante, a maioria das pessoas praticava a
agricultura de subsistência em terra particularmente de outrem, e por mais ou
menos 150 anos, a economia foi amplamente atomizada e estática. No Egito e
no Oriente Próximo, por outro lado, templos e palácios controlavam a terra, o
trabalho e o crédito até as conquistas da Macedônia e permaneceu importante
por longo tempo depois disso.

Hoje é possível observar o quanto tais modelos estavam influenciados


pelas ideologias da época. A influência do socialismo levou Polanyi a negar
qualquer forma de mercado interdependente no mundo antigo e mesmo a
ausência de mercado no Antigo Oriente Próximo. A influência do marxismo
sobre Finley, principalmente na primeira fase de seus trabalhos, o levou a
ressaltar a ausência de capitalismo no mundo antigo, e realçar a cidadania e
democracia como elementos centrais da particularidade ocidental.

Estudos mais atuais, principalmente após o fim da guerra fria, e em uma


perspectiva mais globalista, têm se voltado para as interconectividades na
bacia do Mediterrâneo. Tais trabalhos têm demonstrado a presença de
instituições e estruturas estreitamente comparáveis no Oriente Próximo e no
mundo greco-romano, e mesmo aquelas instituições formalmente diferentes, de
fato, se mostram funcionalmente similares.

Se – como muitos filólogos e historiadores de arte agora reivindicam – a


cultura greco-romana foi um desdobramento da cultura egípcia e do Oriente
Próximo, por que foram os sistemas econômicos dessas amplas regiões do
Mediterrâneo tão diferente como acreditavam os historiadores? Os debates
sobre a cultura mediterrânea exigem que os historiadores de economia
levantem novas questões; e as respostas a essas questões econômicas
necessariamente realimentaram os debates entre os historiadores culturais. No
livro organizado por Morris e Manning, The Ancient Economy. Evidence and
models, publicado em 2005, historiadores econômicos de várias regiões tentam
estabelecer a base para uma história econômica comparativa sistemática do
Mediterrâneo antigo. Eles destacaram os problemas chaves na evidência,
modelos e tradições intelectuais da história econômica de diferentes regiões do
Mediterrâneo em diferentes períodos de tempo. O objetivo do livro é dissipar as

17
confusões conceituais e a ignorância empírica que atualmente complicam a
análise econômica comparativa.

Na coletânea, os organizadores, Morris e Manniing, propõem


construções de metanarrativas, para se saber se ainda é relevante indagar as
mesmas questões feitas por Weber ou Marx (sem falar em Winckelmann ou
Niebuhr). Concomitantemente, propõem a articulação entre História e as
ciências sociais e ter o compromisso de assumir a racionalidade básica de
atores econômicos e sistemas, com o fito de formular modelos explicativos
específicos, e expor esses modelos ao risco de falsificação. Além disso,
entendem que é preciso integrar de forma mais adensada a arqueologia na
história de economia antiga. Em muitos contextos a arqueologia fornece os
únicos dados que podem ser quantificados em uma grande escala, e não pode
haver nenhuma história econômica real sem quantificação. O registro
econômico está sujeito aos processos de formação tão complexos quanto
aqueles que se encontram por trás do registro escrito; assim tal processo não é
simplesmente uma questão de usar um registro material objetivo para corrigir
um textual subjetivo. Mas por outro lado, algumas classes de dados
arqueológicos podem potencialmente ser recuperadas de todas as regiões do
Mediterrâneo antigo, aprimorando nossa habilidade de escrever uma história
comparativa. Além disso, é necessário enfatizar a demografia e tecnologia
antigas, pois a História econômica exige o conhecimento das tendências
demográficas e as possibilidades de produção estabelecidas pela tecnologia,
por mais dispersas e irregulares que sejam as fontes (MORRIS; MANNING,
2005, p. 3-5).

Alguns têm procurado mostrar que há boas razões para acreditar que as
idéias gregas e babilônicas de cidadania não eram tão diferentes como Finley
acreditava. Outros são até mais radicais ao afirmar que instituições e ideias
caras à cultura ocidental foram em muitos casos criadas no Oriente. Esta
perspectiva está fortemente amparada em estudos antropológicos e é
defendida por Jack Goody.

18
Em 2006, traduzido para o português em 2008, Jack Goody, um dos
mais renomados cientistas sociais da Inglaterra, publicou o livro intitulado O
roubo da História. Como os europeus se apropriaram das idéias e invenções
do Oriente. O trabalho abrange um longo período da História: da antiguidade
até os tempos modernos. Goody procura mostrar que a dominação da história
pelo Ocidente é produto de construções teóricas de pensadores como Marx,
Weber, Norbert Elias, Braudel e Moses Finley que ocultaram e ou se
apropriaram das conquistas do Oriente em favor da singularidade e criatividade
de civilizações que deixaram um legado à cultura ocidental. Assim a
contribuição do Oriente não é levada em consideração, e o passado é
conceituado e apresentado por esses pensadores sob a escala provincial da
Europa, freqüentemente da Europa ocidental, e imposto ao resto do mundo.
Porém, para o autor, muitas das instituições afirmadas como criações do
Ocidente são encontradas no Oriente (GOODY, 2008, p. 9-11). Este livro tem
despertado a atenção de muitos historiadores e é sem dúvida produto de
intensos questionamentos aos paradigmas que acentuam as diferenças entre
Ocidente e Oriente.

Em relação à economia antiga, a coletânea organizada por J. Manning e


I. Morris intitulada The Ancient Economy. Evidence and models (2005) é uma
demonstração da vitalidade de construção de novos paradigmas acerca do
Mediterrâneo, e por outro lado, da relevância de estudos sobre a economia
antiga. Os autores paradigmáticos da tradição primitivista-substantivista são
interrogados à luz de novos parâmetros. Segundo Morris e Manning, para se
alcançar uma abordagem mais ampla para história econômica, os historiadores
devem focalizar tanto na execução como na estrutura de economias antigas.
Daí a exigência por novos modelos, novos métodos, e novos tipos de evidência
(MORRIS; MANNING, 2005, p. 4).

Realçando a importância do tema, os autores defendem a posição de


que a análise econômica séria do mundo mediterrâneo antigo mal começou.
Um século de importantes trabalhos criou uma grande base de dados (mas
problemáticas), afiou os métodos (mas um tanto estreitos), e identificou os
problemas fundamentais (mas não os resolveu). Além disso, o campo
permanece radicalmente subteorizado e metodologicamente empobrecido.

19
Teoria, método, e dados são inseparáveis. Arqueólogos e historiadores
produziram grandes avanços na classificação e análise das fontes primárias,
mas não conseguiram construir modelos nem relacioná-los aos fatos empíricos
(MORRIS; MANNING, 2005, p. 2).
A produção historiográfica sobre a economia antiga tem passado por um
intenso processo de revigoramento. Livros como The Ancient Economy
(MANNING, MORRIS, 2005), The Ancient Economy (SCHEIDEL E VON
REDEN, 2002) e Rethinking the mediterranean (HARRIS, 2005) são
coletâneas que apresentam algumas pesquisas recentes sobre o tema e
continuam abordando o debate entre substantivistas e primitivistas. Artigos e
teses sobre a importância do embedded para as sociedades antigas também
estão ao alcance dos pesquisadores em periódicos da área de antiga, ou
mesmo em periódicos de antropologia. Muitos destes periódicos são facilmente
encontrados na biblioteca da Universidade da Universidade de Brasília, ou
digitalizados, disponíveis no JSTOR, acessível pela nossa própria
Universidade. Portanto, os materiais para o desenvolvimento da pesquisa são
de fácil acessibilidade.

Finalmente, a pesquisa compõe parte das atividades desenvolvidas no


grupo de pesquisa Historiografia do mundo antigo (GPHAMA), cadastrado no
CNPQ e sob minha coordenação. O grupo vem discutindo e produzindo
trabalhos nesta linha com discentes e pesquisadores da instituição e de fora.

4. OBJETIVO

O objetivo dessa pesquisa é investigar a construção do caráter particular


do Ocidente no debate acerca da economia antiga. Para isso é necessário
compreender, em primeiro lugar, o contexto intelectual e científico sob o qual
tal paradigma foi construído e, em segundo lugar, as críticas a este paradigma
e os novos modelos, à luz das novas evidencias acerca da economia antiga.

O contexto intelectual da formulação de tal paradigma está associado à


constituição da História como uma disciplina científica. Da Alemanha até Finley,

20
o debate da economia antiga tem existido lado a lado com a afirmação da
história como ciência, com o diálogo com outras áreas de conhecimento, em
particular a Antropologia, economia, arqueologia e ciências sociais, e com
formulação de temas que até hoje estão em pauta nos debates da economia e
das ciências sociais: a presença ou não de mercado no mundo antigo, as
origens do capitalismo e mais recentemente, as interconectividades em torno
do Mediterrâneo.

A pesquisa, portanto, tem um raio de ação cronológico amplo, posto que


o lugar do objeto a ser investigado se localiza no mundo antigo, mas as fontes
primárias privilegiadas serão as reflexões paradigmáticas gestadas no seio dos
grandes debates iniciados no século XIX, instadas pelas interrogações acerca
do caráter e das origens do capitalismo. Como se trata de um trabalho de
historiografia, o objetivo primeiro é investigar os argumentos contemporâneos
acerca da economia antiga, em particular a formulação dos modelos
paradigmáticos. Portanto a questão central é: Como se coloca a relação entre
Oriente e Ocidente no seio do paradigma primitivista-substantivista; e quais as
conseqüências para a historiografia contemporânea do papel de tal paradigma,
aí incluído a sua crítica.

Por meio da análise das obras de Marx, Meyer, Weber, Polanyi e Finley,
tentar-se-á traçar os caminhos dessa longa trajetória de formulação e
consolidação paradigmática, e por meio das teses de Goody, I. Morris, J.
Mannig e W. Harris procurar-se-á desvendar as cortinas ideológicas e
cientificas de tal paradigma e apontar as novas possibilidades de construções
de novos modelos. Eis as hipóteses diretrizes da pesquisa a ser desenvolvida.

5. METODOLOGIA E PROCEDIMENTOS TÉCNICOS

A metodologia de trabalho a ser empreendida na pesquisa será a de


coleta de dados, fontes primárias e secundárias, tratamento das fontes por
meio de fichamentos, cruzamentos dos dados e redação final. Esta pesquisa se
constitui em um trabalho de historiografia, no qual procuraremos investigar o
contexto historiográfico da produção acerca da economia antiga no seio da
tradição primitivista-substantivista e suas críticas posteriores. Daí a ausência

21
de fontes primárias, textos produzidos no período antigo, como objeto prioritário
de nossos estudos. Neste sentido, o que habitualmente consideramos como
fontes secundárias, transformam-se em fontes primárias, particularmente os
trabalhos dos autores paradigmáticos da tradição de pensamento ora
investigada: Weber, Polanyi e Finley.
Para o desenvolvimento satisfatório da pesquisa serão cotejados artigos
em periódicos a serem coletados na Biblioteca Da UnB e por meio da internet,
além de livros atuais que discorram sobre o tema.

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÜCHER, K. Études d’histoire et d’economie politique. Bruxelas; Paris:


Henri Lamertin Éditeur & Félix Alcan Éditeur, 1901.

CARTLEDGE, P. The economy (Economies) of Ancient Greece. In:


SCHEIDEL,W.; VON REDEN, S. (org) The Ancient Economy. New York:
Routledge, 2002, p. 11-32.
CARDOSO, C. F. S. Marx e Engels: história e economia política. Aspectos
gerais e considerações sobre um tema específico, relativo à antiguidade
clássica: a circulação de mercadorias. In: CARVALHO, A.G. A economia
antiga: história e historiografia. Vitória da Conquista: Edições UESB, 2011.
CARVALHO, A.G. A economia antiga: história e historiografia. Vitória da
Conquista: Edições UESB, 2011.

CASANOVA, J. La Historia social y los historiadores. Barcelona: Editorial


Crítica, 1991.

FINLEY, M. The study of the ancient economy. Further thoughts. Opus, III,
1984, p. 5-11.

_______. A Economia Antiga. Porto: Ed. Afrontamento, 1980.

_______. Democracia antiga e moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

_______. História antiga: testemunhos e modelos. São Paulo: Martins Fontes,


1994.

GOOD, J. O roubo da História. Como os europeus se apropriaram das ideias


e invenções do Oriente. São Paulo: Editora contexto, 2008.

HARRIS, W. Rethinking the mediterranean. Oxford: Oxford University Press,


2005.

22
IGGERS, G. La ciencia historica en el siglo XX. Una visión panorámica y
crítica del debate internacional. Barcelona: Editorial Labor, 1995.
MARX, K. A ideologia alemã. Lisboa; São Paulo: Editorial Presença; Martins
Fontes, 1965.
______. Grundrisse. São Paulo: Boitempo, 2011.
______. Prefacio à contribuição à critica da economia politica. In: MARX, K;
ENGELS, F. Karl Marx e Friedrich Engels. Textos 3. São Paulo: Edições
Sociais, 1977. p. 300-303.
MATA, S. A fascinação weberiana. Belo Horizonte: Editora Fino Traço, 2013.

MEYER, E. El historiador y la historia antigua. Estudios sobre la teoría de la


Historia y la Historia económica y política de la Antigüedad. México - Buenos
Aires: Fondo de cultura económica, 1955.

MANNING, J; MORRIS, I. The Ancient Economy. Evidence and models.


Stanford: Stanford University Press, 2005

NAFISSI, M. Ancient Athens & Modern Ideology. Value, theory & evidence in
historical sciences. Max Weber, Karl Polanyi & Moses Finley. London: Institute
of classical studies, 2005.

POLANYI, K.; ARENSBERG, M.; PEARSON, H.W. Comercio y mercado en


los imperios antiguos. Tradução de Alberto Nicolás. Barcelona: Labor
Universitaria, 1976.

POLANYI, K. The livelihood of man. New York; San Francisco; London:


Academic press, 1977.

RINGER, F. O declínio dos mandarins alemães. São Paulo: Edusp, 2000.

SCHEIDEL,W; VON REDEN, S. (org) The ancient economy. New York:


Routledge, 2002.

SCHIAVONE, A. Uma História rompida. Roma Antiga e Ocidente Moderno.


Trad. De Fábio Duarte Joly. São Paulo: Edusp, 2005.
SOFRI, G. O modo de produção asiático. História de uma controvérsia
marxista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
THÉLENE-COLLIOT, C. Max Weber e a história. São Paulo: Brasiliense,
1995.

TURATTI, M.C.M. Antropologia, economia e marxismo. São Paulo:


Alameda, 2011.
WEBER, M. As causas sociais do declínio da cultura antiga. In: COHN, G.
(Org.). Max Weber. Sociologia. São Paulo: Ática, 1981. Col. Grandes cientistas
sociais.
______. The Agrarian sociology of ancient civilizations. Tradução de
FRANK, R. I. London; New York: Verso, 1998.

23
______. Economia e sociedade: Fundamentos da sociologia compreensiva.
Tradução Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa, 4ª edição, Brasília: UnB,
2004. 2v.

7. CRONOGRAMA DE ATIVIDADES

Durante o período de 6 meses da licença sabática, em que estarei atuando


como pesquisador colaborador do Programa de Pós-Graduação de História da
UnB, as atividades a serem desenvolvidas serão as seguintes:

NO ÂMBITO DA PESQUISA
- Levantamento de dados acerca do debate da Economia antiga no Egito
Antigo na Biblioteca da UnB e no sistema de JSTOR;
- Tratamento dos dados levantados e discussão com o professor supervisor;
- Apresentação dos resultados parciais e finais da pesquisa em Congressos
científicos;
- preparar artigo a ser publicado em periódico especializado na da Área de
História antiga.

NO ÂMBITO DAS ATIVIDADES A SEREM DESENVOLVIDAS JUNTO AO


GRUPO DE PESQUISA DA ÁREA DE HISTÓRIA ANTIGA:
- curso, de caráter modular, a ser ministrado aos componentes do grupo de
pesquisa da área de história Antiga. O curso terá duração de 3 meses, com
uma sessão a cada mês, com carga de 1h30 por seção. O curso terá como
temática principal o debate da economia antiga: história e historiografia.
Objetiva-se abordar o debate da economia antiga em uma perspectiva
historiográfica, explorando os seguintes subtemas:

1. Karl Marx: um precursor do debate do oikos;


2. O debate do oikos e seus pressupostos historiográficos;
2.1. A Tradição Histórica Alemã e a contenda entre Bücher e Meyer;
3. Os desbobramentos do debate do Oikos;
3.1. Max Weber e a economia antiga: uma releitura do debate do oikos;
4. O trabalho de Karl Polanyi e o papel da antropologia econômica;

24
4.1. Os desdobramentos do substantivismo polanyiano;

OUTRAS ATIVIDADES
- Eventualmente participar de bancas de mestrado e doutorado de trabalhos da
área de História Antiga;
Eis o cronograma de atividades:

Atividades a Outubr Novembro Dezembro Janeiro Fevereir Março Abril


serem o o
desenvolvidas
Levantamento x x FÉRIAS
de dados
Tratamento x FÉRIAS X
dos dados com
fichamentos e
cruzamento de
dados
Curso e FÉRIAS x x
Redação de
artigo como
resultado final
da pesquisa

25

Você também pode gostar