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A IMPORTÂNCIA DO COMPROMETIMENTO DO ESTUDANTE COM

A SUA APRENDIZAGEM: DISCURSOS DISCENTE E DOCENTE DA


EDUCAÇÃO PROFISSIONAL

SANTOS, Guilherme Mendes Tomaz dos1 - UNILASALLE

FELICETTI, Vera Lucia2 - UNILASALLE

Grupo de Trabalho - Formação de Professores e Profissionalização Docente


Agência Financiadora: não contou com financiamento.

Resumo

O sucesso da aprendizagem estudantil está relacionado a inúmeros fatores, entre eles, a sua
responsabilidade enquanto estudante, ou seja, o seu comprometimento para com o aprender.
Este artigo, de cunho qualitativo versa sobre o comprometimento do estudante com a sua
aprendizagem, tendo como base teórica acerca do tema, autores como Catholico (2009),
Cunha (2000), Felicetti e Morosini (2010) e Meirieu (1998). Estudos envolvendo o
comprometimento discente carece de pesquisas aqui no Brasil, contrapondo pesquisas
voltadas à responsabilidade do professor, as quais são abundantes. Este trabalho foi
desenvolvido no contexto da Educação Profissional em uma escola técnica de Porto Alegre,
no Estado do Rio Grande do Sul. Nesse sentido, buscou-se analisar e refletir acerca do
discurso discente e docente sobre o comprometimento do estudante da Educação Profissional,
para que se possam constituir alguns parâmetros sobre o processo de ensino-aprendizagem
nesse nível de ensino e obtenção de sucesso na sua formação escolar e profissional. A
metodologia usada foi qualitativa e teve como método de coletas de dados um questionário
aplicado a discentes e docentes. O questionário teve perguntas abertas e fechadas. Estas
referentes apenas aos dados demográficos dos respondentes. Das análises realizadas
observou-se o comprometimento, como por exemplo, refletindo positivamente no processo de
ensino e aprendizagem. Desta forma, o comprometimento do estudante na Educação
Profissional é algo para novas discussões e percepções.. É importante que este futuro técnico,
egresso de cursos técnicos, tenha o conhecimento real do seu papel para com a sua
aprendizagem, visto que ele é o protagonista no contexto escolar.

1
Mestrando em Educação do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação do Centro Universitário
La Salle (UNILASALLE) com bolsa pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul
(FAPERGS). Licenciado em Matemática pelo Centro Universitário Metodista do Instituto Porto Alegre (IPA).
E-mail: mendes.guilherme234@gmail.com
2
Doutora em Educação e Mestre em Educação em Ciências e Matemática pela Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul (PUCRS). Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em
Educação do Centro Universitário La Salle (UNILASALLE). Pesquisadora Associada da Fundação de Amparo a
Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS). E-mail: vera.felicetti@unilasalle.edu.br
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Palavras-chave: Comprometimento do estudante. Educação profissional. Ensino e


aprendizagem.

Introdução

Atualmente a Educação Profissional vem ganhando, novamente, mais espaço nos


cenários educacionais. A constante evolução das necessidades humanas, bem como a busca
por profissionais mais qualificados, está fazendo com que os ambientes de formação (escolas
técnicas por exemplo) estejam preparados para essa realidade, proporcionando a preparação
de jovens e adultos para a entrada no mercado de trabalho.
Diante disso, “uma educação de qualidade é essencial ao desenvolvimento de mão de
obra qualificada, face aos desafios tecnológicos e organizacionais recentes” (WINCKLER;
SANTAGADA, 2012). No entanto, segundo Catholico (2009) a preocupação com a
aprendizagem discente na Educação Profissional está em alta nos discursos dos professores
deste nível de ensino, bem como a busca por alternativas para que se consiga promover
metodologias eficazes para a preparação de futuros técnicos para o mercado de trabalho atual,
além de modificar o ensino “tradicional” para um ensino em que o aluno seja o principal
responsável pela sua aprendizagem. Entretanto, “o modelo de ensino e aprendizagem ainda
vigente está apoiado quase que exclusivamente nas aulas expositivas […] não permitindo que
o estudante torne-se responsável por sua aprendizagem e desenvolvimento” (CATHOLICO,
2009, p. 11).
O mercado de trabalho brasileiro está com uma vasta demanda para profissionais
técnicos. Segundo uma reportagem publicada na Gazeta do Povo (2011),

A educação profissional cresceu 74,9% no Brasil entre 2002 e 2010, passando de


652 mil matrículas para 1,14 milhão no período. Enquanto a oferta de ensino médio
regular se estabilizou no país nos últimos anos, o número de alunos nos cursos
técnicos em nível médio está em expansão. Para especialistas, esses cursos
proporcionam melhor qualificação profissional e se traduzem em maior
empregabilidade e ganho salarial aos alunos. (WALTER, 2011, p.01)

Entretanto, o interesse por este tipo de ensino, a evasão e a qualidade da formação


deste aluno é algo que está sendo muito questionada, visto o baixo número de vagas
preenchidas em determinadas áreas, assim como o baixo interesse do alunado para com o
curso e as causas da evasão escolar ao longo da formação. Trisotto (2012) diz que “cursar o
ensino médio e já sair com uma formação profissional, ou concluir o ensino regular e entrar
mais cedo no mercado de trabalho por meio de um curso técnico subsequente são
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possibilidades que empolgam menos jovens do que se poderia imaginar” e que muitas vezes
“para cursos técnicos, a demanda aquecida não estimula a permanência” (COLOMBO apud
TRISOTTO, 2012).
Nessa perspectiva, se pensou em analisar o discurso discente e docente sobre o
comprometimento do estudante da Educação Profissional, para que se possam explorar
possibilidades sobre o processo de ensino-aprendizagem. Com isto, realizou-se um estudo
com alunos e professores dos cursos técnicos em Fabricação Mecânica e Manutenção e
Suporte em Informática, do Centro de Educação Profissional (CEP) de uma Escola
profissional no município de Porto Alegre.
Para este estudo, o foco principal foi sobre o comprometimento do estudante com a
sua aprendizagem, visto que o seu rendimento é muito maior quando ele assume o papel de
protagonista na sua aprendizagem. (FELICETTI, 2011). O estudo do comprometimento e/ou
responsabilidade do aluno com sua aprendizagem tem poucas pesquisas aqui no Brasil, já
estudos envolvendo a responsabilidade docente são muitos.
Felicetti e Morosini (2010), precursoras nessa linha de pesquisa, afirmam que

[...] um trabalho docente de qualidade requer necessariamente um comprometimento


do profissional em educação, no todo do seu fazer docente. Porém, o
comprometimento compete, também, ao educando, visto que só aprende quem quer
aprender, e só se “ensina” a quem quer ser ensinado.
(FELICETTI; MOROSINI, 2010, p. 02)

Assim, percebe-se que o aluno é parte fundamental desse processo e ainda, que ele
deve reconhecer que serão melhores alunos quando acreditarem que o êxito depende muito
mais do esforço do que da sorte ou de alguma habilidade (HUNTER; BAKER, 1987).
Na escola profissional em foco neste trabalho, há uma grande preocupação sobre o
tipo de profissional que está sendo preparado para o mercado de trabalho e como eles estarão
alocados no mesmo após a conclusão do curso. A filosofia da instituição também está voltada
para a responsabilidade do educando para com a sua aprendizagem, não cabendo somente aos
educadores e equipe técnica essa função.
Partindo desse pressuposto, sentiu-se a necessidade de perceber nos discursos dos
alunos e professores o que eles entendem e/ou pensam a respeito do que vem a ser o
comprometimento e se este intervém no contexto estudantil de modo poder a partir desta
pesquisa estabelecer alguns parâmetros sobre a relação aluno-comprometimento-
aprendizagem, visto o ensino profissionalizante ser recente na instituição. Assim, os
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resultados obtidos com a pesquisa servirão de base para futuros trabalhos na instituição e de
fundamentação para novos pesquisadores sobre o comprometimento do estudante.
Com isso, o artigo apresenta uma breve fundamentação teórica, a metodologia as
análises realizadas nas respostas advindas dos questionários e por fim as considerações finais.

Fundamentação Teórica

O Brasil, a partir da década de 1970, passou por inúmeras transformações no contexto


educacional visto a necessidade de um alto número de mão-de-obra para suprir a deficiência
de profissionais em seu processo de industrialização. Uma das medidas tomadas pelo governo
foi transformar as escolas “secundárias” em escolas “técnicas”, ou seja, todas as instituições
de nível médio deveriam ofertar cursos técnicos concomitantes com o ensino regular. Essa
ação proporcionou um expressivo aumento no número de pessoas no mercado de trabalho,
com uma certa qualificação profissional.
“No Brasil, a profissionalização universal e compulsória no ensino de 2º grau
sucumbiu diante da carência de recursos materiais e humanos, assim como diante da
resistência dos estudantes, dos empresários e dos administradores das instituições
educacionais” (CUNHA, 2012).
Todavia, o foco deste artigo está na aprendizagem discente na Educação Profissional a
qual é objetivo fundamental em qualquer nível educacional.
Meirieu (1998) em sua obra, abordando sobre aprendizagem, evidencia os níveis de
aprendizagem e da importância do aluno perceber-se como um sujeito ativo no processo de
aprendizagem. Para ele, há algumas fases que fazem com que a aprendizagem ocorra, sendo
pela identificação do aluno, motivação intrínseca e reestruturação do conhecimento, desde que
o aluno sinta-se “integrado” no que está sendo proposto pelo professor, sendo responsável por
esse processo.
Muitos são os termos que utilizamos entre aluno e o contexto escolar, entre eles
mencionamos o compromisso. No entanto, utilizaremos um termo comprometimento que
representa, segundo Felicetti e Morosini (2010), tudo o que o aluno faz, como ele faz e o
quanto ele faz para aprender, não somente o compromisso de ir na escola, de fazer tarefas ou
estudar, ou seja, o comprometimento vai além do compromisso.
Desta forma, comprometimento com a aprendizagem significa “a relevância dada ao
como aprender, isto é, a variedade e intensidade de meios utilizados para tal, como também o
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tempo disponibilizado para esse fim” (FELICETTI; MOROSINI; 2010, p. 03), isto é, acaba se
tornando maior que um compromisso. Podemos dizer também que o “O comprometimento do
estudante com sua aprendizagem está relacionado aos objetivos e inspirações que ele tem,
desencadeando, assim, o sentido de equilíbrio entre o querer e o fazer” (FELICETTI;
MOROSINI, 2010, p. 03).
Seguindo nessa perspectiva “[…] é preciso substituir uma concepção linear simples
demais, em que os conhecimentos formalizados seriam revelados progressivamente a um
sujeito [...] por uma concepção mais dinâmica (MEIRIEU, 1998, p.56)”.
Meirieu analisa desta forma, pois muitas vezes os professores atuam como detentor do
conhecimento, ao invés de fazer a mediação do mesmo, desconsiderando as vivências
pessoais de cada aluno. Entretanto, devemos considerar as experiências discentes e fazer com
que este estudante seja ativo em relação à sua aprendizagem, não somente “estático”, de
forma a esperar que o docente seja o predominante nesse processo, pois

fazemos como se trabalhássemos em terreno virgem, como se nada fosse adquirido


fora da escola, como se a inteligência não estivesse repleta de múltiplas
“representações”: pois, “antes de qualquer aprendizagem, […] a criança já dispões
de um modo de explicação […] que orienta a maneira como organiza os dados da
percepção, compreende as informações e orienta sua ação”.
(GIORDAN apud MEURIEU, 1998, p. 57)

Meirieu afirma que muitas vezes os estudantes têm que “libertarem-se” das suas ideias para
aceitar as novas, meramente impostas. Entretanto, ele destaca a importância deste aluno estar
engajado no processo. Ele não cita como comprometimento, mas dá evidencias que é
necessário que o estudante assuma o seu papel ativamente na sua aprendizagem. Diz também
que o professor necessita interagir com o aluno, para que possa criar novas ideias em relação a
um determinado assunto, pois por vezes o aluno acaba criando uma ideia “fixa” sem
realmente ser verdadeira. Mas também se deve considerar que os alunos já possuem um
conjunto de ideias já conhecidas sobre determinado assunto.

Em outras palavras, a interação entre as informações e o projeto não se inicia na


escola, nem as situações de aprendizagem formalizadas; ela existe desde muito cedo
e faz com que a criança, ao chegar à sala de aula, como o adulto em nível de
formação, disponha de toda uma série de conhecimentos.
(MEIRIEU, 1998, p.58)
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Para que isso ocorra, o aluno necessita estar envolvido, para tanto devemos
“desequilibrá-lo”, ou seja, gerar um conflito na sua aprendizagem, pois o aluno tem que ter
uma ativa participação neste processo. Para que haja um “conflito” o aluno necessita ser o
sujeito cerne disso, visto que por mais que o docente tenha interesse que ele aprenda, haverá
um efetivo processo de ensino e aprendizagem quando o discente realmente for protagonista
nessa atividade. Desta forma, o “[…] conflito só é desencadeador de progresso se a
socialidade for de alguma forma interiorizada, se o sujeito fazer sua contradição para vencê-
la” (MEIRIEU, 1998, p. 59).
Segue Catholico dizendo que, “para melhorar a aprendizagem, é necessário conhecer
como estes alunos aprendem e, desta forma, propor soluções para melhorar o processo de
ensino-aprendizagem” (2009, p. 22). Além disso, o protagonismo estudantil necessita permear
a educação profissional no Brasil por meio de metodologias docentes que modifiquem o
ensino tradicional (CATHOLICO, 2009).

Caminho Metodológico

Esta pesquisa surgiu a partir de questionamentos e inquietações que permeiam meu


fazer docente acerca da responsabilidade dos alunos com a sua aprendizagem na Educação
Profissional. Além disso, minhas tentativas de compreensão acerca dos altos índices de
evasão ao decorrer do curso, seja por reprovação, abandono, excesso de faltas ou transferência
para outra modalidade, também me motivaram.
Partindo-se desses pressupostos, se tem como sujeitos respondentes para esta pesquisa,
alunos e professores de dois cursos técnicos de uma escola de Porto Alegre.
Teve-se como objetivo geral da pesquisa: refletir sobre a importância do
comprometimento do estudante da Educação Profissional para com a sua aprendizagem, de
modo que ele tenha sucesso na sua formação escolar e profissional.
Um grande fator que me motivou a buscar respostas para este assunto, foi o fato de ser
professor dos Cursos Técnicos e perceber, juntamente com outros colegas e equipe técnica, a
diferença entre o número de alunos que iniciam nas turmas de Módulo I, e a quantidade que
está em fase de conclusão de curso.
Seguindo nessa perspectiva, realizou-se uma pesquisa de cunho qualitativo. Pádua
(2003, p. 34) diz que “pesquisas qualitativas têm se preocupado com o significado dos
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fenômenos e processos sociais, levando em consideração as motivações, crenças, valores,


representações sociais, que permeiam a rede de relações sociais”. Também devemos
“considerar o pesquisador como o principal instrumento de investigação e a necessidade de
contato direto e prolongado do campo” (ALVES, 1991, p. 54). Assim, “não se pode, no
processo de investigação, deixar de valorizar a imersão do pesquisador no contexto, em
interação com os participantes, procurando aprender o significado por eles atribuído aos
fenômenos estudados” (ALVES, 1991, p. 55).
Na coleta de dados, utilizou-se um questionário com perguntas fechadas, para análise
demográfica (idade, sexo, curso, período) e três perguntas abertas referentes ao
comprometimento estudantil com a aprendizagem.
A aplicação dos questionários ocorreu na primeira quinzena do mês de novembro de
2012 com alunos e professores dos três módulos dos cursos de Fabricação Mecânica e
Manutenção e Suporte em Informática. A pesquisa foi autorizada pela Coordenação da
instituição. Nos questionários “é importante determinar quais são as questões mais relevantes
a serem propostas, relacionando cada item à pesquisa que está sendo feita e à hipótese que se
quer demonstrar/provar/verificar” (PÁDUA, 2003, 69).
A análise dos dados foi possível após a tabulação das respostas, o que permitiu a
criação de gráficos em forma de colunas e setores e categorização das questões abertas, com o
auxílio dos softwares Excel e Word respectivamente, ambos versão 2007. Podemos dizer que
“pesquisas qualitativas tipicamente geram um enorme volume de dados que precisam ser
organizados e compreendidos. […] Procura identificar dimensões, categorias, tendências,
padrões, relações, desvendando-lhes o significado” (ALVES, 1991, p. 60). Já a análise
referente à parte quantitativa “tende a enfatizar o raciocínio dedutivo, as regras da lógica e os
atributos mensuráveis da experiência humana” (SILVEIRA; CÓRDOVA; 2009, p. 31).
Organizamos a análise em duas categorias que seguem: Discurso docente e discurso discente.

Discurso docente
Nesta pesquisa, sete professores responderam aos questionários. Pode-se observar que
quatro deles (57,13%) possuem mais que trinta e cinco anos; um possui entre vinte e vinte e
cinco anos (14,29%); um possui entre vinte e seis e trinta anos (14,29%) e um possui entre
trinta e um e trinta e cinco anos (14,29%).
Os docentes dividem-se em, quatro homens (57,13%) e três mulheres (42,87%).
Percebeu-se também que há docentes que trabalham somente com um curso técnico (57,13%)
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e os que lecionam nos dois cursos (42,87%). A grande maioria trabalha com os três módulos
(57,13%) e a minoria, apenas com um dos módulos (14,29%).
Ao analisar as questões abertas observou-se que o grupo de professores da instituição
centram o comprometimento em focos distintos.
A primeira questão era “O que você entende por comprometimento?”. Vejamos as
respostas dos professores no Quadro 01.

Comprometimento Respostas
P1) Dar tudo de si para melhorar algo.
P2) É mudar sua postura encarando a sua futura realidade, assumindo o
compromisso de fazer a diferença.
Geral P6) Responsabilidade, interesse, participação.
P7) É uma soma de valores e atitudes que fazem com que um indivíduo
ao colocar em prática, realize com sucesso algo por ele imposto ou
mesmo deliberadamente escolhido por ele.
P3) É o esforço e o empenho dos educandos na busca para atingir o
objetivo que é o aprendizado, envolvendo a participação efetiva nas
Em relação ao aluno diversas atividades inerentes ao processo.
P4) Envolvimento com o processo de aprendizagem. Fazer tarefas,
entregar trabalhos, participação em aula.
P5)Fazer parte do processo de ensino/aprendizagem com todo o
Em relação ao professor empenho, alma e raciocínio. Saber-se parte do processo, contando com o
apoio do aluno e coordenação pedagógica.
Quadro 01 - O entendimento docente pela palavra comprometimento.
Fonte: Organizado pelos autores.

Observa-se, que a questão não se referia ao comprometimento específico de um grupo


de sujeitos, mas sim ao que eles entendiam por comprometimento, no entanto, nas respostas
observou-se que alguns professores entenderam como sendo o comprometimento do aluno no
contexto escolar; outro em relação ao comprometimento do docente e três abordaram com
uma visão mais geral.
Na segunda questão “Você acredita que há mudanças significativas no processo de
ensino e aprendizagem quando o estudante assume a responsabilidade do seu papel,
comprometendo-se com a sua aprendizagem? Se sim, quais?”.
Esta questão sim, se referia ao comprometimento do estudante e, os professores
deixaram claro em suas respostas esta percepção:

P5) Sim. Acredito que no momento em que o aluno perceba-se parte do processo,
ele interage, se sente reconhecido como sujeito/ator do ensino/aprendizagem e
modifica sua postura, fazendo com que o interesse principal dele na escola seja
adquirir conhecimento, construir relações e crescer como pessoa.
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Observa-se na resposta do docente que este coloca o aluno como ator, ou seja, o aluno
não é um espectador no processo de ensino e aprendizagem, não está imóvel, mas sim em
movimento. Outro professor evidencia a necessidade do comprometimento não somente do
aluno, mas também do professor: P3) Com certeza o processo da aprendizagem não ocorre ou
se torna falho se não houver o comprometimento total das duas partes.
Outro docente vai além, observa que se o aluno está comprometido o professor sente-
se motivado: P4) Sim. A aprendizagem facilitada, os desafios conseguem ser superados e o
professor se envolve mais com a aprendizagem do aluno. Esta fala parece evidenciar a relação entre

comprometimento em ambos os atores, ou seja, entre comprometimento do aluno e o do professor.

Na terceira questão “Em sua opinião, quais os motivos que acarretam a


reprovação/evasão dos estudantes ao longo do curso?”. As principais respostas foram:

P1) Falta de comprometimento do aluno e professor.


P2) Não possuir o perfil para determinada função, ou não ter as qualidades
necessárias exigidas pela profissão.
P6) A falta de persistência, pois o primeiro obstáculo que encontra desiste e se
desmotiva, mas é claro que também conta com o seu comprometimento.
P7) É uma das minhas principais preocupações, enquanto professor de sala de aula.
Atualmente recebemos alunos que, por força das circunstâncias precisam trabalhar, e
muitas vezes dão prioridade ao trabalho que o sustenta ou ajuda no sustento da casa
onde mora em relação aos estudos. Vejo também que alguns colegas de profissão
não tornam suas aulas atrativas, atualizadas, por isso, infelizmente, faria com que o
professor tivesse que preparar suas aulas, e isso, muitos não fazem. É triste ver um
aluno sair de uma sala de aula querendo não voltar na próxima semana, pois a
matéria, o conteúdo, não o prendem.

Podemos perceber que às respostas a esta questão estão associados diversos fatores,
destacamos: falta de perfil para a função, falta de pré-requisitos, falta de estímulo e o
comprometimento. Alguns analisam que a educação é uma via de mão dupla, ou seja, quando
o professor se compromete, o aluno também se compromete, o que viabiliza positivamente a
aprendizagem discente. Também que o aluno não se sente protagonista, o que pode ser em
virtude do modelo de sistema educacional apresentado como argumenta Catholico (2009), ou
por diversos fatores além desse.
O que é importante para que haja mudanças é a interligação entre professor e aluno na
educação profissional, além de destacar o comprometimento do aluno, pois quando este
permeia o contexto estudantil, a aprendizagem acontece melhor.

Discurso discente
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Participaram, ao todo, noventa e três alunos, sendo considerados noventa e dois


questionários válidos, tendo a escola cerca de cento e oitenta alunos matriculados nos cursos
técnicos. Foi combinado com os educandos que, aqueles em algum módulo tivessem
reprovado, respondessem, na última questão, os motivos que a acarretaram, na sua
aprendizagem com a reprovação e com os demais estudantes respondessem o que pensam que
acarreta a reprovação.
Do universo da pesquisa, participaram ao todo dezoito meninas e setenta e quatro
meninos, correspondendo a 19,57% e 80,43%, respectivamente. A concentração etária dos
alunos está na faixa dos dezesseis aos vinte anos (80,62%), ficando o restante para os maiores
desta idade. Essa amostragem é um quadro da educação profissional da escola.
Quanto aos questionários, se percebeu a distintas percepções por parte discente. As
questões foram semelhantes às dadas aos educadores.
Desta forma, a primeira questão aberta era “O que você entende por
comprometimento?”.
Vejamos algumas das respostas dos estudantes no Quadro 02 para melhor
visualização.
Comprometimento Respostas
A1) Eu entendo como comprometimento tudo, horário, respeitar as
regras e efetuar suas tarefas nas datas estipuladas.
A3) Cumprir com os deveres.
Como uma regra (imposição de uma A21) É cumprir as regras da instituição ou entidade, ter suas
normativa) responsabilidades de justificar algo acontecido e se comprometer a
fazer algo de melhor para a vida.
A22) É ter responsabilidade, ser maduro. É cumprir com tudo que
lhe é designado para fazer.
A38) Comprometimento é o que eu me propus a fazer, aceitar tudo
aquilo que foi imposto, e o que não foi. Mas tudo tem um salvo de
que pode ser certo ou errado. Como primeira regra e vai se
aprimorando.
A56) Comprometimento é a pessoa que se impõe a fazer algo, não
Como algo intrínseco (aluno)
desistir daquilo e, seguir em frente mesmo que haja obstáculos em
seu caminho e se errar tem que continuar tentando e alcançar seus
objetivos.
A86) Algo que eu tenho dito que ia fazer algo que me comprometo a
fazer.
A1) Eu entendo como comprometimento tudo, horário, respeitar as
regras e efetuar suas tarefas nas datas estipuladas.
Como questão pedagógica
A4) Entrega de trabalhos na data correta, não faltar às aulas, saber se
portar em sala de aula.
Quadro 02 - O entendimento de comprometimento por parte dos discentes
Fonte: Organizado pelos autores.
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Observa-se que os estudantes, divergiram sobre o entendimento de comprometimento,


visto alguns o considerarem sendo uma regra imposta por alguém e/ou uma instituição,
desconsiderando o seu papel, como aluno, como ator principal desse processo. Outro grupo de
alunos, pensam que o comprometimento está atrelada somente a entrega de trabalhos
escolares, assiduidade e comportamento. Outros, porém, creem que o comprometimento é
algo intrínseco, ou seja, que parte de suas próprias atitudes, bem como a busca por estratégias
de estudo e a sua vontade em realizar determinada atividade.
É importante, a partir desse parâmetro, discutir com os estudantes o conceito de
comprometimento, visto que há entendimentos diversos acerca do que de fato é
comprometimento, como por exemplo “é cumprir as regras...” “[...]é o que eu me propus a
fazer, aceitar tudo aquilo que foi imposto”. Tais concepções parecem evidenciar confusões
entre compromisso e comprometimento..
Já na segunda questão “Você acredita que há mudanças significativas na sua
aprendizagem quando você assume a responsabilidade do seu papel, comprometendo-se
enquanto estudante? Se sim, quais?”.
Esta questão referia-se ao comprometimento do estudante. Os alunos deixam claros as
mudanças na sua aprendizagem. “A1) Acredito porque no momento que tu encontra teu papel
de estudante, você quer efetuar essa função com perfeição. A34) Sim, você aprende muito
mais e fica mais responsável. A35) Sim. Amadurecimento e melhora de desempenho”.
Observa-se nas respostas dos estudantes que há sim mudanças na aprendizagem,
repercutindo principalmente na melhora do rendimento escolar com o aumento da
responsabilidade. Destacamos também que quando ele se sente protagonista da sua
aprendizagem, busca o máximo de estratégias para que possa aprender. No entanto, um aluno
aponta o professor com o papel principal do processo de ensino e aprendizagem, ou seja, ele
se sente apenas um espectador diante esta situação: “A77) Não, pois boa educação também
depende do professor que transfere o conhecimento, lógico que existe a participação do
aluno, mas as escolas e profissionais contribuam e muito para o aprendizado”.
Outro aluno ainda avança nessa discussão quanto à questão metodológica do
professor. “A80) Qualquer um que estuda com certeza, [...] afetará no seu aprendizado e na
sua nota. Mas também cabe ao professor despertar interesse ao aluno, o motivando”. Esta
fala evidencia que há mudanças na sua aprendizagem, entretanto, o papel do professor para
despertar o interesse do aluno é destacado.
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Na terceira questão “Em sua opinião, quais os motivos que acarretam a reprovação
ao longo do curso?”.

A5) O principal motivo com certeza é a falta de responsabilidade que acaba


prejudicando, porque os alunos não entregam as tarefas na data marcada, faltam em
dias de avaliações, etc.
A27) Um dos principais motivos é o desinteresse do aluno. Brincadeiras também
prejudicam o aluno e a turma. Mas muitos dos alunos acabam abandonando o curso,
pois percebem que o curso não é o que eles esperavam em termo de estrutura.
A28) Eu acho que a falta de interesse de algumas pessoas influenciam muito na nota
final. Tem gente que está aqui apenas pela cota, tirando vaga de quem quer aprender.
Conversas paralelas não prestando atenção na aula. E um pouco de desânimo pela
falta de manutenção da oficina. Mas são fatores de que não tem interesse pela
profissão.
A59) Em alguns pontos, pode-se dizer que dúvidas em que não foram expostas para
ser esclarecidas, e também bastante dificuldades que consegui enfrentar mais, uma
em que não consegui vencer e por isso estou aqui.

Esta questão foi a que mais aspectos apontou, entre eles: a falta de motivação, a
metodologia dos professores, a estrutura do curso e da instituição, as “brincadeiras” em aula,
irresponsabilidade, regras, disciplinas de formação humanística, o fato de muitos alunos
“estarem somente pela cota”.
Podemos analisar que os estudantes compreendem as causas que levam à reprovação.
Todavia, o que se observa que muitos deixam estas concepções na teoria, no abstrato, não
trazendo para a sua prática. A metodologia do professor é algo a ser verificada, visto que foi
um número significante de alunos que apontaram este fator. Outro ponto, é intensificar a
cobrança de “responsabilidade” e “comprometimento” para estes alunos no Módulo I, pois
percebemos que este é o momento em que há maiores números de evasão e repetência.
Já a estrutura do curso e institucional, são fatores a ser analisados para futuras
melhorias e adaptações pela coordenação e equipe técnica.

Considerações Finais

O comprometimento do estudante na Educação Profissional é algo para novas


discussões e percepções. É importante que haja uma conexão entre aluno-professor, pois a
partir dos discursos analisados, percebe-se essa necessidade. É importante que este futuro
técnico tenha o conhecimento real do seu papel para com a sua aprendizagem.
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Notou-se que os estudantes confundem o que de fato vem a ser o comprometimento, e


ainda, alguns o atribuem a outrem. Isso é o que tem que ser trabalhado com os estudantes. O
fato de assumir o seu papel no contexto educacional.
A Escola de Educação Profissional em foco neste trabalho tem apenas dois anos
letivos de existência, e demonstra uma grande preocupação com a formação discente, não
somente técnica, mas humana, pois acredita que este aluno-profissional, deve e precisa estar
atento as necessidades sociais que irá enfrentar, além do relacionamento interpessoal. Não
obstante, destaca de forma efetiva que o estudante tem que se comprometer com a
aprendizagem.
Vários são os fatores a serem melhor investigados: a satisfação com o curso, o nível de
exigência, a base educacional desse aluno, e próprio comprometimento após ser melhor
definido junto aos alunos, mas isso poderá servir de apontamentos para pesquisas futuras.

REFERÊNCIAS

ALVES, Alda Judith. Planejamento de pesquisas qualitativas em educação. Caderno de


pesquisa. São Paulo, 1991.

BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais


Anísio Teixeira. Resumo Técnico – Censo Escolar 2010: versão preliminar. Brasília, DF,
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<http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&task=doc_download&gid=7277&
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BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Resolução nº 06 de 20


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