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XXIV Encontro Nacional

da Associação Portuguesa de Linguística

Textos Seleccionados
XXIV Encontro Nacional
da Associação Portuguesa de Linguística

Textos Seleccionados

Braga, 20-22 Novembro 2008

Organização
Alexandra Fiéis
Maria Antónia Coutinho

Lisboa
ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
2009
Título XXIV Encontro Nacional
da Associação Portuguesa de Linguística
Textos Seleccionados
Organização Alexandra Fiéis e Maria Antónia Coutinho
Execução gráfica Colibri Artes Gráficas, Lda.
Depósito legal n.º 170 391/01
Tiragem 500 exemplares
Lisboa Outubro de 2009
Nota prévia

Como vem já sendo habitual, a publicação das comunicações apresentadas


no XXIV Encontro Nacional da APL, que se realizou em Braga, de 20 a 22 de
Novembro de 2008, foi sujeita a selecção.
À excepção das duas conferências convidadas, os trinta e oito textos agora
publicados foram avaliados por dois membros da Comissão Científica
constituída para o efeito (alargada relativamente à Comissão Científica do
Encontro). Sempre que necessário, solicitou-se ainda um terceiro parecer. Os
autores receberam os pareceres anónimos dos avaliadores e tiveram
oportunidade de rever as versões finais de acordo com esses mesmos pareceres,
quando tal era oportuno. Como em qualquer processo de avaliação, poderá
haver decisões discutíveis. Mas estamos em crer que, em termos globais, o
processo contribui inequivocamente para assegurar a qualidade de que a APL
não pode prescindir.
Reiteramos os agradecimentos a todos os membros da Comissão Científica:
Alina Villalva, Amália Mendes, Ana Isabel Mata, Ana Lúcia Santos, Ana Maria
Madeira, Ana Paula Banza, Anabela Gonçalves, António Branco, Armanda
Costa, Augusto Soares da Silva, Carlos Gouveia, Clara Nunes Correia, Cristina
Martins, Ernestina Carrilho, Fátima Oliveira, Fernando Martins, Filomena
Gonçalves, Florencia Miranda, Graça Rio-Torto, Isabel Margarida Duarte, João
Costa, João Saramago, José Brandão de Carvalho, Luís Filipe Barbeiro, Luís
Filipe Cunha, Madalena Colaço, Margarita Correia, Maria Aldina Marques,
Maria Francisca Xavier, Maria Helena Mateus, Maria João Freitas, Maria Lobo,
Maria de Lourdes Crispim, Marina Vigário, Matilde Miguel, Pilar Barbosa, Rita
Marquilhas, Rui Marques, Rute Costa, Teresa Brocardo.
Agradecemos ainda a todas as entidades que apoiaram a realização do
Encontro e a publicação deste volume.

A Direcção da APL
Representações fonológicas na aprendizagem da leitura
e na leitura competente

José Morais
Université Libre de Bruxelles

Abstract
Phonological representations are crucial in both learning to read and skilled
reading. This results from the nature of our writing system, the alphabet. The following
questions are examined here: What type of experience is needed to develop the
phonological processes involved in reading, including the awareness of phonemes that
is part of the comprehension of the alphabetic principle? Why and how does phoneme
awareness bootstrap the ability of written word identification? What are the main steps
in learning this ability? What is the role of phonological representations in the fast and
automatic identification of written words by the skilled reader?

Keywords: phonological representation, othographic representation, phoneme


awareness, learning to read, skilled reading
Palavras-chave: representação fonológica, representação ortográfica, consciência
fonémica, aprendizagem da leitura, leitura competente

Nos sistemas fonográficos, os caracteres elementares representam um tipo


particular de constituinte da dimensão fonológica da linguagem. No caso do alfabeto,
embora a relação seja raramente biunívoca, os caracteres representam os fonemas, pelo
que a escrita alfabética poderia ser também chamada “fonemográfica”. É de esperar em
todo o caso que as representações fonológicas, e em particular as de fonemas,
desempenhem um papel crucial tanto na aprendizagem da leitura como na leitura
competente no nosso sistema de escrita.
Alvin Liberman, um dos promotores da teoria motora da percepção da fala,
referiu-se ao alfabeto como sendo “um triunfo de biologia aplicada” (Liberman, 1995,
p. 20). O alfabeto constitui de facto um aproveitamento cultural historicamente
determinado da estrutura abstracta da fala, portanto de um produto da evolução
biológica. A tal ponto biologia e cultura interagem nesta criação humana que é difícil
decidir se o alfabeto foi inventado ou descoberto. A descoberta está na intuição de que a
fala pode ser analisada em unidades mínimas, os fonemas; e a invenção no facto de se
ter aplicado à representação gráfica destas unidades o princípio de representação da fala
por um pequeno conjunto de formas visuais distintas, já utilizado para representar
outros níveis de estrutura fonológica, menos abstractos e por conseguinte mais
acessíveis.
_____________________________
Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,
APL, 2009, pp. 7-21
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

O que são exactamente os fonemas? O nosso conceito de fonema, enquanto


unidade que caracterizamos como abstracta porque sabemos que não corresponde a
segmentos fisicamente diferenciáveis, pode ser uma consequência da sua representação
gráfica, ou pelo menos ter sido fortemente influenciado por esta. Para os criadores do
alfabeto, as unidades que correspondem aos caracteres da escrita alfabética podem ter
começado por ser apenas percepções recorrentes em contextos articulatórios diferentes,
sem resultarem ainda de uma segmentação completa no fluxo da fala.
Mesmo em leitores competentes na leitura de uma escrita alfabética, a
acessibilidade à unidade consciente “fonema” é influenciada diferentemente segundo as
características particulares do alfabeto utilizado. Enquanto no alfabeto latino tanto as
consoantes como as vogais são representadas, o sistema de escrita do Hebreu representa
essencialmente cada consoante independentemente da vogal que lhe é associada. Não se
trata portanto de um silabário mas de um alfabeto consonântico, embora cada carácter
corresponda a uma unidade de tamanho silábico. Por conseguinte, pode prever-se que os
falantes nativos do Hebreu, comparativamente aos falantes nativos de uma língua que
utiliza o alfabeto latino, acedam mais facilmente a sílabas do que a fonemas.
Isto foi de facto demonstrado num estudo de Ben-Dror, Frost e Bentin (1995). Os
participantes eram estudantes universitários cuja língua materna era o Hebreu ou o
Inglês e a tarefa consistia em repetir o mais depressa possível uma palavra de uma
daquelas línguas, apresentada oralmente, sem o primeiro segmento, que numa versão
era a primeira sílaba e noutra versão o primeiro fonema. Na tarefa de subtracção de
sílaba, os nativos do Hebreu foram mais rápidos do que os do Inglês, em 122 e 69
milésimos de segundo (ms) para as palavras do Hebreu e para as do Inglês,
respectivamente. Na tarefa de subtracção de fonema, os nativos do Hebreu tiveram
muita dificuldade, evidenciada por percentagens de respostas correctas para as primeiras
apresentações de apenas 37 e 76%, e os tempos de reacção para as respostas correctas
foram mais curtos nos nativos do Inglês.
Note-se esta muito maior dificuldade nos nativos do Hebreu para as palavras desta
língua do que para as do Inglês, sem dúvida porque seja mais difícil subtrair o fonema
numa palavra em que a forma escrita correspondente não representa fonemas e sim um
grupo de sílabas que partilham a consoante (caso do Hebreu) do que numa palavra em
que a forma escrita correspondente representa com caracteres distintos tanto as
consoantes como as vogais (caso do Inglês). Depois de alguma familiarização que
permitiu aos nativos do Hebreu alcançar 76% de respostas para as palavras desta língua,
os tempos de reacção para as respostas correctas na tarefa de subtracção de fonema
continuaram a ser mais curtos para os nativos do Inglês do que para os do Hebreu em
207 e 416 ms, para as palavras do Hebreu e do Inglês, respectivamente.
Estes resultados são notáveis porque eles mostram claramente como o acesso
consciente às unidades fonológicas presentes na fala depende do facto de elas serem ou
não representadas nos caracteres do sistema escrito utilizado na língua nativa e
dominante do ouvinte. A sílaba, não representada na escrita do Inglês e colocando
alguma dificuldade por causa do fenómeno de ambissilabicidade presente na forma oral
de muitas das palavras desta língua (Fallows, 1981; Rubach, 1996), é de acesso mais
difícil para os falantes do Inglês do que para os falantes do Hebreu. Ao invés, o acesso

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REPRESENTAÇÕES FONOLÓGICAS NA APRENDIZAGEM DA LEITURA

ao fonema, não representado enquanto tal na escrita do Hebreu, é muito difícil para os
falantes desta língua apesar do conhecimento que estes falantes também têm do Inglês
oral e escrito.
Assim, se a linguagem ou mais exactamente a língua é uma condição necessária,
mas obviamente não suficiente, da aprendizagem da sua representação escrita, tem de
admitir-se que a representação escrita da linguagem constitui um instrumento poderoso
de reflexão sobre as estruturas fonológicas da língua e influencia a maneira como as
analisamos conscientemente. Mais adiante serão apresentados outros factos que apoiam
esta constatação. No que se segue, e partindo da ideia aceite pela psicolinguística
contemporânea de que a competência específica da leitura é a habilidade de
identificação das palavras escritas, examinaremos as seguintes questões:

1. De que tipo de experiência dependem as representações fonológicas que são


cruciais para a aprendizagem da habilidade de identificação das palavras escritas?

2. De que tipo de experiência depende a tomada de consciência dos fonemas?

3. Que papel desempenha a consciência dos fonemas na aprendizagem da


habilidade de identificação das palavras escritas?

4. Quais são as principais etapas de tratamento na aprendizagem da identificação


das palavras escritas?

5. Que papel desempenham as representações fonológicas na identificação das


palavras escritas no leitor adulto competente?

1. De que tipo de experiência dependem as representações fonológicas que são cru-


ciais para a aprendizagem da habilidade de identificação das palavras escritas?
A experiência auditiva é a via sensória habitual que permite às crianças adquirirem
as representações fonológicas que são necessárias à aprendizagem da habilidade de
identificação das palavras escritas. De facto, é sabido que as crianças que apresentam
uma surdez profunda têm grande dificuldade para aprender a ler e escrever. Elas têm,
em particular, muito mais dificuldade do que as crianças cegas, o que demonstra que
entre os tipos de experiência de que depende de maneira crítica a aprendizagem da
leitura não figura a experiência visual. Para esta aprendizagem, a apreensão das letras
através do tacto pode ser tão eficaz como a apreensão visual, mau grado o seu
tratamento mais lento.
No entanto, quando falta a experiência auditiva, as representações fonológicas
podem ser adquiridas através da combinação da chamada leitura labial e de sinais que
resolvem as ambiguidades inerentes à leitura labial. De facto, este sistema, chamado de
“Linguagem Falada Completada” (LFC) ou cued speech, tem permitido que crianças
surdas que beneficiam desta forma de experiência antes dos dois anos de idade
apresentem um nível de desenvolvimento do vocabulário semelhante ao das crianças

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XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

ouvintes (Périer, 1988). Algumas destas crianças atingem níveis de leitura de uma
escrita alfabética comparáveis aos das crianças ouvintes da mesma idade (Leybaert,
2000; Leybaert e Lechat, 2001). Isto é possível porque elas adquiriram as represen-
tações fonológicas que são necessárias à aprendizagem da habilidade de identificação
das palavras escritas.
É importante ter em conta que as crianças surdas que adquiriram o LFC
precocemente, em família ou na creche, são muito superiores em leitura e escrita às que
só começaram a utilizar este sistema ao entrarem na pré-escola aos 3 anos de idade
(Alegria, Charlier e Mattys, 1999). Assim, a aquisição das representações fonológicas
no quadro da experiência auditiva ou fora dela, depende de um período crítico ou pelo
menos de um período sensível. Mas uma vez adquiridas as representações fonológicas,
a sua utilização no quadro da aprendizagem da leitura não está submetida a um período
crítico, como mostra o facto de os iletrados adultos poderem aprender a ler uma escrita
alfabética na idade adulta. De modo geral, aprender a ler num sistema fonográfico supõe
a aquisição de um sistema de conhecimento fonológico implícito. O que é portanto
biologicamente determinado é a capacidade fonológica em si mesma, independente-
mente do seu modo habitual de desenvolvimento.
Tendo afastado a ideia de que a experiência auditiva seja necessária ao desenvol-
vimento de representações fonológicas, consideremos agora o papel da experiência da
produção da fala neste desenvolvimento.
Vários estudos têm indicado que os deficits articulatórios podem conduzir a
anomalias nas representações fonológicas e assim afectar a aquisição das habilidades
metafonológicas (cf. Thomas e Sénéchal, 1998). No entanto, como no caso da privação
auditiva, a ausência de articulação não conduz necessariamente ao insucesso na
aprendizagem da leitura e da escrita.
Cossu (2003) descreveu um estudo de caso único, SM, um jovem que aprendeu a
ler apesar de apresentar uma apraxia orofacial congénita completa. O seu desempenho
em testes de discriminação de pares mínimos, de leitura de palavras e de pseudo-
-palavras e de denominação escrita de desenhos foi perfeito. Do mesmo modo, na
contagem de fonemas em expressões da fala assim como na escrita da palavra resultante
da fusão de uma sequência de consoantes e vogais pronunciadas pelo examinador o
desempenho de SM foi de 100% ou quase. Assim, a ausência de produção articulatória
não impede a aprendizagem da leitura e da escrita nem a tomada de consciência dos
fonemas.
Com colegas da Universidade Federal de Santa Catarina e da minha universidade,
estudei outro caso, Th., um jovem que, para além de uma apraxia orofacial congénita,
apresenta também uma tetraplegia na sequência de uma falta importante de oxigénio no
sangue durante o parto (Morais, Macedo e Kolinsky, 2004). Em consequência disso, Th.
é totalmente incapaz não só de articulação mas também de ficar sentado sozinho e de
manter a cabeça firme. O seu controle motor limita-se aos movimentos oculares e a
movimentos globais bruscos da cabeça e do tronco. A sua percepção da fala é normal.
Th. foi examinado por nós quando tinha 15 anos e meio. Estava então escolarizado
numa escola pública de bom nível, em Forianópolis, Brasil. Ele foi comparado a um
grupo de 15 adolescentes do mesmo ano escolar, com idades que iam de 13 anos e

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REPRESENTAÇÕES FONOLÓGICAS NA APRENDIZAGEM DA LEITURA

4 meses a 16 anos e 3 meses. Todos os testes foram apresentados de maneira a que Th.
pudesse responder sacudindo a cabeça para baixo para indicar sim e para o lado para
indicar não, ou olhando insistentemente para a posição da alternativa correcta num
cartão que o examinador segurava de maneira a não poder ver o que lá estava escrito.
Th. teve desempenho normal nos exames cognitivos. Assim, no teste das Matrizes
de Raven, teste de raciocínio analógico, ele respondeu correctamente a 67% dos itens da
primeira série, tendo os participantes do grupo de controle obtido, em média, 69%; e no
teste de selecção de cartas de Wason, um teste de verificação dedutiva de uma
afirmação condicional, obteve 3 respostas correctas em 6, melhor do que a média do
grupo de controle (1,6). Quanto ao teste de discriminação de sons da fala (pares
mínimos), Th. obteve 90% de respostas correctas, praticamente na média do grupo de
controle.
Nos testes de leitura de palavras e de pseudo-palavras, duas alternativas, diferentes
entre si apenas pela consoante inicial (por exemplo, BOLA-COLA), eram propostas por
escrito ao participante e este devia escolher aquela que correspondia à palavra
pronunciada pelo experimentador. Th. obteve 100% nas palavras (média do grupo de
controle: 96%) e 92% nas pseudo-palavras (superior ao desempenho obtido pela maioria
dos participantes do grupo de controle). No teste de conhecimento da ortografia lexical,
a escolha devia fazer-se entre a forma escrita da palavra apresentada oralmente e uma
forma homófona daquela (por exemplo, entre CASA e o seu pseudo-homófono CAZA).
Th. teve uma percentagem de respostas correctas (92%) superior à média dos
desempenhos do grupo de controle (83%). Enfim, num teste dito de acrónimos auditivos
em que a tarefa consiste em reunir os fonemas iniciais de duas palavras apresentadas
oralmente, comparámos a tendência a escolher uma solução de tipo fonológico (a
resposta “ki” para “café italiano”) ou de tipo ortográfico (a resposta “si”). Th. escolheu
ligeiramente mais vezes a solução fonológica (43.5%) do que a ortográfica (37.5%),
enquanto os participantes do grupo de controle optaram muito claramente pela solução
ortográfica (25% e 73%, respectivamente). Em resumo, tanto a leitura de pseudo-
-palavras como este último resultado demonstram que Th. adquiriu um conhecimento
consciente dos fonemas da língua, de que se serve na descodificação e na fusão de
fonemas (operação essencial na leitura) e que sem dúvida terá contribuído para que
viesse a atingir um conhecimento da ortografia lexical das palavras normal para a sua
idade.
Em conclusão, a aprendizagem da leitura é possível e pode mesmo atingir níveis
elevados de habilidade em crianças privadas, desde o nascimento e de maneira muito
severa, mesmo total, de percepção auditiva ou de produção da fala. As capacidades
fonológicas implícitas que tornam possível a aprendizagem da leitura não devem
portanto ser reduzidas a capacidades perceptivas ou produtivas nem a estruturas
perceptivo-motoras. Elas concernem um nível mais abstracto de representação,
independentemente da modalidade de entrada ou de saída. Nenhum tipo de experiência,
perceptivo ou articulatório, é em si mesmo estritamente necessário para se aprender a
ler.

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2. De que tipo de experiência depende a tomada de consciência dos fonemas?


Como a representação dos fonemas da língua constitui a base do princípio
alfabético, é legítimo pensar que a aprendizagem de um código escrito baseado neste
sistema de escrita exija a tomada de consciência dos fonemas. A partir desta ideia
podem no entanto ser derivadas duas concepções opostas. Uma, é a de que o ensino da
leitura só deva começar quando houver indícios de que a criança tomou ou está a tomar
consciência dos fonemas. A outra, é a de que se deve confrontar a criança ao material
alfabético a fim de que, através de explicações e de exercícios apropriados, ela possa
compreender que os caracteres alfabéticos correspondem a unidades fonológicas
mínimas da fala de que até aí não estava consciente.
A primeira concepção foi defendida na base de resultados exclusivamente
correlacionais indicando que os testes da habilidade de manipulação de fonemas, em
particular da habilidade de fusão de fonemas, só davam lugar a bons desempenhos a
partir dos seis anos de idade (cf., entre outros, Leroy-Boussion, 1975). Essa foi uma das
inúmeras ilustrações em psicologia do erro lógico, provavelmente baseado numa
heurística útil em muitas circunstâncias, que consiste em atribuir um papel causal ao
termo da correlação que intuitivamente parece poder ser causa e não efeito: a idade não
pode obviamente ser efeito do desenvolvimento cognitivo. Porém, um grupo de seis
anos de idade pode ter melhores resultados do que um grupo de cinco anos não porque
as crianças de seis anos são mais velhas mas porque já frequentam a escola e
começaram a aprender a ler, o que não é o caso das que estão na pré-escola. Na
realidade, estamos perante uma correlação entre pelo menos três variáveis: desempenho
no teste, idade e escolaridade.
Outros autores (por exemplo, Liberman, Shankweiler, Fischer e Carter, 1974), para
além de não terem a mesma intuição quanto ao que pode ser causa e efeito nesta
questão, foram prudentes e admitiram a impossibilidade de derivar afirmações causais a
partir dos seus próprios dados, que mostraram que enquanto a habilidade de
segmentação de palavras em sílabas pode preceder a aprendizagem da leitura, a
segmentação em fonemas desenvolve-se com a aprendizagem da leitura aos seis anos de
idade. Alguns anos mais tarde, nós (Morais, Cary, Alegria e Bertelson, 1979)
apresentámos a primeira evidência clara do papel causal da aprendizagem da leitura na
tomada de consciência dos fonemas. Os adultos analfabetos revelaram-se incapazes de
realizar operações de subtracção e de fusão de fonemas, enquanto os adultos ex-
-analfabetos conseguiam realizá-las.
Note-se que estes últimos dados também são correlacionais: a correlação só não é
aparente porque não é apresentada através de um índice estatístico de correlação mas
sob a forma de um teste de comparação de médias. Aliás, foi-nos por vezes objectado
que a diferença de resultados entre os analfabetos e os ex-analfabetos poderia ser devida
não à aprendizagem da leitura mas a uma diferença de compreensão das instruções
dadas ao participantes ou de inteligência. O facto de os analfabetos serem capazes de
realizar o mesmo tipo de tarefa com o mesmo tipo de instrução mas relativamente a
sílabas permite rechaçar a primeira objecção (Morais, Bertelson, Cary e Alegria, 1986).

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REPRESENTAÇÕES FONOLÓGICAS NA APRENDIZAGEM DA LEITURA

Quanto à segunda, dados ulteriores de Verhaghe e Kolinsky (2006) mostram que os


analfabetos e os ex-analfabetos não se distinguem em termos de raciocínio analógico.
Entretanto, os nossos estudos com crianças também nos tinham permitido
estabelecer que o ensino da leitura e a consequente aprendizagem desta influenciam o
desenvolvimento da consciência dos fonemas. Alegria e Morais (1979), comparando
dois grupos de crianças com a mesma média de idades (6 anos e 6 meses) mas
escolhidos de maneira a que um dos grupos tivesse tido 2 a 3 meses de ensino da leitura
na escola e o outro 4 a 5 meses, observaram que o segundo grupo teve um desempenho
em contagem de fonemas significativamente superior ao do primeiro (cerca de 40% e de
20%, respectivamente).
No mesmo sentido vão os resultados de um estudo em que Alegria, Pignot e
Morais (1982) compararam dois grupos de crianças no fim do primeiro ano de
escolaridade, um que aprendia a ler segundo um método de tipo global e o outro
segundo um método de tipo fónico, isto é, em que as correspondências grafema-fonema
são ensinadas. Os grupos não se distinguiram significativamente um do outro numa
tarefa de inversão de sílabas, na qual obtiveram performances de cerca de 60% de
respostas correctas, o que dá especial relevo ao facto de o grupo que aprendia a ler
segundo um método de tipo global só ter obtido 15% de respostas correctas em inversão
de fonemas, muito menos que o desempenho do grupo de método fónico que obteve
mais de 50%.
A demonstração da influência do ensino e do modo de ensino da leitura não
implica no entanto que o desenvolvimento da consciência dos fonemas depende de
maneira crucial da aprendizagem da leitura numa escrita alfabética. Os resultados de
Morais et al. (1979) ofereciam uma sugestão muito forte neste sentido, mas poder-se-ia
ainda objectar que a variável crítica era a aprendizagem de uma representação escrita e
não especificamente de uma escrita alfabética. A demonstração inequívoca da
dependência da tomada de consciência dos fonemas relativamente ao sistema alfabético
de escrita veio a ser fornecida por Read, Zhang, Nie e Ding (1986) ao testarem dois
grupos de letrados chineses e mostrarem que só os letrados não alfabetizados tinham
dificuldades na subtracção e fusão de fonemas comparáveis às dos nossos iletrados
(e portanto também analfabetos). Salvo situação excepcional que pode verificar-se em
alguma cultura, a consciência dos fonemas só é necessária para a aprendizagem da
leitura numa escrita alfabética e só se desenvolve ao iniciar-se esta aprendizagem.
A necessidade, para o desenvolvimento da consciência fonémica, de uma instrução
apropriada, relacionando a segmentação explícita das expressões da fala em fonemas
com as letras que correspondem a estas unidades, foi demonstrada com crianças pré-
-leitoras (Byrne, 1992). O princípio da situação experimental consistia em apresentar às
crianças duas palavras escritas (em Português poderia ser PAR e MAR), dizendo-lhes
como se pronunciam e assegurando-se que memorizaram a correspondência entre cada
palavra escrita e a sua pronúncia. Depois era-lhes apresentada outra palavra escrita, que
se distinguia de uma das palavras daquele par apenas pela consoante final, por exemplo
PAZ, e elas deviam decidir se deve ler-se “pás” ou “más”. As respostas correctas não
foram significativamente superiores ao nível do acaso, isto é, as crianças não inferiram
que, dada a pronúncia de PAR e tendo PAR e PAZ a mesma letra P no início, era mais

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XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

provável que PAZ correspondesse a “pás do que a “más”. No entanto, quando o mesmo
tipo de inferência foi pedido em relação a sílabas, em vez de fonemas, as crianças não
mostraram dificuldade.
Uma série de experiências ulteriores no mesmo estudo revelou que as crianças só
têm sucesso na tarefa de transferência na base do fonema quando são previamente
treinadas a analisar uma palavra em fonemas e a associar directamente fonemas e letras.
Todas as crianças que aprenderam estas duas habilidades com alguns exemplos foram,
depois, capazes de realizar a tarefa de transferência com outros exemplos, isto é,
envolvendo outras letras e outros fonemas. Quer isto dizer que a criança pré-leitora tem
de ser ajudada explicitamente, com exercícios apropriados, a tomar consciência dos
fonemas, e que uma vez que ela toma consciência de certos fonemas pode generalizar
esta descoberta a outros fonemas que ainda não tinha abstraído.
A consciência dos fonemas de uma sílaba implica a representação mental deles
como sendo distintos uns dos outros. O som simples, compacto, de cada sílaba não é
fraccionado em sons menores mas em unidades abstractas que podem participar em
outras combinações. Este tipo de representação vai além da percepção da fala, requer
uma actividade mental pós-perceptiva, consciente, de análise e de síntese. Sem um outro
sistema físico que lhe corresponda, de preferência material, visual ou táctil, e estável,
isto é acessível em permanência, parece muito difícil realizar a abstracção dos fonemas
a partir de episódios de fala. A consciência dos fonemas é portanto uma forma de
consciência que se deve distinguir da simples percepção da semelhança de duas sílabas:
a detecção de /R/ (“onde é que ouves “rrr...’”?) em “rato” numa escolha entre “rato” e
“gato” releva da comparação entre percepções, isto é, da sensibilidade à pronúncia ou
sensibilidade fonológica (Morais et al., 1986), e não da consciência dos fonemas.

3. Que papel desempenha a consciência dos fonemas na aprendizagem da


habilidade de identificação das palavras escritas?
Inúmeros estudos realizados a partir dos anos 80 confirmaram o carácter altamente
preditivo das habilidades de manipulação de fonemas relativamente ao sucesso ou
insucesso na aprendizagem da leitura (cf., entre muitos outros, Stanovich, Cuningham e
Feeman, 1984). Não se trata de uma simples correlação que poderia ser interpretada como
resultante da correlação com outra variável, desconhecida. De facto, o nível daquela
habilidade, medido no 1° ano, está correlacionado com a leitura nos anos seguintes,
mesmo quando se “desconta” a correlação entre a primeira e as últimas medidas da leitura
(Perfetti, Beck, Bell e Hughes, 1987). Este tipo de resultado sugere fortemente que a
habilidade de manipulação de fonemas tem um papel causal no progresso em leitura.
A maneira mais directa de demonstrar este papel causal consiste em comparar os
progressos em leitura de dois grupos de crianças: um, o grupo dito experimental, é
submetido a um programa de treino nas habilidades fonémicas, e o outro, dito de
controle, não recebe esse treino. Toma-se em geral a precaução de dar ao grupo de
controle um outro treino, em habilidades que a priori não têm relação com a leitura, a
fim de que não se tome por um efeito do treino nas habilidades fonémicas o que seria
um efeito geral de manter as crianças ocupadas numa aprendizagem.

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REPRESENTAÇÕES FONOLÓGICAS NA APRENDIZAGEM DA LEITURA

Assim, verificou-se em vários estudos, comparando os desempenhos em leitura


pós-treino e pré-treino, que o treino nas habilidades de manipulação intencional de
fonemas tem um efeito específico positivo (cf., entre outros, Ball e Blachman, 1988,
1991; Williams, 1980). No entanto, em quase todos esses estudos, este efeito só foi
obtido quando se combinou o treino nas habilidades fonémicas com o ensino das
correspondências grafema-fonema. Isto compreende-se porque, como vimos, é
reflectindo sobre a relação entre uma expressão da fala e os constituintes da sua
representação gráfica que geralmente a criança chega a uma representação mental
consciente dos fonemas e pode depois utilizar estas representações na leitura.

4. Quais são as principais etapas de tratamento na aprendizagem da identificação


das palavras escritas?
A aprendizagem da leitura é um processo que embora contínuo apresenta
mudanças qualitativas que permitem definir essencialmente três etapas: a compreensão
do princípio alfabético, o conhecimento cada vez maior e a utilização cada vez mais
eficaz das correspondências grafo-fonológicas, e a constituição de representações
ortográficas das palavras que possibilitam o acesso automático a estas. Tais etapas não
podem ser vistas, porém, como sucedendo-se de maneira abrupta no tempo. As etapas
na aprendizagem da identificação das palavras escritas caracterizam-se antes pelo tipo
de tratamento dominante destas palavras durante a leitura. Isto é sobretudo válido no
que respeita à ausência de fronteira temporal entre as etapas 2 (da descodificação) e 3
(do acesso automático): assim, a criança pode ainda fundar a leitura essencialmente na
descodificação e já ter acesso automático às representações de algumas palavras, e mais
adiante ter acesso automático às representações da maior parte das palavras escritas e
ainda necessitar de descodificar um certo número de palavras pouco frequentes ou
longas e de estrutura complexa.
A primeira etapa já foi descrita. Em princípio, ela deveria ser atravessada e
superada de maneira equivalente pelos aprendizes de leitor das diferentes línguas que se
escrevem com um alfabeto, mas não o é totalmente. Em primeiro lugar, há alfabetos que
apresentam visualmente certas dificuldades, como por exemplo pares de letras em que
uma é a imagem em espelho da outra letra, que outros alfabetos não apresentam. Em
segundo lugar, e mais importante, os grafemas – a contrapartida dos fonemas – podem
ser complexos, isto é incluir mais do que uma letra, e a pronúncia de certas letras e de
certos grafemas pode depender da sua posição na palavra, das letras e dos grafemas
adjacentes, e até desrespeitar estas regras. Dito de outro modo, no caso de um código
ortográfico pouco transparente no emparelhamento entre letras e grafemas, por um lado,
e fonemas, por outro, podem levantar-se dificuldades à escolha do material escrito mais
adaptado à obtenção da compreensão do princípio alfabético. Dada a relativa
transparência do código ortográfico do Português, uma escolha informada e lúcida do
material destinado à compreensão deste princípio deve permitir evitar este tipo de
dificuldade.
Os mecanismos de descodificação grafo-fonológica, que caracterizam a segunda
etapa, compreendem três tipos de processos: a decomposição da palavra escrita em

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XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

sequências de grafemas (não de letras, visto que pode haver grafemas complexos), o
emparelhamento dos grafemas com os fonemas correspondentes, e a fusão ou
integração destas sequências de fonemas assim recuperadas de maneira a obter a forma
fonológica da palavra. Dadas as limitações da memória fonológica de trabalho, a fusão
realizada no fim da recuperação de todos os fonemas da palavra é pouco eficaz quando
a palavra contém mais do que uma sílaba. Por isso, é geralmente recomendado (cf.
Feitelson, 1988) que a fusão seja progressiva. O treino da fusão progressiva tem aliás
uma vantagem, a de permitir estabelecer correspondências grafo-fonológicas entre
unidades maiores do que o grafema-fonema (ditongos, grupos consonânticos, sílabas).
A descodificação é sequencial e por isso quanto maiores e portanto menos numerosas
forem as unidades da palavra em que ela se faz mais rápido e eficaz é a identificação da
palavra. Esta progressão da habilidade de descodificação para unidades maiores não só
reduz o tempo consagrado a cada uma das operações do mecanismo (segmentação,
emparelhamento, integração) como facilita a constituição ulterior de representações
ortográficas lexicais.
Pouco se sabe ainda sobre a progressão da habilidade de descodificação em
Português. No entanto, já foi realizado um estudo (Fernandes, Ventura, Querido e
Morais, 2008) que apresenta, pela similitude das variáveis psicolinguísticas
consideradas e do design experimental, o interesse adicional de permitir uma
comparação com a aprendizagem da leitura em Francês. Em Francês, a partir do meio
do primeiro ano de escolaridade os grafemas complexos deixam de constituir uma
dificuldade na leitura, ao passo que em Português mesmo no fim do primeiro ano eles
ainda são lidos menos bem do que os grafemas simples. Em Francês, no fim do primeiro
ano as palavras regulares são lidas melhor do as pseudo-palavras, o que sugere que a
descodificação já é influenciada pelo conhecimento da ortografia lexical, ao passo que
em Português pela mesma época ainda se observa o mesmo nível de desempenho para
os dois tipos de itens.
Estas diferenças admitem duas interpretações não exclusivas, uma relacionada
com as características dos dois códigos ortográficos e a outra de natureza pedagógica. A
inconsistência na escrita, isto é, o número de grafias possíveis para um mesmo fonema,
é muito maior em Francês do que em Português, e a inconsistência na leitura, isto é, o
número de pronúncias possíveis para uma mesma letra, embora muito menor do que a
inconsistência na escrita, também é mais importante em Francês. Estas diferenças
podem fazer com que o conhecimento da ortografia das palavras francesas,
compensando aquelas duas fontes de variabilidade, desempenhem um papel de maior
relevo do que seria o caso para as palavras portuguesas durante o processo de
descodificação ou mesmo substituindo este processo pelo acesso automático à
representação ortográfica lexical. Mais sensíveis ao problema da inconsistência, os
professores do Francês poderiam também dar mais atenção, ou mais precocemente, ao
ensino da ortografia lexical do que o farão os professores de Português.
O mecanismo de descodificação, quando atinge um certo grau de eficiência,
contribui para a sua substituição por um mecanismo ainda mais eficaz e
qualitativamente diferente, que é a activação automática de representações ortográficas
lexicais. A identificação da palavra escrita deixa assim de ser sequencial para se fazer

16
REPRESENTAÇÕES FONOLÓGICAS NA APRENDIZAGEM DA LEITURA

em paralelo sobre os seus constituintes, e deixa de ser controlada, isto é intencional,


para se tornar automática e inconsciente. Esta tese é coerente com a ideia de que as
habilidades fonológicas, nomeadamente a consciência fonémica e a memoria
fonológica, desempenham um papel crucial na aprendizagem da leitura. Mais
especificamente, a teoria do auto-ensino de Share (1995) propõe que as representações
ortográficas das palavras são adquiridas na sequência das múltiplas repetições bem
sucedidas da descodificação de novas palavras. De facto, algumas exposições a estas
palavras são suficientes para que haja, alguns dias mais tarde, um melhor desempenho
na leitura das palavras repetidas em comparação com pseudo-palavras homófonas não
repetidas (Share, 1999).
Este efeito ocorreu mesmo quando as palavras alvo, na realidade pseudo-palavras
cujo sentido pode ser inferido, eram inseridas em pequenos textos. Parece assim que,
quando a descodificação é realizada num contexto significativo, o estabelecimento de
laços fortes entre a ortografia, a fonologia e o significado da mesma palavra facilita a
recuperação da forma ortográfica e por essa via contribui à sua consolidação na
memória. Estes resultados foram obtidos próximo do fim do segundo ano primário, mas
não do primeiro, nem no início do segundo ano.
A natureza fonológica da descodificação continua presente no processo de acesso
automático a estas representações. Há indicações disso, como veremos, no leitor adulto, e
também as há na criança que aprende a ler. Booth, Perfetti e McWhinney (1999)
utilizaram uma situação na qual as crianças eram expostas a uma pseudo-palavra com a
função de prime, seguida de uma palavra alvo e em seguida de uma máscara. A pseudo-
-palavra apresentava uma semelhança quer só ortográfica, quer ortográfica e fonológica,
com a palavra alvo. Com durações do prime e do alvo de 30 milésimos de segundo, um
efeito de facilitação fonológica foi observado para além do efeito de facilitação
ortográfica, tanto nas crianças mais idosas como nos melhores leitores. Tornar-se leitor é
portanto tornar-se capaz de activar automaticamente representações ortográficas das
palavras, mecanismo este que inclui a activação automática de representações fonológicas.

5. Que papel desempenham as representações fonológicas na identificação das


palavras escritas no leitor adulto competente?
O estudo acima referido implica que também no leitor competente se deveria
encontrar indicações da intervenção de representações fonológicas no decurso do
processo de identificação automática da palavra escrita. De facto, estudos anteriores ao
de Booth, Perfetti e McWhinney (1999) já o tinham mostrado. Descrevo aqui
sucintamente a experiência realizada por Rayner, Sereno, Lesch e Pollatsek (1995), que
utilizou a técnica dita da fronteira, uma técnica em que a apresentação é contingente aos
movimentos oculares do leitor.
Uma frase, por exemplo, “the birds prefer beech-trees for nesting” deve ser lida no
ecrã de um computador. Quando o leitor, depois de ter fixado “birds” faz um
movimento sacádico para fixar “prefer” o que se encontra à sua direita é “jmbrs-trees
for nesting”, de maneira a que não possa tratar a informação linguística que de outro
modo estimularia a parte da retina imediatamente à direita da região fixada. Ao deixar

17
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

“prefer”, há, durante o movimento sacádico, uma mudança de que não se apercebe.
Segundo a condição experimental, ele encontra uma de quatro palavras compostas: o
alvo “beech-trees”; “bench-trees”, que difere do alvo por uma só letra e se pronuncia
diferentemente; “beach-trees”, que difere do alvo também por uma só letra e na mesma
posição mas que é seu homófono, isto é, se pronuncia tal qual o alvo; e enfim “noise-
-trees”, em que a primeira palavra é completamente diferente da primeira palavra do
alvo, tendo apenas o mesmo número de letras. Em seguida, 30 ou 36 ms depois do
início da fixação da primeira palavra que funciona como prime, esta é substituída pela
primeira palavra do alvo. A substituição, tendo lugar durante a fixação, é detectada pelo
leitor que no entanto não chega a identificar o prime.
O tratamento inicial de “noise” perturba a identificação do alvo, conduzindo a uma
fixação mais longa deste: de facto, com uma duração do prime de 30 ms, a fixação total
do alvo foi de 400 ms contra 333 ms quando o alvo “beech” esteve presente desde o
início da fixação. A comparação dos tempos de fixação quando o alvo é precedido do
prime ortograficamente semelhante “bench” e do prime homófono “beach” constitui a
comparação crucial. Com uma duração do prime de 30 ms, a interferência relativamente
à condição em que “beech” foi apresentado desde o início foi praticamente a mesma
naquelas duas condições de prime, o que significa que durante os primeiros 30 ms de
tratamento houve apenas extracção de informação ortográfica, talvez da informação
relativa às letras. Porém, com uma duração do prime de 36 ms, a interferência foi de 59
ms com um prime ortograficamente semelhante mas de apenas 29 ms com um prime
homófono do alvo. Assim, 6 ms mais tarde já alguma informação fonológica tinha sido
activada a partir do prime e tinha contribuído para a identificação da palavra alvo.
Assim, no leitor competente algum tipo de representação fonológica intervém no
processo de identificação automática das palavras escritas.
Uma outra série de estudos preocupou-se com o tipo de unidades activadas. Assim,
há indicações de que a natureza consonântica ou vocálica do grafema intervém de
maneira distinta na identificação da palavra escrita. Num estudo de Lee, Rayner e
Pollatsek (2001), a apresentação diferida em 30 ms de uma letra da palavra conduziu a
um aumento da duração da fixação que foi maior no caso de uma consoante (54 ms) do
que no caso de uma vogal (35 ms), enquanto a apresentação diferida em 60 ms conduziu
a efeitos de interferência semelhantes. Estes resultados apoiam a hipótese de uma
activação prioritária do esqueleto consonântico da palavra escrita (Berent e Perfetti,
1995). Outros trabalhos, como o de Treiman e Chafetz (1987) puseram em evidência o
papel de unidades sub-silábicas maiores do que o grafema, como o ataque (complexo) e
a rima. E o papel da sílaba foi demonstrado, entre outros estudos, por Alvarez, Carreiras
e Perea (2004): a identificação de palavras escritas precedidas de pseudo-palavras
mascaradas foi mais rápida em 42 ms quando o prime e o alvo partilhavam a primeira
sílaba (“ju.nas” – “JU.NIO”) do que quando partilhavam exactamente o mesmo número
de letras iniciais mas não a primeira sílaba (“jun.to” – “JU.NIO”). Uma outra
experiência deste mesmo estudo, aproveitando o facto de B e V se pronunciarem do
mesmo modo em Espanhol, mostrou que aquele efeito se deve à sílaba enquanto
unidade fonológica.

18
REPRESENTAÇÕES FONOLÓGICAS NA APRENDIZAGEM DA LEITURA

Obviamente, os resultados experimentais apresentados aqui não são exaustivos.


Importa sobretudo que eles não sejam tomados como indicativos da relevância das
unidades mencionadas, independentemente da língua. As características fonológicas
desta e as características particulares do seu código ortográfico podem fazer com que
certas unidades tenham um papel importante na identificação das palavras escritas numa
certa língua e pouco ou nenhum papel noutra língua. Ainda haverá pela frente muito
trabalho até se chegar a uma descrição suficientemente precisa das relações entre, por
um lado, as características da língua oral e escrita e, por outro, a preponderância relativa
das representações ortográfica e fonológica das diferentes unidades sub-lexicais na
identificação das palavras escritas da mesma língua.

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21
Alguns caminhos da Semântica

Fátima Oliveira
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Centro de Linguística da Universidade do Porto1

Abstract
In the first part of this talk we address some topics central to the history of
semantics, the problems encountered and some of the solutions proposed. In the second
part some classical examples that changed the way the problems were viewed in
semantics are presented and in the third part the importance of formalization is pointed
out. In the fourth and fifth parts new ways of looking at the problems are mentioned,
particularly the innovative concept of dynamic meaning, which opened recent directions
in semantics allowing new forms of interaction with other areas like lexicon, syntax and
pragmatics.

Keywords: semantics, formal semantics, recent semantic theories, interfaces


Palavras-chave: semântica, semântica formal, teorias semânticas recentes, interfaces

Nos últimos trinta/quarenta anos a semântica deixou de ocupar um lugar periférico


na teoria da gramática para ter um papel marcante na investigação em linguística. Por
isso faz sentido hoje equacionar esse papel e a relevância da semântica no conjunto dos
conhecimentos linguísticos que possuímos. Ao abordar esta problemática, gostaria, no
entanto, de alertar para o facto de esta apresentação ser parcial em vários sentidos. Com
efeito, selecciono apenas alguns modelos ou teorias e mesmo relativamente a estes só
alguns aspectos são mencionados. Mas estes são caminhos actuais da semântica em que
os modelos deixaram de ser, em grande parte, totais, para serem parciais, como se verá
mais à frente.

1. História, problemas e caminhos


Alguns problemas que se colocam em semântica são muito antigos e são também
relativamente recentes e até actuais. De facto, há mais de vinte séculos, Aristóteles
colocava problemas deveras interessantes discutindo-os à luz do que então se sabia e
fazendo várias propostas que, apesar de algumas dificuldades na sua interpretação,

1 O Centro de Linguística da Universidade do Porto é uma unidade I&D financiada pela FCT, Programa
FEDER/POCTI – U0022/2003.

Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,


APL, 2009, pp. 23-41
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

iluminaram esses problemas. Entre eles mencione-se a questão das frases declarativas
gerais universais e particulares – mais tarde os quantificadores universal e existencial –
e suas negações e as relações que entre eles se estabeleciam de contradição, implicação
e outras, dando origem ao que veio posteriormente a chamar-se o quadrado de
Aristóteles, relacionando tais frases ou quantificadores quanto ao eixo da quantidade e
da qualidade. Um outro problema foi a articulação entre o necessário e o possível e toda
a polémica sobre o contingente, isto é, o possível e não necessário. Outro problema
ainda foi a consideração, na Metafísica, de que alguns verbos envolvem um fim e outros
não, que corresponde em certa medida ao nosso conhecido contraste télico/atélico, ou
distinguindo, embora de forma pouco clara, movimentos e actualidades 2.
Foram precisos muitos séculos para que alguns destes problemas encontrassem
algumas soluções. Por exemplo, a questão dos quantificadores múltiplos numa frase só
vem encontrar solução com a lógica de predicados criada por Gottlob Frege nos finais
do século 19, instaurando, entre muitos outros aspectos, o que hoje todos conhecem
como escopo ou âmbito dos quantificadores. A questão da articulação entre necessário e
possível, muito discutida durante séculos, encontra em Gottfried Leibniz, na segunda
metade do século 17, um conceito fundamental, o de ‘mundo possível’, que vem a ser
utilizado em meados do século 20 por Saul Kripke e por Jaakko Hintikka para construir
a semântica dos vários sistemas formais de lógica modal propostos por Charles I. Lewis
no princípio do mesmo século. A questão das situações com um fim ou não ou a
diferença entre o que hoje chamaríamos situações dinâmicas e não dinâmicas é
parcialmente descoberta no século 19 em línguas que manifestam formalmente algumas
dessas distinções como é o caso das línguas eslavas. Mas é só em meados do século 20
que essa questão começa a ser sistematicamente analisada por filósofos e
posteriormente por linguistas. Mas se estas questões que seleccionei são antigas são
também relativamente recentes e, como veremos, actuais.
Com efeito, o que chamamos semântica foi ao longo dos séculos objecto de
discussão e controvérsia em grande medida no seio da filosofia e da lógica e só mais
recentemente na linguística. As diferentes abordagens têm estado em certa medida
dependentes do que se considera ser o objecto de estudo da semântica, pois os
resultados podem diferir se a questão central for a relação linguagem/pensamento,
linguagem/verdade, linguagem/comunicação ou até a estrutura em si.
Uma outra questão relevante é a metodologia utilizada. Da semântica da palavra,
cujo primeiro estudo enquanto tal se deve a Bréal (1897), embora ainda muito
relacionado com o estudo da mudança do significado, passando pela semântica
estrutural, cujos objectivos principais eram a classificação das palavras quanto ao
significado de acordo com traços distintivos mais ou menos semânticos, passou-se para
a semântica da frase, que começa a desenvolver-se a partir dos anos 60/70 do século 20.
Nesta altura dois aspectos se revelam cruciais no desenvolvimento da semântica da
frase. Por um lado, o crescente impacto da gramática generativa em que, apesar da
autonomia da sintaxe, questões como ambiguidade estrutural associada a ambiguidade

2 Para esta última questão, veja-se, entre outros, Dowty (1979:52-53).

24
ALGUNS CAMINHOS DA SEMÂNTICA

de significado ou a questão de saber se as transformações preservam ou não o


significado estão na ordem do dia 3. Por outro lado, o advento do que viria a ser
conhecido por Gramática de Montague marca indelevelmente o curso da semântica
formal cujo objecto de análise deixa de ser a palavra em si para serem diferentes formas
de estrutura.
Mas as propostas revolucionárias de Richard Montague sobretudo nos seus artigos
mais influentes, Universal Grammar e Proper Treatment of Quantification in Ordinary
English (PTQ), não surgem a partir do nada. Na verdade, Montague tinha sido aluno de
Alfred Tarski, o qual juntamente com Rudolph Carnap, Gottltob Frege, Bertrand
Russell e outros lideraram nos primeiros anos do século 20 trabalho sobre tópicos muito
interessantes para os linguistas. Neste tempo, muitos lógicos desenvolveram trabalho
sobre questões directa ou indirectamente relacionadas com lógica modal e a distinção
entre modelo e mundos possíveis proposta por Kripke (1963) vem desenvolver técnicas
de teoria dos modelos que permitem estudar questões como quantificação e lógica
modal, lógica temporal, demonstrativos, adjectivos e advérbios, verbos de atitude
proposicional, condicionais… Em suma, questões de lógica intensional.
Entre vários princípios fundadores da Gramática de Montague encontra-se o
princípio de composicionalidade, proposto por Frege, embora sem esta designação, e
também o princípio de que condições de verdade e implicação lógica (entailment) são
os fenómenos de que é preciso dar conta para se alcançar adequação observacional 4.
Para além disso, o seu conceito de gramática envolve considerar que há um
homomorfismo entre a sintaxe entendida como uma álgebra e a semântica também
entendida como uma álgebra sendo isso feito através da composicionalidade, o que tem
como consequência o recurso ao princípio de ‘rule-to-rule’ e a uma sintaxe
completamente explícita. Uma outra ideia fundadora de procedimentos metodológicos,
posteriormente seguidos pela semântica formal, é a de Fragmento isto é, em vez de
escrever regras para a sintaxe e a semântica de uma determinada construção, opta-se por
escrever a sintaxe e a semântica de um subconjunto da língua isto é, um fragmento.
Mas convém mencionar brevemente por que razão disse que as propostas de
Montague foram revolucionárias. Elas foram-no em parte para muitos lógicos quando
Montague se propôs tratar o inglês como uma linguagem formal (cf. English as Formal
Language) tendo em conta que a visão da maioria dos lógicos dos dois lados do
atlântico, talvez com a excepção de Reichenbach e do último Wittegenstein, era a de
que as línguas naturais eram ambíguas, vagas e pouco sistemáticas e por isso
dificilmente formalizáveis. Por outro lado, ao recorrer a uma lógica intensional e a uma
gramática categorial, teoria dos tipos (Russell) ou ao cálculo lambda, Montague
ultrapassa limitações que apresentava a aplicação da lógica proposicional ou a de

3 Lembre-se o famoso exemplo de Chomsky sobre a passiva: todas as pessoas nesta sala falam duas línguas
em contraste com duas línguas são faladas por todas as pessoas nesta sala. Veja-se ainda Katz & Fodor
(1963) ou Chomsky (1965).
4 Cresswell (1978) chamou-lhe “Most Certain Principle”, isto é, podemos não saber o que são significados,
mas sabemos que duas frases não têm o mesmo significado se, numa dada situação, uma é verdadeira e a
outra falsa.

25
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

predicados que, em alguns casos, começou a ser usada pela semântica generativa. É
assim que posteriormente alguns linguistas como Dowty tentam fazer a ponte entre uma
semântica lexical e/ou generativa e a gramática de Montague.
Por outro lado, havia também uma longa tradição nos estudos linguísticos, em
particular nos Estados Unidos 5, em se considerar o significado, e consequentemente o
seu estudo, de muito difícil apreensão. A utilização então feita de traços revelou-se
pouco produtiva e o estudo do significado, parte tão importante de qualquer acto
comunicativo, parecia estar num impasse. Por isso, a ideia de que o significado de uma
palavra – talvez com excepção dos designadores rígidos, cujo significado é discutível –
só se torna claro no quadro de uma estrutura começou a ganhar forma.
O interesse constante dos linguistas pela estrutura fê-los por algum tempo esquecer
o léxico mas, enquanto o trabalho de Richard Montague estabeleceu no princípio dos
anos 70 os fundamentos da investigação em semântica formal, mais ou menos na
mesma altura Jackendoff (1972) propunha um sistema para representar relações lexicais
no quadro da gramática generativa.
Mas já nos anos 60 do século passado a semântica generativa tinha iniciado os
seus passos. Com efeito, Katz e Fodor (1963) e Katz e Postal (1964) tentam representar
os significados através de feixes de traços e combinações de significados como
manipulações desses feixes de traços. No entanto, havia problemas com combinações
que não se podiam resolver por conjunção de predicados. Mais tarde, no quadro da
semântica generativa surgem representações que se assemelham a lógica de predicados
de primeira ordem com alguns ‘operadores’ novos como Agente ou Causa, mas
relativamente aos quais não era dada uma definição porque, de certa forma, eram
entendidos como primitivos, acabando por não ser o que David Lewis (1970) considera
ser “real semantics”, isto é, a semântica de uma frase é as condições sob as quais é
verdadeira.
Mas o trabalho de Montague forneceu um modo rigoroso sobre como o princípio
de composicionalidade poderia ser usado e, por isso, composicionalidade e semântica
baseada na teoria dos modelos determinou a necessidade de uma interpretação explícita
dos operadores incluídos na análise semântica, o que permitiu o desenvolvimento da
investigação em temas como tempo e aspecto, semântica dos determinantes, verbos
modais, condicionais, plurais e nomes massivos, temas estes que não poderiam ser
tratados em termos de representações configuracionais, eventualmente adequadas para
resolver problemas de escopo, mas não os anteriores. De facto, a teoria dos tipos tornou
possível a interpretação de relações gramaticais básicas como aplicação de função-
-argumento ultrapassando problemas colocados pela semântica generativa, pois a lógica
utilizada era sobretudo a de predicados que não foi especialmente desenhada para tratar
problemas linguísticos.
Para ilustrar o que acaba de ser dito, vejamos um exemplo de como esta lógica não
é nem explícita nem composicional em muitos casos.

5 Recordemos, entre outros, Bloomfield (1933) que dizia que não se podia estudar o significado por ser do
domínio do enciclopédico.

26
ALGUNS CAMINHOS DA SEMÂNTICA

Uma frase como (1) seria naturalmente traduzida em lógica de predicados por (2):

(1) O João fuma e bebe


(2) Fj ∧ Bj

No entanto, esta tradução não é explícita porque é necessário recorrer ao nosso


conhecimento de que (1) expressa a conjunção de duas frases. E também não é
composicional na medida em que nada se diz sobre como o significado de (1) é
construído a partir de João, fuma e bebe. No entanto, acrescentando um operador ‘λ‘ tal
tradução passa a ser possível, como em (3) cuja leitura é a seguinte “o João está entre os
indivíduos que têm a propriedade de fumar e beber”:

(3) λx(F(x) ∧ B(x)) (j)

Mas vejamos ainda outro caso, como em (5), cuja tradução também não é
composicional, pois não temos uma tradução separada para todo o homem:

(4) Todo o homem ri.


(5) ∀x (H(x) → R(x))

Usando o operador λ, todo o homem será traduzido por (6) 6, expressando “Y é


uma propriedade que é verdade sobre todos os homens”:

(6) λΥ∀x(H(x) → Υ(x))

Aplicando (6) ao predicado R (rir), obtemos a tradução de (4):

(7) λΥ∀x(H(x) → Υ(x)) (R)

Esta fórmula expressa a seguinte proposição: “a propriedade de ser algo que ri está
entre as propriedades de todos os homens”. Isto significa todo o homem ri. Tanto (7)
como (3), por conversão λ, podem ser reduzidos a (5) e (2) respectivamente. Isto quer
dizer que o resultado da tradução não é melhor, mas sim a forma de lá chegar.
Assim, a questão que se impõe, dada a afirmação anterior, é a seguinte: se as duas
expressões representam o mesmo significado, então para quê recorrer a operadores
aparentemente desnecessários e usar uma notação mais complexa? No entanto, a
questão deve ser colocada de outra forma: se frases com quantificação restrita como um
homem ou todas as crianças, como em (8)-(9), podem ser parafraseadas pelos
quantificadores não restritos (existencial e universal) como em (10)-(11), já para
quantificadores como muitos homens, poucos homens tais paráfrases não são adequadas.

6 Y é uma variável de tipo 〈e,t 〉 e (6) é do tipo 〈〈e,t〉,t〉. Como tal, a sua interpretação é de um conjunto de
conjuntos de indivíduos.

27
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Veja-se o exemplo (12) e as suas possíveis paráfrases em (13) e (14). Obviamente,


nenhuma das paráfrases tem o significado que atribuímos a (12).

(8) Um homem está a rir


(9) Todas as crianças estão a dormir

(10) Alguma coisa (é um homem e ri)


(11) Tudo (dorme, se é uma criança)

(12) Muitos milionários são felizes


(13) Muitos (são milionários e felizes)
(14) Muitos (são felizes, se são milionários)

Esta pequeníssima amostra do formalismo utilizado gerou e tem gerado muitas


controvérsias.
Uma dessas controvérsias tem a ver com a distinção então feita por Montague e
outros como David Lewis entre a descrição de uma língua e a descrição do
conhecimento da língua do falante7. Esta questão tem envolvido não só os linguistas
que preferem abordagens representacionais mas também investigadores da ciência
cognitiva e cognição em geral em termos de processos formais de representações
simbólicas. Uma outra questão tem sido o debate sobre o princípio de
composicionalidade que tem ocorrido no confronto com outras teorias, mas também no
próprio seio da semântica formal envolvendo discussões sobre se uma teoria é
adequadamente composicional, que versão de composicionalidade deve ser atribuída à
estrutura das línguas naturais ou até se a composicionalidade é um desideratum crucial
de uma teoria. Barbara Partee, num excelente artigo de 1984, discute estas questões e
menciona diferentes formas de composicionalidade, tendo ela própria desenvolvido
trabalhos em que tal princípio deixa de ser tão restritivo, em particular o seu trabalho
sobre ‘type-shifting’.
Mais recentemente, a questão da composicionalidade não está no centro das
discussões e muitos semanticistas limitam-se a observar uma semântica suficientemente
explícita e sistematicamente relacionada de alguma forma com a sua sintaxe. Segundo
Partee (1996:27) há três tipos de atitudes dos semanticistas em relação à
composicionalidade: a empírica, em que a composicionalidade representa uma questão
crucial acerca da arquitectura da gramática (cf. Partee, 1975); a metodológica, em que a
composicionalidade é uma restrição fundamental sobre as teorias de gramática pois só
gramáticas com uma sintaxe desambiguada são gramáticas bem formadas; a de ‘higiene
mental’, em que o princípio de composicionalidade não tem nenhum estatuto especial,
mas é visto como um exemplo de um princípio metodológico fundamental segundo o
qual deve haver uma relação sistemática de algum tipo entre sintaxe e semântica (cf.
Kamp & Reyle, 1993).

7 Veja-se também a este respeito o programa da Gramática Generativa.

28
ALGUNS CAMINHOS DA SEMÂNTICA

Uma outra crítica mais geral que foi sendo feita à semântica formal foi o peso
excessivo da formalização – o que é uma consequência da necessidade acima referida
de explicitude –, afastando-se de alguma maneira dos dados linguísticos.
Assim, no que se segue gostaria de mencionar em primeiro lugar alguns aspectos
que mostram o interesse da semântica formal pelas línguas e, em segundo lugar,
mencionar algumas virtudes gerais do formalismo.

2. Dados linguísticos e problemas semânticos


Comecemos então por observar alguns exemplos linguísticos, que são clássicos
porque estiveram na base de grandes mudanças na semântica. Um deles, (15), muito
debatido há anos atrás e hoje esquecido em virtude da evolução ou surgimento de
algumas teorias semânticas. Este exemplo de Montague está associado às suas propostas
e tem a ver com a utilização de uma lógica intensional para o tratamento de
quantificadores. Mas o que continua a ser relevante por causa das questões de escopo
são exemplos como (16).

(15) John seeks a unicorn.


(16) No one has seen a unicorn.

O exemplo em (16) mostra que não é possível tratar questões de ambiguidade de


escopo simplesmente em termos de relações de implicação lógica (entailment) uma vez
que (16’) não implica logicamente (16’’) pois a leitura de escopo largo para o sujeito é
um mundo em que os unicórnios não existem (ninguém viu algo com a propriedade de
ser unicórnio). Este facto é incompatível com a leitura de escopo largo do objecto
directo na medida em que a possibilidade de haver um unicórnio que ninguém viu não
exclui que outros não possam ser vistos 8.

(16’) ¬ ∃x,∃y (Unicórnio (y) ∧ Ver (x,y))


(16’’) ∃y, ¬ ∃x (Unicórnio (y) ∧ Ver (x,y))

Questões de escopo são largamente debatidas em semântica e um dos


procedimentos mais usados é ‘quantifying-in’ – que se distingue de ‘quantifying
lowring’ (MacCawly, 1981) e de ‘quantifier-raising’ (cf. May, 1977) –, em que a
estrutura e a interpretação são construídas em paralelo usando o que se costuma chamar
uma teoria derivacional de interpretação e distinguindo-se de uma visão configuracional
da interpretação em que esta é atribuída à estrutura. Esta questão está muito relacionada
com a interpretação de pronomes, escopo em interrogativas como em frases do tipo de

8 Isto não se passa com exemplos como os seguintes, em que (ii) implica logicamente (iii), pois, quando uma
pessoa específica acompanha todos, é verdade que todos são acompanhados por alguém:
(i) Someone accompanied everybody
(ii) ∃x∀y Accompany (x,y)
(iii) ∀y∃x Accompany (x,y)

29
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

que mulher todo o homem ama? ou ainda, por exemplo, quantificação e anáfora em
construções complexas.
Vejamos então um outro conjunto de exemplos muito interessante. As conhecidas
donkey sentences apresentadas e discutidas pela primeira vez por Geach (1962):

(17) If a farmeri owns a donkeyj, hei beats itj


(18) Every farmeri who owns a donkeyj beats itj
(17’) ∃ x ∃ y [farmer(x) & donkey (y) & x owns y] → x beats y
(17’’) ∀x ∀y [(farmer(x) & donkey (y) & x owns y) → x beats y]

Como é evidente, em (17) a donkey não é referencial, só podendo ser


quantificacional. Mas, contrariamente ao esperado, não pode ser analisado como
quantificação existencial porque, como se pode ver em (17’), as variáveis em x beats y
estão livres. A única solução seria (17’’) mas isso seria, à primeira vista, em parte
contra-intuitivo, pois os indefinidos seriam umas vezes quantificadores existenciais e
outras universais.
Este é também um problema que surge com anáfora no discurso. Veja-se o
comportamento dos indefinidos como antecedentes de anáforas. Comecemos por (19) e
a sua tradução em (19’), com uma solução obtida através de conjunção de predicados:

(19) Uma criançai chegou. Elai é loura.


(19’) ∃ x [criança(x) & x chegou & loura (x)]

Se (19) parece ter uma solução, já se pode questionar como resolver do mesmo
modo frases como (20) em que pareceria mais adequado tratar uma criança como
expressão referencial:

(20) Uma criançai chegou. O que fez elai a seguir?

Assim, a pergunta que se impõe é a seguinte: como é que o quantificador


existencial pode ultrapassar os limites da frase, como em (19), e outros quantificadores
não o podem fazer, como em (21), em que a anáfora é impossível, ou em que a solução
proposta em (19’) não pode ser adoptada em casos como (22)? (23) não tem a mesma
leitura que (22) pois, enquanto (23) é verdadeira num contexto em que várias crianças
chegaram mas só uma pediu a boneca (propriedade de chegar+pedir a boneca), em (22)
afirma-se que só uma criança chegou e por isso, no contexto anterior é falsa.

(21) Toda a criança chegou. Ela é loura.


(22) Exactamente uma criançai chegou. (Ela)i pediu a boneca.
(23) Exactamente uma criança chegou e pediu a boneca.

Para resolver estes problemas, Hans Kamp (1981b) propõe a “Discourse


Representation Theory” e, quase ao mesmo tempo e de modo independente, Irene Heim
(1982) propõe a “File Change Semantics” cujos princípios orientadores são muito
aproximados.

30
ALGUNS CAMINHOS DA SEMÂNTICA

A DRT apresenta as seguintes características principais:


1. O valor semântico de uma porção de discurso não é o seu valor de verdade
(numa semântica de condições de verdade), mas o seu papel no alargamento de
informação existente (perspectiva dinâmica do significado);
2. Os indefinidos e os definidos não são nem quantificacionais nem referenciais.
Funcionam como variáveis traduzidas como em fórmulas abertas 9;
3. Há quantificação existencial que tem escopo sobre todo o discurso; se um
discurso introduz uma variável, só pode ser verdadeiro se houver um valor que a
verifique;
4. Adopção da quantificação restrita não selectiva 10 (cf. Lewis, 1975);
5. As características anteriores permitem a adopção de um tratamento clássico da
anáfora – a anáfora como ligação de variáveis.

Outros dois exemplos foram muito debatidos porque levantaram problemas muito
relevantes no quadro da semântica e, muito possivelmente, no quadro da linguística. Os
exemplos são de Barbara Partee, o primeiro de 1972 e o segundo de 1973:

(24) John is building a house.


(25) I didn’t turn off the stove.

O primeiro destes exemplos esteve na base da adopção de uma semântica de


intervalos que veio a ser proposta pela primeira vez num famoso artigo de Michael
Bennett e Barbara Partee escrito em 1972 mas só publicado em 1978. Este artigo veio
revolucionar o tratamento formal do tempo e do aspecto por contraste com a lógica
proposicional temporal construída com operadores temporais baseados nos modais,
envolvendo quantificação sobre tempos do passado e do futuro11 e em que o tempo
presente não era tido em conta por ser uma simples proposição. Este problema foi
parcialmente resolvido com a introdução por Kamp (1971) do operador now e a
consideração de um tempo-zero (t0) semelhante ao Speech Point de Reichenbach
(1947). A partir desta altura algumas questões sobre o tempo linguístico e o aspecto
passaram a ser vistas de uma forma absolutamente diversa no quadro da semântica, pois
em outras áreas, contrariamente ao que acontece actualmente, não eram objecto de
interesse.
Quanto ao segundo destes exemplos, surge no quadro de uma proposta no sentido
de se considerar os tempos como pronomes em vez de o tratamento do tempo passado
ser entendido como uma quantificação existencial sobre tempos passados. A discussão

9 Numa frase como (19), uma criança introduz uma variável, x, e ela é uma ocorrência da mesma variável.

10 Tratamento proposto por Lewis (1975) para advérbios de quantificação.

11 Os operadores utilizados eram os seguintes:


G – vai ser sempre o caso que;
H – foi sempre o caso que;
F – será em algum estádio no futuro o caso que;
P – foi em algum estádio no passado o caso que.

31
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

ainda continua, mas a partir de então e sobretudo em trabalhos mais recentes, a partir
dos anos 90, é comum falar-se de anáfora temporal quando um tempo diferente do da
enunciação serve como ponto de perspectiva temporal (Cf. Kamp & Reyle, 1993) ou
ponto de referência (Reichenbach, 1947) propiciando subordinação temporal ou não.
Por último, gostaria de mencionar um outro exemplo cuja autoria é discutida (Greg
Carlson ou Barbara Partee), mas que influenciou o debate sobre a diferença entre termos
de espécie com bare plurals ou com definido singular:

(26) Green bottles have narrow necks


(27) The Coke bottle has a narrow neck
(28) ?? The green bottle has a narrow neck

Deste grupo de exemplos, os dois últimos surgem em Krifka et al. (1995) e


mostram que os termos de espécie construídos com definido singular só o podem ser
com espécies bem estabelecidas. Esta questão é realmente relevante na medida em que
está relacionada com o problema de como se obtêm termos de espécie, em particular
com definido singular, o que parece ser comum às línguas, que, embora diferentes em
outros aspectos, têm artigos (cf. Chierchia, 1998, entre outros).

3. Da importância da formalização
Como tinha anunciado antes, e em forma de resposta a quem discute a relevância
da formalização, gostaria de brevemente abordar esta questão.
Numa conferência proferida em 1977, Jean Ladrière sugere que há 4 tipos de
saber: sapiente, contemplativo, hermenêutico e científico. O primeiro é a concepção
grega do saber na medida em que é preciso ter uma visão exacta da existência; o
segundo, a concepção de saber dos estóicos, é puramente teórico sem procura de
incidências práticas, pois é preciso saber para saber (ou o nosso ‘saber não ocupa
lugar’). O terceiro interpreta a realidade para lhe dar um sentido, situando-a num
conjunto mais vasto, pois o mundo não é só descrito, mas também construído. Por fim,
temos o saber científico que é formalizado e operatório, o que significa que é acção e
que exerce um poder. Segundo o filósofo, o discurso formalizado é operatório de 4
maneiras:
1. O formalismo dá um poder de transformação.
A lei lógica da contraposição evidencia que é possível apresentar uma fórmula de
outro modo, sendo um princípio que pode transformar a realidade:

(29) (p →q) ⇔ (¬ q → ¬ p)

2. O formalismo dá um poder de modelização.


O modelo formal simplifica e reduz porque escolhe parâmetros que não recobrem
a totalidade das coisas. Isto implica uma classificação e uma unificação que acentuam o
poder de transformação.
3. O formalismo dá um poder de expansão.

32
ALGUNS CAMINHOS DA SEMÂNTICA

O saber científico é generalizável porque cada parte funciona sempre em relação a


um conjunto mais vasto. Esta característica própria do saber formal assegura-lhe um
motor interno de expansão e de progresso. Veja-se a operação lógica da conjunção que
pode associar-se à da disjunção para participar num saber mais vasto:

(30) [p∧ (q ∨ m)] ⇔ [(p ∧ q) ∨ (p ∧ m)]

4. Poder de auto-controle.
Um regulador interno é uma garantia de auto-controle. Por exemplo, em lógica
binária, o princípio fundamental de não contradição confirma ou infirma os novos
desenvolvimentos do saber.
Por isso o poder de expansão e o de auto-controle explicam o desenvolvimento das
ciências formalizadas. O de transformação e o de modelização explicam a sedução que
exercem no homem. No entanto, a seguinte observação de Barbara Partee parece-me
fundamental:

“Formalization is an excellent thing in moderation. When there’s too little,


claims are fuzzy and argumentation is sloppy. But there can be too much
formalization, or premature formalization. So one shouldn’t hesitate to share
ideas in an informal state; looking at things from many points of view may help a
good formalization emerge.” (Partee, 2004:14)

4. Novos desenvolvimentos
Tem havido muito trabalho sobre vários aspectos das línguas naturais quer
alargando a investigação a novos temas, quer ainda voltando aos velhos temas, mas
vistos de uma outra perspectiva teórica ou, pelo menos, expandida ou reformulada. As
posições deixaram de ser tão extremadas, havendo cada vez mais uma preocupação em
dar conta dos dados das línguas.
Um dos casos é a teoria dos quantificadores generalizados, inicialmente proposta
por Montague mas posteriormente desenvolvida por outros, em particular Barwise e
Cooper (1983) e Keenan e Stavi (1985). Esta teoria trata de objectos semânticos que são
as interpretações de termos, isto é, conjuntos de propriedades. Assim, um dos pontos de
interesse é a estrutura destes objectos semânticos: que propriedades formais têm, que
subclasses podem ser distinguidas e quais destas podem ser consideradas como
representando significados de termos das línguas naturais. Uma das primeiras linhas de
investigação consiste na classificação dos quantificadores generalizados em termos das
suas propriedades formais, tentando explicar alguns fenómenos linguísticos. Um caso é
a possibilidade de ocorrência em contextos existenciais (ou there insertion em inglês).
Isto é, por que razão alguns termos, como em (31)-(32), podem ocorrer neste contexto e
outros não podem como em (33)-(34):

(31) Há alguém no jardim.


(32) Há duas pessoas no jardim

33
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(33) *Há todas as pessoas no jardim


(34) *Há as duas pessoas no jardim

Note-se que esta questão também foi levantada por Milsark (1977) propondo a
distinção entre quantificadores fortes e fracos.
Outra questão também discutida neste enquadramento é a distribuição de
expressões de polaridade negativa (Ladusaw, 1980; Zwarts, 1993) ou ainda ‘redução da
conjunção’. O problema está em que a frase (35) é equivalente a (36), mas (37) não é
equivalente a (38):

(35) O Rui fuma e o Rui canta


(36) O Rui fuma e canta
(37) Ninguém fuma e ninguém canta
(38) Ninguém fuma e canta

Um outro caso é o exemplificado pela DRT. Esta teoria é inovadora no quadro da


semântica formal e é a primeira de um conjunto de teorias recentes (como ‘File Change
Semantics’, Semântica das Situações, Cálculo de Predicados Dinâmico, ‘Update
Semantics’) que desenvolvem uma noção dinâmica de significado. A concepção geral
da teoria tende a reconciliar a visão declarativa (ou estática) do significado com uma
visão dinâmica ou processual. Esta visão, que é dominante na ciência cognitiva,
considera que o significado de uma expressão deve ser visto como uma instrução para o
ouvinte ‘construir’ parte de uma representação. Uma outra característica desta teoria é a
de considerar que a interpretação semântica não é uma relação directa entre expressões
e (um modelo da) realidade. Assim, postula-se um nível intermédio de representação
semântica em que a informação veiculada pelo discurso é armazenada e que se
considera fazer parte da gramática juntamente com a sintaxe. Neste nível intermédio de
representação, o discurso é analisado através da construção de estruturas de
representação discursiva (DRSs), que são uma especificação parcial e abstracta da
informação que um ouvinte pode recuperar ao processar um discurso. Em virtude desta
concepção, a representação de um discurso é entendida como uma descrição parcial da
realidade, uma vez que um texto nunca dá informação sobre tudo o que é verdadeiro
numa determinada realidade.
Nestes novos enquadramentos surgidos a partir da semântica de Montague muito
trabalho tem sido feito e hoje compreende-se melhor a semântica dos determinantes e
dos quantificadores, a sua ligação com toda a predicação, frases genéricas, tempo,
aspecto, semântica dos advérbios, semântica dos adjectivos e dos predicados em geral,
nomes contáveis e não contáveis, negação, plural, construções comparativas, foco,
pressuposição, etc.

5. Alguns caminhos recentes


De facto, nos últimos trinta e tal anos a semântica passou de uma posição
periférica na teoria da gramática para um papel central na investigação linguística.

34
ALGUNS CAMINHOS DA SEMÂNTICA

Quando comecei a ensinar semântica quase não havia livros introdutórios, mas hoje há
vários, perto de uma dezena, e as pontes entre sintaxe e semântica são cada vez mais
abrangentes nos dois sentidos, isto é, da sintaxe em direcção à semântica e desta em
direcção à sintaxe. Aliás, não poderia deixar de ser assim quando o objectivo último é
chegar à compreensão da estrutura. É certo que muito há ainda a fazer e algumas
questões parecem ser fundacionais, como, por exemplo, determinar até que ponto se
articula a sintaxe com a semântica, devendo esta ser interpretativa ou derivacional, ou
ainda se essa questão se resolve incorporando aspectos semânticos na estrutura
sintáctica.
Hoje parece haver uma centralidade das línguas através de um proliferar de estudos
sobre questões linguísticas e, simultaneamente, um alargamento a línguas pouco estudadas
que, entre outros aspectos, poderão fornecer dados iluminadores sobre alguns problemas,
o que faz todo o sentido quando se procura o que é comum às diversas línguas.
Mas também a separação entre semântica e pragmática perdeu actualidade a partir
do momento em que a concepção de significado se alterou e algumas teorias semânticas
alargaram o seu domínio de análise ao texto ou ao discurso. Lembro apenas as propostas
de Asher (1993) e de Asher e Lascarides (2003) que, na sequência da DRT, propõem a
SDRT (Segmented Discourse Representation Theory). Esta teoria tem como objectivo
modelizar a interface semântica/pragmática centrando-se na forma como a interpretação
de um enunciado envolve não só a semântica composicional e lexical mas algum
conteúdo adicional. Nesta teoria, o objecto de análise é o discurso e a questão é
determinar o significado do discurso tendo em conta que depende e interage com a
estrutura retórica. Esta estrutura consiste em relações retóricas (ou discursivas) que
ligam o conteúdo dos enunciados do discurso. Um dos pontos mais evidentes, mas não
exclusivo, sobre a relevância de relações retóricas está na estrutura temporal dos textos.
Partindo da ideia inicial de Partee de que os tempos também são anafóricos 12, supõe-se
que as relações retóricas influenciam a estrutura temporal dos textos. Veja-se a título
exemplificativo os exemplos de Lascarides e Asher (1993):

(39) Max fell. John helped him up


(40) Max fell. John pushed him.

A ordem em que as frases surgem é igual e as frases são idênticas do ponto de


vista dos tempos e quanto ao aspecto. Mas a ordem temporal é diferente e a sua
semântica composicional não é suficiente para dar conta das interpretações. De facto, no
primeiro caso temos ‘narração’ e no segundo ‘explicação’, relações retóricas definidas
com precisão pela SDRT.
Esta teoria dá também muita importância ao Léxico, que voltou, pelo menos a
partir de meados dos anos 80 e anos 90, para a ribalta. A semântica lexical e a semântica
composicional usam diferentes instrumentos para dar conta de problemas de
composição semântica mas, quando a entrada dos eventos e da estrutura dos eventos

12 Recorde-se o que foi dito sobre o exemplo acima apresentado I didn’t turn off the stove.

35
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

passou a ser considerada, as duas abordagens começaram a estabelecer pontes: os


primeiros começaram a caminhar da palavra para a frase para caracterizar os efeitos da
estrutura eventiva e a semântica composicional começou a olhar para os verbos de
forma a poder representar alguns aspectos semânticos que dependem de propriedades de
certos verbos. Simultaneamente os sintacticistas descobriram que a estrutura eventiva
pode interagir com as estruturas sintácticas.
Porém, uma questão a colocar consiste em determinar qual o estatuto dos eventos
em semântica e em sintaxe. Possivelmente há, pelo menos, duas formas de responder a
esta questão. Por um lado, podemos considerar a questão de saber se a gramática das
línguas naturais representa eventos de alguma forma, como são estes eventos, como são
representados, a que se referem e quais os primitivos com os quais os devemos
representar.
Estas questões têm a sua origem no influente trabalho de Davidson (1967) em que
é proposto que os predicados das línguas naturais predicam sobre eventos, isto é, têm
como seu argumento explícito um evento. Tal pode ver-se em (41), mais um exemplo
famoso cuja representação formal proposta por Davidson está em (41’). Esta ideia está
muito relacionada com trabalho feito por Parsons (1990), Bach (1986), Dowty (1991),
Kamp (1981a) ou ainda Kratzer (1995), entre outros.

(41) Fred buttered a toast in the bathroom at midnight


(41’) ∃e∃x∃p∃t (buttering (e, Fred, x) ∧ toast (x) ∧ Bathroom (p) ∧ midnight (t) ∧
in (e, p) ∧ at (e,t))

Mas por outro lado, uma outra linha de investigação relaciona o evento gramatical
com as suas partes internas, relacionando mudança, causa e tempo (veja-se, por
exemplo, Tenny, 1994; Travis, 2000).
O considerar que os eventos podem ser tratados como entidades (indivíduos), que
é possível quantificar, conjuntamente com as propostas de Vendler (1967) deu origem a
muito trabalho sobre o significado das palavras. Mais recentemente surgiram tentativas
de modelizar os significados dos verbos como estruturas predicativas complexas com
estruturas eventivas enriquecidas.
Muita investigação realizada veio mostrar que há claramente dois aspectos a ter
em conta sendo um deles a estrutura interna dos eventos (o famoso télico/atélico,
mudança de estado) e o outro questões como agentividade e causa. A este respeito é de
salientar, entre outros, o muito trabalho realizado por Jackendoff (1990), Levin e
Rapoport (1988), que representam o significado do verbo através da decomposição em
predicados mais básicos, que devem, em parte, o seu trabalho à então muito inovadora
análise de MacCawly (1968) para o verbo to kill, no quadro da semântica generativa.
Estas representações, que são semânticas e sintácticas, apresentam semelhanças com a
representação lexical de Hale e Keyser (1993). No entanto, Dowty adopta uma
estratégia diferente, pois em vez de eventos considera expressões proposicionais como
argumentos da relação CAUSE, por exemplo.
Pustejovsky (1991) desenvolve ideias de Dowty mas a “sintaxe de estrutura de
eventos” torna explícita a referência a eventos quantificados como parte do significado

36
ALGUNS CAMINHOS DA SEMÂNTICA

lexical. Já Grimshaw (1990) difere destes autores na medida em que assume um nível
de representação dos eventos diferente da representação de outras propriedades lexicais.
Mas muito outro trabalho tem também sido realizado sobre a forma como o
objecto directo é relevante para a estrutura temporal dos eventos (cf. Verkuyl, 1972;
1991; Tenny, 1994; Filip, 1992/1999 ou Krifka, 1992). Este último, trabalhando no
quadro da semântica formal, ao estudar o tema incremental, questão também debatida
por Dowty (1991) ou, de forma um pouco diferente, por Tenny (1994), propõe uma
representação de objectos (como indivíduos) para eventos propondo um homomorfismo
entre os dois. Esta problemática tem sido objecto de muita discussão nos últimos anos,
dando origem a novas propostas de classificação aspectual, novas formas de
formalização. Assim, não só se discute a questão da natureza e representação da
incrementalidade (tema, paciente, ‘path’) (cf. Krifka, 1998; Rothstein, 2004; 2008;
Beavers, 2008; entre outros), como novas propostas de abordagem são feitas como é o
caso de Hay et al. (1999), Kenedy & McNally (1999, 2005) e Kennedy & Levin (2008)
que defendem que a telecidade deriva de restrições impostas numa escala que mede a
mudança a que é submetido o tema incremental, ou a ideia de que a incrementalidade é
um tipo de vaguidade mereológica e que os accomplishments são graduáveis (cf. Piñon,
2008).
Assim, algumas outras questões devem ser colocadas:
1. devemos postular um nível separado de representação da estrutura eventiva ou
antes a estrutura eventiva faz parte de uma representação conceptual mais geral;
2. como é feita a articulação entre os verbos e a sua representação, em particular a
sua estrutura interna aspectual em articulação com tipos sintácticos de verbos, estrutura
argumental e papéis temáticos. A relação entre agentividade e estrutura dos eventos é
uma outra questão muito importante que Dowty (1979) equacionou.
3. Finalmente, como se deve fazer o mapeamento para a sintaxe.
Muito há a ser feito e muito já está a ser trabalhado mas talvez algumas destas
questões possam também ser aclaradas por conhecimentos em áreas como
processamento, aquisição ou até mudança linguística.

6. Notas Finais
De facto muito mudou na linguística e na semântica. Hoje, questões que foram
provisoriamente abandonadas (como a utilização de traços) voltam a ser objecto de
estudo, mas com perspectivas mais ricas em parte porque à medida que o conhecimento
avança surgem novos problemas ou maneiras novas de abordar os velhos problemas.
Mas também em parte porque o olhar de diferentes perspectivas para um problema
enriquece necessariamente o seu conhecimento e traça melhores caminhos para uma
solução. Por isso não posso deixar de concordar com Barbara Partee quando diz que
“Theory diversity is a good thing: it enriches the stock, and provides challenging
questions” (Partee, 2004:14).
A colaboração entre semântica, léxico e sintaxe está na ordem do dia e só se pode
esperar desenvolvimentos iluminadores. Por outro lado, a relação entre semântica e
pragmática tem enriquecido consideravelmente os dois campos.

37
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Sem pretender fazer qualquer comparação, Barbara Partee disse uma vez que os
lambdas tinham mudado a sua vida. Eu poderia dizer que o que mudou a minha vida foi
conhecer Óscar Lopes, a quem presto o meu tributo aqui. Foi muito importante para a
minha geração de linguistas e abriu-me as portas da semântica.
Diz-se, por vezes, que a ciência é a procura da verdade, mas talvez seja antes,
como diz Karl Popper, a procura do erro ou da inconsistência porque é isso que mais
fazem os que trabalham em ciência e a faz avançar. Neste percurso é preciso ter uma
grande imaginação mas, como disse Richard Feynman “uma imaginação numa camisa
de forças”. A ciência é aberta mas também é cumulativa, isto é, deve fazer crescer o
conhecimento e estimular a inovação sem deixar de se saber o que já se sabe. Este
percurso iluminador tem vários tipos de caminho e, às vezes, recuos. Às vezes, os
caminhos são muito novos, outras vezes não é tanto o caminho novo mas a forma de
caminhar. Por isso gostaria de terminar com as seguintes palavras de Einstein
“comparada com a realidade, a ciência parece uma coisa primitiva ou até infantil, mas é
a coisa mais preciosa que temos”.

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Processos de figuração e manutenção da ordem interaccional:
estratégias de mitigação no quadro do sistema de delicadeza
desenvolvido pelos participantes de programas de rádio específicos

Carla Aurélia de Almeida


Departamento de Humanidades da Universidade Aberta

Abstract
Taking as reference an oral corpus consisting of verbal interactions presented in
Portuguese radio phone-in programmes, we proceed to the identification of the
sequential dimensions of illocutionary acts and we study the selection, made by the
participants, of the discourse strategies of politeness that avoid the threat of a Face
Threatening Act (FTA) and reinforce a Face Flattering Act (FFA): opening pre-
-greetings or “getting closer strategies”; humorous strategies to build a discursive
identity; praise and wishes; the anti-orientating role of laughter; justifications (accounts)
and polite requests for permission; repairing exchanges (apologies); “softeners”, pre-
-sequences (preliminaries), “mitigation comments” and “repairing exchanges”.

Keywords: Interactional Pragmatics, Radio phone-in programmes, Politeness,


Conversational Mitigation, Footing, Discourse Strategies
Palavras-chave: Pragmática Interaccional, Programas de conversas telefónicas na rádio,
Cortesia, Mitigação, Alinhamento, Estratégias Discursivas

1. Introdução
Tendo por base um corpus 1 constituído por interacções verbais presentes em cinco
programas de rádio portugueses, realizados em período nocturno, com uma clara matriz
dialogal, analisaremos o modo como as relações funcionais entre actos ilocutórios
realizam o trabalho de “acomodação intersubjectiva” (Fonseca, 1996) através de
estratégias discursivas específicas.
Considerando a perspectiva semântico-pragmática de análise dos fenómenos
linguísticos (Fonseca, 1996; Kerbrat-Orecchioni, 1992; Traverso, 1996; Gumperz,
1989), procederemos à análise dos dispositivos discursivos que permitem a manutenção

1 O corpus, recolhido e informatizado por nós, reúne participações de 479 “ouvintes” (Almeida, 2005). Os
cinco programas em análise são os seguintes: Bancada Central (=BC) da TSF; Clube da Madrugada (=CM)
da Antena 1; Boa Noite (=BN) da Rádio Renascença; Estação de Serviço (=ES) da Rádio Renascença e
Tempo de Antena (=TA) da Antena 1.

Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,


APL, 2009, pp. 43-60
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

da ordem interaccional (ou footing, Goffman, 19812) das trocas discursivas triádicas
(Müller, 1995) na rádio. Neste contexto institucional, teremos em conta os papéis
interaccionais (Kerbrat-Orecchioni, 2004: 16) assumidos pelos participantes: o locutor
de rádio, no vértice do triângulo, condutor das trocas, contribuindo para a manutenção
da coerência interdiscursiva das vezes de elocução (turn), os “ouvintes”/intervenientes
que telefonam para as emissões radiofónicas e o auditório destes programas.
Demonstraremos que o espaço interaccional (Gumperz, 1989: 9), construído
nestas interacções, é fortemente ritualizado apresentando sequências discursivas
fortemente estereotipadas (Kerbrat-Orecchioni, 1992) com o desenvolvimento de um
dispositivo interlocutivo constituído por “actos rituais” (Kerbrat-Orecchioni, 2005), com
uma função essencialmente relacional (“os constrangimentos rituais”, no dizer de
Goffman, 1987), que denotam um cuidado trabalho de figuração (“face work”,
Goffman, 1973) com estratégias discursivas de delicadeza positiva e estratégias de
delicadeza negativa (Kerbrat-Orecchioni, 2002) ao serviço da manutenção do equilíbrio
interaccional (Goffman, 1973: 65) entre as faces dos interlocutores.
Analisaremos os actos ameaçadores do discurso (“Face Threatening Act = FTAs”)
e os actos que valorizam as faces do interlocutor (“Face Flattering Act = FFAs”) e as
estratégias discursivas de mitigação (Fraser, 1980; Caffi, 2000) que fazem parte de uma
competência retórico-pragmática dos interlocutores (Kerbrat-Orecchioni, 1986) e que
visam “efeitos relacionais”.
É nosso objectivo o estudo dos atenuadores do valor ilocutório de actos de
discurso (softeners ou adoucisseurs rituels, cf. Kerbrat-Orecchioni, 2005: 210),
permitindo o enfraquecimento dos direitos e dos deveres associados ao valor ilocutório
dos actos de discurso (“juridismo ilocutório”, segundo Ducrot, 1972), reduzindo as
obrigações dos participantes e contribuindo para a realização de outros objectivos
interaccionais, como a cortesia (Caffi, 2000: 92-93)3. Teremos como enfoque analítico
os seguintes dispositivos linguísticos: o uso do diminutivo (Pedro, 1993; Sifianou,
1992); as estratégias de minimização da força ilocutória dos actos de discurso; a
construção de um discurso humorístico com a realização de risos, “sinais do jogo
mimético” (André-Larochebouvy, 1984: 175), que constituem “estratégias de
solidariedade” (Diamond, 1996: 74), frequentemente usadas para suavizar o peso de um
acto ameaçador (FTA); a sequência de justificação como uma estratégia de comentário
de mitigação (Laver, 1981: 303); as estratégias de apelo ao consenso (Carreira, 1997:
183) como a produção da pergunta-tag que, segundo Bruce Fraser (1980), constitui um
dispositivo que permite a mitigação da força ilocutória de actos de discurso específicos

2 Esta noção de Goffman “ordem interaccional” (tradução da expressão “interactional ‘footing’”) diz respeito
aos diferentes “alinhamentos” ou diferentes “posicionamentos” que os participantes assumem uns em
relação aos outros, permitindo a negociação das relações interpessoais e a constituição dos eventos
comunicativos (Goffman, 1981).
3 Sobre as adaptações do sistema de delicadeza de Brown; Levinson (1978), cf. o trabalho realizado no âmbito
da Análise Interaccional de Kerbrat-Orecchioni (1992, 2002, 2005). Cf. ainda as diferentes perspectivas de
análise da cortesia no volume 14 (2) do Journal of Pragmatics de 1990, nomeadamente Fraser (1990); cf.
ainda Manno (2002); cf. também estudos vários sobre a cortesia (Fonseca, 1996; Carreira, 1997; 2001;
Rodrigues, 2003). Sobre a expressão da cortesia numa perspectiva intercultural, cf. Lakoff; Sachiko (2005).

44
PROCESSOS DE FIGURAÇÃO E MANUTENÇÃO DA ORDEM INTERACCIONAL

como a asserção (“um modo mais suave de produzir uma asserção”, segundo Fraser),
possibilitando o equilíbrio ritual das faces dos interactantes.

2. Figuração e manutenção da ordem interaccional: os rituais verbais e a cortesia ao


serviço de estratégias de “acomodação intersubjectiva” (Fonseca, 1996)
O trabalho de figuração (ou “face work”) surgiu com o trabalho pioneiro de E.
Goffman (1973) e com a noção de ritualização das actividades discursivas que tem por
base a clássica distinção entre “trocas confirmativas” e “trocas reparadoras”.
Num primeiro momento da sua teoria, e como afirma o estudo de Michel de Fornel
(1989) sobre a obra analítica goffmaniana, Goffman restringiu as trocas confirmativas
aos rituais de abertura e de fecho da conversação (Fornel, 1989: 187). E. Goffman
salienta, assim, que os rituais de abertura são “actos de deferência” ou “rituais de acesso
ou de ratificação” (Goffman, 1974), como por exemplo, as saudações e os elogios que
têm como função pôr em contacto os indivíduos, constituindo “um sinal de ligação”
(Fornel, 1989: 184-185) e refere como trocas confirmativas de fecho da conversação as
saudações de despedida. Os primeiros trabalhos de Goffman inscrevem as trocas
reparadoras no desenvolvimento da interacção conversacional para posteriormente
verificar que trocas específicas da abertura e de fecho também surgiam no decorrer das
interacções. Por isso, num momento subsequente da sua análise, privilegiou a teoria das
trocas reparadoras, desenvolvendo-a de tal modo que as trocas confirmativas passariam
a ser uma variante das trocas reparadoras: “O acto confirmativo é, neste sentido, uma
forma de reparação em relação a uma ofensa virtual. Saudar, elogiar, convidar, oferecer
constituem formas de reparação, porque não realizar estes actos poderia ofender
gravemente aqueles que são beneficiários destes últimos” (Fornel, 1989: 187; tradução
nossa).
Deste modo, E. Goffman procura demonstrar que o encadeamento sequencial na
conversação é não só regido por regras do sistema, mas também pelas exigências dos
constrangimentos rituais 4 ou trabalho de figuração. Segundo este autor, “os
constrangimentos rituais” dizem respeito “ao modo como cada indivíduo deve conduzir-
-se em relação a cada um dos outros de modo a não pôr em risco a sua própria pretensão
tácita à respeitabilidade nem a dos outros a serem pessoas dotadas de valor social e que
convém respeitar as diversas formas de territorialidade” (Goffman, 1973: 22; tradução
nossa).
Deste modo, Goffman desenvolve uma teoria que tem por base a confirmação da
pertinência da troca: o trabalho interpretativo do interactante tem por base “(…) toda a
disposição que nos incita a julgar os actos verbais de um indivíduo como não sendo uma
manifestação de estranheza (…)” (Goffman, 1987: 266; tradução nossa).
E. Goffman (1973: 73) refere que os falantes respeitam um certo número de regras
e convenções com vista à construção de uma “ordem ritual” que nasce da gestão do
próprio trabalho de figuração.

4 Para F. Coulmas (1981), as rotinas conversacionais “(…) são instrumentos que os indivíduos utilizam para
se relacionarem com os outros de uma forma apropriada” (Idem: 2; tradução nossa).

45
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Por seu lado, e a propósito do conhecimento que os falantes apresentam do uso das
“sequências ritualizadas e estereotipadas” que E. Goffman assinalou nos seus trabalhos,
J. Gumperz (1989) propõe-se analisar este emprego e afirma que a ritualização das
práticas discursivas constitui um saber que permite aquilo que denomina “uma política
de uma conversação” (Idem: 128) que determina o que os interactantes dizem em
função das situações de comunicação e destaca a importância da cortesia na gestão da
relação de poder instituída na interacção: “Quando os interactantes não se conhecem, a
ritualização traduz a necessidade de controlar, senão de neutralizar, pelas fórmulas de
delicadeza, tudo o que releva das relações de poder e que continua presente, nem que
seja de maneira indeterminada. Como o escreve Goffman (1967), estas trocas são
‘rituais breves, que um individuo realiza para o outro ou em função do outro; eles
indicam aos destinatários que eles possuem um pequeno património de sacralidade’”
(Gumperz, 1989: 124; tradução nossa).
C. Kerbrat-Orecchioni (1989), reportando-se ao trabalho analítico de E. Goffman,
salienta que todo o acto de discurso, em certas circunstâncias e em graus diversos, tem
na interacção um carácter intrinsecamente ameaçador, pois age sobre o alocutário e, na
dinâmica interaccional, pode adquirir diferentes interpretações, pelo que a cortesia 5 faz
parte de um conjunto importante de estratégias discursivas que visam estabelecer o
“equilíbrio interlocutivo” (Kerbrat-Orecchioni, 1989: 160): “Todo o acto de discurso
pode então ser descrito como um FTA, um FFA, ou um complexo destas duas
componentes” (Kerbrat-Orecchioni, 2002; tradução própria); os FTA podem ser
suavizados e/ou atenuados através de dispositivos linguísticos como os atenuadores
(«adoucisseurs rituels», segundo Kerbrat-Orecchioni, 2005: 210; “softeners”, de acordo
com Brown e Levinson, 1978; “mitigators”, segundo Fraser, 1980) e os FFA têm
tendência a ser reforçados enquanto que os actos mistos, como a oferta e o convite
(Almeida, 1998), podem ser suavizados e reforçados simultaneamente.
Reequacionando a universalidade do modelo de P. Brown e S. Levinson (1978),
reconfigurando-a não só na análise dos autores que tiveram em consideração línguas
diferentes e reanalisando as críticas a este modelo (Kasper, 1990, entre outros), fazendo
uma análise circunstanciada de exemplos de sociedades com um ethos cultural diferente
(ethos comunitário, hierárquico ou igualitário), Kerbrat-Orecchioni (2002: 272) refere
que a conversação é uma permanente transacção de poder, uma negociação de lugares
(interaccionais) o que torna os FTA assim como os FFA inerentes a toda a troca e
demonstra a necessidade de os interactantes realizarem a gestão das faces ou trabalho de
figuração com o objectivo de evitar a ameaça das faces dos interactantes (estratégias de
delicadeza negativa) ou de as valorizar (estratégias de delicadeza positiva).
Deste modo, é neste quadro analítico que Kerbrat-Orecchioni (1992: 242) inscreve
o funcionamento das estratégias de delicadeza, definindo “a cortesia” como “o carácter
não ameaçador de toda a intervenção” (Idem; tradução própria) ou como trabalho de
gestão das faces no quadro do trabalho de figuração (Idem): “A cortesia serve
justamente para facilitar a interacção minimizando os conflitos e os confrontos
potenciais” (Kerbrat-Orecchioni, 1992: 242; tradução nossa).

5 Para uma noção alargada da noção de “cortesia” que integra estratégias diversas como a deferência, cf. o
trabalho de David Rodrigues (2003).

46
PROCESSOS DE FIGURAÇÃO E MANUTENÇÃO DA ORDEM INTERACCIONAL

3. Manifestações linguísticas de cortesia positiva e negativa na abertura, no


desenvolvimento e no fecho de interacções verbais na rádio
Em Almeida (2005), procedemos ao levantamento das estratégias discursivas
(Gumperz, 1982) que permitem o alargamento da estrutura prototípica característica das
conversas telefónicas realizadas no estúdio de rádio. Fazem parte destas estratégias
discursivas os dispositivos de “acomodação intersubjectiva” (Fonseca, 1996) que
permitem ora reforçar FFA’s ora atenuar com “adoucisseurs” (Kerbrat-Orecchioni,
2002; 2005) os FTA. Assim, na abertura destas interacções, predominam estratégias
discursivas que constituindo “mecanismos de validação interlocutória” (Conein, 1989)
preparam a entrada no tema da emissão com o “equilíbrio entre as faces”: os processos
de cortesia positiva são as pré-saudações de abertura ou “estratégias de aproximação”;
as estratégias humorísticas de construção de uma identidade discursiva; os elogios e os
votos e estratégias de enquadramento (asserções), bem como a realização de um auto-
-elogio (acto que é também ameaçador do alocutário, Kerbrat-Orecchioni, 2005) que co-
-ocorre com o uso de mitigadores como o diminutivo ao serviço do princípio da
modéstia; entre as estratégias de cortesia negativa, de evitação de FTA, estão as
estratégias de mitigação (justificações e pedidos de permissão cortês); as trocas
reparadoras (rectificações e pedidos de desculpa) e as construções com o item lexical
“pequeno” e com a expressão “um pouco” que mitigam a ameaça de um FTA. No
desenvolvimento e no fecho destas interacções, ocorrem também estratégias de
mitigação ao serviço da cortesia negativa, de evitação da ameaça das faces dos
interlocutores como o uso de justificações, o pedido de desculpa, os minimizadores
como “um pouco”, “uma pequena intervenção” e as pré-sequências que preparam o
fecho com o equilíbrio da relação interlocutiva.

3.1. A negociação de lugares interaccionais: a cortesia positiva ao serviço do


“equilíbrio interaccional”
3.1.1. O Humor: “estratégias de solidariedade”
No corpus em análise, ocorrem estratégias humorísticas produzidas pelo ouvinte
que permitem equilibrar a relação interlocutiva através da construção de uma identidade
discursiva (Antaki, 1998) que assinala a pertença a uma “comunidade de pensamento”
(Gumperz, 1989), estabelecendo um espaço interaccional dominado pela partilha e pela
solidariedade entre os participantes. Estas acções e estratégias discursivas constituem
normas conhecidas pelos falantes que assinalam a “pertença ao grupo” (Diamond, 1996:
76): “Cada comunidade tem os seus próprios jogos rituais (ou normas) locais e
específicos que podem ser explorados para objectivos sociais e interpessoais” (Idem: 77;
tradução nossa).
Atentemos no seguinte exemplo:
Programa: TA
Data: 17/11/01
Tema: “Portugal-Angola em futebol”
Ouvinte n.º 369, masculino

47
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Abertura:
Locutor: [Conv.] «Temos mais um ouvinte em directo.»
[Saud.] «Boa noite.»
Ouvinte: [Saud.] «Boa noite.»
→ [Asserção] «Sou a pantera.»
Locutor: [Perg.] «Eu estou a falar com quem?»
Ouvinte: [Resp.] «Sou o M..»
Locutor: [Riso + Saud. com T. End.] «(Riso) Boa noite M..»
Ouvinte: [Saud. Int.] «Então tudo bem?»
Locutor: [Resp.] «Tudo bem.»
[Ordem] «Chuta.»

Repare-se que o tom humorístico criado pela asserção do ouvinte estabelece a sua
identidade discursiva e, de certo modo, incentiva o locutor a entrar no “jogo mimético”
(André-Larochebouvy, 1984) aberto pelo ouvinte: a co-ocorrência do riso, elemento
paralinguístico, com a realização do segmento de saudação seguido da indicação do
nome próprio sem o apelido (forma familiar de saudar o interlocutor) faz parte de um
quadro interaccional familiar.
Segundo, Julie Diamond (1996), o humor e os risos em contexto institucional são
“estratégias de solidariedade” e a eficácia destas estratégias é reconhecida pelos outros
intervenientes na interacção através dos risos dos participantes (Idem: 74).
Estas formas humorísticas de estabelecer a identidade discursiva, quando surgem
nestes programas de rádio, constrangem os interlocutores a produzirem um maior
número de saudações como uma forma de estabelecer, em termos emotivos, o contacto
caloroso onde domina a boa disposição, como o riso do locutor evidencia, assinalando a
“conivência e a cumplicidade entre os participantes” (André-Larochebouvy, 1984: 176)
e a construção de um espaço interaccional colaborativo.

3.1.2. Elogios e votos: estratégias de cortesia positiva


Catherine Kerbrat-Orecchioni (1987) refere que a “densidade” de ocorrência de
actos de elogio nas aberturas advém do facto de estes FFA constituírem “rituais
confirmativos” que visam preparar, de forma equilibrada, a relação interlocutiva, uma
vez que se tratam de actos de cortesia positiva para com a face positiva do alocutário
destes actos: “(…) como os presentes, os elogios são procedimentos de ‘captatio
benevolentiae’, e, como aqueles, devem ser oferecidos logo no início” (Idem: 10;
tradução nossa).
São estratégias discursivas de delicadeza positiva para com a face positiva do
locutor de rádio os votos de parabéns e o acto de elogio que, reiterados, ocorrem
reforçados e permitem preparar a entrada no tema da emissão com o equilíbrio
interlocutivo:
Programa: BN
Data: Outubro de 1998
Tema: “Regionalização”

48
PROCESSOS DE FIGURAÇÃO E MANUTENÇÃO DA ORDEM INTERACCIONAL

Ouvinte n.º 141, masculino, Loulé


→Ouvinte: [Dar os parabéns + elogio] «Eh e antes de mais quero-lhe dar os meus
sinceros parabéns pá por esse magnífico programa, de facto é uma é uma (...) esse
programa, nem durmo de noite até às duas da manhã nunca durmo.»
[Asserção avaliativa/Elogio] «De facto é muito importante, pá, e desta vez em
discutir esses assuntos isso é de facto muito importante.»
Não raro, na abertura destas interacções, o acto de elogio ao programa e ao locutor
de rádio co-ocorre com um acto de pedido de desculpa no quadro de uma estratégia de
delicadeza positiva para com a face positiva (Carreira, 1994: 108):
Programa: BN
Data: Abril de 1998
Tema: “O relacionamento entre duas gerações”
Ouvinte n.º 43, feminino, Alfragide, 49 anos
→[Dar os parabéns + Pedido de desculpa + Acto expressivo] «Antes do mais
quero felicitá-la, desculpe, eu sou sua ouvinte há imenso tempo e doutros programas em
que participou, tenho uma grande, como direi, portanto oiço, gosto imenso de a ouvir.»
[Acto expressivo] «Sou sua admiradora!»
Locutora: [Agradecimento Intensificado] «Muito obrigada.»
Ouvinte: [Marcação de conclusão] «Pronto.»
→[Asserção/Justificações] «E então já por várias vezes tentei mas nunca fui muito
persistente, mas já algumas vezes tentei e nunca consegui.»
Locutora: [Asserção] «Olhe hoje, num dia substancialmente complicado de
chamadas conseguiu.»
Ouvinte: [Acordo] «É verdade, hoje tive sorte, tive sorte sim senhor.»
Locutora: [Perg. sobre o tema] «E quanto ao tema de hoje?»
No seu estudo sobre pedido de desculpa em Português Europeu, Carreira (1994)
refere que este acto de discurso se associa ora à delicadeza negativa (de evitação, “de
carácter ‘compensatório’”), ora à delicadeza positiva, embora a desculpa ilustre
“paradigmaticamente a delicadeza negativa, tal como o elogio ilustra a delicadeza
positiva” (Idem: 108).
Na abertura da interacção com o ouvinte n.º 43, este pedido de desculpa revela a
“precaução ritual” (Idem) das aberturas de conversas telefónicas na rádio que
apresentam um grande número de emissões (topos ou lugar comum frequente na
abertura destas emissões da rádio) co-ocorrendo com um elogio implícito (“eu sou sua
ouvinte há imenso tempo e doutros programas em que participou, tenho uma grande,
como direi, portanto oiço, gosto imenso de a ouvir.”).

3.2. Estratégias de cortesia negativa


3.2.1. As pré-sequências («adoucisseurs rituels» ou atenuadores)
Helena Carreira (1995: 222) refere a necessidade de analisar a multiplicidade de
manifestações linguísticas de cortesia, tendo em consideração um “eixo semântico
conceptual” que tem por base duas zonas polares: /ATENUAÇÃO/ e /INTENSIFICAÇÃO/.

49
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Atentemos então no conjunto dos processos verbais que atenuam (estratégia de


delicadeza negativa) a potencial ameaça de um acto de discurso (FTA).
Programa: BN
Data: Novembro de 1998
Tema: “Autodidactas”
Ouvinte Feminino, Reformada, n.º 153
Abertura:
Locutora: [Convocatória] «M. J. S. na linha 2.»
[Saud. + Saud. Int.] «Olá M. J., como está?»
→Ouvinte: [Pedido de desculpa + Acto expressivo + Justificação] «I., desculpe
lá, eu sou uma fã do programa todos os dias, hoje era um programa que realmente, é
porque nós muitas vezes não ligamos mais vezes porque tamos muito tempo à espera
enquanto os outros falam, já viu.»
→ [Asserção] «Eu não gosto de empatar ninguém.»
Locutora: [Minimização] «Não está a empatar ninguém.»
Ouvinte: [Justificação] «Não gosto é depois estar muito tempo a falar pra não pra
dar acesso a outros ouvintes.»
[Asserção] «Acontece que o tema hoje, pronto, é sobre as pessoas que nunca apren-
deram tiraram cursos de nada e sabem fazer e ajeitam-se a fazer certas coisas, não é?»
Locutora: [Ratificação] «Sim, pode ser.»

Neste excerto, verificamos a co-ocorrência de um acto de pedido de desculpa com


um acto de elogio seguido de processos linguísticos como a pré-sequência “Eu não
gosto de empatar ninguém”. Esta pré-sequência constitui uma estratégia de delicadeza
negativa (de evitação) que ameniza ou atenua («adoucisseurs rituels») a ameaça da face
negativa dos ouvintes com actos de discurso que poderão ser considerados pouco
pertinentes pelos ouvintes que também desejarão entrar em linha. Este enunciado
preliminar (Kerbrat-Orecchioni, 1992: 215) constitui, assim, implicitamente um acto
ilocutório de pedido de autorização para entrar na emissão (FTA), estando ao serviço de
uma estratégia de mitigação ou atenuação deste acto de pedido específico (pedido de
autorização) que constitui uma ameaça à face negativa do locutor e dos ouvintes.
Na abertura, ocorre também uma pré-sequência de pedido de permissão cortês que
constitui um «adoucisseur rituel» (Kerbrat-Orecchioni, 2005):
Programa: BN
Data: Abril de 1998
Tema: “Os livros”
Ouvinte Masculino, 39 anos, Modivo-G., n.º 50
Abertura:
→Ouvinte: [Pedido de permissão c/ «adoucisseurs»] «Eh... eu não sei se será
oportuno ou não, mas a senhora me dirá.»
Locutora: [Aceitação/ autorização] «Diga?»

50
PROCESSOS DE FIGURAÇÃO E MANUTENÇÃO DA ORDEM INTERACCIONAL

3.2.2. “Estratégias de mitigação”: os risos e os segmentos de justificação


Kerbrat-Orecchioni refere que, em alguns contextos interaccionais, os risos
constituem “marcadores não verbais de distanciação”, permitindo a atenuação ou
mitigação da ameaça de um FTA e tendo, assim, um “papel anti-orientador” (Kerbrat-
-Orecchioni, 1987: 17):
Programa: BN
Tema: “O relacionamento entre duas gerações”
Data: Abril de 1998
Ouvinte masculino, n.º 32, Póvoa de Varzim, 27 anos
Abertura:
Locutora – Vamos para a linha 3. Do outro lado está o J. M., da Póvoa de Varzim.
O J. tem vinte e sete anos. Olá J.
Ouvinte – Olá, muito boa noite.
→Locutora – Isto hoje a idade é uma questão importante (risos).
Ouvinte – É verdade.
Locutora – J., o relacionamento com os mais velhos, com a chamada terceira
idade, é... é fácil pra si?

Neste exemplo, a asserção da locutora tem o valor ilocutório indirecto de


justificação “Isto hoje a idade é uma questão importante” que co-ocorrendo com sinais
de acompanhamento como os risos 6 têm o objectivo de atenuar e/ou mitigar o valor dos
actos supostamente ofensivos para a face dos interlocutores: o segmento de justificação
atenua a invasão do território do ouvinte operada pelo facto de o acto de convocatória
co-ocorrer com uma asserção com o conteúdo proposicional relativo à idade do ouvinte
(“O J. tem vinte e sete anos”) e constitui uma estratégia discursiva de delicadeza
negativa para com a face negativa do ouvinte.
Bruce Fraser (1980) assinala que a mitigação visa evitar efeitos não desejados de
actos de discurso. Segundo este autor, a mitigação “(…) é definida não como um tipo
particular de acto de discurso, mas como uma modificação de um acto de discurso: a
redução de certos efeitos indesejados que um acto de discurso tem sobre o ouvinte”
(Idem: 341; tradução nossa).
Os segmentos de justificação constituem, pois, estratégias discursivas de mitigação
de efeitos não desejados na interacção e, na linha de J. Laver (1981), podemos assinalar
que constituem comentários que possibilitam a mitigação dos valores ilocutórios mais
ameaçadores das faces dos interlocutores. As justificações são, assim, “comentários de
mitigação dirigidos para o aspecto da face negativa, frequentemente estabelecendo a
razão para terminar o encontro através da indicação de um constrangimento externo ao
falante” (Idem: 303; tradução nossa).

6 Sobre a função lúdica provocada pelos risos e os diferentes contextos de ocorrência do «petit rire», cf.
também André-Larochebouvy (1984: 175).

51
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Atentemos então nos “comentários de mitigação” que preparam o fecho da


interacção com a indicação de um factor externo ao locutor que o produz:
Programa: BN
Tema: “A adolescência”
Data: Abril/1998
Ouvinte n.º 19, masculino, camionista
Fecho:
→ Locutora: [Asserção + Justificação] «Vou-me vou-me despedir de si porque
tenho mais uma chamada em linha.»

Neste exemplo, a asserção metacomunicativa “Vou-me vou-me despedir de si” co-


-ocorre com um acto de justificação “porque tenho mais uma chamada em linha”,
permitindo à locutora evitar (estratégia de delicadeza negativa) que o interlocutor se
sinta ameaçado na sua face positiva com uma interrupção da conversa que constitui
sempre uma ameaça no equilíbrio da relação interlocutiva.
Com efeito, de acordo com C. Kerbrat-Orecchioni (1988), o acto de justificação
constitui um acto secundário, subordinado ao acto de pedido de desculpa e refere que a
realização isolada da justificação implicita a reparação de uma ofensa, constituindo
portanto “uma realização implícita da reparação” (Idem: 92).

3.2.3. Mitigadores: as diferentes funções do diminutivo, os minimizadores e a


pergunta-tag
Para Emília Ribeiro Pedro (1993), os diminutivos desempenham funções ao nível
do afecto, revelando o “envolvimento conversacional” dos participantes no jogo verbal,
como podemos verificar no seguinte excerto:
Programa: ES
Data: Novembro de 2001
Tema: Livre
Ouvinte n.º 407, masculino, camionista
→Ouvinte – Pois, tem que ser. E depois a comer eh pá aquela massinha no caldo,
aquele aquele aquele peixinho acabadinho d’apanhar ali fresquinho, eles a apanharem
aquilo a fazerem aquela caldeiradazinha ali...
Locutor – Já percebi que está mesmo decidido a convencer-me a ir, não é?
Ouvinte – Eh pá eu tou a tentar, não é. (Riso de ambos) Queria ver se ia lá
apanhar um enjoo, ou não. (Riso de ambos)

Neste excerto, o ouvinte (n.º 407) tem o objectivo perlocutório de convencer o


locutor de rádio a aceitar um acto de convite formulado anteriormente. A utilização de
diminutivos, numa lista enumerativa com carácter descritivo e co-ocorrendo com os
risos, tem valor afectivo e intensifica o valor alto da apreciação. Nestes casos, o
diminutivo (cf. também as saudações “Olá, tá bonzinho?” ou “Um beijinho pra si”
presentes no corpus) expressam uma relação de familiaridade, de “proximidade” entre
os interactantes.

52
PROCESSOS DE FIGURAÇÃO E MANUTENÇÃO DA ORDEM INTERACCIONAL

Noutros contextos, o diminutivo permite atenuar a precisão da referência, redu-


zindo as obrigações epistémicas para o locutor (Caffi, 2000: 96):
Programa: BN
Tema: “O relacionamento entre duas gerações”
Data: Abril/1998
Ouvinte n.º 33, feminino, 63 anos
Fecho:
Locutora: [Termo de Endereçar + Agradecimento] «C. obrigado por ter trazido a
sua opinião.»
Ouvinte: [Saudação] «Olhe um beijinho muito grande.»
→[Asserção+Justificação] «Agora vou tar uns tempos sem falar consigo, porque
eu vou tomar conta de uma pessoa doente e agora vou tar uns tempinhos sem falar
consigo, mas oiço-a sempre.»
Locutora: [Asserção Avaliativa] «Tá bem, é por uma boa causa»

O uso do diminutivo 7 em “vou tar uns tempinhos” mitiga o valor epistémico do


conteúdo proposicional (Caffi, 2000), tratando-se de uma “escolha mitigada” ao serviço
da eficácia interaccional (Idem: 92-93) evitando a ameaça da face positiva do
interlocutor, pois os interactantes devem sempre terminar as interacções projectando
futuras interacções e minimizando os efeitos da separação (Kerbrat-Orecchioni, 2005:
276).
Atentemos neste outro excerto:
Programa: BN
Data: Novembro de 1998
Tema: “Autodidactas”
Ouvinte Feminino, Porto, n.º 161
Desenvolvimento:
Ouvinte – É, mas é qu’eu não conseguiam, sabia bordar eu sabia (...) aos dezasseis
anos fiz o meu enxoval todo, fiz as roupas todinhas dos dos meus filhos, e fazia tudo
assim com uma facilidade uma coisa impressionante.
Locutora – Olhe só o dinheirão que a senhora poupava.
Ouvinte – É mas é verdade (riso).
Locutora – Sim senhora (riso).
→Ouvinte – Sem vaidade, eh eu orgulho-me pronto é um donzinho que Deus nos
dá.

Kerbrat-Orecchioni refere que a valorização ou ameaça dos actos de discurso tem


de ser definida em termos de grau e, não raro, a valorização positiva pode conjugar-se
com estratégias de atenuação que, no quadro do princípio da modéstia, permitem
atenuar a ameaça da face positiva do alocutário. Neste sentido, o diminutivo “donzinho”
enquadra-se no quadro do princípio da modéstia que constrange o locutor de um acto de

7 Sobre o uso dos diminutivos na expressão de delicadeza em grego e em inglês, ver Maria Sifianou (1992).

53
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

auto-elogio («auto-FFA») a não valorizar demasiado a sua face positiva (Kerbrat-


-Orecchioni, 1992; 2005): “Com efeito, se não é conveniente exaltar a sua própria face é
porque um tal comportamento atinge indirectamente, por um movimento inverso de
desvalorização implícita, a face do outro (…)”(Kerbrat-Orecchioni, 2005: 202; tradução
nossa).
Ainda como “acompanhantes” de FTA (Kerbrat-Orecchioni, 1992), temos a
realização de minimizadores como a expressão “um pouco”, algumas espécies de
diminutivos que ocorrem na realização de um acto de pedido (FTA) e a realização de
perguntas-tag (“Tag Questions”) que constituem, em enunciados específicos, “um modo
mitigado de realizar uma asserção” (Fraser, 1980: 349; tradução nossa).
Observemos agora o uso de mitigadores que co-ocorrem com um FTA:
Programa: BN
Data: 14/10/98
Tema: “Regionalização”
Ouvinte Masculino, Porto, n.º 130
→Locutora: [Asserção + Perg.-tag] «Ó F. parece-me que pensa duma forma um
bocadinho diferente, não é?»

A locutora que produz esta pergunta orientada tem já a expectativa do conteúdo


da resposta e modaliza o carácter demasiado assertivo do enunciado com estratégias de
mitigação: o uso da expressão verbal “parece-me que” atribui ao enunciado uma
modalidade epistémica no eixo da incerteza e a expressão “um bocadinho” constitui um
minimizador. Este minimizador mitiga a precisão da referência, «un diminutif dans le
marqueur de flou (fuziness)» (Caffi, 2000), permitindo a redução das obrigações
epistémicas para o locutor que produz a asserção e implicitando a minimização da
gravidade dos problemas (Caffi, 2000: 96).
Por outro lado, a pergunta-tag “não é?” mitiga o valor da asserção (“a softer way
of asserting”, segundo Fraser, 1980: 349). Carreira considera-a uma “pergunta de
pedido de confirmação” (Carreira, 1997: 183), constituindo uma estratégia discursiva de
“apelo ao consenso” (André-Larochebouvy, 1984: 101).
Deste modo, estes dispositivos linguísticos atenuam um FTA (um acto de asserção
que revela o desacordo do ouvinte), evitando (estratégias de delicadeza negativa) a
ameaça da face positiva dos ouvintes que entraram em linha anteriormente.
Atentemos nesta outra pergunta-tag que mitiga (Fraser, 1980: 349) o carácter
ameaçador da face negativa que um acto não solicitado, como é o acto de conselho (acto
directivo não impositivo), poderá suscitar:
Programa: ES
Data: 12/11/01
Tema: Livre
Ouvinte n.º 397, masculino, Camionista
Pré-fecho:

54
PROCESSOS DE FIGURAÇÃO E MANUTENÇÃO DA ORDEM INTERACCIONAL

Locutor: [Votos + Votos] «Desejo-lhes umas boa... uma... desejo-lhe uma boa
semana de trabalho, uma... uma boa viagem.»
→ [Conselho + Int.-tag] «Cuidado aí é com o frio, não é?»
Ouvinte: [Asserção] «A gente... acautela-se um bocado.»
Locutor: [Asserção Avaliativa + Int.-tag + Cont. da Asserção c/ minimizadores ou
“softeners”/atenuadores/] «Já vai, já vai estando se calhar também um pouco... mais
habituado, não é, a estas coisas.»

Este acto com o valor ilocutório de conselho apresenta como condição de sucesso
do acto a seguinte condição essencial: a sua realização vale como assumir que o acto
futuro C é de grande interesse para A (Searle, 1984: 89). A mitigação, neste caso, está
ao serviço de uma estratégia de delicadeza negativa, de evitação da ameaça da face
negativa do alocutário do acto. Co-ocorrem com este acto asserções mitigadas com
minimizadores como “um pouco” que reduzem a ameaça do FTA (Kerbrat-Orecchioni,
2005).

3.2.4. As trocas reparadoras: a “desculpa explícita”


Na dinâmica interaccional do programa sobre futebol do corpus constituído,
verificamos que, na realização cortês de um FTA, co-ocorrem também FFA’s,
demonstrando que o processo de cortesia negativa se conjuga, por vezes, com processos
de cortesia positiva:
Programa: BC
Data: 5/5/98
Tema: “A demissão de Vasco Pinto Leite da Presidência do Conselho Fiscal do
Benfica”
Ouvinte n.º 294, masculino, Aveiro
Abertura:
Ouvinte: [Saud. no Superlativo ao Locutor e Alargada ao Auditório] «Muito boa
noite senhor F.C., muito boa noite a todo o auditório na TSF.»
→ [Dar Felicitações + Elogio] «Começo por felicitá-lo pelo brilhante pela
brilhante introdução que fez no programa, sobre a chamada de atenção do ouvinte
d’ontem.»
[Asserção Avaliativa] «Penso que foi uma intervenção muito correcta da parte do
senhor F.C. para chamar a atenção de certo tipo de afirmações neste programa.»

A anteposição do adjectivo em “pelo brilhante pela brilhante introdução” constitui


um procedimento discursivo de intensificação (intensificadores, Carreira, 1997;
“extreme case formulations”, Edwards, 2000) que reforça um FFA. Por outro lado, este
procedimento co-ocorre com um FTA de crítica a uma intervenção de um ouvinte do
dia anterior, revelando as emoções presentes na interacção (Kerbrat-Orecchioni, 2000:
46).

55
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Observemos ainda outros excertos com a realização de FTA’s (actos ameaçadores)


que co-ocorrem com “trocas reparadoras”:
Programa: BC
Data: 5/05/98
Tema: “A demissão de Vasco Pinto Leite da Presidência do Conselho Fiscal do
Benfica”
Ouvinte n.º 295, masculino, Ermesinde
Abertura
→Ouvinte – Antes do mais eh... eu gostaria de pedir desculpas ao meu amigo
Fernando Correia, só única e simplesmente, não peço desculpas a mais ninguém.
Assumo aquilo que disse e tomo a responsabilidade por isso. Agora peço imensa
desculpa ao meu amigo Fernando Correia, porque é o responsável pelo programa e
eventualmente terá a responsabilidade das pontas pelo programa e os ouvintes que que
enfim vai tendo que aturar, não é. Prontos, peço-lhe mais uma vez desculpa ó meu
amigo Fernando Correia, a mais ninguém, não peço desculpas a mais ninguém e assumo
tudo aquilo que disse.
[…]
Muito boa noite senhor Fernando Correia, um abraço e peço-lhe mais uma vez
imensa desculpa.
Locutor – Não, não tem que, não tem que pedir desculpa, bastava uma vez, não
tem problema nenhum. Quando puder eh... fale comigo. Gostava muito de falar consigo,
mas eh fora do programa.

Programa: BC
Tema: “O último jogo Benfica-Porto”
Data: 4/05/98
Ouvinte n.º 285, masculino, Linda-a-Velha.
Fecho:
→Ouvinte: [Pedido de Desculpa + Asserção Avaliativa] «e... peço desculpa isto
tudo, mas o Porto não merece não merece nada porque são uns indisciplinados, uns
insurrectos, e de facto não mereciam qu’alguém lhe servisse nada, do Porto até aqui a
Lisboa, não mereciam qu’alguém lhe servisse nada, porque quando eles param é só pra
destruir, e pra destruir é nós não precisamos de muita gente.»
→ [Pedido de Desculpa] «Peço desculpa.»
Locutor: [Marcador de Concl.] «Pronto.»
[Saud. no Superlativo] «Muito boa noite.»
[Asserção] «Participação do... ouvinte de Linda-a-Velho, C.P.»

Como se vê, estes actos de pedido de desculpa surgem fortemente ritualizados,


apresentando uma realização com o performativo explícito: “eu peço desculpa”.
Os exemplos acima apresentados ilustram uma “desculpa explícita” por oposição à
“desculpa implícita” (Carreira, 2001: 97). Neste caso, estamos perante expressões
performativas que contêm o lexema PEDIR que, segundo Maria Helena Carreira (2001),
constituem “(…) fórmulas lexicalmente explícitas de pedido de desculpa que podem ser

56
PROCESSOS DE FIGURAÇÃO E MANUTENÇÃO DA ORDEM INTERACCIONAL

reforçadas por quantificadores de valor axiológico (muito, imenso)” (Idem: 99) e refere
como exemplo a expressão “Peço (muita/imensa) desculpa”/“O meu pedido de
desculpa” (Idem: 98).
Estes actos de pedido de desculpa realizam um movimento retroactivo de
“reparação retrospectiva” (Kerbrat-Orecchioni, 1988: 88) que ocorre quando um
participante admite ter cometido uma ofensa.
Como forma de restabelecer o equilíbrio entre as faces dos interlocutores, os
locutores de rádio reagem com estratégias de minimização da ofensa expressa no
conteúdo proposicional do acto de pedido de desculpa. Estas intervenções iniciativas de
pedido de desculpa visam reparar uma ofensa cometida e têm como intervenção reactiva
uma reacção positiva que constitui a realização implícita da “(de)negação da ofensa”
(Idem: 97; tradução nossa) que se produz com enunciados como “Pronto” (ouvinte
n.º 285), “Não, não tem que, não tem que pedir desculpa, bastava uma vez, não tem
problema nenhum” (ouvinte n.º 295).
Verificamos ainda que os FTA’s de crítica aos ouvintes anteriores co-ocorrem com
estratégias de cortesia negativa, como o pedido de desculpa, e com estratégias de
cortesia positiva de valorização da face positiva do locutor de rádio. Nestes programas
de jogo mais agonal, onde predomina o confronto directo entre ouvintes que telefonam,
os processos de cortesia positiva conjugam-se com processos de cortesia negativa e, não
raro, os primeiros, quando dirigidos ao locutor de rádio, constituem, por um movimento
inverso, uma ameaça à face positiva dos ouvintes visados nas críticas realizadas
implicitamente (cf. o acto de elogio do ouvinte n.º 294 que é dirigido ao locutor de rádio
para se poder realizar, através de uma implicatura conversacional, um acto de crítica à
intervenção do ouvinte do dia anterior).

Conclusão
O estudo das estratégias discursivas “locais” (Kerbrat-Orecchioni, 1999) que co-
-ocorrem com os FTA’s e os FFA’s (e do modo como eles se conjugam na interacção)
revela o “envolvimento conversacional” (Tannen, 2001) e o funcionamento dos rituais
verbais (e não verbais) que estão na origem da construção do “equilíbrio interaccional”.
Fazem parte da mitigação conversacional, os “comentários de mitigação”, os
«adoucisseurs rituels» (Kerbrat-Orecchioni, 2005: 210) ou atenuadores (“softeners”) do
valor ilocutório de actos de discurso que possibilitam o enfraquecimento da ameaça dos
FTA’s e reduzem as obrigações dos participantes (Caffi, 2000: 92-93).
As escolhas linguísticas mitigadas têm como motivação fundamental o equilíbrio
da relação interaccional e visam evitar a ameaça de uma das faces do interlocutor,
reduzindo os efeitos indesejados de FTA’s (Fraser, 1980).
Deste modo, as estratégias discursivas de delicadeza permitem, por um lado, a
eficácia interaccional, facilitando a realização dos objectivos ilocutórios e, por outro
lado, visam efeitos relacionais (Caffi, 2000: 93).
Os processos de figuração destacam, assim, a estruturação da interacção,
realçando a ordem ritual das sequências de actos de discurso que são produzidas por
interactantes que realizam papéis interaccionais (baseados no script), específicos do

57
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

quadro interaccional estabelecido pelos programas em análise, papéis interlocutivos (o


estatuto dos interactantes) e discursivos (“jogo de influências mútuas” realizado através
das acções discursivas). Todas estas categorias, que fazem parte do quadro
participativo, são graduais, denotando diferentes graus de participação, de ratificação e
de endereçar (Kerbrat-Orecchioni, 2004: 17).
Nas interacções dos programas de rádio em análise, verificamos, assim, a
ocorrência de diversos FFA’s e de estratégias discursivas de reforço da valorização
(cortesia positiva). Por outro lado, os FTA’s co-ocorrem com procedimentos discursivos
de suavização/atenuação da ameaça (cortesia negativa).
Entre as estratégias de reforço da valorização (estratégias de cortesia positiva),
encontramos os actos de elogio intensificados, os votos e as pré-saudações ou
“estratégias de aproximação”, bem como a construção de uma identidade discursiva
humorística que co-ocorre com os risos reveladores do “jogo mimético”. No que diz
respeito aos processos verbais de cortesia negativa que atenuam/mitigam a potencial
ameaça de um FTA, procedemos à análise do funcionamento das estratégias de
mitigação: a justificação (“comentários de mitigação”); os risos como sinais não verbais
anti-orientadores da ameaça; as pré-sequências, como o pedido de permissão
cortês/pedido de autorização, que constituem processos discursivos rituais que suavizam
um acto ameaçador («adoucisseurs rituels»); o emprego do diminutivo e de
minimizadores como “um pouquinho”; a pergunta-tag e o acto de pedido de desculpa.

Referências
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Português. Tomo III. Porto: Porto Editora, pp. 157-221.
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60
Interrogativas-Wh: Periferia Esquerda e Fases ∗

Diana Travado Amaral


FLUL

Abstract
There is an increase of functional projections in the Left Periphery when we add
interpretative values to a construction. The Left Periphery should be divided in different
domains (phases) with a close relation with different Wh-questions’ types: pure Wh-
-questions project CP1 and CP2 and the Wh-phrase stays in WhP; semi-pure Wh-
-questions project CP1, CP2 and CP3 (although CP3 need not be fully phonetically
filled); non-pure Wh-questions project CP1, CP2 and CP3. A phase-based approach
makes it possible to accommodate the syntax, the semantic and the prosody as the
various subtypes of Wh-questions on a Split-CP perspective.

Keywords: Wh-questions, phases, interfaces, spell-out


Palavras-chave: interrogativas-Wh, fases, interfaces, spell-out

1. Interrogativas-Wh
As interrogativas-Wh representam proposições abertas que detêm o conjunto de
todas as respostas possíveis. Este pode ser restringido através de métodos que variam
inter-linguisticamente. A natureza sintáctico-semântica das interrogativas-Wh agrupa-as
em subtipos com comportamentos semelhantes (como diferenças de ordem ou uso de
partículas).

1.1. Divisão em Subtipos


Tanto Ambar (2000, 2001) como Obenauer (2004, 2006) subdividem as
interrogativas-Wh em dois grandes grupos:
a) Ambar – interrogativas-Wh puras vs. interrogativas-Wh não-puras (com um
echo-flavor);
b) Obenauer – interrogativas-Wh standard vs. interrogativas-Wh non-standard.
Para ambos os autores a distinção entre interrogativas-Wh com um verdadeiro
carácter interrogativo (puras e standard) e as restantes é clara. Todavia, nenhuma destas

∗ Versões anteriores deste artigo foram apresentadas na conferência “Portuguese in Contact and in Contrast”
(17-18 November 2008 – Gent University) e no workshop “La structure fine des types de phrases” (28-29
November 2008 – CNRS). Agradeço a todos os participantes pelos seus comentários.

Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,


APL, 2009, pp. 61-79
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

divisões distingue as interrogativas-Wh eco das interrogativas-Wh non-standard. Estas


são construções-Wh bastante distintas quer sintáctica (com uma posição estrutural do
sintagma-Wh diferente) quer semântico-pragmaticamente (as interrogativas-Wh eco não
deixam de ser um pedido para identificar a variável cujo valor o falante não detém,
enquanto que as interrogativas-Wh não-puras nunca aparecem como pedidos de
informação com o intuito de especificar o valor duma variável). Obenauer divide as
interrogativas-Wh non-standard em três grupos 1: surprise/disapproval (SDQs),
rethorical (RQs) e can’t-find-the-value-for-x (CfvQs). Para o autor, nas CfvQs o falante
não encontra um valor para a variável, nas RQs não pede uma informação e nas SDQs
exprime a sua atitude em relação ao conteúdo proposicional. Isto implica que a escolha
entre as interrogativas não é livre: o contexto pragmático 2 determina a estrutura
sintáctica que lhes está subjacente.
Conjugando a divisão de Ambar e a de Obenauer, podemos chegar a uma
tripartição das interrogativas-Wh em: i) interrogativas-Wh puras: aquelas em que o
falante não conhece o valor da variável e pede que lho identifiquem; ii) interrogativas-
-Wh semi-puras: aquelas em que o falante já dispôs do valor da variável não o tendo
presente no momento da enunciação, pedindo que lho identifiquem novamente
(interrogativas-eco de Ambar e CfvQs de Obenauer); iii) interrogativas-Wh não-puras:
aquelas em que o falante dispõe do valor da variável no momento da enunciação, não
pedindo que lho identifiquem (RQs e SDQs de Obenauer).
Considero as CfvQs interrogativas-Wh semi-puras uma vez que se relacionam
quer com as puras quer com as não-puras. Podem ser consideradas não-puras uma vez
que o falante já deteve o conhecimento que procura. Mas, enquanto que nas SDQs e nas
RQs a resposta não é pretendida, nestas é desejada.

1 Segundo Obenauer (2004, 2006), as interrogativas-Wh não-puras: a) têm comportamentos semelhantes, com
excepção do contraste RQs vs. restantes quanto à posição sujeito (ii); b) o sintagma-Wh ocorre em posição
inicial, em contraste com as interrogativas-Wh puras (iv) exceptuando o caso da duplicação nas SDQs (iii);
c) exibem ISV com adjacência entre o verbo e o sintagma-Wh e d) che não ocorre em posição inicial, sendo
substituído por cossa (iii):
(i) Ande l’ à-tu catà? (Cfv)
(ii) Cossa a-lo fat par ti? / Quando Mario à-lo magnà patate? (RQ)
(iii) Chi à-tu invidá?! / Cossa inviti-to chi?! / *Che varde-tu?! / Cossa varde-tu (che)?! (SDQ)
(iv) L’à-tu catá ande? (interrogativa-Wh pura)
2 Esses contextos ainda não estão claramente descritos, mas duma forma intuitiva são: I) interrogativas-Wh
puras: sabe que a Aurora leu um livro, mas não sabe que livro foi e pretende saber, perguntando: (v) Que
livro a Aurora leu?; II) interrogativas-Wh semi-puras: a) Wh-in-situ: alguém acabou de lhe dar a informação
de que os rapazes compraram livros mas, como não percebeu bem, pede que repitam, perguntando: (vi) Os
rapazes compraram o quê?; b) CfvQs: interroga-se sobre o local onde deixou as chaves mas não se consegue
lembrar, perguntando: (vii) Onde diabo pus eu as chaves?; III) interrogativas-Wh não-puras: a) RQs: não
pretende que lhe dêem uma resposta, pois é obvio que ninguém gosta de pagar impostos: (viii) Quem gosta
de pagar impostos?; b) SDQs: não sabe exactamente que quadro está o Luís a pintar, mas sabe que ele está a
pintar um quadro de que não gosta, e pergunta (em tom de crítica, de desaprovação): (ix) Que quadro está o
Luís (para ali) a pintar?; IV) exclamativa-Wh: sabe bem qual é o livro que a Aurora leu e considera-o um
livro óptimo/péssimo, exclamando: (x) Que livro que a Aurora leu!

62
INTERROGATIVAS-WH: PERIFERIA ESQUERDA E FASES

1.2. Periferia Esquerda


Rizzi (1997), Ambar (1996), Poletto (2000), Kayne e Pollock (2001), Munaro et
alii (2001), Obenauer (2004), e.o. propuseram um sistema de CP em camadas 3 que
corresponde à Periferia Esquerda, representando a relação entre o conteúdo de TP e o
discurso. Partindo desta hipótese, os autores propuseram projecções funcionais para
esse domínio com o intuito de derivar ordens lineares e valores interpretativos
diferentes, muitas delas com inúmeras projecções funcionais, possivelmente agrupáveis.
Surge a questão: Quantas projecções funcionais necessitamos para derivar todas as
interrogativas-Wh? Haverá um limite de operações disponíveis? Se admitirmos que
todas as projecções funcionais possíveis co-existem, os diferentes traços serão
acrescentados, resultando num acumular de traços e de sentidos pragmáticos distintos
que tornariam o discurso ambíguo ou paradoxal (problema que deriva da ciclicidade).
Se a estrutura da Periferia Esquerda é constituída por um número limitado de
projecções funcionais organizadas por propriedades discursivas, a natureza sintáctico-
-semântica das projecções funcionais a par com a natureza sintáctico-semântica das
interrogativas-Wh deverá ser capaz de codificar duma forma não ambígua todos os
subtipos de interrogativas-Wh. Com diferentes landing sites disponíveis, as diferentes
interrogativas-Wh podem mover-se para projecções funcionais diferentes (recorrendo,
ou não, a operações diferentes).
Ambar (2000), e. o., propõe o nó WhP, a projecção operacional para onde os
sintagmas-Wh subiriam. Para a derivação das interrogativas-Wh non-standard,
Obenauer propõe outras três projecções funcionais: surprise/disapproval (SDP) <
rethorical (RP) < can’t-find-the-value-for-x (CfvP).
Adoptando a proposta para a estrutura da Periferia Esquerda de Ambar (1996,
2001, 2008):
[XP [EvaluativeP [Eval’ [AssertiveP [Ass’ [XP [WhP [Wh’ [FocusP [Foc’ [XP
[FinP,
que contém duas classes de projecções funcionais discursivas, relacionadas com
duas noções pragmáticas: common ground (AssertiveP e EvaluativeP) e universe of
discourse 4 (TopP e FocP), considero que sempre que AssP é projectado, as estruturas
apresentam um valor de factividade 5 que codifica o conhecimento que o falante tem
sobre o objecto sobre o qual predica. Assim, as CfvQs projectam AssP, tendo de ocorrer
num contexto específico. As RQs projectam AssP, uma vez que se verifica uma

3 As vantagens do Split-CP são visíveis na derivação das interrogativas-Wh. Apesar dos complementadores e
dos morfemas interrogativos não poderem co-ocorrer em PE (*Quem que chegou?) – o Filtro do COMP
duplamente preenchido manifesta-se, sugerindo que a projecção funcional à esquerda é a mesma – temos
frases em que é preciso haver duas posições disponíveis, o que o Split-CP torna possível:
(xi) Que livro que ele leu!
(xii) Que dia que está hoje!
4 Estes termos foram inicialmente utilizados em Heim (1982) e Calabrese (1985).
5 Noção de factividade no sentido em que Grimshaw (1977), Obenauer (1994), Ambar (1996), e.o., a
utilizaram.

63
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

asserção e também EvalP, visto também estar subentendida uma avaliação da


proposição. As SDQs activam AssP (expressam a atitude do falante) e EvalP
(apresentam uma avaliação (geralmente negativa)). As exclamativas-Wh aproximam-se
das RQs e das SDQs activando AssP e EvalP6.

1.3. Spell-Out do sintagma-Wh


Existem interrogativas-Wh com movimento-Wh visível, apresentando o sintagma-
-Wh em posição inicial, e interrogativas-Wh com movimento-Wh não visível,
apresentando o sintagma-Wh in-situ. Em ambos os casos podemos ter interrogativas-
-Wh puras ou semi-puras, mas nem sempre não-puras:
(1) (Quando foi aos saldos), a Maria comprou o quê? (pura)
(2) O João comprou que livro? (semi-pura)
(3) Estás (para aí) a dizer o quê?
(4)?/*Estás (para aí) a comer que bolo? (não-pura)
Alguns autores consideraram que, nos casos de Wh-in-situ, o sintagma-Wh se
movia apenas em LF (Huang, 1982; Aoun e Li, 1993; e.o.). Vou considerar que o
movimento-Wh existe sempre (como Âmbar, 2001; Kayne e Pollock, 1998; e.o.). Se os
sintagmas-Wh se movem sempre para a mesma projecção operador (WhP), as
interrogativas-Wh com Wh-inicial ou Wh-in-situ têm de ser licenciadas do mesmo
modo. As frases com o operador-Wh na posição mais encaixada seriam o resultado do
movimento posterior de toda a frase para uma posição mais alta (movimento do TP
remanescente (Kayne, 1998; Pollock, 2001; Hinterhölzl, 2006) motivado pela
necessidade de verificação de traços morfo-sintácticos ou por motivos discursivos 7.

1.4. Elementos que propiciam uma leitura não-pura


A leitura ‘não-pura’ pode ser facilitada e/ou reforçada por vários elementos. A sua
presença pode ser suficiente para provocar uma alteração na interpretação. Estes
marcadores permitem-nos afirmar que a posição dos sintagmas-Wh das interrogativas-
-Wh semi-puras e não-puras é mais elevada, visto estas construções-Wh conterem
elementos que seguramente se encontram em posições como FocP/AssP e que se
encontram numa posição linear inferior à dos sintagmas-Wh.
Os deícticos têm um carácter anafórico: o falante sabe um pouco mais sobre a
situação em que a interrogativa-Wh se insere, trazendo à construção um carácter
assertivo e factivo. É esse elemento, linearmente inferior ao sintagma-Wh, que verifica
o traço [+ass].

6 Note-se que pode sempre ocorrer um elemento topicalizado antes de qualquer uma das projecções
funcionais mencionadas. XP (posição de tipo tópico) está disponível para ocorrer acima de qualquer
estrutura.
7 As interrogativas-Wh eco com Wh-in-situ são semanticamente diferentes pois requerem um pressuposto
forte: (xiii) [AssertiveP [O Pedro encontrou ti]k [Assertive’ [XP [WhP quemi [Wh’[FocusP ti [Focus’ [XP [IP
tk ]]]]]]]]] (ex.(8) Ambar, 2000:20)

64
INTERROGATIVAS-WH: PERIFERIA ESQUERDA E FASES

(5) Quem diz isso? (RQ)


(6) Para que fazes isto? (SDQ)
As expressões enfáticas propiciam a leitura não-pura inter-linguisticamente.
Tomemos como exemplo: diabo (PE), diable (Fr), ot chorte (russo), the hell (inglês)8:
(7) Onde diabo vais tu com esta chuva?!
Diabo é mais frequente nas CfvQs, mas pode ocorrer noutros subtipos de
interrogativas-Wh (exceptuando as puras). Em Russo, estas expressões ocorrem sempre
em posição inicial:
(8) Ot chorte gde je ja polojil kljutchi? (CfvQ)
Diabo onde AC eu pus chaves
Em línguas como o PE e o francês, diabo também aparece em posição inicial:
(9) Onde diabo/raio pus eu as chaves?
(10) *Pus eu as chaves onde diabo/raio?
(11) Où diable as-tu trouvé cela/ça? (ex. (33)a. Obenauer, 1994:300)
(12) *Tu as trouvé ça où diable? (ex. (33)b. Obenauer, 1994:300)
Mas a posição inicial não é o único requerimento. Em PE e Fr., diabo não ocorre
numa posição inicial absoluta como em russo e tem de acompanhar o sintagma-Wh:
(13) *Diabo/raio pus eu as chaves onde?
Apesar de wh+diabo não entrar na derivação como um constituinte (o sintagma-
-Wh é external merged (EM) na posição argumental e internal merged (IM) na Periferia
Esquerda, enquanto que diabo é merged directamente (EM) na Periferia Esquerda), o
marcador de interrogativas-Wh semi e não-puras (diabo) tem de estar no domínio
mínimo do elemento-Wh interrogativo. Mas se admitirmos que diabo é EM
comportando-se como um AC (Alternative Checkers) porque é que o sintagma-Wh sobe
se o traço relevante já foi verificado? Em línguas do tipo do PE e do Fr., diabo parece
comportar-se como um atractor lexical. Porém, diabo apenas atrai o sintagma-Wh
quando bare (constituído apenas pelo elemento-Wh):
(14) *Que livro diabo leste?
(15) *Que diabo livro leste?
Apenas com a inserção de uma preposição, a presença de diabo torna-se
gramatical com um sintagma-Wh non bare (constituído pelo elemento-Wh e um nome
foneticamente realizado):
(16) Que diabo de livro leste?
sendo as restantes restrições idênticas às apresentadas para as interrogativas-Wh
com um sintagma-Wh bare:
(17) ???Leste que diabo de livro?
(18) *Que leste diabo de livro?
(19) *Que diabo leste livro?
(20) *Diabo leste que livro?
Outra expressão produtiva em PE nas SDQs é ‘para aí’ (Ambar & Veloso, 2008):
(21) O que estás para aí a dizer?

8 Sobre a sintaxe de construções com diabo, ver Obenauer (1994), Huang e Ochi (2003), e. o..

65
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Note-se que na terceira pessoa o seu equivalente é ‘para ali’, demonstrando que o
carácter locativo que estes adjuntos contêm permanece activo:
(22) Que livro está ele para ali a ler?!
Um complementador não pode co-ocorrer com para aí/ali, pois estar-se-iam a
combinar características de duas construções distintas (as SDQs e as exclamativas-Wh):
(23) ??Que livro que ele está para ali a ler?!
(24) ??Que belo livro que ele está para ali a ler!
(25) ?Que livro ele está para ali a ler?! (sem ISV, típico das exclamativas-Wh)
Também Tº pode desambiguar os subtipos de interrogativas-Wh.
Nas CfvQs, o futuro (o modo irrealis no geral) torna-as mais aceitáveis. Em
Pagotto, a diferença estrutural é suficiente para legitimar a interpretação de Cfv, mas
com um tempo irrealis fica mais forte:
(26) Onde estarão/poderão estar as minhas chaves?
(27) a. Cossa à-lo fat? (int-Wh não-pura) (ex. (39) Obenauer, 2006)
b. Á-lo fat che? (int-Wh pura) (ex. (28) Obenauer, 2006)
(28) Cossa avará-lo fat? (int-Wh não-pura – CfvQ) (ex.(69) Obenauer, 2004)
Nas RQs, o presente concede um valor genérico e/ou universal, não especificado:
(29) Quem gosta de pagar impostos?
Nas SDQs, o valor iterativo/de continuidade (valor aspectual durativo) facilita a
interpretação:
(30) O que andas tu a fazer?
Basic tense and also tense-like properties (e.g. irrealis) are determined by C (…)
or by the selecting V (…) or perhaps even broader context. (Chomsky, 2005:11). Se o
Split-CP é a interface entre a sintaxe e o discurso e se o discurso tem sempre evento9 e
se o que dá realidade física aos eventos é o tempo, então espera-se que o domínio do
Split-CP contenha pelo menos uma projecção funcional relacionada com o tempo
(segundo Âmbar, 2000; 2001, o tempo está materializado na periferia esquerda como o
traço T na cabeça de WhP).
A flexão em Pessoa e Número (Agr) também desempenha um papel crucial,
admitindo a subida do verbo (seja Tº (movimento de uma cabeça) ou TP (movimento de
um XP remanescente)). Há uma diferença entre a primeira, a segunda e a terceira
pessoas verbais quanto à possibilidade de interpretar uma interrogativa-Wh como semi-
-pura ou não-pura. A primeira pessoa é a que mais facilmente permite a interpretação
Cfv (self–addressed CfvQs):
(31) Que faço eu agora?
(32) Que posso eu dizer sobre isso?
Por outro lado existe um contraste entre a 2ª e a 3ª pessoas:
(33) O que estás tu a dizer? (SDQ)
(34) O que está ele a dizer? (pura)
Com a segunda pessoa, a leitura SD é a não-marcada, uma vez que o falante está
numa situação de comunicação na qual tem acesso directo ao que o ouvinte disse. Com a

9 Assumindo Vendler (1967), os eventos exprimem a passagem de um estado para outro estado localizado
num intervalo imediatamente posterior. O discurso é formado por descrições de estados de coisas dinâmicos
localizados em determinados intervalos de tempo.

66
INTERROGATIVAS-WH: PERIFERIA ESQUERDA E FASES

terceira pessoa, a leitura pura é a não-marcada, uma vez que o falante está numa situação
de comunicação na qual, em princípio, não tem acesso directo ao que o terceiro interve-
niente disse (mas caso tenha tido, a interrogativa-Wh pode ser interpretada como SDQ).

1.5. External Merge (Alternative Checkers) vs. Internal Merge


Todas as línguas têm estratégias que permitem aos falantes produzir
interrogativas-Wh, mas que diferem inter-linguisticamente. Existem três tipos de
línguas: i) línguas que marcam as interrogativas-Wh não-puras com a inserção de
material foneticamente realizado (ACs) para codificarem a interpretação não-pura como
o Russo (EM); ii) línguas que marcam as interrogativas-Wh não-puras com uma ordem
linear diferente das puras como os dialectos do Nordeste de Itália (IM); iii) línguas que
recorrem à informação prosódica como o PE. Existem línguas que parecem ter mais do
que uma possibilidade.
As línguas que marcam as interrogativas-Wh não-puras recorrendo à inserção de
material foneticamente realizado (partículas com locais de ocorrência específicos)
utilizam diferentes partículas com o intuito de obterem interpretações distintas, como o
Russo:
(35) Gde je ja polojil kljutchi? (CfvQ)
Onde AC eu pus chaves
(36) Kto je ljubit platit nalogui? (RQ)
Quem AC gosta pagar impostos
(37) No i knigo kupil Vania?! (SDQ)
AC+que AC livro comprou João
Em todos os tipos de línguas, as operações de merge (do AC (EM) ou do sintagma-
-Wh (IM)) verificam os traços presentes nas projecções funcionais relacionados com as
interrogativas-Wh não-puras. Os ACs verificam as projecções funcionais mais altas e
assim os sintagmas-Wh podem permanecer numa posição mais baixa, licenciando o
Wh-in-situ:
(38) a. Chi à-tu invidà?! (SDQ) (ex.(15) Obenauer, 2004)
b. Cossa inviti-to chi?! (SDQ) (ex.(7) Obenauer, 2008:3)
Com o sintagma-Wh bare que acontece necessariamente isto.
Existe, portanto, uma assimetria quanto à gramaticalidade entre construções com
sintagmas-Wh bare (constituídos apenas pelo elemento-Wh) e com non-bare
(constituídos pelo elemento-Wh e um nome) nas interrogativas-Wh-inicial não-puras:
sintagmas-Wh non-bare são aceites e sintagmas-Wh bare são excluídos:
(39) a. *Que está o João para ali a ler?
b. Que livro está o João para ali a ler?
Ambar (1985, 1988) explora a estrutura interna do sintagma-Wh mostrando que o
sintagma-Wh bare que é sintacticamente defectivo. Que não pode transportar traços
logo não pode subir para verificar os traços das projecções funcionais mais altas. Ambar
nota que apenas elementos-Wh [+r] podem verificar o traço assertivo. Assim sendo, o
sintagma-Wh bare que nunca pode ocorrer nas interrogativas-Wh não-puras:

67
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(40) a. *Que disse ele? (CfvQ, RQ, SDQ e exclamativa-Wh)


b. O que disse ele? (SDQ)
c. O que ele disse! (excl-Wh)
Consequentemente, temos obrigatoriamente interrogativas-Wh-in-situ resultantes
de movimento do TP remanescente sempre que o sintagma-Wh não contenha referência
suficiente.
Obenauer nota que, em Pagotto, nas CfvQs, che é excluído e substituído por cossa:
(41) Á-lo fat che? (interrogativa-Wh pura) (ex. (28) Obenauer, 2006)
(42) Cossa à-lo fat? (interrogativa-Wh não-pura) (ex. (39) Obenauer, 2006)
Também em Pagoto, as interrogativas-Wh não puras cujo sintagma-Wh é che, só
podem ocorrer com o AC cossa uma vez que che é muito deficiente:
(43) Cossa a-lo fat par ti? (RQ) (ex. (39) Obenauer, 2004)
(44) *Che a-lo fat par ti? (ex. (40)a. Obenauer, 2004)
(45) *A-lo fat che par ti? (ex. (40)b. Obenauer, 2004)
Em Bellunese, com outros sintagmas-Wh, cossa não pode ocorrer uma vez que o
sintagma-Wh tem força suficiente para verificar o traço na projecção funcional mais
alta:
(46) Chi à-tu invidà?! (SDQ) (ex. (15) Obenauer, 2004)
(47) *Cossa à-tu invidà chi?! (SDQ) (ex. (21) Obenauer, 2008:4)
Considerando que com cossa a interrogativa-Wh é sempre não-pura (Obenauer,
2004, 2006), admito que: (a) che não ocorre em posição inicial pelas razões observadas
por Ambar para o seu equivalente em português – que; (b) cossa é external merged
verificando traços nas projecções funcionais mais altas, não tendo acesso ao valor
interrogativo codificado na projecção funcional mais baixa.
A par das estratégias sintácticas, as línguas podem utilizar estruturas prosódicas
como meio de marcar valores interrogativos não-puros. Em línguas entoacionais, a
componente prosódica é essencial e as variações são suficientes para legitimar
interpretações distintas. Desse modo, a sua presença é obrigatória (quando nenhum
outro marcador estiver presente) 10. A influência prosódica nas produções sintácticas
com valores semânticos e funções pragmáticas distintas sugere que o processo de
produção do discurso não é exclusivo de um único módulo gramatical, suportando a
ideia de que as produções vêm de componentes paralelas competindo na interface.

10 Nas interrogativas-Wh-in-situ, o movimento-Wh não é visível mas a curva entoacional funciona como uma
pista para a percepção desses movimentos. Há dois padrões entoacionais para as interrogativas-Wh-in-situ,
variantes de tipos de interrogativas-Wh distintos, cada um correspondendo a uma de duas leituras
possíveis: i) se o sintagma-Wh contém um acento então a interrogativas-Wh é interpretada como pura ou
semi-pura, seguindo o padrão das interrogativas-totais com uma subida final; ii) se o sintagma-Wh
demonstra um padrão prosódico com uma curva descendente, segue o padrão não-marcado, típico das
declarativas, demonstrando o carácter não verdadeiramente interrogativo destas construções-Wh. Com isto,
temos evidência para defender a existência de interrogativas-Wh não-puras in-situ (não consideradas na
literatura).

68
INTERROGATIVAS-WH: PERIFERIA ESQUERDA E FASES

2. Fases
Speas & Tenny (2001), referindo as análises de Ambar (2001) e Cinque (1999),
sugerem uma estrutura para a Periferia Esquerda baseada em noções pragmáticas,
notando: An interesting hypothesis to pursue would be that […] the projections may be
combined to form a syntactic “phase” (Speas & Tenny, 2001:337).
Com esta ideia em mente, considero que a Periferia Esquerda se divide em três
partes – a da informação relacionada com TP (CP1), a da informação nova (CP2) e a da
informação pressuposta (CP3), originando três fases:
– CP1 – [XP [FinP [Fin’ [TP [T’
– CP2 – [XP [WhP [Wh’ [FocP [Foc’
– CP3 – [XP [EvaluativeP [Eval’ [AssertiveP [Ass’
A informação prosódica do PE dá-nos evidência para a existência de fases distintas
no domínio da Periferia Esquerda. Sempre que fechamos uma fase também fechamos
um domínio prosódico, portanto, se uma fase é fechada, não pode sofrer mais alterações
prosódicas originando diferentes padrões entoacionais para diferentes interrogativas-Wh
(que projectam fases distintas). Considero que, nos casos de interrogativas-Wh
semi/não-puras marcadas unicamente pela prosódia, existe um operador vazio que
funciona como AC e que verifica o traço relevante, validando e fechando a fase para
que esta possa ser transferida.
A divisão do domínio-CP (Periferia Esquerda) em fases vai ao encontro de duas
ideias cruciais no Minimalismo:
i) Os domínios fásicos deverão ser o mais pequenos possível to minimize
computation after transfer and to capture as fully as possible the cyclic/compositional
character of mapping to the interface (Chomsky, 2005:21). No entanto, o tamanho
interno das fases é determinado pelos traços não-interpretáveis presentes na construção
(Chomsky, 1999). Se tivermos traços de tópico e/ou foco, certos elementos mover-se-ão
para Periferia Esquerda aumentando assim o número de projecções funcionais nas
fases 11.
(48) À Maria, quem ofereceu o bolo? (interrogativa-Wh pura)
(49) As chaves, onde diabo as pus? (interrogativa-Wh semi-pura)
(50) À Maria, que diabo de livro o João ofereceu? (interrogativa-Wh não-pura)
ii) Phases are “proposicional” (Chomsky, 1999:12). As fases são determinadas
por categorias funcionais que seleccionam categorias lexicais/substantivas: VP é
seleccionado por vP e TP por CP. Como AssP é nominal (Ambar, 2000) é seleccionado
por EvalP que é adjectival (Ambar, 1996) e FocP é seleccionado pela projecção
funcional operador WhP.
Cada fase é constituída por uma cabeça (v*, Finº, Whº e Evalº) com os respectivos
complementos: v*P < VP; CP1 (FinP) < TP; CP2 (WhP) < FocP, CP3 (EvalP) < AssP.

11 Note-se que a Periferia Esquerda proposta por Ambar contém várias posições do tipo tópico (XP) que
poderão ser projectadas. Essas projecções funcionais são externas às fases e não induzem intervention
effects, nem violações da PIC.

69
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Apenas as cabeças de fase desencadeiam operações (IM should be driven only by phase
heads (Chomsky, 2006:9)), o que reforça a ideia da divisão do domínio-CP em fases.
Essas fases representam domínios com um conjunto de nós onde são verificados
traços não interpretáveis dum mesmo tipo: v*P – domínio argumental; CP1 – domínio
de Complementação/Tempo; CP2 – domínio discursivo; CP3 – domínio pragmático12.
Existe uma divisão entre CP2 e CP3 nas interrogativas-Wh. CP2 é uma fase pois a
estrutura pode terminar aí e obteríamos uma interrogativa-Wh pura possível. Na
literatura, encontramos análises em que os sintagmas-Wh sobem para FocP (The
question operator ends up in the Spec of Foc in main questions, where it competes with
a focalized constituent. Rizzi, 1997:299), o que reforça a hipótese de CP2 ser o domínio
de Foco e de Wh.
Quando essa fase é licenciada fica fechada e o seu interior (o complemento) torna-
-se opaco. Consequentemente, a extracção de elementos só ocorre da posição de left
edge (especificador e cabeça). Passa-se para outro nível de representação (verificando,
numa outra fase, os traços das interrogativas-Wh não-puras que são independentes dos
anteriores).
Quanto a CP3, EvalP e AssP não existem separadamente. Não podemos avaliar
algo que não seja previamente asserido, e quando o falante faz uma asserção, há sempre
um carácter avaliativo (embora mais fraco) envolvido 13.
Só temos um verdadeiro WhP numa interrogativa-Wh pura. Se se projecta CP3,
temos obrigatoriamente uma interrogativa-Wh não-pura, uma vez que, quando projecta
CP3, o falante tem mais informação/conhecimento sobre a variável-Wh, do que quando
projecta CP2.
Segundo Chomsky once the interpretation of small units is determined it will not
be modified by later operations (unless that requirement is imposed by interface
conditions) (Chomsky, 2006:4). Desse modo, o carácter interrogativo de CP2 não se
perderia com a projecção de CP3. No entanto, a interpretação das interrogativas-Wh
não-puras é regulada pela interface semântica. Após verificados, os traços não-
-interpretáveis são eliminados (operações posteriores não o poderão fazer visto a
estrutura tornar-se opaca devido à Phase Impenetrability Condition (PIC)), e CP3 não
recupera a interpretação interrogativa de CP2 pois, ainda que os traços se mantenham
activos na interface Conceptual-Intencional (Chomsky, 2001), são enfraquecidos após o
Transfer da fase seguinte, que não teve acesso a esse valor.

12 Ambas as fases CP2 e CP3 retratam a relação que os enunciados linguísticos mantêm com os seus
contextos extra-linguísticos. No entanto, distinguem-se visto o primeiro domínio (o discursivo) estar mais
relacionado com o common ground, com os falantes e com aquele discurso específico (com a dicotomia
velho-novo), e o segundo domínio (o pragmático) relacionar-se essencialmente com o universo do
discurso, com a realidade meta-linguística que envolve constantemente os falantes e que lhes tolda o
pensamento influenciando todos os seus enunciados linguísticos.
13 Um revisor notou que podemos avaliar algo que está pressuposto não tendo nunca sido asserido. Isso é
verdade mas não é problemático para esta análise visto ambas as propriedades activarem AssP. AssP
relaciona-se com a factividade, uma propriedade semântica em que a verdade da proposição é pressuposta.
A pressuposição retrata a informação assumida pelo falante como partilhada por si e pelo ouvinte
(conhecimento mútuo) (ver Levinson, 1983). A asserção retrata o valor modal pelo qual o falante assume
validar ou não validar uma relação predicativa (ver Culioli, 1971). O que pretendo transmitir é que não
podemos avaliar algo que não seja conhecido pelos falantes.

70
INTERROGATIVAS-WH: PERIFERIA ESQUERDA E FASES

3. Movimento
3.1. XP-movement vs. Remnant-movement
Na literatura tem-se considerado que o movimento-Wh é motivado por um traço-
-Wh não-interpretável no sintagma-Wh 14. Temos de considerar dois tipos de
movimento na derivação das interrogativas-Wh: XP-movement (movimento de um XP)
e Remnant-movement (movimento de um XP remanescente) 15. Estes, a par com o
Head-movement (movimento de uma cabeça) materializado na subida de Vº-Tº para
Whº (Ambar, 2000; 2001), são os movimentos necessários na derivação de todos os
tipos de interrogativas-Wh, mantendo uma estreita relação com os dois locais possíveis
para o Spell-Out do sintagma-Wh: a) Wh-inicial resulta da aplicação de movimento-Wh
para uma projecção funcional (WhP, AssP e/ou EvalP); b) Wh-in-situ resulta da
aplicação de movimento do TP remanescente para uma projecção funcional (AssP e/ou
EvalP):

Wh-in-situ Wh-inicial
Non- Non-
Bare -Bare Bare -Bare
Pura ?/ok ?/ok Ok Ok
Semi-
-Pura Ok Ok Ok Ok
Não- *//?(/o */?(/o
-Pura k) k) Ok Ok
Exclam
ativa * * * Ok

Movimento do TP Remanescente Movimento-Wh

Como se pode ver no quadro acima, em PE, com Wh-inicial, todos os tipos de
interrogativas-Wh são gramaticais (é também o mais produtivo e o menos marcado em
PE).
A escolha por um movimento em detrimento do outro numa determinada
derivação recai essencialmente em aspectos semântico-pragmáticos: depende do escopo
pretendido. If an element Z enters into further computations, then some information
about it is relevant to this option. (Chomsky, 2006:6). Deste modo, temos movimento-
-Wh quando o elemento interrogado, asserido e/ou avaliado é o sintagma-Wh e temos
movimento do TP remanescente quando o elemento interrogado, asserido e/ou avaliado

14 A verificação dos traços é bottom up: para verificarmos um traço numa posição mais alta, todos os traços das
posições mais baixas têm de ter sido verificados, não se podendo voltar atrás para verificar traços mais baixos.
15 O Remnant-movement é um subtipo específico de XP-movement e portanto podemos considerar que
apenas um tipo de movimento ocorre: movimento de um qualquer XP motivado por uma cabeça.

71
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

é o conteúdo proposicional. Esta diferença origina uma ligeira diferença na


interpretação: no primeiro caso, a asserção/avaliação da interrogativa recai sobre a
variável-Wh, no segundo, a asserção/avaliação da interrogativa recai sobre todo o
conteúdo proposicional. O primeiro caso ou se trata de uma interrogativa-Wh pura ou,
para se activarem AssP e EvalP, o falante tem necessariamente de deter algum
conhecimento sobre a variável. Assim, só ocorrem interrogativas-Wh não-puras com
sintagma-Wh-inicial quando o sintagma-Wh é [+r] (Ambar, 1985; 1988). As
exclamativas-Wh não permitem Wh-in-situ uma vez que a variável está claramente
identificada e portanto é necessariamente ela a ser avaliada e não toda a proposição. Por
esta mesma razão, as interrogativas-Wh não-puras (RQs, SDQs) apenas apresentam
Wh-in-situ em contextos marcados, uma vez que o sintagma-Wh tem um valor
referencial muito elevado, que verifica os traços nas projecções funcionais mais altas. O
Wh-in-situ é também pouco frequente nas interrogativas-Wh puras, uma vez que as
interrogativas-Wh puras não veiculam valores discursivos que projectam projecções
funcionais mais altas.
Ao contrário das interrogativas-Wh puras com Wh-in-situ, tanto as interrogativas-Wh
semi-puras como as não-puras com Wh-in-situ são construções eco, que se deverão distin-
guir: nas CfvQ, a variável-Wh não está claramente identificada, contrariamente às SDQ:
(51) Combinei o jantar para que horas? (CfvQ)
(52) Estás a fazer o quê?! (SDQ)
Partindo da análise de Ambar, considero que existe movimento Vº-Tº-para-Cº
(Whº) verificando o traço T em WhP nas interrogativas-Wh puras, movimento do TP
remanescente ou do sintagma-Wh verificando o traço [+ass] em AssP nas
interrogativas-Wh semi-puras e movimento do TP remanescente ou do sintagma-Wh
verificando o traço [+eval] em EvalP nas interrogativas-Wh não-puras e nas
exclamativas-Wh. Quando há dois potenciais checkers um ganha a competição
satisfazendo a localidade. O Attract Closest obriga a que o elemento que foi
anteriormente movido se continue a mover (se os seus traços continuarem activos):
(53) [EvalP O quei [AssP ti [WhP ti [Whº comeuj [TP o João tj ti]]]]]
(54) [EvalP TP[O João comeu <o que>i]k [AssP tk [WhP ti [TP tk]]]]
Portanto, em interrogativas-Wh com Wh-inicial puras, Whº desencadeia subida do
sintagma-Wh para Spec,Wh:
(55) [WhP O quei [Whº comeuj [TP o João tj ti]]]
Em interrogativas-Wh com Wh-inicial semi-puras, Whº desencadeia subida do
sintagma-Wh para Spec,Wh e Evalº desencadeia subida do sintagma-Wh para Spec,Ass:
(56) [EvalP ∅ [AssP Quemi [WhP ti [TP ti gosta de pagar impostos]]]]
Em interrogativas-Wh com Wh-inicial não-puras, Whº desencadeia subida do
sintagma-Wh para Spec,Wh, Evalº desencadeia subida do sintagma-Wh para Spec,Ass e
Evalº desencadeia subida do sintagma-Wh para Spec,Eval:
(57) [EvalP O quei [AssP ti [WhP ti [TP estás a fazer ti]]]]
Em interrogativas-Wh-in-situ puras, Whº desencadeia subida do sintagma-Wh para
Spec,Wh e Xº (de tipo tópico) desencadeia movimento do TP remanescente para Spec,XP:
(58) [XP TP[O João comeu ti ]k [WhP o quei [TP tk ]]]]
Em interrogativas-Wh-in-situ semi-puras, Whº desencadeia subida do TP

72
INTERROGATIVAS-WH: PERIFERIA ESQUERDA E FASES

remanescente para Spec,Wh, Xº (de tipo tópico) desencadeia movimento do TP


remanescente para Spec,XP e Evalº desencadeia subida do TP remanescente para
Spec,Ass:
(59) [EvalP ∅ [AssP TP[O João comeu ti]k [XP TP tk [WhP o quei [TP tk]]]]
Em interrogativas-Wh-in-situ não-puras, Whº desencadeia subida do TP
remanescente para Spec,Wh, Xº (de tipo tópico) desencadeia movimento do TP
remanescente para Spec,XP, Evalº desencadeia subida do TP remanescente para
Spec,Ass e Evalº desencadeia subida do TP remanescente para Spec,Eval:
(60) [EvalP TP [Estás a comer ti]k [AssP tk [XP TP tk [WhP o quei [TP tk]]]]
Os exemplos (56) e (59) mostram que as interrogativas-Wh semi-puras contêm
uma fase defectiva em que não há um probe com um Edge Feature (EPP) 16 em EvalP.
Nas interrogativas-Wh-in-situ, há topicalização do TP remanescente para uma
posição acima do Left Edge de CP1. De outro modo, a derivação com Wh-in-situ seria
excluída pela PIC.

3.2. Remnant-movement vs. Head-movement


Nas interrogativas-Wh, há uma relação entre a inversão sujeito-verbo (ISV) e a
posição e/ou tipo de sintagma-Wh (Ambar, 2001).
(61) a. *Que o Pedro comprou?
b. Que comprou o Pedro?
c. Que livro o Pedro comprou?
Em Francês, o sintagma-Wh bare que não ocorre in-situ (Pollock, 2001), tal como
em PE:
(62) a. O Pedro comprou o quê?
b. *O Pedro comprou quê?
(63) a. Tu vas où?
b. *Jean a achete que? (ex. (1) Pollock, 2001:252)
Contrariamente, em Bellunese, o sintagma-Wh bare ocorre sempre em posição
final 17:
(64) a. A-tu magnà che?
b. *Che a-tu magnà? (ex. (2) Pollock, 2001:252)
Também Pollock nota que que e che são morfológica e sintacticamente defectivos.
Assim, espera-se que o seu comportamento seja semelhante. Com este argumento,
Pollock demonstra que, apesar de os exemplos (63) e (64) serem superficialmente muito
distintos, a sua derivação deverá ser até certo ponto idêntica.
Os exemplos (61)b. e (64)a. apresentam obrigatoriamente ISV, no entanto os
exemplos com o sintagma-Wh-in-situ (65) e (66)a.) não o permitem:
(65) *Vas-tu où? (ex.(3) Pollock, 2001:252)
(66) a. *Vais tu onde 18?

16 Ver Chomsky (1999, 2005, 2006).


17 Exceptuando os casos onde a construção-Wh contém uma interpretação non-standard (semi/não-pura).
18 Um revisor comentou que “esta frase é possível com foco sobre o pronome, com o seguinte significado: És tu
que vais onde?” classificando-a como uma possível interrogativa-Wh não-pura. Mesmo como foco, o exemplo

73
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

b. Tu vais onde?
Se a derivação destas construções se fizesse através de movimento do verbo, então
esperar-se-ia que (65) e (66)a. fossem gramaticais. Numa perspectiva bottom-up, após o
movimento do verbo para Whº, se não ocorrer movimento-Wh para Spec,Wh, a
derivação gera agramaticalidade pois os traços N em WhP ficariam por verificar. Com a
subida do sintagma-Wh, a agramaticalidade de (65) e (66)a. persiste, pois não é possível
haver um movimento do TP remanescente (a ordem visível não é a ordem interna a TP),
o movimento do verbo violaria a Head Movement Constraint (Travis, 1984; Baker
1988), e o sintagma-Wh funcionaria como um intervener por estar mais perto da
projecção funcional mais alta (AssP).
Quando o XP preposto contém um verbo finito, o XP corresponderá a todo o TP 19:
(67) a. XP [AssertiveP [Assertive’ [XP [WhP quemi [Wh’[FocusP ti [Focus’ [XP
[IP o Pedro encontrou ti ]]]]]]]]]
b. XP [AssertiveP [O Pedro encontrou ti]k [Assertive’ [XP [WhP quemi
[Wh’[FocusP ti [Focus’ [XP [IP tk ]]]]]]]]] (ex.(13) Ambar, 2001:217)
Segundo Ambar e Pollock (1998, 2002), quando há ISV em interrogativas-Wh-in-
-situ, o sujeito (tópico pós-verbal) foi previamente extraído de TP para TopP 20:
(68) XP [AssertiveP [O Pedro ofereceu ti tm ]k [Assertive’ [XP [WhP o quêi
[Wh’[FocusP ti [Focus’ [TopP à Anam [TopP [IP tk ]]]]]]]]]
Os autores apresentam outros argumentos para a existência de movimento do
sujeito: a anti-definitude e a impossibilidade de ocorrência de um clítico em TopP:
(69) ?*Quel article critiquera quelqu’un? (ex. (20) Pollock, 2001:259)
(70) a. Que cartaz colou na parede o Pedro?
b. *Que cartaz colou na parede alguém? (ex. (31) Ambar e Pollock, 2002:130)
(71) a. Qu’a mangé Jean?
b. *Qu’a mangé il? (ex. (23) Pollock, 2001:260)
(72) *Onde tinha posto os quadros ele? (ex. (46) Ambar e Pollock, 2002:134)
A posição do clítico demonstra também a necessidade da existência de movimento
do verbo e de movimento do TP remanescente para derivar as interrogativas-Wh em PE:
(73) a. Que livro lhe ofereceste?
b. *Que livro ofereceste-lhe?
(74) a. *O João lhe ofereceu o quê?
b. O João ofereceu-lhe o quê?
(73) não pode derivar de movimento do TP remanescente, mas sim de movimento
do verbo com incorporação do clítico (Ambar, 2001). Em (74), o movimento do TP
remanescente é possível e o clítico permanece na sua posição interna a TP.
Também os exemplos (75) e (76) mostram a necessidade de movimento do verbo:
(75) a. Tem o João falado sobre isso?

não deveria ser possível tendo em conta a análise apresentada, pois FocP está abaixo de WhP e no exemplo o
pronome está acima do sintagma-Wh. Para derivar esta estrutura, precisaríamos de considerar que o pronome
sobe juntamente com o verbo depois de passar por FocP (o que levanta outras questões). Se a construção é
não-pura, então o pronome e o verbo iriam para AssP e EvalP, o que provocaria uma violação da PIC.
19 Segundo Pollock (1989), em Francês, os verbos finitos e auxiliares estão no Xº mais alto do domínio IP.
20 Como o movimento de X’ não é possível, o sujeito tem de ser extraído para que XP se possa mover.

74
INTERROGATIVAS-WH: PERIFERIA ESQUERDA E FASES

b. Tem ele falado sobre isso?


(76) a. ??Tem falado o João sobre isso?
b. ??Tem falado sobre isso o João?
c. *Tem falado sobre isso ele?
A agramaticalidade de (76)c. mostra que o sujeito não está em TopP.
A não adjacência entre o auxiliar e o verbo principal (em (75)) mostra que a ordem
interna a TP não foi mantida, apontando para uma derivação por movimento do verbo 21.
Se ocorresse generalizadamente movimento do TP remanescente (como proposto
para o Francês (Pollock, Kayne, e.o.), esperaríamos que o verbo não tivesse de ocorrer
adjacente ao sintagma-Wh, o que, regra geral, se verifica: não podem existir elementos
intervenientes. Por exemplo, não pode haver um sujeito em posição pré-verbal
(mantendo-se a ordem canónica através de movimento do TP remanescente) numa
interrogativa-Wh de objecto:
(77) *O que o João comeu?
No entanto, em certos contextos, um adjunto pode ocorrer entre o sintagma-Wh e o
verbo:
(78) Quem efectivamente comprou o livro?
Se a ISV decorre de movimento Vº-Tº para Whº então ou o sintagma-Wh não está
em WhP ou o verbo não sobe para WhP. Em (78), o sintagma-Wh e o verbo não podem
estar na mesma projecção funcional porque não se encontram adjacentes. Mesmo se se
considerar múltiplos especificadores 22 (o que seria aceitável tendo em conta as
especificidades do elemento movido para Whº, que contém V e T (com propriedades
das duas posições, cada uma com os seus possíveis especificadores)), essa posição
nunca poderia ser preenchida por um adjunto (que não funciona como spec,VP ou
spec,TP). Isto levar-nos-ia a esperar a agramaticalidade de (78).
(79) ? O que comprou o João efectivamente?
(80) a. O que efectivamente comprou o João?
b. *O que efectivamente o João comprou?
(81) a. O que comprou efectivamente o João?
b. *O que o João efectivamente comprou?
c. ??O que o João comprou efectivamente?
(82) Quem inteligentemente deixou a luz acesa sem ninguém no quarto?
Os restritos contextos de ocorrência destas construções podem responder a esta
questão. Em (81)a., há movimento de Tº-Cº, mas em (81)b. não ocorre subida do verbo,
tornando-se agramatical. O exemplo (81)c. apenas é gramatical com a interpretação de
interrogativa-eco. Em (80)a. há também subida de Tº-Cº (compare-se com a
agramaticalidade de (80)b.) e a não adjacência do sintagma-Wh e do verbo decorre do
movimento posterior do sintagma-Wh para AssP (as interrogativas que permitem
constituintes entre o sintagma-Wh e o verbo recebem geralmente uma interpretação

21 Cf. exemplos (75) e (76) com exemplo (xiv), apontado por um revisor, que também corrobora esta ideia:

(xiv) Ultimamente tem o João falado sobre isso, porque a Maria não tem podido.
22 Ver Chomsky (2005).

75
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

semi/não-pura, que origina movimento do sintagma-Wh para uma projecção funcional


mais alta permitindo a interpolação). Frases do tipo de (78), (80)a. e (82) mostram que
estes exemplos não são interrogativas-Wh puras do ponto de vista interpretativo.
Estamos perante SDQs ou RQs como (82) e eco-Qs como em (80)a.

4. Fases em contextos subordinados


Tem sido referido na literatura que as orações subordinadas podem apresentar a
estrutura da Periferia Esquerda ou totalmente projectada ou truncada (Rizzi, 1996;
Munaro et al., 2001; Haegeman, 2006; e.o.) 23. Se postularmos que o domínio de CP
(adoptando o Split-CP) se divide em partes distintas, não existe a necessidade de
postularmos casos em que a Periferia Esquerda está truncada. Assim, admito que a
diferença entre os dois tipos de construção observadas na literatura reside na projecção
de apenas uma, duas ou três fases na Periferia Esquerda.
Existe uma assimetria entre interrogativas-Wh encaixadas sob verbos assertivos e
não-assertivos:
(83) a. Eu sei o que comeste.
b. * Eu sei comeste o quê.
c. Eu sei o que diabo comeste.
(84) d. Eu imagino o que comeste.
e. * Eu imagino comeste o quê.
f. ?/# Eu imagino o que diabo comeste.
Admitindo a estrutura apresentada na secção 2, podemos concluir que: i)
predicados assertivos podem conter encaixadas que projectem quer CP1 e CP2 (cf. ex.
(83)a.) quer CP1, CP2 e CP3 (cf. ex. (83)c.); ii) predicados não-assertivos apenas
podem conter encaixadas que projectem CP1 e CP2 (cf. ex. (84)d. vs. (84)f.). A razão
pela qual os predicados não-assertivos não podem subordinar CP2 deve-se ao carácter
assertivo de CP2 vs. não-assertivo desse predicado. No entanto, os exemplos de
interrogativas-Wh semi-puras com Wh-in-situ (cf. exs. (83)b. e (84)e.) são
problemáticos. Tendo em conta a análise anterior, espera-se que: i) interrogativas-Wh
com sintagma-Wh inicial devam ser encaixadas por predicados matriz assertivos e não-
-assertivos, enquanto que ii) interrogativas-Wh com Wh-in-situ devam ser subordinadas
a predicados matriz assertivos mas não a não-assertivos. Como explicar a assimetria
entre a possível realização fonética da posição mais alta (Wh-inicial) mas nunca da
posição mais baixa (Wh-in-situ)? Se um predicado α pode encaixar uma estrutura do
tamanho XP (< YP), também pode encaixar YP, levando-nos a esperar que, se EvalP
pode ser projectado em orações subordinadas (cf. ex. (83)c.) então também AssP pode
(e tem de) ser projectado. Porém, os exemplos em b) e em e) não são possíveis em PE
(enquanto que os exs. em c) e f) são), portanto a predição em ii) não se verifica.

23 ([French and Lonbard dialects] can make use of two different CP fields in interrogative sentences. The
truncated one is probably close to a declarative CP as it lacks both GroundP and ForceP. (Munaro,
Poletto & Pollock, 2001:178, fn:25). Problema: se não têm Ground/Force, como dar conta da interpretação
interrogativa?

76
INTERROGATIVAS-WH: PERIFERIA ESQUERDA E FASES

Ambar (2001) considera que, nas encaixadas, AssP é seleccionado pelo verbo
matriz. Partindo da ideia de que o verbo matriz verifica o traço [+ass], é possível
explicar a não existência de encaixadas com Wh-in-situ, uma vez que não há
necessidade de se efectuar movimento pois o verbo matriz já validou o traço relevante.
Se o verbo matriz tem a capacidade de verificar traços, então esperar-se-á que os verbos
avaliativos possam verificar o traço [+eval] e que não possamos ter construções com
EvalP preenchido foneticamente, o que, efectivamente, se verifica 24(cf. com exs. c)):
(85) * Eu censuro o que diabo comeste.
(86) * Eu critico que diabo de livro ela leu.
Deste modo, os verbos matriz desempenham um papel importante na determinação
da Periferia Esquerda da oração encaixada, uma vez poderem verificar o traço da
projecção funcional mais alta requerida discursivamente, não sendo necessárias
operações adicionais para validar a estrutura.

Conclusão
Uma construção pode conter duas fases (declarativas finitas): v*P < CP1; três
(interrogativas-Wh puras): v*P < CP1 < CP2; ou quatro (interrogativas-Wh semi e não-
-puras): v*P < CP1 < CP2 < CP3, o que reforça a ideia de que a estrutura é modular e a
interpretação composicional.
A sintaxe e as interfaces interagem ciclicamente através das fases projectadas: com
o spell-out, existe uma unificação dos ciclos fonológicos e sintácticos, e a codificação
semântica das projecções funcionais nesses ciclos relaciona cada ciclo sintáctico a um
ciclo semântico.

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24 Mas existem contextos em que podemos realizar o sintagma-Wh-in-situ em orações encaixadas, como nos
casos em que o verbo matriz é do tipo “bridge”: (xv) Pensas que ela comprou que livro?

77
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

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79
A subida de clíticos em português clássico:
descrição e implicações teóricas *

Aroldo Leal de Andrade


Universidade Estadual de Campinas

Abstract
This article presents the results of a corpus-based research on sentences with
“restructuring” predicates in Classical Portuguese. The analysis shows that different
factors influence the occurrence of clitic climbing, including the contexts for clitic
placement in Portuguese. The main theoretical implication is that the motivation for
variation in clitic climbing should be placed not on the nature of infinitival complements,
but on the higher part of sentence structure. The diachronic changes related to clitic
placement in the corpus are equally described and a sketch of analysis assuming a
monoclausal analysis for complex predicates is put forth.

Keywords: Classical Portuguese, clitics, complex predicates, word order


Palavras-chave: Português Clássico, clíticos, predicados complexos, ordem de palavras

1. Introdução
A colocação de clíticos em Português Clássico (PCl) apresentava variação entre
próclise e ênclise em maior quantidade de contextos que o Português Europeu
contemporâneo (PE). A próclise era encontrada, para além das sentenças com “elementos
proclisadores” (como o marcador de negação sentencial, certos sintagmas quantificados
ou focalizados, complementadores e certos advérbios), em sentenças que hoje apresentam
ênclise obrigatória, como aquelas com sujeito pré-verbal (cf. Martins, 1994; Galves et al.,
2006, entre outros). Diante desse quadro, interessa-nos pesquisar a colocação de clíticos
de orações infinitivas no PCl em que é possível a formação de um predicado complexo
com o domínio superior.
Este trabalho analisa a subida de clíticos, fenômeno restrito a predicados complexos
em que um clítico vinculado a um domínio não-finito pode ser realizado junto a um verbo
superior. Há dois tipos de predicados complexos, classificados quanto à classe do verbo
que rege o complemento não-finito: (i) predicados de “reestruturação” (cf. Rizzi, 1982),
com um verbo de controlo pelo sujeito ou de elevação, e (ii) predicados de “união de
orações” (cf. Aissen & Perlmutter, 1983; contrução também denominada “fazer-

* Este trabalho foi realizado no âmbito da bolsa de doutoramento financiada pela FAPESP (DR 06/50256-8) e
pela CAPES (BEX 1605/08-9). Agradeço a Sonia Cyrino, Charlotte Galves, Ana Maria Martins, Ian Roberts
e ao parecerista pelas sugestões a versões anteriores deste artigo.

Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,


APL, 2009, pp. 81-95
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

-infinitivo” por Kayne, 1975), com um verbo causativo ou perceptivo. Os resultados


referem-se tão-somente aos predicados de “reestruturação”, uma vez que seu número de
ocorrências mostrou-se significativo para um estudo quantitativo.
As estruturas de reestruturação têm sido objeto de um grande número de análises
teóricas, que podem ser organizadas, para os objetivos a que este estudo se propõe, em
torno de duas grandes hipóteses:
Hipótese teórica 1 (sobre a motivação para a opcionalidade da subida de clíticos):
A variação na subida de clíticos se deve à variação na parte da numeração sintática
referente ao domínio infinitivo (falta de categorias ou de traços ligados a categorias).
Hipótese teórica 2 (sobre a presença de Tempo no domínio infinitivo): O domínio
infinitivo sempre projeta Tempo; porém, quando há formação de predicado complexo,
esse Tempo é dependente do Tempo projetado no domínio mais alto.
A hipótese teórica 1 foi implementada, no PE, pelos trabalhos de Martins (2000) e
Gonçalves (1999). Enquanto o primeiro assume que a seleção semântica de
determinados verbos varia entre estruturas funcionais mais ou menos ricas (um ΣP ou
um TP), este propõe que os verbos que formam predicado complexo permitem um
complemento com Tempo ativo ou defectivo (portanto, também assume explicitamente
a hipótese teórica 2). Mais recentemente, a hipótese teórica 1 foi questionada por
Cinque (2004), com base na ideia de que a estrutura sintática envolvida na
reestruturação é sempre a mesma, independentemente da ocorrência de efeitos de
transparência como a subida de clíticos: os verbos de reestruturação sempre ocupariam,
nessa abordagem, alguma posição frásica no domínio funcional da oração. Esse autor
denominou a oposição à hipótese 1 de Hipótese Forte. Evidentemente, a adoção da
hipótese forte implica a negação da hipótese 2, uma vez que a estrutura sintática
assumida é mono-oracional, ou seja, o verbo regente e o verbo não-finito ocupam
ambos uma mesma projeção frásica; assim, não pode haver uma projeção de Tempo
específica ao domínio infinitivo 1.
Como este é um estudo baseado em corpus, nosso objetivo será verificar se as
hipóteses teóricas enunciadas são compatíveis com as evidências empíricas, inclusive as
de ordem quantitativa (cf. Tognini-Bonelli, 2001). Para a realização da pesquisa, tomou-se
como objeto de análise um corpus de textos literários do século XVI a XIX (parte
integrante do CTB) 2, do qual from extraídas frases como as seguintes:

1 No entanto, a negação da hipótese 2 não implica necessariamente a hipótese forte: veja-se aproposta de
Wurmbrand (2003), em que certos verbos podem ter um complemento infinitivo TP ou vP, sendo que, nesse
último caso, forma-se um predicado complexo.
2 Os textos foram extraídos do Corpus Tycho Brahe (CTB). Os exemplos são identificados pelo sobrenome do
autor (e nome do texto, quando for o caso). Para efeito de periodização dos textos, toma-se como critério a
data de nascimento do autor, com a seguinte distribuição: Século XVI: Fernão Mendes Pinto. Perigrinação;
Francisco de Holanda. Da Pintura Antiga; Diogo do Couto. Décadas (Vol 1); Frei Luís de Sousa. A Vida de
D. Frei Bertolameu dos Mártires; Francisco Rodrigues Lobo. Côrte Na Aldeia e Noites de Inverno. Século
XVII: Manuel da Costa. Arte de Furtar; Pe. António Vieira. Cartas (Tomo I); e Sermões; D. Francisco
Manuel de Melo. Cartas Familiares; António das Chagas. Cartas Espirituais; Manuel Bernardes. Nova
Floresta; José da Cunha Brochado. Cartas; Maria do Céu. Rellaçaõ da Vida e Morte da Serva de Deos a
Venerável Madre Elenna da Crus; André de Barros. Vida do Apostolico Padre António Vieira; D. Jeronymo
Contador de Argote. Regras da Lingua portugueza, espelho da lingua latina; Alexandre de Gusmão. Cartas.
Século XVIII: Francisco Xavier Cavaleiro de Oliveira. Cartas; Matias Aires. Reflexões sobre a Vaidade

82
A SUBIDA DE CLÍTICOS EM PORTUGUÊS CLÁSSICO

(1) a. ... que lhe podem dar tôda a vantagem nas diversões. (M.esa Alorna, 1750)
b. ... quero-lhe fazer hum queixume contra muitos... (Holanda, 1517)
c. Devemos responder-lhe que eles são os que erram. (Verney, 1713)

Somente as sentenças com um verbo regente numa forma finita e um verbo no


infinitivo não-pessoal foram selecionadas para fins de quantificação. Os dados com
complementos não-finitos no gerúndio e no particípio passado apresentavam subida
obrigatória, como ainda se observa em PE (cf. Magro, 2004). O clítico pode elevar-se para
um verbo no infinitivo flexionado ou no gerúndio, porém tais dados poderiam enviesar os
resultados quanto à colocação de clíticos, tendo em vista as propriedades especiais da
cliticização com tais formas verbais (preferência pela próclise com os primeiros e pela
ênclise com os segundos):

(2) a. ... mas o temor de nos podermos concertar com Castela é de tanta
consideração, que não importa menos que a firmeza ou ruína de França.
(Vieira, Cartas, 1608)
b. Começando-me a aplicar a este exercício há muitos anos, acho-me sem dúvida
alguma com bastante esperteza nesta dita ciência... (Cavaleiro, 1702)

No quadro seguinte quantificam-se os contextos tidos em conta para este estudo,


distribuídos em metades de séculos, com a informação sobre a ocorrência da subida de
clíticos.

Subida Não-subida Total


Séc. XVI 1ª. Metade 315 18 333
2ª. Metade 172 29 201
Séc. XVII 1ª. Metade 562 156 718
2ª. Metade 189 112 301
Séc. XVIII 1ª. Metade 300 168 468
2ª. Metade 94 139 233
Séc. XIX 1ª. Metade 61 60 121
TOTAL 1693 682 2375

Quadro 1: Ocorrências de orações com clíticos passíveis de reestruturação

O número variável de sentenças em cada metade de século é resultante não só do


tamanho irregular do corpus, como também do uso variável, pelos autores, dos contextos
sintáticos que permitem a subida de clíticos. Por essa mesma razão, buscou-se coletar e

dos Homens e Carta sobre a Fortuna; Luís António Verney. Verdadeiro Método de Estudar; António da
Costa. Cartas do Abade António da Costa; Correia Garção. Obras; Marquesa de Alorna. Inéditos. Cartas e
Outros Escritos; Almeida Garrett. Viagens na Minha Terra. Século XIX: Marquês da Fronteira e d’Alorna.
Memórias do Marquês da Fronteira e d’Alorna; Ramalho Ortigão. Cartas a Emília.

83
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

analisar todas as sentenças disponíveis, excetuando-se, contudo: as sequências verbais


com mais de uma forma não-finita (como já mencionado), os critérios elencados em
Gonçalves (1999) para a ocorrência de “reestruturação”, como a ausência do marcador de
negação sentencial não e do complementador finito que entre verbo regente e verbo
infinitivo; e os clíticos com vinculação ambígua entre os domínios finito ou infinitivo, ou
seja, os clíticos se com valor nominativo (impessoal) ou passivo.
No que toca à colocação de clíticos, enquanto a ênclise e a próclise ao verbo regente
e a ênclise ao verbo infinitivo são opções disponíveis com qualquer verbo de
reestruturação, a próclise ao verbo infinitivo é restrita às sentenças que apresentam a
preposição de selecionada por verbos regentes como acabar, deixar, desejar, haver, ousar
e ter. Como alguns desses verbos apresentavam variação de regência, os dados a serem
analisados em separado tomam por base a presença da preposição de, e não a entrada
lexical dos verbos. Indicaremos sempre que necessário se esse conjunto de dados está ou
não incluído nas quantificações apresentadas.
O texto se desenvolve a partir das seguintes questões, que norteiam, respectiva-
mente, as secções 2 a 4:
Questão 1: Que fatores são responsáveis pela variação na ocorrência da subida
de clíticos no PCl?
Questão 2: O que os resultados sugerem a respeito das teorias sobre formação de
predicados complexos?
Questão 3: Quais são os resultados diacrônicos e o que eles sugerem sobre a
mudança nos dados do PCl?

2. Descrição da variação
A nossa análise para a variação no PCl (abstraindo a variável diacrônica) partiu
das seguintes hipóteses, referentes à Questão 1:
Hipótese descritiva 1 (sobre as possibilidades de colocação do clítico): A
colocação de clíticos em predicados de reestruturação segue os contextos de
colocação de clíticos válidos em orações independentes.
Hipótese descritiva 2 (sobre a auxiliaridade do verbo regente): A maior
associação de características de auxiliar ao verbo regente favorece a subida de
clíticos.
Hipótese descritiva 3 (sobre a relação entre função gramatical do clítico e
domínio sintático): O clítico se inerente e os clíticos reflexivos sofrem subida com
menor frequência, se comparados com clíticos que exercem outras funções
gramaticais.
Hipótese descritiva 4 (sobre a presença de elementos intervenientes): A
interrupção da adjacência entre o verbo regente e o verbo infinitivo desfavorece a
subida de clíticos.
A hipótese 1, também denominada aqui de Hipótese Nula, tem por objetivo
verificar os limites da variação na colocação de clíticos. Por outro lado, as hipóteses 2 a
4 referem-se à variação entre a ocorrência ou não-ocorrência da subida de clíticos, em
abstração da distinção próclise/ênclise. As correlações provêm da literatura sobre

84
A SUBIDA DE CLÍTICOS EM PORTUGUÊS CLÁSSICO

variação na subida de clíticos (cf. p. ex. Davies, 1997), exceto a hipótese 3, que será
motivada mais adiante.
Vejamos os resultados referentes à hipótese descritiva 1, primeiramente nos dados
em que o verbo regente não seleciona a preposição de, no Quadro 2.

cl-Vreg Vinf Vreg-cl Vinf Vreg Vinf -cl Total


Próclise categórica 1046 (76%) 1 (1%) 320 (23%) 1367
Variação 257 (47%) 51 (10%) 231 (43%) 539
Ênclise categórica 0 (0%) 24 (30%) 56 (70%) 80
TOTAL 1303 (65%) 76 (4%) 607 (30%) 1986

Quadro 2. Distribuição da colocação de clíticos face ao contexto sintático (sem preposição de)

Os dados confirmam a hipótese nula, uma vez que as previsões são: que o contexto
de próclise categórica não aceite a ênclise ao verbo regente; e que o contexto de ênclise
categórica não aceite a próclise ao verbo regente (a ênclise ao verbo infinitivo é
permitida em todos os contextos), o que de fato se obtém, com uma exceção somente 3.
Além disso, é notável que a subida de clíticos seja muito mais frequente nos dados em
contexto de próclise categórica (76% contra 57% dos dados em contexto de variação e
30% dos dados em contexto de ênclise categórica). Isso aponta para uma nova
correlação, que poderíamos formular da seguinte maneira:
Hipótese descritiva 5 (sobre os contextos de colocação de clíticos): A presença de
um proclisador favorece a subida de clíticos.

O Quadro 3 a seguir mostra os resultados de colocação com os complementos


infinitivos regidos pela preposição de, que permitem a próclise ao infinitivo.

cl-V de V V-cl de V V de cl-V V de V-cl Total


Próclise categórica 252 (87%) 0 (0%) 13 (5%) 23 (8%) 288
Variação 55 (63%) 7 (8%) 10 (11%) 16 (18%) 88
Ênclise categórica 0 (0%) 0 (0%) 1 (7%) 12 (93%) 13
TOTAL 307 (80%) 7 (1%) 24 (6%) 51 (13%) 389

Quadro 3. Distribuição da colocação de clíticos face ao contexto sintático (com preposição de)

Observa-se que, num total de 288 sentenças em contexto de próclise categórica,


não houve sequer um dado de ênclise ao verbo regente (não houve dados de clíticos
elevados em contexto de ênclise categórica). Portanto, tem-se aqui a confirmação da
hipótese nula nos dados com preposição de. Os dados também confirmam a hipótese

3 A exceção identificada pode ser atribuída ao caráter variante do advérbio assim enquanto elemento
proclisador:
(i) e assim podemo-nos dispensar de a escrever. (Verney, 1713)

85
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

descritiva 5 (87% de subida em contexto de próclise categórica contra 71% em contexto


de variação e 0% em contexto de ênclise categórica) e mostram que a preposição
complementadora não bloqueia a subida, mas também serve como apoio fonológico
para o clítico (uma pequena quantidade de dados espalhados pelos três contextos ocorre
em próclise ao verbo infinitivo, que consiste numa ênclise à preposição para a
fonologia) 4.
Passemos à análise da hipótese descritiva 2, que remete ao estatuto de auxiliar do
verbo regente. No que toca ao tipo de verbo regente, adotarei, da mesma forma que
Magro (2004), uma classificação sintático-semântica em: verbos de controlo de sujeito e
de elevação, estes subdivididos em semi-auxiliares temporais, aspectuais e modais5.
Dessa forma, elaborou-se a seguinte quantificação, que inclui todos os dados:

Subida Não-subida Total


Controlo 431 (68,6%) 197 (31,3%) 628
Elevação 1262 (72%) 485 (28%) 1747
Semi-auxiliares temporais 423 (76,7%) 128 (23,2%) 551
Semi-auxiliares aspectuais 163 (69%) 73 (30%) 236
Semi-auxiliares modais 676 (70,4%) 284 (29,5%) 960

Quadro 4. Ocorrência da subida de clíticos face à classe do verbo regente

Observa-se, a partir da análise do Quadro 4, a falta de resultados significativos


baseados na classe verbal do verbo regente: cada uma apresenta cerca de 70% de subida de
clíticos, exceto os semi-auxiliares temporais, que apresentam índice um pouco mais
elevado. Em vez disso, tendo em vista sugestão de Davies (1997), outro critério é proposto:
os verbos mais frequentes apresentam maiores índices de subida de clíticos. Esse critério
demonstra, por um lado, o efeito de continuum ligado aos verbos auxiliares, como descrito
por Gonçalves & Costa (2002) e, ao mesmo tempo, reflete um processo de
gramaticalização (incompleto) que é dependente da frequência do item lexical, como
resumido em Bybee (2003). Para tanto, foi elaborada a lista de verbos em (3), que se
baseou no número de ocorrências no corpus (maior ou menor que cinquenta) como critério
de classificação do nível de frequência; confira também a quantificação no Quadro 5.
(3) a. Verbos mais frequentes: querer, saber (controlo); haver, ir, vir (temporal); tornar
(aspectual); poder, dever (modal)
b. Verbos menos frequentes: ousar, tentar, desejar, esperar, estimar, pretender,
procurar, tomar (controlo); acabar, começar, continuar, costumar, chegar, deixar,
estar, ficar, sair, soer (aspectual) e ter (modal).

4 Notou-se que os dados com ênclise ao verbo regente, encontrados em contexto de variação, limitam-se ao
verbo haver. No entanto, o devido aprofundamento dessa questão ultrapassaria os objetivos deste artigo.
5 Haver foi sistematicamente classificado como semi-auxiliar temporal, apesar de também apresentar outros
valores semânticos.

86
A SUBIDA DE CLÍTICOS EM PORTUGUÊS CLÁSSICO

Subida Não-subida Total


Verbos mais frequentes 1566 (74,2%) 543 (25,8%) 2109
Verbos menos frequentes 127 (47,8%) 139 (52,2%) 266
Quadro 5. Ocorrência da subida de clíticos face à frequência do verbo no corpus

Enquanto os verbos mais frequentes apresentam 74,2% de subida de clíticos, esse


percentual cai para 47,8% com os verbos menos frequentes. Uma vez identificado esse
critério, os índices mais altos de subida com os semi-auxiliares temporais encontrados no
Quadro 4 podem ser relacionados com sua pertença, sem exceção, à classe dos verbos
mais frequentes. Tem-se, portanto, a confirmação da hipótese descritiva 2.
Passemos agora aos resultados referentes à hipótese descritiva 3, que analisa a
função gramatical do clítico, cujos resultados apresentam-se no quadro a seguir.

Subida Não-subida Total


Clíticos reflexivos e SE 337 (62,6%) 201 (37,4%) 538
Clíticos argumentais 1149 (72,7%) 431 (17,3%) 1580
Clíticos contraídos 66 (82,5%) 14 (17,5%) 80
Clíticos com outras funções 141 (79,6%) 36 (20,4%) 177
Quadro 6. Ocorrência da subida de clíticos face à função gramatical do clítico

Observa-se que os dados referentes aos clíticos reflexivos (me, te, etc.) e ao clítico
se, utilizado primordialmente como elemento inerente ao verbo infinitivo, mas também
como anticausativo, apresentam os menores índices de subida, cerca de 10% mais baixos
que os clíticos argumentais (com valor acusativo ou dativo). A motivação para se postular
uma diferença entre os clíticos reflexivos/ inerentes e os clíticos argumentais diz respeito à
sua maior vinculação semântica ao verbo infinitivo. Dessa forma, a hipotese descritiva 3 é
confirmada.
Nota-se também, a partir do Quadro 6, que clíticos contraídos (mo, to, etc.) têm
percentuais de subida cerca de 10% mais altos que os clíticos argumentais usados em
separado. Clíticos com outras funções (elemento de oração pequena, dativo ético ou
possessivo) apresentam um nível mais elevado de subida. No entanto, essas duas últimas
categorias serão deixadas de lado, pois sua análise detalhada ultrapassaria os objetivos
deste estudo.
Finalmente, observe-se o Quadro 7, com os resultados relativos à presença e tipo de
elementos intervenientes, relação apontada na hipótese descritiva 4 (que inclui só os dados
com um elemento interveniente, sem contar a preposição selecionada pelo verbo regente):

Subida Não-subida Total


Adjacência V-V 1610 (73%) 576 (27%) 2208
Quebra da adjacência V-V 81 (50%) 81 (50%) 162
PP 5 (38,5%) 8 (61,5%) 13
NP 36 (44%) 46 (56%) 82
Advérbio 40 (60%) 27 (40%) 67
Quadro 7. Ocorrência da subida de clíticos face à presença de elementos intervenientes

87
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Enquanto os dados sem elemento interveniente, ou seja, com adjacência V-V


apresentam cerca de 72% de subida, os dados com quebra da adjacência V-V apresentam
50%. Ao perscrutar os tipos de elementos intervenientes, nota-se que o índice de subida
varia entre 38,5% e 60%, sendo que sintagmas preposicionais (PPs) ou nominais (NPs)
têm menor índice de subida. Portanto, confirma-se também a hipótese descritiva 4,
formulada em torno da seguinte ideia: se a sequência verbo regente+verbo infinitivo é
quebrada, o complemento infinitivo tende a ser interpretado como domínio sintático
separado, e não como parte de um predicado complexo juntamente com o verbo regente.
É interessante observar detalhes sobre a natureza dos elementos intervenientes. Os
PPs encontrados entre os dois verbos podem funcionar tanto como um argumento dativo
(a Vossa Mercê) quanto como um adjunto (com razão, em minha casa, de propósito, entre
outros). Os NPs realizam sempre o sujeito pós-verbal. Os advérbios, por sua vez, podem
modificar tanto o sintagma verbal (bem, já, logo etc.) quanto a sentença inteira
(finalmente, pessoalmente, porventura etc.).
Em suma, os fatores responsáveis pela variação na subida de clíticos no PCl
identificados neste estudo são quatro: os contextos de colocação de clíticos; o nível de
auxiliaridade do verbo regente; a função gramatical do clítico; e o nível de adjacência
entre verbo regente e verbo infinitivo. Nota-se, em comparação com os fatos de PE
descritos em Gonçalves (1999) e Magro (2004), que a subida de clíticos no PCl é
encontrada numa maior liberalidade de contextos.

3. Implicações teóricas
Passemos agora à análise da Questão 2, que pretende relacionar os resultados
alcançados na secção anterior às hipóteses teóricas enunciadas na introdução deste
estudo.
A confirmação da hipótese nula tem implicações ortogonais às análises teóricas. De
fato, é possível dissociar, no que se refere aos clíticos, sua posição (alta ou baixa) e sua
colocação (próclise ou ênclise). Para tanto, desenvolve-se a hipótese teórica 1 para explicar a
primeira, ou seja, o pressuposto de que a variação na estrutura do complemento infinitivo é
responsável pela formação de predicados complexos e pela subida de clíticos, juntamente
com uma teoria de colocação de clíticos. No entanto, algumas hipóteses descritivas
concernentes à variação na aplicação na subida de clíticos parecem opor-se ao pressuposto
de dissociação entre posição e colocação de clíticos.
A hipótese descritiva 5 (advinda dos resultados discutidos à guisa de verificação
da hipótese descritiva 1) tem implicações que sugerem a infirmação da hipótese teórica
1. Como já mencionado, temos uma indicação da (inesperada) relação entre posição e
colocação de clíticos. Ora, para que uma teoria que assuma a hipótese teórica 1 desse
conta da hipótese descritiva 5 (confirmada nos dados), seria necessário postular uma
correlação entre a falta de categorias (ou traços) do complemento infinitivo e a presença
de um proclisador no domínio mais alto. No entanto isso não é possível se a teoria
também assumir os pressupostos teóricos minimalistas (p. ex. Chomsky, 2000) de que a
derivação é construída de baixo para cima (bottom-up) e de que a antecipação (look-
-ahead) é um mecanismo banido na computação sintática. Portanto, a análise do corpus

88
A SUBIDA DE CLÍTICOS EM PORTUGUÊS CLÁSSICO

favorece a hipótese forte, segundo a qual a estrutura sintática do complemento infinitivo


é sempre a mesma, independentemente da presença de efeitos de transparência.
A hipótese teórica 2 afirma que há projeção de Tempo no complemento infinitivo.
Em outras palavras, considera-se que os predicados complexos implicam uma estrutura
bioracional para os predicados complexos, como representado esquematicamente em
(4), com os elementos básicos da sentença representados nas posições em que primeiro
são concatenados (os elementos S/PRO no Spec,vP mais baixo devem-se à variação já
mencionada entre predicados de elevação ou controlo):

(4) [CP… [TP [vP S [VP Vreg [TP [vP S/PRO [VP Vinf O ]]]]]]]

Como já enunciado na introdução, a hipótese teórica 2 é forçosamente infirmada se


se aceitar a hipótese forte. Dessa forma, não há projeção de Tempo no domínio
encaixado e a postulação de uma projeção frásica independente (um TP, em (4)) torna-
-se desnecessária. Essa é a segunda implicação teórica deste estudo: a de que os
predicados complexos envolvem uma estrutura mono-oracional, em que, diferentemente
de (4), o verbo regente e verbo infinitivo ocupam posições na mesma projeção frásica
(FP designa uma projeção funcional em que o verbo de reestruturação é concatenado,
seguindo-se a abordagem de Cinque, 2004):

(5) [CP ... [FP Vreg [TP [vP S [VP Vinf O ]]]]]

Da mesma forma, os dados advindos da natureza do verbo regente (ou seja, os


dados relativos à hipótese descritiva 2) contrariam as hipóteses teóricas elencadas na
introdução, pois a teoria que as assumir incorrerá nos mesmos problemas mencionados
mais acima, a menos que adote o expediente da antecipação.
Os outros resultados mencionados na seção anterior podem conformar-se tanto a
uma estrutura bioracional quanto mono-oracional. De fato, o pressuposto de que o
clítico inerente ou reflexivo se mantém numa posição baixa (vP ou VP, a depender da
abordagem estrutural, cf. hipótese descritiva 3), é irrelevante para a questão da
existência de um Tempo encaixado (cf. hipótese teórica 2). O único ponto mais
facilmente explicado pelas hipóteses teóricas enunciadas diz respeito à relação entre a
adjacência V-V e a subida de clíticos (cf. hipótese descritiva 4), que parece apontar para
a possibilidade de o complemento infinitivo ser interpretado como um domínio
independente e, portanto, com categorias (e traços) completos. No entanto, ainda nesse
caso poderia ser apontado o problema da antecipação, e a possibilidade de reinterpretar
o problema em termos de uma categoria (ou traço) presente na derivação concatenado
acima do complemento infinitivo, e não nele.
Uma teoria que assuma as hipóteses teóricas 1 e 2 pode, no entanto, assumir um
sistema que lide com a questão da geração excessiva de estruturas, o que implica o
“descarte” de derivações com incompatibilidade sintático-semântica a posteriori 6. Esse

6 Para uma proposta que assume a geração excessiva (overgeneration) de estruturas, cf. Borer (2005).

89
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

é o pressuposto implicitamente assumido em Gonçalves & Matos (2008) para explicar a


impossibilidade da Anáfora do Complemento Nulo quando há reestruturação, pois o
Tempo defectivo seria incompatível com o licenciamento desse tipo de elipse 7. No
entanto, a estrutura mono-oracional parece captar os fatos empíricos sem a necessidade
de pressupostos adicionais sobre a estrutura desses complementos.
Uma evidência adicional para se postular uma estrutura mono-oracional para os
predicados complexos do PCl consiste na posição do sujeito, que pode seguir o verbo
regente (como ainda ocorre em PE; cf. Gonçalves, 1999) ou o verbo infinitivo:

(6) Vreg S Vinf


a. que lá me poderia Deos abrir algum caminho (Mendes Pinto, 1510)
b. como me hei eu de injuriar de que me conheçam? (Melo, 1608)
c. mas, nisto mesmo, nos quis o destino contrariar (M.es Alorna, 1802)
(7) Vreg Vinf S
a. como Vos não hei-de louvar eu, Deus da minha alma, em todo lugar e
tempo? (Sousa, 1556)
b. Mas qual é, ou póde ser a razão porque onde dois homens tão grandes, tão
qualificados e tão santos, como Job e São Paulo, não reconhecem nada de
culpa, lh’a haja de arguir Deus, e pedir-lhes conta? (Pe. Vieira, Sermões,
1608)
c. Sendo assim, não o pode vencer a vaidade (Aires, 1705)

Os exemplos acima encerram verbos regentes de elevação de sujeito com subida


de clítico. Enquanto as sentenças em (6) podem ser derivadas por movimento do verbo
para C com o DP sujeito na posição canônica (Spec,TP), os dados em (7) parecem
apresentar um problema para a estrutura bioracional implicada com a assunção da
hipótese teórica 2: o sujeito não pode ser licenciado no domínio não-finito, uma vez que
a categoria responsável pela atribuição de Caso nominativo é defectiva (T ou AgrS); no
entanto, ele ocorre após o verbo infinitivo. Dessa forma, os dados em (7) podem ser
melhor explicados com a estrutura mono-oracional em (5), e com o pressuposto
complementar de que o sujeito pode ser licenciado na posição em que é gerado
(Spec,vP). Tal ideia dá suporte às observações de Paixão de Sousa (2004) a respeito da
estrutura da sentença prevalecente até o início do século XVIII, em que havia maior
número de estruturas VS como resultado da inversão românica: um constituinte
(argumental ou não) é fronteado para ocupar a primeira posição da sentença num
sistema V28.
Uma vez que uma estrutura mono-oracional é assumida, coloca-se a questão de
como captar a variação na ocorrência da subida de clíticos. De fato, a proposta de

7 Veja-se o contraste a seguir (retirado de Gonçalves & Matos, 2008: 215, ex. (48)):

(i) a. Ela não podia vê-las e ele não queria _.


b.*Ela não as podia ver e ele não as queria _.
8 Uma questão a ser implementada teoricamente diz respeito ao licenciamento do sujeito baixo, tendo em
vista a exigência de satisfação de EPP, sobre a qual este trabalho não toma uma decisão definitiva.

90
A SUBIDA DE CLÍTICOS EM PORTUGUÊS CLÁSSICO

Cinque (2004) não entra em detalhes sobre essa questão. Sugere-se, seguindo Boeckx &
Gallego (2008) e Roberts (a sair), que um conjunto não-interpretável de traços-φ com
um subtraço EPP pode estar opcionalmente presente na projeção funcional que abriga o
verbo de reestruturação. Isso é possível dada a assunção de que tais traços são
substantivos, mas não fomais. Ou seja, a presença desse traço tem de ter um efeito na
interpretação da sentença. Sugere-se que a subida de clíticos envolve um tipo de
focalização, o que pode ser verificado a partir do contraste entre não me vou casar e não
vou casar-me: a primeira é utilizada num contexto específico (noivos, data, etc.
conhecidos), mas não a segunda. Dessa forma, a hipótese forte é formulada em termos
de uma numeração diferente, mas não no que toca à parte da sentença relativa ao
domínio infinitivo, porém naquela relativa ao domínio mais alto, em que se situa o
verbo regente.
A presente secção mostrou, portanto, que uma análise que assuma as hipóteses
teóricas 1 e 2 é menos adequada para explicar os resultados descritivos obtidos
anteriormente do que uma análise que assuma a hipótese forte. Uma evidência central
nesse sentido diz respeito à imbricação entre a derivação da posição e da colocação de
clíticos.
Vejamos a seguir os resultados descritivos em termos da mudança sofrida pelas
construções sujeitas à “reestruturação”, assim como suas implicações.

4. Descrição da mudança e suas implicações teóricas


Esta secção aborda a Questão 3, ou seja, os dados vistos em perspectiva diacrônica e
suas implicações teóricas. A partir da análise dos dados do corpus distribuídos por
metades de século, observa-se a diminuição na aplicação da subida de clíticos que, de
quase obrigatória no século XVI, passa a apresentar quantidade igual ou menor de dados
que a não-subida a partir do século XVIII, o que é mostrado na Figura 1 abaixo, que leva
em consideração todo o conjunto de 2375 dados. Observa-se uma diminuição na
ocorrência da subida de clíticos (os dados incluem tanto a próclise quanto a ênclise ao
verbo regente), que estava presente em mais de 90% dos casos nos primeiros textos
estudados e, nos últimos, atinge níveis próximos dos 50%. Essa é a nossa primeira
observação diacrônica. Tal curva de mudança reflete a aplicação quase obrigatória da
subida de clíticos no português medieval e aponta para o caráter restrito do fenômeno no
PE (cf. Martins, 1994; Davies, 1997). O maior espectro de variação observado no início
do século XVIII sugere que a mudança gramatical relacionada à mudança da posição dos
clíticos em orações independentes identificada por Galves et al. (2006) tem impacto nas
orações encaixadas infinitivas.

91
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Figura 1: Ocorrência de subida de clíticos (todos os dados)

Observe-se a Figura 2, que mostra a realização das três opções de colocação


verificadas nos complementos infinitivos não-regidos pela preposição de, nas sentenças
em contextos de variação. O gráfico (que apresenta os resultados referentes a um
conjunto de 539 sentenças) demonstra que a ênclise ao verbo regente é relativamente
constante, com variação limitada entre 5% e 17%. Portanto, a mudança ocorre entre a
escolha pela próclise ao verbo regente ou pela ênclise ao verbo infinitivo (segunda
observação diacrônica). O enfoque nos contextos de variação permite atribuir o
aparente acréscimo no número de ocorrências de clíticos elevados observado nas duas
últimas metades de século mostradas na Figura 1 ao peso dos dados em contexto de
próclise obrigatória, já que nos contextos de variação há quase uma manutenção da
frequência de subida de clíticos, em torno dos 23%. Para além disso, a Figura 2
acrescenta uma evidência adicional à conclusão de que há uma imbricação entre posição
e colocação de clíticos pois, a partir do estudo de Galves et al. (2006) a respeito da
colocação de clíticos em orações independentes no PCl, se esperaria que o número de
dados com ênclise ao verbo regente aumentasse a partir do século XVIII. Ao contrário
disso, verifica-se que a posição intermediária (ênclise ao verbo regente) é limitada e
estável mesmo após o período em que a ênclise vem a suplantar a próclise nos contextos
de variação de orações independentes (terceira observação diacrônica).

92
A SUBIDA DE CLÍTICOS EM PORTUGUÊS CLÁSSICO

1
0,9
0,8
0,7
0,6
cl-V +V
0,5
0,4 V-cl+V
0,3 V+V-cl
0,2
0,1
0
XVI-1 XVI-2 XVII-1 XVII-2 XVIII-1XVIII-2 XIX

Figura 2. Distribuição da colocação de clíticos passíveis de reestruturação


(contextos de variação)

A fim de delinear um modelo de mudança consistente com as observações


diacrônicas mencionadas, partimos do trabalho de Martins (2004), que assume um
progressivo enriquecimento da estrutura funcional dos complementos infinitivos de
“reestruturação” e de “união de orações” (um desenvolvimento da hipótese teórica 1).
Apesar de a intuição de Martins parecer correta, gostaríamos de reinterpretar sua
implementação sintática em termos de uma estrutura mono-oracional para a construção
de “reestruturação”, tendo em vista as conclusões alcançadas na secção 3. Para tanto,
considera-se que o conjunto de traços-φ na periferia esquerda da senten ça tinha um
caráter obrigatório no português medieval, tendo em vista a existência de uma posição
dedicada à focalização nessa língua, conforme Ribeiro (1995). A partir do século XVI a
subida de clíticos passa a ser claramente opcional, pois não há mais uma posição
dedicada à focalização, e o clítico se move somente até a projeção ocupada pelo verbo
de reestruturação. Dessa forma, o caráter gradual da perda de subida de clíticos
(expresso pela primeira observação diacrônica) parece ser captado, uma vez que se trata
de um movimento cuja natureza diz respeito mais propriamente à Língua-Externa.
Para a explicação da segunda e da terceira observações diacrônicas, deve-se
especificar o tipo de teoria sobre colocação de clíticos a ser adotada e sobre a divisão de
tarefas entre a derivação da posição e da colocação de clíticos. Sobre essa questão,
parte-se do pressuposto de que tais mecanismos são regidos respectivamente pela
sintaxe e pela morfologia, seguindo ideia de Galves et al. (2005). Portanto, a subida de
clíticos gera, de início, a próclise, e sua não-aplicação (resultante da inexistência do
conjunto de traços-φ na projeção que abriga o verbo regente) gera a ênclise ao verbo
infinitivo. Tem-se aí uma provável explicação para a segunda observação descritiva.
Segundo a proposta de Galves & Sandalo (2004), a ênclise é derivada da próclise
por meio de um movimento pós-sintático, formulado em termos da impossibilidade de o
clítico ocupar a primeira posição do sintagma entoacional (IntP) e, a partir do século

93
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

XVIII, de I’. Se adotarmos a ideia adicional de que a projeção ocupada pelo verbo
regente (para a qual o clítico se move) é mais alta que IP, como a proposta de Cinque
(2004) sugere, tem-se que a ênclise continuará sendo uma opção limitada, mesmo após
generalização da ênclise em sentenças independentes no PE. Isso, juntamente com o
fato de que a próclise era a opção de colocação prevalecente no PCl, oferece uma
explicação para a terceira observação descritiva.
Esta secção apresentou três observações diacrônicas feitas a partir da observação
da mudança na colocação de clíticos passíveis de reestruturação no corpus estudado.
Foram apresentadas algumas ideias que permitem explicar os resultados observados de
forma consistente com as implicações teóricas esboçadas na secção anterior. No
entanto, enfatiza-se que as considerações realizadas têm caráter impressionístico, e
carecem de desenvolvimento em trabalho futuro.

5. Conclusão
Este estudo observou que há vários fatores condicionantes da variação na subida de
clíticos no PCl, como a auxiliaridade do verbo regente, a função gramatical do clítico, a
presença de elementos intervenientes e, finalmente, os contextos de colocação de clíticos.
Em seguida, duas hipóteses teóricas existentes na literatura foram julgadas menos
adequadas para a descrição dos dados. Finalmente, foram esboçados alguns pressupostos
para a explicação da mudança observada nos dados de posição e de colocação dos clíticos
no período estudado, de acordo com a hipótese forte, que advoga a existência de uma
estrutura mono-oracional para as sentenças com verbos de reestruturação.

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94
A SUBIDA DE CLÍTICOS EM PORTUGUÊS CLÁSSICO

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95
Sujeitos explícitos em orações infinitivas de controlo e elevação

Pilar P. Barbosa
Universidade do Minho/CEHUM
pbarbosa@ilch.uminho.pt

Abstract
This paper discusses evidence that control and raising infinitives have overt
subjects in European Portuguese as well as in the other Romance Null Subject
Languages (NSLs). Drawing on previous proposals that verbal agreement morphology
in the NSLs is “nominal”, it is suggested that the relation between a lexical subject “in
situ” and T is invariably mediated by verbal agreement in a configuration of clitic
doubling. This assumption, combined with a theory of control based on Agree, is argued
to adequately capture the existence of subjects of control and raising infinitives in these
languages as opposed to others.

Palavras-chave: Orações infinitivas, Controlo, Elevação, Redobro clítico


Keywords: Infinitive clauses, Control, Raising, Clitic Doubling

1. Introdução
No quadro dos estudos em Gramática Generativa, é geralmente assumido que as
construções infinitivas de controlo e elevação não possuem sujeitos nominativos com
matriz fonética. Em teorias do fenómeno do Controlo mais tradicionais (Chomsky,
1995; 2001; Landau, 2000; 2004), o sujeito das estruturas de controlo é PRO e o sujeito
das construções de elevação é uma cópia do DP movido para a posição de sujeito da
oração subordinante. Em teorias que seguem a abordagem de Hornstein (l999), PRO
não existe e o sujeito das orações infinitivas de controlo e elevação é sempre uma cópia
do sujeito elevado para a matriz. Independentemente da abordagem que se adopte,
porém, a ideia basilar é que, em construções infinitivas (sem concordância) o Tempo é
“defectivo” e, como tal, é de algum modo incompatível com um sujeito lexicalmente
realizado.
Não obstante isto, num artigo recente, Szabolcsi (2009) demonstrou que há
línguas em que as orações completivas infinitivas em construções de elevação e/ou de
controlo podem ter sujeitos expressos: são elas o húngaro, o italiano, o espanhol, o
romeno, o português do Brasil, o turco, o hebraico moderno, o russo e o finlandês. Em
particular, Szabolcsi propõe a seguinte generalização:

_____________________________
Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,
APL, 2009, pp. 97-114
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(1) Os sujeitos expressos de orações infinitivas em construções de controlo só


podem ser pronomes. Os sujeitos expressos de orações infinitivas em
construções de elevação podem ser pronomes ou expressões nominais não
pronominais.
Szabolcsi observa ainda que as línguas examinadas não revelam um
comportamento homogéneo. O russo, o finlandês e possivelmente o hebraico apenas
admitem sujeitos expressos em construções de elevação. O húngaro, o italiano, o
espanhol, o romeno, o português do Brasil (PB) e o turco admitem sujeitos expressos
tanto em construções de elevação como em construções de controlo. O quadro que
emerge do artigo de Szabolcsi é, assim, o seguinte:
(2) a. Inglês, holandês, alemão ou francês
Não admitem qualquer tipo de sujeito expresso em construções infinitivas.
b. Russo, finlandês (hebraico??)
Só admitem sujeitos expressos em construções de elevação.
c. Húngaro, italiano, espanhol, romeno, PB, turco
Admitem sujeitos expressos quer em construções de controlo quer em construções
de elevação.
A ocorrência de sujeitos expressos em construções de controlo e de elevação no
italiano foi já observada em l986 por Burzio, que refere uma distribuição dos sujeitos
pronominais vs. não pronominais bastante semelhante à generalização em (1).
Posteriormente a isso, também Torrego (l996) e Belletti (2005) abordaram o mesmo
fenómeno (no espanhol e no italiano, respectivamente), mas o trabalho de Szabolcsi é o
único que abrange um número razoável de línguas e as agrupa em função dos padrões
observados. Se colocarmos de lado o PB, língua relativamente à qual nada será dito
neste artigo, verificamos que as línguas de sujeito nulo (LSN) pleno, do tipo do italiano,
admitem sujeitos expressos quer em estruturas de controlo quer em estruturas de
elevação. Neste artigo, proponho-me examinar o comportamento do português europeu
(PE) face aos mesmos contextos e apresentar uma teoria explicativa deste fenómeno que
procure captar as diferenças entre os três padrões de línguas mencionados em (2),
nomeadamente a correlação aparentemente existente entre a Propriedade do Sujeito
Nulo e a disponibilidade de sujeitos expressos tanto em construções de controlo como
em construções de elevação, com particular incidência nas línguas românicas. Nenhuma
das propostas aqui feitas se aplica ao PB, que, por estar neste momento a atravessar um
processo de mudança relativamente ao Parâmetro do Sujeito Nulo, justifica, só por si,
um estudo próprio.
Este artigo está organizado da seguinte forma. Na secção 2, faz-se uma breve
descrição da aplicação ao PE dos testes discutidos por Szabolcsi (2009) e argumenta-se
que as expressões que ocorrem nas orações subordinadas infinitivas em discussão são
verdadeiros sujeitos. Na secção 3, apresenta-se a análise proposta e, na secção 4,
considera-se uma análise alternativa e apresentam-se as razões pelas quais a análise
proposta é considerada mais adequada. O artigo conclui com uma pequena síntese das
ideias fundamentais.

98
SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO

2. Os dados
Nesta secção introduzo os dados discutidos por Szabolcsi (2009) e aplico a sua
bateria de testes ao português europeu.

2.1. Construções de controlo


Considere-se, em primeiro lugar, o seguinte exemplo:
(3) Só ele detesta ir ao mercado.
A frase transcrita em (3) é sinónima de Ele é a única pessoa que detesta ir ao
mercado e admite apenas esta interpretação. Já o exemplo (4), em que o sujeito ocorre
em posição pós-verbal, pode ter duas interpretações.
(4) Detesta ir ao mercado só ele.
[a] ‘É só ele que detesta ir ao mercado.’
[b] ‘(Elei ) detesta que seja o caso que vá só elei ao mercado.’
(4) é ambígua e tem as duas leituras indicadas em [a] e [b]. No primeiro caso, o DP
focalizado abrange no seu âmbito o verbo detestar, no segundo caso, não. Esta
dualidade de significado é facilmente explicada pelas duas possibilidades de
representação estrutural da frase: o pronome focalizado pode ser o sujeito da matriz (cf.
(5a)) ou então o sujeito da oração subordinada (cf. (5b)):
(5) a. [detesta [PRO ir ao mercado] só ele]
‘É só ele que detesta ir ao mercado.’
b. [pro detesta [ir ao mercado só ele] ]
‘(Elei) Detesta que seja o caso que vá só elei ao mercado.’
A interpretação indicada em (4b), com âmbito estreito do DP focalizado, é a única
leitura admissível quando consideramos exemplos como o que se transcreve a seguir,
em que o sujeito pós-verbal ocorre entre a forma verbal infinitiva e o seu complemento
(interessa-nos a versão de (6) em que não há pausa entre o sujeito e o complemento):
(6) Detesta ir só ele ao mercado.
A única análise possível de (6) (sem pausa entre o sujeito e o complemento) é aquela
em que o pronome focalizado é o sujeito da oração subordinada (cf. (7)), facto que
explica a impossibilidade da interpretação indicada em (6a).
(7) pro detesta [ ir só ele ao mercado]
Compare-se agora o exemplo (4) com o que se transcreve a seguir:
(8) Detesta ir ao mercado só o João.
[a] ‘ É só o João que detesta ir ao mercado.’
[b] *’(Elei) detesta que seja o caso que vá só o Joãoi ao mercado.’
Este exemplo é em tudo igual ao exemplo (4), com uma única diferença: o sujeito
não é um pronome, mas um nome próprio. Curiosamente, a leitura com âmbito estreito
desaparece neste caso e o sujeito pode apenas ser interpretado como sujeito da matriz. A
leitura com âmbito largo do DP modificado pelo operador de foco, que passamos a
designar de “leitura alta”, é a que corresponde à representação em (9a). A leitura em que
o referido DP tem um âmbito circunscrito à oração subordinada, aqui designada “leitura

99
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

baixa”, corresponde à estrutura representada em (9b). Esta configuração, porém,


constitui uma violação da Condição C da teoria da ligação, o que explica a não
ambiguidade do exemplo (8) face à ambiguidade do exemplo (4).
(9) a. [detesta [PRO ir ao mercado] só o João]
b. *proi detesta [ir ao mercado só o Joãoi] Violação da Condição C
Esta explicação do contraste entre nomes e pronomes só funciona se o DP que
contém o operador de foco está numa posição baixa, no interior da oração infinitiva.
Convém desde já sublinhar que estes factos não estão relacionados com o
fenómeno da reestruturação (cf. Rizzi, l978). Como se sabe, os verbos de reestruturação
admitem a subida do clítico (cf. Quero vê-la / Quero-a ver). Adoptando este critério,
podemos concluir que detestar não cumpre os requisitos necessários para ser
considerado um verbo de reestruturação:
(10) a. Não detestei vê-lo.
b. *Não o detestei ver.
Do mesmo modo, não é possível recorrer à ideia de que a oração subordinada, nestes
casos, não é uma projecção de CP (cf. Costa, 2004; Alexiadou et al., 2008), visto que é
possível encontrar sujeitos pronominais controlados em orações infinitivas introduzidas
por um complementador visível. É o caso dos exemplos (11) e (12), do PE e do
espanhol, respectivamente, e ainda dos exemplos do italiano (13) e (14) mencionados
em Belletti (2005):
(11) Não sabemos [se assinar só nós a carta ou não].
(12) Espanhol [Torrego, l996]
No sabemos [si firmar nosotros la carta].
(13) Italiano [Belletti, 2005]
a. Gianni pensa [di parlare lui di questo problema].
b. *Pensa [di parlare Gianni di questo problema].
(14) Italiano [Belletti, 2005]
Maria mi ha chiesto [di parlare io com Gianni].
‘A Maria pediu-me para falar eu com o João’.
Em síntese, em construções de controlo obrigatório, as orações infinitivas podem
ter o que parecem ser sujeitos explícitos, os quais têm forçosamente de ser controlados.
A seguir, apresento os diversos tipos de sujeitos que podem ocorrer nestes contextos:
(i) Pronomes simples ou modificados por operadores de foco
(15) a. Odeiam ter de falar eles com o Rui.
b. Odeiam ter de falar com o Rui só eles / também eles / apenas eles.
(ii) Quantificadores partitivos
(16) Pensamos falar alguns de nós / vários de nós / muitos de nós com ela.
(iii) Certo tipo de nomes colectivos [Torrego, l996]
Torrego (l996) observa que certo tipo de nomes colectivos podem ocorrer nestes
contextos em construção com a flexão de primeira pessoa do plural no verbo da oração
principal:
(17) Não sabemos como falar com ela a turma toda / o grupo todo.

100
SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO

2.2. Construções de elevação


Szabolcsi (2009) nota que, em construções de elevação, se perde a distinção entre
pronomes e expressões-R(eferenciais) mencionada acima a propósito das construções de
controlo. Assim, os exemplos que se seguem admitem a leitura baixa do pronome ou do
DP modificado pelo operador de foco.
(18) a. Não pareço cantar só eu nesta gravação.
‘Não parece ser o caso que só eu cante nesta gravação’
b. Não parece cantar só o João nesta gravação.
‘Não parece ser o caso que só o João cante nesta gravação’
(19) Italiano
a. Non sembro cantare solo io su questo nastro.
‘Não parece ser o caso que só eu cante nesta gravação’
b. Non sembra cantare solo Gianni su questo nastro.
‘Não parece ser o caso que só o João cante nesta gravação’
O facto de os exemplos em (4), (18) e (19) admitirem a leitura baixa da expressão
focalizada é importante porque sugere que não são casos de backward control ou
backward raising (Hornstein, 1999; Polinsky & Potsdam, 2002), isto é, não podem ser
analisados em termos de movimento do sujeito para a matriz seguido de Spell Out da
cópia (para uma discussão de uma alternativa ligeiramente diferente desta que mantém a
ideia de backward control, consultar Alexiadou et al., 2008).
Para além disso, uma análise destes casos em termos de backward control/raising
deixa por explicar o contraste que se verifica entre as construções de elevação e as de
controlo no que respeita ao tipo de sujeitos que admitem. Recorde-se que, com os
verbos de controlo, apenas os sujeitos pronominais são compatíveis com a leitura baixa
(cf. (4) vs. (8)). Com as construções de elevação, qualquer tipo de sujeito é admitido (cf.
(18)/(19)). Na secção anterior, atribuímos a impossibilidade da leitura indicada em (8b)
a uma violação da Condição C da teoria da ligação. Esta explicação, porém, perde-se
numa análise baseada em movimento e backward control. Assumindo uma análise deste
tipo, a única explicação possível para as diferenças entre as construções de controlo e de
elevação consiste em estipular que, com verbos de controlo, a cópia do DP movido tem
de ser um pronome; com os verbos de elevação, tanto pode ser um pronome como uma
expressão-R. Esta estipulação parece-nos demasiado adhoc, pelo que não adoptaremos
aqui uma teoria do controlo obrigatório baseada no movimento.

2.3. Sujeitos múltiplos


Tanto os casos de controlo como os casos de elevação podem conter mais do que
um sujeito explícito. A seguir, transcrevem-se exemplos do PE e do Italiano com verbos
de controlo e de elevação:
(20) PE:
a. Só o João odiou resolver só ele o problema.
b. O João começou a responder ele antes que outros o fizessem.

101
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(21) Italiano
a. Solo Gianni vuole andare solo lui a scuola. [Szabolcsi, 2009]
b. Gianni ha cominciato a ricevere regali solo lui. [Szabolcsi, 2009]
c. I ragazzi risultarono aver riposto loro alla demanda. [Belletti, 2005]
Face a estes exemplos, poder-se-á colocar a hipótese de que os pronomes em
causa não são verdadeiros sujeitos, mas sim adjuntos anafóricos. Na secção seguinte,
argumentamos que esta hipótese não está correcta e que os pronomes em negrito em
(20) e (21) são todos verdadeiros sujeitos.

2.4. Evidência de que as expressões em causa são verdadeiros sujeitos


Em primeiro lugar, observamos que todas as expressões que surgem nestas
construções infinitivas podem ocorrer naturalmente enquanto sujeitos pós-verbais em
construções mono-oracionais:
(22) Falámos nós / só nós/ só nós os dois / alguns de nós / a turma inteira com ele.
Em segundo lugar, tal como observa Szabolcsi (2009) para o italiano, os pronomes
em causa podem ocorrer com um adjunto adnominal, o que sugere que não são eles
próprios adjuntos:
(23) Queremos ir ao mercado [só nós linguistas].
[a] ‘Queremos que seja o caso que só nós linguistas vamos ao mercado.’
[b] ‘Só nós linguistas queremos ir ao mercado.’
Todos os pronomes mencionados em (22) podem co-ocorrer com um sujeito pré-verbal
explícito em construções mono-oracionais, razão pela qual têm sido apelidados de
pronomes enfáticos (cf. Burzio, l986); o sujeito pré-verbal pode ser uma expressão
lexical ou mesmo um pronome:
(24) a. A Teresa / ela escreveu só ela / até ela o poema.
b. A Teresa / ela escreveu ela o poema (ninguém a ajudou).
‘Foi a Teresa / ela que escreveu o poema (ninguém a ajudou)’
c. A Teresa / ela escreveu o poema ELA, ninguém a ajudou.
‘Foi a Teresa / ela que escreveu o poema (ninguém a ajudou)’
(25) Italiano [Belletti, 2005]
a. Gianni verrà lui.
b. Lui verrà lui.
(26) Espanhol [Sanchez, l993]
Pedro abrió la puerta EL.
Para muitos autores, os pronomes enfáticos não são verdadeiros sujeitos e sim
adjuntos anafóricos Piera (l987), ou a realização fonética de um vestígio Burzio (l986).
Rigau (l987), Sola (l992), Barbosa (l995) e Belletti (2005), porém, defendem que eles
são sujeitos pós-verbais. No que se segue, apresento alguns dos argumentos de Barbosa
(l995).
A ideia de que estes pronomes são adjuntos (semelhantes à anáfora complexa do
inglês himself) enfrenta o problema de eles não terem exactamente as mesmas
propriedade das anáforas complexas. Em primeiro lugar, não são admitidos enquanto
adjuntos de um DP, contrariamente ao que sucede com a anáfora complexa
exemplificada em 27).

102
SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO

(27) a. *Apareceu a presidente ELA


b. *Falei com a presidente ELA
(28) a. Apareceu a presidente ela própria.
b. Falei com a presidente ela própria.
Em segundo lugar, os pronomes enfáticos diferem da anáfora complexa por serem
orientados para o sujeito:
(29) a. [O rapaz]i foi apresentado ao presidentek ELEi/*k / só elei/*k
b. [O rapaz]i foi apresentadok ao presidente ele próprioi/k
Estas duas propriedades tornam a ideia da adjunção pouco plausível. Por outro
lado, os pronomes enfáticos têm exactamente a mesma distribuição e interpretação dos
sujeitos pronominais pós-verbais. Assim, a par de (24b,c), encontramos (30a,b), em que
o sujeito pronominal em posição pós-verbal é interpretado exactamente do mesmo
modo que o pronome enfático: tanto em (30a,b) como em (24b,c) se obtém uma leitura
de foco exclusivo do pronome, parafraseável por meio de uma construção clivada, como
indicado nas glosas.
(30) a. Escreveu ela o poema (ninguém a ajudou).
b. Escreveu o poema ELA (ninguém a ajudou).
‘Foi ela que escreveu o poema (ninguém a ajudou).’
Tal como sucede em (24b,c), o pronome pode preceder ou seguir o objecto directo,
sendo que, no último caso, necessita de receber preso prosódico adicional (cf. (24c),
(30b)).
Neste artigo, assumo a análise da ordem VSO/VOS proposta em Ordónez (l998)
para o espanhol, Costa (l998) para o português e Cardinaletti (l998) para o italiano,
segundo a qual os sujeitos pós-verbais ocupam, em ambas as ordens, a posição em que
são gerados na base, no interior do SV, sendo que o verbo sobe para T; a ordem VOS é
derivada mediante subida do objecto. Deste modo (30a) é analisada como indicado em
(31a) e (32b) é analisada como indicado em (31b)
(31) a. [IP escreveu [vP ela escreveu o poema]]
b. [ IP escreveu [ o poema [ VP ela escreveu o poema ]]]
Em (31b) o pronome é o elemento mais encaixado. Daí que receba o acento
nuclear da frase pela Nuclear Stress Rule (cf. Cinque, l993), facto que pode explicar a
intuição de que o pronome nessa posição necessita de receber um peso prosódico
adicional. Uma vez que os sujeitos pronominais pós-verbais têm as mesmas
propriedades distribucionais e interpretativas dos pronomes enfáticos, é legítimo
concluir que estes pronomes são sujeitos pós-verbais e não adjuntos.
Face a esta conclusão, há três tipos de abordagem possíveis das construções de
“duplo sujeito” exemplificadas em (22-24):
a) o pronome enfático é a realização fonética do vestígio do sujeito movido para a
posição pré-verbal (Burzio, l986);
b) o pronome enfático e o sujeito pré-verbal formam um constituinte sintáctico
único, um DP “grande” do tipo proposto por Torrego (l995), Uriagereka (l995),
Cecchetto (2000) para dar conta das construções de redobro clítico das línguas
românicas (cf. (32); uma parte do DP (ou do QP, se se tratar de uma sintagma
quantificacional), DP2, (que pode ser um DP lexical, pro, ou PRO) move-se para a

103
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

posição pré-verbal e a restante parte, formada pelo pronome enfático (D) ou por um
quantificador (como alguns ou vários, etc.), permanece na periferia direita da oração;
esta é a proposta de Belletti (2005):

(32) DP1/QP

D/Q DP2

(33) [[DP2 A Teresa / ela ] [T’ escreveu [VP [DP1 ela [ DP2 A Teresa / ela ]] o
poema]]
c) o DP em posição pré-verbal não é o sujeito temático e é antes um tópico em
Deslocação à Esquerda (doravante, DE) redobrado pelo sujeito pronominal expresso em
posição pós-verbal (Rigau, l987; Sola, l992; Barbosa, l995) (na representação que se
segue assumimos que os tópicos em DE são gerados na base na periferia esquerda da
oração):
(34) DPk [ TP V/v [ ... Pronome sujeitok ... ]
(35) [A Teresa / ela ]i [TP escreveu [vP elai [v’ escreveu o poema ]]]]
Uma forma simples de testar a hipótese c) consiste em ver se estas construções de
“duplo sujeito” são compatíveis com expressões quantificadas não referenciais. Como
se sabe, os quanficadores negativos não podem ocorrer em DE (cf. (36b) e (37b)):
(36) a. Esse livro comprei-o ontem.
b. *Nada comprei-o ontem
(37) a. Pierre il aime la musique.
b. *Personne il aime la musique.
Deste modo, a hipótese c) prevê que um quantificador negativo seja incompatível
com um pronome enfático numa construção mono-oracional, e, com efeito, esta
previsão é confirmada. O exemplo (38) é construído e ajuizado por mim, mas a
agramaticalidade de exemplos semelhantes em outras línguas é mencionada já por
outros autores, incluindo Szabolcsi (2009) e Belletti (2005):
(38) *Nenhuma criança escreveu ela o poema.
(39) Szabolcsi (2007)
Contexto: O professor trabalhou, e ...
a. Gianni ha lavorato anche lui.
‘O João trabalhou também ele’.
b. * Ogni ragazzo ha lavorato anche lui
todo rapaz trabalhou também ele
(40) Belletti (2005)
*?Nessuno verrà lui.
Uma vez que estes quantificadores não podem ser gerados na base como tópicos
em DE, não há lugar para o pronome enfático na estrutura da frase:
(41) [Nenhuma criança escreveu [ VP nenhuma criança escreveu o poema]]
Estes dados constituem um forte argumento em favor da hipótese (c) e um
problema para as hipóteses (a) e (b). Se o pronome enfático é a realização fonética de
um vestígio, não se percebe por que razão esta opção é bloqueada com um quantificador

104
SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO

negativo. Na perspectiva de que o pronome enfático e o DP pré-verbal formam um DP


“grande”, também não há uma explicação óbvia para que tal DP não possa conter um
quantificador negativo, uma vez que sabemos que, em línguas que admitem construções
de redobro clítico – para as quais a ideia do DP “grande” foi inicialmente construída –,
os quantificadores negativos podem ocorrer neste tipo de construção de redobro 1:
(42) Espanhol (Torrego l998)
No le ablé a nadie.
Em face destes dados, concluímos que os pronomes enfáticos são genuínos
sujeitos pós-verbais. Dadas as afinidades entre os pronomes enfáticos e os pronomes
que ocorrem nas orações subordinadas infinitivas de controlo e elevação, concluímos
que também estes são sujeitos dessas orações.

3. Análise
3.1. Introdução
No seu artigo, Szabolcsi (2009) aplica os testes acima descritos a uma série de
línguas e observa a existência de três padrões distintos:
1. Línguas que não admitem sujeitos expressos nem em construções de controlo
nem em construções de elevação; é o caso do inglês, alemão e francês.
2. Línguas que admitem sujeitos expressos quer em construções de elevação quer
em construções de controlo; o caso do húngaro, italiano, espanhol, romeno, turco,
português do Brasil e, acrescentamos nós, português europeu.
3. Línguas que admitem sujeitos expressos apenas em construções de elevação,
como o russo, o finlandês e possivelmente o hebraico.
Szabolcsi observa que as línguas que caem no Padrão 1 são línguas sem sujeitos
nulos, sendo que todas as outras admitem algum tipo de sujeito nulo (o finlandês é uma
língua pro-drop parcial e o russo admite a não realização dos sujeitos expletivos). Por
outro lado, verificamos que as LSN pleno estudadas por Szabolcsi estão todas incluídas
no padrão 3. No quadro das línguas que obedecem a este padrão, a única excepção é o
PB, que tem vindo progressivamente a deixar de ser uma LSN pleno e se aproxima mais
do finlandês. Porém, colocando de lado o PB, que, por estar em processo de mudança,
necessitaria de um estudo mais aprofundado, que não cabe neste artigo, não deixa de ser
verdade que todas as LSN pleno estudadas por Szabolcsi obedecem ao padrão 3 e é essa
a correlação que pretendo explorar aqui (note-se que a correlação não funciona no
sentido inverso: nem todas as línguas que admitem sujeitos de infinitivos são línguas de
SN pleno, como é o caso do PB). Nesta secção, começo por apresentar as minhas
assunções acerca das propriedades sintácticas que caracterizam as LSN pleno. Depois,
mostro como estas assunções, associadas à teoria do controlo proposta em Landau
(2000, 2004), captam os três padrões de línguas acima descritos.

1 É certo que esta compatibilidade com expressões não referenciais ocorre apenas nas construções de redobro
com formas dativas. Nos dialectos do espanhol que admitem o redobro clítico com os clíticos acusativos, o
associado tem de ser [+específico]. Porém, Belletti assume que os sujeitos pós-verbais de uma forma geral
estão numa configuração de redobro clítico, e como estes podem ser qualquer tipo de quantificador (cf. Não
chegou ninguém), a opção terá de ser por uma configuração semelhante à do redobro de dativos do espanhol.

105
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

3.2. Teoria geral da Propriedade do Sujeito Nulo


Barbosa (1995), Pollock (l997), Alexiadou e Anagnostopoulou (l998), Kato (l999),
entre outros, propuseram que, nas LSN pleno, o afixo da concordância verbal é
[+D/N], isto é, tem o comportamento de uma categoria pronominal fonologicamente
expressa como um afixo no verbo elevado para T, sendo portanto capaz de “verificar” o
EPP e de atribuir um valor aos traços-φ de T. Por consequência, os sujeitos (expressos
ou nulos) não se elevam para Spec-TP, o que resulta na tradicionalmente designada
“inversão livre”:
(43) [ [T [V+Agr] ] [V/vP sujeito ]]
Um exemplo como (44a) é, assim, analisado como indicado em (44b). O afixo de
concordância verbal verifica o EPP e o sujeito permanece in situ (para mais detalhes
sobre a proposta consultar as referências dadas acima):
(44) a. Telefonou a Maria
b. [ [T telefonou ] [vP a Maria]]
O exemplo (45), em que o sujeito é nulo, é analisado como em (45b), que mais não é do
que a configuração tradicionalmente associada à relação estabelecida entre um clítico
pronominal e a posição temática a que está associado:
(45) a. Telefonaram
b. [ [T telefonar-ami ] [vP proi ]]
Neste quadro, as construções SVO são instanciações de mecanismos de
anteposição de argumentos independentemente atestados. Um deles é a Deslocação à
Esquerda Clítica (DEC), em que o DP em posição pré-verbal é gerado na base numa
posição de adjunção ao núcleo oracional que dele é predicado, e é redobrado por pro em
posição argumental. Deste modo, o exemplo (46a) é analisado como ilustrado em (46b):
(46) a. A Maria telefonou.
b. [[ A Maria]i [TP telefonou [ proi ]]
Em (46b), o DP a Maria é legitimado por “regras de predicação” na acepção de
Chomsky (l977) (cf. também Raposo, l996). TP contém uma posição “aberta” (pro, uma
categoria pronominal sem referência independente) satisfeita pela entidade referida pelo
DP em DEC.
Para além da estrutura exemplificada em (46b), a ordem SVO pode também ser
derivada por movimento A-barra (ou de Foco, em algumas análises (cf. Martins, l994;
Raposo, l994) do sujeito directamente a partir da posição pós-verbal, tal como se ilustra
a seguir:
(47) [ QP ... [ I’ [I V QP ... ]]
Em Barbosa (1995) argumentei que as expressões quantificadas que não podem
estar deslocadas tais como quantificadores nús, quantificadores indefinidos não
específicos e operadores afectivos (no sentido de Klima, l964) são extraídas por
movimento A-barra sempre que precedem o verbo. Assim, o exemplo do português que
se segue será analisado como em (48b) (em que FP significa “Projecção Funcional”;
não entraremos aqui nos detalhes da posição de chegada deste tipo de movimento e
remetemos o leitor interessado para Barbosa, 2001):

106
SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO

(48) a. Alguém telefonou.


b. [FP alguém ... [T’ [ telefonou] [VP alguém ... ]]
Uma vez que esta análise assume que a posição temática do sujeito nas LSN
pleno é pós-verbal, prevê que as construções de DE com redobro por um pronome com
realização lexical, a existirem, envolvam um pronome em posição pós-verbal. E, com
efeito, esta previsão é confirmada. Como vimos na secção anterior, as construções com
pronomes enfáticos são incompatíveis com expressões quantificadas não referenciais, o
que sugere que são casos de DE com redobro pelo pronome em posição pós-verbal.
(49) [A Teresa] [ TP escreveu ela o poema]
No quadro desta análise, as frases com redobro por um pronome em posição pré-
-verbal (cf. 50a) são analisadas como exemplificado em (50b), isto é, envolvem
necessariamente dois tópicos em DEC:
(50) a. A Teresa, ela escreveu o poema.
b. [A Teresa]i [ ela]i [TP escreveu proi o poema]

Tópico Tópico
É sabido que nada impede a existência de tópicos múltiplos numa frase (cf. Esses
livros, à Maria, não os dou); portanto, não se prevê que (50a) seja agramatical, embora
se preveja que seja redundante e que este tipo de configuração seja pouco produtiva. E,
com efeito, as construções de redobro com um sujeito pronominal em posição pré-
-verbal são extremamente raras nas LSN contrariamente ao que sucede, por exemplo,
em francês e no PB coloquial (cf. Duarte, l993), em que são bastante frequentes. Em
contrapartida, as construções do tipo exemplificado em (49), com redobro por um
pronome em posição pós-verbal, são bastante produtivas nas LSN.
Um outro facto que encontra explicação imediata no quadro da análise
apresentada, é que, nas orações infinitivas (sem flexão) discutidas nas secções
anteriores, a posição do sujeito é sempre pós-verbal. Esta observação é já feita por
Torrego, que menciona os exemplos em (52) e (53):
(51) a. Não sabemos como assinar nós os dois a carta.
b. *Não sabemos como nós os dois assinar a carta.
(52) Espanhol [Torrego, l996]
a. No sabemos si asistir algunos de nosotros.
b. No sabemos si asistir todos los linguistas.
c. No sabemos si asistir los linguistas.
(53) a. *No sabemos si algunos de nosotros asistir.
b. *No sabemos si todos los linguistas asistir
c. *No sabemos si los linguistas asistir.
Este padrão é o previsto pela análise acima descrita, uma vez que, nesta teoria, a
posição pré-verbal exigiria uma configuração de DEC com pro no interior da infinitiva;
porém, pro não é uma possibilidade nestes casos dada a ausência de traços de
concordância na flexão verbal. Deste modo, prevê-se que, em orações infinitivas (sem
concordância), apenas seja atestada a ordem VS2.

2 Em Húngaro, o sujeito da oração infinitiva pode ocorrer em posição pré-verbal, mas trata-se de uma posição
de Foco ocupada também por objectos focalizados (cf. Szabolcsi, 2009).

107
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Curiosamente, Torrego (l996) observa que este tipo de construções admitem que o
sujeito seja um Sintagma-Qu em Spec-CP (compare-se (54) com (53a-c):
(54) Espanhol [Torrego, l996]
[Muchos de nosotros] no sabemos quantos firmar la carta.
No quadro da teoria aqui descrita, este facto também é previsto, uma vez a
extracção procede directamente a partir da posição posição pós-verbal, que é, como
vimos, a posição-A dos sujeitos, nesta teoria (cf. Barbosa, l995):
(55) Muchos de nosotros no sabemos [CP quantos [firmar [VP quantos la carta]]]
Apesar de a teoria acima proposta captar a posição ocupada pelos sujeitos
expressos das orações infinitivas nas LSN, a questão que se coloca agora é saber por
que razão estas línguas admitem a ocorrência de sujeitos em construções de controlo ou
de elevação, contrariamente ao que sucede em outras línguas, como o inglês, o francês
ou o alemão. Esta questão será discutida na secção seguinte.

3.3. Proposta
Os estudos de Belletti (2005) e Torrego (l996) convergem em torno da ideia de
que os sujeitos expressos das orações infinitivas de controlo e elevação estão numa
configuração de Redobro Clítico (Clitic Doubling). Esta será também a abordagem por
nós proposta, embora os detalhes da análise sejam substancialmente diferentes.
Recorde-se que, de acordo com a teoria da Propriedade do Sujeito Nulo pleno
apresentada na secção anterior, o afixo de concordância verbal tem o comportamento de
um clítico pronominal, sendo capaz de verificar o traço EPP em T bem como os traços-
φ de T. Afirmámos acima que esta é a razão pela qual um sujeito lexical gerado no
interior de v/VP não sobe para Spec, TP, mas não fomos muito claros relativamente à
relação existente entre o sujeito lexical e o afixo de concordância. Alexiadou e
Anagnostopoulou (2001) defendem que a ordem VS corresponde a uma configuração de
redobro clítico apenas em espanhol e grego. Aqui, quero sugerir que os dados das
orações infinitivas de controlo e elevação indicam que a configuração de redobro clítico
é mais generalizada e se estende a (pelo menos) todas as línguas românicas de sujeito
nulo. Em particular, sugiro que as estruturas com sujeitos em posição pós-verbal nas
línguas românicas de sujeito nulo deverão ser analisadas da mesma forma que as
construções de redobro do clítico dativo em espanhol, que exemplifico a seguir:
(56) Juan le visitó al chico.
Como vimos, estas construções de redobro podem ocorrer com todo o tipo de
expressões, incluindo quantificadores negativos, portanto não considero que o DP
lexical seja um adjunto (contra Torrego, l996). No caso das construções com sujeitos
pós-verbais, a configuração em causa é, por hipótese, a abaixo indicada:
(57) [[T [V [Agr] ] [V/vP sujeito ... ]]

Agree
O afixo de concordância entra na derivação com os traços-phi valorados, verifica o
EPP e atribui um valor aos traços não interpretáveis de T. Sendo um núcleo (cf.
Chomsky, 2001) actua como sonda e encontra um alvo activo – o sujeito in situ – com o
qual estabelece a relação Agree. A ideia chave é que, nas LSN pleno, o sujeito

108
SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO

argumental (lexical ou nulo) não estabelece uma relação directa com T: a relação em
causa é invariavelmente mediada pelo afixo de concordância verbal. Esta ideia
desempenha um papel central na nossa proposta de explicação da ocorrência de sujeitos
expressos em orações infinitivas de controlo obrigatório.
Na secção seguinte veremos como esta proposta de análise dos sujeitos pós-verbais
se aplica aos dados de Szabolcsi (2009) 3.

3.4. Análise dos dados das orações infinitivas


3.4.1 Construções de elevação
Consideremos, em primeiro lugar, o seguinte exemplo e a sua respectiva
interpretação:
(58) Começaram a receber só elas / só as crianças bons papéis.
‘Começou a ser o caso que elas / as crianças eram as únicas a receber bons
papéis.’
Na interpretação indicada, o DP focalizado é sujeito da oração subordinada, como
se indica a seguir:
(59) [ T P [T começaram] [a [TP [T receber] [vP [só elas /só as c.] bons papéis]]]

Agree
Nesta representação, não há pro expletivo e o afixo de concordância verbal na
matriz estabelece uma relação de Agree à distância como o sujeito in situ da encaixada.

3 Torrego (l996) observa que a relação de concordância que se estabelece nestes casos é muitas vezes
semântica e não morfológica. Assim, em espanhol, os DPs colectivos los linguistas e muchos de los
linguistas combinam-se com os traços de concordância de primeira pessoa do plural:
(i) Espanhol:
a. Firmamos los linguistas / muchos (de los linguistas) la carta.
b. Firmamos la clase entera la carta.
Em PE, uma expressão singular de sentido colectivo combina-se com a flexão de primeira pessoa do plural,
quer numa construção mono-oracional (cf. (iia) quer numa construção de controlo (cf. iib).
(ii) a. Fomos embora a turma inteira.
b. Odiámos ter de falar o grupo todo com ele.
Tal como já foi observado por Torrego (1996), os padrões de concordância que se observam com os sujeitos
em posição pós-verbal são replicados nas construções de redobro clítico, facto que vem reforçar as
afinidades entre as duas construções:
(iii) Espanhol (Torrego, l996)
a. Nos vio a muchos de los linguistas.
b. Nos vio a los linguistas.
c. Nos vio a la clase entera.
O PE apenas admite o redobro clítico de objectos com pronomes e um reduzido número de expressões de
sentido colectivo. Com estas últimas, verifica-se o mesmo padrão de concordância observado com sujeitos
pós-verbais (cf. (iv)
(iv) Viu-nos à turma inteira / ao grupo todo a copiar.
Este paralelismo entre as construções com sujeitos pós-verbais e as construções de redobro clítico sugere
que estamos face a estruturas semelhantes.

109
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Recorde-se que, de acordo com A. Szabolcsi, as LSN, o finlandês e o russo têm


um comportamento semelhante nestes casos. Este facto encontra explicação no
pressuposto de que, em todas estas línguas, os sujeitos podem permanecer in situ (ou
numa posição de foco na subordinada) e estabelecer uma relação de concordância à
distância com a sonda com a qual concordam. Com efeito, Holmberg (2005) mostra que
os sujeitos podem permanecer in situ em finlandês e Bailyn (2004) faz observações
semelhantes relativamente ao russo.
Nesta perspectiva, e tal como foi defendido acima, as construções com duplo
sujeito são casos de DE com redobro por um sujeito pronominal em posição pós-verbal.
Sendo assim, esta hipótese prevê que uma construção de duplo sujeito não seja possível
se o sujeito é uma expressão não referencial e, com efeito, esta previsão confirma-se.
Comparem-se os seguintes exemplos (utilizamos aqui a locução acabar por para ter a
certeza de que não há reestruturação):
(60) a. A empregada não apareceu e o hóspede acabou por fazer ele o pequeno-
almoço.
b. A empregada não apareceu, mas eu fui lá pessoalmente e
* nenhum hóspede acabou por fazer ele o pequeno-almoço.
Na minha opinião, há um contraste entre (60a) e (60b). Uma vez que a DE não é
uma possibilidade no caso de (60b), o sujeito da oração subordinada é o pronome
focalizado e o verbo superior não selecciona um argumento externo, o sintagma
quantificado não recebe uma função semântica, o que resulta numa violação do
Princípio da Interpretação Plena (Full Interpretation Principle).

3.4.2. Construções de controlo


Recorde-se que, nas construções de controlo, o sujeito expresso das orações
infinitivas tem de ser controlado pelo sujeito da matriz. Uma vez que, como vimos, os
dados aqui discutidos são problemáticos para uma análise em termos de backward
control, adopto uma abordagem baseada na noção de Agree. Em particular, adopto a
teoria de Landau (2000; 2004), que assenta na observação de Borer (l989) de que a
concordância abstracta das formas infinitivas é anafórica, isto é, os traços-phi de
T contêm o traço [-R(eferencial)]4. Para além disso, Landau assume que PRO é também
[-R], mais precisamente uma anáfora, no sentido de Reinhardt e Reuland (l993).
Associando estas duas ideias à teoria das LSN pleno apresentada na secção
anterior, proponho que, nestas línguas, o afixo verbal da forma infinitiva mantém o
traço [+N/D], mas não tem os seus traços-phi valorados, sendo portanto [–R]. Deste
modo, está activo para actuar como alvo e estabelecer uma relação de AGREE com os
traços-phi de T ou v da matriz recebendo assim um valor para os seus próprios traços-
-phi e verificando os traços não interpretáveis de T encaixado. Desta forma, um
pronome in situ é legitimado mediante a relação Agree estabelecida com o afixo verbal.

4 Note-se que esta sugestão de Borer (l989) se baseia, em parte, precisamente nos dados de Burzio (l986) do
italiano, com pronomes explícitos controlados.

110
SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO

(61) [ Agr ... DP ... [CP [T [V [Agr [+N] [-R]] ] T [-R]] [vP [ Pronome ]]]]

Agree
Agree Agree
Em línguas em que a concordância verbal não é nominal, porém, o sujeito de uma
oração infinitiva de controlo obrigatório só pode ser ele próprio [-R] (e portanto PRO)
dado que tem de verificar directamente o traço [-R] em T. Esta situação abrange o
finlandês, o russo, o inglês, o francês, o alemão, etc. Dito por outras palavras, o que
permite que o pronome sujeito possa ocorrer em construções de controlo nestas línguas,
por oposição às restantes, é o facto de este não estabelecer uma relação directa com T
nas LSN.
Note-se que, nesta abordagem, a ocorrência de um pronome explícito numa
construção de controlo é apenas uma opção dado que nada impede PRO de ocorrer
como sujeito da oração subordinada numa configuração como (61).
A representação sugerida em (61) prevê que, neste tipo de configuração, e
contrariamente ao que sucede nas construções de elevação, sejam atestadas construções
com mais do que um sujeito explícito com expressões não referenciais, uma vez que a
oração superior contém uma posicão temática para o sujeito não referencial (que
corresponderá ao DP mais alto em (61)). Com efeito, esta previsão é confirmada:
(62) Estou certa de que [nenhum hóspede decidirá [fazer ele o pequeno almoço
todos os dias]].
Em (62), o QP nenhum hóspede é o sujeito de decidir, o qual, na nossa
perspectiva, se move para a posição pré-verbal por movimento A-barra. O pronome é
então interpretado como uma variável ligada:
(63) [ [nenhum hóspede]i decidirá [ [nenhum hóspede]i decidirá [ fazer elei o
pequeno almoço]]]
Esta situação difere dos casos de elevação, em que a presença dos dois sujeitos é
impossível quando o primeiro é uma expressão não referencial quantificada (cf. (60b)).
Este contraste entre as construções de elevação e de controlo é, na nossa opinião, um
forte argumento em favor da análise aqui proposta, em termos da noção de Agree, e um
problema para as teorias do controlo baseadas no movimento.
Recorde-se que, nestes casos, o sujeito da oração infinitiva não pode ser uma
expressão-R, restrição que atribuímos a uma violação da Condição C da teoria da
Ligação. Ao reinterpretarmos este fenómeno em termos da relação Agree, estamos a
adoptar a ideia de que, numa estrutura de controlo, o sujeito da oração subordinada é
forçosamente co-indexado com o antecedente na matriz podendo apenas ser interpretado
na Forma Lógica como uma variável ligada (assumimos aqui a abordagem à teoria da
ligação de Grodzinsky e Reinhart, l993): no caso de o sujeito ser uma expressão-R, tal
coindexação seria ininterpretável uma vez que uma expressão-R não pode ser
interpretada como variável ligada
Note-se ainda que um dos corolários da proposta de Landau (2004) é que as
orações infinitivas não são fases fortes. A abordagem aqui proposta herda essa
consequência.

111
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

4. Conclusões
Os dados discutidos neste artigo sugerem que, em PE, as orações infinitivas de
controlo e elevação podem ter sujeitos expressos de acordo com a seguinte
generalização:
(64) Os sujeitos expressos de orações infinitivas em construções de controlo têm
de ser pronome. Os sujeitos expressos de orações infinitivas em construções
de elevação podem ser pronomes ou expressões nominais não pronominais.
(64) é a generalização proposta no estudo de Szabolcsi (2009), que abrange uma
série de línguas. Szabolcsi observa que estas línguas diferem do inglês, holandês,
alemão ou francês, que não admitem qualquer tipo de sujeito expresso em construções
infinitivas. No caso do primeiro grupo de línguas, há uma subdivisão: o finlandês, o
russo e (provavelmente) o hebraico moderno só admitem sujeitos expressos em
construções de elevação. As restantes línguas evidenciam sujeitos expressos também em
construções de controlo, de acordo com o padrão descrito em (64). Se colocarmos de
lado o PB, que, por estar a atravessar um processo de mudança, exige um estudo à parte,
todas as LSN pleno estudadas por Szabolcsi (do tipo do italiano ou do PE) admitem
sujeitos expressos tanto em construções de controlo como em construções de elevação.
As línguas de pro-drop parcial, como o russo e o finlandês e (possivelmente) o hebraico
admitem sujeitos expressos apenas em construções de elevação.
Neste artigo, apresentámos uma teoria explicativa deste fenómeno que procura
captar a associação existente entre a Propriedade do Sujeito Nulo e a ocorrência de
sujeitos expressos em construções de controlo e elevação. Em particular, defendemos
que este fenómeno se relaciona com as propriedades “nominais” do afixo de
concordância verbal. Sendo [+N/D], é o próprio afixo verbal que verifica os traços
formais de T mediante subida de V para T, o que tem a consequência de que a relação
entre T e o sujeito argumental é invariavelmente mediada pelo afixo de concordância
verbal, numa configuração de “clitic doubling”. Defendemos que esta assunção,
associada a uma teoria do controlo baseada na relação Agree, como a de Landau (2000;
2004), capta adequadamente a ocorrência de sujeitos de orações infinitivas nestas
línguas quer em construções de controlo quer em construções de elevação.
A ocorrência de sujeitos in situ com concordância à distância em línguas pro-drop
parcial como o Russo ou o Finlandês explica a possibilidade de os sujeitos expressos
poderem ocorrer no interior de orações infinitivas em construções de elevação.
Concluímos assim que, a ser correcta, esta análise reforça as teorias do controlo
baseadas na operação Agree.

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112
SUJEITOS EXPLÍCITOS EM ORAÇÕES INFINITIVAS DE CONTROLO E ELEVAÇÃO

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114
Entre dois fogos ou a pertinência do continuum entre polissemia e
homonímia. Visão escalar na abordagem teórica em Linguística
Cognitiva aplicada ao ensino do Português língua não-materna

Hanna Batoréo
Universidade Aberta

Abstract
The difference between homonymy and polysemy is sometimes very subtle and
difficult to establish as shown in studies carried out within Lexicology and Cognitive
Linguistics in the last twenty years. In the present paper we defend that the notion of
‘continuum’ between these two phenomena is a very useful operational instrument for
determination and description of multiple meaning. We defend that it should be treated
as a pivotal concept not only for language teaching in general but especially for
teaching Portuguese as a foreign language.

Keywords: polysemy, homonymy, Cognitive Linguistics, teaching Portuguese as a


foreign language
Palavras-chave: polissemia, homonímia, Linguística Cognitiva, ensino do Português
língua não-materna

0. Introdução
Nos últimos anos, muito se tem escrito sobre a polissemia, sobretudo no âmbito de
Linguística Cognitiva, mostrando que se trata de temática fundamental para qualquer
estudo semântico da Linguagem e também da Cognição e da Cultura. No entanto, não
se trata de problemática recente nos Estudos da Linguagem; o estatuto de temática
fundamental foi-lhe reconhecido, há mais de um século, depois de Michel Bréal a ter
baptizado com o nome que tem hoje e na sequência de longa tradição de reflexão que
remonta aos Estóicos e a Aristóteles. No entanto, e apesar do reconhecimento de longa
data, a polissemia foi votada ao esquecimento pelas duas grandes correntes linguísticas
modernas, a estruturalista e a generativista, voltando só nos últimos vinte anos a ser
uma questão central na semântica linguística, sobretudo no âmbito de Linguística
Cognitiva e, também, de Linguística Computacional. A Linguística Cognitiva defende,
por exemplo, que o fenómeno de polissemia não é exclusivo das categorias lexicais,
mas é igualmente aplicável às categorias gramaticais (morfológicas, sintácticas,
fonológicas), rompendo com a dicotomia artificial entre léxico e gramática (cf. Silva,
2006).

_____________________________
Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,
APL, 2009, pp. 115-124
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

A riqueza da problemática relativa à polissemia, demonstrada, entre nós, nos


últimos vinte anos sobretudo nos estudos efectuados no âmbito de Linguística
Cognitiva por Silva (1989, 1990, 1999, 2006) evidencia algumas dúvidas que nos
propomos colocar aqui e enfrentar ao longo das próximas páginas:
(1) Quem precisa da distinção entre a polissemia e a homonímia?
(2) Quais são os instrumentos de análise utilizados no estudo dos sentidos
múltiplos?
De que testes dispomos? Quando os testes funcionam e quando falham?
(3) Precisamos da noção do continuum entre homonímia e polissemia?
(4) Como representar a multiplicidade dos sentidos?

1. Quem precisa da distinção entre a polissemia e a homonímia? A importância da


relevância psicológica e da motivação cognitiva no fenómeno da polissemia
No seu recente livro O Mundo dos sentidos em Português, elaborado no âmbito do
enquadramento teórico de Linguística Cognitiva, Augusto Soares da Silva (2006)
refere-se ao fenómeno da polissemia como sendo “mil problemas para os linguistas e
nenhum para os falantes” (cf. título do cap. 2):
“(…) a distinção entre polissemia e homonímia não tem qualquer relevância
no uso efectivo dos respectivos significados/palavras por parte dos falantes. Mais
especificamente, o facto já referido de os falantes poderem reconhecer que dois sentidos
de uma mesma forma estão relacionados ou não, não tem nenhuma consequência no
modo como usam essa forma ou esses sentidos” (Silva, 2006: 49). [negritos nossos]
Efectivamente, sendo o critério geral de distinção entre polissemia e homonímia a
relação semântica entre os sentidos associados numa mesma forma, esta distinção
não tem qualquer relevância para o uso efectivo das unidades de língua por parte dos
seus utentes nativos. Estes falantes distinguem intuitivamente entre sentidos
relacionados (polissemia) e não-relacionados (homonímia), independentemente da
sua etimologia ou desenvolvimento histórico.
Repare-se, no entanto, que a relevância psicológica do reconhecimento de dois
sentidos como iguais ou diferentes pelos falantes nativos não é infalível (cf. capítulo 6
em Silva, 2006). Os nativos distinguem, de facto, sentidos relacionados dos não-
-relacionados, mas não o fazem de um modo consensual ou unívoco, conforme se pode
evidenciar através de inquéritos linguísticos específicos. Esta hesitação existente da
parte dos falantes nativos na distinção entre os sentidos relacionados e não-relacionados
pode apontar para a necessidade de um metaconhecimento que possa contribuir para a
distinção mais explícita nesta área.
Ao contrário dos falantes nativos, os não-nativos, não dispondo das mesmas
capacidades intuitivas ao nível de uma língua que não é a sua língua materna, podem
usufruir do trabalho explícito do linguista (p. ex. empregando os testes de distinção
entre os dois fenómenos) para melhorar e aprofundar o uso e o conhecimento do novo
idioma. Se tanto uns como os outros parecem precisar deste tipo de estudos para
melhorar o seu conhecimento metalinguístico da semântica e do léxico da língua que
usam, os não-nativos parecem ter uma motivação psicológica muito forte para tal: o

116
ENTRE DOIS FOGOS OU A PERTINÊNCIA DO CONTINUUM ENTRE POLISSEMIA E HOMONÍMIA

mundo dos sentidos múltiplos contextualizado e construído com base na linguagem-em-


-uso no contexto da L2 abre mundos de conceptualizações e interpretações que podem
vir a ser diferentes daqueles que estes falantes conhecem do funcionamento e do uso da
sua língua materna. Este confronto entre a conceptualização inerente à língua
materna e à língua não-materna precisa de regras tão precisas e transparentes
quanto possível, que lhes permitam trabalhar o conhecimento da nova língua em
aprendizagem, mas que na bibliografia de especialidade disponível entre nós não têm
sido fáceis de definir inequivocamente (cf. bibliografia).

2. De que testes dispomos? Quando os testes funcionam e quando falham?


Tendo como fundo a discussão da temática desenvolvida por Silva ao longo dos
últimos vinte anos (1989, 1990, 1999 e 2006), admitimos “como critério geral de
distinção entre polissemia e homonímia a relação semântica entre os sentidos
associados numa mesma forma” (Silva, 2006: 46), podendo esta relação ser apreciada
quer do ponto de vista diacrónico (estabelecendo o étimo de cada palavra e verificando
se duas palavras têm o mesmo étimo ou étimos diferentes) quer do ponto de vista
sincrónico. Conforme defende o autor (cf. Silva, 2006: 47-48), ambos os critérios
levantam sérios problemas. Por um lado, o critério diacrónico é inaceitável do ponto
de vista do uso e do saber semântico-lexical dos falantes, pelo menos dos falantes
nativos, e não é tão operatório como poderia parecer (cf. 2.2. abaixo). Por outro, o
critério sincrónico levanta alguns problemas de tipo potencialmente subjectivo: o
reconhecimento de uma relação entre diversos significados pode ser influenciado pela
imaginação, formação ou interpretação individual dos falantes. No entanto, este critério
mantém a sua pertinência se defendermos que os fenómenos de polissemia e homonímia
não são constructos teóricos balizados apenas historicamente, mas constituem
realidades motivadas psicologicamente.
Naquilo que diz respeito ao critério sincrónico, parece ser legítimo perguntar:
como podemos definir formal e objectivamente a distinção sincrónica? Para tal, existem
testes de carácter morfológico, sintáctico ou semântico:
• Morfológico  diferentes séries de derivados morfológicos como sinal de
homonímia;
• Sintáctico:  diferentes construções, distribuições ou valências sintácticas
como sinal de homonímia;
• Semântico:  testes da sinonímia e da antonímia, o teste de derivação
semântica (sentido básico e os derivados por metonímia ou metáfora como sinal de
polissemia), pertença a campos lexicais ou componenciais (sémicos) iguais ou
diferentes.
Alguns destes critérios acabam por revelar-se pouco operatórios, em virtude, por
exemplo, da não-discrição típica de campos lexicais ou da insuficiência dos critérios
sémicos na definição das relações semânticas (cf. Silva, 2006: 49).

117
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

2.1. Quando os testes funcionam?


Tendo por objectivo ilustrar a problemática atrás enunciada, atentemos nos
exemplos a seguir apresentados (exemplos 1, 2, 3 e 4).
(1)
Qualquer falante nativo do Português distingue facilmente as palavras ‘saia’1
(peça de roupa feminina) e ‘saia’2 (forma do verbo ‘sair’) como não sendo ligadas
semanticamente, em que as duas formas, embora homófonas e homógrafas, são puro
acidente histórico. Para justificar este tipo de homonímia do ponto de vista linguístico,
efectuam-se testes de carácter (i) etimológico (de facto, no caso em análise, os dois
itens provêm de dois étimos latinos diferentes), (ii) de pertença à mesma ou a diferentes
classes gramaticais, bem como a diferentes famílias de formação derivativa (neste caso,
trata-se de duas classes diferentes, um nome e um verbo, com formações derivativas
naturalmente diferentes), (iii) de pertença ao mesmo ou a vários campos lexicais (neste
caso, os campos são diferentes) e (iv) de ocorrência em contextos sintácticos diferentes
(o que também se confirma no caso das duas palavras em estudo).
(2) e (3)
Uma situação análoga pode observar-se no caso de pares como ‘são’1 (saudável) e
‘são’2 (forma do verbo ‘ser’) ou ‘canto’1 (‘ângulo’) e ‘canto’2 (forma do verbo
‘cantar’), no caso dos quais todos os testes acima apresentados são, também, coincidentes.
(4)
Inclui-se, também, nesta categoria de exemplos ilustrativos de homonímia
plenamente justificada o caso do par ‘fogo!’1, expressão elíptica de ‘há fogo!’, que é
um pedido de socorro ou grito de alerta, em caso de incêndio, e ‘fogo!’2, interjeição
recente e eufemismo por semelhança sonora da primeira sílaba com um palavrão, do
mesmo tipo que ‘fónix’ ou ‘fosca-se’. Estamos, aqui, perante duas palavras
semanticamente não relacionadas, isto é, perante um acaso histórico, em que a
etimologia, os campos lexicais e semânticos não coincidem e as palavras funcionam em
contextos sintácticos e discursivos diferentes.

2.2. Quando os testes falham?


Se existem casos em que os testes são transparentes e funcionam de um modo
inequívoco (cf. os exemplos em 2.1.), a coerência real dos testes é um fenómeno muito
raro; de facto, muitas das vezes os critérios não coincidem, levando a resultados
contraditórios (v. exemplos 5, 6 e 7 a seguir).
(5)
Veja-se, então, o exemplo ‘canto’2 (forma do verbo ‘cantar’) e de ‘canto’3
(p. ex. ‘canto gregoriano’), em que o teste etimológico nos indica a origem comum (ou,
pelo menos, aparentada) das duas palavras (critério (i) acima), enquanto o teste lexical
indicia a pertença de ambas ao mesmo campo lexical (critério (iii) acima). Apesar destas
coincidências, o facto de as duas palavras pertencerem a duas classes gramaticais
diferentes leva-nos a identificá-las, à partida, como palavras de sentidos diferentes, isto

118
ENTRE DOIS FOGOS OU A PERTINÊNCIA DO CONTINUUM ENTRE POLISSEMIA E HOMONÍMIA

é, homónimas. Torna-se evidente, porém, que – qualitativamente – este tipo de homoní-


mia em que os testes coincidem apenas parcialmente não é o mesmo tipo de homonímia
que verificámos acima entre o par ‘canto’1 (‘ângulo’) e ‘canto’2 (forma do verbo
‘cantar’) (cf. Exemplo 3), existindo entre os dois um relacionamento vago (isto é, fuzzy)
de parecenças de família.
Na sequência das observações acima apresentadas e utilizando o aparelho teórico-
-metodológico de Linguística Cognitiva (cf. Bibliografia), defendemos que, no primeiro
caso (‘canto’ 1 & 2), se trata de uma homonímia forte, prototípica, um fenómeno
puramente acidental, isto é, um acaso histórico, enquanto no segundo (‘canto’ 2 & 3), a
homonímia é claramente mais fraca, menos prototípica (ou seja, mais periférica em
relação ao protótipo), sujeitando-se à análise de tipo polissémico.
(6)
O caso de homonímia menos prototípica pode exemplificar-se, também, pelo caso do
par ‘banco’1 (assento) e ‘banco’2 (instituição de crédito), em que a etimologia parece
não ser a mesma (mas não está totalmente esclarecida), as classes morfológicas são as
mesmas, mas os itens pertencem a diferentes campos lexicais e a diferentes famílias de
formação derivativa (‘banco’1 > ‘banqueta’ e ‘banco’2 > ‘bancário’ > ‘banqueiro’).
(7)
Observe-se, também, o caso de duas formas criadas a partir de verbos regulares
‘tomarem’1 (o Infinitivo (Pessoal)) e ‘tomarem’2 (o Futuro do Conjuntivo), que se
distinguem apenas pelo contexto sintáctico em que ocorrem, como em: ‘para tomarem
as medidas adequadas’ e ‘se tomarem as medidas adequadas’.
Em todos os exemplos acima apresentados (5, 6 e 7), trata-se de associações de
sentidos aparentemente não-relacionados (isto é, de homonímias), com etimologias
iguais, próximas ou aparentadas (ou ainda não explicadas), mas que, por serem menos
prototípicas, permitem uma análise polissémica, dados os factores de coerência
semântica num complexo de sentidos associados a uma mesma forma.
Por outro lado, o critério etimológico (ou diacrónico) considerado, tradicional-
mente, como o teste fundamental na distinção entre os fenómenos de polissemia e
homonímia nem sempre é infalível ou tão operatório como à primeira vista poderia
parecer:
(i) os dicionários podem não coincidir no caso da indicação das etimologias (cf.
‘fino’);
(ii) existem palavras cuja origem é desconhecida ou hipotética ou, até, tão recuada
no tempo que pode tornar opaca a história do estabelecimento de uma relação
etimológica (cf. ‘porto’ (abrigo e vinho) discutido no caso do Português e do
Inglês por Lyons, 1977: 551);
(iii) podem existir palavras sincronicamente homónimas vindas do mesmo étimo
como é o caso de ‘cabo’1 – acidente geográfico e ‘cabo’ 2 – posto militar, ambos
provenientes do étimo latino ‘caput’;
(iv) podem existir, pelo contrário, palavras provenientes de dois étimos diferentes,
mas reconhecidos pelos falantes como semanticamente relacionados, conforme
verificado no caso de ‘vago’1 – impreciso, indeterminado do latim ‘vagum’ e
‘vago’2 – não ocupado do latim ‘vacum’ (cf. Silva, 2006: 47).

119
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

2.3. Precisamos da noção do continuum entre homonímia e polissemia?


Dada a riqueza de modos diversos em que os diferentes sentidos se podem associar
uns com os outros numa mesma forma linguística, bem como verificada a
impossibilidade de criar uma fronteira unívoca e clara entre os fenómenos de polissemia
e homonímia, conforme demonstram os exemplos e os testes linguísticos atrás
apresentados, conclui-se que estes dois fenómenos não constituem uma dicotomia
estrita de categorias discretas. Tal como a Linguística Cognitiva defende hoje (cf.
Silva, 1999: 636-638 e 2006: 49), estes fenómenos fazem parte, antes, de um
continuum de relação de semelhança/diferença de sentidos de uma mesma forma
estendido entre dois pólos prototípicos:
“Deve então concluir-se que a distinção entre polissemia e homonímia é inútil?
Não. Além do mais, porque a polissemia é um fenómeno de motivação, que introduz
uma certa redundância no léxico mental, ao passo que a homonímia é um fenómeno
acidental. O que daqui se pode concluir é que polissemia e homonímia não
constituem uma dicotomia estrita, mas antes fazem parte de um continuum de
relação de sentidos. E metodologicamente, (…) uma análise polissémica será
preferível a uma análise homonímica sempre que se encontrarem factores de coerência
semântica num complexo de sentidos associados a uma mesma forma.” (Silva, 2006:49)
[negritos nossos].
Vejamos como o mesmo autor explica esta situação no caso do estudo de sentidos
múltiplos do verbo ‘deixar’ e da distinção básica de dois sentidos fundamentais
‘deixar’1 (suspender a interacção) e ‘deixar’2 (não intervir):

“Deixar representa um mesmo verbo polissémico ou dois (ou mais) verbos


homónimos? Diacronicamente, e apesar das dificuldades na explicação da alteração
fonética leixar > deixar, o verbo deixar provém de um mesmo étimo latino: o verbo laxare,
que, como vimos, desenvolveu no latim pós-classico e tardio quase todas as significações
do verbo português actual. (…) Existem portanto razões fortes e válidas de natureza
sincrónica para considerar deixar como um verbo polissémico. Mas, ao mesmo tempo,
importa reconhecer a tensão homonímica, sincrónica também, no interior deste complexo
semasiológico: ou seja, a multiplicidade semântica de deixar distribui-se por duas
categorias, que semântica, formal e funcionalmente tendem a tornar-se independentes.
Diremos então que deixar constitui um caso entre a polissemia e a homonímia. Ou, e
continuando a falar em termos sincrónicos, um exemplo de polissemia com tendência para
a homonímia. Esta natureza “híbrida” pode ler-se, aliás, no próprio “network” de deixar
(…).” (Silva, 1999: 636-638).[negritos e sublinhados nossos]

Assim, e retomando um dos exemplos acima apresentados, enquanto entre “os dois
fogos”, isto é o ‘fogo!’1 e o ‘fogo’2 existe um relacionamento prototipicamente
homonímico, na maioria dos casos tradicionalmente tidos como exemplos de
homonímia – e tal como ilustram os exemplos de ‘banco’ ou ‘canto’ 2 & 3 – esta
homonímia resulta, de facto, mais periférica em relação ao núcleo, situando-se num

120
ENTRE DOIS FOGOS OU A PERTINÊNCIA DO CONTINUUM ENTRE POLISSEMIA E HOMONÍMIA

continuum de relações semânticas e, por conseguinte, sujeitando-se a uma análise


polissémica, resultante da coerência semântica pelo menos parcial dos sentidos
existentes numa mesma forma lexical.

3. Como representar a multiplicidade de sentidos?


A racionalização das relações que existem entre sentidos diferentes costuma levar os
linguistas cognitivos a elaborar representações efectuadas de formas diversas: quer em
redes radiais quer em modelos esquemáticos quer, ainda, em representações mais
complexas, frequentemente multidimensionais, seguindo uma estratégia de racionalização
e representação do que se julga funcionar ao nível mental. O que chama a atenção, neste
caso, é o facto de, para os mesmos dados linguísticos, as diferentes alíneas da teoria
cognitiva bem como os seus representantes apresentarem, independentemente,
representações diferenciadas, realçando aspectos diferentes que se considera deverem ser
cumpridos por uma representação, tais como a elegância, a economia ou maior realismo
cognitivo ou, ainda, relevância psicolinguística. Assim, não se defende que existam
representações melhores ou piores; existem, antes, representações que permitem realçar
certas características de construção do sentido mais do que outras.
Seja qual for a representação escolhida, é importante que o significado não seja
nela tratado de um modo reificado, isto é, como objecto bem definido e estável, com
propriedades fixas e determinadas, por exemplo, apenas na sua forma lexicográfica.
Pelo contrário, o sentido em Linguística Cognitiva deve ser tratado como uma entidade
processual e experiencial, intrinsecamente flexível, dinâmica e determinada
contextualmente. O significado está, assim, em construção, em função do conhecimento
social e histórico partilhado pelos falantes da linguagem-em-uso. Como exemplo desta
concepção do sentido, apresenta-se, a seguir, uma proposta de representação das
relações existentes entre as conceptualizações inerentes a um item lexical. Para tal,
escolhemos o item ‘bota(-)fogo’, conforme por nós analisado (Batoréo, 2008).
(8)
Segundo reza a história, tradicionalmente, designava-se por ‘bota-fogo’ (i) um
instrumento militar, uma haste com um pavio, com a qual o artilheiro detonava os
canhões, ou seja, ‘botava fogo’ (palavra formada por metonímias EFEITO PELA CAUSA +
INSTRUMENTO PELA ACTIVIDADE a partir do sentido prototípico do item ‘fogo’). Foi esta
designação que deu origem ao nome atribuído a um famoso (ii) galeão conhecido pelo seu
poder de fogo, robustez e eficácia (metonímias: CAUSA PELO EFEITO + CONTINENTE PELO
CONTEÚDO). A partir daí, muitos dos fidalgos portugueses passaram a utilizar este nome
como (iii) título nobre (metáfora + metonímia: PARTE PELO TODO), tal como aconteceu
com (iv) um oficial de artilharia que ganhou o apelido de ‘Botafogo’ e incorporou-o ao
seu sobrenome (metonímia: PARTE PELA PARTE). Galardoado com (v) terras situadas na
área da baia da Guanabara pelos seus feitos heróicos (metonímia: PARTE PELA PARTE),
passou-lhes o seu novo nome, baptizando, assim, (v-a) uma enseada, (v-b) uma praia
(especificação) e, posteriormente, (v-c) um bairro do Rio de Janeiro (generalização). A
partir das actividades desportivas desenvolvidas nesta praia teve a sua origem (vi) o nome
do conhecido clube desportivo carioca de Botafogo de Futebol e Regatas (metonímias:

121
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

ACTIVIDADE PELO LUGAR + INSTITUIÇÃO PELA ACTIVIDADE QUE DESENVOLVE), sendo os


seus associados, jogadores ou adeptos conhecidos por ‘botafoguenses’ (cf. Quadro 1). Tal
como evidencia esta proposta de representação, a polissemia não é restringida apenas ao
sentido que pode vir a ser abordado em termos lexicográficos. Pelo contrário, mostra-nos
a natureza enciclopédica do significado linguístico (esbatendo, por exemplo, as fronteiras
entre os nomes comuns e os nomes próprios), fazendo-o tanto quantitativa como
qualitativamente. Em termos quantitativos, a extensão do sentido e a formação de novos
sentidos é o resultado de novas experiências e novas conceptualizações, é a resposta à
constante variação e inovação. Do ponto de vista qualitativo, a representação reflecte a
possibilidade de associarmos os novos sentidos de modo coerente em função não só do
conhecimento enciclopédico, mas também dos mecanismos cognitivos (principalmente
da metáfora e da metonímia), bem como do próprio uso.

Instrumento
‘fogo’ ‘bota-fogo’
NÚCLEO PROTOTÍPICO
METONÍMIA

Título nobre
Galeão METÁFORA + Sobrenome
METONÍMIA METONÍMIA
METONÍMIA

Terras
METONÍMIA

Enseada

Actividade
desportiva Praia
METONÍMIA
Bairro
ESPECIFICAÇÃO
GENERALIZAÇÃO
Clube
METONÍMIA

Quadro 1. Rede de conceptualizações semânticas de ‘bota(-)fogo’.

122
ENTRE DOIS FOGOS OU A PERTINÊNCIA DO CONTINUUM ENTRE POLISSEMIA E HOMONÍMIA

4. Conclusões
Embora os estudiosos defendam que a distinção entre polissemia e homonímia não
tem importância para o uso efectivo da língua, consideramos que o conhecimento destes
fenómenos, bem como o conhecimento acerca dos critérios que permitem a sua
explicitação através da sua distinção e representação, é importante, apontando para a
necessidade de um metaconhecimento mais explícito.
No quadro da Linguística Cognitiva, uma visão escalar e não dicotómica da
distinção conceptual entre homonímia e polissemia constitui, no nosso entender, um
fundamento teórico indispensável para aplicações efectuadas ao ensino, principalmente,
ao ensino do Português língua não-materna.
A necessidade de metaconhecimento revela-se particularmente importante no caso
de falantes não-nativos que aprendem uma língua nova e, ao não disporem da intuição
dos nativos, precisam de ferramentas “mensuráveis”, reais e concretas que lhes possam
servir como auxiliar de aprendizagem.
Existem dois tipos de ferramentas que podem servir na análise e distinção dos
sentidos múltiplos: os testes e as representações.
Os testes, sejam eles diacrónicos ou sincrónicos, apresentam certas fragilidades
que não permitem a sua utilização em termos absolutos, distinguindo inequivocamente
o que podemos considerar polissémico do que entendemos como homonímico. Pelo
contrário, os estudos efectuados no âmbito da Linguística Cognitiva defendem que os
dois fenómenos, a polissemia e a homonímia, não funcionam em dicotomia estrita de
categorias discretas, mas, pelo contrário, fazem parte de um continuum de relação de
semelhança/ diferença de sentidos de uma mesma forma estendido entre dois pólos
prototípicos.
No que diz respeito às representações, seja qual for a representação escolhida, é
importante que o significado não seja nela tratado de um modo reificado, isto é, como
objecto bem definido e estável, com propriedades fixas e determinadas, o que implica
que estejamos sempre perante representações possíveis e não perante representações
absolutas.
Na sequência do que foi dito atrás, o sentido, em Linguística Cognitiva, é tratado
como uma entidade processual e experiencial, intrinsecamente flexível, dinâmica e
determinada contextualmente. O significado está, assim, em construção, em função do
conhecimento social e histórico partilhado pelos falantes da linguagem-em-uso. Por
conseguinte, não se defende que existam representações melhores ou piores; existem,
antes, representações possíveis que permitem realçar certas características de
construção do sentido mais do que outras.
Na verdade, a problemática das representações mentais, isto é, do modo como
estão representadas na mente dos falantes os diferentes usos de formas linguísticas,
continua em aberto à espera de confirmações vindas das áreas das neurociências, apesar
de dispormos já de confirmações neurobiológicas, evidenciadas, por exemplo, nos
estudos recentes de Damásio e Edelman.
Em Linguística, a polissemia continua entretanto a desempenhar funções de janela
que nos permite observar alguns conteúdos mentais que tornam a linguagem possível.

123
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Referências
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CD-ROM. Lisboa: Universidade Aberta.
Batoréo, Hanna Jakubowicz (no prelo) As raízes do bota(-)fogo: construção de sentidos
múltiplos. Evidência do Português Europeu. a publicar nas Actas do II Congresso
sobre Metáfora na Linguagem e no Pensamento, no âmbito da comunicação
coordenada: Processos Figurativos e o Léxico: a Interface Cognição/Morfologia,
21-24 de Out. 2008, Fortaleza, Brasil.
Correia, Margarita (2000) Homonímia e polissemia – contributos para a delimitação dos
conceitos. Palavras 19, Lisboa: A.P.P., pp. 57-75.
http://www.iltec.pt/pdf/wpapers/2000-mcorreia-homonimia_polissemia.pdf
Correia, Margarita e Lúcia San Payo de Lemos (2005) Inovação Lexical em Português.
Lisboa: Edições Colibri e APL.
Croft, William & D. Alan CRUSE (2004) Cognitive Linguistics. Cambridge: Cambridge
University Press.
Langacker, Ronald W. (2000) Grammar and Conceptualization. Berlin/New York:
Mouton de Gruyter.
Lyons, John (1977) Semantics. Cambridge: Cambridge University Press.
Silva, Augusto Soares da (1989) Homonímia e polissemia: análise sémica e teoria do
campo léxico. In Ramón Lorenzo (ed.) Actas do XIX Congresso Internacional de
Linguística e Filoloxía Românicas, vol. II, Lexicoloxía e Metalexicografía. A
Corunha: Fundación Pedro Barrié de la Maza, 1992, pp. 257-287.
Silva, Augusto Soares da (1990) Polissemia e Homonímia. Contribuições para um
estudo funcional. Trabalho de síntese para Provas de Aptidão Pedagógica e
Capacidade Científica. Braga: Faculdade de Filosofia da UCP.
Silva, Augusto Soares da (1999) A Semântica de DEIXAR. Uma Contribuição para a
Abordagem Cognitiva em Semântica Lexical. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian e Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
Silva, Augusto Soares da (2006) O Mundo dos Sentidos em Português: Polissemia,
Semântica e Cognição. Coimbra: Almedina.
Talmy, Leonard (2000) Toward a Cognitive Semantics. Vol. I: Concept Structuring
Systems. Vol. II: Typology and Process in Concept Structuring. Cambridge, Mass.:
The MIT Press.
Vilela, Mário (1994) Estudos de Lexicologia do Português. Coimbra: Almedina

Dicionários
Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa
(2001). Lisboa: Verbo.
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2002). Lisboa: Círculo de Leitores.

124
Aquisição da fricativa em coda no português brasileiro:
variação e propriedades distribucionais

Aline Rodrigues Benayon e Christina Abreu Gomes


Universidade Federal do Rio de Janeiro

Abstract
In this paper, we analyze the acquisition of coda sibilant fricatives in Brazilian
Portuguese, considering their distributional patterns, as phonemes or allophones, and
sociophonetic variation. There are evidences that statistical learning takes part in
language acquisition in a way that children have the ability to distinguish between
predictable and unpredictable sequences (Saffran et al. 1997). We claim that the more
predictable the occurrence of a sound, earlier it could be stabilized in the production of
the child. Our results showed that the predictable medial coda, allophones in
complementary distribution, is stabilized first than the unpredictable onset fricatives that
constitute phonemes.

Keywords/Palavras-chave: acquisition, variability,distributional patterns, fricatives


Palavras-chave: aquisição, variabilidade, padrões distribucionais, fricativas

1. Introdução
Esta pesquisa observa, à luz do construto teórico dos Modelos Multirepresen-
tacionais, a aquisição das fricativas sibilantes no dialeto carioca, visto que podem ser
alofones em distribuição complementar e em variação ou fonemas de acordo com a
posição que ocupam na palavra. Para esses modelos, os segmentos são adquiridos a
partir da forma fonética da palavra armazenada no léxico, a qual é associada uma
nuvem de ocorrências das categorias. Isto implica dizer que a representação é altamente
redundante, uma vez que as unidades lingüísticas seriam armazenadas com suas
propriedades previsíveis e não previsíveis (Langacker, 1987). Na verdade, as crianças
parecem adquirir distribuições alofônicas na base de informações estatísticas. Os
alofones são realizados como protótipos acústicos a partir de um nível de abstração,
onde o inventário fonológico da língua é constituído de acordo com as formas das
palavras (Cf. Peperkamp & Dupox, 2003). Postula-se, então, no presente estudo, que as
propriedades distribucionais das fricativas influenciam a aquisição. Quanto mais
previsível a ocorrência de um som, mais cedo ele poderá ser estabilizado na produção
da criança. Assim, as fricativas em coda medial, alofones em distribuição complemen-
tar, se estabilizam primeiro que as fricativas em onset, que constituem fonemas.

_____________________________
Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,
APL, 2009, pp. 125-139
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

2. As interações segmentais e a influência do ambiente lingüístico


É consensual, entre as pesquisas sobre aquisição da língua, que as crianças, no
início do período aquisitivo, devem realizar a segmentação do sinal contínuo em
categorias que representam as vogais e as consoantes usadas em sua língua.
Recentemente, pesquisas (Kuhl et al., 1992; Polka & Werker, 1994; Werker & Tees,
1984a, apud Peperkamp et al, 2003) têm mostrado que a criança parece utilizar, ao
adquirir as categorias das vogais e das consoantes, uma análise estatística do espaço
acústico e a formação de protótipos (Cf. Werker & Gerken, 2002).
No inventário de segmentos de uma língua, é feita a distinção entre fonemas –
segmentos, cuja substituição de um por outro implica distinções lexicais – e alofones –
variantes fonéticas de fonemas que aparecem em certos contextos fonológicos. Citando
o exemplo fornecido por Peperkamp & Dupox (2003), a distinção entre [t] e [d], no
inglês, é fonêmica – hat (chapéu)/ had/ (tinha) –, em contrapartida [th] é um alofone do
fonema [t] que ocorre em início de sílaba acentuada. Essa distinção entre fonemas e
alofones, no entanto, seria arbitrária, uma vez que, o coreano, por exemplo, apresenta
uma distinção fonêmica entre [t] e [th] e uma alofônica entre [t] e [d].
Werker & Gerken (2002) e Peperkamp et al (2006) analisaram as distribuições
complementares de pares de segmentos, como, no caso, [t] e [th]. Os pesquisadores
observaram que as diferentes realizações de um único fonema, normalmente, não
aparecem nos mesmos contextos quando em distribuição complementar e permite
verificar a plausibilidade de se adquirir a alofonia na base de informação distribucional.
Postula-se, então, a aquisição de categorias segmentais e não mais de categorias
abstratas de fonemas. Isto significa dizer que crianças tanto do inglês quanto do
coreano, por exemplo, adquirem três categorias para [t], [d] e [th]. Entende-se que
alofones são realizados como prototípicos acústicos.
Na verdade, para uma proposta de representação em que a variabilidade e as
informações redundantes estariam armazenadas, postulam-se níveis de abstrações,
interligados entre si e que ocorrem simultaneamente (Pierrehumbert, 2003). Um nível
compreenderia as possibilidades fonéticas apreendidas da experiência de ouvir e
produzir. Em outro nível, o inventário fonológico seria abstraído a partir das formas das
palavras no léxico. Os exemplares já estariam categorizados em um continuum do mais
prototípico ao mais periférico.
Adotar a hipótese de que as crianças utilizam informações distribucionais para
adquirir fonemas e alofones significa dizer que esta estratégia envolveria estabelecer,
para cada segmento, uma lista de contextos fonológicos em que aparecem os segmentos,
explorando o fato de que fonema e seus alofones estão em distribuição complementar.
Pares de segmentos, cujas listas de contextos possuem uma interseção vazia, estão em
distribuição complementar. Essa estratégia pode ser aplicada em uma idade anterior
àquela da análise em par mínimo, isto é, logo que as categorias segmentais se
estabelecem (Cf. Peperkamp & Dupox, 2003). Vale destacar, no entanto, que não há
evidências experimentais acerca da idade em que a distinção entre fonemas e alofones é
adquirida.

126
AQUISIÇÃO DA FRICATIVA EM CODA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

A postulação de que fonemas e também alofones são adquiridos na base da análise


distribucional está de acordo com os pressupostos dos Modelos Multirepresentacionais,
uma vez que reforça a proposta de aquisição lexical, em que palavras podem ter mais de
uma forma fonética, devido a alofones que aparecem em início de palavra ou em final
de palavra e que são condicionados pela presença de certos segmentos na palavra
precedente ou seguinte, respectivamente.

3. As fricativas sibilantes na comunidade de fala do Rio de Janeiro

3.1. A variação das fricativas sibilantes em posição de coda no dialeto carioca


Câmara Junior (1970: 51) já destacava que as quatro fricativas sibilantes – S, Š, Z, Ž
– em posição de coda se reduzem a uma única, ou antes a duas, isto é, uma realização
surda e outra sonora, dependendo do ambiente seguinte. As fricativas perdem a função
de distinguir significado entre elas, uma vez que tais fricativas ficam surdas diante de
pausa ou de consoante surda, conforme mostra o exemplo: “apanhe as folhas”, e sonoras
diante de consoante sonora, como em: “que rasgão”. Destaca-se, ainda, que a escolha
entre a fricativa alveolar e a fricativa pós-alveolar ocorre de acordo com o dialeto
regional. No Rio de Janeiro, por exemplo, predominam as fricativas pós-alveolares. Em
São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, predominam as alveolares.
Pesquisas na linha da sociolingüística laboviana (Scherre e Macedo, 1991 e
Brandão & Callou, 2000) destacaram mais duas variantes sociofonéticas, em posição de
coda: a fricativa velar/glotal e o zero fonético. Em relação a essas duas variantes,
destaca-se que elas não se definem pela distribuição geográfica, mas sim por diferenças
sociais. Assim, tanto nas regiões do S alveolar como nas de S palatal, muitos falantes
são discriminados porque pronunciam [µεµΥ], [µα ναδ↔], [µα mα ναδ↔ µεµΥ]
(mesmo, mais nada, mas mais nada mesmo).
Scherre e Macedo (1991), ao analisarem os dados coletados da Amostra Censo
(1980)1, observaram que a palatal é a variante predominante, com 61% de produção. Os
dados revelam, porém, que, apesar de a palatal apresentar maiores índices de produção,
as outras formas alternativas também ocorrem, indicando a coexistência dessas quatro
variantes no dialeto carioca (fricativa alveolar – 22% –, fricativa glotal – 7% – e zero
fonético – 9% –). As pesquisadoras, ao procurar os condicionadores específicos do –S
pós-vocálico na fala do Rio de Janeiro, analisaram o efeito de quatro variáveis
lingüísticas: três de natureza fonético-fonológica – contexto seguinte; contexto vocálico
precedente, posição na palavra, número de sílabas e tonicidade; e uma de natureza
lexical – classe gramatical e itens lexicais específicos.
Callou e Marques (1975), em uma pesquisa sociolingüística cujo objetivo era
verificar a implementação do processo de palatalização, analisaram 2579 ocorrências
em indivíduos de três níveis de escolaridade, homens e mulheres, moradores de seis
áreas da cidade do Rio de Janeiro. As pesquisadoras observaram que o percentual geral

1 A Amostra Censo é constituída por 64 falantes do Rio de Janeiro, os quais se distribuem em função da
escolaridade, do sexo e da faixa etária.

127
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

de palatalização foi de 85%, mas variava em função de alguns condicionamentos


sociais, como: nível de escolaridade, gênero e local de residência do falante.

3.2. A aquisição das fricativas sibilantes


Nesta seção, serão apresentados os estudos de Sávio (2001) e de Oliveira (2002),
desenvolvidos dentro da Teoria da Otimidade, que propõem uma hierarquia aquisitiva
para as fricativas sibilantes no Português Brasileiro e os de Matzenauer & Miranda
(2008) que observaram a posição que as fricativas podem ocupar na sílaba.
Oliveira (2002: 140), a partir da análise dos dados de 103 crianças com idades
entre 1:0 e 3:8, e Savio (2001), em uma pesquisa com dados de 91 crianças entre 1:0 e
3:3, observaram que a fricativa em posição final surgiu por volta de 1:6 e só aos dois
anos de idade ocorreu em coda medial. Seu domínio (produção categórica) segue essa
mesma ordem, sendo alcançado primeiro em coda final aos 2:6 e somente aos 3:0 em
coda medial. Assim, entre o primeiro surgimento e o domínio da fricativa nas duas
posições de coda, passa-se um ano. Estes achados evidenciam, portanto, que a posição
final parece mais favorável ao surgimento da fricativa do que a posição medial.
Em relação à aquisição das fricativas em posição de onset, Sávio (2001) e Oliveira
(2002) observaram a seguinte escala de aquisição: a alveolar sonora /z/ seria adquirida
aos dois anos de idade, a fricativa alveolar surda /s/ e a fricativa pós-alveolar sonora /Ž/
aos dois anos e seis e, por fim, a palatal surda aos dois e dez meses. A partir dessas
observações, os pesquisadores concluem que a aquisição das fricativas sibilantes segue
uma tendência universal de que os sons [+ anteriores] são adquiridos antes dos sons [-
-anteriores] (Locke, 1983, apud Oliveira, 2002). Além disso, da comprovação dos
estudos de onset e coda, conclui-se que algumas fricativas em onset, como /z/, /s/ e /ž/
tendem a se estabilizar antes das fricativas em coda.
Matzenauer & Miranda (2008) analisam a aquisição das fricativas sibilantes em
coda silábica e em posição de onset, observando seu status fonêmico e alofônico, a
partir da discussão de proposta de aquisição de fonemas e alofones de forma bottom-up 2
ou de forma top-down 3. Interessa a essa pesquisa, assim como ao presente estudo,
verificar como se dá o processo de aquisição, pela criança, de fonemas e de formas
alofônicas no sistema-alvo.
Para os Modelos Multirepresentacionais se postula que as inferências
distribucionais não se baseiam apenas no input a que as crianças estão expostas, mas
também em inferências obtidas através do léxico armazenado. Para esses modelos,
portanto, a aquisição fonológica dar-se-ia tanto de forma top-down quanto de forma
bottom-up.

2 A aquisição de fonemas e alofones pela forma bottom-up se daria a partir das informações distribucionais do
input. Os mecanismos de aquisição incluiriam a extração de regularidades estatísticas presentes no sinal da
fala (Cf.:Werker & Gerken, 2002; White, Peperkamp & Morgan, 2007).
3 A aquisição de fonemas e alofones pela forma top-down se daria com a ajuda do léxico, a partir das formas
abstratas das palavras.

128
AQUISIÇÃO DA FRICATIVA EM CODA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

A partir da análise longitudinal dos dados de duas crianças entre as idades de 1:11
até 2:0 e de 1:4 até 2:8, Matzenauer e Miranda (2008) observaram, olhando
especificamente para o traço [voz], que a aquisição da alofonia em coda de sílaba,
referente à sonoridade (fricativa sonora diante de consoante sonora e fricativa surda
diante de consoante surda), mostrou-se de acordo com o sistema alvo desde o início de
sua produção. As pesquisadoras destacam, no entanto, que esse uso sem valor distintivo
na coda, no entanto, só ocorreu quando já havia o emprego das fricativas sibilantes em
posição de onset, isto é, de fonemas.
Matzenauer e Miranda (2008) postulam que a aquisição da coda fricativa é tardia
e, por isso, essas formas alofônicas desde logo se manifestariam de modo consistente
em consonância com o alvo da língua. As fricativas sibilantes em onset silábico – que
constituem fonemas na língua –, por sua vez, surgiriam primeiramente na fala das
crianças 4, porém apresentariam uma instabilidade em sua produção durante a aquisição
fonológica. Segundo as pesquisadoras, as crianças tendem a utilizar as fricativas
sibilantes [+ anterior] surdas, de um lado, e as fricativas sibilantes [+ anterior] sonoras,
de outro, apresentando variação em suas produções. Para as pesquisadoras, essa
variação na produção ocorreria, porque /s/ e /Š/ e /z/ e /ž/ seriam considerados pelas
crianças alofones livres de contextos. Por não serem previsíveis, se estabilizam
tardiamente.
Na verdade, seriam alofones espúrios, isto é, alofones não existentes na língua
(Cf. Calvez et al, 2007). Segundo as autoras, quando a criança analisa a caracterização
diferenciada das fricativas de acordo com o traço [+ anterior] – o que ocorreria por um
processo bottom-up –também checa o valor opositivo desse traço nas fricativas em
posição de onset, alterando o significado de itens lexicais da língua – o que ocorreria
por um processo top-down. Só, então, as sibilantes [+ anterior] e as sibilantes [-
anterior] não seriam mais consideradas como alofones na posição de onset. Para os
Modelos Multirepresentacionais, no entanto, a percepção da criança – não só em relação
a alofones, mas também a fonemas – se daria através das informações distribucionais
presentes nas formas abstratas das palavras armazenadas, levando-se em consideração a
previsibilidade ou não do contexto.
Para Matzenauer e Miranda (2008), as fricativas sibilantes em onset variam, pois
as crianças ainda não reconhecem a distinção de significado. No entanto, essa
instabilidade na produção poderia ser explicada pelo fato de que as fricativas em onset
não possuem a previsibilidade de contexto. Na verdade, apesar dessa variação ocorrer,
predominantemente, durante uma etapa aquisitiva, há adultos que também a apresentam
na produção de determinadas palavras, como: salsicha [σΑ∝∪σιΣΑ] ~ [σΑ∝∪ΣιΣΑ],
registro [ρε∪ΖιΣτΡυ] ~ [ρε∪ζιΣτΡυ] e churrasco [Συ∪ΞαΣκυ] ~ [συ∪ΞαΣκυ].
Se as fricativas em coda, por um lado, apresentam estabilidade em sua produção,
no sentido de que houve uma alta realização da fricativa desde o seu surgimento na fala
da criança e se as fricativas em onset, por outro, apresentam, por um longo período,

4 Apesar de não haver uma informação explícita relacionada à idade com que as fricativas são realizadas, os
exemplos fornecidos pelas pesquisadoras indicam que as fricativas em onset surgiriam na faixa de 1 ano e 3
meses e as em coda na faixa de 1 ano e 6 meses.

129
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

instabilidade em sua produção, no sentido de variação entre elas, como afirmar que as
sibilantes em onset – fonemas – são adquiridas primeiro que as sibilantes em coda –
alofones? Principalmente em função de as pesquisadoras alegarem, como mencionado
anteriormente, que a flutuação na produção se deve ao fato de as crianças não terem
“percebido” o caráter opositivo da alternância entre as fricativas em onset.

4. Objetivos, hipóteses e metodologia de pesquisa


4.1. Objetivos e hipóteses
O presente trabalho, então, parte da proposição, feita por Sávio (2001) e Oliveira
(2002), de uma hierarquia aquisitiva para as fricativas sibilantes e propõe, à luz dos
pressupostos dos Modelos Multirepresentacionais, um estudo que considere também a
variação observada no input, relativa a padrões distribucionais e variação sociofonética,
na aquisição das fricativas sibilantes. Pesquisas sobre aquisição fonológica têm
demonstrado que as crianças se baseiam em informações distribucionais do input que
afetam a acuidade de sua produção em relação ao alvo, a ordem em que segmentos e
estruturas silábicas são adquiridos e até mesmo diferenças desenvolvimentais
observadas para as mesmas estruturas. Para tal, foram estabelecidos três objetivos
principais, os quais são:
1. Verificar a proposta de Oliveira (2002) – cuja análise baseia-se nos pressupostos
da teoria da otimidade – que estabelece uma hierarquia de aquisição das
fricativas sibilantes;
2. Verificar a aquisição das fricativas sibilantes nas posições de coda e onset,
considerando que o conhecimento fonológico envolve os aspectos abstratos, as
distribuições alofônicas e identidade social (Docherty & Foulkes, 2000);
3. Observar alguns mecanismos em que as crianças se baseiam para a aquisição
das fricativas sibilantes: propriedades distribucionais dos segmentos em
questão, como a previsibilidade dos alofones e a imprevisibilidade dos fonemas.
Para os Modelos Multirepresentacionais, as fricativas como fonemas, as fricativas
como alofones e seus contextos de distribuição e as variantes sociolingüísticas fariam
parte da representação redundante no léxico armazenado pelo falante/ouvinte. As
nuvens de exemplares apresentariam um contínuo que iria dos traços prototípicos (mais
freqüentes) até os marginais (menos freqüentes) em função da experiência do falante em
produzir e perceber essas instâncias.
Considerando a hipótese de representação apresentada acima, de que forma se dá a
aquisição das fricativas sibilantes, levando-se em conta a distribuição posicional e suas
variantes? Se os sons/fonemas são adquiridos em função da experiência da criança com
itens lexicais, que gradativamente são armazenados no seu léxico mental, então, na
palavra, podemos esperar que quanto mais previsível a ocorrência de um som, mais
cedo ele poderá ser estabilizado na produção da criança. Uma das hipóteses desta
pesquisa, portanto, é a de que as fricativas em coda medial, alofones em distribuição
complementar e em variação, sejam estabilizadas primeiro que as fricativas em onset,
que constituem fonemas. A coda final, em limite de palavra, não seria tão previsível

130
AQUISIÇÃO DA FRICATIVA EM CODA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

quanto a medial, já que o contexto seguinte dependerá do item seguinte e se há pausa ou


não no fluxo da fala.
A criança armazena mais itens lexicais quanto maior experiência tiver com a sua
língua. Além disso, as nuvens de exemplares poderão ser organizadas diferentemente de
criança para criança, uma vez que depende do input a que está exposta. Diferenças no
input que envolvam freqüência de ocorrência de uma dada variante e os valores sociais
atribuídos a ela podem interferir no processo aquisitivo e também na representação.

4.2. Metodologia de trabalho


Os dados foram coletados de crianças que compõe a amostra AQUIVAR
(PEUL/UFRJ), que é um corpus representativo da fala de 34 crianças, residentes na
cidade do Rio de Janeiro. Essa amostra transversal é dividida de acordo com oito faixas
etárias: 2; 2:3; 2:7; 3; 3:3; 3:7; 4; 4:6 e de acordo com a classe sócio-econômica a que as
crianças pertencem.
Os dados foram analisados em cada criança separadamente, isto é, não houve o
agrupamento de acordo com as faixas etárias. Considera-se importante, nesta primeira
análise, observar se as crianças apresentam diferenças individuais durante a aquisição
das fricativas.
Além disso, levando em consideração as idades determinadas por Oliveira (2002),
em que ocorreria a aquisição das fricativas sibilantes tanto em posição de coda quanto
em posição de onset, fez-se um recorte na Amostra AQUIVAR e se analisou somente as
crianças das faixas etárias mais baixas: de 1 ano e 9 meses aos três anos de idade.
Nesta pesquisa, os dados das fricativas também foram analisados de acordo com as
posições que podem ocorrer na palavra: onset, coda interna e coda final. Além disso,
foram consideradas as seqüências fonotáticas. Assim, as fricativas sibilantes em coda
interna – que são alofones em distribuição complementar – foram observadas em dois
grupos: os que apresentam a seqüência fricativa seguida de consoante surda e os que
apresentam a seqüência fricativa seguida de consoante sonora. Já em posição final, as
fricativas foram analisadas de acordo com quatro grupos: o contexto de limite de
palavra, em que também há a distribuição complementar (fricativa seguida de consoante
surda, fricativa seguida de consoante sonora e fricativa diante de vogal) e o final
absoluto.
A análise estatística realizada foi a comparação das proporções de acordo com as
ocorrências das fricativas no total de produção, a fim de verificar se as diferenças entre
as porcentagens é significativa ou não, indicando se o comportamento entre as
fricativas, nos diversos contextos em que foi analisada, difere ou entre si ou entre as
crianças. Para essa análise foi utilizado o programa estatístico R-project, que fornece os
p-valores, taxas que representam a probabilidade de obtermos um valor de proporção
menor ou igual a 0,050.

131
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

5. Análise dos dados

5.1. O comportamento das fricativas sibilantes em posição de coda interna


Em relação às fricativas em posição de coda interna, observou-se que as crianças
produziram somente palavras com a seqüência coda surda seguida de consoante surda
(109 dados), exceção feita a uma das crianças de 2 anos e 10 meses – C. –, que repetiu a
palavra cisnes (coda sonora seguida de consoante sonora) duas vezes: uma como
fricativa pós-alveolar surda, outra como fricativa pós-alveolar sonora, respectivamente:

E: Ah, entendi. E qual outro desenho que você gosta?


C: Eu gosto do, da Rapunzel // do Lago dos Cisnes [∪σιΣνΙΣ]
E: No filme da Barbie, O Lago dos Cisnes, a Barbie vira o quê?
Carol: Cisnes. [∪σιΖνΙΣ]

O gráfico abaixo mostra o comportamento das fricativas coda medial em contexto


seguido de consoante surda nas crianças analisadas.

100% 100% 95% 100%


100% 86% 88%
79% 79%
80% 70%
60%
40%
20%
0%
J. (1:9) B. M. L. (2:6) Cl. C. R. T. (3:0) Ca.
(2:0) (2:0) (2:6) (2:10) (2:10) (3:0)
Crianças

Gráfico 1: Comportamento da fricativa em coda interna

Verifica-se uma alta produção da coda interna desde a criança de 1 ano e nove
meses, que apresenta um índice de 79% de realização. As crianças de 2 anos, por sua
vez, produzem categoricamente a fricativa em posição de coda interna, taxas que caem
para 70% e 79% nas duas crianças de dois anos e seis. A partir dos 2 anos e 10 meses,
no entanto, as taxas voltam a subir e atingem 90% e 100% nas crianças de três anos.
Vale destacar que, mesmo nas crianças em que se constatou uma baixa na produção, os
índices de produção são consideravelmente altos.
Em todas as palavras analisadas, cuja seqüência era fricativa surda + consoante
surda, a fricativa, quando produzida, foi realizada quase categoricamente como pós-
-alveolar surda [Σ], com uma única exceção: a palavra gosta, produzida por J., criança
de 1 ano e 9 meses e pertencente à classe sócio-econômica baixa, como [∪γ τ ], isto
é, com a variante aspirada.

132
AQUISIÇÃO DA FRICATIVA EM CODA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Na verdade, as crianças estão expostas a um input cuja incidência da pós-alveolar é


altíssima já que se trata do dialeto carioca. Segundo a postulação de uma organização
probabilística das representações, as crianças, ao armazenarem itens lexicais, acumulam
exemplares das categorias sonoras. A freqüência com que uma variante é ouvida leva-a a
ser considerada como o exemplar prototípico. Dessa forma, pode-se dizer que a fricativa
pós-alveolar seria a representação central para essas crianças. Essa ausência de articulação
alveolar pode ser reflexo da distribuição dessa variante no input. À medida que a
experiência com a língua aumenta, as crianças armazenam mais itens lexicais, sendo
possível a abstração dessa variante, porém como representação periférica. Em relação às
variantes estigmatizadas, aspirada e zero, observou-se, através das pesquisas na
comunidade de fala adulta, que essas variantes, mesmo em falantes de baixa escolaridade,
possuem taxas de produção menores que as da fricativa pós-alveolar (7% e 61%,
respectivamente). Sendo que Scherre e Macedo (1991) e Brandão & Callou (2000) ainda
destacam que a coda interna é um ambiente que desfavorece as variantes aspirada e zero.
Nos dados analisados da Amostra AQUIVAR foi observado somente um caso de
produção da aspirada, conforme mencionado anteriormente, o que permite reforçar a
hipótese de que as crianças parecem se basear nas informações distribucionais do input.
Observou-se, portanto, a ocorrência quase categórica de palavras com a seqüência
coda surda + consoante surda nos dados das crianças. O comportamento observado parece
refletir os padrões de distribuição dessa seqüência fonotática no léxico do português
brasileiro. No português brasileiro, seqüências de coda fricativa seguida de consoante
surda são muito mais freqüentes do que a seqüência de coda fricativa seguida de
consoante sonora. As freqüências de ocorrência das duas seqüências foram obtidas no
Corpus LAEL-PUC-SP (http://lael.pucsp.br/corpora) de 1,1 milhão de palavras. O site
disponibiliza um sub-corpus escrito e um sub-corpus falado. Foram identificados todos os
itens com todas as seqüências possíveis na língua (sp, st, sk, sf, sb, sd, sg, sv, sm, sn, sl, sr)
através do recurso localizar do editor de texto utilizado para ler cada subcorpus. A
contagem dos itens revelou que há 27.463 itens lexicais contendo seqüências do tipo coda-
-fricativa seguida de consoante surda e 6.413 itens lexicais contendo sequencias com a
coda seguida de consoante sonora. A diferença entre as seqüências nas duas amostras,
escrita e falada, se mostrou significativa com p-valor de 2.2e-16 (=0.000).
Essa análise da freqüência das seqüências demonstra que a distribuição de padrões
sonoros na língua ambiente tem um papel importante na aquisição da fonologia. Em
uma interpretação baseada nos Modelos Multirepresentacionais, as crianças armazenam
mais itens lexicais que possuem a seqüência coda fricativa surda + consoante surda, por
esta ser mais freqüente no input. Em contrapartida, o fato de a palavra cisnes, único
caso de palavra com a seqüência fricativa sonora – consoante sonora, ser produzida ora
com a fricativa pós-alveolar surda, ora como pós-alveolar sonora sugere que a
quantidade de itens lexicais armazenados, que possuem essa seqüência, é menor.
A análise estatística indica que as diferenças de produção da fricativa pós-alveolar
surda entre as crianças não se mostraram significativas, já que os p-valores foram
superiores a 0,050. Na verdade, não se pode falar em uma evolução aquisitiva, já que a
fricativa pós-alveolar surda apresentou um comportamento semelhante em relação à
realização da coda interna, nas diferentes idades consideradas.

133
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

5.2. O comportamento das fricativas sibilantes em posição de coda final


O comportamento da fricativa sibilante em posição de coda final foi analisado de
acordo com dois ambientes: limite de palavra – em que há o contexto seguinte e,
portanto, as seqüências coda fricativa + consoante surda, coda fricativa + consoante
sonora e ainda coda fricativa + vogal – e final absoluto, em que há pausa. Levando-se
em consideração a análise de 212 dados, o gráfico abaixo indica as taxas de realização
por faixa etária e por contexto observado.

100 100 88 87
80 86 86 83 86 90
73 77 80 83 75 83 82
67 67 67 60 73 71 67
62 57 60 57
55 50
42 50 40

0
(%)
J. (1:9) B. (2:0) M. (2:0) L. (2:6) Cl. (2:6) R.(2:10) C.(2:10) T. (3:0) Ca.(3:0)
Su - Su Fricativa + consoante sonora Fricativa + vogal Final absoluto

Gráfico 2: Comportamento da fricativa em coda final

Para analisar, primeiramente, os dados relativos à coda final em limite de palavra,


deve-se observá-los sob dois aspectos principais: a realização esperada de acordo com a
sonoridade e a realização esperada de acordo com o ponto de articulação. Em relação ao
primeiro – sonoridade – observou-se que, na seqüência coda fricativa-consoante surda,
quando a fricativa foi produzida, houve a realização categórica da fricativa surda, porém
as taxas mostram uma instabilidade em sua produção: nas crianças mais novas, as
porcentagens não ultrapassam 70%, índice que diminui ainda mais nas crianças de 2
anos e seis meses, cujas taxas encontram-se em torno de 60%. Só nas crianças de 2 anos
e 10 é que a produção da fricativa pós-alveolar surda se torna mais estável, apresen-
tando índices de 73% e 80%.
Essa instabilidade na realização da fricativa surda em um contexto de distribuição
complementar, isto é, em um contexto em que sua ocorrência é previsível, pode ser
explicada pelo fato de que a criança armazena o item lexical e suas propriedades
distribucionais em termos de contexto de ocorrência. Como, no caso de limite de
palavra, a informação de contexto está contida no primeiro segmento da palavra
seguinte – que pode mudar a cada discurso –, ela não é tão previsível quanto a fricativa
em coda interna. Vale destacar ainda que, no caso da seqüência coda fricativa-consoante
surda, não houve a substituição da fricativa surda por uma sonora ou por outro
segmento. Na verdade, o que se observou foi a sua produção ou então a sua não
produção (“parabéns pra você” [παΡα∪βε)παϖο∪σε], “arroz com feijão”
[αηοΙ≈κυ)φε∪Ζα)ω]). Isso parece indicar que as crianças se utilizam das informações
redundantes durante a aquisição, uma vez que nas ocorrências da coda em limite de
palavras, onde as informações não são tão previsíveis, as crianças realizaram a fricativa
conforme o esperado, isto é, como fricativa surda.

134
AQUISIÇÃO DA FRICATIVA EM CODA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Já na seqüência coda fricativa + consoante sonora, observa-se uma instabilidade


maior do que na seqüência fricativa surda + consoante surda. A criança de 1 ano e 11
meses e as crianças de dois anos apresentam porcentagens de 55%, 42% e 50%,
respectivamente. Essas taxas aumentam um pouco nas crianças de 2 anos e 6 meses:
60% e 57% e também nas duas crianças de 2 anos e 10 meses, 71% e 75%.
Essa tendência das crianças em produzir mais a fricativa surda em coda final pode
ser um reflexo da alta freqüência da seqüência fricativa surda + consoante surda, vista
na comunidade de fala adulta para os resultados de coda interna. O aumento gradual das
taxas de produção da fricativa sonora, no entanto, indica que as crianças vão adquirindo
as propriedades distribucionais. Vale relembrar que Lamprecht (1990, apud Oliveira
2002) observou 100% de produção de fricativa surda, que a autora compreende como
um processo de dessonorização, em 5 das 9 coletas de fala de uma criança (“mais
balões” [µαΙ≈σβα∪λΑ)ω]).
Em relação ao ponto de articulação, observou-se que, em todos os contextos
analisados, com exceção da seqüência fricativa alveolar sonora seguida de vogal,
ocorreu a pós-alveolar, variante esperada no dialeto carioca. No entanto, merece
destaque especial aqui o comportamento das fricativas em coda diante de vogal. De
acordo com os índices de realização, percebemos taxas bem baixas de produção da
alveolar sonora, sendo que, na criança de 1 ano e 9 meses, [z] não foi produzido em dois
dos casos e foi produzido como pós-alveolar surda em outros dois casos: eu tenho dois
anos ([δοΙ≈∪ανυ]) pra ir pra escola; É... Mas eu moro ([µαΙ≈εω∪µορυ] ) na casa da
minha mãe e Depois acabou ([δε∪ποΙ≈Σζακαβο]) música, agora vem outra música.
Nas faixas etárias subseqüentes, a alveolar foi produzida, porém ainda houve
muitos casos de produção da fricativa pós-alveolar surda e da não produção da alveolar
sonora. Assim, em B., criança de dois anos de idade, a produção da alveolar sonora
ocorreu em apenas 50% dos casos (O dindo é legal, mas ele ([µαΙ≈ζ∪ελι]) joga bola
comigo) e, em L., de 2 anos e 6 meses, a produção foi ainda menor, atingindo apenas
40%. Só em R. de 2 anos e 10 que ocorreu a produção categórica de [z], porém é um
resultado que deve ser visto com ressalvas devido à baixíssima quantidade de dados que
essa criança apresentou para esse contexto: 2 ocorrências. Na verdade, ao analisar esses
dados, percebe-se que a fricativa é produzida com um som que estaria na transição da
fricativa pós-alveolar surda para a alveolar sonora. Para confirmar tais resultados, no
entanto, é necessária uma análise acústica dos dados.
Observando agora o comportamento das fricativas sibilantes no segundo ambiente
analisado, final absoluto, notou-se, primeiramente, que houve predominantemente a
produção da fricativa pós-alveolar surda. Além disso, as taxas de produção são
superiores a 70% em quase todas as faixas etárias, com exceção a uma única criança de
2 anos, M., que apresentou um índice de 67%. Nas crianças de 2 anos e 10, as taxas
foram bem elevadas, com 86% para C. e 83% para R, atingindo 90% em Ca., criança de
3 anos de idade. Destaca-se, ainda, que, neste contexto, ocorreram casos de não
realização da fricativa (feliz [φε∪λι], seis [∪σε Ι≈]) e de produção de uma vogal após a
fricativa, mudando-a de posição na sílaba, já que passa a ocupar a posição de onset.
Fenômeno conhecido como epêntese (nariz [να∪ριζι], lápis [∪λαπιζι]).

135
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Analisando estatisticamente a diferença observada entre a coda limite de palavra e


a coda final absoluto, os p-valores indicam que as diferenças percentuais da produção
da fricativa pós-alveolar surda:
1º – não foram significativas quando comparadas na seqüência coda fricativa
seguida de consoante surda e na coda final absoluto (p = 0,439). Isto significa dizer que
o comportamento da fricativa pós-alveolar surda nesses dois contextos é semelhante
para todas as crianças da amostra;
2º – foram significativas na comparação entre seqüência coda fricativa + consoante
sonora e coda final absoluto (p = 0,046), mostrando que o comportamento da fricativa
pós-alveolar sonora difere nesses dois contextos que foram analisados simultaneamente;
3º – também foram significativas entre a seqüência coda fricativa + vogal e a coda
final absoluto (p = 0,037), o que indica que há diferença entre a produção da alveolar
sonora no primeiro contexto e a pós-alveolar surda no segundo contexto.
Este resultado é explicado, segundo os Modelos Multirepresentacionais, a partir do
pressuposto de que as crianças abstraem as estruturas sonoras a partir da armazenagem de
itens lexicais e da freqüência com que as seqüências fonotáticas ocorrem na língua.
Assim, postula-se que a realização da coda em final absoluto utiliza o padrão mais fre-
qüente de coda – que é a surda –, já que em posição interna essa é a mais freqüente, assim
como é a realização na comunidade de fala adulta nessa posição. Já o domínio da realiza-
ção da fricativa como sonora ou alveolar, respectivamente, seguida de consoante e vogal,
parece requerer mais experiência da criança com relação essas seqüências fonotáticas.

5.3. Comparações entre as fricativas em onset e as fricativas em coda interna


Nesta seção, veremos a comparação entre o comportamento das fricativas em
posição de coda interna e, portanto, de alofones em distribuição complementar e em
variação e o comportamento das fricativas em posição de onset e, portanto, de fonemas
da língua. O gráfico abaixo confronta cada fonema – /σ/, /Σ/ e /Ζ/ – com a fricativa pós-
-alveolar surda da coda interna:

100%

80%

60%

40%

20%

0%
01;09 02;00 02;00 02;06 02;06 02;10 02;10 03;00 03;00

s Š z ž Coda interna

Gráfico 3: Comportamento da fricativa em coda interna e em onset

136
AQUISIÇÃO DA FRICATIVA EM CODA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Nota-se que o alofone em coda interna apresentou uma produção bem mais estável
do que os fonemas em posição de onset, com exceção para a fricativa /ζ/, nas crianças
de 1 ano e 9 meses e 2 anos de idade. A diferença entre as taxas de realização das
fricativas nos dois contextos comparados, no entanto, diminui consideravelmente a
partir das crianças de 2 anos e 6 meses, o que indica que o alofone pós-alveolar surdo e
os fonemas em posição de onset apresentam um comportamento semelhante nas
crianças de mais idade. Os p-valores confirmam essas observações, uma vez que, ao
compararmos as proporções dos fonemas /σ/, / Σ / e / Ζ/ com as do alofone, obtiveram-
-se números menores a 0,050 nas três primeiras crianças da amostra (0,001; 0,000;
0,004, respectivamente). Nas crianças de 2: 6, 2:10 e 3 anos de idade, entretanto, a
diferença entre as taxas de produção não foi significativa (0,945; 0,768; 0,768; 0,727;
0,300 e 0,167, respectivamente).
Ao comparar os resultados das fricativas em coda interna e em posição de onset,
verifica-se que, enquanto o alofone apresenta índices altos de realização em todas as
idades analisadas, os fonemas /s/, /Σ/ e /Ζ/ demonstram forte instabilidade de produção
nas idades iniciais, aumentando suas taxas de produção, somente, na faixa de 2 anos e 6
meses. Essa observação, portanto, revela que a fricativa em coda em distribuição
complementar parece se estabilizar primeiro que os fonemas.
Considerando a hipótese de que a aquisição lexical permite que os alofones sejam
adquiridos na base da informação distribucional, durante o período aquisitivo, os sons
previsíveis apresentariam maior estabilidade, visto que constituem parte da forma
sonora da palavra, o que explicaria a alta produção da fricativa pós-alveolar surda em
coda interna. Conforme a experiência com a língua aumenta, mais itens lexicais são
armazenados, permitindo, assim, a generalização de uma categoria fonológica. Daí
explicar o aumento da produção das fricativas em posição de onset a partir das crianças
de 2 anos e 6 meses de idade. A aquisição das fricativas em onset – fonemas da língua –
se daria a partir das conexões feitas entre as palavras armazenadas no léxico mental.

6. Considerações finais
Esses resultados diferem dos encontrados nos estudos sobre a aquisição das
fricativas em onset e coda de Sávio (2001) e Oliveira (2002). Esses estudos não levaram
em conta a frequência das seqüências fonotáticas no caso da aquisição da coda. As
diferenças entre os trabalhos podem se dever também à diferença metodológica no que
diz respeito ao levantamento de dados. A metodologia usada nesse trabalho considera
todas as ocorrências de fricativa, isto é, todas as produções realizadas pelas crianças,
sendo possível assim capturar a variabilidade. Já nos trabalhos citados, exclui-se a
variabilidade da produção quando há, pelo menos, 3 realizações de acordo com o alvo.
Trabalhos recentes sobre aquisição do português europeu também têm considerado
efeitos de freqüência e distribuição na aquisição da fonologia (Freitas, 2006; Vigário et
al., 2006)
Diversos trabalhos têm demonstrado que a distribuição de padrões sonoros na
língua ambiente tem um papel importante na aquisição da fonologia e que crianças
usam inferência estatística como fonte de informação no processo aquisitivo. Além

137
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

disso, as crianças não adquirem sons ou estruturas isoladas, mas itens lexicais em que os
segmentos e as estruturas fonológicas abstratas se realizam. Sendo assim, é compreen-
sível que as crianças tendam a reproduzir o padrão de coda surda, mesmo em contato
com consoante sonora, conforme os dados observados para a coda em final de palavra,
já que tenderiam a reproduzir um padrão recorrente para a coda medial dos itens lexicais
que vão adquirindo. O comportamento observado da produção das crianças aponta para
o fato de que a realização das fricativas, no período aquisitivo, se processa em função de
suas propriedades distribucionais. Isto é, a estabilização da coda medial antes da coda
final e das fricativas em onset se deve a sua previsibilidade como alofone vis-a-vis sua
imprevisibilidade como fonema na posição de onset.

7. Referências
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138
AQUISIÇÃO DA FRICATIVA EM CODA NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

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139
Construções de objecto indirecto preposicionais e não
preposicionais: uma abordagem generativo-constructivista 1

Ana Maria Brito2


Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Centro de Linguística da Universidade do Porto

Abstract
Starting from Morais (2006), that proposes that European Portuguese has the
Double Object Construction and an applicative construction, it is shown, developing
Gonçalves (1990), (2002) and (2004), that in this variety there is no Double Object
Construction, because the preposition a, although defective in some of its properties,
must be present in some way in the syntactic structure. As for the eventual existence in
European Portuguese of an applicative construction, it will be argued that there is a
difference between incorporated or applied datives and true argument datives. In order
to capture the dative alternation present in some languages and the existence of applied
datives, it will be adopted the generative-constructivist approach developed by
Ramchand (2008), because it allows to analyse in a adequate way the first phase syntax
of three-argument transfer verbs not only with true argument datives but also with
added datives. It will be proposed that the Indirect Object expressed by a DP is
projected in the specifier position of the lower verbal projection ResultP, which allows
to consider the dative an hybrid case, because it has properties of an inherent case and
of a structural case.

Keywords: dative, indirect object, dative alternation, generative-constructivist approach


Palavras-chave: dativo, objecto indirecto, alternância dativa, abordagem generativa-
-constructivista

1. Introdução
As construções de Objecto Indirecto (OI) ou dativas, designações que utilizarei
neste artigo de modo bastante abrangente e propositadamente impreciso, têm dado
origem a importantes análises nos estudos sobre o Português. Qualquer dos autores que
estudaram este tema (Duarte, 1987; 2003; Xavier, 1989; Gonçalves, 1990; Vilela, 1995;

1 Agradeço a Gabriela Matos, a Petra Sleeman, a Violeta Demonte e a um revisor anónimo as observações
feitas a uma primeira versão deste texto; todos os erros são da minha responsabilidade.
2 Enquanto membro do CLUP, esta investigação foi subsidiada pelo FEDER / POCTI U0022/2003.

Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,


APL, 2009, pp. 141-159
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Silva, 1999; Morais, 2006) se deram conta do carácter não homogéneo do OI, em
particular da distinção entre o estatuto obrigatório e livre, se referiram ao facto de
existirem dativos dependentes de verbos de três e de dois argumentos e de o OI poder
ter diferentes interpretações, nomeadamente de beneficiário, meta, malefactivo, origem.
Recentemente, Morais (2006) desenvolveu uma proposta original e polémica,
segundo a qual o Português Europeu (PE) teria a Construção de Duplo Objecto (CDO)
e, nessa medida, teria uma construção aplicativa. Ora é costume associar a CDO a
línguas (Inglês) e a variantes (Português de Moçambique) que têm a construção V OI
OD apresentando dois SN no caso objectivo e sem preposição e as construções
aplicativas às línguas Bantu, por terem uma forma de inserirem no verbo mais um
argumento através de um afixo especial.
O objectivo deste artigo é discutir esta aproximação e, de modo geral, repensar a
sintaxe das construções de OI ou dativas em PE numa perspectiva comparada.
O texto está organizado do seguinte modo: no ponto 2. apresenta-se a aproximação
feita na literatura entre as CDO e as construções aplicativas, o que permitirá enquadrar a
análise de Morais (2006) sobre o OI em PE; no ponto 3. discute-se se o PE tem ou não a
CDO e em 4. mostra-se que em PE existem verdadeiros OI argumentais e OI acrescen-
tados, não argumentais. No ponto 5. faz-se a apresentação do modelo de Ramchand
(2008), um modelo generativo-constructivista que permite analisar de forma satisfatória
não só a alternância dativa mas também os processos aplicativos em geral. Em 6.
apresentaremos a nossa própria análise das construções de OI. Depois de voltarmos
brevemente às construções aplicativas nas línguas Bantu no ponto 7., apresentamos em
8. a síntese do trabalho realizado.

2. A aproximação do dativo à Construção de Duplo Objecto e às construções


aplicativas
2.1. As primeiras contribuições
O Inglês comporta uma Construção de Duplo Objecto (CDO) que, como o nome
indica, é constituída por duas expressões nominais sem qualquer preposição e a que se
atribui as funções de Objecto Indirecto (OI) e de Objecto Directo (OD) (1), entrando em
alternância com uma outra com a ordem inversa e com a preposição to (2):
(1) John gave Mary a book.
(2) John gave a book to Mary.
O fenómeno da alternância dativa em Inglês e noutras línguas tem sido objecto de
diversas análises, a que voltarei mais adiante. Uma delas foi a de Baker (1988: cap. 5),
que sugeriu a existência em (1) de uma preposição “escondida” no OI, preposição essa
que, por estar adjacente ao V, se incorporaria a ele; o SN OI receberia então de V+P o
caso objectivo; o SN OD receberia também caso objectivo do V; neste mesmo texto, o
autor relaciona, pela primeira vez, que eu saiba, a CDO com as construções aplicativas
nas línguas Bantu, precisamente por estas consistirem em construções em que é
acrescentado um argumento a verbos através da incorporação de um morfema
aplicativo, por exemplo -i ou –ir, a que Baker atribui a natureza preposicional; tais

142
CONSTRUÇÕES DE OBJECTO INDIRECTO PREPOSICIONAIS E NÃO PREPOSICIONAIS

argumentos são afectados e normalmente exprimem o beneficiário, como em (3), ou o


instrumento, como em (4). Vejam-se os seguintes exemplos do Chichewa:
(3) Chitsiru chi-na-gul-ír-a atsíkána mphâtso
7-louco 7S-Pass-comprar-apl-Vf (vogal final) 2-raparigas 9-presente
O louco deu um presente às raparigas (Alsina & Mchombo, 1993, p. 18).
(4) Mavuto a-na-umb-ir-a mpeni mtsuko
Mavuto SP-passado-moldar-apl-aspecto faca jarra
Mavuto moldou a jarra com uma faca (Baker, 1988, p. 300).
Sendo assim, de acordo com Baker (1988: 286), a estrutura sintáctica do SV nas
construções aplicativas em geral (incluindo a CDO e as construções com afixos
incorporados no verbo como em Bantu) é a seguinte:
(5) VP
∕ | \
V PP NP
∕ | ∕ \
V Pi P NP
[vi]
Mais tarde, Marantz (1993: 116) levou mais longe a aproximação entre as
construções de OI e as construções aplicativas, sugerindo que o OI, por ser um
constituinte com uma diversidade de interpretações que o distingue do OD, é sempre
um argumento extra, acrescentado, aplicado a um predicado verbal. Nessa medida,
propõe uma estrutura em que o núcleo aplicativo coincide com uma projecção verbal (o
v leve), que toma o evento como seu argumento, licenciando o OI como seu
especificador e tomando-o como um participante do evento:
(6) VP
∕ \
NP V’
objecto afectado ∕ \
(e.o. beneficiário) V VP
Appl predicado que descreve
o evento que afecta o objecto
Desenvolvendo esta linha de pesquisa, Pylkkänen (2002) defendeu mais uma vez
que o Inglês e as línguas Bantu são semelhantes, na medida em que em Inglês a CDO é
um tipo de construção aplicativa; mas as línguas são diferentes, uma vez que as línguas
Bantu permitem verbos transitivos como comer (7) ou verbos inergativos como correr
(8) a aparecer na construção aplicativa com um argumento beneficiário, enquanto em
Inglês, para haver CDO, é necessário que o argumento aplicado tenha uma qualquer
relação semântica com o verbo. Os exemplos (7) e (8) são do Chaga, uma língua bantu
falada na Tanzânia (cf. Bresnan & Moshi, 1993; Marantz, 1993; Pylkkänen, 2002: 17):
(7) N-á-y-lyi-í-à mkà k-elyà
Foc-sing-pres-come-apl-vf 1-mulher 7-comida
Ele está a comer (comida) pela mulher
(8) N-á-i-zri c-i-a mbùyà
Foc-sing-pres-com-apl-vf 9-amigo
ele está a correr por um amigo

143
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Os exemplos (9) e (10) do Inglês mostram que o argumento aplicado pode usar-se
com to bake, mas não com to run:
(9) (a) I baked a cake.
(b) I baked him a cake.
(10) (a) I ran.
(b) * I ran him.
A autora propõe então que há dois tipos de línguas no que diz respeito ao núcleo
aplicativo: línguas com núcleo aplicativo alto, que denota uma relação entre o evento
descrito pelo SV e uma entidade; e línguas de núcleo aplicativo baixo, que denota uma
relação entre duas entidades (nomeadamente entre o objecto directo e o argumento
aplicado). Assim, o exemplo (7) em Chaga teria, de acordo com esta autora, a estrutura
descrita em (11) (traduzindo para Português os itens relevantes), em que o nó aplicativo
alto, correspondente ao beneficiário, se combina com o SV:
(11) … VoiceP
∕ \
Ele Voice’
∕ \
Voice ApplP (nó aplicativo alto)
∕ \
mulher Appl’
∕ \
Appl –ben VP
∕ \
comer comida
Por sua vez, o Inglês teria um núcleo aplicativo baixo, combinando duas entidades;
o exemplo (7b), que corresponde a uma CDO, teria a estrutura (12):
(12) ... VoiceP
∕ \
I Voice’
∕ \
Voice VP
∕ \
bake ApplP (nó aplicativo baixo)
∕ \
him Appl’
∕ \
Appl a cake

2.2. Morais (2006): o PE tem uma CDO e uma construção aplicativa


Este enquadramento teórico é importante para compreender a proposta de Morais
(2006) para o PE, segundo a qual o PE tem a CDO e tem uma construção aplicativa
baixa. Segundo a autora, os OI não são legitimados por um V mas sim por um núcleo
especial, que, por influência das línguas Bantu, vai chamar núcleo Aplicativo: este núcleo

144
CONSTRUÇÕES DE OBJECTO INDIRECTO PREPOSICIONAIS E NÃO PREPOSICIONAIS

relaciona o OI com o Tema, denotando uma relação dinâmica possessiva. A autora


recorda que o PE tem diversas maneiras de exprimir o OI: uma variante com o pronome
clítico dativo lhe, quer simples (13) quer redobrado (14); uma construção com o OI
imediatamente a seguir ao V (15) e outra construção em que o OI segue o OD (16):
– construção com pronome clítico dativo simples:
(13) O José enviou-lhe uma carta.
– construção com pronome clítico dativo redobrado:
(14) O José enviou-lhe uma carta a ela. 3
– construção com a ordem V OI OD, com a preposição a:
(15) O José enviou à Maria uma carta.
– construção com a ordem V OD OI, com a preposição a:
(16) O José enviou uma carta à Maria.
Segundo Morais, em (13), (14) e (15) o PE teria uma CDO, pelo facto de um OI
seguir imediatamente o V sob a forma de pronome (lhe) ou de uma expressão nominal
(à Maria), isto é, um SN marcado pelo caso dativo, que se realiza pela inserção tardia
de a. Diferentemente, em (16), estaríamos perante uma verdadeira construção preposi-
cional, em que o papel temático do SN é marcado essencialmente pela preposição 4.
Segundo a autora, na variante preposicional a leitura de transferência (meta, recipiente,
direcção) é a mais forte, embora a leitura de posse (beneficiário), que caracteriza a
variante V (a) SN+ SN, também aqui possa ser construída (Morais, 2006: 257). A partir
destes fenómenos Morais vai então propor que, quando o dativo se apresenta, quer
como um lhe quer como um a SN imediatamente a seguir ao V, a construção é uma
CDO. Como já se percebe pela apresentação anterior, para esta autora, uma CDO é o
mesmo que uma construção aplicativa, o que é logo afirmado na primeira página do
artigo. Além disso, o OI pode estar relacionado com vários papéis temáticos (meta,
recipiente, beneficiário, malefactivo, origem), o que parece reforçar o carácter
acrescentado, aplicado do OI e não o seu estatuto de verdadeiro argumento de um
verbo, diferentemente do que se passa com o argumento interno dos verbos, que está
associado a um papel temático único, o de tema ou objecto semântico. Por todas estas
razões, Morais (2006: 256) propõe uma análise muito distinta para os quatro exemplos:
(13), (14) e (15), sendo instâncias da CDO e significando transferência de posse, teriam

3 Ao contrário do Espanhol, que admite redobro com nomes próprios quer com OD quer com OI, o redobro
do clítico em PE exige um pronome pessoal forte na posição normalmente considerada primitiva do OD ou
do OI, não admitindo nomes próprios ou comuns, como evidenciam os exemplos (i) e (ii): (i) Os professores
ofereceram-lhes gelados a todos eles no dia da criança; (ii) * Os professores ofereceram-lhe gelados ao João
(Cf. Matos, 2003: 832).
4 A autora chega a colocar lado a lado à Maria e a Lisboa, como em: (i) O José enviou uma carta à Maria / a
Lisboa. Ora este paralelismo é criticável, por diversas razões: em (i) à Maria é o OI e dativo; a presença de a
Lisboa traria agramaticalidade ao exemplo, veja-se (ii) * O José enviou uma carta a Lisboa. De facto, (ii) só
seria possível se Lisboa significasse, por metonímia, o Governo ou um ministério. Com sentido de meta /
direcção, só para seria aceite: (iii) O José enviou uma carta para Lisboa. A preposição a para exprimir a
meta / direcção é possível com certos verbos de transferência e com nomes de lugar (próprios ou comuns):
(iv) O José mandou a empregada a Lisboa / ao mercado, mas neste caso a não é expressão de dativo nem de
OI, sendo uma preposição locativa que atribui caso oblíquo. Ver ainda o ponto 6. sobre o uso de para.

145
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

um nó Sintagma Aplicativo (ApplP ou SApl); em (13) e (15), a posição de especificador


dessa categoria é ocupada por à Maria / lhe:
(17) VoiceP
∕ \
DPsu Voice’
o José ∕ \
Voice vP
∕ \
v’
∕ \
envia ApplP
∕ \
DPdat Appl’
à Maria ∕ \
Appl DPobj
lhe um livro

Em (15) DP a Maria recebe caso inerente dativo na posição em que é gerado,


surgindo a preposição a como marcador de caso. Na construção de redobro do clítico,
lhe ocupa o próprio núcleo do SApl; por movimento de lhe para junto do V numa
categoria funcional superior a ordem V-lhe SN é obtida. A autora considera que neste
caso lhe redobrado é um morfema de concordância, enquanto em (13) é um argumento
do verbo (cf. p. 259). A outra construção possível é a preposicionada, com a estrutura
sintáctica indicada em (19) para o exemplo (16), aqui renumerado como (18), e com
uma leitura preferencial de transferência (cf. p. 257).
(18) O José enviou uma carta à Maria.
(19) VoiceP
∕ \
DPsuj Voice’
o José ∕ \
Voice vP
∕ \
v’
∕ \
envia ∕ \
DP tema PP
uma carta ∕ \
P DP meta/fonte/locativo
| ∕ \
a a Maria
A análise que acabámos de apresentar coloca duas questões importantes: a questão
de saber se o PE tem a CDO; outra questão, que vemos como distinta, a de saber se as
construções dativas (ou algumas delas) são construções aplicativas em PE.
Vamos discutir estas duas questões em separado.

146
CONSTRUÇÕES DE OBJECTO INDIRECTO PREPOSICIONAIS E NÃO PREPOSICIONAIS

3. O PE tem uma Construção de Duplo Objecto? 5


A ideia de que o dativo em PE é um SN marcado pelo caso dativo e que a é uma
marca de caso e não uma verdadeira preposição não é nova e é apresentada em Duarte
(1987). Com efeito, Duarte fornece vários argumentos a favor do estatuto de SN do OI,
alguns dos quais coincidem com os argumentos dados por Morais:
(i) O clítico dativo lhe(s) não pode ser associado a posições ocupadas por
complementos preposicionais; veja-se a agramaticalidade de (20a) e (21a):
(20) (a) * Pensei-lhes muito.
(b) Pensei muito neles.
(21) (a) * Discuti-lhe o problema.
(b) Discuti o problema com ela.
(ii) Enquanto pode haver coordenação de complementos nominais de preposições,
como em (22), a coordenação de OIs exige a presença de a antes de cada membro
coordenado, como mostra a agramaticalidade de (23) e (24), argumento de Vergnaud
(1974), retomado em Duarte (1987: 167):
(22) Pensei em férias e viagens a semana inteira.
(23) * O João deu um livro a Pedro e Luís.
(24) * Telefonei a um electricista e um canalizador ontem.
Morais invoca ainda o comportamento do redobro do clítico dativo, em que a
forma forte do pronome pessoal precedido de a só pode aparecer se redobrada e está
limitada ao dativo argumental, como em (25):
(25) (a) O João deu-lhe o doce a ela (e não a ele).
(b) * O João deu o doce a ela.
Isto mostra que o argumento dativo a ela, que a autora considera gerado em
posição de especificador do nó SApl, como vimos em (18), é um SN e não um SP.
Segundo a mesma autora, outro argumento a favor do estatuto de CDO com redobro do
clítico dativo é o facto de o redobro não funcionar com para:
(26) Dei-lhe um livro a ela / * para ela 6.
Estes factos pretendem revelar que, em PE, o OI que se apresenta sob a forma de a
SN é basicamente um SN. Contudo, sabemos que a presença de a é obrigatória em PE,
quer com verbos de dois argumentos internos quer com verbo de um só argumento
interno, como é bem evidenciado pelos exemplos (27) e (28), agramaticais sem a
preposição a (Gonçalves, 1990: 108-111):
(27) (a) * A rapariga pediu um disco o tio / A rapariga pediu um disco ao tio.
(b) * A rapariga pediu o tio um disco / A rapariga pediu ao tio um disco.
(28) * A rapariga telefonou um amigo. / A rapariga telefonou a um amigo.

5 Para o Espanhol, Demonte (1995) e Cuervo (2003) consideram que as construções de redobro do clítico têm
propriedades sintácticas e semânticas próximas da CDO, distintas das construções de Sprep dativo. Demonte
propõe que o clítico ocupa a posição de núcleo de DatClP, enquanto Cuervo propõe que ele ocupa o núcleo
de SAplicativo. O Português parece ser diferente do Espanhol, na medida em que o redobro do clítico é uma
construção sempre opcional e na medida em que as frases com clítico simples e redobrado e com a SN são
rigorosamente sinónimas.
6 Em PB a expressão normal do OI é para ele, para ela em vez de lhe, lhes (Morais, 2006: 260).

147
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Por isso, a preposição a é “marca de caso” do único argumento OI em (28) e um


“atribuidor de caso de um SN extra” em (27) (Gonçalves, 2002: 336). Como também
mostra Gonçalves (1990: 102), o facto de esta mesma preposição poder surgir em
redobro do clítico acusativo, como em (29a), e o facto de tal ser impossível com um OD
não humano (29b) evidencia que a não está associada necessariamente a dativo e que a
restrição mais importante é que tal preposição surja associada a SN [+humano]:
(29) (a) A Dina viu-o a ela.
(b) A Dina viu um disco voador / * A Dina viu-o a ele.
Esta diversidade de valores da preposição a leva Gonçalves (2002, 2004) a assumir
que em PE a é um item lexical defectivo caracterizado por uma certa ambiguidade.
Adoptarei esta ideia, considerando que a, não só como marca de caso mas também
como atribuidor de caso, deve estar presente de algum modo na estrutura sintáctica.
Outra razão que evidencia que o PE não é uma língua que comporte a CDO é o
facto de esta língua não exibir a passiva dativa (30), que é uma possibilidade em línguas
que têm a referida construção (31)7:
(30) * A Maria foi dada um livro (pelo João).
(31) Mary was given a book (by John).
Também o sistema casual do PE não é igual ao das línguas que têm a CDO. Como
já foi dito, o PE tem um caso dativo, expresso pelos pronomes lhe e lhes e pela
preposição a nas circunstâncias já descritas. Ora isto é muito diferente do que se passa
em Inglês, onde há atribuição de caso objectivo aos dois SN (cf. Kayne, 1984; Baker,
1988), como em (1), aqui repetido como (32):
(32) John gave MaryCaso objectivo a bookCaso objectivo
Finalmente, não há razão para analisar de maneira distinta a preposição a em (15)
e em (16). Na verdade, entre (15) e (16) há apenas uma diferença de ordem, as frases
são rigorosamente sinónimas e, por isso, a hipótese mais plausível é a de que as frases
têm o mesmo tipo de estrutura subjacente, estando relacionadas por um qualquer
movimento que “inverte” a posição dos dois constituintes.
Em síntese, o PE tem uma construção com lhe dativo a seguir ao V que lembra a
CDO; mas quando o dativo se realiza como a SN, o a tem, de algum modo, que estar
previsto na estrutura sintáctica e por essa razão o PE não tem a CDO. Voltarei ao
tratamento sintáctico das construções dativas em PE no ponto 6. Em seguida, discutirei
a outra componente da análise de Morais, a ideia de que em PE algumas construções
dativas são aplicativas.

4. O PE tem uma construção aplicativa?


Vimos em 2.1. que a aproximação das construções dativas às construções
aplicativas teve, na bibliografia sobre o assunto, duas justificações: uma, a ideia de que
a CDO resulta de uma incorporação de uma preposição no verbo, mecanismo paralelo à
incorporação de um afixo no verbo sempre que este ganha um novo argumento, como

7 O Português de Moçambique admite a CDO e admite passivas dativas, como em (i) Os jovens são dados
responsabilidades de família, um exemplo apresentado e estudado por Gonçalves (1990), (2002) e (2004).

148
CONSTRUÇÕES DE OBJECTO INDIRECTO PREPOSICIONAIS E NÃO PREPOSICIONAIS

nas línguas Bantu. Por outro lado, a noção de aplicativo surge porque o dativo, o OI,
parece ser diferente do argumento interno, do OD, relativamente à dependência que tem
em relação ao verbo e, consequentemente, à atribuição de papéis temáticos. Para alguns
autores o dativo é acrescentado, é um argumento extra.
Ora, a utilizar-se a ideia de aplicativo, esta deveria ser apenas usada para as
construções em que o dativo é não argumental. Como vamos ver em seguida, em Portu-
guês (e noutras línguas) há claramente dativos argumentais e dativos não argumentais,
que, por essa razão, se podem considerar acrescentados ao verbo, passando a ter então
alguns comportamentos comuns aos primeiros, como seja a marcação casual 8.
Tomemos alguns exemplos com verbos ditos ditransitivos (alguns são de Duarte, 2003:
289-296):
(33) O João deu um livro ao Pedro. / O João deu-lhe um livro.
(34) Os miúdos pediram uma bicicleta aos pais. / Os miúdos pediram-lhes uma
bicicleta.
(35) O pai construiu uma casa à filha. / O pai construiu-lhe uma casa.
(36) A mãe preparou o jantar à filha. / A mãe preparou-lhe o jantar.
(37) A costureira colocou as cortinas à dona da casa. / A costureira colocou-lhe as
cortinas.
(38) A mãe cortou a mesada à filha. / A mãe cortou-lhe a mesada.
(39) A Maria deu uma pintura às estantes. / A Maria deu-lhes uma pintura.
(40) Eles fizeram uma enorme limpeza às casas. / Eles fizeram-lhes uma enorme
limpeza.
O primeiro critério para distinguir os OIs diz respeito ao significado associado a cada
verbo; assim, enquanto com verbos do tipo dar, entregar, mesmo quando não têm
argumento OI expresso, é necessário interpreta-lo, com verbos como colocar, preparar,
construir, essa interpretação não é necessária embora seja em certos casos possível,
mostrando que com este segundo grupo tais constituintes não são argumentos verdadeiros
dos predicados verbais. Um segundo critério é o teste da pergunta com fazer e o
constituinte preposicional em causa: um argumento verdadeiro não participa facilmente
numa pergunta com fazer e a resposta com o V e o argumento interno não é adequada 9:
(41) * O que é que o João fez ao Pedro? Ofereceu um CD.
(42) * O que é que os miúdos fizeram aos pais? Pediram uma bicicleta.
Com verbos como colocar, preparar, construir este mesmo teste funciona em
sentido contrário, o que mostra que não estamos perante verdadeiros argumentos:
(43) O que é que o pai fez à filha? / Construiu uma casa.
(44) O que é que a mãe fez à filha? / Preparou o jantar.
(45) O que é que a costureira fez à dona da casa? / Colocou as cortinas.
(46) O que é que a mãe fez à filha? / Cortou a mesada.

8 Na bibliografia do espanhol o tema tem sido estudado por vários autores: Campos (1999: 1548) fala em
complementos “involucrados” com Vs de transferência; e complementos “não involucrados”; Ordoñez
(1999: 1906) refere-se a dativos argumentais e não argumentais e a dativos “supérfluos”, designação de A.
Bello para os dativos “ético”, “commodi”, “incommodi” (cf. também Demonte, 1995).
9 Para o Espanhol, Ordóñez (1999: 1884).

149
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Um terceiro critério é dado pelas nominalizações: se a nominalização é um


processo sintáctico, como é defendido pela Morfologia Distribuída, prevê-se que só os
argumentos OI verdadeiros, dependentes da raiz verbal, sejam adequados 10; assim, os
exemplos em (47) a (51) são gramaticais, sendo os exemplos (52) a (54) menos
aceitáveis:
(47) A dádiva da casa à filha
(48) A venda de armas ao Equador
(49) A entrega de computadores às escolas básicas
(50) A doação dos livros à biblioteca
(51) O roubo da bicicleta ao Pedro
(52) ? A construção da casa à filha deu algum burburinho na família.
(53) ? A preparação da refeição à filha foi providencial.
(54) ? A colocação das cortinas à dona da casa facilitou imenso a decoração.
Com verbos leves como fazer e dar este argumento não funciona, visto que o
complemento a+SN é seleccionado pelo próprio N deverbal, embora haja um processo
de combinação de grelhas argumentais entre o verbo leve e o referido nome (ver Duarte,
Miguel e Gonçalves, 2005 para uma proposta formal sobre esta combinação):
(55) (Dar) aquela pintura às paredes só trouxe problemas.
(56) (Fazer) a limpeza às paredes foi fundamental.
Em síntese, parece possível fazer a seguinte distinção: (i) São verdadeiros
argumentos os OI com Verbos de transferência física e mental, como dar, oferecer,
doar, mandar, enviar, comunicar, dizer, recomendar, entregar, prometer, vender,
comprar, etc.; tais OI recebem tipicamente a interpretação de beneficiário, meta,
origem. À conhecida ambiguidade com comprar voltarei adiante. (ii) Não são
verdadeiros argumentos os OI com verbos como pôr, colocar, construir, preparar,
cortar, ou com dar, fazer como Vs leves 11. Contudo, mesmo os verbos do segundo
grupo podem surgir com dativo; defenderei, pois, que, no segundo grupo de verbos, os
OI são acrescentados 12. De qualquer modo, ambos se comportam do mesmo modo
relativamente à atribuição de caso dativo e, portanto, a atribuição deste caso não pode
ser vista apenas como resultado de uma propriedade lexical, inerente, dos verbos. Como
veremos mais adiante, o dativo, tendo propriedades de caso inerente, tem também
propriedades de caso estrutural, atribuído numa dada configuração, sendo por isso um
caso “híbrido” (cf. no mesmo sentido Cuervo, 2003, para o Espanhol).

5. Um tratamento generativo-construtivista das construções de OI


A análise a propor há-de ser capaz de descrever não só os dativos argumentais
como os acrescentados, a chamada alternância dativa nas línguas que a comportam e as
construções aplicativas nas línguas Bantu.

10 Para o Espanhol, Ordóñez (1999: 1885), Campos (1999: 1550), Pujalte (2008: 142-3).
11 Para o Espanhol, Campos (1999: 1548), Ordóñez (1999: 1876).
12 Ver Demonte (1995), Pujalte (2008) para o Espanhol.

150
CONSTRUÇÕES DE OBJECTO INDIRECTO PREPOSICIONAIS E NÃO PREPOSICIONAIS

Partindo do Inglês, Larson (1988) argumentou a favor de uma análise


transformacional da alternância dativa, propondo que a CDO é obtida por uma espécie
de “passiva” do dativo. Baker (1988), como vimos, Pesetzky (1995), Harley (2002),
entre outros, propuseram uma análise basicamente engendrada das duas construções,
partindo das diferenças semânticas notadas para o Inglês por Oehrle (1976). Todos
propõem que nas duas construções da alternância dativa há preposições, uma preposição
plena na construção preposicional e uma preposição nula na CDO.
Mais recentemente, no quadro de um modelo generativo-constructivista,
Ramchand (2002) analisou de novo a alternância dativa. O modelo é inspirado em
Larson (1988), Hale e Keyser (1993), Kratzer (1994), Harley (2002), estando baseado
nos seguintes pressupostos: (i) não há um nível de estrutura argumental dos predicados
descrito no Léxico, com indicação dos papéis temáticos atribuídos a cada argumento;
(ii) os papéis temáticos clássicos são substituídos por informações de tipo interpretativo
mais pobres, derivadas das posições de especificador e de complemento de várias
categorias funcionais verbais; (iii) no caso dos verbos de transferência que estamos a
analisar, a sintaxe da parte verbal (a “first phase syntax”) consiste em várias categorias
funcionais, de natureza aspectual, que representam os subeventos envolvidos no evento
descrito: InitP (Initiation Phrase), ProcP (Process Phrase) e ResP (Result Phrase), que
correspondem grosso modo às categorias usadas por outros autores 13; (iv) a categoria
InitP representa a origem, a causa do evento, e o SN que ocupa a posição de
especificador dessa categoria, “o sujeito da causa”, projectar-se-á como sujeito frásico e
receberá caso Nominativo; o subevento ProcP é o “coração” de qualquer predicado
dinâmico e, como tal, está presente na estrutura sintáctica dos verbos aqui analisados,
recebendo um argumento em posição de especificador que é o “sujeito do processo”, o
“Undergoer”, o tema; ResP só existe quando há um resultado explicitamente expresso
pelo predicado lexical, o que mais uma vez acontece com estes verbos por exprimirem
uma relação dinâmica de posse ou de transferência, como vimos; o “sujeito do
resultado” representa a entidade que detém o estado resultante, o “resultee” 14. No caso
específico da chamada alternância dativa em Inglês, as variantes não são tratadas nem
derivacionalmente 15 nem no Léxico 16. Não se aceita o tratamento derivacional porque
as duas construções não são sinónimas, como é geralmente assumido: a CDO tem a
interpretação de transmissão de posse, a construção com to tem essencialmente uma
leitura de meta, de transferência17. Não se aceita um tratamento lexicalista, porque nesse

13 Alexiadou (2008) usa VoiceP, vP e RootP (VP). A razão que me leva a não adoptar aqui este modelo é
porque ele não permite dar conta dos fenómenos aplicativos em geral, a não ser através do uso do nó
Aplicativo, muito comum na Morfologia Distribuída.
14 Neste modelo, a ideia é a de que nas propriedades semânticas lexicais dos verbos de transferência de posse
aqui analisados há sempre uma componente resultativa (Ramchand 2008:102), independentemente de a
noção de culminação ou estado resultante poder ser negada, por uma inferência semântica ou pragmática
(conforme os verbos): (i) O José enviou um livro à Maria mas ela não o recebeu.
15 Contra Larson (1988).
16 Contra Levin e Rappaport Hovav (2002).
17 Pesetsky (1995) propõe igualmente que as duas construções têm estruturas distintas, não sendo derivadas
uma da outra e que a diferença de interpretação resulta da semântica das duas preposições, to e nula. Na
CDO a meta é seleccionada directamente pelo V, enquanto na construção com to, a selecção de meta é

151
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

caso a alteração da forma da estrutura argumental seria descrita através de duas entradas
lexicais diferentes do verbo. A ideia é, pois, a de que há mais do que uma estrutura
sintáctica, mais do que uma construção que é consistente com o conteúdo enciclopédico
dos verbos em questão (Ramchand, 2002: 38), sendo este aspecto muito importante para
se entender muito da análise proposta. Exemplificando: o V to give envolveria três
subeventos: um nível de início, um nível de processo e um nível de resultado. Cito a
autora a propósito da ideia de resultativo: “give contém um traço resultativo na sua
entrada lexical uma vez que dá origem a um verbo pontual com um resultado definido;
assumo que a preposição direccional to em Inglês é especial uma vez que contém um
traço resultativo na sua entrada lexical. Devido a esta “underassociation”, give pode
combinar-se com to, satisfazendo o traço de resultado de give por concordância e
unificação.” (p. 102). São as seguintes as estruturas apresentadas por Ramchand (2008:
102-103) para a “primeira fase verbal” correspondente às duas construções disponíveis
em Inglês da alternância dativa com o verbo to give 18:
– Construção dativa preposicional:

(57) Alex gave the ball to Ariel.


initP
∕ \
Alex init’
∕ \
init procP
give ∕ \
the ball proc’
∕ \
proc resP
<give> ∕ \
<the ball> res’
∕ \
res PP
to ∕ \
P Ariel
<to>

indirecta. Afastando-se nalguns aspectos de Pesetzky, Fiéis e Pratas (2006) desenvolvem uma análise não
derivacional da alternância dativa em Crioulo de Cabo Verde marcada pela ideia de que a construção com
a CDO não comporta qualquer preposição e de que existe uma construção preposicional com pa que não é
sinónima da CDO, significando propósito.
18 Como Ramchand (2008: 103) afirma, a sua análise aproxima-se das análises de Oehrle (1976), Pesetzky
(1995) e Harley (2002), uma vez que as estruturas predicacionais das duas variantes são consideradas
distintas e por partilhar com elas a ideia de um núcleo possessivo abstracto na CDO. Mas a análise difere
das anteriores por obedecer a uma decomposição verbal maior e ainda pelo facto de na construção
preposicional ser a preposição a identificar o resultado e na CDO ser o verbo.

152
CONSTRUÇÕES DE OBJECTO INDIRECTO PREPOSICIONAIS E NÃO PREPOSICIONAIS

– Construção de duplo objecto (CDO):


(58) Alex gave Ariel the ball.
initP
∕ \
Alex init’
∕ \
init procP
give ∕ \
proc’
∕ \
proc resP
<give> ∕ \
Ariel res’
∕ \
res PP
<give> ∕ \
P have the ball
Na construção com preposição explícita, to atribui Caso (objectivo) ao seu
complemento; a preposição está associada a transferência e a localização. No caso da
CDO, o núcleo do SP é uma preposição nula, associada à semântica da posse, tendo a
expressão na posição de especificador de Res a interpretação de “holder” (possuidor).
Ramchand (2008) é pouco clara no que diz respeito ao modo como é atribuído caso ao
primeiro SN na CDO19. Mas uma coisa é crucial: na variante com a preposição nula,
não é tal posição ou categoria a atribuir caso por si só, pois, se assim fosse, nada
impediria que certas frases sem preposições, com verbos como obedecer / desobedecer,
por exemplo, fossem gramaticais, como já Kayne (1984) tinha mostrado; ver (59):
(59) * As crianças obecederam / desobedeceram o pai.
Por isso, do ponto de vista da atribuição casual, é necessário dizer, como em
Kayne (1984), que a atribuição de caso se faz pela preposição nula por intermédio do
verbo, ou então, como em Baker (1988), Gonçalves (1990) para o Português de
Moçambique, Fiéis e Pratas (2006) para o Crioulo de Cabo Verde, que uma preposição
nula se incorpora ao verbo e o resultado V+P atribui caso objectivo ao primeiro SN,
explicando a CDO (ver ainda o ponto 2. deste texto). Adoptando o modelo de
Ramchand (2008), a atribuição de caso (objectivo) ao primeiro SN explica-se propondo
que há uma projecção verbal que tem como seu complemento um SP com uma
preposição nula associada à semântica de posse e que tal projecção verbal adquire
propriedades preposicionais, legitimando caso na posição de especificador.
6. A sintaxe das construções de Objecto Indirecto em PE
Depois desta apresentação do modelo de Ramchand, voltemos a nossa atenção
para as várias construções dativas em PE. Vimos no ponto 2.2. que o PE apresenta

19 Na versão de 2002 do seu livro, Ramchand chega mesmo a afirmar que [na CDO], “o núcleo preposicional
é necessário (i) para atribuir caso estrutural (...)”. No livro de 2008, não há menção da atribuição de caso
pela preposição nula.

153
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

diversidade de construções de OI, ilustrada nos exemplos (13) a (16), que aqui
adaptamos e renumeramos como (60) a (63):
– construção com pronome clítico dativo simples:
(60) O José enviou-lhe uma carta.
– construção com pronome clítico dativo redobrado:
(61) O José enviou-lhe uma carta a ela.
– construção a ordem V OI OD, com a preposição a:
(62) O José enviou à Maria uma carta.
– construção com a ordem V OD OI:
(63) O José enviou uma carta à Maria.
Combinando propostas de Ramchand e de Morais, aceitarei que os constituintes a
SN que servem de dativos (verdadeiros ou acrescentados) de verbos como enviar, dar,
mas também de colocar, preparar, cozinhar, se projectam em posições de especificador
de uma projecção verbal baixa. Recorde-se que a é uma preposição defectiva e por isso
não é problemático a projecção de a SN na posição de especificador de uma projecção
verbal, tipicamente ocupada por expressões nominais. Morais (2006) considera que a
Maria junto ao V é gerado como especificador do núcleo Apl; aqui proponho que a SN
é projectado em especificador da projecção verbal Res e que o caso dativo combina
propriedades de caso inerente a propriedades de caso estrutural, visto ser legitimado
pela relação especificador-núcleo verbal.
Os mecanismos de acordo e de unificação que essa relação permite explicam a
atribuição de caso dativo a argumentos OI verdadeiros e a OI acrescentados, assim como a
legitimação de uma interpretação de tipo “holder”, que abrange as leituras de beneficiário
e de origem. A estrutura (64) dá conta da primeira fase verbal dos exemplos (62) e (63) 20:
(64) initP
∕ \
o José init’
∕ \
init procP
envia ∕ \
o livro proc’
∕ \
proc resP
<envia> ∕ \
(a) Maria res’
|
res
<envia>

20 Nas línguas sem CDO, em que o OI é marcado com preposição e pode surgir em posição pré e pós OD,
continua a ser motivo de discussão qual a posição dos dois constituintes; no quadro de Larson (1988), em
Inglês, que tem alternância dativa, o OD ocupa uma posição superior ao OI preposicional; na CDO o OI
acaba por ocupar uma posição acima do OD, por movimento. No quadro da Morfologia Distribuída e em
geral nos quadros mais comuns em Sintaxe Generativa, o OD, sendo o argumento interno do V, ocupa a
posição mais encaixada, em VP ou RootP.

154
CONSTRUÇÕES DE OBJECTO INDIRECTO PREPOSICIONAIS E NÃO PREPOSICIONAIS

A estrutura (64) gera a ordem não marcada V OD OI (como em (63); para explicar
a ordem marcada V OI OD (como em (62)), opera um movimento por “scrambling”: as
duas construções obtidas são rigorosamente sinónimas, só diferindo no aspecto
informacional.
Quando o dativo se exprime pelo clítico lhe, quer simples quer redobrado, a
solução é bem mais complicada. Demonte (1995), para o Espanhol, que tem redobro de
clítico de modo muito mais produtivo do que o Português e com consequências
semânticas, propõe que o clítico ocupa a posição de núcleo de DClP (Dative Clitic
Phrase) e a DP a posição de especificador dessa categoria. Morais (2006), na sequência
de Cuervo (2003) para o Espanhol, propõe que lhe é projectado como núcleo do nó Apl
e que (a) ela ocupa a posição de Esp de Apl; por movimento do clítico para junto do V,
a ordem V-lhe a ela seria gerada. Esta proposta parece discutível, já que o núcleo
funcional Apl é proposto para dar conta do carácter aplicado, acrescentado e portanto
especial do OI. Ora o redobro do clítico dá-se também com o OD em PE.
Não temos uma solução para o clítico dativo no quadro do tratamento adoptado.
Importa, no entanto, realçar que no redobro do clítico (o José enviou-lhe uma carta a
ela) há formação de uma cadeia e um só papel temático é atribuído; lhe parece ser
marca de concordância, como aliás sugerido por Morais, havendo partilha de traços
entre lhe e (a) ela.
A estrutura (64) permite analisar ainda a posição de para SN com certos verbos.
Sabemos que com um V como comprar, há ambiguidade na interpretação do OI,
podendo este ser origem (65) ou beneficiário (66):
(65) O João comprou um livro ao vendedor (ao vendedor=origem) / O João
comprou-lhe um livro.
(66) O João comprou um livro à filha (à filha=beneficiário) / O João comprou-lhe
um livro.
Para desambiguar e tornar clara a interpretação de beneficiário, o Português pode
recorrer à preposição para, que tanto pode aparecer isolada, como em (67) como pode
combinar-se com a origem, como em (68):
(67) O João comprou um livro para a filha.
(68) O João comprou um livro à vendedora para a filha.
Colocam-se assim várias questões: uma é saber qual é a grelha argumental do
verbo comprar, outra qual a posição ocupada pelos dois constituintes. Analisando o
Espanhol do Rio de la Plata, Pujalte (2008: 145), considera que a nominalização
correspondente a este verbo, la compra, seguida de um constituinte em a, como em
(69a), só tem interpretação de origem:
(69) (a) la compra de libros a los libreros
(b) la compra de libros a los libreros para los estudiantes
concluindo então que o beneficiário não deve estar previsto na estrutura argumental de
comprar; quando o beneficiário está isolado com este tipo de verbo, não combinado
com a origem, pode ser expresso pela preposição a, como no exemplo em Português
(66), mas é apenas um dativo acrescentado; quando está combinado com a origem, o
beneficiário é expresso pela preposição para. Mas o SPrep para a Maria não é,
claramente, nem OI nem dativo. No tratamento que adopto, o OI, em qualquer das

155
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

interpretações exemplificadas em (65) e (66), seria projectado na posição de


especificador de ResP, embora com a interpretação de origem seja um OI verdadeiro e
com a interpretação de beneficiário um OI acrescentado. De qualquer modo, a estrutura
tem uma outra posição possível, a de complemento de Res, onde o SP para a Maria,
com uma preposição plena como núcleo e exprimindo beneficiário ou meta, pode ser
projectado, como em (67). É esta mesma posição que ocupa quando co-ocorre com a
origem, como em (68).

7. Voltando à noção de construção aplicativa


Vimos que a noção de OI abrange não só verdadeiros argumentos como
argumentos acrescentados. Num modelo de sintaxe baseado na ideia de que a estrutura é
apenas a projecção das estruturas argumentais dos verbos, com os papéis temáticos
correspondentes, o estatuto acrescentado dos dativos seria difícil de descrever, a não ser
utilizando o nó Aplicativo, como nas propostas de Pylkkänen para o Inglês, Cuervo e
Pujalte para o Espanhol e Morais para o PE, como vimos acima. Num modelo
generativo-constructivista do Léxico como o de Ramchand (2008), a distinção entre um
dativo argumental e um dativo acrescentado torna-se menos importante do que num
modelo baseado totalmente na ideia de projecção de papéis temáticos; parece, pois, que
um tratamento deste tipo vai ao encontro da ideia de incorporação, acrescentamento ou
aplicação de dativos. Para Ramchand (2008: 105), o núcleo aplicativo baixo que
Pylkkänen propõe para a CDO em línguas como o Inglês corresponde a uma projecção
verbal baixa, o núcleo resultativo com valor de posse.
Vimos também que as línguas Bantu têm construções aplicativas com um afixo
aplicativo incorporado no verbo. Neste caso há visivelmente um núcleo aplicativo alto.
Ramchand (2008: 105-6) assume que a análise de Pylkkänen não é adequada para estas
línguas, porque se o nó aplicativo se relaciona com o evento como um todo, ele deveria
estar mais alto do que a posição abaixo de voiceP que é adoptada na representação (11).
Por isso, a autora propõe que, nesse tipo de línguas, o núcleo aplicativo deve ser gerado
numa posição mais alta, talvez acima de initP. Sabendo, por outro lado, que a forma
verbal obtida nestas línguas comporta igualmente afixos de tempo e aspecto, é crucial
propor que quando o movimento do V opera para T, já se deu a incorporação V+afixo
aplicativo alto.

8. Síntese e conclusões
Neste texto procurei apresentar uma descrição das construções de OI / dativas em
PE numa perspectiva de Sintaxe Comparada. O ponto de partida foi o tratamento de
Morais (2006) sobre o mesmo tema, em que é proposto que o PE tem a construção de
duplo objecto (CDO) e tem, por isso, uma construção aplicativa. Mostrámos que, apesar
de o OI expresso por a SN ter uma natureza que o aproxima de um SN, o PE não tem a
CDO, visto ter que realizar sempre a preposição a e por não ter passivas dativas. Por
essa razão, desenvolvendo a ideia de Gonçalves (1990), (2002) e (2004) acerca da
natureza defectiva de a, considerámos que a tem sempre de estar presente de algum

156
CONSTRUÇÕES DE OBJECTO INDIRECTO PREPOSICIONAIS E NÃO PREPOSICIONAIS

modo na estrutura sintáctica. Além da construção com a, o PE tem uma construção


dativa com clítico que lembra a CDO, na medida em que não comporta qualquer
preposição, mas isso não justifica a afirmação de que o PE tenha a CDO. Discutindo em
seguida a outra componente da proposta de Morais (2006), a existência de construções
aplicativas em PE, vimos existirem razões para distinguir os OI verdadeiros dos OI
acrescentados.
De modo a dar conta quer da sintaxe dos dois tipos de OI e da alternância dativa,
adoptámos o modelo de Ramchand (2008), que propõe uma abordagem generativo-
-constructivista da relação Léxico-Sintaxe. Neste modelo, a “first-phase syntax” dos
verbos de transferência aqui analisados contém três categorias funcionais aspectuais; em
particular, a categoria verbal ResP tem como complemento um SP que tem como núcleo
uma preposição, foneticamente realizada ou nula. Deste modo, a existência da CDO
surge associada à possibilidade, em certas línguas, de uma projecção verbal que tem
como complemento um SP e que, por isso, adquire propriedades preposicionais, além de
estar ligada à semântica de posse.
O PE, embora tenha diversas possibilidades de expressão do OI, não tem
propriamente alternância dativa; propusemos que a SN ocupa a posição de especificador
da projecção Res; nestas circunstâncias, o dativo parece misturar propriedades de caso
inerente e de caso estrutural, porque é atribuído numa dada configuração e numa relação
especificador-núcleo. Na construção preposicional com para existe uma preposição
plena e o SP (que, em PE, não é nem dativo nem OI) ocupa a posição de complemento
de Res.
O modelo adoptado permite também analisar as línguas que contêm construções
aplicativas altas com afixos incorporados no verbo, como as línguas Bantu.

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158
CONSTRUÇÕES DE OBJECTO INDIRECTO PREPOSICIONAIS E NÃO PREPOSICIONAIS

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Universidade Nova de Lisboa.

159
Mudanças em curso no português brasileiro:
contrastando duas comunidades

Dinah Callou e Erica Almeida


Universidade Federal do Rio de Janeiro

Abstract
This paper discusses four linguistic processes in two urban centers (Salvador and Rio
de Janeiro – standard dialect), based on samples recorded in two different periods of time,
the 70’s and the 90’s, for a short term real time study. The results for all constructions
reveal age-group differentiation: in younger groups the innovative variants are almost
categorical. The processes show the same structural and extralinguistic constraints, but are
evolving along different paths. Our hypothesis is that the explanation for the patterns of
distribution relies on the socio-history of the communities, their demographic
characteristics, and the identifying power of the dialect.
Keywords: variation, change, standard dialect, morphological processes
Palavras-chave: variação, mudança, fala culta, processos morfológicos

Introdução
Neste trabalho, observa-se, na fala culta de dois grandes centros urbanos do Brasil,
a trajetória de quatro processos lingüísticos 1: o uso variável de ter e haver em estruturas
existenciais, como nos exemplos (1) e (1’); a substituição do futuro morfológico simples
pelo futuro perifrástico, como nos exemplos (2) e (2’); o uso variável de nós/a gente –
exemplos (3) e (3’) -–, além da substituição do modo subjuntivo pelo indicativo, até
mesmo em contextos em que a tradição gramatical restringe o uso específico àquele
modo, como nos exemplos (4), (4’), (5) e (5’).
(1) Há muitos livros na mesa
(1’) Tem muitos livros na mesa
(2) Ela cantará na festa
(2’) Ela vai cantar na festa
(3) Nós nos divertimos muito
(3’) A gente se divertiu muito
(4) Talvez eu vá à festa
(4’)Talvez eu vou à festa
(5) Embora o argentino viva dizendo que ... está na miséria
(5’) Embora o argentino vive dizendo que ... está na miséria

1 Tomam-se por base estudos já realizados, quer pelos autores quer por seus orientandos de Mestrado e
Doutorado.

Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,


APL, 2009, pp. 161-168
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Foram utilizadas quatro amostras relativas a duas cidades brasileiras, Salvador (na
região Nordeste) e Rio de Janeiro (na região Sudeste), registradas em dois períodos
distintos de tempo, década de 70 e década de 90, para possibilitar um estudo de
mudança em tempo real de curta duração, um estudo de tendência, nos moldes de Labov
(1994). Todas as amostras são da fala culta e estão distribuídas por gênero (masculino e
feminino) e faixa etária (25-35; 36-55 e 56 em diante). No que se refere ao português
brasileiro, os dados foram extraídos dos corpora do Projeto de Estudo da norma
lingüística urbana culta (www.letras.ufrj.br/nurc-rj) e, no que se refere ao português
europeu, do Projeto VARPORT (www.letras.ufrj.br/varport).
Se consultarmos um mapa geral do Brasil, pode-se observar que os pontos
analisados não correspondem a uma área contínua, nem sequer a uma mesma região.

1. Análise dos dados


Os resultados da análise variacionista de dois tipos de construção revelam
diferenciação por faixa etária, sendo a variante inovadora (ter-existencial e futuro
perifrástico) quase categórica, nos jovens. Ambos os processos, embora apresentem os
mesmos condicionamentos estruturais e extralingüísticos nas duas cidades, evoluem de
forma distinta. Em Salvador, no que tange ao uso do ter-existencial, a implementação
foi mais rápida (74% já na década de 70 e 86% na década de 90), enquanto, no Rio de
Janeiro (Callou & Avelar, 2000), a freqüência de uso não ultrapassa 63% nos anos 70 e
chega a 76% nos anos 90. Esses percentuais indicam que a freqüência de uso no Rio de
Janeiro, na década de 90, é equivalente à freqüência de uso em Salvador na década de
70 (Figuras 1 e 2 – dados retirados de Martins & Callou, 2002).

déc. 90 déc. 70

14% 26%
ter ter
haver
haver
86% 74%

Figura 1 – Fala culta de Salvador nas décadas de 70 e 90

déc. 70 déc. 90

24%
37%
ter ter
haver haver
63%
76%

Figura 2 – Fala culta do Rio de Janeiro nas décadas de 70 e 90

162
MUDANÇAS EM CURSO NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Foi possível ainda constatar que as mulheres utilizam mais o verbo ter que os
homens, no Rio de Janeiro, mas não em Salvador, conforme ilustra a Figura 3, talvez
porque, nesse caso, não se esteja diante de uma mudança em progresso e sim de
variação estável.

63%
70% 60%

60%
47%

50%
34%
40%
RJ
30% SSA

20%

10%

0%
homem mulher

Figura 3 – Uso de ter-existencial em homens e mulheres nas duas cidades

Por outro lado, Salvador apresenta uso mais restrito da forma de futuro
perifrástico, na década de 70, que o Rio de Janeiro – que já se encontrava em estágio
mais avançado – mas evidencia aumento de índice percentual significativo, de uma
década para a outra: 65%  99%. No Rio de Janeiro, pode-se dizer que há relativa
estabilidade, 89%  95%, confirmando a hipótese de que um processo em estágio mais
avançado de mudança progride mais lentamente em suas etapas finais (dados retirados
de Oliveira, 2006 – Figura 4).

futuro perifrástico futuro perifrástico

120% 100% 95%


99%
100%
80% 89%
80%

60% 60%
65%
40%
40%
20%

0% 20%
SSA 70 SSA 90 RJ 70 RJ 90

Figura 4 – Uso do futuro perifrástico nas duas cidades, nas duas décadas

De um ponto de vista estritamente lingüístico, as formas inovadoras – ter-


-existencial e forma perifrástica de futuro – na década de 90, espraiam-se, na língua
falada, por novos contextos (verbo não necessariamente no tempo passado, para o ter-
-existencial, e, futuro não necessariamente próximo, para a forma perifrástica), embora,
na escrita, predominem ainda as formas mais conservadoras, tanto numa comunidade
quanto na outra.

163
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Além disso, análise preliminar detectou que nem sempre se observa a mesma
evolução nas duas variedades continentais da língua portuguesa: ora PB se aproxima de
PE, ora se afasta. Destaca-se o caso das construções existenciais, em que o português
europeu ainda mantém a forma padrão com haver-existencial, em oposição à
implementação de uso do futuro perifrástico, em substituição à forma simples, que
segue caminho semelhante ao do português brasileiro e já estava documentado no
português antigo (Mattos e Silva, 2008).
Outros processos em curso no português brasileiro, como os da substituição (i) do
pronome nós por a gente e (ii) das formas do modo subjuntivo pelas do indicativo, vêm
mostrando também comportamentos diferenciados, em sua origem, mas semelhantes
nas freqüências de uso, a partir da década de 90 do século XX.
Na década de 70, a freqüência de uso de a gente no Rio de Janeiro e em Salvador
(Figura 5) é praticamente idêntica: diferença apenas de 5 pontos percentuais (dados
retirados de Lopes, 1993).

RJ - década de 70 SSA - década de 70

42% 37%
nós nós
a gente a gente
58%
63%

Figura 5 – Uso de nós e a gente (década de 70) no Rio de Janeiro e em Salvador

Embora a forma predominante, sem levar em conta a variável faixa etária, seja
nós, é digna de nota a preferência, entre os jovens, já na década de 70, notadamente em
Salvador, pela forma mais inovadora, a gente, como se pode observar nas Figuras 6 e 7.

SSA a gente RJ a gente


nós
nós
15%

33%

85% 67%

Figura 6 – Uso de a gente na primeira faixa etária (25-35), em Salvador


e no Rio de Janeiro (década de 70)

Na década de 90, o percentual de uso de a gente já atinge, na primeira faixa etária,


97% em Salvador e 92% no Rio de Janeiro (Figura 7).

164
MUDANÇAS EM CURSO NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

100% 97%
92%
85%
80%

60% 67%
RJ
40% SSA

20%

0%
década 70 década 90

Figura 7 – Uso de a gente na primeira faixa etária (25-35),


no Rio de Janeiro e em Salvador (décadas de 70 e 90)

Em termos absolutos, há um aumento significativo da freqüência de uso nas duas


cidades: no Rio de Janeiro, de 42% para 75% e, em Salvador, de 37% para 78%, como
se pode verificar na Tabela 1, comprovando a mudança, já evidenciada na preferência
dos jovens pela forma a gente (cf. Figuras 6 e 7).

Uso de a gente SSA RJ


Década de 70 37% 42%
Década de 90 78% 75%

Tabela 1 – Percentual de uso de a gente nas duas cidades, nas duas décadas

O português europeu apresenta percentual baixo de a gente (5%), na fala culta,


com indício de retração da regra, em tempo aparente e em tempo real, já que os jovens
são os que menos usam (2%), e, no espaço de 20 anos, apresente redução não relevante
de ocorrência (3%): 7% para 4%.
No que se refere ao modo subjuntivo, o uso é mais ou menos freqüente a depender
do tipo de subordinada. As concessivas (exemplos 5 e 5’) apresentam o maior índice de
uso e as relativas o menor índice (Figura 8).
No que se refere ao modo subjuntivo, o uso é mais ou menos freqüente a depender
do tipo de subordinada. As concessivas (exemplos 5 e 5’) apresentam o maior índice de
uso e as relativas o menor índice (Figura 8).
conc. cond. compl. relativa

100% 85%
76%

50%

11% 9%

0%

Figura 8 – Distribuição de uso do modo subjuntivo em subordinadas adverbiais


(condicionais e concessivas), completivas e relativas.

165
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

No Brasil, se observarmos a distribuição pelas cidades e pelas décadas, levando


em conta, a título de exemplificação, apenas as completivas (exemplos (6) a (8), a
seguir), em que parece atuar o valor semântico-lexical do verbo da matriz, é possível
concluir que Salvador e Rio de Janeiro seguem caminhos opostos.
(6) A mãe de Maria não quer que ela vá/vai
(7) Parece que nenhuma influência tenha/tem
(8) Eu acho que eu esteja/estou muito jovem
Enquanto, em Salvador, o uso do subjuntivo se reduz à metade, de uma década
para a outra, no Rio de Janeiro, aumenta 4 pontos percentuais (Figuras 9 e 10), mesmo
em contextos não previsíveis.

20%

16%
15%

10%
8%
5%

0%
SSA 70 SSA 90

Figura 9 – Uso do subjuntivo em orações completivas,


nas décadas de 70 e 90, em Salvador

20%

15%
13%
10%
9%
5%

0%
RJ 70 RJ 90

Figura 10 – Uso do subjuntivo em orações completivas,


nas décadas de 70 e 90, no Rio de Janeiro.

No português europeu, o percentual de ocorrência do subjuntivo em orações


completivas é um pouco maior que no português do Brasil (17%), mas existe a mesma
tendência em reduzir seu uso de uma década (19%) para a outra (13%), a julgar pelos
dados analisados (169 estruturas completivas – cf. exemplos 11 e 12), que mostram uma
variação estável, com ápice de uso na faixa de 36 a 55 anos (22%).
(9) Eu também acho que isso pode/possa acontecer
(10) Confiei que efectivamente havia/houvesse

166
MUDANÇAS EM CURSO NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Conclusão
Nossa hipótese é a de que esses padrões de distribuição poderiam ser explicados
pela sócio-história das comunidades, suas características demográficas e o poder
identificador do dialeto. A cidade de Salvador apresentava, na década de 70, uma
população alfabetizada estimada em 64% e só nos últimos 30 anos, graças a constante
migração interna e externa, duplicou sua população residente (de um milhão para dois
milhões de habitantes) e quase triplicou a população migrante. Ao menos tempo, o
índice da população alfabetizada chega a 70%.
Por outro lado, a cidade do Rio de Janeiro, antiga capital do país, por quase 200
anos (de 1763 a 1960), considerada centro irradiador de cultura, já era a segunda maior
cidade brasileira com mais de quatro milhões de habitantes àquela época (o primeiro
conjunto de dados foi gravado entre 1971 e 1978), com uma população alfabetizada de
mais de três milhões, equivalente a 77% dos habitantes, percentual bastante
significativo no cenário nacional. Além disso, o fluxo de migrantes já tinha diminuído,
ao contrário do que ocorreu nas cidades do Nordeste.
Além disso, é necessário lembrar que houve uma mudança no quadro percentual
da população urbana e rural, mudança essa que não ocorreu ao mesmo tempo em todo o
país. O fenômeno teve início na Região Sudeste, na década de 50 e somente atingiu as
outras regiões – e não da mesma forma – na década de 70.
A Tabela 2 a seguir apresenta dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística) que confirmam as características das duas cidades nas décadas examinadas.
Como se vê, os resultados dos censos estatísticos fornecem um quadro do país e podem
ser considerados a principal fonte de informações para a análise e o conhecimento sobre
a realidade nacional.

Dados demográficos Salvador Rio de Janeiro

Censo 70 Censo 91 Censo 70 Censo 91


5.480.772
População residente 1.007.195 2.075.272 4.251.918

1.517.232
População imigrada 297.584 646.821 1.800.822

4.255.625
População alfabetizada 650.679 1.467.593 3.283.600

0,580
IDH – Municipal 0,793 0,702 0,808

0,800
IDH – Educação 0,639 0,758 0,707

0,800 0,965
IDH – Renda 0,952 0,940

Tabela 2 – Dados demográficos das duas cidades, nas duas décadas

É possível concluir, assim, que, na década de 70, havia ainda uma diferença

167
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

dialetal entre os dois centros urbanos, mas, de uma década para a outra, houve uma
convergência de usos, com base nos índices de desenvolvimento de Salvador.
Conforme foi ressaltado por Weinreich (1963) e outros, dialetos mutuamente
intelegíveis repercutem uns sobre os outros em situação de contato e, freqüentemente,
quando falantes de diferentes variedades da mesma língua são postos em contato e
convergem: itens – e, por extensão, usos – podem ser transferidos de uma variedade
para a outra.
Este estudo demonstra que é necessário considerar uma gama de fatores
lingüísticos e extralingüísticos na busca de explicações para a variação e mudança de
fenômenos morfossintáticos em comunidades distintas de fala.

Referências
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existenciais: variação e mudança no português do Brasil. Gragoatá 9, pp. 85-114.
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Mattos e Silva, Rosa Virgínia (2008) O português arcaico. Uma aproximação. Lisboa:
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Fontes de dados:
www.letras.ufrj.br/nurc-rj
www.letras.ufrj.br/varport

168
Extraposição de orações relativas: uma abordagem comparativa
entre o português antigo e o português actual

Adriana Cardoso ∗
Centro de Linguística da Universidade de Lisboa

Abstract
The goals of this paper are twofold: a) to compare, in Old and Contemporary
Portuguese, the properties of extraposed relative clauses; b) to provide an explanation
for the observed contrasts. The strong theoretical claim is that there is no unified
account of extraposition to be offered across languages. The paper provides evidence in
favor of the hypothesis that, from a diachronic point of view, different syntactic
analyses seem to be necessary to explain the changes affecting extraposition of relative
clauses in different stages of the same language.

Keywords: extraposition, appositive relatives, restrictive relatives, head raising,


specifying coordination
Palavras-chave: extraposição, relativas apositivas, relativas restritivas, elevação do
núcleo, coordenação especificante

1. Introdução
‘Extraposição’ é um termo utilizado na literatura, quer numa perspectiva pré-
-teórica ou descritiva, referindo a não adjacência entre duas partes de uma construção,
quer numa perspectiva teoricamente mais comprometida, referindo um tipo específico
de movimento sintáctico. Trata-se de um mecanismo que não afecta apenas orações
relativas, mas um vasto leque de constituintes, nomeadamente: membros coordenados,
orações consecutivas, aposições, orações comparativas, sintagmas preposicionais e
orações completivas (De Vries, 2002: 236-237).
Neste trabalho, utilizo a designação extraposição de orações relativas numa
perspectiva pré-teórica para caracterizar os contextos em que não existe adjacência entre
a oração relativa e o seu antecedente, ocorrendo entre ambos material lexical da matriz,
tal como se observa no esquema em (1):

(1) [ ... [antecedente] ... OR...]

∗ Este trabalho foi desenvolvido no âmbito da Bolsa de Doutoramento atribuída pela Fundação para a Ciência
e a Tecnologia (SFRH/BD/22475/2005). Agradeço os comentários e sugestões de Ana Maria Martins,
Ernestina Carrilho e Susana Pereira. Os erros e imprecisões são da minha inteira responsabilidade.

Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,


APL, 2009, pp. 169-184
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Tendo em conta estes pressupostos, a presente comunicação tem por objectivos:


– descrever as propriedades da extraposição de orações relativas no Português
Europeu Contemporâneo (PEC) e no Português Antigo (PA) (século XIII-1a
metade do século XVI) 1;
– apresentar uma hipótese explicativa para dar conta das diferenças observadas
entre os dois períodos da história do português.

2. Extraposição de orações relativas no PEC


2.1. Extraposição de orações relativas restritivas
Como se sabe, em PEC, regista-se habitualmente adjacência entre a oração relativa
e o seu antecedente. Por essa razão, Brito & Duarte (2003: 661) referem que as orações
relativas restritivas não podem ser facilmente extrapostas:

(2) a. Uma pessoa que tu conheces telefonou.


b. Telefonou uma pessoa que tu conheces.
c. *Uma pessoa telefonou que tu conheces.
(Brito & Duarte, 2003: 661)

Contudo, apesar de existirem restrições quanto à possibilidade de extraposição de


orações relativas restritivas no PEC, existem alguns contextos que a legitimam, como
(3)-(5):

(3) Ainda por cima, dá-se conta de que as obras não têm licença camarária e faz
diligências na Câmara das Caldas da Rainha que levam ao seu embargo
(CETEMPúblico -Primeiro milhão)
(4) Encontrei uma pessoa ontem que não via há muito tempo.
(http://coisasbelasesujas.blogspot. com/2004_09_01_ archive.html )
(5) Houve alguém no meio da noite que decidiu agarrar uma cana que
supostamente seria do Aranha (...)
(http://www.pescador.com.pt/livre/ viewtopic.php?f= 9&t=1772)

Nos exemplos em (3)-(5), a adjacência entre a relativa restritiva e o seu


antecedente é interrompida pela ocorrência de um modificador do VP (com valor

1 Neste trabalho, para simplificar a apresentação e discussão dos dados, adopto a designação Português
Antigo para me referir ao período compreendido entre o século XIII e 1 a metade do século XVI. Tal opção
justifica-se pelo facto de, para a análise do fenómeno em causa, o contraste relevante ser entre os séculos
XIII-XVI e o Português Contemporâneo, não se estabelecendo desta forma contraste entre diferentes fases
daquele período. Contudo, por uma questão de rigor, urge referir que a delimitação temporal bifásica (fase
antiga ou arcaica vs fase moderna) proposta por alguns representantes da filologia tradicional (como Leite
Vasconcelos e Said Ali) não é retomada por autores mais recentes. Assim, autores como Pilar Vázquez
Cuesta, Lindley Cintra, Evanildo Bechara propõem uma subperiodização do período compreendido entre o
século XIII e a primeira metade do século XVI, com diferentes designações: galego-português / português
pré-clássico (Cuesta); português antigo / português médio (Cintra); fase arcaica / fase arcaica média
(Bechara) (cf. Maia, 1995).

170
EXTRAPOSIÇÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS

locativo, em (3), e com valor temporal em (4) e (5)) e, como tal, estamos perante casos
de extraposição de relativas restritivas.
A questão que se coloca é: Como explicar o contraste entre a agramaticalidade de
(2c) e a boa formação de (3)-(5)? Uma hipótese seria a de considerar que a extraposição
é sensível à função sintáctica desempenhada pelo antecedente. Neste caso, poder-se-ia
adoptar a seguinte generalização, proposta por Smits (1998: 407): em PEC a
extraposição de relativas restritivas é possível a partir de constituintes com função
gramatical de objecto directo (cf. (3)-(5)), mas não a partir de constituintes com função
gramatical de sujeito (cf. (2)).
Contudo, os exemplos em (6)-(7) mostram que esta generalização não é válida, na
medida em que, por um lado, nem todos os antecedentes com função de objecto directo
permitem a extraposição (cf. (6)), e, por outro lado, porque, contrariamente ao que é
proposto em Smits (1988: 407), a extraposição de relativas restritivas é possível a partir
de constituintes que desempenham a função de sujeito (cf. (7)):

(6) * Encontrei a pessoa ontem que estava à tua procura.


(7) De repente apareceu um indivíduo na reunião que parecia saído de um filme
de terror. (adaptado de Brucart, 1999: 465)

Assim, no que diz respeito à extraposição a partir da posição de objecto directo, o


PEC parece funcionar como o Castelhano (cf. Brucart, 1999: 465), exibindo a seguinte
restrição: a extraposição a partir da posição de objecto só é possível a partir de
antecedentes indefinidos 2. Observem-se os seguintes contrastes 3:

(8) a. Ofereci um livro à Ana que foi escrito por mim.


b. * Ofereci o livro à Ana que foi escrito por mim.
(9) a. Encontrei uma pessoa ontem que estava à tua procura.
b. * Encontrei a pessoa ontem que estava à tua procura.

2 É de notar contudo que os sintagmas nominais indefinidos não se limitam aos sintagmas nominais que
exibem artigo indefinido. Para além destes, existem: (i) expressões plurais indefinidas sem determinante
explícito (Duarte & Oliveira, 2003: 230, nota 47); (ii) expressões plurais indefinidas determinadas
quantitativamente (Duarte & Oliveira, 2003: 229) e (iii) sintagmas nominais com quantificadores indefinidos
(que correspondem, em parte, à classificação tradicional de pronomes indefinidos, cf. Brito, 2003: 360 e
López, 1999: 1036ss). O que é interessante destacar é que os diferentes tipos de sintagmas nominais
indefinidos acima mencionados podem ocorrer como antecedentes de relativas extrapostas (cf. para (i) o
exemplo (3); para (ii) o exemplo (15) e para (iii) o exemplo (5)). Ainda que, por limitações de espaço, não
possa desenvolver este assunto, não queria deixar de referir que os sintagmas nominais indefinidos acima
mencionados correspondem precisamente aos que podem ocorrer em construções existenciais com haver
(em que se observa o efeito de definitude). Como tal, podem ser classificados globalmente como sintagmas
nominais fracos, de acordo com a proposta de Milsark (1977).
3 Como é referido por Oliveira (1998), as relativas introduzidas pelo artigo indefinido um são muitas vezes
ambíguas, podendo ter uma leitura apositiva ou restritiva. Essa ambiguidade pode ser resolvida quer pelo
contexto, quer pelo conhecimento extra-linguístico. A título de exemplo, considerem-se os casos
apresentados em (8) e (9). Em (8), um contexto adequado para a leitura restritiva seria: Ofereci à Ana um
livro que foi escrito por mim e outro que foi escrito por James Joyce. Em (9), embora a leitura apositiva seja
possível, a leitura restritiva é a mais natural, na medida em que, dado o conhecimento que temos do mundo,
é pouco natural que o enunciador encontre uma só pessoa durante um dia inteiro.

171
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Os contrastes exibidos em (8)-(9) parecem desta forma invalidar a generalização


proposta por Smits (1988: 407), segundo a qual a propriedade de definitude do
antecedente não influencia as possibilidades de extraposição em PEC.
Por fim, é de notar que, embora seja possível a extraposição a partir do objecto
directo, esta não parece ser possível a partir do argumento interno preposicionado do
verbo:

(10) *Concorreram a uma câmara muitos professores que fica no distrito de


Bragança.
(11) *O João candidatou-se a uma câmara nesse ano que fica no distrito de
Bragança.

No que diz respeito à extraposição a partir da posição de sujeito, o PEC também


parece funcionar como o Castelhano (Brucart, 1999: 465), exibindo as seguintes
restrições: (i) o sujeito deve ocorrer em posição pós-verbal (cf. Barbosa, 2009) e (ii)
deve ser indefinido, como se pode observar nos contrastes em (12)-(13):

(12) a. Ontem explodiu uma bomba em Israel que causou 5 mortos.


b. * Uma bomba explodiu ontem em Israel que causou 5 mortos.
c. * Ontem explodiu a bomba em Israel que causou 5 mortos.
(13) a. Chegou um senhor ontem que fez muitas perguntas sobre ti.
b. * Um senhor chegou ontem que fez muitas perguntas sobre ti.
c. *Chegou o senhor ontem que fez muitas perguntas sobre ti.

Nestes exemplos, a extraposição ocorre a partir de sujeitos de verbos inacusativos:


o verbo explodir (cf. (12)) é um verbo inacusativo que denota evento com causa interna
e o verbo chegar (cf. (13)) é um verbo inacusativo de movimento (cf. Duarte, 2003b). A
possibilidade de ocorrência de relativas extrapostas estende-se a outras construções da
designada família das construções inacusativas (Duarte, 2003b: 507ss), nomeadamente
a frases passivas e a frases copulativas, como em (14) e (15):

(14) Foi capturado um indivíduo esta noite que é responsável pelo assalto ao BPN.
(15) Estavam duas pessoas ontem na manifestação que deviam trabalhar para o
sindicato.

A extraposição de orações relativas parece ser também possível a partir do sujeito


de verbos inergativos (cf. (16)) e a partir do sujeito de verbos transitivos indirectos
(cf. (17)), não sendo porém possível a partir do sujeito de verbos transitivos directos
(cf. (18)) nem a partir do sujeito de verbos ditransitivos (cf. (19)).

(16) Telefonou um rapaz ontem que queria informações sobre a tua casa.
(17) Candidatou-se um rapaz à Câmara de Loures que é filho de um vereador.

(18) a. * Comeu um rapaz as maçãs que estava sentado ao lado da Maria.


b. * Comeu as maçãs um rapaz ontem que estava sentado ao lado da Maria.

172
EXTRAPOSIÇÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS

(19) a. * Deu um rapaz um livro à Maria que trabalha com ela.


b. * Deu um livro à Maria um rapaz ontem que trabalha com ela.
c. * Deu à Maria um livro um rapaz ontem que trabalha com ela.

Por fim, se considerarmos a estrutura informacional destas construções, é possível


formular uma generalização suplementar: a extraposição a partir da posição de sujeito
parece ocorrer apenas em frases apresentativas (ou apresentações, por contraste com
predicações, cf. Duarte, 2003a: 318; Guéron, 1980).
Desta forma, e tendo em conta a estrutura informacional destas construções, pode
colocar-se a seguinte hipótese: se assumirmos que a posição ocupada pela relativa
extraposta é uma posição proeminente do ponto de vista discursivo (cf. Brucart, 1999:
465; Costa, 2004: 414-415), sendo a relativa interpretada como foco informacional por
se encontrar na posição mais à direita (Costa, 1998), então a relativa só pode ocorrer
extraposta se o seu antecedente também for parte integrante do foco (Guéron, 1980)4.

2.2. Extraposição de orações relativas apositivas


Brito (2004: 402) refere que as orações relativas apositivas em PEC são sempre
deslocadas com o seu antecedente, facto que explica a impossibilidade de serem
extrapostas:

(20) a. Vi o João, que é o meu amigo preferido.


b. O João, que é o meu amigo preferido, foi visto por mim.
c. *O João foi visto por mim, que é o meu amigo preferido.
(Brito, 2004: 402)

Também Smits (1988: 182) refere que em PEC as relativas apositivas não podem
ser extrapostas:

(21) a. *A Isabel diz que está frio, que se queixa sempre.


b. *Vi a Isabel ontem no comboio, que se queixa sempre.
(adaptado de Smits, 1988: 407)

Contudo, esta generalização não parece poder aplicar-se a todas as relativas


apositivas. Brito (1991: 132) refere que em PEC há possibilidade de extraposição de
relativas apositivas, em sequências como (22):

4 Ainda que, por limitação de espaço, não seja possível desenvolver este tópico, é de referir que esta restrição,
que designarei como conflito interpretativo, pode explicar o facto de o antecedente da relativa não poder
ocorrer como tópico marcado:
(i) a. Pessoas que não tinham bilhete, apareceram às centenas.
b. * Pessoas, apareceram às centenas que não tinham bilhete
Por contraste, e aparentemente respeitando o conflito interpretativo acima mencionado, a extraposição é
possível não apenas quando o antecedente é interpretado como foco informacional, mas também quando
ocorre como foco contrastivo anteposto (cf. (i)) ou foco interrogativo (cf. (ii)).
(ii) a. Só um homem apareceu que servia para o cargo.
b. Quantas pessoas apareceram que não foram convidadas?

173
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(22) Só a firma X não aderiu, para a qual o projecto de fabricação não parecia
apresentar grandes benefícios. (Brito, 1991: 132)

Peres & Móia (1995: 367) apresentam alguns excertos de textos jornalísticos que
também atestam a possibilidade de extraposição de relativas apositivas:

(23) Mais de um milhão de pessoas devem concentrar-se nas ruas para ver o
cortejo passar, que terminará no mausoléu de Musashi Ryobochi, nos
subúrbios a oeste de Tóquio.
(Europeu, 09/01/1989, p. 12, apud Peres & Móia, 1995: 367)
(24) O texto principal da prova era da autoria do escritor Miguel Torga, sobre o
qual os alunos tinham de responder a seis perguntas de “compreensão”.
(Expresso, apud Peres & Móia, 1995: 367)
(25) Todos os 115 passageiros do voo Nova Iorque-Denver foram evacuados, dos
quais 29 sofreram ferimentos sem gravidade (...)
(Público, 04/03/1994, p. 20, apud Peres & Móia, 1995: 367)

A propósito destes dados, os autores referem que: “(...) a estranheza das


construções resulta de a oração relativa explicativa nelas existente não estar colocada
junto do seu antecedente, o que parece ser uma situação muito excepcional em
português” (Peres & Móia, 1995: 366). Segundo a análise que propõem, o afastamento
entre relativa e antecedente é dificultado quando este tem determinação definida, como
demonstra o contraste em (26):

(26) a. * Ofereci este livro à Ana, que tem lindas fotografias de igrejas românicas.
b. Ofereci um livro à Ana, que tem lindas fotografias de igrejas românicas.
(Peres & Móia, 1995: 366)

Existe no entanto alguma variação no juízo dos falantes relativamente à


extraposição de relativas apositivas. Assim, para alguns falantes, as frases (22)-(25) são
agramaticais, enquanto outros falantes consideram que a extraposição de apositivas é
mais aceitável quando a relativa é introduzida pelo relativo o qual do que quando é
introduzida pelo relativo que (considerando, como tal, que (24) e (25) são gramaticais).
Para os falantes que admitem a extraposição de orações apositivas introduzidas por o
qual, a extraposição não obedece ao requisito de definitude acima mencionado, facto
que explica a boa formação das frases em (27):

(27) a. O carro despistou-se, projectando o passageiro pelo ar, o qual foi embater
contra um poste.
b. O carro despistou-se, projectando um passageiro pelo ar, o qual foi embater
contra um poste.
(adaptado de Peres & Móia, 1995: 367)

Mais investigação será contudo necessária neste domínio, para sistematizar e


explicar a variação observada nos juízos dos falantes relativamente a esta questão.

174
EXTRAPOSIÇÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS

3. Extraposição de orações relativas no PA

3.1. Corpus
O corpus considerado neste estudo é constituído por textos não literários
(documentos notariais) dos séculos XIII a XVI (1ª metade), editados por Martins (1994,
2001)5. Neste corpus foram identificadas 332 relativas extrapostas, que constituem a
base empírica para a análise apresentada neste estudo 6.

3.2. Diferenças entre a extraposição no PA e no PEC


A extraposição de orações relativas no PA distingue-se da extraposição de
relativas no PEC sobretudo pelos seguintes aspectos: (i) extraposição de relativas
apositivas; (ii) função sintáctica do antecedente; (iii) posição do antecedente; (iv)
determinação do antecedente; (v) tipo e número de constituintes interpolados; (vi)
posição das relativas extrapostas; (vii) extraposição em constituintes estruturalmente
mais baixos; (viii) co-ocorrência de constituintes extrapostos.
Nas próximas secções apresenta-se uma breve caracterização de cada um destes
aspectos.

3.2.1. Extraposição de relativas apositivas


Como já foi referido, os juízos dos falantes não são muito claros quanto à
possibilidade de extraposição de relativas apositivas no PEC. Por contraste, no PA,
tanto as relativas restritivas (cf. (28)) como as apositivas (cf. (29)) podem ser
extrapostas:

(28) E mãdo e Rogo Ao Abade dõ meendo e A meu padre que se Algẽ A eles veer
que diga que llj́ eu Alguna cousa diuía que nõ sei[a] escripto en Esta mãda ou
que llj́ ffilley ou Roubey Alguna cousa que Aqueles que o disseren que ffaçã A
uerdade (Martins, 1994 – CHP006 1275)
(29) e assy depos morte da dicta dona Gyralda fficou o dicto herdamento ao dicto
Moesteyro de suso nomeado. o qual herdamento est assy como os manios
Çinquaenta astíís (Martins, 1994 – CHP047 1294)

5 Os textos editados em Martins (1994) são aqui transcritos de acordo com a versão integrada no Corpus
Informatizado do Português Medieval (CIPM), disponível em http://cipm.fcsh.unl.pt, sendo identificados
pela sigla CHP. Neste estudo são ainda analisados os textos que foram introduzidos na edição de Martins
(2001), que são identificados pela sigla DPNRL. Para facilitar a leitura dos exemplos, foram eliminados os
parêntesis curvos que assinalam o desenvolvimento de abreviaturas na edição do CIPM e foram colocados
os acentos e til sobre as vogais correspondentes.
6 Os morfemas relativos que introduzem relativas extrapostas no corpus são: que, qui (N), o qual (N), qual,
onde, cujo e o que. Contudo, a sua distribuição não é homogénea: 50% das orações extrapostas são
introduzidas por o qual (N), 47% são introduzidas por que e apenas 3% são introduzidas pelos restantes
morfemas relativos.

175
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

É de registar que no corpus em análise as relativas apositivas ocorrem extrapostas


com muito mais frequência do que as restritivas, correspondendo as apositivas a 90% do
total de relativas extrapostas.

3.2.2. Função sintáctica do antecedente


Ao contrário do que se observou para o PEC, no PA a extraposição de relativas
restritivas pode ocorrer a partir de argumentos preposicionados do verbo, como em
(30)-(31):

(30) E asi por outros bẽes no dito stromento contheudos. que fora scripto e notado
per mjm tabaliam aos vijnte sete dias do mes de Janeiro (Martins, 1994 –
CHP180 1448)
(31) e que lho nõ ẽbargaua nẽ queria enbargar e logo lhj abríu de todo mão que
sseu era (Martins, 1994 – CHP087 1339)

O mesmo se observa para as relativas apositivas extrapostas, que podem ter como
antecedente sintagmas preposicionais com função sintáctica de objecto indirecto
(cf. (32)), complemento oblíquo (cf. (33)) e modificador do sintagma verbal (cf. (34)):

(32) e de tras Emtesta o Eixido que perteeçe aas dictas cassas com A rrua de
ffellgeiras as quaaes cassas dezia o dicto vaasco gonçallvez Autor que trazia
de ssua Maao Joham gonçallvez Priol que ffoy do Momsteiro de villarinho
(Martins, 1994 – CHP107 1397)
(33) que este emprazamento valha e se cumpra como se nesta carta contem haa
quaL dou minha auctoridade ordinaria com Interposyção de degredo;
(Martins,1994 – CHP200 1538)
(34) este stromẽto e outro taL per mã́ã́ o do dito meu scriuã ffiz screuer e cada hũ u
do meu signaL asignééy que taL he: (Martins, 1994 – CHP126 1345)

O antecedente de relativas apositivas pode ainda ocorrer em domínios mais


encaixados, nomeadamente integrado em sintagmas preposicionais modificadores e
complementos do nome, como em (35)-(36):

(35) os quaes posam penhorar e Mandar penhorar por todos seus derreitos e
Rendas que lhes por derreito deuam perteeçcer em quaesquer bẽes dos ditos
enprazadores honde quer que achados fforem os quaes nam terã poder de
tolher o dito penhor (Martins, 1994 – CHP167 1499)
(36) o dito prioll mandara fazer vedoria do dito casall per homẽs bõos no quall
casall açharam e apegaram as pertemças segujmtes,, (Martins, 1994 –
CHP199 1534)

176
EXTRAPOSIÇÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS

3.2.3. Posição do antecedente


No PEC, as relativas restritivas extrapostas têm de ocorrer com sujeito pós-verbal.
No PA, essa restrição não se aplica, podendo o sujeito ser pré-verbal (cf. (37)) ou pós-
-verbal (cf. (38)).

(37) Si aliquis uenerit que mea mãda cõtradiga ou nõ outorge sit maledictus in
totus tẽpus (Martins, 2001 – DPNRL004 1243)
(38) item Junto das casas do casall do souto deste casall sta hũa llata ante a porta
que dara hũs anos pollos outros çinquo allmudes de vinho (Martins, 1994 –
CHP198 1528)

No PA, as orações apositivas extrapostas também podem ter sujeitos pré-verbais


(cf. (39)) e pós-verbais (cf. (40)):

(39) item o campo de sob a eira do rrego pera baixo tem quatro pereiras que
leuara de semeadura trres allqueires de çenteo (Martins, 1994-CHP198 1528)
(40) os quaaes lhe entregou hy perante mjm e testemunhas o díto Jossepe
negreiro,, em nome do dito gonçalo vaz conprador,, que disse que lhos
mandara entregar,, (Martins, 1994 – CHP189 1483)

3.2.4. Determinação do antecedente


No PEC, o antecedente sujeito e o antecedente objecto das relativas restritivas
extrapostas deve ser indefinido. Tal requisito não se aplica no PA, como se ilustra,
respectivamente, em (41) e (42):

(41) E quando me apresentarõ a vedoria foi nella posto hu termo pelo espriuão da
camara que he o seguinte, aos doze dias de Janeiro de mill e quinhemtos e
quoremta e çimquo anos (Martins, 1994 – CHP202 1545)
(42) E pera todalas cousas e cada hũa delas ffaser que uerdadeyro e líjdemo
procurador pode e deue ffaser E que eu faria se per mha pessõa presente
ffosse. (Martins, 1994 – CHP114 1317)

Nas relativas apositivas, o requisito de definitude também não se aplica:

(43) e ao leuante cõ camjnho de paradela e cõ outras confrontações cõ que de


dereito os ditos bẽes deuẽ departir,; os quaees elas ditas donas ẽnouam e
enprazam nouamente aa dicta antonja correa (Martins, 1994 – CHP206
1520)
(44) e en testemoyo de uerdade o meu sinal en ele pugi que tal est (Martins, 1994 –
CHP019 1287)

177
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

3.2.5. Tipo e número de constituintes interpolados


Uma das características mais surpreendentes da extraposição no PA, quando
comparada com a extraposição no PEC, diz respeito ao tipo e número de constituintes
que podem ocorrer entre o antecedente e a oração relativa (constituintes interpolados).
Algumas das possibilidades de combinação atestadas são apresentadas no Quadro 1.

1 const. interpolado 2 const. interpolados 3 ou + const. interpolados


V V+SP SP+V+SP
SP V+SP Adv+V+SP
SN SP+SN Adv+cl+V
orações coordenadas SP+SP SP+SP+SP
orações subordinadas Adv+V or. coord+or. coord+ or.
coord.+or. coord.
fragmentos textuais cl+V SP+V+oração coordenada
Quadro 1 – Constituintes interpolados (listagem não exaustiva)

Assim, enquanto nos exemplos analisados para o PEC o constituinte interpolado é


tipicamente um sintagma preposicional ou adverbial modificador do sintagma verbal, no
PA encontramos um vasto leque de constituintes interpolados. Apresentam-se de
seguida alguns exemplos, respectivamente, de oração coordenada interpolada (cf. (45)),
de oração subordinada interpolada (cf. (46)) e de fragmento textual interpolado (cf.
(47)).

(45) E o dicto domĩgos andre por Sí e polas dictas pessoas assj reçebeu en Si o
dicto emprazamẽto. E o dicto procurador lho outorgou Ao qual emprazamẽto
o dicto dom Pedro deu sua Autoridade (Martins, 1994 – CHP093 1356)
(46) E o dicto Jujz lhe Mandou per tres ou quatro vezes Ao dicto Nicollaao stevez
Almuxriffj que veesse com os dictos Autores A que sse assy chamaua o qual
Nicollaao stevez veo Ao prestumeiro termo com vaasco affomso (Martins,
1994 – CHP107 1397)
(47) E que elle dicto antone ãnes E sua molher E perssoa despos elles sse nõ
possam chamar a outro senhorío saluo aa dicta sua Igreía Nem vender alhear
nẽ escanbar nẽ tresmudar O dicto enprazamẽto nẽ parte delle ssem líçença E
auctoridade da dicta sua Igreía E abade que aaquelle tenpo for della cuJa a
propriedade E senhorío E sse o uender qujserẽ que ho ffaçam ssaber ao abade
da dicta Igreía sse quer tanto por tanto E nom ho querendo que entã ho
uendam a tall perssoa que nom sseJa de mayor condíçam que elles E que
conpram as condiçõees deste prazo E que sse obrígẽ a Responder per esta
Igreía do porto O quall antone ãnes Em sseu nome E da dicta sua molher E
perssoa despos elles em ssy Reçebeo o dicto enprazamẽto (Martins, 1994 –
CHP161 1472)

178
EXTRAPOSIÇÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS

3.2.6. Posição das relativas extrapostas


No corpus analisado, as relativas extrapostas nem sempre se posicionam à direita,
tendo entre si e o antecedente todo o material lexical da matriz. Observe-se o contraste
entre (48) e (49):

(48) e esta carta com mha mãão propria screuj, e meu sinal em ela pugi em
testemoyo de uerdade que tal e. (Martins, 1994 – CHP043 1291)
(49) este stromẽto da dita doaçõ escreuy e meu ssinaL aqui ffíz que taL he En
Testemonho de uerdade% (Martins, 1994 – CHP122 1339)

Em (48), entre o antecedente e a oração relativa ocorrem três elementos interpo-


lados (o complemento oblíquo em ela, a forma verbal pugi e o modificador do sintagma
verbal em testemoyo de uerdade), posicionando-se a oração relativa na posição mais à
direita da frase. Por contraste, em (49), ocorrem dois constituintes interpolados (o
advérbio aqui e a forma verbal ffíz), mas a oração relativa não se posiciona na posição
mais à direita, uma vez que é seguida pelo modificador do sintagma verbal En
Testemonho de uerdade.

3.2.7. Extraposição em constituintes estruturalmente mais baixos


No corpus analisado, a oração relativa extraposta ocorre, por vezes, não na posição
mais à direita da frase, mas na posição mais à direita de constituintes mais baixos na
estrutura. Nestes casos, parece haver extraposição em constituintes sintagmáticos, como
no sintagma nominal e no sintagma verbal. Considere-se o seguinte exemplo:

(50) E outorgarõ que daqui Em deante o dito Martjm Afomso nẽ A dita sua molher
nẽ pessoa, Contheudos no estromẽto do dito Enprazamẽto que depos elles ha
de víjr , nõ Aía de dar Aa dita Alda lourẽço nẽ Ao dito Moesteíro, nẽhua
Coussa (Martins, 1994 – CHP144 1391)

Em (50), ocorre uma oração participial interpolada entre o antecedente e a oração


relativa restritiva. Esta oração relativa tem como antecedente pessoa, que é um dos
termos de um sintagma nominal coordenado. A particularidade desta construção
consiste no facto de a oração participial interpolada, que modifica todo o sintagma
nominal coordenado, preceder a relativa, que modifica apenas um dos membros
coordenados.
Também ao nível do sintagma preposicional parece ser possível a extraposição de
orações relativas. Considere-se o exemplo em (51):

(51) E nõ pagãdo os ditos dinheiros ao ditos tempos como dito he . que des cada
hũu dos ditos tempos en deante que a dita paga nõ ffezer; ao dito conuẽto
page toda perda e dano e custa que per esta rrazõ rreçeber (Martins, 1994 –
CHP126 1345)

179
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Em (51) ocorre uma estrutura de delimitação temporal de tipo correlativo com a


estrutura: ‘de X em diante’. A particularidade desta construção reside no facto de a
relativa que modifica o sintagma nominal integrado no complemento da preposição des
ocorrer a seguir ao constituinte en deante, parecendo desta forma ocorrer na periferia
direita do sintagma preposicional.

3.2.8. Co-ocorrência de constituintes extrapostos


No corpus considerado, as relativas extrapostas também podem ocorrer empi-
lhadas, como se ilustra em (52):

(52) damos e outorgamos A uos Abráám filho de Isáác lõgo e a uossa molher dõna
Mayor en escambho hũa nossa vỹa por outra uossa. a qual vʏ̃a nos Avemos
en termho de Lixbõa en logo que e chamado val das donas. da qual vỹa estes
sõ os termhos. (Martins, 1994 – CHP065 1299)

Para além da co-ocorrência de relativas em extraposição, ocorrem também


sequências que envolvem a extraposição de sintagmas preposicionais e de relativas,
como em (53):

(53) E se Alguẽ ueer assj dos uossos prouĩcos como dos stranhos que este uosso
ffeito quiser demãdar quanto a uos demãdarẽ tanto a uos ẽ dobro cõprã
(Martins, 1994 – CHP118 1328)

4. Para uma análise da extraposição no PA e no PEC


Ainda que as propriedades da extraposição de orações relativas acima
mencionadas mereça uma análise e reflexão mais aprofundada, a realizar em trabalho
futuro, os dados analisados até ao momento permitem desde já formular algumas
hipóteses explicativas para dar conta do contraste observado entre o PA e o PEC.
Em primeiro lugar, os dados analisados parecem sugerir que existem dois tipos de
relativas apositivas no PA: orações apositivas introduzidas pelo relativo que vs orações
apositivas introduzidas pelo relativo o qual (cf. Cinque, 2008). As relativas apositivas
introduzidas por que têm a mesma sintaxe que as relativas restritivas, enquanto as
relativas apositivas introduzidas por o qual têm uma estrutura sintáctica diferente. Para
as relativas restritivas e apositivas introduzidas por que proponho uma análise por
elevação do núcleo (Kayne, 1994; Bianchi, 1999), ilustrada esquematicamente em (54):

(54) [D [SComp [SDrel NP [Drel tSN]]i ... ti...]]

Para as relativas apositivas introduzidas por o qual, adopto uma análise por
coordenação especificante (De Vries, 2006), esquematizada em (55):

(55) [Sconj [SD antecedente] &: [SD [D N+D] [SComp [SDrel [SN tn] Drel tSN] … tSDrel …]] ]

180
EXTRAPOSIÇÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS

A atribuição de estruturas sintácticas diferenciadas às relativas introduzidas por


que e o qual permite dar conta dos seguintes contrastes:

(i) possibilidade de ocorrência de núcleo interno nas relativas apositivas introduzidas


por o qual (cf. (56)) vs impossibildade de ocorrência de núcleo interno nas apositivas
introduzidas por que (Cardoso, 2008);

(56) [Sconj [SD o casal] &: [SD D [Scomp [SDrel [Drel o qual] [SN casal]] … tSDrel …]] ]

(ii) possibilidade de ausência de identidade entre o núcleo interno e o antecedente nas


relativas apositivas introduzidas por o qual (Cardoso, 2008);

(57) mostrarõ logo ẽ Jujzo húú testamẽto feito per máoo de Giralde steuez tabaliõ de
Gujmarães e do seu signal Assjnada na qual mãda fazía mẽçom Antre as outras
coussas que A mãdara fazer Sancha gíl. (Martins, 1994 – CHP082 1328)

(iii) possibilidade de as relativas introduzidas por o qual serem precedidas pela


conjunção e (cf. 58).

(58) custumarõ dauer e ouuerom no dicto Monsteiro bõa raçom e mãtijmẽto. de


pam aluo boroa. carne e vĩho e o qual mãtijmẽto os Priores que pelo tempo
fforã no dicto Monsteiro auiã e som theudos de dar ao dicto conuẽto.
(Martins, 1994 – CHP095 1364).

(iv) possibilidade de as relativas introduzidas por o qual terem antecedente frásico


(cf. (59)) vs impossibilidade de as relativas apositivas introduzidas por que terem
antecedente frásico.

(59) nom declarar que os ditos cassaaes fforõ cõprados dos dinheiros do dito
mosteiro polla quall Razom de derejto perteçem e perteçyam ao dito mosteiro
(Martins, 1994 – CHP155 1437)

No que diz respeito à extraposição de orações relativas, proponho que não existe
uma configuração sintáctica única que derive todos os contextos de extraposição. Pelo
contrário, a estrutura sintáctica que gera a extraposição depende do tipo de oração
relativa envolvida. Assim, a extraposição das restritivas e das apositivas introduzidas
por que é derivada por stranding (Kayne, 1994), de acordo com a representação
esquemática apresentada em (60):

(60) ... antecedentei ... [ti OR]

Pelo contrário, as relativas apositivas introduzidas por o qual são geradas na base
numa posição extraposta (cf. esquema em (61)). Mais especificamente, a relativa
extraposta integrará o segundo membro de uma estrutura de coordenação especificante
que poderá estar ligado a diferentes níveis de projecção (Koster, 2000; De Vries, 2002).

181
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(61) .... [antecedente] .... OR

A assunção de que diferentes estruturas sintácticas geram a extraposição de


orações relativas no PA permite explicar os seguintes contrastes:

(i) As restritivas extrapostas e as apositivas extrapostas introduzidas por que não


permitem a interpolação de constituintes pertencentes a outros domínios frásicos
(fragmentos textuais), enquanto as relativas introduzidas por o qual o permitem (cf.
(47)).
(ii) As relativas apositivas introduzidas por o qual podem ter antecedentes descontínuos,
enquanto as relativas restritivas não o permitem:

(62) Eu o Julgey e Julgo per sentença que este ẽprazamento valha e se cũpra como
se nesta carta cõtẽ, e no vltimo consentimento do dicto prior e convento faz
menção Aos quaes dou e hey por dada mynha autorydade ordinarya (Martins,
1994 – CHP201 1540)

No caso das relativas restritivas e das apositivas introduzidas por que, a


extraposição é derivada, como vimos, por stranding da oração relativa e por movimento
para a esquerda do antecedente. Tal movimento pode ser motivado por diferentes
factores, entre eles: (i) scrambling no domínio de IP (Martins, 2002) (cf. (63)); (ii)
focalização (cf. (64)).

(63) E mãdo e Rogo Ao Abade dõ meendo e A meu padre que se Algẽ A eles veer
que diga que llj́ eu Alguna cousa diuía que nõ sei [a] escripto en Esta mãda
ou que llj́ ffilley ou Roubey Alguna cousa(Martins, 1994 – CHP006 1275)
(64) E eu anrique nunez Pubrico tabaliã por el Rey nosso senhor na dita cidade de
Lixboa e seus termos que este estormento escripuy e de meu pubrico signaL
ho assigney que taL he; (Martins, 1994 – CHP211 1548)

O scrambling para o domínio de IP é sem dúvida um dos mecanismo que no PA


gera mais contextos de extraposição (cf. Costa, 2004), sendo responsável pela
ocorrência de diversos constituintes interpolados, tais como o verbo e alguns
complementos e modificadores do sintagma verbal. O facto de o scrambling no
domínio de IP ter deixado de ser um mecanismo disponível a partir do século XVI pode
explicar, em parte, as restrições nas possibilidades de extraposição observadas no PEC.
Assim, uma hipótese a explorar será a de que em PA o antecedente poderia mover-se
para o domínio de IP, enquanto em PEC esse movimento obedeceria a mais restrições,
não podendo ocorrer, por movimento-A, para fora do domínio de vP.
Outro contraste fundamental entre o PEC e o PA diz respeito ao número e tipo de
constituintes que podem ocorrer interpolados. Para dar conta desse contraste, poder-se-á
colocar a hipótese de as relativas apositivas introduzidas por o qual terem deixado de
ser geradas por coordenação especificante, passando a ser geradas por elevação do
núcleo, tal como as relativas restritivas e as apositivas introduzidas por que. Este facto
pode explicar não só as restrições observadas na extraposição de apositivas no PEC

182
EXTRAPOSIÇÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS

como também a impossibilidade de ocorrência de núcleo interno em PEC (cf. Cardoso,


2008).
Contudo, como já foi referido, estas são apenas algumas hipóteses de análise que
terão de ser aprofundadas em trabalho futuro.

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184
Sujeitos de referência arbitrária em sentenças infinitivas
do português e o parâmetro do sujeito nulo

Silvia R. de Oliveira Cavalcante e Maria Eugênia Lamoglia Duarte ∗


Universidade Federal do Rio de Janeiro

Abstract
In this paper we claim that the differences between European (EP) and Brazilian
(BP) Portuguese, with regard to the position of subjects of infinitival clauses, are due to a
parametric change undergone by BP. This change has not affected the subject position of
finites clauses, but also the subject position of infinitival clauses, as shown by the
empirical data from oral and written samples. In BP Agr is defective in the person feature,
so that it licenses an empty category, but does not identify properly its referent, which
leads to the filling of the subject position.

Keywords: infinitive subjects, parametric change, topic prominence


Palavras-chave: sujeitos infinitivos, mudança paramétrica, proeminência de tópico

1. Introdução
O Português Brasileiro (PB) tem sido descrito como uma gramática parcialmente
pro-drop (Kato, 2000) e de orientação para o tópico (Galves, 1987, entre outros). A
maioria dessas análises tem priorizado, porém, o comportamento do sujeito de
referência definida e arbitrária em sentenças finitas. Neste trabalho, inspirado pelas
análises teóricas de Galves (1987) e Figueiredo Silva (1996), analisamos a posição do
sujeito referencial definido e arbitrário nas construções infinitivas, buscando comparar o
comportamento do PB e do Português Europeu (PE). Acreditamos que a observação do
comportamento da posição de sujeito das sentenças infinitivas numa língua que ainda
mantém um sistema flexional verbal com desinências distintivas possa ser um
diagnóstico para a caracterização do que seja uma língua de sujeito nulo ou não. Talvez
seja o caso de levantar aqui as inúmeras questões teóricas que podem advir da
constatação do percurso de uma língua de infinitivo flexionado e de orientação para o
tópico e na absoluta novidade de termos uma tendência observada nas formas finitas
replicada nas infinitivas.
Sabemos que o português se distingue das demais línguas românicas de sujeito
nulo pela propriedade de exibir o infinitivo flexionado (Raposo, 1987), que conta com

∗ Este artigo apresenta resultados parciais do projeto desenvolvido com bolsa PQ CNPq (Processo
n.º 350731/2006-3).

Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,


APL, 2009, pp. 185-197
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

um núcleo funcional capaz de licenciar e identificar um sujeito nulo. As línguas que não
possuem infinitivo flexionado necessitam de um elemento externo – uma preposição ou
o Sintagma Flexional (SFlex) da oração matriz para tal licenciamento. É o que mostram
os exemplos de Cinque (1988) para o italiano, em que a posição do sujeito de referência
arbitrária é licenciada pela Flexão (Flex) da sentença matriz de verbos transitivos (1a) e
inergativos (1b). A agramaticalidade de (1c, d) mostra que com verbos que não
selecionam um argumento externo o sujeito de infinitivo não é licenciado 1:
(1) a. Sembra non essersi ancora scoperto il vero colpevole.
Parece não se ter ainda descoberto o verdadeiro culpado
b. Sembra non essersi lavorato a sufficienza.
Parece não se ter ainda trabalhado o suficiente
c. *Sembra essersi arrivati troppo tardi.
Parece ter-se chegado muito tarde
d. *Sembra non essersi benvenuti qui.
Parece não se ser bem-vindo aqui.

Segundo Raposo (1987), o infinitivo flexionado do português licenciaria um


sujeito sem as restrições observadas para o italiano, como mostram os exemplos em (2):
(2) a. Seria melhor descobrir-se o culpado.
b. Seria melhor trabalhar-se um pouco mais.
c. Seria melhor chegar-se pontualmente
d. Seria melhor não se ter preocupado ninguém
e. Seria melhor ser-se rico.

Assim, seria natural esperar que as sentenças não finitas se comportem como as
sentenças finitas no que tange à posição de sujeito; em outras palavras, as mesmas
restrições à ocorrência de um sujeito nulo ocorreriam tanto em sentenças finitas quanto
não finitas, devido às condições de licenciamento e identificação que legitimam uma
categoria vazia. Essas previsões acerca do preenchimento da posição de sujeito de
infinitivo parecem ser válidas não apenas para línguas como o português, que possui o
infinitivo flexionado, mas também para línguas que não têm infinitivo flexionado mas
que permitem um pronome na posição de sujeito. É o caso de línguas de sujeito nulo, e
parcialmente nulo, como o espanhol do Caribe (Suñer, 1986) e o espanhol rioplatense
(Saab, 2004). Suñer aponta algumas características do espanhol do Caribe que podem
ser consideradas um diagnóstico para uma mudança na marcação do parâmetro do
sujeito nulo: um crescente preenchimento do sujeito (em virtude da erosão do
paradigma flexional verbal), a perda da ordem VS em interrogativas e estruturas
clivadas que são típicas do espanhol. Nessas duas gramáticas do espanhol, a caribenha e
a rioplatense, é permitido aparecimento de um sujeito de infinitivo desde que seja em
contextos preposicionados, como mostram os exemplos em (3) de Suñer (1986) e em
(4) de Saab (2004):

1 As mesmas restrições observadas por Cinque parecem valer para o espanhol caribenho e para o espanhol
rioplatense, como veremos a seguir com exemplos de Suñer (1986) (cf. 3), e de Saab (2004) (cf. 4).

186
SUJEITOS DE REFERÊNCIA ARBITRÁRIA EM SENTENÇAS INFINITIVAS DO PORTUGUÊS

(3) a. Para poder una lograr esa meta, hay que tener visión.
b. Ao salir Paco / él, sonó el teléfono
c. Para tu llegar a mi casa a tiempo tienes que tomarte un taxi ya.
d. Passaron tres meses sin el volver a Venezuela.

(4) a. Al dárseme la palabra/la, comencé a hablar.


b. Al dárme el locutor la palabra/la, comencé a hablar.

Os contextos que permitem o preenchimento da posição de sujeito com um SN,


um pronome ou o clítico se são todos contextos preposicionados. Comparando-se as
duas gramáticas do espanhol, vemos que no espanhol caribenho já são permitidos
sujeitos pré-verbais (como mostram os exemplos em (3)), ao passo que no espanhol
rioplatense, os sujeitos nominais só aparecem pospostos (exemplos em (4)). Não é
intenção deste trabalho discutir a ordem sujeito-verbo nas sentenças infinitivas, mas o
que parece estar em jogo no espanhol é que o verbo sobe para uma posição mais alta (a
posição de núcleo do Sintagma Complementizador) para poder estar disponível para
licenciar o sujeito de infinitivo2.
O PB atual encontra-se numa situação entre o português europeu e essas duas
gramáticas do espanhol: ainda apresenta o infinitivo flexionado, mas devido à sua
natureza de parcialmente pro-drop (Kato, 2000; Rodrigues, 2002), tende a um maior
preenchimento da posição de sujeito. Os sujeitos nulos do PB apresentam um
comportamento diferente dos sujeitos nulos do Português Europeu (PE) (veja Barbosa,
Duarte e Kato, 2005). Essa diferença tem sido relacionada à sua interpretação e não ao
seu licenciamento (Moreira da Silva, 1983; Galves, 1987; Figueiredo Silva, 1996;
Cavalcante, 2006, entre outros). Além disso, alguns autores defendem que o sujeito
preenchido no PB estaria relacionado à sua orientação para o discurso (veja Negrão e
Viotti, 2000; Modesto, 2004) enquanto os nulos se limitam a estruturas com um sujeito
controlado por um antecedente na sentença matriz (ex. 5a) e/ou por um antecedente na
posição de sujeito do contexto anterior (ex. 5b).

(5) a. Maria disse que Ø estava aborrecida


b. Maria saiu. Ø Estava aborrecida

Além da diferença existente entre os sujeitos nulos, PE e PB exibem diferenças


acerca do sujeito pronominal pleno. Numa língua de sujeito nulo como o PE, os sujeitos
plenos não estão em variação como os nulos; quando aparece um sujeito pronominal
pleno, é para introduzir um elemento novo ou por motivos de contraste, diferentemente
do que ocorre no PB, em que os sujeitos plenos não são para marcar contraste. Desse
modo, estudos empíricos revelam uma diferença percentual significativa para os sujeitos
plenos nessas duas gramáticas: enquanto PB apresenta uma média de 80% de freqüência
de uso para sujeitos plenos, e o PE uma média de 30% de freqüência de uso para
sujeitos plenos (cf. Duarte, 1995; 2003; Soares da Silva, 2006).

2 Segundo Saab, o verbo sobe para ficar no domínio da preposição, ser marcado com Caso para poder
licenciar a posição de sujeito de infinitivo. É o verbo infinitivo que licencia esta posição.

187
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Assim, em sentenças como (5) no PB podem apresentar um sujeito pleno,


correferente com o sujeito da oração matriz (6a) ou da oração anterior (6b):
(6) a. Maria disse que ela estava aborrecida
b. Maria saiu. Ela estava aborrecida
De fato, o processo de mudança em progresso no PB exibe construções atestadas
em línguas de proeminência de tópico e essa orientação para o discurso é de fato
responsável por um vasto número de estratégias de preenchimento de sujeitos não
referenciais (veja Duarte, 2007).
O fato de os sujeitos referenciais poderem ser expressos não só em sentenças
finitas, mas também em sentenças infinitivas, foi apontado por Figueiredo Silva (1996).
Estudos empíricos recentes (Cavalcante, 2006; Cavalcante e Duarte, 2007; Duarte, no
prelo) revelam que os sujeitos de referência arbitrária em sentenças infinitivas do PB,
além de representados por uma categoria vazia e por um clítico se (exemplos 7a, 7b),
principalmente na escrita, tendem a ser expressos por pronomes nominativos, como
você e a gente (exemplos 7c e 7d), majoritariamente na fala:
(7) a. é muito difícil [Øarb conseguir uma carga de quarenta horas], você sabe
disso, te obriga a ir a vários colégios, deslocamento, passagem
b. é uma das cidades que tem o melhor, melhor é, padrão de vida, ou seja,
uma das melhores cidades do mundo [pra se morar]
c. outro dia eu tive, tive que, expulsar um aluno de sala, realmente é, triste né,
[você ter que expulsar um aluno de sala]
d. é muito gostoso [a gente analisar isso], é muito bonito.

O comportamento do PB é, entretanto diferente. Embora o sujeito dos verbos


infinitivos ainda seja preferencialmente nulo, já são observadas ocorrências de sujeito
referencial definido em contextos não regidos, como mostram os dados em (8):
(8) a. Meu futuro não depende só de mim. Meu coração vai sempre ficar aqui
com a torcida, mas [eu permanecer aqui] é um pouquinho difícil. (jogador de
futebol em entrevista a emissora de rário-15/05/2008)
b. Você tem [como vocêi melhorar essa pele]. É só Øi ter vontade. (médico
para a paciente-06/08/08)

Como poderíamos explicar os dados em (7c,d) considerando o licenciamento e a


interpretação do sujeito de infinitivo? Se a natureza pro-drop parcial do PB está
relacionada ao seu sistema de Concordância, isso deve afetar, de algum modo, o
infinitivo flexionado. A idéia sobre o sistema de concordância é a seguinte: um sistema
com Concordância (AGR) forte, isto é, Concordância (AGR) suficientemente forte para
licenciar e interpretar um sujeito nulo faz com que haja maior número de sujeitos nulos,
pois eles podem ser licenciados e interpretados. Se uma língua possui AGR tanto em
sentenças finitas quanto em sentenças infinitivas, e AGR é forte, o padrão de
preenchimento da posição de sujeito será o mesmo tanto para sentenças finitas quanto
para sentenças infinitivas. Esse seria o caso do Português Europeu: a Concordância
(AGR) é forte o suficiente para licenciar e interpretar as categorias vazias em posição de
sujeito de sentenças finitas e não-finitas.

188
SUJEITOS DE REFERÊNCIA ARBITRÁRIA EM SENTENÇAS INFINITIVAS DO PORTUGUÊS

O PB, por outro lado, tem sido apontado como uma gramática que tem AGR fraco,
ou pelo menos, defectivo no traço [pessoa] (Galves, 1993). Isso significa que AGR
fraco licencia o sujeito, mas não pode atribuir a ele uma interpretação referencial.
Assim, para ser interpretado, o sujeito do PB deve ter um antecedente. Se esse
enfraquecimento de AGR ocorre também nas sentenças finitas, devemos esperar aí a
mesma tendência para as sentenças infinitivas: um maior preenchimento da posição de
sujeito. Assim no PB, o infinitivo, mesmo sendo flexionado, tem um AGR fraco.
Funciona, portanto, como o AGR das sentenças finitas.
Uma hipótese que poderíamos levantar, portanto, é a seguinte: PE e PB
apresentam motivações diferentes para o preenchimento do sujeito de infinitivo.
Enquanto no PE, esperamos uma distribuição complementar, ou seja, sujeitos nulos
correferentes com o sujeito da matriz, ou então com referência arbitrária, e sujeitos
expressos (com se ou um DP lexical) não-correferentes com o sujeito da matriz, o que
justificaria o seu aparecimento, no PB, esperamos encontrar sujeitos não expressos e
expressos, mesmo em contextos de correferência com o sujeito da matriz, o que se
explicaria pela natureza do AGR não finito.
O objetivo deste trabalho é analisar os sujeitos infinitivos de referência definida e
arbitrária do PB e do PE com base na seguinte discussão: (a) o preenchimento da
posição de sujeito está relacionado à mudança na remarcação do Parâmetro do Sujeito
Nulo? (b) se estiver, como explicar que uma língua parcialmente orientada para o
discurso como o PB permita o Infinitivo Flexionado, contradizendo algumas análises
que relacionam o Infinitivo Flexionado ao Parâmetro do Sujeito Nulo (cf. Raposo, 1987;
Cinque, 1988; Dobrovie-Sorin, 1998)?

O corpus
A análise quantitativa está baseada em amostras de fala do PB e do PE
contemporâneos. Para a análise da língua falada são utilizadas, para o PB, 12 entrevistas
do Projeto NURC-RJ (Norma Urbana Culta), gravadas nos anos 90 e, para o PE,
entrevistas entre documentador e informante extraídas de Cresti & Moneglia (2005),
uma publicação em CD-rom, que apresenta uma variada amostra de línguas românicas
faladas na Europa (português, francês, italiano e espanhol). Para tornar a análise
comparável aos dados do NURC, foram selecionadas nesta etapa da pesquisa apenas
entrevistas com falantes de nível superior de escolaridade, o que nos deixou com uma
amostra menor para o PE do que para o PB oral, já que o número de falantes com tal
nível de escolaridade era pequeno. A análise da escrita utiliza artigos de opinião e
crônicas publicados entre os anos de 2003 e 2007 em jornais de Lisboa – O Público, O
Diário de Notícias e O Expresso –, e em jornais cariocas – O Globo e O Jornal do
Brasil 3.

3 Se compararmos as datas de recolha dos dados das amostras de fala e de escrita, tanto para o PE quanto para
o PB, veremos uma diferença entre os dados da fala com os dados da escrita. Estudos sociolingüísticos
recentes revelam que, com relação ao fenômeno do preenchimento do sujeito em sentenças finitas, não há
diferença significativa num intervalo de 20 anos. De fato, o estudo de painel e de tendências de Duarte
(2003) sobre o preenchimento do sujeito numa amostra de fala popular entre os anos 1980 e os anos 2000

189
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

O que dizem os resultados da análise sincrônica da fala e escrita


Vejamos como se comportam os sujeitos de infinitivas com referência definida no
PE e no PB para as modalidades falada e escrita. A tabela 1 a seguir apresenta a forma
de realização desses sujeitos:

Fala Escrita
Sujeito PE PB PE PB
Nulo 132 (98,6%) 225 (90,7%) 156 (90,0%) 283 (92,0%)
DP 1 (0,7%) 8 (3,3%) 15 (10,0%) 19 (6,0%)
Pronome 1 (0,7%) 15 (6,0%) – 6 (2,0%)
Total 134 (100%) 248 (100%) 174 (100%) 308 (100%)

Tabela 14: Distribuição dos sujeitos de referência definida no PE e no PB

Com relação à distribuição dos dados, observamos que o sujeito nulo é a forma
preferida nas duas gramáticas, tanto na modalidade escrita quanto na modalidade falada.
Do ponto de vista qualitativo, entretanto, vemos algumas diferenças, principalmente no
que tange ao tipo de sujeito de infinitivo que aparece. Uma primeira diferença está
relacionada aos sujeitos pronominais: nota-se no PB, principalmente falado, uma
freqüência maior de uso do sujeito pronominal, diferentemente do PE, tanto falado ou

revela uma confirmação da tendência ao preenchimento do sujeito na amostra de 2000. Um outro exemplo é
o estudo de Cavalcante (2007) sobre o sujeito nulo arbitrário em comparação com as sentenças com se, com
gravações dos anos 1970 e 1990 da fala culta carioca (NURC/RJ). Mais uma vez, a amostra dos anos 1990
confirmou a tendência ao sujeito nulo de referência arbitrária apresentada na amostra dos anos 1970. Desse
modo, acreditamos que utilizar amostras com distância de 10 anos, da língua falada para a língua escrita,
não influenciará os resultados obtidos.
4 A tabela exclui as sentenças infinitivas completivas de verbos causativos e perceptivos, destacadas em
negrito, que têm sujeito definido obrigatoriamente expresso. É, entretanto, interessante mencionar o fato de
que tais sujeitos, quando têm antecedente no contexto discursivo, aparecem sob a forma de clíticos no PE
oral ou escrito, deixando “visível” a marcação excepcional de Caso pelo verbo da matriz, como mostram os
exemplos em (i):
(i) a. e os indivíduos que pusessem aqui o carro o senhor mandava-os retirar; assim é que era a sua
obrigação (PE oral)
b. há poucos pais que impliquem com isso... ou deixá-las sair de vez em quando à noite, aos fins de
semana (PE oral)
No PB, por outro lado, o clítico só aparece na escrita mais formal (como se vê em (iia)). Em gêneros mais
informais, como a crônica, já aparecem as formas nominativas (iib), que são categóricas na fala espontânea
(iic):
(ii) a. De fato, a presença do Pontífice entre nós mobilizou multidões e o fez experimentar a calorosa
acolhida do povo brasileiro. (PB escrito)
b. Poucos políticos brasileiros conversariam com o Chomsky, e com o bom inglês, do Olívio Dutra,
como vi ele fazer no último Fórum Social Mundial. (PB escrito)
c. Deixa eu ver o que mais que teria na cidade... (PB oral)

190
SUJEITOS DE REFERÊNCIA ARBITRÁRIA EM SENTENÇAS INFINITIVAS DO PORTUGUÊS

escrito. Esse índice, ainda que pouco expressivo em relação aos outros tipos de sujeito,
pode estar relacionado à característica parcialmente prodrop do PB já verificada para as
sentenças finitas, o que confirma a nossa hipótese. Notem-se, em (9) a seguir, dados do
PB falado e escrito com sujeitos pronominais correferentes expressos, o que não ocorreu
no PE:

(9) a. Ela ficou solteira porque ela quis, porque, talvez ninguém tinha
interessado, [a ponto de ela se casar] (PB oral)
b. Eu, eu sou professor, então eu procuro, [apesar de eu dar aula pra segundo
grau] e, teoricamente a gente espera que os alunos mais maduros, né, você
ainda pega muita, muita infantilidade (PB oral)
c. Passei muito tempo depois da descoberta dele [sem eu me identificar
muito com ninguém]. (PB escrito)
d. Então foi o que me levou lá pra pesquisa do centenário da banda, para o
centenário da banda dois anos [antes de ela fazer cem anos,] (PB oral)

O único dado de sujeito pronominal expresso no PE ocorreu num contexto


preposicionado, sem co-referência com o antecedente e a expressão do pronome garante
uma interpretação definida do sujeito:

(10) a alimentação faz parte da cultura das pessoas, faz parte da maneira [delas
estar e subverter completamente tudo] (PE oral)

Os sujeitos representados por DPs, no PE oral (1 dado) e escrito (15 dados), estão
restritos a contextos regidos de preposição 5 na amostra analisada:

(11) a. pois exactamente acresce (o azeite) [depois da sopa estar feita (PE oral)
b. Também não foi o facto [de Manuela Ferreira Leite ter recebido] mais
votos para a mesa do Congresso do que o líder agora eleito. (PE escrito)
c. não há a oportunidade [de a pessoa fazer assim um rasgo aqueles (PE oral)

5 Essa, entretanto, não parece ser uma restrição ao uso de DPs ou pronomes como sujeito de infinitivo.
Julgamentos de gramaticalidade fornecidos por falantes do PE mostram que é possível preencher um sujeito
de infinitivo em contextos não regidos de preposição, desde que não haja correferência entre o sujeito de
infinitivo e um sujeito da oração matriz. Vejamos os exemplos a seguir, com sujeitos tanto DPs (iii) quanto
pronominais (iv) avaliados por falantes do PE:
(iii) a. Foi uma cena deplorável a Maria entrar na sala e agredir o diretor.
b. Basta a Maria entrar na sala para todos começarem a cochichar.
c. Basta entrar a Maria para todos começarem a cochichar.
d. Foi surpreendente o João ter tomado essa atitude.
e. Foi surpreendente ter o João tomado essa atitude.
(iv) a. Eu ficar à espera de que ele me dê a notícia, não fico.
b. Basta eu entrar para todos começarem a cochichar.
Nos casos de (iiic) e (iiie), o sujeito tem valor de foco contrastivo, diferentemente do que ocorre
quando ele está anteposto ao verbo.

191
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

O PB, por outro lado, apresenta não só DPs em contextos regidos de preposição,
como mostram os exemplos em (12), como também não regidos, como (13).

(12) a. talvez por isso seja a forma [de adolescente ser rebelde] (PB oral)
b. Chegou o tempo da ponderação. [Da oposição pensar no que é melhor
para o país além dos seus ressentimentos, [da grande imprensa pensar nos
seus excessos e, acima de tudo,[ do PT pensar nos seus pecados. (PB escrito)
(13) a. Foi preciso [a imprensa entrar na história] para se saber o quanto são
freqüentes os quase-acidentes aéreos. (PB escrito)
b. Fala-se em atrair dissidentes do PMDB (grupos Sarney e Quércia), mas
bastará [esse partido fechar questão sobre um tema] para a possibilidade
tomar-se impossível. (PB oral)

Ao observarmos os dados de sujeito de referência arbitrária, vemos uma diferença


muito maior entre PB e PE do que aquela verificada para os sujeitos de referência
definida. A tabela 2 traz a distribuição dos sujeitos de referência arbitrária nas duas
modalidades
.
Modalidade Fala Escrita
Variedade PE PB PE PB
Nulo 68 (91%) 156 (78%) 133 (94%) 133 (90%)
Se 6 (8%) 3 (1,5%) 9 (6%) 10 (7%)
A gente 1 (1%) 4 (2%) – 1 (1,5%)
Você – 37 (18,5) – 1 (1,5%)
Total 75 (100%) 259 (100%) 142 (100%) 147 (100%)
Tabela 2: Distribuição dos sujeitos de referência arbitrária no PE e no PB

Pela distribuição dos dados, vemos que o PE falado e escrito e o PB escrito estão
muito próximos: o sujeito nulo atinge a marca de 90%, e o uso do clítico se fica entre
6% e 8%.
Em relação ao uso de se, os exemplos em (14) e (15) sugerem que o seu uso em
variação com o sujeito nulo não parece ter uma motivação funcional, como, por exemplo,
garantir a interpretação arbitrária do sujeito, tanto no PE quanto no PB falados:

(14) a nora desses amigos da Manuela levou-nos a conhecer Brasília inteira que
também é muito fácil Øarb conhecer porque aquilo é tudo tão organizadinho
que basta Øarb conhecer um fragmento para se perceber bem como é que
funciona tudo (PE oral)
(15) Brasíla é uma ótima cidade para [Ø]arb morar dentro de casa...e [Ø]arb ter
tudo ... é uma cidade agradabilíssima de se viver (...) é uma das cidades que
tem o melhor, melhor é, padrão de vida, ou seja uma das melhores cidades do
mundo pra se morar (PB oral)

192
SUJEITOS DE REFERÊNCIA ARBITRÁRIA EM SENTENÇAS INFINITIVAS DO PORTUGUÊS

Raramente, o uso do clítico se parece ter um efeito de desambiguador, isto é,


impede uma indesejável correferência com um possível candidato, como vemos ocorrer
em (16):

(16) Uma certeza é a de que o CDS (que veio afirmar estar-se «perante um
equívoco») e o grupo do BES não saem nada bem deste processo (PE escrito)

Nota-se ainda um uso marginal de a gente, tanto no PE quanto no PB orais (e no


PB escrito), em orações subjetivas articuladas com predicadores adjetivais:

(17) a. portanto se calhar melhor [a gente saber tudo] porque se faz tudo na
mesma (PE oral)
b. é muito gostoso [a gente analisar isso], é muito bonito. (PB oral)

O que chama a atenção, no entanto, é o uso de você 6 no PB oral, com 18,5% de


preenchimento. Esses índices podem indicar o encaixamento da mudança que ocorre
nas sentenças finitas: a preferência pelos pronomes sujeitos expressos. Em relação ao
uso de você, um fator extralingüístico e um lingüístico se destacam: (a) você é muito
mais freqüente na fala do grupo mais jovem (entre 25 e 35 anos), responsável por 24 das
37 ocorrências; (b) a inserção de você é preferencial, embora não exclusiva, em
contextos não regidos de preposição, tal como o uso de a gente, um fato que já o
distingue do uso de se. De fato, 26 das 37 ocorrências (ou 70%) ocorrem em
subordinadas subjetivas pospostas (completivas de predicadores verbais, nominais e
adjetivais), como em (18), subjetivas antepostas (completivas de predicadores verbais e
nominais), como em (19), e objetivas diretas, ilustradas em (20):

(18) a. por isso que eu digo, não adianta [você fazer o pré-vestibular] se você não
tiver uma base (PB oral)
b. realmente dá uma certa revolta [você ter que ter passado por uma situação
dessas] (PB oral)
c. é triste, né, [você ter que expulsar um aluno de sala] (PB oral)
d. eu acho que sensual é [você colocar uma coisa provocante, uma roupa que
insinua], né? (PB oral)

(19) a. [você ter qualquer profissão da área tecnológica] te paga melhor que o
magistério (PB oral)
b. [você chegar depois de dez horas] era um, um medo só, né? (PB oral)

(20) pô, imagina [você brigar] e ter que dormir junto com a pessoa, olhando pra
cara da pessoa, aí acordar no dia seguintes, um não ‘tá a fim de falar com o
outro e, ‘tá na mesma casa, sabe, tomando café juntos, não sei, mas eu acho
que é uma coisa nova (PB oral)

6 Falantes do PE sugerem a possibilidade de uso do pronome tu com referência arbitrária, ao invés de você,
como ocorre no PB. Nas amostras utilizadas, entretanto, não foram encontradas ocorrências de tu com
referência arbitrária.

193
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

São raras as infinitivas com um sujeito nulo em posição inicial, como mostra (21),
uma estrutura que fica mais restrita à fala de grupos mais velhos:

(21) [Øarb praticar um esporte], não deixa de ser um divertimento, né, então isso
depende muito de gerações (PB oral)

Entre as 11 sentenças regidas de preposição, predominam as completivas


nominais canônicas ou completivas do verbo modal “dar” (com valor epistêmico), nas
construções “dar pra”:

(22) a. porque essa questão [de você ter que hastear bandeira...] (PB oral)
b. o Rio de Janeiro é uma cidade adorável [pra você bater perna], né? (PB
oral)
(23) as casas era muito generosas de espaço, dava [pra você fazer festas], né, dava
[pra você reunir em grandes almoços] (PB oral)

Nas completivas de predicadores adjetivais como difícil, nota-se ainda o uso


variável de preposição:

(24) a. fica difícil [de você administrar isso] mas existe né? (PB oral)
b. agora, também é difícil [você ir contra, vamos dizer assim, a maré] né? (PB
oral)

Exemplos como os ilustrados acima com você ainda encontram concorrência forte
em estruturas com o sujeito nulo, mas, como mostram os dados em (25), um sujeito
nulo de infinitivo está geralmente controlado por um você indeterminador na oração
principal:

(25) a. mas, tinha uma disciplina muito grande, você ter que abaixar cabeça,
aquele negócio de, né, [pra Øarb sair] ter que ficar quietinho, pra sair antes
(PB oral)
b. você não prejudica os outros, né, [pra Øarb não prejudicar os outros] você
tem que botar o cara pra fora, né (PB oral)
c. você vai ali [pra Øarb assistir uma aula] mas o professor não, não ensina
nada (PB oral)

ou é resultante do alçamento de um sujeito indeterminado:

(26) e hoje em dia você sem carro fica muito difícil [pra Øarb poder sair] (PB oral)
(e hoje em dia fica muito difícil [pra você poder sair sem carro])

Em resumo, pode-se presumir que o enfraquecimento de AGR ou mesmo um T


defectivo no traço pessoa (como propõe Ferreira (2000) para o PB) faz com que o
sujeito seja licenciado, mas não interpretado, levando à projeção do Spec TP das
infinitivas, como propõe Kato (1999) para as sentenças finitas do PB.

194
SUJEITOS DE REFERÊNCIA ARBITRÁRIA EM SENTENÇAS INFINITIVAS DO PORTUGUÊS

Os resultados para os sujeitos de referência definida podem confirmar essa análise:


no PE, o preenchimento do sujeito de referência definida ocorre em sentenças infinitivas
preposicionadas (como ocorre no espanhol caribenho). No PB, a preposição não é um
fator determinante para o preenchimento do sujeito de infinitivo. No entanto, sabemos que
línguas negativamente marcadas em relação ao Parâmetro do Sujeito Nulo mantêm a
posição de sujeito de infinitiva vazia, a menos que o sujeito seja regido excepcionalmente
por uma preposição ou o verbo da matriz. Finalmente, no PB, já aparecem construções de
infinitivo com sujeito deslocado à esquerda, como vemos em (27):

(27) Porque [o treinador da equipei [ele receber no gramado os chefes das


torcidas organizadas é uma coisa complicada de entender. (CBN, bate-papo
sobre esportes, 01/08/08)

Da mesma forma, a projeção de TopP ou SubjP pode abrigar um outro


constituinte, como o complemento direto em (28):

(28) chega a ser ridículo né, um, [rapaz com dezoito anosi [eu botar __i pra fora
de sala] e, sei lá, pedir suspensão eu, pedi, eu só pedi pra ele se retirar pra, pra
que eu pudesse dar aula, né. (PB oral)

Considerações Finais
Como vimos, PE e PB diferem em relação ao comportamento da posição de sujeito
em sentenças infinitivas, bem como já foi verificado para as sentenças finitas. Com
relação aos sujeitos de referência definida, o seu comportamento tanto quantitativo
quanto qualitativo é diferente no PE e no PB: no PE, vemos a preferência pelos sujeitos
nulos e o aparecimento do clítico acusativo em contextos de marcação excepcional de
Caso; no PB, a freqüência de sujeitos nulos é ligeiramente menor, e o pronome de
terceira pessoa aparece, tanto na fala quanto na escrita, na posição de sujeito em
contextos de marcação excepcional de Caso. Qualitativamente, podemos observar uma
diferença com relação aos tipos de contexto em que o sujeito aparece pleno: enquanto
no PE o sujeito pleno está restrito aos contextos regidos de preposição, no PB ele
aparece também em contextos não regidos. Com relação aos sujeitos de referência
arbitrária, notamos que o PE falado e escrito e o PB escrito possuem o mesmo
comportamento quantitativo: a preferência pelo sujeito nulo seguido do clítico se. No
caso do PB falado, existe uma tendência ao preenchimento da posição de sujeito de
infinitivo por um pronome, principalmente a forma você de referência arbitrária.
A partir do comportamento desses dados, podemos levantar aqui duas questões: a
primeira diz respeito à diferença existente entre fala e escrita no PB, que não ocorre no
PE, e a segunda diz respeito a uma possível explicação para o comportamento do PB em
face do PE.
No que se refere à diferença entre fala e escrita no PB, principalmente no
comportamento dos sujeitos de referência arbitrária, vemos uma tendência a seguir as
prescrições gramaticais. Na fala, por outro lado, podemos ver emergir a gramática

195
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

brasileira no comportamento quantitativo dos dados, principalmente quando vemos


sujeitos deslocados ou topicalizados em sentenças infinitivas, como é o caso dos
exemplos 25c, 26 e 27 acima.
A explicação que podemos trazer para esse comportamento está relacionada ao
tipo de Agr de infinitivo que aparece no PE e no PB. O elevado número de sujeitos
nulos no PE, tanto de referência definida quanto arbitrária, e a baixíssima freqüência de
outras formas, principalmente pronominais, de preenchimento do sujeito, pode sugerir
que estamos diante do infinitivo Não-Flexionado, isto é, estamos diante de casos de
posições que nunca possam ser preenchidas por formas nominais, pois não têm um
elemento que possa licenciar esses elementos (pro)nominais. Assim, a interpretação
dessa categoria vazia ou está ligada ao tópico ou a um antecedente ou é arbitrária. No
PB, por outro lado, a freqüência significativa de sujeitos expressos, tanto pelo clítico se
na língua escrita quanto pelas formas pronominais nominativas, se explica por estarmos
diante de um infinitivo Flexionado, que tem características da flexão finita. No PB, tal
como acontece nas sentenças finitas, o Agr de infinitivo é capaz de licenciar uma
categoria vazia, mas não interpretá-la; assim, o preenchimento do sujeito por uma forma
pronominal pode fazer com que essa posição seja interpretada adequadamente. A
mudança do PB em direção a uma língua de proeminência de sujeito e de tópico (cf.
Duarte & Kato, 2008) deve ser levada em conta na interpretação teórica de tais fatos.

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196
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197
Verbos de deslocação em português e romeno:
complementos locativos com a função semântica Alvo

Adriana Ciama
Universidade de Bucareste

Abstract
Our aim is to present a comparative study in Portuguese and Romanian of two
pairs of intransitive movement verbs: sair/partir, respectively a ieşi/a pleca. After
making a distinction between directed motion and manner of motion verbs, we focus on
the syntactic and semantic analysis of the four verbs followed by a locative complement
playing the semantic role of Goal. Main attention will be given to the preposition
introducing the locative complement. Our objective is also to point out the main
differences between the two languages, as well as some of their particularities, with
respect to movement.

Keywords: conceptualization, movement, verbs, preposition


Palavras-chave: conceptualização, movimento, verbos, preposição

1. Verbos de movimento e verbos de deslocação


Os verbos de movimento em sentido lato constituem um campo lexical
extremamente heterogéneo se atendermos aos numerosos estudos realizados ao longo
dos últimos anos. Segundo correntes linguísticas e abordagens teóricas diferentes 1,
foram propostos diversos critérios, tanto sintácticos como semânticos, com o objectivo
de delimitar este campo lexical e de diferenciar várias subclasses que vão desde os
verbos de movimento corporal, passando pelos verbos que especificam o modo como se
efectua a acção, até aos verbos de deslocação.
Com base em critérios fundamentados em teorias semânticas europeias de índole
cognitiva 2, torna-se possível distinguir duas subclasses principais de verbos, nomeada-

1 Mencionamos os estudos realizados no âmbito da semântica estrutural (Pottier, 1970; Evseev, 1974; Pegolo,
1987; Wotjak, 1979), da teoria localista e dos casos (Anderson, 1975; Fillmore, 1975), da teoria das valências
(Vilela, 1992), da hipótese léxico-gramática (Lamiroy, 1983; Boons, 1987), da semântica formal (Laur, 1989;
1993; Sablayrolles, 1991) e da linguística de índole cognitiva (Talmy, 1985; Pottier, 1992; 2000).
2 A título de exemplo, referimo-nos aos seguintes critérios semânticos: incidência espacial vs. modo de acção
(Dervillez-Bastuji, 1982); polaridade aspectual do verbo, orientação, polaridade verbal da relação locativa
(Boons, 1987); polaridade aspectual, deslocação em função do lugar de referência verbal, relação de
localização (Laur, 1993); quadro de referência, mudança de relação em função do site, mudança de posição
(Aurnague & Stosic, 2002).

Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,


APL, 2009, pp. 199-209
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

mente os verbos de movimento em sentido estrito e os verbos de deslocação. Interessa-


-nos sobretudo os verbos de deslocação que se podem delimitar segundo três critérios
principais. Primeiro, trata-se do lugar de referência verbal, isto é, o lugar implicado pelo
semantismo do verbo. Nos casos em que os verbos de deslocação não vêm seguidos por
nenhum complemento de lugar que refira explicitamente a localização da entidade
móvel, o verbo faz implicitamente referência a um lugar, seja inicial (sair / partir de
algures) ou final (entrar / chegar algures). Segundo, o critério da mudança de lugar,
que se refere ao facto de a deslocação implicar uma mudança de localização entre a
entidade móvel que se desloca e o referente espacial em função do qual se efectua a
deslocação, ou seja, pressupõe a passagem da entidade móvel de um lugar para outro, ao
passo que o movimento pressupõe uma mudança de posição dentro do mesmo lugar.
Terceiro, a mudança de lugar é avaliada em função de um sistema de referência exterior
à entidade que se desloca, ou seja, refere-se à possibilidade de a entidade ocupar
sucessivamente várias localizações no espaço, ao passo que os verbos de modo de
movimento reenviam para uma mudança avaliada em função de um sistema de
referência intrínseco à entidade móvel, visto que estes verbos caracterizam o modo
como se efectua a acção.
Portanto, a classe dos verbos de deslocação caracteriza-se tanto por um sistema
referenciado na relação de localização entre a entidade móvel e o referente espacial,
como por uma mudança de localização avaliada em função de lugares que a entidade
ocupa ao longo do tempo. Daí estes verbos conterem o traço semântico [+direcção],
visto que se trata de um movimento orientado ao longo de um percurso.

2. Verbos de deslocação: sair / partir – a ieşi / a pleca


Propomo-nos apresentar uma análise comparativa em português e romeno, duas
línguas situadas na periferia da Romania, de dois verbos de deslocação sair / partir,
respectivamente a ieşi / a pleca, utilizados em sentido espacial, segundo a forma
canónica GN1 + V + Prep. + GN2, em que o primeiro grupo nominal se refere à
entidade móvel que se desloca e o segundo grupo nominal representa o referente
espacial em função do qual se situa a mesma entidade. Para realizar esta análise,
optámos por nos basear em ocorrências literárias atestadas 3, dada a possibilidade de
acesso a corpora escritos da mesma natureza em ambas as línguas.
Os dois pares de verbos que fazem objecto da nossa análise definem-se pelo facto
de exprimirem um movimento direccionado, em que duas componentes semânticas
estão implícitas no semantismo verbal, nomeadamente, Movimento e Direcção FORA.
Ao mesmo tempo, dado o traço semântico [+direcção], os verbos analisados implicam
no seu semantismo um ponto de partida, visto que pressupõem um lugar inicial em
função do qual se efectua a deslocação. Por seu turno, a deslocação é interpretada como
afastamento, visto que se trata de um movimento orientado em função de um ponto de
referência inicial.

3 Recorremos à consulta on-line do CRLP do Centro de Linguística de Lisboa e, no caso do romeno,


constituímos um corpus de 20 romances e 12 contos de escritores dos séculos XX e XXI.

200
VERBOS DE DESLOCAÇÃO EM PORTUGUÊS E ROMENO

De acordo com a forma canónica atrás mencionada, apresentamos no quadro


abaixo uma estatística das construções analisadas e que distribuímos de acordo com as
três funções semânticas que o complemento locativo pode desempenhar na frase,
nomeadamente Origem, Trajectória e Alvo, às quais acrescentámos as ocorrências em
que o mesmo não vem expresso a nível do discurso. No presente estudo, não nos
referiremos aos primeiros três tipos de construções, apesar de as duas línguas
apresentarem algumas diferenças importantes; analisaremos só as construções em que o
complemento locativo desempenha na oração a função semântica Alvo, visto que
constitui o aspecto mais interessante, não só pelo número desigual de ocorrências, mas
também pelas diferenças sintácticas e semânticas entre português e romeno. De facto, os
complementos locativos com a função semântica Alvo nunca coincidem com os lugares
de referência iniciais implicados pelos verbos; aliás, esses locativos trazem informações
novas relativamente à localização da entidade móvel, diferentes das implicadas pelo
semantismo verbal. Desta forma, as preposições e os locativos de tipo Alvo são
elementos semanticamente autónomos, responsáveis por uma nova localização explícita
entre a entidade móvel e o referente espacial.

sair a ieşi partir a pleca


1. GN1 + V 47.13% 27.65% 67.40% 39.37%
2. GN 1 +V + Prep + GN2 Origem 36.65% 28.25% 4.70% 23.95%
3. GN1 + V + Prep + GN2 Trajectória 2.78% 5.47% – –
4. GN1 + V + Prep + GN2 Alvo 13.44% 38.63% 27.90% 36.68%

3. Complementos locativos com a função semântica Alvo


3.1. ptg. sair = rom. a ieşi, ptg. partir = rom. a pleca
As primeiras construções analisadas referem-se ao facto de as áreas semânticas dos
verbos sair e partir corresponderem às áreas dos verbos equivalentes em romeno, a ieşi,
respectivamente, a pleca. As diferenças que evidenciaremos dizem respeito aos
elementos de relação que introduzem os complementos locativos de tipo Alvo nas duas
línguas românicas. Em português, é a preposição para que relaciona o verbo sair e o
locativo, sejam quais forem as propriedades geométricas ou funcionais dos referentes
espaciais. No caso de a preposição a ser utilizada, com determinados referentes, como
nos primeiros dois exemplos abaixo, a diferença entre a e para consiste numa
diferenciação temporal, no sentido em que para implica [+permanência] no lugar final,
ao contrário da preposição a. Ao mesmo tempo, para mantém o seu sentido de
finalidade, daí ocorrências como sair para o emprego, para as aulas, ao passo que a
exprime só a deslocação em direcção ao ponto final:

(1a) Mal o [bairro monótono] olhava. Saía assim à rua, por dez minutos, para
tomar ar, a pretexto de comprar cigarros, e tornava às suas reles traduções, à sua
secretária, às visões interiores que o solicitavam. (Urbano Tavares Rodrigues, Os
Insubmissos)

201
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(1b) Depois de bem adamado e composto saiu para a rua. Era domingo, o
primeiro domingo de Março, e fazia um sol lindo. As janelas estavam cheias de
senhoras. O Entrudo Carnaval pavoneava-se... (Irene Lisboa, Uma mão cheia de nada e
outra de coisa nenhuma)
(2a) A noite refrescava. Blimunda adormecera, com a cabeça apoiada no ombro de
Baltasar. Mais tarde, ele levou-a para dentro, deitaram-se. O padre saiu para o pátio,
toda a noite ali ficou, de pé, olhando o céu e murmurando em tentação. (José Saramago,
Memorial do convento)
(2b) Logo um som de buzina, um grande apelo de alarme ressoou. Todos os pajens
correram às ameias. As damas apareceram por trás das vidraças do balcão. E os
cozinheiros saíam aos pátios, com as suas caçarolas na mão. Bem depressa correu o
grito que um bando armado avançava sobre o castelo. (Eça de Queirós, Últimas
páginas)

Em romeno, em construções com o verbo equivalente a ieşi, os três elementos de


relação que introduzem os locativos de tipo Alvo, nomeadamente, în, pe e la são
sensíveis à configuração dos referentes espaciais, o que claramente contrasta com as
construções em português. Neste caso, em função das propriedades geométricas e
funcionais dos referentes espaciais, será utilizada a preposição în quando for pertinente
o traço [+interioridade]; a preposição pe se o traço [+superfície] ou [+suporte] for
evidente e, finalmente, a preposição la com o traço [+funcionalidade]4. Além disso,
observamos que duas, até três, preposições podem ser utilizadas com o mesmo
referente, como no exemplo 6 abaixo, o que nos leva a concluir que os locutores podem
conceptualizar o mesmo referente espacial de várias formas e com base em conceitos
diferentes, nomeadamente, como interiores (a ieşi în câmp / în grădină), como
superfície ou suporte (a ieşi pe câmp) ou como localização pontual ou genérica (a ieşi la
câmp / la grădină):

(3) M-am mai ju cat în casă p u iţn cu văru-meu şi p e la patru am ieşit în curte.
(Mircea Cărtărescu, Nostalgia) ptg. <Continuei a brincar com o meu primo em casa e
por volta das quatro saímos para o pátio>
(4) Doamna Ivaşcu ieşi pe trotuar ca să-i ureze drum bun. (Mircea Eliade, Noaptea
de sânziene) ptg. <A dona Ivaşcu saiu para o passeio para lhe desejar boa viagem>
(5) Ea nu mai ieşise de o săptămână din casă, de două săptămâni, chiar, trebuia
într-un fel să se amuze! Nu ieşea nici măcar la coafor sau la cinema! (Nicolae Breban,
Bunavestire) ptg. <Ela não saíra de casa há uma ou duas semanas, mas agora tinha
mesmo que se divertir! Não saía nem sequer para o cabeleireiro ou para o cinema>

4 O traço [+funcionalidade] caracteriza a preposição rom. la (ptg. para); as entidades espaciais introduzidas
por este elemento de relação referem a um lugar onde se exerce uma actividade ligada a uma função ou
prática social (rom. a intra în facultate [-funcionalidade] vs. a intra la facultate [+funcionalidade]:
reservado a um sujeito que exerce uma função neste lugar).

202
VERBOS DE DESLOCAÇÃO EM PORTUGUÊS E ROMENO

(6a) Am ieşit cu toţii în stradă şi am umblat o bucată de drum fără să ne despărţim,


foarte veseli. (Mircea Eliade, Romanul adolescentului miop) ptg. <Saímos todos para a
rua e andámos um bom bocado, muito alegres, sem nos despedirmos>
(6b) Aşa c-am ieşit într-o dimineaţă pe strada din faţa casei şi-am umblat pe
trotinetă până mi-a ieşit sufletul. (Mircea Cărtărescu, Orbitor) ptg. <Portanto numa
manhã saí para a rua à frente da casa e andei de trotineta até ficar sem forças>
(6c) Mă răsucii pe călcâie ca să ies iar la strada principală; în clipa aceea am trăit
cele mai groznice senzaţii din viaţa mea. (Lucian Sârbu, Labirintul gol) ptg. <Rodei nos
calcanhares para sair de novo para a rua principal; naqueles momentos vivi os
sentimentos mais terríveis da minha vida>

Por seu turno, o verbo partir constrói-se com preposições e locuções prepositivas
equivalentes, nomeadamente, para, em direcção a, com destino a, tal como ilustramos
nos exemplos abaixo. Observamos que, por um lado, os elementos de relação utilizados
nada dizem sobre a configuração dos referentes espaciais pelos locutores, visto que se
referem apenas à direcção, e, por outro lado, as ocorrências analisadas evidenciam os
traços [+distância], [+permanência] e [+funcionalidade]:

(7) Carlos pensa que o que Vossa Excelência deve fazer já, é partir para Paris.
(Eça de Queirós, Os Maias)
(8) Daí a dias fechou-se a casa de Benfica. Afonso da Maia partia com o neto e
com todos os criados para a Quinta de Santa Olávia. (Eça de Queirós, Os Maias)
(9) Às cinco da manhã, estava de novo a pé, ágil e seca, preparando a fornada,
servindo o dejejum dos homens que partiam para o mato, com as suas roçadeiras e a
corda enrolada nos fueiros do carro. (Agustina Bessa Luís, Sibila)
(10) Daí a pouco, vimo-lo partir na direcção do quintal, sempre sem falar, muito
pálido, fulminado por dentro, sem atinar com a tranca e com o ferrolho da porta da
cozinha. (João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas)

Em romeno, em contextos iguais aos do português, o verbo correspondente a pleca


constrói-se com complementos locativos introduzidos pelos elementos de relação în, la,
spre. Ao contrário da preposição spre, que equivale em português a para, em direcção
a, portanto evidencia apenas a direcção, sem alcance do ponto final (ver os exemplos
11a, 12a), as preposições în e la são utilizadas, tal como no caso do verbo a ieşi, em
função das características funcionais das entidades espaciais, que podem ser
configuradas como [+interiores] (ver o exemplo 11b), respectivamente como
[+localização genérica] ou [+funcionalidade] (ver os exemplos 12b, 12c):

(11a) N-au avut ce face şi-au plecat spre Bucureşti, grămadă. (Eugen Barbu,
Groapa) ptg. <Não tiveram outra solução e partiram para Bucareste, aos magotes>
(11b) Felix îi mărturisi că şi el avea de gând să plece la Paris, pentru a-şi desăvârşi
studiile, dar simţea ca o datorie de onoare să se întoarcă apoi în ţară. (George Călinescu,
Enigma Otiliei) ptg. <Félix confessou-lhe que tinha a intenção de partir para Paris,
para acabar os estudos, mas sentia que era o seu dever voltar depois para o seu país>

203
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(12a) Mi-am spus în mod absurd „Bine, lasă că vezi tu cum totul are un rost” şi am
plecat spre pădure hotărât să încep demontarea... (Florin Cojocaru, Maşina de scris)
ptg. <Disse para mim próprio de modo absurdo “Ora bem, lá verás como tudo tem
sentido”e parti para a floresta decidido a começar a desmontagem>
(12b) A plecat cu el, fireşte: ei doi, noaptea, după ce ceilalţi au adormit, s-au
întâlnit în curte, au plecat apoi singuri în pădure. (Mircea Eliade, Şarpele) ptg. <Claro
que partiu com ele: eles dois, à noite, depois de os outros terem adormecido,
encontraram-se no pátio e depois partiram sozinhos para a floresta>
(12c) Numai duminicile de-l mai prinzi pe-acasă acu... Da poate nici duminică să
nu fie... că tocmai duminică seara vrea să plece la pădure. (Liviu Rebreanu, Ion) ptg.
<Agora é só aos domingos que é possível encontrá-lo em casa… Mas se calhar não dá
para o veres neste domingo... porque é logo nesse dia que quer partir para a floresta>

3.2. ptg. sair = rom. a pleca


As construções aqui incluídas e analisadas referem-se ao facto de a área semântica
do verbo sair corresponder, em romeno, à área semântica do verbo a pleca. Esta
equivalência só ocorre com determinados referentes espaciais, nomeadamente,
topónimos, referentes do tipo “interiores clássicos” ou “edifícios”, tal como nos
exemplos abaixo:

(13) O Joaquim, por modos, sai amanhã para Lamego mai-lo padre Francisco. –
Fazer o quê? – Ver se põem os pápeis em andamento. (Aquilino Ribeiro, Terras do
Demo)
(14) Foi no «café», durante as “férias de ponto”, que eu recebi a notícia da
«morte» de Chico. Quem ma deu? Já me não lembro. Saí abruptamente para sua casa,
que ficava ao pé do jardim, como julgo já ter dito. (Vergílio Ferreira, Aparição)
(15) Saiu para a casa de banho. Quando voltou, vinha preocupado: – Acho que fiz
asneira e que ela foi fazer queixa à sua mãe. Que é que ela terá dito? (Jorge de Sena,
Sinais de Fogo)

Podemos reforçar esta observação se analisarmos as ocorrências em romeno com o


verbo partir e os mesmos referentes espaciais e os seus equivalentes em português.
Observamos, por um lado, que os elementos de relação variam em função das
propriedades geométricas e/ou funcionais das entidades espaciais e, por outro lado, a
difícil aceitação de partir como verbo equivalente. Nestes casos, prefere-se o verbo sair
ou outros verbos de deslocação (por exemplo, ir):

(16) Acestea au fost ultimele cuvinte pe care mi le-a spus Maitreyi, eu am plecat în
camera mea extrem de abătut, zăpăcit şi aproape incapabil să înţeleg ce s-ar putea
întâmpla a doua zi. (Mircea Eliade, Maitreyi) ptg. <Estas foram as últimas palavras que
Maitreyi me dirigiu, eu fui / saí [dali] / ?parti para o meu quarto muito triste,
completamente à toa e quase incapaz de compreender o que poderia trazer o dia
seguinte>

204
VERBOS DE DESLOCAÇÃO EM PORTUGUÊS E ROMENO

(17) Şi îl sorbi, cu un efort – şi oarecare teamă, căci Antim continua să-l privească
speriat. Vădastra se ridică brusc şi plecă la bucătărie. (Mircea Eliade, Noaptea de
sânziene) ptg. <E bebeu-o, com esforço – e um pouco de medo, porque Antim
continuava a olhar para ele assustado. Vădastra levantou-se de repente e foi / saiu [dali]
/ ?partiu para a cozinha>

Ao analisar todas as ocorrências com o verbo sair no romance Memorial do


convento de José Saramago e a tradução para romeno5, observamos que de um total de
sessenta e uma construções, em metade dos casos foi utilizado o verbo correspondente a
ieşi, e em quase outra metade o verbo a pleca, sendo nos poucos restantes casos
empregados outros verbos de deslocação (a se duce, a veni). A pleca foi o verbo
utilizado em contextos em que o locativo desempenha tanto a função semântica Alvo,
como Origem, sendo excluída em todos estes contextos a possibilidade de utilizar o
verbo a ieşi:

(18) Não te esqueças de que el-rei sai para Montemor às três da madrugada, se
quiseres ir com ele, não te deixes dormir. rom. <nu uita că regele pleacă spre Montemor
la trei dimineaţa, dacă vrei să mergi cu el, nu te lăsa pradă somnului>
(19) Saiu Sete-Sóis de Évora, passou Montemor, não leva por companhia e ajuda
frade ou diabinho, e para mão furada já lhe basta a sua. rom. <A plecat Şapte-Sori din
Evora, a trecut de Montemor, nu-i ţine companie şi nu e ajutat nici de călugăr, şi nici de
necurat>
(20) Eram quatro da manhã quando saíram de casa para apanharem um bom lugar
no terreiro... rom. <Au plecat de acasă la 4 d imineaţa ca să ap u ce u n loc bu n în faţa
bisericii>
(21) No dia seguinte, muito cedo, estava o tempo de chuva, saíram Blimunda e
Baltasar da quinta, ela em jejum natural, ele transportando no alforge o sustento de
ambos... rom. <A doua zi, dis-de-dimineaţă, era timp ploios, plecară Blimunda şi
Baltasar de pe moşie, ea pe nemâncate, el ducând în desagă merindele pentru amândoi>

Em conclusão, as construções em que os quatro verbos de deslocação vêm


acompanhados por elementos de relação que introduzem complementos locativos,
responsáveis por uma nova localização da entidade móvel, diferente da implicada pelo
semantismo verbal, podem ser diferenciadas através dos traços semânticos distintivos
[±distância] e [±permanência] ou [±duração]. Se caracterizássemos as construções com
a pleca pelo traço [±distância], isto é, [distância] é traço pertinente só em determinados
contextos, poderíamos explicar o facto de este verbo partilhar uma zona de significado
comum com a ieşi e sair. Esta observação é relevante em construções com advérbios
deícticos, que desempenham a função semântica Origem. Desta forma, sair daqui, daí,
dali corresponde tanto às construções a ieşi de aici, de acolo, como às construídas à
volta do verbo a pleca (de aici, de acolo):

5 Memorialul mânăstirii, Polirom, 2007 (trad. Mioara Caragea).

205
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(22) Nu, nu vreau să plec de aici, scânci ea, nu vreau să plec de lângă tine!
(Nicolae Breban, Bunavestire) ptg. <Não, não quero sair daqui / ?partir daqui,
choramingou ela, não quero sair de ao pé de ti / partir para longe de ti!>
(23) Directorul atinse un climax olimpian: “Plecaţi de-aici! Nesimţiţilor! Plecaţi,
să n u vă mai văd !” (Mircea Cărtărescu, Nostalgia) <O director atingiu o clímax
olímpico: “Saiam daqui / ?Partam daqui! Malcriados! Saiam / Partam, não quero pôr-
-vos a vista em cima!”>

3.3. Particularidades
3.3.1. rom. a ieşi e referentes espaciais do tipo “aberturas”
Finalmente, queríamos apontar para algumas particularidades dos verbos
analisados nas duas línguas românicas. Uma das particularidades do romeno refere-se
ao verbo a ieşi, mais precisamente à sua utilização com referentes espaciais de tipo
“abertura”: janela, porta, portão. Se em português não consta nenhuma ocorrência no
corpus, observamos que em romeno o número de construções não só é elevado, mas de
novo existe a possibilidade de duas preposições diferentes porem em relação o verbo e o
respectivo locativo (ver os exemplos 24-26). Notamos que são as noções de duração e
de distância que podem explicar o uso dos dois elementos de relação. A construção în
uşă implicaria uma determinada duração (ficar no umbral da porta por algum tempo), ao
passo que la uşă implica uma acção pontual, assim como um traço funcional. Ao
mesmo tempo, a distância poderia explicar o uso mais comum da construção la poartă,
visto que será necessário percorrer uma certa distância até ali chegar, e será essa mesma
distância que poderia explicar a conceptualização deste referente como [+ponto]:

(24a) Săriţi!... Săriţi!... Florica ieşi îndată în uşă, în cămaşă, nepieptănată. (Liviu
Rebreanu, Ion) ptg. <Acudam!... Acudam!... Florica assomou / ?saiu logo à porta,
vestida de camisa de noite, despenteada>
(24b) Mama îmi ieşi sprinten la uşă: Te mai doare capul? Ce-au zisa băieţii, da’
profesorii? (Mircea Eliade, Romanul adolescentului miop) ptg. <A mãe veio / ?saiu
depressa à porta para me receber: Ainda te dói a cabeça? O que é que disseram os
rapazes? E os professores?>
(25) M-a lăsat să plec, a doua zi seara m-a căutat acasă. Am ieşit la geam şi am
spus că nu-l pot primi. (Nicolae Breban, Bunavestire) ptg. <Deixou-me partir, mas no
dia seguinte à noite veio a minha casa procurar-me. Assomei / ?saí à janela e disse-lhe
que não podia recebê-lo>
(26a) La prânz bătrâna Marica ieşea în poartă şi când copiii se întorceau de la
şcoală chema câţiva să-i aducă apă din vale de la fântână. (Marin Preda, Moromeţii) ptg.
<À hora do almoço, a velha Marica ia / ?saía ao portão e, quando as crianças voltavam
da escola, chamava algumas para lhe irem buscar água à fonte>
(26b) Un câine îl lătră de după gard. O femeie ieşise la poartă, câteva case mai în
faţă. Îl privea apropiindu-se, de parcă l-ar fi aşteptat. (Cornel Mihai Ungureanu,
Soldatul) ptg. <Um cão ladrou para ele do outro lado da vedação. Uma mulher tinha

206
VERBOS DE DESLOCAÇÃO EM PORTUGUÊS E ROMENO

assomado / ?saído ao portão, umas quantas casas mais à frente. Olhava para ele
aproximar-se, como se tivesse estado à sua espera>

3.3.2. ptg. sair pela porta fora e sair porta fora


A segunda particularidade, desta vez em português, diz respeito a duas construções
equivalentes a nível conceptual, nomeadamente, sair pela porta fora e sair porta fora.
Ambas traduzem o mesmo esquema conceptual, isto é, a direcção de interior para
exterior, passando por um referente espacial do tipo “abertura” (a porta). O que
acrescenta sair porta fora à situação de deslocação é uma acção precipitada, tal como
no exemplo 27b:

(27a) Onde se metera ele na véspera à noite, como chegara inesperadamente, que
pressa tinha sido a dele de sair tão cedo pela porta fora, naquela manhã? O azedume era
tão evidente, e tão insólito, que ele reagiu respondendo que a casa dos nossos tios era
tão minha quanto dele... (Jorge de Sena, Sinais de fogo)
(27b) Guiomar ergueu-se e saiu porta fora. Não podia aguentar por mais tempo a
violência daquele fogo cruzado. Por que absurda razão não era ela a única a sofrer, e
tinha companheiros, que não queria, amarrados ao seu destino? (Miguel Torga,
Vindima)

As duas construções encontram um único equivalente em romeno, nomeadamente,


pe uşă afară, em que é obrigatória a utilização da preposição pe (uşă) que indica a
Trajectória, tal como no exemplo abaixo:

(28) Weissmann, înspăimântat, zise repede: – Nu pot să stau, venisem să-l caut pe
amicul Felix. Şi ieşi grabnic pe uşă afară. (George Călinescu, Enigma Otiliei) ptg.
<Weissmann, assustado, disse logo: – Não posso ficar, vim para encontrar o meu amigo
Félix. E saiu apressado (pela) porta fora>

3.3.3. rom. a ieşi / a pleca e localização final dispersa


A última particularidade a discutir diz de novo respeito à língua romena e tem a
ver com o próprio sistema preposicional, mais precisamente, com as preposições
compostas, a saber, prin (pe + în) e pe la. Neste caso, o primeiro elemento de relação,
pe, desempenha papel de elemento auxiliar que, anteposto a uma preposição principal,
exprime ou acrescenta outros aspectos e matizes relativos às localizações finais 6. Estas
preposições compostas permitem, de facto, a expressão de uma localização final
aproximativa, dispersa, imprecisa, no sentido em que a entidade móvel, no final da
deslocação, se encontra dentro da porção de espaço definida pelo referente espacial, mas
este espaço é suficientemente abrangente para que a entidade se possa encontrar em
qualquer um dos pontos que compõem esta porção de espaço.

6 Dominte, 1970.

207
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

A expressão das localizações imprecisas é possível através de:


• preposição prin + referentes do tipo “áreas delimitadas” (curte, parc, grădină,
pădure: pátio, parque, jardim, floresta) 7;
• preposição pe la + referentes do tipo “abertura” (fereste, porţi: janelas,
portões)
Em português não é possível distinguir entre uma localização final precisa e uma
localização final dispersa. A ieşi în parc / prin parc, a ieşi în curte / prin curte, a ieşi în
grădină / prin grădină têm como equivalentes em português sair para o parque / para o
pátio / para o jardim. Nestes casos, a preposição în oferece uma visão global sobre o
referente espacial, ao passo que prin oferece uma visão descontínua sobre o mesmo
referente, tal como nos exemplos abaixo:

(29) “După-masă, zise, ne plimbăm şi noi doi puţin?” “Da, zisei, e vreme
frumoasă, am putea ieşi prin pădure.” (Marin Preda, Cel mai iubit dintre pământeni)
ptg. <“E se fôssemos passear esta tarde?” “Sim, disse-lhe eu, está bom tempo,
poderíamos sair para a floresta>
(30) Grupuri de copii alergau gălăgioşi pe trotuar. Oamenii ieşeau pe la ferestre,
trăgeau, apoi ridicau transperantele, nedecişi, plecându-se către stradă şi privind în toate
părţile. (Mircea Eliade, Noaptea de sânziene) ptg. <Grupos de crianças corriam
barulhentos pelo passeio. As pessoas assomavam / ?saíam às janelas, depois fechavam
os estores, depois abriam-nos, indecisos, debruçando-se para a rua e olhando para todos
os lados>

4. Conclusões
Em conclusão, apontamos para as seguintes diferenças entre as duas línguas
românicas. Primeiro, critérios de natureza diferente estão na base da utilização das
preposições que introduzem os complementos locativos de tipo Alvo, a saber,
[±permanência] em português e configurações diferentes dos referentes espaciais pelos
falantes, em romeno. Segundo, o verbo sair contrasta com o seu equivalente em romeno
a ieşi, visto que aceita complementos de lugar expressos por referentes espaciais de tipo
topónimos (sair para o Porto); neste caso, sair é sinónimo do verbo partir. Sublinhe-se
que nestes contextos em romeno só é possível o verbo a pleca (ptg. partir) e não a ieşi
(ptg. sair). Terceiro, a ieşi tem um significado secundário, que não se encontra em
português, segundo o qual a entidade móvel chega à fronteira que claramente separa
dois lugares, mas sem ultrapassá-la. Quarto, existe em romeno a possibilidade de
exprimir, graças às preposições compostas, localizações finais indeterminadas. Quinto,
em português a relação mais forte é entre o verbo e a preposição, ao passo que em
romeno é entre o elemento preposicional e o locativo (ver supra ex. (3-6), (11-12)). Por
isso, relativamente aos quatro verbos estudados, consideramos que em português a
selecção da preposição se faz com base em critérios sintácticos, fenómeno associado ao

7 Chamamos a atenção que estes locativos podem receber uma dupla interpretação, Trajectória ou Alvo, mas a
ambiguidade resolve-se sempre no contexto.

208
VERBOS DE DESLOCAÇÃO EM PORTUGUÊS E ROMENO

regime verbal, ao passo que em romeno a selecção da preposição parece ser feita com
base em propriedades semânticas: ptg. [V + Prep.] + GN 2/Locativo; rom. V + [Prep. +
GN2/Locativo].

Referências
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Wotjak, Gerd (1979) Investigaciones sobre la estructura del significado. Madrid:
Gredos.

209
Produção e compreensão de orações relativas em português europeu:
dados do desenvolvimento típico, de PEDL e do agramatismo 1

João Costa, Maria Lobo, Carolina Silva e Elisa Ferreira


Universidade Nova de Lisboa

Abstract
Relative clauses are a domain in which children and impaired populations exhibit
difficulties. Extending research carried out for other languages, we apply production and
comprehension tests to typically developing children acquiring European Portuguese,
adult controls, agrammatic adults and children diagnosed with Specific Language
Impairment, in order to assess whether there is a subject-object asymmetry both in
production and in comprehension across populations. The main finding is that this
asymmetry is robust, but a qualitative analysis of the pattern of deviance is needed in
order to find out the source of the problems. The analysis reveals that children have
troubles with crossing dependencies, which explains the subject-object asymmetry.

Keywords: relative clauses, subject, object, acquisition, SLI, agrammatism


Palavras-chave: orações relativas, sujeito, objecto, aquisição, PEDL, agramatismo

1. Introdução
As orações relativas são uma estrutura utilizada quer como medida de avaliação do
desenvolvimento da linguagem, quer como indicador de perturbações adquiridas ou
congénitas da linguagem (Adams, 1990; Berman, 1997; Brown, 1972; Correa, 1982;
1995; de Villiers et al., 1994; De Vincenzi, 1991; Friedmann, Belletti, & Rizzi, 2009;
Friedmann & Novogrodsky, 2004; Håkansson & Hansson, 2000; McKee et al., 1998;
Roth, 1984; Sheldon, 1974; Tavakolian, 1981; Vasconcelos 1991). Sabe-se que estas
estruturas são um indicador válido por se reconhecer que são uma área em que diferentes
populações encontram dificuldades, não havendo contudo consenso relativamente à
natureza da dificuldade. Alguns dos trabalhos referidos indicam haver uma assimetria
entre tipos de relativas na aquisição destas estruturas, o que indicará que eventuais défices
relacionados com as relativas não se prendem globalmente com o tipo de estrutura, mas
apenas com alguns sub-aspectos.

1 A investigação para este trabalho insere-se no projecto “Técnicas Experimentais na Compreensão da


Aquisição do Português Europeu” POCTI/LIN/57377/2004 e beneficiou da iniciativa europeia COST-A33.
Agradecemos a cedência dos materiais para o teste de compreensão de Naama Friedmann, bem como as
suas sugestões para a codificação dos dados no teste de produção.

Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,


APL, 2009, pp. 211-224
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Neste artigo, procuraremos atingir os seguintes objectivos:


Aferir se também se manifestam em português europeu assimetrias entre orações
relativas de sujeito e de objecto encontradas para outras línguas em várias populações.
Testar produção e compreensão e tentar encontrar qual a natureza do problema
(estrutural – acesso a CP, movimento ou transferência de papel temático), permitindo
comparação com abordagens centradas em processamento (Vasconcelos, 1991).
Verificar se populações diferentes têm problemas diferentes perante estruturas
idênticas (Friedmann et al., 2006).
O racional inerente ao trabalho a desenvolver, inspirado fortemente nos trabalhos de
Naama Friedmann que referimos, é o seguinte: as relativas de sujeito e objecto são
estruturas complexas que envolvem dependências A-barra (com movimento),
distinguindo-se pelo facto de apenas as de objecto envolverem uma dependência em que
há intervenção de um argumento/papel temático, isto é, em que o papel temático do
objecto atravessa o papel temático do sujeito, como ilustrado em (1b):

(1) a. Gostava de ser o rapaz que visitou o avô.

b. Gostava de ser o rapaz que o avô visitou.

Sendo esta a única diferença entre os dois tipos de relativas, espera-se que haja um
comportamento diferenciado na produção e compreensão dos dois tipos de relativas em
função de diferentes tipos de problemas. Se houver um problema de natureza estrutural,
isto é, se não houver acesso ao nó CP, espera-se que haja problemas na produção e
compreensão dos dois tipos de relativas. Se houver problemas com movimento A-barra,
também não são previstos comportamentos diferenciados face aos dois tipos de relativas.
Já se houver dificuldades com o estabelecimento de dependências em contextos em que há
intervenção de um possível antecedente, como em (1b), espera-se que haja problemas
apenas com as relativas de objecto.
O artigo encontra-se organizado da seguinte forma. Na secção 2, apresentamos a
metodologia utilizada para aceder à produção e compreensão das relativas de sujeito e
objecto nas diferentes populações. Na secção 3, apresentamos os resultados. Na secção 4,
apresentamos a discussão e as principais conclusões.

2. Metodologia
2.1. Tarefa de produção
A tarefa de produção consistiu numa adaptação da tarefa de preferência desenvolvida
para o hebraico em Novogrodsky & Friedmann (2004), adaptada de acordo com o
projecto COST-A33. No âmbito deste projecto, que visa a obtenção de dados de crianças
em idade pré-escolar falantes das várias línguas faladas na Europa, optou-se por induzir a
produção de vinte orações relativas – dez orações relativas em que o pronome
desempenha a função sintáctica de sujeito e dez em que desempenha a função de
complemento directo, equilibradas em termos de reversibilidade. A reversibilidade dos

212
PRODUÇÃO E COMPREENSÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS EM PORTUGUÊS EUROPEU

predicados é importante, uma vez que o facto de um determinado predicado não ser
reversível pode enviesar os resultados, uma vez que uma única leitura para uma estrutura é
forçada por factores pragmáticos. Na tarefa de preferência, a criança é convidada a
participar numa entrevista em que se lhe apresentam duas situações, tendo ela que dizer ao
experimentador qual prefere. A única regra a que as crianças tinham de aderir seria que
todas as frases tinham de começar por “Gostava de ser o/a menino/a…”. Em (2a) e (2b),
apresentamos um exemplo de elicitação de relativa de sujeito e objecto, respectivamente:

(2) a. Há dois meninos… Um menino come chocolate, o outro menino come gelado.
Que menino é que gostavas mais de ser?
Começa com: Gostava de ser o menino…
b. Há dois meninos… A mãe penteia um menino, o vizinho penteia o outro
menino. Que menino é que gostavas mais de ser?
Começa com: Gostava de ser o menino…

Todos os participantes foram testados individualmente numa sala calma. Não foi
imposto qualquer limite temporal à execução da tarefa, nem foram dados qualquer
estímulo ou correcção em função do tipo de resposta dada, apenas palavras de estímulo
para a execução da tarefa. No caso das crianças, foi dada uma recompensa no final da
tarefa. Os testes foram gravados em gravador digital e transcritos durante e depois do teste
por dois dos investigadores.

2.2. Tarefa de compreensão


A tarefa de compreensão consistiu numa tarefa de identificação de imagens, em que
se pedia à criança que identificasse a imagem correspondente à frase ouvida. Para cada
frase, era apresentado um par de imagens, num total de quarenta pares, que testaram vinte
relativas de objecto e vinte relativas de sujeito. Dada a natureza do teste, apenas foram
testadas situações com predicados reversíveis. As imagens e o teste são de Friedmann e
Novogrodsky (2004) e foram gentilmente cedidos por Naama Friedmann. Em (3a) e (3b),
apresentamos exemplos das frases que são utilizadas para testar a compreensão de orações
relativas de sujeito e objecto, respectivamente, mediante a apresentação de um par de
imagens como o que se encontra na Fig.1:

(3) a. Mostra-me o menino que está a secar o hipopótamo.


b. Mostra-me o menino que o hipopótamo está a secar.

Fig. 1. Exemplo de imagem do teste de compreensão

213
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

As condições de aplicação do teste foram as mesmas que no teste de produção. As


respostas foram registadas por um dos investigadores durante o teste. Sempre que o
participante mudava o sentido da sua resposta, registava-se apenas a última resposta dada.

2.3. Participantes
Participaram neste estudo, nas tarefas de produção e compreensão, sessenta crianças
(25 rapazes e 35 raparigas) falantes monolingues de português europeu sem qualquer
perturbação de linguagem, auditiva ou cognitiva diagnosticada, provenientes de dois
infantários da Grande Lisboa. Estas crianças tinham idades entre os 3;9 e 6;2 (média de
idades 5;1). O grupo de controlo foi constituído por dez adultos com idades compreen-
didas entre os 23 anos e os 42 anos, todos com formação universitária. O facto de alguns
dos participantes terem formação em linguística não condicionou as suas performances,
uma vez que houve comportamentos semelhantes em adultos com e sem este tipo de
formação.
Participaram ainda do estudo sete crianças diagnosticadas com Perturbação
Específica do Desenvolvimento Linguístico (PEDL), com idades compreendidas entre os
5;9 e os 11;3 (6 rapazes e 1 rapariga) e seis adultos agramáticos diagnosticados com afasia
de Broca (4 do sexo masculino, 2 do sexo feminino), com idades compreendidas entre os
29 e os 60 anos. Para pormenores sobre os critérios de selecção e inclusão destes
participantes, bem como detalhes sobre os seus historiais clínicos, consulte-se Ferreira
(2008).

3. Resultados
Apresentamos, nesta secção, os resultados dos testes aplicados. A apresentação dos
resultados encontra-se organizada da seguinte forma. Em 3.1., são apresentados os
resultados do teste de produção nas crianças com desenvolvimento típico e no grupo de
controlo adulto, mostrando-se a necessidade de se proceder a uma comparação mais
explícita entre as respostas dadas pelos dois grupos para se aferir a validade do teste. Em
3.2., apresentam-se os resultados do teste de compreensão para estes dois grupos. Em 3.3.,
são apresentados os resultados dos testes de produção e compreensão para as crianças com
PEDL e, finalmente, em 3.4., apresentam-se os resultados dos dois testes para os adultos
agramáticos.

3.1. Produção em crianças com desenvolvimento típico e adultos


Na figura 1, apresenta-se o resultado global atingido pelas crianças na produção de
relativas de sujeito e objecto. Como se pode observar, há uma clara assimetria entre as
relativas de sujeito e de objecto, na medida em que as crianças produzem muito mais
relativas de sujeito do que relativas de objecto de acordo com as respostas esperadas.

214
PRODUÇÃO E COMPREENSÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS EM PORTUGUÊS EUROPEU

Fig. 2. Resultados do teste de produção – Crianças com desenvolvimento típico

Na fig. 3, apresentamos os dados individuais das sessenta crianças, ordenados de


acordo com a idade das crianças. Este gráfico permite fazer duas observações: por um
lado, não há nenhuma criança em que a produção de relativas de objecto seja superior à de
relativas de sujeito; por outro lado, é possível observar que não há uma correlação com
idade, ou seja, embora haja alguma progressão, encontramos desempenhos bastante
desiguais entre as crianças mais velhas e entre as crianças mais novas.

Fig. 3. Produção por crianças com desenvolvimento típico: dados individuais

Ao testarmos o grupo de controlo adulto, verificámos que, ao contrário das nossas


expectativas, também nos adultos se verificava uma assimetria grande entre as relativas de
sujeito e de objecto. Os resultados dos adultos são apresentados no gráfico seguinte:

215
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Fig. 4: Resultados dos adultos na produção de relativas de sujeito (1) e objecto (2)

Como se pode ver no gráfico acima, há uma produção de 99% de relativas de sujeito,
mas de apenas 48% de relativas de objecto. Perante estes resultados no grupo de controlo,
colocámo-nos várias questões sobre a própria validade do teste e sobre a relevância das
relativas de objecto enquanto medida de desenvolvimento. Se os próprios adultos não
produzem estas estruturas, importará entender por que motivo não o fazem e se há, de
facto, alguma diferença entre crianças e adultos.
Para melhor entender o resultado do grupo de controlo, resolvemos olhar para os
resultados individuais, que apresentamos na fig. 5:

Fig. 5. Produção de relativas nos adultos: resultados individuais

216
PRODUÇÃO E COMPREENSÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS EM PORTUGUÊS EUROPEU

Como se pode observar no gráfico, o comportamento dos adultos é bastante


diferenciado 2. Há adultos que não produzem uma única relativa de objecto, enquanto
outros produzem relativas de objecto em todos os itens de teste. Perante este resultado,
resolvemos investigar o que fazem os adultos que não produzem relativas de objecto.
Crucialmente, estes adultos produzem estratégias alternativas legítimas: ou relativas de
sujeito passivas (como em Gostava de ser o menino que foi penteado pela mãe.) ou
passivas adjectivais (como em Gostava de ser o menino penteado pela mãe). Nenhum
adulto produziu estruturas agramaticais no contexto de produção de estruturas relativas de
objecto. No gráfico seguinte, mostram-se as estruturas alternativas produzidas pelos vários
adultos:

Fig. 6. Produção de relativas de objecto nos adultos: análise qualitativa

Nas crianças, uma análise qualitativa das respostas dadas revela um padrão
substancialmente diferente. É possível observar que há muito mais respostas agramaticais
no contexto de relativas de objecto do que no contexto de relativas de sujeito, o que
permite supor que aquele é muito mais difícil para as crianças do que este. Note-se que,
nos adultos, não há respostas agramaticais em nenhum dos contextos.

2 Conforme sugerido por um avaliador do artigo, será interessante alargar esta amostra a um grupo maior de
participantes para aferir se há uma maior homogeneidade de comportamento.

217
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Fig. 7. Respostas (a)gramaticais para relativas sujeito


– crianças com desenvolvimento típico

Fig. 8. Respostas (a)gramaticais para relativas objecto


– crianças com desenvolvimento típico

Nos tipos de respostas dados pelas crianças, encontrou-se imensa variação, tendo,
contudo, sido possível encontrar alguns padrões mais comuns nas respostas agramaticais,
que ilustramos em (4) (para uma resposta alvo Gostava de ser o menino que o avô visita):

(4) a. Omissão do pronome relativo: Gostava de ser o menino o avô visita.


b. Inversão de papéis temáticos: Gostava de ser o menino que visita o avô.
c. Repetição do antecedente: Gostava de ser o menino que o avô visita o
menino.
d. Pronome clítico resumptivo: Gostava de ser o menino que o avô o visita.
e. Relativa com um argumento nulo: Gostava de ser o menino que fotografa.
f. Oração subordinada não relativa agramatical: Gostava de ser o menino o avô
a procurar.
g. Troca de antecedente: Gostava de ser o avô que…

218
PRODUÇÃO E COMPREENSÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS EM PORTUGUÊS EUROPEU

Destas alternativas agramaticais, as respostas mais frequentes foram as que


envolveram inversão de papel temático (10%) ou repetição do antecedente através de NP
ou pronome (15%). As outras alternativas dividiram-se em respostas inferiores a 4%. A
tendência para desvios deste tipo parece indicar que o principal problema das crianças se
prende com a interpretação dos argumentos, sobretudo se tivermos em conta que estes
erros não ocorrem na produção de relativas de sujeito.
Belletti (2008) levanta a hipótese de, em línguas que têm inversão sujeito-verbo, não
ser possível detectar a inversão de papéis temáticos, uma vez que esta se pode confundir
com uma resposta-alvo em que o sujeito e o verbo se encontram invertidos. Embora nos
pareça que a inversão sujeito-verbo em relativas é claramente despreferida na gramática
alvo neste contexto, quisemos excluir esta hipótese e garantir que a interpretação dos
resultados era segura. Para tal, acrescentámos três itens de teste com sujeitos no plural. Se
as crianças produzissem ordens VS, o verbo deveria ocorrer no plural, se invertessem os
papéis temáticos, o verbo deveria ocorrer no singular. Nos três itens, não houve qualquer
resposta plural com ordem VS, tendo-se registado, contudo 15% de casos de ordem V-DP
com o verbo no singular. Este resultado parece corroborar a ideia de que há bastante
inversão de papéis temáticos na (tentativa de) produção de relativas de objecto.
Perante esta análise comparativa das respostas das crianças e dos adultos, é possível
concluir que há uma diferença substancial entre os dados dos dois grupos: alguns adultos
não produzem relativas de objecto porque dispõem de estratégias alternativas gramaticais,
enquanto as crianças não produzem relativas de objecto porque não dispõem dos recursos
linguísticos necessários para o fazer, produzindo bastantes estruturas agramaticais no
contexto de relativas de objecto.

3.2. Compreensão em crianças com desenvolvimento típico e adultos


A assimetria entre relativas de sujeito e de objecto é confirmada nos resultados do
teste de compreensão. Conforme se pode ver no gráfico da figura 9, há uma muito melhor
compreensão (quase perfeita) das relativas de sujeito do que das relativas de objecto, não
chegando a performance nestas aos 70% de sucesso.

Compreensão de orações relativas


96%

100%
68%
80%

60%

40%

20%

0%
Relativas sujeito Relativas objecto

Fig. 9. Compreensão de relativas: crianças com desenvolvimento típico

219
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

O grupo de controlo adulto teve uma performance de 100% nos dois tipos de
relativas. O facto de os adultos não terem dificuldades na compreensão de relativas de
nenhum tipo confirma a validade desta construção como medida de avaliação de
desenvolvimento e permite supor que, ao contrário do que é proposto em Vasconcelos
(1991), os problemas nas crianças não são apenas de processamento em sentido estrito,
tratando-se de um verdadeiro problema de desenvolvimento sintáctico.

3.3. Produção e compreensão em crianças com PEDL


Conforme descrito em Ferreira (2008), as crianças com PEDL testadas apresentaram
uma performance comparável à das crianças com desenvolvimento típico na compreensão
(apesar de serem bastante mais velhas) e uma performance bastante pior na produção.
Os resultados alcançados podem ser descritos da seguinte forma:
i) Compreensão de relativas sujeito
A performance das crianças foi bastante boa, tendo a média de grupo atingido os
92,5% de respostas-alvo;
ii) Compreensão de relativas objecto
À semelhança do que aconteceu com as crianças com desenvolvimento típico, a
compreensão de relativas de objecto foi significativamente pior do que a de relativas de
sujeito, tendo a percentagem de respostas-alvo ficado pelos 69,6%.
Os resultados em termos de produção foram bastante piores, tendo a taxa de resposta
sido bastante baixa nos dois tipos de relativas. Não obstante, verificaram-se alguns factos
bastante interessantes. Em primeiro lugar, a assimetria sujeito-objecto verificada na
compreensão manifestou-se também na produção (34,3% de relativas de sujeito vs. 11,4%
de relativas de objecto). Além disso, observou-se que o grupo de crianças se dividiu em
dois grupos em função da tipologia de repostas desviantes. Na produção de relativas de
sujeito, verificou-se um mau desempenho por parte das crianças mais novas, que tendem a
omitir o complementador (45,6% de omissão do complementador) ou a reduzir a relativa
eliminando o verbo ou alguns argumentos (44,1% de relativas reduzidas ao verbo ou ao
objecto). Nas relativas de objecto, as dificuldades encontram-se generalizadas às crianças
mais novas e mais velhas. Contudo, verificou-se que as crianças mais novas produzem
mais desvios estruturais, caracterizados pela omissão do complementador (22,1% de
omissão de complementador, 15,1% de inversão de papéis temáticos com omissão do
complementador e 35% de orações reduzidas a um argumento, igualmente com omissão
do complementador), enquanto as crianças mais velhas apresentam mais respostas com
complementador, sendo maioritárias as respostas dadas em que há inversão de papéis
temáticos.
Apesar de a amostra ser bastante pequena, estes dados preliminares são interessantes,
uma vez que permitem levantar duas hipóteses a aprofundar no futuro: de acordo com
estes dados, as relativas de objecto, mais do que as de sujeito, são um marcador clínico
válido para PEDL, isto é, podem ser tomadas como um “sintoma” de que uma criança
pode apresentar esta patologia. Além disso, a PEDL pode ser vista como um atraso
relativamente ao desenvolvimento típico, uma vez que o padrão de respostas encontrado
não é qualitativamente diferente do que é encontrado nas crianças com desenvolvimento

220
PRODUÇÃO E COMPREENSÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS EM PORTUGUÊS EUROPEU

típico. Se fosse qualitativamente diferente, poder-se-ia pensar que a PEDL era um desvio
ou um tipo de desenvolvimento diferente e não apenas um atraso. Obviamente, estas
hipóteses carecem de validação através de testagem com mais crianças.

3.4. Compreensão e produção em adultos agramáticos


A aplicação dos testes em adultos agramáticos levada a cabo em Ferreira (2008)
confirmou os resultados de Cerdeira (2006), permitindo mostrar que as relativas são, no
geral, uma área de dificuldade para esta população.
Como se pode ver na fig. 10, na compreensão verificou-se uma assimetria entre
relativas de sujeito e relativas de objecto, tal como nas restantes populações, mas ao
contrário do que aconteceu com o grupo de controlo adulto.

Fig. 10. Compreensão de relativas por adultos agramáticos

Na tarefa de produção, não se verificou uma assimetria acentuada entre os dois tipos
de relativas, tendo as relativas de sujeito sido produzidas com sucesso em 54,3% das
elicitações e as de objecto em 34,3% dos casos. Na análise dos padrões de desvio na
produção de relativas pelos doentes com agramatismo, Ferreira (2008) mostra que há
omissão do complementador em cerca de 50% dos casos, o que permite supor que o
problema no agramatismo é, essencialmente, de natureza estrutural e não temático
(Friedmann e Grodzinsky, 1997), já que os problemas como inversão de papel temático ou
omissão de argumentos se manifestaram em apenas 8% dos casos, ao contrário do que
aconteceu nas outras populações estudadas.
A hipótese de que o problema no agramatismo é essencialmente estrutural foi
avançada na literatura por Friedmann e Grodzinsky (1997) e testada com sucesso para o
português europeu em Cerdeira (2006).

221
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

4. Discussão e conclusões
Os testes realizados permitiram confirmar, para o português europeu, a existência de
uma assimetria entre as relativas de sujeito e de objecto em tarefas de compreensão e de
produção, quer na aquisição, quer em populações com perturbação da linguagem. A
observação de que existem assimetrias entre os dois tipos de relativas é um resultado
interessante, uma vez que permite olhar para estas estruturas com pormenor e entender
qual o pormenor que separa as relativas de sujeito das de objecto: à semelhança do que é
proposto em Novogrodsky e Friedmann (2004), assumimos que a dificuldade das crianças
nas orações relativas de objecto se deverá não ao facto de se tratar de estruturas complexas
ou com movimento A-barra, mas ao facto de envolverem uma dependência referencial em
que há intervenção do sujeito da oração subordinada.
Do ponto de vista metodológico, foi possível observar que a assimetria sujeito-
-objecto só foi validada na medida em que se procedeu a uma análise qualitativa das
produções desviantes de cada grupo testado. Se a análise tivesse sido meramente
quantitativa, teríamos ficado com a impressão errada de que as relativas de objecto não
podiam ser usadas como medida de avaliação, tendo em conta o desempenho do grupo de
controlo. Ainda no plano metodológico, revelou-se importante a comparação entre os
dados da produção e da compreensão, para se aferir não só as diferenças entre as
diferentes populações testadas, mas também para se confirmar até que ponto se pode
considerar que as relativas podem constituir um problema de desenvolvimento linguístico
e não apenas um problema de processamento, uma vez que, de acordo com Vasconcelos
(1991, 1995), as dificuldades encontradas nas tarefas com algumas relativas se deveriam
ao desenho experimental – uma tarefa de “act-out”. Esta tarefa, segundo a autora,
mostrou-se difícil quer em termos de memória de curto prazo, quer na sequencialização de
duas situações, levando as crianças a processarem a frase complexa como duas frases
autónomas. Em contraste, no teste de compreensão que usámos, em que era pedida uma
selecção de imagens idêntica para relativas de sujeito e para relativas de objecto, não se
pode atribuir ao método – e, por extensão, a uma qualquer dificuldade de processamento
inerente à metodologia usada – a assimetria nos resultados.
Finalmente, a avaliação comparada de populações distintas permitiu verificar que
comportamentos superficiais idênticos perante estruturas linguísticas idênticas podem ter
causas subjacentes distintas. Em particular, uma aparente dificuldade perante estruturas
relativas pode ter como causas subjacentes problemas de acesso aos nós mais altos da
estrutura, como no caso dos agramáticos ou das crianças com PEDL mais novas, ou
problemas de interpretação de dependências referenciais, como no caso das crianças com
desenvolvimento típico e das crianças com PEDL mais velhas.

222
PRODUÇÃO E COMPREENSÃO DE ORAÇÕES RELATIVAS EM PORTUGUÊS EUROPEU

Referências
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223
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Vasconcelos, Manuela (1991) Compreensão e produção de frases com orações


relativas: um estudo experimental com crianças dos três anos e meio aos oito anos e
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Vasconcelos, Manuela (1995) Relative Clauses Acquisition and Experimental Research:
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224
Scrambling de Média Distância com Advérbios Locativos
no Português Contemporâneo

João Costa* e Ana Maria Martins**


*Universidade Nova de Lisboa e **Universidade de Lisboa

Abstract
This paper describes the preposing of locative adverbs in Contemporary European
Portuguese showing that it is restricted to ‘proclitic environments’ (although locatives are
not clitics). It is argued that locative preposing is an instance of middle scrambling as
found in Germanic, understood as movement to Spec,TP. The restrictions to its occurrence
are explained as a consequence of a general restriction on the licensing of the functional
category Σ, in an extension of previous work on clitics. Some ideas on the interface
between syntax and aspect are put forward in order to explain what singles out locative
adverbs in allowing middle scrambling.

Keywords: Adverb, Locative, Scrambling, Clitic, Restructuring


Palavras-chave: Advérbio, Locativo, Scrambling, Clítico, Reestruturação

1. Introdução
No Português Europeu (PE) contemporâneo, há scrambling de curta distância
(Costa, 1998), como talvez nas línguas em geral (Takano, 1998). Esta possibilidade, que
consiste num movimento do objecto interno ao VP, encontra-se ilustrada em (1b), em
que se atesta a ordem Obj-Adv, que, segundo Costa (1998), é derivada através de
movimento do complemento para a esquerda do advérbio.

(1) a. O João fala bem francês


b. O João fala francês bem. (scrambling)

No PE antigo havia scrambling de média distância, como em todas as línguas


românicas medievais (Martins, 2002; 2005). Nesta construção do português antigo, o
constituinte afectado por scrambling precede o verbo, ocupando tipicamente uma
posição entre o sujeito e o verbo, conforme ilustrado em (2b):

(2) a. E se pela vẽtuira vos alguẽ enbargar a dita vĩa


b. E se pela vẽtuira vos alguẽ a dita vĩa enbargar. (scrambling)

_____________________________
Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,
APL, 2009, pp. 225-237
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Actualmente, a família românica contrasta, aparentemente, com outras famílias de


línguas indoeuropeias (por ex, a família germânica) por nenhum dos seus membros
admitir scrambling de média distância. Em (3), apresentam-se alguns exemplos de
scrambling de média distância em alemão e holandês, mostrando-se as contrapartidas
agramaticais em PE contemporâneo:

(3) a. ..daß einanderi die beideni immer noch lieben. (Alemão)


que um ao outro-AC os dois-NOM ainda amam
‘..que os dois ainda se amam um ao outro.’
Exemplo de Grewendorf & Sabel (1999:7)
a’. *..que um ao outro os dois ainda se amam. (PE)
a’’. *..que os dois um ao outro ainda se amam. (PE)

b. ..dat Jan een meisje gisteren gekust heeft. (Holandês)


que J. uma menina ontem beijado tem
‘… que o Jan ontem beijou uma rapariga.”
Exemplo de Zwart (1996:91)
b’. *..que o João uma rapariga ontem beijou. (PE)

Propomos neste artigo que o scrambling de média distância (SMD) não está
completamente perdido nas línguas românicas. Defendemos que esta operação,
entendida como movimento para Spec,TP, tal como proposto em Chomsky (1994) e
Grewendorf e Sabel (1999), se encontra disponível em PE contemporâneo, mas limitada
aos advérbios locativos do tipo de aqui, aí, ali, cá, lá ou a PPs que os contenham. O par
de frases em (4) permite ilustrar a construção de SMD em PE contemporâneo. Em (4a),
observa-se o advérbio lá na sua posição de base (neste caso, como complemento do
verbo), enquanto em (4b) é possível observar o advérbio na posição entre sujeito e
verbo, ou seja, movido por scrambling de média distância1.

(4) a. Ele não sabe que eu vou lá amanhã.


b. Ele não sabe que eu lá vou amanhã.

Para que seja possível obter dados comparáveis, não afectados por diferenças
superficiais entre os advérbios relevantes (ou laterais ao tópico em discussão), todos os
exemplos do artigo serão construídos com lá.
Importa esclarecer que nos ocuparemos apenas do advérbio lá de valor puramente
locativo, desconsiderando o lá enfático/afectivo que ocorre invariavelmente em posição
pré-verbal (Martins, 1994) – excepto se houver movimento do verbo para além de T
(Telefona lá!). Esta instância de lá encontra-se ilustrada em (5) e (6). Como se pode

1 Como se tornará claro na discussão, o facto de, em português europeu, o sujeito pré-verbal, não estar em
Spec,TP, justifica que o constituinte afectado por scrambling ocorra à direita do sujeito, e não à sua
esquerda como acontece nas línguas germânicas.

226
SCRAMBLING DE MÉDIA DISTÂNCIA COM ADVÉRBIOS LOCATIVOS

observar nestes exemplos, a sua posição é sempre pré-verbal, contrastando com a


posição variável dos advérbios locativos exemplificada em (4) 2.

(5) [A] a. Como é que está a Maria?


[B] b. Lá está.
c. #Está lá.

(6) a. A Maria lá telefonou.


b. *A Maria telefonou lá.

O artigo encontra-se organizado da seguinte forma: na secção 2, descrevemos a


distribuição pré- e pós-verbal dos advérbios locativos; na secção 3, propomos a
derivação da posição pré-verbal como o resultado da aplicação de SMD e mostramos
como esta análise deriva os dados básicos descritos na secção 2; na secção 4, testamos
algumas predições adicionais feitas pela análise proposta, relativamente a domínios
funcionais defectivos, em particular relativamente a contextos não finitos de
reestruturação; na secção 5, apresentamos uma proposta para a ordem relativa entre os
locativos e a negação frásica; na secção 6, avançam-se algumas ideias sobre os motivos
pelos quais o SMD se encontra restrito a este tipo de locativos. Na secção 7,
apresentam-se as conclusões do artigo.

2. A posição do locativo lá na frase (posição pós-verbal vs. posição pré-verbal)


Mostramos nesta secção que existe sobreposição entre os contextos em que o
locativo lá pode ser pré-verbal e os contextos de próclise para os clíticos em PE.
O locativo lá ocorre em posição pós-verbal nos contextos sintácticos em que os
pronomes clíticos são enclíticos, mas pode antepor-se ao verbo nos contextos em que os
pronomes clíticos são proclíticos (Castro e Costa, 2002). Vemos em (7) que os
desencadeadores de próclise já e nunca legitimam a posição pré-verbal do locativo e
que a sua ausência, em (8), impede a posição pré-verbal para o locativo. Uma diferença
óbvia entre SMD e próclise é que, ao contrário desta, o SMD não é obrigatório:

2 Os exemplos que discutimos distinguem-se também de casos de anteposição contrastiva de advérbios. As


frases que se seguem foram apontadas por um avaliador do artigo. Consideramos que nelas o locativo é um
foco contrastivo anteposto.
(1) A: Vais à festa do Rui?
B: Lá estarei.
(2) Vim de Angola em pequeno, mas os meus irmãos por lá ficaram.
(3) Se procurares bem, lá encontrarás o tesouro.
Para a distinção entre os vários casos, é importante o estabelecimento de contrastes com a posição pós-
verbal do locativo. No que diz respeito à distinção entre locativos topicalizados e locativos focalizados
contrastivamente, veja-se Martins (no prelo). Embora uns e outros ocorram em posição pré-verbal, só os
segundos são proclisadores.

227
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(7) a. Eu nunca/já estive lá.


b. Eu nunca/já lá estive.
(8) a. Eu estive lá.
b. *Eu lá estive.

Uma segunda propriedade a observar na distribuição do advérbio locativo é o facto


de, nos contextos em que o locativo lá se antepõe ao verbo, haver obrigatoriamente
adjacência entre lá e o verbo (só um clítico pode interromper essa adjacência):

(9) a. Ela diz que lá vai amanhã.


b. Ela diz que nunca/amanhã lá vai.
c. *Ela diz que lá nunca vai.
d. *Ela diz que lá amanhã vai.

Note-se que factos idênticos aos exemplificados em (8) e (9) se registam quando lá
é parte de um PP. A anteposição de lá não é, portanto, uma instância de movimento de
núcleo, ao contrário do que foi sugerido em Castro e Costa (2002)3:

(10) a. A Maria nunca para lá telefona.


b. *A Maria para lá telefonou.
c. Todos de lá vieram doentes.
d. *A Maria de lá veio doente.

Importa notar que a agramaticalidade das frases (10b,d) é robusta, contrastando


com casos em que PPs podem ocorrer pré-verbalmente, desde que tenham valor enfático
ou contrastivo, casos que se aproximam dos descritos em (5).
Em suma, há três propriedades básicas a derivar:

i) O locativo pode ser pré-verbal em contextos semelhantes aos da próclise;


ii) O locativo e o verbo encontram-se em adjacência;
iii) O locativo é um XP.

Na próxima secção, apresentamos uma proposta de análise para a anteposição de


locativos como lá que permite dar conta destas propriedades.

3. A anteposição de lá como resultado de scrambling de média distância


Propomos que a anteposição de lá é um caso de scrambling de média distância,
entendido como movimento para Spec,TP, na esteira de propostas sobre SMD como as

3 Outros exemplos:
(i) Há duas semanas, num exercício que define a inteligência da tribo e a cultura de rapina que por lá
abunda... (João Pereira Coutinho, Expresso/Única, 18/10/2008)
(ii) Todos os dias se para lá ia achar túbara (CORDIAL-SIN, Lavre)
(iii) Há muitos rapazes que para lá vão trabalhar (CORDIAL-SIN, Lavre)

228
SCRAMBLING DE MÉDIA DISTÂNCIA COM ADVÉRBIOS LOCATIVOS

de Chomsky (1994), Grewendorf e Sabel (1999), Miyagawa (1997; 2001), Baylin


(2004), entre outros.
A análise da anteposição de lá como resultante de SMD imediatamente deriva
duas das suas propriedades básicas descritas na secção anterior 4. Por um lado, estando o
locativo em Spec,TP e o verbo em T, o locativo e o verbo ficam necessariamente
adjacentes. Apenas adjuntos ao nível Xº (como os pronomes clíticos) poderão
interromper esta adjacência. Por outro lado, assumindo-se que o movimento do locativo
tem como alvo uma posição de especificador, é predito que o constituinte afectado por
SMD seja um XP e não um núcleo.
Fica apenas por explicar a correlação entre a anteposição de lá e os contextos de
próclise. Por outras palavras, importa encontrar uma resposta para a seguinte questão:
por que é o movimento de lá para Spec,TP bloqueado em certos contextos sintácticos,
concretamente aqueles em que ocorre a ênclise e não é possível a próclise? Para resolver
este problema, assumiremos uma hipótese defendida em trabalho anterior sobre a
sintaxe dos clíticos em português europeu.
Em Costa e Martins (2003; 2004), propusemos que o núcleo funcional Σ (Laka ,
1990; Martins, 1994), que expressa/codifica polaridade e domina imediatamente TP, é
legitimado no português por merger (sintáctico ou morfológico) com um núcleo com
conteúdo fonológico de modo a satisfazer um requisito de visibilidade em PF. Este
requisito de visibilidade pode ser satisfeito ou através de movimento do verbo, ou da
geração de um constituinte nesta posição na componente sintáctica, ou através da fusão
com outro núcleo na componente morfológica.
Nos contextos de próclise, Σ é legitimado , através de merger sintáctico, por um
elemento (com conteúdo fonológico) que entra no seu domínio ou num domínio mais
alto; nos contextos de ênclise, junta-se ao verbo através de merger morfológico,
especificamente através de local dislocation merger, uma operação pós-sintáctica que
actua sob adjacência estrita (Embick & Noyer, 2001).
Tal como os pronomes clíticos, os locativos movidos para Spec,TP bloqueiam a
adjacência entre o núcleo funcional Σ (com o traço [+ af]) e o verbo. Nos contextos em
que Σ é legitimado na componente pós-sintáctica através de merger morfológico com o
verbo, isto é, nos contextos típicos da ênclise, a anteposição do locativo gera pois
agramaticalidade (do mesmo modo que a próclise a gera) por impedir a legitimação de
Σ. Assim se explica a agramaticalidade das frases (8b), (10b) e (10d) acima.

(11) * [ΣP (Sujsem traços de polaridade) [Σ[+af] [TP loc [(cl) [ V+T]] ...

Os exemplos (12)-(13) tornam claro o paralelismo entre a obrigatoriedade da


ênclise e a impossibilidade de mover lá por scrambling de média distância:

4 Sendo scrambling uma operação sintáctica tipicamente associada a efeitos discursivos de “desfocalização”,
no sentido de Reinhart (1995), espera-se que, sendo a posição destes locativos derivada por scrambling, haja
efeitos discursivos associados, o que se verifica:
(i) A: Onde é que o Pedro disse que ia?
B: O Pedro disse que ia lá.
#O Pedro disse que lá ia.

229
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(12) a. A Maria telefonou-me.


b. *A Maria me telefonou.
(13) a. A Maria telefonou de lá.
b. *A Maria de lá telefonou.

Em (12b), a presença do clítico me entre Σ[+af] e o verbo impede a relação de


adjacência necessária para que se verifique merger morfológico. Assim, torna-se
necessário recorrer a local dislocation merger, com inversão, que coloca o clítico em
posição pós-verbal e legitima a operação de legitimação de Σ[+af]. No caso de (13), a
derivação em (13b) é impossível porque o scrambling do PP de lá para Spec,TP
colocaria este constituinte numa posição em que, tal como o clítico em (12b), bloquearia
a relação de adjacência entre Σ[+af] e o verbo, impedindo a legitimação daquela categoria
na componente morfológica. Assim, o movimento é bloqueado, sendo apenas legítima a
estrutura em (13a), em que SMD não ocorre 5.
Importa clarificar que assumimos, quanto à posição do sujeito, que no PE a posição
canónica do sujeito pré-verbal é Spec,ΣP e não Spec,TP (Martins, 1994; Costa e Martins,
2003; Cardinalletti, 1997; 2004; Alexiadou & Anagnostopoulou, 1998; Bailyn, 2004).
Assim, prevê-se que o sujeito e o verbo não se encontrem, nesta língua, em adjacência
estrita, como é, aliás, confirmado pela distribuição de advérbios (cf. Costa, 1998; 2004).

4. Evidência empírica adicional: infinitivas de reestruturação e infinitivas ‘plenas’


A análise que propusemos na secção anterior estabelece uma correlação bastante
clara entre a possibilidade de anteposição de lá e os requisitos estruturais para a
legitimação da categoria funcional Σ. Nesta medida, a análise torna-se falsificável, uma
vez que se prevê que haja uma dependência entre os domínios em que Σ desempenha
um papel crucial e os domínios em que se observam restrições à anteposição de lá.
Nesta secção, apresentamos as infinitivas de reestruturação como um domínio empírico
adicional em que é possível testar a correlação entre a análise proposta para locativos
pré-verbais e a legitimação de Σ.
O raciocínio subjacente a esta secção é o seguinte: se se identificarem estruturas
que não integrem a categoria funcional Σ, a anteposição de lá para Spec,TP será livre,
dado que SMD só é bloqueado quando impede a legitimação deΣ. Por outras palavras,
se a restrição à ocorrência de SMD é a legitimação de Σ, na ausência desta categoria não
haverá impedimento a SMD.
Martins (1995; 2000) propõe que as infinitivas de reestruturação são domínios
defectivos que não incluem o núcleo funcional Σ . Um dos argumentos de Martins
(1995; 2000) para esta proposta é, por exemplo, o facto de as infinitivas de
reestruturação não poderem incluir o marcador de negação, que é legitimado em Σ. De
acordo com a análise acima apresentada, espera-se, portanto, que nas infinitivas de

5 Diferentemente do que acontece com os pronomes clíticos, o movimento dos advérbios locativos para o
domínio de T é opcional. Por isso, não é necessária a aplicação de qualquer operação de último recurso
quando estão em causa os advérbios locativos.

230
SCRAMBLING DE MÉDIA DISTÂNCIA COM ADVÉRBIOS LOCATIVOS

reestruturação a anteposição de lá para Spec,TP seja livre. Assim acontece de facto,


como se vê em (14a), onde a infinitiva depende do verbo de reestruturação querer.
Também de acordo com o que se espera, a anteposição de lá não é livre quando a
oração infinitiva depende de um verbo que não permite a reestruturação, como o verbo
lamentar em (14b), pois neste caso a oração infinitiva não é um domínio funcional-
mente defectivo 6.
Os exemplos (14c-d) mostram adicionalmente que, mesmo em estruturas com um
verbo de reestruturação (como querer), a anteposição de lá por SMD só é livre quando a
restruturação ocorre efectivamente – a cliticização no interior da oração infinitiva
mostra que não há reestruturação em (14c); a subida do clítico em (14d) mostra, pelo
contrário, que há reestruturação, o que torna possível a anteposição de lá por SMD.

(14) a. Ela quer (sempre) lá ir. (SMD)


b. *Eu lamento lá trabalhar.
c. *Eu não quero lá encontrar-te amanhã.
d. Eu não te quero lá encontrar amanhã. (SMD)

A defectividade das infinitivas de reestruturação vai para além da ausência de Σ e


estrutura funcional mais alta. De facto, Gonçalves (1999) mostra que a categoria
funcional T é defectiva nas infinitivas de reestruturação. Por isso, não podem conter
clíticos nem exprimir a negação ou um valor temporal não dependente do tempo da
matriz. A defectividade de T nas infinitivas de reestruturação pode explicar o
paralelismo entre lá e os pronomes clíticos no que diz respeito à possibilidade de
subirem para o domínio matriz a partir do domínio infinitivo. Em (15a), o locativo lá
move-se para Spec,TP da matriz; em (16a), essa opção é bloqueada porque o verbo
matriz, lamentar, não permite a reestruturação.

(15) a. Ela nunca lá quer ir. (SMD / subida de lá)


b. Ela nunca quer ir lá.

(16) a. *Ela nunca lá lamentou trabalhar.


b. Ela nunca lamentou trabalhar lá.

Factos semelhantes aos que se observam em português relativamente aos locativos


do tipo de lá documentam-se no alemão quando ocorre SMD (não limitado aos
locativos). Os exemplos em (17) e (18), retirados de Grewendorf e Sabel (1999:36),
mostram que também no alemão um constituinte movido por SMD pode alcançar o
domínio matriz a partir do domínio infinitivo, mas só se houver reestruturação (o verbo
versuchen ‘tentar’ é um verbo de reestruturação, enquanto o verbo behaupten

6 Um avaliador anónimo chama a nossa atenção para o facto de ser possível uma frase como Espero lá ir
amanhã, não sendo o verbo “esperar” um verbo de reestruturação. Na verdade, este verbo admite
marginalmente subida de clítico, como em Não te esperava ver tão cedo aqui, pelo que não é
surpreendente que admita anteposição do locativo.

231
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

‘pretender’ não admite a reestruturação). Assim, a comparação com o alemão confirma


que a anteposição de lá no português é SMD, na medida em que os contextos que
legitimam e bloqueiam SMD em alemão são os mesmos que legitimam e bloqueiam
anteposição de lá em PE.

(17) a. daß jemand [PRO die Frau zu heiraten] versuchte


que alguémnom a mulherac prep casar tentou
b. daß die Frau jemand [PRO t zu heiraten] versucht (SMD)
que a mulherac alguémnom prep casar tentou
‘Alguém tentou casar a mulher’
(18) a. daß jemand [PRO die Frau zu heiraten] behauptete
que alguémnom a mulherac prep casar pretendeu
b. *daß die Frau jemand [PRO t zu heiraten] behauptete
que a mulherac alguémnom prep casar pretendeu
‘Alguém pretendeu casar a mulher’

5. Anteposição de lá em frases negativas com não


Até aqui, a nossa análise parece prever uma sobreposição total entre os contextos
de anteposição de lá e os contextos de próclise. Já vimos, no entanto, que seria
indesejável reduzir SMD a cliticização ou vice-versa, porque SMD afecta XPs e é
opcional. Além disso, na verdade, a sobreposição de contextos não é total. Embora seja
um proclisador, o marcador de negação predicativa é incompatível com a anteposição
dos locativos, um facto aparentemente inesperado e que a nossa análise terá que ser
capaz de acomodar 7.

(19) a. *Eu hoje não lá estive.


b. *Eu hoje lá não estive.
c. Eu hoje não estive lá.

Face aos dados apresentados em (19), propomos, inspirando-nos em Matos (1999),


que o marcador de negação predicativa (não) é um adjunto a T na sintaxe e que, tal
como o v erbo, se u ne a Σ n a comp onen ós et p -sintáctica (excepto quandoΣ é
independentemente legitimado). Assim, o locativo anteposto bloqueia fatalmente a
adjacência entre Σ[+neg] e não, exactamente como acontece na situação em que Σ [+af] tem
que unir-se ao verbo.
Em (20) mostra-se o paralelismo existente entre a estrutura das frases afirmativas e
a estrutura das frases negativas, no que diz respeito à relação entre Σ e o elemento capaz
de lhe dar visibilidade (i.e., o verbo nas frases afirmativas e não nas frases negativas).
Fica claro que um locativo anteposto bloqueia similarmente, nos dois casos, a
legitimação de Σ por merger morfológico.

7 Note-se que, se supusermos que não é gerado em Σ, o próprio marcador de negação predicativa legitimará a
categoria funcional, não sendo necessário recorrer a merger morfológico para a sua legitimação.

232
SCRAMBLING DE MÉDIA DISTÂNCIA COM ADVÉRBIOS LOCATIVOS

(20) a. * [ΣP (Sujsem traços de polaridade) [Σ[+neg] [TP loc [não [ (cl) [V+T]] ...
b. * [ΣP (Sujsem traços de polaridade) [Σ[+af] [TP loc [(cl) [ V+T]] ...

Note-se, por fim, que frases como (21a), em que lá é anteposto numa frase
negativa, não são problemáticas para a análise porque em (21a) Σ [+neg] é indepen-
dentemente legitimado (em PF) por ainda, tal como acontece com Σ[+af] em (21b).

(21) a. Ainda lá não te vi.


b. Ainda lá te vi.

6. O que têm de particular os locativos do tipo de lá?


Importa, finalmente, tentar entender por que motivo apenas os locativos como lá
podem ser movidos para Spec,TP. Como se pode ver nos exemplos (22) e (23), outros
locativos não são afectados por SMD, resistindo à posição entre um desencadeador de
próclise (como já) e o verbo:

(22) a. O Pedro já para lá vai.


b. *O Pedro já para Lisboa vai.
c. *O Pedro já longe vai.

(23) a. *O Pedro já lá a casa vai.


b. O Pedro já lá vai a casa.

Defendemos que a propriedade que individualiza os locativos que participam neste


tipo de construção é o facto de denotarem uma localização identificada relativamente à
localização do falante no tempo da enunciação (e não no tempo da asserção ou do
evento), conforme mostra (24).

(24) Ontem ele esteve lá comigo.

Para se entender o que há de especial na relação entre SMD e os locativos como lá,
interessa-nos lembrar que SMD é movimento para Spec,TP. Ora os locativos como lá e
Tempo têm em comum algumas propriedades nucleares que importa destacar.
Em primeiro lugar, quer Tempo quer os locativos como lá são deícticos ancorados
no falante e na enunciação (cf. Levinson, 2004; entre outros). Além disso, é possível
mostrar que estes locativos têm, à semelhança da categoria funcional Tempo, traços de
pessoa. Atente-se nos seguintes exemplos:

(25) [A] Onde é que ele foi?


[B] a. A casa
(i.e. à sua casa)
b. Lá a casa
(i.e. à minha/nossa casa)

233
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Os exemplos acima mostram que o locativo lá permite transmitir uma leitura de


possessivo nulo de primeira pesssoa, ou seja, que codifica traços de primeira pessoa.
Finalmente, como referimos acima (cf. 24), o tempo de enunciação (UT-T 8) desem-
penha um papel central na interpretação dos locativos.
Para fazer a conexão entre os advérbios locativos, o seu valor temporal e a
operação de SMD, assumiremos a análise de Dermidache & Uribe-Etxebarria (2000).
De acordo com estas autoras, o tempo de enunciação UT-T encontra-se codificado
sintacticamente na posição de Spec,TP. Conforme foi proposto acima, Spec,TP é
também o alvo do movimento dos deícticos locativos afectados por scrambling de
média distância (de acordo com a análise de Dermidache e Uribe-Etxebarria (2000),
Spec,TP pode projectar especificadores múltiplos). Sabendo-se que os deícticos
locativos podem ancorar eventos a enunciados em línguas sem (expressão morfológica e
sintáctica de) tempo, encontramos mais uma evidência para relacionar estes locativos
com a categoria Tempo (em línguas como o português). Na ausência de T, as línguas
podem usar a ancoragem espacial como estratégia alternativa (cf. Ritter e Wiltschko,
2005).
Tendo em conta estas observações, propomos então que só são afectados por SMD
os locativos que têm uma relação particular com a categoria T, por serem deícticos
ancorados no falante e na enunciação. O facto de propormos que SMD é movimento
para Spec,TP e a assunção de que Spec,TP é também o locus sintáctico de UT-T explica
a relação próxima entre SMD e os locativos afectados por esta operação.
Importa salientar que estas observações são apenas uma sugestão no sentido de
encontrar as características que isolam os locativos deícticos por oposição às outras
categorias que poderiam ser afectadas por SMD. Acreditamos estar no bom caminho,
uma vez que não só conseguimos isolar as suas propriedades, como apresentamos uma
proposta que tem em conta as características da construção de SMD e que possibilita
relacionar as suas características estruturais com as propriedades semânticas dos
constituintes afectados.
Finalmente, importa notar que o facto de os locativos como lá criarem um
bloqueio ao merger morfológico entre Σ e V também nos permite avançar um pouco
mais na compreensão da natureza destes locativos. A literatura sobre operações
morfológicas deste tipo revela que advérbios que se adjungem a TP (Costa, 1998) não
bloqueiam o merger morfológico entre Σ e V (Costa, 2003; Costa e Martins, 2003;
2004). O facto de os locativos serem um bloqueio a esta operação poderá ser tomado
como evidência a favor da hipótese de que os deícticos locativos são nominais e não
adverbiais, conforme proposto em van Riemsdijk (1978), Larson (1985) e den Dikken
(2006).

8 UT-T = Utterance Time.

234
SCRAMBLING DE MÉDIA DISTÂNCIA COM ADVÉRBIOS LOCATIVOS

7. Conclusões
Neste artigo, mostrámos que o português europeu contemporâneo exibe
scrambling de média distância restringido a certos constituintes locativos cuja
especificidade parece ser a de integrarem traços de pessoa e de interagirem com T – o
locus sintáctico do tempo da enunciação no sentido das propostas de Dermidache e
Uribe-Etxebarria (2000).
A nossa proposta, que analisa o SMD do PE contemporâneo como movimento
para Spec,TP e faz decorrer o seu bloqueamento da natureza do núcleo funcional Σ,
permite derivar coerentemente os seguintes factos e correlações:

(i) O constituinte movido por SMD é um XP obrigatoriamente adjacente ao verbo.

(ii) SMD é permitido nos contextos em que a próclise é obrigatória (excepto nas frases
negativas simples) e bloqueado nos contextos em que a ênclise é obrigatória.

(iii) SMD é livre no interior de domínios oracionais funcionalmente defectivos, como


as infinitivas de reestruturação. Neste tipo de estruturas, o constituinte movido por
scrambling pode, alternativamente, ser extraído do domínio infinitivo, criando um
efeito de ‘paralelismo’ entre SMD e subida do clítico.

(iv) Spec,TP não é a posição canónica do sujeito em PE. Há que aprofundar a


investigação relativamente às condições em que Spec,TP é ou não projectado no
PE contemporâneo.

Os aspectos da gramática dos locativos do tipo de lá discutidos neste trabalho


revelaram-se um outro domínio de aplicação da hipótese de Costa e Martins (2003)
sobre a interface sintaxe-morfologia.

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237
O papel das restrições aspectuais nas relações retóricas:
o caso das frases complexas com quando

Luís Filipe Cunha 1 e Purificação Silvano 2


Centro de Linguística da Universidade do Porto3

Abstract
In this paper we claim that aspectual properties characterising the situations
involved in when-clauses play a crucial role in their temporal interpretation. Since the
conjunction quando (‘when’) does not impose, by itself, any particular ordering to the
eventualities, we argue that it is the interaction between aspectual properties and
rhetorical relations that enables us to fully interpret such sentences. We adopt a
distinction between extrinsic rhetorical relations – those that are ascribed by default –
and intrinsic ones – those that require some strong semantic interdependency – in order
to explain the diversity of temporal and interpretative possibilities associated with the
situations co-occurring in when-clauses.
Keywords: Semantics, Aspect, Rhetorical Relations, When-Clauses, Temporal Ordering
Palavras-chave: Semântica, Aspecto, Relações Retóricas, Frases com Quando,
Ordenação Temporal

1. Apresentação do problema
Em Português Europeu, as orações introduzidas por quando são tradicionalmente
designadas como temporais, dado que relacionam o intervalo de tempo da situação que
descrevem com o intervalo da eventualidade da oração principal. Contudo, não
determinam a priori uma ordenação temporal específica. Por isso, as situações
representadas podem estabelecer entre si diferentes relações temporais (cf. Moens &
Steedman, 1988). A segunda situação pode ocorrer num intervalo de tempo posterior (cf.
(1)), sobreposto (cf. (2)) ou anterior (cf. (3)) ao da primeira.
(1) Quando a campainha tocou, os alunos entraram.
(2) Quando a Maria viveu em Londres, visitou muitos museus.
(3) Quando o João comprou uma casa, pediu um crédito à habitação.

1 Trabalho financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia – Programa POCI 2010.
2 Trabalho financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia – Programa POCI 2010.
3 Unidade de I&D financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Programa FEDER/POCTI –
U0022/2003.

Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,


APL, 2009, pp. 239-250
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

O facto de a conjunção quando não determinar uma ordenação temporal específica


no contexto de situações representadas no Pretérito Perfeito, como acontece com outras
conjunções como porque, por exemplo (cf. (4)), conduz a duas análises diferentes: quando
pode ser encarado como ambíguo (Moens & Steedman, 1988) ou como relativamente
neutro (Cunha, 2000).

(4) O João saiu porque a Maria o convidou. (e2<e1)

Como (4) parece comprovar, a conjunção porque veicula a informação de que as


duas situações estabelecem entre si uma relação causal. Deste modo, a situação na oração
subordinada representa a causa da eventualidade que surge na principal. Esta relação
causal, por defeito, traduz-se, em termos temporais, numa relação de anterioridade da
eventualidade da segunda oração face à da primeira. Em contrapartida, quando não
veicula, por princípio, qualquer informação deste tipo. Na verdade, uma observação atenta
dos dados permite concluir que as situações representadas estabelecem entre si diversas
relações de sentido às quais estão associadas diferentes estratégias de ordenação temporal
(cf. (5)-(9)).

(5) Quando o João se levantou, tomou o pequeno-almoço.


(6) Quando o telefone tocou, a Maria estava no jardim.
(7) Quando o João caiu, escorregou numa casca de banana.
(8) Quando o João escorregou numa casca de banana, caiu.
(9) Quando a Maria fez o bolo, bateu ovos com açúcar e farinha.

Coloca-se, portanto, a questão de justificar a possibilidade de as situações em frases


com quando estabelecerem entre si diferentes relações temporais, apesar de todas, à
excepção da situação “a Maria estar no jardim”, que surge no Pretérito Imperfeito, se
encontrarem representadas no mesmo tempo gramatical, o Pretérito Perfeito.

2. Uma proposta de análise com base nas relações retóricas


Numa tentativa de justificar a existência de diversos tipos de ordenação temporal
entre as situações no Pretérito Perfeito representadas em frases complexas com quando,
Silvano (2007; 2008) defende que a possibilidade de as eventualidades neste tipo de
construções se correlacionarem de modo diverso resulta da presença de diferentes relações
retóricas ou discursivas. Seguindo o enquadramento teórico da Segmented Discourse
Representation Theory (SDRT), de Asher & Lascarides (2003), as relações retóricas ou
discursivas são entendidas, neste e naqueles trabalhos, como relações que estabelecem
ligações entre os significados das frases.
Dada a diversidade de sentidos, a lista das relações retóricas apresentada por Asher
& Lascarides (2003) é de natureza aberta, não integrando todas as possibilidades. No
entanto, no que diz respeito ao objecto do presente estudo, é possível discriminar um
conjunto de relações retóricas tendo como critério a sua frequência. Este conjunto é
identificado e caracterizado no quadro I.

240
O PAPEL DAS RESTRIÇÕES ASPECTUAIS NAS RELAÇÕES RETÓRICAS

Relações Retóricas Semântica Consequências Temporais

Narração As situações ocorrem na e α< eβ


sequência em que são
descritas.

Enquadramento Uma situação constitui-se eβO e α


como o meio envolvente no
qual ocorre a outra situação.

Explicação A segunda situação descreve eβ< e α


a causa subjacente à
ocorrência da primeira
situação.

Resultado A segunda situação descreve e α< eβ


o efeito da ocorrência da
primeira situação.

Elaboração A segunda situação eβC e α


constitui-se como uma
subsituação da primeira
situação.

Quadro I – Relações retóricas mais frequentes em frases complexas com quando

Estas relações retóricas são ilustradas pelo grupo de exemplos de (5) a (9). Em (5), as
duas situações encontram-se ligadas por uma relação de Narração, dado que ocorrem
temporalmente na ordem em que são descritas, ou seja, primeiro o João levanta-se e depois
vai tomar o pequeno-almoço. No exemplo (6), a segunda situação serve como cenário ou
enquadramento para a ocorrência da primeira eventualidade. Consequentemente, o estado
“a Maria estar no jardim” sobrepõe-se parcialmente ao evento “o telefone tocar”. Portanto,
estabelece-se entre as duas situações uma relação de Enquadramento. Já em (7), a segunda
situação, isto é “escorregar numa casca de banana”, apresenta a causa da queda do João, o
que significa que ela decorre tipicamente num intervalo de tempo anterior ao de “o João
cair”. A relação retórica que une estas duas situações é a de Explicação. O exemplo (8)
ilustra a relação retórica que é dual da Explicação, a de Resultado. Neste caso, a segunda
situação, isto é “o João cair”, descreve o efeito de “o João escorregar numa casca de
banana”, pelo que decorre num intervalo de tempo posterior ao da primeira situação
representada. A última relação de entre as mais frequentes nas frases com quando é a de
Elaboração, exemplificada em (9). Nesta frase, a segunda eventualidade constitui-se como
uma subsituação da primeira, o que significa que, em termos temporais, “bater ovos com
açúcar e farinha” se encontra integralmente incluído em “a Maria fazer o bolo” 4.

4 Sublinhe-se que, embora possam veicular relações temporais aproximadas, as relações retóricas de
Enquadramento e de Elaboração diferem substancialmente uma da outra, na medida em que, no primeiro
caso, apenas é requerido algum tipo de sobreposição (total ou parcial) entre as situações que, no entanto, não

241
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

O recurso ao dispositivo teórico das relações retóricas para analisar as frases


complexas com quando permite não só explicar as diferentes relações temporais5 que as
caracterizam, como também conduz a um tratamento semântico unificado deste tipo de
configurações, que tem em consideração a interacção de diversos factores essenciais para
a sua computação.
De facto, os procedimentos de análise de frases no enquadramento teórico das
relações retóricas ou discursivas incluem a consideração de variadas fontes de informação,
como a semântica composicional, o léxico e o nosso conhecimento do mundo. Estas
fontes fornecem pistas para a inferência de relações retóricas. Contudo, o papel que as
referidas fontes de informação desempenham no processo de inferência das relações
retóricas não é o mesmo para todas elas. É precisamente sobre estas diferenças que nos
vamos debruçar na próxima secção.

3. Relações extrínsecas vs relações intrínsecas


Durante o processo de inferência das relações retóricas em frases com quando,
verifica-se a interacção de diferentes fontes que fornecem pistas de natureza variada.
Como já demonstrámos, a conjunção quando não funciona como palavra-pista ou como
marcador de uma determinada relação retórica, contrariamente ao que acontece com
outras conjunções. Por isso, é necessário recorrer a outras pistas. Vejamos quais,
analisando relação a relação.
No exemplo (5), as duas situações – “o João levantar-se” e “tomar o pequeno-
-almoço” – não apresentam por si mesmas uma relação de interdependência semântica.
Essa relação de dependência é obtida principalmente através da sua combinação numa
determinada organização temporal, embora também intervenham neste processo as pistas
dadas pela interacção entre o léxico, a semântica composicional e o nosso conhecimento do
mundo. O mesmo parece verificar-se com a relação de Enquadramento em (6): a inferência
da relação é feita basicamente a partir da informação temporal, sendo a influência das
restantes pistas bem menos marcante. As duas situações – “o telefone tocar” e “a Maria
estar no jardim” – não têm, à partida, uma relação de interdependência semântica.
Porém, nos exemplos seguintes (cf. (7)-(9)), o vínculo existente entre as situações
caracteriza-se por um maior grau de interdependência semântica. Cada par de situações –
“o João cair”, “o João escorregar numa casca de banana”; “o João escorregar numa casca
de banana”, “o João cair”; “a Maria bater ovos com açúcar e farinha”, “a Maria fazer o
bolo” – tem à partida um elo de ligação semântica mais forte do que aquele que se verifica
nos exemplos (5) e (6). Na verdade, na inferência das relações retóricas de Explicação, de

têm entre si uma dependência semântica forte, ao passo que, no segundo, é obrigatória uma relação
mereológica do tipo parte-todo entre as eventualidades descritas, o que conduz invariavelmente a uma
relação de inclusão (cf. “...Elaboration implies that the main eventualities of its second argument are a
mereological part of the main eventuality of its first argument...” (Asher & Lascarides, 2003: p. 161). Assim,
a eventualidade “[a Maria] bater ovos com açúcar e farinha”, no exemplo (9), não só está incluída no estado
de coisas descrito por “fazer o bolo” como também se constitui como uma subsituação deste, i.e., “bater
ovos com açúcar e farinha” está incluído na estruturação fásica global associada a “fazer o bolo”.
5 Taboada & Mann (2006) consideram que um dos desenvolvimentos maiores da SDRT se relaciona com a
forma como as relações retóricas explicam fenómenos linguísticos como, por exemplo, o Tempo.

242
O PAPEL DAS RESTRIÇÕES ASPECTUAIS NAS RELAÇÕES RETÓRICAS

Resultado e de Elaboração, que ligam as situações presentes de (7) a (9), as pistas dadas
pela interacção da semântica composicional, do léxico e do nosso conhecimento do
mundo têm uma maior relevância. É esta interacção que vai ser, em última instância,
responsável por uma determinada organização temporal.
O maior ou menor grau de interdependência semântica que distingue estes dois
grupos de relações retóricas permite explicar o facto de, no caso da Narração e do
Enquadramento, se manterem as mesmas relações retóricas quando invertemos a ordem
das situações e de, no caso da Explicação, do Resultado e da Elaboração, o mesmo não se
verificar (cf. (10)-(14)).

(10) Quando o João tomou o pequeno-almoço, levantou-se6. (Narração


→ Narração)
(11) Quando a Maria estava no jardim, o telefone tocou. (Enquadramento
→ Enquadramento)
(12) Quando o João escorregou numa casca de banana, caiu. (Explicação
→ Resultado)
(13) Quando o João caiu, escorregou numa casca de banana. (Resultado
→ Explicação)
(14) Quando bateu ovos com açúcar e farinha, a Maria fez o bolo. (Elaboração
→ Resultado)

A existência de características diferentes no que diz respeito ao grau de


interdependência semântica motiva a nossa proposta de divisão das relações retóricas em
apreço em dois grupos: relações retóricas extrínsecas e relações retóricas intrínsecas. No
primeiro grupo, que integra as relações retóricas de Narração e de Enquadramento, a
ligação discursiva surge por defeito, estabelecendo-se ao nível da estrutura externa das
predicações e, no segundo grupo, do qual fazem parte as relações retóricas de Explicação,
de Resultado e de Elaboração, a conexão retórica entre as situações é determinada por
fortes elos semânticos, surgindo ao nível da estrutura interna das predicações.
Os traços distintivos destes dois grupos de relações retóricas revelam-se ao nível da
sua computação: enquanto a inferência das relações retóricas extrínsecas é feita a partir
essencialmente da organização temporal das situações envolvidas, sendo dada menor
relevância às restantes pistas, a das relações retóricas intrínsecas resulta da interacção da
semântica composicional, do léxico e do conhecimento do mundo, que, por sua vez, vai
ditar uma determinada ordenação temporal.
Perante esta análise, e, dado que, por um lado, as eventualidades, nas frases com
quando, estabelecem entre si diferentes relações temporais e que, por outro, a conjunção
não fornece quaisquer indicações sobre a sua ordenação, importa investigar quais os
factores linguísticos que estão subjacentes à organização temporal das situações em
questão. Em particular, veremos que o Aspecto desempenha um papel fundamental no que
diz respeito à identificação das relações retóricas.

6 De notar que, embora a relação retórica seja a mesma, a de Narração, a inversão das situações determina
alterações semânticas. Neste exemplo, os falantes interpretam a situação levantar-se, não da cama como em
(5), mas da mesa.

243
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

4. O papel do Aspecto nas relações retóricas


4.1. Relações retóricas extrínsecas
Tendo em vista que, como já referimos atrás, quando se comporta como um
localizador temporal relativamente “neutro”, na medida em que, por si só, não impõe
restrições quanto à ordenação das situações nas frases em que comparece (cf. Cunha,
2000; Silvano, 2007; 2008), defenderemos a ideia de que a classe aspectual das
predicações envolvidas desempenha um papel fundamental para a identificação das
diferentes relações retóricas que se estabelecem entre as eventualidades em questão.
Quando estão em causa culminações ou processos culminados, observamos que,
tipicamente, a situação representada na oração introduzida por quando precede a que
ocorre na principal, estabelecendo-se entre elas uma relação de Narração, como os
exemplos que se seguem ilustram:

(15) Quando a Maria acordou, o João entrou no quarto. (e1 < e2)
(16) Quando o João entrou no quarto, a Maria acordou. (e1 < e2)
(17) Quando o João cortou o bolo, a Ana deu-lhe um presente. (e1 < e2)

É interessante observar que a relação temporal entre as situações em (15) e (16) se


inverte pelo simples facto de ser uma ou outra a comparecer na oração introduzida por
quando: assim, em (15) o acordar da Maria antecede a entrada do João no quarto,
enquanto em (16) é a entrada do João que precede o acordar da Maria. Em qualquer dos
casos estamos, naturalmente, perante uma relação retórica de Narração.
Dado que quando não dá indicações quanto ao tipo de ordenação temporal que se
estabelece entre as eventualidades descritas, vai ser o seu perfil aspectual que determina a
relação de sucessividade observada. Assim, e seguindo propostas como as de Kamp &
Reyle (1993), assumiremos que os eventos se encontram incluídos no respectivo intervalo
de localização (‘location time’). Ora, tendo em conta que a predicação na oração
introduzida por quando fornece, tipicamente, o tempo de referência para a da principal e
que ambos os eventos se encontram incluídos nos respectivos intervalos de localização,
apenas uma leitura de sucessividade, que configura a relação retórica de Narração, estará
disponível nestes casos.
Para confirmar a relevância do perfil aspectual das eventualidades envolvidas neste
tipo de construções, observem-se exemplos em que se combinam estados com eventos.

(18) Quando era pequeno, o Rui visitou o jardim zoológico.


(19) Quando estava grávida, a Maria mudou de casa.
(20) Quando o Mário a conheceu, a Joana era professora em Braga.
(21) Quando cheguei ao Porto, estava frio.

Independentemente de o evento surgir na subordinada ou na principal, encontra-se


tipicamente incluído no intervalo de tempo ocupado pelo estativo com que co-ocorre. Este
facto poderá ser facilmente explicado se tivermos em conta que os estados – sobretudo
perspectivados no Imperfeito – se sobrepõem ao respectivo tempo de referência, podendo
iniciar-se antes e prolongar-se para além deste, ao passo que os eventos, sendo situações

244
O PAPEL DAS RESTRIÇÕES ASPECTUAIS NAS RELAÇÕES RETÓRICAS

bem delimitadas, se encontram forçosamente incluídos no intervalo que os acompanha.


Nesse sentido, os eventos acabam por ser interpretados como estando incluídos nos
intervalos ocupados pelos estados com que se combinam, estabelecendo-se uma relação
retórica de Enquadramento.
Como (22) e (23) ilustram, é igualmente possível encontrar estados no Pretérito
Perfeito que mantêm com os eventos representados na oração principal uma relação de
Enquadramento, embora, nestes casos, as restrições sejam muito mais significativas, em
particular porque nem todos os tipos de estativos suportam facilmente a terminatividade
imposta pelo tempo gramatical em questão (cf. (24)).

(22) Quando foi presidente da câmara, Rui Rio privatizou o Bolhão.


(23) Quando a Maria esteve doente, o João visitou-a.
(24) * Quando foi alto, o João inscreveu-se numa equipa de basquetebol.

Assim, quando se observa um conflito entre uma classe aspectual – a dos estativos –
que se caracteriza pela não delimitação temporal e um tempo gramatical – o Pretérito
Perfeito – que impõe terminatividade às situações com que se combina, as possibilidades
interpretativas observadas parecem favorecer a ideia de que os factores aspectuais
continuam a desempenhar um papel determinante. Na realidade, subsiste, em alguns casos
(cf. (22)-(23)) a possibilidade de sobreposição parcial ou de inclusão do evento localizado
no intervalo de tempo da situação localizadora, obtendo-se assim a relação retórica de
Enquadramento que, como temos vindo a verificar, é predominante quando co-ocorrem
eventos e estativos; noutros, porém (cf. (24)), a anomalia das configurações é evidente,
fruto, muito provavelmente, da incompatibilidade semântica entre a não delimitação
associada a certos estados e a imposição de um limite temporal final requerida pelo
Pretérito Perfeito. Dado que a caracterização temporal dos estativos se constitui como um
problema de grande complexidade, que, naturalmente, se encontra fora do âmbito do
presente artigo, não poderemos explicitar aqui quais as circunstâncias precisas em que os
estados podem ou não ser combinados com o tempo gramatical sob análise, deixando esta
tarefa em aberto para trabalhos futuros.
Sublinhe-se que nem todos os estados combinados com eventos dão origem a uma
relação de Enquadramento. Se a situação que estabelece o intervalo de referência para a
localização for de natureza eventiva, certos estados faseáveis (cf. Cunha, 2004), desde que
previamente convertidos em processos, podem dar origem a uma leitura de sucessividade,
obtendo-se assim uma relação retórica de Narração, como os exemplos em (25) e (26)
parecem comprovar:

(25) Quando o João ligou para as Finanças, a telefonista foi muito simpática.
(26) Quando se assustou, o meu cão foi agressivo.

A enorme relevância que as propriedades aspectuais assumem no que respeita à


determinação das relações retóricas extrínsecas pode ser comprovada pela variabilidade de
leituras que emergem no caso de um processo ocorrer sob o escopo de quando. Atentemos
na seguinte frase:

245
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(27) Quando a mãe tocou piano, o bebé adormeceu.

Tendo em conta que a situação descrita em “a mãe tocar piano” é um evento e que o
Pretérito Perfeito lhe confere terminatividade, a leitura de sucessividade, que remete para
a relação retórica de Narração, está, naturalmente, disponível. Neste caso, o bebé
adormece num intervalo de tempo posterior àquele em que a mãe tocou piano.
No entanto, as propriedades aspectuais que caracterizam os processos permitem
outras possibilidades interpretativas. Assim, uma leitura de cariz incoativo parece estar
disponível em frases como estas: tendo em conta que os processos não contemplam na sua
estrutura um ponto terminal intrínseco, o Pretérito Perfeito poder-se-á aplicar, sem
problemas, a uma porção inicial da sua ocorrência. Nessas circunstâncias, teremos uma
leitura de natureza incoativa, em que o bebé adormece após o início do processo de a mãe
tocar piano. A relação retórica de Narração afigura-se, uma vez mais, perfeitamente
adequada para a descrição deste tipo de ordenação temporal, dado que estamos perante um
caso de operação aspectual em que o processo foi convertido num evento pontual.
Finalmente, uma frase como (27) pode receber uma terceira interpretação, a saber,
aquela em que o bebé adormece no interior do intervalo em que a mãe toca piano. Ora, se
considerarmos que os processos são situações durativas e (relativamente) homogéneas,
teremos uma pista para a resolução do problema: tal como os estativos, certos processos
admitem que um evento não durativo ocorra no interior do seu tempo de referência, dando
origem a uma leitura de inclusão. Nestes casos, a relação retórica de Enquadramento
parece poder ser viabilizada.
Em suma, ao condicionarem decisivamente a ordenação temporal entre as situações
descritas, as divergências ao nível aspectual desempenham um papel crucial para a
determinação das relações retóricas extrínsecas nas frases com quando.

4.2. Relações retóricas intrínsecas


Ao contrário do que sucede com a Narração ou com o Enquadramento, relações
retóricas intrínsecas, como o Resultado, a Explicação ou a Elaboração são condicionadas,
para além dos factores eminentemente temporais, pelo estabelecimento de uma
interdependência semântica muito estreita entre as situações envolvidas, resultado de uma
complexa interacção entre o léxico, a semântica composicional e o nosso conhecimento do
mundo. Isto significa que, como veremos, as relações em questão se revelam muito mais
restritivas quanto à selecção das eventualidades que as configuram.
Nesse sentido, a relação retórica de Resultado, para além do requisito de precedência
temporal de e1 face a e2, obriga igualmente a que a primeira situação se constitua como
causa para a segunda, como sucede no exemplo em (28):

(28) Quando tropeçou no tapete, o João caiu nas escadas.

A relação retórica de Explicação partilha com a de Resultado a obrigatoriedade do


estabelecimento de um nexo causal entre as eventualidades envolvidas; no entanto, neste
último caso, e2 precede e1. Uma tal ordenação temporal torna possível evidenciar o papel

246
O PAPEL DAS RESTRIÇÕES ASPECTUAIS NAS RELAÇÕES RETÓRICAS

crucial que a noção de causalidade desempenha na relação discursiva em apreço.


Comparem-se (29) e (30):

(29) Quando caiu nas escadas, o João tropeçou no tapete. (e2 < e1 ou e1 < e2)
(30) Quando o João caiu nas escadas, a Maria entrou em casa. (e1 < e2)

Tratando-se de uma relação discursiva não marcada, a Narração constitui-se como a


única possibilidade para a interpretação de frases como (30), em que nenhum tipo de
causalidade parece ligar as situações envolvidas. Como tal, somente a ordenação temporal
em que e1 precede e2 será viabilizada. Já frases como as de (29), em que podemos
conceber a eventualidade descrita em e2 como causa daquela representada em e1, suportam
uma relação de Explicação, representada na ordenação temporal e2 < e1. Este facto,
todavia, não inviabiliza totalmente, pelo menos para certos falantes e dadas as
circunstâncias apropriadas, a manutenção da possibilidade de uma segunda interpretação
em que emerge a relação de Narração (i.e., e1 < e2).
Uma outra relação retórica que supõe uma interdependência semântica evidente
entre as predicações que a configuram é a de Elaboração. Neste caso, a eventualidade da
oração principal assume-se como um subevento ou como uma parte constitutiva da
situação representada na oração introduzida por quando, mantendo com ela uma relação
de inclusão (cf. (31)).

(31) Quando fez o bolo de aniversário, a Maria bateu ovos com açúcar e farinha.

Mais uma vez, se a segunda eventualidade não reunir os requisitos semânticos


necessários para se constituir como um subevento da primeira, este tipo de relação
discursiva não é viabilizado, sendo unicamente possível estabelecer-se a relação não
marcada de Narração, em que e1 precede e2 (cf. (32)):

(32) Quando fez o bolo de aniversário, a Maria enfeitou a mesa.

Finalmente, atente-se em frases como (33) e (34):

(33) Quando comprou a casa nova, o João pediu um empréstimo à habitação.


(34) Quando viajou para Madrid, a Maria comprou os bilhetes pela Internet.

Nas suas leituras mais naturais, estas frases envolvem a ordenação temporal
e2 < e1: assim, em (33), o pedido do empréstimo antecede a compra da casa pelo João e,
em (34), a compra dos bilhetes precede a viagem da Maria. Se a estruturação temporal que
lhes está subjacente aproxima estes enunciados dos exemplos em que se observa uma
relação retórica de Explicação, não podemos, no entanto, assumir que uma tal relação os
descreve adequadamente, na medida em que, no presente caso, não parece estabelecer-se
uma ligação de causalidade estrita entre as duas eventualidades.
Por outro lado, continua a existir uma interdependência íntima entre certas
propriedades semânticas que caracterizam as situações envolvidas; no caso em que ela não

247
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

se verifica, obtemos uma interpretação não marcada de Narração, em que e1 precede e2,
como os exemplos em (35) e (36) nos confirmam:

(35) Quando comprou a casa nova, o João pediu a Maria em casamento.


(36) Quando viajou para Madrid, a Maria conheceu o Pedro. 7

Se, como parece ser o caso em (33) e (34), assumirmos que a eventualidade na
segunda oração descreve condições necessárias para a realização da situação descrita na
oração introduzida por quando – i.e., foi condição necessária para o João comprar a casa
nova ter previamente pedido um empréstimo à habitação e foi condição necessária para a
Maria viajar ter comprado os bilhetes pela internet –, parece-nos desejável postular para
estes casos um novo tipo de relação retórica, a que, provisoriamente, daremos o nome de
relação de Condição Necessária.
Visto que, como temos vindo a defender ao longo da presente subsecção, todas as
relações retóricas intrínsecas impõem uma estreita interdependência semântica entre as
situações que as configuram, divergindo, neste ponto, das relações extrínsecas, importa
agora questionar qual o papel que os factores aspectuais desempenham na sua inter-
pretação.
Tomando como ponto de partida propostas como as avançadas por Moens &
Steedman (1988) e por Carecho (1996), defenderemos a ideia de que a interdependência
semântica entre as situações envolvidas neste tipo de relações retóricas se reflecte ao nível
do Núcleo Aspectual.
Assim, a eventualidade que ocorre na oração introduzida por quando localizaria a
situação da oração principal em diferentes fases do seu Núcleo Aspectual, dependendo do
tipo de relação retórica intrínseca estabelecida. No caso do Resultado, e2, a situação
localizada, seria projectada no Estado Consequente de e1, a eventualidade localizadora; no
caso da Elaboração, e2 estaria incluída no Processo Preparatório de e1, constituindo uma
das suas subfases; finalmente, no caso da relação de Condição Necessária (e, muito
provavelmente, também no da relação de Explicação) e2 estaria localizada numa fase pré-
-preparatória de e1 8.
Esta estratégia de análise permitiria explicar, em primeiro lugar, as divergências em
termos de ordenação temporal que acompanham as relações retóricas intrínsecas, na
medida em que, em última instância, tais diferenças em termos de organização temporal
acabariam por se constituir como o reflexo das diversas possibilidades de ocorrência das
situações no interior da estrutura do Núcleo Aspectual da eventualidade localizadora.
Em segundo lugar, ao postular a existência de uma interligação entre a estrutura fásica
de eventualidades interdependentes, este tipo de tratamento torna bem explícito o carácter
intrínseco que atribuímos às relações retóricas marcadas. Na realidade, nestes casos obser-

7 Na medida em que integra um processo na primeira situação, é possível encontrar diferentes leituras para
esta frase, na linha do que expusemos no final da secção 4.1..
8 Sublinhe-se que a postulação de uma fase pré-preparatória associada ao Núcleo Aspectual não decorre
apenas das soluções propostas neste trabalho; ela foi independentemente defendida em Cunha (1998) para a
descrição adequada do funcionamento de certos operadores aspectuais – em particular no que diz respeito ao
“input” de começar a e ao “output” de estar para –, pelo que parece existir motivação suficiente que suporta
a operacionalidade efectiva deste conceito.

248
O PAPEL DAS RESTRIÇÕES ASPECTUAIS NAS RELAÇÕES RETÓRICAS

vamos uma clara interdependência semântica entre as situações envolvidas como resultado
da partilha de um mesmo Núcleo Aspectual, o que contrastaria com o que se passa nas
relações não marcadas ou extrínsecas, em que são apenas os intervalos de tempo, e não a
constituição interna das situações, que configuram as diferentes relações discursivas.

5. Conclusões
As eventualidades representadas nas frases com quando encontram-se envolvidas
numa grande diversidade de relações discursivas; concomitantemente, estabelecem entre
si diferentes tipos de relações temporais. Um tal comportamento deve-se ao facto de a
conjunção em apreço não se constituir, por um lado, como uma palavra-pista para
qualquer relação retórica específica e, por outro, de se comportar como um localizador
temporal relativamente “neutro”, i.e., não impor uma ordenação pré-determinada para as
predicações com que se combina.
Nesse sentido, procurámos, ao longo do presente trabalho, identificar as principais
relações retóricas que surgem neste tipo de construções, investigando quais os factores
linguísticos mais relevantes que as configuram. Para tal, estabelecemos uma primeira
distinção fundamental entre relações retóricas extrínsecas – aquelas que se aplicam por
defeito e que resultam principalmente das relações temporais que se observam entre as
situações, tendo as outras pistas uma relevância menor – e as relações retóricas intrínsecas
– aquelas que, dada a informação disponibilizada pelo léxico, pela semântica
composicional e pelo nosso conhecimento do mundo, implicam uma interdependência
semântica mais profunda entre as eventualidades envolvidas.
A análise das construções envolvendo orações temporais introduzidas por quando
demonstrou que o Aspecto desempenha um papel crucial no que respeita à inferência das
diversas relações discursivas identificadas.
Tendo em conta que as relações retóricas extrínsecas se baseiam essencialmente na
organização temporal das situações, dado que a interacção de pistas como o léxico, a
semântica composicional e o conhecimento do mundo parece não desempenhar aqui um
papel tão relevante, e que as frases com quando não nos dão indicações precisas a esse
nível, constatámos que é a classe aspectual das eventualidades envolvidas que, em última
instância, nos fornece indicações para a sua identificação. Assim, quando nos encontramos
perante dois eventos que, em si mesmos, não estabelecem, à partida, uma forte interdepen-
dência semântica, impõe-se uma relação temporal de sucessividade, típica da Narração;
quando se combinam um evento e um estado, verifica-se uma relação de sobreposição
parcial, típica do Enquadramento.
O Aspecto parece desempenhar também um papel fundamental na inferência das
relações retóricas intrínsecas: partindo da hipótese de que a interdependência semântica
que se verifica entre as eventualidades neste tipo de relações discursivas se reflecte na
partilha de um mesmo Núcleo Aspectual comum, defendemos a ideia de que a situação
localizada pode ocorrer em diferentes fases do Núcleo da situação localizadora,
correspondendo a diversos tipos de relações retóricas intrínsecas. Assim, no Resultado, a
situação localizada ocupa o Estado Consequente da localizadora; na Elaboração, surge
associada ao seu Processo Preparatório; e, finalmente, na relação retórica de Condição
Necessária – e possivelmente também na de Explicação –, comparece integrada numa fase
pré-preparatória.

249
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Referências
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Cambridge University Press.
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250
Percepções dialectais e atitudes linguísticas.
O método da Dialectologia perceptual e as suas potencialidades.

Carla Sofia Silva Ferreira


Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

Abstract
Since the appearance of the predecessors of the Perceptual Dialectology, several
have been the inovations and the potentialities discovered for this linguistic area,
namely after the methodological innovations proposed by Preston. It is a complement
for the studies of the real dialects, as for attitudinal studies, and can also reveal itself
important for the investigation of linguistic change. Linguistic perceptions and linguistic
attitudes are the two main domains in the edification of this discipline, therefore we will
reflect on that complementarity. Finally, the results of an empirical study carried out
with 132 informants from Coimbra will be briefly presented.

Keywords: Perceptual dialectology, linguistic attitudes, dialectal perceptions, idiomatic


change
Palavras-chave: Dialectologia perceptual, atitudes linguísticas, percepções dialectais,
mudança idiomática

1. Breve história do nascimento da Dialectologia perceptual


Nos anos 40 do século XX, surgem os primeiros indícios do nascimento desta
nova área de trabalho da Linguística. Nesta década, os falantes são ouvidos
especificamente sobre a identificação das localidades onde se fala o mesmo dialecto,
com o intento de se usar esta informação como um dos critérios para delimitar regiões
dialectais reais.
Em 1939, o “Dutch Committee for Dialect Research” da Academia Real de
Ciências de Amesterdão inseriu num seu questionário linguístico duas questões relativas
às noções de distribuição regional da língua dos falantes.
«1) – Quelle est la localité ou quelles sont les localités voisines de la vôtre où on
parle totalement ou presque totalement le même dialecte que le vôtre?
2) – En quelles localités des environs de celle où vous vivez parle-t-on un dialecte
complètement différent du vôtre? Pouvez-vous citer quelques divergences?»
(apud Boléo, 1974: 450).

Pretendia-se que os próprios falantes identificassem a semelhança linguística entre


os dialectos utilizados nas várias regiões do país. Realizado o questionário, era
necessário organizar e interpretar os dados recolhidos.
_____________________________
Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,
APL, 2009, pp. 251-263
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Então, num simpósio realizado em 1944, Antonius Weijnen expôs um método pos-
sível para o estudo das percepções dialectais, o «little arrow method (Pfeilchenmethode)»
(Preston, 1989: 5)1. O dialectólogo ligaria através de setas os locais mais frequente-
mente vistos como linguisticamente idênticos e, posteriormente, traçaria as fronteiras
entre as regiões que se demarcaram com iguais percepções leigas. Observemos a
explicação do método dada pelo seu criador:

«sites which informants perceive as being very similar are associated with each
other by the use of little arrows. In this way groups of regions connected by chains are
formed, and these stand out against the zones in which the connecting arrows are
missing. These zones form dialect boundaries which are very much alive in the minds of
ordinary speakers»
Weijnen, 1999 [1968]: 131

Paulatinamente, os métodos foram-se aprimorando e o objecto de estudo foi-se


alargando. Em 1955, W.G. Rensink usou a técnica «little arrow» na Holanda e, de
seguida, Willem Grootaers, no Japão, usou uma escala de quatro para graduar a
diferença entre os dialectos. Ambos contemplaram a identificação de traços linguísticos
específicos de cada região, sobretudo lexicais e fonéticos.
Entretanto, já nos anos oitenta do século XX, Dennis Preston desenvolveu algumas
das técnicas anteriormente utilizadas e criou outras que vieram a revelar-se funda-
mentais. Este linguista americano adoptou algumas técnicas e métodos de disciplinas
não linguísticas, concebendo assim alternativas mais objectivas e passíveis de trata-
mento estatístico.
Ladd e Orleans, «cultural geographers» (Preston, 1989: 19) da década de sessenta
do século XX, utilizaram mapas de percepção geográfica, pedindo aos seus informa-
dores que desenhassem as ruas dos bairros da cidade que habitavam. Por seu lado,
Preston cogitou sobre a hipótese de pedir aos seus informantes que desenhassem mapas
mentais das variedades geográficas de uma língua. Com os avanços tecnológicos, hoje é
possível utilizar um “digitizing pad” que faz automaticamente a sobreposição dos mapas
desenhados por cada informante. Utilizando este material informático torna-se mais
fácil a produção de mapas-resumo com ondas de intensidade a indicar o número de
pessoas que delimitou determinada área. Assim se relativiza a rigidez das fronteiras.
Foi também da Geografia que Preston aproveitou outra potencialidade: nos estudos
sobre o desejo de residência numa determinada zona, sobre o clima político, a economia
e outros factores determinantes para essa percepção geográfica, os dados quantitativos
eram convertidos em mapas com as fronteiras entre as zonas mais ou menos prescritas
por percentagens diferentes de indivíduos. Dennis Preston adaptou esta conversão dos

1 Antonius A. Weijnen afirma ter sido o criador do “little arrow method” (Weijnen, 1999 [1968]: 131). No
entanto, A. C. M. Goeman recorda um estudo não publicado de P. Willems, um dialectólogo belga, que terá
criado um mapa através de uma técnica semelhante. A sua pesquisa de 1886 também continha julgamentos
de semelhança dialectal, que Willems terá resumido num mapa unindo locais através de setas de vários tipos
consoante o grau de diferença apontado pelos falantes (Goeman, 1999 [1989]: 138-140).

252
PERCEPÇÕES DIALECTAIS E ATITUDES LINGUÍSTICAS

números em mapas, proporcionando desse modo uma leitura mais fácil do prescriti-
vismo dialectal – frequentemente mencionado mas nunca investigado (Preston, 1989:
22). Assim, passou-se a poder reverter os dados sobre as zonas percepcionadas como as
de maior correcção linguística em mapas mentais (Preston, 1989: 14-22).

2. Percepções e atitudes linguísticas: dois domínios complementares


Se a investigação sobre as percepções dialectais teve este caminho de aperfeiçoa-
mento do método, os estudos atitudinais, muito frequentes no campo da Sociolin-
guística, também estavam desenvolvidos nos anos oitenta do século passado. Os pontos
de contacto entre percepções e atitudes linguísticas destacavam-se de tal modo que as
atitudes foram então integradas nos estudos de Dialectologia perceptual.
Ao adoptar a concepção comportamental 2 de atitude linguística defendida por
López Morales (1993: 231-235), toma-se a atitude como a resposta dada pelo indivíduo
às distintas situações sociais, e, portanto, como o reflexo concreto das percepções
linguísticas. Deste modo, a Dialectologia perceptual beneficiará indelevelmente o nosso
conhecimento do que está subjacente às atitudes tomadas pelos falantes. Pensemos
então no percurso que leva os falantes a certas tomadas de atitude.
O conjunto de situações e contextos que rodearam o conjunto de comportamentos
linguísticos observados por cada indivíduo e os efeitos daí advindos são avaliados,
interpretados e interiorizados (Giles e Coupland, 1991: 53-58). Assim, o reservatório do
conhecimento contextual e textual de cada utente determina o seu grau de consciência
linguística e sociolinguística e a sua competência linguística – vide esquema 1.
E se a consciência linguística está intimamente ligada à consciência sociolin-
guística e, portanto, às crenças acerca do prestígio3 de cada sociolecto, dos cambiantes
existentes dentro de cada variedade diastrática e das variedades diatópicas, as
percepções originam atitudes linguísticas.
Por outro lado, a competência linguística e a competência comunicativa repercu-
tem-se na consciência linguística, e vice-versa, tornando possível, assim, indirecta-
mente, a constituição de juízos valorativos. A maior ou menor competência de um
indivíduo relativamente à sua língua, à forma de a usar correctamente e também de
acordo com as regras sociais e pragmáticas 4 interferirá no seu comportamento e nas
suas atitudes linguísticas.

2 Tanto psicólogos sociais como sociolinguistas têm dado definições de atitude linguística que seguem duas
grandes direcções: a concepção mentalista, segunda a qual a atitude é tomada como uma variável que reside
entre um estímulo e uma resposta a ele, e a concepção comportamental defendida por López Morales, que é
a que adopto.
3 Moreno Fernández (1990: 187), ao precisar o conceito de prestígio em Sociolinguística, define-o como «un
proceso de concesión de estima y respeto hacia individuos o grupos que reúnen ciertas características y que
lleva a la imitación de las conductas y creencias de esos individuos o grupos».
4 Moreno Fernández define competência comunicativa, no âmbito da sua obra Metodología sociolingüística,
como «el conjunto de reglas que determinan la conducta sociolingüística» (Moreno Fernández, 1990: 26).

253
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Reservatório do conhecimento contextual e textual 5

Interpretação

Consciência linguística Competência linguística


e sociolinguística Competência comunicativa

 do valor identitário
 de correcção
 geográficas
 de agradabilidade Percepções
 dos estereótipos sociais
 etc.

Percepções de prestígio

Atitudes

Mudança linguística

Esquema 1: Percepções, atitudes e consciência e competência linguísticas.

López Morales (1993) considera que a crença se baseia no conhecimento


linguístico – ou na competência e na consciência linguísticas – e nas percepções dos
estereótipos, ou seja, na consciência sociolinguística que implica um conhecimento de
quais são as formas percebidas como prestigiadas pela maioria da comunidade
linguística. A crença terá igualmente uma componente afectiva em que se integram,
portanto, os sentimentos perante os diversos estereótipos que o indivíduo conhece. Esta
crença/percepção (cognitiva e afectiva) levará a uma atitude, esta sim comportamental.
As percepções linguísticas abrangem vários campos. Há percepções geográficas e
percepções avaliativas acerca do dinamismo, da correcção, da agradabilidade, do valor
social, do valor de identidade de uma determinada variedade ou de um traço específico
dessa variedade. E o conjunto dessas percepções compõe a percepção de prestígio6 que
regulará as atitudes tomadas, que, por sua vez, poderão ter depois reflexos na mudança
linguística.
As atitudes relacionam-se directamente com noções como as de prestígio e norma,
estatuto e solidariedade, pelo que investigar as percepções avaliativas de agradabili-

5 Expressão retirada de Giles e Coupland (1991: 53).

6 A gramática prescritiva habituou-nos a fazer corresponder a (percepção de) correcção com o prestígio, ou,
melhor, com a percepção de prestígio. Hoje em dia, outros pensamentos vigoram. Peter Trudgill teorizou o
que muitos desejam que seja a prática do ensino de qualquer língua materna. A variedade que se considera
padrão não deve substituir mas ser acrescentada à variedade que o aluno já pratica (Trudgill, 1984). O
professor deve pois adoptar a perspectiva do bidialectalismo.

254
PERCEPÇÕES DIALECTAIS E ATITUDES LINGUÍSTICAS

dade, correcção – e também grau de diferença em relação à própria variedade do


falante – será um complemento profícuo ao estudo sociolinguístico das atitudes. Mas
será ainda mais produtivo se este estudo das percepções avaliativas estiver vinculado a
um estudo das percepções geográficas, isto porque é indispensável que se identifique
cabalmente a variedade sobre a qual recaem os adjectivos valorativos. Aliás, este foi um
dos aspectos omissos nos primeiros trabalhos atitudinais e que se revelou determinante
para uma melhor e adequada descrição dos dados e até para a legitimação das inter-
pretações dadas pelos investigadores.
Perante gravações do discurso de outros falantes 7, os informantes produziam
juízos avaliativos que eram posteriormente interpretados, ponderando, por exemplo, a
possibilidade de certo traço linguístico existente no trecho gravado ter suscitado
determinada atitude. Porém, faltava a este tipo de pesquisas atitudinais a ponderação
permanente de mais um critério tido em conta por quem avalia: a crença de pertença do
texto ouvido a determinada variedade diatópica 8. Trudgill (1984: 220-224) explica essa
necessidade, referindo o caso de informantes que, ao identificarem erradamente a
proveniência da voz ouvida, aplicam a conotação da variedade percebida em vez da
real. Se, quando os informantes identificam erradamente a proveniência da voz ouvida,
lhe dão a conotação da variedade aí utilizada (Trudgill, 1984: 220-224), ter acesso a
essa informação poderá ser determinante para as conclusões a retirar dos dados
atitudinais recolhidos. E também Paul Kerswill e Ann Williams (2002: 174)9 sugerem a
propósito de alguns dados recolhidos por Preston que «perceived in-group membership
in itself had the power to make a voice ‘attractive’».
Os métodos da Dialectologia perceptual conjuntamente com os estudos atitudinais
tornaram-se por isso variados, desde a delimitação pelo próprio informante de zonas
dialectais em mapas ou o reconhecimento dialectal auditivo e posterior avaliação em
termos de agradabilidade, vivacidade, dinamismo, prestígio, correcção, inteligibilidade
ou grau de diferença em relação à variedade dos falantes inquiridos até à identificação
de traços específicos de cada variedade, com a possibilidade de imitação de tais traços
(Preston, 1989: 4). E todos estes dados podem ser registados em mapas, não só de
percepções dialectais, como igualmente de prescritivismo dialectal ou meramente de
percepções avaliativas 10 de vários tipos.

3. Potencialidades da Dialectologia perceptual


Abrangendo um tão grande conjunto de aspectos implicados directamente na
mudança linguística 11, a Dialectologia perceptual apresenta, portanto, imensas potencia-
lidades relacionadas com a variação linguística.

7 Esta era uma das técnicas mais utilizadas nos estudos atitudinais.

8 Ou a identificação da variedade social do falante, consoante o tipo de investigação.

9 Angie Williams, P. Garrett e N. Coupland (1999: 347-348 e 356) fazem o mesmo tipo de afirmações.

10 Cf. noção de “imagem dialectal” de Inoue (1999: 170).

11 Recorde-se o esquema 1.

255
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

De facto, a variação linguística é um dos objectos sobre o qual as percepções dos


falantes poderão revelar maior interesse. Havendo várias realizações possíveis para uma
mesma realidade monemática, fonética… que outro motivo melhor poderá explicar a
selecção de uma e não de outra que a imagem que o utilizador tem de tais unidades? A
imagem perceptual por detrás da realidade linguística modifica os comportamentos
exercidos sobre essa mesma realidade.
Aliás a noção de percepção está inclusivamente subjacente a qualquer definição de
norma. A variedade considerada padrão é aquela a que é atribuído mais prestígio.
As percepções têm reflexos mais ou menos imediatos no curso tomado pela língua,
pelas suas variedades e pelas suas variantes. A força da difusão e o rumo da selecção
das variantes linguísticas é determinado pelas percepções linguísticas, já que estas
afectam o prestígio de cada variante e das próprias variedades diafásicas, diastráticas e
diatópicas, repercutindo-se assim na diatopia. Com a Dialectologia perceptual se
compreenderá melhor o fenómeno da mudança linguística e até da morte de línguas
(Alvar, 1986: 93-151).
Estatuto e solidariedade são dois dos factores envolvidos na constituição das
percepções de prestígio das variedades linguísticas. Por um lado a consciência de
pertença ou de diferença relativamente a um grupo dialectal tende a favorecer o uso das
variantes dialectais pelo falante, por outro lado o estatuto de cada variante e de cada
variedade percepcionado pelo falante pode condicionar o uso de tais variantes, no
sentido da preferência pela variante da norma ou de uma variedade percepcionada como
sendo de prestígio12.
Para além disso, um estudo de Dialectologia perceptual permite não só pesquisar
as fronteiras dialectais subjectivas, como até analisar em pormenor os traços
idiomáticos que os falantes atribuem a cada variedade linguística, descobrir ou confir-
mar os estereótipos, que podem na verdade ser os responsáveis pela atribuição de
adjectivos valorativos às diferentes variedades. Assim, auxilia e suporta as conclusões
tiradas em estudos de mudança linguística em tempo aparente.
O conhecimento científico dialectológico pode ser compreendido de forma mais
cabal com o auxílio da informação proveniente das percepções leigas acerca da
distribuição regional das variedades e das variantes dialectais. De facto estas percepções
constituem «corroborating and explanatory evidence for dialect distribution» (Preston,
1999: XXXII). Para além disso, identificam-se os factos linguísticos e até o tipo de
fenómenos (fonéticos, lexicais, morfológicos ou sintácticos…) mais salientes para a
população (Preston, 1999: XXIX).

12 Os critérios tidos em conta consciente e inconscientemente pelos utentes de uma língua para a atribuição de
prestígio a uma ou outra variedade de determinada língua são bem variados. Edward Finegan e Douglas
Biber questionaram-se sobre os factores que influenciam a escolha das formas prestigiadas e, após um
estudo sociolinguístico, concluíram que «the prestige variety (...) will correlate with the degree to which its
linguistic forms are “clear” rather than “quick and easy”» (Finegan e Biber, 1986: 396). As formas
linguísticas que correspondiam ao ideal «Be clear», vistas pelos autores como uma força centrífuga, foram
avaliadas positivamente, enquanto que as formas da força centrípeta que correspondiam ao ideal «Be quick
and easy» tiveram uma avaliação menos positiva (Finegan e Biber, 1986: 396). A verdade é que as
metodologias da Dialectologia perceptual podem ajudar a esclarecer tal jogo de atribuição de prestígio às
variedades dialectais.

256
PERCEPÇÕES DIALECTAIS E ATITUDES LINGUÍSTICAS

As interacções entre a crença do leigo e o conhecimento científico podem


verificar-se de forma extremamente vincada, visto que «instances of language change
and so-called language attitudes (...) might be profoundly influenced by folk beliefs
about language, particularly beliefs about the status of language varieties and the
speakers of them» (Preston, 1999: XXIV). Os utilizadores de uma língua atribuem
valores e chegam a emitir juízos de valor relativamente às variedades linguísticas, sendo
as suas percepções a origem do estatuto a elas atribuído – o que se reflecte depois em
atitudes linguísticas e, em casos mais extremos, em efectivas mudanças idiomáticas.
Um fenómeno inovador pode ser consolidado por influência do estatuto dos seus
primeiros utilizadores – que cria o estatuto da própria inovação – ou, pelo contrário,
pode ser erradicado pelo mesmo motivo. E até mesmo a convergência e a divergência
dialectais no interior de um continuum dialecto-standard são comandadas por
percepções e atitudes (Villena-Ponsoda, 1996). Assim, fica claro como a percepção
linguística, nomeadamente a dialectal, está intrinsecamente ligada ao fenómeno do
prestígio, da consolidação de normas regionais e de uma norma geral que é
percepcionada como o padrão a copiar.
Quando falamos de percepção dialectal e de atitudes sobre a variação dialectal,
falamos pois de percepções de prestígio das normas regionais, e tal informação pode ser
decisiva para a planificação linguística, sobretudo quando, perante um processo de
estandardização, os linguistas e os agentes envolvidos nessa planificação linguística
precisam de seleccionar uma variedade para ser a norma ou então de seleccionar as
variantes com as quais se construirá uma variedade somatória representativa de todas
(ou de apenas algumas). Em situações em que estamos perante um processo de
estandardização, este método pode até proporcionar a observação de potenciais
alterações das noções de norma e prestígio, assim como a análise das variedades
depositárias de diversos tipos de prestígio.

4. Estudo empírico
Alguns destes métodos foram usados num estudo realizado em 2003 com 132
informantes numa freguesia da cidade de Coimbra. Acolhendo as propostas
metodológicas presentes no Handbook of Perceptual Dialectology (Preston, 1999;
Preston e Long, 2002) e adaptando-as à realidade portuguesa, cada informante delimitou
num mapa de Portugal os dialectos que considerava existir. De seguida, o informante
deu o nome a cada dialecto, deu exemplos de especificidades linguísticas de cada um e,
posteriormente, classificou-os – numa escala com cinco graus – quanto a três aspectos:
diferença em relação ao seu próprio falar, agradabilidade e correcção.
A partir destes materiais recolhidos in loco, fizeram-se mapas-síntese tanto com os
totais relativos às percepções geográficas como quanto às atitudes. Uma vez que um dos
objectivos era precisamente verificar se as percepções geográficas dos falantes
coincidiam com as áreas dialectais traçadas pelos dialectólogos, fez-se a comparação e
concluiu-se que estes falantes têm uma capacidade de percepção dialectal relativamente
fiel à realidade – vide mapa 1. Embora alguns indivíduos tivessem reconhecido apenas

257
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

duas ou três 13 zonas linguísticas de maior relevo, outros desenharam mapas em muito
semelhantes a cada uma das três propostas dos dialectólogos (Leite de Vasconcellos,
1926; Boléo e Silva, 1962; Lindley Cintra, 1971).
Observando os totais 14, mais de 90% dos informantes percepcionaram a existência
de dialectos nos Açores e na Madeira, assim como em Évora e Beja. A sua própria zona
dialectal abrangeria Coimbra, Aveiro e Leiria (70%). O distrito de Faro mereceu ser
isolado (71%), enquanto as percentagens de identificação de um dialecto em Viana do
Castelo, Braga e Porto já descem para os 60%. O mesmo acontece com Vila Real e
Bragança (68%). Guarda e Castelo Branco são unidos por 57% dos informantes. Viseu
fica isolado (45%). A zona linguística para a qual houve menos consonância foi a que
abrange Portalegre, Santarém, Lisboa e Setúbal (40%). No entanto, é de salientar que,
se nos concentrarmos apenas nas percentagens que unem Santarém, Lisboa e Setúbal,
77% dos informantes identificam aí uma variedade específica. A variedade usada em
Portalegre surge com duas percentagens fortes: uma, que a liga a Castelo Branco
(44%)15, e outra, ligeiramente maior, que a une a Santarém (46%).

Mapa 1: Percepções geográficas

13 Não foi dado qualquer número limite de zonas a identificar, nem mínimo nem máximo.

14 Estes dados são relativos aos totais. Mais interessante, no entanto, é examinar caso a caso e comparar os
mapas resultantes das outras percepções. Consulte-se esta informação em Ferreira (2004), onde este estudo
surge em pormenor, uma vez que foi realizado no âmbito de dissertação de Mestrado em Linguística Geral,
na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
15 O mapa reflecte apenas a percentagem maior; contudo, efectivamente, alguns dados ausentes do mapa são
também muito importantes. Vide Ferreira (2004).

258
PERCEPÇÕES DIALECTAIS E ATITUDES LINGUÍSTICAS

Mapa 2: Grau de Diferença

Pretendia-se ainda observar em que medida o conjunto de traços linguísticos


identificados como específicos de cada dialecto correspondia às diferenças dialectais
efectivas. Na verdade, houve dialectos para os quais o estereótipo era o único traço
identificado, como por exemplo o uso de construções com o gerúndio no Alentejo;
contudo, noutros casos havia pormenor e diversificação. Foi o caso da variedade
identificada no arquipélago da Madeira que recebeu caracterizações fonéticas a par do
reconhecimento de itens lexicais próprios, como «semelha» (‘batata’) e «abelhinha»
(‘táxi’) ou até de expressões como «o céu está forrado» (para ‘céu nublado’). A
caracterização fonética foi a mais frequente, havendo exemplo para todas as variedades
dialectais. Desde a paragoge da vogal central fechada [ә] na zona delimitada em Viana
do Castelo, Braga e Porto, como em «Boue» (‘vou’), passando pela presença do s
beirão (sibilante ápico-alveolar) na variedade de Viseu, até à tendência para o
fechamento vocálico nos Açores. Também a sintaxe surgiu entre as percepções leigas –
embora com muitíssima menor frequência – por exemplo no caso de supressões
percepcionadas na variedade de Faro («Vou à do mê tie» por ‘vou a casa do meu tio’).

259
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

Mapa 3: Agradabilidade

Sobretudo através das percepções do grau de diferença, podemos aceder


subrepticiamente às percepções geográficas dos informantes. Como vimos, cerca de
70% dos indivíduos consideraram que a sua própria zona dialectal era a de Coimbra,
Leiria e Aveiro, porém, posteriormente no questionário, para distinguir todos os
dialectos com os cinco graus de diferença, muitos acabam por considerar também a
zona de Lisboa, Setúbal e Santarém ou de Castelo Branco, Guarda, e Portalegre como
linguisticamente nada diferente da sua. Cerca de 42% dos informantes atribui a
classificação de pouco diferente à variedade de Lisboa e Setúbal, apesar de 37,9% a
classificar de nada diferente. Ainda que não se trate de uma maioria, esta percentagem é
bastante considerável. Santarém tem 47,7% a favor de nada diferente e apenas 30,3% a
favor de pouco diferente 16. Note-se que os resultados da variedade falada em Viana do
Castelo e Vila Real apresentam percentagens muito baixas. Alguns informantes
deixaram mesmo de parte estas e outras 17 zonas, alegando não conhecer bem o modo de
falar desses locais.
Obtiveram-se assim dados que permitiram identificar as zonas linguísticas mais
apontadas pelos falantes e comparar as peculiaridades linguísticas atribuídas a cada
área. Estas informações podem ser cruzadas com os mapas síntese resultantes das
questões atitudinais.

16 Nas percepções de agradabilidade e correcção a maioria volta a estar de acordo numa avaliação igual da
variedade usada nos dois distritos de Santarém e Lisboa.
17 Castelo Branco e Portalegre foram outros dos distritos frequentemente deixados de parte.

260
PERCEPÇÕES DIALECTAIS E ATITUDES LINGUÍSTICAS

Mapa 4: Correcção

Sendo de Coimbra, e, por isso, potencialmente auto-identificados como falantes da


variedade normativa, as suas atitudes poderiam revelar-se de uma agudeza crítica para
com os restantes dialectos ou, por outro lado, poderia haver relutância em avaliá-los. A
tendência foi a segunda, sobretudo relativamente a alguns dos dialectos – vide mapas 3
e 4. Os índices de relutância em avaliar a correcção foram superiores aos índices
referentes à agradabilidade. Para além disso, o grau um, nada correcto, não surge no
mapa 4; por outro lado, o dialecto açoriano é avaliado como nada agradável (mapa 3).
Verificou-se ainda uma diferença quanto aos mapas resultantes das atitudes de
agradabilidade e de correcção. Por exemplo, quanto às variedades identificadas nas
zonas de Viseu e Guarda, apesar de serem consideradas pouco correctas, eram vistas
como algo agradáveis. Relativamente à zona dos próprios informantes, repare-se que
Castelo Branco volta a estar nela integrado, no mapa 3, ao ser avaliado com igual grau
de agradabilidade; porém, quando o critério é a correcção, a sua zona linguística é
novamente reduzida aos três distritos litorais, Coimbra, Leiria e Aveiro.

261
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

5. Conclusão
Foi interessante unir num só estudo a identificação de traços linguísticos que os
falantes percepcionam como típicos de uma variedade com percepções geográficas e
com percepções atitudinais. Será, com certeza, igualmente vantajoso realizar estudos
perceptuais geográficos e atitudinais com foco num ou em mais traços linguísticos
específicos, como preconizaram Inoue (1999: 175), Long (1999: 221) e Preston (1999:
372-373). É possível pedir aos informantes que delimitem num mapa a ou as zonas onde
percepcionam determinados traços linguísticos, que depois avaliam independentemente.
Comparar as taxas de relutância em avaliar variedades diatópicas e traços regionais
particulares poderá facilitar o acesso à compreensão deste fenómeno e confirmar quais
as variantes que os falantes de uma língua têm como emblemáticas de determinado
dialecto.
Será profícuo o estudo de mudança de percepções linguísticas em tempo aparente
(Preston, 1988) e, sobretudo, se se conjugar com estudos sobre mudanças efectivas na
língua portuguesa, nomeadamente para verificar se ou em que medida existe
nivelamento dialectal (Kerswill, 1996: 95) em Portugal, isto é, se ou em que medida as
normas regionais estão a ser afectadas pela variedade percepcionada como padrão. Este
é portanto um método que tem ainda algumas potencialidades para explorar.

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262
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263
Para uma diacronia das orações causais e explicativas do português

Alexandra Fiéis e Maria Lobo


Universidade Nova de Lisboa

Abstract
In this work we will be presenting a study based on the diachronic evolution of
reason clauses from Medieval Portuguese to Contemporary European Portuguese. Our
aim is threefold: to contribute to a better understanding of the processes of complex
sentences formation, of the syntax-semantics interface and of the grammatical and
lexical status of functional categories by identifying possible changes that affect
sentential connections. We will provide answers for the following questions: 1) how do
lexical features of connectives determine the syntactic properties of reason clauses?; 2)
are the different syntactic properties of reason clauses related to semantic differences?;
3) is semantic subordination necessarily linked to syntactic subordination?

Keywords: reason clauses, connectives, syntax, semantics, Medieval Portuguese,


Contemporary European Portuguese
Palavras-chave: orações explicativas, conectores, sintaxe, semântica, português
medieval, português europeu contemporâneo

1. Introdução
Como vários trabalhos têm mostrado, nem todas as orações com valor causal ou
explicativo têm o mesmo comportamento sintáctico (cf. Quirk et al., 1985; Piot, 1988;
Giusti, 1991; Galán Rodríguez, 1999; Lobo, 2001; entre outros). É objectivo deste
trabalho, por um lado, descrever o comportamento de diferentes conectores que
introduzem orações causais e explicativas finitas na história do português (tais como ca,
porque, por que, per que, pois, pois que, uma vez que, já que, visto que, des(de) que,
dado que) e das orações que eles introduzem, por outro lado, contribuir para a
compreensão dos processos sintácticos de formação de frases complexas e para a
definição do estatuto lexical e gramatical de palavras funcionais.
Assim, partindo de corpora informatizados, a descrição foca os seguintes aspectos:
i) posição da oração causal ou explicativa relativamente à oração principal; ii)
possibilidade de haver coordenação de orações; iii) possibilidade de a oração estar sob o
escopo de partículas de foco ou da negação; iv) possibilidade de ocorrer em estruturas
clivadas; v) valor semântico da construção.
Este trabalho tem os seguintes objectivos: 1) descrever as propriedades gramaticais
das orações causais e explicativas em diferentes momentos da história da língua
_____________________________
Textos Seleccionados. XXIV Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,
APL, 2009, pp. 265-280
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

portuguesa; 2) tentar explicar mudanças ocorridas no funcionamento destas orações; 3)


relacionar as propriedades gramaticais das orações com a especificação lexical dos
conectores que as introduzem; 4) contribuir para a compreensão dos processos
sintácticos de formação de frases complexas.
O presente trabalho está organizado da seguinte forma: no ponto 2, fazemos a
revisão das diferentes hipóteses de análise dos conectores que introduzem orações
causais e explicativas e das propriedades gramaticais destas orações no português
contemporâneo (PEC). No ponto 3, descrevemos os conectores que introduzem orações
causais e explicativas e as propriedades gramaticais destas orações em estádios
anteriores da língua portuguesa e, por fim, no ponto 4, analisamos as mudanças no
estatuto gramatical das diferentes orações causais e explicativas e revemos os diferentes
processos de formação de frases complexas.

2. Orações causais e explicativas no português contemporâneo: conectores e


propriedades gramaticais
Existem, na literatura, várias propostas em que se distinguem as orações causais e
explicativas com base no comportamento dos conectores que as introduzem.
Algumas dessas propostas estabelecem distinções semânticas baseadas em
diferentes critérios. Assim, distinguem-se geralmente orações causais, em que há uma
relação de causa-efeito entre os eventos das duas orações, de orações explicativas, em
que teríamos uma justificação da enunciação ou uma justificação de um raciocínio.
Alguns autores (cf. Sweetser, 1990; Neves, 1998; Peres e Mascarenhas, 2006)
estabelecem uma classificação tripartida, considerando causais de conteúdo,
epistémicas, e de acto de fala. Outros trabalhos distinguem ainda a causa dada da causa
nova, contrastando orações introduzidas por como, por exemplo, com orações
introduzidas por porque (cf. por exemplo Galán Rodríguez, 1999).
Quanto ao funcionamento sintáctico, também tem havido diferentes propostas para
as orações causais e explicativas (cf. Quirk et al., 1985; Piot, 1988; Giusti, 1991; Galán
Rodríguez, 1999; Lobo, 2001; 2003; Matos, 2005; Peres e Mascarenhas, 2006; entre
muitos outros). Alguns autores consideram que todas as orações causais e explicativas
são subordinadas (cf. Matos, 2004; 2005); outros consideram que algumas dessas
orações são coordenadas (cf. Lobo, 2001; 2003) ou paratácticas (cf. Lopes, 2004). Nas
estruturas de subordinação, são identificados diferentes subtipos que recebem
designações variadas na literatura: “adjuncts” vs. “disjuncts” (cf. Quirk et al., 1985);
“adjuntos internos” vs. “adjuntos externos” (cf. Fernández Lagunilla, 1999); “adverbiais
de predicado” vs. “adverbiais de frase” (cf. Renzi et al., 1991; Bosque & Demonte,
1999); “subordinadas adverbiais integradas” vs. “subordinadas adverbiais periféricas”
(cf. Galán Rodríguez, 1999; Lobo, 2001; 2003; Matos, 2005). Outros autores
consideram que alguns tipos de orações explicativas são estruturas com características
sintácticas distintas da subordinação, distinguindo as subordinadas – “subordinadas
livres internas” – de estruturas a que chamam “de suplementação” (cf. Peres e
Mascarenhas, 2006). Matos (2004), por sua vez, considera que alguns tipos de orações
causais/explicativas são “subordinadas apositivas”.

266
PARA UMA DIACRONIA DAS ORAÇÕES CAUSAIS E EXPLICATIVAS DO PORTUGUÊS

As diferentes distinções estabelecidas baseiam-se no comportamento diferenciado


de diferentes tipos de orações introduzidas por conectores causais e explicativos.
As diferentes distinções estabelecidas baseiam-se no comportamento diferenciado
de diferentes tipos de orações introduzidas por conectores causais e explicativos. No
seguinte quadro, resumimos algumas dessas propriedades para as orações do PEC. Por
falta de espaço, não incluímos os exemplos que ilustram cada um desses
comportamentos.

1 2 3 4 5
orações orações orações orações
orações introduzidas introdu- introduzidas introduzidas
introdu- por uma vez zidas por por pois por que e
-zidas por que, já que, por e porque porque
como visto que, causal explicativo
dado que,
visto e dado
(i) coordenação √ √ √ * +/-
(ii) anteposição √ √ √ * *
(iii) posposição * √ √ √ √
(iv) focalização * * √ * *
(v) clivagem * * √ * *
(vi) escopo da * * √ * *
negação
(vii) resposta a * * √ * *
interrogativas-
-Qu
(viii) próclise √ √ √ * +/-
(orações finitas)
(ix) ênclise * * * √ +/-

Quadro 1 – conectores causais e explicativos no PEC

Podemos observar que as orações causais e explicativas em PEC não têm todas o
mesmo comportamento sintáctico relativamente a fenómenos como: a) coordenação; b)
anteposição; c) posposição; d) focalização; e) clivagem; f) escopo da negação; g)
respostas a interrogativas-Qu; h) posição de clíticos (próclise ou ênclise).
Embora nem todos os autores interpretem estes dados da mesma forma, tomamos
aqui a impossibilidade de coordenação e de anteposição, bem como a posição dos
clíticos em ênclise, como critérios para considerar que a estrutura estabelece uma
relação estrutural de coordenação e não de subordinação, na sequência de Lobo (2003).
Por sua vez, consideramos que a possibilidade de focalização, clivagem, escopo da
negação, e respostas a interrogativas-Qu indica que a estrutura se encontra numa
posição integrada e não periférica (cf. Lobo (2003) para argumentos a favor desta
análise).
Assim, seguindo Lobo (2003), defendemos que: i) as orações de tipo 1, 2 e 3 são
estruturas de subordinação e 4 é estrutura de coordenação (embora de um tipo
particular); ii) dentro do grupo das subordinadas, as orações dos tipos 1 e 2 são

267
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

adverbiais periféricas, enquanto as de tipo 3 são adverbiais integradas. Apesar de as


orações de tipo 4, como observa Matos (2005), se distinguirem das coordenadas típicas
por só conectarem orações finitas e por, marginalmente, poderem ser antepostas,
consideramos que é possível pensar que se trata de um processo particular de
coordenação, que apresenta maiores restrições, e que pode ser encontrado em diferentes
línguas e em diferentes estádios de uma língua. As características deste tipo de conexão
oracional serão desenvolvidas no ponto 4. As orações de tipo 5 têm comportamentos
mais instáveis, o que parece indicar que o seu estatuto sintáctico é menos categórico,
podendo funcionar ora como estruturas de coordenação, ora como estruturas de
subordinação.
No ponto seguinte, descreveremos o comportamento das orações causais e
explicativas atestadas em estádios mais antigos do português.

3. Orações causais e explicativas no português antigo e no português clássico:


conectores e propriedades gramaticais
O facto de orações introduzidas por diferentes conectores causais e explicativos
manifestarem diferentes comportamentos sintácticos em estádios anteriores da língua já
havia sido observado por Mattos e Silva (1989, 1994, 2006).
Nesta secção, iremos considerar de forma sistemática diferentes propriedades de
orações causais e explicativas em estádios anteriores da língua com base nos seguintes
corpora informatizados 1:
– Corpus Informatizado do Português Medieval [CIPM] (textos do séc. 12 a 15):
http://cipm.fcsh.unl.pt
– Corpus Histórico do Português Tycho-Brahe [TB] (textos do séc. 16 a 19):
http://www.ime.usp.br/~tycho/corpus/

3.1. Português Medieval


Na análise dos dados do CIPM 2 (sécs. 13-15), considerámos os seguintes
conectores: pois, pois que, porque (por que), ca, posto que3. Alguns desses conectores,
para além do valor causal e explicativo, podem ter outros valores que referiremos
quando oportuno. Procurámos identificar o funcionamento sintáctico de cada um dos
conectores, considerando os seguintes fenómenos: i) posicionamento da oração
(anteposta/posposta); ii) coordenação de orações; iii) co-ocorrência do conector com
conjunção de coordenação; iv) escopo de negação; v) ocorrência em contextos de
focalização. Nos pontos abaixo, consideramos cada um dos conectores, identificando os
fenómenos encontrados para cada um deles. A não indicação de um fenómeno indica
que esses dados não foram encontrados no corpus.

1 Foram considerados apenas os textos em prosa.


2 Não foram analisadas ocorrências de como nem de que.
3 Não se encontraram ocorrências de dado que, uma vez que, já que com valor causal ou explicativo

268
PARA UMA DIACRONIA DAS ORAÇÕES CAUSAIS E EXPLICATIVAS DO PORTUGUÊS

3.1.1. Pois
Nos textos antigos, pois, para além de poder funcionar como conector explicativo,
pode corresponder também: i) a um advérbio temporal, como em (1); ii) a um advérbio
conectivo, como em (2); e a uma conjunção temporal, como em (3):
(1) Custume he que se algue~ deuer algu~a cousa & o leixo en sa u(er)dade q(ue)
pois nõ possa dar enq(ui)sas sobr’el poys jurar. [1340-1360 CS2]
(2) E el rey gradeceulho muyto e disse: – Pois, Lourenço, que me cõselhas que
faça? [séc. 14 CGE]
(3) Todo home~ q(ue) achare~ en dano de fruyta alhea. pois o degredo for posto
peite #v s(o)l(dos). & pregue~-no na porta. [1340-1360 CS2]

Quando corresponde a uma conjunção explicativa, verificamos que a oração que


introduz admite a coordenação (cf. (4)), a anteposição (cf. (5)), a posposição (cf. (6)), e
que é possível a co-ocorrência com uma conjunção de coordenação (cf. (7)):
(4) Ai, dom Galvam! disse Palamades, tal torto e tal vilania nom faredes vós, pois
vos nom merici morte e pois som vosso irmão da Távola Redonda. [séc.15 DSG]
(5) Outrossi pediu que pois o dito scudeiro nõ pagaua o dito trebuto ao dito
Monsteiro que lhj abrisse mão das ssas herdades [1339 DN091]
(6) Ricos e poderosos fariam engano e malicia conprando muytas herdades e
guados pois sabiam e eram çertos que por muytas herdades e guados que ouuessem
nom pagariam a a mjm nem a meus ssuscessores senom tres libras cada hu~u segundo
suso dicto he pela qual Razom se poderia despobrar essa terra, e poderiam Receber
agrauamento os pobres. [1340-1344 CDA3-295]
(7) a. verdade, disse elle, nem Deus nunca quisesse que eu tall cousa dissesse de
vós; mas pois vós dizees que vollo elle disse, a verdade he que eu lho ouvi dizer a ell,
estando presentes o conde dom Joham Affonsso vosso tio e outros [séc.15 CDF]
b. sei, disse el, que meu padre e meus irmãos foram melhores cavaleiros ca ele;
e pois melhores cavaleiros eram, como os podia matar? [séc.15 DSG]

3.1.2. Pois que


A locução pois que, para além do valor causal/explicativo, pode ter um valor
temporal, como em (8):
(8) Pois que esto ouve dicto el rey dom Paayo, meteusse dentro enna cova con
aquelles que com elle estavã, muyto spantados por que tam grande hoste viron jazer
sobre si. [séc. 14 CGE]

Quando tem um valor causal/explicativo, verificamos que admite a coordenação


(cf. (9)), a anteposição (cf. (10)), a posposição (cf. (11)), e pode co-ocorrer com uma
conjunção de coordenação (cf. (12)):
(9) Que monta ao mercador quanto jaz e~na arca e quanto jaz e~nas loyas. pois
que elle tem mentes pera gaanhar o alheo e pois que elle nõ faz conta do que tem
gaanhado mas do que a de gaanhar. [séc.15 OE]

269
XXIV ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA

(10) Ca poys q(ue) ygaes su~ en grao, ygaes son na partiçõ. [1280? FR]
(11) ca nõ é razõ d(e) seer se~ culpa, poys que as cousas q(ue) ten en encome~da
ardou peyor ca as suas. [1280? FR]
(12) Mas pois que o vós assi dizees, eu averei a guerra todavia, e Deus me dará
consselho maneira como a possa fazer e acabar com minha honrra. [séc.15 CDF]

3.1.3. Posto que


A locu