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O país do ornitorrinco

Fernando Viotti
Sydney, Austrália, 09 de maio de 2020
O país do ornitorrinco
A atualização diária de sábado, 09 de maio, mostra 15
novos casos e nenhuma morte a se acrescentar ao total de
97 ocorridas desde o início da pandemia de covid-19. Defini-
tivamente a Austrália é um bom país pra se estar em tem-
pos como os nossos. As medidas restritivas, anunciadas pelo
primeiro-ministro Scott Morrison em 25 de março e válidas
pra todo o território nacional continuam em vigor, ainda que
com algum relaxamento, como praias abertas – pra ativida-
des dentro da água e exercícios na areia; o dolce far niente
continua proibido – e visitas de até no máximo duas pessoas.
Como é grande a oferta de parques nos arredores da minha
casa em Sydney, não é difícil encontrar rotas seguras pra
caminhar, ou mesmo espaço pra bater um papo e apreciar o
pôr-do-sol, ainda que em grupos de no máximo três pessoas,
limite que subirá para dez a partir da próxima sexta-feira.
Trabalho em uma multinacional de tecnologia que deter-
minou home office desde meados de março, mas minha fun-
ção exige que eu vá à companhia duas vezes por semana,
quando sou a única pessoa num ambiente onde antes tra-
balhavam cerca de vinte. Além de bastante seguro, esse ar-
ranjo alia a conveniência de trabalhar de casa ao benefício
de não ter que fazê-lo todos os dias, rotina obviamente des-
gastante. Minha vida social em Sydney sempre foi limitada,

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especialmente de um ano pra cá. Sinto falta dos pubs, mas
tenho um quintal agradável onde bebericar uma boa cerveja
ou vinho australianos, na companhia de um ou dois compa-
nheiros brasileiros radicados aqui ou com a amiga recente
neozelandesa, um dos seres humanos mais doces que conheci
na vida. Kokaburras gargalham das árvores em redor; colo-
co Sketches of Spain de Miles Davis pra tocar. Resumindo,
não há um dia em que eu não pense como sou privilegiado;
os impactos da pandemia na minha rotina diária têm sido
muito limitados, quando não positivos.
O problema é o Brasil.
No dia 26 de março, logo após o anúncio das medidas res-
tritivas, recebi – a exemplo de qualquer um que possua um
número de celular australiano – o seguinte SMS: “Coronavi-
rus Governo da Austrália msg: para evitar a propagação da
doença, mantenha a distância de 1,5 metros, lave as mãos,
só saia de casa para atividades essenciais. Aus.gov.au”. A
mensagem me fez lembrar um artigo lido no New York Times,
“The Single Most Important Lesson From 1918 Influenza”,
em que o historiador americano John Barry sublinha a
enorme importância de se produzir um discurso único, cla-
ro, curto e objetivo, com orientações que a população possa
absorver e seguir em tempos de pandemia. Não tenho notícia
de iniciativa semelhante por parte do governo brasileiro.
Pode ser que ela exista; as notícias que me chegam se des-
tacam mais pela ambivalência e elisão típicas do discurso
poético. Sem lograr os correspondentes efeitos estéticos.
Scott Morrison não é nenhum Winston Churchill. Em ja-
neiro, ele era uma das pessoas menos populares da Austrália,
com uma taxa de aprovação que cairia para 37%, na estei-
ra da atitude medíocre que adotou diante dos incêndios flo-
restais que devastaram parte do país. Não é preciso ser um

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gênio da conjuntura política pra adivinhar a razão pela qual
agora ele desfruta de uma aprovação para muitos não me-
recida (68%), mas a melhor taxa dentre os cinco primeiros-
-ministros que passaram pelo cargo nos últimos dez anos.
Nada melhor que um inimigo comum pra unir um país em
torno de seu líder. Curiosamente, o presidente brasileiro não
viu a oportunidade chegando, prova dos nove de que quais-
quer supostos métodos que pudessem existir na sua loucura
são apenas uma tragédia de erros produzidas por sua mente
tacanha. Gostando ou não do primeiro-ministro, ou das me-
didas restritivas, ou do monumental desemprego que atinge
em cheio metrópoles como Sydney, altamente dependentes
do afluxo de visitantes em geral, sejam turistas, estudantes
ou imigrantes, a população tem colaborado absolutamente,
fazendo o que dela se pede. Imagino uma explicação simples:
as pessoas não querem morrer. Ou serem entubadas. Ou ve-
rem outras pessoas morrendo. Sejam estas da sua família
ou não. É o que eu suponho, mas sei lá, posso estar sendo
ingênuo. Vejo que no Brasil não é assim, pelo menos não pra
uma parcela considerável da população. Não falo daqueles
cuja única opção é se arriscar pra não passar fome, mas dos
fanáticos obcecados em defender o seu líder na insana cru-
zada contra o distanciamento social, remédio amargo mas
por enquanto o único comprovadamente eficaz para preser-
var vidas.
É quando minha sensação de privilégio se transforma
em desespero, raiva e impotência. Penso em conseguir o
número do presidente brasileiro e enviar a ele o singelo SMS
que recebi em 26 de março. Vai lá, Jair, compartilha essa
com a sua turma. Quanto melhor a Austrália vai gerencian-
do a crise, pior eu me sinto. O acachapante contraste confe-
re evidência macabra à tragédia brasileira e dá contornos

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surreais, senão assustadores, à decisão – tomada antes da
pandemia – de voltar ao Brasil daqui a menos de três me-
ses. Aos que tentam me demover explico querer retomar a
carreira acadêmica, ficar perto do filho, dos amigos e da lín-
gua portuguesa. Me embeber de Minas Gerais por todos os
poros. Passar três semanas em Diamantina, mais três em
Caxambu, mais três nas Vargens da Laje. Para além disso,
falo da sensação de conforto se destilando em culpa. Como
desfrutar do privilégio e salvar a própria pele enquanto toda
a família e tantos amigos queridos permanecem à mercê de
um imbecil que mantém o país marchando firme em direção
ao caos?
Durante esse período tem sido difícil escrever alguma coi-
sa, ou mesmo ler algo para além da avalanche de notícias so-
bre a pandemia. Ouvir música é a atividade mais frequente.
Dia desses assisti um vídeo disponível no YouTube, “Dindi”,
na voz de Gal Costa com Tom Jobim ao piano. Acho que por
causa da saudade do Brasil, às vezes me emociono ao ouvir
música brasileira e nessa ocasião acabei ficando muito co-
movido. Após ouvir a canção três ou quatro vezes, vendo Gal
e Tom deixando o palco, fiquei me perguntando, num misto
de pasmo e indignação, como o mesmo país de onde essas
pessoas vieram pode ter produzido um presidente como o
que ora ocupa o Palácio da Alvorada.

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Sobre o autor

FERNANDO VIOTTI
Doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela
UFMG com tese sobre a lírica de Drummond e Bob Dylan (2018).
Tem publicado ensaios sobre literatura e experiência, epistolo-
grafia e autores como Guimarães Rosa e Lobo Antunes, dentre
outros.