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A fábula das três raças ou o problema do

racismo à brasileira - Roberto Da Matta


06/11/2009 – 14:49

Alguns trechos para reflexão:

O racismo contido na "fábula das três raças", que floresceu do final do século até hoje, tanto no
campo erudito como no popular decorre da dificuldade de se pensar o Brasil e nossa hierarquia
social.
Há uma "ideologia abrangente" permeando todas as camadas e espaços sociais: "preguiça do índio",
"melancolia do negro", a "cupidez" e "estupidez", do branco lusitano, responsáveis, nessa visão
popular, pelo nosso atraso econômico e social, indigência cultural e a nossa necessidade de
autoritarismo político, fator corretivo básico neste universo social que, entregue a si mesmo, só
poderia degenerar. Assim, é o caso de perguntar se o racismo do famoso Conde de Gobineau está
realmente morto!
É uma faceta da história do Brasil vista pelo seu prisma mais reacionário: como uma história de
"raças", não de homens.
O conhecimento social assim, se reduz a algo "natural", como "raças", "miscigenação" e traços
biológicos de raças.

A fábula das três raças junta as 2 pontas da nossa cultura: o popular e o elaborado. Os três
elementos: o branco, o negro e o indígena, claro que foram importantes na nossa história, mas há
uma diferença entre a presença empírica dos elementos e seu uso como recurso ideológico na
construção da identidade social brasileira.
Nos EUA, o recorte branco colonizador, índio e negro, formavam elementos visíveis
empiricamente, negros e índios sendo colocados nos pólos inferiores de uma espécie de linha
perpendicular, onde sempre os brancos figuravam acima- não há escala- ou se é índio ou negro, ou
não é, não há gradações que possam pôr em risco aqueles que têm pleno direito à igualdade.
Nos EUA, não há um "triângulo de raças" e parece ser sumamente importante considerar como esse
triângulo foi mantido como um dado fundamental na compreensão do Brasil pelos brasileiros. E
mais, como essa triangulação étnica pela qual se arma geometricamente a "fábula das três raças",
tornou-se uma ideologia dominante, abrangente, capaz de permear a visão do povo, dos intelectuais,
dos políticos e acadêmicos de esquerda e de direita, uns e outros gritando pela mestiçagem e se
utilizando do "branco", do "negro" e do "índio" como unidades básicas que explicam a exploração
ou a redenção das massas.
As hierarquias sociais do "Antigo Regime", ou seja, o regime anterior à Revolução Francesa, eram
fundadas nas leis de Deus, da Igreja e de sangue. Como se Deus tivesse armado uma pirâmide
social com os nobres, o Imperador, o Papa, legitimando de cima seus poderes no plano temporal e
espiritual.
No caso brasileiro, a justificativa fundada na Igreja e no Catolicismo formalista que aqui chegou
com a colonização portuguesa, foi o que deu direito à exploração da terra e à escravização de índios
e negros- tal legitimação estava fundada numa poderosa junção de interesses religiosos, políticos e
comerciais (moral, econômica, política e social que se constitui numa totalidade).
Não temos companhias particulares explorando a terra com olho apenas na atividade produtiva com
leis individualizadas e sem independência da Coroa, como nos EUA. Aqui, era a Coroa portuguesa
que, legitimada pela religião, pela política e pelos interesses econômicos, explorava soberanamente
nosso território, gente fauna e flora. O jogo político estava submetido ao comercial até certo ponto.
O rei mantinha o controle sobre os empreendimentos coloniais (a colonização portuguesa),
motivado pela religião e pela política civilizatória.
Em decorrência, houve um perfeito transplante de ideologias de classificação social, técnicas
jurídicas e administrativas que tornaram a estrutura social da colônia exatamente semelhante à
Metrópole- esse é o fato social fundamental.
Portugal à época da colonização apresentava um conjunto de "estados" sociais de um corpo social
altamente complexo onde as pessoas se distinguiam elo nome, forma de trabalho, trajes etc. a que
estavam sujeitas. (juizes e oficiais, letrados, fidalgos, cavaleiros, escudeiros, homens bons, e por
ultimo o "povo"). Uma sociedade em que ninguém é igual perante a lei, uma sociedade em que
embora mercantilista e comercial, não imperava a mentalidade burguesa, uma sociedade já
familiarizada com formas de segregação social, (contra mouros e judeus).
Reconstitui-se aqui, obedecendo naturalmente às características históricas dos povos indígenas que
habitavam nossas praias, a sociedade portuguesa original. (E não foi uma empresa realizada por
meros criminosos, indivíduos sem eira nem beira ou ideologia social, mas uma empresa com alvo e
método).
Mais tarde, o movimento de independência provocou toda uma reorientação dos sistemas de
hierarquia vigentes no Brasil, mudando a estrutura de poder para a Corte do Rio de Janeiro e não
mais a Corte portuguesa em Lisboa, mesmo considerando que a independência não foi movimento
de "baixo para cima". Ela apresentou à elite local e nacional, a necessidade de criar suas próprias
ideologias e mecanismos de racionalização para as diferenças internas no país (busca de identidade
legitimando diferenças internas). E a ideologia veio na forma da "fábula das três raças" e no
"racismo à brasileira".
Thomas Skidmore considera que o marco histórico das doutrinas raciais brasileiras é o período que
antecede à proclamação da República e a Abolição da escravatura, momento de crise nacional
profunda, que abala as estruturas sociais, a República sendo um movimento fechado e reacionário
destinado a manter o poder dos donos de terra, e a Abolição, um movimento progressivo e aberto
que propõe a igualdade e a transformação das hierarquias (ameaça ao edifício econômico e social
do país). Era necessária uma nova ideologia: ela foi dada com o racismo, ao lado das cadeias de
relações sociais dadas pela patronagem e que se mantiveram aparentemente intactas. Essa fábula
das três raças hoje, tem a força e o estatuto de uma ideologia dominante que fornece o mito das três
raças, as bases de um projeto político e social para o Brasil através da tese do "branqueamento"
como alvo a ser buscado e finalmente é essa fábula que possibilita visualizar nossa sociedade como
algo singular- especificidade que nos é presenteada pelo encontro harmoniosos das três "raças".
Se no plano social e político, o Brasil é rasgado por hierarquizações e motivações conflituosas, o
mito das três "raças" une a sociedade num plano "biológico" e "natural", domínio unitário,
prolongado nos ritos de Umbanda, na cordialidade, no Carnaval, na comida, na beleza da mulher (e
da mulata), e na música.
Fontes eruditas do racismo brasileiro: origem: Europa do século XVIII e crise da Revolução
Francesa, mas no século XIX, o racismo aparece na sua forma acabada como instrumento do
imperialismo e como uma justificativa "natural" para a supremacia dos povos da Europa Ocidental
sobre o resto do mundo. Gobineau defendia a tese de que a sociedade brasileira era inviável porque
possuía enorme população "mestiça", produto indesejado e híbrido do "cruzamento" de brancos,
negros e índios, tomados por esses "cientistas", como espécies diferenciadas.
O fato de termos constituído até final do século XIX, uma sociedade de nobres com uma ideologia
aristocrática e anti igualitária, dominada pela ética do familismo, da patronagem e das relações
pessoais, tudo isso emoldurado por um sistema jurídico formalista e totalizante, que sempre
privilegia o todo e não as partes (os indivíduos e os casos concretos), deu às nossas relações sociais
um caráter especial: a escravidão foi aceita como algo normal porque não era um fenômeno social
regional e localizado, mas nacional.
A lógica do sistema de relações sociais no Brasil é a de que pode haver intimidade entre senhores e
escravos, superiores e inferiores, porque o mundo está realmente hierarquizado, tal e qual o céu da
Igreja católica. O ponto crítico de todo nosso sistema é sua profunda desigualdade.
Nesse sistema, não há necessidade de segregar o mestiço, o mulato, o índio e o negro porque as
hierarquias asseguram a superioridade do branco como grupo dominante. (Para Freyre, esse era um
dos traços do caráter nacional português).
Nos EUA e na Europa, o problema é que, muito embora se pudesse tomar as "raças", como tendo
qualidades positivas, colocando a "raça branca" como inquestionavelmente superior, o que não
podia se realizar era a "mistura" ou o "cruzamento" entre elas. Dois pontos a ressaltar: 1) a doutrina
racista estabelece que as "raças humanas", embora situadas em escalas de atraso e progresso, tinham
qualidades e seriam mesmo até dignas de admiração, caso não fossem jamais colocadas lado a lado.
2) O segundo é a condenação fundamental de suas relações.
O problema é considerar cada "raça" em si, mas nunca estudar suas relações porque elas demandam
estruturas de poder diferenciadas e hierarquizadas. ("Racismo cientifico" norte americano, que
corresponde de fato à realidade social daquele país, onde o credo igualitário, o individualismo e o
ideal de igualdade perante a lei, criaram obstáculos insuperáveis para as uniões entre pretos e
brancos em outros planos que não fosse o do trabalho). O mulato é tão desprezível no credo racial
americano, porque é considerado negro e essa posição se funda na existência concreta de um credo
igualitário e individualista. Como então encontrar lugar para negros (ex-escravos), num sistema que
situava e situa o individuo e a igualdade como principal razão de sua história social? A resposta foi
a discriminação violenta na forma de segregação que, diferentemente do caso brasileiro, assumiu a
forma clara e inequívoca de segregação legal, fundada em leis. Como uma sociedade individualista
pode resolver o problema da desigualdade?
A reação dos teóricos americanos e europeus ao "mestiço" no Brasil segundo a qual o Brasil não
tinha futuro porque era um país de mestiços e de "mulatos", de sub- raças híbridas e fracas, pode ser
explicada como um modo de rejeitar a hierarquia que permite se ameaçar as elites com todo tipo de
encontro e intimidades entre pretos, índios e brancos. (Dilemas de enfrentamento do trabalho
escravo).
DA MATTA, Roberto, Relativizando: uma introdução à Antropologia Social, Petrópolis Vozes,
1981.
http://www.geledes.org.br/ensaios-estudos-pesquisas/a-fabula-das-tres-racas-ou-o-problema-do-
racismo-a-brasileira-roberto-da-matta-06/11/2009.html [acessado em 29 de janeiro de 2011]

Kabengele Munanga: A difícil tarefa de definir


quem é negro no Brasil
12/05/2008 – 08:38

PARA O ANTROPÓLOGO Kabengele Munanga, professor-titular da Faculdade de Filosofia,


Letras e Ciências Humanas da USP, não é fácil definir quem é negro no Brasil. Em entrevista
concedida a ESTUDOS AVANÇADOS, no último dia 13 de fevereiro, ele classifica a questão como
“problemática”, sobretudo quando se discutem políticas de ação afirmativa, como cotas para negros
em universidades públicas.“Com os estudos da genética, por meio da biologia molecular, mostrando
que muitos brasileiros aparentemente brancos trazem marcadores genéticos africanos, cada um pode
se dizer um afro-descendente. Trata-se de uma decisão política”, afirma.
Kabengele Munanga é atualmente vice-diretor do Centro de Estudos Africanos e do Museu de Arte
Contemporânea da USP. Nasceu em 19 de novembro de 1942 no antigo Zaire, onde recebeu sua
educação primária e secundária. Sua educação superior ocorreu em seu país natal, de 1964 a 1969.
Foi o primeiro antropólogo formado na então Université Officielle du Congo, em Ciências Sociais
(Antropologia Social e Cultural). No mesmo ano em que se graduou, recebeu uma bolsa do governo
belga, como pesquisador no Museu Real da África Central, em Tervuren e como aluno do programa
de pós-graduação na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Essa bolsa foi interrompida em
1971, por questões políticas, antes da conclusão de seu doutorado.

Em julho de 1975, veio ao Brasil com uma bolsa da USP, a fim de continuar seus estudos. Defendeu
sua tese em 1977. No mesmo ano, voltou a seu país, mas não conseguiu permanecer lá por muito
tempo. Regressou ao Brasil em 1979, para trabalhar na Universidade Federal do Rio Grande do
Norte. Em 1980, iniciou a segunda fase de sua carreira na USP. Em 2002, o governo brasileiro
concedeu a Kabengele Munanga o diploma de sua admissão na Ordem do Mérito Cultural, na classe
de Comendador.

Participaram da entrevista com Kabengele Munanga, o editor de ESTUDOS AVANÇADOS,


professor Alfredo Bosi, e o editor assistente, jornalista Dario Luis Borelli.

ESTUDOS AVANÇADOS – Quem é negro no Brasil? É um problema de identidadeou de


denominação?
Kabengele Munanga – Parece simples definir quem é negro no Brasil. Mas, num país que
desenvolveu o desejo de branqueamento, não é fácil apresentar uma definição de quem é negro ou
não. Há pessoas negras que introjetaram o ideal de branqueamento e não se consideram como
negras. Assim, a questão da identidade do negro é um processo doloroso. Os conceitos de negro e
de branco têm um fundamento etno-semântico, político e ideológico, mas não um conteúdo
biológico. Politicamente, os que atuam nos movimentos negros organizados qualificam como negra
qualquer pessoa que tenha essa aparência. É uma qualificação política que se aproxima da definição
norte-americana. Nos EUA não existe pardo, mulato ou mestiço e qualquer descendente de negro
pode simplesmente se apresentar como negro. Portanto, por mais que tenha uma aparênciade
branco, a pessoa pode se declarar como negro. No contexto atual, no Brasil a questão é
problemática, porque, quando se colocam em foco políticas de ações afirmativas – cotas, por
exemplo –, o conceito de negro torna-se complexo. Entra em jogo também o conceito de afro-
descendente, forjado pelos próprios negros na busca da unidade com os mestiços. Com os estudos
da genética, por meio da biologia molecular, mostrando que muitos brasileiros aparentemente
brancos trazem marcadores genéticos africanos, cada um pode se dizer um afro-descendente. Trata-
se de uma decisão política. Se um garoto, aparentemente branco, declara-se como negro e
reivindicar seus direitos, num caso relacionado com as cotas, não há como contestar. O único jeito é
submeter essa pessoa a um teste de DNA. Porém, isso não é aconselhável, porque, seguindo por tal
caminho, todos os brasileiros deverão fazer testes. E o mesmo sucederia com afro-descendentes que
têm marcadores genéticos europeus, porque muitos de nossos mestiços são euro-descendentes.

ESTUDOS AVANÇADOS – Em face da concessão de cotas para negros, ou para outros segmentos
da população que não tiveram a mesma condição de cursar escolas da classe média ou alta, qual a
sua posição?

Kabengele Munanga – Por ocasião dos trezentos anos da morte de Zumbi dos Palmares, em 1995,
começamos a discutir essa questão na USP, numa comissão criada pela reitoria. Os movimentos
negros, principalmente o Núcleo da Consciência Negra, pleitearam o estabelecimento de cotas em
nossa universidade. Contudo, afirmei que não poderíamos discutir o sistema de cotas sem antes
fazer uma pesquisa preliminar em países que já têm experiência de cotas, como os EUA, o Canadá,
a Austrália ou a Índia. Naquela ocasião, apresentei essa proposta, mas ela não foi levada adiante. No
entanto, na base de um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), um
órgão do governo federal, conclui-se que realmente há uma grande defasagem na escolaridade dos
negros nas universidades brasileiras. Infelizmente, porém, começamos a enfrentar a questão pelas
cotas, a partir da decisão do governador Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, que provocou uma
confusão muito grande, quando estabeleceu cotas nas universidades estaduais. No entanto, mesmo
num país com tantas desigualdades, as políticas universalistas não resolvem o problema do negro.
Para isso precisamos formular políticas específicas contra as desigualdades, mas o caminho não
deve ser necessariamente por meio de cotas. Essa discussão, todavia, é importante, porque antes
nem se tocava no assunto. Escutei outro dia algo muito positivo quando alguém dizia que deveria
haver cotas para pobres. Ora, antes ninguém apresentou esse ponto de vista. O que mais me
surpreende é que jamais o movimento negro se disse contrário a cotas para brancos pobres. A
questão ainda está mal discutida, sendo formulada num tom passional, tanto pelos negros como
pelos intelectuais. A questão não é a existência ou não das cotas. O fundamental é aumentar o
contingente negro no ensino superior deboa qualidade, descobrindo os caminhos para que isso
aconteça. Para mim, as cotas são uma medida transitória, para acelerar o processo. No entanto, julgo
que não somente os negros, mas também os brancos pobres têm o direito às cotas. Se as cotas forem
adotadas, devem ser cruzados critérios econômicos com critérios étnicos. Porque meus filhos não
precisam de cotas, assim como outros negros da classe média.

ESTUDOS AVANÇADOS – O sr. iniciou suas declarações dando uma opinião contra as cotas, mas
agora aponta para o problema da urgência. As cotas aparecem como uma medida de urgência?

Kabengele Munanga – Sim. Ao menos que o país diga que tem hoje uma outra proposta
emergencial melhor, que não abra mão de uma política universalista com vistas ao aperfeiçoamento
do nível do ensino básico. É bom lembrar que a escola pública já apresentou melhor qualidade, mas
o negro e o pobre não entravam nela.Melhorar a escola pública

ESTUDOS AVANÇADOS – O sr. acha que a médio prazo a alternativa seria uma transformação
mais profunda do ensino básico e secundário? Um número considerável de alunos negros faz o
segundo grau em escolas públicas. Não falo deles como negros, mas sim como pobres. Será que as
cotas não resolvem o problema porque o enfrentam no fim da linha, em vez de atacá-lo no começo?

Kabengele Munanga – Sim. Porém, vivo aqui há 28 anos e desde que cheguei escuto esse
discurso. Mas nunca vi luta política e social alguma para a melhoria da escola pública. Só há o
discurso. Mas o que fazer com a vítima? Esperar que isso aconteça por milagre, ou pressionar a
sociedade através de uma proposta: como pelo menos cuidar da escola pública? A dúvida que tenho
é a seguinte: num país onde a privatização do ensino é cada vez maior e no qual o lobby das escolas
particulares é tão forte, só posso antever uma melhoria a longo prazo. Lembro-me de que o primeiro
processo contra as propostas de cotas no Rio de Janeiro veio do sindicato das escolas privadas.
Devido a essa tendência para a privatização das escolas públicas, não acredito numa rápida
melhoria delas. A desigualdade social que existe há quatrocentos anos não pode ser resolvida por
meio de políticas universalistas. É preciso, portanto, traçar políticas específicas para se encontrar
uma solução. A discriminação racial A palavra “social” incomoda-me muito. Quando dizem que a
questão do negro é uma questão social, o que quer dizer “social”? As relações de gênero são uma
questão social; a discriminação contra o portador de deficiência é uma questão social; a
discriminação contra o negro é uma questão social. Ora, o social tem nome e endereço. Não
podemos diluir, retirar o nome, a religião e o sexo e aplicar uma solução química. O problema
social tem de ser atacado especificamente. A discriminação racial precisa ser urgentemente
enfrentada. Nós, negros, também temos problemas de alienação de nossa personalidade. Muitas
vezes trabalhamos o problema na ponta do iceberg que é visível. Mas a base desse iceberg deixa de
ser trabalhada. Estou aqui, como disse, há 28 anos. Vou a restaurantes utilizados pela classe média e
a centros de alimentação nos shoppings. Encontro famílias brancas comendo (homem, mulher e
filhos), mas dificilmente estão ali famílias negras. Há uma classe média negra, mas que se
autodiscrimina e que é também discriminada. Desafio vocês a me dizerem que encontraram quatro
famílias negras em cinco restaurantes de classe média em São Paulo. Vejamos o meu caso: em meu
segundo casamento (que é interracial) percebia aquelas “olhadas” – mulher branca, filhos negros do
primeiro casamento e filhos mestiços do segundo. Ninguém me expulsava desses lugares, mas eu
via as “olhadas”...

ESTUDOS AVANÇADOS – A USP está completando setenta anos e gostaria que o sr. falasse sobre
as principais linhas de pesquisa sobre gênero e raça na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas.

Kabengele Munanga – Até onde eu saiba não há uma linha de pesquisa sobre gênero e raça. Há um
núcleo de estudo da mulher, dirigido pela professora Eva Blay. De vez em quando ela convida
alguma jovem pesquisadora negra. Talvez exista uma explicação histórica para isso, porque
normalmente quem estuda esse tema são as mulheres. Mas, não temos professoras negras de
sociologia ou de antropologia na Universidade de São Paulo. Entrei nela em 1980, como professor,
e nunca mais houve um outro professor negro no Departamento. Lembro-me do dia em que
Florestan Fernandes recebeu o título de professor emérito e eu estava na fila para cumprimentá-lo.
Eu não sabia que ele me conhecia. Por isso assustei-me quando ele me disse que estava muito
contente com a minha presença naquela solenidade. Pois fora informado de que ali estava um negro
que nem era brasileiro. Um antropólogo em dois mundos

ESTUDOS AVANÇADOS – O sr. poderia descrever um pouco sua trajetória até chegar no Brasil?

Kabengele Munanga – Nasci no antigo Zaire, que hoje se chama República Democrática do
Congo, numa aldeia no centro do país. Estudei num colégio interno de jesuítas e fiz graduação em
Antropologia. Aliás, fui o primeiro antropólogo formado naquela universidade e o único aluno que
teve aulas com professores franceses, belgas e americanos convidados, pois não havia ainda
professores africanos na Universidade quando eu entrei Lá, nós acabávamos a graduação com um
tipo de dissertação que se chamava Mémoire. O sistema belga dava o direito de se entrar
diretamente no doutorado. Em razão disso, comecei o doutorado em Louvain, na Bélgica, em 1969.
Dois anos depois, voltei para pesquisas de campo. Mas houve complicações políticas. Cortaram a
bolsa e não pude fazer mais nada. Por coincidência, encontrei no Congo, em 1973, o professor
Fernando Mourão, que ali estava realizando palestras sobre as contribuições africanas para a cultura
brasileira. Conversamos e ele me disse que a USP possuía um projeto de cooperação com as
universidades africanas e que nela eu poderia completar o doutorado. Cheguei aqui em 1975 e me
inscrevi no doutorado, sob a orientação do professor João Batista Borges Pereira. Como eu estava
bastante adiantado, em dois anos defendi minha tese. Trabalhei sobre o processo de mudanças
socioeconômicas numa comunidade no sul do Congo. Voltei correndo à militância para colocar
meus conhecimentos à disposição de meu país. Mas quando cheguei lá, tive de fugir para o Brasil.
Quando houve a independência do meu país, o antigo Zaire (em 30 de junho de 1960), eu estava
com dezoito anos. A Faculdade foi criada pela Bélgica, seis anosantes da independência, em
conseqüência de pressões internacionais. Fui alfabetizado na minha língua materna, mas no fim do
primeiro grau começou o ensino em francês. O resto do curso foi em francês. Isso porque, com mais
de duzentas línguas, não era possível escolher uma para ser a língua nacional. Todos os
alfabetizados falam francês.

ESTUDOS AVANÇADOS – Alguma dessas línguas africanas é hegemônica?

Kabengele Munanga – O suahili que é uma língua falada em muitos países africanos, em parte do
Zaire, Tanzânia, Burundi, Quênia e Uganda.

ESTUDOS AVANÇADOS – Suahili tem alguma coisa a ver com o árabe?


Kabengele Munanga – Cerca de vinte por cento do vocabulário, porque desde a Antigüidade os
árabes tiveram muita influência no continente, a partir do oceano Índico, além de terem sido
responsáveis pelo tráfico oriental e transaariano (entre os anos de 600-1600). Mas a estrutura da
língua é totalmente bantu (africana).
http://umnegro.blogspot.com/2008/05/kabengele-munanga-difcil-tarefa-de.html [acessado em 29 de
janeiro de 2011]

Racismo à Brasileira - Roberto Da Matta


04/07/2009 - 21:26
Anais do Seminário Internacional
"MULRTICULTURALISMO E RACISMO: O PAPEL DA AÇAO AFIRMATIVA NOS
ESTADOS DEMOCRATICOS COMTEMPORANEOS"

Por Roberto Da Matta


NOTAS SOBRE O RACISMO À BRASILEIRA

Esta minha intervenção tem dois aspectos ou dimensões. De um lado, quero falar de fatos sociais
concretos - alguns,aliás ,bem conhecidos do nosso racismo-, como sua manifestação implícita,
disfarçada e de difícil discussão, como se, entre nós, brasileiros, falar de racismo fosse um tabu, de
acordo com aquela tendência que Florestan Fernandes chamou, com propriedade,"o preconceito de
ter preconceito". De outro, quero me concentrar nas inter-relações dos fatos sociais com os ideais
políticos, alvo que - se bem entendo - move este encontro e tem suas dificuldade específicas,
sobretudo quando se trata de um tema tão dramático quanto pungente, quando a justa vontade de
erradicar o preconceito certamente embaça a discussão de suas características históricas e de sua
organização sociológica ou cultural.
Para tanto,quero começar relembrando um episódio de diz respeito ao assunto .
Em 1968, quando estava em Cambridge , Massachusetts, realizando , na Universidade de Harvard,
meu doutorado em antropologia social, fiquei sabendo da visita de um grupo de estudantes
brasileiros. Eram lideres estudantis, convidados pelo Departamento de Estado do Governo dos
Estados Unidos, que realizavam um programa de visitas a centros culturais norte-americanos e , em
Harvard, participavam de seminários e debates.
Carente de noticias do país e de contato com compatriotas - aquela época, é bom lembrar, não havia
e-mail,nem fax,nem sedex, os estudantes não podiam viajar tanto quanto hoje - , fui ao local da
reunião.
Lá, em um vasto salão harvardiano , dois negros americanos, se não me engano, ambos políticos
locais e ligados ao chamado Movimento Negro que estava surgindo, disseram dissertavam sobre
suas experiências aos jovens lideres estudantis brasileiros. Lembro-me bem de que o objetivo dos
políticos americanos era compartilhar, a partir da grande experiência liberal americana1 ,as
conquistas dos negros em relação ao establishment branco, mudando legislações e provocando, por
meio de um ativismo pacifico, democrático e consistente, a integração política e judiciária dos
Estados Unidos como nação e, no limite da esperança , como sociedade.
Ao término do discurso dos americanos, os estudantes brasileiros iniciaram uma série de perguntas-
comentários provocadoras e um tanto impertinentes. Diziam, por exemplo, que as mudanças
políticas mencionadas não eram efetivamente transformações de estrutura, que continuava fundada
no mercado. Alegavam que a modificação aparente do quadro dos direitos das minorias não mudava
o cerne do problema : a estrutura do capitalismo fundada na exploração do trabalho, continuava em
vigor. Insinuavam, como era comum naquela década, que, para mudar as relações raciais, seria
necessário primeiro modificar todo o "sistema"por meio de uma revolução .
Depois de cerca de trinta minutos de impasse ideológico, um dos palestrantes negros resolveu
endurecer e disse mais ou menos o seguinte, olhando durante sua platéia de brasileiros:
Curioso que vocês cobrem tanto do nosso sistema. O fato é que estamos trabalhando com o que
podemos para mudar as relações raciais por aqui. Vocês, que se dizem uma democracia racial, são
muito piores, em termos práticos. Pois vejam só: no meio de mais ou menos oitenta estudantes
brasileiros, eu vejo apenas sete ou oito negros. A grande maioria é branca. Onde está a tal
"democracia racial" de vocês ?.Após a reunião, fui me encontrar com o grupo e logo descobri a
perturbação dos brasileiros diante do seguinte problema: quem era o negro que os americanos
haviam descoberto entre eles? Pois, como me disse um dos estudantes, com exceção de uma ou
duas pessoas, não havia preto "entre eles"...
Essa historia tem o mérito de revelar o coração do problema, pois situa com dramaticidade um fato
social básico: como as sociedades classificam suas eventuais variedades étnicas .
Pois, se falamos de relações raciais de uma perspectiva sociológica, é preciso distinguir de saída a
miscigenação como fato empírico, isto é, como o resultado biológico do encontro sexual de
brancos, negros e índios - para ficar na trilogia clássica da fábula racial brasileira -, do modo pelo
qual cada sociedade trabalha esse resultado, reconhecido-o ou não como em fato social concreto.
Como não há sistema valor, moralidade, mitologia ou sistema de classificação que seja "natural" ou
mais próximo de uma natureza humana, pois todos são arbitrários, existe uma variedade intrigante
nos modos de lidar com os mestiços.O que chama a atenção quando se compara a existência
classificatória americana com a brasileira, é o fato de que, embora existam "mulatos" ou "mestiços",
tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, na sociedade brasileira esses mestiços tem um
reconhecimento cultural e ideológico explicito, quanto que, no caso americano, eles se submergem
como "brancos" ou como "negros ". O resultado é que o sistema americano persegue a distinção e a
compartimentalização dos tipos étnicos em grupos autocontidos,contrastantes, autônomos e
socialmente coerentes, isto é, sem mistura. Lá o sistema tem repulsa pela ambigüidade, pelo mais
ou menos e pelo meio-termo. Assim, ou se é "branco" ou se é "negro", "hispânico" ,
"judeu","italiano" ou "irlandês" etc. Já no Brasil, o sistema de classificação privilegia o meio-termo
e a ambigüidade como valor, tendendo, em princípio, a funcionar com base na hierarquia e no
gradualismo.
Dadas essas "escolhas" histórico-sociais, há exclusão , no caso dos Estados Unidos, exclusão que se
exprime no princípio do "diferentes, mais iguais"; enquanto que , no Brasil, o sistema inclui
hierarquiza de modo complementar, de acordo com o princípio do desigual ,mais justo". Com isso,
o sistema brasileiro estabelece que, entre brancos e negros, há uma gradação complexa e mais: que
todas as etnias de fato se complementam para a formação do "povo brasileiro", pois o que falta em
uma, existe de sobra na outra, conforme tentei revelar alhures, em um ensaio no qual tento elucidar
a nossa "fabula de três raças".2
_______________________________________________

1.Neste contexto, vale acentuar que considero importante a distinção entre nação - ou Estado-Nacional - e sociedade como
duas distintas e até mesmo contraditórias de coletividade. De modo breve, a nação é uma coletividade fundada na idéia de
soberania, de territorialidade e de leis explícitas. Sua unidade especial básica é o indivíduo - o cidadão -, que nela é dotado
de autonomia, liberdade, igualdade política e jurídica e responsabilidade. Já a sociedade dispensa o território, tem leis
implícitas - geralmente conceituadas como mandamentos, tabus, pecados ou normas normais indiscutíveis e dadas pelos
deuses e heróis civilizadores - e sua unidade fundamental é a família, o clã, a aldeia ou um elo social. Uma sociedade pode
estar em guerra com sua nação, como parece fazer prova, hoje, o caso de Uganda e Burundi. Normalmente, nação e
sociedade estão em conflito, pois os ideais nacionais nem sempre são realizados pela sociedade nas suas práticas. Nesse
sentido, o caso do Brasil é interessante, porque fomos uma nação que adotou princípios igualitários, mas tínhamos uma
sociedade hierarquizada, constituída que era por nobres, cidadão livres e escravos. Para maiores considerações sobre esse
ponto, veja -se Da Matta, Conto de mentirosos: Sete ensaios de antropologia brasileira, Rio de Janeiro, Rocco, 1993.

2.Cf . Roberto Da Matta, Relativizando: Uma introdução à antropologia social, Rio de Janeiro,Rocco.

Um dos mais lúcidos estudiosos de sistemas raciais, o sociólogo Oracy Nogueira, fala de um
contraste entre um "preconceito de marca", típico do Brasil, e de um "preconceito de origem",
vigente nos Estados Unidos. Outros, como o historiador social norte-americano Carl Degler ,
elaborara a distinção explicitando historicamente o "mulato" como uma válvula de escape; ou, em
termos de minha interpretação, afirmando que, no caso brasileiro, o mulato era um lugar social
reconhecido e marcado e não algo vazio de sentido como acontece nos Estados Unidos.
O problema básico porém - problema sem o qual a questão racial não pode ser entendida --, jaz no
estilo cultural por meio do qual as duas sociedades elaboram, constroem e lidam com as suas
diferenças. Desse modo não se nega a presença de "mestiços", nem nos Estados Unidos, nem na
África do Sul. Tampouco se nega a presença de iniqüidade no caso brasileiro, que foi e tem sido
igualmente injusto e violento para com os "diferentes ", sobre tudo os negros. Mas se salienta que a
mestiçagem é percebida de modo diverso nessas sociedades. E mais: que compreender o modo pelo
qual cada sistema ordena suas percepções sociais é um fato social fundamental para construção de
medidas orientadas para a implementação de mais oportunidade e mais igualdade para todas as
minorias.
No caso do Brasil, a idéia de hierarquia tem duas características:
1. Ela atua por meio de uma lógica complementar que, embora limite a ascensão dos "diferentes",
não os dispensa como tal. Ou seja : a complementaridade se exprime em uma ideologia segundo a
qual negros, brancos e índios formam um triângulo racial e se complementam. Assim, não há Brasil
sem negros índios ou brancos. Quer dizer, se o sistema admite que o branco é o elemento superior,
essa superioridade não é simples nem linear, como no caso americano. Pois, no caso brasileiro,
admite-se também que o branco não é superior em tudo. Na ideologia racial brasileira, brancos,
negros e índios são desiguais, mais complementares.
Curioso acentuar que a fábula exclua outras etnias, como se os libaneses, os japoneses, os italianos,
entre outros, que, do ponto de vista de uma "historia empírica"do Brasil, também contribuíram para
a formação da nossa sociedade, não existissem socialmente.
Com isso, o negro complementa o branco e vice- versa, havendo entre eles um elo ideologicamente
reconhecido: uma relação fundada no controle e na exploração,mas também na ideologia
compensatória de que o negro possui qualidades ausentes dos brancos e no fato de que um é
necessário para o outro. Não é por acaso que a grande região popular brasileira, a Umbanda, integre
no seu panteão como figuras poderosas, personagens como os Pretos Velhos, os Zé Pelintras e os
caboclos, respectivamente negros e índios.
2. Esse estilo de relacionamento racial fundado na inclusão promove o reconhecimento da
graduação, o que origina um cálculo complexo da determinação étnica do Brasil. Provavelmente
pelos fatos de que a experiência com o escravo foi universal, permeando todos os grupos sociais;
que os negros formavam uma quase maioria da população, gerando uma inevitável consciência de
que todos se ligavam pela cor da pele e de que saíamos gradualmente do regime de trabalho
escravo, transformando o escravo em cliente e em sub-cidadão, o racismo à brasileira tende a se
manifestar de modo implícito, dando ou tirando negritude ou indianidade ou estrangeirice de qual
quer pessoa.
Em uma palavra, tara-se, como já indicativa Oracy Nogueira, de um sistema de preconceito no qual
o contexto é determinante. Assim, se fulano deixa de atuar de acordo com esse código implícito, ele
poderá ser "enegrecido" ou "acaboclado". Desse modo, um pessoa pode ser alvo de muitas
classificações raciais, que gera uma notável insegurança classificatória, insegurança que, ao lado da
importância da casa como entidade social básica, engendrou uma enorme intimidade entre grupos
etnicamente diversos.
Tudo isso, provavelmente, inibiu a segregação espacial dos grupos sociais por meio do critério
racial ou da origem nacional, como é o caso dos Estados Unidos. Houve também a inibição da
implementação da ideologia racial no plano legal. E, ainda, a criação de grupo de militância anti-
negros, anti-judeus, anti-italianos, anti-hispânicos, etc. - grupos que se fundaram no ódio racial
implementado como um estilo freqüente de lidar com as diferenças, como é o caso da Ku-Klux-
Klan, no Estados Unidos.
Assim, embora exista preconceito no Brasil, não existe entre nós um sistema de segregação ou de
separação racial implementada e legitimado por leis escritas. A demais, o sistema, coerentemente,
gerou uma ideologia de mistura e ambigüidade - na figura da mulata e do mulato, por exemplo, e
nas regiões populares, que se constituem em um elemento integrador de todo sistema, valorizando
mais a confissão humana - sofrimento, culpa, pecado, caridade, amor, etc. - como explicadores da
situação social de cada um mais do que a própria raça, como ocorre nos Estados Unidos.
A mim, parece-me complicado equacionar os dois sistemas, ignorando suas diferenças básicas: o
fato de que, nos Estados Unidos, há uma precisão classificatória que é coerente com a orientação
geral do sistema; e que, no Brasil, há o reconhecimento social e simbólico do intermediário, que
gera uma alta indeterminação étnica. Vale acrescentar, ademais, que cada um desses sistemas tem
suas vantagens e desvantagens, e cada qual deve encontrar " saídas" diferenciadas para o
estabelecimento de uma maior igualdade de oportunidade para seus membros. No caso americano,
deve estar precavido contra o sectarismo; no brasileiro, contra uma acomodação que,
propositadamente, troca reconhecimento da mestiçagem como ausência de preconceito e, no limite
da segregação de oportunidades.
Será, pois, a partir desses constatações que se deve discutir o sistema racial brasileiro. Um sistema,
repito, que tanto se funda na paradoxal dificuldade de classificar negros e brancos, quando se
estrutura no fato de que cada categoria racial conhece o seu lugar em uma hierarquia.Legislar
positivamente para tal sistema demanda apanhar a sua inteligência sociológica.
Seria tudo isso um empecilho à ação afirmativa, à democracia ou à igualdade de oportunidades ?
Claro que não! Mas seria preciso levar em conta o seguinte :
1. Que ação afirmativa seja concebida a partir do sistema e considere a origem e o fato de que o
nosso sistema é gradativo e, mais que isso,contextual e relativamente eletivo.Pessoas ficam
"brancas" ou "negras" de acordo com suas atitudes, sucesso e, sobretudo, relacionamentos.
2. Que se deve ter em conta as dificuldades do programa de "ação afirmativa" dentro da realidade
americana como, aliais, alguns dos participantes do seminário chamaram a atenção. Do mesmo
modo que a "mulataria" não acabou com o nosso preconceito, a "ação afirmativa" também não
liquidou o lado negativo das relações raciais nos Estados Unidos. Ao contrário, ela a tem reforçado,
embora tenha provocado maior participação de negros em certas instituições e ambientes daquela
sociedade.
3. Finalmente, cabe considerar se mudar a lei seria realmente o ponto mais importante, sobretudo
em um país onde as leis mudam com mais facilidade que práticas sociais.
Nesse sentido, caberia perguntar se, ao lado dessa discussão jurídica,não se deveria aprofundar o
seguinte:
1 .Realizar uma campanha nacional, utilizando sobretudo a televisão, na qual os brasileiros se
vissem confrontados com os seus mecanismos implícitos de exclusão racial.Nesse tipo de
campanha, valeria a pena valorizar figuras de negros historicamente importantes, ressaltando o lado
étnico e, também, denunciando as mil formas de hipocrisia pelas quais a discriminação se exerce no
Brasil.
2. Ressaltar o fato de que a idéia de que temos uma "democracia racial" é algo respeitável. Quanto
mais ou seja, porque, apesar do nosso tenebroso passando escravocrata, saímos do escravismo com
um sistema de preconceito, é certo, mas sem as famosas " Leis Jim Crow " americanas, que
implementavam e, pior que isso, legitimavam o racismo, por meio da segregação no campo legal.
Não se trata - convém enfatizar para evitar mal entendidos - de utilizar a expressão no seu sentido
mistificador, mas de resgatá-la como um patrimônio que seja capaz de fazer com que o Brasil -
nação, honrando com seu comprometimento igualitário, possa resgatar a sua imensa divida com
esses negros que tiveram o mais passado fardo na construção do Brasil - sociedade.
http://www.geledes.org.br/ensaios-estudos-pesquisas/racismo-a-brasileira-roberto-da-matta-
05/07/2009.html [acessado em 29 de janeiro de 2011]

Raça, Cultura e Classe no Brasil - Sueli


Carneiro
26/05/2009 - 15:17

por Sueli Carneiro


"Não sou, nem nunca fui favorável a algo que pudesse provocar, de qualquer forma,
a igualdade social e política entre as raças branca e a negra; não sou, nem nunca fui
favorável à transformação de negros em eleitores ou jurados, ou à sua aceitação
para cargos públicos... A isso acrescentarei que existe uma diferença física entre a
raça negra e a branca que, segundo creio, para sempre impedirá que as duas raças
vivam em condições de igualdade social e política. E, na medida em que isso não
pode ocorrer, enquanto permanecerem juntas, deve haver uma posição de superior e
inferior e tanto quanto qualquer homem, prefiro que a posição superior seja
atribuída à raça branca" (Abraham Lincoln, presidente dos EUA, 1894)1

Diferentemente de Abraham Lincoln, o sociólogo Gilberto Freire, inventor do mito


da democracia racial brasileira, estabeleceu os parâmetros segundo os quais a
sociedade brasileira deveria regular as suas relações raciais.
Diz Gilberto Freire: "Devemos nos considerar uma gente que goza de extraordinária paz e harmonia
racial. Contraste com aquelas partes do mundo em que ódios raciais existem sob formas, por vezes,
as mais violentas, as mais cruas" (Gilberto Freire, pai da sociologia brasileira, 1979).2
A dramática questão do apartheid na África do Sul sempre suscitou a comparação sobre a situação
dos negros sul africanos e brasileiros.
A consciência nacional brasileira sempre se sentiu aliviada diante do conflito racial sul-africano
naquilo em que ele ratificava o decantado mito da democracia racial brasileira. Afinal, diante dos
confrontos diretos de negros e brancos na África do Sul podíamos nos considerar num paraíso
racial.
Para o estudioso Carlos Hasembalg este mito da democracia racial se sustenta no Brasil em função
das seguintes características:

1 - ausência aparente de conflito racial;


2 - inexistência de segregação legal;
3 - presença de alguns não-brancos nas elites;
4 - miscigenação racial da população, indicadora de tolerância racial.
Isto coloca a diferença crucial do racismo brasileiro em relação ao praticado tanto nos Estados
Unidos como na África do Sul.
Agora vamos analisar como nós brasileiros realizamos, na prática social, esta notável experiência de
democracia e igualdade racial.

1) Pesquisa realizada pelo IBASE sobre o extermínio de crianças e adolescentes no Brasil apresenta
dados levantados no período de 1984 a 1989 em 16 estados do país, nos quais registram-se no
Instituto Médico Legal 1.397 assassinatos de menores de 18 anos. Destes menores, 87% eram do
sexo masculino, 12% eram brancos, 52% eram negros e 36% sem informação de cor.
"O estudo das características das vítimas confirma a tendência observada em outros níveis de
análise: maioria do sexo masculino... não brancos e assassinados predominantemente por projétil de
arma de fogo".3
A violência racial que estes números expressam conduziu o CEAP - Centro de Articulação de
Populações Marginalizadas, entidade do movimento negro do Rio de Janeiro, a produzir e divulgar
nacional e internacionalmente, um extenso diagnóstico do processo de extermínio de crianças e
adolescentes no Brasil e desencadear, a nível nacional, a campanha "Não matem nossas crianças".
2) Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios - PNAD/88. Dados sobre agressão policial sofrida
pela população brasileira em 1988 mostram que: foram agredidos por policiais naquele ano 3,9% de
brancos e 10,7 % dos negros passaram pela mesma experiência .
A fragilidade da democracia racial brasileira evidencia-se também quando se constata a
desigualdade nas decisões judiciais: dados coletados em processos criminais em São Paulo atestam
que negros e brancos sofrem penas diferentes para os mesmos crimes: processos referentes a roubo
qualificado, por exemplo, mostram que 68,8% dos réus negros e 59,4% dos brancos foram
condenados. Mesmo entre réus que constituem advogado particular, a diferença persiste: a
defensoria particular logrou obter absolvição para 60% dos réus brancos, más apenas 27% dos
negros foram absolvidos. Em 480 processos analisados, 27% dos brancos respondiam em liberdade
e somente 15% dos negros encontravam-se na mesma situação.
Em Salvador, uma das cidades brasileiras com maior população negra, o Centro de Pesquisa e
Assistência em Reprodução Humana - um ‘sanatório' de planejamento familiar- lançou em 1986
uma campanha publicitária nos jornais e na televisão com dois anúncios: Um deles tinha o seguinte
slogan: "Defeito de fabricação", ao lado de um garoto negro, com correntinhas no pescoço, canivete
na mão e uma tarja nos olhos. Abaixo desta imagem vinha o seguinte texto:

Tem filho que nasce para ser artista. Tem filho que nasce para ser advogado ou vai
ser embaixador... Infelizmente, tem filho que já nasce marginal.

O outro anúncio, utilizava uma fotografia deprimente de uma mãe negra, grávida,
coberta em parte por um lençol branco, acompanhada de mais um slogan: ‘Também
se chora de barriga cheia".4
3) São Paulo, 1982: o GAP - Grupo de Assessoria e Participação do Governo do Estado elabora um
documento "Sobre o Censo Demográfico de 1980 e suas curiosidades e preocupações". Neste
documento, é apresentada a proposta de esterilização massiva de mulheres pretas e pardas com base
nos seguintes argumentos: "De 1970 a 1980, a população branca reduziu-se de 61% para 55% e a
população parda aumentou de 29% para 38%. Enquanto a população branca praticamente já se
conscientizou da necessidade de se controlar a natalidade... a população negra e parda elevam seus
índices de expansão em 10 anos, de 28% para 38%. Assim, teremos 65 milhões de brancos, 45
milhões de pardos e 1 milhão de negros. A manter esta tendência, no ano 2000 a população parda e
negra será da ordem de 60%; por conseguinte muito superior à branca e, eleitoralmente, poderá
mandar na política brasileira e dominar todos os postos-chaves, a não ser que façamos como em
Washington, capital dos Estados Unidos, onde devido ao fato da população negra ser da ordem de
63%, não há eleições".5
Essas preocupações demográficas foram expressas por Benedito Pio da Silva, do grupo de
assessores do então governador do Estado de São Paulo e atual prefeito da cidade de São Paulo,
Paulo Salim Maluf.
Parece que em concordância com as preocupações do sr. Benedito Pio da Silva, no Estado do
Maranhão, onde a população negra representa perto de 80% da população total, encontramos um
dos maiores índices de esterilização feminina do país: 75% das mulheres maranhenses em idade
reprodutiva estão esterilizadas.
Em contrapartida, em Estados de maioria branca, como por exemplo no Rio Grande do Sul, o índice
de esterilização de mulheres fica abaixo da média nacional, que é de 44%.
Embora a incidência de miomas em mulheres negras seja substancialmente maior em relação às
brancas, há uma proporção excessivamente elevada de mulheres negras histerectomizadas: 15,9%
contra 3,6% das brancas: úteros desvalorizados, a poucos interessa preservar. Por outro lado, há
maior incidência de perdas fetais entre mulheres negras: (17,%), do que entre as brancas, (10%).
De um lado, uma estratégia de repressão alterna agressões policiais, prisões arbitrárias, tortura e
extermínio. Nesta estratégia, o principal alvo é o homem negro. De outro lado, uma estratégia
controlista tem como alvo principal a mulher negra.
A combinação destes dois mecanismos vai promovendo sistemática e, talvez inexoravelmente, o
genocídio.
Porém, a violência racial, tal como se manifesta no Brasil, não se limita aos corpos negros contados
pelo Instituto Médico Legal - IML, à arbitrariedade e impunidade das agressões policiais contra
negros, ou a projetos controlistas aqui discutidos. Estas ações expressam, na verdade, as formas
limites que as relações de força entre brancos e negros atingem no Brasil.
A violência racial no Brasil tem uma face mais sutil; porém não menos violenta, que consiste na
sistemática criação e reprodução da desigualdade entre os grupos étnicos, manifestando-se em todos
os aspectos da vida social.
4) 1988: a Secretaria de Educação de Minas Gerais elaborou a cartilha "Centenário da Abolição",
destinada às escolas públicas mineiras. Esta cartilha ensinaria às crianças, entre outras coisas, que:
"Deus criou o homem branco. Com inveja, o Diabo tentou fazer um ser semelhante e acabou
criando o negro. Com raiva da criatura, que havia saído muito feia, o Diabo deu um soco no nariz
do negro, que acabou ficando achatado. Triste, o negro começou a chorar muito. Com pena, o Diabo
passou a mão sobre a cabeça da criatura, e os cabelos se tornaram carapinha!".

Esta cartilha foi elaborada pela Comissão de Moral e Civismo da Secretaria de Educação de Minas
Gerais. Compunham a Comissão, dois coronéis, três professores, um desembargador e uma técnica
de educação, redatora dos textos.
A veiculação da cartilha na rede pública de ensino só foi impedida em função da ação enérgica de
denúncia do Movimento Negro Unificado de Minas Gerais, que obrigou o secretário de Educação a
determinar o recolhimento da mesma.
Mas a discriminação do negro nos instrumentos didáticos ou pedagógicos é apenas um aspecto da
desigualdade no acesso à educação, que se manifesta nos índices superiores apresentados pelos
negros quanto a repetência e evasão escolar, e nos índices de analfabetismo e a participação
percentual ínfima nos níveis universitários.
Articulada com a discriminação no acesso à educação, encontramos no mercado de trabalho a
divisão racial do trabalho, encarregada de frear qualquer esforço de mobilidade social para o negro.
Mais um exemplo mineiro:

Sabe-se que aqui mesmo na capital mineira um diretor de empresa pública afastou
sumariamente dos quadros funcionais de seu gabinete todos os elementos de cor,
onde só admite funcionários brancos e de boa aparência. Louve-se, até certo ponto,
essa preocupação estética, que vem modernizando e limpando dependências e
instalações da repartição, a fim de que tenham uma aparência condigna e decente .6

Dentre as artimanhas do racismo brasileiro a exigência de boa aparência presente nos


anúncios de emprego traz como subtexto: negros não se apresentem. Através do
pequeno eufemismo da boa aparência, mantém-se a população negra alijada do
mercado formal de trabalho e ao mesmo tempo garante-se os melhores empregos e
salários para os brancos.
Em relação ao acesso ao poder, as desigualdades existentes entre as mulheres brancas e negras são
ilustrativas do lugar destinado ao negro na sociedade brasileira. Conforme a pesquisadora Fanny
Tabac, "O Congresso Brasileiro espelha a divisão do poder segundo os privilégios ou exclusões de
sexo e raça. Dentre 550 congressistas eleitos em 1990, apenas 29 eram mulheres, representando um
universo de cerca de 75 milhões de brasileiras, destas 28 eram brancas, e uma, a então deputada
federal Benedita da Silva, representava sozinha cerca de metade da população feminina do país, ou
seja, em torno de 32,5 milhões de negras.
No poder Executivo, as mulheres atingiram um status político maior. Em 1988, eram 107 os
municípios chefiados por mulheres. Este número subiu para 171 na eleição seguinte de 1992. Esses
números representam um avanço significativo da presença política das mulheres que começam a
freqüentar os gabinetes do poder . No entanto, as mulheres negras não estão aí representadas.
Continuam servindo cafezinho e limpando as mesas de decisão.
A análise de qualquer indicador social no Brasil aponta para a persistência da dicotomia entre o
mundo branco e o não-branco. Pretos, pardos, mulatos, mestiços em geral, formam um grupo
homogêneo em termos de condições desfavoráveis de vida.
Como afirma Tereza Cristina Araújo, pesquisadora do IBGE: "em todas as categorias sócio-
ocupacionais em que está inserido, o negro ganha menos do que o branco nas mesmas condições...
Em termos médios, os negros ganham a metade dos salários dos brancos...", e apresentam

um retorno menor de seu investimento em escolaridade... O diferencial de


rendimentos entre brancos e negros que têm cursos de nível superior é de cerca de
40%... o negro vive em condições de trabalho mais precárias e um menor acesso às
garantias trabalhistas .7

Muitos tentam relativizar o peso do racismo no processo de marginalização social


vivido por estes segmentos. Os argumentos falam de pobreza, miséria, desigualdade
na distribuição de renda. Sem dúvida; porém, pobreza no Brasil é algo com
identidade racial; ela é predominantemente não-branca (...)

sempre que se generaliza a pobreza no Brasil, incorre-se num grave erro de


percepção que desarticula qualquer argumentação: Uma parcela da população
branca é pobre; a totalidade, o Universo da população negra é pobre.8
Assim sendo, para além da dominação de classes convive-se com a dominação de
raça. Se a luta de classes sem trégua que se trava no Brasil tem por sentido
estratégico assegurar os privilégios das classes dominantes, a violência racial
funciona como mecanismo insubstituível de garantia de todas as posições de mando e
de poder no país para o grupo étnico dominante, ou seja, os brancos.
O resultado concreto destas práticas sociais é o fato de que os negros estão fora de todas as
instâncias de poder da sociedade brasileira.
Portanto, no Brasil desenvolveu-se uma forma muito mais sofisticada, perversa e competente de
racismo, através da qual, a intolerância racial mascarou-se em igualdade de direitos no plano legal e
concretizou-se na absoluta desigualdade de oportunidades no plano das relações sociais concretas.
A ideologia da democracia racial, a miscigenação massiva, a igualdade no plano legal induziu
negros e brancos a acreditarem que a situação de inferioridade social dos negros se deve a sua
própria incompetência. Impediu que se tornasse evidente que, tal como nos alerta a senadora negra
Benedita da Silva no prefácio da edição brasileira do livro Escrevo o que eu quero de
Stevie Biko, que

os métodos de segregação racial utilizados no Brasil e na África do Sul, embora


diferentes entre si, alcançam resultados iguais. Os bantustões sul-africanos aqui são
redefinidos nos conglomerados de favelas, alagados e invasões, compostos
majoritariamente por população negra; a lei do passe sul-africana é aqui
mascarada na exigência da carteira profissional assinada, violenta e vexatoriamente
requisitada pelos policiais brasileiros ao trabalhador negro desempregado e
marginalizado.

Diferentemente do que ocorreu nos Estados Unidos e na África do Sul, todas essas
estratégias de opressão e marginalização do povo negro brasileiro se desenrolam
pacificamente, com a conivência dos brancos e a alienação da maioria dos negros,
pois um dos produtos dessa forma cínica e camuflada de racismo é a não criação de
uma consciência coletiva nos negros, capaz de organizá-los contra esse inimigo
covarde que nunca se apresenta, já que "ninguém é racista" no Brasil. Por isso todos
preferimos acreditar conforme nos informam os nossos políticos, intelectuais e
mesmo o senso comum, que os negros vivem pior porque são na maioria pobres, não
porque são negros ou que no Brasil o que existe é um apartheid social (nome
moderno da velha democracia racial) e não racial.
Portanto, nós militantes ou ativistas negros, como Dom Quixotes subdesenvolvidos, lutamos contra
moinhos de ventos. É assim que se vem realizando a democracia racial brasileira. Sem Mandelas,
sem Bikos, Luther Kings ou Malcolm Xs, sem confronto racial direto, onde através dos massacres,
extermínios, fome, desemprego, esterilizações, vai se promovendo silenciosamente o genocídio do
negro brasileiro.
Ao contrário do que ocorre no Brasil, o apartheid e a segregação racial se constituíram
historicamente em instrumentos concretos da intolerância racial. Onde o apartheid e a segregação
racial regularam as relações raciais, foi possível aos negros desenvolverem uma clara consciência
sobre o peso do racismo na determinação de sua opressão e condição social. A segregação,
contraditoriamente, preservou, ainda que minimamente, a sua identidade racial e constituiu-se em
instrumento de luta no processo de afirmação e emancipação para negros norte-americanos e sul-
africanos. Instigou a criação de instituições de apoio, solidariedade e desenvolvimento destas
comunidades negras; produziu lideranças políticas fortes e conseqüentes de prestígio nacional e
internacional.
Porém no Brasil, talvez como sintoma do grau de colonização das nossas elites, a democracia racial
brasileira produz, na prática, com muito mais eficiência e total dissimulação, tanto o projeto de
Abraham Lincoln como o dos criadores do apartheid sul africano.

Notas:
_______________________________
*Sueli Carneiro é coordenadora executiva do Geledés - Instituto da mulher Negra. Este
artigo foi retirado parcialmente do Caderno " Reflexão " - Expectativas de Ação das
Empresa para Superar a Discriminação Racial, Ano 3 - nº 8, Set. 2002. Publicado pelo
Instituto Ethos - Empresas e Responsabilidade Social.
1. Texto extraído do livro "Abranham Lincoln - Complete Works", organizado por
Nicolay&Hay, Centuri Company, 1894, pags. 369-70 e 457-8, in: Jones, James M.
&Moreira Leite, Dante, " Racismo e Preconceito", Ed. Blucher Ltda, 1973
2. Jornal Folha de São Paulo, " Racismo no Brasil", 8.10.79.
3. Revista Ceap, "Extermínio de crianças e adolescentes no Brasil", pgs. 28 à 33.
4. Jornal O Globo - Caderno B Especial, 1.6.86.
5.Denúncia feita na Assembléia Legislativa de São Pulo pelo deputado Luis Carlos
Santos, do PMDB em 5.8.82. Vide também matérias nos jornais: Jornal da Tarde, de 6 e
11.8.82; O Estado de São Paulo, de 5 e 10.08.82; Folha de São Paulo, de 11.08.82.
6. Thales de Azevedo, "Democracia Racial", pg. 46
7. Tereza Cristina Nascimento de Araújo. Revista Ciência Hoje. Encarte Especial, Vol. 5,
Ano-28, pgs. 18-19, 1986.
8. Dora Lúcia de Lima Bertulho. "Racismo-Democracia-Direito Alternativo",
Comunicação apresentada no 2º Encontro Internacional de Direito Alternativo,
Florianópolis, SC, Set/Out 93.
Sueli Carneiro é coordenadora executiva do Geledés - Instituto da mulher Negra.
Este artigo foi retirado parcialmente do Caderno " Reflexão " - Expectativas de Ação das Empresa
para Superar a Discriminação Racial, Ano 3 - nº 8, Set. 2002.
Publicado pelo Instituto Ethos - Empresas e Responsabilidade Social.
http://www.geledes.org.br/ensaios-estudos-pesquisas/raca-cultura-e-classe-no-brasil-sueli-carneiro-
26/05/2009.html [acessado em 29 de janeiro de 2011 ]