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Biocombustíveis

Ponto de Vista

Reais questões para


a equação Brasil de Frederico Ozanan Machado Durães1

desenvolvimento
sustentável

O Brasil está trabalhando uma agenda florestas – é equivocada. Nas proporções atuais
construtiva para o negócio de energia renovável, e futuras, os arranjos técnico-científicos e produ-
potencializando especialmente as oportunidades tivos e a logística demonstram que a dinâmica
das energias solar, eólica, hídrica e de biomassa. dos adensamentos existentes, construídos
Por causa das significativas demandas nacional e principalmente nos últimos 35 anos – de soja, de
mundial por biocombustíveis líquidos, a energia cana-de-açúcar, de efetivo de rebanho bovino e
de biomassa – massa biológica vegetal e animal de florestas nativas e cultivadas, entre os principais
– tem evoluído nos últimos 30 anos. O etanol e o produtos agrícolas do negócio de alimentos e de
biodiesel são estratégicos para o desenvolvimento energia –, não deverá mudar significativamente
nacional. Estudos estatísticos comparativos sobre nos próximos 20 anos.
os recursos naturais, ganhos em inovação e As informações técnicas geradas no Brasil
análise de experiências no setor sucroalcooleiro sustentam uma posição de vanguarda para os
e a agroindústria tropical colocam o Brasil – em biocombustíveis no País, e fontes qualificadas
relação a muitos países de clima tropical e demonstram estratégias adequadas para o
temperado – em condições vantajosas na desenvolvimento nacional. Entendendo que a
produção de biocombustíveis. comunicação e negócios são processos estratégi-
O Brasil quer e busca os caminhos para a cos, é na governança de interações e articulações
entre os várias atores setoriais que se baseiam os
commoditização de biocombustíveis, e este é um
reais propósitos dos programas de desenvolvi-
dos desafios reais do País – tornar a comprovada
mento sustentável para esse setor.
e exitosa experiência nacional de produção e uso
de biocombustíveis um modelo reprodutível para
outros territórios nacionais. Temos produtos e Agenda pública brasileira para
processos novos, agricultura tropical, indústria de o negócio de energia de biomassa
transformação e competências afins para avanços
de competitividade compartilhada. A abordagem Os avanços de implantação da agenda
simplista de que no Brasil os biocombustíveis brasileira estão nos marcos regulatórios legais, nas
deslocam pastagens – que por sua vez deslocam propostas de inovação técnico-científica e nos

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Chefe-geral da Embrapa Agroenergia; frederico.duraes@embrapa.br

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zoneamentos agroclimático e ecológico, por merecem atenção técnica e estratégica. Tanto a
espécie de matéria-prima e por região territorial, consciência coletiva quanto a atitude individual
que lastreiam um programa nacional de ecocerti- devem refletir sobre as questões da agricultura,
ficação de biocombustíveis. da biodiversidade e dos biocombustíveis. A ade-
O Programa Nacional do Álcool (Proálcool, quação entre as matrizes energéticas fóssil e
Decreto n° 76.593/75), a Lei da Inovação (Lei renovável requer conhecimento, ação para
10.973/04), a Lei do Biodiesel (Lei 11.097/05), o mudanças e comunicação objetiva.
Plano Nacional de Agroenergia (PNA 2006– Energia é a capacidade de realizar trabalho,
2011) e o Plano de Aceleração do Crescimento e a força despendida para obter avanços gera
(PAC 2007–2010), entre outros marcos regula- energia produtiva ou não. O mundo moderno
tórios recentes, têm possibilitado o avanço da precisa de energia para a dinâmica evolutiva da
produção e uso de biocombustíveis líquidos e vêm sociedade. Portanto, utilidade e desperdício são
propiciando condições para a implantação energias com valores diferenciados.
sustentável de desenvolvimento regional e inclusão
O Brasil necessita de energia de biomassa
social, em bases tecnológicas, econômicas,
porque precisa e quer produzir mais alimentos,
sociais e ambientais equilibradas.
mais fibras, mais energia renovável com sustenta-
Esses marcos propiciam visão e escolhas bilidade socioeconômica e ambiental. Decidida-
amplas, pois permitem que o Brasil priorize a mente, teremos mais áreas, maior produtividade
agricultura de alimentos, de energia, de fibras e e maior volume de produção de alimentos.
de florestas e utilize seus recursos naturais para Teremos também mais áreas, maior produtividade
novos patamares de um agronegócio (empresarial e maior volume de produção de energia de
e familiar) moderno e competitivo, sob os biomassa. Os fatores clássicos de produção (terra,
binômios: agricultura de alimentos e de energia; capital e trabalho) não criam obstáculo à expansão
agroenergia e água como insumo e recurso; da agroenergia em bases sustentáveis. A disputa
agroenergia e balanço de energia; agroenergia e competitiva por insumos modernos, a exemplo
ambiente; agroenergia e parcerias estratégicas. de fertilizantes, configura-se como uma questão
Visam, assim, a ampliar competências quanto ao real a se resolver, pois necessitamos de eficiência
capital intelectual e às oportunidades de negócios, nos processos agrícolas e industriais para saltos
com base em inovação. Atento à dinâmica dos de competitividade.
mercados atuais e futuros e reconhecendo as
No Brasil, as produções do etanol e do
vantagens comparativas dos recursos naturais e
biodiesel não competem com a produção de
da inovação, o Brasil público e privado trabalha
alimentos. A competência brasileira em agroe-
uma agenda bem diferenciada daquela retratada
nergia está fundamentada na cana-de-açúcar, para
historicamente nos ciclos econômicos anteriores
a produção de etanol, e basicamente na soja, na
– da cana-de-açúcar, do café, da borracha, do
mamona, no girassol e no dendê, para a produção
cacau e mesmo dos modelos de exploração dos
de biodiesel. Decididamente, ainda não estamos
ciclos do ouro e do gado bovino.
tratando de milho, trigo e beterraba para produção
de etanol, por questões estratégicas de segurança
Na natureza nada se perde, alimentar e de balanço de energia.
nada se cria, tudo se transforma Também é fato que a análise e gestão
territorial produzem elementos significativos para
As revoluções têm demonstrado que o a nossa equação de desenvolvimento sustentável,
homem modifica a natureza, e a velocidade do incluindo a energia de biomassa. O território
processo em alguns casos é imensa. As mudanças brasileiro tem 851 milhões de hectares. Desses,
climáticas e seus efeitos, por exemplo, provocam 463 milhões de hectares são áreas da Floresta
uma dinâmica evolutiva de tal magnitude que Amazônica, da Mata Atlântica, do Pantanal Mato-

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Grossense, de parques e reservas florestais, etc., A inovação se processa por meio do avanço
e cerca de 388 milhões de hectares são áreas no uso de conhecimentos (livre, segredo, protegível,
tornadas antrópicas. Destes, 282 milhões são patenteável e de negócios), que, no tempo, resulta
ocupados com agricultura (cerca de 62 milhões em ganhos de competitividade. Essa inovação
de ha) e pecuária (220 milhões de ha, com introduz incrementos na forma de produção física
207 milhões de cabeças de gado). A área de cana- e promove a compreensão e uso de variados
de-açúcar, matéria-prima para o etanol brasileiro, processos naturais e modificados, por métodos
equivale a 2,3 % da área com produção agrícola, convencionais e não convencionais. Surgem
a 1,7 % das áreas agricultáveis e a 0,8 % da área novas abordagens de logística e novos mercados
total do País. que pedem, por sua vez, novos meios, formas e
mensagens de comunicação que podem promover
Nestes últimos 30 anos, têm sido obser- a formação de opiniões e de novos focos empre-
vados, em algumas regiões competitivas, redução sariais. A agroenergia na agricultura brasileira
da área de pastagem e aumento do número de representa um processo de inovação que suscita
cabeças de gado, decorrências da eficiência do novos mercados e novos consumos.
manejo. Noutras regiões, entretanto, houve Modernamente, mais do que os sistemas
degradação de áreas de pastagens, por causa de de produção agrícola sustentáveis para os biocom-
manejo inadequado. Estimativas conservadoras bustíveis, o Brasil necessita promover com conhe-
apontam o seguinte: se a lotação média de animais cimento de causa, atual e futura, a incorporação
no Brasil chegar a 1,4 cabeça por hectare, de novos conceitos de inovação técnico-científica,
poderemos ainda dispor de 50 milhões a negocial e de comunicação para sensibilizar
70 milhões de hectares para a agricultura, inclusive quanto às mudanças nos processos produtivo e
para a expansão da cultura da cana-de-açúcar. negocial. A agroenergia para os biocombustíveis
líquidos visa à produção com balanço de energia
e ecocertificação adequada para os interesses
A energia que se perde nacionais, no curto, médio e longo prazos.
é a energia que se ganha
Estamos conscientes da montagem de uma
Agricultura de alimentos, preservação e matriz de transição, via agroenergia, para ampliar
as possibilidades futuras de utilização da energia
utilização de biomas terrestres e aquáticos, meio
solar de forma mais direta, disponível e a serviço
ambiente e biodiversidade, balanço de energia e
da população, em escala econômica útil. Nesse
recursos naturais, relações trabalhistas e conquis-
processo, a dinâmica e a complexidade dos siste-
tas sociais, energia fóssil e renovável são questões mas agrícolas e industriais integrados devem permitir
de pauta nas discussões mundiais, pois atingem o crescimento e o desenvolvimento regionalizado,
interesses econômicos, de geopolítica e de de forma competitiva e cooperativa. Assim, o
comunicação. No escopo das discussões sobre Brasil constrói uma agenda positiva em energia
mudanças climáticas globais, emissão de gases de biomassa e trabalha, em várias frentes, para
de efeito estufa, instabilidade de preços de petróleo ampliar e compartilhar esse esforço com parceiros
e transição para mudanças na matriz energética estratégicos. Essa é uma agenda negocial, de
mundial, pede-se inovação para estimular novos solidariedade e de competência, e essa é uma
negócios. energia que se ganha.

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