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A IMPORTÂNCIA DO CRÉDITO

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Noção. 3. Evolução histórica. 4. Elementos


Essenciais. 5. Função. 6. Títulos de Crédito.

1. INTRODUÇÃO

Para melhor entendermos o alcance e a estrutura da teoria geral dos títulos de


crédito, mister se faz a abordagem de alguns aspectos acerca do crédito, ainda que de forma
sintetizada e restrita às noções que interessam à conveniência e ao desenvolvimento da
presente matéria. Com efeito, ele facilitou e alavancou o progresso das operações
mercantis, havendo os que sustentam, como FRAN MARTINS, uma maior aplicação de
seus benefícios. "... Até no que diz respeito a operações não comerciais, o crédito, de modo
indiscutível, serve para facilitá-las, dando maiores oportunidades aos que, em certas
ocasiões, não dispõem de recursos pecuniários suficientes para as suas necessidades
presentes, muito embora possam contar com os mesmos em época futura"1.

2. NOÇÃO

Entende-se o crédito, cuja origem etimológica provém de creditum, credere, como a


troca de um valor atual por um valor futuro, concentrando-se tal concepção em dois
atributos fundamentais, o mútuo e a venda a prazo. Consoante DYLSON DORIA, “no
mútuo, o credor troca a sua prestação atual pela prestação futura do devedor. Do mesmo
modo, na venda a prazo, o vendedor troca a mercadoria, que representa um valor presente
e atual, pela promessa de pagamento, que se obriga o comprador a realizar e que se traduz
numa prestação futura. Na espera da coisa nova, que irá substituir a coisa vendida ou
emprestada, reside o traço característico do crédito"2.

Numa concepção clássica, ressalte-se, o crédito se revela na confiança que uma


pessoa inspira a outra de cumprir, no futuro, obrigação assumida no presente.

3. EVOLUÇÃO HISTÓRICA.

O dinheiro é um instrumento de troca por excelência. Na expressão de


CARVALHO DE MENDONÇA, invocada por AMADOR PAES DE ALMEIDA, "é a
mercadoria por todos voluntariamente aceita para desempenhar as funções intermediárias
nas aquisições de outras mercadorias e na obtenção de serviços indispensáveis,
satisfazendo as necessidades humanas no convívio social; é, ainda, o meio normal de
pagamento”. 3

1
Fran Martins, Títulos de Crédito, vol. 1, 13a. edição, Ed. Forense, 1998, p. 4
2
Dylson Doria, Curso de Direito Comercial, Vol. II, 5a. edição, Ed. Saraiva, 1991, p. 3
3
Amador Paes de Almeida, Teoria e Prática dos Títulos de Crédito, 17a. edição, Ed. Saraiva, 1998, p. 1

1
Historicamente, os procedimentos de troca passaram por diversas fases, num
sistema evolutivo que se principiou com a denominada economia natural (permutavam-se
produtos de uso comum, como o gado e o sal - troca in natura), passando-se pela economia
monetária (a moeda se transformou em meio primordial de troca), para chegar à economia
creditória (alargando-se o âmbito da troca, as transações se tornaram mais rápidas e
abrangentes, notadamente pela circunstância de uma pessoa usufruir no presente, de
dinheiro cujo pagamento será feito posteriormente).

A economia creditória vem angariando grande relevância a cada dia que passa, a
ponto de alguns autores afirmarem-na como base da economia moderna. Efetivamente, os
efeitos do crédito facilitaram a vida dos indivíduos e, em conseqüência, o progresso dos
povos.

4. ELEMENTOS ESSENCIAIS

Da caracterização da sua utilização como a assunção de uma obrigação a ser


cumprida por quem a ela se propôs e da sua noção econômica – a troca de um valor atual
por um valor futuro -, defluem os elementos essenciais do crédito, a saber, a confiança e o
tempo. Com grande brilhantismo, DYLSON DORIA explicitou a fundamentabilidade
destes elementos: "Confia no devedor o credor que troca o seu dinheiro ou mercadoria
valor presente e atual - pela promessa de pagamento futuro. O elemento confiança é assim
necessário à noção do crédito, ainda que essa confiança não se circunscreva apenas à
pessoa do devedor, mas também abranja garantias que ele possa oferecer em segurança da
prestação a que se obrigou.

Por outro lado, o tempo integra ainda a noção de crédito. A operação creditória
mais não é que a troca no tempo. Entre a prestação atual e a futura deve medir um prazo,
sem o que não se poderá falar em operação creditícia”4.

5. FUNÇÃO

O crédito, que pressupõe confiança (risco) na solvabilidade do creditado e prazo


(tempo), para que este devolva a quantia ou mercadoria recebida, adquiriu no mundo
moderno uma excepcional importância econômica, manifestando-se "no poder de compra
conferido a quem não tem dinheiro necessário para realizá-la".

Sua função primordial reside, portanto, na melhor utilização dos capitais existentes,
possibilitando a realização de operações mercantis com maior amplitude. Tanto que,
freqüentemente se diz que o crédito é a alma do comércio, e tal afirmação, traduz uma
verdade inabalável.

6. TÍTULOS DE CRÉDITO

A existência de um crédito pressupõe uma operação oriunda de um contrato ou


avença, cujo adimplemento está vinculado a uma garantia pessoal ou real. Por outro lado,

4
Dílson Doria, op. citada, p. 4

2
entende-se tal operação, como aquela pela qual se fornece uma prestação, na esperança de
uma contraprestação futura, acrescida ou não de outros valores. Evidenciava-se, destarte,
um grave problema relativo à circulação dos direitos creditórios, questão esta que só veio a
ser solucionada com o aparecimento dos títulos de crédito.

Invocando WILSON FURTADO, podemos dizer que "o crédito ou direito de


crédito pode materializar-se em documento que prove a sua existência, de maneira clara,
precisa e certa. Tal documento, que pode ser transferido a terceiros e que admite, além
disso, a intervenção de outras pessoas, e está cercado, por lei, de garantias essenciais,
chama-se título de crédito”.5

A locução "título de crédito" é muito criticada, por entenderem alguns juristas, entre
os quais DARCY ARRUDA MIRANDA JR.6, que ela tem sido utilizada, tanto para
designar aquele documento que materializa exclusivamente um direito de crédito, como
também aquele que contém outros direitos, como, por exemplo, o de participação nas
sociedades anônimas (ações). Em nosso país, no entanto, essa indicação se solidificou na
literatura jurídica, afastando totalmente outras expressões que porventura pudessem ser
mais adequadas.

5
Wilson Furtado, Curso de Direito Comercial, 1a. edição, Juruá Editora, 1998, p. 125
6
Darcy Miranda Jr., Curso de Direito Comercial, 2a. edição, Ed. Saraiva, 1989, Vol. III, p.2

3
DOS TÍTULOS DE CREDITO
SUMÁRIO: 7. Importância. 8. Finalidade. 9. Conceito, Características.
10. Cartularidade. 11. Literalidade. 12. Autonomia. 13. Independência e
Abstração. Efeitos práticos. 14. Natureza Jurídica. Teorias. 15.
Aspectos Gerais, 16. Títulos de Natureza Civil. 17. Classificação. 18.
Substituição de título dilacerado. 19. Perda, extravio ou injusto
desapossamento do título. 20. Espécies.

7. IMPORTÂNCIA

Com o surgimento dos títulos de crédito e a conseqüente possibilidade de circulação


dos direitos neles incorporados, o desenvolvimento econômico das nações se tornou mais
célere. Esse quadro, que demonstra cabalmente a relevância destes instrumentos mercantis,
é constantemente ressaltado por inúmeros autores, alguns dos quais com exacerbado
entusiasmo, como MACLEOD, GIORGI e WHITAKER, citados por AMADOR PAES DE
ALMEIDA, para quem os títulos desempenham uma extraordinária função econômica,
posto que, "proporcionando uma aplicação fácil ao capital particular e vencendo a
relutância dos pequenos capitalistas, forçam as mais tímidas economias a cooperar nas
mais arrojadas empresas, e, assim, captando energias perdidas, circulando riquezas
ocultas, substituindo a moeda, multiplicando as forças do capital, têm realmente
contribuído mais que todas as minas do mundo para enriquecer as nações”. 7

8. FINALIDADE

Numa linguagem freqüente, título de crédito é empregado para designar o


documento ou o escrito em que se formalizou ou se materializou um direito creditório,
embasado num instrumento com dupla finalidade: tornar circulante o crédito que se
celebrou em uma avença creditória ou movimentar por um meio fiduciário o dinheiro ou
valor que nele se consigna.

É por isso que determinados juristas, entre os quais DE PLÁCIDO E SILVA,


afirmam que o título de crédito pode ser também denominado certificado de crédito, "pois
que, em verdade, por ele se certifica um valor representado, ou apreciável em dinheiro,
que se pode exigir daquele que, por ele, assume a obrigação de entregá-lo".8

Seus efeitos comerciais imediatos se concentram na substituição da moeda que


passa a ser inserida na correspondente cártula e na representação de valores que, desde
logo, podem ser realizados, circunstâncias que delineiam claramente a sua função social
básica, qual seja, a circulação do crédito. Cite-se, ilustrativamente, que em negócios
mercantis, principalmente nos que não podem ser cumpridos com o "dinheiro de contado",
isto é, à vista, os títulos de crédito ganham notável atribuição, pois substituem, com a
mesma força, os pagamentos em espécie.

7
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 2.
8
De Plácido Silva, Curso de Direito Comercial, 13a. edição, Ed. Forense, 1988, p.501

4
9. CONCEITO

Dentre as inúmeras definições outorgadas aos títulos de crédito, a formulada por


CESARE VIVANTE é praticamente adotada por doutrinadores de todo o mundo, que a
consideram a mais completa, apesar de sua manifesta objetividade. Com efeito, ela encerra
de modo cristalino, as principais características que os norteiam e os entremeiam de outros
documentos, atribuindo ao crédito segurança e rapidez na sua circulação - caráter essencial
destes e até mesmo, causa determinante de suas emissões.

O consagrado conceito assim se exara:


"TÍTULO DE CRÉDITO É O DOCUMENTO NECESSÁRIO PARA O EXERCÍCIO
DO DIREITO, LITERAL E AUTÔNOMO NELE CONTIDO ".9

Características – Tomando por base a definição acima transcrita, consagrada pelo


Código Civil Brasileiro em seu art. 887, obteremos, de sua decomposição, as características
ou atributos primordiais dos títulos de crédito, a saber: a) cartularidade; b) literalidade e c)
autonomia.

10. CARTULARIDADE

Desvela-se na circunstância do direito se materializar num documento (cártula) de


tal forma que sem este aquele não existe. Tanto que na definição de BRUNNER, "título de
crédito é o documento de um direito privado que não se pode exercitar, se não se dispõe do
título". O próprio estatuto civil brasileiro em seu art. 1.508 dispõe: – "O subscritor, ou
emissor, não será obrigado a pagar senão à vista do titulo salvo se este for declarado
nulo” Nesse sentido, vale invocarmos Gladston Mamede: “...nunca é demais recordar que
o art. 223 do Código Civil, quando prevê que a cópia fotográfica de documento, conferida
por tabelião de notas, valerá como prova de declaração da vontade, esclarece, em seu
parágrafo único, que tal prova não supre a ausência do título de crédito, já que se tem uma
situação em que a lei condiciona o exercício do direito à exibição do documento
correspondente”. 10

Assim, para se ter um título de crédito, é indispensável que exista um documento,


isto é, um escrito em algo material, palpável e corpóreo. Não se caracterizará como título de
crédito, por exemplo, uma declaração oral, ainda mesmo que ela esteja gravada em fita
magnética e possa ser reproduzida a qualquer instante.

O credor deve provar que se encontra na posse da cártula, a fim de exercer o direito
nela incorporado e, neste âmbito, o jurista FÁBIO ULHOA COELHO 11 acolhe o princípio
da cartularidade como um eficaz meio de garantia, capaz de comprovar que o sujeito
postulador da satisfação do crédito é mesmo o seu titular. Esse posicionamento é correto,
posto que, eventual cópia autenticada de um título não outorga qualquer segurança,
porquanto, quem apresentá-la poderá não estar retendo necessariamente o instrumento

9
Cesare Vivante, Tratado de Derecho Mercantil, vol. III, 5a. edição, p. 12, n. 953
10
Gladston Mamede, Títulos de Crédito, 1a. edição, Ed. Atlas S.A, 2003, p. 37
11
Fábio Ulhoa Coelho, Curso de Direito Comercial, vol. I, Ed. Saraiva, 1a. edição, 1998,. p.207

5
original, por já tê-lo transferido a terceiros. Da mesma forma, prováveis processos de
execução e de falência – esta última lastreada na impontualidade do devedor – só poderão
ser interpostos com ajuntada dos próprios títulos, consolidadores da condição de legítimos
credores dos requerentes.

O atributo da cartularidade também é denominado por muitos autores como


incorporação, por defenderem que o segundo vocábulo expressa de modo mais visível a
íntima conexão existente entre o documento e o direito dele decorrente. Por outro lado, a
dinâmica do direito, ao acompanhar a agilidade e informalidade dos negócios comerciais,
criou uma exceção ao princípio ora destacado. A Lei das Duplicatas permite a execução
judicial de crédito representado por este tipo de título, sem a sua apresentação pelo credor,
admitindo inclusive, nas hipóteses de extravio ou retenção, o seu protesto por indicação.
Também é possível a reconstituição do título, em caso de extravio ou destruição, consoante
o apregoado pelo art. 36 do Decreto n. 2044 de 31/12/1908 (Lei Interna).

11. LITERALIDADE

O título de crédito, qualquer que seja a modalidade em que se apresente, é sempre


indicativo de uma operação de crédito, razão pela qual, vale apenas o que nele estiver
escrito, delimitando-se a existência, o conteúdo e a amplitude do direito nele contido. "O
direito decorrente do título é literal no sentido de que, quanto ao conteúdo, à extensão e ás
medidas desse direito, é decisivo exclusivamente o teor do título" (MESSINEO). O próprio
Código Civil Brasileiro afirma no art. 881 que o “título de crédito contém um direito
literal”.

No dizer de DYLSON DORIA, "desse atributo resulta ser decisivo o que se contém
no título, por isso não se leva em consideração o que nele se não achar inserto, ainda que
consignado em documento separado" 12. Assim, por exemplo, SE DEVO MAIS, MAS
ASSUMO NO TÍTULO OBRIGAÇÃO POR MENOS, OU SE DEVO MENOS E
ASSUMO NO TÍTULO OBRIGAÇÃO POR MAIS, PODEREI, NA ÉPOCA DO
VENCIMENTO, SER FORÇADO A CUMPRIR A OBRIGAÇÃO MENCIONADA NO
TÍTULO, NEM MAIS NEM MENOS DO QUE ALI SE CONTÉM.

Para AMADOR PAES DE ALMEIDA, "os títulos de crédito são literais porque
valem exatamente a medida neles declarada". E reporta-se a CARVALHO DE
MENDONÇA "para quem os títulos de crédito se caracterizam pela existência de uma
obrigação literal, isto é, independente da relação fundamental, atendendo-se
exclusivamente ao que eles expressam e diretamente mencionam”13.

Ensina-nos o mestre JOÃO EUNÁPIO BORGES14 que a literalidade deve ser


entendida no sentido de que, para determinação da existência, conteúdo, extensão e
modalidade do direito, é decisivo exclusivamente o teor do título. "Literalidade que
funciona contra e a favor das partes, sob duplo aspecto; positivo e negativo. Se, sob o

12
Dylson Doria, op. citada, p.6
13
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 3
14
João Eunápio Borges, Títulos de Crédito, Ed. Forense, 2a. edição, 1977, p.13

6
aspecto positivo, somente do conteúdo ou do teor do título é que resulta a individuação e a
delimitação do direito cartular, sob o seu aspecto negativo, nem o subscritor, nem o
portador poderá invocar contra o título, fato ou elemento não emergente do mesmo título".

Cumpre observar que, em relação à disciplina da duplicata, também não se aplica


inteiramente o princípio da literalidade, posto que sua quitação pode ser dada pelo legítimo
portador do título em documento separado.

Atributo estático – Tomando por base a célebre frase de VIVANTE, para quem "o
que não está no titulo, não está no mundo", o eminente jurista CLÁUDIO ANTONIO
SOARES LEVADA15, considera a literalidade como atributo estático e não dinâmico. Não
se pode inferir que o teor ou conteúdo do título possam estar sujeitos a circunstâncias
exógenas, das quais dependerão "a individuação e a delimitação do direito cautelar". Este
– o direito cautelar – existe em função, da dependência direta do que está expresso no
título, não em função de circunstâncias outras que possam vir a delimitar, futuramente, os
elementos que desde logo devem estar nele presentes.

12. AUTONOMIA

A circulação dos títulos de crédito deve ser simples e segura. Tal procedimento se
tornaria impraticável se o possuidor de boa-fé não exercitasse um direito próprio e
permanecesse indefinidamente à mercê de restrições advindas do negócio subjacente, entre
os primitivos possuidores e o devedor.

Nesta trilha, as obrigações representadas por um mesmo título de crédito são


independentes entre si, não por se desprenderem da relação de débito e crédito que lhe deu
origem, mas pela autonomia de seus diversos e sucessivos possuidores em relação a cada
um dos outros. O Código Civil Brasileiro ampara tal regra, ao estabelecer no art. 906, que o
devedor só poderá opor ao portador exceção fundada em direito pessoal, ou em nulidade de
sua obrigação. Invocando novamente DYLSON DORIA podemos concluir que "é no
relacionamento entre o devedor e terceiros que se afirma, com toda a nitidez, a autonomia
dos títulos de crédito” 16.

Para um entendimento mais objetivo do princípio da autonomia, devemos ter em


conta a premissa de que o cumprimento das obrigações assumidas por alguém no título, não
está vinculado a quaisquer outras obrigações, mesmo ao negócio que o tenha originado.
Assim, se A emite uma Nota Promissória, por exemplo, a favor de B, que a transfere para C
por endosso – meio legal de transferência de títulos de crédito –, não poderá A, no
vencimento do título, alegar contra C que não o paga por ser B seu devedor de igual ou
superior soma. Cabe-lhe pagar o título a C e, posteriormente, fazer valer seus eventuais
direitos contra B através de ação de regresso.

15
Cláudio Antonio Soares Levada, Revista Jurídica, vol. 99, maio/junho de 1983, Livraria M. Saraiva Ltada.,
p. 10
16
Dylson Doria, op. citada, p.7

7
Diante do princípio da autonomia do título de crédito, estando ele em circulação até
a data do vencimento para retirada da mercadoria nos contratos de depósito ou transporte,
apenas ele, e não os direitos ou mercadorias nele representados constituirá objeto de medida
judicial (penhora, seqüestro, embargos, p. ex.), e poderá ser dado em garantia pelo credor
ou portador17. É o que dispõe o art. 895 do Código Civil Brasileiro.

13. INDEPENDÊNCIA E ABSTRAÇÃO

Como extensões da autonomia, podemos colocar a independência e a abstração


como atributos específicos de determinados títulos, enquanto que os três supramencionados
decorrentes da definição de VIVANTE, são comuns a todos os documentos.

Independência – Também designada por substantividade, tal característica indica a


inexistência de vínculo jurídico entre quaisquer coobrigados. "Cada qual se obriga por si, e
responde pelo cumprimento da obrigação contraída" (PAULO MARIA DE LACERDA)18.
Ela se apresenta como elemento específico de certos títulos que, regulados por lei, bastam a
si mesmos. De acordo com DYLSON DORIA, "são títulos de conteúdo legal, no sentido de
que devem conter tudo aquilo e só aquilo que a lei determina, não se admitindo que deles
constem outras declarações afora as que, por lei, configuram esses títulos”19.

Abstração – Em relação a certos títulos, a legislação os desvincula da própria causa


que lhe deu origem, podendo circular como documentos neutros. Adquirem eficácia
cambiária independentemente da "causa debendi", causa essa que não faz parte da cártula,
ao contrário do que ocorre com outros, como a duplicata e o conhecimento de transporte,
em que a origem de sua emissão neles se acha inserta.

Efeitos práticos – A independência e a abstração se configuram, portanto, numa


mera extensão da autonomia, e assim sendo, onde ela não se revela, não há também
independência, nem abstração. Conforme exposição de MAXIMILIANUS CLÁUDIO
AMÉRICO FUHRER, "enquanto o título estiver entre os participantes originários do
negócio subjacente, a autonomia, a independência e a abstração são apenas relativas
(juris tantum) admitindo por isso a discussão da causa do título e a comunicação das
exceções. Após o primeiro endosso, porém, e desde que dado a endossatário de boa fé, elas
passam a ser efetivas de caráter absoluto (juris et de jure), impedindo a discussão da
causa"20.

14. NATUREZA JURÍDICA

Diante da complexidade estrutural de que se reveste o tema, a questão da origem


jurídica dos títulos de crédito se mostra polêmica e exaustiva, já que são inúmeros os
posicionamentos que procuram explicitá-la. As diversas correntes, apesar das divergências,

17
Maria Helena Diniz, Código Civil Anotado, Ed. Saraiva, 10ª. Edição, 2004, p. 616
18
Paulo Maria de Lacerda, A Cambial no Direito Brasileiro, Ed. Leite, Ribeiro & Maurílio, 1a. edição, 1921,
p. 371
19
Dylson Doria, op. citada, p. 8
20
Maximilianus C. A . Fuherer, Resumo de Direito Comercial, Ed. Revista dos Tribunais, 5a. edição, p. 88

8
acabam por apresentar alguns pontos em comum, sem, contudo obterem um consenso
amplo e como conseqüência, não chegam a um resultado definitivo, capaz de integrar os
aspectos coerentes de cada uma. E, frente à impossibilidade de se consolidar uma
concepção una, destacamos sintetizadamente, as teorias que obtiveram maior repercussão
histórica no direito comparado.

Teoria Contratualista – Os seus adeptos sustentaram que o título de crédito


surgiria do acordo de vontades entre o credor e o devedor, ocorrendo discordância entre
eles quanto à fixação do exato momento em que se estabeleceria a avença, ou seja, por
ocasião da subscrição do documento ou à época de sua negociação. Embora fragilizados em
suas alegações, LIEBE e THOL foram os maiores expoentes desta corrente.

Teoria da Criação – O direito inerente ao título surge de um ato unilateral do


subscritor, que com o seu simples preenchimento, passa a se obrigar ao futuro portador,
credor eventual e indeterminado. As obrigações decorrem exclusivamente da assinatura, já
que por sua simples aposição, colocaria o documento em circulação. Tal entendimento,
acolhido em grande parte pelo Código Civil Alemão, apresenta um sério risco, pois na
hipótese de furto, de qualquer maneira o seu subscritor deverá resgatá-lo, ainda que o título
esteja na posse de terceiros de má-fé.

Teoria da Emissão – Somente após o abandono voluntário da posse, seja por ato
unilateral, seja por tradição, é que nasce a obrigação do subscritor. Sem emissão
espontânea, não se estabelece o vínculo e ao contrário da tese prolatada anteriormente,
posto o título fraudulentamente em circulação, insubisiste a obrigação. Defendida por
STOBB e WINDSCHEID, a idéia que predomina é a da vontade como exclusivo elemento
gerador do título.

Teoria de Vivante – O título de crédito se constituiria por um duplo sentido da


vontade. O devedor se obriga ao credor por uma relação contratual, já que conhece a outra
parte com quem celebrou uma determinada avença e referentemente a terceiros, com a
transmissão legal do documento através de endosso, por sua vontade unilateral de obrigar-
se com novos credores, na maioria das vezes, incertos e desconhecidos.
A posição sustentada pelo emérito pensador, em nossa concepção, é a que mais se
aproxima de uma conclusão lógica, não só sob o ponto de vista jurídico, como também por
sua conotação de ordem sociológica, sem olvidar dos aspectos inerentes ao cotidiano do
sistema financeiro. Além do mais, acaba por intermediar as correntes mais fortes – a da
Criação e a da Emissão – propiciando-lhes uma possível convergência, dependente apenas
de um maior aprofundamento nas análises e estudos acerca de sua importante proposta.

Posição no Direito Brasileiro – Na realidade, o Código Civil Brasileiro de 1916, ao


se reportar à matéria, não se filiou puramente a nenhuma das correntes, temperando, no
dizer de RUBENS REQUIÃO 21, os rigores da Teoria da Criação (art. 1.506: "A obrigação
do emissor subsiste, ainda que o título tenha entrado em circulação contra a sua vontade")
com nuances da Teoria da Emissão (art. 1.509: "A pessoa, injustamente desapossada de
títulos ao portador, só mediante intervenção judicial poderá impedir que ao legítimo

21
Rubens Requião, Curso de Direito Comercial, Vol. II, Ed. Saraiva, 24a. edição, 2005, p. 296

9
detentor se pague a importância do capital, ou seu interesse"). Tal ecletismo foi mantido
no Código Civil de 2002.

15. ASPECTOS GERAIS

O direito protege o crédito comercial, permitindo-lhe a circulação com maior


agilidade e segurança, contribuindo para o desenvolvimento das atividades afins. "Trata-se
– na feliz expressão de FÁBIO ULHOA COELHO – de exemplo de sobredeterminação
jurídica do modo de produção".22 Esse amparo, entretanto, só foi possível com a admissão
de determinadas proposições que revestiram os títulos de crédito, chegando mesmo a se
incorporarem à natureza dos mesmos. Acolheu-se, em conseqüência destes, o princípio da
inoponibilidade das exceções como norma fundamental atinente à matéria, ao mesmo
tempo em que, apesar de denotar conotação lógica, fixou-se o enunciado de que os títulos
de crédito não operam novação dos créditos anteriores.

Inoponibilidade das exceções – Constituindo-se numa variável do atributo da


autonomia, ela visa proteger a circulação dos títulos de crédito, dando aos terceiros de boa-
fé plena garantia e segurança na sua aquisição. Desta forma, o adquirente de um título, por
exercitar direito próprio, não pode vê-lo obstado ou restringido em virtude das relações
existentes entre os seus anteriores possuidores e o devedor.

Essa impossibilidade de defesas (= exceções) lastreada em direito pessoal do


devedor contra o credor, constitui-se na mais importante afirmação do direito moderno a
favor da negociabilidade dos títulos, estando expressamente prevista na legislação vigente
(art. 51 da Lei 2.044 de 1908; art. 17 da Lei Uniforme de Genebra e 906, 915 e 916 do
Código Civil Brasileiro).

O Título de Crédito não opera novação do Crédito Anterior – Um dos aspectos


mais curiosos do tema em tela resulta da debatida questão de se saber se incorporado um
direito de crédito ao título, esse direito se extingue pela novação ou se subsiste de forma
latente. A maioria dos comercialistas se filia à segunda concepção, tendo em vista que os
títulos de crédito se recebem "pro solvendo " e não "pro soluto " (= extinção imediata).
Eles não extinguem o crédito que lhes deu causa, permanecendo este sobre a roupagem e
forma de título, que se eliminará apenas por ocasião da quitação, no vencimento do
documento que o representa. Mesmo porque "não tendo o poder liberatório da moeda, a
falta de cobertura não faz desaparecer a obrigação anterior" (cf. JTACSP, 34/110 e
31250).

Escreve SOUZA NETO: "... se o devedor de um preço de compra emite, por isso,
uma promissória em favor do vendedor, o recebimento dessa promissória, constitui por si
só, novação da relação obrigatória resultante da compra e venda?". Depois de várias
considerações, ele responde: "O recebimento da promissória pelo vendedor, na pergunta
acima formulada, não constitui, pois, por si só, novação. A regra é que ele a recebe, não
em pagamento ‘pro soluto’, mas para pagamento 'pro solvendo” 23.

22
Fábio Ulhoa Coelho, Manual de Direito Comercial, Ed. Saraiva, 4a. edição, 1993, p.210
23
José Soriano de Souza Neto, Da Novação, pp.149/151, 1937

10
Antes do pagamento, a dívida não se considera solvida, conforme explica PAULO
RESTIFFE NETTO:- "É inerente ao cheque o caráter 'pro solvendo'. Só o efetivo
recolhimento de correspondente importância em dinheiro extingue a dívida. Ao contrário,
se por qualquer razão o beneficiário não consegue receber o valor correspondente ao
cheque, subsiste a dívida que com ele se pretendeu pagar” 24.

16. TÍTULOS DE NATUREZA CIVIL

Muito embora se garanta natureza estritamente mercantil aos títulos de crédito, por
imposição exclusivamente normativa, existem alguns de origem civil, embora se lhes
aplique subsidiariamente a legislação cambial. Como ilustração, cite-se o disposto no art.
10 do Decreto-Lei 167 de 14/2/1967, que define as cédulas de crédito rural como títulos
civis líquidos e certos.

Por outro lado, atualmente, seguindo tendência universal, há uma forte corrente
favorável a junção do Direito Comercial e do Direito Civil, razão pela qual já prevendo
uma provável unificação do Direito Privado, o Código Civil Brasileiro passou a regular o
instituto dos Títulos de Crédito em nosso país, o que não descaracteriza a sua origem
comercial.

17. CLASSIFICAÇÃO

Diversas são as classificações dos títulos de crédito, embasadas em critérios os mais


variados. Atualmente, no entanto, tem prevalecido uma convergência de métodos entre os
doutrinadores, provocando certa uniformidade nestas divisões, sendo as abaixo indicadas,
as que denotam maior importância.

Classificação quanto ao conteúdo – Trata-se da classificação de maior difusão.


Elaborada por CESARE VVIANTE, ela distingue os títulos de crédito em:

a) títulos de crédito propriamente ditos: os que dão direito a uma prestação de


coisas fungíveis, ou seja, que podem ser substituídas por outras da mesma espécie,
qualidade e quantidade. Exemplos: as letras de câmbio, as cédulas hipotecárias, as
debêntures, os warrants etc. Diz-se que nestes títulos se atesta uma operação de crédito;

b) títulos destinados à aquisição de direitos reais sobre coisas determinadas: que


importam na obtenção de um efetivo direito sobre a mercadoria depositada. Exemplos:
conhecimento de embarque, conhecimento de depósito etc;

c) títulos que atribuem a qualidade de sócio: permitindo aos seus titulares


exercerem determinadas funções ou praticarem certos atos. Exemplos: ações de sociedades
anônimas e comandita por ações;

24
Paulo Restife Neto, Lei do Cheque, 2a. edição, Ed. Revista dos Tribunais, 1978, p. 39

11
d) títulos de crédito impropriamente ditos: nos quais, ainda que não representem
uma operação de crédito, incorporam um direito ao credor de exigir uma restituição ou
entrega daquilo que deu origem ao título ou a que ele se refere. Também chamados de
"títulos de legitimação", eles dão direito a algum serviço. Exemplos: bilhetes de viagens ou
de transporte.

Classificação quanto à natureza – A melhor classificação, pelo menos para efeitos


didáticos é a de RUBENS REQUIÃO, que distingue os títulos em:
a) abstratos ou perfeitos: dos quais não se indaga a origem, valendo o crédito que
na cártula foi escrito;
b) causais ou imperfeitos: que se vinculam à sua origem, como, por exemplo, a
duplicata.

Classificação quanto à circulação – Cada título nasce com sua lei de circulação,
dependente da vontade do legislador ou de quem o emite Assim, quanto à forma de se
passá-lo por vários possuidores legítimos, os títulos de crédito se dizem:

a) ao portador: quando não têm no próprio texto o nome de seu beneficiário ou


titular e são negociáveis pela simples tradição manual, isto é, pela simples entrega do
documento;
O art. 907 do CCB dispõe que “é nulo o título ao portador emitido sem autorização
de lei especial”. A Lei 8.021/90, que dispõe sobre a identificação de contribuintes para fins
fiscais, só permite a circulação de cheques ao portador até R$100,00 (cem reais). Os
demais títulos, independentemente de valor, devem conter necessariamente a identificação
do beneficiário.

b) nominativos: quando trazem no seu bojo o nome do titular ou beneficiário


designando-o expressamente e só se transferem para novo possuidor mediante assento ou
termo feito em livro próprio da entidade emissora (ex.: ações) ou por via de endosso. Para o
CCB atual (art. 921), seriam desta categoria os títulos em que o nome do favorecido consta
do registro do emitente e cuja circulação depende de alterações neste registro.

c) à ordem: quando emitidos a favor da pessoa indicada ou daquela a quem esta


ordenar, sendo transferíveis por meio de endosso e para tanto, deve constar dos documentos
a expressão "à ordem”;

d) não à ordem: que obstam o pagamento senão aos titulares indicados, vedada a
transferência. Enquanto os anteriores circulam mediante a tradição acompanhada de
endosso, estas circulam com a tradição acompanhada de cessão civil de crédito.

É de se ressaltar, entre as classificações dos títulos de crédito, uma formulada por


Waldirio Bulgarelli25, que os divide em dez categorias: “(a) quanto à relação fundamental
(ratione relationis fundamentalis): causais e abstratos; (b) quanto ao titular (ratione
titularitis): ao portador, nominativos e à ordem; (c) quanto à prestação (ratione
solutionis); contra dinheiro e contra mercadorias; (d) quanto à nacionalidade (ratione loci

25
Waldirio Bulgarelli, Títulos de Crédito, 18a. edição, Ed. Atlas, 2001, p. 88

12
solutionis): nacional e estrangeiro; (e) quanto ao prazo (ratione temporis): à vista e à
prazo (curto, médio e longo); (f) quanto ao emitente (ratione emitentis): públicos e
privados; (g) quanto ao campo de atuação (ratione usus): mercado de capitais e
extramercado; (h) quanto à ordem (ratione ordinis): principais e acessórios; (i) quanto à
emissão (ratione terminis): definitivos e provisórios e (j) quanto ao número (ratione
numeri): individuais e seriados”.

18. SUBSTITUIÇÃO DE TÍTULO DILACERADO

O possuidor de título de crédito, que se danificou ou dilacerou, porém suscetível de


ser identificado, tem direito a obter do emitente a substituição do anterior, mediante a
restituição do primeiro e pagamento das despesas (art. 908 do CCB e art. 912 do CPC).

19. PERDA, EXTRAVIO OU INJUSTO DESAPOSSAMENTO DO TÍTULO

O proprietário, que perder ou extraviar título, ou for injustamente desapossado dele,


de acordo com o art. 909 do CCB, poderá obter novo título em juízo, através de ação cujo
procedimento está previsto nos arts. 907 a 913 do CPC, bem como impedir, sejam pagos
capital e rendimentos a outrem. Por outro lado, eventual pagamento feito antes de ter
ciência da ação pleiteada pelo proprietário para obtenção de novo título, exonera o devedor,
salvo se provar que ele tinha conhecimento do fato.

20. ESPÉCIES

São vários os títulos de crédito conhecidos no direito brasileiro e regulados por leis
especiais, já que inexiste, ao contrário de algumas nações como o México, uma disciplina
geral para todos ao mesmo tempo. Apontamos a seguir a maioria dos documentos desta
natureza mais destacados em nosso país: Letra de Câmbio, Nota Promissória, Cheque,
Duplicata Comercial, Duplicata de Serviço, Conhecimento de Depósito, "Warrant”,
Conhecimento de Transporte, Letra Hipotecária, Cédula Rural Pignoratícia, Cédula Rural
Hipotecária, Cédula Rural Pignoratícia e Hipotecária, Nota de Crédito Rural, Nota
Promissória Rural, Duplicata Rural, Letra Imobiliária, Certificado de Depósito Bancário
(CDB), Cédula de Crédito Industrial, Nota de Crédito Comercial, Ações de Sociedade Por
Ações, Certificado de Depósito de Ações, Debêntures, Nota de Crédito à Exportação,
Cédula de Crédito Comercial, Nota de Crédito Comercial, Certificado de Investimento,
Certificado de Depósito em Garantia, Cédula Hipotecária e Bilhete de Mercadoria, entre
outros e muitos dos quais, além dos cinco primeiros, considerados principais, serão
destacados oportunamente.

13
LETRA DE CÂMBIO
SUMÁRIO: 21. Importância - Suas regras se estendem aos
demais títulos. 22. Conceito. 23. Partes Intervenientes. 24.
Origem. 25. Fundamentação Legal. 26. Rigor Cambiário. 27.
Requisitos Essenciais. 28. Requisitos Gerais. 29.- Cláusulas
consideradas não escritas. 30. Requisitos Supríveis. 31.
Vencimento da Letra de Câmbio. 32. Modalidades de
Vencimento. 33. Princípio da Unicidade.

21. IMPORTÂNCIA – Suas regras se estendem aos demais títulos

Apesar do uso da letra de câmbio estar praticamente suplantado pelo da duplicata -


título criado pelo direito brasileiro para atender a problemas econômicos e principalmente
fiscais de interesse nacional - o seu estudo merece atenção especial. Ocorre que, em geral,
os princípios normativos dos demais títulos de crédito originam-se quase que
exclusivamente das regras legais a ela pertinentes, observadas as necessárias adequações
oriundas das especificidades de cada um. "Pode-se dizer que a lei cambiária encerra as
regras fundamentais dos títulos de crédito, as leis reguladoras dos demais títulos
aproveitam algumas dessas regras gerais, adaptando-as às peculiaridades de cada um"
(FRAN MARTINS)26.

A própria denominação do ramo jurídico dedicado especificadamente ao estudo de


todos estes instrumentos mercantis se baseou na importância histórica da letra de câmbio,
sendo designado Direito Cambiário ou Direito Cambial. Dessa forma, o conhecimento de
seus preceitos se mostra de extrema relevância para uma melhor compreensão dos títulos de
crédito em geral.

22. CONCEITO

A letra de câmbio é uma ordem de pagamento que o sacador (emitente) dirige ao


sacado (devedor) para que este pague a importância consignada a um terceiro, denominado
tomador (credor).

Assim, por exemplo, se A é credor de B e, ao mesmo tempo, devedor de C, poderá


sacar uma letra de câmbio contra B e a favor de C. Desse modo, quando C cobra o valor do
título de B e este lhe efetua o pagamento, liquidar-se-á essa dívida, senão ainda a que A
tinha para com C 27.

26
Fran Martins, op. citada, p. 22
27
Dylson Doria, op. citada, p. 18

14
A emissão (saque) da letra de câmbio pressupõe logicamente, a existência de um
crédito do sacador perante o sacado, que ao invés de receber diretamente deste, determina o
seu pagamento para um terceiro, que por certo também mantém com aquele uma relação
creditória permissiva de tal transferência. Caso contrário, qualquer indivíduo poderia
utilizar-se da estrutura cambiária, de forma ilícita ou arbitrária, a fim de obter recursos para
si próprio em detrimento dos inúmeros transtornos e prejuízos que acarretaria às vítimas,
pessoas injustamente envolvidas num esquema fraudulento e que se respaldaria em critérios
exclusivamente técnicos.

A obrigação cambiária, por outro lado, só se efetiva por meio do aceite do sacado.
Apondo a sua assinatura no título, ele se compromete ao pagamento da letra, convertendo-
se com a posição de aceitante, em seu devedor primário. Ressalte-se que, na possibilidade
de se criar uma estrutura cambiária e recusando-se o devedor em anuir à ordem de
pagamento, o seu aceite poderá ser suprido pelo protesto por falta de aceite, hipótese que
detalhada e oportunamente será analisada.

23. FIGURAS INTERVENIENTES

Da letra de câmbio participam originariamente três pessoas: a) o sacador, emissor,


emitente, passador ou subscritor, que é a pessoa que emite ou saca a ordem de pagamento;
b) o sacado, ou seja, a pessoa a quem se dirige a ordem do sacador para pagar a importância
constante da cambial e c) o beneficiário, favorecido ou tomador, que é aquela pessoa a
favor de quem a ordem de pagamento é emitida. Entretanto, outros indivíduos poderão a ela
vincular-se posterior e sucessivamente, como por exemplo, um terceiro que assuma a
posição de avalista, garantindo, destarte, a sua quitação.

24. ORIGEM

A sua verdadeira procedência não está perfeitamente esclarecida, pairando grande


controvérsia sobre o assunto e suscitando opiniões as mais diversas. Segundo alguns
autores28, ainda que sem este nome e sem as características atuais, ela teria surgido na
Antigüidade Clássica, quando o método de se fazer pagamentos ao credor ou pessoa por ele
autorizada a receber o crédito, entre lugares distintos, já era utilizado. Entretanto, há os que
repudiam tal notícia histórica, como DYLSON DÓRIA29, para quem as suas origens
remontam à Idade Média, época na qual foi definitivamente empregada, sobretudo nas
comunas italianas.

Apesar dessas divergências, tem-se como certo que a letra de câmbio se revelava
num instrumento de permuta e transporte. Assim, com o decorrer do tempo e diante das
práticas em vigor e das necessidades mercantis, as suas fórmulas incipientes foram
gradativamente evoluindo. De seu estágio inicial como de contrato de câmbio, passou a
funcionar como meio de pagamento, até chegar à noção de título de crédito, tal qual como
hoje a concebemos, ou seja, uma ordem de pagamento, representativa de um valor posto

28
J.A. Saraiva, A Cambial, vol. I, 1912, Ed. Rodrigues & Cia., p.27
29
Dylson Doria, op. citada, p. 18.

15
em circulação, assegurando-se que "a negociabilidade foi o objetivo primordial desses
títulos, tanto no sistema continental, quanto no anglo-americano" 30.

E, dentre as diversas fases pelas quais ela se consolidou, as mais importantes são a
francesa e a alemã. Na primeira, a partir de 1673 por intermédio da “Ordennance Sur Le
Comerce de Terre”, operaram-se importantes modificações estruturais, ressaltando,
inclusive, que a denominação letra de câmbio "é de origem francesa, advindo de "lettere"
(carta) e "change" (câmbio), que exprime troca, permutação. A segunda, decorrente do
desenvolvimento iniciado em 1848 pela Ordenança Geral da Alemanha, representa o seu
próprio estágio atual e, segundo AUGUSTO TOSCANO, "a nossa lei cambial é fruto das
modificações introduzidas por esse período, bem como na lei de quase todos os países” 31

25. FUNDAMENTAÇÃO LEGAL

A legislação de regência da Letra de Câmbio se consubstanciava na Lei n. 2.044 de


1908, que atualmente está quase totalmente revogada pelas disposições da denominada Lei
Uniforme, que consta como Anexo I da Convenção de Genebra sobre Letra de Câmbio e
Nota Promissória, de junho de 1930. Resultado de tratativas internacionais, visando a
adoção das mesmas regras por todos os países signatários e tendo o Brasil aderido a essas
negociações (Genebra, 1930), ela foi aqui promulgada pelo Decreto 57.663/66, de sorte que
passou a ser lei entre nós, com as respectivas condições restritivas impostas pelo nosso país
à sua adoção. Além de ser pacífico o entendimento de que convenção internacional
ratificada é um instrumento legalmente vinculante, o Supremo Tribunal Federal, pondo
termo a algumas discordâncias de nossos pretórios, reconheceu a plena vigência interna das
normas integrantes da Lei Uniforme, com as reservas subscritas pelo governo brasileiro e
que recaíram exclusivamente sobre os arts. 2º, 3º, 5º, 6º, 7º, 9º, 10, 13, 15, 16, 17, 19 e 20
do Anexo II. As matérias por elas objetivadas ainda são reguladas pela Lei 2.044/1908,
donde se conclui que o texto de Genebra não foi aplicado em sua totalidade no Brasil e que
a nossa lei somente é utilizada supletiva e subsidiariamente a este.

26. RIGOR CAMBIÁRIO

O estudo da letra de câmbio é feito concomitantemente com o das regras gerais


relativas à constituição e exigibilidade do crédito cambiário, estendidas aos demais títulos
de crédito, respeitados evidentemente os elementos estruturais próprios de cada espécie.

Além das características clássicas advindas do conceito de CESARE VIVANTE,


esses documentos se revestem de certos requisitos, sendo alguns inerentes a todos os atos
jurídicos e outros, eivados de manifesto formalismo e que lhes sendo próprios, possibilitam
ou não se constituírem como instrumentos desta natureza. "Sem o atendimento desses, o
escrito poderá eventualmente servir à tutela de direitos, no âmbito civil (quer dizer, como
simples instrumento de prova da existência da obrigação, numa ação de conhecimento),
mas não poderá circular, ser protestada ou executada como uma cambial" 32.

30
Silva Pinto, Direito Cambiário, 7.3, Rio, 1951, apud Walter T. Alvares, op. citada, p. 586.
31
Augusto Toscano, Curso de Direito Comercial, 1a. edição, 1998, Copola Editora, p.163
32
Fábio Ulhoa Coelho, Curso de Direito Comercial, vol. I, 1a. edição, 1999, Ed. Saraiva, p. 385.

16
O Código Civil Brasileiro dispõe em seu art. 887, “in fine” que o título de crédito
somente produz efeito, quando preencher os requisitos da lei. O mesmo estatuto determina
que “a omissão de qualquer requisito legal, que tire ao escrito a sua validade como título de
crédito, não implica a invalidade do negócio jurídico que lhe deu origem”.

Assim, um título de crédito para valer como tal, deve obedecer a determinadas
formalidades previstas na legislação e a esse conjunto de regras legais dá-se a denominação
de rigor cambiário. É nele que repousa, em grande parte, as garantias do portador da
cártula. Invoquemos PONTES DE MIRANDA: "O direito cambiário chegou a tão grande
harmonia de técnicas e a técnica tão longe levou o seu intuito de harmonizar interesses
particulares e do público, que o sacrifício de qualquer elemento significa, sempre, erro de
justiça" 33.

Doutrinariamente, os requisitos têm se distribuídos por duas categorias, a saber:

a) Requisitos Intrínsecos – Constituem-se em elementos comuns a todas as


obrigações, ou seja, a capacidade das partes, objeto lícito e consentimento. Tem-se, pois,
que a Letra de Câmbio e os demais títulos de crédito, hão de observar os mesmos requisitos
dos atos jurídicos em geral. Assim, o título preenchido por um incapaz ou o emitido sobre
grave ameaça à integridade física do subscritor (forçado a subscrevê-lo por meio de uma
arma que lhe é apontada) são revestidos de vícios que juridicamente os tornam passíveis de
nulidade absoluta.

b) Requisitos Extrínsecos – São aqueles de natureza formal, previstos em legislação


própria e essencial à eficácia cambial dos títulos de crédito (força executiva). A
inobservância de tais atributos, transformam estes documentos em simples elementos
comprobatórios, totalmente destituídos de rigor cambiário, servindo apenas como provas da
existência de prováveis obrigações que possam motivar à interposição de ações de
cobrança.

27. REQUISITOS ESSENCIAIS

De acordo com o art. 1º da Lei Uniforme, são os seguintes os requisitos essenciais à


validade da letra de câmbio:

I – a denominação "letra de câmbio" ou denominação equivalente na língua


em que foi emitida. A denominação impõe a legislação aplicável e demonstra que aqueles
que apuseram a sua assinatura no título de crédito não desconheciam a natureza jurídica do
vínculo que contraíram 34. Nesse sentido, JOSÉ MARIA WHITAKER dispõe que "seu uso
implica renúncia aos favores do direito comum, aquiescência formal e solene às normas
excepcionais do direito cambiário e, como tal, deve obedecer rigorosamente à forma

33
Pontes de Miranda, Tratado de Direito Cambiário, Vol. I, 2a. edição, Editora Max Limonad, 1954, p.11
34
Darcy Arruda Miranda Jr. Op. citada, p. 13

17
prescrita, não sendo permitidas nem expressões elípticas, nem palavras eqüipolentes, às
quais a lei não deu a mesma interpretação técnica”.35
Ela deve ser expressa na mesma língua empregada na redação do Título de Crédito.
Nada impede, porém, que ela seja redigida em francês no Brasil, nem que um inglês a
redija em português 36. O que a legislação veta é uma possível estrutura idiomática bilíngüe.

Il - a soma em dinheiro e a espécie da moeda. A quantia constante do título deve


ser numericamente precisa, não se admitindo valor aproximado. "O pagamento de qualquer
outra coisa fungível, que não seja moeda, desnatura a cambial"37. Sobrevindo divergência
entre a importância indicada por algarismo e o valor por extenso, prevalecerá este último.

Brasil, o padrão monetário atual é o Real. Assim, todos os títulos de crédito aqui
criados devem tê-lo por espécie de moeda, não se admitindo outra, sob pena de nulidade.
Evidentemente, tal hipótese não abrange o título emitido no exterior, para ser quitado em
nosso país.

Cambiais Indexadas – Nesta trilha é de se ressaltar a séria controvérsia que paira


sobre o exato sentido desse requisito, já que por tal dispositivo estaria vedada a emissão de
cambial indexada aos diversos índices gerados pela economia brasileira, como BTN,
ORTN, CIRP, TR e outros. Ao contrário de nosso entendimento, no qual há visível
infringência às regras cambiais básicas, prevalece hoje a posição de que a indexação não
desnatura o caráter monetário da dívida, nem toma esta ilíquida, pois o seu valor pode ser
obtido por meio de rudimentar operação matemática. ROBERTO LATIF KFOURI 38,
concluindo cuidadosa monografia sobre o assunto, argumenta que a aceitação da medida
redunda em justiça social e desburocratização do Poder Judiciário.

Anteriormente apontavam-se outras soluções, como escreveu o jurista CLÁUDIO


ANTONIO SOARES LEVADA39. Defendendo o rigor cambiário, pugnava pela
impossibilidade da cláusula de correção monetária no próprio corpo do título, fosse ela
ajustada em qualquer índice, já que necessariamente deveria expressar valor em dinheiro
nacional ou estrangeiro. Sugeria, no entanto, e com raro brilhantismo, a celebração de um
pacto adjeto ao título, no qual se convencionava a correção monetária, lastreada em
indexadores, sobre uma quantia fixa e determinada em espécie, sendo tal contrato firmado
por duas testemunhas e caracterizado como "confissão de dívida", nos termos do art. 585 -
II do CPC. Assim, tal cártula conteria o débito inicial - sem a correção e apenas na
confissão ajustar-se-ia a atualização do dinheiro.

Liquidez do título – Cite-se, a título ilustrativo, que a liquidez de um título de


crédito será apontada pelo respeito na sua emissão ao atributo da literalidade, isto é, pela
determinação monetária da quantia a ser paga. Explicando essa constatação, ensina J. M.

35
José Maria Whitaker, Letra de Câmbio, 6a. edição, p. 45, 1964.
36
J.M. Caravalho Santos, Cód. Civil Brasileiro Interpretado, Vol. XXI, Ed. Freitas Bastos, 6a. edição, 1956,
pp. 5/6
37
Vittori Angeloni, La Cambiale e il vaglia Cambrário, 4a. edição, Milano,Guiffré, 1964, p. 45
38
Roberto Latif Kfouri, monografia publicada em “O Estado de São Paulo”em 28/12/1980, p.34
39
Cláudio Soares Levada, op. citada, pp. 23/24

18
CARVALHO SANTOS 40 que "líquidas são as obrigações de corpo certo, de quantidade
fixa, de soma determinada. (...) Vale dizer: líquida é a obrigação certa sobre a qual não
pode haver dúvida, (...), ou sejam precisamente as obrigações determinadas pela
respectiva espécie, quantidade e qualidade. Tais são, por exemplo: as letras de câmbio, as
notas promissórias, os títulos ao portador etc, etc.”. E esclarece o mesmo autor: "a dívida
é líquida quando o seu valor resulta constando do próprio título, sem necessidade de
recorrer-se a elementos a ele estranhos. Ou, em outros termos, quando para apurar-se o
seu total, basta fazer-se um simples cálculo aritmético, com os dados certos e positivos
constantes do próprio titulo”.

III - o nome da pessoa que deve pagá-la (sacado). Vinculando-se pelo aceite à
cambial, sacado é a pessoa física ou jurídica que deve pagá-la, razão pela qual deve constar
do título o nome completo do devedor. É matéria pacífica na doutrina e na jurisprudência a
indispensabilidade de tal requisito. Transcrevemos o seguinte julgado, utilizado por
AMADOR PAES DE ALMEIDA 41: – “Não se considera cambial a letra da qual não
consta o nome do sacado, da pessoa que deverá pagá-la “(Rev. dos Tribunais, 231/275)”.

IV - o nome da pessoa a quem deve ser paga (tomador). O beneficiário do


crédito materializado no título também deve ter o seu nome dele constante, excluindo-se a
possibilidade de circulação de letras de câmbio "ao portador", sendo dele, inclusive e
obrigatoriamente, o primeiro endosso do título. Advirta-se que as letras de câmbio “ao
portador” emitidas por entidades financeiras e que não se confundem com cambiais
incompletas ou descaracterizadas, estão subordinadas à Lei Sobre o Mercado de Capitais e
não à Lei Uniforme 42.

V - assinatura do próprio punho do sacador ou de mandatário especial. Para


muitos autores, a subscrição da letra pelo sacador é o mais importante dos requisitos da
cambial, já que sem ela, não há qualquer obrigação cambiária. A assinatura deve ser
autêntica, do próprio punho da pessoa que a emite. Permite-se, contudo, a emissão por meio
de mandatário especial ou de representante legal. Entretanto, conforme se depreende do
disposto no art. 8º da Lei Uniforme, se a representação é nula, ou se for declarada a
nulidade ou inexistência do mandato, ainda assim subsiste a responsabilidade de quem se
apresentou como representante e subscreveu a obrigação cambiária em nome de outrem.

28. REQUISITOS GERAIS

De acordo com o art. 889 do Código Civil Brasileiro, o título de crédito deverá
conter: a) data da emissão, b) indicação precisa dos direitos por ele conferidos e c)
assinatura do emitente, “que pode ser o devedor (cheque, nota promissória) ou o credor
(letra de câmbio e duplicata)43. O parágrafo terceiro deste preceito legal ainda permite que
“o título poderá ser emitido a partir dos caracteres criados em computador ou meio

40
J. M. Carvalho Santos, op. citada, p. 6
41
Amador Paes de Almeida, op. citada, p.21
42
Dylson Doria, op. citada, p.14
43
Maria Helena Diniz, Código Civil Anotado, Ed. Saraiva, l0a. ed., 2004, p. 613

19
técnico equivalente e que constem da escrituração do emitente, observados os requisitos
mínimos previstos neste artigo”.

29. CLÁUSULAS CONSIDERADAS NÃO ESCRITAS

Conforme expresso no art. 890 do Código Civil Brasileiro, o título de crédito não
“comportará a inclusão de cláusula de estipulação de juros, salvo se lei especial a admitir,
de proibição de endosso, de excludente de responsabilidade pelo pagamento ou por
despesa, de dispensa de observância de termos e formalidades prescritas e de exclusão ou
restrição de direitos e obrigações, além dos limites legais. Se tais cláusulas forem nele
inseridas, serão tida como não escritas, apenas para efeitos de natureza cartular, visto que
não é contrato, mas obrigação de pagar certa quantia pecuniária”.44

30. REQUISITOS SUPRÍVEIS

Há alguns requisitos considerados não essenciais, ou seja, aqueles que, nos termos
do art. 2º da Lei Uniforme podem ser substituídos ou suprimidos, sem descaracterizarem os
instrumentos como títulos de crédito. Assim, se numa letra de câmbio se omitir o lugar do
saque (praça de pagamento), considerar-se-á como sendo o do local designado ao lado do
nome do sacador. Da mesma forma, inexistindo uma data para pagamento (vencimento),
entender-se-á a mesma pagável à vista.

A legislação atual brasileira reproduziu tais regras. Os parágrafos primeiro e


segundo do art. 889 do Código Civil dispõem respectivamente: “É à vista o título de
crédito que não contenha indicação de vencimento” e “considera-se lugar de emissão e de
pagamento, quando não indicado no título, o domicílio do emitente”.

31. VENCIMENTO DA LETRA DE CÂMBIO

Apesar da necessária fixação de uma época determinada à quitação da cambial, a


estipulação do vencimento não foi considerada cláusula essencial à validade desses títulos.
Tanto que, na hipótese de sua omissão, a própria Lei Uniforme se incumbe de saná-la
(alínea 6 a do art. 33). Da data de resgate da cambial decorrem importantes efeitos que
serão futuramente destacados, entre outros, o prazo prescricional à interposição de ações
cambiais e o prazo decadencial para liberação dos coobrigados (avalistas, endossantes etc).

Objetivamente, pode-se dizer que o prazo de vencimento das cambiais é aquele


previsto no seu contexto, considerando-se na sua ausência, como sendo "à vista". Ele deve
ser contado em obediência ao critério estabelecido na legislação cambiária, seja ordinário
(aquele previsto no próprio título), seja extraordinário (imposto pela recusa total ou parcial
do devedor em apor o seu visto ou aceite, e nos casos de insolvência civil ou comercial –
falência) 45.

32. MODALIDADES DE VENCIMENTO

44
Maria Helena Diniz, op. citada, p.614
45
Darci Arruda Miranda Jr., op. citada, p. 52

20
A lei prevê que as letras de câmbio podem ser passadas sob quatro modalidades de
prazo de vencimento, fixadas para fins de seus pagamentos, conforme a forma do saque.
São elas:

I - Vencimento à vista. Caracteriza-se pelo vencimento do título no ato de sua


apresentação ao sacado;

II – Vencimento a um termo (tempo) certo da vista. O vencimento é determinado


em razão do aceite, ou seja, da respectiva data do visto começa a fluir o prazo de resgate.
Ilustrativa mente, cite-se um exemplo prático. "Suponha-se o seguinte vencimento: Aos dez
dias da vista... Se o aceite tiver a data 20 do mês, o vencimento da cambial ocorrerá no
subseqüente dia 30, pois os prazos legais ou convencionais não compreendem o dia que
marca o seu início' (art. 73 – Lei Uniforme)” 46.

III – Vencimento a um certo tempo da data. Considera-se nesta modalidade, a


indicação pelo sacador de um certo prazo a partir de sua emissão, findo o qual a letra se
vencerá. Por exemplo, o seu enunciado assim se expressará: "A trinta dias desta, V. Sª
pagará por esta letra de câmbio...”.

IV - Vencimento a dia certo. Pode-se afirmar categoricamente que na prática, esta


é a espécie mais comum de venci mento da letra de câmbio. Através dela, fixa-se com
absoluta precisão, por ato exclusivo do próprio emitente, o dia de sei resgate.

Vencimento extraordinário. Alguns doutrinadores indicam que o vencimento de


um título de crédito pode se operar de forma ordinária (que se opera pelo fato jurídico do
decurso do tempo ou pela apresentação ao sacado da letra à vista), que se constituiria no
modo regular e o extraordinário, que se ocorreria por recusa do aceite ou pela falência do
aceitante (art. 19, I do Dec. N. 2.044/1908)47.

33. PRINCÍPIO DE UNICIDADE

O ordenamento uniforme adota o princípio da unicidade da época de vencimento


das cambiais, razão pela qual, sem nulos os títulos que tiverem datas diferentes de resgate,
comi acontece no caso da sua menção alfabética divergir da indicada, numericamente. Da
mesma forma, será nula a cártula com venci mentos sucessivos (quando dela constarem
mais de duas datas diversas) e se o termo de sua exigibilidade for alternativo o opcional 48.

46
Darci Arruda Miranda Jr., op. citada, pp. 49/50
47
Fábio Ulhoa Coelho, Manual de Direito Comercial, Ed. Saraiva, ed. 2006, p.260.
48
Dílson Doria, op. citada, p. 48

21
CONSTITUIÇÃO DO CREDITO CAMBIARIO
SUMÁRIO: 34. Saque da Letra de Câmbio. 35. Efeitos. 36.
Situações Jurídicas Decorrentes do Saque. 37. Cláusula Mandato.
38. Aceite. 39. Ato Facultativo. 40. Forma. 41. Modalidades. 42.
Aspectos Gerais. 43. Cláusula "Não Aceitável".

34. SAQUE DA LETRA DE CÂMBIO

Na terminologia comercial, a extração ou emissão da letra, pelo credor é


denominada de saque. Ele se constitui assim, no ato de criação do título, através do qual, o
sacador possibilita ao tomador procurar o devedor para receber a quantia nele mencionada.
Diz-se propriamente sacar unia letra à ação e efeito de extraí-la.

De acordo com DE PLÁCIDO E SILVA49, "o simples saque da letra não indica por
si só o contrato, que dele se vai formar O credor, como sacador formula a ordem,
instrumenta a ordem contra o sacado, seu presumido devedor ou em poder de quem tem
fundos, que possa retirar”.
Dessa maneira, inicialmente, o saque se mostra um ato unilateral. Não se revela
ainda um contrato, pelo qual se estabeleça um vínculo obrigacional entre o sacado e o
sacador Somente quando o sacado reconhece ou aceita a ordem, firmando seu nome no
documento que o sacador expediu para seu aceite, é que o contrato se apresenta
juridicamente perfeito e capaz de surtir os efeitos legais”.

35. EFEITOS

Além de propiciar o nascimento do título, o saque ainda promove a vinculação do


emitente ao pagamento da cártula. Embora seja o sacado quem deva quitar o documento, se
não o fizer, o tomador poderá cobrá-la do sacador, já que ao emiti-Ia, tomou-se co-devedor
da obrigação cambiária (art. 9º da Lei Uniforme).

É de se ressaltar que entre as declarações cambiais, só a do saque é originária,


necessária e principal, apta a atribuir a um pedaço de papel a qualidade de letra de câmbio.
Todas as demais - aceite, endosso e aval - são declarações sucessivas50.

36. SITUAÇÕES JURÍDICAS DECORRENTES DO SAQUE

49
De Plácio e Silva, op. citada, p.518
50
Wilson Furtado, op. citada., p. 128

22
“Como se trata de uma ordem de pagamento, a letra de câmbio, ao ser emitida, dá
ensejo a três situações jurídicas distintas: a do sacador, a do sacado e a do tomador.
Ressalte-se que se fala em situações jurídicas e não em sujeitos de direito. Quer dizer, a
mesma pessoa pode ocupar simultaneamente mais de uma situação: a lei uniforme, no art.
3º, autoriza o saque da letra à ordem do próprio sacador (nesse caso, a mesma pessoa
ocupa as situações de sacador e tomador) ou sobre ele (hipótese em que ocupa as
situações de sacador e sacado)" 51.

Vale dizer que quando o sacador se iguala à figura do tomador, os efeitos da letra de
câmbio se equivalem aos de uma nota promissória, como verificaremos mais adiante.

37. "CLÁUSULA MANDATO"

A exemplo dos demais atos cambiários, o saque também pode ser praticado por
procuradores com poderes especiais e se o sacador - como de resto, qualquer outro
obrigado cambial - não souber ou não puder assinar, o procurador, além da necessária
especificidade de seu instrumento de mandato, deverá ainda ser nomeado por instrumento
público.

Baseados nesta possibilidade de representação especial, os contratos bancários


passaram a inserir urna cláusula pela qual o devedor nomeava a própria instituição
financeira com a qual mantinha negócio (ou empresa coligada) como sua mandatária para
fins de sacar, na hipótese de inadimplemento, um título de crédito representativo de parte
ou da totalidade da obrigação assumida. Tal autorização contratual foi denominada de
"cláusula mandato".
Na realidade, entretanto, em muitas circunstâncias, o seu uso passou a ser abusivo.
Agindo em nome dos seus clientes, algumas entidades bancárias emitiam títulos
representativos de seus créditos, para fins de protesto e cobrança judicial, inserindo juros e
encargos extorsivos. Contrariando a opinião abalizada de conceituados juristas, o STJ -
Superior Tribunal de Justiça, invocando o art. 51, inc. VIII do Código de Defesa do
Consumidor pronunciou-se por sua invalidade, através da Súmula 60, o que para nós se
constitui em ato da mais elevada Justiça.

Mandatário. Falta ou excesso de poder. O art. 892 do Código Civil Brasileiro


determina que aquele que assinar título de crédito, sem ter podres para tal fim ou exceder os
que tiver, ficará pessoalmente obrigado pelo pagamento do débito perante o portador
legítimo. Quitando o título, ficará subrogado nos mesmos direitos que teria o suposto
mandante ou representado.

38. DO ACEITE

É o ato cambial pelo qual o sacado concorda em acolher a ordem incorporada pela
52
letra . Assim, enquanto não manifesta a sua concordância, ele não tem nenhuma obrigação

51
Fábio Ulhoa Coelho, op. citada, pp. 383/384.
52
Fábio Ulhoa Coelho, op. citada, p. 221

23
cambial. De acordo com Amador Paes de Almeida 53
, “o aceite é o reconhecimento do
débito, obrigando o aceitante cambiariamente”.

39. ATO FACULTATIVO

Ressalte-se que o aceite se constituiu num procedimento da livre vontade do sacado,


sendo a sua recusa, um comportamento plenamente lícito, só ensejando ao credor, ação
ordinária em que mister se faz referência à origem do débito. "Mesmo que ele seja devedor
do sacador, ou do tomador, em razão de negócio ou ato jurídico que os vincule, o sacado
não está obrigado a documentar a sua dívida por um título de crédito" 54. Não é sem razão
que Theóphilo de Azeredo Santos argumenta que "não há aceite compulsório. Ele é, por
natureza, facultativo. O sacado não pode, em hipótese alguma, ser compelido, contra sua
vontade, a aceitar o título, ainda que na hipótese líquida e certa de encontrar-se na posição
de devedor” 55.

40. FORMA

Dá-se o aceite, geralmente, pela sua subscrição na face do próprio título (anverso),
no seu lado esquerdo, em sentido transversal. Mas nada impede que o seja em qualquer
outro local do título, inclusive no verso, desde que identificado o ato praticado pela
expressão "aceito" ou outra equivalente. Embora tal situação não seja coibida pela
legislação vigente, também não chega a ser recomendada, exclusivamente pelos eventuais
transtornos de ordem prática que pode acarretar, em função dos usos e costumes comerciais
vigentes.

41. MODALIDADES

Na realidade, conquanto o aceite não seja imprescindível à existência da letra de


câmbio, a sua apresentação ao sacado é obrigatória em se tratando de títulos com
vencimento a tempo certo da vista e facultativa, relativamente aos títulos a dia certo,
conforme se depreende do art. 23 da Lei Uniforme. Em nenhuma das modalidades - aceite
obrigatório e aceite facultativo - a falta do mesmo extingue a letra de câmbio, já que o
sacador, que é o seu criador, continua responsável, permitindo-se-lhe provar que o devedor
não aceitou o título.

42. ASPECTOS GERAIS

Por seus efeitos, o aceite assume extraordinária importância na atualidade,


merecendo por isso, uma análise geral de seus aspectos:

a) Protesto por falta de aceite – A falta de aceite pode resultar da própria


deliberação do devedor ou do fato dele não ter sido encontrado. Nas duas hipóteses o credor

53
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 34
54
Fábio Ulhoa Coelho, op.citada, p. 391
55
Theófilo de Azeredo Santos, Manual dos Títulos de Crédito, 2 a. edição.

24
deve protestar a letra para suprir a ausência de consentimento e possibilitar a sua regular
circulação (inciso I do art. 19 do Decreto 2.044/ 1908).

b) Agente capaz – Qualquer pessoa pode se obrigar cambialmente, desde que tenha
capacidade civil, podendo o sacado aceitar o título ou por si mesmo, ou por mandatário
especial.

c) Diversidade de sacados – Havendo diversos sacados, o sacador ou portador deve


apresentá-la ao primeiro nomeado. Na recusa, tira-se o protesto e passa-se ao segundo e
assim por diante 51.

d) Aceite parcial – Em seu art. 26, a Lei Uniforme admite o aceite parcial ou
limitado, declarando textualmente: "O aceite é puro e simples, mas o sacado pode limitá-lo
a unia parte da importância sacada".

e) Cancelamento – O art. 12 do Decreto 2.044 dispunha que o aceite, uma vez


firmado no título, era irretratável, não podendo ser cancelado ou retirado. A Lei Uniforme,
no entanto, admite que o sacado possa cancelar o aceite até antes da restituição da letra ao
apresentante. "Presume a lei que o cancelamento tenha ocorrido antes da restituição da
letra. Trata-se, porém, de presunção 'juris tantum', pois que admite prova em contrário" 56.

f) Restituição do título – Com muita propriedade, o comercialista DYLSON


DORIA chama a atenção para um aspecto de suma relevância jurídica. A Lei Uniforme
estabelece que o portador não é obrigado a deixar com o sacado a letra que apresentar para
aceite. Mas, se, a despeito disto, deixá-la e aquele se recusar a devolvê-la, poderá ser
compelido a fazê~lo, sob pena de prisão administrativa de que cuida o art. 885 do Código
de Processo Civil57.

43. CLÁUSULA “NÃO ACEITÁVEL"

Apesar do sacado não estar obrigado ao aceite da letra de câmbio, tal recusa pode
provocar determinadas conseqüências, como o vencimento antecipado do título previsto no
art. 43 da Lei Uniforme (salvo nas hipóteses proibidas no mesmo preceito) visando-se
resguardar os interesses do tomador do título. "Trata-se do vencimento antecipado, previsto
no art. 43 da Lei Uniforme. Se o sacado não aceitar a ordem de pagamento que lhe foi
dirigida, o tomador – ou o credor – poderá cobrar o título imediato do sacador, posto que
o vencimento originariamente fixado à cambial é antecipado com a recusa do aceite”58.
Incide idêntica conseqüência quando ocorrer recusa parcial (aceite limitativo o sacado
aceita pagar apenas parte do título ou aceite modificativo - o sacado adere à ordem cambial
alterando parte das condições fixadas no documento, corno o adiamento de seu
vencimento).
Para evitar a antecipação provocada pela recusa do aceite e com efeitos prejudiciais
ao sacador e a outros prováveis co-devedores do título, como a sujeição, como responsáveis

56
Augusto Toscano, op. citada, p.164
57
Dylson Doria, op. citada, p.32
58
Fábio Ulhoa Coelho, op. citada, p. 220

25
ao pagamento imediato do título, o art. 22 da Lei Uniforme possibilita a introdução da
cláusula "não aceitável", que proíbe a apresentação da letra ao sacado, antes do vencimento.

DA CIRCULAÇÃO E
TRANSMISSÃO DA CAMBIAL
SUMÁRIO: 44. Generalidades. 45. Modalidades de Transmissão.
46. Cláusula Permissiva de Circulação Cambiária. 47. Forma
Pela Qual Se Processa o Endosso. 48. Efeitos. 49. Espécies (Em
Branco e Em Preto). 50. Inadmissão de Endosso Parcial. 51.
Endosso-Caução. 52. Endosso Póstumo. 53. Reendosso. 54.
Cadeia de Endossos. 55. Endosso-Mandato

44. GENERALIDADES

A circulação da letra de câmbio é um dos fenômenos que mais contribuiu para o


extraordinário desenvolvimento do crédito nos últimos tempos. Essa transmissão ou
passagem de um título de uma pessoa para outra, de um proprietário ou possuidor legítimo
para outro, segundo a maioria absoluta dos autores, como DARCY ARRUDA MIRANDA
JR.59, é que propicia a mobilização e a circulação de riquezas.

45. MOBILIDADES DE TRANSMISSÃO

Há dois modos pelos quais normalmente se opera o giro cambial: pela tradição, que
consiste na entrega pura e simples da cambial ao seu novo proprietário, independentemente
de qualquer declaração escrita relativa à transferência 60 e pelo endosso translativo seguido
da tradição, que se constitui no meio pelo qual se transfere a propriedade de um título de
crédito, revelando-se num ato típico de circulação cambial.

46. CLÁUSULA PERMISSIVA DE CIRCULAÇÃO CAMBIÁRIA

A cláusula "à ordem" é permissiva à circulação dos títulos de crédito (ex: "... Por
esta única via pagará a Fulano ou à sua ordem...) e, de acordo com o art. 11 da Lei
Uniforme, ela não precisa vir expressa no contexto cambiário. O Código Civil prevê no
art. 904 que “a transferência de título ao portador se faz por simples tradição”. Por outro
lado, a cambial "não à ordem", cuja cláusula deve estar explícita, circula normalmente pela
forma e com os efeitos de uma cessão ordinária de crédito (cessão civil), conforme o
dispositivo legal supramencionado, também por sucessão "causa mortis", fusão,
incorporação etc. Neste aspecto, ressalte-se que o título à ordem, que for adquirido por
meio diverso do endosso, tem efeito civil (art. 919 do CCB): “Se alguém vier a adquirir
título à ordem por meio diverso do endosso, p.ex., em documento à parte, essa aquisição,

59
Darcy Arruda Miranda Jr., op. citada, p. 24
60
Paulo Maria Lacerda, A Cambial no Direito Brasileiro, 4a. edição, Ed. J. Ribeiro dos Santos, 1918, p.93

26
ou melhor, transferência, produzirá os mesmos efeitos da cessão civil, logo não gerará
conseqüências cambiais, pois perderá, portanto, seu caráter de título executivo”61

Muitos juristas negam a condição de título de crédito à letra de câmbio com a


cláusula "não à ordem", por entenderem como nós, que neste caso, falta-lhe um de seus
requisitos essenciais para que desempenhe a principal finalidade estrutural do instituto, que
é a de facilitar a livre negociabilidade e transferibilidade dos direitos nela incorporados.

47. FORMA PELA QUAL SE PROCESSA ENDOSSO

Tratando-se de declaração acessória, ele deve ser lançado no verso do título e para
sua validade, basta a assinatura do próprio punho do endossante (art. 8º do Dec. nº
2044/1900). Todavia, o art. 910 do Código Civil permite o seu lançamento também no
anverso. Nesta hipótese, é obrigatória a sua identificação como ato cambiário, não podendo,
para sua prática, apenas o endossante opor sua assinatura, como ocorre para simples
tradição.

Apesar de admitido por alguns autores, o endosso, por escritura pública não vem
sendo reconhecido e contra si, insurgem-se renomados comercialistas como CARVALHO
DE MENDONÇA: "O endosso não pode constar de ato separado, ainda que seja de
escritura pública, visto que é obrigação de estrito rigor formal. Deve ser lançado no verso
da letra de câmbio, para que se não confunda com outra obrigação cambial de diversa
natureza" 62.

48. EFEITOS

Além de transferir o título de crédito ao endossatário, o endosso também vincula o


endossante, salvo cláusula em contrário, à sua aceitação ou ao seu pagamento (art. 15 da
Lei Uniforme). Ilustrativamente, pode-se dizer que enquanto o endossatárío se torna o novo
credor da letra de câmbio, o endossante passa a ser um de seus co-devedores. Entretanto, há
endossos que não produzem nenhum destes efeitos. Assim, existe o denominado “endosso
impróprio” ou “endosso mandato”e o “endosso caução”, que serão mais adiante enfocados.

O endosso deve ser puro e simples. A transferência outorga ao endossatário poderes


para exercer todos os direitos que lhe são inerentes, de acordo com art. 893 do CCB. Por
isso, consoante o art. 912 d o mesmo estatuto, considera-se não escrita, qualquer condição a
que o subordine o endossante à solvência do crédito ou que limite os direitos contidos no
título.

49. ESPÉCIES (Em Branco e Em Preto)

O endosso comporta duas modalidades, a saber: a) endosso em preto, também


chamado de endosso pleno ou completo, onde estão presentes todos os elementos de que se
compõe (a cláusula de transmissão "à ordem", o nome do endossatário e a assinatura do

61
Maria Helena Diniz, op. citada, p. 631
62
J.X. Carvalho de Mendonça, Tratado de Direito Comercial, 6a. edição, 1963

27
endossante). Sua principal característica reside na circunstância de constar do título o nome
do endossatário, isto é, daquele a quem o endossador transfere a propriedade do título. e b)
endosso em branco, quando inexiste a indicação do beneficiário (ou endossatário) e consta
somente a assinatura do endossador (o mesmo que endossante no verso da letra), sendo
suficiente a tradução manual para que o título se transmita a outrem: A sua circulação pode
ocorrer como se fosse uma "letra ao portador", passível de posterior preenchimento pelo
interessado.

50. INADMISSÃO DE ENDOSSO PARCIAL

Por envolver todas as vantagens relativas ao crédito, a transferência não pode ser
parcial, ou seja, não se transfere parte do título, mas ele inteiro, com os direitos que
corporifica. O próprio art. 12 da Lei Uniforme decreta: "O endosso parcial é nulo.” O
parágrafo único do art. 912 do CCB também se reporta à mesma proibição.

Apesar dessa inadmissão, o mesmo diploma legal permite que o endossante possa
excluir sua responsabilidade relativamente ao aceite e ao pagamento da letra e vetar novo
endosso, e, se isto ocorrer, não terá responsabilidade perante aqueles a quem a letra for
endossada, apesar da proibição63.

O Código Civil Brasileiro dispôs expressamente no art. 914, que se o título não
conter cláusula expressa nesse sentido, não é responsável pelo cumprimento da obrigação
nele contida. Ao contrário, constando tal situação, torna-se devedor solidário da cártula,
assegurando-se no direito de regresso contra os coobrigados anteriores, se vier a pagá-la.

51. ENDOSSO-CAUÇÃO

Também denominado "Endosso Pignoratício" e bastante utilizado nas práticas e


usos comerciais, é aquele que contém a cláusula “valor em penhor”, previsto no art. 918 e
parágrafos do CCB. Constitui-se na caução (uma garantia que o próprio devedor oferece ao
credor, tomando efetiva a sua responsabilidade) ou dação em pagamento, que se equipara
ao penhor, vinculando o título ao pagamento da obrigação principal.

A sua existência é condenada por juristas de renome (WALDEMAR FERREIRA),


mas também admitida por outros de igual nível (MAGARINOS TORRES). No entanto, ele
tem sido levado a efeito, com expressa menção ao fato – "válido em garantia", perdendo,
outrossim, em muitos destes casos e por suas eventuais vinculações, a característica da
autonomia.

52. ENDOSSO PÓSTUMO

Também chamado "endosso tardio ou posterior", previsto no art. 920 do CCB. É


aquele efetivado em data posterior ao vencimento da letra, mantendo os mesmos efeitos do
endosso anterior. Somente o endosso posterior ao protesto por falta de pagamento ou

63
Walter T. Álvares, Curso de Direito Comercial, 1ª. edição, p. 593, 1979, Ed. Sugestões Literárias S.A.

28
lançado depois de expirado o prazo fixado para se fazer o protesto, produz os efeitos de
uma cessão ordinária de crédito (civil), isentando o endossante da vinculação cambial.

53. REENDOSSO

Urna letra pode sofrer reendosso, em vez de ser endossada para frente. O primeiro
endosso deve ser obrigatoriamente do tomador como beneficiário direto do crédito
declarado, sendo o único com legitimidade para transferi-la, "razão pela qual é inadmissível
o endosso de um título em branco sem o preenchimento prévio desse requisito" 64. Desta
forma, o endossatário poderá reendossar o título a um terceiro ou a qualquer outro figurante
do título, até mesmo o sacado, que antes do vencimento, poderá colocá-lo novamente em
circulação, reendossando-o, por exemplo, ao sacador.

Consoante disposição contida no art. 913 do CCB, o endossatário de endosso em


branco pode mudá-lo para endosso em preto, completando-o com o seu nome ou de
terceiro; pode endossar novamente o título, em branco ou em preto ou ainda pode transferi-
lo sem novo endosso, neste caso, através da cessão de crédito.

54. CADEIA DE ENDOSSOS.

Em caráter excepcional, a lei permite, notadamente na hipótese de cadeia de


endossos (vários endossos sucessivos, uns seguidos dos outros no mesmo título), que ele
seja aposto numa folha ligada ou colada à cártula, alongando-a, quando já não exista espaço
no verso do título, sem que se descaracterize o necessário formalismo cambial.

O art. 911 do CCB contempla a legitimidade do portador do título à ordem, com


série regular e ininterrupta de endossos “em preto”, mesmo que o último tenha sido sem
designação do favorecido. O parágrafo único dispõe que “aquele que paga o título está
obrigado a verificar a regularidade da série de endossos, mas não a autenticidade das
assinaturas, não tendo responsabilidade por eventual falsidade.

55. ENDOSSO-MANDATO

O endossante não transmite a propriedade do título ao endossatário, mas o investe


na sua posse, a fim de que promova, na condição de mandatário, a sua cobrança e passe a
respectiva quitação. O endosso-mandato não priva o titular dos seus direitos cambiais, mas
apenas transfere ao mandatário ou procurador o exercício e conservação desses direitos,
estando previsto no art. 917 do CCB.

64
Darcy Arruda Miranda Jr., op. citada, p. 20

29
DA GARANTIA DA LETRA DE CÂMBIO
SUMÁRIO: 56. Do Aval. 57. Efeito Primordial. 58. Natureza
Jurídica. 59. Aval Parcial. 60. Forma. Aval Antecipado. 61.
Quem Pode Ser Avalista. Indicação Para Quem Se Dá. 62.
Pluralidade de Avais. 63. Aval e Fiança. 64. Aval Póstumo.

56. DO AVAL

É forma de garantia do pagamento da cambial. Consoante apregoa PONTES DE


MIRANDA65, constitui-se numa declaração típica do direito cambiário ou cambiariforme.
No dizer de DYLSON DORIA66, "o aval é uma declaração cambial escrita na própria
cártula ou em seu alongamento, por cujo meio o seu subscritor, seja ou não um estranho à
relação cambiária, assume uma obrigação solidária, autônoma, direta e pessoal, que tem
por finalidade garantir o pagamento integral, ou parte da obrigação pecuniária,
resguardando-a contra os vícios que inquinem a sua substância".

57. EFEITO PRIMORDIAL

Pela solidariedade, o avalista se equipara ao devedor principal e na hipótese de


inadimplência deste, pagará todo o título. Desta forma, o avalista é responsável da mesma
forma que seu avalizado (art. 32 da LU e art. 899 do CCB), acrescentando-se que eventual
nulidade da obrigação do avalizado não compromete a do avalista, já que a sua obrigação é
autônoma em relação a do garantidor.
Ele pode ser acionado diretamente ou em conjunto com o devedor principal,
constituindo-se tal situação, uma faculdade do credor. É de se ressaltar que o avalista,
pagando o título, sub-roga-se nos direitos dele emergentes contra a pessoa do avalizado,
assim como em relação aos obrigados para com ele por virtude da cártula.

58. NATUREZA JURÍDICA

Doutrinariamente a questão não é pacífica, sendo várias as teorias que tentam


explicar a sua origem. De acordo com JOÃO EUNÁPIO BORGES 67, sintetizadamente, as
principais correntes são:

a) doutrina alemã: "o aval seria um ato substancialmente autônomo e independente


da obrigação garantida, da qual é apenas formalmente dependente";
b) doutrina francesa: o aval é conceituado como fiança;

65
Pontes de Miranda, Tratado de Direito Privado, Vol. XXXVII, p. 127
66
Dílson Dorya, op. citada, p. 43
67
João Eunápio Borges, Do Aval, cap. II, 3a. edição, Ed. Forense, 1960.

30
c) doutrina italiana:
1 - VIDARI (trata de fiança);
2 – BOLAFFIO (garantia formal, independente de obrigação garantida);
3 – VIVANTE (garantia peculiar às formas cambiárias).

A doutrina brasileira, por sua vez, segue com agrado a orientação da Lei 2.044 de
1908, a respeito de que o aval é obrigação autônoma, nada tendo em comum com a fiança.

59. AVAL PARCIAL

Ao contrário do endosso, o aval podia ser parcial, de sorte que garantia toda a letra
ou parte dela, conforme a Lei Uniforme. Entretanto, o Código Civil Brasileiro, no parágrafo
único do art. 897, vedou tal situação. Assim, o avalista se obriga pelo valor total do débito
consignado.

Há autores que entendem, por não ter o CCB revogado a LU, que se mantém a tal
possibilidade, ou seja, o aval pode ser outorgado parcialmente. A questão é complexa,
esperando consolidação jurisprudencial. No entanto, a doutrina dominante acena pela
impossibilidade, notadamente pelo aval não acatar o benefício de ordem, previsto na
legislação civil.

60. FORMA

O aval pode ser outorgado tanto na face anterior da cártula cambiária, como no seu
verso (art. 898). Produzido no anverso, ele se perfaz com a só assinatura do avalista.
Aposto no verso, à sua perfeição exige ainda o emprego da locução "bom para aval" ou
equivalente (“por aval" ou "aval"), junto à subscrição do garantidor.

Defeito de forma – Conquanto formal e autônomo, ao avalista é dado argüir defeito


de forma ou falta de requisito para o exercício da ação, porém, requisito como a falta de
aceite não exonera o avalista do devedor de pagar68. Constitui-se, na última hipótese, o
denominado aval antecipado.

Cancelamento. O aval que for cancelado, por inutilização da assinatura do avalista,


ou declaração expressa deste, será considerado não escrito (parágrafo segundo do art. 898
do CCB).

61. QUEM PODE SER AVALISTA

Todas as pessoas, desde que civilmente capazes, podem ser avalistas. Mas, à tal
qualidade, não se requer seja a pessoa estranha à relação cambial. Antes, qualquer dos
coobrigados, o endossante, o sacador, o próprio aceitante da letra podem ser avalistas 69.

68
STF, Rec. Extr. 67.378, DJ, 14.11.69, p.5432
69
Dyson Doria, op, citada, p. 43

31
Indicação da pessoa por quem se dá – A alínea quarta do art. 31 da Lei Uniforme
dispõe que "o aval deve indicar a pessoa por quem se dá". Não havendo essa menção,
entende-se que o aval foi prestado ao sacador da Letra de Câmbio ou ao emitente da Nota
Promissória.

62. PLURALIDADE DE AVAIS

O Supremo Tribunal Federal, através da Súmula 189, pacificou a jurisprudência ao


enunciar que "avais em branco e superpostos consideram-se simultâneos e não sucessivos".
Desta forma, para que um avalista se considere avalizado por outro, necessário é que o
segundo avalista declare a sua qualidade e em benefício de quem o faz.

63. AVAL E FIANÇA

As discussões doutrinárias sobre as eventuais semelhanças entre os institutos já


foram totalmente afastadas, estando os mesmos bem delineados com as suas próprias
características. Enquanto o aval é tipicamente mercantil e se constitui numa garantia
autônoma e solidária (art. 32 da LU), a fiança integra o Direito Civil e se revela numa
garantia em forma de contrato acessório (art. 837 do CCB). Além do mais, a legislação
outorga ao fiador o benefício de ordem (art. 827 do CCB), situação não prevista ao avalista.

Outras diferenças. É de se ressaltar ainda que a fiança pode ser limitada, inclusive
em valor inferior ao da obrigação principal, o que é vedado ao aval (arts. 822,823 e 897 do
CCB). Doutrinadores apontam outras diferenças, como Gladston Mamede: “..É lícito ao
credor exigir a substituição do fiador que se torna insolvente ou incapaz, na forma do art.
826, o que não alcança o aval. O fiador demandado pelo pagamento da dívida tem direito
a exigir, até a contestação da lide, que sejam primeiro executados os bens do devedor, por
previsão do art. 827 do Código Civil; o avalista não, pois responde como devedor
solidário, sendo lícito ao credor exigir diretamente dele a integridade do pagamento...”70

64. AVAL PÓSTUMO

O aval lançado após o vencimento do título não produzia efeitos cambiais (aval
póstumo). Em face de tal conseqüência, A.J. SARAIVA lançou a tese de que este aval seria
uma fiança 71, ao que não adere corretamente outros autores, como CARVALHO DE
MENDONÇA, pois além do aval não ser fiança em consonância com a Lei Cambial,
igualmente não se contrata fiança desta maneira 72.

O Código Civil Brasileiro dispôs expressamente que “o aval posterior ao


vencimento produz os mesmos efeitos do anteriormente dado” (art. 900). Assim, a questão
do aval póstumo atualmente está superada, ampliando-se a extensão da garantia, cuja
eficácia é a mesma, seja ela outorgada antes ou depois do vencimento do título.

70
Gladston Mamede, op. citada, p.137
71
J.A . Saraiva, op. citada, vol. I, p. 382
72
J.X. Carvalho de Mendonça, op. citada, vol. V, 2 a. parte, n. 762.

32
DA NOTA PROMISSORIA
SUMÁRIO: 65.Conceito. 66. Características. 67. "Causa
Debendi". 68. Requisitos Essenciais. 69. Nota Promissória
em Branco. 70. Título de Crédito Incompleto (ao tempo da
emissão). 71. Requisitos Supríveis. 72. Diferenças com a
letra de Câmbio. 73. Vencimento. 74. Impossibilidade de
Aceite. 75. Legislação Aplicável.

65. CONCEITO

Entendemos ser o conceito de MAGARINOS TORRES o mais abrangente em


relação ao tipo de título de crédito ora examinado. Com efeito, para ele "a nota promissória
é promessa de pagamento”, isto é, compromisso solene e escrito, pelo qual alguém e obriga
a pagar a outrem certa soma em dinheiro 73.

Como o próprio nome está indicando e a lei específica suplementa expressamente, a


nota promissória é uma promessa de pagamento. O emitente promete pagar, em certo prazo,
uma determinada soma em dinheiro 74.

66. CARACTERÍSTICAS

A Nota Promissória traduz uma promessa direta de pagamento que o devedor faz a
seu credor. Trata-se de um título de crédito, mediante o qual o seu emitente se obriga a
pagar a seu beneficiário, ou à sua ordem, a quantia em dinheiro nele declarada. Assim,
numa abordagem inclusiva de MAGARINOS TORRES, são as seguintes as suas
características: a) título formal; b) autônomo; c) transmissível; d) traduz obrigação
incondicional; e) instrumento de crédito; f) título cambial e g) comercial 75.

67. "CAUSA DEBENDI"

Na promissória há uma relação direta entre o emitente, como devedor, e o tomador


da nota, como credor. Nesta situação direta, pode-se discutir a causa do título, o motivo de
sua emissão ("causa debendi"). Enquanto isso, na fase de relação com terceiros, pelo
princípio da inoponibilidade das exceções, na hipótese do endosso da nota por parte do
tomador, já ao terceiro, como proprietário da nota, é irrelevante a motivação da relação

73
Antonio Magarinos Torres, Nota Promissória, Ed. Saraiva, 1928, p. 109
74
Walter T. Álvares, op. citada, 616
75
Antonio Magarinos Torres, op. citada, Cap. I, p.111

33
direta emitente-tomador. Por conseguinte, o terceiro, como endossatário, fará valer o seu
crédito contra o endossante e o emitente 76.

68. REQUISITOS ESSENCIAIS

Os requisitos essenciais da Nota Promissória vêm enumerados no art. 75 da Lei


Uniforme e 54 do Decreto nº 2.044/1908. Assim, ela deve necessariamente, conter os
seguintes requisitos: a) a denominação de "Nota Promissória" ou termo correspondente; b)
a soma em dinheiro a pagar; c) o nome da pessoa a quem deve ser paga e d) a assinatura de
próprio punho do emitente ou de mandatário especial.

69. NOTA PROMISSÓRIA EM BRANCO

Apesar da exigência do nome da pessoa a quem deve ser paga se constituir em


requisito essencial à Nota Promissória, esta pode ser emitida "em branco", facultado ao
portador preenchê-la posteriormente, hipótese em que se consideram lançados ao tempo da
emissão os referidos requisitos. "Quem emite nota promissória em branco celebra o que se
costuma chamar de contrato de preenchimento" 77. Ressalte-se aqui, em reforço a tal
possibilidade, o disposto na Súmula 387 do STF: "A cambial (e igualmente a Nota
Promissória, nos permitimos acrescentar) emitida e aceita com omissões ou em branco,
pode ser completada pelo credor de boa-fé, antes da cobrança ou do protesto".

70. TÍTULO DE CRÉDITO INCOMPLETO (ao tempo da emissão)

Por disposição expressa do Código Civil Brasileiro, o título de crédito, incompleto


ao tempo da emissão, deve ser preenchido de conformidade com os ajustes realizados (art.
891). O descumprimento destes pelas partes, não constitui motivo de oposição ao terceiro
portador, salvo se este, ao adquirir o título, tiver agido de má-fé (parágrafo único).

71. REQUISITOS SUPRÍVEIS

Em conformidade com o art. 76 da Lei Uniforme, há requisitos não essenciais, cuja


ausência é suprida por outro aspecto de idêntica força cambial. São assim considerados: a)
a época do pagamento (será considerada pagável à vista); b) a indicação do lugar em que se
deve efetuar o pagamento (valerá como sendo o do local onde o título foi passado) e c) a
indicação da data e do lugar onde a nota promissória é passada (considera-se como tendo
sido passada no lugar designado ao lado do nome do subscritor).

72. DIFERENÇAS DA LETRA DE CÂMBIO

Distingue-se a nota promissória da letra de câmbio por conter uma promessa em


lugar de uma ordem. Ademais disto, envolve duas partes – emitente e beneficiário – em
lugar das três figuras intervenientes daquela (sacador, sacado e tomador). Não bastasse, na
promissória o crédito é estabelecido por ocasião da emissão, o que não ocorre na letra de

76
Walter T. Álvares, op. citada, p.616
77
Revista dos Tribunais, 270/350

34
câmbio, cujo crédito preexiste à criação do título. Por outro lado, enquanto que nesta o
sacador responde apenas regressivamente, na outra o emitente se obriga diretamente.
A melhor base destas distinções entre os dois institutos é a que preconiza ser a Letra de
Câmbio uma promessa indireta de pagamento, já que o sacador se obriga por fato de
terceiro, ou seja, o aceite do sacado. A nota promissória representa uma promessa direta de
pagar, feita pelo seu emitente.

73. VENCIMENTO

A Nota Promissória, em consonância com o art. 55 do Decreto 2.044/1908, pode ser


passada: a) à vista: quando não se indica na cártula a sua data de vencimento, devendo ser
paga contra apresentação; b) a dia certo: que se constitui no procedimento mais usual,
fixando-se o dia do vencimento; c) a tempo certo da data: que indica que o título vencerá a
tantos dias, ou meses, ou anos, a contar da data de sua emissão.

Como na Letra de Câmbio, além do vencimento regular, a Nota Promissória pode


vencer-se também por antecipação, chamado vencimento extraordinário, que ocorre com a
declaração da falência do devedor ou da sua declaração como insolvente 78.

74. IMPOSSIBILIDADE DE ACEITE

"A Nota Promissória é uma promessa de pagamento e, por isso, não se aplicam, a
ela, as normas relativas à letra de câmbio incompatíveis com esta natureza da promissória.
Assim, não há que se cogitar de aceite, vencimento antecipado por recusa de aceite,
cláusula não aceitável etc" 79. Cite-se a título meramente ilustrativo, que não existe a figura
do "aceite" relativamente à nota promissória porque o próprio devedor é quem emite o
título, momento em que já aceita implicitamente a existência de uma obrigação.

75. LEGISLAÇÃO APLICÁVEL

A Nota Promissória está sujeita à mesma legislação aplicável à letra de câmbio.


Vigoram no Brasil, o Decreto nº 2.044 de 31/12/1908, nas partes não derrogadas e o
Decreto nº 57.663 de 24/1/1966 que introduziu em nosso país a Lei Uniforme da
Convenção de Genebra, de 07/6/1930, constante do Anexo I, excetuados alguns artigos do
Anexo II 80. Atualmente, também há normas legais referentes a todos títulos de crédito
expressamente previstas no Código Civil Brasileiro.

78
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 89
79
Fábio Ulhoa Coelho, op. citada, p. 244
80
Édson Mesquita de Paula, Leis Uniformes sobre Cambiais e Cheques, Como foram promulgadas e como
estão em vigor”, Ed. Jalovi Ltda., 1a. edição, 1983

35
DO CHEQUE
SUMÁRIO: 76. Conceito. 77. Origem. 78. Características.
79. Natureza Jurídica. 80. Figuras Intervenientes. 81.
Fundamentação Legal. 82. Requisitos Essenciais.

76. CONCEITO

De acordo com AMADOR PAES DE ALMEIDA, "o cheque é o título revestido de


determinadas formalidades legais contendo uma ordem de pagamento à vista, passada em
favor próprio ou de terceiro" 81.

Qualquer que seja a data lançada no título é sempre pagável à vista e se reputa não-
escrita qualquer cláusula que vise torná-lo instrumento de promessa de pagamento futuro.
Não se pode negar exeqüibilidade ao cheque a pretexto de ter sido emitido em garantia de
prestação futura, com desnaturamento de sua função normal 82. Assim, para o Direito
Comercial, inexiste cheque pré-datado, ou seja, ele não pode ter sua apresentação ao banco
sacado e sua cobrança judicial condicionadas ao cumprimento de eventuais obrigações
assumidas pelo credor.

No caso do cheque, desviado de sua função econômica, mas sem mácula aos seus
requisitos formais, configura doutrinariamente, apenas um caso de título irregular, porém,
nunca de título nulo ou inválido. E sua compensação, com base no raciocínio acima, valerá
até para o cheque sem data, ou mesmo, com data falsa83.

77. ORIGEM

As formas embrionárias do cheque foram inicialmente observadas em Roma, mas só


na Idade Média é que o instrumento surgiu de modo mais nítido, inicialmente através dos
mandatos de pagamento, passando daí a títulos originários dos próprios bancos. A França e
a Inglaterra disputam a origem da palavra cheque, que tanto pode vir do inglês check, como
do francês échequier, sendo as suas formas desenvolvidas pelos italianos na Idade Moderna
84

Admite-se como primeira referência oficial, ao uso do cheque no Brasil, o ano de


1845, por ocasião da fundação do Banco Comercial da Província da Bahia 81. Em relação
às normas brasileiras sobre cheques, a mais antiga que se indica é a Lei 1.083 de 1860,
sobre bancos de emissão e referência a "mandatos ao portador" 85.

81
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 95
82
Sergio Shimura, Título Executivo, Ed. Saraiva, 1997, p. 280
83
Humberto Theodoro Jr., artigo Exeqüibilidade do Cheque Emitido em Promessa de Pagamento e do
Cheque sem Data, AJURIS, 27/68.
84
Walter T. Álveres, apud, op. citada, p. 622
85
Vieira Lins e Thales Azevedo, História do Banco da Bahia, p. 58, 1969, Rio de Janeiro.

36
78. CARACTERÍSTICAS

Como observava THALLER, invocado por WALTER T. ÁLVARES86, o cheque é


em sua origem um instrumento de pagamento, mas acaba por se converter em instrumento
de crédito, pelo fato de ser emitido em favor de terceiros, bem como por circular em razão
de endossos 87. Apoiados em PONTES DE MIRANDA 88podemos dizer que são as
seguintes as suas características: a) é um título formal; b) abstrato; c) de prestação fungível
(em dinheiro); d) com pluralidade de obrigações; e) comercial (os fundos disponíveis
devem estar em bancos ou em poder de comerciantes) e f) de força executiva.

79. NATUREZA JURÍDICA

Quanto à natureza jurídica do cheque, esta se demonstra manifestamente


controvertida, sobressaindo-se várias posições teóricas: a) forma de mandato; b) instituto de
cessão; c) contrato com estipulação em favor de terceiro; d) uma delegação; e) promessa
unilateral; f) promessa mista e g) instrumento de pagamento. Em relação à última, pode-se
dizer que CARVALHO DE MENDONÇA foi um de seus maiores adeptos e para o qual o
cheque seria um título de exação, destinado aos pagamentos e liquidações, não se
constituindo num instrumento de crédito tecnicamente falando. Em tal seguimento, o
consagrado comercialista PAULO RESTIFFE NETO 89 assim se expressa: "O cheque – que
não é título de crédito e muito menos título de crédito causal – é instrumento de pagamento
que se exaure com o recebimento do seu valor”.

No entanto, com muita razão, a maioria dos autores, apesar de abalizadas opiniões
em contrário, consideram-no um título de crédito, ainda que tenha características próprias
ou que se utilize elementos comuns de outras figuras jurídicas. Acertadamente,
WALDIRIO BULGARELLI afirma tratar-se de um "título específico, com regime jurídico
próprio, autônomo” 90.

80. FIGURAS INTERVENIENTES

No cheque se encontram três elementos básicos: o emitente, o beneficiário e o


sacado. O sacador ou emitente é aquele que emite o cheque, que dá ou passa a ordem de
pagamento, assinando-a; o beneficiário, o portador, também chamado tomador, é a pessoa
em favor da qual ele é emitido e o sacado, ou seja, o estabelecimento bancário em poder do
qual se acham os fundos e que tem de efetuar o pagamento.

81. FUNDAMENTAÇÃO LEGAL

Atualmente, o cheque se encontra disciplinado pela Lei 7.357, de 2 de setembro de


1985, que acolheu quase todos os princípios do direito chéquico uniforme 17 e,

86
Walter T. Álvares, op. citada, p. 623
87
J.M. Othon Sidou, O Cheque e sua Certificação pelo Sacado, p. 9, 1971, Recife
88
Pontes de Miranda, Tratado de Direito Privado, vol. 37, parágrafo 4.093
89
Paulo Restiffe Neto, Lei do Cheque, 1973
90
Waldírio Bulgarelli, Direito Comercial: Títulos de Crédito, vol. III, ed. 1979

37
subsidiariamente, pela Lei Uniforme do Cheque, promulgada pela Lei n. 57.595 de
07/01/1966, naquilo em que não foi derrogada.

82. REQUISITOS ESSENCIAIS

Pelo art. 1º da Lei 7357185, o cheque deve conter: a) a palavra "cheque" inserta no
próprio texto do título e expressa na língua empregada à sua redação; b) ordem
incondicional de pagar quantia determinada; c) o nome do banco ou da instituição
financeira que deve pagar (sacado); d) a indicação do lugar do pagamento; e) a indicação da
data e do lugar onde o cheque é passado e f) a assinatura de quem paga o cheque ou de
mandatários com poderes especiais.

Na realidade, são considerados supríveis os requisitos "lugar do pagamento" (na sua


ausência, subentende-se que a praça para a quitação será a do local designado junto ao
nome do banco) e "lugar de emissão” (na sua omissão tem-se como sendo o do local
indicado junto ao nome do emitente).

38
ASPECTOS GERAIS DO CHEQUE
SUMÁRIO: 83. Fundos Disponíveis. 84. Conta-Corrente. 85.
Apresentação e pagamento. 86. Cheque Em Branco. 87. Cheque
com Pluralidade de Exemplares. 88. Morte ou Incapacidade do
Sacador. 89. Contra-Ordem e Oposição. 90. Descaracterização do
Estelionato. 91. Cheque Pré-Datado. Prática Atual.

83. FUNDOS DISPONÍVEIS

Como já se acentuou, o cheque é uma ordem de pagamento à vista, dada a um banco


ou instituição assemelhada, por alguém que tem fundos disponíveis no mesmo, em favor
próprio ou de terceiro 91. Entendem-se, fundos disponíveis como todas as somas
pecuniárias que possam ser exigidas pelo sacador, mediante ordens à vista que emite,
independentemente do modo pelo qual se tenham constituído, mas tão-somente o direito do
sacador de dispor deles 92. Representam-se por saldos ou créditos em dinheiro constantes
de conta corrente bancária, à disposição da pessoa, seja em razão de depósito em espécie
por ela própria feita no estabelecimento bancário como resultante de outros negócios, ou
ainda do próprio crédito que lhe é concedido.

A emissão de cheques sem fundos constitui infração à lei, ficando o sacador sujeito
às sanções impostas pelo Banco Central, além de outras penas em que possa incorrer
previstas na Lei Penal, como a decorrente do crime de estelionato (art. 171 parágrafo
segundo do Código Penal Brasileiro).

84. CONTA-CORRENTE

É o contrato em virtude do qual o Banco se obriga a receber os valores que lhe são
remetidos pelo cliente (correntista) ou por terceiros, bem como a cumprir as ordens de
pagamento do cliente até o limite de dinheiro nela depositado ou do crédito que se haja
estipulado 93.

85. APRESENTAÇÃO E PAGAMENTO

O pagamento é um meio extintivo das obrigações. "É inerente ao cheque o caráter


'pró solvendo'. Só seu efetivo recebimento extingue a dívida" 94. Por tratar-se de um título
de crédito à vista, o pagamento do cheque só pode ser exigido do Sacado contra a

91
Fran Martins, O Cheque Segundo a Nova lei, n.1, Ed. Forense, 2a. edição, 1987, p. 1
92
De Plácidoe Silva, op. citada, p. 602
93
Sérgio Carlos Covello, Contratos Bancários, Ed. Saraiva, 2a. edição, 1991, p. 92
94
Acórdão unânime da 4a. Câmara do Primeiro Tribunal de Alçada Cível de São Paulo, de 27/6/1979, Ap.
248.126 – Rel. Juiz Arthur de Godoy, RT 535:114

39
respectiva apresentação. "O pagamento do cheque só pode ser exigido mediante a
apresentação do original” 95.

Por outro lado, o ato de apresentação é de suma importância, já que existe um prazo
para o seu exercício, sob pena da perda de sua eficácia executiva contra endossantes e
avalistas, como veremos oportunamente. Os termos para apresentação são de um mês,
quando na praça onde deva ser pago e sessenta dias, quando passado em outra praça ou em
outro país.

Como se constata, o cheque, na condição de instrumento de pagamento tem curto


período de duração. No entanto, os bancos costumam pagar cheques fora do prazo de
apresentação, quando o emitente tenha fundos, inexistindo qualquer obstáculo para tal
procedimento.

"O Banco deve pagar os cheques à medida que forem sendo apresentados, visto que
o cheque é ordem de pagamento à vista, ainda que possua data futura. Na hipótese de dois
beneficiários se apresentarem à caixa do Banco com cheques, cujo montante supere o
saldo aa conta contra a qual foram sacados, o caixa deverá verificar qual dos cheques foi
emitido em primeiro lugar a fim de efetuar o pagamento. Se ambos os cheques tiverem a
mesma data, pagar-se-á o de numero inferior na presunção de que tenha sido emitido com
anterioridade. " (cf. Lei nº 7.357/85, art.40)96.

86. CHEQUE EM BRANCO

Contemplado expressamente pelo art. 13 da Lei Uniforme e admitido pelo direito


brasileiro, antes mesmo da Convenção de Genebra, cheque em branco ou incompleto é
aquele preenchido de forma incompleta, ou como diz PAULO RESTIFFE NETO, invocado
por AMADOR PAES DE ALMEIDA, "desfalcado de algum ou alguns dos seus requisitos"
e que, posteriormente, antes de sua apresentação, é completado pelo portador ou
beneficiário97. Na realidade, repete-se aqui o disposto na Súmula 387 do STF, que, por
extensão à Letra de Câmbio, permite que os títulos emitidos ou aceitos com omissões, ou
em branco, podem ser completados pelos credores de boa-fé antes da cobrança e do
protesto.

87. CHEQUE COM PLURALIDADE DE EXEMPLARES

Como exceção ao princípio da emissão em uma única via, a Lei 7.357/85, em seu
art. 56, admite o cheque com pluralidade de exemplares, exclusivamente em título nominal,
emitido num país para ser pago em outro, mantendo o que já dispunha o art. 49 da Lei
Uniforme. Assim reza o dispositivo da lei brasileira: "Excetuado o cheque ao portador,
qualquer cheque emitido em um país pagável em outro pode ser feito em vários exemplares

95
. Acórdão unânime da 4a. Câmara do Primeiro Tribunal de Alçada Cível de São Paulo, de 27/6/1979, Ap.
248.126 – Rel. Juiz Arthur de Godoy, RT 535:114
96
Sérgio Carlos Covello, op. citada, p. 132
97
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 128

40
idênticos, que devem ser numerados no próprio texto do título, sob pena de ser
considerado cheque distinto”.

88. MORTE OU INCAPACIDADE DO SACADOR

De acordo com o art. 37 da Lei 7.357/85, após a sua emissão, havendo morte ou
incapacidade do sacador, esses fatos não retiram os efeitos do cheque, que pode ser
validamente pago pelo sacado, havendo evidentemente, fundos disponíveis.
Alguns autores sustentam que com o falecimento do sacador, a provisão em mãos do
sacado i à não mais lhe pertence, pois os bens do "de cujus" passam aos seus herdeiros (art.
1572 do Cód. Civil Brasileiro). Todavia, o mesmo estatuto dispõe que a herança responde
pelas dívidas do falecido (art. 1796). Idêntico argumento se aplica à sobrevinda
incapacidade do passador do cheque 98.

89. CONTRA-ORDEM E OPOSIÇÃO

A lei prevê dois meios de obstar o pagamento do cheque: a contra-ordem (art. 35) e
a oposição (art. 36). Na primeira, o emitente pode fazê-lo mediante um aviso ao banco,
contendo as razões motivadoras do ato, via judicial ou extrajudicial. A oposição, por outro
lado, não revoga o cheque, apenas impede provisoriamente o seu pagamento, devendo
fundar-se em causas justificáveis.

Diferenças entre contra-ordem (ou revogação) e oposição - A contra-ordem é


privativa do emitente; produzirá efeito após o prazo de apresentação do cheque; é
justificada meramente com as razões pelas quais o emitente deseja praticar o ato; visa
desconstituir a ordem contida no cheque; não se exige que o emitente disponha de saldo em
conta; é ato definitivo. A oposição pode ser feita pelo emitente e também por qualquer
portador legitimado; produzirá efeito imediato; deve ser fundada em relevante razão de
direito, tal como furto, roubo, extravio ou apropriação indébita; não visa desconstituir a
ordem contida no cheque, mas somente evitar que o pagamento seja efetuado em favor de
quem não seria seu legítimo beneficiário; exige-se que exista saldo disponível em conta 99.

90. DESCARACTERIZAÇÃO DO ESTELIONATO

Pagamento com cheque sem fundos disponíveis, como garantia de débito, não
configura a infração prevista pelo art. 171 do Código Penal Brasileiro. Nesta hipótese,
corresponde a mero inadimplemento de contrato que caracteriza ilícito de natureza civil. O
cheque pré-datado, não reconhecido pelo Direito Comercial, emitido para assegurar
eventual dívida, não constitui ordem de pagamento à vista e o emitente, por isso, não é
obrigado a resgatá-lo antes da data aprazada.

"A emissão de cheque, com data posterior ao negócio, representa garantia de


dívida assumida, perdendo a sua função de ordem de pagamento à vista, pelo que a

98
Fran Martins, Títulos de Crédito, Vol. II, p. 88
99
José Cretella Jr. E José Cretella, Mil Perguntas e Respostas de Direito Comercial, Ed. Forense, 2a. edição,
1998, p. 110.

41
inexistência de provisão de fundos na conta do emitente, não serve a caracterizar o delito
do art. 171, parágrafo segundo" (Recurso 613 – Hábeas-Corpus do STJ).

"Em agosto de 1990, o Superior Tribunal de Justiça decidiu que a devolução pela
insuficiência de fundos de cheque pré-datado não configura crime de estelionato,
funcionando apenas, como garantia de um pagamento futuro e não imediato. Na visão do
STI, esse título de crédito, emitido com data futura, não é outra coisa, senão o
desvirtuamento do uso do cheque, juridicamente definido como pagamento à vista.
Entretanto, na hipótese das partes envolvidas na transação entrarem em acordo sobre a
data posterior à apresentação do cheque 'não pode falar, sendo ele devolvido, por falta de
fundos, na figura criminal prevista no art. 171 do Código Penal Brasileiro (estelionato)'.
No julgamento da concessão de uni 'habeas-corpus' impetrado pelo comerciante baiano
João Marques de Oliveira, que permitiu que a ação penal que lhe era promovida fosse
encerrada, os ministros do Superior Tribunal entenderam que o cheque funciona apenas
como um título de garantia de dívida, estabelecendo ainda, que as conseqüências civis do
ato perduram, cabendo à parte lesada, o ajuizamento de uma ação de reparação de danos
ou cobrança. Em seu voto, o ministro JOSÉ DANTAS destacou que, desde que aceito pelo
vendedor no ato da compra como obrigação futura, a devolução de um cheque por
insuficiência de fundos pode caracterizar o seu emissor tão somente como mau pagador,
não cabendo a ele, processo criminal" 100.

91. CHEQUE PRÉ-DATADO. PRÁTICA ATUAL

O cheque pós-datado constitui negócio quase sempre simulado, que se traduz na


substituição do título adequado à verdadeira operação realizada (nota promissória ou letra
de câmbio) realizada pelo cheque. De todo modo, o art. 28 da Lei Uniforme valida o título
com tal desvio de função e permite sua imediata apresentação, para pagamento, mesmo
antes da data regular 101.

Vale dizer, qualquer que seja a data lançada no cheque, o título é sempre pagável à
vista, e se reputa não escrita qualquer cláusula que vise torná-lo instrumento de promessa
de pagamento futuro. E o raciocínio impõe-se para o caso de cheque sem data. Na prática,
as duas situações se equivalem 102.

Atualmente, os comerciantes têm aceitado cheques pré-datados como pagamento de


eventuais parcelas mensais de negócios realizados a prazo. Apesar de contrariar
frontalmente as normas do Direito Comercial, tal prática vem sendo reconhecida pela
Jurisprudência. Nesse sentido, o seguinte julgado:

100
João Carlos José Martinelli, Cheque Pré-datado Sem Fundos não caracteriza Estelionato, artigo publicado
no suplemento Domingo Especial do Jornal da Cidade de Jundiaí, em 17/03/1991
101
Sérgio Shimura, op. citada, p. 280
102
Humberto Theodoro Jr. ,Exeqüibilidade do Cheque Emitido em promessa de Pagamento e do Cheque Sem
Data, Ajuris, 27/68

42
“Compra e venda de mercadoria em promoção. Cheque pré-datado para o dia do
pagamento do preço constante do anúncio. Apresentação ao banco sacado antes da data
combinada. Encerramento da conta da parte emitente. Responsabilidade do vendedor.
Compra e venda de eletrodoméstico em promoção amplamente divulgada pela
fabricante e pela vendedora, em conhecida e usual técnica de marketing. Comprador que
aderiu às condições anunciadas e assim manifestou a vontade negocial. Mercadoria
vendida e entregue contra o recebimento de cheque pré-datado para a data do pagamento
constante do anúncio e vinculado expressamente à campanha, tudo rigorosamente de
acordo com as condições oferecidas. Vendedor que desrespeita o pactuado, apresentando e
reapresentando o cheque ao Banco sacado antes da data combinada, com isso acarretando
o encerramento da conta bancária da parte emitente, caso em que se toma inequívoca a
responsabilidade da vendedora, de reparar o prejuízo causado, competindo ao julgador
arbitrar o valor da indenização, segundo a sua prudência" (TJRJ – Ac. 23 8/ 91 – 7a. C).

43
ESPECIES DE CHEQUES
SUMÁRIO: 92. Considerações Preliminares. 93. Cheque
ao Portador. 94. Cheque Nominal. 95. Cheque Cruzado.
96. Cheque para Creditar. 97. Cheque Visado. 98. Cheque
de Viagem. 99. Cheque de Matriz à Agência. 100. Cheque
Administrativo. 101. Cheque Marcado. 102. Cheque
Especial. 103. Cheque Postal. 104. Cheque Fiscal.

92. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

Várias são as espécies de cheques, algumas contempladas pela legislação, outras


consagradas ao seu arrepio, por força de usos e costumes mercantis103 . Sintetizadamente,
apresentamos aqui as mais conhecidas, embora poucas sejam efetivamente utilizadas no
cotidiano.

93. CHEQUE AO PORTADOR

Modalidade bastante freqüente nas relações comerciais de pequena monta, é aquele


que não indica o beneficiário (o tomador) ou que em seu lugar tem inserida a expressão ao
portador (art.8º, III – Lei 7.357/85).

A peculiaridade deste cheque está em que qualquer pessoa que o detém licitamente,
habilita-se a apresentá-lo para pagamento. Sua circulação faz-se da mesma forma como a
moeda, ou seja, pela simples tradição manual 104, e ainda que seja endossado, não se
modifica, não perde a sua condição de cheque ao portador, porém o endossante se torna
cambiariamente responsável.

Restrição Legal – A Lei 8.021/90, que dispõe sobre a identificação de contribuintes


para fins fiscais, limita a circulação de cheques ao portador, dispondo que os de valor
superior a 100 (cem) OTNs (R$100,00) contenham a identificação do beneficiário, sob
pena de não serem pagos ou compensados pelas instituições bancárias.

Na prática, entretanto, eles permanecem em grande uso e, qualquer que seja o valor,
circulam de mão em mão, persistindo devedores e credores indeterminados, até que o
último se mostra quando apresenta o título para cobrança junto à respectiva agência
financeira.

94. CHEQUE NOMINAL

Também chamado de nominativo, é aquele que consigna expressamente o nome do


beneficiário ou tomador - pessoa física ou jurídica, só podendo a este ser pago. Há dois
tipos de cheques nominativos: à ordem (endossável) e não à ordem (não endossável). O

103
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 109
104
Sérgio Carlos Covello, op. citada, p. 71

44
segundo não poderá ser transferido à terceiro por via de endosso, só sendo transmissível por
cessão civil, nos termos do Código Civil, perdendo o título sua eficácia executiva.

Consoante SÍLVIO RODRIGUES, "esta espécie de cessão encontra justificativa no


fato do crédito se apresentar como um bem de caráter patrimonial e capaz, portanto, de ser,
negociado. Da mesma maneira que os bens materiais, móveis ou imóveis têm valor de
mercado onde alcançam um preço, assim também os créditos, que representam uma
promessa de pagamento futuro, podem ser objeto de negócio, pois sempre haverá quem por
eles ofereça certo valor. A cessão desempenha, quanto aos créditos, papel idêntico ao da
compra e venda quanto aos bens corpóreos" 105.

95. CHEQUE CRUZADO

É aquele no qual o emitente o atravessa com dois traços paralelos, com isto
indicando que só pode ser pago a um banco (cheque cruzado em branco) e, se entre as duas
linhas cruzadas o emitente colocar o nome de um banco, isto significa que só a este banco
poderá ser pago (cheque cruzado em preto ou qualificado). Uma vez lançado o cruzamento
em um cheque, esse adere ao título de tal maneira que dele não pode vir mais separado 106.

96. CHEQUE PARA CREDITAR

Previsto na Lei Uniforme, mas também admitido pela Lei 7.357/85, é aquele que
não pode ser pago em dinheiro, mas tão somente creditado em conta do beneficiário. Os
seus efeitos são garantidos com a adoção da cláusula "para ser creditado" e que não admite
cancelamento.

97. CHEQUE VISADO

Para fins de liquidez do título e tranqüilidade do beneficiário, é aquele em que o


emitente requer ao banco (sacado) que bloqueie a quantia indicada, para garantia do
pagamento. Ou, em outras palavras, que o cheque seja certificado pelo sacado 107. Não era
espécie prevista em lei, mas os usos e costumes comerciais adotaram em grande escala esta
prática, vindo a constar do art. 7º da Lei 7.357/85.

98. CHEQUE DE VIAGEM ("TRAVELLER'S CHECK")

Espécie anteriormente muito difundida para fins de viagem, ele é sacado por bancos
para pagamento em suas agências sucursais, tanto no território nacional quanto no
estrangeiro. Normalmente já trazem impressa a quantia a ser paga. Como medida de
cautela, não são negociáveis, conquanto aceitos por hotéis internacionais e companhias de
turismo, pagáveis com a apresentação da identidade do portador.

105
Silvio Rodrigues, Parte Geral das Obrigações, 3a. edição, 1968, Ed. Max Limonad
106
J. M. Othon Sidou, Cheque e sua Certificação pelo Sacado, 1971, Recife.
107
Fran Martins, Títulos de Crédito, Ed. Forense, Vol. II, p. 101

45
Também denominados "cheques de turismo", sofrem restrição do Banco Central,
que só permite sua emissão pelos bancos por ele previamente autorizados e com a
observância das normas que dispõem sobre a emissão de cheques contra as próprias caixas.

99. CHEQUE DE MATRIZ À AGÊNCIA

É uma forma de cheque que se compra, numa agência, para pagamento em outra
agência do mesmo banco, em outra localidade. Em razão do grande desenvolvimento da
informatização, ele praticamente caiu em desuso.

100. CHEQUE ADMINISTRATIVO

Também denominado "cheque passado sobre o próprio sacador", ou ainda, "à ordem
de pagamento contra o ordenador", é o auto-saque, ou seja, através dele um banco pode
sacar contra um dos seus estabelecimentos ou filiais, em favor de terceiros. É, pois, o
cheque emitido pelo próprio banco, contra si mesmo. Passado (emitido ou sacado) contra o
próprio sacador 108.

Normalmente esse tipo de cheque, emitido pelo banco contra seu próprio caixa, é
comprado por clientes em qualquer agência bancária para pagamento de terceiros. O banco
emite em nome do cliente ou da pessoa física ou jurídica que ele (cliente) indicar. Quem
recebe pode descontar ou depositar sua importância numa das agencias do banco emissor,
que é responsável pelo seu pagamento. Ilustrativamente, cite-se que, para se resgatar um
título levado a protesto, o pagamento tem que se efetuar somente por cheque
administrativo.

A doutrina do Brasil e de outros países é pacífica em afirmar que o cheque passado


pelo próprio banco sacado perde a sua natureza de cheque para equiparar-se à nota
promissória pagável à vista 109.

101. CHEQUE MARCADO

É aquele que o banco obtém do seu portador, que como agente bancário (sacado),
indica um dia certo para o seu pagamento. Trata-se de um recurso da instituição para evitar
o pagamento à vista, e, se o portador isto permitir, exonera todos os coobrigados110.

102. CHEQUE ESPECIAL

Também conhecido por "cheque garantido" (ou mais propriamente, cheque de


provisão garantida). Com o fim de oferecer aos seus clientes papel de mais fácil aceitação
como instrumento de pagamento, muitas instituições bancárias passaram a inserir nos
formulários de cheque, cláusula de garantia de cobertura, tentando reforçar assim, a

108
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 124
109
Sérgio Carlos Covello, op. citada, p. 91
110
Walter T. Álvares, op. citada, p. 627

46
confiança do público nesse instituto. No direito pátrio não existem normas legais a seu
respeito, embora se constitua num uso comercial de manifesta aceitação.

Vale invocarmos aqui SÉRGIO CARLOS COVELLO: "O cheque especial, em


verdade, não só não é especial como também não garante seu pagamento. Sua peculiaridade
está em que a provisão, que nos outros cheques decorre das importâncias que o emitente
remete à conta corrente, vem reforçada por uma à abertura de crédito que o Banco celebra
com o correntista para, na eventualidade de faltar numerário efetivo na conta, poder
cumprir a ordem e debitar o valor, para posterior cobrança" 111.

103. CHEQUE POSTAL

Os Correios, por suas agências, fazem as vezes dos bancos, pagando os cheques
contra estes emitidos. A Lei 7.357/85 admite o cheque especial no art. 66, submetendo-o a
regime especial.

Ilustrativamente, cite-se que foi inaugurada a primeira agência do Banco Postal em


Sooretama, Espírito Santo, sendo a meta atingir mais de mil municípios onde não existam
agências bancárias. Assim, milhares de brasileiros poderão abrir e movimentar conta
corrente, depositar em poupança e utilizar outros serviços afins através dos Correios, que
mantêm unidades ou convênios na quase totalidade dos municípios do país.

104. CHEQUE FISCAL

O excedente do valor real de um crédito tributário (restituição ou repetição do


indébito), em determinadas circunstâncias, é realizado independentemente de qualquer
provocação, procedendo-se à devolução ao contribuinte por meio de cheque sacado pelo
próprio governo, em favor daquele. Este título de restituição está subordinado à legislação
especial e, a nosso ver, se insere nos chamados cheques especiais, cuja existência é
admitida pela Lei Uniforme, no seu art. 30 do Anexo II 112.

Alguns autores põem em dúvida a conceituação desse documento como cheque,


dada a natureza tributária e algumas distorções impostas à sua figura pelas normas
específicas. Rubens Requião, no entanto, acolhe tal espécie em sua classificação, "porque o
fundamento básico desse documento é o mesmo dos cheques comuns, embora tenha
circulação e efeitos restritos" 113.

111
Sérgio Carlos Covello, op. citada, p. 98
112
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 125
113
Rubens Requião, Curso de Direito Comercial, vol. II, Ed. Saraiva, 19a. edição, 1993, p. 420

47
DUPLICATA
SUMÁRIO: 105. Fatura Comercial. 106. Nota Fiscal-Fatura.
107.Conceito de Duplicata. 108. Origem. 109. Espécies. 110.
Requisitos. 111. Remessa e Devolução. 112. Aceite. 113.
Triplicata. 114. Duplicatas Simuladas. 115. Prova de Pagamento.
116. Protesto. 117.Reforma ou Prorrogação.

105. FATURA COMERCIAL

Dispõe a Lei de Duplicatas (Lei 5.474 de 18/07/68), em seu artigo primeiro, que "em
todo contrato de compra e venda mercantil, com prazo não inferior a trinta dias, contados
da data da entrega ou despacho das mercadorias, o vendedor deverá extrair a respectiva
fatura para apresentação ao comprador".

Compra e venda mercantil pode ser definida como sendo aquela na "qual alguém,
mediante certo preço, se obriga a transferira outrem a propriedade de certa coisa,
considerada objeto de comércio e adquirida com o fim de especulação e lucro, sendo
comerciante pelo menos unia das partes"114

A fatura é assim, uma nota do vendedor, que descreve a mercadoria, discriminando a


sua qualidade e quantidade, fixando-lhe o preço. Com a extração da fatura de venda, o
vendedor poderá sacar uma duplicata correspondente para circular como título de crédito.
Enquanto a primeira é obrigatória em toda venda mercantil com prazo não inferior a trinta
dias, a segunda se revela numa faculdade do credor. "A duplicata é documento acessório da
fatura, como esta o é de contrato de compra e venda” 115

Prevê, o artigo segundo do mencionado diploma legal que “no ato da emissão da
fatura, dela poderá ser extraída uma duplicata para circulação com efeito comercial, não
sendo admitida qualquer outra espécie de título de crédito para documentar o saque do
vendedor pela importância faturada ao comprador".

Ressalte-se que os negócios efetuados com prazo inferior a trinta dias ensejam apenas a
extração de nota fiscal (esse prazo caracteriza as vendas à vista, consoante entendia a antiga
legislação fiscal) que "é o documento de emissão obrigatória por parte do comerciante, por
ocasião da venda de produto ou de serviço, para efeitos tributários, indicando a
quantidade, o tipo de fornecimento e seu preço" 116.

106. NOTA FISCAL-FATURA

É o documento que resultou do convênio firmado em 1970, entre o Ministério da


Fazenda e as Secretarias da Fazenda dos Estados da Federação, pelo qual a nota fiscal passa
a funcionar também como fatura comercial, contendo as informações relativas à compra e

114
Descartes Drumond de Magalhães, Curso de Direito Comercial, Livraria Zeneth, vol. II,1924, p. 274
115
Carlos Fulgêncio da Cunha Peixoto, Comentários à Lei de Duplicatas, n. 85, Forense, 1970
116
Dylson Doria, op. citada, p. 111

48
venda mercantil e também as necessárias às finalidades tributárias. A fatura, a nota fiscal e
a nota fiscal-fatura não são títulos representativos de mercadorias, mas apenas documentos
que as descrevem117.

107. CONCEITO DE DUPLICATA

A duplicata é um título de crédito formal, circulante por meio de endosso,


representativo de um saque que encontra justificativa ou numa venda mercantil, ou num
contrato de prestação de serviços 118. É, portanto, um título eminentemente causal, já que só
pode ser emitido se houver um motivo que lhe dê origem (transação comercial ou prestação
de serviços).

108. ORIGEM

Indica-se o artigo 219 do Código Comercial como a nascente do instituto de duplicata.


Ele impunha ao comerciante que apresentasse a fatura por duplicado ao comprador, para
que ambos assinassem, ficando uma via com o vendedor e outra com o comprador. Era uma
prova que se buscava deixar manifesto o contrato de compra e venda 119.

Invocando PONTES DE MIRANDA, AMADOR PAES DEALMEIDA acentua que a


duplicata é título brasileiro de criação indígena e difusa. No sentido etimológico significa
cópia, traslado, duplicado 120. Tal duplicação não se constitui numa mera duplicação ou
cópia, como o seu nome poderia sugerir. Antes, trata-se de dotar o comerciante de um título
de crédito circulante que contém os requisitos impostos por lei, líquido e certo, facilmente
negociável.

109. ESPÉCIES

A lei prevê duas espécies básicas, com variações de forma. As espécies são:

a)duplicata de venda mercantil ou comercial: é a que se refere à compra e venda de


mercadorias;

b)duplicata de prestação de serviços: em que "as empresas, individuais ou coletivas,


fundações ou sociedades civis, que se dediquem à prestação de serviços poderão também,
na forma desta lei, emitir fatura e duplicata” (art. 20).

À fatura e à duplicata de serviços se aplicam as disposições referentes à fatura e à


duplicata de venda mercantil. Outrossim, os profissionais liberais e os que prestarem
serviços de natureza eventual também podem emitir fatura ou conta. Observe-se, nesse
caso, que não há emissão de duplicata, mas apenas de fatura ou conta 121.

117
José Cretella Jr. e José Cretella Neto, op. citada, p. 111
118
José Cretella Jr e José Cretella Neto, op. citada, p. 111
119
Walter T. Álvares, op. citada, p. 632
120
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 1509
121
Dílson Doria, op. citada, p.112

49
110. REQUISITOS

A lei impõe à duplicata possuir requisitos essenciais a fim de compor seu esquema
formal: a sua titularidade cambial denominação "duplicata"; número da fatura; data de
vencimento; o nome e domicilio do vendedor e comprador; a importância a pagar e o aceite
(este pode ser suprido pelo protesto por falta de aceite).

111. REMESSA E DEVOLUÇÃO

O vendedor é obrigado a emitir a fatura nas vendas a prazo igual ou superior a trinta
dias, mas se resolver também emitir duplicata, deverá remetê-la ao comprador dentro de
trinta dias da data de emissão. Não sendo duplicata à vista, o comprador deverá devolvê-la
dentro do prazo de dez dias, devidamente aceita ou acompanhada de declaração escrita
justificando a sua recusa. Nos dias atuais, essa prática está em desuso diante da
possibilidade de emissão da triplicata.

112. ACEITE

O aceite é obrigatório na duplicata e a lei o supre nas seguintes hipóteses: a) quando,


com a expressa concordância da instituição financeira cobradora, o sacado retém a
duplicata em seu poder até a data do vencimento, tendo comunicado, por escrito, ao
apresentante o aceite e a retenção (art. 7º, parág. 1º); b) quando a duplicata não for aceita,
mas tiver sido protestada e estiver acompanhada de qualquer documento comprobatório da
entrega e do recebimento da mercadoria (art. 15, 11) e c) quando não aceita e não
devolvida, tiver sido a duplicata protestada, mediante indicações do credor ou do
apresentante do título, com qualquer documento comprobatório da entrega e do
recebimento da mercadoria (art.15, parág. 2º, com a redação dada pela Lei 6.458, de 1977).

113. TRIPLICATA

No caso de extravio, perda ou falta de devolução de uma duplicata, assegura a lei ao


credor a extração de uma triplicata, que conterá os mesmos requisitos do título original,
substituindo-o. O art. 23 da Lei nº 5.474 que dispõe sobre a questão é bastante criticado por
diversos autores por sua incongruência, já que torna obrigatória a emissão da triplicata,
quando uma das modificações mais importantes da lei atual foi justamente a não
obrigatoriedade da extração da duplicata.

FRAN MARTINS 122, citando OSMAR JOSÉ MARTINS e ANGELUO A. AIQUEL,


argumenta que, "apesar de a duplicata não ser de emissão obrigatória nas vendas
mercantis aprazo, a lei tornou obrigatória a extração da triplicata, no caso de o título
original ser perdido ou extraviado". E prossegue o consagrado jurista: "... Uma vez,
contudo, que já não há mais obrigatoriedade na emissão da duplicata que, por isso, perdeu
a sua característica de documento quase que exclusivamente tributário para se tornar,
principalmente, um instrumento de cobrança de uma divida assumida por alguém que

122
Fran Martins, op. citada, vol. II, p. 205

50
adquiriu mercadorias aprazo, não existe razão suficiente para se obrigar a extração da
triplicata quando a duplicata é extraviada ou perdida, a não ser pelo fato de ser a
cobrança de vendas a prazo feita sempre por meio de duplicatas".

114. DUPLICATAS SIMULADAS

A duplicata simulada ou "fria" é tida como infração penal. Tanto a emissão quanto o
aceite de duplicata que não corresponda a uma venda efetiva ou a uma real prestação de
serviço, configura prática delituosa (art. 172 do Código Penal). A infração se consuma com
a expedição do título para aceite ou para desconto bancário.

Também incorrerá em infração penal aquele que falsificar ou adulterar a escrituração do


livro de “Registro de Duplicatas”, segundo disposto no parágrafo único do diploma legal
citado, pela redação que lhe foi dada pelo art. 26 da Lei n. 5.474.

115. PROVA DE PAGAMENTO

Dispõe o parágrafo primeiro do art. 9 da Lei 5.474/68, que “a prova do pagamento é o


recibo passado pelo legítimo portador ou por seu representante com poderes especiais, no
verso do próprio título ou em documento, em separado, com referência expressa à
duplicata”.

116. PROTESTO

A duplicata admite três tipos de protesto, ou seja, por falta de aceite, por falta de
devolução e por falta de pagamento. “Qualquer que seja a causa do protesto, se o
comprador não restituiu o título ao vendedor, ele se fará por indicações do credor
fornecidas ao cartório de protesto, segundo o que faculta o art. 13, in fine, da Lei de
Duplicatas. Trata-se de norma jurídica que excepciona o princípio da cartularidade, posto
permitir o exercício de direitos cambiários sem a posse do título. O protesto por indicação,
naturalmente, prescinde da exibição da cártula 123.

117. REFORMA OU PRORROGAÇÃO

Admite-se a reforma ou prorrogação do prazo de vencimento da duplicata, mediante


declaração em separado ou nela escrita e assinada pelo vendedor emitente, se não endossou
o título, ou pelo último endossatário. “Tal reforma, entretanto, para manter a coobrigação
dos demais intervenientes, por endosso ou por aval, requer a anuência expressa destes”124.

123
Fábio Ulhoa Coelho, op. citada, p. 268
124
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 160

51
DO PROTESTO
SUMÁRIO: 118. Conceito. Aspectos Gerais. 119. Protesto
Judicial. 120. Protesto Facultativo. 121. Protesto
Obrigatório. 122. Tipos de Protestos. 123. Importância do
Protesto ao Exercício do Direito Cambiário. 124. Protesto
Por Indicação. 125. Algumas Formalidades. 126. Defesas
do Devedor. 127. Sustação de Protesto. 128. Extinção do
Protesto Especial.

118. CONCEITO

Para nós, um dos melhores conceitos de protesto, é o que dispõe ser ele "o ato público e
solene, pelo qual o devedor toma conhecimento de que o portador de um título de crédito,
líquido, certo e exigível exige seu aceite ou pagamento e manifesta sua vontade de ressalvar
seu direito regressivo contra os coobrigados" 125.

São inúmeras as definições sobre o presente instituto, que na realidade, tem caráter
manifestamente preventivo ao exercício dos possíveis direitos cambiários. Com efeito, o
protesto no sentido que usaremos neste trabalho, é aquele denominado pelos tratadistas
como protesto extrajudicial ou comum, isto é, lavrado pelo oficial do cartório de protesto de
títulos mercantis.

Aspectos gerais – Podemos dizer, pois, que ele é um ato oficial e solene; é um ato
extrajudicial; objetiva conservar e ressalvar direitos; faz prova da falta ou recusa, total ou
parcial, do aceite ou do pagamento de um título de crédito e caracteriza a mora do devedor.

119. PROTESTO JUDICIAL

Trata-se de um procedimento cautelar específico, regulado pelo arts. 867 e seguintes do


CPC, destinado a manifestar a intenção do requerente em prevenir eventuais
responsabilidades de terceiros, alertando-os a fazerem alguma coisa, de determinada forma
ou a não fazerem, sob pena de responderem por perdas e danos. Ex. protesto por alienação
de bens. Não se confunde com o protesto de que tratamos aqui, disciplinado no art. 882 e
seguintes, que tem outra significação e diferente procedimento, sendo tirado junto ao
Registro de Protesto, com a finalidade principal de provar a falta de aceite ou de pagamento
do devedor e a ressalva de direitos, com relação aos coobrigados.

Enquanto no primeiro a medida é requerida ao juiz competente, formando-se os autos


que serão apensados ao processo principal a ser instaurado, no segundo, o título é levado ao
oficial e este avisa o devedor. Não havendo pagamento, no prazo, é lavrado o protesto sem
interferência do juiz. Daí a sua denominação extrajudicial.

120. PROTESTO FACULTATIVO

125
Orlando de Assis Correa, Processo Cautelar e Sustação de Protesto (Teoria e Prática)”- Aide Editora, 1a.
edição, 1980, p. 62.

52
O título cambial não precisa ser protestado para ser executado ou cobrado. Assim, o
protesto é facultativo em relação aos obrigados principais (devedores), aceitantes e seus
respectivos avalistas, já que os últimos lhes são equiparados para todos os efeitos. Ele
objetiva aqui, tão somente caracterizar a impontualidade do devedor. Exemplificando: se A
emite uma nota promissória em beneficio de B, tendo sido avalizada por C. Na data de seu
vencimento, se o título não for resgatado, A poderá executar ou cobrar B e C, diretamente,
sem levar a cambial a protesto.

121. PROTESTO OBRIGATÓRIO

Em relação aos coobrigados (sacador, endossantes e seus avalistas) o protesto é


obrigatório, já que constituiu em instrumento indispensável ao exercício de eventual ação
de regresso pelo portador. Assim, por exemplo, A emite uma Nota Promissória a favor de B
que a endossa para C e este para D que passou a ser o seu legítimo possuidor. Na data do
vencimento, se A não pagar D e este vier a receber de C, o último, para poder exercer o seu
direito regressivo contra o sacador e o sacado que o endossou (A ou B) deverá
obrigatoriamente protestar o título.

É de se ressaltar que alguns autores se insurgem contra a expressão "protesto


obrigatório”, pois a rigor, ninguém é obrigado a protestar um título, afirmando
textualmente RUBENS REQUIÃO: "Essa expressão -protesto obrigatório - é condenada,
de vez que se contesta a existência de protesto obrigatório no direito brasileiro. O que
existe, isso sim, é o protesto necessário, e esse de natureza cambiária, para aprova da
apresentação do título, com finalidade assecuratória do direito de regresso” 123. Todavia,
o que pretendeu o legislador foi acentuar que, em determinadas circunstâncias e para
determinados fins, o protesto é fundamental, indispensável, necessário126.

122. TIPOS DE PROTESTO

O protesto pode ser lavrado:

a) por falta de pagamento: que é o mais comum e no qual o devedor paga ou apresenta
prova do pagamento ou o título será protestado;

b) por falta de aceite: geralmente são protestadas as duplicatas de fatura e letras de


câmbio. Em ambos os casos, o devedor ou aceita o título, conforme lhe é apresentado ou o
protesto será lavrado;

c) por falta de devolução: nos casos das duplicatas não devolvidas pelos devedores,
contrariando a legislação pertinente;

d) para determinar o vencimento extraordinário: na ocorrência da falência do aceitante


o portador vale-se da ação de regresso contra os coobrigados, já que a quebra produz o
vencimento antecipado de todas as dívidas do falido.

126
Rubens Requião, Curso de Direito Falimentar, Ed. Saraiva, 1984.

53
123. IMPORTÂNCIA DO PROTESTO AO EXERCÍCIO DO DIREITO
CAMBIÁRIO

Há de se distinguir na questão relativa ao termo do protesto, se o mesmo é facultativo


ou obrigatório. O primeiro, como sabemos, poder ser levado a efeito a qualquer tempo,
observado tão-somente o prazo prescricional, ocorrendo na falta de aceite, de devolução ou
de pagamento. O mesmo não ocorre com o segundo, que, se não exercido tempestivamente,
desonera os coobrigados, impossibilitando a interposição de eventual ação de regresso. Os
prazos estão previstos na Lei Uniforme e serão verificados oportunamente.

124. PROTESTO POR INDICAÇÃO

Não tendo a duplicata sido devolvida pelo comprador no prazo especificado pela lei,
sem que para essa não devolução haja um motivo justificado (como, por exemplo, a
retenção autorizada pelo vendedor), o portador terá que tirar o protesto mediante simples
indicações feitas ao Oficial de Protesto, visto como não dispõe, o portador, de título para
fazer presente àquele serventuário.

Nesta hipótese, para se requerer a eventual falência de um comerciante devedor, o


credor deverá juntar o protesto por indicação e emitir uma triplicata afim, para acompanhar
a peça vestibular.

125. ALGUMAS FORMALIDADES


Como já dissemos, o protesto é um ato solene, formal, destinado, principalmente, a
comprovar a falta ou recusa de aceite ou de pagamento da cambial. Assim, reveste-se de
algumas* formalidades que lhes são peculiares. Entre elas, podemos citar:

a)Local: Como regra geral, o protesto deve ser tirado no local onde deva ser exigida a
obrigação. Por exemplo, um cheque emitido em Santos, cuja praça de pagamento seja
Jundiaí, após a sua apresentação sem que contenha provisões, será protestado na segunda
cidade, onde deveria ser solvido, e não no município onde foi passado. Exceção: as partes
podem eleger, de comum acordo, outro local, fazendo constar do título, por exemplo, o
lugar indicado para aceite ou o domicílio do sacado;

b) Intimação: Constituindo-se num dos requisitos essenciais do protesto, o devedor


obrigatoriamente deve ser intimado para pagar o título em setenta e duas horas, sob pena de
protesto. Se não for encontrado, será cientificado pela imprensa, outorgando-se-lhe igual
prazo a partir da publicação;

c) Cancelamento: O protesto não se caracteriza pela perpetuidade e, pode ser cancelado


por autorização judicial ou por anuência do próprio credor que tenha recebido o valor do
título após a lavratura do respectivo instrumento.

126. DEFESAS DO DEVEDOR

Tendo recebido o aviso do oficial de protestos de que contra si existe um título a ser
protestado por quaisquer das razões admitidas pela legislação, o interessado que não queira

54
pagar, aceitar ou devolver por motivo judicialmente relevante, poderá utilizar-se de dois
tipos de defesas, ou seja, através de medidas administrativas ou sustação judicial de
protesto.

Em casos raros, até excepcionais, ocorrendo erro ou dolo do oficial de protestos e não
se solucionando o impasse diretamente com este, através de medida administrativa, o
credor poderá dirigir-se, da mesma forma, ao juiz corregedor, solicitando desde logo, com a
máxima urgência, a ordem liminar de sustação. “... A medida é administrativa, como
administrativo será o processo em que se apurará definitivamente se existe ou não erro ou
dolo do oficial. Já o mandado de segurança, se for impe-trado, ante a denegação da ordem
pelo juiz corregedor, este sim, será processo de procedimento especial” 127.

Enfatizando a raridade de casos em que ocorrerão simples medidas correcionais,


destaca PEDRO VIEIRA MOTA: "Serão raras as hipóteses de sustação do protesto como
medida correcional, pois os casos hão de ser simples, para patentear-se logo o abuso...
Precisamente por patentear-se logo o abuso, caberá a sustação como medida administrativa,
da mesma forma que caberia a recusa do Oficial de Protesto em tirar o protesto" 128.

127. SUSTAÇÃO DE PROTESTO

Embora não prevista expressamente na legislação cambiária, trata-se de uma medida


judicial cautelar que objetiva impedir eventual abuso de direito. Sustado o protesto de um
título de crédito, o interessado terá trinta dias da concessão da liminar para propor a ação
principal que, normalmente, visa anular a relação cambial ou o próprio título levado a
cartório.

Apesar de atender ao disposto no art. 797 do CPC, alguns autores entendem-na como
ação de rito especial. "Estudando tal matéria, e, salvo melhor juízo, cheguei à conclusão de
que a sustação de protesto não é Medida Cautelar, como tem sido considerada, mas, sim,
uma AÇAO DE RITO ESPECIAL que deve ser proposta com suporte no art. 28 do Dec.
2.044 e dentro dos três (3) dias ali previstos, com igual prazo para contestação, mantendo-
se a igualdade entre as partes" 129. Todavia, o seu processamento acolhe as normas editadas,
em sua plenitude, às medidas cautelares, passando a impróprias ou frágeis, quaisquer
discussões sobre tal pertinência.

A sustação de protesto se constitui numa medida de vital importância em nossos dias,


posto que, uma vez lavrado, são inúmeras as conseqüências advindas do protesto, tanto ao
comerciante, como para o não comerciante. Entre outras, pode-se dizer que o devedor se
impossibilita de obter "certidão negativa de protestos", sem a qual não conseguirá
concretizar operações financeiras em geral, inclusive as relacionadas à aquisição de casa
própria. Por outro lado, como elemento exteriorizador da impontualidade, pode sujeitar o
comerciante a um pedido falimentar e a sua conseqüente quebra. Ela sempre terá a

127
. Orlando de Assis Correa, op. citada, p. 68
128
Pedro Vieira Mota, Sustação de Protesto Cambial, São Pulo, 1976, 5a. edição.
129
Edson Ribeiro, artigo Ação de Sustação de Protesto,Artigo 28 do Decreto 2.044 de 31/12/1908, publicado
na Revista Jurídica n. 97, janeiro/fevereiro de 1983, p. 47

55
finalidade de obstar o protesto de um título que se tem por nulo, seja por qualquer motivo
que lhe traga esta característica, protegendo cidadão de abusos que se lhe tentem cometer.
O foro competente é o do cartório de protestos, já que, medida eminentemente u gente,
visando manter maculado o crédito de alguém, não poderia interpô-la em outro juízo, sob
pena de se ver frustra o resultado perseguido.

128. EXTINÇÃO DO PROTESTO ESPECIAL

Embora não mais previsto na legislação, vale mencionar o denominado “protesto


especial”, utilizado para fins falimentares. Com efeito, a falência decorre da insolvência do
devedor comerciante, estado econômico-financeiro que se revela, ou pela impontualidade
ou pela prática dos denominados "atos suspeitos", previstos respectivamente na Lei
Falimentar. A impontualidade, por sua vez, não se exterioriza não pelo descumprimento de
uma obrigação pecuniária (falta de pagamento), mas pelo protesto, sendo ele então,
imprescindível à propositura da ação falimentar. A rigorosidade desse princípio era tão
latente, que até mesmo os títulos que normalmente não estavam sujeitos ao protesto
comum, deveriam ser protestados para fins falimentares, conforme dispunha o art. 10 da
Lei de Falências anterior (Dec.-Lei 7.661/1945): "Os títulos não sujeitos a protesto
obrigatório devem ser protestados, para o fim da presente Lei, nos cartórios de protesto de
letras e títulos, onde haverá um livro especial para o seu registro”.

Assim era o chamado protesto especial, ao qual estavam sujeitas as sentenças judiciais,
inclusive trabalhistas, desde que com suas contas de liquidação devidamente homologadas
pelo R. Juízo, e assim, líquidas e certas, poderiam fundamentar pedido de falência do
devedor. A título ilustrativo, citemos AMADOR PAES DE ALMEIDA: "A necessidade de
protesto de sentença para requerimento de falência surge aos ouvidos dos desatentos como
verdadeira heresia jurídica, e até mesmo advogados militantes, obviamente alheios ao
processo falimentar, ignoram o princípio, e, o que é mais grave, inclusive alguns escrivães
de cartório, que por dever de ofício deveriam conhecê-lo, simplesmente o estranham...” 130

A atual Lei de Falências (Lei 11.101 de 09 de fevereiro de 2005) extinguiu a


possibilidade de se obter o denominando “protesto especial”, não tendo, inclusive, previsto
o instituto em suas normas.

130
Amador Paes de Almeida, Curso de Falência e Concordata,, Ed. Saraiva, 10a. edição, p.25

56
DA AÇÃO CAMBIAL
SUMÁRIO: 129. Títulos Executivos Extrajudiciais. 130.
Ações Executiva e de Conhecimento. 131. Tipos de Ações
Cambiais. 132. Ação de Locupletamento. 133. Direito de
Regresso Sem Protesto.

129. TÍTULOS EXECUTIVOS EXTRAJUDICIAIS

A Letra de Câmbio, a Nota Promissória, o Cheque e a Duplicata são títulos


executivos extrajudiciais, enumerados no inciso I do art. 585 do Código de Processo Civil.
Nesta condição, a força executória que possuem, não provém do ato judicial que aplica o
direito à espécie, mas sim deriva da lei, que teve em conta, sobretudo, o caráter dinâmico
das relações comerciais, de sorte a dispensar o prévio processo de conhecimento para
conferir aos títulos que ela indica essa natureza. "É compreensível, por isso, que a defesa do
executado, quando se tratar de título extrajudicial, abranja uni campo bem mais vasto que a
defesa do devedor, na execução de título judicial, esteja oriundo de um processo em que a
matéria foi largamente discutida, não se admitindo novo debate, que somente serviria para
protelar o desfecho da lide" 131.

Convém aduzir que é o título cambiário que gera o título executivo e garante a via
executiva, e não o negócio subjacente. A função econômica do título não está ligada à sua
eficácia cartular, que na verdade, nasce não do negócio fundamental, mas da perfeição
formal do documento 132.

130. AÇÕES EXECUTIVA E DE CONHECIMENTO

O que redunda do rigor cambiário é a possibilidade executar o título de crédito


vencido e não pago, através de uma modalidade de ação cambial, desde que preencha os
requisitos essenciais e seja devidamente protestado nas hipóteses em que tal providência se
mostrar indispensável. Caso contrário, o documento eivado de vícios ou prescrito, impedirá
o seu exercício, acarretando ao portador, desgastes de ordem pessoal, já que se socorrerá de
uma possível ação ordinária para fazer valer os seus direitos.

Há nítidas diferenças entre um e outro procedimento. O que os distingue,


fundamentalmente, é a destinação de um – enquanto no processo de conhecimento tudo
que s visa preparar uma sentença de mérito, no de execução o objeto pretendido é a
realização prática da vontade do direito mediante a satisfação do credor" 133.

Verifica-se que é diversa a índole da atividade jurisdicional realizada num e noutro


processo. Enquanto no de conhecimento ela é essencialmente intelectiva, no de execução se
manifesta de maneira preponderante, através de atos materiais, destinados a modificar a

131
Paulo Furtado, Execução, Ed. Saraiva, 2a. edição, 1991, p. 36.
132
Humberto Theodoro Jr., op. citada, p. 27
133
Candido Dinamarco, Direito Processual Civil, 1974, Ed. Revista dos Tribunais, p. 199

57
realidade sensível, afeiçoando-a, na medida do possível, àquilo que, segundo o direito, ela
deve ser 134.

ParaWILLARD DE CASTRO VILLAR, invocado pelo consagrado jurista PAULO


ROBERTO COLOMBO ARNOLDI, ambas as ações conhecimento e de execução – se
completam: "Na ação de conhecimento pretende-se uma sentença de mérito; na ação
execução, a imposição da sanção. A execução é um meio conseguir o resultado final que é
a satisfação do credor e o direito de obter o cumprimento da sanção. É um direito
instrumental, coordenado àquele fim, não o próprio fim. O seu objeto é a realização
forçada do direito" 135.

Em nossa opinião, a grande vantagem de se utilizar do processo de execução, é que


neste, o devedor para apresentar defesa (embargos) oferecerá ou terá um de seus bens, de
valor equivalente ao débito já penhorado, ou seja, o Juízo já permanece garantido
praticamente desde o início do feito. No processo de conhecimento, esta fase só se efetivará
após a instrução, prolação de sentença, eventuais recursos e liquidação da conta, o que
poderá denotar um longo e desgastante período de tempo.

131. TIPOS DE AÇõES CAMBIAIS

Basicamente existem dois tipos de ações cambiais, a saber:

a) Ação Cambial Direta: É aquela que se destina à cobrança dos obrigados


principais, ou seja, os que assumiram o compromisso expresso de pagar o título. São eles:
aceitante e seus avalistas na Letra de Câmbio e Duplicata; emitente e seus avalistas na Nota
Promissória e sacado e seus avalistas no Cheque. NESSA AÇAO NAO HA
NECESSIDADE DO PROTESTO CAMBIAL.

b) Ação Regressiva: É aquela que se promove contra os coobrigados de regresso, ou


seja, aqueles que assumiram a obrigação de pagar o título de forma indireta e subsidiária.
São os chamados devedores indiretos ou regressivos (endossantes, avalistas e sacador).
A obrigação subsiste na hipótese dos obrigados principais não a cumprirem naturalmente
quando do vencimento do título. NESSA AÇÃO É IMPRESCINDíVEL SER TIRADO O
PROTESTO CAMBIAL NOS TERMOS DOS ARTS. 43 E 53 DA LEI UNIFORME E 19
E 32 DA LEI CAMBIAL. O PROTESTO OBRIGATóRIO, NÃO EXERCIDO EM
TEMPO HÁBIL, DESONERA OS COOBRIGADOS.

132. AÇÃO DE LOCUPLETAMENTO

Prescrito o direito à ação cambial, prevista nos arts. 49 e 50 do Decreto n.


2044/1908 (Lei Cambial), ocorre a desoneração da responsabilidade dos endossadores e
avalistas, e esta desoneração pode ocasionar um prejuízo para o portador e um
correspondente enriquecimento para o aceitante ou sacador. Sendo assim, o portador não
terá outro recurso, para se compensar dos prejuízos, a não ser a AÇÃO DE

134
José C. Barbosa Moreira, O Novo Processo Civil Brasileiro, Vol. II, Ed. Forense, p. 7
135
Paulo Roberto Colombo Arnoldi, Ação Cambial, Ed. Saraiva, 1991, pop. 25/26.

58
ENRIQUECIMENTO SEM CAUSA ou LOCUPLETAMENTO, prevista no art. 48 da
mencionada lei que estabelece: "Sem embargo da desoneração da responsabilidade
cambial, o sacador ou o aceitante fica obrigado a restituir ao portador, com os juros
legais, a soma com a qual se locupletou à custa deste". Ela obedece ao rito ordinário na
fase de cognição, permite a discussão sobre a relação subjacente que deu origem a emissão
do título e tem prazo prescricional de vinte anos.

Por outro lado, ressalte-se que o portador do título de crédito marcado pela
prescrição perde o direito de ação contra os demais obrigados no título, restando-lhe
somente ação contra os devedores principais. Nesta trilha, é a lição de JOSÉ MARIA
WHITAKER: "Somente contra os devedores principais da letra, sacador e aceitante, cabe
a ação de locupletamento. Não cabe contra o avalista, porque este, em regra, nada tendo
recebido, nada poderá também ter lucrado com a desoneração da responsabilidade
cambial; nem tampouco, contra os endossantes, porque, normalmente, terão pago a seus
cedentes o que tiverem recebido de seus cessionários; nem, ainda, contra o sacado que não
aceitou, apesar de ter recebido provisão para o fazer, precisamente porque, não tendo
aceito, deixou de contrair com o portador qualquer responsabilidade cambial” 136.

Consigne-se, finalmente, que o portador na ação de locupletamento, só poderá haver


o seu prejuízo real, ou seja, o que despendeu pelo título, acrescido dos juros legais 137.

134. DIREITO DE REGRESSO SEM PROTESTO

Embora a regra geral disponha que a ausência de protesto provoca a prescrição


contra os coobrigados, há, todavia uma variante. O sacador, endossante e avalista podem
inserir na letra uma cláusula com as seguintes palavras: “sem protesto" ou "sem despesas" e
com isto, o detentor da letra fica dispensado do protesto, da seguinte forma: a) se a cláusula
for inserida pelo sacador, então produz seus efeitos em relação a todos os signatários da
letra; e b) se a cláusula for escrita por endossante, ou avalista, só produz este efeito de
dispensa do protesto em relação a ele.

Por conseguinte, utilizada esta variante, é possível haver direito de regresso mesmo
sem protesto da letra, pelo que é vantajoso negociar-se letra da qual conste a cláusula
inserida pelo sacador 138.

136
José Maria Witaker, Letra de Câmbio, 4a. edição, Ed. Saraiva, 1950.
137
Paulo Roberto Pereira de Souza, op. citada, p. 19
138
Walter T. Álvares, op. citada, p. 601

59
DA PRESCRIÇÃO CAMBIAL
SUMÁRIO: 135. Da Prescrição. 136. Da Prescrição
Cambial. 137. Prazos Prescricionais. Da Letra de Câmbio
e da Nota Promissória. Início do Lapso Prescricional. Do
Cheque. Da Duplicata. 138. Interrupção da Prescrição.
139. Efeitos da Prescrição em Matéria Cambial.

135. DA PRESCRIÇÃO

Para que seja possível o equilíbrio das relações jurídicas é que todo sistema
consagra o instituto da prescrição, que exprime o modo pelo qual o direito se extingue, à
vista do seu não exercício por certo lapso de tempo. Como observa PONTES DE
MIRANDA, "os prazos prescricionais servem à paz social e à segurança jurídica. Não
destroem o Direito; não cancelam, não apagam as pretensões; apenas, encobrindo a
eficácia da pretensão, atendem à conveniência de que não perdure por demasiado tempo a
exigibilidade ou a acionabilidade” 139. A prescrição atinge, de regra, o direito de ação. Sem
ação temos um direito mutilado, pois não poderá ser exercitado por seu titular. A inércia do
credor toma presumível o seu desinteresse, consagrando o Direito o princípio de que
"dormientibus no sucurrit jus", ou seja, "a lei não socorre os que dormem" 140.

É importante reiterar que a prescrição afeta o direito de exercício da ação de


execução, implicando dizer que a ação de cobrança, pelo rito comum, fica intacta. "Pelo
princípio da proibição do enriquecimento sem causa do devedor, em detrimento do
empobrecimento injusto do credor, é indiscutível que este tem livre acesso à Justiça para
pleitear o que lhe é devido” 141.

136. DA PRESCRIÇÃO CAMBIAL

Em matéria cambial, o instituto da prescrição difere, em seus efeitos, de outros


ramos da ciência jurídica. Desta forma, embora se constitua na perda da ação atribuída a
um direito pela extinção do prazo legal para intentá-la, tal privação se limita
exclusivamente ao procedimento cambial e não à aspiração do credor e devedor em relação
ao negócio creditório. Dissipada a natureza cambiária, pelo transcurso de determinado
espaço de tempo, o título de crédito se toma uma obrigação de natureza civil, podendo por
isso mesmo, ser cobrado judicialmente, pela via ordinária.

137. PRAZOS PRESCRICIONAIS

A ação cambial deverá ser proposta nos prazos abaixo assinalados sob pena de
perder o portador do título o direito ao exercício desta ação.

139
Pontes de Miranda, Tratado de Direito Privado, 4a. edição, vol. VI/101 – SP – Ed. Revista dos Tribunais,
1974
140
Paulo Roberto Pereira de Souza, artigo A Prescrição em Matéria Cambial – Jurisprudência Brasileira, n.
69, p. 15
141
Sergio Shimura, op. citada, p. 284

60
Da Letra de Câmbio e da Nota Promissória - Nos termos do art. 70 da Lei
Uniforme, prescrevem:

a) em três anos: as ações contra o aceitante da letra de câmbio ou contra o emitente


da nota promissória e seus respectivos avalistas;

b) em um ano: as ações do portador contra os endossadores e contra o sacador;

c) em seis meses: as ações dos endossantes uns contra os outros e contra o sacador.
Ao contrário da Lei Cambial, com o advento do Dec. 57.663, que promulgou as convenções
para adoção de uma Lei Uniforme em Matéria de Letra de Câmbio e Nota Promissória, hoje
em vigor entre nós, ocorreu omissão em relação aos avalistas. Todavia, tanto o
entendimento doutrinário, como jurisprudencial hoje dominantes, consagram a tese que
defende a aplicabilidade do art. 70 a estes obrigados cambiais.

Início do Lapso Prescricional - 0 prazo de prescrição contra o aceitante da letra ou


o emitente da nota promissória começará a fluir a partir da data do vencimento do título.
Em relação às ações do portador contra os endossantes, a partir da data do protesto ou da
data do vencimento, se tratar-se de letra que contenha cláusula liberatória do protesto. No
que tange às ações dos endossantes uns contra os outros e contra o sacador, passará a fluir o
lapso prescricional a partir do dia em que o endossante pagou a letra ou em que foi ele
próprio acionado.

Quanto aos avalistas, por serem coobrigados do devedor, aplicam-se as mesmas


regras aplicáveis àqueles a que prestaram garantia 142.

Do Cheque – Os prazos prescricionais em matéria de cheque, começam a fluir a


partir do término do prazo estipulado para sua apresentação ao banco sacado. Assim, a
prescrição da ação executiva do portador contra o sacador ou contra os demais coobrigados,
segundo o art. 59 da Lei nº 7.357/85, dá-se em sei s meses, contados do término do prazo
de apresentação (este prazo da apresentação pode ser 30 dias, quando o lugar da emissão do
cheque for o mesmo do lugar do pagamento, ou 60 dias, se a emissão se der em outra praça
- art. 33 da Lei 7.357/85)143. Note-se que, no caso do cheque, a ação de enriquecimento
contra o emitente ou obrigados prescreve em dois anos (art. 61 da Lei do Cheque) e não em
dez anos, como dispõe o Código Civil Brasileiro.

Como ensina J. M. OTHON SIDOU, "o prazo de apresentação do cheque tem como
base de contagem a data da emissão (Lei Uniforme, art. 29, 4), obedecidas as seguintes
regras: 1) o cômputo não compreende o dia que marca o seu início (Lei Uniforme, art. 56);
2) quando o último dia for feriado legal, o prazo e prorrogado até o primeiro dia útil que
se seguir ao termo do mesmo (Lei Uniforme, art. 55, 2); 3) os dias feriados intermediários
são compreendidos na computação"144.

142
João Eunápio Borges, Do Aval, 4a. edição, Ed. Forense, p. 207, 1975
143
Sérgio Shimura, op. citada, p. 280
144
J. M. Othon Sidou, Do Cheque, 1a. edição, Ed. Forense, p. 173, 1975.

61
Da Duplicata – Nos termos do art. 18 da Lei 6.458/77, a pretensão à execução da
duplicata prescreve:

a) em três anos: contra o sacado e respectivos avalistas, contados da data do


vencimento do título;

b) em uni ano: contra o endossante e seus avalistas, contado da data do protesto;

c) em um ano: a ação de qualquer dos coobrigados contra os demais, contado da


data em que haja sido efetuado o pagamento do título.

138. INTERRUPÇÃO DA PRESCRIÇÃO

O Direito Cambial não traz normas próprias sobre interrupção da prescrição. Dessa
forma, na ausência de tal previsão, aplicam-se as normas do Direito Comum. Nos termos
dos arts. 172 do Código Civil e 219 e 867 do CPC, interrompe-se a prescrição:

I – pela citação pessoal feita ao devedor, ainda que ordenada por juiz incompetente;

II – pelo protesto judicial;

III – pela apresentação do título de crédito em juízo de inventário, ou em concurso


de credores;

IV – por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor;

V – por qualquer ato inequívoco, ainda que extrajudicial, que importe


reconhecimento do direito do devedor.

"Deve-se destacar, contudo, que o protesto a que se refere o art. 172 do CC não é o
protesto cambial. Com efeito, o protesto cambial, nos termos da lei, serve exclusivamente
para provara impontualidade no pagamento e constituir o devedor em mora. Tal
entendimento é confirmado pela Súmula 153 da jurisprudência do STF, ao assentar que:
'Simples protesto cambiário não interrompe a prescrição’.

Por ser a obrigação cambial autônoma e independente, a interrupção operada


contra um obrigado não atinge nem prejudica os demais. É a regra do art. 71 da Lei
Uniforme quando estabelece que 'a interrupção da prescrição só tem efeito contra aquele
em relação ao qual foi feito o ato interruptivo'. Tal disposição difere o Direito Cambiário
do Direito Civil, no que se refere aos efeitos da prescrição, pois o Código Civil, em seu art.
171, parág. 1º, estabelece que a interrupção da prescrição efetuada contra o devedor
solidário envolve os demais e seus herdeiros"145.

139. EFEITOS DA PRESCRIÇÃO EM MATÉRIA CAMBIAL

145
Paulo Roberto Pereira de Souza, op. citada, p. 18

62
O primeiro efeito da prescrição é a perda da ação cambial, seguindo-se o da
liberação dos demais coobrigados, tais como endossadores e avalistas. A prescrição, no
entanto, jamais extingue o direito, que sempre poderá ser alegado em defesa pelo credor do
título prescrito. Nesse sentido é escorreita a lição de PONTES DE MIRANDA quando
ensina que: "Quando se diz que 'prescreveu o direito', emprega-se elipse reprovável,
porque em verdade se quis dizer que 'o direito teve prescrita a pretensão (ou a ação) que
dele se irradiava, ou teve prescritas todas as pretensões (ou ações) que dele se irradiavam'.
Quando se diz 'divida prescrita' elipticamente se exprime 'dívida com pretensão (ou ação)
prescrita'. Muito diferente é o que se passa quando se diz 'pretensão prescrita' ou 'ação
prescrita'. O direito não se encobre por exceção de prescrição, o que se encobre é a
pretensão, ou a ação que dele se irradiam” 146.

A prescrição atinge apenas parte da eficácia do direito, ou seja, a possibilidade do


exercício da ação. Na hipótese de títulos cambiários, admite a lei, no caso de prescrição da
pretensão ou da ação, a sua cobrança através da ação de locupletamento 147.

A título ilustrativo cite-se que, vencido o prazo prescricional sem ter havido o
aforamento da execução, perde-se o direito à via executiva, mas não o direito de crédito,
que só prescreve em dez anos.

146
Pontes de Miranda, op. citada, p. 101
147
Paulo Roberto Pereira de Souza, op. citada, p. 17

63
AÇAO MONITORIA E A RECUPERAÇÃO DA
EFICÁCIA EXECUTIVA
SUMÁRIO: 140. Conceito. 141. Finalidade. 142. Natureza. 143.
Fundamentação Legal. 144. Defesa. 145. Procedimento Especial.
146. Recuperação da eficácia executiva.

140. CONCEITO

E aquela conferida a quem possua prova documental, sem força executiva, para
pleitear o pagamento de quantia em dinheiro ou entrega de coisa148.

141. FINALIDADE
A ação monitória visa propiciar ao credor uma rápida e eficaz constituição do título
executivo, com condenação do devedor, o que ocorre com a decisão que decreta o mandado
injuntivo ou monitório, conferindo-se eficácia executiva ao pedido do autor ou
constituindo-se título executivo em seu nome e, determinação ao devedor para efetuar o
pagamento ou entregar a coisa 149

142. NATUREZA

A sua natureza é mista, processo de conhecimento com prevalente função executiva.


Invoquemos VICENTE GRECO FILHO: "A ação monitória é um misto de ação executiva
em sentido lato e cognição, predominando, porém, a força executiva. Assim, apesar de
estar a ação colocada entre os procedimentos especiais de jurisdição contenciosa, sua
compreensão, assim como a solução dos problemas práticos que apresenta, somente será
possível se for tratada como se fosse processo de execução, por título extrajudicial em que,
em vez do mandado de citação para pagamento em vinte e quatro horas, sob pena de
penhora, há a citação com a ordem de pagamento ou de entrega da coisa móvel...”150.

Tal procedimento se enquadra naquilo que CHIOVENDA chamava genericamente


de declarações com predominante função executiva (declaração não definitiva, porém
munida de eficácia executória) 151.

143. FUNDAMENTAÇÃO LEGAL

Disciplinada pela Lei n. 9.079 de 14 de julho de 1995, a ação monitória foi


encartada como procedimento especial de jurisdição contenciosa. Acrescentou-se o
Capítulo XV do Título I do Livro IV do Código de Processo Civil e adotou-se a numeração
do último artigo deste título, seguida de letras em ordem alfabética (arts. 1.102. a., 1.102.b.
e 1.102.c.).

148
Clito Fornaciari Jr. , A Reforma Processual Civil (Artigo por Artigo), Ed. Saraiva, 1996, p. 211
149
José Rubens Costa, Ação Monitória, Ed. Saraiva, 1995, p. 5
150
Vicente Greco Filho, Comentários ao Procedimento Sumário, Ao Agravo e À Ação Monitória”, Ed. Sar
151
Vicente Greco Filho, Comentários ao Procedimento Sumário, Ao Agravo e À Ação Monitória”, Ed. Sar
aiva, 1996, p. 50

64
144. DEFESA

Deferida a inicial, expede-se o mandado de pagamento monitório, que será dotado


de eficácia executória. Apresentados os embargos (= defesa), suspende-se esta e se
procedentes, desconstitui-se a força injuntiva, desfazendo-se o mandado injuntivo. Se
improcedentes, ou se rejeitados liminarmente, não é a respectiva sentença que confere
eficácia executória ao título. Com a decisão desfavorável, a ação monitória prossegue pela
segunda fase, dos atos de constrição. "A eficácia executória opera-se 'de pleno direito',
como assevera a norma, isto é, como efeito de fato ou secundário da sentença. A força
executória ou a plena constituição do título executivo se dá Pelo simples fato da rejeição
dos embargos” 152.

"A interposição dos embargos, que na execução somente é possível depois de


seguro o juízo, no caso da ação monitória é ensejada antes da penhora e suspende a
eficácia do preceito. É como se o ato constitutivo da penhora tivesse sido cindido em dois
momentos (a ordem de pagamento e a constrição) e entre eles fosse possível apresentar
embargos”153.

145. PROCEDIMENTO ESPECIAL

Se em uma ação de conhecimento e em uma de execução a finalidade é,


respectivamente, compor a lide por meio de uma sentença e proceder a atos de constrição,
na monitória buscasse, sem sentença, isto é, sem a condenação do processo de
conhecimento, criar um título executivo e proceder a atos de execução154.

Há os que lhe dão uma feição sumária, como ELAINE HARZHEIM MACEDO155:
"Em nossa modesta opinião, parece-nos que o procedimento monitório, enquanto forma do
agir processual, é, efetivamente, um procedimento sumário, na medida em que há um corte
da atividade cognitiva: com base apenas na alegação e prova produzida unilateralmente
pelo autor, emite o juiz um decreto, uma ordem, que é mais do que mero chamamento
citatório, inaudita altera pars, colocando o demandado em situação de desvantagem, em
que pese não ter essa ordem o império de modificar a situação fática dos sujeitos da
relação processual. De qualquer sorte, com base na simples verossimilhança do crédito
sumariamente demonstrado pelo autor, é proferida uma ordem judicial de conteúdo
condenatório, para somente depois, com a citação do réu, oportunizar-se-lhe a abertura do
contraditório, o que caracteriza uma inversão na seqüência lógica do iter cognitivo. O
contraditório, assim invertido, resta diferido no tempo, cabendo ao réu – e não ao autor,
como no procedimento comum – a iniciativa de provocá-lo”.

146. RECUPERAÇÃO DA EFICÁCIA EXECUTIVA

152
Antonio Cláudio da Costa Machado, A Reforma do Processo Civil Interpretado, Ed. Saraiva, 1996, p. 160
153
José Rubens Costa, op. citada, p. 7
154
Vicente Greco Filho, op. citada, p. 50.
155
José Rubens Costa, op. citada, p. 7

65
É oportuno esclarecer para o nosso estudo que, através da ação monitória é possível
recuperar a força executiva de determinados títulos de crédito, que perderam tal atributo em
função dos prazos prescricionais, inerentes à matéria cambial.

66
A DECADÊNCIA CAMBIAL
SUMÁRIO: 147. Conceito de Decadência. 148. Decadência
e Prescrição. 149. Efeitos da Decadência. 150. Decadência
no Direito Comercial. 151. Decadência Cambial. 152.
Prazos Decadenciais. 153. Hipótese de decadência em
Direito Cambial.

147. CONCEITO DE DECADÊNCIA

Sintetizadamente, podemos dizer que a decadência é a extinção do direito pela


inação de seu titular, que deixa escoar o prazo legal ou voluntariamente fixado para o seu
exercício156. Da mesma forma que a prescrição, o seu fundamento se caracteriza pela
proteção do interesse público e do bem-estar comum, facilitando as relações jurídicas entre
os indivíduos na sociedade, dando-lhes a estabilidade necessária para que possam ter
assegurados os seus interesses comuns e particulares 157.

148. DECADÊNCIA E PRESCRIÇÃO

A despeito de certa semelhança com a prescrição extintiva, posto que ambas têm
como ponto em comum o decurso do tempo aliado à inatividade do respectivo titular, a
decadência com ela não se confunde. Enquanto a primeira extingue a ação, a segunda
elimina o direito. Nesse sentido, ARRUDA ALVIM assim argumenta: “A decadência é um
prazo estabelecido pela norma para o exercício de um direito. Não usado dentro do prazo
ter-se-á a extinção do direito. A prescrição é um praz dentro do qual se pode ajuizar a
ação. Se não o for, a ação prescreve, embora o direito desmunido de ação exista, sendo,
todavia, em termos práticos, muito difícil de prosperar a pretensão”158.

149. EFEITOS DA DECADÊNCIA”

O principal efeito da decadência é a extinção do direito do titular em decorrência da


sua inércia para o seu exercício. "Em contrapartida, impede o nascimento da ação
correspondente que o poderá proteger, desde que esta não se identifique com o mesmo fato
gerador daquele, ou a extinga, se o seu nascimento for simultâneo, ou seja, a ação que
nasceu juntamente com o direito representa o modo do seu exercício e impede o
nascimento dela (ação)” 159

Ensina-nos MARIA HELENA DINIZ 160: "Extinto o direito pela decadência, torna-
se, portanto, inoperante; não pode ser fundamento de qualquer alegação em juízo, nem

156
Maria Helena Diniz, Curso de Direito Civil Brasileiro, Ed. Saraiva, 1983, Vol. I, p. 198
157
Paulo Torminn Borges, Decadência e Prescrição, Ed. Pró Livros, 1980, pp. 33-34.
158
José Manoela de Arruda Alvim Netto, Manual de Direito Processual, Ed. Revista dos Tribunais, 1979,
Vol. I, pp. 281-285.
159
Paulo Roberto Colombo Arnoldi, Prescrição e Decadência Cambial, Ed. Saraiva. 1994, p. 48
160
Maria Helena Diniz, op. ditada, p. 199

67
pode ser invocado ainda mesmo por via de exceção. A decadência produz seus efeitos
extintivos de modo absoluto.

O prazo decadencial corre contra todos; nem mesmo aqueles contra as quais não
corre a prescrição ficam isentas de seus efeitos.

A decadência resultante de prazo extintivo estabelecido por lei é irrenunciável, não


sendo lícito às partes derrogar o mandamento legal; todavia, se o prazo tiver sido imposto
pela vontade das partes, nada obsta a renúncia, depois de consumada, uma vez que quem
pode condicionar o exercício do direito também pode revogar essa condição.

A decadência não se suspende e nem se interrompe e só é impedida pelo efetivo


exercício do direito, dentro do lapso de tempo prefixado”.

150. DECADÊNCIA NO DIREITO COMERCIAL

Conquanto autores como WALDEMAR FERREIRA 161 o vislumbrassem em alguns


diplomas do Código Comercial Brasileiro (arts. 211, 441 – revogados - , 512, 527 e 718,
quase todos superados pela disciplina da matéria no CCB), o instituto da Decadência não
foi expressamente previsto na nossa legislação comercial. Entretanto, ele surge tacitamente
dentro dos próprios ditames do Direito em geral. Não adianta pretender afastá-lo desta área,
posto que, como instituição de interesse público, ele subsiste com todos os seus
regramentos atribuídos ao titular de uma faculdade de agir.

151. DECADÊNCIA CAMBIAL

A decadência se refere à ação cambiária que se perde, pela omissão ou negligência


do portador do título cambiário, que não se satisfaz com o cumprimento da obrigação, que
condiciona o estado de conservação do direito 162. BONELLI define a como o transcurso de
um termo preclusivo para o exercício da ação cambiária 163.

152. PRAZOS DECADENCIAIS

Sobre decadência em relação à letra de câmbio e à nota promissória, o assunto vem


tratado nos arts. 27 a 32 do Decreto n'. 2.044 de 1908, visto que nesta matéria o Brasil fez
reservas à Convenção de Genebra (art. 12 do anexo II).

Por outro lado, a Lei Uniforme apresenta outros casos de decadência, destacando-se
entre eles, o art. 53, que dispõe sobre a sua ocorrência no direito do portador contra os
endossantes, sacador e respectivos avalistas pela expiração dos seguintes prazos: a) para
apresentação de uma letra à vista ou a certo termo de vista (art. 34); b) para se fazer o

161
Waldemar Ferreira, Tratado de Direito Comercial, Ed. Saraiva, 1963, Vol. XI, p.651, n. 2679
162
Paulo Roberto Colombo Aranoldi, Prescrição e Decadência, Ed. Saraiva, 1994, p. 95
163
apud Lauro Muniz Barreto, Comentários de Jurisprudência, RDM, São Paulo, Ano X, 1971, 3;82-3.

68
protesto por falta de aceite ou por falta de pagamento (art. 44, 11 e 111) e c) para
apresentação a pagamento, no caso de cláusula "sem despesas" (art. 46, II) 164.

153. HIPÓTESES DE DECADÊNCIA EM DIREITO CAMBIAL

Quanto a este importante aspecto, transcrevemos o que dispõe sobre ele o jurista
PAULO ROBERTO COLOMBO ARNOLDI 165:

"Quando o credor não toma nenhuma atitude conservadora do seu direito,


quedando-se inerte ou sendo negligente, ocorre a caducidade do seu direito, em vários
casos, tais como:

a) Falta de apresentação do título: que é por sua natureza um documento de


apresentação, sendo o conceito desta peculiar à letra de câmbio. Por exemplo,
apresentação ao sacado para aceite ou pagamento, ou para apresentação de uma letra à
vista ou a certo termo de vista, ou apresentação para pagamento, no caso de cláusula 'sem
despesa'.
A apresentação deve ser feita sempre nos prazos legais, e não em qualquer época
ou ocasião. Se não apresentar no prazo, o portador perde o direito de ação regressiva
contra os endossantes, o sacador e outros coobrigados de regresso, como os avalistas
(arts. 53 da Lei Uniforme e 20 da Lei Cambial).

b) Falta de protesto: O protesto é ato cambiário de amplas conseqüências para o


portador quando extraído fora do termo legal (Lei Uniforme, arts. 45, Anexo II, e 12; Lei
Cambial, arts. 29, 30 e 32).

c) Falta de notificação ao portador de regresso: Com sua falta descumpre-se o


disposto nos arts. 45 da Lei Uniforme (reserva parcial do Brasil, art. 12 do Anexo II) e 30
da Lei Cambial: prejudica-se o título e corre-se o risco de exonerar co-devedores
cambiários (endossantes, endossatários e sacador). A falta desses avisos não acarreta
decadência de direitos, mas toma o portador responsável pelo prejuízo motivado pela sua
negligência.

A caducidade não atinge todos os casos de obrigação cambiária, tanto que nunca
pode afetar o aceitante, que é um devedor incondicional, ou o principal devedor Ele se
obriga sem subordinação ao protesto, subordina-se ao pagamento e ao cumprimento de
qualquer requisito do título para com o credor".

164
Paulo Roberto Colombo Aranoldi, op. citada, pp. 96/97
165
Paulo Roberto Colombo Arnoldi, op citada, pp. 95/96

69
TITULOS DE CREDITO IMPRÓPRIOS
SUMÁRIO: 154. Introdução. 155. Títulos de Legitimação.
156. Títulos de Participação. 157. Títulos Representativos.
158. Títulos de Financiamento. 159. Títulos de Investimento.

154. INTRODUÇÃO

O presente capítulo se embasa exclusivamente numa concepção de FÁBIO ULHOA


COELHO 166, que entendemos, reveste-se de manifesta praticidade em relação aos demais
títulos de crédito, afora os aqui já analisados. Apresentando uma interessante classificação
dos mesmos, conforme as finalidades e possibilidades ou não de legitimarem ações
executivas, revela uma distinção entre esses documentos afins, que merece ser destacada.
Tanto que alguns autores também se filiam a tal corrente, principalmente em relação ao
primeiro critério, identificando-os em grupos com semelhante natureza, chegando-se até a
velar uma possível unanimidade. Entretanto, as colocações são as mais variadas possíveis,
preocupando-se cada qual em melhor expressar as suas conotações. Apesar de não utilizá-la
como parâmetro na especificação das demais cártulas creditórias, neste trabalho, por razões
meramente ilustrativas e didáticas, indicamos essa brilhante colocação do consagrado
jurista supramencionado.

Com efeito, alguns instrumentos jurídicos, na sua análise, encontram-se sujeitos a


uma disciplina legal que aproveita, em parte, os elementos do regime jurídico-cambial, sem
poderem, no entanto, apesar da proximidade, ser considerados títulos de crédito. Assim,
não se aplicar-lhes-iam todos os elementos caracterizadores daqueles em suas estruturas,
razão pela qual costuma-se denominá-los pela expressão títulos de crédito impróprios, os
quais se distinguem em cinco categorias, a saber: títulos de legitimação, títulos de
participação, títulos representativos, títulos de financiamento e títulos de investimento.

155. TÍTULOS DE LEGITIMAÇÃO

Consoante o consagrado autor, são os que asseguram ao seu portador a prestação de


um serviço ou acesso a prêmios em certames promocionais ou oficiais. Revestem-se dos
princípios da cartularidade, da literalidade e da autonomia, mas não se constituem em
títulos executivos. Exemplos: passes de ônibus, ingressos de cinema, volantes sorteados de
Loteria Federal etc.

156. TÍTULOS DE PARTICIPAÇÃO

São os que asseguram ao seu titular os direitos patrimoniais e políticos de membro


de quadro associativo. Para FÁBIO ULHOA COELHO, o título patrimonial de clube
desportivo, conforme o disposto no ato constitutivo deste, poderá ser incluído neste grupo
de títulos de crédito impróprios, se a sua transferência guardar alguma semelhança com as
normas de circulação cambial.

166
Fábio Ulhoa Coelho, Manual de Direito Comercial, citado, pp. 274/279

70
157. TÍTULOS REPRESENTATIVOS

Sob tal denominação, costuma-se designar o instrumento jurídico que represente a


titularidade de mercadorias custodiadas, vale dizer, que se encontram sob os cuidados de
terceiro não proprietário. FÁBIO ULHOA COELHO esclarece que estes instrumentos
podem exercer, além desta função meramente documental, de título de crédito, em caráter
secundário, na medida em que possibilitarem ao proprietário da mercadoria custodiada, a
negociação com o valor que ela tem, sem prejuízo da custódia. ao desta categoria o
conhecimento de depósito, o "warrent" e conhecimento de frete.

158. TÍTULOS DE FINANCIAMENTO

Há alguns instrumentos cedulares representativos de crédito decorrente de


financiamento aberto por uma instituição financeira. Existindo garantia de direito real do
pagamento do valor financiado, por parte do mutuário, ela será constituída no próprio título,
independentemente de qualquer outro meio jurídico. O renomado comercialista, o qual
temos aqui nos reportado, esclarece: "Os títulos de financiamento não se enquadram,
completamente, no regime jurídico-cambial por força de algumas peculiaridades, como a
possibilidade de endosso parcial, mas principalmente, em razão do princípio de
cedularidade, estranho ao direito cambiário. Por este princípio, a constituição dos direitos
reais de garantia se faz no próprio instrumento de crédito, na própria cédula”. Nesta
categoria de títulos de crédito impróprios se enquadram Cédula e Nota de Crédito Rural,
Cédula e Nota de Crédito Comercial, Cédula e Nota de Crédito à Exportação e Cédula
Hipotecária.

159. TITULOS DE INVESTIMENTO

Destinados à captação de recursos pelo emitente, os instrumentos jurídicos desta


modalidade representam a parcela de um contrato de mútuo que o sacador do título celebra
com os seus portadores. Sob o ponto de vista destes, o negócio tem o sentido de um
investimento, emprego de capital no desenvolvimento de certa atividade econômica com o
intuito lucrativo. Ele ressalta que existem alguns tipos de títulos com este perfil, mas que se
enquadram em conceito distinto, com regime jurídico próprio, como as debêntures, espécie
de valor mobiliário. Entre os títulos de investimento, podem ser destacados as Letras
Imobiliárias, a Letra de Câmbio Financeira, os Certificados de Depósito Bancário (CDBs)
Títulos de Desenvolvimento Econômico (TDEs).

71
DOS TITULOS DE CREDITO RURAL
SUMÁRIO: 160. Conceito. 161. Crédito Rural. 162.
Fundamentação Legal. 163. Espécies de Títulos de Crédito Rural.
164. Nota de Crédito Rural. 165. Duplicata Rural. 166.
Características das Cédulas de Crédito Rural. 167. Cédula Rural
Pignoratícia. 168. Cédula Rural Hipotecária. 169. Cédula Rural
Pignoratícia e Hipotecária. Diversos Registros. 170. Nota de
Crédito Rural. Requisitos. Aspectos Gerais.

160. CONCEITO

Os títulos de crédito rural se destinam exclusivamente ao financiamento de


atividades rurais, objetivando suprir de recursos os produtores e as cooperativas agrícolas.
Assim, de âmbito restrito, equiparando-os a documentos causais, eles obrigam os seus
emitentes a comprovarem as efetivas aplicações na exploração de propriedades afins.

Embora dotados de uma função econômico-financeira no âmbito comercial, são


considerados, unicamente por força normativa, como títulos civis (Dec. Lei 167/67) e não
mercantis. Mesmo assim, apesar de suas peculiaridades, aplicam-se-lhes basicamente as
normas e regras atinentes aos títulos de crédito em geral.

161. CRÉDITO RURAL

"Considera-se crédito rural o suprimento de recursos financeiros por entidades


públicas e estabelecimentos de crédito particulares a produtores rurais ou a suas
cooperativas para aplicação exclusiva em atividades que se enquadrem nos objetivos
indicados: a) estímulo ao incremento ordenado dos investimentos rurais, inclusive para
armazenamentos, beneficiamentos e industrialização dos produtos agropecuários, quando
efetuados por cooperativas ou pelo produtor na sua propriedade rural; b) favorecimento
do custeio oportuno e adequado da produção e da comercialização de produtos
agropecuários; c) possibilidade de fortalecimento econômico dos produtores rurais,
notadamente pequenos e médios e d) incentivo à introdução de métodos racionais de
produção, visando o aumento da produtividade e a melhoria do padrão de vida das
populações rurais e a adequada defesa do solo" 167.

162. FUNDAMENTAÇÃO LEGAL

Decreto-Lei n. 167 de 14/02/1967, que dispôs fosse o financiamento rural executado


mediante a emissão de cédulas de crédito rural. Os dispositivos aqui citados se integram no
referido diploma legal.

163. ESPÉCIES DE TÍTULOS DE CRÉDITO RURAL

167
Theóphilo Azerdo, apud Amador Paes de Almeida, op. citada, pp. 221/221

72
Conforme suas destinações, eles se agrupam em duas espécies: a) Originários de
Venda a Prazo de Bens Agrícolas (Nota Promissória Rural e Duplicata Rural) e b)
Relativos a Financiamentos ou Instituições Financeiras (Cédula Rural Pignoratícia, Cédula
Rural Hipotecária, Cédula Rural Pignoraticia e Hipotecária, Nota de Crédito Rural e
Cédula de Produto Rural).

164. NOTA PROMISSÓRIA RURAL

Visou desafogar o lavrador que, ao entregar a sua mercadoria à cooperativa, recebe


no ato uma nota promissória, que, no entanto, sofre restrições quanto à circulação, já que
não pode ser endossada a pessoas físicas ou jurídicas que não participam do comércio entre
cooperado e cooperativa (âmbito restrito da abrangência já mencionado de títulos desta
natureza).
“Há duas novidades na nota promissória rural que a diferencia da nota
promissória comum, ou seja, mencionada os produtos da compra e venda ou da entrega a
que a emissão se refere, e a falta de pagamento autoriza a ação executiva, sendo a penhora
de preferência sobre os objetos mencionados”168. Assim, destituído de qualquer garantia
real, confere, entretanto ao credor privilégio especial de acordo com o Código Civil
Brasileiro.

Requisitos. São seus requisitos: I – a denominação “Nota de Crédito Rural”; II – a


data e as condições de pagamento; havendo prestações periódicas ou prorrogações de
vencimento, acrescenta-se as expressões “nos termos da cláusula Forma de Pagamento
abaixo”ou “nos termos da cláusula Ajuste de Prorrogação abaixo”; III- o nome do credor e
a cláusula à ordem; IV – o valor do crédito deferido, lançado em algarismos e por extenso,
com indicação da finalidade ruralista a que se destina o financiamento concedido e a forma
de sua utilização; V – a taxa dos juros a pagar e da comissão de fiscalização, se houver, e
tempo de seu pagamento; VI – a praça de pagamento; VII – a data e o lugar de emissão e
VIII – a assinatura do próprio punho do emitente ou de representante com poderes
especiais.

Registro na Circunscrição Imobiliária competente – Não obstante destituída de


garantia real, a nota de crédito rural está sujeita a registro no Cartório de Registro de
Imóveis da circunscrição em que esteja situado o imóvel cuja exploração se destina o
financiamento cedular. Compreende-se a exigência para o fim de estabelecer-se sua eficácia
em relação a terceiros (art. 27) 169

165. DUPLICATA RURAL

Constitui-se num título de crédito utilizado na compra e venda de quaisquer bens de


natureza agrícola, extrativa ou pastoril, quando efetuadas diretamente por produtores rurais
ou por suas cooperativas. De iniciativa do próprio produtor ou da cooperativa agrícola, que
nela figura como sacador, aparece como sacado ou aceitante o comprador dos bens
inerentes.

168
Augusto Toscano, op. citada, p. 173
169
Nelson Abrão, Direito Bancário, Ed. Revista dos Tribunais, 4a. edição, 1998 – p. 202

73
Requisitos – A duplicata rural conterá os seguintes requisitos, lançados no seu
contexto: I – denominação "Duplicata Rural”; II – data do pagamento, ou a declaração de
dar-se a tantos dias da data da apresentação ou de ser à vista; III – nome e domicílio do
vendedor; IV – nome e domicílio do comprador; V – soma a pagar em dinheiro, lançada em
algarismos e por extenso, que corresponderá ao preço dos produtos adquiridos; VI – praça
de pagamento; VII –indicação dos produtos objeto da compra e venda; VIII – data e lugar
da emissão; IX –cláusula à ordem; reconhecimento de sua exatidão e a obrigação de pagá-
la, para ser firmada do próprio punho do comprador ou de representante com poderes
especiais e XI –assinatura do próprio punho do vendedor ou de representante com poderes
especiais.

Privilégio Especial – Este título, cuja semelhança com a duplicata mercantil vai
além da denominação, tem praticamente a mesma finalidade da nota promissória rural, não
tendo como esta, os bens relacionados em seu contexto como garantia de pagamento, mas
goza de privilégio especial (art. 53).

Duplicata Simulada – A emissão de uma duplicata rural, que não corresponde a


uma efetiva venda dos bens de natureza agrícola, extrativa ou pastoril entregues real ou
simbolicamente (duplicata fria) - poderá ter como conseqüência uma condenação de um a
quatro anos de reclusão (art. 54).

166. CARACTERÍSTICAS DAS CÉDULAS DE CREDITO RURAL

As cédulas de crédito rural são promessas de pagamento sem, ou com, garantia real
cedularmente constituída, isto é, no próprio título, dispensando documento à parte, podendo
esta ser ofertada pelo próprio financiado ou por um terceiro (art. 68).

"Constituindo-se cedularmente a garantia, ou seja, por incorporação no próprio


título, quando se tratar de hipoteca, ocorrem derrogações ao direito comum com a
dispensa de escritura pública e da outorga uxória. a, mas, em virtude da ausência desta
última, o cônjuge obriga apenas seus bens particulares e os comuns até o limite de sua
meação (art. 3º da Lei nº 4.121 de 27108162). Para terem eficácia contra terceiros, as
cédulas de crédito rural devem ser registradas no Cartório de Registro de Imóveis. Sua
cobrança se processa mediante ação de rito especial (execução), com a originalidade de
permitir a venda, pelo credor, após a penhora, dos bens dados em garantia, contestada, ou
não, a ação, podendo, desde logo, mediante caução idônea, levantar o produto líquido da
venda. Em se tratando de cooperativas rurais, instituições financeiras públicas e o Banco
do Brasil, não há necessidade de caução” 170.

Facultatividade do Protesto em todos os casos – De acordo com a parte final do


art. 70, o protesto não tem caráter obrigatório nos títulos de crédito rurais, inclusive nos
casos em que ele é tirado nas cambiais para assegurar o direito de regresso. Ele tem caráter
facultativo, deixando de se constituir condição essencial à ação de cobrança judicial de

170
Nelson Abrão, op. citada, p. 198

74
endossantes e seus avalistas. Em decorrência dessa dispensa, a data inicial do prazo
prescricional é sempre a do vencimento do documento.

Prescrição da Ação de Cobrança – Afora uma ou outra divergência, têm sido


admitidas como incidentes sobre as cédulas de crédito rural, inclusive a nota promissória e
a duplicata rural, as disposições pertinentes da legislação cambiária, ou seja, de três anos
contra o devedor ou assinante (aceitante) e seu avalista. De um ano, a partir da data de
vencimento – dada a facultatividade do protesto – contra o emitente ou sacador,
endossantes e avalistas; e de seis meses de um endossante contra outro e respectivos
avalistas; e de seis meses de uni endossante contra outro e respectivos avalistas, e contra o
sacador. Observe-se que a interrupção da prescrição só produz efeito em relação à pessoa
para quem foi feita 171.

167. CÉDULA RURAL PIGNORATÍCIA

É título representativo de constituição de dívida "obrigatoriamente lastreada por


garantia real". Consubstancia uma promessa de pagamento com garantia de bens móveis
que permanecem, porém, de posse do devedor, consoante disposto no art. 17 do Decreto
Lei 167/67.

Requisitos – O formalismo do título lhe impõe os seguintes requisitos, consoante o


art. 14: I – denominação "Cédula Rural Pignoratícia"; II – data e condições de pagamento;
havendo prestações periódicas ou prorrogações de vencimento, acrescentar: "nos termos da
cláusula Forma de Pagamento abaixo", ou "nos termos da cláusula Ajuste de Prorrogação
abaixo"; III – nome do credor e a cláusula à ordem; IV – valor do crédito deferido, lançado
em algarismos e por extenso, com indicação da finalidade ruralista a que se destina o
financiamento concedido e a forma de sua utilização; V – descrição dos bens vinculados em
penhor, que se indicarão pela espécie, qualidade, quantidade, marca ou período de
produção, se for o caso, além do local ou depósito em que os mesmos bens se encontrarem;
VI – taxa dos juros a pagar e da comissão de fiscalização, se houver, e o tempo de seu
pagamento; VII – praça de pagamento; VIII – data e lugar da emissão e IX – assinatura do
próprio punho do emitente ou de representante com poderes especiais.

168. CÉDULA RURAL HIPOTECÁRIA

Podem os bancos, também conceder financiamentos mediante a emissão, pelo


devedor, de cédula com garantia hipotecária, sendo esta através de um imóvel, nele
compreendidas também as construções, respectivos terrenos, maquinismos, instalações e
benfeitorias existentes, consoante o art. 22 e inciso V do art. 29 do Dec. Lei 167/67. Tal
abrangência é criticada por alguns autores, tendo em vista que elas se referem a todos os
bens existentes à época da emissão da cédula no bem oferecido em garantia. "Se,
entretanto, ou com os recursos do financiamento, ou com recursos próprios, o proprietário
do imóvel fizer acréscimos ao mesmo, esses acréscimos aderirão à hipoteca, ficando a
integrar a garantia oferecida pelo devedor, não podendo, por isso mesmo, uma vez

171
Darcy Arruda Miranda Jr., op. citada, p. 289

75
aderidos à garantia, retirados, destruídos ou alterados sem o consentimento por escrito do
credor" 172.

Requisitos – Conforme prevê o art. 20 da lei específica, a cédula rural hipotecária


deverá conter os seguintes requisitos: I – denominação "Cédula Rural Hipotecária"; II – a
data e condições de pagamento; havendo prestações periódicas ou prorrogações de
vencimento, devem ser acrescentadas as expressões: "nos termos da cláusula Forma de
Pagamento' abaixo" ou "nos termos da cláusula 'Ajuste de Prorrogação' abaixo"; essas
cláusulas, quando existentes, serão lançadas logo após a descrição da garantia, como
acontece com a Cédula Pignoratícia; III – o nome do credor e a cláusula à ordem; IV – o
valor do crédito deferido, lançado em algarismos e por extenso, com indicação da
finalidade ruralista a que se destina o financiamento concedido e a forma de sua utilização;
V – a descrição do imóvel hipotecado com indicação do nome, se houver, dimensões,
confrontações, benfeitorias, título e data de aquisição, bem como as anotações (número,
livro e folha) do registro imobiliário.

Estelionato – Por disposição especial da Lei (art. 21, parág. Único), “pratica crime
de estelionato e fica sujeito às penas do art. 171 do Código Penal aquele que fizer
declarações falsas ou inexatas acerca da área dos imóveis hipotecados, de suas
características, instalações e acessórios, da pacificidade de sua posse, ou omitir, na
Cédula, a declaração de já estarem eles sujeitos a outros ônus ou responsabilidade de
qualquer espécie, inclusive fiscais".

Aspectos Gerais - a) Consoante o art. 23, à Cédula Rural Hipotecária são aplicáveis
os princípios da legislação ordinária sobre hipoteca, podendo ser objeto de hipoteca cedular
imóveis rurais e urbanos; b) ela será inscrita no Cartório de Registro de Imóveis da
circunscrição competente, sob pena de ineficácia contra terceiros; c) dispõe o parág. 1º do
art. 32, que para a inscrição, o apresentante oferecerá, com o original da Cédula que lhe
será devolvido, devidamente averbado, uma cópia tirada em impressão idêntica à da
Cédula, com a declaração impressa, em linhas paralelas transversais, "Via Não Negociável"
e d) a descrição do imóvel pode ser feita em documento à parte, em duas vias, contendo
todas as indicações impostas pela lei, para melhor identificação do imóvel oferecido em
garantia, sendo tal descrição substituída pelos seus títulos de propriedade, que serão
anexados à Cédula. "Nesse caso, menção ao fato constará da Cédula que, de qualquer
modo, conterá a descrição do imóvel hipotecado. Da menção, na Cédula, da anexação dos
títulos de propriedade dos imóveis hipotecados deverá constar que referidos títulos farão
parte integrante da Cédula até sua final liquidação" 173.

169. CÉDULA RURAL PIGNORATíCIA HIPOTECÁRIA

Neste título a garantia é prestada por bens imóveis e também móveis, sendo
justamente essa a sua especialidade, ou seja, comporta em um mesmo instrumento, a
constituição de du garantias. Diferentemente do que ocorre com a cédula rural hipotecária,
não são apenas os bens incorporados ao imóvel por sua destinação (máquinas, aparelhos e

172
Fran Martins, Títulos de Crédito, Vol. II, citado, p. 220
173
Fran Martins, op. citada, p. 220

76
instalações) que podem ser oferecidos, mas também os existentes em local diferente deste,
por isso se caracterizam o penhor e a hipoteca.

Diversos registros - Diante dessa circunstância - dualidade de garantias - como os


bens podem se encontrar em lugares diversos, a inscrição dessas cédulas é feita nos
Cartórios de Registro de Imóveis da circunscrição em que esteja situado o imóvel de
localização dos bens empenhados e da circunscrição do imóvel hipotecado.

Requisitos - Consoante o art. 25 da lei específica, ela deverá conter os seguintes


requisitos, lançados no contexto: I – a denominação "Cédula Rural Pignoratícia e
Hipotecária"; II – a data e condições de pagamento; no caso de prestações periódicas,
devem ser acrescentadas as expressões "nos termos da cláusula Forma de Pagamento
Abaixo"; e, para o caso de prorrogação, a cláusula "nos termos da cláusula Ajuste de
Prorrogação Abaixo"; III – o nome do credor e a cláusula à ordem; IV – o valor do crédito
deferido, lançado em algarismos e por extenso, com a indicação da finalidade ruralista a
que se destina o financiamento concedido e a forma de sua utilização; V – a descrição dos
bens vinculados em penhor, indicados pela espécie, qualidade, quantidade, marca ou
período de produção, se for o caso, além do local ou depósito dos mesmos bens; VI – a
descrição do imóvel hipotecado com indicação do nome, se houver, dimensões,
confrontações, benfeitorias, título e data de aquisição e anotações (número, livro e folha) do
registro imobiliário; VII – a taxa de juros a pagar e da comissão de fiscalização, se houver,
e tempo de seu pagamento; VIII – a praça de pagamento; IX – a data e o lugar da emissão e
X – a assinatura do próprio punho do emitente ou de representante com poderes especiais.

170. NOTA DE CRÉDITO RURAL

É uma cédula rural desprovida de garantia real, conferindo, entretanto, ao credor,


privilégio especial sobre determinados bens, conforme disposição do art. 28 da lei
específica. Pela forma de sua emissão e meio de utilização, que dependem apenas do
crédito pessoal do emitente, aproxima-se nesses aspectos, dos títulos de crédito próprios,
em que apenas a confiança é levada em consideração à sua aceitação.

Requisitos - Como as demais cédulas rurais, a Nota de Crédito Rural é um título


formal e como tal, para sua validade, deverá conter no contexto, os seguintes requisitos: I –
a denominação "Nota de Crédito Rural"; II – a data e condições de pagamento; havendo
prestações periódicas ou prorrogações de vencimento, ao título devem ser acrescentadas,
como acontece com as demais cédulas de crédito rural, cláusulas consistentes nas
expressões "nos termos da cláusula Forma de Pagamento Abaixo" ou "nos termos da
cláusula Ajuste de Prorrogação Abaixo"; III – o nome do credor e a cláusula à ordem; IV –
o valor do crédito deferido, lançado em algarismos e por extenso, com indicação da
finalidade ruralista a que se destina o financiamento concedido, bem corno sua forma de
utilização; V – a taxa de juros a pagar e da comissão de fiscalização, se houver, e tempo de
seu pagamento; VI – a praça de pagamento; a Nota deverá ter o prazo mínimo de três meses
e o máximo de três anos; VII – a data e o lugar da emissão e VIII – a assinatura, do próprio
punho, do emitente ou de representante com poderes especiais.

77
Aspectos Gerais: – a) Embora destituída de garantia real, ela está sujeita a registro
no Cartório de Registro de Imóveis da circunscrição em que esteja situado o imóvel a cuja
exploração se destina o financiamento cedular, compreendendo-se tal exigência para o fim
de se estabelecer sua eficácia em relação a terceiros (art. 27); b) O cancelamento se fará do
mesmo modo como são feitos os cancelamentos das cédulas de crédito rural em geral
(averbação, ordem judicial competente e prova da quitação do título).

78
TITULOS DE CRÉDITO INDUSTRIAL
SUMÁRIO: 171. Crédito Industrial. 172. Cédula de
Crédito Industrial. 173. Nota de Crédito Industrial.

171. CRÉDITO INDUSTRIAL

O Dec. Lei 413/69 dispôs em seu art. 1º, "que o financiamento concedido por
instituições financeiras à pessoa física ou jurídica que se dedique à atividade industrial
poderá efetuar se por meio de cédula de crédito industrial”.

172. CÉDULA DE CRÉDITO INDUSTRIAL

Trata-se, conforme a própria definição do art. 9º do Dec. Lei 413 de 09/01/1969 que
a instituiu, de "promessa de pagamento em dinheiro, com garantia real, cedularmente
constituída".De acordo com o art. 10 do mencionado diploma legal, ela se constitui em
"título líquido e certo, exigível pela soma dele constante ou do endosso, além dos juros,
comissão de fiscalização e demais despesas que o credor fizer para segurança,
regularidade e realização de seu direito creditório".

Garantia real – A citada garantia real pode consistir em penhor, alienação


fiduciária e hipoteca, que poderão ser oferecidas por terceiro, vindo descritas no próprio
título, dispensando-se documentos à parte, inclusive a própria hipoteca que, numa
derrogação do direito comum, não exige escritura pública. Para sua validade em relação a
terceiros, no entanto, a cédula de crédito industrial deve ser registrada junto à Circunscrição
Imobiliária do local da situação dos bens garantidores da dívida, sob pena da eficácia se
restringir apenas às partes.

Requisitos – A sua validade, deve a Cédula de Crédito Industrial conter certos


requisitos, expressamente mencionados na lei específica (art. 14): 1 – a denominação
"Cédula de Crédito Industrial"; II – a data do pagamento; se a cédula for emitida para
pagamento parcelado, acrescentar-se-á cláusula discriminando valor e data do pagamento
das prestações; III – o nome do credor da cláusula à ordem; IV – o valor do crédito
deferido, lançado em algarismos e por extenso, e a forma de sua utilização; V – a descrição
dos bens objeto do penhor, ou da alienação fiduciária, que se indicarão pela espécie,
qualidade, quantidade e marca, se houver, além do local ou do depósito de sua situação,
indicando-se no caso da hipoteca, situação, confrontações, benfeitorias, título e data de
aquisição do imóvel e anotações (número, livro e folha) do registro imobiliário; VI – a taxa
de juros a pagar e a comissão de fiscalização, se houver, e épocas em que serão exigíveis,
podendo ser capitalizadas; VII – a obrigatoriedade do seguro dos bens objeto da garantia;
VIII – a praça do pagamento; IX – a data e o lugar da emissão; X – a assinatura do próprio
punho do emitente ou de representante com poderes especiais.

Cobrança – A ação de cobrança de crédito decorrente da cédula de crédito


industrial é de rito especial, semelhante à execução do Código de Processo Civil, mas com
prazo mais curto para apresentação de embargos. Ao invés dos dez dias da juntada do auto

79
de penhora no processo, aqui o prazo é de quarenta e oito horas da efetivação deste
procedimento.

173. NOTA DE CRÉDITO INDUSTRIAL

Também garantidora do crédito proveniente de financiamento industrial, a nota de


crédito industrial é promessa de pagamento em dinheiro, mas sem garantia real, aspecto que
a diferencia da Cédula de Crédito Industrial.

Efeito diferenciado - A Nota de Crédito Industrial confere privilégio especial sobre


determinados bens enumerados e por tal circunstância, ela não se sujeita a registro na
Circunscrição Imobiliária competente.

Disciplina Legal - O art. 15 do Dec. Lei 413/69 instituiu a Nota de Crédito


Industrial, também para instrumentar financiamento à indústria, feito por instituições
financeiras ou, mais especificadamente, por bancos, embora não o mencionasse
explicitamente, mas o admitindo implicitamente no art. 18 do mesmo diploma legal 174.
Tirante a matéria relativa à garantia e ao registro, ela segue, em tudo mais a regulação da
cédula de crédito industrial.

Requisitos - Consoante o art. 16 da lei específica, são seus requisitos: I – a


denominação "Nota de Crédito Industrial"; Il – a data do pagamento; se a nota for emitida
para pagamento parcelado, acrescentar-se-á a cláusula discriminando valor e data de
pagamento das prestações; III – o nome do credor e a cláusula à ordem; IV – o valor do
crédito deferido, lançado em algarismos e por extenso, e a forma de sua utilização; V – a
taxa de juros a pagar e a comissão de fiscalização, se houver, e épocas em que serão
exigíveis, podendo ser capitalizadas; VI – a praça de pagamento; VII – a assinatura do
próprio punho do emitente ou de representante com poderes especiais.

174
Nelson Abrão, op. citada, p. 192

80
DA CÉDULA HIPOTECARIA
SUMÁRIO: 174. Conceito. 175. Espécies. 176. Requisitos.
177. Forma.

174. CONCEITO
Trata-se de um título de crédito causal, lastreado nos empréstimos com garantia
hipotecária efetivados por instituições financeiras. Criada pelo Dec. Lei nº 70 de
21/11/1966, compreende-se dentro das operações bancárias, mesmo porque, poderá ser
emitida por Bancos de Investimentos, pela Caixa Econômica Federal e pelos Bancos de
Desenvolvimento, conforme dispõe a Resolução 228 do Banco Central de 04107/1972.

Com efeito, dispõe o art. 10 do diploma legal que o gerou:


"E instituída a cédula hipotecária para hipotecas inscritas no Registro Geral de
Imóveis, como instrumento hábil para a representação dos respectivos créditos
hipotecários, a qual poderá ser emitida pelo credor hipotecário nos casos de: I – (...) Il –
hipotecas de que sejam credores instituições financeiras em geral, e companhias de
seguro; III – hipotecas, entre outras partes, desde que a cédula hipotecária seja
originariamente emitida em favor das pessoas jurídicas a que se refere o inciso II supra".

175. ESPÉCIES
De acordo com o parágrafo. 1º do aludido art. 10, a cédula hipotecária poderá ser:
a) Integral: quando representar a totalidade do crédito hipotecário;

b) Fracionária: quando representar parte dele. É de se ressaltar que, a soma do


principal das cédulas hipotecárias fracionárias, emitidas sobre uma determinada hipoteca e
ainda em circulação, não poderá exceder em nenhum momento, o valor total do respectivo
crédito hipotecário que deverá ser expresso em Real e corrigido pela TR.

176. REQUISITOS

Conforme o art. 15 do Dec. Lei nº 70/66 que a instituiu, a cédula hipotecária deve se
revestir dos seguintes requisitos: I – no anverso: a) nome, qualificação e endereço do
emitente e do devedor; b) número e série da cédula hipotecária, com indicação da parcela
ou totalidade do crédito que a represente; c) número, data, livro e folhas do Registro Geral
de Imóveis em que foi inscrita e averbada a cédula hipotecária; d) individualização do
imóvel dado em garantia; e) o valor da cédula, os juros convencionados e a multa
estipulada para o caso de inadimplemento; f) o número de ordem da prestação a que
corresponder a cédula hipotecária; g) a data do vencimento da cédula hipotecária ou,
quando representativa de várias prestações, os seus vencimentos de amortização e juros; li)
a autenticação feita pelo oficial do Registro de Imóveis; i) a data da emissão, e as
assinaturas do emitente, com a promessa de pagamento do devedor; j) o lugar de
pagamento do principal, juros, seguro e taxa; e II – no verso, a menção ou locais
apropriados para o lançamento dos seguintes elementos: a) data ou datas de transferência
por endosso; b) nome, assinatura e endereço do endossante; c) nome, qualificação,

81
endereço e assinatura do endossatário; d) as condições do endosso e e) a designação do
agente recebedor e sua comissão.

177. FORMA
"A cédula hipotecária é sempre nominativa e endossável em preto, sujeitando-se,
por isso, à disciplina cambiária, destarte, o emitente, cuja posição equivale à do sacador
da letra de câmbio, e o endossador, permanecem solidariamente obrigados pela boa
liquidação do crédito, a menos que avisem o devedor hipotecário e o segurador, quando
houver, de cada emissão ou endosso, até trinta dias após sua realização, por carta
expedida por Cartório de Títulos e Documentos, ou de notificação judicial, caso em que a
transferência do título produzirá meros efeitos de cessão”175.

175
Nelson Abrão, op. citada, p. 192

82
TÍTULOS DE FINANCIAMENTO
COMERCIAL
SUMÁRIO: 178. Crédito Comercial. 179. Espécies de
Títulos de Financiamento Comercial. 180. Ajuste de
Orçamento. 181. Requisitos. 182. Disciplina Legal. 183.
Aspectos Gerais.

178. CRÉDITO COMERCIAL

"Atendeu o legislador, com a promulgação da lei sobre títulos de crédito comercial


(Lei 6.840 de 03/11/1980), a pessoa natural e a pessoa jurídica, exercentes da atividade
comercial e de prestação de serviços que não dispunham, como os agricultores e os
industriais, de financiamento de suas operações, com peculiares benefícios, junto às
instituições financeiras nacionais"176

179. ESPÉCIES DE TíTULOS DE FINANCIAMENTO COMERCIAL

Não obstante a existência de outras modalidades mais modernas, desde a


promulgação da Lei 6.840 de 03/11/1980, essas operações de empréstimo poderão ser
representadas por Cédula de Crédito Comercial e por Nota de Crédito Comercial. Constitui-
se a primeira numa promessa de pagamento, com garantia real, e a segunda, numa
promessa sem garantia, mas gozando do privilégio especial discriminado nos arts. 963 e
segs. do Código Civil Brasileiro.

180. AJUSTE DE ORÇAMENTO


"A aplicação de crédito decorrente da operação a que se vem de aludir poderá ser
ajustado em orçamento assinado pelo financiado e autenticado pela instituição financeira,
do qual deverá constar expressamente qualquer alteração que convencionarem. Na cédula
far-se-á a menção do orçamento, que a ela ficará vinculado" 177. Observa-se assim que,
ajustado orçamento, ele passa a ser obrigatório, e a sua falta, nesse caso, descaracteriza o
título.

181. REQUISITOS
De conformidade com o art. 5º da Lei 6.840/80, com exceção feita à denominação,
os requisitos dos títulos citados são os mesmos, respectivamente, da cédula de crédito
industrial e da nota de crédito industrial, inclusive os respectivos modelos.

182. DISCIPLINA LEGAL

À Cédula e à Nota de Crédito Comercial se aplicam as normas do Dec. Lei n.


413/69, quanto aos modelos anexos àquele diploma, respeitada, em cada caso, a respectiva
denominação. Vale ressaltar, aqui, um aspecto de suma importância: o prazo para embargos

176
Darcy Arruda Miranda Jr., op. citada, p. 286
177
Dylson Doria, op. citada, p. 145

83
é de quarenta e oito horas da juntada do auto de penhora no processo e não de dez dias
como na ação executiva regular.

183. ASPECTOS GERAIS

a) É desnecessário o protesto para se exercer o direito de regresso e a cobrança


judicial; b) a não-identificação dos bens objeto da alienação fiduciária cedular não
implicará na ineficácia da garantia, que incidirá sobre outras do mesmo gênero, qualidade e
quantidade e c) é desnecessária a descrição dos bens objeto do penhor ou da alienação
fiduciária previstos no item nº 5 do art. 14 do Dec. Lei 413/69, ou seja, quando se
constituem por meio de títulos de crédito, hipóteses em que se estipulará apenas o valor
global dos títulos apenhados.

84
OUTROS TÍTULOS DE NATUREZA
FINANCEIRA / COMERCIAL
SUMÁRIO: 184. Cédula de Crédito À Exportação e Nota de Crédito à
Exportação. 185. Certificados de Depósito Bancário (CDBs). 186. Letra
de Câmbio Financeira. 187. "Commercial Paper". 188- Cédula de
Crédito Bancário.

184. CÉDULA DE CRÉDITO À EXPORTAÇÃO E NOTA DE CRÉDITO À


EXPORTAÇÃO

Os financiamentos à exportação e à produção de bens a esse fim destinados são


beneficiados com operações afins, semelhantes às concedidas às atividades rurais e
industriais. Representados por títulos de crédito que podem ser emitidos por pessoas
naturais ou jurídicas, "têm por finalidade, e para isso devem ser usados, incrementar a
exportação pela produção de bens e apoio às atividades que colimem tais fins, e só podem
ser levantados junto às instituições financeiras”178.

Espécies - Dividem-se os títulos de crédito à exportação em CÉDULA DE


CRÉDITO À EXPORTAÇÃO e NOTA DE CRÉDITO À EXPORTAÇÃO, sendo que têm,
de acordo com o art. 1º da lei que as regulamenta - Lei 6.313/75 -, as mesmas
características dos títulos de crédito industriais. São promessas de pagamento, com garantia
real (cédula) e com privilégio especial (arts. 963 e 964 do CCB).

Requisitos - Às Cédulas de Crédito à Exportação e Notas de Crédito à Exportação


serão aplicáveis as regras do Dec. Lei 413/69, referentes à Cédula de Crédito Industrial e à
Nota de Crédito Industrial. Assim sendo, as primeiras deverão conter, além de sua
denominação própria, a data de pagamento e, se este for parcelado, cláusula determinando o
valor e a data de pagamento das prestações; o nome do credor e a cláusula à ordem; o valor
do crédito, por extenso e em algarismos, e a forma de sua utilização; a taxa de juros a
pagar; a praça do pagamento; data e lugar da emissão e assinatura de próprio punho do
emitente ou representante com poderes especiais. Por sua vez, a Nota de Crédito à
Exportação, além dessa denominação, deverá mencionar, no contexto, a data de pagamento
ou, se for parcelado, cláusula determinando a data do pagamento das prestações, o nome do
credor e a cláusula à ordem, o valor do crédito, em algarismos e por extenso, e a forma de
sua utilização, a taxa de juros a pagar, a praça de pagamento, a data e lugar da emissão e
assinatura de próprio punho do emitente ou representante com poderes especiais 179.

185. CERTIFICADOS DE DEPOSITO BANCÁRIO (CDBs)

O Certificado de Depósito Bancário é conceituado como a "promessa de pagamento


à ordem da importância do depósito, acrescida do valor da correção e dos juros

178
Darcy Arruda Miranda Jr., op. citada, p. 287
179
Fran Martins, citado, p. 242

85
convencionados". Ele pode ser transferido mediante endosso datado e assinado pelo seu
titular, ou mandatário especial, com a indicação do nome e qualificação do endossatário.

Disciplina legal – A lei reguladora do mercado de capitais, nº 728 de 14/07/1965,


em seu art. 30, estatuiu que os bancos de investimento, de natureza privada, cujas operações
e condições de financiamento sejam disciplinados pelo Conselho Monetário Nacional,
poderão emitir em favor dos respectivos depositantes, certificados de depósito bancário,
para os depósitos com prazos superiores a 18 (dezoito) meses. Eles foram disciplinados
através da Resolução nº 105 de 10/12/1968 do Banco Central.

Requisitos – Em conformidade com o aludido art. 30, dos Certificados de Depósito


Bancário deverão constar: I – o local e a data da emissão; II – o nome do banco emitente e
as assinaturas dos seus representantes; III – a denominação "Certificado de Depósito
Bancário"; IV – a indicação da importância depositada e a data da sua exigibilidade; V – o
nome e a qualificação do depositante; VI – a taxa de juros convencionada e a época do seu
pagamento; VII – o lugar de pagamento do depósito e dos juros e VIII – a cláusula de
correção monetária, se for o caso.

Aspectos Gerais – a) O crédito constante do Certificado de Depósito Bancário,


contra o banco emissor, pelo principal e juros, não poderá ser objeto de penhora, arresto,
seqüestro, busca ou apreensão, ou qualquer outro embaraço que impeça o pagamento da
importância depositada e dos seus juros, entretanto, o próprio certificado poderá ser
penhorado por obrigação do seu titular (Lei 4728, art.30); b) o endossante do Certificado de
Depósito Bancário responde pela existência do crédito, mas não pelo seu pagamento e c)
estatui a lei que aos CDB s são aplicáveis, no que couberem, as disposições legais relativas
às notas promissórias.

"Certificados de Depósito em Garantia" – São títulos que só poderão ser


emitidos pelos bancos de investimento cuja constituição obedeça primacialmente ao
disposto no art. 29 da Lei nº 4.728 e mais disposições legais e regulamentares a respeito.
Baseando-se a sua emissão em ações, debêntures ou títulos cambiais, esses documentos
deverão ser conservados em custódia nos estabelecimentos emissores dos certificados. A
custódia perdurará até que sejam devolvidos ao banco os certificados emitidos, tendo
aqueles títulos por garantia 180.

186. LETRA DE CÂMBIO FINANCEIRA

A Lei de Mercado de Capitais (Lei 4.278/65) dispôs em seu art. 27, que "as
sociedades de fins econômicos poderão sacar, emitir ou aceitar letras de câmbio ou notas
promissórias cujo principal fique sujeito à correção monetária, desde que observadas as
seguintes condições: I – prazo de vencimento igual ou superior a 1 (um) ano, e dentro do
limite máximo fixado pelo Conselho Monetário Nacional; II – correção segundo os
coeficientes aprovados pelo Conselho Nacional de Economia, para a correção atribuída às
obrigações do Tesouro; III – sejam destinadas à colocação no mercado de capitais com o
aceite ou coobrigação de instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central". O

180
Fran Martins, op. citada. P. 241

86
parágrafo. 2º da referida norma determinou a inclusão nos títulos da cláusula de correção
monetária.
Extrai-se, portanto, que as denominadas letras de câmbio financeiras são
instrumentos de captação de recursos às sociedades de fins econômicos, caracterizando-se
como títulos representativos de empréstimos das mesmas, que através delas procuram se
capitalizar para realizar as suas atividades comuns e subordinam-se a uma regulamentação
especial. Desta forma, divergem-se manifestamente das verdadeiras letras de câmbio,
identificando-se com estas, apenas por apresentarem os requisitos constantes do art. 1º da
Lei Cambial (Lei 2.044/1908).

Como já se salientou, a literalidade é um dos principais atributos dos autênticos


títulos de crédito. A permissibilidade da cláusula de correção monetária, por si só, já
afronta tal princípio, já que as letras de câmbio financeiras são resgatadas pelo valor
constante da cártula, corrigido pelos índices avençados.

De forma brilhante e completa, FRAN MARTINS a conceituou como um "título de


financiamento comercial, regido pelo disposto no art. 27 da Lei 4.728165, tendo os
requisitos constantes do art. 1º da Lei revogada, nº 2.044 de 1908 (pela lei uniforme), e
mais cláusula de correção monetária no seu contexto e o aceite ou coobrigação de
instituição financeira devidamente autorizada, só podendo ser emitida no prazo igual ou
superior a um ano, segundo disposição expressa da lei (Lei nº 4.728 de 1965, art. 27, I)"
181
.

187. "COMMERCIAL PAPER"

Esta modalidade de título de crédito vem alcançando relativo êxito no mercado


financeiro. Constitui-se numa nota promissória com todas garantias legais que respaldam
sua emissão e execução, vendidas por empresas industriais, companhias financeiras,
empresas "holding" de bancos ou mesmo por governos estaduais e municipais quando
necessitam de dinheiro de forma conveniente e por curto prazo.

Aspectos gerais: - a) A grande vantagem do referido documento é que se paga


menos que o valor nominal na compra e recebe-se o valor total no vencimento, devido aos
juros cobrados; b) por serem nominais e sem garantia, representam as obrigações diretas do
emitente; c) na maioria das vezes é comprado e vendido com valor de face mínimo de cem
mil dólares e um total médio que não ultrapassa dois milhões de dólares, o que na prática,
coloca-o fora do alcance dos pequenos investidores, embora vislumbrem-se vendedores
diretos de CPs desejosos de acomodar investimentos em quantias tão pequenas como vinte
e cinco mil dólares; d) o acesso do pequeno investidor é possível indiretamente por
intermédio dos fundos mútuos de investimentos e e) em geral, todos os países obrigam as
emissoras de CP a algum tipo de disclosure, que é a demonstração obrigatória das
condições financeiras da empresa às autoridades devidas. "Este artifício é colocado para
prevenir eventual falência da emissora, pois os títulos não passarão de simples pedaços de

181
Fran Martins, op. citada, p. 240

87
papel se ela não pagar os juros ou resgatá-los. Entretanto, se for necessário requerer o
disclosure toda vez que emite o título, fica impossível a emissão rápida do CP” 182.

Variedade de CPS – As empresas emissoras de CPs podem ser divididas em duas


classes: empresas ligadas à área financeira e empresas de atividades gerais (negócios). Os
títulos emitidos pleas primeiras são chamados de financial papers (= títulos financeiros) e
pelas segundas, de industrial papers (= títulos industriais).

Finalidade. A finalidade do papel comercial é fazer com que o comerciante


necessitado de financiamento emita e negocie um documento por cuja liquidação se
responsabiliza, pagando juros à taxa inferior bancária. Comumente, o título é conhecido
pela sua denominação em inglês de “commercial paper”. “Preferimos denominar tal título
de promissória comercial, pois na realidade, se trata de uma promessa de pagamento,
característica da nota promissória. Ademias, a denominação ‘commercial paper’, no
direito americano, é genérica, aplicável a vários títulos de crédito – letra de câmbio, nota
promissória, cheque, certificado de depósito, segundo se vê do parágrafo terceiro –104 da
Uniform Commercial Code”183.

188. CÉDULA DE CRÉDITO BANCÁRIO

A Cédula de Crédito Bancário é título de crédito emitido, por pessoa física ou


jurídica, em favor de instituição financeira ou de entidade a esta equiparada, representando
promessa de pagamento em dinheiro, decorrente de operação de crédito, de qualquer
modalidade, com ou sem garantia, real ou fidejussória constituída. É o que dispõe a Lei
10.931/2004. Trata-se de um título executivo extrajudicial e representa dívida em dinheiro,
certa, líquida e exigível, seja pela soma nela indicada, seja pelo saldo devedor demonstrado
em planilha de cálculo ou nos extratos da conta corrente, elaborados para esse fim..

Requisitos. De acordo com o art. 29 da lei específica, a Cédula de Crédito deve


conter os seguintes requisitos essenciais: I – a denominação “Cédula de Crédito Bancário”;
II – a promessa do emitente de pagar a dívida em dinheiro, certa, líquida e exigível no seu
vencimento ou, no caso de dívida oriunda de contrato de abertura de crédito bancário, a
promessa do emitente de pagar em dinheiro, certa, líquida e exigível, correspondente ao
crédito utilizado; III – a data e o lugar do pagamento da dívida e, no caso de pagamento
parcelado, as datas e os valores de cada prestação, ou os critérios para essa determinação;
IV – o nome da instituição credora, podendo conter cláusula à ordem;
V – a data e o lugar de sua emissão; e VI – a assinatura do emitente e, se for o caso, do
terceiro garantidor da obrigação, ou de seus respectivos mandatários.
Modo de transferência. A Cédula de Crédito Bancário será transferível mediante
endosso em preto, ao qual se aplicarão, no que couberem, as normas do direito cambiário,
caso em que o endossatário, mesmo não sendo instituição financeira ou entidade a ela
equiparada, poderá exercer todos os direitos por ela conferidos, inclusive, cobrar os juros e
demais encargos na forma pactuada na Cédula.

182
Akira Hinen, Commercial Paper- Novo Título de Valor Mobiliário no Processo de Globalização da
Economia, Ed. Atlas S. A ., 1996, p. 33.
183
Fran Martins, op. citada, p. 243

88
DAS LETRAS IMOBILIÁRIAS
SUMÁRIO. 189. Crédito Imobiliário. 190.
Sociedades de Crédito Imobiliário. 191. Conceito de
Letra Imobiliária. 192. Requisitos. 193. Forma. 194.
Negociação. 195. Tipos. 196. Novo conceito de
Concessão de Crédito Imobiliário. 197. Certificado
de Recebíveis Imobiliários. 198. Letra de Crédito
Imobiliário e Cédula de Crédito Imobiliário.

189. CRÉDITO IMOBILIÁRIO

A criação do Banco Nacional de Habitação (BNH) – extinto e substituído em suas funções


pela Caixa Econômica Federal (Dec. Lei n. 2.291 de 21/11/1986) – instituiu um sistema à
aglutinação de recursos destinados à política habitacional, na tentativa de solucionar um
dos mais graves problemas sociais do País. Surgiram assim, as sociedades de crédito
imobiliário e as letras imobiliárias, estando o funcionamento das primeiras subordinado à
prévia autorização do Banco Central, a quem também cabe fiscaliza-las.

190. SOCIEDADES DE CRÉDITO IMOBILIÁRIO

São constituídas necessariamente sob a forma de sociedade anônima, sujeitas às


normas emanadas do Poder Público e objetivam proporcionar recursos financeiros às
operações imobiliárias concernentes à incorporação, construção, venda e compra de
habitações. “A estas sociedades incumbe amealhar recursos através das seguintes
operações: a) emissão de letras imobiliárias; b) depósitos em conta, de acionistas ou não,
a prazo de, no mínimo, 1 (um) ano, não movimentáveis por cheque, e com garantia de
correção monetária e juros de até 6% (seis por cento) ao ano; c) refinanciamento
concedido pela Caixa Econômica Federal e d) operações de crédito no País ou no exterior,
para execução de projetos habitacionais”184

191. CONCEITO DE LETRA IMOBILIÁRIA

Conforme o disposto nos parágrafos dois e três do art. 44 da Lei 4.380 de


21/08/1964, que criou o BNH, a denominada letra imobiliária é uma promessa de
pagamento cuja satisfação, conforme a entidade emissora, ou é garantida pela União
Federal ou tem preferência absoluta sobre os bens integrantes do ativo da sociedade
emissora, excluídos quaisquer outros créditos, ainda que de natureza fiscal ou parafiscal,
podendo também ser garantida por outras empresas privadas.

“A emissão de tais títulos subordina-se à prévia comunicação da sociedade


emissora ao Poder Público, dando-lhe conta: I – do valor nominal da emissão; II – da data

184
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 312

89
do vencimento; III- da numeração dos títulos e da série e IV – das condições de resgate”185

192. REQUISITOS

A letra imobiliária deve conter os seguintes elementos, em consonância com o art.


45 da Lei 4.380/64 e demais consectários legais: I – a denominação "letra imobiliária" e a
referência à mencionada Lei; II – a denominação da sociedade emitente e sua sede, capital e
reserva, total dos recursos de terceiros e de aplicações; III – a data do vencimento, que não
poderá ser inferior a doze meses; a taxa de juros e a época do seu pagamento; IV – o
número de série, de ordem, bem como o livro, folhas e o número da inscrição no Livro de
Registro da sociedade emitente; V – a assinatura do próprio punho do representante ou
representantes legais da sociedade emitente, VI – a sua forma, se ao portador ou
nominativa, e a data de sua emissão; VII – o nome da pessoa a quem deverá ser paga no
caso de letra nominativa e IX – a denominação e assinatura da sociedade coobrigada de
direito privado, se for o caso.

193. FORMA

As letras imobiliárias ou são ao portador ou nominativas. No primeiro caso, a sua


transferência se faz pela tradição, ou seja, pela simples entrega do título ao seu novo
possuidor, salientando-se que nesta situação, a sua posse pressupõe a sua propriedade. Na
segunda hipótese, a transferência pode ocorrer pelo endosso através da averbação, no Livro
de Registro de Letras Imobiliárias Nominativas, devidamente autenticado (parág. único do
art. 46 da Lei 4.380164), do nome do novo proprietário, e no próprio certificado adquirido,
ou então, seguida da emissão, pela sociedade de crédito imobiliário, de um novo certificado
em nome do comprador, devidamente inscrito no livro mencionado. Ao contrário do que
ocorre com os títulos em geral, o endosso não vincula o endossante.

194. NEGOCIAÇÃO

Desde que devidamente autorizadas pelo Banco Central, as letras imobiliárias,


conquanto só possam ser emitidas pelo Poder Público, permite-se sejam negociadas não só
pelas sociedades emissoras como por outras entidades, tais como estabelecimentos
bancários, cooperativas de crédito e Bolsa de Valores.

195. TIPOS

Existem dois tipos padronizados de letras imobiliárias:

a) TIPO C: – são títulos de renda que conferem o recebimento trimestral de juros


pelo seu titular, até o máximo de 8% ao ano e de correção monetária;

b) TIPO D: – são títulos que conferem aos seus titulares, juros e correção monetária,
somente em seus vencimentos.

185
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 313

90
196. NOVO CONCEITO DE CONCESSÃO DE CRÉDITO IMOBILIÁRIO

Vindo a lume com a denominação Sistema Financeiro Imobiliário, o setor recebeu


ampla regulamentação através da Lei 9.514 de 20 de novembro de 1997. Atualmente, o
financiamento imobiliário se distingue do comum por dois fatores básicos: a) a garantia
pela alienação fiduciáría do crédito, a partir de outras, e b) a transferência ou cessão dos
créditos decorrentes do financiamento a companhias de capitalização, que os poderá
fragmentar em títulos e colocá-los no comércio.

197. CERTIFICADOS DE RECEBÍVEIS IMOBILIÁRIOS

"O crédito que tem a instituição financiadora é fracionado e vendido em parcelas


ou na sua globalidade para as sociedades de securitização. Ou seja, os créditos do agente
financiador, garantidos pela alienação fiduciária ou outra garantia, poderão ser cedidos a
uma companhia securitizadora de crédito imobiliário. Adquirindo esta companhia os
créditos junto aos bancos, gabarita-se a transferi-los a terceiros, através de títulos, que
serão vendidos, com remuneração, e resgatáveis segundo os prazos convencionados. Estes
títulos denominam-se Certificados de Recebíveis Imobiliários – CRI”186.

198. LETRA DE CRÉDITO IMOBILIÁRIO E CÉDULA DE CRÉDITO


IMOBILIÁRIO.

Estes títulos foram criados respectivamente pelos arts. 12 e 18 da Lei 10.931/2004,


objetivando servirem de instrumentos hábeis à captação de recursos para investimento no
setor da construção civil.

As instituições públicas ou privadas, autorizadas pelo Banco Central, poderão


emitir, independentemente da tradição efetiva, a letra de crédito imobiliário – LCI,
lastreada por créditos imobiliários tendo como garantia a hipoteca ou alienação fiduciária
de coisa imóvel, conferindo aos tomadores o direito de crédito de crédito nominal, juros e,
se for a hipótese, atualização monetária estipulada187.

Ao contrário das demais cédulas de crédito, a cédula de crédito imobiliário não é


emitida pelo devedor, mas pelo credor do crédito imobiliário, podendo ser integral, quando
representar a totalidade do crédito, ou fracionária, quando representar parte dele, não
podendo a soma das cédulas fracionárias emitidas em relação a cada crédito exceder o valor
total do crédito que elas representam. Sua emissão e eventual negociação independem de
autorização do devedor do crédito imobiliário que ela representa188.

186
Arnaldo Rizzardo, Contratos de Crédito Bancário, Editora Revista dos Tribunais, 4a. edição, 1999, p. 203
187
Gladston Mamede, op. Citada, p. 414
188
Nelson Abrão, Direito Bancário, Ed. Saraiva, Ed. 2007, p. 526

91
CONHECIMENTO DE DEPÓSITO E "WARRANT"
SUMARIO: 199. Armazéns Gerais. 200. Recibo de Depósito. 201.
Conceito de Conhecimento de Depósito e "Warrant". 202. Requisitos.
203. Livro de Talão. 204. Circulação. 205. Prazo de Depósito.

199. ARMAZÉNS GERAIS

Como lembra CARVALHO DE MENDONÇA, a história do conhecimento de


depósito e do "warrant", liga-se entre nós à dos armazéns gerais 189, que são, conforme o
conceito outorgado pela lei brasileira, empresas que se dedicam à guarda e conservação de
mercadorias. Na execução de suas atividades, desde que requeridos pelos seus depositantes
ou clientes, eles devem emitir conhecimento de depósito e "warrant", que são títulos
especiais que representam as coisas mantidas em depósito.

200. RECIBO DE DEPÓSITO

Deve-se destacar a existência do recibo do depósito, comum, intransferível, que não


é negociável e é passado pelos armazéns gerais como prova da existência de um contrato de
depósito. Distingue-se assim do conhecimento de depósito que é título de crédito e, como
tal, suscetível de transmissão, constituindo ele no objeto exclusivo do presente estudo, não
se dando, portanto, maior desenvolvimento ao recibo de depósito, intransferível.

201. CONCEITO DE CONHECIMENTO DE DEPÓSITO E "WARRANT"

O Decreto 1.102/1903, ao criar os armazéns gerais, outorgou-lhes dois títulos


negociáveis, designados por conhecimento de depósito e "warrant". Desta forma,
depositada a mercadoria nos armazéns gerais, os proprietários da mesma poderão solicitar a
emissão dos dois títulos, de natureza distinta, mas aderidos em sua funcionalidade.

O conhecimento de depósito representa a mercadoria armazenada e circula


livremente, por endosso, transferindo-se, assim, a propriedade da mesma. O "warrant",
unido ao conhecimento, mas dele separável à vontade do depositante, presta-se à função de
título constituído de direito de penhor sobre a mercadoria190.

"Embora o conhecimento de depósito e o warrant sejam títulos xipófagos, na feliz


expressão de WALDEMAR FERREIRA, podem circular em união, ou em separado e têm
natureza e função diferentes.
Assim, enquanto o conhecimento de depósito é título representativo da mercadoria
depositada, o warrant se traduz em instrumento de penhor das mercadorias a que alude o
conhecimento de depósito. É, pois, o warrant um título de crédito causal, por isso que o
seu subscritor, ao mesmo tempo em que promete pagar certa soma em dinheiro ao seu

189
apud Dylson Doria, op. citada, p. 122
190
Walter T. Álvares, op. citada, p. 642

92
beneficiário, garante esse pagamento com o penhor sobre as mercadorias depositadas”
191
7.
202. REQUISITOS

O conhecimento de depósito e o "warrant" são títulos à ordem que devem conter,


além de sua designação particular, outros requisitos que enumera o parág. 1º do art. 15 do
Dec. 1.102/1903, com redação dada pela Lei Delegada nº 3 de 26/09/1962, a saber: I – a
denominação do estabelecimento emissor; II – a sede do armazém geral; III – nome,
domicílio e profissão do depositante ou de seu procurador; IV – o local e prazo do depósito;
V – a natureza, a qualidade e quantidade das mercadorias em depósito; VI – o seguro
obrigatório contra incêndio; VII – a dos tributos que recaem sobre as mercadorias deposita
menção das e VIII – a data da emissão do título e respectiva assinatura do emitente.

203. LIVRO DE TALÃO

Todas as declarações que o conhecimento de depósito e o warrant “devem conter, e


mais o número de ordem correspondente, serão consignados no livro de talão, de onde eles
são extraídos. No verso do talão, o depositante passará o recibo dos títulos que lhe forem
entregues, sendo aí também anotadas as ocorrências que se verificarem e a que eles se
referem.

204. CIRCULAÇÃO

O conhecimento de depósito e o "warrant" podem ser transferidos, unidos ou


separados, sendo que a circulação se processa por meio do endosso, aplicando-se-lhe as
respectivas normas do Direito Cambiário.

Efeitos - Unidos, o conhecimento de depósito e o "warrant" conferem ao portador o


direito de dispor livremente das mercadorias. Destacados um do outro, o "warrant" se
destina a conferir ao portador um direito real de penhor sobre as mercadorias depositadas,
conferindo o conhecimento de depósito, o direito de disponibilidade da mercadoria,
condicionado ao resgate do penhor.

205. PRAZO DE DEPÓSITO

É de seis meses o prazo de depósito nos armazéns gerais, sendo prorrogáveis ajuízo
das partes. "Não havendo prorrogação deve o depositante, mediante a apresentação do
conhecimento de depósito e do Warrant, retirar as mercadorias. Não o fazendo, fica o
armazém geral autorizado a proceder a venda das mercadorias em leilão. Nessa hipótese,
destacado o Warrant e circulando mediante endossos, o saldo, se houver, será entregue ao
seu portador”192.

191
Dylson Doria, op. citada, p. 123
192
Amador Paes de Almdeida, op. citada, p. 261

93
DO CONHECIMENTO DE TRANSPORTE
SUMÁRIO: 206. Conceito. 207. Fundamentação Legal. 208.
Espécies. 209. Requisitos. 210. Contrato de Transporte. 211.
Natureza Jurídica. 212. Responsabilidade. 213. Classificação.
214. O Conhecimento de Frete Marítimo. 215. Conhecimento
Aéreo. 216. Previsão no CCB.

206. CONCEITO

É título de crédito representativo da mercadoria transferível mediante endosso, ou


mediante simples "traditio", se ao portador 189193. Para a maioria dos autores, ele
desempenha uma função complexa, posto que se constitui numa prova do conhecimento da
mercadoria e a obrigação de entregá-la no lugar do destino, podendo igualmente ser
utilizado como título de crédito. É de se ressaltar que, por sua própria natureza, ele pode ser
terrestre, marítimo e aéreo.

207. FUNDAMENTAÇÃO LEGAL

Já previsto no art. 575 do Código Comercial Brasileiro para o transporte marítimo, o


conhecimento de transporte, também conferido por "conhecimento de frete”, foi
particularmente disciplinado para o transporte de mercadorias por terra, água e ar, pelo
Decreto 19.473/1930, com as alterações do Decreto 19.754/193 1, do Decreto 20.754/1931
e as do Decreto 51.813/ 1963, este último só para o transporte ferroviário. Atualmente há
previsão expressa nos arts. 894 e 895 do CCB.

208. ESPÉCIES

Temos as seguintes espécies de conhecimento de transporte:

a) nominativo: é o que tem a designação do consignatário da mercadoria, podendo


ser emitido "à ordem" ou "não à ordem";

b) ao portador.– quando se deixa de indicar o consignatário. "O conhecimento


nominativo ou à ordem pode ser endossado pelo remetente ou pelo consignatário e, com
isto, perante a transportadora, passam todos os direitos e obrigações ao endossatário. Este
endosso pode ser em preto e em branco. É em preto quando indica por extenso o nome do
endossatário, em branco quando não contém esta designação" 194.

209. REQUISITOS

193
Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 272
194
Walter T. Álvares, op. citada, p. 570

94
O conhecimento de transporte deve atender aos seguintes requisitos, consoante
dispõe o art. 2º do Dec. 19.47311930: I – o nome, ou denominação da empresa emissora; II
– o número de ordem; III – a data, com indicação de dia, mês e ano; IV – os nomes do
remetente e do consignatário; V – o lugar da partida e do destino; VI – a espécie e a
quantidade, ou peso das mercadorias; VII – a importância do frete e VIII – a assinatura do
empresário ou do seu representante.

210. CONTRATO DE TRANSPORTE


Trata-se de avença tipicamente onerosa e se a transportadora é permissionária, ou
concessionária, então o preço deve constar de tarifas, fixadas estas pelo Poder Público
competente.

Prova - O contrato de transporte se prova por escrito, devendo, no caso de


transporte de passageiro, este receber do transportador bilhete (simples, ida e volta, passes
etc.) e no transporte de coisas, o expedidor recebe o conhecimento de trans-porte.

Frete – A palavra frete, recolhida pelo Código Comercial, veio da legislação lusa,
que a recebeu das práticas do Direito Marítimo, vindo do latim fretum, e que significa
transportar por mar. O frete pode ser pago ou a pagar, e é sempre calculado levando-s e em
conta distância em quilômetro, peso em quilogramas e categoria do veículo 195.

Contrato típico especial – Discute-se muito se se trata verdadeiramente de contrato


consensual ou real, pois o transporte é de coisas ou pessoas, e, sem o transporte destas, não
se consuma o contrato. Neste ponto, os autores distinguem entre a perfeição e a execução e
concebem que o contrato está perfeito desde que as partes acordam nas condições, e se não
se entrega a coisa, o que se torna impossível será a execução. A remessa da coisa é fato de
execução 196.

211. NATUREZA JURÍDICA

Várias teorias tentam explicar a natureza jurídica do conhecimento de transporte.


Alguns autores vêem nele elementos integrantes de gestão de negócios, de depósito, de
locação de coisas e serviços, a um só tempo, e locação de coisas ou de serviços. No entanto,
a corrente dominante no Direito brasileiro é a que o aponta como um contrato nitidamente
bilateral e oneroso.

212. RESPONSABILIDADE

O art. 163 do Decreto 51.813/1963, enuncia regra considerada muito adequada a


respeito da responsabilidade do transportador: "Começa com o recebimento da coisa,
mesmo antes do seu despacho, e dessa com a sua entrega efetiva". Nada menor é a
responsabilidade quanto ao transporte de passageiros. Assim, é de se registrar que o
transportador deve efetuar o transporte: a) se de pessoas, com segurança, rapidez,
pontualidade e conforto; e b) se de coisas, com cuidado, exatidão e presteza. Ocorrendo

195
Walter T. Álvares, op. citada, p. 571
196
Walter T. Álvares, op. citada, p. 571

95
eventual perda, avaria, atraso etc., o transportador poderá ser responsabilizado pelos
possíveis danos que tais variações poderão acarretar.

213. CLASSIFICAÇÃO

O conhecimento de transporte pode ser classificado: I – quanto ao elemento pelo


qual se realiza em: a) transporte marítimo (Cod. Com., art. 566 e segs.); b) transporte
terrestre; b1 – ferroviário (Dec. 2.681/1912, Dec. 51.813/1963 etc.) e b2 – rodoviário (art.
Dec. 2.681/1912; Dec. 68.961/ 1971, alterado pelo Dec. 71.984/1973); Il – quanto ao
objeto: a) de pessoas e b) de coisas e III –quanto à natureza da transportadora: a)
permissionárias (na hipótese de serviço público de transporte de passageiros em ônibus e
aviões); b) concessionárias (como é o caso de ferrovias) e c) livres, quando a transportadora
não precisa de autorização especial para realizar suas atividades como é o caso de
transporte rodoviário de carga.

214. O CONHECIMENTO DE FRETE MARÍTIMO

É o documento pelo qual se reconhece haverem sido recebidas, a bordo do navio,


por seu capitão (pelo afretador ou seu agente autorizado) mercadorias a fim de serem
transportadas para determinado lugar mediante frete estipulado 197. Também é conhecido
como apólice de carregamento e como letra de câmbio do mar 198, mantendo pontos de
afinidade com os títulos armazeneiros, a letra de câmbio, apólice de seguro etc.199.

Requisitos – Em consonância com o art. 575 do Código Comercial, o conhecimento


de frete marítimo deve conter, além da data, os seguintes requisitos: a) o nome do capitão e
do carregador e consignatário (podendo omitir-se o nome deste se for à ordem) e o nome e
porte do navio; b) a qualidade e a quantidade dos objetos da carga, suas marcas e números,
anotados à margem; c) o lugar da partida e do destino; d) o preço do frete e primagem, se
esta for estipulada e o lugar e forma do pagamento e e) a assinatura do capitão e a do
carregador.

Aspectos Gerais – a) A lei (art. 575 do Cod. Com.) assemelha o conhecimento de


frete marítimo a uma escritura pública; b) Sendo regularmente emitido "à ordem” , como
acontece com os demais títulos clausulados, é transferível por meio de endosso, seja em
branco, seja em preto; c) "Além da lei não admitir nenhuma ação entre o capitão e os
carregadores ou seguradores sem que venha instruída com o conhecimento original,
restringe a sua resposta ao seguinte: falsidade, quitação, embargo, arresto ou penhora e
depósito judicial ou perdimento dos efeitos carregados por causa justificada” 200.

215. CONHECIMENTO AÉREO

197
José da Silva Costa, Direito Comercial, Marítimo, Fluvial e Aéreo, Tomo I, Ed. Freitas Bastos, 3a. edição,
1935, p. 446
198
Waldir Vitral, Manual de Direito Marítimo, Ed. Bushatsky, 1977, p. 172
199
José da Silva Costa, op. citada, p. 446
200
Darcy Arruda Miranda, op. citada, p. 244

96
Embora tal modalidade de conhecimento de transporte e tenha pontos de contato
com o conhecimento terrestre e o marítimo, ele apresenta algumas distinções em vários
aspectos, ressaltando-se que a Lei 7.565 de 19/12/86 (Código Brasileiro de Aeronáutica)
acabou por regulamentá-lo de forma mais abrangente, notadamente através do art. 235 e
seguintes.

Requisitos – Conforme disposto no Cód. Brasileiro de Aeronáutica, os requisitos


legais de um conhecimento aéreo são: I – o lugar e a data da emissão; Il – os pontos de
partida e destino III – o nome e o endereço do expedidor; IV – o nome e o endereço do
transportador; V – o nome e o endereço do destinatário; V – a natureza da carga; VII – o
número, o acondicionamento, marcas e a numeração dos volumes; VIII – o peso, a
quantidade o volume ou dimensão; IX – o preço da mercadoria, quando carga for expedida
contra pagamento no ato da entrega e, eventualmente, a importância das despesas; X – o
valor declarado, houver; XI – o número das vias do conhecimento; XII – os documentos
entregues ao transportador para acompanhar o conhecimento; XII – o prazo de transporte,
dentro do qual deverá o transportador entregar a carga no lugar do destino, e o destinatário
ou expedidor retirá-la.

216. PREVISÃO NO CCB

O art. 894 do CCB expressamente prevê o conhecimento de depósito, ao lado do


conhecimento de transporte, ao dispor que “o portador de título representativo de
mercadoria tem o direito de transferi-lo, de conformidade com as normas que regulam a sua
circulação, ou de receber aquela independentemente de quaisquer formalidades, além da
entrega do título devidamente quitado”. Por outro lado, por disposição do art. 895 do
mesmo estatuto, estando ele em circulação até a data do vencimento para retirada da
mercadoria nos contratos de depósito ou transporte, apenas ele, e não os direitos ou
mercadorias nele representados, constituirá objeto de medida judicial e poderá ser dado em
garantia pelo credor ou portador.

97
DOS VALORES MOBILIÁRIOS
SUMÁRIO: 217. Conceito. 218. Espécies. 219. Comissão
de Valores Mobiliários. 220. Bolsa. 221. Bolsas de Valores.
222. Das Ações. 223. Espécies quanto à forma. 224.
Classificação. 225. Ações Escriturais. 226. Requisitos. 227.
Aspectos Gerais. 228. Títulos Múltiplos de Ações. 229.
Partes Beneficiárias. 230. Certificado de Depósito de
Ações. 231. Bônus de Subscrição. 232. Debêntures. 233.
Cédula Pignoratícia de Debêntures.

217. CONCEITO

A Lei 6.385 de 07/12/1976, que dispôs sobre o mercado de valores mobiliários, não
os conceitua, limitando-se a asseverar em seu art. 1º que "serão disciplinadas e fiscalizadas
de acordo com esta lei a emissão e distribuição de valores mobiliários no mercado". A
citada legislação não oferece elementos que permitam dar, com supedâneo legal, uma
definição de valores mobiliários. No entanto, compartilhável é a opinião dos autores que
afirmam constituir os valores mobiliários uma subespécie dos títulos de crédito 201.

Tanto que NEWTON DE LUCCA afirma que "como direito cambiário é espécie do
gênero 'direito cautelar', entendendo-se por esta última expressão as normas reguladoras
de todos os títulos de crédito, é forçoso concluir-se que, pelo menos sob certo aspecto
sejam os valores mobiliários unia subespécie de títulos de crédito" 202.

Pode-se dizer ainda que são títulos que envolvem operações coletivas de
investimentos, inconcebíveis isoladamente, mas como parte integrante de uma massa
homogênea, com função unilateralmente considerada, como por exemplo, as ações e
obrigações (debêntures) de uma sociedade por ações 203.

218. ESPÉCIES

O art. 2 da Lei 6.385/76 indica que são valores mobiliários: as ações, as partes
beneficiárias, as debêntures, os cupões e bônus de subscrição e os certificados de depósitos
de valores mobiliários. Exclui os títulos da dívida pública em todas as suas esferas (federal,
estadual e municipal) e os títulos cambiais de responsabilidade de instituição financeira,
salvo as debêntures. Admite ainda a criação, pelas sociedades anônimas, de outras espécies,
desde que autorizadas pelo Conselho Monetário Nacional.

219. COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS

201
Darcy Arruda Miranda Jr., op. citada, p. 252
202
Newton de Lucca, Aspectos da Teoria Geral dos Títuloss de Crédito, Ed. Pioneira, 1a. edição, 1979, p. 37
203
Darcy Arruda Miranda Jr., op. citada, p. 252.

98
Criado pela lei supramencionada, a Comissão de Valores Mobiliários é uma
entidade autárquica, vinculada ao Ministério da Fazenda, com atribuições muito vastas
sobre o sistema de distribuição de valores mobiliários, e assim abrangendo instituições
financeiras, companhias abertas, bolsa de valores, estas com autonomia admistrativa,
financeira e patrimonial, mas operando sob a supervisão desta (art. 17).

220. BOLSA

A operação central da Bolsa, segundo Mossa, é a compra e venda, dentro do quadro


da essencialidade do tempo, com função econômica e jurídica. A esta abordagem, Thaller
acrescentou que a sua função está primordialmente: a) na colocação de produtos e valores;
e b) na regulamentação de preços 204.

Desta função de colocação decorre a divisão da instituição em dois grandes grupos:


a) Bolsa de Mercadorias e b) Bolsa de Valores. Existem, sem as repercussões das duas ora
indicadas, outras, como Bolsa de Seguros, Bolsa de Imóveis etc.

Da função de regulação de preços resulta a aplicação de duas práticas distintas e


fáceis de diferenciação nos extremos, porém de difícil separação na área tangenciante:
a) o investimento: segurança, com a certeza de razoável resultado positivo;
b) a especulação: risco, com a possibilidade de perda ou lucro 205.

221. BOLSAS DE VALORES

São consideradas associações civis, sem finalidade lucrativa, com número limitado
de membros, com capital social, patrimônio, e uma administração distribuída por uma
assembléia geral, conselho de administração e superintendência-geral.

A Resolução nº 39 do Banco Central discrimina no art. 66, em dez incisos,


operações que competem aos membros da Bolsa, entre as quais, operar com títulos e
valores mobiliários, formar e gerir consórcios para lançamentos públicos de títulos ou
valores mobiliários, administração de valores, encarregar-se de subscrição de títulos e
promover lançamento dos mesmos.

222. DAS AÇÕES

"'Ação é uma das partes iguais em que se divide o capital social, representada por
um título transmissível e negociável.
Daí duas acepções da palavra ‘ação’. como parte do capital social (sentido
subjetivo), representa o conjunto dos direitos e obrigações derivadas da qualidade de
sócio. Como título ou documento (sentido objetivo), é o meio de prova e exercício desses
direitos e obrigações. É ainda o título representativo do valor do bem incorporado pelo

204
Apud Walter T. Álvares, op. citada, p. 670
205
Walter T. Álvares, op. citada, pp 670/671

99
acionista ao capital social e que comprova a qualidade do acionista. Constitui um bem
móvel” 206.

Para J.M. CARVALHO SANTOS, "a ação representa um direito eventual que o
acionista possui, em troca do capital que empregou ao adquiri-la, a unia parte dos lucros,
enquanto durar a sociedade, ou a uma parte do patrimônio social, quando esta vem a ser
dissolvida” 207.

223. ESPÉCIES QUANTO À FORMA

Como documento representativo dos direitos e obrigações do acionista, a ação é um


título de crédito. É o instrumento do contrato bilateral, solene e aleatório, firmado entre a
sociedade e o acionista. "A ação (título de crédito) apresenta-se como contrato bilateral,
visto que ambas as partes têm direitos e obrigações; aleatório, em virtude da variabilidade
dos lucros (dividendos), que podem ser maiores, menores ou inexistentes; solene, atenta a
necessidade do título revestir as formalidades legais, só se consumando o contrato com a
declaração formal dos contratantes exaradas naquele título” 208.
Pode assumir duas modalidades: título nominativo (é aquele que inscreve em seu texto o
nome do titular, devendo constar de registro próprio, mantido pela sociedade) e título ao
portador (é aquele que não traz inscrito o nome do titular no texto). É de se ressaltar que as
ações ao portador foram abolidas pela Lei nº 8.021 de 12/04/1990 (Plano Collor), que
modificando na época o art. 20 da Lei das Sociedades Anônimas, dispôs que as ações
devem ser exclusivamente nominativas.

224. CLASSIFICAÇÃO

As ações, conforme a natureza dos direitos ou vantagens que conferem aos seus
titulares, podem ser ordinárias (ou comuns), preferenciais e de fruição (ou de gozo).

Ações ordinárias ou comuns são aquelas em que normalmente se divide o capital


social e não conferem aos titulares quaisquer privilégios nem lhes impõem restrições,
concedendo-lhes tão-somente os direitos usuais de sócios, tais como o direito de voto nas
assembléias. "Nas sociedades anônimas abertas existe somente uma classe de ações
ordinárias. Nas sociedades fechadas, as ações podem ser de diferentes classes,
identificadas no estatuto por um código que as diferencia. Podem ser criadas em função da
forma ou da pessoa do titular, permitindo-se sua conversão de uma classe em outra" 209.

Ações preferenciais são aquelas que conferem aos titulares determinadas


preferências (ou vantagens, ou, ainda, privilégios) em relação aos titulares das ações
ordinárias, como a prioridade no recebimento dos dividendos, na percepção de um
dividendo fixo, em preferência no reembolso do capital, ou em mais de uma dessas
vantagens, combinadas (Art. 10 do Dec. Lei 2.627/ 1940 e art. 17 da Lei 6.404/1976).

206
Aloysio Lopes Pontes, Sociedades Anônimas, Ed. Forense, 5a. edição, vol. I, p. 152
207
J. M. Carvalho Santos, Parecer, Revista Forense, vol. 97, p. 44
208
Aloysio Lopes Santos, op. citada, p. 152.
209
José Cretella Jr. e José Cretella Neto, op. citada, p. 54.

100
Embora de uso bastante generalizado no estrangeiro e reconhecida pela doutrina, a emissão
de ações preferenciais com privilégio de voto não tem sido incluída em nossa legislação
sobre o anonimato.
As ações de fruição ou de gozo, também denominadas por ações amortizadas, são
aquelas cujos titulares, tendo integralizado e, posteriormente, recebido o valor total de suas
ações, na vida regular da sociedade, conservam todos os direitos que possuíam, entre os
quais, o direito à percepção dos dividendos, o direito de votar nas assembléias gerais, o
direito ao restante do ativo na liquidação, depois de coberto o passivo. São destituídas de
capital e devolvem ao acionista o valor de seu investimento.

225. AÇÕES ESCRITURAIS

São as que dispensam corporificação do título em certificado pela sociedade,


devendo ser registradas em livro especial, não sendo consideradas títulos de crédito. Têm
por finalidade negar direito de voto aos titulares das ações ao portador” 210.

226. REQUISITOS

Em consonância com a legislação específica (arts. 24 da Lei 6.404/76 e 20 do Dec.


Lei 2.627/40, e alterações da Lei 9.457 de 05/05/1997 211), os certificados ou títulos das
ações deverão ser "escritos em vernáculo e conterão as seguintes declarações: I – a
denominação da companhia, sua sede e prazo de duração; II – o valor do capital social, a
data do ato que o tiver fixado, o número de ações em que se divide o valor nominal das
ações, ou a declaração de que não têm valor nominal; III – nas companhias com capital
autorizado, o limite da autorização, em número de ações ou valor do capital social; IV – o
número de ações ordinárias e Preferenciais das diversas classes, se houver, as vantagens
ou preferências conferidas a cada classe e as limitações ou restrições a que as ações
estiverem sujeitas; V – o número de ordem do certificado e da ação, e a espécie e classe a
que pertence; VI – os direitos conferidos às partes beneficiárias, se houver; VII – a época e
o lugar da reunião da assembléia geral ordinária; VIII – a data da constituição da
companhia e do arquivamento e publicação de seus atos constitutivos; IX – o nome do
acionista; X – o débito do acionista e a época e o lugar de seu pagamento, se a ação não
estiver integralizada e XI – a data da emissão do certificado e as assinaturas de dois
diretores (quando existirem dois, visto que a lei permite seja a sociedade, administrada por
um ou mais diretores'- art. 145 da Lei 6.4041 76), ou do agente emissor do certificado“.

227. ASPECTOS GERAIS

a) De acordo com o parág. 2º do art. 43 da Lei 6.404/76, emitido, o certificado de


depósito, as ações depositadas, seus rendimentos, o valor de resgate ou de amortização não
poderão ser objeto de penhora, arresto, seqüestro, busca ou apreensão, ou qualquer outro
embaraço que impeça sua entrega ao titular do certificado, mas este poderá ser objeto de

210
José Cretella Jr. e José Cretella Neto, op. citada, p. 55
211
Todo o presente capítulo se encontra adaptado às modificações advindas às Sociedades Anônimas com a
promulgação da Lei n. 9.457 de 05/05/1997, utilizando-se aqui, como instrumento de consulta, a obra
Comentários à Lei de Sociedades Anônimas, vols. I e II, de Modesto Carvalhosa, Ed. Saraiva, 1997

101
penhora ou de medida cautelar por obrigação de responsabilidade de seu titular; b) o
certificado de depósito de ações poderá ser transferido por endosso em preto ou em branco,
assinado pelo titular das ações ou por mandatário com poderes especiais (parág. 3 do art. 43
da Lei 6.404/76), sendo que ao endosso, no que couber, aplicam-se as normas afins dos
títulos cambiáríos; c) a pedido de seu titular e por sua conta, os certificados poderão ser
desdobrados ou grupados (parág. 4º do art. 43 da Lei 6.404/76) e d) a falta de qualquer dos
requisitos dá ao acionista o direito à indenização por perdas e danos contra os diretores, na
gestão dos quais foram os títulos emitidos (parág. 1º do art. 20 da Lei 6.404/76). Nesta
trilha, escreve TRAJANO MIRANDA VALVERDE, "se o documento não contém
qualquer dos ditos elementos, ou os contém, mas erradamente, o título é nulo, mas em
beneficio do seu possuidor, que não fica, assim, privado da qualidade de acionista” 212.

228. TÍTULOS MÚLTIPLOS DE AÇÕES E CAUTELAS

A legislação específica admite que a sociedade possa emitir títulos múltiplos de


ações e provisoriamente cautelas que as representem. Didaticamente, se diz que "títulos
múltiplos são aqueles que compreendem cada um, certo número de ações, 5, 10, 20 etc.
Procura-se, mediante esse processo, não só evitar despesas com a impressão dos títulos,
como simplificar a escrituração do livro de registro e tornar mais fáceis a guarda e a
circulação das ações por 'testas-de-ferro' nas vésperas das assembléias gerais" 213.
Portadoras das mesmas vantagens são as "cautelas" de ações, documentos que gozam dos
mesmos direitos reconhecidos às ações até a emissão destas, devendo, por isso, conter os
mesmos requisitos das ações 214. Os títulos múltiplos estão previstos no art. 25 da Lei das
SAs.

229. PARTES BENEFICIÁRIAS

O art. 46 do diploma legal disciplinador das sociedades por ações dispõe que estas
poderão criar, a qualquer tempo, títulos negociáveis, sem valor nominal e não
representativos do capital e que conferem a seus titulares o direito de participação nos
lucros líquidos anuais distribuídos aos acionistas.

"Oriundos do direito francês, as partes beneficiárias destinam-se na maior parte


dos casos, nas companhias fechadas, a remunerar os serviços prestados pelos fundadores,
acionistas ou não, da sociedade" 215. É de se ressaltar que a participação nos lucros não
poderá exceder a 10% (dez por cento) dos mesmos, incluindo nesse valor a formação de
reservas para futuro resgate.

Requisitos – Dispõe o art. 49, que o certificado das partes beneficiárias conterá: I –
a denominação "parte beneficiária"; Il – a denominação da companhia, sua sede e prazo de
duração; III – o valor do capital social, a data do ato que o fixou e o número de ações em

212
Trajano Miranda Valverde, Sociedade por Ações, Ed. Forense, 3a. edição, 1959, p. 221
213
J. X. Carvalho de Mendonça, Tratado de Direito Comercial Brasileiro, vol. 6, n. 1063, p. 419
214
Aloysio Lopes Pontes, op. citada, p. 162
215
Darcy Arruda Miranda Jr., op. citada, p. 260

102
que se divide; IV – o número de partes beneficiárias criadas pela companhia e o respectivo
número de ordem; V – os direitos que lhes são atribuídos pelo estatuto, o prazo de duração
e as condições de seu resgate, se houver; VI – a data da constituição da companhia e do
arquivamento e publicação de seus atos constitutivos; VII – o nome do beneficiário; VIII –
a declaração de sua transferibilidade por endosso, se endossável; e IX – a data da emissão
do certificado e a assinatura de dois diretores (quando existirem em tal número. Já que a lei
permite seja a sociedade administrada por um ou mais diretores)..

230. CERTIFICADO DE DEPÓSITO DE AÇÕES

A Comissão de Valores Mobiliários autorizou as instituições financeiras a prestarem


serviços de custódia de ações fungíveis 216 aos acionistas que os solicitarem. Conforme
estatui o art. 41 da Lei da SAs., as entidades depositárias não poderão dispor das mesmas,
ficando obrigadas a devolverem a quantidade de ações recebidas, com os eventuais
acréscimos, independentemente do número de ordem das ações ou dos certificados
recebidos em depósito.

A sua principal característica é a de impedir que as ações custodiadas e seus


rendimentos, depois de emitido, sejam objeto de penhora, arresto, seqüestro, busca ou
apreensão. Tais medidas só poderão recair sobre o título em apreço, o que lhe outorga o
caráter de título de crédito causal, ressaltando-se que a natureza jurídica entre o acionista e
a instituição financeira é a de um contrato irregular"'217.

Requisitos – Em consonância com o art. 43, o certificado de depósito em ações


deverá conter as seguintes declarações: I – o local e a data da emissão; II – o nome da
instituição emitente e as assinaturas de seus representantes; III – a denominação
"certificado de depósito de ações"; IV – a especificação das ações depositadas; V – a
declaração de que as ações depositadas, seus rendimentos e o valor recebido nos casos de
resgate ou amortização somente serão entregues ao titular do certificado de depósito,
mediante a apresentação deste; VI – o nome e a qualificação do depositante; VII – o preço
do depósito cobrado pelo banco, se devido na entrega das ações depositadas e VIII – o
lugar da entrega do objeto do depósito.

231. BÔNUS DE SUBSCRIÇÃO

São títulos emitidos pelas sociedades anônimas até o valor do aumento do capital
autorizado nos estatutos, conferindo aos titulares, o direito de subscrever ações, e que
podem facilitar, em determinadas conjunturas, a captação de recursos.

216
Vale lembrar que coisas fungíveis são aquelas que podem ser substituídas por outras da mesma espécie,
qualidade e quantidade.
217
Darcy Arruda Miranda Jr., Breves Comentários à lei de Sociedades Por Ações, Ed. Saraiva, 1977, pp.
61/62.

103
"Os bônus de subscrição, na verdade, conferem o direito de imediata conversão em
ações mediante o pagamento de seu preço de emissão, e não propriamente o direito de
subscrever ações no desenrolar de processo normal de aumento de capital” 218.

Requisitos – Conforme o disposto no art. 79 da Lei 6.404/ 76, o certificado deverá


conter as seguintes declarações: I – denominação da companhia, sua sede e prazo de
duração; 11 – o valor do capital social, a data do ato que o tiver fixado, o número de ações
em que se divide o valor nominal das ações, ou a declaração de que não têm valor nominal;
III – na companhias com capital autorizado, o limite da autorização, em número de ações
ou valor do capital social; IV – o número de ações ordinárias e preferenciais das diversas
classes, se houver, as vantagens ou preferências conferidas a cada classe e as limitações ou
restrições a que as ações estiverem sujeitas; V – a denominação "Bônus de Subscrição"; VI
– o número de ordem; VII – o número, a espécie e a classe das ações que poderão ser
subscritas, o preço de emissão ou os critérios para sua determinação; VII – a época em que
o direito de subscrição poderá ser exercido e a data do término do prazo para este exercício;
VIII – o nome do titular; e IX – a data da emissão do certificado e as assinaturas de dois
diretores (quando existirem em tal número, já que a lei permite seja a sociedade
administrada por um ou mais diretores).

232. DEBÊNTURES

"Trata-se de título de crédito causal, representativo de parcela de mútuo oferecido


ao público por uma sociedade anônima, destinando-se, via de regra, ao financiamento de
investimento fixo e às necessidades de capital de giro. Quis o legislador incentivar esta
forma alternativa de captação de recursos colocada à disposição das sociedades
anônimas, dotando o título de executividade como modo de atrair mais investidores 219.

De acordo com DARCY ARRUDA MIRANDA JR., "se quiséssemos dar uma
definição simples e incompleta, diríamos que a debênture representa o crédito resultante da
colocação de um empréstimo junto ao público, empréstimo esse representado por títulos
que correspondem a frações iguais do mesmo, em cada série, e independentes entre si.
Difícil, porém é dar uma definição que não seja descritiva, dada a sua enorme
complexidade” 220.

Elas podem ser objeto de custódia, com emissão do respectivo certificado de


depósito de debêntures, hipótese que se regerá pelo disposto nos arts. 41 a 43 da Lei das
SAs.

Distinções com outros valores mobiliários - Das Ações. Enquanto os titulares das
ações são sócios-proprietários das sociedades, os titulares de debêntures são credores das
companhias, sendo as primeiras, títulos de renda variável e as segundas, títulos de renda

218
Mauro Brandão Lopes, Sociedade Anônima. Títulos e Contratos Novos. Ed. Revista dos Tribunais, 1978,
p. 85
219
Carlos Alberto Carmona, artigo Títulos Executivos Extrajudiciais no CPC contido no livro Processo de
Execução e Assuntos Afins coordenado por Teresa Arruda Alvim Wambier, Ed. Revista dos Tribunais, 1a.
edição, 1998, pp. 69/70.
220
Darcy Arruda Miranda Jr., op. citada, p. 263

104
fixa. Das partes beneficiárias. Apesar de seus titulares serem credores da sociedade, o
crédito relativo às partes beneficiárias somente será pago nos exercícios em que forem
realizados lucros, ao contrário do crédito relativo às debêntures, que deve ser pago na data
do vencimento, independentemente da realização de lucros.
Conversão De Debêntures Em Ações - Como forma de tornar mais atrativa a
subscrição das debêntures colocadas no mercado, a lei permite que elas sejam acrescidas de
vantagens adicionais, entre as quais a da sua conversão em ações da companhia emissora
daqueles valores mobiliários, conforme disposto no art. 57 da Lei 6.404/76, que ainda
indica as condições à efetivação de tal procedimento, sempre condicionado ao aumento do
capital social.

233. CÉDULA PIGNORATÍCIA DE DEBÊNTURES

As instituições financeiras, desde que autorizadas pelo Banco Central do Brasil,


poderão emitir cédulas lastreadas em debêntures, com garantia própria, que conferirão a
seus titulares direito de crédito contra o emitente, pelo valor nominal e os juros nelas
estipulados. A cédula será nominativo, escritural ou não.

"Os títulos em foco foram criados com a finalidade de dar uma maior flexibilidade
e eficácia à intermediação entre as companhias emissoras e o mercado de capitais de
empréstimo, pois, quando as condições deste último não permitirem ou não aconselharem
a distribuição imediata de uma emissão ou série de debêntures, no montante ou com os
prazos de vencimentos requeridos pela mutuária, a instituição financeira poderá
subscrever a emissão ou a série de debêntures, mantendo-a em carteira para oportuna
distribuição no mercado” 221..

É de se ressaltar que a sua estruturação jurídica recebeu severas críticas por parte de
alguns autores, entre os quais, MAURO BRANDÃO LOPES 222.

Requisitos – Dispõe a "Lei das S.As" que tais certificados deverão conter as
seguintes declarações, conforme dispõe o parág. 2º do art. 72: I – o nome da instituição
financeira emitente e as assinaturas dos seus representantes; II – o número de ordem, o
local e a data da emissão; III – a denominação "Cédula de Debêntures"; IV – o valor
nominal e a data do vencimento; V – os juros, que poderão ser fixos ou variáveis, e as
épocas do seu pagamento; VI – o lugar do pagamento do principal e dos juros; VII – a
identificação das debêntures-lastro, do seu valor e da garantia constituída; VIII – a cláusula
de correção monetária se houver; e IX – o nome do titular.

221
Darcy Arruda Miranda Jr., Breves Comentários à Lei de Sociedade Por Ações, citada, p. 112
222
Mauro Brandão Lopes, op. citada, p. 71

105
DOS TÍTULOS DA DÍVIDA PÚBLICA
SUMÁRIO: 234. Conceito. 235. Formas. 236. Títulos da
Dívida Agrária. 237. Notas do Tesouro Nacional. 238.
Utilização Para Pagamentos de Débitos Fiscais.

234. CONCEITO

De acordo com AMADOR PAES DE ALMEIDA, "na insuficiência dos meios


regulares de arrecadação, vê-se o Estado obrigado a lançar mão de empréstimos para
obtenção de fundos. Tais empréstimos ou são voluntários ou compulsórios, estes últimos de
inequívoca natureza tributária. Os empréstimos que constituem a dívida pública podem ser
a curto ou a longo prazo. Os primeiros compõem a chamada dívida flutuante ou não
consolidada e os últimos, isto é, contraídos para solução a longo prazo, dão origem à dívida
consolidada ou fundada" 223.

Assim, as diversas modalidades voluntárias de empréstimo público são


representadas por títulos que dão aos seus subscritores, como lembra GERALDO
ATALIBA, "um direito de crédito representado normalmente por um papel: é o título da
dívida pública. A conceituação desse título não ficaria completa sem unia referência à
legalidade de sua emissão" 224.

A Constituição Federal, no inciso 11 de seu art. 48 dispõe sobre a


imprescindibilidade da legalidade de emissão de tais títulos: "Cabe ao Congresso Nacional,
com a sanção do Presidente da República, não exigida esta para o especificado nos arts.
49, 51 e 52, dispor sobre todas as matérias de competência da União, especialmente sobre:
(...) II – plano plurianual, diretrizes orçamentária, orçamento anual, operações de crédito,
dívida pública e emissão de curso forçado”.

235. FORMAS

Os empréstimos públicos se revestem das mais diversas formas e podem se


constituir em apólices, bilhetes, cupões, letras do tesouro etc. Quanto à natureza podem ser
federais, estaduais e municipais, conforme a esfera em que são contraídos.

236. TÍTULOS DA DÍVIDA AGRÁRIA

Trata-se de um típico título da dívida pública, cuja finalidade é servir de pagamento


de desapropriações realizadas para promover a reforma agrária, bem assim para carrear
recursos para esse fim, mediante a subscrição voluntária. O Decreto nº 578 de 24 de junho
de 1992 regulamenta atualmente a matéria. Observe-se, por oportuno, que a atual
Constituição Federal recepcionou o referido título, conforme dispõe o art. 184: "Compete à
União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não
esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da

223
Amador Paes de Almeida, op. citada, pp. 306/3
224
apud Amador Paes de Almeida, op. citada, p. 293

106
dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte
anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização, será definida em lei".

237. NOTA DO TESOURO NACIONAL (NTN)

Instituída pela Lei 8.177 de 1º de março de 1991, a Nota do Tesouro Nacional


(NTN), é um título de crédito, emitido pelo Tesouro Nacional em algumas modalidades que
não se distanciam de sua natureza, que objetiva suprir a União de recursos suficientes para
cobrir seus déficits. Tem destacada importância nos dias atuais, já que a partir do
vencimento, pode ser utilizada por seus titulares, no pagamento de impostos federais e
aquisição de bens e direitos alienados no âmbito do Programa Nacional de Desestatização.

226. UTILIZAÇÃO PARA PAGAMENTOS DE DÉBITOS FISCAIS

Vem se acentuando gradativamente nos últimos tempos, a utilização de créditos


sobre Títulos da Dívida Agrária (TDAs) como forma de compensação efetiva de créditos e
débitos tributários ou como caução para eventual parcelamento desses últimos a nível
administrativo. No âmbito judicial, tal procedimento também está sendo muito usado, com
guarida, inclusive, da própria legislação. Com efeito, dispõe o Decreto 1.647 de 26 de
setembro de 1995, que regulamentou as Leis 7862, de 30 de outubro de 1989; 8.029 de 12
de abril de 1990; 8.031 de 12 de abril de 1990 e 8.250 de 24 de outubro de 1991, em seu
artigo 5º, que "a negociação entre a União e seu credor poderá ter como objeto créditos
decorrentes de ação executória ajuizada e de precatórios expedidos, bem como de sentença
líquida com trânsito em julgado, que ainda não esteja em fase de execução”.

Por outro lado, a jurisprudência vem se conduzindo de forma a aceitar a utilização


dos TDAs como forma de caução para com as pendências mais variadas, inclusive e
essencialmente para com débitos tributários (INSS, IPI, ICMS, IR) ou como oferecimento
em execução judicial, bem assim, em ações apropriadas para aperfeiçoar uma situação
simultânea de débito e crédito etc., inclusive em Sustação de Protesto (art. 655 - 111 e 827,
ambos do CPC). Há até os que sustentam a sua substituição por outros bens que já estejam
penhorados em determinados feitos, embasando suas posições no inciso II do art. 11 da Lei
de Execuções Fiscais (6.680/80): "A penhora ou arresto de bens obedecerá a seguinte
ordem: I – dinheiro; II. – titulo da dívida pública, bem como título de crédito, que tenham
cotação em bolsa...".

Da mesma forma, outros títulos da dívida pública, alguns até antiquíssimos, vêm
sendo usados para o mesmo fim, apesar das intensas discussões jurídicas sobre a prescrição
ou não dos mesmos. Em todo o caso, a questão é de manifesto interesse, face às
conseqüências que dela podem advir, principalmente no tocante à quitação de débitos
fiscais. Ocorre que, adquiridos por valores bem menores dos constantes em suas faces, são
repassados ao Governo Federal, credor dos mesmos, levando-se em conta os seus valores
reais, devidamente atualizados, o que se torna para os devedores, sem sobras de dúvidas,
um excelente negócio.

107
Apêndice

108
Recusar cheques não é crime
Embora a maioria das pessoas entenda que o cheque se iguala em
todos os sentidos ao dinheiro em espécie, acreditando ser crime a sua não
aceitação, tal situação não traduz a correta conotação jurídica que lhe
reveste. Na realidade, há contravenção penal quando se rejeita a moeda de
curso legal (o real), porém, inexiste qualquer proibição legal na recusa
deste tipo de título de crédito, constituindo-se numa faculdade do credor
em recebê-lo ou não. É por isso que em alguns estabelecimentos, embora
em número bem reduzido, ainda existem placas indicativas de que "não se
aceitam cheques para pagamentos".

Até algum tempo atrás, era comum encontrarmos nos mais variados
estabelecimentos, placas indicativas de que "não aceitavam cheques", pressupondo que os
pagamentos nestes locais só se efetivavam em dinheiro. Com a estabilização parcial da
economia através da implantação e sustentação do Real como padrão monetário, a
utilização destes títulos em nosso país, passaram a ser fluentes, chegando-se inclusive, a
representarem as próprias parcelas de um negócio efetivado à crédito. Tanto que em
inúmeras lojas, os produtos são oferecidos para quitação, exemplificadamente, "através de
cheques para trinta, sessenta e noventa dias", ao invés de três prestações mensais, como
eram anteriormente anunciados. Entretanto, até hoje, mesmo em menor número, persistem
comerciantes que se recusam a recebê-los, originando algumas questões de interesse geral,
como a obrigatoriedade ou não na sua aceitação e se uma eventual rejeição configura a
prática de algum crime previsto em lei.

CHEQUE NÃO É MOEDA

Há pessoas que os têm como se fossem verdadeiras moedas, atribuindo-lhes funções


absolutamente idênticas e desta forma, entendem que os cheques devam ser
coercitivamente aceitos, sob pena de cometimento de um ato ilícito penal na hipótese de
recusa. Ledo engano. Eles são títulos de crédito que se caracterizam como ordens de
pagamento à vista, revestindo-se de características cambiárias próprias, cuja resolução só se
opera "pro solvendo", ou seja, após as suas compensações, ao contrário das quitações em
dinheiro, que se realizam "pro soluto", isto é, de imediato.
Invoquemos aqui OTÁVIO MÉDICI: "O valor do cheque deve ser sempre expresso
em dinheiro, mas não substitui a moeda, apenas a ela se equipara como meio de
pagamento usual. A partir da emissão ou criação, o cheque e a moeda são diferentes, por
isso não se substituem plenamente" (Prática, Processo e Jurisprudência Sobre Cheque,
pág. 23). Afasta-se, assim, a ilação confusa, estabelecida por alguns, de que cheque é
moeda. Ao contrário, ele se revela num instrumento que leva ao recebimento desta.

A RECUSA DO CHEQUE NÃO


CONFIGURA INFRAÇÃO

109
Mesmo com as intensas campanhas no sentido da moralização do instituto e não
obstante a proteção prevista no inciso VI, parágrafo segundo do art. 171 do Código Penal
(Fraude No Pagamento Por Meio de Cheque), os cheques continuam sendo objetos de
preocupações dos credores, dada a infinidade dos títulos que são passados sem as
respectivas provisões (cheques sem fundos). Nem os cadastros forenses, os serviços de
proteção ao crédito, os arquivos de informantes e as medidas bancárias, como o
encerramento de contas-correntes e demais conseqüências aos inadimplentes são eficazes à
identificação imediata dos maus pagadores. Os artifícios de suas condutas, os
mascaramentos de suas atitudes, a mistificação e a dissimulação são por vezes tão perfeitas
que chegam a envolver os mais cuidadosos e prevenidos beneficiários dos títulos.
Desta forma, são plenamente justificáveis algumas reações negativas à circulação
irrestrita do cheque e, por isso mesmo, inexiste qualquer proibição legal à sua rejeição. Há
contravenção penal expressa, isso sim, quando se recusa o recebimento da moeda de curso
legal, ou seja, do real.

OS BONS PAGAM PELOS MAUS

É de se ponderar que a recusa de cheque emitido por bom pagador, zeloso, pontual,
honesto e cônscio das suas responsabilidades e obrigações, sob a alegação simplista e
lacônica de "que não se aceita cheque", além de nutrir o milenar ditado popular de que "os
bons pagam pelos maus", pode gerar atitudes das mais desagradáveis. Nesta trilha, cite-se
um caso que mereceu ampla publicidade na época e foi citado por SANTO ROMEU NETO
na coluna Direito Usual (Folha da Tarde, 12/03/79): "Tratava-se de um comerciante,
credor de certa importância, que se recusou ao recebimento da mesma através de cheque.
O devedor não teve dúvidas. Foi ao banco, sacou o dinheiro e compareceu na casa
comercial lá derramando milhares de moedas, na importância do débito. Foi,
evidentemente, a forma mais apropriada que sua fértil imaginação lhe sugeriu, para
responder, com certa ironia, à negativa do credor ao recebimento de um cheque em
pagamento".
Na situação acima apontada, se o comerciante não aceitasse a quitação da forma
como se processou - através de milhares de moedas - ele estaria flagrantemente cometendo
um ilícito penal, sujeito às cominações legais daí decorrentes.

(Artigo Publicado no suplemento Domingo Especial do Jornal


da Cidade de Jundiaí em 26/3/2000)

110
Duplicata Simulada

A duplicata é um título de crédito, assim como o cheque, a nota promissória e a


letra de câmbio. Porém, ela tem como característica peculiar a dependência de uma causa
para ser extraída (transação comercial ou prestação de serviços).
A Lei 5.574 de 18 de julho de 1968, que regulamenta a matéria, é expressa sobre a
obrigatoriedade da emissão da fatura em toda venda mercantil com prazo não inferior a
trinta dias, discriminando esse documento, as mercadorias vendidas ou as notas a elas
referentes daquelas já entregues. Com a extração da fatura de venda, o vendedor poderá
sacar uma duplicata correspondente e colocá-la em circulação.
Ela também pode ser gerada pela prestação de serviços. O art. 20 da mencionada lei,
enuncia: "As empresas individuais ou coletivas, fundações ou sociedades civis, que se
dediquem à prestação de serviços, poderão, também na forma desta lei, emitir fatura e
duplicata”.
Uma prática delituosa acaba ganhando destaque, notadamente em épocas de crise.
Trata-se da duplicata simulada, prevista no art. 172 do Código Penal Brasileiro, que dispõe:
"Constitui crime o fato de expedir ou aceitar duplicata que, não corresponde, juntamente
com a fatura respectiva, a u venda efetiva de bens ou a uma real prestação de serviços”.
Algumas pessoas, diante de problemas econômicos, a fim, de obterem determinadas
quantias em dinheiro, emitem duplicatas simuladas, às vezes, até mesmo sem a intenção de
lesar eventuais tomadores, imaginando resgatá-las posteriormente.
legislação protege, assim, o patrimônio do tomador da duplicata, que não pode ser
lesado por um título creditício inexistente. Os elementos objetivos dessa infração residem
nos verbos expedir (colocar a duplicata em circulação e não apenas preenchê-la) e aceitar
(apor o sacado a sua assinatura no título, reconhecendo a dívida e obrigando-se a saldá-la).
Seu tipo subjetivo é o dolo, ou seja, a vontade livre de emitir ou de aceitar a
duplicata, com consciência da inexistência da venda ou prestação de serviço, não se
concebendo a modalidade culposa. Trata-se, para os doutrinadores clássicos, do chamado
dolo genérico.
Segundo o PROF. DAMÁSIO DE JESUS, "a duplicata simulada é delito formal, de
consumação antecipada. O tipo penal não exige a produção do resultado visado pelo
sujeito, que é a obtenção de vantagem indevida por intermédio do desconto do título. É
crime unissubsistente, de ato único" (Direito Penal, vol. 2, pág. 382). Frente a essa
qualificação não se admite a figura da tentativa. Ou o sujeito expede ou aceita a duplicata, e
o crime se aperfeiçoa: ou não realiza essas condutas, não configurando comportamento
típico.
A pena é de detenção de um a cinco anos e multa equivalente a vinte por cento
sobre o valor da duplicata (§ único do art. 172 do Código Penal). Essa pena pecuniária
persiste, pois o art. 2º da Lei 7.209184 só cancelou os valores das penas de multa. Há,
porém, dúvidas quanto a ela e CELSO DELMANTO em seu Código Penal (pág. 353)
aponta duas delas: "sua questionável constitucionalidade, em face do princípio da
individualização das penas e a inexistência de previsão legal para sua conversão em
detenção”. Nas mesmas penas, incorre quem falsifica ou adultera a escrituração do Livro de
Registro de Duplicatas.

111
A título ilustrativo, destaque-se que a jurisprudência tem entendido que se o ajuste
procedeu só com negligência, não utilizando a duplicata após o desfazimento do negocio, a
conseqüência é civil e não criminal. Por outro lado, o endossatário e o avalista não
respondem pelo crime, uma vez que os seus comportamentos não se indicam no núcleo
"emitir". Só responderão penalmente, se agirem dolosamente, desde o início, pretendendo
lesar o sacado.
(Artigo Publicado no suplemento Domingo Especial do Jornal
da Cidade de Jundiaí em 24/12/1991)

112
O avalista se equipara ao devedor principal
Muitos leigos acreditam que ao avaliarem títulos de crédito, só poderão ser
responsabilizados pela quitação dos mesmos, após a tentativa, sem êxito, de cobrança dos
devedores principais. Ledo engano. O credor cambiário pode promover ação diretamente
contra o avalista ou simultaneamente à pessoa a favor de quem foi concedido o aval, que é
uma forma de garantia de pagamento autônoma, individual e solidária.
Dispõe o art. 32 da Lei Uniforme, que regulamenta a matéria: "o dador do aval é
responsável, da mesma maneira que a pessoa por ele afiançada. A sua obrigação mantém-
se, mesmo no caso de a obrigação que ele garantiu ser nula por qualquer razão que não
seja um vício deforma. Se o dador de aval paga a letra, fica sub-rogado nos direitos
emergentes de letra contra pessoa a favor de quem foi dado o aval e contra os obrigados
para com esta em virtude da letra”.
A obrigação do avalista é assim, tão independente, que não lhe cabe nem mesmo
alegar a falsidade, a falsificação ou a nulidade da assinatura da pessoa a favor de quem foi
concedida o aval. Não pode, inclusive, opor contra o credor, eventuais defesas pessoais de
que disporia contra o avalizado. O único consolo, no caso de resgatar o título de crédito que
garantiu, é de que poderá reaver do devedor a quantia despendida, já que lhe é assegurado
contra esse, o direito de regresso. Na prática, entretanto, aquele que não honra com suas
obrigações, normalmente é insolvente, tomando-se bastante difícil ao avalista, recuperar
qualquer defesa que venha a efetivar com o cumprimento do aval que tenha concedido.
Invoquemos aqui, JOSÉ MARIA WHITAKER: "O avalista é equiparado ao seu avalizado:
não assume a obrigação deste, mas uma obrigação igual a deste, tanto nos seus efeitos
como nas suas conseqüências e, como todos os subscritores cambiários, pode ser acionado
de preferência a qualquer outro, por isso que se obrigou diretamente a realizar o valor
declarado na letra, se este valor não foi realizado pontualmente no dia do respectivo
vencimento" (Letra de Câmbio, 6ª Edição, pág. 189).
Ressalte-se ainda, que o credor cambiário de falido ou concordatário pode promover
ação executiva ou de cobrança, diretamente do avalista, sem se habilitar no processo de
falência ou concordata. Pode até cobrar do avalista e habilitar-se simultaneamente, sendo
vedado apenas receber mais do que lhe é devido. A título ilustrativo, transcrevemos os
seguintes julgados: "A circunstância de estar em concordata preventiva o emitente da nota
promissória não o afasta a procedência do pedido de cobrança contra o avalista, pois está
expresso no art. 148 da Lei de Falência que a concordata não desonera os coobrigados
com afirma concordatária” (Ap. n.' 127.087 - TA, Civil SP). "Mesmo que haja habilitação
de credor na concordata preventiva do emitente do título, isso não impede a cobrança
contra o avalista" (Ap. nº 215.63 8 - 1º TA, Civil - RT 483/ 121).
Tal situação, abraçada pela doutrina e jurisprudência, derruba a intenção atual de
muitos empresários em impetrarem pedido de processamento de concordata preventiva.

(Artigo Publicado no suplemento Domingo Especial do Jornal


da Cidade de Jundiaí aos 111611995)

113
Jurisprudência

114
TITULO EXECUTIVO - Nota promissória - Origem reprovada - Possibilidade.
(Inoponibililade das exceções) 225.
Será título executivo judicial a nota promissória originada por aposta política, se o
exeqüente, que a adquirir por endosso, desconhecia sua origem reprovada.
TAMMG - Ap. 186.291-1 - 4 a Câm. - Rel. Juiz Célio César Paduani - v.u. -j. 1510211995.

ACÓRDÃO – Vistos, relatados e discutidos estes autos de Ap. Civ. 186.29 1 - 1, da


Comarca de Teixeiras, sendo apelante José Antônio da Silva e apelado José Fialho
Brandão: Acorda, em Turma, a 4ª Câm. Civil do Tribunal de Alçada do Estado de Minas
Gerais, dar provimento.
Presidiu o julgamento o Juiz Tibagy Salles e dele participaram os Juízes Célio César
Paduani (relator), Jarbas Ladeira (revisor) e Maria Elza (vogal).
O voto proferido pelo Juiz-relator foi acompanhado na íntegra pelos demais
componentes da turma julgadora.
Belo Horizonte, 15 de Fevereiro de 1995
O Exmo. Sr. Juiz Célio César Paduani: Trata-se de recurso de apelação aviado por
José Antônio da Silva contra a r. sentença, proferida pelo MM. Juiz de Direito da Comarca
de Teixeiras, que julgou procedentes os embargos à execução que lhe foi intentada por José
Fialho Brandão.
Nas razões de sustentação do apelo, busca-se a reforma do r. decisório monocrático,
para que os embargos sejam julgados improcedentes, ao fundamento de que a nota
promissória está formalmente perfeita, representando dívida líquida, certa e exigível,
independentemente de prova da causa debendi. Ainda que a cártula tenha sido originada de
aposta, o apelante é terceiro de boa-fé, pois a recebeu por via de endosso, não tendo
participado de sua formação.
Conheço da apelação, aos seus pressupostos.
Concessa venia, a meu sentir, não pode prevalecer o r. decisório recorrido.
Mesmo que se tenha comprovado que a nota promissória foi emitida em decorrência
de aposta política, não é menos verdade que não se constatou em momento algum que o
endossatário, ora exeqüente, tivesse conhecimento da origem do título de crédito.
A promissória, objeto da execução, é formalmente perfeita. O seu beneficiário
endossou-a em branco, transferindo-a ao exeqüente, ora apelante.
Dos depoimentos do endossante, José Bartolomeu Pereira (fls.), e do apelante (fis.),
consta que o endosso foi para pagamento de material de construção. Não há na prova
colhida qualquer indício, constatação ou afirmativa de que o exeqüente tivesse
conhecimento da origem da cártula. Nem cuidou o apelado de fazer tal prova.
Não se caracterizando a má-fé do exeqüente, que recebeu a promissória de boa-fé,
não vejo como possa o apelado, emitente do documento, eximir-se do cumprimento da
obrigação.
É do magistério de Washington de Barros Monteiro o seguinte ensinamento:
"Todavia, a nulidade resultante não pode ser oposta ao terceiro de boa-fé (art. 1477,
parágrafo único, in fine). O terceiro que, de boa-fé, ignorando a origem reprovada do
crédito (ob turpem causa), dele se toma cessionário, pode exigi-lo judicialmente. Assim, a
letra de câmbio, compreendida entre os atos nulos, quando originada do jogo, não é

225
Nota do Autor

115
oponível ao terceiro de boa-fé. Não se poderá, contudo, argüir a boa-fé se há prova de que o
terceiro conhecia perfeitamente a origem da dívida" (in Curso de direito civil brasileiro
interpretado, 4ª. Ed., 5º v., p. 373).
No mesmo sentido, doutrina o grande mestre Carvalho Santos:
"Mas a nulidade da dívida não pode ser oposta ao terceiro de boa-fé, isto é, àquele
que ignore a origem reprovada da dívida.
Quer dizer: o perdente, uma vez transferido o título por cessão ou endosso, a um
terceiro de boa-fé, a este não poderá negar o pagamento, restando-lhe, todavia, o direito
regressivo contra o cedente ou endossante para dele haver a quantia que tiver sido obrigado
a pagar" (in Código Civil Brasileiro Interpretado, 4ª ed., v. XIX, p. 422).
Insisto em que não se provou que o apelante soubesse da origem da dívida, que
redundou na emissão do título creditício. As testemunhas ouvidas (fls.) nem ao menos
sabem quem é o embargado. Este nega conhecer a origem da dívida, consubstanciada na
nota promissória. Em suma, não se provou a má-fé do apelante, motivo pelo qual não se lhe
pode opor a nulidade da dívida.
Em face dessas considerações, dou provimento ao apelo para reformar a sentença,
julgando improcedentes os embargos e subsistente a penhora, invertendo os ônus da
sucumbência.
Custas, pelo apelado.
É como voto.

116
TÍTULO EXTRAJUDICIAL - Causa debendi Perquirição - Possibilidade.
(Inobservância de requisito extrínseco) 226.
Mesmo apresentando a nota promissória literalidade e autonomia, o que lhe dá
liquidez, certeza e exigibilidade, poderá ela ser desconstituída como título executivo, caso
tenha sido obtida por indevida pressão psicológica.
TARJ - Ap 6.891196 - 3 a Câm. - Rela. Juíza Maria Augusta Vaz Monteiro de Figueiredo -
vu. -j. 1711011996.
ACÓRDÃO - Vistos, relatados e decididos estes autos de Ap. Civ. 6.891/96 em que
é apelante Casa de Saúde São José Ltda. e apelado Hélio Oliveira Prado: Acordam os
Juízes da 3' Câm. do TA.Civ. RJ, por unanimidade de votos, em negar provimento ao
recurso de apelação, rejeitadas as preliminares.
Trata-se da ação de embargos à execução proposta por Hélio Oliveira Prado contra
Casa de Saúde São José Ltda., objetivando desconstituir o título executivo extrajudicial que
esta executa contra ele. Alega que a nota promissória foi-lhe apresentada em um dia de
abril de 1992, quando sua mulher fora internada às pressas e dera à luz um filho prematuro,
com exigência de que a assinasse em garantia ao pagamento que deveria ser efetuado pelo
Iaserj, com quem a clínica mantinha convênio, sob ameaça de não ser dada alta à esposa e
ao filho, sendo ela funcionária do Iaserj e estando por isso beneficiada pelo convênio.
A sentença julgou procedente o pedido, sob o argumento de que não tinha havido
circulação do título e que por isso era possível discutir a relação jurídica havida entre
credor e devedor, que no caso se apresentava inviável para justificar a cártula, afinal
anulada.
Inconformada, a embargada apelou (f.). Inicialmente protestou pelo julgamento do
agravo retido (f.). Argüiu, depois, preliminares de nulidade da sentença, por não ter sido
proferida pela juíza que presidiu a audiência de instrução e julgamento, por não ter
apreciado o cabimento, ou não, da juntada do documento de L, por não ter o MM. Juiz a
quo agido imparcialmente, ao dirigir-se em duros termos à embargada, e por não haver
provas que sustentem as alegações do embargante, em ofensa aos arts. 5º, da CF, 125, inc.
V, do CPC, e 35, inc. IV, da IC 35/ 79. No mérito sustentou que o embargante firmou com
a embargada avença de caráter particular, alheia ao fato de sua mulher, como funcionária
pública, ter direito ao convênio do Iaserj, carecendo inclusive de legitimidade ad causam,
consoante os arts. 3º, 6º e 267, inc. VI e § 3º, do CPQ; insiste na impossibilidade da
discussão sobre a nota promissória que embasa a execução, por gozar de autonomia,
certeza, liquidez e literalidade. Por fim, atacou as provas dos autos, que, a seu ver, não dão
sustento ao decisum, os documentos por nada terem a ver com as alegações da inicial e a
testemunha por se limitar a repetir o que lhe dissera o embargante. Insurgiu-se, ainda,
contra a fixação de honorários advocatícios em 20% do valor dado à causa na inicial da
execução, em afronta ao art. 20, § 4º, do CPC.
As contra-razões ao recurso estão a f.
O recurso é tempestivo e foi oportunamente preparado.
É o relatório.
Inicialmente impõe-se a apreciação do agravo retido (L), tempestivamente
apresentado, e no qual a Casa de Saúde São José Ltda. se opôs ao despacho saneador que
deferiu provas requeridas e designou AIJ por entender que se impunha o julgamento

226
Nota do Autor

117
antecipado da lide, tendo aquela decisão afrontado o art. 330, inc. I, do CPC, motivo pelo
qual quer a anulação do processo a partir de então.
Não procede tal argumento e por isso, apesar de se conhecer do agravo, não se lhe
pode dar provimento. Os presentes embargos à execução objetivaram a desconstituição do
título executivo extrajudicial, sob o argumento de que foi obtido por indevida pressão, e
que não havia relação jurídica a justificar sua emissão, de forma que a questão demandava
produção de prova e não era apenas de direito, como afirma a apelante, justificando-se
plenamente o despacho saneador, já que a hipótese destes autos não se enquadrava nos
moldes do inc. I do art. 330 do CPC, que, por isso, não pode ter sido afrontado.
Também as preliminares argüidas na apelação carecem de seriedade e não podem
prosperar. De pronto se vê que não foi ofendido o princípio da identidade física do juiz,
porque a MMa. Juíza, que presidiu a AU em setembro de 1994 foi promovida em
novembro desse mesmo ano, e, como a sentença foi prolatada em abril de 1996, foi
observado o disposto no art. 133 do CPC. O fato de a sentença não ter apreciado o
cabimento do documento da L, contra o qual a apelante então se opôs, não induz nulidade
da sentença, já que nenhum prejuízo representou para ele, pois também não se lastreou nele
o juiz para decidir como o fez, pois nenhuma referência há na sentença a esse documento, o
que, porém não implica agressão ao art. 458, incs. I e II, do CPC, porque a não menção a
documento que sequer havia sido recebido apenas significa que ele não influenciou o juiz,
que, porém, abordou todas as questões de fato e de direito. No mais, a embargante não se
conforma com as conclusões do juiz, que são resultado do convencimento que nele
produziram as provas dos autos, sendo absurdo chamar de parcial ao julgador que contra
ele decidiu a causa, ainda que não lhe agrade a firmeza de suas expressões.
No que concerne ao mérito, melhor sorte não tem a apelante, novamente mostrando-
se inatacável a sentença, pois, como bem mostrou o MM. Juiz da Comarca de Piraí,
inclusive com citação de acórdão deste tribunal (5º CC - f.), não obstante a literalidade e
autonomia do título de crédito, não se pode deixar de examinar em certos casos se aquele
estava vinculado ao negócio jurídico havido entre originários credor e devedor. E este é
exatamente um desses casos em que validamente se há de perquirir tal negócio jurídico,
visto que a nota promissória passada a favor da embargada não foi posta em circulação e
dúvida não há nos autos de que ela foi obtida por indevida pressão psicológica, que autoriza
a afirmação de que não houve livre vontade na emissão da cártula, sendo esse o motivo
pelo qual se impõe sua anulação.
Ao contrário do que alega a embargante, há firmes elementos probatórios nos autos
a formarem tal convicção. Não se nega que a esposa do apelado é funcionário do Iaserj, que
este mantinha convênio com a apelante e que ela já estivera internada e tivera as despesas
cobertas pelo laserj. Em abril de 1992 novamente precisou se internar e dessa vez teve seu
marido de assinar nota promissória responsabilizando-se pelo pagamento. Por que o fazia
se sabia que a esposa tinha a cobertura do convênio? Porque a casa de saúde passou a
discordar do pagamento que o laserj fazia com base em sua tabela, apesar de não ter
denunciado o convênio na época oportuna, como dão conta os documentos de f. Estes
deixam claro que a casa de saúde não denunciou o convênio e por isso devia a ele se
submeter, enviando as despesas decorrentes do atendimento de Ângela Adelaide Rodrigues
Barbosa Viana ao laserj; porém, por não aceitar os valores da tabela deste, entendeu ser
mais vantajoso apresentar a nota promissória do marido. Ora, é de elementar bom senso do
homem médio que, sabendo deste convênio, do qual já se utilizara, não assinaria nota

118
promissória para arcar com custos, que o Iaserj não cobriria se considerasse acima da
tabela, não estivesse psicologicamente premido a tanto.
A prova dos autos mencionada na sentença autoriza essa conclusão, devendo aqui
ser acrescido que inexistem as afrontas argüidas contra os apontados dispositivos legais,
pois foram apreciados todos os fundamentos de direito e de fato, que tiveram correta
solução, estando o ora apelado legitimado a fazer o presente questionamento não obstante
os pressupostos cartulares, em face da constatação de vício na base da relação jurídica entre
original credor e original devedor, do qual teria surgido o título de crédito.
Por fim se diga que a hipótese dos autos não cabe na do § 4' do art. 20 do CPC e que
também nessa parte correta está a sentença.
Nega-se, por isso, provimento ao agravo retido, bem como à apelação, mantendo-se
a sentença, rejeitadas as preliminares.
Rio de Janeiro, 17 de outubro de 1996 - JÚLIO CÉSAR PARAGUASSU, pres. - MARIA
AUGUSTA VAZ MONTEIRO DE FIGUEIREDO, relatora.

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