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IDAI: marcas em verso e prosa,
poesia: Alex Dau, Angelina Neves, Énia Lipanga, Heráclito Mucache, Juvenal
Bucuane, Lino Mukuruza, M. P. Bonde, Mário Secca, Mauro Brito, Melita
Matsinhe, Nelson Manhisse, Sol Macie, Sónia Sultuane, Tassiana Tomé e
Tchanaze; prosa: Ana Queiroz, Benjamim Pedro João, Elton Pila, José Pinto
de Sá, Mélio Tinga, Miguel Ouana, Pedro Pereira Lopes, Teresa Noronha &
Venâncio Calisto

Copyright © 2020, Autores, Gala-Gala Edições e Literatas


Reservados todos os direitos para esta edição

Organização & edição: Pedro Pereira Lopes


Coordenação Editorial: Eduardo Quive e Mélio Tinga
Design da capa e paginação: BROKEN – Agência Criativa
Fotografias: Emídio Josine

1ª Edição, Maputo, Junho de 2020


Gala-Gala Edições, Revista Literatas & BROKEN – Agência Criativa
galagalalivros@gmail.com
r.literatas@gmail.com I www.literatasmz.org
broken.agencia@gmail.com
Maputo - Moçambique

Esta publicação não visa lucro. Entretanto, são aceites quaisquer contribuições
para as vítimas do Ciclone Idai. Para mais detalhes, entre em contacto com os
editores. 4
Organização e edição
Pedro Pereira Lopes

Coordenação
Eduardo Quive e Mélio Tinga

5
SUMÁRIO

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DALICENÇA em jeito de reza de travessia, ode e co-
moção de nossos dias, Pedro Pereira Lopes............... 11

POESIA
ALEX DAU, Furor temporal.................................... 16
ANGELINA NEVES, antes do anoitecer................. 17
ÉNIA LIPANGA, E agora que nada resta................ 19
HERÁCLITO MUCACHE, O céu da Beira ficou sem
luz........................................................................... 20
JUVENAL BUCUANE, Natureza........................... 22
LINO MUKURUZA, Beira..................................... 24
M. P. BONDE, Fio de esperança ............................. 25
MÁRIO SECCA, Água........................................... 26
MAURO BRITO, “Águas de Março” (ou Uma página
negra no livro do País).............................................. 29
MELITA MATSINHE, E daqui?............................ 32
NELSON MANHISSE, Hidrólise .......................... 34
SOL  MACIE, Beira menina.................................... 35
SÓNIA SULTUANE, Dá-nos o silêncio da noite..... 37
TASSIANA TOMÉ, Quanto vento em fúria cabe no
peito ....................................................................... 39
TCHANAZE, Perdoa-me........................................ 41

PROSA
ANA QUEIROZ, O sol brilha sobre o telhado.......... 44
BENJAMIM PEDRO JOÃO, Ó Mulungu!............... 47

7
ELTON PILA, Réstia de sol.................................... 50
JOSÉ PINTO DE SÁ, Cágados e homens................ 51
MÉLIO TINGA, Fragmentos de Terra.................... 55
MIGUEL OUANA, Idai foi com vô Augusto............ 57
PEDRO PEREIRA LOPES, Zinha: a menina que
secava livros............................................................. 60
TERESA NORONHA, Je suis Beira. Je suis Moçambi-
que.......................................................................... 66
VENÂNCIO CALISTO, Abandono........................ 69

NOTAS BIOGRÁFICAS................................ 71

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Dedicatória
às vítimas

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“Há um Moçambique antes do ciclone e tem de haver
um Moçambique depois do ciclone”.

Ungulani Ba Ka Khosa, in Público

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DALICENÇA em jeito de reza de travessia, ode
e comoção de nossos dias

Em Março de 2019, o ciclone Idai atingiu a cidade da


Beira, e depois, as regiões próximas. Mais de mil pessoas
morreram. Na altura, para uma palestra que conduzi no
dia 19 de Março, em uma universidade, escrevi: “A ci-
dade da Beira e o seu satélite industrial, a vila do Dondo
(que tem uma dupla hélice de DNA, velha e bonita, perto
do terminal principal da vila), foram literalmente con-
sumidas pela fúria da natura, a mãe, o único deus com
força viva. Homens, animais, habitações e instituições;
estradas, pontes, objectos e projectos de vida: o ciclone
Idai engoliu-os com a sua fome. É como se tivesse passa-
do, por lá, uma bomba nuclear de moderna tecnologia.
Hoje, ficou a dor e o espectro da pobreza: não há comida,
não há água, não há electricidade, não há comunicação.
Há o desespero e a angústia. É isto”. No começo de Abril
do presente ano, o Governo de Moçambique declarou
o estado de emergência, uma estratégia para refrear o
avanço da pandemia do novo coronavírus, a Covid-19.
A movimentação e aglomeração de pessoas foi reduzida

11
e limitada, os efeitos parecem ser, até agora, bons, mas
para grande parte da população, pobre, fica o paradoxo,
morrer de fome ou morrer por causa da gripe?
Moçambique ainda experimenta, um ano depois
do ciclone, danos psicossociais e económicos do Idai, e
devido ao novo panorama mundial, a recuperação será
demorada. São dois potentes socos no coração de Mo-
çambique.
Quando o ciclone Idai atingiu Beira, o mundo noti-
ciou e procurou ajudar. Multiplicaram-se as campanhas
solidárias, homens bravos, aviões, cargueiros e camiões
fizeram-se à cidade, Chiveve. Tudo era urgente. Tudo
era necessário, do pão à água portável. Durante dias,
não houve electricidade e comunicação. A estrada prin-
cipal, o corredor de acesso, estava cortada. Os relatos dos
dramas vividos equiparavam-se às cenas dos filmes de
horror. Nós, os moçambicanos, ficámos todos um pou-
co mais humanos, o exemplo, mais do que nunca, foi
nosso. Fizemos ashtags, #JeSuisBeira, #EuSouBeira,
#Pray4Beira, etc. Mobilização.
Este livro, “Idai – Marcas em verso e prosa”, foi pen-
sado logo depois que se percebeu o estado de calamidade
natural, porque nos doía a alma e queríamos, como cul-
tores da palavra, contribuir, uma vez produzido o livro,
na arrecadação de apoios. Mas não fomos longe, poucos
artistas escreveram e, quando se buscavam parcerias ins-
titucionais para a sua concretização, a sugestão de uma

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mudança na direcção do projecto não nos pareceu feliz.
Choveu o desânimo e, por pouco, os textos teriam fica-
do, para sempre, a criar mofo. Este ano, um ano depois
da passagem do Idai por Moçambique, as memórias da
tragédia, bastante frescas ainda, na verdade, exigiram
que o projecto ressurgisse, assim como o fazem as regiões
afectadas. Há, aliás, um outro leitmotiv para a sua publi-
cação, constituiria falta de respeito para com os autores
condenar seus textos ao esquecimento.
De escritores moçambicanos de diferentes gerações,
os textos que compõem este livro são tristes e angustian-
tes. Estranho seria, se diferente fossem. Mas há, também,
alguma esperança, uma negação de uma “não-morte”,
que se ergue firme, um embondeiro.
Este livro é gratuito e não visa nenhum ganho finan-
ceiro mas qualquer contribuição ou assistência para a re-
construção da cidade da Beira e outras regiões atingidas
é sempre bem-vinda. Para tal, por favor, contactem a re-
vista Literatas.
Votos de uma boa leitura.

Pedro Pereira Lopes,


Maputo, Junho 2020

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POESIA

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ALEX DAU

Furor temporal

Idai!
Completa desolação
coração no aperto
sofreu a população
tormento
a cada momento

Idai
habitou cada porção
de sentimento – amados
conterrâneos
mas a vontade de superar
é grande!

Rio de Janeiro, quinta, 21/03/19

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ANGELINA NEVES

antes do anoitecer

cheira vento pesado húmido


a tempestade a respirar bafo do uivo
o suspirar lento do tempo fim do mundo

em cada trovão, na energia do relâmpago


alguém sai da vida a chorar
ao ritmo dum líquido sagrado do desamar

a dançar num caminho de lágrimas a sangrar


o lamaçal engole sorrisos casas e abraços
futuros estilhaçados voam para outro lugar

inundações apagam arco-íris?


onde tudo depende da luz do amanhecer
dos cansaços miseráveis no entardecer

as perguntas nunca estão certas


as respostas... são sempre duvidosas
molhadas de chuvas impiedosas.

17
onde são guardadas as promessas?
alguém pode apagar as pegadas da dor
antes do anoitecer?

Ponta de Ouro, quarta, 20/03/2019

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ÉNIA LIPANGA

E agora que nada resta

E agora que nada resta


Que se vasculha debaixo dos escombros
Que se respira em abraços sem ombros
Que se faz quando o imprestável não presta?

E agora que nada se sente


Só o nada e gelado nos efervesce
A água nos seca e nos entristece
Estes rios que nos queimam a alma

E agora que nada se esquece


As sombras perseguem-nos
E tornámo-nos cemitérios de preces
Neste pesadelo sem hora para acordar!

Que se faz quando tudo se acaba?


Que se faz quando o mundo desaba?

Maputo, quarta, 20/03/2019

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HERÁCLITO MUCACHE

O céu da Beira ficou sem luz

Abraça-lhe a agonia, fita-lhe a angústia, sobre si decai


o monstro horrendo: Idai se arremessa em força suma,
invade moradias, centros comerciais, escolas e hospitais.
Restam-nos olhos embaciados e embaciados os olhos cla-
mam por qualquer alento.

Eis que como pássaros soam vozes que querem dar con-
solo.

Água, alimentos, vestuário diverso. Mas dor e perda é


tanta e essas vozes, uma nova aurora, tornam-se inaudí-
veis aos ouvidos padecem; triste sorte, o mundo enlou-
quece, e tudo é fútil, a dor demasiada. Estamos aleijados.
Empoleirados em árvores, nos tectos em ruínas, nas pon-
tes caídas, e aos céus bradamos:

Quando é que nos irão chamar para o prato do dia?


Quando é que nos irão chamar para o prato da vida

20
E nos dirão que é tempo de se erguer e reviver?

Laulane, segunda, 25/03/2019

21
JUVENAL BUCUANE

Natureza

Deusa maior
a quem ninguém ordena.
Fazemos aquilo que ela nos permite,
onde e quando,
sob a sua imensurável generosidade!

Mas, no pedestal do seu poder,


no vigor da sua majestade,
porque a ela pertencemos, somos elemento,
move-nos com a sua força calamitosa
de acordo com os seus princípios.
Ela tira-nos e põe-nos!

Condiciona-nos
à sua força maior
da qual não temos como resistir!

O que a Natureza faz

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é do seu livre arbítrio.

À Natureza ninguém ordena.


todos obedecem.
Ela é a deusa maior!

Maputo, quinta-feira, 21/03/ 2019

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LINO MUKURUZA

Beira

palavra quase inexistente e espaçosa


é dentro e fora do ímpeto gota de sangue onde
meu corpo é Búzi
búzio ou nuvem aberta de água turva no rosto desguar-
necido
uma janela lâmina do horizontal estende-se na mão
bico do mundo
e na beira deste silêncio inquieto
um panorama atómico Beira
ó corpo indefeso
corpulento voz humedecida no sensível peito da imagem
reina no véu umbilical paixão e toda gota humana
e na língua de Moçambique violentado vigora
uma (só)fala é toda nossa voz fórceps.

Nampula, domingo, 24/03/2019

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M. P. BONDE

Fio de esperança

É noite:
no orifício da tempestade, a morte abraça com dentes a
densidade do grito, penso no átrio do lodo;
chegas-me Heliodoro Baptista com o silêncio nos joelhos;
abro os olhos com a voz suada de Carlos Beirão; nas on-
das deste Xirico embrutecido, uma cidade despe a alma;
catástrofe! – arrumo as lágrimas, Mãe;
o borbulhar das águas é mais audível na pigmentação da
boca; bebo o chá com a neblina devorando o chão;

então, Leite de Vasconcelos, que peixe ancora nas guel-


ras o trauma em Macurungo;
estou desolado; nas asas do albatroz, uma criança apren-
de o alfabeto da penúria, galhos prendem o fio da espe-
rança.

Maputo, quinta, 21/03/2019

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MÁRIO SECCA

Água

Tu ser ambíguo
composta de forma tão simples
dois hidrogénios e um oxigénio
repetidos à exaustão
que te metamorfoseias
em gás
em líquido
em sólido
és tantas vezes mãe
tantas vezes fonte
tantas vezes berço.
Sacias os nossos lábios
refrescas as nossas peles
dás corpo às nossas lágrimas
confortas os nossos banhos
irrigas as nossas plantas.
Trazemos-te dentro de nós
a encher cada célula
a vibrar com a tua música.

26
Tornas-te rio
quando queres correr
lago quando queres descansar
chuva quando queres cair
mar quando tens sede de sal
mas tens horror ao deserto.
E nesses teus corpos
guardas vidas infinitas
que preservas maternalmente.
A ti louvamos-te todos os dias
vivemos contigo dentro
agradecemos a vida que nos dás.

Mas por vezes


perdes o controlo.
Enquanto mar
rebentas em tempestades
enquanto rio
extravasas em inundações
enquanto nuvem
explodes em dilúvios.
Nessas alturas
alias-te ao vento
tornando-te demoníaca
cruelmente destruindo
aqueles que alimentas
afundas barcos

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submerges casas
afogas gentes
deixas um rasto de morte.
Monstro bipolar
Jano fluido
com a mão direita dás
com a mão esquerda tiras.
Nessas alturas
maldizemos-te
esconjuramos-te
esquecendo que és a nossa vida.

E depois acalmas
sorris novamente
como se não houvesse memória
e queres que esqueçamos.
Voltamos aos poucos
a saciar os nossos lábios
a refrescar as nossas peles
a confortar os nossos banhos
a deixar irrigar as nossas plantas
mas continuamos a chorar
as nossas e as tuas lágrimas.

Maputo, segunda-feira, 25/03/2019

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MAURO BRITO

“Águas de Março” (ou Uma página negra


no livro do País)

1
escrevem-se versos para enviar ao centro do pais
são versos de emoção
de comida
de paz
de roupa
de comida
de velas e de aconchego
versos que não cabem nas mãos
cabem no coração de todos
uma duas três toneladas
não bastam para carregar esses versos
fazem-se versos de norte a sul
nas empresas nas escolas
versos de 28 milhões de vozes e braços.
2
Foi preciso muito vento e muita água para agitar nossas
consciências. Como pessoas. Como humanos desape-

29
gados das nossas atribuições cosméticas. Para agitar as
nossas mentes muitas vezes tão viradas para os nossos
botões. Foi preciso tal humanitário drama, desastre que
esvazia a voz, a respiração e a alma. Foi preciso uma ava-
lanche de olhares atentos dos outros e corações abertos,
socorrendo à hora e com meios, para perceber que Um
Verdadeiro País faz-se com amor, envolvimento, educação,
comprometimento e respeito; e os braços de todos juntos,
além de qualquer coisa, unidos no verdadeiro sentido,
em uníssono, na emoção, preocupação, atenção e sen-
satez – chegam e vão chegando jovens, muitos jovens,
crianças, adultos e idosos dando um pouco de si, da alma
e do bolso, escrevendo versos para enviar ao centro, ver-
sos mantimentos, versos água, versos roupa, versos ve-
las, versos segurança e esperança e muito mais… Pre-
cisaram-se perdas, palavras duras cravadas nas telas do
mundo, palavras para sermos capazes de nos enrolarmos
e nos protegermos das irremediáveis perdas?

Despertámos. Afinal sabemos estar unidos. Sabemos re-


partir do nosso sustento. Juntos, dando sem questionar
ou requerer às repartições. Bonito, comovente, emocio-
nante, impressionante! Em conjunto. Caras novas, esco-
las, o lucro em peso a trabalhar com a consciência no
centro.

“Há anos que desconfiava de que os tempos do passado

30
não voltariam. Que tínhamos perdido tudo. Afinal ainda
temos esperança. Ainda podemos tentar ser um país”.

Maputo, sábado, 23/03/2019

31
MELITA MATSINHE

E daqui?

Contenho uma lágrima teimosa


E por fim, vencida, largo-a
Na raiva impotente
Casada à tristeza

E daqui

Mãos com consciência


Levantam um país de joelhos
Mãos com amor
Sussurram “eis o pão, meu irmão”

Porque

Se Idai é dor
Daqui é amor
Daí, desolação
Daqui, amparo

32
Abraço e luz
Esperança
Fé e acção
Abraço

Maputo, terça, 19/03/2019

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NELSON MANHISSE

Hidrólise

O rio? Salgado.
A vala? Como um.
As flores? Marcham. E murcham.
Gota nas veias. Gota na cabaça.
Tua cabeça. Tua cabaça.

Dúvidas? Exporte.
Dívidas. Importe.
Não exportes.
Não importes
Não importam.
Teus ais nacionais.
Em terra nós. Enterra-nos. Eterna.

Kobe, sábado, 23/03/2019, 09:41

34
SOL  MACIE

Beira menina

Entraste em cena mas há um grito mais alvo que a tua


vontade de levar-me contigo
És mais forte mas não desistirei
A tua gana de cegar-me – o grito não cortou a minha
ânsia de parir o meu ritmo
Com a tua imponente fúria despiste a madrugada e a
natureza ficou prenha
E daí?
Veio encarniçado o escárnio
de cor verde
amarelo e cinzento...
Zangado,
furioso e o teu gozo respingando toda dor
Do pagão,
ateu, do sacerdote e do pastor de gado também
E daí?
Acordaste chapas
vidas e o relógio parou também
Era chegada a tua hora...

35
O palco estava montado e nós guloseimas
servidas almas fritas flutuantes cantando socorro e mai,
wéeee!
Do outro lado o bailado das árvores solteiras completa-
vam o show
E as chapas e vidros aplaudiam e choveram caídos pelo
chão gemendo.
Escuta-se uma sinfonia de se manter em pé, quase em
sentido...
Abram alas, chegou o IDAI!
E o homem calou-se inerte: shhiiiiii!!!!
E o coração parou ali mesmo.
Mas soou batuque
sou sangue
sou suor
soou vida
sou Aruângua,
filha de África, de novo
aqui estou!

Beira, segunda-feira, 25/03/2019

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SÓNIA SULTUANE

Dá-nos o silêncio da noite

Dá-nos o silêncio da noite,


não para ouvir a fúria do vento,
não para ouvir mais os gritos de terror,
dá-nos água para regar e semear,
não para afogar a esperança de uma vida inteira,
construída pedra a pedra,
dá-nos a terra seca para enterrar os nossos filhos,
dá-nos o chão para novamente caminharmos livres do
medo,
liberta-nos das árvores, para que cresçam frutos e matem a
nossa fome,
não nos transformes em pássaros molhados,
pois não saberemos voar,
queremos as nossas asas livres, para que possamos voar
para bem longe,
deixa-nos viver,
ouve-nos:
suplicamos-te
dá-nos o silêncio da noite,
uma noite PAI,
numa casa seca, de barriga cheia,
com a alma sem peso ou medo.

37
No futuro das próximas gerações,
não queremos a nossa terra famosa pela desgraça que
carrega,
queremos a nossa terra famosa pela esperança que deposi-
tou na humanidade.
Dá-nos um pouquinho de silêncio,
dá-nos a certeza de um silêncio promissor, para que possa-
mos descansar,
para que possamos sonhar,
com fé de um amanhã melhor!”

Maputo, segunda-feira, 25/03/2019

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TASSIANA TOMÉ

Quanto vento em fúria cabe no peito

Quanto vento em fúria cabe no peito


de quem perde o seu abrigo?
Quanta chuva dura cabe no choro
de uma cidade devastada?
Quanto mar vertical afunda um mapa?
Quanto dilúvio cabe no luto de um país inteiro?

Números não dão conta da desolação,


mas a canção tem de ser de coragem e renovação.

Quantos estilhaços cortam os céus?


Quanta água quebra a dureza do cimento?
Quantas chapas de zinco rasgam o horizonte cinzento?
Quanto tempo para aliviar esse sofrimento?

E não queremos a mediática vitimização


porque a canção tem de ser de poder e recuperação.

Como fazer da calamidade de um povo, seu renasci-

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mento?
Como honraremos os nossos entes perdidos
para que não seja em vão?
Como honraremos a entrega dos que no meio da inun-
dação
se estendem maiores que a ciclónica invasão
para reerguer vizinhos e resgatar desconhecidos?

Há falta de tudo e a doença e fome também afogam.


Mas a canção precisa ser de força e regeneração.
Então ajudamos, ajudamos, ajudamos!
Ajudamos quem conhecemos e desconhecemos.
Onde estamos e como podemos,
porque na tragédia reaprendemos
que os outros somos nós!
E que nós somos uns dos outros.
E a nossa terra que se fez submersa
será artéria de vida: o recomeço de todos.
Porque a canção tem de ser de esperança.
Porque depois da tempestade tem que vir abonança.

Maputo, terça-feira, 2/04/2019

40
TCHANAZE

Perdoa-me

Choro,
Choras,
Choramos!
Não cuidei? Ignorei?
Perdoa-me, Moçambique!
Descuidaste-te, não mediste as quantidades
Não pensaste na minha dor
Ah! Mudanças climáticas?
Dá tréguas! Cuidemos uma da outra!
Mudemos!
Perdoa-me!
Perdoo-te!

Maputo, sexta-feira, 22/03/2019

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PROSA

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43
ANA QUEIROZ
O sol brilha sobre o telhado

Zacarias tinha uma atracção pelo telhado de casa.


Por mais que a mãe o alertasse para o perigo de cair, ele,
com quatro anos de idade, era muitas vezes apanhado a
subir o parapeito da janela, com a mão direita bem esti-
cada, embora ainda distante, das chapas de zinco. A mãe
chegou ao ponto de dar-lhe umas valentes vassouradas,
na esperança de que desistisse desta sua obsessão. Ainda
assim, passou um bom tempo até que acatasse as suas or-
dens e ainda se sucederam várias quedas e trambolhões
pelo caminho.
Com o passar do tempo, começou a subir muros,
rampas, e as escadas da escola onde estudava, com ale-
gria, deixando a escalada ao telhado apenas para a imagi-
nação. Entretanto, Zacarias cresceu, formou-se em enge-
nharia, casou apaixonado, teve quatro filhos, e construiu
a sua própria casa no bairro onde crescera. Zalinha, sua
filha, começou também por volta dos três, quatro anos
de idade, a tentar escalar a fachada de casa, apontando
teimosamente para o telhado cimentado. “Ali, ali!”, repe-
tia a menina com congénita obstinação.

44
Embora tivesse um carácter mais brando do que a
sua mãe, negando à vassoura a satisfação de fugir à ro-
tina servil, Zacarias não podia permitir que a filha se
magoasse. E chegou mesmo a implementar um sistema
de escalas à porta de casa, com todos os membros da fa-
mília, para prevenir que a menina pusesse em prática as
suas ideias. Todos perguntavam: “Mana Zalinha, que é
isso, pegou manias do seu pai?” Mas a menina só respon-
dia: “Lá, lá!” apontando para o telhado de zinco.
Naquela noite, estavam todos de sobreaviso. Vinha
uma ventania de susto, fora do normal, e era preciso
abrigarem-se. Zacarias pensou em levar a família para o
hospital ou para a igreja, onde as paredes eram mais altas
e robustas, mas quando finalmente tomou coragem para
abandonar a casa que construíra com as próprias mãos,
o vendaval já tinha começado. Ouvia-se o zumbido do
vento a atravessar os ramos das árvores, o lixo a voar
em rodopio mesmo em frente da janela, portas, móveis
e objectos arrancados das casas vizinhas a chocarem uns
contra os outros.
Zalinha começou a chorar baixinho, era assim que
fazia sempre que se sentia nervosa. Um choro contido,
quase inaudível, que apesar de todo o ruído lá fora, o pai
conseguiu distinguir. Era assustador como a água se in-
filtrava pela ranhura da porta e os móveis começavam a
levantar no caudal do rio intruso. Parecia que os objetos
ganhavam vida e tinham ideias de encurralá-los contra

45
as paredes, naquele bambolear desajeitado.
Foi aí que Zacarias pôs a menina às cavalitas. Reuniu
toda a família e pediu que o seguissem pelo parapeito da
janela. Segredou à filha: “Esta chuva, fui eu que enco-
mendei para que você subisse no telhado. Vamos antes
que pare”. Zalinha arregalou os olhos e agarrou-se ao
colarinho do pai, sentindo a chuva sobre a cabeça. O te-
lhado estava molhado e escorregadio, mas a emoção de
o alcançar era tão vívida que nada mais importava. A
chegada do helicóptero com homens de coletes brancos
e vermelhos pareceu, à pequena Zalinha, mais uma das
ideias engenhosas do pai. Para além da subida ao telhado,
viajaria pela primeira vez naquele avião em miniatura.

Maputo, segunda, 25/03/2019

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BENJAMIM PEDRO JOÃO
Ó Mulungu!

Onda negra, voraz e embravecida subiu alto


escutem, escutem o seu furor!
A onda andou gigante e abriu abismos na terra e
nos corações dos homens e encheu de luto o sorriso das
crianças e das borboletas deixando sofrimento e dor.
Ondas mais fortes do que a cidade,
ondas mais fortes do que o betão armado,
ondas mais fortes do que a morte
encheu de pavor meus olhos.
Chorei por aqueles que pereceram, aqueles que nem
com pés, nem com as mãos conseguiram agarrar-se às
árvores ou a qualquer coisa, vida à deriva nos rios enfu-
recidos. Ouvistes? O ciclone matou no Chiveve, deixou
luto em Aruângua, em Nhamatanda, no Dombe, vistais
cores tristes, só assim vamos exorcizar a morte!
Monstruosa força da natureza nada poupou, até o
crocodilo saiu à rua para se juntar aos homens! Sim, o

47
ciclone subiu enfurecido além-mar, abateu, sem distin-
ção, os telhados de zinco; na baixa da Beira, os telhados
de caniços na Munhava; fez tombar as árvores na terra
de coco, fez tombar sonhos, culturas, amores, na terra
nossa.
Agora, só os corvos da Índia antegozam a vindou-
ra volúpia, por isso observam empoleirados nas árvores,
espectrais, uivando encarniçados, a semelhança dos ho-
mens-corvos, que rondam à paisana esperando lucrar
com a ruína.
Um ciclone entranhando ventos! Águas galgaram as
terras baixas, subiu pelo monte Xiluvo, ali, também ficou
soterrada a flor de esperança, sim, ali também ficou so-
terrada, irmão! Quem seria capaz de compreender, me-
dir, deter essa força? Como se salvariam as almas nesses
solos grávidos de água que encheram os tandus, como se
fossem o próprio oceano a engolir a cidade? Os pânta-
nos? Como salvar as vidas, se não houver solidariedade
humana?
Porque a solidariedade humana vai tornar viva a
electricidade que o IDAI apagou, será a expressão que o
IDAI calou na boca do homem que morreu, será o pão
que o padeiro deixou de fabricar devido o pandemónio
das águas. Só assim os rostos enlutados iluminar-se-ão
outra vez pelo sol que vem do alto, erguendo novamen-
te os sonhos, as vidas que sofreram esse abalo sísmico

48
no centro do país. Seguindo o exemplo do mestre dos
mestres a vida erguer-se-á novamente do chão, não resta
dúvida.

Maputo, sexta, 22/03/2019

49
ELTON PILA
Réstia de sol

A lua é um traço delgado. Nuvens negras impõem a


noite.
Meio ao turbilhão da rua, um homem alheio à pres-
sa do mundo. Troca os passos. Treme. Pára. Transpira.
Invisível. Volta a caminhar. Mais uns passos titubeantes
e fica-se pelo chão.
– O que tem? – agora o notam.
Tenta falar, balbucia. Da boca, menos palavras, mais
saliva. Os olhos avermelham-se. Transpira. Treme.
– Não se preocupem. É um bêbado!
Outra vez no chão. Tenta reagir. As pernas enfraque-
cidas tremem ainda mais. Os olhares desdenhosos hume-
decem-se-lhe a face, também as calças. Lágrimas e urina
filhas da mesma vergonha.
Um estrondo. As nuvens negras deixam-se cair. Ven-
tos empurram as árvores para fazerem as vezes dos tectos
que estão no asfalto. Tempestade já. O homem vê-se so-
zinho. Agora de cócoras, minora-se, escama-se, encara-
puça-se. Tem o mar sobre ele e ali réstia de sol.

Maputo, segunda, 25/03/2019

50
JOSÉ PINTO DE SÁ
Cágados e homens

“Chamávamos-lhe Cágado p
orque ele nos ensinava.”
Lewis Carroll

“Só há uma casa para a vida de um cágado;
só há uma carapaça para a alma do homem.”
Wole Soyinka

Instalado diante do ecrã, a nove mil quilómetros de


distância, assisto à destruição da cidade onde nasci. Aqui
sentado já assisti à destruição de muitas cidades, na Síria
ou no Iraque, mas esta, claro, é diferente, caminhei na-
quelas ruas que agora tenho dificuldade em identificar.
Perante as imagens do dilúvio e de todo aquele horror
vêm-me à memória, claro, a família e os amigos que lá
vivem. A escultura do Ídasse, no jardim da Maria, terá
resistido ao vendaval? A Ana e as crianças estarão a sal-
vo? E os cágados?
Refiro-me a uma comunidade de cágados que conhe-
ci há quatro anos, na Ponta Gêa. Viviam num cercado ao
fundo do jardim, num lamaçal muito semelhante àquilo

51
em que a cidade da Beira agora se tornou, a toda a volta.
A subida das águas, que tanta dor causou aos humanos,
foi para os cágados uma libertação, a concretização do
seu maior sonho (caso os cágados sonhem).
O jardim da vivenda é (ou pelo menos era) vasto e
bem cuidado, sombreado por grandes árvores. Piscina,
gazebo, um relvado sombreado por grandes árvores, um
carreiro entre fetos, cicadáceas e palmeiras anãs. Ao fun-
do, uma paliçada com meio metro de altura definia um
cercado lamacento onde viviam sessenta e seis cágados.
Ali viviam. Pacientes. A paciência é o forte deles. Por
toda a parte simbolizam sabedoria, resiliência, tranquili-
dade e muita paciência. Eram sessenta e seis contados a
olho, naquela altura, hoje não sei, porque os cágados vi-
vem muitos anos e também se reproduzem. Se puderem.
Referi-me a “uma comunidade de cágados” e isso
requer um esclarecimento. Na Beira, como noutro lado
qualquer, havia uns putos que, de vez em quando, falta-
vam às aulas, e os da Beira, quando lhes apetecia, iam
pescar (ou caçar) cágados. Depois, na volta, batiam as
moradias do Macúti e da Ponta Gêa exibindo a presa e
tentavam vendê-la às senhoras, estendiam as mãos onde
se debatia, aflito, o animal, nadando em seco, esticando
o pescoço num desespero mudo. Um horror! Da primei-
ra vez ela perguntou Se não o venderem, o que é que
vão fazer ao bicho? E eles responderam É bom para fazer
sopa, tia. Ela comprou o cágado, e passou a comprar to-

52
dos os que lhe apareciam à venda diante do portão. Sal-
vava-lhes a vida. Portanto, o cercado dos cágados, que à
primeira vista poderia parecer um recinto prisional, era,
afinal, mais como um campo de deslocados.
Escolhida uma área discreta, junto ao muro, o jar-
dineiro desmatou-a e cercou-a de uma paliçada de meio
metro de altura, definindo um vivário em terra solta,
com bebedouro e comedouro suprido de capim. De iní-
cio, quando os cágados eram poucos, havia espaço para
acederem aos alimentos sem atropelos, para se arrasta-
rem depois entre sol e sombra, e vice versa. Mas foram
chegando mais e mais e foram-se reproduzindo, e de-
pressa o recinto se tornou acanhado, e depois exíguo. Os
cágados, cobertos de lama, trepavam uns sobre os outros,
resvalavam e trepavam outra vez, na disputa de espaço
ao sol ou à sombra, conforme a hora. Em busca de fres-
cura, banhavam-se no bebedouro; disputando a comida,
metiam-se no comedouro, espezinhando os alimentos na
sua sofreguidão, reduzindo tudo à lama em que viviam.
Continuo a ver as imagens da cidade inundada e das
pessoas que lutam pela sobrevivência. Imagino a água a
subir e o desespero do povo, Imagino a maré vermelha
a cobrir tudo indiferentemente, a alastrar pelo jardim, a
submergir a própria piscina. Ocorre-me que a água tam-
bém subiu dentro do cercado dos cágados, embora não
tenha imagens disso. Subiu, é claro, e os bichos, a certa
altura, terão descoberto que havia água para umas bra-

53
çadas. E cada vez a água subia mais, o espaço para nadar
ampliava-se, até que a paliçada ficou submersa. Inútil. O
primeiro cágado a transpô-la teve diante dos olhos um
rio, um lago, um oceano, o que lhe quisermos chamar.
Muita água, a perder de vista. Uns atrás dos outros, os
cágados restituíram-se à liberdade.
Quando a água baixar será possível reparar a paliça-
da, para que o recinto esteja apto a receber outros cága-
dos que sejam salvos.

Porto, segunda, 25/03/2019

54
MÉLIO TINGA
Fragmentos de Terra

“Fomos nos mudando de um cómodo para o outro. A situação só piorava.


Então, nos escondemos no banheiro e descobrimos que era o lugar mais seguro
da casa.”
Nelson Moda

FRAGMENTO UM

1 O vento atirou-se contra a janela. O estalido soou


descomunal. 2 A língua do fogo no fio da vela desequili-
brou-se, o flato forte entra como um murmúrio sombrio.
Dos buracos da casa inacabada espreita céu cinzento. 3
A tempestade rebentou. A chuva no tecto caía forte. O
chão, os vidros, as pedras, os corpos, frag-men-tam-se.

FRAGMENTO DOIS

1 Nosso sonho era voar como falcões. Rasgar o lençol


do céu. Encontrá-Lo em sua poltrona e tirar-Lhe a ver-
dade. 2 O vento cheio de medo não deixa pousar. 3 Deus

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é natureza, essa sombra silvestre que se cobre de escuro.
Silencia. Rompe como um cordão umbilical a levantar
tudo.

FRAGMENTO TRÊS

1 O silêncio, o escuro, a nuvem, se erguem. A noite


cai. 2 Falta-nos arroz e sal. 3 Das árvores restam cabeças
secas. Os anjos estão submersos. 4 As águas são a saliva
quente dentro da terra. E deitam como um extenso teci-
do os mortos.

Maputo, domingo, 24/03/2019

56
MIGUEL OUANA
Idai foi com vô Augusto

Ali na Manga Vaz, numa casa de estacas, estucada


de matope e coberta de folhas de palmeira, vivia vô Au-
gusto, como o tratava seu neto Inocente, de oito anos e
órfão de pais. Rodeavam aquela palhota, de uma porta
e sem janelas, casas de alvenaria, acabadas de construir.
O velho, carcomido pela doença, estava deitado na
esteira estendida debaixo da mangueira frondosa que
aparentava ser de sua idade. Inocente estava no interior
da casa a preparar-se para ir à escola, num dia em que
tudo que era media, incluindo as redes sociais, comuni-
cava que haveria ventos fortes e chuvas torrenciais. Nem
o neto nem sequer o vô Augusto tinham conhecimento
disso porque o rádio Xirico, que o velho comprara, nos
anos oitenta, quando ainda trabalhava no Porto da Bei-
ra, como estivador, jazia avariado no topo do armário de
madeira.
De repente, vô Augusto, como se tivesse sido picado
por um escorpião nas nádegas, saltou da esteira e diri-
giu-se depressa para o interior da palhota, onde estava

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Inocente. Trancou a porta e disse:
– Meu neto, hoje não vais para a escola…
– Como, vô? – Interrompeu-lhe o menino, boquia-
berto.
– Sinto cheiro de poeira e chuva.
Antes que o menino chamasse o avô de maluco, o
vento rugiu e, no quintal, ouviu-se o estrondo da man-
gueira que se desenraizara e tombara, para o desespero
de ambos, pois, para além da boas e saborosas mangas
que ela lhes dava, era por baixo dela que se abrigavam
dos sóis dos verões. Depois foram vozes, lá fora, pedindo
socorro, tectos a voarem e outros objectos a serem arras-
tados pelo vento. De dentro da palhota não havia como
espreitar o que se passava no exterior.
Inocente estava, na sua ingenuidade, ansioso em ver
o que se passava no bairro, mas o seu avô, mais expe-
rienciado, sabia o que lhes esperava. De repente, troou
nos ares um forte trovão acompanhado de um relampe-
jar que, pelas fendas da porta, quase os cegava. A chuva
começou a cair copiosamente e a ser arrastada pelo ven-
to que não parava de fustigar e derrubar tudo quanto
encontrava pela frente. Vô Augusto pegou num lençol,
subiu na mesa, amarrou-o como baloiço no tecto e disse
para o neto:
– Sobe na mesa para eu te pendurar neste lençol, por-
que vem aí uma cheia que nunca viste.
Do lençol, Inocente perguntou:

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– E vô vai ficar aonde?
– Sentado aqui na mesa.
A água da chuva e o vento batiam estrondosamente
na porta da palhota, para entrarem. Não tardou muito
que a rebentassem. A água inundou o interior da palho-
ta até depois da altura da mesa. Do lençol pendurado,
Inocente viu seu avô desaparecer, sem saber o que fazer.
Chorou e chorou durante todos dias em que a chuva e o
vento se abateram sobre o seu bairro. Depois, procurou
pelo seu avô Augusto que nunca mais apareceu.

Maputo, quarta, 20/03/2019

59
PEDRO PEREIRA LOPES
Zinha: a menina que secava livros

A primeira foto tinha sido publicada no dia vinte e


seis de Março, pouco depois das quinze horas, a segun-
da, no dia seguinte, trinta minutos depois das dezoito.
Rui Lamarques, jornalista, tinha estado no “lugar certo
e na hora certa”, e foi o responsável pela divulgação, no
Facebook. Nas duas imagens, a Zinha, de sete anos, está
na Praça do Município, no centro da cidade da Beira –
usa um vestido preto, desbotado, com uma faixa cor-de-
-rosa na cintura –, ajoelhada numa esteira húmida, com
meia dúzia de livros escolares debaixo do olho. Talvez
o sol não queira colaborar, mas Zinha não se permite
amuar, quer os livros secos. Do outro lado da estrada,
contou-me o pai, os meninos banhavam-se na piscina
da praça. Batiam na água e sorriam, a negar a devasta-
ção, dor e miséria que o ciclone Idai, que passara pela
cidade, tinha deixado para trás. O rastro de sua fúria
era inimaginável. Zinha pensa apenas nos livros. “Rosto
sério, olhar grave… […], tanto amor pelos livros!”, subli-
nhou Lamarques na primeira foto. Os comentários e as

60
partilhas cresceram num ápice, as fotografias – e depois
um pequeno filme – tomaram de assalto as outras redes
sociais. Zinha tornara-se na embaixadora da catástrofe,
passara a representar “a força de vontade para juntar os
trapos e recomeçar”, escreveu a escritora Cri Essência,
no seu curto mais belíssimo texto intitulado “Feliz dia da
mulher, Zinha”, publicado a 7 de Abril, no dia em que se
celebra a mulher em Moçambique.
Quando vi a foto da Zinha, a primeira vez (faria vá-
rias outras visitas, nos meses seguintes), com um livro
aberto posto em cima dos joelhos, lembrei-me de quando
a minha avó costumava ajoelhar-se, com uma peneira
cheia de milho pilado entre as mãos, para separar o fa-
relo. O olhar da minha avó era também parecido com o
da Zinha, sisudo e inquieto. Há um encantamento nes-
sas duas imagens, de uma intensidade quase obsessiva.
Havia, entretanto, algo mais no olhar da menininha, um
clamor como um portal para uma dimensão remota, a
infância; e um outro portal na rota do futuro – ou à au-
sência dele. Creio ser fácil resumir estas ideias com duas
frases de Samora Machel, a primeira, “[As] Crianças
são flores que nunca murcham!”, e a segunda, “Fazer
da escola uma base para o povo tomar o poder”. Ainda
que fosse da época, ambientada no socialismo científi-
co, e reconhecendo as suas humanas falhas, há algo no
pensamento de Machel que é extraordinário, a sua visão.
A Cri, em seu texto-homenagem, fala de “emancipação

61
plena”, sublinhando a necessidade de se (re)pensar no
“futuro da mulher moçambicana”.
A Zinha fez-se ícone. De forma inocente. Quando
somos pequenos, as nossas crenças são genuínas. Um
mártir ou um partidário é quase um louco. Quando so-
mos pequenos, a lógica não é real, o que nos move não é
certo, mas é vital. Quando é que a Zinha tinha descober-
to os livros? Saberia, a Zinha, que os livros eram mesmo
mágicos? Eu acreditava que sim.
Andava na cidade da Beira havia dois dias. Tinha ido
a conduzir. A minha irmã tinha comprado o seu primeiro
carro e eu oferecera-me para levar-lhe. Depois do ciclo-
ne, a zona central aguentava-se, mas para os subúrbios,
incluindo a vila de Dondo, a reconstrução era urgente,
ainda que fosse, apenas, uma distante ilusão. Sustive, du-
rante dois dias, a minha ansiedade. Tinha duas ou mais
coisas para fazer antes de ir visitar a Zinha.
No final da tarde do terceiro dia, telefonei ao senhor
Jaime António, o pai da Zinha. Pelo seu tom de voz e
cuidado com as palavras, descobri-lhe a proveniência –
era natural da Zambézia, assim como eu –, e não lhe
dava mais do que quarenta e cinco anos. Disse-lhe que
era escritor e que, como a filha, tinha muito amor pelos
livros. Ele sorriu, ou pelo menos pareceu sorrir, não há
como ter certezas quando não se está em vídeochamada.
Contou-me que tinha recebido alguns telefonemas, logo
depois da primeira foto tornar-se viral, e que estava a

62
acostumar-se com a fama da filha. “E a Zinha, ela está
acostumada? Vocês tiveram alguma forma de apoio”,
perguntei. Respondeu-me que sim, muitos livros e algum
material escolar.
Da nossa conversa, ficou claro que a Zinha precisava
de uma nova mochila (a que lhe fora oferecida já se ti-
nha descosida, “Era de chineses!”, comentou Jaime), de
calçados (“Numero dez/ vinte e sete, da PEP!”), e cader-
nos e lápis. O David, um amigo que conhece a sombra
da cidade, ajudou-me a fazer as compras. Levei para a
Zinha, também, livros de literatura, uma boneca e do-
ces. Encontramo-nos com o pai quando o sol se apagava.
Ele trabalhava na zona da Praia Nova, fazia pequenos
trabalhos, ao acaso, para viver e insistia em chamar-me
“Boss”. Afinal, não viviam longe de onde a menina tinha
sido fotografada. Em menos de três minutos, estacionei
o carro na entrada de um beco, próximo da sucursal do
Banco de Moçambique. O caminho era estreito e húmi-
do. Dois ou três edifícios, em ruínas, surgiram do nada.
Depois de um desvio à esquerda, a Zinha recebeu-nos
com um olhar de falsa surpresa. Era ainda mais bonita e
inteligente, a menina. Tinha pequenas tranças na cabeça
e beijava a terra com os pés. A mãe, a dona Belinha Ci-
priano, serviu-nos duas cadeiras no quintal. A família era
grande, a Zinha tinha mais quatro irmãos, três menores,
que dividiam a cave do edifício em ruínas com os pais, e
um mano de vinte e três anos, que tinha dois filhos e tra-

63
balhava no mercado informal do Goto. Enlaçámos uma
cavaqueira de, pelo menos, uma hora.
“A vida é dura, aqui. Mas temos amor. É preciso lu-
tar, um dia, se Deus quiser, teremos mais. Quero que
os meus filhos tenham saúde e estudem. O futuro será
diferente”, disse Jaime António, olhando-me nos olhos,
sem vergonha.
Oferecemos os presentes que trazíamos, a Zinha
sempre com cara de boba e a palma esquerda debaixo do
queixo. Às vezes sentava-se no meu colo, às vezes dava
uma pirueta e aproximava-se da Belinha, a mãe, que di-
vidia os doces e biscoitos de chocolate entre os filhos. O
David fez algumas fotos com o telemóvel, mas eu estava
desconfortável, e apareci horrível em todas elas.
“E tu, menina que secava livros, o que queres ser
quando fores grande?”, perguntei.
“Quando crescer, quero ser professora, para ensinar
os outros.”
Eu sorri, sou professor e acho que ensinar é uma pro-
fissão nobre.
“Espero que continues assim, Zinha, a gostar dos li-
vros e das letras e dos números”, disse eu.
“Os livros são o trabalho dela”, chutou o pai, “se não
nos zangamos, ela não os larga”.
Eu voltei a sorrir. Ler é um vício bom, pensei. Lem-
brei-me da legenda da segunda foto do Rui Lamarques,
“Uma vida sem paixões é pior do que uma cadeia”. Os

64
livros eram a nossa paixão comum. Desejei que ela as-
sim crescesse, preferindo o pensamento aos vestidos. A
Zinha não ganhou uma bolsa de estudos, faz-lhe falta. É
perigoso quando a Administração não olha para coisas
tão pequenas e tão humanas como a história da Zinha,
que foi fotografada. Há uma promessa. Espero que não
murche.
Despedimo-nos.

Maputo, segunda, 19/08/2019

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TERESA NORONHA
Je suis Beira. Je suis Moçambique

Não durmo há sete noites. O Idai entrou-me pelas


janelas e portas e levou-me a vida. Presente. A alma fi-
cou no relento, bem ao alto a ver a morte passar, a luz a
escoar-se de um trago juntamente com as águas, a vida a
morrer na penumbra, nomes que nos vêm ao pensamen-
to e não sabemos se os pensamos vivos ou se os pensamos
mortos. Perdemos a voz, ela não chega longe, ninguém
sabe, socorro e nem deus nos atende, tão longe e tão per-
to. Áfonos, quem nos ouve? Tão perto e tão longe. Voo
com a força do vento, grito e estou sozinho. Choro. Grito
e ninguém me ouve. Áfono E daí? A noite é lenta e não
paro de ouvir o vento, no corredor a morte espreita-me os
gestos, sou nada, átomo de nada. E daí? A noite é lenta,
escudo-me com um colchão para que os estilhaços que
entram pelas feridas da casa não me atinjam, projécteis
que chegam sabe-se lá de onde. Pingam os segundos no
meu cérebro, nunca mais param de pingar para que fin-
de a agonia. A luz chega por fim, vermelha de sangue, a
chuva abranda e quando o coração desacelera e o sono

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me vence, entram-me pela porta escancarada seis vultos
de catana em punho. Estou sozinho, rogo que me deixem
vivo, levem o que tenho. E levaram. Quanto vale uma
vida depois do apocalipse? Tanta água e tanta sede… Não
bebas a morte, sete noites em vigília. E o tempo, maldi-
to tempo, quantos minutos a pingar, lentos e as águas a
galgar, furiosas. E daí? Idai juntou mais água às águas,
em minutos fomos engolidos por cinco metros de lama
escura. Nas árvores encontramos refúgio. E esperamos.
Esperamos que cheguem antes de abrirem as comportas
e sermos engolidos pelas águas. Tanta sede tem a morte.
E daí? Idai levou-me a vida. O vento destapa os rostos. As
águas não lavam certas almas. Quanto vendes um pão?
Tiro da arca a capulana que guardei para o casamento da
filha. Tenho de dar de comer aos três filhos que me res-
tam. Os supermercados foram pilhados, vende-se tudo
com o pouco dinheiro que resta, até a alma ao diabo, ao
desbarato a vida. E daí? Idai desnuda os rostos. Abraço
três filhos, faltam-me as forças. Duzentos quilómetros
por hora de fúrias celestes onde me escondo se as cha-
pas de zinco voaram. O quarto filho não coube no meu
abraço. Uma chapa desgarrada decapitou-o. O hospital
não tem tecto, não há luz para dar à luz. As coordena-
das viraram num ápice, E daí? Idai levou-me a vida, o
passado também, as ruas onde brinquei, o hospital onde
nasceram os meus sete filhos, a igreja onde os baptizei.
E daí? Idai levou. Levou os anos onde foram ruindo os

67
dias, à mercê de rugas sem cosmética. Muito tempo an-
tes de Idai passar, já eu estava morto, sem nome, e daí,
quem quer saber? Espero que abram a comporta e que
venha a onda. Já não espero nada além disso. Abraço os
três filhos que me restam, deus se existe ficou na cruz
daquela igreja que caiu.

Maputo, terça, 19/03/2019

68
VENÂNCIO CALISTO
Abandono

ao meu irmão Dany Wambire


e a todas vitimas do ciclone

Naquele dia Jonas não chegou à Chipangara. Por


culpa da volúpia da sua juventude morreu na barriga do
grande peixe enamorado por uma tripa. No oceano da
vertigem, tudo que tem cauda é sereia.
Noé não ouviu Deus. A velhice entupiu-lhe o dis-
cernimento. Ou distraiu-lhe a ópera do Maquinino: sol
de maestro e todos submersos na epopeia do quotidiano,
todos actores, todos cantores, arautos da cor e do odor,
sinfonia de revirar, de inveja, Mozart na tumba.
Era quinta-feira e Jesus não tinha nascido ainda. O
desejo fornicante do espírito santo ficara preso no jeito
que a Maria lembrou-se de o vestir, para evitar que mais
uma criança se juntasse ao bando que pastoreia futuro
nos becos incertos da Munhava.
De certo que estávamos sós. Distraídos da sombra
que se aproximava. Da nuvem que se inchava. Do pesa-
delo que lambuzava os beiços, contente de nos ter à mão,

69
tão mansos como um cão na digestão do osso.
O ócio do diabo é nos ver chorar. Imagine a quanti-
dade de rebuçados de alegria que dá para fazer com cada
gota de lágrima ensopando Macute, engolindo Buzi e si-
lenciando Dondo. Nossos sonhos feitos escombros.
Calhou-nos a treva apaixonar-se pelos nossos om-
bros. Se já nos era penosa a vida, que nome se dá a este
fardo que nos aterra e enterra cada vez mais?
Estávamos sós. Naquela noite. Nem Deus. E os nos-
sos profetas ocupados no esmero da arte de cobrar não
tiveram tempo de inventar o milagre. E nem os outros.
Os promotores e empresários do ilícito não puderam des-
viar o desastre.
Estávamos sós e indefesos. Nós feitos milhares de
crianças presas no escuro, quando o catorze de março de
dois mil e dezanove plantou-nos a desolação a mando do
IDAI. Nossos sonhos feitos escombros. Abandono.

Maputo, terça, 26/03/2019

70
NOTAS BIOGRÁFICAS

71
72
POESIA

ALEX DAU nasceu na Zambézia. Publicou os livros


“Os reclusos do tempo” (2009), “Heróis de palmo e meio”
(2011) e “Os meninos a bola e macaquinho” (2017), da co-
lecção “As aventuras de Zua & Mwezi”, em co-autoria com
Yolanda Mondlane.

ANGELINA NEVES é escritora e educadora moçam-


bicana. Dedicou toda a sua vida às crianças e à literatura
infanto-juvenil. Laureada por diversos órgãos e fundações,
inclusive a UNESCO, publicou mais de trinta livros e é con-
siderada a mãe do género, em Moçambique. É autora do livro
“Ontem e hoje – contos tortos e os direitos ou a mulher nos contos
tradicionais” (2011), Prémio Nacional de Literatura 25 de
Maio.

ÉNIA LIPANGA (n. Maputo, 1977?) é activista e agi-


tadora cultural, feminista, oficineira de turbantes para mu-
lheres acometidas pelo câncer, rapper, repórter, editora e
poeta. Organiza e participa de concursos como o “Festival
Mundial de Slam Poetry”, “Moz Slam” e o sarau de poesia
“Palavras São Palavras”. Publicou o livro de poesia “Sono-
lências e alguns rabiscos” (2020), com grafia comum e em
braille.

73
HERÁCLITO MUCACHE é professor de português
e coordenador das maletas de leitura da Escola Primária
Completa Imaculada, em Maputo. Escreve prosa e poesia.

JUVENAL BUCUANE (n. 1951, Xai-Xai) é poeta e


prosador. Membro da “Geração Charrua”, foi secretário-ge-
ral da Associação dos Escritores Moçambicanos e publicou
mais de uma dezena de livros. Dos seus livros, evidenciam-
-se os livros de poesia “A Raiz e o Canto” (1985), “Requiem
com os Olhos Secos” (1987), uma epopeia em homenagem
ao presidente Samora Machel, e o romance “Crendices ou
Crenças” (2012).

LINO MUKURUZA é poeta, professor secundário e


activista cultural. Publicou “Vontades de Partir e Outros
Desejos” (2014), “Almas em Tácitas” (2015) e ““Em Ínfi-
mas Galáxias do Sentir” (2015). “Almas em Tácitas”, publi-
cado pela extinta editora Lua de Marfim, de Portugal, ficou
em segundo lugar no II Concurso Internacional da ALA-
CIB (Academia de Letras, Artes e Ciências do Brasil), na
categoria de poesia. Organizou a antologia “Na margem do
silêncio & alguma abstracção”. Participou, por duas vezes
consecutivas, no Festival Fim do Caminho (2015/6). Fun-
dou e coordena o Clube de leitura de Angoche.

74
M. P. BONDE (n. 1980, Maputo) é comunicólogo e
poeta. Publicou os livros de poesia “Ensaios Poéticos” (2017)
e “A descrição das sombras” (2017), Prémio Fernando Leite
Couto, edição de 2017.

MÁRIO SECCA (n. 1957, em Maputo) é médico e


pesquisador luso-moçambicano. Estudou física na França e
passou, em 1986, uma temporada a viajar pelo mundo. Publi-
cou o livro de poesia “A criação da memória” (2015). Vive e
trabalha em Maputo.

MAURO BRITO nasceu em Nampula, nos anos no-


venta. Estudou contabilidade pilotagem de aeronaves. É
membro fundador do Movimento Literário Kuphaluxa. Pu-
blicou os livros de poesia “Passos de magia ao sol” (2016)
e “O voo luminoso das palavras” (2019). É uma das novas
vozes da literatura infanto-juvenil de Moçambique.

MELITA MATSINHE nasceu em Inhambane. Aos 15


anos, ganhou uma bolsa de estudos da UNESCO para estu-
dar pedagogia musical e performance de piano na Escuela
Nacional de Música de Havana, Cuba. Publicou o livro de
poesia “Ignição dos Sonhos” (2017), pela Fundação Fer-
nando Leite Couto. Dirige o Centro de Artes Xiluva.

NELSON MANHISSE (n. 1989, Inhambane) escre-


ve prosa e poesia e teatro. Publicou “Histórias Indecentes”

75
(2013), obra vencedora do 6º Concurso Literário TDM.
Tem, no prelo, o livro de poesia “Húmus”, vencedor do Pré-
mio Literário 10 de Novembro 2016. Vive actualmente no
Japão, onde cursa o doutorado.

SOL MACIE (n. 1983, Beira) é formada em Linguísti-


ca Aplicada e estuda Administração e Gestão de Negócios.
Tem textos publicados em revistas e antologias.

SÓNIA SULTUANE (n. 1971, Maputo) é uma artista


multifacetada – poeta, artista plástica, escritora e curadora.
Foi agraciada, em 2017, com o Prémio Femina pelo mérito
nas Letras. Publicou os livros Sonhos (2001), Imaginar o
Poetizado (2006), No Colo da Lua (2009), A Lua de N’weti
(2014), Roda das Encarnações (2016) e Celeste, a boneca
com olhos cor de esperança (2017). Vive e trabalha em Ma-
puto.

TASSIANA TOMÉ (n. 1991, Maputo) é artista e espe-


cialista em advocacia e políticas públicas. Estou em Holan-
da e Londres. É intérprete musical e escreve poesia.

TCHANAZE (pseudónimo) é ensaísta e docente uni-


versitária. Escreve sobre literatura e publicou um livro de
ensaios. Vive em Maputo.

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PROSA

ANA QUEIROZ estudou Cinema na Escola Superior


de Teatro e Cinema, Portugal. Participou na escrita de vá-
rios documentários e campanhas de comunicação entre
Portugal e Moçambique. Publicou na Revista CALIBAN,
na Revista 365, e foi destacada entre os Jovens Criadores
2009. Fundou e pertence ao núcleo de escritores da Léxico,
um estúdio de escrita e tradução localizado em Moçambi-
que. “Tangerina” (2019), publicado pela Escola Portuguesa
de Moçambique, é o seu primeiro livro.

BENJAMIM PEDRO João (n. 1969) é licenciado em


Ciências da Educação. Publicou os seus primeiros poemas
na revista Tempo. É autor de “O menino que girava o mun-
do” (2006), “O príncipe encantado” (2012), Prémio Lite-
rário João Dias, “Ngano, contos populares da nossa terra”
(2016), entre outros.

ELTON PILA (n. 1992, Maputo) é jornalista, mem-


bro do Movimento Literário Kuphaluxa, coordenador do
Festival Literatas, Editor da Revista Literatas, jornalista do
Magazine Independente e colaborador da Revista Índico.

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JOSÉ PINTO DE SÁ (n. 1948, Beira) estreou-se como
jornalista na revista Tempo. Escreveu para jornais moçambi-
canos e estrangeiros, como o Público, de que foi correspon-
dente em Maputo. Co-fundador do grupo de teatro Tchova
Xita Duma, trabalhou como encenador e dramaturgo. Es-
creveu ficção e guiões para rádio, cinema e fotonovelas, e foi
autor da “ópera africana” Nambu, em parceria com Ghorwa-
ne. Traduziu mais de uma dezena de livros, de inglês e fran-
cês. Publicou o livro de contos “Os filhos de Mussa M’biki”
(2013).

MÉLIO TINGA nasceu em Maputo. Escreve prosa fic-


cional. Publicou O Voo dos Fantasmas (Ethale Publishing,
2018), fez parte de O Hambúrguer que Matou Jorge – Anto-
logia de Contos Criminais Moçambicanos (Ethale Publishing,
2017), co-organizou e participou da Contos e crónicas para
ler em casa – Volume I e Volume II. Foi finalista do Prémio 10
de Novembro 2019, com o livro inédito Outro Dia a Nuvem
Evapora. É colaborador permanente da Revista Literatas e
membro do Movimento Literário Kuphaluxa.

MIGUEL OUANA (n. 1958, Maputo) é escritor e


editor. Fez carreira nas edições Diname, Editora Escolar e
Imprensa Universitária. Colaborou, também, com o FUN-
DAC. É autor de diversos livros infanto-juvenis, entre eles,
“A micaia migrante” (2016), “O sol, a lua e o mar” (2018)
e “A cor da água” (2018).

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PEDRO PEREIRA LOPES (n. 1987, Zambézia) é con-
tador de histórias com manias de poeta. Estudou Políticas
Públicas na Escola de Governação da Universidade de Pe-
quim. É Prémio Lusofonia 2010 (Trofa), com o livro “O ho-
mem dos 7 cabelos” (infanto-juvenil); Prémio Maria Odete
de Jesus 2016, com “O comboio que andava de chinelos”
(infanto-juvenil); Prémio Literário INCM/Eugénio Lis-
boa 2017 e Prémio Bunkyo de Literatura 2019 (BR), com
“mundo grave” (romance).

TERESA NORONHA (n. 1965, Lourenço Marques,


Maputo), viveu e estudou na França e Portugal, onde traba-
lhou na editora Fim do Século e Íman Edições. Publicou o
livro “A viagem de Luna” (2015), Prémio Literário Alcance
Editores. É responsável pela área de publicações da Escola
Portuguesa de Moçambique.

VENÂNCIO CALISTO (Guilherme Roda) é encena-


dor e actor. Trabalha com activismo cultural e colabora com
movimentos literários e companhias teatrais de Moçambi-
que e Portugal. Vive actualmente em Portugal, onde cursa
Teatro e Comunidade na Escola Superior de Teatro e Cine-
ma, Instituto Politécnico de Lisboa.

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