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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Registro: 2019.0000403005

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravo de Instrumento nº


2079293-24.2019.8.26.0000, da Comarca de São Paulo, em que é agravante
RICARDO CARDOSO MENDONÇA DE BARROS, é agravado UTOBRAS
COMÉRCIO, REPRESENTAÇÃO, IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA.

ACORDAM, em sessão permanente e virtual da 13ª Câmara de Direito


Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão:Negaram
provimento ao recurso. V. U., de conformidade com o voto do relator, que integra
este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Desembargadores NELSON JORGE


JÚNIOR (Presidente) e FRANCISCO GIAQUINTO.

São Paulo, 24 de maio de 2019.

Heraldo de Oliveira
relator
Assinatura Eletrônica
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

VOTO Nº: 43271


AGRV.Nº: 2079293-24.2019.8.26.0000
COMARCA: SÃO PAULO
AGTE. : RICARDO CARDOSO MENDONÇA DE BARROS.
AGDO. : UTOBRAS COMÉRCIO REPRESENTAÇÃO IMPORTAÇÃO E
EXPORTAÇÃO LTDA.

*DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE
JURÍDICA Pretensão à responsabilização dos sócios da
executada pela execução Deferimento Inconformismo
Dissolução irregular da sociedade comprovada
Inexistência de bens penhoráveis, inadimplemento de
obrigações e não localização da empresa, que configura
abuso de personalidade jurídica - Presença dos requisitos
descritos no art.50 do Código Civil, que autorizam a
desconsideração da personalidade jurídica da empresa
executada - Decisão mantida Recurso não provido.*

Trata-se de agravo de instrumento tirado


contra a r. decisão de fls. 277/278 (Vistos. Trata-se de
pedido de desconsideração da personalidade jurídica
apresentado por Utobras Comércio Representação Importação
e Exportação Ltda, em face de Alb Veículos Especiais e
RICARDO CARDOSO MENDONÇA DE BARROS, alegando, em síntese,
que diante da execução infrutífera da empresa executada,
necessário o redirecionamento da execução em face dos
seus sócios. A inicial veio acompanhada por documentos
(fls. 04/08). A parte requerida devidamente citada
ofereceu resposta a fls. 21/25, sustentando que o
incidente foi apresentado sem apresentação de qualquer
argumento ou fundamentação para o pedido de
desconsideração da personalidade jurídica. Ressalta que
ausentes os pressupostos específicos da desconsideração
da personalidade jurídica, à luz do art. 50 do Código
Civil. É o Relatório. Fundamento e Decido: De proêmio, no
caso vertente, deve-se, ponderar que, para se admitir a
desconsideração da personalidade jurídica e a consequente
responsabilidade dos sócios, é mister que a empresa tenha
servido efetivamente como instrumento para a realização
de fraude ou abuso de direito, aferindo-se, pois, o
desvio de finalidade ou confusão patrimonial entre o
sócio e a sociedade. Em tal senda, impende transcrever o
teor do artigo 50 do Código Civil, in verbis: "Em caso de
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abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo


desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode
o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério
Público quando lhe couber intervir no processo, que os
efeitos de certas e determinadas relações de obrigações
sejam estendidos aos bens particulares dos
administradores ou sócios da pessoa jurídica". Nessa
senda, resta evidenciada a confusão patrimonial, ante a
não localização de bens em nome da empresa executada,
suficientes para a satisfação do débito executado,
indicando que a parte requerida utiliza-se da pessoa
jurídica para blindar o seu patrimônio. Evidente o desvio
e confusão patrimonial entre os patrimônios do executado
e da pessoa jurídica de sua titularidade, restando
caracterizada a ofensa ao princípio da autonomia
patrimonial e demonstrada a intenção de fraudar a
execução e, consequentemente, os credores, impondo-se ao
caso a desconsideração da personalidade jurídica para que
o sócio responda pelas dívidas da pessoa jurídica
executada. Ante o ora exposto, acolho o presente
incidente de desconsideração da personalidade jurídica,
para determinar a inclusão do sócio indicado, neste
incidente, no polo passivo da execução, anotando-se a
respeito nos autos da execução. Manifeste-se a parte
exequente em termos de prosseguimento nos autos
principais da execução, no prazo de cinco dias;
decorridos, ao arquivo. Int.), que acolheu o incidente de
desconsideração da personalidade jurídica e determinou a
inclusão do agravante no polo passivo da execução.

Sustenta que não há provas que evidenciem


o abuso da personalidade jurídica, o desvio de finalidade
e a confusão patrimonial, exigidos pela art.50 do Código
Civil, para a desconsideração. Alega que a exequente não
atendeu ao disposto no art.134 do Código de Processo
Civil. Afirma que a ausência de bens não é suficiente
para autorizar a medida e que não foi comprovada a
dissolução irregular da empresa, fraude, má-fé ou dolo.
Pleiteia a rejeição do incidente. Requer provimento ao
recurso.

É o relatório.

A agravada propôs ação de cobrança,


alegando que firmou junto à ré-agravante contrato de
representação comercial para venda de carros fortes,
atuando no território africano nos países como Nigéria,
Gana, Costa do Marfim, Libéria, Benin, Níger, Líbia e
Angola.
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Sustenta que no decorrer da representação,


foi intermediada a venda de 25 unidades, ficando em
aberto em razão da venda, o valor de US$ 35.605,87,
referente à comissão não paga.

Afirma que após várias tentativas de


receber o valor, a ré firmou um acerto de comissão em
21.11.08, onde confessou o débito de US$ 35.605,87, que
não foi pago.

Esclarece que somados a este valor, deve


incidir ainda valores indevidamente descontados de sua
comissão, referentes à equipamentos sobre os quais alega
a agravada que não incidiam comissões, todavia, tais
peças não constam de notas fiscais da venda.

A ação foi julgada improcedente, conforme


pesquisa realizada junto ao sistema SAJ e após
interposição de recurso de apelação pela autora, seu
pedido restou parcialmente provido, conforme V.Acordão
proferido nos autos nº 0193368-53.2009.8.26.0100, de
minha relatoria, que determinou o pagamento dos valores
em aberto e que constam do acerto de comissão.

Em fase de cumprimento de sentença, foram


realizadas diligências a fim de localizar bens passíveis
de constrição em nome da empresa executada, como junto
aos sistemas bacen (fls.39/41), infojud (fls.48) e
renajud (fls.62), onde foi localizado um veículo, que
mesmo após a penhora (fls.69), não foi encontrado
(fls.104).

Por não encontrar bens em nome da empresa


executada e tendo sido esgotadas as possibilidades legais
de diligências, solicitou a instauração de incidente de
desconsideração da personalidade jurídica (fls.209/214),
que foi deferida (fls.223).

Após a apresentação de impugnação do sócio-


agravante da executada (fls.249/254), o magistrado
acolheu as alegações da exequente e determinou a inclusão
do agravante no polo passivo da execução (fls.277/278).

É contra essa r.decisão que o requerido


demonstra seu inconformismo e em que pese o seu
entendimento, a mesma merece ser mantida.

Analisando os documentos anexados ao


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incidente, em que pese o enorme esforço do requerido em


demonstrar que não houve irregular dissolução da empresa
executada, entendo que restou configurada as hipóteses
descritas no artigo 50 do Código Civil a justificar a
inclusão do sócio da executada no polo passivo da ação.

A teoria da desconsideração da pessoa


jurídica permite, conforme preleciona o Professor Silvio
Rodrigues, que o juiz erga “o véu da pessoa jurídica,
para verificar o jogo de interesses que se estabeleceu em
seu interior, com o escopo de evitar o abuso e a fraude
que poderiam ferir os direitos de terceiros e o fisco.
Assim sendo, quando se recorre à ficção da pessoa
jurídica para enganar credores, para fugir à incidência
da lei ou para proteger um ato desonesto, deve o juiz
esquecer a idéia da personalidade jurídica para
considerar os seus componentes como pessoas físicas e
impedir que através do subterfúgio prevaleça o ato
fraudulento” (in Curso de Direito Civil, v.1 Parte
Geral, Ed. Saraiva, 25ª edição, p.74 grifei).

Cabe ressaltar que artigo 50 do


atual Código Civil dispõe que 'em caso de abuso da
personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio
de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode
o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do
Ministério Público quando lhe couber intervir no
processo, que os efeitos de certas e determinadas
relações de obrigações sejam estendidos aos bens
particulares dos administradores ou sócios da
pessoa jurídica'.

Vale assinalar, a título de


ilustração, que o Código de Defesa do Consumidor
também sinaliza no mesmo sentido, dando ao juiz a
possibilidade de desconsiderar a personalidade
jurídica da sociedade quando em detrimento do
consumidor houver abuso de direito, excesso de
poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou
violação dos estatutos ou contrato social.

O artigo 28 do Código de Defesa do


Consumidor dispõe que a desconsideração também
será efetivada quando houver falência, estado de
insolvência, encerramento ou inatividade da
pessoa jurídica provocados por má administração.

Cumpre esclarecer, que embora a


desconsideração da personalidade jurídica consista em um
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meio eficaz a coibir o comportamento malicioso dos sócios


da empresa, de modo a preservar interesses de seus
credores e trazer estabilidade às relações comerciais,
deve ser aplicada com cautela, observadas as
particularidades de cada caso.

O incidente de desconsideração, previsto


no art. 133, do Código de Processo Civil, será instaurado
a pedido da parte, observados os pressupostos previstos
em lei. Esses pressupostos são os fundamentos do pedido
para ensejar a instauração do incidente.

No caso, tais pressupostos foram


devidamente indicados pela agravada em seu pedido,
observando-se o que dispõe o artigo 134, § 4º, do Código
de Processo Civil, combinado com o artigo 50 do Código
Civil, havendo indícios da dissolução irregular da
empresa, confusão patrimonial e desvio de finalidade.

É evidente o estado de insolvência da


executada, pois não pagou o débito, e tampouco foram
localizados quaisquer bens passíveis e desembaraçados a
serem penhorados, sendo que nem mesmo foi localizada no
endereço que declara praticar suas atividades, portanto,
conclui-se que há abuso da personalidade e confusão
patrimonial.

Ademais, restou demonstrado que houve


esvaziamento de bens na empresa executada, conforme
frustradas tentativas de localização de bens e
confirmação de que o agravante também é sócio de outras
empresas, o que confirma a confusão patrimonial e abuso
da personalidade jurídica.

Sendo o agravante pessoa física, o único


titular da empresa executada, é cabível o alcance do
patrimônio, para saldar débito em aberto junto aos
credores.

Desta forma, para fins de cumprimento de


obrigações, seus respectivos patrimônios também se
confundem, respondendo indistinta pelas dívidas de ambos.

Nesse sentido:

Agravo de instrumento Ação de cobrança


Contrato de prestação de serviços - Cumprimento de
sentença Deferimento da desconsideração da personalidade
jurídica da executada Inclusão do sócio da devedora
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Decisão mantida. Caracterizada, em tese, a hipótese


prevista no art. 50 do CC, e não localizados bens para
penhora, é possível ao credor pleitear a desconsideração
da personalidade jurídica, em busca da responsabilização
patrimonial de seus sócios (art. 790, II, do CPC/2015;
art. 592, II, do CPC/1973), mas com a citação deles para
o processo de execução (art. 135 do CPC/2015). Além
disso, a impugnação é o instrumento processual de que
dispõe o sócio da executada para defender-se da execução
de sentença contra ele em curso. Nela, podem alegar as
hipóteses previstas no art. 475-L do CPC/1973 (art. 525,
caput, § 1º, do CPC/2015), incluída sua ilegitimidade
para ser parte no processo, ao que equivale arguir a
inocorrência de fato caracterizador da viabilidade da
desconsideração da personalidade jurídica (art. 475-L,
IV, do CPC/1973; art. 525, § 1º, II, do CPC/2015). Agravo
desprovido. (Agr. nº 2078903-88.2018.8.26.0000; Relator
Lino Machado; julgamento em 20/06/2018).

De modo que os elementos constantes dos


autos autorizam a desconsideração da personalidade
jurídica, uma vez que está comprovada a conduta abusiva
da executada sem reservar qualquer patrimônio para saldar
as dívidas em aberto, evidenciando também a conduta
irregular de seus sócios que deverão responder pela
dívida contraída pela empresa.

Assim sendo, para a devida segurança do


Juízo, e para que não se perpetue a dívida, reconhecendo
que está a possibilitar a fraude contra credores, é de se
manter a decisão agravada para determinar o avanço sobre
os bens do sócio Ricardo Cardoso Mendonça de Barros, para
satisfação da dívida tal como determinado.

Ante o exposto, nego provimento ao


recurso.

HERALDO DE OLIVEIRA
Relator