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História, gênero e trajetórias biográficas.

ST 42
Rita de Cássia Gonçalves
Teresa Kleba Lisboa
Universidade Federal de Santa Catarina
Palavras-chave: trajetória de vida, método biográfico, história de vida.

Trajetórias de Vida: Visibilizando e Reconstruindo a História das Mulheres

A pesquisa qualitativa tem sido resgatada nas ciências sociais, por considerar que ela abarca
uma relação inseparável entre o mundo natural e o social, entre o pensamento e a base material, entre
a ação de homens e mulheres enquanto sujeitos históricos e as determinações que os condicionam,
entre o mundo objetivo e a subjetividade dos sujeitos pesquisados. Esta forma de abordagem tem
sido valorizada, uma vez que trabalha com o universo de significados, representações, crenças,
valores, atitudes, aprofunda um lado não perceptível das relações sociais e permite a compreensão da
realidade humana vivida socialmente.
A tradição de pesquisa na sociologia a partir do Iluminismo foi fortemente centrada na
neutralidade e objetividade científica, no distanciamento do pesquisador e numa relação impessoal.
A partir da filosofia Kantiana a relação entre sujeito e objeto começa a ser enfatizada nas Ciências
Sociais, e a pesquisa em si, apesar de ter como fim básico a produção de conhecimento com
relevância social e científica, passa a ser encarada acima de tudo como uma relação entre sujeitos.
Estes são ao mesmo tempo objetos da realidade social e a realidade social é o próprio dinamismo da
vida individual e coletiva com toda riqueza de significados dela transbordante.
Por isso, as metodologias qualitativas trazem uma contribuição significativa para as Ciências
Sociais, pois revelam-se particularmente eficazes em áreas exploratórias, especialmente em campos
temáticos onde inexistem fontes de informações acessíveis e organizadas. Também são
indispensáveis para compreender fenômenos que se manifestam em longos intervalos de tempo -
como o caso de trajetórias de mobilidade social ou mudanças geracionais - ou ainda manifestações
sociais que por sua abrangência exigem a coleta exaustiva de dados padronizados. Além disso,
desempenham importante papel na elaboração de hipóteses e construção de novas teorias (Camargo,
1987).
A Pesquisa Qualitativa estende-se desde as fronteiras da antropologia e da etnografia,
passando pela etno-metodologia, a hermenêutica e diversas modalidades de estruturalismo, até às
análises históricas comparadas, relatos orais, Método Biográfico e outras técnicas da história oral. As
metodologias qualitativas têm contribuído também para uma nova abordagem teórico-metodológica
que visa juntar as duas figuras da modernidade: razão e sujeito (Touraine, 1994), bem como para
estabelecer uma relação entre os dois pilares da sociedade: ação e estrutura (Giddens, 1989).
Para Hopf (1991), a Pesquisa Qualitativa está sedimentada em complexos sistemas de
percepção e interpretação, nos quais os dados empíricos qualitativos requerem processos de
interpretação hermenêutica, bem como pretendem revelar as conexões objetivas entre estruturas,
para proceder a uma análise dos contextos de ação individual ou coletiva. É portanto uma atividade
racional que busca investigar o indivíduo e o mundo em que ele vive. Além disso, ao contemplar a
abordagem qualitativa para o objeto de investigação social, o pesquisador deve considerar que as
pessoas envolvidas no processo de pesquisa são “[...] sujeitos de estudo, pessoas em determinada
condição social, pertencente a determinado grupo social ou classe com suas crenças, valores e
significados” (MINAYO, 1993, p.22).

Os Relatos Orais como fonte de reconstrução sócio-histórica no resgate do cotidiano das


mulheres

Para Queiroz (1987) o Relato Oral é a base primária para a obtenção de qualquer forma de
conhecimento, seja científico ou não. É a maior fonte humana de conservação e difusão do saber, ou
seja, a maior fonte de dados para a ciência em geral; a palavra antecedeu o desenho e a escrita. Esta,
quando inventada não foi mais que uma cristalização do Relato Oral. Thompson (1992) também
afirma que a História Oral é tão antiga quanto a própria História, pois ela foi a primeira espécie de
História.
Os Relatos Orais passaram a serem valorizados, paulatinamente pelas Ciências Sociais, na
medida em que se percebeu que comportamentos, valores, emoções permanecem escondidos nos
dados estatísticos. Com o tempo e com o avanço de outras disciplinas como a lingüística, a semiótica
e a antropologia, foi reconhecido que o discurso do ator social tem uma lógica própria e se estrutura
como "linguagem", podendo permitir a compreensão de fenômenos sociais que escapam à
observação fria e distante do historiador (Camargo, 1987).
Desta forma, os Relatos Orais têm se apresentado como uma valiosa contribuição para os
estudos na área de história social e cotidiano das mulheres com especial ênfase na história da
família. Para Thompson, "até bem pouco tempo, a história das mulheres foi ignorada pelos
historiadores, em parte porque a vida delas, ligada ao lar ou ao trabalho desorganizado ou
temporário, muito frequëntemente transcorreu sem ser documentada (...) O descaso total por esse
campo faz com que entrar nele cause a emoção de uma viagem de descoberta" (1992:134).
Nos estudos sobre demografia, por exemplo, tem-se por certo que o planejamento familiar e
o emprego do controle da natalidade espalharam-se por "difusão" de atitudes das classes médias
superiores para baixo na escala social, chegando até as classes trabalhadoras. Porém, foi um projeto
piloto de história oral, executado por Diana Gittins (Grã-Bretanha-1982), que, pela primeira vez,
indicou que o modelo básico de "difusão" era falso: pois as mulheres da classe operária alteraram
suas práticas de controle de natalidade mediante influências independentes, e não por influência
direta da classe média (ibid.:327).
Ainda no campo da história, Odila Dias (1994), afirma que nas últimas décadas os avanços
da investigação científica têm colocado a "necessidade de documentar a experiência vivida das
mulheres, a fim de que possa emergir não apenas a história da dominação masculina, mas sobretudo
os papéis informais, as improvisações, a resistência das mulheres (...) Uma história engajada jamais
se restringe aos discursos normativos sobre as mulheres" (1994: 374).
Também nas Ciências Sociais e no Serviço Social, as pesquisas com mulheres têm exigido
este "novo olhar". Especialmente nos trabalhos desenvolvidos com mulheres trabalhadoras, idosas,
mulheres que sofrem violência, moradoras de comunidades de periferia e junto a áreas rurais, os
Relatos Orais tem desvendado questões outrora obscuras.
Nas áreas urbanas, por exemplo, as trajetórias de mulheres e de suas famílias, podem ser
tomadas como trilhas de vida no tempo e no espaço começando com rotinas cotidianas de
movimento estendendo-se a movimentos migratórios, proporcionando vasto material para análise do
papel da mulher nos fenômenos migratórios. Da mesma fora, as trajetórias sócio-ocupacionais irão
mostrar a dificuldade de ascensão na escala da mobilidade social, e ao mesmo tempo apontar a
multiplicidade de funções assumidas por estas mulheres, sujeitos múltiplos, que ocupam
sucessivamente diferentes tipos de ocupações no espaço social.
Os Relatos Orais também têm sido significativos para ressaltar a participação de mulheres na
economia informal, experiências de sócio-economia solidária como: cooperativas e associações, uma
área ainda pouco investigada.
No campo antropológico também se constata, com a inserção das mulheres nesta área, que a
antropologia, além de ser etnocêntrica era androcêntrica; que a "busca do outro" era sempre a de um
homem falando com e em nome de outros homens. Prova disso, é que Anette Weiner em "A riqueza
das Mulheres" (apud Grossi, 1992:11), vai às Ilhas Trobliandesas e descobre ao escutar e observar as
mulheres, que há outra troca tão importante quanto o famoso Kula descoberto por Malinowski, o
Dala, riqueza das mulheres, ligada às cerimônias de vida e de morte. Malinowski não tinha visto
nada disto, porque não se dispôs a ter acesso ao mundo feminino.
Na área de psicologia social, o trabalho de Silvia Mello (1998) também corrobora nos
estudos de que os Relatos Orais são estratégicos na obtenção de dados significativos sobre o
universo das mulheres. Por meio desta metodologia, a autora nos leva a reconhecer uma outra
dimensão da vida e do trabalho das empregadas domésticas, moradoras das periferias de São Paulo,
que vieram de outra região do país em busca de melhores condições de vida. "É desse modo que as
mulheres se tornam personagens, que vão adquirindo o desejo de narrar e o prazer de rememorar"
(1988: 21).
Num contexto em que a realidade contemporânea apresenta-se cada vez mais complexificada,
multifacetada, o crescente processo de globalização da sociedade faz com que nos defrontemos com
uma heterogeneidade de tempos, espaços e culturas. Esta nova configuração requer novos tipos de
abordagem social, uma resposta diferente por parte das ciências sociais - uma resposta que passe por
uma interrogação de si própria e pela suspensão dos atuais conceitos e teorias puramente
objetivistas-racionalistas.

2. Biografias e Trajetórias de Vida como construtos histórico-sociais


Para a grande maioria dos cientistas sociais e em particular para os historiadores, a História
de Vida é apenas um desdobramento da História Oral. Alguns sociólogos, porém em especial
Jacques Léon Marré (1991), afirmam que a História de Vida deve tornar-se parte essencial de um
Método Biográfico, para que não seja considerada uma simples técnica de investigação empírica.
O Método Biográfico para Marré, permite reconstruir, em cada história de vida, a presença de
relações básicas e complexas que dizem respeito às categorias sociedade, grupo e indivíduo,
expressas na relação oral. São relações ligadas à estrutura social e grupal e, ainda a idéia de rearranjo
e reapropriação do social, que o indivíduo faz como unidade singular de seu relato.
De acordo com o referido autor, o Método Biográfico, constituído pelas modalidades História
de Vida, Trajetória de Vida e Narrativas, no seu desenvolver dinâmico, traz a possibilidade concreta
de reconstrução do passado a partir de relatos, levando em conta a descontinuidade e as rupturas
ocorridas tanto a nível da vida individual como coletiva (ibid.: 91).
A singularidade das Histórias de Vida é ressaltada pelo autor, ao considerar que não se
consegue chegar ao geral, através de uma diversidade de histórias de vida singulares, sem dar a elas
uma totalidade sintética, que por sua vez se forma a partir da singularidade de cada uma delas.
Quando o indivíduo vivencia e relata sua trajetória, se identifica a um grupo social do qual ele é
elemento constitutivo (ibid.:128). Para Marré, a História de Vida sempre deve tornar-se parte de um
Método Biográfico; o que interessa é a vida das pessoas, seja a trajetória total, seja fases desta vida.
Pesquisadores que trabalham com Relatos Orais (Life-Course-Forschung) na Europa e mais
especificamente na Alemanha, utilizam as categorias Biografia e Trajetória de Vida.
Os estudos de Born & Krüger & Meyer (1996)i afirmam que a pesquisa relacionada com
Trajetórias de Vida é uma área relativamente nova na sociologia tendo como ponto de partida a
mobilidade social, bem como a trajetória das mulheres que iniciam uma carreira profissional e a
mudança de status e de rotina que isto acarreta em suas vidas; a trajetória de mulheres que
interrompem sua carreira profissional porque decidem ter um filho, constituir família e são obrigadas
a sair do emprego porque inexiste políticas sociais que favorecem à “mãe trabalhadora”, e ainda a
trajetória de mulheres que são obrigadas a interromper sua carreira profissional por motivos de
doença grave, delas ou de alguém da família, etc.
De um modo geral, as referidas pesquisadoras alemãs estabelecem uma diferença entre
Biografias e Trajetórias de Vida: Trajetória de Vida (Lebenslauf) é considerado um “construto
científico”, definido em primeira mão pela perspectiva metodológica adotada, podendo utilizar
dados quantitativamente analisáveis que possuem relação direta com a seqüência cronológica da vida
dos indivíduos (Dausien, 1996). No entender desta autora, a Trajetória de Vida é denominada
cientificamente de “transcurso”, pois analisa mudanças sociais, passagens de status, de situação
econômica, de atividades profissionais, utilizam-se datas significativas, períodos, números, enfim
aspectos quantitativos e qualitativos estão relacionados na mesma abordagem. Nesta perspectiva, a
Trajetória de Vida é considerada uma instituição social, um sistema de regras que rege/conduz as
relações do indivíduo na modernidade.
Biografia é a história individual, pessoal e subjetiva da vida de uma pessoa; a perspectiva do
qualitativo é enfatizada: entrevistas, diário de campo, material subjetivo, individual e pessoal, porém
com a mesma preocupação científica de relacionar os dados com a estrutura social de forma à
generalizá-los. Biografias são fenômenos históricos, que surgem a partir dos processos da
modernidade e estão relacionadas de forma complexa com os demais sistemas de regras sociais
(Dausien, 1996 e Born, 1996). As Biografias são construídas e reconstruídas por sujeitos concretos a
partir de situações concretas, possuem determinadas razões bem como determinadas funções
coletivas e individuais; orientam-se a partir de normas preestabelecidas, e subentendem diferentes
meios de construção. O termo “construção biográfica” significa não somente o construto biográfico,
o produto final das construções coletivas e individuais, mas sim o “processo da construção” ou seja a
produção e reprodução em si. E este, não é somente um ato cognitivo, mas sim uma complexa
relação, uma Práxis, que por sua vez está amarrada a um contexto de ação pragmática e opera na
realidade. Toda a vida humana é constituída biograficamente (Dausien, 1996) e isto implica que todo
o relacionamento humano contém uma dimensão biográfica profunda.
Luz Arango (1998), pesquisadora colombiana, também utiliza o termo Trajetória, mas com
ênfase na Trajetória Social como um Ciclo da Vida, como uma etapa da vida. Do ponto de vista
sociológico, Ciclo da Vida aparece como uma construção de atributos e papéis sociais dos
indivíduos em função de sua idade, como forma de regulação do acesso ao saber, às posições sociais
e a um reconhecimento de um status de adulto e de cidadão mediante um duplo processo de
assignação de papéis e socialização. Para a autora, Trajetória Social é o encadeamento temporal das
posições que os indivíduos ocupam sucessivamente nos diferentes campos do espaço social. Em
cada momento de sua existência, os indivíduos ocupam simultaneamente várias posições, que
resultam obviamente do entrelaçamento entre os campos profissionais e familiares.
Por sua vez, a noção de trajetória para Bourdieu “é uma série de posições sucessivamente
ocupadas por um mesmo agente – ou mesmo grupo -, em um espaço ele próprio em devir e
submetido a transformações incessantes”, permitiria deslocar-se do sujeito e situar acontecimentos
biográficos em alocações e deslocamentos no espaço social. O nome próprio (que designa um agente
específico, uma personalidade) teria que ser vinculado ao conjunto de outros agentes no campo
considerado (Kofes, 2001:24). Para as discussões de Kofes (2001), a trajetória de vida é comparada a
um itinerário no qual são privilegiados o caminho e o percurso.
Portanto, Trajetórias de Vida podem ser consideradas como partes de uma História de Vida e
de uma Biografia, um determinado percurso, itinerário ou ciclo que desperta interesse do
pesquisador. Este percurso, geralmente, vem ao encontro da questão de pesquisa colocada. Por
exemplo: se desejo saber que tipo de ocupação remunerada as mulheres, sujeitos de minha pesquisa,
já tiveram ao longo de suas vidas, vou pesquisar a Trajetória Ocupacional dessas mulheres; se desejo
saber o itinerário migracional que um determinado grupo percorreu, vou pesquisar a Trajetória
Migracional; se desejo saber a duração do tempo em que adolescentes permaneceram cometendo
infração, vou pesquisar a Trajetória Infracional; se desejo saber como determinado grupo de pessoas
se sente após ingressar na aposentadoria, vou pesquisar a Trajetória Laboral, e assim por diante.
Como categorias teórico-metodológicas, Histórias de Vida, Biografias ou Trajetórias de Vida
não são realidades ontológicas nem possíveis abstrações; são construções sócio-históricas que se
produzem e reproduzem a partir das relações conflituosas entre estrutura e ação. Estruturas são
tecidas pelas e nas relações sociais, são conforme Giddens (1989), desenvolvidas sistematicamente,
e produzidas mediante um complexo processo de “estruturação” por indivíduos e pelas coletividades
que fazem parte da mesma.
Nessa perspectiva, consideramos que estas categorias são construções de ação comunicativa
entre sujeitos cognitivos, que atuam no cotidiano mediante determinada identificação, e que podem
ser adequadamente reconstruídas através do Método Biográfico. Como nos mostra Giddens (1988),
“Trajetórias de Vida não surgem de estruturas abstratas, mas sim de ações produzidas e reproduzidas
por sujeitos que cruzam velhas fronteiras e abrem novas perspectivas”.
Em trabalhos realizados, destacamos a reconstrução da Trajetória Migracional de um grupo
15 pessoas, que saíram do campo para a cidade. A hipótese problematizadora era o pressuposto de
que, o que levou as mulheres migrantes a se tornarem líderes de suas comunidades onde vivem
atualmente, foi à articulação entre as categorias gênero, classe e etnia. Para resgatar as Trajetórias de
Vida das 15 pessoas, utilizamos uma técnica para levantamento de dados que foi a “entrevista
centrada no problema de pesquisa” (Witzel, 1995). Este autor propõe a elaboração de um roteiro de
entrevista que passa a ser considerado o “fio condutor”. Neste caso, o roteiro elaborado teve quatro
componentes: a) a origem da pessoa, ascendência familiar, local de nascimento, costumes, cotidiano
familiar, características da cultura cabocla, etc.; b) a trajetória ocupacional (de trabalho ou emprego)
de cada entrevistado, bem como a dos pais e familiares, as estratégias de sobrevivência nos locais de
origem, os motivos da migração e o tipo de ocupação em Florianópolis; c) a liderança exercida nos
locais de origem e nas atuais comunidades e sua relação com o processo de “empoderamento”; d) e,
finalmente, as relações entre o companheiro e a companheira, a divisão de papéis na família, as
concepções de homem/mulher e identidade de gênero. Ao longo das narrativas, todavia, as pessoas
não se restringiram aos temas que serviram de “fio condutor”; seus relatos tornaram as entrevistas
extremamente ricas em outras informações que também foram incorporadas na análise.
Após a realização das entrevistas, que delinearam as quinze Trajetórias de Vida, realizamos o
processo sistemático de codificação, ou seja, a organização dos dados empíricos, seguindo as etapas
propostas por Strauss e Corbin (1996): a) codificação aberta – processo de levantamento e
denominação de categorias que emergem das narrativas, consideradas importantes para a análise; b)
ordenação dos dados anteriores segundo categorias relativas a cada dimensão de análise; c) processo
de seleção e integração das categorias chaves e procura de novos conceitos ou de conceitos mais
adequados para os dados encontrados. Procede-se, a seguir, a análise das Trajetórias de Vida como
um todo que vão configurar a reconstrução da história sócio-econômica e cultural de um
determinado percurso do grupo pesquisado.
Nessa direção, o Método Biográfico ao resgatar as relações cotidianas dos sujeitos,
possibilita a reconstrução de suas Histórias de Vida e concomitantemente o desvelamento de sua
identificação social traduzida nas expressões de gênero, classe, etnia, opção religiosa, visão de
mundo.
Essa identificação social se expressa, por exemplo, se analisarmos as relações sociais sob o
enfoque de gênero. Quando estou agindo em determinadas situações, o faço como mulher/homem (e
reproduzo imediatamente as relações de gênero), me relaciono como mulher/homem a partir de uma
experiência e uma expectativa biográfica específica (que ao mesmo tempo reproduzo). Esta é uma
atividade que resgata o cotidiano (biográfico), na qual o sujeito não só reconstrói sua História de
vida, mas ao mesmo tempo reconstrói sua identificação social com um determinado gênero. Ao
considerar, que é na sociedade que o indivíduo torna-se sujeito, conforme Lauretis (1994), o sujeito
no feminismo, seria um vir a se constituir, engendrando-se; “... um sujeito constituído no gênero,
mas não apenas pela diferença sexual... um sujeito engendrado não só pela experiência de relações
de sexo, mas também nas de raça e classe; um sujeito múltiplo, em vez de único, e contraditório, em
vez de simplesmente dividido”.
Portanto, se o desconstrucionismo deve ser visto além de uma crítica à conceitos, deverá
estar relacionado com o cotidiano da ação humana. Isto quer dizer que, devemos reconstruir os
conceitos ideológicos (arraigados) e as construções sociais e humanas, compreender seus
significados e implicações, sem considerá-las ingenuamente como “realidades em si”.
Neste sentido, reafirmamos a importante contribuição do Método Biográfico, na modalidade
Trajetórias de Vida, na medida, que se caracteriza em um caminho a trilhar que permite e convida a
valorizar uma trama de relacionamentos que une os diversos elementos e nuances que constituem o
universo das relações humanas.

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