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A MÚSICA COMO RECURSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM NA EDUCAÇÃO

INFANTIL: REFLEXÕES TEÓRICAS


Maria Elizete de Morais

RESUMO
A percepção sobre a música como instrumento de ação na docência foi algo claro, desde o
momento em que se passou a utilizá-la e a observar os resultados na aprendizagem dos alunos
na prática da sala de aula. Diante disso, percebeu-se a necessidade de pesquisar mais sobre o
tema. Sendo assim, o objetivo geral deste estudo é refletir sobre a importância da música na
Educação Infantil. Os objetivos específicos são: discutir sobre o papel da música no processo
de ensino-aprendizagem; compreender a importância do uso da música enquanto instrumento
de aprendizagem na educação infantil. Trata-se de um estudo exploratório, de caráter
descritivo e, ao mesmo tempo qualitativo, com base em pesquisa bibliográfica de autores e
documentos que tratam desta temática, dentre os quais estão: a Lei de Diretrizes e Bases da
Educação (LDB) n° 9.394/96 que orienta o uso da música no currículo da educação básica e o
Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil (RCNEI, 2001). Entre os autores mais
citados estão: Bastian (2011), Bréscia (2003), Brito (2003) e Pacheco et al (2006). Concluiu-
se que a música é um recurso indispensável como instrumento didático-pedagógico. Pode ser
usada para explorar atividades de ensino-aprendizagem na educação infantil porque auxilia no
desenvolvimento de vários esquemas cognitivos, permitindo ampliação de habilidades físicas,
intelectuais, sociais e culturais. No entanto, as atividades devem ser significativas para os
alunos, desencadeadas a partir de um planejamento adequado às necessidades de
aprendizagem, nunca desenvolvidas de forma mecânica e conforme cada contexto.
Palavras-chave: Música. Aprendizagem. Criança. Desenvolvimento.

ABSTRACT

The perception of music as an instrument of action in teaching was something clear, from the
moment it started to be used and to observe the results in the students' learning in the
classroom practice. In view of this, the need to research more on the topic was realized.
Therefore, the general objective of this study is to reflect on the importance of music in Early
Childhood Education. The specific objectives are: to discuss the role of music in the teaching-
learning process; understand the importance of using music as a learning tool in early
childhood education. This is an exploratory study, of a descriptive character and, at the same
time qualitative, based on bibliographic research of authors and documents dealing with this
theme, among which are: the Law of Directives and Bases of Education (LDB) n ° 9.394 / 96
that guides the use of music in the basic education curriculum and the National Curriculum
Reference for Early Childhood Education (RCNEI, 2001). Among the most cited authors are:
Bastian (2011), Brescia (2003), Brito (2003) and Pacheco et al (2006). It was concluded that
music is an indispensable resource as a didactic-pedagogical instrument. It can be used to
explore teaching-learning activities in early childhood education because it assists in the
development of various cognitive schemes, allowing the expansion of physical, intellectual,
social and cultural skills. However, the activities must be meaningful to the students, triggered
by planning appropriate to the learning needs, never developed mechanically and according to
each context.
Keywords: Music. Learning. Child. Development.

1 INTRODUÇÃO

Há muitos e muitos séculos a música vem desempenhando um papel fundamental na


sociedade. Desde que o homem reconheceu a si como ser pensante, necessitou expressar seus
pensamentos e emoções. Fê-lo através dos sentidos, iniciando, assim, o processo de
comunicação.
A música é a arte que se faz presente em diversos momentos da vida exercendo
importante papel na formação do ser humano desde a infância, tendo em vista que ainda em
fase intrauterina a criança já está interagindo com a linguagem musical (SILVA, 2010;
GARCIA, 2012).
As leituras, observações e a experiência na educação infantil estimularam a percepção
de que trabalhar a música na Educação Infantil exige do professor uma busca constante de
conhecimentos a esse respeito, pois as crianças em geral, além de na sua fase infantil
preferirem atividades que manifestem a ludicidade, também gostam de atividades inovadoras.
Isso reforçou a ideia de estudar sobre a temática que já faz parte do dia-a-dia.
Além disso, as crianças gostam e aprendem quando cantam e estudam o conteúdo das
letras trabalhadas. Reconhecendo música como uma linguagem e com possibilidades variadas
de exploração no contexto criativo, faz-se ela, de suma importância no currículo escolar.
Música como prática de linguagem proporciona um ambiente criativo para que os alunos
aprendam, explorando suas variadas possibilidades de experiências afetivas e sociais, além de
desenvolver a sensibilidade musical (BRÉSCIA, 2003). Mediante essas considerações, surgiu
a necessidade de nos aprofundarmos mais nesse assunto, a fim de perceber qual a importância
dada pelos demais educadores da escola à música como atividade em sala de aula da
Educação Infantil. A questão problema deste trabalho é: Quais reflexões teóricas podemos
fazer sobre importância da música como recurso de ensino para a Educação Infantil?
O objetivo geral do estudo é refletir sobre a importância da música na Educação
Infantil. Trata-se de um estudo exploratório, de caráter descritivo e, ao mesmo tempo
qualitativo, com base em pesquisa bibliográfica de autores que tratam desta temática. É um
estudo visto como relevante para a prática docente porque, além de oportunizar reflexões e
ampliação de conhecimentos sobre os métodos para trabalhar com música, proporciona o
reconhecimento de como as atividades estão sendo desenvolvidas no contexto da escola.
Sendo assim, os resultados da pesquisa também contribuem para que a instituição escolar seja
avaliada em termos práticos na sua docência. Portanto, este trabalho também é subsídio
teórico para os demais professores que buscam conhecimentos e inovações para trabalhar com
as crianças de Educação Infantil.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 O SURGIMENTO DA MANIFESTAÇÃO MUSICAL

A música trata-se de uma manifestação artística que combina sons e silêncio ao longo
do tempo. Bréscia (2003, p. 25) corrobora com esta ideia, quando afirma que música “[...] é a
arte de escolher, dispor e combinar os sons.”
Jeandot (1997) conceitua música como sendo uma linguagem universal, porém com
muitos dialetos. Estes dialetos variam de cultura para cultura, envolvendo a maneira de tocar,
de cantar, de organizar os sons e de definir as notas básicas e seus intervalos.
Já Ellmerich (1977, p. 20) define música como sendo “uma criação da inteligência
humana, contendo dois fatores: o primeiro é de ordem artística porque a música é arte na
manifestação do belo por meios dos sons; o segundo, é científico porque a produção e
combinação dos sons são reguladas por leis físicas.” Reconhecendo que além de arte, estudar
música estimula o cognitivo, pois também se entrelaça com aspectos científicos.
Quanto à origem da música, o filósofo Rousseau (1999, p. 303) diz que “[...] os cantos
e a palavra têm origem comum. [...] os primeiros discursos constituíram as primeiras canções;
as repetições periódicas e medidas do ritmo e as inflexões melodiosas dos acentos deram
nascimento, com a língua, à poesia e à música [...]”
O ritmo e o som estão inseridos no universo. Já nas primeiras civilizações a música
fez-se presente como uma maneira de expressão. O homem primitivo observou os sons que o
cercavam aprendendo a distingui-los e os utilizou para comunicação e expressão. Há indícios
em cavernas com pinturas rupestres e em outros achados arqueológicos datados entre 40 e 35
mil anos atrás, de que o homem primitivo utilizava tambores e flautas como instrumentos
musicais (MENUHIN; DAVIS, 1990).
Ainda acerca das origens históricas da música, nas palavras de Bréscia (2003, p. 29),
“[...] as primeiras manifestações musicais estão relacionadas a consagrações ritualísticas como
o nascimento, casamento, mudanças de estações do ano e em outros rituais valorizados pelas
sociedades.” Apresentando dessa forma uma expressão das emoções e representação de
momentos importantes na vida das pessoas e das sociedades.
Neste mesmo contexto, a autora afirma que, com o surgimento e desenvolvimento das
sociedades, a música foi utilizada, também, como maneira de louvar seus líderes. Infere, por
fim que, em antigas civilizações como o Egito, a música passaria a ser considerada arte e,
portanto, estaria diretamente relacionada à religião e à política (BRESCIA, 2003).
A música está presente na humanidade desde as mais remotas civilizações e esta foi,
em todas as épocas, uma maneira de manifestar os sentimentos, principalmente religiosos.
Sob o ponto de vista de Grout (1973 apud Bréscia, 2003), a música se faz presente, há muito
tempo em quase todos os rituais religiosos.
A esse respeito, em concordância com Sachs (1966), a música está inserida na vida
social e do indivíduo em todos os povos e culturas. Seja no trabalho, na religião, no
entretenimento, a música faz parte do cotidiano do ser humano. Para o autor, é inverossímil
supor a existência de um povo sem música.
Percebe-se que, de uma forma genérica, a música está ligada à arte e tem como
espetáculo principal a combinação de vários elementos, dentre os quais os sons. No
entendimento de Barros (1973, p. 01):

A música é de todas as artes, a mais dinâmica e comunicativa. É uma arte sublime,


bela, expressiva, seja nas suas manifestações populares, seja nas suas formas
folclóricas, líricas ou clássicas. É a única linguagem universal que os homens
possuem e entendem e ela melhora e consagra em intercâmbios artísticos,
individuais ou coletivos, cada vez mais íntimos e frequentes.

Por isso, Pinto (2001), tratando a música como um fenômeno antropológico, ou seja,
como componente cultural diz que raramente ela se compõe apenas de som, envolve outros
aparatos em um determinado espaço de tempo. No entanto, não se pode negar é que sempre
foi considerada uma prática cultural e humana.

2.2 O PAPEL DA MÚSICA NA APRENDIZAGEM

Atualmente é notória a presença de músicas em quase todas as atividades do cotidiano


do homem e em locais como academias, shopping centers, sorveterias, nas escolas e outros.
Como afirma Ferreira (2005, p. 25): “A música constantemente é utilizada como suporte para
a memorização e para o aprendizado de qualquer coisa em nossa vida”.
Partindo da ideia de que a música é uma forma de comportamento que estimula as
pessoas a pensar e que desempenha um papel considerável na personalidade do indivíduo, o
uso e acesso a esse recurso deve ser sempre levado em consideração. De acordo com Bastian
(2011, p. 7), “A importância da música tem sido discutida por muitos estudiosos que
pretendem identificar o que esta atividade representa na vida das pessoas”. Acrescenta o autor
que como objeto de estudo sobre essas afirmações estão questões voltadas para o
desenvolvimento cognitivo, psicomotor, emocional e social.
Estêvão (2002) analisa que a música é uma forma de expressão que usa o som, mas
que também atua no corpo, podendo incitar a dança, despertar emoções e, neste sentido ela
equilibra o metabolismo, interfere na receptividade sensorial e minimiza os efeitos de fadiga
ou leva a excitação porque permite a expressão pela linguagem e pelo movimento, trazendo
satisfação e alegria. Quando se trata de seu uso enquanto recurso pedagógico, por esse caráter,
a criança aprende e se desenvolve através dela.
Em uma primeira consideração que valida a música como recurso didático importante
para a aprendizagem, pode-se destacá-la como tentativa de tornar as aulas agradáveis, uma
vez que a música como proposta pedagógica busca a interação entre os alunos e pode explorar
qualquer assunto e ser trabalhada em qualquer componente curricular. Segundo Magalhães
(1998, p. 97), “com seu poder mágico de despertar lembranças e sentimentos nas pessoas, a
música pode acalmar, divertir, transportar, ensinar, distrair e unir as pessoas”.
É nesse contexto que a música ganha um espaço como ferramenta ideal da
aprendizagem, na medida em que propõe o estimulo ao interesse do aluno, que tem na música
um fator de desenvolvimento dos diferentes níveis de sua experiência pessoal e social. A
música ajuda-o a construir suas novas descobertas, desenvolve e enriquece sua personalidade
e simboliza um instrumento pedagógico que leva o professor à condição de condutor e
estimulador da aprendizagem.

3 METODOLOGIA

Os procedimentos técnicos desenvolvidos para o estudo, pelos quais apenas se


considerou a seleção e leitura de material já escrito e publicado sobre o tema, a caracterização
da pesquisa é do tipo bibliográfica. Segundo Gil (2002, p. 44) “A pesquisa bibliográfica é
desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e
artigos científicos [...] exclusivamente a partir dessas fontes bibliográficas”.
Sendo assim, foram pesquisadas, tanto as fontes impressas quanto as eletrônicas. Nas
fontes impressas se incluem livros, revistas, periódicos. Nas fontes eletrônicas serão feitas
buscas em bases de dados da internet, como Sientific Eletronic Library Online (SciELO),
repositórios de universidade e demais bibliotecas virtuais que ofereçam artigos, teses,
dissertações e outros materiais que possam ser incluídos nesta revisão bibliográfica.
Dentre os quais estão: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) n° 9.394/96
que orienta o uso da música no currículo da educação básica e o Referencial Curricular
Nacional para Educação Infantil (RCNEI, 2001) que traz reflexões indicativas de que a
música é um instrumento de ensino que trabalha a linguagem, sensações, sentidos e gestos na
criança na fase da Educação Infantil; Pacheco et al (2006) que trata de conceitos importantes
referentes à educação musical; Bastian (2011) que fala da contribuição que a música pode
oferecer para a aprendizagem da criança; Bréscia (2003) que trata da educação musical e
Brito (2003) que traz a discussão sobre a música na educação infantil.
No que se refere ao tipo de pesquisa considerando os objetivos, desenvolveu-se um
estudo descritivo exploratório, que segundo Gil (2002) se caracterizam como estudos que se
empenham em explorar profundamente uma temática, um fenômeno, um objeto e depois
descrevê-lo de forma expressiva.
Quanto à abordagem, é de cunho qualitativo, uma vez que não se teve a pretensão de
apresentar dados quantitativos, mas de apenas descrever a qualidade dos conhecimentos
abordados e coletados na pesquisa.

3 O USO DA MÚSICA COMO RECURSO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO

A música como recurso didático importante para a aprendizagem vale como tentativa
de tornar as aulas agradáveis, uma vez que a música como proposta pedagógica busca a
interação entre os alunos e pode explorar qualquer assunto e ser trabalhada em qualquer
componente curricular. Segundo Magalhães (1998, p. 97), “Com seu poder mágico de
despertar lembranças e sentimentos nas pessoas, a música pode acalmar, divertir, transportar,
ensinar, distrair e unir as pessoas”.
De acordo com Bréscia (2003) a musicalização significa desenvolver o senso musical
da criança, sua sensibilidade e expressão, inserindo-a no mundo musical, despertando seu
gosto musical, permite que a criança conheça melhor a si mesma, desenvolva sua
sensibilidade, o prazer de ouvir música, a imaginação, atenção, socialização, entre tantos
outros objetivos. Ainda diz que:

Ao trabalhar com os sons, a criança aguça sua audição, ao acompanhar gestos e


dançar ela está trabalhando a coordenação motora e a atenção, ao cantar ou imitar
sons ela está estabelecendo relações com o ambiente em que vive. O aprendizado de
música, além de favorecer o desenvolvimento afetivo da criança, amplia a atividade
cerebral, melhora o desempenho escolar dos alunos e contribui para integrar
socialmente o indivíduo. (BRÉSCIA, 2003, p. 81).

Dessa forma, inserir a música na sala de aula, proporciona uma aprendizagem


significativa ao aluno. Bastian (2011) a coloca como uma estratégia individual de
aprendizagem e diz que seu uso pode auxiliar o professor a resumir o crescente fluxo de
informações e de saberes que hoje estão presentes em todos os lugares virtuais e não virtuais
das relações sociais.
O professor, juntamente com o seu aluno, deve usufruir desse recurso trocando ideias.
A música é uma arte que proporciona interesse a todos, consequentemente, vai criar uma
interação professor/aluno, mudando a rotina da sala de aula. Assim, a utilização da música
pode ajudar a enriquecer o trabalho pedagógico, facilitando a compreensão dos fatos
históricos e a formação do cidadão crítico, atitude está tão reforçada nas propostas
curriculares do sistema educacional brasileiro.
Educar por meio da arte é uma proposta antiga, já mencionada na Antiguidade
Clássica por Platão. Contudo, no cenário atual busca-se convencer da importância de educar
por meio da arte, considerada, esta, um canalizador de emoções e sentimentos (BRÉSCIA,
2003). Cabe ressaltar que a autora acredita ter sido o lançamento do livro A educação pela
arte, do pedagogo inglês Herbert Read, no ano de 1943, o grande marco nas discussões sobre
educar por meio da arte.
Faria (2001), ao desenvolver um estudo que analisa a importância da música como
recurso pedagógico para a aprendizagem diz que ela tem significado didático porque se trata
de um instrumento que facilita a compreensão da criança, porque geralmente quando elas
chegam à escola já ouvem músicas, às vezes cantadas pela mãe ao dormir, conhecida como
cantiga de ninar ou mesmo porque escutam onde vivem suas relações sociais. Bastian (2011)
menciona dois fenômenos relacionados com o desenvolvimento e a aprendizagem que podem
ser ampliados a partir do uso adequado da música como instrumento didático: a inteligência e
a competência social. Segundo o autor, ambos podem crescer significativamente em conexão
com a música.
Bastian (2011) ao relatar uma experiência em que ele acompanhou o desenvolvimento
da inteligência de crianças acima de 6 (seis) anos e comparou crianças que se ocupam
intensamente com música durante duas horas de aula de música por semana e que aprendem a
tocar um instrumento na escola fundamental e que praticam a música em grupos (grupos-
modelo), com crianças que têm apenas uma hora de aula de música, ou nenhuma na escola
fundamental (grupos de controle) diz que teve os seguintes resultados: com relação ao
Quociente de Inteligência (QI), em se tratando dos primeiros anos ambos os grupos se
desenvolveram não muito distintamente; depois de quatro anos, crianças que já viviam a
cultura musical familiar elevaram a vantagem na inteligência; já as crianças que tinham QI
abaixo da média, tiveram um crescimento significativo ao se envolverem com a música.
Desta forma, as observações sobre a experiência do autor permitem concluir que a
música como recurso didático pedagógico pode se tornar um importante instrumento de
aprendizagem e de desenvolvimento cognitivo. Podemos inferir, neste contexto, que o uso da
música na educação é uma ferramenta didática pedagógica. Inseri-la no contexto educacional
provoca o desenvolvimento das relações afetivas, psicomotora, cognitivas e linguísticas. Além
disso, a musicalização contribui no processo de aprendizagem, concentração e memorização.
Ducorneau (1984), ao defender o uso música como recurso de aprendizagem destaca que um
dos primeiros passos para que a criança aprenda a escutar bem consiste em permitir que ela
faça experiências sonoras com as qualidades do som como o timbre, a altura e a intensidade,
depois disso, estará em posição de escuta. A música na sala de aula permite essa
diversificação de usos e consequentemente o treino da escuta.
Ao verificar as análises teóricas aqui colocadas, permite-se considerar que a música
deve ser introduzida desde cedo na sala de aula, embora, mediante a diversidade de ritmos e
letras, é preciso saber definir de que forma trabalhar a música no contexto da escola. De
acordo com Brito (2003) para iniciar o entendimento da linguagem musical, são favoráveis os
primeiros anos de aprendizagem, porém, como a criança ainda não tem capacidade para se
concentrar é necessário que esse processo seja feito de forma lúdica. Isso implica ter
consciência sobre a realidade dos alunos, o nível de escolaridade em que se está trabalhando,
as letras e tipos de música a ser trabalhada e as formas como se deve trabalhar a música
direcionada a cada uma dessas realidades.

3.1 REFLEXÕES SOBRE A IMPORTÂNCIA DA MÚSICA COMO RECURSO DE


APRENDIZAGEM NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Ao refletirmos sobre o uso e a importância da música tanto como recurso didático-


pedagógico quanto como objeto de ensino, percebemos que a música contribui para o
desenvolvimento cognitivo e emocional dos alunos de todas as séries escolares. Como destaca
Santos (2010) as atividades musicais realizadas na escola não objetivam formar músicos.
Contudo, para a autora, vivenciar e compreender a linguagem musical, favorece a abertura de
canais sensoriais facilitando a expressão de emoções, ampliando a cultura geral e contribuindo
para a formação integral do ser.
Hoje, a música é um instrumento pedagógico oficialmente legalizado para todos os
níveis escolares, a partir de disposições presentes na Lei de Diretrizes e Bases da Educação
(LDB) nº 9.394/96 que abre o espaço para a introdução do componente curricular de artes em
todos os níveis escolares da Educação Básica. O Art. 26 trata desta questão da seguinte forma:
“componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma que
promova desenvolvimento cultural dos alunos”. É a partir disto que a música deixa de ser uma
possibilidade como linguagem artística que pode ser trabalhada na educação infantil, pois
também esta etapa, a partir da referida Lei passa era contemplada como a primeira etapa do
ensino básico.
Outro documento oficial que potencializa o uso e reflete ainda mais a importância da
música e até a inclui no rol de suas orientações é o Referencial Curricular Nacional para a
Educação Infantil (RCNEI, 1998). Neste documento, fala-se de uma metodologia para a
educação infantil em que o ensino a partir do uso da música esteja centrado em visões novas
como a experimentação, que tem como fins musicais a interpretação, improvisação e a
composição, ainda abrange a percepção tanto do silêncio quanto dos sons, e estruturas da
organização musical. É possível perceber a apresentação de objetivos e conteúdos a serem
trabalhados pelos professores, a partir de uma concepção da música como linguagem e área de
conhecimento, considerando que está tem estruturas e características próprias, devendo ser
considerada como: produção, apreciação e reflexão.
Para Chiareli (2005), a música tem um significado muito especial como instrumento
didático-pedagógico na educação infantil porque ela é importante em três dimensões: para o
desenvolvimento da inteligência, para a interação social e para a harmonia pessoal. Para essa
autora isso facilita a integração e a inclusão daqueles alunos que por um elemento ou outro se
sintam e sejam diferentes. É por isso que a música é essencial na educação enquanto
instrumento de uso na interdisciplinaridade na educação infantil e também como atividade
didática.
Usar a música na educação infantil se torna uma possibilidade relevante para a
formação da criança porque a interação possível não é somente entre os alunos que ali
dividem a experiência na sala de aula, mas também com o mundo dos adultos: dos pais, avós,
além de outras fontes de comunicação e mídia que são a televisão, rádio e outros aparatos
midiáticos que rodeiam o dia a dia das crianças. É deste mundo que elas trazem todo um
repertório prévio do seu universo sonoro. E isso, como se sabe, possibilidade trabalhar
interpretações da realidade em que vivem as crianças. Sobre isso, o RCNEI (1998, p. 51)
explica que:

O ambiente sonoro, assim como presença da música em diferentes e variadas


situações do cotidiano fazem com que os bebês, e crianças iniciem seu processo de
musicalização de forma intuitiva. Adultos cantam melodias curtas, cantigas de ninar,
fazem brincadeiras cantadas, com rimas parlendas, reconhecendo o fascínio que tais
jogos exercem.

Na escola, quando trabalhadas de forma a ativar a percepção das crianças para cantá-
las e interpretá-las, dando-as sentido e vendo as possibilidades desde já estimular a formação
crítica, as atividades escolares podem ter resultados muito relevantes. Na visão de Bréscia
(2003, p. 60) “[...] a música pode melhorar o desempenho e a concentração, além de ter um
impacto positivo na aprendizagem de matemática, leitura e outras habilidades linguísticas nas
crianças.” Através de “canções, o aluno explora o meio circundante e cresce do ponto de vista
emocional, afetivo e cognitivo. Assim, ele cria e recria situações que ficarão gravadas em sua
memória e que poderão ser reutilizadas quando adultos”. (PFÜTZENREUTER, 1999, p. 5).
Desta forma, tão logo se inicia a vida escolar na educação infantil, a música em sala de aula
oferece a oportunidade de desenvolver a cidadania, o senso crítico e a formação integral.
Porém há detalhes que precisam ser considerados no que diz respeito, por exemplo, ao
uso destinado a cada nível de ensino, ou seja, é preciso definir bem o nível de
desenvolvimento dos alunos, o tipo de música que pode ser trabalhado com eles, as letras que
podem ser cantadas tocadas ou interpretadas e a complexidade da atividade. Souza (2000),
para poder detalhar a forma de trabalhar a música no cotidiano da escola faz uma reflexão
argumentando o seguinte:

Ao incluir objetivos, justificativas, experiências e condições de ensino-


aprendizagem resultantes de uma reflexão profunda, num diálogo permanente coma
realidade sociocultural, os relatos apontam elementos importantes relacionados às
praticas pedagógicas de sala de aula, como, por exemplo, a sua transformação numa
ação pedagógica significativa. (SOUZA, p. 164).

Através dessa reflexão da autora, analisa-se que para se introduzir a música como
recurso didático, não se deve pensá-la sem que haja um planejamento adequado às
necessidades e possibilidades de aprendizagem das crianças. Significa que, música como
atividade didática, tem que ter uma finalidade para a formação da criança, nem que este seja
apenas a descontração em um determinado momento do processo de ensino-aprendizagem.
Daí a importância de se saber definir objetivos, organizar situações e estabelecer limites para
o desenvolvimento da atividade.
As músicas selecionadas para trabalhar com os alunos não devem ser aquelas tocadas
nos programas de televisão e nas rádios, tendo em vista que muitas destas apresentam um
conteúdo relacionado à sexualidade – ou sua banalização, na verdade - à violência e outros
temas não apropriados para determinadas idades. Além disso, o que se percebe é que muitas
dessas músicas se resumem em uma repetição de sons desarmônicos e de sílabas que em nada
acrescentam às crianças e, ao contrário, limitam o vocabulário que lhes está sendo
apresentado, sobretudo para os alunos de ensino fundamental e pré-escolar.
De acordo com o RCNEI (1998), a música não deve ser explorada na sala de aula da
educação infantil de forma descontextualizada, nem como atividade mecânica e pouco
produtiva ou em momentos específicos de rotina escolar. O trabalho com este recurso envolve
uma atividade planejada e contextualizada, para explorar as múltiplas possibilidades que a
música tem em seu ensino.
Compreende-se a necessidade de o professor conhecer o contexto em que as músicas
foram escritas, porque as letras e melodias musicais expressam reações, sentimento e
pensamentos de quem as compõem, características de determinado período da história da
sociedade, de determinado grupo e público. O professor deve aproveitar estas dimensões com
o objetivo de despertar em seu aluno a consciência crítica, a sensibilidade à música e inclusive
aproveitar a realidade musical local e promover uma integração escola e comunidade.
Observa-se que, além de cantar, dançar, interpretar e dramatizar, também é importante
trabalhar com a criatividade da criança estimulando-a parodiar, compor, criar seu próprio
estilo musical, tanto para ouvir quando para exercitar a arte de musicar. Portanto, a
compreensão mais plausível acerca do uso da música na educação infantil é que, ser
significativa e atingir seus objetivos, ela deve ser trabalhada de diferentes formas.
Brito (2003) sugere exercícios de pulsação, de parâmetros sonoros, de canto, uso
parlendas, de brincadeiras cantadas, de sonorização de histórias; além disso, é possível
trabalhar, segundo a autora, os ruídos cotidianos como forma de explorar os sons ou ruídos de
uma forma muito completa. A música na educação infantil, também, permite que o professor
trabalhe a experimentação musical nas sensações e sentimentos como de tristeza, alegria,
abrindo espaço para que as crianças possam expressá-los na hora de cantar ou mesmo de tocar
um instrumento, quando há esta possibilidade.
A percepção mais possível sobre o uso da música na educação infantil é que se trata de
um recurso que possibilita uma infinidade de ações a serem desenvolvidas na sala de aula.
Concebe-se mais profundamente que não se pode limitá-la enquanto instrumento didático-
pedagógico. É mais relevante ainda, compreender a necessidade de um planejamento centrado
nos objetivos que se quer atingir na formação integral da criança. Isso significa que o
professor deve focalizar objetivos realmente significativos, pelos quais se atinja uma
aprendizagem que o aluno demonstre futuramente em suas práticas sociais, nas atitudes
vivenciadas no cotidiano de suas relações com os outros, na coletividade e na individualidade.
Sim, porque este deve ser o fim de toda atividade desenvolvida na pela escola da Educação
Básica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante dos objetivos desse estudo, as reflexões acerca da importância da música como
recurso didático-pedagógico na educação infantil nos ajudaram a perceber o quanto esse
recurso pode ser um diferencial e a indicação dessa importância pôde ser refletida a partir de
diversos aspectos.
Primeiro porque os pressupostos teóricos estudados, indicam que a música é
importante em todas as dimensões culturais e temporais da evolução humana. E quando
tratam ela do ponto de vista da atividade, cultura e arte em nenhum momento sua importância
pode ser negada. Tanto que ela está presente em quase todas as situações: na celebração da
vida, na alegria, na tristeza, no sonho e até na morte. A música é relevante em todos os
eventos humanos e na sociedade.
Referente ao uso no contexto da escola de educação infantil, a sua função não é
somente de promover a alegria, a fluência da emoção, dos sentidos, do prazer, mas também o
desenvolvimento da aprendizagem que é evidenciado nos estudos explorados neste trabalho.
Enfim, mediante tais percepções e reflexões teóricas, não restam dúvidas de que a
música é um recurso indispensável como instrumento a ser usado para explorar atividades de
ensino-aprendizagem na educação infantil, porém, que não sejam desencadeadas de forma
mecânica ou apenas com fins de atentar para a ludicidade em si, mas que faça parte de um
planejamento que tenha como foco a concretização de uma reação positiva nos aspectos
físicos, psicológicos, intelectuais e sociais da criança.
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